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Revista Plano B Brasília n.º 15

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28 Comissão do Senado aprova aumento de salários de juízes e promotores

30 Senado aprova PEC sobre criminalização da posse de drogas

32 Dissonância cognitiva: por que às vezes agimos de maneira contrária ao que pensamos

36 Gibi, 85 anos: a história da revista de nome racista que se transformou em sinônimo de HQ no Brasil

42 Por que real foi moeda que mais se desvalorizou neste mês entre países do G20

44 Papagaiadas

47 Quase 4 bilhões de pessoas correm risco de infecção pelo Aedes

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Haddad diz esperar acordo do G20 até novembro para taxar super-ricos
Paulo Paim sai em defesa de Lula em meio à perda de popularidade do governo 12 São Paulo vai usar IA para elaborar aulas digitais da rede pública 14 Escassez e Barbárie
Um pouco menos de blá blá blá eleitoral sobre a questão fiscal no Brasil 17 São Paulo vai usar IA para elaborar aulas digitais da rede pública
STF permite vestimentas religiosas em fotos de documentos oficiais 19 Intensidade ou imaturidade?
Partiu Los Angeles
Enxadachim, nova
do hip-hop
A força dos pensamentos
Infodemia, até quando?
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aposta
nacional, lança álbum “O Resgate do Samurai Ninguém” 24
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SUMÁRIO

Diretor Executivo

Paulo Henrique Paiva

Diretor Administrativo

Rócio Barreto

Chefe de Redação: Paulo Henrique Paiva

Colaboradores: Adriana Vasconcelos, Angela Beatriz, Ana Beatriz Barreto, José Gurgel, Humberto Alencar, Renata Dourado, Paulo César e Wilson Coelho

Design Grafico: Alissom Lázaro

Redação: Adriana Vasconcelos

Fotografia: Ronaldo Barroso

Tiragem: 10.000 exemplares

Redação: Comentários sobre o conteúdo editorial, sugestões e criticas às matérias: revistaplanobbrasilia@gmail.com

Acesse o site da Revista Plano B e tenha acesso a todo o conteúdo na íntegra, inclusive a Revista Digital.

www.revistaplanob.com.br

Abril/2024

Ano 02 – Edição 15 – R$ 14,90

Publicada em 23 de abril de 2.024

Não é permitida a reprodução parcial ou total das matérias sem prévia autorização dos editores.

A Revista Plano B não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados.

Em busca da popularidade perdida

O resultado das mais recentes pesquisas de opinião não deixa dúvidas sobre a queda da popularidade do governo Lula. A última edição da pesquisa do Ipec apontou a reprovação do Executivo em seis das oito áreas avaliadas. A maior rejeição foi detectada no combate à inflação, seguida pelas áreas de segurança pública e saúde.

Do alto da experiência do seu terceiro mandato como senador, o ex-constituinte Paulo Paim (RS) minimiza o mau desempenho do governo. Na sua opinião, o governo está no caminho certo, reconstruindo o Brasil em todas as áreas: educação, saúde, segurança, saneamento básico, distribuição de renda. Ele destaca ainda a retomada da política do salário mínimo e o desempenho da equipe econômica, influenciando positivamente o PIB.

Mas o PT e o Palácio do Planalto já entraram em campo para tentar reverter os números negativos, um cenário que pode ser agravado pelos inúmeros conflitos políticos que surgiram no horizonte, entre eles o conflito aberto entre o presidente da Câmara dos Deputados, Artur Lira (PP-AL), e o ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Alexandre Padilha.

Nada que, na opinião de Paim, não possa ser revertido ou impeça o presidente Lula de disputar a reeleição em 2026.

Mas o senador petista considera cedo para se especular sobre o tema. A oposição, no entanto, tenta tirar proveito da má fase e já começa se articular para encontrar nomes alternativos ao de Jair Bolsonaro, diante da inelegibilidade do ex-presidente.

Por Adriana Vasconcelos

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EXPEDIENTE EDITORIAL

Haddad diz esperar acordo do G20 até novembro para taxar super-ricos

Por Welton Máximo - Agência Brasil - Brasília

Adaptação Rócio Barreto

Grupo que reúne as 20 maiores economias do planeta, a União Europeia e a União Africana, o G20 pode chegar a um acordo sobre a taxação de super-ricos até novembro, disse nesta quarta-feira (17) o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Em viagem aos Estados Unidos, o ministro disse que o governo do presidente Joe Biden apoia a medida, proposta pelo Brasil, que exerce a presidência do G20 até novembro deste ano.

“Podemos, em julho, e depois, em novembro, soltar um comunicado político com um consentimento dos membros do G20 dizendo que, sim, essa proposta precisa ser analisada, tem procedência e que vale a pena, ao longo de três ou quatro anos, nos debruçarmos sobre ela para ver sobre o que nós estamos falando”, disse o ministro, em entrevista coletiva ao lado do ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire.

Apesar do aparentemente entrosamento, o ministro da Fazenda disse ser necessário que os países do G20 tratem o assunto como prioridade nos próximos anos. Segundo Haddad, é preciso haver coordenação internacional porque a

ECONOMIA 6

taxação por apenas um país seria ineficaz e criaria conflitos de interesse. “Se algum país achar que vai resolver esse tipo de injustiça sozinho, ele vai ser prejudicado por uma espécie de guerra fiscal entre os Estados nacionais”, advertir o ministro.

Em relação ao engajamento de outros países, Haddad citou o governo do presidente Joe Biden como potencial aliado. “Especificamente, a administração Biden tem dado sinais claros de que algo precisa ser feito [sobre a taxação de super-ricos]. Ou no plano doméstico, ou no plano internacional”, afirmou.

Sobre o Brasil, o ministro da Fazenda disse ser necessária vontade política para que a proposta avance. De acordo com Haddad, o comunicado conjunto do G20 deverá ter três eixos: o intercâmbio de dados entre os países; o apoio técnico da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE); e um prazo curto para implementação das medidas, que mostre o compromisso dos países com a taxação.

O ministro francês Bruno Le Maire disse concordar com a necessidade de aprovação da medida. “Essa é apenas uma questão de vontade política e de determinação política”, declarou.

Endividamento

De manhã, Haddad disse que o mundo pode estar à beira de uma nova crise de endividamento, após os gastos com a pandemia de covid-19 e a alta da inflação no planeta. Em evento do G20 de combate à pobreza e à fome, ele afirmou que nenhum país conseguirá superar o problema isoladamente. Segundo o ministro, a taxação dos mais ricos é essencial para reduzir a dívida.

“As conversas sobre tributação estão explorando formas inovadoras de

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fazer com que super-ricos paguem sua justa cota de impostos, contribuindo, assim, para ampliar o espaço fiscal adicional para a implementação de políticas públicas contra a fome e a pobreza”, declarou o ministro.

Nesta quarta-feira, o Fundo Monetário Internacional (FMI), que promove a reunião anual de primavera em Washington, revisou para baixo o crescimento da dívida pública brasileira. Conforme a instituição, a dívida bruta subirá de 84,7% em 2023 para 86,7% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, contra estimativa anterior de 90,3% do PIB em 2024.

Apesar da desaceleração o FMI recomendou que o Brasil faça um esforço fiscal mais “ambicioso” e corte mais gastos ou aumente a arrecadação. Haddad avaliou como positiva a revisão das projeções.

“O fato de o FMI dizer que nossa dívida está se estabilizando num patamar melhor do que eles supunham inicialmente é significativo, mas o desafio existe. Se tem uma pessoa que nunca negou que temos um desafio fiscal, é este que vos fala”, declarou o ministro.

Agenda

Até sexta-feira (19), Haddad participa da reunião de primavera do FMI e do Banco Mundial, além de promover uma segunda reunião de ministros das Finanças e presidentes de Bancos Centrais do G20. Nesta quinta (18), Haddad presidirá a segunda reunião ministerial do G20, às 10h (horário local), também na sede do FMI, e dará uma entrevista coletiva por volta das 13h.

À tarde, o ministro terá uma reunião bilateral com o ministro de Finanças da China, Lan Fo’an. Em seguida, o ministro participará de uma reunião fechada promovida pelo FMI e pelo G20 sobre riscos para a economia global.

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Paulo Paim sai em defesa de Lula em meio à perda de popularidade do governo

Por Rócio Barreto e Adriana Vasconcelos

Em seu terceiro mandato como senador, o petista Paulo Paim (RS) minimiza o resultado das últimas pesquisas de opinião que registraram a queda de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na sua opinião, o governo está no caminho certo, reconstruindo o Brasil em todas as áreas: educação, saúde, segurança, saneamento básico, distribuição de renda. Ele destacou ainda a retomada da política do salário mínimo e o desempenho da equipe econômica, influenciando positivamente o PIB, a redução da taxa de juros, o controle da inflação, gerando, dessa forma, mais empregos com carteira assinada e mais renda. Por fim, ressalta o aumento no número de famílias atendidas pelo Bolsa-Família, o recorde de profissionais no programa Mais Médicos e um expressivo aumento nos investimentos federais em alfabetização. Para o senador gaúcho, esses resultados credenciam o presidente para disputar a reeleição em 2026 ou preparar um sucessor, caso ache melhor. No entanto, considera cedo para se especular sobre as eleições presidenciais de 2026.

O senhor é um dos veteranos no Senado e na política, qual sua avaliação do atual momento político vivido pelos brasileiros e o novo perfil do Parlamento, hoje mais conservador?

Sem sombra de dúvida, o Parlamento hoje é mais conservador. Estou aqui há quatro mandatos de deputado federal e três de senador. Sempre tivemos diferenças no Parlamento, mas elas aconteciam, em sua maioria, no campo da política. Percebo que hoje há uma disputa violenta. Muitos usam o debate ideológico, a teoria do caos como cortina de fumaça. Uma política voltada para interesses econômicos, para o ódio, para a destruição e não para a construção. Estou muito preocupado com o atual momento político vivido pelos brasileiros. A polarização ideológica não é boa para o funcionamento das instituições e da democracia. Creio que o caminho do equilíbrio é o mais correto. O nosso papel é reconstruir o Brasil com um olhar para todos, com políticas públicas que atendam aos anseios da sociedade. Não se trata de abdicar da essência do seu pensamento, dos seus ideais, do seu entendimento de país e de vida. Pelo contrário, trata-se da jun-

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Fotos: Assessoria Senador Paulo Paim

ção de forças para reafirmar o país e a presença constante da esperança em cada ato de fazer política. É por meio de muito diálogo e debate, do respeito às diversidades e às diferenças que se abrem caminhos.

Que nota o senhor daria para esse terceiro mandato do presidente Lula?

O presidente Lula se elegeu num momento político e econômico muito difícil. Ele está reconstruindo o Brasil em todas as áreas: educação, saúde, segurança, saneamento básico, distribuição de renda. Retomamos a política do salário mínimo. A atuação econômica do governo Lula está influenciando positivamente no PIB, na redução da taxa de juros, no controle da inflação, gerando, com certeza, mais empregos com carteira assinada e mais renda. Além disso, houve um aumento no número de famílias atendidas pelo Bolsa-Família, um recorde de profissionais no programa Mais Médicos e um expressivo aumento nos investimentos federais em alfabetização, entre outras realizações. O Brasil está voltando a ser um país competitivo. A liderança incontestável do presidente Lula fez que com que avançássemos nas relações internacionais que estão gerando divisas cada vez maiores. Precisamos avançar para que esse esforço chegue, o mais rápido possível, à população mais pobre, na redução dos preços dos alimentos e do custo de vida como um todo. Esse esforço objetiva alcançar também a classe média que foi sacrificada nos últimos anos. É importante ressaltar que o governo está apenas no início e há muito a ser feito. É necessária uma comunicação direta e eficaz para que a informação possa chegar a todos.

A popularidade do governo Lula caiu de acordo com as últimas pesquisas, principalmente no Nordeste. O que teria motivado isso?

Não vejo como problema esse resultado das pesquisas. As pesquisas refletem um momento. E o quadro pode ser revertido tranquilamente. Temos democracia, visão republicana, a economia num bom rumo e o olhar social para reverter esse quadro. O governo também está focado na redução do preço dos alimentos que interfere na vida de milhões de brasileiros. Acreditamos que isso também será revertido. Ter uma visão clara sobre como estamos nos comunicando e como está chegando a informação é fundamental. Sobre as falas, todos sabemos que nós políticos, na força da emoção do discurso, muitas vezes usamos termos que, naquele momento, não seriam os mais adequados. Todo político comete equívocos de comunicação. O Projeto sobre os aplicativos de transporte não é simples, mas está em discussão no Congresso Nacional, onde será debatido, levando em consideração todos os interessados. Não se trata de uma situação definitiva. Pelo

contrário, é um ponto de partida. Essa questão também está presente no Estatuto do Trabalho, que está sendo debatido na Comissão de Direitos Humanos, onde sou relator. Nossa função é ouvir a sociedade, dialogar e construir um caminho que atenda os interesses de todos.

