UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL CURSO DE JORNALISMO
VANESSA LINHARES PEREIRA
O PALCO DAS RUAS
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
SÃO PAULO - SP 2020
VANESSA LINHARES PEREIRA
O PALCO DAS RUAS
Relatório de Fundamentação Teórica e Metodológica apresentada ao Curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, como requisito para obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientador (a): Prof. Me. Antonio Lucio R. Assiz
SÃO PAULO - SP 2020
Ficha Técnica
Gênero: Documentário Formato: Televisão Duração: 29’58” Direção: Vanessa Linhares Cor: Colorido Som Estéreo São Paulo – Brasil Ano: 2020 Classificação Indicativa: Livre Para Todos os Públicos
Resumo
Este trabalho tem como objetivo dar voz aos artistas de rua que se apresentam nos espaços públicos da Avenida Paulista aos domingos. Busca compreender como, por meio da arte de rua, eles contribuem para a democratização da arte. Esse projeto aborda o lado positivo da arte de rua e sua importância para uma sociedade mais democrática e até mesmo mais humana. Mostra também as dificuldades e imprevisibilidades da arte de rua, já que a mesma, depende de fatores externos, como o clima, para sua realização.
Palavras-chave: Artistas de rua; arte de rua; Avenida Paulista; democratização da arte; arte na Paulista.
Sumário
Introdução .......................................................................................................... 6 Objetivos ............................................................................................................ 8 Gerais ............................................................................................................. 8 Específicos ...................................................................................................... 8 Problema e Hipóteses ........................................................................................ 9 Considerações Finais Sobre as Hipóteses ....................................................... 11 Justificativa ....................................................................................................... 12 Plano Estratégico ............................................................................................. 14 Descrição do Produto ....................................................................................... 15 - Sinopse ....................................................................................................... 15 - Recursos Gráficos ...................................................................................... 16 - Trilha sonora ............................................................................................... 17 - Capa e adesivo do DVD ............................................................................. 19 Público a ser atingido ....................................................................................... 22 Aspectos Metodológicos................................................................................... 23 Referencial Teórico .......................................................................................... 24 Referências ...................................................................................................... 28 Cronograma ..................................................................................................... 31 Orçamento........................................................................................................ 32 Apêndices......................................................................................................... 33 - Pauta .......................................................................................................... 33 - Roteiro ........................................................................................................ 35 - Transcrições das entrevistas ...................................................................... 51 - Termos de autorização de imagem........................................................... 139 Diário de Campo ............................................................................................ 144
Anexos ........................................................................................................... 147 - Anexo I: Fotos utilizadas no documentário ............................................... 147
6 Introdução
A arte está presente na humanidade desde o tempo das “cavernas”, quando o homem fazia desenhos rupestres nas paredes e nas rochas para tentar se expressar e mostrar suas emoções. Ela sempre esteve ligada ao ser humano e sempre o encantou e o indagou em suas diferentes formas. E a arte de rua não poderia ser diferente. Nela podemos ver a essência de um povo, já que ela nada mais é que a arte feita pelo povo e para o povo. Embora seja uma arte livre, os artistas que expõem seus trabalhos nas ruas, às vezes sofrem com o preconceito, pois muitas vezes são tratados como pedintes pela população e muitos deles não tem seus direitos respeitados. Apesar das manifestações artísticas nas ruas da cidade de São Paulo acontecerem há várias décadas, foi somente em 2014, que as atividades foram regulamentadas com o Decreto nº 54.948 que regulamentou a Lei nº 15.776 de 2013, imposta pelo então prefeito Fernando Haddad (PT). Com a determinação dessa lei, os artistas de rua puderam se sentir mais seguros em relação às suas apresentações, tendo que seguir algumas regras que acompanham a lei, como o horário de permanência em espaços públicos, que vai das 10h às 22h. Os artistas também podem vender cds, dvds e quadros nos locais das apresentações, desde que sejam de autoria própria. Os shows são obrigatoriamente gratuitos, porém é permitido a passagem do “chapéu” para que quem quiser contribuir possa fazer sua doação. Numa sociedade que clama por cultura, os artistas de rua acabam contribuindo para a democratização da arte, já que a arte que eles apresentam é uma arte “sem limites”, que está exposta na rua para quem quiser ver. Dessa forma, pessoas que não têm condições de ir a uma galeria ou a um espetáculo, por exemplo, encontra na rua o acesso a arte, que se não fosse por ela, jamais teria a oportunidade de presenciar a apresentação de uma banda ou de um grupo de teatro. É através da arte que as pessoas podem se expressar e colocar seus sentimentos para fora. Seja com uma música, com um quadro, com uma dança,
7 ou com qualquer outro tipo de arte. Ela sempre esteve e sempre vai estar presente na humanidade. Mesmo com as dificuldades enfrentadas por quem faz arte de rua, é ela quem movimenta a cidade e a deixa mais democrática. Quando a arte ultrapassa barreiras e chega à rua, ela deixa a cidade mais colorida, mais viva, como se a arte tivesse o poder de mudar vidas. E de certa forma, ela tem. Com esse projeto que dá voz aos artistas de rua e que mostra a importância da arte de rua para a cidade e para a sociedade, conhecemos histórias que nos foram mostradas em um documentário com 29 minutos e 58 segundos de duração. Esse gênero televisivo que nasceu junto com o cinema, foi o gênero escolhido para esse trabalho. “O Palco das Ruas”, nome escolhido para o projeto, traz uma leitura da realidade dos artistas de rua, mostrando a verdade, mas com um toque alegre. O projeto tenta mostrar o lado bom da arte de rua, mostrar que os artistas estão ali porque querem, mostrar que a grande maioria escolheu estar na rua, que não estão ali por falta de opção, mas por escolha. A arte de rua é uma arte feita para todos, e é uma arte que merecia mais visibilidade na mídia. Quando o artista de rua aparece na grande mídia, geralmente é para mostrar a condição financeira que ele se encontra e aqui não queremos explorar esse lado, mas sim, o lado positivo, o lado inclusivo e democrático da arte de rua.
8 Objetivos Gerais Os objetivos gerais desse projeto se baseiam em analisar a arte de rua como objeto de democratização da arte através dos artistas que se apresentam na Avenida Paulista. Específicos Já os objetivos específicos, busca entender a relação que o artista tem com arte e o que o levou a se apresentar nas ruas. Conhecer a história de cada personagem do projeto e quais são as principais dificuldades enfrentadas por quem expõe sua obra nos espaços públicos da Avenida Paulista. Além disso, dar voz aos artistas de rua, que são peças importantes para a cultura de rua e para a cultura popular do nosso país. Para atingir esses objetivos, foi produzido um documentário com duração de 29 minutos e 58 segundos, com depoimentos dos entrevistados, onde foi mostrado os problemas do artista que se apresenta na Paulista aos domingos, dando espaço de fala para o mesmo. Também foi abordado o lado positivo da arte de rua, aquele encantamento pela arte em um espaço público, onde todos têm acesso.
9 Problema e Hipóteses
Todos os domingos, a Avenida Paulista é tomada pela arte. O fechamento de uma das avenidas mais importantes de São Paulo aos domingos, mostra que a arte de rua está presente no cotidiano dos paulistanos. Com isso, surgem artistas de diversos lugares e de variados seguimentos (música, dança, teatro, estátua viva, etc) para se apresentar na avenida. Um verdadeiro espetáculo é proporcionado aos pedestres que passam por lá e se deparam com tantos tipos de arte. A arte que nos é apresentada nas ruas é livre, sem restrições, onde qualquer um que passa por ela pode admirar. “Ela busca interromper a vida diária dos transeuntes, surpreende-los e testar o que pode ser feito em público, encorajando as pessoas a interagir com o artista e com a obra”. (REIA,2014). Partindo do pressuposto que a arte de rua é acessível, onde todos podem ver, parar e apreciar, a questão a ser abordada no problema de pesquisa é como que os artistas de rua contribuem para a democratização da arte? Para tentar responder essa questão, apresentamos duas hipóteses. A primeira diz respeito a acessibilidade. Ou seja, através da acessibilidade que a arte de rua proporciona, por ser um tipo de arte livre, sem restrições de classe social, idade, gênero, etc, todas aquelas pessoas que não tem condição de ir a uma galeria ou a um espetáculo, por exemplo, têm a possiblidade de desfrutar da arte. Dessa forma, quando o artista vai para a rua expor seu trabalho, ele deixa a arte mais acessível, democratizando-a. públicos de diferentes formas de arte têm seu acesso comprometido em apresentações e exposições artísticas, seja em função de limitações financeiras, decorrentes da elevada precificação praticada por este setor, seja por uma blindagem cultural dos ambientes dos equipamentos culturais da cidade, mesmo que com acessos gratuitos. (PANONTIN,2018).
A segunda hipótese, aborda o conceito de identificação. O contato direto que o artista tem com o seu público, faz com que aconteça uma identificação. Por conta disso, gera uma maior interação entre os dois, fazendo com que o público enxergue o artista como alguém próximo a ele, e não alguém distante, o que acaba acontecendo em espaços como galerias, concertos, teatros, etc. A
10 plateia que assiste o artista na rua, são pessoas que sentem uma certa identificação com aquele artista que está se apresentando, por isso, ocorre uma maior interação e consequentemente, uma democratização na arte. Segundo Figueiredo (2017), a relação direta entre público e artista, coloca ambos no mesmo patamar e quebra a mitificação do artista, algo tão presente nos formatos de apresentações tradicionais, como casas de shows e espetáculos, por exemplo.
11 Considerações Finais Sobre as Hipóteses
Foram realizadas cinco entrevistas em profundidade com artistas de rua da Avenida Paulista no segundo semestre de 2020. Três homens e duas mulheres, com uma média de idade entre 20 e 35 anos. Com essas entrevistas, foi possível comprovar as hipóteses que foram apresentadas no item acima. A questão da acessibilidade foi comprovada por todos os entrevistados, que afirmaram que a arte de rua é uma arte livre, espontânea e de fácil acesso. Ou seja, qualquer pessoa de qualquer classe social, gênero, idade, etc, pode ter acesso a arte de maneira democrática através dos artistas de rua que expõem seus trabalhos nas ruas. A segunda hipótese, referente a identificação também foi comprovada. Todos falaram que o público que para para vê-los é um público que de alguma forma se identifica com o trabalho deles e fica para acompanhar o show. O músico Carlos Novais, ou melhor, Kacá Novais, como prefere ser chamado, foi entrevistado em setembro e explanou melhor essa questão. Segundo ele, as pessoas que param para ouvi-lo tocar é porquê de algum jeito de identificou com ele, seja pela música que ele toca, seja pelo modo que ele se veste, pelo cenário que ele monta para as apresentações ou até mesmo pela energia que ele passa durante seus shows nas ruas. De acordo com o músico, se alguém que está simplesmente andando pela Avenida Paulista, para e fica ali assistindo sua apresentação é porque gostou e se identificou com algo que viu. Portanto, podemos concluir que as duas hipóteses apresentadas nesse trabalho foram debatidas e concluídas de forma positiva, onde as duas foram comprovadas através de entrevistas em profundidade realizadas durante o projeto.
12 Justificativa
A principal motivação para este tema, se deve ao fato de os artistas de rua levarem a arte para todos de forma democrática, mas ainda assim, serem pouco valorizados na nossa sociedade atual, sendo muitas vezes, considerados como pedintes pela população leiga. Com o decreto de 2014, que regulamenta as apresentações artísticas nas ruas de São Paulo, os artistas de rua vêm aos poucos se tornando peças fundamentais em uma sociedade que clama por cultura. Isso se deve ao fato, da arte de rua ser uma arte que está ao alcance de todos, os artistas simplesmente expõem seu trabalho e as pessoas que passam por ele, em um dia movimentado ou em um dia calmo, param e olham para apreciá-la. A cultura elitista presente nas galerias de arte, teatros e afins, restringe a presença de um público menos favorecido, tornando a arte limitada a uma classe média-alta. Com a presença dos artistas de rua, a arte acaba sendo apresentada as classes mais baixas da nossa sociedade, democratizando assim, algo que só era visto por quem podia pagar. Olhar para os artistas de rua pode ser um passo em direção à uma cidade mais democrática, construída a partir da ideia de pertencimento coletivo, integrada de forma mais orgânica ao contexto global. É preciso ir muito além da preparação de terreno para megaeventos e suas duradouras consequências, indo além, inclusive, da supervalorização da esfera privada em detrimento da sociabilidade pública e das manifestações artísticas na cidade. (REIA, 2014).
A Avenida Paulista, grande centro comercial da capital paulista, é fechada aos domingos exclusivamente para que intervenções e manifestações artísticas e culturais aconteçam, e por conta disso acabou se transformando em um grande palco para os artistas que se apresentam nas ruas, possam mostrar seus trabalhos para aqueles transeuntes que passam pela avenida. “Verificamos que, cada vez mais, artistas visuais cruzam o espaço fechado da galeria – domínio por excelência dos críticos de arte-, abrindo-se à rua e a outros públicos” (DIÓGENES et al., 2016).
13 A Paulista aos domingos é totalmente diferente da Paulista nos outros dias da semana, onde só se vê pessoas apressadas para seus respectivos trabalhos. No domingo, a avenida deixa de ser uma Paulista cinza e fria e se torna uma Paulista colorida, alegre e viva. E a arte de rua traz isso à cidade, deixa a cidade mais humana e menos robotizada. Através da produção do documentário, o presente trabalho analisa a democratização da arte através dos artistas de rua, dá voz aos mesmos e mostra que não só de dificuldades vive a arte de rua, mas também de alegrias por aqueles que a fazem e por aqueles que param um instante que seja para apreciála.
14 Plano Estratégico
Para a execução do presente trabalho, foi definido um plano estratégico para o segundo semestre de 2020, onde foi dividido por meses. No mês de agosto, mês de volta às aulas, ficou estabelecido a etapa de pré-produção. Essa primeira etapa consistia em redigir pauta, entrar em contato com as fontes, agendar entrevistas e elaborar as questões que seriam feitas às fontes. Para setembro, ficou estipulado a parte de ir a campo. Realizar as entrevistas, captar imagens para o documentário e fazer as transcrições das entrevistas foram as atividades determinadas para esse mês. Para outubro, foi estabelecido a etapa de roteiro e edição do produto, ou seja, esse foi o mês escolhido para escrever o roteiro do documentário, analisar todo o material e montar um roteiro coerente e conciso, de acordo com o tema proposto. E logo após isso, fazer a edição. Para o mês de novembro, foi determinado a última etapa do trabalho, onde consiste na finalização do documentário, fazer pequenos ajustes e realizar o presente relatório.
15 Descrição do Produto
“O Palco das Ruas” é um documentário do formato televisivo, com duração de 29 minutos e 58 segundos. O filme que conta a história de cinco artistas que se apresentam nas ruas da movimentada avenida da cidade de São Paulo, a Avenida Paulista, foi feito através de entrevistas captadas pelas plataformas digitais, no caso, o Zoom, aplicativo de chamadas de vídeos. A obra que tem vídeos dos arquivos pessoais dos artistas se apresentando antes da pandemia provocada pelo novo coronavírus, foi realizada 99% em casa com recursos digitais, porém aquele 1% são de imagens das ruas da Avenida Paulista que foram filmadas presencialmente em um único dia no mês de outubro. O título “O Palco das Ruas”, é um título curto, de impacto e marcante, dando ênfase ao tema do trabalho, que são os artistas de rua. Esse título nos faz pensar que a rua também pode ser palco para as artes, também pode ser explorado pelos artistas e por todos aqueles que gostam de uma boa arte. O projeto que foi pensado para dar voz aos artistas de rua, utilizou o recurso de “Voz de Deus”, um recurso bastante utilizado em documentários, onde consiste em “costurar” o que os personagens falam para poder dar sentido ao que foi dito, quase como que se um completasse o outro. Para a abertura do filme, foi escolhida a música “Potato Deal”, do Craig MacArthur, uma música sem direitos autorais, disponibilizada na Biblioteca de áudio do YouTube. Essa canção foi escolhida, pois tem uma batida que combina com introdução de vídeos, e por ser mais alegre, passa a sensação de que algo interessante está prestes a começar. A abertura é marcada por frases ditas pelos entrevistados sobre a arte de rua ser uma arte democrática, uma arte livre. Logo após isso, vem o título em um fundo desfocado, deixando-o mais moderno.
- Sinopse
5 artistas e um único objetivo: levar a arte para todos de maneira democrática. A arte sempre foi algo que encantou o ser humano e a arte de rua
16 não poderia ser diferente. Uma arte sem restrições e que traz alegria a quem passa por ela. E na avenida mais famosa de São Paulo, a Avenida Paulista, a rua se transforma em palco para esses artistas. E é nesse palco que eles podem ser eles mesmos, podem ser livres para fazer o que ama.
- Recursos Gráficos
Começando pelas fontes, temos 2 fontes que integram o documentário. A primeira é a fonte “homework”, uma fonte que foi baixada da internet e tem uma grafia que lembra algo manuscrito, algo mais desenhado. Essa fonte foi escolhida para o título, por ser uma fonte com mais detalhes e bonita. A mesma fonte também foi usada no GC para os nomes dos personagens, para dar um destaque a mais a eles. A segunda fonte também foi baixada da internet e chama-se “Made Envolve Sans”. Essa fonte mais formal, sem serifa, foi utilizada para textos em geral e apesar de simples e formal, deixa o texto mais elegante e legível. As cores que predominam os recursos gráficos do filme são laranja, amarelo ouro e azul escuro, sendo o laranja a principal. Essas cores são alegres, coloridas, fortes e marcantes, tudo o que o tema do trabalho trata, por isso, combinam perfeitamente com a obra.
Acima podemos ver a arte feita para o GC. Nele temos as cores escolhidas para a parte gráfica do projeto, e também alguns detalhes que fazem a diferença, como o palhaço fazendo malabares representando os artistas de rua e os símbolos da música e do teatro, representando as artes.
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A logo do documentário, dá destaque ao título, deixando-o em evidência em um fundo laranja, a cor principal do projeto.
No encerramento do documentário, foram utilizados lettering’s com frases marcantes dos personagens e na imagem acima, podemos ver um exemplo com as cores escolhidas para o projeto e como ficou a arte dos lettering’s, algo bem colorido e alegre, transmitindo positividade ao final do filme.
- Trilha sonora Toda a trilha sonora do documentário é composta por músicas da Biblioteca de áudio do YouTube e vídeos que mostram os músicos que participaram do projeto cantando. Logo após a abertura (já citada anteriormente) e a apresentação dos artistas de rua, a primeira música que se destaca é a “Cat Circus” do Doug Maxwell, uma música sem direitos autorais e baixada da Biblioteca de áudio do YouTube. Essa canção lembra as músicas clássicas de circo, é animada e combina perfeitamente com a cena do Guilherme Frattini (o Palhaço Musir), um dos entrevistados, chegando na Avenida Paulista e se preparando para mais uma apresentação na rua. Como Frattini trabalha com espetáculos de circo na rua, então a música e a cena se entrosam em perfeita harmonia.
18 Mais para frente, temos a cantora Myrella Nascimento, uma das personagens do filme, cantando a música “Toda forma de Amor”, do Lulu Santos, em um vídeo da própria artista se apresentando na rua, marcando assim, sua história de como começou a tocar na Avenida Paulista. Para marcar a mudança de assunto em um determinado ponto da obra, foi escolhido um vídeo do músico Diego Goldas, um dos entrevistados, onde ele canta um country mais animado, deixando a mudança de assunto mais leve e natural. A falta de visibilidade na mídia foi um dos assuntos abordados no trabalho e logo após o músico Kacá Novais expor sua opinião sobre isso e relatar sua participação em um programa de TV, a trilha sonora que marca esse momento ficou por conta do próprio cantor, onde vemos o artista se apresentando nos palcos da TV Record cantando “Sangue Latino” do Ney MatoGrosso. O vídeo desse momento foi encontrado no YouTube, no canal da TV Record, que leva os créditos de forma apropriada. Para marcar mais uma mudança de assunto, é novamente nos apresentado uma música sem direitos autorais da Biblioteca de áudio do YouTube, dessa vez, “Catch Up” do Dan Lebowitz. Essa canção do gênero country/folk, vem acompanhada de imagens da Avenida Paulista, que foram filmadas presencialmente, é animada e de alguma forma passa essa sensação de “música para usar em imagens de cidade”. Diego Goldas, nos contou a história de quando ele conheceu o cantor Alceu Valença, astro da música popular brasileira, por isso, não poderia faltar o vídeo do artista cantando com Valença a canção “La Belle de Jour”, marcando assim, sua história e seu discurso sobre acreditar nos seus sonhos e não ter medo. Para o encerramento do documentário, foi escolhida a música “Everglow” do Patrick Patrikios, canção sem direitos autorais e encontrada na Biblioteca de áudio do YouTube. A melodia dessa canção nos passa uma sensação de inspiração e com os lettering’s de frases marcantes dos personagens combinou perfeitamente.
19 Para os créditos finais, foi escolhida mais uma música da Biblioteca de áudio do YouTube e sem direitos autorais. “Café Con Leche” do Silent Partner, é uma canção alegre e para os créditos ficou perfeita, pois o documentário acaba com uma sensação boa de felicidade, nos deixando mais leves e refletindo sobre a arte de rua, tema do projeto.
- Capa e adesivo do DVD
Para a capa do DVD do documentário, foi pensado em uma estética que lembrasse uma pintura feita a mão. A foto que preenche toda a capa foi fotografada por mim mesma, em um dia onde fui fazer algumas imagens da Avenida Paulista. A imagem ganhou um filtro de pintura à óleo presente no
20 Photoshop e também um outro que parece que as peças estão se encaixando, dando um efeito artístico bem detalhado. Para o título foi usado a logo já feita para o documentário e as fontes utilizadas no filme, já mencionadas anteriormente. Foram usadas também duas tarjas laranjas, cor principal do projeto, com algumas informações (uma na frente e uma atrás, como mostrado na imagem acima). Também foi adicionado na parte de trás um rolo de câmera com alguns prints tirados do filme, para mostrar ao público um pouco do que é o documentário.
21 O adesivo/etiqueta do DVD, segue a mesma estética da capa, com a foto da Avenida Paulista preenchendo todo o disco, com a logo do filme destacada na parte superior e algumas informações no lado direito e esquerdo.
22 Público a ser atingido
“O Palco das Ruas” é um documentário com classificação indicativa livre, então todos podem assistir. Porém, como a película aborda temas como arte, visibilidade na mídia, dificuldades enfrentadas pelos artistas de rua, arte livre e democrática, o público-alvo acaba sendo os próprios artistas de rua, estudantes de arte e de comunicação, professores de arte e todos aqueles que gostam e apreciam arte. Também podemos destacar como público-alvo, as pessoas de classes mais baixas, que veem na rua a possibilidade de consumir arte.
23 Aspectos Metodológicos
O presente trabalho utilizou uma pesquisa qualitativa, onde foi priorizado relatos do grupo estudado, no caso, os artistas de rua. Foi realizado entrevistas em profundidade com as partes envolvidas no projeto, para entender melhor como funciona a arte de rua, qual a relação que o artista tem com a arte e o que o levou a se apresentar nos espaços públicos das ruas de São Paulo, mais especificamente, na Avenida Paulista. Para garantir um maior envolvimento e aprofundamento com o tema, foi realizado com levantamento bibliográfico, onde foram discutidos os principais tópicos: a arte de rua, a democratização da arte através das ruas, suas principais dificuldades e o lado positivo de se fazer arte na rua. Os relatos coletados serviram de base para a seleção de histórias que fazem parte integrante da produção do documentário “O Palco das Ruas”, produção essa, que tem como objetivo dar voz aos artistas, mostrando as dificuldades, mas também mostrando a importância da arte de rua para a cidade e para a sociedade, além de dar ênfase a democratização da arte através dos artistas que expõem seu trabalho nas ruas da Avenida Paulista.
24 Referencial Teórico
Os artistas de rua têm um papel fundamental na construção de uma cidade mais humanizada, já que eles tiram o cinza da cidade grande e a deixa mais colorida e alegre. Eles também nos mostram uma arte feita para o povo, tornando-a parte de uma cultura popular. É o que explica a doutora em comunicação, Maria Isabel Amphilo (2011): “a cultura, no espaço social, tem a função de integrar a sociedade, independentemente de classe social, religião, sexo, idade, enfim, indistintamente, em prol do bem comum”. Como a arte de rua faz parte da cultura popular brasileira, já que a cultura popular pode ser definida como qualquer intervenção que o povo produz e participa ativamente, podemos traçar um paralelo com as teorias sobre folkcomunicação do jornalista, escritor e pesquisador brasileiro, Luiz Beltrão. A teoria proposta por Beltrão estuda os meios de comunicação das classes menos favorecidas e folclóricas, e como essa camada da sociedade precisa criar adventos para se comunicar. Com essa teoria, podemos analisar a arte de rua como algo que pertence a cultura popular e como ela precisa criar seus próprios meios de comunicação para poder ser apresentada. Grupos sociais urbanos e rurais, que são marginalizados socialmente ou culturalmente, não se encontram representados na grande mídia, ou simplesmente não têm acesso a ela. Isso faz com que esse povo desprezado pelos meios de comunicação tradicionais, como televisão, rádio e impresso, estabeleçam o seu próprio meio de se comunicar. A arte de rua geralmente não é anunciada e divulgada pela mídia, por isso, o artista precisa trabalhar na sua própria divulgação, seja no boca-a-boca ou utilizando a internet e suas redes sociais. Os artistas de rua vivem em uma sociedade capitalista que não os enxerga, e a mídia, dá pouca oportunidade para os mesmos se destacarem na famosa indústria cultural. Segundo Beltrão (2001, p. 56): A literatura, a arte, as crenças, os ritos, a medicina, os costumes dessas camadas sociais, os seus meios de informação e de expressão continuam ignorados em toda a sua força e verdade. O que
25 impossibilita a comunicação e a comunhão entre governo e povo, elite e massa.
Embora a comunicação popular esteja presente na sociedade brasileira desde antes da descoberta do Brasil (já que os índios tinham sua própria forma de se comunicar), ela nunca foi de fato relevante para a classe mais elevada da população. Para a elite, o popular não importa tanto quanto ela. As ideias da folkcomunicação vem justamente para trazer uma luz às camadas populares brasileiras e incluí-las à sociedade. “A folkcomunicação tem por objetivo maior o desenvolvimento regional, a inclusão e transformação social, a compreensão das mensagens populares e a promoção da integridade” (Amphilo, 2011). Podemos também relacionar a folkcomunicação com a principal questão desse trabalho. A democratização da arte. Como já foi dito, essa teoria de Beltrão tenta proporcionar uma maior inclusão das classes sociais mais baixas, e é exatamente isso que a arte de rua traz. A arte de rua, inclui e dá acesso a uma arte mais democrática, uma arte que pode ser vista por todos, sem restrições. Para Beltrão (2001, p.70), o meio jornalístico poderia acrescentar mais a população se registrasse os produtos feitos pela camada popular, como artesanatos, obras de pintores, escultores, ceramistas, rendeiras, gravadores e até de cozinheiras. Porém, os meios midiáticos, preferem dar espaço a produtos que estão inseridos na indústria cultural e que gere lucro para eles. Algo feito pelo povo, dificilmente vai render algum dinheiro e visibilidade para a grande imprensa, e infelizmente, é isso que move a sociedade capitalista brasileira. Portanto, as manifestações culturais e artísticas presentes na Avenida Paulista aos domingos, através dos artistas de rua, é uma forma da classe popular brasileira se expressar e mostrar através da arte, suas tradições, talentos e opiniões. Por mais que ainda sejam marginalizados pela grande massa, os artistas de rua seguem representando a cultura do povo. Como já foi dito anteriormente nesse trabalho, a Avenida Paulista aos domingos é um palco gigante de artistas que se apresentam em espaços públicos para mostrar seu talento. Artistas das mais variadas culturas, etnias, idade, gênero, etc. Por conta disso, podemos relacionar a cultura e arte das ruas
26 com os estudos culturais propostos pelo teórico cultural e sociólogo britânicojamaicano, Stuart Hall. Em sua obra, A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, Hall (2006) nos apresenta o sujeito pós-moderno. Um sujeito fragmentado, que sofre influência não só de uma, mas de várias culturas. Por isso, podemos comparar esse sujeito que Hall menciona com os nossos artistas de rua da Avenida Paulista. Na avenida mais famosa de São Paulo, nos deparamos com os mais variados artistas. Encontramos músicos brasileiros que cantam o rock dos ingleses Beatles, vemos pintores que se inspiram nos traços do espanhol Salvador Dalí, dançarinos que imitam os passos do americano Michael Jackson, etc. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ''eu" coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. (HALL, 2006, p. 13)
Quando um artista nordestino, por exemplo, migra para São Paulo para tentar a sorte nas ruas da capital paulista, ele não deixa sua cultura de lado, mas ele adquire novos hábitos, hábitos que pertencem a cultura do sudeste. Esse artista acaba se tornando um sujeito fragmentado. Tudo isso faz parte das transformações que ocorrem no mundo e dos processos de globalização que vem ocorrendo nas últimas décadas. Com essa teoria, podemos analisar melhor a questão da identificação do público com o artista. Quando um artista está na rua mostrando seu trabalho na rua, várias pessoas passam por ele. Porém, só aquelas que se identificarem com ele, vai ficar para vê-lo. Isso se deve a arte que ele apresenta e também por características que ele tem que fazem o público se identificar com ele. Por exemplo, um músico nordestino está tocando um forró do Luiz Gonzaga no meio da Avenida Paulista. Aquelas pessoas que param para assisti-lo, são pessoas que se identificam com ele, seja pela música ou pelas características que ele apresenta. O autor também traz o conceito de culturas nacionais. Segundo Hall (2006, p. 47), no mundo moderno que vivemos, as culturas nacionais onde nascemos fazem parte da nossa identidade cultural, entretanto, essa identidade não está no
27 nosso DNA. Ou seja, por mais que você pertença a um lugar, fale a língua e coma as comidas típicas desse local, você pode se identificar com a cultura de um outro lugar, tornando-se um sujeito com uma identidade pluralizada. As duas teorias abordadas aqui podem facilmente se relacionar. A folkcomunicação estuda os meios de comunicação do povo e dos marginalizados. Os estudos culturais de Stuart Hall, identifica os tipos de sujeitos presentes na sociedade. Hall (2006, p. 55-56), nos explica que o povo folk de uma identidade nacional dificilmente vai ter algum poder perante a elite, exatamente como os artistas de rua, que têm pouca visibilidade na mídia: A identidade nacional é também muitas vezes simbolicamente baseada na ideia de um povo ou folk puro, original. Mas, nas realidades do desenvolvimento nacional, é raramente esse povo (folk) primordial que persiste ou que exercita o poder.
