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Revista E - Maio 2026

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Revista E | maio de 2026 nº 11 | ano 32

Exposição

Arte e ancestralidade de Jorge dos Anjos

Em Pauta Artigos abordam como garantir o direito ao esporte

Teatro Cenas da vida e da arte de Denise Fraga

Infância Construir vínculos em um mundo de telas

12 a 17 de maio

Shows, espetáculos e atividades em todas as unidades do Sesc São Paulo

Participe da Semana S do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o evento que conecta empresários, pessoas trabalhadoras e suas famílias.

Saiba mais em sescsp.org.br/semana-s

CAPA: Detalhe da obra Sem título (2010), de Jorge dos Anjos, que integra a exposição Riscadura de Fogo, em cartaz no Sesc Pompeia até 2/8. A mostra reúne esculturas de grandes dimensões, desenvolvidas em diferentes materiais, como ferro, feltro e pedra-sabão, além de pinturas, desenhos e maquetes. Leia na reportagem Gráfica desta edição. Mais informações em: sescsp.org.br/jorgedosanjos

Foto: Nilton Fukuda

Protagonismo da força trabalhadora

Leia também a revista em versão digital na sua plataforma favorita:

Portal do Sesc (QR Code ao lado)

APP Sesc São Paulo para tablets e celulares

Legendas de acessibilidade

abafadores acessível* audiodescrição braille cão-guia* dublagem formato alternativo legenda closed caption legenda open caption legendas

Libras recursos táteis

*Em estabelecimentos de uso coletivo, é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos

O mês de maio, marcado pelas celebrações do Dia do Trabalhador, convida à reflexão sobre o papel fundamental da força de trabalho na dinâmica produtiva do país, presente em múltiplas áreas de atuação. No setor de comércio e serviços, esses profissionais exercem protagonismo ao impulsionar a economia, sendo responsáveis por mais de 70% do PIB – Produto Interno Bruto nacional. Sua contribuição é decisiva para a construção de um Brasil mais desenvolvido, participativo e socialmente ativo.

Esses trabalhadores, assim como seus familiares, constituem o público prioritário do Sesc – Serviço Social do Comércio, instituição criada em 1946 por iniciativa do empresariado do setor, com a missão de promover o bem-estar. Ao longo de oito décadas, a entidade tem se dedicado à qualificação do tempo livre e à democratização do acesso à cultura, por meio de ações no campo da educação não formal, que valorizam a diversidade, incentivam a fruição artística e ampliam horizontes de conhecimento.

No estado de São Paulo, o Sesc conta atualmente com 44 centros culturais e esportivos, que oferecem uma programação abrangente nas áreas de lazer, cultura, esportes, turismo social, saúde e alimentação. Dessa forma, a instituição integra-se de maneira ativa ao cotidiano dos trabalhadores, reafirmando e renovando, continuamente, o sentido de pertencimento e de vida em comunidade.

Abram Szajman Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo

Exercício pleno de comunidade

No tempo presente, acostumamo-nos a dar novos sentidos para palavras que há muito nos acompanham em nossa jornada de relações humanas. Compartilhar, curtir e engajar são, entre outras, expressões utilizadas de modo frequente em contextos do ambiente digital. O próprio termo “redes sociais” ganhou uma conotação própria nas últimas décadas para nomear plataformas de interação online. Pouco a pouco, essas ferramentas tecnológicas tornaram-se parte do cotidiano, integrando-se aos nossos afazeres profissionais e ocupando também nosso tempo livre, abstraindo os sentidos mais amplos, corpóreos e complexos que configuram a convivência analógica.

Esse excessivo contato mediado pelas telas altera particularmente a experiência das infâncias, como aborda reportagem desta edição da Revista E. Pesquisas têm alertado para os riscos do uso sem controle desses dispositivos por crianças e adolescentes, causando danos de ordem física, emocional e relacional. Em contraponto, crescem as mobilizações para a retomada de práticas que comprovadamente promovem o bem-estar e o desenvolvimento saudável, entre as quais se destaca o livre brincar, uma tecnologia genuinamente humana, ancestral, que agrega, ensina, aproxima e constrói comunidades, com significados que o universo digital não é capaz de alcançar. Boa leitura!

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC

Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 – Belenzinho

CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO

Presidente: Abram Abe Szajman

Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina

Efetivos: Arnaldo Odlevati Junior, Benedito Toso de Arruda, Dan Guinsburg, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Maria de Faria, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Michelle Reis Moreira, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana

Aparecida da Silva, Valterli Martinez.

Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Carlos Lima, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo Costa, Antonio Geraldo Giannini, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé Cajado, Costabile Matarazzo Junior, Edison Severo Maltoni, Omar Abdul Assaf, Sérgio Vanderlei da Silva, Vitor Fernandes, William Pedro Luz.

REPRESENTANTES JUNTO AO CONSELHO NACIONAL

Efetivos: Abram Abe Szajman, Ivo Dall’Acqua Junior, Rubens Torres Medrano

Suplentes: Álvaro Luiz Bruzadin Furtado, Marcelo Braga

CONSELHO EDITORIAL | Revista E

Adauto Fernando Perin, Adriana Leal Oliveira, Adriana Martins Dias, Aline Ribenboim, Alisson Fabiano Sbrana, Ana Paula Neves Cabral de Vasconcellos, Andre Venancio da Silva, Andrea de Oliveira Rodrigues, Andressa Kelly Ribeiro Ivo, Angelica Cristine de Paula, Anna Luisa de Souza, Anna Raissa Costa Silva, Antonio Carlos F Barbosa, Bruna Zarnoviec Daniel, Bruno Correa da Silva, Bryan Alan Belati Pinheiro, Camila Oliveira Silva, Camile Lopes Magalhães, Carolina Balza, Caroline Figueira Zeferino, Claudia Dias Perez Machado, Claudio Eduardo Rodrigues, Clovis Ribeiro de Carvalho, Cristina Berti Ribeiro, Daniela Savastano, Danilo Cymrot, Davi dos Santos Ferreira, Debora Ramos Ribeiro, Denise Ramos da Fonseca, Diego Polezel Zebele, Elisangela Sena Moreira, Eloá de Paula Cipriano, Emerson Gomes da Silva, Erika Luzia da Silveira, Érika Mourao Trindade Dutra, Felipe Campagna de Gaspari, Felipe Oliveira Scavassa, Felipe Veiga do Nascimento, Fernanda de Souza Borges, Fernanda Porta Nova Ferreira da Silva, Fernanda Silva Hoshino, Flavia Andrea Carvalho, Flavio Aquistapace Martins, Francisca Meyre Martins Vitorino, Gabriel Toledo Piza Nardi, Gabriela Carraro Dias, Gabriella Pereira Rocha, Geraldo Soares Ramos Junior, Giovanna Benjamin Togashi, Giulia Maria de Campos Manocchi, Giuliano Jorge Magalhaes da Silva, Glaucio de Souza Santos, Gleiceane Conceicao Nascimento, Helton Henrique Cassiano, Isadora Vasconcelos de Oliveira Silva, Ivy Granata Delalibera, Janete Bergonci, Jean Guilherme Paz, Joana Rocha Eca de Queiroz, Jorge Rufino da Silva Junior, Jose Gonçalves da Silva Junior, José Mauricio Rodrigues Lima, Julia Parpulov Augusto dos Santos, Juliana Neves dos Santos, Juliane Barbosa Braga, Karen Cristine Pimentel dos Santos, Karina Solidade de Oliveira, Laise Ferreira Guedes, Leandro Aparecido Pereira, Ligia Helena Ferreira Zamaro, Livia Bastos dos Santos, Livia Maria de Freitas Muchiutti, Luiz Fernando dos Santos Silva, Marcos Afonso Schiavon Falsier, Maria Elaine Andreoti, Mariana Gulin da Cunha, Marina Reis, Milena Ostan da Luz, Monique Mendonça dos Santos, Paco Sampaio, Patricia Moraes Piazzo, Paulo Henrique Vilela Arid, Priscila Crnkovic Santiago, Priscila dos Santos Dias, Priscila Fischernes Chil, Rafaela Queiroz de Sena, Rani Bacil Fuzetto, Raquel Rodrigues Camargo de Oliveira, Renan Cantuario Pereira, Renata Barros da Silva, Renato José Pereira, Ricardo Lemos Antunes Ribeiro, Roberta Morgon Perroni, Rogeria Goncalves da Cunha Vallim, Ronaldo Domingues de Araujo, Sabrina Grazielly Belém Barbosa, Sandra Ribeiro Alves, Sara Maria da Silva, Sidnei de Carvalho Martins, Silmara Lobo Ortega, Silvia Cristina Garcia, Simone Oliveira dos Santos, Sofia Calabria Y Carnero, Stephany Tiveron Guerra, Talita Ferreira dos Santos, Tatiana Busto Garcia, Tatiana Fukuhara Borges, Tatiane Vieira de Almeida, Teresa Maria da Ponte Gutierrez, Thais Ferreira Rodrigues, Thays Cabette Barbosa Alves, Thiago da Silva Costa, Thiago Fabril de Oliveira, Valeria Mantovani de Andrade Alves, Vanessa da Silva Pereira, Victoria da Silva, Vinicius Pereira de Oliveira, Vinicius Silva de Azevedo, Viviane de Azevedo Lucato, Vivianne de Castro, Wagner Linares da Silva Junior.

Coordenação-Geral: Ricardo Gentil

Coordenação-Executiva: Ligia Moreli e Silvio Basilio

Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Lucas Blat • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Diego Olivares, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de Fotografia: Nilton Fukuda • Repórteres: Diego Olivares, Lucas Veloso, Luna D'Alama, Manuela Ferreira, Marcel Verrumo, Marina Pereira, Matheus Lopes Quirino e Rachel Sciré • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Marina Pereira, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Propaganda: Edmar Júnior, Jefferson Santanielo, Julia Parpulov e Vitor Penteado • Apoio Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • Arte de Anúncios: Alexandre Amaral, Bruno Agostinho, Gabriela Batista Borsoi, Leandro Vicente, Valter Cruz e Wendell de Lima Vieira • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: Cleber Paes e Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago

Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488).

A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social

Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br

Semana S celebra os 80 anos de criação do Sesc com atividades de cultura, esporte e lazer em São Paulo

Soraya Soubhi Smaili, professora e pesquisadora, discute rumos e desafios da ciência na universidade e no cotidiano

O impacto da tecnologia digital nas relações interpessoais das crianças e os desafios de criar vínculos

Por trás da escrita afiada de Luis Fernando Verissimo, o autor discreto e tímido

dossiê entrevista infância bio

Exposição Riscadura de fogo, no Sesc Pompeia, reúne esculturas imponentes e telas de Jorge dos Anjos

Como a região do Centro de São Paulo se consolidou como ponto de encontro e acolhimento para imigrantes africanos

Nilton Fukuda (Entrevista); Alexandre Nunis (Bio); Mineral Image (Gráfica)

Artigos de Fernando Marinho

Mezzadri e Ester

Gammardella Rizzi debatem o que significa, na prática, o Direito ao Esporte

Conhecida pelo bom-humor e empatia com o público, Denise Fraga celebra a vida no palco

A atriz Malu Galli reflete sobre sua carreira no teatro, TV e cinema

Bianca Monteiro (poesia) e Catarina Brito (ilustração)

em pauta encontros inéditos

Bibliotecas centenárias seguem como locais de referência não apenas pelos livros, mas também pela arquitetura e atrações

Camile Lopes Magalhães

sescsp.org.br semanamundialdobrincar

28 a 31 de maio de 2026

A Potência dos Encontros é o tema desta edição da Semana Mundial do Brincar, que apresenta atividades gratuitas voltadas a bebês e crianças até 12 anos em 39 unidades do Sesc São Paulo.

Participe e celebre o livre brincar como forma de conexão!

A Troupe Guezá no espetáculo CORP+S, apresentado em 22 de março na Arena do Lago do Taboão, em Bragança Paulista (SP), como parte da programação do Circuito Sesc de Artes. Realizado entre 21 de março e 26 de abril, o Circuito levou a 133 municípios paulistas um total de 123 atividades distribuídas em mais de mil sessões de teatro, música, dança, circo, cinema, literatura, artes visuais e tecnologias.

Nilton Fukluda

Tempo de celebrar

Semana S promove atividades culturais, esportivas e socioeducativas que aproximam a população das ações do Sesc, Senac e Fecomercio em todas as regiões do Brasil

No ano em que celebra oito décadas de sua criação, o Sesc (Serviço Social do Comércio), juntamente com o Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) e a FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo), promove, entre os dias 12 e 17 deste mês, mais uma edição da Semana S, com atividades para a população nas áreas de lazer, cultura, bem-estar e desenvolvimento socioeducativo.

No Sesc São Paulo, as programações incluem apresentações artísticas e ativações esportivas, além de reflexões que fomentam o bem-

estar físico, mental e social do público frequentador. O evento tem como foco abrir as portas para que empresários, trabalhadores e suas famílias conheçam de perto os produtos e serviços que impulsionam o setor de comércio de bens, serviços e turismo, por meio dessas entidades.

O Sesc realiza na unidade 14 Bis o Diálogos & Gestão, encontro voltado ao empresariado e a convidados, com foco em construir espaços para reflexões e estratégias para a formação e qualificação de gestores. As comemorações também contemplam uma programação de shows e espetáculos em unidades

do Sesc São Paulo. A ação amplia o acesso a atividades de música, artes cênicas e outras linguagens para mais frequentadores.

Outro destaque é o Circuito Sesc de Corridas, na cidade de Bertioga, no litoral paulista, que recebe praticantes desse esporte para duas provas à beira mar: uma com percurso de 5km (classificação 16 anos); e a segunda, de 10km (18 anos). As inscrições ocorreram em abril nas categorias Credencial Plena, Público Geral e Pessoas com Deficiência.

“A Semana S promove reflexões e fomenta práticas alinhadas ao bem-estar de cada frequentador de nossas unidades e ao desenvolvimento socioeconômico do país, fortalecendo a missão institucional do Sesc e seu compromisso com a construção de uma sociedade pautada na qualidade de vida”, afirma Luiz Deoclecio Massaro Galina, Diretor Regional do Sesc São Paulo. A Semana S é uma iniciativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e acontece em todos os estados do país. Mais informações em: semana-s. portaldocomercio.org.br

A Semana S promove reflexões e fomenta práticas alinhadas ao bem-estar de cada frequentador de nossas unidades e ao desenvolvimento socioeconômico do país

Luiz Deoclecio Massaro Galina, Diretor Regional do Sesc São Paulo

Como parte da Semana S, Circuito Sesc de Corridas promove provas de 5km e 10km na cidade de Bertioga.

DOSSIÊ

APRENDER EM VERSOS

Até setembro, o Sesc Consolação realiza o Ler & Escrever Poesia, projeto que reúne poetas contemporâneos e promove atividades de leitura coletiva e experimentação, ampliando o contato do público com a poesia. Com curadoria e mediação do poeta e editor Tarso de Melo, a programação parte do questionamento sobre o porquê algumas pessoas leem poesia

Brasil diverso

O Sesc Pinheiros recebe, em 5/5, a exposição Delírio Tropical - Recanto, com obras de cerca de 130 artistas que propõem a construção de imagens sobre o Brasil a partir de suas relações e interlocuções com o território. A mostra é uma itinerância que nasceu da parceria da Pinacoteca do Ceará com a terceira edição do Fotofestival Solar entre 2024 e 2025, evento cultural e artístico da Secretaria da Cultura do Ceará e do Instituto Mirante no Ceará, focado na difusão da fotografia como linguagem artística. Com curadoria de Orlando Maneschy e Keyla Sobral, a exposição é apresentada como uma cartografia da produção visual de um Brasil intenso e profundo, com artistas de diferentes localidades que lançam olhares para a diversidade sociopolítica do país. Em cartaz até 13/10. Saiba mais em sescsp.org.br/pinheiros

enquanto outras tendem a evitá-la. Durante os encontros, a Sala de Leitura da unidade se transforma em um ateliê poético, convidando os presentes a se reunirem com um mediador e uma escritora ou escritor convidado, em uma experiência que acolhe tanto quem já lê e escreve quanto quem ainda não se reconhece nesse lugar. Em maio, a poeta Natasha Felix lê Gilka Machado

no dia 14; já Micheliny Verunschk lê João Cabral de Melo Neto no dia 28. A programação é gratuita e realizada às quintas-feiras, das 19h às 21h30. Também haverá encontros com Isabela Bosi, Leonardo Gandolfi, Heitor Ferraz Mello, Bruna Beber, Edimilson de Almeida Pereira, Diogo Cardoso, Eduardo Sterzi e Lilian Sais. Mais informações em: sescsp.org.br/consolacao

No Dia do Desafio, 27/5, unidades da capital, interior e litoral paulista terão programação esportiva intensa para todos os públicos.

