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VIADO - Guilherme de Sousa Oliveira

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UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL GRADUAÇÃO EM JORNALISMO

VIADO: AS REPRESENTAÇÕES DAS HOMOSSEXUALIDADES MASCULINAS CONTEMPORÂNEAS

SÃO PAULO 2020


UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL GRADUAÇÃO EM JORNALISMO

VIADO: AS REPRESENTAÇÕES DAS HOMOSSEXUALIDADES MASCULINAS CONTEMPORÂNEAS

Guilherme de Sousa Oliveira

SÃO PAULO 2020


RESUMO

A presente pesquisa reflete acerca das narrativas culturais estabelecidas historicamente pela população heterornomativa e seu impacto nas leituras sociais impostas aos corpos homossexuais. O trabalho também problematiza as racionalizações acerca destes corpos e, por fim, como as normas sociais podem pressionar corpos que estão fora de padrão branco, heterossexual e cisgênero. Palavras-chave: ​Homossexualidade – Sexualidade – Cultura – Gênero – Identidade


ABSTRACT

This research reflects on the cultural narratives historically established by the heterornomative population and their impact on the social readings imposed on homosexual bodies. The work also problematizes the rationalizations about these bodies and, finally, how social norms can pressure bodies that are outside the white, heterosexual and cisgender patterns. Key Words: ​Homosexuality - Sexuality - Culture - Gender - Identity


FICHA TÉCNICA Título: ​VIADO Informações técnicas sobre o produto Produto:​ Área televisiva - documentário Formato: ​Vídeo em MP4 Duração: ​27’ 55’’ Editado em:​ Adobe Premiere, Adobe After Effects, Audacity e outros softwares de livre edição. Sinopse: ​Perversão, doença ou pecado? VIADO retoma reflexões acerca da masculinidade homessexual e debate o espaço para corpos não-normativos dentro da comunidade gay. Quem é o homem gay contemporâneo além das notícias sobre homofobia que estampam as manchetes? O documentário mergulha em um programa de computador perdido no espaço-tempo e resgata a fala de 5 entrevistados para responder essa questão. Produção: ​Guilherme de Sousa Imagens: ​Captadas através de plataformas Roteiro e direção: ​Guilherme de Sousa Edição: ​Guilherme de Sousa Orientadora: ​Profª Dra. Mirian Meliani Nunes Coordenador: ​Prof. Ms. Antonio Lucio Assiz Entrevistados: Caio Rodrigues (Dacota Monteiro) Evandro Souza Fábio Osório Luiz Fernando Prado Uchoa Neto Lucon


SUMÁRIO RESUMO

3

ABSTRACT

4

FICHA TÉCNICA

​5

INTRODUÇÃO

8

JUSTIFICATIVA

10

OBJETIVOS

10

PROBLEMATIZAÇÃO E HIPÓTESES

10

5. PLANO ESTRATÉGICO

11

5.1 Título do produto

11

5.2 Área e formato

11

6. DESCRIÇÃO DO PROJETO

11

6.1 Linguagem

11

6.2 Visão e público alvo

12

6.3 Identidade visual e sonora

13

7. ASPECTOS TEÓRICOS

13

7.1 Antes de gays, homens

14

7.2 Agora gays, o que são?

16

7.3 Violência simbólica: a necessidade de manutenção do status quo

19

7.4 Metodologia

19

REFERÊNCIAS

21

8. CRONOGRAMA

22

9. ORÇAMENTO

23

APÊNDICES

24

1. ROTEIRO

25

2. ARTES CAPA E DVD

48

3. ​DIÁRIO DE CAMPO

49

ANEXOS


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1. INTRODUÇÃO A filósofa Simone de Beauvoir (1967) abre uma de suas mais célebres publicações, o livro “O Segundo Sexo”, com a frase que marcou a história acerca da discussão sobre gênero no contemporâneo: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.”. Entre as diversas discussões que essa sentença suscitou no debate sobre o papel dos gêneros na sociedade, uma das mais importantes discorre sobre a construção destes como parte da cultura humana. A partir dessa visão, é possível compreender como a manutenção de determinadas noções acerca dos corpos sociais — termo que, nesta pesquisa, utilizo para falar sobre da existência de pessoas como seres sociais, coletivos e determinados pelo ambiente — estão intimamente ligadas com a forma em que a classe dominante, que neste caso é representada pelos homens, enxerga a classe dominada, que são apresentadas por Beauvoir pelas mulheres. Beauvoir (1967) segue sua argumentação inicial ressaltando que “somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um outro”. Assim, a autora segue uma linha racionalizada na qual o corpo, ao nascimento, não é determinante, mas sim as leituras sociais a qual este é exposto que o determinam. Um pai contava-me que um de seus filhos com a idade de três anos ainda urinava sentado; cercado de irmãs e primas, era uma criança tímida e triste; um dia o pai levou-o ao W. C. dizendo-lhe: "Vou te mostrar como fazem os homens". A partir de então o menino, orgulhoso de urinar em pé, desprezou as meninas "que mijam por um buraco"; seu desdém provinha originalmente, não do fato de carecerem de um órgão, mas sim pelo de não terem sido distinguidas e iniciadas pelo pai. (BEAUVOIR, 1967, p. 14)

Assim, como no exemplo utilizado pela autora, os corpos sociais seriam então imbuídos pelo conceito de gênero a partir da própria exposição destes ao mundo que os cerca. Para Judith Butler (1990, p. 25), o sexo, em seu sentido socialmente compreendido como biológico, também pode ser considerado tão cultural quanto o gênero, uma vez que só é possível racionalizar o que é um sexo, a partir da compreensão cultural de gênero.


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Assim, é possível estabelecer que sexo, sexualidade e gênero, como as demais manifestações impostas culturalmente aos corpos sociais, só funcionam a partir de uma representação dual, no qual o oposto é necessário para que a função do conceito se conserve em sentido. O chamado “outro” por Beauvoir é, dessa forma, a soma das diferenças entre esses corpos sociais lidos como pertencentes a classe dominante, o que possibilita a formação do próprio conceito do corpo normativo. Esta pesquisa, no entanto, se debruça em um estudo sobre a masculinidade homossexual contemporânea e como seu corpo e sua existência, da mesma forma, seguiu um processo de racionalização de gênero assim como o explicado por Beauvoir (1967). A presente reflexão, dessa forma, discorre acerca dessas existências que, apesar de generalizada pela cultura e a mídia, ainda assim se encontram desprovidas de um discussão profunda sobre suas próprias existências, pois estão sempre permeadas pela visão do “outro”. Para Foucault (1966), a semelhança foi algo determinante para a construção do saber ocidental. O homem só era capaz de compreender o mundo ao reproduzi-lo. Uma vez que esse aspecto do conhecimento é baseado na semelhança, ou seja, no que há de igual entre as existências, são as diferenças que possibilitam a compreensão social do que é “outro”. O outro, neste aspecto, não se altera diante dos corpos sociais, pois está intimamente ligado ao status quo estabelecido. Como veremos nos capítulos a seguir, a relação entre o corpo social vigente e o “outro” que, por vezes, pode ser considerado um monstro, é parte das construções culturológicas no tempo e espaço. Ser gay no contemporâneo ainda é uma existência marcada por uma série de símbolos culturais profundos que, por vezes, violentam existências e anulam discussões acerca dos padrões normativos de ser. Como veremos a seguir, antes de compreender o que é ser gay no contemporâneo, necessitamos entender o que é um corpo masculino em sua totalidade e, assim, partir para uma discussão acerca da sexualidade. Após

estabelecermos

os

conceitos

da

tríade

de

análise

—

sexo-gênero-sexualidade — prosseguiremos para compreender como a violência simbólica é estabelecida.


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2. JUSTIFICATIVA De acordo com Bourdieu (1989), é a cultura dominante, a qual chamamos de “nós”, que contribui para uma comunicação imediata entre os todos os membros, distinguindo-os das demais classes, a quem podemos chamar de “outros”. É a partir dessa distinção entre o que é o “outro” e como este é estabelecido, que é possível compreender como e por que determinados grupos sofrem violência; Também observamos essa compreensão da necessidade da dualidade em Beauvoir (1967), que estabelece que só é possível racionalizar gênero e estabelecer a dimensão do “eu”, quando existe o “outro”. Assim, a presente pesquisa compreende a necessidade de, através de entrevistas, construir a visão interna da própria comunidade homossexual no contemporâneo. Sempre imbuídos da visão do “outro”, o trabalho busca discutir quem são as masculinidades homessexuais e, a partir disso, estabelecer um território de debate acerca dos corpos não-normativos. O gay negro, afeminado, gordo, periférico. A quem este corpo pertence senão ao “outro”? É momento de criarmos narrativas capazes de subverter as estratégias de debates e devolver a visão individual a quem tem pouco espaço para ser ouvido.

3. OBJETIVOS A presente pesquisa, entre seus ​objetivos gerais,​ pretende compreender

como os corpos homossexuais masculinos foram racionalizados de acordo com as mudanças que avançaram na cultura do ocidente e qual o impacto destas ressignificações na própria população gay. Como

​objetivo

específico​,

a

vigente

pesquisa

construiu de um

documentário, intitulado “VIADO”, que, entre outras camadas, busca discutir a pressão exercida acerca desse corpos sociais e, dessa forma, desenvolver um argumento baseado nas narrativas desenvolvidas por eles na atualidade.

