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AMAR Fevereiro 2026

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EDITOR

Madalena Balça

CAPA

Don Quincy

DIRETOR CRIATIVO

David Ganhão

EDITADO POR

MDC Media Group

309 Horner Ave, Etobicoke Manuel DaCosta, Presidente

CONTACTO revistamar.com info@revistamar.com

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Impresso em Toronto.

entREVISTA AMAR
FEVEREIRO 2026

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Daniel Correia

Marito Marques E

ntre a serenidade de Arganil e a energia vibrante de uma das maiores cidades da América do Norte constrói-se uma história feita de ritmo. Marito Marques não é apenas o músico que atravessou fronteiras e acumulou colaborações internacionais; é o rapaz de Arganil que levou consigo o silêncio dos pinhais, a liberdade da infância e a força da família para cada palco onde tocou.

Da descoberta precoce da bateria às decisões ousadas que o levaram a Nova Iorque, de Lisboa a Toronto, cada etapa foi sendo construída com consistência, curiosidade

e entrega. Pelo caminho surgiram encontros decisivos, redes de colaboração, projetos próprios e reconhecimento internacional, incluindo um Grammy, que acrescenta responsabilidade, mas não altera a essência. Porque, mais do que prémios, é a ligação às raízes que define o seu caminho.

Entre Portugal e o Canadá, entre ser pai e músico, entre tradição e experimentação, Marito vive num equilíbrio contínuo. Esta é a história de alguém que nunca deixou verdadeiramente o lugar de onde partiu, apenas alargou o mapa onde a sua música pode existir.

FOTO: DON QUINCY

ENTRE ARGANIL

E TORONTO

Marito Marques saiu de Arganil para uma das maiores cidades da América do Norte, sem nunca deixar verdadeiramente o lugar onde cresceu. Entre o silêncio dos pinhais e o ritmo acelerado de Toronto, vive-se um equilíbrio delicado entre raízes e horizontes. Porque emigrar não é apagar o passado, é transportá-lo connosco, reinventando-o. Nesta travessia entre Arganil e o Canadá, revela-se não apenas um percurso geográfico, mas uma geografia emocional onde família, infância e natureza continuam a definir quem se é.

Nasci em Coimbra, em 1987, mas cresci em Arganil e é lá que verdadeiramente me sinto nascido. Tenho hoje 38 anos, mas uma parte essencial de mim continua naquela vila perto da serra, onde vivi até aos 20. Aos 25 vim para o Canadá, mas Arganil nunca deixou de ser casa.

Volto duas ou três vezes por ano. Os meus pais continuam lá, o meu irmão, a minha avó paterna, os meus irmãos, sobrinhos, sobrinhas, cunhadas. Falo com os meus pais praticamente todos os dias. Essa ligação nunca se perdeu e sei que nunca se perderá. Há uma parte de mim que está lá e que ficará sempre lá.

A minha infância foi profundamente marcante. Crescer numa vila deu-me uma liberdade que hoje é quase impensável. Lembro-me de ter seis ou sete anos e sair da escola sozinho para ir a pé para casa da minha avó. Cinco ou dez minutos de caminhada que hoje, mesmo em Arganil, já não seriam tão naturais. Havia tempo para observar. Para estar. Para olhar o céu, o pinhal, o silêncio. Crescer perto da natureza foi uma das maiores dádivas da minha vida. Esse contacto moldou-me. Acredito que me deu equilíbrio, foco e sensibilidade.

A BATERIA: UM DESTINO QUASE INEVITÁVEL

Antes de haver planos, havia ritmo. Antes de existir uma decisão consciente, já existia um impulso impossível de ignorar. A música não surgiu como escolha, mas como extensão natural da infância, quase como se estivesse inscrita no corpo antes mesmo das palavras. Entre tachos e pratos improvisavam-se pequenas baterias que iam sendo substituídas à medida que crescia. Assim se foi desenhando um caminho. Neste percurso, a família teve um papel decisivo, transformando talento precoce em experiência, palco e disciplina. O destino começava ali, devagar.

Não me lembro de mim sem bateria. Segundo os meus pais, antes de falar já partia pratos e panelas com talheres. A solução foi simples: compraram-me uma bateria. Tinha um ano. Fui crescendo entre baterias de brincar que partia e outras que iam sendo substituídas. Aos cinco anos recebi a minha primeira bateria “a sério” - velha, usada, mas de madeira. Ainda hoje digo que esse foi, provavelmente, o momento profissional mais especial da minha vida. Já ganhei prémios importantes, mas nada se compara àquele instante em que percebi que aquilo não era só brincadeira.

