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HISPÂNIA, AL-ANDALUS E SEFARAD: A EXPERIÊNCIA IBÉRICA MEDIEVAL

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Saymon da S. Siqueira

Figura 1 - Um judeu e um muçulmano jogando xadrez no século 13 em Al-Andalus. El libro de los juegos (séc. XIII)

Wikimedia Commons contributors, "File:Al-andalus 229.png," Wikimedia Commons, , https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=File:Alandalus_229.png&oldid=226175766 . Acesso em 14 fev. 2018).

A península Ibérica foi protagonista de uma experiência cultural única em todo o Ocidente Medieval: a convivência entre cristão, judeus e muçulmanos durante oito séculos, portanto, o período circunscrito entre a ocupação islâmica (711 d.C.) e a conquista de Granada pelos “reis católicos” (1492 d.C.). Certamente, um período de tamanha extensão, exige um recorte específico, e justamente, este será o esforço deste libelo, a fim de demonstrar algumas perspectivas culturalmente interessantes, sobretudo, para o período medieval do Ocidente cristão e da interação cultural de três culturas distintas. Outrossim, torna-se interessante conhecer este evento no sentido de uma ressignificação do imaginário histórico existente, especialmente, em relação as Cruzadas e as tensões entre as culturas Ocidentais cristãs e Orientais islâmicas. Por fim, a intenção deste pequeno excerto é servir de fundamentação, ainda que bastante sintética e incipiente, para o conhecimento do referido fenômeno histórico.

Figura 2 – Califado de Córdoba no ano 1000 d.C. no apogeu do governo de Almansor. [**Verde: Califado de Córdoba **Azul: Reino da França (divide em vários feudos) **Branco: Reimo de Leão e Castela) **Vermelho: Reino de Pamplona **Laranja: emirado independente Banu Qasi emirate (aliado de Pamplona)]

Fonte: Wikimedia Commons contributors, "File:Al Andalus-c.1000-id.png," Wikimedia Commons, , https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=File:Al_Andalus-c.1000-id.png&oldid=251126743. Acesso em 14 fev. 2018.

Com isso, pode-se perceber que a conquista islâmica, em grande medida, se deu de forma pouco violenta, e tolerante com os povos cristãos e judeus, especialmente pela crença islâmica nos “povos do livro”. O processo de “arabização” que ocorreu na península incomodou nobres e clérigos, principalmente, pelo distanciamento do ideal políticocultural defendido por esses indivíduos, os quais refugiaramse no norte peninsular, devido a desordem do primeiro século da instalação islâmica e também pelo “declínio e perda de importância demográfica e social frente ao Islão” (RUCQUOI, 1995, p. 95-96). Mas, há que se pensar que, se um grupo apresentava descontentamento devido à presença e cultura que começava a se instalar no território peninsular, muitos foram os cristãos que compuseram a população de AlAndalus (a Espanha muçulmana).

Há que se ressaltar que, o contingente populacional que passou a compor Al-Andalus foi, portanto, bastante diversificado: cristãos, judeus, berberes, árabes e eslavos, são exemplos dos povos existentes no espaço. O destaque, porém, incide sobre a convivência intercultural de judeus, cristão e muçulmanos, e as significativas produções materiais e imateriais que produziram no espaço ibérico. No que se refere a arte e arquitetura, o período de maior esplendor cultural está legado a governança dos Omíadas de Al-Andalus, partindo da proclamação o emirado por Abd al-Rahman I em 756 d.C. e, principalmente, com a proclamação do Califado de Córdoba por Abd al-Rahman III em 929 d.C. É por meios materiais que se pode perceber a integração entre as culturas, especialmente, pela mesquita de Córdoba que se iniciou a partir do uso compartilhado da igreja de S. Vicente.

(MOMPLET, 2008, p. 28-35). Outros exemplos materiais e arquitetônicos existentes até os dias atuais são expressão da riqueza cultural do período em questão, como a cidade de Toledo, Córdoba, Alhambra entre outras.

Fonte: Wikimedia Commons contributors, "File:Capitel M.A.N. 06.JPG," Wikimedia Commons, , https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=File:Capitel_M.A.N._06.JPG&oldid=221874469. Acesso em: 14 fev. 2018.

