UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL CURSO DE JORNALISMO
LEONARDO GUIMARÃES DOS SANTOS
AS FAMÍLIAS BRANCAS E O DEBATE SOBRE O RACISMO
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
SÃO PAULO 2019
UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL CURSO DE JORNALISMO
LEONARDO GUIMARÃES DOS SANTOS
AS FAMÍLIAS BRANCAS E O DEBATE SOBRE O RACISMO
Relatório de Fundamentação Teórica e Metodológica apresentado à Universidade Cruzeiro do Sul como parte do Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo sob orientação da Profa. Dra. Mirian Meliani Nunes.
SÃO PAULO 2019
RESUMO
O racismo é um problema estrutural na nossa sociedade. O preconceito racial vem gerando, há tempos, no Brasil, transtornos enormes para a população negra. Os brancos, responsáveis por segregar e dar manutenção a este comportamento, não conseguem se colocar no lugar de quem enfrenta o racismo. Dentro das famílias brancas, o debate é evitado, o que faz com que as novas gerações não entendam a gravidade do problema e virem as costas para esta realidade. Este trabalho se dedica a dar voz a especialistas para falar sobre a importância de discorrer sobre o assunto nas famílias e a jovens de famílias brancas para falar sobre como o racismo é tratado em seus lares. Especialistas e jovens falam sobre o papel da educação no combate ao preconceito, lugar de fala, o lugar das famílias brancas na manutenção do racismo e como se dá o debate dentro dos lares. Palavras-chave: Racismo. Família. Brancos. Debate. Educação.
SUMÁRIO
1.
INTRODUÇÃO ................................................................................ 4
2.
OBJETIVOS ..................................................................................... 6 2.1 Objetivo geral .............................................................................................. 6 2.2 Objetivos específicos ................................................................................... 6
3.
PROBLEMATIZAÇÃO E HIPÓTESES ........................................ 7 3.1 Problema de pesquisa .................................................................................. 7 3.2 Hipóteses ..................................................................................................... 7
4.
JUSTIFICATIVA ............................................................................. 8
5.
PLANO ESTRATÉGICO .............................................................. 10 5.1 Descrição do Produto................................................................................. 10 5.2 Público-Alvo ............................................................................................... 10 5.3 Técnicas Utilizadas ..................................................................................... 11
6.
REFERENCIAL TEÓRICO ......................................................... 12
REFERÊNCIAS ..................................................................................... 15 CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO ...................................................... 17 ORÇAMENTO ....................................................................................... 18 APÊNDICE 1: Reprodução do projeto experimental .......................... 19 APÊNDICE 2: Infográfico utilizado na reportagem ............................ 31 APÊNDICE 3: Entrevistas ..................................................................... 32 DIÁRIO DE CAMPO ............................................................................ 49
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1. INTRODUÇÃO O Brasil tem em sua história um período de 338 anos de escravidão institucionalizada de povos africanos por senhores brancos colonialistas. Foram três séculos de repressão do Estado, assassinatos, torturas, discriminação, humilhação e europeização da cultura africana. Na obra “O Genocídio do Negro Brasileiro”, Abdias Nascimento define a escravidão como “o maior de todos os escândalos, aquele que ultrapassou qualquer outro na história da humanidade”. Hoje, 131 anos depois do fim oficial da escravidão – que não representou o fim imediato da prática – as consequências desse fenômeno ainda nos batem à porta. A discussão acerca do tema é ampla e, assim como tudo no Brasil contemporâneo, há divergências quanto ao regime escravocrata, tanto em relação ao seu andamento como em relação as suas consequências. Em 1891, uma circular assinada pelo então ministro das Finanças, Rui Barbosa, marcaria a história da luta contra o racismo no Brasil. Barbosa ordenou a destruição por fogo de todos os documentos históricos e arquivos relacionados ao comércio de escravos. Seja qual foi a intenção do ministro – de destruir os registros por vergonha ou pura perversidade –, este ato traz graves consequências para o Brasil ainda hoje. A destruição de grande parte dos registros que comprovam o tráfico negreiro no Brasil abre espaço para a desinformação, fazendo com que argumentos maliciosos e mal-intencionados ganhem força entre pessoas que querem ouvir teorias que confirmem um pensamento préconcebido, sem qualquer embasamento teórico. Uma dessas teorias fala sobre o senhor benevolente, alegando que os escravos no Brasil foram bem tratados, o que não aconteceu em outros países que tiveram regimes escravocratas. Esta teoria cheia de eufemismos criada pelo sociólogo Gilberto Freye (1900-1987) tenta legitimar a escravidão e, além disso, conferir aos colonizadores um status de generosidade. Para combater este argumento, Nascimento (1976) fala sobre a ação da igreja na construção deste mito, sobre o papel de intelectuais que falsificam os fatos históricos e compara o preço do escravo brasileiro com o preço praticado nos Estados Unidos.
5 Entre outras coisas, ele mostra que o preço mais baixo pago pelos escravos no Brasil facilitava sua troca, o que fazia com que os senhores fizessem do negro um ser descartável e de curta vida útil. Sabemos que o comércio escravo foi facilitado pela proximidade das costas brasileiras e da África, e isto reduzia o preço das ‘peças’ importadas. As plantações brasileiras foram, em grau considerável, mais densamente povoadas de escravos do que sua contraparte na América inglesa; tão barato se conseguia escravos que mais fácil e econômico era substitui-los por outros quando imprestáveis, do que cuidá-los e alimentá-los de forma adequada. No Brasil uma força brutal de mais de duzentos escravos numa fazenda era fato comum, enquanto nos Estados Unidos mais de cem escravos reunidos numa única propriedade era exceção. As condições de vida dos escravos no Brasil eram por isso menos cuidadas que nos Estados Unidos, onde a substituição do escravo requeria relativamente mais dinheiro. (Nascimento, 1979, p. 48).
