UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL CURSO DE JORNALISMO
VICTORYA NASCIMENTO BATISTA
HISTÓRIAS DE LUTA E FÉ: A representação da força feminina nas religiões de matriz africana
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
SÃO PAULO - SP 2020
VICTORYA NASCIMENTO BATISTA
HISTÓRIAS DE LUTA E FÉ: A representação da força feminina nas religiões de matriz africana
Relatório de Fundamentação Teórica e Metodológica apresentado ao Curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, como requisito para obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientadora: Prof.ª Dra. Mirian Meliani Nunes
SÃO PAULO - SP 2020
Batista, Victorya Nascimento (1996-) Histórias de Luta e Fé: a representação da força feminina nas religiões de matriz africana / Victorya Nascimento Batista — 2020 Orientadora: Prof.ª Dra. Mirian Meliani Nunes Trabalho de conclusão de curso (graduação) — Universidade Cruzeiro do Sul, 2020.
RESUMO O presente relatório documenta, através de uma grande reportagem fotográfica, o trabalho das mulheres de axé, a fim de trazer visibilidade à luta que enfrentam contra o racismo e a intolerância religiosa. Podemos observar, a partir dessa construção, a força que é conferida a essas mulheres através da fé, contribuindo para a constituição da identidade das mães de santo dentro da sociedade. O relatório também analisa o protagonismo das mulheres de axé nos terreiros e na comunidade a sua volta, dentro da zona leste de São Paulo. Palavras-chave: religiões de matriz africana, candomblé, umbanda, mulheres de axé, percepções do sagrado.
SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 5 2 OBJETIVOS ......................................................................................................................... 7 3 PROBLEMA DE PESQUISA E HIPÓTESE .................................................................... 8 4 JUSTIFICATIVA ................................................................................................................. 9 5 PLANO ESTRATÉGICO .................................................................................................. 11 6 REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................................. 12 7 ASPECTOS METODOLÓGICOS ................................................................................... 13 8 REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 14 9 CRONOGRAMA ............................................................................................................... 16 10 ORÇAMENTO ................................................................................................................. 19 11 APÊNDICE ....................................................................................................................... 20 11.1. APÊNDICE A - DECUPAGEM - ENTREVISTA PROF.ª DRA. PATRÍCIA TEIXEIRA SANTOS ..…................................................................................…………..… 20 11.2 APÊNDICE B - DECUPAGEM - OMOLEWA (VERA) ……………....................... 29 11.3 APÊNDICE C – DECUPAGEM - FÁTIMA ....................................………………… 42
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1. INTRODUÇÃO Consideradas religiões lidimamente brasileiras por seus adeptos, tanto a Umbanda quanto o Candomblé abrem espaço para a desconstrução de preconceitos e estigmas patriarcais contra as mulheres, através da centralização de poder e hierarquia dos terreiros. Ao mesmo tempo, essas religiões são alvo de intolerância religiosa, por parte de fiéis de outras doutrinas, sofrendo com o ódio gratuito e a prática de atos criminosos, principalmente, a profanação de espaços sagrados. Segundo Mariano (2011), na África Ocidental, mulheres iorubás tinham participação ativa em conselhos de ministros, mantinham organizações e lideravam um comércio extenso de com rotas internacionais. Este papel contribuiu para a criação de uma organização religiosa na Bahia do século XIX, conciliando diversas tradições de outros povos, o que as ajudou a resistir à escravidão e a perseguição de seu povo. A partir disso, este relatório analisa como as mulheres de axé lutam contra o preconceito, preservando o sagrado e defendendo seus direitos, através da desconstrução supracitada, partindo do desenvolvimento das práticas realizadas dentro dos terreiros, que são espaços de emancipação e empoderamento para essas mulheres, evitando assim o silenciamento do seu sagrado. A liderança feminina nessa tradição religiosa, explica Maria Stella de Azevedo, a Mãe Stella de Oxóssi do Ilê Axé Opô Afonjá, vem de um fato simples. As pioneiras do candomblé, princesas africanas que vieram para a Bahia em fins do século XVIII, criaram o princípio de que as suas casas religiosas só poderiam ser lideradas por mulheres. Uma tradição mantida até hoje nos terreiros mais antigos, como a Casa Branca, o Alaketu, o Gantois, o Afonjá e o Cobre. (MARIANO, 2011. p. 2)
Posto isto, este relatório mostra como as religiões de matriz africana ajudam a restituir o empoderamento na vida dessas mulheres, onde elas encontram forças para agir contra a discriminação racial, o machismo e a intolerância religiosa, utilizando para isso o saber ancestral, através da fé e da prática religiosa. Assim, a partir da pesquisa etnográfica, na qual foram coletadas entrevistas, podemos compreender como as tradições, crenças e costumes das religiões afro-brasileiras influenciam na construção da emancipação das mulheres de axé e das pessoas ao seu entorno.
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O relatório pesquisa também teve como base os Estudos Culturais de Stuart Hall, que auxiliou na análise, mostrando a maneira como o pensamento está relacionado com a realidade histórica, pois a cultura ocupa um papel fundamental na criação dos sistemas religiosos como um todo. Por fim, este relatório acompanhou a trajetória de Omolewa (Vera) e Fátima, sob a óptica fotográfica, contando seus relatos através de entrevistas, onde evidenciam a influência religiosa na construção do ser, e como a conexão com esses grupos faz a diferença na vida das mulheres de axé.
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2. OBJETIVOS Este relatório tem por objetivo dar visibilidade e espaço para voz das mulheres de axé, oprimidas dentro de uma sociedade estruturalmente racista, evidenciando sua luta contra a intolerância através do poder legitimado pelos laços com o sagrado. Seu propósito é o de representar a força das mulheres de axé, através das suas histórias de vida com base nas práticas religiosas realizadas dentro dos terreiros de Candomblé e Umbanda, da zona leste de São Paulo, nos quais encontram sua forma de empoderamento e emancipação, que tem origem no sagrado e no saber ancestral. Por fim, contar as histórias das mulheres de axé e demonstrar seu peso cultural dentro da construção da sociedade brasileira, este projeto também se propõe a servir como apoio à legitimação das religiões de matriz africana e ao empoderamento da mulher de axé.
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3. PROBLEMA DE PESQUISA E HIPÓTESE Centralizadas no poder espiritual da mulher, essas religiões são um grande alvo da intolerância religiosa no Brasil. Diante do tema, um fator visto como figura central na problematização desta pesquisa é a ignorância fundamentada no preconceito, imputado ao racismo estrutural, que vem regendo desigualdade e a exclusão dos negros e suas religiões. Um dos grandes problemas que nós enfrentamos na questão da intolerância religiosa é a ignorância de grupos fundamentalistas e a exploração e a demonização dos terreiros de Candomblé, dos líderes do Povo de Santo, por parte de especificamente grupos chamados evangélicos que tem demonizado os terreiros de Candomblé. (MULHERES DE AXÉ, 2016).
Contudo, isso reflete um peso ainda maior sobre as mulheres negras, que ao assumirem posição de destaque dentro da ambientação dos terreiros, sofrem represálias pela manifestação da intolerância de outros grupos religiosa ligados ao cristianismo, criando uma marginalização e demonização dessas mulheres, que veem em si e no sagrado o único caminho para buscar forças e seguir na luta por seu espaço de direito.
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4. JUSTIFICATIVA No Candomblé, Exu é o orixá da comunicação e da linguagem, uma de suas atribuições é atuar como mensageiro entre os seres humanos e o divino. Neste relatório, utilizamos a comunicação como componente principal e indispensável para auxiliar na legitimação social que as religiões africanas e as mulheres de axé buscam, de maneira positiva em diferentes espaços sociais. Tal busca é proveniente da necessidade de paz e segurança, visto que suas práticas religiosas sofrem represálias diariamente, por meio de religiões ligadas, principalmente, ao cristianismo. De acordo com uma matéria publicada no Portal Geledés, desde 2008, houve uma modificação na lei brasileira acerca da penalização a agressores e invasores dos templos religiosos de qualquer credo. Entretanto, a lei não se aplica dadas as condições de desvalorização, principalmente no que rege religiões de matriz africanas. A religiosidade de Matriz Africana na diáspora brasileira ressignificou símbolos, territórios. E a África dentro de cada terreiro de Candomblé ordenou a liturgia e resiste até hoje seguindo o caminho deixado por nossos ancestrais. Contudo, enfrentamos hoje, talvez mais do que nunca, o desrespeito à memória de nossa ancestralidade, ao nosso Sagrado. Sagrado fundado pelas Mulheres. Mulheres de Axé. Nossas Matriarcas. Resistência política, religiosa, cultural. As Mulheres de Axé são as pioneiras, fundantes do nosso Sagrado que está sendo depredado! (PORTAL GELEDÉS, 2017)
Abordado de maneira reflexiva, o tema desenvolvido tem como parâmetro, diante desse cenário, a liberdade versus a intolerância religiosa que permeia as religiões de matriz africana. Visto que, por conta da banalização da cultura afro-brasileira, são gerados casos de intolerância, desrespeito e apropriação, provindos do racismo estrutural que rege tais ações. Assim, os símbolos da cultura afro-brasileira são esvaziados de seus significados e passam a ter apenas o intuito comercial. Partindo disso, este projeto visa evidenciar a emancipação e o empoderamento da mulher de axé a partir da representação da busca pelo sagrado, que se dá mesmo diante a intolerância religiosa. Assim, nossa justificativa tem por fundamento, a contemplação da atuação feminina dentro dos terreiros, evidenciamos seu forte peso social e histórico, que reflete a influência que o sagrado tem em sua formulação, para assim entendemos a relação do sagrado com a emancipação da mulher de axé, a fim de inspirar a projeção de vozes femininas
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através do seu sagrado. “É sagrado o que é digno de nossa reverência, o que evoca respeito e maravilha no coração humano e aquilo que contemplado nos transforma completamente.” (Cousineau, 1999)
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5. PLANO ESTRATÉGICO Este relatório tem por referência uma grande reportagem fotográfica, apresentada em formato de livro. Faz parte do plano estrutural desse livro a narração em primeira pessoa, onde o leitor é levado a acompanhar, durante todo o decorrer das histórias, a visão do narrador que exprime a sensação vivida diante a busca pelas entrevistas, apelando para a conexão do leitor com a história descrita, com fotografias que expressam a essência de cada entrevistado. O livro possui três capítulos precedidos por um prefácio, e teve sua criação inspirada em livros fotojornalísticos, como “Os Orixás” de Pierre Verger e “Outras Américas” de Sebastião Salgado.