Figura 3 – Capitel Cordobés

Os motivos artísticos empregados nas construções de AlAndalus, permitem conhecer e compreender diversos elementos da cultura muçulmana e da arte característica peninsular que passou a ser desenvolvida. Proibidos pelos ensinamentos sagrados do Corão de representar a forma humana, e herdeiros de influências culturais originadas do debate iconoclasta do Oriente, a arte islâmica concentrou sua atenção em motivos geométricos, vegetais e epigráficos (KLEIN, 2009). Além disso, a absorção de técnicas de outras sociedades fez-se muito produtiva nas construções em AlAndalus. Colunas e pedras romanas e visigóticas foram incorporadas, assim como técnicas gregas, bizantinas, persas e egípcias foram empregadas nas construções. Em contato com técnicas e costumes do oriente médio e outros ambientes áridos da península arábica, os muçulmanos forma mestres no uso da água e de fontes incorporados aos seus edifícios e decorações (PEDRERO-SÁNCHEZ, 2002, p. 32-35).

Os arcos de ferradura e lobulados, são marcas expressivas de sua arquitetura assim como a azulejaria e cerâmica empregadas em seus edifícios. Estes últimos, influenciaram em muito, as técnicas construtoras de Portugal, e que posteriormente foram levadas para a América portuguesa.

Figura 5 - Salón Rico o Salón de Abderramán III de la ciudad palatina de Madinat Al-Zahra, en Córdoba (España).

Fonte: Wikimedia Commons contributors, "File:Salon Rico 1.jpg," Wikimedia Commons, the free media repository, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=File:Salon_Rico_1.jpg&oldid=159544819. Acesso em 14 fev. 2018.

A arquitetura Omíada, além de reunir elementos diversos de outras sociedades, foi também meio de comunicação simbólico e imagético, com a intenção de representar a soberania e poder, sobretudo, da proclamação do califado de Córdoba. A este respeito, Madinat al-Zahra representou de modo inquestionável a função política que a arte e arquitetura ocupavam no mundo islâmico.

Por volta de 955 d.C, o califa criou quatro departamentos dirigidos cada um por um vizir distinto, a saber, um departamento para correspondência interadministrativa; um departamento para correspondência das regiões fronteiriças; departamento para transmissão de ordens e decretos; e departamento para tratar das queixas e assuntos dos governados (FIERRO, 2011, p. 125), além da presença de outros órgãos da chancelaria e da casa da moeda. Ou seja, efetivamente a cidade palácio, representava em sua estrutura física e administrativa, a pujança do poder califal cordobés e, marca a inovação de pensamento para o período vivenciado pelo Ocidente cristão, que por sua vez estava ruralizado e orientado pelo dinâmica feudal.

Se a cidade palácio pode representar um produto específico da cultura islâmica, distante do mundo Ocidental, a cidade de Córdoba por sua vez, indica a capacidade de transformação cultual que a península vivenciou. Conhecida como “a jóia do mundo”, a dinâmica atribuída a cidade pelos cronistas árabes demonstra uma realidade diferente do norte peninsular. A grande mesquita de Córdoba com seu pátio de colunas é um exemplo material da riqueza cultural e das transformações produzidas no espaço ibérico. Há que se destacar que, assim como a cidade palácio encantava as embaixadas que a visitavam por sua beleza, Córdoba igualmente impressionava por sua infraestrutura, ruas pavimentadas, redes de esgotos, iluminação pública e banhos públicos. (PEDRERO-SÁNCHEZ, 2002).

O fluxo entre essas cidades era significativo, e demarca a vivacidade existente na região:

Al-Andalus converteu-se em importante centro comercial e cultural. Os contatos entre o mundo islâmico e a Europa, mediados por Córdova, intensificaram-se durante o século X. Al-Andalus importava do oriente escravos, especiarias sedas e objetos de luxo; e exportava para o norte da África e os reinos cristãos vinho, azeite, tecidos, produtos de couro e cerâmica. (PEDRERO-SÁNCHEZ, 2002, p. 12)

Se faz essencial notar que, elemento interessante para todo o período é o comércio. As atividades comerciais possibilitaram intercâmbio sociocultural entre povos que se avizinhavam a conflitos político-culturais.

Figura 7 – Mesquita de Córdoba (imagen aérea)

Fonte: Wikimedia Commons contributors, "File:Mezquita de Córdoba desde el aire (Córdoba, España).jpg," Wikimedia Commons, the free media repository, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=File:Mezquita_de_C%C3%B3rdoba_desde_el_aire_(C%C3%B3rdoba,_Espa% C3%B1a).jpg&oldid=282249662 Acesso em: 14 fev. 2018.