Os artistas de rua são um grupo com identidades fragmentadas e variadas, com pouco espaço na grande mídia, mas que acabam criando seu próprio meio de comunicação. São artistas que veem na rua a possiblidade de mostrar seu trabalho de forma democrática, onde todos podem ter acesso.
28 Referências
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29 DIÓGENES, Glória et al. As Cidades e as Artes de Rua: Olhares, linhas, texturas, cores e formas (apresentação). Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.47, n1, p. 11-24 jan/jun 2016. EU, artista. Victoria Abel. São Paulo: YouTube, 17 de maio de 2018. Documentário. 52 min. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=JAlzgkxq6ag > Acesso em: 10 de outubro de 2020. EXPRESSÃO da rua. Expressão da Rua. São Paulo: YouTube, 23 de janeiro de 2014. Documentário. 28 min. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=BMQo5Hh3Q7g > Acesso em: 31 de agosto. FALCÃO, Denise. Músicos de Rua em Barcelona: Um olhar sobre essa prática social. Revista Brasileira de Estudos do Lazer. Belo Horizonte, v. 5, n. 2, p. 86-104, mai/ago 2018. Disponível em: < https://periodicos.ufmg.br/index.php/rbel/article/view/607/413 > Acesso em: 06 de março de 2020. FIGUEIREDO, Natalia de Almeida. Música de rua e ocupação de espaço público em São Paulo: Uma análise baseada no fechamento da Avenida Paulista aos domingos. 2017. Trabalho de Conclusão de curso (Gestão de Projetos Culturais). Universidade de São Paulo – Escola de Comunicações e Artes, São Paulo, SP, 2017. Disponível em: < http://celacc.eca.usp.br/sites/default/files/media/tcc/projeto_musica_de_rua_nat alia_figueiredo.pdf > Acesso em: 15 de março de 2020. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. Ed. Rio de Janeiro. DP&A. 2006. LINS, Consuelo; MESQUITA Cláudia. Filmar o Real. Rio de Janeiro. Zahar. 2008. LUCENA, Luiz Carlos. Como fazer documentários: conceitos, linguagem e prática de produção. 3. Ed. São Paulo. Summus. 2018. MARIN, Tiago Rodrigo et al. A arte como trabalho na Avenida Paulista. Mnemonise. s.l. v. 7,n. 2, p. 134-165. 2011. PARONTIN, Paulo Cesar. Arte de Rua na cidade de São Paulo: táticas urbanas, aproximações e negociações entre artistas e o mercado. ESPM. 2018. Disponível em: < http://anais-
30 comunicon2018.espm.br/GTs/GTPOS/GT5/GT05_PANONTIN.pdf em: 12 de março de 2020.
>
Acesso
PIRES, Heloíse. A realidade e sonhos dos artistas de rua de São Paulo. Fala Universidades. Nov. 2017. Disponível em < https://falauniversidades.com.br/arealidade-e-sonhos-dos-artistas-de-rua-de-sao-paulo/ > Acesso em: 18 de março de 2020. REIA, Jhessica. A cidade como palco: Artistas de rua e a retomada do espaço público nas cidades midiáticas. Contemporânea. Rio de Janeiro, ed. 24, vol. 12, n. 2, 2014. Disponível em: < http://celacc.eca.usp.br/sites/default/files/media/tcc/projeto_musica_de_rua_nat alia_figueiredo.pdf > Acesso em: 05 de março de 2020. SALGADO, Cássia Pilar. O trabalho de artistas de rua em Porto Alegre. 2017. 93 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Programa de Pós-Graduação em Serviço Social. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. VICENTE, Adriana. Artista de rua além dos clichês. São Paulo. Casa Flutuante. 2016.
31 Cronograma
CRONOGRAMA GERAL – PROJETO DE PESQUISA E PROJETO EXPERIMENTAL Atividade
Escolha do tema Pesquisa Bibliográfica Delimitação do tema.
Objetivos + Problemas + Hipóteses. Introdução; Justificativa; Aspectos Teóricos e Metodológicos. Entrega Do Projeto de Pesquisa Pesquisa de fontes Contato com as fontes + Início das gravações Final das gravações Decupagem das sonoras Roteiro Edição do documentário Finalização e Ajustes
JAN
FEV
MAR
ABR
MAI
JUN
X
X
X
X
X
X
JUL
AGO
X
X
SET
OUT
NOV
X
X X
X
X
X X X X X X
Relatório
X
Entrega do Trabalho de Conclusão de Curso.
X
DEZ
32 Orçamento
ORÇAMENTO GERAL Item
Quantidade
Valor Unitário (em média)
Valor total
Passagem de ônibus
01
R$ 4,40
R$ 4,40
Passagem de trem / metrô
02
R$ 4,30
R$ 8,60
Táxi de Aplicativo
01
R$ 9,99
R$ 9,99
Lanche
01
RS 12,50
R$ 12,50
Capa para DVD
02
R$ 4,50
R$ 9,00
DVD para gravação
02
RS 3,00
RS 6,00
Total:
R$ 50,49
33 Apêndices
- Pauta Vanessa Linhares Pereira
PAUTA
O PALCO DAS RUAS PRODUTO: Documentário
TEMA/ASSUNTO: Artistas de Rua
DATA DA ENTREVISTA: 2º semestre de 2020
HISTÓRICO A arte de rua sempre foi algo que fez parte da cultura popular. Os artistas que se apresentam nas ruas da Avenida Paulista trazem para a cidade mais alegria e nos mostram uma arte democrática, onde todos têm acesso. ENFOQUE/ANGULAÇÃO Mostrar o lado positivo da arte de rua e como ela contribui para uma sociedade mais democrática. POSSÍVEIS PERGUNTAS 1 - Me conta um pouco da sua história na arte. 2- O que o levou a se apresentar nas ruas? E como é se apresentar nas ruas? 3- Vocês artistas de rua se ajudam ou rola algum tipo de competição? 4- A prefeitura dá algum suporte ao artista de rua? 5- Como é a recepção do público perante ao artista de rua? E qual a sua relação com o público? 6- Quais as maiores dificuldades enfrentadas pelo artista de rua? 7- Na sua opinião, a arte de rua é uma arte democrática? 8- De que forma vocês artistas de rua, contribuem para a democratização da arte? 9 - Como está sendo esse momento de pandemia para você? 10- Dá para viver de arte no Brasil?
34 11 - Você já sofreu algum tipo de preconceito por se apresentar na rua? 12- Além de se apresentar nas ruas, você se apresenta em outros lugares? 13- Qual a diferença da Paulista para outros lugares? 14- Na sua opinião, os artistas de rua têm pouca visibilidade na grande mídia? 15- Você tem alguma história engraçada ou inusitada que já aconteceu com você tocando nas ruas? Poderia contá-la? FONTES Diego Goldas, músico. E-mail: diegogoldas@gmail.com; telefone: (11) 94845-2678 Guilherme Frattini, palhaço, malabarista e músico. Instagram: @palhacomusir; e-mail: palhacomusir@gmail.com Kacá Novais, músico. Instagram: @kacanovais; telefone (11) 98181-8116 Myrella Nascimento, cantora e compositora. Instagram: @myrellamusic; telefone: (11) 982630887 Thalia Ribeiro, aerelista e professora de tecido. Instagram: @thaliaribeiiro_; e-mail: thalia.ribeiro99@gmail.com
PAUTA DE:
REPÓRTER
Vanessa Linhares
Vanessa Linhares
35 - Roteiro
Roteiro: TEMPO
TIPO
ÁUDIO / TEXTO
VÍDEO / IMAGEM
0’05” a 0’15”
BG
Música ao fundo
Imagens da Avenida Paulista
Música ao fundo 0’15” a 0’24”
PER
0’25” a 0’30”
BG
Música ao fundo
PER
Música ao fundo
0’31” a 0’34” 0’34” a 0’38”
O ato de apresentar na rua é um ato muito democrático, no geral, a Entrevista Guilherme Frattini ( maioria dos artistas escolhem, que 13’40” – 13’50”) escolhem isso, que não tão lá por falta de opção, escolheram por ser um ato democrático.
Guilherme Frattini se apresentando na Paulista
Entrevista Diego Goldas (10’03” – A arte de rua é a arte mais 10’06”) democrática de todas. BG
Música ao fundo
Diego Goldas se apresentando na Paulista
Música ao fundo
0’39” a 0’49”
PER
0’50” a 0’54”
BG
0’55” a 1’06”
Não tem como não ser democrático, só você andar pela Paulista que você Entrevista Kacá Novais (28’01” – vai ver assim óh, cada, cada 100 28’17”) metros tem alguém fazendo uma coisa completamente diferente e para quem se identifica com aquilo, então é democracia total assim Kacá Novais se apresentando na Música ao fundo Paulista Música ao fundo
PER a arte ela tem que ser democrática pra ela continuar existindo, é… a arte de rua, o artista ele sempre vai expressar aquilo que ele pensa,
Entrevista Thalia Ribeiro (10’13” – 10’25”)
36 1’07” a 1’11” 1’12” a 1’19”
BG Música ao fundo
Thalia Ribeiro se apresentando na Paulista
Música ao fundo PER
É o palco mais democrático e ninguém sabe que o meu show vai tá acontecendo, as pessoas param ali porque gostam do meu som
1’20” a 1’24”
BG
Música ao fundo
Myrella Nascimento se apresentando na Paulista
1’25” a 1’29”
BG
Música ao fundo
Imagens da Avenida Paulista
1’30” a 1’34”
BG
Título do documentário + Música de fundo
Imagem da Paulista com fundo desfocado
1’35” a 1’45”
PER
Meu nome é Kacá Novais, tenho 33 anos, sou artista independente e toco na rua tem 4 anos e meio, quase 5 anos.
Entrevista Kacá Novais (5’41” – 5’53”)
1’46” a 2’04”
PER
2’05” a 2’14”
PER
2’15” a 2’26”
PER
2’27” a 2’42”
PER
Meu nome é Thalia Ribeiro, eu tenho 20 anos, eu faço tecido, circo, aéreos em geral faz uns 7 anos e faz 4 anos que eu trabalho com apresentações e dando aulas de tecido. É, eu sou o Diego, tenho 35 anos, sou natural do Rio Grande do Sul, toco na rua desde que eu cheguei em São Paulo em 2013. Profissão, músico. Meu nome é Myrella Nascimento, eu trabalho com música há 20 anos, mas tocando na rua há 2 anos, desde 2018. Meu nome de batismo é Guilherme, Guilherme Frattini, mas meu nome que geralmente sou mais conhecido, Palhaço Musir, tenho 20 anos. (...) acho que faz uns 3,4 anos que comecei assim.
Entrevista Myrella Nascimento (2’58” – 3’06”)
Entrevista Thalia Ribeiro (0’21” – 0’40”)
Entrevista Diego Goldas (0’14” – 0’26”)
Entrevista Myrella Nascimento (0’15” – 0’26”)
Entrevista Guilherme Frattini (2’22” – 2’45”)
37
2’43” a 3’15”
3’15” a 3’50”
3’51” a 4’07”
BG
PER
PER
4’08” a 4’24”
PER
4’25” a 4’49”
PER
Música ao fundo
eu era músico antes de conhecer o circo assim, eu trabalhei com música, comecei a trabalhar mesmo com 14 anos, trabalhava numa companhia de dança, de teatro e dança, comecei a tocar, me envolver, me envolver, fui fazer faculdade de música. acho que no segundo ou terceiro ano de faculdade (...) acabei conhecendo um pessoal, fazendo um curso de palhaço, fui me envolvendo, me envolvendo, me envolvendo, aí fui migrando da música para o circo assim. Do circo de modo geral, mas principalmente a palhaçaria e malabares também junto assim, as três linguagens principais, música, malabares e palhaço. Eu comecei fazendo aula de violão, de teclado, lá pelos meus 9 anos de idade e depois fiz aula de canto, sempre gostei muito de música, compus minha primeira música com 15 anos de idade e aí não parei mais. música é uma coisa que tá presente na minha vida desde sempre, né. Minha mãe cantava, é, antes de eu nascer, e enfim. Provavelmente ela cantava pra mim da barriga, né. Então eu já já, tava me familiarizando com a música desde sempre. Comecei na música com 15 anos, ou seja, há 20 anos atrás. Participei de um grupo coral por 5 anos lá no Rio Grande do Sul, toquei em banda de Punk Rock e fazia barzinho também, violão e voz. Depois cheguei em São Paulo, fiz é, conservatório, canto popular e fui pra rua.
Guilherme Frattini chegando na Paulista para uma apresentação
Entrevista Guilherme Frattini (3’01 3’20”, 3’22”-3’34” e 3’35”-3’44”) + Fotos do Guilherme começando no circo
Entrevista Myrella Nascimento (0’45” – 1’02”)
Entrevista Kacá Novais (6’03” – 6’21
Entrevista Diego Goldas (0’31” – 0’49” e 1’07”- 1’20”) + Fotos
38
4’50” a 5’04”
PER
5’04” a 5’59”
PER
6’00” a 6’11”
PER
6’11” a 6’42”
PER
Eu comecei a fazer aula de circo com um projeto que havia aqui na minha cidade, como uma atividade cultural, né, como na maioria dos lugares, pra, pra diminuir um pouco o tempo livre, né? quando tinha já 5 pra 6 anos, ela me colocou na aula de música, na aula de piano. E aí eu comecei tocando piano, até os meus 12,13 que foi quando eu peguei o violão. Aí eu peguei o violão com 12 pra 13 anos, com 13 pra 14 eu já fui convidado por um amigo da família que já tinha tocado em bar, que já tinha essa experiencia de bar, e falou “meu, vamos tocar nuns barzinhos”. E minha mãe ia junto com a gente, com 14 anos eu já comecei a tocar em bar e fui embora, tocando em bar, em bar, em bar, em bar, até uma hora que deu uma cansada, uma saturada da coisa do bar, e do público, enfim, muitas coisas, muitas coisas dentro do bar que já não faziam mais sentido. Aí eu abri uma empresa e fui fazer outras coisas e tal, e meio que dei uma deixada de lado assim na música na real. Eu cheguei em São Paulo, eu não conhecia ninguém, a melhor maneira de apresentar o seu trabalho é tocando né, e onde é que... as pessoas tão aonde? Tão na rua, então fui pra Paulista. Em 2016 foi o ano em que nasceu o meu filho, eu tive que dedicar a maternidade, fiquei quase 2 anos fora do mercado e eu perdi todos os contatos que eu tinha, né, (...) o mundo não para, você é substituído. E aí, eu me vi a oportunidade de ir para a rua justamente para retomar do zero tudo o que eu precisava de contatos.
Entrevista Thalia Ribeiro (0’53” – 1’13”)
Entrevista Kacá Novais + Fotos
Entrevista Diego Goldas (1’27” – 1’39”)
Entrevista Myrella Nascimento (1’17” – 1’50”)
39 6’42” a 7’08”
7’09” a 7’44”
7’45” a 8’58”
TS
PER
PER
Myrella Nascimento cantando Lulu Santos E a Avenida Paulista, que foi aonde eu fui tocar, é a melhor vitrine, porque eu já frequentava lá, já via outros músicos de rua tocando, ficava, nossa, aqui passa gente do Brasil inteiro, do mundo inteiro, pra eu divulgar meu trabalho, tinha uma Caixa de cd’s, que eu tinha feito, que eu não consegui vender, por conta do nascimento do meu filho, então eu fui vender esses cd’s, o primeiro impulso foi esse, de querer vender os cd’s que eu tinha guardado e retomar os contatos que eu tinha pra fazer eventos e shows. Hum… a primeira coisa que me levou, né, a fazer essas apresentações na Paulista, principalmente, que é um bom lugar assim, foi porque eu não encontrava muitos lugares pra fazer o tecido. Então, geralmente quando eu encontrava um espaço, ele tava vinculado com alguma instituição e aí você tinha que pagar pra praticar naquele determinado local ou você tinha que … não sei, ser de tal grupo, de algum lugar ou só podia em tal horário, que eu não podia, então a primeira coisa que me levou a isso foi procurar um lugar pra fazer tecido, pra praticar, né? Pra minha prática. E aí eu conheci a Paulista, lá tem um lugar perfeito pra montar o tecido, né, quer dizer tem os seus defeitos também, mas tem uma boa estrutura pra montar o tecido e… No dia que eu fui montar o tecido, eu conheci uma galera que já fazia apresentações lá, só que de slackline, e eu meu juntei com eles e comecei a apresentar junto com eles.
Myrella na rua – Lulu (0’21” – 0’35”)
Entrevista Myrella Nascimento (1’50” – 2’23”)
Entrevista Thalia Ribeiro (2’07”3’24”) + Imagens de apoio
40
8’59” a 9’19”
PER
9’20” PER a 10’30”
10’31” a TS 10’52”
Comecei a buscar na rua uma coisa diferente, desde a música eu tinha muita vontade de trabalhar na rua, só que era muito difícil pra mim trabalhar com música na rua assim. Daí comecei a pesquisar, pesquisar muito assim, buscar mestres, de fora, aqui no Brasil cê não vê muito mestres de arte de rua, ter tem, mas geralmente eles acabam saindo da rua por questão financeira mesmo. Uma amiga muito querida falou “cara,é… cê já pensou em tocar na rua?” eu tava já sentindo a necessidade de tocar, fiquei quase 8 meses sem tocar, sem pegar no instrumento assim, foi uma época de escassez, de não querer tocar. E aí ela veio e me apresentou essa perspectiva da rua A prior eu fiquei meio, “nossa, mas na rua?” Tipo, sei lá, estranho. Eu tive um certo preconceito, como quase todo mundo tem. Só que ela começou a me colocar mais a par da coisa, começou a me explicar, “não, cara, na rua é isso, tem aquilo”, já tinha várias outras pessoas que tocavam, né, na Avenida Paulista, inclusive. E aí eu comecei a olhar pra aquilo de uma forma um pouco mais amena assim, eu comecei a gostar da ideia, ela começou a falar, falar, falar, e a gente teve muitas conversas. Até que eu resolvi ir, dá uma olhada, ver o que que acontecia, falei “meu, isso é legal, eu acho que é isso”, e aí eu senti vontade de voltar a tocar e já foi direto na rua. E aí, isso aí já tem uns 4 anos e meio. Diego Goldas cantando na Paulista
Entrevista Guilherme Frattini (3’53” – 4’00” e 4’07” – 4’20”)
Entrevista Kacá Novais (8’24” – 9’35”) + Imagens de apoio- Kacá na Paulista
Diego Goldas na rua (0’00” – 0’22”) + Imagens da Paulista com pessoas passando
41
10’53” a PER 11’10”
11’11” a PER 12’07”
12’08” a PER 12’24”
12’24” PER a 12’53”
Uma das principais dificuldades na rua é o clima assim, a chuva, ou se tá muito quente, muito sol, não é sempre que tu consegue uma sombrinha pra tocar e às vezes tu consegue, mas o sol gira, né, e tu fica no sol e não tem como ficar mudando de lugar porque é muito equipamento também né. Eu acho que uma delas seria… é… o espaço público como um lugar proibido. E… ele não é bem proibido e não é bem liberado, então essa é uma grande dificuldade, porque às vezes chega a polícia e pede pra tirar, então tipo assim “ah, não pode ter manifestação cultural se não for…”, e nem tem uma lei certa pra isso, mas eles encontram um jeito de nos deslegitimar, né. Então… eu acho que essa é uma grande dificuldade de poder fazer a arte na rua, que é ter a… a aprovação jurídica pra fazer isso, né, tipo, de repente eu tô aqui, pode vim um policial me tirar, depende do policial, se tá num bom dia, não tá num bom dia, então é uma coisa que nem eu mesma sei onde é que eu realmente posso fazer arte. Teve uma época que começaram a recolher os camelôs, né, a galera que vendia essas coisas e a gente como músicos, também, a gente ficou preocupado, e a gente sempre quis legalizar, até porque a intenção não é fazer baderna, a intenção é levar a arte pra galera, né. … é o governo né, que deveria ter essa responsabilidade de fazer isso se tornar uma prática legal, é com… sei lá, como é na Europa, né. Um ponto fixo, toca uma hora, sai, vai pra outro ponto, outro artista vem no teu lugar, acaba sendo uma… uma maneira de rotacionar os artistas, até mesmo pro público que tá, que é mais de um lugar
Entrevista Diego Goldas (7’36” – 7’54”)
Entrevista Thalia Ribeiro (6’57” – 7’58”) + Imagem de apoio: Thalia Ribeiro na Paulista (0’31” – 0’43”)
Entrevista Diego Goldas (8’34” – 8’50”)
Entrevista Diego Goldas (9’18” – 9’50”) + Fotos
42 especifico, também não se cansar, e ter uma rotatividade, né.
12’54” a PER 13’55”
13’56” PER a 14’23”
14’24” a PER 14’47”
Existe uma cartilha, quase ninguém sabe, inclusive muitos artistas de rua não têm nem ideia de que existe isso, mas existe uma cartilha com direitos e deveres, né, e são coisas assim que deveriam ser básicas assim, é, como é que eu posso dizer? Orgânicas até, né. Que é cê manter o espaço limpo e tal, que são seus deveres, né. E… E por exemplo, não tocar de repente perto de um local onde tenha hospital, isso pode realmente prejudicar alguém, enfim, que tá em tratamento, esse tipo de coisa, maneirar no volume, né, lei do silêncio, puts, o cara tá lá Meia-Noite tocando com uma caixa de som ligada com um som exorbitante, esse tipo de coisa, mas assim, existe lei, é regulamentado e não a prefeitura não dá nenhum suporte, nada, nada, nada, nada. A gente tem que ir por conta própria mesmo. A outra coisa é… a rentabilidade disso, né? Porque fazer arte na rua não é uma coisa que tem um retorno muito rentável, então às vezes acaba tendo muito desgaste físico, emocional, pra receber uma quantia em dinheiro que não suporte, que não dê apoio a todo esse trabalho O chapéu é uma realidade no começo é muito difícil assim, o mais difícil, na verdade, é você chamar o público e não conseguir ter as pessoas ali, isso eu acho a maior dificuldade da arte de rua de longe, acho que entrar na rua, além pra ganhar dinheiro, claro, pra conseguir conectar as pessoas, etc, então quando isso falha, acho que essa é a maior dificuldade assim
Entrevista Kacá Novais (16’41” – 17’43”) + Imagens de apoio
Entrevista Thalia Ribeiro (8’42” – 9’11”)
Entrevista Guilherme Frattini (10’30” -10’52”)
43
14’48” a PER 15’10”
15’11” a PER 15’40”
15’41” a PER 16’46”
Geralmente, a, quando a pessoa, quando você fala que se apresenta na rua e tal, a pessoa ela vai te olhar com um olhar muito distante, sabe? Ela não te olha mais como... como uma pessoa que tá igual ela, ela te olha como uma pessoa que tá precisando de alguma necessidade e tudo mais, ela já te coloca num patamar diferente, né? É, geralmente quando ele (artista) aparece na mídia, ele aparece ou de uma forma apelativa, né? Então, “ah, ajuda tal pessoa porque estão sofrendo”. É… eu acho que pro artista independente de rua falta um trabalho de.. de incentivo pra além da.. dos olhos de necessidade, sabe? De “olha que legal, esse artista aqui fazendo isso, hoje vocês vão ver um pouquinho”, sabe? Por exemplo, teve uma edição do The Voice, que teve uma menina que se destacou muito e que ela cantava no metrô. Mas eu percebo que, por exemplo, eles utilizaram esse fato de uma forma que não foi muito legal, assim no meu ver, porque “nossa, cê acredita que a menina tocava no metrô?”, tipo assim, e daí? Ela podia tocar na casa dela, no banheiro, na sala, na cozinha, na rua, no metrô ... que que tem a ver uma coisa com a outra? Eles colocaram de uma forma que eu não gostei muito, sabe? Tipo como se fosse nossa, coitada, né, toca no metro e não, né? É uma menina que toca e foi lá expor o trabalho dela no metrô. Eu participei de um programa de televisão em rede nacional também, que é o The Four, e eles trataram muito melhor, o Kacá toca na rua, arrasta multidões, outro ... foi outro contexto assim, sabe? Mas, cê vê pouco, né, cê vê muito
Entrevista Thalia Ribeiro (18’00” – 18’25”)
Entrevista Thalia Ribeiro (20’32” – 20’44” e 21’23” – 21’41”)
Entrevista Kacá Novais (44’45” – 45’55”) + Fotos no The Four
44 pouco, porque-porque rola um certo preconceito mesmo, em geral 16’47” TS a 17’14” 17’15” a 17’41” PER
17’42” a PER 18’10”
18’11” a BG 18’25”
18’26” a PER 18’57”
18’58” a PER 19’27”
Kacá Novais cantando sangue latino do Ney Matogrosso no The Four. A gente tem uma... uma visão que ainda é atrasada, né? Do cara que toca na rua ser aquele cara que não tinha opção e aí puts, sabe? Teve que ir tocar na rua, sabe? Como se fosse um pedinte, como se fosse um mendigo que tá lá pedindo esmola, não, ele tá mostrando o trabalho dele. Esse enaltecimento assim da arte por ela mesmo, sem tá ligada com a condição de que ela tá sofrendo, precisando e eu acho que se tivesse… se a grande mídia tivesse suportando, apoiando os artistas independentes dessa forma, talvez não precisasse chegar a tanto, né? É… nesse caráter apelativo. Música ao fundo É muito gostoso poder fazer a minha arte num espaço público, né? É… sentir que a cidade também é minha e que eu tô lá fazendo a minha contribuição, também é muito gostoso, às vezes tem gente que para e gosta do que vê e é uma coisa que alegra o dia dessa pessoa, então…Tem esse lado do carinho, né, que é muito gostoso é o momento onde eu me sinto a pop star ali, porque no barzinho eu to meio ali como decoração, vão lá pra comer, beber e tem uma música ao vivo, evento corporativo tem até um pouco mais de atenção, mas as pessoas tão lá para uma conferencia, e tem a música na hora do almoço, entendeu? E na Paulista não. Ali é o meu show, as pessoas que tão paradas ali porque tão gostando, e é um momento que eu consigo até
Kacá Novais na Record
Entrevista Kacá Novais (46’19” – 46’44”)
Entrevista Thalia Ribeiro (21’44” – 22’14”)
Passeio pela Avenida Paulista
Entrevista Thalia Ribeiro (3’56” – 4’27”)
Entrevista Myrella Nascimento (7’33” – 8’04”)
45 melhorar, como performance de palco assim.