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6. REFERENCIAL TEÓRICO Este projeto tem por finalidade acompanhar as histórias de mulheres dentro das religiões de matriz africana, com o intuito de propagar seus conhecimentos e refletir acerca de como o sagrado lhes é oferecido e por elas empunhado. Partindo do conceito imagético, a pesquisa tem por influência a obra de Pierre Verger, posto seu amplo conhecimento sobre o candomblé e seu extenso trabalho. “O candomblé é para mim muito interessante por ser uma religião de exaltação à personalidade das pessoas. Onde se pode ser verdadeiramente como se é, e não o que a sociedade pretende que o cidadão seja (VERGER, 1994). Segundo Mariano (2011), dentro das comunidades religiosas nagôs, as mulheres têm papéis de destaque, o que diverge da forma como são vistas outras sociedades e religiões distintas. Posto isto, a pesquisa terá como base os estudos culturais desenvolvidos por Stuart Hall, onde iremos investigar como a conexão com o divino influência no empoderamento das mulheres de axé, tendo em vista outras religiões e culturas que tentam subjugar a existência daquilo que não lhes é análogo. “Uma cultura nacional nunca foi um simples ponto de lealdade, união e identificação simbólica. Ela é também uma estrutura de poder cultural” (HALL, 2006. p. 59).
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7. ASPECTOS METODOLÓGICOS A metodologia aplicada neste projeto inicia-se com uma pesquisa bibliográfica com a finalidade de apurar as tecnicidades que envolvem o produto (foto-livro reportagem). Foram selecionadas obras literárias que fossem suporte para a prática da fotografia, além do referencial estético das obras de fotógrafos que trabalham – ou já trabalharam – com as temáticas aqui empregadas: mulher e religião. Uma vez encerradas as análises de conteúdos que serviram como referência para o projeto, fez-se necessário explorar o objeto de estudo. Desse modo, as pesquisas utilizadas foram de natureza etnográfica, isto é, o estudo completamente voltado para as questões antropológicas e culturais acerca do tema, e exploratória, entrando em contato com pessoas que possuem ligação direta com o tema. As técnicas empregadas foram entrevistas com fontes primárias e pesquisa de campo.
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8. REFERÊNCIAS BARROS, Marcelo; KILEUY, Odé; OXAGUIÃ, Vera de. O Candomblé bem explicado: Nações Bantu, Iorubá e Fon. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2009. CIPÓ, Roger. Artigo | É sobre racismo religioso que precisamos falar. Brasil de Fato, 2017. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2017/01/21/artigo-or-e-sobre-racismo religioso-que-precisamos-falar>. Acesso em: 15 de jun. de 2020. DAVIS, Angela. Mulheres, cultura e política. São Paulo: Editora Boitempo, 2017. DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Editora Boitempo, 2016. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2006. HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018. JÚNIOR, Ademir Barbosa. O Livro Essencial de Umbanda. São Paulo: Universo dos Livros Editora, 2014. LUANA Xavier acusa Xanddy de intolerância religiosa após festa. Hypeness, 2019. Disponível em: <https://www.hypeness.com.br/2019/08/luana-xavier-acusa-xanddy-de-intolerancia religiosa-apos-festa/>. Acesso em: 15 de jun. de 2020. MARIANO, Agnes. Entrevista com Mãe Stella de Oxóssi. Histórias do Povo Negro, 2008. Disponível em: <https://historiasdopovonegro.wordpress.com/fe-2/no-candomble-e-a-gente que-se-supera-nao-tem-que-superar-o-outro-entrevista-com-mae-stella-de-oxossi/> Acesso em: 15 de jun. de 2020. MARIANO, Agnes. Mães-de-santo. Histórias do Povo Negro, 2008. Disponível em: <https://historiasdopovonegro.wordpress.com/fe-2/maes-de-santo/>. Acesso em: 13 jun. 2020. MIDCAST: Segue o Fio #32 - Religiões de Matriz Africana. Locução: Luiza Braga. Texto: Denise Tremura. Produtora, 23 jun. 2019. Podcast. Disponível em: <https://www.midcast.com.br/episodes/segue-o-fio-32-religioes-de-matriz-africana>. Acesso em: 13 jun. 2020. MOITA, Paula. Mulheres De Axé¹: relação de gênero e empoderamento no terreiro de umbanda. Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017. MULHERES de Axé: vozes contra a intolerância. Produção de Marcos Rezende. Bahia: Água de Meninos, 2016. 1 vídeo (31 min. e 17 segs.) Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=qbgoqgoBiKU>. Acesso:12 de jun. de 2020. NERI, Nátaly. Apropriação cultural existe? Pode branca de turbante? Canal Afros e Afins, 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8Q_H99xE9_U>. Acesso em: 15 de jun. de 2020.
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PIEDAD, Vilma. Mulheres de Axé: caminhando pra resistir! Portal Geledés, 2017. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/mulheres-de-axe-caminhando-pra-resistir>. Acesso em: em 12 de jun. de 2020. SCHWARCZ, Lilia Moritz. Nem Preto Nem Branco, muito pelo Contrário. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2013. SIMONE e Simaria se recusam a citar Iemanjá ao cantar música do Natiruts. Hypeness, 2019. Disponível em: <https://www.hypeness.com.br/2019/08/simone-e-simaria-se-recusam-a-citar iemanja-ao-cantar-musica-do-natiruts/>. Acesso em: 15 de jun. de 2020. SOBRE capoeira gospel, bolinho de Jesus e afins. Carta Capital, 2017. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/sobre-capoeira-gospel-bolinho-de jesus-e-afins/>. Acesso em: 15 de jun. de 2020. SANTOS, Gil. ‘Você não pode odiar o que não conhece’, alerta filha de Ialorixá Mãe Gilda. Jornal Correio, 2019. Disponível em: <https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/voce nao-pode-odiar-o-que-nao-conhece-alerta-filha-de-ialorixa-mae-gilda/>. Acesso em: 15 de jun. de 2020. VIEIRA, Kauê. Cristiele França, a radialista que leva o candomblé e os orixás para o cotidiano de Salvador. Hypeness, 2018. Disponível em: <https://www.hypeness.com.br/2018/05/cristiele-franca-a-radialista-que-leva-o-candomble-e os-orixas-para-o-cotidiano-de-salvador/>. Acesso em: 15 de jun. de 2020.
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9. CRONOGRAMA
20/08
AGOSTO
QUI. Captação e lista de fontes para entrevistas
01/09 TER.
15/09 TER.
até 25/08
Observações
Contato com as fontes e datas para entrevistas
até 28/08
Criação do primeiro esboço de capa e projeto de editoração do livro
até 31/08
Ver - reabertura dos terreiros em São Paulo
AGOSTO/SETEMBRO Início da produção do RFTM
até 15/09
Entrevistas
até 20/09
Observações
Produção fotográfica
até 20/09
Definir o número de capítulos - 3
Transcrição das entrevistas (Decupagem) que vão entrar no projeto
até 20/09
Observações
SETEMBRO Capítulo 1
até 22/09
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02/10 SEX.
Seleção e edição das imagens que vão entrar no projeto
até 25/09
Capítulo 2
até 30/09
Seminário - apresentação do produto
17/09
Produção fotográfica de acordo com desenvolvimento das entrevistas
Observações
Observações
OUTUBRO Desenvolver o planejamento visual do livro
até 01/10
Capítulo 3
até 15/10
Seminário - resultados parciais
até 22/10
31/10
NOVEMBRO
SÁB.
Revisão do RFTM
até 05/11
Editoração e construção do projeto visual com a inserção das imagens editadas
até 15/11
Revisão textual dos capítulos
até 18/11
Revisão final do projeto
até 21/11
Entrega do projeto
até 23/11
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30/11
DEZEMBRO
SEG. Banca de Avaliação
até 04/12
Observações
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10. ORÇAMENTO
Item
Quantidade
Valor Unitário (em Valor total média)
Passagem de ônibus 03 intermunicipal - EMTU
R$ 6,25 a 6,50
R$ 19,25
Passagem de ônibus 01 municipal - Guarulhos
R$ 4,70
R$ 4,70
Passagem de metrô + 02 trem (baldeação)
R$ 4,40
R$ 8,80
Táxi por aplicativo
02
R$ 13,65 a 51,95
R$ 65,60
Total:
R$ 98,35
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11. APÊNDICES 11.1. Apêndice A - Decupagem - Entrevista Prof.ª Dra. Patrícia Teixeira Santos
Folha de Decupagem
Data 09/2020
Editoria
Assunto
Tema
Tempo in / out
Conteúdo - Entrevista Prof.ª Dra. Patrícia Teixeira Santos
De 06’41” até 09’08”
Victorya: Com base nas suas pesquisas, você, como historiadora das religiões africanas, considera que o contato com as expedições, missionárias as primeiras que chegaram do Sudão na África - isso provocou uma destruição sistemática dos modos de vida e pensando das sociedades africanas? Patrícia: Você tem vários momentos da chegada dos missionários em África. A gente tem desde as missões dos séculos XVI e XVII, que são missões que não entram, não adentram tanto no interno da África, e missões do século XIX, mas essa presença ocidental ela vai ser mais notável a partir do final do século XIX até o final da Segunda Guerra Mundial, quando aí você já tem as igrejas cristãs conduzidas por muitos africanos, ainda tem missionários estrangeiros, mas muitas dessas igrejas conduzidas por africanos e que tem já seu discurso, suas histórias e suas práticas africanas. Por que isso acontece? Porque justamente as missões, elas não conseguem destruir o modo de vida, nem o culto ancestral e nem os vínculos profundos com as religiões, com o local das religiões africanas que têm também uma dimensão comunitária. Claro que as missões demonizam as práticas religiosas, demonizam os deuses africanos, criam uma certa... os missionários junto com administração colonial, com os administradores que viam da Europa para controlar essas colônias na África, eles fazem de tudo para reprimir, mas eles não
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conseguem. E as igrejas cristãs, elas acabam trazendo no espaço da celebração muitos elementos desses cultos que tentavam se reprimir e as religiões africanas permanecem, elas continuam. Não é um contexto fácil, mas elas permanecem.
