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Retratos do Slam Poetry

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“Eu escrevo com imagens” Sebastião Salgado 2

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SLAM POETRY - Retratos da resistência | 2019

NÃO TÃO DISTANTE ASSIM...

Projeto de conclusão do curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, Campus Liberdade.

Aluna Mylla Stefany Melo dos Santos Professor orientador Nivaldo Ferraz Fotos Mylla Stefany Capa, projeto gráfico e diagramação Isaac Tiago

Impresso em papel Couchê Fosco 170g pela AlphaGraphics Tiragem: 5 exemplares

*Foto de capa - Poeta Dariel Costa

Escuto uma voz Ela sussurra, ela grita, ela berra Chegou a nova era Disseram que não precisavam lutar Disseram que não precisavam resistir Mas tinham que se fazer ouvir Por meio da palavra encontraram a sua voz As vezes doce, as vezes calma As vezes dura, as vezes feroz A palavra acalma, palavra é o caminho do novo O novo transforma Transformação é o que eles querem Eles, eu e você - Mylla Stefany 03


“De A a Z, a periferia tem muito a dizer” - Poeta Márcio Ricardo

| Poeta Márcio Ricardo, 21 o Encontro SlamOz

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09 HISTÓRIA DO SLAM . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .13 A PERIFERIA SOB UMA NOVA ÓTICA . . . . . . . . . . . . . . . 23 RESISTÊNCIA DAS MINORIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57 INTRODUÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

SUMÁRIO

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INTRODUÇÃO

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á um movimento que vem ganhando cada vez mais força no Brasil, chamado Slam Poetry. O termo criado pelo poeta americano Marc Kelly Smith nos anos 80, se espalhou pelo território nacional em 2008 graças a poeta, atriz e produtora cultural Roberta Estrela D’Alva, ao fundar o Zap!Slam. Inicialmente, as batalhas de poesias aconteciam em bares e locais fechados, mas foi com Emerson Alcalde, fundador do Slam da Guilhermina e do SÓFÁLÁ, que os encontros ganharam as ruas e praças, “palcos” públicos nos quais a maioria das batalhas acontecem no país. Diferentemente dos outros países onde as batalhas de poesia têm um caráter mais competitivo, no Brasil a mensagem ganha mais peso do que a própria competição. Os slammers, como são chamados os poetas que competem, declamam poesias revolucionárias, apontando os problemas enfrentados pelas pessoas consideradas as margens da sociedade. Pautas como machismo, LGBTQIA+fobia, violência contra a mulher e racismo são frequentes nos versos metricamente pensados e recitados de forma teatral e musicalizada – com influências do MPB, RAP e Hip Hop – ou ainda de forma mais fervorosa, cheia de ironia e mensagens diretas que sensibilizam o ouvinte. Esta presente reportagem fotográfica propõe retratar o ativismo do Slam Poetry e analisar de que forma a poesia falada favorece a visibilidade e empodera grupos de minorias periféricas da Grande São Paulo, propondo uma 10

nova ótica sobre estes grupos a fim de gerar debates sociais e desconstruir o estereótipo estrutural recorrente no cotidiano. As entrevistas com os slammers Emerson Alcalde, Poeta Marcio Ricardo, Evolutio e Yasmin Gabrielle costuram a narrativa, que começa contando a história do movimento, desde um bar em Chicago até ganhar fama em São Paulo e se popularizar pelo país inteiro. A escolha dos entrevistados se deu por serem figuras influentes no meio e recorrentes nas batalhas de poesias. Outras entrevistas importantes para o projeto foram com a produtora Alessandra Mansano, uma das organizadoras do SlamOz, e com a jornalista Paloma Vasconcelos, repórter das temáticas LGBTQIA+ e direitos humanos para a Ponte Jornalismo. As fotografias presentes neste livro são do 20º e 21º Encontro do SlamOz, que acontece toda última quarta feira do mês próximo a Estação de Osasco e da Grande Final do Slam da Guilhermina que ocorreu no começo de outubro de 2019 perto da Estação Guilhermina, linha vermelha do metrô. Sinta-se convidadx a folhear as páginas, analisar as imagens, refletir e compreender a luta que os slammers evidenciam. Como diz a poeta e produtora cultural Mel Duarte: “Slam é movimento poético político e democrático que tem como principal conceito a liberdade de expressão, fazendo do livre diálogo uma ferramenta para a construção de novos horizontes e para além de um espaço de fala, é também um convite a escuta”.