19’28” a PER 20’08”
20’09” a PER 20’47”
20’48” a PER 21’33”
O público aceita muito bem. [...] , eles não tão esperando então, às vezes tu sai cansado do trabalho, tu não tá esperando encontrar um artista, tu senta ali uns 10,15 minutos. A galera gosta muito. E São Paulo é meio que isso, né, São Paulo é, é, é essa… essa variedade cultural. Dificilmente tu vai conseguir se manter como músico de rua no interior, pelo fluxo de pessoas mesmo, não que não haja cultura, tem muita cultura no interior, mas acho que pra poder viver na rua, eu acho que não é possível. São Paulo possibilita isso pela diversidade cultural, as pessoas, elas abraçam a causa assim, né. tocar na rua é diferente que tocar em qualquer outro lugar. Eu já toquei em palcos enormes, abri show da Anitta, já fechei Virada Cultural, toquei depois do Zeca Baleiro, em placos grandes, pra muitas pessoas, 90, 100 mil pessoas, sozinho ali e tal. E eu acho que eu só consegui fazer isso, sozinho, eu com o meu violão por conta da experiencia que eu tive na rua assim, é uma experiencia muito única. Eu sempre falo que todo artista, todo músico deveria ter pelo menos uma vez na vida essa experiência de ir lá e tocar na rua, uma vez que fosse, sabe? Tipo, só pra sentir como é. eu nunca tive rejeição nenhuma assim, todas as vezes que toquei, desde a primeira vez, eu tive uma roda enorme e cada dia mais e hoje em dia minha roda já passa da ciclovia muitas vezes, tipo, não tem como passear pela via onde eu tô tocando porque fica gente
Entrevista Diego Goldas (5’01” – 5’48”) + Imagens de apoio Diego na Paulista
Entrevista Kacá Novais (9’43” – 10’15” e 12’05” – 12’20”)
Entrevista Kacá Novais (19’13” – 20’05”) + Imagens de apoio: Kacá na Paulista
46
21’34” PER a 21’41”
21’42” a PER 22’25”
22’26” TS a 23’14”
23’14” a PER 23’41”
tomando a rua inteira assim, todo mundo curtindo e dando risada, e cantando junto e tal, então foi o lugar que fui mais bem recebido de todos até mesmo comparando com os palcos enormes de centenas e milhares de pessoas assim, a rua ainda é o lugar que eu mais gosto de tocar, que eu mais sou bem recebido. É a coisa do autônomo, né, do artista autônomo, ele se, auto, se auto provêm, e a rua é muito melhor por causa disso. Tem a história do Alceu Valença que é a mais, a mais… é o pico assim de tocar na rua. Eu tava tocando lá na Paulista e… eu vi que… eu tava tocando na frente de um café lá e eu vi que entrou um cara, entraram dois caras e um era parecido com ele, e falei “poxa, vou tocar uma música do Alceu, né”, sei lá, vai que, né… Aí eu toquei e ele veio logo em seguida, dançando e pediu pra cantar e ele tava com um amigo que acabou filmando e ele postou no Facebook dele na época e foi tipo assim, viralizou, passou em todos os canais de TV, aí me chamaram pra dar entrevista, foi um rebuliço só. Diego cantando com Alceu Valença
E foi muito gostoso, né. Foi muito gostoso porque… porque tu sai do interior do Rio Grande do Sul, 20 mil habitantes, tu vem pra São Paulo sem conhecer ninguém, e daqui a pouco tu tá cantando com um ídolo teu, é uma parada meio que pra selar assim essa coisa do… do não tenha medo, saca? Faça o que você tem vontade, não se deixe… faça o que te faz feliz, né
Entrevista Diego Goldas (17’06” – 17”15”)
Entrevista Diego Goldas (20’15” – 20’22” e 22’18”- 22’55”)
Diego Goldas cantando com Alceu Valença (0’01” – 0’52”)
Entrevista Diego Goldas (22’56”23’22”)
47
23’42” a PER 24’50”
24’51” a PER 25’09”
25’10” a PER 25’38”
Você dá uma volta na… quer dizer, agora não dá porque é pandemia, mas se você fosse andar antes na Paulista, é… é democrática pelo público que pode assistir, todos podem assistir, porque tá ali gratuita, a pessoa, obvio que o artista deixa um chapéu, uma mala, uma caixinha ali pra pessoa contribuir se quiser, ninguém é obrigado a contribuir com quantia de dinheiro nenhuma, então todo mundo pode assistir, né. E como eu já falei, tipo, as situações dos moradores de rua, de mendigos tirando a moedinha e dando ali no meu chapéu, não aconteceu uma vez, aconteceu três vezes… os que tiraram e deram e outros que assistiram e curtiram, ficaram deitados no chão da Avenida Paulista nesse sentido. E tem o lado democrático pelos ritmos também que são apresentados lá né, tem sertanejo, tem… tem uma galera do pagode, tem a galera do funk, tem a galera que vai pra dançar, tem... tem cenas de grupos de teatro que fazem encenação pública. Mas eu acho que isso também acontece pela Avenida Paulista ser esse polo cultural. A arte em si é democrática, ela --- a arte de rua, né, só por estar em espaço público, não ter requisito, a pessoa fica se ela quiser, a pessoa não tá obrigada a tá ali, por moral do teatro, nem nada, se ela quiser ela vai embora, então a base.. toda… a base da arte de rua é democrática. É uma arte totalmente democrática porque você faz o que você tá afim de fazer, cê consegue realmente se expressar, né. Você consegue realmente expressar o que você quer expressar e não o que a mídia acha legal ou que fulano, ou que
Entrevista Myrella Nascimento (10’37” – 11’52”) + Imagens de apoio: Myrella na Paulista
Entrevista Guilherme Frattini (13’53” - 14’11”)
Entrevista Kacá Novais (25’43” – 26’14”)
48
25’39” a PER 26’20”
26’20” a PER 26’58”
26’59” a PER 27’52”
barzinho decidiu que ali vai tocar aquela música. Então ali é uma forma super democrática de você mostrar o seu trabalho, de você mostrar sua arte geralmente a arte ela trabalha não só com a, com a possibilidade do artista, mas também com mostrar universos diferentes ao público, né? Mostrar possibilidades diferentes ao público, então, olha, tem uma pessoa pendurada na Paulista, eu nunca imaginei que desse pra se pendurar, eu nunca imaginei que desse pra usar a Paulista nesse espaço. Então… essa apresentação em si, essa apresentação da própria arte, ela gera no outro a possibilidade, e tá nessa possibilidade, nessa diversidade a democratização, né? A democracia. eu acho massa porque eu tô ali tocando e eu como sei os meus deveres também, de manter o espaço, de zelar pelas pessoas e tudo mais já dei vários corretivos assim, tipo o cara tá tomando cerveja e joga o negócio no meio fio e eu falo “ôhhh, amigão, pô, qual que é?” Ou às vezes de eu pegar, parar de tocar e falar “gente, peraí só um pouquinho”, vou lá pego o papel, jogo no lixo e galera bate palma “aê, uhul” Tipo, então não é só democrático, mas é educativo, tem vários pontos positivos, né, vários pontos positivos. Muita gente tem o seu emprego formal, suas oito horas diárias, não entende como que alguém consegue, às vezes a galera acha que é esmola, né. E não é, tipo é uma coisa muito além disso. A gente não tem um Estado democrático de entender que quando a gente faz… quando a gente se diverte fazendo o que faz, isso não deixa de ser trabalho, né.
Entrevista Thalia Ribeiro (11’40” – 12’26”)
Entrevista Kacá Novais (29’05” – 29’47”)
Entrevista Diego Goldas (10’59” – 11’57”) + Imagens de apoio: Diego na Paulista
49
27’53” a PER 28’57”
28’58” a BG 29’05”
A galera daqui acha que trabalhar é fazer algo que tu não gosta por oito horas, trancado no escritório e depois ir pra casa… e não é, saca? Fazer uma coisa que tu gosta também é trabalho, então eu acho que a nossa… essa democratização vem de tu colocar na cabeça das pessoas que isso é... que isso é importante pro convívio, né, pra deixar o nosso dia mais leve, pra fazer as pessoas felizes, não só essa coisa consumista. Arte é aquilo que preenche, que dá sentido à vida. E arte de rua, eu acho que vem nesse papel como… uma forma espontânea e de livre acesso, eu acho principalmente, democrático. Onde todos podem ter acesso a isso, a isso que não é essencial, mas é essencial pra vida, não é essencial pra sobrevivência, mas é essencial pra que haja uma vivência, um desenvolvimento humano, de uma sociedade como um todo. E arte de rua é a surpresa, é o desprevenido, é tudo e.. e pra todos, né? Acho que isso, arte de rua é pra todos, além de, tem uma questão filosófica da arte de rua, da liberdade plena, o artista, é de livre expressão, do artista e do público assim. E não existem regras. Na arte de rua não existe contrato, não existe expectativa de um lado ou outro, o artista não pode esperar do público porque ele nunca vai saber quem é o público dele, o público não pode esperar o artista, porque ele nem sabe que vai encontrá-lo. Então… eu acho que é isso, é o mesmo significado da arte, mas de forma mais democrática, pra todos, levar arte pra todos, o principal da arte de rua, é isso. Música ao fundo + Lettering “Artista popular, no geral, é fadado ao desconhecimento, sua arte não vai ficar e vingar. Mas é isso, a
Entrevista Guilherme Frattini parte 2
Foto Guilherme Frattini + o lettering
50 gente escolheu isso e é lindo, é momentâneo, é livre, é 100% livre” – Guilherme Frattini (Palhaço Musir) Música ao fundo + Lettering 29’06” a 29’11” BG
29’11” BG a 29’14”
“Tem uma música minha que chama “Um Abraço”, e eu resolvi filmar o clipe na Paulista e é justamente pra mostrar essa coisa de ser artista de rua, de juntar e de dar abraço na galera e tal”. – Myrella Nascimento Música ao fundo + Lettering “A cultura também tem que ser cuidada”. – Diego Goldas
Foto Myrella Nascimento + o lettering
Foto Diego Goldas + o lettering
Música ao fundo + Lettering 29’15” a BG 29’20”
29’21” a BG 29’27”
29’28” a BG 29’58”
“Cada pessoa dando um pouquinho de si na sua arte, assim, vai ser construída essa democratização [na arte]”. – Thalia Ribeiro. Música ao fundo + Lettering “A arte tira as pessoas das drogas, tira as pessoas de caminhos ruins, muda a vida das pessoas que tem contato com ela, e na rua eu pude perceber muito isso”. – Kacá Novais
Música ao fundo + Créditos
Foto Thalia Ribeiro + o lettering
Foto Kacá Novais + o lettering
créditos
51 - Transcrições das entrevistas
Gravação: Entrevista com Diego Goldas
Pag.xxx
Realização da gravação: 03/09/2020 Obs.: Procure apontar o time code de 10’’ em 10’’ para inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora Time code in
Descrição da tomada e/ou transcrição da sonora
Time code out
0’06”
Antes de começar, gostaria de pedir pra você se
0’13”
apresentar, falar seu nome, idade, profissão e há quanto tempo você toca na rua. 0’14”
É, eu sou o Diego, tenho 35 anos, é, sou natural do Rio
0’27”
Grande do Sul, toco na rua desde que eu cheguei em São Paulo em 2013. Profiissão, músico. 0’28”
Pra começar, me conta um pouco da sua história na
0’33”
música. 0’34”
Comecei na música com 15 anos, ou seja, há 20 anos atrás.
0’49”
Participei de um grupo coral por 5 anos lá no Rio Grande do Sul, toquei em banda de PunkRock e fazia barzinho também, violão e voz. 0’50”
Então sempre tive essas três vertentes muito fortes, o rock,
1’06”
o coral e o violão, né, que são coisas, é… distintas ao primeiro olhar assim, mas fizeram parte da minha formação. 1’07”
Depois cheguei em São Paulo, fiz, é, conservatório, canto
1’20”
popular, e… e fui pra rua. Basicamente isso. 1’21”
E o que o levou à ir pras ruas?
1’25”
1’27”
É que como eu cheguei em São Paulo, eu não conhecia
1’39”
ninguém, a melhor maneira de apresentar o seu trabalho é
52 tocando né, e… onde é que… as pessoas tão aonde? Tão na rua, então, fui pra Paulista. 1’40”
E como é tocar nas ruas?
1’42”
1’43”
É muito legal. As pessoas são muito receptivas. É… tô meio
2’24”
ruim da garganta. É… É fantastico na verdade, essa troca né, com o público que não tá esperando um artista numa esquina qualquer de São Paulo, então acaba sendo muito interessante ver a reação deles quando tu toca alguma música tocante pra eles, né, eles se sensibilizam, sei lá. Não sei muito bem (risos). 2’25”
E vocês artistas de rua se ajudam ou rola algum tipo de
2’30”
competição? 2’31”
A gente se ajuda bastante, mas … eu sempre achei que
2’51”
músico era um, era uma galera, é… como é que eu posso te dizer… uma galera mais espiritualizada assim, mas tem muito músico que não vale 1 real, cara (risos). 2’52”
Nossa, eu fiquei muito surpreso assim, porque tem muita
3’05”
galera gente boa, mas tem galera muito competitive, que quer te… que acaba te atrapalhando, que não tem um senso, um senso de coletivo né 3’06”
Porque às vezes a gente acha, bom a gente tá na rua, a
3’18”
gente faz o que a gente quer, não. A gente, a gente vive numa sociedade e tem regras mesmo na rua tem suas regras pra seguir, né 3’19”
Fora que existe ali o bom senso e… e aí que muita gente não tem, o bom senso e o senso coletivo. Saber que… Por exemplo, quem chegar primeiro tem uma certa prioridade por um certo tempo, mas não faz dele o dono do local, nem o dono da rua, então tem vários aspectos aí a serem observados e que a maioria não leva muito em consideração assim, é uma galera muito individualista que acha que o seu som, a sua vida, é… acaba, acaba
4’03”
53 transpassando essa, essa coisa do coletivo, né. E tá errado, tá muito errado. 4’04”
E como que a recepção do público perante ao artista na
4’08
rua? 4’09”
É maravilhoso. A galera é muito legal. A galera aceita muito
4’15
bem, contribui bastante. 4’16”
Tiveram épocas muito boas. Hoje em dia já não é mais, né.
4’28
Mas em 2013 quando comecei tinha poucos artistas de rua, a Paulista nem, ainda nem havia sido aberta, né, ao público. 4’29”
Depois que abriu a Paulista começou a vim uma
4’41”
competitividade muito grande, muito músico acabou indo pra lá. Muito músico sem educação e sem respeito, com um som altissímo, 4’42”
Por exemplo, eu sempre toquei violão e voz, né, é dificil
5’00”
competir com uma banda do teu lado, aí tu pensa, ah, vou chegar mais cedo… eles não tão nem aí, chegam Meio – Dia, colocam do teu lado e arregaçam o som, mas enfim, fugi um pouco do assunto. 5’01”
O público aceita muito bem. É aquilo que eu te falei, né,
5’14”
eles não tão esperando então, às vezes tu sai cansado do trabalho, tu não tá esperando encontrar um artista, tu senta ali uns 10,15 minutos. A galera gosta muito. 5’15”
E São Paulo é meio que isso, né, São Paulo é, é, é essa… essa
5’48”
variedade cultural. Dificilmente tu vai conseguir se manter como músico de rua no interior, pelo fluxo de pessoas mesmo, não que não haja cultura, tem muita cultura no interior,mas acho que pra poder viver na rua, eu acho que não é possível. São Paulo possiblita isso pela diversidade cultural, as pessoas, elas abraçam a causa assim, né. 5’49”
E qual a sua relação com o público?
5’54”
5’55”
Minha relação?
5’56”
54 5’57”
É. Você interage bastante com eles? Como é?
6’00
6’02”
Cara, eu sou… não sei explicar assim, eu sou um pouco
6’20”
tímido, mas… mas também não sou, então quando eu tô com o violão na mão, eu me solto, mas a interação quem faz na verdade é a música, né, eu sou só um condutor assim, eu não… 6’21”
Eu converso um pouco, mas nada que tire a música de foco,
6’28”
né. As pessoas se conectam com a música, não necessariamente comigo, né. 6’29”
Então acaba sendo… é meio que uma coisa de psicografia,
6’43”
sabe? Eu sou só um condutor do negócio, eu não, não… mas eu tento não me meter muito assim, na relação música – público. 6’43”
Embora eu seja, né, esse condutor, mas eu deixo a música
6’55”
chegar sem… Quando tu precisa explicar muito significa que a música não tá fazendo sentido, então não tem porque tocar né 6’56”
Entendi. E quais as maiores dificuldades enfrentadas pelo
7’02”
artista de rua? 7’03”
Com certeza clima. Nossa, clima é muito tenso. Tu pega
7’32”
uma época das chuvas de março ali, passa oito horas na rua sem conseguir tocar, com equipamento lá parado. Às vezes, tu… a chuva para, tu vai lá fica um tempão montando equipamento, daqui a pouco desaba água, aí é interessante porque até o público vai te ajudar a tirar as coisas, porque é muito rápido né. 7’33”
Então acho que uma das principais… uma das principais dificuldades na rua é o clima assim, a chuva, ou se tá muito quente, muito sol, não é sempre que tu consegue uma sombrinha pra tocar e às vezes tu consegue, mas o sol gira,
7’54”
55 né, e tu fica no sol e não tem como ficar mudando de lugar porque é muito equipamento também né. 7’55”
E a prefeitura dá algum suporte, algum apoio ao artista ou
8’00”
não? 8’01”
Não, nunca tivemos nada da prefeitura. Até teve um esboço
8’33”
ali de comunicação, é… referente a se cadastrar, mas daí era sempre assim: Oh, a galera ia na prefeitura e falavam que não sabiam de nada, aí tu ia pra rua, apareciam os fiscais falando que ia ser cobrado e não sei o quê, tu voltava, eles nunca é… é uma… como que eu posso te dizer? Uma desinformação deles próprios assim, né. 8’34”
Teve uma época que começaram a recolher os camelôs, né,
8’50”
a galera que vendia essas coisas e a gente como músicos, também, a gente ficou preocupado, e a gente sempre quis legalizar, até porque a intenção não é fazer baderna, a intenção é levar a arte pra galera, né. 8’51”
Pega a Paulista que é o Centro de São Paulo agora, é o
9’06”
Centro novo, tem muita gente passando e virou essa coisa consumista de shopping, né. A galera vai no shopping e entra e sai e é o consumo o tempo inteiro. 9’06”
E poxa, eu acho que a gente não pode ser hipócrita, o
9’12”
consumo é importante sim, mas não só. 9’13”
A cultura também tem que ser… tem que ser cuidada, né. E quem cuida disso é … é o governo né, que deveria ter essa responsabilidade de fazer isso se tornar uma prática legal, é com… sei lá, como é na Europa, né. Um ponto fixo, toca uma hora, sai, vai pra outro ponto, outro artista vem no teu lugar, acaba sendo uma… uma maneira de rotacionar os artistas, até mesmo pro público que tá, que é mais de um lugar especifico, també não se cansar, e ter uma rotatividade, né.
9’50”
56 9’51”
Mas… Brasil né, minha querida Vanessa.
9’55”
9’56”
É verdade.
9’56”
9’57”
Brasil.
9’57”
9’58”
Na sua opinião, a arte de rua é uma arte democrática?
10’01”
10’02”
A arte na rua, a arte de rua é a arte mais democrática de
10’06”
todas. 10’07”
E de que forma, vocês artistas de rua, contribuem para
10’12”
essa democratzação? 10’13”
Eu acho que a gente contribui justamente por isso, né,
10’30”
justamente por isso, indo pra rua… é uma forma de… é… é uma forma de… quando os artistas vão, eles tem que achar uma forma de conviver entre si, né. 10’30”
Porque somos nós convivendo entre si, precisamos de
10’58”
dinheiro, porque a gente tem conta pra pagar, então, eu acho que essa democratização vem daí, da gente se entender, já que o governo não intercede por nós, é a gente ter essa voz ativa de, de conseguir nos manter quanto cidadão, como músico e… e… conseguir viver nesse contexto social de…de… 10’59”
É uma coisa bizarra que é tocar na rua, né. Muita gente tem
11’14”
o seu emprego formal, suas oito horas diárias, não entende como que alguém consegue, às vezes a galera acha que é esmola, né. E não é, tipo é uma coisa muito além disso. 11’14”
A gente não tem um Estado democrático de entender que
11’29”
quando a gente faz… quando a gente se diverte fazendo o que faz, isso não deixa de ser trabalho, né. 11’30”
A galera daqui acha que trabalhar é fazer algo que tu não gosta por oito horas, trancado no escritório e depois ir pra casa… e não é, saca? Fazer uma coisa que tu gosta também é trabalho, então eu acho que a nossa… essa democratização vem de tu colocar na cabeça das pessoas
11’57”
57 que isso é.. que isso é importante pro convivio, né, pra deixar o nosso dia mais leve, pra fazer as pessoas felizes, não só essa coisa consumista de… 11’58”
Não sei se eu tô falando, é… eu acho que é isso…
12’04”
12’05”
O que eu acho bacana na arte de rua também é porque
12’26”
vocês quebram essa paradigma, né, de que a arte é só pra galeria, pra museu, etc, traz arte pra rua e o público que tá ali, ele pode assistir de uma forma livre e espontanea, eu acho bem legal isso 12’26”
É exatamente isso.
12’28”
12’30”
E como que tá sendo esse momento de pandemia pra
12’33”
você? 12’35”
Tá sendo terrível. Tá sendo terrível. É… é que eu ainda
12’55”
tenho… cara, eu não vou… eu não vou me vitimizar assim, é… a minha situação é muito confortável. 12’56”
A minha esposa ela trabalha em hospital, então pra ela
13’17”
acabou sendo… ela até… ela até tá tirando mais, tá ganhando mais agora que antes da pandemia, porque… ela é psicologa, então as consultas dela passaram a ser online,então ela não tem mais a locação que era um custo alto, então a gente tá acabando tirando mais dinheiro. 13’18”
Então não tô nessa situação ruim, tanto é que eu nem pedi
13’25”
auxilio emergencial porque não queria tirar de quem realmente precisa. 13’26”
Eu tenho uma posição confortável onde eu tô, eu não
13’33”
preciso ir pra rua porque a nossa fonte de renda ela, ela é boa. 13’34”
Mas agora tem muitos amigos que tão passando por um super sufoco, tão no auxílio emergencial e que… é uma situação bem… bom, é algo mundial né, então é isso, a galera se virando pra conseguir se manter.
13’51”
58 13’52”
O bom disso é que vem a criatividade. Tem amigos que tão
14’09”
fazendo música por… é… é tipo mande uma música pra alguém, daí a pessoa compõe, manda e ganha uma caixinha pra isso, então o artista, cara, é um bicho assim, é inacredítavel. 14’10”
Ele sempre tira um jeito de conseguir se manter e esse é o
14’25”
lado bom do brasileiro, né. Eu acho que isso é uma coisa muito do Brasil assim, de se virar não importa o que aconteça, agora pra mim eu não posso falar por mim, porque eu não tô passando por isso, não. 14’26”
E dá pra viver de arte no Brasil?
14’31”
14’32”
Dá, dá pra viver sim de arte no Brasil. Aos trancos e
14’38”
barrancos, mas dá. 14’39”
E além de tocar nas ruas, você faz eventos? Vai tocar em
14’44”
bares? 14’45”
Cara, eu não gosto muito de bar. É… eu evitei bar por muito
15’03”
tempo e eu fiquei só na rua por muito tempo. Aí quando a rua começou a ficar mais difícil, eu comecei a mesclar, bares e rua. 15’05”
E também gravo disco, né, eu componho, então eu tenho
15’19”
dois discos gravados, então.. eu acabei de graver um agora, no comecinho da pandemia, tá lá no spotify, no deezer e todas as plataformas. 15’20”
E… esse é um dos motivos que eu não gosto de tocar em
15’29”
bar, porque bar tem aquela cultura de… ah, cara, bar é um negócio que vou te contar, Vanessa… meio chato, sabe? 15’30”
Galera quer escutar sempre as mesmas coisas e a gente quer mostrar a nossa música autoral e não tem espaço, aí a galera já bebe, já quer tocar um sertanejo e eu não suporto sertanejo, entendeu?
15’40”
59 15’41”
Eu gosto do rock, não aquele rock pesado, mas pô, eu gosto
15’55”
dos Beatles, gosto de uma parada com uma letra mais importante assim, eu sempre vou naquele contexto social da mudança, eu acho que o sertanejo não muda nada na nossa vida. 15’56”
Pode falar que eu sou preconceituoso. Eu acho o funk muito
16’05”
mais relevante que o sertanejo. O funk pelo menos é uma realidade periferica ali, saca? 16’06”
O sertanejo não. O sertanejo é uma música feita pra vender,
16’19”
comercial e eu acho que… as coisas que a gente passa, eu acho que esse é um cunho arti… o artista vem também de mostrar a realidade, não só entreter. 16’20”
É muito diferente, tu entreter e tu … e tu fazer arte, acho
16’40”
que são coisas bem distintas assim, eu sempre fui mais do lado da raiz da arte do que do entretenimento assim, se me chama pra um bar pra tocar sertanejo, eu prefiro ficar sem essa grana e não ir porque eu sei que vou ter problemas. 16’42”
E qual a maior diferença que você sente entre em tocar
16’48”
num bar, num evento e tocar na rua? 16’51”
É justamente essa, na rua eu faço o meu repertório, eu não
17’03”
sigo um horário, eu não preciso dar satisfação, eu chego a hora que eu quero, saio a hora que eu quero, é…. 17’05”
Aí eu sou… é a coisa do autonomo, né, do artista autonomo,
17’15”
ele se auto, se auto provêm, e a rua é muito melhor por causa disso. 17’16”
A
diferença é no bar tu tem um contrato fechado, tu já
sabe quanto tu vai ganhar, na rua não tem isso, na rua tu pode sair com 50 reais como tu pode sair com 300, como pode sair com 20, como pode sair sem nada, como já aconteceu várias vezes, de chover o dia inteiro e eu ficar do
17’38”
60 Meio-Dia
às Nove da noite esperando e não rolar, ter
que ir pra casa. 17’39”
Como é um trabalho autonomo e tu não tem um respaldo
17’50”
financeiro, tu tem que saber administrar isso, dias bons tu guardar, pros dias ruins tu se manter, né. 17’51”
E eu sou péssimo em gestão economica.
17’53”
17’54”
E o público também é diferente?
17’57”
17’58”
Ah, totalmente. Totalmente. Por exemplo, se eu tô tocando
18’07”
um rock, eu sei que todo mundo que parou é a galera que tá curtindo rock e que quer isso, né. 18’08”
Agora no bar não, no bar às vezes a galera tá achando
18’35”
horrível o som… porque tem isso,né, tem. A galera que tá lá escutando um … deixa eu ver… sei lá, tu toca um Johnny Cash a galera já torce o nariz. Tem uma galera que adora porque é dificil de tocar, uma galera bem especifica, e já tem a galera do sertanejo que já fica assim, “pô, quero dançar, pô, quero… “ 18’36”
Aí tu tem que ter o máximo de educação possível, pô tu
18’56”
também tá lá cumprindo um contrato com o dono do bar, se tu não traz… se tu não, é… por isso que eu tento mesclar, não toca só rock, toco reggae, toco umas paradas mais dançantes ali porque eu sei que vai ter uma galera que não vai gostar do rock, né 18’57”
E o dono do bar tem que me chamar de novo, se eu quiser a
19’02”
grana, né, é um fato. 19’04”
E você já sofreu algum tipo de preconceito por se
19’10”
apresentar nas ruas ou isso nunca aconteceu? 19’11”
Não, nunca. Já teve, teve algumas coisas assim. Eu fui lá pro Rio de Janeiro, fiquei em Copacabana um mês lá tocando na rua, daí teve um mulher que me jogou água lá, mais uns negócios meio estranho assim.
19’25”
61 19’26”
E não é… não pense que é tipo… é dondoca mesmo, saca?
