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NR 15_O SUL_ABR_2011

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NR 15

ano: 2011 . nr 15 . mês: abril . director: António Serzedelo . preço: 0,01 €

ACTUALIDADE DE EÇA Os romances, contos e crónicas do Último Eça refulgem hoje com uma actualidade inusitada. Sob a diferença da conjuntura, vibra hoje, estruturalmente, o mesmo Portugal que Eça conheceu nas décadas de 80 e 90 do século XIX: instituições bloqueadas ou ineficazes (Justiça, Educação, Saúde), uma classe política genericamente medíocre - refugo, em todos os partidos, das notáveis direcções refundadoras da democracia -, uma Assembleia da República de funcionários, em que mais sobeja o interesse do que o pensamento, um empresariado especulativo, assente no betão e no comércio de curto prazo, elites jogando com a sorte, visando a fama sem o suor do estudo e do trabalho, um povo bárbaro rastejando em Fátima ou ululando em estádios de futebol, de olhos grudados numa televisão vocacionada para mentes imbecis, frequentando os delirantemente maiores centros comerciais da Europa. Sabemos hoje que o Regicídio e a República não foram solução, desembocando na mais longa ditadura europeia do século XX, fazendo-nos regredir a uma mentalidade eclesiástica fundada no analfabetismo, na miséria e na superstição: Fátima tornou-se o altar do mundo e Portugal o último país da Europa. Em 1986, tornámo-nos europeus com 50 anos de atraso, constatando todos os dias que o sonho pombalino que há 250 anos perseguíamos se vai esboroando no interior de uma Europa decadente e fragilizada, como maximamente teorizou Eduardo Lourenço. Consciencializamos, hoje mais do que nun-

ca, que a Europa também não é solução, e que a solução, estando nós já na Europa, não pode agora senão estar em nós um país pequeno, medíocre, que medíocre permanecerá até meados deste século, conduzido por elites cegas, parasitárias e autofágicas, totalmente desprovidas de consciência histórica, cujo único objectivo assenta na macaqueação de modelos estrangeiros, amiúde específicos a uma realidade histórica, as mesmas elites que forçaram Eça a registar na carta à rainha D. Amélia que, face a um país assim, só se pode desejar, não que se lute pela monarquia ou pela república, mas que se remedeie casa e pão para todos, majestoso ideal humanista do Último Eça, que os nossos governos, dirigidos por engenheiros e economistas, totalmente desprovidos de espírito histórico, moldados por uma mesma mentalidade contabilista, criados sob a sombra

paternalista do Estado, movidos por um afã liberal num povo envelhecido e secularmente carecido de riqueza e protecção, continuam a achar desprezível, contribuindo para tornar mais pobres as populações pobres. A tais seres, espectros permanentes da política portuguesa desde o século XIX, responde hoje o povo como respondia no tempo de Eça, emigrando: 90 mil portugueses abandonam o país por ano (in Público, 15/8/06). É, sem dúvida, a melhor resposta que se pode dar, emigrar, abandonar Portugal aos fâmulos fantasmáticos da economia a todo o custo. Como no tempo de Eça, substitui-se a pessoa pelo orçamento. Em Portugal, país habitado por dois milhões de pobres, menos Estado significa mais miséria, menos protecção, menos hospitais, menos escolas, menos transportes públicos e mais lucros individuais, bafejando não uma classe média sólida futura

e exclusiva salvação de Portugal - mas uma minoritária classe financeira especulativa e um minoritário empresariado ostensivo, com evidente mentalidade de patrão. Ler hoje Eça, constitui um bálsamo para suportar a farsa, por vezes trágica, por vezes jocosa, em que Portugal se tornou desde a década de 80, quando a direcção política dos pais fundadores da democracia foi substituída por jovens turcos provindos do Algarve, das Beiras e do Norte crescidos e enformados no interior dos partidos, possuindo destes uma visão instrumental de acesso ao poder e de nobilitação individual e não de nobilitação das populações. Concentremos a nossa esperança nas elites futuras e não esperemos nada de redentor das presentes senão aquilo a que um resto de pudor cristão, bom senso e a legislação europeias as obriguem a fazer. Da sua cabeça própria, esperemos apenas ignorância, sobranceria e estupidez. Entretanto, leiamos Eça, sublimando o facto de termos nascido em Portugal em é­­­­­­poca de profunda mediocridade geral, onde, à semelhança do final da Regeneração, de novo impera, avassaladoramente - como o Último Eça desmascarou - a democracia sem valor nem mérito, a omnipotência do dinheiro, o império de uma educação sem alma, inspirada por sociólogos de olhos numéricos e mente vazia, e o esboroamento dos antigos valores humanistas europeus da generosidade, da honestidade e da espiritualidade. Miguel Real Escritor


ABR 2011

NR 15

02 NA VAZANTE

Uma outra Crise é possível! Uma nêspera estava na cama deitada muito calada a ver o que acontecia chegou a Velha e disse olha uma nêspera e zás comeu-a é o que acontece às nêsperas que ficam deitadas caladas a esperar o que acontece

Mário Henrique Leiria, in Novos Contos do Gin

Há muito que sabemos quem manda neste país e de quem se fala quando se fala de “interesse nacional”, mas o que assistimos neste último mês foi a uma demonstração cabal de força dos “verdadeiros” donos de Portugal. Quem sempre escapou aos sacrifícios que se têm exigido a todos, e que nunca pagou os impostos que deve, exigiu agora uma intervenção externa à custa de ainda

maiores sacrifícios para os sacrificados do costume. Perante o ultimato da banca de não emprestar dinheiro, o governo coerente com as políticas que tem defendido, e com a sua incoerência, naturalmente acedeu à chantagem. Em menos de 48 horas, José Sócrates, lacrimejando qual crocodilo, anunciava a machada final que os tortuosos PEC agoiravam: o FMI está de regresso! “Era inevitável”, vociferam-nos os comentadores das televisões. Aliás, há muito que a opinião única televisionada nos vem vaticinando o destino, só faltava saber quando, o ruído ensurdecedor que vem produzindo não alimentava falsas esperanças: Que “vivemos acima das nossas possibilidades”, que “agora temos de pagar”... repetiram até à náusea. Ao mesmo tempo, numa ilha a norte da Europa, um grupo