CORPO EM MOVIMENTO

Com o tema “Esporte é Direito”, o Dia do Desafio ocorre em 27 de maio, convidando a população para uma vida ativa e saudável. A campanha realizada anualmente, sempre em maio, tem por objetivo mobilizar as pessoas para a prática de atividades físico-esportivas, com foco na promoção da saúde e do bem-estar. Ao longo de todo o dia, o público poderá participar de diversas ações gratuitas, nas unidades do Sesc da capital, interior e litoral paulista. A edição deste ano chama a atenção para o esporte como um direito inserido

na Constituição Federal e aborda a importância do investimento em políticas públicas para a garantia de acesso, participação e permanência no esporte. O evento é uma iniciativa global da TAFISA – The Association for International Sport for All, com coordenação na América Latina do Sesc São Paulo e apoio da ISCA – International Sport and Culture Association, da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura e do Ministério do Esporte do Brasil. Saiba mais em sescsp.org.br/diadodesafio

Natt

Sérgio Fernandes

Saberes Negros

DOSSIÊ

Entre os dias 30/5 e 24/10, o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc (CPF) desenvolve o Grupo de Estudos Negros: Epistemologias e Metodologias Afrodiaspóricas. A atividade reflete criticamente sobre artes, comunicação e tecnologias a partir de perspectivas negras e contracoloniais. Os seis encontros abordam contribuições, impactos e tensionamentos entre epistemologias afrodiaspóricas e os conhecimentos acadêmicos eurocentrados. Com coordenação de Larissa Macêdo e participação de

Márcia Guena, Thiane Neves, Taís Oliveira e Tarcizio Silva, o curso propõe estudos de autoras e autores como Leda Maria Martins, Lélia Gonzalez (1935-1994), Sueli Carneiro, Nêgo Bispo (1959-2023), Saidiya Hartman e Charles Mills (1951-2021), evidenciando a centralidade das produções negras na construção do conhecimento, no enfrentamento ao racismo e na ampliação dos modos de pesquisa e criação para além dos espaços institucionais. Vagas limitadas. Confira a programação completa em: sescsp.org.br/cpf

Representantes de duas gerações diferentes de pianistas, Amaro Freitas e Dom Salvador se encontraram no palco do Sesc Jazz. Show inédito será exibido no SescTV, às 21h, em 15/5.

ENCONTROS MUSICAIS

Estreia no SescTV o show inédito

Amaro Freitas e Dom Salvador, no dia 15/5, às 21h. A apresentação foi gravada em 2025 durante o Sesc Jazz, no Sesc Pompeia, e reúne dois pianistas que marcaram o jazz brasileiro em épocas diferentes.

A apresentação contou ainda com a participação de Zé Carlos, guitarrista da Samba Jazz Quartet e membro da formação original do grupo Abolição. O resultado é uma celebração que coloca tradição e invenção em um diálogo vibrante

entre gerações. Em 2025, o Sesc Jazz recebeu 27 artistas nacionais e internacionais, ocupando unidades da capital e do interior do estado de São Paulo e valorizando o samba-jazz, o afro-jazz e a presença latino-americana. Saiba mais em sesc.tv

FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA

A Credencial Plena do Sesc é um benefício gratuito para pessoas com registro em carteira, que são estagiárias, temporárias, se aposentaram ou estão desempregadas há até dois anos em empresas do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes familiares. Com a Credencial Plena você tem acesso prioritário e descontos na programação e serviços pagos do Sesc.

Qual

é a validade da Credencial Plena?

A Credencial Plena tem validade de até 2 anos - para desempregados, a validade é de 24 meses contados a partir da data de rescisão do contrato de trabalho.

Como fazer a Credencial Plena?

On-line pelo aplicativo

Credencial Sesc SP ou pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br

Se preferir, nesses mesmos canais, é possível agendar horários para realização desses serviços presencialmente, nas Centrais de Atendimento das unidades.

Quem pode ser dependente na Credencial Plena?

• Cônjuge ou companheiro de união estável de qualquer gênero

• Filho, enteado, irmão, neto, tutelado e pessoa sob guarda com até 24 anos

• Pai, mãe, padrasto e madrasta

• Avôs e avós

Relacionamento com Empresas

É o programa que facilita o acesso ao credenciamento dos funcionários das empresas parceiras dos ramos do comércio de bens, serviços e turismo. Nessa parceria, além do credenciamento, os aproximamos de nossa vasta programação e serviços. Saiba mais em sescsp.org.br/empresas

Acesse o portal para saber sobre a Credencial Plena do Sesc

Ricardo Ferreira

Neste livro, a fi lósofa burquinense

Sobonfu Somé compartilha a sabedoria ancestral do povo Dagara, da África Ocidental, e revela que a conquista da intimidade não é uma busca privada por felicidade, mas uma prática vinculada ao bem comum, sustentada pela comunidade, pelos rituais e pela ancestralidade. Assim, mostra que amar o outro é um ato de pertencimento, cuja força está na vulnerabilidade, no cuidado e na interdependência.

saiba mais

Sob a lente da ciência

Professora e pesquisadora Soraya Soubhi Smaili compartilha visões de uma trajetória dedicada ao ensino, à pesquisa, à gestão universitária e à divulgação científica

POR RACHEL SCIRÉ

FOTOS NILTON FUKUDA

Soraya Soubhi Smaili tinha cerca de dez anos quando colocou os olhos em um microscópio pela primeira vez. Ela mesma havia montado o instrumento a partir de peças colecionadas em fascículos vendidos em banca de jornal. “Fiquei curiosa para enxergar o mundo assim, porque a microscopia, na verdade, é como se você fosse o próprio cérebro decodificando as estruturas, a partir de uma lupa”, explica.

Essa experiência seria o primeiro despertar da cientista, professora titular da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), formada em Farmácia-Bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP) e com mestrado, doutorado e livre-docência em Farmacologia pela Unifesp. Depois do pós-doutorado na Thomas Jefferson University e no National Institutes of Health, nos Estados Unidos, Soraya se especializaria em microscopia de organismos vivos, área em que atua até hoje,

coordenando pesquisas que investigam o câncer, a morte celular e as doenças neurodegenerativas.

A professora também ajustaria o foco para assumir outras responsabilidades no universo acadêmico, em especial, ao integrar a congregação que transformou a Escola Paulista de Medicina em Unifesp, em 1994. Em 2013, se tornaria a primeira mulher a assumir a reitoria da instituição, cargo que ocupou até 2021, depois de ser reeleita. Desde então, coordena o Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência), órgão vinculado à Unifesp que busca fortalecer a conexão entre universidade, ciência, sociedade e Estado para o desenvolvimento do país.

Nesta Entrevista, concedida no Sesc Vila Mariana na ocasião da adesão do Sesc São Paulo à campanha “Remédio: não usou, descartou!”, realizada pelo Grupo Mulheres do Brasil em parceria com o Projeto Ciência na Saúde, Soraya fala sobre suas experiências na pesquisa e na gestão universitária, a presença de mulheres na ciência e a importância da divulgação científica no combate à desinformação.

Você vem de uma família formada por imigrantes libaneses que atuavam na área do comércio. Como surgiu seu interesse pela área da ciência? Na minha infância, quando tinha por volta de dez anos de idade, me interessei por uma coleção de fascículos vendidos semanalmente em bancas de jornal chamada “Os cientistas: a grande aventura da descoberta científica”, que incluía peças para montar kits científicos. Depois dos seis primeiros números, montei meu primeiro microscópio, comecei a olhar as lâminas e fiquei curiosa para enxergar o mundo assim porque a microscopia, na verdade, é como se você fosse o próprio cérebro decodificando as estruturas, a partir de uma lupa. Foi o meu primeiro despertar. Entrei na Faculdade de Ciências Farmacêuticas na Universidade de São Paulo em 1982 e tive contato com a Farmacologia, uma disciplina que me deixou muito entusiasmada. No terceiro ano, realizei a iniciação científica, algo extremamente importante para os estudantes, porque mostra como a pesquisa pode ser um dos caminhos. Foi durante esse estágio que eu realmente tive o desejo de seguir a carreira acadêmica como cientista. Depois do pós-doutorado, me especializei em microscopia, área em que trabalho com mais ênfase até hoje, mas se trata de uma microscopia muito sofisticada de organismos vivos. Então tudo depende realmente de um estímulo, que pode acontecer na infância ou na juventude. A ciência promove a curiosidade.

Suas pesquisas atuais envolvem temas como morte celular, neurodegeneração e envelhecimento. Como elas se relacionam à busca de tratamentos para câncer, Parkinson e Alzheimer?

Quando falamos em biologia celular, ou farmacologia da biologia celular, estamos tratando de qualquer organismo vivo, porque todos têm essa estrutura básica que é a célula. Estudamos as células em uma condição bem específica, células em cultura, que podem ser culturas de neurônio, de músculo, de um sistema, de uma glândula. Essas células têm suas funções e utilizamos alguns fármacos para o estudo dos processos biológicos, fisiológicos da célula, assim como para os processos patológicos, alterações que acontecem em algumas células e levam a doenças, por

exemplo, o que acontece com células do neurônio, no caso das doenças degenerativas, ou com as células anômalas, no caso de um tumor. Outro mecanismo básico que estudamos é a morte celular, porque todas as células têm um ciclo como o nosso: nascem, vivem e depois têm um processo de envelhecimento e de morte. Conhecer como as células morrem ajuda a modular como ocorrem os processos na doença de Parkinson, na doença do Alzheimer, em que os neurônios sofrem bastante. A morte celular dos neurônios resulta em perda cognitiva, no caso do Alzheimer, ou perda de funções, no caso do Parkinson, principalmente a mobilidade. São doenças que não têm cura e o estudo em nível celular é muito importante, porque estamos em busca de novos fármacos que podem modular, controlar ou até mesmo retardar as doenças. Por outro lado, em células cancerígenas, queremos produzir a morte celular, então é importante conhecer esse processo, para eliminar tais células e impedir que causem danos ao organismo. Hoje, a biologia celular, a farmacologia celular, avançou muitíssimo, temos fármacos que agem especificamente naquela célula tumoral e não causam tantos efeitos indesejados, quanto os quimioterápicos de largo espectro.

Como avalia a incorporação de conhecimentos tradicionais e da medicina popular na pesquisa de fármacos? É muito importante, porque toda a origem da farmacologia vem do conhecimento popular. O primeiro princípio ativo isolado na história da farmacologia, no século 19, foi a morfina, que vem das sementes da papoula. Ao observar a utilização da papoula para produzir um efeito analgésico, que era comum em determinadas culturas, foi possível pegar as sementes, isolar os compostos, e até hoje isso é utilizado como um potente analgésico. Outro exemplo é o curare, utilizado por indígenas da América Latina e América Central. É uma planta com a qual faziam um macerado e colocavam na ponta de flechas, pois tinha um efeito paralisante no animal, durante a caça realizada para alimentação. Pesquisadores observaram que existia uma substância que produzia essa espécie de paralisia muscular, da perna, do braço, em animais de grande porte, mas também em seres humanos. Esse fármaco isolado, a

Quando uma mulher assume um cargo de gestão, é importante que ajude a visibilizar outras mulheres que estão fazendo um trabalho de qualidade, para que elas possam mostrar a sua capacidade

d-tubocurarina, passou a ser utilizada em cirurgias de grande porte para impedir movimentos involuntários, por exemplo, durante uma cirurgia de abdômen, uma cirurgia de peito aberto, em que é preciso deixar o paciente imobilizado, para que não tenha rompimento de vaso, nenhum movimento drástico durante a cirurgia. Então cada vez mais temos pesquisadores nas universidades buscando a sabedoria popular e fazendo a incorporação de saberes.

Você foi membro da congregação que promoveu a criação da Universidade Federal de São Paulo, em 1994, a partir da Escola Paulista de Medicina. Como foi participar desse processo?

A Escola Paulista de Medicina foi criada em 1933, inicialmente, só com o curso de Medicina. Depois vieram outros cursos: Enfermagem, Biomedicina, Fonoaudiologia. Na década de 1990, eu já era docente, e havia um sentimento muito forte de quem estava na liderança para deixar de ser uma escola isolada, que já era federal, mas não uma universidade. Então houve um movimento de toda a comunidade, principalmente do diretor da época, o professor Manuel Lopes, junto ao Ministério da Educação, que trouxe a possibilidade dessa transformação de Escola Paulista de Medicina para Unifesp. Naquele momento, era uma universidade da área da saúde, somente em São Paulo. Depois eu também participei ativamente de todo esse processo dos estatutos, da construção da Unifesp como universidade e, nos anos de 2002 a 2004, passamos a discutir a expansão da universidade para além da área da saúde, para se tornar uma universidade plena. Até 2012, foi uma expansão bastante ampla, passamos de cinco cursos de graduação para 54, um processo de crescimento de mais de

1000%, em termos de números de estudantes. Triplicamos o número de professores, dobramos o número de programas de pós-graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado.

Tudo isso trouxe um ambiente de grande ebulição, porque foram muitas discussões de conhecimentos que começaram a se entrecruzar. Hoje, temos sete campi, distribuídos em nove institutos e faculdades.

Em 2012, você se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de reitora da Unifesp, foi reeleita e ficou no posto até 2021. Quais foram os principais desafios enfrentados ao assumir esse cargo?

Nos primeiros anos, o principal desafio foi reorganizar a universidade, em razão da expansão que havíamos feito em um curto espaço de tempo. O risco era não só perder a autonomia de cátedra, mas a capacidade de organizar e produzir conhecimento de qualidade. Conseguimos reorganizar estatutos, regimentos, regramentos internos, organogramas. Fizemos uma reforma administrativa de grande porte, com as estruturas condizentes com a universidade, porque até então ainda eram estruturas que atendiam à Escola Paulista de Medicina, e conseguimos dar este caráter de universidade para a Unifesp, que se tornou uma universidade plena no decorrer da nossa gestão. Também pudemos instituir uma cultura de planejamento e buscamos trazer diversos elementos para fazer planos pedagógicos institucionais dos cursos que tinham sido criados, e programas de desenvolvimento de infraestrutura, que chamamos de planos diretores. Cada campus hoje tem um plano diretor de infraestrutura e isso foi um diferencial para a Unifesp. Além disso, ampliamos os processos de pesquisa, de interação e integração entre

Nós temos muitas pessoas falando em ciência, mas que não sabem que a ciência tem um método. Elas falam sem conhecer os procedimentos, como se fosse uma questão de opinião — e não é uma opinião.

pesquisadores, e alavancamos a extensão. Até certo ponto, quando entramos na gestão, a extensão era vista como cursos de especialização, mas é muito mais do que isso, como programas sociais, programas de educação na comunidade ou de portas abertas à sociedade, programas que foram amplificados durante as nossas gestões.

Como avalia a presença feminina, tanto na gestão acadêmica, quanto no próprio campo da pesquisa?

Vemos um crescimento das mulheres na ciência há algum tempo, em todas as áreas. No entanto, não vemos ainda mulheres em cargos de gestão. Quando uma mulher assume um cargo de gestão, é importante que ajude a visibilizar outras mulheres que estão fazendo um trabalho de qualidade, para que elas possam mostrar a sua capacidade. As gestões anteriores à nossa foram eminentemente conduzidas por homens. Quando assumimos, 70% dos cargos de gestão passaram a ser ocupados por mulheres. Conseguimos colocar mulheres em muitas áreas diferentes. Alguns, de maneira mais pejorativa, questionaram e eu dizia: “Sim, estou fazendo isso de propósito, porque tudo o que essas mulheres precisam é de uma oportunidade”. Temos muito orgulho. Criamos várias políticas internas, para mulheres, de combate ao assédio, mas também outras, como a que combate o racismo estrutural, que resultou depois na política Carolina Maria de Jesus, ou as políticas de direitos humanos em relação às perseguições, o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), que cuida da identificação dos desaparecidos na ditadura militar (1964-1985). Criamos várias cátedras, como a Cátedra de Sustentabilidade e Visões de Futuro, que debate meio ambiente e mudanças climáticas.

Atualmente, você coordena o Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência). Poderia contar sobre essa iniciativa?

O SoU_Ciência é de 2021, quando eu e um grupo de professores que participaram da minha gestão estávamos deixando a reitoria. Pensamos no aprendizado sobre os processos administrativos que acumulamos e que são complexos. Ser cientista também me favoreceu nesse aspecto, porque me ajudou a enxergar o orçamento com rigor, produzir processos administrativos dentro da universidade. Diante da grande crise sanitária da nossa geração, que foi a pandemia da covid-19, nos unimos para criar esse centro em que seria possível

pensar, a partir de evidências científicas, trazer dados e informações de qualidade, favorecer políticas públicas. Ele envolve a produção de conhecimento, fornecido para a sociedade e para os formuladores de opinião. É um órgão complementar que apresenta dados, pesquisas, subsídios, auxilia a disseminação de informações e a compreensão da opinião pública. Foi um projeto bastante inovador, trazendo o modelo de think tank [laboratório de ideias] dentro da universidade, e se conecta com outras universidades, secretarias de Estado, ministérios, para a formulação de políticas que vão beneficiar a Educação Superior e a Ciência, Tecnologia e Inovação.

Como avalia a percepção pública sobre a ciência na sociedade?

