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forma e conteúdo

são inseparáveis

na arte

Como se faz? Essa pergunta se relaciona com uma parte significativa da própria curiosidade que homens e mulheres têm sobre as artes, mas não apenas. Perguntamos “como se faz?” sempre que queremos entender mais sobre a “feitura das coisas” em geral, e o fazemos, provavelmente, há muito tempo. A própria etimologia da palavra arte deriva de “ars”, do latim, que por sua vez deriva de “tekné”, do grego, que significa o modo exato de fazer uma tarefa1. Esse não é o único sentido do termo, mas vale a pena lembrar o quanto a palavra arte ainda é muito utilizada no senso comum como sinônimo de realizar um ofício com grande domínio, como quando alguém diz “a arte de falar em público”, “ensinar é uma arte” ou, ainda, “futebol-arte”. Durante muito tempo, a arte no contexto escolar também foi entendida apenas como o fazer artístico, sendo, infelizmente, muitas vezes distanciada dos contextos dos fazeres , ou seja, da produção artística, como os ateliês, os museus e as galerias. A arte/ educação brasileira contemporânea, por influência de pesquisadoras como Ana Mae Barbosa e de outros, reconhece a importância do ensino de arte se articular entre a leitura de obras, sua contextualização e a produção ou o fazer artístico, o que caracteriza a chamada Abordagem Triangular2. O filósofo norte-americano John Dewey3 – importante referência para o ensino contemporâneo de arte – ao falar sobre o que ele define como experiência estética, compara o processo de quem produz uma obra de arte com o processo de quem a percebe e/ ou interpreta. Para Dewey, os dois processos têm finalidades distintas, mas são similares, na medida em que quem produz uma obra, a percebe/interpreta no decorrer do processo, num ciclo que se consuma na finalização do trabalho. Quem percebe/interpreta também faz um exercício de construção da obra, mas internamente, de significação. Arte é mais do que o fazer artístico, mas a produção é um elemento essencial das artes visuais. Esse entendimento é o ponto de partida do texto deste encarte, parte do material Trocas e Olhares, que tem como eixo a pergunta “como se faz?”. Curiosamente, o texto trata da produção artística a partir de exercícios

de leituras e contextualizações, enfatizando a importância da conexão entre esses elementos para o ensino de artes visuais. Trocas e Olhares é um material que parte do princípio da curiosidade sobre como os artistas fazem suas obras e busca, na forma de texto, reproduzir as experiências – estéticas – de olhar e dialogar sobre obras de arte, sobretudo a partir da potência e da liberdade do olhar infantil. Este material busca uma coerência entre forma e conteúdo, aqui entendidos como inseparáveis, e apresenta aos seus leitores uma proposta educacional em forma de diálogo sobre algumas obras do Acervo Sesc de Arte Brasileira. Em cada um dos encartes, podemos ler conversas específicas sobre obras selecionadas. Essas conversas buscam, sobretudo, informar e inspirar leitores que se reconheçam como educadores, em contextos diversos, com ou sem formação prévia em artes visuais. Isso inclui professores de escolas, profissionais de educação não formal e até mesmo pais atentos à formação cultural de seus filhos. O texto é propositadamente escrito em uma linguagem rica em oralidade, baseado em conversas reais entre um adulto e uma criança, e apresenta a perspectiva de educação como mediação cultural. Logo, expressões informais e gírias fazem parte da proposta. Além disso, informações complementares e indicações de pesquisa são trazidas em textos paralelos, na busca de manter o fluxo das conversas.

1 BOSI, Alfredo. Reflexões sobre arte. São Paulo: Ática, 2000. 2 BARBOSA, Ana Mae. Mediação cultural é social. In: BARBOSA, Ana Mae; COUTINHO, Rejane G. (org.). Arte/educação como mediação cultural e social. São Paulo: UNESP, 2009. 3 DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins, 2010.


Como

se faz?