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HISTÓRIA DO SLAM

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e repente um grito de guerra se destaca em meio aos sons de buzinas, motocicletas e burburinhos da multidão, seguido por uma voz eloquente e palmas efervescentes. Ao se aproximar, é possível ver alguém falando para um grupo de pessoas, dispostas em círculo, que escutam atentamente o que está sendo dito. A princípio pode-se pensar que são manifestantes reivindicando algo, mas ao romper a distância, nota-se que o movimento do corpo e as alterações vocais vão muito além. É poesia. As poesias slam, do inglês poetry slam, ganharam notoriedade nos últimos três anos devido as publicações dos vídeos, na plataforma Youtube, das apresentações do Slam Resistência – que acontecem na Praça Roosevelt – porém as batalhas de poesias existem há muito mais tempo. A competição de poesias de maneira performática foi idealizada em 1984 pelo mestre de obras e poeta americano Marc Kelly Smith, na Green Mill Jazz Club, em Chicago. O jogo rapidamente se espalhou por outros países do mundo, até chegar ao Brasil por volta de 2008, graças a Roberta Estrela D’Alva, atriz, poeta, produtora cultural e apresentadora do programa Manos e Minas, exibido na TV Cultura. D’Alva fundou o ZAP!Slam – Zona Autônoma da Palavra – com o apoio do grupo teatral Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Durante quatro anos, o ZAP!Slam foi o único grupo de slam do país, até o ator e poeta Emerson Alcalde criar o Slam da Guilhermina, o primeiro slam de rua 14 | Poeta Dariel Costa, 20 a Edição SlamOz

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do Brasil. Alcalde explica que já frequentava alguns saraus que aconteciam em periferias – como Cooperifa e o Sarau do Binho, na Zona Sul – e almejava um dia poder realizar um evento de literatura marginal próximo ao seu bairro, localizado na Zona Leste, pois não havia nenhum grupo que promovesse a literatura ou outras manifestações artísticas culturais na região. “Comecei a buscar por espaços próximos ao Cangaíba. Fui em vários bares, perguntei para vários donos e nenhum me dava firmeza. Minha referência era o bar porque o ZAP acontecia em um bar. Um dia, atravessei a Guilhermina para o outro lado, onde tem a pracinha [praça anexa a estação], e falei ‘nossa que lugar é esse? É perfeito, vai ser aqui’. Idealizei o projeto em janeiro, e em março aconteceu a Guilhermina”, explica Emerson Alcalde. O Slam da Guilhermina influenciou os posteriores grupos de slam que também começaram a realizar as batalhas de poesias nas ruas e praças próximas às estações de metrôs e CPTM, devido ao volume de pessoas que passam frequentemente nestas áreas. “Ao fazer o slam na rua, atingimos pessoas que estão saindo do trabalho. Pessoas que nunca viram, escutam as poesias e acabam falando: ‘eu também escrevo poesia em casa’, e querem recitar. A gente atinge as pessoas que não têm o hábito de escutar poesias. Hoje temos mais de 200 Slams e a maioria está na rua, ou seja, a gente estimulou os poetas e grupos fazerem na rua, sem estrutura e que atinja mais gente.” complementa Alcalde. 16

21 a Edição SlamOz | 17


Hoje em dia, a Grande São Paulo é considerada a capital do slam por conta da enorme quantidade de grupos espalhados pela região (estima-se mais de 50 coletivos) e por ser o berço de slammers de peso como o Poeta Marcio Ricardo, Mel Duarte, Roberta Estrela D’Alva e Emerson Alcalde, sendo que os dois últimos poetas representaram o Brasil na 8ª e 11ª Copa do Mundo de Slam em Paris, respectivamente.

18 | Poeta Tawane Theodoro, Grande Final Slam da Guilhermina

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20 | Poeta Bekรก, Grande Final Slam da Guilhermina | Poeta Mรกrcio Ricardo, 21 o Encontro SlamOz

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A PERIFERIA SOB UMA NOVA ÓTICA