Na última reunião ministerial, o presidente pediu uma reação de seus ministros. O erro tem sido de comunicação?

O presidente pediu que os ministros, além de apresentar seus programas, suas propostas a favor do povo brasileiro, se comuniquem melhor, façam com que as informações cheguem aos quatro cantos do Brasil. O pedido de reação é natural e legítimo. Os ministérios têm trabalhado para mostrar o que já foi realizado e o que está sendo feito. Cito aqui outros exemplos: ampliação da gratuidade da farmácia popular, sanção da proposta de igualdade salarial entre mulheres e homens, a renovação da política de cotas, ampliação do repasse aos estados e municípios pelo Fundo Nacional de Saúde. Promovemos o maior Plano Safra da história, investimentos pesados na agricultura familiar, uma produção recorde de grãos, e ampliação dos recursos do Luz para Todos. Tivemos agora o maior aumento da renda do trabalhador desde 1994. Houve renegociação da dívida de mais de 11 milhões de brasileiros.

As pesquisas indicam que a avaliação positiva do presidente caiu especialmente entre as mulheres,

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que tiveram um apoio decisivo em 2022 diante da rejeição do eleitorado feminino ao ex-presidente Bolsonaro. O que pode ter influenciado isso?

O Governo Lula está no caminho de construção de políticas públicas efetivas voltadas ao público feminino. O Brasil não pode continuar sendo o país que tem o maior número de feminicídio. Além disso, os direitos entre homens e mulheres têm que ser iguais. Mesmo salário, mesmo trabalho. Mesmo trabalho, mesmo salário. Por isso sancionou a lei da igualdade salarial que precisa ser duramente fiscalizada. O presidente também elegeu como prioridades melhorar a relação com a comunidade evangélica e setores religiosos e focar na baixa dos preços dos alimentos, pois milhões de mulheres são chefes de famílias. Esses fatores podem ter influenciado na última pesquisa. Temos muito caminho a percorrer.

As eleições municipais deverão ser um teste importante para o governo neste ano. Quais serão as prioridades do PT nessa disputa de resolução?

Vamos mostrar o que temos e o que conseguimos fazer. As ações do governo Lula, em sua grande maioria, visam melhorar a vida das pessoas em todas as áreas: saúde, educação, emprego, renda. Nossa construção é coletiva, voltada para todos e busca a dignidade humana. Outros pontos que também fazem parte desse cenário incluem o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que está promovendo o desenvolvimento no interior do nosso país, priorizando a construção de estradas e rodovias, aumentando o número de empregos na construção civil, expandindo o número de escolas técnicas para nossos jovens, investindo em escolas de tempo integral, que é uma demanda de mães chefes de famí-

lias, que foram negligenciadas pelo governo anterior. Essa realidade será a base da nossa campanha eleitoral. Temos muito trabalho realizado que será apresentado nas eleições municipais.

O senhor acha que o presidente deveria ser candidato à reeleição?

Sim, acredito no Presidente Lula. Ele tem todo o direito de disputar outra eleição. Embora eu considere muito cedo cogitar esse tema. No momento adequado, se achar que deve preparar um outro candidato, ele o fará.

Qual a opinião do senhor sobre o fim das saídinhas de detentos, as datas consideradas especiais, como Natal, Dia das Mães e Páscoa?

Vimos que o senhor votou contra o requerimento de urgência que levaria a matéria do PL 2253, de 2022, para votação diretamente em plenário. O senhor poderia fundamentar a sua opinião referente a essa proposta?

A questão não é ser contra ou a favor da saidinha. É sobre quem terá o direito. Por isso fui a favor de aprofundar o debate. Eu queria que o projeto fosse para outras comissões, como a Comissão de Direitos Humanos e a Comissão de Constituição e Justiça, para debatermos e aprimorarmos o texto. Lamentavelmente, não foi. Por exemplo, acredito que não podemos permitir que alguém que cometeu crimes considerados hediondos, crimes graves, tenha direito à saidinha. Por outro lado, sabemos que têm mulheres e homens cumprindo penas que podem ser recuperados e que precisam ser ressocializados.

A pauta verde pode ser considerada, além da regulamentação da reforma tributária, como prioridade do governo. Como o senhor tem visto a movimentação da oposição frente a essas pautas.

A pauta verde é uma pauta global. Milhões de pessoas no Brasil e no mundo estão sofrendo com os eventos climáticos que têm ligação direta e indireta com as ações do homem. A defesa do meio ambiente e do desenvolvimento de forma sustentável, com respeito aos povos originários, ribeirinhos e quilombolas, entre outros, é um tema de relevância global, que interfere diretamente na economia mundial. Trata-se de uma questão vital para a sobrevivência, tanto no presente quanto no

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futuro. Portanto, é uma decisão política do governo. Estamos imersos nesse contexto da agenda verde.

Por outro lado, a regulamentação da reforma tributária, aprovada pelo Congresso, é fundamental para darmos início ao combate das desigualdades. Não foi uma reforma perfeita, mas foi a possível diante do contexto político atual e avançamos muito.

Como o senhor tem visto a movimentação da oposição frente a essas pautas?

A oposição é legítima. Há setores da oposição que são responsáveis, que conseguimos dialogar. Mas quem é radical, não importa qual proposta seja feita, será sempre contra. Existe aí um abismo que separa o radicalismo do bom senso. Há setores que investem na teoria do caos, do quanto pior melhor. Mas, como já falei, a reforma tributária foi aprovada com o apoio de parte da oposição. Pautas polêmicas sempre existirão. Por isso, acredito na força da boa articulação política e na construção do diálogo.

Em relação à próxima presidência do Senado, o Governo Federal tem um candidato em mente? Pretende deixar na mão do Centrão ou o Governo tende a apoiar um candidato da própria legenda (do PT)? O senhor tem alguma pretensão?

O Governo não tem nenhum postulante em mente. Na minha avaliação, o Governo entende que essa é uma decisão do Congresso. Cabe aos senadores e deputados escolherem de forma democrática seus presidentes.

E seus planos pessoais para o futuro? Governador do RS? O nome da Revista é Plano B, qual o Plano B do senador Paulo Paim?

os nós fazemos parte de um ciclo.

De um ciclo que compõe os seres vivos. Precisamos compreender isso. Por isso, todo o esforço é válido na preservação deste lugar chamado planeta Terra. O nosso mandato tem compromisso com causas e com as políticas humanitárias. Como a defesa do meio ambiente. Eu sonho e luto para que as pessoas vivam com liberdade e dignidade. Meu compromisso é com as nobres causas do povo brasileiro, dos trabalhadores do campo e da cidade, dos pobres, dos desamparados. Tenho compromisso com a defesa da democracia, o combate ao racismo e com todas as formas de discriminação e preconceitos, com a luta dos povos indígenas, LGBTQIA+, das pessoas com deficiência, dos idosos e aposentados, mulheres, jovens. Minha história e relação com a política é longa. O amor pela vida pública corre nas minhas veias. Fui dirigente sindical, deputado Constituinte em 1988, deputado federal por três vezes e estou no meu terceiro mandato como senador da República. Fui vice-presidente do Senado e, pela quarta vez, estou presidindo a Comissão de Direitos Humanos; também presidi a Comissão de Migrantes e Refugiados. Sou autor e relator de cerca de três mil projetos de lei, propostas e sugestões. Muitos deles foram transformados em leis federais, como os estatutos da Pessoa Idosa, da Pessoa com Deficiência e da Igualdade Racial, da Juventude. Também fui responsável por relatar a Política Nacional de Valorização do Salário Mínimo (PIB mais inflação). Viajei o país fazendo este debate. Foi criada uma Comissão Mista pelo presidente do Senado à época, senador Renan Calheiros.

Estou cumprindo minha missão. Acredito que o tempo chega para todos. Faço parte de uma geração de grandes homens e mulheres públicos: Ulysses, Lula, Covas, Abdias, Passarinho, Benedita. Minhas lutas são eternas, minhas batalhas são por um país mais justo e solidário. Acredito que meu legado ficará como exemplo para futuras gerações. Em todos os meus dias, deixei a essência da minha inspiração, do meu galopante destino de cruzar rios e escalar montanhas para levar dignidade às pessoas. Não tenho arrependimentos. Tenho, sim, mais e mais esperança de que o amor ainda será a essência e a beleza dos atos dos seres humanos.

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São Paulo vai usar IA para elaborar aulas digitais da rede pública

Ogoverno de São Paulo planeja utilizar inteligência artificial, como o ChatGPT, para a elaboração de aulas digitais ofertadas aos alunos da rede pública de ensino. O governador Tarcísio de Freitas disse que a ferramenta será um “facilitador” na produção das aulas, e negou que irá substituir o papel do professor em sala de aula. “Acho que as ferramentas estão aí e a gente tem que usar a tecnologia para facilitar a nossa missão. A gente não pode deixar de usar a tecnologia por preconceito, por qualquer razão. Obviamente, tem que usar a tecnologia com parcimônia, tem que usar com todas as reservas que são necessárias”, disse o governador ao participar de evento nesta quarta-feira (17).

Segundo ele, os conteúdos a serem elaborados pela inteligência artificial terão de passar pelo aval dos professores antes de serem entregues aos estudantes. “Você pode usar uma ferramenta que pode facilitar o esforço inicial, mas isso vai passar pela revisão, vai passar pelo olhar, vai passar pela inteligência dos nossos professores. Nós temos excelentes conteudistas, nós temos excelentes profissionais. Eu acredito muito na melhoria da qualidade do ensino”, acrescentou.

No ano passado, o governo paulista enfrentou problemas com os materiais digitais escolares. Na ocasião, foram encontrados graves erros factuais nos slides, usados pela rede estadual de educação. A Justiça de São Paulo chegou a suspender a distribuição dos conteúdos.

Em um dos trechos, era dito que, em 1888, Dom Pedro II assinou a Lei Áurea, quando, na verdade, a lei que encerrou a escravidão institucionalizada no Brasil foi assinada pela filha do monarca, a Princesa Isabel. Em outro trecho, era dito, também de forma equivocada, que o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade são transmissíveis pela água.

Sindicato dos professores

Professores estaduais criticaram o projeto de uso do ChatGPT na produção de conteúdo digital. A segunda presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e deputada estadual, Professora Bebel (PT), argumenta “que as tecnologias e informação e comunicação (TICs) são ferramentas auxiliares no processo educativo e jamais podem substituir o trabalho do professor”.

Em nota, a parlamentar informou ter protocolado uma representação no Ministério Público Estadual contra a iniciativa.

O uso do ChatGPT na produção de conteúdo das aulas digitais é uma das pautas de assembleia da categoria, convocada para 26 de abril. .

EDUCAÇÃO 12

Escassez e Barbárie

Ameu pedido, o ChatGPT explicou que escassez se refere à falta ou insuficiência de recursos, enquanto barbárie geralmente descreve comportamentos cruéis ou primitivos. Disse também que a escassez pode, infelizmente, levar a condições que exacerbam comportamentos considerados bárbaros, como competição desenfreada por recursos limitados. Por fim, ensinou-me, que a busca por soluções para a escassez é fundamental para evitar situações de barbárie.

Inquiri o ChatGPT porque fiquei encafifado com a abordagem que pautou a cobertura da autoproclamada grande imprensa acerca das cenas que vimos recentemente em áreas de estacionamento público da capital federal. Eram motoristas de carros, trancados pelos de colegas sem noção que pararam na chamada fila dupla, descarregando sua fúria contra o patrimônio alheio. Como dez em cada dez matérias que vimos sobre os episódios associavam a selvageria à falta de vagas de estacionamento, suspeitei que tamanho grau de unanimidade, no mais puro espírito rodrigueano, podia vir de uma dessas ferramentas de Inteligência (sic) Artificial especializadas em chafurdar na Internet.

de identificados por Umberto Eco, pedi ao mesmo oráculo que relacionasse barbárie a abudância. Para o ChatGPT, a abundância pode, paradoxalmente, também estar associada à barbárie em certos contextos. Por exemplo, em sociedades onde há uma grande disparidade na distribuição de recursos, mesmo em meio à abundância geral, pode haver injustiça e violência. Além disso, a ganância e a busca pelo poder podem levar a comportamentos bárbaros, mesmo em ambientes de abundância. A chave está em promover uma distribuição equitativa e promover valores que ressaltem a dignidade humana e o respeito mútuo.