De 09’10” até 22”07
Victorya: Eu falei sobre etnocídio na segunda pergunta porque, ao meu ver, essa invasão de missionários, para mim, ela provoca um pouco dessa perda de “vamos catequizar essas pessoas para que elas aprendam da nossa religião e abandonem a religião delas”. Eu considero isso um etnocídio. Você acha que, por conta disso, o preconceito no Brasil é tão forte, quando vieram para cá os escravos com as suas religiões? Patrícia: Há um esforço realmente de se apagar na história social brasileira, as heranças, as culturas e a espiritualidade. Não só as religiões, mas a espiritualidade. Da forma de lidar com o divino, dos africanos e seus descendentes. A República Brasileira é constituída dentro da ideia da invisibilidade da cor, porque havia realmente o desejo de se associar as populações africanas descendentes o peso do passado colonial imperial. Então essas populações, elas seriam excluídas da cidadania plena na República. Só que a gente tem aí todo século XX mostrando que as populações negras resistiram, organizaram associações. Resistiram do ponto de vista religioso e conseguiram passar o seu legado que faz parte não só de quem é diretamente afrodescendente, que tem as características físicas dos afrodescendentes, mas para toda a sociedade brasileira. Toda sociedade brasileira ela é afrodescendente, ela é desentende também dos povos indígenas porque são os nossos valores, as nossas culturas brasileiras, elas não existiriam, a sociedade brasileira não existiria, a política brasileira, a cultura brasileira, os nossos saberes não existiriam se não fossem os povos africanos e seus descendentes, e os povos indígenas e seus descendentes. Sim, as políticas de exclusão, as políticas de pregação da cor, o racismo estrutural, causam uma tremenda sobrecarga e muita dificuldade na vida de quem é fisicamente, diretamente, vamos dizer assim, biologicamente
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afrodescendente. Mas com isso, não sofre só quem é afrodescendente, sofre toda a sociedade. É uma sociedade que não tem paz. É uma sociedade que custa se equilibrar politicamente, tem governos mais ou menos estáveis, depois mergulha em governos profundamente autoritários, então é uma sociedade que não se olha, é uma sociedade que não se integra, é uma sociedade que não se perdoa. Então por isso que você tem esses processos tão difíceis na sociedade brasileira. Mas, ao mesmo tempo, tem avanços porque os movimentos sociais, os movimentos antirracistas têm evidenciado essas exclusões, tem havido, com toda dificuldade, políticas de ação afirmativa, então um grande número de jovens negros e indígenas estão nos espaços públicos, mesmo hoje com esse problema econômico que a gente atravessa, com um governo que não favorece a expansão de políticas sociais, a gente tem essa resistência, a gente tem essa presença. O próprio fato da gente estar aqui hoje fazendo esse trabalho, ele é uma prova da resistência. O seu tema de pesquisa, o que você está fazendo é de enorme valor porque um dos grandes campos de conquista, de construção de autoestima e empoderamento é a estética, e essa estética passa pela representação visual. Eu sou de uma geração que as mães nos controlavam quando fizessem foto para não sorrir porque sorrir na foto era feio, você tinha que sair elegante, séria. Essa conquista do riso e espontaneidade na foto é uma construção que eu tive que fazer pessoal, de muito esclarecimento, de muito investir no intelectual, de um trabalho interior mesmo de fortalecimento e de autoestima. E hoje, a geração de vocês é tranquila, vocês fazem foto como eu bebo água. Eu pus a água e vocês já fizeram dez fotos. Mas isso não é - para gerações anteriores a internet, anteriores a equipamentos digitais - isso não existia, então a foto era uma coisa cara, você tinha que comprar uma câmera, você tinha que comprar um filme. Aí você tinha um filme de doze poses, de vinte e quatro poses, dezesseis poses né? E era caro revelar. Você comprava álbum e tinha toda uma história de suporte da foto e o que se representava na foto? O que se representava socialmente? Aquilo que era considerado belo. E o corpo, a estética negra e indígena, uma vez que havia um projeto de estado que queria apagar essa memória, apagar a memória e a presença, não considerava, portanto, essa estética valorosa. E aí não se fotografava... só se fotografava
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enquanto notícia e situações que evidentemente eram desfavoráveis a população negra. Então essa conquista visual que a gente observa hoje, jovens como você, que faz esse trabalho tão bonito de valorização do matriarcado nas religiões afro-brasileiras, tem esse papel de fazer uma contribuição estética que eu acho que é um dos campos mais importantes, principalmente da juventude, no sentido da autoimagem da autoestima e do empoderamento. Parabéns! Victorya: Obrigada! Você falando sobre isso, eu queria colocar um adendo:
a pessoa que eu entrevistei, que é a mãe Omolewa, que é com o ela prefere ser chamada, quando eu fui tirar uma foto dela, ela disse para mim “Eu não fico bonita sorrindo. ”, mas ela é uma mulher muito bonita. E eu falei para ela “Não, você é linda! Se você quiser sorrir tudo bem. Você é linda. Se você quiser, pode sorrir à vontade”. E eu me lembrei de uma exposição que vi do Chichico Alkmin, não sei se você chegou a ver, no Instituto Moreira Salles, ela é de Diamantina, se eu não me engano, da época que ele esteve por ali e eu vi as fotos daquela época e são fotos sérias. As pessoas vestiam suas melhores roupas, aquela coisa como se fosse o documento mais importante do mundo e você não pudesse sorrir, e aquilo me marcou de uma certa forma. É a história de um povo através daquelas fotos e eu vi pessoas negras que, muitas vezes, não estavam numa posição de destaque. Na maioria das vezes, elas estavam acompanhadas dos seus senhores, das pessoas para quem elas trabalham. As amas de leite, sentadas com as crianças, mas numa posição de trabalho.
De 22”08 até 24’54”
Victorya: A próxima pergunta fala sobre a subsistência do campo religioso africano no Brasil. A que você atribuía essa subsistência, com tantas coisas que as pessoas enfrentam, tanto preconceito, intolerância religiosa, como essa religião ainda subsiste no Brasil de uma forma tão difícil, principalmente com as mulheres a frente? Porque, já que a gente vive nessa sociedade patriarcal, é muito mais difícil para a mulher negra estar à frente de alguma coisa, principalmente subjugada e que é tão mal vista pelas pessoas. Aquela coisa,
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tudo que é feito pelo negro parece que é mal visto pela sociedade esbranquiçada. Patrícia: Por que que as religiões afro-brasileiras persistem? Não tem uma resposta pronta e nem final para isso. Acho que isso é um “temão” de pesquisa enorme que merece ser trabalho. Para mim, a religião afro-brasileira persiste porque ela consegue dialogar com a universalidade da experiência humana. A religião afro-brasileira, ela traz a herança africana, a herança da experiência religiosa e social dos povos indígenas e de todos os povos que tem aqui. Dos brancos de origem portuguesa e seus descendentes, dos brancos que vieram imigrantes a partir do final do século XIX como do século XX, das populações das cidades, das populações do mundo rural, então na minha visão o que faz as religiões afro-brasileiras persistirem é porque elas respondem anseios da espécie humana. Elas têm significado, elas têm importância para todas as pessoas. As religiões afro-brasileiras conseguem se comunicar com pessoas sem passar por essa questão da raça. Ela consegue se comunicar e fazer profundo sentido para alma humana. Então resumindo, eu diria: Por que as religiões afro-brasileiras persistem? Porque elas dialogam diretamente com a alma humana. Elas estão na base, na história, na seiva, naquilo que nutre a própria sociedade brasileira. Não dá para ser Brasil sem a existência delas, por isso elas persistem.
De 24’55” até 29’40”
Victorya: Isso me lembra uma pergunta que eu tenho aqui que é: se você considera que o Candomblé e a Umbanda podem ser considerados religiões lidimamente religiões brasileiras? Patrícia: São religiões construídas no Brasil, sem dúvida. A partir do panteão, ou seja, do conjunto espiritual das divindades, das orientações divinas, das orientações rituais das diferentes religiões africanas que aqui chegaram através dos escravizados. Que ao longo da sua trajetória também elas vão agregando aspectos do panteão indígena, aspectos também do mundo cristão, fazendo com que essas religiões sejam extremamente
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especiais e que dialoguem com a universalidade da alma humana. Não porque elas têm essas diferentes confluências, mas essas confluências ajudam a construir identidades próprias, o candomblé está muito ligado ao culto dos orixás, enquanto que a umbanda genericamente se pode dizer que está ligada ao culto dos espíritos mediadores do contato com os orixás, mas tanto por uma via quanto por outra, esse mundo espiritual dialoga profundamente com a nossa história. Nossa história universal. Tanto que você tem pessoas brancas, negras, de origem japonesa, estrangeiros que se tornam... porque tem isso, você ao aderir, ao se colocar no caminho, a partir do momento... o que é o aderir? Ao ir no terreiro, ao estar ali, você pode participar daquela vida comunitária e você pode ter, mesmo não nascido no Brasil, uma história espiritual na qual os orixás estão presentes, por quê? Porque os Orixás, para um pai de santo, que chegar e sentir as energias de um Orixá e ele identificar e ser identificado dentro do conjunto da fé, da crença e da experiência daquela comunidade religiosa, aquela moça que acabou de chegar da Suécia que nunca viu o Brasil na fé e na espiritualidade, ela é aceita. Então o Candomblé a Umbanda são religiões de povos eleitos, elas são religiões de inclusão de pessoas, elas acolhem a diversidade humana. Eu conheci há uns vinte anos atrás uma mãe de santo de um terreiro que é de Duque de Caxias no Rio de Janeiro que ela era de origem francesa. Ela veio com o marido fazer uma viagem, acho que marido dela era uma autoridade diplomática; ela veio acompanhar e quando foi visitar o terreiro de candomblé de Joãozinho da Goméia no Rio de Janeiro, passou mal e sentiu - passou mal no sentido mediúnico. Ela sentiu a aproximação energética e ela ficou no Brasil, assumiu a vida dela no Brasil, educou os filhos no Brasil e foi uma mãe de santo importantíssima no Rio de Janeiro. Então assim, por isso que eu digo, esse panteão ele é trazido pelos africanos escravizados que chegam aqui, como toda religião eles tem o caminho, eles têm a proposta e sentido de abraçar toda a humanidade. É uma frase que eu já ouvi muito dos filhos de santo tanto de Umbanda quanto de Candomblé que é “Orixá não tem cor”.