Esses e outros fatores permitem que o racismo se perpetue na sociedade brasileira, alimentado pela desinformação e falta de interesse no assunto. Os grupos minoritários – pretos (terminologia usada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para a soma de “pretos” e “pardos”) e indígenas – têm consciência do que acontece: sabem que não ocupam o poder, seja ele econômico, estético, social ou os lugares de fala. Todos esses espaços são ocupados por brancos. Então, por que os brancos não entendem o racismo? Mesmo com tantas produções sobre o tema – livros, filmes, artigos, dissertações, tese, documentários –, a desinformação é o principal fator para a não produção de brancos antirracistas? Ou o fenômeno pode ser explicado pela conveniência de ocupar os lugares mais privilegiados da sociedade (morar nos bairros mais ricos, ser maioria em todas as casas legislativas do País, ter as profissões mais bem-conceituadas do mercado, ser protagonista na produção audiovisual e maioria nas universidades)? Dentro desse contexto, as famílias desempenham papel importante na formação social de indivíduos considerados brancos. Vemos que apenas deixar de reproduzir conceitos racistas não basta – ainda que isto não aconteça em larga escala -, é necessário educar os brancos para combaterem o racismo.
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2. OBJETIVOS 2.1 Objetivo geral • Conscientizar pessoas brancas para a importância do combate ao racismo no ambiente familiar.
2.2 Objetivos específicos • Produzir reportagem para mídia online que narre o global a partir do local: histórias de indivíduos brancos que refletem a realidade que mostram as pesquisas atreladas a explicação de especialistas no tema; • Contribuir com o debate sobre o papel dos brancos na luta pelo fim do racismo;
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3. PROBLEMATIZAÇÃO E HIPÓTESES 3.1 Problema de pesquisa Muitas pessoas brancas fecham os olhos para o racismo e agem como se não tivessem relação com o problema. Piadas e comentários maldosos fazem parte do dia a dia desses indivíduos que, ainda assim, não se consideram racistas. O ambiente familiar é propício para a perpetuação desse tipo de atitude. De geração em geração, os brancos aprendem a ser racistas sutis, aqueles que não desprezam o negro, mas foram condicionados a se sentirem superiores a ele.
3.2 Hipóteses Uma das características das novas gerações é a curiosidade por ouvir e entender o outro lado, seja qual for o assunto. Por estarem conectadas, as gerações Y (nascidos entre 1985 e 1999, segundo a classificação do Centro de Inteligência Padrão) e Z (2000 a atual) conseguem se comunicar com pessoas do mundo todo, tendo contato, ainda que mínimo, com culturas que, há algumas décadas, eram totalmente desconhecidas. Isso faz com que os jovens criem empatia singular e abracem causas que não lhes foram apresentadas durante a infância. O espírito questionador aliado a esta capacidade de entender o outro faz com que os jovens mudem padrões que lhes foram impostos. É por isto que os jovens brancos têm grande potencial para combater o racismo. Eles podem mudar – e estão mudando - a forma de pensar não só das próximas gerações como dos Baby Boomers (1945 a 1964) e geração X (1965 a 1984).
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4. JUSTIFICATIVA Os números nos dão uma perspectiva da importância deste trabalho, segundo uma pesquisa do Datafolha de 2008 mostrou que 91% dizem que o Brasil é uma sociedade racista. No entanto, apenas 3% dos brancos se veem como racistas (FOLHA DE SÃO PAULO, 2008). Em 2018, o portal de notícias G1 analisou dados do Ministério do Trabalho mostrou as profissões que possuem a maior quantidade de brancos e negros (GOMES, 2018). Empregos que exigem maior grau de instrução e menos força braçal são amplamente ocupados por brancos, as dez primeiras ocupações do ranking são: engenheiro de equipamentos em computação, engenheiro mecânico automotivo, professor de medicina, modelista de calçados, engenheiro aeronáutico, professor de odontologia, piloto de aeronaves, professor de matemática pura (ensino superior), desenhista projetista de máquinas e comissário de voo. As profissões mais ocupadas por negros são: trabalhador da cultura de dendê, trabalhador no cultivo de trepadeiras frutíferas, trabalhador no cultivo de espécies frutíferas rasteiras, criador de camarões, trabalhador da cultura de cacau, agende de higiene e segurança, examinador de cabos, linhas elétricas e telefônicas, trabalhador da cultura da cana-de-açúcar, sinaleiro (ponterolante) e operador de telemarketing ativo e receptivo. 03% dos 1.627 candidatos eleitos em 2014 para cargos legislativos se declararam negros. 76% se declararam brancos. As polícias paulistas fazem três vezes mais vítimas fatais negras do que brancas. Um levantamento da Universidade Federal de São Carlos mostrou que 61% das mortes causadas pelas policiais em São Paulo são de pessoas negras e maioria (79%) dos policiais envolvidos é branca. No estado de São Paulo, os brancos ganham, em média, R$ 3.320 por mês, enquanto a renda mensal média dos negros é de R$ 2.277,10, o que significa dizer que os negros ganham 68,6% do salário médio dos brancos, mostra levantamento do G1.
