N ú m e ro 33 | Ago s to e Setem bro
arquitetura | arte | design
ADRIANA VAREJÃO
A artista está na Bienal de Veneza, a mais importante mostra de arte do mundo, enquanto se prepara para estrear na principal exposição de arquitetura do planeta.
Editorial
Parede com incisões à la Fontana (Istambul), 2011, obra de Adriana Varejão. Óleo sobre tela e poliuretano sobre suporte de alumínio e madeira. | Foto: Vicente de Mello
A ARTE DE PERMANECER
P
ermanecer vem do latim permanere, que pode significar manter-se firme, aguardar, continuar, ficar. Aqui na Habitat apreciamos as conotações que a palavra permanecer pode sugerir, como desacelerar, observar, refletir, parar, pensar – apesar de os verbos terem significados, por vezes, tão distintos. Nossa entrevistada de capa fala sobre permanência. Adriana Varejão, um dos grandes nomes das artes, com obras expostas em alguns dos principais museus do planeta, acredita que permanecer em frente a uma obra, atualmente, é um ato de resistência. Ao longo de mais de 40 anos, ela desenhou uma carreira coerente, genuína e permanente. O que nos levou até ela, neste momento, foi a participação na 61ª Bienal de Veneza, no Pavilhão do
Brasil. Mas este é apenas um dos assuntos das próximas páginas. A permanência também nos apresentou a história do Delano Miami Beach, reaberto em junho depois de três anos de reforma. Tansy Kaschak, que a partir desta edição colabora assiduamente com a Habitat, conta por que este hotel define o que é luxo hoje. Se você tem essa edição em mãos, certamente aprecia o tempo lento de um virar de páginas, a profundidade das histórias, a experiência dos personagens, a permanência de uma revista impressa. Aproveite o seu tempo. Boa leitura. Melissa Crocetti Coordenadora de conteúdo
Expediente Publisher: Cíntia Peixoto|cintia@revistahabitat.com.br (41) 99225-7610|Comercial: Regina Rocha|(41) 98848-1950 Comercialização: Saltori Mídia Estratégica|saltori@saltori.com.br (41) 99996-9995|R SALTORI REPRESENTAÇÕES COMERCIAIS LTDA CNPJ 05.552.266/0001-60 Coordenação de conteúdo: Melissa Crocetti melissa.crocetti@gmail.com Revisão: Paula Batista – Lide Multimídia Direção de arte: Igor Dranka|igor@revistahabitat.com.br Colunistas: Paula Campos (Coluna Sobre Morar),
6
Rodolpho Guttierrez (Coluna É Design), Cesar Franco (Coluna Conexão). Foto capa e índice: Adriana Varejão fotografada por Fe Pinheiro @fepinheiro | Cortesia da artista Colaboraram nesta edição: Rafaella Sabatowitch, Tansy Kaschak e Tereza de Arruda. Conselho Editorial: Cristina Fontoura e Paula Abbas. Redes sociais: Trentini Comunicação Impressão: Maxi Gráfica e Editora LTDA. maxigrafica@maxigrafica.com.br Marca registrada: Capelatto Marcas e Patentes
habitat
habitat
RM
Índice
habitat Revista
Número 33 | Agosto e Setembro de 2026
CAPA
10 A artista Adriana Varejão, em entrevista exclusiva, reafirma sua convicção de que a arte é capaz de transformar a maneira como enxergamos o mundo.
ARQUITETURA
28 O Delano Miami Beach redescobre sua essência Art
Déco e o que significa ser um hotel de luxo hoje. 40 O arquiteto Ricardo Amaral revisita cinco décadas de profissão. 48 Concéntrico, a iniciativa espanhola que reúne profissionais para pensar a arquitetura, o design e a arte contemporânea. 58 Brick Award 2026: projetos premiados pela utilização de materiais atemporais em uma arquitetura inovadora.
DESIGN
68 A poesia da luz nas luminárias do Cris Bertolucci
Estúdio. 76 Os 25 anos da LinBrasil e a história da editora das obras do designer Sergio Rodrigues. 84 Pablo Casas comemora os 35 anos da Herança Cultural e aposta no diálogo entre tradição e inovação. 92 A Móveis Campo Largo chega à maturidade com a mesma essência que sustenta sua trajetória.
ARTE
94 Bichos do Paraná, a exposição do ceramista Rodrigo Bertoli une escultura e educação ambiental.
NOTAS DA HABITAT
108 ABERTO Solo inaugura novo espaço com a mostra Tudo que eu sei, eu aprendi à noite, de Luísa Matsushita; a SP-Arte Rotas chega à sua 5ª edição com direção artística de Bernardo Mosqueira e cerca de 70 expositores; Mostra Nise da Silveira, A Revolução pelo Afeto apresenta o legado da médica que transformou o tratamento da saúde mental no Brasil; incorporadora lança empreendimento em homenagem a Alfredo Andersen; e a exposição de Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo, a mãe de OSGEMEOS.
COLUNAS
98 É Design, por Rodolpho Guttierrez. 100 Sobre Morar, por Paula Campos. 116 Conexão, por Cesar Franco. 130 Ponto de Vista, por Tereza de Arruda. 8
habitat
CAPA
COM ELA NINGUÉM PODE Adriana Varejão representa o Brasil na 61ª Bienal de Veneza, a mais importante mostra de arte do mundo, enquanto se prepara para estrear na principal exposição de arquitetura do planeta. Por Rafaella Sabatowitch
10
habitat
A artista Adriana Varejão, ao lado de Rosana Paulino, representa o Brasil com a exposição Comigo Ninguém Pode, na 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza. | Foto: Fe Pinheiro
habitat
11
Capa
A
o longo de mais de quatro décadas de carreira, a carioca Adriana Varejão construiu uma das trajetórias mais consistentes e reconhecidas da arte brasileira contemporânea. Suas pinturas, instalações e esculturas investigam as marcas da colonização, as tensões entre memória, violência e cultura material, e, sobretudo, a pluralidade étnica e cultural das identidades nacionais. Azulejos, mapas, ruínas, arquitetura e a própria história da arte tornam-se matéria-prima de uma produção que desafia narrativas únicas e convida o público a revisitar o passado sob novas perspectivas. Em 2026, esse percurso alcançou mais um marco internacional com sua participação, ao lado de Rosana Paulino, no Pavilhão do Brasil da 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, com a exposição Comigo Ninguém Pode. E vem muito mais pela frente. Ainda neste ano, inaugura uma exposição na Galeria Victoria Miro, na cidade italiana. Em 2027, leva seu trabalho à Gagosian, em Seul, ao Pérez Art Museum, em Miami, e estreia na Bienal de Arquitetura de Veneza. Nesta entrevista, Adriana fala sobre permanência. Permanecer diante de uma obra como um gesto de resistência em um tempo dominado pela velocidade das imagens. Permanecer inquieta diante de novos desafios, expandindo a pintura para a arquitetura, a cerâmica, a cenografia e outros territórios. E permanecer recusando a ideia de uma única narrativa, apostando na arte como um espaço de reinvenção. Entre reflexões sobre processo criativo, espaço expositivo e colaboração, a artista revela por que ainda hoje com todo o reconhecimento nacional e internacional prefere os projetos que a colocam diante do desconhecido – e reafirma sua convicção de que a arte continua sendo capaz de transformar a maneira como enxergamos o mundo.
12
A exposição Comigo Ninguém Pode reúne, pela primeira vez, você e Rosana Paulino sob curadoria de Diane Lima. Como foi construir esse diálogo para um evento tão importante como a Bienal de Arte de Veneza? Teve um significado muito especial. É a exposição de arte mais antiga e mais importante do mundo, um lugar onde a arte contemporânea se confronta com questões centrais do nosso tempo. Esta edição foi especialmente marcante: foi a primeira curada por Koyo Kouoh, uma curadora africana de enorme relevância, que infelizmente faleceu pouco antes da inauguração. Seu pensamento, profundamente ligado às culturas africanas, às tradições, às relações com a terra e às formas de conhecimento historicamente marginalizadas, está muito presente por toda a Bienal. No caso do Brasil, havia ainda outra circunstância importante. O pavilhão acabara de passar por uma recuperação que retomou a espacialidade original do projeto modernista de 1964, devolvendo protagonismo à arquitetura. Isso fez com que a construção da exposição passasse necessariamente por um diálogo muito atento com o edifício. Mais do que um diálogo entre duas artistas, foi uma negociação contínua entre as obras, a arquitetura e a ocupação dos espaços. A exposição foi sendo construída por aproximações sucessivas, em que a proposta de uma provocava uma resposta da outra. As decisões surgiam quase como numa improvisação de jazz, em que cada gesto transformava o conjunto. Qual foi o ponto de partida deste diálogo? Quando a Rosana apresentou Aracnes (1996 – 2026), uma grande instalação em concreto, que desde cedo entendemos que deveria ocupar o espaço central da segunda sala do pavilhão, senti que a minha resposta não deveria competir com aquela presença física tão intensa. Preferi criar uma instalação que a abraçasse: um conjunto de ruínas e vestígios que ocupam as paredes, quase como marcas de uma arquitetura desaparecida. Se Aracnes parte da ideia de ruína como presença – um corpo, um abrigo, uma estrutura que resiste e permanece –, as minhas ruínas trabalham com a ideia da ausência, daquilo que permanece apenas como rastro, como vestígios, como marcas deixadas por algo que já não está ali. As obras construíam uma espécie de contraponto, em que uma parecia completar a outra sem perder sua autonomia.
A exposição Comigo Ninguém Pode, no Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza. As pinturas na viga são de Adriana Varejão; a fachada traz Casulos, de Rosana Paulino. Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo 13
Capa
As obras de Adriana Varejão e Rosana Paulino convidam o público a uma experiência sensível que propõe novas formas de perceber as relações entre natureza, história e espiritualidade. | Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo 14
15
Capa
Detalhe da instalação Still Life amid Ruin (2026), de Adriana Varejão. Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo
O que a figura da comigo-ninguém-pode permitiu elaborar? Diane Lima teve um papel decisivo ao criar um ambiente de absoluta confiança para que esse processo acontecesse. O título Comigo Ninguém Pode oferecia um horizonte comum. A planta, originalmente associada a tradições de matriz africana e hoje incorporada ao imaginário popular brasileiro, sintetiza a ideia de proteção. Esse campo simbólico compartilhado permitiu que nossos trabalhos dialogassem sem apagar suas diferenças. A recepção do pavilhão foi muito emocionante. Houve um reconhecimento muito positivo da crítica e do público, o que mostrou que era possível construir uma exposição em que arquitetura, curadoria e duas poéticas distintas encontrassem uma forma de coexistência, sem disputar protagonismo. 16
Como a arquitetura, a grande viga central do pavilhão, interferiu no processo? A instalação das pinturas na viga nasceu, antes de tudo, da vontade de alterar o gesto do olhar. Quis que o visitante fosse levado a olhar para cima, repetindo um movimento que conhecemos dos espaços sagrados, das igrejas barrocas, onde a pintura se revela no teto e a arquitetura conduz o corpo a essa experiência. Escolhi os anjos porque eles ocupam, no imaginário barroco, um lugar de fronteira. Habitam a passagem entre a arquitetura e a pintura, entre a matéria e a ilusão, entre o terreno e o espiritual. Eles aparecem nas cornijas, nas molduras e nos elementos de transição, mediando diferentes espaços e dimensões. Quando essas imagens passam a ocupar a viga do pavilhão, esse elemento arquitetônico deixa de funcionar apenas
Em destaque, Une petite mort (2005), de Adriana Varejão. Acima, detalhe de Still Life amid Ruin (2026). | Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo
como uma estrutura que organiza ou separa os ambientes. Ele se transforma num lugar de encontro. A própria arquitetura deixa de dividir para reunir, e a pintura passa a fazer parte dela. E de que forma a arquitetura modernista interferiu na construção da exposição? A arquitetura do pavilhão foi determinante desde o início. Não pensei a exposição como um conjunto de obras que simplesmente ocupariam o edifício, mas como algo que deveria dialogar com ele. O modernismo brasileiro sempre buscou uma integração entre arquitetura, arte e espaço, e me interessava retomar essa ideia. Ao mesmo tempo, existe uma tensão muito fértil entre a linguagem racional e depurada da arquitetura modernista e o universo barroco
que atravessa meu trabalho. Gosto de colocar essas duas tradições em contato: de um lado, a clareza das linhas, a luz e o vazio do pavilhão; de outro, a exuberância da matéria, da carne, dos ornamentos e da transformação. Foi justamente a arquitetura que sugeriu muitas decisões da exposição. A ocupação da viga, por exemplo, surgiu porque aquele elemento estrutural parecia pedir uma intervenção que alterasse a percepção do espaço. Em vez de competir com a arquitetura, procurei trabalhar com ela, fazendo com que as pinturas se tornassem quase uma extensão do próprio edifício. Acho que a exposição nasceu dessa negociação constante entre a obra e o espaço, em que a arquitetura deixa de ser um suporte neutro e passa a participar ativamente da construção do sentido.
17
Capa
Existe uma tensão entre denunciar a ferida colonial e ser reconhecida pelo mesmo circuito internacional que historicamente silenciou essas histórias? Não penso no meu trabalho como uma denúncia em sentido estrito. A ferida pode, em alguns momentos, remeter à violência colonial, a uma memória que não cicatriza, a uma nação construída também sobre traumas. Mas ela nunca significa apenas isso. Em outros momentos, pode ser também potência: a revelação de que existe um corpo por trás da imagem, uma pulsão vital que rompe a ordem da superfície. Por trás de uma parede de azulejos geométrica, fria, racional, asséptica, pode existir uma matéria quente, caótica, erótica, voluptuosa. Essa matéria rompe uma estrutura para estabelecer outra. Também não vejo o circuito internacional como um bloco homogêneo. A história é mais complexa do que uma oposição entre centro e periferia. A própria arte sempre circulou, foi apropriada, transformada e reinventada por diferentes culturas. Meu trabalho participa dessa conversa, mas sem abrir mão do lugar de onde fala. Talvez o mais interessante em Veneza seja justamente poder apresentar uma visão do Brasil que escapa aos estereótipos. Não me interessa representar uma identidade fixa ou oferecer uma leitura única da nossa história. A ficção me dá liberdade para construir imagens abertas, capazes de produzir leituras diferentes em contextos distintos. Como começou a trazer a construção do Brasil para a sua arte? Nos anos 1990, comecei a me envolver muito com o barroco brasileiro. Eu percebia o barroco como uma linguagem de persuasão, uma linguagem capaz de construir narrativas, de contar histórias, de produzir imagens de fé, de poder, de sedução. Ao mesmo tempo, o barroco é uma linguagem polifônica, que comporta excessos, contradições e múltiplas camadas. Foi a partir daí que comecei a pensar a construção do Brasil, da identidade nacional e da história
18
oficial como algo também imaginado, fabricado, passível de ser recontado por outros pontos de vista. Me interessava olhar para essa história a partir das margens, criar contágios entre lugares aparentemente distantes, como a Ásia e a América, e bagunçar um pouco a narrativa oficial. Acho que a arte faz isso: ela muda o lugar das coisas. Ela não precisa ser literal para tocar em questões históricas profundas. O Brasil mudou muito desde que você começou a produzir. O seu olhar sobre o país também mudou? Muitas vozes que estavam silenciadas nos anos 1980 e 1990 passaram a ocupar um lugar de maior protagonismo, sobretudo a partir dos anos 2010 e, de maneira ainda mais evidente, nos anos 2020. O país se tornou, nesse sentido, mais inclusivo e mais atento às narrativas que antes ficavam à margem. Meu olhar também mudou, naturalmente. Mas talvez o que permaneça seja essa vontade de não aceitar uma história única. Continuo interessada em pensar o Brasil como um território de reinvenção. O seu trabalho é frequentemente associado a um intenso processo de investigação. Como você organiza pesquisa e intuição? Existe um aspecto quase conceitual que me leva a pesquisar. Gosto de percorrer arquivos, bibliotecas, iconografias e imagens da história da arte, da ciência, da arqueologia ou da cultura popular. Mas essa pesquisa nunca é um fim em si mesma. Ela funciona como um repertório, um reservatório de imagens que, mais tarde, serão combinadas de maneiras inesperadas. A pintura é o filtro através do qual tudo isso passa. É ela que estabelece relações entre imagens que originalmente não pertenciam ao mesmo universo. Nesse sentido, a pesquisa e a intuição não são etapas separadas, mas processos que acontecem ao mesmo tempo.
habitat
Monocromo maragogipinh (2025), de Adriana Varejão. Óleo e gesso sobre tela. | Foto: Vicente de Mello
habitat
19
Capa
Detalhe da instalação de Adriana Varejão na exposição Comigo Ninguém Pode. Com a pintura na viga, o visitante é levado a olhar para cima. | Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo
Em um tempo marcado por excesso de estímulos visuais, o que uma obra de arte oferece que outras imagens não oferecem? Vivemos cercados por um fluxo incessante de imagens que são consumidas quase instantaneamente. A obra de arte oferece outra temporalidade. Ela pede permanência. Não entrega tudo de uma vez, nem se esgota no primeiro olhar. É justamente esse tempo mais lento da experiência que me interessa. Permanecer diante de uma obra de arte, hoje, é quase um gesto de resistência. Resistência à velocidade, ao consumo contínuo de imagens e à expectativa de que tudo seja imediatamente compreendido. A pintura, por exemplo, exige um tempo de convivência. Ela vai revelando suas camadas à medida que o olhar permanece. Não vejo uma separação entre experiência estética e pensamento. O pensamento nasce justamente dessa experiência sensível. Não acredito que a arte mude o mundo de forma direta, mas acredito profundamente na sua capacidade de transformar a maneira como vemos o mundo. E, quando o olhar muda, alguma coisa também se desloca em nós.