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De 29’44” até 32’34”
Victorya: A próxima pergunta era sobre a busca da mulher negra pela ancestralidade pode contribuir para a construção da identidade e reverberar na emancipação do espírito? Patrícia: Sem dúvida. Eu diria que a busca de todos os seres humanos; busca do auto empoderamento, a busca da autoestima, a busca do centramento, do amor próprio é um caminho fundamental para emancipação do espírito de qualquer pessoa, em especial das mulheres negras que tem uma importância vital nesse país, elas não tem essa evidência dada claramente. Essa evidencia existe por conquista social. Victorya: Ao meu ver, tem uma falsa ideia de a mulher negra ser a “mulher forte”, ela é obrigada a ser forte como todas as mulheres... Patrícia: Ela torna-se forte pelas coisas difíceis da vida social. Victorya: Exatamente. E não é porque ela é negra que ela nasceu mais forte. Patrícia: Isso tem um custo de saúde, isso reduz expectativa de vida, isso torna algumas existências mais sofridas por causa de custo social, sem dúvida. Você tem toda razão. Victorya: Eu pensando comigo porque eu passei por algumas coisas na minha vida e sempre falam para mim “Você é muito forte”, mas eu não queria ser forte, sabe? Eu queria poder desmoronar. Mas você é obrigado, visto o que acontece na sociedade para continuar vivendo a se fazer de forte, a seguir e continuar aquele caminho. Então eu vejo a vida da mulher negra, tendo que lugar contra tantas coisas pelas quais eu não passo, pelo o privilégio que eu tenho de não passar, eu acho que isso acaba sendo pior para ela, e ela acaba tendo que vestir essa capa de mulher forte sendo que isso custa muito mais dela.
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Patrícia: Tem até uma expressão popular: “Criar cabelo no peito”. É uma expressão bem popular. “Eu tive que criar cabelo no peito para resolver essa situação”. Que é essa ideia de que a mulher tem que fazer o papel dela e do homem muitas vezes na família. Victorya: É muito isso de “eu não posso viver como uma mulher que consegue resolver meus problemas”, não, eu tenho que assumir papel do homem e da mulher para resolver tudo porque eu como ser humano não poderia resolver sozinha, é algo meio maluco, mas ao mesmo tempo... Patrícia: Mas é por causa de uma sociedade que segrega, que exclui, daí a pessoa acaba tendo que desempenhar esse papel. Ela precisa se endurecer, só que isso tem um custo de saúde e custo emocional muito grande.
De 32’35” até 33’42”
Victorya: A próxima pergunta falava sobre a resistência da mulher negra contra a escravidão e a luta para a preservação da fé. Ela pode ser considerada uma forma da compreensão do sagrado? Patrícia: Sim, porque todas essas histórias de luta se você ouvir os contos de Umbanda, se você ouvir os cantos do Candomblé; eles contam também histórias das entidades, no caso da Umbanda, e de virtudes heroicas dessas entidades. Então já na própria tradição oral, tanto dos terreiros de Candomblé quanto das casas de Umbanda, você escuta nos contos, nas canções dos Orixás ou nos pontos para os guias dos Orixás essas virtudes, essas histórias sendo contadas porque isso trazido e celebrado no espaço da religião, como um reconhecimento da força humana que dá integridade a própria continuidade da religião e dá integridade para a subsistência e ação social das mulheres, todas as pessoas.
De 33’43” até 35’31”
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Victorya: O Culto das Yabás e entidades femininas dentro das religiões afro-brasileiras pode quebrar os paradigmas racistas e misóginos arraigados dentro da sociedade? Patrícia: O culto das Yabás existe independente do racismo reinante. Eles têm uma forma que, mesmo com todo o racismo e misoginia, eles persistem. Agora assim, educadores podem fazer a leitura dessas histórias dos mitos das Yabás, ajudando a fazer educação, promovendo a integridade feminina, valorizando a história social das mulheres. Mas o culto das Yabás, ele vai existir independente dessa situação porque ele é culto fundacional, espiritual dessas religiões de matriz africana, são cultos ligados a própria origem da vida e a manutenção da vida. Agora é claro que a educação pode se apropriar de uma forma, obviamente, coerente, embasada, na produção historiográfica, que trate e aborde de tema para também não fazer aí uma apropriação dos mitos sem entender o contexto das religiões. Cometendo aquele problema que a gente chama da apropriação cultural, mas entender esses mitos e entender essas formas de espiritualidade dentro de um contexto religioso e trazer elementos que podem ser ligados a valorização das mulheres, ao empoderamento das mulheres e ao fortalecimento da autoestima feminina, e a valorização política do papel feminino. De 35’33” até 36’09”
Victorya: E de que forma o contato com a cultura Iorubá, Jéjé e Banto auxilia o empoderamento da mulher no nosso contexto social? Patrícia: O contato com essas culturas é para a gente perceber a importância social das mulheres desses cultos. E partir disso e de uma leitura educacional disso, é desenvolver soluções pedagógicas que motivem, que incentivem, que construam um efeito de fortalecimento da autoestima feminina.
Repórter: Victorya Nascimento Batista 11.2 Apêndice B - Decupagem - Omolewa (Vera)
Folha de Decupagem
Data 09/2020
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Editoria
Tempo in / out De 05” até 6’52”
Tema
Assunto
Conteúdo - Entrevista Omolewa (Vera) Omolewa (Vera): A minha família era Kardecista, minha família toda, minha avó. Eu sou bisneta de escrava. A minha bisavó foi escrava, ela foi alforriada, aí veio embora, ela foi vendida, ela sofreu muito. Vou contar da minha avó. A minha avó foi uma mulher muito humilde, tinha raiz mesmo, nós somos descendentes de terra de Angola. África, na parte de Angola. Como ela não conhecia o Candomblé praticamente, ela foi filha de africanos, mas não conhecia o fundamento do Candomblé. Aí ela seguiu o Kardescismo, mas uma tia minha que foi a primeira pessoa da família a seguir o Candomblé e a segunda pessoa fui eu. E eu fiz meu santo com quinze anos de idade. Eu acabei fazendo meu santo em 1975. Aí eu casei, minha vida continuou. Mudei, fui para Campinas e eu não imaginava que um dia ia abrir casa, ser uma zeladora de santo. Mas com decorrer do tempo foram acontecendo coisas e acabei tendo que abrir minha casa de santo. Não foi fácil. A gente sendo mulher negra é difícil. A gente encontra o preconceito por ser mulher, por negra e mão santo piorou ainda porque a religião já sofre preconceito. Quando eu fiz o santo com quinze anos de idade, era muito raro o Candomblé ainda. Inclusive aqui em São Paulo. Muito raro. E eu tinha que ir para a escola de branco, pano na cabeça, com os trajes que é exigido com o sacrifício da religião. Eu ia, mas eu sofri muita descriminação, as crianças riam de mim, muitos colegas se afastaram de mim quando ficaram sabendo que eu tinha feito santo no Candomblé, me chamavam de macumbeira, mas eu fui superando, sozinha. Nunca levei minha mãe até a escola, fui superando, tive problema com professores também. Já tinha por conta de ser negra e eu tinha boas notas, e isso não era muito bem aceito. Uma vez eu fui participar de uma peça de teatro, eu estudava no SESI, e eu seria a terceira fala da peça, quando o diretor da peça ficou sabendo que eu seria a terceira fala ele tirou, aí me colocou no fundo do
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palco, eu não podia me destacar. Também sofri muito preconceito quando eu entrei na prefeitura, serviço público, as pessoas descriminam. A mulher negra chega a estudar... como posso explicar? Se emancipar. Não são todos, mas a maioria não aceita. Eu tive dificuldade quando fui trabalhar no jornal, há muitos anos, acho que em 1979. Esse jornal chamava Shopping News, no Bom Retiro. Estava tudo certinho para eu trabalhar, o pessoal me apresentou o dono do jornal e eu estava com tudo certinho, os critérios que ele pediu tudo direitinho. Quando cheguei lá eram muitos encarregados, aí eles não aceitaram. Mas tudo bem, eu fui passando, da escola, muitos lugares, fui superando. Aí cheguei a ter que abrir minha casa de Candomblé. Quando eu fui abrir essa casa de Candomblé aqui em Poá, eu sofri muita descriminação principalmente aqui no bairro porque eu cheguei e é o único terreiro que tem aqui nesse bairro. E os vizinhos não entendem, não conhecem, já acham que é alguma coisa de mal, de “magia negra”, essas coisas e não é. Candomblé é uma nação de raiz. A primeira religião, na verdade, surgida. Veio antes do Catolicismo, mas as pessoas não aceitam. Victorya: Já começa o preconceito quando fala “magia negra” né? Omolewa (Vera): Pensa que é, mas não é. A pessoa não conhece, tem histórias. O Candomblé é história. A descriminação já vem por ser uma religião de negros, que nós cultuamos os Orixás, nós cultuamos as nossas raízes, os nossos ancestrais, então é complicado, é difícil. Então eu vim para cá, abri minha casa, sofri muita descriminação tanto com vizinhos, pessoas tentando que eu não conseguisse abrir, é muito complicado. Mas estou aqui. Consegui direitinho, toco meu Candomblé, amo o que eu faço, amo Orixá, faço com muito amor tudo o que eu faço. É muito humilde, muito simples, porque na verdade o Candomblé é humildade. É humildade e axé porque nossos ancestrais eles foram escravos, sofreram muito, não tinha luxo. O começo do candomblé era chão batido, dançavam com o pé na terra, os Orixás não tinham roupa direito, eram panos amarrados. Aí vai passando o tempo, vai mudando e o Orixá o que você colocar nele, ele aceita, mas o homem é vaidoso, ele quer se enfeitar, então desviou o luxo, mas aqui a
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minha casa é muito simples, eu toco Angola Bate Folha. Minha raiz de santo, eu sou filha do... bisneta de -----, e filha de ----- ---- do Rio de Janeiro. Neta de Namboazazi e filha de ---- que faleceu há três anos e continuo levando o legado do meu pai, tenho meus filhos de santo... e é isso
De 6’53” até 9’
Victorya: Como tem sido agora com a pandemia, o isolamento, como tem sido tocar a casa? Omolewa (Vera): Então eu não estou tocando, por conta de eu ser de grupo risco, eu estou preferindo fazer uma reunião com eles de longe, alguns só, meia dúzia de pessoas para não correr risco. Então eu não estou tocando e está difícil. Porque para tudo, porque nós temos obrigações. Quando uma pessoa inicia no Candomblé, ela fica 21 dias recolhida, depois que ela sara fica três meses de resguardo, ela usa um colarzinho no pescoço que ela não pode fazer muitas coisas, ela tem que se sujeitar a comer com mão, dormir no chão, vários sacrifícios. Não tem relação sexual, não beber, não ir em bar, não ir na praia, é recluso mesmo, os três meses. Depois ela tem a obrigação de um ano, a obrigação de três anos e a obrigação de sete onde ela se torna pai de santo ou mãe de santo. Mas o que acontece? Com a pandemia atrasou tudo porque nós estávamos com todo o calendário pronto, para recolher as pessoas, então acabou atrasando. Victorya: E essas pessoas agora elas estão... Omolewa (Vera): É, estão aguardando terminar para a gente poder começar tudo de novo. Atrasou muito, mas eu acho que essa pandemia veio para ensinar muita coisa. Infelizmente, dependendo da situação, nós temos que aprender ou pelo amor ou pela dor, então nós estamos aprendendo pela dor. Victorya: E como dói.