“Primeiro, ficou a mensagem de que não encontrar uma vaga regular para estacionar gratuitamente seria justificativa plausível para deixar o carro em local inapropriado — afinal, a culpa é do governo, que não provê estacionamento para todo mundo.”

Chamaram-me a atenção dois atalhos de condenável natureza ética em tão primoroso raciocínio. Primeiro, ficou a mensagem de que não encontrar uma vaga regular para estacionar gratuitamente seria justificativa plausível para deixar o carro em local inapropriado — afinal, a culpa é do governo, que não provê estacionamento para todo mundo. Segundo, passou por compreensível, quase aceitável, fazer justiça com as próprias mãos. Para completar o script do ChatGPT, o corolário da cobertura jornalística foi a necessidade de amentar a oferta de vagas nas regiões abarrotadas de automóveis.

Como eu me situo entre os otimistas que acreditam que a Internet dá voz não apenas aos porta-vozes da mediocrida-

E não é que eu gostei dessa, digamos assim, digressão? Com efeito, aos repórteres que me procuraram para comentar o assunto eu perguntei se conheciam alguma cidade grande em que as pessoas ousavam ir de carro às áreas centrais com a expectativa de encontrar vagas para estacionar de graça. Nenhum respondeu que sim. Eles mesmos disseram que as pessoas ou usam transporte público ou pagam (caro!) por vagas rotativas ou cativas. Mesmo sem ter feito qualquer levantamento sistemático, arrisco dizer que nenhuma grande cidade brasileira é mais generosa do que Brasília na oferta de espaços públicos para serem usados livre e privadamente pelos ditosos donos de automóveis. De minha breve incursão nesse ambiente saio ainda mais convencido de que o importante mesmo é saber perguntar.

* Paulo César Marques da Silva é professor da área de Transportes da Faculdade de Tecnologia da Universidade de Brasília. Possui graduação em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Bahia (1983), mestrado em Engenharia de Transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992) e doutorado em Transport Studies pela University of London (University College London) (2001).

Paulo César Marques da Silva *
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MOBILIDADE

Um pouco menos de blá blá blá eleitoral sobre a questão

fiscal no Brasil

Ogoverno federal enviou para o Congresso Nacional o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias - LDO para 2025. Essa é a lei que estabelece os parâmetros para o orçamento anual. O ponto polêmico foi a alteração das metas fiscais para permitir mais gastos do governo nos próximos anos. Esse cálculo é feito pela diferença entre as despesas e receitas públicas. Em linhas gerais, o desejado é um equilíbrio, ou seja, contas públicas sem déficit. Quando os gastos são maiores que as receitas, a dívida pública do governo aumenta. No Brasil desde 2014 há uma dificuldade em manter as contas públicas no azul. Com a mudança proposta ficou uma dúvida se essa situação vai mudar.

É necessário alguns instrumentos para dificultar gastos exagerados dos políticos durante o mandato, tendo em vista que quanto mais o governo gasta, maior tende a ser a aprovação da população, a popularidade e o sucesso eleitoral. Todos querem mais médicos nos hospitais, escolas equipadas, estradas boas, etc. E para isso ocorrer o governo precisa gastar mais. O problema é que se não houver um controle das contas públicas hoje, as gerações futuras irão ter que bancar mais juros de uma dívida pública no futuro. É aí que entram esses limites e metas estabelecidos pela legislação.

Nesse contexto, é importante salientar que o Brasil já possui uma dívida pública alta quando comparado a outros países emergentes, cerca de 74% do PIB. Para reduzir essa proporção de dívida pública/PIB há dois caminhos: o PIB do país crescer ou a dívida pública cair. De acordo com as últimas projeções de crescimento do PIB do Fundo Monetário Internacional - FMI a economia brasileira deve crescer cerca de 2,2% em 2024. O que é algo bastante positivo. Então mesmo que a dívida pública não caia, a relação Dívida/PIB tende a se reduzir. Por isso é tão importante controlar as contas públicas, para justamente manter razoável essa proporção.

Quando há um descontrole na relação dívida pública/PIB o governo tem mais dificuldade. De modo geral quem compra títulos da dívida pública do governo cobra juros mais caros. Em 2016 quando foi aprovado o Teto de Gastos houve uma sinalização de um compromisso com a manutenção das contas públicas equilibradas. No entanto, o Teto de Gastos acabou não sendo uma medida sustentável ao longo do tempo, sendo alterado vá-

rias vezes até a substituição pelo Novo Marco Fiscal após a eleição de 2022.

Para se buscar um equilíbrio nas contas públicas quando o governo tem déficits públicos há basicamente dois caminhos: redução de despesas ou aumento de receitas. Ambos os caminhos são difíceis, cortar despesas não é nada fácil no Brasil. Isso porque boa parte dos gastos já estão comprometidos com questões que o governo não pode alterar, como salário de servidores e benefícios previdenciários. Ou ainda gastos difíceis de serem reduzidos como a manutenção de hospitais, escolas e universidades etc. Já o ajuste por meio do aumento das receitas também não é simples, já que envolve principalmente aumento da carga tributária, que no Brasil já é de 32% do PIB.

Ou seja, ao contrário do que podem pensar alguns. Não há vida fácil para quem está no governo. E o ajuste precisa ser fino. Do lado das despesas é importante buscar melhorar cada vez mais a qualidade do gasto público. Existem alguns gastos que influenciam positivamente o crescimento econômico como os investimentos em infraestrutura (rodovias, ferrovias etc.). Alguns estudos mostram que quanto maior o investimento público em algumas áreas, maior tende a ser os investimentos privados, consequentemente maior tende a ser o crescimento do PIB. E os dados mostram um baixo investimento público nas últimas décadas. Então, até mais importante que ajustes na meta fiscal, é avaliar daqui para frente o que será feito com o maior espaço para o governo federal gastar. Existe uma pressão grande hoje por aumento de salário de servidores públicos, que no geral é uma demanda justa, tendo em vista que no geral não houve reposição da inflação dos salários após o Teto de Gastos em 2016. No entanto, essa despesa pouco pode contribuir para um maior crescimento da economia. Ou seja, o problema colocado na mesa não é só a alteração da meta de déficit para os próximos anos, o que dá mais espaço para o governo gastar, mas o que será feito de fato com esse espaço.

* Humberto Nunes Alencar, Analista de Orçamento do Ministério do Planejamento. Mestre em economia pelo IDP e doutorando em direito pela mesma instituição. Dá aulas online para pessoas que querem aprender mais sobre economia e finanças pessoais. Contatos: 061 - 994054114 e Instagram: @humbertoalencar.bsb

Humberto Alencar*
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ECONOMIA

São Paulo vai usar IA para elaborar aulas digitais da rede pública

Ogoverno de São Paulo planeja utilizar inteligência artificial, como o ChatGPT, para a elaboração de aulas digitais ofertadas aos alunos da rede pública de ensino. O governador Tarcísio de Freitas disse que a ferramenta será um “facilitador” na produção das aulas, e negou que irá substituir o papel do professor em sala de aula. “Acho que as ferramentas estão aí e a gente tem que usar a tecnologia para facilitar a nossa missão. A gente não pode deixar de usar a tecnologia por preconceito, por qualquer razão. Obviamente, tem que usar a tecnologia com parcimônia, tem que usar com todas as reservas que são necessárias”, disse o governador ao participar de evento nesta quarta-feira (17).

Segundo ele, os conteúdos a serem elaborados pela inteligência artificial terão de passar pelo aval dos professores antes de serem entregues aos estudantes. “Você pode usar uma ferramenta que pode facilitar o esforço inicial, mas isso vai passar pela revisão, vai passar pelo olhar, vai passar pela inteligência dos nossos professores. Nós temos excelentes conteudistas, nós temos excelentes profissionais. Eu acredito muito na melhoria da qualidade do ensino”, acrescentou.

No ano passado, o governo paulista enfrentou problemas com os materiais digitais escolares. Na ocasião, foram encontrados graves erros factuais nos slides, usados pela rede estadual de educação. A Justiça de São Paulo chegou a suspender a distribuição dos conteúdos.

Em um dos trechos, era dito que, em 1888, Dom Pedro II assinou a Lei Áurea, quando, na verdade, a lei que encerrou a escravidão institucionalizada no Brasil foi assinada pela filha do monarca, a Princesa Isabel. Em outro trecho, era dito, também de forma equivocada, que o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade são transmissíveis pela água.

Sindicato dos professores

Professores estaduais criticaram o projeto de uso do ChatGPT na produção de conteúdo digital. A segunda presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e deputada estadual, Professora Bebel (PT), argumenta “que as tecnologias e informação e comunicação (TICs) são ferramentas auxiliares no processo educativo e jamais podem substituir o trabalho do professor”.

Em nota, a parlamentar informou ter protocolado uma representação no Ministério Público Estadual contra a iniciativa.

O uso do ChatGPT na produção de conteúdo das aulas digitais é uma das pautas de assembleia da categoria, convocada para 26 de abril. .

EDUCAÇÃO 17

STF permite vestimentas religiosas em fotos de documentos oficiais

Por André Richter - Agência Brasil - Brasília Adaptação Rócio Barreto

Por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira (17) garantir que religiosos podem tirar fotos para documentos oficiais com vestimentas e acessórios relacionados às suas crenças. Com a decisão, os acessórios só poderão ser vetados se impedirem a identificação individual.

A questão foi definida no julgamento de um recurso do Ministério Público Federal (MPF) para garantir a uma freira o direito de tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Ela foi impedida pelo Departamento de Trânsito (Detran) de Cascavel (PR) de tirar o documento por se recusar a tirar o hábito, vestimenta característica da religião católica.

A proibição foi baseada na Resolução 192/2006, editada pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran). A norma proibiu o uso de vestuário e acessórios que cubram a cabeça ou parte do rosto. No início deste mês, o Contran liberou os itens religiosos.

Em 2014, o caso chegou ao Supremo por meio de um recurso da União. Na época, estava em vigor a antiga regra do Contran que proibia os acessórios.

Em fevereiro deste ano, a Advocacia-Geral da União (AGU) enviou um documento ao Supremo para informar a intenção do governo federal de alterar as normas sobre trajes religiosos em fotos da CNH.

Nova resolução

De acordo com a Resolução n… 1.006, os itens de vestuário relacionados à crença ou religião, como véus e hábitos, e relacionados à queda de cabelo por causa de doenças e tratamento médico poderão ser utilizados nas fotos usadas para tirar o documento ou renová-lo, porém a face, a testa e o queixo precisam ficar visíveis.

A legislação mantém a proibição para utilização de óculos, bonés, gorros e chapéus nas fotos da carteira de motorista.

Nas instâncias inferiores, a Justiça garantiu a utilização do hábito e definiu que a vestimenta não é um acessório estético.

JUSTIÇA 18

EIntensidade ou imaturidade?

u nunca simpatizei com a palavra intensidade. Sempre me soou como um acréscimo desnecessário de potência ao que quer que seja. Pessoas que se definem como intensas geralmente são imaturas, podem observar. Basta colocar o adjetivo ‘intenso’ junto de uma palavra para tornar preocupante qualquer situação. Frio intenso, calor intenso, trabalho intenso, amor intenso, ciúme intenso e por aí vai. Até quando falamos em cuidado intenso não é algo que soa muito saudável.

Eu, particularmente, acho irritante quem se define como uma ‘pessoa intensa’. Pode parecer uma contradição, mas na minha opinião não há nada mais superficial do que a intensidade. É vago demais se definir como alguém que realiza qualquer coisa na vida de forma intensa. Me parece uma válvula de escape para justificar a imaturidade, a falta de foco, o desequilíbrio. É romantizar um pouco a falta de autocontrole. É um comportamento quase infantil. Crianças sim são criaturas intensas, elas não conhecem limites, pois é para isso que servem os pais. Elas têm licença para isso. Elas não sabem que enfiar o dedo na tomada pode fazer com que descargas elétricas atinjam a corrente sanguínea, podendo chegar ao sistema nervoso central, causando convulsões ou até mesmo uma parada respiratória. Nós adultos sabemos. As crianças são curiosas, são intensas, são aventureiras. Nós adultos também podemos ser aventureiros. A diferença é que nós sabemos que para pular de uma altura de 100 metros é preciso um paraquedas, sabemos que se comermos muito doce a tendência é passarmos mal depois, sabemos que andar sem cinto de segurança pode ser fatal, sabemos que tomadas não são feitas para enfiar o dedo.

