áudio // turbonegro
A volta da banda punk mais selvagem da Noruega Por Eduardo Ribeiro // foto Raymond Mosken
O
Turbonegro está certamente entre as mais destacadas bandas de rock egressas do cenário underground no Velho Continente. Fundado em 1988, na cidade de Oslo, capital da Noruega, o grupo estreou com o bem cotado álbum Apocalypse Dudes, arrebatando uma legião de aficionados reunidos em numerosos clãs uniformizados que chegam aos shows e se apresentam como Turbojugend. Os caras do Turbonegro são cheios de bordões, letras escrachadas e frases de efeito: seu estilo musical, por exemplo, uma espécie de mistura entre o glam e o punk, é promovido por eles como “death punk”. E, como autênticos egressos da contracultura em seu país de origem, investem também no visual, criando looks que brincam com elementos buscados nas maquiagens de Alice Cooper, nos filmes de terror, na moda predominantemente jeans, na estética dos estereótipos masculinos de modo geral e em referências vindas de Laranja Mecânica e New York Dolls. É curioso pensar, até, que o quinteto e sua trupe uniformizada poderia facilmente passar por uma daquelas gangues vistas no filme Warriors, clássico dos anos 1980. Formado atualmente por Tony Sylvester aka Duke of Nothing (vocal), Euroboy (guitarra solo), Rune Rebellion (guitarra base), Happy-Tom (baixo) e Tommy Manboy (bateria), o combo acaba de lançar seu nono álbum, sugestivamente nomeado Sexual Harrassment (Volcom/Universal). O disco é um tapa na cara dos detratores, que, após a saída do cultuado vocalista Hank Von Helvete, em 2007, durante todo esse hiato torciam o nariz para a ideia de um retorno do Turbonegro com outra voz no microfone. Quem, afinal, estaria à altura da cativante e contagiante presença de palco de Von Helvet? Não à toa, já que foi com o seu gogó que eles gravaram alguns dos maiores sucessos, reunidos no explosivo Party Animals (2005): “City of Satan”, “All My Friends Are Dead”, “Wasted Again” e “Final Warning”. Mas Sexual Harassment traz à tona uma energia que os rapazes parecem ter acumulado ao longo desses últimos cinco anos. Tony, o novo vocalista, um inglês fã de longa data do Turbonegro,
1 | TRIBO SKATE fevereiro/2013
que inclusive foi presidente do fã clube em Londres, assumiu o posto com autenticidade e segurança. As dez faixas, gravadas no Electric Lady Studios em Nova York – sim, aquele do Jimi Hendrix, mantêm as raízes do hardcore e absorvem sonoridades vindas de bandas como Stooges, Motley Crue, Judas Priest e Rolling Stones em sua fase dirty. O resultado são 32 minutos de pura energia, guitarras ferozes e muita zoação. Recentemente, o Turbonegro lançou seu segundo single desde o retorno à ativa, “I Got a Knife”. A faixa ganhou um videoclipe para lá de bem produzido e editado, repleto da lascívia pela qual o grupo ficou reconhecido. Aproveitamos a deixa para falar com o simpático guitarrista Euroboy, um dos fundadores da banda, que encontrou tempo entre um show e outro para a entrevista a seguir. Na conversa, ele revelou o motivo da saída do antigo vocalista e contou detalhes da gravação do novo álbum. Depois dos últimos shows com o ex-vocalista, vocês já tinham em mente essa proposta de encontrar novos membros para a banda, remodelar o som? Se a ideia era que a banda se encerrasse ali, qual foi a ocasião ou conversa que fez com que vocês se sentissem empolgados ao ponto de recomeçar? Euroboy: Já nos últimos anos da última década, nós pressentíamos o fim da banda. Quando começamos, dez anos antes, as ambições eram altas; tínhamos fãs em todos os lugares, o punk, influenciado pelo hard rock, havia se tornado mainstream, e alguns dos grupos com os quais cruzamos caminhos nos anos 1990, como Queens of the Stone Age e The Hives, de repente estavam no topo das paradas da MTV. No nosso inconsciente ficava aquele pensamento de que “isso pode acontecer conosco também”. Hank Vol Helvete, o vocalista na época, vinha de uma fase de recuperação de recaídas nas drogas desde a adolescência, e isso de muitas formas estava atrapalhando nossa escalada para que nos tornássemos uma banda profissional. Até que as coisas chegaram ao limite e ele desencanou, colocando um fim em tudo em 1998. Então nós voltamos e, dez anos depois, ele obviamente ficou muito mal de novo, daí