19’45”
De tá passeando na praia de Copacabana Meio-Dia e se achar no direito de… é que eu tava com um artista de Portugal lá e ele tava falando e eu acho que ela achou que nós dois éramos estrangeiros, dali ela “ah, o Rio é nosso e não sei o quê” e molhou meu equipamento todo assim. 19’46”
Nossa…
19’46”
19’47”
É cara, sempre tem alguma coisa. Aqui em São Paulo já
19’53”
chutaram meu chapéu que voou dinhero pela avenida inteira, 19’54”
Nossa…
19’54”
19’55”
Daí a galera me ajudou a recolher, a galera é sempre muito
20’05”
gente boa aqui, mas tem sempre… eu adoro essa histórias, adoro, mas nada de… 20’07”
E você tem alguma história engraçada ou inusitada que já
20’11”
aconteceu com você? 20’12”
História inusitada é o que mais tem. Tem a história do Alceu
20’26”
Valença que é a mais, a mais… é o pico assim de tocar na rua, tu deve ter pesquisado, tu deve saber do que eu tô falando né 20’27”
Sim, eu vi o vídeo
20’27”
20’28”
É, pra mim foi o ápice, foi muito legal, que é uma coisa
20’44”
que… é que foi bem, foi meio que na época que havia chego em São Paulo, então tu tocar com alguém que desde criança tu escuta é uma parada surreal, sabe? 20’45”
E… todos os contatos de bares que eu fiz vieram da rua, né, as pessoas me viram eu tocando e quiseram me chamar pros bares, isso aconteceu também com documentário do Edu Felistoque, que é um cineasta, que ele fez um documentário chamado Buscando Buskers, que é um documentário sobre artistas de rua que compoem. Então
21’27”
62 ele fez esse documentário comigo e mais alguns artistas e esse documentário foi exibido no canal Sony e depois foi exibido no Lemond da França também, agora ele tá se não me engano, no Music Box Brasil, e essas coisas são meio que gasoline, né, pra gente continuar fazendo arte, né 21’28”
Porque ver o teu trabalho, por exemplo, passando num
21’51”
canal da França é uma coisa muito…. É… muito gratificante pra gente que faz ali, sai de casa com um violão e caixa de som nas costas pr air pro desconhecido, ne, tu vai desbravar o desconhecido, então essas histórias são muito legais. 21’52”
E tem alguma que te marcou mais?
21’54”
21’55”
A do Alceu acho que me marcou mais.
21’58”
21’58”
E como foi a sensação de tocar com ele?
22’01”
22’02”
Cara, foi maravilhosa, né, como eu te falei, é um artista que
22’17”
eu sempre gostei, sempre me identifiquei e quando tu se ver cantando e tocando com ele é… é uma parada que é tão rápida que tu não consegue nem mensurar assim, acho que até hoje não entendi muito bem o que aconteceu. 22’18”
Mas eu tava tocando lá na Paulista e… eu vi que… eu tava
22’37”
tocando na frente de um café lá e eu vi que entrou um cara, entraram dois caras e um era parecido com ele, e falei “poxa, vou tocar uma música do Alceu, né”, sei lá, vai que, né… 22’38”
Aí eu toquei e ele veio logo em seguida, dançando e pediu
22’55”
pra cantar e ele tava com um amigo que acabou filmando e ele postou no Facebook dele na época e foi tipo assim, viralizou, passou em todos os canais de TV, aí me chamaram pra dar entrevista, foi um rebuliço só 22’56”
E foi muito gostoso, né. Foi muito gostoso porque… porque tu sai do interior do Rio Grande do Sul, 20 mil habitantes, tu vem pra São Paulo sem conhecer ninguém, e daqui a pouco
23’22”
63 tu tá cantando com um ídolo teu, é uma parade meio que pra selar assim essa coisa do… do não tenha medo, saca? Faça o que você tem vontade, não se deixe… faça o que te faz feliz, né 23’23”
Que a realidade de um interior de 20 mil habitantes é
23’29”
muuuito diferente e distante daqui 23’30”
E você saiu lá do Sul justamente pra tentar a sorte aqui em
23’35”
São Paulo? 23’36”
Tentar a sorte não… não diria isso, eu acho que a sorte está
23’57”
aonde a gente se propõe né, por exemplo, eu poderia tentar a sorte lá, mas que sorte eu teria? Acho que… tu entende o que eu quero dizer? 23’58”
Aham.
23’58”
23’59”
Mas é uma coisa muito minha, muito gente não consegue,
24’11”
muita gente prefere trabalhar 40 anos numa empresa, e eu respeito, é tipo, a vontade de cada um, mas a minha vontade nunca foi essa. 24’12”
As pessoas falam que tem que ter coragem pra sair assim,
24’22”
se arriscar,eu acho que o que me fez… o que me fez sair foi o medo, não a coragem. 24’22”
O medo de viver uma vida pela metade, saca? De… de ficar
24’33”
num lugar onde… sem grandes… sem grandes coisas assim, saca? Sem grandes aventuras. 24’34”
Eu sagitariano que sou sempre gostei de… do desconhecido.
24’38”
64 Gravação: Entrevista com Guilherme Frattini (Palhaço Musir)
Pag.xxx
Realização da gravação: 26 /09 /2020 Obs.: Procure apontar o time code de 10’’ em 10’’ para inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora Time code in
Descrição da tomada e/ou transcrição da sonora
Time code out
2’13”
Pra começar eu vou pedir pra você se apresentar, falar seu
2’20”
nome, idade, profissão e há quanto tempo se apresenta na rua. 2’21”
Meu nome.. meu nome de batismo é Guilherme, Guilherme
2’51”
Frattini, Guilherme B Frattini, mas meu nome, que geralmente sou mais conhecido, Palhaço Musir, tenho 20 anos, 21, 20. E há quanto tempo me apresento na rua… acho que faz uns três, quatro anos que eu comecei assim,não com espetáculo de circo, mas que eu entrei com outras coisas assim, tocando em bares, é isso. 2’52”
Pra começar, me conta um pouquinho da sua história na
2’59”
arte. Como começou com os malabares, com palhaço e tal 3’00”
Ahãn. Na verdade eu comecei na música, muito cedo, eu era
3’20”
músico antes de conhecer o circo assim, eu trabalhei com música, comecei a trabalhar mesmo com 14 anos, trabalhava numa companhia de dança, de teatro e dança, comecei a tocar, me envolver, me envolver, fui fazer faculdade de música. 3’21”
E no meio disso, acho que no segundo ou terceiro ano de faculdade, eu estudava em Campina, trabalhava em São Paulo, era ida e volta, acabei conhecendo um pessoal, fazendo um curso de palhaço, fui me envolvendo, me envolvendo, me envolvendo, aí fi migrando da música para o circo assim.
3’34”
65 3’35”
Do circo de modo geral, mas principalmente a palhaçaria e
3’44”
malabares também junto assim, as três linguagens principais, música, malabares e palhaço. 3’45”
Daí dentro da palhaçaria eu fui fazendo alguns cursos, daí
4’00”
você começa a fazer vários cursos, começa a perceber que são muito parecidos todos, daí comecei a buscar na rua uma coisa diferente, desde a música eu tinha muita vontade de trabalhar na rua, só que era muito dificil pra mim trabalhar com música na rua assim. 4’01”
Tinha muita didficuldade, não sabia, era muito perdido,
4’20”
trabalhar sozinho com música é dificil, daí comcei a pesquisar, pesquisar muito assim, buscar mestres, de fora, aqui no Brasil cê não vê muito mestres de arte de rua, ter tem, mas geralmente eles acabam saindo da rua por questão financeira mesmo. 4’21”
Daí comecei estudar, estudar, estudar e desenvolvendo o
4’30”
trabalho, tá em desenvolvimento ainda, né. 4’31”
E o que o levou a tocar… desculpa, o que o levou a se
4’35”
apresentar nas ruas? 4’36”
Não sei, foi a .. tá vazando som aí? tá passando carro aqui..
4’44”
4’45”
Tá passando o carro que eu tô ouvindo… eu tô ouvindo
4’49”
bem longe 4’50”
Ah tá bom, pode ir falando normal? Só pra saber.. tá
4’56”
aumentando 4’57”
Deixa passar o carro.. passou?
5’00”
5’01”
Tá bom.. o carro do óleo (risos)
5’05”
5’06”
Aqui na rua também passa de vez em quando o carro do
5’08”
ovo 5’09”
É.. aqui o ovo passa sempre, é o ovo, óleo, churros, vai variando
5’14”
66 5’15”
É…
5’16”
5’17”
Caramba.. passando a 2 por hora…
5’21”
5’22”
(risos)
5’26”
5’33”
Já tá bem baixinho, né?
5’35”
5’35”
Tá. Já. Baixou. Pode continuar
5’38”
5’38”
Qual que era a pergunta mesmo? Desculpa
5’40”
5’41”
O que o levou a se apresentar nas ruas?
5’43”
5’44”
O que me levou? Nossa, que dificil assim… eu acho que a
6’02”
von- uma curiosidade muito grande assim no começo, uma vontade assim de tentar entender, é um negócio muito louco, principalmente espetáculo, né, a gente vê muito pouco e tipo, juntar pessoas do nada. 6’03”
O que mais foi… foi essa questão de não ter nada e criar
6’15”
alguma coisa ali com pessoas, geralmente em roda, em um evento, uma cerimônia ali mesmo momentânea na rua onde o público não tá, que é diferente. 6’15”
Eu já trabalhei muito em teatro, que o público vai assistir o
6’26”
artista, a rua a relação ela é oposta, o artista vai chamar o público, então você é a divulgação, você é tudo e esse processo foi- é muito importante pra mim. 6’27”
E assim, acho que foi isso, o principal motivo, eu sempre tive
6’46”
vontade, não sei por quê, um desejo que eu tinha, foi desenvolvendo e acabei indo pra isso, não achei que fosse parar aqui, mas… (risos), engraçado, na música eu não imaginava assim, era uma realidade muito distante. 6’47”
Daí acabei indo pro circo, conhecendo, existe uma cultura
6’55”
muito forte no circo, né, de arte de rua, e… é, fui desenvolvendo. 6’57”
E como que é a recepção do público perante ao artista de rua? Como que eles recebem os artistas…
7’07”
67 7’08”
Hum, é muito dificil assim, porque é uma relação muito…
7’28”
muito… é ambígua na verdade, porque depende muito do lugar, claro, todo lugar é diferente, geralmente depende muito dos bairros que você trabalha, dos locais, trabalhar no centro é uma coisa, trabalhar for a do centro é outra, trabalhar em bairros muito ricos é outra coisa. 7’29”
É…. Então cada público geralmente reage de uma jeito, de
7’41”
um modo geral, as pessoas acham muito que você tá passando necessidade, que você tá ali porque você queria estar em outro lugar, mas não está, isso é um preconceito geral assim com artista de rua. 7’41”
Que tá na rua é uma falta de opção, não é uma opção assim,
7’47”
e isso não é verdade, nem financeiramente, nem nada assim. 7’48”
Eu vejo muita gente em teatro, circo, que tá passando
8’05”
perrengues assim que artistas de rua nunca imagina passer, então de modo nunca vai faltar trabalho, a não ser quando chove, é o único… e carnaval, são momentos que não dá pra trabalhar na vida, mas… 8’06”
Eu acho que… o público… é que o público de certa forma,
8’19”
concarece muito de arte, assim acesso constante a arte, quando tem você é muito bem recebido, não financeiramente geralmente, né, mas o público em si te recebe muito bem. 8’20”
Quando você vai emu ma cidade do interior, alguma coisa
8’44”
assim, ainda tem a tradição de ser o evento da cidade, o espetáculo e… na capital assim o pessoal… eu não tenho o que reclamar, é muito bem recebido.. no Brasil é muito comodo porque o público gosta muito, tipo, de qualquer arte assim, em geral. Tem uma coisa um pouco de endeusar o artista que é engraçado. 8’46”
E a prefeitura dá algum suporte ao artista? Algum apoio?
8’50”
68 8’51”
Arte de rua praticamente não. A arte voltada pra arte de rua
9’06”
em si, não. Daí é uma coisa meio… é complicado, é (não compreendi), longo debate porque a arte de rua em si não precisa incentivo, né, ela só precisa de pessoas que queiram fazer e público. 9’07”
Então…. Embora não tenha o incentivo, tem editais, só que
9’22”
muitos poucos editais são voltados mesmo para a arte de rua, pessoas conseguem aprovar projetos pra arte de rua, ainda tem uma visão às vezes dificil pra quem… 9’23”
Quem que realmente vai olhar é do teatro e do circo, e o
9’42”
processo de criação, o processo de desenvolvimento, geralmente é diferente, mas os editais estão aí, estão disponíveis pra todos os artistas de rua, que podem fazer trabalhos na rua, etc, mas assim não é, não tem um foco para espetáculos e coisas de rua assim, os trabalhos gerados de arte de rua. 9’43”
Sempre é pra companhia de teatro, mas aí geralmente é
9’53”
uma coisa muito fechada que vai apresentar na rua durante o edital e não vai viver de trabalhar na rua, é outra realidade. 9’54”
E quais as maiores dificuldades enfrentadas pelo artista de
10’00”
rua? 10’02”
Hum… as maiores dificuldades? Acho que algumas
10’21”
proibições são muito complexas assim, tem momentos que você é parado, por segurança, policial, guarda, sem motivo geralmente, ou… 10’22”
Público às vezes, dependendo do lugar, lugar de classe
10’38”
muito alta podem tartar muito mal… o chapéu é uma realidade.. no começo é muito dificil assim, o mais dificl na verdade é perder o público, né 10’39”
É você chamar o público e não conseguir ter as pessoas ali, isso eu acho a maior dificuldade da arte de rua de longe,
10’52”
69 acho que entrar na rua, além pra ganhar dinheiro, claro, pra conseguir conectar as pessoas, etc, então quando isso falha, acho que essa é a maior dificuldade assim. 10’53”
Mas é isso. Tem perrengue, tem tudo, né, todo final de
11’11”
semana sair de casa com 30 quilo de material num carrinho e ir trabalhar, pegar ônibus, mas isso faz parte do nosso trabalho assim, não tem muito o que falar, tipo, acho que é isso. 11’12”
E na sua opinião, a arte de rua é uma arte democrática?
11’17”
11’18”
Ah, com certeza. A gente escolhe a arte de rua por isso, em
11’31”
parte, é um lugar onde todo mundo pode ver, embora seja uma contradição em partes assim, dependendo da onde, onde é feito a arte de rua assim. 11’32”
O histórico da arte de rua é que a arte de rua é um
11’44”
entretenimento pra pessoa rica, porque ele vai aonde ele consegue ganhar dinheiro geralmente, o dinheiro quem pode pagar, são pessoas de classe social mais alta. 11’44”
E além disso, no Brasil assim, em São Paulo, por exemplo,
12’02”
não tem uma cultura de estar em praças, estar em parques fora da.. fora do centro de São Paulo, então são muito poucos parques cheios de gente, que não estejam localizados em regiões mais nobres ou no centro. 12’03”
Então… é uma cultura extremamente democrática, quem
12’30”
quiser pode ver e etc, mas por outro lado não, o acesso é limitado em parte, onde eu moro por exemplo, eu moro na zona oeste, Maria Luiza, Jardim Ester, não existe praça, parquet, com gente, com estrutura, com condições pra se ter espetáculos de rua assim, eu gostaria muito, pra mim seria perfeito trabalhar por aqui e etc,mas…. 12’31”
Não é simples, a gente precisa de gente, acumulo de pessoas e é difi.. é uma cultura assim mesmo, acho que é
12’44”
70 isso. Qual que era a pergunta? Pra eu ver se respondi certinho 12’45”
Era se na sua opinião, a arte de rua é uma arte democrática
12’50”
12’50”
Aaah sim, com certeza, com certeza. É quem.. o acesso é
13’06”
livre, quem não quiser, quem quer, mas quem está lá presente, óbvio que o lugar vai dizer se é democrático ou não, enfim 13’07”
E de que forma você acha que os artistas de rua
13’12”
contribuem para essa democratização? 13’14”
Hum… o ato em si é um ato democrático, eu acho, o ato de
13’36”
apresentar na rua. Tipo, é você estar ali disposto a apresentar pras pessoas, entre áspas, muitos artistas acabam não querendo apresentar pra pessoa, acabam optando por não apresentar por várias questões assim, e é dificil mesmo. 13’37”
Tipo, no dia-a-dia a pessoa acaba se fechando, mas o ato de
13’50”
apresentar na rua é um ato muito democrático, no geral, a maioria dos artistas escolhem, que escolhem isso, que não tão lá por falta de opção, escolheram por ser um ato democrático. 13’51”
Todos poderem ver e.. a arte em si é democrática, ela --- a
14’11”
arte de rua, né, só por estar em espaço público, não ter requisito, a pessoa fica se ela quiser, a pessoa não tá obrigada a tá ali, por moral do teatro, nem nada, se ela quiser ela vai embora, então a base.. toda… a base da arte de rua é democrática. 14’13”
Eu.. eu acho muito legal na arte de rua, que é uma arte livre, né? Sem restrição, tipo, qualquer pessoa que passer ali, ela pode parar e ver, diferente por exemplo do teatro, que você tem que pagar o ingresso e tal, acho muito bacana isso
14’30”
71 14’31”
Sim, e pra além disso, a gente—acho que o principal, porque
14’43”
tem muito teatro baratissímo, quase de graça assim, a questão é que o acesso não é fácil, (isso), não só o acesso fisíco até o teatro, mas como a cultura de acesso, de ir ao teatro. 14’44”
Não adianta a gente fazer mil editais pra ir ao teatro, se a
14’59”
gente nao consegue formentar a formação de público, etc assim, então, a arte de rua geralmente, a pessoa é pega desprevinida, não tá esperando por aquilo, com exceções, na Paulista de certo modo ela tá esperando algumas coisas. 15’00”
Por exemplo, a Paulista.. a pessoa sabe que, sei lá, domingo
15’18”
vai ter espetáculo, vai ter um espetáculo, vai ter artista lá fazendo alguma coisa, se vai gostar ou não vai, não sabe, mas aí acaba surpreendendo, você pode esperar uma coisa e vai ver outra, e é realmente é isso. 15’19”
E você sente alguma diferença entre se apresentar na
15’28”
Paulista e se apresentar em outro lugar? Sei lá, em uma rua do interior… 15’29”
(porta quase bate) (risos), deu (risos)
15’32”
15’33”
É, bastante, bastante. Existem vários tipos de lugares pra se
15’46”
apresentar, né? Acho que se apresentar num parque é diferen ---dependendo do parque…. Dois lugares assim, dois tipos de lugares básico, que é lugar de passagem, que é o tipo da Avenida Paulista. 15’47”
É um lugar que as pessoas tão passando, a propria arquitetura assim, é uma avenida, as pessoas pegam e passam ali, não fica parade na Paulista, não é um gramado ou um parquinho de criança, ou… sei lá, uma escola ou qualquer lugar onde as pessoas estão lá, tão curtindo o dia ali paradas, sentado e alguém chama pra fazer um espetáculo, as pessoas veem, não tem nada pra fazer.
16’08”
72 16’09”
É diferente, você tá caminhando e fazer a pessoa parar,
16’20”
acho que são dois tipos… o Ibirapuera é bem parecido com a Paulista… mas a Paulista tem uma peculiaridade que é extremente o caos assim, né, principalmente dia de domingo. 16’21”
Mas nos últimos… foi aumentando muito o fluxo de
16’44”
pessoas, foi aumentando muito o fluxo de tudo, de artistas, de pessoas, o barulho é absurdo, então várias vezes você vai pra Paulista e não vai conseguir trabalhar, dependendo da sua sorte, é constante diver—manifestações que podem acontecer, às vezes a manifestação é com um carro, mas um carro de som ocupa três quarteirões às vezes,né ? 16’45”
Então…. Ah, a Paulista é o caos assim, não sou o maior fã da
17’00”
Paulista, embora eu gosto muito, eu ame a Paulista, mas também às vezes dá um ódio assim, é aquela coisa bem… é muito ruim quando você vai trabalhar e não pode trabalhar porque tem pessoas assim.. 17’01”
E boa parte dos artistas da Paulista assim, uma parte bem
17’12”
considerável, são artistas assim meio hobbies, tão indo querendo divulgar o trabalho, que não vivem de arte de rua, fazem arte na rua. 17’13”
É como uma banda que quer divulgar, vender show e vai na
17’36”
Paulista, monta uma estrutura e faz um barulho assim absurdo pra fazer um show, ocupando espaço, espaço sonoro, que é o que mais falta na Paulista, a Fiesp tem um prédio lindo, mas ocupa um quarteirão também, é muito dificil assim, a Paulista é um ambiente hóstil 17’37”
Fora assim que já fui roubado na Paulista, acontece de tudo, mas… é isso. Morador de rua que vira nosso amigo às vezes, às vezes atrapalha, às vezes ajuda, então é.. a Paulista é um lugar diferente assim.
17’54”
73 17’55”
E rola algum tipo de competição entre os artistas de rua ou
18’01”
vocês se ajudam? 18’02”
Hum… depende muito assim dos artistas na verdade, é o
18’28”
que eu falei um pouco, boa parte ali não tá pelo dinheiro, pelo trabalho e pelo tipo… não é trabalho rotineiro da pessoa, tá ali fazendo um hobbie, às vezes, os caras mais velhos, os tiozão que tem banda de rock, sempre tem os meninos que querem divulgar a banda, sempre tem o artista que quer testar alguma coisa, quer brincar. 18’29”
Mas de certo modo, sempre quando tem um… é men,é
18’42”
tipo.. tem um mestre que sempre falava “a realidade sempre muda quando tem vários artistas na mesma praça”, porque realmente né, tem uma certa competição de público, mas isso não impacta no trabalho em si 18’43”
e a gente se ajuda muito, principalmente entre alguns
19’04”
artistas, tenho grandes amigos assim que trabalham, então é uma grande parceria, às vezes uns não querem, às vezes outros não querem, mas vai muito da situação de cada um assim, da realidade que cada um tá no momento, e é difi—é bem isso, tem pessoas que não tão nem aí pros outros assim. 19’05”
Isso é o que mais acontece na Paulista assim, é um pouco de
19’19”
falta de profissionalismo, é entender que tem pessoas lá que tão trabalhando e eu tenho que tomar cuidado com o que eu faço, quando eu levo uma caixa de som, quando eu quero me apresentar, quero tocar meu violão 19’19”
Tem coisas assim um pouco… códigos da rua assim, de certo modo, que dependendo do lugar que você vai fica super claro, mas como tem gente que não tem o costume assim, e geralmente quer um passar por cima do outro, aí na Paulista acaba gerando um caos.
19’34”
74 19’36”
E como que tá sendo esse momento de pandemia pra
19’41”
você? 19’42”
Ah, horrível, né? (risos). Não, eu não tô trabalhando assim
20’02”
com… com… como que chama? Não tô fazendo espetáculo, não consegui… eu moro em apartamento ainda, então não consigo fazer nada dentro de casa, online, fora que tá meio inviável tudo que eu vejo assim, acaba sendo meio, uma coisa… é uma adaptação mais ou menos. 20’03”
Eu dei muita sorte assim de tá meio que com uma reserva,
20’14”
uma coisa de emergência, que me aliviou por um bom tempo e … até ano que vem, tamo aí assim 20’14”
O problema é a questão psicológica de não trabalhar, né,
20’33”
querendo ou não, trabalhar todo final de semana faz muita falta, que é nosso vida, né, geralmente praticamente, né? Montar o espetáculo, trabalhar no espetáculo todo final de semana e.. parou do nada, parou de entrar dinheiro e tamo só nas reservas. 20’34”
Teve gente que tava muito ferrado assim, tava vivendo
20’53”
normal, tem muito artista de rua, é uma cultura assim, do artista viver.. vai vivendo no limite, brincando ali com a sorte, quem tá viajando vai sempre no limite, no limite, acontece uma coisa dessas, é pego de surpresa, todo mundo foi pego de surpresa, mas é isso assim. 20’54”
De até talvez… pelo jeito vai demorar bastante ainda assim
21’04”
pra poder voltar a aglomerar, embora já tenha gente fazendo, toda hora, todo momento. 21’04”
Nossa trabalho assim, é uma opção como artista de certa forma responsável, a gente se responsabilizar por isso, de não vamos trabalhar agora, embora tenha praça que tá cheia agora, poderia sair hoje e trabalhar, pegar sei lá 4 da tarde, um horário, em Pinheiros as praças tão lotadas, o pessoal sem mascara, sem nada, mas é uma opção, não
21’30”
75 vamos trabalhar porque o mundo… é melhor pro mundo que a gente não trabalhe agora. 21’31”
É um pouco isso. É o que eu entendo da pandemia no
21’53”
momento, prefiro.. embora eu acredite que o trabalho do artista tenha uma potência, tem coisas mais essenciais na vida, tipo, não que saúde seja mais essencial que arte, mas a gente consegue suprir nossa necessidade de arte de outras maneiras que não seja presencial e aglomerando pessoas, então é isso, pandemia é muito doida, né? 21’53”
Verdade (risos)
21’55”
21’56”
E dá pra viver de arte no Brasil?
21’58”
21’59”
Ah, dá, claro que dá, gente. Isso é um mito gigante, um mito
22’15”
gigante que não dá pra viver de arte e … lógico, vai trabalhar muito, isso eu acho que é a maior dificuldade das pessoas entenderem, vai ter que trabalhar pra cacete, muito mesmo assim. 22’16”
O circense tem muito… o de circense, o músico, o do ator
22’30”
não tem, teatro não tem essa coisa,o… às vezes, alguns da pintura não tem, que é essa coisa da repetição assim, é entender que viver de arte é um trabalho 22’31”
É um trabalho, não é uma coisa… aquele discursinho
22’44”
classico, geralmente uma pessoa tem uma faculdade, passei por duas faculdades, não terminei nenhuma, mas passei por duas faculdades e sempre tem aquele discurso, “quero me expressar, vou fazer minha arte” 22’44”
Geralmente as pessoas não fazem ideia do quão, do quanto dificil é se expressar e fazer sua arte assim, do quanto a gente treina, todo dia treina, de 4 à 5 horas diárias, rotina de trabalho, trabalho, trabalho, mandar edital, escrever projeto, apresentar, fazer .. já cheguei a fazer 15 espetáculos num final de semana assim na rua
23’05”
76 23’06”
Espetáculo de rua, sem microfone muitas vezes, chegava
23’25”
sem voz, passando mal, tipo, cansado, a gente soa, tem esse trabalho e é isso assim, dá pra viver, tem editais, se você quiser ir pros editais, tem editais, se você quiser trabalhar independentemente, dá pra trabalhar independentemente 23’25”
é.. é entender, entender o que você quer assim,
23’39”
desenvolvimento do seu trabalho e não esquecer que é seu trabalho mesmo, você vai ter que estudar que nem um medico estuda, que nem um engenheiro estuda, que nem todas as profissões vão estudar, você não viver de arte, vou deixar porque sou uma pessoa… 23’40”
O artista tem muita coisa de ser especial, né? Até porque o
22’52”
público no Brasil acha que o artista é uma coisa muito especial, então ele se bota nesse lugar e ele acha que ele tá num nível que ele já … já tá além. 22’53”
Sendo que os trabalhos artísticos no Brasil tem uma
24’01”
qualidade bem ruim, a media assim, se for comparar assim… nossa, o circo no Brasil, cê vai pra Argentina, é uma vergonha. 24’02”
Tipo.. o circo brasileiro são poucas pessoas que eles falam
24’19”
que … o resto assim, é tipo, horrível, e… é dificil assim, a gente tem muito dessa cultura de ah, não dá pra viver de arte e não sei o quê, não sei o quê e não correr atrás mesmo. 24’20”
No começo é muito difícil, eu garanto, os primeiros oito meses na rua, um anon a rua, cê vai passer uns apertos assim na sua vida, mentais e financeiros que.. faz parte, mas como você não tem nem uma formação em si, você não faz faculdade pra fazer arte de rua, cê pode fazer faculdade de teatro, cê pode fazer faculdade de circo, cê pode fazer de tudo, cê não vai tá pronto pra trabalhar na rua, só trabalhando na rua mesmo.
