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Revista O Setor Elétrico Ed. 216 (Fev)

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Quando duas forças viram história!

20 ANOS DE PARCERIA REVISTA O SETOR ELÉTRICO

CUBÍCULOS BLINDADOS MODULARES CLASSE 17,5 , 24 e 36kV / 630A / 16kA

atitude@atitudeeditorial.com.br

Diretores

Diretores

Adolfo Vaiser - adolfo@atitudeeditorial.com.br

Adolfo Vaiser

Simone Vaiser - simone@atitudeeditorial.com.br

Simone Vaiser

Editor-chefe - MTB - 0014038/DF

Edmilson Freitas - edmilson@atitudeeditorial.com.br

4 Editorial

Que venham mais 20 anos!

8 Especial 20 anos

Revista O Setor Elétrico: duas décadas de transformação a serviço da indústria elétrica nacional

Assistente de circulação, pesquisa e eventos Henrique Vaiser – henrique@atitudeeditorial.com.br Victor Meyagusko – victor@atitudeeditorial.com.br

Coordenação de conteúdo e pauta Flávia Lima - flavia@atitudeeditorial.com.br

Administração

Reportagem

16 Artigo Técnico

Desafios da tecnologia para a segurança: a trajetória do laboratório brasileiro de arco

elétrico - Por Marcio Bottaro

Matheus de Paula - matheus@atitudeeditorial.com.br

Assistente de circulação, pesquisa e eventos administrativo@atitudeeditorial.com.br

Roberta Nayumi administrativo@atitudeeditorial.com.br

Marketing e mídias digitais

Henrique Vaiser - henrique@atitudeeditorial.com.br

Editor

Letícia Benício - leticia@atitudeeditorial.com.br

Edmilson Freitas

edmilson@atitudeeditorial.com.br

Pesquisa e circulação

Maria Elisa Vaiser - mariaelisa@atitudeeditorial.com.br

Reportagem

Fascículos

22 Armazenamento de energia e o futuro do setor elétrico

30 Data centers: a fronteira do setor elétrico

34 Instalações elétricas - média e baixa tensão

40 O setor elétrico na era da IA: eficiência, segurança e novos paradigmas

Administração

Fernanda Pacheco - fernanda@atitudeeditorial.com.br

Paulo Martins - paulo@atitudeeditorial.com.br Cristina Sato - administrativo@atitudeeditorial.com.br

Publicidade

Publicidade

Diretor comercial

Diretor comercial

Comercial

Adolfo Vaiser

Adolfo Vaiser - adolfo@atitudeeditorial.com.br (11) 98188 – 7301

Contato publicitário

48 Por Dentro das Normas

Paulo Barreto - NBR 5410 / Aguinaldo Bizzo – NR 10 / Marcos Rogério - NBR 17193

52 Espaço Aterramento

A evolução do Conceito de Aterramento para Sistema de Aterramento

Willyan Santiago - willyan@atitudeeditorial.com.br

Willyan Santiago - willyan@atitudeeditorial.com.br (11) 98490 – 3718

Direção de arte e produção

Oswaldo Christo - oswaldo@atitudeeditorial.com.br (31) 9 9975-7031 / (31) 3412-7031

54 Espaço Cigre-Brasil

Leonardo Piva - atitude@leonardopiva.com.br

Leonardo Piva - atitude@leonardopiva.com.br

Diagramação

Leonardo Piva - leopiva@gmail.com

Colaboradores desta edição

Colaboradores da publicação:

O conhecimento técnico é o alicerce do futuro do setor elétrico

55 Espaço Abradee

Distribuidoras devem avançar com prorrogação de concessões em 2026

Huais, Luiz Carlos Catelani Junior, Daniel Bento, Danilo de Souza, Mello, Monica Saraiva Panik, Lílian Ferreira Queiroz, Lindemberg Nunes

Silva, Arnaldo José Pereira Rosentino Junior e Marcus Vinícius Borges

Marcio Bottaro, Mirian Penna, Michele dos Reis, Francisco Victer, Thiago Guilherme Ferreira Prado, Luiz Carlos Catelani, Alexandre Kontoyanis, Edson de Assis Custodio, Leo Almeida, Alexandre Faustino, Paulo Barreto, Marcos Rogério, Aguinaldo Bizzo, Paulo Edmundo Freire da Fonseca, João Carlos de Oliveira Mello, Antonio Carlos Barbosa Martins, Maria Alzira Noli Silveira, Joyce Meireles Siqueira, Aline Cristiane Pan, Luciano Rosito, Frederico Boschin, Cláudio Mardegan, Daniel Bento, Nunziante Graziano, José Barbosa, Danilo de Souza, Roberval Bulgarelli, Caio Huais e Yuri Andrade e José Starosta.

Aguinaldo Bizzo de Almeida, Paulo Roberto Borel Júnior, Renato Jardim Teixeira, Thiago Francisco Gomes, Henrique Fernandes Borges, Caio Huais, Luiz Carlos Catelani Junior, Daniel Bento, Danilo de Souza, Emmanuela de Almeida Jordão, Frederico Carbonera Boschin, Paulo Edmundo Freire, Jose Maurilio da Silva, Rinaldo Botelho, João Carlos Mello, Monica Saraiva Panik, Lílian Ferreira Queiroz, Lindemberg Nunes Reis, Luciano Rosito, Claudio Mardegan, Nunziante Graziano, Jose Starosta, Fabrício Augusto Matheus Moura, Ana Carolina Ferreira da Silva, Arnaldo José Pereira Rosentino Junior e Marcus Vinícius Borges Mendonça.

56 Reportagem

Reforma do setor elétrico redefine subsídios, impõe vetos e abre caminho para o mercado livre

60 Pesquisa Setorial

A Revista O Setor Elétrico é uma publicação mensal da Atitude

Fale conosco contato@atitudeeditorial.com.br Tel.: (11) 98433-2788

A Revista O Setor Elétrico é uma publicação mensal da Atitude Editorial Ltda., voltada aos mercados de Instalações Elétricas, Energia e Iluminação, com tiragem de 13.000 exemplares. Distribuída entre as empresas de engenharia, projetos e instalação, manutenção, indústrias de diversos segmentos, concessionárias, prefeituras e revendas de material elétrico, é enviada aos executivos e especificadores destes segmentos.

Mercado de fios e cabos

Distribuída entre as empresas de engenharia, projetos e instalação, e especificadores destes segmentos.

Colunas

64 Aline Cristiane Pan - Inovação e Equidade no Setor Elétrico

65 Luciano Rosito – Iluminação Pública

66 Frederico Boschin - Conexão Regulatória

reprodução total ou parcial das matérias sem expressa autorização

Capa: istockphoto.com | Chirapriya Thanakonwirakit

A Revista O Setor Elétrico é uma publicação mensal da Atitude Editorial Ltda., voltada aos mercados de Instalações Elétricas, Energia e Iluminação, com tiragem de 13.000 exemplares. Distribuída entre as empresas de engenharia, projetos e instalação, manutenção, indústrias de diversos segmentos, concessionárias, prefeituras e revendas de material elétrico, é enviada aos executivos e especificadores destes segmentos. Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente refletem as opiniões da revista. Não é permitida a reprodução total ou parcial das matérias sem expressa autorização da Editora.

Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente refletem as opiniões da revista. Não é permitida a reprodução total ou parcial das matérias sem expressa autorização da Editora.

Impressão - Referência Editora e Gráfica

Distribuição - Correios

Capa: Henrique Vaiser | Geração por IA Impressão - Gráfica Grafilar

Distribuição - Correios

68 Cláudio Mardegan – Análise de Sistemas Elétricos

71 Daniel Bento – Redes Subterrâneas em Foco

72 Aguinaldo Bizzo – Segurança do Trabalho

73 Nunziante Graziano – Quadros e painéis

74 José Barbosa – Proteção contra raios

Atitude Editorial Publicações Técnicas Ltda. Rua Piracuama, 280, Sala 41

Atitude Editorial Publicações Técnicas Ltda.

Fone - (11) 98433-2788 www.osetoreletrico.com.br

Atitude Editorial Publicações Técnicas Ltda. www.osetoreletrico.com.br atitude@atitudeeditorial.com.br Filiada à

Cep: 05017-040 – Perdizes – São Paulo (SP) Fone - (11) 98433-2788 www.osetoreletrico.com.br atitude@atitudeeditorial.com.br Filiada à

76 Danilo de Souza – Energia, Ambiente & Sociedade

78 Roberval Bulgarelli – Instalações EX

79 Caio Cezar Neiva Huais – Manutenção estratégica

80 José Starosta – Energia com Qualidade

Editorial Que venham mais 20 anos!

Celebrar 20 anos de uma revista técnica no Brasil é, por si só, um marco que merece reflexão. Quando olho para a trajetória desta publicação, não penso apenas em páginas impressas ou em conteúdos publicados, penso em um projeto que nasceu com propósito claro: contribuir para o desenvolvimento técnico, profissional e institucional de um dos setores mais estratégicos do país.

Ao longo dessas duas décadas, testemunhamos transformações profundas. O setor elétrico evoluiu, tornou-se mais complexo, mais digital, mais descentralizado e mais exigente. Novas tecnologias surgiram, regulações foram reformuladas, crises energéticas nos desafiaram e a pauta da transição energética ganhou protagonismo definitivo. Em paralelo, o próprio mercado editorial passou por uma das maiores revoluções de sua história. Vimos jornais e revistas tradicionais encerrarem atividades, o impresso perder espaço, o digital redefinir hábitos de consumo e a atenção do leitor tornar-se cada vez mais disputada.

É justamente nesse cenário que a existência contínua da Revista O Setor Elétrico ganha ainda mais significado. Permanecer relevante por 20 anos não é resultado do acaso. É fruto de um compromisso permanente com a qualidade técnica, com a credibilidade da informação e, sobretudo, com a comunidade profissional que constrói diariamente o sistema elétrico brasileiro. Adaptamo-nos aos novos formatos, ampliamos nossa presença digital, diversificamos plataformas e linguagens, mas preservamos aquilo que sempre nos definiu: a missão de ser um veículo técnico, disseminando conteúdo confiável e gerando conexão para o setor.

Tenho orgulho de afirmar que a revista se consolidou como um espaço onde especialistas, engenheiros, fabricantes, integradores, projetistas, reguladores e acadêmicos encontram voz e diálogo. Ao longo desses anos, acompanhamos a evolução de normas técnicas, a modernização das instalações elétricas, a expansão das energias renováveis, a ascensão da eficiência energética, o avanço do armazenamento, da digitalização, da inteligência artificial e dos data centers. Registramos debates, antecipamos tendências e ajudamos a traduzir temas complexos em informação acessível e útil para quem atua na linha de frente.

Mais do que informar, buscamos contribuir para a formação e atualização contínua dos profissionais. Em um setor onde conhecimento técnico salva vidas, comunicar com responsabilidade ganha ainda mais relevância. Por isso, chegar aos 20 anos também é reconhecer que essa trajetória não foi construída sozinha. Ela é resultado da confiança de leitores, especialistas parceiros, anunciantes e de toda a cadeia que acredita na importância de um veículo especializado e independente. Cada edição publicada representa uma construção coletiva.

Olhando para o futuro, sei que as transformações não vão desacelerar. A eletrificação da economia, a descarbonização, a digitalização das redes, a abertura de mercado e os novos modelos de negócio continuarão redesenhando o setor elétrico brasileiro. E, assim como fizemos nos últimos 20 anos, estaremos presentes para acompanhar, questionar, explicar e conectar.

Seguimos em frente com o mesmo entusiasmo do primeiro dia, mas agora, com a maturidade de quem aprendeu, evoluiu e se reinventou ao longo dos anos, sem perder sua essência. Que venham mais 20 anos da Revista O Setor Elétrico!

E é exatamente esse compromisso que renovo hoje.

Acompanhe nossas novidades pelas redes sociais:

Revista O Setor Elétrico
Revista O Setor Elétrico
Revista O Setor Elétrico

Indústria de Mineração Áreas Portuárias

Garantia de Proteção e Segurança para a Indústria Brasileira

ALTA CORRENTE

Tomadas e Plugues Industriais de 400A e 630A

LINHA ULTRARRESISTENTE IP 67 EM ALUMÍNIO

Tomadas e Plugues com Bloqueio Mecânico, Proteção Elétrica e Sinaleiros de 16A até 63A.

Com Bloqueio Mecânico e Proteção Elétrica de 125A até 300A

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Revista O Setor Elétrico:

Por Edmilson Freitas

O ano era 2006. Mais precisamente, às 19h do dia 21 de fevereiro, a Vox Gráfica e Editora, situada na Pompeia, no coração da capital paulista, recebia o aval para imprimir a edição nº 1 da Revista O Setor Elétrico. Com uma tiragem inicial na casa de 8 mil exemplares, nascia ali uma publicação que, pouco tempo depois, se tornaria uma grande referência para o mercado editorial do setor elétrico nacional.

Fruto do sonho e da determinação de um empreendedor nato, então com apenas 36 anos de idade, mas já com uma bagagem de mais de 12 anos de experiência no mercado editorial do segmento elétrico, a revista começava sua trajetória com uma proposta clara: oferecer conteúdo técnico de qualidade, alinhado à prática do mercado.

Nascido e criado em “Sampa”, como se refere carinhosamente à sua cidade natal, Adolfo Vaiser sempre enxergou longe, muito além do que a maioria das pessoas olha e vê. Destemido, com a determinação e a coragem herdadas de seus ancestrais — que imigraram para o Brasil em 1929, em decorrência da ascensão do nazismo, que assolava a Europa Oriental —, Adolfo contou com o apoio da sua sócia e também esposa, Simone Vaiser, e também com a orientação e suporte de grandes amigos do setor elétrico. Eles não apenas acreditaram no projeto da nova revista, como também contribuíram decisivamente para sua viabilização.

“Quando a gente decidiu lançar a Setor Elétrico, eu já tinha de 12 a 13 anos atuando dentro do segmento. Já havia trabalhado como vendedor de uma editora, inclusive na própria revista

Eletricidade Moderna, e tinha montado uma outra revista, que me deu embasamento e conhecimento da indústria e dos especialistas do setor. Na verdade, eu tinha pensado em lançar uma revista em

outro segmento, o de segurança eletrônica, mas, no final de 2004, fui a uma feira de construção no Rio de Janeiro e conversei com o mercado potencial — indústrias e profissionais —, anunciando que, provavelmente, sairia do setor elétrico. Na ocasião, muitos disseram: ‘mas você vai abrir mão de todo o seu conhecimento e do seu networking?’. Eu argumentei: ‘mas já existem três outras revistas no segmento, vocês acham que cabe mais uma?’. E, para minha surpresa, a resposta majoritária foi: ‘sim, cabe mais uma’”, detalha Adolfo Vaiser. Com o sinal verde da indústria, dos potenciais anunciantes e da sua sócia, Adolfo passou a desenhar o que seria a nova revista, seus diferenciais e seu posicionamento de mercado. “Olhando para as publicações da época, percebi que havia uma lacuna: uma revista técnica brasileira, capaz de acompanhar a prática do mercado. Daí veio também a ideia dos fascículos, ou seja, uma revista colecionável, com pesquisas de mercado, várias partes e seções voltadas à aplicação prática de produtos. Levei um ano para montar o boneco da edição nº 1. No fim de 2005, levei a revista ao mercado com o nome Mundo Elétrico, mas tivemos problemas com a marca e surgiu o nome O Setor Elétrico, que acabou sendo o escolhido. Finalmente, a revista chegou ao mercado no início de março de 2006. Felizmente, foi muito bem aceita, até porque, naquele momento, as revistas do setor ainda estavam em alta”, conta.

Atuando inicialmente na área comercial da revista, Simone Vaiser conta como contribuiu para alavancar as vendas e fazer com que a revista ganhasse a confiança do mercado elétrico nacional. “Quando lançamos a revista, eu trabalhava em uma outra revista, então, inicialmente, atuei apenas nos bastidores, colaborando no que era possível. Cerca de um ano depois, me desliguei do antigo trabalho e

passei a atuar no departamento comercial da revista. Eu falei para o Adolfo: me passa só o nome de empresas que ainda não são clientes. Quero trabalhar apenas esses que ainda não conseguimos mostrar o nosso trabalho”, explica Simone.

NOVOS PRODUTOS E MAIS ANUNCIANTES

Aproveitando o boom do mercado editorial, somado ao forte crescimento da indústria elétrica nacional, a revista — que teve sua primeira edição impressa com 64 páginas —, em pouco tempo dobrou de tamanho, para acomodar o aumento de anúncios e também o conteúdo técnico assinado por grandes nomes do setor, como o engenheiro eletricista Paulo Barreto, que participou desde o início do projeto.

“Não é tarefa fácil lançar uma revista técnica. Mais difícil ainda é torná-la crível e longeva, principalmente nos dias atuais, com diversos meios de disseminação de informações ao alcance de todos. Tive a oportunidade e o privilégio de participar da criação do então ‘projeto’ da revista com seu fundador, meu amigo Adolfo Vaiser, e ainda de ser entrevistado para a matéria de capa da edição nº 1, a qual guardo com carinho”, relembra Paulo Barreto, que possui mais de 40 anos de experiência em ensino, projeto, execução, manutenção, inspeção e perícia de instalações elétricas de baixa tensão.

Com pouco mais de um ano de mercado, a revista já havia dobrado de tamanho e marcava presença nos grandes eventos do setor pelo país. “O mercado estava muito promissor. A gente não teve grandes problemas; muito pelo contrário. Com um ano e pouco de revista, na edição nº 14, já estávamos dentro da FIEE, com um estande de 33 m², divulgando nossos produtos e distribuindo a revista, que naquela altura, já tinha entre 100 e 120 páginas”, relembra Adolfo.

Com todo esse sucesso, a revista foi se modernizando e se tornando ainda mais completa, com novas colunas, guias de normas e outros produtos editoriais. “Nos três primeiros anos, conseguimos lançar seções que não existiam no mercado, como o Memória da Eletricidade. Criamos também produtos à parte, como a Coleção Elétrica, que contou a história do mundo das instalações elétricas, e a Coleção Energia, abordando o impacto da eletricidade na vida das pessoas. Lançamos ainda periódicos sobre eletrônica. Ou seja, acompanhamos de perto as tendências do setor, com uma revista muito bem aceita por todos”, complementa.

Participando do embrião da revista, o engenheiro eletricista José Starosta fala com orgulho sobre sua trajetória, que tem a mesma idade da publicação: 20 anos. “Quando recebi o Adolfo em nosso escritório para ouvir as novidades que ele trazia, fui convidado a participar de forma ativa da revista, pois sempre tive uma posição

crítica em relação à publicação anterior da qual ele era sócio. Aceitei, desde que a revista se envolvesse com a apresentação de soluções e casos técnicos. Particularmente envolvido com eficiência energética e qualidade da energia elétrica, tive a oportunidade de escrever artigos na coluna Energia com Qualidade, cujas temáticas são originadas na prática diária dos projetos da nossa empresa, a Ação Engenharia e Instalações”, ressalta.

Ao longo de duas décadas, Starosta foi testemunha direta das transformações do setor elétrico, do mercado editorial e da própria revista. “Desde a época em que as revistas eram lidas exclusivamente em papel, com qualidade gráfica muito diferente das atuais, passando pelo avanço da digitalização das instalações, pelos retrofits necessários, pelos sucessivos modelos de tarifação, pela evolução da eficiência energética e da qualidade da energia elétrica, pela discussão sobre energia limpa e confiável, pelos apagões, suas causas e consequências, até as lives realizadas durante a pandemia. O contato com professores, engenheiros, técnicos, empreendedores, pesquisadores, equipes normativas e comerciais fez crescer todos que orbitam até hoje o núcleo da revista”, destaca.

EVENTOS DO SETOR

Com a revista já consolidada, nascia, há 15 anos, o Circuito Nacional do Setor Elétrico (CINASE). Criado com o objetivo de aproximar ainda os profissionais do setor com os grandes especialistas do universo das normas, acadêmico e dos diversos segmentos de energia, o evento também cresceu rapidamente, tornando-se uma das grandes referências nacionais. “O CINASE foi um produto que nasceu a partir da revista. Recebíamos muitos feedbacks dos leitores, sugerindo um evento, ao mesmo tempo em que percebemos a lacuna de eventos do setor fora do eixo Rio-São Paulo. E assim, nasceu o CINASE, um evento itinerante que promoveu uma grande inclusão do setor elétrico nacional, percorrendo praticamente todas as capitais brasileiras, ao menos quatro vezes ao ano”, explica Simone.

NUNZIANTE GRAZIANO

CEO GRUPO GIMI

“Quando penso na Revista O Setor Elétrico, enxergo uma publicação que, ao longo desses últimos 20 anos, construiu um foco muito claro e consistente. Desde o início, a revista esteve fortemente voltada às instalações elétricas, que sempre foram — e continuam sendo — o coração da publicação: equipamentos, serviços, aplicações e tudo o que envolve esse universo. A revista evoluiu muito ao longo do tempo, mantendo um histórico sólido de trazer novidades fortemente ligadas às normas técnicas. Em seu corpo de consultores e colunistas, sempre houve profissionais diretamente envolvidos com os comitês normativos, especialmente aqueles ligados às instalações elétricas: baixa e média tensão, proteção contra descargas atmosféricas, normas de segurança, NR-10, entre outras.”

NELSON MILANI

DIRETOR COMERCIAL DA

KRON MEDIDORES

“Tenho orgulho de ter acompanhado a trajetória da Revista O Setor Elétrico desde o início. Em um setor de forte caráter técnico e constantes transformações, manter relevância editorial por duas décadas é um feito significativo. Do ponto de vista do fabricante, a revista nos proporcionou um canal de divulgação extremamente qualificado, com credibilidade e abrangência nacional. Ao longo dos anos, foi recorrente encontrar a revista em recepções e salas de reunião de clientes, um indicativo prático de sua importância técnica e de sua presença como referência no setor elétrico brasileiro. Parabéns a todos da Revista O Setor Elétrico”.

GERENTE COMERCIAL E MARKETING DA TRAEL TRANSFORMADORES ELETRICOS LTDA

Comercial e MKT TRAEL “A importância da mídia impressa reside no fornecimento de informação lapidada, trabalhada e, portanto, segura e confiável. O Setor Elétrico está presente nos eventos que atingem todos os atores da cadeia. Parceira da Trael, escrevemos nossa história juntos e assumimos um protagonismo que ecoa nos quatro cantos do país e vem ganhando força na América do Sul. Tudo isso com o carinho da família Vaiser, que fez e faz toda a diferença. Que venham muitos e muitos anos mais!”.

LUCAS GALLEGO

HEAD DE MARKETING DO GRUPO INTELLI

“O Grupo INTELLI é parceiro e anunciante da Revista O Setor Elétrico desde a edição nº 1, e isso não é por acaso. Sempre acreditamos na importância, na seriedade e no comprometimento da equipe com o desenvolvimento de cada edição. A revista tem um papel essencial ao informar, esclarecer, atualizar e fomentar discussões relevantes para o setor elétrico. Desde que assumi o departamento de Marketing do Grupo INTELLI, passei a ter ainda mais respeito e admiração pela revista e por seus colaboradores. Naquele momento, com pouca experiência no setor elétrico, encontrei nas edições e nos profissionais da revista uma fonte constante de aprendizado, que contribuiu diretamente para a construção e o fortalecimento do meu conhecimento profissional. Por tudo isso, acredito que a Revista O Setor Elétrico seja hoje uma referência para o mercado e para os profissionais da área. Parabenizo toda a equipe pelos 20 anos de história, dedicação e contribuição contínua para o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro, com a certeza de que muitos outros anos de sucesso ainda virão.”

“A Revista O Setor Elétrico completa 20 anos e, ao longo dessa trajetória, contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento e o debate do setor elétrico, por meio de artigos e reportagens de relevância. Para nós, da Embrastec, é uma alegria fazer parte dessa história”.

DANIEL BENTO

ESPECIALISTA EM REDES

SUBTERRÂNEAS E CEO DA

BAUR DO BRASIL

“Para mim, a Revista OSE sempre foi mais do que uma publicação técnica. Ao longo de duas décadas, ela se consolidou como referência de informação, análise e debate para todo o setor elétrico brasileiro. Sua circulação nacional e o foco em conteúdo técnico de qualidade ajudaram profissionais, gestores e tomadores de decisão a se manterem atualizados em um mercado que evolui rapidamente. Tive a honra de colaborar como colunista em várias edições e sei o quanto a revista valoriza o conhecimento técnico e a troca de experiências. Desde 2017, mantenho a coluna Redes Subterrâneas em Foco, tema ao qual me dedico há muitos anos. Esse espaço tem sido importante para discutir segurança, confiabilidade e os desafios da expansão das redes subterrâneas no Brasil, além de outros assuntos que impactam diretamente a operação e o desenvolvimento do setor elétrico.”

FÁBIO H. PETRILLI DO NASCIMENTO

CLÁUDIO MARDEGAN –ESPECIALISTA EM PROTEÇÃO, SELETIVIDADE, CURTOCIRCUITO E ARC-FLASH EM SISTEMAS ELÉTRICOS INDUSTRIAIS E CEO DA ENGEPOWER ENGENHARIA.

“Eis o desafio de qualquer empresa: nascer, crescer e sobreviver. Em cada etapa, há uma grande luta para não sucumbir, principalmente hoje, na era digital, em que uma revista precisa enfrentar todas as adversidades do mundo moderno. Sou amigo pessoal de Adolfo Vaiser e acompanho, além de escrever, na revista há muitos anos. O segredo desta publicação está no fato de que seus colunistas e colaboradores de conteúdo são profissionais de elevado nível, escolhidos a dedo para levar um conteúdo diferenciado e que realmente acrescente algo ao leitor. Parabéns a todos da revista, não apenas por manter o padrão elevado, mas também por elevar continuamente o nível da publicação, chegando ao estágio em que se encontra.”

GERENTE EXECUTIVO DE MARKETING ESTRATÉGICO DA ROMAGNOLE

“Celebrar os 20 anos da Revista O Setor Elétrico é reconhecer a trajetória de uma das mais importantes plataformas de disseminação de conhecimento técnico e estratégico do setor elétrico brasileiro. Ao longo dessas duas décadas, a OSE construiu um papel único: aproximou fabricantes, projetistas, profissionais, reguladores e especialistas, oferecendo conteúdo profundo, confiável e indispensável para quem atua na cadeia elétrica. Para a Romagnole, que acompanha essa trajetória de perto há muitos anos, é motivo de orgulho fazer parte dessa história. Como parceira de longa data, vemos na OSE uma aliada estratégica na promoção do conhecimento, do profissionalismo e da evolução tecnológica do mercado brasileiro de energia”.

PAULO HENRIQUE SOARES

ESPECIALISTA EM SISTEMAS FOTOVOLTAICOS E ENGENHEIRO MASTER DA VALE

“A Revista O Setor Elétrico fez parte da minha formação em engenharia elétrica. Conheço a revista há bastante tempo e, na época da minha graduação, ela foi um divisor de águas na escolha da área à qual me dedicar. Acredito que o fascículo mais lido seja o de proteção, escrito por Mardegan, e todo mundo que faz engenharia elétrica acaba encontrando esse fascículo no site. Trata-se de um material muito rico e didático, que facilita a compreensão dos alunos. Além disso, a junção da revista com o CINASE democratiza o conhecimento, oferecendo ao público — especialmente aos estudantes — acesso a excelentes palestras e a profissionais de renome que, muitas vezes, não conseguimos ‘acessar’, ainda mais na vida acadêmica. Em 2012, encontrei os artigos da revista quando ainda cursava engenharia e, depois, tive a oportunidade de ir até Belo Horizonte para acompanhar uma palestra do Mardegan no CINASE.”

DR. DANILO DE SOUZA

PROFESSOR DA UFMT E

COORDENADOR TÉCNICO DO CINASE

“Acompanhei o nascimento da Revista O Setor Elétrico, que, ao longo dessas duas décadas, soube retratar com consistência as profundas transformações do setor elétrico brasileiro: as rupturas tecnológicas, seus desdobramentos institucionais e normativos e o contínuo avanço das normas técnicas. Com o tempo, a revista consolidou-se como uma fonte de excelência para compreender o que está acontecendo e o que está mudando no setor, tornando-se também um verdadeiro hub de conhecimento, em diálogo com grandes eventos, como o CINASE, e com instituições de formação, como o Instituto O Setor Elétrico. Hoje, é motivo de grande orgulho fazer parte do quadro de colunistas dessa revista tão relevante. Seus 20 anos representam uma trajetória sólida e de crescimento exponencial, que a tornou um ponto de parada obrigatório para os profissionais do setor elétrico”.

