Rejane Arruda (org.)
Surdos, Cegos e Cadeirantes
NA CENA DIVERSA
do Teatro Capixaba
Vila Velha SOCA 2019
Surdos, Cegos e Cadeirantes
na Cena Diversa do Teatro Capixaba
Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo que pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços–tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos. É ao nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de resistência (G. Deleuze)
SUMARIO
APRESENTAÇÃO Rejane Arruda
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CAPITULO I: A CRIAÇÃO DE ESPETÁCULOS NO CENA DIVERSA 1.1. “QUANDO ACORDAR A CIDADE”: DRAMATURGIA E PROCESSO DE CRIAÇÃO CÊNICA COM CEGOS Quando Acordar a Cidade Rejane Arruda
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Memorial da Criação de Quando Acordar a Cidade Rejane K. Arruda
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Testemunhos Ana Paula Castro, Fernanda Oliveira, Francielly de Oliveira, Gabriel Caetano Madeira, Jananína Reis, Jarlison de Oliveira, José Carlos, Lena Signorelli, Marcelo Ferreira, Yasmin Toretta.
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1.2. “PELE”: DRAMATURGIA E PROCESSO DE CRIAÇÃO CÊNICA COM CADEIRANTES Pele Rejane Arruda
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Memorial da Criação de Pele Rejane Arruda
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Testemunhos Ana Paula Castro, Daniel Monjardim, Fernando Thuler, Maurício Vieira, Nayma Amaral, Scarlet Lemos, Yasmin Toretta
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CAPÍTULO II: O CENA DIVERSA NA COMUNIDADE SURDA 2.1. NARRATIVAS DE VIDA EM LIBRAS Memorial da Criação de No Fio da Vida Rejane Arruda
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CAS Vitória e Cena Diversa: Experiências Culturais Surdas no Contexto Escolar Eliane Telles de Bruim Vieira
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2.2. “SLAM CORPO GRITA” Memorial da Criação de Slam Corpo Grita Rejane Arruda
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Slams Corpo Grita Ana Maria Botelho, Arlene Batista, Ester Domingos, Claudia Vieira, Cassio, Dione, Felipe Viana, Iasmyn Santos, João Leno, Mara Correia, Pedro Witchs, Rejane Arruda, Raphaella Vasconcelos, Rhayllander Herique Bill, Simone, Tainá Arruda, Thalia Lino.
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Testemunhos Ana Maria Botelho, Tainá Arruda, Raphaella Vasconcelos.
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2.3. “DRAMATIZAÇÃO DE FÁBULAS PARA CRIANÇAS SURDAS E OUVINTES” Memorial da Criação de Dramatização de Fábulas Para Crianças Surdas e Ouvintes Rejane K. Arruda
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Peformances Surdas: Algumas Considerações Sobre a Cena Diversa do Teatro Capixaba Pedro Henrique Witchs
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CAPÍTULO III: INTERFACES Modulações da Subjetividade Contemporânea Maria Carolina de Andrade Freitas
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Rejane Arruda: Hibridismo e Experimentação Aberta Emanuel Tadeu Borges
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Educação inclusiva no ensino superior: Práticas políticas de aprendizagens Suely Lima da Silva e Maria Riziane Costa Prates
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Apresentação
Através do edital Diversidade Cultural Capixaba, o projeto cultural Surdos, Cegos e Cadeirantes na Cena Diversa do Teatro Capixaba ganhou o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo. Registrado na Pró-reitoria de Pesquisa e Extensão da Universidade Vila Velha, desenvolvido por artistas do grupo dPoéticas da Cena Contemporânea, o Cena Diversa parte da hipótese de que o Teatro Pós-dramático acolhe o que podemos chamar de “corpos diferenciados” (Salles, 2012). O deficiente (visual, físico ou auditivo) tem um sinal de + (mais) a oferecer à cena. O que é considerado pela sociedade um sinal de menos, em cena é acolhido e operacionaliza a construção de poéticas potentes e singulares. Os espetáculos Quando Acordar a Cidade e Pele, a performance Slam Corpo Grita e os experimentos No Fio da Vida e Dramatização de Fábulas para Crianças Surdas e Ouvintes, são documentos vivos de processos de criação cênica operacionalizados com esta hipótese. A potência se dá não apenas com os corpos, mas com a maneira como cada um se relaciona com a deficiência, a experiência, a memória e com o estar em cena, que por sua vez surge enquanto lugar de fala e ressignificação de seus contextos de vida. As criações com surdos, cegos e cadeirantes nos possibilitam retificar princípios de pesquisa investigados intestivados anteriormente, no nosso caso no grupo Poéticas da Cena Cotemporânea e C.E.P.E.C.A1, bem como nos provoca e nos convoda a investir em novas sistematizações, pecebendo operações, reinventando procedimentos, desdobrando a pesquisa. enriquecendo e aprofundando. Das proposições levantadas nos processos de construção cênica, posso destacar: a). as especificidades com as quais nos deparamos em cada grupo (a presença determinante da cadeira, a não utilização da visão ou da oralidade e sonoridade) força a tomada de posição em direção à construção de novos arranjos e estéticas, resignificando a trajetória da investigação cênica; b) a necessidade de reenquadramento dos materiais produzidos pelos atores, com a profunda dedicação a um jogo criativo de reenquadres; c.) a importância do fazer teatral para processos de subjetivação, individuação e socialização, reconhedimento de si e do outro; d.) os princípios do Pós-dramático enquanto campo de experimentação auxiliam na condução 1
Centro de Pesquisa em Experimentação Cênica do Ator, onde desenvolvi minhas pesquisas de mestrado e doutorado.
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dos processos criativos de modo a acolher o que os atores trazem, operacionalizar desejos e cosntituir dispositivos de encenação; e.) em ambos os grupos nos deparamos com a evidência de grande capacidade de manejo da linguagem e produção de narrativas. No trabalho com os cegos a saída criativa se deu pelo som e pela fragmentação, além da performatividade, narratividade e presença da cultura popular (canções, jogos de palavra e brincadeira com a radio), como documentado no Diário de Bordo e dramaturgia de Quando Acordar a Cidade. No trabalho com os cadeirantes, a investigação de relações espaciais que a cadeira estrutura foi realizada com a introdução de não cadeirantes em cena. Nos deparamps com a temática da paixão, constituindo uma estética jovem e arrojada, como documentado no Diário de Bordo e dramaturgia de Pele. No trabalho com os surdos, precisei rever a minha posição em relação à cena figurativa do corpo quando este assume a função da descrição das ações. A saída criativa se deu através de três modalidades de poética cênica: a.) a singularidade na cena de um corpo descritivo no experimento Dramatização de Fábulas para Crianças Surdas e Ouvintes; b.) a cena performativa do Slam Corpo Grita; c.) a narrativa em Libras no experimento No Fio da Vida. Para esta edição sobre o Cena Diversa trago um memorial dos processos criativos, espécie de Diários de Bordo, e a palavra dos participantes: olhar afetuoso sobre a experiência, testemunhal. Testemunham a importância deste afeto: ser parte. Relações travadas e desafios superados; responsabilidades divididas; sobre o outro, o coletivo e sobre este bem comum que é o espetáculo, a performance, o experimento. A alegria de estarmos juntos. Isto contrói. Juntos, cada um é importante. Estes testemunhos revelam o olhar de cada um; por vezes revelam mais sobre si do que sobre o projeto e assim compõem um diversificado painel de nossa equipe e elencos – território onde planamos nossos sonhos, enraizamos sujetividades, engatilhamos trajetórias. Cena Diversa passa a ser uma casa, um respiradouro. Trago os textos dos espetáculos Quando Acordar a Cidade (com cegos) e Pele (com cadeirantes) e também dos Slams, além de contribuições reflexivas, tendendo para a interface com a filosofia, a educação e contextualizações sobre as relações entre arte e deficiência. Rejane Arruda. Espírito Santo, 09 de novembro de 2019.
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CAPÍTULO I: A CRIAÇÃO DE ESPETÁCULOS NO CENA DIVERSA
1.1. “QUANDO ACORDAR A CIDADE”: DRAMATURGIA E PROCESSO DE CRIAÇÃO CÊNICA COM CEGOS
“Quando Acordar a Cidade” Rejane Arruda
Abertura Um rastro de folhas secas atravessa o procênio de ponta a ponta. Um detalhe das folhas é flmado e projetado em uma tela situada ao lado esquerdo, em amplitude exagerada é possível perceber os seus veios e o degradê das cores. A camera filma ao vivo, apoiada no chão no canto direito. As folhas estão banhadas por um corredor de luz posicionado à direita junto à camera. Este rastro de luz ficará ligado durante todo o espetáculo. Nove cadeiras enfileiradas no fundo do palco, lado a lado. Atrás delas, doze caixotes de feira posicionados dois a dois, formam uma espécie de balcão. Cordas no chão, protegidas com fita grossa, desenham os caminhos que os atores irão percorrer. Entra em off voz suave à capela cantando “Alecrim”. Canção Suave (em off): Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado.... Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado... Foi meu amor, eu me disse assim que a flor do campo é o alecrim. Foi meu amor, que me disse assim que a flor do campo é o alecrim... A voz dá lugar a um instrumento de sopro com melodia triste. Entra corredor largo de luz. Andarilhos começam a entrar pela esquerda. Carregados de malas, sacos, objetos, lanternas, bacias, baldes, flores, travesseiros, cordas, bonecas, atravessam o palco. Uma das assistentes-videntes entra, senta-se no canto direito e pega a câmera nas mãos. Aponta para os rostos que são projetados na tela. Um deles tem um microfone nas mãos. Líder: Quando “aquilo” apareceu na cidade... Andarilhos: ... Líder: Teve gente que levou um susto! Andarilhos: ... Líder: Teve gente que caiu na risada. Andarilhos: ... Líder: Teve gente que tremeu de medo. Andarilhos: ... Líder: E gente que achou uma delícia. Andarilhos: ... Líder: E gente arrancando os cabelos. Andarilhos: ... Líder: E gente soltando rojões. Andarilhos: ... Líder: E gente mordendo a língua, perdendo o sono, gritando viva. Andarilhos: Vivaaaa!!!! Líder: Roendo as unhas, batendo palma, fugindo apavorada e ainda gente ficando muito, muito, muito feliz. 10
Os andarilhos cantam “Alecrim” em uníssono em parar de caminhar. Andarilhos: (Canção) Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado... Foi meu amor, eu me disse assim que a flor do campo é o alecrim. Foi meu amor, que me disse assim que a flor do campo é o alecrim... Ao chegar à extrema direita, eles se viram e seguem contornando as cadeiras enfileiradas, sentam-se lado a lado. Entra luz frontal de chão. A camera segue pelos rostos e corrige para os seus objetos, os detalhes projetados. Eles cantam mais uma vez. Andarilhos: (Canção) Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado... Foi meu amor, eu me disse assim que a flor do campo é o alecrim. Foi meu amor, que me disse assim que a flor do campo é o alecrim... Sem parar de cantar, se levantam e avançam para a frente, aproximando-se do centro do palco. Camera neste momento volta a enquadrar as folhas secas. Andarilhos: (Canção) Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado... Foi meu amor, eu me disse assim que a flor do campo é o alecrim. Foi meu amor, que me disse assim que a flor do campo é o alecrim... Concentrados no centro do palco, de punhos erguidos, bravam, juntos. Abre foco central. Andarilhos:
QUERO ACORDAR A CIDADE! QUERO ACORDAR AS CIDADES QUE DORMEM NOS HOMENS! (As mãos espalmadas sobem em direção ao céu) E DEPOIS ACENDÊAS TODAS! (Mãos cobrem o rosto) COM LUZES E SOMBRAS (Mãos cobrem os lábios) RISOS (Caem na gargalhada e logo depois tapam os ouvidos) RUÍDOS (Reproduzem um ruído compriiiiiiiiiidoooooo) E SUSSURROS. Com as mãos próximas ao rosto, mexem os dedinhos, sussurrando ruídos estranhos. Vão aproximando, ficando bem colados, como se fossem um só corpo. Balançam para frente e para trás, ninando a si mesmos, até surgir novamente a voz. Andarilhos: CHEIROS E CALORES, VENTOS E DORES.... A mão no peito como se recebessem uma estaca no coração, a boca aberta em um susto.... E com os braços abertos em um grande “V”. Andarilhos: ALEGRIAS. (Braços cruzados em frente ao peito) E PAIXÕES ... Novamente o dedo em riste, o punho fechado com o braço para cima. Andarilhos: E QUE TUDO DURE UM MINUTO. QUE SEJA UMA CENTENHA, UM BRILHO, UM TOQUE, UM AVISO, UMA LEMBRANÇA!!! 11
Os sinos tocam. Entra contra-luz azul de chão. Posicionada atrás dos caixote, a luz vaza por entre as frestas.
Ato I Enquanto os sinos tocam o contra-luz desenha a silhueta das pessoas que se movimentam no palco. As assistentes videntes passam por cada um, colocam uma mão sobre o seu ombro e os levam até seus novos lugares: na direita à frente, Fadine e Telma; no centro à frente, Ana Maria; na esquerda Janaína e Zé; atrás à esquerda, Fran e Salvinete; atrás à direita, Fernanda e Jarlison. Os cinco pinos de luz se abrem ao mesmo tempo. Cada andarilho está com um objeto nas mãos. Música instrumental suave. Fadine toma a palavra. Camera ajusta para o objeto que ele tem nas mãos: um toca-discos antigo. Fadine: Meu nome é Antonio Fadine. Eu trago aqui em minhas mãos este aparelho da marca Sonata... Esse aparelho é dos anos sessenta, foi fabricado em 1969. Foi onde eu curti minha adolescencia, muitas baladas eu fiz através dele. Aonde eu vivi a minha vida. Eu era feliz e não sabia. Hoje quando vendo os CDs pendrive e cartão de memória, eu não uso mais. E hoje quem conhece, sabe do que eu estou falando. Camera ajusta para Telma, que segura um cubarítimo. Fadine se vira e vai até a cadeira no fundo da cena, senta-se. Telma: Meu nome é Telma. Eu.. eu tenho aqui em minhas mãos esse cubarítimo. Esse cubarítimo é que me levou a conhecer a matemática no sistema Braille. Esse cubarítimo, ele tem aqui uns cubinhos. Então esses cubinhos tem toda a numeração que eu preciso: o 2, o A, o 1 e assim pra diante. Eu aprendo a matemática através deste cubarítimo. Ele é de mil novecentos e alguma coisa, sei lá, 70, 80, eu não sei quanto tempo. Mas eu aprendi a matemática nele. A camera ajusta para Janaína, o rosto aparece na tela. Segura uma boneca e um vestidinho de criança pequena. Telma se vira e caminha até encontrar a cadeira. Janaína: Eu sou Janaína. E o que eu tenho aqui em minhas mãos são dois objetos. O primeiro que vocês tão vendo é um vestido... Esse vestido inacreditavelmente fui eu que usei. Nunca deixei ninguém jogar fora porque é uma recordação muito boa. E essa boneca, foi me dada de presente por uma pessoa muito especial e... essa boneca me acompanha em momentos que eu achei que não fosse superar. E é isso. A camera ajusta para Ana Maria, o rosto aparece na tela. Ela segura um cobertor. Janaína se vira e caminha até encontrar a cadeira. Ana Maria: Meu nome é Ana Maria. Eu venho de uma família muito humilde, com três irmãos. Morávamos em uma casa de chão batido e dormíamos as vezes quatro, cinco, na mesma esteira, com o mesmo cobertor. Nas madrugadas frias um puxava a coberta pra lá, outro puxava de cá. Aí então em uma madrugada o meu pai levandou e viu que eu estava 12
chorando de frio e o meu irmão gemendo no outro lado. Então ele veio, levou a gente pra perto do fogão e falou assim Hoje eu vou na cidade eu vou comprar três cobertores. E ele comprou. E ele trouxe. Ele falou assim Esse é seu, esse é só seu. Então assim quando eu arrumei minhas coisas a primeira vez pra ir embora, foi o primeiro objeto que eu coloquei na mala. E sempre, para onde eu fui, ele estava comigo. Com uma lembrança do que eu sempre tive: carinho, proteção e o cuidado do meu pai. A camera ajusta para Fernanda, o rosto aparece na tela. Ela segura um urso. Ana Maria se vira e caminha até encontrar a cadeira. Fernanda: Meu nome é Fernanda e esse urso que eu trouxe aqui, me recorda a minha infância. Onde eu ia pra casa dos meus padrinhos e cresci convivendo com eles. E esse urso foi um dos objetos que ficou da mudança que eles fizeram para o apartamento, a uns dez anos atrás. E eu acabei ganhando de presente e eu guardo até hoje como uma boa recordação, da minha infância e adolescencia e da minha convivência com eles. É um objeto especial. A camera ajusta para Jarlison, o rosto aparece na tela. Ele segura um pandeiro. Jarlison: Meu nome é Jarlison. Este pandeiro eu guardei de lembrança de um senhor lá de Colatina. Eu fui pruma festa e lá ele me deu e eu guardo de lembramça. A camera ajusta para Francielly, o rosto aparece na tela. Ela segura uma coleira de cachorro. Fernanda e Jarlison se viram e caminham até encontrarem suas cadeiras. Francielly: Meu nome é Francielly e esta aqui é a coleira do cachorro. Quando eu era pequena ninguém conseguia identificava minha voz, niinguém conseguia me ouvir. E só ele escutava quando eu chorava, alguma coisa. A camera ajusta para Salvinete, o rosto aparece na tela. Ela segura um vidro com um pequenino osso dentro. Francielly se vira e caminha até encontrar a cadeira. Salvinete: Meu nome é Salvinete. Eu tenho em minhas mãos uma lembrança muito triste. Ainda menina eu escrotava muito sangue pelo nariz, até o médico descobrir que eu tinha vários tumores na minha cabeça. E esse tumor era um cancer. E esse cancer causou o motivo da minha cegueira. Hoje eu não enxergo normal. Tenho 1,0 de uma visão só. Mas graças a deus através da oração de meu pai, Jesus me curoue e nunca mais de cancer na minha cabeça. Trinta e nove anos curada. Mas fiquei paraplégica visual. Entra voz do Repórter Esso. Ao mesmo tempo, apaga a luz de Salvinete. Ela se vira e caminha até encontrar a sua cadeira.
Ato II Durante a fala do Repórter Esso, sobre contra-luz vermelha posicionada no chão atrás dos caixotes. Os raios de luz escapam pelas frestas. Silhueta das pessoas se movimentando. Os atores se levantam e colocam óculos escuros. Uma das assistentes-videntes reposiciona as 13
cadeiras nas laterais. Janaína, Telma e Fernanda vão para trás do balcão e se posicionam cada uma diante de um microfone. Jarlison, Fadine e Salvinete sentam-se nas cadeiras à direita; Zé, Fran e Ana Maria nas cadeiras à esquerda. Repórter Esso: (Voz off) 1941: os japoneses atacam a base norteamericana de Terrabo... 1944: os aliados abrem a segunda frente e desembarcam nas praias da normandia.... 1946: o Brasil entra em nova fase política com a promulgação da Constituição de 18 de setembro. 1948: o Partido Comunista Brasileiro é colocado fora da lei. O Brasil rompe relações com a União Soviética. 1950: os comunistas atravessam o Paralelo 38, começa a guerra da Coreia. 1951: eleito Getulio Vargas volta ao governo. 1953: É criada a Petrobrás. 1954: Suicídio de Getúlio Vargas. 1955: descoberta a vacina anti-Poliomelite. Deposição de Carlos Luz. 1956: a União Soviética esmaga pela força a revolução anti-comunista na Hungria. 1957: explode a primeira bomba de hidrogêneo. 1958: os russos lançam no espaço o Sputnik 2. 1959: Fidel Castro vence a Revolução Cubana. 1961: renuncia Jânio Quadros. 1962: o presidente Kenedy determina o bloqueio aereo-naval de Cuba. 1963: assassinado em Dallas o presidente John Fitzgerald Kennedy. 1964: revolução brasileira nas ruas, deposto o Sr. João Goulart. 1965: os americanos promovem o primeiro encontro no espaço sideral. 1966: Mau Tse Tung lança a Revolução Cultural na China Vermelha. Abrem três pinos de luz bem desenhados em Janaína, Telma e Fernanda. Camera sobe para o rosto de Janaína. Repórter Esso: (Voz off) (...) 1968: Estados Unidos em foco. Assassinados J King e Robert Kenedy. Os americanos fazem a primeira viagem em torno da lua. Janaína e Fernanda cantam a capela. Janaína e Fernanda: Bandeira branca, amor / Não posso mais / Pela saudade / Que me invade / Eu peço paz / Saudade mal de amor, de amor / Saudade dor que dói demais / Vem meu amor / Bandeira branca / Eu peço paz / Saudade mal de amor, de amor / Saudade dor que dói demais / Vem meu amor / Bandeira branca / Eu peço paz // Brasil / Meu Brasil brasileiro / Meu mulato inzoneiro / Vou cantar-te nos meus versos / O Brasil, samba que dá / Bamboleio que faz gingar / O Brasil do meu amor / Terra de Nosso Senhor / Brasil pra mim / Pra mim, pra mim. Entra comercial do patrocinador. Câmera passa para o rosto de Fernanda. Fernanda: Olá queridos ouvintes!! Estamos aqui.... Janaína: Você tá de casa nova? Tô sabendo! Fernanda: Pode ser velha também! Janaína: Que tal algumas dicas, pra você melhorar as coisas aí na sua casa, seu velho tá reclamando? Fernanda: Ôpa, não deixa ele reclamar por muito tempo! Seguem com a propaganda improvisada sobre o óculos para dona de casa deficiente visual. Telma anuncia a radio novela “A Herança”. 14
Telma: Queridos ouvintes, sejam bem vindos a Radio Alecrim. E agora com vocês a novela “A Esperança” Janaína e Fernanda (corrigem): A Herança!! Câmera desce para as mãos de Fernanda. Enquanto Janaína representa, ela manipula os objetos perto. Começa com um molho de chaves... pertinho do microfone. Janaína: Ai meu deus! O que é que eu vou fazer? Em seguida o barulho dos passos, manipulando os sapatos... Janaína: horas de trabalho! Masante! Massacrante! Fernanda pega a bolsa, mexe dentro. Tira um pote de moedas. Janaína: E olha o que eu tenho! As moedas chacoalham no pote fazendo barulho perto do microfone. Janaína: Menos que um salário mínimo?! Fernanda tira um bloquinho de papel, que aproxima do microfone... e em seguida folheia. Janaína: Deixa eu ver essas contas... 100, 200, o aluguel, escola do meu bebê, creche, ah! O quê que sobra pra comida meu Deus do céu!!... Não! Eu preciso de outro emprego mas que horas eu vou fazer isso, Mônica, pensa! Fernanda tira uma caixa. Abre a tampa e enfia a mão dentro, revirando os objetos. Janaína: Deixa eu ver meus guardados aqui... Nada... Também esse idiota SÓ me engravidou e foi embora!! Senhor Deus!! Manda um milagre eu preciso de dinheiro!!! Fernanda bate no microfone, fazendo “toc toc toc”. Janaína: Ai vizinha fofoqueira ou pedindo dinheiro! Fenanda rapidamente coloca um chapéu e assume um personagem. Fernanda: Good morning!!! Camera ajusta para o rosto de Fernanda. As duas seguem, Fernanda diz que Janaína ganhou uma herança, com casa, empresa, dinheiro... Mostra o papel para comprovar... Mas vai precisar cuidar de uma prima adolescente até que complete dezoito anos... e tem uma reunião agendada amanhã em Nova York. Janaína reage a cada informação anunciada, lê o
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documento e se dispõe a viajar. Ana Maria entra na rádio e se posiciona ao lado de Telma. Entra trilha sonora. Telma: E agora com vocês, “Credo, que sabor!” Câmera passa para Ana Maria. Ana Maria: É de um ouvinte lá do interior... Aproventando o inverno.... Uma receitinha de um bolo de fubá cremoso! Janaína e Fernanda: Hummmmm Ana Maria: Três ovos! Janaína: Três ovos! Ana Maria: Uma colher de fermento em pó! Cinquenta gramas de queijo parmesão ralado... Janaína e Fernanda: Ôpa! Ana Maria: Uma xícara de açucar Janaína: Cuidado pra não exagerar Ana Maria: Uma xícara de leite Janaína: Uma xícara de leite, não vai derramar hein? Ana Maria: Todos os ingredientes no liquidificador.... Janaína e Fernanda: (Som de liquidificador) Vuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu.... Ana Maria: Depois de tudo batido, acrescente o queijo parmesão, o fermento em pó... Janaína e Fernanda: Tá ficando bom! Ana Maria: Coloque em uma forma untada e leve ao forno em 140º. Fernanda: Por quanto tempo? Ana Maria: Por 40 minutos! E aí pra você saber se ele já está assado, você coloca o palitinho ou o gafo, se sair limpo, ok, está pronto, é só cortar e degustar!! Janaína e Fernanda: Êta hora boa, hummmmm, credo, que sabor!! Entra trilha da próxima cena, música animada. Ana Maria e Zé assumem os microfones. Câmera vai para Zé. Telma chama a radio-novela “A Morte” Telma: E agora com vocês a radio-novela “A Morte”! Zé: (Imitando chamada de celular) Tuuuuummmmmm Zé e Ana Maria improvisam o primeiro telefonema: a filha quer falar com a mãe que está ocupada trabalhando. Até que a empresária, irritada, desliga. Zé: Tum... (De novo) Tuuuuuuuuuuuum. Zé a Ana Maria improvisam o segundo telefonema onde a mãe quer falar com a empresária em um momento péssimo. Irritando-se, ela desliga o telefone. Zé: Tum. (Assumindo a Morte, gargalha) Ahhahahahahahah!!!!!! Entra trilha sonora com citação de filme de suspense.
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Ana Maria: Quem é você?! Zé: Eu sou a morte, vim te levaaaaar!! Ana Maria: Mas o que é isso, deve ser engano, eu sou uma pessoa saldável, não vê que estou trabalhando? Zé: Consta aqui nos meus arquivos que você tem... Zé puxa uma lista. Volta a trilha com música animada. Zé: Câncer. Gastrite. Desistenria. Poleomelite. Raiva. Febre Amarela. Hepatite. Dengue. Sarampo. Catapora. Rubeola. AIDS. Pneomonia. E vai ter um infarto no miocárdio agoooraaa!!! Ana Maria: Puxa Dona Morte, não dá pra esperar mais um tempo não? Zé: Não, vou te levar praquele lugar onde a filha chora e a mãe não ouve. Ana Maria: Eu sei que com a morte ninguem pode, mas eu preciso de tempo para passear com a família, levar minha mãezinha no piquenique e viajar com a minha filha, que tal 30 anos? Zé: Não. Ana Maria: Vinte. Zé: Não Ana Maria: Dez Zé: Não Ana Maria: Cinco Zé: Cinco.... dias! Janaína anuncia “cenas do próximo capítulo”. Telma chama o quadro “O que é o que é”. Jarlison, Fadine e Janaína assumem os microfones. Câmera vai para Fadine. Zé e Ana Maria saem. Telma: Ficamos agora com o quadro “O Que é o Que é”!! Janaína: O que é, o que é?, tem cintura fina e perna alongada e leva bofetada? (...) O pernilongo! Fadine: O que é, o que é?, é feito pra andar e não sai do lugar? (...) É a rua! Jarlison: O que é, o que é?, quanto mais rugas tem mais novo é? (...) O pneu!! Janaína: O que que uma impressora disse pra outra? (...) Essa folha é sua ou é impressão minha? Fadine: O que , o que é?, dá muitas voltas e não sai do lugar.... (...) É o relógio!! Jarlison: O que é, o que é?, todo mês tem menos “abril”?... É a letra O!! Janaína: O que é, o que é?, todas as mães tem... sem ele não tem pão,... some no inverno e aparece no verão?... É o “tio”!! Fadine: O que é o que é?, tem cabeça e tem dente, não é bicho nem é gente?... O alho!!! Jarlison: O que é que o cavalo foi fazer no orelhão? ... Passar um trote!!! Janaína: 4 pés em cima de 4 pés esperando 4 pés chegarem... O que é?.... O gato em cima da mesa esperando o rato!!! Fadine: O que é, o que é?, não se come, mas é bom pra se comer?... É o talher!! Jarlison: O que é, o que é?, nasce a soco e morre a facadas?... O pão!!!
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Janaína: São tres irmãos... o mais veho já se foi, o do meio está conosco e o caçula não nasceu... O que é?... Passado, presente e futuro!!! Fadine: O que é o que é que tem bem no meio do ovo? ... A letra “V” !!! Jarlison: O que é o que é que anda ccom os pés na cabeça?... É o piolho!! Janaína: Depois de tanta inteligência... vamos saber como é que tá o tempo lá fora? Telma: E agora com vocês o momento “O Homem do Tempo!” Fernanda, Jarlison e Janaína fazem barulhos de trovoada e tempestade. Sai trilha. Camera em Jarlison. Enquanto ele fala Fernanda e Janaína mantém os barulhos de trovões e vento. Jarlison: Boa noite queridos ouvinte da Radio Alecrim, hoje o tempo está com trovoadas! Nossa senhora! Vai haver a possibilidade de chuvas hoje! A máxima de vinte graus e a mínima de dezesseis. Nossa, meu deus! Deus do céu vou pegar meu guarda-chuva! Uhh. Janaína: Pegue seu guarda-chuva, pegue a blusa de frio e não deixe de acompanhar a Radio Alecrim... Entra trilha. Janína: Agora, vamos nos cuidar um pouquinho? Telma: Com vocês, Beleza e Saúde! Câmera vai para Fernanda. Fernanda: Olá, boa noite, queridos ouvintes! Janaína: Boa noite queridas ouvintes! Fernanda: Querem ter mais dicas de beleza? Esse é o nosso programa! Janaína: Vamos começar com uma dica de cabelo, gente, eu tenho um problema com esse cabelo, o que é que você usa, conta pra gente. Fernanda: Ai, obrigada! Tem uma receitinha super simples. Janaína: Conta. Fernanda: Uma xícara de água, uma xícara de maisena, coloque no fogo ao ponto de mingau, depois adicione ao creme lama negra... de sua preferência, deixe no cabelo por vinte minutos, enxague e o seu cabelo estará livre do volume do freeeese, que coisa maravilhosa! Janaína: Eu vou usar menina! Brigado! Fernanda: Ah, usa sim! Mas, eu quero saber uma coisa menina!.. Janaína: Conta! Fernanda: E pra essa pele linda de pêssego, o que é que você faz?.. Porque, olha... eu to precisando, sabe, minha pele não anda nada bem... Janaína: Também é uma receitinha muito fácil. Fernanda: Ah, me conta. Janaína: Então. Coloca um colher de chã de fermento no ovo, mistura bastante, depois passa delicdamente no rosto e pronto. Fernanda: Só isso!? Não acredito que é tão fácil e eu não sabia! Janaína: Então vamos continuar nossa programação, despois destas dicas, o momento mais emocionante da Radio Alecrim. Telma: Com vocês agora, com muita atenção e carinho, Momento de Fé! 18
Entra trilha instrumental de Ave Maria. Camera vai para Ana Maria. Ana Maria: Boa noite queridos ouvintes vamos abrir a programação do Momento de Fé, com um assunto muito especial, aqui na Palavra de Deus. Vamos ver que Deus tem um desejo. 1º Timóteo 2:4 nos mostra que o desejo de Deus é que todos os homens sejam salvos e que cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Caros ouvintes, como vocês vêem, não basta apenas ser salvo. Não podemos parar apenas no primeiro estagio da salvação. Precisamos chegar ao pleno conhecimento de Cristo, na unidade da fé, a estatutra do varão, a estatura da varolinidade do filho de Deus, de acordo com Efésios 4 versículo 1. Fiquem com Deus. Graça e Paz. Câmera vai para Janaína. Ela canta Ave Maria. Durante a canção, Fernanda desce para plateia acompanhada de Zé. Acende canhão que acompanha Fernanda Janaína: (Canção) Ave Maria / Mãe abençoada, virgem imaculada / És santa semente do amor! // Maria, mãe de Deus / És cheia de graça! / Santo é o fruto do teu ventre Jesus! // Ave Maria, Ave Maria, Maria / Que concebeu amor / Em Cristo nosso Senhor // Madre generosa / Rogai por nós / Os pecadores, Mãe querida! Amém. Acende luz de plateia. Camera vai para Fernanda. Cai a luz da Radio. Fernanda: Olá boa noite a todos! Agora eu vou mostrar pra vocês como um deficiente visual usa as redes sociais. Eu vou descobrir os segredos da plateia!! Fernanda brinca de escolher uma pessoa; pergunta nome, facebbok e bisbilhota no celular, animadamente; conversa. Enquanto isso, na penumbra, as assistentes videntes reposicionam os atores. Telma é posicionada, no foco esquerdo-frontal. Junto dela, bacia com água, outra com folhas secas e um secador de cabelo Fadine na ponta direita-frente, com bacia e balde perto dele: água, folhas secas e espuma; uma panela perto dele. Salvinete no foco central de trás. Ela usa óculos escuros, com cabelos soltos, elegante, com uma mão segura a bengala e com a outra esconde uma panela atrás do corpo. Jarlison no foco central da frente com um caminhãozinho de brinquedo, sentado no chão. Ele desloca o caminhãozinho pra lá e pra cá fazendo um barulho. Ato III Começa música instrumental. Camera vai para o caminhãozinho de Jarlison. Abre os focos de Fadine, Jarlison e Salvinete. Fadine mexe nas folhas secas. Salvinete estática, a mão para trás escondendo a panela. Fadine: Eu vivia num lugar simplesinho. No interior... E.. eu... gostava muito... de... bater papo com os meninos. Eu tinha muitos amiguinhos.... Eu tinha um amiguinho que era especial pra caramba eu gostava muito dele. Jarlison levanta o dedo e fala bem alto. 19
Jarlison: Eu!! Fadine: Esse amiguinho.... ele tinha dez anos... Jarlison: Eu tinha dez anos.... Fadine: Ele gostava de ser... Ele achava que com dez anos era homem né?.... Mas só que ele, era mentiroso, falandriz.... E ele falava “Ó, vocês não me chamam de Roberto não, vocês me chamam de Men”. Jarlison: Eu sou o M-E-N!! Fadine: “Se não me chamar de MEN eu brigo, tem que me chamar de MEN”... Jarlison: Eu sou o M-E-N!! Fadine: Aí um belo dia ele subiu em um pé de manga, e sofreu um acidente... caiu... e... Eu fiquei muito triste, mas depois de um tempo fui me recuperando e fiz amizade com outros meninos... Um certo dia, a minha escancaravó.... ela disse assim.... “Meu filho! Vai na casa da vizinha pegar um pouco de feijão! Toma aqui essa panela! Camera vai para Salvinete. Escancaravó: Meu filho!! Vai na casa da vizinha pegar um pouco de feijão!! (Mostra a panela) Toma aqui essa panela! Fadine: Tá vó.... (Imitando a vóz dela) E você bate na rua! E faz também um joguinho de bicho... cê me joga... dez cruzeiro na brabuleta”.... Escancaravó: E você bate na rua! E faz também um joguinho de bicho... cê me joga... dez cruzeiro na barbuleta!... Fadine: Mas vó não é barbuleta é borboleta! Escancaravó: Enbarbuleta não!!! Falo do jeito que eu quero e se ... eu te dô uma coça!! Fadine: Tá bom vó deixa que eu vou, minha escancaravó!... Porque tem avó, bisavó, tataravó, e depois da tataravó tem escancaravó... pra enchê o saco da gente. Escancaravó: Ah é... meu escancaraneto?!! Ana Paula, animada, aborda Fadine. Criança: Vamo brincá!! Cai foco de Salvinete, que vai para a cadeira. Jarlison fica. Camera vai para Ana Paula. Fadine: Rapaz não dá pra brincar agora não porque eu tenho que levar (mostra a panela) essa panela com feijão pra minha escancaravó botá no fogo. Criança: Ah não!! Depois ce leva!! Eu tenho uma coisa pra te contar!! Eu sonhei com o MEN!... Ele falou que quer encontrá com nós! Fadine: É mesmo João!? Criança: É. Trovoadas. A criança olha para os lados assustada. Criança: (Assustado) Aiii eu quero embora!! Jarlison aproventa para assustá-la. Jarlison: Uuuuuuu!!!! Criança: É o MEN!! Ai ai ai eu to com medo!! Jarlison: João eu to atravessando o cemitério!!! 20
Criança: Aiiii meu deus do céu!!! Jarlison sai atrás da criança. Criança foge. Cai luz de Men.. Jarlison: João, eu vou te pegáááá!!!! JOÃO: Ahhhhhhhh!!!! Socorrooooo!!!! Ele grita e se esconde atrás de um pedestal de microfone. Entra música doce. Câmera vai para as mãos de Fadine mexendo na água com espuma e folhas secas.