20
Você acredita que a tecnologia amplia as possibilidades da criação artística ou que ela traz desafios para a construção de uma linguagem autoral? Toda nova tecnologia amplia as possibilidades da arte. Foi assim com a fotografia, com o cinema, com o vídeo, com a internet, e agora com a inteligência artificial. Acho muito difícil imaginar que a arte possa se desenvolver recusando essas transformações. Ao mesmo tempo, nenhuma tecnologia produz uma linguagem por si só. O que distingue uma obra não é a ferramenta utilizada, mas a maneira como ela reorganiza nossa percepção. A tecnologia pode facilitar processos, acelerar procedimentos ou abrir novos campos de experimentação, mas ela não substitui a imaginação, o repertório ou a sensibilidade. Há alguma tecnologia que desperte particularmente a sua curiosidade como artista? Tenho curiosidade por essas novas ferramentas, inclusive pela inteligência artificial, sobretudo porque ela nos obriga a repensar questões como autoria, originalidade e
habitat
a própria circulação das imagens. São temas que, de certa forma, já estavam presentes no meu trabalho muito antes da IA, através da apropriação de imagens da história da arte e da construção de novas narrativas a partir delas. Mas continuo acreditando que a experiência física da obra permanece insubstituível. A escala, a matéria, a textura, a presença do corpo diante da pintura são dimensões que nenhuma reprodução consegue substituir. Talvez, justamente porque vivemos num universo cada vez mais digital, essa experiência material se torne ainda mais fundamental. Como é um dia comum na sua vida? Minha vida é bastante disciplinada e, ao mesmo tempo, muito simples. Gosto de acordar cedo, tomar café com calma e ir para o ateliê. É lá que passo a maior parte do dia. Quando não estou pintando, estou pesquisando, lendo, olhando imagens, conversando com a equipe ou acompanhando a produção das obras. Pintar é apenas uma parte do trabalho. Existe muito tempo dedicado
à observação, à reflexão e à resolução de problemas práticos que surgem durante o processo. Também gosto de caminhar, fazer exercícios e reservar momentos para estar com minha família e meus amigos. Essas pausas são importantes porque muitas vezes as ideias aparecem justamente quando estou longe da pintura. Acho que meu cotidiano não é muito diferente do de qualquer pessoa apaixonada pelo que faz. O trabalho e a vida acabam se misturando. Não existe um momento em que eu deixo de ser artista. Mesmo quando viajo, leio um livro ou entro num museu, continuo observando o mundo com a mesma curiosidade. A arte, para mim, não é uma profissão que começa e termina num determinado horário. É uma maneira de estar no mundo.
habitat
21
Capa
Quais artistas têm despertado seu interesse atualmente? Procuro acompanhar muito de perto o que está acontecendo nas artes visuais, tanto no Brasil quanto fora dele. Tenho muita curiosidade pela produção dos artistas mais jovens e visito muitas exposições. Também coleciono obras de outros artistas, então esse contato faz parte do meu cotidiano. Recentemente, fiquei muito impressionada com a retrospectiva do Rubem Valentim no MAM Rio. Rever um conjunto tão amplo da obra dele me fez perceber ainda mais a potência da linguagem visual que ele construiu, capaz de transformar referências afro-brasileiras numa linguagem absolutamente singular e universal. No ano passado, também mergulhei profundamente na obra da Paula Rego, quando fui uma curadora da exposição que fizemos juntas em Lisboa, no Centro de Arte Moderna Gulbenkian. Foi uma oportunidade rara de conviver intensamente com o universo da Paula Rego. Mais recentemente, outra artista que passei a olhar com muito mais atenção foi Tomie Ohtake. É impressionante como sua pintura consegue ser, ao mesmo tempo, rigorosa e extremamente sensível. E escritores, cineastas e pensadores? Na literatura, costumo ler mais ensaios do que ficção. Tenho acompanhado autores como Donna Haraway e Byung-Chul Han, porque gosto de pensar a arte em diálogo com questões filosóficas e contemporâneas. O cinema sempre foi uma referência fundamental para mim. Na verdade, ele foi parte importante da minha formação, já que não tive uma formação acadêmica em artes visuais. Aprendi muito observando a construção das imagens, a direção de arte e a narrativa de cineastas como Peter Greenaway e David Cronenberg, que continuam sendo referências importantes. Mais recentemente, tenho acompanhado com muito entusiasmo o cinema brasileiro, especialmente a produção do Nordeste, com diretores como Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro. No fundo, tento manter a curiosidade sempre ativa. Gosto de olhar para artistas muito diferentes entre si, porque muitas vezes as conexões mais inesperadas acabam produzindo as ideias mais interessantes.
22
O que te desafia? O que mais me desafia são os novos projetos. Cada exposição me coloca diante de um problema diferente, e é justamente isso que me interessa. O espaço costuma ser o primeiro desafio. Gosto de trabalhar em lugares que escapam do cubo branco tradicional, porque eles exigem que a obra dialogue com a arquitetura. Não penso o espaço apenas como um suporte para a pintura, mas como um elemento ativo, que participa da construção do trabalho. Também me interessa a bagagem cultural de cada lugar. Cada contexto traz uma história, uma memória e uma arquitetura simbólica próprias, e tudo isso acaba entrando no processo de criação. Ao longo da minha carreira, sempre aceitei desafios que me levaram para além do ateliê. Fiz a cenografia de Idomeneo, de Mozart, e de Erwartung, de Schoenberg. Foram experiências que me obrigaram a pensar a pintura em relação ao espaço, ao corpo, à música, ao tempo e ao movimento. Gosto quando um projeto me coloca diante de uma linguagem que ainda não domino completamente. É por isso que hoje também me interessa desenvolver trabalhos ligados à arquitetura, à cerâmica e aos azulejos. Isso significa trabalhar em oficinas, aprender outros processos, colaborar com profissionais de diferentes áreas e ampliar o campo da pintura. Acho que é justamente quando me coloco numa situação em que não tenho todas as respostas que o trabalho cresce. O que você espera provocar em quem encontra uma obra sua? Essa pergunta parte da ideia de que o artista controla os efeitos da obra, e eu não acredito nisso. A obra nasce de uma intuição, e aquilo que ela desperta em cada pessoa é imprevisível. É justamente essa diversidade de interpretações que me interessa. Uma obra continua viva porque ela permanece aberta a produzir novas leituras. Se existe uma coisa que eu gostaria de provocar, é apenas um gesto muito simples: que a pessoa permaneça um pouco mais diante da obra. Num mundo em que as imagens passam por nós numa velocidade enorme, esse tempo de permanência é quase uma forma de resistência. A obra interrompe, ainda que por um instante, esse fluxo contínuo e nos convida a outra experiência do tempo. Espero também que ela continue reverberando. Às vezes, isso nem acontece no momento em que nos encontramos diante da obra. A imagem permanece na memória e volta dias, meses ou anos depois, produzindo novas associações. Acho que é aí que a arte revela uma parte importante da sua potência, pois ela continua trabalhando dentro de nós por muito tempo.
habitat
Detalhe da obra Paisagem Canibal, de Adriana Varejão, que está nesta Bienal de Veneza. Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo
habitat
23
Capa
Azulejaria Verde em Carne Viva (2000), uma das obras mais emblemáticas de Adriana Varejão. Foto: Eduardo Ortega
Quando olha para trás, do que mais se orgulha? Não penso tanto nas exposições ou nos reconhecimentos. O que mais me dá satisfação é perceber que consegui construir uma linguagem própria ao longo de muitos anos de trabalho. Acho bonito olhar para uma obra feita há trinta ou quarenta anos e ainda reconhecer nela questões que continuam presentes hoje, embora tenham se transformado. Nos últimos anos, também comecei a sentir um prazer muito grande em acompanhar a trajetória de outros artistas. Como colecionadora e como alguém que conversa e apoia artistas mais jovens, às vezes posso oferecer alguma orientação ou compartilhar experiências sobre a profissão. Quando vejo alguns deles desenvolvendo carreiras sólidas, penso que talvez, em algum momento, eu tenha contribuído para que não desistissem. Isso me dá uma alegria enorme. Também me orgulho de participar de iniciativas que fortalecem o campo da arte para além do meu próprio trabalho. Há muitos anos tenho colaborado com projetos que ajudam instituições culturais e sociais, como
24
o Arte para Arte, idealizado junto com meu marido, Pedro Buarque de Hollanda, e parceiros. Acho importante entender que uma trajetória artística também pode contribuir para criar oportunidades e fortalecer uma rede mais ampla. Talvez, no fim das contas, seja disso que eu mais me orgulho: de ter construído uma obra, mas também de poder participar de uma comunidade de artistas, instituições e pessoas que acreditam que a arte transforma a maneira como vemos o mundo. O que vem pela frente? E o que deseja que venha? Mais do que a sequência de compromissos, o que me interessa é que cada projeto me coloque diante de um desafio novo. Desejo continuar aprendendo, trabalhando em diálogo com outros campos, como a arquitetura, a cerâmica e com outros artistas e pensadores. Desejo continuar sendo surpreendida pelo trabalho. Continuar encontrando perguntas que eu ainda não sei responder.
habitat
Anjo encarnado (2026), obra de Adriana Varejão. Óleo e gesso sobre tela. | Foto: Vicente de Mello
habitat
25
ARQUITETURA
NADA MAIS FINO Depois de três anos de restauro, o Delano Miami Beach redescobre sua essência Art Déco e reafirma seu lugar de um dos hotéis mais influentes do mundo. Por Tansy Kaschak
28
habitat
P
ara quem conheceu o Delano entre os anos 1990 e 2000, cruzar o reaberto lobby revela detalhes nunca vistos antes. O piso de terrazzo, o logotipo no chão dando as boas-vindas, as colunas hexagonais e a ponte suspensa que liga os dois lados do mezanino no saguão não estavam lá quando Ian Schrager e Philippe Starck relançaram, em 1995, o que viria a ser um dos hotéis mais icônicos já construídos. Redesenhar o Delano, naquele momento, significava criar uma linguagem inteiramente nova. Hoje, porém, esses elementos do projeto de 1947 voltam a fazer parte do edifício. Reconstruí-los significou
aceitar que esse vocabulário original nunca deveria ter sido apagado. O Delano Miami Beach reabriu em 6 de junho de 2026, seis anos depois de fechar as portas, dos quais três foram de reforma e restauro, que custaram cerca de cem milhões de dólares, executados sob a minuciosa vigilância de duas instâncias de preservação histórica. Repensar hotéis carregados de memória não é uma novidade, mas o que distingue o Delano é que ele encarna dois patrimônios: a arquitetura Art Déco, que South Beach correu o risco de perder, e o que significa ser um hotel de luxo hoje.
O slogan original do Delano, Nothing Finer, soava como publicidade de outra era. Talvez fosse apenas isso, até ele ser reapresentado, quase 80 anos depois, no nome da nova loja-conceito dentro do próprio hotel. Reviver o slogan não é apenas nostalgia. É, sobretudo, uma declaração de intenções: a ideia de que nada é mais fino do que saber o que preservar e, ao mesmo tempo, saber para onde evoluir.
As coberturas em ziggurat do Delano e seus vizinhos, entre as palmeiras da Collins Avenue: estruturas de níveis escalonados que se estreitam em direção ao topo, motivo emprestado dos templos da Mesopotâmia antiga e adotado pelo Art Déco americano como símbolo de verticalidade e modernidade. | Foto: Robert Rieger
habitat
29
Arquitetura
O restauro, conduzido pelo estúdio de arquitetura Elastic Architects, trouxe de volta elementos como as colunas hexagonais e o piso de terrazzo colorido, exigências do Conselho de Preservação Histórica de Miami Beach e a própria Miami Design Preservation League (MDPL). Em outro contexto, imposições e restrições históricas soariam como limitação criativa. Aqui, tornou-se o próprio argumento do projeto. | Foto: Robert Rieger
A CIDADE QUE QUASE PERDEU A PRÓPRIA HISTÓRIA O resgate dos detalhes originais da arquitetura do Delano oferece uma lente pela qual olhar para a história do bairro que o cerca. Entre 1900 e 1920, a população de Miami cresceu 440%, e o capital que ali chegou nesses anos ergueu não apenas o Delano, mas também a maioria dos mais de 800 edifícios hoje tombados em South Beach. Esse boom imobiliário começou a colapsar em 1926, primeiro por gargalos no transporte, depois pelo grande furacão que atingiu a cidade naquele ano e, por fim, pela Grande Depressão. Por décadas, esse patrimônio permaneceu de pé sem que ninguém o reconhecesse como tal.
30
Nos anos 1970 e 1980, o distrito Art Déco estava, na prática, condenado a se tornar mais um trecho de torres genéricas de concreto, repetindo o destino de tantas orlas americanas daquele período. Coube à ativista Barbara Baer Capitman impedir esse desfecho. Em 1976, ela fundou a Miami Design Preservation League (MDPL) e liderou, literalmente, uma resistência corpo a corpo contra os tratores. Nem todas as batalhas foram vencidas, mas, em 1979, o conjunto arquitetônico entrou para o Registro Nacional de Lugares Históricos dos Estados Unidos, o ponto de inflexão que transformou South Beach de bairro decadente em ativo cultural da cidade.
habitat
A arte segue a mesma lógica de continuidade, ainda que ampliada. A Leda Chair, de Salvador Dalí, e a Calvet Chair, de Antoni Gaudí, dividem espaço com o piano de lucite de Kravitz e com lustres de vidro Murano da série Narciso: peças que já pertenciam à história do Delano, agora reencaixadas num programa artístico mais amplo. | Foto: Robert Rieger
O piano de lucite, hoje no lobby à luz do dia, viveu antes no subsolo, no Florida Room, a boate que definiu as noites do Delano no início dos anos 2000. Foram nas noites badaladas, mais do que em qualquer elemento de design, que nasceu o mito do hotel e ninguém entendia esse mecanismo melhor do que Ian Schrager, o mesmo homem que, quase duas décadas antes, co-fundara o lendário Studio 54 em Nova York. | Foto: Robert Rieger
habitat
31
Arquitetura
O HOTEL QUE REINVENTOU A HOTELARIA O Delano nasceu em 1947, projetado por B. Robert Swartburg, arquiteto nascido na Romênia e radicado nos Estados Unidos. Erguido na Collins Avenue, 1.685, é um exemplar tardio do Art Déco que já antecipava o que, décadas depois, se chamaria MiMo, o Miami Modern: um estilo do pós-guerra que levava adiante, em formas mais esculturais, a mesma linguagem. A primeira reedição veio em 1995, pelas mãos do empreendedor nova-iorquino Ian Schrager e de Philippe Starck, o celebrado designer francês que, desde os anos 1980, transformou hotéis, restaurantes e até objetos domésticos em ícones do design mundial, sempre com uma mistura de humor e teatralidade. Juntos, eles aplicaram, pela primeira vez a um resort de praia, o conceito de hotelboutique que o próprio Schrager criara onze anos antes, com o Morgans Hotel, em Nova York: um espaço em que arquitetura, design, hospitalidade, cultura e o universo da noite passam a falar uma única língua. O mito do Delano se forjou tanto nas noites efervescentes quanto na cenografia de Starck: cortinas brancas monumentais, mobiliário escultural, uma luz âmbar que transformava o saguão em cenário de um filme que ainda não existia. Peças daquele projeto original, como mesas laterais e consoles de mármore, ainda circulam hoje em leilões de design, prova de que aquele imaginário nunca deixou de ter valor. Na Miami Beach do fim dos anos 1990 e início dos 2000, cultura era, em larga escala, sinônimo de noites vividas até o sol raiar. A cidade ainda não tinha a infraestrutura de museus, galerias, feiras e instituições que viria a definir sua identidade mais tarde. O que havia era o tipo de endereço em que Madonna aparecia sem aviso prévio. Madonna era, aliás, sócia do próprio Blue Door, o restaurante do hotel, onde Claude Troisgros, o mais brasileiro de todos os chefs franceses, assinava um cardápio de fusão latina com forte influência da nossa cozinha. Ali, a piscina se transformava, depois da meia-noite, em um grande palco social, e ser visto naquele endereço já constituía, por si, uma forma de status. Schrager conduziria a propriedade pelos 25 anos seguintes. O hotelier inglês Ben Pundole esteve ao seu lado desde o início dos anos 2000, como seu colaborador mais próximo. Em 2007, Pundole convidou Lenny Kravitz para conceber o Florida Room, a boate instalada no subsolo do hotel. O piano Baby Grand em lucite que Kravitz escolheu para aquele espaço permaneceu ali por anos. Hoje, depois da reforma, esse mesmo piano está no lobby, à luz do dia: um deslocamento físico que resume uma mudança de era: da boate ao hotel-galeria, do exclusivo subterrâneo ao acessível térreo, da noite ao dia. 32
Em 2025, Pundole retornou ao Delano como Chief Brand Officer global da marca, hoje parte do extenso portfólio do grupo Ennismore, presente em Paris e Dubai, e com expansão já confirmada para Nova York, Londres, Istambul, Marrakech e a região da Apúlia, na Itália. Sob sua direção, o Delano inicia agora um novo capítulo: não mais definido pela vida noturna que o consagrou, mas por uma ideia mais ampla de bem-estar e convívio, que ganha forma nos espaços que o hotel inaugura em 2026.
habitat
O hotel também guardou, voluntariamente, outros gestos de memória. Na célebre piscina, permanece o mesmo conjunto de mesa de metal e duas cadeiras da era Schrager, uma homenagem discreta ao homem que criou o mito do Delano em 1995, num edifício que, de resto, mudou quase tudo à sua volta. | Foto: Kris Tamburello
“Miami era uma cidade emergente, muito diferente da de hoje. Em South Beach se tinha uma sensação de descoberta e liberdade. A cena fashion de Nova York, a comunidade gay, celebridades e frequentadores latinos adotaram o Delano como seu. Isso foi antes das redes sociais, então as pessoas se comportavam com menos cautela. Era bagunçado, barulhento, colorido e sempre havia algo memorável acontecendo”. Ben Pundole, Chief Brand Officer do Delano
habitat
33
Arquitetura
Um dos 171 quartos do Delano, com o mesmo branco luminoso que Philippe Starck consagrou em 1995. O hotel de Schrager e Starck tinha cerca de vinte quartos a mais: uma diferença que virou espaço para o recém-criado Delano Members Club. Foto: Robert Rieger
A APOSTA MAIS CONTEMPORÂNEA DA HOTELARIA Duas adições, porém, não existiam em nenhuma encarnação anterior do Delano e são elas que melhor explicam por que este projeto importa além de Miami Beach. The Source é um conceito de bem-estar organizado em torno de uma sauna para 22 pessoas, pensado tanto como ritual social quanto terapêutico. O Delano Members Club reúne uma comunidade de Miami e do mundo interessada em arte, cultura e convívio que não se restringe à vida noturna, ao menos não da forma como o Florida Room a entendia nos anos 2000. “Alguns dos nossos membros usam a piscina ou a praia, outros entram pelo networking, outros pela programação cultural exclusiva que pode incluir, num mesmo mês, um supper club, uma visita guiada ao Bass 34
Museum ou ao Institute of Contemporary Art (ICA), workshops de Human Design, ioga e pilates. Experiências fora do hotel também estão a caminho: viagens à Semana de Arte da Cidade do México, um fim de semana em Cuba, uma vivência com cavalos no Equador”, conta Pundole. Esse movimento já impulsiona a hotelaria de luxo em escala global. Grupos hoteleiros que antes estavam na corrida para ver quem tinha a boate mais cobiçada hoje competem por quem atrai o público mais interessante. O fenômeno chega aos projetos residenciais: incorporadoras como a Aman, com suas Aman Residences, ou a Six Senses, com investimentos organizados inteiramente em torno de bem-estar, tratam hoje spa, curadoria cultural e clube de
habitat
A nova piscina no terraço do quarto andar, área reservada aos hóspedes do hotel e membros do Delano Members Club. Foto: Robert Rieger
membros como amenidades tão centrais a um empreendimento imobiliário de alto padrão quanto a vista para o mar já foi um dia. O Delano não reabre isolado e o próprio bairro é evidência de que essa virada é mais ampla do que uma decisão de marca. O Shelborne, edifício de 1941, reabriu em maio de 2026 como Shelborne by Proper, após outro restauro beirando os cem milhões de dólares. O edifício original foi assinado por Igor Polevitzky, um dos pioneiros do modernismo tropical que antecedeu o MiMo, e ampliado em 1958 por Morris Lapidus, o arquiteto do hotel Fontainebleau e a figura mais associada ao glamour hoteleiro de Miami Beach.