PAULO EDMUNDO FREIRE

ESPECIALISTA EM ATERRAMENTO E DIRETOR DA PAIOL ENGENHARIA

“Este ano comemoro cinco anos de parceria com a Revista O Setor Elétrico e de participação no CINASE, e tem sido uma trajetória de sucesso. É sempre um prazer compartilhar conhecimento, e tanto o CINASE quanto a minha coluna na revista proporcionam a oportunidade de interagir com colegas do setor elétrico interessados nos temas de meu interesse — aterramento e proteção contra descargas atmosféricas. O CINASE é um evento democrático, no qual temos a oportunidade de conversar, seja no palco ou nos corredores da exposição, com colegas dos mais variados espectros profissionais, além, claro, dos demais palestrantes, companheiros de eventos com quem nos encontramos regularmente. Que venham mais cinco anos dessa excelente parceria!”.

FLÁVIA LIMA - DIRETORA DE CONTEÚDO | INSTITUTO OSE

Como editora, tive o privilégio de estar por mais de uma década à frente do conteúdo editorial da publicação, acompanhando de perto — e ajudando a contar — a transformação do setor elétrico nacional. Costumo dizer que ninguém escolhe o jornalismo pensando em escrever sobre energia elétrica, mas a vida me trouxe para esse universo e, entre uma reportagem sobre a NBR 5410 aqui e uma entrevista sobre o mercado de atmosferas explosivas ali, fui descobrindo um setor complexo, estratégico e fascinante. O resultado: nunca mais saí dele. Hoje, ainda no Grupo OSE, responsável pelo Instituto OSE — seu “filho mais novo” — sigo acompanhando com orgulho a trajetória da revista, que continua sendo produzida com o mesmo carinho, responsabilidade e compromisso técnico, sempre acompanhando o ritmo frenético de um setor, que não para nunca. Vida longa à Revista O Setor Elétrico — e que venham os próximos 20 anos.

URIEL HORTA

DIRETOR COMERCIAL DA

PEXTRON CONTROLES

ELETRÔNICOS LTDA

“Acompanho a Revista O Setor Elétrico e somos, pela Pextron, anunciantes desde a primeira edição. Ao longo dessas duas décadas, a revista se consolidou como uma referência essencial para o setor elétrico brasileiro, fornecendo informações técnicas de qualidade, visão estratégica e conexão entre profissionais, empresas e instituições. Sua contribuição para a disseminação do conhecimento técnico ajudou a construir um setor mais eficiente, seguro e sustentável. Que venham muitos outros anos de sucesso.”

EDSON MARTINHO

CEO DA ABRACOPEL

“Vi nascer a revista com meu amigo Adolfo e fiquei empolgado. O Brasil precisava de uma revista que atendesse o público técnico e trouxesse informações qualificadas para os profissionais que atuam com eletricidade. A Abracopel também estava sendo criada naquele momento e, certamente, a revista seria um marco. Acompanhei seu crescimento e hoje tenho a honra de parabenizar o Grupo O Setor Elétrico pelos seus 20 anos. Que venham muitos anos de sucesso e crescimento.”

SERGIO BOGOMOLTZ

1º CONSULTOR TÉCNICO DA REVISTA OSE

“É um orgulho ver o crescimento da Revista O Setor Elétrico e saber da contribuição de nosso pai, Sergio Bogomoltz, em seus cinco primeiros anos. Em casa, ele sempre falava da revista com muita paixão e dedicação, e nos contava, orgulhoso, sobre o projeto Coleção Elétrica, lançado em 2008. Muitas vezes comentava conosco sobre as revisões técnicas de matérias e colunas, e acreditamos que esse rigor técnico — que, ao olhar leigo, pode parecer preciosismo — ajudou a lapidar uma leitura de qualidade e excelência, refletindo-se tanto para os leitores quanto para os editores e colunistas. Que seu legado e sua contribuição se perpetuem, tanto na revista quanto no setor elétrico brasileiro” - Homenagem póstuma enviada pelo filho, Daniel Bogomoltz.

O QUE ESPERAR DO FUTURO?

Em um mercado em constante transformação, marcado por profundas mudanças na forma como a sociedade se relaciona com o consumo, a expectativa, segundo Adolfo Vaiser, é que a revista — integrante do Grupo O Setor Elétrico, um hub de conteúdo técnico, treinamentos e eventos — continue se modernizando e acompanhando as demandas do mercado e da sociedade brasileira.

“Nesses 20 anos, a Revista O Setor Elétrico esteve presente nos principais eventos nacionais e internacionais, sempre atenta às tendências do setor. Também lançamos e consolidamos grandes eventos, como o Circuito Nacional do Setor Elétrico (CINASE), o Congresso de Inovação na Distribuição de Energia (CIDE), em parceria com a Abradee, o T&D Subestações e, mais recentemente,

o Congresso de Data Centers e Energia Crítica (CDEC), além de inúmeros webinars e produtos editoriais, como guias de normas e publicações especiais. A sensação é de dever cumprido, mas sempre atentos às oportunidades de inovar”, afirma o CEO do Grupo O Setor Elétrico.

Liderando uma empresa com DNA de inovação, Adolfo adianta que novos projetos já estão no “forno”. “Nosso negócio é networking, feito por pessoas, parceiros, especialistas e colaboradores. Tenho muitas ideias — só não tenho mais braços. Muita coisa ainda está por vir. Aproveito para agradecer a todos que fizeram parte da história da revista nesses anos, em especial aos amigos José Starosta, Paulo Barreto, Cláudio Mardegan, Nunziante Graziano e Luciano Rosito. Agradeço também à minha família, à minha esposa e sócia, Simone Vaiser, e a todos os colaboradores do Grupo OSE, atuais e aos que já passaram por aqui. Nosso sucesso vem de vocês”, finaliza.

Da esquerda para a direita: Henrique Vaiser, Ed Freitas, Adolfo Vaiser, Simone Vaiser e Willyan Santiago

DESAFIOS DA TECNOLOGIA PARA A SEGURANÇA: A TRAJETÓRIA DO LABORATÓRIO BRASILEIRO DE ARCO ELÉTRICO

Por Márcio Bottaro – Instituto de Energia e Ambiente da USP – IEE USP

A proteção contra os efeitos térmicos do arco elétrico deixou de ser uma recomendação técnica para se tornar uma exigência legal rigorosa no Brasil. No entanto, por décadas, a indústria nacional enfrentou um “apagão” de infraestrutura, dependendo exclusivamente de laboratórios estrangeiros para a certificação de EPIs. Este artigo detalha a criação do Laboratório Brasileiro de Arco Elétrico (LEVe IEE USP), um projeto de P&D

entre Petrobras e USP que não apenas nacionalizou os ensaios de alta complexidade, mas posicionou o Brasil na vanguarda da normalização internacional. Para gestores de segurança e engenheiros de projeto, compreender essa evolução é fundamental para garantir a especificação correta de vestimentas e a mitigação real de riscos em instalações de potência.

1 - O CONTEXTO HISTÓRICO: OS OUTROS PERIGOS DA ELETRICIDADE E A NR10

Até a década de 1980, a segurança elétrica tinha seu foco majoritariamente no risco de choque elétrico. O marco divisor ocorreu em 1982, com o artigo “The Other Electrical Hazard: Electrical Arc Blast Burns”, do Dr. Ralph H. Lee. O estudo evidenciou que as queimaduras por arco elétrico eram uma ameaça tão letal quanto o choque elétrico, motivando uma revolução da segurança nos trabalhos com energia elétrica e motivando mudanças profundas na normalização internacional, como os que foram implementados na norma NFPA 70E nos EUA (National Fire Protection Association).

A NFPA 70E teve sua primeira edição lançada em 1979, demandada pela seção regulatória de segurança elétrica da OSHA (Occupational Safety and Health Administration), Capítulo 22, que surgiu em um ato regulatório em 1970, oito anos antes da nossa primeira norma para segurança para Instalações e Serviços de Eletricidade a NR10. Em 1995 a NFPA 70E tratava pela primeira vez o assunto Arco Elétrico e no ano 2000 incluía em sua edição a seleção de equipamentos de proteção individual contra efeitos térmicos de arcos elétricos, um tema que até hoje é um desafio para os profissionais de segurança elétrica.

No Brasil, essa preocupação ganhou força legal apenas em 2004, com a revisão da NR 10. Pela primeira vez, a inflamabilidade das vestimentas foi citada, levando a uma exigência quase que indireta da proteção térmica, motivada por profissionais brasileiros que tinham experiência internacional neste tema à época. Entretanto, a regulamentação avançava mais rápido que a infraestrutura: o país possuía as normas, mas não tinha como ensaiar os tecidos e EPIs disponíveis no mercado nacional, seja para fins regulatórios (obtenção do certificado de aprovação conforme NR 6 e portarias vigentes), seja para avaliação de usuários que buscavam entender como realmente tais EPIs suportariam a energia incidente de um arco elétrico real.

2 - A LACUNA TECNOLÓGICA E O GARGALO DAS CERTIFICAÇÕES

Entre 2009 e 2011, o Ministério do Trabalho intensificou a fiscalização através de portarias (como a 121/2009), exigindo o Certificado de Aprovação (CA) para vestimentas de proteção. O cenário era crítico:

• Dependência Externa: ensaios só podiam ser feitos fora do Brasil.

• Custos Proibitivos para algumas empresas: o envio de amostras, tradução juramentada de laudos e o custo dos serviços em moeda estrangeira encareciam o EPI e travavam a inovação da indústria têxtil brasileira.

• Falta de Conhecimento Técnico: sem laboratórios próprios, o Brasil não dominava a tecnologia e o processo de caracterização e avaliação de desempenho de tecidos, materiais e EPIs, aceitando os dados internacionais de maneira totalmente passiva.

Além dos fatores tecnológicos mais impactantes, o mercado Brasileiro contava com um arcabouço normativo diverso, com diferentes opções de normas técnicas estrangeiras e internacionais, o que também gerava conflito em especificações técnicas e em interpretações de resultados, pois as normas internacionais aplicadas para o mesmo fim, tinham variações de requisitos entre si a depender de sua origem.

A atuação internacional no ambiente normativo era uma necessidade para se harmonizar o processo e trazer maior segurança aos usuários finais das vestimentas de proteção térmica e de outros EPIs utilizados na proteção contra efeitos térmicos de arcos elétricos. Mas isso só seria possível com a capacitação efetiva de profissionais e pesquisadores brasileiros nessa área.

3 - O NASCIMENTO DO LEVE IEE USP: INOVAÇÃO VIA P&D

Diante desse déficit, uma coalizão envolvendo o Ministério do Trabalho, sindicatos (SEESP) e a Petrobras, buscou-se no ambiente acadêmico a solução. O IEE USP (Instituto de Energia e Ambiente da USP) foi selecionado devido à sua infraestrutura pré-existente no Serviço Técnico de Altas Potências (SVALPOT).

Em 2013, o projeto de P&D foi aprovado pela ANP com um aporte de aproximadamente R$ 1,5 milhão (US$ 600 mil). O diferencial estratégico do IEE USP foi estabelecer uma cadeia de fornecimento de infraestrutura que dependesse o mínimo possível de importações, particularmente de componentes chave no sistema:

• Sistema de controle e aquisição de dados: criação própria de sistemas de controle com uso de hardware para aquisição de dados genérico, e desenvolvimento próprio de algoritmos matemáticos, software e automação.

• Manequins e Calorímetros: ao invés de importar manequins que consumiriam 60% do orçamento, o laboratório desenvolveu fornecedores nacionais e projetos mecânicos próprios.

• O Container de Ensaios: para isolar os efeitos destrutivos do arco (fumaça, metal fundido e radiação), foi projetada uma estrutura isolada e exaurida, garantindo segurança ambiental e técnica, com a área de ensaio condicionada termicamente.

O desenvolvimento do laboratório contou com uma equipe experiente na área de altas correntes do IEE USP, o que facilitou a implementação dos sistemas de controle do arco elétrico, e profissionais e pesquisadores com grande experiência em metrologia térmica e elétrica, resultando em um sistema que tinha grande exatidão e reprodutibilidade na aquisição de dados e manipulações matemáticas exigidas pelo processo de tratamento de dados de ensaio.

Entretanto, o conhecimento aprofundado do processo de avaliação de EPIs e caracterização da resistência ao arco elétrico de tecidos e outros

Artigo Técnico

materiais ignífugos mostrou aos profissionais envolvidos no projeto, que o arranjo de ensaios e o estado da técnica tinham diversos desafios tecnológicos a serem vencidos, o que até então não era transparente por parte dos laboratórios internacionais.

Esses desafios tecnológicos são estudados e discutidos até hoje entre os laboratórios internacionais, no entanto, com a participação do LEVe na atualidade, o que traz transparência sobre a real precisão e reprodutibilidade do método. Essa informação atualmente é compartilhada com profissionais de engenharia e de segurança no trabalho por meio de palestras, treinamentos e programas de capacitação onde os pesquisadores do LEVe tem a missão de disseminar os avanços no aprimoramento da técnica, a realidade de suas fragilidades e as técnicas e condições de contorno para a garantia da segurança dos trabalhadores do setor elétrico.

4 - DESAFIOS INTERNACIONAIS E O PAPEL DA CIÊNCIA

A implementação do LEVe IEE USP — o quarto laboratório do tipo no mundo e o único no Hemisfério Sul — não foi isenta de resistência. Ao entrar em operação, o laboratório brasileiro passou a ser visto como um concorrente comercial pelos estrangeiros e teve bastante resistência mesmo de fabricantes nacionais e importadores que já tinham uma cadeia definida de fornecimento internacional.

A superação desse isolamento veio através da excelência científica. Com o apoio do renomado especialista Dr. Helmut Eichinger, o IEE USP integrou-se ao IEC TC 78 (comitê internacional de trabalhos sob tensão). Em 2018, a publicação de um estudo na IEEE-Transactions IAS sobre a influência da componente assimétrica na corrente de arco consolidou o respeito internacional ao laboratório. Desde 2019, o Brasil participa ativamente dos programas de comparação interlaboratorial, garantindo que os resultados gerados em São Paulo tenham a mesma validade que

os demais ensaios internacionais.

A característica de laboratório de pesquisa do LEVe IEE USP, entretanto, sem fins comerciais e com uma atuação muito mais técnica e científica, logo foi ficando evidente para os laboratórios internacionais e para o mercado produtor e consumidor de EPIs no Brasil e na América Latina.

5 - A CERTIFICAÇÃO DE EPIS PARA PROTEÇÃO CONTRA OS ARCOS ELÉTRICOS

Com a criação do LEVe e o consequente domínio da técnica sobre caracterização quanto a resistência ao arco elétrico, aliada a forte atuação da comissão de estudos de efeitos térmicos do ABNT CB32, o Brasil caminhou para a certificação de vestimentas de proteção contra efeitos térmicos de arcos elétricos.

Esse fato se tornou realidade em dezembro de 2023 com uma revisão importante da portaria MTP 672, incluindo essas vestimentas, assim como as de proteção contra efeitos térmicos de fogo repentino, no cenário de certificação compulsória nacional.

Na atualidade, com a atuação de Organismos Certificadores de Produto (OCPs) e com a abertura do processo para os laboratórios do exterior novamente, o mercado tem um novo fluxo de avaliação de conformidade de equipamentos de proteção individual do tipo vestimentas, fazendo com que o Certificado de Aprovação (CA) tenha como base um processo de certificação, que em tese deve trazer uma camada adicional de segurança quanto a conformidade dos EPIs adquiridos pelos usuários finais.

6 - O DESAFIO DA CAPACITAÇÃO

Após quase 10 anos de sua inauguração, em agosto de 2016, o LEVe promoveu um avanço no conhecimento técnico nacional. A disseminação desse conhecimento técnico e científico ficou restrito aos bastidores das comissões de estudos normativos da ABNT, como o CB32 e o CB03, e veio avançando em 2024 para os demais foros de competência sobre o tema, como instituições focadas na disseminação do ensino para a segurança (ABRACOPEL entre outras), entidades de trabalhadores e órgãos reguladores (CREA, SEESP), empresas produtoras e usuárias de EPIs, entre outros profissionais de engenharia e segurança no país e na América Latina.

Em 2025 com a publicação da norma ABNT NBR 17227, Arco elétrico — Gerenciamento de risco de energia incidente, precauções e métodos de cálculo e do Livro Arco Elétrico e Energia incidente, tivemos mais um avanço com uma abordagem completa do tema, mas a capacitação no tema ainda é bastante tímida.

Um ponto de fragilidade, a exemplo de outros cenários de certificação no Brasil, é a capacitação técnicas de confecções que atuam no mercado brasileiro de vestimentas de proteção térmica, e dos Organismos Certificadores de Produto nacionais, que no aspecto técnico, de vivência laboratorial, aproximação com usuários, e de conhecimento do tema de

maneira aprofundada ainda é muito distante do que temos em países da América do Norte e Europa, regiões onde o tema já está melhor consolidado.

A maior preocupação atual é a conscientização e capacitação dos usuários. Como o processo de certificação atinge basicamente a produção e distribuição dos EPIs novos para o mercado, o monitoramento e fiscalização desses produtos e a garantia da sua manutenção em uso fica por conta desses que são os mais importantes integrantes do processo como um todo. Esse conhecimento chega lentamente até os usuários, e com isso, programas de capacitação com especialistas que realmente tem conhecimento sobre a matéria tem sido um desafio constante no Brasil.

A realidade não é diferente nos demais países da América Latina, desde México até o Uruguai, a capacitação ainda é muito incipiente, e demanda uma atuação ainda maior da Universidade e de outros especialistas no Brasil, seja pela promoção de foros para discussão do tema, circuitos de palestras e cursos especializados. É um caminho obrigatório se desejamos evoluir de verdade na segurança dos trabalhadores do Setor Elétrico.

7 - IMPACTO PARA O SETOR ELÉTRICO E FUTURO

Com o LEVe IEE USP temos uma referência e um pilar para a manutenção do processo de certificação de vestimentas de proteção no Brasil. Apesar da abertura em dezembro de 2023 para os laboratórios internacionais, é fundamental a existência de um laboratório nacional, não somente para a manutenção da vanguarda tecnológica e suporte aos fabricantes nacionais de EPI, mas para os usuários de todo o sistema elétrico de potência nacional. Essa referência tem se estendido para usuários de EPI em toda América Latina, fazendo com que o LEVe IEE USP receba ensaios e auditorias de EPI de diversos países vizinhos todos os anos.

Atualmente, uma das importantes contribuições do Laboratório Brasileiro é na auditoria de EPIs, novos ou usados, no intuito de avaliar a real proteção dos produtos adquiridos pelos usuários do sistema elétrico, e a capacidade de manutenção das propriedades de proteção térmica após o uso, respectivamente.

A certificação de um EPI para proteção contra efeitos térmicos no Brasil e no mundo tem como base um único ensaio de caracterização de tecidos ou outros componentes críticos com relação a resistência ao arco elétrico. Esse fator é alvo de grande preocupação na atualidade, em virtude da variabilidade que os processos têm demonstrado internacionalmente.

Os avanços nos estudos e a análise de um conjunto de quase 10 anos de dados laboratoriais no Brasil, somados

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Artigo Técnico

a evidências de estudos internacionais, mostram que um novo passo tecnológico deve ser dado em relação ao processo de certificação de EPIs, no sentido de melhorar a dispersão e os problemas técnicos enfrentados pelos produtores desses equipamentos, e que impactam os usuários finais dos EPIs. Esse será o tema na normalização internacional para os próximos 5 anos, onde o LEVe continuará atuando com sua vocação no desenvolvimento tecnológico e pesquisa para garantia da segurança do trabalhador.

Diversos projetos tem sido alavancados no Brasil após a criação do LEVe, e várias investigações estão em andamento com o intuito de avançar no tema de proteção ao trabalhador. Os projetos tem como objetivo a investigação dos efeitos térmicos dos arcos elétricos, de outros efeitos danosos que não somente a energia incidente, como impacto de pressão sonora, ejeção de materiais incandescentes, produção de resíduos tóxicos, chamas, fumaça, entre outros. Reavaliação e estudos de modelos teóricos e empíricos também foram alavancados com a criação do LEVe, e a disseminação do conhecimento em alto nível é uma bandeira dentro do IEE USP para que possamos melhorar o nível técnico de todos os integrantes do processo de avaliação da conformidade, seleção, uso e cuidados com os EPIs, que constituem a única barreira quando todas as medidas de controle adicionais falham em um acidente.

CONCLUSÃO

O Laboratório Brasileiro de Arco Elétrico é mais que uma instalação de ensaios; é um símbolo de maturidade tecnológica. Ao unir o rigor acadêmico da USP, o fomento da Petrobras e a demanda regulatória do Ministério do Trabalho, o Brasil aprimorou o ciclo de proteção do

trabalhador, garantindo que a vestimenta de proteção seja, de fato, a última e mais segura fronteira entre o eletricista e o perigo.

O desenvolvimento tecnológico e a pesquisa nessa área vêm avançando e seguindo os caminhos críticos que somente com o surgimento do LEVe pudemos compreender e avançar no Brasil. O maior desafio para a próxima década é a uniformização do conhecimento dos profissionais que atuam na área de segurança nos trabalhos com eletricidade, seja na produção, certificação ou seleção, uso e cuidados com os EPIs.

O conteúdo na íntegra sobre o desenvolvimento do LEVe está registrado no Livro: “O Laboratório Brasileiro de Arco Elétrico: Tecnologia para o Desenvolvimento Nacional”, por Marcio Bottaro e Ildo Sauer – download gratuito nos canais do IEE USP: https://www.iee.usp.br/ wp-content/uploads/2025/10/ARCOS-ELETRICOS_EBOOK.pdf

REFERÊNCIAS

1. M.Bottaro, I. L. Sauer. “O Laboratório Brasileiro de Arco Elétrico: Tecnologia para o Desenvolvimento Nacional”. Cuiabá-MT: Guará Editora, 2025. ISBN 978-65-987228-9-0.

2. NFPA Standard for Electrical Safety in the Workplace, NFPA 70E, 2024.

3. OSHA Field Safety and Health Management System (SHMS) ManualCHAPTER 22. ELECTRICAL SAFETY

4. C. S. Mardegan, F. B. Resende, M. Bottaro. “Arco elétrico e energia incidente: metodologias de cálculo em sistemas AC e DC, EPIs, EPCs, técnicas para redução da EI em equipamentos e dispositivos para melhorar a segurança”, 1∘ ed. São Paulo: Ed. do Autor, 2025.

5. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 10 – NR 10: Segurança em instalações e serviços em eletricidade. Brasília: MTE, 2004.

6. BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência. Norma Regulamentadora nº 6 – Equipamentos de Proteção Individual (NR-6). Brasília: Ministério do Trabalho e Previdência, 2025.

7. M. Bottaro et al., “Analysis of Asymmetrical Component Influence on Arc Current in the Determination of Arc Thermal Performance Value of Protective Personal Equipment” in IEEE Transactions on Industry Applications, vol. 55, no. 2, pp. 2130-2137, March-April 2019.

8. M. Bottaro, L. Eduardo Caires, P. Futoshi Obase, T. Ohara de Carvalho and H. Tatizawa, “A Comprehensive Analysis of the Influence of Thermal Insulating Materials on Arc Rating Tests” in IEEE Transactions on Instrumentation and Measurement, vol. 74, pp. 1-9, 2025, Art no. 1500609, doi: 10.1109/ TIM.2025.3529562.

9. A. Atq et al., “Arc rating variability and repeatability: why does fabric arc rating vary and which value is correct?”. In IEEE Electrical Safety Workshop, Reno, NV (USA). November 2023. pp. 53-59.

10. A. Atiq and J. Cliver, “How Variability in Arc Ratings is Stifling Innovation in Development of Arc Rated Clothing” 2024 IEEE IAS Electrical Safety Workshop (ESW), Tucson, AZ, USA, 2024, pp. 1-6, doi: 10.1109/ESW52258.2024.10752768.

11. L. E. Caires, M. Bottaro, T. O. de Carvalho, P. F. Obase, R. Masaro and H. Tatizawa, “ELIM – An analysis of the impact of variability in the new IEC arc rating parameter compared to the well-known ATPV” 2025 IEEE ESW Brazil –Electrical Safety Workshop Brazil (ESW Brazil), São Paulo, Brazil, 2025, pp. 1-6, doi: 10.1109/ESWBrazil64921.2025.11277496.

Armazenamento de energia e o futuro do setor elétrico

Ao longo de 2026, este fascículo abordará os avanços das tecnologias de armazenamento de energia e sua crescente relevância para o setor elétrico. Em um sistema cada vez mais renovável e complexo, soluções de estocagem se tornam essenciais para garantir flexibilidade, confiabilidade e segurança energética. As abordagens contarão com a expertise e o olhar de duas grandes especialistas no tema: Miriam Penna Diniz, que traz em sua bagagem mais de 20 anos de experiência em engenharia industrial e no setor elétrico. Pioneira no setor fotovoltaico nacional, ministra cursos e mentorias sobre autoprodução; e Michele dos Reis - engenheira eletricista pela Pontifícia de Minas Gerais e mestre em Sistema Elétrico de Potência pela UFMG. Atualmente é Gestora de Inovação em Baterias e Armazenamento na CEMIG, onde também já atuou nos processos de Operação e Manutenção de Usinas, Planejamento da Expansão de Transmissão e Distribuição e Gestão de Qualidade, Saúde, Segurança e Meio Ambiente.

Capítulo 1

Fundamentos do armazenamento de energia: o que é e por que importa

Por Francisco Victer e Thiago Guilherme Ferreira Prado

A ENERGIA, ANTES DE SER ELÉTRICA, FOI FOGO. E ANTES DE SER FOGO, FOI LENHA

Milênios atrás, quando os primeiros humanos aprenderam a dominar as chamas, não descobriram apenas uma fonte de calor ou proteção contra predadores: descobriram, de maneira intuitiva, o conceito de armazenamento de energia. A lenha empilhada ao lado da caverna ou do vilarejo não era apenas madeira seca esperando para ser queimada. Era energia solar capturada ao longo de anos convertida em biomassa, condensada pela fotossíntese e agora disponível para uso em momentos de necessidade. Guardar lenha era, essencialmente, guardar o verão para usar no inverno.

Esse gesto simples — acumular biomassa para uso futuro — talvez seja o primeiro exemplo claro de planejamento energético da humanidade. A lenha permitia cozinhar alimentos, aquecer abrigos durante a noite ou no frio intenso, endurecer ferramentas, produzir carvão vegetal e, com ele, sustentar atividades comerciais e artesanais. Mesmo sem compreender conceitos como joule ou watt, nossos ancestrais já sabiam que energia abundante em um momento precisava ser guardada para quando ela faltasse.

Desde então, a história da civilização passou por uma sucessão de ciclos energéticos, todos profundamente dependentes do armazenamento. O carvão mineral alimentou a Revolução Industrial porque podia ser extraído, transportado, estocado e queimado quando fosse conveniente. Já a partir do fim do século XIX, o petróleo

Miriam Penna Diniz Michele dos Reis

e o gás natural tornaram-se a espinha dorsal da indústria moderna justamente por sua altíssima densidade energética e facilidade de estocagem. Um único barril de petróleo concentra trabalho suficiente para substituir semanas de esforço humano contínuo. Não por acaso, esses combustíveis moldaram e ainda moldam a geopolítica, a economia e a própria organização das cidades.

No Brasil, o ciclo energético dominante assumiu uma forma distinta, mas não menos dependente de armazenamento. Os grandes reservatórios hidrelétricos construídos ao longo do século XX funcionam, em essência, como gigantescas baterias naturais. Durante períodos chuvosos, a água — portadora de energia potencial gravitacional — é acumulada atrás das barragens. Nos períodos secos ou nos momentos de maior consumo, essa água armazenada é liberada para movimentar turbinas e gerar eletricidade. A represa permite separar no tempo o momento em que a energia é capturada (a chuva) do momento em que ela é usada (o consumo). É o mesmo princípio da lenha, apenas em outra escala e com outra física.

Esse pano de fundo ajuda a compreender uma característica fundamental — e frequentemente mal-entendida — da eletricidade: elétrons não ficam guardados. Não existem “estoques” de energia elétrica repousando em subestações ou aguardando nas linhas de transmissão. A eletricidade precisa ser consumida praticamente no instante em que é produzida. Um sistema elétrico é como uma música tocada ao vivo: se os músicos param, o som desaparece; se tocam alto demais para o auditório, o som entra em ressonância e assim a melodia já não é mais audível.