– Oi. Como estão as coisas? Que tal termos mais uma conversa sobre o Acervo Sesc de Arte? – Oi. Claro! Quer dizer... vai ser do mesmo jeito que a outra conversa? – O que mais interessa a você quando pensa em artes visuais? Como você gostaria que fosse essa conversa? – No que eu mais me interesso? Hum, deixa eu ver... Já sei! Como se faz estas obras de arte? Como os artistas fizeram? – Muito bem, chamamos de processos e procedimentos na arte. É muito importante, porque os artistas não criam suas obras sem isso. – Como assim? O artista primeiro não bola a ideia e depois faz? – Bem, com certeza tudo sempre começa pelas ideias, e, mesmo existindo muitas técnicas, algumas até milenares, cada artista encontra seu próprio método, jeito de fazer, de usar os materiais... Mas o que eu estou querendo dizer é: enquanto o artista faz uma obra de arte, ele continua criando até que chegue ao fim. As dificuldades e surpresas que ele encontra no caminho influenciam o seu processo de criação. – Deixa eu ver se entendi: é como quando eu pego um pedaço de papel, mas um papel diferente, não muito liso, com uma... Ah, uma textura, sabe, diferente... e tenho uma ideia de um desenho na minha cabeça; mas, quando eu começo a desenhar, a tal da textura do papel meio que atrapalha, e eu não consigo fazer do jeito que eu pensei. Aí eu acabo pensando num desenho diferente, que dê pra fazer naquele tipo de papel. É isso? Isso já aconteceu comigo...

– Este seu exemplo é incrível! É isso mesmo! Por isso que a criação artística não é apenas uma questão de inspiração, como se surgisse na cabeça das pessoas como se fosse mágica. Envolve aprendizado, técnica, muita pesquisa... – Esta aqui [obra Nuno Ramos] deve ter dado um trabalhão, não é?! – Com certeza! Diz aí o que você está vendo então. – Bem, são duas pedras. E uma delas tem um símbolo egípcio. Não, olhando de perto, não é um símbolo, é um furo na pedra e tem alguma coisa tampando. A outra pedra, parece que tem um corrimão, sei lá... Ah, é um objeto dentro da pedra, mas eu não conheço. Parece um rolo de pintar parede. – Rolo de pintar, entendo! Bem, parece que você não conhece mesmo esse objeto. Sabe que é uma bateria? De música? – De rock?! Ah! Tô ligado, isso é aquele negócio em que o baterista pisa para tocar aquele tamborzão. – É o pedal da bateria, que serve para tocar o bumbo. Nessa foto fica difícil de ver, mas na outra pedra tem um trombone. – Entendi. Então estas pedras são embalagens, caixas para guardar instrumentos musicais. É meio pesado para isso, não é?!


– Hahaha! É bem pesado! Você sempre faz interpretações que me surpreendem. Este artista, o Nuno Ramos, ele costuma fazer relações com música em seus trabalhos. O nome deste trabalho, por exemplo, é “8 batutas”. – Batuta? Acho que já ouvi minha avó falar isto para alguma coisa que ela achava legal... – Batuta pode ser uma gíria, não muito usada hoje em dia, mas também é o nome daquela varinha que os maestros usam para reger as orquestras. E “8 batutas” era o nome de um conjunto, dos anos de 1920, de um músico importantíssimo da história da música brasileira: o Pixinguinha1.

1 Pixinguinha é como ficou conhecido o um importante instrumentista, compositor, orquestrador e maestro, Alfredo da Rocha Vianna Filho, que nasceu em 1897 no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1973. Ele chegou a compor valsa, polca, maxixe, samba, mas seu trabalho de maior destaque foi o choro. Ele usava elementos da música afro-brasileira e da música rural nos arranjos de suas composições. (http:// enciclopedia.itaucultural.org. br/pessoa12197/pixinguinha)

– Legal. Será que eles levavam seus instrumentos em pedras? – Hahaha! Acho pouco que é pouco provável, mas existem várias relações simbólicas que podemos fazer sobre isso, como, por exemplo, música e silêncio... Mas, vamos para o nosso ponto de interesse: como ele fez isso? – Ele deve ter procurado as pedras com buracos onde ele conseguisse encaixar esses instrumentos. – É uma hipótese... Mas esse buraco não está muito certinho? Com um formato muito igual ao do instrumento? – É, pode ser que o artista tenha feito. Ele deve ter usado uma britadeira.

– Existem ferramentas específicas para cortar pedras e muito provavelmente não foi o próprio artista que fez, mas contratou outro profissional para fazer. – Ué, mas não tem que ser o próprio artista que faz a própria arte? Ele pode chamar alguém para fazer? – Claro que pode. Do século XX para cá ficou mais clara a ideia de que o artista pode criar o projeto da obra, mesmo que não seja ele mesmo que faça tudo. Na verdade, isso sempre existiu. Pensa num monumento, por exemplo. Dá para fazer sozinho? – Não... Puxa, sabe que eu nunca tinha pensado nisso?