Fadine: Essa é a estória de um menino que nasceu vendo normalmente. Esse menino olhava pra água de um riacho que corria em frente à casa dele... E quando a mãe ia lavar roupa, brincava com a espuma de sabão. No outono... ele podia ver as folhas que caiam no chão. (...) Mas, passado um tempo, ele ficou na escuridão e.... a mãe nunca percebeu. Até que ele começou a engatinhar... e a bater a cabeça nos móveis e a chorar... A mãe dizia “Mas por que que meu filho tá se machucando desse jeito?”... Ela então levou o menino no médico, que disse “Mãe, o teu filho tá cego” (...) Esse menino cresceu, fez amizades... e um certo dia botou na cabeça “Ahhhh! Eu vo estuda! Eu vo ser igual esses menino! Eu vo ser igual o João. Eu vo ser igual o Mario, vo ser igual o Zé” Pegou uma mochila velha e disse “Ó vocês não jogam esses caderno fora não! Não joga fora o caderno não que eu vo querê! Ó vamo fazê o seguinte: amanhã vocês vão pro colégio, eu também vo tá lá”... Esse menino encheu a mochila de caderno velho, e toda vez que dava onze e meia ia lá, na porta do colégio... Tinha uma vala, cheia de água na rua e ele não passava não... ele ficava do outro lado esperando os coleguinha... Quando os coleguinha saiam da escola ele entrava no meio deles, com aquela bolsa cheia de caderno velho. (...) Um dia bateram na porta de casa e o menino atendeu. “Aí menino, cadê sua mãe?”. “Ahhhh! Minha mãe tá lá dentro!”... “Que foi moça a senhora qué alguma coisa?”... “Não! Eu to caçando um menino aqui, que me falaram assim que ele tá querendo estudá, e ele anda com livro e caderno velho na mochila cheia de sonho, sabe? Que tal ele estuda!”... E a mãe “É.... É bom, é bom!”. (...) E aí, esse menino cresceu, esse menino se empregô, trabalhô, conseguiu tudo o que quiz, casô, tem uma família... e esse menino sou eu! Entra outra música. Camera vai para Telma. Sobe foco de Telma. Sai de Fadine. Assistentes situam Janaína no foco central onde antes estavam Jarlison e Salvinete. Telma: Eu gostava muito de pegar uma caixinha... cheia de.... agulhas, de costurar mesmo e retrós. Carretel de linha e... inventar de fazer vestidinho de bonecas... Então eu pegava a tesoura das pessoas lá da minha mãe de criação.... Ía lá... pegava uma roupa velha dela lá... um vestido velho dela... e cortava e transformava em... como que fala?... E nos meus vestidinhos de boneca!! Aí eu costurava o vestidinho de boneca com aquelas agulhas.... Não não tenho guardado não faz mais de quarenta anos (ri). Entendeu? Aí, o vestido da minha mãe de criação eu transformava em vestidinho de boneca! Pegava os retrós pegava as linhas... né?... Aí eu colocava... se era vestido colorido, eu colocava já... quase de acordo com as cores, o verde, o amarelo, o azul, o branco.... Aí eu fazia os vestidinhos das minhas bonecas! Não, porque naquele tempo eu ainda não tava sem enxergar não naquele tempo eu enxergava ainda. Eu tinha uns nove anos, ... quase dez. Então. Só que ela brigava comigo porque eu cortava, eu cortava os vestidinhos dela... pra fazer... roupinha de boneca... Como é que é?... 21
(Muda a voz) Eu vou procurar aquela menina!! Onde aquela menina tá!! Tá lá no quarto mexendo nos meus vestidos!! Vai lá! Vai lá vê o que é que ela tá fazendo, se ela tiver cortando o meu vestido, eu vou pegar aquela varinha lá... vou na perninha dela, vou dar tanta varadinha! Falava assim. Telma ri. Entra outra música. Sobe foco de Janaína. Camera vai para Janaína. Sai luz de Telma. Durante a fala de Janaína, Fernanda e Ana Maria se posicionam nos microfones laterais.... Fran se posiciona na esquerda-frente, onde antes estava Telma. Nas mãos, uma camisa representando a presença-ausência de um homem... Janaína: Eu nasci numa família, de muitas posses. Mas eu era diferente de todo mundo. Quando eu era criança não tinha muito ideia disso mas, quando cresci eu percebi. Então, eu fugi. Eu... comecei a andar pelas ruas... Noite e dia, através das marquises. Uma vez alguém disse que ia cuidar de mim. Eu achei que o mundo estava sorrindo pra mim. No começo, tudo era flores. Mas depois... “Faz isso!”, “Faz aquilo!”, “Limpa isso!”, “Limpa aquilo!”. Eu... não queria aquela vida, então... mais do que depressa eu fugi. Mas uma vez, entre uma praça e outra, outra pessoa disse que ia cuidar de mim. Eu, com um pouco de ingenuidade, necessidade e fé, aceitei. Mais uma vez no começo tudo era flores. Até que começou... Você é gorda, você é torta, você não anda direito, parece uma pata, você não faz nada direito. Na minha casa, de pequena, eu tinha tudo. Porque eu ia ficar tendo tão pouco e recebendo tão pouco, pra ser humilhada? Mais uma vez eu saí. Certa noite, o inverno já voltando, eu dormi num banco de uma praça. O sol me despertou, mostrando um burburinho. Eu olhei praquele lugar e havia muita gente. Gente a se perder de vista. Eles estavam se preparando. Eles estavam se arrumando porque parece que havia ali uma apresentação! Um palco tinha sido montado. Enorme! E as pessoas todas diferentes umas das outras iriam cantar? Dançar? Eu queria aquilo! Então eu decidi. Patinho feio nunca mais! Eu vou viver entre as pessoas diferentes que são os meus iguais! Sobe luz de Fran. Câmera vai para Fran. Sai luz de Janaína. Entram pinos dos fundos, de Frenanda e Ana Maria. Fran acaricia a camisa. Brinca com sua manga, contornando a própria cintura, como se o homem a abraçasse, deita a cabeça no seu ombro... Ana Maria: Ela estava apaixonada. Eles estavam namorando. Fernanda: Ela lembra exatamente como aconteceu. Sobe luz de Janaína. Janaína: Foram os olhos negros e profundos que rasgaram o tecido de seu corpo e dilaceraram qualquer sinal de sanidade. Ana Maria: Ela estava apaixonada. Fernanda: Eles estavam namorando. Janaína: Ele era carinhoso e gentil. Fran arrasta a mão até a bacia com folhas secas, mexe fazendo barulho. Ana Maria: Naquele dia eles correram. 22
Fran contina fazendo barulho nas folhas secas.... Depois retira a camisa do cabine e levando-a junto de si se deita. Fernanda: Naquele dia eles deitaram, eles se amaram. Fran se levanta e arrasta as mãos até a bacia de água, brincando de jogá-la para cima e molhar-se, e também a ele. Janaína: Naquele dia choveu muito. Naquele dia ventou muito. Fran pega o secador de cabelo, liga-o no mais forte e joga contra o próprio rosto, abrindo os braços e largando sem querer a camisa no chão. Janaína: Naquele dia choveu e ventou muito. Um vento... tão forte... que os levou para tão longe... que nem “aquilo” conseguiu os alcançar... Sai pinos de Fran, Ana Maria, Janaína e Fernanda. Entra off de voz suave de Janaína. Janaína: (voz off) Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado.... Os sinos tocam, misturando-se à voz. Começa a entrar luz de chão... enquanto escuta-se o som dos instrumentos improvisados dos andarinhos tomando corpo... ficando cada vez mais forte... Janaína: (voz off) Foi meu amor, eu me disse assim que a flor do campo é o alecrim. Foi meu amor, que me disse assim que a flor do campo é o alecrim... Sinos continuam tocando. Andarilhos começam a cantar animadamente em ritmo acelerado. Andarilhos: (animadamente, em ritmo acelerado) Alecrim alecrim dourado / Que nasceu no campo sem ser semeado / Alecrim alecrim dourado / Que nasceu no campo sem ser semeado / Foi meu amor que me disse assim / Que a flor do campo era é o alecrim / Foi meu amor que me disse assim / Que a flor do campo é o alecrim Cessam os sinos e ficam as vozes dos andarilhos cantando em cena animadamente. Abre luz de plateia. As assistentes videntes descem para a plateia para convoca-la a cantar e dançar junto. Algumas pessoas sobem no palco. Andarilhos: Alecrim alecrim dourado / Que nasceu no campo sem ser semeado / Alecrim alecrim dourado / Que nasceu no campo sem ser semeado / Foi meu amor que me disse assim / Que a flor do campo era e o alecrim / Foi meu amor que me disse assim / Que a flor do campo é o alecrim. Janaína puxa nova música.
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Andarilhos: Estava à toa na vida / O meu amor me chamou / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / A minha gente sofrida / Despediu-se da dor / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor // O homem sério que contava dinheiro parou / O faroleiro que contava vantagem parou / A namorada que contava as estrelas / Parou para ver, ouvir e dar passagem // A moça triste que vivia calada sorriu / A rosa triste que vivia fechada se abriu / E a meninada toda se assanhou / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor Janaína puxa nova música. Andarilhos: Minha jangada vai sair pro mar / Vou trabalhar, meu bem querer / Se Deus quiser quando eu voltar do mar / Um peixe bom eu vou trazer / Meus companheiros também vão voltar / E a Deus do céu vamos agradecer Janaína puxa nova música. Andarilhos: Na bruma leve das paixões que vem de dentro / Tu vens chegando prá brincar no meu quintal / No teu cavalo peito nu cabelo ao vento / E o sol quarando nossas roupas no varal // Tu vens tu vens / Eu já escuto os teus sinais / Tu vens tu vens / Eu já escuto os teus sinais Janaína puxa nova música. Andarilhos: Todo domingo / havia banda / no coreto do jardim / E já de longe / a gente ouvia / a tuba do Serafim // Porém um dia/ entrou um gato / na tuba do Serafim / E o resultado / dessa "melódia" / foi que a tuba tocou assim // Pum pum pum, miau / pum purumpurumpum miau // Pum pum pum, miau / pum purumpurumpum miau // Pum pum pum, miau / pum purumpurumpum miau // Pum pum pum, miau / pum purumpurumpum miau!! Os atores dão as mãos, levantam e abaixam todos juntos para agradecer à presença do publico.
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Memorial da Criação de Quando Acordar a Cidade Rejane Arruda
I. Uma Questão Inicial
Eu já acompanhava o Grupo de Teatro do Instituto Luis Braille do Espírito Santo através de outros projetos: Estagios Supervisionados de Lena Signorelli e Sabrina Paula Sabino, minhas alunas na UVV, com a apresentação de um espetáculo enquadrado como programa de auditório, constituído a partir de Jogos Teatrais; e o projeto de extensão da UVV Vi ver Teatro Sensorial com Deficientes Audiovisuais, que gerou um trabalho performativo dirigido em pesquisa de TCC por minha na época aluna Julia Del Fiume. Quando cheguei, a espectativa dos atores era a profissionalização. Falei que toda trajetória artística é construída de modo singular e eles, como quaisquer artistas videntes, passariam pela questão de como consolidar um estilo e marca próprios a partir de uma cadeia de processos desafiadores. E que eu me propunha a toma-los como parceiros e co-autores, aproveitando as singularidades como um “a mais” (sinal de mais) no espetáculo que iríamos criar; percebendo suas potencias e evidenciando-as. A preocupação de alguns era que eu “adaptasse para cegos”. Acostumados desde a infância com isto, queriam ser tratados “normalmente”. Expliquei que não os trataria como portadores de algo em falta, mas como singularidade, extraindo, do coletivo, o que mais poderia ser potente, para que uma poética cênica acontecesse e eles tivessem orgulho de suas produções – como faço com todos os outros elencos. Foi com este princípio que criamos o espetáculo Quando Acordar a Cidade – que estreou no Teatro da UFES em treze de agosto de 2019. Extremamente sonoro, o espetáculo traz andarilhos chegando a uma cidade adormecida para acordá-la. Com função metafórica, esta pequena sinopse enquadra uma série de fragmentos: narrativas de vida, híbridas e inventadas, apresentações de si através de objetos antigos, canções, dramatizações, brincadeiras da cultura popular, números de plateia onde a performatividade impera, citações da “época do rádio” e da História do Brasil.
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II. Uma Imagem Inicial
Eu tinha uma imagem fixa diante dos olhos: um coro, com adereços caracterizando personagens, frontalidade e diferentes formas corporais (bem dilatadas, diferentes planos); assistentes-videntes entrando em cena para colocar adereços e tirar (diferentes adereços); e a evidente alusão a olhos falsos, com olhos de papel desenhados com canetinha ou olhos-objeto que saltam da órbita com molas. Esta era a imagem que me habitava no começo do processo criativo e que foi, pouco a pouco, diluída, para novas surgirem. Percebe-se, no entanto, que fragmentos desta imagem se deslocaram para a tessitura cênica. A coralidade e a frontalidade estão presentes, e também o trabalho das assistentes-videntes.
III. A Ação Física Representativa da Ação Dramática
A relação com o corpo é diferente para quem já nasceu cego e para quem se tornou depois de constituída a forma corporal. As atrizes que se tornaram cegas por doença (com dezessete ou depois de adulta) possuem uma plasticidade de movimentos maior. A moça que se tornou cega com sete anos e os que são cegos desde o berço, não possuem plasticidade de movimentos ampliada. Em se tratando da demanda de corpos vivos e quentes, a questão que se apresenta é: como dilatar (Barba, 1995)? Esta questão é subdividida em duas: a) não existe a referência visual; b) não são corpos acostumados a se mexer (entortar, deformar, vetorizar); são corpos que tendem a preservar a sua forma. A descrição de movimentos a partir da voz não funcionou. Partimos para a constituição de ações físicas representativas de personagens de fábulas - trabalhando com narrativas clássicas. Reproduzindo a estória, os atores incorporam as ações físicas dos personagens. Funcionou. Ao compreender a ação do personagem é possível desenhar o corpo. No entanto, a linguagem corporal permanece limitada à tipificação (como os gestos da Madrasta de Branca de Neve se admirando no espelho, por exemplo). Este tipo de produção se consolidou e foi impressa no espetáculo. Por exemplo, na cena proposta por Janaína Reis: Mônica chega em casa cansada do trabalho, reclamando do 26
pouco dinheiro e das contas para pagar. Enquanto procura uma solução, recebe uma visita inesperada, junto com a notícia de que recebeu uma herança. Esta cena foi enquadrada na radio-novela “A Herança”.
IV. A Brincadeira com a Rádio
A brincadeira com a rádio acolhe uma oralidade bem desenhada. Talvez por estarem acostumados a assistir novelas e filmes dublados ou por veicularem o personagem a certa tipificação (como, por exemplo, o desenho sinuoso da voz de uma madrasta), o desenho vocal trazido pelos atores denotava a situação de representação. Os gestos representativos da ação dos personagens também foram bem acolhidos na brincadeira com a rádio. O publico assiste aos bastidores, ou seja, o que o contexto da rádio comporta também de ação física. Mas, para gerar poética, propomos uma justaposição de enquadramentos. Como? Dissociando contexto cênico da ação dramática (contexto diegético), criando outras camadas. O som das ações junto a objetos: o barulho dos passos com sapatos de salto, chave sacudindo, moedas sacudindo dentro do vidro, guardados sendo remexidos, folhas do bloco de notas. Fernanda procura, encontra, posiciona e utiliza cada objeto com velocidade e destreza incríveis. Este ato é performativo. Fernanda Oliveira reproduz com os sons as ações físicas da personagem Mônica; Janaína reproduz as falas. Trabalhamos o eixo extra-diegético, portanto, fissura entre enquadramento ficcional e cênico, situação dramática e cena. Jogamos com duas tessituras. A teatralidade surge e com ela a poética. O que extraímos de saber sobre este procedimento: a poética depende do jogo de enquadramentos; o diretor maneja o material trazido pelos atores e os reenquadra. O nome Radio Alecrim veio da canção: “Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado.... foi meu amor, que me disse assim que a flor do campo é o alecrim”. Os atores trouxeram as canções: Alecrim, Enunciação, A Banda e outras da MPB. Com elas criamos uma “bandinha maluca” – com percussões de panela, talher, forma de bolo. No final, o publico é convocado a cantar e dançar com eles, terminando em uma grande festa: “a cidade acordou”.
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Fig. 1: “Bandinha maluca” de Quando Acordar a Cidade
Na Radio Alecrim foram introduzidas canções da época áurea da radio, nos anos 40 e 50. Fernanda Oliveira e Janaína Reis cantam Aquarela do Brasil e Bandeira Branca à capela. A radio é finalizada com Ave Maria, cantada por Janaína após o quadro Momento de Fé, outra estória trazida pelos atores. Com teor religioso, foi enquadrada como número da radio. Inventamos outros quadros: O que é o que , Credo Que Sabor, Homem do Tempo, Beleza e Saúde, Momento do Patrocinador. Neste último, Janaína e Fernanda apresentam um aplicativo que lê os preços no supermercado e custa trinta mil reais, podendo ser financiado no Banco do Brasil com parcelas pagas em cinco anos. O quadro ganha teor crítico e irônico. A sinopse “andarilhos chegam a uma cidade adormecida para acordá-la” enquadrou todos os fragmentos, com a ajuda da Radio Alecrim, que supostamente os andarilhos montam. Suas narrativas também são para acordar a cidade. A sinopse é relativamente simples, mas, com certo valor metafórico, funciona como um gatilho para uma construção discursiva.
Fig. 2: Atores na Radio Alecrim em Quando Acordar a Cidade
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A Radio Alecrim é bem humorada. Na radio-novela“A Morte há sobreposição das vozes da empresária gananciosa (Ana Maria Botelho) com as vezes da sua filha e da sua mãe (José Carlos). A artificialidade da construção dos quadros é revelada nos seus bastidores com a entrada e saída dos atores. As citações são abundantes. O humor no quadro do Homem do Tempo e de receitas Credo, Que Sabor são surpreendentes.
V. A Ação Física Abstrata
Partimos para estimulos desconectados de qualquer narrativa; formas detectáveis através do tato, como “corpo de repolho”. E surgiram produções que, com Bya Braga (2007), poderíamos chamar de “ação física coral” ou “abstrata”. Restos da forma do repolho em um corpo que não cabe nesta representação, tornam a ação física plasticamente interessante. Este caminho nos exige a consciência das operações implicadas na composição da linguagem cênica, através da mistura de materiais que não se encaixam em uma narrativa linear, não estão ao seu serviço, mas, por encontro, acaso, choque, mistura, vem a criar uma terceira coisa. O que extraímos de saber sobre este procedimento: a constituição de um jogo de enquadramento ultrapassa o sentido da ação – portando-a, mas não se limitando a esta. Para que porte o sentido de ação, é necessário um deslocamento pela tessitura da cena e seus tempos – até encontrarmos o lugar onde aquela forma possa fazer alusão a um sentido, ao mesmo tempo que dele escape, gerando o efeito de ação física coral (a forma portando saídas para cadeias de associação distintas).
VI. A Ação Primária
Trabalhamos o treinamento com ações primárias. Em busca do aumento do tônus, utilizamos “empurrar o ar” (Arruda, 2019). E em busca de um engajamento na ação física, utilizamos a fala interna (Arruda, 2019). A fala interna articula-se a um imaginário (sentido), promovendo o engajamento e apresentando resultado em termos de tônus. Munidos desta prática pré-expressiva para a abertura de repertório corporal, criamos uma partitura física para a abertura do espetáculo. Reunidos em um coro, no centro do palco, os atores brandam em uníssono um poema. 29
QUERO ACORDAR A CIDADE! QUERO ACORDAR AS CIDADES QUE DORMEM NOS HOMENS! E DEPOIS ACENDÊ-AS TODAS! COM LUZES E SOMBRAS, RISOS RUÍDOS E SUSSURROS, CHEIROS E CALORES, VENTOS E DORES.... ALEGRIAS. E PAIXÕES. E QUE TUDO DURE UM MINUTO. QUE SEJA UMA CENTELHA, UM BRILHO, UM TOQUE, UM AVISO, UMA LEMBRANÇA.
Fig. 3: Coro no início de Quando Acordar a Cidade
O poema, criado pela atriz Ana Maria Botelho, foi introduzido no processo de criação a partir da solicitação de narrativas. Ele se comporta, no enquadre imaginário que dá unidade à obra, como um manifesto dos andarilhos que chegam para acordar mais uma cidade. As falas externas do poema assumem, em relação à linguagem dos corpos, a mesma função da fala interna antes exercitada: estimular a dilatação das ações físicas.
Fig. 4: Ana Maria Botelho e Antonio Fadine no início de Quando Acordar a Cidade
Diz a rubrica: As mãos espalmadas sobem em direção ao céu. Mãos cobrem o rosto. Mãos cobrem os lábios. Caem na gargalhada e logo depois tapam os ouvidos. Reproduzem um ruído compriiiiiiiiiidoooooo. A mão no peito como se recebessem uma estaca no
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coração, a boca aberta em um susto.... E com os braços abertos em um grande “V”. Braços cruzados em frente ao peito. Novamente o dedo em riste, o punho fechado com o braço para cima.
Percebemos outras ações primárias que poderíam ser úteis. Empurrar” não o ar, mas o outro, funcionou como uma introdução para a qualidade física “solto”. Eles se divertiam um bocado empurrando. Em seguida, introduzimo o “torto”; “torto” e “solto” ao mesmo tempo e, também, o estudo de vetores de movimento para chegar ao “torto.” Imediatamente as formas se tornaram extra-cotidianas; surgia uma linguagem corporal interessante.
VII. Encaixes, toque e modelagem
Experimentamos encaixes dos corpos: em duplas, em vários planos, em trios. E o toque nos corpos (em nós videntes), para reconhecerem a forma e a reproduzirem. Também a modelagem: criar esculturas no corpo do outro. Estes são procedimentos que se apresentaram como um caminho para a extra-cotidianidade aparecer.
VIII. A performatividade dos materiais
Houve um momento em que precisei escolher, sequenciar e enquadrar as estórias que o elenco trouxe. Algumas híbridas, misturavam ficção e realidade; outras mais próximas da fição, outras extraídas de cada realidade; outras misturando e alternando os dois contextos. As ficcionalizadas traziam um registro vocal que me lembrava a dublagem e foram enquadradas como radio-novelas. As estórias reais foram enquadradas como testemunhos. Dois testemunhos foram produzidos na experiência do toque em folhas secas, água e espuma. A ideia era alterar o modo de enunciação das falas. A sensação do toque mudaria a forma de falar – pensei eu – quebrando com uma oralidade que me parecia artificial. Mas os materiais foram incluídos nas estórias cujas memórias suscitaram. Foi assim que Antônio Fadine trouxe um dos fragmentos do espetáculo que mais mobiliza a plateia: em terceira pessoa, ele conta a história de um bebê que esbarrava nos móveis enquanto engatinhava (e por causa disso sua mãe o levou ao médico e descobriu que era cego). Quando creceu um pouco o menino seguia os garotos da mesma idade que saiam
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da escola, até que ganhou a oportunidade de estudar. Estudou, trabalhou, casou, constituiu uma família. No final, ele revela que o menino é ele. Foi o toque com as folhas secas, água e sabão que suscitou a memória de Fadine para trazer esta história para o processo criativo: a mãe lavando roupa, ele caminhando nos campos de sua cidade natal.
Fig. 5. Ana Maria Botelho manipulando materiais em ensaio de Quando Acordar a Cidade
IX. Uma “Cena Muda” que ganhou voz Diante da proposta de criar narrativas deixando que o toque em materiais plasticos (folhas secas, espuma, água) interferisse nas ações vocais, Francielly Almeida me pediu para realizar uma “cena muda”. Embuida pelo imaginário de uma relação amorosa, ela encenou ações físicas enquadradas pela relação da "garota apaixonada" com o seu namorado. Nesta cena apareceu um resíduo do treinamento corporal anterior – a qualidade “solto e torto”, junto com os caminhos que os atores exploraram através dos encaixes e variações de plano. Para acentuar o caráter lúdico da cena, jogar com os enquadramentos e imprimir narratividade, coloquei três atrizes nos microfones narrando as ações de Francielly enquanto ela manipula objetos que trazem a alusão a estas ações: o secador de cabelo no momento da ventania, as folhas secas para o barulho dos passos, a água para a chuva.
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Fig. 6: Francielly de Oliveira em Quando Acordar a Cidade
X. Imobilidade e Frontalidade
Já tinhamos explorado a frontalidade na montagem de Vestido de Noiva e outros trabalhos da Cia Poéticas. A cultura do Pós-dramático referencia arranjos corporais bastante diversos e um deles é quando o ator se faz quadro. Figura imóvel, exposta frontalmente, adquire força poética intensa. No primeiro ato de Quando Acordar a Cidade utilizamos esta força. Os atores seguram objetos antigos, parte de sua estória de vida, e se apresentam através deles. Estes nove atores imóveis posicionados frontalmente, contando as estórias dos seus objetos e um fragmento de suas vidas, considero um arranjo bem sucedido.
Fig. 7: Janaína Reis e Ana Maria Botelho apresentando objetos em Quando Acordar a Cidade
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Fig. 8: Telma Moraes apresentando o cubarítimo em Quando Acordar a Cidade
XI. A Presença de Objetos-Memória
No Teatro Pós-dramático a performatividade entra como princípio de composição e isto nos liberta para criar com elementos advindos do contexto real dos atores.
Fig. 9:Antonio Fadine apresentando uma sonata em Quando Acordar a Cidade
Eu havia pedido objetos para os atores trabalharem o enquadramentos das figuras dos andarilhos quando estão chegando à cidade. Através de flores, cordas, baldes, bonecas, plantas, sacos, malas, criaríamos figuras extra-cotidianas – era o que eu tinha em mente e por isso solicitei os objetos. Precisei faltar no ensaio e Lena Signorelli (co-diretora) filmou-os apresentando os objetos para que eu os assistisse. Eles trouxeram cubarítimo, sonata, cobertor, urso, pedaço de 34
osso extraído de uma cirurgia guardado em um vidrinho, guia de cachorro, bonecas e vestidos de criança. Quando assisti o vídeo, percebi que tínhamos uma cena. O que extraímos de saber deste procedimento: os arranjos contam com o acaso, o contingente, o engano, o erro – as produções “sem querer” precisam ser impressas. Eu pensei uma coisa, eles trouxeram outra. E isto “deu cena”.
Fig. 10: Os andarilhos chegando em uma cidade adormecida.
XII. Deslocamentos “às cegas”
Cada ator, ao terminar de contar a estória do seu objeto, vira de costas e se desloca até uma cadeira posicionada no fundo da cena. O fato do publico ter ciência de que não enxergam faz parte do dispositivo cênico. Existe uma espectativa e também uma surpresa em relação aos deslocamentos. Estes deslocamentos são orientados através de cordas fixadas no chão com fita crepe preta. Os atores tiveram disponibilidade para o trabalho e acolheram as propostas, sempre expressando alegria. Diante de algo diferente, imediatamente se aventuravam. Assim, foi possível trabalharmos deslocamentos no espaço, sem bengala, através de cordas-guias que eles sentiam com os pés. Chegando ao ponto de correr, todos juntos, caoticamente. Trabalhei com Oswaldo Montenegro no grupo Os Menestréis em 1992 e lá éramos treinados para deslocamentos muito rápidos durante o blecaute. A orientação era dobrarmos os joelhos e colocarmos as mãos em frente ao rosto, espalmadas para fora, com o intuito de protegê-lo. Sem parar de mexê-las, avançávamos no escuro. Treinei este procedimento com o elenco de Quando Acordar a Cidade, provocando esbarrões das mãos que, amortecidos, transformam-se em encontros divertidos. Tornou-se 35
uma diversão avançar e esbarrar; ou avançar, perceber e desviar. Até o ponto de correrem, os nove juntos, pelo espaço.
XIII. A Presença Performativida de Assistentes-Videntes
Nós conseguimos utilizar deslocamentos orientados por cordas. Esta prática poderia desenvolver-se mais, com mais cordas, com novas formas geométricas. Utilizamos também assistentes-videntes (como chamamos), servindo de guia para levar os atores de um canto a outro, a cada início de novo ato ou nova cena. A figura das assistentes-vidente acabou por se revelar performativa. Os desenhos de seus movimentos - e a lida (em tempo real) com a tarefa de desloca-los com agilidade -, foram incorporados no espetáculo como um contexto de bastidor (extra-diegético) revelado para a plateia – gerando poética. As assistentes-vidente Ana Paula Castro e Yasmin Toretta foram vestidas de menino por nosso figurinista Antônio Apolinário, provocando uma leve articulação com o contexto diegético (leve e precária, que não se impõe de pronto e nem com clareza).
Fig. 11: Assistentes-videntes em ação.
XIV. A Peformatividade dos Corpos
Se eu coloco Fernanda, cega, embaixo de um foco, em posição frontal para a plateia, configura-se uma cena performativa onde o que está em questão é o contexto real da atriz trabalhado cenicamente. Nove cegos brandando um poema a viva voz, têm força performática 36
que não encontro comumente, a não ser que a composição cênica seja enquadrada de forma que gere performatividade. A imagem dos corpos-suporte de ações físicas se porta como um dispositivo; porta vetores de movimento, enquadres, “formas para a leitura” que se tensionam, rompem, puxam, encontrando soluções provisórias, com pontas e fissuras que suscitam diferentes associações. Percebemos que um corpo “diferente”, este que tem a marca de uma especificidade como a deficiência, é tecido marcado por vincos que, por sua vez, funcionam como gatilho para estas associações – conduzindo o trabalho para o performativo. Assim, privilegiar estes corpos não é “adaptar para cegos”, mas incorporar as suas especificidades para que o eixo extradiegético funde o espetáculo como épico, privilegiando a elaboração posterior destas imagens na vida do espectador.
Fig. 12: Ensaio de Quando Acordar a Cidade no Instituto Luis Braille do Espírito Santo
Considero que isto aconteça também com não atores que tragam a marca de suas vidas estampadas no corpo, rosto, expressão do olhar. É cada vez mais comum o Teatro Pósdramático se valer de pessoas que se fazem poéticas pela singularidade. O treinamento atoral de jovens nas escolas ou em grupos tende a homogeneizar os corpos.
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XV. A Performatividade de uma “Cena de Platéia”
Fernanda Oliveira desce até a plateia e aborda os espectadores. Pergunta o nome de alguém, entra no facebook através do celular, descobre informações e revela. A ação se dá no instante presente. Ela trabalha com a dificuldade de realmente procurar no celular e o tempo que isto leva. O público espera até que ela encontre e revele as informações. Fernanda brinca, improvisa, tem sempre algo novo a dizer: “Eu poderia ser agente do FBI”. A ideia desta cena veio de um desejo de apropriação no espetáculo da própria personalidade de Fernanda e da surpresa que senti quando ela fez isso comigo. Eu não sabia que existiam tantos aplicativos e que os cegos eram capazes de dominar a internet e os meios de comunicação. Achei importante isto vir à tona durante o espetáculo.
Fig. 13: Fernanda Oliveira em cena de plateia
XV. Algumas Considerações
O deficiente visual atuante no Cena Diversa aparece, para a sociedade, como aquele que usufrue, produz, e partilha bens simbólicos, como “qualquer vidente”, com uma destreza, potência e humor invejáveis; domínio da linguagem verbal; sensibilidade marcante para o ritmo e as sonoridades; voz para o canto à capela; força, forma e potência para a produção artística. Quando Acordar a Cidade é um espetáculo deste coletivo de cegos e sujeitos com baixa visão; criado a partir de suas estórias, características, desejos; imprimindo a sua relação com a vida e como esta é transmitida através de formas visuais e sonoras, eventos e atos. 38
O olhar sobre a poética da cena como algo que escapa ao discurso, nos autoriza a manejar o jogo de enquadramentos destes materiais na busca incessante da poética resultante de um dispositivo único e singular. As pesquisas desenvolvidas no Centro de Pesquisa em Experimentação Cênica do Ator e Cia Poética da Cena Contemporânea são a base dos desdobramentos metodológicos e novas sistematizações propostas para irmos de encontro a esta poética. Depois de quatorze anos pesquisando procedimentos para a construção da poética da cena teatral, o Cena Diversa se apresenta para mim como uma aposta, com a perspectiva de deslocar o campo de investigação para a função da arte enquanto dispositivo de subjetivação. Percebi que é preciso pensar com dedicação sobre o lugar de representação do teatro na vida destes sujeitos e as perspectivas de continuidade do seu fazer artístico, além das operações ou dispositivos necessários para que produzam discurso a partir da experiência e narratividade experimentada diante do outro-público.
