NR 17_O SUL_JUN_2011

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06 . 11 Por-

tugal é hoje um país sonâmbulo. 600 000 desempregados, 2 milhões de pobres, outros tantos em risco de o ficarem se os apoios do Estado se esvaírem, 4 milhões de analfabetos funcionais, 85 % de pequenas empresas instáveis com menos de 10 trabalhadores, uma escala etária em acelerado processo de inversão e uma taxa demográfica de regeneração a rasar o nulo, uma oligarquia político-económica constituída por 50 000 burocratas impiedosos (a maioria ligada ao Partido Socialista e ao Partido Social Democrata) que se apoderou ferreamente da totalidade das estruturas administrativas do Poder e cujo nível cultural sobre a história de Portugal e comoção sentimental face à pobreza são praticamente inexistentes, um sector imobiliário envelhecido de casas apertadíssimas de duas e três assoalhadas, uma política que se apoderou de todos os espaços públicos patrimoniais, exigindo subidos pagamentos para a sua frequência, esperas de 4 horas em serviços médicos de urgência e de meses e por vezes anos para uma simples operação às cataratas, 3 a 4 meses para uma operação de urgência a um cancro. Subúrbios miseráveis próprios do terceiro-mundo, um relativismo ético entre os cidadãos que imita a corrupção nos negócios do Estado e a total falta de ética presente na vida de políticos conhecidos, cujo exemplo (i)moral reside no oportunismo partidário, na ocupação desenfreada e terrorista de funções públicas sacando do Estado o máximo possível em honorários e regalias sob a complacência e o aproveitamento do Presidente da República, que ao país dá um fervoroso exemplo de como se deve ser um cidadão oportunista recebendo duas chorudas pensões de reforma: uma autêntica mancha podre que infecta a totalidade da vida nacional e corrói a dignidade de qualquer cidadão eticamente nobre, que só deseja afastar-se de tal gente. Com tal gentalha imoral que se assenhoreou dos postos governativos e dos lugares do Parlamento, meras cabeças de rebanho, totalmente desprovidos de cultura, Portugal não tem outro destino que seguir as soluções formatadas que fizeram da França, da Itália e da Inglaterra países hoje historicamente decadentes. E o português nada faz, reverencia santamente um presidente da república que se encontra no poder há 25 anos, responsável por erradas opções políticas desenvolvimentistas e de apoio ao consumo que tornaram Portugal um dos países socialmente mais desequilibrados da Europa, um ex- e um actual

primeiro ministro de boca cheia de Europa, envergonhado do atraso tecnológico e da pobreza dos seus concidadãos… e Portugal nada faz para contrariar esta situação a não ser as clássicas e esgotadíssimas manifestações trimestrais da CGTP. Um classe média instável e uma classe alta constituídas por menos de 500 0000 de portugueses fazem a economia portuguesa girar, trocam de carro de três em três anos, viajam em auto-estrada, enchem as lojas dos centros comerciais, fazem férias no estrangeiro, vivem no litoral, consomem (poucos) jornais, livros, revistas e espectáculos, inundam as lojas “gourmet” e não frequentam os hipermercados, abarrotados com os dois milhões de pequeno-burgueses que habitam os bairros suburbanos do Cacém, do Seixal e do Valongo, consumindo barato e de fraca qualidade. Meio milhão de portugueses (classe média alta e classe alta) constitui o rosto do nosso subdesenvolvimento, proporcionalmente semelhante ao Brasil (10 milhões de muito ricos para uma população de 240 milhões), Argentina (um milhão de ricos para cerca de 10 milhões de habitantes) e da Índia (menos de 100 milhões de ricos para um bilião e 200 milhões de habitantes). Este, também, o resultado das políticas portuguesas cavaquistas tomadas ao longo de 30 anos, assente mais na construção e no consumo e menos na formação e produção, Contrária à nossa, que não ultrapassa os 15 % (contando a totalidade da classe média) a classe média de um país atinge, na Europa, a proporção de 60 % da população, permitindo, sob o descalabro e o decadentismo político, uma vida socialmente normal e um cidadão ilustrado e activo. A progressiva e aceleradíssima informatização electrónica da sociedade por via de uma ideologia sem rosto nem personalidade, assente exclusivamente no controle e na segurança; a funda queda demográfica anunciada para meados deste século, provam a existência de uma profundíssima descristianização de Portugal, de efeitos absolutamente imprevisíveis na criação de uma sociedade futura desprovida de éticas espirituais assentes em valores humanistas, porventura obediente a um totalitarismo tecnocrático e informático, pelo qual os portugueses vindouros abdicarão da liberdade em nome da segurança e da abastança. Desde a década de 1990, o aparelho de Estado, privilegiando exclusivamente um sector da sociedade – a economia –, desprezando fundo os valores morais e espirituais próprios da cultura portuguesa, tem gerado na mente dos portugueses uma representação parcial de si próprios, que, incapaz de se elevar à unidade de uma ideologia estruturada e consolidada, se caracteriza pela passividade cívica, compensada por uma hipervalorização do individualismo, assente na fórmula amoral do “salve-se quem puder”. Mistura de complexo pombalino com um arreigado individualismo americano, o projecto político português caracteriza-se hoje, no princípio do século XXI, pela exaltação unidimensional do homem técnico, o homem-eficiente, o homem-contabilista, o homem-robóti-

Portugal hoje

NR 17

ano: 2011 . nr 17 . mês: junho . director: António Serzedelo . preço: 0,01 €

co, desprovido de consciência histórica global, funcionando exclusivamente segundo o duplo horizonte de raciocínios técnicos quantitativos e consequentes objectivos. Não são políticos os nossos governantes de hoje, mas economistas (os novos falsos profetas do século XXI), técnicos, robots substituíveis uns pelos outros, possuindo o mesmo vocabulário, aplicando invariavelmente o argumentário da eficiência de custos e proveitos, totalmente desacompanhados de uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade. Bom governo seria hoje aquele que, por múltiplos meios, apostasse em fazer de cada português, não um robot técnico de fato cinzento, camisa azul e gravata verde ou amarela (actual fato-macaco do cidadão técnico), que é sempre um cidadão inconscientemente instrumento de cruéis estruturas económicas, mas um homem culto, consciente do seu lugar na sociedade e na história. Portugal precisa menos de um choque tecnológico (experimentado pelo pombalismo, pelo fontismo e pelo cavaquismo, cujas consequências em nada mudaram o nosso ser, limitando-se a uma mera actualização de instrumentos técnicos ao serviço da sociedade civil e do aparelho de Estado) e mais de um choque cultural, elevando cada cidadão a um exigente patamar de conhecimento humanista e cívico que, por arrasto, geraria inevitavelmente o desejado choque tecnológico. Primeiro, a cultura, o espírito, o sentido da transcendência histórica; depois, por inevitável arrasto de exigência cívica, o progresso tecnológico. A brutal inversão destes valores pelos actuais governantes evidencia tanto a sua pobreza de espírito quanto o projecto pombalino desumanamente tecnocrático em que se encontram empenhado, expresso na actualização informática e metodológica da escola, desacompanhada do reforço de uma visão humanista e cultural da escola, tendente a complementar tecnicamente a consolidação de um universo ético na escola fundado nos valores da dignidade, da partilha, da solidariedade, da honestidade, da lealdade, da honradez. Miguel real

um país sonâmbulo


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