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ACTION - Amanda Eduarda Pereira da Silva

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ONDE ELAS ESTÃO?

Onde estão as mulheres negras nas grandes produções do cinema nacional?

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diversidade de gênero e raça é uma realidade na maioria dos setores produtivos no Brasil, mas quando falamos de audiovisual, ela a chega a ser quase inexistente. De acordo com um estudo feito pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2016, nenhuma mulher negra dirigiu, roteirizou ou foi responsável pela produção executiva de nenhum longa-metragem que entrou em circuito comercial. Mas isso quer dizer que profissionais negras não estão produzindo? Que não existem mulheres negras neste mercado? Mesmo com 54% da população brasileira sendo composta por pessoas negras, o mercado cinematográfico brasileiro ainda é, por si só, é protagonizado por homens brancos. A pesquisa também mostra que 75% dos 142 longas metragens que foram lançados nas salas de exibição em 2016, eram de direção de profissionais brancos. Vale ressaltar que essa pesquisa levou em consideração apenas filmes que bateram recordes de público, estipulados pela Ancine, e que receberam investimentos para sua produção. Então, refaço o questionamento, não há mulheheres negras no mercado

Sim, elas existem e são muitas, de diretora até sonoplasta, mas estão em produções mais baratas, como documentários e curtas-metragens, não em grandes produções de cinema. Uma das maiores barreiras que essas profissionais precisam superar é a da falta de recurso financeiro para prosseguir com seus trabalhos, resultando em muitas produções independentes com recursos do seu próprio bolso. Quando falamos em números de diretoras negras, é muito pequeno, chegando a serem exceções no mercado, por esse motivo acabam sendo questionadas sobre seus conhecimentos e autoridade. “Então quem na verdade não nos enxerga são pessoas que invisibilizam a presença de profissionais negros em todos os locais, porque sempre estamos atuando no audiovisual, se você ver aí sempre tem algum profissional negro atuando no audiovisual mas a questão é de invisibilizar a nossa presença em todos os espaços, de chegar nos locais e as pessoas não te reconhecerem como diretora, que você está ali no comando e as pessoas não reconhecerem isso”, conta Camila de Moraes, diretora do longa-metragem “O caso do homem errado”.

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á um exemplo de como a invisibilidade da mulher negra no audiovisual é algo preocupante. Um dos grandes nomes do cinema negro, Adelia Sampaio, voltou a ser comentado há alguns anos, após uma iniciativa de mostra de cinema em homenagem à cineasta.

mostrafoi um dos ponta-pés para que muitas pessoas EEssa ssa amostra questionassem a presença dessas mulheres no audiovisual. Hoje temos nomes como Camila de Moraes, Renata Martins e Viviane Ferreira, que tiveram filmes em circuito comercial, mas que ainda são exceções.

diversidade de Raça e Gênero no Cinema Brasileiro Uma pesquisa de 2016 da Agência Nacional de Cinema mostrou que o mercado cinematográfico brasileiro é uma indústria protagonizada por homens brancos, e que nenhuma mulher negra dirigiu, roteirizou ou foi responsável por nenhum longa metragem que entrou em circuito comercial neste período.

Fonte: Agência Nacional do Cinema (ANCINE)

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ESPECIAL

O curta é baseado em uma história real de um casal de velhinhos que recebe uma intimação de despejo por não conseguir pagar o aluguel do imóvel, e acabam se suicidando. Os próximos passos de Adélia foram mais difíceis, o roteiro de “Amor Maldito” foi enviado para a Embrafilmes e três dias depois devolvido com a justificativa de que um órgão público jamais investiria financeiramente naquele projeto. O roteiro acabou indo para a gaveta, mas a cineasta nos conta que o sonho dela permanecia intacto. “Muito difícil, mas tenho uma fé e creio que só se chega a algum lugar se lutarmos e termos a crença que dias melhores chegarão, eu sempre soube que era uma escolha difícil e árdua” conta Adelia sobre seu inicio de carreira no cinema.

‘‘Somos então a partir de agora dois pretos a romper a quarta parede’’

o cinema de adelia sampaio

a quebra da quarta parede

Primeira diretora negra de um longa-metragem em circuito comercial no Brasil, Adelia dirigiu “Amor Maldito” inspirado em um caso real da resistência da uma mulher lésbica com a justiça

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delia descobriu seu amor pelo cinema na década de 50, ao assistir pela primeira vez assistir ao filme “Ivan, o terrível”, de Serguei Eisenstein, que estreava no Brasil. A convi-

te de sua irmã Eliana Cobbet, aos 13 anos se surpreendeu com aquela tela enorme e as luzes fortes. “Quando a luz apagou e clareou em minha frente uma janela enorme, fiquei encantada com as imagens que se movimentavam na tela e pensei ‘vou fazer isso’, a luz se acendeu e eu eufórica falei à minha irmã e ela sorriu com um ar de piedade”.Após esse deslumbre, Adelia começou a trabalhar como telefonista na distribuiora Difilm, que abrigava grandes nome do cinema brasileiro. 10

Na produtora ouvia muitas histórias sobre filmes, suas narrativas e até técnicas, o que a deixava feliz, como se estivesse fazendo parte daqueles processos como ouvinte. Aos poucos foi trilhando sua trajetória no cinema, fez um curso de continuísta, que resultou na cineasta fazendo a continuidade de dois curtas metragens, e depois se especializou em produção. Seu desejo de sentar em uma cadeira de diretora ainda estava de pé. Com o incentivo do fotojornalista e amigo José Medeiros, Adelia abre uma pequena produtora e vai de encontro à produção do seu primeiro curta, “Denúncia Vazia” (1979).