A marca argentina Faena, que tem forte presença em Miami, continua a se estender por múltiplos endereços de hospitalidade e cultura; a Auberge chega ao novo Shore Club; o Aman prepara seu próprio projeto em Miami Beach; e o histórico Raleigh, fechado desde 2017 por desafios entre construir o novo enquanto preserva o histórico, segue o mesmo caminho rumo a uma reabertura anunciada como Rosewood The Raleigh Miami Beach. Cada um, à sua maneira, segue a mesma equação: patrimônio arquitetônico mais comunidade mais protagonismo cultural.
habitat
35
Arquitetura
O restaurante japonês Mimi Kakushi, projetado pelo Elastic Architects em parceria com o escritório de arquitetura londrino Pirajean Lees, é ambientado numa Osaka imaginária dos anos 1920. Seus coquetéis homenageiam o astro do cinema mudo Sessue Hayakawa; o acesso é reservado a hóspedes do hotel e membros do clube. | Foto: Robert Rieger
No Rose Bar, os painéis vermelhos retro iluminados e o mármore Rosso Lepanto, pedra italiana de tom avermelhado profundo, remetem aos bares Art Déco dos anos 1930, quando o vidro colorido e a pedra lustrosa eram sinônimos de sofisticação urbana. A mesma maneira de se usar os materiais que já definia o Delano quando o hotel nasceu, em 1947. | Foto: Robert Rieger 36
habitat
Os quiosques listrados de laranja e branco, na praia do Delano, repetem um código visual de clube de praia que remonta às primeiras décadas do turismo em Miami Beach. Um detalhe atualiza a cena: um painel solar discreto embutido no telhado, prova de que até o gesto mais nostálgico do hotel carrega, hoje, uma lógica contemporânea. | Foto: Robert Rieger
habitat
37
Arquitetura
Ben Pundole em frente à peça de neon do artista italiano Pietro Terzini. A campanha de pré-abertura do Delano, batizada Great Loves Always Come Back (grandes amores sempre voltam), traduziu essa ideia numa série de filmes pensados como uma carta de amor a Miami. | Foto: Steven Rojas
O VALOR DA AURA O filósofo alemão Walter Benjamin escreveu, em 1935, que toda reprodução técnica de uma obra a priva de algo insubstituível: sua presença única, ali, naquele instante específico – o que ele chamou de aura. O restauro do Delano propõe essa questão: o hotel que reabriu em junho é o mesmo objeto de 1947 ou é sua reconstituição mais bem-sucedida? Talvez a pergunta certa seja outra. Em 1995, a aura do Delano vinha da noite: da certeza de que ali algo estava sempre prestes a acontecer, mesmo que ninguém soubesse exatamente o quê. Em 2026, essa aura vem de outro lugar: de se pôr o bem-estar ao centro de tudo, de um clube que convoca artistas e curadores em vez de celebridades, da decisão de expor talentos contemporâneos como Edouard Duval-Carrié e Cornelius Tulloch ao lado de Dalí e Gaudí, como se todos pertencessem, igualmente, à mesma época.
38
O luxo mais desejável hoje já não é o excesso: é o convívio. Já não é ser visto: é pertencer. “E o Delano pertence a Miami”, resume Pundole. “Mudou a paisagem social da cidade em 1947, de novo em 1995 e agora mais uma vez em 2026”. O Delano não atravessou eras por acaso, mas porque decidiu, com a mesma precisão com que restaurou cada coluna hexagonal, que a próxima aura do hotel viria de outro tipo de presença: a de uma comunidade, não a de uma multidão. Talvez seja essa, afinal, a versão mais honesta do próprio slogan do Delano: nada mais fino do que preservar o que já foi conquistado, evoluindo, ao mesmo tempo, para uma razão de existir que faz sentido no presente e aponta na direção para onde o mundo pode caminhar.
habitat
A curadoria da coleção de arte do Delano Miami Beach é da artista e historiadora social Nicola Green, que trouxe para dentro do hotel uma nova geração de artistas radicados em Miami, entre eles Edouard Duval-Carrié, Natalie Galindo, Cornelius Tulloch e Alejandra Aristizabal. É uma escolha que devolve o Delano à cidade não só como um hotel, mas como um pilar importante da cena de arte que Miami vem construindo há décadas. Na foto, destaque para a obra Red vs Blue Skirmish, de Carrié. | Foto: Steven Rojas
habitat
39
ARQUITETURA
50 ANOS DESENHANDO FUTUROS:
A ARQUITETURA INQUIETA DE RICARDO AMARAL O olhar, a trajetória e os projetos do arquiteto que construiu uma carreira transitando entre as diferentes áreas da arquitetura.
A
“
queles que resolvem problemas de modo mais bem-sucedido despendem energia mental descobrindo que tipo de problema estão enfrentando antes de criar uma estratégia para atacá-lo, ao invés de passar direto para os procedimentos memorizados”, escreve o autor David Epstein, em sua obra Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas. Com 70 anos de vida e 50 de carreira, o arquiteto Ricardo Amaral foge à regra daqueles que optaram pela especialização. A curiosidade o levou a transitar entre incorporação, arquitetura de interiores, empreendimentos para o setor público e privado e edifícios residenciais
40
e comerciais, assinando mais de 48 milhões de m² em projetos de arquitetura, obras gerenciadas, fiscalizadas e incorporação. “Ter uma visão abrangente foi um reflexo do meu primeiro emprego antes de me formar. Fui office boy de uma empresa de engenharia e entendi a necessidade da proximidade com a arquitetura. Desde então, o desejo era ter essa perspectiva nos projetos, compreendendo seu impacto para a sociedade”, explica Amaral. A Ricardo Amaral Arquitetos Associados foi fundada em 1976, antes de sua formatura em Arquitetura e Urbanismo, em 1981.
habitat
O arquiteto Ricardo Amaral comemora os 50 anos de profissão. Foto: Guilherme Pupo
habitat
41
Arquitetura
Arquitetura para a longevidade foi um dos conceitos usados no desenvolvimento do BIOOS Home & Health, projetado para o público 60+.
DA RÉGUA T À IA: A EVOLUÇÃO DO FAZER E A BUSCA POR RESOLVER PROBLEMAS Ao revisitar cinco décadas de profissão, é de esperar que o nosso olhar recaia mais sobre as mudanças tecnológicas, especialmente no tema arquitetura, conectado à engenharia, à arte e à sociedade. “As coisas mudaram sensivelmente nesse período. Saímos da régua T, caneta nanquim e esquadro, passamos por CAD, AutoCAD e BIM até chegar à inteligência artificial”, rememora. As novas ferramentas são apenas um apoio aos profissionais. “Nós nos apropriamos da tecnologia disponível, como a IA. Ela amplia possibilidades de análise, acelera processos e apoia a criação, mas não substitui a capacidade humana de interpretar problemas e propor soluções”, diz. A inovação nem sempre está apenas no projeto, mas na interpretação que se faz do mundo. Um desses exemplos é o BIOOS Home & Health, em42
preendimento da Construtora Laguna. Voltado ao público 60+, o empreendimento enfrenta uma nova lógica social do país. Em 1980, a população brasileira com mais de 65 anos representava 4% do total. Atualmente, são 11,2%. “Foram muitos estudos para definir o conceito do projeto. Partimos das necessidades do público. É uma população historicamente pouco atendida pelo mercado imobiliário e pelos setores de saúde e serviços”, explica. Lançado neste ano, o empreendimento, que foi premiado na categoria Arquitetura e Cidades pelo Design for a Better World Award 2025 (DFBWAward), engloba torre residencial e comercial em prol de uma nova demanda do país: a arquitetura para a longevidade. Os espaços foram projetados com soluções arquitetônicas para reduzir o risco de acidentes e automação residencial integrada ao design.
habitat
INTERPRETANDO O MUNDO A SEU MODO Identificar como a sociedade se move é um dos papéis da arquitetura. Ao seguir nesta direção, Amaral esteve envolvido em outra grande iniciativa que atende as necessidades de uma comunidade. Trata-se da Fábrica de Ideias – Innovation Hub, que vai transformar a antiga cervejaria Brahma, no Rebouças, em Curitiba, em um espaço de tecnologia, cultura e inovação. O projeto foi reconhecido internacionalmente no Global Design & Architecture Design Awards 2025, conquistando o 1° lugar na categoria Edifício Público e a 2a posição na categoria Institucional. “Apesar de sua proximidade com o Centro, o Rebouças nunca evoluiu porque várias indús-
trias precisavam ser retrofitadas. Queremos que o projeto torne o bairro mais pujante, porque reúne as necessidades da comunidade”, diz. Por vezes, a inovação envolve outros atributos, como a sustentabilidade, caso do alargamento da orla de Itapoá (SC), que adotou o inédito processo de reaproveitar a areia dragada do canal de acesso portuário local. A medida combina eficiência e inteligência logística, reduzindo o impacto ambiental e evitando o desperdício de recursos, o que deve colocar a cidade catarinense como um dos projetos de referência em alargamento de praias.
Antiga cervejaria do Rebouças será transformada em espaço de tecnologia, inovação e cultura.
habitat
43
Arquitetura
A BUSCA PELO DOMÍNIO TOTAL Uma das visões que Ricardo Amaral carrega é a de dominar o projeto em todas as suas frentes. O conceito, os estudos e o plano por trás de uma ideia precisam ser claros, mas esse quebra-cabeça só se fecha ao entender os custos e a execução. Por isso, a atuação do profissional é transversal a três frentes: a Ricardo Amaral Arquitetos Associados, a gerenciadora de obras Geplan (fundada em 1997 e hoje entre as 7 maiores empresas de gerenciamento e consultoria de engenharia do Sul do Brasil) e a incorporadora RA
Empreendimentos, concluindo este ciclo de arquitetura, engenharia e gestão. “Sempre quis montar esse ecossistema que não fosse apenas papel, mas estivesse dentro do canteiro de obras. Isso facilita a nossa visão para acompanhar a execução e ter um crescimento global em arquitetura e engenharia”. A experiência contribui para isso, inclusive na elaboração de propostas de larga escala, que variam de hospitais, escolas e complexos esportivos e hotéis a planos diretores. “Meu melhor projeto é o que estou fazendo agora”, diz.
Ricardo Amaral: a busca contínua por uma arquitetura que encontra soluções para problemas técnicos e sociais. Foto: Guilherme Pupo
44
habitat
Projeto EVO busca trazer novamente o protagonismo da mobilidade urbana para o BRT e devolver o espaço das canaletas à cidade por meio de parques lineares.
PROVOCAÇÕES E O OLHAR PARA O FUTURO A inquietude leva Amaral a fazer provocações, especialmente para alguém nascido em Curitiba e que acompanhou de perto a revolução que colocou a cidade na vanguarda do urbanismo. Ao ver o sistema BRT agonizando, o arquiteto desenvolveu o projeto EVO – A Evolução da Paisagem Urbana e do Transporte Público em Curitiba, que visa enterrar parte deste eixo estrutural de transporte e devolver as canaletas às pessoas em parques lineares voltados ao lazer, convivência e prática esportiva. “A proposta é simples na essência, mas muito potente no impacto: levar o transporte para o subterrâneo e devolver a superfície para as pessoas. As canaletas estão desconectadas da paisagem urbana, se tornaram um ambiente muito árido. Curitiba já teve dezenas de propostas de metrô, mas o foco de mobilidade deve ser evoluir o BRT”, diz, explicando o conceito por trás do projeto, que recebeu o 1o lugar na premiação Curitiba Mais Criativa e menção honrosa da Assembleia Legislativa.
Amaral espera que ideias como o EVO sejam cada vez mais comuns no país. Para fomentar estas iniciativas, o arquiteto prepara neste ano o lançamento de um instituto voltado à facilitação e à elaboração de projetos, atendendo gratuitamente a municípios de menor porte e a comunidades carentes, público que normalmente fica em segundo plano. Cinco décadas depois de fundar sua empresa, Ricardo Amaral continua olhando para a arquitetura da mesma forma que no início de sua carreira: como uma ferramenta capaz de interpretar transformações sociais e antecipar soluções para cidades, edifícios e pessoas. Uma inquietude que mantém suas obras atuais.
habitat
45
ARQUITETURA
OCUPAR RUAS, TRANSFORMAR CIDADES Mais do que responder aos problemas, sugerir perguntas que instiguem a transformação dos espaços públicos. Essa foi a premissa do Concéntrico 2026, que aconteceu em junho, na Espanha, um evento que envolveu profissionais de diversos países do mundo convidados a pensar a arquitetura, o design e a arte contemporânea.
L
ogroño, capital de La Rioja, é uma cidade de aproximadamente 150 mil habitantes, no norte da Espanha, de estreitas e charmosas ruas, testemunhas de sua história milenar. Neste local – que faz parte do Caminho de Santiago de Compostela e que está na região dos mais famosos vinhos espanhóis –, há doze anos acontece o Concéntrico, um verdadeiro laboratório de inovação urbana. A proposta é apresentar projetos que ultrapassem discursos e tenham possibilidades práticas de implementação. O fundador da iniciativa, Javier Peña Ibáñez, acredita
48
que isso só acontece quando os cidadãos, literalmente, vão para as ruas. “O espaço público é onde encontramos os outros, no qual a vida coletiva se torna visível e podemos imaginar diferentes formas de viver juntos”, disse em entrevista à Habitat. “As cidades não são definidas apenas pelos seus edifícios, mas pelas relações que se estabelecem entre eles. O Concéntrico convida as pessoas a redescobrir ruas, praças, parques, jardins e espaços do cotidiano através da experiência direta, tornando a própria cidade um lugar de aprendizagem e reflexão”.
habitat
Um dos principais pontos turísticos de Logroño também fez parte do Concéntrico. La Serrana de San Bernabé foi uma intervenção, realizada pelo estúdio da arquiteta italiana Matilde Cassani, que misturou identidade e ficção. O Arco de São Bernabé, que simboliza a porta histórica da cidade, foi “vestido” com uma saia inspirada na tradicional vestimenta vermelha com adornos pretos utilizada pelas dançarinas da Rioja. Durante o dia, recolhe-se a instalação; à noite, desdobra-se por completo transformando-a em um ornamento urbano. | Foto: Divulgação Concéntrico
habitat
49
Arquitetura
Na Plaza del Mercado, uma duna de areia se formou, delimitada por um muro baixo que lembra o formato das antigas fortificações de Logroño. Durante uma semana, a praça se transformou em um parque infantil – uma praia de areia aberta a todos. A proposta surgiu da colaboração entre o escritório belga CENTRAL e o fotógrafo Maxime Delvaux. Foto: Josema Cutillas.
A edição de 2026 reuniu projetos que exploraram novas relações entre arquitetura, clima, território, memória, som e formas contemporâneas de coexistência, por meio de arquiteturas efêmeras, pavilhões climáticos, jardins coletivos, dispositivos sonoros, rituais públicos e estruturas de encontro. Isso tudo distribuído por toda a cidade a partir de três eixos temáticos: Identidade e Ficção explorou a narrativa e as representações do espaço urbano com projetos que tratam a arquitetura como interpretação de um território; Ecologias Urbanas apresentou propostas de reflexão sobre cidade, natureza e sustentabilidade; e Ephemeral Agents levou instalações temporárias com a intenção de propor novas oportunidades para o público. Profissionais de diversos lugares do mundo emprestaram seus olhares às questões propostas, como
50
o arquiteto chileno Smiljan Radić, ganhador do Prêmio Pritzker de Arquitetura 2026, a arquiteta italiana Matilde Cassani, o estúdio mexicano PPAA, o arquiteto belga Maxime Delvaux, o coletivo raumlabor, de Berlim, entre outros. “Os residentes locais continuam no centro do Festival, mas, ao longo dos anos, ele também se tornou um ponto de encontro para arquitetos, designers, curadores, estudantes, instituições culturais e meios de comunicação de todo o mundo”, disse Javier. “Todos os anos, profissionais de muitos países viajam para Logroño não só para descobrir novos projetos, mas também para compreender como a arquitetura e o design podem dialogar com a sociedade através do espaço público”.
habitat
Los Sábados, do estúdio de arquitetura de Varsóvia TŁO, tem o nome emprestado das soboty polacas: galerias de madeira que ficavam ao redor de igrejas rurais na Polônia e que ofereciam um refúgio a quem chegava no sábado para a missa dominical. A estrutura é feita de ripas de madeira reutilizadas, suspensas entre dois edifícios, que filtram a luz do sol. Concebido a partir da lógica do design desmontável, nada foi ancorado nas paredes históricas da cidade: cinco escoras de aço se estendem por compressão entre as fachadas e sustentam a cobertura sem um único ponto de fixação. Foto: Josema Cutillas
habitat
51
Arquitetura
ESCALAS URBANAS Mas como encontrar um paralelo entre a arquitetura e o urbanismo de Logroño com a cidade de São Paulo, por exemplo, e seus aproximadamente 12 milhões de habitantes? Na visão de Javier, apesar de a escala ser muito diferente, vários desafios são compartilhados. “O Concéntrico não apresenta soluções universais, mas propõe protótipos, experiências e formas de pensar que podem ser adaptados a diferentes contextos. Nesse sentido, o que acontece em Logroño pode inspirar conversas noutros lugares, assim como aprendemos com experiências desenvolvidas em cidades como São Paulo”. O eixo Ecologias Urbanas, que propôs pensar a arquitetura como parte de um sistema vivo, atento ao clima,
aos materiais e ao território, é certamente o que traduz as maiores urgências globais. Javier acredita que a ecologia urbana não trata apenas da natureza, mas de compreender as relações entre as pessoas, o clima, as infraestruturas, os materiais e o território. “Para colocar a teoria em prática, devemos entender a arquitetura como parte de um ecossistema mais amplo, não como um objeto isolado. Isso significa trabalhar com materiais locais, reutilizar recursos, reduzir resíduos, integrar a biodiversidade, criar sombra e conforto nos espaços públicos e considerar o impacto ambiental a longo prazo de cada intervenção”.