O cenário é preocupante. Nós temos muitas pessoas falando em ciência, mas que não sabem que a ciência tem um método. Elas falam sem conhecer os procedimentos, como se fosse uma questão de opinião — e não é uma opinião. A ciência precisa passar por determinados passos para que se possa afirmar que existem evidências científicas sobre um tema. É preciso ter uma hipótese, uma pergunta concreta, estabelecer um método, fazer os experimentos. Depois, analisar os resultados para dizer se faz ou não sentido o que está sendo buscado. E ainda assim não se pode dizer categoricamente que um fármaco possui um determinado efeito porque foi observado nos experimentos de quem pesquisa. Os resultados devem ser reproduzidos várias vezes, é preciso ter um conjunto de evidências científicas, informações que serão analisadas até que se possa apresentar para a sociedade e dizer que algum conceito mudou. Hoje, muitas pessoas, algumas mal-intencionadas, utilizam a ciência para deturpar o conhecimento e produzir desinformação, como aconteceu durante a pandemia da covid-19, em que tivemos certo número de profissionais, inclusive médicos e gente da área da saúde, combatendo a vacina, que diziam ser experimental. Mas as vacinas passaram por todo o método científico, pelos estudos pré-clínicos, feitos em células ou animais, e pelos estudos clínicos, feitos com segurança, em humanos voluntários, que deram consentimento para entrar na pesquisa, como eu mesmo fui voluntária na vacina de Oxford, coordenada pela Unifesp, na época. Esta vacina, depois dos estudos de fase três, foi submetida a um órgão regulador, que é a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], que autorizou o uso em humanos. Depois, ela ainda ficou em

entrevista

É preciso ter a consciência de que tudo que nós temos e fazemos envolve a ciência, desde acender a luz até mandar uma mensagem pelo celular

farmacovigilância, um período de dois anos que o fármaco é avaliado profundamente na sociedade, porque se houver um conjunto de indivíduos que apresentem qualquer malefício pelo uso do fármaco, ele tem que ser retirado do uso. Então as pesquisas têm fundamento, não são opiniões. Houve um uso da ciência nas redes sociais, na internet, que continua, para alimentar uma guerra de opiniões.

De que maneira é possível contribuir para que a população se aproxime dos temas de saúde e ciência, buscando informações confiáveis?

A educação em ciência é o ponto-chave, desde os primórdios da formação da pessoa. Uma simples revista pode estimular o pensamento e a formação científica, como foi o meu caso. Além disso, é preciso ter a consciência de que tudo que nós temos e fazemos envolve a ciência, desde acender a luz até mandar uma mensagem pelo celular, porque não existe desenvolvimento tecnológico sem ciência e sem a ciência básica, principalmente. Por isso é importante realizar atividades como a campanha “Remédio: não usou, descartou”, que promove a conscientização e possibilita que menos medicamentos sejam descartados na água em que a gente bebe, que o animal de criação bebe ou que vai regar as plantações. Estamos falando sobre o meio ambiente, em como algumas ações podem modificá-lo e prejudicar a saúde humana. Tudo isso é embasado em pesquisa. Também é importante formar redes — neste caso, conectamos instituições como o grupo Mulheres do Brasil, as universidades, o Sesc São Paulo, para que o conhecimento possa ser difundido para a população. E ainda ter o envolvimento do poder público, que governantes reconheçam o papel político da ciência, não da política partidária, mas da ciência para o desenvolvimento da sociedade. Se tivermos esse grande ecossistema de informação de qualidade, de envolvimento com a ciência, certamente teremos uma sociedade melhor, mais desenvolvida e feliz.

Como as experiências ao longo da sua trajetória transformaram a sua visão sobre o papel da ciência no Brasil?

No início, eu pensava muito na ciência em si, na busca pelo conhecimento, na minha curiosidade, em ler muito, entender e decifrar os processos biológicos, que é um desafio para todo cientista: fazer perguntas e buscar respostas. Conforme fui me envolvendo no movimento de pós-graduandos, de docentes e na própria universidade, percebi que isso era muito importante para que eu fizesse ainda mais pesquisa. E também o envolvimento com outras universidades, com o sistema público de universidades que é tão poderoso – 80% da pesquisa científica do país é feita em universidades públicas. Uma pesquisa do SoU_Ciência mostrou que a sociedade apoia as universidades públicas, não quer a privatização, no entanto, não conhece tudo o que a gente faz. Sabem que existe ensino, pesquisa, produção de conhecimento, mas têm pouca informação sobre extensão, por exemplo, os projetos sociais, a formação, a interação com diversos setores para produzir um bem para essa sociedade, a questão da inovação tecnológica, criação de patentes, interação com o chamado setor produtivo. Hoje, para mim, esse olhar está muito mais amplo. Vamos dizer que agora eu estou olhando por um grande microscópio, que tem muitas objetivas, muitas facetas, mas que na verdade faz parte de um mesmo microscópio, de uma mesma visão integrada do papel da ciência.

Assista a trechos da Entrevista com a farmacologista Soraya Soubhi Smaili, realizada no Sesc Vila Mariana, em março de 2026.

ALEX DIAS , KÁTIA PRETA e S ERGIO MACHADO unem

jazz, samba e improviso num encontro inédito

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conexão

HUMANA

Em tempos de relações mediadas por celulares e outros dispositivos eletrônicos, incentivar brincadeiras coletivas e atividades ao ar livre é desafio para qualificar as infâncias

Para além das telas, crianças podem exercitar seu olhar para o mundo real e aprender a regular sensações.
Nilton Fukuda

Ao ver o novo tablet da menina Bonnie, o dinossauro Rex exclama no trailer de Toy story 5, animação que estreia em junho nos cinemas: “Extinção de novo, não!”. A iminência do abandono é o medo do réptil verde de plástico e de seus companheiros Woody, Jessie e Buzz Lightyear ao presenciarem a chegada da vilã LilyPad, uma tela interativa em formato de sapo capaz de “roubar” a atenção da garota por horas seguidas. Os brinquedos, então, precisam superar suas diferenças e se unir contra a ameaça digital.

O conflito entre o tempo que as tecnologias e as brincadeiras clássicas ocupam na vida das crianças também é pauta para muitas famílias, escolas e espaços de convivência. Na casa da terapeuta integrativa Bruna Pacheco, mãe de Frederico, de 6 anos, o uso de telas é limitado aos finais de semana e a algumas atividades pedagógicas no colégio. “Ele não tem celular nem tablet, não segura nada na mão. Vemos juntos filmes e animações na TV”, conta Bruna.

Graduada em Jornalismo, a também terapeuta aponta que uma das questões mais problemáticas em relação às telas é justamente a falsa sensação de segurança,

pois permitir que uma criança navegue sozinha na internet pode deixá-la exposta a temas e produtos inadequados para sua faixa etária. Bruna também observa mudanças de comportamento no filho quando ele ultrapassa o limite ideal à frente da televisão.

“Frederico fica agitado, disperso, não presta atenção quando falo, nem consegue se concentrar”, avalia.

Bruna acrescenta que ter uma rotina previsível e bem definida contribui para os pequenos a se regularem, o que inclui estabelecer dias, horários e tempo de uso de telas. “Isso ajuda a modular as quebras de expectativas, frustrações e instabilidades nas crianças. Não é nosso dever demonizar ou proibir as telas, mas moderar o uso. O ser humano se regula a partir da presença física, da conexão relacional e dos vínculos com os outros”, destaca.

EQUILÍBRIO DIÁRIO

Especialistas e pesquisas científicas têm mostrado que os algoritmos das plataformas digitais e a estrutura alinhada à busca incessante por engajamento nas redes sociais foram feitos para causar vício, seja em crianças, adolescentes, adultos ou idosos. Estudos também indicam a queda na compreensão de leitura, na capacidade de concentração e na cognição em geral. O excesso de telas pode tornar, ainda, os usuários mais ansiosos, irritados e impacientes.

Nilton Fukuda

O contato com a natureza e a companhia de outras pessoas estimulam o desenvolvimento das crianças.

NAS BRINCADEIRAS, CRIAMOS REGRAS, NEGOCIAMOS, LIDAMOS COM AS DIFERENÇAS,

IMAGINAMOS

JUNTOS, EXERCITAMOS

A

DIPLOMACIA, ENFIM, APRENDEMOS A CONVIVER

Sarah Menezes Rocha, da Aliança pela Infância

Segundo a pediatra Ana Escobar, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro Meu filho tá online demais –Equilibrando o uso das telas no dia a dia familiar (Manole, 2024), a partir da pandemia de covid-19 houve uma explosão no uso de dispositivos eletrônicos por crianças e adolescentes. “Tenho visto no consultório mais casos de ansiedade, depressão, isolamento, transtornos psicológicos que levam a comportamentos autolesivos, miopia, obesidade, sedentarismo, colesterol alto e diabetes tipo 2 nessas faixas etárias”, relata a médica.

Com mais de quatro décadas de experiência profissional, Ana concorda que é impossível viver hoje sem a tecnologia, mas complementa que é preciso

Ter espaço dedicado ao livre brincar e ao contato com outras crianças é essencial para a saúde mental durante o crescimento.

impor limites e restrições. A Sociedade Brasileira de Pediatria indica zero tela recreativa para menores de 2 anos, até uma hora por dia para crianças entre 2 e 5 anos, no máximo 2h por dia dos 6 aos 10 anos, e até 3h diárias dos 11 aos 18 anos – com pausas regulares, e nunca “virar a noite” conectado. “Para ter o próprio celular, o recomendado é que já seja adolescente (a partir dos 13 anos) e, para entrar numa rede social, que tenha 16 anos”, detalha a médica.

A profissional também é favorável ao controle e à supervisão parentais em relação ao conteúdo, com bloqueios, filtros e uso de classificação indicativa em plataformas e aplicativos. Já do lado das crianças e dos adolescentes, é fundamental que

Andréia Beltrão infância

eles não se fechem nos quartos, mas vejam os vídeos e joguem online na sala, com toda a família vendo e ouvindo o que se passa – sem fones. “A educação digital na era eletrônica começa em casa, em diálogos e reflexões sobre seus riscos, potenciais e prejuízos”, analisa a pediatra.

Para Ana, encontrar um meio-termo entre o domínio tecnológico e uma vida física e mentalmente saudável é a chave para adultos e seus filhos. “Essa responsabilidade parte das famílias, mas deve ser compartilhada pelas escolas, pelos governos, pelas plataformas e por toda a sociedade”, defende a médica, que integrou o movimento Desconecta, para proibir celulares e outros aparelhos eletrônicos nas escolas públicas e privadas do país, medida em vigor desde janeiro do ano passado, com a Lei Federal nº 15.100/2025. Essa legislação tem como objetivo melhorar o aprendizado e a saúde mental de crianças e adolescentes, e permite aparelhos em salas de aula apenas para fins pedagógicos, inclusão ou questões de saúde. O primeiro ano sem celulares nas escolas já revelou alunos mais atentos, concentrados, participativos, questionadores, integrados aos colegas e com melhor desempenho.

ECA DIGITAL

Outro marco da mobilização que envolve a relação de crianças e telas é o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), em vigor desde março, que atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e determina controle parental e verificação de idade para além da autodeclaração – isto é, com comprovação documental – no acesso a plataformas, redes sociais e aplicativos. Impõe ainda regras rígidas a redes e jogos, incluindo a proibição da rolagem infinita do feed, do início automático de vídeos, de notificações com apelo emocional, da sugestão de conteúdos por algoritmos e de publicidades a menores de idade, protegendo-os contra conteúdos nocivos e inadequados para cada faixa etária. Especialistas, porém, ainda veem essa nova lei com cautela, pois é difícil saber como ela será controlada e como funcionará na prática.

Ao restringir o acesso da filha Safira às telas, Camile Viana repensou sua própria relação com as redes sociais.

Segundo a educadora e pesquisadora Sarah Menezes Rocha, que desde 2019 integra a organização não governamental Aliança pela Infância, responsável pela Semana Mundial do Brincar [leia mais em Encontros potentes], o ECA Digital, por si só, não vai resolver todos os problemas parentais e infantojuvenis, mas cria um ambiente mais seguro, limites claros e punições para as empresas de tecnologia, que monetizam e lucram com o uso das redes e dos aplicativos. Carolina Vilaverde, especialista em Digital na área de Sensibilização da Sociedade na Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, concorda que o ECA Digital é um ponto de virada para a proteção e segurança de crianças

A EDUCAÇÃO DIGITAL NA ERA

ELETRÔNICA COMEÇA EM CASA, EM

DIÁLOGOS E REFLEXÕES SOBRE SEUS

RISCOS, POTENCIAIS E PREJUÍZOS

Ana Escobar, pediatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

e adolescentes no meio online. “Temos acompanhado a implementação da lei e de seus decretos, dialogado com a sociedade civil, especialistas e o governo federal sobre o uso das tecnologias e seus impactos”, salienta.

Na visão de Carolina, o ECA Digital reconhece a importância do desenvolvimento infantil e da condição de crianças e adolescentes como seres em processo de crescimento, amadurecimento e autonomia. “Com a nova lei, também passamos a discutir fenômenos como o sharenting [termo em inglês que junta as palavras share = compartilhar e parenting = paternidade], ou seja, a exposição e o compartilhamento excessivos de fotos e vídeos de crianças feitos por seus pais ou cuidadores, prática que toca em questões sensíveis como o direito à privacidade. De posse de informações para verificação de idade, é preciso que as plataformas garantam a proteção desses dados. E as famílias devem cumprir o papel de supervisão e mediação ativas, enquanto as escolas precisam incorporar o letramento sobre o uso da internet”, ressalta.

A pesquisa Panorama da primeira infância: O que o Brasil pensa, vive e sabe sobre os seis primeiros anos de vida, realizada em 2025 pela Fundação

Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o instituto Datafolha, revelou que 78% das crianças de até 3 anos no país têm acesso diário a TV, celular, tablet ou computador. “Quando olhamos para a faixa dos 4 a 6 anos, o número chega a 94%. Isso significa que as telas fazem parte do cotidiano das crianças, algo que interfere diretamente na maneira como elas se desenvolvem e se relacionam com o mundo ao redor”, aponta Carolina.

USO CONSCIENTE

A mobilização para combater o uso excessivo de telas por crianças também está presente em outros países. Na Europa, a Grécia vai proibir redes sociais para menores de 15 anos a partir de janeiro de 2027, enquanto, desde 2023, a Suécia desistiu do projeto de uma educação 100% digital e voltou a comprar livros didáticos impressos. Já a Comissão Europeia deseja que o Tik Tok desabilite a função de rolagem infinita e estabeleça uma quantidade máxima de vídeos que os usuários podem ver por dia. O objetivo da medida, que poderá se estender a outros aplicativos no futuro, é tornar o uso das plataformas menos viciante.

A pedagoga, doutoranda e pesquisadora das infâncias

Camile Viana, mãe de Safira, de 8 anos, optou por restringir o acesso da filha às telas e tem repensado sua própria relação com esses dispositivos. “Durante a semana, desinstalo o Instagram e só o reinstalo na sexta. Acho que isso me ajuda a ficar mais focada, a ler, a escrever minha tese”, conta. A pedagoga diz que Safira faz aulas de dança e também lê muito, assim como ela. “Quando saímos para compromissos mais longos, levamos brinquedos numa mochila, um kit com caderno, lápis de cor, tesoura, cola. Assim, ela se ocupa de forma independente, se envolve sozinha”, revela.

Essa preocupação constante em casa é compartilhada pela professora de ensino fundamental Fernanda Rodrigues, mãe de Bento, de 9 anos, e Laura, de 5. Os dois estudam de manhã e utilizam telas à tarde.

Laura vê mais desenhos na TV, enquanto o irmão tem mais acesso a jogos. “Percebo que as crianças, não só as minhas, estão perdendo a capacidade de

esperar, o ócio criativo necessário para inventar uma brincadeira. Querem estímulos o tempo todo”, analisa. Fernanda controla o que o filho joga no celular por meio do aplicativo Family Link. “Alerto Bento sobre os perigos de conversar com estranhos, de pessoas se passarem por outras na internet. E para mim, não há nada melhor para sair da tela do que praticar esportes e atividades físicas: Bento faz tênis e natação, e Laura tem aulas de jazz e balé. Outro aliado nosso são os livros. São recursos para termos mais saúde e bem-estar no dia a dia”, relata Fernanda.

A POTÊNCIA DO BRINCAR

A educadora e pesquisadora Sarah Menezes Rocha, da Aliança pela Infância, entende que crianças e adolescentes necessitam de vínculos, pessoas, contato com artes, culturas e territórios diversos. “Tudo isso nasce de trocas reais, afeto, atenção,

Fernanda, o marido Diego e os filhos Laura e Bento: atividades artísticas e físico-esportivas ajudam a manter as crianças longe das telas.

infância

presença, cuidado, escuta. E uma das maneiras mais potentes de produzir essas interações na infância é por meio do brincar, um excelente contraponto ao excesso de telas. Nas brincadeiras, criamos regras, negociamos, lidamos com as diferenças, imaginamos juntos, exercitamos a diplomacia, enfim, aprendemos a conviver”, reforça Sarah.

Na avaliação da pesquisadora e mestra em Educação, os vínculos não nascem da convivência física, mas da presença. “As telas competem pela nossa atenção, e disponibilidade significa tempo compartilhado sem pressa, com trocas de olhares, afetos e conversas. Se a gente oferece vídeos demais,

A leitura é ferramenta essencial para estimular a imaginação das crianças e mostrar que há muitas formas de se divertir para além das telas.

tira a oportunidade de crianças e adolescentes exercitarem a criatividade e imaginarem [do latim, ‘formar imagens mentais’] por si mesmos”, explica. Assim, mais do que controlar o uso de telas, pais, responsáveis e educadores devem garantir que os pequenos tenham experiências de encontros com o mundo real e com pessoas de várias idades. “Essas vivências intergeracionais são muito positivas. Os vínculos nos ajudam a compreender o ser humano. As soluções precisam ser coletivas e, para que as crianças saiam das telas, é necessário oferecer uma vida melhor para elas aqui fora. Começando por cidades que ofereçam parques, praças, clubes e espaços recreativos como opções de lazer”, arremata Sarah.