Nuno Ramos 8 Batutas (Trombone de Vara e Pedal de Bateria), pedra sabão e instrumento musical, 80 x 160 x 100 cm e 70 x 50 x 100 cm, 2011

EfraiN Almeida Sem título, instalação escultórica em madeira umburana sobre parede, medidas variáveis, 2011

– O Nuno Ramos é um artista que começou na pintura, depois foi acrescentando objetos em suas telas, que ficaram cada vez mais volumosas, mais “gordas”. Ele começou a se interessar por muitos materiais diferentes, com combinações “estranhas”, como mármore e rezina, por exemplo. Ele passou a fazer trabalhos tridimensionais de vários tipos, até que chegou em grandes instalações. – Instalações? Tipo de fios, com eletricidade? – Hahaha! Não é bem isso na arte. Veja, este trabalho aqui [obra Efrain Almeida] é uma instalação.


– Nossa, é até difícil de entender pela foto. Tem várias coisas num lugar que parece ser bem grande. – É difícil de entender pela foto justamente porque as instalações são trabalhos que envolvem o espaço, geralmente em grandes proporções, e que “pedem” que as pessoas se relacionem com eles “entrando” nesse espaço, muitas vezes usando sentidos que não só o da visão, como a audição, o tato, e por aí vai... Nesse trabalho, o sentido é da visão mesmo, mas nessa ideia de “entrar” no espaço da obra. – Olha, são passarinhos! São passarinhos, pequenininhos, que formam uma obra bem grandona!

2 O Monumento às Bandeiras foi idealizado pelo escultor italiano Victor Brecheret (1894 - 1955) e inaugurado em 1953, após 30 anos de trabalho. Ele representa os bandeirantes que “desbravaram o interior do território brasileiro em busca de riquezas”. Desde o final do século XX, abordagens interculturais questionam o valor simbólico deste monumento na cidade, que faria uma apologia aos bandeirantes e, consequentemente, ao extermínio de indígenas promovido por estes grupos no processo de colonização. (http://www. prefeitura.sp.gov.br/ cidade/secretarias/cultura/ patrimonio_historico/adote_ obra/index.php?p=4526) Acesso em: 05 mar. 2017. 3 Menção à obra presente no primeiro encarte desse material, de José Bezerra. Homens Sertanejos, escultura em madeira, 117 X 115 X 40 cm, 2008.

– Ótima observação! Falamos em monumentos e podemos lembrar do “Monumento às Bandeiras” de Victor Brecheret2, que fica em frente ao Parque do Ibirapuera, que é enorme, todo feito em granito. Já este artista, o Efrain Almeida, cria uma obra que também é monumental, mas com muitos passarinhos de madeira extremamente delicados. – Achei que esse monumento do parque se chamava Empurra-empurra... Olha, os passarinhos são mesmo de madeira. Sabe que até lembra aquele artista dos homenzinhos sertanejos3?!

– Bem, na verdade não há muitas informações disponíveis sobre essa obra, mas podemos observar que ela tem aspectos que se ligam com essa nossa conversa. Quais materiais o artista usou para fazer este trabalho?

– Não por acaso, porque esse artista, o Efrain Almeida, tem um trabalho que se relaciona com a arte popular, por isso você lembrou do José Bezerra, que ainda tem em comum o uso da madeira.

– Deixe eu ver... Parece carvão, na parte de cima. Na parte de baixo, parece que é a mesma pedra, mas dessa cor vermelha ou laranja, com estas faixas cinzas no meio...

– Então, mesmo que esse artista tenha esculpido cada um desses passarinhos – que trabalhão! – não foi ele que prendeu sozinho tudo na parede, certo?! Deve ter precisado de uma galera... – Isso mesmo. Relembrando que isso não faz o trabalho ser “menos dele”, só porque não fez tudo sozinho. – Esta aqui [obra Pazé] também é grandona, não é?! Parece menor, mas também é grande, e com certeza não dá para fazer sozinho.