de irredutíveis islandeses, votava contrariamente à inevitabilidade de pagar a dívida externa. A Islândia, tal como nós, está mergulhada na crise, e o FMI também já lhes aplicou medidas de austeridade. Nas tevês só se fala da Grécia e da Irlanda, porque será? Pela segunda vez os islandeses foram chamados a referendo para dizerem se pagariam ou não os 4 mil milhões de euros de dívida externa reclamados pela Inglaterra e Holanda na sequência da falência de um banco. Surpresa, os irredutíveis vikings islandeses voltaram a dizer “Não, nós não assumimos a responsabilidade dos erros cometidos por um banco”. Transportando para a realidade portuguesa, os islandeses recusaram pagar as aventuras do seus BPN... Será por isso

que os papagaios televisivos, os mesmos que viram com agrado a nacionalização dos prejuízos da banca, calam o bico e assobiam outros assuntos? A mesma resposta podia ser dada em Portugal, mas por cá, tudo isto é fado. É fado a banca não pagar os impostos que deve, é fado a não taxação das grandes fortunas, é fado as grandes obras públicas excederem o prazo e o orçamento, é fado os gestores das empresas responsáveis por isso ganharem 32 vezes mais que o salário de um trabalhador (na Alemanha são 16 vezes...). E que dizer das Parcerias Público-Privadas onde se investe o dinheiro dos contribuintes para entregar a exploração aos privados? É fado, é inevitável. Inevitável a tua tia, pá! A troika lusa (PS+PSD+CDS) é que tem vivido demasiado tem-

po acima das possibilidades do país. Está na hora de deixarmos de ser comidos como as nêsperas do poema, de mostrarmos que este povo não é uma plantação de avestruzes de cabeça enterrada na areia. No dia 5 de Junho é hora de recusar a demagogia e a desculpabilização dos lacaios, e fazermos como o povo corajoso da remota Islândia e dizer “NÃO!”. Votar contra a troika lusa (PS+PSD+CDS) que nos vendeu a vida à troika estrangeira. Que a chantagem do “vem aí a Direita” não passe - quem nos tem governado até agora?! E nós, somos todos estúpidos? No dia 5 de Junho é para mudar a sério porque as nossa vidas valem mais que os lucros deles. Leonardo da Silva, desempregado

Quinzena horrível para Sócrates, ano terrível para os Portugueses A quinzena por que vimos passando tem sido negra para Portugal, para nós, para o Governo e para Sócrates. Depois de lutar com bastante coragem em vários tabuleiros, a má sorte de Sócrates, e por tabela de todos nós, começou com a recusa para lamentar do PEC IV, dada a votação negativa dos deputados oposicionistas juntos numa coligação espúria e oportunista em S. Bento, logo seguido da precipitação espectável das três agências de notação americanas, que baixaram de imediato todos os níveis de classificação da dívida soberana de Portugal, lançando as maiores dúvidas nos mercados especuladores sobre a nossa capacidade de pagar e pondo de novo a Comunidade Europeia a tremer. Mas o decisivo ultimato chegou pela boca dos banqueiros que reunidos numa “Fronda” disseram em uníssono ao Governo que já não lhe compravam mais dívida. Acrescente-se, que disseram isto porque tinham também recebido instruções de Bruxelas, para evitarem emprestar mais dinheiro que fosse crédito mal parado. Logo depois, Sócrates percebeu a situação, rendeu-se à evidencia de que não podia continuar a lutar, e dois dias depois anunciava tristemente ao país, que ia pedir dinheiro à União Europeia, leia-se também ao FMI, que, aliás, já chegou a Lisboa. Bancos 1, Portugal 0. A credibilidade de Portugal

ficou em baixo e o moral dos portugueses intoxicados com o futebol, o nosso “circensis”muito encorajado pelas televisões, também mudou um pouco. Entretanto o PEC reprovado, vai reaparecer de novo, agora acompanhado de novas exigências que são uma espécie de PEC IV+ PEC V e podem agravar a crise social ainda mais. Vai ser muito duro para os Portugueses. E para o governo de negociar o que não desejava, agora com menos poderes, dado ser um governo de transição, e em plena campanha pré-eleitoral. Vai-se ver entalado entre uma oposição de esquerda, BE+PCP+sindicatos, irredutível no tocante à ajuda externa através do FMI e uma oposição de direita, oportunista, patrioteira, que vai clamar que estamos a perder a independência nacional, não percebe que a Europa tem de se federar cada vez mais, se não quiser desfazer-se, e a clamar que Sócrates é um lunático a viver noutro planeta. O congresso do PS não trouxe nada de novo em termos programáticos, senão um cerrar de forças à volta do líder, o que lhe dá uma enorme disponibilidade para disputar as eleições sabendo que não corre perigo de ser desgastado por uma oposição interna. Corre para ganhar! Mas também precisamos de ideias, e não só de slogans, e de gente jovem nas listas. Nas vésperas tinha havido uma réstia de esperança para a

que chegam a Portugal os altos esquerda, quando foi anunciado mandos do FMI que trazem a misum encontro entre o BE e o PCP, são de verem as contas do governo, a pedido daquele. o que não facilita a solução das peFinalmente, reuniam-se estes sadas questões em jogo. O que anda dois partidos da extrema esquerda a dizer em publico só enfraquece a do Parlamento para, aparentemennossa posição negocial. Põe meste, dialogar! Porém, ao fim de uma mo em risco que alguns parceiros hora de conversa, que gerou exeuropeus, onde o empréstimo tem pectativas excessivas, a montanha de passar pelos respectivos parpariu um rato e o que os lideres lamentos, Alemanha e Finlândia, afirmaram à saída, podiam tê-lo venham a ver a proposta recusada afirmado à entrada. Continua o pelos jogos parlamentares, e por braço de ferro entre eles para ver verem que não nos entendemos. quem tem mais votos,e a excluírem E depois como é?! os socialistas, o que O BE propôs uma é um erro enorme, auditoria das contas pois sem o PS, que é Vai ser publicas para se perceo grande partido da muito duro para ber quem gastou mais esquerda desde o 25 os Portugueses. E e mal, o que sendo inde Abril, não há por para o governo de teressante, é também o enquanto soluções negociar o que não que está a fazer o FMI já. credíveis. Portugal não é a Grécia Resta-nos con- desejava que falsificou as continuar a assistir ao tas todas do Estado e agora está espectáculo deprimente das acua pagá-lo muito caro. sações entre o PSD e o PS, quando Passos diz que quer “menos Estase encontram, jambos em plena do”, um eufemismo, pois o que quer campanha eleitoralista, que não é entregar ao privado as funções do serve os interesses dos portugueEstado que podem dar lucro. ses, nem de Portugal. Prepararemo-nos: em muito Exige-se de todos total transpapouco tempo, meses, vamos ter rência, coisa a que não estão habide mudar todos de parâmetros tuados os nossos políticos, nem faz de vida, vamos estar todos mais parte da nossa cultura cívica, mas pobres, mas talvez mais honraagora é a Cidadania que o exige. dos, qualquer que seja o vencePassos Coelho afirma que as dor. Vamos ter de consumir menos contas públicas não são seguras, energias, de ser mais cuidadosos nem certas, nem fiáveis, o que é com o ambiente, ser mais orgagrave de afirmar-se, se não fôr vernizados e de sabermos ser mais dade, sobretudo, por estas afirmasolidários. Vamos andar menos ções serem proferidas no dia em