O escritório de arquitetura Future Firm, de Chicago, nos Estados Unidos, desenvolveu a estrutura La escalera de la cigüeña, próximo a uma ponte de ferro. A ideia foi provocar uma nova forma de se relacionar com o que a cidade já disponibiliza, intensificando possibilidades de observação, conexão e permanência. A ponte deixa de ser apenas um lugar de passagem e passa a ser um ponto de observação da paisagem e do rio Ebro. | Foto: Josema Cutillas
52
habitat
A instalação Cathedral for One é assinada pelos arquitetos da AAU Anastas e parte do princípio que a arquitetura pode ser um espaço de contemplação. Concebida para uma única pessoa, convida o visitante a deslizar para o seu interior, uma cavidade lisa e envolvente, e desvencilhar-se do entorno da cidade em um espaço destinado a solidão e ao silêncio, que possui uma composição sonora própria. O projeto foi construído com pedras que seriam descartadas. O reaproveitamento surge da experiência dos arquitetos na Palestina, onde construir uma casa ou um espaço público é inseparável das questões de presença e pertencimento. | Foto: Josema Cutillas
habitat
53
Arquitetura
No eixo Identidade e Ficção, o espaço público é o cenário para a construção de experiências compartilhadas. As propostas introduziram o itinerante e o onírico, fizeram do ritual e da comemoração uma forma de construir situações coletivas. Os projetos traduziram a ideia de que a arquitetura é um dispositivo para imaginar outras formas de estar juntos. Em Ephemeral Agents, os participantes propuseram repensar a arquitetura efêmera como uma ferramenta capaz de ativar dinâmicas sociais e abrir novas formas de uso do
espaço público. Os projetos exploraram o esporte como uma nova forma de convivência coletiva, por exemplo, cápsulas de escuta urbana e pesquisas espaciais em torno da acessibilidade arquitetônica. “Cada edição explora temas que consideramos particularmente relevantes para as cidades contemporâneas e convidamos profissionais cujo trabalho possa contribuir com perspectivas significativas para essas discussões. O que mais importa é a capacidade de abrir novos diálogos”.
A instalação Zubía’s Laboratory conecta o legado científico do naturalista Ildefonso Zubía com um dispositivo contemporâneo de observação. A praça é repensada como pequeno museu ao ar livre. Um caleidoscópio convida a deitar-se e a mergulhar numa composição harmônica de céu e árvores; já o microscópio permite observar fragmentos do entorno com um detalhe ampliado através de grandes lentes circulares. Um ritual lúdico que reconecta os visitantes com os sistemas vivos da cidade, assinado pelo estúdio Zeppelin Design, da Romênia. | Foto: Divulgação Concéntrico
54
habitat
O noof group reúne arquitetos chilenos e espanhóis formados por uma universidade localizada no deserto do Atacama. A experiência com escassez hídrica e temperaturas extremas fez com que assinassem a instalação Shade, Breeze, Cooling, que aborda a vulnerabilidade térmica do espaço público. A proposta apresenta uma paisagem artificial que atua diretamente sobre a atmosfera urbana combinando sombra artificial e arrefecimento evaporativo, que reduz a radiação solar direta e diminui a temperatura percebida, gerando uma atmosfera diferenciada dentro da cidade. Foto: Josema Cutillas
O Concéntrico contribui para tornar o espaço público um tema de discussão coletiva e constrói ligações entre cidadãos, instituições, arquitetos, designers e comunidades locais. “O Festival também ajudou a estabelecer redes internacionais de colaboração e intercâmbio. Cada vez mais, estamos interessados em criar impacto de longo prazo por meio de projetos permanentes, iniciativas ambientais, programas educativos e novas formas de participação cívica que permanecem após o fim do Festival”, conclui.
habitat
55
ARQUITETURA
MATERIAIS ATEMPORAIS PARA UMA ARQUITETURA INOVADORA Em tempos de caos climático por todo o planeta, construções em tijolo e cerâmica são celebradas pela arquitetura sustentável voltada para o futuro a partir da utilização de materiais atemporais. Conheça os projetos premiados pelo Brick Award 2026.
D
esde 2004, o Brick Award celebra projetos que tenham sido elaborados em tijolos a partir da premissa da inovação e da arquitetura sustentável. Organizado pela Wienerberger – empresa austríaca fundada em 1819, líder mundial na produção de tijolos e maior fabricante de telhas de cerâmica da Europa –, o prêmio apresentou os ganhadores de 2026 em cerimônia realizada em junho, em Viena, na Áustria. Concorreram 50 projetos de 21 países, incluindo do Brasil. Entre os critérios do júri internacional estão os conceitos inovadores de design, o uso habilidoso e inovador do tijolo e a qualidade arquitetônica em termos de estética e configuração do projeto. “É essencial reconhecer o papel central que a arquitetura desempenha no enfrentamento das mudanças climáticas, reduzindo o consumo de recursos e avançando em estratégias de mitigação, adaptação e economias circulares”, afirma o austríaco Heimo Scheuch, CEO da Wienerberger, em entrevista à Habitat. “A sensibilidade cultural e a abordagem centrada
58
no ser humano são cruciais para moldar ambientes que não sejam apenas funcionais, mas também inclusivos e voltados para o futuro. Precisamos acelerar renovações inteligentes para garantir construções sustentáveis. Em contextos urbanos, espaços verdes, acessíveis e de alta qualidade são igualmente importantes, pois favorecem a biodiversidade, ao mesmo tempo em que melhoram o bem-estar físico e mental, fortalecendo a coesão social”. Uma vantagem fundamental deste material construtivo é a contribuição para a sustentabilidade a longo prazo e para a eficiência energética. “A inércia térmica do tijolo ajuda a manter temperaturas internas dos espaços estáveis, reduzindo a necessidade de aquecimento e refrigeração e diminuindo o consumo geral de energia”, continua Scheuch. “Além disso, os tijolos também favorecem a renovação em vez da demolição, poupando recursos e alinhando-se com os princípios da economia circular. Com um bom projeto arquitetônico, edifícios de tijolo podem criar espaços habitáveis confortáveis e sustentáveis”.
habitat
O Grande Prêmio deste ano foi concedido ao Templo e Museu Đạo Mẫu, no Vietnã, vencedor da categoria Sharing public spaces. O projeto da ARB Architects inspira-se em tradições profundamente enraizadas, fundindo uma estética espiritual com a vida contemporânea para criar uma sensação de serenidade em todo o terreno de 5.000 m². | Foto: Trieu Chien
habitat
59
Arquitetura
OS VENCEDORES DE 2026 O Brick Award é concedido em cinco categorias: Feeling at home, Living together, Working together, Sharing public spaces, e Building outside the box. Além delas, há o Grande Prêmio, que reconhece um projeto considerado o ápice das construções nestes materiais; e, a partir deste ano, o Prêmio Especial, destinado a um projeto que reinventa a ideia de vizinhança. O vencedor na categoria Sharing public spaces e também agraciado com o Grande Prêmio 2026 foi o Templo e Museu Đạo Mẫu, localizado no distrito de Soc Son, próximo a Hanói, no Vietnã. O projeto, assinado pelo ARB Architects, foi desenvolvido para o artista vietnamita Xuân Hinh, ícone da cultura popular do país asiático, enaltecendo natureza, religião e história. A construção baseia-se em telhas reaproveitadas: um total de seis milhões de peças coletadas ao longo de três anos em vilarejos próximos e de casas que não resistiram à expansão urbana. As variações de tonalidade e a aplicação de técnicas de assentamento diversas criam uma superfície vibrante: os muros do
terreno de 5.000 m² parecem entrelaçados. Em um penhasco de Mallorca, uma das ilhas baleares da Espanha, está a Ca na Birgit, residência projetada pelo TEd'A Arquitectes e vencedora da categoria Feeling at home. O projeto compreende uma área construída de 194 m² e aborda com sensibilidade as demandas do clima e do ambiente locais, ao mesmo tempo que responde com engenhosidade às limitações impostas pela localização. Também da Espanha, um edifício de uso misto, construído em Barcelona e composto por 54 apartamentos sociais, foi o vencedor da categoria Living together. Assinado pelo escritório Peris+Toral, demonstra como um planejamento pragmático pode gerar qualidades espaciais inesperadas – e como a alvenaria de tijolos pode ser, ao mesmo tempo, esteticamente agradável e capaz de regular o clima. O átrio, que se estende até a cobertura, proporciona luz natural e ventilação às áreas comuns. O ar circula livremente por toda a estrutura, regulando a temperatura de acordo com a estação do ano.
Ca na Birgit, projetada pelo TEd'A arquitectes, venceu a categoria Feeling at home. A casa foi construída sobre penhascos, na ilha de Mallorca, na Espanha, utilizando tijolo de origem local, respeitando as demandas do clima e do ambiente. Foto: Luis Diaz 60
habitat
Foto: Luis Diaz
habitat
61
Arquitetura
Acima e na página ao lado: Peris+Toral Arquitectes venceu o prêmio Living together com um edifício de uso misto em Barcelona, Espanha, com 54 apartamentos sociais. Além de criar um acolhedor espaço comunitário, o tijolo com biomassa utilizado na fachada interior e exterior mantém o edifício aquecido no inverno e fresco e ventilado no verão. | Foto: José Havia
O complexo de armazéns da Clase Azul, uma das mais famosas marcas de tequila do mundo, localizada em La Hacienda Jalisco, no México, foi o vencedor da Working together. O projeto assinado pelo ATELIER ARS foi inspirado na cor do solo vulcânico rico em ferro e na paisagem de horizonte infinito. O edifício surge organicamente do solo e, por meio de um sistema de telhados inclinados revestidos com telhas, funde-se literalmente à paisagem. O vencedor da categoria Building outside the box não foi exatamente um projeto de engenharia, mas sim um “laboratório espacial feito de tijolos” pelos alunos do curso Fundamentos da Alvenaria da Escola de Arquitetura da China em Hangzhou. Como explicaram os jurados, “a iniciativa capacita os alunos em um processo colaborativo que vai do projeto à execução, combinando reflexão e trabalho artesanal”. O Prêmio Especial de 2026 celebrou um conceito 62
inovador de habitação social na Bélgica. Um projeto da década de 1920 passou por uma reforma que aumentou sua densidade habitacional, sendo que os tijolos das casas antigas foram reaproveitados durante o processo. Na obra, assinada pelo escritório MAKER, as casas foram cuidadosamente desmontadas e o maior número possível de telhas e tijolos foi reaproveitado. “Este ano, fiquei particularmente impressionado com os projetos enviados para a categoria Sharing Public Spaces, pois demonstraram claramente como a arquitetura pode promover ativamente a interação, a inclusão e o senso de comunidade, ao mesmo tempo em que responde a desafios sociais mais amplos”, diz o CEO da Wienerberger. “Mesmo após mais de 30 anos trabalhando neste setor, continuo sendo inspirado pela incrível inovação que eleva a aplicação dos materiais de tijolo e cerâmica a novos patamares”, finaliza.
habitat
Foto: José Havia
habitat
63
Arquitetura
A mexicana La Hacienda Jalisco, projetada pelo Atelier ARS para o famoso produtor de tequila Clase Azul, conquistou o prêmio da categoria Working together. Sobre a topografia vulcânica do terreno, o complexo de escritórios e armazéns foi construído a partir de cerâmica local e pedras provenientes da escavação do terreno. | Fotos: César Béjar 64
habitat
BRASILEIROS NO BRICK AWARD A Casa de Tijolos Brancos, construída em Brasília, na região do Lago Sul, pelo BLOCO Arquitetos, foi finalista na categoria Feel at home. Daniel Mangabeira, sócio-fundador do escritório, juntamente com Henrique Coutinho e Matheus Seco, participou do simpósio promovido pelo Wienerberger Group em Viena, a convite da instituição. Entre os temas apresentados por Mangabeira na palestra, a produção do BLOCO e os projetos que foram desenvolvidos para o Cerrado, o segundo mais importante bioma brasileiro. As fachadas desta residência são revestidas por uma camada externa de tijolos maciços pintados de branco e diferentes graus de abertura são criados pelo espaçamento variável entre eles. “Apenas o invólucro da casa é de tijolos pintados, que servem como uma camada de proteção para insolação, como barreira visual e propiciam ventilação natural constante”, contou Daniel Mangabeira. “Esse foi
um dos pouquíssimos projetos da premiação Brick Award que tiveram os tijolos cerâmicos pintados”. Os tijolos possuem dimensões alongadas, projetadas especificamente para esta casa, e a disposição espaçada reinterpreta um dos elementos arquitetônicos mais relevantes do Brasil, o cobogó. “Certamente a baixa manutenção é um dos principais predicados do tijolo maciço. Importante esclarecer que estamos falando de tijolos maciços, não de blocos ecológicos ou de tijolos furados. Todos têm suas características de uso, que são parecidas com a do tijolo maciço, mas que se diferenciam em tempo de execução e de aplicação. Eu diria que o uso de tijolos maciços tiram partido da mão de obra qualificada que temos no Brasil e da massa térmica do próprio material para criar ambientes aconchegantes e que funcionam termicamente”, finaliza.
A Casa de Tijolos Brancos, do escritório brasileiro BLOCO Arquitetos, foi finalista na categoria Feel at home. Foto: Divulgação BLOCO Arquitetos
habitat
65
ARQUITETURA
CURITIBA DE VOLTA AO CENTRO: UMA NOVA VIDA PARA O CORAÇÃO DA CIDADE Por PMC
R
econhecida mundialmente por seu planejamento urbano, pelas soluções de mobilidade e pela preservação de áreas verdes, Curitiba se prepara para uma das maiores transformações de sua região central. Com incentivos inéditos e parceria com a iniciativa privada, o programa Curitiba De Volta ao Centro quer devolver movimento, moradia, negócios e novas experiências ao coração da capital. O programa aposta em uma transformação que vai muito além da recuperação de fachadas. A proposta é reocupar e ressignificar a região central, estimulando o retrofit de edifícios, o restauro de imóveis históricos, a criação de 66
moradias, a chegada de novos negócios e a ampliação das atividades de comércio, serviços, cultura, lazer e inovação. Para isso, a Prefeitura estruturou um pacote de incentivos fiscais, econômicos e construtivos. São R$ 133 milhões em incentivos fiscais previstos, com redução, remissão e isenção de até 100% de impostos, além de benefícios construtivos, como metragem adicional gratuita até duas vezes a área do terreno. O município também entrou diretamente na equação dos investimentos privados: poderá bancar até metade dos custos de determinadas obras de revitalização.
habitat
A RESPOSTA DO SETOR PRIVADO JÁ COMEÇOU A APARECER. Um edital de subvenção econômica de R$ 30 milhões, lançado neste ano, recebeu 47 propostas de empresários, comerciantes, proprietários de imóveis e outros interessados em investir na região central. Juntas, as iniciativas representam R$ 268 milhões em investimentos previstos, enquanto os pedidos de subvenção encaminhados ao município somam R$ 77 milhões. “Curitiba sempre foi reconhecida pelo planejamento urbano, mas, assim como outras grandes cidades, tem o desafio de revitalizar seu Centro e a região histórica. Estamos implantando um programa inédito, que conta com incentivos e a parceria com a iniciativa privada, que abraçou a ideia de revitalizar a região”, afirma o prefeito Eduardo Pimentel. A expectativa é que o movimento gere um ciclo de investimentos capaz de transformar a paisagem e a dinâmica da região. “Teremos um grande volume de investimentos, com restauro de imóveis, novos empreendimentos, comércio, serviços. A ideia é, como diz o nome do programa, trazer a população de volta para a região, com habitação, lazer, cultura e inovação”, completa. O programa abrange o Setor Especial da Região Central (SERC) e diferentes áreas consideradas estratégicas para a transformação urbana e cultural. Entre elas estão o Setor de Baixa Emissão, o Setor Histórico de Baixa Emissão, o entorno da Rodoferroviária e do Mercado Municipal, setores de transição e eixos prioritários. A estratégia também se espalha por endereços que fazem parte da identidade de Curitiba, como o Calçadão da Rua XV de Novembro, o circuito Barão-Riachuelo, o entorno do Teatro Guaíra, São Francisco e Jaime Reis e o Eixo Saldanha Marinho. Os incentivos fiscais abrangem IPTU, ISS e ITBI e podem beneficiar projetos de intervenção em imóveis com Unida-
des de Interesse de Preservação, além de empreendimentos de retrofit comercial, residencial e de uso misto. A lógica é transformar edifícios existentes sem apagar suas histórias. Em vez de deixar estruturas subutilizadas ou degradadas, o programa cria condições para que elas voltem a cumprir um papel na vida urbana. E é justamente nesse ponto que entra a subvenção econômica. Curitiba é pioneira no País a criar um mecanismo para financiar até metade dos custos de determinadas obras de retrofit destinadas à recuperação das áreas térreas comerciais da região central. O edital lançado prevê o custeio, pelo município, de 25% a 50% das obras, dependendo do tipo de intervenção. Na chamada intervenção global, que prevê a requalificação do imóvel em sua totalidade, a Prefeitura poderá reembolsar até 25% dos custos de retrofit. Já para os espaços comerciais localizados no térreo das edificações, com acesso direto ao logradouro, a participação municipal pode chegar a 50%. A estratégia deve ganhar novas etapas, com o lançamento de outros editais para atrair investimentos. Para aproximar empresários, investidores e profissionais do programa, a Prefeitura criou plantões de atendimento. O objetivo é oferecer orientação técnica, explicar as regras dos incentivos e esclarecer dúvidas sobre a possibilidade de adesão. Os encontros acontecem sempre na última quinta-feira do mês, na Escola de Patrimônio, na Rua Kellers, 63, no bairro São Francisco. O atendimento deve ser agendado pelo Agenda Online. agendaonline.curitiba.pr.gov.br
habitat
Saiba mais sobre o programa centro.curitiba.pr.gov.br 67
DESIGN
Leveza e delicadeza: predicados das peças da designer Cris Bertolucci. Foto: Lucas Rosin
A POESIA DA LUZ As luminárias da designer Cris Bertolucci ultrapassam o campo funcional e adquirem uma dimensão escultórica que resulta da investigação da luz como elemento narrativo, da natureza como fonte de inspiração e da ousadia na escolha da matéria-prima.
A
devoção à luz faz parte da herança da família Bertolucci. Tudo começou com Walter, pai de Cris, que durante muitos anos teve uma empresa de iluminação decorativa; passou para a filha, que desde 2010 está à frente do Cris Bertolucci Estúdio; e está na terceira geração, pois Giovanna Bertolucci, filha de Cris, também integra a equipe criativa do escritório. “A paixão pela iluminação é um bichinho e quando ele te pica, você fica definitivamente contaminada, vamos dizer 70
assim. Além de ser um trabalho muito lindo, a luz sempre traz para o objeto uma surpresa. De fato, é uma paixão que aprendi com meu pai”, conta Cris Bertolucci, em entrevista à Habitat. Formada em Desenho Industrial nos anos 1980, Cris despertou para as narrativas possíveis da luz durante o período que passou na Università Internazionale dell’Arte, em Firenze, na Itália. A partir dessa imersão, começou seu trabalho de investigação sobre o comportamento da luz
habitat
Pendente Garoa, em metal e vidro cristal soprado com técnica de Murano. | Foto: André Klotz
em diferentes superfícies ou texturas, sejam elas opacas, translúcidas, irregulares ou densas. Com olhar apurado, e combinando precisão com sensibilidade, a designer cria peças que são pura poesia. “Meu processo criativo é muito espontâneo e natural. As ideias vão chegando e vou fazendo pequenos registros. Algumas descarto imediatamente, outras vou revendo e sigo naquelas que me interesso”.
