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NR 11
Ano: 2010 . nr 11 . Mês: Dezembro . Mensal . Director: António Serzedelo . Preço: 0,01 €
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Para a criação do Museu do Negro em Portugal culdades socioeconómicas, vertido de terra de emigramas também por escassez de ção em terra de imigração, referências identitárias. talqualmente há 500 anos Seguiu-se um debate bas- atrás. Nesse sentido, a edutante participado, onde cação intercultural faz muitas questões pertinen- hoje todo o sentido, sobretes foram colocadas, tanto tudo aquela que assenta em a nível do funcionamento aumentar o conhecimento interno do mesmo, como sobre as diferentes culturas, acerca dos impactos expec- numa lógica de enriquecitáveis da implementação de mento pessoal e social, repuum projecto desta natureza diando a diluição e homoem Rio de Moinhos. Apesar geneização artificial, ou o de não as podermos apresen- relativismo ou indiferentar aqui, por extensas, não tismo cultural. Conhecer o queremos deixar de agrade- passado é, dentro desta perscer a presença de todos, bem pectiva, não um mero fait como a extrema divers, mas afabilidade e uma necessimpatia com sidade. ComO Charroque que fomos acopreender lhidos. À popua história da Profundurlação de Rio de dos contacra n’O Sul Moinhos, um tos de quem grande bemacolhe e de haja. quem chega, Portugal sofreu desde das discriminações, das prea entrada de Portugal na potências e dos preconceiUnião Europeia, uma das tos, bem como das ideiasmaiores transformações feitas, das pretensas verdaétnicas e culturais da sua des e das alienações colecconstituição social. Um tivas que a este respeito têm documentário de 2004, sido veiculadas e perpetuadenominado Lisboetas, reali- das nos manuais escolares zado por Sérgio Trefaut, que e no senso comum. É nesta encontrou grande sucesso questão, transecular e mune reconhecimento público, dial que se insere a temática reflectia sobre esta mesma deste museu proposto, que realidade. Portugal foi con- privilegiará a história da
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No passado dia 4 de Ciências do Porto e invesDezembro a Prima Folia foi tigador do IPATIMUP, apreà aldeia de Rio de Moinhos, sentou os resultados da preconcelho de Alcácer do Sal, sença de genes antigos africom vista a apresentar e dis- canos na população portucutir com os seus habitan- guesa, mostrando que a sua tes a possibilidade de cria- presença encontra-se em ção do primeiro Museu do todo o país, numa percenNegro em Portugal. A ter- tagem significativa, sendo túlia de carácter infor- em Alcácer apenas ligeimal e quase familiar decor- ramente acima da média. reu durante a Maria Cristarde, na antiga tina Neto, escola primária, a n t i g a Entrevista tendo sido basdocente da a Maria das tante concorFaculdade rida. A sessão de Ciências Dores Meira foi iniciada por de Lisboa e Catarina Cabaantiga invesceira, antiga tigadora do docente da escola, reavi- IICT, narrou os trinta anos vou a memória das histórias que dedicou à investigados negros no vale do Sado, ção histórica dos negros sublinhando tanto as altu- em Portugal e em Alcácer, ras em que os mesmos sen- sublinhando os contributiam na pele a discrimina- tos de investigadores anteção, como também acentu- cessores e outros seus conando as transformações de temporâneos. Por fim, Paulo paradigma, de vergonha em Cardoso, docente da Univerorgulho, particularmente sidade de Évora, partilhou visíveis nas gerações mais os resultados preocupantes jovens. Seguiu-se uma apre- das percepções de grupos de sentação de José Luís Neto adolescentes do distrito de sobre museus dedicados a Setúbal, que demonstram, esta temática existentes no para lá de toda a dúvida mundo, mostrando realida- razoável, as dificuldades de des e condições muito diver- integração dos luso-afrisas. Após, António Amorim, canos na sociedade portudocente da Faculdade de guesa actual, mercê de difi-
presença dos africanos de origem sub-saariana desde a segunda metade do Século XV, em Portugal. Coincidente e resultante, em grande medida, dos Descobrimentos e da Construção do Império, a mítica Idade do Ouro Português, é um ciclo que se fecha, genericamente, com a lei Pombalina de 1761, que conduz à extinção da escravatura, se bem que esta só se torna num facto já no Século XIX. Investigar, conservar e divulgar estas histórias, contribuindo para uma reflexão séria e academicamente sustentada sobre a escravatura e formas de exclusão, deverá ser o objectivo programático do Museu do Negro. Assim se afirmará positivamente que a cultura deve visar o enriquecimento e explanação das potencialidades da personalidade humana, reforçar os direitos e liberdades fundamentais, dignificar os indivíduos, favorecendo a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais, étnicos e religiosos. Maria Madalena Fialho