Denise Meirelles

ENCONTROS POTENTES

De 28 a 31 de maio, 35 unidades do Sesc São Paulo participam da 18ª edição da Semana Mundial do Brincar, que traz como tema “A Potência dos Encontros”

A conexão entre crianças é o ponto central das ações da Semana Mundial do Brincar, com programação diversa e gratuita.

Entre os dias 23 e 31 de maio, a Aliança pela Infância promove no Brasil e em mais de 40 países a 18ª edição da Semana Mundial do Brincar (SMB), com programação gratuita e voltada para bebês, crianças de 0 a 12 anos e adultos responsáveis, que poderão participar de brincadeiras, oficinas, palestras, debates, vivências, experiências sensoriais, rodas de conversa, apresentações de teatro e música, e diversas outras atividades lúdicas e interativas.

No Sesc São Paulo, parceiro da Aliança pela Infância, as ações em rede se concentram em 35 unidades da capital, Grande São Paulo, interior e litoral. Ao todo,

142 atividades estão previstas para acontecer entre os dias 28 (Dia Mundial do Brincar) e 31 deste mês. O tema escolhido este ano é “A Potência dos Encontros”, um convite para lembrar que as múltiplas infâncias surgem na conexão humana, nas relações e em diferentes territórios, com respeito e diálogo.

O Espaço de Brincar (voltado a pequenos de 0 a 6 anos, acompanhados de seus cuidadores) de cada unidade participante funcionará como ponto central da iniciativa nesse período. Segundo Flavia Carvalho, Gerente da Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo, o

para ver no sesc / infância

tema desta edição converge com diretrizes dos programas socioeducativos do Sesc São Paulo. “A SMB convida o público infantil e seus cuidadores a reconhecerem, nas diferenças, as riquezas que constituem as infâncias e, no coletivo, a responsabilidade de cuidar, escutar e construir junto. As atividades valorizam o brincar como direito, expressão cultural e prática fundamental para a convivência, a participação e a construção de sentidos compartilhados”, destaca. Veja a programação completa em sescsp. org.br/semanamundialdobrincar.

Confira destaques:

VILA MARIANA

Corpos que Brincam, Culturas que Dançam Vivência de danças, músicas e brincadeiras das culturas populares do Norte e Nordeste do Brasil. Com o Movimento Vem Brincar Cacuriá. De 26 a 29/5, às 10h e às 14h. GRÁTIS. 60 vagas.

BELENZINHO

Tecendo comunidades de brincar na natureza Vivência possibilita criar pequenas comunidades de brincar e reflete a profundidade das conexões ao brincar com elementos vivos.

Dias 29/5 , das 14h às 16h; e 30/5, das 10h às 12h. GRÁTIS. 30 vagas.

CAMPINAS

Menos Tela e Mais Brincar Junto Palestra sobre a importância de crianças e adultos brincarem coletivamente no dia a dia, reduzindo o tempo de todos em frente às telas.

Dia 30/5, às 15h. GRÁTIS.

Silenciosa PULSAÇÃO

Os percursos do escritor Luis Fernando Verissimo, que usou do humor para esmiuçar o mundo

Na pacata vida privada do escritor Luis Fernando Verissimo (1936-2025), alguns sons eram sempre bem-vindos: o de seu inseparável saxofone, que aprendeu a tocar na adolescência; o das celebrações a cada gol do Internacional, time do peito; o das risadas da esposa, Lúcia Helena, e dos filhos Fernanda, Mariana e Pedro; o das brincadeiras com os netos, Lucinda e Davi, e o do ruído festivo trazido pelos amigos à sua casa na rua Felipe de Oliveira, bairro Petrópolis, em Porto Alegre (RS). Um dos autores mais lidos do país passou a vida observando tudo ao seu redor e, com sutil precisão, traduziu em palavras o que via. Foram mais de 80 títulos publicados, além de textos para jornais, revistas e roteiros para televisão.

Sua obra captou mais de cinco décadas do cotidiano brasileiro e o imortalizou em crônicas, romances, contos e cartuns, apresentando personagens que se tornaram ícones do imaginário nacional, como a Velhinha de Taubaté, o Analista de Bagé, o detetive Ed Mort e a Família Brasil. Boa parte dessa produção veio ao mundo na mesma residência onde ele cresceu e criou os filhos, uma casa que pertenceu

ao seu pai, o escritor Erico Verissimo (1905-1975). No casarão projetado nos anos 1930, também foi escrita a maioria dos 34 livros do pai, entre os quais a trilogia O tempo e o vento (1949-1962), e o romance Incidente em Antares (1971).

ESBOÇOS E ENSAIOS

Da biblioteca, seu lugar preferido desde garoto, e com a constante companhia da mãe, Mafalda (1913-2003), e da irmã, Clarissa, Luis Fernando viu de perto a consolidação da figura paterna entre os maiores nomes da literatura brasileira. Mais tarde, não apenas continuaria a tradição literária familiar, mas conquistaria com a sua escrita, com inconfundível leveza e perspicácia, um reconhecimento popular inédito. “Meu pai era um tímido que adorava ter a família e os amigos por perto. Era realmente calado, mas gostava de ouvir uma boa conversa. Era, de fato, um grande observador. Bem-humorado, mas não piadista. Acho até que ele gostava mais de rir do que de fazer rir. Nós, os filhos, sempre nos divertíamos quando alguém perguntava como era conviver com alguém tão engraçado

Andrew Sykes

Por meio de imagens e palavras, Luis Fernando Verissimo fez do humor um exercício para refletir sobre o cotidiano e a humanidade.

dentro de casa, sem imaginar que ele era tão quieto”, revela a jornalista e escritora Fernanda Verissimo.

A face mais reservada era a mesma que abastecia a sagacidade da escrita do criador de As cobras (1975), habilidade que ganhou corpo a partir de 1962, quando Verissimo viveu na capital fluminense e trabalhou como tradutor e redator publicitário. Ao retornar a Porto Alegre, em 1967, ingressou no jornal Zero Hora, no qual começou no setor de revisão de textos. A qualidade e agilidade de seu trabalho logo lhe renderam um espaço maior e, em 1969, passou a assinar sua própria coluna, estreando com crônicas sobre futebol. Nesse período, ele também dividia sua rotina entre uma agência de publicidade e o semanário de humor Pato macho, do qual foi cofundador. Concebida como uma publicação irreverente, que atacava a elite local, o periódico teve vida curta, sendo censurada e encerrada após poucas edições.

COMPOSIÇÃO DO OLHAR

Somente aos 37 anos veio o primeiro livro, a coletânea O popular, reunião de escritos publicados em diversos veículos, como a Folha da manhã e a revista Senhor. Na capa, o escritor anunciava, com seu estilo inconfundível: “O nome deste livro é O popular. São crônicas, ou coisa parecida. O nome do autor é Luis Fernando Verissimo. Que também é o culpado pelos desenhos”.

Já o fascínio pelo jazz começou bem antes da estreia literária. Em função dos compromissos do pai, que também foi professor de uma universidade

estadunidense, Verissimo concluiu parte do ensino médio nos Estados Unidos. Aos 16 anos, iniciou os estudos de saxofone e, a partir de então, a música se tornaria uma constante.

Nos anos 1960, passou a se apresentar profissionalmente nos bailes e festas da capital gaúcha, como integrante do Renato e seu Sexteto, chamado por ele como “o maior sexteto do mundo” – eram nove músicos no total. Em 1995, tornou-se membro-fundador do conjunto Jazz 6. Com o grupo, dessa vez apelidado pelo artista de “o menor sexteto do mundo”, por contar com cinco integrantes, viajou pelo país e lançou cinco álbuns. “Ele dizia que, se pudesse escolher uma profissão, gostaria de ter sido músico. Também era um grande fã de MPB. Nossa casa sempre foi muito cheia de música, ele gostava de volume alto e, querendo ou não, crescemos ouvindo jazz e MPB. Nesse sentido, o ritmo da casa era mesmo pautado pelo ritmo musical de cada dia”, recorda Fernanda.

A primogênita enumera as lições proporcionadas pela herança familiar. “Ter vivido na casa de dois grandes escritores me ensinou que a escrita pode ser uma profissão, um ofício que, além do talento, exige também uma boa dose de esforço e de conhecimento. Meu pai era um grande leitor, e a importância de ler para escrever bem também foi uma grande lição. O olhar de meu pai sobre o mundo, assim como o de meu avô, era o olhar de um humanista, de um homem que reconhecia e denunciava os horrores que nos cercam sem nunca ter se tornado um cínico. Acho que essa é uma boa lição, porque é muito mais fácil escolher o cinismo num mundo como o nosso”, afirma.

Acervo de Luis Fernando Verissimo/Unisinos

DO RABISCO À FORMA

A veia musical de Luis Fernando Verissimo manifestou-se tanto na composição quanto na performance. Sua incursão no universo cancioneiro inclui a letra de “Parceria em marcha lenta”, escrita com Magro Waghabi (1943-2012), um dos cantores do MPB4 e gravada pelo grupo em 1989. Os poemas do autor também se transformaram em canção, pelo pianista gaúcho Arthur Faria, interpretada pela dupla Kleiton & Kledir, na faixa “Olho mágico”, presente no álbum Com todas as letras (2015). Verissimo ainda se aventurou em relatos de viagens, literatura infantil, roteiros para televisão e romances. O primeiro deles, O jardim do diabo (1987), confirmou seu entusiasmo pelo policial noir, gênero que já havia lhe inspirado a criar, em 1979, um de seus personagens mais famosos: o detetive Ed Mort, investigador particular que se mete em todo o tipo de enrascada pelas ruas do Rio de Janeiro.

Foi por meio dos contos e crônicas, entretanto, que se tornou um dos autores mais queridos do Brasil. “Cronista é aquele maluco autorizado pela direção da redação a mudar o papo, encontrar outras palavras e maneiras de enfileirá-las. Meio jornalismo, meio crônica, meio passatempo, meio páginas definitivas para a literatura. Verissimo era a mais completa tradução do novo cronista,

e com um plus a mais em relação aos que o sucederam. Era capaz de usar o mesmo texto gostoso ao estilo da turma de Rubem Braga (1913-1990), mas agora para tratar de assuntos da atualidade, como um filme, uma sessão do STF [Supremo Tribunal Federal], um jogo do Brasil”, analisou o jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos, em artigo publicado no jornal O Globo, em 30 de agosto de 2025.

RIGOR E HUMOR

Ao narrar histórias do cotidiano em obras de destaque no mercado editorial brasileiro, Luis Fernando Verissimo cimentou sua relação com o público. Ele se tornou presença constante em vários jornais e revistas e, a partir dos anos 1980, passou a entregar aos leitores, em média, ao menos um livro por ano, invariavelmente um best-seller. Com as redes sociais, contudo, o autor passou a viver um fenômeno curioso, a atribuição de escritos não assinados por ele – o chamado hoax [palavra em inglês que significa fraude, trote] Sobre o assunto, ele escreveu, em coluna publicada em 24 de março de 2005, no jornal Zero Hora. “O incômodo, além dos eventuais xingamentos, é só a obrigação de saber o que responder em casos como o da senhora que declarou que odiava tudo o que eu escrevia até ler, na internet, um texto

Meu pai era um grande leitor, e a importância de ler para escrever bem também foi uma grande lição. O olhar de meu pai sobre o mundo, assim como o de meu avô, era o olhar de um humanista, de um homem que reconhecia e denunciava os horrores que nos cercam sem nunca ter se tornado um cínico.
Fernanda Verissimo, filha, escritora e jornalista

Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exatamente o que sentia aos 6. Todas as outras paixões infantis ou ficam sérias ou desaparecem, mas não há uma maneira adulta de ser apaixonado por futebol. Adulto seria largar a paixão e deixar para trás essas criancices: a devoção a um clube e às suas cores como se fosse a nossa outra nação, o desconsolo ou a fúria assassina quando o time perde, a exultação guerreira com a vitória. Você pode racionalizar a paixão, fazer teses sobre a bola, observações sociológicas sobre a massa ou poesia sobre o passe, mas é sempre fingimento. É só camuflagem. Dentro do mais teórico e distante analista e do mais engravatado cartola aproveitador existe um guri pulando na arquibancada.

Luis Fernando Veríssimo, em Time dos sonhos: paixão, poesia e futebol (Objetiva, 2011)

O saxofone acompanhou Verissimo desde os 16 anos e foi uma das grandes paixões do escritor, que integrou diferentes grupos de jazz.

meu que adorara, e que, claro, não era meu. Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece. O texto que encantara a senhora se chamava ‘Quase’ e é, mesmo, muito bom.”

A verdadeira autora de "Quase" é a escritora, jornalista e produtora cultural Sarah Westphal, que, após enviar um fax para o escritor para desfazer o engano, recebeu como resposta, na coluna da semana seguinte, um inesperado e adorável incentivo. Verissimo escreveu: “Apareceu a autora do "Quase", o texto que rola na internet atribuído a mim e que eu, relutantemente, tenho que repetir que não é meu. Ela se chama Sarah Westphal Batista da Silva, tem 21 anos, é de Florianópolis, escreveu o texto ‘inspirada por um menino que não me namorou, mas quase…’, mandou o texto por e-mail a várias amigas e dois anos depois teve a surpresa de vê-lo impresso com a minha assinatura. A Sarah está no quarto semestre de medicina, mas sonha em largar a faculdade e começar a escrever. Olha aí, editores. Ela nem começou e já foi traduzida na França".

SUAVIDADE INTRÍNSECA

Sobre o simpático desfecho da história, Sarah Westphal Batista da Silva trouxe detalhes na edição 85 do podcast Rádio Novelo Apresenta. “Fico sem palavras até hoje. Não é muito legal? Eu nunca imaginei que isso poderia acontecer.” A anedota confirma outra característica do escritor amplamente celebrada: a generosidade. É o que aponta a jornalista e escritora Vanessa Barbara, fã declarada do autor, que teve a oportunidade de passar um dia na residência da família Verissimo. O ano era 2013 e o encontro teve a companhia do cineasta Angelo Defanti, responsável pelo roteiro de O clube dos anjos (2020), adaptação do romance homônimo de 1999, e diretor do documentário Verissimo (2023).

“Como eu já tinha lido muita coisa sobre ele, sobretudo por meio de suas crônicas, a visita se encaixou perfeitamente na figura que eu já fazia dele: um sujeito introvertido, observador e engraçado, com todo um universo de associações dentro dele. Acho que fiquei impressionada com a sua generosidade, a paciência em aguentar a nossa abordagem desajeitada e aleatória”, lembra. Ela guarda na memória, ainda, um gesto singular, que reforça a grandeza do escritor. “Como eu sabia que um dos livros preferidos dele era O grande Gatsby, levei de presente a tradução que fiz para a Penguin-Companhia das Letras. Ele abriu na última página e conferiu a minha tradução do finzinho do livro. Depois comentou que esse finzinho era famosamente difícil de traduzir [“E assim avançamos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado”] e elogiou as minhas escolhas. Ou seja: generosidade”, recorda Vanessa.

Assista ao episódio Humor é coisa séria, da série Super Libris, dirigida por José Roberto Torero, com participação do escritor Luis Fernando Veríssimo, no canal do Youtube do Sesc.

A FERRO E FOGO

Nascido próximo de uma siderúrgica na periferia de Ouro Preto (MG), Jorge dos Anjos pavimenta com a arte um caminho para desvendar sua ancestralidade

POR DIEGO OLIVARES

FOTOS NILTON FUKUDA

Detalhe de uma das 21 esculturas em chapas de aço que abrem a exposição Riscadura de fogo, no Sesc Pompeia.

Apaisagem da cidade de Ouro Preto (MG) que primeiro vem à memória do escultor Jorge dos Anjos quando se lembra de sua terra natal não é exatamente aquela dos cartões-postais, com ruas de paralelepípedo, construções de arquitetura colonial e igrejas barrocas. “Eu nasci perto de uma fábrica de alumínio no bairro de Saramenha, do outro lado da montanha. Meu pai trabalhava nessa fábrica e quase todos os dias eu ia levar a marmita para ele”, conta, aos 69 anos.

A visão dos metais sendo moldados pelo fogo ficou gravada na sua retina e foi fundamental para a formação de sua linguagem enquanto artista. Riscadura de fogo, sua primeira exposição individual na cidade de São Paulo, em cartaz no Sesc Pompeia, é um atestado da potência dessa linguagem, com direito a imponentes esculturas em chapas de aço com cerca de três metros de altura, pinturas em lona, desenhos que utilizam a pólvora como matéria-prima, entre outras atrações [leia mais em Arte em grande escala].

Contar sua própria história por meio da arte foi uma lição que Jorge dos Anjos aprendeu ainda adolescente com um de seus professores, Nello Nuno (1939-1975), nome histórico entre os artistas plásticos mineiros. Nuno sempre fez questão de incentivar os alunos a encontrarem suas assinaturas autorais, como uma maneira de conquistar o próprio espaço. Para Dos Anjos, que começou a carreira como pintor, essa busca não se limitou ao ateliê, mas também incluiu muitas horas numa sala de terapia.

“Eu não sabia nada do meu passado, da minha família, dos meus avós, dos meus bisavós”, reconhece. As pinturas que fazia nos anos 1960 e 1970, primeiramente como estudante e depois professor da Escola de Arte Rodrigo Melo Franco de Andrade, da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), eram um reflexo dessa investigação. “Fui me interessando cada vez menos pela paisagem em si de Ouro Preto, e mais pelas coisas que a compunham: os tropeiros, os burros que carregavam os alimentos vindos do interior, as pombas em cima dos telhados. Também pintava a fábrica de Saramenha e seus operários”, enumera.