Sempre que falamos em armazenamento de energia elétrica, portanto, estamos falando de algo indireto. Armazena-se energia convertendo-a em outra forma: química, mecânica, térmica ou gravitacional. Depois, quando necessário, reconverte-se essa energia em eletricidade. Mas no passado, essa conversão raramente era um problema. Afinal, o modelo energético do mundo inteiro foi construído em torno de fontes controláveis. Se uma cidade precisava de mais energia, queimava-se mais carvão, mais óleo ou mais gás.

Se a demanda caía, reduzia-se a queima. Nas hidrelétricas, bastava turbinar mais ou menos água. A geração seguia o consumo com relativa tranquilidade.

ESSE

PARADIGMA, PORÉM, MUDOU.

Com a expansão das fontes renováveis intermitentes — principalmente a solar e a eólica — a geração elétrica passou a

depender cada vez mais de fatores que não estão sob controle humano. Não se escolhe quando o sol brilha, tão pouco não se agenda o vento. Voltando à metáfora da lenha, fica claro que o valor da energia é necessariamente dependente do tempo e do lugar. De nada adiantaria um vilarejo saber que existe lenha abundante em outro, se uma nevasca tornasse as estradas intransitáveis. Da mesma forma, não adianta um país possuir enorme capacidade de geração concentrada em uma região se não houver um sistema de transmissão robusto o suficiente para levar essa energia até onde ela é consumida. E quanto maior a distância e o volume de energia a ser transportada, maior o custo, a complexidade e as perdas envolvidas.

A analogia pode ser estendida ainda mais. Não basta ter lenha; é preciso ter onde queimá-la. Lareiras, fogões e fornos precisam ser compatíveis com a quantidade de pessoas que estão sendo atendidas. No setor elétrico, isso equivale à existência de quantidade significativa de usinas capazes de gerar, subestações capazes de transformar níveis de tensão e redes de distribuição capazes de entregar essa energia com segurança aos usuários finais. Uma região pode ter abundância de combustível e, ainda assim, ser obrigada a desperdiçá-lo se não houver infraestrutura local adequada para absorvê-la.

Além disso, é fundamental que esse sistema seja flexível. Uma lareira eficiente não é apenas aquela que esquenta, mas aquela cujo fogo pode ser ajustado rapidamente. Se uma nevasca começa de forma inesperada, é preciso intensificar o calor em minutos. Quando o dia amanhece, convém reduzir o fogo gradualmente, economizando lenha. Essa flexibilidade traz conforto, segurança e eficiência no uso do recurso energético.

No sistema elétrico, o paralelo é direto. Ao final da tarde, quando milhões de pessoas chegam em casa e ligam iluminação, televisores e aparelhos de ar-condicionado, a demanda cresce abruptamente. A geração precisa acompanhar esse aumento quase instantaneamente. Horas depois, durante a madrugada, o consumo cai, e a geração deve diminuir para evitar sobrecargas que podem danificar equipamentos e desestabilizar a rede. Tradicionalmente, quem garante esse ajuste fino são fontes despacháveis: hidrelétricas que modulam vazão, termelétricas que ajustam a queima de combustível, turbinas a gás capazes de ligar e desligar rapidamente.

A presença crescente de geração renovável torna esse equilíbrio mais delicado. Quando há vento, gera-se energia e, quando o sol nasce, milhares de usinas solares começam a produzir quase ao mesmo tempo. É preciso, em questão de minutos, reduzir a geração

de outras fontes. Quando o vento para ou o sol se põe, ocorre o movimento inverso: uma grande quantidade de energia desaparece, e outras usinas precisam assumir rapidamente. No Brasil, essa variação diária já atinge dezenas de gigawatts — algo comparável ao sistema elétrico inteiro de países médios. As usinas remanescentes precisam ser suficientemente flexíveis para absorver esse vaivém diário, sob pena de cortes de carga ou instabilidades nos sistemas elétricos que podem chegar a ser incontroláveis.

E isso traz outro aspecto menos intuitivo, mas absolutamente central, da operação elétrica: a estabilidade da rede. Em um vilarejo, não adianta haver dezenas de lareiras e toneladas de lenha se ninguém souber acender o primeiro fogo. No sistema elétrico, esse papel é desempenhado pelas chamadas usinas síncronas. Hidrelétricas e termelétricas possuem grandes máquinas girantes que, por sua própria inércia mecânica, mantêm a frequência elétrica estável e definem a forma das ondas de tensão e corrente. Elas funcionam como maestros de uma orquestra: ditam o ritmo, a cadência e garantem que todos os instrumentos estejam em harmonia.

As usinas solares e eólicas modernas, por outro lado, conectam-se à rede por meio de inversores eletrônicos. Esses equipamentos são eficientes, mas normalmente não possuem inércia física significativa. Eles não sabem a música; apenas escutam o que está sendo tocado e imitam. Enquanto houver maestros suficientes, isso funciona muito bem. O risco surge quando a participação dessas fontes cresce a ponto de quase não restarem usinas capazes de estabelecer a referência elétrica. Caso ninguém da vila saiba acender o fogo, todo mundo fica no escuro; e caso nenhuma usina da região mantenha a forma correta das ondas, todo mundo também fica no escuro.

Apesar de todos esses desafios, a geração renovável possui uma vantagem incontestável: é barata — e está ficando mais barata a cada ano. Por isso cresce de forma acelerada em todo o mundo. Elas reduzem a dependência externa à combustíveis líquidos, gás natural e outros energéticos. Democratizaram o acesso à energia em regiões de difícil acesso. Ao mesmo tempo, os combustíveis fósseis são progressivamente evitados por razões ambientais; grandes

hidrelétricas tornam-se cada vez mais raras, pelo amplo debate social e ambiental no entorno delas; e, situações de excedente de geração renovável já são frequentes mundo afora — inclusive no Brasil.

Nesse novo cenário, o setor elétrico precisa continuar entregando aquilo que sempre entregou: estabilidade, flexibilidade e segurança. Mas agora em um contexto em que não se controla plenamente quando e onde a energia é produzida. Assim como nossos ancestrais aprenderam a empilhar lenha antes do inverno, o desafio contemporâneo passa por aprender a capturar os excedentes do sol e do vento, guardá-los de forma eficiente e liberá-los quando realmente fazem falta.

A pergunta, portanto, surge de maneira quase inevitável: em um sistema cada vez mais renovável, a chave para o equilíbrio não estará, novamente, no armazenamento da energia?

A partir dessa pergunta — simples na forma, profunda nas implicações — abre-se um novo capítulo da história energética. Se no passado o armazenamento esteve embutido nos próprios combustíveis e reservatórios, hoje ele precisa ser pensado de maneira explícita, deliberada e tecnológica. Armazenar energia deixa de ser um detalhe operacional e passa a ser um pilar estrutural do sistema elétrico moderno.

MAS O QUE SIGNIFICA, AFINAL, ARMAZENAR ENERGIA ELÉTRICA?

Significa, antes de tudo, aceitar que não se armazena eletricidade como eletricidade. Sempre haverá uma transformação intermediária. O elétron é um veículo eficiente, mas inquieto: excelente para transportar potência instantaneamente, péssimo para ficar parada. Sempre que queremos “segurá-lo”, somos obrigados a convertê-lo em algo mais estável — assim como o calor do verão é convertido em lenha, ou a água da chuva é convertida em um lago represado.

As formas de armazenamento, portanto, nada mais são do que maneiras distintas de responder a uma mesma pergunta: em que outra forma física vale a pena guardar a energia, dadas as restrições de custo, espaço, tempo e eficiência?

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A RESPOSTA NUNCA FOI ÚNICA, E CONTINUA NÃO SENDO:

Uma das formas mais intuitivas é o armazenamento gravitacional, que curiosamente remete de volta às hidrelétricas. Quando se bombeia água para um reservatório mais alto usando eletricidade excedente, está se transformando energia elétrica em energia potencial. Mais tarde, ao liberar essa água, a conversão se inverte. Esse princípio é tão antigo quanto eficaz, e explica por que as usinas reversíveis (ou de bombeamento) continuam sendo, globalmente, a maior forma de armazenamento de energia em escala de rede. Elas são, literalmente, lagos artificiais onde se guarda eletricidade sob a forma de altura.

Há também o armazenamento químico, talvez o mais emblemático da era atual. As baterias — especialmente as de íons de lítio — funcionam como pequenas refinarias reversíveis: usam eletricidade para rearranjar moléculas e elétrons em estruturas químicas de maior energia, e depois desfazem esse arranjo quando a eletricidade é necessária novamente. São compactas, rápidas e incrivelmente versáteis. Podem responder em milissegundos, fornecer potência precisa, estabilizar frequência e tensão. E por conta de avanços de manufatura, principalmente induzidos pelo crescimento na oferta de veículos elétricos na década de 2010, passaram (e continuam passando) a ser cada vez mais baratas. Não por acaso, tornaram-se o símbolo do armazenamento moderno.

Mas essa versatilidade vem com limites. Baterias de íons de lítio são ótimas para resolver problemas de curta duração — segundos, minutos, algumas horas. Pedir que resolvam sozinhas semanas de seca ou longos períodos sem vento é como manter uma casa aquecida com fósforos: possível em teoria, pouco econômico na prática. Por mais eficiente que seja o processo de manufatura dos fósforos, eles sempre serão menos eficientes que a lenha: a física cobra um preço.

Outra categoria é o armazenamento térmico. É possível usar eletricidade excedente para aquecer materiais — sais fundidos, rochas, água — e depois converter esse calor novamente em eletricidade ou

usá-lo diretamente em processos industriais. Nesse caso, a energia deixa de ser “nobre” (elétrica) e se torna “bruta” (calor), mas ganha escala e alta capacidade de reuso. Por outro lado, as perdas de conversão costumam ser altas. É uma solução especialmente interessante quando o uso final não exige eletricidade de alta qualidade, mas apenas temperatura. Há ainda o armazenamento mecânico, como volantes de inércia, que giram a altíssimas velocidades, acumulando energia cinética. São como piões gigantes, extremamente úteis para estabilizar sistemas, absorver oscilações rápidas e fornecer potência instantânea, ainda que por curtos períodos. Outros exemplos de armazenamento mecânico são as molas e arranjos magnéticos.

E existe o armazenamento químico indireto: converter eletricidade em combustíveis, como hidrogênio, amônia ou combustíveis sintéticos. Nesse caso, o sistema elétrico se conecta diretamente aos setores industrial, químico e de transportes. A energia elétrica deixa de ser apenas um produto final e passa a ser matéria-prima. É o retorno, em nova roupagem, da lógica dos combustíveis — só que agora produzidos com sol e vento, e não com fósseis. Com a desvantagem de que os custos dessa conversão costumam ser elevados, aqui os conceitos da termodinâmica nos lembram que sempre haverão perdas em cada uma dessas conversões, tornando o processo como um todo ineficiente sob a perspectiva energética, mas o problema aqui já é outro: disponibilidade energética.

Vale, por fim, destacar o próprio armazenamento através de capacitores. Neles, a energia não é convertida em calor, movimento ou ligações químicas, mas mantida diretamente no campo elétrico criado entre duas placas condutoras separadas por um dielétrico. É, de certo modo, a forma mais literal de “segurar” a eletricidade — ainda que por um tempo muito curto. Capacitores conseguem carregar e descarregar em frações de segundo, entregando ou absorvendo potência de maneira quase instantânea, o que os torna extremamente valiosos para filtragem, correção de fator de potência, estabilização de tensão e amortecimento de transientes. Seu limite, porém, é estrutural: a quantidade de energia

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que podem armazenar é pequena, e cresce lentamente mesmo com grandes volumes físicos. Assim, capacitores não são adequados para horas sem vento, mas cumprem um papel indispensável durante instantes.

Sendo assim, fica claro que cada uma dessas soluções carrega vantagens e limitações. Não existe — e dificilmente existirá — um “armazenamento universal”. Assim como não se aquece uma casa, move um navio e alimenta uma siderúrgica com a mesma lareira, o sistema elétrico do futuro será um mosaico de tecnologias, cada uma ocupando o espaço, cumprindo uma função e exercendo um papel onde faz mais sentido físico e econômico.

Esse ponto é crucial: armazenamento não é apenas energia guardada, é energia guardada com propósito. A pergunta correta nunca é “quanto posso armazenar?”, mas sim “para quê estou armazenando?”. Para deslocar energia do meio-dia para a noite? Para atravessar um semestre sem chuva? Para estabilizar frequência em milissegundos? Para garantir partida do sistema após um apagão? Cada uma dessas funções exige características completamente diferentes.

Voltemos, mais uma vez, à metáfora da lenha. Um vilarejo não guarda lenha apenas por guardar. Ele guarda para sobreviver ao inverno, para cozinhar refeições diárias, para lidar com emergências. Parte da lenha fica próxima à lareira, pronta para uso imediato. Outra parte fica empilhada no galpão, protegida da chuva, destinada aos meses mais frios. E há ainda a floresta ao redor, fonte de longo prazo, que não pode ser explorada de uma só vez sem comprometer o futuro. O armazenamento eficiente sempre foi, intuitivamente, estratificado no tempo.

O mesmo passa a valer para o setor elétrico. Baterias cumprem o papel da lenha ao lado da lareira. Reservatórios e combustíveis fazem o papel do galpão e da floresta. Cada camada protege o sistema contra um tipo específico de risco.

Além disso, o armazenamento resolve algo que vai além da simples energia: ele devolve controle ao operador do sistema. Em um mundo dominado por fontes intermitentes, armazenar é, em essência, recuperar

a capacidade de decidir quando usar a energia que já foi gerada. É transformar fontes incontroláveis em recursos despacháveis para atender à sociedade exatamente nos momentos em que ela está o demandando. É converter vento e sol — caprichosos por natureza — em energia previsível e, principalmente, disponível quando ela é necessária.

E há um efeito colateral importante: armazenamento cria valor onde antes havia desperdício. Excedentes renováveis, que antes eram cortados por falta de demanda ou de transmissão (o famoso curtailment ou constrained-off), passam a ser matéria-prima. Assim como a lenha empilhada evita que galhos secos apodreçam inutilmente no chão da floresta, o armazenamento evita que elétrons “morram” sem cumprir sua função.

Nada disso, porém, elimina a necessidade de transmissão robusta, de geradores flexíveis ou de usinas síncronas — ao menos no horizonte próximo. O armazenamento não substitui o sistema elétrico tradicional; ele o completa. Ele preenche uma lacuna e suaviza a transição para a rede com cada vez mais renováveis. Num mundo que se mobiliza para uma transição energética de recursos convencionais fósseis para recursos renováveis ou limpos, fica evidente o papel relevante dessa tecnologia nesse processo transformacional que o mundo se encontra.

Assim como o domínio do fogo não foi apenas uma descoberta técnica, mas uma transformação cultural da sociedade, aprender a armazenar energia elétrica em larga escala não é apenas um desafio técnico. É uma mudança de mentalidade para o planejamento e a operação dos sistemas eletroenergéticos. É aceitar que, em um mundo cada vez mais movido pelo sol e pelo vento, a prosperidade não está em negar essas fontes, mas como adaptar o sistema elétrico para extrair o melhor que elas podem oferecer.

E, como sempre, essa convivência começa com um gesto simples e antigo: guardar hoje aquilo que poderá fazer falta amanhã, mas para isso se tornar uma realidade no Brasil, não basta romper os paradigmas técnicos, faz-se necessário atualizar as normas, a regulação e os modelos econômicos para os incentivos corretos apareçam e se convertam em justa remuneração por esse serviço que a tecnologia de armazenamento tem a oferecer.

Francisco Victer é Doutorando e Mestre em Economia e Finanças (ênfase em Energia e Ciência de Dados) pela EPGE/FGV, e Engenheiro de Produção pela Politécnica da UFRJ. É Analista de Pesquisa Energética concursado na Presidência da EPE (MME), com atuação em estudos e modelagem de projetos no setor de energia, inclusive em armazenamento.

Thiago Prado é Doutor em Engenharia Elétrica (UnB) e Mestre em Energia e Eletrotécnica (USP) e Engenheiro Eletricista, Civil e de Segurança do Trabalho, com especializações em Gerenciamento de Projetos (FGV) e especializações na área de energia, mineração e petróleo e gás natural. É atualmente Presidente da Empresa de Pesquisa Energética, servidor da carreira de Regulação da ANEEL e, também, atuou profissionalmente como engenheiro na Eletrobras Eletronorte, no licenciamento ambiental no IBAMA e no Ministério de Minas e Energia, onde exerceu diferentes cargos de liderança em planejamento energético durante os 16 anos de passagem no órgão.

Instalações elétricas - média e baixa tensão

O mercado de instalações elétricas de baixa e média tensão vive um momento ímpar, com a atualização de normas importantes para o segmento, como, por exemplo, a NBR 5410 e NBR 14039. Sob a coordenação do eng. Luiz Carlos Catelani, faremos uma abordagem técnica dos principais pontos dessas revisões, com comentários e explicações voltados à aplicação prática em projetos e instalações. Catelani é graduado em Física e em Engenharia Elétrica pela Unicamp, possui ampla experiência em proteção de sistemas elétricos, subestações de alta tensão, linhas de transmissão e plantas industriais. É membro do COBEI/CB-03 e da IEC TC 64, com atuação direta em normalização e requisitos de segurança para instalações elétricas.

Capítulo 1

Mudanças em curso nas normas de instalações elétricas em BT e MT

Ao longo do ano, trataremos, neste fascículo, sobre as mudanças em curso nas normas de instalações elétricas de baixa e média tensão.

As edições da NBR 5410 e NBR 14039 encontram-se em processo de revisão, e o objetivo deste espaço é apresentar uma abordagem técnica dos principais pontos dessas revisões, com comentários e explicações voltados à aplicação prática em projetos e instalações.

O primeiro tema tratará da proteção aprimorada contra incêndios em instalações elétricas de baixa tensão por meio do uso do dispositivo AFDD (Arc Fault Detection Device). Apesar do nome remeter ao “arco elétrico”, o fenômeno considerado aqui não é o mesmo tipo de arco tratado na NR 10, mas sim os arcos de baixa intensidade em circuitos internos que podem iniciar princípios de incêndio em condutores, conexões e contatos defeituosos.

PROTEÇÃO CONTRA INCÊNDIOS EM INSTALAÇÕES DE BAIXA

TENSÃO POR FALTA À ARCO

Embora os dois termos, falha à arco e arco elétrico pareçam e soem semelhantes, eles são muito diferentes e frequentemente confundidos. Ambos os termos precisam ser explicados no contexto.

Arco elétrico (Arc Flash / Arc Blast) quando ocorre uma falha de isolação entre partes energizadas e/ou entre partes energizadas e outras partes condutoras dentro de um equipamento elétrico, como um painel de distribuição, a corrente literalmente se propaga pelo ar, ou através de gases emitidos nas proximidades, de um ponto a outro. Isso libera uma grande quantidade de energia em uma fração de segundo na forma de calor, som, luz e ondas de pressão.

Falhas à arco (Arc Fault) ocorrem quando uma corrente de arco é gerada em um condutor danificado ou em terminais de contato, e a energia do arco é suficiente para inflamar o material circundante não sendo elevada o suficiente para promover o desligamento do disjuntor.

As falhas a arco geralmente ocorrem com mais frequência na fiação do circuito terminal. A principal ameaça da falha de arco é o incêndio. As condições para o seu desenvolvimento podem passar despercebidas por um período longo.

Eventos que podem dar origem a uma falha à arco:

Sobretensão - Um arco elétrico pode ser considerado uma descarga de corrente elevada. É possível criar um arco entre dois eletrodos iniciando com uma descarga de baixa corrente e alimentando gradualmente seu crescimento. Os gases, em geral, são bons isolantes. A diferença de potencial entre os eletrodos, por si só, não permite a passagem de corrente. No entanto, quando a tensão aplicada excede um valor crítico chamado tensão de ruptura, inicia-se uma descarga entre os eletrodos. Se a fonte não limitar a corrente, essa descarga degenera em um dano irreversível. É o caso de um cabo com isolamento danificado. Sob o efeito dessa tensão de ruptura, as condições favorecem a formação de uma falha a arco. Contato inadequado - Se dois contatos, onde normalmente circula uma corrente, forem separados, a condução é mantida momentaneamente por uma descarga elétrica que se inicia no espaço entre os eletrodos. Quando os dois eletrodos são colocados em contato novamente, eles não ocupam toda a superfície. Apenas as bordas ásperas e irregularidades na superfície atuam como zonas de suporte. No momento da separação dos contatos, toda a corrente (“I”) passa de um eletrodo para o outro através de uma superfície minúscula. A resistência (“R”) através do contato então aumenta, e a energia dissipada (“R * I²”) leva a um aumento considerável na temperatura local. O ponto de ebulição do metal é então atingido e uma ponte metálica fundida se forma entre os dois contatos. O alongamento da ponte pela separação dos contatos faz com que ela se rompa, ejetando metal fundido na forma de micro gotículas. Em seguida, cria-se um arco de vapores metálicos. Este é o caso de maus contatos geralmente encontrados em interruptores danificados, conexões e extensões elétricas.

A CIÊNCIA POR TRÁS DAS FALHAS A ARCO

Em qualquer ambiente predial onde cabos são usados para transportar e distribuir eletricidade, dois tipos de eventos relacionados a falhas à arco podem ocorrer e levar a um incêndio:

Formação de um arco em série – Quando um cabo é danificado ou uma conexão elétrica está solta, um ponto quente localizado pode se desenvolver, o que inicia o processo de carbonização de materiais isolantes próximos a esse condutor.

Como o carbono é um material condutor, ele permite a passagem de corrente elétrica. À medida que o carbono é depositado, as correntes elétricas que fluem através dele geram arcos elétricos para facilitar sua passagem. Como cada arco amplifica a carbonização do material isolante, uma reação em cadeia ocorre até que carbono suficiente seja acumulado para que um arco provoque um incêndio espontâneo. Uma falha de arco em série resulta de um arco entre duas partes do mesmo condutor.

Formação de um arco paralelo - Quando o isolamento entre dois condutores energizados é danificado, uma corrente significativa consegue fluir entre os dois condutores.

No entanto, ela é muito fraca para ser considerada um curto-circuito pelo disjuntor. Os DR’s (Disjuntores Diferenciais Residuais) não conseguem detectar a anomalia a menos que a corrente vá para a terra; sendo assim nem disjuntores e nem DR’s conseguem proteger frente esta situação.

Ao fluir pelos materiais isolantes, essas correntes de fuga otimizam seus caminhos, gerando arcos que gradualmente transformam o material isolante em carbono. O isolamento carbonizado amplifica a corrente de fuga entre os dois condutores. Assim, uma reação em cadeia é produzida, amplificando a quantidade de corrente do arco e carbono até que a primeira chama apareça (ou seja, o carbono é consumido por um dos arcos). Uma falha de arco paralelo é produzida como resultado de um arco entre dois condutores diferentes.

COMO OS DISPOSITIVOS DE DETECÇÃO DE FALHAS DE ARCO MINIMIZAM AS AMEAÇAS DE INCÊNDIO ELÉTRICO

Os AFDD’s (Arc Fault Detection Device) monitoram e analisam constantemente padrões e a componente de alta frequência em formas de onda de corrente e tensão elétrica. Eles estão atentos aos padrões de onda aleatórios, imprevisíveis, porém persistentes, que indicam um arco potencialmente perigoso.

Quando o AFDD detecta um padrão de onda potencialmente perigoso, ele desarma, isolando assim o circuito defeituoso. Um AFDD pode funcionar em conjunto com um disjuntor ou disjuntor diferencial residual com proteção contra sobrecorrente.

Os AFDD’s reagem muito rapidamente à menor mudança nos padrões de onda. A velocidade é essencial, pois uma falta a arco pode se dissipar em um instante (literalmente), incendiando qualquer material inflamável próximo e causando um incêndio.

Os dispositivos de detecção de falta a arco são extremamente sensíveis e projetados para detectar e responder apenas a arcos potencialmente perigosos. Eles utilizam um algoritmo específico para distinguir entre arcos perigosos e arcos funcionais – ou seja, as faíscas inofensivas que você vê ao acionar um interruptor ou desconectar um plugue.

Em 2008, a IEC decidiu iniciar o trabalho de padronização para Dispositivos de Detecção de Falhas à Arco, o que levou à publicação da norma de produto AFDD IEC 62606 “Requisitos gerais para dispositivos de detecção às falhas de arco”. Desde 2013, para garantir um funcionamento seguro, todos os AFDD’s devem estar em conformidade com a norma IEC 62606.

Uma emenda recente à norma de instalação elétrica, IEC 603644-42, foi publicada em 2014 para os países que aplicam as normas IEC (Europa e outras partes do mundo) para a recomendação do uso.

APRIMORAMENTO DAS NORMAS

Como os Dispositivos de Detecção de Falhas à Arco Minimizam as Ameaças de Incêndio Elétrico, a norma IEC 60364 faz as seguintes recomendações sobre os ambientes de instalação e aplicação de AFDD’s em edifícios residenciais e comerciais:

• Em locais com acomodações para dormir (por exemplo, hotéis, casas de repouso, quartos em residências)

• Em locais com risco de incêndio devido a grandes quantidades de materiais inflamáveis (por exemplo, celeiros, oficinas de marcenaria, depósitos de materiais combustíveis)

• Em locais com materiais de construção combustíveis (por exemplo, edifícios de madeira)

• Em estruturas que propagam o fogo (por exemplo, edifícios altos)

• Em locais onde bens insubstituíveis são armazenados (ex.: museus e acervos)

Recomenda-se que os AFDD’s sejam instalados no ponto de origem do circuito final de baixa tensão a ser protegido (ou seja, no quadro de distribuição de uma instalação elétrica).

Na revisão da NBR 5410 este item foi incluído e submetido a consulta pública. Deverá provavelmente ser uma recomendação não obrigatória para uso nos casos acima para proteção contra incêndio em instalações elétricas.

NBR 14039

Data centers: a fronteira do setor elétrico

Em grande expansão no país, o mercado de data centers vem levantando debates sobre a coexistência de grandes oportunidades em contraste com desafios estruturais ligados à oferta, à confiabilidade e à eficiência da energia elétrica. Ao longo do ano, o tema será esmiuçado aqui, a partir da coordenação do Engenheiro Mecânico formado pela Universidade de Brasília (UnB), Alexandre Kontoyanis, que possui especialização em Gerenciamento de Projetos pela FGV e ampla experiência em operação, manutenção e confiabilidade de ambientes críticos de alta complexidade e disponibilidade. Atualmente, é Diretor de Educação da Associação Brasileira de Data Center- ABDC.

Capítulo 1

Sistemas de Armazenamento de Energia por Baterias (BESS) em data centers

*Por Edson de Assis Custodio

1. INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, a crescente digitalização da sociedade tem impulsionado uma demanda progressiva por ambientes de Data Center, configurando um dos movimentos mais relevantes da infraestrutura crítica atual. Embora normalmente associados à Tecnologia da Informação, Data Centers são instalações de alta complexidade eletromecânica, cuja operação depende de uma arquitetura elétrica robusta e altamente resiliente.

Sob a ótica do sistema elétrico, essas instalações exigem continuidade operacional, qualidade de energia e previsibilidade, e enfrentam desafios como o aumento da densidade de potência, restrições de conexão à rede e a necessidade de maior flexibilidade energética. No cenário apresentado, o BESS (Battery Energy Storage System) ganha protagonismo como um recurso capaz de armazenar e disponibilizar energia de forma controlada, agregando flexibilidade operacional ao Data Center. Diferente do UPS, que garante a proteção instantânea da carga crítica, o BESS atua na gestão energética e no suporte sistêmico do site.

Este texto não tem a pretensão de esgotar o tema, mas sim de introduzir o papel do BESS em Data Centers, apresentando conceitos fundamentais e os principais casos de uso sob a perspectiva elétrica.

2. O QUE É

UM DATA CENTER NA ÓTICA DO SISTEMA ELÉTRICO

Quando se pergunta o que é um Data Center, uma das primeiras respostas que vem à mente é: Data Center é um espaço físico destinado ao processamento e armazenamento de dados. Essa definição pode ser aprofundada e refinada em diferentes níveis, conforme o público e o objetivo da discussão. No caso desse texto, porém, é especialmente útil definir o Data Center sob a ótica do sistema elétrico, pois essa infraestrutura é parte da engrenagem que sustenta, de forma contínua, a disponibilidade da carga crítica.