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s encontros de slam geralmente ocorrem uma vez por mês perto das estações de metrôs e CPTM, ou dentro de comunidades – como o Slam Moinho Resiste, localizado na Favela do Moinho, em São Paulo – ou até mesmo em escolas, como o Slam Interescolar SP. Em média, 20 poetas competem nas batalhas de poesias que são iniciadas por um grito de guerra característico do coletivo de slam. Cada coletivo possui um grito de guerra iniciado por um dos organizadores e finalizado pelo público, com o objetivo de mandar boas energias para o poeta e assim, esquentar a batalha. Os slammers têm três minutos para declamar uma poesia de própria autoria, sem fazer o uso de nenhum adereço, figurino específico ou acompanhamento musical. Com isso, os poetas dependem da auto performance para impressionar o júri, composto por cinco jurados escolhidos pelos organizadores, que dão preferência àqueles que nunca presenciaram uma batalha de poesia ou que não conhecem os poetas que estão competindo, desta forma diminuindo o favoritismo na hora das notas. Após o slammer declamar a sua poesia os jurados levantam ao mesmo tempo uma placa com notas de zero a dez, sendo que as inferiores a dez recebem um coro de “credo”, referente a pontuação baixa, dito pelo público que está acompanhando a batalha e as notas máximas são seguidas por “pow”, uma onomatopeia semelhante ao barulho de tiro, em comemoração à poesia curta, rápida e impactante, como uma bala. 24

Poeta King, Grande Final Slam da Guilhermina | 25


Terminada a primeira rodada da competição, é realizada a apuração das notas, os melhores colocados passam para a segunda e depois para a última rodada da noite para premiar o grande vencedor. Porém, “mais importante que vencer é passar a mensagem” – como cita D’Alva – e Alcalde complementa: “A função do slam não é descobrir quem é o melhor poeta, mas sim promover o encontro de pessoas. Elas poderiam estar em qualquer lugar, mas estão ali, querendo ouvir poesias. Saber que os jovens das periferias estão se reunindo para apreciar literatura é realmente fantástico.” Alessandra Mansano, uma das organizadoras do SlamOz, explica que nos encontros acontece primeiramente uma troca de afeto por ser um movimento de caráter inclusivo. “É uma troca de ideia enriquecedora. Já ouvimos histórias de poesias que mudaram a forma de pensar, que conscientizaram as pessoas que estavam passando por perto e que prestaram atenção nas palavras do poeta. O slam é um movimento de resistência, um movimento político muito importante para este momento em que estamos vivendo no país” comenta a produtora.

26 | Jurados, 21 o Encontro SlamOz

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“Se na rua me chamam de ‘chave’ não é porque eu abro portas, mas porque eu arrebento correntes” - Poeta Jéssica Campos

28 | Poeta Jéssica Campos, Grande Final Slam da Guilhermina

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30 | Poeta Evolutio, 21 o Encontro SlamOz

Público, 21 o Encontro SlamOz | 31


32 | Poetas Dariel Costa e JĂŠssica Campos, Grande Final Slam da Guilhermina

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Poeta King, Grande Final Slam da Guilhermina | 35


Muitos jovens participam das batalhas de poesias como é o caso da poeta Yasmin Gabrielle, que começou a sua carreira no slam em 2017 no Slam Resistência. Os novos poetas aproveitam o momento que antecede as batalhas, chamado de Mic Aberto, para declamarem as suas poesias livremente e treinarem para enfim competirem no próximo encontro. “Eu comecei como ouvinte por necessidade, como válvula de escape, até que eu descobri que tinha um espaço de fala ali importante”, e complementa, “a gente passa 15 minutos falando e quase três horas escutando o outro. Eu estou para te escutar, assim como você está para me ouvir.” Outro slammer recorrente nas batalhas é o Evolutio, que começou em fevereiro de 2018 a declamar suas poesias nos principais coletivos de São Paulo. Em uma de suas poesias, Evolutio cita o preconceito que sofreu quando era mais novo. “Quando eu tinha 13 anos uma professora falou que eu não tinha futuro, mas percebi que com a minha poesia eu conseguia atingir as pessoas. É muito bom receber mensagens da galera dizendo que está usando a minha poesia para fazer trabalho dentro das escolas. Meu livro está dentro das escolas, está nos TCCs. Sai da periferia e quebrei alguns muros, por isso eu digo que o slam mudou a minha vida”. As minorias periféricas se sentem representadas pelos versos carregados de duras críticas ao sistema ou ao opressor, seja pela ironia ou pela sutileza do jogo de palavras homófonas e homógrafas rimadas com outras que compõe os ricos versos do slammer. Cada frase mais ácida e direta dita pelo poeta é seguida de 36