9 Entre 1995 e 2014 apenas 10% dos personagens das novelas da maior emissora de televisão do Brasil, TV Globo, foram classificados como negros em um levantamento da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Apenas 5% dos protagonistas são negros. Segundo o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, 0,9% dos médicos formados em 2015 são negros. As estatísticas mostram que os brancos têm consciência do racismo e que eles ocupam os lugares mais privilegiados da sociedade. Mesmo assim, o preconceito contra os negros é uma realidade que não dá sinais de desaparecimento tão breve. Por isso, falar com os brancos sobre racismo é importante. É essencial que os brancos entendam o básico: precisam abrir mão de seus privilégios e ouvir as vozes que falam contra qualquer tipo de racismo, seja ele sutil ou radical.
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5. PLANO ESTRATÉGICO 5.1 Descrição do Produto O Nexo é um jornal digital que trata de temas gerais e prioriza a explicação analítica dos fatos. O objetivo do veículo é contribuir com um debate político mais qualificado. A publicação foi escolhida por priorizar conteúdos de profundidade e dar espaço ao debate sobre as relações étnico-raciais. O Nexo é uma das referências em jornalismo multimídia. A empresa foi a vencedora do prêmio de melhor site de Notícias de América Latina no LATAM Digital Media Awards 2018. A escolha pelo formato de Reportagem Extensa para a Área Digital passa pela oportunidade de ofertar conteúdos multimídia que dão dinâmica à matéria e contribuem com o engajamento do leitor. A reportagem apresenta entrevistas com especialistas nas relações étnico-raciais brasileiras e personagens de famílias brancas que contam como o racismo é discutido em seus lares. Um infográfico e áudios das personagens contando suas experiências são recursos utilizados para dar dinamismo e auxiliar na absolvição do conteúdo pelo público.
5.2 Público-Alvo O público-alvo deste trabalho são jovens. O segundo lugar do Nexo na categoria “Melhor Projeto de Fidelização de Audiência Jovem” do LATAM Digital Media Awards 2018 mostra que este é um veículo que tem boa aceitação entre os jovens.
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5.3 Técnicas Utilizadas Para atingir os objetivos descritos neste relatório, este trabalho se valeu, principalmente, do uso de entrevistas, técnica explicada por Richardson: O termo entrevista é construído a partir de duas palavras, entre e vista. Vista refere-se ao ato de ver, ter preocupação com algo. Entre indica a relação de lugar ou estado no espaço que separa duas pessoas ou coisas. Portanto, o termo entrevista refere-se ao ato de perceber realizado entre duas pessoas. (RICHARDSON, 1999, p 207).
Para Ribeiro, a entrevista é método eficiente quando o pesquisador quer saber mais a respeito de seu objeto: A técnica mais pertinente quando o pesquisador quer obter informações a respeito do seu objeto, que permitam conhecer sobre atitudes, sentimentos e valores subjacentes ao comportamento, o que significa que se pode ir além das descrições das ações, incorporando novas fontes para a interpretação dos resultados pelos próprios entrevistadores. (RIBEIRO, 2008, p. 141).
O ponto de partida deste projeto foi uma pesquisa bibliográfica, se valendo de livros, artigos, teses e dissertações, o que é validado por Severino (2007, p.122.): A pesquisa bibliográfica é aquela que se realiza a partir do registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos impressos, como livros, artigos, teses etc. Utiliza-se de dados ou de categorias teóricas já trabalhados por outros pesquisadores e devidamente registrados. Os textos tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha a partir das contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes dos textos.
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6. REFERENCIAL TEÓRICO Para que o presente objeto de pesquisa tenha amparo teórico, faz-se necessário entender a história do Brasil e enxergar como o racismo penetrou todas as áreas da sociedade brasileira e hoje afeta a população negra da capital paulista, objeto de estudo desta pesquisa. No século XVI, os portugueses dominaram o Brasil e escravizaram os nativos. O trabalho forçado era, inicialmente, feito por índios. O processo de extração da madeira era realizado por meio da força de trabalho escravizada dos índios brasileiros. Eles realizavam a derrubada das árvores e as cortavam em pedaços menores. Depois disso, os nativos realizavam o transporte nas feitorias (uma espécie de armazém construído pelos portugueses na região litorânea). (ON LINE EDITORA, 2017)
A mão de obra indígena foi gradativamente substituída por mão de obra africana, importada pelo tráfico negreiro. Em 1538, Jorge Lopes Bixorda, arrendatário de paubrasil teria traficado os primeiros cativos de origem africana. Assim, começou um processo de escravidão institucionalizada que durou 338 anos. O Estado e os indivíduos que detinham o poder o mantiveram com controle dos meios de produção e de toda e qualquer narrativa. A elite branca sempre teve poder sobre os negros no Brasil. Quando um grupo de cidadãos decidiu se reunir para reclamar a um funcionário da corte portuguesa no Brasil sobre o barulho que os batuques produzido pelos escravos, a resposta do Conde dos Arcos, o funcionário em questão, dá o tom do engenhoso plano de poder, que, inclusive, colocava os escravos uns contra os outros. Os batuques vistos pelos olhos dos funcionários governamentais são uma coisa; para os indivíduos particulares são outra completamente diferente. A diferença é profunda. Estes veem o batuque apenas como uma prática que vai contra o respeito dominical [...] Para o governo, porém, o batuque é um ato que, uma vez por semana, força todos os negros - automaticamente e sem conhecimento consciente - a renovar aqueles sentimentos de aversão mútua que eles têm contra por concedido desde o nascimento, mas que tendem a gradualmente desaparecer na atmosfera geral de degradação que é sua carga comum. Esses sentimentos de hostilidade mútua podem ser vistos como a mais poderosa garantia que as maiores cidades do Brasil desfrutam. Suponha que um dia as várias nações africanas esquecessem sua tradição de ódio, inculcado de uma para outra. Suponha que os daomeanos e os nagôs, os gegês (ewes) e os haussás, os tapas e os congos, se tornassem amigos e irmãos: o resultado seria uma espantosa e inelutável ameaça ao Brasil, que terminaria com a desolação do país inteiro. (BASTIDE, 1971, p.91)
