|06
SÃO PAULO, SÁBADO, 6 DE ABRIL DE 2013 www.readmetro.com
PERSONA
ARTE PARA TODOS Integrar a arte às questões urgentes da sociedade é bandeira do fundador da Choque
Baixo Ribeiro, nome conhecido de quem acompanha a agenda cultural da capital paulista, é o fundador da Galeria Choque Cultural e, desde 2011, atua à frente do Eduqativo, um instituto sem fins lucrativos que lança mão de recursos artísticos para dar forma a projetos inovadores no campo da educação e arte pública. Ele estudou arquitetura e sempre esteve envolvido com trabalhos ligados à estética: passou pela moda, design, cenografia e figurino para cinema, teatro e televisão. Por meio dos projetos da gale-
ria que conduz desde 2003, obteve resultados notáveis na divulgação daquilo a que a maioria chama de “arte urbana”, mas que ele mesmo não gosta muito de tratar assim. Em 2009 e 2011, foi curador da vibrante série De Dentro Para Fora, no Masp, reunindo os principais nomes desse tipo de manifestação e que pode ser considerada um divisor de águas no panorama artístico nacional: pela primeira vez, uma linguagem até então incomum em museus e galerias de tal quilate ganhou projeção relevante no circuito, diga-
mos, convencional. Recentemente, a galeria Choque Cultural fechou a unidade matriz da rua João Moura, na Vila Madalena. A partir de agora, vai concentrar seus esforços na Acervo Choque, que fica no mesmo bairro, focando seu trabalho em somente oito dos 26 artistas de seu catálogo. A primeira expo da Acervo, intitulada Coletivo Choque, começou nesta semana e vai até o dia 30, com trabahos dos criadores representados. Aproveitamos a deixa da entrada da Choque nessa nova fase para bater um papo com ele. ANDRÉ PORTO/METRO
O que motivou o fechamento da unidade da João Moura da Choque? Trata-se de foco mesmo. Queremos realizar um trabalho vertical de apoio à produção, conceituação e inserção institucional com cada artista e, por isso, decidimos representar comercialmente menos artistas. O trabalho de difusão, experimentação e formação que fazíamos na casinha da João Moura ganhou uma nova plataforma, com a criação do nosso instituto - o Eduqativo. Expandimos muito a escala de atendimento e temos levado já há alguns anos a nossa experiência para o grande público, com projetos de ações no espaço público, exposições institucionais, vários projetos com professo-
BRALTSP_2013-04-06_6.indd 6
res da rede pública, com os CEUs, com novos modelos de biblioteca, festivais de arte em outras cidades... Quais os principais nomes da arte urbana em São Paulo? O Stephan Doitschinoff e o Daniel Melim são exemplos de artistas que sabem produzir grandes trabalhos que envolvem equipes multidisciplinares e ainda assim mantém características autorais. O BijaRi é um exemplo de coletivo que consegue criar ações relevantes, colaborando com arquitetos, teóricos, ativistas e com o público em geral. São Paulo é um caldeirão cultural vibrante. Muitos artistas de fora vêm para ver o que está acontecendo aqui, como os ar-
“São Paulo é um caldeirão cultural vibrante. Muitos vêm de fora para ver o que está acontecendo aqui. O intercâmbio tende a crescer e tornar a cidade referência no assunto” tistas locais estão lidando com a cidade. O intercâmbio tende a crescer e tornar a cidade uma referência no assunto. Como nasceu a ideia de investir nesse tipo de arte? Comecei junto com a minha mulher, Mariana Pabst, nosso projeto da Choque em 2003. Na verdade, sempre vivemos em meio às artes, a Mariana é artista desde muito jovem. Nosso filho, Jotapê, também é artista. Desde que abrimos a Choque pudemos perceber
grandes mudanças no panorama das artes visuais, hoje muito influenciado pelas novas mídias, notadamente a internet e a rua. E ampliar a acessibilidade sempre foi a nossa maior preocupação. Do grafite para as multiplataformas, como você avalia a evolução da arte urbana? Não gosto muito do rótulo ‘arte urbana’. Até uso o termo de vez e quando por que, de certa forma, ele abrange um certo con-
ceito de arte feita no espaço público com características menos convencionais do que a arte pública que tínhamos no passado: o busto no centro da praça, a escultura decorando a entrada do prédio. A arte pública está mudando vertiginosamente desde o final dos anos 1980 e essa mudança certamente foi potencializada por gerações e gerações de jovens que resolveram usar mais as ruas, tomar conta do seu território, se apoderar do espaço público. Esse fenômeno
tem a ver com todo mundo hoje. Nosso futuro depende das relações que criaremos nos espaços compartilhados das cidades e os artistas enxergaram isso antes. É certo afirmar que hoje vemos concretizada uma ideia de tirar a criatividade do pedestal e integrá-la de uma vez por todas ao cotidiano das pessoas? Ótima reflexão. Todo mundo é artista, pode produzir arte e pode aproveitar. Integrar a produção artística às questões mais urgentes da sociedade é um tipo de ativismo contemporâneo que aponta para um futuro mais colaborativo. EDUARDO RIBEIRO METRO SÃO PAULO
4/5/13 8:58 PM