Poeta Yasmin Gabrielle, 21 o Encontro SlamOz | 37


um “pow” do público, semelhante a onomatopeia das notas máximas do júri. Isso fomenta uma troca de energia constante entre o locutor e o ouvinte que muitas vezes acaba se emocionado e derramando algumas lágrimas. O slammer também é tomado pelo calor do momento, no qual seus sentimentos – muitas vezes de raiva e dor – transbordam pelo olhar expressivo, gestos enfáticos e alterações da voz. Alguns poetas, em suas apresentações, recorrem as influências do RAP e do Hip Hop para dar ritmo, musicalidade e fluidez aos versos. O slam carrega muita influência dos gêneros musicais citados, a própria “batalha de poesias” é um termo emprestado do RAP referente a “batalhas de MCs”, assim como punchline – que significa “linha de soco”, ou seja, versos marcantes carregados com uma grande ironia ou mensagem direta que acerta em cheio quem estiver ouvindo. Versos recitados em forma de RAP são comuns entre os slammers que muitas vezes atuam no ramo musical, como o Poeta Márcio Ricardo que explica que “o slam tem tudo a ver com o Hip Hop e caminha lado a lado com o RAP porque é som de luta, é movimento de luta.” E Evolutio complementa: “Se você pegar o jeito que eu escrevo e colocar um beat e depois escutar eu recitando, verá que os meus versos possuem uma métrica para uma letra de música. O Hip Hop além de me ensinar a escrita, me ensinou sobre as questões da rua. Os rappers estudam muito para colocar referência em suas letras e eu acabo colocando muitas referências nos meus versos também”. 38 | Poeta King, Grande Final Slam da Guilhermina

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Cada poeta usa seu local de fala para escrever poesias que reverberam suas vivências, dificuldades e preconceitos sofridos. Eles competem em vários coletivos diferentes ao redor do estado, transmitindo a palavra a fim de conscientizar e sensibilizar quem estiver ouvindo. Desta forma, o slam se torna um instrumento de empoderamento das minorias periféricas ao ser utilizado para atingir os ouvintes com suas pautas sociais como o racismo estrutural, violência, feminismo negro, LBTQIA+fobia, entre outros. Um exemplo é o trecho da poesia Receba a delicadeza de Tawane Theodoro – 2ª colocada da Grande Final da Slam da Guilhermina, em 2019 – que expressa a luta constante das mulheres, que, ainda nos dias de hoje, precisam pedir para serem respeitadas.

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Poeta Tawane Theodoro, Grande Final Slam da Guilhermina | 41


“Achou ruim qualquer coisa? Chama na gerência Mas por aqui vocês não vão ter preferência Porque eu acho que já entenderam que cansei de ser delicada Porque vocês só querem o ego aumentar E cada dia aparece mais uma mina morta Então eu cansei de brincar Quem perdoa é Deus, ‘nóis tá’ aqui pra cobrar E vocês querem prêmio Nobel por respeitar? Desde quando a gente começou agradecer a geladeira por gelar? (...)

E se já tô te incomodando desse jeito Por querer derrubar seus privilégios e saber dos meus direitos Pensa como a mais nova geração vai chegar Com os dois pés no seu peito Sem medo, sabendo do que pode e do que é capaz Sem essa de mulher não pode isso ou aquilo, Se quer mina, vai e faz! E ninguém, ninguém tem o direito de te impedir Então desculpa mesmo parceiro, desculpa mesmo É que ‘nois tá’ sem tempo de ficar escutando vocês reclamando É que ‘nois tá’ mais ocupada se fortalecendo e nos empoderando.” - Tawane Theodoro

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44 | Daniel Jhones, 21 o Encontro SlamOz

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46 | Poeta Mรกrcio Ricardo, Grande Final Slam da Guilhermina | Poeta Daniel Jhones, 20 o Encontro SlamOz

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48 | Poeta JĂŠssica Campos, Grande Final Slam da Gulhermina

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Cada coletivo carrega uma temática diferente, como o Slam das Minas SP, organizado pela poeta Mel Duarte, que tem como principal pauta o feminismo e o feminismo negro. Como diz a poeta Yasmin Gabrielle “cada coletivo é uma magia diferente, e é muito legal poder somar com cada um deles”. As manifestações culturais por meio do slam poetry apresentam um novo olhar sobre as minorias periféricas que buscam por igualdade e respeito, os versos desconstroem o estereótipo das comunidades ao escancarar o problema que muitos preferem esconder. A revolta dos slammers propõe uma reflexão sobre as mudanças que devem ser realizadas, seja por parte de ações socais governamentais ou por parte das nossas próprias atitudes. Novas vozes do slam surgem com mais frequência nos coletivos. Estes novos poetas conhecem o slam através da internet ou influência de amigos que acabam o encorajando a participar das batalhas, outros acabam conhecendo o movimento através dos organizadores que sempre convidam as pessoas que estão passando por perto, como o caso da Maria Ribeiro da Silva Motta, de 63 anos, que não conhecia o slam e acabou soltando alguns versos no 21º Encontro do SlamOz. “Eu adoro tudo isso. Essa foi a primeira vez que vim em um encontro e recito a poesia.” comenta. Alguns slammers são responsáveis por organizar o Slam Interescolar SP em escolas diferentes da região, procurando valorizar a cultura da periferia entre crianças e adolescentes. “O slam é um movimento contínuo, onde cada vez mais o 50

