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A Revista Dasartes (ISSN 1983-9235) é uma publicação da Indexa Editora Ltda ME.
















• Após quase cinco décadas de funcionamento, o CentroPompidou,emParis,iniciou uma ampla reforma arquitetônica.
Durante os próximos anos, sua programação será transferida para outras cidades francesas e instituições parceiras ao redor do mundo, redefinindo temporariamente o circuitointernacionaldeexposições.
• A gravura (1924), de Marc Chagall, voltou a público depois de permanecer por duas décadasretidapelaalfândegabelga em meio a disputas judiciais. A redescoberta reacendeu o debate sobre a circulação internacional de obras de arte e os desafios da restituiçãoedaprocedência.


•Pesquisadoresdo RijksmuseumedoMauritshuisdescobriram que Johannes Vermeer utilizava o raro pigmento ultramarino, extraído do lápis-lazúli, até mesmoemáreasinvisíveisdesuas pinturas. A descoberta lança nova luzsobreatécnicaeorigorcriativo domestreholandês.
• Instituto Tomie
Ohtake comemora 25 anos ampliando sua programação de exposições, debates e ações educativas. A agenda reafirma o papeldainstituiçãocomoplataforma para artistas brasileiros e internacionais e destaca sua importâncianaformaçãodepúblico aolongodeduasdécadasemeia.


• Um conjunto de esculturasdobritânicoRayExworth, preservadopordécadasemgalpões e ateliês na Cornualha, começou a ser revelado ao público após sua morte. Muitas das obras jamais haviam sido expostas e permaneciam praticamente desconhecidasatéagora.
• ao ser anunciada como a nova diretora do grupo de museus Tate, destacando o papel dos museus como espaços capazes de ampliar perspectivas e estimular novas formas de compreender o mundo e a nós mesmos.

Francis M. Naumann, pesquisador e curador especializado em Dadaísmo e Surrealismo, conta um dos episódios mais bem guardados da história da arte moderna: o caso amoroso entre o francês Marcel Duchamp (1887-1968) e a escultora brasileira Maria Martins (1894-1973), vivido em segredo na Nova York dosanos1940.Oamorsecretogerouobras-primasdos dois artistas, e o livro faz uma reparação histórica a Maria Martins, uma das escultoras surrealistas mais importantes e reconhecidas de sua geração.
•PinakothekeEditora • 192 páginas • R$ 192,00 Livros,

Editado pela Edusp, o livro é um desenvolvimento da tesededoutoradodohistoriadorAlexMiyoshi,intitulada , defendida na Unicamp em 2010, tratando do mito de Moema, a personagem indígena fictícia do poema épico Caramuru, escrito em 1781 por Santa Rita Durão. No poema, Moema se afoga ao se atirar ao mar tentando alcançar o navio de seu amado, o português Diogo Álvares, que estava embarcando para a Europa em companhia de Paraguaçu, a mulher com quem ele se casara.
• Autor Alex Miyoshi • Editora Edusp • 200 páginas • R$ 100,00

A publicação reúne entrevistas, relatos, documentos históricos, fotografias e portfólios que revisitam a trajetória do FotoBahia. A obra oferece uma leitura sobre um dos movimentos mais importantes da fotografia brasileira, destacando sua contribuição para a consolidação de uma produção fotográfica autoral e para a construção da memória da fotografia no país.
• Autor Marcelo Reis • 196 páginas • R$ 50,00




© The National Gallery, London.