Adélia Sampaio no set de gravação de um dos filmes. Reprodução da Internet

“Simplesmente mostrei o que ocorria no tribunal e a forma cruel como foi preferido por cada membro daquele júri esse trio homofobia/racismo/ sequitarismo religioso perfaz assim um ajuntamento de maldades”

Primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher negra no Brasil, “Amor Maldito” (1984), conta uma história real do amor entre duas mulheres, a executiva Fernanda Maria e a ex-miss, filha de um pastor evangélico, Suely Oliveira. No decorrer do relacionamento, Sueli se cansa e tem um envolvimento com um jornalista, que acabou resultando em uma gravidez indesejada e o abandono do amante. Em desespero, a jovem se joga da janela do apartamento de Fernanda, que acaba sendo acusada de homicídio. O elenco conta com duas atrizes muito importantes para o nome do cinema novo, Monique Lafond e Wilma Dias. Adelia conta que o processo de escolha do elenco foi muito importante, que os atores e atrizes prometeram que estariam esperando a produção do filme, mesmo após a recusa da Embrafilmes. “Não tenho no filme atores, tenho amigos, não tenho técnicos, tenho companheiros e amigos, hoje com 76 anos valorizo cada amigo que tenho”, comenta a diretora. 11


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“Amor Maldito” se passa na maior parte do tempo dentro do tribunal na audiência de julgamento de Fernanda, ex-esposa da vítima. O espectador logo percebe o que realmente está sendo julgado, não é o crime, mas sim o estilo de vida de duas mulheres lésbicas. O júri representa a famigerada tradicional família brasileira, a qual o advogado de acusação sempre dirigi suas evidências, que não são jurídicas, mas sim morais. ma cena muito marcante é quando o advogado de acusação aperta os punhos, olha direto para a câmera e diz: “Pessoas como a ré são um câncer que deve ser extirpado da família cristã, para que não dissemine as suas raízes malditas na sociedade em que vivemos livremente”.

Neste momento é notado uma técnica audiovisual chamada de “a quebra da quarta parede”, onde o personagem conversa diretamente com seu espectador, trazendo uma sensação de participação. “Me recordo na época que ao sugerir para Paulo, o fotógrafo, que deveríamos romper a quarta parede, ele sorriu e baixinho me disse ‘Adelia isso é tecnicamente errado’, lembro que olhei para ele e respondi ‘somos então a partir de agora dois pretos a romper a quarta parede”, comenta a cineasta. Fernanda, a ré, não se esquiva das provocações e afirma: “Eu quero deixar bem claro que os insultos não ardem na minha pele, não se aprofundam no meu sangue, eu sou uma mulher assumida”. Em seguida, olha diretamente para a câmera e dispara: “Eu amava Sueli, sua morte é um pouco da minha própria morte”. E novamente a técnica da quarta parede é usada.

Reprodução do Youtube

Reprodução do Youtube

Cena do julgamento de Fernanda em ‘‘Amor Maldito’’.

Cena do julgamento de Fernanda em ‘‘Amor Maldito’’.

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Cena do Casamento de Fernanda e Suely em ‘‘Amor Maldito’’.

Adelia nos conta que a decisão pela quebra da quarta parede era para que o espectador fizesse uma reflexão enquanto assistia. Questionada se a escolha do tema era uma forma de afrontamento, ela conta: “Não creio que tenha afrontado, eu simplesmente mostrei o que ocorria no tribunal e a forma cruel como foi proferido por cada membro daquele júri esse trio homofobia/racismo/sectarismo religioso, perfaz assim um ajuntamento de maldades”. Mesmo com cenas tão duras, o filme ainda fala de amor. Durante as cenas do júri, a ré é questionada desde o primeiro encontro com Sueli, nesses momentos as cenas se intercalam entre presente e passado, mostrando todo o relacionamento das duas, com

muitas cenas de beijos e nus. Com um tema tão imoral para a época, Adelia apenas confirma, “Eu queria falar de amor, sem gênero, apenas amor”. É perceptível que seus filmes tem um teor de denúncia. “Denúncia Vazia” nos mostra o descaso do país com a velhice; “Amor Maldito” denuncia a violência de palavras como forma de ferir e aniquilar seres humanos; e “AI5 (O dia que não existiu)” entrega o prenuncio e a chegada da ditadura no Brasil. A cineasta diz crer em um cinema com dois atalhos, um de divertir e outro de denunciar, e que seus filmes dizem bem qual é o cinema de Adelia Sampaio.