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de carro, não poder comprar carros tão caros, andar a menos velocidade, a andar mais a pé, em transportes públicos, fazer menos viagens ao estrangeiro, começar a produzir mais, iniciármo-nos nas energias alternativas, a olhar o mar como potencial vector de riqueza, a agricultura, a olhar o património com mais respeito e a começar a restaurá-lo nas velhas cidades, o que as enriquecerá, dando mais trabalho aos portugueses, com menos gasto de betão. Entretanto, esperava-se muito mais do actual Presidente que não tem facilitado a procura de uma solução promovendo consensos, para se poder negociar uma dívida que não traga só recessão, mas possa fazer os portugueses produzirem também riqueza, lhes dê horizontes e afaste o espectro da bancarrota . De resto, isso nem interessa sequer aos nossos parceiros europeus, se nos querem vender os seus produtos. De facto ele é um economista da velha escola neo-liberal, mal aconselhado, que está a fazer o jogo do PSD. Pelo caminho não nos fará mal nenhum, irmos pensando em outras alternativas, sérias e com ética para promover novas convergências, com novas formas de estar na política ao serviço da causa pública. António Serzedelo – Director anser2@gmail.com


Angela Merkel e David Cameron proclamaram há meses a falha do multiculturalismo e apontaram o dedo aos árabes mal integrados que ignoram os princípios democráticos liberais do Ocidente. Dias depois da declaração de Cameron, milhares de Egípcios saiam à rua para derrubar Mubarak, a quem Obama chamou “um bom homem” “que fez boas coisas”, e que Tony Blair disse ser “muito corajoso e uma força para o bem”. Os árabes, que não percebem os princípios democráticos do Ocidente, derrubaram um regime criminoso que recebia por ano milhares de milhões de dólares de ajuda militar de Obama, e centenas de milhões da UE. Foram tanques, aviões e outras armas pagas pelo ocidente (que prometeu continuar fornecê-las) que o povo egípcio teve que enfrentar. Quando o povo expulsou o ditador o Ocidente aceitou o facto e fingiu que a História não existe. Lutas semelhantes contra os ditadores apoiados e armados pelo ocidente seguem por exemplo no Bahrain (onde está a base da frota americana que controla o golfo

indymedia.org

As revoltas no médio oriente

pérsico e península arábica), e no Iémen. No Bahrain, a Amnistia Internacional (AI) reporta um “padrão de violência fatal” e “brutalidade das forças de segurança” por parte do regime de Hamad (ditador há 22 anos), notando que parte das armas usadas contra o povo são fornecidas pelos EUA e pela França. A AI reporta também que a polícia do Reino Unido este-

ve envolvida em treinar e armar a polícia do Bahrain e da Líbia. Não bastando o apoio material, depois de notícias de abusos de direitos humanos, de abuso sobre feridos e pessoal médico e centenas de mortos e feridos, o enviado da UE ao Bahrain, figura central da diplomacia europeia, Robert Cooper, defendeu os abusos e assassinatos pedindo compreensão e expli-

cando que por vezes “acidentes acontecem”. O Ocidente ao lado da democracia. Assim, só por tolice se pode acreditar que a intervenção da NATO na Líbia é uma “missão humanitária”. Aproveitando o pretexto de um massacre iminente (que de facto poderia ocorrer) o ocidente livra-se de um regime instável e do ex-aliado problemá-

tico, evitando um conflicto alargado nas regiões produtoras de petróleo da Líbia que certamente incomodaria o fluxo habitual em direcção aos centros de consumo. Segundo o comandante supremo militar da NATO, os aliados gastaram várias centenas de milhões de dólares só nos primeiros 10 dias de operação. Pense-se o que se pense sobre a eventual vantagem de uma intervenção, os motivos que movem os apoiantes, aliados e fornecedores de armas dos ditadores Mubarak (Egipto) , Hamad (Bahrain), Saleh (Iémen), e AbdulAziz (Arábia Saudita) a gastar tais somas a bombardear as forças de Khaddafi não são certamente de cariz humanitário. As preocupações humanitárias da Aliança Atlântica ficam-se pelas suas zonas de interesse económico, que o digam os milhões de mortos dos conflictos no Ruanda, Darfur e Congo (para citar exemplos conhecidos), que pouco tinham a oferecer aos lideres da NATO e do Ocidente liberal democrático. Filipe Grácio - 7 de Abril www.epilepsiasocial.net

Porquê um dia da mulher? No dia 18 de Março tive a oportunidade de participar num evento realizado no espaço Santiago Alquimista, em Lisboa, no âmbito do dia internacional da mulher – intitulado “Amanhã, as mulheres”. Durante o acontecimento ouvi uma variedade de comentários sobre a (im)pertinência do dia da mulher e, por isso mesmo, considerei ser este o momento apropriado para reflectir sobre a questão: porquê um dia da mulher? Conquanto, na verdade, a existência de um dia da mulher possa parecer bastante bizarro – tanto mais que no calendário não existe um “dia do homem” – o presente, para já não falar no todo da história da humanidade, doa-lhe sentido – aqui, na sociedade ocidental, e especialmente no outro lado do mundo. Em pleno séc. XXI, as mulheres não lograram livrar-se do