Francisco de Zurbarán (1598-1664) nasceu em Extremadura, no extremo oeste do país, mas passou a maior parte de sua vida em Sevilha, cidade à qual seu nome permanece mais fortemente associado. Era então uma das cidades mais ricas daEspanha,oquepermitiuqueoartista criasseobrasdearteparaalgumasdas pessoas mais importantes do país. Trabalhou em todas as escalas possíveis, produzindo obras monumentais, mas também pinturas pequenas o bastante para caber na palma da mão.
Apesar de ter vivido na mesma época que os artistas Diego Velázquez e Bartolomé Esteban Murillo, que ele certamente conhecia, seu nome é menos familiar hoje em dia. Nunca houveumagrandeexposiçãodedicada aelenoReinoUnidoeestáé,portanto, uma rara oportunidade de conhecer Zurbaránpormeiodealgumasdesuas melhores e mais importantes pinturas, que chegam à National Gallery de Londres vindas de todo o mundo. De imponentes retábulos a naturezasmortas ricamente detalhadas, de encomendas iniciais a obras tardias, você poderá apreciar pinturas de toda asuacarreiracomoretratosmarcantes demonges,santosemártires,imagens de fé e devoção, tecidos reluzentes, frutas e flores frescas.
Este enorme Crucificado é a primeira obra assinada e datada de Zurbarán. Na pequena folha de papel amassada presa à base da cruz, vemos sua assinatura e a data de 1627. Foi essa pintura que consolidou sua reputação em Sevilha.
Um escritor do século 18 comentou que qualquer pessoa que a visse na igreja, sem conhecer sua autoria, acreditaria estar diante de uma escultura.
Desde o início de sua carreira, Zurbarán já revelava aquiloquesetornariaumadesuasprincipaismarcas: figurasdeextraordináriaqualidadeescultóricaeuma iluminação extremamente dramática. Aqui,apaletaéquasemonocromática,fazendocom que o corpo de Cristo pareça real e fisicamente presente diante de nós. Foi a obra que projetou seu nome e abriu caminho para inúmeras encomendas.
The Crucifixion, 1627. © The Art Institute of Chicago.

Virgin of the Rosary venerated by Carthusians, 1637-1639.

Incluímos esta pintura de 3,35 metros de altura na exposição para mostrar a escala em que Zurbarán trabalhava em algumas de suas comissões.
Ele fazia obras para diferentes ordens religiosas do sul da Espanha, todas competindo entre si para ter os espaços mais belos, mais ricamente decorados e mais suntuosos.
Essa pintura veio da Cartuxa de Jerez de la Frontera, um mosteiro da Ordem dos Cartuxos. Trata-se de uma encomenda que Zurbarán recebeu no final da década de 1630. Era um projeto monumental. Outras três pinturas correspondem a apenas um dos três níveis que compunhamoretábulooriginal.Reunimos essasobraspelaprimeiravezemcercade 175anos,justamenteparadarumaideiade sua escala original.
Mas imaginem que o conjunto completo teriamaisqueodobro–talvezatéotriplo da altura. Isso permite compreender a grandiosidade dos espaços para os quais
Zurbarán pintava.
Também mostra o desafio imposto ao artista:criarpinturascapazesdefuncionar nessa escala monumental, transmitir riqueza e imponência e narrar histórias extraordinárias, permanecendo perfeitamente legíveis mesmo quando vistas a umadistânciaenorme–talveza15metros de altura, como acontecia originalmente com esse retábulo.


Uma das maiores realizações de Zurbarán são suas figuras femininas isoladas, conhecidassimplesmentecomosuasSantas.
Santa Casilda era uma princesa muçulmana do século 10. Segundo a tradição, ela levava pãesescondidosparaalimentarprisioneiros cristãos mantidos em cativeiro por seu próprio pai. No instante em que é surpreendida transportando esses pães, aconteceomilagre:elessetransformamem rosas. É exatamente esse momento que Zurbarán representa nessa magnífica pintura.
Mas, para nós, a obra não trata apenas da santa. Ela trata, sobretudo, da forma extraordinária como Zurbarán representa o vestuário. Observe esse magnífico vestido de seda, ricamente ornamentado. Percebe-seoenormecuidadodoartistapara fazercomquecadadobradotecidodialogue perfeitamentecomseusdesenhosepadrões decorativos.
Pinturas como essa ajudam a explicar por que Zurbarán costuma ser chamado, de formaquasedivertida,deoprimeiroestilista espanhol.
Tambémajudamacompreenderporqueum criador como Cristóbal Balenciaga se interessou tanto por sua pintura. Zurbarán representa tecidos luxuosos dotados de um volume extraordinário, conferindo – tanto às figuras quanto aos vestidos que inspirariam Balenciaga – uma presença extremamente vívida e convincente.


da Espanha do século 17, embora tenha feito apenas cerca dedezpinturasdessegêneroaolongodetodaasuacarreira. Esta pintura de 1663 é a única natureza-morta assinada e datada pelo artista em toda a sua produção. É uma pintura extraordinária pela geometria extremamente refinada da composição, com um equilíbrio perfeito entre os três conjuntos de objetos, cuidadosamente alinhados sobre o tampo polido de uma mesa de madeira.