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- ADELIA SAMPAIO

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pois de onze anos longe da direção, a cineasta retornou em 2018 com o seu novo curta “O mundo de dentro”. Com oito minutos de duração, aborda a geração dos anos 60, especialmente o abalo causado pelos casos de Aids que começaram a surgir no período pós-ditadura. “É uma reflexão de uma das mulheres [dessa geração], que pode até ser eu. Reflito olhando para dentro de mim e me interrogando”, define a diretora em entrevista ao site “Mulher no Cinema”. Adelia descobriu seu pioneirismo como cineasta há pouco tempo, após os organizadores de uma homenagem na Cinemateca do MAM a alertarem. Quem contou aos organizadores sobre isso foi Edileuza Penha de Souza, responsável pela Mostra de Cinema Negro Adelia Sampaio, que tem como objetivo reunir e dar visibilidade para produções nacionais de cineastas negras. O último trabalho da diretora foi o curta “Olhar de Dentro”, com a atriz Stella Miranda. “Foi muito bom juntar amigos para ver meu novo curta-metragem”, conta Adelia. “Quando penso que no passado só existia a câmera Arriflex e negativo Kodak e que eu pedia aos meus amigos assistentes de câmera para guardar pedaços de sobras de negativos para eu guardar na geladeira e futuramente fazer um curta...” completa, sobre a facilidade de fazer um filme nos dias de hoje. Atualmente estamos com mais mulheres negras no cinema, não é o número esperado, mas elas existem e estão produzindo cada dia mais, inspiradas principalmente em um cinema de denúncia e de afeto, um cinema de Adelia Sampaio. “Fico muito feliz porque a luta valeu e a galera está ávida de fazer filme”, finaliza a cineasta.

FOI MUITO BOM JUNTAR AMIGOS PARA VER MEU NOVO CURTA METRAGEM

de volta à cadeira

Reprodução da Internet

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ACTION INDICA

action action indica indica

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Nada melhor que unir entreterimento com conhecimento. Por isso a Action para te entreter e você conhecer mais sobre o audiovisual, a Action indica seis curtas-metragens com belas histórias dirigidos por mulheres negras.

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NADA DE NÓS SEM NÓS

Mulher, negra e cineasta: a resistência de camila de moraes no cinema nacional Com um premiado longa-metragem em circuito comercial, Camila de Moraes nos conta sobre as barreiras que encontra, como diretora negra, no mercado audiovisual brasileiro

Imagem: Caroline Bicocchi

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amila de Moraes entrou para a história do cinema nacional ao se tornar a segunda diretora negra a ter um filme exibido em circuito comercial, com o “Caso do Homem Errado”. O documentário levou às telas a história do operário Júlio César de Melo Pinto, executado por policiais militares ao ser confundido com o assaltante de um supermercado em Porto Alegre/RS. O caso foi documenmentado pelo repórter fotográfico Ronaldo Bernardi, que acompanhou Júlio César sendo colocado em uma viatura policial, vivo, mas ao chegar no Hospital de Pronto Socorro, Júlio estava morto com um tiro no tórax. O filme mostra a realidade da violência policial contra pessoas negras e levanta discussões sobre o assassinato de negros no Brasil. “A gente lançou o filme para falar sobre a questão do extermínio da população negra, em sua maioria homens e jovens negros”

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‘‘É a primeira produção negra ali, com uma diretora e uma temática negra, que chegou nesse patamar de prepresentar o país’’

A invisibilidade da mulher negra no audiovisual

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aúcha e de família de militantes do movimento negro, Camila é formada em jornalismo, e foi na faculdade que ela decidiu recontar essa história. Com uma câmera mini-DV na mão, nasceu o projeto de fazer um curta-metragem. Em Salvador, tentou viabilizar o projeto do “Homem Errado” via editais e financiamento coletivo, mas não conseguiu. Até que, em 2016, com profissionais interessados na história e com equipe montada para fazer o filme, mas sem dinheiro, uma produtora abraçou a ideia. As gravações terminaram em fevereiro de 2017 e o filme, tornado-se um longa-metragem, foi lançado na capital gaúcha em maio de 2017. amila conta que o processo para a distribuição do filme foi bem desafiante. Como não conhecia o lado comercial do audiovisual, encontrou muitas barreiras devido ao racismo e ao machismo do mercado. Houve diálogos intensos para que o filme ganhasse as salas de exibição, para que ela se sentisse finalmente pertencente ao universo audiovisual brasileiro. “Eu comecei a ver que tinha todo um siste a ver que tinha todo um siste-

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Imagem: Caroline Bicocchi

ma, toda uma comercialização, toda uma indústria, um mecanismo, uma estrutura racista ali que não nos deixava adentrar certos espaços”, desabafa. Foram 8 anos para a produção do filme e agora 4 anos para a distribuição. Um tempo muito longo, se comparado ao de outras produções que possuem recursos estatais para serem realizadas. Hoje o longa conta com algumas premiações, a mais recente na categoria de “Melhor documentário” no 13º Los Angeles Brazilian Film Festival. A produção independente chegou a ser pré-selecionada como a indicação brasileira de “Melhor Filme Estrangeiro” no Oscar de 2019.

“É a primeira produção negra ali, com uma diretora negra, com uma temática negra e que chegou nesse patamar de representar o país inteiro. Isso além de ser algo histórico para nós, tem grande valor, por conta de toda a trajetória de filme independente, de falar do extermínio desse país que nos mata por sermos negros e ainda de ser uma produção de pessoas negras em sua maioria, falando de um assunto que infelizmente conhece. E isso tem uma grande relevância, da gente conseguir continuar nesse diálogo. Foi muito bom também. Quem sabe a gente consegue chegar lá”, conta Camila.