– Este é um dos problemas de ver esculturas por meio de fotografias, nem sempre é possível ver a obra como um todo. Talvez você consiga ver olhando mais de perto, mas a obra é feita toda de pequenos canudos colados, com comprimentos diferentes, que criam estes relevos. – Caramba! Isso é muito irado! Nunca que eu imaginaria fazer algo assim com canudinho. Bem que meu professor de artes podia fazer alguma coisa deste tipo na escola... – O material é algo muito importante nas artes visuais, e, mesmo não usando materiais “nobres”, é possível fazer trabalhos incríveis, tudo depende de qual é a proposta e também de pesquisar o uso de materiais. Certamente são necessários muitos testes até chegar em um bom resultado.


– Sabe, o trabalho dos passarinhos e esse têm coisas parecidas: os dois usam coisas pequenas, mas um montão delas, para fazer uma coisa que fica bem maior, grandona. Além disso, nesses dois trabalhos, você tem uma impressão quando olha de longe, mas quando chega perto é bem diferente. – Seu olhar está sempre atento, heim?! É importante lembrar que, além de explorar as características de diferentes materiais, esses artistas – incluindo o Nuno Ramos – exploram também o uso do espaço em suas obras. – Este aqui [obra Sérgio Sister] também, certo?! Afinal, isto aqui é uma caixa, colorida, mas uma caixa. – Olha que você já começou acertando o nome da obra: Caixas! A cor também é uma coisa muito importante nessa obra. Acontece que ela não é uma escultura, mas uma pintura. – Pintura? Como assim? Não tem que ser numa tela então?!

– Que é importante, para descobrirem o que conseguem fazer com os materiais e para acharem o jeito deles de usar. – Pois o Sérgio Sister pesquisa a pintura, não apenas na teoria, mas principalmente na prática. Nestas caixas de madeira – aquelas de feira mesmo – ele explora o uso das cores sobre as ripas e também os diferentes efeitos da luz sobre elas, por conta do volume e das fendas. – Você está querendo dizer que as cores mudam dependendo do jeito que olhamos para essas caixas?! – Sim, dependendo principalmente de como a luz se projeta sobre elas. – É, faz sentido agora, mas se você não tivesse explicado ia ser difícil de entender esta história disso ser uma pintura. – Você certamente poderia apreciar a obra independentemente disso, poderia fazer muitas interpretações, mas também é importante conhecer as informações sobre a obra e o artista: sempre enriquece a experiência com as obras de arte.

– Bem, imagino que já tenha ficado claro que, já há mais de 100 anos, os artistas vêm trabalhando com mais liberdade, buscando materiais e técnicas diferentes, ultrapassando cada vez mais as fronteiras da arte na sua forma mais tradicional. – É, agora que você falou... – Este artista, o Sérgio Sister, já produz desde os anos 1960 e com interesse especial na pintura. O que eu já falei sobre os artistas pesquisarem materiais?

Pazé Negro e Marrons. Instalação – tríptico, 240 x 33 x 100 cm (cada módulo), 2003

Fabrício Lopez Sem título. Matriz de xilogravura, escultura em madeira, 180 x 320 cm, 2010 Sem titulo. Xilogravura – papel kozo, 180 x 320 cm, 2010

Sergio Sister Caixas. Óleo sobre madeira, dimensões variáveis, 2009 / 2014


– Bem, já que a gente está falando de pintura e de madeira, este trabalho aqui [obra Fabrício Lopez/matriz] também parece uma pintura feita na madeira, só que em preto. – Hum... Sim, isso é madeira e, sim, está pintada. Porém, para pensarmos melhor sobre essa imagem, precisamos vê-la junto com esta aqui [obra Fabrício Lopez/Gravura]. – Olha... São diferentes, mas são meio iguais. É como se um estivesse mostrando um lado do que a pessoa viu e o outro mostrasse o outro lado, mas são feitos com materiais diferentes. Uma eu tenho certeza que é madeira, mas a outra, sei lá... parece vidro, mas não dá para fazer isso com vidro... – Bem, realmente não é de vidro esta segunda, mas o que você falou destas imagens serem dois lados de uma mesma “cena” é pertinente. Já viu um carimbo? Sabe como funciona? – Sim. É um negócio que tem umas marcas de letras ou imagens... a gente passa numa tinta, põe no papel, que fica com a marca do carimbo. – Exato. Existe uma técnica artística que usa este mesmo princípio: a gravura, no caso, a xilogravura. O artista cria uma imagem numa matriz de madeira – que passa a ser o carimbo – escavando, deixando o que vai ser pintado em alto relevo e o que não vai ser pintado em baixo relevo. Depois, o artista passa tinta sobre a madeira, coloca o papel sobre a matriz e, com a ajuda de uma prensa ou outro objeto que pressione o papel, imprime a gravura.