Requer esforço encontrar equilíbrio. Ser intenso pode ser uma desculpa fácil para quem tem preguiça de encontrar o autodomínio ou moldar a própria personalidade.

Sem pudor ou falso moralismo, trago a minha mea culpa. Também já fui uma pessoa intensa, não é fácil não ser intenso em vários aspectos na vida. Mas viver dá trabalho mesmo. Tudo que vivi com intensidade, eu vivi distraída, sem foco, de forma quase irresponsável. E paguei o preço.

Requer esforço encontrar equilíbrio. Ser intenso pode ser uma desculpa fácil para quem tem preguiça de encontrar o autodomínio ou moldar a própria personalidade.

Nada em excesso é bom, mas doses seguras de prudência ou parcimônia podem tornar a vida muito mais interessante e trazer equilíbrio a qualquer anseio, ação ou sentimento humano.

Não estou dizendo que acréscimo de paixão ou potência é prejudicial a tudo na vida. Mas o meio termo não é impossível de ser encontrado, é apenas uma missão constante.

Viver não é fácil. Se relacionar com as pessoas não é fácil. Acordar e enfrentar as surpresas que o mundo nos reserva também não é tarefa fácil. Desfrutar dos prazeres da vida de uma maneira saudável pode ser a coisa mais difícil do mundo.

Algumas coisas na vida a gente só aprende errando. Se tolher e se blindar de tudo também não é nada saudável. Mas eu acredito que no dia em que a gente encontrar o equilíbrio entre prudência e intensidade, vamos ver que a gente não quebra a cara à toa e que viver a vida sempre na última potência não vai torná-la mais feliz ou emocionante.

Se não deixamos as crianças se arriscarem desta maneira, por que o fazemos? Eu não estou mais falando de tomadas nem de doces.

*Mila Ferreira, repórter do Correio Braziliense. Formada em Jornalismo pelo IESB e pós-graduada em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global pela PUC-RS

Mila Ferreira*
COMPORTAMENTO
19

Partiu Los Angeles

Depois de mais de trinta dias pesquisando um novo destino para onde rumar, Valeska ficou entusiasmada ao se deparar com o nome da cidade de Los Angeles, Califórnia.

Ela era uma dessas inúmeras novas ricas que estão espalhadas pelo mundo, e não gostava de fazer nada que os outros costumavam fazer. Ela queria ser sempre a diferentona.

Valeska achava uma obviedade suprema as pessoas quase se matarem para serem fotografadas ao lado de celebridades, fossem elas quais fossem.

Intimamente, ela acreditava fervorosamente que não havia maior celebridade do que ela sobre a face da terra.

Então não via necessidade de ir a Las Vegas só para assistir a um show da Madonna ou ir até Londres, para quem sabe ver algum membro da realeza inglesa.

Não! Pensava ela. Isso é para os fracos.

Valeska era muito católica, e a perspectiva de visitar uma cidade povoada por anjos, a deixou num frenesi inacreditável.

Falava para si mesma : - Meu Deus, não preciso morrer para ver anjos, encontrar o meu próprio anjo da guarda - ficava matutando.

Desconsiderou tudo o que guardava no seu imenso closet, pois teria que partir da estaca zero e fazer um enxoval completo para a viagem.

Por Ângela Beatriz Sabbag
CONTOS EM CONTA-GOTAS 20

Suas roupas, acessórios, enfim, nada que usava no seu dia a dia, seria condizente com os seres celestiais com os quais conviveria nos próximos quinze dias.

Foi às compras alucinada, à procura de trajes sóbrios.

Convidou sua amiga Jussara para acompanhá-la aos shoppings. Pois era nova rica sim, mas nem um tantinho sovina.

A cada peça comprada para si, presenteava a amiga com uma também.

As duas amigas iam percorrendo as lojas às gargalhadas, escarnecendo das outras que para se sentirem mais conectadas ao sagrado, o máximo que conseguiam pensar para atingir tal intenção era percorrer o caminho de Compostela.

Chegavam a perder o fôlego, e tinham dor de barriga de quase rolar no chão falando essas sandices.

Elas conservavam a amizade feita nos bancos escolares, e juntas se divertiam com qualquer coisa, por mais banal que fosse.

Não havia contado ainda a vocês, leitores, mas Jussara era a convidada de honra de Valeska nessa viagem.

Dia do embarque, as duas estavam desde muito cedo no aeroporto de Guarulhos aguardando o voo que as levaria a tão encantadora cidade.

Fizeram conexão no Panamá e Valeska queria ficar um dia inteiro ali para renovar o seu estoque de chapéus com o mesmo nome do local, não sabendo que os melhores chapéus Panamá são feitos no Equador.

Bem, deixemos esse deslize de lado, pois via de regra, os novos ricos não costumam primar pela erudição.

Conexão feita, o frio na barriga das amigas surgiu : estavam numa expectativa histérica ante a possibilidade de conferir presencialmente a corte celestial dos anjos.

CONTOS EM CONTA-GOTAS

Ao desembarcarem, já as esperava uma tradutora contratada previamente.

A intérprete, muito simpática, foi logo dizendo que Los Angeles é a única cidade do mundo em que a quantidade de automóveis é maior que o número de habitantes, e sendo assim, havia vários cemitérios para carros.

As amigas se entreolharam desconfiadas, achando que havia algum equívoco ali.

Em seguida, a essa informação, a intérprete comunicou que as levaria a Hollywood. Lá, além do famoso Teatro Chinês onde os maiores astros do cinema costumam gravar suas mãos e assinaturas na calçada da fama, também as levaria a conhecer o famoso bairro de Beverly Hills, onde expoentes de várias modalidades de artes costumavam ter suas magníficas mansões.

Valeska já estava apoplética, estava ficando cianótica de impaciência, e de pronto interrompeu a intérprete : - “Escuta aqui! Eu vim até essa lonjura para ver e conversar com os anjos!”

Atônita, a intérprete mantendo toda a calma que conseguiu, disse para Valeska que ali não viviam anjos, mas certamente era sim uma cidade belíssima e repleta de pontos de interesse para turistas do mundo inteiro.

Valeska perdeu totalmente a “finesse” que a duras penas ela tentava parecer ter.

Como não há máscaras que permaneçam intactas ante as contrariedades, a moça começou a berrar com a intérprete, e já totalmente fora de si, xingava a profissional, a cidade, e para arrematar o festival de horrores que estava promovendo, gritou para quem quisesse ouvir que daria meia volta e regressaria ao Brasil.

* Ângela Beatriz Sabbag é bacharel em Direito por graduação e escritora por paixão. Bailarina Clássica, Pianista e Decoradora de Interiores

angelabeatrizsabbag

e-mail angelabeatrizsabbag@gmail.com

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Enxadachim, nova aposta do hip-hop nacional, lança álbum “O Resgate do Samurai Ninguém”

Odisco de estreia do rapper Enxadachim vem para somar forças à cena hip-hop nacional. “O Resgate do Samurai Ninguém”, lançado pelo selo Indio Rock, se utiliza de sete faixas, que misturam vertentes do Funk, Rap, Grime e Trap, para contar a vivência de um jovem nascido e criado no interior de São Paulo. Com versatilidade nas rimas e questionamentos sociais, Enxadachim tem como influência, tanto a velha escola do rap brasileiro, quanto os próprios amigos que também se dedicam ao estilo.

O álbum foi produzido por Davi Indio, que já trabalhou com grandes nomes da música brasileira, como Cauby Peixoto, Gérson Conrad, Max de Castro, Marcelo Bonfá, Mariene de Castro e os rappers do Senzala Hi-Tech e do SNJ.

Conversamos com Enxadachim para saber um pouco mais sobre o início dessa trajetória promissora.

Você começou cedo. Como foi o seu primeiro contato com o rap?

Cresci muito bem rodeado de esporte, cultura e amigos, e acho que foi isso que me levou a querer o rap na minha vida. Muito cedo eu tive amizades com pessoas mais velhas, que me introduziram o estilo. Eu comecei a escutar rap com 13, 14 anos de idade. Meu primeiro contato foi com o grupo carioca Cone Crew Diretoria, eu fiquei apaixonado até porque não era o mais comum no meu ciclo, principalmente o da escola.

Quando descobriu que gostava de escrever e passou a colocar os seus questionamentos sobre a sociedade no papel?

Comecei a escrever quando desisti do desenho, eu amava desenhar, mas admito nunca tive o dom. Quando fiz 15 ou 16 anos, comecei a escrever principalmente sobre as injustiças que eu mesmo presenciava, porém só externei essas letras para as pessoas aos 18 anos.

Me conte um pouco sobre o seu processo criativo. O que vem antes, a letra ou a batida?

Normalmente a batida vem antes, eu gosto de escutar a ‘vibe’ do beat pra depois começar a refletir sobre o que encaixa naquele som. Acontece que eu nunca tive muito um grande processo de criação, as coisas vão fluindo meio que naturalmente.

Você mora em São José Do Rio Preto, que fica a quase 500km da capital paulista. Como você vê a cena do rap no interior?

A cena no interior é muito pouco vista, às vezes por culpa dos próprios artistas. A autoestima no rap por aqui parece demorar para aparecer, dito isso, eu acredito que batalhas de rap e o movimento hip-hop no interior são muito mais importante para os jovens perdidos daqui.

ENTREVISTA 22
Fotos: Mateus Lima

Quais as principais influências que você trouxe para o seu álbum de estreia? Quem são os seus ídolos no rap?

Minhas influências mais reais são os amigos que me fizeram estar aqui hoje, porém o álbum e, na verdade, todo meu estilo de rima, é fruto do rap underground como Síntese, Nego Max, Black Alien, Sant entre outros, que sempre me arrepiaram com letras que incomodam até o monge mais calmo.

O Davi Indio, responsável pela produção do “O Resgate do Samurai Ninguém”, já trabalhou com nomes conhecidos da música brasileira. Como foi a experiência de vocês juntos?

Eu e o Davi temos uma grande diferença de experiência, e uma diferença maior ainda na idade, apesar disso trazer muitos obstáculos no processo, não se compara com o enriquecimento que eu ganhei em toda essa trajetória, e assim espero ter ensinado algo para ele também. É incrível trabalhar com alguém que possui essa bagagem, podendo colocar o projeto que antes estava só na minha mente, para o papel e depois para o público de uma maneira original.

ENTREVISTA

A força dos pensamentos

Ao ler o título deste artigo, naturalmente, os leitores tendem a achar que se trata de um escrito sobre autoajuda.

Longe disso.

Respeito profundamente quem goste, mas, esse estilo de linguagem, nunca conseguiu me atrair.

Escrevo este artigo em um leito de internação de semi-UTI.

O que me trouxe até aqui?

Minha cabeça. Para ser mais precisa: enxaquecas diárias, que nem a famosa morfina conseguiu acabar ou diminuir a dor, como esperado.

Os exames não apresentaram alterações expressiva ou significativas. Muito menos algo que justificasse o atual quadro.

São semanas em que acordo e durmo com dores fortes na cabeça.

E quando isso não ocorre, são capazes de nos paralisar, até com doenças físicas ou psicológicas.

O que fazer, então?

Ouvi-los, mesmo discordando.

É importante aceitar que eles existem.

Ainda que seja para acalentá-los, com um olhar atencioso ou uma escuta refinada de nós mesmos.

Como fazer?

“Escrevi a uma amiga, em tom de brincadeira, que eram as “ guerras mentais” travadas por mim.”

Em um mês, foram três idas ao Pronto Socorro, depois do expediente, para tomar remédios mais fortes na veia, já que a combinação de medicamentos prescrita, era como água, sem surtir efeito algum.

O que pode estar ocorrendo, então?

Escrevi a uma amiga, em tom de brincadeira, que eram as “ guerras mentais” travadas por mim.

Não estava brincando.

Como psicanalista sei fazer essa análise mais profunda da mente.

Aprendo com meu mentor Freud.

E ela, minha amiga, uma excelente psicóloga, também sabia que eu falava sério.

Por isso, resolvi trazer o debate sobre força do pensamento.

Principalmente, a respeito das ideias e desejos que carregamos, em nossos inconscientes, e reprimimos, porque não gostaríamos de pensar ou sentir assim.

Mas, eles estão lá.

Querem ser ouvidos.

Querem ser “vistos”.

“ Conhece-te a ti mesmo”, já dizia a frase inscrita na entrada do templo de Delphos, na Grécia Antiga.

E o melhor caminho que eu conheço para percorrer essa longa, difícil e, paradoxalmente, prazerosa jornada é por meio da terapia ou análise pessoal.

Conduzida por profissionais sérios que ajudam a descobrir os mistérios contidos em cada alma, cada mente, cada inconsciente.