“A gente percebe que há um outro debate que também precisa ser falado que é a presença desses profissionais que estão atuando no audiovisual, qual é a forma que esses profissionais negros estão atuando e qual é o espaço que essas mulheres negras têm para atuar dentro do audiovisual sem adoecimento?” Infelizmente, Camila conhece bem esse sentimento de invisibilidade, de entrar nos espaços e não ser reconhecida como diretora. Mulheres negras seguem sendo minoria atuando em grandes produções. Os filmes dessas mulheres não entram em circuito comercial e elas não conseguem recursos estatais. “Infelizmente, é nessa realidade de não ter condições financeiras para produções, e quem tem, tem muito pouco. São poucas que conseguem recursos para produzir, mas o que nos mantém produzindo, o que nos faz continuar é a nossa base, as nossas referências e nossa base negra de cinema negro”, diz Camila. Mas onde estão os profissionais negros no audiovisual brasileiro? Essa pergunta é feita de forma recorrente por muitas pessoas que estão estudando o mercado cinematográfico. A resposta é que eles estão lá, eles existem, mas ocorre uma espécie de apagamento dentro da indústria, que não permite que seus trabalhos circulem de uma forma ampla.

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Imagem: Natasha Montier

E é dando continuidade a essa reestruturação que Camila estreia sua nova série “Nós somos pares” que conta a história de seis mulheres negras, baianas e rastas, com suas personalidades bem marcadas, conflitos e amizades. A série irá apresentar ao espectador o poder de acreditar em si mesma e nunca desistir de seus sonhos, de saber que todos são capazes de obter o que desejam, reconhecendo o valor de outras mulheres, além da importância de uma amizade verdadeira. “Não há um Spike Lee ou uma Ava DuVernay no Brasil”. Essa foi uma fala da roteirista Antônia Pellegrino ao UOL, no começo do ano ao justificar porque escolheu José Padilha como diretor da série de ficção sobre a vida e assassinato da vereadora Marielle Franco. A fala buscou justificar também a falta de cineastas negros na produção. Tal pensamento só reforça o apagamento de grandes diretoras e diretores negros do cinema

Nada de nós sem nós Em um país racista e com um cinema majoritariamente branco e elitista, é de se notar o grande número de produções audiovisuais de ficção que são contadas sobre corpos pretos, dentro de periferias, de linguajar duvidoso e marginalizado. E por que essas produções que tentam ser realistas sobre esses corpos são de profissionais brancos? Trata-se de uma realidade da qual eles não compartilham.

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“Isso é muito complicado porque as pessoas lucram de todas as formas em cima dos nossos corpos, seja na dor, seja na alegria. Eles estão vendo meios de lucrar em cima dessa população negra, com quem eles não compartilham depois os lucros, os recursos, nada”, explica Camila. Hoje está acontecendo uma reestruturação no audiovisual para que esses profissionais negros contem as suas próprias histórias, que recebam recursos para que isso aconteça, que profissionais brancos sejam aliados e cedam esse lugar de privilégio porque o audiovisual também é preto.

Queriamos também poder dialogar sobre um outro viés, associar a população negra á outro lado que é esse lado que nós temos de afeto, de amizade e que ainda nas telas aqui do Brasil é pouco visto.

Rastafári tem sua origem em Ras (“príncipe” ou “cabeça”) Tafari (“da paz“) Makonnen, o nome de Hailê Selassiê antes de sua coroação.

O piloto de “Nós somos pares” começou a ser gravado em fevereiro deste ano, após Camila voltar de uma residência artística de três meses na Califórnia onde foi aprender como desenvolver material de venda, conseguir patrocínios e financiamento para produção da série. Em seguida, fez uma apresentação pública e conta como os espectadores foram se identificando com a narrativa da série. “E a gente foi percebendo que está indo por um caminho no qual as pessoas querem se ver na tela, querem se ver de forma digna, atraente e de forma leve também”, conta.

Cinema Negro em Ação Camila de Moraes com a Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. O programa é destinado à formação de novos profissionais negros que querem entrar no audiovisual. Camila conta que para que os alunos se sintam representados e saibam que o audiovisual também é deles e para eles, os professores que ministrarão o curso serão negros. Por decorrência da Covid-19, as aulas devem iniciar somente em 2021, sem ainda uma data estabelecida. Mas isso não quer dizer que o programa ficará parado. De 20 a 27 de novembro de 2020, acontece o 1º Festival Cinema Negro em Ação, com a intenção de fortalecer o cinema negro. O festival receberá produções nas categorias videoclipe, videoarte, curta-metragem e longa-metragem em formato digital. O evento será realizado pela Casa de Cultura Mario Quintana e pelo Instituto Estadual de Cinema (Iecine), em uma ação afirmativa inédita de vinte horas de programação na grade da TVE-RS. Camila explica a importância dessa parceria com a Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul e da participação de players convidados, dentre os quais a plataforma Netflix. “A gente tem que associar as lutas, se tem instituições ali que se dizem antirracistas, então que partam de fato para a ação, que se comprometam levantando questões para mudar o nosso cenário. Estar assumindo ali que há uma lacuna, que precisamos trabalhar sobre esse cinema negro e essas produções dentro do audiovisual , então que essas instituições se comprometam para que isso de fato aconteça e aconteça com qualidade”, completa.

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O FUTURO É FEMININO

Legenda: Fernanda, Claudia e Bárbara em viagem de gravação no Pasquistão. Imagem: Luiza de Moraes

laudia Alves é jornalista e roteirista da Fluxa Filmes, que a descreve como a dona de um humor cativante e documentarista sensível. Protagonizou a série “O Futuro é Feminino” e neste papo nos conta como é construir uma narrativa feminina dentro do audiovisual, sua visão do mundo pós-série e sua conversa com Angela Davis.