13 Como consequência de todo esse processo que deixou enormes sequelas na sociedade brasileira, criou-se uma espécie de etiqueta envolvendo as relações de raça no Brasil de acordo com um estudo publicado pelo Minority Rights Group. Esta etiqueta dita fortemente contra qualquer discussão, especialmente em forma controvertida, da situação racial, e assim ela efetivamente ajuda perpetuar o modelo de relações que tem existido desde os dias da escravidão. Tradicionalmente se espera que os negros sejam gratos aos brancos por generosidades que lhes foram concedidas, e que continuem dependendo dos brancos que agem como patronos e benfeitores deles; também se espera que os negros continuem aceitando os brancos como porta-vozes oficiais da nação, explicando aos estrangeiros a natureza “única” das relações raciais brasileiras. A etiqueta decreta também que os sofismas oficiais usados para descrever a situação brasileira como uma “democracia racial” sejam aceitos sem discussão, enquanto a análise crítica e a discussão aberta deste delicado assunto são fortemente desencorajadas. (DZIDZIENYO, 1973, p.15)
A tal “democracia racial” tenta passar ao resto do mundo e a cidadãos brasileiros que o Brasil tem orgulho de sua diversidade racial e, por isso, é impossível que ocorra qualquer tipo de preconceito contra negros ou indígenas no nosso País. Devemos compreender ‘democracia racial’ como significado a metáfora perfeita para designar o racismo estilo brasileiro: não tão óbvio como o racismo dos Estados Unidos e nem legalizado qual o apartheid da África do Sul, mas institucionalizado de forma eficaz nos níveis oficiais de governo, assim como difuso profundamente penetrando no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do País (NASCIMENTO, 1976, p. 111).
“Se o discurso racista atual persiste por causa da aparência de democracia, isto é, pelo preconceito sutil, e investigar a forma como a sua aprovação ocorre é importante” (NUNES, 2010, p. 32). Pettigrew e Meertens (1995, 25, 57-75) mostram a diferença entre preconceito sutil e preconceito flagrante. Preconceito sutil é uma forma indireta de discriminar determinado grupo e preconceito flagrante é a expressão direta de rejeição a um grupo. Para Pérez e Dasi, o racismo flagrante só é defendido por uma minoria. Porém, há uma maioria com sentimentos racistas não conscientes. Um dos argumentos da minoria racista é justamente que esta representa o pensamento da maioria - que não tem coragem de se manifestar. Para acabar con la actitud racista hace falta antes despertar el prejuicio. Es cuando éste se despierta cuando la persona siente um doble conflicto. Por un lado interior, porque toma conciencia de comportarse de modo distinto a como lo manifestaba. Por otro exterior, porque el contexto social de referencia desaprueba su comportamiento racista. La resolución de este doble conflicto puede provocar un cambio profundo. (PÉREZ; DASI, 1996, p. 222).
14 Portanto, é necessário tomar consciência do quão somos racistas e isso acontece quando há um conflito interior – tomamos consciência de que é necessário se manifestar de forma diferente – e exterior, quando o contexto social reprova comportamentos racistas. Ou seja, as famílias podem, desde a infância dos indivíduos, assumir o papel de reprovadores de comportamentos racistas e aí os jovens entrarão nesse conflito cada vez mais cedo.
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REFERÊNCIAS BASTIDE, Roger. African Civilizations in the New World. Nova York: Harper And Row, 1971.
CONSUMIDOR MODERNO. São Paulo, 20 fev. 2017. Geração Baby Boomer, X, Y ou Z: entenda onde você se encaixa. Disponível em: <https://www.consumidormoderno.com.br/2017/02/20/geracao-baby-boomer-x-y-zentenda/>. Acesso em: 14 set. 2019.
CURI, Cristiane. O Racismo e o Negro no Brasil: Questões Para a Psicanálise. São Paulo: Perspectiva, 2017.
DZIDZIENYO, Anani. The Position of Blacks in Brazilian Society. 2. ed. Califórnia: Minority Rights Group, 1973.
FOLHA DE S. PAULO. São Paulo, 23 nov. 2008. O racismo confrontado. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj2311200801.htm>. Acesso em: 14 set. 2019.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5.ed. São Paulo: Atlas, 1999.
GOMES, Helton Simões. Brancos são maioria em empregos de elite e negros ocupam vagas sem qualificação: Levantamento do G1 com base em dados do Ministério do Trabalho mostra quais as ocupações mais frequentes para profissionais brancos e negros. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/brancos-saomaioria-em-empregos-de-elite-e-negros-ocupam-vagas-sem-qualificacao.ghtml>. Acesso em: 12 out. 2019.
NASCIMENTO, Abdias. O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2017.
NUNES, Sylvia da Silveira. Racismo Contra Negros: Um Estudo Sobre o Preconceito Sutil. Tese (Doutorado em Psicologia) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
ON LINE EDITORA. Racismo - A Batalha Histórica Contra O Preconceito: Guia Mundo Em Foco Especial. São Paulo: On Line Editora, 2017.
16 PETTIGREW, T. F.; MEERTENS, R. W. Subtle and blatant prejudice in Western Europe. European Journal of Social Psychology, vol. 25, 1995
PÉREZ, Juan Antonio; DASI, Francisco. Nuevas formas de racismo. Em: J. Francisco Morales; Miguel Olza (organizadores). Psicologia social y trabajo social. Madrid/; McGraw-Hill, 1996.