Estasimetriaeequilíbriofizeramcomque,quandoaobrafoi redescoberta na década de 1920, ela fosse comparada a pinturas de Cézanne e Picasso. É também uma pintura que praticamente convida o observador a se aproximar e contemplá-la demoradamente.
Apesar de sua austeridade, transmite uma atmosfera profundamentemeditativa.Essascaracterísticasfazemdela um dos grandes ícones da pintura espanhola do século 17.

Dei, 1635-1640.
, ou é um dos mais extraordinários quadros de Zurbarán. Há diversas versões dessa composição, mas esta, pertencente ao Museu do Prado,é,semdúvida,amaisnotável.Issosedeveàmaneira extraordinária como Zurbarán utiliza o pincel para representaralãespessaemaciadocordeiro,deumbranco marfim tão convincente que quase sentimos vontade de tocar sua superfície.
Ao mesmo tempo, essa pintura dissolve, de certa maneira, a fronteira entre o sagrado e o cotidiano, entre o religioso e o secular.
Porque, naturalmente, vemos aqui o Cordeiro de Deus, símbolo do sacrifício de Cristo. Mas também vemos um cordeiroverdadeiro,muitojovem–provavelmentecomalgo entreoitoedozemesesdeidade–deitadosobreumapedra, com as patas amarradas, como se estivesse prestes a ser sacrificado. Como acontece em tantas obras de Zurbarán, essa poderosa dimensão espiritual nasce justamente da capacidade do artista de representar o mundo real.

Francesca Whitlum-Cooper é romancista e historiadora da arte. Ela vive e trabalha em Londres, onde é curadora da National Gallery.

Daniel Sobrino Ralston é curador associado interino na National Gallery e especialista em arte e cultura visual da Espanha do século 19.









No dia 6 de junho, David Almeida inaugurou a mostra
no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, Minas Gerais. Em destaque, na exposição,estáaobracompostapor22painéis quependemdotetodainstituição,recobrindoo inteiramente, e se inspiram no trabalho de Mestre Ataíde, na Igreja de São Francisco de Assis,naquelamesmacidade.Almeida,porsua vez, pinta suas próprias fabulações, referenciando a revolta de Vila Rica e a figura de Chico Rei, articulando-as com a rica ornamentação e alguns símbolos colhidos das pinturas do período. O caráter votivo dessas imagens, por sua vez, diz menos respeito à mítica religiosa em si do que sobre as elaborações visuais da Igreja como estratégia de sedução e comoção dos fiéis fundando e operando imaginários.
é o segundo ato da pesquisavisualqueAlmeidatemempreendido desde 2023, tendo apresentado parte das obrasem individualnagaleriaMillan,em 2024. Naquela ocasião, o artista também apresentou um painel no teto da galeria, mas em menor proporção e com recuo insuficiente para sua apreciação. Enquanto a maioria dos pintores de nosso tempo busca pintar para a parede, Almeida decidiu dirigir o olhar – dele e do público – para cima. Um gesto incômodo para o corpo, capaz de desestabilizar a percepção da pintura que, como ele gosta de apontar, nos olha, antes mesmo que a possamos vislumbrar.
Nasparedes,pinturassobreplacasdemadeira eobjetosdiversosrecolhidosemantiquáriosda região mineira compunham um espaço revelador da devoção do artista pela pintura.




AquelesqueconhecemAlmeidasabemdoseu compromisso com o campo pictórico. Ele se dedica à pintura com verdadeira entrega, não sópeloengajamentocomseusmeiosmateriais, maspeloestudoereflexãosobreahistóriadas suas técnicas e formas. Pode-se afirmar que David goza com e na tradição pictórica. Assim como ele se move por e em suas imagens, a velocidade do gesto, notável nos trabalhos recentes, pode ser percebida como uma estratégia de se distanciar do ideal da imagem acabada. Suas paisagens, gênero no qual se especializou, carregam uma força mítica.Jazem,porvezes,naqueleestadoentre a condensação e a dissolução. Não buscam representar qualquer lugar que existe de fato. Não tentam condenar a incomensurabilidade de um espaço a uma visão circunscrita pelo fluxo temporal e pelas bordas da tela. Sãocomoapariçõesespectrais,masdistamda ideia de uma paisagem interior. Elas emergem na tela a partir de um primeiro gesto que o artistabuscahonrar,adicionandooutrosgestos atéserpossívelvislumbrarumesboçodelugar que,formuladopelopincel,serámenosoíndice deumespaçorealdoquedeumacontecimento pictórico.ApaisagemnapráticadeDavid,vale ressaltar, é menos um tema do que um subterfúgio para abordar o espaço pictórico. Ao analisar a trajetória do artista, percebemos como o espaço é o elemento disparador e estruturantedasuaprática.Doclaustrodeseu ateliê, reconfigurado nas telas pintadas nos anosdeformação,aosespaçosurbanosdeSão Paulo, chegando às paisagens de origem e àquelas imaginadas, Almeida tem constituído uma poética que, veremos, se dirige pela investigação da espacialidade.