4. PROBLEMATIZAÇÃO E HIPÓTESES A problematização da atual pesquisa recorre, principalmente, ao debate do que é um corpo normativo na sociedade contemporânea, com um enfoque claro nas


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existências homossexuais masculinas. Dessa forma, parte importante da pesquisa e do processo de entrevistas focou na violência simbólica como temática. Durante a pesquisa, a hipótese inicial era que os corpos e existências gays sentiam-se pressionados pelos padrões heterossexuais e cisnormativos da sociedade, o que foi comprovado a partir do desenvolvimento do produto.

5. PLANO ESTRATÉGICO 5.1 Título do produto Para definir o título do produto, foi levado em consideração grande parte da pesquisa de fontes e relação do autor com o tema. “VIADO” ainda é um dos termos mais utilizados para satirizar e humilhar homossexuais no Brasil. Acredita-se que o termo tenha se originado da palavra “desviado” e, como vimos na análise teórica da presente pesquisa, tudo aquilo que não pertence ao plano normativo de corpos, é considerado monstruoso e/ou doente. O título da obra assume a palavra como uma apropriação de uma face empoderadora. Como veremos nos tópicos a seguir, a ideia do projeto sempre foi racionalizar e misturar os conceitos de passado e futuro. Ao assumir “VIADO” como título da obra, reintegramos um termo de violência, como “marca registrada” das existências homossexuais. Ser “VIADO” deixa de ser um problema, uma doença, uma monstruosidade e passa ser uma reflexão acerca do nossos próprios corpos e vivências. 5.2 Área e formato Projeto realizado na área televisiva, no formato documentário.

6. DESCRIÇÃO DO PROJETO As características do produto são: 6.1 Linguagem A linguagem utilizada no documentário mergulha o espectador em um programa virtual fictício chamado “VIADO.EXE”. Assumindo uma linguagem mediada por telas, mouse e cliques, o documentário assume a estética a qual ele foi gravado. A ideia foi, justamente, manter-se fiel ao distanciamento imposto ao projeto devido a pandemia do novo Coronavírus.


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Assumir uma linguagem que simula um programa de computador, por sua vez, também é uma crítica consciente ao atual Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, que invalida o distanciamento social em seus pronunciamentos. O intuito foi reproduzir com clareza o apoio às medidas de segurança, deixando claro que é possível produzir um documentário e ainda assim respeitar o próximo e seu direito à vida. Quanto ao uso das telas e edição, o intuito foi reproduzir a sensação que tratava-se de um registro de conversas, assim como realmente foi. Essa alternância entre a presença do provocador — a pessoa com a qual o entrevistado falava — e a retratação

da

realidade

dos

entrevistados,

conserva

o ideal comum do

cinema-verdade, no qual, de acordo com Rouch (1971, apud Da-Rin, 2004, p.149) “sempre que uma câmera é ligada, uma privacidade é violada.”. E edição, por sua vez, não respeitou algumas “entradas” e “saídas” propositalmente, criando o ruído típico de conversas online, que dispensam linearidade muitas vezes e estão sempre repletas de interrupções. O documentário é dividido em temáticas bem definidas e, desse modo, funcionam como visões “micro” e “macro”, que pretendem conversar entre si. Se concentrando em “pastas”, é possível consumir o documentário como uma série de pílulas, se relacionando com o tipo de conteúdo que é produzido online atualmente. 6.2 Visão e público alvo O público-alvo, por sua vez, é composto por adultos entre 18 e 30 anos que, apesar de compreenderem o que é um homossexual, nunca tiveram contato com tais narrativas pessoais. Diferente da extensa maioria dos documentários acerca do assunto, “VIADO” não busca contar histórias acerca de casos de violência ou homofobia, mas retratar assuntos, muitas vezes, internos a própria comunidade gay. Ao abordar a temática de uma forma menos sensacionalista, o documentário busca tornar a discussão mais próxima da realidade de pessoas que não integram a comunidade LGBTQIA+.


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6.3 Identidade visual e sonora Partindo do conceito que o documentário inteiro se passa em um programa de computador, a estética assumida rememora uma tela de computação dos anos 1980/1990. A ideia é que o público mergulhe em uma narrativa retro futurista, na qual o tempo em que documentário se passa é indeterminado. Essa escolha visual remonta a ideia em que o passado e as temáticas que sempre foram tabus são, na verdade, sempre refletidas no futuro. Assim, um olhar anacrônico é impositivamente aplicado em assuntos como os abordados no documentário. Uma vez que as entrevistas foram gravadas à distância e, por isso, possuíam diferentes qualidades, o uso de “glitchs” e “noises” surgiram como uma solução que também conversavam com a proposta inicial. A trilha sonora, marcada pela presença da canção “Não Recomendado”, interpretada por Elza Soares, é acompanhada de outras músicas do produtor Nana Kwabena Tuffuor. O uso de músicas que se assemelham à temática tecnológica e possuem um fundo étnico constrói um antítese que busca humanizar o visual escolhido.

7. ASPECTOS TEÓRICOS Platão (2007), discorre durante o discurso de Aristófanes, em “O Banquete”, acerca de seres que, entre outras características, desafiavam a natureza humana por suas capacidades corpóreas. Estes eram capazes de desfrutar de privilégios que os demais humanos não possuíam por suas características essencialmente duais. “Havia, a princípio, três espécies de homens e não duas, como atualmente: macho e fêmea. O terceiro gênero era formado dos dois primeiros. Extinta a espécie, só o nome lhe sobreviveu. Chamavam-se Andróginos, porque pelo aspecto e pelo nome lembravam o macho e a fêmea.” (PLATÃO, 2007, p. 62​).

Como o próprio filósofo segue em sua narrativa, este “terceiro gênero” seria a representação da união das melhores características de homens e mulheres. Apresentados como seres ágeis, fortes e capazes de derrotar outras potências, inclusive, os deuses olimpianos.


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Para punir os andróginos e não permitir que estes destruíssem o Monte Olimpo, Zeus decide dividi-los ao meio, separando a face de cada gênero e tornando-os, assim, seres fracos e, como os demais humanos, imperfeitos. Esta reflexão proposta por Platão em “O Banquete”, entre muitas representações, traz uma visão clara acerca de como masculino e feminino, macho e fêmea, homem e mulher, eram tratados na fundação básica do conhecimento ocidental. Corpos que hoje seriam considerados bestiais por possuir o dobro de braços e pernas, além da mistura de seus sexos, eram considerados na época como a união perfeita entre o melhor dos dois gêneros. Assim, gênero e sexualidade eram remontados, como veremos, em diferentes formatos e arranjos. Corpos duais, mentes duais, sexos indeterminados, gêneros fluídos. As permissões sociais e as convenções estabelecidas no mundo contemporâneo eram dispensadas na antiguidade. O homessexual era pertencente às capacidades afetivas, pois o corpo homossexual masculino era considerado, e ainda continua sendo, como uma manifestação normativa. Dessa forma, podemos compreender o “homem” como régua para validação de todas as existências na antiguidade, mesmo que ainda seus desvios sexuais e de caráter decidam o quão socialmente válido este homem era. Se a união entre masculino e feminino era divina, a existência humana e terrestre era apenas masculina. 7.1 Antes de gays, homens Assim,

para

compreendermos

em

totalidade

das

representações

homossexuais no contemporâneo, se faz necessário interpretarmos como as racionalizações acerca de todos os corpos sociais foram construídas, partindo, inclusive, de uma interpretação anterior: o que determina o que é um homem e como isso acontece? Ao primeiro passo, o determinismo anatômico surge como a resposta para a questão. No entanto, como vimos em Beauvoir (1967), o corpo seria apenas um receptáculo para interpretações externas, na qual é necessário a visão do “outro” para que fundamente em conceito.


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De acordo com Laqueur (2001), as concepções de “homem” e “mulher”, anteriormente ao século XVII, estavam precisamente ligadas ao social, uma vez que o substrato biológico não era possível devido aos conhecimentos rasos da época. “Durante milhares de ano acreditou-se que as mulheres tinham a mesma genitália que os homens, só que - como dizia Nemesius, bispo de Emesa, do século IV – ‘a delas fica dentro do corpo e não fora’.”. (LAQUEUR, 2001, p. 16) Dessa forma, antes do iluminismo e seus estudos especificamente científicos, a sociedade compreendia os corpos sociais a partir dos papéis que eram adotados em comunidade. A ideia de que gênero é estritamente ligada ao sexo surgiria, então, com o avanço científico e a própria epistemologia. ​Foi no mundo do sexo único que se falou mais diretamente sobre a biologia de dois sexos, que era mais arraigada no conceito do gênero, na cultura. Ser homem ou mulher era manter uma posição social, um lugar na sociedade, assumir um papel cultural, não ser organicamente um ou o outro de dois sexos incomensuráveis. Em outras palavras, o sexo antes do século XVII era ainda uma categoria sociológica e não ontológica. (LAQUEUR, 2001, p. 19) Semelhante a este pensamento, Butler (1990) utiliza-se do conceito de Simone de Beauvoir acerca da construção de gênero para refletir sobre do determinismo do sexo para a racionalização dos corpos “homem” e “mulher”. “[...] não há como recorrer a um corpo que já não tenha sido sempre interpretado por meio de significados culturais; consequentemente, o sexo não poderia qualificar-se como uma facticidade anatômica pré-discursiva.” (BUTLER, 1990, p. 27). Logo, entende-se que o determinismo anatômico é um passo posterior ao cultural no momento que a sociedade pretende explicar o que são os corpos sociais. Posto isto, uma vez que a ciência passa a ser definidora de corpos, após a difusão do Iluminismo, surgem as concepções de anormalidade, a qual os corpos não-normativos, ou seja, que não obedecem a relação sexo-gênero-sexualidade, passam a ser lido como monstros. A partir deste ponto, é necessário estabelecer como as transformações acerca das representações corpóreas caminhavam no ocidente.