– Para uma obra única, seria. Mas além do bonito efeito que o artista consegue com a textura da madeira, que não dá para ter fazendo no papel, tem também o fato de que a gravura é como um carimbo, então pode-se fazer várias cópias de uma mesma imagem. Podemos dizer que essa foi a primeira “impressora”, não só de imagens, mas de livros, lá no século XV4. Lembra daquela obra do J. Borges5? Também era uma xilogravura. – Ah, agora fez sentido. Aí as duas viram obra de arte: a matriz e a gravura? – Nem sempre. Na verdade, tradicionalmente, não. No caso da arte, normalmente é feito um número determinado de impressões – 100, por exemplo – e depois a matriz é destruída. Mais recentemente é que algumas matrizes passaram a ser vistas como obras de arte também, por algumas instituições, como nesse caso. – Eu gosto bastante da matriz! Opa, agora entendi porque as imagens são “iguais”, mas de lados opostos, como no espelho. Sabe, uma vez eu li um gibi que quando um personagem falava, e não dava para entender o que estava escrito nos balões, aí eu coloquei no espelho e consegui ler. – Que legal! Sobre a inversão, é isso mesmo, assim como os carimbos, que também têm letras e imagens invertidas, para sair “certo” no papel. – Sabe de uma coisa? Os artistas têm mesmo que aprender muita coisa para fazer em seus trabalhos... – Aprender, pesquisar e experimentar muito! Olha esta imagem, de uma obra de um fotógrafo brasileiro [obra de Marcelo Buainain].

– Entendi, mas por que todo esse trabalho para imprimir uma imagem? Não é mais fácil desenhar ou pintar direto? 4 No século XV o alemão Johann Gutenberg inventou os tipos móveis, e com isso um revolucionário processo de impressão que possibilitou grandes tiragens de livros. As letras eram fundidas uma a uma em metal e com a imagem espelhada. “Cada tipo era posto em uma matriz para dar forma a página do texto”. Depois recebiam uma tinta e passavam por uma prensa para serem impressas. (https:// www.printi.com.br/blog/tiposmoveis-criacao-da-tipografia). 5 Menção à obra presente no primeiro encarte deste material, de J. Borges. Coco de Roda. Xilogravura, 47,5 x 64 cm, 1996.


– Crianças brincando na praia. É muito antiga essa fotografia? Está em preto e branco, se bem que é fácil dar este efeito... – Na verdade é mais velha que você, mas não é muito antiga: é de 1999. Mesmo não fazendo tanto tempo assim, ele usou técnicas fotográficas, que já existiam faz muitos anos. Sabe como funciona a fotografia? – A máquina capta a imagem e congela, não é isto? – Você está falando da fotografia digital. As câmeras fotográficas antigas funcionavam como o nosso olho: a luz refletia nas coisas e entrava por um buraquinho, formando a imagem. No caso das câmeras fotográficas, a luz atinge uma película com um preparo químico especial, onde a imagem fica registrada. – E esta imagem é a fotografia, certo?! – Sim, mas a imagem na película era um negativo, que funcionava como a matriz da gravura, que, depois de revelado, era de onde se faziam as ampliações em papel fotográfico, as imagens “positivas”. Enfim, isso é um jeito mais simples de explicar, tem muito mais do que isso. – Quer dizer que nosso olho está fotografando tudo o que a gente vê o tempo todo? Acontece que não é numa película ou papel, mas no nosso cérebro?