“Olhe para dentro, para as suas profundezas, aprenda primeiro a se conhecer”, nos diz Freud, ainda tão atual e necessário.

A força dos pensamentos, sobretudo daqueles que insistimos em esconder, nos leva a caminhos, muitas vezes ingratos.

E cada vez que tivermos a coragem de olhar, encarar e colocar luz, no que está no porão de nós mesmos, mais leve será nossa jornada. E sem menos leitos hospitalares. É o que desejo, principalmente, agora.

* Renata Dourado é formada em Jornalismo pelo Uniceub e trabalha na TV Bandeirantes há mais de 13 anos.

Atualmente, apresenta o Band Cidade Segunda Edição, jornal local, que vai ao ar, ao vivo, de Segunda à Sexta, às 18h50. Também apresenta o Band Entrevista, que vai ao ar, aos sábados, às 18h50.

Formada em Psicanálise e Mestranda Especial da UNB em psicologia clínica.

Renata Dourado*
SAÚDE 24

Infodemia, até quando?

Saímos de uma era em que era preciso conhecer alguém em outros estados do país para saber o que se passava por lá, para uma realidade em que um simples bipe nos alerta sobre o que está acontecendo do outro lado do mundo, por vezes com imagens ao vivo!

Essa facilidade tem feito com que mais e mais pessoas abandonem seu poder de discernimento, delegando às redes sociais a definição sobre o que é, ou não, verdade.

Este salto foi muito rápido, no sentido de que, pressionados pela necessidade de indivíduos que visam apenas seus interesses próprios, deixamos de aprender como lidar com esse tsunami de informações.

Na área tecnológica, desenvolvemos, cada vez mais, ferramentas que nos ajudam a correlacionar e organizar os dados que brotam a cada clique de um usuário em um sistema, seja ele da área privada ou pública. Tudo gera informação, absolutamente tudo!

século passado, clareia bem as relações sociais pelas quais passamos hoje.

Nela, o sociólogo traz uma ampla discussão sobre como nossa condição sociocultural atual permite que, mesmo sob influências de pressões reconhecidamente fracas, a sociedade vai se moldando a um ambiente totalmente parcial. Ao colocarmos essa mesma sociedade sob as rédeas das redes sociais, a capacidade de manipulação amplia-se de forma extraordinária.

“Ora direis: mas são tantas e diversas as informações e fontes, como podemos diferenciar sementes férteis de ervas daninhas?”

Essas ferramentas apoiam fortemente os processos decisórios nas organizações, evitado que as iniciativas de seus estrategistas sigam por um caminho que não acrescentará nada à saúde da empresa. Pelo contrário, a colocará em rumo fadado ao sofrimento, no caso, financeiro e empresarial.

Tais benefícios não são realidade na área de humanas. Contamos apenas com nosso poder de observação, avaliação e vontade de saber o que é verdadeiro. No coloquial, separar o joio do trigo.

Ora direis: mas são tantas e diversas as informações e fontes, como podemos diferenciar sementes férteis de ervas daninhas? Com paciência, parcimônia e, principalmente, imparcialidade.

Somente agindo assim, e nada além disso, seremos capazes de não enveredarmos pelo comodismo de sermos guiados pelos produtores profissionais de conteúdo das redes sociais.

Definitivamente, a tese da modernidade líquida, desenvolvida pelo sociólogo polonês Zygmund Bauman ainda no

Quem detiver o maior poder de guiar essa parte da sociedade dentro das redes, obterá um trunfo quase inabalável sobre seus oponentes. Principalmente ao fazer com que essa parcela se isente da responsabilidade dos problemas que ocorrem com seus pares, menosprezando ações coletivas em detrimento de seus próprios interesses.

O que muitos chamam de censura aos opositores, nada mais é do que uma necessidade premente de prevenir que cheguemos ao ponto de não retorno, com total descontrole sobre as fake news.

É preciso pensar clara, imparcial e celeremente em uma forma de mediação dos conteúdos postados nas redes sociais, já que, há algum tempo, a sociedade vem sendo direcionada ao individualismo colocado por Bauman, o que vem impedindo a distinção do que é de interesse da coletividade, dos movimentos que visam, apenas, benefícios àqueles que a manipulam, travestidos de lemas e slogans há muito reconhecidos como danosos.

* Wilson Coelho é especialista em Políticas públicas de Saúde pela UNB, e Informática em Saúde pelo IEP-HSL e professor-tutor na Faculdade Unyleya

Wilson Coelho*
POLÍTICA 26

Comissão do Senado aprova aumento de salários de juízes e promotores

Adaptação Rócio Barreto

AComissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal aprovou nesta quarta-feira (17) uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que cria um adicional por tempo de serviço nos salários de agentes públicos das carreiras jurídicas. A medida prevê um aumento de 5% do salário a cada cinco anos (quinquênio), até o limite de 35%. Esse percentual não entra no cálculo do teto constitucional - valor máximo que o servidor público pode receber.

Apresentada pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado, a medida beneficiava inicialmente juízes e promotores e procuradores do Ministério Público, mas uma emenda incluída pelo relator, senador Eduardo Gomes

(PL-TO), estendeu o adicional para as carreiras da advocacia pública federal e estadual, Defensoria Pública, delegados de polícia e conselheiros de tribunais de contas.

A PEC recebeu 18 votos favoráveis e 7 contrários e será analisada agora pelo plenário do Senado. Por ser uma emenda constitucional, precisa ser aprovada em dois turnos de votação para prosseguir à Câmara dos Deputados.

Na justificativa para o projeto, Pacheco argumentou que os salários de juízes e promotores no início e no fim das carreiras é muito similar, e que é necessário criar formas de reter esses profissionais no sistema de Justiça.

“Queremos promotores e procuradores de Justiça que tenham independência funcional e que se dediquem inteiramente à defesa da ordem democrática. Então, para que

Por Pedro Rafael Vilela - Agência Brasil - Brasília
POLÍTICA 28

tenhamos, precisamos proporcionar um ambiente atrativo ou perderemos profissionais altamente vocacionados para outras carreiras que remuneram melhor”, diz Pacheco na justificação da PEC.

“A gente precisa gastar melhor o dinheiro público e talvez gastar melhor seja gastar melhor com bons funcionários públicos na carreira jurídica [ou] em qualquer outra carreira”, defendeu o senador Eduardo Gomes, relator da matéria.

Impacto nos cofres públicos

Parlamentares contrários à medida destacaram o impacto dos aumentos no orçamento público. “Isso vai ter impacto nos 26 estados e no Distrito Federal. A pressão sobre os governadores será imensa. Como ex-governador, é a pior polí-

POLÍTICA

tica de gestão de pessoal que se tem, a do anuênio ou a do quinquênio, porque ela não fala em meritocracia, é o aumento vegetativo da folha, independente do gestor, e, portanto, na minha opinião ela não estimula a melhoria do serviço público”, afirmou o líder do governo no Senado, Jacques Wagner (PT-BA), que governou a Bahia entre 2007 e 2014.

Ele ainda citou uma projeção do Ministério da Fazenda, que prevê um aumento de R$ 42 bilhões aos cofres públicos. “Não falo em nome do governo, falo em nome do país, da responsabilidade fiscal e do impacto que essa decisão pode ter”, insistiu Wagner.

Em outra nota técnica, de 2022, o Centro de Liderança Pública (CLP) calculava impactos anuais de R$ 2 bilhões, quando a medida ainda era restrita a magistrados e membros do Ministério Público. Além disso, o universo de servidores alcançados era de 38 mil, um número insignificante quando comparado aos 11 milhões de servidores públicos existente no país, em todas as esferas administrativas.

Senado aprova PEC sobre criminalização da posse de drogas

OSenado aprovou nesta terça-feira (16), em dois turnos, a proposta que inclui na Constituição Federal a criminalização da posse e do porte de qualquer quantidade de droga ilícita. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) teve 53 votos favoráveis e nove contrários no primeiro turno, e 52 favoráveis e nove contrários no segundo turno.

Apresentada pelo presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), a PEC acrescenta um inciso ao art. 5o da Constituição Federal para considerar crime a posse e o porte, independentemente da quantidade de entorpecentes e drogas sem autorização ou em desacordo com a lei. Segundo a proposta, deve ser observada a distinção entre o traficante e o usuário pelas circunstâncias fáticas do caso concreto, aplicando aos usuários penas alternativas à prisão e tratamento contra dependência.

Pacheco esclareceu que a PEC faz uma ressalva sobre a impossibilidade da privação de liberdade do porte para uso de drogas. “Ou seja, o usuário não será jamais penalizado com o encarceramento”, disse. Ele também destacou que a utilização de substâncias derivadas de drogas ilícitas para uso medicinal não será afetada pela PEC.

Atualmente, a Lei no 11.343, de 2006, conhecida como Lei das Drogas, estabelece que é crime vender, transportar ou fornecer drogas. A pena é de reclusão de cinco a 15 anos, além de multa. Adquirir, guardar, transportar ou cultivar drogas para consumo pessoal também é considerado crime pela lei atual, mas neste caso as penas previstas são advertência, medidas educativas e prestação de serviços à comunidade. A legislação não estabelece uma quantidade de entorpecentes que diferencie os dois delitos.

Ao justificar a apresentação da PEC, Rodrigo Pacheco argumenta que não há tráfico de drogas se não há interessados em adquiri-las. “O traficante de drogas aufere renda – e a utiliza para adquirir armamento e ampliar seu poder dentro de seu território – somente por meio da comercialização do produto, ou seja, por meio da venda a um usuário final”, diz.

As propostas de emenda à Constituição devem ser aprovadas em dois turnos de votação, precedidos de cinco e duas sessões de discussões em Plenário, respectivamente, para entrarem em vigor. Uma PEC é aprovada quando acatada por, no mínimo, três quintos dos senadores (49 votos), após dois turnos de deliberação.

Após aprovada no Senado, a proposta seguirá para a análise da Câmara dos Deputados. Para que a mudança seja incluída na Constituição, a PEC precisa ser aprovada nas duas Casas do Congresso.

POLÍTICA 30

A aprovação da PEC pelo Senado é uma resposta ao Supremo Tribunal Federal, que também avalia a questão do porte de drogas. O julgamento do tema foi suspenso em março por um pedido de vista apresentado pelo ministro Dias Toffoli. Antes da interrupção, o julgamento está 5 votos a 3 para a descriminalização somente do porte de maconha para uso pessoal.

No recurso analisado, o STF julga a constitucionalidade do Artigo 28 da Lei das Drogas. Para diferenciar usuários e traficantes, a norma prevê penas alternativas de prestação de serviços à comunidade, advertência sobre os efeitos das drogas e o comparecimento obrigatório a curso educativo para quem adquirir, transportar ou portar drogas para consumo pessoal.

A lei deixou de prever a pena de prisão, mas manteve a criminalização. Dessa forma, usuários de drogas ainda são alvo de inquérito policial e de processos judiciais que buscam o cumprimento das penas alternativas.

No caso concreto que motivou o julgamento, a defesa de um condenado pede que o porte de maconha para uso próprio deixe de ser considerado crime. O acusado foi detido com 3 gramas de maconha.

POLÍTICA

A votação em plenário foi precedida de debate entre senadores contrários e favoráveis à PEC. Marcos Rogério (PL-RO) disse que a PEC vem em defesa da sociedade brasileira. Segundo ele, um terço das prisões do país se dá em razão das drogas. “Mas não porque são usuários, mas porque são traficantes, que atormentam as famílias brasileiras”.

O senador Humberto Costa (PT-CE) disse que a PEC amplia a discriminação contra pessoas pobres, negras e marginalizadas e defendeu que a mudança vai desestimular os usuários de drogas a buscarem o tratamento adequado. “Procurar o serviço de saúde será reconhecer a condição de usuário e dependente e, portanto, estar submetido à possibilidade de ser criminalizado e responder a vários processos”.

Em seu relatório, o senador Efraim Filho (União-PB) destacou a nocividade social e de saúde pública que as drogas proibidas geram. “Nesse contexto, vale destacar que a simples descriminalização das drogas, sem uma estrutura de políticas públicas já implementada e preparada para acolher o usuário e mitigar a dependência, fatalmente agravaria nossos já insustentáveis problemas de saúde pública, de segurança e de proteção à infância e juventude”, disse.

Dissonância cognitiva: por que às vezes agimos de maneira contrária ao que pensamos

Adaptação Rócio Barreto

Em 1954, o mundo enfrentava uma crise existencial. Pelo menos era isso que afirma Dorothy Martin, a líder carismática do culto The Seekers de Chicago, nos Estados Unidos.

