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Daniel Schenker
Encenador busca inspiração em Carmen Miranda, Lamartine Babo e Lima Barreto para trilogia carioca Antunes Filho retoma características marcantes de sua trajetória como encenador, ao mesmo tempo em que revela disposição para continuar surpreendendo. A trilogia que traz ao Rio de Janeiro - formada pelos espetáculos Policarpo Quaresma, Foi Carmen e Lemertine Babo - espelha sua inquietação. São trabalhos que evidenciam a conexão do diretor com o texto brasileiro, comprovada em diversas encenações realizadas ao longo das últimas décadas. E atestam a determinação em não apresentar leituras tradicionais, e sim obras que resultam de operações sobre o material original. Em relação às montagens que desembarcam no Rio, Antunes se debruçou sobre a obra de Lima Barreto em Policarpo Quaresma; evocou Carmen Miranda através da ligação com o butoh em Foi Carmen; e assinou o texto de Lamartine Babo. Paulistano, Antunes volta-se para o Rio de Janeiro nessa trilogia, em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues, patrocinada pela Caixa Cultural e pelo governo federal,
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Laranjeiras (CAL). "Fiquei amigo de paulistas, como Vianninha, no Rio", relembra, acerca de um dos mais importantes dramaturgos do país. Antunes dirigiu, inclusive, montagens de textos de Oduvaldo Vianna Filho, como Corpo a corpo e Nossa vida em família . O Rio é a cidade onde Lima Barreto e Lamartine Babo nasceram. Já Carmen Miranda era portuguesa de Marco de Canaveses, mas tornou-se símbolo da brasilidade, tema caro ao diretor. "Eu gosto das coisas do Brasil, onde nasci. É minha vida, minha gente", afirma Antunes . Por meio das figuras de Carmen Miranda e Lamartine Babo e do personagem-título de Lima Barreto, Antunes Filho reflete sobre a brasilidade. Celebrada como grande cantora, com passagens pela rádio Mayrink Veiga e pelo Cassino da Urca, Carmen enveredou pelo cinema e migrou para os Estados Unidos, o que lhe valeu duras críticas na volta. Lendário compositor, Lamartine alcançou consagração com marchinhas carnavalescas eternizadas no tempo. E Lima Barreto criou, em 1911, a figura ufanista de Policarpo Quaresma, incansável na sua determinação de louvar o Brasil a qualquer custo . Policarpo levou Antunes a "presentificar" sua infância e seu processo de formação artística. "Desde menino, vejo cinema e teatro. Assisti a Procópio, Bibi, Dulcina, Colé, Oscarito, até Vicente Celestino . Esse trabalho, concebido a partir de Lima Barreto (Triste fim de Policarpo Quaresma), foi inspirado na minha infância, quando acompanhei o teatro antigo, o circo", disse. Não houve qualquer intenção de biografar Carmen ou Lamartine, este evocado a partir de uma situação-base lançada por Antunes: a visita de um senhor e sua sobrinha a uma banda que ensaia as músicas de Lamartine. Além de experimentar a função de autor teatral, Antunes entregou a direção do espetáculo a
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Emerson Danesi, ator do Centro de Pesquisa Tea; (CPT), numa proposta de descentralização prat cacz anteriormente através do projeto Prêt-ê-porter qual se "limita" a coordenar o processo de esc :;.preparação de cenas pelos próprios atores. Em Foi Carmen, Antunes se volta para o irT'a: nário popular que surgiu em torno do mito de Oar+e Miranda. Uma menina antecipa seu sonho de u ser artista. Três senhoras participam dessa pre ção. Ela descobre um turbante numa caixa, ves e-c encarna seu futuro ídolo. De repente, a menina se conta de que tudo foi uma ilusão, tudo se diss : Parte do espetáculo é falada em fonemol, língua; tícia articulada em trabalhos anteriores, como velha história e Orácula e outros vampiros. "Dá ;:: entender o fonemol quando há sentimento. A ";::;::
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o ator precisa de pouca deve surgir de uma necessidade", afirmou. É no-a -
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a inspiração em Kazuo Ohno, mestre do bu o~ dança do renascimento do pós-Hiroshirna e Naqasa norteando o projeto. "Mas nesse retorno a FOI r'::.. men, investi na brasilidade", salientou. Apresentada no Rio de Janeiro, em 2005, j ~-::.mente com O canto de Gregório e Fragme -:
troianos, Foi Carmen se inscreve na lista de trabalhos revisitados por Antunes. "É a chance de investir no amadurecimento", observou Antunes, que vem aperfeiçoando o método de atuação junto aos atores do CPT, descrito no livro Hierofania: o teatro segundo Antunes Filho, de Sebastião Milaré. "O ator precisa de pouca energia, mas direcionada. É um desperdício trabalhar sem técnica", acrescentou. No decorrer de sua carreira, Antunes realizou novos espetáculos a partir de textos que já tinha encenado. Montou, em sequência, duas versões de Medeia, tragédia de Eurípedes. Retomou Vereda da salvação, peça de Jorge Andrade centrada na escalada de fanatismo vivenciada por colonos esquecidos no interior do Brasil. Rendeu um espetáculo excepcional, potencializado pelas interpretações de Luís Meio e Laura Cardoso, pela cenografia de J.C. Serroni, formada por troncos de árvore sem copas e pela própria releitura do diretor. "Quis homenagear Jorge Andrade, que continua esquecido. Talvez por ser sério demais", disse Antunes, que encenou o texto na fase final do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em 1964. Mais recentemente, Antunes assinou uma nova versão de A falecida, intitulada Falecida vapt-vupt, peça que levou ao palco em 1965. Uma experiência que, assim como a de Vereda da salvação, comprova seu vínculo com a dramaturgia nacional. Em especial, com a obra de Nelson Rodrigues, abordada nas encenações de Bonitinha, mas ordinária, Nelson Rodrigues - O eterno retorno (depois condensada em Nelson 2 Rodrigues), Paraíso Zona Norte e Senhora dos afogados, além da adaptação de Vestido de noiva, na TV Cultura. O título da nova Falecida parece sintetizar uma determinação do encenador em ajustar ao ritmo dos dias que correm. "Não é difícil
"Fui abolindo a cenografia, ficando com o necessário. Quero valorizar o jogo entre os atores, o jogo de amarelinha, os desafios. Quanto menos cenografia houver, mais o espectador projetará sua imaginação em cena"
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entrar em sintonia com o tempo de hoje porque somos massacrados. Não há como resistir", constata. Antunes procura ainda firmar elo com uma tendência contemporânea - a da desconstrução da obra -, presente, porém, em seu teatro há bastante tempo. Basta lembrar de Macunaíma, releitura do romance homônimo de Mário de Andrade, que gerou o texto de Jacques Thiériot. divisor de águas no teatro brasileiro. "Busco a desconstrução como diálogo positivo com a obra. Na verdade, é algo que sempre procurei. (Hans- Thies) Lehmann cita a encenação de Macunaíma ao abordar o teatro pós-dramático. Nem se pensava nisso na época, e sim na afirmação de uma estética", observa Antunes sobre o espetáculo com atores do Grupo Pau-Brasil (rebatizado, logo após, de Macunaíma). Estética é um termo amplo, mas num sentido mais restrito pode-se dizer que a do teatro de Antunes mudou. A partir das cenas do Prêt-à-porter e do mergulho nas tragédias gregas, o diretor tratou de reduzir em parte considerável o aparato cênico. "Fui abolindo a cenografia, ficando com o necessário. Quero valorizar o jogo entre os atores, o jogo de amareli-
nha, os desafios. Quanto menos cenografia houver, mais o espectador projetará sua imaginação em cena", garante Antunes, que, nos anos 1990, deslumbrou retinas com os aquários de Gílgamesh. A desconstrução não deve, portanto, ser percebida como desvalorização do texto. Até porque Antunes Filho fermentou sua carreira no contato com obras de inestimável valor, tanto no repertório brasileiro quanto no internacional. Foi assistente com os diretores estrangeiros que desembarcaram no Brasil e trabalharam no TBC, em especial com Adolfo Celi. Ingressou no Teatro íntimo Nicette Bruno e fundou o Pequeno Teatro de Comédia - montando Plantão 21, de Sidney Kingsley, e Sem entrada, sem mais nada, de Roberto Freire - e o Teatro da Esquina onde encenou A megera domada, de William Shakespeare, Black-out, de Frederick Knott, e A cozinha, de Arnold Wesker. Conduziu Maria Della Costa em Bodas de sangue, de Federico García Lorca, e Tome conta de Amelie, de George Feydeau. Antes de aderir de maneira contundente ao trabalho em grupo - primeiro com o Pau-Brasil/Macunaíma, depois no CPT -, Antunes esteve à frente de uma importante versão de Esperando Godot, de Samuel Beckett, interpretada por atrizes (Lelia Abramo, Eva Wilma, Lilian Lemmertz e Maria Yuma). No início dos anos 1960, fez um estágio com Giorgio Strehler, no Piccolo Teatro de Milão. "Assistia aos ensaios dele de peças como A visita da velha senhora e Ópera dos três vinténs", lembra, acerca dos textos de Friedrich Dürrematt e Bertolt Brecht, respectivamente. "Convivi com grandes atores e diretores, o que gera em mim uma certa melancolia. É uma alegria ter vivido tudo aquilo. E é triste que tenha passado", concluiu .•
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