24’42”
77 24’43”
Então acho que é…. É um pouco isso, dá pra viver de arte
25’05”
com certeza na Brasil, não é fácil, em sentido de (não compreensível) é muito maiores assim, na pandemia ficou claro isso, tão recebendo 600 reais, enquanto sei lá, na Alemanha tem colegas recebendo um salário inteiro, então (risos), na Alemanha, Espanha, todos os países europeus, todo mundo recebendo e tranquilidade, sabe? 25’06”
A gente entende que o trabalho é importante e você não
25’22”
pode trabalhar agora, aqui são três auxilios de 600 reais, absurdo, cara, mas contando com nosso governo, talvez essa nem seja uma das piores questões assim.. então (risos), é isso. 25’23”
E você já sofreu algum tipo de preconceito por se
25’28”
apresentar na rua? 25’29”
Ah, sempre, né? Sempre. Sempre, teve muitas (risos). Tem
25’44”
que levar na tranquilidade, geralmente o preconceito vem antes do trabalho ou quando o trabalho é muito curto assim, pra quem faz farol sofre muito, quem trabalha em semáforo. 25’45”
Tem uma questão assim, que é muito difícil pra um
25’53”
malabarista, quem é só malabarista assim, fazer um espetáculo, é uma coisa difiícil. Porque um espetáculo é muito mais comunicação do que técnica, né. 25’54”
A pessoa que se dedicou a técnica a vida inteira, é muito
26’07”
mais fácil ela pegar 1 minuto e fazer um monte de coisa no farol, no semáforo, por exemplo. E é um trabalho tão válido quanto, só que é visto daq ---como, como morador de rua e tudo mais. 26’08”
Sempre tem, criancinhas que perguntam “cê mora na rua?”, e…. e tem de tudo, cê vai ouvir, cê vai ouvir um monte de coisa, vai passar, mas geralmente quando o trabalho diz por si só, as pessoas entendem depois, um pouco assim, é seu
26’36”
78 trabalho, você é uma pessoa normal que tá trabalhando e seu trabalho é trabalhar na rua, faz questão de falar, né, a gente aprende um pouco a expressar isso pro público, acho essencial e é isso. 26’37”
Vai ter preconceito, sempre que você fala as pessoas não
26’48”
conseguem entender, pensa outra coisa, aquele papo de sempre, “mas como assim trabalha na rua?”, é porque muita gente nunca viu um espetáculo na rua na vida assim, espetáculo de rua. 26’49”
Dependendo de onde você vai, nossa, eu trabalhei no
27’02”
Ibirapuera, foi um dos lugares que eu mais trabalhei na minha vida, comecei trabalhar lá, então… e lá é um público muito variado, muito variado incrivelmente, que o parque é lindo, o parque é maravilhoso, as pessoas vão de todos os lugares da cidade pra lá 27’03”
Então.. as pe—muita gente assim chega e nunca viu nada
27’14”
na rua assim de apresentação, ficar 30,40 minutos paradas assistindo um artista fazer coisas, e brincar e se diverter, então …. 27’15”
Não dá nem pra cobrar dessa pessoa que ela saiba o quanto
27’31”
que ela tem que pagar, por exemplo, e mais…. E lógico que ela vai ter preconceito da pessoa assim trabalhando na rua, fazendo as coisas, com uma estética que às vezes não tão comum, então é isso assim. 27’34”
E na sua opinião, os artistas de rua têm pouca visibilidade
27’40”
na grande mídia? 27’42”
É, tem, claro que tem, mas não sei se deveria ter mais. Assim, de verdade, não tem necessidade assim de estar buscando. Se não fica aquela coisa de artistas de rua que vão pro Ratinho e que acham que ficam famosos por ir no Ratinho, tipo se você precisa ir pro Ratinho pra você-- pro seu trabalho ser válido, não faz sentido.
28’03”
79 28’04”
Se o seu espetáculo pra… seja 20 pessoas que estejam ali
28’14”
numa cidade que tenha uma população minuscula, é muito mais importante do que um trabalho no Ratinho, entendeu? Por exemplo. 28’15”
Tipo a grande mídia essa coisa … tá, tá meio morrendo de
28’29”
uma certa forma. A internet hoje é um veículo muito legal, que eu ainda não aprendi a explorar, mas… é isso, a gente escolher, é uma arte menor assim, de certo modo. 28’30”
Eu tenho um mestre que falava isso, na verdade, Tchê
28’58”
Covart, argentino, ele escreveu um livro inclusive, sobre a arte de rua, e ele fala, é uma arte menor assim, que é fadada ao desconhecimento, todo artista de rua tá tipo.. artista popular, no geral, é fadado ao desconhecimento, que sua arte não vai ficar e vingar, seu nome… mas é isso, a gente escolheu isso e é lindo, é momentâneo, é espontâneo, é livre, é 100% livre. 28’59”
E se você não tá disposto a isso, a desapegar de certas
29’13”
coisas, talvez não seja a rua o lugar assim, sabe? Se você quiser ir pra rua pensando em aparecer no jornal, sei lá, só pra dar uma entrevista falando como que é legal viver de arte de rua, como é não sei o que.. 29’14”
Tipo, isso é o de menos no nosso trabalho, nosso trabalho é nosso trabalho em si. Conheci muita gente assim, sempre tem, às vezes aparece, muita reportagem, muito tudo, quem trabalha em semaforo, às vezes para alguém no trânsito e não sei o quê, nossa, vou aparecer na Globo,tipo, ah, mano não quero saber, ou “ah, você vive de arte de rua?” e fazem uma entrevista pra um canal no YouTube, lógico, isso aqui é uma pesquisa, é diferente, não tô criticando, nem nada, entrevista não tem problema nenhum, mas você trabalhar querendo esse reconhecimento de.. de midiático, não faz sentido.
29’49”
80 29’50”
Nosso trabalho é isso. É isso assim, é só isso, é realmente é
30’03”
só isso, a gente… não tem porque ser mais, se não perde o sentido, se não a gente faria cinema, a gente poderia fazer outras coisas. 30’04”
Ah, depois você pode me passar o nome desse livro que
30’08”
você falou? 30’09”
Passo. É Manual e Guia do Palhaço de Rua, do Payaso
30’14”
Chacovachi, 30’15”
Vou anotar aqui, peraí.
30’16”
30’17”
É um livro meio manual para artista de rua, mas ele é um
30’30”
cara muito filósofo assim, tem muita coisa. Eu acho que é, se não achar, cê me avisa, que eu acho que eu tenho aqui o PDF legal dele, mas tenho o livro também (risos) 30’31”
Anotei aqui. É que aí vai ajudar mais na pesquisa também
30’34”
30’35”
Sim, é bem legal, é um livro bem legal. Fala muito sobre essa
30’52”
coisa do espetáculo de rua, é muito legal, você começa a descobrir que existe um mundo, acho que não sei se… existe tour, turnê de artista de rua que fazem na Europa, três meses no ano e coisa desse tipo assim. 30’53”
É que aqui a gente não tem mesmo, é engraçado (risos)
30’55”
30’56”
Verdade (risos) Pra encerrar…
30’57”
30’58”
Sabe que tem,não existe
31’00”
31’01”
Verdade. Pra encerrar, você tem alguma história
31’09”
engraçada ou inusitada que aconteceu com você na rua? 31’11”
Meu Deus, tem várias, mas pra lembrar de uma…
31’15”
31’16”
Alguma que te marcou?
31’17”
31’18”
Ah, não sei. Nossa. Nessas horas dá um branco, né? Eu
32’00”
sempre lembro de umas, mas agora… Hãããn… tô pensando em alguma coisa engraçada, alguma coisa legal… é que é difícil de botar num.. as coisas que acontecem na rua
81 geralmente tão muito dentro de um contexto, um contexto único assim… então é muito difícil… nossa, vou ficar te devendo, meu Deus… 32’01”
Com moradores de rua tem mil histórias, que entram e dão
32’17”
abraço, nossa… acho que vou ficar te devendo essa, desculpa… deu um branco mesmo assim… 32’18”
Não tem alguma que te marcou?
32’21”
32’22”
Todas vão marcar, mas acho que não teve nenhuma, acho
33’07”
que não tem uma pra falar assim, nossa… calma, deve, com certeza tem… hum… meu Deus… devia ter anotado umas coisas… muito… gente… que memória, hein? Caramba, tem um caderninho em casa com alguns acontecimentos… hãm… 33’08”
Tá, teve uma vez no Ibirapuera, foi uma história muito
33’20”
estranha, muito engraçada assim, tinha um menininho de uns 6 anos de idade, eu lembro que na época eu trabalhava com ovo, fazia números com ovos. 33’21”
Daí aconteceu que… que tinha um menininho, não tinha três
33’41”
menininhos assim de uns 6,7,8 por aí de anos de idade, no meio do público e… daí ele… eu ia fazer um número com ovo, sem querer bati uma mão na outra no ovo e quebrava e tudo 33’42”
E nesse dia por acaso tava um dia muito louco, tinha até
33’57”
conhecido um outro artista super engraçado, eu fui fechar a mão no ovo, o ovo escapou e voou assim na perna do menino, até aí já deu a merda, né? Aconteceu. 33’57”
Daí o menininho de 6 anos de idade, tinha 6,7 anos de idade entrou no meio da roda, e começou a xingar assim, “seu filho de um p*##@, vai tomar no meio do seu c*, caral*#”, e todo mundo ficou assim, absurdo, gargalhada e eu não conseguia … com vontade de rir assim, aí ele começou a xingar muito, xingar muito, xingar muito, aí ele pegou a
34’22”
82 bicicletinha dele e foi embora e eu falei “volta,volta,volta”, ainda fui dar uma bala pra ele (risos) 34’23”
Aí já tava zuando já, e ele ficou muito bravo, o espetáculo
35’02”
quase acabou nesse momento assim, não acabou, mas foi aquela coisa assim, era o ultimo número assim, derrubou o ovo no menino, o menino saiu xingando, com aquela coisa absurda, tinha umas 150 pessoas assistindo, todo mundo começou a rir, todo mundo tava com dó dele, ele ficou muito bravo, só que ninguém esperava uma reação dele assim, de xingar com palavrões muito fortes, “seu arromba#@”, foi muito engraçado assim, um absurdo (risos), essa é uma história muito boa assim, de marcante, cômica, aí teve diversas. 35’03”
De guarda também, segurança, que para o espetáculo, de
35’12”
tudo… no Ibirapuera, ahhh tem uma muito linda assim, que é muito, ah, essa é muito boa. 35’13”
Foi no mesmo lugar, não foin a mesma época, foi no
35’34”
Ibirapuera, no mesmo lugar assim, tava fazendo o espetáculo, e os guardas lá… é muito difícil assim, eles são muito… cobram eles e eles tem que arranjar algum problema de algum lugar, lá não pode trabalhar com fogo primeiro, nenhum parque geralmente pode, dei uma burlada às vezes, mas eu nem tava trabalhando com fogo esse dia 35’35”
Daí o… só que o problema é que às vezes a roda tá muito
35’49”
grande assim, 100,150 pessoas, daí não tem espaço, dependendo da onde você trabalha, você acaba ocupando um pouco do espaço da rua, o pessoal chega pra ver curioso e às vezes fica em cima da ciclovia, aí não sei, não sei oque, não sei o que. 35’50”
Daí o guarda foil á, falou uma vez pra fechar, aí a galera fechou, aí chegou mais gente, aí o guarda foil á, falou pra
36’16”
83 galera fechar, daí ele… aí do nada, ele ficava muito malhumorado, ele entrou no meio da roda de bicicleta, pediu licença pra galera, no meio do espetáculo, no meio do número mesmo assim, pediu licença, até parei meu número, ele parou de bicicleta e falou “pode parar com esse espetáculo” e não sei o que, não sei o que, não sei o que. 36’17”
Na hora eu não tive, mano, eu não tava fazendo nada de
36’38”
errado, nem falei assim, daí o público começou a vaiar muito ele, começou a vaiar totalmente, não fiz nada, nem animei, e…. e ele do nada, foi embora, nunca mais voltou assim, depois daquele dia eu lembro que nenhum segurança mais incomodou o meu trabalho assim, 36’39”
Porque foi o público, o público assim … de arte de rua ser
36’58”
uma coisa popular assim, essa foi a maior, foi o mais lindo, eu olhei pro cara gritando “tá todo mundo se divertindo e você vai atrapalhar”, de um ciclista, um cara de patins que reclamou assim, que tava passando muito rápido no parque, daí… 36’58”
E foi uma coi—um movimento muito lindo assim, de se ver,
37’08”
um dia muito especial, da memória assim, caral#@, nossa, todo mundo assim, o povo tá com você de certa forma ali 37’09”
A arte popular assim, a arte de rua é a arte popular nesse
37’31”
sentido, ela é feita com o povo e para o povo. E ali o povo lutou pelo seu próprio direito, de certa forma, não foi eu, eu podia, eu teria feito piada e brincado com aquilo, com aquela situação e não teria parado o espetáculo nunca por causa daquilo, mas foi muito mais intenso e mais incrível as pessoas se mobilizarem, acho. 37’31”
Tipo, eu não me lembraria se eu tivesse feito a piada porque eu já fiz isso centenas de vezes assim, já tem piada pronta pra isso quando essas coisas acontecem, então um… acho que é isso.
37’41”
84 37’42”
São duas histórias assim marcantes, no mesmo lugar, que é
37’47”
engraçado.
Entrevista parte 2 0’00”
Hum… a importância da arte de rua? Eu acho que a arte de
0’13”
rua como toda arte assim tem um… ela tem um papel de um arte como toda, como todas as outras, que é preencher a vida de significados. 0’14”
Não é uma coisa essencial para que a vida exista, para que a
0’27”
vida aconteça, como alimentação, exercícios e outras coisas básicas assim, fisiológicas, mas a arte é aquilo que preenche é aquilo que dá sentido à vida. 0’28”
E arte de rua, eu acho que vem nesse papel como… uma
0’47”
forma espontânea e de livre acesso, eu acho principalmente, democrático. Onde todos podem ter acesso a isso, à isso que não é essencial, mas é essencial pra vida, não é essencial pra sobrevivência, mas é essencial pra que haja uma vivência, um desenvolvimento humano, de uma sociedade como um todo. 0’48”
E a arte de rua é a surpresa, é o desprevenido, é tudo e pra
1’05”
todos, né? Acho que isso, arte de rua é pra todos, além de, tem uma questão filosófica da arte de rua, da liberdade plena, o artista , é de livre expressão, do artista e do público assim. 1’06”
E não existem regras. Na arte de rua não existe contrato, não existe expectativa de um lado ou outro, o artista não pode esperar do público porque ele nunca vai saber quem é o público dele, o público não pode esperar o artista, porque ele nem sabe que vai encontrá-lo.
1’19”
85 1’20”
Então… eu acho que é isso, é o mesmo significado da arte, mas de forma mais democrática, pra todos, levar arte pra todos, o principal da arte de rua, é isso.
1’31”
86 Gravação: Entrevista com Kacá Novais
Pag.xxx
Realização da gravação: 08/09/2020 Obs.: Procure apontar o time code de 10’’ em 10’’ para inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora Time code
Descrição da tomada e/ou transcrição da sonora
in 5’03”
Time code out
Antes de começar, eu gostaria de pedir pra você que se
5’10”
apresentasse. Falasse seu nome, idade, profissão e há quanto tempo você toca na rua. 5’12”
Tá bom. Vamos lá.
5’13”
5’14”
É… Meu nome é Kacá Novais, tenho 33 anos e eu toco na rua
5’24”
tem 4 anos e meio, quase 5 anos. 5’26”
É isso… foi isso, né?
5’28”
5’29”
É, é isso. A profissão é músico, né?
5’32”
5’33”
É, bom, tem essa parte, né? Ok, peraí, então.
5’38”
5’40”
Bom, meu nome é Kacá Novais, eu tenho 33 anos, sou artista
5’53”
independente e toco na rua tem 4 anos e meio, quase 5 anos. 5’54”
Ok. Pra começar, me conta um pouquinho da sua história na
6’01”
música. Como que você começou. 6’02”
Legal. Bom, música é uma coisa que tá presente na minha
6’21”
vida desde sempren né. Minha mãe cantava, é, antes de eu nascer, e enfim. Provavelmente ela cantava pra mim da barriga, né. Então eu já já, tava me familiarizando com a música desde sempre. 6’22”
Eu comecei a me interessar por música bem jovem, bem
6’32”
novinho mesmo, nem lembro praticamente, eu tinha uns 4,5 anos. E…. 6’33”
Eu sempre conto essa história, contei até na TV uma vez. Que minha mãe me perdia no shopping, aí a primeira vez que ela
6’58”
87 me perdeu ela ficou deseperada, ficou horas e horas me procurando, quando ela foi me encontrar, ela me encontrou numa loja de brinquedos que tinha um pianinho daqueles de brinquedo bem pequeninho e eu tava lá viajando e tipo o pessoal da loja não sabia quem que era e tal, ficou meio… 6’59”
Até que ela me achou assim e tal e das outras vezes ela já foi
7’04”
direto lá na loja porque ela já sabia que eu ia tá lá,né. 7’04”
Então assim desde pequeninho, aí ela foi comprou o piano,
7’31”
levou pra casa e eu me interessava muito pelo som do piano e ficava ali tocando e tal e aí comecei a aprender as músicas sozinho, escutando músicas da televisão, e indo lá e tentando tirar as músicas de ouvir e tal, aí conseguia tirar e tal, aí quando tinha já 5 pra 6 anos, ela me colocou na aula de música, na aula de piano. 7’32”
E aí eu comecei tocando piano, até os meus 12,13 que foi
7’53”
quando eu peguei o violão. Aí eu peguei o violão com 12 pra 13 anos, com 13 pra 14 eu já fui convidado por um amigo da família que já tinha tocado em bar, que já tinha essa experiencia de bar, e falou “meu, vamos tocar nuns barzinhos”. 7’54”
E minha mãe ia junto com a gente, com 14 anos eu já comecei
8’15”
a tocar em bar e fui embora, tocando em bar, em bar, em bar, em bar, até uma hora que deu uma cansada, uma saturada da coisa do bar, e do público, enfim, muitas coisas, muitas coisas dentro do bar que já não faziam mais sentido. 8’15”
Aí eu abri uma empresa e fui fazer outras coisas e tal, e meio
8’23”
que dei uma deixada de lado assim na música na real. 8’23”
Até que uma amiga muito querida falou “cara,é… cê já pensou 8’41” em tocar na rua?” eu tava já sentindo a necessidade de tocar, fiquei quase 8 meses sem tocar, sem pegar no instrumento assim, foi uma época de escassez, de não querer tocar.
88 8’42”
E aí ela veio e me apresentou essa perspectiva da rua
8’46”
8’47”
A prior eu fiquei meio, “nossa, mas na rua?” Tipo, sei lá,
8’53”
estranho. 8’54”
Eu tive um certo preconceito, como quase todo mundo tem.
9’07”
Só que ela começou a me colocar mais a par da coisa, começou a me explicar, “não, cara, na rua é isso, tem aquilo”, já tinha várias outras pessoas que tocavam, né, na Avenida Paulista, inclusive. 9’08”
E aí eu comecei a olhar pra aquilo de uma forma um pouco
9’18”
mais amena assim, eu comecei a gostar da ideia, ela começou a falar, falar, falar, e a gente teve muitas conversas. 9’19”
Até que eu resolve ir, dá uma olhada, ver o que acontecia,
9’35”
falei “meu, isso é legal, eu acho que é isso”, e aí eu senti vontade de voltar a tocar e já foi direto na rua. E aí, isso aí já tem uns 4 anos e meio. 9’36”
E como que é tocar nas ruas?
9’40”
9’41”
Meu, primeira coisa que eu posso dizer é que é diferente,
9’50”
tocar na rua é diferente que tocar em qualquer outro lugar. 9’51”
Eu já toquei em palcos enormes, abri show da Anitta, já fechei
10’05”
Virada Cultural, toquei depois do Zeca Baleiro, em placos grandes, pra muitas pessoas, 90, 100 mil pessoas, sozinho ali e tal. 10’06”
E eu acho que eu só consegui fazer isso, sozinho, eu com o
10’16”
meu violão por conta da experiencia que eu tive na rua assim, é uma experiencia muito única, você… 10’17”
Você tem uma atenção 100% , praticamente 100%, voltada pra você e de pessoas que pararam ali porque elas sentiram vontade de parar ali, elas quiseram para ali, né e não porque foi num show de um artista e eu tava lá abrindo show desse artista, no caso da Anitta, ou foram num evento, que é a
10’46”
89 Virada Cultural, que todo mundo vai, tocou fulano, ciclano, Zeca Baleiro, tocou eu, né. 10’47”
Ali não, ali cê tá… né, exposto de fato e quem se identifica
11’21”
com alguma coisa, não só a música, às vezes a pessoa se identifica com seu jeito de vestir, com o jeito de falar, é.. com a composição visual, com a composição visual ali, com o meu cenário que eu levo pra rua, tapete, com… se identificou com a energia, com algumas outras pessoas que tão ali, ou viram aquele roda, enfim, alguma coisa chamou a atenção, e geralmente o principal, é de fato a música, mas, mas muitas vezes não é. 11’22”
Até porque eu tenho um público completamente … como é
11’40”
que eu posso dizer? Completamente me- mesclado assim, eu olho pro público e vejo gente de tudo quanto é tipo, cor e tamanho, e tudo assim, cê vê de tudo. 11’41”
E a pessoa se identifica com a minha música, se identifica com
12’04”
aquela energia e para pra me ouvir ,então é completamente diferente assim, é bem único, é bem bom, é bem bom você saber que as pessoas tão ali pra ouvir você né e não “ah, tô num barzinho, tomando uma com os amigos e chegou um músico e começou a tocar”, é bem incrivel, é bem incrível. 12’05”
Eu sempre falo que todo artista, todo músico deveria ter pelo
12’20”
menos uma vez na vida essa experiência de ir lá e tocar na rua, uma vez que fosse, sabe? Tipo, só pra sentir como é. 12’21”
E vocês artistas de rua se ajudam ou rola algum tipo de
12’26”
competição? 12’28”
Essa é uma pergunta bem clássica. (risos)
12’31”
12’32”
Eu acho que assim, na rua… acho-acho que todo lugar sempre
12’54”
às vezes acaba rolando uma certa competiçãozinha,né, mas em geral eu posso dizer que… sei lá, 80%, talvez 90% menos do que em qualquer outra situação.
90 12’55”
Barzinho… nossa, eu já tive problemas assim grandes, de um
13’05”
outro arti, de um outro músico que tocava na casa e falar mal de mim sem nem me conhecer. 13’06”
Só porque tinha a possibilidade do cara gostar muito do meu
13’16”
trabalho e ele talvez dispensar o cara ou alguma coisa desse tipo e na rua não tem isso. 13’17”
Porque… é… a rua é pública, você chega lá e cê toca, você não
13’30”
marca data com ninguém, você não tem um patrão,né. Então assim, rola de fato uma cooperação 13’31”
É… isso assim, quem realmente vive disso, quem faz isso
13’37”
constanteamente, que tá sempre ali na rua, né. 13’38”
Tem às vezes umas bandas de garagem que fala “nossa, tocar
14’05”
na rua deve ser legal, vamo lá”, chega e dá uma causada e tal e a gente acaba meio que… é… alertando às vezes, já tive até alguma coisinha meio de… ficar com um certo ranço e falar “oh, amigão então,abaixa aí, o volume”, mas no geral não, no geral não tem disputa porque tem público pra todo mundo,né. 14’06”
E cada um faz o teu, o teu som, cada um faz o som que tá
14’39”
afim de fazer, então você anda na rua, na Paulista, que o maior foco mesmo, cê tem um cara tocando violino, música clássica, aí daqui a pouco cê anda mais cem metros e tem uma banda de rock, daqui a pouco tem uma galera dançando com uma caixa de som ligada lá, um funk, daí de repente você vai ver, aí tem eu cantando MPB, cê tem de tudo e tem público pra todo mundo, então a gente não tem muita disputa. 14’39”
Às vezes rola um desconforto de um cara tá lá do outro lado e o som muito alto e aí cê tem que “pô, tem como cê baixar?” e tal, tem alguns artistas, mas aí eu acho que não é muito… é… eu acho que é muito da pessoa, sabe?
14’57”
91 14’58”
Tipo, “ah, eu toco aqui e esse ponto é meu” tipo, sabe? e não
15’12”
existe isso porque o espaço é público e se.. quem chegou primeiro ali vai montar as coisas e vai tocar e eu que cheguei depois, eu não posso falar nada 15’12”
Só que é muito louco porque na Paulista… eu… eu toquei em
15’27”
vários pontos, vários lugares, até que eu achei um lugar que falei “nossa, aqui é legal, eu gosto daqui” e comecei a tocar ali e eu sempre chegava a tarde e tocava ali, tocava ali. 15’27”
Meu, já teve vez de eu chegar e ter gente tocando, “nossa,
15’46”
não sabia que você ia tocar, eu vou desmontar” e eu falar “não, tudo bem, né, eu vou pro outro lado, sei lá”, “não, não, imagina, cê é maluco, eu sei que você toca sempre aqui”, ou seja, tem uma, tem uma empatia muito maior, muito maior. 15’47”
Posso, posso dizer que quase não tem essa disputa, quase
15’52”
não existe. 15’54”
E a prefeitura dá algum suporte pros músicos de rua? Algum
15’59”
apoio? 16’00”
Não. (risos). Pelo contrário, já tive, já tive amigos que tiveram
16’23”
problemas, mas é uma atividade regulamentada por lei, que fique muito claro isso, a gente tem uma regulamentação que permite que a gente faça, é… som e qualquer outro tipo de atividade artistica em qualquer lugar público. 16’24”
É… exceto assim, metrô, que metrô já não é, (não
16’41”
compreendi) público, mas na rua qualquer lugar público a gente pode tocar. Óbvio que assim, né, respeitando algumas, algumas, alguns direitos e deveres, né. 16’41”
Existe uma cartilha, quase ninguém sabe, inclusive muitos artistas de rua não têm nem ideia de que existe isso, mas existe uma cartilha com direitos e deveres, né, e são coisas assim que deveriam ser básicas assim, é, como é que eu posso
17’08”
92 dizer? Orgânicas até, né. Que é cê manter o espaço limpo e tal, que são seus deveres, né. E… 17’09”
E por exemplo, não tocar de repente perto de um local onde
17’43”
tenha hospital, isso pode realmente prejudicar alguém, enfim, que tá em tratamento, esse tipo de coisa, maneirar no volume, né, lei do silêncio, puts, o cara tá lá Meia-Noite tocando com uma caixa de som ligada com um som exorbitante, esse tipo de coisa, mas assim, existe lei, é regulamentado e não a prefeitura não dá nenhum suporte, nada, nada, nada, nada. A gente tem que ir por conta propria mesmo. 17’44”
E como que é a recepção do público perante ao artista de
17’49”
rua? 17’50”
Então, é isso tem, isso tem até uma relação com… com o que
18’14”
eu falei anterior, anteriormente na outra pergunta, como as pessoas param de uma forma espontanea, geralmente, quem fica, fica porque realmente gosta da música, então interage bastante, só que isso também depende muito do artista. 18’15”
É… eu… por exemplo, se você já andou alguma vez na
18’32”
Paulista, um dia que você vá, repare nisso, é.. tem muita gente tocando e tem muita gente boa, só que muitas vezes a pessoa é muito boa, só que não para ninguém. 18’33”
Aí cê fica “ué? Mas o cara é tão bom, porque que não para?”
18’46”
Porque depende muito do artista também, o artista precisa se comunicar, o artista precisa ser agradável pra poder agradar, né. E… 18’47”
E como eu fico ali tocando, eu não tenho muita oportunidade de olhar os outros artistas tocando, às vezes eu - eu deixo de ir tocar só pra andar, pra passear e tal e pra ver o que tá acontecendo.