O FUTURO É FEMININO Sobre a produtora Fluxa, como ela surgiu? Foi uma iniciativa sua? A Fluxa é uma construção de três cabeças, que sou eu, a Barbara e a Fernanda. Ela é uma produtora que veio muito de uma necessidade nossa de perceber uma ausência de falar sobre narrativas femininas, e aí a gente fez a partir do Mulheres e Política.

Seu trabalho é falar sobre narrativas femininas, então eu queria saber como vocês constroem essas narrativas em um espaço que é majoritariamente masculino e branco? É uma luta diária né? A gente tem uma construção diária de entender o que estamos fazendo, primeiro que a gente sabe da importância do que estamos fazendo, nós três somos jornalistas, mas eu venho de uma carreira que já se constrói como direção e roteiro há um tempo, então a gente tem um statement muito forte, e lidar com essas pessoas a gente sabe que faz parte do game, infelizmente. Sabemos que temos uma coisa muito positiva que é as nossas pautas, a forma como conduzimos produtos, a segurança que a gente traz com uma equipe quase 100% feminina, que é uma equipe que tem que ter no mínimo 70% de mulheres, desses 70%, 50% são mulheres negras. E estamos em um momento na sociedade em que está se questionando muito, gerações como a sua estão questionando muito o que está acontecendo, o porquê, porque que tem que ser dessa forma, e a gente aprende muito com essa geração de vocês, que a gente tem esse lugar já esse capital intelectual e poder fazer o diferente. Então, quando tem um lugar, um espaço majoritariamente heteronormativo, branco (e eu falo do homem branco), a nossa fala, a nossa ação, ela é a partir do fazer, então a gente fazendo, está mostrando que há sim como mudar, porque antes era uma máxima “ah não tem ninguém”, “mas como?” 24

E NEGRO MINHA META É UMA EQUIPE 70% FORMADA POR MULHERES E QUE, ENTRE ELAS, 50% SEJAM MULHERES NEGRAS.

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E como vocês reagem com esses “nãos”? Somos três mulheres muito inquietas, sempre falamos isso, com muita vontade de fazer a mudança, então pra gente o “não” não muda nada, a gente tem uma frase “que é o ‘não’ não muda nada, o que muda é o sim”, então nós vamos até onde a entendemos que tem que ir. Vamos atrás de conversar com outras mulheres, de trazer um olhar e uma perspectiva feminina para os espaços de poder. A gente vai fazer agora um projeto específico sobre política, no meio da pandemia, com mulheres negras, a gente vai atrás dessas mulheres, conversar com essas mulheres. Quando fazemos isso, a gente quebra um paradigma, um paradigma que eu digo que tem muitas mulheres e muitos homens que antes achavam que não era possível, que não existiam, existia só uma jornada solitária né, uma jornada única de uma mulher. Foi perceptível para você a ausência de profissionais negras no set? Olha, vamos fazer a segunda temporada do “Futuro é Feminino”, a gente vai dirigir e a entendemos que vamos ter uma diretora de fotografia preta. Nos meus trabalhos eu tenho tido a sorte de não ser a única, no caso, meus trabalhos fora da Fluxa. Eu acho que quando as pessoas me procuram elas sabem muito bem qual é o meu perfil, elas sabem que eu não consigo, que eu não ando sozinha. E eu acredito que lugar, para mim, de diversidade, é ter mulheres brancas e mulheres pretas juntas para a gente construir esse

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cenário. Então, eu não tenho ficado em um lugar que sou a única e se eu for a única eu vou pontuar, eu vou questionar “porque eu, porque não outra pessoa?”, “faz sentido eu estar no projeto?” Eu provoco também. Falando sobre feminismo, alguns grandes nomes do feminismo negro como a escritora Bell Hooks, diz que há uma diferença entre o feminismo de mulheres brancas e negras. Como você descreveria essa relação? Eu concordo muito com a Bell Hooks e eu acho que existe um lugar muito de quase um apagamento de identidade porque é assim: 1. O homem branco; 2. O homem negro; 3. A mulher branca; e 4. A mulher preta, lá embaixo. Eu estou lendo o livro da Bell Hooks “E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo”, é maravilhoso. Eu fiz um curso em Londres, na faculdade em Londres sobre ultrapopular, cultura pop dentro da indústria audiovisual e da música, e a gente estudou muito sobre ela, sobre as partes que falam sobre masculinidade do homem negro... é assim, tem muita diferença, eu acho que as mulheres brancas estão despertando talvez, algumas, não todas, entendendo o lugar de privilégio que elas ainda têm mesmo sendo mulher. Eu costumo dizer muito para as minhas sócias e para a nossa produtora que para mim a régua é feminismo, é? Mas para minha régua é a seguinte, é primeiro raça, depois gênero, eu não discuto gênero antes, porque só eu sei o quanto eu me fodo como mulher preta, então é um lugar que a gente precisa