Ela havia recebido mensagens telepáticas dos “Guardiões”, alienígenas do planeta “Clarion”, e profetizou um apocalipse que destruiria o planeta em uma data específica: 25 de dezembro daquele ano.

O grupo, porém, seria salvo do desastre pelos alienígenas, que os levariam embora em uma nave espacial pouco antes do ataque.

Alguns de seus seguidores mais leais venderam suas casas ou deixaram suas famílias, devido à sua total fé na líder e em sua profecia.

O que nem ela, nem eles sabiam é que havia espiões entre eles.

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Os infiltrados eram o renomado psicólogo social Leon Festinger e seus colaboradores Henry Riecken e Stanley Schachter.

Festinger foi o criador da teoria da dissonância cognitiva, uma das facetas mais intrigantes da mente humana.

Embora o nome possa parecer um pouco abstrato, é uma tendência que aflige a todos, muitas vezes sem nos darmos conta.

Estamos falando aqui da tensão mental que sentimos quando temos simultaneamente ideias que se contradizem,

PSICOLÓGICO 32

ou quando nos comportamos de formas que não são consistentes com as nossas crenças, ou quando as evidências desafiam uma crença significativa.

Essa falta de harmonia pode ser profundamente desconfortável.

“É um estado de impulso negativo, como fome ou sede extrema, só que ocorre na sua cabeça”, diz à BBC o professor Elliot Aronson, psicólogo social americano, referência neste campo.

“O que Festinger previu foi que, uma vez que a profecia falhasse e o mundo não chegasse ao fim, isso seria extremamente dissonante para os fiéis, então eles encontrariam uma razão que os faria sentir-se bem consigo mesmos”, explica Aronson.

Este é um ponto sutil, mas absolutamente crucial.

Alguém poderia imaginar que no dia 25 de dezembro, diante das evidências, o grupo aceitaria a realidade.

Mas isso significa subestimar o poder da dissonância cognitiva.

Pensem em como seria mortificante voltar para sua família, admitir seu erro e reconhecer ter sido vítima de engano.

É mais fácil encontrar uma maneira de racionalizar o que aconteceu.

“De repente, Martin ouviu uma mensagem do espaço sideral e foi informada de que, graças às orações do culto, o grupo de alienígenas que iria destruir o planeta decidiu não fazê-lo”, diz Aronson.

Nos dias que se seguiram ao apocalipse que nunca existiu, os membros do grupo saíram em uma campanha de recrutamento. O fracasso da previsão, em vez de destruir a sua fé na líder, fortaleceu.

A atitude foi: “’Veja que grande grupo somos. Salvamos o mundo da destruição!’”, diz Aronson.

Festinger, Riecken e Schachter reuniram suas observações e análises no livro When Profecy Fails (Quando a

profecia falha, em tradução livre), que se tornou um clássico da psicologia social.

Se você está pensando que isso só acontece com os outros, entenda a seguir como todos somos vulneráveis.

Exemplos mais mundanos

Um dos exemplos mais citados é o dos fumantes.

“Se você fuma dois ou três maços de cigarros por dia e ouve que fumar causa câncer de pulmão, essas duas cognições são realmente dissonantes, presumindo que você não queira ter uma morte horrível e precoce”, ilustra Aronson.

“A maneira mais segura de reduzir a dissonância é parar de fumar. Mas muitas pessoas acham isso difícil, então tentam justificar fazer algo realmente estúpido dizendo coisas como: ‘E daí? Posso ser atropelado por um carro amanhã.’”

“Quanto mais desafiadoras as evidências, mais tortuosa é a justificativa.”

Ainda não se identificou?

Pode ser que você seja um exemplo do que alguns psicólogos chamam de “paradoxo da carne”.

Você ama os animais, deseja-lhes apenas o bem… Mas você come carne, mesmo sabendo não só que um ser vivo morreu para que você pudesse apreciá-lo, mas que talvez ele tenha vivido por essa razão e a vida dele não tenha sido muito boa.

Talvez você tenha a tendência de comprar roupas extremamente baratas sem olhar os dados dos fabricantes, mesmo sabendo que para vender por esse preço eles possivelmente economizaram às custas dos trabalhadores ou do meio ambiente.

Ou você se alimenta de forma que não é saudável e não faz exercícios, mesmo tendo decidido levar uma vida mais saudável.

E diz a si mesmo que não é tão grave, amanhã você começa...

A lista é longa.

PSICOLÓGICO 33

E às vezes as dissonâncias são mais complexas, como o que o historiador, autor e fundador da History News Network (plataforma da George Washington University) Rick Shenkman experimentou durante anos.

Fechando os olhos

No início da década de 1970, Shenkman era aluno da faculdade notoriamente liberal Vassar College, em Nova York, onde se destacou por seu apoio inabalável ao republicano Richard Nixon.

Entre 1972 e 1974, no entanto, o escândalo político de Watergate revelou fatos impactantes sobre abuso de poder e corrupção no governo Nixon.

À medida que as provas vieram à tona, todo o país virou as costas a Nixon, exceto Shenkman.

As revelações “não significaram absolutamente nada para mim”, lembra ele, em declarações à BBC. “Entrei no comitê para salvar a presidência porque achei que era realmente injusto o que estava acontecendo com Nixon.”

“Todos os dias eu via as manchetes na imprensa. Mas era a imprensa liberal, que eu demonizava, e pensava que tínhamos que defender o presidente”.

Quanto mais evidências apareciam, mais forte crescia o apoio de Shenkman.

“Fiquei cada vez mais entrincheirado com cada argumento.”

Isso é precisamente o que a teoria da dissonância cognitiva prevê.

O envolvimento de Nixon no escândalo Watergate tornou-se inegável.

Em 8 de agosto de 1974, com transmissão por todas as redes nacionais de rádio e televisão do país, o presidente finalmente renunciou.

“Tive que reavaliar tudo. Foi um esforço enorme.”

Muitos anos se passaram antes que Shenkman entendesse o motivo de sua teimosia.

Entretanto, os especialistas continuaram a estudar o fenômeno da dissonância cognitiva e alguns aprenderam a aproveitá-lo para o bem comum.

Para o bem

Em 2020, Logan Pearce, estudante de psicologia social em Princeton, conduziu uma pesquisa para mostrar que a dissonância poderia ser usada para motivar as pessoas a seguir as diretrizes de prevenção à covid-19.

Em colaboração com seu professor Joel Cooper, concentraram-se em indivíduos cujas ações não se alinhavam consistentemente com as suas crenças declaradas.

“Pedimos que escrevessem uma declaração sobre por que era importante seguir as diretrizes de prevenção à covid e dissemos que isso seria publicado no site da Organização Mundial da Saúde. Essa parte não era verdade, mas queríamos que pensassem que estavam fazendo uma declaração pública”, diz Pearce.

“Depois pedimos que se lembrassem de uma época em que não seguiram as regras e escrevessem o porquê.”

Apenas um grupo de participantes em três foi solicitado a escrever as declarações.

Uma semana depois, os participantes que fizeram isso tinham muito mais probabilidade de terem procurado vacinação do que aqueles que não foram expostos à dissonância.

O fator fundamental para a mudança de comportamento foi uma declaração pública.

Este método, conhecido como paradigma da hipocrisia, foi testado pela primeira vez pelo professor Elliot Aronson em 1991, uma década após a devastadora epidemia global de HIV.

34
PSICOLÓGICO

“O que tentamos fazer foi convencer as pessoas a usar preservativos. Achei que era uma estratégia útil fazê-los convencer os outros a usar preservativos. Quando foram confrontados com o fato de se comportarem de forma hipócrita, isso fez com que começassem a usá-los.”

Promover a consonância cognitiva de maneiras específicas pode levar a mudanças duradouras e transformadoras.

Dessa forma, a dissonância pode servir como catalisador para algo positivo, em vez de simplesmente fomentar a inércia, como a vivida pelo historiador Shenkman, que finalmente conseguiu compreender as razões da sua atitude.

Para o melhor

“Tive dois grandes acontecimentos na minha juventude: um foi apoiar Richard Nixon e finalmente perceber que já não o apoiava e, o segundo, descobrir que era gay”, diz Shenkman à BBC.

“Como essas duas coisas se juntaram? O que aconteceu foi que eu sabia que era uma boa pessoa, mas tinha uma coisa que a sociedade dizia ser ruim. Então, a maneira como lidei com essa dissonância foi decidindo ser o melhor garoto do mundo”, afirma.

A expressão “o melhor garoto do mundo” é um paradigma conhecido por gerações de homossexuais nos EUA. Refere-se ao jovem que desvia a atenção da sua sexualidade investindo demasiada energia em outra coisa.

Às vezes nos apegamos a ideias para não afetar a nossa imagem

“Eu não iria seguir um caminho alternativo e tortuoso. Minha família era democrata em uma cidade onde não havia muitos democratas. Para mim, ser o melhor garoto do mundo naquele mundo era ser conservador.”

O caminho sinuoso de Shenkman

para a aceitação social o levou a esconder seu verdadeiro eu atrás de uma identidade protetora. Foi apenas olhando de forma retrospectiva que ele foi capaz de perceber a extensão da sua própria negação.

“Escrevi sete livros e todos eles, de uma forma ou de outra, trataram do assunto.”

“Como seres humanos, uma vez que tomamos uma decisão sobre algo, permanecemos com ela. Não é uma questão de saber se Richard Nixon era um infrator, ou se Donald Trump é um infrator. A questão é se eu, como eleitor, sou um infrator.”

Quando você se apega a uma crença e ela é atacada, isso parece pessoal: não foi a figura pública ou a posição sobre uma questão que falhou, mas você.

“A política tem a ver conosco, com as nossas histórias e com os mecanismos psicológicos que as pessoas usam para decidir se apoiam ou não um candidato ou outro.”

A teoria da dissonância cognitiva pode ser uma lente poderosa para compreender o mundo de hoje.

Há exemplos na política, nas redes sociais e até na ciência, porque até os cientistas, às vezes, em vez de apreciarem as provas que mostram que sua hipótese estava errada, duvidam delas.

Poucos de nós somos parte de cultos que preveem o fim do mundo, mas vivemos em grupos definidos nas redes sociais onde a nossa identidade está cada vez mais ligada a um partido político ou tribo ideológica.

O problema não é a dissonância em si. A questão é: o que fazemos com isso?

Se nos apegarmos às nossas crenças devido à dissonância cognitiva, nenhum argumento nos levará a moderar os nossos pontos de vista, mas sim a entrincheirar-nos ainda mais neles.

E se todas as tribos ideológicas fazem a mesma coisa ao mesmo tempo, isso leva a uma polarização crescente.

No entanto, talvez, ao reconhecer que este processo de pensamento acontece com todos nós, isso possa nos levar a considerar nossas posições de forma mais razoável e a autorreflexão poderá levar ao diálogo.

PSICOLÓGICO 35

Gibi,

85

anos:

a história

da revista de

nome

racista que se transformou em sinônimo de HQ no Brasil

Um dicionário de português brasileiro hoje certamente trará a definição de gibi como “nome dado às revistas em quadrinhos” — ou algo parecido com isso. Nos anos 1930, contudo, o verbete tinha cunho racista: era “menino negro”, “negrinho”, “tipo feio e grotesco”.

Em 12 de abril de 1939, há exatos 85 anos, a editora O Globo lançou uma revista em quadrinhos chamada Gibi. Na capa, como um símbolo, todos os números traziam uma representação estereotipada negativamente de um menino negro, o tal “gibi”, mascote que emprestava nome à publicação.

Os traços eram carregados de um viés pejorativo e discriminatório. Em conversa com a BBC News Brasil, a cartunista Laerte definiu essa ilustração como “um menino negro como se desenhava em tempos de racismo livre”.

Fato é que Gibi se tornou um sucesso nacional. Tão grande que, em pouco tempo, seu nome deixou de ser uma palavra ofensiva e preconceituosa. Tornou-se sinônimo de revista de histórias em quadrinhos.

O mais bem-sucedido quadrinista do Brasil, Mauricio de Sousa sempre conta que aprendeu a ler por causa de historinhas assim. “A primeira [revista] que vi achei caída na rua. Era um exemplar de O Guri [publicação semelhante lançada pelo Diários Associados em 1940]. Fiquei encantado”, conta ele à BBC News Brasil. “Tanto que minha mãe me alfabetizou em três meses, para que eu pudesse ler sozinho e não a amolasse mais. Eu tinha de 4 para 5 anos.”

“Depois de um tempo, conheci a concorrente de O Guri, que era a revista Gibi. Lembro que as duas brigavam para ter alguns dos heróis americanos da época. Mas a Gibi fez tanto sucesso que acabou virando o nome para designar todas as revistas em quadrinhos”, comenta.