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Omolewa (Vera): Para ver se as pessoas acordam né? Porque a religião não significa caráter e as pessoas confundem, então teria que ter um choque assim para as pessoas verem que todo mundo é igual, ninguém é rico, ninguém é pobre, todo mundo igual. Isso aqui tudo a gente vai e deixa. Ninguém carrega consigo. Então essa pandemia vai esclarecer muita coisa.
De 13’48” até 20’07”
Omolewa (Vera): Eu desde de criança, eu tive esse negócio com a minha raiz. Eu via as mulheres no carnaval vestidas de baiana, eu ficava alucinada. Eu falava “Um dia eu vou por uma roupa dessa”, e minha mãe falando “Que isso menina? ”. E uma vez, nós morávamos em Pinheiros, eu nasci lá no Largo da Batata, fui criada no Butantã, depois fui morar na vila Carrão, aí acabei minha criação na vila Carrão, minha adolescência e depois eu ganhei aqui, isso aqui foi ganhado, eu vim para cá. Eu estava com a minha mãe no Largo da Batata e estava tendo uma festa folclórica e tinha umas mulheres do Candomblé, vestidas de baianas, eu fiquei fora de mim, eu queria colocar a roupa da mulher, eu queria dançar, eu tinha sete anos, eu falei “Mãe, um dia eu vou por uma roupa dessa”. Quando eu era criança eu tinha um pouco de vidência e eu chorei na barriga da minha mãe, isso é um significado muito grande para a África, aqui no Brasil ninguém vai entender, mas é significado muito grande quando uma criança chora na barriga da mãe. E sempre, desde criança, nasci sabendo que eu era negra, eu adoro, tudo o que é da minha origem eu gosto. Victorya: Eu acho muito fascinante quando a gente abraça as nossas raízes e sente dentro e pode transmitir isso. A minha família é toda cearense, toda. Meu pai e minha mãe saíram do Ceará para se encontrarem em São Paulo. Eu acho isso muito engraçado. Na minha família eu gosto de tudo, gosto do cheiro, da comida, o peixe, a conversa, gosto do sotaque, eu gosto dos filmes que falam sobre a terra dos meus pais. É gostoso. Tanto que um dos meus filmes favoritos e da minha, a gente gostava muito do Auto da Compadecida.
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É muito engraçado e, ao mesmo tempo, fala de uma realidade real. A minha mãe falou assim... Omolewa (Vera): Do sofrimento... Victorya: Do sofrimento do pobre... Omolewa (Vera): Da simplicidade deles... Victorya: Ela falando para mim “Victorya, o Norte é exatamente isso, é desse jeito. É essas pessoas mesquinhas, é pessoa preconceituosa, é pessoa “não sei o que”, mas é igualzinho. Esse filme não tem o que tirar, a realidade é essa”. Omolewa (Vera): O preconceito não é de raças, não. É do ser humano. E quem planta o preconceito são os antecedentes, os avós, e ele vão plantando aquilo que eles aprenderam, aquilo que eles conheceram, é uma certa ignorância, então não é porque é do Norte, porque não. Porque os nordestinos sofrem preconceito. Omolewa (Vera): A nossa raiz tem muita cultura, tem os jogos, as danças, tem o samba, samba de roda... você sabe por que que quando nós fazemos reunião... não só os negros, todas as pessoas normalmente em firmas quando vai fazer dinâmica de grupo, não faz em roda? Quem saiu com isso foi o africano. Isso vem da nossa origem, a origem negra, a roda, em círculo, porque nós dançamos em círculo. Fazemos roda de Candomblé, fazemos o samba de roda, fazemos o jogo, tudo é círculo. Tem muita coisa linda. A minha bisavó foi alforriada, ela ganhou um brinco de rubi com prata, uma jarra daquela louça original portuguesa e ganhou essa bacia para lavar que é de louça e esse brinco, e a carta né? Eu tinha e minha irmã perdeu a carta. Poderíamos ter uma recordação muito linda. Ela foi para o tronco uma vez só porque uma escrava estava com vontade de comer carne e naquela época não se comia carne, o escravo, só o caldo. Ela estava com
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vontade de comer a carne porque vinha o angu com o caldo e ela queria um pedaço de carne e minha bisavó foi buscar escondido, mas o catatá viu ela entregando a carne, aí ela foi para o tronco. Quando ela foi para o tronco, a sinhá amava ela e falou “Não, eu vou dar a carta de alforria, não quero ela nunca mais sendo judiada”. E ela morreu com 102 anos, muito feliz, era uma pessoa muito alegre e ela gostava do Candomblé. Depois ela falou e minha avó se distanciou, aí foi para o Kardescismo, ela foi conhecer o Candomblé já com muita idade, a minha avó, mas ela nunca imaginou que eu seria um dia uma zeladora. Victorya: Que você ia continuar levando a história...
De 20’21” até 23’16”
Victorya: Nesse meio tempo, você já questionou a sua fé em algum momento? Omolewa (Vera): Já. Eu já tive problemas de saúde muito sério, tive que parar no hospital. Inclusive, eu estava me tratando no Sírio Libanês, em 2018. Fiquei muito ruim. O médico me desenganou, falou que eu ia morrer e eu fiquei meio revoltada, porque a gente fica, somos seres humanos. Então você fala “Meu Deus, eu cuido... faço os outros... que graças a Deus, quem está na minha casa está todo mundo bem. Se outros estão bem porque está fazendo isso comigo?”. Mas a gente tem que pensar que nós somos comuns como qualquer outra pessoa, nós somos seres humanos, e quem manda em tudo é Deus. Não cai uma folha se Deus não quiser. Para nós Deus é Lemba. A gente chama ele de Lemba. Então só ele que sabe de tudo, eu tinha que passar por aquilo. Passei, já sofri acidente, mas estou aqui, fui recuperando cada vez mais. Depois de 2018 que eu tive esse problema no coração, quando eu saí do hospital eu vi uma nova mulher. Eu se eu já me dedicava ao Orixá, hoje eu me dedico 10 mil vezes mais. Eu acredito... é uma fé que não tem explicação. Eu respiro isso. Eu respiro jogar para uma pessoa, eu respiro tirar para uma pessoa e ela ficar bem, eu respiro fazer uma comida para Orixá e aquela comida fluir na vida daquela pessoa, porque nós fazemos comida né?
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Oferendas, que as pessoas falam que é despacho. Não é. Aquilo é uma oferenda que você para um Orixá. Inclusive, agora vai ter uma reunião dos zeladores de santo para não jogar comida, não pôr na rua, por causa do lixo... então a gente vai enterrar, porque são... como é grande, ele pode germinar. Eu estava tentando abrir no Itaim Paulista o Vale dos Orixás, eu tentei falar com subprefeito, isso faz uns dois anos ou três... para a gente conseguir um terreno para fazer um Vale dos Orixás aqui na Zona Leste porque aqui não tem. Tem um em Itapecerica da Serra, tem em Santo André e aqui na Zona Leste não tem e aqui tem muito terreiro, um alivio para gente poder cultuar, fazer uma festividade, sabe? Para quem não conhecer, entrar gratuito e ver aquilo não é o que eles imaginam, mas eu não consegui até agora. Victorya: É uma expressão de amo, de fé e de cultura. 23’38” Omolewa (Vera): O Candomblé é obrigado a servir comida porque nosso lema é “Dar para ter”, então você dá a comida que na sua casa vai ter sempre fartura, sempre as pessoas vêm para a festa como no tempo da escravidão. Os escravos comemoravam alguma coisa depois eles comiam, faziam a feijoada, só que a gente faz várias comidas, mas eles faziam a feijoada. Inclusive, eles podiam comer só pé e a orelha, o melhor da feijoada só era para os senhores (as) de engenho. 25’02” Omolewa (Vera): É isso. Nós somos muito sofridos, o negro é muito sofrido. E acho que não termina porque o preconceito está aí, está todo
mundo vendo. Cada dia pior. Acho que não tem fim. Nós temos que ir superando, nós que temos que ensinar eles. Tentar modificar. Não são eles porque eles não vão aprender.