Poeta King, Grande Final Slam da Guilhermina | 51


jovem tem que participar, colocar o seu ponto de vista, sua voz e o seu grito. Eu fui [na escola] Salvador Móia, no Jabaquara, e tivemos a Noemi, uma menina talentosíssima vencendo o slam que está classificada para o SlamSP, onde vai enfrentar os outros slammers de outras escolas. E não é só eu que cuido disso, eu cuido de sete escolas, Beká [outro slammer] mais sete, cada organizador tem as suas escolas espalhadas por São Paulo. São mais de 100 escolas e isso é incrível porque vemos muito a maturidade da juventude chegando pelo slam, passa um ano e eles já estão aqui batalhando com a gente porque já tiveram o pontapé inicial.” explica o poeta Márcio Ricardo.

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Poeta Márcio Ricardo, 21 o Encontro SlamOz | 53


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Maria Ribeiro da Silva Motta, 21 o Encontro SlamOz | 55


RESISTÊNCIA DAS MINORIAS

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literatura da periferia conquistou mais espaço nas escolas, faculdades e livrarias graças as batalhas de poesias. Na segunda metade de 2019 foi lançado, sob coordenação de Emerson Alcalde, uma coletânea de poesias slam divididas em quatro livros: Antifa, Negritude, Empoderamento Feminino e LBGTQIA+. Alcalde explica que o objetivo de publicar as poesias dos maiores slammers do Brasil é fazer com que as palavras se espalhem por todos os cantos do país. “Os poetas normalmente têm publicações independentes, e ter algo grandioso como isto é muito importante. A coleção marca um momento histórico no mercado editorial. Na literatura oral estamos dominando, mas em publicação é a primeira vez”. comenta. Para a jornalista Paloma Vasconcelos, repórter do portal de notícias Ponte, o jornalismo contribui para a divulgação e repercussão do movimento. Vasconcelos conta que o primeiro contato que teve com o slam foi em 2015 e desde então sempre que pode acompanha os encontros. “É impossível você ir em um slam e não sair revolucionado, mesmo que você veja a mesma poesia sendo recitada dez vezes, cada uma das vezes essa arte tem um impacto na sua vida e a maior alegria é que hoje essas poesias são documentadas. É incrível demais ter na minha coleção livros de poesias de pessoas que eu admiro, como a Mel Duarte, a Luz Ribeiro e a Luiza Romão”. cita a jornalista.

58 | Patrícia Meira, lançamento Coleção Slam na Livraria Martins Fontes

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60 | Poeta Daniel Jhones, 20 o Encontro SlamOz

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Em Osasco, o SlamOz organiza um campeonato de poesia oral no Sesc de Osasco, chamado Slam Pavio Curto, no qual o vencedor ganha uma publicação de um zine (livros pequenos publicados de forma independente) com orientação da Alessandra Mansano. A produtora explica que os professores tanto do Sesc quanto de outras escolas da região procuram o coletivo para comprar livros dos poetas e utilizá-los nas aulas. “O slam é um movimento literário, não só em Osasco e sim em toda São Paulo, e assim todos estão tomando conhecimento do movimento.” Mansano comenta de outra iniciativa chamada Poetas Vivos, no qual destaca ainda mais a importância de prestigiar os poetas que estão presentes no nosso cotidiano. Para o slammer, saber que conseguiu desconstruir o preconceito sobre algo ou empoderar uma pessoa, se torna muito mais gratificante do que qualquer troféu ou premiação, claro que os prêmios são bem-vindos e necessários para se alcançar cada vez mais pessoas, por isso os poetas se empenham para conseguir competir na SlamSP e posteriormente no Slam Brasil, na qual o grande vencedor tem a oportunidade de viajar para a França e participar da Copa Mundial de Slam. Roberta Estrela D’Alva e Emerson Alcalde foram os únicos poetas, até então, a competirem em Paris, tendo ocupado o terceiro e o segundo lugar, respectivamente, em anos diferentes.