falar sobre quem são essas mulheres pretas que estão articulando, porque é isso que todo mundo fala, mas as mulheres brancas que saíram lá na década de 70 fazendo a segunda onda do feminismo tinha uma galera preta por trás cuidando dos filhos delas, e são mulheres pretas vindas da onde? Então é um cenário muito doído e complicado, e que a gente está mudando a estrutura, a gente mulheres pretas. Sobre “O Futuro é Feminino”, ganhador da medalha de bronze no New York Festival de TV e Filmes. Como foi essa experiência de ir para países de realidades diferentes sobre a mulher? Percebi que a gente é tão próximo do Paquistão, as lutas, as mulheres. A Islândia também é um lugar que a gente projeta, que queremos quer estar lá, mas é um país mínimo (pequeno). Conversar com a presidente, a primeira mulher a ser eleita democraticamente no mundo, a Vigdís Finnbogadóttir, foi uma engessão de ambe, ela me tocou muito, me tocou em um lugar tipo: “você é igual a sua irmã, você é igual a um homem, ao gênero masculino, as pessoas que dizem que você não é, não deixe que as pessoas falem isso. Olha o que a gente fez, elas construíram esse lugar da igualdade de gênero, mulheres de esquerda e direita, nesse primeiro momento elas se juntaram e falaram: não é minha visão política, a gente tem algo maior aqui, a nossa agenda é maior, vamos lutar por essa agenda.” Isso me deu muito respiro, do tipo, a gente esta fazendo algo que faz sentido, algo muito importante, estamos construindo projetos que independente se você é de centro, de esquerda ou direita, se você é mulher e tem um mínimo de empatia, você vai olhar para outra e você vai acolhê-la e vai querer fazer algo juntas.

No Paquistão é um lugar do tipo ‘quantas mulheres incríveis existem que a gente não sabe?. Eu falo isso porque, não colocamos isso no programa, mas a gente entrevistou uma designer que faz grafites e artes na rua, como protesto, com mulheres fortes, ela grafita mulheres enormes *brown skin*, porque é a pele deles, com textos de autoestima, com textos de outras mulheres feministas. Estar nesses países que são os extremos, coloca o Brasil ao mesmo tempo tão próximo dos dois, tão próximo que é viável a gente dialogar como se dialoga na Islândia, mas com as mesmas necessidades que tem no Paquistão, e as pessoas colocam um lugar como se fosse tiro, porrada e bomba lá e esquecemos de olhar nós, qual é a merda que a gente está aqui enfrentando. Então, acho que é isso, são dois lugares que são extremos, mas muito semelhantes com a escala do Brasil. Reprodução da Internet

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Você entrevistou uma das grandes referências de mulheres negras e ativista, que é a grandíssima Angela Davis. Como foi esse marco? Cara, foi muito legal, só fui eu e a diretora de fotografia, foi um momento muito especial, um momento muito singular, eu chorei com ela, ela é um monumento né? É muito bonito ver uma mulher como ela ainda em pé, ainda fazendo. O que ela fez pelo movimento negro nos Estados Unidos é de tanta importância para a gente também pegar como referência e juntar com outras mulheres daqui e fazer, é tão lindo a gente falar que viveu na mesma época que ela. Foram 15 minutos de muito ensinamento, eu aprendi com ela a ter calma, a me respeitar. Eu lembro que esse ano, com o caso do George Floyd, eu fiquei muito mal por vários motivos e um deles foi que pessoas brancas começaram a despertar para o racismo lá fora, e eu lembro que eu perguntei para ela se ela não ficava cansada né, de lutar, e ela colocou a mãozinha no rosto e respondeu: “bem, eu vejo pessoas como você, vejo pessoas como Marielle, eu vejo outras pessoas e eu sigo”. E eu estava cansada aquele dia, aquela semana do George Floyd, e eu me confrontei nisso, eu estou cansada, mas eu não posso deixar de fazer o meu, mas eu vou respeitar meu tempo. E a gente nem pensa nisso, mas entrevistar uma pessoa por 15 minutos como você aprende, porque é isso, eu já vi tanta gente fazendo lá, com tanta energia e eu falei: “bom, agora eu vou respirar e fazer aqui no meu e depois vou continuar fazendo de outras formas”. Eu acho que ela ensina mesmo sem perceber, ela nos dá pequenas lições de vida, que é uma mulher negra, que está há muito tempo em um lugar de “Eu existo, eu estou aqui e ninguém vai me calar”. Eu enegreci no Quênia, em 2016, eu me tornei mulher no Quênia, desde então ninguém me cala. Agora eu estou aprendendo como falar, com quem falar, respeitando meu tempo e meu espaço. Reprodução da Internet

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AFROFLIX

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om tantos debates sobre a invisibilidade de profissionais negros no audiovisual, não seria ótimo uma plataforma que valorizasse os trabalhos desses cineastas? Então, apresento para vocês a Afroflix. A “Netflix Afro” é uma plataforma colaborativa que reúne diversos filmes, séries e documentários para você maratonar de graça. Mas o que quer dizer ‘colaborativa?’ Isso significa que cê pode indicar conteúdos que gostaria de assistir por lá, mas com uma condição: os conteúdos devem ter, no mínimo, um artista ou uma área técnica assinada por, pelo menos, uma pessoa negra. Todos os conteúdos da Afroflix são brasileiros e independentes, divididos nas categorias documentário, experimental, ficção, fic/doc, série, videoclipes e vlog. A iniciativa da plataforma é de predominância feminina, tendo como diretora geral a cineasta Yasmin Thayná, um grande nome dentro da indústria cinematográfica feminina e negra. Em entrevista ao Diário de Pernambuco, o colaborador Bruno F. Duarte contou que a iniciativa de fazer a plataforma criou forma durante a produção do curta-metragem “Kbela” (2015), quando a equipe se deparou com a barreira da distribuição cinematográfica. “O filme foi produzido de forma totalmente independente, com dinheiro de um crowdfunding na internet. Não é um caso isolado. Muita gente está na rua, produzindo audiovisual de forma independente. Esses filmes existem, mas estão dispersos na rede. No mercado do audiovisual, a divisão também acontece. Existem pouquíssimas obras com atores e atrizes negras em papéis de destaque ou mesmo por trás das câmeras. A Afroflix é uma ação nesse sentido, para afirmar o espaço do negro no audiovisual".