RIBEIRO, Djamila. O Que é Lugar de Fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.
RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
SHUCMAN, Lia Vainer. Sim, nós somos racistas: estudo psicossocial da branquitude paulistana. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/psoc/v26n1/10.pdf>. Acesso em: 22 out. de 2019.
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Leitura de referências Redação do projeto de pesquisa Contato com fontes em potencial Produção do projeto experimental Redação do relatório final Revisão do relatório final Apresentação para Banca
nov/19
out/19
set/19
ago/19
jul/19
jun/19
mai/19
abr/19
mar/19
Fase do estudo
fev/19
CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO
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ORÇAMENTO As despesas relacionadas ao desenvolvimento deste projeto ficaram a cargo do pesquisador. Foram gastos os valores discriminados na Tabela abaixo.
Quantidade
Valor unitário
Transporte
5
R$ 4,30
R$ 21,50
Pen Drive
4
R$ 15,00
R$ 60,00
Ferramenta para criação de site
1
R$ 26,00
R$ 26,00
Impressão relatórios
4
R$ 15,00
R$ 60,00
Total
14
R$ 30,30
R$ 167,50
Item
Valor Total
19
APÊNDICE 1: Reprodução do projeto experimental A importância e os desafios do debate sobre racismo dentro das famílias brancas O preconceito racial nem sempre está em pauta nos lares onde este não é um problema sentido por seus integrantes, mas a penetração do tema nas famílias brancas pode formar cidadãos mais conscientes
Foto: Annie Spratt
O ambiente familiar é aquele onde, geralmente, as pessoas se sentem mais à vontade. Nos sentimos livres para vestir, comer e falar o que quisermos. Afinal, ao nosso redor estão os familiares, pessoas com quem temos um grau, ainda que mínimo, de intimidade. Nesses ambientes, discussões sobre os mais diversos temas podem surgir. Ou não. Como o racismo. Em algumas casas, este é um assunto amplamente debatido. Em outras, não se ouve falar em preconceito racial. Para os brancos, o diálogo pode ser um excelente instrumento para conhecer a realidade do outro. Realidade esta que não é vivida por quem não é negro ou pardo.
20 Porém, o fato de que são os brancos que se beneficiam desta desigualdade explica a dificuldade de penetração do tema nas casas. Ainda que não tenham consciência ou sejam as responsáveis diretas pelo preconceito racial, as famílias brancas são beneficiadas e agentes mantenedoras do racismo, como explica Isildinha Baptsita, psicanalista que estuda o tema há décadas. Por isso, o Nexo conversou com especialistas no assunto e jovens de famílias brancas para entender como o tema é encarado nos lares de quem ainda detêm privilégios por consequência do regime escravocrata, que terminou no século retrasado. Os especialistas falam sobre lugar de fala, importância do acesso à educação e expectativas para o futuro.
A serviço do estado Por volta de 1550, os portugueses começaram a trazer para o Brasil africanos que seriam forçados a trabalhar em troca de sua sobrevivência. A história que as apostilas contam já é conhecida dos brasileiros: foram 338 anos de exploração até que a Princesa Isabel promulgasse a Lei Áurea, documento que extinguiu a escravidão no Brasil – pelo menos oficialmente. Durante os três séculos de escravidão, o lugar do negro na sociedade brasileira era muito claro. Se limitava ao espaço de uma força de trabalho que mal tinha direito à vida. Passaramse apenas 131 anos desde a abolição. De 1888 até aqui não percorremos nem a metade da duração do período de escravidão no Brasil. A extinção do trabalho forçado e sem remuneração foi impulsionada por uma pressão da Inglaterra, que precisava expandir seu mercado consumidor depois de ter alavancado sua produção industrial no século XIX. Este é um dos motivos para que a ação acontecesse sem o mínimo planejamento e respaldo para aqueles que foram libertos. Portanto, a ocupação de espaços mais privilegiados na sociedade pelos negros (pretos e pardos) não acontece por incentivo de políticas públicas. Ao analisarmos as estatísticas fica fácil compreender que o Brasil é um País que está longe de promover a igualdade entre seus cidadãos:
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Infográfico: Leonardo Guimarães
A importância e os desafios do debate sobre racismo dentro das famílias brancas Ainda que a desigualdade racial seja um problema que se coloca de maneira clara na sociedade brasileira, quem tem o privilégio parece não ter consciência disso. Em 2008, o Datafolha mostrou que 91% dos brasileiros dizem que o Brasil é um País racista. No entanto, apenas 3% dos brancos se veem como racistas. Ou seja, apesar do histórico de privilégios e exploração, os brancos não se dão conta da posição que ocupam na sociedade. Assim, o racismo continua existindo e é passado de geração em geração. O núcleo familiar é um dos ambientes onde as pessoas que ocupam lugares de privilégio na sociedade se sentem confortáveis para não enfrentar o problema da desigualdade e do racismo. Afinal, se não há reflexão, não há mudança. E a mudança não interessa a quem tem regalias.
22 Isildinha Baptista, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, define o racismo como “um mecanismo de Estado” e afirma que, ainda que as famílias brancas não sejam o grande motor do problema, são responsáveis por mantê-lo. “A partir do momento em que ele (o racismo) é institucional e de Estado, as famílias passam a manter. Não são, necessariamente, aqueles que criaram o racismo, mas a grande questão é nos perguntarmos: ‘de que maneira a gente mantém as ideias racistas?’”, afirma.