No trabalho de Cris Bertolucci, coexistem memória, natureza e transformação. “A luz é tudo. Apesar de a gente não trabalhar com projeto luminotécnico, priorizamos uma luz que seja mais quente, difusa, indireta, que não ofusque, que dê aconchego, que seja amiga. Um objeto bonito, interessante e que ilumine de uma forma calorosa”, define.
habitat
71
Design
CORPOS DE LUZ: VITÓRIA, GAROA E TAKAI
Na edição da SP-Arte deste ano, o estúdio apresentou a exposição Corpos de Luz, que reuniu três séries até então inéditas: Vitória, Garoa e Takai. Inspirada pelos universos da arte, da arquitetura e da moda, Vitória explora o linho como matéria luminosa. Amarrações aparentes, franzidos e sobreposições criam luminárias que transitam entre objeto escultórico, vestimenta do espaço e arquitetura luminosa. “Esta é uma coleção que resulta de um trabalho que a gente vem fazendo há bastante tempo com linho solto”, diz. “Eu queria achar uma nova linguagem e brincando com a própria peça comecei a fazer esses bufantes. Fui pesquisar vestimentas, a moda das rainhas francesas da época vitoriana e então nasceram estas luminárias”.
Inspirada pelos universos da arte, da arquitetura e da moda, a Coleção Vitória reúne pendentes em linho acompanhados por arandelas. | Foto: André Klotz
As luminárias da série Bicho Pau são produzidas em bronze fundido, a partir de galhos colhidos na natureza. Elas são variação de outras coleções que também utilizam os galhos de bronze das luminárias, mas agora com uma vertente lúdica. | Foto: André Klotz
72
Na coleção Garoa, o protagonista é o cristal soprado a partir da técnica balloton – as peças apresentam pequenas esferas em relevo que ampliam e dissolvem os efeitos de refração. Nas versões pendentes e arandelas, os volumes translúcidos evocam gotas suspensas e permitem uma experiência contemplativa. “Conseguimos colocar um LED escondido, e o resultado foi muito espontâneo. A refração constrói mandalas que não foram propositais. Isso é muito interessante de trabalhar com luz: o que a refração irá fazer nas superfícies é sempre uma surpresa”. O bambu é o elemento fundamental da série Takai, composta por pendentes, estruturas arqueadas e luminárias de piso que também funcionam como biombos. “Venho fazendo testes com bambu há anos, mas estava difícil de encontrar uma pessoa que soubesse lidar bem com o material. Finalmente, achamos um mestre bambuzeiro que nos permitiu desenhar aquilo que a gente tinha em mente, e ele nos ajudou a produzir”. A coleção é inspirada pela relação sensível das culturas orientais com a natureza.
habitat
Na série Takai, o bambu surge como elemento estrutural e poético. Flexível e resistente, organiza luminárias que se expandem verticalmente e desenham gestos amplos no espaço. Foto: André Klotz
habitat
73
Design
O Cris Bertolucci Estúdio está localizado no bairro Vila Madalena, em São Paulo. Foto: André Klotz
A LUZ, OS MATERIAIS E AS FORMAS A designer é reconhecida também pela habilidade com diferentes materiais e técnicas, tendo sido uma das pioneiras no Brasil na fundição do bronze para peças de design. Suas luminárias são elaboradas a partir de vidro, madeira, cobre, bronze, latão, aço, cerâmica, palha artesanal e têxteis. Na Série Bicho Pau, que esteve no Piloto Milano, a mostra de design que integra o Fuorisalone da Semana de Design de Milão, as peças são produzidas em bronze fundido a partir de galhos. “Acredito ser a natureza, uma leveza e uma certa poesia os elementos comuns no meu trabalho. Vejo muita espontaneidade também, no jeito de desenhar e no próprio produto final”.
74
Bicho Pau Coluna e Abajur são esculturas luminosas que se estruturam a partir de galhos fundidos em bronze. Inspiradas na camuflagem dos insetos Phasmatodea, as peças afirmam presença no espaço ao deslocar a relação entre objeto, luz e função. Também esteve em Milão o Abajur Amazônica, elaborado a partir de folhas naturais tratadas como couro vegetal. Ao preservar nervuras e texturas originais, essas superfícies filtram a luz com delicadeza e irregularidade, criando uma luminosidade suave e envolvente.
habitat
DESIGN
A EDITORA DAS OBRAS DO MESTRE DO DESIGN Há 25 anos, Gisèle Schwartsburd, à frente da LinBrasil, dedica-se a colocar as obras do designer Sergio Rodrigues sob os holofotes que sempre mereceram, mas nem sempre receberam, no Brasil e no mundo. Por Melissa Crocetti
O
nome dela é Gisèle Schwartsburd, paulistana radicada em Curitiba. Mas foi no Rio de Janeiro que sua trajetória profissional teve uma reviravolta, quando ainda trabalhava com dança coreografando espetáculos pelos palcos cariocas. Ao visitar uma exposição sobre design brasileiro, em 1999, percebeu que os móveis icônicos de um dos maiores nomes do design de mobiliário não estavam disponíveis no mercado. Foi então que procurou Sergio Rodrigues com a proposta de editar suas criações com autenticidade e altíssima qualidade. Em 2001, nascia a LinBrasil. Não foi apenas a vida de Gisèle que passou por uma grande mudança a partir deste momento. Sergio Rodrigues (1927-2014), hoje, é o grande nome do design moderno brasileiro, premiado nacional e internacionalmente, mas a sua biografia é repleta de dificuldades profissionais, frustrações e de pessoas que desacreditaram de suas criações durante muitos anos. A chegada de Gisèle representou um respiro e o início de um período que culminou em sua consagração como ícone do design. Ao olhar para essa trajetória, Gisèle não esconde a imensa satisfação em divulgar a obra de Sergio Rodrigues pelo mundo, fortalecendo seu nome como o maior expoente do mobiliário modernista brasileiro. “Ao olhar em perspectiva para o ano de 2001, percebo também que a LinBrasil contribuiu para o crescimento do design brasileiro como um todo, pois devido ao sucesso comercial outros tantos fabricantes passaram a investir em design autoral, o que tem divulgado enormemente a criatividade e o di-
78
ferencial do design brasileiro no mundo”, disse Gisèle que, além de CEO da LinBrasil, é presidente da BRADA (Associação Brasileira de Design Autoral). A LinBrasil é a editora dos móveis de Sergio Rodrigues, e ter a licença para esta produção significa ser responsável por preservar a sua obra, sem permitir deturpações, a partir de desenhos originais e de processos produtivos que ele mesmo desenvolveu. “Se nos propomos há 25 anos a reeditar a linha, é por fazê-lo com fidelidade aos originais. Se algum detalhe foi modificado com o tempo, deve-se principalmente a intervenção direta do próprio Sergio, que atualizava detalhes e formas construtivas. No entanto, após a sua morte, em 2014, essa possibilidade deixou de existir”, afirma Gisèle. Sergio Rodrigues criou cerca de 1.200 diferentes modelos de móveis. A LinBrasil tem a licença de fabricação da linha mais conhecida e histórica que começou a ser produzida na Oca, a loja que inaugurou uma nova fase na produção do móvel brasileiro ainda nos anos 1950, no Rio de Janeiro. “Hoje são 48 móveis e suas variações produzidos por nós”, continua Gisèle. “A LinBrasil vem editando a linha desde 2001 e o contrato vem se renovando desde então. A partir de 2012, Fernando Mendes de Almeida, presidente do Instituto Sergio Rodrigues, passa a ter a licença para a reedição de algumas outras peças, por meio do Sergio Rodrigues Atelier. Qualquer peça produzida fora destes licenciados é uma cópia, uma falsificação”.
habitat
A Cadeira Bule (1991), de Sergio Rodrigues, é caracterizada por traços verticais, formas orgânicas, proporções e volumes expressivos. O espaldar alto foi desenhado em um gesto único, que desce do apoio de cabeça até as duas pernas traseiras, e possui um guarda-costas que acompanha a curvatura lombar. | Foto: Henrique D. Tows
habitat
79
Design
PEÇAS INÉDITAS Na SP-Arte 2026, que aconteceu em abril, em São Paulo, a LinBrasil apresentou algumas peças inéditas, como a cadeira Paiol (2010), uma das últimas peças desenhadas por Sergio Rodrigues, criada originalmente para o Teatro Paiol, em Curitiba. Além dela, os móveis cadeira Bule, banco Eleh, cômoda com gavetas e portas Luciana, cômoda Mitzi, baú Sabará, mesa Stella e mesas auxiliares Yara. “Manter o projeto original é, antes de tudo, respeitar a marcenaria e toda a construção dos protótipos. Os consumidores que buscam as reedições Sergio Rodrigues apreciam e valorizam essa fidelidade e capricho”. Todas as criações de Sergio Rodrigues têm detalhes muito elaborados e delicados, especialmente os encaixes dos componentes de madeira. Exímio desenhista, por vezes também criava ilustrações bem-humoradas dos seus móveis, retratava cenas cotidianas e a si mesmo.
Ele é considerado um ícone da cultura brasileira, não apenas do design e da arquitetura. Depois que se formou arquiteto, em 1952, “saiu em busca frenética de um desenho que pudesse representar o espírito de nossa gente”, consta em sua biografia, disponível no Instituto Sergio Rodrigues. Em contraposição ao que fazia sucesso na época, ele começou a pensar em móveis modernos, confortáveis e próprios para o clima brasileiro, abusando da madeira e do couro. Gisèle, que conviveu anos com Sergio, diz que ele “era uma pessoa muito simpática e aprazível, com grande ânimo para o trabalho e disponível. Um bonachão simples, com um humor especial”. Ela acredita que a atemporalidade do trabalho do designer se deve ao fato de ele “ser diferenciado de tudo que existe no mundo e inserir em seus traços a alma brasileira”, completa.
A Cômoda Luciana (1965) foi desenhada por Sergio Rodrigues a partir de soluções geométricas. É composta por um corpo retangular, confeccionado nas versões com gavetas ou portas. Móvel em madeira, com detalhes em metal que surgem pontualmente em seus tapa-furos – marca a fase quando o designer buscava uma produção industrial mais produtiva. | Foto: Henrique D. Tows
80
habitat
Uma das últimas criações de Sergio Rodrigues, a Cadeira Paiol (2010), foi pensada originalmente como cadeira de auditório para o Teatro Paiol, em Curitiba. Os dois furos laterais no encosto conferem leveza. | Foto: Henrique D. Tows
Primeira criação de Sergio Rodrigues, o Banco Mocho (1954). A inspiração, disse o designer, seria os bancos de um pé só usados para ordenhar vacas. O Mocho possui estrutura em madeira maciça, com pés torneados e tampo abaulado. Foto: Henrique D. Tows
habitat
81
Design
DESIGN BRASILEIRO PELO MUNDO A LinBrasil consolidou uma rede de fornecedores e lojistas que respeitam profundamente o legado de Sergio Rodrigues. Além de estar presente em lojas de todo o país, comercializa para Austrália, Argentina, Bélgica, Canadá, Chile, China, França, Itália, Singapura, Rússia, Estados Unidos, entre outros. As peças mais requisitadas são a Poltro-
na Mole (1961), o desenho mais conhecido e aclamado no mundo, que se tornou um ícone; o Banco Mocho (1954), um dos primeiros desenhos do designer; a Poltrona Diz (2001), premiada pelo Museu da Casa Brasileira; a Poltrona Kilin (1973) e a Poltrona Oscar (1956).
A mesa Arimello (1958), originalmente denominada “mesa baixa Bandeja”, é uma peça excepcional caracterizada por elegância construtiva e marcenaria primorosa. Sobre a base em madeira maciça torneada repousa uma ampla bandeja, com bordas encabeçadas em madeira maciça e tampo laminado, formando uma superfície generosa. | Foto: LaPhoto
82
habitat
Ícone do design mundial, a Mole (1961), de Sergio Rodrigues, surgiu a partir de uma encomenda do fotógrafo Otto Stupakoff, que, na época, tinha um estúdio pequeno e queria um móvel confortável – para se esparramar. Em 1961, participou do Concurso Internacional do Móvel em Cantù, na Itália, e ganhou o primeiro lugar, concorrendo entre 438 modelos de 27 países. Hoje faz parte do acervo de design do Museu Metropolitano de Arte de Nova York. | Foto: Henrique D. Tows
habitat
83
Design
A poltrona Oscar (1956) foi desenhada a pedido do Jockey Club do Rio de Janeiro, que rejeitou o protótipo “por questão de gosto”. Sergio Rodrigues expôs o modelo em sua loja e o primeiro comprador foi o arquiteto Oscar Niemeyer. O nome da poltrona faz menção a esse episódio. Foto: Matheus Andrade
A premiada poltrona Kilin (1973) é uma das peças mais famosas do designer. Madeira e couro, conforto e refinamento construtivo. Foto: Henrique D. Tows
84
habitat
Gisèle Schwartsburd, CEO da LinBrasil e presidente da BRADA (Associação Brasileira de Design Autoral). A LinBrasil é a pioneira na edição da obra do designer Sergio Rodrigues e que primeiro mergulhou na história do mobiliário modernista brasileiro. | Foto: Gutyerrez Erdmann
“Completar 25 anos de LinBrasil e da reedição do mobiliário de Sergio Rodrigues é ter a satisfação do sucesso empresarial e de alcançar o meu objetivo primeiro, que sempre foi tornar visível e divulgar a obra do mestre no Brasil e no mundo”, diz Gisèle. “Vinte e cinco anos passam muito rápido quando recheados de trabalho intenso, no sentido de trabalhar o dia a dia para que todos os detalhes dos móveis atendam aos quesitos dos protótipos que recebemos do próprio Sergio. Ao longo dos anos, caminhamos para sempre aperfeiçoar a fabricação, a comercialização e o pós-venda das peças. Sem dúvida é um prazer lidar com
uma obra maravilhosa como esta e estar mergulhada no modernismo brasileiro, um bem cultural nacional”. Desde 2012, o Instituto Sergio Rodrigues atua na preservação do acervo do designer. “O guardião da obra intelectual é o Instituto Sergio Rodrigues – e para isso foi criado. Todo o legado iconográfico do designer está sob a guarda do ISR. A LinBrasil é a pioneira na edição de sua obra de mobiliário e que primeiro mergulhou na história do mobiliário modernista brasileiro. Somos guardiões dos originais fiéis à obra”, finaliza.
habitat
85
DESIGN
UM ESPAÇO DEDICADO À PLURALIDADE DO DESIGN Ao completar 35 anos, a Herança Cultural aposta no diálogo entre tradição e inovação: se mantém como referência em peças de design de mobiliário do modernismo brasileiro ao mesmo tempo em que se aproxima de nomes contemporâneos, abre espaço para as artes plásticas e planeja a inauguração de sua loja em Milão. Quem fala sobre este momento da galeria é Pablo Casas.
E
Por Melissa Crocetti
ra 1991 quando Maria Alice Casas fundou a Herança Cultural, depois de já ter trabalhado na área de mobiliário do escritório do irmão, o renomado arquiteto Arthur Casas. Naquela época, ela selecionava e comprava móveis de segunda mão – o termo vintage ainda não tinha a importância atual – para restaurar, reformar, ressignificar. Pablo Casas, filho de Maria Alice, ainda era um adolescente que transitava entre o escritório do tio e a galeria da mãe. Inevitavelmente, seguiu o caminho do design. Damos um salto na história e chegamos a 2015 – a
galeria já era bem conceituada entre colecionadores e arquitetos interessados em design quando Pablo Casas assume sua direção. Então, ele começa a ampliar a linguagem, mantendo o diálogo entre o histórico e as peças modernistas de uma geração de autores contemporâneos interessados em edição limitada e experimentação formal. Entra em cena também a transformação de uma galeria de três mil metros quadrados, na Lapa de Baixo, em São Paulo, em espaço cultural – exposições temporárias, conversas e curadorias independentes, incluindo mostras de fotografia, arte e design, fazem parte da programação.
Pablo Casas amplia a atuação da galeria Herança Cultural, em São Paulo, e prepara a abertura de seu primeiro endereço internacional, em Milão. | Foto: Rafael Felix 86
habitat
A última exposição foi Mestre Escultor, do capixaba José Carlos Vilar, um trabalho feito sobre “ferro e sombras”, com curadoria de Agnaldo Farias. Em agosto, estreia o projeto How do you feel today?, de Nath Edenburg, uma série de 365 autorretratos nos quais ela intervém com desenhos que representam como estava se sentindo naquele momento. O foco agora, como parte das comemorações dos 35 anos, é a inauguração da Herança Cultural Milano,
prevista para este ano. A ideia é preservar o universo de trabalhos do Brasil voltados ao contemporâneo, com séries limitadas e peças únicas, exclusivas da galeria, todas à pronta entrega, dentro do que o local permitir. Nesta entrevista, cedida exclusivamente à Habitat, Pablo fala sobre transformações, mercado, colecionismo, passado, presente, autenticidade, personalidade, tendências e legado. Confira.
Poltronas de Ronald Sasson, artista plástico e designer conhecido pela profunda pesquisa sobre materiais e técnicas para a criação de móveis e objetos. | Foto: Rafael Felix
Como você define a Herança Cultural? A Herança Cultural é uma galeria que une arte e design, com foco principal em design de mobiliário, além de atuar também com artes plásticas, como pinturas, cerâmicas e esculturas. O grande diferencial está na curadoria, que conecta peças originais e vintage do modernismo brasileiro, especialmente a partir da década de 1950, com a produção contemporânea. Nos últimos anos, o contemporâneo ganhou cada vez mais espaço e hoje já representa mais de 50% do nosso portfólio. Nossa expectativa para 2027 é chegar a uma composição de cerca de 70% de design contemporâneo e 30% dedicado ao melhor do modernismo brasileiro, mantendo esse diálogo entre tradição e inovação.