Sob essa perspectiva, um Data Center pode ser definido como sendo uma instalação industrial de alta complexidade, caracterizada pela operação contínua e ininterrupta (24 horas por dia, 7 dias por semana, todos os dias do ano) de equipamentos de Tecnologia da Informação e de seus sistemas auxiliares, como climatização, automação e segurança. Por essa razão, tais instalações demandam alimentação elétrica de forma ininterrupta, com níveis de confiabilidade e resiliência que excedem os padrões normalmente observados em redes de distribuição elétrica convencionais. Em geral, também apresentam elevada densidade de potência e um perfil de carga relativamente estável (“flat load”), exceto quando dedicados a cargas de trabalho relacionados a Inteligência Artificial.

Esse comportamento de carga predominantemente ”flat” vem sendo alterado com o surgimento dos ambientes de Data Center voltados ao processamento de cargas de trabalho de Inteligência Artificial. A operação desse tipo de ambiente apresenta desafios próprios, como as variações de carga/ demanda abruptas, que, a depender do porte da instalação e do perfil de utilização, podem alcançar incrementos de dezenas a centenas de MW em curtos intervalos de tempo, exigindo atenção redobrada ao dimensionamento e à estabilidade elétrica do sistema.

3. O QUE É UM BESS

De forma geral, um Sistema de Armazenamento de Energia por Baterias – BESS (Battery Energy Storage System) – é um sistema eletroeletrônico capaz de armazenar energia elétrica na forma eletroquímica, por meio de baterias, a partir de uma fonte externa (concessionária, sistema solar, eólico, geradores etc.) e, posteriormente, disponibilizá-la de forma controlada ao sistema elétrico. Essa operação é viabilizada por meio de conversores bidirecionais (eletrônica de potência) e por sistemas de controle, que determinam os modos de carregamento e descarga conforme regras pré-definidas, normalmente associadas a objetivos de resiliência, eficiência, sustentabilidade e otimização econômica. Conforme regras definidas pelo operador.

Quanto à posição de instalação, os BESS podem ser classificados como atrás do medidor (behind-themeter – BTM) e à frente do medidor (front-of-the-meter – FTM). Tipicamente, para o uso associado ao Data Center teremos um BESS instalado atrás do medidor (BTM). BESS BTM possui capacidade de potência típica entre alguns kilowatts até muitos megawatts. A operação desses sistemas é realizada pelos proprietários da instalação e podem prover benefícios tanto para a instalação quanto para a rede. Importante citar que por padrão, o BESS opera conectado em paralelo à rede da instalação.

Os BESS são comumente fornecidos como uma solução integrada, muitas vezes em padrão de contêiner ISO. Dentre os diversos aspectos envolvidos, destacam-se alguns conceitos fundamentais para o entendimento técnico do sistema: potência (kW/MW), energia (kWh/MWh), vida útil e ciclagem, baterias, BMS, PCS, EMS, além de sistemas auxiliares como detecção/supressão de incêndio, refrigeração e proteções elétricas.

Potência (kW/MW): É a capacidade que o BESS possui de fornecer ou consumir potência do sistema elétrico e das baterias, é um valor instantâneo. Este parâmetro está diretamente associado a capacidade do PCS.

Energia (kWh/MWh): É a capacidade de, por um período determinado de tempo, fornecer ou consumir potência do sistema elétrico, ou seja, define por quanto tempo o BESS pode fornecer determinada potência. Este parâmetro está associado a capacidade das baterias de descarregar/carregar sua carga de forma segura e dentro dos parâmetros de vida útil estipulados, o C-rate. Conforme a quantidade de ciclos e a idade do sistema de baterias o valor de energia disponível diminui e é crucial que este fator seja considerado para dimensionamento do sistema. Quantidade de ciclos/Vida útil: É o valor esperado de ciclos que o sistema pode realizar até alcançar o fim da vida útil. O sistema também possui uma limitação de tempo em que é garantido o correto funcionamento do sistema.

Baterias: Tipicamente o BESS é composto por packs de baterias de íons de lítio para armazenar a energia. As químicas mais comumente utilizadas são a LFP (Lítio Ferro Fosfato) e a NMC (Óxido de Lítio Níquel Manganês Cobalto), por oferecerem uma melhor combinação de segurança, custo, ciclo de vida e densidade de energia. Alguns fabricantes têm preferido o uso de baterias LFP para BESS. Comumente as baterias do BESS possuem um C rate de 0,5C (2 hrs para descarregar toda a carga) e 1C (1 hrs para descarregar toda a sua carga). O sistema de baterias opera com tensão contínua, tipicamente em tensões superiores a 500V.

Sistema de gerenciamento das baterias – BMS (Battery Management System): O BMS é o sistema responsável por gerenciar a carga e descarga a nível de baterias responsável pela proteção e monitoramento das células. Também gerencia o estado de carga (SOC State of Charge), a degradação acumulada da bateria (SOH State of Health), a potência máxima que a bateria pode entregar e o balanceamento de células dos packs de baterias. Todas estas, funções vitais para garantia de que a bateria opere dentro da sua Área de Operação Segura (SOA - Safe Operating Area).

Sistema de conversão de potência PCS (Power conversion system): O PCS é o sistema que abrange todos os componentes responsáveis por realizar a conversão da energia entre a rede e as baterias. O sistema inclui o inversor bi-direcional que opera nos quatro quadrantes do diagrama de potência, podendo suprir e consumir potência ativa e reativa. O PCS também incorpora uma importante função, a formação de rede (Grid-Forming), permitindo que o BESS crie uma referência de tensão e frequência em redes isoladas ou durante blackouts. Nesse sentido, o PCS pode operar no modo GridFollowing, que apenas seguem a rede existente e serve para consumo e injeção de potência na rede, e o modo Grid-Forming. Na maioria dos fornecimentos, durante a operação normal da concessionaria o BESS opera no modo Grid-Following alternando para o modo GridForming em caso de falta da rede. Durante a mudança de modo de trabalho, o BESS não contribui com tensão e corrente para a rede, sendo necessário alguns milissegundos para a mudança de modo de

operação. Operando dessa forma, o BESS não pode garantir energia ininterrupta para o site (O BESS complementa o UPS ao invés de substituí-lo). Caso o BESS opere no modo Grid-Forming de forma contínua, é possível obter energia de forma ininterrupta, porém são necessário estudos aprofundados para avaliação das condições de operação e segurança.

Sistema de gerenciamento de energia EMS (Energy management system): O EMS é o cérebro do BESS. Ele monitora os parâmetros da rede, os dados do BMS, do PCS, as regras definidas para operação, e otimiza e coordena a operação do BESS, determinando a melhor estratégia para carga e descarga do sistema. O EMS é programado para priorizar os objetivos do operador, conforme o tipo de serviço desejado. Estes serviços serão discutidos na próxima seção.

Sistema de detecção e supressão de incêndio: Tipicamente as células de baterias possuem sistemas de detecção e supressão integrados, sendo necessário ainda, outros componentes para garantia da segurança. Padrões de detecção e supressão de incêndio para baterias de lítio são muito debatidos atualmente e uma boa referência para design desse tipo de sistema é a NFPA 855. Certificações como as UL1642, UL1973, UL9540, UL1741 e normas como IEC 62933-5-2, IEC 62934 e IEC 62936 também trazem informações importantes para segurança do sistema. Sistema de refrigeração e ventilação: São responsáveis por manter a temperatura de operação das baterias. Caso esse sistema esteja indisponível, o BESS também ficará indisponível, pois as baterias não podem operar fora de uma faixa pré-estabelecida de temperatura, sob risco de falha catastrófica.

Sistemas de proteção elétrica: São responsáveis pela segurança elétrica do BESS, realizando a proteção e seccionamento do sistema. Para operação segura do BESS é necessário que os equipamentos de proteção e seccionamento sejam dimensionados de acordo com condições específicas para a conexão na instalação.

4. O QUE O BESS PODE FAZER PELO DATA CENTER (SERVIÇOS FORNECIDOS PELO BESS)

Diante do apresentado, o BESS pode ser utilizado para controlar potência e energia de forma intencional, respondendo tanto a necessidades técnicas internas quanto a restrições e oportunidades externas, da rede de fornecimento. De acordo com uma publicação do instituto Rocky Mountain, existem 13 diferentes serviços elétricos que o BESS é capaz de fornecer quando instalado atrás do medidor BTM. O documento completo pode ser consultado na publicação do Rocky Mountain Institute (The Economics of Battery Energy Storage). Para o proprietário do Data Center estes 13 serviços trazem alguns beneficios como resiliência, velocidade de implantação, sustentabilidade e redução de custos de operação. A seguir são compilados os principais beneficios que tais serviços podem oferecer ao Data Center.

Redução de demanda contratada (peak shaving) e gestao da tarifa de energia:

Considerando que unidades consumidoras do porte de Data Centers podem estar sujeitas a estruturas tarifárias com diferenciação por horário, o BESS pode utilizar a energia armazenada em períodos de menor custo para reduzir a demanda (kW) observada nos horários de maior valor — estratégia conhecida como peak shaving ou load shifting. De forma semelhante, o BESS pode ser utilizado para otimizar o custo do consumo de energia (kWh), carregando em períodos de tarifa mais baixa e descarregando em períodos de tarifa mais elevada, estratégia frequentemente associada ao conceito de Time-of-Use (TOU).

Em Data Centers onde cargas de trabalho com comportamento menos “flat” ocorrem, o peak shaving pode representar uma ferramenta relevante de estabilidade operacional e auxílio no pedido de conexão com a rede. Além do benefício econômico associado à demanda, a estratégia também pode contribuir para postergar reforços imediatos na infraestrutura elétrica externa e interna.

Reserva de energia adicional e a diminuição/eliminação da necessidade de geradores a diesel

Atualmente, a confiabilidade elétrica dos Data Centers apresentam uma topologia onde a concessionária é a provedora principal de energia, os UPS garantem a continuidade do fornecimento de energia em caso de falha da concessionária e os geradores a diesel mantem as operações quando a rede da concessionária falha. Tipicamente, os UPS sustentam as cargas críticas de TI sem interrupção, por um período suficiente (5 a 15 minutos) para que os geradores de emergência entrem em operação e assumam o fornecimento de energia.

Nesse contexto, o BESS pode adicionar de uma a quatro horas de autonomia ao Data Center. Esse tempo adicional pode permitir que o site permaneça em operação sem a necessidade de acionamento de geradores a diesel em grande parte das ocorrências de falta da concessionária. Isto não é apenas um incremento na resiliência, mas também uma redução das emissões de Escopo 1 e menor poluição atmosférica.

Nesse mesmo sentido, o BESS pode auxiliar na otimização durante o uso dos geradores. Devido a necessidade de uma alta resiliência, os Data Centers utilizam filosofias de redundância (N+1, 2N, etc.) que fazem com que os geradores operem abaixo de seu ponto ótimo, onde o consumo de diesel em relação ao kWh gerado é o menor. O BESS pode consumir ou injetar potência para que o sistema de geração opere no ponto ótimo. Uma prática comum e muitas obrigatórias em um Data Center é o teste dos geradores com uma carga de teste (geralmente um banco de resistências), para garantia do funcionamento do mesmo em caso de necessidade. Nesses momentos, o BESS pode armazenar a energia gerada e utilizar em outro momento para alimentar o Data Center, evitando que essa energia seja perdida.

Diante do abordado, o BESS oferece um potencial para substituição dos

geradores a diesel. Para tanto, deve ser realizado profundo estudo, avaliando a confiabilidade do fornecimento de energia elétrica da concessionária no local e capacidade das cargas de trabalho serem espelhadas em outros sites ou migradas para outras localidades. Isso passa pela arquitetura de TI e pode fazer sentido em alguns casos, principalmente se o custo total (CAPEX+OPEX) do Data Center for mais atraente.

Participação no mercado de reserva de capacidade e de serviços ancilares:

O mercado de reserva proporciona que agentes ofertem capacidade de reserva: potência e energia. Em caso de deficit na geração, seja por capacidade, custos ou barreiras operacionais, esses recursos de contingência podem ser acionados para manter o equilíbrio do sistema elétrico. Dessa forma, um BESS BTM de um Data Center pode ofertar esse serviço e ser remunerado por isso. O operador do Data Center também pode utilizar o BESS para regulação de frequência, fornecimento de reserva girante, resposta à demanda e arbitragem de energia.

Destaca-se que no Brasil alguns serviços, que são prestados para as concessionárias e/ou para a segurança do sistema, ainda não possuem normatização para ressarcimento dos serviços prestados. Porém, existem alguns avanços nos normativos que indicam a inclusão do ressarcimento por serviços prestados à rede. Como exemplos, podem ser citadas a AIR nº 001/2023-SGM/ANEEL, vinculada à Consulta Pública nº 039/2023, e a Lei nº 15.269/2025, entre outras iniciativas.

5. CONCLUSÃO

Em resumo, o BESS se consolida como uma possibilidade de recurso estratégico para Data Centers ao agregar flexibilidade elétrica, apoiar a gestão de demanda e reforçar a resiliência operacional. Seu valor vai além do armazenamento de energia, estando diretamente ligado à capacidade de controlar potência de forma rápida e coordenada com a arquitetura do site. No entanto é importante destacar que seu valor real depende de fatores como: dimensionamento adequado, definição de casos de uso prioritários, coordenação com os demais equipamentos do Data Center, e alinhamento com a estratégia de continuidade e disponibilidade do site, ou seja, uma engenharia bem pensada. Com a engenharia correta e um objetivo bem definido, o BESS pode ser um divisor de águas para Data Centers.

*Edson de Assis Custódio é engenheiro eletricista formado pela Universidade de Brasília – UnB e mestre em sistemas elétricos de potência também pela UnB. Atua na área de Data Center a mais de 15 anos. Ao longo da carreira, liderou projetos relevantes na área, além de atuar na operação e manutenção de Data Center. Atualmente é gerente na área de Data Center no Banco do Brasil.

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O setor elétrico na era da IA: eficiência, segurança e novos paradigmas

A inteligência artificial inaugurou uma nova fase para o setor elétrico, redefinindo padrões de eficiência, segurança e operação dos sistemas. Coordenado por Leo Almeida, Head of Sales, Energy & Industries do Google, este fascículo analisa como a IA vem sendo aplicada na geração, transmissão e distribuição de energia, além de discutir os novos paradigmas tecnológicos, regulatórios e operacionais que emergem com essa transformação.

Capítulo 1

A transformação digital no setor elétrico brasileiro: evolução estrutural, paradigmas tecnológicos e a ascensão da inteligência artificial (2016-2026)

Por Leo Almeida e *Alexandre Faustino

A década compreendida entre 2016 e 2026 marca uma transição importante para o Setor Elétrico Brasileiro (SEB) de um modelo de infraestrutura passiva com muito foco em Engenharia para um ecossistema digitalizado, mais aberto para as novas tecnologias , descentralizado e dependente de fluxos de dados em tempo real. Esta mudança não ocorreu por inércia tecnológica, mas foi impulsionada por uma convergência de necessidades operacionais, diminuição de custos, pressões por sustentabilidade e uma reformulação do arcabouço regulatório

promovida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Ministério de Minas e Energia (MME) e pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Ao longo deste período, o SIN, Sistema Interligado Nacional, deixou de ser meramente uma obra magnífica de Engenharia, para um campo amplo que incorpora, cada vez mais tecnologias, para tornar cada quilômetro de cabo, cada usina, cada subestação cada ativo em uma rede inteligente, onde a informação possui valor equivalente ao do quilowatt-hora.

A REESTRUTURAÇÃO REGULATÓRIA COMO CATALISADOR DA MODERNIZAÇÃO

O indutor da transformação digital no Brasil se apoia no Regulatório, notadamente na evolução das resoluções normativas que, gradualmente, removeram barreiras para a entrada de novas tecnologias e novos agentes. Em 2016, o setor ainda sofria os efeitos da Resolução Normativa nº 482/2012 e sua revisão imediata pela REN nº 687/2015, que estabeleceu as bases para a Micro e Minigeração Distribuída (MMGD)1. Essas normas criaram a figura do "prosumidor", exigindo que as distribuidoras adaptassem seus sistemas de faturamento e medição para lidar com o fluxo bidirecional de energia, um desafio técnico que impôs os primeiros grandes investimentos em infraestrutura.

A modernização do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da ANEEL foi outro marco fundamental. Ao adotar a escala de maturidade tecnológica Technology Readiness Level (TRL).

A ANEEL, passou a pautar, os recursos das empresas de energia para projetos que pudessem sair dos laboratórios acadêmicos e atingir a plena operação. Este movimento culminou na aprovação do Plano Estratégico Quinquenal de Inovação (PEQuI) 2024-2028 e na criação da Plataforma de Inovação do Setor Elétrico (PINSE), que modernizou a gestão e aumentou a transparência dos investimentos em novas tecnologias.2

Período

Marco Regulatório / Estratégico

REN nº 687 e 786

REN nº 1.000 e Lei 14.300

REN nº 1.081 e 1.110

Impacto na Digitalização e Operação

Consultas Públicas

AMI e Tarifa Horária

Expansão das modalidades de autoconsumo remoto e geração compartilhada. Consolidação das regras de MMGD e novos padrões de atendimento digital. Abertura do mercado livre para o Grupo A e digitalização da comercialização varejista. Proposta de migração automática para tarifa horária e rollout de smart meters.

A liberalização do mercado, exemplificada pela expansão do Ambiente de Contratação Livre (ACL), exigiu uma infraestrutura de dados sem precedentes. A Resolução Normativa nº 1.081/2023 simplificou os requisitos de migração para o Grupo A, reduzindo prazos e extinguindo a burocracia para consumidores conectados diretamente na rede de distribuição. Essa "desburocratização" é

o alicerce para que o mercado varejista possa escalar, permitindo que comercializadoras gerenciem milhares de clientes de forma automatizada via APIs fornecidas pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).3.

INFRAESTRUTURA TECNOLÓGICA: DO SMART GRID AO GÊMEO DIGITAL

As empresas do setor de Energia, lidam com uma "avalanche" de dados, boa parte destes provenientes da operação dos ativos de rede. Outra boa parte destes estão em um ERP, como o SAP por exemplo, dados de suprimentos, gestão de ativos, contas contábeis, contratos, faturas, RH e etc. Há uma tendência consolidada em nosso setor para a exploração intensiva de ativos, sinalizando nossa entrada definitiva em uma era onde o dado é comparado ao novo petróleo. Essa percepção de valor já permeia as lideranças do mercado, que identificam nessa transformação uma oportunidade estratégica sem precedentes para a indústria. Uma boa arquitetura de dados, com uma boa governança é primordial. É de amplo conhecimento no setor que a confiabilidade dos dados é um fator determinante. Para as organizações que ainda não priorizaram a organização de sua estrutura de dados, o "dever de casa" torna-se urgente, uma vez que a ausência de uma prática harmonizada resultará, inevitavelmente, em perdas de tempo e aumento de custos operacionais.

Quem nunca viu apresentações feitas para o conselho em que duas ou três Diretorias divergem dos dados apresentados? É raro, mas acontece muito!

A IA que atua como a camada “inteligente” não resolve alguns dos problemas clássicos do setor, e certamente precisará de fontes íntegras para conectar as variáveis da cadeia de valor, tais como dados de clima, gestão de ativos, custos, operação, manutenção, pessoas, dados da comercialização, entre outros.

IA, precisa de dados “consistentes”, precisa também de gente que entenda dos processos da Indústria, não será um monte ferramentas ou cientistas de dados que irão resolver os problemas dos múltiplos casos que uma Indústria de Energia carece, porém uma boa equipe de tecnologia, boas ferramentas e engenheiros capacitados nos processos da Indústria, poderá gerar muito valor.

Dito isso, o conceito de Smart Grid evoluiu de uma promessa futurista para uma realidade operacional em larga escala. No Brasil, o mercado de redes inteligentes deve saltar de US$ 1,58 bilhão em 2024 para mais de US$ 5,8 bilhões em 2033.4

Este crescimento é impulsionado pela necessidade de integrar a crescente MMGD, que deve atingir 45.255 MW em 2026, representando 18,2% da capacidade instalada total do SIN.5 Dessa forma, a tecnologia de Smart Grid passa a ser espinha dorsal desta transformação é a substituição da rede analógica por uma malha de dispositivos digitais e conectados.

Infraestrutura Avançada de Medição (AMI) e o Consumidor no Centro

A adoção de medidores inteligentes é o primeiro passo para o empoderamento do consumidor e para a eficiência das distribuidoras. A ANEEL, por meio da Consulta Pública nº 001/2026, avalia a necessidade de intervenção regulatória para a modernização gradual das redes de baixa tensão, com foco em benefícios como a leitura remota, detecção automática de falhas e suporte a tarifas dinâmicas.6 Projetos como o da CPFL em Jaguariúna, que atingiu 100% de cobertura com medidores inteligentes, serviram de laboratório para validar ganhos em qualidade e redução de custos operacionais.7

A evolução tarifária acompanha esta infraestrutura. A Tarifa Horária (Tarifa Branca), proposta para implementação automática em consumidores de alto consumo (acima de 1 MWh/mês) até o fim de 2026, utiliza os dados granulares dos medidores digitais para fornecer sinais de preço que incentivam o deslocamento da carga para horários de maior oferta de energia renovável. Esse movimento possibilita que as empresas do setor possam desenvolver plataformas inteligentes de Resposta a Demanda, o que habilita a hipersonalização do consumidor, agora no centro como cliente (falaremos mais nos próximos capítulos).8

A Equatorial Energia está se posicionando de forma estratégica para a abertura total do mercado livre de energia, consolidando essa visão por meio do programa Equatorial One. Diante da possibilidade de todos os consumidores, inclusive os de baixa tensão (residenciais e comerciais de pequeno porte), escolherem seus fornecedores, a companhia foca na simplificação dos seus processos para gerenciar o grande volume de novos clientes e aumentar a competitividade. Além de investir em tecnologias como baterias de armazenamento e automação, a Equatorial avalia a oferta de novos produtos e serviços que agreguem valor ao consumidor final, buscando transformar seu papel tradicional de distribuidora em uma plataforma de soluções energéticas mais flexíveis e personalizadas.15

Internet das Coisas (IoT) e a Conectividade de Ativos

No contexto da evolução da Internet das Coisas, a Casa dos Ventos tem se destacado ao integrar IoT e Inteligência Artificial para converter aerogeradores em ativos dotados de inteligência preditiva. Por meio da implementação de sensores de alta frequência e de uma plataforma tecnológica proprietária, a companhia realiza o monitoramento contínuo de vibrações e tensões estruturais em tempo real. O resultado otimizou o processamento de 20 anos de dados para menos de duas horas, reduzindo simulações eólicas de 15 dias para apenas 1 dia. 9

De acordo com o mercado, estima-se que esse tipo de projeto viabiliza a manutenção preditiva proativa, e com potencial para reduzir custos em até 10%-40%, e paradas não programadas em 50%. 10

Gêmeos Digitais e Realidade Virtual na Engenharia de Manutenção

A utilização de Gêmeos Digitais (Digital Twins) emergiu como uma ferramenta vital para a gestão de ativos complexos. A Chesf desenvolveu um projeto piloto, o GeoPortal, uma plataforma que integra dados de levantamentos aéreos (LiDAR), drones e modelos BIM (Building Information Modeling) para criar réplicas digitais das linhas e subestações.22

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: O CÉREBRO DA OPERAÇÃO MODERNA

A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar uma necessidade existencial no SEB. Entre 2016 e 2026, o foco mudou da automação de tarefas simples para a gestão de sistemas de alta complexidade, onde o volume de dados excede a capacidade de processamento humano.

Manutenção Preditiva e Gestão de Ativos Empresas como a Copel e Eneva têm programas em destaque na aplicação de IA na manutenção de ativos. Modelos de machine learning analisam dados históricos e sensoriais para prever a degradação de transformadores e isoladores.

A Copel (Companhia Paranaense de Energia) tem se posicionado como uma das empresas mais inovadoras do setor elétrico brasileiro, utilizando Data Science e Machine Learning para transformar grandes volumes de dados brutos em decisões estratégicas.

A Eneva atravessa um processo de transformação em sua gestão e manutenção de ativos, modernizando as suas operações por meio do uso estratégico de Inteligência Artificial. Na primeira fase do projeto a empresa aumentou em mais de 50% a sua produtividade na programação e o gerenciamento da manutenção de seus ativos térmicos. Agora, o foco é a eficiência operacional e confiabilidade. A iniciativa está identificando padrões complexos para antecipar falhas com precisão elevada, permitindo que as equipes operacionais reduzissem o tempo dedicado a tarefas e aumente a disponibilidade dos ativos. Além da otimização de custos, esse avanço tecnológico fortalece a segurança e a resiliência energética da organização, reafirmando sua competitividade no cenário elétrico nacional

Previsão de Carga e Geração Renovável

A integração de fontes intermitentes exige previsibilidade extrema. A IA é utilizada para correlacionar padrões meteorológicos com a geração eólica e solar, permitindo que o ONS e os geradores planejem o despacho com maior precisão, e a IA pode ser aproveitada como viabilizador para maximizar esse potencial ao mitigar os riscos da variabilidade.

Combate a Perdas e Inadimplência

No segmento de distribuição, a detecção de perdas não técnicas

(fraudes e furtos) é um dos casos de uso mais bem-sucedidos da IA. O Grupo Equatorial utiliza algoritmos avançados para analisar o comportamento de consumo e identificar anomalias, alcançando reduções consistentes em suas taxas de perdas consolidadas, e reduz índice abaixo do limite regulatório no 3T25.12 A CPFL também desenvolveu sistemas de IA para reduzir chamados improcedentes, com precisão de 80%, otimizando a logística de atendimento.13

A Modernizacão dos Órgãos Setoriais: ONS e CCEE

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) deu um salto qualitativo com o lançamento do "Tiago", uma ferramenta de IA generativa que utiliza Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) integrados aos Procedimentos de Rede e Manuais de Operação. O objetivo é facilitar a tomada de decisão rápida e a gestão do conhecimento interno. Além disso, o sistema REGER (Rede de Gerenciamento de Energia) unifica a plataforma de supervisão e controle, garantindo redundância e segurança mesmo em situações de falha de um dos centros regionais.

A CCEE, por sua vez, está conduzindo uma grande transformação para comercialização de energia no país. Em 2025, permitiu que todas as migrações ao mercado livre para consumidores varejistas fossem realizadas via APIs (Application Programming Interface), substituindo sistemas legados e processos manuais. Esta integração sistêmica permite o "Open Energy", onde o compartilhamento padronizado de dados entre distribuidoras e comercializadoras viabiliza a abertura total do mercado para o Grupo B (baixa tensão) nos anos subsequentes

A ilustração a seguir apresenta um panorama das mudanças digitais implementadas no setor nos anos recentes. Esse processo abrange desde a sustentação operacional do backoffice (apoio ao core business) até a oferta de serviços digitais e de campo,

contemplando também as inovações previstas para o futuro.

CASOS APLICADOS E O ECOSSISTEMA DE INOVAÇÃO

A transformação digital no SEB precisa ser materializada por projetos reais que demonstram o retorno sobre o investimento (ROI) em tecnologia.

Axia Energia (ex-Eletrobras): Liderança em Supercomputação e Automação

Axia Energia intensificou a incorporação de tecnologias disruptivas para viabilizar suas metas estratégicas. O estabelecimento de uma infraestrutura de computação de alto desempenho (HPC), operando em modelos de nuvem e localmente em colaboração com o Cepel, capacita a empresa a processar modelos de otimização energética e simulações de cenários climáticos extremos, garantindo o atendimento às crescentes necessidades do mercado.

Recentemente, em 2025, a AXIA desenvolveu uma das iniciativas mais inovadoras do setor elétrico global: uma plataforma de Inteligência Artificial voltada para a previsão de eventos climáticos. Este projeto utiliza algoritmos avançados para melhorar a precisão meteorológica, permitindo que a companhia preveja riscos operacionais aos seus ativos com maior antecedência e precisão. A importância dessa solução é transformar incertezas climáticas em confiabilidade energética.

CPFL Energia: Digitalização Gradual e AMI

A CPFL estabeleceu um roadmap tecnológico claro, focando em sistemas avançados de gestão da distribuição (ADMS) e infraestrutura de medição. O projeto em Jaguariúna permitiu à empresa entender os desafios socioculturais da troca de medidores e validar a tecnologia

de telemedição para seu plano de investimento de R$ 1,2 bilhão, que prevê a substituição de 1,6 milhão de medidores até 2029.

