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LIVRETO_capital_paulista_Comunidade_Cultural_Quilombaque_R2.pdf

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COMUNIDADE CULTURAL

QUILOMBAQUE

CAPITAL PAULISTA


Resistências Confluentes É da natureza humana aventurar-se por desvelar o desconhecido. Ir ao encontro do outro para reafirmar quem somos pelas similaridades, diferenças, e alçar novos dilemas, são combustíveis aparentemente voláteis, que imprimem memórias e abastecem imaginários, nutrindo repertórios de vida. Distintas vozes ecoam e são acolhidas no programa de Turismo Social do Sesc São Paulo, propiciando vivências que abarcam as trocas simbólicas, a fruição cultural e das paisagens tanto geográficas quanto humanas. O exercício democrático do turismo envolve escolhas conscientes e um permanente compromisso com a formação do público para a corresponsabilidade da experiência. Nesse contexto, insere-se o projeto Itinerários de Resistência, que apresenta parte da rede de turismo


de base comunitária paulista realizada por grupos com identidades diversificadas como as aldeias indígenas, quilombos, assentamentos, associações e coletivos urbanos. Esses movimentos voltados para a coletividade convergem para o desenvolvimento local, bem como para o fortalecimento de lutas e objetivos comuns. Ao difundir saberes e aspectos socioculturais de tais territórios, apresentando uma das faces do turismo social em ambiente digital, o Sesc amplia os meios de acesso a essa pluralidade, acendendo um farol deflagrador de suas potencialidades. Que as narrativas e o conteúdo imagético de tais iniciativas sejam portadores de estímulos à reflexão e construção de uma sociedade mais justa e equânime, com encantamentos a serem desvelados, vividos e compartilhados. Sesc São Paulo


Por meio de um Museu Territorial, com seu patrimônio histórico, cultural e afetivo organizado em trilhas ao ar livre, grupo propõe um turismo de resistência nas regiões de Perus, Anhanguera e Jaraguá, no extremo norte da cidade de São Paulo


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Comunidade Cultural Quilombaque

Acervo da Agência Queixadas

Na estação Perus, uma escadaria suave, pouco íngreme, liga a plataforma do trem à rua. Há também uma rampa como alternativa aos degraus. Saindo da estação e andando poucos passos para o lado esquerdo, o primeiro imóvel abriga, nessa ordem, um mercadinho de doces, uma farmácia, uma loja de crédito e um açougue. Nas costas desse imó-

Vista panorâmica do distrito de Perus São Paulo, SP

vel está uma mulher elegantemente vestida, sapatos de salto alto, brincos de argola, braceletes, uma flor enfeitando o penteado black power e vestido estampado que, quando você repara bem, percebe que reproduz um aglomerado de casas populares, como um conjunto habitacional ou uma favela. Exatamente a paisagem ao redor.


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Acervo da Agência Queixadas

Caminho da Trilha Perusferia Grafite, da Agência Queixadas. Além da trilha, “Perusferia”, nome que nos remete à junção das palavras “Perus” e “periferia”, é o nome de um projeto, coordenado por Danilo Guetus. São Paulo, SP

Essa mulher é um desenho. Uma das figuras em um mural onde estão representados ainda um velho indígena, um outro sujeito que é homem, coruja, macaco e leão ao mesmo tempo, e uma dupla formada por um DJ e um MC. Uma obra de arte grafitada que serve como ponto de partida para um roteiro turístico nesse neste bairro (que na realidade é um distrito) do extremo norte da cidade de São Paulo. O mural é também acervo de museu: o Museu Territorial de Interesse da Cultura e da Paisagem Tekoa Jopo’í.

Assim como o trem da CPTM é a principal ligação via transporte público entre esta área periférica e o centro da capital paulista, o Museu Territorial vem se firmando como um elo entre a região de Perus, Anhanguera e Jaraguá e a história oficial da cidade de São Paulo e do país. Sua criação, impulsionada por jovens ativistas reunidos em torno da Comunidade Cultural Quilombaque, com apoios de movimentos sociais, organizou as visitas turísticas ao bairro e aprofundou seus significados.


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A greve dos sete anos

Acervo Agência Queixadas

Visita guiada às ruínas da antiga Fábrica de Cimento Portland Perus, palco de grandes movimentos de resistência. São Paulo, SP

O queixada é um tipo de porco-do-mato presente em quase todo o território brasileiro. Na Mata Atlântica, atualmente é considerado criticamente ameaçado de extinção. Isso porque a espécie precisa de grandes extensões territoriais, já que sua principal característica é viver e agir em grandes grupos.