No início da década de 1980, algo dentro dele começou a ganhar voz. “Com 24 anos, eu já tinha três filhas e me vi no meio de muita coisa. Precisava ganhar dinheiro para cuidar da família e já vendia minhas pinturas, mas achava que estava me desviando dos meus objetivos artísticos. Foi um período muito difícil”, conta. “Naquele momento de caos, fui fazer terapia e, durante o tratamento, comecei a desenhar. Eram desenhos em que eu tentava colocar para fora meus sentimentos, por isso saíam formas caóticas, recortadas, sobrepostas. Alguns desses desenhos chegavam a onze metros de comprimento”.

Durante aquele processo de autoconhecimento, Jorge dos Anjos escolheu a escultura em metais como foco principal de trabalho, algo que permanece desde então. “Comecei a desenhar no aço e recortar esses desenhos, depois fui para as gravaduras a ferro e fogo, e aos poucos o caos foi se organizando dentro de mim, assim como nas minhas obras. Fui revisitar a minha história e encontrar aquele menino cujo pai trabalhava numa siderúrgica, mas que não queria trabalhar lá de jeito nenhum. Queria ser artista”.

Como inspiração para as obras que viriam depois, voltou ainda mais no tempo, mergulhando em sua ancestralidade, estabelecendo diálogo com a herança afro-brasileira que carrega para preencher de significado sua arte, em que imagens ligadas ao candomblé e à umbanda aparecem frequentemente. Uma de suas peças mais conhecidas, por exemplo, é o Portal da memória, dedicada a Iemanjá e instalada na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, que ganha uma peça similar na exposição atual. “O espaço da religião é onde a memória é preservada e resgatada”, define.

Peça sem título, inspirada no Portal da memória, em exibição no espaço de convivência do Sesc Pompeia.

Ao longo da carreira que já ultrapassa cinco décadas, Jorge dos Anjos participou de exposições individuais e coletivas em diversas instituições como o Palácio das Artes, também na capital mineira, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Musée Dapper (França) e na Bienal de Valência (Espanha), entre outras, além de contar com trabalhos na Pinacoteca de São Paulo e no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Para o artista, de alguma forma, Riscadura de fogo é a celebração dessa trajetória. “Sinto que minha história inteira está ali”, resume.

À

Acima: a instalação Casa de ferraria (2017).
direita: detalhe de uma das 21 esculturas em chapa de aço criadas para a exposição Riscadura de fogo

À esquerda: detalhe da instalação Para

Fotografia da série Futebol (1995-2004).
Acima: pintura sobre lona (2024-2026).
Oxum (2015-2026).
Acima: lona costurada sobre lona.
À direita: detalhe de escultura em chapa de aço.

lona costurada sobre lona. À esquerda: detalhe de painel recortado em tambor metálico (2005-2011).

Acima:

para ver no sesc / gráfica

ARTE EM GRANDE ESCALA

Em nova exposição, obras de Jorge dos Anjos dialogam com o espaço idealizado por Lina Bo Bardi

O encontro do projeto arquitetônico do Sesc Pompeia, criado por Lina Bo Bardi (1914-1992), com as obras de Jorge dos Anjos na exposição Riscadura de fogo parecia destinado a acontecer. As estruturas dos antigos galpões de uma fábrica da zona Oeste de São Paulo, adaptados para se tornarem centro de cultura, esporte e lazer no desenho de Lina, se revelam o cenário ideal para as esculturas em grande escala à base de ferro e aço do artista mineiro.

“Parece que aquele lugar foi feito para abrigar as obras do Jorge. É como se houvesse uma espécie de loucura temporal e as

obras fizessem parte do projeto original”, brinca Lorraine Mendes, pesquisadora da exposição. “A ideia era mesmo fazer um diálogo entre essa ocupação dele e o espaço concebido pela Lina. Foi um exercício muito prazeroso pensar nos melhores encaixes”, completa o curador Lucas Menezes.

Logo na entrada de Riscadura de fogo, um conjunto de 21 esculturas formado por estruturas verticais, realizadas a partir de chapas de aço recortadas e soldadas em planos paralelos, cada uma chegando a mais de três metros de altura, estabelece uma presença imponente. O trabalho é uma das obras comissionadas especialmente para a mostra, que forma o catálogo juntamente com pinturas, vídeos e peças emblemáticas da carreira de Dos Anjos, como a instalação Casa de ferraria uma experiência imersiva criada em 2017 que retrata o processo de queima a ferro quente sob feltro, criando imagens que conversam com símbolos africanos.

“O Jorge faz um acordo sincrético entre uma visualidade afro-brasileira e a herança de arte com a qual ele convive em Minas Gerais”, destaca Lorraine, citando a influência do estado natal e da herança ancestral na linguagem do artista. “Ele compreende uma gramática visual muito própria, mas que também dá conta de algo com que a gente convive, mas não reconhece como constituinte de uma identidade nacional. É como se fossem coisas

separadas que o Jorge transforma em unidade nas suas obras de uma maneira sublime e inteligente”.

A trajetória de mais de 50 anos que culmina na exposição é resultado de algo que o curador chama de “teimosia”, termo que remete a um artista fiel à visão que estabeleceu para sua arte. “Ele é alguém extremamente dedicado ao processo de experimentar, de criar, de estar no ateliê dele sempre em produção”, relata Menezes. “Ele está pouco preocupado em atender a uma demanda externa, a um modismo ou àquilo que está saindo com mais força no mercado, e sim com esse processo dele, com uma coerência no trabalho”.

Conforme conquistou projeção, Dos Anjos ganhou status de referência para artistas das gerações mais novas, como Dyana Santos, convidada a colaborar na atualização da instalação Para Oxum, originalmente montada em 2015. Estruturada por tubos metálicos conectados por esferas e atravessada por elementos em metal, borracha e pedra-sabão, a obra ganha agora a companhia do curso d’água que faz parte da área de convivência do Sesc Pompeia e dos objetos metálicos elaborados por Dyana, que remetem a elementos da diáspora africana. “O convite do Jorge para essa composição é uma prova da sua teimosia de acreditar no próximo passo e num caminho que se abre a partir do seu trabalho”, finaliza Lorraine.

POMPEIA

Riscadura de fogo

Até 2/8 de 2026. Terça a sábado, das 10h às 21h. Domingos e feriados, das 10h às 18h. GRÁTIS.

Obras que ocupam a Área de Convivência do Sesc Pompeia.

A campanha incentiva todas as pessoas a transformar o direito ao movimento em prática cotidiana, compartilhada e acessível.

Durante todo o dia acontecem aulas especiais, vivências, torneios e apresentações esportivas gratuitas em todas as unidades do Sesc São Paulo e em organizações parceiras.

Saiba mais em sescsp.org.br/diadodesafio

Dono da loja Coração da África, na Avenida Ipiranga, o senegalês Cheikh Gueye Seck enxerga muitas semelhanças entre o Brasil e sua terra natal, apesar da distância geográfica.

ÁFRICA no centro

Da moda à gastronomia, da religiosidade ao comércio, a região

da República concentra histórias que ajudam a entender como a presença africana reinventa o Centro da cidade

Avenida Ipiranga, 250. O endereço, na República, Centro de São Paulo, liga o Brasil e o Senegal, país do continente africano. Apesar do grande fluxo de pessoas na região, é difícil um imigrante africano andar por ali sem parar, piscar ou acenar para alguém dentro do estabelecimento comercial. No mapa, a distância entre as nações supera os 5 mil quilômetros, mas o empresário senegalês Cheikh Gueye Seck, com sua loja nomeada Coração da África, aprendeu a encurtá-la para os conterrâneos, e também para quem nunca ouviu falar do lugar onde ele nasceu.

O rosto tão conhecido no Centro da cidade desembarcou no país em 2013, mas as histórias do além-mar chegaram primeiro pela voz do irmão mais velho, que já vivia na capital paulista. No percurso para chegar a São Paulo, a familiaridade chamou a atenção. “O Brasil tem uma cultura muito parecida com a do continente africano”, defende Seck, que emenda: “Aqui é meu segundo país, tenho dois: onde nasci e onde escolhi viver”.

A loja surgiu de uma ausência percebida assim que Seck começou a trabalhar nas ruas da República. Faltava um comércio que não fosse

apenas religioso, mas também voltado à moda e à cultura africana. Depois de meses como vendedor ambulante, conseguiu montar o espaço, hoje um ponto de referência para quem procura roupas, tecidos e acessórios afrodiaspóricos. “Só via lugar de roupa brasileira, japonesa, chinesa. Pensei: por que não pode ter uma loja africana aqui no Centro da cidade? Não existia uma loja de roupa africana para o povo preto. Tentei”, lembra.

Escolha do senegalês desde que pisou no país, a região da Praça da República e os arredores do Sesc 24 de Maio se firmaram, nas últimas

negritude

décadas, como um território de circulação, memória e reinvenção das culturas negras na cidade. Ali, ecoa a presença da comunidade imigrante africana e um movimento que, entre ruas, galerias e comércios locais, entrelaça vestuário, gastronomia, design, tecnologia e produção artística, atualiza heranças históricas.

“VAI LÁ PARA O CENTRO”

Para o empresário, a escolha pela região partiu da própria comunidade. “Quando a gente chegava, sendo imigrante africano, as pessoas diziam: ‘Vai lá para o Centro, porque lá tem bastante comunidade’. Virou uma referência. ‘Vou lá procurar meu irmão’, ‘Onde posso encontrar meus irmãos?’ Lá na República”, resume.

Os números oficiais reforçam essa presença. De acordo com informações do Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA), da Polícia Federal, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, a partir de tabulações especiais do Observatório das Migrações de São Paulo (Nepo/ Unicamp), há 44.441 registros de imigrantes africanos residentes na cidade de São Paulo, no período de 2000 a 2025. Angola, sozinha, responde por quase metade dos registros (20.493). Em seguida, aparecem Nigéria (5.454), Senegal (3.140) e Marrocos (1.983), além de outros países como Congo, República Democrática do Congo, Guiné-Bissau, Egito, África do Sul e Moçambique.

Durante os 13 anos desde que chegou em São Paulo, o padre cabo-verdiano Assis Tavares viu a região central se consolidar como território de acolhimento para africanos de diferentes países.

Do ponto de vista demográfico, destaca-se a população masculina (63,76%), com predominância de adultos, na faixa de 25 a 65 anos. A maior parte dos imigrantes é solteira (33.264), seguida por um contingente menor de pessoas casadas (10.118). Segundo a Prefeitura de São Paulo, no território, 267 imigrantes africanos estão acolhidos em serviços da rede socioassistencial, o que representa 14% dos imigrantes africanos atendidos nos serviços de acolhimento da cidade. Entre as nacionalidades mais frequentes na região, estão pessoas oriundas de Angola (171 pessoas), Marrocos (33), República Democrática do Congo (32) e Nigéria (11).

Angolana, a estudante de Ciências Contábeis e dançarina Estella Samba Mateus considera que a região da República oferece aos imigrantes mais oportunidades de trabalho, moradia e transporte, além de relações pessoais e profissionais. “Pelo Centro, todo mundo passa. E aqui o pessoal é muito festivo, o africano é cheio de eventos e tudo mais”.

Há três anos em São Paulo, ela observa no Centro um movimento crescente de aproximação entre brasileiros e culturas africanas, que se expressa na festa em suas múltiplas potências, na comida, na roupa e na convivência. Quando chegou ao país, diz ter encontrado um ambiente ainda marcado

por muita desinformação e perguntas atravessadas por estereótipos, como: “No seu país tem tecnologia?”, “Tem internet?” ou “Como é que vocês fazem para se locomover?”. Com o passar do tempo e a chegada de mais pessoas africanas, percebeu uma curiosidade mais aberta por essa presença na gastronomia, música, religiosidade e modos de vida do continente.

Atenta à oportunidade, a estudante pensa em criar um projeto com experiências comuns aos africanos para os brasileiros, a fim de aproximar culturas. Ela cita que aprender cerâmica e lidar com obras de arte são atividades comuns às crianças de Angola, por exemplo. Com a população majoritariamente negra, Estella prevê muita chance de os afro-brasileiros se reconectarem com suas histórias. Ao mesmo tempo, a aproximação não elimina os atritos. A estudante observa que, no Brasil, a experiência racial é atravessada por tensão e vigilância. “Ser preta aqui é complicado, porque você precisa se autoafirmar o tempo todo. Estar sempre na defensiva”, comenta. “No meu país, sou só mais uma”, compara.

NAS VITRINES

Em dois andares de um prédio em frente à Praça da República, o senegalês Massar Sarr, com seu irmão, é responsável pela Khelcom Art, uma das lojas de artigos culturais mais conhecidas por adeptos do candomblé e umbanda, religiões de matriz africana. Por ali há anos, ele memorizou os preços, os usos e as histórias dos milhares de itens nos andares. Diariamente, recebe dezenas de

clientes à procura de máscaras africanas feitas por artistas locais de várias regiões do continente.

Logo na entrada, duas cestas de doces e garrafas de água estão disponíveis para quem chega. “Essa bala de gengibre também é de lá”, explica. “A gente não vende, são para os clientes”, reforça Sarr. No Brasil desde 2008, passou pela construção civil, estudou eletricidade e eletrotécnica e hoje mantém a loja, ao mesmo tempo em que segue com a própria empresa de importação e exportação. “Tem produto que os brasileiros querem, mas não conseguem ter acesso. A gente está facilitando isso”, comenta. Nas vitrines e prateleiras, a oferta vai de tecidos e roupas a colares, pulseiras, máscaras, imagens, palha e bronze.

Massar Sarr dá rosto aos dados de abril deste ano do Portal do Empreendedor, canal oficial do Governo Federal sobre microempreendedores individuais. Em São Paulo, as nacionalidades africanas com mais registros de MEI são a senegalesa (1.541), a nigeriana (1.484) e a angolana (1.052). Em seguida, surgem a guineense (175), a congolesa (134) e a marroquina (136). Embora o levantamento não delimite, por si só, a concentração desses negócios na região da República, reforça a presença de circuitos migratórios e empreendedores que também atravessam o Centro da capital.

A 100 metros da Galeria do Rock, James Evaristus é um exemplo desse movimento. Meses depois de chegar ao país, abriu um bar na região. Após trabalhar em diferentes funções, decidiu empreender e atender a comunidade da Nigéria na República. “Temos whisky, amendoim. Todas as coisas da

África aqui atrás”, diz. Morador de Artur Alvim, na zona Leste da capital paulista, todos os dias ele cruza a cidade para chegar ao trabalho. A ideia é manter o comércio aberto por anos, já que vê como forte a presença africana na região, com cada vez mais opções de culinária e festas dos imigrantes na região, algo que favorece o próprio negócio.

A Organização das Nações Unidas reconhece 54 países independentes na África. Segundo dados do Governo Federal, 42 nacionalidades africanas empreendem na cidade. Até abril deste ano, o maior volume de estrangeiros com registro de MEI em São Paulo é de imigrantes das Américas, com 22.821 formalizações. Os registros de pessoas do continente africano ocupam a segunda posição, com 5.571 registros, seguida pela Ásia, com 3.933, pela Europa, com 1.474, e pela Oceania, com 22.

CENTRO COMO QUILOMBO

Com mais de 13 anos em São Paulo, o padre cabo-verdiano Assis Tavares enxerga o Centro como um território além da circulação e do comércio. “É uma comunidade, um quilombo dentro do quilombo”, define. Para ele, a região se consolidou ao longo de diferentes ondas migratórias, começando com a chegada de nigerianos nos anos 1990 e ganhando novas configurações com fluxos mais recentes de congoleses, angolanos, quenianos e tanzanianos. Ao atravessar espaços como a Galeria Presidente, mais conhecida como Galeria do Reggae, descreve uma experiência sensorial. “Você entra ali e esquece o Brasil. É cheiro de fufu, de peixe frito, assado, de carne. Escutar outras línguas, ver outras roupas, outros

A estilista senegalesa Soda Diop ganhou o apelido de Mama por oferecer ajuda a outros imigrantes que chegam na região com pouca informação.

estilos. O centro histórico é o novo [Quilombo dos] Palmares", sintetiza.

Subsíndico da Galeria Presidente, localizada na rua 24 de Maio, Claudinei Leite confirma a presença. Em um universo de cerca de 220 estabelecimentos, ele estima aproximadamente 150 nas mãos de comerciantes africanos, com destaque para salões de cabelo, bares, restaurantes e lojas de produtos diversos.

“Tem de tudo: perfume, comida africana, itens em geral”, elenca, explicando que a concentração se estende para ruas do Centro expandido, como Guaianases, Conselheiro Nébias e Timbiras.

O cotidiano revela tensões e desigualdades. Assis observa que a convivência entre imigrantes africanos e a população negra brasileira às vezes é marcada por distâncias. “Ainda falta misturar”, comenta, citando barreiras como a língua, a desconfiança e diferenças sociais. Ainda assim, tanto ele quanto Leite concordam na leitura de um território em mudança, impulsionado pelo fluxo constante de pessoas e pela capacidade de

trabalho e adaptação desses grupos. “O Centro é um lugar que acolhe todo mundo”, resume o subsíndico.

TRANÇA?