De que forma a Herança Cultural movimenta o mercado do design brasileiro? A maior parte do portfólio é composta por peças de colecionismo, incluindo séries limitadas, peças únicas e peças vintage originais de época. Temos um grande acervo que, em sua maioria, é voltado ao design brasileiro. Ao mesmo tempo, estamos abrindo espaço gradualmente para peças vintage internacionais e, futuramente, para novas produções contemporâneas. Seguimos expandindo esse olhar para construir uma galeria cada vez mais plural.
habitat
87
Design
Luminária de mesa fractal I produzida inteiramente em bronze, assinada pelo designer e artista Gustavo Neves. Peça exclusiva da galeria Herança Cultural. | Foto: Rafael Felix
O que motivou a abertura da Herança Cultural Milano? Essa não é uma decisão de agora, é um movimento que vem sendo trabalhado há alguns anos, amadurecido à medida que acompanhávamos o crescimento interno da galeria, ano após ano, e também a expansão internacional das vendas. Todo esse processo foi consolidando um desejo que já vinha sendo desenhado desde 2017. Acho que agora a empresa chegou a um momento importante, com um trabalho sólido e constante, e entendemos que era o momento certo para dar esse passo. Li que a sua mãe tinha um olhar muito apurado, que misturava vintage com contemporâneo muito antes de isso ser um discurso. Na verdade, quando minha mãe começou, ela trabalha88
va com móveis de segunda mão, nem se usava o termo vintage. Eram móveis da Bauhaus e do modernismo brasileiro, num momento em que o design modernista brasileiro ainda era visto apenas como peça antiga, usada, sem o reconhecimento que tem hoje. Desde o início ela sempre fez essa mistura, e a minha casa também sempre refletiu isso. Cresci dentro da Herança Cultural, estava entrando na adolescência quando ela montou a galeria, então vivi esse processo e acompanhei de perto os lançamentos e a construção desse olhar. Ao mesmo tempo em que trabalhava com peças de segunda mão, ela sempre apresentava algo contemporâneo, trazendo designers e criadores que estavam começando e abrindo espaço para novas peças. Essa mistura sempre foi um dos grandes charmes da casa.
habitat
Recentemente, a exposição José Carlos Vilar - Mestre Escultor, com curadoria de Agnaldo Farias, esteve em cartaz na Herança Cultural. | Foto: Rafael Felix
“Talvez o maior legado da Herança Cultural tenha sido justamente lançar um olhar para o móvel usado antes de o vintage existir como categoria. Foi ajudar arquitetos e clientes a olharem novamente para o jacarandá, que durante muito tempo era visto apenas como móvel de casa de avó, e reposicioná-lo dentro de casas contemporâneas e de uma nova forma de viver. Tudo isso aconteceu numa época em que essas peças não eram símbolo de status nem objeto de investimento. Eram simplesmente peças bonitas, escolhidas pelo valor do design”. Pablo Casas habitat
89
Design
Imagino que também teve a influência do Arthur Casas. Cresci muito próximo do escritório dele, então acho impossível separar essas influências. Primeiro veio o olhar do Arthur e depois a influência da Herança Cultural e da minha mãe. Quando ela abriu a galeria, passei a viver ainda mais esse universo e construí esse repertório muito a partir dos dois. Na minha casa existia essa ideia de uma continuidade da loja, sempre em transformação. Muitas vezes eu chegava e os móveis tinham mudado completamente de lugar. Acho que esse olhar vem muito dessa experiência de vida. Os dois têm uma influência enorme na forma como enxergo o design e uma casa. No fim, uma coisa acaba sendo extensão da outra. A galeria também funciona assim para mim. Tudo o que coloco lá passa por uma pergunta muito simples: eu teria isso na minha casa? É um olhar muito pessoal. Hoje, todas as peças que fazem parte da Herança Cultural foram escolhidas por mim, absolutamente todas. Quando você se depara com uma nova peça ou um novo autor, o que determina se poderá ou não fazer parte do acervo? É uma pergunta complicada de responder de forma definitiva. Acho que são muitas as coisas que influenciam. O material é algo que considero muito interessante, mas o principal é que a peça seja autêntica, que tenha identidade própria e não pareça com nada além dela mesma. Hoje vejo móveis e projetos buscando inspiração no modernismo, e acho que esse é um caminho delicado. O modernismo tem vida própria. Qualquer coisa que tente reproduzi-lo dificilmente será modernismo e, muitas vezes, também deixa de encontrar uma linguagem própria. O que torna uma peça realmente forte hoje é justamente ter personalidade, identidade e existir por si só. No desenho da peça, vejo dois caminhos possíveis. Um é o do design atemporal, que funciona em qualquer casa, em qualquer lugar e atravessa o tempo. O outro é o das peças mais artísticas, o que chamamos de design art, provocativas, com exploração de formas, materiais e propostas completamente diferentes. Independente do caminho, o essencial é que as peças tenham uma identidade própria, muito clara e muito viva.
90
Como os designers contemporâneos são convidados para fazer parte da galeria? É uma combinação de fatores. Primeiro, a gente trabalha no formato de galeria, não de loja. Não representamos produtos, representamos designers. Para que um designer entre na galeria, precisamos ter um conjunto consistente, normalmente um leque de pelo menos seis peças. E como o espaço é limitado, muitas vezes é preciso abrir espaço para que novos nomes entrem. Também existe uma busca curatorial. Às vezes percebemos que falta determinado material ou linguagem dentro do portfólio. Muitas vezes é justamente essa construção de repertório que leva à entrada de novos nomes. Além disso, existe um acompanhamento constante. Estamos monitorando o mercado o tempo todo, guardando referências e construindo um arquivo de possibilidades até surgir o momento certo para representar alguém. Este ano trouxemos muitos nomes novos e temos bastante novidade chegando no contemporâneo, com um foco maior em materiais que ainda explorávamos pouco e também um investimento muito forte em design de arte. O que torna uma criação memorável e atemporal? Se fosse fácil responder o que torna uma peça atemporal e memorável, acho que todo mundo faria. É uma pergunta muito difícil. Talvez a principal característica de uma peça atemporal seja a simplicidade. Fazer o simples realmente bem feito é algo extremamente complexo. Acho que existe uma potência muito grande em encontrar, dentro de formas simples, soluções bem resolvidas e em escolher os materiais com muito cuidado, inclusive na forma como eles se combinam. Temos muitos exemplos de designers que conseguem fazer isso hoje. Dentro desse universo, o Arthur é um grande exemplo para mim. A Cláudia Moreira Salles também, assim como o Carlos Motta. Esses dois últimos, inclusive, praticamente não têm peças na Herança Cultural, mas, junto com o Arthur, são nomes que considero referências muito fortes na criação de peças verdadeiramente atemporais.
habitat
Luminária Lunar (2026), assinada por Artur Lescher e Maneco Quinderé. Produzida em aço inox maciço e pedra sabão. Edição exclusiva Herança Cultural. Edição limitada de 10. Numeração gravada a laser na base da escultura de aço. Foto: Rafael Felix
habitat
91
Design
Quais são os nomes mais promissores do design brasileiro hoje? Tem tanta gente boa que fica difícil escolher. Existem nomes já consagrados, como Cláudia Moreira Salles, Arthur, Carlos Motta, entre outros. Tem o Ronald, com um trabalho internacional muito forte; o Gustavo Neves, a Simone Coste. Também tem designers com quem não trabalho diretamente, mas cujo trabalho admiro muito, como o Lucas Recker e o Estúdio Hort. Tem muita gente interessante acontecendo ao mesmo tempo. O Guilherme Ventes, por exemplo, traz uma linguagem diferente, e isso é algo que acho fantástico no momento atual: são muitas linguagens coexistindo, todas com trabalhos muito bem executados e uma pesquisa de materiais muito rica. O design brasileiro nunca esteve tão bem representado em diferentes frentes como está hoje.
Luminária Fauno, de André Bastos. Peça escultural única. Pés em formato animal executados em alumínio fundido e estrutura em aço com cúpula em vidro soprado. Foto: Rafael Felix
Você já disse que “a hora de investir em um bom design é agora”. Por quê? É mais no sentido de que o design brasileiro está vivendo um momento de atenção internacional muito forte, não só pelo reconhecimento do modernismo brasileiro, mas também por nomes que ajudaram a colocar o país no mapa global do design desde os anos 2000. Vemos isso refletido no crescimento constante dos valores do colecionismo ligado ao modernismo e também na valorização e na qualidade cada vez maior da produção contemporânea. Acho que existe muita coisa boa acontecendo hoje. Temos um volume grande de design colecionável, com séries limitadas e peças únicas de altíssimo nível, que ainda chegam ao mercado com valores relativamente acessíveis. Minha percepção é que, em algum momento, o mercado internacional vai ampliar ainda mais esse interesse. Essas peças passam a circular lá fora por preços mais altos e isso tende a impactar também os valores no Brasil, como aconteceu anteriormente com o vintage e com o modernismo. Por isso acho que este é um momento interessante para investir no contemporâneo. A aceitação internacional que temos acompanhado vem sendo muito forte e, naturalmente, isso também influencia o mercado local.
92
Rara cadeira de Joaquim Tenreiro, um dos grandes nomes do modernismo brasileiro, em madeira ebanizada e assento em camurça. | Foto: Rafael Felix
habitat
Vista geral da galeria Herança Cultural. | Foto: Rafael Felix
Qual o legado de mais de três décadas da Herança Cultural? São vários legados. Acho que a Herança Cultural teve uma importância muito grande na valorização e na ascensão do vintage no Brasil. Como eu disse antes, minha mãe já trabalhava com esses móveis quando eles eram simplesmente móveis usados. Ela tem histórias incríveis com nomes como Michel Arnoult, Sergio Rodrigues, Bratke e tantas outras pessoas importantes desse universo. Naquele momento, essas peças eram vendidas como móveis de segunda mão, por valores muito acessíveis, porque praticamente ninguém olhava para elas como objetos de coleção ou de design. Acho que ela ajudou a construir esse olhar e a valorizar essas peças. Tem uma história que o próprio Sergio Rodrigues contava: ela conseguia vender uma poltrona Mole usada enquanto ele tinha dificuldade para vender uma nova. Hoje, olhando para o lugar que a poltrona Mole ocupa, isso mostra o quanto aquele mercado mudou. Outro marco importante foi a exposição dedicada ao Joaquim
Tenreiro, que até onde se conhece foi uma das primeiras realizadas. Foi também nessa época que ela comprou uma casa inteira mobiliada por Tenreiro por cerca de 4 mil dólares. Hoje esse valor não compra nem uma única peça. Ela montou uma exposição completa, com móveis, tapetes e todo o conjunto. Existem muitas histórias marcantes desse período. Para finalizar, você se define como galerista ou curador? Eu me defino como um apaixonado por design e pelo que faço. Realmente gosto de estar dentro da galeria e de viver esse universo no dia a dia. Acabo exercendo os dois papéis, de curador e de galerista, mas isso acontece mais como uma definição técnica. Curador porque participo diretamente da escolha de tudo o que entra na galeria, e galerista por estar à frente dela. Mas, no fim, a forma como me enxergo e me defino é muito simples: sou alguém apaixonado por design.
habitat
93
DESIGN
CONFIANÇA INABALÁVEL Aos 65 anos, a Móveis Campo Largo chega à maturidade apoiada em uma trajetória marcada por recomeços, decisões estratégicas e evolução constante. Por Rafaella Sabatowitch
Fachada da loja da rua Brigadeiro Franco, em Curitiba, inaugurada em 2017. | Foto: Divulgação
P
oucas empresas conseguem atravessar seis décadas mantendo a relevância em um mercado que muda constantemente. A Móveis Campo Largo chega aos 65 anos ocupando um lugar singular: é a empresa mais longeva do setor em Curitiba e segue ampliando sua atuação sem perder de vista os princípios que a acompanharam desde a fundação. Para Edson Marochi, que integra essa trajetória há mais de 45 anos e conduz a empresa há um quarto de século, o aniversário simboliza muito mais do que permanência. “Representa uma imensa gratidão a todos os clientes, colaboradores e parceiros que construíram essa história conosco, e traz uma responsabilidade clara de saber como liderar o nosso segmento rumo ao futuro, mantendo a relevância diante dos desafios cotidianos”, diz. 94
A história da empresa, que começou com os irmãos Luiz e Carlito Marochi, foi marcada por momentos que exigiram decisões capazes de redefinir seu caminho. O primeiro deles veio em 1975, quando um incêndio destruiu completamente a fábrica. A reconstrução exigiu recomeçar praticamente do zero. Anos depois, outra escolha mudaria o rumo da empresa: a abertura da primeira loja própria, em Curitiba, no fim da década de 1980, ampliando a atuação para o varejo. Na sequência, vieram a consolidação da produção própria de móveis planejados e, mais recentemente, a criação da Simmetria, voltada ao mobiliário brasileiro autoral de alto padrão e ao relacionamento com escritórios de arquitetura e design.
habitat
Ao longo desse percurso, a MCL incorporou novas tecnologias, ampliou seu portfólio e modernizou processos. Mas, para Edson, os valores que sustentam o negócio permanecem os mesmos desde a primeira geração. “Meu pai me ensinou desde cedo que o trabalho dedicado, feito com amor, é o verdadeiro motor da realização profissional. Herdamos dele a honestidade, a ética inegociável e o respeito profundo por cada cliente, colaborador e parceiro. São bases que sustentam nossa reputação e que nos trouxeram até aqui”. Sob sua gestão, a MCL investiu na profissionalização da curadoria de produtos, na criação de ambientes que facilitam a experiência de compra e no fortalecimento da área de planejados. Ao mesmo tempo, acompanhou as mudanças no comportamento do consumidor, que passou a buscar soluções mais completas, personalizadas e objetivas. “Estamos sempre ouvindo o mercado com atenção e sensibilidade. Hoje, o nosso público — seja o cliente final ou o arquiteto — busca soluções inteligentes, clareza e eficiência na tomada de decisão. Acompanhar essa evolução significou antecipar desejos e lapidar um mix que une a força das principais marcas nacionais à agilidade de nossas soluções customizadas”, revela. Essa combinação entre tradição e capacidade de adaptação ajuda a explicar o posicionamento atual da empresa. A integração entre móveis soltos, planejados e soluções para áreas internas e externas tornou-se um diferencial importante, especialmente para arquitetos e especificadores. “Contamos com uma estrutura de engenharia e produção altamente capacitada que nos permite aliar a solidez da tradição à agilidade de uma empresa moderna”, explica. “Não vendemos apenas móveis; entregamos segurança e tranquilidade para o cliente final e para os arquitetos, que são parceiros essenciais no nosso dia a dia”.
Edson Marochi, responsável pelo rebranding e expansão da marca ao longo das últimas décadas. | Foto: Divulgação
O futuro, segundo ele, passa por uma operação cada vez mais digital e integrada. “Nos próximos anos, a MCL continuará avançando em direção a uma operação cada vez mais ágil, sem jamais abrir mão da essência do atendimento humanizado e dos princípios que sustentam nossa trajetória”. Trajetória construída com a confiança como alicerce — da própria família, perante os clientes e à sinergia de um time de colaboradores e parceiros. Renovada a cada geração, faz com que a Móveis Campo Largo entregue muito mais do que móveis há 65 anos, mas integre a história de milhares de famílias. Ampliação do parque fabril, totalizando 10.000 m2. Foto: Divulgação
habitat
95
ARTE
BICHOS DO PARANÁ O ceramista Rodrigo Bertoli une escultura e educação ambiental em exposição que revela a riqueza dos animais da fauna paranaense. Por Rafaella Sabatowitch
A
lguns animais despertam admiração imediata. Outros passam despercebidos ou até provocam sensações indesejadas. Entre eles, gambá, bugioruivo, sucuri-amarela, cardumes de sardinha. Na exposição Bichos do Paraná, em cartaz até setembro no Museu Casa Alfredo Andersen, em Curitiba, o escultor Rodrigo Bertoli convida o público a olhar novamente para a fauna paranaense e descobrir a beleza de espécies que habitam o estado, muitas delas desconhecidas pela maior parte da população. Reunindo 13 esculturas em cerâmica, o projeto aproxima arte e educação ambiental por meio de um trabalho que combina pesquisa científica, domínio técnico e profunda observação da natureza. A ideia nasceu em 2023, durante as conversas com o escultor chileno Alan Max, no ateliê Nêwen. O plano inicial era criar uma série dedicada exclusivamente a animais nativos
96
do Paraná, mas havia também outro propósito: despertar a curiosidade de crianças e adultos sobre a biodiversidade local. Então, cada obra é acompanhada por informações sobre a espécie retratada, transformando a exposição em uma experiência que vai muito além da contemplação estética. Essa aproximação entre arte e ciência acompanha Bertoli há muito tempo. Antes de se dedicar integralmente à escultura, ele se formou em Zootecnia e trabalhou durante uma década com a aquicultura, pesquisando peixes, camarões e ostras, além de desenvolver ações de educação ambiental. O dia a dia em manguezais e estuários, e a convivência com pescadores artesanais e inúmeras espécies, ampliou seu repertório sobre os ciclos da natureza e consolidou uma relação de respeito com a vida selvagem – conhecimento que hoje se traduz em esculturas. Na hora de escolher os animais a serem retratados,
habitat
Rodrigo Bertoli e a fêmea de gambá carregando cinco filhotes nas costas, obra em cerâmica que representou um grande desafio técnico ao artista. Foto: Anderson Tozato
habitat
97
Arte
A exposição Bichos do Paraná está em cartaz no Museu Casa Alfredo Andersen, em Curitiba, até setembro. Foto: Anderson Tozato 98
habitat
Bertoli procura muito mais do que criaturas visualmente atraentes. O que o interessa é compreender sua importância ecológica e, principalmente, provocar uma mudança de percepção. “O gambá é muito discriminado, mas ele é um herói, um animal belíssimo”, afirma. Essa fidelidade ao mundo natural é resultado de um processo rigoroso. Antes de modelar qualquer peça, Bertoli reúne um extenso banco de imagens, estuda proporções, observa detalhes anatômicos e utiliza medições precisas para reproduzir cada espécie com o maior grau possível de realismo. A liberdade criativa aparece principalmente na escolha da postura, pois a intenção é transmitir movimento e personalidade sem comprometer a anatomia. A escolha da cerâmica não é apenas técnica. Para o artista, trata-se de uma matéria-prima que estabelece uma conexão simbólica com a própria natureza. A argila, retirada da terra e transformada pelo fogo, carrega uma força ancestral que dialoga diretamente com os animais retratados. Ao mesmo tempo, é um material extremamente exigente: qualquer bolha de ar, espessura inadequada ou fragilidade estrutural pode provocar rachaduras ou até a explosão da peça durante a queima. Além disso, determinadas poses precisam ser adaptadas para garantir resistência após a finalização.
Entre todas as esculturas da série, uma ocupa lugar especial para o autor: a fêmea de gambá carregando cinco filhotes nas costas. Cada um precisou ser modelado individualmente e permanecer oco por dentro, aumentando significativamente o risco de perda da obra durante a queima. Quando a peça saiu intacta do forno, Bertoli percebeu que havia alcançado um novo domínio sobre o material, adquirindo confiança para enfrentar desafios ainda maiores. Embora a exposição represente o amadurecimento de sua carreira, sua relação com a arte começou muitos anos antes. Ainda criança, recebia da avó, professora de Belas Artes da EMBAP, massinhas de modelar e brinquedos de animais, incentivo reforçado pela tia Marisa Bertoli e pelo primo Luiz Marcelo, ambos artistas. Foram eles que lhe apresentaram técnicas de desenho, pintura, composição e observação das cores. Além de apresentar a fauna paranaense, Bichos do Paraná também pretende revelar ao público a riqueza da própria cerâmica. O visitante acompanha as diferentes etapas de produção das esculturas e compreende a complexidade técnica envolvida em cada obra. Para Bertoli, despertar o interesse de novos ceramistas talvez seja um dos legados mais importantes da mostra. “Acho que todas essas curiosidades vão, com certeza, aguçar os visitantes e, quem sabe, ter novos escultores ou ceramistas”, finaliza.