Equatorial Energia: Eficiência no Coração do Negócio

Com uma estratégia baseada em eficiência operacional, a Equatorial investiu mais de R$ 600 milhões em P&D e eficiência energética nos últimos 7 anos. A empresa utiliza IA não apenas para redução de perdas, mas para melhorar a experiência do cliente e para maximizar o ciclo de receita em suas diversas concessões, sendo reconhecida como uma das empresas mais inovadoras do Brasil.13

Copel Ventures: O investimento pesado do Setor

A Copel tem sido extremamente ativa no investimento em startups através do seu fundo de Corporate Venture Capital (CVC), o Copel Ventures I, que possui 150 milhões de reais para aportes. Recentemente, a companhia anunciou investimentos estratégicos em startups que utilizam Inteligência Artificial e soluções de mobilidade:

• Delfos (Janeiro de 2026): Investimento de 3 milhões de euros nesta startup especializada em IA para energia renovável. A tecnologia da Delfos é utilizada para prever falhas e otimizar a manutenção de ativos eólicos da própria Copel.

• Fu2re (Julho de 2025): Copel investiu 12,5 milhões de reais (sendo 7,5 milhões diretos do fundo Copel Ventures) nesta startup brasileira de IA e visão computacional. O foco é a gestão inteligente de ativos e a antecipação de falhas no sistema elétrico.

EnergyTechs: O Boom das Startups de Energia

O Brasil consolidou-se como o líder de EnergyTechs na América Latina, concentrando 80% dos investimentos do setor na região entre 2021 e 2024 (mais de US$ 750 milhões captados).Atualmente, existem mais de 250 startups especializadas, focando principalmente

Startup

Órigo

Energia

Lemon Fu2re

Clarke Energia

Categoria

Geração distribuída compartilhada

Gestão de Energia Inteligência Artificial (IA)

Mercado Livre

Diferencial Tecnológico

Plataforma que simplifica a gestão de energia para o consumidor final. Gestão via aplicativo para monitoramento de consumo, pagamentos via PIX ou boleto, e controle de fatura.

Visão Computacional para Inspeção e Monitoramento de Ativos e Detecção de Fraudes e Perdas

A plataforma que conecta automaticamente empresas a mais de 50 fornecedores, permitindo a comparação de propostas despadronizadas de forma simples e rápida

em energia renovável (192 startups), distribuição e armazenamento.

BLOCKCHAIN E A RASTREABILIDADE DA ENERGIA LIMPA

O uso de blockchain no SEB transcende a teoria, encontrando aplicações práticas em segurança e certificação. A CCEE adotou a tecnologia para garantir a autenticidade e integridade de assinaturas eletrônicas em contratos de comercialização varejista, eliminando a necessidade de certificados digitais e-CPF caros e complexos.

A rastreabilidade é outro pilar. O Instituto Totum utiliza blockchain em sua plataforma SISREC para rastrear 100% dos certificados de energia renovável (RECs) gerados no Brasil, integrando dados da CCEE e garantindo que não haja contagem dupla de créditos de carbono. Esta infraestrutura é essencial para as metas ESG das grandes corporações.

TENDÊNCIAS

FUTURAS: DESCENTRALIZAÇÃO,

HIDROGÊNIO E AUTONOMIA

O horizonte de 2026 a 2030 aponta para a consolidação de tendências que hoje estão em fase de projeto-piloto.

Recursos Energéticos Distribuídos (DERs) e Redes Autônomas

A evolução para redes elétricas autônomas (Self-Healing Grids) permitirá que o sistema responda a interrupções sem intervenção humana, redirecionando o fluxo de energia em milissegundos. A integração massiva de DERs — incluindo baterias de veículos elétricos e armazenamento residencial — transformará o SIN em um sistema dinâmico e resiliente. O ONS estima investimentos de R$ 28,1 bilhões até 2030 para reforçar a infraestrutura e permitir essa integração complexa.

Desafios Superados e Lições Aprendidas

A jornada da transformação no SEB revelou que o sucesso não depende apenas da tecnologia, mas da gestão da mudança.

• Interoperabilidade: A falta de padrões iniciais para medidores inteligentes foi um obstáculo. A lição aprendida foi a importância de APIs abertas e padronizadas, como as agora exigidas pela CCEE.

• Cibersegurança: Com a adoção das novas tecnologias, a superfície de ataque aumentou. A preocupação com a proteção de dados e integridade das redes tornou-se central nas discussões da ANEEL e do ONS.

• Qualificação de Mão de Obra: A associação da engenharia com a computação exigiu a criação de novos centros de excelência e o fomento à “ala jovem” do setor elétrico para lidar com sistemas baseados em dados.

• Engajamento do Consumidor: Projetos como o da Equatorial One e de Jaguariúna da CPFL mostraram que a transparência e a comunicação clara sobre os benefícios dos medidores inteligentes

são fundamentais para a aceitação da tecnologia pela população.

Em síntese, o período 2016-2026 consolida o Brasil como um laboratório global de inovação no setor elétrico. A combinação de uma matriz energética predominantemente renovável com uma infraestrutura em rápida expansão coloca o país em uma posição privilegiada para ser protagonista na transição energética global, utilizando a Inteligência Artificial não apenas como ferramenta de automação, mas como o motor de um sistema resiliente, sustentável e centrado nas necessidades do consumidor, que agora quer ser visto como cliente.

A LIÇÃO DE SCHUMPETER: A INEVITABILIDADE DA DESTRUIÇÃO CRIATIVA

A lição fundamental do economista Joseph Schumpeter reside no conceito de “destruição criativa”, que descreve o

capitalismo como um sistema dinâmico de mudança incessante, onde a inovação não é apenas uma melhoria, mas uma força que substitui o antigo. Segundo essa teoria, o progresso ocorre quando novas tecnologias e modelos de negócio destroem os existentes, reconfigurando completamente mercados e indústrias.

Historicamente, isso foi observado quando o motor a vapor não serviu apenas para complementar o trabalho manual, mas para torná-lo obsoleto em muitas áreas, destruindo modelos de negócio antigos para criar novos impérios industriais. Para os líderes na era da Inteligência Artificial, a lição é clara: a inovação é inerentemente disruptiva e exige a coragem de “canibalizar” o próprio negócio.

Em vez de usar a IA apenas para otimizar o passado, os executivos devem aceitar que a sobrevivência na nova era depende de abandonar métodos tradicionais em favor de novos “modelos” e fluxos de trabalho, reconhecendo que a destruição consciente de processos antigos é o pré-requisito inevitável para construir a infraestrutura de inteligência e valor do futuro. Bem vindos a nova Era!

*Alexandre Faustino é executivo de Tecnologia da Informação com 23 anos de trajetória na Eletrobras (Axia Energia), onde atuou em projetos estratégicos de grande escala no setor elétrico. Engenheiro de formação, possui MBA pela COPPEAD/UFRJ e Pós-graduação em Energia pela PUC-MG.

REFERÊNCIAS

1.Micro e Minigeração Distribuída — Agência Nacional de Energia Elétrica - Portal Gov.br, accessed January 30, 2026, https://www. gov.br/aneel/pt-br/assuntos/geracao-distribuida

2.Análise de Impacto Regulatório do Plano Estratégico Quinquenal de Inovação – PEQuI 2023-2028 do Programa de PDI ANEEL, accessed January 30, 2026, http://www2.aneel.gov.br/cedoc/ air2023001spe.pdf

3.Comercializador varejista: inicie a adequação às novas APIs da CCEE que serão obrigatórios em julho de 2025 - Abraceel, accessed January 30, 2026, https://abraceel.com.br/blog/2024/12/ comercializador-varejista-inicie-a-adequacao-as-novas-apis-daccee-que-serao-obrigatorios-em-julho-de-2025/

4.Brazil’s Smart Grid Transformation - GridTech LATAM 2026, accessed January 30, 2026, https://www.brazil.smart-gridsconference.com/news/smart-meters-smarter-grid-brazils-energymakeover

5.O Sistema em Números - ONS, accessed January 30, 2026, https://

www.ons.org.br/paginas/sobre-o-sin/o-sistema-em-numeros

6.ANEEL consulta sociedade sobre modernização dos Sistemas de Medição - Portal Gov.br, accessed January 30, 2026, https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2026/aneelconsulta-sociedade-sobre-modernizacao-dos-sistemas

7.Energia Inteligente - CPFL, accessed January 30, 2026, https://www.cpfl.com.br/rge/energiainteligente

8.Modernização tarifária: ANEEL abre consulta pública sobre Tarifa Horária para consumidores com consumo elevado - Portal Gov.br, accessed January 30, 2026, https://www.gov.br/aneel/ pt-br/assuntos/noticias/2025/modernizacao-tarifaria-aneel-abre-consulta-publica-sobre-tarifahoraria-para-consumidores-com-consumo-elevado

9.https://tiinside.com.br/en/15/06/2023/Casa-dos-Ventos-optimizes-wind-farm-managementand-energy-marketing-using-artificial-intelligence/?amp#:~:text=Casa%20dos%20 Ventos%2C%20a%20Brazilian,a%20reliable%20and%20scalable%20way.

10.https://rpcmaint.com/blog/integrating-predictive-maintenance-techniques

11.Eletrobras anuncia parceria para usar IA na transmissão de energia elétrica, accessed January 30, 2026, https://iabrasilnoticias.com.br/eletrobras-anuncia-parceria-para-usar-ia-natransmissao-de-energia-eletrica/

12.https://cenarioenergia.com.br/2025/10/28/equatorial-reforca-eficiencia-e-reduz-perdasabaixo-do-limite-regulatorio-no-3t25/#:~:text=Resultados%20operacionais%20mostram%20 avan%C3%A7o%20consolidado,destacou%20a%20empresa%20no%20comunicado.

13.CPFL desenvolve inteligência artificial para reduzir chamados improcedentes, accessed January 30, 2026, https://brasilenergia.com.br/energia/inovacao/cpfl-desenvolve-inteligenciaartificial-para-reduzir-chamados-improcedentes

14.https://www.equatorialenergia.com.br/grupo-equatorial/sobre-o-grupo/transformacaodigital-e-inovacao/

15.https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/01/26/equatorial-se-prepara-para-aberturatotal-do-mercado-livre-de-energia-e-avalia-oferta-de-novos-produtos.ghtml

16.‘Gêmeos Digitais’: Projeto Realizado em Parceria com Eletrobras Eletronorte usa IA e VR para prevenir falhas e reduzir custos em subestações - Memória da Eletricidade, accessed January 30, 2026, https://memoriadaeletricidade.com.br/blog/143410/gemeos-digitais-projeto-realizadoem-parceria-com-eletrobras-eletronorte-usa-ia-e-vr-para-prevenir-falhas-e-reduzir-custos-emsubestacoes

17.Nota técnica da Aneel propõe Open Energy em duas etapas e temas centrais para o mercado livre - Abraceel, accessed January 30, 2026, https://abraceel.com.br/blog/2025/02/nota-tecnicada-aneel-propoe-open-energy-em-duas-etapas-e-temas-centrais-para-o-mercado-livre/

18.Eletrobras e Cepel inauguram nova era de supercomputação no setor elétrico, accessed January 30, 2026, https://cepel.br/2025/09/22/eletrobras-e-cepel-inauguram-nova-era-desupercomputacao-no-setor-eletrico-com-investimento-em-computacao-de-alto-desempenhopara-inteligencia-artificial/

19.Energytechs brasileiras lideram setor na América Latina | Editora Brasil Energia, accessed January 30, 2026, https://brasilenergia.com.br/brasilenergia/novos-modelos-e-tecnologias-emenergia/energytechs-brasileiras-lideram-setor-na-america-latina

20.CCEE usará tecnologia blockchain para facilitar a assinatura de documentos eletrônicos, accessed January 30, 2026, https://www.ccee.org.br/en/web/guest/-/co-ccee-usara-tecnologiablockchain-para-facilitar-a-assinatura-de-documentos-eletronicos

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Confira insights e curiosidades sobre o processo de atualização das normas NR 10,

NBR 17193 e NBR 5410

INSTALAÇÕES ELÉTRICAS DE BAIXA TENSÃO | Por Paulo Barreto

INSTALAÇÕES ELÉTRICAS DE BAIXA TENSÃO

O setor elétrico aguarda a iminente publicação da segunda consulta nacional do projeto de revisão da norma ABNT NBR 5410. Por ocasião da primeira consulta nacional, a ABNT recebeu cerca de 800 sugestões. Fato histórico nas sucessivas revisões desta norma.

Se por um lado isso é uma demonstração positiva de interesse e de participação da comunidade técnica no processo de revisão da norma, por outro lado essa quantidade enorme de sugestões requereu da Comissão de Estudos um esforço hercúleo para administrar e conduzir a análise dos votos da melhor maneira possível, tabulando e analisando um a um, com debates que, em boa parte dos casos, ainda resultaram na alteração de itens que não eram objeto do voto.

Foram dois anos de muita dedicação, por parte dos membros da Comissão, particularmente, dos que se debruçaram nos Grupos de Trabalho constituídos especificamente para tratar de certos “blocos” de conteúdo e levar o voto melhor destrinchado e pré-analisado para a reunião plenária de deliberação. Tudo em prol de se publicar um documento bem revisado, atualizado e ampliado.

Para essa segunda rodada de consulta nacional, destacam-se as seguintes melhorias em relação ao texto colocado em primeira consulta nacional:

• Retorno das tabelas 1 a 24 da classificação das influências externas, na seção 4, de modo a se manter o aspecto conceitual das influências. Parte importantíssima no desenvolvimento de um projeto e de especificação dos componentes de uma instalação elétrica.

• Retirada da obrigatoriedade da utilização de dispositivo de detecção de falta por arco elétrico (AFDD) em circuitos de iluminação e força, por

falta de justificativa de sua imprescindível utilização. Deixando sim, sua aplicação, voluntária.

• Melhoria de alguns desenhos referentes a esquemas de aterramento. Em alguns votos percebeu-se que tais desenhos não estavam tendo o entendimento correto do que se desejava transmitir.

• Paridade mais estreita com a futura norma ABNT NBR 5419, naquilo que é de aplicação coincidente, como é o caso do aterramento e proteção contra sobretensões.

• Em 6.2.1, - prescrição para instalação de condutores, foi inserido um item referente a eletrocalha. Até então, havia requisitos apenas para bandeja.

• Melhoria de texto e algumas correções no caso de motores elétricos, particularmente aspectos de queda de tensão e partida de motores.

• Reformulação total da seção 7 – Verificação das instalações elétricas. Melhor disposição e organização dos assuntos. Melhoria de redação dos requisitos.

• Na seção 9, em locais de habitação, foram feitos estudos e apresentada nova proposta para redução da previsão de carga mínima a • Alteração de valores na Tabela F.1 (fator para determinação da corrente de neutro em função da taxa de terceira harmônica).

• Eliminação do texto do Anexo H (medição de resistência do eletrodo de aterramento) e direcionamento à norma pertinente, ABNT NBR 15749.

• : Eliminação do texto do Anexo I, em função da reformulação da seção 7. No lugar, foi inserido texto resumido sobre as características de equipamentos das classes I, II e III, conforme IEC 61140.

SEGURANÇA EM INSTALAÇÕES E SERVIÇOS EM ELETRICIDADE | Por Aguinaldo Bizzo

NOVA NR10: IMPACTOS E DESAFIOS

Após 5 anos de discussão, a NR10 foi aprovada na reunião da CTPP (Comissão Tripartite Paritária Permanente) no dia 18 de dezembro de 2025. Prevista para publicação em fevereiro de 2026, nova norma deverá ser disponibilizada no portal da SIT/MTE em meados de março. A vigência das alterações tem prazo de um ano, após a publicação. No segundo semestre de 2026, está prevista a produção de um guia de interpretação e aplicação da NR 10, visando uma maior efetividade na implementação da norma.

Mudanças estruturais e significativas impactarão todos os segmentos produtivos e trarão desafios para o efetivo cumprimento dos requisitos estabelecidos, especialmente quanto à interface direta com o Processo de Gerenciamento de Riscos estabelecido na NR1, ou seja, o PGR – Programa de Gerenciamento de Riscos para o Perigo Eletricidade, uma vez que predominam Programas de “gênero” que não retratam a realidade laboral existente, quanto à efetiva avaliação de riscos elétricos e adicionais intrínsecos aos diversos segmentos existentes.

As alterações devem evidenciar claramente a hierarquia das medidas de controle alinhadas à NR 1, priorizando a adoção de medidas coletivas, administrativas e organizacionais, e o uso do EPI.

A abrangência da aplicação também em instalações elétricas em caráter permanente ou temporário, bem como nos serviços em eletricidade, é um avanço, visto a realidade quanto a precariedade de instalações temporárias de forma geral.

Foco nas características construtivas das instalações elétricas, onde o título será Segurança em Instalações Elétricas e Serviços com eletricidade, ou seja, projetos deverão priorizar medidas de

engenharia na construção de instalações elétricas seguras, onde dentre vários requisitos, destaque para a obrigatoriedade do cálculo de energia incidente, estudo de classificação de áreas e ratificação da obrigatoriedade de avaliação das Influências Externas no memorial descritivo e sistema de aterramento elétrico.

Outro ponto da revisão é a inclusão da distância segura para arco elétrico além das zonas de risco e controlada, definida a partir do estudo do nível de energia incidente, como uma das medidas de proteção coletiva contra o risco de arco elétrico, conforme definido em projeto.

A atualização também traz avanços no quesito “trabalhos em proximidade”, como é o caso das atividades em redes compartilhadas de telefonia e TV a cabo, onde requisitos objetivos de segurança serão evidenciados.

O tema capacitação, qualificação e Habilitação de Profissionais Autorizados, bem como Programas de Cursos de NR10 foi um ponto sensível da pauta de revisão, sendo que a norma traz ajustes em quesitos como carga horária e conteúdos mínimos, e definição de critérios na busca da “efetiva qualidade “dos referidos cursos, sendo que infelizmente, atualmente, predominam cursos medíocres.

Fundamental para todos os profissionais expostos ao Perigo Eletricidade, bem como para aqueles que de alguma forma realizam atividades com interface com a Gestão de Perigos e Riscos Elétricos, que após a publicação do novo texto, sejam capacitados adequadamente na correta interpretação e aplicação da norma, sendo que nos próximos artigos abordaremos de forma estratificada o texto publicado.

INSTALAÇÕES ELÉTRICAS DE MÉDIA TENSÃO | Por Marcos Rogério

NBR 17193 SISTEMAS DE COMBATE A INCÊNDIOS – SCI PARA INSTALAÇÕES COM SISTEMAS FOTOVOLTAICOS

COMO PROTEGER EDIFICAÇÕES COM SISTEMA FOTOVOLTAICO INSTALADO?

Para que uma instalação de sistemas fotovoltaicos (SFV) seja segura e eficiente, é necessário implementar as prescrições apresentadas nas normas técnicas aplicáveis e garantir que a instalação desse sistema seja executada por profissionais devidamente treinados e habilitados para que possam estar cientes de sua responsabilidade com relação à segurança da instalação, especialmente para o usuário, pois afinal, a primeira máxima de qualquer serviço em eletricidade deve ser: a segurança em primeiro lugar! Imagine, então, a seguinte situação: uma edificação onde um SFV foi aplicado. Você, vai executar um serviço de manutenção, com o objetivo de limpar a superfície dos módulos FV, pois, a sujeira que ficou acumulada sobre eles, diminuiu consideravelmente a eficiência da geração, fornecendo menos energia do que a projetada. Você, é claro, espera que o profissional que projetou e especificou a instalação do SFV o fez rigorosamente em acordo com as prescrições das normas técnicas; que se certificou de que o telhado existente seria capaz de suportar o peso adicional representado pela estrutura do SFV que seria acrescentada e que aquela estrutura suportaria os esforços causados pela força dos ventos no local da instalação, conforme 4.3.11.3 e 4.3.11.4 da ABNT NBR 16690.

“4.3.11.3 Cargas mecânicas nas estruturas: as estruturas de suporte do arranjo fotovoltaico devem estar em conformidade com as normas pertinentes que dizem respeito a características de carregamento mecânico.

4.3.11.4 Forças devidas ao vento: os módulos fotovoltaicos, as estruturas de suporte e os métodos utilizados para fixá-los devem ser dimensionados para a velocidade máxima de vento esperada no local de acordo com as normas pertinentes.

Na avaliação deste componente, deve ser utilizada a velocidade do vento observada (ou conhecida) no local, com a devida consideração a eventos extremos como ciclones, tornados, furacões etc. A estrutura do arranjo fotovoltaico deve ser fixada de forma adequada e em conformidade com as normas pertinentes.

A força do vento aplicada ao arranjo fotovoltaico pode gerar uma carga significativa para estruturas de edifícios que deve ser contabilizada na avaliação da capacidade do edifício de suportar as solicitações mecânicas resultantes.”

Você também espera que os componentes e condutores instalados no lado c.c. atendam às exigências com relação à isolação dupla prescritas em 5.1.2.3 daquela mesma norma acima citada: “5.12.3 Isolação dupla ou reforçada: Aplicam-se os requisitos especificados na ABNT NBR 5410:2004, 5.12.3, com o seguinte complemento: componentes do lado em corrente contínua de sistemas fotovoltaicos, como, por exemplo, módulos fotovoltaicos, caixas de junção, quadros de distribuição e condutores, até os terminais em corrente contínua do inversor, devem possuir isolação dupla ou reforçada (classe II).”

Você também sabe que mesmo que a especificação do SFV tenha sido totalmente aderente àquelas normas, a proteção contra os choques elétricos ou a prevenção contra incêndios, depende também da qualidade dos produtos utilizados, da correta montagem daqueles componentes, e da qualidade da equipe de montagem, que deve ser experiente, composta por profissionais bem treinados e continuamente avaliados

Se tudo o que foi descrito acima ocorreu, você provavelmente poderá ir até o SFV e realizar a limpeza pretendida sem maiores problemas; entretanto, imagine por um momento, que a equipe de montagem não seguiu a prescrição de 6.2.8.1 que especifica: 6.2.8.1 Conectores de encaixe, em uma mesma conexão no arranjo fotovoltaico, devem ser do mesmo tipo e do mesmo fabricante. e utilizou terminais de diferentes fabricantes, ou que, mesmo sendo do mesmo fabricante, a crimpagem não foi executada de maneira adequada e que por isso, um contato deficiente está provocando um aquecimento perigoso, que pode inclusive ocasionar um incêndio. Nesta situação, uma equipe do corpo de bombeiros (ou a brigada de incêndio) deverá ir ao local para o combate ao fogo. Quais são normalmente os primeiros procedimentos dos bombeiros quando chegam a uma edificação onde está ocorrendo um incêndio?

• A primeira ação dos bombeiros nestes casos, é o desligamento dos sistemas elétricos c.a. para eliminar o risco de choques elétricos tornando o trabalho mais seguro ao aplicar água no combate ao incêndio

E só isso é o suficiente?

• As edificações que possuem sistemas fotovoltaicos (SFV) empregam tecnologia c.c. conectando os painéis fotovoltaicos ao inversor

• O circuito em c.c. permanece energizado mesmo após a desenergização do circuito em c.a. caso o incêndio ocorra durante o dia (não se pode “desligar” o sol)

• Durante um incêndio, o fogo pode atingir os condutores de c.c. dos SFV e eliminar a sua camada isolante, o que pode causar curto-circuito. Nestes casos, a energia gerada pelo SFV pode ser convertida em calor, o que contribui para o aumento do incêndio

• As instalações FV existentes no Brasil não possuíam, até um passado recente, meios para desenergização dos circuitos em c.c. que pudessem ser acionados em locais de fácil acesso pelos bombeiros ou pela brigada de incêndio.

Então, como resolver esse desafio? Foi pensando nesse e em outros fatores, que a ABNT publicou, em 2025, a nova norma ABNT NBR 17193. Neste espaço, nos próximos meses, vamos conversar sobre seu conteúdo e avanços. Até a próxima edição!

A evolução do conceito de aterramento para sistema de aterramento

*Paulo Edmundo Freire da Fonseca é engenheiro eletricista e Mestre em Sistemas de Potência (PUC-RJ). Doutor em Geociências (Unicamp), membro do Cigre e do Cobei e sócio na Paiol Engenharia.

Otema Aterramento é amplo e diversos subtemas permeiam as discussões, tanto no âmbito da Comissão

ABNT/CB-003/CE 003 102 001 - “Aterramentos Elétricos” quanto em congressos e em redes profissionais (como o LinkedIn).

Medições de resistividade do solo, modelagem geoelétrica, simulação de aterramentos, medições de aterramento e desempenho sob diferentes tipos de excitação, são temas inter-relacionados que refletem a evolução dos conceitos nas últimas décadas.

O aterramento é onipresente – ele existe em todo tipo de instalação: plantas de geração de energia, subestações, linhas de transmissão e de distribuição, instalações industriais e comerciais, sistemas de transporte, entre outras. Cada uma destas aplicações envolve requisitos distintos e exige o atendimento a um amplo conjunto de normas técnicas.

Outra característica do aterramento é que ele é parte integrante dos demais subsistemas que integram as instalações, exigindo do seu projetista amplo conhecimento das instalações, inclusive dos aspectos de construção civil, já que frequentemente os ferros estruturais integram os sistemas de aterramento.

Os sistemas de aterramento têm forte inter-relacionamento com diversas áreas correlatas, como a proteção contra descargas atmosféricas, os estudos de interferência, a qualidade da energia e a compatibilidade eletromagnética, sendo esta última uma área do conhecimento que engloba todas as demais aqui comentadas.

É importante registrar a evolução dos conceitos associados ao tema aterramento, que tive a sorte de acompanhar ativamente, em contato com alguns dos principais players do setor, tanto no âmbito nacional quanto no internacional. Até o fim da década de 70, existiam dois tipos de aterramento: o tal do triodo em instalações comerciais e industriais, com 3 hastes interligadas e independentes dos demais aterramentos; e as malhas de aterramento nas subestações, um item de projeto dimensionado com modelo de solo uniforme por meio das clássicas expressões da norma americana IEEE-80, com os fatores Ki e Km.

A partir da década de 80, o conceito de “aterramento” evoluiu para “sistema de aterramento”. Duas técnicas começaram a ser aplicadas nesta época nos estudos de aterramento de subestações e de instalações industriais – simulação de aterramentos em computador com modelos de solo de dupla camada e cálculo da distribuição das parcelas das correntes de falta para a terra. Usei muito um programa em Fortran,

desenvolvido na Monasa pelo meu colega de trabalho @Marcelo K essel, que simulava malhas de aterramento equipotenciais, com modelos de solo de duas camadas.

Para calcular a distribuição das parcelas da corrente de falta pelo circuito de terra, inicialmente eu utilizava as técnicas de circuitos “ladder”, que aprendi com o Sérgio Toledo Sobral (que foi meu chefe na IESA, de 1980 a 1985). Depois, de volta na Monasa, aprendi com a Luisa Carijó a utilizar o EMTP para o mesmo tipo de cálculo. Presto aqui a minha homenagem, “in memoriam”, a estes dois profissionais excepcionais com quem tive a sorte de trabalhar.

Aproveito para homenagear também o @Daniel Kovarsky, com quem comecei a trabalhar com eletrodos HVDC e que, até hoje, é meu amigo. Na minha opinião, os eletrodos HVDC são os “Reis do Aterramento”, dada a complexidade deste tipo de projeto, que utiliza tecnologia de sistemas de proteção catódica e envolve a construção de modelos de solo que abrangem toda a crosta terrestre (da ordem de 40 km de profundidade). Tema que foi objeto da minha tese de doutorado em geociências na UNICAMP.

O processo de migração do enfoque de “aterramento” para “sistema de aterramento” foi consolidado com a publicação do Brown Book (IEEE Std. 399), livro integrante da clássica coleção IEEE Color Books, que tinha status de norma. Esta coleção aborda diferentes enfoques das instalações comerciais e industriais, com três livros dedicados ao tema aterramento – o Green Book, o Emerald Book e o Brown Book.

Em 1994, fiz o curso de aterramento e interferências com o Prof. Farid Dawalibi, em Montreal, no Canadá, desenvolvedor do software CDEGS (Current Distribution, Electromagnetic Fields, Grounding and Soil Structure Analysis). Voltei de lá como representante no Brasil do CDEGS e, desde então, acompanhei a evolução deste software, que, ano a ano, foi ficando cada vez mais poderoso e que reinou inconteste no mercado internacional até o recente advento do italiano #XGSLab, concorrente de peso do #CDEGS.

A revisão da norma NBR-7117, em 2020, foi um importante marco para o tema aterramento no Brasil, pois trouxe a visão de geofísica para o nosso setor, agregando novos conhecimentos, técnicas e equipamentos ao arsenal disponível para os profissionais que atuam nesta área. A partir desta revisão, o comitê “Aterramentos Elétricos” tem elaborado novas normas e revisado outras, incorporando o estado da arte nesta área ao setor da engenharia elétrica.