No início dos anos 2010, decidido a fazer da pintura sua linguagem artística, David Almeida encontra no espaçovaziodoseuateliêasimagens que irá transpor para a tela. Essas obras, sintéticas em sua formulação, apresentam fragmentos da arquitetura do estúdio. O chão se configura no adensamento de pigmentosescuros–comooMarrom Van Dyck e o carvão – em áreas retangulares que não se tocam, criando finas frestas que revelam a justaposição dos ladrilhos. A irregularidade das suas bordas enaltece, consequentemente, a mão trêmula do artista. As paredes, por sua vez, são áreas muitasvezesintocadas,deixando-nos perceberopreparodatelacomgesso crê.Esserecursoformal,porsuavez, é compartilhado com outros artistas de sua geração e procedência universitária, tais como Camila Soato e Fábio Baroli. A pintura brasiliense, afinal, nas primeiras décadas do nosso século, era demasiadamente influenciadaporumadesuasfigurasmestras, Elder Rocha, professor de pintura, que, ao deixar a superfície da tela intocada, ressalta o caráter gráfico da composição.

Porvezes,manchasdetintabrancadesenhamobjetosno espaço, como o banquinho em (2013), que se torna quase um objeto fantasma, devido ao tratamento que privilegia a transparência, mais do que a opacidade. Tudo ali aponta para a ausência, da qual o pintor se faz testemunha. Enfrentando o vazio daquele ambiente, ele metaforiza o embate com o espaço imaculado de uma tela que deve ser destituído de sua altivez ao primeiro traço do pincel. Aaparênciainacabadaafirmaapinturacomoatocontínuo, umapráticaquedeveserseguidamentereelaboradapara se abrir a outras possibilidades de configuração. Sem terminarapintura,nãohámotivoparachorarseuluto,pois não se projeta sua totalidade. Ao contrário, permite que ela siga vivendo, mesmo em sua desimportância e vacuidade.
Nesse momento, também são investigadas as possibilidadesdosuportepictórico.Em (2013), o artista organiza seis telas em três grupos para formarumaespéciedetríptico,compostopor18quadros no total. No primeiro conjunto, as telas encostam umas nas outras, no segundo, posicionam-se com uma breve distância, enquanto no último grupo, o espaço se amplia. Nesse movimento de fragmentação da composição, instaura-se uma espécie de movimento de expansão que cria ruídos na percepção da imagem. As linhas configuradas na junção ou separação das telas se confundem com aquelas presentes na própria composição que parece indicar uma sala com uma ampla janela, típica da arquitetura moderna brasiliense.




Em2014,DavidAlmeidasemudouparaSão Paulo, cidade onde vive atualmente, para a residência artística da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Percebendoseemumnovoespaço,oartistanãomaisse ampara nos dados imediatos do ambiente ao redor. Surgem trabalhos de inclinação conceitual, no qual a montanha desponta como signo.
Os desenhos dessa fase remetem a alguns trabalhos de Richard Serra, na qual a densidade do pigmento sobre o papel cria superfícies irregulares. Entretanto, diferente do escultor estadunidense, cujos trabalhos Almeida havia visto no Instituto
Moreira Salles do Rio de Janeiro, o brasiliense permite que partes do suporte permaneçam intocadas, como veios que remetem aos acidentes topográficos das montanhas. A paisagem surge, então, menos como observação do que como projeção. Não é uma imagem referencial, mas imaginada.
Não deixa de ser interessante pensar a pregnância simbólica desse elemento. A montanha é uma figura de proteção e ambição, é um chamado ao desafio e um lembrete da nossa existência ínfima, tanto notempo,quantonoespaço.Suatopografia convocaadelíriosdodesenhoedacor.Não por acaso, a imagem da montanha moveu inúmeros imaginários artísticos, como o monte Saint-Victoire, em Cézanne, o Fuji, para Hokusai, e as montanhas mineiras reconfiguradas, por Guignard.