16

7.2 Agora gays, o que são? Determinando uma vez o que é um corpo masculino - que, socialmente também invalida existências transmasculinas — podemos entender o impacto da homossexualidade no contemporênao. Para Antunes (2016), o que entendemos como homossexualidade sempre foi condenado pela sociedade, no entanto em diferentes formatos. Sendo utilizado por instituições diferentes, como a igreja e a clínica, para tratamentos diferentes. Se a igreja e as religiões monoteístas revelam a homossexualidade como um pecado, a clínica buscou seu tratamento como doença mental. Diferente do que o senso comum acredita, o impulso sexual não se compara às pulsões fisiológicas. O impulso de desejo sexual é formado, principalmente, por três componentes: a biologia, a psicologia e a socialização (Costa, 1994; Galimberti; 2010). Com o papel da socialização estabelecido como crucial na hora de predeterminar o desejo sexual, podemos compreender que as compreensões acerca da homossexualidade masculina ganhou diferentes formatos na história. Historicamente, nas antigas civilizações, anterior ao sexo, estava o social. O papel reprodutor feminino sempre foi secundário, sendo a mulher considerada apenas o “vaso” receptor e genitor da vida, que, por sua vez advinha do homem (MOTTIER, 2010). Registros no Antigo Egito e Mesopotâmia demonstram, por sua vez que, a relação entre homens não era condenada, desde que o homem cumprisse papéis reprodutores com uma mulher e que, por sua vez, não assumisse o papel passivo — o que é penetrado durante relações sexuais — pois isso revelava uma comparação ao feminino (ANTUNES, 2016). Na Grécia Antiga, uma racionalização acerca da masculinidade ganhou novos formatos, graças à compreensão do que é considerado um corpo normativo. De acordo com Mottier (2010), apesar da pederastia — prática considerada educacional na época, na qual um homem mais velho tornava-se uma espécie de mentor político e sexual de um jovem — ser considerada comum, sátiras eram feitas


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acerca de homens afeminados que, por escolha, escolhiam assumir a posição de passivo nas relações. As diferenças entre passivo e ativo — ou seja, penetrador e penetrado — refletiam como estes homens seriam tratados e lidos socialmente. ​Em geral havia os homens adultos e livres que pertenciam a uma classe social alta, eram ativos (penetradores) em todos os sentidos (sexual e político). Do outro lado estavam os sujeitos considerados passivos (penetrados) socialmente (mulheres, escravos, rapazes e crianças), não participavam da vida pública, não tinham o título de cidadão, desconheciam o funcionamento da sociedade, Estado, valores éticos e morais. (ANTUNES, 2016, p. 25) Assim, as relação sexuais acompanhavam a vida pública das pessoas. Homens afeminados e que praticavam sexo anal como passivos eram obrigados a manterem

vidas

secretas

e

isoladas.

Aqui,

estabelecemos

como

a

feminilidade-passivo e masculinidade-ativo eram posições não apenas sexuais, como de poder (BOURDIEU, 1989) Grande parte dos costumes gregos foram adotados durante o crescimento do Império

Romano. Em Roma, homens podiam possuir diversos amantes e até

casarem, como no caso do Imperador Nero. É durante o endurecimento do cristianismo na Idade Média que, as noções de normalidade passam a ser de interesse das estruturas sociais. De acordo com Kappler (1994), “O ideal, ou a norma [para a sociedade durante a Idade Média] é a reprodução idêntica [...], a primeira característica do monstro, portanto, é ser diferente”. É nessa época em que a imagem de Deus passou a ser ligada ao perfeito, a tudo aquilo que fosse duradouro e contínuo. O que fugia do padrão, da tríade sexo-gênero-sexualidade, passou a ser encarado como monstruoso (LEITE, 2008). Por forte influência do platonismo, entre as várias interpretações filosófico-religiosas que vão ordenando as bases do cristianismo durante sua fase inicial de estruturação doutrinária, está a ideia de Deus como algo eterno, constante e de essência imutável. O diabo, por sua vez, forja-se como o “oposto” e a “inversão” de Deus, sendo inconstante, transitório, exageradamente ligado à variedade e mudança das formas, nunca definitivo, completo ou perfeito. Deus revela-se nas ideias claras e aparências precisas, enquanto o diabo associa-se aos conceitos dúbios e formas intermediárias. (LEITE, 2008, p. 28)


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Foucault (2001), durante suas investigações sobre a anormalidade, utiliza da figura hermafrodita para o debate da legalidade da corporalidade. O monstro, para o autor, não ultrapassa os limites naturais, mas também infringe leis. Desse modo, é compreendido que além dos preceitos culturais-religiosos, como os apontados por Kepler, que sobreviveram pelo milênio, a figura transitória, que desafia a legalidade de corpos reprodutores, homem e mulher com práticas heterossexuais, é monstruoso. “É igualmente monstro o ser que tem dois sexos e, por conseguinte, que não se sabe se deve ser tratado como menino ou menina; se se deve autorizá-lo a se casar e com quem [...]” (FOUCAULT, 2001, p. 81) Foucault (2001), discorre acerca de casos como os de Marie Lemarcis, pessoa que identificava-se como homem, utilizando o nome de Marin Lemarcis durante sua vida. Ao ser denunciado e levado a juízo, foram feitos exames que não comprovaram nenhum sinal de “virilidade”. Marin foi condenado à forca e seu corpo foi queimado. Apontamentos como estes feitos pelo autor, demonstram como a própria ideia de “hermafrodita” variava entre épocas, uma vez que Marin não possui quaisquer deformidades físicas, apenas apresentava-se em um gênero discordante ao que fora determinado por seu sexo biológico em seu nascimento. Ainda sobre a legalidade do corpo hermafrodita como monstro, Foucault (2001) comenta sobre como a presença de tais corpos estabelecem o caos quanto ao direito. O autor aponta a diferença legal entre o corpo doente e o corpo monstro. “O enfermo pode não ser conforme a natureza, mas é de certa forma previsto pelo direito. Em compensação, a monstruosidade é essa irregularidade natural que, quando aparece, o direito é questionado [...]”. (FOUCAULT, 2001, p. 80). Uma

vez

estabelecidos como disformes, monstros ou doentes, os

homossexuais passam a ser duramente perseguidos pela Igreja e pela sociedade. As sexualidades consideradas “desviantes” foram acusadas de serem as culpadas pela peste negra que assolou a Europa no século XIV. A tolerância com relação aos “tais hereges” era cada vez menor. A partir da segunda metade do século XIII, a morte era a punição mais comum para homens que faziam sexo com homens na maior parte da Europa.


19

Foucault (2001), reitera que a existência homessexual era vista como uma ruptura à ordem, ao sistema de reprodução, legal e econômico. Assim, era necessário que esses corpos se ajustassem aos modelos estabelecidos pelo Capitalismo Industrial e que os processos de violência social ocorressem. Matar, exterminar e curar, ao passar dos anos, deixa de ser uma opção viável. Uma vez que a homossexualidade parecia tendência animalesca, surgiram mecanismos de repressão sociais, como a violência simbólica.

7.3 Violência simbólica: a necessidade de manutenção do status quo Uma vez estabelecidas as narrativas que foram impostas aos corpos homossexuais masculinos e as leituras sociais que estes sofreram com o transcorrer do tempo, se faz necessário compreender qual o papel do jornalismo na manutenção destas. De acordo com Bourdieu (1989), “as relações de comunicação são, de modo inseparável, sempre, relações de poder que dependem, na forma e no conteúdo, do poder material ou simbólico acumulado pelos agentes (ou pelas instituições) envolvidos nessas relações”. Dessa forma, tais relações de comunicação, no caso, seriam responsáveis pelo acúmulo do que o autor compreende como “poder simbólico”. O conceito de poder simbólico defendido por Bourdieu é de extrema importância para a construção de um dos principais enfoques da presente pesquisa: a violência simbólica. Para o autor, “O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”. (BORDIEU, 1989, p. 15) Ou seja, este poder, de uma forma que não exclui o poder econômico, cultural e, inclusive corrobora para que ambos existam, acontece nas entrelinhas, por meio da eufemização de determinadas realidades, ou existências, e, apesar de estar sempre em disputa, parte sempre da classe dominante. Segundo Bourdieu (1989), a violência simbólica aconteceria no campo da supressão de determinados classes por outras, através do que o autor chama de “domesticação dos dominados”. É a partir dos sistemas simbólicos - mito, língua,


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arte, ciência – que determinados grupos acumulariam o chamado “poder simbólico” e os utilizariam na batalha para manutenção do status quo. As diferentes classes e fracções de classes estão envolvidas numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses, e imporem o campo das tomadas de posições ideológicas reproduzindo em forma transfigurada o campo das posições sociais. (BORDIEU, 1989, p. 10) ​O

jornalismo, no caso, como instituição estruturante, seria responsável pela

conservação de determinadas ideologias impostas pelas classes dominantes que, no âmbito da atual pesquisa, seria a população cisgênero. Assim, como parte do próprio sistema que impõem determinadas narrativas sobre os homens gays, o jornalismo contribuiria ativamente para que determinados preconceitos pré-estabelecidos pelas racionalizações vigentes acerca destes corpos, continuassem existindo. Para Bourdieu (1989), “a posição de um determinado agente no espaço social pode assim ser definida pela posição que ele ocupa nos diferentes campos, quer dizer, na distribuição dos poderes que atuam em cada um deles”. Dessa forma, o jornalismo estaria presente em variados níveis desse espaço social, uma vez que a mídia em si é grande administradora do chamado capital simbólico alheio – o que podemos entender por fama e prestígio. Ou seja, uma vez que esta é responsável por estruturar uma fração do que autor entende como capital simbólico, garante a si própria parte do que administra para o próximo. A partir dessa noção, compreendemos que o jornalismo, em relação a uma série de outros corpos, funciona também como espaço de opressão e propagação dessa violência simbólica. No caso dos homens gays em específico, entende-se que o papel da mídia passar a ser, inclusive normatizador. 7.4 Metodologia Quanto a metodologia aplicada para a criação do produto, destaca-se a pesquisa aprofundada de fontes que pudessem oferecer narrativas interessantes e que, ainda assim, fossem capazes de oferecer novas perspectivas sobre a temática. E o próprio processo de entrevista em profundidade, que aconteceu em diferentes níveis com as fontes propostas no trabalho.