19’01”
93 19’01”
Na maioria das vezes você vê as rodas cheias e o artista muito
19’11”
feliz, e as pessoas também muito felizes porque elas se identificaram com aquele artista e pararam pra ouvir. 19’11”
E no meu caso, é… nossa, em 4 anos e meio é muito bom
20’05”
poder falar isso, eu nunca tive rejeição nenhuma assim, todas as vezes que toquei, desde a primeira vez, eu tive uma roda enorme e cada dia mais e hoje em dia minha roda já passa da ciclovia muitas vezes, tipo, não tem como passer pela via onde eu tô tocando porque fica gente tomando a rua inteira assim, todo mundo curtindo e dando risada, e cantando junto e tal, então foi o lugar que fui mais bem recebido de todos até mesmo comparando com os palcos enormes de centenas e milhares de pessoas assim, a rua ainda é o lugar que eu mais gosto de tocar, que eu mais sou bem recebido. 20’06”
E quais as maiores dificuldades enfrentadas pelo artista na
20’12”
rua? 20’14”
Olha, tem algumas. É… não sei nem pontuar talvez assim,
20’37”
fazer um ranking, essa aqui é mais dificil,depois essa, depois essa e depois essa, até porque também vai de pessoa, vai de artista, tem artista que tem muita vergonha, no começa às vezes tem dificuldade de lidar com o público, mas eu acho que de… 20’38”
Falando num geral, uma questão é… é o clima. É a meterologia em si, né, de repente começa a chover e é uma coisa que não tem como você prever e meu, eu já passei por uns perrengues assim, bem tensos assim, de olhar pra cima e falar “gente, não sei vocês, mas eu tô sentindo, tô achando que vai cho—” rarr (imitando o barulho da chuva), não deu nem tempo de terminar de falar, começou a cair um toró, um toró, eu, meu e galera deseperada “meu, como que eu te ajudo e tal”,isso foi uma das coisas que eu mais sofri, eu Kacá,
21’26”
94 foi com essa coisa da chuva e do mal tempo, do tempo virar do nada. 21’27”
Outra questão que muita gente tem dificuldade é com a
21’51”
questão de energia, né, porque a gente não tem onde puxar uma tomada, então você precisa gerar sua propria energia, só que como é uma coisa tecnica também, muitas vezes o artista não sabe lidar com aquilo, então às vezes compra um equipamento e acaba a bateria e não sabe por quê, e tal, então tem muito problema com a parte tecnica. 21’52”
Às vezes acontece de ter, por exemplo, sei lá, uma
22’06”
manifestação, de repente do nada, ãnh que mais que a gente tem? 22’07”
Eu já tive, eu já tive incoveniente com… com morador de rua,
22’24”
com gente que tava ali e de repente começou a tomar e tomar e tomar e daqui a pouco deu uma causada tanto quanto no bar … 22’25”
Mas assim é bem menos, né, até porque a pessoa tá no bar e
22’38”
vai pra isso, a chance dela chapar e te pertubar é infinitamente maior. E…. 22’39”
E eu acho, acho que esses são os principais assim, a questão
23’09”
da chuva realmente é muito complexo, a questão do, do, dos equipamentos e do transporte também, às vezes dá um trabalho de levar,né, as coisas pra rua e tal e no geral acho que isso, tem muita gente que fala da segurança e tal, eu graças a Deus, nunca tive problema assim, sabe? De mexerem no instrument ou alguma coisa e tal. 23’10”
Uma coisa que eu já tive, no caso eu, já tive, mas que é um problema, mas ao mesmo tempo você fica “nossa, que legal também,né?” Porque… da roda tá muito cheia, aí a hora que eu vou virar pra calçada, lota muito a calçada e teve uma,uma época assim mesmo, que eu tinha que falar
23’41”
95 “gente,sobe pra calçada, pelo amor de Deus”, porque os ônibus começavam a passar atrás assim, óh. 23’41”
aí teve uma situação que tinha uma,uma mãe que não tinha
24’24”
como passar com o carrinhode bebê, então ela teve que passer no meio da rua, e ficava muito preocupado assim, mas aí foi umas duas vezes, e aí depois eu já comecei a encorporar, a encorporar isso “gente, vamo pra calçada, agora fica na calçada, porque se vocês pisar o pezinho na rua, eu paro de cantar” e vira uma brincadeira, tipo, botar o pé na rua, aí eu (imitou como ele fica), aí a pessoa tipo “ohh, tiraaa” e todo mundo “ohhh, sobe na calçada,sobe”, aí a pessoa subia na calçada e eu tãntãn e virava tipo uma forma de descontrair, de brincar e tal,mas foi, foi de certa forma foi um problema assim,né 24’25”
Porque isso tá dentro da cartilha inclusive, né, não, cê não
24’38”
pode, é… como é que fala? Cê não pode parar… esqueci até o termo que eles usam… 24’39”
Cê num, tipo assim, cê não pode … obstruir, é isso oh, cê não
24’49”
pode obstruir a calçada né, a via 24’49”
Cê não pode por exemplo, obstruir nenhuma guia rebaixada,
25’02”
são alguns cuidados, às vezes alguns músicos não tem essa noção, por conta de não saber, de não ler a cartilha mesmo, aí acaba às vezes dando uns vacilos 25’03”
Às vezes para.. Por exemplo, eu já tive problema de parar e a
25’17”
minha roda… e eu… isso assim, eu tava bem longe da entrada de uma garagem, de certa forma tava meio longe, tava sei lá, uns 20 e tantos metros, só que tinha tanta gente, tanta gente que o carro não conseguia sair 25’18”
E aí o pessoal dava uma causada assim, mas é aquele problema que cê … que cê fica feliz porque tem muita gente, mas de certa forma também é um problema, acho que é isso.
25’30”
96 25’31”
E na sua opinião a arte de rua é uma arte democrática? E
25’40”
como vocês artistas de rua contribuem para essa democratização? 25’42”
Meu, é. É uma arte totalmente democrática porque você faz o
25’52”
que você tá afim de fazer, cê consegue realmente se expressar, né. 25’53”
Você consegue realmente expressar o que você quer
26’05”
expressar e não o que a mídia acha legal ou que fulano, ou que barzinho decidiu que ali vai tocar aquela música. 26’06”
Então ali é uma forma super democrática de você mostrar o
26’16”
seu trabalho, de você mostrar sua arte e…. e assim… eu… 26’17”
Antes de eu começar tocar eu tinha muito receio, né, tem
26’31”
muita gente que tem esse receio, algumas pessoas vem me perguntar, outros artistas até, que sentem vontade de tocar na rua e vem e me veem como referência 26’31”
E vem pra mim e fala “Meu, fico com medo de repente, sei lá,
26’39”
as pessoas não pararem, pra minha música e tal” e … 26’40”
E isso é uma coisa que eu sempre falo “cara, você tem que
26’52”
fazer o que você tá afim de fazer, mesmo, o que cê gosta de fazer, não faça o que cê acha que alguém vai gostar daquela música que você vai tocar,não, faça o que você quiser tocar”, né 26’53”
E só o fato de eu fazer dessa forma, eu acho que eu já
27’10”
contribuo com essa coisa da democracia mesmo, porque as pessoas falam “Meu, cê toca e agente vê que você gosta muito de tocar” sim, porque eu toco o que eu to afim de tocar 27’10”
Quando as pessoas pedem e às vezes eu gosto da música, aí
27’16”
eu vou e toco, às vezes eu não gosto muito, aí eu falo “Ah, não gosto dessa música não, não vou tocar não” 27’17”
Às vezes brinco, “ah, não, não gosto dessa música, mas como você pediu, eu vou tocar” aí eu vou e toco, aí toco só um
27’38”
97 pedaçinho e falo “tá bom, já deu” e a pessoa gosta, mas de fato uma forma de… uma forma de contribuir porque como eu sou referencia hoje, bastante referencia, bastante gente me conhece ali, é… 27’39”
Acaba que as pessoas se espelham em mim e elas vão fazer,
27’57”
elas tendem a repetir algo que ela veem ali como uma coisa que tá dando certo, né, porque cê chega e tem um monte de gente, cê fala “Bom, o cara é legal, né, o cara junta essa galera” então vou tomar como referencia. 27’58”
E eu acho que é uma coisa meio natural mesmo, não tem
28’17”
como não ser democrático, só você andar pela Paulista que você vai ver assim óh, cada, cada 100 metros tem alguém fazendo uma coisa completamente diferente e para quem se identifica com aquilo, então é democracia total assim. 28’18”
Sem contar também que é uma arte sem restrição, cê lá ali
28’27”
na rua, todo mundo pode assitir, todo mundo pode ver 28’28”
Sim, total. Inclusive, assim, eu tomo bastante cuidado,
28’37”
inclusive, porque assim… eu tento …. 28’38”
Eu tento não ficar levando muito pro lado politico, pro lado
29’04”
religioso, pro lado, é… de nada que… que seja polêmico, vamos dizer assim, porque… eu fico tentando assim manter a energia,né, lógico não vou deixar de, não vou deixar, não vou deixar de falar alguma coisa que eu penso, às vezes eu dou um, umas broncas assim, é… é… 29’05”
Eu acho que, eu acho massa porque eu tô ali tocando e eu
29’17”
como sei os meus deveres também, de manter o espaço, de zelar pelas pessoas e tudo mais 29’18”
já dei vários corretivos assim, tipo o cara tá tomando cerveja e joga o negócio no meio fio e eu falo “ôhhh, amigão, pô, qual que é?”
29’28”
98 29’29”
Ou às vezes de eu pegar, parar de tocar e falar “gente, peraí
29’38”
só um pouquinho”, vou lá pego o papel, jogo no lixo e galera bate palma “aê, uhul” 29’39”
Tipo, então não é só democrático, mas é educativo, tem
29’47”
vários pontos positivos, né, vários pontos positivos. 29’48”
Uhum. E como tá sendo esse momento de pandemia pra
29’52”
você? 29’53”
Olha, eu poderia (risos), poderia me lamenter muito, falar
30’02”
“nossa, a pandemia acabou comigo”. 30’03”
É… é difícil, é difícil, mas é difícil pra todo mundo, né.
30’27”
Principalmente pra classe artística, tenho vários outros amigos que viviam somente disso, dependiam exclusivamente disso e… e que tão assim, passando bastante dificuldade, isso me sensibiliza bastante,mas falando de mim… é… 30’28”
No começo foi meio que um baque, mas eu—eu toquei, a
30’43”
última vez que toquei na rua foi no final do ano passado, por quê? Porque eu já tava com ideia de reformular o meu projeto 30’44”
Então no começo do ano, janeiro, fevereiro, eu já não fui, a
31’11”
última vez que eu toquei na Paulista foi dia 30 de dezembro de 2019, e aí parei um pouco, falei “Meu, preciso reformular”, porque eu tava com um monte de parceiros novos, marcas me apoiando de equipamentos, de instrumentos, de um monte de coisa, que eu falei “nossa, preciso voltar a tocar com uma cara nova”. 31’11”
Então eu deixei de tocar no começo do ano, até porque tava uma época que tava chovendo, tava uns climas meio esquisito e tal, tava rolando umas manifestações, enfim, umas coisas que, né, por eu já tá lá há muito tempo, eu já tô, é, vacinado, falei “não vou agora, porque não vai render muito, vou parar, vou reorganizar”.
31’36”
99 31’36”
E tava reestruturando meu projeto pra voltar assim, numa
31’53”
outra, com uma outra cara, comunicação visual nova, sistema de som novo, equipamento novo, instrumentos novos, um monte de coisa e não deu tempo de eu voltar. 31’54”
Então eu já não tava indo e quando veio a pandemia eu fiquei
32’20”
meio tipo (buh), porque eu já tava marcando a data pra começar ir e de repente veio a história da pandemia e caramba, fiquei meio chateado só que por um outro lado foi muito bom assim, porque a gente teve que se recolher, de fato, e nossa, eu coloquei em dia muitas coisas que eu tava assim pra colocar fazia muito tempo. 32’20”
Eu comecei a, eu tive tempo pra-pra pensar na minha carreira
32’34”
de uma outra forma, comecei a gravar meu disco, desenvolver projeto novo, escrever muita coisa, estudar muita coisa, é…. 32’35”
E até mesmo na minha vida pessoal, tava um… tava passando
32’49”
por um momento meio conturbado, assim de relacionamento e tal e foi assim… meio providencial assim, sabe? 32’50”
E eu sou muito tranquilo, então eu meio que me readaptei, eu
33’07”
já queria experimentar algumas coisas novas, eu queria muito começar a gravar conteúdo pra YouTube, gravar conteúdo de música autoral pra mim, pra documentário, pra várias coisas que não tinha tempo pra fazer. 33’08”
E aí quando veio a pandemia foi meio que auntomático, já
33’28”
comecei a fazer lives, de cara, já comecei a gravar, aproveitar todo esse tempo e esse estar em casa pra cuidar da minha casa, pra reformar meu-meu, meu espaço, então assim… 33’29”
Foi ruim e foi bom, acho que foi mais bom do que ruim, mas eu entendo assim, eu… o teor da pergunta, porque realmente pro ramo artístico foi bem difícil, só que artista, né cara, é artista, se reinventa.
33’46”
100 33’47”
O ser humano já se readapta muito fácil, o artista se readapta
34’21”
mais rápido ainda, então já deram um jeito de partir pro virtual e tal, só que eu tenho consciência de que muita gente, muitos artistas não conseguem, não conseguiram porque não têm, não tinham uma rede de seguidores e de mídia muito forte, a minha é, né, a minha tem bastante seguidor, tem bastante gente nas minhas redes que me seguem… 34’22”
Ih, um pernilongo aqui agora (risos)
34’23”
34’23”
Eu tenho bastante gente que me segue, as minhas redes tem
34’35”
engajamento então eu-eu não sofri tanto, eu não sofri tanto, mas eu sei que vários outros amigos sofreram bastante. 34’36”
Mas eu acho que fica de lição também porque eles tiveram
35’01”
que se reinventar, todo mundo teve que se reinventar, não só a gente, não só os artistas, mas eu vejo principalmente os artistas, né, porque a gente é… re… literalmente, a gente promove aglomeração, então tipo, não pode term ais aglomeração, não pode term ais arte, de cara é um baque, depois a gente “opa, peraí, mas tem o virtual”. 35’01”
Agora já tem gente fazendo show drive-in, o povo vail á de
35’26”
carro, para, só que aí só os artistas muito grandes, que tem um público grande… se bem que não, se bem que não, teve um amigo que fez aqui na minha cidade, um show, foi o primeiro da região que fez. Mas não é, não é muito comum, enfim. 35’27”
E você já sofreu algum tipo de preconceito por tocar na rua?
35’33”
35’34”
Então, é até… é até engraçado, mas sofri assim bem pouco,
36’12”
porque eu tive um sucesso, muito rápido, então assim, não deu tempo de sofrer preconceito nesse sentido de “ai, nossa, você toc ana rua e tal” e o pouco que eu sofri cara, a grande maioria foi, foram de outros artistas, que não tinham, que não tinham essa vivência da rua, ficaram meio pelo preconceito deles mesmo.
101 36’12”
Não de “você tá fazendo isso”, mas assim, meio que
36’35”
externaram o preconceito deles em cima de mim, “nossa, mas.. cê é louco”, “nossa, porque cê foi tocar na rua?”, “nossa, cê é tão bom, por que você foi tocar na rua?” aí falei “justamente por isso, porque eu sou bom e fui tocar nas ruas pras pessoas me conhecerem e tal” e aí.. 36’36”
Mas assim, foi muito no começo, muito, muito, muito no
36’43”
começo, porque era muito novidade e tal, “nossa, tá tocando na rua, meu”, “cê é louco” e tal 36’44”
Mas não assim de uma forma negativa assim, sabe?
36’53”
Bem,nossa, quase nada, quase nada, é… 36’54”
As pessoas já logo já viram as rodas cheias e aquela coisa e o
37’17”
burburinho todo e tal, eu-eu mesmo não sofri assim, não posso dizer, nossa sofri preconceito, não. Quanto a isso não. Bem pouco e assim nada prejudicial, então 37’18”
E dá pra viver de arte no Brasil?
37’21”
37’22”
Olha, eu tenho uma visão. Porque tem 9 anos que eu sou
37’43”
empresario, além de artista, né, eu tenho a minha empresa, a minha mãe já tinha a empresa, a gente tem uma escola de arte que já funciona há, antes de mim até, que já tem aí mais de 20 anos e eu tenho uma empresa minha. 37’44”
E eu sempre tive uma visão que é a seguinte: eu acho que a
38’08”
gente pode viver do que a gente quiser, em qualquer lugar, né, porque eu sou autonômo e sempre fui, eu nunca tive uma carteira assinada, nunca peguei numa carteira de trabalho, assim, pra mim é muito fácil falar disso, isso nunca me fez falta real. 38’09”
E eu penso que assim, tudo que você faz, com dedicação, com esforço, sabe? Sem preguiça, que você é criativo, você tem a possibilidade de viver bem.
38’25”
102 38’26”
E eu acho assim, é… é pouco valorizado? Pra mim, eu acho
38’41”
que é pouco valorizado sim, eu acho que a arte em si, em geral deveria ser mais valorizada pelos beneficios que ela traz, sabe? Em geral, né 38’42”
Mas dizer, ai, nossa como eu sofro, não, cara, porque eu vivo
38’54”
fazendo a coisa que eu mais gosto, que eu mais amo na vida, que é a arte, que é cantar, que é tocar, né. 38’55”
Já passei perrengue? Já, já passei perrengue, muito. Agora, já,
39’09”
por exemplo, fui fazer um show pra ganhar o que muita gente tem que trabalhar 3 meses pra ganhar, sabe? 39’09”
É… e mesmo na época de barzinho, que eu tinha um cache
39’23”
muito baixo, perto do que eu tenho hoje, até mesmo comparando com a rua, na rua eu ganho muito mais do que eu ganhava no barzinho, isso é fato. 39’23”
Desde a primeira vez que eu toquei assim, que eu nem tava
39’37”
pensando nisso, eu nunca fui pra rua pensando na questão do chapéu em si, na grana que traz, mas isso é uma pergunta que sempre faz “nossa, mas dá dinheiro tocar na rua?” Cara, dá. Pra mim dá. 39’37”
Tem gente que não ganha, tem gente que ganha. Mas pra
40’06”
mim eu não posso reclamar, porque na primeira vez que eu toquei, na hora que eu fui contar lá minhas moedinhas, meus troquinho, falei nossa, ganhei mais que um bar super Famoso que eu toquei durante 10 anos, que eu não vou dizer o nome, (risos), mas é o mais famoso de São Paulo, um dos mais famosos de São Paulo, fica numa esquina muito famosa e eu simplesmente saí de lá e contei, falei caramba ganhei mais do que ganho lá. 40’07”
Tocando praticamente o mesmo tempo, pra pessoas que estavam afim de me ouvir, sentadas no chão, curtindo e cantando e balançando e uhul, meu que muito bom, muito legal e tal.
40’20”
103 40’21”
Só que mesmo em época do barzinho, vai ganhava, posso até
40’33”
expor, sem problemas, às vezes num barzinho, 150, 200, às vezes menos, às vezes ia tocar pelo couvert e não dava quase nada. 40’34”
Em relação a rua, é basicamente isso, a diferença é que na rua
40’46”
você não tem um valor fixo, você tem sempre um couvert espontaneo, eu-eu costumo dizer que eu prefiro muito mais inclusive esse que é espontâneo. 40’47”
Porque a pessoa te coloca um dinheiro que ela tá afim de
40’59”
colocar, se ela colocar 10 centavos, ela vai falar “meu, tenho 10 centavos, mas eu quero te dar”, ou já teve gente de colocar 100 reais, de colocar 20 euros, imagina? 41’00”
Então assim.. às vezes de escrever um bilhetinho, “não tenho
41’09”
dinheiro, mas nossa, amei sua música”, fazer um desenho meu, uma… um guache 41’10”
Teve uma menina que fez uma obra de arte, assim
41’29”
praticamente, enquanto ela me via tocar, durante a tarde inteira, ela ficou lá.. eu não tava entendendo o que ela tava fazendo, tava assim desconfiando, de repente ela me vem e “olha, fiz isso aqui pra você”, e meu, um desenho, lindo assim, tipo com guache. 41’30”
É muito mais gratificante do que um cara falar “ah, tenho que
41’44”
pagar couvert, serio?”, “nossa meu, nem ouvi a música, nem pedi música”, enfim, é um dinheiro que vem assim, que você sente a energia, que é bom, sabe? 41’45”
E ainda assim, eu não posso dizer que eu vivia mal, sabe?
42’06”
Porque eu ia lá pra tocar uma noite e ganhar 100 reais, 150 reais, pra tocar 3 horas, 4 horas, que seja, e se eu tocasse 3,4 vezes por semana, chegava no final do mês, eu tinha o dobro de um salário minímo, sabe? 42’07”
Ganhava lá 2, 3 mil reais, não dá pra eu falar que não dá pra viver, né? Porque é até… sei lá, eu acho que é até pecado eu
42’29”
104 falar, né, porque tem mãe que, pai e mãe que sustenta uma família com 5 pessoas ganhando um salário minimo né, pagando aluguel e não sei o que e tal, tal. 42’30”
Então eu acho que vai muito.. vai muito da disposição.. vai
42’48”
muito da disposição, da força de vontade, do empenho mesmo do artista, mas sim, deveria ser muito mais valorizado, até governalmente falando, sabe? 42’48”
Tipo, até… no sentido de leis de incentivo à cultura, esse tipo
43’03”
de coisa, é… principalmente em periferias assim, sabe? Porque a arte muda muito a vida das pessoas. 43’03”
A arte tira as pessoas de droga, tira-tira as pessoas de
43’17”
caminhos ruins, muda muito a vida das pessoas que tem contato com isso, na rua eu pude perceber muito isso, sabe? E… 43’18”
Inclusive de pessoas que me mandaram mensagens, “cara, eu
43’30”
tava muito mal, muito triste, em depressão, tava quase me jogando da ponte, eu parei lá pra ouvir você e cara, você me fez muito bem, obrigado por isso”. 43’31”
Então assim, por esse benefício, eu acho que devia ser muito ,
43’48”
muito, muito, valorizado, só que eu acho que isso é uma coisa que realmente assim, cultural, uma coisa que… que… precisa partir das pessoas, assim sabe? 43’48”
De valorizarem, né, não é … assim, mas é isso. Dá pra viver de musica? Dá. Tipo a pergunta (risos), qual que era mesmo? Dá pra viver de arte, com certeza, dá pra viver do que você quiser e eu acho que tá muito mais relacionado a outras coisas que não são.. financeiras, que são outros valores assim pra mim, tem coisas muito mais importantes ali do que a grana em si, sabe?
44’21”
105 44’22”
E depende muito do quanto você gasta, eu sempre falo isso,
44’29”
sabe? A questão não é o quanto você ganha, é o quanto você gasta , né? 44’30”
Verdade.
44’30”
44’30”
Então, é muito relative, mas dá, dá pra viver muito bem,
44’35”
inclusive. 44’35”
E na sua opinião, os artistas de rua têm pouca visibilidade na
44’40”
grande mídia? 44’42”
Sim. Eu vejo que… que tá rolando uma crescente, por
44’58”
exemplo, teve uma edição do The Voice, que teve uma menina que se destacou muito e que ela cantando no metro. 44’59”
Mas eu percebo que, por exemplo, eles utilizaram esse fato
45’15”
de uma forma que não foi muito legal, assim no meu ver, porque “nossa, cê acredita que a menina tocava no metro?”, tipo assim, e daí? 45’16”
Ela podia tocar na casa dela, no banheiro, na sala, na cozinha,
45’27”
na rua, no metrô.. que tem a ver uma coisa com a outra? Eles colocaram de uma forma que eu não gostei muito, sabe? 45’28”
Tipo como se fosse nossa, coitada, né, toca no metro e não,
45’38”
né? É uma menina que toca e foi lá expor o trabalho dela no metrô. 45’39”
Eu participei de um programa de televisão em rede nacional
45’51”
também, que é o The Four, e eles trataram muito melhor, o Kacá toca na rua, arrasta multidões, outro.. foi outro contexto assim, sabe? 45’52”
Mas, cê vê pouco, né, cê vê muito pouco, porque-porque rola um certo preconceito mesmo, em geral, tanto que eu te falei, os próprios artistas, eu já tive preconceito antes, quando a minha amiga veio falar, meu por quê você não toc ana rua? Primeira coisa que eu fiz foi hãn? Que isso? Como assim?
46’18”
106 Tocar na rua, tipo? Então sabe, assim? Primeira coisa que vem é isso, não, 46’19”
Porque a gente tem uma.. uma visão que ainda é atrasada,
46’44”
né? Do cara que toca na rua ser aquele cara que não tinha opção e aí puts, sabe? Teve que ir tocar na rua, sabe? Como se fosse um pedinte, como se fosse um mendigo que tá lá pedindo esmola, não, ele tá mostrando o trabalho dele. 46’45
E eu tive preconceito no início, até a hora que ele começou a
46’57”
me expor mais e falar não, olha só, olha isso aqui, tem uma galera muito boa, levando um baita equipamento, com uma estrutura que você não tem casa de show. 46’58”
E aí quando eu tive essa visão, eu fiquei com vontade de ir, eu
47’31”
fui e fiz um baita trabalho, como eu faço até hoje, assim, só que eu sinto que é uma coisa que vem crescendo, porque nossa, agora todo mundo quer ir tocar na Paulista, todo mundo quer tocar na Paulista, por quê? Porque foin a Paulista e viu que o negócio é legal, que não é … que você lá, você realmente pode se expressar, que lá você realmente tem essa Liberdade de tocar o que você quiser tocar, fazer a sua música, fazer do teu jeito, no teu horário, na onde você quiser, né 47’32”
Então assim, o artista ele quer muito isso, ele quer muito ser
47’43”
livre pra poder criar, pra poder criar e mostrar aquilo que ele tá criando, e a rua é o melhor lugar pra isso 47’44”
Quando os artistas começaram a ter essa, essa sacada e
48’03”
consciência foi depois do fechamento, né, da Paulista, né, depois que a Paulista começou a fechar pros carros no domingo, e virou uma praia praticamente, virou um parque, é… aos domingos 48’03”
Então assim é uma, é um fluxo enorme de pessoas passando e que realmente você tem muita abertura, muito espaço, e aí tá
48’19”
107 assim, brotando gente tocando na rua e também por conta da gente né. 48’20”
Teve uma banda de um amigo que foi pro Rock In Rio e toca
48’46”
na rua, eu fui pro um programa de TV, o outro foi pra num sei o quê, fiz várias entrevistas, então assim, aí as pessoas começaram a ver, aí eu acho que-que ainda vai crescer muito, mas começou agora a ter assim, uma abertura maior, na mídia quase nada, quase nada. 48’46”
Só se fala da Paulista e só assim. Enfim.
48’52”
48’53”
E você acha que há uma diferença entre tocar na Paulista e
49’01”
tocar em sei lá, numa rua do interior? O que você acha disso? 49’02”
Então, com toda a certeza assim. Porque a Paulista já virou
49’14”
uma referência nacional, né? Nesse quesito. 49’15”
É como se fosse sei lá, uma Avenida X em Dublin e os artistas
49’29”
ficam lá, ou em Portugal, eu tive em Portugal e vi muita gente tocando num lugar assim especifíco, a Paulista é essa referencia. 49’29”
Mas é muito massa porque,é, muda de lugar pra lugar, a
49’45”
legislação muda, por exemplo aqui, eu tô em Mogi das Cruzes, eu sou daqui, aí vim pra cá agora, né, e aqui em Mogi não pode, olha que louco, né. 49’46”
Aqui em Mogi, não podia tocar, não podia de jeito, de forma
50’00”
alguma, era contra a lei, você ir ali tocar, só que eu sou artista de Mogi, nascido e criado aqui e me destaquei na Paulista. 50’01”
De repente, hoje pode, né, então assim, hoje eles viram-viram essa… o secretário da cultura é meu amigo e me convidou pra fazer Virada Cultural, me convidou pra abrir o show da Anitta no aniversário da cidade, foi convite dele, “pô, cê vem abrir o show? É sua cidade, é o maior show que vai ter”, pô, legal,
50’31”
108 então é um cara que tem a cabeça aberta,então ele entrou e falou “pô, isso é interessante, vamos resolver isso aqui”. 50’31”
Então outros artistas que me viram tocando na rua, se
50’48”
encorajaram de começar a tocar, tanto aqui em São Paulo, que tocam em outros lugares de São Paulo, capital, e gente de outro estado. 50’48”
Teve um cara de Santa Catarina, que aí ele vinha e me pedia
51’05
uns toques e tal, eu confesso assim, que não sei exatamente como funciona, mas pensando na dinâmica da rua em si, eu penso que qualquer lugar é lugar, enfim.. 51’06”
Só que com certeza há uma diferença de pessoas, por conta
51’32”
do espaço físico em si e a Paulista no domingo não tem como bater a Paulista no domingo, né, a não ser que tenha uma outra avenida, em algum, em alguma cidade que seja enorme e que eles decidam fechar e fazer a mesma coisa, daí eu boto fé que vai ficar, né, parecido 51’33”
Mas creio que tenha uma diferença bem grande sim, em
51’49”
termos de… até de… como é eu posso te dizer? De retorno financeiro, né, porque quanto mais gente, mais possibilidades de doações ali no chapéu, então … 51’50”
E pra encerrar nossa rodada de perguntas (risos), você tem
52’00”
alguma história engraçada ou inusitada pra contar? 52’01”
Nossa (risos). Tô no meio da reunião aqui, meu irmãozinho
52’11”
chegou, peraí, é bom qua a gente vai editar, né? 52’12”
Sim.
52’12”
52’13”
Então… fecha aí a janela. Não, e eu falei com ele aqui
52’36”
agora,inclusive, na hora que ele chegou aqui, eu falei tô aqui escrevendo um projeto e tal e faz a pergunta de novo e depois eu respondo. Aí eu comecei a anotar só sobre histórias. É… como foi a pergunta?
109 52’37”
Se você tem alguma história engraçada ou inusitada pra
52’42”
contar? 52’43”
Meu, das histórias que eu me lembro assim de cara, tem
53’01”
umas 20 assim (risos), mas… cê quer histórias engraçadas, histórias comoventes, histórias tensas, que tipo de história? Você pode até escolher a história (risos) 53’01”
Pode começar com uma engraçada.