Referências Bibliográficas. ARRUDA, R. K. Da poética do ator: Teatro & Cinema. Vila Velha, SOCA, 2019. BARBA, Eugenio; SAVARASE, Nicola. A Arte Secreta do Ator. Dicionário de Antropologia Teatral. Campinas: Ed. Da UNICAMP, 1995 BRAGA, Bya. Ator de prova: questões para uma ação-física coral. IV Reunião Científica de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas, 2007. BOGART, Anne. A Preparação do diretor: sete anos de ensaio sobre arte e teatro. São Paulo. Editora Martins Fontes, 2011. DUNKER, Christian. A Imagem entre o Olho e o Olhar. In: Sobre Arte e Psicanálise. São Paulo: Escuta, 2006, v.1, p. 14-29 SARRAZAC, Jean-Pierre. O Futuro do Drama. Porto: Ed. Campo das Letras, 2002. STANISLAVSKI, Constantin. A Criação de Um Papel. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. UBERSFELD, Anne. Para Ler o Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2005. WISNIK, J. M. O som e o sentido, uma outra história da música. São Paulo: Companhia das Letras,1989.
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Testemunhos Ana Paula Castro, co-diretora e assistente-vidente
Quando o Cena Diversa se mostrou pra mim, eu não fazia ideia da imensidão que me esperava. No inicio, eu já sabia que seria uma grande aprendizagem, então eu já iniciei todo o processo de peito aberto pra receber todo ensinamento que me seria passado. Começamos com os alunos cegos, foi um inicio sensível, onde eu me emocionava todos os dias que nos encontrávamos. A gente começou a trabalhar corpo com eles, voz, e etc., e ver toda a evolução deles, foi uma coisa surpreendente. Eles, por serem cegos, estão quase sempre presos a uma bengala que os ajudam a se locomover, e ver esses corpos se soltando no mundo foi e é de uma alegria imensa! Eu nunca vou me esquecer do dia em que vi uma de nossas alunas, Janaína, levantar da cadeira e ir atrás de um funcionário do instituto onde dávamos as aulas. Ela levantou rapidamente da cadeira e foi atrás dele numa brincadeira, e aquilo sem dúvida, foi reflexo dos ensinamentos de corpo que tínhamos passado, ficou impregnado nela, ela levou algo que seria “do teatro” pro seu cotidiano. Esse acontecimento foi o primeiro de vários que me fez enxergar o quanto eles já tinham mudado e o quanto ainda mudariam. Quando eu estagiava lá, eu morava em Guarapari e estagiava em Vitoria, de ônibus dava mais ou menos duas horas, duas horas sentada, ou em pé, dentro de um ônibus, isso na minha cabeça no inicio seria extremamente cansativo, mas muito pelo contrário, dentro do ônibus eu ia ansiosa pra saber o que eles iriam me ensinar no dia, ou o que nós iríamos ensina-los no dia. Foi uma troca muito sincera e gostosa. Eles são de uma alegria contagiante! Tudo era motivo pra comemorações, palmas, abraços, agradecimentos ou felicitações. Sem contar do quanto eu cresci durante todo esse processo. Estagiar com duas mulheres como a Rejane e a Lena, foi de um privilégio sem tamanho. Foi um processo onde eu aprendi de todos os lados, aprendi com os alunos, com a direção e com minha companheira de estágio. Um processo muito generoso e grato comigo como Ser e como profissional da arte.
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Fernanda Oliveira, atriz
Dizem que tudo o que um sonho precisa, é alguém que acredite que ele se tornará realidade. Inicio este pequeno relato com esta frase, a fim de destacar que eu sou um alguém que é extremamente sonhadora. Desde criança, sempre ouvi dizer que jamais seria capaz de levar uma vida normal, ou de fazer as coisas que os ditos "normais" poderiam fazer. E sempre cresci acreditando piamente nesta frase. Quando me tornei adolescente, descobri o mundo mágico, fantástico e fascinante dos livros. Me lembro que viajava por suas páginas, conhecia o mundo inteiro através das palavras de seus autores. Em 2015, quando fiz teatro pela primeira vez, um mundo novo se abriu diante de mim. Percebi que não seria mais eu, Fernanda que estaria ali no palco. Eu seria uma outra pessoa, um personagem totalmente diferente do meu eu por trás dos bastidores. E isso me deu uma sensação de estranhamento, a princípio, mas depois, aquilo me permitiu abrir novas asas. Aprendi, que o personagem não sou eu, e por isto, existe uma diferença enorme entre minhas ações como Fernanda de carne e osso, e as ações de qualquer personagem que estaria sendo interpretado em cima de um palco. Em 2018, ano passado, me mudei de estado e cidade, e fiz aulas de violino. Ali, mais uma vez, percebi que minha deficiência não é impecílio para nada. Neste ano, quando o Cena Diversa surgiu, eu precisava de algo que me tirasse da depressão, que me desse um fôlego novo, e foi isto o que este projeto fez por mim. Abriu meus horizontes para algo totalmente inédito, que eu nem imaginava poder alcançar. Nas aulas, eu era a que questionava. Sou muito lógica, e a princípio, as ideias da Rejane batiam de frente com tudo o que eu sabia, com tudo o que acreditava, então eu questionava: "Mas por quê tem que ser assim? Não consigo entender isso! Fazer assim não está certo." E ela sempre dizendo: "Fica tranquila, isso é muito cênico, muito potente." E eu ia deixando que ela seguisse com suas ideias, com suas propostas totalmente inovadoras. E aquilo me fez enxergar, que o que é estranho e diferente para uns, pode não ser para outros. Aprendi que cada um tem uma maneira de enxergar as coisas, e mesmo que tudo pareça ser igual, alguém pode ter outro olhar. E foi assim que fui me libertando dos tabus que
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ainda fechavam minha mente, fui me livrando dos preconceitos e pré julgamentos, e fui me abrindo para o novo, me permitindo vivenciar sensações novas, adversas do que estava acostumada. Os ensaios também eram cansativos. Uns se dedicavam muito, outros não faziam, e meu senso de perfeccionismo gritava bem alto: "Vai dar tudo errado, as pessoas não estão se dedicando, isso vai ficar horrível!" Aprendi que cada ser humano é um só, com seus pensamentos, suas ideias, suas habilidades, e que ninguém é melhor ou pior do que ninguém. Aprendi a entender e aceitar o jeito de ser de cada um. Ninguém pode ser como eu espero, e isso não é ruim, é só próprio do ser humano. E aí, a surpresa geral foi na hora da nossa primeira apresentação, no Teatro da UFES. O público ria, aplaudia, se entusiasmava com cada cena feita, eles gritaram, se animaram, cantaram com a gente, enfim, eles demonstraram que sim, tudo havia dado certo no final! E quer saber? Aquilo era o que importava! Eu havia me esquecido dos stresses nos ensaios, havia me esquecido da perfeição que eu queria que existisse, havia me esquecido de tudo, e só me concentrei naquele momento, no presente, nos aplausos, na alegria da plateia! Tudo havia ficado para trás. As lágrimas, as noites mau dormidas. Sim, tive insônia, eu me estressei, me irritei, me cobrei, me quebrei em mil e um pedaços, e me reconstruí de novo, eu me descobri, eu aprendi, cresci, me desenvolvi. Mas depois que subi no palco, tudo havia sido esquecido, e eu só me concentrei naquela apresentação, onde eu dei o melhor que havia dentro de mim! Cantei no pot-pourri, como se fossem as melhores músicas que poderia cantar. Fiz cada cena, dando o máximo de mim. Eu não era a Fernanda. Era cada personagem, era outra pessoa. Depois, fomos na escola Estadual, e estar ali, com aqueles adolescentes, também foi uma experiência enriquecedora para todos. Ainda tivemos outras duas apresentações, no Festival de Teatro de Vitória, no Teatro Sônia Cabral, e no IFES de Cariacica. Cada apresentação é única, nos traz sensações diferentes, nada é igual, nem cada reação positiva do público pode ser comparada. Depois de todas as apresentações, percebi que tudo é possível, se a gente acreditar, e que o mundo é meu, e tenho o direito de conquistá-lo, seja atuando, cantando, tocando, seja dando uma palestra, enfim. Sou muito grata ao Cena diversa por me permitir viver experiências novas, e por me fazer enxergar o valor da arte. Sou grata as estagiárias: Ana Paula, Lena, Renza. Sou grata a 42
equipe: Bárbara, Laysa, Yasmin, Daniel, Gabriel, Filipe, Letícia. Sou grata a nossa diretora Rejane. Enfim, sou grata a todos, que de várias formas, contribuíram para que chegássemos até aqui! Sem vocês, o espetáculo perderia seu brilho. Nós atores, não seríamos nada se não fossem seus olhos, suas palavras de calma, ânimo e insentivo. O Cena diversa pode ter encerrado suas atividades agora, mas eu, ainda tenho muito a realizar, muitos sonhos para serem transformados em realidade. E agora, depois deste ano tão louco, tão cansativo, tão exaustivo, tão gratificante, sei que realizarei tudo o que quiser! Criei um canal no Youtube, graças ao teatro, que me fez superar a timidez, e me fazer entrar na internet, e mostrar aos que me assistem quem eu sou, o meu mundo, enfim. O Cena diversa me deu asas para que eu possa voar, e eu farei isso. Voarei muito auto, e tudo o que vivi neste projeto, jamais será esquecido por mim! Obrigado a todos vocês, que fizeram do projeto ser o que é!
Francielly de Oliveira, atriz.
Eu aprendi muito com vocês no teatro. Sempre fui uma menina tímida. Depois do teatro eu me soltei. Tinha dificuldade de soltar o timbre da minha voz, que não saia. E aprendi muito com vocês. O teatro me despertou muitas coisas. Tipo, sobre o preconceito. Aceitar quem eu sou, mesmo. E aprender a superar as coisas. Igual o meu depoimento, da coleira. Era um cachorro que só ele ouvia meu choro, ninguém escutava, quando eu tava no berço. Comecei a falar quase com três anos. A menina apaixonada é a minha cara. Porque foi o começo do meu namoro. Praticamente quase igual ao roteiro. Mas, é muito linda. E já to morrendo de saudade de cada um. De você, do Gabriel, do Dan, da Baby, da Aninha, da Yasmin, da Fernanda, Janaína, Jarlison, Telma, Ana, Fadine, Zé Carlos, todo mundo do elenco.
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Gabriel Caetano Madeira, produtor
As cordas transitaram de tal vulnerabilidade – que o trânsito parou. Inicio esse tráfego com a hipótese de os atores cegos (essa especificidade de cegueira é viva e eficaz na cena contemporânea e suas relações espaço/social-tempo) serem a priori - naquele ato - uma espécie de jogo e trans-jogo. Saliento a passagem de atorplatéia, um diálogo, uma prosa... sinto a cena como ‘’um lanche da tarde,u ma janta...’’ -, um toque especial assim. Transfiguração. Figuras mortas e antunianas proferiando relato-pessoal-afetos, uso de objetos de vida e memórias, exploradas pelo tempo, de um caráter caixa de pandora: a revelar de uma outra escrita dramática, em parte e vívida. A exatidão de contar um fato, um acontecimento com usos dramatúrgicos (urso, boneca, carrinho, panela, peteca, pandeiro, secador de cabelo, bacias, folhas secas, câmera, projeção, quadrado de cordas (centro do palco), caixas de feiras (fundo), lanternas, rostos, não contando fábulas (fazer para parecer verdade), mas mostrando, investigando processualmente. O local de não familiaridade - de incertezas, não-executado-espaço corporal e ambiental (esse último espetáculo acontecera no auditório do IFES, campus Cariacica). Os atores cegos, experimentam as cordas, os passos, as falas, os objetos; essa potencialidade de respiro, mudança do fazer cênico, ganha toda vitalidade e prontidão. Troca de ambiente/território. Novo público, novos ares. Atrizes não cegas na cena, auxiliando na condução, volta e meia ‘’passagens livres’’ pelos atores, ora atrizes não cegas com os atores. Saem. Entram. Passagem com microfones, ajustes. Ao vivo. Uma das atrizes não-cega filmaos. Imagem+corpo+coro se juntam, abstraindo a visualidade de quem assiste-cria a rede de tessituras, formativa, gradual de Quando Acordar a Cidade. Figura “particular” espectador que não é oculto, esse público se apresenta como um todo participante, e não mera cereja do bolo, voyerismo, mas fazedor. Uma comunhão que se estabelece, as escuras, (ator, direção, equipe), como se tudo não houvesse feito, um novo apontamento, uma nova garra, um novo desafio de encarar a dor e prazeres.
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Luz, desenhando e recortando a silhueta dos atores, arquitetando falas e espaços, apagando atores, acendendo o próximo, pisca-pisca, algo misterioso e secreto. Corpo luz, geografia sombria e fria. Mudança de sons, evidenciando a fala. Qual a função do público na trilha sonora, ação ou modo de chegar a dramaturgia? É possível deixar o histórico em casa e partir para o teatro? Como é emergir o corpo diante de tantos outros, sem se ver, apenas sentir? Proponho redescobrir um outro corpo, um novo jeito de comer, um nova maneira de escovar os dentes, vestir uma roupa, calçar os sapatos, passar batom, dirigir, ir à praia, arrumar a casa, tomar banho, cuidar do outro, do cachorro, fazer uma sobremesa, pagar conta, ser acompanhado por alguém (sem saber quem é), fazer arte, tocar um instrumento, ir ao shopping, tirar foto, postar nas mídias, ter amizades, ter um crush. Me permitir chorar, me permitir ser, me olhar no espelho às cegas. Me permitir abrir as cidades.
Fig. 1: Paulo Pasta, sem título, 2011, óleo e tela, 50x70
Fig. 2: Mark Rothko, COMPOSITION, 1959
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Janaína Reis, atriz
Fazer teatro me abriu os olhos para quem eu posso ser. Me permitiu ver que eu posso não só sonhar, mas também realizar tais sonhos. Existe uma Janaína antes, e uma depois do teatro, isso vindo lá de 2015. O triste para um deficiente visual é quando chegamos a fase adulta sem qualquer expectativa e esse foi o fundo do poço para mim. Acordar para que? dormir para acordar mais um dia para nada. Essa era a definição da minha existência após perder a audição do lado esquerdo e ter que me afastar do meu trabalho. Sim, cheguei a trabalhar, coisa difícil para um cego total. Tinha meu próprio salário, nunca quis receber o benefício por não querer encostar em nada que me desse um apoio para ser ociosa. Passei por muita coisa, desde a perda da minha mãe que me atirou ao chão, até a ser enganada por uma suposta amiga, o que me levou quase a beira da loucura. Minha recuperação do fundo do poço foi o teatro. Foi ver nos meus personagens que não importa quem somos para o público. Eles não fazem ideia. Veem a funckeira louca do show que montamos em 2018, veem a patricinha ou a Tereza Cristina cleptomaníaca que interpretei em 2015. O que somos nós deixamos nos bastidores. Eu voltava do palco querendo mais, querendo escapar, podendo escapar. Aos poucos o foco passou a ser sonhar, e tudo que me afundava, me arrastava para o nada, tudo aquilo passou a não ocupar tanto a minha mente até nem ter mais importância. A criança dentro de mim queria aqueles 60 minutinhos ali, se jogando, brincando, sem medo, sem preocupações, vibrando com a reação da plateia diante do que dei meu suor para aprimorar, dar forma e chegar até ali. O Cena Diversa chegou num momento em que eu tinha decidido que era aquilo que eu queria. Não seria mais uma terapia, seria minha vida. Fui apresentada ao projeto e me atirei. Fui me achegando, de repente estava em contato com a diretora, a Rejane. Perguntando, questionando, pesquisando por fora, dando trabalho... Acho que eu era a mais faladeira da turma. Era uma menina bagunceira, animada, mas extremamente focada.
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Eu mudava. Brincava por fora, rígida ao extremo nas aulas. Perdia o sono, sério, fui ao limite do stress. Dei o que tinha, o que não tinha e busquei mais pelo aperfeiçoamento da peça e com isso aprendi que sou apenas uma, que cada um de nós dá uma importância diferente a algo e que eu estava sendo uma tremenda egoísta querendo arrastar todos para o meu ideal. Aprendi que toda essa confusão, briga, desentendimento, stress e mancadas de bastidores é o que dá força a um espetáculo. Quem imaginaria? De fora ninguém vê. Mas ter tantas cabeças juntas dá nisso, se batem, se mordem, se gostam e desgostam, até mostrar uma sincronia fantástica no palco. A energia da plateia envolve e recebe a todos. Tudo fica pra trás. A loucura dos ensaios é o pior... eu sou uma das loucas, devo acrescentar. Louca de pedra! de chorar e tudo. Repetir, errar, repetir, errar até dar certo. Isso é um ensaio, e isso é maçante! Eu saía da aula com meu perfeccionismo exagerado berrando com todas as forças: "Erro, erro, erro! Tá errado! Eu quero que essa seja a peça da minha vida. Vocês estão atrapalhando a peça da minha vida!" E aí está mais um aprendizado. Essa não foi a peça da minha vida. Essa foi uma das primeiras e espero que essa tal peça esplêndida nunca chegue. O dia em que eu chegar até ao espetáculo da minha vida eu não terei mais o que buscar. E depois da tempestade eis que nasce o sol... Era a hora de colher os frutos de tudo isso. A apresentação na UFES foi tudo que eu esperava e muito mais. Estar naquele palco gigante, teatro lotado mesmo com protesto e toda a dificuldade advinda dele, tudo isso foi mais que emocionante. Eu admito que estava com medo. Passei por mais um pico de stress que me levou as lágrimas e descontrole, mas fui bem amparada, tudo acabou bem. E como as outras vezes, deixei o pacote de surtos na coxia e entrei no palco pra fazer o que eu sabia bem, eu estava pronta para aquilo. Gaguejei algumas vezes, minha voz cobrou o preço pelos dois ensaios seguidos no dia e pela bagunça que fizemos antes de entrar no palco, mas tudo bem, passamos, todos gostaram e até meus familiares estavam. Foi incrível! Isso me deu mais certeza de que era esse o caminho. Por fim, apresentações posteriores fizeram essa emoção triplicar! Fomos convidados a participar em um evento no colégio estadual e mais duas apresentações, uma no festival de teatro de vitória que ocorreu no Teatro Sônia Cabral e outra apresentação para os alunos do IFES de Cariacica.
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Não vou dizer que não me passa pela cabeça "O que eu estou fazendo aqui?" "Porque essas pessoas vieram nos ver?" A baixa auta estima me afeta por mais que eu queira acreditar em mim mesma. Mas não pretendo parar. O céu é o limite! Estou com um canal no youtube atualmente que vira e mexe eu penso em desistir, mas esse também é um sonho que realizei e tirou meu medo de falar para as pessoas. Hoje consigo encarar o público com um pouco mais de naturalidade, aceitar minha própria limitação e até mesmo passar por cima dela na medida do possível. A tecnologia está aí para transformar deficiência em eficiência, nos tornar dependentes de nós mesmos e de nossa própria capacidade como pessoas únicas como todos os que tem visão. De tudo fica o aprendizado, e isso ninguém poderá apagar. Sou grata a UVV e suas estagiárias Júlia, Lena, Sabrina, Ana Paula e Renza que trabalharam conosco no Braille. Sou grata também a Rejane por ter inscrito esse projeto e ter nos dado tamanho contato com o público. Foi maravilhoso e irei levar para sempre. Esse projeto me despertou para voar. Obrigado aos demais estagiários que fizeram parte da equipe do Cena Diversa e que trabalharam nos bastidores das apresentações. Vocês moram no meu coração. Assim termino esse texto, na esperança de que tudo continue fluindo e que esse capítulo da minha história continue dando frutos no futuro.
Jarlison de Oliveira, ator
Está sendo muito importante pra nós. Eu aprendi mais a me soltar, pois eu achava que eu era muito incapaz, me relacionar com outras pessoas. E uma coisa também que eu me surpreendi, pois eu tinha que escolher o nome da peça, e vem a minha cabeça este título de Quando Acordar a Cidade. Então eu fiquei muito feliz por ter escolhido o título e também pelos meus personagens. Aprendi como a fazer a previsão do tempo, as piadas, o Men e também a bandinha. Isso tudo pra mim está sendo muito gratificante. No dia da minha apresentação na UFES eu fiquei emocinado e eu fiquei muito alegre e foi muito bom pra mim apresenetar para muitas pessoas, e obrigada Rejane por ter tirado um tempo pra nós. São de pessoas assim que precisamos. Espero que continuamos. 48
José Carlos, ator
Devo dizer que esse ano de 2019 é um ano marcado por um encontro lindo e intenso com o projeto Cena Diversa, que possibilitou que pessoas com deficiência tivessem voz dentro do contexto social de eterna busca da perfeição. Nunca havia sido diritido e topar com o desefio foi uma tortura e, ainda, encontrar uma diretora “obsessiva” tornou o desafio uma “questão de honra”. É publico e notório que lidar com atores é loucura total. São egos inflados, megalomania, ataques de grandeza, elevado ao quadrado. Mas o desejo no projeto Cena Diversa foi tão coletivo que, quando indivíduos entravam em cena, aprecia uma daquelas pinturas clássicas, feitas com exatidão, beleza, harmonia, paixão. Simplesmente divino. Divino de divinal, me permitam a redundância.... Mesmo estando dentro do projeto, me flagrei todo o tempo boquiaberto com o potencial artístico de cada um da equipe, do elenco... As pessoas que assistem o espetáculo percebem claramente onde os andarilhos querem chegar, embora todos tenham vindo de universos diferentes. Tudo conspirou para que a mensagem deste projeto tão lindo fosse escrita nas estrelas. De alguma forma a arte em geral provoca uma ruptura que nos faz parar, questionar, elaborar, digerir e seguir numa direção alternativa e melhor. Essa é a função da arte: cutucar e desordenar ideias sedimentadas e obsoletas, e propor novas e frescas emoções. Sair da zona de conforto e seguir sempre em busca de novos sentidos, novas percepções. Tenho um sentimento transcendente de que mais que um projeto, o Cena Diversa tem sido um encontro de almas de verdade, de intensidade, de vida... Seja dentro ou fora do palco. Se a ideia incial era acordar a cidade, creio que a cidade foi acordada e sacudida. O melhor de tudo é saber que a semente foi plantada e estamos cuidando para que os frutos surjam vistosos e maduros, para a alegria da galera... Quem viver verá.
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Lena Signorelli, co-diretora O chamado veio desde que estive pela primeira vez no Instituto Braille, com o Coral do Tribunal de Contas: quero me aproximar dessa instituição, dessas pessoas. Aí veio o curso de Artes Cênicas e na lista de entidades para o estágio, o Instituto Braille. E lá fui eu. Era meu primeiro período de estágio. Meio insegura. Como será? Uma certeza: teria muito que aprender com eles e muito que aprender sobre os deficientes visuais, suas dificuldades, suas especificidades, sua beleza, suas habilidades especiais. O “remédio” para a insegurança: o apoio da minha orientadora, professora Rejane Arruda, que foi fundamental, assim como as trocas entre os colegas nos encontros de orientação. E a parceria da Sabrina, minha colega de curso, que se juntou a nós. Fomos muito bem recebidas pelo Instituto Braille e pelos alunos. Uma experiência gratificante, mais do que professora e alunos, criamos afeto. Nesse primeiro semestre de oficinas criamos um curto espetáculo para a festa de fim de ano do Instituto. Foi uma experiência colaborativa, a partir das nossas vivências nas oficinas, dos exercícios de corpo e voz, dos jogos teatrais de Viola Spolin e Augusto Boal. Apesar das limitações, a apresentação foi um sucesso e o grupo quis continuar. Neste ponto já havia uma mudança nas nossas vidas, na deles e na minha. Alegria, sensação de pertencimento, de poder transformar nossas vidas e influenciar a sociedade. Construir pontes e falar de um lugar que só aos deficientes pertence. Falar à sociedade como é viver como deficientes visuais, propor mudanças. Daí veio, neste ano, o Cena Diversa. E tudo foi potencializado! Com a direção de Rejane Arruda, montamos o espetáculo “Quando acordar a cidade”. Foi um aprofundamento de todas as experiências. Um aprendizado. Nossos laços se estreitaram, permitindo-nos vencer todas as dificuldades. Bravos guerreiros! Lutar sem perder a ternura jamais! Assim os vejo. A entrega desses atores guerreiros me emociona e me desafia. Todos participaram de forma única na construção do espetáculo. O “Quando Acordar a Cidade” é verdadeiramente um lugar de fala. Mais do que isso: um grito que vai ecoar para sempre em nós e nas vidas de quem assistiu e viveu conosco essa aventura transformadora. Nunca mais seremos os mesmos.
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Marcelo Ferreira, espectador, diretor da Cia Teatro Urgente
“Quando acordar a cidade”, nos afeta de muitas formas. Estamos no teatro. É o 15º Festival Nacional de Teatro Cidade de Vitória que recebe o “Cena Diversa”. Idealizado e dirigido pela atriz Rejane Arruda, esse projeto apresenta uma proposta inclusiva ao expandir a presença de pessoas com alguma deficiência motora, visual e auditiva em criações e performances cênicas. No caso de “Quando acordar a cidade,” trata-se de uma encenação realizada por atores e não-atores deficientes visuais. No palco, uma tela de projeção do lado esquerdo, folhas secas, caixotes, cadeiras brancas enfileiradas no fundo do palco. Luz âmbar criando uma atmosfera. Ouve-se um som ambiente, antes do terceiro sinal. Uma câmera está posicionada no palco e será usada para captar imagens em tempo real, recortando as cenas em close. Terceiro Sinal. Numa narrativa onde se cruzam depoimentos pessoais e ficção, drama, humor, canto e sabedoria, a montagem nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Presenciamos a incursão da diretora, acompanhada de atores em formação da Universidade de Vila Velha, numa poética que recupera a lucidez, resgata o afeto, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu. O teatro é performativo, reunindo elementos que identificam uma estética híbrida. Temos no mesmo plano: textos, objetos, folhas secas, água, fumaça, música, movimentos sutis, pausas, sons acústicos e microfonados, imagens em tempo real. Com uma iluminação bem fechada, em focos de pino, e usando a contraluz, os atores cantam, falam das memórias que certos objetos trazem, revelam verdades e meias-verdades, nos divertem com a criação de um programa de rádio e descem até a plateia, num momento de interação e surpresa. São atrações que foram construídas a partir de material vindo das histórias pessoais e a busca por uma estética que transformasse esse material em arte. A expressão do rosto, das mãos e do andar em cena, revelam uma sensibilidade ímpar dos atores, sua experiência imaginativa e uma instabilidade motora que me remeteu à dança butoh japonesa, e ao expressionismo, em alguns momentos. 51
“Cena Diversa” nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam", como escreveu José Saramago referindo-se ao seu, “Ensaio sobre a Cegueira”.
Yasmin Toretta, assistente-vidente
Doação. Amor. Empatia. Respeito. Confiança. Desejo. Afeto. União. Ao longo desses meses pude perceber que esse são os princípios da diversidade. Em todo tempo estivemos vulneráveis uns aos outros, aprendendo e nos dedicando juntos. Entendendo a necessidade e se dispondo a tudo. Esse tem sido o trabalho mais excitante e sereno que já fiz. Me descubro, me renovo e quando acho que entendi tudo, me desconstruo novamente. Experienciar "Quando Acordar a Cidade" me fez entrar em uma esfera que jamais achei que algum dia poderia estar. Ser os olhos de alguém transcende. E todos eles imaginam o mundo de uma maneira diferente, essa é a minha maior lição.
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1.2. “PELE”: DRAMATURGIA E PROCESSO DE CRIAÇÃO CÊNICA COM CADEIRANTES
Pele Rejane Arruda
Penumbra no palco. Tela da frente abaixada. Tela preta. 7 microfones lado a lado em pedestais posicionados bem à frente, na beirada do procênio.
Movimento 1 Apaga-se luz de plateia. Entra projeção com legenda “O que acontece com a paixão por um rosto”? Fica um tempo. Sai projeção. Abre luz frontal. Entra elenco pela direita: Scarlet, Ana Paula, Fernando, Yasmin, Daniel, Maurício e Nayma. Elenco se posiciona lado a lado, em frente aos mics.
Movimento 2 Daniel brinca no mic. Todos descontraídos. Ana Paula acompanha sem mic. Eles cantam muito rápido, quase não dá pra compreender as palavras. Daniel: Bate e maltrata essa puta safada / Quero jatada de leite na cara / Mas calma aí, não goza agora / Quero você socando minha xota / Bota aqui, bota... Eles riem. Fernando: É uma dependência né? Cê sente falta da pessoa, é isso! Nayma: É literamente uma droga ta ligado? Você se vicia na pessoa. O cheiro da pessoa te deixa entorpecido... O toque da pessoa te deixa (...) Ana Paula: Não tem como controlar, não sabe por quem que isso vai acontecer, só chega... (com a mão e a boca imitando um foguete) Bateu, caiu, cabou. Mauricio: Bate na hora, assim. Depois (...) Scarlet: Vem, fica ali um tempo, uns meses... depois passa. Mauricio: É um tesão educado. Scarlet: Já o amor fica por muito tempo. Daniel: Eu acho tudo uma droga!! Nayma: O ser humano não passa de um grandecíssimo saco hormonal... agora, se for pelo lado racional, é só uma tentativa desesperada da espécie sobreviver. Yasmin: Eu acho que quando você ama e entende o conceito de liberdade você sabe amar. A partir do momento que você cria espectativa em cima do outro e não dá liberdade, você não tá amando.
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Daniel: Eu fico até tipo meio confuso porque... eu sempre pondero as coisas, daí eu não sei se eu realmente tipo.... to bloqueando... porque eu entendo o lado da pessoa e não só o meu, mas daí isso me bloqueia um pouco e eu sinto que eu não sinto de verdade. Ana Paula: Comecei com quinze, com a minha ex-namorada mas eu não lembro como é que foi. Não lembro mesmo, eu tenho.... zero lembrança! Nayma: “Ela é a minha melhor amiga eu nunca vou gostar dela!” Quando eu fui ver eu tava mais de um ano namorando já. Ana Paula: A primeira vez com um homem foi num menage... foi ótimo. Scarlet: A minha não foi boa não, na hora H ele broxou. Daniel: A minha foi com o meu professor... Eu tinha dezessete, ele quarenta. Ana Paula: Eu vejo muita diferença entre o sexo que eu faço com as pessoas que eu amo e o que eu faço com as pessoas que eu não amo. Yasmin: O sexo é uma troca de energia, a mais profunda possível, então ele é zeloso, sei lá! Fernando: Quando eu fiquei na cadeira eu tava namorando... ela me viu andando e depois na cadeira.... Então tipo... depois da cadeira foi muito melhor. Foi com minha ex mas tipo... foi bem melhor do que quando eu andava. Maurício: Tem muita gente... “Pô será que ele faz sexo?” “Funciona?” Fernando: Se funciona?.. Dá tua mãozinha aqui meu amor... Maurício: A minha primeira vez depois de lesionado, foi com a minha professora de informática... Primeiro aquela amizade... Ela ficou curiosa... Como é que faz?... O negócio sobe? Sobe!... Ficamo namorando aí... um ano e meio.... Na primeira gozada depois da lesão... parecia que eu ia voltar a andar... Blecaute. Movimento 3 Foco em Nayma, que cantarola “Metalica de Enter Sandman”. Durante a canção, Yasmin e Fernando se posicionam. Maurício e Scarlet saem. Ana Paula, Nayma e Daniel tiram os 5 microfones centrais, deixando apenas os dois das pontas e saem. Nayma: Exit, light / Enter, night / Take my hand / We're off to never-never land / Now I lay me down to sleep / Now I lay me down to sleep / I pray the Lord my soul to keep / I pray the / Lord my soul to keep / If I die before I wake / If I die before I wake / I pray the lord my soul to take / I pray… // Say your prayers little one / Don't forget, my son / To include everyone / Tuck you in, warm within / Keep you free from sin / 'Till the sandman he comes / Sleep with one eye open / Gripping your pillow tight // Exit, light / Enter, night / Take my hand / We're off to never-never land // / Somethings wrong, shut the light / Heavy thoughts tonight / And they aren't of Snow White / Dreams of war, dreams of liars / Dreams of dragon's fire / And of things that will bite / Sleep with one eye open / Gripping your pillow tight // Exit, light / Enter, night / Take my hand / We're off to never-never land / Now I lay me down to sleep / Now I lay me down to sleep / I pray the Lord my soul to keep / I pray the / Lord my soul to keep / If I die before I wake / If I die before I wake / I pray the lord my soul to take / I pray…
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Movimento 4 Entra projeção de um ponto de ônibus junto com música do U2 “Ordinary Love”. Fernando e Yasmin no ponto. Yasmin com cabeça deitada, a muchila ao lado, o boné na mão, parece que está sentada em uma das cadeiras. Fernando do outro lado, perto de uma lixeira. Os dois esperam o ônibus. Ela abaixa a cabeça. Em seguida olha pra ele. Apesar de perceber, ele não desvia o olhar da avenida. Ela volta a olhar para onde os ônibus vêm. Então ele a olha. A observa de cima abaixo. Quando ela volta o rosto, os olhares se cruzam. Ela sorri. Sai música. Yasmin: Ta demorando né? Fernando: O que? Yasmin: O onibus! Fernando: Ah sim! Yasmin: Você também pega o 404 não pega? Acho que já te vi nele. Fernando: Ah, pego sim. Silencio. Fernando: É.. tá demorando mesmo. Yasmin: Como é seu nome? Fernando: Felipe e o seu? Yasmin: Janaína. Fernando: Nome bonito. Yasmin: (Com um sorriso) Cê acha? Fernando: Sim, é bonito mesmo. Silêncio. Yasmin: Você gosta de ler né? Já te vi lendo no ônibus. Fernando: (Ele ri) Não muito. Mas preciso pro meu trabalho. Yasmin: O que você faz? Fernando: Dirijo um setor do Hospital Vaticano e você? Yasmin: Sou atleta. Fernando: Jura? Que legal! Yasmin: Quer ver um treino um dia? Porque você não vai lá? Vai sim, é legal! Fernando: Claro! Vou sim! Yasmin: Vai mesmo? Fernando: Vou. Entra novamente “Ordinary Love”. Sai projeção. Fernando se desloca até o microfone. Entra luz em Fernando. Fernando: Felipe batalhou muito desde a infância. Conseguiu pagar os estudos. Chega a irritar as pessoas com a sua calma e não tem atitude pra tomar decisões. Apesar disso, assumiu responsabilidades e com 25 anos é chefe de setor no Hospital Vaticano. Mora com a 56
namorada Janaína e a cunhada Aurora. Sente uma necessidade imensa de cuidar, talvez por não poder ser pai. Yasmin se desloca até outro microfone. Ajoelha-se. Entra luz em Yasmin. Yasmin: Janaína ama a cor laranja e é virginiana. É atleta, joga kindiball profissional. O que mais lhe faz feliz é estar em movimento. Nas horas vagas faz aula de dança. Tem poucos amigos, é fã do irmão Joel, que considera o seu melhor amigo. Desde cedo assumiu a responsabilidade dos cuidados de Aurora, caçula, oito anos mais nova. Há seis anos encontrou o seu grande amor Felipe. Eles sorriem. Yasmin corre para o foco de luz de Filipe. Cai a luz de Yasmin. Sai música. Yasmin: Eu to com os anéis aqui, não é nada do jeito que você sempre sonhou, mas... Eu botei meu nome.... e no meu, eu botei o seu.... Você aceita?.. Ai eu vou chorar, me dá... Ela pega a mão dele e coloca o anel. Dá o segundo anel para ele... Ele coloca o anel no dedo dela também. Ela bate palminhas. Enquanto isso Ana Paula se posiciona no microfone onde antes estava Yasmin. Entra foco de luz em Ana Paula. No final da fala de Ana Paula Daniel se posiciona no centro da cena, violão nas costas. Entra música. Ana Paula: Eu e minha irmã nos mudamos pra começar tudo do zero, já que nossos pais foram embora. Eu mudei de escola e Janaína de faculdade. Meu cunhado veio morar com a gente. Sim, ele é a melhor parte dessa estória. Minha irmã vive treinando, quase não da atenção. A gente vê filme, faz pipoca, anda de patins.... Ele me leva pra escola... Meu irmão Joel vem visitar a gente. Junta ele e Janaína e eles me deixam de lado! As vezes eu saio, fico horas na rua. Difícil é me adaptar à cidade. Onde eu morava todo mundo me conhecia. Sai música. Movimento 5 Daniel: Mana? Abre luz em Daniel. Entra música: “Só Hoje” (Jota Quest). Yasmin: Joel! (Sai correndo para abraça-lo) Joel!! Eles se abraçam, ela pula nele, agarrando-o com as pernas. Yasmin: (Desprendendo-se do abraço) Tira essas coisas, me dá tudo... Ajuda-o a tirar o violão das costas. Coloca no chão. Vai pegar o chapéu... Ana Paula: Congela!