Nunca houve um momento dramático de revelação. Nunca ouvi uma música e pensei “é isto”. Foi tudo muito gradual, muito inconsciente. Simplesmente acontecia.

Aos cinco, seis anos, já tocava ao vivo com o meu irmão. Ele tocava teclado, cantava, e a minha mãe tornou-se, sem exagero, a nossa manager. Montava o material, organizava, inscrevia-nos em programas de televisão como o Big Show SIC. O meu pai trabalhava, mas também apoiava como podia. Foi um crescimento passo a passo, sem saltos maiores do que a perna.

A DECISÃO AOS 19 ANOS

Há momentos na vida em que a convicção fala mais alto do que o medo. A adolescência traz dúvidas para muitos; para outros, traz certezas inabaláveis. Escolher um caminho artístico raramente é a opção mais segura, mas é, por vezes, a única que faz sentido. Entre expectativas familiares, prudência e sonhos que parecem maiores do que o mundo onde nasceram, surge a necessidade de provar (aos outros e a si próprio) que a vocação não é capricho. Partir exige coragem, mas também entrega absoluta. Aos 19 anos, a decisão deixou de ser apenas um sonho falado em casa e transformou-se num compromisso real com o futuro.

Aos 17 ou 18 anos disse aos meus pais que queria ser músico profissional e ir estudar para Nova Iorque. A reação deles foi de preocupação. Hoje, sendo pai, entendo perfeitamente. Vieram os conselhos: talvez universidade, talvez um plano B, mas eu tinha a certeza. Disse-lhes que, mesmo que tivesse de morar debaixo de uma ponte, seria músico. Claro que não era literal, era apenas a forma de lhes mostrar o quanto aquilo era sério para mim.

Fui para Nova Iorque aos 19 anos, vivi lá três meses intensivos. Não foi muito tempo, mas foi transformador. Estudava cinco ou seis horas por dia, ia a concertos, tinha aulas quase diariamente. Não saía à noite, não perdia tempo. Na altura parecia normal; hoje percebo o quão focado estava.

Nova Iorque abriu-me os horizontes. Musicalmente, claro — mas sobretudo como pessoa. Sair de Arganil diretamente para uma das maiores cidades do mundo foi um salto enorme, mas encarei-o com naturalidade. Sabia ao que ia. Regressei a Portugal diferente. Mais consciente, mais determinado.

1. OUVINDO E APRENDENDO COM O IRMÃO MAIS

VELHO, GONÇALO

2. SINFONIA DE RUA COM

A MÃE E O IRMÃO

3. MARITO EM CONCERTO, AOS 8 ANOS

4. EM PALCO NO "BIG SHOW SIC"

2.

3.

4.

5.

LISBOA –

PONTO DE

PARTIDA

Regressar com novos horizontes é apenas o início; é preciso transformá-los em trabalho concreto, presença e persistência. Lisboa representava esse território de possibilidade - o lugar onde as oportunidades circulam, onde os encontros acontecem e onde o talento precisa de se afirmar diariamente. Começar sem garantias exige humildade e confiança em simultâneo. Mais do que executar, era tempo de criar, expandir e assumir uma identidade própria no panorama musical.

Depois de Nova Iorque fui para Lisboa. Não tinha trabalho garantido. Tinha apenas a certeza de que precisava de estar onde as coisas aconteciam.

Pouco depois surgiu um convite do músico Yami para integrar o seu projeto. Essa oportunidade foi fundamental. Em Lisboa, os músicos conhecem-se todos. Uma ligação leva a outra. E na música, a rede de contactos é vital. Talento conta. Trabalho conta. Mas personalidade também conta muito. Não basta tocar bem; é preciso saber estar, saber colaborar. A música é profundamente relacional.

Comecei a produzir, a compor, a gravar. Sempre quis ser mais do que apenas baterista. Não desvalorizo quem se dedica exclusivamente ao instrumento, mas sempre senti necessidade de criar de forma mais abrangente.

O CANADÁ POR UM

“TEMPO”...

Há mudanças que nascem de planos bem definidos e outras que começam quase por acaso, guiadas pelos afetos. O Canadá não fazia parte do mapa inicial, mas a vida tem a capacidade de redesenhar

percursos quando menos se espera. O que começou como uma experiência temporária transformou-se numa nova etapa de crescimento pessoal e profissional. Mudar de país implica reaprender códigos, reconstruir redes e provar novamente o próprio valor. Contudo, quando a base é sólida e o caminho já foi feito com consistência, a adaptação torna-se menos difícil. Entre continuidade e reinvenção, abriu-se uma nova geografia de oportunidades, onde talento, trabalho e abertura ao mundo encontraram terreno fértil.