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De 25’30” até 29’26”
Victorya: Na sua vida a fé teve um papel muito importante, né? Qual foi o momento em que a fé falou mais alto, que falou “se não fosse a fé nesse momento eu não tinha superado e não sei o que seria de mim”? Omolewa (Vera): Então, eu estava bem, de repente eu comecei a inchar. Eu tinha problema de pressão, tomava remédio de pressão, normal. Aí eu fui ao médico, municipal. O médico me examinou e falou que eu estava com retenção de líquido e ascite, que era muito raro salvar porque eu estava com a barriga muito grande eu fui a cento e poucos quilos só de água e eu fiquei internada. E no setor de que fiquei era de cardiologia, várias pessoas com o mesmo problema. Todas que ficaram no setor comigo faleceram. Todos. Nós éramos em quatro, ficou só eu e a médica chamou meu marido e falou para ele “Olha, o coração dela está imenso, ela está muito fraquinha, está batendo muito fraco e infelizmente não vai ter como, a gente vai segurar ela aqui, manter as medicações e vamos ver o que vai dar”, eles realmente falaram para o meu marido “ O senhor se prepara”. Aí um pai de santo... que meu pai de santo faleceu, então um pai de santo amigo meu foi até o hospital e rezou na minha cabeça e pediu muito... eu sou filha de Oxum. Oxum é o Orixá das águas. Pediu muito a ela que protegesse, que intercedesse porque como ela poderia falar “Não, quem manda é Deus”, aí intercedesse para que eu ficasse mais um pouco. Eu tive muita fé, eu pedia todos os dias, todos os momentos “eu não vou morrer, eu vou ficar, eu não vou morrer agora”. De repente, veio uma médica do Sírio Libanês, ela entrou no meu quarto e ela olhou para mim e falou... perguntou qual era meu problema, eles comentaram e ela falou “Não, deixa eu ver a medicação, eu vou mudar a medicação dela e depois eu vou encaminhar ela para o Sírio Libanês, um transplante”. Aí eu fiquei apavorada, eu falei “Bom, seja o que Deus quiser”, mas aí de repente eu comecei a desinchar e eu cheguei em casa numa sexta-feira, na segunda-feira me ligaram para ir para o Sírio Libanês. Não para internar, para fazer o cadastro, para já ficar na fila de transplante. Eu falei “Eu não vou ficar na fila de transplante porque Deus e os Orixás não vão deixar”. Aí fui obedecendo a ordem médica, fui para lá. A médica me examinou e falou “Nossa, você está
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bem. Você está cansada? ” E eu falei “Não, eu estou ótima”. “Não, você não vai ficar aqui para a fila, você pode vir fazer o tratamento, de passar nas consultas, mas não tem necessidade de ficar na fila, internada aqui”. E eu fui, todo mês eu ia, acho que uns quatro meses seguidos. No quarto mês o médico falou para mim “Você está bem, seu coração desinchou, não tem nada aí, você vai tomar o remédio, normal, porque você teve um dia um problema desse”, mas ele falou “Não estou entendendo porque, geralmente, quem tem ascite não sobrevive” aí eu falei para ele “Eu sou do candomblé, tenho muita fé nos Inquices“, porque no Angola a gente não fala Orixás, a gente fala Inquices, então é isso a minha fé moveu montanha porque ele falou “Você está ótima”. Então esse foi o momento mais crítico, que a fé superou. Omolewa (Vera): Eu não tenho preconceito religioso, eu me dou com muitas De 31’20” até 33’47”
pessoas. Inclusive, a Carol pode falar. Eu tenho amizade com todo mundo lá na subprefeitura, pastor, tudo. Só que eu acho que o critério do evangélico é muito preconceituoso, eles não procuram saber, eles não procuram conhecer, eles criticam logo de cara e não aceitam e ponto. E não pode porquê... nessa pandemia, veja bem, se todas as religiões se unissem e uma só palavra fosse a Deus, não estou dizendo Orixá... a Deus que é único, pai de todas as religiões. Se fosse a ele, a coisa já estava bem melhor, muita gente não tinha ido embora. Penso eu que a fé, a união... Victorya: Se unissem todas as pessoas né... Omolewa (Vera): Muito pelo contrário... o preconceito com negro, o preconceito com Candomblé, sabe? As pessoas lá no Rio de Janeiro estão quebrando casas. Destruindo. Gente, isso aqui é um axé particular que eu estou pagando ainda um empréstimo que fiz desse barracão. Eu ganhei um terreno aqui atrás, ainda tenho que aumentar, vou construir o espaço do santo, se Deus quiser... e os Orixás. É um sacrifico tão grande e a pessoa vem e simplesmente quebra tudo porque é de outra religião... Victorya: Em nome de uma coisa que...
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Omolewa (Vera): Usa o nome de Deus, não é assim. Eu não aceito. Meu filho está bem, não tem nenhuma religião. Eu deixei livre para ele porque você não pode impor religião para ninguém, acho que tudo vem do coração. Ele respeita a minha religião, ele estuda sobre, ele faz perguntas, mas ele tem uma fé em Deus muito grande, sabe? Ele reza, uma fé única, só dele. Ele não vai em igreja, não vai em templo, não vem aqui. Ele fica na minha casa... quando necessário alguma coisa, ele me perguntar, mas não participa de festa, nunca obriguei. Acho que todo mundo tem que ser livre, contanto que respeite o outro o próximo. Se ele quisesse ser evangélico também jamais eu ia impor, me opor. Mas não, ele falou “Mãe, eu prefiro não ter religião, seguir religião nenhuma”. Respeitando a Deus e todo mundo.
Omolewa (Vera): Importante você acreditar que tem um Deus lá em cima e que abençoe a gente, todo mundo e ponto. Não é obrigado a seguir dogmas. Eu, fui por doença, eu entrei no Candomblé... como se chama? Epilepsia, De 34’12” até 48’08”
vamos dizer assim. Tomei gardenal durante um ano, o médico falou que eu tinha epilepsia, mas não era porque depois que eu fiz o santo parou. Porque a epilepsia continuaria, ela é uma coisa que é para sempre. Aí uma enfermidade espiritual... no caso, era espiritual. Fiz o santo, acabei de fazer, acabou os desmaios. Então, eu não entrei pelo amor por que eu era uma adolescente e quando eu entrei fiquei muito revoltada porque o candomblé naquela época era tudo fechado. Hoje a pessoa que vai se iniciar, ela tem privilégios, ela tem tudo porque ela já entra sabendo tudo o que vai acontecer. E a pessoa procura mesmo, fica sabendo mesmo, se informa. Infelizmente, que não deveria, colocam os fundamentos no Google, na internet, só que prejudicou, não foi bom. Não porque tem coisas que... vamos supor, você pratica de uma forma antiga e hoje está numa forma moderna, a pessoa acessa, ela vê da forma que ela viu e ela acha que você tem que fazer para ela da forma que ela viu lá. Só que aqui na minha casa eu não aceito. Não vem com “Porque eu vi na internet, não”.
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Victorya: Então vai fazer na internet... Omolewa (Vera): É, põe a internet para te iniciar... porque eu sou bem das antigas mesmo, do tempo que candomblé era luz de lampião. Não hoje. Não vou usar luz de lampião. Mas, nós tomávamos banho 3h da manhã, hoje você dá banho na pessoa 6h da manhã, por que essa diferença? Antigamente o tempo era diferente. A temperatura do ar, tudo era diferente, as pessoas eram mais saudáveis, não existia tanto problema de pulmão, não existia tantas pessoas com bronquite, com asma. Victorya: Hoje você mata um se der banho 3h da manhã... Omolewa (Vera): Então o que a gente faz, às 6h. Algumas coisas você vai acompanhando. Então você vai tomar o banho às 3h, agora nós vamos tomar às 6h, entendeu? Certas coisas que você... por exemplo, hoje a pessoa vai ficar com lampião? Não tem uso. Uma fumaça de lampião antigamente... a pessoa fica nariz todo preto, ia fumaça para o pulmão. No tempo que fiz santo e que eu não raspei, não viam mãe de santo, eles colocavam comida por de baixo... parecia uma prisão, não via a luz do dia e nem a noite. Passava a comida por de baixo da porta e você só via a mão da pessoa e quando ia rezar que mãe de santo entrava. Hoje não, você vai toda hora saber se o filho está bem. Nós comíamos um mingau, que chamava ecó na época, e o mingau como se fosse comida de escravo. Não que a gente morria de fome, mas você inchava porque aquele mingau de farinha, inchava porque você comia só aquilo. Não podia comer arroz e feijão. Hoje você dá um arroz, o feijão você não vai poder dar no dia do santo da pessoa, aí você dá um arroz com peixe, mas é uma comida normal, né? E o banho antigamente era com água da cachoeira, ia buscar na hora para dar o banho, aquela água gelada. Hoje não, hoje a gente põe uma aguinha quente, morna, porque a pessoa tem bronquite... e o que acontece? Tudo se usa para... você não sabe com quem você está lidando, de repente a pessoa usa aquilo contra você. Ela tem uma bronquite, ela passa, ela vai na delegacia e fala “Olha, a mulher me enclausurou e me deu banho de água fria e eu fique mal”, então você tem que
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saber como lidar. É ser humano, é uma vida... porque a pessoa fica 21 dias dentro da sua casa, recolhida. Uma pessoa cuidando, uma pessoa especial que cuida que se chama a mãe criadeira. Ela fica cuidando e você está ali, zelando, tem as obrigações para eles irem fazendo... é uma vida, a pessoa larga marido, filho, mãe, família e você está ali zelando pela pessoa e ela vai passar 21 dias na sua mão. Ela tem que entrar são e sair mais são ainda. Se ela entra doente, ela tem que sair boa. Porque a pessoa não vai entender, e aí? É uma responsabilidade muito grande. Então por isso que assim, eu, aqui em casa, eu recolho uma pessoa por vez, tem pai de santo... é uma opção de cada um, recolhe de 5, de 6... não, eu prefiro, recolher de 1 porque dá para você cuidar daquele 1, é como filho único. Eu optei por ter só meu filho, por quê? Não é bom porque quando a gente vai embora a pessoa fica só, mas eu optei porque eu sou funcionária pública, quando eu estava grávida de 3 meses dele, a prefeitura me chamou para trabalhar. Eu optei por trabalhar para não perder a licença maternidade. Eu fui uma criança que eu gostaria de ter tido muita coisa, eu queria fazer balé, minha mãe não deixou. Eu fui convidada para ir para os Estados Unidos jogar vôlei porque eu sou jogadora de vôlei, minha mãe não deixou. Não deixou por ignorância, medo, naquela época era muito difícil, pai e mãe não era liberal como é hoje, então eu queria criar meu filho de uma outra forma, podendo dar para ele dentro da minha possibilidade tudo o que eu pudesse. Graças a Deus ele se formou, é um bom filho, não tem vícios, maravilhoso, nossa... só agradecer a Deus. Então é opção. Hoje, às vezes, eu me arrependo. Meu Deus, quando eu for embora, como vai ser? Ele tem primos, tem tios, mas mãe e pai é mãe e pai. Mãe principalmente, né? Eu perdi minha mãe com 80 e poucos anos, tem dia que eu choro de saudade. Mãe é mãe. Então eu optei. Agora você entregar um filho, um irmão, alguém da família na mão de uma mãe de santo para a pessoa sair de lá maravilhosa, ela não quer saber. Então você perde sono, você não pode ter relação sexual porque você está cuidando de um orixá, você está mexendo com fundamentos. Você não dorme, realmente, acabam esses 21 dias, você pode esquecer porque você não dorme, é pensar no banho, se a pessoa está bem... apesar que tem uma pessoa que vai dormir junto com ela, vai cuidar, mas mesmo assim, você é a estrutura. É um risco que você corre. Apesar que aqui
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eu faço um termo que a pessoa se responsabiliza por conta de... hoje, ainda mais hoje, você vê aquela menina estava enclausurada e mãe... se ela que é a mãe... aqui não tem criança, eu não aceito. Eu tenho agora um bebê que ele teve problema de saúde e ele já nasceu feito na barriga da mãe e quando eles foram iniciar ele já estava na barriga dela e ela veio de uma outra casa para ser minha filha e já tem um bebê, então agora eu tenho que cuidar dos dois, mas eu não aceito assim “ah, eu quero que meu filho (a) entre menor de idade”, não. Quando é menor adolescente eu faço um termo de responsabilidade e pai e a mãe assina, concordando em participar porque levou um tombo, está dentro da casa de Candomblé, isso pode dar manchete porque hoje em dia a internet veio para fazer um bem muito grande, mas também para fazer um mal muito grande para quem tem a cabeça ruim.