Outrossim, ainda que o processo de demonização do elemento islâmico tenha se acentuado entre os séculos X e XII no espaço franco (FLORI, 2013, 245-249) especialmente as voltas da preparação da Primeira Cruzada (1095-1099), as relações diplomáticas e comerciais entre o norte peninsular e Al-Andalus eram preferidas em vez dos confrontos belicosos (CARRASCO MANCHADO et al., 2009, p. 47-50), além da existência de relações de trocas comerciais e artísticas entre Córdoba e outros Estados europeus, africanos e orientais. O envio de arquitetos bizantinos para Al-Andalus para auxiliarem na construção da mesquita aljama de Córdoba é expressão máxima das pacíficas relações de intercâmbio existentes.

Figura 8 – Vista panorámica del casco histórico de Toledo.

Fonte: Wikimedia Commons contributors, "File:Toledo Skyline Panorama, Spain - Dec 2006.jpg," Wikimedia Commons, the free media repository, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=File:Toledo_Skyline_Panorama,_Spain_Dec_2006.jpg&oldid=178197827. Acesso em: 14 fev. 2018.

A cidade de Toledo pode ser também considerada expressão deste intercâmbio cultural, porém, de ordem imaterial ou intelectual. A mais famosa de suas manifestações culturais é a “Escola de Tradutores de Toledo”, entre os séculos XII e XIII. A partir da interação e trabalho mútuo de sábios judeus, muçulmanos e cristãos, obras clássicas foram recuperadas e reinseridas no Ocidente, assim como conhecimentos inéditos foram produzidos.

Mas, além da riqueza intelectual existente, é significativo perceber novamente a interação e convivência pacífica (em sua maior parte) das três culturas no espaço de Al-Andalus. Em relação a isso, a Cronica Adephonsi Imperatoris (século XII) oferece interessante relato: Quando o povo ouviu que o imperador [Afonso VII] vinha a Toledo, todos os príncipes dos cristãos, dos sarracenos e dos judeus e toda a plebe da cidade saíram ao seu encontro e com tímpanos e instrumentos musicais, cada um na sua língua, o aclamavam. (CRONICA ADEPHONSI IMPERATORIS apud PEDRERO-SÁNCHEZ, 2002, p. 18).

Por esse motivo, é possível compreender a existência simultânea de “três unidades político-culturais distintas: a Espanha cristã (ou Hispânia); Al-Andalus (a Espanha muçulmana); e Sefarad (a Espanha judia)” (PEDRERO-SÁNCHEZ, 2002).

O bicho-da-seda também foi levado para a península, além de outras produções, como azeite, algodão e outros tecidos. Ademais, cada localidade produzia algo característico: Almeria produzia vidro e objetos de latão. Jaén e Algarves eram conhecidas por suas minas de ouro e prata. Córdoba pelo ferro. Toledo, a exemplo de Damasco, era famosa em todo o mundo pelas usa espadas. Málaga, pelos rubis. A arte de adornar ferro ou outros metais com ouro e prata e obter efeitos decorativos, introduzida em Damasco, floresceu na Espanha [...]. (SALINAS, 2009, p. 212)

Com efeito, os avanços introduzidos pelo califado de Córdoba deixaram traços permanentes na dinâmica peninsular, mesmo após a tomada do poder pelos reinos cristãos.

Elemento notável foi também a tolerância religiosa e cultural, longe de proibir os cultos já existente, o poder muçulmano permitiu sua continuidade, incluindo até mesmo certos benefícios e hierarquia, com a condição de tributarem ao poder central e aceitarem seu domínio. O evento dos mártires de Córdoba está mais associado a tentativa por parte de cristãos mais “radicais”, em resgatar um cristianismo primitivo, do que propriamente evento de agressão espontâneas por parte do poder islâmico. Em suma, a capacidade de absorção cultural dos muçulmanos, proporcionou uma experiência única no espaço do Ocidente Medieval.

Por fim, muitos aspectos foram apenas sugeridos neste excerto, mas a intenção, é demonstrar a interação cultural singular ocorrida no espaço Ibérico, e que deixou permanências nos povos espanhóis e portugueses. Segundo Sérgio Buarque de Holanda (1976, p. 22), a plasticidade social dos portugueses se deve ao fato de não possuírem o orgulha obstinado de raça, como Europeus do norte, o que contribuiu para a fixação e adaptação dos colonizadores nas terras da américa portuguesa.

Há que se pensar que a imagem dicotomizada e distante proposta para as relações entre cristãos e muçulmanos, não se verifica com o mesmo rigor e severidade na península Ibérica, e a perseguição aos judeus, por muito tempo foi abrandada em Al-Andalus, mesmo em tempos do domínio cristão, como no reinado de Fernando III, que se recusou a acatar as determinações do IV concílio de Latrão, que determinou a separação entre judeus e cristãos, além de aumentar as animosidades.

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