Nunca tinha pensado em viver no Canadá. Até conhecer a Nicole, hoje minha esposa. Ela é luso-canadiana, de Toronto. Conheci-a em Portugal, chegámos a morar lá um ano, a Nicole mudou-se para Portugal por mim, mas não se adaptou totalmente, sobretudo ao ritmo de trabalho. Entretanto, ela veio para cá, para acabar a universidade. E eu disse “olha, vou para aí durante uns seis meses, também para perceber um bocadinho como é e como é que é Toronto”, ou seja, combinámos que eu viria por um tempo. Esse “tempo” já vai em 13 anos.

Toronto surpreendeu-me. Fala-se muito de Nova Iorque, Los Angeles ou Londres, mas Toronto tem um nível musical extraordinário. Talentos incríveis, diversidade cultural enorme.

A adaptação foi relativamente simples, talvez porque já tinha vivido Nova Iorque e também porque Toronto é uma cidade que está habituada a acolher muita gente, de todas as partes do mundo. Acho que, de certa forma, a adaptação torna-se mais fácil nesse sentido. Felizmente comecei a ter bastante trabalho, logo que cheguei. Eu sempre tive muito trabalho em Portugal. Trabalhei com o Carlos do Carmo, com a Sara Tavares, com os Fingertips, projetos mais pop, outros mais fado, mais world, mais Africa. Sempre tive muito trabalho e sempre me senti muito bem em Portugal, para ser sincero. Felizmente não foi propriamente por necessidade que saí de Portugal. Sempre me senti valorizado no

nosso país e continuo a sentir isso de cada vez que volto. Ainda trabalho muito com bandas em Portugal, ou seja, há sempre esta ponte entre o Canadá e Toronto e entre eu aqui no Canadá e Portugal. Profissionalmente, aqui em Toronto comecei por lançar o meu primeiro disco e organizei concertos. Contactei músicos, alguns dos melhores da cidade, e todos se mostraram abertos, recetivos. E assim começou a nova rede de contactos. O facto de eu produzir música, para além de ser instrumentista, foi essencial nesse processo. Ao produzir, convidava músicos, trabalhava com eles, criava ligações. Uma ligação leva a outra. É assim que se constrói uma carreira. Hoje produzo, componho, gravo, ensino no Humber College. O estúdio tornou-se uma extensão natural do meu trabalho.

OS PRÉMIOS

E O GRAMMY

O reconhecimento público é, muitas vezes, visto como o culminar de uma trajetória. Mas, para quem vive da criação, os prémios raramente representam um ponto final, antes funcionam como uma vírgula no percurso. Ser nomeado, distinguido, premiado, traz validação externa, mas também uma nova consciência interna. A visibilidade aumenta, as expectativas crescem e a responsabilidade torna-se mais presente. Mais do que um troféu na prateleira, o reconhecimento transforma-se num compromisso silencioso com a qualidade, com a evolução e com a fidelidade à própria identidade artística.

Na realidade, o único prémio que eu ganhei com a minha música, com um projeto em nome próprio foi um IPMA, já há alguns anos, mas fui nomeado para um Latin Grammy e para um Grammy. Este ano recebi finalmente um Grammy. O que muda? Sinceramente, pouco muda internamente. Talvez apenas acrescente. Porque fica a consciência de que uma parte do trabalho está feita, mas também

que ainda há muito mais para se fazer. E é exatamente isso. É o querer fazer ainda mais e melhor. E isso, de certa forma, acrescenta alguma responsabilidade. Embora eu tente não meter esse peso em cima de mim porque acho que não beneficia a música, porque a música deve ser feita sem pressão, mas sim com amor e talento e tudo isso, mas sem propriamente pressão. Mas sim, acho que responsabilidade assenta bem naquilo que sinto depois de ser agraciado, nomeado e agora depois de ter ganhado. Não sinto que “cheguei ao topo”, só sinto mais responsabilidade. Sinto que já não sou apenas mais um músico - sou “um músico com um Grammy”. Mas o prémio (seja ele qual for) não é um ponto de chegada; é um incentivo a fazer ainda melhor.

PORTUGAL -

UMA LIGAÇÃO

DE SEMPRE E PARA SEMPRE

Portugal não é, nem nunca foi, apenas um lugar de origem, é território emocional, criativo e familiar. Mesmo à distância, mantém-se vivo nas colaborações, nos projetos, nas viagens frequentes e nas memórias que continuam a moldar decisões. Entre compromissos profissionais e afetos, constrói-se uma ponte entre dois mundos.