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Eles imediatamente param o movimento. Ana Paula: (Bate uma palma) Corre! Abre luz de frente. Eles correm. Ana Paula: (Bate duas palmas) Congela! Eles congelam. Ana Paula: (Bate três palmas): Se joga no chão! Eles se jogam no chão. Ana Paula: (Bate uma palma): Abraço! Eles se levantam e se abraçam. Ana Paula: (Bate duas palmas): Se afasta! Eles se afastam. Ana Paula: (Bate três palmas): Um tapa! Eles se estapeiam no rosto. Ana Paula: (Bate uma palma) Vira de costas! Eles viram de costas um para o outro. Ana Paula: (Bate duas palmas) Cai no chão e rola. Eles caem no chão e rolam. Ana Paula: (Bate três palmas) Se levanta e grita. Eles se levantam e gritam. Ana Paula: (Bate uma palma) Abraço! Eles se abraçam e continuam a cena. Volta luz fechada. Yasmin: Eu não acredito! Filipe olha sério.
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Yasmin: Você não avisou que ia vir! Meu deus! Que saudade de você! Ela o abraça novamente. Yasmin: Ai te amo tanto! Ai meu deus! Joel percebe Filipe. Os dois olham ao mesmo tempo para Filipe. Sai música. Daniel: Quem é ele? Sai luz. Saem Fernando, Yasmin, Daniel, Ana Paula.
Movimento 6 Entra audio de Ana Paula. Durante o audio, atrás da segunda tela, Nayma acende lanternas. Daniel troca de roupa. Yasmin ajuda. Ana Paula prepara Scarlet. Daniel se posiciona em cima do quadrado de areia. Ana Paula (Voz off): Durma com um olho aberto / Apertando o seu travesseiro com força / Sai a luz / Entra a noite / Pegue na minha mão / Nós vamos para a Terra da Fantasia // Algo está errado, apague a luz / Sonhos pesados nesta noite / E eles não são com a Branca de Neve / Sonhos com guerras, sonhos com mentirosos / Sonhos com o fogo do dragão / E com aquelas coisas que mordem / Sim // Agora me deito para dormir / Peço ao Senhor para guardar a minha alma / Se eu morrer antes de acordar / Peço ao Senhor que leve a minha alma / Silêncio, bebezinho, não diga uma palavra / E não se incomode com o barulho que ouviu / São apenas bestas embaixo da sua cama / Em seu armário, na sua imaginação // Sai a luz / Entra a noite / Grão de areia / Sai a luz / Entra a noite / Pegue na minha mão / Nós vamos para a Terra da Fantasia.
Movimento 7 Entra música “Meab Blues” (Floyd Lee). Sobe a 1ª tela, deixando a mostra o cenário que está montado atrás. Joel caracterizado de salva-vidas, braços cruzados, pé de pato e óculos de natação, no centro de um quadrado de areia iluminado por seis lanternas, três em cada lateral. Entra projeção com imagens de cassino: Soraia e amiga riem, bebem, ganham dinheiro, comemoram. Nayma caracterizada de cachorro aparece no fundo à esquerda, avança pela diagonal. Pára um pouco antes de Joel, fareja em várias direções e late. Em seguida percebe o quadrado de areia, vira-se e vai até ele, cheira, percebo Joel, começa a cheira-lo. Ele se incomoda e tenta afasta-la com um chute. Começa uma briga entre chutes e latidos que ganha intensidade até aparecer Soraia. Ela vem pelos fundos em uma linha reta, passa por Joel e se posiciona ao lado do quadrado de areia. Vira-se de frente para a plateia e pára. Permanece imóvel olhando a plateia. Joel olha para ela. 59
Daniel: (Em posição frontal) Olha aqui senhorita cachorros são proibidos nesta praia. Scarlet: (Abre os braços e fala alto) Por que são proibidos?!! Calmamente ela vira a cadeira e contorna Joel pela sua esquerda até completar o círculo. Se posiciona atrás do quadrado de areia entre Joel e Nayma. A cachorrinha se anima com a presença da dona, pula, lambe, festeja. Scarlet: Você concorda com este absurdo? Bichinhos são tão meigos.... Joel espicha o olho. Daniel: (Voltando a posição frontal) Que bonitinho!... Pois é... Mas Lei... é Lei!!! (Enxergando o bracelete espicha novamente o olho) Que pulseira bonita!!.... É de verdade? Soraia ri. Scarlet: Como assim de verdade? Daniel: Nem tudo o que brilha... é jóia!!! Scarlet: É falsa. Daniel: Falsa? Scarlet: É pra atrair os golpistas!!!! Sai projeção, entra tela preta.
Movimento 8 “The Dope Show” (Marilyn Manson). Durante a música, aomesmo tempo: Nayma apaga as lanternas, coloca no quadrado de areia e arrasta a lona pra fora. Ana Paula e Yasmin posicionam bacia e roupas. Daniel tira pé de pato e óculos de natação e se posiciona em frente a bacia. Diante da bacia com água e sabão, ele bate a roupa molhada e procura o seu terno no bolo de roupas secas. Durante esta cena Nayma se troca e ajuda Scarlet com o vestido. Daniel: Diabo!! Vocês não viram meu terno não? Sai a música bruscamente. Abre luz em Daniel. Sobe corredor de luz. Ana Paula: (Atravesssa a cena correndo) Aiiii uma barata!!! Janaína entra escovando os dentes com um copo d’água na mão. Daniel: Porra vocês não viram meu terno? Yasmin: (Parando atrás de Joel) Eu tenho que tomar conta da vida de todo mundo aqui?! Ana Paula: Ihhhh, ta estressada? 60
Yasmin: (Joga a água na cara de Aurora) Filha da puta. (E sai de cena). Daniel: (Contina batendo roupa e procurando o terno) Caralho!!! Yasmin: (Voltando, com a bolsa) Vamo Aurora! Garoto levanta daí logo? Ana Paula: (Exasperada) Homem do céu, pra quê você quer esse terno? Joel levanta-se abrupto, num susto. Yasmin: (Puxa Joel pelo braço e o derruba) Kukusclan!! Vocês viram a matéria sobre isso? Daniel: (Cruzando os braços, no chão ainda) Lamentável. Ana Paula: (Agoniada com a roupa molhada) Mas eu... Janaína puxa Aurora pela roupa. Daniel:: Menina, você tem que saber onde tá o terno! Ana Paula: (Birrenta) Nananinanão. Yasmin: (Segura Joel e o empurra agressivamente) Olha nas suas coisas Joel!! Ana Paula: Porra Joel!! Daniel: (Levantando) Ô caralho! Porra! Aurora se afasta. Janaína dá uma bolsada em Aurora e começa a bater em Joel. Yasmin: Ridículo! Sonso demais! (Janaína busca o terno) Ana Paula: (Posicionando-se na frente dele) Urra meu irmão!!! Yasmin: (volta com o terno, levanta Joel pelo braço) Vai vai vai, levanta logo sai daqui. Volta “The Dope Show”. Sai corredor. Fica o foco em Joel. Yasmin e Ana Paula se alternam para pegar as coisas na coxia. Uma a uma, saem e retornam, com alguma coisa na mão em uma espécie de coreografia. Trazem e vestem ele: a calça, o paletó, o chapéu e o lenço, o violão e a flor, o perfume. Depois saem, deixando ele sozinho.
Movimento 9 Entra audio com dedilhado de violão. Abre corredor de luz. Scarlet entra, atravessa o palco, posiciona-se no microfone. Abre suave luz frontal. No fim da sua fala, Daniel começa a dedilhar. O som do violão se mistura ao audio. Scarlet: Eu me chamo Soraia. A minha vida mudou quando o meu avô faleceu e deixou para mim tudo o que tinha. Joel veio atrás de mim. O que eu tinha, não era o suficiente, mas a gente sempre dá um jeito, quando ama. Eu até gostei. Foi uma oportunidade pra me aproximar de novo. O primeiro encontro tinha sido legal. Mas depois, ele começou a fugir. Daniel dedilhando. Ela vira a cadeira e fica de frente com ele. Os dois se aproximam. Sem parar de tocar, ele caminha em torno dela, que mantem o deslocamento em movimentos circulares. Ora andando de frente, ora de costas, sempre tocando, Daniel caminha em torno. Até se ajoelhar. Scarlet pára a cadeira e, em seguida, se desloca para o lado. Fica um tempo. 61
Volta a deslocar a cadeira, até ficar bem na frente dele e, então, tira o seu chapéu. Segue por trás até parar novamente ao seu lado. Esconde o seu próprio rosto com o chapéu. Entra audio de vozes no telefone. Daniel continua dedilhando. Scarlet escutando, como se lembrasse. Fecha os olhos, seu rosto se contorce de dor. Soraia/Amiga: (voz off) Alô? / Amiga... / Espera... Fala comigo. / Vou tomar estes comprimidos. / Que tipo de comprimidos? / Vermelhos, azuis, verdes, o arco-íris inteiro... A cidade tá me matando. / Como é que tá te matando? / Ele me deixou... Eu to sozinha... Todo mundo tá sozinho... Eles me desrespeitam. / Eu te respeito. Viver... não é algo fácil de se fazer. / Não será arrogante quando eu chegar? (Barulho) Você está bem? Que barulho é esse? / Nada, to indo praí. / Pra onde? / Eu sei onde você tá. Caem as luzes. Scarlet sae de cena.
Movimento 10 “Sweet Dreams” (Marilyn Manson). Fernando entra. Acende a luz. Durante esta cena, Yasmin e Ana Paula se preparam para entrar com os caixotes. É uma cena de bastante movimento, onde Daniel puxa e gira a cadeira de Fernando que, por sua vez, ora foge, ora vai pra cima, ameaçando atropelar Daniel. Daniel: (Agressivo) Escuta aqui... Eu não sei como você chegou nessa casa... (ajoelha-se na frente dele) mas quem você acha que é? Silêncio. Fernando: Quem eu acho que sou? Daniel: Quem você acha que é! Fernando: Sou o marido da sua irmã... E aí? Daniel: Eu não sei qual é a sua não.... Levanta-se, circula ao redor de Filipe Daniel: Sei que eu não gosto de você. Fernando: Você não gosta de mim? Daniel: Eu não gosto de você. Fernando: Foda-se! Joel de frente para Filipe. Daniel: E se você acha que vai ocupar o meu lugar nessa casa, tá muito enganado... Fernando: O seu lugar? Daniel: O “MEU” lugar. Fernando: Que lugar? Passou anos fora daqui, quem teve com suas irmãs?... Daniel: Mas essa é a “MI-NHA” família!! 62
Fernando: Ah tá e onde você tava quando elas precisaram? Daniel sai de cena e deixa Fernando falando sozinho. Fernando: (gritando para os bastidores) Família não é quem tem o mesmo sangue, família é quem tá junto!!! Sae música. Apagam-se as luzes.
Movimento 11 Abre luz. Yasmin e Ana Paula colocam a cabeça pra dentro do palco. Toalha colorida enrolada como turbante e óculos. Entram e olham para a plateia. De salto alto, bem peruas, carregam caixotes. Caminham. Nos bastidores Daniel se troca ajudado por Nayma. Yasmin e Ana Paula posicionam os caixotes e se sentam. Lixam as unhas, esperando o atendimento. “Sem querer”, começam a tirar som dos gestos: lixa no caixote, salto no chão, respiração... Aos poucos surge um ritmo orquestrado. A intensidade aumenta, até que Yasmin se abana, Ana Paula bate com o pé no chão e a coreografia começa. Com tempo dobrado (a cada tempo duas batidas). Lixa na unha: 1 2 3 4 5 6 7 8. Lixa na perna: 1 2 3 4. No caixote: 1 2 3 4. No colo da outra: 1 2 3 4. Com a mão na coxa da outra: 1 2 3 4. Batida do pé no chão com uma bufada. Com tempo normal (a cada tempo uma batida). Lixa arrastando no caixote para trás e para frente: 1 2 3 4 5 6 7 8, 1 2 3 4 5 6 7 8. No contra-tempo: uma batida com a lixa na sola do pé do lado oposto. Volta lixa arrastando no caixote: 1 2 3 4. Batida com a lixa na sola do pé do lado oposto: 1 2 3 4. Com tempo dobrado novamente, salto do chão com pés alternados: 1 2 3 4 5 6 7 8, 1 2 3 4 5 6 7 8, 1 2 3 4 5 6 7 8. Batida com os dois pés no chão. Três bufadas. Neste momento Daniel aparece. Daniel: “Shhhhhhhh”. E elas voltam a lixar as unhas. Daniel está caracterizado como Yasmin e Ana Paula, bem perua, turbante na cabeça, salto e lixa de unha. Senta-se no seu caixote. Mantem-se entretido com o celular. Ana Paula: (De forma melódica) Só vou esperar mais dez minutinhos! Yasmin Gente, mas a gente ta aqui a uma hora e meia!! Ana Paula: Essa médica demora, mas ela é (Aurora e Janaína juntas) boa!! Duas batidas com o pé no chão. Pés escorregam, joelhos juntos, corpo para a frente, queixo apoiado na mão. Pulso na testa. Abana. Levanta. Vira. Abaixa. Volta. Senta. Voltam a lixar a unha displicentemente. Entra “Push It” (Salt-N-Pepa). Ana Paula balança os ombros ro ritmo da música. Corredor de luz. Bento entra. Terno e cadeira de rodas. Yasmin chama a irmã para olhar. Ele passa pela frente delas em direção à secretária. Ana Paula tira o óculos para ver melhor. As duas acompanham com a cabeça. Daniel empolgado com a música. Bento chega na frente dele. Música sai. Ana e Yasmin acompanham.
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Maurício: Boa tarde. Daniel: Boa tarde. Maurício: Eu tenho uma consulta marcada com a Dra. Gislaine. Daniel: Qual o seu nome? Maurício: É Bento. Daniel: Pra que horas? Maurício: (...) Daniel: Hoje tá bem lotado aqui vai demorar um pouquinho. Mauricio: (...) Daniel: Você pode esperar ali no canto? Maurício: Tudo bem então. Volta a música. Bento dá meia volta com a cadeira de rodas. Ana Paula e Yasmin olhando ostensivamente. Bento passa pela frente delas e se posiciona ao lado de Ana Paula. Música sai. Janaína arrisca perguntar a Bento. Yasmin: Ãn, eh... Ce vem nela sempre aqui? Maurício: Sempre eu venho nela, mas não se atrasa tanto assim não. Yasmin: Nossa a gente veio lá da Serra, menino. Alguns instantes de silêncio. Ana Paula tosse. As duas voltam a lixar a unha. Ana Paula ainda dá mais uma olhadinha. Bento de cabeça baixa. Toca o telefone. Daniel: Alô? Consultório da Dra. Geslaine! As duas puxam papo de novo. Yasmin: Ei... É... O que que cê fez procê tá aí? Ana Paula: Foi tiro? Yasmin: Ou foi de nascença? Maurício: Um acidente. Daniel: Hummmm. Ana Paula: De carro? Maurício: Não. Alguns instantes de silêncio. Yasmin resolve levantar. Vira-se para a secretária. Yasmin: Moça tá demorando demais! Daniel: Só um minutinho moça que eu to no meio do atendimento. Maurício: Tem mais de meia hora já que nós tamo aqui... esperando. Daniel: Só um minutinho moço!.... Eu to no meio do atendimento. Maurício abaixa a cabeça. Alguns instantes de silêncio. Ana Paula e Yasmin olhando. Yasmin: Qual o seu nome mesmo?
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Sai luz do consultório. Entra “Ordinary Love” do U2 novamente. Maurício se desloca até o o microfone. Sobe pino. Durante a fala de Maurício, Yasmin e Daniel saem, levam os caixotes. Ana Paula tira os adereços, se posiciona no outro lado do procênio. Olha para Bento. Maurício: Meu nome é Bento. Cresci na comunidade. Era bom menino. Ajudava todo mundo. Mas, vivia nas ruas. Pai e mãe ausente. Educação em casa não tinha. Aprendi a sobreviver... Fiz amizades com os barra pesada. Me envolvi em assalto, tráfico de drogas e pequenos sequestros. Até que encontrei uma menina responsa... Sai música. Movimento 12 Bento se vira para Aurora. Aurora em em uma ponta, Bento em outra, frente a frente. Nascem dois corredores de luz. Ana Paula: Você não pode andar? Maurício: Eu não posso andar? Ana Paula: Você não pode... Pausa. Maurício: Não, eu tive um acidente. Ana Paula: Você teve um acidente. Maurício: Sim, eu tive um acidente. Pausa. Maurício: Mas não se preocupe, tá tudo bem. Pausa. Maurício: Como é o seu nome?”. Ana Paula: Como é meu nome? “Aurora”. Maurício: Aurora. Ana Paula: Aurora. Pausa. Maurício: Você pode me ajudar a chegar até em casa? Ana Paula: Eu, ajudar você a chegar em casa? Maurício: Me ajudar.... Ana Paula: Te ajudar... Maurício: A chegar... em casa.
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Ana Paula vai até ele. Posiciona-se atrás da cadeira, toca-a. Desloca Bento, até sair de cena. Apaga a luz de Aurora e Bento.
Movimento 13 Entra “Type O Negative Black N. 1”. Fernando e Yasmin bem no centro, encostados na tela, olham a plateia. Yasmin de salto, pernas de fora, óculos escuro, microfone. Daniel posiciona a camera no rosto de Fernando e liga. Ao mesmo tempo entra projeção do rosto de Aurora. A imagem dos rostos se misturam. Yasmin: A Aurora saiu né? Yasmin posiciona o microfone para Fernando e em seguida retoma-o para si. Fernando: A Aurora saiu? Yasmin: Sim ela saiu. Fernando: Você viu ela sair? Yasmin: Ela não saiu agora a pouco? Fernando: (...) Yasmin: Tem muita coisa que a gente pode fazer! Fernando: Muuuuita coisa que a gente pode fazer... Ela senta no colo dele. Eles se beijam. Daniel filma. A projeção do beijo se sobrepõe à imagem de Aurora empurrando Maurício pelas ruas: uma rua, outra rua. Quando entra a terceira rua, toca o telefone. Sai música e projeção. Daniel entra. Fernando e Yasmin se reposicionam. Atores afastados, cada um iluminado por um foco virados de frente para a plateia. Imagem de Aurora perdida. Olha as paredes, abaixa o rosto, olha a camera com estranhamento. Toca o telefone de novo... uma, duas, três vezes. Daniel atende. Daniel: Alô. Tempo. Daniel: Vocês o quê? (Com os olhos arregalados) É o quê? Yasmin se aproxima do celular perto dela, no chão, para falar em viva voz. Yasmin: Aurora? Joel continua com os olhos fixos. Pausa. Daniel: (Lentamente) Au-ro-ra? Fernando: Isso só pode ser trote, pára!
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Janaína abaixa o rosto, testa franzida, compenetrada. Tempo. Yasmin: Aurora me responde. Daniel: (Abaixando o celular) Preciso de dinheiro!! Fernando: Isso só pode ser trote!! Yasmin: A gente gastou o dinheiro todo.... pra escola.... Telefone toca de novo. Joel atende novamente. Daniel: Quem tá falando? Quero saber quem são vocês! Fala o nome inteiro dela. Pausa. Yasmin: Tá certo. Pausa. Yasmin: Tá certo Joel!!! Na projeção, a boca aberta de Aurora em um grito. Entra audio de Fernando com enigmática música de Zbigniew Preisner. Apaga-se os focos. Os três lentamente se viram para a boca e se aproximam. Chegam bem perto. Tocam. Yasmin é a primeira a sair de cena, depois Daniel. Fica apenas Fernando, na cadeira de rodas, acarinhando o rosto projetado em dimensão desproporcional. Durante o audio, Maurício e Ana Paula se posicionam atrás da 2ª tela. Cenário do cativeiro preparado, Nayma liga a TV. Fernando (voz off): Eu já fui tantas coisas / Já fui jogador, soldado / Até já fui astronauta. Mesmo dentro do meu próprio quarto / Na verdade, eu nunca entendi o motivo de não ter jamais saído dali! / Ouvia os outros meninos da rua e eu sempre quis ir… / Sofria comigo mesmo, sempre fui meu melhor amigo / Embora sempre ouvia a voz de um velho sábio que na minha cabeça falava comigo… / Minha genitora fazia um rodízio de homens e eu quem sofria / Nem se eu berrasse, ela atendia / Raramente me deixava ver TV e eu amava ir até a sala / Em algum momento, houve um homem com a seguinte fala / "Se ele mijar nesse sofá a mancha não vai sair! Você acha que ele realmente precisa ficar aqui?" / Eles saíam, curtiam, iam muito ao bar / Eu mesmo ficava ao "Deus dará" / Minha alegria foi quando ela teve seu segundo / Ao mesmo tempo senti tristeza.. / Nem de mim ela cuidava, pra que trazer outro ao mundo? / Era como eu esperava, ela saia e sozinho nos deixava / Eu nunca reclamei, mas meu irmão chorava / Fiquei feliz por ele quando ele o levou a um passeio / Eu outra vez fiquei de escanteio / O patinho feio.. / Sempre ouvi que me levar daria trabalho por causa do transporte. / Até acostumei ficar ali, contando com a própria sorte. / O Eduardo do Facção disse algo que nunca vou esquecer / "O papel dela deveria ser cuidar de mim. Afinal.. Eu não pedi pra nascer" / Ah.. Mas eu nunca reclamei / Naqueles poucos metros quadrados eu podia ser quem nunca fui. / Um super herói, um vilão! Mas só até ela apagar a luz. / Comecei a tossir, pensei que fosse disreflexia / Era um bicho entrando em minha garganta / Quem diria.. Não morri com anos de mals tratos e morreria por asfixia.. / Não se preocupe, estou num lugar bonito agora / Tem um homem ao meu lado / Ele disse que agora eu posso com a boca 67
falar / Dói olhar pra baixo e ver no quarto meu corpo ainda lá.. / Saber que ela só vai descobrir amanhã, quando voltar do bar. Terminado, contiua a música de Zbigniew Preisner. Yasmin sobe a 2ª tela, revelando o cenário do cativeiro.
Movimento 14 A luz recortada entra pela janela mostrando telas espalhadas pelas paredes e chão. Logo na entrada, uma TV em meio a caixotes de feira. Desenho animado em negativo sobre órgãos e anatomia humana. No fundo da cena, Aurora pinta. Bento imóvel bem no centro. Antes de terminar esta cena, Scarlet e Daniel vão se posicionar. Ana Paula: (pintando o quadro com dois pinceis, um grande e um pequeno. Pinta com movimentos abertos e agressivos) Eu to cansada disso. (molha o pincel em outra tinta) A verdade é que eles não vão conseguir. (molha o pincel mais uma vez e faz movimentos leves no quadro) Tá tudo muito complicado, ce entende? (começa a fazer o numero “2” no quadro. Molha o pincel repetidas vezes) Tem duas coisas no mundo que são estúpidas (permanece fazendo o numero “2”) Na verdade o universo eu não sei se é tão estúpido assim... mas o que vocês tão fazendo é estúpido (pinta levemente. Perdida) eu to no mundo da lua (permanece pintando, e vai aumentando a agressividade) mas não só. Eu to na terra também.. (tempo. Pinta quadro) (irônica) Olha, eu preciso pegar meu ônibus, tenho que ir embora. (tempo. Deixa os pinceis caírem no chão. Tempo. Vira de frente para Mauricio, encosta em seu ombro. Abaixa. Passa a mão no rosto de Mauricio, tira seus óculos devagar, com carinho) Eu gosto tanto do seu olho, as vezes ele é tão... (mexe no cabelo de Mauricio, caminha pra frente e senta em seu colo. O observa) há quanto tempo vocês têm me observado? (Mauricio acaricia perna de Ana Paula) (Ana pula levanta rosto de Mauricio) Você pode me falar seu nome? (tempo. Segura no ombro de Mauricio) Seu nome mesmo? Nayma entra devagar observando Ana Paula e Mauricio e caminha em direção aos caixotes e a TV. Ana Paula olha para Nayma. Ana Paula: (No ouvido de Maurício) Ela gosta de incenso, né? E velas perfumadas (diz deitando a cabeça no ombro de Mauricio. O abraça) Percebi. (Ana Paula olha para o quadro e volta a olhar para Mauricio, o acaricia) Ela tem uma voz doce, né? (se levanta) Ela deve gostar tanto de você. (volta para o quadro, pega o pincel, molha na tinta e pinta) Eu tenho dois gatos... (Tempo. Olha para o quadro e depois volta a falar para Mauricio, se agacha) Um macho e uma fêmea, ce sabe, né? Tempo. Levanta-se e volta a pintar. Ana Paula: O inacreditável é que a gata tá grávida. Ana Paula para de pintar, escuta o ambiente, vai para o ouvido de Mauricio.
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Ana Paula: (No ouvido de Maurício) Ela gosta de pintar, né? Eu acho tão legal (diz voltando para o quadro. Molha o dedo em uma tinta) Eu gosto de pintar também (pinta o quadro com as mãos) (Ana Paula vira para Mauricio, pinta os próprios braços) Por que vocês me deixam pintar, hein? (passa tinta no rosto) É pra eu ficar calma, né? (pega mais tinta e passa no rosto) Pra eu não gritar? Percebi. (Volta pro quadro, molha o dedo com mais tintas. Se vira para Mauricio e pinta uma porta no braço) Minha avó dizia, quando você não tiver uma porta (vira o braço e desenha uma janela) abra uma janela. (Pinta o rosto de Mauricio) Ela também gosta de batom vermelho, né? E bijuteria . Ana Paula vai ao microfone da direita. Entra “Nachtwache Blaubeermund” (E Nomine). Ana Paula: Ela tá parada! Ela devia estar xingando! Tá certíssimo. (Abrindo os braços) Eu te amo tanto! Não é assim? Nayma aumenta a gargalhada. Ana Paula se vira para Mauricio, passa a mão no rosto. Ana Paula: Você sabe o que eu quero? Mauricio: (com um mic sem fio) O que você quer? Ana Paula: Eu to sentindo cheiro de..... Eles vão dar uma festa!!!! Mauricio: Uma festa? Ana Paula: Voce sabe o que é poesia? Mauricio: Que poesia? Ana Paula: Poesia é a fundação da palavra pelo homem. Mauricio: Ce tá maluca! Ana Paula: (em desespero) Vocês tão no mar! Vocês tão se afogando! Você ta percebendo que vocês tão se afogando? Você tá sentindo que vocês tão se afogando? Mauricio: Esquece. Nada de se afogar... eu tava boiando. Ana Paula: Quando eu era pequena eu cai de uma arvore, bati com a cabeça. Isso não vai dar certo, ce ta percebendo que não vai dar certo? Mauricio: Claro que vai, tá tudo nos planos. Nos nossos planos Ana Paula: Eu te amo tanto (tempo) você não acredita né? Que eu te amo. Mauricio: Esquece menina. Ce tá louca! Ana Paula: Paixão é assim, meu amor! Ela vem, ela só vem! Você não escolhe. É irracional, ce percebe? Ana Paula: Você ta sentindo o amor? Mauricio: Isso é tudo ilusão da sua mente. Ana Paula: Sono, sede frio. Sono, sede, frio. Fala pra plateia! Mauricio: Nada de sono, nada de amor. Ana Paula: Você já sentiu fome, sono, sede e frio? Mauricio: Eu não sei que que é isso. Não existe no mundo não. Ana Paula: E paixão? Mauricio: Nem sei o que é isso. Ana Paula: É a mesma coisa!! Apaga luz de Ana Paula e Maurício. Nayma desliga a TV. Entra contra-luz.
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Movimento 15 Continua “Nachtwache Blaubeermund” . Scarlet no procênio no canto esquerdo. Daniel do outro lado. Daniel caminha em direção a ela. Vai até bem perto da cadeira e estende a mão. Ela também. Ela se levanta e, ajudada por ele, caminha até o outro lado do procênio. Ele a suspende pela cintura e é como se dançasse com ela, balançando-a para lá e para cá enquanto gira no próprio eixo. Mantendo este movimento de balanço ele retorna para perto da cadeira. Quando chega bem perto a pega no colo e senta-se. Sobe luz de frente nos dois. A música sessa. Ela sentada em seu colo. Os dois conversam. Scarlet: Então, agora eu posso... te levar pra Italia, te dar o carro do ano... Daniel: Meu bem, meu bem.... Um dia, eu tinha ido trabalhar na serralheria... Eu tinha que caminhar durante uma hora... com aquele chinelinho. Era meio dia. Eu olhava assim, os carros passando, pra lá e pra cá. Eu podia dar um passo errado e fingir que foi sem querer... só pra não ir trabalhar... Scarlet: Posso de dar roupas de marca... um i-phone 11 Pro... um Macbook Air... Daniel: Eu também tive um avô... Eu lembro dele com setenta e dois anos, lenha nas costas. Ele é vivo, ainda, o meu avô. Eu lembro da lenha... Um velho carregando... Eu era um menino de dez anos, carregando as varetas que caiam. Ele ia indo, peidava o caminho inteiro. Eu ia atrás dele. Scarlet:... e uma Sony 4K 35 mm Compact... Daniel: Meu amor... eles pediram 500 mil reais. Scarlet: Eles? Daniel: Eu não gosto que você goste do meu jeito de gostar. Eu não gosto do jeito que você anda e do jeito que você fica me olhando. Não gosto que você se aproxime, mas também não gosto que você se afaste. Não gosto que fique calada, mas também não gosto que fale. Eu não gosto de você. Silêncio. Scarlet: Não tem problema. Silêncio. Daniel: Eles pediram 500 mil reais. Scarlet: Eles? Daniel: Eles. Tempo. Daniel: Os sequestradores da minha irmã. Blecaute.
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Movimento 16 Entra audio com voz sussurrada de Nayma. Daniel se reposiciona. Scarlet sai de cena. Nayma entra. Abre luz nela. Abre luz em Daniel, sentado em um caixote, no outro lado do procênio. Fuma um cigarro. Durante o audio, ele olha para ela, apaga o cigarro com o pé e se levanta com uma maleta na mão. Nayma caminha lentamente, até entrar no seu foco. Lentamente ele estende a mão para lhe entregar a maleta. Lentamente ela estende a mão para pegar. Nayma (voz off): Meu bem, meu bem.... Um dia, eu tinha ido trabalhar na serralheria... Eu tinha que caminhar durante uma hora... com aquele chinelinho. Era meio dia. Eu olhava assim, os carros passando, pra lá e pra cá. Eu podia dar um passo errado e fingir que foi sem querer... só pra não ir trabalhar... Eu também tive um avô... Eu lembro dele com setenta e dois anos, lenha nas costas. Ele é vivo, ainda, o meu avô. Eu lembro da lenha... Um velho carregando... Eu era um menino de dez anos, carregando as varetas que caiam. Ele ia indo, peidava o caminho inteiro. Eu ia atrás dele. Eu não gosto que você goste do meu jeito de gostar. Eu não gosto do jeito que você anda e do jeito que você fica me olhando. Não gosto que você se aproxime, mas também não gosto que você se afaste. Não gosto que fique calada, mas também não gosto que fale. Eu não gosto de você. Daniel: E minha irmã? Escuta-se choro de Aurora. Nayma: (No microfone) A oração é o mais doce consolo do desgraçado... Lentamente sobe a luz de Ana Paula, situada no outro lado do procenio. Vendada sozinha, semi-nua. Daniel permanece imóvel com a mala na mão, olhando em direção da plateia. É como se a visse. Enquanto fala, Nayma se desloca para o foco do centro. Cada um em uma luz. Nayma: (No microfone) ... porque ele fica mais forte depois de ter orado. Ela ergueu-se cheia de coragem, e como começava a escurecer, escondeu-se num pequeno bosque pra passar a noite... (...) A segurança em que julgava estar, o abatimento que sentia, a pequena alegria que estava desfrutando, tudo contribuiu para que passasse uma noite agradável e o sol já ia alto quando abriu os olhos. (...) O instante do despertar é o mais fatal; o repouso dos sentidos, a calma das idéias, o esquecimento imediato dos seus males. É quando tudo volta com mais força, tornando o fardo mais pesado. (...) Mas a paixão têm um grau no qual voz alguma pode cativar; e as pessoas a quem ela deveria servir não estavam em estado de compreender... Para que pudessem se alegrar, declararam, unanimemente, que quando o cadafalso estivesse pronto, ela deveria tornar-se sua presa. Yasmin: Aurora!!!