GIBI 36

“Ela fez parte da minha formação como escritor e desenhista”, completa o quadrinista. “O mundo deu voltas e, há muitas décadas, minhas revistas também são chamadas de gibis.”

O cartunista e jornalista José Alberto Lovetro, o JAL, presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, lembra que essa apropriação do nome foi tamanha a ponto de que gibi “se transformasse em uma generalização quando se fala em revista em quadrinhos”. “A importância dessa denominação fez com que, já nos anos 1980, uma biblioteca de quadrinhos tivesse a denominação de ‘gibiteca’”, ressalta ele, à BBC News Brasil.

“A diversidade de personagens e autores diferentes constantes naquele tipo de publicação atingia vários públicos. Foi a entrada dos personagens americanos em massa no Brasil com seus super-heróis misturados com infantis e histórias de humor. Isso estimulou muitos novos leitores por conta de que antes eram publicados no Brasil apenas revistas infantis, como a Tico-Tico”, enfatiza Lovetro.

Para ele, Gibi despertou a paixão por quadrinhos no Brasil, criando “mais leitores e adoradores” do gênero. “Hoje temos o Mauricio de Sousa, com sua Turma da Mônica, que vende mais de 12 milhões de revistas impressas ao ano, demonstrando que esses leitores infantis são a base do estímulo à leitura de quadrinhos e que ajuda a sustentar mais de 10 milhões de leitores ativos, que compram pelo menos uma revista de quadrinhos impressa ao ano”, analisa.

Pioneira na pesquisa de quadrinhos no Brasil, a jornalista Sonia M. Bibe Luyten, autora de, entre outros livros, Histórias em Quadrinhos: Leitura Crítica, ressalta que a trajetória de Gibi “é uma

história longa que precisa ser contextualizada para se poder entender o que se passou na década de 1930 no mercado editorial e jornalístico”.

“Na minha opinião, o Brasil replicou 40 anos mais tarde o que aconteceu nos Estados Unidos”, diz ela, à BBC News Brasil.

A palavra ‘gibi’

O cartunista e biblioteconomista Richardson Santos de Freitas, o Ric, debruçou-se sobre a história da revista Gibi em trabalho acadêmico apresentado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2023.

Ele fez um apanhado histórico da evolução do termo gibi. “Surge como um apelido para meninos negros, giby, e meninas negras, gibi, baseado na palavra latina ‘gibbus’, que significa uma pessoa corcunda ou com corpo disforme”, esclarece ele, à reportagem, lembrando que encontrou registro desse uso em jornal de 1888.

“A partir de 1905, com o fim do regime de escravidão e a importação de teorias eugenistas para tentar implantar uma política de branqueamento da população do Brasil, gibi torna-se gíria para meninos negros, com significado racista”, acrescenta.

“Os dicionários captam e passam a adicionar a gíria como verbete de suas edições, atribuindo dois significados à palavra: de menino negro; e de um tipo feio, grotesco e hediondo. Atrelado a isso, os negros nos jornais e revistas da época eram retratados de foram estereotipadas, com desenhos […] que se tornam uma tendência de estilo.”

Sim, eram tempos de “racismo livre”, como pontuou Laerte.

Em meio a esse cenário, crianças e adolescentes negros, pela vulnerabilidade social, eram os que mais buscavam sub-empregos nas grandes cidades. “Entre esses trabalhos, estava a venda de jornais pelas ruas. Eram conhecidos como os pequenos vendedores de jornais, formados por crianças em situação de extrema pobreza. Alguns eram imigrantes italianos que traziam a experiência dos gazeteiros, outros eram os meninos negros, os ‘gibis’”, diz Freitas.

GIBI

“Esses gibis saíam pelas ruas anunciando as manchetes da edição do dia. Logo, ganharam a simpatia de diversas pessoas. Os próprios jornais publicavam editoriais exaltando a figura trabalhadora do pequeno vendedor”, contextualiza o cartunista.

Considerado o pai dos quadrinhos do Brasil, o jornalista e editor russo naturalizado brasileiro Adolfo Aizen (1904-1991), colaborador dos jornais do Grupo Globo, viajou em 1931 para os Estados Unidos. Ali, encantou-se com uma novidade: suplementos de jornais, cadernos dedicados especificamente a temas policiais, esportivos, femininos e infantis.

“Entre eles, os suplementos infantis eram um dos mais promissores”, afirma Freitas. “Quando voltou, Aizen tentou convencer [o proprietário do grupo, o jornalista e empresário Roberto] Marinho [(1904-2003)] a implantar isso no jornal O Globo.”

Inicialmente, seu projeto foi recusado. O empresário avaliou que a ideia era de alto risco financeiro.

“Aizen então buscou outra parceria e, em 1934, lançou o Suplemento Infantil pela editora do jornal A Nação”, conta Freitas.

Ao que parece, o tino comercial de Marinho estava equivocado. As vendas do jornal triplicavam nos dias de veiculação do caderno especial de Aizen. Mesmo assim, o editor de A Nação não gostou: acreditava que esse tipo de material tirava a credibilidade de sua publicação.

O jornalista russo-brasileiro então criou sua própria editora, chamada de Grande Consórcio Suplementos Nacionais. “O sucesso de vendas de seu ex-funcionário fez Marinho reavaliar e se aventurar no segmento promissor”, detalha Freitas. “Chegou a convidar Aizen para uma conversa e lhe propor uma parceria, que foi recusada.”

“Os dois grandes magnatas do Brasil, Roberto Marinho e Adolfo Aizen, eram concorrentes ferrenhos e cada um lançava algo diferente em seus jornais para vender mais”, explica Luyten.

A revista

O Grupo Globo não descartou o plano de enveredar pela seara infanto-juvenil. Em 1937, a publicação criou O Globo Juvenil. “Para se consolidar no mercado, uma segunda revista em quadrinhos foi planejada”, diz Freitas. Assim, em 12 de abril de 1939, a revista Gibi foi lançada Até o final da década de 1940, como pontua o cartunista, “O Globo passou a ser a principal editora de quadrinhos do país.”

“A revista tinha como foco as histórias em quadrinhos. Mas a publicação dedicava algumas páginas para contos,

curiosidades, fatos históricos e pequenas reportagens”, conta Freitas.

“Quando Roberto Marinho escolheu o nome Gibi para sua edição, o fez tendo em vista o sentido positivo da palavra, ligado ao pequeno vendedor de jornais. Ao lado do nome da revista, pode-se ver a imagem desse simpático menino, com um dos braços erguidos, anunciando a novidade para o público infanto-juvenil de que um a nova revista esta chegando”, comenta.

Eram outros tempos, não só de “racismo livre” como também de positividade acerca do precário trabalho infantil.

Conforme detalha a pesquisa de Freitas, a Gibi teve várias fases. “As principais foram a série original, que circulou entre 1939 e 1954, tendo 1842 edições; a Gibi Mensal, de 1941 a 1963, com 271 números; e a Gibi Semanal, de 1974 a 1975, com 40 edições”, relata.

“Porém, à medida que se consolidou o público, esses leitores passaram a ser fãs de personagens ou de gêneros específicos. Isso fez com que eles migrassem para revistas com uma linha editorial mais uniforme. O resultado foi que as revistas estilo mix perderam público, forçando o seu cancelamento.

GIBI 38

Mesmo a famosa revista Gibi não sobreviveu a essa mudança de preferência”, diz ele.

Lovetro concorda que “nos anos 1970 e 1980 foram as revistas de um só personagem que começaram a cair no gosto dos leitores, porque eram histórias completas”.

“Na Gibi, haviam muitas histórias de continuação a cada semana, e isso quebrava a voracidade de leitores em querer conhecer o fim da história”, avalia o cartunista.

Freitas conta que entre 1974 e 1985 houve algumas edições da Gibi, apelando para a nostalgia e com séries de curta duração. No início dos anos 1990, a editora Globo chegou a publicar 12 edições chamadas Gibi.

Praticamente só autores americanos

Se a Gibi foi importante para o mercado nacional por disseminar o gosto pelos quadrinhos, ela pouco trouxe de espaço para autores brasileiros — segundo Lovetro, houve um pequeno espaço apenas na segunda fase da publicação, com tiras que eram feitas por profissionais locais.

“Todo o conteúdo da revista era de personagens e autores norte-americanos, agenciados e distribuídos por sindicatos que detinham os direitos de licenciamento”, frisa Freitas. “Com isso, o custo da arte era mais baixo e os editores brasileiros teriam apenas o trabalho de fazer a tradução dos textos e a montagem das publicações.”

Diante disso, não havia espaço para a produção nacional. “O artista que, incentivado pela leitura, sentiu-se inspirado para criar suas próprias histórias, teve de buscar outras editoras para tentar viabilizar o seu trabalho”, acrescenta.

Quanto ao conteúdo, era uma mescla. “Gibi tinha como característica ser uma revista que combinava histórias de

diferentes autores, dos mais variados estilos. Em uma mesma edição, o leitor poderia encontrar uma história de ficção científica de Flash Gordon de Alex Raymond, passando para uma investigação do detetive Charlie Chan desenhada por Alfred Andriola, viajar para aventuras do Fantasma de Lee Falk e rir com o temperamento explosivo do Pato Donald de Walt Disney.

Mandrake, Spirit, Capitão Marvel, Namor, Tocha Humana, Flecha Dourada, Ka-Zar, O Reizinho, Cavaleiro Negro, Agente X, Ferdinando, Brucutu e Popeye são apenas alguns, de uma infinidade de personagens, disponíveis nas páginas da revista ao longo do tempo”, detalha o cartunista.

“Como era o início de uma consolidação de um mercado de HQs, era também uma forma de testar e ver quais histórias atraíam mais o gosto de seu público”, salienta.

GIBI 39

A popularização do gênero

Em seu trabalho de pesquisa, Freitas aponta que o sucesso editorial da Gibi se refletia nos números de venda.

“A linha editorial de formato mix conseguia atrair a atenção de diferentes gostos”, ressalta.

“As revista tinham um valor baixo porque eram produzidas em papel jornal e tinham altas tiragens. Para se ter uma ideia, em 1953, a tiragem quinzenal do Novo Gibi era de 60 mil revistas por edição, enquanto a Gibi Mensal chegava a 85 mil. Todos esses fatores ajudaram a formar leitores e despertar o interesse de artistas que cresceram lendo histórias dos mais diversos temas.”

Não à toa, virou sinônimo de HQ. “Uma revista de grande sucesso mexe com a imaginação dos leitores. Muitos passaram de fãs para profissionais da área”, pontua Freitas. “Normalmente temos a tendência de enxergar apenas os artistas, mas editores, tradutores, designers, coloristas, jornalistas, entre outros cargos, foram contratados para atuar na redação da editora na medida em que a tiragem e outras revistas eram criadas.”

Ele situa a Gibi dentro de “um processo de consolidação dos quadrinhos no Brasil”.

“Normalmente se diz que gibi se tornou sinônimo de histórias em quadrinhos devido ao sucesso da revista Gibi. As altas vendas são apenas um dos fatores, porque a revista se tornou muito popular em sua época e ajudou na formação de um mercado editorial no segmento das histórias em quadrinhos”, comenta.

Freitas acrescenta que a editora teve investimentos em publicidade e relações públicas, fazendo com que a revista se inserisse no imaginário dos leitores. Ele levantou ações do tipo, desde

“o patrocínio de bailes de carnaval infantil, a parceria com a Força Aérea para despertar o interesse na aviação por meio de suas revistas, promoção de embaixadores da juventude, bancando viagens de alunos pela América do Sul, até o incentivo a um grupo de teatro de bonecos, chamado Teatro Gibi”.

“O sucesso de vendas da revista transformou a palavra gibi em sinônimo de revista de histórias em quadrinhos no Brasil, fazendo o sentido original cair em desuso”, resume Luyten. “A popularização do termo foi tão grande que inspirou as bibliotecas brasileiras a adotarem a denominação de gibiteca para seus acervos de HQ.”

A própria pesquisadora é protagonista desta história, no caso. Em 1972, quando ela lecionava editoração das histórias em quadrinhos na Universidade de São Paulo (USP), ela criou no campus universitário a primeira gibiteca do país.

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Por que real foi moeda que mais se desvalorizou neste mês entre países do G20

Adaptação Rócio Barreto

Oreal se desvalorizou 4,5% no mês de abril — mais do que qualquer outra moeda entre os países do G20.

As moedas que mais chegaram perto do real em desvalorização em relação ao dólar foram o iene japonês, o rublo russo, o peso mexicano e o won coreano — todos com desvalorização de 2%.