“Trança?” é uma das perguntas mais recorrentes para quem atravessa o Centro e, na maior parte das vezes, é feita por mulheres que ocupam o entorno dos principais edifícios. Ao entardecer das segundas-feiras, um grupo se reúne na Praça da República para rituais islâmicos organizados pela comunidade imigrante. Mesmo a passos largos, não é difícil notar bancas de tecidos e rodas de conversa em crioulo, francês e inglês.

De acordo com dados da Polícia Federal, a ocupação dos imigrantes africanos é bastante diversificada, abrange desde atividades no setor de serviços, como cabeleireiros, trabalhadores da beleza e do comércio, até profissões de maior qualificação, como engenheiros e arquitetos.

“Essas comunidades desempenham um papel fundamental na vitalidade econômica e cultural do centro”,

afirma Cristina de Branco, do Núcleo de Pesquisa do Museu da Imigração. Ela cita salões de beleza especializados, restaurantes, comércio informal e pequenas lojas, além de manifestações culturais como música, eventos e produções artísticas. “Redes de sociabilidade, formais e informais, sustentam circuitos de apoio mútuo e a circulação de informações”, completa.

Na rua, uma dessas protagonistas é a senegalesa Soda Diop, mais conhecida como Mama. Uma das pessoas mais antigas a ocupar o centro, por muitos anos vendeu tecidos na calçada até conseguir um espaço físico. Estilista, chegou a vestir a cantora Elza Soares (1930-2022), além de artistas da nova geração, como Liniker e Luedji Luna. Com sua experiência, enxerga a região como um território estratégico para imigrantes africanos, marcado por desafios tanto quanto por possibilidades de reconstrução de vida. “Existe uma identificação simbólica. O Centro carrega marcas da presença negra na cidade”, define. “Há um sentimento de pertencimento”.

Mama também destaca a dimensão criativa e coletiva dessas comunidades. “O mais forte é a potência cultural viva. Não é apenas presença, é produção. A gente vê isso na música, na moda, na culinária, na estética e na forma de ocupar o espaço”, diz. “Existe uma rede invisível de apoio, de troca, de cuidado. Isso é algo muito característico das comunidades negras e africanas, mesmo em um contexto difícil, a coletividade se mantém viva”. O apelido dela, aliás, é fruto disso. Referência para quem chega à cidade, a estilista perdeu as contas de quantas pessoas orientou com informações, pontos de ajuda e acolhida. O também pesquisador do Núcleo de Pesquisa do Museu da Imigração Thiago Haruo define os efeitos dessa presença. “Evidencia desigualdades, disputas por espaço e a necessidade de políticas mais inclusivas”, argumenta. Para ele, a noção de uma “pequena África” no Centro da cidade é uma construção simbólica e política. “Conecta a presença histórica de populações negras na cidade, sempre invisibilizada, com as novas dinâmicas migratórias contemporâneas”, observa.

“A história da imigração em São Paulo foi narrada frequentemente a partir de uma perspectiva eurocêntrica, privilegiando fluxos europeus e apagando tanto a presença negra, histórica e contemporânea, quanto outras migrações do Sul global”, lembra Cristina. Por outro lado, a presença dos imigrantes negros nesse diversificado, festivo e contemporâneo quilombo pode “ampliar fontes, reconhecer protagonismos diversos e incorporar perspectivas antirracistas e contracoloniais”, completa Haruo.

para ver no sesc / negritude

REFLEXÕES PERMANENTES

Sesc São Paulo realiza de forma contínua e transversal programações que integram a área da Negritude em suas unidades

Na busca por fortalecer e ampliar os conhecimentos sobre as manifestações, realidades, lutas e conquistas do povo negro, o Sesc São Paulo realiza atividades alinhadas à área de Negritude de forma transversal e permanente em suas unidades. São ações de diversas áreas, como cultura, artes, esporte, lazer e alimentação, que reconhecem e valorizam o legado e a cultura da população negra, além de promover reflexões sobre as desigualdades sociais.

Além de atividades ao longo do ano, como bate-papos, palestras, apresentações artísticas e exposições, projetos específicos dão protagonismo ao tema. Entre eles, está o Festival Sesc Culturas Negras, que terá sua terceira edição no ano de 2026, conectando saberes, conhecimentos,

tecnologias, histórias e memórias que contribuem para a compreensão mais ampla e aprofundada do conceito de Negritude. Também se destaca nas programações a OJU – Roda Sesc de Cinemas Negros, mostra audiovisual que celebra os olhares que reinventam o país a partir de suas potências e pluralidades.

Confira destaques da programação deste mês.

24 DE MAIO

Curso de Narração

Esportiva para Imigrantes Africanos

Com Anderson Cheni, jornalista esportivo. Entre os dias 30/5 e 10/6. Inscrições na Central de Atendimento da unidade entre 21/5 e 26/5. Saiba mais em sescsp.org.br/24demaio

BELENZINHO

Girança

Com Batakerê. Intervenção artística. Entre 2/5 e 17/5 no Átrio da unidade. Saiba mais em sescsp.org.br/belenzinho

FRANCA

Conferência com Kabengele Munanga

Integra o VI Colóquio de Raça e Interseccionalidade "Discurso, Democracia, Antirracismo e Interseccionalidade".

Em 19/5. Saiba mais em sescsp.org.br/franca

O antropólogo Kabengele Munanga realiza Conferência em Franca.

ESPORTE COMO DIREITO

Aatividade física e o esporte são direitos fundamentais previstos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Mas como garantir que isso seja colocado em prática de forma efetiva?

Para Fernando Marinho Mezzadri, coordenador do Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva, a resposta passa pelo investimento em políticas públicas que possibilitem o acesso às práticas esportivas para toda a população. Por isso, iniciativas como a Lei Geral do Esporte (LGE), sancionada pelo governo federal em 2023, e a criação do Sistema Nacional de Esporte (Sinesp) são importantes como ponto de partida, mas ainda precisam ganhar tração.

“Para que possamos pensar a implementação efetiva da LGE e do Sinesp é fundamental envolver e articular todas as entidades que trabalham com o esporte. Temos que compreender o papel das entidades, das esferas federal, estaduais, municipais, comitês, confederações, federações, clubes, terceiro setor, ONGs, associações e demais entidades esportivas. As participações organizadas destas instituições são preponderantes para que a LGE saia efetivamente do papel. Não é possível chegar

à universalização do esporte, à democratização esportiva sem a presença articulada dessas organizações”, aponta.

Ester Gammardella Rizzi, professora do curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), reconhece essa importância, mas chama a atenção ao fato de que também é essencial às organizações responsáveis pelas competições do mais alto nível evitar retrocessos. O alerta é motivado pela notícia de que, no último mês de março, o Comitê Olímpico Internacional (COI) divulgou normas que impedem mulheres trans de competir nas categorias femininas das próximas edições dos Jogos Olímpicos. “O COI tensiona, de alguma forma, os entendimentos de igualdade e de acesso a todos ao dizer que mulheres trans não devem participar de modalidades competitivas com as mulheres cis, ainda que sua presidente faça questão de enfatizar que isso não vale para práticas esportivas recreativas e não profissionais”, escreve.

Neste Em Pauta, Mezzadri e Ester refletem sobre o verdadeiro sentido do direito quando o assunto é esporte e sugerem caminhos para que a prática de atividade física por todas as pessoas seja incentivada e protegida.

Direito ao esporte

Apresentar o tema “Direito ao esporte”, no sentido mais amplo da palavra, com a inclusão das dimensões educacionais, da saúde, atividade física, lazer, alto rendimento e inclusão social, é, antes de tudo, cruzar os trilhos pavimentados das legislações, das suas implementações e das políticas públicas que envolvem o esporte.

No Brasil, as proposições legais historicamente construídas tiveram sua origem no Decreto-Lei 3.199, de 1941, período de forte presença estatal com o estabelecimento do Estado Novo no regime getulista. Basicamente o Decreto Federal estabeleceu como alicerce central o controle e o financiamento das entidades esportivas.

Após décadas tendo sido estruturado pelo Decreto-Lei 3.199/1941 ou leis adjacentes e, com a abertura democrática instaurada no país, o esporte brasileiro começou um novo capítulo com a promulgação da Constituição de 1988. O Artigo 217 prevê que “é dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais, como direito de cada um”. Portanto, o princípio básico do esporte como dever do Estado encontra-se garantido na Constituição cidadã. Não obstante essa garantia legal, podemos citar também a Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998) como um marco para o avanço da regulamentação do Art. 217, já que várias políticas públicas foram desenvolvidas para promover o direito ao esporte estruturado pela lei vigente à época.

Em 2023, após um longo debate entre os agentes do campo esportivo, o governo federal sancionou a Lei Geral do Esporte (LGE) (Lei nº 14.597/2023) em substituição à Lei Pelé, com os princípios fundamentais: autonomia; democratização; descentralização; educação; eficiência; especificidade; gestão democrática; identidade nacional; inclusão; integridade; liberdade; participação; saúde; segurança. Partindo desses princípios estruturantes,

ficou aprovado pela primeira vez na história o Sistema Nacional de Esporte (Sinesp). Sendo criado então um único sistema para o esporte brasileiro, articulando os níveis de prática do esporte com as atribuições da União, dos Estados, dos Municípios e de demais entidades esportivas do terceiro setor e entidades privadas.

Destacamos inicialmente que os níveis de práticas esportivas estão definidos na “formação esportiva”, na “excelência esportiva” e no “esporte para toda vida” incorporando e articulando as áreas da saúde, educação, cultura, lazer, alto rendimento e inclusão social.

Além da LGE, é relevante citarmos o Decreto nº 11.766/2023 que deliberou a Rede de Desenvolvimento Esportivo que, no seu Art. 2º, define: “A Rede é uma política que tem a finalidade de servir como mecanismo de governança intersetorial e intergovernamental para o fomento da prática esportiva e de atividade física no País, no âmbito do Sistema Nacional do Esporte.” Por fim, ressaltamos a Rede Nacional de Treinamento, política pública estruturada pelo Governo Federal para integrar centros de treinamento, organizar a infraestrutura esportiva e apoiar atletas de alto rendimento no Brasil. Ela abrange treinamento desde a base até a elite, conectando locais, regionais e nacionais, com foco em modalidades olímpicas e paralímpicas.

Como podemos observar, a legislação brasileira historicamente vem cumprindo um papel estruturante na consolidação do direito ao esporte da sociedade, entretanto, somente as ações legais não são suficientes para garantir na prática que o esporte chegue a todos os cidadãos.

Consideramos, portanto, necessário destacar mais dois trilhos que norteiam o caminho do direito ao esporte. A primeira delas é a atual implementação

da LGE, com a consolidação do Sistema Nacional de Esporte como a estrutura balizadora do esporte nacional. A segunda é a construção de políticas públicas que permitam o efetivo acesso da sociedade às práticas esportivas nos seus diversos níveis e serviços esportivos.

Para que possamos pensar a implementação efetiva da LGE e do Sinesp, é fundamental envolver e articular todas as entidades que trabalham com o esporte. Temos que compreender o papel das entidades, das esferas federal, estaduais, municipais, comitês, confederações, federações, clubes, terceiro setor, ONGs, associações e demais entidades esportivas. As participações organizadas dessas instituições são preponderantes para que a LGE saia efetivamente do papel. Não é possível chegar à universalização do esporte, à democratização esportiva sem a presença articulada dessas organizações.

O último trilho que precisa estar pavimentado para garantir os direitos ao esporte são as políticas públicas fundamentadas nos princípios básicos da LGE e que aproximem as ações específicas da área do desenvolvimento da educação, saúde, lazer, cul-

A questão central para a sociedade ter o real “direito ao esporte” passa atualmente pela construção de políticas públicas intersetoriais que beneficiem a universalização e a democratização do esporte para os diversos segmentos da nossa sociedade

tura, atividade física, direitos humanos e segurança pública. Nesta perspectiva, a interligação das atividades só ocorre através da intersetorialidade, como um dos pilares essenciais para a construção efetiva das políticas públicas do esporte.

Assim, retomamos aqui a necessidade de inserir a Rede de Desenvolvimento do Esporte (RDE) como um balizador da intersetorialidade na construção de políticas públicas do esporte, lazer, atividade física, saúde e inclusão social.

Para finalizar, reafirmamos que a questão central para a sociedade ter o real “direito ao esporte” passa atualmente pela construção de políticas públicas intersetoriais que beneficiem a universalização e a democratização do esporte para os diversos segmentos da nossa sociedade.

Fernando Marinho Mezzadri é educador físico pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutor em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É professor titular e pró-reitor de Planejamento, Orçamento e Finanças da Universidade Federal do Paraná, universidade na qual é coordenador do Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva (IPIE). Autor de cinco livros e mais de uma centena de artigos científicos.

Esporte é direito humano

Em 26 de março de 2026, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou, em comunicado oficial, sua “Política sobre a proteção da categoria feminina (mulheres) no esporte olímpico e considerações norteadoras para federações internacionais e órgãos dirigentes do esporte”. O documento veio acompanhado de um anúncio gravado em vídeo pela Presidente do COI, Kirsty Coventry. A dirigente afirma saber que muitas serão as perguntas a partir da política divulgada e que o COI se empenhará em respondê-las ao longo do tempo. O documento e o vídeo são apenas os primeiros passos, afirma.

A nova política do COI estabelece que a elegibilidade para as categorias femininas em eventos de elite será restrita a mulheres cis (que eles chamam de biológicas). Para verificar a adequação a essa categoria, as atletas terão que se submeter a um teste genético (rastreio do gene SRY). Uma vez confirmado o resultado negativo para a presença do gene biologicamente masculino, a atleta não mais terá que se submeter ao teste antes de participar de próximas edições dos Jogos Olímpicos.

A decisão gerou um debate público sobre o tema. E ela parece remeter a momentos passados da história do esporte como, por exemplo, o Decreto brasileiro nº 3.199/1941, que, além de não afirmar que esporte é um direito de todos (e sim uma atividade tutelada pelo Estado), ainda excluía explicitamente as mulheres de práticas a serem definidas: “Art. 54. Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país"

Normas excludentes a grupos já existiram em outros momentos históricos e eram incompatíveis com a ideia de direito ao esporte. A decisão do COI está

restrita às competições entre atletas de alto rendimento, não afetando a formação esportiva nem o esporte para toda a vida. Mas, para compreendermos o esporte como um direito, precisamos primeiro desmistificar a natureza do próprio direito.

Diferentemente de uma visão difundida, que associa o direito a textos das normas, entendo que o direito é uma prática social discursiva. Isso significa que o texto é uma parte. O texto, para ter efeitos sociais concretos, precisa ser interpretado pela sociedade, pelos órgãos da administração pública que promovem políticas públicas, pelos juízes e legisladores ao tomar decisões e elaborar novas leis.

O artigo 217 da Constituição Federal define: “É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais, como direito de cada um”.

O direito é uma construção humana e também uma prática humana. Ele é fruto de disputas políticas e debates em instituições competentes, como poderes legislativos, órgãos internacionais, administradores responsáveis por implementar políticas públicas, poderes jurisdicionais que estabilizam o que os indivíduos podem reivindicar do Estado e decidem em casos de dúvidas e conflitos. Portanto, o reconhecimento do esporte no texto da Constituição e da Lei Geral dos Esportes, para citar dois, não é o fim do processo, mas o início de uma interpretação permanente sobre seu conteúdo e aplicação.

Historicamente, o esporte se organizou no período moderno no século 19 como um privilégio de classe, gênero e raça, sendo sistematicamente negado a mulheres e trabalhadores. No Brasil, a grande virada ocorre com a Constituição Federal de 1988, por meio do artigo 217, citado acima. Direito de cada um, direito de todos que deve ser fomentado pelo Estado (e pela sociedade).

O esporte deve estar em todos os bairros, acessível a todos, sem a obrigatoriedade de performance, mas como uma experiência de

realização humana

No plano internacional, a Carta da UNESCO consolidou o esporte como um patrimônio imaterial da humanidade e um direito fundamental de todos. Para citar apenas o começo da Carta, destaco trecho do artigo 1º: “A prática da educação física, da atividade física e do esporte é um direito fundamental de todos. 1.1 Todo ser humano tem o direito fundamental de acesso à educação física, à atividade física e ao esporte, sem qualquer tipo de discriminação com base em etnia, gênero, orientação sexual, língua, religião, convicção política ou opinião, origem nacional ou social, situação econômica ou qualquer outra.”

O COI tensiona, de alguma forma, os entendimentos de igualdade e de acesso a todos ao dizer que mulheres trans não devem participar de modalidades competitivas com as mulheres cis, ainda que sua presidente faça questão de enfatizar que isso não vale para práticas esportivas recreativas e não profissionais.

Para que o esporte deixe de ser um privilégio e se torne um direito real, o Estado deve cumprir três deveres: respeitar (não criar obstáculos), proteger (impedir violações por terceiros) e promover (investir em infraestrutura e programas). O direito não é apenas o texto da lei; ele se manifesta nas políticas públicas, ou seja, no “governo em ação”.

Políticas como o Dia do Desafio do Sesc, que neste ano de 2026 acontecerá no dia 27 de maio, são partes essenciais da realização desse direito no Brasil, pois criam oportunidades para que pessoas comuns incorporem o esporte em seu cotidiano, ocupando praças e equipamentos públicos.

O esporte deve estar em todos os bairros, acessível a todos, sem a obrigatoriedade de performance, mas como uma experiência de realização humana. O esporte deve ser garantido não só porque faz bem à saúde ou tira os jovens da criminalidade, mas “porque sim” — pela fruição de uma experiência humana singular que nos permite viver o mundo e nossos corpos, em seus limites e possibilidades, de forma mais completa.