tivemos a clara percepção de que estávamos perdendo tempo. Quando ele finalmente ficou limpo, era muito por conta de sua adesão à Igreja da Cientologia e seus poderes. Foi uma alegria para todos saber que ele finalmente tinha superado aquilo e estava tocando a vida normalmente, mas é até meio óbvio dizer que tudo isso estragou a química entre nós de modo sintomático. Fizemos o último show juntos num festival em Budapeste, em 2009. Aquela foi a última vez em que Happy-Tom e Hank, por muitos considerados os dois líderes da banda, falaram um com o outro. Nunca pensamos em procurar um novo vocalista. O que vocês aprontaram nesse meio tempo? Tivemos uma banda com Nick Oliveri no baixo e vocais, chamada The Germans. Até gravamos metade de um disco! No verão passado acabamos fazendo uma jam num evento que rolou no nosso fã clube em Hamburgo, na Alemanha, o Turbojugend Welttage. Era só uma brincadeira entre ex-membros do Turbonegro e amigos, então havia umas mini-celebridades da cena cantando duas músicas cada, tipo o Ebbot do Soundtrack of our Lives, o Damian do Fucked Up!, e nosso velho camarada Tony Sylvester era apenas um dos convidados. Ele então chegou na dele e impressionou todos vocês? Acabou que o cara mandou muito bem. Ele estava tão entusiasmado e conhecia tão bem o estilo, que soou bom demais! Daí fizemos um show só com ele. Pra gente, tipo uma festinha Vip. A reação do público foi sensacional. Percebemos, então, que nunca tínhamos sido realmente uma grande banda... até aquele momento! Esse lance tem a ver com o novo baterista também. Tommy fazia parte dos The Germans, e ele tem esse ótimo swing e força que às vezes fazem toda a diferença nas bandas de rock. Um cara muito legal, também, então a química foi melhor do que nunca. A gente pensou: “Caramba! Estamos nos divertindo novamente, vamos gravar um álbum!”. Legal que o Tony tenha se dado bem com vocês no vocal, e que o resultado tenha saído tão bem acabado. Fãs de rock sempre ficam preocupados quando uma banda perde seu vocalista original, tipo o Sepultura, que decepcionou um monte de gente quando o Max saiu. Eu vi o show do Hellfest e posso dizer que o cara nasceu para a coisa... Musicalmente falando, Tony tem um ótimo gosto e conhecimento. O fato de ter sido presidente do fã clube do Turbonegro em Londres mostra o quanto ele sempre foi apaixonado pelo som e o quanto ele respeita o passado da banda. Tony fez parte de algumas bandas de hardcore, mas há certas nuances de seu vocal que evidenciam as múltiplas influências de sua coleção de discos e uma relação de longa data com a cultura do rock. Como colocamos no press-release, ele é o Lemmy viajando de primeira classe. Hank tinha aquela coisa de glamur vaudeville em sua performance, mas foi algo que acabou sumindo com o tempo, por causa das mudanças ocorridas em sua saúde e personalidade. Ficou uma coisa tipo o David Lee Roth no leito da morte. Já o Tony trouxe o perigo de volta, a atitude e a urgência que as pessoas geralmente associam com o punk rock. Essa reciclagem tem sido aplaudida por fãs e críticos, que parecem preferir o lado punk rock da banda do que as tendências glitter rock. E qual é a história com o novo baterista, o Tommy? O Tommy foi nosso roadie nas antigas. Ele é o meu baterista favorito da cena de Oslo há muito tempo, e eu sempre quis tocar com ele. Fizemos até uns tributos ao Joey e Dee Dee Ramone. Algumas pessoas não sacam a importância dos bateristas nos grupos, especialmente na hora de compor; a natureza das músicas está praticamente em suas mãos. Como tem sido a turnê para promover o novo álbum, Sexual Harassment, a reação do público, essas coisas? Poxa, tem sido muito legal. Estamos esgotando ingressos, fazendo duas voltas para bis direto, e, claro, ajudando as pessoas a se autodestruírem em uma névoa de barulho, licor e batom masculino. Nessa nova formação, como ficou o papel de cada um no processo criativo? Vocês tiveram que ensaiar muito para