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Acervo de Agência Queixadas

Ruínas da antiga Fábrica de Cimento Portland Perus. São Paulo, SP

Dizem que por conta dessa característica de coletividade, ficaram conhecidos como queixadas os trabalhadores filiados ao Sindicato do Cimento, Cal e Gesso de São Paulo que fizeram, entre os anos de 1962 e 1969, a greve de mais longa duração na história do sindicalismo brasileiro, sete anos. Cerca de 1.200 trabalhadores cruzaram os braços na Fábrica de Cimento Portland Perus, então a maior do país, que forneceu cimento para a construção

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de estradas, pontes e viadutos na cidade de São Paulo e também para a construção de Brasília. Os trabalhadores reivindicavam salários atrasados, melhores condições trabalhistas e ambientais, como instalação de filtros nas chaminés. A greve mobilizou a comunidade, popularizou a metodologia de não violência preconizada pelo ativista Martin Luther King, referência na luta contra o racismo, e difundiu o slogan “União e Firmeza Permanente”. As duas ideias mobilizam os jovens de hoje. Queixadas é também o nome da agência de turismo criada por esses jovens de Perus para operar a recepção aos visitantes na região. Coordenadora da agência e também do Museu Territorial de Interesse da Cultura e da Paisagem Tekoa Jopo’í, Camila Cardoso conta que persiste o debate na comunidade local entre os queixadas e os pelegos — os pelegos são os trabalhadores que, depois de 99 dias de


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Acervo da Agência Queixadas

greve, aceitaram um acordo para voltar ao trabalho. “As pessoas aqui até hoje são assim, divididas entre queixadas e pelegos.” A visita às antigas instalações da Fábrica de Cimento Portland Perus, que fechou definitivamente em 1987 e é reivindicada pela comunidade para a criação de um espaço de cultura e memória, compõe a trilha Memória Queixadas, um dos sete roteiros temáticos criados para apresentar aos visitantes o patrimônio histórico, cultural, natural e afetivo do Museu Territorial. Além dos antigos grevistas que fizeram história, o território tem ainda a resistência cultural do hip hop, do grafite, do jongo; a luta pelo direito ao território e à cidadania do povo indígena Guarani Mbya vivendo em seis aldeias no entorno do Pico do Jaraguá; e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no acampamento Comuna Irmã Alberta – que tem um capítulo específico nesta coleção.

Casa do Hip Hop em Perus. São Paulo, SP


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Tekoa Jopo’í

O Museu Territorial de Interesse da Cultura e da Paisagem Tekoa Jopo’í começou a ser fomentado a partir da criação de um Território de Interesse da Cultura e da Paisagem (TICP). A proposta foi conduzida pela Comunidade Cultural Quilombaque, por estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e pelo Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento Portland Perus. O TICP apontou, em linguagem técnica, as particularidades e pontos de interesse do território, que inclusive integra uma Reserva da Biosfera reconhecida pela Unesco, a do Cinturão Verde de São Paulo. Em 2014, foi tornado lei pelo Plano Diretor.


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Acervo da Agência Queixadas

As trilhas do Museu Territorial valorizam a relação histórica e afetiva dos habitantes com o seu lugar. “A gente está pautando um outro jeito de entender a cidade, uma outra forma de vivenciar a cidade, principalmente quando estamos falando de bairros periféricos”, diz Camila Cardoso. Por exemplo, uma das trilhas, chamada de Ressignificação e Reapropriação dos Espaços Públicos, inclui visita à Ocupação Artística Canhoba, espaço teatral em um prédio público que estava abandonado, e à Casa do Hip Hop de Perus. “Tem um rio que corta o nosso bairro que é sujo, cheira mal, transborda. Mas ao lado dele tem a Casa do Hip Hop. Vários b-boys e b-girls da cidade toda vêm para cá treinar, usar a praça que a gente restaurou”, conta Camila Cardoso. “Aqui a gente escolhe falar sobre o manancial de coisas boas que tem no nosso território.” Tekoa é a palavra em guarani para território e aldeia; Jopo’í refere-se à lógica desses povos, que associa o prestígio à capacidade de doar e compartilhar.

Trilha ao Pico do Jaraguá. São Paulo, SP

“Aqui a gente escolhe falar sobre o manancial de coisas boas que tem no nosso território.” Camila Cardoso


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Acervo da Agência Queixadas

Antigo trem Maria Fumaça que percorria a ferrovia Perus-Pirapora São Paulo, SP

CAPITAL PAULISTA

A trilha O Jaraguá é Guarani aborda a ancestralidade neste território e a resistência do povo Guarani Mbya. Também fala de preservação ambiental na caminhada até o ponto mais alto da cidade de São Paulo, o Pico do Jaraguá, que tem 1.135 metros, cerca de 400 metros a mais que a altitude média da cidade. O período da industrialização no país é abordado nas trilhas Memória Queixadas e Estrada de Ferro Perus-Pirapora, que mostra a estrada de ferro planejada para trazer o calcário extraído em Cajamar para a fábrica de cimento, e que nunca foi concluída. Ditadura Nunca Mais é a trilha que vai até o cemitério Dom Bosco, onde foi encontrada a vala comum de onde saíram mais de mil sacos de ossadas de corpos sepultados clandestinamente pela ditadura militar no Brasil na década de 1970. A vala foi descoberta pelo jornalista Caco Barcellos, 30 anos atrás, com a colaboração do então dirigente do cemitério,