Ester Gammardella Rizzi é professora do curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), desde 2018. Realizou toda sua trajetória acadêmica (graduação, mestrado e doutorado) na Faculdade de Direito da USP. História do constitucionalismo é tema transversal em suas pesquisas. Trabalhou com advocacia de interesse público na Ação Educativa (2008-2014). Atualmente, desenvolve uma pesquisa sobre o processo constitucional chileno. Também se dedica em suas pesquisas a temas como proteção constitucional e judicialização de direitos sociais, direito ao esporte, direito à educação, direito à comunicação e liberdade de expressão.

encontros

operária das ARTES

Atriz, produtora e cronista, Denise Fraga reflete sobre a angústia como combustível para o ofício e define o teatro como lugar de busca pela perfeição inatingível

Orumo que a vida de Denise Fraga tomou é uma surpresa não só para ela, que nunca havia imaginado na infância se tornar uma atriz, mas também para seus pais. “Eu me lembro da época em que descobri que pessoas escrevem livros, que atores são pessoas normais, às vezes, filhos de uma professora e um contador, como eu”. Nascida no subúrbio do Rio de Janeiro, em Lins de Vasconcelos, a “menina de bairro”, como ela diz, descobriu um novo universo quando iniciou a sua trajetória no teatro: “Era um mundo se abrindo, mas eu me sentia pouco municiada. Fui aprendendo e saboreando tudo o que me era apresentado”.

Considerada uma contadora de histórias por trabalhos icônicos tanto na TV, como o quadro Retrato falado, do programa Fantástico (TV Globo), quanto nos palcos, com o espetáculo Eu de você, em cartaz desde 2019, Denise acredita que a angústia é um combustível para quem atua. Com dois longas no streaming, a tragicomédia sobre eutanásia Sonhar com leões (Globoplay, 2024) e o drama Livros restantes (Prime Video, 2025), que aborda o encontro humano, as memórias e os retalhos da vida, a atriz celebra como o humor permite uma conexão que vai além do riso: “Eu adoro quando consigo fazer alguém rir e, ao mesmo tempo, essa pessoa entrar em um estado

de reflexão. O que eu mais amo ouvir do público é ‘eu não sabia se eu ria ou se eu chorava’”.

Neste Encontros, Denise comemora a sua relação próspera com o teatro, reflete sobre o distanciamento interpessoal que a era digital tem gerado e compartilha a vontade de ocupar novos espaços.

DO DESENHO À CENA

Sempre fui uma criança muito sensível, tímida, chorava sem saber o porquê. Eu falava com as árvores, conversava com o banco, e a minha mãe ficava meio preocupada com aquilo. Como eu gostava de

No palco, seu habitat natural, Denise Fraga construiu uma carreira baseada no olhar para o outro.

desenhar, ela me matriculou no curso de pintura do bairro com um professor que pintava a óleo. Passei no vestibular para estudar Comunicação Visual, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas o curso só iniciaria em agosto e, durante o primeiro semestre daquele ano, comecei a fazer cursos livres. Ao fazer um curso de teatro, tudo mudou na minha vida porque, apesar da minha timidez, eu sentia um certo conforto em estar naquele lugar. Na verdade, eu achava uma voz. Um lugar onde eu podia falar, onde eu podia me expressar. Na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna [a mais antiga escola profissionalizante de teatro da América Latina, fundada em 1908], eu falei: “Eu acho que vou ter que fazer esse negócio aí”.

TEATRO ESCOLA

Desde o início, eu sentia que o teatro era o meu lugar. Trabalhei por dois anos no grupo Tapa, a convite do professor Renato Icarahy. Montamos depois um grupo com ex-alunos da escola, e fizemos muitos projetos. Eu tinha um fusquinha 64, nós o

enchíamos de cenário e fazíamos uma peregrinação pelas escolas do Rio de Janeiro. Era o Moacir Chaves quem nos dirigia, encenador e diretor teatral, e ele propunha para a escola, dentro do ensino de literatura, pesquisar Martins Penna (1815-1848), França Júnior (1838-1890) ou esses autores da comédia clássica brasileira da virada do século que, na minha opinião, é o que há de melhor do teatro clássico brasileiro. Então foi uma escola em vários sentidos. Existia muita formação de público. Se a turma quisesse, podia ver a gente montar o cenário, se maquiar. E isso realmente virava um grande evento do fazer teatral. Após dois anos de formada, eu já fazia papéis pequenos na televisão, fazia TV Pirata, mas sempre com o teatro em paralelo. Quando vi, eu era atriz.

ALÉM DO HOLOFOTE

Sinto que ter tido a vivência em grupo teatral desde o início, participar de todas as etapas de uma produção, das dificuldades, foi muito bom porque me tirou do holofote. Essa admiração que a gente tem pelos artistas, de colocá-los em um certo

pedestal. Nunca acreditei nisso. Sinto que nós somos operários do teatro. Claro que o ator tem um encantamento. É essa figura que cria um magnetismo com o público. Sempre peço que eu seja magnética, que eu tenha poder de captura, de contadora de histórias. E sempre penso que, se tudo der errado, não vou parar de fazer teatro, porque foi assim que começamos, sem dinheiro nenhum. Chegamos a rifar um relógio da tia de uma das atrizes para conseguirmos algum dinheiro para comprar tecido para o figurino e o que precisasse naquela primeira peça. Depois, soubemos que o relógio nem funcionava.

CANTEIRO DE OBRA

O teatro é um canteiro de obra aberto. Toda noite, o público, de alguma maneira, te diz uma coisa nova a respeito daquela fala, daquela cena, e eu sou muito obcecada por isso. Quem trabalha comigo sabe que eu falo assim: “Amanhã vamos tentar aquele tempinho ali”. E eu acho isso a grande sacada do teatro. O teatro é essa busca pela perfeição que você nunca vai atingir. Mas essa busca te leva, você tem o dia seguinte. No cinema, por exemplo, há algo que eu chamo de “síndrome da ideia posterior”. Eu estou tomando banho, depois de um dia de filmagem, e falo no chuveiro a fala do jeito que eu devia ter feito. Mas não dá para mudar, porque o filme já está filmado e não vai acontecer aquela gravação novamente. No teatro, eu tenho o dia seguinte.

Ao interagir com a plateia por meio do humor, Denise consegue propor reflexões que vão além do riso.

ANGÚSTIA CRIATIVA

Ser artista é ter um braço dado com a insatisfação. Essa foi a minha primeira frase na busca por definir a angústia criativa. A angústia é o combustível de um ator. Nós somos inquietos por natureza. Hoje, eu tenho a coragem de me chamar de artista, mais do que atriz, porque eu sinto que eu crio junto. As nossas últimas duas peças foram uma união de forças em uma sala de ensaio. O teatro, cada vez mais, vai ser esse lugar onde você pode voar. É um lugar que você realmente lida com esse poder da imaginação a toda prova para dizer o que se quer dizer. É como se tivesse eu, Denise, que entrou lá na Comunicação Visual, pintando esse quadro móvel que inclui a plateia, que faz daquilo um encontro, uma experiência coletiva. Eu sinto que isso foi algo que foi me forjando, foi acontecendo comigo, muito movida por essa angústia. De alguma maneira, é salvador você fazer arte por pura angústia. Talvez eu seja romântica, utópica, mas eu acho que a gente tem um ofício que permite transformar a angústia em beleza.

EU DE VOCÊ

Foi um divisor de águas na minha vida, porque se tornou um exercício de disponibilidade, de presença, de curiosidade pelo outro. Eu já sou uma pessoa que tem vontade de escutar. É só ter um pouquinho de paciência que surge uma história. Todo mundo é único de algum jeito. Eu tenho realmente uma fé de que eu, ao encontrar alguém, vou descobrir ali algo que vai ser muito interessante, que vai me divertir, me dar prazer no outro. Essa é a proposta do Eu de você. Eu quebro essa parede,

saio da peça e vou para a plateia, não querendo trazer a pessoa para o palco, mas me enfiar entre as gentes. Olhando no olho de um e de outro, incluo a pessoa na cena que estou fazendo. Me faz ter fé numa nova maneira de fazer teatro, que se estendeu para outros cantos.

RETRATO FALADO

Foi uma experiência inacreditável. Foram 9 anos, 176 mulheres representadas na TV Globo, no Fantástico, programa com uma grande audiência, e a gente fazendo algo que era uma criação nossa. O programa era uma ideia do [diretor e marido] Luiz Villaça muito banal: “Alguém conta uma história e você representa, a pessoa contando e você fazendo uma história real”. Aprendi muito ao representar esse comportamento feminino de lidar com os dias. Às vezes, eram depoimentos muito difíceis. Falávamos sempre nas reuniões de roteiro que tínhamos que ter muito cuidado porque não podíamos rir da pessoa retratada. Tínhamos que rir com ela. E aquilo era muito bonito. Era uma homenagem, não uma chacota. Houve um momento em que a editora Globo queria lançar um livro sobre o programa. Eu me propus a escrever e foi um prazer enorme. Vi que estava nascendo uma voz escrevente em mim.

POR INTEIRA

Eu sou uma comediante. O humor invade a minha fala, a minha vida. Adoro quando consigo fazer alguém rir e, ao mesmo tempo, essa pessoa entrar em um estado de reflexão. O que eu mais amo ouvir do público é “eu não sabia se eu ria

ou se eu chorava”. Sinto que dei uma pessoalidade ao meu trabalho nas últimas peças, principalmente no Eu de você. Eu represento, faço um personagem quando preciso, mas nunca deixo de estar ali. Não consigo mais não estar presente em cena. E isso, na verdade, é uma pequena cilada que arrumei para mim mesma porque não consigo mais mentir. Não consigo mais fazer um personagem sem que eu tenha que estar muito inteira ali. É um delírio bom, nesse sentido, é uma felicidade. Porque isso me recruta uma presença que faz eu saborear muito mais o ofício maravilhoso que eu tenho.

VIDA NO CINEMA

Lancei o filme Sonhar com leões, que fala sobre o direito de morrer, sobre eutanásia, por meio de uma tragédia comédia maluca. Fomos para muitas associações de psiquiatria, de luto, de cuidados paliativos, de suicídio; li muitas entrevistas, o que me fez pensar em uma pequena tese de que a gente não gosta de falar da morte porque, quando a gente fala da morte, a gente precisa se debruçar sobre a urgência que a vida tem. Esse bilhete único que é a nossa passagem por aqui. A vida oferece muita coisa e a gente está muito distraído de si. A vida digital distrai você de si mesmo. Distrai você, inclusive, da sua maior missão aqui, que é ser livre, que é ser feliz. A gente nasceu para isso, mas está esquecendo.

A atriz Denise Fraga esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 26 de março. A mediação do bate-papo foi da psicóloga Rani Bacil Fuzetto, que integra a Gerência de Ação Cultural do Sesc.

inéditos

LÍNGUA-ALVO

estudo de caso

quando chamo você seu nome escapa no canto da boca

quando chamam você é o sobrenome que trazem na ponta da língua

os amigos defendem o sobrenome dizem que você não carrega no rosto a marca

embora carregue sim mas pra enxergar é preciso pôr a lupa – aos seus olhos –a cortina uma fresta e a luz com seu truque

BIANCA MONTEIRO GARCIA ILUSTRAÇÕES CATARINA COSTA

fonética

uma língua universal pra dizer calor

uma língua universal pra dizer atrito

é arbitrária a língua dizem os linguistas se digo casa não trago no som a ideia de abrigo

se digo você vibro a falta nas cordas vocais

fricciono os dentes no lábio inferior boca e língua proclamam seu corpo

selado o acordo novas formas de dizer a falta novas formas de dizer o impossível

língua-alvo tardes brancas

manta e jazz fumaça e suor

seiva e saliva por um fio

nossa língua um truque não separa o não do sim uma língua uma ilha dois falantes balbuciam uma ilha uma língua afogada na urgência uma língua extinta

inéditos

fome

escrevo agora os dias de uma estação suspensa no tempo azul

o agridoce evoca seu gosto cisão protocolar o gesto em sépia

você me alfabetizou na colisão dos cômodos e no riso dos dias úteis

almoços caros tocam a campainha em marmitas de isopor o restaurante é a minha casa a minha casa é a nossa cidade florianópolis não saiu do papel percorremos a ilha no canto do meu quarto

a luz atravessa a cama lâmina e lágrima o fim está próximo vamos naufragar

retorno aos dias das tardes vermelhas beijo as linhas dos seus olhos os fios emaranhados abrandam a canção do tempo no seu rosto grisalho desejo e falta

não contamos as horas ancora no agora este silêncio mineral

você trouxe a fome fabricamos a sede fabricamos o pote

à beira de um sorriso a máquina captura o auge de um quase

inéditos

teimosia

jogo tarô e leio horóscopo quando as coisas vão mal corro pra cartomante com ânsia de futuro escuto o que quero o resto jogo fora

Bianca Monteiro Garcia (Rio de Janeiro, 1994) é poeta, editora da Macabéa Edições e integra a Gerência de Livro e Leitura da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. É autora do breve ato de descascar laranjas (Macabéa; 7letras, 2023), vencedor do Prêmio Jabuti 2024 na categoria de poesia estreante, e de Um esporte radical (Fictícia, 2023). Participou do World Poetry Day Festival, em Washington, representando a jovem poesia brasileira. Seus poemas foram traduzidos para o espanhol e publicados em revistas literárias como Círculo de Poesía, Altazor, Fundación Cultural Esteros e La Otra. Em 2024, foi incluída na lista Forbes Under 30 entre os nomes de destaque no campo literário.

Catarina Costa (Rio de Janeiro, 1996) é poeta, editora, ilustradora, designer e mestranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publicou Fluorescentes (7letras, 2022) e tem poemas em publicações impressas como Revista Uso, Cadernos do CEP, Inimigo Rumor e periódicos on-line. Ministrou oficinas de poemas na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Universidade Federal Fluminense. Atualmente, dá aulas de pintura, é uma das curadoras do CEP 20.000 e faz parte da equipe editorial da Macabéa Edições.

forjada no TEATRO

Nos palcos e nas telas, a atriz Malu Galli corporifica personagens marcadas por múltiplas opressões que incidem sobre o feminino

POR MARCEL VERRUMO

Após representar uma milionária em uma telenovela, a atriz

Malu Galli retorna aos palcos de teatro com o espetáculo Mulher em fuga e dá corpo à Monique, mulher que mora em uma periferia e enfrenta uma série de dramas familiares. Transitando entre personagens com marcadores sociais tão díspares, a artista acredita que alguns dos pontos em comum entre suas recentes representações sejam as vivências caracterizadas por opressões e os desejos de operar mudanças: “falar do universo feminino, infelizmente, é falar de opressão na maioria das vezes, porque essa é a nossa realidade”.

Com mais de quatro décadas nas artes cênicas, Malu iniciou sua carreira aos dez anos n’O Tablado, tradicional escola de teatro do Rio de Janeiro. Após os primeiros

trabalhos como atriz, também dirigiu, produziu e escreveu suas próprias obras. Dedicou-se ao cinema, à televisão e, mais recentemente, a produções para plataformas de streaming. No entanto, mesmo após experienciar outros espaços, a atriz confessa que o teatro continua sendo o local para onde retorna após transitar por outras realidades, um ambiente familiar no qual sente a necessidade de estar.