O conhecimento técnico

é o alicerce do futuro do

setor elétrico

Com 16 Comitês de Estudos, CIGRE articula debates técnicos que abrangem toda a cadeia do setor elétrico e seus principais desafios

Atransformação em curso no setor elétrico é profunda e irreversível. A incorporação de novas tecnologias, a digitalização de ativos, a integração crescente de fontes renováveis, os novos arranjos de geração e consumo ampliam de forma significativa a complexidade técnica e operacional. Esse novo cenário redefine o planejamento e a operação do sistema elétrico e eleva os riscos associados às decisões estratégicas.

Trata-se de um setor que sustenta a economia brasileira. O setor elétrico viabiliza cadeias produtivas estratégicas, apoia o agronegócio, a indústria, os serviços e a inovação, além de exercer papel central na transição energética e no desenvolvimento social.

Garantir a confiabilidade, a eficiência e a modernização desse sistema exige mais do que investimentos em infraestrutura. Exige conhecimento técnico sólido, organizado e compartilhado.

Diante desse cenário, a evolução do setor passa, necessariamente, pela capacidade de organizar o conhecimento, aprofundar análises e apoiar decisões com base técnica sólida. É nesse contexto que se consolida a atuação do CIGRE-Brasil, cuja missão é promover a produção, o compartilhamento e a disseminação de conhecimento técnico de alto nível para o setor elétrico, contribuindo para sistemas mais seguros, eficientes e sustentáveis. Integrado a uma rede global, o CIGRE atua como um elo entre a experiência internacional e as especificidades do sistema elétrico brasileiro.

O centro dessa atuação está em seus 16 Comitês de Estudos, que traduzem o foco estratégico do CIGRE em conhecimento técnico aplicado. Esses comitês abrangem os principais domínios do setor elétrico e funcionam como verdadeiras salas de máquinas do conhecimento: é neles que especialistas se reúnem para analisar tendências, aprofundar debates técnicos e transformar desafios complexos em recomendações práticas. Esse modelo permite que o CIGRE trabalhe de forma estruturada, cobrindo toda a cadeia do setor elétrico e oferecendo uma visão sistêmica dos temas em discussão.

Ao longo de 2025, os Comitês de Estudos e seus Grupos de Trabalho intensificaram a produção técnica em frentes como modernização de ativos, digitalização de sistemas, confiabilidade

e desempenho das redes, sustentabilidade ambiental, inovação tecnológica e evolução dos mercados de energia. Esse esforço resultou em estudos, relatórios e brochuras técnicas que fortalecem o debate qualificado e apoiam decisões estratégicas em um setor cada vez mais dinâmico.

Além dos eventos técnicos, os Comitês de Estudos atuam de forma contínua em grupos de trabalho dedicados a temas específicos, cujo resultado frequentemente se materializa em brochuras técnicas, amplamente utilizadas como referência pelo setor. Os especialistas brasileiros também participam de Working Groups internacionais, contribuindo para documentos globais e trazendo ao país experiências e soluções desenvolvidas em outros sistemas elétricos. Iniciativas como webinars complementam esse ecossistema, ampliando o alcance do conhecimento produzido.

Olhando para 2026, a demanda por conhecimento estruturado, colaborativo e alinhado às melhores práticas internacionais tende a crescer. Em um ambiente marcado por maior complexidade técnica e pressão por eficiência, os Comitês de Estudos seguem como protagonistas na antecipação de soluções e na qualificação do debate sobre os rumos do setor elétrico.

Ao organizar, produzir e disseminar conhecimento técnico de alto nível, o CIGRE-Brasil reafirma seu papel como referência na gestão do conhecimento e na articulação entre os diferentes agentes do setor elétrico. Essa atuação colaborativa é o que confere legitimidade e relevância à entidade. Fazer parte do CIGRE é ir além do acompanhamento do debate técnico: é contribuir ativamente para a construção das soluções que orientam decisões estratégicas e sustentam o desenvolvimento da energia e da economia brasileira em um cenário de crescentes desafios.

Por diretoria executiva do CIGRE-Brasil: João Carlos de Oliveira Mello (diretor-presidente), Antonio Carlos Barbosa Martins (diretor técnico), Maria Alzira Noli Silveira (diretora de assuntos corporativos) e Joyce Meireles Siqueira (diretora financeira).

Distribuidoras devem

avançar com prorrogação de concessões em 2026

Oano de 2026 terá desafios importantes para o setor elétrico brasileiro. Após um ciclo intenso de discussões no ano anterior, o segmento enfrenta agora a missão de equilibrar a modernização regulatória com a necessidade de segurança jurídica, em um ambiente de transformações rápidas e exigências crescentes da sociedade.

Para o presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica, Marcos Madureira, o problema central a ser enfrentado é a insegurança causada por desequilíbrios e incentivos feitos sem a devida análise de consequências. “Ainda temos um enorme trabalho a ser feito com relação aos subsídios, que geram distorções profundas no setor”, afirma o executivo. Ele avalia que as leis aprovadas pelo Congresso Nacional caminharam na direção correta, como no caso do teto estabelecido para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), mas que a falta de revisão dos incentivos existentes.

Outro tema urgente na agenda do segmento em 2026 é a conclusão do processo de prorrogação das concessões. O setor aguarda a assinatura dos novos contratos para viabilizar investimentos estimados em R$ 45 bilhões, voltados à modernização, digitalização e resiliência das redes. Das 19 concessões pendentes, 17 já receberam recomendação de renovação pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), e parte ainda aguarda a formalização pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

Madureira defende que esse ciclo seja encerrado rapidamente para evitar incertezas no mercado. “A nossa expectativa é que isso aconteça o mais rápido possível, ainda neste primeiro trimestre”, projeta o presidente da Abradee. Ele ressalta que o respeito aos termos contratuais é a única via para manter a confiança dos investidores: “Qualquer coisa que seja diferente do que está previsto no contrato, você cria insegurança”.

Os eventos climáticos extremos permanecem no topo das prioridades, exigindo estratégias sistêmicas de longo prazo para aumentar a resiliência das redes. Madureira avalia que a discussão sobre o clima deve focar na análise técnica das

causas que tensionam a rede de distribuição, tratando essas ocorrências como situações extraordinárias que extrapolam o cotidiano operacional.

Além das renovações, 2026 será um ano para debater investimentos intraciclo e a viabilidade econômica de soluções como as redes subterrâneas e o compartilhamento de infraestrutura com o setor de telecomunicações. Questões como a atuação em áreas de severa restrição operacional, onde o crime organizado tem dificultado o serviço, também demandam atenção urgente.

No campo da modernização tarifária, a prioridade é a implementação de sinais de preço mais eficientes, como a ampliação da tarifa branca. Madureira classifica essa discussão como “atrasada” e defende que o preço da energia deve refletir sua disponibilidade em diferentes horários.

REFORMA DO SETOR ELÉTRICO REDEFINE SUBSÍDIOS, IMPÕE VETOS E ABRE CAMINHO

PARA O MERCADO LIVRE

Lei 15.269/2025 muda regras de descontos em TUSD e TUST, barra uso da CDE na GD, amplia Tarifa Social e insere armazenamento em baterias no sistema elétrico

Por Matheus de Paula

Sancionada em 24 de novembro de 2025, a Lei nº 15.269/2025, que passou a ser chamada de “reforma do setor elétrico”, marca uma das mais profundas reconfigurações institucionais do setor nas últimas décadas. Resultado de discussões com agentes de regulação, geração, transmissão, distribuição, comercialização e consumidores, a nova legislação busca alinhar o Brasil aos países mais desenvolvidos, ao prever, entre alguns pontos, barrar o crescimento de subsídios setoriais, abertura gradual do mercado livre de baixa tensão, a ampliação da Tarifa Social de Energia Elétrica para famílias de baixa renda e o fim do repasse dos descontos na TUST e na TUSD, com impactos diretos sobre a formação das tarifas e a dinâmica econômica do setor.

Um dos eixos centrais da reforma do setor elétrico é a revisão de subsídios e dos encargos setoriais que incidem sobre a tarifa de energia elétrica. Em 2025, segundo dados do subsidiômetro da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o Brasil teve 56,3 bilhões de subsídios na conta de luz. Esses encargos, em sua maior parte, são financiados por meio da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), e são repassados às tarifas e pressionam o custo final da energia para os consumidores.

A Lei nº 15.269/2025 estabelece a limitação do crescimento da CDE e visa aproximar o arcabouço regulatório brasileiro das melhores práticas internacionais, em linha com as recomendações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que recomendam maior transparência na estrutura tarifária, redução de subsídios cruzados e alocação mais clara dos custos entre os agentes do setor.

A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) avalia que a nova lei cria mecanismos mais justos para alocação de custos entre diferentes mercados de energia. “Essa despesa era exclusivamente sobre o mercado regulado, com a nova legislação o custo será

Segundo estimativas consumidores devem pagar R$ 47,8 bi em subsídios nas contas de luz em 2026 | Imagem: ANEEL

compartilhado entre todos os mercados, o que é mais justo, já que toda a sociedade se beneficia da segurança energética proporcionada por essas usinas", afirma o presidente-executivo da Abradee, De acordo com Marcos Madureira.

Questionado sobre os impactos das mudanças da nova lei, o Ministério de Minas e Energia, embora não tenha respondido às perguntas enviadas pela reportagem da revista OSE, enviou uma nota, onde a Pasta esboça sua expectativa sobre os principais pontos da reforma:

“A própria Lei nº 15.269/2025 mitiga distorções tarifárias ou subsídios, à medida que ela estabelece direitos iguais a todos os consumidores de energia elétrica. A lei cuidou de definir que eventuais custos decorrentes da migração para o mercado livre sejam compartilhados entre consumidores dos ambientes regulado e livre, de forma proporcional ao consumo. Essa regra reduz distorções tarifárias durante a transição, e sua implementação será acompanhada pelo MME em articulação com a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL)".

MERCADO LIVRE DE ENERGIA

Outro ponto de destaque na reforma é a abertura do mercado livre de energia para consumidores de baixa tensão. Pela nova regra, comércios e indústrias atendidos em baixa tensão poderão migrar a partir de 1º de agosto de 2026, enquanto os consumidores residenciais terão essa possibilidade a partir de 1º de dezembro de 2027.

O mercado livre de energia existe no Brasil há mais de três décadas, mas historicamente esteve restrito a grandes indústrias. Criado com a Lei nº 9.74/1995, o modelo deu o primeiro passo de ampliação em 2014, quando o recurso foi estendido para consumidores de alta tensão (AT). Em 2025, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o Brasil teve a entrada de mais de 21,7 mil novos consumidores no ambiente de contratação do mercado livre de energia.

Para Grazziano Motteran, gerente de Estudos, Estratégia e Inovação Regulatória da Cemig, distribuidora de energia elétrica responsável por 96% da área de concessão de Minas Gerais, a abertura do mercado livre de energia para baixa tensão pode reconfigurar estruturas tradicionais do setor. “Esse movimento reduz progressivamente a base de consumidores cativos, que historicamente sustentou a previsibilidade de receitas e o equilíbrio das concessões, sem que haja, por ora, uma redefinição completa do modelo econômico-financeiro da distribuição", avalia.

Segundo o executivo, as distribuidoras já vêm se preparando para esse novo cenário, mapeando oportunidades que tendem a surgir com a abertura do mercado, como a prestação de serviços diversificados, incluindo SUI (Supridor de Última Instância), comercializadora regulada, serviços de DSO (Distribution System Operator, em tradução livre Operador do Sistema de Distribuição).

Para o Grupo Equatorial, responsável pela distribuição de energia em sete estados brasileiros (Alagoas, Amapá, Goiás, Maranhão, Pará, Piauí e Rio Grande do Sul), o ponto central da reforma será a regulamentação

da lei, que deverá ocorrer entre 2026 e 2027. “Será determinante para o sucesso da reforma, exigindo especial atenção do MME, além de ampla participação da sociedade. Isso garantirá o adequado detalhamento das regras para garantir segurança jurídica e equilíbrio econômico-financeiro das concessões, além de uma transição ordenada para consumidores e agentes do setor”, destaca a entidade.

COMO FUNCIONA O MERCADO LIVRE DE ENERGIA

Um contrato de mercado livre de energia estabelece termos entre consumidor e fornecedor, que pode ser uma comercializadora ou geradora de energia elétrica. O contrato padrão é baseado em energia negociada, o preço por unidade, o prazo de vigência e as condições para reajustes, todas personalizadas conforme as necessidades da empresa e futuramente residências.

A principal diferença em relação ao mercado cativo (o fornecimento de energia é exclusivamente feito pela distribuidora de energia local), é a possibilidade de negociação para termos de contrato. No ambiente livre, é possível, por exemplo, a adoção de indexadores como o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) e a inclusão de mecanismos de flexibilidade para ajuste do consumo ao longo do tempo.

Mais de 20.000 consumidoras entraram no mercado livre de energia em 2025, segundo dados da CCEE | Imagem: Revista O Setor Elétrico

Os contratos também podem prever a atualização de preços com base em indicadores econômicos, como IPCA, IGP-M ou o próprio PLD, o que permite que o valor pago acompanhe as condições reais do mercado e traz mais transparência e previsibilidade para o planejamento financeiro das empresas.

FIM DOS DESCONTOS TUSD E TUST

A reforma do setor elétrico encerra os descontos de 50% a 100% nas tarifas de uso do sistema de transmissão e de distribuição (TUST e TUSD) para novos consumidores que migrarem para o mercado livre. Pela nova regra, o benefício ficou restrito aos contratos registrados até 31 de dezembro de 2025.

Tipos de contrato

Contratos por prazo

Contrato com preço fixo

Contratos com preço indexado

Contratos híbridos

Contratos no mercado atacadista e varejista

Condições do contrato

Contrato firmado por período previamente definido entre consumidor e fornecedor, podendo variar entre prazos mais curtos e longos.

Contrato firmado com objetivo de estabelecer uma estabilidade financeira ao manter o valor da energia constante durante todo o período contratual.

O valor da energia contratada varia conforme índices de mercado, principalmente o PLD, possibilitando empresas a monitorar preços e assumir riscos para reduzir custos.

Combinam preço fixo para parte do volume contratado e preço variável para o restante, balanceando segurança e oportunidades de mercado.

No mercado atacadista, a empresa atua como agente direto na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), assumindo maior controle e responsabilidade. Já no varejista, um fornecedor especializado passa a gerenciar o contrato e as obrigações regulatórias, o que simplifica a adesão para pequenas e médias empresas, com menor complexidade operacional.

COMO FICA A ENERGIA INCENTIVADA?

De acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), a retirada do artigo que tratava da compensação às usinas solares e eólicas afetadas pelos cortes de geração renovável, representa grave risco aos projetos existentes e pode levar à ‘perda de credibilidade, fuga de capital, fechamento de empresas, perda de empregos e retrocesso na transição energética no País’.

Segundo Rodrigo Sauaia, presidente executivo da ABSOLAR, o veto ao artigo 1º-A da Lei nº 10.848/2004 desajusta profundamente a estabilidade de todos os investimentos em grandes usinas solares fotovoltaicas realizados no Brasil desde 2013, que não contavam com estas restrições e custos quando foram implantados. “Os empreendedores e investidores que acreditaram no Brasil estão sendo duplamente prejudicados pelos cortes de geração. Além de serem impedidos de entregar sua energia limpa e competitiva, sofrendo inclusive penalidades contratuais por isso, ainda foram obrigados a arcar com os custos dos cortes, feitos em benefício do sistema e em prol de todos os consumidores”, pontua.

A entidade alerta para os efeitos que a retirada de compensação tem junto às instituições financeiras, como os bancos públicos e privados. De acordo com a entidade, estes bancos viam o setor de energias renováveis como um destino seguro, estável e previsível para investimentos. No entanto, segundo a associação, este veto amplia a percepção de riscos e incertezas aos financiadores, o que dificulta novos investimentos no setor.

A avaliação da ABSOLAR diverge da visão apresentada pelo presidente-executivo da Abradee, Marcos Madureira. Para ele, a lógica de compensações automáticas e de incentivos mal calibrados pode acabar transferindo custos adicionais para o consumidor e perpetuando distorções no funcionamento do sistema elétrico. “Se tem a condição de que a energia é mais cara ou mais barata em determinados horários, quem está gerando vai ter que buscar uma solução para ofertar essa energia no momento mais adequado. O gerador pode, por exemplo, instalar sistemas de bateria ou adotar outros mecanismos para fazer essa adequação, é assim que se ganha eficiência no sistema”, sinaliza.

ARMAZENAMENTO DE ENERGIA POR BATERIAS

A Lei 15.269/2025 estabelece que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) tem competência para regular, fiscalizar e estabelecer regras de remuneração e acesso às redes pelos sistemas de armazenamento de energia, conectados tanto ao Sistema Interligado Nacional (SIN) quanto aos sistemas isolados.

A atividade poderá ser exercida de forma autônoma ou integrada à geração, transmissão, distribuição ou comercialização de energia, permitindo também a prestação de múltiplos serviços, como flexibilidade, potência e serviços ancilares.

Para Carlos Evangelista, ex-presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), o avanço do armazenamento de energia por baterias representa um avanço para o setor elétrico. “O armazenamento junto à carga reduz perdas, aumenta a confiabilidade do sistema, mitiga picos de demanda, diminui a necessidade de investimentos pesados em redes e subestações e fortalece a resiliência do consumidor e do sistema elétrico como um todo. Trata-se de uma solução alinhada às melhores práticas internacionais e à lógica econômica do setor”, afirma.

Procurada pela reportagem, a ANEEL informou que não irá se manifestar sobre o tema neste momento.

GERAÇÃO DISTRIBUÍDA

A geração distribuída recebeu vetos na redação final da reforma do setor elétrico relacionados ao uso de recursos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) para compensar os benefícios tarifários do sistema de compensação de energia da micro e minigeração distribuída (MMGD). Segundo a justificativa do Governo Federal, a inclusão do novo dispositivo ampliaria os encargos setoriais e acabaria aumentando as tarifas pelos consumidores.

Na prática, porém, o veto não altera o regime já em vigor. O art. 25 da Lei nº 14.300/2022 já prevê, desde 2022, a utilização de recursos da CDE

para custear a compensação da MMGD durante o período de transição do marco legal. O dispositivo vetado apenas acrescentaria um novo trecho à legislação da CDE, sem modificar a lógica já estabelecida.

Outro veto para a GD foi o artigo 14 do PLV, que alterava o art. 11 da Lei nº 14.300/2022. O trecho permitiria que usinas de maior porte migrassem para o modelo de geração distribuída, desde que conectadas ao sistema de distribuição

As mudanças, no entanto, segundo Raquel Rocha, diretora de Assuntos Regulatórios da ABGD, não representam alterações estruturais.

Segundo ela, o texto incluído no PLV, apenas acrescentava um dispositivo à lei da CDE, mas acabou vetado. “O art. 25 da Lei nº 14.300/2022 já prevê, desde 2022, que os custos da compensação sejam cobertos pela CDE. A única alteração efetivamente promovida pela Lei nº 15.269/2025 na Lei nº 14.300/2022 foi o rateio dessas despesas para todo o mercado, e não mais apenas para o mercado cativo”, afirma.

TARIFA SOCIAL DE ENERGIA

Segundo dados do Ministério de Minas e Energia (MME), o novo desconto na tarifa de energia representa, em média, uma redução de 11,8% na conta de luz para consumidores beneficiários do Cadastro Único (CadÚnico), com renda mensal entre meio e um salário-mínimo por pessoa e que tenham consumo mensal de até 120 kWh. As distribuidoras de energia elétrica tiveram até o último dia de dezembro de 2025 para identificar famílias elegíveis ao benefício.

O desconto social foi criado para atender as famílias que não se enquadraram na nova tarifa social de energia elétrica, em vigor desde

julho do ano passado. Já a tarifa social mantém o mecanismo de gratuidade total para o grupo mais vulnerável.

Pelas regras atuais, famílias com renda de até meio salário mínimo por pessoa e consumo mensal de até 80 kWh seguem com isenção integral na conta de luz. Na prática, isso significa que esse público deixa de pagar pela energia consumida dentro desse limite.

Estimativas do governo federal indicam que cerca de 17 milhões de famílias são atualmente beneficiadas pela tarifa social, o que corresponde a aproximadamente 60 milhões de pessoas em todo o país.

Têm direito à tarifa social de energia elétrica:

• Famílias inscritas no CadÚnico com renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa;

• Pessoas com deficiência ou idosos (65+) que recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e estão inscritos no CadÚnico;

• Famílias indígenas e quilombolas inscritas no CadÚnico;

• Famílias do CadÚnico atendidas em sistemas isolados por módulos de geração off-grid, fora da rede elétrica pública.

De acordo com o MME, tanto a tarifa social quanto o desconto social são concedidos automaticamente para quem está com o CadÚnico atualizado, sem necessidade de solicitação às distribuidoras.

*Procurados pela reportagem, Neoenergia, Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Light, Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) e Echoenergia, não responderam até o fechamento desta edição.

Mercado de fios e cabos

EMPRESA Cidade Telefone Site UF

ALLCAB FIOS E CABOS

ASTA BRAZIL

BA ELÉTRICA

BOREAL FIOS E CABOS

CABELAUTO

CABLIE CONDUTORES ELÉT.

CHARDON GROUP

CMR CONDUTORES ELÉTRICOS

COBRECOM

COBREFORT FIOS E CABOS

COEL

CONDUMAX

CORFIO

DACOTA CABOS ELÉTRICOS

DIDZIEL

D’LIGHT

ELÉTRICA CIDADE

ELETRO UNIVERSO MAT. ELÉT.

ELOS ELETROTÉCNICA

FASTWELD INDUSTRIA E COM.

FIBERHOME

FRB CABOS E PLUGUES ELÉT.

FRONTEC

(11) 2455-2011 (15) 3384-9000 (92) 2125-8000 (12) 3959-7308 (35) 3629-2500 (41) 99145-5958 (11) 4603-1888 (35) 3559-2750 (11) 3200-2118 (11) 4044-3520 (11) 2066-3211 (17) 3279-3700 (49) 3561-3777 (19) 3634-3477 (11) 2725-2604 (11) 2937-4650 (34) 3256-4944 (12) 3938-1600 (41) 3383-9290 (11) 2423-2430 (12) 99706-3678 (42) 99802-0652

0800 704 2477

www.allcab.com.br www.astagroup.com www.baeletrica.com.br www.borealfiosecabos.com.br www.cabelauto.com.br www.cablie.com.br www.chardongroup.com www.cmr.ind.br www.cobrecom.com.br www.cobrefort.com.br www.coel.com.br www.condumax.com.br www.corfio.com.br www.dacotace.com.br www.didziel.com.br www.dlight.com.br www.eletricacidade.com.br www.eletrouniverso.com.br www.elos.com.br www.fastweld.com.br www.fiberhomebr.com.br www.groupfrb.com www.frontec.com.br

Guarulhos

Cerquilho

Manaus

Jacareí

Itajubá

Quatro Barras

Bragança Paulista

Guaxupé

Itu

Diadema

São Paulo

Olímpia

Caçador

São João da Boa Vista

São Paulo

Guarulhos

Uberlândia

São José dos Campos

São José dos Pinhais

Guarulhos

São Paulo

Irati

São Leopoldo

Nesta edição, reunimos um panorama completo dos principais distribuidores e revendedores de acessórios para fios e cabos em todo o país. Esse segmento cumpre um papel estratégico ao conectar fabricantes e consumidores, garantindo o escoamento da produção e o funcionamento eficiente de toda a cadeia da indústria de acessórios para cabos e fios.

Fios e cabos isolados para baixa tensão (até 1000 V) Cabos para comunicações e dados Cabos para média tensão

Programas na área de responsabilidade social x x x x x x x x x x x x x x x x x x x Serviço de atendimento ao cliente por telefone e/ou internet

x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

Exporta produtos acabados

x x x x x x x x x x x x x x x

Importa produtos acabados

x x x x x x x x x x Possui corpo técnico especializado para oferecer suporte aos clientes x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

Oferece treinamento técnico para os clientes x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

Fios e cabos nus

Cabo com isolação termoplástica

Cabo com isolação termofixa

Cabos multiplexados x

Cabos concêntricos x

x

Cabo com baixa emissão de fumaça, gases tóxicos e corrosivos x x x

Cabo resistente ao fogo para circuitos de segurança x

Cabo para ligação de equipamentos

Cabos para instalações fotovoltaicas

Cabos para instrumentação, sinalização, comando, controle x

Cabos ópticos

x

Fios e cabos telefônicos metálicos x x x x x Cabos coaxiais x x x x x Cabos para cabeamento estruturado x

Cabos cobertos (revestidos, não isolados) x

Cabos isolados em média tensão (1 kV < U ≤ 6 kV) x x x x

Cabos para instalações subterrâneas

x x x x x Cabos flexíveis

x x x x Cabos isolados AT (cima de 6 kV) x Cabos para energia eólica x x x Cabos para instalações fotovoltaicas

Guia setorial

GRUPO ELETRO PAINEL

GRUPO INTELLI

HEILIND ELECTRONICS BRASIL

HIDROELETRICA ENGENHARIA

IMCIL COMERCIAL INDUSTRIAL

INDUSCABOS COND. ELÉTRICOS

LAMESA FIOS E CABOS ELÉ.

LOJA ELÉTRICA

MEGATRON FIOS E CABOS

NAMBEI

NEOCABLE

NEXANS BRASIL

NOFERCO EQUIP. ELETRICOS

ONIX DISTRIBUIDORA

PAN ELECTRIC CABOS ELÉT.

PLP

POLIMETAL

RCM CABOS ELÉTRICOS

REYMASTER MATERIAIS ELÉT.

SIL FIOS E CABOS ELÉTRICOS

STAR BRAZIL COND. ELÉTRICOS STECK

SULMINAS FIOS E CABOS

TE CONNECTIVITY BRASIL

TERMOTÉCNICA

VEXTROM

WIREX CABLE

(31) 98464-0712 (16) 3820-1562 (11) 3017-8797 (86) 3223-1250 (11) 95026-6226 (11) 97668-1694 (19) 3634-1520 (31) 3218-8000 (11) 91443-6884 (11) 5056-8900 (11) 4891-1226 (21) 3559-6001 (11) 3473-3913 (44) 3233-8500 (54) 2102-3333 (11) 4448-8000 (31) 3361-8982 (42) 3523-8785 (41) 3021-5000 (11) 3377-3333 (11) 4380-2228 (11) 4090-2121 (35) 3714-2660 (11) 2103-6041 (11) 5197-4000 (11) 3672-0506 (12) 99123-6202

www.grupoeletropainel.com.br www.grupointelli.com.br www.heilind.com www.hidroeletricacenter.com.br www.imcil.com.br www.induscabos.com.br www.lamesa.com.br www.lojaeletrica.com.br www.megatron.com.br www.nambei.com.br www.neocable.com.br www.nexans.com.br www.nofercoex.com.br www.onixcd.com.br www.pan.com.br www.plp.com.br www.polimetal.com.br www.rcmcaboseletricos.com.br www.reymaster.com.br www.sil.com.br www.starbrazil.ind.br www.steck.com.br www.sulminasfiosecabos.com.br www.te.com/pt/home.html www.tel.com.br www.vextrom.com.br www.wirex.com.br

Contagem

Orlândia

São Paulo

Teresina

São Paulo

Poá

SãoJoãodaBoaVistaePoçosdeCaldas

Belo Horizonte

Cachoeira de Minas

São Paulo

Bom Jesus dos Perdões

Rio de Janeiro

São Paulo

Mandaguari

Bento Gonçalves

Cajamar

Contagem

Porto União

Curitiba

Guarulhos

Poá

São Paulo

Poços de Caldas

São Paulo

São Paulo

São Paulo

Santa Branca

Programas na área de responsabilidade social x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x Serviço de atendimento ao cliente por telefone e/ou internet

x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

Exporta produtos acabados

x x x x x x x x x x x x x x x x

Importa produtos acabados

x x x x x x x x x x x x x x

Possui corpo técnico especializado para oferecer suporte aos clientes

x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

Oferece treinamento técnico para os clientes

x x x x x

Fios e cabos nus

x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

Cabo com isolação termoplástica

x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

Fios e cabos isolados para baixa tensão (até 1000 V)

Cabo com isolação termofixa

x x x x x x x x x x x x

Cabos para comunicações e dados Cabos para média tensão

x x x x x x x x x x x x x Cabos concêntricos x x x x x x

Cabo com baixa emissão de fumaça, gases tóxicos e corrosivos

Cabo para ligação de equipamentos

x x x x x x x x x x x x x x x x x x Fios e cabos telefônicos metálicos

Cabo resistente ao fogo para circuitos de segurança x x x x x x x

Cabos para instrumentação, sinalização, comando, controle

x x x x x x x x x x x x x x x x

x x x x x x x x x x x x x x Cabos para instalações fotovoltaicas

x x x x x x Cabos coaxiais x x x x x x x Cabos para cabeamento estruturado

Cabos cobertos (revestidos, não isolados)

x x x x x x x x x x x Cabos para instalações fotovoltaicas x x x x x x x x x x x x Cabos flexíveis x x x x x x x x x x x x x x x x x x Cabos multiplexados

x x x x x x x x x x

x x x x x x x x x Cabos ópticos x x x x Cabos isolados em média tensão (1 kV < U ≤ 6 kV) x x x x x x x x x x x x x Cabos para instalações subterrâneas

x x x x x x x x x x x x x

x x x x x x x x x x x

Cabos isolados AT (cima de 6 kV)

x x x x x Cabos para energia eólica

Inovação e Equidade no Setor Elétrico

Inovar é incluir: o que um ano do “Energizando

a Equidade” ensina à transição energética

Aline Cristiane Pan é Doutora em Energia Solar Fotovoltaica e Professora na UFRGS, onde coordena o Grupo de Pesquisa em Transição Energética. Co-fundadora da Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar, tem mais de 25 anos de experiência no setor.