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Yasmin chega pelos fundos. Corre até a irmã. Daniel deixa a mala no chão, corre também. Os três se abraçam chorando. Nayma entra no foco de Daniel. Sai foco de Nayma. Úrsula altiva, o celular na mão. Só o rosto iluminado. Nayma: Doutora Geslaine? Pode marcar. Estamos prontos. Felipe chega. Vai até o foco central. Sobe luz. Aurora olha para ele, vai correndo, deita a cabeça no seu colo e chora. Ele se abaixa e a beija carinhosamente no rosto. Os dois irmãos se aproximam. Sai foco lateral. Joel se abaixa e abraça os dois. Janaína abraça os três. Ficam um tempo assim, os quatro abraçados. Blecaute. Entra audio de Ana Paula. Ana Paula: (Voz off) Agora me deito pra dormir / Peço ao Senhor para guardar a minha alma / Se eu morrer antes de acordar / Peço ao Senhor que leve a minha alma / Silêncio, benzinho, não diga uma palavra / E não se incomode com o barulho que ouviu / São apenas bestas embaixo da sua cama. Entra Enter Sandman (Metálica). Abre luz de plateia. Abre luz geral sobre o palco.
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Memorial da Criação de Pele Rejane Arruda
I. Relações como pilar da criação
São três cadeirantes no espetáculo Pele. Scarlet Lemes foi indicação do projeto Praia Legal, Fernando Tulher e Maurício Vieira vieram do time de rugby em cadeira de rodas do IREFES (Instituto Reabilitacional e Esportivo para Deficientes Físicos do Espírito Santo). Durante o tempo que levou até começarmos, enquanto eu procurava um local com acessibilidade para os ensaios, observava, no facebook de Fernando, as fotos com a namorada. Me veio a ideia de convidar não-cadeirantes, pensando na interação entre corpos (e cadeira-corpos). No primeiro encontro, percebi que a união entre andantes e cadeirantes era profícua. O grupo teve empatia e conquistou forte integração. Acabou sendo o elenco mais animado que já vi, com uma atividade intensa no whatsApp, saídas para beber e se divertir. Uma das figuras-chave nesta integração foi justamente Fernando, posição inusitada sobre o ser “aleijado”: é assim que ele gosta que se refiram a ele (e não “deficiente”). Com Fernando está Maurício e os outros atletas do time de rugby: não ser visto como coitado. “Aleijado tem mais é que se fuder!” Trata-los com “zoeira” é um sinal de aceitação. Foi nesta prática que fomos iniciados: eu, Ana Paula Castro, Nayma Amaral, Daniel Monjardim e Yasmin Toretta. Certo dia, comentavam algo sobre o caráter masculino (não lembro o quê), me flagro falando: “Homem né Fernando, não aleijado!”. Todos riram. O viés da “zoeira” virou lei e brincando durante três meses, no dia-a-dia determinado pela presença das cadeiras e de sujeitos que não caminham, nos encontramos. A tônica sensual impregnando bastidores, espetáculo e processo de criação. Piadas sobre sexo, revelações, tematizações e brincadeiras. “Sobe sim!” (“E como sobe, como é?”). O tema da paixão entrou. Debate a microfone aberto. Através da química que une um elenco (cada elenco é único e cada química é única), neste caso, tivemos disponibilidade para as relações pessoais e de bastidor, afeto, “diversao e arte”. Que mudou a vida, não só dos três cadeirantes, como dos quatro andantes do elenco e a minha. O olhar se altera, as questões se ampliam e vem a enorme gratidão por poder viver na diferença, amar a diferença, descobrir a magia da diferença. Quando o outro gera empatia e 73
uma amizade surge, o querer bem e um torcer; estar a vontade, poder perguntar qualquer coisa e falar sobre tudo. De maneira que um dos pilares da criação de “Pele” foi esta relação de bastidor, solta, fluida e prazerosa.
II. A tônica da temática
Nosso principal procedimento foi a improvisação com situação estruturada;“quem onde o quê” (Spolin, 2010). Não introduzi muitas regras como já experimentamos (até quatro ou cinco), mas um “quem, onde, o quê” estruturava situações onde a presença da cadeira funcionava como regra – determinando relações espaciais e de movimento. Assim, surgiram situações no primeiro dia: a tentativa de Maurício sair do banco, com uma funcionária mal educada e irritadiça (Yasmin) que não libera a porta, insistindo que a cadeira dever passar pela roleta. Fato real na vida dos atores. A violência permaneceu, enquadrada no cotidiano difícil que os atores descreviam. Em todo ensaio, o bate-papo se estendia para além do horário e neste momento todos traziam narrativas de um sufocante cotidiano, com personagens anônimas desgastadas, sucumbindo à frieza e ao olhar indisponível para as diferenças. Outra situação que encenamos foi Fernando roubando uma loja. Daniel distraia a gerente. Encenamos também um consultório; e a “versão mãe” de cada um. O meu esforço era fugir das situações melodramáticas que tematizassem casamento, briga de família, etc. Para mostrar que a novela não era a nossa referência. Joguei fotos do Teatro Pós-dramático, para ampliar o olhar, mas, a tônica na criação de personagens persistia. Sem abrir mão dos princípios do Teatro Contemporâneo, a lógica dramática torna-se um dos materiais de uma linguagem mais ampla: a cênica. Esta lógica (dramática, diegética) está assujeitada a outra (cênica, fragmentada, contingente) e deve se transformar conforme novas configurações. Assim, mesmo construindo personagem, o ator deve estar ao dispor para inversões, desvios, saltos ilógicos. E a figura cênica surje, não dentro da lógica dramática, mas dentro da lógica performativa cênica. O surpreendente é que os temas dos quais eu fugia, voltaram, reenquadrados na linguagem construída. Este retorno se deu a partir de uma improvisação com uma situação de “sequestro”. Este dia foi um dos marcos no processo de criação. 74
III. Experimentos Corporais e de Atuação
O aquecimento: monólogo interior pela escrita antes das improvisações; e Corpo entre a escrita do monólogo e a improvisação. Surgiram coisas interessantes. O monólogo foi conduzido de maneira a: três cartas (uma para quem se odeia, outra para quem pode ajudar a realizar um desejo, outra para quem se ama). Para o exercício de Corpo deveriam escolher uma das três cartas e fazer a “substituição” (Uta Hagen, 2019)
Fig 1 e 2. Experimento de relações em improvisação impulsionada pelas cartas
O repertório corporal se configurou como um acervo do grupo. Assim também como o estudo proposital e investigativo de relações entre corpo e cadeira que saiam do comum.
Fig. 3. Experimento de relações inusitadas entre corpo-cadeira-corpo
Fig. 4 e 5. Experimento de relações inusitadas entre corpo-cadeira-corpo
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A ideia de explorar o plano baixo para os andantes se estabeleceu a partir de um dos improvisos. Maurício na cadeira olhando para cima o tempo todo me incomodou e estabeleci a regra do plano baixo. Isto bastou para abrirmos perspectivas de experimentação.
Fig. 6 e 7. Dilatação emocional e disponibilidade para o toque
Fig. 8, 9, 10 e 11. Dilatação emocional e disponibilidade para o toque
A substitução (Hagen, 2019) e o afeto residual advindo da escrita suportam a dilatação emocional e o despojamento para o toque. Neste dia percebemos que precisávamos de privacidade e mudamos o local dos ensaios. Fomos para o Anfiteatro da Universidade Vila Velha e outros procedimentos foram introduzidos: a repetição de Meisner e a alternância dos “registros” de atuação para cinema como prática pré-expressiva. A repetição de Meisner implica em um trabalho em dupla: um faz uma observação sobre o outro, por exemplo “Sua camisa é vermelha”; o segundo pergunta “Minha camisa é vermelha?”. Em seguida, o primeiro repete “Sua caminha é vermelha”. A ação se transforma com cada repetição. Existe algo a pensar sobre este exercício, mas, o que nos interessou, no momento, foi utiliza-lo para a dilatação vocal. Introduzimos a regra “quando um aumenta o volume da voz o outro acompanha”.
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A prática dos registros da atuação para cinema foi experimentada como prática préexpressiva. Uma palma “naturalismo”, duas palmas “sujeira”, três “imobilidade”, quatro palmas “teatralidade”: os atores treinam as alternâncias e adquirem um repertório de ações físicas que pode aparecer posteriomente, intencionalmente ou involuntariamente. O treinamento corporal é fundamentado na passagem da abstração para a figuração, quando algo da plasticidade abstrata promovida pelas ações físicas primárias (puxar, empurrar, deslizar, etc) é enquadrada na relação com o outro. Como o ponto de partida não é a relação, parte da produção corporal fica fora do enquadre da relação com o outro. Este princípio orienta a prática com os viewpoints (Bogart, 2017): movimentos circulares, repetições, alternânicas de velocidade. Na Voz, idem: zigue-zague, duro, explosivo, estacato; qualidades aleatórias, sem qualquer enquadramento no viés relacional ou diegético. No caso das ações primárias e view points se trata de investigar uma linguagem. Qual o ganho em introduzir os registros? O registro implica uma linguagem, com matizes que podem ser hibridizadas: imobilidade, sujeira, naturalismo, performantivide, teatralidade e excesso. Não a linguagem do espetáculo, esta será descoberta, mas a linguagem da atuação. Se é necessário dilatar, o ator pode usar o registro da teatralidade e tipificação – e conquistar amplitude dos gestos e voz. Se está bem enquadrado na relação com o outro e a encenação permite, pode “baixar a bola” e usar as sutilezas do naturalismo. Se tem espaço de abstração, pode usar a performatividade e causar estranhamento. Se há espaço para exacerbar a emoção, pode usar o excesso. Se precisa trabalhar tensão, espectativa e enigma, pode usar a imobilidade. O ator treinado nestes registros se adapta facilmente às demandas da encenação em relação à poética atoral.
III. A tônica da encenação e a entrada de Basquiat
A lei para a introdução do material em cena não é a lógica imaginária, mas o desejo. A lógica imaginaria vem depois. A fragmentação permite a experimentação; o dispositivo torna-se a nossa estrutura, permitindo materiais heterogêneos, que participarão de um jogo de enquadramantos. Introduzir materiais que a princípio não têm relação com o contexto é uma boa estratégia. Materiais heterogêneos provocam novas outras camadas de ação, associações surgem. A obra se torna complexa, pois não se reduz à lógica de uma situação dada.
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Meu desejo como encenadora: trabalhar microfone, voz off, artes visuais, projeções – para um experimento com a teatralidade (Arruda, 2014). O “plano” se consolidou com a entrada de Basquiat como referência, primeiramente.
Fig. 12, 13, 14 e 15. Obra de Jean-Pierre Basquiat
Basquiat mudou de posição social através da Arte, obra fora de qualquer padrão; mistura de grotesco, grafia, colagem; mexe profudamente comigo. A resolução em jogo dramático foi: o cativeiro se transforma em ateliê (Ana Pàula Castro pinta para se acalmar e ajudar a passar o tempo).
Fig. 16 e 17. No cativeiro, Aurora pinta
Basquiat também contaminou a abordagem da arte gráfica.
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Fig. 18. Arte gráfica de Pele. Autoria de Alessandra Santos Pin.
Basquiat trouxe inspiração também para um dos diálogos: Soraia (Scarlet Lemes) se desespera e liga pra uma amiga; trecho introduzido em audio.
IV. As projeções Encenar é movimentar desejos. Estes tem a ver com a pulsão escópica e auditiva. As produções de imagens e sons acalentam, provocam, abraçam, mobilizam afetos, o pulso, a pele; o coração dispara. Quero provocar, uma espécie de surpresa, de “desacreditar” no que está-se vendo ou ouvindo, no milagre dos fragmentos que se encaixam. Se encaixam sendo diferentes, sendo de universos diferentes; ou se encaixam sendo de contextos de produção diferentes. Em Pele temos a areia da praia (sempre sonhei colocar areia da praia em cena) e um vídeo em um cacino, que acabam se juntando. Filmar muito perto, expor muito grande na tela, expor borrado, supersaturado. Tudo isso é sede, desejo de imagem, pulsão escópica. Então filmei Aurora na rua para continuar a cena que se dava no palco; Aurora acuada; Aurora enfrentando a camera. Para misturar com a imagem filmada e projetada no palco. Como se não bastante uma, são duas sobrepostas. Duas camadas. O projetor puxado para o rosa, a super-saturação é pura pulsão escópica. É prazer.
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Fig. 18. Projeção em Pele.
Fig. 19 e 20. Projeção em Pele.
Não tem muito o que falar de Pele a não ser que o prazer de encenar comanda. Os atores topam atuações bem desenhadas. Trabalhamos com os registros
V. Sonoridades.
Minhas peças sempre trazem um tratamento com o som marcante. Alice Uma Quase Ópera Punk-rock Contemporânea ganhou este nome devido a trilha marcada pelo rock e o punk. Novamente em Pele isto aparece. Sempre as canções (em Pele Nayma canta). A trilha compõe as transições de cena e cenário, que podem durar no escuro. Tambem audios com vozes em off. Em um deles Nayma sussurra um trecho do diálogo de Daniel com Scarlet. Isto se dá pela pulsão sonora. O sussurro é estimulante. O enquadramento diegético vem depois: Daniel pensando, lembrando. Mesma coisa com o dialogo gravado que Scarlet escuta (e transmite em silêncio a sua dor). Um outro audio (de Ana Paula) é a tradução para o Português da música que Nayma canta no começo: Enter Sandman, do Metálica.
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A ênfase da trilha de Pele é Marilyn Manson, Floyd Lee, Metálica, E Nomine. Mas quebramos com Jota Quest e Zbigniew Preisner, compositor das trilhas de Kieslovski, que descobri quando pesquisava para Quando Acordar a Cidade. O audio de Fernando falando do menino deficiente abandonado pela mãe compõe um dos momentos mais emblemáticos no espetáculo. A este audio, junta-se a imagem dele na cadeira de rodas, tocando a boca enorme de Ana Paula projetada. O menino morreu sem conseguir gritar, com um bicho entalado na garganta; a mãe sem saber de nada tava no bar. O imaginario da gente é estimulado com estes fragmentos, que vem de outros lugares, mas acabam se encaixando na sinopse da peça. É uma propriedade da linguagem que devemos potencializar: os encontros.
Fig. 21. Fernando toca a imagem projetada.
Referências bibliográficas ARRUDA, R. K. A teatralidade como um choque entre visualidades (e a questão da realidade em cena). Florianópolis, Revista Urdimento, v. 1, nº 22, 2014. BOGART, A. O Livro dos Viewpoints. São Paulo, Editora Perspectiva, 2017. HAGEN. U. Tecnica para o Ator: A Arte da Interpretação Ética. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2019.
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Testemunhos Ana Paula Castro, atriz e assistente de direção
Depois do processo com os cegos, eu entrei no processo com os cadeirantes, onde, atualmente, ainda estamos em processo. Outro universo! Pessoas em si são muito singulares, mas cada grupo tem uma característica específica. Por exemplo, os cegos são muito sensíveis e amorosos, já os cadeirantes são muito brincalhões e desprendidos. Eles me fizeram enxergar a inclusão com outros olhos, com o olhar realmente de IGUALDADE. Não com um olhar de pena, nem de vitimismo, mas com o olhar de “se nós somos diferentes por algum motivo, é porque todos os seres humanos são, e não porque eu estou numa cadeira de rodas e você não”. Diferente do processo com os cegos, no processo com os cadeirantes eu atuo na peça, e eu não sei por qual motivo, mas a relação de todos do elenco se consolidou de uma maneira muito concreta. Passou de uma relação de pessoas trabalhando juntas pra amigos que trabalham juntos. Está sendo um processo muito unificado, sinto como se fossemos amigos de longa data. Uma intimidade e empatia imediata. Eu me sinto tão preenchida por eles, e é tão leve e gostoso estar com eles, que parece sempre uma brincadeira. No inicio do processo, tinha toda uma timidez, de ambas as partes, seres se conhecendo, inseguranças, incertezas, medo de ultrapassar, medo de ser ultrapassado. Mas o tempo foi passando e isso foi sumindo com tanta leveza, os nós foram se soltando com tanta calma que quando nós piscamos, estávamos nos sentindo livres uns com os outros. Quanta riqueza de almas temos juntos. Eu sinto que estou vivendo o meu melhor momento até hoje, trabalhar com algo que nunca me deixa pra baixo é de uma satisfação sem tamanho! Ficar doze horas trabalhando em um teatro e voltar pra casa cansada, mas plenamente realizada, é o que me faz ter certeza de que isso é o meu combustível, e de que forma saudável que ele vem ate mim!
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A todos do Cena Diversa e que me afetaram/afetam diretamente: vocês não têm a menor ideia do quanto eu sou honestamente grata por vocês. O Universo que eu sou hoje teve e tem influencia de tudo o que vocês me passaram. Eu sou atravessada por vocês e vocês me fizeram renovar. Não há nada mais gostoso do que crescer pessoalmente e profissionalmente da maneira mais singela do mundo. E a Rejane: obrigada por tanto. Você é arte, é resistência, é paixão, é doação, é generosidade, é entrega, é procura, é saber, é aprender, e só me faz evoluir. Com todo amor que existe em mim.
Daniel Monjardim, ator
O meu primeiro contato com o projeto foi na estreia do espetáculo “Quando Acordar a Cidade”. Foi uma grande surpresa para mim. Como deficientes visuais poderiam se movimentar pelo palco, seguir as marcações e sustentar o espetáculo? Esses eram os meus pensamentos antes de assistir a peça. Quando eu vi a peça pela primeira vez, fiquei impactado. Os atores sustentaram a peça inteira, seguiram as marcações e tinham uma plasticidade vocal sem igual. Algum tempo depois Rejane solicitou atores para integrarem o elenco da nova peça do Cena Diversa, foi ai que eu entrei no projeto e me abri para novas experiências. A peça trabalhava com atores cadeirantes. Antes de entrar no projeto eu já tinha tido uma experiência com teatro e cadeirantes, no meu último estágio pela SOCA (Sociedade Cultura e Arte). Mas não tinha sido uma experiência muito boa, pois a maioria não estava interessada nas aulas de teatro e eu e os outros dois estagiários tínhamos que dividir o horário e o espaço com a professora de canto. Isso atrapalhava um pouco o rendimento. Mas a experiência serviu para me mostrar como o teatro é uma linguagem que abrange a tudo e a todos. Era o começo da minha desconstrução. Nos primeiros ensaios do espetáculo com cadeirantes fomos apresentados a dois atletas de rugby, Maurício e Fernando. No início do processo Rejane pediu para que eu, 83
Yasmin e Ana Paula, duas atrizes do curso de Artes Cênicas, trabalhássemos a relação corpocadeira. Nós tínhamos que formar desenhos com o nosso corpo e o corpo do cadeirante, para trabalhar a plasticidade corporal. Nessa etapa do processo eu estava meio receoso, por medo de alguma forma achar que poderia machucar, por ter essa visão de que o corpo deles é mais frágil e por receio do toque. Para mim essa relação do toque do outro é natural pois eu já venho do teatro faz um tempo e nessa área nós temos que estar abertos a proposição do outro. O toque faz parte disso. Mas como era a primeira experiência dos meninos com o teatro, eu não sabia se estavam se sentindo confortáveis. A minha primeira cena de improvisação foi com o Fernando. Era uma cena de um assalto a uma loja. Ele demonstrou uma ótima habilidade para o improviso e uma naturalidade muito presente na fala, foi ótimo fazer essa cena com ele. Uma coisa que me tranquilizou muito nesse início foi o jeito dos meninos, eles são muito bem-humorados e parceiros, e contavam piadas o tempo inteiro. Isso fez com que os ensaios tivessem um clima mais leve e que o processo fosse mais prazeroso. Algum tempo depois mais uma integrante adentrou o grupo, a Scarlet. Eu tinha ficado uns dias sem ir aos ensaios do Cena Diversa por conta dos ensaios de “Os Primeiros Soldados”, longa-metragem do Rodrigo de Oliveira. Eu sempre tenho mania de me envolver em mil e uma coisas ao mesmo tempo e por isso acabo me embananando todo. No final tudo sempre dá certo, graças a Deus, mas eu fico destruído físico e mentalmente. Enfim, tinha chegado essa menina nova. Junto com ela, Rejane viu a necessidade de trazer mais algum ator do curso de Artes Cênicas. Pensamos em vários nomes e, por fim, chegamos em Nayma. O elenco então ficou fechado em Ana Paula, Yasmin, Fernando, Nayma, Maurício, Scarlet e eu. Com o elenco fechado já começamos o processo de montagem do espetáculo. Posterior a chegada de Scarlet e Nayma, nós já havíamos trabalhado em algumas coisas que viriam adentrar a dramaturgia. No meio de um dos jogos de improvisação, chegamos ao tema central da peça: um sequestro. Tendo o tema central em mãos começamos a trabalhar em cima dele. Mais tarde construímos as personagens e começamos a improvisar em cima desses elementos que surgiram. A peça foi criando corpo e Rejane foi costurando aos poucos a trama. Nesse meio tempo fui convidado a adentrar a equipe de produção do Cena Diversa e comecei a ajudar nos outros espetáculos. A minha primeira experiência na produção do projeto foi na apresentação do “Slam Corpo Grita”, com surdos. Ajudei na produção e no final acabei me apresentando no palco com eles. Nesse dia percebi como o ator surdo tem 84
uma plasticidade corporal única, isso porque libras já é uma língua corporal e isso no palco de uma forma dilatada fica extremamente poético e muito bonito. Eu trabalhei em dois espetáculos com os atores surdos. Também tive o prazer de trabalhar em duas apresentações do espetáculo com os deficientes visuais. Lá pude entender como que o processo funcionava e me apaixonei por cada um dos atores e atrizes do elenco. Hoje escrevo esse texto com orgulho de tudo que aprendi nesses meses com o Cena Diversa. Eu posso dizer que não sou o mesmo Daniel de outrora, até mesmo porque acredito que sempre estamos em um processo. Não sou o mesmo ator, não sou a mesma pessoa; o ofício do ator vai muito além do simples entreter, ser ator é ser um agente transformador, dar espaço para histórias que por muitas vezes passariam batidas pelos olhos e ouvidos de uma sociedade que finge não ver e finge não ouvir. O teatro muda vidas. Eu tive a maravilhosa oportunidade de ver isso de perto e fazer parte disso. Hoje eu bato no peito ainda mais orgulhoso do que antes para dizer que este é meu ofício. O teatro acolhe, abraça e protege. Eu sei disso porque foi assim comigo também. Então, que sejamos resistência nesses tempos obscuros em que vivemos e vinte vivas a arte de ser, de sentir, e de viver, o teatro liberta. Me despeço agora agradecendo mais do que nunca a minha orientadora, mentora, professora, diretora e amiga, Rejane Arruda, por ter me proporcionado tamanha experiência e aprendizado. Você não faz ideia do quanto marcou a minha vida tanto profissional, quanto pessoal. Eu não tenho palavras para expressar o qual grato eu sou. Também agradeço a todos os atores de todos os espetáculos que eu passei com o projeto. Pessoas únicas e maravilhosas, vocês me ensinaram muito, pessoas que eu espero levar para a minha vida toda. Quero deixar aqui um agradecimento especial para o elenco de “Pele”. Esse é o nome do nosso espetáculo e eu quero deixar aqui registrado que fui eu que sugeri esse nome hehe, mas voltando ao foco (eu sempre acabo me dispersando), quero dizer que cada um de vocês é muito especial. Nossa conexão foi incrível, amo todos vocês, estou para dizer que foi um dos melhores elencos que já integrei, vocês são únicos, cada um de sua forma. No momento em que escrevo esse relato “Pele” ainda não estreou, mas algo me diz que será muito especial, potente e único. Merda para todos nós!
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Fernando Thuler, ator
Não fosse aquela mulher com o visual diferente, tão radical, hoje, eu saberia oque estaria fazendo, naquela maçante rotina, mas certamente não saberia as sensações diferentes que a vida, naquele convite tão diferente e sedutor, iria um dia me trazer! Mal sabia eu, que estava a cair no canto da sereia. É bem mais fácil a gente se fechar, do que se abrir. É preciso sempre estar aberto a novas possibilidades. Estava eu, ouvindo no repeat, desgastadamente, a minha canção favorita e ela, me apresentou novos gêneros! Nem imagino perder as sensações que me trouxeram: A moça do sorriso desconcertante que me fez seguro, confiante, confortável. A menina de cabelo curto e uma personalidade do tamanho do mundo. O cara amigo de todos e único com cada um. A menina brincalhona, que ri e faz graça com tudo, mas que sabe ser uma leõa quando séria. A menina que é tão inocente e ao mesmo tempo tão atirada, encantadora com seu jeito menina. E claro, me trazer pra mais próximo de um cara que sempre esteve ali, mas eu nem fazia ideia de ser tão foda. Não imaginaria eu, estar naquele momento de tensão, conhecendo alguém tão encantadora. Que, mesmo com um currículo tão extenso, cheia de glórias e motivos para nunca se achegar de um simples marinheiro, como eu, tendo a sua frente, um mar aberto de possibilidades. Não imaginei que fosse um ser tão simples. Estava eu, caindo no canto da sereia. Fosse como nos contos, o canto me levaria pro fundo do mar e me tiraria a vida. Mas essa sereia, essa sereia de dreads e lindos olhos verdes que transcendem essa alma cheia de luz, me encantou e me levou mais alto do que jamais fui e me fez mais vivo do que um dia, eu poderia estar.
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Maurício Vieira, ator
Logo no início de tudo, quando a Rê foi fazer o convite a nós lá nos treinos, para participar de fazer teatro, logo pensei: teatro, como assim!? Principalmente eu, um cara na minha, quieto, tímido, como eu ia me sair nisso? Então o convite foi feito e foi um pouco difícil de aceitar devido a vergonha e a timidez. Então a Rê deixou seu número de contato para que a gente criasse um grupo no whatsapp, sobre as propostas de apresentar o teatro pra gente. Só que os amigos do time de Rugby não levaram muito a sério esse negócio de teatro, apenas eu e o Fernando tivemos o interesse em participar. E pensamos! Pô vai ser massa e a gente ainda vai divulgar o nosso esporte vai ser fodaaaa. Mas mesmo assim, com um pouco de empolgação, fiquei meio cismado de não conseguir, porque sou pouco tímido. Então vieram as mensagens por whatsapp da Ré, querendo marcar um encontro onde ela apresentaria as propostas e como era fazer teatro. E muitas das vezes eu via as mensagens e não respondia, e pensava: e agora!? Fudeu kkkkkkk. Então eu e Fernando fomos lá, nesse encontro. Nos conhecemos, trocamos umas ideias, a gente se apresentou, foi um dia meio corrido pra Rê, mas depois tivemos outros encontros e foi onde resolvi participar. No primeiro encontro depois das mini reuniões, quando vi a caixa de som e os microfones que estavam lá na quadra, pensei: Caracas o negócio e sério mesmo. Foi muito legal a primeira parte dos ensaios, onde podemos conhecer pessoas maravilhosas e simpáticas, cada aprendizado e novas descobertas. Estou impressionado como as coisas estão acontecendo. Cada descoberta que a gente tem, que as vezes ficamos de bobeira pensando: Nossa eu consigo fazer isso e aquilo!! As brincadeiras, entre nós no elenco são muito mareiras, parece que agente já se conhecer há anos kkk. Cada um do elenco com o seu jeitinho de ser, nos faz aprender cada dia de ensaio coisas novas. E hoje agradeço a oportunidade de participar dessa tão grandioso espetáculo que nos espera nos palcos, tenho certeza que vai ser um massa, vamos pocá... Vamos ser chamado pra fazer uma série na Netflix kkkk. 87
Nayma Amaral, atriz
A experiência que o Cena Diversa me proporcionou é algo que transcende os palcos. Foi uma sucessão de momentos, um dominó de pessoas que fui conhecendo tão absurdamente incrivel que por alguns momentos eu achei ser mentira. Cada um dos atores que está no elenco me marcou de uma forma que vai muito alem dos palcos. Em poucas e "rudes" palavras, eu estou presenciando um espetáculo que honra a existência humana. É um show da vida, da diversidade e de como a singularidade de cada um agrega um brilho que se torna impossivel de não notar. Cada um tem a sua própria maneira de existir e de se mostrar ao mundo. É isso, justamente isso é o que torna a vida mais bela, e por momentos como esse que eu tenho a certeza absoluta de que é isso que eu amo. São em momentos assim que eu tenho certeza de que a vida é um espetáculo, um espetáculo que vale a pena participar.
Scarlet Lemes, atriz
Este projeto de Teatro com deficientes abriu novos leques de experiências para mim, porque eu vi e vejo e eu não preciso me esconder, fugir de medo do que as pessoas vão falar. Eu sempre quis ser atriz, mas nunca tive a oportunidade. Agora que eu tenho, então estou dando o meu melhor, estou conseguindo. E o elenco é maravilhoso. Nenhum deles fala “Não fou fazer”. Eles fazem comigo as cenas, cheios de amor e de carinho. Principalmente os atores que atuam comigo diretamente. Daniel, que quando descobriu que ia ser o meu par romântico na peça, buscou ter uma relação de amizade comigo bem profunda e forte para levarmos juntos para os nossos personagens.
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Yasmin Toretta, atriz
Com o "Pele" me vi frágil, me vi como um neném aprendendo coisas sobre a vida, me vi como uma mulher prestes a encarar a vida. A relação que criamos é de alma e carnal ao mesmo tempo. Vivemos nessa linha tênue e isso enriquece todo trabalho. Todos os dias eu entendo que estou onde deveria estar e que esse é o meu trabalho mais importante até agora. Me acalma saber que não estamos ali como nada, estamos ali como nós e que esse nós deu sentido a todo resto. Ana Paula, Fernando, Daniel, Nayma, Mauricio e Scarlet, muito obrigada por me afetarem positivamente. Obrigada por partilharem as vivências e tudo que são comigo. Obrigada pela Arte natural e profunda. Obrigada por serem e estarem. Vocês não são diferentes, vocês não são especiais. Vocês SÃO, essa é a diferença! Rejane, parabéns pelo lindo trabalho. Te admiro como artista e como mulher. Você vem transformando a minha vida e grande parte do que venho me tornando devo a você. Que sejamos resistência. Com amor.
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CAPÍTULO II: O CENA DIVERSA NA COMUNIDADE SURDA
2.1. NARRATIVAS DE VIDA EM LIBRAS
Memorial da Criação de No Fio da Vida Rejane Arruda
I. Até encontrar um caminho
A dificuldade que eu tive em trabalhar com os alunos da Escola Oral e Auditiva que frequentam o CAS Vitória foi em grande parte decorrente de não ter o domínio da Lingua Brasileira de Sinais: comunicação com limites estreitos, que depende de outro para mediar. Contei com a intérprete de Libras e estudiosa da cultura surda Iasmyn Santos, e com Denilson Moreira, intérprete que trabalha no CAS. A oficina durou dois meses no primeiro semestre (maio e junho) e um mês e meio no segundo semestre (agosto e metade de setembro). Havia a sensação de que nada se fixaria devido a instabilidade das presenças. Tínhamos doze participantes, quatro de fato assíduos. No ultimo dia de oficina chegaram vários participantes novos, vindos do horário da tarde, por estarmos na 11ª Semana do Surdo. A oposição entre o princípio da construção de uma poética corporal hibridizada, com o hábito da utilização de classificadores. Explico. A hipótese de pesquisa sobre a construção de poética corporal para a cena teatral é: a plasticidade corporal deve extrapolar a ilustração e tampouco se reduzir a representação de ações, persoangens ou qualquer referente discursivo. A poética é justamente o que não cabe na represnetação. Os operadores desta construção são: a abstração e os encontros ao acaso (produção a partir da aleatoreidade). De uma “massinha” de corpo (abstrata) se encontra a ação dramática em jogo – em jogo com a forma. E aí sim se constrói um discurso (que é evocado e a forma extrapola, apontando para um não dito). Ou seja, não se tem uma relação entre discurso e forma dada de antemão e o discurso aparece como efeito da cena (do encademento e montagem de formas corporais). “Nos classificadores, mãos e corpo são usados como articuladores para indicar o nome do referente ou o agente da ação” (BERNARDINO, 2012, p. 253). Contextualizando, a sensação que eu tinha era que, em um processo de construção da poética da cena, os classificadores se comportavam como imitações, formas corporais prédeterminadas. O ator por exemplo, coloca a lingua para fora e posiciona as mãos como se fossem patinhas, para classificar um cachorro (ao invés de sinalizar “cachorro”). Na cena teatral, estes classificadores constituem uma estética baseada em ações físicas descritivas de 92
um discurso. Ou seja, deparei-me com um choque entre princípios de construção corporal cirefentes. Os participantes da oficina estavam acostumados com classificadores. Não havia como, em pouco tempo e com a estrutura de trabalho que eu dispunha, alterar este princípios. Iniciamos com dramatizações através de improvisações com “quem, onde e o que” (Spolin, 2010). Era bastante complexo transmitir a ideia de regra de jogo aleatória – esta necessária para que algo produzido escapa à leitura das ações e a poética cênica advenha. Outro princípio de trabalho que era bastante difícil de transmitir: é preciso trabalhar com algo que está fora do contexto diegético. Como explicar isto a eles? Encontrei-me sem as regras de jogo para criar distorções de espaço e tempo ou formas aleatórias que provocasse fissuras no enquadramento e perspectivas de impasses sobre o sentido. As resultantes das improvisações me pareciam empobrecidas. Era preciso outro caminho.