deixar o repertório redondinho antes de entrar em estúdio? O nosso tipo de som não segue um processo tradicional de composição, como algo que você poderia tocar num violão ou num piano. São basicamente riffs. Até agora, Happy-Tom e eu somos as forças criativas da banda. Mas a performance de cada integrante acaba somando alguma coisa no resultado final das gravações. É mais um recorte de frases, sons, jeito de tocar, textura e produção. Assim que pinta um título legal de música, a gente se junta em volta do laptop, ficamos chapados, e basicamente escrevemos as letras na hora, dando risada. Mesmo no ambiente mais careta do estúdio vocês foram capazes de traduzir e captar a energia do Turbonegro ao vivo. Nesse sentido, qual a importância da contribuição do produtor Matt Sweeney no disco? Ele montou um set bacana no mesmo estúdio, em Nova York, que o Jimi Hendrix montou nos anos 60, o Electric Lady Studio. Matt trouxe um engenheiro de som doidão, que também era escandinavo, e seus amigos da cena de Nova York ficavam entrando e saindo do estúdio a noite toda, às vezes contribuindo com alguma coisa para o álbum. Era uma atmosfera de luxúria, mas ao mesmo tempo uma vibe muito alegre, e eu acho que esse é o estilo de Matt. O Nate, do Converge, cantou em uma das noites, aí de repente apareceu o Benmont Tench do Tom Petty and The Heartbreakers na outra noite, e esse tipo de coisa que acontecia somou bastante ao lado musical. Ele é o mestre das boas vibrações, nos deixava calmos para nos soltarmos. Ao contrário do Bob Rock, que trabalhou bastante para lapidar nossa música ao ponto de ser veiculada nas rádios e no mainstream, ele gosta de usar óculos escuros em ambientes fechados e nos mostrou um monte de vídeos legais no Youtube entre os takes. Mas a sua maior contribuição foi tirar o melhor de Tony como cantor. Depois de tanto tempo na estrada, como é olhar para trás e perceber a evolução toda que se deu no meio musical, em termos tecnológicos? Acho que a maior mudança que rolou na música desde que começamos foi mesmo no aspecto tecnológico, com a reprodução em streaming, a internet e os smart phones. Outra coisa é o fato de que bandas das antigas com boa reputação, hoje, estão mais valorizadas e podendo realizar grandes shows, pois antes tudo era tomado por festivais. Também ficou mais fácil produzir um disco e distribuí-lo hoje em dia, então muita coisa melhorou. Para muitas bandas, como a nossa, agora é possível pagar as contas com dinheiro de shows e sobreviver assim. O ponto negativo talvez seja que bandas apaixonantes não surgem mais com a mesma frequência do que há 15 anos – um pouco da mágica se perdeu. Aquela relação íntima que tínhamos com o disco físico ou a exclusividade de ter visto um espetáculo ou um show histórico num clube, faz parte do passado. Não me importo, sou feliz por ter crescido nos anos 1980-90, quando essas coisas reuniam algum significado. Você sabe que no underground brasileiro vocês são bastante admirados? Tanto, que conheci o Turbonegro de escutar os DJs dos clubinhos de rock de São Paulo tocando músicas do Party Animals e Apocalypse Dudes... Pois é! Eu sei sim, adoraríamos visitar o Brasil! Meu melhor amigo de infância é brasileiro, mudou-se para a Noruega quando tinha seis anos, então sempre tive uma relação com o país. Acho que, tirando o Happy-Tom, que também é surfista, nenhum de nós ainda teve a oportunidade de conhecer o Brasil. Quem sabe em breve! 2013/fevereiro TRIBO SKATE | 2