53’04”
53’05”
Engraçada? Deixa eu pen… nossa, tem uma que é muito boa.
53’10”
53’11”
Tem uma história que é o seguinte: é… um cara chegou pra
53’36”
mim no domin… no domingo não, ele me chamou no Instagram e falou assim: “cara, eu tô querendo pedir minha namorada em casamento e aí eu queria muito pedir ela lá na Paulista, será que você deixaria eu chamar ela.. eu falar no microfone e tal?”, eu falei “não, tranquilo”. 53’36”
Aí o cara até falou assim: “é.. não, qualquer coisa eu te dou
54’01”
uma grana”, eu falei “não, fica tranquilo”, “não, não, eu te dou uma grana, te dou uma grana”, o cara até insistiu pra me dar uma grana e tal e falou assim: “óh, cê me dá uma deixa…”, eu falei pra ele “ce me dá um toque a hora que cê tiver confidante, que aí eu crio um clima e te chamo”, aí beleza. 54’02”
Aí chegou lá na hora, o cara ficou (imitou o cara piscando),
54’10”
dando um toque, só que eu não tava achando o momento ali pra falar e tal, até a hora que eu achei. 54’11”
Aí eu comecei a tocar umas músicas românticas etal, aí eu fui
54’19”
tocando uma, duas, três e tal, aí na hora que ficou assim um clima legal, ah, agora é a hora. 54’19”
Aí eu falei: “nossa, gente, tô muito romântico gente, daqui a pouco eu vou pedir alguém em casamento, não é possí…” eu falei alguma coisa nessa brincadeira e tal, aí eu meio que abri pra isso, né.
54’33”
110 54’33”
Foi assim “daqui a pouco o povo vai tá pedindo… todo mundo
54’47”
aí vai tá se pedindo em casamento, inclusive se quiser pedir, já aproveita o microfone e pede, se tiver alguém, já fala agora” né, pra dá a deixa pro cara. 54’48”
Aí me levanta um outro cara (risos), “eu vou falar então”,
55’01”
catou o microfone, catou o microfone e o cara ficou assim tipo (imitou uma cara de susto), “ferrou, acabou”, estragou a surpresa do cara. 55’02”
Aí eu, puuuts. Aí o cara chegou, “não, essa mina aqui eu já tô
55’24”
com ela faz tempo, e eu amo de mais e papapa, e não o que, só que ela nunca quis namorar comigo, só fica se pegando, aí agora eu vou pedir, cê quer namorar comigo?”, aí “aceito”, aí foi causou. 55’25”
Aí pronto, aí o cara ficou assim, já assim a posto, né, e eu falei
55’37”
“e aí, gente o cara…” uhul, bateram palma, e falei “gente tem mais alguém,né?” e me vem outro. (risos), nossa.Outro. Que não era o cara. 55’38”
Falei não, tá de sacanagem, aí chegou o outro, e falou e fez
55’48”
outra declaração, uhul, né, na terceira vez foi que o cara conseguiu. 55’48”
E eu falei “e aí, gente, por acaso tem mais alguém? Daqui a
56’02”
pouco até eu vou pedir alguém em casamento aqui daqui a pouco e tal” , aí o cara chegou e veio, aí ele veio e falei e agora? O que eu vou fazer pra dar uma … dar uma moral pro cara. 56’03”
Só que aí o cara já veio preparado, porque ele já tava com a
56’19”
aliança, e não sei o que, e na hora que o cara foi sacar a aliança assim, eu peguei o microfone e falei “não,não, pera, gente, para tudo, cês são tudo amador, o cara aqui é profissional, o cara veio com a aliança, né”. 56’19”
Aí tipo, ele já ficou assim… meu, fez mó declaração, aí pediu a menina em casamento e tal, e não sei o que, cara, foi muito
56’34”
111 engraçado assim, porque tipo eu realmente não esperava que outra pessoa, aí outra pessoa, pra daí depois o cara (risos) 56’34”
Aí falei “pô, velho, foi mal”, aí depois ele ainda foi lá e ainda
56’57”
deixou um dinheiro assim, ele deixou tipo 100 reais assim no meu chapéu, falei “Ô, loco meu, ganhei 100 conto, vocês não quer pedir mais alguém em casamento, não?”, já virou uma brincadeira, de uma piada e tal Mas essa foi história assim legal, assim. 56’58”
E tem alguma história emocionante assim?
57’01”
57’02”
Tem. Nossa, tem uma que ela se mistura. Tem algumas assim,
57’20”
de histórias que foram muito massas assim, é… tiveram algumas vezes, que isso aconteceu, eu acho muito legal porque … bem, só acontece ali… 57’20”
Essa conexão com as pessoas, de me conectar com o público,
57’57”
de me conectar com cada um ali que tá assistindo, sabe? Porque as pessoas que estão ali, que param ali pra te ouvir, elas estão atentas à você, então é-é uma coisa natural que eu esteja atento também, né, acaba sendo uma coisa natural a minha atenção para com elas também, então, eu fico ali, eu fico ligado, vendo quem tá curtindo, quem tá sorrindo, quem tá com sono, quem… às vezes a pessoa quer ir embora, a outra quer ficar, então eu fico ali prestando atenção. 57’57”
Teve algumas situações.. acho que umas três, umas três vezes
58’18”
que aconteceu, de eu tá ali e às vezes eu me conecto com algumas pessoas de uma forma um pouco mais forte, que eu vejo que a pessoa tá tão atenta, que às vezes eu erro uma coisinha, faço uma brincadeirinha, um negócio muito sutil e a pessoa ri ou percebe e tal. 58’19”
E também tem aquelas pessoas que… que eu tô tocando uma música, que eu vou sentindo que a pessoa tá precisando chorar, vamos dizer assim, né.
58’29”
112 58’29”
E teve uma vez que isso aconteceu, foi um momento muito
58’46”
bonito, foi muito emocionante. Eu vi uma garota e ela tava uma cara feliz, tava curtindo, só que eu acho que ela tava passando por algum problema, sei lá, por alguma coisa, que ela tava meio emotiva, né. 58’46”
E aí eu toquei uma música e aí daqui a pouco, eu fui toquei
58’58”
outra, e eu falei, meu, essa menina vai.. se eu tocar ela vai chorar, se eu tocar uma musiquinha assim mais romântica, mais triste, ela vai chorar. 58’59”
Sabe quando você já tá vendo assim que a pessoa tá quase
59’21”
chorando? E aí eu tive uma ideia, eu uso muito looping, né, que é um recurso que eu piso no pedal, gravo o que eu tô tocando, aí eu piso de novo e ele fica repetindo e aí eu toco por cima, faço várias outras coisas e tal e eu consigo gravar alguma coisa e deixar lá tocando e tal. 59’22”
Aí eu senti que ela tava assim meio que quase chorando, eu
59’57”
peguei, no final da música, eu fui gravei a música, fui toquei e tal, e falei no microfone “gente, peraí, rapidinho, só vou resolver um negocinho aqui e tal” e aí larguei o violão, e aí eu fui andando lá, “óh, tem uma moça aqui que eu acho que ela tá precisando muito de um abraço” e aí eu fui lá no meio assim, aí ela, ela fez uma cara assim (imitou uma cara de susto), aí ela levantou, eu levantei ela, mas ela me deu um abraço, mas ela chorou, chorou, chorou,chorou, mas ela chorou, daqui a pouco, tinha um monte de gente chorando também em volta, porque a menina tava … 59’57”
Não faço a minima ideia do que tava acontecendo, do que ela tava passando, só sei que ela foi escutando minha música, escutando minha música, e aí alguma coisa bateu lá forte nela e ela começou a querer chorar, e eu falei “eu vou ajudar essa garota a chorar”, aí eu fui cantei uma música bem de chorar, parei no meio da música, gravei e fui lá e dei um abraço nela
1º 00’16”
113 1º00’17”
Mas ela me abraçou tão forte, mas tão forte, tão forte, que
1º 00’41”
chorou, chorou, chorou, chorou e aí eu fiquei conversando com ela, tipo no ouvido dela “e aí, cê tá bem? Já posso te soltar? Se eu te soltar você vai tá com a cara inchada?”, aí eu fiquei brincando até ela, até ela começar a dar risada, aí eu falei “já posso sair daqui? Já pode tirar a cara daqui”, aí ela enfiada aqui assim 1º 00’42”
Nunca me viu na vida, imagina, e chorando, áááá, no meu
1º 00’55”
ombro assim, horrores, e tal, e aí eu brinquei com ela, até que ela foi acalmando e tal, e aí eu larguei e voltei e fui tocar. 1º 00’ 56”
E teve também uma outra situação de um cara, um menino
1º01’14”
que tava-tava meio revoltado assim etal, aí eu comecei a tocar, aí aconteceu que começou a querer garoar, chover assim, aí falei “puxa, ai gente, vai chover, eu vou ter que parar”, aí eu tive que parar e depois eu voltei a tocar. 1º 01’ 15”
Só que nessa que eu parei, o menino veio encostando perto
1º 01’24”
de mim, aí começou a conversar, aí começou meio que desabafar assim, umas coisas meio aleatórias, fiquei “ué, não to entendendo”. 1º 01’ 25”
Aí eu fiquei meio que dando uma psicológo, “não, cara, que
1º 01’ 40”
isso e tal”, “não, porque eu fugi de casa..” e não sei o que, como assim, né e tal? Aí depois eu voltei a tocar, ele já tinha conversado comigo, eu já sabia que ele tava com a cabeça conturbada e tal. 1º 01’ 41”
E aí teve uma hora que foi muito legal, que falei assim “ e aí
1º 01’ 49”
galera, é o seguinte, vou tocar uma música pra esse menino aqui porque ele tá precisando, né”. 1º01’41”
E aí eu fui e toquei uma música, né, que foi Amor Pra Recomeçar do Frejat, que fala "Desejo que você tenha a quem amar e quando estiver bem cansado, que ainda exista amor pra recomeçar…” e cantei pra ele e ele ficou emocionado pra caramba e tal.
1º 02’ 05”
114 1º 02’ 06”
No final da música, eu falei “gente, esse brother tá passando
1º 02’ 32”
por um momento difícil, ele tá precisando de um abraço, vamos dar uma abraço nele?”, meio que assim despretencioso eu falei e simplesmente levantou todo mundo e foi abraçar o cara, uma roda com 200 pessoas, que foi pra cima do cara, assim, uááá, falei assim “nossa, velho” , aí eu fui junto assim também, aí quando o pessoal saiu assim dele, ele “aaaah”, ele tava assim… 1º 02’ 33”
Mas pra mim foi muito louco, eu falei “vamos dar um abraço
1º 02’ 49”
coletivo nele, galera?”, “vamo aí, vamo aí”, dei uma pavorada assim, uma intimada na galera, a galera levantou, cara, cento e tantas pessoas, quase 200 pessoas, tava muito cheio 1º 02’ 50”
E a galera foi toda dar um abraço no cara, foram dois
1º 02’58”
momentos assim, emocionantes. E eu já tive uns momentos ruins, né. 1º 02’ 58”
De-de pessoas que beberam demais e que aí ficaram
1º03’25”
causando muito assim, durante a apresentação, pertubando várias pessoas, xingando e falando, eu tentei falar e eu dei lição de moral no microfone, no meio do show e tal, até que isso não terminou muito bem. 1º 03’ 25”
Teve uma hora que o camarada que bebeu demais, ele falou
1º 03’ 43”
alguma coisa com um cara, não sei mexeu com a munamorada do cara, aí saiu uma treta assim, aí foi um … nossa, foi um negócio bem, bem chato 1º 03’ 44”
E aí ainda depois disso, veio uma menina reclamar comigo,
1º 04’ 05”
falar que eu não fiz nada, porque o cara foi… agrediu o camarada que tava bêbado, não sei o que, enfim, veio meio que me dar lição de moral, e aí eu.. achei muito chato, muito constrangedor. 1º04’ 06”
Falei “olha, tipo, eu sou artista, cara, eu to fazendo meu trabalho, não sou babá de-de bêbado”, poxa, já saí de bar pra
1º 04’ 22”
115 não ter que lidar com bêbado, e o cara vai mexe com a pessoa, tipo apanha e aí? 1º 04’ 22”
“E aí, cê quer culpar o artista por isso? Cê tá viajando,né”. E aí
1º04’46”
como se não bastasse um amigo da garota que tinha muitos e muitos seguidores, mais de 100 mil seguidores, pegou uma foto do meu Instagram e postou no Instagram dele falando um monte, um monte de merda assim, surreal, marcando um monte de artista famoso e tal. 1º04’47”
Aí que o que aconteceu que foi um monte de gente que viu,
1º 05’ 06”
porque eu cheguei e falei “galera, esse cara e tal”, e foi uma galera lá e deu, nossa, mas falou um monte pro cara, “cê é louco?”, “cê tem o que na sua cabeça?”, “cê nem conhece o artista, tá maluco?”, aí pá, apavoraram o cara. 1º 05’ 07”
Aí uma amiga advogada botou mó pressão no cara e tal, aí ele
1º05’20”
tirou lá o negócio, mas enfim, ficou tentando me denegrir assim, sabe? Tipo, a-a troco de nada, enfim. 1º05’21”
Foram as… essas foram.. essas são três histórias assim, uma
1º05’35”
alegre, uma emocionante e uma bem chata, essa foi a mais chata assim mesmo, que aconteceu e me deixou bem … tipo, pensativo, sabe? 1º05’36”
De chegar até bater um negócio de meu, pra quê, né? De ficar
1º05’52”
até sem vontade de ir tocar por algumas semanas, sabe? Mas aí depois passou e ficou tudo bem, mas acho que essa foi a pior. 1º05’53”
Teve uma vez,mas foi muito rápido, que teve um cara assim,
1º06’17”
meio esquisito, colou assim e tal e ele q.. quase pegou meu telefone, só que meu, um amigo meu que me acompanhava tava junto e se ligou e chegou atrás do cara assim, tipo, aí o cara pegou, chegou a pegar meu telefone até. 1º06’17”
E aí ele falou: “E aí amigão, e aí? Que tá rolando?”, aí “não, eu ia guardar aqui o telephone, porque fica aqui exposto”, o cara deu uma de joão sem braço e caiu fora assim, mas quase
1º06’37”
116 fui roubado, foi a única vez que realmente alguma coisa nesse sentido aconteceu assim de o cara querer pegar o meu negócio. 1º06’38”
Assim, mas eu acho que é isso asim de história, tem muitas na
1º06’46”
verdade, muitas, muitas, muitas, muitas, tipo, várias. 1º06’47”
Teve uma de… de eu tá tocando e de repente chegar o
1º07’11”
pessoal do Maneva, da banda inteira do Maneva, que eu não conhecia, e aí simplesmente os cara, “pô, a gente tá fazendo uma matéria, um negócio e tal, uma gravação pro nosso clipe, que é uma música que fala sobre os artistas de rua e tal”, aí eu coloquei eles todos pra tocar comigo e foi uma coisa muito louco assim. 1º07’12”
Vários outros artistas que já postaram coisas minhas, tem
1º07’24”
muitas coisas legais assim, muitas coisas legais. Posso ficar um dia assim contando só histórias. 1º07’25”
(Risos). Bom, acabaram as perguntas agora, pra encerrar eu
1º07’37”
ia pedir pra você tocar uma música, mas você prefere tocar agora ou gravar separado essa parte? 1º07’38”
Eu até posso tocar agora e depois fazer algum take de outro
1º07’51
ângulo, não sei
1º07’55”
(Conversas/ajustes no violão)
1º12’30”
1º12’31”
Vou tocar uma música que eu fiz … que eu fiz por conta de
1º12’58”
uma história da rua, chama, é uma reflexão na verdade, uma reflexão sobre a velocidade das coisas, quando você tá na rua, é muito louco porque, é tudo muito rápido, tem essa sensação mais latente assim. 1º12’58”
Cê tá ali na rua e as coisas passando, quando você tá dentro de casa… porque a gente tem essa sensação que é tudo muito rápido né, o tempo passa muito rápido, o ano passa muito
1º13’23”
117 rápido, as coisas acontecem muito rápido, a gente se envolve muito rápido nas coisas e tal, a gente acaba de conhecer alguém e vira superamigo, já tá tipo, né, contando a vida e tal. 1º13’24”
E.. e aí por conta disso eu fiz essa música, chama “Tempo de
1º13’29”
Encontrar”.
1º13’30”
(Kacá começa a cantar e tocar)
1º17’17”
118 Gravação: Entrevista com Myrella Nascimento
Pag.xxx
Realização da gravação: 02/09/2020 Obs.: Procure apontar o time code de 10’’ em 10’’ para inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora Time code
Descrição da tomada e/ou transcrição da sonora
in 0:04
Time code out
Eu vou pedir primeiro pra você se apresentar, falar seu
0:13
nome,idade,profissão e há quanto tempo você trabalha na rua cantando 0:15
Meu nome é Myrella Nascimento, eu trabalho com música há
0:26
20 anos, mas tocando na rua há 2 anos, desde 2018. 0:27
Tenho mais de 30 anos, né, não precisa falar a idade certinha
0:38
(risos), sou mãe e sou de São Paulo, capital. 0:39
Para começar, você pode me contar um pouquinho da sua
0:43
história na música? 0:45
Ãn, eu comecei fazendo aula de violão, de teclado, lá pelos
1:02
meus 9 anos de idade e depois fiz aula de canto, sempre gostei muito de música, compus minha primeira música com 15 anos de idade e aí não parei mais. 1:03
Aí tive meu primeiro equipamento de som, aí comecei a fazer
1:17
solo em barzinho com 17 anos e foi indo até hoje, barzinhos, eventos corporativos, empresas. 1:17
Até que em 2016 foi o ano em que nasceu o meu filho, é, eu
1:40
tive que me dedicar a maternidade, fiquei aí quase 2 anos for a do mercado e eu perdi todos os contatos que eu tinha, né… é, de trabalho, enfim,é… o mundo não para, você é substituído. 1:41
E aí eu me vi a oportunidade de ir para a rua justamente para retomar do zero tudo o que eu precisava de contatos.
1:50
119 1:50
E a Avenida Paulista, que foi aonde eu fui tocar, é a melhor
2:16
vitrine, porque eu já frequentava lá, já via outros músicos de rua tocando, ficava, nossa, aqui passa gente do Brasil inteiro, do mundo inteiro, pra eu divulger meu trabalho, tinha uma Caixa de cd’s, que eu tinha feito, que eu não consegui vender, por conta do nascimento do meu filho, então eu fui vender esses cd’s 2:16
Primeiro impulso foi esse, de querer vender os cd’s que eu
2:26
tinha guardado e de retomar os contatos que eu tinha pra fazer eventos e shows. 2:27
E como é se apresentar na rua?
2:32
2:33
Assim… é, é uma delícia. porque é um palco super
2:56
democrático. Aparece de tudo, aparece… já teve mendigo dançando na frente, que tira moedinha, que tem trocado e coloca ali no meu chapéu, assistindo show do mesmo lado daquelas madames que, que eles sabem que passeia na Oscar Freire 2:57
Então, é o palco mais democrático e ninguém sabe que o
3:14
meu show vai tá acontecendo, as pessoas param ali porque gostam do meu som, porque ninguém me conhece, né, uma meia duzia deve me conhecer e aí com o tempo você já vai criando público. 3:15
Como eu toco lá há 2 anos, aí as pessoas sempre vão indo e
3:30
eu vou criando meu público,mas ao mesmo tempo não é fácil porque a gente lida com … não tem ligar fixo pro músico ficar, é... 3:31
Então a gente tem que achar um espaço pra não atrapalhar
3:36
outro músico, ãn… 3:37
E a Paulista nesse ultimo ano, final de 2019, comecinho de 2020, já tava meio tumultuado pra achar espaço.
3:46
120 3:47
Tem as condições climáticas, já tomei chuva duas vezes, em
4:01
cima de equipamento de som, prejudica bastante. E pode ter manifestação, quando você tá ensaiando e tem que desmontar tudo correndo. 4:02
Todo o trabalho de levar um equipamento de som pra rua ou
4:14
com uma equipe, uma estrutura. Mas eu acho gratificante porque, por contato que eu tenho direto com o público. 4:15
E vocês artistas de rua se ajudam assim, ou rola algum tipo
4:23
de competição ou algo do tipo? 4:24
Competição pelo menos da minha parte não.
4:27
4:28
Eu já ajudei, até podia ter te falado, né, o Santiago Nixon, ele
4:40
começou a cantar na rua porque eu ajudei ele. Ele perguntava, ah, como eu faço pra ligar, porque lá não tem tomada né 4:41
Então o que eu uso de equipamento de som é tipo uma
5:04
bateria de carro, e um inversor, um conversor de energia, que transforma a energia de bateria em energia elétrica.E aí eu consigo ligar equipamento de som. E eu fui explicando isso pra ele. Eu sempre deixo as pessoas que querem cantar, sempre pergunto, tem alguém que quer cantar e tal. 5:05
Teve uma época que eu tava cantando Shallow, né, da Lady
5:12
Gaga e sempre pergunto quem quer ser o Bradley Cooper pra cantar junto. 5:13
Já me surpreendi com menino de 9 anos fazendo Bradley
5:27
Cooper e cantando muito. Sempre aparece alguém pra cantar. Eu sempre ajudo nesse sentido. Da minha parte não tem concorrência. 5:28
E como que é a recepção do público perante ao artista de rua? Eles recebem bem?
5:34
121 5:35
Eu acho que tem um fenomeno que acontece
5:59
especificamente em São Paulo, na Avenida Paulista, que já ficou um trecho, que você sabe que vai ter música ao vivo ali. Eu já toquei, por exemplo, na Praça do Pôr do Sol, e é diferente. As pessoas não tão esperando que vai ter música ali. 6:00
Então, como que na Paulista já é meio que, ah, todo mundo
6:23
sabe que tem música lá, então é de boa assim, o pessoal até gosta, fica um pouco em um músico e um pouco em outro, até gosta da diversidade, porque tem o cara do forró, tem o samba, tem o cara do blues, tem eu que faço mais MPB e Pop, então meio que, ah vamos ver os shows que tá tendo na Paulista,vai por aí 6:24
Conta dos shows que o FIESP também trazem, e hoje é um
6:37
lugar que tem show, tem show no final do ano, na virada do ano, tem aniversário de São Paulo, enfim já é um lugar mais cultural. 6:38
Tem cinemas, teatros,enfim, e aí eu acho que já é uma
6:42
receptividade do público melhor. 6:43
Mas por exemplo, no dia que eu fui tocar na Praça do Pôr do
6:56
Sol, já toquei na Praça em Campos do Jordão também, esses foram os outros lugares que eu toquei, é.. fui bem recebida. 6:57
As pessoas não tão esperando e de repente começa a rolar
7:01
uma aglomeração ali mesmo. 7:02
E qual a sua relação com o pùblico? Interage bastante né,
7:08
que você falou 7:09
Muito. É, é bem direto. Sempre estigo as pessoas a
7:22
dançarem, a cantarem junto, bater palma, as vezes levo uns balões pra galera encher, balançar. Então, é… 7:23
Por isso eu gosto tanto, porque é bem próximo, diferente, diferente do que assim, eu não deixei de tocar em bar,
7:52
122 restaurante, fazer eventos de empresa… é como se … é o momento onde eu me sinto a pop star ali, porque no barzinho eu to meio ali como decoração, vão lá pra comer, beber e tem uma música ao vivo, evento corporativo tem até um pouco mais de atenção, mas as pessoas tão lá para uma conferencia, e tem a música na hora do almoço, entendeu? 7:53
E na Paulista não. Ali é o meu show, as pessoas que tão
8:04
paradas ali porque tão gostando, e é um momento que eu consigo até melhorar, como performance de palco assim. 8:05
E você acha que essa é maior diferença entre tocar num bar,
8:12
num evento e tocar na rua? O público? 8:13
Eu acho com certeza. É o público. Que o público que para lá
8:42
está parando pela música. A pessoa do bar tá indo porque é um aniversário, porque é um happy hour, não importa o músico que tiver lá. E por isso, que eu consegui na Paulista construir o meu público, né, depois, tem várias pessoas que me seguem e que vai no meu show há mais de 2 anos e que me conheceram na Paulista. 8:43
É uma relação que virou até amizade, com vários dos fãs aí
8:51
que eu conheci lá 8:52
Quais as maiores dificuldades enfrentadas pelo artista de
8:56
rua? 8:57
Ah, eu acho que meio que já falei ali, né. Que é … não tem
9:16
lugar fixo, você tem que levar um outro equipamento pra gerar energia, seja um gerador, seja uma bateria, e aí é um equipamento pesado, um aluguel de um gerador às vezes custa caro, 9:17
É… e eu acho legal ligar equipamento de som, tem artista de rua que toca ali no gogó mesmo, né, sem ligar nada, mas aí não tem um alcance tão grande pra mais pessoas.
9:32
123 9:32
A gente vê muito no metro isso né, tem um alcance um
9:43
pouco menor. E já que é pra rua, vamos pra cantar pra mais gente. 9:44
E aí a condição climática, né que pode atrapalhar um dia…
10:05
você programa a semana inteira pra ir aquele domingo na Paulista, e aquele domingo chove e não dá pra você ir… ou tá calor, tipo verão, verão chove do nada, tá céu aberto, calor, de repente… eu já tomei chuva 2 vezes em equipamento de som, aí tem que sair correndo… 10:06
É… claro que a gente também lida com … já apareceu muito
10:18
bebado, xingando, mas tem que levar na… de boa, assim. 10:19
E a prefeitura dá algum suporte para os artistas ou não?
10:22
10:23
Não. Nada. Nada de suporte. Zero.
10:29
10:30
E na sua opinião, a arte de rua é uma arte democrática?
10:34
10:35
Eu acho que é democrática sim. Você dá uma volta na… quer
11:04
dizer, agora não dá porque é pandemia, mas se você fosse andar antes na Paulista, é… é democrática pelo público que pode assistir, todos podem assistir,porque tá ali gratuita, a pessoa, obvio que o artsta deixa um chapéu, uma mala, uma caixinha ali pra pessoa contribuir se quiser, ninguém é obrigado a contribuir com quantia de dinheiro nenhuma, então todo mundo pode assistir, né 11:05
E como eu já falei, tipo, as situações dos moradores de rua,
11:22
de mendigos tirando a moedinha e dando ali no meu chapéu, não aconteceu uma vez, aconteceu três vezes… os que tiraram e deram e outros que assistiram e curtiram, ficaram deitados no chão da Avenida Paulista nesse sentido. 11:23
E tem o lado democrático pelos ritmos também que são apresentados lá né, tem sertanejo, tem… tem uma galera do pagode, tem a galera do funk, tem a galera que vai pra
11:43
124 dançar, tem... tem cenas de grupos de teatro que fazem encenação publica. 11:44
Mas eu acho que isso também acontece pela Avenida
11:52
Paulista ser esse polo cultural. 11:53
E como tá sendo esse momento de pandemia pra você?
12:00
12:01
Ah, o primeiro momento foi um super choque, porque eu
12:13
trabalho só com música e minha renda vinha só de shows, 100% de shows. 12:14
Então eu fiz umas contas meio por cima assim, eu teria feito
12:23
cerca de 450 shows desde março, então é uma grana que não entrou. 12:24
E a Paulista per queira, quer não, sempre passava alguém
12:44
fazendo um evento de uma empresa também, um aniversário, eu tinha muitos eventos tocando na Paulista também, além dos shows e fim de estar em contato com o público. Então, foi uma… foi uma perda financeira bem grande. 12:45
Porém, eu usei a quarentena pra compor novas músicas,
13:07
estruturar minha carreira de música autoral, [ não compreendi], minhas músicas autorais. E aí eu abri um leque pro mercado de música online, de streaming, de tá ali no spotify, deezer, apple music, que é onde também pode ter uma renda pro artista. 13:08
Então fiz vários cursos online, e compus músicas e agora a
13:20
partir de setembro já tô lançando minhas músicas novas dessa safra de quarentena. 13:21
E dá pra viver de arte no Brasil? Ou você acha que não dá
13:25
ainda? 13:26
Dá. Dá pra viver de arte sim. Tem que trabalhar muito, eu vivo de arte há 20 anos, não tenho outra profissão. Mas cê tem que trabalhar, não adianta achar que você vai fazer um
13:52
125 show por semana e tá tranquilo, então eu fazia de 4 a 5 shows por semana e fora todo o trabalho que existe por trás, não é só ir lá e tocar, entendeu? 13:53
É ter grana pra comprar um equipamento bom, ãhn… fazer
14:15
todo o marketing por trás disso, de divulgação em rede social, de entrar em contato, de networking, todo trabalho que tem, se a pessoa tá disposta a fazer tudo isso e não simplesmente ir lá cantar, dá pra viver de música sim. De música, de arte. 14:16
E você já sofreu algum tipo de preconceito por tocar na rua?