rótulo “segundo sexo” e de verem reconhecidas a sua emancipação e a sua inteligência. Caso contrário, quando triunfantes nas esferas mais elevadas do pensamento e da acção, não seriam tidas como meros “casos de excepção”. Caso contrário, quando donas da sua própria vida, não seriam tidas por libertinas e, de imediato, remetidas para a solidão. Mas se a sociedade ocidental proporciona à mulher os subterfúgios da excepção e da devassidão, entre outros; as sociedades que perpetuam as desigualdades sociais, culturais e políticas entre os géneros vedamlhe qualquer via de “escapatória”. Num caso ou noutro, o que salta à vista é que “a mulher continua a ser vista mais como objecto do que como sujeito, mais como um meio do que como um fim” (Victoria Camps). Claro que existe um abismo

ca. Qualquer mulher – assim como intransponível entre uma sociedade qualquer homem – substancia uma que faz da mutilação genital uma pluralidade de identidades e deve prática comum e uma sociedade ser reconhecida como sujeito das que a condena, mesmo que esta mesmas. Os movimentos feministas ainda reflicta o imperialismo cultêm pelejado pelo reconhecimento tural masculino.Normalmente, um desta identidade pluhomem é distinguido ral, sem renunciarem à pelas suas particulaa mulher sua lealdade feminina ridades enquanto que uma mulher é tida, continua a ser vista e abdicando de meros formalismos. Mas tarem primeira instância, mais como objecto dam em alcançar o seu como mulher. Mas será do que como intento, em dar a ver correcto identificar-se sujeito (..)” que a única forma da alguém – seja mulher, sociedade fazer justiça homem ou mesmo às mulheres é “tratar os diferentes de “neutro” – unicamente pelo sexo? modos diferentes” e não destituí-las Aceitar que assim seja pressupõe das particularidades em nome da que se negue as classificações pluigualdade. A dignificação dos atrirais e diversificadas do mundo em butos das mulheres, tal como a dos que vivemos – estas, como sublinha atributos das minorias, depende do Amartya Sen, não são tão responsáacolhimento das diferenças como veis pela cisão dos seres humanos uma mais-valia social.Por tudo isto como a ilusão da identidade úni-

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e por muito mais parece-me que o “dia da mulher” colhe sentido. Todavia, interrogo-me se a sua existência não tende a perpetuar o discurso sexista que perpassa a história da humanidade, a sugerir que o imperialismo cultural masculino ceda o lugar, ainda que num futuro bastante longínquo, a um imperialismo cultural feminino. Esperemos que não, que as mulheres deixem de ser discriminadas em toda e qualquer parte do mundo e que, na esteira do reconhecimento dos seus direitos e atributos, se livrem do escadote que lhes permitiu alcançar o êxito, o feminismo. Pois de outro modo, daqui a muitos séculos ainda serão identificadas primordialmente como mulheres e não como indivíduos. Maria João Cabrita majcabrita@gmail.com

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NA VAZANTE 03


Histórias da Floresta Foi-me pedido para contar uma historia, que tem como pano de fundo as duvidas e questões da denominada “geração rasca”, ou “à rasca”, ou como ouvi recentemente “acomodada”... quando sou confrontado com estes termos, pergunto-me porque não geração “intrasigente”, ou geração “que sabe quando lhe estão a mandar areia para os olhos”, ou geração “que acredita que um mundo melhor é possivel”? Pessoalmente penso que nem se trata de uma questão geracional, mas sim de valores e principios, aos quais alguns dão importancia e querem grava-los na essencia do que deve ser uma civilização, enquanto que outros nem por isso. Muito mais haveria para escrever àcerca deste assunto, mas para pano de fundo já chega, e ei-nos chegados ao momento da historia, que como qualquer historia digna desse nome deve começar por: - Era uma vez, dois amigos, cujos caminhos se voltaram a cruzar, após terem percorrido diferentes percursos desde os tempos da faculdade. Tinham-se conhecido

quimicos para se poder cuidar quando ambos frequentavam o do jardim, ou de que é preciso curso de engenharia florestal, e ter grandes maquinas caras para tido a mesma decepção quando fazer a sua manutenção. Outro se aperceberam de que é esperado ponto recorrente é a satisfação que um engenheiro florestal ande com que algumas pessoas falam de gravata, saiba “sacar” subsidios destes assuntos começando com: e frequente almoços de negocios, “ No tempo do meu pai...”. Nesta e que não é a profissão nobre que sociedade tecnocrata, as pessoas esperavam encontrar. Reenconsentem-se inibidas a dar o primeitrados este dois amigos, decidem ro e tão simples passo de plantar começar a trabalhar naquilo que uma horta, ou jardim, ou arvore. os une e realmente gostam: cuiFoi aqui que surgiu a ideia de que dar de arvores, plantar jardins, dentro de nós existe uma nostale tudo o que está relacionado. A gia de tempos em que experiencia é proas coisas simples eram veitosa, o trabalho existe um realmente simples, que é duro mas satisfaexiste um povo dentro tório e o melhor de povo dentro desta desta sociedade que tudo é ouvir os co- sociedade que procura a sua ligação mentários das pes- procura a sua ao que realmente imsoas quando vêem ligação ao que porta na vida: o Povo da o trabalho final. No Floresta. entanto começam- realmente importa Aos dois amigos da se a aperceber de nossa história, juntou-se uma que existe, a par do interesse, uma terceira amiga, tambem dos temgrande desinformação do publico pos da faculdade, e que tambem em geral acerca destes assuntos, ela seguiu um caminho diferente, que parece levar sempre no mesimpondo-se como artista plasmo sentido, de que é preciso ser tica de uma nova vanguarda, em um grande especialista e ter granque as artes se juntam à ecolodes conhecimentos de produtos

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andré varíssimo

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04 CULTURA gia, juntando a originalidade e a reciclagem, dando vida nova ao que outros deitam fora. Esta ultima amiga lançou o desafio de levar às populações envelhecidas de Lisboa uma pequena alegria e alguma dinamica com o projecto das “Hortas urbanas”. Mais amigos se foram juntando de àreas tão diversas como a arquitectura, energias renováveis ou a antropologia, e assim nasceu o Povo da Floresta – Associação para a investigação, formação, divulgação e desenvolvimento de boas práticas ambientais, culturais, sociais e sustentaveis, que promovam dinamicas harmoniosas e equilibradas ao encontro de um bem estar fisico, psicologico e social. Esta historia não tem final, vai-se escrevendo lentamente, ao ritmo da vida, (pelo menos enquanto não estivermos na mira das agencias de rating!), o Povo da Floresta anda aí e dentro de cada um de nós. André Veríssimo, Engenheiro Florestal