De 43’20” até 47’14”
Omolewa (Vera): Você sabe que o meu sonho era ser jornalista? Eu queria fazer faculdade, tudo, mas na minha época era muito difícil. Ainda mais sendo negra. Mas aí eu me realizei quando meu filho se formou, mesmo que ele não trabalhe na área eu fico orgulhosa que ele tem um diploma. Omolewa (Vera): Eu também, eu tinha um trauma muito grande de escola. Quando eu me formei... eu fiz secretariado com muito sacrífico que era um curso técnico na época era muito caro, minha mãe, minhas tias ajudavam... na época, a escola era na vila formosa Colégio Alvorada, era uns 900 reais, era difícil. Era um sacrífico imenso para fazer, eu fiz graças a Deus, mas não exerci, não consegui jamais entrar em um serviço como secretária porque você sabe, eu não preciso nem completar... eu fiquei muito traumatizada na época com estudo, inclusive, o Alvorada que era um colégio particular, geralmente eram filhinhos de papai, as patricinhas... aí eles me tiravam assim como a filha da empregada e a patroa que paga, nunca era a minha mãe que pagava para eles... “Ah não, ela é filha de alguma empregada e a patroa ajuda a pagar”. Então sempre descriminando... Victorya: sempre diminuindo...
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Omolewa (Vera): Não é capaz...
Repórter: Victorya Nascimento Batista
11. 3 Apêndice C – Decupagem - Fátima
Folha de Decupagem
Data ______/_____/ 2020
Editoria
Assunto
Tempo in / out
Tema Conteúdo: Entrevista Fátima
AUDIO 1 De 2’52” até 11’50”
Fátima: Minha história é assim...Minha mãe já era uma babá, ela faleceu em 1977, acho que eu tinha uns 9 anos mais ou menos... minha mãe já tocava a macumba dela - macumba no jeito de falar, no jeito de se expressar. Com 7 anos eu já virei no santo, sempre fomos Umbanda aqui. Com 8 sofri um acidente, só não morri por Deus e minha mãe fez uma promessa para Bom Jesus da Lapa que se eu sarasse que ela ia me levar lá, lavar minha cabeça na gruta e eu ia me tornar uma filha de santo. Quando eu fiz 9 anos minha mãe faleceu e deixou um menino adotivo que ela pegou para criar, meu irmão tinha 1 ano. Foi muito difícil, mas eu pedia para os Orixás da minha mãe, aonde eles estivessem que eles me ajudassem porque eu preciso ajudar meu pai, criar meu irmão. Tenho meu irmão como um pedaço de mim porque ele foi meu companheiro. E passou os 12, os 13... quando chegou nos 17, meu outro irmão tinha uma esposa aí essa esposa mandou um pedaço de bolo para mim. Eu ficava 3 dias em casa e 5 no hospital. Eu falei “Não quero saber mais do espiritismo”, eu ia para o médico e ele não achava nada, não tinha nada porque não era de médico. Tinha uma conhecida da minha mãe que foi filha de santo da minha mãe, ela trabalhou das 7h da noite até as 2h da manhã com um baiano, ele falou “Quando o dia amanhecer, você vai pegar
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essa menina e levar para a casa grande que ela vai sarar” e foi realmente o que aconteceu, cheguei a pesar 34kg, depois ela gritou no meio do quintal e falou que tinha sido ela mesmo. Aí dali comecei mais a minha fé, comecei aquele amor pelos orixás de verdade, depois disse eu sarei e tinha uma grande amiga que me levou no terreiro em Itaquaquecetuba, eu fiquei 35 anos nesse terreiro. Quando eu chegue a primeira vez nesse terreiro... sabe quando você chega em um lugar e já fala “Você já esteve aqui”? Nas suas vidas passadas... uma preta velha, que é uma filha de santo, não enxergava, ela era cega, ela recebia uma preta velha também, acho que era mãe Luiza. Essa preta velha não me quis, pensei “acho que estou tão pesada, tão perturbada que a mulher não me quis”. Ela me levou para uma mãe de santo, chegando lá ela falou assim “Minha filha, o que você está fazendo da sua vida? ” Eu brigava, eu xingava... e eu falei “nada” ela falou “olha, eu tenho uma mensagem para você, da sua mãe”, eu chorei. As mesmas palavras que minha mãe falava, a preta velha falou. Eu abracei aquela preta velha e chorei muito. “Aqui está sua casa minha filha, aqui é sua casa” e eu fiquei até os últimos dias da minha mãe de santo. Foi uma mãe, uma professora. Ali eu casei, ali eu batizei meus filhos, sabe? Então foi uma história muito bonita, é um lugar que eu tenho muita gratidão. A filha dela falou assim “Quando uma pedra está atrapalhando a vida da gente, tem que eliminar a pedra”. Então eu jurei para mim que quem tinha que sair era eu, eu era a pedra. Aí minha Erê gritou no meio da minha cozinha que o ageô dela, a festa de Cosme dela ia ser na casa dela, aí eu falei “Como? Que eu não tenho nem espaço”. Você acredita nisso? Meu marido não aceitava de jeito nenhum, podia fazer a macumba no terreiro na minha casa não. Ela falou “Você vai ver, fala das mães que ela vai ver”. Ele falou “Está bom, tira a mesa daqui, vamos fazer a festa da criança aqui no meio da cozinha”. Isso que eu falei que aquela criança é por Deus... aí eu comecei, aconteceu esse fato lá, fui lá, bati minha cabeça, pedi licença, peguei minhas coisas e vim embora, e meu filho foi comigo e ele falava assim “Mãe, ela estava gritando aqui: estou livre! ”. Aí que eu comecei a fazer a Gira na minha casa, conheci o pai Tião, foi depois de muita falação, muita coisa porque eu não aceita o Candomblé, eu não aceitava a Angola, que eu fiz minhas partinhas, que eu fiz minha primeira
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obrigação para Iemanjá e Oxalá que a gente fala, então minha vida mudou. Nisso eu já tinha conhecido outra senhora que me ajudou muito, sabe? Me ensinou muito também. A dona Severina me ensinou muito. Está na hora de eu caminhar a minha caminhada. As pessoas que estavam em minha volta viraram a cara para mim porque você tem que comer aqui, você não pode andar com as suas pernas, que eu não sabia fazer as coisas, que eu era uma negra muito metida. Aí que eu falo que entra o preconceito da gente estar na religião e as pessoas não aceitam, incomoda muito, é muita falação, muita crítica, falta de respeito, muito. Porque não importa se você tem um ano, se você tem 2, se você tem 3, o que importa é seu amor por Orixá, a Deus. Foi uma coisa que foi difícil para mim, aceitar, eu estou triste porque “fulano” não quer mais falar comigo. As pessoas queriam eu estivesse dentro da casa delas, servindo para elas, não que eu tivesse o meu canto, que eu pudesse crescer também na minha religião, ter meus filhos... não que eu quero brilhar para ninguém... De 13’48” até 14’13” Fátima: Eu só sei que começou tudo na minha vida foi assim. Já vai fazer 8 anos, então eu estou engatinhando, estou começando a engatinhar. Eu sei muita coisa da Umbanda, do Candomblé não sei quase nada, que as vezes eu pergunto para a Vera, pergunto para o pai Tião, quando eu não sei eu procuro quem sabe para não errar porque estou com a vida das pessoas, da minha vida tudo bem.
De 14’14” até 15’48”
Victorya: Como o Candomblé e a Umbanda se relacionam? Fátima: Veja bem, a Umbanda veio um pouco no começo do Candomblé, só que muita gente não dá muito valor para Umbanda, porque a Umbanda tem o catecismo, mas foram os africanos que trouxeram a Umbanda para cá, só que muita gente acha que se você não é da Umbanda você não é nada. Como o pai Tião falou “Se você não tiver aquelas bolas no pescoço para brilhar, você não é nada”. Eu chego em qualquer Candomblé, ponho um fiozinho de Oxalá que é o bem simplesinho, sento lá e fico. Porque se me perguntar alguma coisa do Candomblé, se eu souber responder, eu vou responder e se eu não
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sei? É motivo de chacota do povo. O povo fala que no Candomblé se você não sabe responder a pessoa fica te “chuchando”. Eu não vou mostrar o que eu não sou, para ninguém, jamais na minha vida. É como eu falo para os meus filhos de santo aqui “Eu sou da Umbanda”, é pé no chão, não tem muito glamour. De 15’51” Até 16’20”
Victorya: A Umbanda, ela... eu vi umas fotos da lavagem, da escadaria da nossa Senhora do Rosário, a Umbanda está... Fátima: Sim, a Umbanda participa, mas é mais o Candomblé. A gente também... eu já fui em algumas assim... Victorya: Acho bonito... Fátima: Eu também acho lindo, gosto. ---- fez a lavagem da --- de oxalá, eu participei, meu marido participou pela primeira vez, me vesti de baiana...