II. A Saida com a narratividade em Libras
A contação de estória por surdos é absolutamente performativa. Saem sons, estalos, acentos corporais e vocais. Os surdos estão aptos a falar. Eles podem gritar. Eles fazem sons. Guardo a memória de cada jeitinho, cada forma de se comportar em cena quando contavam as estórias. Percebi, novamente (já havia percebido com os cegos), a aptidão e a fluência no ato de contar estórias. E, agora, havia certas especificidades. As estórias eram organizadas em quadros. Perdiam a linearidade, o que era muito interessante! Eles criavam saltos: estavam no ponto de ônibus e de repente na cozinha de casa. Nesta lingua tão enigmática para mim, encontrei o eixo do trabalho com os surdos do CAS. Eu via a poética dos corpos dos surdos envolvidos com um imaginário, com a memória de uma experiência, com a fala endereçada ao outro. Alguns participantes não eram bem versados em Libras, estavam ainda em processo de aprendizagem, o que trazia impasses para a leitura das estórias. Impasses que se revelavam interessantes, porque imprimiam vácuos de sentido, fissuras, puros locus performativos da linguagem corporal, espaços para as adivinhações, as não-compreensões, os enganos. Algumas estórias eram grandes e eles se envolviam de fato com o que falavam. E eu cada vez mais encantada com a performatividade dos corpos envolvidos. Um dos rapazes (não estou citando nomes porque não cheguei a ter familiaridade com seus nomes ou com seus sinais) tem a orelha rasgada; tinha certa dificuldade de colocar93
se como propositor. Iasmym falava algo com ele (em sinais), e ele repetia exatamente o que ela dizia. Talvez por estar acostumado a um processo de aprendizagem onde deve repetir a imagem corporal dos sinais. Foi difícil faze-lo compreender que deveria criar e contar uma estória. Um dos participantes interferiu: apontou para a sua orelha e pediu para que contasse o que aconteceu. Então ele contou a estória de uma mordida de cachorro. Este menino ri muito. Tem uma risada é deliciosa; é extremamente carinhoso e alegre. Isto traz uma especificidade para tudo o que produz em cena. Uma menina, tem uma espécie de paralisia em uma das mãos e isso faz com que ela produza os sinais de forma bastante especial. Com um acento ritmico fascinante e um estalo com a lingua para pontuar as frases, ela contou a estória da mãe que também é surda. Um dos rapazes, muito alto e desenvolto, contava estórias imensas, com uma riqueza de detalhes incrível. Poderia ficar em cena sozinho durante uma, duas horas, tranquilamente, contando suas estórias de vida, como se arrumava para os encontros e o que acontecia nas baladas. Ele revivia cada momento, ali, conosco, alternando sinais e sinalizadores. Seu corpo muito magro e comprido, imprimia em cada classificador uma expressão singular. E foi assim que comecei a perceber a singularidade também em um corpo descritivo, ou seja, na reprodução dos classificadores, misturado ao mar de performatividade da Libras. Iasmyn traduzia as estórias para o português oral e pedi para ela não interpretar. Ou seja, pelo que percebo (trata-se de uma percepção ingênua e não de um estudo ou análise bem fundamentados) o surdo, para contextualizar uma frase, vai por etapas. E o intérprete faz uma espécie de síntese da ideia quando traduz para o português. Ou seja, ele “alisa” (Sarrazac, 2002) a fragmentação da linguagem de sinais, colocando as proposições de ligação, etc. Eu pedi para Iasmyn traduzir as etapas sem a síntese, para que a fragmentação fosse impressa também na linguagem oral da tradução. A fragmentação é poética, é performativa. De modo que foi possível perceber a potência perfirmativa dos corpos, dos sinais, dos classificadores, da personalidade de cada um impressa em cena, sua subjetividade, sua relação com as estórias que contam quando eles se envolvem com uma narrativa que porta a a sua memória de vida, experiência e uma série de afetos. O work-in-progress No Fio da Vida foi apresentado no CAS Vitória na 11ª Semana do Surdo no dia 11 de setembro de 2019.
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III. Questões estruturais
Eu me apaixonei por cada um deles. Foi extremamente emocionante e frustrante ao mesmo tempo, por estar sempre dependendo de alguém para falar com eles. Alguns sinais eu aprendi, mas muito da comunicação era através de olhares, mímica e da própria vontade de estar junto. Sinto que poderia ter ido mais fundo se soubesse sua lingua. O fato de alguns alunos do CAS não dominarem a Libras, trouxe dificuldades para a própria Iasmyn. Muitas vezes os próprios participantes surdos não entendiam. Nos deparamos com a experiência viva da angústia da não comunicação que ronda a vida destas pessoas. Isto só atesta a profunda necessidade da implantação de Libras como disciplina escolar. Como o Inglês é ensinado na escola, a Libras também deveria estar no curriculo escolar. Percebemos, em conversas com professores do CAS e através de nossas observações, como é importante um trabalho formativo para os surdos desde o início da infância. Muitos chegam tarde no CAS. Não vi crianças pequenas no CAS. Fica a encargo da família, muitas vezes sem recursos; muitas vezes eles ficam sozinhos, isolados. A formação muitas vezes está sendo iniciada ali, no CAS. É preciso um papel ativo do estado e da sociedade civil para o amparo e uma boa formação destes meninos. Só assim conquistarão a autonomia de ação e pensamento. Alguns mais, outros menos, mas vimos garotos bastante apartados do mundo, o que só comprova a importância do trabalho do CAS e de políticas publicas para assistir as famílias. A experiência no CAS nos mostrou, também, que não devemos generalizar qualquer tipo de abordagem sobre o ensino da arte para surdos. Os surdos no CAS são diferentes dos surdos na UFES e acredito que diferentes dos surdos de outros lugares. As experiências com cegos, surdos e cadeirantes testemunham a contingência de cada processo e a singularidade de cada grupo com o qual trabalhamos.
Referências bibliiográficas BERNARDINO, E. A. O uso de classificadores na Lingua Brasileira de Sinais. ReVEL, v. 10, n. 19, 2012. SARRAZAC, J. P. O Futuro do Drama. Porto, Campo das Letras, Ed. 1ª, 2002.
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CAS Vitória e Cena Diversa: Experiências Culturais Surdas no Contexto Escolar Eliane Telles de Bruim Vieira
Ao se focar as Artes Surdas (De’VIA), reforça-se o valor dessas obras pela riqueza do conteúdo que expressam, pelo primor estético, pela importância dos símbolos que trazem à tona e pelas lutas que carregam, esquivando-se de visões caritativas e tutelares e entendendo a potência dessa arte em toda a sua complexidade, para muito além do âmbito terapêutico. E, como parece claro, a qualidade da obra (sob esse ou aquele parâmetro) é avaliada de acordo com o juízo crítico de quem se firma em referências estéticas, conceituais, metafóricas, políticas, etc., e não por sua simples natureza De’VIA, tampouco por sua definição “Surda”. (NAKAGAWA, 2012, p. 71 e 73).
Inicio este texto, citando Hugo Nakagawa (2012), em sua dissertação intitulada Culturas Surdas: o que se vê, o que se ouve?. Em seu trabalho, o autor aborda a riqueza e imensidão de possibilidades dos surdos expressarem suas experiências através de produções artísticas surdas, além de analisar a pouca visibilidade da arte surda perante uma sociedade majoritariamente ouvinte. É possível entender também que, a partir do movimento denominado De’VIA, surgido nos Estados Unidos em 1989, as representações artísticas surdas buscavam valorizar as experiências da comunidade surda sob uma perspectiva pautada numa diferença cultural e linguística. O discurso hegemônico que aponta o surdo como um sujeito com deficiência que precisa ser normalizado, corrigido dá lugar ao discurso que apresenta o surdo como um sujeito com língua e cultura diferenciada. Seguindo essa linha de pensamento, o que vale é mostrar que o sujeito surdo possui uma língua, uma forma de se expressar diferenciada de um sujeito não surdo. Neste texto, busco apresentar a parceria entre o Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez - CAS Vitória, localizado na capital do Espírito Santo, e o projeto de teatro Cena Diversa, desenvolvido com o objetivo de desenvolver a veia artística em nossos alunos surdos, no decorrer do ano letivo de 2019, numa proposta que vai além de qualquer barreira linguística imposta por norma audista, que impede muitos de conhecerem a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Antes porém de adentrar na parceria, em si, entre o CAS Vitória e o Cena Diversa, é válido mencionar que a equipe de profissionais que atuam nesta instituição de ensino sempre
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tiveram a preocupação de mostrar aos alunos surdos produções culturais, e assim, através da arte, esses alunos terem acesso a uma outra forma de entender o mundo. Em 2015, foi exibida a peça teatral Tribos, no teatro da UFES, cuja temática é voltada para a surdez. O enredo narra a história de um rapaz surdo em uma família de ouvintes e os problemas decorrentes da relação da diferença linguística. Quando a equipe do CAS soube que a peça seria acessível - com tradução simultânea para a Libras - entrou em contato com as famílias dos alunos e com a comunidade surda, fazendo a divulgação da peça. Foi um sucesso! Muitos surdos foram ao teatro, a maioria pela primeira vez, para assistir a peça. Segundo a professora Mão, “a acessibilidade em qualquer lugar é necessária, e isso é válido na cultura também. A oportunidade e acesso é para todos. É gratificante ver que outros setores estão tendo essa preocupação com o surdo, que antes era restrita apenas a área educacional”. Ainda, conforme a professora Performance, “a acessibilidade em peças teatrais possibilita ao sujeito surdo, ao cego, ao cadeirante, dentre outras pessoas com deficiência, a igualdade dos direitos e acesso ao mundo teatral, visões diferenciadas, experiências ainda não capazes de experimentar se não houvesse tal acessibilidade”. Após a exibição dessa primeira peça acessível para a Libras na capital capixaba, outras peças foram exibidas com a presença do intérprete de Libras, possibilitando a participação dos surdos nesses eventos culturais. Assim, nossos alunos, professores e comunidade surda têm tido a oportunidade de participar de várias peças teatrais exibidas no teatro da UFES, no Sesc Glória, no Palácio Cultural Sônia Cabral, além de participarmos da exposição de pintura denominada Cidades Abstratas (UFES). Agora voltando a abordagem da parceria entre o CAS Vitória e o Cena Diversa, é possível dizer que foi um movimento artístico e cultural que possibilitou aos nossos alunos surdos demonstrar, através da arte, a forma como eles entendem o mundo em que vivem. Apesar de algumas dificuldades que surgiram no decorrer do desenvolvimento do projeto, como a falta de apoio das famílias, que não enviavam seus filhos para os ensaios, o retorno dos nossos alunos foi gratificante, como podemos mostrar a partir da fala da aluna Expressão, “surdo tem capacidade de mostrar poesia e falar sobre a natureza e os animais”. Outra aluna, Movimentação, disse que “gostou muito de participar do projeto, que é muito importante para o surdo, apesar de sentir vergonha, preciso de mais treinos para me acostumar”. Após cinco meses de ensaios, a culminância do projeto foi linda e nossos alunos foram muito aplaudidos. A data escolhida para a apresentação de nossos alunos, em parceria com o Cena Diversa, foi na abertura da 11ª Semana do Surdo, evento organizado anualmente 97
pelos profissionais do CAS Vitória para comemorar o Dia do Surdo, que contou com a participação das famílias, comunidade surda, além de docentes e discentes surdos e ouvintes de outras instituições de ensino. Assim, é possível concluir que, independente do grau de instrução, o sujeito surdo consegue expressar suas experiências através da arte, para isso é necessário ter acesso a produções artísticas.
Referências bibliográficas NAKAGAWA, Hugo Eiji Ibanhes. Culturas surdas: o que se vê, o que se ouve. Dissertação de mestrado do curso de letras da faculdade de Lisboa. Lisboa, 2012.
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2.2. “SLAM CORPO GRITA”
Memorial da Criação de Slam Corpo Grita Rejane Arruda
O Slam Corpo Grita é um desdobramento que propomos a partir do Slam do Corpo do Corposinalizante, de São Paulo. Nós não seguimos as mesmas regras, mas também se trata da junção de um surdo e um ouvinite para a apresentação de poemas nas duas linguas: Libras e Português oral. Ou três, se formos contar com a expressão corporal como uma lingua diferente do sinal. Ação física, sinal e oral, juntos. É interessante perceber como Edinho Santos (slamer surdo que participa do Slam do Corpo) alterna e hibridiza o sinal com a ação física. No caso, há uma linguagem de um corpo disciplinado com os códigos da dança que orienta a produção das formas. Há um controle da musculatura, para que ele chegue ao plano baixo quando diz “Quando eu era pequeno” e caia no final do slam que conta a estória do surdo levando um tiro da polícia. São muito bonitos os slams, imprimindo algo de performativo nas relações entre corpo, sinal e oral (a linguagem oral é assumida no microfone pelo seu parceiro James Bantu). A referêcia do Slam do Corpo apresentada para a turma do 3º Período do Curso de Letras-Libras Bacharelado da UFES, deixou uma semente bem plantada nas mulheres surdas Tainá Arruda e Ester Domingos. Realizamos um encontro. Estavamos eu e Iasmyn, Ester, Tainá e os intérpretes Rhaylander de Souza e Filipe Viana. Formamos assim as três primeiras duplas do Slam Corpo Grita que seria lançado no dia 30 de setembro no evento Comunidades Surdas: Discurso, Pensamento e Arte do Cena Diversa. Juntaram-se a nós outros surdos e intérpretes em um segundo encontro e no dia do evento ministramos uma oficina através da qual um epaço de produção foi estabelecido e mais duplas criadas. O engajamento dos surdos no Slam Corpo Grita foi evidente. Esta modalidade se apresentou como um lugar de fala e construção poética a partir de suas próprias vivencias em sociedade, experiências atravessadas por afetos fortes. A poética de cada expressão aparece para além da linguagem: além da dilatação, um estilo próprio, a performatividade do que a gente não consegue comprender – e que tanto busco. A relação entre caos e ordem, a relação entre abstração e figuração, entre escrita e linguagem, entre estilo e comunicação, explosão e delicadeza.
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Slams Corpo Grita Iasmyn Santos e Rejane Arruda
Vazio que preenche sentimento. Eu sou o mundo. E tudo o que nele há... Eu sou o estranho no meio de tantos normais. Eu sou o grito pela liberdade. Eu sou a sociedade que oprime, ofusca e ataca. Eu sou o grito pela liberdade, sou o silêncio e as observações de quem fere. Eu sou aquele que respeita o direito do próximo e espera a sociedade crescer, pra perceber, que somos todos iguais. Sim. Somos todos iguais.
Fig.1: Iasmyn Santos e Rejane Arruda no Slam Corpo Grita
Ester Domingos e Felipe Viana
Que que ela ta falando? Olha! Ela é surda... Gente!... Ah, você é surda? Tadinha! Ela não fala... Você vai conseguir crescer... Será que ela vai conseguir fazer faculdade? Tadinha, não consegue falar. Olha, eu conheço um médico que pele ode te curar desse problema. Que vc acha? Não entendeu.....Não entendeu.... A opressão é tanta que as vezes dá vontade de tirar o coração do peito e com a faca que eu carrego na minha cintura, matá-ç0, mata-lo, mata-lo, mata-lo... Matar-me?! ... Você é surda, coitadinha! Você é surda, será que vc vai conseguir se formar? Você precisa ir em um médico, existe hoje tecnologias, que te implantam e te fazem ouvir.... Eu quero ter uma familia. Senhor, eu tenho uma familia eu vou trabalhar muito. Eu tenho essa vontade sim... Opressão, opressão! Coitadinha! Mas ela escuta. Ela não fala, ela não sabe se comunicar (Grito). 101
Fig.2: Ester Domingos no Slam Corpo Grita
Tainá Arruda e Rhayllander Herique Bill
Escola. Adentro minha sala de aula. Sento. Bla bla bla bla. Português. Blab bla bla. Português. Bla bla bla (grito) Bla bla bla bla Português. Libras? Libras? Oi? Surda? Surda, sim! Bla bla bla bla, Libras (Som de estar sugando algo) Libras Libras Libras.
Fig.3 e 4: Rhayllander Herique Bill e Tainá Arruda no Slam Corpo Grita
João Leno e Simone.
Bem, no passado, nasceu um bebê... Ohhhh um bebê... Um bebê tão pequenininho... da palma de uma mão.... vocês conseguem imaginar... palma de uma mão... Coitadinho do bebê... o médico olhava aquele bebê... Ah vai morrer... A mãe olhava aquele bebê.. Ah meu filho, meu filho... Da palma de uma mão... Como pode isso... O bebê cresceu, cresceu.. ficou 102
forte, com saúde, muito forte. Ele ouvia sim! Ele não falava! Ficava sozinho, sozinho... Oh!... As pessoas sim.. , não queriam ficar perto dele... Mas um dia veio uma menina, perto de mim, e me deu um chocolate... Que alegria. Agora estou feliz, alguém chegou perto de mim... E depois vieram mais mais amiguinhos e eu fiquei muito feliz. Uau que felicidade! Eu ouço, mas não falo. Eu falo com Libras. Este sou eu, muito obrigada.
Fig. 5: João Leno no Slam Corpo Grita
Pedro Witchs e Mara Correia.
Já desci. Por todo esse corpo. E não vi. Quem me botou aqui. Mas se conhecer de verdade, coragem. Que coragem? Hei de ter, quando tão bem notarem. Que não tem esse trem de. Homem? Pois, tu és. Natural que sejas. Mas, é algo, mais que a tua mão.
Fig. 6: Mara Correia e Pedro Witchs no Slam Corpo Grita
Dione e Cassio.
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Nasci bebê surdo. Minha mãe tentava analisar. Tentava, tentava, olhava, olhava, olhava e não entendia. Foi crescendo, crescendo, crescendo. Comecei a perceber e observar que podia falar com as mãos. O surdo sorri feliz.
Fig. 7: Cassio no Slam Corpo Grita
Raphaella Vasconselos e Claudia Vieira.
Um alguém só meu... escapa. Um alguém inteiro... me escapa. Meu par perfeito.... Ilusão. Sou filha da africa. Negra, surda, mulher, lésbica empoderada, feminista. Surdo e ouvinte, surdo e ouvinte. Igual, desigual, desigual, igual. Comunique-se. Lingua Brasileira de Sinais. Eu e você, você e eu... Um par perfeito.
Fig. 8: Claudia Vieira e Raphaella Vasconcelos no Slam Corpo Grita
Arlene Batista e Claudia Vieira.
Na relva do campo eis que surge uma flor. Mas, que bela flor!. E dela surgiram outras flores. Cheirosas, maravilhosas. Interagiam entre si, visualmente. Lingua Brasileira de 104
Sinais. Porém, nem todos gostaram daquelas flores. Arrancaram suas pétalas, destruiram seu cheiro, mataram sua alegria. E o tempo passou. Passou. As suas raízes resistiram, e fizeram brotar uma nova flor. Flores? Varias flores... preencheram o jardim. Novas cores, novos cheiros, novos amores. Porque viver é resistir.
Fig. 9: Arlene Batista no Slam Corpo Grita
Ana Maria Botelho, Rhaylander Herique Bill e Thalia Lino.
Quero acordar a cidade! Quero acordar a cidade que dorme nos homens. E depois, acende-las todas, com luzes e sombras, risos e ruídos, gritos e sussurros, cheiros e calores, ventos e dores, alegrias e paixões. E que tudo dure um minuto. Que seja uma centelha, um brilho, um toque, um aviso, uma lembrança.
Fig. 10: Ana Maria Botelho e Thalia Lino no Slam Corpo Grita
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Testemunhos2 Ana Maria Botelho, atriz e slamer.
Naquele dia, quando parece que você já viveu tudo na vida, um sonho realizado de está no palco em uma casa cheia com um elenco maravilhoso, uma equipe técnica top! Eu nem imaginava que pudesse viver mais uma experiência fantástica que me libertasse não somente das minhas limitações, mas dá convivência com outras pessoas com limitações diferentes das minhas, foi um encontro de uma mulher deficiente visual com uma deficiente auditivo. Eu vivi tudo isso no Teatro Universitário da UFES. Mas tudo isso só foi possível porque tive a grande sorte de encontrar uma pessoa senssivel, capaz e corajosa, dona de um coração enorme, que com muito amor se jogou nesse projeto do Cena Diversa, que além de nos incluir mostrou para sociedade que somos capazes e temos futuro. Foi ela, Rejane Arruda, que tem feito toda diferença em minha vida! Obrigada Re, pelo "Espetáculo Quero Acordar A Cidade," e a oportunidade ímpar de participar do Slam.
Tainá Arruda, atriz e slamer.
Meu nome é Tainá. Meu curso é Letraslibras Tradução Bacharelado na UFES. Eu estou no 3º Período. Então, sobre o Slam, eu fiz a primeira vez mas eu nunca havia participado antes. Agora primeira vez, comecei, senti bem, gostei. Na escola, no passado, eu sofria muito, aí eu fiz um resuminho do tema só. O tema: vida na escola. Também a minha história de vida, que foi difícil, a dificuldade com o português, textos, várias coisas difíceis dentro
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Os testemunhos de Tainá Arruda e Raphaella Vasconcelos foram realizados em vídeo com tradução simultânea para o Português por Arlene Batista.
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de uma escola. A crítica social. Então, eu aqui a crítica é muito grande. É difícil o surdo na sociedade. Também acessibilidade. Falta, falta muito. Precisamos ter acessibilidade, inclusão. Surdo, ouvinte. É difícil. Pra eu criar o Slam primeiro. Primeiro Slam. Pensei tema da escola. Depois no Slam, fiz em forma de poesia, adaptei o tema. Antes eu adaptei, o Rhayllander fez voz. Nós dois juntos praticamos. Nós íamos simultaneamente, na hora certa, tivemos a sincronia perfeita. Na hora foi simultâneo, foi perfeito. Eu pensei que não ia conseguir, mas eu fiz uma força, olhei para dentro de mim. A minha emoção, coloquei pra fora, a imaginaçao. Parecia que era um sofrimento real mesmo que eu tava vivendo naquela hora, tive coragem e botei pra fora. É visual, é diferente, fica claro pra mim, me emociona. A poesia-corpo, a gente sente se apropria. É visual, e eu coloco em libras antes, eu faço adaptações. Também é importante ouvinte no Slam, mas também o surdo. Libras, precisa. Nós somos iguais, precisamos desenvolver a empatia.
Raphaella Vasconcelos, atriz e slamer.
Meu nome é Raphaella. Meu curso é Letras-Libras Tradução e eu estou no 3º Período. O Slam é uma experiência do passado, do Cineclube Vendo Vozes. O Slam é um jeito que eu me apropriei... É uma experiência, é bom aprender. Da pra aprender... E agora... até hoje, é gostoso também. É bom porque ajuda a clarear. A interaçao do surdo é importante. A experiência. Eu gostei. Meu slam no passado eu combinei o que? Uma mulher surda. Nome: Ana Carla. Do Letras Libras, formou já. Nós duas combinamos. Nós duas. Fazer o que? Criar, escolher um tema... de luta. Criar algo. Nós duas juntas. De luta. E aí mudei este tema para outra coisa: uma mulher feminista, negra. Como mostrar sua atitude? Inventei junto com uma ouvinte, a Claudia. Mas aí mudou. Substituiu. Agora a Amanda entrou substituindo ela. Ela também é do meu grupo Letras-Libras. E aí, ta se apropriando intérprete de voz. É muito difícil. A sociedade parece que impede o surdo. Não gosta. É briga, briga. Difícil entender. Como falar, explicar, não concordo, concordo, essa interação junto. Mas, a crítica. Precisamos de atitude, falar a verdade. A crítica é importante. 107
Comecei já na experiência do Slam. Normal pra mim. Nós duas junto... E aí assim... não foi nada muito difícil. Algumas estratégias de como apresentar. Foram surgindo as ideias. E aí foi um processo que... normal, normal. E conseguimos. Fazer o Slam. Normal, normal. Sentimos e pronto. É leve. No passado, nós duas.... não tinha voz, porque era duas surdas fazendo o slam. Só o intérprete que fez, concordava com tudo rapidinho, fluente, foi perfeito. Agora mudou. Eu, uma mulher, a intérprete Claudia fez a voz. Foi perfeito também, porque foi simultâneo. Eu dei umas dicas pra ela: precisa ser junto; acompanhar, junto, junto. E aí ficou perfeito. Conseguiu. Ufa. Alivio. E aí fluiu. Foi muito bom. Foi forte porque, meu Slam... é forte. A voz é grossa... E aí.. não ficou desnivelada. Antes, a surda mulher minha amiga, era leve. A intérprete não. Agora é mais forte a voz dela. Eu, fiz também, de uma forma mais forte. E aí, ela conseguiu acompanhar. A emoção apareceu. Ficou claro o Slam. Eu senti normal porque eu já tava acostumada com o slam, experiência do passado. Mas é um pouco diferente, porque o meu tema era outro.... Poesia em Libras me emociona, sim. O slam foi uma experiência. Antes era difícil o processo, agora acostumada já. Gostei. É importante o Slam. Porque a maioria dos surdos parece que não conhece nada. Como? Precisa, sim, sabe, ser motivado. Mostrar que também se emociona, tem sentimentos. É importante ser motivado. Mostrar o sentimento. É legal, é sim, é diverdido. Coisas novas. Vários temas. Não é uma coisa só, são vários temas. Somos livres, somos livres pro tema. Nos dá liberdade porque. Tema que você tem vontade, que você tá preso, que você não quer falar, você pensa e coloca pra fora. Exemplo. Pode eu falar mulher feminista. Qualquer coisa. Homem. Eu sou forte, sou gay, sou negra. Qualquer coisa. Não tem um foco, é livre. Com seu jeito, sua vontade, sua estratégia.
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2.3. “DRAMATIZAÇÃO DE FÁBULAS PARA CRIANÇAS SURDAS E OUVINTES”
Memorial da Criação de Dramatização de Fábulas Para Crianças Surdas e Ouvintes Rejane Arruda
I. O princípio da dilatação.
Em um segundo momento do projeto eu fui trabalhar com a rofa. Arlene Batista no curso de Letras Libras da UFES, um espaço aberto para um experimento do Cena Diversa na disciplina Literatura em Libras, ministrada para os alunos do 3º Período. Estes alunos são na maior parte ouvintes em formação como Intérpretes, três surdas em um total de vinte e sete alunos. Quando comecei, eu e Iasmyn tinhamos investigado a potência do Slam do Corpo, modalidade performativa proposta pelos grupos paulistanos Corposinalizante e Bartolomeu de Depoimentos. Os surdos Edinho Santos e Leonardo Castilho surgiram como referência do que poderia ser os limites da dilatação corporal de surdos. A partir deste modelo de dilatação começamos um trabalho de exploração de formas em roda. Depois de alguns exercícios de aquecimento, um ator mostrava uma forma e todos faziam junto com o objetivo de ampliar repertório corporal. Chegávamos ao limite do tamanho da forma e, em seguida, reduzíamos, trabalhando com variações de tamanho e também com variação das ações físicas.
II. Um passo adiante na linguagem descritiva do corpo.
A proposta de Arlene Batista era constituir a dramatização de fábulas para crianças surdas retirando o sinal e utilizando apenas o corpo. Os intérpretes precisavam compreender como expressar-se corporalmente sem o sinal. Era uma demanda da disciplina e da formação oferecida. O trabalho verticalizou a proposta da representação pelo corpo, o que colocava em cheque o princípío da abstração que eu vinha pesquisando. Extrair poética da representação de uma vaca para a dramatização sem o sinal. Imitar o leão, representar, ilustrar, incorporar um leão. Como seria a experimentação cênica a partir deste princípio?
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Percebi a potência da expressividade dos corpos quando a singularidade entra em jogo. A poética corporal não é uma questão de treinamento. Tinhamos diferentes vacas, rãs, diferentes sapos e gatos. Cada um imprime um jeito próprio de ilustrar a ação física que representa aquele animal. Há algo que sobra da escrita corporal representativa também, e que se traduz como estilo (“jeitão”) e poética. Para que isto advenha, é necessário a dilatação, o envolvimento e o prazer.
Fig. 1, 2, 3, 4: Rã (Rhayllander Herique Bill), Leão (Felipe Viana), Macaco (Mara Correia) e Vaca (Luci Silva)
O princípio para construção destes corpos utilizado foi a fragmentação da forma do bicho e a extração de um detalhe3. Por exemplo, “a lambidinha nas mãos” do gato, a ciscada do galo, o fucinho se movimentando rapidamente do rato. Um segundo princípio foi a função do bicho na estória. A função da vaca na estória “A Rã e a Vaca” é ser grande. “Grande” se porta como um view point (Bogart, 2017) ou qualidade física (Barba & Savarese, 2012) e é 3
Contei com a orientação do Prof. Dr. Eduardo Tessari Coutinho, da Universidade de São Paulo, hoje coordenador do Centro de Pesquisa em Experimentação Cênica do Ator (CEPECA) para a extração destes princípios de trabalho.
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expressa de modo diferente em cada corpo. Assim, há uma poética da singularização de formas representativas, quando o sujeito está engajado no prazer de representar. O experimento cênico Dramatizações de Fábulas para Crianças Surdas e Ouvintes estreou no Teatro do SESI no dia 09 de outubro de 2019.
Referências bibliográficas BARBA, E & SAVARESE, N. A Arte Secreta do Ator: Um Dicionário de Antropologia Teatral. São Paulo. Ed. É Realizações, 2012 BOGART, A. O Livro dos Viewpoints. São Paulo, Editora Perspectiva, 2017.
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Performances Surdas: Algumas considerações sobre a Cena Diversa do Teatro Capixaba Pedro Henrique Witchs
Para que servem as mãos? — Monólogo das mãos, de Giuseppe Ghiaroni.
Começo este texto com o questionamento que registra o início do famoso Monólogo das mãos, de Ghiaroni, com intenção de demarcar o lugar das línguas de sinais quando pensamos na relação entre surdez e artes. Meu objetivo aqui é fazer alguns breves comentários sobre essa relação, tomando como foco o teatro e tendo, como base, o projeto Cena Diversa do Teatro Capixaba. Antes, contudo, vale pontuar algumas articulações dos surdos com as artes de modo geral no decorrer da história. A experiência da surdez se relaciona com as artes desde a Antiguidade. Nos últimos volumes da História Natural, dedicados à mineralogia e a sua aplicação nas artes, Gaius Plinius Secundus — mais conhecido como Plínio, o velho — menciona o trabalho de Quintus Pedius. Nascido surdo em uma família de políticos romanos, Pedius teve uma educação voltada às artes e se tornou um notável pintor. Embora circulasse, na Roma antiga, a concepção aristotélica de linguagem que compreende a fala (phoné) como a materialização do pensamento (lógos), a condição social da família de Pedius lhe proporcionou algumas oportunidades que não estavam ao alcance dos surdos naquele contexto histórico. O fascínio intelectual pela surdez nos primórdios da Europa moderna, contudo, possibilitou outras condições aos surdos. Veem-se os primeiros empreendimentos educacionais voltados a pessoas surdas e o nascimento da escolarização de surdos. Nesse período, de acordo com Sergio Lulkin (2000), tem-se início a tradição das mostras públicas, que consistiam na demonstração do conhecimento de alunos surdos para uma plateia de ouvintes, normalmente com comemorações, com produções artísticas. Considerando esse elemento destacado da história da educação de surdos, o autor explica: Os estudantes “artistas” reúnem-se nas igrejas, associações e escolas especiais, onde algum “dedicado” educador ouvinte investe tempo e conhecimento para que um resultado possa ser mostrado publicamente. Da mesma forma, em vários encontros científicos que abordam a educação de 113
surdos (congressos, simpósios, seminários), há um momento dedicado à exibição da produção cultural: dança, pantomina, coral sinalizado teatro, folclore, etc. (LULKIN, 2000, p. 28)
Tais práticas, carregadas de aspectos artísticos, se transformam com o passar do tempo, adquirindo outras características. Nesse sentido, Adriana Somacal (2014) explica que, a partir do século XX, o teatro praticado por surdos adquiriu novas perspectivas. Se considerarmos que a língua de sinais se torna objeto de estudo da Linguística moderna em 1960, e que a perspectiva cultural para pensar a surdez emerge na segunda metade daquele século, é possível compreender que as formas de ser surdo e as atividades realizadas pelos surdos passam por uma significativa transformação. Nesse sentido, Somacal (2014) destaca o primeiro grupo com atores profissionais surdos, fundado na França em 1976, o Internationl Visual Theatre, coordenado pela atriz, diretora e escritora Emmanuelle Laborit — primeira surda a vencer o prêmio Molière em 1993. A autora também menciona outros famosos grupos de teatro surdo no cenário internacional como os estadunidenses National Theatre of the Deaf e Deaf West Theatre; sueco Tyst Teater; o norueguês Teater Manu; o grego The Theater of the Deaf of Greece; o japonês The Japanese Theatre of the Deaf. No cenário nacional, Somacal (2014) destaca o projeto Palavras Visíveis, do Grupo Moitará, e o Teatro Brasileiro Surdo, ambos no Rio de Janeiro; e a Companhia de Teatro Surdo Mãos Livres, no Pará. Nesse contexto, vale considerar o Grupo Signatores, coordenado por Somacal desde sua fundação em Porto Alegre no ano de 2010. No mesmo ano, o Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação de Surdos (GIPES), inicia uma grande pesquisa que buscou mapear a produção, a circulação e o consumo da cultura surda brasileira. A coordenadora do Grupo, Lodenir Karnopp (2013), aponta as principais características dessas produções culturais surdas. Dentre elas: “o uso de uma língua de sinais, o pertencimento a uma comunidade surda e o contato com pessoas ouvintes, sendo que esse contato linguístico e cultural pode proporcionar uma experiência bilíngue a essa comunidade” (KARNOPP, 2013, p. 411). Aqui, é fundamental destacar o grupo Corposinalizante, que produz, desde 2008, pesquisas e ações poéticas na língua brasileira de sinais (Libras). Nascido das práticas educativas para surdos promovidas pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Corposinalizante é responsável pelo Slam do Corpo. De acordo com Cibele Lucena (2017), o Slam do Corpo se constitui como a primeira batalha de poesias performadas em Libras e português no Brasil. Conforme a autora, essa batalha, que participa do circuito nacional e internacional de saraus e Slams, “escapando de forças 114
normativas e categorizantes, ao possibilitar ajustes e desajustes, o que nem sempre é fácil, entre os corpos e seus saberes, entre diferentes modos de língua e linguagem, é o que tem permitido acontecer um Beijo de Línguas” (LUCENA, 2017, p. 19). Diante dessa conjuntura artístico-cultural que envolve pessoas surdas e ouvintes, mas principalmente, língua de sinais, reitero a importância do projeto Cena Diversa do Teatro Capixaba — desenvolvido pela Cia Poéticas da Cena Contemporânea, sob a direção de Rejane Arruda — para a produção, circulação e consumo de performances surdas no Espírito Santo. Refiro-me a performances sem uma preocupação conceitual estrita, sobretudo por não ser um estudioso das Artes Cênicas. No entanto, como pesquisador da história da experiência da surdez, é oportuno reverenciar possibilidades outras de constituição da pessoa surda na Contemporaneidade. Como matriz experiência, desde o século XVIII, a surdez tem produzido formas de ser surdo a partir de práticas institucionais normalizadoras (WITCHS; LOPES, 2015). Entendo que a oportunidade de participar do Cena Diversa configura uma dessas possibilidades outras e que oferecem condições para uma transgressão da surdez e das formas de se relacionar com ela. Explico isso a partir de duas ações proporcionadas pelo Cena Diversa que tive o privilégio de prestigiar. A primeira delas, foi a realização do Slam Corpo Grita, no Teatro Universitário da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória. Na ocasião, surdos e ouvintes se uniram para criar beijos de língua como os mencionados por Lucena (2017). As apresentações foram feitas por estudantes surdos e ouvintes dos cursos de Letras Libras - Bacharelado em Tradução e Interpretação e de Licenciatura em Pedagogia da UFES, da Licenciatura em Teatro da Universidade Vila Velha (UVV), participantes do projeto Cena Diversa, professores, bem como intérpretes de língua de sinais da UFES e pessoas da comunidade. Dentre a diversidade de performances daquela noite, vale destacar a apresentação produzida em conjunto entre uma deficiente visual, uma surda e um ouvinte. A outra ação que quero destacar foi a Dramatização de Fábulas para Crianças Surdas e Ouvintes, no Teatro do SESI - Jardim da Penha, em Vitória. Nesta, estudantes de Letras - Libras e Pedagogia da UFES, em uma parceria com o Cena Diversa, dramatizaram fábulas tendo a performance corporal como principal recurso da atuação. A atividade, em questão, teve inspiração na recente expressão da literatura surda chamada visual vernacular. Trata-se, conforme Danielle Ramos e Bruno Abrahão (2018, p. 63), de “uma forma estética performática e narrativa, produzida a partir das línguas de sinais, mas que, propositalmente, usa poucos sinais padronizados — e, por vezes, nenhum”. A visual vernacular, segundo os autores, pode ter a sua estrutura mesclada com elementos e estratégias de linguagens 115
cinematográficas, poesia, teatro, mímica e dança. Em especial, ressalto a importância que essa atividade teve para o desenvolvimento da corporeidade em estudantes de tradução e interpretação de língua de sinais. Minha intenção, com este breve texto, foi pontuar algumas, poucas talvez, considerações a respeito desse encontro possível entre surdez, língua de sinais e as artes performáticas no contexto específico do Espírito Santo. Entendo que esse encontro tem sido frutífero no sentido de oportunizar outras formas de se relacionar com a surdez, os surdos e a língua de sinais, em especial, através do teatro e da poesia. Além disso, ouso afirmar que o projeto, ainda que talvez esse não fosse seu principal objetivo, causou reverberações culturais significativas nas formas surdas e ouvintes de ser (ou não) capixaba.