14:22
Ou isso nunca aconteceu? 14:23
Nunca aconteceu acho que justamente por causa, de ser a
14:52
Avenida Paulista, entendeu? É… que diferente a gente vê aqueles músicos de metro, acho que sofrem um pouco mais. Mas a Paulista por ser um polo cultural e os outros que apresentei, em Campos do Jordão, na Praça do Pôr do Sol, nunca sofri nenhum tipo de preconceito não. 14:53
E você tem alguma história engraçada ou inusitada que já
15:00
aconteceu com você tocando nas ruas? 15:02
Nossa, devia ter pensado nessa antes, porque é tanto coisa
15:15
que acontece. Pause pra eu lembrar de situações (risos). 15:17
Meu, tem o menino de 9 anos que cantou Shallow
15:29
comigo,que a gente acha, ah vai ser aquela vozinha de criança e cantava muito, fez o maior sucesso, que eu chamo pra cantar junto. 15:30
Aí tem um cara … é, tem muito personagem na Avenida Paulista, né, caracterizado. Aí tem um que era a freira do mal lá, então a freira do mal tô cantando, ela aparece, começa assim, tipo, dançar em cima de mim com aquela cara malvada (risos) e acaba ficando engraçado
15:51
126 15:52
Vestido de Coringa, cantando junto também. Nossa, acho
16:07
que é isso, e fora as situações que eu já falei dos moradores de rua que tiram a moeda pra dar ali no meu chapéu 16:08
Agora não tô me recordando de nada mais inusitado.
16:15
[ Conversa sobre vídeos]
17:12
Em novembro, eu fiz… tem uma música minha que chama “Um Abraço”, e eu resolvi filmar na Paulista. É … justamente pra mostrar essa coisa de ser artista de rua, de juntar e de dar abraço na galera e tal. E aí eu filmei. Eu marquei num 02 de novembro, feriado de Finados, sempre chove (risos) a loca filmando e não choveu nesse feriado de finados e eu consegui juntar um pessoal ali e filmei pro YouTube. Ficou legal, aí eu te mando.
17:48
127 Gravação: Entrevista com Thalia Ribeiro Realização da gravação: 30/09/2020 Obs.: Procure apontar o time code de 10’’ em 10’’ para inserts e de 1’ em 1’ minuto para sonora Time code in
Descrição da tomada e/ou transcrição da sonora
Time code out
0’10”
Pra começar, eu gostaria de pedir pra você se apresentar.
0’18”
Falar seu nome, idade, profissão e há quanto tempo você se apresenta na rua. 0’20”
Tá bom. Meu nome é Thalia Ribeiro, eu tenho 20 anos, eu
0’44”
faço tecido, circo, aéreos em geral, faz uns 7 anos e faz 4 anos que eu trabalho com apresentações e dando aulas de tecido e circo no geral. 0’45”
Meu conta um pouco da sua história na arte. Como que
0’51”
você começou com o tecido, com o circo e tal. 0’53”
Eu comecei a fazer aula de circo com um projeto que havia
1’14”
aqui na minha cidade, é… como uma atividade cultural, né, como tem na maioria dos lugares, pra… pra diminuir um pouco o tempo livre, né? Então eu comecei pra não ficar tanto na rua, sabe, essas coisas? 1’15”
E aí eu queria me inscrever numa atividade, né? E eu era
1’32”
muito grande pra ginástica, porque a ginástica pega com 6 anos e aí eu vi que tinha aula de circo e aí eu me inscrevi e foi assim que eu comecei a ter contato,né? 1’33”
E a partir dessas aulas eu comecei a me inteirar mais nesse
1’59”
universo do circo, das artes e aí eu comecei a ire m busca de.. de assistir, de trazer o circo pra outras partes da minha vida, como na, no cinema, nos teatros, né? E aí eu comecei a me inteirar mais nesse mundo. 2’00”
E o que a levou a se apresentar nas ruas?
2’05”
128 2’06”
Hum… a primeira coisa que me levou, né, a fazer essas
2’23”
apresentações na Paulista, principalmente, que é um bom lugar assim, foi porque eu não encontrava muitos lugares pra fazer o tecido. 2’24”
Então, geralmente quando eu encontrava um espaço, ele
2’53”
tava vinculado com alguma instituição e aí você tinha que pagar pra praticar naquele determinado local ou você tinha que … não sei,ser de tal grupo, de algum lugar ou só podia em tal horário, que eu não podia, então a primeira coisa que me levou a isso foi procurer um lugar pra fazer tecido, pra praticar, né? Pra minha prática. 2’54”
E aí eu conheci a Paulista, lá tem um lugar perfeito pra
3’08”
montar o tecido, né, qer dizer tem os seus defeitos também, mas tem uma boa estrutura pra montar o tecido e… 3’09”
No dia que eu fui montar o tecido, eu conheci um galera
3’24”
que já fazia apresentações lá, só que de slackline, e eu meu juntei com eles e comecei a apresentar junto com eles. 3’25”
E como que é se apresentar nas ruas?
3’30”
3’31”
Hãn… é uma delícia o fato de você tá se apresentando e é
3’54”
também muito desgastante,né, porque... sol, exposição a sol, exposição a chuva, carregar equipamento pesado, às vezes lidar com umas pessoas ignorantes, é.. uns comentários meio machistas, meio não,né, alguns totalmente machistas. 3’55”
E… mas é muito gostoso poder fazer a minha arte num espaço público, né? É… sentir que a cidade também é minha e que eu tô lá fazendo a minha contribuição, também é muito gostoso, às vezes tem gente que para e gosta do que vê e é uma coisa que alegra o dia dessa pessoa, então…Tem esse lado do carinho, né, que é muito gostoso.
4’27”
129 4’29”
E vocês artistas de rua se ajudam ou rola algum tipo de
4’35”
competição? 4’37”
Ãn.. eu percebo que tem um pouco dos dois assim, é… no
5’05”
geral, nós nos ajudamos, né, então nós procuramos, porque de fato, eu tenho um… uma vivência que você também tem, eu tenho uma vivência, eu sei quais são suas dificuldades porque parte delas também são minhas dificuldades, então gera um pouco de empatia, né? 5’06”
Mas dependendo do lugar que você for, dependendo das
5’25”
pessoas com quem você for, você talvez vai encontrar um pouco de … de territorialidade assim, meio que uma disputa de espaço, né? Mas no geral eu diria que é uma, uma boa relação na maioria dos casos. 5’26”
E como que é a recepção do público perante ao artista de
5’31”
rua? 5’32”
É… grande parte dela é uma coisa bem.. é, espetacular, elas
5’53”
veem com os olhos de aquilo é muito fantástico, que é muito dificil, que é muito distante talvez, que é uma coisa super legal, né? 5’53”
Com esses olhos de vitrine assim “nossa,olha que incrível o
6’20”
que essa pessoa tá fazendo!”, então é uma recepção de admiração, né? É.. poucas vezes tem uma recepção de interação, conversa, de “nossa, será que eu posso tentar?como é que faz?”, na maioria das vezes é essa relação de admiração, né? 6’21”
Mas também tem algumas interações de tipo “sai daí, não é lugar de fazer isso”, então tem umas pessoas que se incomodam, com talvez com o fato de estar fazendo naquele espaço ou sei lá, não sei se realmente incomoda aquela pessoa de outra maneira, mas na maior parte dos casos, é essa relação de admiração assim.
6’49”
130 6’50”
E quais as maiores dificuldades que os artistas de rua
6’55”
enfrentam? 6’56”
Hum… eu acho que uma delas seria… é… o espaço público
7’32”
como um lugar proibido. E… ele não é bem proibido e não é bem liberado, então essa é uma grande dificuldade, porque às vezes chega a polícia e pede pra tirar, então tipo assim “ah, não pode ter manifestção cultural se não for…”, e nem tem uma lei certa pra isso, mas eles encontram um jeito de nos deslegitimar, né. 7’33”
Então… eu acho que essa é uma grande dificuldade de
7’58”
poder fazer a arte na rua, que é ter a… a aprovação juritica pra fazer isso, né, tipo, de repente eu tô aqui, pode vim um policial me tirar, depende do policial, se tá num bom dia, não tá num bom dia, então é uma coisa que nem eu mesma sei onde é que eu realmente posso fazer arte, sabe? 7’59”
Então é meio que uma conquista dos territórios também,
8’20”
tipo “não, eu tô aqui, mas eu tô aqui há três anos e nenhum policial nunca me tirou”, aí o policial já fica meio assim “ah, então vou dar só uma advertência, melhor você procurer outro lugar, assim”, essa é uma das dificuldades. 8’21”
A outra dificuldade eu acho que seria essa exposição o
8’41”
tempo todo, é, ao sol,né, a essas condições climáticas, mas aos riscos da rua em si, né? Então tá toda hora no sol, carregar material pesado é uma coisa bem desgastante. 8’42”
A outra coisa é… a rentabilidade disso, né? Porque fazer
9’11”
arte na rua não é uma coisa que tem um retorno muito rentável, então às vezes acaba tendo muito desgaste fisíco, emocional, pra receber uma quantia em dinheiro que não suporte, que não dê apoio a todo esse trabalho. 9’12”
E a prefeitura dá algum suporte ao artista? Alguma ajuda? Algum apoio?
9’18”
131 9’20”
Tem, é, edital, essas coisas, né, que de vez em quando sai e
10’03”
tudo mais, mas em geral, aos artistas que estão livres e independentes na rua, não dá nenhum suporte. Inclusive eu diria que … que tem até essa briga assim, tipo “não, você não pode tá aqui sem uma permissão legal”, e aí, esse caso, como eu falei, da polícia chegar, desse território também, é uma coisa que acontece muito, então eu encaro isso como uma falta de suporte total. 10’06”
E na sua opinião, a arte de rua é uma arte democrática?
10’11”
10’12”
Eu acho que sim, eu acho que a arte, ela tem que falar por
10’46”
esse, ela tem que ser democrática pra ela continuar existindo, é… a arte de rua, o artista ele sempre vai expressar aquilo que ele pensa, aquilo que ele é, mesmo que o tema dele não seja esse, porque não tem como eu ser alguma coisa que eu não sou, mesmo que eu seja um ator, sabe? Então você sempre vai transparecer aquilo de alguma forma na sua arte. 10’47”
E… e essa… por ter muitas pessoas, cada pessoa dando um
11’01”
pouquinho de si na sua arte, que vai ser construída essa democratização. 11’02”
E de que forma vocês artistas de rua contribuem para essa
11’10”
democratização da arte? 11’11”
Hãn.. eu acho que o próprio fato de nos expressarmos é
11’36”
como… como cidadão, como sujeito, como… como diversidade, né? É.. esse próprio fato por si só já é algo que contribui pra democratização. 11’37”
E… outro fator que eu acho interessante, que é isso, geralmente a arte ela trabalha não só com a, com a possibilidade do artista, mas também com mostrar universos diferentes ao público, né? Mostrar possibildades diferentes ao público, então, olha, tem uma pessoa pendurada na Paulista, eu nunca imaginei que desse pra se
12’10”
132 pendurar, eu nunca imaginei que desse pra usar a Paulista nesse espaço. 12’11”
Então… essa apresentação em si, essa apresentação da
12’26”
propria arte, ela gera no outro a possibilidade, e tá nessa possibilidade, nessa diversidade a democratização, né? A democracia. 12’27”
Algo que eu acho bem legal na arte na rua, né, é que é uma
13’03”
arte livre, né, sem restrição, qualquer pessoa pode ir lá e assistir um espetáculo, e ver um artista tocando, ver um artista fazendo tecido como você, algo que, por exemplo, não é qualquer pessoa que pode ir a espetáculo e pagar e com a arte na rua, isso acaba quebrando essa barreira de que a arte só tá em um lugar especifico, né? 13’04”
Exatamente. E eu acho que outra coisa também, é que por
13’32”
exemplo, às vezes no Teatro Municipal tem espetáculos de graça, mas a propria estrutura do Teatro Municipal não deixa que quem não se sente bem entrar lá, então como é uma coisa muito chique, o menino que tá na rua fazendo malabares com limão, vai olhar e vai falar “não vou entrar aqui”. 13’32”
A pessoa que mora na periferia, que mora longe do centro,
13’54”
ela não vai no Municipal pra assistir uma coisa de arte, é muito difícil. Então esses espaços, as estruturas deles, eles acabam afastando essas pessoas. Agora na rua, quem passa vê, né? 13’55”
E como que tá sendo esse momento de pandemia pra
13’59”
você? 14’00”
Nossa, tá.. tá sendo um momento difícil. É… primeiro porque eu tô há 6 meses sem fazer a minha prática, né, porque a minha prática eu uso o corpo, uso espaços, então, é, pra contribuir com a pandemia eu não tô treinando em locais públicos, né, por causa da, do virus.
14’29”
133 14’30”
E… então eu acredito que eu tô perdendo muita força,
14’47”
muita resistência, prática, né? Então vai ser um pouco difícil quando eu voltar, eu vou ter meio que treinar tudo de novo, então pra esse lado tá sendo bem difícil. 14’48”
É, as oportunidades de.. de emprego diminuiram muito, não
15’03”
sei se emprego é a palavra certa, as contratações, os eventos, tudo isso não existe agora, então tá uma situação bem difícil. 15’04”
E… tá rolando também né, assim como em muitas áreas, a
15’47”
desvalorização da mão-de-obra, do trabalho, então eu também atuo dando aulas, é, antes quando uma academia me chamava precisando de professor pra alguma coisa, geralmente o valor já vinha baixo, agora tá vindo menor ainda, então tá, tá complicado, e tipo, como tem menos possibilidades, tem menos chances pra eu dizer não, porque não aparecem e as que aparecem são geralmente péssimas. 15’48”
Pra ganhar um valor minímo assim, super pouco, e… e tem
15’59”
que aceitar porque não tem outra coisa, né? 16’00”
E dá pra viver de arte no Brasil? Ou ainda é difícil?
16’05”
16’06”
É difícil. É difícil viver de arte. Tudo se encontra um jeito,
16’38”
né? Então tenho, tem várias pessoas que vivem de arte, mas são poucos os que realmente tem uma boa qualidade de vida proporcionado pelo financeiro, porque essa rentabilidade que muitas vezes o artista recebe, é uma mixaria, né? 16’39”
Então, se a gente pensar em viver como viver financeiramente, né, e nós precisamos do recurso financeiro pra viver, é muito difícil, é um desafio realmente, mas se a gente pensar é, no viver, é, no viver, de uma forma mais subjetiva, né, de você tá fazendo algo que você acredita, de você tá fazendo o que você gosta, é um lugar que também tá abalado por essa baixa rentabilidade, né?
17’16”
134 17’17”
Porque como é que você vai viver fazendo o que você gosta
17’36”
se você não vai ter dinheiro pra se sustentar, pra comprar um arroz, pra comprar um feijão, né? Então eu acho que tudo fica muito abalado, é um desafio, mas tem quem consiga, né? 17’37”
E você já sofreu algum tipo de preconceito por se
17’43”
apresentar na rua? 17’45”
Hum… é, geralmente, é, eu particularmente não me lembro
18’13”
de um caso que eu sofri um preconceito direto, mas… geralmente, a, quando a pessoa, quando você fala que se apresenta na rua e tal, a pessoa ela vai te olhar com um olhar muito distante, sabe? 18’13”
Ela não te olha mais como.. como uma pessoa que tá igual
18’25”
ela, ela te olha como uma pessoa que tá precisando de alguma necessidade e tudo mais, ela já te coloca num patamar diferente, né? 18’26”
Então.. eu não me lembro que nenhum caso de alguém que
18’39”
virou pra mim e falou alguma coisa agressiva, mas eu percebo isso às vezes na conversa assim, na entonação, no olhar. 18’40”
E por ser mulher, você já sofreu algum tipo de assédio na
18’46”
rua se apresentando? 18’47”
Muitos (risos). É… mulher é uma coi--, mulher sempre sofre
19’04”
assédio né? Você pergunta pra todas elas, todas elas já sofreram em algum momento da vida e é uma coisa muito triste, muito deseperadora, né? 19’05”
É… por faze arte, a mulher já é sexualizada por si só, ela não
19’17”
precisa fazer nada, o corpo dela já é uma coisa sexualizada, fazendo a arte então, é uma coisa mais sexualizada ainda. 19’18”
Então.. geralmente… eu falei que o público recebe com admiração, o público homem, além dessa..é, eu não sei se…
19’44”
135 se eles têm uma certa admiração pela arte ou se além disso ou, ou…. Se além dessa admiração pela arte, fica com um desejo assim, ou se é só desejo, sabe? 19’44”
Então geralmente quando o homem vem falar, é… vem falar
20’18”
por já meio que chamando de gostosa ou de outra forma, pode ser uma forma mais educada, mas não deixa de ser uma forma de deslegitimar toda a minha força, todo o meu trabalho que eu tenho ali e falar só da beleza física, como o corpo fica bonito naquela posição, né, como agradou os olhos dele. Então, eu acho que tem muito comentário machista sim. 20’19”
E na sua opinião, o artista de rua tem pouca visibilidade
20’26”
na grande mídia? 20’27”
Hum… eu acho que sim. O artista de rua independente sim.
20’44”
É, geralmente quando ele aparece na mídia, ele aparece ou de uma forma apelativa, né? Então, “ah, ajuda tal pessoa porque estão sofrendo”. 20’45”
Então, agora tiveram algumas reportagens sobre os circos,
21’12”
que tão passando dificuldade, e são matérias super desesperadoras assim, de coitadinhos e não sei o quê, que são realmente muito importantes pro momento atual, pras pessoas lembrarem que existe essa categoria, que ela tá precisando de ajuda, mas aí fica só nisso. 21’13”
Tipo, quando aparece ou aparece o Circo de Solei, que faz
21’22”
espetáculos maravilhosos ou aparece o cirquinho pequeno que tá quase morrendo de fome. 21’23”
É… eu acho que pro artista independente de rua falta um
21’41”
trabalho de.. de incentivo pra além da.. dos olhos de necessidade, sabe? De “olha que legal, esse artista aqui fazendo isso, hoje vocês vão ver um pouquinho”, sabe? 21’42”
Esse… essa… esse enaltecimento assim da arte por ela mesmo, né? Sem tá ligada com a condição de que ela tá
22’14”
136 sofrendo, precisando e eu acho que se tivesse… se a grande mídia tivesse suportando, apoiando os artistas independentes dessa forma, talvez não precisasse chegar a tanto, né? É… nesse caratér apelativo. 22’15”
E você já se apresentou em outra rua, em alguma outra
22’25”
avenida? Se sim, você sentiu alguma diferença entre a Paulista e outra rua? 22’26”
É… eu já me apresentei na Sumaré, em outro nível da
23’05”
Paulista, mas perto do Masp, já me apresentei em Virada Cultural, né, ali na São João e tudo mais e … e senti diferença, além do lugar, é claro, é também do evento em que eu tô, então como a Virada Cultural é um evento muito grande assim, então … tem essa diferença pelo evento. 23’06”
Mas os outros lugares, cotidianamente assim, me
23’22”
apresentando, é… eu percebo algumas diferenças. Por exemplo, quando eu me apresento talvez em uma praça, é, eu sinto que tem uma interação maior com criança, por exemplo. 23’22”
Então as crianças ficam encantandas e elas ficam pra além
23’32”
de encantadas, elas querem testar, elas querem experimentar e eu adoro essa interação. 23’33”
É… eu já me apresentei em praia também, então foi super
24’01”
divertido, as pessoas olharam assim, é … na praia eu percebi uma … uma.. um retorno dos comerciantes locais também, tipo “ah, toma um prato de comida” assim, sabe? Porque de qualquer forma tá sendo bom pro negócio deles, né? Mesmo que eu não estava vinculada a isso. 24’02”
É… Na Sumaré, por exemplo, que foi um, é.. é um palco lá,né, quer dizer, não tem palco nenhum na Sumaré, né, mas é um espaço que geralmente tem esportes radicais acontecendo né, tem um fluxo de pessoas indo trabalhar, que saem do metro ali e tudo mais e ficam meio admiradas,
24’34”
137 mas eu acho que por ser um lugar que já acontece atividades diferenciadas, então as pessoas já tão meio acostumadas, com isso, né? 24’35”
Então eu vejo que as pessoas acham legal e tudo, mas tipo
24’46”
continuam seguindo o rumo delas, porque elas não tão ali pra passear, elas geralmente estão voltando do trabalho ou indo trabalhar. 24’47”
E.. em outros lugares, tipo praça, que as pessoas tão ali por
24’57”
passeio, eu percebo uma interação maior assim. 24’58”
E pra encerrar, você tem alguma história engraçada ou
25’06”
inusitada que aconteceu com você na rua? 25’07”
Hãn… nossa, tem várias histórias desde de tá na rua assim e
25’38”
fazendo um movimento e aí rasga a roupa, sabe, umas coisas assim de … de trapalhadas, de repente um cachorro começa a querer pegar o tecido assim ,já me aconteceu essas duas coisas, mais de uma vez inclusive. É… deixa eu ver se eu lembro de mais alguma. 25’42”
Não, eu acho que é só isso mesmo (risos), não tô lembrando
25’47”
de nenhuma outra. 25’48”
Nenhuma que te marcou mais?
25’51”
25’52”
Hãn.. eu acho que uma, uma… uma coisa que me marca
26’05”
assim, eu sempre lembro assim, eu acho que eu lembro até do, da tonalidade da voz assim, é… 26’06”
Quando… eu tava na Sumaré, primeira vez que eu fiz o
26’24”
tecido lá na Sumaré e ele tava pendurado num highline, então era uma modalidade um pouco diferente e precisava de mais cuidados, né? Porque é mais alto e tudo mais. 26’25”
E a pessoa.. passou alguém, e enquanto eu tava super concentrada lá, eu tava gelada assim, um pouco com medo assim, aí passou alguém e gritou “ menina, pelo amor de Deus, desce daí” e aí eu lembro que nesse momento eu
27’02”
138 achei tão engraçado a pessoa tipo, gritando, que eu, eu esqueci de tudo assim, tipo, desgelei, nem liguei pro que a pessoa tava falando ,nem nada, e aí eu comecei a rir assim, sozinha lá (risos). Eu acho que foi essa assim, que eu lembro até da voz da pessoa.
139 - Termos de autorização de imagem
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144 Diário de Campo
Essa etapa do Trabalho de Conclusão de Curso foi um verdadeiro desafio. O Projeto Experimental ao mesmo tempo que é gostoso de fazer, é também desafiador. Estamos vivendo um momento de pandemia, o ano de 2020 não tem sido fácil para ninguém e ter que fazer um TCC nesse caos foi uma loucura. Mas primeiro, vamos começar falando do início desse semestre? No final de julho, antes de voltar as aulas, eu estava me perguntando como eu conseguiria fazer um documentário dentro de casa, de quarentena e evitando ao máximo sair na rua? Confesso que fiquei completamente insegura, sem saber o que fazer naquele momento, sem saber nem por onde começar, parecia até um bloqueio, tanto que não consegui avançar no meu TCC durante as férias. Afinal, o meu tema é inteiramente voltado para às ruas, sobre como as ruas podem se transformar em palcos para os artistas, tornando a arte mais democrática. Quando finalmente as aulas retornaram, logo na primeira aula, quando o professor começou a explicar como seriam as coisas nesse semestre, comecei a me sentir mais calma em relação ao meu tema e na primeira orientação, parece que me surgiu uma luz e as coisas começaram a ficar mais claras na minha cabeça. Primeira coisa que tentei fazer foi não pensar muito adiante, focar no agora e fazer as coisas conforme planejado, tentando seguir o plano estratégico que havia sido elaborado. Em agosto, minha meta foi organizar tudo que precisava para realizar as entrevistas em setembro, então comecei a procurar fontes e entrar em contato com elas, agendar entrevistas, pensar nas perguntas para os entrevistados e toda essa parte ligada à pré-produção. Quando chegou setembro, minha meta era realizar as entrevistas pelo Zoom e logo em seguida, fazer as decupagens das sonoras. Tudo estava correndo bem, até que uma das minhas fontes começou a me enrolar, a dar desculpas, o que me deixou um pouco angustiada, porque eu queria seguir o plano direitinho. Quando percebi que essa fonte não iria me levar a lugar nenhum, comecei a procurar novas fontes. Nessa busca, encontrei o Palhaço Musir e a Thalia Ribeiro, dois personagens carismáticos, que vieram para somar no documentário. Só para se
145 ter uma ideia, minha entrevista com a Thalia foi no último dia de setembro, fugindo um pouquinho do que eu havia planejado, já que eu gostaria de acabar setembro com todas as decupagens feitas. Outubro chegou e com ele mais uma etapa do TCC. Já na primeira semana terminei as decupagens que faltavam, o que me deixou mais segura para avançar para a próxima fase: a elaboração do roteiro. A princípio eu fiquei meio perdida em como fazer o roteiro, afinal tinha bastante material e muita história para contar. Depois de uma aula que o Professor Antônio deu sobre roteiro, me veio o que faltava para começar essa parte. Resolvi pegar um papel, uma caneta e anotar minhas ideias. Qual o melhor o assunto para começar o documentário, qual deveria ficar no meio, como eu iria dar uma reviravolta na história e como deveria encerrar. Depois de escrever todas as minhas ideias de início, meio e fim, fui ler e analisar as transcrições das entrevistas que eu já havia feito e assim, fui montando o roteiro. Com o roteiro pronto, chegou a hora de editar. Mais um desafio, já que eu nunca tinha editado um vídeo com mais de cinco minutos. No meu computador, não tem Adobe Premiere, nem Sony Vegas, então fui editar em um programa gratuito que tenho instalado no meu PC, o VSDC. Esse programa apesar de gratuito, tinha tudo que eu precisava para editar, então fui editar. Depois de cortar e juntar tudo que precisava, fui pesquisar as trilhas sonoras que entrariam no filme. A Biblioteca de áudio do YouTube é gigantesca, então fiquei mais de 2 horas só pesquisando músicas e baixando as que eu achava mais interessantes. Colocando as trilhas, vi meu documentário ganhar vida, ficar com cara de documentário mesmo. Em novembro foi só finalizar, realizar alguns ajustes, criar a capa do DVD e partir para esse presente relatório. Olhando para trás, vejo que as minhas maiores dificuldades para esse projeto foram: superar minhas inseguranças e medos, conseguir fontes que agregassem no trabalho, já que muitas delas não respondiam ou paravam de responder e editar um vídeo longo sozinha, em casa, sem ter experiência nenhuma com isso. Porém, ao mesmo tempo que editar o filme tenha sido uma grande dificuldade, foi também uma grande conquista, afinal, acabei aprendendo mais sobre edição, o que vai agregar bastante na profissão. Também ganhei
146 experiência com entrevistas em profundidade, onde pude colocar em prática tudo o que eu havia aprendido ao longo do curso.
147 Anexos
- Anexo I: Fotos utilizadas no documentário
- Foto do Diego Goldas. // Reprodução Twitter
- Foto do coral que o Diego Goldas participava. // Arquivo Pessoal.
- Foto da banda do Diego Goldas. // Arquivo Pessoal.
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- Foto Diego Goldas. // Google Imagens
- Foto do Diego para o encerramento do documentário. // Google Imagens
- Foto Guilherme Frattini. // Arquivo Pessoal
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- Foto Diego Goldas. // Reprodução/Artistas na Rua
- Kacá Novais. // Foto: The Four/TV Record/Divulgação
- Kacá no bar. // Arquivo Pessoal
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- Foto do Kacá para o encerramento do documentário. // Reprodução Instagram.
- Kacá no bar. // Arquivo Pessoal.
- Foto do Guilherme Frattini para o encerramento do documentário. // Reprodução Instagram.
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- Foto da Myrella Nascimento para o encerramento do documentário. // Reprodução Instagram
- Guilherme Frattini. // Arquivo Pessoal
- Kacá na TV. // Foto: The Four/ TV Record/Divulgação
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- Kacá na TV. // Foto: The Four/ TV Record/Divulgação
- Guilherme Frattini. // Arquivo Pessoal
- Thalia Ribeiro. // Reprodução Instagram
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- Thalia Ribeiro. // Reprodução Instagram
- Thalia Ribeiro. // Reprodução Instagram
- Thalia Ribeiro. // Reprodução Instagram
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- Thalia Ribeiro. // Reprodução Instagram
- Thalia Ribeiro. // Reprodução Instagram
- Foto Thalia Ribeiro para o encerramento do documentário. // Reprodução Instagram.
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