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NICHOLS, Bill. ​Introdução ao documentário​. 4. ed. São Paulo: Papirus Editora, 2010

8. CRONOGRAMA CRONOGRAMA GERAL – PROJETO DE PESQUISA E EXPERIMENTAL Atividade

JAN FEV MAR ABR MAI JUN

Escolha do tema + Pesquisa

X

X

Delimitação do tema.

X

X

Objetivos + Problemas + Hipóteses. Introdução; Justificativa; Aspectos Teóricos e Metodológicos. Pesquisa de fontes Entrega da Etapa I do TCC Gravação de entrevistas com fontes oficiais e oficiosas. Início das gravações com personagens Decupagem

JUL AGO

SET

OUT NOV

X X

X

X

X X X

Edição das sonoras Início da edição do vídeo-documentário. Finalização da edição. Finalização da capa, sumário e acabamentos. Entrega do Trabalho de Conclusão de Curso. Tabela 1 - definição das fases do trabalho pelo autor do projeto.

X X X X X X X X

DEZ


23

9. ORÇAMENTO ORÇAMENTO GERAL Item

Quantidade

Valor Unitário (em

Valor total

média)

Internet

10 (meses)

R$130,00

R$1300,0 0

Editor de vídeo pago (software)

03 (meses)

R$50

R$250

Total:

R$1550,00 Tabela 2 - definição dos gastos do trabalho pelo autor do projeto.


APÊNDICES


1. ROTEIRO Produção: Guilherme de Sousa Título: VIADO Tempo estimado: 27m 50s

Status: Finalizado Roteiro: Guilherme de Sousa Direção: Guilherme de Sousa

VÍDEO

CENA

Informações

TÍTULO "VIADO" E BARRA DE CARREGAMENTO.

ANIMAÇÃO

SOBE SOM: INTRODUÇÃO DA MÚSICA "NÃO RECOMENDADO - ELZA SOARES"

IMAGENS DE HOMENS DUBLANDO "NÃO RECOMENDADO - ELZA SOARES". (EXEMPLO EM "CLIPE_EXEMPLO)

CLIPE

AO FINAL DO CLIPE, CURSOR DE MOUSE "CLICA" NA PALAVRA VIADO. ENTRA UMA TELA COM A PASTA "INÍCIO". MOUSE DÁ DUPLO CLIQUE.

TELA ÚNICA.

ANIMAÇÃO

VÍDEO "ENTREVISTA_NETO"

​O CLIPE FINALIZA COM A PALAVRA "VIADO" EM GARRAFAIS NA TELA, COM LETRA VERDE DE PROGRAMAÇÃO. PODE SER ADICIONADO UM "GLITCHS" AQUI. SOBE SOM: MÚSICA CONTEMPLATIVA. TOM BAIXO.

EU VIM DE UMA CIDADE DO INTERIOR, ONDE A POUCO SE DISCUTIR SOBRE ISSO, EU DEMOREI UM POUQUINHO PARA ME ENTENDER E FUI ENTENDER QUANDO EU COMPREI UMA REVISTA EXTINTA CHAMADA G MAGAZINE. NESSA REVISTA TINHA, ALÉM DOS FAMOSOS PELADOS E TAL, TINHA UMA COLUNA, VÁRIAS COLUNAS, E UMA DELAS ERA UMA JORNALISTA, DE UMA ARTISTA, CHAMADA CLÁUDIA


WONDER, ONDE ELA TAVA FALANDO SOBRE AUTOACEITAÇÃO E TAL. AÍ EU MANDEI UM E-MAIL PARA ELA E A GENTE COMEÇOU A DIALOGAR. A CLÁUDIA ERA UMA TRAVESTI E UMA MILITANTE MUITO CONHECIDA, PRINCIPALMENTE AQUI EM SÃO PAULO. FEZ HISTÓRIA E TAL, TEM UM DOCUMENTÁRIO SOBRE ELA, E A GENTE SEMPRE DE DIALOGOU SOBRE ISSO E EU COMECEI A ENTENDER MUITO MAIS O QUE PESSOAS COMO EU, PESSOAS COM HISTÓRIAS SEMELHANTES, PASSAVAM NO BRASIL. E A AUSÊNCIA DE NOTÍCIAS E ABORDAGEM MAIS SÉRIA, RESPEITOSA, QUE FALTAVA NA MÍDIA HEGEMÔNICA.

CONTINUA EM TELA ÚNICA

VÍDEO "ENTREVISTA_DACOTA"

A MEDIDA QUE EU FUI ME DESCOBRINDO CADA VEZ MAIS, CONVERSANDO COM MEU TERAPEUTA... CONVERSANDO COM O BIRA QUE FAZ TAMBÉM… COMO CHAMA O CANAL? O ALGORITMO DE ALGUMA COISA. O ALGORITMO DA SEMIÓTICA… O ALGORITMO DA IMAGEM! ELE É ÓTIMO, ELE TAVA FALANDO SOBRE A GENTE OFERECER AS NOSSAS MAZELAS, NÉ? NOSSA MARGINALIDADE SEXUAL COMO ENTRETENIMENTO DAS PESSOAS É UMA COISA QUE EU FIZ DURANTE MUITO TEMPO. PENSA O PONTO D, PRINCIPALMENTE O QUE ELE É E O QUE ELE FOI, O QUE ELE VEM


SENDO MUITAS VEZES... TEM ESSE ROLÊ DE EU PEGAR E OLHAR, DO “CHISTE” QUE A GENTE CHAMA, E OLHAR PARA ESSA SITUAÇÃO DEPLORÁVEL QUE A GENTE SE ENCONTRA NA MARGINALIDADE DO AFETO E DA SEXUALIDADE E RIR DISSO. ENTÃO EU TÔ NUM MOMENTO NA MINHA VIDA QUE EU TÔ NAVEGANDO ISSO DE FORMA É DIFERENTE. EU TÔ ABERTA A FALAR DAS COISAS QUE EU JÁ FIZ, QUE EU JÁ PASSEI. SEM PROBLEMA NENHUM, ATÉ PORQUE SEXUALIDADE FAZ PARTE DA VIDA. MAS EU VEJO COM OUTROS OLHOS AGORA, SABE? EU VEJO MAIS COMO ALGO RUIM QUE ACONTECEU NO PASSADO, NÃO É ALGO QUE EU FALO “AI, É NORMAL, É ENGRAÇADO”

CONTINUA EM TELA ÚNICA

VÍDEO "ENTREVISTA_EVANDRO"

EU FICO BEM PREOCUPADO EM FALAR DESSE TEMA. EU, NOS MEUS TRABALHOS, NUNCA FALEI DESSE TEMA ASSIM. QUE FOSSE UM TEMA PRINCIPAL DO TRABALHO, SABE? NO MEU TCC MESMO, POR EXEMPLO, ERA UM TEMA SECUNDÁRIO. EM ALGUM MOMENTO O PAI DESCOBRE QUE O FILHO É GAY, BOTA ELE PARA FORA DE CASA E AÍ ISSO ACABA ACARRETANDO UMA SÉRIE DE COISAS, UMA SÉRIE DE MÁGOAS. MAS ESSE NÃO É O FOCO CENTRAL DO FILME. MAS EU FICO UM POUCO PREOCUPADO DE FALAR DISSO PARA NÃO CAIR O CARICATO, SABE? EU ACHO QUE É A MINHA MAIOR BARREIRA. PORQUE ASSIM, QUANDO A GENTE FAZ UMA CARICATURA DE ALGUMA COISA E A CARICATURA DO GAY, DA TRANS, DA TRAVESTI


CONTINUA EM TELA ÚNICA

VÍDEO “LUIZ_ENTREVISTA_INTRO ”