Insondáveis linhas de contorno muito pouco têm que ver uma Lisboa cidade…, Lisboa concecom a outra. De qualquer modo, lho…, a coisa por aqui é pacífica. tratando as sub-regiões de aspetos Distrito de Lisboa, também, pois essencialmente administrativos, os concelhos que o compõem dique perspetivam uma determinada zem quais as suas fronteiras. Em linha orientadora para algumas expressões correspondentes a submatérias, um simples decreto cheregiões, como “Grande Lisboa”, ga para lhe definir os contornos, “Área Metropolitana de Lisboa” e ainda que no mesmo “Lisboa e Vale do Tejo” espaço coexistam também estão definidos Falta aqui aspetos bastante quais os concelhos que díspares. as compõem. Os conce- claramente uma Mas, mesmo tenlhos são neste tipo de dinâmica cultural do em conta algumas abordagens uma espé- que confira acentuadas diferencie de mínimo divisor, identidade (...) ças, encontra-se, ainda que alguns deles claro, sentido em termos de uniapresentem partes bem diferentes dade para essas designações. Não ou praticamente antagónicas. Por sendo essa unidade tão forte em exemplo, as metades que compõem matéria de turismo, talvez seja mais o concelho de Vila Franca de Xira na economia em geral. Em último (uma em cada margem do Tejo) caso, a proximidade geográfica e os ou as que compõem o descontíacessos facilitados pelas grandes nuo concelho do Montijo (com vias rodo e ferroviárias dão uma Alcochete e Palmela pelo meio)

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ajuda incontornável na composição de um cenário unificador. Contudo, se nos reportarmos a matérias mais do foro cultural é justo perguntar onde reside uma cultura típica da Área Metropolitana de Lisboa ou de Lisboa e Vale do Tejo. É certo que a dois passos de Setúbal se está no Alentejo profundo, como a dois passos de Alcochete se está no Ribatejo profundo, mas as disparidades culturais que se observam de concelho para concelho, e nalguns casos dentro do mesmo concelho, são de tal modo acentuadas que ficamos mais com a impressão de estar num arquipélago do que numa sub-região continental. Uma reflexão rigorosa em torno da cultura viva, aquela que se produz nos nossos dias, facilmente se transforma numa autêntica batalha mental. Lisboa, cidade grande e com

um peso histórico e cultural inquestionável, torna-se naturalmente no centro aglutinador da dinâmica cultural. O que já não é assim tão natural é que os ecos dessa dinâmica pouco se façam sentir fora da capital. Isto é, dentro de uma pequena sub-região não é admissível que a arte viva seja tão pouco descentralizada. É certo que algumas atividades que acontecem em Sintra, Cascais, Almada e Seixal ainda conseguem ombrear com as da Capital. Mas os outros concelhos serão ilhas assim tão distantes? Falta aqui claramente uma dinâmica cultural que confira identidade a uma sub-região que, a pouco e pouco, a vai tendo noutras áreas. Essa dinâmica pode (e talvez deva) ser criada numa perspetiva de conjunto, evitando-se os olhares para o próprio umbigo. Que tipo de cultura se pratica

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hoje e onde? Como se caraterizam a música, o teatro, as artes plásticas, etc., que se produzem à volta de Lisboa? Que preocupações e conceitos movem os artistas que não estão na Capital? Será essencialmente suburbana a cultura da Amadora e de Odivelas? Será também suburbana a de Almada, a do Barreiro? É periférica a de Oeiras, Cascais e Sintra? É também periférica a de Vila Franca de Xira, a de Setúbal? Será que nas próximas décadas assistiremos a uma maior unidade cultural destes concelhos como um todo ou cada um seguirá o seu caminho? E neste caso, tornar-se-ão mais ativos ou definharão ao ponto de se tornarem mera cinza da centralizadora brasa? António Galrinho antoniogalrinho.wordpress.com


Cão Amarelo 2011 destaque a filmes provenientes de O Cão Amarelo- Mostra InterEspanha, através de uma colabonacional de Cinema Alternativo, ração com a Kimuak-Filmoteca realizou este ano a sua terceira Vasca e outros Institutos. edição, de 11 a 13 de Março em Por outro lado, o Cão Amarelo Pinhal Novo. pretende continuar a divulgar as Esta Mostra de Cinema tem Escolas Europeias de Cinema e como principais objectivos a proos jovens criadores. Entre outras moção do cinema contemporâneo, escolas, continuamos a colaboa promoção de novos criadores e de ração com a London Film School, novas tendências do cinema expeabrangendo ainda produções de rimental e a integração desta arte escolas de cinema da com outras formas Alemanha, Suécia, Crode expressão artístiO Cão ácia, Eslovénia, Polónia ca, divulgando novas Amarelo pretende e Portugal. propostas de diálogos A nível individual entre o cinema expe- continuar a rimental, as artes vi- divulgar as Escolas recebemos este ano participações de resuais e as linguagens Europeias de performativas. Cinema e os jovens alizadores de países tão diversos, como Desde a sua pricriadores. os Estados Unidos, meira edição o Cão Rússia,Alemanha, e Amarelo tem dado Brasil. destaque ao novo cinema produPara além da exibição de filzido num determinado país. mes, O Cão Amarelo 2011, apreNo primeiro ano, através de sentou também trabalhos interdisuma colaboração com o Instituto ciplinares de cariz performativo, Polaco de Cinema, demos destaque criados de raiz, a partir da exploraa este país, iniciando a Mostra com ção de alguns filmes seleccionados filmes de grande qualidade. para esta Mostra. Tivemos assim No segundo ano, através da o prazer de apresentar ao público colaboração com algumas escoas performances Falsificação Imlas, demos destaque ao cinema provável (Sr. João), Paralelo Desproduzido na Eslovénia. contínuo (Impensamental) e DisNesta terceira edição, demos