Referências bibliográficas LULKIN, Sergio Andrés. O silêncio disciplinado: a invenção dos surdos a partir de representações ouvintes. 2000. 112 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2000. KARNOPP, Lodenir Becker. Produções culturais em língua brasileira de sinais (Libras). Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 48, n. 3, p. 407-413, jul./set. 2013. LUCENA, Cibele Toledo. Beijo de línguas - quando o poeta surdo e o poeta ouvinte se encontram. 2017. 154 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2017. RAMOS, Danielle Cristina Mendes Pereira; ABRAHÃO, Bruno. Literatura surda e contemporaneidade: contribuições para o estudo da visual vernacular. Pensares em Revista, São Gonçalo, n. 2, p. 56-75, 2018. SOMACAL, Adriana de Moura. Memória na ponta dos dedos: sistematização de práticas de teatro com surdos. 2014. 128 f. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas) – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2014. WITCHS, Pedro Henrique; LOPES, Maura Corcini. Surdez como matriz de experiência. Revista Espaço, Rio de Janeiro, n. 43, p. 31-47, 2015.
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CAPÍTULO III: INTERFACES
Modulações da subjetividade contemporânea Maria Carolina de Andrade Freitas
A subjetividade atualmente é tomada como algo da esfera privada, uma forma intimista de ‘natureza’ que estaria referida à interioridade como uma invariante, que não se articula às produções históricas (Machado, 1999). Devemos encarar, contudo, a problemática sob outro ponto de vista: o das produções ou dos modos de subjetivação que consistiriam em forças de transformação, ao devir, ao intempestivo como processo de dissolução de formas dadas. Pois é isto o que a história nos indica: o incessante engendramento de formas e verdades que são descontínuas e provisórias. A tecitura destes modos se estabelece a partir de um coletivo de elementos ou por materiais de expressão diversos: música, palavras, gestos, moedas, conhecimentos, técnicas, afetos, circuitos. “Vinham também esses começos de coisas indistintas: o que a gente esperou dos sonhos, os cheiros do capim e o berro dos bezerros sujos a escamas cruas...4” Assim, não há produção de subjetividade desvinculada dos textos concretos da existência em momentos datados. Somos atravessados por uma infinidade de complexos elementos ou forças/fluxos. O campo social ao qual pertencemos é modulado por uma heterogeneidade radical. Os modos de subjetivação denotam as diversas montagens territoriais possíveis de existência e expressão. Contudo, cabe ressaltar que numa época assujeitada ao capital, tal produção é marcada por sujeições econômicas, políticas e também subjetivas (Guattari, 2005).
Todos vivemos quase cotidianamente em crise, crise da economia, mas não só da economia material, senão também da economia do desejo que faz com que mal consigamos articular um certo jeito de viver e ele já caduca. (GUATTARI, 2005, p. 15)
Essa defasagem que se estabelece entre os modos de existência e nossas experiências, exige cada vez mais agilidade na montagem de territórios. Machado (1999) sugere que o que se assiste sob a forma de certa ‘ditadura da velocidade’ marca processos contínuos de aceleração que produzem e restringem todas as múltiplas coisas que somos às formas padronizadas e esgotadas em suas fontes conectivas. O cotidiano empobrecido torna-se opaco, as relações esvaziadas e cansativas, e os corpos exaustos e adoecidos. Machado (1999) aponta que o contemporâneo, sob o ideário da velocidade, fruto do processo que Guattari 4
Manoel de Barros em Aquela madrugada. In: Obras Completas (2010, p. 111).
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(2005) chamou de capitalismo mundial integrado (CMI), produz a intensificação das formas de controle da vida por meio do biopoder. Isto coloca em jogo, a exigência de territórios, mas também processos de desterritorializações brutais. Assim, passamos a banalizar as diferenças, adotando mesmo processos de indiferença e de não envolvimento com a vida e com outro. Exilando-nos das possibilidades de afetar e sermos afetados pelos encontros. Há muito, pensar os processos de subjetivação implica a dialética entre a subjetivação e a dessubjetivação mediante as possibilidades dos sujeitos em estabelecerem relações com os enquadres que experimentam. Assim, ao contrário do que entendemos corriqueiramente por “subjetividade”, esta não se refere a uma interioridade fechada, mas sim vincula-se a uma inflexão singular, de superfície porosa, que nos lembra a velha afirmação de Valéry a de que: “o mais profundo é a pele”. A pele é por excelência o órgão do contato. Aquilo que o poeta em verso declama permanecer “à flor da pele”, é aquilo que entrelaça dentro e fora em dimensões acontecimentais. Neste ponto entrecruzamos: subjetivações, poderes, tecnologias e entrelaces sociais/institucionais, enquadramentos. Recentemente Eliane Brun (2019) escreveu em El País, um belíssimo texto que intitulou: “A potência da primeira geração sem esperança”, na qual a autora nos lembra dos jovens ativistas que lideram a greve climática mais atual, cuja representante principal, a sueca Greta Thumberg, numa manifestação em Viena declara que os adultos têm se comportado como crianças e afirma: “nossa casa está em chamas. Eu não quero a sua esperança. Eu quero que vocês entrem em pânico”. Cansada de ter esperança, essa esperança vendida de forma marqueteiramente arquitetada pelo capital interesseiro, o que a jovem sueca revela, segundo analisa Brun (2019), é que precisamos “desinventar o futuro, urgentemente”. Precisamos “desinventar o futuro”. Esse futuro programado que mira, implementa e executa uma política econômica insustentável ecológica e socialmente, uma vez que privilegia a manutenção de uma produção desintegradora, desigual, absurdamente acelerada e vertiginosa, que vai deixando ao léu milhões de vidas a própria sorte. Para inventar algo melhor. Butler (2015) mostrou em “Quadros de guerra” que estamos a destinar às vidas precárias - ou aos corpos matáveis como chamou Achille Mbembe (2018) ou ainda a massa de supérfluos - a demanda de morte e adoecimento. Diante disso, a pergunta ética para nós hoje, que nos ajuda no enfrentamento as formas de endurecimento e desconexão com a vida, é não somente sobre o que ganhamos, 119
mas também e principalmente sobre o que perdemos e o que devemos aprender, com o crescimento tecnológico e social disparatado que assistimos. O que estamos a produzir de nós mesmos? A prerrogativa foucaltiana nos avisa que a liberdade é sempre condicional e não é prudente ir “dormir como pedra e esquecer o que foi feito de nós” (Milton Nascimento, 1978). É diante disso, conforme nos aponta Brun (2019), que é preciso desinventar o futuro. Precisamos sacudir toda a gente. Precisamos sair da proliferação dessas imagens sedutoras e desse engodo vazio e paralisante que afirma o desenvolvimento sem justiça, e o crescimento sem distribuição. Sair da proliferação dos sentidos que capturam as existências e trabalhar insistentemente para a produção de consistências. Como apontou-nos Cordiè (1996) “cada época produz suas patologias”. Pois essas não são meros efeitos de políticas estrategicamente executadas, mas sim suas obras. “Recusar-se a ser objeto de esperança é recusar-se a ser consumido pela engrenagem que já engoliu rebeldes muito mais velhos e experientes e mastigou as insurreições usando todos os dentes, apenas para cuspí-los na sequência” (Brun, 2019, p. 03). A aposta é a de considerar necessário efetuar movimentos que escapem à captura capitalística da subjetividade, reinventando cotidianamente modos de existências singulares, capazes de assumirem-se provisórios e intensos. Criar e afirmar a indissociabilidade entre a ética, a estética e a política. Ética para assumir aquilo que nos desassossega. As diferenças. Aquilo que nos implica de maneira irredutível na trama da existência. Estética como criação de pensamento que encarne estas diferenças, e, política como dimensão de luta contra as forças que nos obstruem as nascentes do devir e insurgem em partículas revolucionárias contra todas as formas de opressão e violência (Rolnik, 1993). Encarar o finito e despedir-se do absoluto. Despedir-se dos critérios de verdade estabelecidos a priori, por modelos morais prontos e rijos, avaliando o quanto cada forma (saber) favorece ou desfavorece a vida. Para aceder a este convite é necessário abrir mão do tribunal da razão, desse juiz universal, a fim de verificarmo-nos órfãos, lançados numa luta permanente de forças, nos sugere Rolnik (1993). Criar condições para a escuta das diferenças: “São mil coisas impressentidas que me escutam”5. Esta prerrogativa clínica afirma a vida como princípio inventivo e resiste contra qualquer tipo de dominação ou controle, abrindo mão dos modelos e legados prontos. Enfrentar o que cada aglutinação de diferenças coloca, por meio da sustentação do novo, do
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Manoel de Barros em Fragmentos de Canções e Poemas. In: Obras Completas (2010, p. 49).
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relançamento da processualidade da vida, irrompendo na invenção de outros modos e mundos, numa guerrilha sensível insistente. A potência estética do sentir, como afirma Guattari (1992), ocupa uma posição privilegiada no seio dos agenciamentos coletivos de enunciação de nossa época. Apontar a estética não como arte institucionalizada, mas como uma dimensão de criação em estado nascente. “Deixei uma ave me amanhecer6”, diria o poeta. Num mundo de relações precárias, no qual os laços do encontro são esvaziados de consistência e ao mesmo tempo, carregam as vicissitudes das tensões e emergências do capital e suas sujeições, dispositivos microfísicos podem fazer face à mortificação da vida, ao restituírem agenciamentos semióticos que produzam – como a arte – qualidades de ser inéditas. Desta feita, o acontecimento pode eclodir, não mais – como talvez se defendeu – na ‘interioridade do ser’ ou em ‘suas profundezas’, mas sim na superfície. Dos afetos, do campo intensivo e de uma experimentação prudente, é que a superfície se constitui suporte e pode agenciar acontecimento. Deleuze (1974) procurando estabelecer uma teoria do sentido a partir da elucidação do pensamento estóico e retomando as contribuições de Lewis Carroll, demonstra que a linguagem delimita limites, mas também os ultrapassa, restituindo-os à equivalência infinita de um devir ilimitado. Em contraponto às formulações platônicas de que o sentido achar-se-ia debaixo das coisas, oculta nos corpos sensíveis e materiais, os estóicos mostraram que não há causas e efeitos entre os corpos. Uma vez que todos os corpos são causas uns para os outros e os efeitos não são estados de coisas, mas acontecimentos. Para os estóicos, os estados de coisas não são menos seres (ou corpos) que a substância, no sentido aristotélico. Dessa forma, o que há nos corpos e em seus encontros são misturas. O devir traz paradoxalmente à superfície realidades distintas, quanto aos acontecimentos incorporais, que resultam de misturas, conduzindo a filosofia à uma subversão. Sendo assim, o paradoxo aparece como destituição da profundidade e exibe o acontecimento na superfície como desdobramento da linguagem. “Eis que agora tudo sobe à superfície” (1974, p. 8). Deleuze (1974) considera que a operação estóica faz o ilimitado subir: “O devir-louco, o devir-ilimitado não é mais um fundo que murmura, mas sobe à superfície das coisas e se torna impassível. Não se trata mais de simulacros que escapam do fundo e se insinuam por toda parte, mas de efeitos que se manifestam e desempenham seu papel (...) Os estóicos descobriram os efeitos da superfície”. (DELEUZE, 1974, p. 8-9)
6
Manoel de Barros em Caderno de Apontamentos. In: Obras completas (2010, p. 275)
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O acontecimento é coextensivo ao devir e o devir à linguagem. Como bons amantes dos paradoxos e invenções, os estóicos fornecem outro modo de pensar a linguagem: tudo se passa na fronteira entre as coisas e as proposições. Por isso, Alice, de Lewis Carroll denotaria exemplo gracioso quanto às experimentações linguísticas possíveis à literatura, à arte, à vida. “Por um lado o mais profundo é o imediato; por outro o imediato está na linguagem”. (DELEUZE, 1974, p. 9).
Toda a obra de Carroll trata dos acontecimentos na sua diferença em relação aos seres, às coisas e estado de coisas. Mas no começo de Alice (toda a primeira metade) procura ainda o segredo dos acontecimentos e do devir ilimitado que eles implicam, na profundidade da terra, poços e tocas que se cavam, que se afundam, mistura de corpos que se penetram e coexistem. À medida que avançamos na narrativa, contudo, os movimentos de mergulho e de soterramento dão lugar a movimentos laterais de deslizamento, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Os animais das profundezas tornam-se secundários, dão lugar a figuras de cartas de baralho, sem espessura. Dir-se-ia que a antiga profundidade se desdobrou na superfície, converteu-se em largura. (...) Os acontecimentos são como os cristais, não se transformam e não crescem a não ser pelas bordas, nas bordas. (DELEUZE, 1974, p. 10)
Apostar nas rupturas de sentido que promovam a fluidez e a liberdade de invenção. Apostar que o dispositivo clínico deve destituir o absoluto e reconhecer, não somente que, a subjetividade é descentrada, como apostar em nossa tragicidade agonística, escapando às falsas garantias de verdade e produzindo singularizações responsáveis. Tal descoberta implica uma ética singular: como Alice de Carroll, só se cresce ou se diminui pelas bordas. Os acontecimentos concernem tanto mais aos corpos quando percorridos em suas extensões, sem profundidade. Deleuze (1974) sinaliza-nos que os adultos foram aspirados pelo fundo. Recaem e não compreendem mais, por que são muito profundos. Por fim, indica que é sempre contornando a superfície, a fronteira, que passamos ao avesso e ao Acontecimento, elevando-nos ao nível da linguagem todo o devir e seus paradoxos. “Onde nasci, morri. Onde morri, existo. E das peles que visto, muitas há que não vi”7.
Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo que pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços–tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos. É ao nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de resistência ou, ao contrário, a submissão a um controle. (DELEUZE, 1992, p. 218)
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Carlos Drummond de Andrade em Sonetilho do Falso Fernando Pessoa. In: Nova Reunião (2009, p. 308)
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Concorrer para a invenção de modos minoritários de subjetivação, ou ainda, de mundos e sujeitos, como apontaram Fonseca e Kirst (2004). “Por toda parte sentir os segredos das coisas vivas. Entrar por caminhos ignorados, sair por caminhos ignorados (...)8” Mapear intensidades e afetos, ampliar a superfície do contato com o fora. Potencializar a transformação do cotidiano e dos processos de feitura de si, fazendo resistência à vontade de verdade imobilizadora das processualidades e devires. Produzir diferenciação que propague espaços de ruptura com as padronizações serializadas e criar pontes que proliferem consistências inusitadas (Fonseca e Kirst, 2004). Afinal, nos indica o poeta do pantanal: “Quem não tem ferramentas de pensar, inventa9”. Desinventar o futuro é romper com a produção da subjetividade serializada, entorpecida pelo fluxo material do consumo e do vício, a partir da invenção de modos de sensibilidade. Como propõe Guattari (2005) instaurar dispositivos de singularização que coincidam com o desejo. Agenciar, portanto, outros modos de produção semiótica. Atravessar corpos, passar ao acontecimento, poder abrir vistas ao enfrentamento de nossa finitude/ limite e resguardar, sem medo, a vida como potência de transgressão. Daí que nossos sofrimentos poderão de mortíferos, verdejarem outros modos. Dessa forma, quem sabe, sem ceder da palavra e dos encontros que a vida pode propiciar, fazer resistência à sujeição mortificadora. “Com as palavras se podem multiplicar os silêncios.10” Tecer uma revolução desejante: considerar como Mancebo (2002) que o contemporâneo precisa ser produzido. O futuro serializado: desinventado e o mundo da catástrofe: destituído! Mãos à obra. Referências Bibliográficas: ANDRADE, C. D. Nova Reunião: 23 livros de poesia. Vol1. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2009. BARROS, M. D. Manoel de Barros: Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010. BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? Tradução de Sérgio Tadeu de Niemeyer Lamarão e Arnaldo Marques da Cunha; revisão de tradução de Marina Vargas; revisão técnica de Carla Rodrigues. 1ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. BRUN, Eliane. “A potência da primeira geração sem esperança”. El País, 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/05/politica/1559743351_956676.html, recuperado em 05/11/2019. CORDIÉ, Anny. Os atrasados não existem. Psicanálise de crianças com fracasso escolar. Trad. Sônia Flach e Marta D`Agord. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. Manoel de Barros em Olhos Parados. In: Obras completas (2010, p. 58 – 63) Manoel de Barros em O fazedor de amanhecer. In: Obras completas (2010, p. 473) 10 Manoel de Barros em Bernardo. In: Obras Completas (2010, p. 477) 8 9
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DELEUZE, G. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 1974. DELEUZE, G. A dobra: Leibniz e o barroco. Campinas, SP: Papirus, 1991. DELEUZE, G. Conversações. São Paulo: Ed.34,1992. FONSECA, T. M. G.; KIRST, P. G. O desejo de mundo: um olhar sobre a clínica. IN: Psicologia e Sociedade; 16 (3): 29-34, set/dez, 2004. GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Ed. 34, 1992. GUATARRI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis, RJ: Campinas, 2005. MACHADO, L. D. Subjetividades Contemporâneas. IN: BARROS, M. E. B. (org). Psicologia: questões contemporâneas. Vitória: EDUFES, 1999. MANCEBO, D. Consumo e subjetividade: trajetórias teóricas. IN: Estudos de Psicologia, 7 (2), 2002. MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 edições, 2018. PELBART, P.P. Vida capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2009. RAUTER, C. Invasão do cotidiano: algumas direções para pensar uma clínica das subjetividades contemporâneas. IN: KUPERMANN, D.; TEDESCO, S. Polifonias: clínica, política e criação. Rio de Janeiro: Contra-capa, 2005. ROLNIK, S. O mal-estar na diferença. IN: Anuário Brasileiro de Psicanálise. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995. ROLNIK, Suely. Despedir-se do absoluto. Cadernos de Subjetividade. Núcleo de estudos e pesquisa da Subjetividade. Programa de Pós-graduação em psicologia Clínica. PUC- SP, 1993.
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Rejane Arruda-Hibridismo e Experimentação Aberta Emanuel Tadeu Borges
O texto que segue encontrou sua inspiração em dois vídeos que correspondem às duas partes da entrevista ao programa PRESENÇA 11 , realizada com a professora universitária, atriz, diretora e pesquisadora de teatro e cinema, Rejane Arruda, do Curso de Artes Cênicas da UVV, Universidade de Vila Velha. Ou como ela mesma diz pesquisatriz. O intuito é apenas apontar certas possibilidades de alianças, no âmbito da reflexão filosófica, voltada para uma conexão com as práticas, as experimentações e as invenções no campo das artes. Em primeiro lugar a idéia de hibridismo, apresentada por Rejane, (ao mesmo tempo um viés prático, uma intenção exploratória) como uma tendência e gosto pela mescla de influencias e procedimentos diversificados (e até mesmo, se me atrevo a acrescentar algo que não foi falado, posições contraditórias ou de difícil “encaixe” inicial), numa tentativa (assim me pareceu...) de produzir uma alquimia e a partir dessa nova receita, um modo próprio de obter resultados. Isso vai de encontro a uma aptidão minha. Explico: sou analista junguiano, porém lanço mão da genialidade do trabalho de Freud (em especial de psicanalistas de viés revolucionário como Ferenczi, André Green, Guattari e o nosso Chaim Katz, entre outros) e filósofos como Deleuze, Espinosa, Bergson, entre outros; assim como em outros campos de saber. Enfim, uma busca de conexões com os autores e ideias as mais diferenciais no sentido de fortalecer a sensibilidade e a compreensão do universo humano, do modo como aparece através de cada indivíduo, e também do universo coletivo no qual estamos mergulhados (cultural, político, antropológico, sociológico, religioso etc). Um segundo ponto que me chamou a atenção, foi a concepção de talento revelada por Rejane, que não se confunde com a definição corriqueira que relaciona o talento a “algo inato”, ou a uma vocação pura e simplesmente. Talento foi definido como a “abertura para experiências”, e mais precisamente em relação a seu trabalho, experiências possíveis no
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O programa Presença, da Rede TV ES, a qual o autor se refere está disponível, em dois blocos, nos links: https://www.youtube.com/watch?v=5Roc0FOSqsM&t=8s e https://www.youtube.com/watch?v=o9TdJWJvXA0&t=1s. Ultimo acesso: 10 de novembro de 2019.
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campo da atuação (e em outros segmentos do “fazer” dramatúrgico: direção, vestuário, cenário etc). Ou, melhor ainda, possibilidades a serem descobertas a partir do corpo de cada indivíduo ator. Pareceu-me o seguinte: uma abertura a partir de um texto ou tema dado, criado ou improvisado. Abertura essa para o próprio tema ou texto e para o indivíduo através do texto ou tema. Para o corpo do texto e para o corpo físico, emocional e mental dos atores. Subvertendo-se com isso, a ideia convencional tanto de autoria, quanto de interpretação. Um terceiro ponto. Remeto a outro vídeo sobre o trabalho de Rejane Arruda com criação teatral e inclusão: teatro com cegos e teatro com surdos. Um verdadeiro trabalho de “abertura para/de experiências”. No qual, evidentemente, ela mergulha fundo, na prática teatral, acionando sua concepção do que seja talento. Aliás, essa é uma abertura e desafio da própria “normalidade” tanto para esses dois grupos de “deficientes” (visto que cegos e surdos estão envolvidos numa normalidade, isto é, num modo de se apropriar da realidade que lhes são característicos), como para os seus colegas “videntes” e “ouvintes” que trabalham nesses projetos. O que temos aqui, segundo penso, em termos de uma possível orientação e ampliação teórico-prática? (e aqui aponto uma sugestão teórica): a obra de Espinosa (16321677), a de um espinosista que é o Deleuze (1925-1995); e de outro espinozista, que é o etólogo Jakob von Uexküll (1864-1944).
Porque Espinosa?
Porque para ele não se considera um fenômeno qualquer, e aí se inclui um indivíduo ou grupo de indivíduos (sujeitos ou coletividades), a partir de um parâmetro ou conceito geral. E sim a partir da singularidade individual (a particularidade de cada ser!), o que ele denomina essência singular. Portanto, no caso do trabalho acima citado, não se vê o surdo ou o cego como carentes de uma aptidão ou atributo do “ser sadio” ou “saudável”, mas a partir de sua “potência singular”. A questão fundamental de Espinosa é, portanto, “O que pode um corpo?” Ou, já a partir da proposta acima: “Que teatro pode fazer um surdo?”; “Que teatro pode fazer um cego?” Qual a potencia singular e intransferível (a ser desvelada! A ser expressa!) do teatro dos surdos e dos cegos? Mais ainda: desses surdos e cegos com os quais se trabalha. Portanto, potência, para Espinosa, é algo potencial, latente, a ser revelado na “abertura para experiências”, mas já presente potencialmente no âmago de cada indivíduo e grupo, como que “adormecido”, e que, ainda uma vez, tem que ser “parido” no trabalho (no caso) teatral (claro, em outra atividade qualquer, mas que se dê como abertura experimental). Mas 126
potência é, em segundo lugar, poder, expansão do ser individual (de cada um dos artífices teatrais: atores, encenadores, cenógrafos etc) e ao mesmo tempo, do ser coletivo (grupo teatral); poder no sentido de realizar-se, exprimir sua potência latente, expandir-se, participar, transformar.
Porque Deleuze?
Porque ele tem em sua obra como filósofo, também ele, um movimento muito próximo do que Rejane Arruda denominou “hibridismo”. Em seu trabalho de pensamento como filósofo, Deleuze envolveu-se também com as artes: pintura, literatura (um livro sobre Kafka, outro sobre Proust) e... cinema e teatro. Dois livros sobre cinema e dois sobre teatro. Cinema: “Cinema 1. Imagem-Movimento” e “Cinema 2. Imagem-Tempo”. Um livro em que trata da obra literária, teatral e televisiva de Samuel Beckett (que também roteirizou um filme protagonizado por Buster Keaton). Outro livro, ainda, em que trata do trabalho teatral e (menos vezes) em cinema do italiano Carmelo Bene. Ambos foram reunidos na tradução brasileira, num só volume: “Sobre o Teatro”. Dois problemas em relação à compreensão da obra de Deleuze. O pessoal “deleuzeano” é o pessoal da PUC de SP (“rival” da USP, dominada pela psicanálise). A questão é justamente esse “parti pris” (exclusividade) que se manifesta e se impõe nas linhas de pesquisa, excluindo ora um, ora outro pensador/pensadores da linha supostamente “concorrente” (não se vê com bons olhos o “hibridismo” na Academia, no Brasil, tanto quanto no mundo, infelizmente). O outro problema é a extrema dificuldade, decorrente da grande originalidade, do pensamento de Deleuze (Foucault disse uma vez, sendo irônico, elogioso e realista, que “Um dia, quem sabe, o século será deleuzeano...”) Pois bem, dos intérpretes do pensamento de Deleuze mundo afora (mesmo incluindo os franceses, seus alunos), nenhum, em minha opinião, se compara ao brasileiro Cláudio Ulpiano (1933-1999), a quem tive o privilégio de conhecer e de ter sido aluno. Há algumas aulas dele no youtube, em especial recomendo o vídeo Claudio Ulpiano, Uma Personagem Original (anos 90)12. apenas como uma demonstração da genialidade do querido e saudoso mestre (e pelas razões abaixo relacionadas). Trata-se de uma aula avulsa (de um curso justamente sobre o cinema na concepção de Deleuze) em que ele fala da ideia de “personagem original” elaborada por Herman O vídeo “Claudio Ulpiano, Uma Personagem Original (anos 90)” está disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=mVkqYSgtF2A&t=1946s. Ultimo acesso em 10 de novembro de 2019. 12
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Melville e de outros temas, de um modo “híbrido”, para usar a definição rejaneana, isto é, encaixando autores e conceitos variados no sentido de aclarar e ir costurando seu pensamento. Desde 2003 até uns 2 ou 3 anos atrás funcionou um blog, mantido pela viúva do Cláudio, no qual se postavam muitas aulas transcritas, outras tantas aulas em áudio (a partir das gravações em fita K-7, feitas pelos alunos dos vários grupos de estudo que ele mantinha) e em vídeo (a partir de VHS). Ocorre que esse blog, infelizmente, parou por falta de grana. Uma outra alternativa de acesso, digamos, mais palatável, à obra de Deleuze, e essa viável, são os cursos realizados pelo próprio Deleuze disponíveis em francês on line (áudio e/ou pdf), ou pela tradução da Editorial Cactus de Buenos Aires.
Porque Uexküll? Porque ele faz um trabalho em que delinea os “diferentes mundos” animais e humanos, que cada espécie e indivíduo “produz”. Partindo da ideia de que reage-se a estímulos ou, na linguagem de Espinosa, afetos (os indivíduos são afetados por “forças que vm de fora”). Diferentes conjuntos de afetos, de uma espécie a outra e, mais profundamente na espécie humana, de um indivíduo para outro. E isso fica fácil de ser exemplificado se consideramos o empreendimento criativo teatral: é óbvio que o que “afeta” cegos, o que “afeta” surdos, isto é, o conjunto de estímulos aos quais respondem, não só genericamente – o conjunto das pessoas surdas ou cegas – mas mais ainda, cada um dos indivíduos surdos e cegos, é variável. Portanto é nesse sentido que cada um de nós, enquanto espécie e como indivíduos, constitui para si um mundo próprio (Umwelt), que é o nome do conceito de Uexküll, ponto de partida de sua obra. Assim, em seu livro, ele parte do exame do mundo próprio do carrapato, que interage apenas com três afetos ou estímulos “na floresta imensa, com sua polifonia de estímulos”, que são (1) o calor da luz solar, ao qual responde subindo ao ponto mais alto de um arbusto; (2) o efeito do ácido butírico que se irradia do suor dos mamíferos, cuja resposta do carrapato é o deixar-se cair do arbusto; e (3) caso caia sobre o corpo do animal, busca um sítio na pele, em meio ao pelo onde crava seu ferrão para seu “único e derradeiro banquete”. Cláudio Ulpiano brincava em suas aulas dizendo que, em certos lugares do “interiorzão” do Brasil, a moça só tinha, como o carrapato, três afetos: namorar, noivar e casar. “Ator meu, não é pessoa!” 128
Dizia meu querido e saudoso mestre, Cláudio Ulpiano. Nessa época ele se associou a alguns alunos para montar uma peça. Que queria ele dizer com isso? Meu ator não se envolve com personagens. No sentido em que não estará envolvido em esforços para representar personalidades, caracteres fechados e pré-determinados, seguindo marcações rígidas. Como? Partindo-se da concepção espinosana, como vimos acima, os seres, ou seja as essências singulares, podem ser definidos como “pacotes de afetos” (claro, aptos a serem, os afetos, multiplicados; adicionados, a esse pacote, sempre novos afetos). Cada afeto é uma “linha de interação com a vida”, um circuito ou uma conexão de um indivíduo com outro indivíduo, situação ou força que “chega a ele”, no desenrolar da existência. Cada afeto nos dá a oportunidade de reagir, ou melhor, de interagir – para usar um termo mais técnico contraefetuar – com algum estímulo que nos atinge. É a partir disso que se constitui, e não para de se constituir, de modo mais ou menos rico, dependendo da diversidade da experimentação (ou como diz Rejane, da “abertura para experiência”) o campo afetivo ou mundo próprio (Umwelt) de cada espécie, inicialmente (isto é, a partir das características cognitivas e sensoriais das diferentes espécies) e, mais profundamente, de cada ser individual, como nos mostra Uexküll em sua obra. Assim, as artes cênicas, teatro e cinema, constituem-se como territórios de exploração relativos aos potenciais de expressão afetiva para os indivíduos. Por meio da experimentação dos corpos, sensorialidades, emoções, e da inteligência – verbalizada ou apenas pensada –, fisionômias, maneirismos, hesitações e toda uma série de manifestações, mesmo irrealizadas (importância do rosto em Bergman; das posturas em Cassavetes; dos olhares em Dreyer, por exemplo, no cinema). Todos esses elementos são considerados como possibilidades exploratórias pela Rejane. Tudo isso pode ser tomado no sentido da questão de Espinosa: “o que pode um corpo?” Com que forças ou corpos do espaço que nos é externo somos capazes de nos encontrarmos e estabelecer com eles uma composição (com os outros corpos) e uma saúde (com as forças que nos “atingem” ou as “situações” em que nos encontramos)? Como construir com os outros uma unidade dinâmica nova com outros corpos que nos traga alegria (um amor, uma amizade, um grupo de teatro, uma equipe cinematográfica, uma sala de aula, uma nação...)? Um afeto proveniente de outro corpo, de uma situação ou de uma força que chega até mim, me enfraquece ou me fortalece? Selecionar os afetos, eis a efetuação da ética como estratégia de vida: o que aumenta e o que diminui meu poder de existir, minha força de existir, a partir dos encontros que realizo? “That’s the question” para Espinosa. Não “ser ou 129
não ser”, mas como aumentar a minha potencia de vida, necessariamente fazendo composições com seres que me são afins (com quem tenho afinidades), dentro de todo um espectro, não de identificações e homogeneidades, mas de diferenças e diversidades integradoras e, portanto, criativas. Criar é sempre com alguém, em algum lugar, ou tomado por alguma força (amigo, amor, atmosfera, inspiração). Jung dizia que se a transformação numa situação de análise não for recíproca, nada aconteceu. Ou, em termos espinosistas, ao se encaixarem, as pessoas, vivendo-se como essências singulares, incorporam as potências umas das outras, aumentando suas potências recíprocas. Trata-se de um movimento tendendo a uma abertura para a Natureza. É nesse sentido que Espinosa entende a importância da multidão. Entenda-se multidão, aqui, como diversidade: cegos, surdos, todas as sexualidades, cores, etnias, todos os corpos, sensações, emoções, reflexões se intercambiando, por exemplo, no fazer dramatúrgico. É uma questão eminentemente política e perfeitamente apropriada a ser encenada ou cinematizada. Enfim, problematizada dramaturgicamente.