Acervo da Agência Queixadas

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“Nessa trilha a gente discute não apenas a ditadura, mas também o genocídio da juventude negra e pobre nas perfierias.” Camila Cardoso

Visitantes caminhando ao lado dos trilhos da antiga Estrada de Ferro Perus-Pirapora São Paulo, SP

Antônio Pires Eustáquio, durante as pesquisas para o livro Rota 66: A Polícia que mata, publicado em 1992. Durante o longo processo de perícia nas ossadas, muitos corpos foram identificados como ainda em desenvolvimento — de adolescentes, portanto — e com marcas de execução de cima para baixo. “Nessa trilha a gente discute não apenas a ditadura, mas também o genocídio da juventude negra e pobre nas perfierias”, conta Camila. O acampamento Comuna Irmã Alberta é visitado na trilha Agroecológica Campo-Cidade, onde tam-


Visita ao Cemitério Dom Bosco, em Perus, onde se encontra a vala clandestina. São Paulo, SP

“Esses roteiros são também uma forma de gerar renda para a nossa comunidade, para que os jovens não sejam obrigados a ter com esse território uma relação de dormitório, que tenham perspectivas por aqui” Camila Cardoso

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Acervo da Agência Queixadas

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bém são discutidas questões como preservação do meio ambiente — 20 anos atrás, o terreno onde está o acampamento foi designado para a construção de um lixão, projeto fortemente rejeitado pela comunidade local —, direito à terra e à alimentação sem veneno. “Esses roteiros são também uma forma de gerar renda para a nossa comunidade, para que os jovens não sejam obrigados a ter com esse território uma relação de dormitório, que tenham perspectivas por aqui”, diz Camila. A criação da agência Queixadas ajudou a viabilizar ciclos de formação para moradores. Atualmente, seis pessoas atuam na gestão da agência; há 20 famílias que abrem suas casas para hospedar visitantes, e oito educadores que guiam os turistas. “Mais os donos de estabelecimentos para alimentação, as famílias dos Queixadas, do acampamento, é muita gente envolvida”, diz Camila Cardoso.


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Acesse aqui o Site do Museu Territorial de Interesse da Cultura e da Paisagem Tekoa Jopo’í.

A rota Perusferia Grafite Galeria de Arte de Rua, de nome autoexplicativo, é a que começa visitando o mural ao lado da estação de trem. Na mesma rua fica a sede da Comunidade Cultural Quilombaque, fundada em 2005 para fazer frente às violações de direitos da juventude negra de Perus. O grupo perdeu recentemente, em 2019, um de seus criadores, o grande educador popular José Soró. Há um movimento local sendo gestado para que a biblioteca pública Padre José de Anchieta, importante espaço comunitário do bairro, seja rebatizada com o nome dele. Em 2020, em plena pandemia, a Quilombaque viveu mais um enorme desafio: a ameaça de despejo para venda do terreno. “O que a gente faz aqui é turismo de resistência”, diz Camila. “E essa é uma bibliografia que nem existe ainda, nós estamos criando, seguindo o lema dos queixadas: união e firmeza permanente.”

Ouça aqui o podcast Vala de Perus, projeto do Instituto Vladimir Herzog, com a Rádio GuardaChuva, que conta, em seis episódios a tenebrosa história dessa descoberta.

Assista aqui o documentário Porcos e Perus, produzido como trabalho de conclusão do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero em 2009, que conta a história dos queixadas por meio de entrevistas com personagens e fotos históricas.


SP 33 0

CAMPINAS FRANCO DA ROCHA

SP 300

Comunida Quilom SP 2 80

Comuna da Terra Irmã Alberta SP 2 70

SÃO PAULO

APA Bororé Colo

Ilha do Bororé

Acolhendo em Parelheiros

Terra Indígena Tenondé Porã SP

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APA Capivai-Monos


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PARAIBUNA

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CUBATÃO

BERTIOGA SANTOS

Comunidades retratadas Águas Áreas de Proteção Ambiental Municípios em destaque Rodovias


COMUNIDADE CULTURAL QUILOMBAQUE @agenciaqueixadas Informações sobre agendamento de visitas e roteiros disponíveis em — Tel: (19) 998855035, falar com Camila Cardoso Ribeiro agenciaqueixada@gmail.com


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