CHAMADA, COMO ERA CHAMADA ANTES (SIC), ISSO É UMA COISA QUE VEM À ANOS E ANOS. ENTÃO PARA TIRAR ESSA CARICATURA, É COMPLICADO. E VOCÊ QUERER TIRAR ESSA CARICATURA SEM TER 100% DE CERTEZA QUE VOCÊ TÁ FAZENDO UMA COISA CERTA, EU ACHO QUE É MUITO PERIGOSO E EU NA FACULDADE, EU NÃO TAVA NESSE TEMPO, ENTÃO PREFERI PASSAR POR ISSO… EU QUERIA QUE TIVESSE UM PERSONAGEM GAY, MAS EU QUERIA QUE FOSSE MUITO SUTIL, PORQUE EU NÃO SENTIA PREPARADO PRA LIDAR COM UMA QUESTÃO QUE EU CONSIDERO ENORME. PARA MIM É DIZER QUE EXISTEM VÁRIAS POSSIBILIDADES DE SER HOMEM. QUANDO EU FALO SOBRE MASCULINIDADE AS PESSOAS FALAM: “AH, MAS VOCÊ FALA SOBRE MASCULINIDADE?”. DAÍ EU FALO: “POR QUE VOCÊ ESTÁ PERGUNTANDO ISSO PARA MIM?” PRIMEIRO QUE EU QUEBRO A PESSOA AÍ. “NÃO MAS VOCÊ É UM HOMEM TRANS”. MAS HOMEM TRANS NÃO É UMA ESPÉCIE DE MASCULINIDADE? “AH, MAS É SÓ TRANSMASCULINIDADE”. ANTES DE SER UMA TRANSMASCULINIDADES NUM NICHO, TEM UMA MASCULINIDADE AÍ, E EU TENHO QUE FALTAR ESSA MASCULINIDADE EU TENHO DESMISTIFICAR QUE MASCULINIDADE ESTÁ DE CROMOSSOMOS, ESTÁ DENTRO DE UM PÊNIS, ESTÁ DENTRO DE DETERMINADAS QUESTÕES,


PORQUE ISSO FOI UM HOMEM CIS QUE DISSE: QUE SE VOCÊ É XX, VOCÊ É HOMEM, VOCÊ É XY VOCÊ É MULHER, QUE É O OPOSTO. ENTÃO QUEM FEZ ESSAS REGRAS FORAM ESSES HOMENS ESSES HOMENS COM ACESSO AO CONHECIMENTO. DISSERAM QUE O QUE É O MEU OPOSTO NÃO É VÁLIDO, E O QUE É IGUAL A MIM É O VÁLIDO É O RECONHECIDO. E NÃO QUALQUER HOMEM, EU TENHO QUE SER UM HOMEM HETEROSSEXUAL, BRANCO E TENHO QUE CUMPRIR ALGUMAS EXPECTATIVAS SOCIAIS, SE VOCÊ FOR DIFERENTE DESSE MODELO, PORQUE EU SOU PORQUE DETENTOR DE TUDO, VOCÊ É UM NADA

CONTINUA EM TELA ÚNICA

VÍDEO "ENTREVISTA_FABIO"

AGORA É TRANQUILO, DE VERDADE. CLARO QUE NÃO FOI DURANTE MUITO TEMPO, NÉ? ISSO É UMA É UMA CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE EM DESCONSTRUÇÃO DE TUDO QUE A GENTE APRENDE, DE TUDO QUE A GENTE ABSORVE MUITO, ENTÃO NÃO FOI FÁCIL. NÃO FOI TRANQUILO, NÃO FOI RÁPIDO. MAS HOJE É MUITO MUITO MAIS LEVE DO QUE O QUE JÁ FOI. ÓBVIO QUE EU TÔ DIZENDO QUE É TRANQUILO, MAS AINDA ASSIM EXISTEM TABUS. NÃO É EM TODO LUGAR, NÉ? NÃO É COM TODO MUNDO QUE EU ME SINTO A VONTADE, QUE EU ME SINTO TRANQUILO, PRA FALAR SOBRE.


CENTÉSIMOS DE SEGUNDOS ANTES DO VÍDEO ACABAR, CURSOR APARECE E CLICA EM UM ÍCONE AO LADO. APARECE UMA PASTA CHAMADA "NA TELA".

MOUSE DÁ DUPLO CLIQUE NA PASTA. ABRE UMA NOVA TELA, DESSA VEZ A TELA DUPLA.

TELA ÚNICA

ANIMAÇÃO (TRANSIÇÃO ENTRE TÓPICOS)

ANIMAÇÃO

VÍDEO "ENTREVISTA_EVANDRO"

ESTOU ASSISTINDO TORRE DE BABEL, QUE É UMA NOVELA DA GLOBO DE 22 ANOS, QUE FICOU DISPONÍVEL AGORA. EU LEMBRAVA QUE EU ASSISTIA ESSA NOVELA ALGUMAS VEZES, QUANDO ERA CRIANÇA, EU ASSISTIA ASSIM DE SEXTA FEIRA PORQUE NO SÁBADO NÃO TINHA ESCOLA. É A NOVELA QUE SHOPPING EXPLODE. SEMPRE QUE O SHOPPING EXPLODE É UMA DIVISÃO DE UMA PASSAGEM. ENTÃO É UM DIVISOR DE ÁGUAS NA NOVELA. NA PRIMEIRA FASE EXISTEM DUAS PERSONAGENS E ELAS NAMORAM. ERAM CHRISTIANE TORLONI E SILVIA PFEIFER. E ELAS NÃO TEM UMA CENA QUE AS DUAS ESTEJAM DE MÃOS DADAS POR EXEMPLO. NADA DISSO. E MESMO ASSIM NA ÉPOCA FOI UMA COISA EXTREMAMENTE ESCANDALOSA TANTO QUE ELAS MOR​REM NA

EXPLOSÃO DO SHOPPING, PORQUE AÍ NA SEGUNDA


FASE DA NOVELA ELAS NÃO ESTÃO MAIS PORQUE O PÚBLICO NÃO CONSEGUIU LIDAR COM ISSO. E AÍ VOCÊ PENSA QUE 22 ANOS ATRÁS, MAS AGORA EU ACHO QUE A GENTE ESTÁ MAIS ATRÁS DO QUE HÁ 22 ANOS. PORQUE HOJE A GLOBO ELA TEVE, ISSO FALANDO DE NOVELA NÃO TANTO DE CINEMA, MAS A GLOBO TEVE UM AVANÇO. TIVERAM PERSONAGENS GAYS. TEVE EU O CRÔ, POR EXEMPLO, QUE É O CARICATO DO CARICATO. SÓ FEZ UM SUCESSO EM GRANDE FILME PORQUE É UMA PIADA. É INCONCEBÍVEL AINDA TER UM GAY QUE ELE É BEM SUCEDIDO E ELE É SÉRIO. EU ACHO QUE ISSO É O PRINCIPAL PONTO. ENTÃO ASSIM, EU ACHO QUE QUANTO MAIS A GENTE TENTAR RETRATAR ESSA QUESTÃO COM A MAIOR NATURALIDADE POSSÍVEL, DE UM JEITO MUITO COTIDIANO, MUITO DILUÍDO NA SOCIEDADE E NA VIDA, EU ACHO QUE ISSO AÍ NÃO TEM COMO NÃO TRAZER BENEFÍCIOS. TEM QUE SAIR DO ESTEREÓTIPO E LIDAR DE UMA FORMA MUITO MUITO FLUÍDA, MUITO NORMAL. QUE É..


A GENTE TÁ LUTANDO PARA QUE UMA COISA NORMAL PAREÇA NORMAL. É UM ASSUNTO QUE EU POSSO FALAR COM PROPRIEDADE PARA FALAR, SOU GAY, ENTÃO EU SABERIA CONSTRUIR UM PERSONAGEM. MAS SERÁ QUE O MEU PERSONAGEM IRIA ESTAR FALANDO DE MIM E NÃO ESTARIA FALANDO DE UM CENÁRIO GERAL, QUE EU ACHO IMPOSSÍVEL. SERÁ QUE ELE ESTARIA ATINGINDO OUTRAS PESSOAS? QUANDO VOCÊ FAZ UMA OBRA DE ARTE, DE ALGUM DE ALGUM JEITO, MESMO QUE MINIMAMENTE, VOCÊ ESTÁ FALANDO DE VOCÊ. ESTÁ FALANDO DE ALGUMA COISA DE VOCÊ. É IMPOSSÍVEL ESCREVER UM ROTEIRO SEM QUE ESSE ROTEIRO NÃO TENHA “ZERO PONTO CINCO POR CENTO” DE UMA COISA SUA ÍNTIMA. MAS SERÁ QUE ESSE MEU PERSONAGEM FARIA SENTIDO PARA OUTRAS PESSOAS? ESSA FOI A MINHA BARRIGA. EU ACHO QUE É UM ASSUNTO QUE NÃO DÁ MAIS PARA A GENTE LIDAR DE QUALQUER JEITO, NÃO DÁ MAIS PARA A GENTE FAZER POR FAZER, FAZER PARA CHAMAR ATENÇÃO. É UM ASSUNTO QUE PRECISA SER, AINDA MAIS NO


MOMENTO POLÍTICO NÃO SÓ BRASILEIRO, MAS DE UMA RADICALIZAÇÃO ASSIM QUASE MEDIEVAL DE VÁRIOS LUGARES DO MUNDO. EU ACHO QUE É UM ASSUNTO QUE A GENTE PRECISA TRATAR COM MUITO CUIDADO PRA NÃO CORRER O RISCO DE VOLTAR SABE DE TANTAS COISAS QUE JÁ FORAM.