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sonâncias (Teatro Brinca). Todas estas performances tiveram como desafio a criação de um diálogo com algumas obras seleccionadas, criando-se assim em directo, um novo objecto artístico. Foram três dias de Mostra, com curtas e medias metragens, englobando também o cinema de animação e o cinema documental. Este ano tivemos o prazer de apresentar filmes premiados em Festivais de Cinema com grande prestígio, o que aumentou bastante a qualidade dos filmes que oferecemos ao nosso público. E neste caminho que queremos continuar apresentando cada vez mais, o que de melhor se realizar no cinema alternativo contemporâneo, ampliando o espaço para o cinema documental e cinema de animação. É também nosso objectivo regressar às exposições (tal como

aconteceu no prim e i r o ano) e ampliar o espaço físico de acção do Cão k im pr i su Amarelo, com instalações, acções artísticas experimentais e uma revisita ao espaço rural que circunda o Pinhal Novo, aproveitando assim

as características geográficas e culturais onde o Pinhal Novo se insere. Queremos também iniciar uma colaboração com outros festivais de cinema, iniciando um diálogo em torno da programação e da criatividade inerentes a eventos com estas características. Por tudo isto, vale a pena continuar a seguir o Cão Amarelo com atenção. Ele vai andar por aí a surpreender-nos. Em Maio e Junho o Cão Amarelo ira ‘’passear’’ pela Academia Problemática e Obscura, numa colaboração com a Prima Folia. Brevemente iremos disponibilizar o programa dessa retrospectiva. O Cão Amarelo Mostra Internacional de Cinema Alternativo é uma realização da Associação Odisseia em colaboração com Prod.Impensamental e conta com o apoio da Câmara Municipal de Palmela. António Xavier www.caoamarelo2011.blogspot.com

Na mesa-de-cabeceira Livros. Ninguém estuda seriamente a história da medicina portuguesa. Só assim se pode explicar que só agora tenhamos tido acesso a um estudo biográfico de Egas Moniz, cortesia do neurocirurgião João Lobo Antunes: “Egas Moniz. Uma Biografia”. Diga-se de passagem que a coisa era merecida. Egas Moniz, médico e político republicano, não foi somente, e até à data, o único português galardoado com o Nobel da medicina (1949); foi, até José Saramago, em 1998, efectivamente, o único português a receber a honra de tal reconhecimento. A obra, fruto de uma investigação exaustiva mas que nos poupa aos infindáveis rabiscos académicos, procura, numa prosa clara e fluida, desvendar-nos um pouco dessa figura complexa

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que foi Moniz. É, como Lobo Antunes reforça, ‘uma biografia’, ou seja, uma tentativa pessoal – é sempre – de compreender um vulto quase esquecido e muitas vezes injustamente vilipendiado da história da medicina portuguesa e mundial. E este ponto é importante. Porque, mais do que a ‘mera’ história de um homem, esta é também a história de um período fulcral da medicina portuguesa e em como esta, com Moniz, directa ou indirectamente, marcou a história médica mundial de forma indelével. Uma leitura, por todas as razões, verdadeiramente indispensável. [João Lobo Antunes, “Egas Moniz. Uma biografia”. Gradiva, 2010.] Filmes. Tenho um amigo que é fã incondicional de Martin Scorsese. Admito que não partilho da admi-

ração desmesurada. Verdade que o homem tem algumas verdadeiras obras-primas no currículo, com “Taxi Driver” e “Raging Bull” à cabeça. Mas e o resto? Bom, com outras duas ou três excepções, o resto, é o resto. (As minhas desculpas João.) Mas “Shutter Island”, apesar de tudo, não é o resto. Talvez sejam os ares recuperados dos melhores filmes ‘noir’ que por ele atravessam. Como nestes, tudo começa com uma premissa simples. O ano, 1954. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) são dois agentes federais enviados a uma ilha prisão psiquiátrica para investigar o desaparecimento de um paciente perigoso. Um mistério. Um vilão ou dois. Um herói. E cigarros. Muitos cigarros. É claro que o caso cedo se complexifica numa névoa

de conspiração e suspeição. No fim, apenas uma questão fundamental ecoa no mais íntimo recanto da alma humana: ‘O que será preferível? Viver como um monstro ou morrer como um bom homem?’ O filme não oferece apenas a resposta possível, como a indispensável. [“Shutter Island”. Director: Martin Scorsese. 2010.] Música. Em minha casa, os R.E.M. são uma instituição. Sou, por isso, suspeito. (E quem não o é?) Nada que me desmoralize. Principalmente porque falar, ou melhor, ouvir R.E.M. não está particularmente na moda. É pena. E é pena por aquilo que se perde. Urge, por isso, remediar a situação. Recomendo, para começar “Collapse Into Now”, o novíssimo álbum dos senhores. Ao contrário do que se tem dito, este álbum não é um

‘renascimento’ do grupo – não tem, por exemplo, a força de “Up” (1998), a sua última grande obra – mas mais um retorno aos princípios fundamentais de uma sonoridade rock que nunca deixou de caracterizar a banda. Mais aberto, de uma maior aparente pureza e simplicidade, eis, talvez, a viragem que permite uma redescoberta. A isso, claro, ajudaram Eddie Vadder, Peaches e Patti Smith, as estrelas convidadas. E se este não é um álbum que se distingue numa primeira audição, é, em todo o caso, um daqueles casos em que vai ficando melhor a cada nova passagem. Afinal, é R.E.M. [R.E.M., “Collapse Into Now”. Warner, 2011.] Tiago Apolinário Baltazar, Estudante Universitário

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CULTURA 05


Escrever em «socretinês» O «socretinês», no que tem Não foram PS e o PS (Pinto de aberrante, anormal, desviande Sousa e o Partido Socialista) te, está em consonância com as quem criaram o «Acordo Ortográcircunstâncias: de a sua «figura fico». Mas, porque só eles é que tutelar» falar regularmente em decidiram decisivamente (ten«portunhol» e numa espécie tar) aplicá-lo e impô-lo, a «coisa» estranha de «inglês técnico» em passou a ser inteiramente deles. que «Médio Oriente» se torna Assim, não é incorrecto dizer que «Midwest»; e de estar envolvida escrever «atual», «batismo», «caou implicada em «casos» como rater», «direto» e «espetador»... é o da «licenciatura ao domingo», escrever não em português mas o dos lixos da Cova sim em «socretinês». da Beira, as moraDesde o início deste dias na Guarda, o ano de 2011 que o AO um empo­ apar tamento em está, cada vez mais, a ti- brecimento na Lisboa, o Freeport, rar letras às palavras tal ortografia e na o «Face Oculta», o como o Governo está, « P T- Ta g u s p a r k cada vez mais, a tirar língua que reflecte TVI» e todas as euros às pessoas – nas o empobrecimento respectivas escutas. remunerações e pelos na economia e na Mais ainda. O impostos. É pois a ideal sociedade. «socretinês», no «banda», não «sonora» que tem de aberrante, anormal, mas «gráfica», destes tempos de desviante, está em consonância falência, crise e recessão causacom a circunstância de a sua «fidos pela incompetência e pela gura tutelar» ter promovido ou irresponsabilidade dos que estão permitido: a «transformação» do no poder há seis anos. O AO reAlgarve em «ALLgarve»; a priopresenta um empobrecimento na ridade «Espanha, Espanha, Esortografia e na língua que reflecte panha» através da (tentativa de) o empobrecimento na economia construção do TGV para Madrid, e na sociedade.