De 16’27” até 17’12”
Victorya: A sua família, seus filhos foram criados dentro da Umbanda? Fátima: Sim, minha filha não queria aceitar muito, mas depois começou a aceitar... Victorya: Ela demorou muito para aceitar? Fátima: Sim, foi criada no meio, desde a barriga já estava na macumba Victorya: Você acha que é mais por preconceito da sociedade que ela não quis aceitar? Fátima: Não, acho que é mais por ela mesmo. Ter compromisso. Porque qualquer religião exige compromisso. Tem regras, você não pode beber, você não pode isso... quando você entra tem obrigação com filho de santo, você também entra nas regras que tem, não fazer isso ou aquilo, não comer carne, então jovem não quer isso.
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AUDIO 2 De 0’00” até 11’08”
Fátima: ...você tem que ter amor, amor mesmo, acreditar, ter fé, sabe? Não tenho palavras, só tenho que agradecer por tudo que Eles me deram e Deus me deu. Pela minha família, pelo meu marido, por tudo que, a cada dia que passa, eu estou aprendendo mais e tenho que aprender muito mais porque a gente nunca para de aprender. Não tenho estudo. Eu me sentia muito inferior a muitas pessoas, mas a vida me ensinou uma situação: você sendo honesto, sendo verdadeiro, é a melhor coisa da vida. Você fazer as coisas com amor, se dedicar. Tentar sempre estender a mão para o próximo. Mesmo que, às vezes, os próximos não vão com a cara da gente, mas a gente nunca desistir. Victorya: É verdade. A única que vai prestar conta da sua vida é você, né? Fátima: Com certeza. Então é uma coisa que eu aprendi muito. Tenho uma filha de santo minha, uma ovelha desgarrada, ela fala assim “Mãe, eu admiro sua fé porque você tem um amor tão verdadeiro pelos Orixás, por Deus que eu não vejo isso mais”, eu falei “não, não tem mais... ah, eu vou porque alguém falou que eu tenho que frequentar. Ah, mais um dia tem que ir né, fazer o que, senão a mãe vai falar”. É, você não vem por amor... Victorya: Você vem por obrigação... Fátima: Se você fala vai ter uma gira de chão de pomba gira, ah... todo mundo está aqui, mas o dia que eu falo que vai ter uma de preto velho “Ah, mas preto velho deixa muito cansando”. É como eu falo “vocês não estão aqui pelos meus lindos olhos, não sou eu que escolhi isso para vocês”. Eu também, no fundo, não queria ter escolhido esse caminho, mas Deus me deu esse caminho. Eu fui pela dor, não fui pelo amor. Ou eu ia ou não ia, então falei “Vamos lá, vamos encarar, né”. Quem está na chuva tem que se molhar, agora eu vejo aqui... um dia eu perguntei para uma filha de santo “Posso saber porque que você colocou roupa? Posso saber...” “Ah, porque me
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falaram”, falei “Então seu lugar não é aqui”, a outra eu falei “Vai para a igreja”. Eu já falei que eu não sou Deus para fazer milagre, nem ele... a pessoa sente uma dor na ponta da unha e corre lá porque eu tenho que dar um jeito. Se você não planta, você não colhe. Meu pai falava assim: vocês estão pensando que todo dia é sábado. Pessoal do Norte tem muito isso, não tem? Eu não entendi, quando tinha meus 8, 9 anos, eu não entendia. Por que? Porque no sábado que eles iam para feira, que eles iam para fartura, que iam comprar, que iam trocar... eu não entendi o que era sábado. Quando eu comecei a trabalhar, eu comecei a entender. Um dia eu estava no posto e vi um menino falar assim para uma mãe “vai tomar no cu”. Olha, por Deus, me deu vontade de virar e meter a mão na cara dele. Eu falo para você: um filho meu não fala isso, não. Tenha amor a sua vida. Então, eu sou assim, eu não deixo me tirar do sério. Eu fico cega, surda e muda. Eu vejo uma falta de respeito. Outro dia eu falei aqui “Manera, viu? Você não está falando com a sua mãe, abaixa, volta para casinha, me respeita”. Eu respeito todos, eu peço por favor, obrigado e quando eu estou meio virada já até sabem. Tem vezes que eu dou resposta, eu vou pedir desculpa. Dia de Gira aqui eu não gosto que fiquem falando “mãe, não sei o que...” eu tiro aquele dia para fazer minhas coisas, preparar minha casa para receber os outros, então eu tenho que me concentrar... nesse dia meu marido me tira do sério, é o primeiro. Eu respiro fundo, tenho vontade de jogar tudo para cima. No dia que vai ter Gira eu fico até com dor de cabeça. Eu nunca ia lá na minha mãe, dia de Gira chegava na porta “Benção, mãe” e subia para o terreiro. “Minha filha quero falar com você” “Mãe depois a gente conversa”. Dia de festa... ou eu trabalho, ou eu tomo conta. Por isso que eu não vou fazer festa de Cosme e Damião aqui porque ano passado minha cozinha? Era 2 horas da manhã, só tinha bolo. Bolo no quarto, bolo no banheiro, bolo em cima da cama... ninguém vinha e ninguém ia. Falei não, ou eu faço saquinhos e dou ali, 100 saquinhos... Ano passado foram 150 saquinhos assim em segundos. Oh, toa vez que eu tenho gira eu faço um pão, faço cachorro-quente, faço um suco porque as pessoas ficam muito tempo... eu começo mais ou menos umas 6 horas, 22h30 nós terminamos. Então todo mundo já está... aí eu faço um bolo, faço um lanche,
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aí os meninos falam “vamos na casa da mãe Fátima que a gente come peito de peru”, tem gente que vem aqui só para reparar. Eu não vou na casa de ninguém para reparar nada, nem vou. Então são coisas que é sério. E meu marido: “Eu já falei para você parar com esses comes e bebes aqui, que não é restaurante”, eu falo “Você lembra quando a gente vinha de Itaqua, comprava garrafinha de água, vinha andando de Itaqua, 50 minutos a pé, com a garganta seca, com fome, então...”. Eu não quero que se repita essa cena, aquilo doía em mim, sabe? Se doía nos meus filhos, não doía nos filhos dos outros? De 12’28” até 14’26”
Victorya: Como que é a Gira? Fátima: Você nunca veio em uma Gira de Santo? Victorya: Não faço ideia... Fátima: Nunca? A gente toca, reza. No Candomblé eles rezam do jeito deles. A gente canta, a gente reza, quando começa, quando termina. A gente canta os pontos, salva Exu, salva Pomba Gira, trabalho com Ogum, com Oxóssi... Victorya: Bacana. E como está sendo agora na pandemia fazer a Gira? Fátima: Então, sábado passado quando eu fiz, eu fiz fechado. Só os meus filhos de santo, só a minha prima e uma senhora. Não chamei mais ninguém, porque né... Victorya: Você está medindo a temperatura do pessoal? Fátima: Não. Eu passo mais o álcool e pergunto se está tudo bem. Graças a Deus ninguém reclamou de nada, graças ao bom Deus. Eu já falei que se tiver tossindo, tiver alguma coisa... não me apareça aqui. Não vem. Porque desde fevereiro que eu não fazia nada. Só que o que acontece? Como eu vou
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fazer festa de Erê, eu tinha que conversar com os Erê. Aí como eu vou conversar por telefone? Com espírito? Apesar que eu vejo cada coisa na internet... eu estava vendo uns vídeos... por isso que nossa religião está tão... outro dia eu vi um vídeo de um Oxum, fiquei besta.
De 19’38” até 20’30”
Victorya: Mas a maioria dos Erê, eles são assim meio agitados? Fátima: São. Fazer as coisas que eles não querem.... Tem dois que são dois anjos... se deixar quer subir em cima do capô do carro, em cima da árvore, pula na água da cachoeira... O meu marido, teve um ano que nós fomos para a cachoeira fazer a festa lá, ele fazia “tchibum” dentro da água, quase que enlouqueci. Mas culpada não fui eu não, culpado foi pai de santo que foi e falou para os Erê se virar lá dentro da água, eu falei “Então, se acontecer alguma coisa com eles, eu sou a culpada”, porque jamais eu vou fazer isso, porque criança não é gente não. Você tem que ter uma astucia...
De 34’43” até 39’28”
Victorya: Como é que aqui para você fazer as coisas? Pessoal... alguém fala alguma coisa?
Fátima: Nada. Os vizinhos falam né. Mas aí assim, vou fazer uma Gira de Exu eu não posso, porque as vezes elas querem trazer a roupa de Pomba Gira delas, que é vermelha com preto, já não vira, é branco, branco e branco. Victorya: Impressionante como o preconceito está realmente na cor, né? Fátima: Fala que é do “capeta”, então a gente evita. Eu falo para as meninas “Fica de branco, bonitinha, quando a gente poder, tivermos nosso canto...”. Aí todo mundo queria que eu alugasse. Deus me livre, não estou louca. Ah, seu tivesse feito isso.... Estaria na lama agora, mais ainda. Porque na hora... Victorya: Todo mundo quer fazer né, mas ninguém quer arcar com o negócio depois...
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Fátima: Lógico. Aí ficou todo mundo combinando todo mês cada um dá 50 reais para comprar laje. Minha sorte é que não pegamos o cartão do menino. Seriam 2 cheques de 600 reais, naquele tempo. Eu ia passar fome. E a laje ia ficar 1.900 reais, seriam 4 cheques, só a laje, sem cimento sem nada. Aí o caminhão me pediu 4.000 reais. Para eu fazer isso aqui eu teria que ter uns 10.000 reais, para o meu marido fazer, que ele é pedreiro. O que eu mais queria era isso, comprar a laje, deixar lá, sabe? Aí depois que eu comprar a selagem, eu... porque precisa da escada para subir... Só se eu ganhasse um milagre assim, alguém desse um terreno para mim... só se fosse um sonho... Victorya: Alguém já veio bater aqui para alguma coisa, por conta disso? Para encher o saco? Fátima: Não. Victorya: Já sofreu algum ataque aqui? Fátima: Só um dia no portão as crianças batendo, mas fora isso não. Porque a gente não estende muito, o máximo aqui é até as 22h30. A gente sabe até o limite. Só quando tem festa no fim de ano que é festa de Iemanjá com marujo. O ano passado, nossa... meu quintal fedia a peixe... Repórter: Victorya Nascimento Batista