Lugar de fala Mas como as famílias brancas vão debater sobre o assunto se são justamente as responsáveis por fazer com que o racismo continue existindo? Portanto, pode soar contraditório falar em combate ao preconceito racial por parte dos brancos. Depois da abolição da escravidão podemos notar a ausência de políticas públicas voltadas ao combate da desigualdade que o regime escravocrata causou na sociedade brasileira. Portanto, até aqui, os brancos, que legislam, controlam as empresas e, antes da internet, detinham o monopólio do discurso, apenas alimentaram o racismo. Mas os brancos podem deixar a posição de mantenedores do racismo. Isildinha explica que “os negros não morrem igual, não trabalham igual, não ganham igual e não vivem igual” aos brancos e isso acontece por causa da falta de humanidade imputada aos negros. Para ela, os brancos podem começar o combate ao racismo creditando aos negros humanidade. “Enquanto a sociedade não nos humanizar, literalmente, nós vamos viver nessa dessemelhança pelo resto da vida. Seremos iguais perante a lei, mas não teremos nenhuma benesse. Votamos, pagamos impostos e temos deveres, mas a Universidade Pública é para uma maioria branca e a luz vai continuar caindo nos bairros mais pobres”. Dentro de um contexto onde a desigualdade racial é mais debatida que nunca, o termo “lugar de fala” ganha corpo e está na ponta da língua de grupos militantes. O uso da expressão é comum para repreender pessoas que não sofrem qualquer tipo de preconceito e diminuem a luta de pessoas discriminadas por igualdade.
23 Para especialistas, porém, há, muitas vezes, um uso destorcido do termo. A ideia é que quem estiver debatendo olhe para o contexto onde está inserido, reflita se sofre algum tipo de discriminação e, só então, opine sobre o assunto. “Essa coisa do lugar de fala, para mim, é um pouco estranha. Porque, na verdade, um negro pode dizer que, do ponto de vista dele, não sofre racismo. Não é o lugar que faz a fala, mas a fala que faz o lugar”, opina Isildinha. Ou seja, uma pessoa branca pode falar sobre racismo, mas deve refletir sobre seu lugar na sociedade antes de o fazer. No livro “O Que é Lugar de Fala?”, a filósofa Djamila Ribeiro explica que todos têm lugar de fala e que, muitas vezes, o conceito é confundido com representatividade. Ela considera ético que os brancos falem sobre racismo e, tendo consciência de seus privilégios, reflitam sobre como criar uma sociedade mais justa. “A pessoa branca deve discutir racismo, até porque faz parte do grupo que, historicamente, se beneficia dele. Mas ela vai discutir a partir de outro lugar: ‘como eu, do grupo que é localizado no poder, posso contribuir para uma sociedade menos desigual?’”, disse Djamila em entrevista ao Canal Curta!, no Youtube.
O debate dentro das famílias Por isso, a discussão sobre o racismo dentro do âmbito familiar branco pode ser uma ferramenta poderosa de reflexão acerca de lugares de privilégio na sociedade e quem os ocupa. É em casa que nos sentimos livres para contar piadas racistas ou fazer comentários preconceituosos sobre uma pessoa negra que apresenta um programa de televisão, por exemplo. Afinal, estamos em família, não seremos julgados por ninguém nem precisamos medir palavras. Para os brancos, falar sobre o racismo em casa se torna parte importante de um processo de reconhecimento de preconceitos. “Você pode perguntar se uma pessoa tem preconceito ou é racista. São duas coisas diferentes. Uma coisa são os preconceitos que carregamos, que são quase impossíveis de não serem carregados, porque fomos criados dentro dessa sociedade racista. Outra coisa é o que você faz com o preconceito”, define
24 Cristiane Abud, uma das organizadoras do livro O Racismo e o Negro no Brasil: Questões para a Psicanálise. A estudante de psicologia Patricia Campos – branca, de 21 anos – protagoniza debates sobre racismo em sua casa. Ela mora com os pais e o irmão mais novo. Se considera uma pessoa preconceituosa, mas não racista: “todos nós acabamos reproduzindo (conceitos racistas) porque é algo estrutural da nossa sociedade. A gente acaba, mesmo sem querer, reproduzindo muitos comportamentos que diminuem outras pessoas”. Quando tomou consciência de seu preconceito, a jovem começou a conversar com seus familiares sobre isso. “Fui tentando conversar com meu irmão. Quando dizia algo racista eu falava para ele se colocar no lugar da pessoa de quem está falando. Com ele é um pouco mais fácil porque tem um olhar mais sensível”, conta. Com os pais, porém, as conversas foram um pouco mais difíceis. A diferença de idade foi o principal entrave para que os debates fossem mais produtivos. “É um pouco mais complicado porque é outra geração, mas, de discussão em discussão, acho que estamos construindo um olhar mais sensível, no geral”. Você
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(https://static.wixstatic.com/mp3/15b64d_84a188f5e0aa4df89843117ad6c83dec.mp3). Em todas as famílias, sejam da cor que for, o desenvolvimento dos filhos causa grandes impactos nos pais. Eles sentem quando os filhos começam a ter a própria opinião, descobrem o que gostam de fazer e não os vêm mais como super-heróis infalíveis. Em entrevista ao Nexo, Noemi Moritz Kun, doutora em psicologia e estudiosa das relações étnico-raciais brasileiras, explica que não existe um padrão de comportamento quando os pais percebem o desenvolvimento dos filhos e que tanto os pais como os filhos podem ser intolerantes à opinião do outro. Como o amadurecimento dos filhos impacta a vida dos pais – quando os filhos passam a não ser mais cópias deles?