Nesse momento, é possível vislumbrar o interesse de Almeida não só pelo espaço dapintura,maspeloespaçoreal.Surgem armações tridimensionais, proposições de caráter instalativo, escultórico e objetual que tensionam aquilo que encontramos nos desenhos. São elaborados instrumentos ópticos, inspirados nos teodolitos, utilizados na mensuração precisa das estruturas verticaisehorizontaisemumespaço,mas com lentes de aumento, bagunçando a percepçãodadistânciaentrenossocorpo e aquilo que observamos. Ambientado ao novo contexto espacial, Almeida retorna à pintura. A série (2016-2017) surge justamente dessa nova relação, que não exclui o estranhamento com essa nova paisagem. Almeida se volta ao espaço da rua. Em sua paleta, predomina o cinza, comosepodeintuiraoimagearSãoPaulo, mas começam a despontar outras tonalidades que animam a composição. Os avermelhados em (2017)aquecemocinzaeparecem,de fato, convocar chamas, simulando pequenos folguedos. Já em (2016), a vista das varandas de um apartamento faz lembrar uma versão contemporânea do balcão de Monet. As composições dessas telas partem de imagens fotográficas, seja aquelas apresentadasemveículosdamídia,ouas tomadas pelo próprio artista em seus deslocamentos cotidianos. São como monumentos da precariedade urbana capturados pelo artista. Deslocando o
de Risco #12, 2017. Praça do Patriarca, 2016.




ponto de vista, o artista produz recortes de paisagens capazes de transmitirainstabilidadedasuaprópria condição migrante. Abundam nessas imagens grades e janelas, espaços limiares que operam aseparaçãoentredentroeforaecujas pulsaçõesrítmicasdaslinhasremetem às composições anteriores. Esses detalhes não permitem o reconhecimento da cidade e suas sobreposições temporais. Visam, sim, criar uma espécie de intimidade, pela proximidade do olhar que se debruça sobre um fragmento, não sobre a totalidade.Poroutrolado,apresentam um teor melancólico que difere do vazioanterior.Nessecaso,configuram umaespéciedeabandono,deespaços em ruínas, construções frágeis, que passamaserretomadaspelanatureza. O apelo por composições quadradas, quase sempre feitas pela justaposição dedoischassis,nãosuprimeafinalinha vertical que corta ao meio a imagem. Há uma fissura naquela unidade. A “paisagem cindida por uma fenda”, segundo a curadora Ana Roman, aponta para o fato de que “a presença do mundo passa por sua própria ausência, fato que marca a fragilidade da existência.” Almeida afirma a efemeridadedapaisagem,seucaráter transitório, sua incompletude, que diz respeito, acima de tudo, à nossa incapacidade de domesticar totalmente a natureza, mesmo que na tentativa de torná-la pura imagem.

Em 2019, o pintor chegou a Crateús, cidade no interior do Ceará, onde nasceram seus pais. Ali ele encontrou imagens instaladas em seu imaginário, cenas conhecidas que habitavam seus sonhos e tinham vindo ao mundo, assim acreditava, por meio de algumas de suas pinturas. Essas imagens o constituíam tanto quanto ele as constituiu. Tal encontro místico não deixa de ter função mítica na narrativa do trabalho do artista, tendoemvistaamutaçãoqueseoperaem sua prática. Ali ele compreendeu que seu legado residia no prosaico, naquilo que é memóriadocotidianodeseusfamiliarese nas prosas que delas decorrem e vão se acumulando no caminho e às quais ele adora compartilhar.
O pintor não era mais aprendiz. Seu fazer não era mais da ordem da compreensão da linguagem, mas de, finalmente, jogar com ela. Naquela região ele foi, pela primeira vez, fazer pinturas ao ar livre –como diziam os impressionistas franceses que consolidaram a prátic e ambasde2019, são emblemas desse embate direto com o espaço que se impõe diante do artista. A partir desse momento, a paisagem, em sua acepção mais tradicional, assume o protagonismo na prática do artista que, desdeocentro(oeste)expandiuseuolhar do espaço mais imediato para aquilo que se apresenta, eternamente, como
O assombro com a paisagem sertaneja se traduz em um exímio corpo
Morro do Picote, 2019. Lindeza, 2019.