Portugal nunca saiu da minha vida. Trabalho cada vez mais com músicos portugueses. Dentro de dias vou estar lá para produzir o disco da Inês Santos. Tenho um estúdio em Arganil, na casa dos meus pais, onde recebo músicos quando estou lá. Vou aproveitar que vou uma semana a Portugal, para levar a minha filha. Eu vou trabalhar e ela vai estar a passar um tempo comigo, obviamente, mas também com os meus pais. O que é muito importante. Mas voltando ao trabalho em Portugal, recentemente gravei para o Festival da Canção. Estou a iniciar novos projetos com outros artistas portugueses. Ou seja parte

do meu trabalho continua a estar ligado a Portugal. Agora, se me pergunta - gostaria de voltar a viver em Portugal? Sim. Muito. Mas, neste momento, profissionalmente, seria quase impossível manter o mesmo volume e diversidade de trabalho. A vida ensinou-me a aceitar que algumas decisões práticas e racionais são necessárias. Quanto ao futuro?

Logo se vê.

FAMÍLIA E IDENTIDADE

Entre culturas, línguas e geografias distintas, constrói-se uma identidade plural que se transmite todos os dias, nos gestos simples e nas escolhas conscientes. Preservar a língua é preservar memória, pertença e história. Mas educar é igualmente saber dar liberdade, permitir que cada filho descubra o seu próprio caminho, sem imposições. A música, presente em casa como linguagem natural, surge como possibilidade, nunca como obrigação. Entre raízes portuguesas e vida canadiana, a família torna-se o espaço onde identidade e afeto se encontram, equilibrando herança e autonomia com serenidade.

Tenho dois filhos: a Luana, de nove anos, e o Leonardo, de quatro. Lá em casa, eu e a Nicole falamos português com eles todos os dias. Insisto, com muito cuidado e carinho, que mantenham a língua. Sei que o inglês é dominante, mas quero que sintam Portugal e a língua portuguesa como parte deles. Claro que a língua nativa deles é e sempre será o inglês, mas nós falamos em português com eles. Claro que, às vezes, respondem-nos em inglês, isso é natural, não é, mas eles percebem bem português. Quando vamos a Portugal eles falam português com os meus pais e restante família.

Relativamente ao futuro dos meus filhos, sei apenas que não os forço a entrarem no mundo da música. Eles estão expostos. Os instrumentos estão lá. Brincamos, experimentamos ritmos na bateria, na mesa ou até nas pernas, mas

apenas mais como uma brincadeira. A música deve ser leve, natural. Mas acho que nem na minha filha, nem no meu filho houve assim um clique de quererem focar-se muito num instrumento. A Luana toca, de vez em quando, piano. O Leonardo ainda é pequenino, mas já está numa idade em que pode começar a perceber e explorar mais os instrumentos. Muitas vezes vão lá para baixo para o estúdio e começam a tocar, mas não estou a ensinar-lhes nada de forma académica, digamos assim. Tudo surge de uma forma mais liberal, mais lúdica. Se algum dia houver um clique, estarei lá. Se não houver, também estarei.

O PRESENTE

E O FUTURO

O presente é sempre um ponto de passagem, nunca um lugar de chegada. Depois de anos de aprendizagem, viagens e conquistas, surge uma nova fase marcada pela expansão e pela exploração criativa. Crescer implica arriscar, experimentar outras sonoridades, abrir espaço para o desconhecido. Mas, no meio de novos projetos e agendas preenchidas, permanece uma linha contínua que liga tudo ao início. O futuro constrói-se sobre essa memória fundadora: a intuição simples de que a música seria companhia para a vida inteira.

Neste momento estou a construir um novo estúdio, maior do que tenho atualmente, aqui em Toronto. Estou também a desenvolver um novo disco, mais experimental, com sintetizadores e uma linguagem diferente da que explorei até agora. Em paralelo, produzo vários artistas nos Estados Unidos, Canadá e Portugal. A agenda está cheia até ao verão.

Às vezes penso naquele miúdo de Arganil que caminhava sozinho para casa da avó. Ele nunca imaginou Toronto, nunca imaginou Grammys, mas imaginou, ou sentiu, que a bateria seria sempre parte da sua vida. E isso, no fundo, foi o suficiente.

MARITO PREMIADO PELA SUA COLABORAÇÃO COM SALVADOR SOBRAL E MARO →

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