25 O desenvolvimento psicossexual faz com que as crianças, sim, se identifiquem aos pais, mas se diferenciem também. Como adultos, um dos grandes desafios é sair de casa, criar sua própria casa e sua própria capacidade de discernimento do mundo. Tem pais que desejam que seus filhos fossem cópias e há pais que têm prazer em ver que seus filhos são pessoas diferentes, que não precisam ser como eles para serem bons. Para os pais que têm um posicionamento narcisista, qual a melhor forma de mostrar discordância? Como os filhos podem se posicionar e, ao mesmo tempo, não gerar um conflito que pode afastar os pais do debate? Com respeito, argumentações consistentes e compreendendo que, para os pais, certos temas são difíceis. As gerações trazem consigo perguntas, temas e desafios diferentes umas para as outras. Os jovens podem ser igualmente narcisistas: ao invés de entender o posicionamento dos pais e porque o pai ou mãe não concorda com as posições apresentadas a eles. A gente precisa ser respeitoso para convocar o respeito do outro sobre o nosso posicionamento. Gabriela Murizine é uma das pessoas que tem dificuldade em debater o tema com os pais. A sanitarista conta que eles chegam até a se ofender quando há discordância em casa. “Eles dizem: ‘vocês ouvem as coisas na faculdade e agora nós estamos errados sobre tudo’, como se a gente questionasse a capacidade cognitiva deles, isso dificulta a discussão”.
O papel da educação Nesse contexto de debates dentro do ambiente familiar, a educação desempenha um papel fundamental. Ainda que o preconceito racial não seja um tema presente na criação dos brancos, os jovens se deparam com a discussão quando ficam mais velhos, na escola ou na faculdade. Foi assim com Gabriela. Em casa, ela teve pouco contato com o tema. Até entrar na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, este não era um assunto
26 recorrente no seu cotidiano. “Julgo que foi uma falha na minha educação. Quando entrei na faculdade este virou um tema recorrente. Converso com o meu irmão, que também está em uma universidade pública, sobre isso”. Você
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(https://static.wixstatic.com/mp3/15b64d_36c597d82b1f46b99c100403ae4abf34.mp3). A jovem conta que tinha uma visão limitada sobre o assunto até sair da escola, já que não havia reflexão. “É uma bolha. E só conseguimos sair dessa bolha quando temos a chance de conviver com pessoas de fora”. Iracema Santos Nascimento, professora da Faculdade de Educação da USP (FEUSP), explica que a educação é um processo inerente à vida humana e que na escola temos acesso a explicações científicas das coisas a partir de conhecimento acumulado. Nesse processo, o aprendizado sobre o racismo deve passar por três pilares, explica Iracema. O primeiro é admitir que existe racismo e que ele é fruto de condições históricas determinadas. “A educação é importante para conhecer nossas origens, saber o que foi essa exploração colonial e coisificação do ser humano”, afirma. O segundo pilar é a transmissão do conhecimento sobre movimentos de resistência à escravidão, que ainda estão sob revisão histórica. “Isso é importante porque coloca as pessoas negras em outro lugar, não só no lugar de inferiores”. Por último, é importante, segundo a educadora, fazer com que os alunos enxerguem a contribuição da população africana na constituição da cultura brasileira. “Estas são medidas de precaução contra o racismo”, classifica. Larissa Yole, estudante de jornalismo de 20 anos, estourou sua bolha um pouco mais cedo em relação a Gabriela, de 24. Ela conta que começou a entender o racismo como problema estrutural da sociedade no ensino médio, nas aulas de história, filosofia e sociologia: “foram as três matérias que fizeram eu começar a ter um pensamento mais crítico”. “Isso aconteceu por causa dos meus professores. Eles davam a devida importância para o assunto, explicando as consequências da escravidão para os dias de hoje. Quando
27 começamos a estudar a época da escravidão pensamos nos escravos mecanicamente, não vamos além disso. Os livros de história não contam as consequências. E, durante muito tempo, eu não refletia sobre isso. Foram nessas aulas de ensino médio que comecei a pensar no assunto. Nas aulas de filosofia aprendi a não negar a realidade do outro e nas aulas de sociologia aprendi sobre a desigualdade no Brasil”. Na faculdade, Larissa não tem colegas de classe ou professores negros – o que só ressalta a importância da discussão sobre o tema. Mesmo assim, o ensino superior a ajudou a pensar ainda mais sobre o tema. Ela afirma que os amigos, que sofrem preconceito dentro da universidade, ajudaram a abrir seus olhos. “Se algo não atinge diretamente, a tendência é você não pensar naquilo direito”. Você
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(https://static.wixstatic.com/mp3/15b64d_6e4d41d79aa84a6fabb311e2db395519.mp3). O racismo estrutural deve ser tratado via educação para as relações étnico-raciais, segundo Iracema. Ela explica que o foco das pesquisas está sendo ampliado. Se antes focavam apenas na pessoa negra, hoje miram as relações entre pessoas negras e não negras. “O racismo está nas relações, não é um problema do negro. É uma questão estrutural que diz respeito a todos nós e afeta pessoas negras e brancas de um modo diferente. Se o racismo desumaniza a pessoa negra, faz o mesmo com a pessoa branca. Qualquer pessoa que está num estágio civilizatório há de concordar que atos racistas também são negativos para a pessoa que comete”, defende a doutora em educação. Nesta visão, a discussão sobre racismo em sala de aula deve acontecer ainda que as aulas sejam assistidas apenas por pessoas brancas. Iracema ainda lembra que “o antirracismo convoca todas as pessoas”. Cristiane Abud define o acesso à educação como fundamental no combate ao racismo, mas julga que a educação não consegue, por si só, reverter os efeitos do preconceito. Ela ressalta a importância de uma legislação que criminaliza o racismo. “A pessoa que carrega esse preconceito muitas vezes não consegue se desfazer dele. Não é
28 sua condição questionar isso. Mas existem leis que punem o racismo. Não conseguimos exigir que a pessoa não tenha preconceito, mas podemos exigir que ela não discrimine”.