“Cena do curta-metragem experimental “Elekô”, produzido por Amanda Palma, disponível gratuitamente na plataforma Afroflix | Imagem: Reprodução”

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PERIFERIA É CENTRO

“Hoje o audiovisual ele é meu super-herói, sabe, foi o que me salvou”

o audiovisual pela vivÊncia de Yane Mendes Yane Mendes, moradora da comunidade de Totó em Recife, a cineasta negra que vem fazendo mudança com o audiovisual na periferia do nordeste

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oi em 2008, aos 16 anos, que teve seu primeiro contato com cinema na Oi Kabum!, uma escola com o projeto social que especializava jovens periféricos em audiovisual, fotografia, design e computação gráfica. Ela ainda não sabia que aquilo que estava estudando era cinema. Foi aprendendo a gravar, editar vídeos e fazendo sua formação. Seu primeiro trabalho foi realizando a fotografia do longa-metragem “Princesa do beco e o lampião cromado”, que mostra a favela como nunca foi vista no cinema, um cenário de conto de fadas, onde há príncipes, cavaleiros e reinos rivais, uma história clássica de princesa, mas em um local jamais imaginado. Foi nessa produção que a cineasta viu quantas pessoas estavam envolvidas para fazer aquele filme e entendeu de fato o que era o audiovisual. “Hoje, a área

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que eu me identifico mais é a direção e fotografia, mas eu costumo dizer que essa questão do meu trabalho, da minha vivência, eu ter que fazer tudo, me dá uma percepção também da importância que é uma edição, da importância que é todos os fatores, na verdade até do próprio filme antes de ser gravado. Eu trabalho num cinema que acredita que o processo muitas vezes é até mais rico do que o próprio produto do audiovisual”, comenta Yane.

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or meio dessa produção, portas foram se abrindo para a cineasta, que sempre teve seu olhar ligado à periferia, de onde vieram suas raízes, e foi assim também que surgiu a ideia da Rede Tumulto: um coletivo de comunicação com foco em fazer com que os moradores dessa periferia dialoguem entre si por meio de vídeos e rádio. “A gente surge a partir do encontro que eu vou, o R2R no Rio de Janeiro, que é uma rede de ativistas. Eu fiz parte do encontro sobre o direito de filmar, como a gente usa o celular, pra lutar por esse direito. Então, eu venhono avião pensando o quanto a cidade — na verdade, o estado — tem tanta coisa potente e a gente às vezes não dialoga, por exemplo, nas favelas aqui tem grupo de grafite, tem gente que faz os slams, tem a galera que faz os rádios do altofalante e aí eu fiquei pensando o quanto que a gente não dialoga em comum, sabe, diferente do que a classe média faz. A classe média pode se odiar, mas vai ter algum momento que eles vão dialogar, vai ter um momento que eles vão conseguir falar a mesma língua, mesmo que sejacada um ali querendo seu pedaço do bolo. Aí eu fiquei pensando nessa história da Rede Tumulto e pensava 'meu irmão vai ter que ter alguns dias que a cidade vai ter que acordar com um tumulto'. Porque sei lá, se a gente for falar sobre feminicídio, que a cidade acorde e veja alguma pichação de feminicídio, que um programa de rádio seja sobre feminicídio. Eu entendo muito a importância da diversidade de cada linguagem e de cada grupo, mas eu acho que em algum momento, a gente deve ter um tumulto, de dizer assim, 'estamos dialogando sobre os mesmos assuntos, vamos impactar sobre a mesma temática' e aí a meta era gerar esses tumultos”, conta a cineasta.

Mesmo com trabalhos tão inclusivos como o Rede Tumulto, existe toda uma estrutura que tenta distanciar o audiovisual da periferia, fazendo com que essas vertentes não se conversem, um sistema que afirma que esse espaço não consome, não gosta e não quer, resultando em coletivos e produtoras não tendo nem a oportunidade de se inscreverem em editais de fomento. “Ninguém ia dizer pra gente que era ‘massa’ o cinema, sabe, ninguém ia chegar na minha comunidade e falar ‘Yane, vai fazer um filme e pá’, porque não querem, porque a gente sem saber as nomenclaturas e as técnicas já fazemos muita coisa, estamos aí com produções da galera que pega um celularzinho melhor e já produz um conteúdo de Instagram, de Youtube”.