As obras em cerâmica de Rodrigo Bertoli são extremamente realistas; a liberdade criativa aparece, principalmente, na postura dos animais. | Foto: Anderson Tozato
habitat
99
COLUNA É DESIGN
DANIEL CASTELLI E O DESIGN QUE NASCE DA PAISAGEM por Rodolpho Guttierrez
N
a Serra Gaúcha, entre araucárias, neblina e trilhas que serpenteiam a mata, Daniel Castelli construiu algo raro: um lugar onde design, natureza e hospitalidade coexistem de forma orgânica. Criador da Monã, em Canela, ele desenvolveu uma linguagem autoral que ultrapassa o universo dos objetos e se transforma em experiência. Sua relação com a madeira começou muito antes do reconhecimento internacional ou dos prêmios. Nasceu do contato direto com a natureza e do hábito de construir com as próprias mãos. “Durante muito tempo eu apenas fazia”, conta. O gesto intuitivo de transformar matéria em objeto veio antes da compreensão de que aquele trabalho carregava uma identidade própria.
Com o tempo, percebeu que suas peças não eram apenas utilitárias – elas traduziam paisagens, memórias e experiências. Foi ali que o artesanato encontrou o design autoral. A madeira deixou de ser apenas matéria-prima e passou a ser linguagem. Essa visão ajudou a transformar suas tábuas de corte em peças desejadas por chefs, arquitetos e apaixonados pelo design brasileiro. Embora continuem cumprindo sua função original, elas ocupam um lugar muito maior dentro das casas. Para Daniel, o valor de uma peça não está apenas na estética ou na funcionalidade, mas na capacidade de criar vínculos. “Quando um objeto participa da vida das pessoas, ele deixa de ser apenas funcional e passa a carregar significado”.
Foto: Divulgação 100
habitat
Essa combinação entre técnica, sensibilidade e identidade levou seu trabalho a conquistar reconhecimento além das fronteiras brasileiras. Suas peças já representaram o país na Semana de Design de Milão e receberam o Prêmio Mitsubishi Motors Design, da MADE. Ainda assim, ele encara esses momentos como parte do processo, não como ponto de chegada. O que mais chama a atenção em sua trajetória é a maneira como a sustentabilidade aparece de forma natural, sem discursos prontos ou fórmulas de mercado. Viver cercado pela natureza moldou sua percepção sobre o tempo e sobre os recursos que utiliza. Cada madeira que chega ao ateliê já carrega uma história anterior à sua intervenção. Essa consciência se reflete em uma visão crítica sobre o consumo contemporâneo. Em vez de criar objetos para acompanhar tendências passageiras, Daniel busca desenvolver peças capazes de atravessar décadas. “Vivemos uma época marcada pelo descarte e pela substituição constante. Eu me interesso pelo contrário". Talvez por isso uma das ideias que mais definem seu trabalho seja o manifesto cultivado dentro do ateliê: criar objetos que as pessoas levem na mudança. Peças que continuem fazendo sentido quando a casa muda, quando a família cresce ou quando a vida toma novos rumos.
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
O território onde tudo acontece também exerce papel fundamental nesse processo criativo. A paisagem da Serra Gaúcha não aparece de forma literal nas coleções, mas está presente em cada decisão. A luz que atravessa o ateliê, o ritmo das estações, o silêncio das montanhas e a presença constante das araucárias ajudam a moldar seu olhar. A Monã, porém, nunca foi apenas um espaço de produção. Aos poucos, tornou-se um ecossistema onde design, gastronomia, hospedagem e vida ao ar livre se encontram. Uma evolução que dialoga diretamente com outra influência importante de sua trajetória: a hospitalidade. Filho de um profissional que dedicou a vida à formação de pessoas nesse setor, Daniel cresceu observando a arte de receber. Hoje, essa herança aparece em tudo o que faz. Seja apresentando uma peça, recebendo hóspedes ou compartilhando uma refeição, existe sempre a intenção de criar encontros genuínos. Essa conexão talvez explique também a afinidade entre seu trabalho e o universo da gastronomia. Assim como o design, a cozinha é uma experiência sensorial que envolve matéria, memória, apresentação e afeto. Não por acaso, muitos chefs encontraram em suas peças uma extensão natural de suas criações. Ao olhar para a própria trajetória, Daniel parece ter encontrado uma resposta que muitos criativos passam a vida procurando. Não foi necessário escolher entre design, natureza, hospitalidade ou artesanato. Tudo faz parte da mesma construção. Os próximos passos seguem exatamente nessa direção. Mais do que desenvolver novos objetos ou coleções, ele pretende ampliar as conexões que vêm sendo construídas na Monã. Afinal, para quem acredita que o design é uma ferramenta para criar significado, talvez o futuro esteja menos nos produtos isolados e mais nos lugares, nas experiências e nos vínculos que eles são capazes de gerar.
habitat
101
COLUNA SOBRE MORAR
POR TRÁS DAS LENTES Depois de uma década fotografando alguns dos projetos mais emblemáticos da arquitetura brasileira, Eduardo Macarios abre as portas do apartamento onde o repertório construído ao longo da carreira se materializa em escolhas que contam a história de sua família.
H
por Paula Campos
á mais de uma década, Eduardo Macarios percorre alguns dos mais importantes projetos de arquitetura do país com a câmera nas mãos. Seu olhar começou a ser construído ainda na adolescência, durante um intercâmbio na Austrália – muito antes de se tornar uma das principais referências da fotografia de arquitetura e interiores. De volta ao Brasil, estudou Jornalismo, aprofundou a formação em fotografia durante um período na Inglaterra e, em 2009, abriu seu estúdio. Durante alguns anos, fotografou casamentos, moda e eventos, até perceber que seu caminho estava em retratar espaços. Em 2015, reposicionou a carreira e decidiu
dedicar-se exclusivamente à fotografia de arquitetura e interiores. A escolha lhe permitiu desenvolver uma linguagem própria, marcada pelo rigor técnico e pelo cuidado com cada imagem. Hoje, a casa onde vive com a esposa Evelyn e as filhas Marina e Luiza traduz esse repertório aliado a outra de suas paixões: viver a cidade. O casal escolheu como lar o centro de Curitiba por um motivo simples: queriam caminhar, levar as meninas à escola a pé, frequentar cafés, descobrir pequenos comércios locais e vivenciar a cidade em seu próprio ritmo.
Iluminação natural, cor, forma e função. Repertório profissional presente em cada uma das escolhas do apartamento de Eduardo e Evelyn. | Foto: Eduardo Macarios 102
habitat
Eduardo e Evelyn, em sua galeria pessoal, com destaque para a obra de Rimon Guimarães, poltronas Concha de Carlo Hauner & Martin Eisler para Forma e bancos Girafa de Lina Bo Bardi. | Foto: Eduardo Macarios
Livros, cinema, música e gastronomia fazem parte da rotina da família. O casal compartilha o apreço pela estética e pelas experiências cotidianas. Engenheira de formação e descendente de chineses, Lyn, como é mais conhecida, acrescenta ao universo do fotógrafo referências culturais, gastronômicas e um olhar que, segundo ele, trouxe mais cor, alegria e espontaneidade à casa. Entre
receitas herdadas da família, o gosto por experimentar novos sabores e uma personalidade prática foi ela quem ajudou a transformar o apartamento em um espaço vivo e afetivo. "A gente pensou muito nesse espaço para promover essas atividades contemplativas e inspiradoras", resume Eduardo.
habitat
103
Sobre Morar por Paula Campos
Depois de fotografar centenas de residências, Eduardo sabia exatamente o tipo de arquitetura que admirava. Ao encontrar o apartamento já restaurado em um clássico edifício modernista dos anos 70, coube ao escritório Solo Arquitetos, clientes e amigos do fotógrafo, transformar o espaço em uma extensão da identidade da família. O piso de taco original e as tradicionais venezianas azuis do edifício deram origem ao projeto. A partir delas surgiram outros pontos de cor. O vermelho do carrinho Zig, design de Renata Puglia para a Marcenaria Baraúna, presente de Evelyn, guiou muitas das escolhas do projeto. Vieram depois o banco em azulejos, executado por Rômulo Lass no mesmo tom, e a porta escotilha que separa a área social da área íntima, inspirada nos projetos de Marcos Bertoldi. A influência dos cenários do cineasta Pedro Almodóvar também ajudou a consolidar a proposta de uma casa vibrante com cores saturadas, capaz de inspirar a criatividade.
Peças de estudiobola, desmobilia, Carlos Mota, Fernando Prado, Bruno Fauz e Guilherme Bender enriquecem o ambiente culturalmente. | Foto: Eduardo Macarios
Na estante, os protagonistas são os livros de fotografia, sustentabilidade, psicologia e literatura. Destaque para o banco de Rômulo Lass e a poltrona Charles Eames, primeira peça de design adquirida pelo fotógrafo. Foto: Eduardo Macarios 104
Mais do que referências estéticas, o apartamento reúne o repertório acumulado por Eduardo ao longo de uma década convivendo com grandes arquitetos e designers. "Muitos dos profissionais com quem trabalhei influenciaram ou validaram ideias que eu gostaria de fazer aqui". Algumas foram incorporadas quase literalmente, outras surgiram das conversas constantes com profissionais que fazem parte de sua trajetória, entre eles o escritório Moribe + Valente, responsável pelos últimos toques da ambientação. O resultado é um ambiente onde clássicos do design convivem com arte urbana, fotografias de amigos e peças carregadas de memória, sem perder a conexão com a cidade. Todo esse universo também foi pensado para Marina e Luiza. Entre livros, música, arte e liberdade para explorar a casa, o casal espera despertar nas filhas a curiosidade e a sensibilidade que orientam sua própria maneira de viver. Para Eduardo, morar é, acima de tudo, uma escolha. "Morar, para mim, é fazer escolhas todos os dias. Escolher estar onde a gente está hoje, com as pessoas que temos ao nosso redor, e assumir o nosso estilo de vida, trazendo um pouco da cidade para dentro de casa".
habitat
ARQUITETURA
A FORÇA DE UM LEGADO Ao iniciar um novo capítulo, a Paraná celebra uma história de mais de seis décadas, unindo tradição, inovação e a valorização das rochas naturais
A
Paraná sempre acompanhou as transformações da indústria, da arquitetura e do design. Da extração ao desenvolvimento de tecnologias que ampliam possibilidades de uso, a empresa consolidou uma trajetória pautada pela inovação sem perder de vista aquilo que sustenta sua identidade: a origem. A relação da família Lopes com as rochas naturais começou ainda na década de 1960, quando o patriarca
Anibal Tavares Lopes iniciou sua atuação no setor. Em 1987, nasceu a Paraná Granitos, na época dedicada ao beneficiamento e à comercialização. Desde então, a operação cresceu, expandiu fronteiras e hoje reúne unidades em Colombo (PR), Santa Rita de Caldas (MG), Cachoeiro de Itapemirim (ES) e Tampa, na Flórida (EUA), em um modelo de gestão familiar que já alcança a terceira geração.
Segunda e terceira geração da Paraná: Aníbal Souza Lopes, Peterson Reksiedler, Thiago Moraes, Marson Moraes, Vinicius Bochnia Lopes, Gustavo Lopes Sezerino, Marinéia Lopes Reksiedler, Franciane Lopes Pontes, Jucimara Moraes, Luciane Souza Lopes e Valdirene Lopes Ferreira. 106
habitat
"Trabalhar em família fortalece a marca. Todos carregam um legado, valorizam as raízes e compartilham a responsabilidade de dar continuidade à história construída pelo nosso fundador. Isso faz parte do nosso DNA", afirma Franciane Lopes de Pontes, uma das diretoras da Paraná. A confiança construída ao longo de mais de três décadas tornou a Paraná uma das principais referências do mercado de rochas naturais. Em 2008, reforçando seu espírito pioneiro, a empresa inaugurou um showroom exclusivo para arquitetos e designers, tornando-se uma das primeiras do setor a oferecer um ambiente onde era possível vivenciar todo o percurso da rocha, desde o beneficiamento até sua aplicação em projetos de arquitetura e design.
Agora, a Paraná redefine seu novo conceito de showroom. Muito além de um espaço para exposição de materiais, o ambiente transforma a visita em uma experiência imersiva, inspirada nas galerias de arte e marcada pelo protagonismo de suas rochas naturais. Entre os destaques estão o Mármore Branco Paraná e o Granito Café Imperial, que expressam a identidade e a excelência da marca. A mudança, assinada pelo escritório Architetonika, com direção criativa de Renan Mutao e Ary Polis Jacobs, acompanha um movimento importante do mercado: se durante muitos anos as rochas importadas ocuparam posição de destaque, a arquitetura contemporânea voltou seu olhar para a riqueza, a qualidade e a autenticidade das rochas brasileiras.
habitat
107
Arquitetura
Essa valorização nasce da natureza do material. Extraído de jazida própria, o Branco Paraná apresenta uma ampla variedade de tonalidades — dos brancos mais puros a nuances douradas e rosadas —, resultado das características geológicas de sua formação. Soma-se a isso uma composição química que confere maior resistência em comparação a materiais tradicionalmente associados ao mercado internacional. Com um departamento interno dedicado exclusiva-
mente à pesquisa e ao desenvolvimento, a Paraná investe em acabamentos, texturas e aplicações capazes de ampliar o potencial da pedra natural. É dessa cultura de investimento contínuo que surgiu, por exemplo, a tecnologia exclusiva Pietrafina®, que reduz significativamente a espessura das chapas de 20mm para 5mm, sem comprometer seu desempenho, permitindo a utilização em mobiliário, forros, portas, embarcações e até na indústria aeronáutica.
O Monte Cristo PR deu imponência ao corredor de entrada 108
habitat
A lareira ganhou status de obra de arte com o Macchia Vecchia PR
As novidades também são impulsionadas pelo acompanhamento constante das principais feiras nacionais e internacionais, onde são identificadas tendências e antecipadas soluções que dialogam com as demandas contemporâneas. Ao mesmo tempo, a sustentabilidade permanece como um compromisso em todas as etapas da operação. O aproveitamento integral dos recursos extraídos, a destinação dos resíduos para diferentes cadeias produtivas e a exploração responsável das jazidas refletem uma visão que ultrapassa as exigências regulatórias e reconhece na longevidade da pedra natural uma de suas maiores qualidades. Hoje, a Paraná reafirma uma característica que sempre a acompanhou: a capacidade de evoluir sem romper com suas origens. Em um mercado em permanente transformação, tradição e inovação deixam de ocupar lados opostos e passam a compartilhar a mesma base sólida, construída, literalmente, sobre a pedra.
prgrupoparana.com prgrupoparana_ +55 41 3303-9617 A área para eventos e treinamentos recebeu Monte Vitta PR no piso
branded content
109
NOTAS HABITAT
ARTISTAS CONTEMPORÂNEOS EM ESPAÇOS SINGULARES ABERTO SOLO inaugura novo espaço para artes visuais no Teatro Cultura Artística com a mostra Tudo que eu sei, eu aprendi à noite, de Luísa Matsushita.
Obra Fila do Baile, de Luísa Matsushita. | Foto: Erika Mayumi
A
plataforma ABERTO lança a ABERTO Solo, iniciativa dedicada à realização de exposições individuais concebidas a partir do diálogo entre artistas contemporâneos e espaços singulares da cidade. A primeira edição acontece em parceria com o Teatro Cultura Artística, em São Paulo, e marca a inauguração da nova área expositiva da instituição, localizada no primeiro andar do edifício. Em cartaz entre 15 de agosto e 27 de setembro, Tudo que eu sei, eu aprendi à noite, de Luísa Matsushita, lança simultaneamente o programa e o novo espaço. Previsto no projeto original concebido por Rino Levi na década de 1950, o ambiente ganha vida mais de 70 anos depois de sua criação, ampliando a atuação do Cultura Artística e
incorporando de forma permanente as artes visuais à sua programação. Conhecida internacionalmente como Lovefoxxx, vocalista da banda Cansei de Ser Sexy (CSS), Luísa Matsushita apresenta um conjunto de pinturas inéditas produzidas especialmente para o Teatro Cultura Artística. As obras partem de suas memórias afetivas do centro de São Paulo e da intensa vida noturna do Baixo Augusta, região onde viveu no início de sua trajetória artística. Além do conjunto de obras da mostra, a artista criará uma instalação site-specific de 15 metros de largura para o saguão principal do Teatro, expandindo a ocupação para além da sala expositiva e estabelecendo um diálogo direto com a arquitetura do edifício.
Serviço: ABERTO Solo: Tudo que eu sei, eu aprendi à noite, de Luísa Matsushita. De 15 de agosto a 27 de setembro. Teatro Cultura Artística (R. Nestor Pestana, 196, Consolação. São Paulo – SP). 110
habitat
Notas Habitat
FEIRA DE DESCOBERTAS
SP-Arte Rotas chega à sua 5ª edição com direção artística de Bernardo Mosqueira e cerca de 70 expositores. Uma feira de descobertas de jovens artistas, de trabalhos menos conhecidos de artistas renomados e de novas formas de apresentação. Assim podemos definir a SP-Arte Rotas, que acontecerá entre os dias 26 e 30 de agosto na ARCA, em São Paulo. A feira de projetos curados celebra neste ano a sua 5ª edição renovando-se como espaço de diálogo da arte incorporando a proposta, iniciada em 2025, de expandir suas fronteiras. Além dos cerca de 70 estandes de galerias do Brasil e de outras partes da América Latina, o evento conta com setores especiais e reúne artistas, curadores e especialistas do circuito no programa de conversas do Palco SP-Arte.
Destes encontros, vêm a dinamicidade do evento, feito para quem quer pensar fora da caixa, ampliar o olhar e suas referências. É neste ambiente que se encontram colecionadores nacionais e internacionais, curadores, artistas, galeristas, pesquisadores e apaixonados por arte e cultura. Neste ano, a direção artística está a cargo do curador, escritor e pesquisador brasileiro Bernardo Mosqueira. Vivendo em Nova York, Mosqueira é fundador e diretor artístico do Solar (anteriormente conhecido como Solar dos Abacaxis), no Rio de Janeiro. É de Mosqueira a curadoria do setor especial Mirante, que reúne obras que se destacam por sua escala, relevância histórica, singularidade formal ou potência conceitual.
Estande da galeria Claraboia na quarta edição da SP-Arte Rotas. | Foto: Divulgação SP-Arte
Serviço: SP-Arte Rotas. De 26 a 30 de agosto. ARCA (Av. Manuel Bandeira, 360, Vila Leopoldina. São Paulo – SP). www.sp-arte.com 112
habitat
Notas Habitat
AFETO TAMBÉM É REMÉDIO
Mostra Nise da Silveira, A Revolução pelo Afeto apresenta o legado da médica que transformou o tratamento da saúde mental no Brasil.
Exposição Nise da Silveira, A Revolução pelo Afeto. | Foto: Rogerio von Krüger
Nise da Silveira foi pioneira em seu pensamento inclusivo, inspirando a reforma psiquiátrica brasileira e contribuindo para dotar o país de uma das legislações mais avançadas no mundo na área da saúde mental. O trabalho da médica quanto à humanização do tratamento de transtornos mentais e a valorização da capacidade criativa dos pacientes levaram à criação do Museu de Imagens do Inconsciente, que hoje abriga a maior coleção de seu gênero, com mais de 400 mil obras, parte delas tombadas pelo IPHAN. Até o dia 10 de outubro, na CAIXA Cultural Curitiba, o público poderá conhecer os aspectos históricos, científicos e artísticos da pesquisa da Dra. Nise. “A exposição convida
o público a refletir e ressignificar o conceito de loucura através de um mergulho histórico na intersecção entre saúde mental e artes, oferecendo um recorte que combina ciência e história da vida e obra de Nise, apresentando artistas do hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro”, disse Isabel Seixas, uma das curadoras da mostra itinerante que já passou por sete cidades, sendo vista por mais de 320 mil pessoas. A exposição traz para Curitiba mais de 150 peças e obras de artistas como Adelina Gomes, Arthur Amora, Beta d’Rocha, Fernando Diniz, Carlos Pertuis, entre outros.