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Educação inclusiva no ensino superior: Práticas políticas de aprendizagens Suely Lima da Silva Maria Riziane Costa Prates
Inclusão em Redes de Conversações A Educação inclusiva vem ocupando lugar de destaque na Universidade, a partir de práticas pautadas em estudos e diretrizes, como a Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretrizes e bases da Educação nacional – LDB nº 9.394/1996 que assegura o atendimento aos educandos com necessidades especiais e a Lei nº 10.098/2000 que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiências ou com mobilidade reduzida. Tais legislações de amparo aos estudantes com necessidades educacionais especiais (NEE) vem obrigando a Universidade a se repensar para dar suporte às transformações sociais deste momento histórico. Garantir que todos tenham acesso ao ensino superior é um avanço que demonstra que este, deixou de ser direcionado a uma minoria da população brasileira. Esse movimento tem provocado mudanças na relação entre os estudantes com deficiência e a busca pelo conhecimento, bem como a problematização do reconhecimento e respeito à diversidade humana. Vale ressaltar que há estudantes que necessitam de procedimentos, recursos ou momentos mais específicos para participarem ativamente das atividades propostas. Independentemente da instituição de ensino, deve-se construir caminhos para a mudança no projeto de organização universitária e na prática pedagógica dos professores. Esse é o grande desafio da educação inclusiva, modificar as estruturas e promover acessibilidades e composições. A nossa cultura tem uma experiência ainda pequena em relação à inclusão social, tendo que enfrentar a cada dia a ausência de políticas públicas inclusivas efetivas e a discriminação pela não aceitação do outro.
Por isso mesmo, sustento que não há ação humana sem uma emoção que a estabeleça como tal e a torne possível como ato. [...] Esta emoção é o amor. O amor é a emoção que constitui o domínio de ações em que nossas interações recorrentes com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência. As interações
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recorrentes no amor ampliam e estabilizam a convivência; as interações recorrentes na agressão interferem e rompem a convivência (MATURANA, 1998, p.22).
Se tomarmos o amor político de Maturana como atitude social, compreenderemos que todos tem direito ao acesso a um ensino superior de qualidade. Vale pensar que a Educação Especial tem representado um desafio para o ensino superior e para a sociedade em geral, pois a ausência de políticas públicas que promovam uma efetiva educação inclusiva é evidente. Por Educação Especial, compreende-se “a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação” (BRASIL, 2013), redação dada pelo Art. 58 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 12.796, de 2013. A educação Especial é oferecida preferencialmente na rede regular de ensino e na educação superior, voltada para atender, em qualquer dos níveis educacionais, às pessoas com dificuldades físicas e/ou características psíquicas peculiares, denominadas: Deficiência Visual, Deficiência Auditiva, Deficiência Física, Deficiência Mental, Deficiências Múltiplas, Condutas Típicas do Comportamento e Altas Habilidades. A inclusão do estudante com necessidades especiais no ensino superior implica em adaptação e tomadas de medidas para acessibilidade na Universidade. É interessante notar que, “apenas 1,5 milhão - menos de 10% dos investimentos na educação foram destinados a programas de acesso e permanência no ensino superior das pessoas com tais necessidades” (BRASIL, 2001). De acordo com os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas- INEP no Censo da Educação Superior de 2009, o número de estudantes com deficiência matriculados na graduação era de 20.019, o que correspondia, na época, a 0,34% do total de estudantes. O Portal do INEP, Brasil (2012) aponta que, entre 2010 e 2011 houve um aumento de 5,7% nas matrículas dos estudantes na educação superior, principalmente nas instituições públicas. Em 2011 o Brasil superou a marca de 6,7 milhões de pessoas incluídas no Ensino Superior. O aumento dessas matrículas está vinculado, principalmente, à implementação da Lei 12.711/2012, Lei das Cotas do Governo Federal, que prevê além da reserva de vagas para estudantes com deficiências, a reserva para os estudantes de escolas públicas, os auto declarados pretos, pardos ou indígenas e os estudantes oriundos de famílias com renda igual
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ou inferior a 1,5 salários mínimos per capita. Essas iniciativas vem contribuindo para a inclusão no Ensino Superior. Trazemos, assim, para o debate, neste texto, os desafios da educação inclusiva no ensino superior, no sentido de compreendermos seus objetivos e características principais. Para atender a tais objetivos, aproximamo-nos do Núcleo de Acessibilidade - NACE da Universidade Vila Velha – UVV, para identificarmos os desafios enfrentados na implementação de uma educação inclusiva com estudantes e professores do ensino superior, partindo das seguintes questões de pesquisa: há políticas de inclusão no ensino superior? Como tais políticas se efetuam na Universidade por entre professores e alunos? Quais desafios se colocam por entre ensino, pesquisa, metodologias e aprendizagens nas aulas? Como se dá a formação dos alunos e professores a partir das deficiências, por uma educação inclusiva? No desejo de enredamentos dos espaços e tempos de vivências dos alunos “especiais”, e as perspectivas de uma educação inclusiva no Ensino Superior, buscamos composições realizadas no curso de pedagogia da UVV, pelos processos de ensino e aprendizagem; através dos olhares dos docentes e discentes e também conversas com estudantes atendidos pelo Núcleo de Acessibilidade – NACE – UVV, nas suas experiências em sala de aula e durante o curso, em termos de acolhimento ou não em seus tempos diferenciais de aprendizagem e avaliação. Buscamos, ainda, encontros com alunos da Universidade que convivem com colegas com deficiências em sala de aula, para entendimento da atuação do núcleo e a inclusão na Universidade. Esses encontros foram sistematizados a partir da perspectiva metodológica das redes de conversações que, segundo Carvalho (2009, p.187), “[...] não acontece sem ser criada e sustentada pela participação ativa [...]”, ou seja, são redes que se tecem pelas vivências por entre Universidade, família, relações afetivas, etc. As redes de conversações apontam concepções de currículos enredados, sem neutralidade, como ato de comprometimento em penetrar a realidade do aluno, pelos envolvimentos e atravessamentos na constituição daquilo que é vivido/praticado, dando sentido aos fazeres no cotidiano educacional, a partir do currículo concebido e do currículo vivido (CARVALHO, 2009). Assim, os currículos concebidos como prescrições ou legislações, na sua inseparabilidade dos currículos vividos como saberes e fazeres na instituição educativa perpassam por relações de poder, enquanto interação e relação presente do ensinar e aprender como ações complexas e mais amplas. 133
As redes de conversações, entendidas como expansão da atividade do aprender e ensinar aparece, assim, como dimensão do saber e do fazer educativo nas produções curriculares. As conversações abrangem as trocas em sala de aula e as ultrapassagens de fronteiras de inovação curricular e expansão da produção de conhecimento que oportuniza ao aluno e ao corpo docente articularem relações entre conhecimento, experiência e vida. O currículo como redes de conversações, segundo Carvalho (2009), tem uma ação abrangente que envolve a escola, a família, a comunidade escolar, os órgãos gestores, o sistema político-administrativo, como forças que se relacionam pelos tecidos de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, constituindo mundos afetivos que buscam os possíveis da recriação de saberes, fazeres e afetos da/na educação. A partir dessas práticas, o currículo não pode ser visto como um espaço neutro, problemático ou de mediação, mas como espaço de possibilidades para a produção de aprendizagens, como lugar em que os indivíduos experimentam e compartilham ideias de forma coletiva articulando e entrelaçando saberes. É necessário pensar que as conversações e o currículo mudam à medida que nos envolvemos com eles, nesse sentido devemos explorar os acontecimentos vividos, como prática ética de se colocar nas relações entre as pessoas e nas relações consigo. Larrosa (2004, p.12-13) aponta que:
[...] nunca se sabe aonde uma conversa pode levar... uma conversa não é algo que se faça, mas algo no que se entra... e, ao entrar nela, pode-se ir aonde não havia sido previsto... e essa é a maravilha da conversa... que, nela, pode-se chegar e dizer o que não queria dizer, o que não sabia dizer, o que não poderia dizer... e, mais ainda, o valor de uma conversa não está no fato de que ao final se chegue ou não a um acordo... pelo contrario, uma conversa está cheia de diferenças... mantendo-as e não as dissolvendo... e mantido também as dúvidas, as perplexidades, as interrogações... e isso é o que a faz interessante... por isso uma conversa pode manter as diferenças até o final, porém cada vez mais afinadas, mais sensíveis, mais conscientes de si mesmas... por isso uma conversa não termina, simplesmente se interrompe... e muda para outra coisa.
Pelas conversas, redes de conversações e relações no cotidiano da Universidade, os currículos foram se enredando em modos de fazer educação sob uma constituição de um espaço de aceitação do outro na convivência. Nesse sentido, a nossa tentativa, foi problematizar os fazeres e saberes tecidos entre docentes e discentes na Universidade, pela análise das suas transformações em práticas inclusivas, acreditando que é preciso ampliar a visibilidade de tais práticas e programas de incentivo e inclusão.
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Experiências Inclusivas: O Núcleo de Acessibilidade – NACE - UVV e os movimentos de aprendizagem dos alunos
A educação não acontece por meio de uma padronização, mas ao contrário, é necessário que a inclusão se faça a partir da experiência e do reconhecimento das diferenças. A participação de pessoas com deficiências em salas de aula pode ser uma contribuição para todos os alunos e para a educação, ao promover a reflexão sobre as práticas educacionais a partir das questões suscitadas no cotidiano da sala de aula, por uma educação cada vez mais inclusiva, como experiência.
[...] a experiência fala e obriga a falar, pois o ver, o dizer e o julgar são partes das operações de constituição do que é afetado. Diante dessa colocação vale observar que o sujeito e os seus registros e observações, são um conjunto de um todo, a partir das práticas que vem tornando possível tal constituição (LARROSA, 2002, p.186).
A experiência não é um lugar onde o sujeito guarda e expressa o sentido mais ou menos oculto de si mesmo, mas possibilidades de mudanças de modos de vida e formação, pela resistência a padrões e novas constituições de aprendizagem, o que pode se efetivar em inclusão. A Inclusão, assim, caracteriza-se como um tema cada vez mais presente no Ensino Superior, e é com base nesses objetivos e a partir de uma exigência do Ministério da Educação - MEC, em termos de acessibilidade, que a Universidade Vila Velha criou o Núcleo de Acessibilidade – NACE, como política de inclusão e acessibilidade dos alunos com necessidades especiais. A criação do Núcleo de Acessibilidade – NACE - UVV aconteceu em 2016, sendo que as suas atividades somente tiveram início em abril de 2017. Este núcleo é composto por um Coordenador Geral, uma Pedagoga, uma Psicóloga e uma Psicopedagoga. Juntas, elas desenvolvem e realizam um trabalho multidisciplinar de acordo com as especificidades de cada estudante. Esse processo se dá através de entrevistas com o aluno e sua família, nas quais ambos são ouvidos em tempos individuais e coletivos. O NACE tem como propósito incluir os alunos na instituição e proporcioná-los melhor desempenho acadêmico. Os alunos com alguma necessidade educacional especial, ao ingressar na Universidade Vila Velha, devem protocolar no Núcleo de atendimento ao aluno, uma solicitação de atendimento educacional especializado, conforme sua necessidade e demanda. O núcleo, a partir da entrevista com esses alunos e familiares, atua para orientar estratégias 135
pedagógicas em sala de aula e na aplicação das provas bimestrais, podendo a avaliação, variar, no formato e no tempo, com provas escritas, orais, com ledores, e em um tempo ampliado, quando for o caso. Se o aluno acha que o tempo de aula para fazer a prova é pouco, o núcleo possibilita um tempo ampliado. Com isso, se o aluno tem deficiência visual ou dislexia, por exemplo, a utilização de textos e as provas são ampliadas, se o aluno tem déficit de atenção, a prova é elaborada de maneira mais objetiva e clara, com textos mais curtos para favorecer a compreensão, e também recursos para adaptação de espaços físicos, mobiliário e equipamentos que permita o acesso de alunos com deficiência física. Após entrevistas com os alunos e familiares, o núcleo elabora um parecer e informa aos professores e coordenação dos cursos as necessidades daquele aluno, orientando aos professores os modos de elaboração de uma avaliação escrita que atenda às necessidades daquele aluno específico. O NACE possui, ainda, uma função importantíssima que é trabalhar com todos os cursos e professores da Universidade Vila Velha- UVV, uma perspectiva de educação inclusiva, na tentativa de problematizar os modos de inclusão e uma educação como diferença. Esse núcleo promoveu uma formação de professores para todos os professores da UVV por meio online, no segundo semestre de 2017, afirmando a perspectiva de Maturana (1998), de pensar o outro como legítimo nas relações, afirmando a força da diversidade e da diferença na composição. O trabalho da Universidade com uma educação inclusiva vem quebrando as barreiras no processo de ensino e aprendizagem, utilizando novas tecnologias, investindo na formação do professor, na utilização de currículos e metodologias flexíveis, levando em conta a singularidade de cada estudante, respeitando seus interesses e potencialidades. A convivência com a diversidade humana favorece a construção de novas relações e experiências tão indispensáveis e fundamentais na formação contemporânea humana e no desenvolvimento dos professores, profissionais e alunos, ampliando para eles a compreensão dos conceitos de direito de aprendizagem e inclusão. Assim, partimos para uma conversa com alguns alunos (as) que frequentam ou frequentaram a Universidade Vila Velha, para saber como acontece o atendimento do NACE e como é a relação desses alunos com a aprendizagem e com a própria Universidade. Conversa com o aluno “A” 136
O aluno “A” é do Curso de Direito, está no 2º Período, entrou no ano de 2017 na UVV, tem 21 anos e relata que sempre estudou em uma escola particular de Vila Velha, e fala que quando entrou na Universidade de Vila Velha não entrou como “aluno deficiente” concorreu à vaga normal. Quando fez o processo seletivo para iniciar no curso de direito, ele colocou que não precisava de adaptação para se adequar ao curso, ele conhece o Núcleo de Acessibilidade da UVV e ficou sabendo através do tratamento que faz, com uma psicopedagoga que o encaminhou para procurar o atendimento especializado na Universidade. Ele buscou o NACE e é atendido na realização das provas com ledor e escriba, pela demora na leitura e escrita, devido a uma paralisia dos membros de um lado do corpo ao nascer. A paralisia, junto à dislexia, ocasiona, na sua escrita, erros gramaticais que, segundo ele, pelo parecer do NACE, possibilitou a correção dos professores, mas a não consideração em termos de pontuação.
A partir dessas considerações, a prova é transcrita para mim e eu tenho um pouco de tempo a mais também, para fazer a prova. Exemplo: se na sala de aula eu tinha uma hora, no NACE, eu tenho uma hora e meia ou mais, dependendo da prova (Aluno A).
Quando o “A” ingressou na Universidade, a psicopedagoga dele, juntamente com os coordenadores do Curso de direito, chegaram ao entendimento de que ele precisava de um atendimento especial, e, assim, buscaram o Núcleo de Acessibilidade – NACE da Universidade Vila Velha – UVV. “A” narra sua trajetória e experiências com o NACE: As provas são iguais, mesmo conteúdos como todos, não muda nada de fonte, tamanho de letra, tudo normal, e relacionado ao NACE, toda vez que tem um problema ou algo que precisa ser resolvido relacionado à minha deficiência, eles atendem com relação à adaptação, e o atendimento não é demorado. Por exemplo, coloco que eu solicitei algo por e-mail, imediatamente eles marcam para conversar comigo, e o NACE atende às minhas necessidades, e na UVV parece que é Lei ter acessibilidade, pois no prédio branco, no qual eu estudo, é acessível de todas as formas, quanto para mim quanto para as outras pessoas com deficiências, fora os morros que são bem puxados, mas dá para levar e não tenho dificuldade, e se não tiver rampa o prédio nem fica em funcionamento, isso é Lei e eu gosto de estudar na UVV por motivo de proximidade da minha moradia na Praia de Itapoã. Meu relacionamento com a turma e com os professores é bem bacana, legal e tranquilo. Não tem diferença nenhuma, o tratamento é normal, a minha deficiência não atrapalha em nada, porém eu demoro um pouco para aprender e levar ao entendimento. Eu tive lesão no cérebro do lado esquerdo logo que eu nasci e os médicos não sabem o porquê e o que houve, eu tive parada respiratória. É raro você ver uma pessoa com deficiência transitar na Universidade, somos iguais ratos, estamos lá, mas se ninguém procurar, ninguém irá ver.
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A educação, como apontado pelo aluno “A”, é um caminho para o pleno desenvolvimento humano, no sentido do respeito à diversidade, eliminando as barreiras e superando as limitações. É preciso cuidar de cada pessoa que ingressa na Universidade, a partir de um trabalho para a cidadania, na qualificação dos estudos, no traçado de educação que seja para todos, direito. Esse processo é concretizado por meio das políticas de acessibilidade que fortalecem a diferença. Segundo Kastrup (2004, p.20), “o problema da aprendizagem tem sido apontado na escola, por estar diretamente colocado como atenção requerida do estudante aos processos em sala de aula”. Quando um aluno “não aprende”, geralmente é encaminhado a um processo de terapia para aumentar a sua capacidade de atenção para se adequar à escola e realizar as tarefas, nas quais vem prevalecendo um domínio e entendimento que trabalha o controle e comportamento, voltados para a realização de tarefas. Kastrup (2004, p.21) chama a atenção ainda para o fato de que “é curioso notar que o distraído é alguém extremamente concentrado, que não é meramente desatento, mas cuja atenção se encontra em outro lugar nos processos da aprendizagem inventiva”. A partir dessa perspectiva, é importante a busca de uma relação entre atenção e aprendizagem, que envolve um lugar de conceito produzido na dimensão coletiva. Não se pode reduzir o processo aprendente ao ato da atenção, mas enquanto ato de tornar algo claro que habita em nós, como um modo de conhecer e tratar a experiência humana a partir do seu caráter de atividade mutável e fluida.
Conversa com ex - aluna “S” Ex- aluna da UVV, “S” fez o curso Tecnólogo em Gestão de Recursos Humanos. Ela é Cadeirante e aponta que a inclusão é quando uma instituição ou qualquer lugar recebe as pessoas de igual maneira, sem discriminação e barreiras. “S” questiona: o que seria inclusão? Efetivar a matricula e começar o curso?
Existia alguns pontos de acessibilidade que era o prédio rosa com rampa e salas térreas, elevador na biblioteca, agora, quanto à acessibilidade no interior da UVV, é preciso trabalhar melhor isso, no que se refere ao chegar ao topo da universidade, pois é um local com muito morro, impossibilitando que um deficiente que se movimenta com cadeira de rodas, alcance sozinho esse lugar (ex-aluna “S”).
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Na época em que a ex-aluna “S” frequentou a Universidade, não existia o Núcleo de Acessibilidade. A sua relação enquanto aluna com deficiência, era tranquila com os colegas e professores. Não havia distinção no aprendizado. Ela conta que não teve dificuldade alguma em se relacionar com ninguém, todos trocavam experiência, interagiam e se colocavam à disposição para ajudar de todas as formas, afirma que a Universidade Vila Velha sempre se constituiu em um ambiente acolhedor. Conversa com a aluna “T” A aluna “T”, cursista do sétimo período de pedagogia na UVV no ano de 2018, ao pensar o termo “inclusão”, aponta que há coisas que precisam mudar. Diz que muito é falado sobre inclusão, mas pouco realmente é feito.
Vemos que ainda existem estruturas, locais que não são adaptados para receber as pessoas com necessidades especiais. As pessoas também precisam ter um pensamento menos preconceituoso e perceber as potências, pois vejo que há pessoas que ainda não sabem conviver harmoniosamente com os demais, e acham que são superiores por não serem deficientes e não terem nenhuma necessidade especial (aluna “T”).
A aluna “T” sempre teve contato com pessoas com deficiência. Ela conta que namorou um rapaz que usava cadeiras de rodas, e no período que estavam juntos as dificuldades dele eram as dela também, pincipalmente quando saíam e encontravam lugares que não estavam preparados para receber essas pessoas. Lembra que, nas ruas, as barreiras eram constantes e a maior dificuldade eram as pessoas com pensamentos preconceituosos.
A Universidade tem avançado no sentido de atender às demandas das pessoas com deficiência. Na sala de aula, no meu ponto de vista, relativamente acontece a inclusão. Vejo que ainda existe muito hipocrisia por parte das pessoas, não digo só no ensino superior, mas durante toda a educação básica, por exemplo, quando um autista começa a "bagunçar" demais e é convidado a dar uma volta pela escola com a estagiária para acalmar, ou dependendo, passa mais tempo na sala de educação especial do que na própria sala de aula. Acredito na transformação e mudança da Universidade em relação a isso, pois a gente percebe uma preocupação em atender todas as pessoas, nas suas singularidades (aluna “T”).
Essas colocações indicam que é preciso formação e quebra de paradigmas, pois ainda há muito preconceito enraizado. A Universidade é um ambiente repleto de singularidades e potencialidades. Ao conviver nesses ambientes, todas as pessoas, deficientes ou não, mostram aos demais que são capazes de aprender, conviver e buscar novos mundos.
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Conversa com a aluna “B” “B” aponta que a “inclusão” está intrinsecamente ligada ao reconhecimento do outro, das especificidades do outro e das potencialidades do outro, pois incluir consiste em uma atitude política na qual percebemos que a nossa existência só é possível se estiver ligada à existência do outro, ao mesmo tempo em que compreendemos que o outro é diferente de nós, mas que nossas diferenças se complementam. “B” tem contato com pessoas com deficiência e ela é uma aluna com deficiência. Tem perda total de visão em um olho e um alto grau de miopia no outro olho. “B” aponta que:
A experiência de se relacionar com pessoas que possuem especificidades mais visíveis é sempre um desafio porque você precisa se adaptar ao sujeito sem que isso se torne algo anormal ao ponto de desqualificar a pessoa, ao mesmo tempo é enriquecedor porque você passa a se conhecer na medida em que vai se envolvendo com os outros. Você passa a enxergar e experimentar o mundo de uma maneira mais sensível, mais solidária. O avanço inclusivo na Universidade é atendido pela inclusão social de pessoas com deficiências e é um processo, e como todo processo, demanda tempo, investimento e experimentações, então não é possível dizer objetiva e definitivamente que tal processo se estabeleceu de modo satisfatório, mas posso concluir baseada em minha percepção, que já avançamos muito enquanto sociedade, porém, ainda temos muito em que avançar. Se analisarmos o número de pessoas com deficiência que se formavam no ensino superior a 10 anos comparando ao número das que se formam atualmente, percebemos um salto. Isso indica que o processo está acontecendo, ainda que de forma lenta. Na sala de aula há uma tentativa de fazer com que a inclusão aconteça de uma forma natural e efetiva, mas sendo uma tentativa, muitas vezes enquanto grupo, nós falhamos ao ignorarmos a importância de se incluir. Isso ocorre por meio dos recursos materiais adaptados que são disponibilizados, os processos relacionais que são estabelecidos de modo a considerar as necessidades e a importância do indivíduo. Sem dúvidas, a transformação e mudança com a chegada das pessoas com deficiência é que vai desencadear um processo de mudança da qual as Universidades ainda carecem, no que tange à acessibilidade e inclusão. Ao conviver com uma pessoa com deficiência nunca estamos preparados, até que estejamos envolvidos na situação propriamente dita. Eu busco me sensibilizar com o outro por meio do conhecimento sobre a especificidade que um determinado indivíduo traz consigo. A Universidade é um ambiente em que para se construir uma inclusão, pressupõe reconhecer o outro como legítimo, e isto não acontece por meio de marcos legais ou imposição social, mas por meio de uma conscientização desencadeada pelo conhecimento. Se considerarmos a Universidades como ambiente de produção, transformação e consumo de conhecimento, então, diria que sim, que a Universidade consiste em um ambiente propício para a construção de atitudes políticas inclusivas.
Algumas políticas de inclusão têm contribuído para a superação das desigualdades sociais. Desse modo, a atuação do NACE - UVV, enquanto política de inclusão e acessibilidade se faz importante nesse cenário da sociedade atual que, por vezes, domina uma ideia ou definição fixa de uma realidade, um modelo de escola, de aprendizagem, de 140
currículo, que precisa ser quebrada pela interdisciplinaridade e pelas relações inclusivas. Como afirmam Salgado e Souza (2016, p.13): “[...] na educação inclusiva existem processos de enfrentamento do problema da inclusão/exclusão e acolhimento, a partir dos princípios da interdisciplinaridade e atitude do educar que propõe uma aprendizagem com a diferença”. Segundo Carvalho (2009), é preciso indagar o currículo, enquanto interação do desejo dos alunos em relação aos objetivos e o processo avaliativo educacional. O que o Núcleo de Acessibilidade – NACE – UVV tem apostado, é em um auxílio nos procedimentos de avaliação desses alunos, enquanto tentativa de igualdade de direitos, perante os demais alunos da Universidade. Algumas questões são pertinentes nesse movimento: se aceitamos tantas coisas impostas pela sociedade porque não aceitarmos a diferença? Por que não aceitarmos e respeitarmos as pessoas como elas são? É necessário o reconhecimento da alteridade apontada por Maturana (1998), enquanto reconhecimento do outro como legítimo nas relações. As políticas de ingresso e permanência de pessoas com necessidades educativas especiais no ensino superior da Universidade de Vila Velha- UVV se coloca, assim, como possibilidade do reconhecimento desse outro como legítimo nas relações. Entendemos e compreendemos, assim, a Inclusão na Universidade como processo atitudinal em que professores e estudantes se colocam abertos à composição com o diverso, o estranho, o diferente, abertos a outras possibilidades de experiência.
A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça (LARROSA, 2002, p.21).
Produzir educação como experiência exige criar realidades que potencializam a vida como força de existência, pelos sentidos atribuídos aos processos de aprendizagem. Não basta dizer que somos iguais, afinal, não somos iguais, somos diferentes. Importa a igualdade de direitos de entrada, permanência e sucesso na Universidade. Isso é inclusão. Quando falamos em inclusão como experiência, é preciso compreender que, a cada novo aluno, há uma nova perspectiva e nesse sentido, os sujeitos da educação tem que estarem dispostos a encarar essa problemática, sabendo que não há respostas prontas, que é um processo, no qual as relações pedagógicas se constroem, enquanto experiência. [...] fazer uma experiência com algo significa que algo nos acontece, nos alcança; que se apodera de nós, que nos tomba e nos transforma. Quando falamos em “fazer” uma experiência, isso não significa precisamente que nós a façamos acontecer, “fazer” significa aqui: sofrer, padecer, tomar o que nos alcança receptivamente, aceitar, à medida que nos submetemos a algo. Fazer uma
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experiência quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso. Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo (LARROSA, 2002, p. 143).
Desse modo, a relação da experiência perpassa por uma paixão ou lógica de ação tecida pela possibilidade de encontro com o que é estranho e diferente, em que algo acontece e transforma o modo de relação com o conhecimento, com o outro, consigo e com a vida de uma maneira singular.
Relato de uma professora do curso de Pedagogaia da Universidade: perspectivas inclusivas Falar de docência do ponto de vista da organização do trabalho pedagógico é pensar a educação inclusiva como possibilidades de criar condição para que todos os alunos, crianças e adolescentes avancem no percurso de aprendizagem, isso exige a organização das experiências curriculares para atenderem essas amplas variedades dos modos aprender. A educação inclusiva se trata, objetivamente, de entrar em relação e produção com todas as formas de aprendizagem possíveis que são e estão colocadas nas escolas. Bom, desde 1996 tenho trabalhado com crianças da Educação especial na educação regular. Nessa década de 1990 já trabalhava com crianças especificamente com deficiência mental e com Síndrome Down. Há cinco, seis anos tenho tido experiência com Crianças autistas com maior regularidade nas turmas que leciono. Essas experiências, tem sido muito desafiadoras. Todas as crianças autistas, com as quais trabalhei, mais ou menos oito crianças, eram muito diferentes entre si e com percursos de aprendizagem muito diferentes. Tem uma parte da docência efetivamente, que sou convocada, a estabelecer uma relação de aprendizagem muito difícil e muito desafiadora. É no encontro com as crianças que consigo aprender os modos como elas aprendem e também criar modos de ensino e possibilidades metodológicas para que essa aprendizagem avance. As crianças nos forçam a pensar e a entender nossas experiências docentes. Especialmente tenho me preocupado com as aprendizagens e as práticas de linguagens, como elas praticam linguagem, como elas produzem modo expressivo, pela linguagem, como registram suas ideias, ainda que seja expressão, ideias, sorriso, olhares ao movimento corporal em uma alegria inusitada, porque as crianças tetraplégicas, por exemplo, que a gente trabalha, nem sempre o registro é objetivo. Minha pesquisa como professora cotidiana da escola mesmo é compreender como as crianças produzem práticas de linguagens e quais as intervenções que são possíveis ou que eu sou capaz de produzir com essas experiências, para que elas se ampliem, para que essas crianças consigam se comunicar plenamente com outras crianças, que é outro desafio interessante, porque as crianças são bem acolhidas por outras. Muitas vezes as crianças brincam juntas, produzem juntas, mas tem dificuldade de compreender que aquela criança aprende, mas aprende de modo singular e diferenciado, não tão perceptivo à primeira vista, então eu acho que é um desafio bem interessante que crianças se reconheçam como sujeitos de aprendizagem, pessoas que estão na escola capazes de aprender e aprendem coisas interessantes.
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Hoje na UVV temos alguns desafios, temos uma professora Surda e alunos cadeirantes! O desafio é a sensibilidade do olhar e o desafio é lembrar da singularidade, como elas estão o tempo todo nos convocando. Outro desafio é o da comunicação com a professora surda, por exemplo. Quando a comunicação fica frágil, as pessoas não conseguem reconhecer que a fragilidade é pela própria condição do modo como a professora se comunica, então fica na exigência de uma comunicação dentro de um certo padrão. Quando o modo que ela se comunica é singular exigindo uma relação diferenciada. De certa forma o Núcleo de Acessibilidade – NACE acolhe as solicitações e mexe com o Ensino Superior, com os professores e alunos aqui na Instituição, porque a questão que envolve e volta é sempre, porque as pessoas tem direito a esse acesso? Será que elas efetivamente e profissionalmente tem condição de exercer a profissão? Essa é uma questão que perpassa o imaginário dos professores. O NACE contribui para avançar nessa ideia de que as pessoas tem direito ao acesso e de se inserirem profissionalmente, com qualificação e não ficar fazendo só serviço sem exigência de uma graduação por exemplo. Isso mexe com a formação dos alunos, dos seus familiares, dos professores e isso tem contribuído para o avanço em termos dos sentidos de aprendizagem, do sentido da educação inclusiva.
Para incluir e não concluir...“Quando acordar a cidade” Inclusão é sair das escolas dos diferentes e promover a escola das diferenças, a inclusão é o privilégio de conviver com as diferenças (Mantoan, 2011).
Incluir pode significar uma crença no outro. Acreditar não nas dificuldades de aprendizagem, mas no que a pessoa pode. A indiferença e o preconceito podem ser as maiores deficiências. Vale ressaltar que quando surge o primeiro aluno em uma cadeira de rodas, é que, de repente, os degraus tornam-se visíveis para todos, a partir do momento em que temos um aluno surdo, é que se torna necessário buscar os meios de comunicação alternativos e aprender a língua de sinais- LIBRAS; quando temos um aluno com deficiência visual, é que começamos a pensar como ele pode ter mais independência para se orientar e movimentar-se com segurança, ou que precisamos com urgência de livros em Braille, e se um aluno tem dificuldades de compreensão e comunicação e também necessita de auxílio para sua alimentação e higiene, temos de reconhecer a necessidade de apoio pedagógico e da presença de um acompanhante na escola. É assim que, a partir do ingresso de alunos com algum tipo de deficiência, na maioria das escolas, surge a necessidade de mudar atitudes, de eliminar as barreiras físicas através de reformas, de adquirir material pedagógico específico, de ter professores com formação especializada, enfim, de articular políticas públicas que atendam à diversidade. Na Universidade o processo não é diferente. 143
Experimentações a partir de trabalhos com a diferença, podem ajudar a produzir uma educação cada vez mais inclusiva e diversa. No movimento de escrita deste texto, professores e estudantes das graduações em pedagogia e artes cênicas da Universidade, tiveram a oportunidade de assistirem à peça do Projeto “Cena diversa”, intitulada: “Quando acordar a cidade” no dia treze de agosto de 2019, no teatro da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), dirigida pela Professora Doutora arte-educadora Rejane Arruda. O elenco da peça é composto por atores deficientes visuais. Essa experiência proporcionou debates não só no teatro da UFES ao término da peça, mas continuou ressoando no debate acadêmico, pela necessidade de ampliação de políticas inclusivas de educação e vida. A peça marcou uma atitude e aposta na composição com a diferença como força, de artistas que resistem, sonham e tentam acordar a cidade adormecida, ainda plena em preconceitos e desigualdade sociais.
Fig. 1: Cartaz convite da peça Quando Acordar a Cidade
As desigualdades sociais e preconceitos necessitam serem pensados por meio de uma educação inclusiva no ensino superior, com organização de acessibilidades não somente arquitetônicas, mas atitudinais, pela composição com “o outro”, pela criação e aprendizagens mútuas. Incluir requer a identificação de barreiras a serem rompidas, por meio da indagação de procedimentos diferenciais, como os instrumentos pedagógicos utilizados, os modos de relação estabelecidos em sala de aula e nos diferentes espaços e tempos da Universidade, os modos de avaliação e, principalmente, as maneiras com as quais nos relacionamos com a diferença que compõe a educação e a vida em comunidade, por uma educação para/com todos.
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