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lém de todo esse recorte

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xiste uma realidade de jovens periféricos com difícil acesso a uma boa educação, um bom emprego, opções de lazer, é uma população esquecida pelo estado, pelo país. Yane também compartilhou dessa realidade. “Eu costumo dizer que, hoje, o audiovisual é meu super-heroi, sabe, foi o que me salvou, talvez do tráfico — foi o que me salvou não, é o que me salva da invisibilidade que tentam o tempo todo colocar, porque também eu estou num espaço que não é confortável, mas que hoje eu não espero que seja, porque talvez se eu esperasse um espaço confortável eu ia ser a única preta do rolê, sabe, e eu não quero. Não tem fôrma pra entrar no cinema, na verdade eu quero ressignificar o que é cinema ou o cinema que eu faço”, revela a cineasta. É muito comum ver, dentro do cinema brasileiro, filmes que contam histórias dentro de periferias e favelas, e essas histórias estão sempre atreladas a um estereótipo local e racial imposto pela mídia, que é o tráfico de drogas, o medo,a falta de lazer e de oportunidades, com a maioria dos seus moradores sendo pretos. Mas será que antes de produzir esses roteiros, é feita uma pesquisa de campo dentro de periferias reais? Filmes premiaados com uma irresponsabilidadesocial em cima de corpos pretos, corpos esses que já são marginalizados pelo estado. “A importância do cinema, por exemplo, para as favelas é que na real, o sistema cinematográfico precisa muito aprender com a periferia. A maneira que a gente tem, coletiva, de fazer as coisas, porque eu acho que ainda tem muito cinema aí que é muito individualismo, é muito ego, é um sistema ainda que o homem branco é o diretor e ele não sabe sequer o nome da pessoa que faz figurino, sabe. E se isso aí for o modelo de cinema, eu realmente prefiro estar de fora, como às vezes eu me sinto”,

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periférico que Yane faz com seu trabalho, deve ser lembrado que ela ainda é uma cineasta preta, inserida em um mercado majoritariamente branco e masculino. E por fazer do coletivo MAP – Mulheres no Audiovisual de Pernambuco – é, que ela tem maior entendimento sobre esse número real de 2% de mulheres negras no audiovisual nacional. Então ela vê de perto que essas cineastas não recebem recursos e que a maioria de suas produções são curta-metragens independentes. “Eu acredito que o espaço da mulher tem, sim, cada vez mais sendo cavado, porque existe uma luta e um reflexo de todo um movimento, principalmente um movimento de mulheres negras que tem tido esse embate, de que, tipo, a gente entendeu que é isso, que é guerra, sabe. A gente não traz muitas vezes o que o

movimento feminista branco elitizado traz, que é paz e amor e todo mundo se ama, não, é guerra guerra.. Nossos ancestrais lutaram para hoje eu estar aqui, uma Yane, viva com 28 anos, rompendo a estatística''. Por mais que existam cineastas negras no mercado, elas ainda não estão em evidência, mas precisam estar. É necessário contar a história do povo preto e periférico pelas mãos de uma cineasta negra e periférica. É uma luta de anos por representatividade, por espaço, por respeito e pelo direito de ser quem é para inspirar o futuro. “É muito importante seu trabalho, o que você está fazendo, porque quando eu digo para a galera que tem que ter esse recorte, a galera tem que entender que a gente é maioria na população, que a gente é fundamento, tá ligada? Então quando você faz esse fundamento com mulheres pretas é muito político, sabe, e eu acho que a gente está precisando”, finaliza a cineasta.

“NOSSOS ANCESTRAIS LUTARAM PARA QUE HOJE EU ESTAR AQUI, UMA YANE, VIVA COM 28 ANOS, ROMPENDO A ESTATÍSTICA” -YANE MENDES

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ALÉM DO VISUAL

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ALÉM DO VISUAL, ELAS TAMBÉM ESTÃO NO ÁUDIO

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Imagem: Acervo Pessoal

uem contou tudo isso para a gente foi a técnica de som, Catarina Apolonio, que tem uma vasta experiência no mundo do áudio e em suas mixagens. Além de todas essas curiosidades, Catarina também revela que o documentário é muito mais aberto para experimentar do que ficções. “Por incrível que pareça os documentários estão mais abertos a experimentar em tudo, assim, fotografia, edição, som, do que a própria ficção. A ficção cada vez mais quer ser documentário e o documentário cada vez mais quer ser ficção, ou utiliza muita coisa de ficção pra ajudar na narrativa e prender o espectador”. Formada em Rádio e TV pela Universidade Federal de Pernambuco, a também radialista, soube na faculdade que o áudio era a sua área, trabalhando em rádios e tendo até seus próprios programas. Catarina estudou três anos em Cuba, na escola de cinema, depois ganhou uma bolsa para estagiar em um estúdio em Madrid, e em seguida com outra bolsa, desta vez pela Funarte, foi para Santiago e Buenos Aires; todas essas passagens se especializando ainda mais em som para audiovisual, cinema e TV. “Quando eu fui pro Chile, eu estagiei em um dos maiores estúdios lá que se chama Filmosonido, foi lá que eu tive uma experiência mais de grande produção, você não tem muito a visão do todo. Você faz só o que pedem pra você fazer e não tem muito esse envolvimento com as produções. Em Buenos Aires, a experiência foi mais parecida com a experiência que eu tenho aqui no Brasil, que é — tinha muita produção grande, mas eu sentia que o processo era muito mais próximo ao nosso porque a equipe era pequena e todo mundo se falava o tempo todo. Mas, no geral, acho que a América Latina trabalha de uma maneira bem parecida, porque a maioria dos filmes são de baixo orçamento ou tem orçamento bancado pelo Estado através de leis de incentivo, edital e coisas do tipo. Então a maneira de trabalhar é bem parecida”, conta a radialista sobre sua experiência trabalhando fora do Brasil. Hoje, a área de maior atuação de Catarina é desenho de som, planejando e executando como contar a história atráves do áudio de uma maneira sensível e que impacte o espectador.

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“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. - Angela Davis 40

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