CENTÉSIMOS DE SEGUNDOS ANTES DO VÍDEO ACABAR, CURSOR APARECE E CLICA EM UM ÍCONE AO LADO. APARECE UMA PASTA CHAMADA "SER E PARECER”

ANIMAÇÃO (TRANSIÇÃO ENTRE TÓPICOS)

ANIMAÇÃO

“TELA UNICA THUMB” VÍDEO "ENTREVISTA_NETO"

EU ESTAVA VENDO QUE A HOMOSSEXUALIDADE NO MUNDO ANIMAL, QUE TEM UMA PESQUISA NOS ANOS 90 TEM MAIS DE 150 ESPÉCIES DE ANIMAIS FOI COMPORTAMENTO QUE A GENTE ENTENDE COMO HOMOSSEXUAL E QUE PARA QUE NA VERDADE É ALGO INTRÍNSECO A ELES E QUE NA NOSSA SOCIEDADE ENQUANTO A HUMANIDADE A GENTE VAI REFLETINDO E QUERENDO TERMOS DEFINIÇÕES EM CIMA.


COMPORTAMENTO DESSA ORIENTAÇÃO SEXUAL SENDO QUE NA GRÉCIA ANTIGA ISSO TAMBÉM EXISTIA E NÃO EXISTE UM NOME PARA ISSO. A PARTIR DE 1800, A GENTE ENTENDEU QUE SOMENTE NOS LIVROS MÉDICOS O CONCEITO DE HOMOSSEXUALIDADE DE UMA MANEIRA NÃO MUITO BACANA AINDA FALANDO COMO HOMOSSEXUALISMO, SENDO QUE SÓ EM 1990 MUDOU PARA HOMOSSEXUALIDADE, SAÍMOS DE DOENÇA PSIQUIÁTRICA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. ENTÃO AS PALAVRAS ELAS ESTÃO SE MODIFICANDO, OS ENTENDIMENTOS QUE A GENTE TEM SOBRE ELAS TAMBÉM.

“TELA UNICA THUMB” O MOUSE, FALTANDO POUCOS MILÉSIMOS DE SEGUNDO PARA A FALA DO NETO ACABAR, CLICA EM UMA DAS THUMBS DO LADO. E LEVA PARA UM OUTRO TRECHO DE VÍDEO.

ANIMAÇÃO


VÍDEO "ENTREVISTA_DACOTA" TELA ÚNICA

A CARACTERÍSTICA DE VOCÊ FAZER UM PERSONAGEM NÃO AFEMINADO DEPENDE DA SUA CAPACIDADE DE CRIAR A PERSONAGEM PONTO. VOCÊ CONSEGUIR FAZER UM PERSONAGEM CARICATO QUE NA PEÇA INFANTIL, VOCÊ CONSEGUE FAZER UM PERSONAGEM HETEROSSEXUAL MASCULINO UMA PEÇA ADULTA. ENFIM TUDO ISSO DEPENDE DE SUA CAPACIDADE DE CRIAR O PERSONAGEM. O PROBLEMA É QUE A GENTE NÃO COLOCA MAIS GENTE. ISSO ELES NÃO PEGAM E FALAM PRA GENTE “VOCÊ PRECISA, COMO ATOR SE NEUTRALIZAR, ENQUANTO VOCÊ TIRA TODOS OS SEUS TREJEITOS, ENQUANTO PESSOA , INDIVÍDUO, E CRIAR OUTRA PESSOA OU CRIAR OUTRA PERSONA, CRIAR OUTROS TREJEITOS. NÃO, ELES FALAM QUE VOCÊ PRECISA DEIXAR DE SER VIADO VOCÊ, PRECISA APRENDER A DEIXAR DE SER AFEMINADO. AS PESSOAS NÃO PEGAM E COLOCAM ESSA NOSSA HABILIDADE DE CRIAR UM PERSONAGEM OU NÃO. ELES COLOCAM ISSO NA PESSOA QUE A GENTE É. ELES ATACAM A PESSOA QUE A GENTE É. ISSO CRIA BARREIRAS, ISSO CRIA A NÓIA ENQUANTO ATOR.


EU JÁ FIZ MUITO O PERSONAGEM MASCULINO E FOI APLAUDIDO VÁRIAS VEZES POR ISSO, “THANK VARY MUCH”. MAS EXISTE UMA OUTRA RELAÇÃO NO PROCESSO DE, ENQUANTO EU ESTAVA FAZENDO OU “PACO” DO “DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA”, SE EU PERDESSE O PERSONAGEM, SE APARECESSE SPAC DE, DIGO, DE PESSOA, NÃO ERA RECEBIDO COMO A PERDE PELO PERSONAGEM, QUE ERA RECEBIDO COM RISADA. AS PESSOAS RIAM DA MINHA CARA, PORQUE “KKK” AGORA EU ERA UM VIADINHO, SABE? EU ACREDITO TAMBÉM QUE A IDENTIDADE HEGEMÔNICA DO HOMEM NAS PEÇAS DE TEATRO QUE SÃO ESCRITAS, NAS HISTÓRIAS QUE SÃO ESCRITAS, ATÉ HOJE É MUITO FEITA PARA CABER O HOMEM HÉTERO. ELA É FEITA PARA SERVIR O HOMEM HÉTERO, A ESSE PÚBLICO HOMEM HÉTERO. ENTÃO QUANDO VOCÊ É UM HOMEM HÉTERO VOCÊ JÁ É CRIADO COM ESSA IDENTIDADE NA SUA CABEÇA DESDE SEMPRE. NÃO É DIFÍCIL PARA VOCÊ SE DESCONSTRUIR E CRIAR OUTRO PERSONAGEM. PORQUE VOCÊ JÁ PERFORMA ISSO NA VIDA REAL. E NÓS, ENQUANTO HOMOSSEXUAIS, PESSOAS QUE TÊM ESSES TREJEITOS


DIFERENTES ETC. A GENTE TEM UM TRABALHO MUITO MAIOR DE SE DESCONSTRUIR PORQUE ESSE É UMA PARTE NOSSA APARECE NESSE PERSONAGEM. A GENTE VIRA CHACOTA, COM POUCA HABILIDADE PARA PERFORMAR. TODO MUNDO SABE, OS NOMES ESTÃO NA BOCA DE TODO MUNDO QUE SÃO ATORES GAYS COM CASOS, COMEDIANTES COM RELACIONAMENTOS, QUE TÊM QUE MANTER ESCONDIDO PORQUE SE ISSO FOR LEVADO O PÚBLICO ISSO, AFETA A VISÃO DO PÚBLICO SOBRE AQUELA PESSOA, SABE? EXISTE ESSA “FETICHIZAÇÃO” DO ATOR QUE, TIPO, TODO MUNDO ADORA O PERSONAGEM VIADO, DESDE QUE SEJA FEITO POR UMA PESSOA HÉTERO, PORQUE O IMPORTANTE É QUE NO FINAL DO DIA ELE NÃO SEJA AQUILO. SABE? É POR ISSO QUE AS PESSOAS BATEM PALMA PRA AQUELE QUE FAZ O “CRÔ”, MAS TIRAM BASTANTE O VALOR DO TRABALHO DO PAULO GUSTAVO, POR EXEMPLO, SÓ PORQUE ELE É UM VIADO QUE FAZ UM VIADO. SENDO QUE TEM UM MONTE DE HETERO QUE SÓ FAZ


HETERO, MAS SER HETERO NÃO INCOMODA NINGUÉM. CENTÉSIMOS DE SEGUNDOS ANTES DO VÍDEO ACABAR, CURSOR APARECE E CLICA EM UM ÍCONE AO LADO. APARECE UM CAMPO DE PESQUISA E DIGITA-SE “AFETO E PATERNIDADE”

ANIMAÇÃO

VÍDEO "ENTREVISTA_FABIO" TELA ÚNICA

E ELE (O ACARAJÉ) É COMIDA DE XANGÔ, QUE PRINCIPALMENTE, OU MAIS POPULARMENTE, CONHECIDA COMO COMIDA DE OYÁ. ENTÃO NÃO TINHA COMO NÃO TOCAR NESSE TRABALHO, POR CONTA DESSE CONTEXTO HISTÓRICO, POR CONTA DESSA RELAÇÃO, PRINCIPALMENTE PARA QUEM ESTÁ AQUI EM SALVADOR, ENTENDER COMO ISSO FUNCIONA, COMO ISSO OPERA NOS CORPOS, NÃO TINHA COMO ISSO NÃO CRUZAR COM A MINHA SEXUALIDADE, SOBRE A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA.

SOBRE O SER UM HOMEM QUE ESTÁ VESTIDO DE BAIANA, DE MULHER QUE TRABALHA COM ISSO. SOU BAIANO E RESPEITO MUITO ESSE LIMITE MAS NÃO TINHA COMO NÃO TOCAR NESSA MINHA CONCEPÇÃO. E COMO FALAR E TRATAR DISSO PUBLICAMENTE QUE DE UMA FORMA QUE SEJA QUE NÃO VÁ SÓ PELA DOR, QUE SEJA DO AFETO DO CARINHO DO PODER.


CLARO QUE TEM A DOR, SEMPRE PARA MIM, EU ACHO QUE NUNCA VAI DEIXAR DE EXISTIR, A DOR. A GENTE TEM UMA COISA QUE NA RELIGIÃO, A GENTE APRENDE QUE NO PASSADO VEM JUNTO À SUA ANCESTRALIDADE, ESTÁ TUDO AQUI. EU NÃO VOU VIVER LÁ, MAS ESTÁ VINDO COMIGO, ENTÃO TODAS AS DORES DE TODAS OS HOMENS E MULHERES GAYS QUE LUTARAM POR ISSO, ESTÁ TUDO AQUI COMIGO. ENTÃO A DOR VAI SEMPRE ESTAR AQUI. VAI ESTAR SEMPRE VIVA, MAS NÃO É SÓ DE DOR QUE A GENTE VIVE.