manos são respeitados... e onde e da candidatura «ibérica» à ornão se tiraram, por caprichos ganização do Campeonato do contra-natura de excêntricos Mundo de Futebol de 2016 que pervertidos, os «c» e os «p» a elogiava o «homo ibericus» e em muitas das suas palavras, porque a única língua oficial era o que nessas nações castelhano; a adesão impera a certeza de ao «Acordo de Lonque a língua, por ser dres» no âmbito da uma decisão o factor principal da Convenção (de Mu- que vai contra identidade nacional, nique) da Patente Eua promoção é também um dos suropeia, e que implica portes fundamentais a substituição quase internacional da independência integral do português da língua nacional. E onde nem pelo inglês na valida- portuguesa que o uma nem outra são ção, em Portugal, do AO alegadamente levianamente postas registo de patentes – possibilita. em causa por quem uma decisão que vai verdadeiramente contra a promoção preza a dignidade da sua pátria. internacional da língua portuMais tarde ou mais cedo, a guesa que o AO alegadamente bem ou a mal, de uma maneira possibilita. ou de outra, o «socretinismo» Não deixa de ser irónico, e será inevitavelmente derrubasignificativo, que o actual (des) do. E, depois de isso acontecer, governo de Portugal prefira pedir não há qualquer motivo para ajuda a países onde a democraque subsista, como mais uma cia não está consolidada ou nem das suas «heranças» hediondas, sequer existe, e não ao Fundo o escrevinhar esquisito que tão Monetário Internacional ou ao bem o simboliza. Fundo Europeu de Estabilização Financeira, em que predominam as nações onde os direitos huOctávio dos Santos

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leonardo da silva

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06 CULTURA

da desertificação do interior com o aumento do IVA e o fecho de equipamentos sociais (escolas, centros de saúde, maternidades),

PRIMA FOLIA ON (low cost) TOUR ONCE AGAIN Comemorou-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, mas tal não nos interessa de todo. O património, cimento da identidade e do conhecimento sobre nós mesmos, deve ser praticado. Por isso, a Prima Folia desenvolverá, ao longo dos próximos meses, várias visitas numa verdadeira revolução face às políticas e práticas museológicas tíbias que têm sido apanágio um pouco por todo o país. Acreditamos que o turismo cultural não deve ser um entretenimento pobre, apenas destinado às crianças e à terceira idade, mas pode e deve ser um exercício de aventura, fascínio e descoberta extensível a todos, filiado ao enriquecimento pessoal através da discussão e tertúlia, do risco e da

fronteira, marcos genéticos desta cooperativa. Por isso, nas transactas semanas trouxemos para a região os “City breaks”, conceito de visita urbana de curta duração e baixo custo, amplamente praticado nas principais cidades da Europa. Trata-se de colocar historiadores/arqueólogos/antropólogos em frente a um pequeno grupo, naturalmente intimista e, ao longo de hora/hora e meia, conduzir esse conjunto de pessoas na descodificação das histórias que se escondem por detrás dos edifícios urbanos, numa narrativa temática coerente, descodificando a mudez das pedras. O ingresso corresponde apenas ao preço de um bilhete de cinema. Estamos próximos da celebração da Páscoa. O que é a Páscoa?

Foi essa a nossa proposta para debate, através das práticas da Semana Santa que existiam em Setúbal faz trezentos anos. Sabiam que existiam procissões a preencherem essa semana como hoje existem em Sevilha? E que a sua espectacularidade em nada devia às actuais procissões de Braga? Propusemo-nos esclarecer este tema em visitas pedestres com a duração de hora e meia, seguida de jantar e debate. Iniciámos as visitas às 19.00h, hora em que se começava a extinta procissão do Senhor dos Passos. Refizemos o seu percurso e recriámos o que então se passava. Contudo, procuramos mais que um fogo-fátuo. Desejamos acções concertadas e consistentes, de modo a criar hábitos culturais enraizados. É que o Patri-

mónio não deve ser ostentado em dias de cerimónia e abandonado em todos os outros. O património, como em tudo, pratica-se. Alguns entre nós olham hoje para o mundo muçulmano com uma perspectiva de superioridade civilizacional. Tal não passa somente pela vantagem tecnológica, mas também nos princípios pelos quais a sociedade se ordena. Um deles, onde maior contraste existe é na condição da mulher na comunidade. Questionando essa perspectiva, a Prima Folia convida-vos a um mergulho ao invisível mundo da mulher a partir do Século XVI, época em que Leonardo da Vinci deslumbrava e Copérnico defendia a teoria heliocêntrica. Daí vamos progredindo até à Revolução Francesa e depois

até aos dias de hoje, tudo partindo de uma perspectiva glocal e pondo em questão as nossas certezas absolutas sobre nós mesmos. O ponto de encontro é no Largo de Jesus, em Setúbal, no dia 13 de Maio, às 19.00h, hora em que se inicia a Procissão do Adeus a Nossa Senhora, em Fátima. Vamos refazer os seus percursos e recriar os seus quotidianos e simbologias. Note-se que é preciso marcação prévia, pois temos de saber anteriormente o número de comensais, para os que quiserem comer e debater connosco. Segue-se a mesma visita nos dias 14/5, 20/5 e 21/5. A partir daí outra será a história a contar. Inscrevam-se. primafolia@gmail.com 96 388 31 43