Quando falamos em inovação no setor elétrico, ainda é comum associá-la quase exclusivamente à tecnologia, como novos equipamentos, eficiência, digitalização, armazenamento e redes inteligentes. Tudo isso é essencial. Mas, depois de um ano intenso de execução do Energizando a Equidade, tenho cada vez mais convicção de que uma das inovações mais profundas da transição energética está fora dos equipamentos e reside nas pessoas que formamos e incluímos nesse processo.

Em janeiro, uma reportagem publicada pelo Jornal Matinal, de Porto Alegre, ajudou a tornar visível essa dimensão. A matéria “Projeto liderado pela UFRGS capacita meninas para atuar na transição energética do país” foi selecionada em um edital da Petrobras que apoia reportagens sobre ciência produzida por pessoas de grupos sub-representados e pesquisas voltadas à diversidade e à inclusão. Publicada em 23 de janeiro de 2026, a reportagem é resultado do trabalho atento da repórter Anna Ortega e da fotojornalista Isabelle Rieger, que viajaram por diferentes cidades onde o projeto acontece, ouviram estudantes, professoras e comunidades escolares e registraram, em texto e imagem, o impacto concreto da iniciativa nos territórios.

O Energizando a Equidade é uma iniciativa construída em rede e protagonizada por instituições públicas de ensino superior e organizações do setor energético. O projeto é desenvolvido de forma articulada pela O projeto é desenvolvido de forma articulada pela UFRGS, UFSM e UFSC, em parceria com a Rede MESol, o coletivo Mulheres do Biogás e o CREA-RS. Essa composição institucional não é apenas um detalhe, mas expressa um modelo de inovação baseado em cooperação, diversidade de saberes e compromisso público.

Ao longo de 2025, o projeto foi executado em escolas públicas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, articulando universidades, redes de mulheres do setor energético e comunidades escolares. Nesse primeiro ano, começaram a emergir resultados que ajudam a qualificar o debate sobre equidade como estratégia de inovação.

Um dos efeitos mais marcantes foi a mudança de percepção de pertencimento. Meninas que inicialmente diziam “energia não é pra mim” passaram a construir protótipos, realizar diagnósticos

energéticos em suas escolas, discutir energia solar fotovoltaica, biogás e eficiência energética, apresentar trabalhos em feiras científicas e se reconhecer como possíveis futuras profissionais do setor energético.

Esses aprendizados foram sistematizados e publicados no artigo “Energizando a Equidade: Protagonismo Feminino na Transição Energética Justa e Inclusiva como metodologia de ensino de ciências nos anos finais do Ensino Fundamental”, publicado em dezembro de 2025 no Dossiê Meninas e Mulheres na Ciência da revista Educação Pública – Divulgação Científica e Ensino de Ciências.

Os resultados do primeiro ano do Energizando a Equidade também foram apresentados no Solar World Congress 2025, em três trabalhos que discutem educação, gênero e energia a partir da experiência brasileira em escolas públicas. Do ponto de vista institucional, o projeto evidenciou a potência da articulação entre universidade pública, escola e setor profissional. Aproximar meninas da ciência e da energia antes da universidade mostrou-se estratégico para romper ciclos históricos de exclusão que afastam mulheres das áreas técnicas e dos espaços de decisão no setor elétrico.

E aqui está um ponto central para empresas, formuladores de políticas e lideranças do setor. Equidade não é um tema periférico da transição energética. Ela faz parte da sua infraestrutura invisível. Um setor que pretende ser mais limpo, resiliente e inovador não pode continuar formando sempre as mesmas pessoas, a partir dos mesmos lugares e com as mesmas oportunidades.

Os resultados iniciais do Energizando a Equidade reforçam uma mensagem clara. A transição energética não falha por falta de tecnologia. Ela falha quando falha em incluir pessoas. Investir em educação, diversidade e equidade é investir diretamente na qualidade da inovação que queremos construir.

Empresas do setor elétrico que desejem conhecer melhor os resultados do projeto ou construir parcerias futuras, estão convidadas a entrar em contato: aline.pan@ufrgs.br | alinecpan@gmail.com.

Talvez a grande inovação que o setor elétrico precisa assumir agora seja esta. Colocar as pessoas, todas elas, no centro da transição energética.

Iluminação: mercado, eventos e o que podemos evoluir em 2026

Luciano Rosito é engenheiro eletricista, especialista em iluminação e iluminação pública. Professor de cursos de iluminação pública no Brasil e exterior.

Neste primeiro texto da minha coluna, quero desejar a todos os leitores um feliz 2026. Dito isto, quero dizer que inicio o novo ano com uma sensação de que 2025 foi um ano de dificuldades, mas 2026 inicia já com perspectivas positivas em relação a todos segmentos de iluminação, com necessidade de retomada de negócios e efetividade nos novos projetos, que irão acontecer durante o ano.

Assim como em 2025, neste ano, teremos muitos eventos do setor de iluminação, em seus diversos segmentos. De 08 a 13 de março, teremos um dos maiores eventos internacionais de iluminação, que ocorre a cada dois anos, na cidade de Frankurt, na Alemanha. É a Light + Building 2026, que vem renovada e em uma retomada de crescimento e importância. Profissionais brasileiros sempre estão presentes neste evento em busca de atualização profissional, entendimento de tendências, novas tecnologias e novos contatos de parceiros de fornecedores.

Ainda em março, entre os dias 25 e 27, em Curitiba/PR, teremos o Smart City Expo, que terá como tema “Cidades como Lugares para Inovar, Criar e Vivenciar”. Já em abril, teremos uma nova edição do CINASE, na cidade de Salvador/BA, onde teremos a oportunidade de discutir os temas de iluminação em painel específico sobre o tema, incluindo os destaques de empresas da região que atuam neste segmento. Em maio, entre os dias 12 e 13, a capital federal será palco do 5º SIIPE BRASÍLIA, Simpósio Internacional de Iluminação Pública e Cidades Inteligentes.

Ao longo do ano, teremos ainda uma sequência de eventos promovidos pela ABILUX: Compoluz (nos dias 07 e 08 de abril em São Paulo-SP), ABCIP (Lançamento do novo Panorama das PPPs) ,

ABRASI junto com as outras associações com o Fórum de Iluminação

Urbana, entre outros. Destaque para o CEPIIC 2026, que será na cidade de Santo André/SP, nos dias 9 e 10 de junho. No segundo semestre, teremos a EXPOLUX 2026, de 15 a 18 de setembro, no Expo Center Norte, em São Paulo.

Além dos eventos, seguimos com diversos grupos e comissões de estudo no Brasil, evoluindo conhecimentos sobre diversos temas e com reuniões já planejadas para que normas sejam atualizadas e novos guias técnicos sejam revisados ou criados. Entre os temas discutidos nestes grupos e comissões, está o combate aos efeitos nocivos da poluição luminosa, estando em planejamento um Simpósio sobre o tema, a ser realizado na USP, em SP, ainda no ano de 2026.

Mas o que podemos evoluir nestes eventos, grupo e comissões de estudos? Utilizando e ampliando os novos conceitos adquiridos nos últimos anos e aplicando nos novos projetos. Em 2026 a telegestão e a integração da iluminação em sistemas de cidades inteligentes também deve evoluir mais, pois já há uma maior procura, por parte dos municípios, juntamente com as evoluções técnicas, pela consolidação da aprovação de modelo estabelecida pelo INMETRO, que viabiliza a aceitação da medição por parte das distribuidoras de energia, para fins de faturamento.

Em resumo, em 2026, seja em eventos ou nas demais iniciativas, a iluminação segue em pauta, crescendo e ocupando um importante espaço nos novos projetos das cidades, criando perspectivas de uso e redução de consumo de energia, usando a tecnologia de forma mais consciente e efetiva.

Iluminação pública

Conexão Regulatória

Risco regulatório no setor elétrico brasileiro (e a incerteza estrutural

de

2026 em diante)

Frederico Boschin é Diretor Executivo da Noale Energia e Sócio da Ferrari Boschin Advogados. Advogado (UFRGS); MBA Gestão Empresarial (FGV/RS); Mestre em Direito Econômico pela Universidade de Lisboa; Pós-graduado em Engenharia de Energia (PUC/RS) e em Regulação do Setor Elétrico (UFRJ). Coordenador da ABSOLAR (Santa Catarina); Membro do Conselho de Infraestrutura da FIERGS; Conselheiro do SindienergiaRS; Professor da PUC/RS e PUC/MG;

OSetor Elétrico Brasileiro (SEB) encontra-se em um momento de profunda transformação, definido por uma confluência de apetite de investimento privado e uma complexidade regulatória multifacetada.

A análise do “risco regulatório” não é mais uma avaliação de intervenções pontuais; evoluiu para um exercício de modelagem de múltiplos atores institucionais/públicos e de riscos estruturais de longo prazo. Ou seja, o risco regulatório atua como fator determinante; e pior, de maneira persistente sem ter no horizonte uma proposta de simplificação. Todavia, o impacto é assimétrico e não-uniforme sobre os ativos, com reações divergentes entre empresas, essa abordagem é essencial para compreender o cenário atual do SEB.

Desta forma, o risco (ou a percepção dele) é impulsionado por eventos complexos e conjunturais, de forma que o setor não está mais sujeito a “eventos” isolados, mas a uma redefinição estrutural e simultânea de suas bases. Esta percepção desfaz a noção de um “risco setorial” monolítico, sugerindo que o impacto da regulação é granular e dependente das características de cada empresa/ativo.

Se no período 2004-2025 os riscos eram primariamente “choques” de implementação de novas regras pela ANEEL, o momento atual se caracteriza por um Risco Regulatório 2.0. Este novo paradigma é mais complexo e institucionalizado, envolvendo não apenas a ANEEL, mas também o Ministério da Fazenda, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) e muita judicialização.

O mercado financeiro reflete essa complexidade. Analistas de equity research quantificam novas regras não mais apenas pela volatilidade histórica, mas pelo impacto direto no Valor Presente Líquido (VPL) das companhias. Em paralelo, o próprio regulador (ANEEL) adota uma postura proativa de “gestão de percepção de risco”, dialogando diretamente com analistas de bancos de investimento para prover segurança jurídica .

O verdadeiro risco, apontado pela CNI e pela KPMG , é que “entraves regulatórios” e o “Custo Brasil” (juros altos) tornem o

retorno inadequado, especialmente nos segmentos maduros (como a distribuição). O “Risco de Performance” é um exemplo: ele aumenta o risco do equity sem, necessariamente, aumentar o retorno, desequilibrando a equação financeira que sustenta o investimento. A redução da volatilidade e, por consequência, do custo de capital do setor, aliado a uma maior e mais sofisticada governança setorial nos tornam um ambiente de negócios melhor.

O setor está, portanto, em uma encruzilhada. De um lado, um apetite de investimento privado estimado em R$ 98,6 bilhões e a estruturação de novos mercados de transição energética . De outro, um longo histórico nacional de destruição de valor e uma nova onda de intervenções que testam a atratividade do capital.

São 3 os perfis de risco do setor: (I) Risco Fiscal-Regulatório: A reforma dos subsídios setoriais, notadamente o debate sobre a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que migrou da esfera técnica para a fiscal, culminando na aprovação da Medida Provisória (MP) 1.304 e na modernização da tarifa, com a abertura do mercado livre de energia (ACL) para a Baixa Tensão; (II) Risco de Performance e Alocação de Capital: A volatilidade econômica do país (curva de juros, inflação e risco de mercado) e a imensa complexidade regulatória, que introduz um novo mecanismo de “risco de performance” ao “condicionar” a distribuição de dividendos ao cumprimento de indicadores financeiros muitas vezes incertos e inalcançáveis; e (III) Risco Político-Judicial: A judicialização do setor é crescente e a resolução das disputas no SEB é cada vez mais complexa. Muitas vezes ensejam a necessidade de composição de acordos com a menor destruição de valor possível, que, embora tenha removido um risco existencial do setor, hoje redefinem a governança da maior parte das empresa do setor.

É importante entender que o risco regulatório é, em essência, o preço da incerteza. E reação dos investidores não é apenas passiva; ela molda ativamente o comportamento do regulador e quantifica o custo da incerteza e traz impactos relevantes ao Brasil como destino de investimentos e de novas tecnologias. Perde o acionista, mas, sobremaneira, perde o país.

1 - ANEEL reúne analistas de investimentos para debater temas do ..., acessado em Janeiro 14, 2026, https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2025/aneel-reune-analistas-de-investimentos-paradebater-temas-do-setor-eletrico

2 - Majoração da CDE para indústria afeta competitividade e encarece produtos - CIESP, acessado em novembro 14, 2025, https://www.ciesp.com.br/noticias/majoracao-da-cde-para-industria-afetacompetitividade-e-encarece-produtos

3 - Análise do desempenho econômico do setor elétrico - KPMG Brasil, acessado em Janeiro 19, 2026, https://kpmg.com/br/pt/home/insights/2025/06/analise-desempenho-economico-setor-eletrico.html

Curva de decremento de geradoresParte 4/6

Cláudio Mardegan é CEO da EngePower Engenharia, Membro Sênior do IEEE, Membro do Cigrè | claudio.mardegan@engepower.com

PROTEÇÃO DO GERADOR PARA UM CURTO-CIRCUITO NO SECUNDÁRIO DO TRANSFORMADOR DE 5000 KVA

É importante saber para quanto cai o valor da tensão para saber o quanto o relé 51V vai restringir de tensão. Para tanto vamos rodar o curto-circuito com a configuração mostrada na Figura 12.

Figura 12 – Configuração do software PTW para verificação da tensão no PN-MT-001 para curto-circuito no painel CCM-MT1.

Com esta configuração relatório da Figura 13 abaixo é gerado.

Figura 13 – Valor da tensão no painel PNMT-001 para um curtocircuito no CCM-MT1.

Isso significa que o pickup do elemento 51V irá cair, lembrando que a concessionária deve estar fora de operação.

Como o pickup é do elemento 51V a 100% de tensão é de 1950

A. Como a tensão no primário caiu para 0.6358 pu, a corrente de pickup cai para 1240A.

Existe uma outra maneira de se determinar o valor da tensão no nível de tensão do gerador original, utilizando circuito da Figura 14.

Figura 14 – Circuito para determinar o valor da tensão no Ponto A, para curto-circuito no Ponto B.

Considerando:

XG = 0.12 pu (na base do gerador)

O valor de XG deve ser considerado em função

Do tempo de atuação do elemento de proteção.

Em geral o valor de X’d vai ser o mais adequado.

A impedância do trafo é 7% na base de (5MVA).

Na base do Gerador fica:

XTR = 7 x 15/5 = 7 x 3 = 21

XTR = 0.21 pu (na base do gerador)

A corrente será:

I = E / (XG + XTR) = 1 / (0.12+0.21) = 1 / 0.33 = 3.03 pu

V = E – XG x I = 1 – 0.12 x 3.03 = 1 – 0.3636 = 0.6364 pu

Como pode ser observado os valores batem com o valor calculado pelo software. A pequena diferença se deve ao cabo do gerador que foi desconsiderado nos cálculos à mão.

COMPOUNDAGEM DOS GERADORES

Hoje em dia, a maioria dos geradores tem um sistema que sustenta o valor de corrente acima da corrente de carga total por um tempo especificado, normalmente de 1,5 a 4 vezes a corrente de plena carga (In) por 10s, dependendo do fabricante.

Sempre se deve verificar junto ao fabricante do gerador para qual valor o gerador mantém a corrente.

Mostra-se na Figura 15, uma curva típica de um fabricante de gerador, indicando o valor que o gerador mantém a corrente (por 10 segundos).

Figura 15 – Curva de decremento de gerador de um fabricante indicando a corrente que ele sustenta por 10 s.

Para o gerador mostrado na Figura 15, ele mantém a corrente sustentada em 19372 / 5165 = 3.75 x In.

Cada software comercial apresenta uma maneira de representar. O importante é que na folha de seletividade apareça o valor correto que ele consegue sustentar.

No EasyPower

Usando um software comercial, os valores correspondem aos da planilha. Sem o field forcing, a vazio, a corrente de decremento do gerador teria a curva de decaimento mostrada na Figura 16. Como pode ser observado, a corrente SC em regime permanente (corrente sustentada) está abaixo da corrente nominal do gerador: (1781 A < 5165 A!).

Como na compoundagem a corrente é corrigida na região de curto permanente o Field Forcing atua na f.e.m. EY.

sistemas elétricos

A corrente de curto permanente chega apenas a 123.8% da corrente nominal.

Como já falado anteriormente a corrente de decremento muda seu valor dependendo do carregamento do gerador. A Figura 16 auxilia no entendimento disto.

Figura 16 – Explanação sobre a família de curvas que existe entre a condição a vazio e a plena carga na curva de decremento de um gerador.

DETERMINAÇÃO DO FIELD FORCING PARA A CORRENTE

MÍNIMA SUSTENTADA INFORMADA PELO FABRICANTE

A seguir será mostrado como ajustar a curva de decremento do gerador para mostrar a corrente mínima sustentada de 11000 A, fornecida pelo fabricante, durante o curto-circuito.

Já foi mostrado que sem forçar o campo (Field Forcing) a f.e.m. é de 3.59 pu chegando a uma corrente de 6395 A.

O Field Forcing para atingir a corrente de 11000 A é calculado como segue:

A Figura 17 ilustra o exposto.

Figura 17 – Field Forcing para o valor mínimo sustentado de 11000

A informado pelo fabricante.

Determinando o Field Forcing para a Corrente Máxima

Sustentada Informada pelo Fabricante

A seguir será mostrado como ajustar a curva de decremento do gerador para mostrar a corrente sustentada de 19372 A, durante o curto-circuito.

Já foi mostrado que sem forçar o campo (Field Forcing) a f.e.m. é de 3.59 pu chegando a uma corrente de 6395 A.

O Field Forcing para atingir a corrente de 19372 A é calculado como segue:

A Figura 18 ilustra o exposto.

Figura 18 – Field Forcing para o valor máximo sustentado de 19372

A informado pelo fabricante.

Resiliência na distribuição: o papel estratégico do enterramento de redes

Daniel Bento, PMP®️, é Eng. Eletricista e atua com redes isoladas de MT desde 1989. Coordenou o Comitê de Estudos B1 do CIGRE. Foi responsável técnico pela rede de distribuição subterrânea de SP. Quatro vezes na lista do 100 + Influentes da Energia. Atualmente, é CEO da BAUR do Brasil e da BAUR USA Corp.

Ao longo da última década, à medida que eventos climáticos extremos se tornaram mais frequentes e severos, a resiliência elétrica deixou de habitar o campo dos conceitos e passou a orientar decisões técnicas e regulatórias no setor elétrico. No Brasil, esse movimento se materializou de forma clara com o marco regulatório aprovado pela ANEEL em outubro de 2025, que reconhece explicitamente a necessidade de preparar os sistemas elétricos para esses fenômenos. O foco deixa de ser apenas a redução de falhas em condições normais e passa a incluir a capacidade de resistir a eventos severos e, sobretudo, de recuperar o sistema em prazos compatíveis com as demandas da sociedade.

Nesse contexto, o enterramento de redes retorna ao debate com mais maturidade técnica. Não como solução universal, mas como uma ferramenta estratégica dentro de uma visão integrada de resiliência. Um dos estudos mais completos sobre o tema foi publicado pelo Electric Power Research Institute (EPRI) em 2015. Embora não seja recente, o relatório permanece atual ao estabelecer uma distinção essencial que ainda orienta o planejamento dos sistemas de distribuição: confiabilidade e resiliência não são a mesma coisa.

A confiabilidade avalia o desempenho do sistema em condições rotineiras. Resiliência, por sua vez, mede a capacidade da rede de resistir, responder e se recuperar de eventos que extrapolam os critérios tradicionais de projeto. É sob essa ótica que o estudo do EPRI posiciona o enterramento como uma solução singular entre as estratégias de reforço da infraestrutura. Ao remover fisicamente os ativos da exposição a vento, vegetação, gelo, neve e descargas atmosféricas, o enterramento elimina essas causas de falha nos trechos convertidos — algo que nenhuma solução aérea é capaz de fazer de forma integral. Mais relevante do que a redução da frequência de interrupções é o impacto do enterramento sobre a duração total dos grandes apagões. O EPRI demonstra que determinados segmentos aéreos, especialmente alimentadores principais e laterais críticas,

são responsáveis por prolongar significativamente o tempo de restauração em eventos severos. Ao eliminar esses trechos da equação, o enterramento contribui diretamente para encurtar a recuperação do sistema, aliviando a pressão operacional e reduzindo os impactos sociais e econômicos das interrupções prolongadas.

O estudo, no entanto, é realista ao tratar dos custos e das implicações operacionais. A conversão de redes aéreas para subterrâneas envolve investimentos elevados e altamente variáveis, influenciados por densidade urbana, tipo de circuito, condições do solo e interferências existentes. Por essa razão, o EPRI é categórico ao afirmar que o enterramento total dos sistemas de distribuição é, na maioria dos casos, economicamente inviável. A recomendação técnica é o enterramento seletivo, orientado por dados históricos de falhas e recuperação, com foco em alimentadores estratégicos, redes áreas com recorrência de longas interrupções e regiões que atendem serviços essenciais — algo que tenho defendido ao longo de anos de atuação no setor.

Mais do que perguntar “se” devemos enterrar redes, o setor precisa responder “onde”, “quando” e “com que objetivo”, integrando análises de risco, impacto sistêmico e ciclo de vida dos ativos. O enterramento não substitui outras estratégias de resiliência, como automação, gestão de vegetação, modernização de ativos e melhoria dos processos de resposta a eventos. Ele se soma a elas.

Apesar de ter sido publicado há mais de uma década, o estudo do EPRI permanece como referência justamente por oferecer critérios técnicos para decisões equilibradas, baseadas em risco e benefício sistêmico. Em um cenário de transição energética, eletrificação crescente e eventos climáticos cada vez mais intensos, resiliência deixou de ser diferencial e passou a ser requisito de projeto. E, quando aplicado de forma estratégica, o enterramento de redes segue sendo uma das ferramentas mais eficazes para alcançá-la.

Segurança do trabalho

Segregação x Zona de Risco e Zona Controlada: como interpretar

Aguinaldo Bizzo de Almeida é engenheiro eletricista e atua na área de Segurança do trabalho. É membro do GTT – NR10 e inspetor de conformidades e ensaios elétricos ABNT – NBR 5410 e NBR 14039, além de conselheiro do CREA-SP.

ANR-10 estabelece o distanciamento seguro através da criação das zonas controladas e de risco no entorno de pontos ou conjuntos energizados, onde o ingresso é restrito a profissionais ou pessoas autorizadas mediante determinadas condições. A norma definiu as distâncias padronizadas através da criação das “Zona de Risco (ZR), Zona Controlada (ZC) e Zona Livre (ZL)”, cujas dimensões estão associadas ao nível de tensão de trabalho.

A existência de Zona de Risco e Zona Controlada estão condicionadas a dois fatores intrínsecos: circuitos elétricos energizados e “sem segregação”, sendo que o conceito de segregação está descrito no Glossário da norma da seguinte forma: Equipamento Segregado - equipamento tornado inacessível por meio de invólucro ou barreira. Dúvidas e interpretações errôneas ocorrem entre diversos profissionais que atuam no processo de operação e manutenção das instalações elétricas (inclusive Engenheiros e Técnicos), SESMT e “auditores de NR-10”, levando a adoção de procedimentos vulneráveis e\ou inexequíveis.

Assim, é fundamental a correta interpretação de conceitos técnicos estabelecidos na NR10 onde a definição de ZR e ZC está associado a “distâncias de segurança” que tem como requisitos intrínsecos o circuito está energizado e “sem segregação”.

Assim, instalações elétricas segregadas, independentemente do nível de tensão, uma vez que possuem segregação, por exemplo, Grau IP adequado do invólucro primário em painéis elétricos de baixa tensão, não configuram obrigatoriamente a ZC e ZR, em condição normal de operação, bem como em atividades em que não seja necessário a descompartimentação do invólucro primário, como por exemplo para uma inspeção visual, mesmo que esse painel elétrico esteja dentro de uma “sala elétrica” ou CCM.

Ocorre que “salas elétricas \ CCM” devem ser consideradas como locais de acesso restrito e “controlado”, ou seja, uma “área controlada”, onde somente Profissionais Autorizados poderão adentrar, e, dentro dessa ‘área controlada”, poderá existir instalações elétricas (barramentos, linhas aéreas, equipamentos, painéis elétricos etc.), segregados ou não. Ou seja, poderá ocorrer uma possível caracterização da ZR e ZC.

Dessa forma, como exemplo geral, instalações elétricas energizadas com condutores elétricos sem “isolação”, com “colocação fora de alcance”, independentemente do nível de tensão, como por exemplo SE, redes aéreas de distribuição e Transmissão de energia elétrica, bem como equipamentos como por exemplo transformadores (sem proteção nas buchas), de maneira intrínseca, considerando o aspecto construtivo, a caracterização de ZR e ZC, ocorrerá em quaisquer atividades de manutenção elétrica.

Essa condição também se aplica em atividades caracterizadas como “Trabalho em Proximidade” conforme NR10, como por exemplo manutenção de redes de telefonia em estruturas compartilhadas com redes de distribuição de energia elétrica.

Entretanto, atividades realizadas em equipamentos elétricos, como por exemplo painéis elétricos, a caracterização de ZR e ZC, está condicionada à segregação física desses equipamentos, como por exemplo Grau IP. No entanto, destaca-se, que, as distâncias de segurança ZR e ZC, se aplicam na análise de exposição ao risco de choque elétrico por contato direto, ou seja, não se aplica a exposição ao risco de arco elétrico onde a definição da distância segura, conhecida como LAS – Limite de Aproximação Segura para a exposição ao risco de arco elétrico, será definida conforme valor da energia incidente de cada instalação elétrica. Assim, mesmo em ZL, onde pressupõe que as pessoas não estejam expostas ao Perigo Eletricidade, o risco de arco elétrico poderá existir.

ACondutor neutro em barramentos blindados - atenção redobrada nos novos tempos da IA Quadros e painéis

Nunziante Graziano é engenheiro eletricista, mestre em redes e equipamentos, Ph.D. Em Business Administration e CEO do Grupo Gimi |nunziante@gimi.com.br

determinação da seção nominal do condutor neutro em barramentos blindados de baixa tensão (busway) não é trivial e depende fortemente do tipo de carga, regime de operação e critérios normativos. A seguir estão os principais métodos e critérios de cálculo utilizados na prática e aceitos por normas técnicas (especialmente ABNT NBR IEC 61439, IEC 61439, IEC 60364 e práticas de fabricantes).

O primeiro método é baseado no equilíbrio de cargas (cargas lineares), considerando o princípio de que em um sistema trifásico equilibrado, a soma fasorial das correntes é zero e a corrente no neutro é desprezível. Assim sendo, temos o condutor Neutro com seção reduzida a valores típicos de 50% da seção da fase e em alguns casos industriais a 25% da seção da fase. A Limitação deste método é que não é aplicável a cargas não lineares ou com desequilíbrio significativo. Assim sendo, aplica-se SOMENTE a sistemas trifásicos equilibrados como cargas lineares (motores, resistências, aquecimento).