OLHA, EU REALMENTE EU NÃO TENHO UM REFERENCIAL. UM REFERENCIAL QUE EU DIGA: OLHA, ESSE É O MEU REFERENCIAL MASCULINO, NÃO TEM COMO. AMO MEU PAI, ELE É UM PAI INCRÍVEL, MAS FARIA MUITAS COISA DIFERENTE.

TEVE UM ANO, QUE EU TINHA UNS SETE ANOS, OITOS ANOS, QUE MEU PAI PASSOU UM DIA EM CASA. ELE TRABALHOU TODOS OS DIAS. UM DOMINGO. QUE ISSO A GENTE FOI QUEBRANDO A MEDIDA QUE FOMOS CRESCENDO MESMO. EU ME LEMBRO, EU JÁ ME ENTENDIA COMO GAY, ANTES MESMO DE ME ASSUMIR, JÁ FAZIA


TEATRO, UNS 18 ANOS, MAIS OU MENOS.

DE EU COMEÇAR, DELIBERADAMENTE, A QUEBRAR BARREIRAS DE CARINHO COM MEU PAI. ENTÃO DE FALAR NO TELEFONE E DIZER: UM BEIJO. NÃO ERA “UM BEIJO” NÃO. ERA “TÁ, TCHAU”, COM TODO CARINHO, MAS ERA “TÁ, TCHAU”.

ENTÃO, “TÁ, TCHAU, PAI. UM BEIJO”. NO INÍCIO ERA: “HM, TÁ, TCHAU”. DEPOIS DE MUITO TEMPO, ELE: “OUTRO”. ATÉ HOJE, HOJE EM DIA, QUE ELE: “TÁ, MEU FILHO. UM BEIJO”. ENTÃO, ESSA QUEBRA DE UMA MASCULINIDADE DELE, NELE, FOI UM CENTÉSIMOS DE SEGUNDOS ANTES DO VÍDEO ACABAR, CURSOR APARECE E CLICA EM UM ÍCONE AO LADO. SURGE UMA PASTA CHAMADA “TRANSMASCULINIDADE” TELA ÚNICA

ANIMAÇÃO

VÍDEO "ENTREVISA_LUIZ”

E AÍ VEM, EU, LUIZ FERNANDO, QUE AOS MEUS VINTE E POUCOS ANOS FALO: NÃO SÓ ESTA MULHER. ESSA MULHER QUE A SOCIEDADE DISSE QUE EU ERA, BASEADO NA AUSÊNCIA DE FALP E MA PRESENÇA DE ÓRGÃOS QUE VIERAM A DAR CONTA DE MODELO REPRODUTIVO, QUE EU TERIA QUE SER UMA MULHER DÓCIL E QUE TIVESSE QUE ATENDER ÀS EXPECTATIVAS SOCIAIS DE


FEMINILIDADE E DE MODELO REPRODUTIVO.

E ESSA MULHER NÃO EXISTE, A SOCIEDADE NÃO ME CONSULTOU. ESSA SOCIEDADE QUE ME ATRIBUI ESSE PAPEL DE MULHER. EU NÃO SOU ISSO, EU SOU O LUIZ FERNANDO. E AÍ, NESSE PROCESSO DE VOCÊ CONSTRUIR UMA MASCULINIDADE É COMPLEXO, PORQUE QUANDO VOCÊ TEM A DITA PASSA PASSABILIDADE AS COISAS SE TORNAM UM POUQUINHO MAIS FÁCEIS. O QUE É ESSA PASSABILIDADE?. QUANDO VOCÊ TINHA UMA APARÊNCIA MASCULINA VISÍVEL, QUANDO VOCÊ INJETA TESTOSTERONA E VOCÊ PASSA A SER OUVIDO, AS PESSOAS QUE ESTAVAM AGORA VOCÊ É OUVIDO. E AÍ, EU CHEGO NESSE NÍVEL E PERCEBO AS BENESSES, QUE É HOJE, POR EXEMPLO, EU ANDO NA RUA E NÃO ESCUTO “FIU FIU”, “GOSTOSA”, “BONITA”. PORQUE HOJE EU CONSIGO ANDAR NA RUA UMA CERTA LIBERDADE, MESMO SENDO HOMOSSEXUAL, VOCÊ CONSEGUE TER UMA LIBERDADE MAIOR.

VOCÊ CONSEGUE OCUPAR AQUELE CORPO, SÓ QUE ELE TEM UM PROBLEMA. QUAL O PROBLEMA? O PROBLEMA É QUE A SOCIEDADE SABE VOCÊ VIROU O HOMEM.


ENTÃO VOCÊ TEM QUE GOSTAR DE MULHERES, NÃO É. A DISCUSSÃO TODA QUE VOCÊ VIROU, VOCÊ SAIU DE UM ESTADO DE SUBALTERNIDADE E VOCÊ VAI PARA UM ESTÁGIO DE SUPERIORIDADE, QUE É O ESTÁGIO MASCULINO. ENTÃO VOCÊ TEM QUE ADMITIR QUE A HETEROSSEXUALIDADE LOGO DE CARA. MAS NÃO É QUALQUER HETEROSSEXUALIDADE: UMA HETEROSSEXUALIDADE PERMEADA POR MACHISMO, MISOGINIA E TODAS AS COISAS QUE A GENTE VÊ POR AÍ.

E AÍ, NO PROCESSO DA MINHA TRANSIÇÃO, ATÉ ENTÃO EU ME RELACIONAVA COM MULHERES. E AÍ EU FALEI TEM ALGUMA COISA FALTANDO, ALGUMA COISA QUE NÃO DEU LIGA. E AÍ EU FUI NO PARLAPATÕES, FUI COM MIGUEL, MEU AMIGO CIS E GAY.

EU ESTAVA BEBENDO, CONVERSANDO, TUDO BEM. ME CHEGOU UM CARA. GENTE, EU NUNCA TINHA ACHADO UM CARA BONITO, NAQUELE QUE TEMPO, ATÉ ENTÃO, NAQUELA ÉPOCA EU TINHA UMA NOIVA. FUI NOIVO POR CINCO ANOS. ENTÃO ASSIM EU ACHAVA O HOMEM BONITO MAS ERA ASSIM: “AÍ EU QUERO SER ELE. EU QUERO AQUELA BARBA,


AQUELE CORPO PRA MIM”. MAS AQUELE CARA EU ACHEI BONITO. AÍ FIQUEI ALI CONVERSANDO. QUANDO EU VEJO, EU ERA EU E O CARA SE AGARRANDO, SE BEIJANDO.

AÍ ELE TINHA QUE FALAR O QUE NÃO SE DEVE FALAR PRA MIM: EU SEMPRE TIVE VONTADE DE TRANSAR COM UM HOMEM TRANS. AQUILO ALI ACABOU, QUANDO A PESSOA SE METEU, EU ESTAVA COM CALOR, NA HORA COMECEI A PASSAR MAL. MAS ASSIM ISSO ME DEU UMA LIÇÃO: DE QUE EU ME SENTIA ATRAÍDO POR HOMENS DAQUELA FORMA. HOMENS QUE TINHAM BARBA, HOMENS QUE TINHAM UMA VOZ GROSSA, HOMENS QUE REPRODUZIAM UM ESTEREÓTIPO DE MASCULINIDADE. CENTÉSIMOS DE SEGUNDO ANTES DA FALAR ACABAR, O MOUSE DÁ UM DUPLO CLIQUE NA SETA E VAI PARA UMA TELA PRETA. UMA NOVA PASTA SURGE, DESSA VEZ, ESCRITO “FINAL”. AO CLICAR, UMA ERRO SURGE NA TELA. “ERROR 404: O ARQUIVO VIADO.EXE É UMA MALWARE E SERÁ EXCLUÍDO PERMANENTEMENTE. TRANSIÇÃO PARA UMA TELA DO LADO. SOBE SOM

ANIMAÇÃO

ANIMAÇÃO

ANIMAÇÃO + SOBE SOM


“NÃO RECOMENDADO INSTRUMENTAL” SURGE UM VÍDEO DO NETO, DESSA VEZ ELE PARECE CORROMPIDO. AO FIM DO VÍDEO, UMA BARRA DE EXCLUSÃO APARECE.

SURGE UM VÍDEO DO EVANDRO, ASSIM COMO O ANTERIOR, PARECE CORROMPIDO. AO FIM DO VÍDEO, UMA BARRA DE EXCLUSÃO APARECE.