– Acho que podemos dizer que sim, engraçado, né? Para além da técnica, a fotografia como arte explora o olhar, para escolher os ângulos e momentos “perfeitos”, como nessa que estamos vendo. – É bem bonita mesmo. Ele escolheu um momento realmente “perfeito”. – Fotógrafos não registram apenas imagens bonitas, de momentos alegres como este, mas buscam um olhar especial para o que fotografam. Por isso, mesmo a fotografia sendo tão próxima à realidade, sempre é um olhar de quem a tirou. – Entendi. Eu gosto muito de ver fotografias! – Que bom! Então quero te apresentar um artista que fez muitas experimentações. Olha esta imagem [obra Geraldo de Barros]. – Uma fotografia de um muro, mas tem um desenho. Ele completou umas linhas de rachaduras no muro e desenhou uma cabeça. – É uma fotografia de um muro, e, sim, há um desenho, mas não foi feito no muro. Lembra do que eu falei sobre o negativo? Ele desenhou com tinta nanquim no negativo e depois fez a ampliação nesta fotografia. – Legal, mas não era bem mais fácil fazer isso no computador?

Marcelo Buainain Roda - Praia de Puri. Fotografia, 40 x 60 cm, 1999 Geraldo de Barros Sem Título. São Paulo, desenho com nanquim sobre negativo perfurado, 55 x 44 cm, 1948

– Em 1948? Não existiam computadores pessoais e muito menos smartphones. Ele explorou muitos tipos de recursos mais artesanais, além de elementos como a luz, entre outros. Novamente, um bom exemplo do trabalho árduo de artistas pesquisando os materiais que têm à sua disposição e descobrindo possibilidades para criar seus trabalhos.


comum vermos trabalhos feitos por coletivos de artistas... Mas, você falou pontos grandes?! Que relação isto tem com a tecnologia atual? – OK, mas e hoje em dia? Temos smartphones e computadores que têm apps e programas que fazem todas essas coisas e muito mais. Será que os artistas ainda fazem toda essa pesquisa? – Bem, na verdade conversamos bastante sobre muitos artistas que estão pesquisando e realizando seus trabalhos atualmente. Muita coisa muda o tempo todo, mas me parece que os artistas continuam aprendendo a fazer o que já foi feito por outros no passado e também buscando novos caminhos. Aliás, isso tem muito a ver com o nosso último trabalho [Obra Gisela Motta e Leandro Lima]. – Parecem televisões. São vídeos? – Estes artistas trabalham com arte e tecnologia, sendo que muitas obras são em vídeo, mas esta obra não. – Estes artistas? Mais que um? Então quer dizer que estas imagens estão paradas? – Sim, são dois, na verdade um casal, uma mulher e um homem. Sim, as imagens são “paradas”. – Puxa, um casal de artistas, fazendo arte junto, diferente... Se as imagens estão paradas, mesmo sendo feitas com luzes, são como fotografias, mas formadas por pontos grandes.

– Coletivos?! Ah, quer dizer que é mais que um, entendi... Bem, a fotografia digital é feita por vários pontos, os pixels, mas são pontos muito pequenos. E esses, mesmo grandões, também formam as imagens destas mãos, como se fosse um “pare”. – Pois é, nos coletivos os artistas estudam e criam trabalhos conjuntamente. Pontos, pixels, luz, todos elementos que estão presentes nas pesquisas destes artistas, a Gisela Motta e o Leandro Lima. Bem, o nome do trabalho é “do not”, do inglês, que quer dizer... – “Não faça”, certo?! Então mandei bem com o “pare”. – Mandou, sim. E mandou muito bem nas nossas conversas. Espero que tenha sido legal para você. – Foi bem legal! Você me ensinou muita coisa sobre arte. – Estudei bastante e é ótimo poder ensinar coisas, mas aprendi muito com suas interpretações. O mais legal disso tudo é que foram conversas, momentos de troca. – Trocas de visões ou, usando essas palavras bonitas que você gosta de dizer, trocas de olhares. – Hum...Trocas “e” olhares. Gostei disso!

– É, talvez não seja tão comum encontrarmos trabalhos feitos por um casal de artistas, mas é

Gisela Motta e Leandro Lima Do Not (#19, #20, #21, #22, #23, #24), backlight de matriz de led, 24 x 24 cm (cada módulo), 2011


BOSI, Alfredo. Reflexões sobre arte. São Paulo: Ática, 2000.DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins, 2010. DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins, 2010. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011. PIXINGUINHA. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia. itaucultural.org.br/pessoa12197/pixinguinha>. Acesso em: 20 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.

Bibliografia

BARBOSA, Ana Mae ; COUTINHO, Rejane G. (org.). Arte/educação como mediação cultural e social. São Paulo: UNESP, 2009. (p. 13)


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