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Sophia, uma vida de poeta “A exposição de textos, fotografias e outros objectos com que aqui se evoca a vida e a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), surgiu como um prolongamento natural da doação do espólio à Biblioteca Nacional, primeiro passo para a abertura do acesso de um público, amplo a uma parte importante, de quase todos desconhecida, dessa vida e obra”. Assim se inicia a apresentação de um livro/álbum de inegável valor para os estudiosos e admiradores da obra de Sophia, um encanto para bibliófilos, pois trata-se de um primor editorial. Os responsáveis pela organização são Paula Mourão e Teresa Amado (“Sophia, uma vida de poeta”, Editorial Caminho, Dezembro de 2010). Desse acervo de textos publicados e inéditos, de poesia e de prosa, inacabados ou em mais de uma versão, diários de viagem, notas soltas, desenhos, marcas de um quotidiano doméstico, cartas e fotografias, avulta a figura de uma pessoa “para quem escrever um poema foi a melhor e mais frequente forma de falar de si e da sua relação como todos os possíveis outros”. As organizadoras dispuseram a selecção de todo este espólio em duas secções, vida e obra, onde ressalta a vida familiar e a vida pública; no respeitante à obra, as organizadoras tiveram a preocupação de reunir documentos que dessem “uma imagem tão eloquente quanto possível da riqueza criativa, vital e espiritual” da obra de Sophia. Ei-la fotografada por Eduardo

de criação integrado em todo o processo criador do universo. Não é uma contemplação exterior às coisas mas uma participação no destino do universo”. São páginas muito belas com considerações Esta é a madrugada que eu sobre pascoais, temos a oportuesperava nidade de ver os poemas dos seus O dia inicial inteiro e limpo “Cadernos Rasgados” datados entre Onde emergimos da noite e 1938 e 1941, rever as edições e os do silêncio títulos das suas obras, até mesmo E livres habitamos a as suas traduções. Por último, ter substância do tempo acesso a entrevistas contributivas para a compreensão da sua poeTambém à volta do 25 de Abril sia, o artigo escrito pelo marido na ela escreve: “Aquilo em que conrevista Acção, em 1944 e o filho, fiei e confiámos era mais do que a Miguel Sousa Tavares, quando a revolução política. Era uma nova mãe foi agraciada com o prémio relação com nós próprios, com os Camões e onde diz: “Ensinou-me outros, com o mundo em que esa olhar para as coisas e para as tamos. Não tínhamos conquistado pessoas, ensinou-me a olhar para o poder mas sim a possibilidade”. o tempo, para a noite, Ficam aqui apontapara as manhãs. Enmentos de car tas sinou-me a abrir os de Herberto Hélder, (...) tiveram olhos no mar, debaiJoão Cabral de Melo a preocupação de Neto, Vieira da Silva reunir documentos xo de água, para perceber a consistências e Vitorino Magalhães que dessem “uma das rochas e das algas, Godinho. da areia, de cada gota N o â m b i t o d a imagem tão de água… Fez-me mersua obra, as orga- eloquente quanto nizadoras cuidaram possível da riqueza gulhador e viajante, ensinou-me que só o igualmente da rela- criativa, vital e olhar não mente e que ção entre a escrita e a espiritual” da obra todo o real é verdaimagem. A sua muito deiro. Quem ler com particular definição atenção, verá que esta é a moral de poesia: “A poesia não é um acto que atravessa toda a escrita”. gratuito mas sim um acto vital. Um livro belíssimo, para recordar Sabemos que um poema é justo Sophia, um fenómeno ímpar, nada quando ele é necessário àquele que existiu antes nem depois, assim. o escreve e necessário ao mundo. O peso das sílabas do poema entrará em equilíbrio com o peso das Beja Santos estrelas. Pois a poesia é um acto Professor Universitário emociona o seu original do poema 25 de Abril, porventura o mais belo dos poemas que se escreveu em torno desse dia da liberdade:

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Gageiro a poetar na Travessa das Mónicas, com a sua eterna chávena de chá e a janela aberta para o jardim; fotografias com a família e também no dia do casamento; carta para Francisco Sousa Tavares preso em Caxias, carta em que envia à mãe a “Mensagem” de Fernando Pessoa, fotografias com Ruben A., Isabel da Nóbrega, Menez, Vinícios de Morais, José Régio, Nuno Jú-

dice, Lurdes Castro, entre outros. Páginas tiradas dos seus cadernos diários onde podemos ler: Aos pobres de Portugal é costume dizer “Tenham paciência”. Mas na verdade devemos dizer: “Não tenham paciência”. Devemos pedir ao povo português que procure o caminho de uma “Impaciência pacífica”, que se exprima e combata sem violência mas com teimosia e firmeza. E

ACADEMIA PROBLEMÁTICA E OBSCURA

a questionar desde 1721

28 de ABR

debate sobre o tema os CAMINHOS PARA A CULTURA EM SETÚBAL

08 de MAI

jANTAR SEGUIDO DE DEBATE SOBRE O TEMA A ARQUITECTURA DO SAGRADO COM O ARQ. pAULO PISCO

QUI. às 21:30

SEX. às 20:00

13 e 14 de mAI

sex e sáb. às 19:00

20 de mai

sex. às 21:30

27 de mai

sex. às 19:00

eNTRADA LIVRE!

JANTAR 10 folias (8 folio divinus)

visita histórica sobre o património feminino e a simbologia da mulher (Ponto de encontro: largo de jesús)

retrospectiva da mostra de cinema alternativo “o cão amarelo”

eNTRADA LIVRE!

visita histórica sobre o anarquismo e o socialismo em setúbal

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inscrição: 15€ com jantar incluido

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FICHA TÉCNICA: Propriedade e Editor: Prima Folia - Cooperativa Cultural, CRL . Morada: Rua Fran Paxeco nr 178, 2900 Setúbal . Telefone: 96 388 31 43 . NIF: 508254418 . Director: António Serzedelo . Subdirector: José Luís Neto Consultores Especiais: Fernando Dacosta e Raul Tavares . Conselho Editorial: Catarina Marcelino, Daniela Silva, Hugo Silva, Leonardo da Silva, Maria Madalena Fialho, Paulo Cardoso . Directora de Arte: Rita Oliveira Martins . Consultor Artístico: João Raminhos . Morada da redacção: Rua Fran Pacheco n.º 176 1.º andar 2900-374 Setúbal . E-mail: jornalosul@gmail.com . Registo ERC: 125830 . Depósito Legal: 305788/10 . Periodicidade: Mensal . Tiragem: 45.000 exemplares . Impressão: Empresa Gráfica Funchalense, SA – Rua Capela Nossa Senhora Conceição, 50 – Moralena 2715-029 – Pêro Pinheiro

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CULTURA 07


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NR 15_O SUL_ABR_2011 by rita martins - Issuu