Já outras moedas como o euro e a libra esterlina se desvalorizaram menos que 1% contra o dólar americano no mesmo período.

Nesta semana, os mercados em todo o mundo sofreram com alguns choques econômicos que abalaram a confiança dos investidores. No Oriente Médio, um ataque com mísseis e drones do Irã a Israel aumentou temores de uma escalada de violência regional.

E nos Estados Unidos, autoridades monetárias sinalizaram que as taxas de juros do Federal Reserve (o Banco Central americano) devem cair mais lentamente do que analistas de mercado imaginavam.

Números da semana passada sobre a economia dos EUA revelaram que a inflação não está caindo como o desejado pelas autoridades. Por isso, os juros devem ser mantidos num patamar mais alto por mais tempo — aumentando custos e

G20 42

até mesmo riscos de uma recessão no país. As repercussões dessas notícias foram globais. A principal delas foi nos juros dos papéis do Tesouro americano de 10 anos — que subiram de 4,35% em média para mais de 4,6%.

Com juros maiores nos EUA, a moeda americana se valorizou em todo o mundo, já que se tornou mais atraente para investidores americanos manterem suas posições em dólares, e não em moedas estrangeiras.

A notícia provocou mau humor entre investidores no mundo todo, que acreditam que os juros americanos maiores por mais tempo vão prejudicar a economia como um todo.

O índice Ibovespa, o principal da bolsa brasileira, caiu 2% neste mês. Já o Dow Jones e o Nasdaq — índices de ações nos Estados Unidos — desabaram 4,4% e 3% respectivamente.

Real mais desvalorizado que as demais moedas

O ministro da Economia, Fernando Haddad, sugeriu esta semana que o cenário internacional “explica dois terços” da desvalorização do real no Brasil.

No entanto, o real brasileiro se desvalorizou muito mais do que as demais moedas no mundo neste mês (confira os dados no gráfico abaixo.)

Analistas de mercado dizem que um grande fator da desvalorização do real foi o anúncio feito nesta semana pelo governo brasileiro de que não pretende cumprir as metas de superávit fiscal no mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que termina no final de 2026.

As contas do governo têm impacto nos juros e na cotação da moeda nacional.

Quando o governo arrecada mais do que gasta, ele produz o chamado superávit fiscal — o que contribui para a queda do endividamento público do Brasil. Esse menor endividamento contribui para reduzir preços, juros e custos na economia.

A combinação dos cenários externo (queda mais lenta dos juros americanos) e doméstico (anúncio do abandono da meta de superávit para os próximos dois anos) fez com que o mercado mudasse suas previsões para o futuro no boletim Focus, o levantamento semanal feito pelo Banco Central brasileiro.

Os agentes de mercado acreditam agora que a taxa Selic — o juro referência na economia brasileira — vai terminar o ano em 9,13%, em média.

Na semana passada, a projeção era de 9%. A projeção da cotação do dólar para o final de ano subiu de R$$ 4,95 para R$ 4,97.

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TIJOLADAS DO CAIXA

Papagaiadas

Junto com o Caixa Preta fui até o templo da cachaça e dos salgadinhos mortais preparados pela Al-Qaeda, mãe do Galak, um ambiente tranquilo se não fossem as moscas que de vez em quando querem roubar o prato de tira gosto.

Aquele garçom que é um poço de doçura, desfere coices que na verdade são o modo terno de tratar todo mundo, sempre com aquele semblante tranquilo, com ar de lutador de MMA, mais parecendo um pitbull ou buldog que deixa qualquer criança traumatizada.

Depois dos cumprimentos entre o Caixa e o Galak, sempre recheados de elogios às respectivas mães, sentamos em nossa mesa para desfrutar daquela cerva bem gelada, pois ninguém é de ferro. O Caixa Preta, tinha muitas novidades, nada passa em branco, o cabra observa até os detalhes mais escondidos, que por sinal não são poucos.

Quando vejo muita agitação da galera, tenho a certeza que estão armando um palanque para aparecer, nem que pra isso tenha que aprontar mil e umas estrepolias, o que vale é a exposição na mídia.

Fiquei surpreso essa papagaiada da comemoração do aniversário de Ezequias Heringer, que já devidamente homenageado com o nome do parque, mas uma cambada de apaixonados de araque, queriam aproveitar o embalo, muitos não conheciam nem o Guará, mas o apelo midiático foi maior.

Parece que está virando moda entre os pseudos ambientalistas os famo-

sos passeios para limpeza dos parques, convescotes marotos, sendo que a bola da vez é o Parque Ezequias Heringer, o Parque do Guará como é popularmente conhecido, que não é um parque qualquer, pois não é um parque vivencial e é um dos que possuem o maior nível de restrição ao acesso.

Tudo na base do improviso, apenas com o intuito de criar algum fato novo, tirar fotos e publicar abobrinhas nos grupos de What’sApps sem se importar com o que realmente está sendo feito para a conservação do parque, pois muitas arestas ainda tem que serem aparadas.

O maior problema desse parque na verdade é essa proximidade com o Plano Piloto, onde o preço do metro quadrado vale ouro, e os grandes barões da construção civil estão sempre de olho para implantar um monte de prédios monstruosos mesmo que isso custe a nossa tão combalida qualidade de vida.

Saudade dolorida

Lá no Porcão onde bebíamos uma cerva, jogando conversa fora eu e meu amigo Caixa Preta discutíamos o lançamento ou relançamento de um projeto, que parecia ter sido engavetado, agora querendo voltar com força total, uma cretinice agora totalmente estilizada.

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TIJOLADAS DO CAIXA

Voltamos a falar do Adote Uma Praça, voltando com o pomposo nome de Detone Uma Praça, que abandonadas pela Administração, agora querem implantar mais uma nova sacanagem com a população que pena na mão dessa turma.

Como exemplo vamos citar a tal praça das artes lá na QI-22, onde um gaiato implantou um monstrengo, o já famoso quiosque.

Não satisfeito com a agressão com o aval de não sei quem, isso já era de se esperar pois filho feio não tem pai, resolveu adotar uma área verde arborizada para usar como estacionamento para o dito trambolho.

Sabe-se que a muito as praças do Guará de um modo geral sofrem completo abandono por parte da Administração, na sua maioria ocupadas por quiosques, vagabundos, usuários de drogas e tudo que pode ser ocupado numa praça abandonada, com bancos, quadras esportivas detonadas, um lixão a céu aberto.

Dá saudade de quando tínhamos praças, onde era tradição a população se encontrar para bater um papo descontraído no final da tarde ou mesmo a noite, levando a tiracolo os filhos pequenos para curtir, mas muitos desses espaços públicos estão praticamente abandonados à disposição de aventureiros que devagarzinho vão se apossando, sem acrescentar qualquer benfeitoria. .

O velho Caixa meio saudosista me falou que lá pela década de 60 tinha uma música que falava justamente das praças, mais ou menos assim: A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim, esses versos embalaram muito namoro por aqui, não é da minha época, mas já ouvi falar.

Saudade assim faz doer!

Festival de ignorância

Temos hoje em nosso país um verdadeiro festival de ignorância e estupidez em um nível jamais vistos por aqui, ao lado da corrupção crescente e da degradação moral da maioria de nossas instituições.

Tenho certeza que essa mistura insana causa um estrago muito maior que o terrorismo e uma ditadura tacanha, todos sabemos que na nossa República de Bananas, são oriundas de uma parcela que se julga a elite suprema e culta.

Tentam e muitas vezes nos dirigem, pois são donos na maioria das vezes das opiniões que circulam nos meios de comunicação, provocando imensos estragos na economia e nas instituições que deveriam zelar pela organização, solidez do estado de Direito.

Mesmo que uma parte da sociedade como os intelectuais, o povo com sua parcela mais esclarecida sempre atentos, lutam com unhas e dentes, sempre apoiando a manutenção e a integridade das instituições democráticas.

Parece que vivemos em um país totalmente sem rumo, onde ninguém liga pra nada, como se instituições livres e democráticas no Patropi.é a ignorância e a estupidez dos que tentam apenas salvar a pele e/ou manter um Estado corrupto, decadente, retrógrado e ditatorial que tem prevalecido.

E prevalecem apenas pela atuação nefasta e danosa de grupelhos, apoiados por ignorantes, imbecis que não aceitam a melhora da imagem do país, que é livre, soberano e que talvez tenha um futuro brilhante.

O que tem prevalecido contra todo o bom senso, todo o Estado de Direito e toda a maioria do desejos de uma nação.

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TIJOLADAS DO CAIXA

Será que voltaremos a ser apenas mais uma República de Bananas ? Será que nossas instituições são assim tão frágeis? Ou serão apenas corruptas?

Meu quiosque, minha vida

Sem nada pra fazer, sentei-me no sofá, queria saber das novidades que estavam aparecendo na TV, pouco se aproveita.

Tenho que confessar que prefiro ouvir o Caixa Preta me contando o que acontece do que ficar ouvindo notícias filtradas de algumas emissoras, dá pena ver a indigência mental de alguns.

Essa semana um jornal de grande circulação trouxe estampado um bem bolado e humorado título de “Brasília, o Império dos Quiosques”,fiquei até orgulhoso pois o Plano Piloto com inveja resolveu copiar o Guará , implantou também o nosso projeto já muito popular e bem - sucedido, exitoso programa: “Meu Quiosque, Minha vida” cujo sucesso por aqui é inegável, basta ver que temos um quiosque em cada palmo do nosso pequeno território.

Hoje devemos ter em torno de quase 500 instalados nos mais diferentes locais com a vênia da nossa Administração que estranhamente adora esses monstrengos.

Muita gente por aqui já está pensando até em morar num quiosque, pois espaço não falta, tem uns monstrengos bem grandinhos dá gosto ver a farra.

Outro dia estava vendo um filme de terror, pensei até em escrever um roteiro e mandar para Hollywood pra ser transformado em filme, bolei alguns títulos que me pareceram interessantes: Quiosques Sujos e Enfurecidos, O Ran-

go Fatal, A Invasão dos Quiosques Enfurecidos, Tendinha Maldita, O Tira Gosto Fatal e por aí vai.

Mostrei a ideia para o Caixa Preta ele riu, mas em seguida me repreendeu severamente dizendo que se o filme fosse um sucesso e ganhasse um Oscar, corríamos o risco de ter o Guará tombado pelo Iphan como a Capital Mundial do Quiosque.

Poderíamos até ter o dissabor de Brasília declarar guerra ao Guará para não perder o título de “Império dos Quiosques” tão arduamente conquistado com o descaso de governantes e administradores que por lá passaram, não seria uma RA qualquer que tomaria esse pomposo título.

Estou muito sensível, sem querer chorei !!!

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Quase 4 bilhões de pessoas correm risco de infecção pelo Aedes

Por Paula Laboissière - Agência Brasil - Brasília Adaptação Rócio Barreto

Quase quatro bilhões de pessoas em todo o mundo estão sob risco de infecções transmitidas por mosquitos do tipo Aedes - seja o Aedes aegypi ou o Aedes albopictus que, juntos, respondem por doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela. O alerta é da líder da equipe sobre arbovírus da Organização Mundial da Saúde (OMS), Diana Rojas Alvarez.

Ao participar - por videoconferência - de encontro na sede da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em Brasília, Diana destacou que a estimativa é que esse número – quatro bilhões - aumente em mais um bilhão ao longo das próximas décadas, sobretudo, por conta de fatores como o aquecimento global e a adaptação do Aedes a grandes altitudes. O mosquito, segundo ela, já pode ser encontrado, por exemplo, em montanhas do Nepal e da Colômbia, além de países da região andina.

Surtos

A OMS monitora ativamente surtos e epidemias de dengue em pelo menos 23 países, sendo 17 nas Américas - incluindo o Brasil.

Segundo Diana, os casos da doença aumentaram consistentemente ao longo das últimas quatro décadas. Em 2023, entretanto, houve o que ela chamou de aumento muito significativo tanto de casos como de mortes pela doença.

“Um novo recorde”, disse, ao citar mais de seis milhões de casos reportados e mais de sete mil mortes por dengue em 80 países.

Para Diana, a expansão de casos se deve a fatores ambientais como o aumento das chuvas e, consequentemente, da umidade, o que favorece a proliferação do mosquito, além da alta das temperaturas globais, ambos fenômenos provocados pelas chamadas mudanças climáticas.

Ela disse, ainda, que é imprescindível melhorar a comunicação de casos e os sistemas de vigilância dos países em relação a arboviroses para ampliar ações de prevenção e combate em saúde pública.

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