Serviço: Nise da Silveira, A Revolução pelo Afeto, em cartaz até 10 de outubro. CAIXA Cultural Curitiba (Rua Conselheiro Laurindo, 280. Curitiba – Paraná). 114
habitat
Notas Habitat
ARTE, IDENTIDADE E MIGRAÇÃO
A mostra Assim bordei meus sonhos: Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo celebra o Centenário da Imigração Lituana no Brasil e aborda legados culturais transmitidos entre gerações. Como parte das comemorações do Centenário da Imigração Lituana no Brasil, o Museu da Imigração, em São Paulo, inaugurou a exposição Assim bordei meus sonhos: Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo, em cartaz até 6 de outubro. Margarida é mãe de OSGEMEOS (Otávio Pandolfo e Gustavo Pandolfo) e a mostra marca sua primeira individual no Brasil, após passar por Estados Unidos e Lituânia. São cerca de 300 itens, entre obras, fotografias e documentos, incluindo alguns trabalhos em parceria com os filhos artistas. Assim bordei meus sonhos propõe uma análise de como o bordado é também uma ferramenta de contação de histórias. A mostra amplia as possibilidades de diálogo entre a poética visual da artista e sua história relacionada
Sem título, de Margarida Pandolfo. | Foto: Filipe Berndt
com a migração do país europeu nos séculos XIX e XX. “Enquanto eu bordava, sonhava com o passado, voltava no tempo, sentia que alguma coisa brotaria dentro de mim. Quando eu bordo, vejo o surgimento da obra pouco a pouco, e isso me traz uma realização muito sincera de conexão entre os sonhos e a realidade”, disse a artista. Descendente de uma família de imigrantes lituanos, Margarida nasceu em São Paulo, em 1943. Sua juventude foi imersa em um ambiente de criações: as tapeçarias da avó, a costura da mãe e as pinturas do tio. Essa bagagem foi refinada mais tarde com o domínio técnico em trabalhos manuais como o tricô, o crochê e o bordado. Margarida e seus bordados. | Foto: OSGEMEOS
Serviço: Assim bordei meus sonhos: Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo. Até 6 de outubro. Museu da Imigração (Rua Visconde de Parnaíba, 1.316, Mooca. São Paulo – SP). 116
habitat
A ARTE COMO VALOR PERMANENTE
Incorporadora curitibana lança empreendimento em homenagem a Alfredo Andersen.
Tela do artista João Paulo de Carvalho. Foto: Divulgação GT Building
Localizado em endereço nobre da capital paranaense, Andersen, o novo residencial boutique da incorporadora curitibana GT Building, homenageia a obra e o legado de Alfredo Andersen, artista consagrado como o pai da pintura paranaense. O projeto adota um conceito intimista, sofisticado e contemporâneo, com alto padrão de conforto. A arquitetura deixa de ser apenas construção e passa a ser expressão cultural, traduzindo valores, sensações e pertencimento. Com forte influência do naturalismo e do realismo europeus, Alfredo Andersen retratou paisagens litorâneas, cenas cotidianas e personagens marcados por uma luz própria e sensível. Sua obra revela uma fusão singular entre a formação nórdica – ele nasceu na Noruega – e a vivência brasileira. Esse olhar atento para o entorno e a capacidade de transformar o cotidiano em arte constituem o fio condutor conceitual do residencial.
O projeto contará com uma curadoria de obras em homenagem ao artista, atualmente em negociação. “É uma grande honra ver o legado de Andersen sendo homenageado por um empreendimento que compreende a arte como valor permanente. Esta iniciativa reafirma a relevância histórica e cultural do artista e demonstra como sua obra segue viva, capaz de dialogar com a arquitetura contemporânea e com a cidade, preservando memória, identidade e sensibilidade para as futuras gerações”, disse o fundador da Sociedade Amigos de Alfredo Andersen, Dr. Wilson José Andersen Ballão. Inspirado na atmosfera dos hotéis boutique, que unem experiências personalizadas, ambientes de forte identidade e uma relação mais próxima entre arquitetura, design e bem-estar, o empreendimento traduz uma visão de morar que valoriza a sofisticação discreta, o cuidado com os detalhes e a criação de experiências únicas.
habitat
117
Coluna Conexão por Cesar Franco
DÓRA A Piemonte Incorporadora reuniu convidados para apresentar o plantão de vendas e o apartamento decorado do Piemonte Dóra, empreendimento que será construído entre os bairros Batel e Bigorrilho. Assinados pela arquiteta Eliza Schuchovski, da SCK Arquitetura, os espaços permitem conhecer de perto a proposta do residencial, unindo arquitetura, design, tecnologia e hospitalidade. O apartamento decorado revela ambientes amplos, integrados e ilu118
minados naturalmente, com soluções que privilegiam conforto, funcionalidade e elegância. No plantão de vendas, recursos tecnológicos proporcionam uma leitura imersiva do projeto e de sua implantação. Com arquitetura da Baggio Schiavon Arquitetura, paisagismo de Burle Marx, projeto luminotécnico do Studio Regina Bruni e interiores da SCK Arquitetura, o Piemonte Dóra terá três torres, ampla área de lazer integrada ao paisagismo e uma piscina
habitat
com conceito lagoon. O empreendimento contará ainda com serviços de hospitalidade operados pela HCC Hospitality, disponíveis no sistema pay-per-use, entre eles chef em domicílio, personal trainer, organização de eventos, limpeza residencial, baby-sitter, cuidadores, serviços para pets, jardinagem, manutenção, pequenos reparos e estética. Uma proposta que amplia o conceito de morar ao reunir arquitetura, conveniência e bem-estar em um único endereço.
Flavio Schiavon, Eliza Schuchovski, Filipe Demeterco e Elias Rodrigues, CEO da HCC Hospitality. | Fotos: Allana Fitz/Clickdrone
Eliza Schuchovski, Flavio Schiavon, Silvia Soares e Regina Bruni. | Foto: Allana Fitz/Clickdrone
Mada Pereira, Luiza Tosin, Beatriz Tosin, Silvana Meucci e Iza Grein. | Foto: Allana Fitz/Clickdrone
O arquiteto Flavio Schiavon, a diretora de incorporação da Piemonte Incorporadora, Silvia Soares, e o diretor-presidente da Piemonte, Filipe Demeterco. | Foto Allana Fitz/Clickdrone
habitat
119
Coluna Conexão por Cesar Franco
ESSÊNCIA A arquiteta Alessandra Gandolfi segue recebendo elogios pelo ambiente que apresentou na CASACOR Paraná 2026. Entre os destaques da mostra, o projeto chamou a atenção dos visitantes pela personalidade, pela curadoria de design e arte e, principalmente, pela atmosfera acolhedora. Muitos comentavam que o espaço parecia uma casa de verdade, daquelas em que a gente se imagina vivendo. Uma essência que também inspira os projetos desenvolvidos pelo escritório.
COLABORAÇÃO Tansy Kaschak é jornalista, curadora e articuladora cultural. Brasileira entre Miami e Nova York, atua em projetos globais e é editora-chefe do A Hotel Life, plataforma internacional dedicada ao universo dos hotéis. A partir desta edição, traz para a Habitat um olhar sobre a intersecção da arquitetura, design, arte com a hospitalidade contemporânea. Foto: Steven Rojas.
120
habitat
HOMENAGEM A secretária de Estado da Cultura do Paraná, Luciana Casagrande Pereira, recebeu a insígnia de Chevalière dans l’Ordre des Arts et des Lettres, uma das mais importantes distinções culturais concedidas pelo governo da França. A homenagem reconhece o trabalho desenvolvido na ampliação das relações culturais entre o Paraná e instituições francesas, consolidando parcerias e projetos que ampliam a presença do Estado no cenário internacional. Foto: Kraw Penas.
CRIATIVIDADE O arquiteto Ricardo Amaral, CEO da Ricardo Amaral Arquitetos Associados, foi um dos vencedores do prêmio Curitiba Mais Criativa 2026, na categoria Arquitetura, com o projeto EVO, que propõe transformar corredores do BRT em parques lineares, integrando mobilidade, áreas verdes e espaços de convivência. Na foto, a arquiteta Nicole Bilobran, Ricardo Amaral, Alexandre Curi, Eugênio Calixto Neto e Angelo Gulin Neto. Foto: Antonio More.
habitat
121
Coluna Conexão por Cesar Franco
CONEXÃO A Paraná Mármores e Granitos inaugurou seu novo espaço de experiência, criado para traduzir a essência da marca e fortalecer a conexão com arquitetos, designers e clientes. Inspirado no conceito “O tempo revela o essencial”, o showroom reúne rochas naturais e materiais selecionados para projetos de alto padrão. Na foto, os diretores Celso Pontes, Peterson Reksiedler, Marson Moraes, Jucimara Moraes, Valdirene Lopes Ferreira, Aníbal Souza Lopes, Marinéia Lopes Reksiedler, Luciane Souza Lopes e Franciane Lopes Pontes.
LEGADO A Inove Design deu início às comemorações de seus 40 anos com a apresentação do projeto 10+30, que reunirá alguns dos principais escritórios de arquitetura e design do Paraná em uma experiência inédita. Participam Boscardin Corsi, Catherine Moro, Claudia Horta, Diane Justus, Giuliano Marchiorato, Jorge Elmor, Kuster e Brizola, Marcos Bertoldi Arquitetos, Pinheiro Lima & Mattioli, Rauen Garbers, Talita Nogueira, Volpato Arquitetura e Silmara Pimpão. Foto: Patrícia Amancio.
SALÃO Ana Lecticia Mansur, Suzana Lobo, Luiz Ernesto Meyer Pereira, Monica Machado Lima e o presidente do Graciosa Country Club, Glaucio Bley Filho, na abertura do Salão Graciosa de Artes Plásticas. O retorno de um dos mais tradicionais salões de arte do Paraná foi celebrado por artistas, colecionadores, jornalistas e representantes da cena cultural, reafirmando a vocação do Graciosa Country Club como espaço de incentivo e difusão das artes visuais. Foto: Lucas Lopes. 122
habitat
TENDÊNCIAS Rodrigo Pio, CEO da Hunter Douglas Brasil, Elaine Zanon, Jayme Bernardo, Viviane Zorzete, diretora comercial, e Christiane Rosa, gerente de Relacionamento da Hunter Douglas, durante o encontro promovido pela M.Decor na CASACOR Paraná. A noite reuniu profissionais e parceiros do setor em torno de boas conversas, novas referências e das tendências que ajudam a desenhar os caminhos da arquitetura e do design. Foto: Gerson Lima.
ILÚNIA Felipe Felitto, gerente de Incorporação da TUO Empreendimentos, Rômulo e Tiago de Mio, diretores do Grupo Equilíbrio, e Paulo Gouveia, gerente comercial da TUO Empreendimentos, durante o lançamento do Ilúnia, em Curitiba. O encontro marcou a apresentação de um projeto que privilegia diferentes formas de morar, integrando arquitetura, áreas de convivência e soluções pensadas para a vida contemporânea. Foto: Leandro Previdi.
HALL Fernando Meira, diretor da Víncere Incorporadora, e o arquiteto Flávio Schiavon marcaram a entrega do Hall Design, no Centro Cívico. O empreendimento reflete uma arquitetura contemporânea, com soluções voltadas ao cotidiano urbano e à valorização dos espaços, reforçando a identidade da Víncere em projetos que unem qualidade construtiva, funcionalidade e atenção aos detalhes. Foto: Gerson Lima.
habitat
123
Coluna Conexão por Cesar Franco
SCA Os sócios da SCA Curitiba, Leandro Lorca e André Coutinho, acompanharam um grupo de escritórios parceiros em visita à sede da SCA, em Bento Gonçalves (RS). O encontro proporcionou uma imersão na história, nos processos e nas novidades da marca, que se prepara para celebrar 60 anos de trajetória, reafirmando seu compromisso com a inovação, o design e a excelência em projetos de alto padrão.
ARTE Rogério Ghomes, Antônio Wolff, Zilda Fraletti, André Mendes, Cleverson Oliveira e Carlos Cavet durante a abertura das exposições “Eu me lembro muito bem, como se fosse amanhã” e “Libra de Timbres”, na Galeria Zilda Fraletti. As mostras, que integraram a programação da 16ª Bienal Internacional de Curitiba, evidenciaram a pluralidade de pesquisas e trajetórias presentes na produção artística contemporânea. Foto: Gerson Lima.
124
habitat
AURORA O retorno das longas noites no Ártico anuncia também uma nova temporada da Aurora Boreal. Para Marco Broto, o Caçador de Aurora Boreal®, é o momento de retomar as expedições dedicadas à observação de um dos fenômenos naturais mais fascinantes do planeta. Após 15 anos de estudo e experiência acompanhando a aurora, ele inicia, em setembro, uma nova série de viagens, algumas delas ainda com vagas disponíveis.
PERSPECTIVA Especializada na produção de conteúdo para os mercados de arquitetura, design e decoração, a agência o_Laboratório inaugurou seu novo escritório na Alameda Carlos de Carvalho, em Curitiba. À frente da empresa, Gabriel Spinardi e Gabriel Krambeck conceberam um espaço que reúne um estúdio com fundo infinito, mobiliário assinado e ambientes pensados para fotografias, ensaios e produções audiovisuais. O novo endereço traduz a identidade da agência e reforça seu posicionamento no segmento de alto padrão.
ESTRATÉGIA Leonardo Mendes Stadler, Leontina Stadler, Rafaelli Lima e Marina Zanetti comandam a STAXIS, hub de negócios que vem contribuindo para transformar a comercialização de lançamentos imobiliários. Ao reunir inteligência comercial, tecnologia e uma rede qualificada de parceiros, a empresa fortalece a conexão entre incorporadoras, corretores e compradores, ampliando oportunidades de negócios e tornando a gestão das vendas mais estratégica, eficiente e orientada por dados.
habitat
125
Coluna Conexão por Cesar Franco
PRÊMIO A arquiteta Caroline Andrusko recebeu o A’ Design Award, na categoria Silver, um dos mais importantes prêmios internacionais de arquitetura e design, durante cerimônia realizada no Teatro Sociale de Como, na Itália. O reconhecimento foi concedido à ARC Residence, residência projetada em Curitiba e premiada na categoria Architecture, Building and Structure Design. Caroline foi a única arquiteta brasileira entre os concorrentes dessa categoria na edição deste ano.
FOTOGRAFIA Selecionada para o Prêmio Portfólio FotoDoc 2026, a fotógrafa curitibana Karin Brenner apresenta a série Arquiteturas da Espera, ensaio que lança um olhar sensível sobre os pontos de ônibus e a paisagem urbana. As imagens transformam espaços cotidianos em reflexões sobre memória, permanência e a relação das pessoas com a cidade. A seleção integra a programação do Festival FotoDoc 2026, que será realizado em novembro, em São Paulo.
126
habitat
Coluna Conexão por Cesar Franco
ANOS 70 Para celebrar seus 70 anos, a empresária Sonia Elias, diretora da Ton Sur Ton, reuniu familiares e amigos em uma noite inspirada na década de 1970. Com figurinos que remetiam à época, música e uma pista de dança sempre movimentada, a comemoração teve o clima descontraído que a anfitriã imaginou para a ocasião. Entre reencontros, boas conversas e muitas risadas, a festa refletiu sua personalidade: elegante, acolhedora e cheia de alegria. Uma noite para celebrar a vida e criar novas lembranças.
Amigos de longa data e familiares estiveram ao lado de Sonia Elias para celebrar seus 70 anos em uma noite repleta de boas lembranças.
Mulheres de Capri. Marilza, Everly, Mariliz, Edna, Neide, Sonia, Beth, Bia, Ligia, Karina, Dulce, Cris, Sandra e Nilse.
Rosane Sevegnani, Jefferson Santos, Rogerio Cordoni e Sonia Elias.
Sonia entre Wilson e Luciano Elias. 128
Confraria Amigos do Prato.
habitat
Coluna Ponto de vista por Tereza de Arruda
LIMIARES Ao integrar videoarte, mobilidade urbana e realidade aumentada no espaço público, a 16ª Bienal Internacional de Curitiba reafirma seu compromisso com uma arte acessível, descentralizada e conectada às transformações do presente.
A
16ª Bienal Internacional de Curitiba propõe uma reflexão sobre os limiares como espaços de passagem, encontro e transformação. Mais do que um conceito, o limiar torna-se um método curatorial capaz de atravessar fronteiras entre linguagens, territórios e formas de experiência, expandindo a presença da arte para além dos espaços institucionais. Nesta edição, a Bienal amplia significativamente seu alcance ao ocupar o espaço público por meio de diferentes plataformas. Uma programação inédita de videoarte será exibida nas telas instaladas em pontos e linhas de ônibus urbanos, inserindo a produção contemporânea no cotidiano da cidade. Durante o deslocamento, o público é convidado a estabelecer encontros inesperados com obras que interrompem o fluxo habitual da paisagem urbana, aproximando arte e vida. Essa expansão também se realiza por meio de um aplicativo desenvolvido para Android e iOS, que utiliza tecnologia de realidade aumentada para criar uma camada expositiva distribuída por Curitiba. Ativadas por geolocalização, fotografias, vídeos e instalações digitais de artistas participantes da Bienal, como Chiharu Shiota, Evandro Soares, Iêda Jardim, James Kudo, Jessie Kleemann, Marina
Camargo e Matilde Marín emergem em locais específicos da cidade demarcados por um tóten informativo, transformando ruas, praças e edifícios em espaços de experimentação artística. Mais do que um recurso tecnológico, a plataforma constitui uma extensão do projeto curatorial. As obras exploram as fronteiras entre o físico e o virtual, entre o corpo, a cidade e os ambientes digitais, propondo experiências híbridas que desafiam as formas tradicionais de percepção e circulação da arte contemporânea. Ao integrar videoarte, mobilidade urbana e realidade aumentada no espaço público, a Bienal reafirma seu compromisso com uma arte acessível, descentralizada e conectada às transformações do presente. Curitiba converte-se, assim, em um território expandido de criação, onde os limiares deixam de representar limites para tornar-se espaços de descoberta, diálogo e imaginação coletiva. Enquanto isso nos locais expositivos e principalmente no Museu Oscar Niemeyer, onde se encontra a parte central da curadoria geral, o visitante se depara com obras interativas e imersivas vivenciando novas experiências entre o universo humano e o tecnológico enfatizando as redes de interação pessoais e sociais.
Tereza de Arruda é curadora da Bienal de Curitiba. Foto: Pedro Fredo 132
habitat