VÍDEO "ENTREVISTA_NETO"

VÍDEO "ENTREVISTA_EVANDRO”

EU TAVA VENDO QUE EXISTE UMA DIFERENÇA ENTRE SER HOMOSSEXUAL E SER GAY. HOMOSSEXUAL SERIAM OU COMPORTAMENTOS TEM AO PROPONENTE OPÇÃO SEXUAL PRÁTICA. SER GAY, SERIA COMO VOCÊ SE ASSUMISSE, ENTRE ASPAS E SE ASSUMISSE, SE IDENTIFICASSE ENQUANTO GAY. VOCÊ SAÍSSE DO ARMÁRIO E LEVANTASSE UMA BANDEIRA. ACHO QUE VOCÊ, ENQUANTO GAY, DEMONSTRAR E FALAR ABERTAMENTE É REVOLUCIONÁRIO PORQUE PRINCIPALMENTE EM MUITOS LUGARES DO BRASIL FAÇA ISSO NÃO FOI ACEITO. SE GAY DURANTE UM TEMPO NA HISTÓRIA FOI VISTO COMO ALGUÉM CRIMINOSO, ALGUÉM COM O QUE ESTÁ TENDO ALGUM TIPO DE PECADO, INCLUSIVE SOBRE A IGREJA, QUE AINDA FALAM ATÉ HOJE. COMO ALGUÉM DOENTE,O COM ALGUÉM IMORAL E TUDO ISSO SÃO COISAS QUE A SOCIEDADE AINDA VAI TRAZENDO E CARREGANDO. EU ACHO QUE NÃO. SER NÃO, MAS ACHO QUE FALAR DISSO SIM. AINDA SIM, INFELIZMENTE SIM. É UM ASSUNTO QUE JÁ NÃO DEVERIA SER BATIDO. JÁ NÃO DEVERIA SER PAUTA MAIS, SABE. EU ACHO QUE SER GAY NÃO É O MAIS REVOLUCIONÁRIO, MAS, LÓGICO, QUE VOCÊ FALAR DISSO E FALAR NISSO COM PROPRIEDADE E FALAR DISSO COM ALGO QUE VOCÊ SABE ESTÁ FALANDO ISSO. FALAR


O MESMO ACONTECE COM A ENTREVISTA DO LUIZ. OS RUÍDOS SE INTENSIFICAM.

OS RUÍDOS NA ENTREVISTA DA DACOTA SE INTENSIFICAM.

VÍDEO "ENTREVISTA_LUIZ”

VÍDEO "ENTREVISTA_EVANDRO”

DISSO E CANSAR DE FALAR DISSO. PORQUE MUITOS HOMENS TRANS SÃO HOMOSSEXUAIS, MAS NÃO DIZEM ISSO DE FORMA PÚBLICA COM MEDO DO QUE EU SOFRO. COM MEDO DE SER VISTO COMO QUASE HOMEM, COMO UMA BICHA, COMO ALGUÉM QUE ESTÁ TENTANDO CONFUNDIR A CABEÇA DAS PESSOAS. É COMO SE EU NÃO TIVESSE DIREITO A DUAS COISAS QUE SÃO PRIMÁRIAS PARA UM SER HUMANO: A IDENTIDADE E A SEXUALIDADE. EM UM PAÍS COMO O NOSSO, É REVOLUCIONÁRIO PARA DETERMINADAS CATEGORIAS, MAS REPRODUZ UMA OPRESSÃO ACERCA DE OUTROS CORPOS, PARTINDO DO PRESSUPOSTO DO HOMEM BRANCO, CIS E COM CARACTERÍSTICAS MASCULINIZADORAS. EU ACHO QUE FALAR SE SER GAY E SER AFEMINADO É REVOLUCIONÁRIO OU NÃO, ACHO QUE TALVEZ MOSTRA UM PRIVILÉGIO QUE A GENTE TEM DE NÃO SE SENTIR REVOLUCIONÁRIO ONDE A GENTE ESTÁ. SABE? PORQUE EU ACHO QUE EU NÃO ME SINTO REVOLUCIONÁRIO, NO LUGAR QUE EU OCUPO, MAS EU SEI QUE A PABLLO ESTAR NO "DOMINGÃO DO FAUSTÃO" É EXTREMAMENTE REVOLUCIONÁRIO. ELA CHEGAR NAQUELA "GAYZINHA" QUE NÃO TEM ACESSO À INTERNET, QUE NEM A GENTE, PARA FALAR ABERTAMENTE SOBRE TEORIA QUEER, E "O QUE É SER HOMEM E MULHER", EU ACHO INCRIVELMENTE


REVOLUCIONÁRIO.

A ENTREVISTA FINAL, DO FÁBIO, ESTÁ COMPLETAMENTE TRAVADO. O SISTEMA FALHA.

VÍDEO "ENTREVISTA_FABIO”

O SISTEMA SE CORROMPE COMPLETAMENTE. A TELA FICA ESCURA POR ALGUNS SEGUNDOS. SURGE A FRASE “O ARQUIVO VIADO.EXE FOI EXCLUÍDO PERMANENTEMENTE.” SURGE O TÍTULO “VIADO” NA TELA SURGEM OS CRÉDITOS

ANIMAÇÃO

AO FINAL DOS CRÉDITOS, UMA NOVA FRASE SURGE: NADA É PERMANENTE. DESEJA EXECUTAR VIADO.EXE NOVAMENTE? O MOUSE CLICA EM “SIM”

ANIMAÇÃO

ANIMAÇÃO ANIMAÇÃO

NOSSA, MUITO. SE ASSUMIR GAY CONTINUA SENDO UM ATO POLÍTICO. ANDAR DE MÃOS DADAS NA RUA É UM ATO POLÍTICO. ESTAR VIVO É REVOLUÇÃO. UM GAY VELHO É REVOLUCIONÁRIO.


2. ARTE DE CAPA E DVD DO DOCUMENTÁRIO

Figura 1 - Arte para capa do DVD “VIADO”


Figura 2 - Arte para DVD “VIADO”

3. DIÁRIO DE CAMPO AGOSTO DE 2020 Inicio estas anotações após a difícil decisão de abandonar a antiga temática a qual inscrevi meu projeto de conclusão de curso. Após uma série de negativas vindas de fontes diversas, questionamentos quanto ao meu trabalho como jornalista surgiram. O fato de desejar contar uma história, por vezes, não pode superar os avisos deixados sobre meu papel normatizador. Minha existência como corpo normativo, por vezes, pode sim objetificar fontes e histórias. Não é que seja impossível estabelecer uma narrativa sem impor sua existência, mas, ainda assim, fui levado a refletir: por que desejo contar essa história? A pergunta ainda não possui resposta e as aflições pessoais precisaram ser deixadas de lado para prosseguir com o projeto. O momento talvez seja de maior contemplação e exige que eu, como jornalista, escolha uma nova temática, a qual possa retratar, sob meu olhar, vivências as quais eu consiga transmitir histórias de pessoas que desejam contá-las. Agora parto para um novo tema. Falar sobre homomossexualidade é um tabu internalizado que terei que enfrentar. Meu desejo é abordar a temática de um jeito que não seja sensacionalista e que, necessariamente, não precise abordar a violência como cerne do documentário. No entanto, me pergunto: como contar essa história e renegar a violência? SETEMBRO DE 2020 O desafio de realizar entrevistas online é instigante e desanimador ao mesmo tempo. Instigante porque, uma vez que a internet oferece um distanciamento, é necessário se conectar ao entrevistado de formas distintas. Você precisa estar presente em voz mais potente, em apontamentos mais vivos, porque a presença é irreal. Desanimador, por sua vez, porque esse tipo de captação é uma grande quebra da expectativa que construí durante os últimos semestres do curso. Sempre


entendi a imagem como uma forma de contar uma história e encarar o fato de que as imagens do meu documentário serão de baixa qualidade me desanima quanto à estética do trabalho. Penso em algumas soluções diversas para adaptar a captação de imagens e criar um formato mais interessante. Começo as experimentações ainda esse mês e avaliarei se elas farão sentido com o trabalho. Existe uma fúria e um descontentamento interno quantos aos rumos do país, das vidas perdidas de tantos brasileiros. Sinto que, se eu me manter fiel ao que sempre acreditei, estarei abraçando o “novo normal”. Estarei selando um pacto com tudo aquilo que mais repudio. Ainda não sei o que me aguarda, mas sei que nada será como antes. OUTUBRO DE 2020 Entrevistas captadas, identifiquei como minhas fontes reagiram de formas diferentes ao tema proposto. Mesmo que eu fizesse perguntas semelhantes, as respostas sempre ganhavam novas interpretações. Isso me fascina. Estar em contato — mesmo que à distância — me fascina. O desafio nesse período, certamente, é o mergulho nos processos de edição. Agora que a estética do documentário passou por algumas definições, sei que terei que me dedicar muito mais em editar o material captado. Para além disso, sigo adaptando meus estudos teóricos para esse novo tempo, fiquei surpreso e feliz ao encarar que grande parte do material levantado para a pesquisa do semestre passado pode ser aproveitado. NOVEMBRO DE 2020 A edição do documentário tomou grande parte das minhas madrugadas. Apesar do material não ser denso ou mesmo longo demais, as escolhas estéticas e linguísticas do documentário tornaram os processos mais sofisticados. Encerrar minha graduação abordando essa temática é, em diferentes camadas, um manifesto da revolução que vivi nesses últimos 4 anos. Iniciei o curso ainda sem expressar minha sexualidade para minha família e amigos. Foi durante a


passagem dos semestres que me arrisquei a me permitir ser quem sou e contar isso ao mundo. Um passado de tanta violência, de medo em permitir que os outros soubessem da minha sexualidade, hoje é substituído pelo orgulho de contar minha história através da fala dos meus entrevistados. “VIADO” é uma expressão pessoal que, respeitando os preceitos que aprendi no curso de jornalismo, desenvolvi. Me colocar, mesmo que em voz, nesse trabalho revela o meu papel de personagem nessa narrativa. É potente, é uma entrega. Encerro esses registros ciente que, muito além de um documentário, “VIADO” foi um registro do meu amadurecimento como ser humano e jornalista.


ANEXOS


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VIADO - Guilherme de Sousa Oliveira by Rede Código - Issuu