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Poeta Isaac Quaresma, Grande Final Slam da Guilhermina | 63


64 | Poeta Mรกrcio Ricardo, 21 o Encontro SlamOz

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Declamar poesias no Brasil e em outros países tem suas diferenças, Alcalde explica que na França o público presta muito mais atenção na poesia em si do que nos gestos e expressões. “Lá as pessoas são mais frias, elas não se emocionam tanto, os poetas quase não se movimentam. É estranho para eles um poeta falar mais alto, gesticular bastante e agitar o público durante as apresentações. Eles estão lá apenas para ouvir a sua poesia. Aqui no Brasil são as poesias mais efervescentes que ganham, enquanto na França eles preferem as mais calmas, com menos euforia.” Normalmente as batalhas que ocorrem em Paris são realizadas em teatros ou bares, e não em ruas e praças como se popularizou no Brasil. Os slammers brasileiros têm muito mais carinho e fraternidade entre si. A carga emocional das poesias é tão forte que após o poeta declamar os versos ele é abraçado pelos companheiros que também estão competindo. “Após uma poesia pesada tem o abraço, o afeto e o carinho, acontece principalmente a troca de ideia” explica Mansano e Evolutio complementa: “Rola uma conversa, por exemplo, se você escuta alguém falando sobre o mesmo problema acaba criando uma empatia. Por isso a poesia falada tem tanto poder, porque ela é direta, ela não tem muito rodeio.” Evolutio é um caso, assim como tantos outros, em que o slam abriu um leque de oportunidades. “O slam foi a maior faculdade da minha vida, aprendi muitas coisas. Quem entra em uma universidade pública ou só aprende a 66 | Poeta Fernaun, 20 o Encontro SlamOz

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decorar fórmulas para passar no vestibular e muitas vezes não conhece sobre classe, sobre espaço e lugar de fala.” A batalha de poesias torna mais acessível a literatura nas periferias, além de incentivar o surgimento de novos poetas, fomentar a cultura, promover uma visão diferente sobre os grupos de minorias, desconstruir estereótipos, reconhecer privilégios e ajudar a empoderar mulheres, negros, pessoas LGBTQIA+ e todos aqueles que, infelizmente, ainda precisam implorar pelos seus direitos e resistir contra os preconceitos.

68 | Poeta Jéssica Campos, Grande Final Slam da Guilhermina

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70 | Poeta Mรกrcio Ricardo, Grande Final Slam da Guilhermina

Poeta Fernaun, 20 o Encontro SlamOz | 71


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Poeta Fernaun, 20 o Encontro SlamOz | Poeta Bekรก, Grande Final Slam da Guilhermina | 73


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Poeta JĂŠssica Campos, Grande Final Slam da Guilhermina | 75


76 | 2 o e 3 o Lugar da Grande Final Slam da Guilhermina

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“Se um elefante incomoda muita gente Um preto com autoestima incomoda muito mais Então bom dia nego, levanta e anda E mostra pra eles como é que faz Se é pra incomodar, desde já eu deixo o meu grito Atura ou surta, pois nós estamos vivos.” - Poeta Beká

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Poeta Beká, Grande Final Slam da Guilhermina | 79


“Quem ta na correria tá no... FLUXO”

(Slam Fluxo)

“A favela é o terror dos bico... SLAM DO PICO”

“Sabotagem sem massagem na mensagem... SLAM RESISTÊNCIA” (Slam Resistência)

(Slam do Pico)

“1 2 3... ZAP! 123... ZAP!”

“1 2 3... SLAM DA GUILHERMINA”

(Zap! Slam)

(Slam da Guilhermina)

“Nóiz por nóiz, slam... OZ” “Da palavra à estética, a periferia é po... ÉTICA”

(SlamOz)

(Slam Moinho Resiste)

“Se a poesia é loka o poeta é... TREZE”

(Slam do Treze)

“A poesia ecoa na floresta de concreto... SLAM DO PREGO”

(Estética das periferias)

“Slam das minas, todas... MONSTRAS”

(Slam das Minas)

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“São várias favelas que insiste, persiste e entre elas... MOINHO RESISTE”

(Slam do Prego)

“Das ruas pras escolas, das escolas... PRAS RUAS” (Slam Interescolar)

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AGRADECIMENTO Obrigada Juan Tinton por iluminar o meu caminho e ser meu turbo boost.


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