David



Acima: Retábulo florido, 2026/Attr. 18th c. Abaixo: Esconjuro, 2026. © David Almeida. Cortesia: Almeida & Dale.



detrabalho.Almeidareduzasdimensões do quadro, menos para encenar intimidade do que pela contingência da viagem. A conexão com a terra é tão grandequesetornanecessárioentranhar nela suas mãos. Passa a fazer cerâmica, gerando objetos que se orgulham das marcas dos dedos que os constituíram. O barro, inclusive, servia de base para suas pinturas, pois tinha, em São Paulo, aprendido o bolo armênio, técnica antiga empregadanopreparodesuperfíciesque receberão a douração encontrada em muitas imagens votivas. Almeida, inclusive, produzirá placas de cerâmica cuja superfície irregular receberá a pinturademodoqueasformasdosuporte seguem compondo com a imagem. Ele também cria pequenas incisões e baixos relevos na madeira, adicionando textura enuancesdecoresombranapinturaque abrigam. Nesses casos, nota-se, suporte e imagem são indissociáveis.
O pintor viajante se cristaliza como modelo para o artista que vê no mundo suaspossibilidadesdedeslocamento.Um ano depois, em 2020, David Almeida chegou à Espanha, pouco antes da pandemia de Covid-19 instaurar o isolamento. O artista havia ido à terra de ondeprovémmestresadmiradosporele, e responsáveis pelo cromatismo cerrado de muitas de suas pinturas, para fazer uma residência artística em Barcelona. Influenciado por Vilém Flusser, do qual havia recém-lido o ensaio , Almeida decide pintar imagens demaravilhamento.Inegavelmente,como


resultadodainclinaçãoobsessivadoseudesejo, ele chega ao resultado. Buscando as imagens quehaviamlheimpressionadoemsuaviagemao Alcazar de Sevilha e Alambra, sítios que conseguiuvisitarantesdaquarentena,eleacaba produzindo outras.
Quando achava que havia aprendido uma nova forma de fazer pintura, a partir da convivência com a paisagem, e recusando a imediaticidade do ateliê, encontrada nos trabalhos iniciais, Almeida pinta com a memória, sem buscar qualquer nitidez, mas abraçando sua ficção. Surge, nesse momento, o interesse pelos arabescos e elementos decorativos que, ao emularelementosnaturais,fazemdaarquitetura, paisagem.Essestemasseguirãopontuandosua produção, revelando um olhar em constante deslocamento, do mais amplo, ao detalhe. Ao retornar ao Brasil, e após o sucesso de sua primeira exposição na galeria Millan, intitulada com curadoria de Pollyana Quintella, no início de 2022, Almeida empreendeu uma nova viagem ao Ceará. Mais familiarizadocomoterritório,opintorpercorreu de carro, junto com a artista Paula Siebra, diversas cidades. Passou por Cococi, a cidade fantasma; por Assaré, do grande Patativa; chegouàantigaJaguaribara,onde,emperíodos de seca, ainda se pode ver a torre da igreja engolidapeloCastanhão.FoiaoCrato,noCariri, momento no qual também se juntou ao grupo Beatrice Arraes. Inicia-se, nessa travessia, o mapeamento de artistas que resultará em (2024) coletiva com curadoria do pintor, na Almeida & Dale. Pouco depois, foi para Nova York, para a período no qual a reminiscência do Nordeste se contamina com o


convíviocomosgrandesmestresdapinturaeuropeia, cujasobrasAlmeidainvestigounosmuseusdacidade. Navolta,foiaMinasGerais,poisqueriaveraquiloque tantooseduziu:AlbertoGuignard,opintorcomquem dividiria, em 2023, a exposição , na Casa Zalszupin. Dirigiu-se, por fim, à região de Ouro Preto, em busca de uma paisagem que lhe pudesse salvar das armadilhas da autorreprodução.
Comonãopoderiadeixardeser,encantou-secomas figuras de Aleijadinho no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, deleitou-se com a pinturadeMestreAtaídeque,comoele,pintouapartir do desejo de imagens que não foram confrontadas caraacara,maschegaramviareproduçãoenarrativa. Uma pintura que almeja a tradição, mas é honesta quanto à sua inadequação. É também, nessa viagem, que ele redescobriu os , imagens que formalizam uma relação com oDivino.Apintura,comoexercíciodoespírito,nocaso deAlmeida,paraescapardafetichizaçãodomercado, que a reduz à mera mercadoria, almeja o de objeto mágico. Suas obras são ofertas, não só ao público, mas à própria pintura, entendida não só em sua dimensão de linguagem técnica, mas como entidade histórica. São testemunhas, não só do que se viu, mas do desejo de, com ela, ver aquilo que extrapola a esfera do visível.





































