O segundo método é caracterizado por desequilíbrio de cargas. Aplica-se em sistemas trifásicos com distribuição desigual de cargas monofásicas como Centros comerciais, edifícios, iluminação. Considera como princípio básico que existirá corrente no neutro por conta destes desequilíbrios, mas não por presença de distorções harmônicas. Calcula-se a corrente máxima esperada no neutro, considerando o pior cenário de desequilíbrio.

Para aplicar-se esse método, precisa-se primeiramente, determinar correntes por fase. Após essa determinação, devemos calcular a corrente resultante no neutro:

O critério de determinação então, é por comparação e escolha: Seção do neutro ≥ seção equivalente à corrente calculada Geralmente, utiliza-se a seção do Neutro = 100% da fase.

O terceiro método é baseado na presença de distorções harmônicas (cargas não lineares) e aplica-se a cargas eletrônicas, UPS, Data centers, grandes call-centers, Variadores de frequência, Iluminação LED´s, fontes chaveadas, e etc. Considera-se como princípio básico que a presença de Harmônicos de ordem 3, 9, 15, etc. (triplos) somam-se aritméticamente no neutro, fazendo com que a corrente no neutro possa ser maior que a corrente de fase.

Segundo os critérios normativos da IEC e a ABNT, Quando o THD de corrente (Distorção harmônica total de corrente) for maior que 15% ou quando as correntes harmônicas triplas forem maiores que 33% da fundamental, a seção do Neutro deve ter seção igual ou maior que a da fase. A prática comum é selecionar por tipos de instalação.

Seção do neutro

Comercial: 100% da fase

Data center ou Call Center: 100–200% da fase

Hospital: 100–150% da fase

O quarto método é baseado na verificação térmica Método térmico (capacidade de condução de corrente), e aplica-se a barramentos blindados com alto grau de compactação ou ambientes com temperatura elevada em que a desclassificação da corrente nominal se dá por avaliação da elevação de temperatura do neutro.

Considera:

Corrente eficaz (RMS)

Efeito pelicular e proximidade

Harmônicos

Critério

A seção do neutro deve:

-Manter a temperatura dentro dos limites da IEC 61439

-Não exceder o limite térmico do barramento

Esse método é geralmente validado por ensaios de tipo do fabricante com base na NBR-IEC-61439-1/NBR-IEC-61439-6.

O quinto método é baseado nos memoriais de cálculo simplificados e presentes nas normas de instalação, (IEC 60364 / ABNT NBR 5410). A aplicação se faz diretamente com as referências conceituais anteriormente apresentadas nesta coluna, mas também usada em barramentos blindados, seguindo regras práticas. O Neutro pode ser reduzido se o Sistema tem carga equilibrada e com baixa presença de harmônicos. Entretanto, a seção do Neutro não pode ser reduzida se houver cargas não lineares no sistema, pois há risco de corrente no neutro ser superior à corrente de fase.

Como os fabricantes industrializam suas linhas de produção, não parece razoável que calcule e projete os condutores todas as vezes que fabricarão uma linha específica para uma aplicação. Desta forma, com base na NBR-IEC-61439-6, desenvolvem modelos eletrotérmicos próprios e certificam seus produtos com base nos ensaios de curtocircuito e aquecimento (ELevação de temperatura), de modo que conhecem a performance dos condutores em seus produtos e com estes padronizados, apenas aplicam suas variantes em cada projeto.

Dimensões típicas de condutores de neutro em barramentos blindados:

N50 (50%) / N100 (100%) / N200 (200%)

A escolha final é feita combinando-se o Tipo de carga, as distorções harmônicas THD, Regime de operação e características ambientais (temperatura ambiente média, insolação e etc.).

O impacto da revisão da NBR 5419 em números

José Barbosa é engenheiro eletricista, relator do GT-3 da Comissão de Estudos CE: 03:064.010 - Proteção contra descargas atmosféricas da ABNT / Cobei responsável pela NBR5419. | www.eletrica.app.br

Anova versão da ABNT NBR 5419 introduz mudanças relevantes na metodologia de análise de risco, ferramenta obrigatória para a definição da necessidade de proteção contra descargas atmosféricas em estruturas no Brasil. Essas alterações podem resultar em variações significativas nos resultados quando comparadas à versão de 2015 da norma.

Dentre as principais inovações, destacam-se o aumento dos valores da densidade de descargas atmosféricas para o solo (NG), a introdução da frequência de dano (F) e a inclusão do fator relacionado ao tipo de estrutura (rs).

Para quantificar e contextualizar esses impactos, foram comparados alguns casos práticos. O primeiro refere-se a uma residência em alvenaria simples, localizada em Manaus, com

dimensões de 10 m de comprimento, 7 m de largura, 3 m de altura, situada em área suburbana.

Ao calcular o risco de perda de vida humana (R1) conforme as versões de 2015 e 2026 da norma, verificou-se que não houve alterações significativas no resultado, apesar do aumento expressivo do valor de NG e da introdução do fator associado ao tipo de estrutura. Em ambas as versões, não há exigência de Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA).

Entretanto, as duas versões indicam a necessidade de instalação de Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS) nas entradas das linhas de energia, com diferenças quanto ao nível de proteção requerido: a versão de 2015 exige DPS classe I compatível com o nível IV de proteção, enquanto a versão de 2026 requer DPS compatível com o nível II.

Figura 1 – Resultado análise de risco nas versões 2015 e 2026

Além do risco de perda de vida humana (R1), a versão 2026 da ABNT NBR 5419 passa a exigir a avaliação da frequência de danos em equipamentos, distinguindo-os entre críticos e não críticos. Consideram-se equipamentos críticos aqueles cuja indisponibilidade pode causar impacto relevante à coletividade, enquanto os equipamentos não críticos são aqueles cuja falha afeta exclusivamente o proprietário da instalação.

No caso de edificações residenciais, os equipamentos são classificados como não críticos. Para essa categoria, a norma estabelece como frequência máxima tolerável o valor de uma falha por ano.

Para adequar a frequência de dano da residência analisada no estudo de caso a esse limite normativo, torna-se necessária a adoção de um sistema de Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS) coordenados, dimensionados para atender ao nível I de proteção.

Figura 2 – Resultado da frequência de dano 2026

Para um edifício comercial localizado na cidade de São Paulo, com dimensões de 30 m de comprimento, 20 m de largura e 30 m de altura, ambas as versões da norma indicam a necessidade de adoção de um Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA). Na versão de 2015, é requerido um SPDA compatível com o nível III

de proteção, enquanto na versão de 2026 passa a ser exigido o nível II de proteção.

Adicionalmente, de forma semelhante ao observado no caso da edificação residencial, a versão de 2026 estabelece a necessidade de adoção de Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS) coordenados, dimensionados para atender ao nível IV de proteção, com o objetivo de limitar a frequência de falhas em equipamentos não críticos ao valor máximo de uma falha por ano.

Além da introdução dos DPS coordenados, não exigidos pela versão de 2015, a mudança do nível III para o nível II de proteção do SPDA implica consequências diretas no projeto, como o aumento do número de captores e de condutores de descida, bem como a necessidade de reavaliar e, eventualmente, ampliar o sistema de eletrodos de aterramento.

2015 e 2026

Em síntese, o impacto das novas diretrizes da ABNT NBR 5419:2026 dependerá das características específicas de cada caso analisado. Conforme evidenciado nos estudos de caso apresentados, em algumas situações as mudanças se refletem principalmente na necessidade de proteção de equipamentos, enquanto em outras resultam no aumento do nível de eficiência das medidas de proteção já previstas na versão de 2015 da norma.

Figura 3 – Estimativa SPDA nas versões

A sexta revolução energética dos

sapiens: o domínio da eletricidade

Dr. Danilo de Souza é professor na Universidade Federal de Mato Grosso, sendo Coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Planejamento Energético – NIEPE, Presidente da Abracopel e é Coordenador Técnico do CINASE – Circuito Nacional do Setor Elétrico. Danilo também é pesquisador no Instituto de Energia e Ambiente da USP | www.profdanilo.com

Chegamos, assim, à sexta revolução energética dos Sapiens: o domínio da eletricidade. Diferentemente das revoluções anteriores, a eletricidade não se estabelece como uma fonte primária de energia, mas como uma forma singular de representar, converter e transportar energia. O papel histórico da eletricidade foi atuar como intermediária altamente eficiente entre diferentes fontes primárias e seus usos finais, reorganizando profundamente a forma como a energia é produzida, distribuída e utilizada.

Até o domínio dos estoques, a humanidade já dispunha de meios para produzir luz, calor e movimento. O domínio da eletricidade consolidou-se como um desenvolvimento em camada técnica superior, capaz de tornar essas conversões mais flexíveis, controláveis e eficientes. Em si mesma, a eletricidade não tem utilidade direta: precisa ser convertida em luz, calor, torque ou sinal. Seu valor está justamente na capacidade de se transformar em quase qualquer forma de energia útil.

É nesse ponto que a eletricidade se consolida como uma revolução no transporte da energia, ao permitir desacoplar, de forma técnica e operacional, o local de geração do local de consumo. O carvão no subsolo, o petróleo em campos distantes, a água em bacias remotas e os ventos em regiões pouco habitadas podem ser convertidos em eletricidade nos seus “berços”, enquanto a carga se concentra predominantemente nas cidades, nas fábricas e nas residências. A eletricidade conecta esses dois mundos por meio de condutores, transportando energia sem transporte macroscópico de matéria, o que produz consequências estruturais profundas: desloca a “sujeira”, afastando fumaça, ruído e resíduos associados à geração do ponto de uso final; desloca o risco, retirando processos industriais dos centros das cidades ou dos ambientes domésticos; e transfere parte relevante do impacto ambiental do local de consumo para o local de geração, que pode estar distante e tecnicamente mais controlado.

A eletricidade também apresenta uma característica singular entre as mercadorias energéticas: em condições normais, precisa ser produzida e consumida quase simultaneamente. Embora o armazenamento venha avançando, o sistema elétrico se organiza

como um sistema de equilíbrio dinâmico. Geração, consumo, frequência e tensão precisam estar continuamente coordenadas. Historicamente, os primeiros usos sistemáticos da eletricidade ocorreram no século XIX, inicialmente associados à telegrafia e à iluminação. A lâmpada incandescente, comercializada em larga escala a partir da década de 1880, transformou radicalmente a vida urbana. Ruas, fábricas e residências passaram a ser iluminadas de forma contínua, previsível e relativamente segura. A iluminação elétrica ampliou as horas produtivas do dia, reorganizou os turnos de trabalho e alterou os hábitos sociais. A noite deixou de ser um limite para a atividade humana.

Pouco depois, a eletricidade passou a desempenhar um papel central na produção de força motriz, transformando profundamente a organização industrial. Como ilustrado na Figura 1a) e na Figura 1b), nos arranjos baseados, respectivamente, em energia hidráulica (dependente dos fluxos naturais) e em máquinas a vapor (baixíssima eficiência na distribuição de força), a força mecânica era gerada de forma centralizada e distribuída fisicamente por eixos, correias e engrenagens ao longo das fábricas, o que implicava elevadas perdas por atrito, limitações espaciais, ruído intenso, vibrações e riscos significativos à segurança dos trabalhadores. A introdução dos motores elétricos, apresentada na Figura 1c), rompe com esse paradigma. A energia passa a ser transportada na forma elétrica por condutores, enquanto a conversão em força mecânica ocorre localmente, junto à carga. Cada máquina passa a dispor de seu próprio motor, acionado de forma independente, com controle preciso de velocidade e torque. A grande vantagem dessa transição não reside apenas no ganho de eficiência, mas também no fracionamento da força motriz e na eliminação dos complexos sistemas mecânicos de distribuição. Esse desacoplamento entre geração, transmissão e uso final da energia reduz perdas, amplia a flexibilidade operacional, permite a reorganização do layout das fábricas e eleva significativamente a produtividade industrial. Mais do que uma inovação técnica pontual, a eletrificação redefine o próprio conceito de organização produtiva, ao transformar a energia em um fluxo distribuído, modular e controlável, fundamento da moderna

indústria eletromecanizada.

No transporte, a eletricidade também provocou rupturas significativas. Bondes elétricos, metrôs e trens eletrificados transformaram a mobilidade urbana a partir do final do século XIX e início do século XX. Ao deslocar a geração para fora do espaço urbano, o transporte elétrico reduziu a poluição local, o ruído e os riscos associados à combustão direta. Mesmo quando alimentados por fontes fósseis, esses sistemas reorganizaram o espaço das cidades e viabilizaram a expansão metropolitana.

Outro aspecto central do domínio da eletricidade é o controle. A energia elétrica permite que o controle se torne mais barato. Sensores simples, circuitos elementares e dispositivos de proteção permitem medir, comparar, acionar e desligar sistemas com baixo custo adicional. Esse fator foi decisivo para a difusão da automação industrial e, posteriormente, para a automação doméstica. Quando o controle se torna acessível, a automação deixa de ser exceção e passa a ser regra.

Na indústria, esse controle viabilizou sistemas de comando, proteção e intertravamento, elevando os padrões de segurança e confiabilidade. No cotidiano doméstico, permitiu a substituição progressiva de usos térmicos baseados em chamas abertas por dispositivos elétricos automaticamente controlados. Não se trata apenas de conforto, mas de uma reorganização técnica do risco e da previsibilidade dos processos.

Essa capacidade de controle também é o elo entre a eletricidade e a computação. Chavear circuitos, comparar sinais, amplificar correntes e temporizar eventos são operações energéticas e informacionais simultâneas. A eletricidade tornou possível representar informação em forma física, o que permitiu o desenvolvimento de calculadoras, computadores e sistemas digitais. A partir desse momento, energia e informação passam a compartilhar a mesma infraestrutura material.

Do ponto de vista produtivo, a eletricidade também redefiniu a relação entre energia e tempo. Ao permitir iluminação mais eficiente

e confiável, ela ampliou a disponibilidade de horas produtivas. Ao permitir força motriz fracionada, elevou a eficiência do trabalho. Ao permitir controle barato, reduziu desperdícios e falhas. Esses fatores combinados explicam por que o domínio da eletricidade está diretamente associado aos grandes ganhos de produtividade observados entre o final do século XIX e o século XX.

Outro elemento decisivo é a capacidade da eletricidade de integrar diferentes fontes de energia em um mesmo sistema. Uma vez eletrificados os usos finais, torna-se possível substituir as fontes de geração sem modificar profundamente os equipamentos consumidores. Essa característica confere à eletricidade um papel estratégico na reorganização das matrizes energéticas ao longo do tempo, permitindo incorporar fontes de baixo carbono e explorar potenciais energéticos distantes das cargas.

Como sexta revolução energética, o domínio da eletricidade não se define pela descoberta ou pelo desenvolvimento de uma nova fonte, mas pela construção de sistemas de conversão, transporte e controle da energia. A eletricidade possibilitou a reorganização do espaço, o deslocamento de impactos, redefiniu o tempo produtivo e transformou a energia em elemento estruturante da vida econômica e social.

A eletricidade consolida uma civilização na qual energia, técnica e organização passam a operar de forma integrada. Mais do que fornecer potência, ela fornece coordenação. Esse talvez seja seu legado mais profundo: transformar a energia em algo distribuído, controlável e articulado em rede, preparando o terreno para as revoluções tecnológicas que se seguiram.

Referência da Figura: De Souza, Danilo Ferreira, Francisco Antônio Marino Salotti, Ildo Luís Sauer, Hédio Tatizawa, Aníbal Traça de Almeida, and Arnaldo Gakiya Kanashiro. 2022. “A Performance Evaluation of Three-Phase Induction Electric Motors between 1945 and 2020” Energies 15, no. 6: 2002. https://doi.org/10.3390/en15062002

Novos requisitos para detectores de gases inflamáveis, oxigênio e gases

tóxicos:

Norma IEC 60079-29-0

Roberval Bulgarelli é engenheiro eletricista e consultor sobre equipamentos e instalações em atmosferas explosivas.

Foi publicada em 27/11/2025 pela IEC (International Electrotechnical Commission) a nova Norma Técnica internacional IEC 60079-29-0: Explosive atmospheres - Part 29-0: Gas detectors – General requirements and test methods.

A Norma IEC 60079-29-0 especifica os requisitos gerais, métodos de ensaio e critérios de aceitação aplicáveis a equipamentos para a detecção de Gases Inflamáveis, Oxigênio e Gases Tóxicos.

Esses dispositivos são projetados para detectar gases e vapores inflamáveis ou tóxicos e apresentar uma indicação, alarme ou outra função de saída para proteção de pessoal ou das instalações em aplicações industriais.

O objetivo da Norma IEC 60079-29-0 é alinhar os requisitos e métodos de ensaios de equipamentos de detecção de gases em uma única Norma da Série IEC 60079-29, consolidada, para consistência geral de requisitos.

A Norma IEC 60079-29-0 se aplica aos seguintes tipos de equipamentos de detecção de gases:

Tipo “FL” para a detecção de GASES INFLAMÁVEIS, incluindo:

• Tipo FL-Grupo I: em minas suscetíveis a grisu

• Tipo FL-Grupo II: em locais que não sejam minas suscetíveis a grisu

• Tipo FL-OP: equipamento de detecção de gases inflamáveis por caminho óptico aberto

Tipo “O2” para a detecção de OXIGÊNIO, incluindo:

• Tipo O2-DE: detecção de deficiência ou enriquecimento de oxigênio

• Tipo O2-IN: inertização como função de medição para proteção contra o risco de explosão

Tipo “TX” para a detecção de GASES TÓXICOS, incluindo:

• Tipo TX-SM: detecção em áreas para aplicações de monitoramento de segurança e, tipicamente, utilizando sinalização de alarme

• Tipo TX-HM: medição de exposição ocupacional na região dos valores-limite de exposição ocupacional (os requisitos de

desempenho para este tipo são especificados na IEC 62990-1)

• Tipo TX-OP: equipamento de detecção de gases tóxicos, pelo método de caminho óptico aberto

A Norma IEC 60079-29-0 ressalta que, embora o foco desta Norma seja prioritariamente para equipamentos “Ex”, para utilização em “atmosferas explosivas”, ela pode também ser aplicável à detecção de gases em áreas não formalmente consideradas como “áreas classificadas”.

No âmbito de normalização técnica “Ex” nacional da ABNT, a Comissão de Estudo CE 003.031.003 do Subcomitê SCB 003.031 (Atmosferas explosivas) acompanhou todo o processo de elaboração, comentários, aprovação, votação e publicação desta Norma IEC 60079-29-0, juntamente com os demais países participantes do TC-31 (Equipment for Explosive Atmospheres) da IEC.

Esta Comissão de Estudo iniciou os trabalhos de elaboração da respectiva Norma Técnica Brasileira adotada ABNT NBR IEC 60079-290, de acordo com os requisitos indicados na ABNT Diretiva 3: Adoção de documentos técnicos internacionais.

Mais informações sobre a Norma Técnica internacional IEC 60079-29-0 estão disponíveis na Webstore da IEC: https://webstore. iec.ch/en/publication/77173

Impactos de grandes volumes de geração renovável para a manutenção do sistema de distribuição

Caio Huais é engenheiro industrial, especialista em Engenharia Elétrica e Automação com MBA em engenharia de manutenção e gestão de negócios. Atualmente, ocupa posição de gerente corporativo de manutenção no Grupo Equatorial, respondendo pelo desempenho da Alta Tensão de 7 concessionárias do Brasil.

Aexpansão acelerada da geração renovável distribuída vem alterando profundamente o regime operativo das redes de distribuição. Este artigo analisa, sob a ótica normativa e da engenharia de manutenção, como PRODIST, normas ABNT e referências internacionais precisam ser reinterpretados para garantir confiabilidade, vida útil dos ativos e segurança do sistema em um cenário de alta penetração de fontes renováveis.

Em 2026, a discussão técnica já não se limita ao acesso da geração, mas aos efeitos permanentes dessa inserção sobre a confiabilidade, a vida útil dos ativos e as estratégias de manutenção.

Nesse novo cenário, a manutenção deixa de ser apenas uma função operacional e passa a ser elemento central da engenharia de distribuição, com forte interface regulatória e normativa.

ALTERAÇÕES NO REGIME OPERATIVO DA REDE

Os sistemas de distribuição foram concebidos historicamente para fluxos unidirecionais de potência. A elevada penetração de geração distribuída introduz fluxos bidirecionais, maior variabilidade de carregamento, elevação de tensão em horários de baixa carga e alterações nos níveis de curto-circuito.

O PRODIST, especialmente o Módulo 2 (Planejamento da Expansão), o Módulo 3 (Acesso ao Sistema de Distribuição) e o Módulo 8 (Qualidade da Energia Elétrica), estabelece limites e critérios operativos, porém não detalha como esses novos regimes impactam os ciclos de vida dos ativos, transferindo às distribuidoras a responsabilidade técnica pela adaptação das políticas de manutenção.

IMPACTOS NORMATIVOS SOBRE ALGUNS DOS PRINCIPAIS ATIVOS:

Transformadores de distribuição

Transformadores passam a operar sob perfis térmicos mais dinâmicos, com ciclos frequentes de carga e descarga, sobretensões em períodos de alta geração e, em alguns casos, fluxo reverso. Esses fatores aceleram o envelhecimento do sistema isolante.

As práticas de manutenção devem considerar, além das recomendações de fabricantes, os conceitos de carregamento e envelhecimento térmico descritos na ABNT NBR 5356 e nas normas IEC 60076, ajustando critérios de inspeção, ensaios e substituição.

Equipamentos de proteção e seccionamento

Religadores, disjuntores e chaves de média tensão sofrem

aumento significativo no número de operações devido à maior variabilidade operativa da rede. A ABNT NBR IEC 62271 estabelece requisitos construtivos e de desempenho, mas os intervalos de manutenção devem ser redefinidos com base no número real de manobras e na severidade elétrica. A manutenção baseada apenas em periodicidade fixa torna-se insuficiente frente ao novo cenário.

Sistemas de proteção e coordenação

A presença de múltiplas fontes de geração impacta diretamente a seletividade e a coordenação da proteção. Ajustes de relés e filosofias de proteção precisam considerar a contribuição da geração distribuída para correntes de curto-circuito.

As normas IEEE 1547 e IEEE 1547.1, embora voltadas à interconexão, trazem premissas relevantes sobre comportamento dinâmico da geração que devem ser incorporadas às análises de confiabilidade e manutenção dos sistemas de proteção.

Evolução da manutenção estratégica

Diante desse contexto, a manutenção estratégica deve evoluir apoiada em três pilares:

1 - Manutenção baseada em condição, com monitoramento de transformadores, religadores e reguladores de tensão;

2 - Integração entre estudos elétricos, operação e manutenção, utilizando análises de fluxo de carga, curto-circuito e qualidade de energia;

3 - Revisão de indicadores técnicos, complementando métricas tradicionais com critérios que reflitam severidade operativa e regimes críticos.

Os grandes volumes de geração renovável conectados às redes de distribuição representam um avanço inquestionável, mas impõem desafios técnicos relevantes à manutenção dos ativos. O atendimento aos requisitos do PRODIST, aliado às normas ABNT e às boas práticas internacionais, exige das distribuidoras uma atuação técnica proativa.

A manutenção estratégica consolida-se, assim, como um dos principais instrumentos para garantir que a transição energética ocorra de forma segura, confiável e sustentável. Mais do que cumprir requisitos normativos, trata-se de reinterpretá-los à luz de novos regimes operativos, preservando a integridade dos ativos, a confiabilidade do sistema elétrico e a responsabilidade técnica das concessionárias.

Manutenção estratégica

Filtros passivos: qual a especificação do reator?

Por: Eng José Starosta – Diretor da Ação Engenharia e Instalações Ltda jose.starosta@acaoengenharia.com.br

Na edição de maio de 2025 e seguintes, foram apresentadas discussões de situações de aplicação de filtros de harmônicas nas configurações passivas, ativas e híbridas.

A discussão ora proposta considera a abordagem da escolha do reator a ser aplicado junto aos capacitores na configuração de filtro passivo. A Figura 1 apresenta a ilustração de filtros passivos manobrados por chaves estáticas. Os reatores são conectados em série com os capacitores, e fisicamente estão localizados acima destes. Em função da aplicação do filtro a relação das impedâncias dos capacitores e reatores devem manter proporções definidas na especificação do equipamento. O contexto do projeto envolve as definições se o filtro, passivo por definição, será aplicado em:

1 - compensar a energia reativa e simultaneamente filtrar correntes harmônicas da carga. Nesse caso “filtro passivo sintonizado”.

2 - compensar a energia reativa com “filtro antirressonante” evitando ressonância harmônica paralela considerando as correntes harmônicas da carga e a impedância formada entre a rede de alimentação e o sistema de compensação reativa.

3 - compensar a energia reativa com filtro antirressonante em situação de rede elétrica de alimentação com baixa potência de curto-circuito ou previamente “poluída” com conteúdo harmônico na tensão, isso é, rede de alimentação com tensão previamente distorcida independente da carga a ser conectada.

A Figura 2 apresenta o modelo simplificado de reatâncias da rede (XL), do reator do filtro (XL1) e dos capacitores (XC), desconsiderando-se as resistências que podem ser desprezadas quando se trata de soluções aproximadas, notadamente em frequências superiores a fundamental.

A relação entre essas reatâncias definirá o modelo desejado de operação do filtro. A impedância XL , impedância da rede, dependerá da impedância da distribuidora de energia, transformadores e circuitos das fontes.

Figura 1- Filtros passivos manobrados por chaves estáticas
Figura 2 – Impedâncias da rede (XL), do reator do filtro (XL1) e do capacitor (XC)

A relação das impedâncias XL1 e XC, definirá o fator “p” ou p= XL1/ XC Normalmente o fator “p” é tratado de forma percentual p%.

O fator p, tem alto grau de importância no dimensionamento do filtro, pois define a frequência de sintonia, ber tabela 1, ou ressonância do filtro conforme a conhecida expressão , onde fr é a frequência de ressonância, L a indutância do reator do filtro e C a capacitância do capacitor do filtro. A definição do divisor de corrente formado entre as impedâncias da rede e do filtro nas diversas frequências harmônicas é o ponto principal do dimensionamento do filtro. Como normalmente um filtro ou sistema de compensação reativa é composto por grupos, a análise deverá considerar todas as possibilidades de operação do filtro com os grupos que o compõem. Assim um filtro que contenha o primeiro grupo com 50 kvar, o segundo com 100 kvar e o terceiro com 200 kvar deve ser simulado desde 50kvar até 350kvar, nas diversas composições possíveis.

Como normalmente um filtro

Nas aplicações industriais são utilizados os fatores “p” conforme ilustrado na Tabela 1. Atentar para:

Os casos indicados possuem particularidades e os efeitos de tensão e corrente nos capacitores devem ser considerados:

• Circulação de correntes harmônicas e efeitos nos capacitores.

• Aumento da tensão nos capacitores devido a presença do indutor em série.

• Limitações impostas pela ABNT NBR IEC 60831 a operação dos capacitores e classes respectivas.

• Equilíbrio térmico do filtro.

• Capacitores aplicados em sistemas de compensação reativa sem reatores na presença de cargas não lineares terão grande possibilidades de gerar ressonância harmônica com danos em componentes da rede, da carga ou dos próprios capacitores.

• Consultar fornecedor experimentado em soluções específicas. f r = 1 (2π √ LC)

Coeficiente p%

5% a 6%

6% (245Hz)

7% (227Hz)

13% a 14%

14% (160 Hz)

Aplicação

Sintonia de correntes harmônicas

Sistema antirressonante

Sistema antirressonante

ou sistema de compensação reativa é composto por grupos, a análise deverá considerar todas as possibilidades de operação do filtro com os grupos que o compõem. Assim um filtro que contenha o primeiro grupo com 50 kvar, o segundo com 100 kvar e o terceiro com 200 kvar deve ser simulado desde 50kvar até 350kvar, nas diversas composições possíveis.

Premissas

Filtrar parcela das correntes harmônicas impedindo que sejam injetadas na rede, em função da sintonia especificada. Normalmente especificados em correntes de 5ª e ou 7ª harmônicas.

Evitar que ocorra ressonância harmônica a partir da 5ª harmônica quando a carga é distorcida. A maior parte das correntes harmônicas irão circular pela rede.

Evitar que ocorra ressonância harmônica a partir da 3ª harmônica quando a carga é distorcida. A maior parte das correntes harmônicas irão circular pela rede. Também é aplicável em situação de baixa potência de curto da distribuidora ou presença de harmônicas de tensão com baixa carga.

Tabela 1 – SínTeSe de SoluçõeS em filTroS paSSivoS – rede 60Hz

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