Ao lado do ator Tiago Martelli, Malu esteve em cartaz em Mulher em fuga no Teatro Raul Cortez, no Sesc 14 Bis. O espetáculo segue temporada em palcos de outros estados brasileiros e é baseado em livros do escritor francês Édouard Louis, com dramaturgia de Pedro Kosovski e direção de Inez Viana. Neste Depoimento, realizado durante a temporada em São Paulo, a atriz relembra suas

primeiras experiências no teatro, compartilha vivências na televisão e revela o desejo de realizar seu próprio show de música.

teatro

O teatro faz parte da minha vida desde que eu era criança. Comecei a estudar n’O Tablado [escola de artes cênicas do Rio de Janeiro] aos dez anos, mas já atuava em casa com meus primos antes, ia a peças infantis. A atriz que eu sou é uma atriz que foi forjada no teatro, no teatro de grupo, no teatro de pesquisa. O audiovisual entrou na minha história bem depois: comecei no cinema quando já tinha vinte anos; na televisão, com mais de 35. O teatro foi a minha escola de atuação, onde aprendi a me expressar, onde encontrei os meus amigos, os meus pares, os meus colaboradores. É para onde eu volto depois de viver outras experiências, um lugar onde tenho necessidade de estar. Cada vez

Nilton Fukuda

depoimento

mais, sinto o palco como um lugar muito familiar. Por mais desafiador que seja o trabalho, por mais que seja um lugar de desconforto, estar no palco, cada vez mais, me dá uma sensação de estar em casa.

televisão

Comecei a trabalhar na televisão com participações pequenas em programas esporádicos, sem uma personagem grande. Foi justamente o teatro que me deu a oportunidade de fazer televisão. Em 2006, eu estava fazendo a peça Gaivota –tema para um conto curto [baseada na obra de Anton Tchekhov (1860-

1904)] no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. A Maria Adelaide Amaral [escritora e dramaturga] e a Denise Saraceni [diretora de televisão] foram assistir e me chamaram para fazer um teste para a minissérie Queridos amigos (Globo, 2008). Fiz um teste para uma personagem pequena; depois, me convidaram para fazer o teste para uma das protagonistas, a Lúcia. Passei e pude mostrar um trabalho mais consistente. Era uma personagem incrível, com um arco dramatúrgico maravilhoso. A partir daí, não parei mais. Isso mostra como sempre foi o teatro que me abriu as portas.

telenovela

Vale tudo (Globo, 2025) foi o trabalho mais intenso que fiz na televisão. Havia muita expectativa desde antes de a novela estrear, já na escalação do elenco, muita gente opinando. Depois, as pessoas acompanharam a novela toda, postaram opiniões na internet, nas redes. Foi muito desafiador e fui muito agraciada. Tínhamos um núcleo de trabalho muito amoroso, produtivo e empenhado, e foi agradável por esse lado; por outro, enfrentamos várias tempestades em alto mar. Fizemos um bom trabalho, tenho muito orgulho do que fiz. A Celina Roitman foi uma personagem muito desafiadora. Para um ator, o conflito é bem-vindo. Eu adoro personagens com muitas camadas, incoerências, isso é sempre muito fértil.

retorno

O convite para estrear a peça Mulher em fuga surgiu em 2024. O [ator] Tiago Martelli entrou em contato comigo para falar sobre a ideia desse projeto. Eu ainda não o conhecia nem havia lido algum livro do Édouard Louis, mas já tinha visto um artigo sobre o Mudar: método (Todavia, 2024), assistido a uma entrevista do autor. Foi muito interessante quando o Tiago me apresentou a proposta. A gente ainda não tinha um nome para a direção, mas algumas possibilidades, e falei: “claro, pode colocar meu nome”. Quando eu já estava gravando Vale tudo, ele me falou que estávamos com uma possibilidade de apresentação no Sesc, com a direção da Inez Viana. Fiquei superfeliz, pois tenho vontade de trabalhar com a Inez há muito tempo. Acabou

Baseado em livros do escritor francês Édouard Louis, o espetáculo Mulher em fuga marca a volta de Malu Galli ao teatro.
Adauto Perin

que o final do meu trabalho na televisão coincidiu com o início dos ensaios para retornar ao teatro. O processo de preparação foi muito rápido. Fizemos os ensaios e levantamos a peça em um mês. Já vínhamos conversando sobre a dramaturgia com o Pedro Kosovski, estávamos fazendo reuniões. Quando chegamos na sala de ensaio, restava pouco tempo, mas já tínhamos uma ideia clara do recorte que iríamos fazer a partir dos dois livros do Édouard [Lutas e metamorfoses de uma mulher (Todavia, 2023) e Monique se liberta (Todavia, 2024)] e da abordagem.

adaptação

A escrita do Édouard Louis é muito direta. Ele tem uma forma clara, objetiva e simples de escrever, no bom sentido. Eu acho que é por isso que ele alcança tantas pessoas, que a obra está sendo tão lida no mundo todo. Li em uma tacada. Foi muito rápido e uma absorção profunda. Os temas presentes na obra do Édouard, como a opressão feminina, o apagamento feminino, são temas que me atravessam, que sempre me atravessaram. E a gente está em um momento do mundo em que isso está mais pungente. A gente estava ensaiando bem quando isso estava acontecendo, no país inteiro, a mobilização pelo fim do feminicídio, com aqueles casos tenebrosos surgindo por todos os lados; ao mesmo tempo, havia o crescimento da misoginia na internet, de grupos orquestrados disseminando ódio. Tudo isso é muito preocupante e é importante ter uma peça, nesse momento, para falar disso. E o bonito da obra do Édouard é

que ele conta a história dele, uma história carregada de sentimentos e baseada na relação humana entre ele e a mãe, entre ele e a família, ao mesmo tempo em que escreve um gesto político, um manifesto, um estudo sociológico, uma crítica social contundente e original. Como é que pode, naquele livrinho, você ter tantas camadas? É muito apaixonante e a gente procurou trazer isso para a peça. Acredito que a peça emociona porque fala de aproximação entre mãe e filho, de relações familiares difíceis, ao mesmo tempo em que propõe reflexões políticas muito atuais.

personagens

Tanto as personagens impactam na minha forma de ver o mundo, como a minha forma de ver o mundo impacta a minha construção das personagens. É uma troca. Eu aprendo com elas, mas, ao mesmo tempo, elas são o que eu aprendo com o mundo. A Celina [de Vale tudo] e a Monique [de Mulher em fuga] são duas personagens oprimidas, com um desejo muito grande de mudança. A Monique opera essa mudança; a Celina, não. Foi muito bom, porque terminei a novela muito frustrada com a Celina que não saía daquele lugar e ficava patinando. Agora, eu venho para esse palco [em Mulher em fuga] e toco essa bateria, derrubo essa parede, dou meus gritos. Falar do universo feminino, infelizmente, é falar de opressão na maioria das vezes, porque essa é a nossa realidade. É uma realidade de apagamento, de opressão pelo patriarcado. São raros os papéis em que você faz uma mulher que reina absoluta, que é dona das suas vontades, livre e autônoma.

horizontes

Mulher em fuga circula por São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, e a gente quer seguir para outras capitais. Tenho um projeto de teatro aprovado em um edital, com a Silvia Gomez [dramaturga], o Gabriel Fontes Paiva [produtor] e o Alejandro Claveaux [ator]. Estou filmando Tiros no escuro para Prime Video [plataforma de streaming], um true crime [narrativa baseada em crime real]. Vamos apresentar em festivais o filme Querido mundo (2025), do Miguel Falabella, com o qual ganhei o [prêmio] Kikito de melhor atriz no Festival de Cinema de Gramado. Espero que venham mais trabalhos e me coloco à disposição do que vier, do que acontecer. E ainda tenho vontade de voltar a dirigir e o desejo de fazer um projeto de música: quero apresentar um show em que eu possa cantar – esse é um projeto que guardo no coração e espero realizar em breve.

Assista a trechos desse

Depoimento com a atriz Malu Galli, realizado em janeiro de 2026, no Sesc 14 Bis.

ALMANAQUE

Tesouros de papel

Bibliotecas centenárias espalhadas pelo Brasil resistem ao tempo e se adaptam ao contemporâneo como espaços culturais ampliados

POR MATHEUS LOPES QUIRINO

Em 2025, uma das mais emblemáticas instituições culturais de São Paulo soprou a centésima velinha. A Biblioteca Mário de Andrade (BMA) nasceu há um século para abrigar tesouros literários, como manuscritos, gravuras e documentos sobre a capital paulista. Seu prédio na rua da Consolação, na região central, construído em meados da década de 1930, testemunhou transformações urbanas, tecnológicas e culturais e resiste como palco de celebrações, exposições e festivais literários. A Biblioteca presenciou

a gênese de movimentos históricos, como o modernismo: passaram por lá nomes como Oswald de Andrade (1890-1954), Anita Malfatti (1889-1964), além, claro, de Mário de Andrade (1893-1945), um dos fundadores da instituição.

Com um acervo que ultrapassa três milhões de itens, a Mário é considerada um grande centro de memória e continua atraindo gerações de escritores e pesquisadores, que podem consultar livros e documentos tanto presencialmente quanto online. “Uma biblioteca pública centenária mostra, além disso, que a conservação do patrimônio exige políticas permanentes, planejamento e o reconhecimento contínuo do valor desses espaços como bens culturais vivos”, conta a atual diretora do local, Luiza Thesin.

Assim como essa, outras instituições centenárias seguem ativas e o segredo da longevidade também parte do envolvimento de mediadores culturais e do público leitor. “A biblioteca não é apenas uma caixa de livros, porque nos movemos pelas bibliotecas e nós movemos as bibliotecas.

A Biblioteca Mario de Andrade, no centro da cidade de São Paulo, atrai leitores, escritores e pesquisadores desde 1925.

Os eventos, festas literárias, esse trançar de pessoas que faz com que se movam os livros, as imagens, os imaginários, tudo isso vai fazendo a biblioteca mudar. Os novos livros que chegam às prateleiras, as parcerias, é muito interessante pensar a biblioteca desse jeito comunitário”, diz a pesquisadora Bel Santos Mayer, coordenadora geral do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC).

Ativista da cultura do livro, Bel é uma das fundadoras do LiteraSampa, iniciativa que tem o intuito de fortalecer bibliotecas nas periferias da cidade. Segundo ela, é importante espalhar as sementes da bibliofilia. “Nós temos mais de quinhentos anos de história oficial de nosso país e, se formos olhar as bibliotecas centenárias, chegam a uma dúzia. Dessas, apenas metade são bibliotecas públicas. O que elas nos ensinam é que precisamos resistir e multiplicar.” A seguir, confira um roteiro por mais cinco bibliotecas centenárias.

FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL (RJ)

Quem atravessa a Avenida Rio Branco, na cidade do Rio de Janeiro, e sobe os degraus do prédio neoclássico do número 219 entra na maior biblioteca da América Latina, a Biblioteca Nacional. Sua origem remonta a 1810, após a vinda da Família Real, que trazia de Portugal o que sobrou da biblioteca de Dom José, destruída depois do Grande Terremoto de 1755. O acervo de 60 mil peças, ao longo dos anos, cresceu e hoje soma cerca de 11 milhões de itens. Entre eles, uma das primeiras edições de Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões, e uma coleção de fotografias do Rio de Janeiro do século 19. As visitas são gratuitas e podem ser feitas por agendamento no site da instituição, que também abriga exposições itinerantes e mostras permanentes.

Avenida Rio Branco, 219, Centro, Rio de Janeiro (RJ). Segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. Sábado das 9h às 15h. Grátis. Agendamento no e-mail: visiguia@ bn.gov.br ou telefone (21) 2220-9484. Mais informações em www.gov.br/bn

ALMANAQUE

REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA (RJ)

O Real Gabinete Português de Leitura está desde o século 19 em uma rua simbólica, a Luís de Camões, número 30, no centro do Rio de Janeiro. Essa instituição, que faz parte da memória lusitana da cidade, foi inaugurada em 1837, passou por diversas transformações e ficou famosa pela organização. Seu acervo tem mais de 350 mil volumes, distribuídos em estantes de madeira esculpida até o teto. Entre os tesouros preservados estão as gravuras do romance Os Maias (1888), de Eça de Queiroz

BIBLIOTECA DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO (BA)

No Largo do Pelourinho, em Salvador, capital baiana, há um lugar onde o tempo parece ter desacelerado. Dentro do Mosteiro de São Bento, erguido no século 16, a biblioteca monástica é um dos mais raros exemplares do gênero ainda em atividade no país. Os primeiros livros chegaram com os monges beneditinos em 1582, mas a sala atual com estantes esculpidas em jacarandá e assinadas por mestres entalhadores do período colonial data de 1811. Com mais de 300 mil livros, o lugar conta com cerca de 13 mil obras raras, entre incunábulos (livros impressos antes de 1501), manuscritos e documentos que narram os bastidores da

(1845-1900), além de manuscritos autografados de Amor de perdição (1862), de Camilo Castelo Branco (1825-1890). A entrada é livre e gratuita para o público, mas o acesso ao acervo é restrito a associados e pesquisadores.

Rua Luís de Camões, 30, Centro, Rio de Janeiro (RJ). Segunda a sexta-feira, das 10 às 17h. Grátis. Mais informações em realgabinete.com.br

vida religiosa e política da colônia. O mosteiro e a biblioteca podem ser visitados mediante agendamento. Há uma taxa de visitação, revertida para a manutenção do espaço.

Av. Sete de Setembro, 204, Centro, Salvador (BA). Segunda a sexta-feira, das 7h às 12h e das 13h às 18h. Sábado, das 6h às 12h. Domingo, das 8h às 10h. Visitação sob agendamento pelo telefone (71) 99129-3143 ou (71) 32424027, e pelo email: contato@saobento. org. Mais informações em saobento.org

BIBLIOTECA DA FACULDADE DE DIREITO DA USP (SP)

Não se trata apenas de uma biblioteca, mas de um símbolo da vida intelectual brasileira. A Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) nasceu junto com a própria faculdade, em 1827, quando o Largo São Francisco ainda era um dos limites da cidade. Seu acervo tem cerca de 500 mil volumes e é uma referência obrigatória para o estudo do Direito e das ciências humanas. Entre os livros, estão edições autografadas por grandes nomes que frequentaram a biblioteca, como Cândido Motta Filho (1897-1977), Alcântara Machado (1901-1935) e Menotti Del Picchia (1892-1988), além de um arquivo histórico com mais de 1.500 títulos de periódicos do século 19. O edifício mantém a atmosfera austera que viu gerações de juristas, escritores e políticos debaterem os destinos do país. É aberta ao público para consulta local de segunda a sexta-feira, com cadastro na entrada. A visita ao prédio histórico pode ser feita sem agendamento, mas os setores de obras raras exigem solicitação prévia.

Largo São Francisco, 95, Centro, São Paulo (SP). Grátis. Visitação da Biblioteca Central, de segunda a sexta-feira, das 8h às 21h. Mais informações pelo email saubibfd@usp.br

BIBLIOTECA PÚBLICA BENEDITO LEITE (MA)

São Luís do Maranhão, no Norte do país, respira cultura e um de seus pulmões mais antigos é a Biblioteca Pública Benedito Leite. Fundada em 1829, ela é uma das bibliotecas públicas mais longevas do Norte e Nordeste. Instalada em um prédio eclético no centro histórico, a casa guarda um acervo que impressiona pelos contrastes: ao mesmo tempo que oferece literatura contemporânea ao público geral, protege em seu setor de obras raras verdadeiras relíquias, como livros dos séculos 16, 17 e 18, além de documentos manuscritos de figuras centrais da história maranhense. A entrada é gratuita, sendo necessário agendamento apenas para a consulta de obras raras.

Praça do Panteon, Centro, São Luís (MA).

Grátis. Segunda a sexta-feira, das 8h30 às 19h. Sábado, das 8h30 às 16h30. Mais informações pelo email informacaoutilitaria.bpbl@gmail. com ou pelo whatsapp (98) 98454 6921.

Onde o brincar (me)mora em mim

Brincar para mim tem cheiro, tem cor, tem som de riso atravessando a casa. Brincar é memória viva, dessas que não cabem em fotografia, no desenho ou em qualquer outro registro. Elas se instalam no corpo e ficam, permanecem e nos constituem.

A minha infância foi feita de muito tempo sozinha criando futuros e encontros possíveis. Quanto mais gente, mais troca e mais gostoso era. Quanto mais presença, mais descoberta. Era riso, grito, concordância, discordância, felicidade e, às vezes, choro.

Lembro da casa da minha vó como um lugar de aconchego, um território onde tudo acontecia. Lembro dos doces sendo feitos, secando em tachos sobre a pedra da cozinha. O entra e sai de gente, os primos chegando, vozes se misturando, as risadas ecoando. Mesmo que nenhum adulto dissesse nada, de algum jeito a gente já sabia que era tempo de brincar.

Tinha esconde-esconde, pega-pega, dança e jogo. Longas conversas entre crianças que inventavam novos mundos enquanto, ao fundo, os adultos jogavam cartas e falavam sobre assuntos da ordem do dia. Jogar cartas era o brincar de gente grande, mas hoje entendo que também era o pretexto para o encontro e para juntar as panelas. Era tanta comida gostosa, tanto cheiro junto, tanto som, tanta textura... Uma miscelânea de sensações.

Lembro de quando a televisão de casa, daquelas de tubo enorme, quebrou. O conserto era caro e demorou, transformando a falta em possibilidade.

Todas as noites, meus pais inventavam um novo jogo, conversávamos mais, aprendíamos juntos, errávamos, nos divertíamos. A ausência de uma coisa abriu espaço para outras. Percebi que os combinados entre os adultos se intensificaram: “Quarta-feira, às 19h, aqui em casa”.

Um levava a lasanha, outro o pavê, alguém trazia um gravador de fitas K7 para as crianças

ouvirem música, e mais uma vez o ritual se repetia, adultos nas cartas e crianças a brincar.

É curioso lembrar que nossas idades eram tão diferentes e era o que tornava tudo mais interessante. Cada um trazia o que sabia, o que podia, o que imaginava, as brincadeiras iam se construindo a partir de nós e para nós, sem roteiro, mas com muita presença.

Naquele tempo, a gente acompanhava os adultos em quase todos os lugares, não existiam muitos espaços pensados para as crianças compartilharem o brincar, os brinquedos, o tempo e as emoções. E ainda assim, ou talvez por isso, a gente inventava, ressignificava objetos, criava brinquedos, transformava qualquer canto em possibilidade. Dividia o tédio e valorizava a conversa.

Hoje, quando penso no brincar, penso no encontro, na diversidade, na liberdade de criar e nessa potência que é conviver. Brincar junto às vezes tem a ver com ceder, com entender como o outro se sente na brincadeira, percebendo que o mundo vai para além de mim. Brincar nunca foi só sobre o que se faz, mas sobre com quem se faz, sobre essa experiência sensorial de acomodação de tudo aquilo que se constrói no meio do caminho.

Carrego essas memórias como quem guarda um mapa. Um mapa que me lembra que brincar é linguagem, é expressão, é um livro particular que conta histórias. Quando há espaço para o individual e o coletivo, para o bom e o ruim, para o conforto e desconforto, para o cheio e o vazio, há também espaço para crescer, desenvolver, imaginar e pertencer.

Camile Lopes Magalhães é assessora sociocultural na Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo, atuando no Núcleo dos programas infanto-juvenis dedicada ao Programa Espaço de Brincar.

MAIO 2026
Matheus
José Maria (foto); Lucas Blat (colagem)

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