Há otimismo? Diante de um cenário desafiador, de uma sociedade que ainda segrega, há espaço para o otimismo? Conseguiremos, enfim, uma sociedade igualitária, que dá a todos acessos às oportunidades de educação, moradia, emprego e saúde? Para as especialistas, este é um momento conturbado, mas não andaremos para trás.
Noemi Moritz Kun No momento, estou bastante angustiada com o nosso País. Infelizmente, chegou ao poder uma pessoa antidemocrática, ainda que por vias democráticas. Existe desrespeito de todas as ordens às mulheres, aos índios, a uma população que precisa da força governamental para garantir uma boa educação, segurança, habitação e condições básicas de higiene. É um governo perverso, dentro das estruturas psicanalíticas de compreensão, é um governo que acha que está acima da lei e não há o outro. Portanto, não estou muito animada, não por causa dos trabalhos que fazemos individualmente, mas por causa de quem elegemos. Ainda assim, existem avanços que não serão revogados. As reivindicações do movimento negro não vão ser caladas. Pode ser que a gente tenha um tremendo embate, mas essa população foi muito empoderada e não vai voltar atrás. A questão social, a questão da origem de classe, essas coisas todas misturadas vão trazendo transformações que, espero eu, permaneçam.
Cristiane Curi Abud
29 Eu sou super otimista. Acho que nós fizemos conquistas que não voltam atrás, mesmo com todo conservadorismo do atual governo. Acho que tem pessoas que esse governo representa que sempre pensaram assim. Pessoas que não pensam assim vêm crescendo e acho que tivemos algumas conquistas sociais. Poucas, insuficientes, mas foram conquistas sociais que acho que é muito difícil a gente perder. É muito difícil abrir mão do que nós conquistamos.
Iracema Santos Nascimento Quando olhamos para a história, temos que conseguir abstrair um pouco o momento para nos enxergar como sujeitos históricos num determinado contexto, porque a história é muito maior. Viemos de lutas e vamos para lutas. As lutas nunca vão acabar. Isso faz parte da existência humana, sempre teremos interesses divergentes. Eu me mantenho com uma postura de esperança. Embora passemos por retrocessos, há muita resistência. Temos um avanço que não têm volta. As mulheres usando cabelo crespo, por exemplo, isso não tem volta. Parece uma coisa besta, mas não é. Hoje em dia tem muita menina usando cabelo crespo que não faz parte de movimento nenhum. Essa ação política de valorizar o cabelo crespo influencia a estética. Não é qualquer menina que usa cabelo crespo que participa de um movimento organizado. A pessoa já se reconhece como pertencente a si mesma. Eu me mantenho esperançosa por achar que tem retrocessos, mas também há avanços que não voltam. Isildinha Baptista Eu não sei como será lá na frente, mas eu tenho o desejo de que seja melhor. Eu tenho o desejo de que a gente possa avançar no reconhecimento de uma cidadania que seja para os seres humanos como um todo, não para amarelo, azuis ou cor-de-rosa. Nesse sentido, sou uma pessoa otimista. Mas como o racismo é uma coisa institucionalizada, não é algo que acontece da noite para o dia. Não acho que seja uma tarefa fácil, mas devemos nos esforçar. Quem
30 sabe um dia chegaremos lá. Não consigo dizer para você que isso é breve, porque esta é uma luta de uma vida toda para todos nós. A juventude é mais maleável a poder trocar as suas próprias escolhas e ideias do que as pessoas mais velhas, até porque elas estão experimentando a vida. Se os jovens começam a discutir sobre isso e começam a pensar sobre isso, a gente tem mais chances de rever toda essa tragédia do racismo, que não faz o menor sentido.
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APÊNDICE 2: Infográfico utilizado na reportagem
Infográfico: Leonardo Guimarães
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APÊNDICE 3: Entrevistas ENTREVISTA 1: Psicanalista Cristiane Abud Por que a sra decidiu organizar o livro O Racismo e o Negro no Brasil: Questões para a Psicanálise? Na introdução do livro a Noemi e a Maria contam a situação que houve em sala de aula. A Noemi é uma professora branca e a Maria Lucia era uma aluna negra. A Maria Lucia sentiu que aconteceu uma situação de racismo na classe, ela denunciou isso na hora e o grupo de alunos, junto à professora, puderam discutir sobre isso e elaborar um pouco melhor isso. Foi dentro dessa situação que surgiu a ideia de fazer um evento sobre o racismo, para discutir essa questão que a gente sabe que está aí nas entrelinhas da nossa sociedade. A gente tem uma sociedade que se diz democrática do ponto de vista racial, mas a gente sabe que isso é um engodo. A gente sabe que o racismo existe. Nessa sala de aula, por exemplo, a Maria Lucia era a única aluna negra. Por que que os lugares nas universidades não têm muitos alunos negros? Não têm muito alunos negros, quando têm alunos negros. Nós sabemos que a maioria é branca. Tudo isso é fruto de um racismo que está bem estruturado na nossa sociedade. Então, elas aproveitaram esse acontecimento na sala de aula para montar um evento no Departamento de Psicanálise para aproveitar isso para ampliar a discussão e trazer isso para outros professores e alunos que participam desse curso. Até então, eu não estava envolvida nesse assunto. Eu fui assistir aos eventos. Foram três encontros. Achei muito legal a forma como eles abordaram. Aí, como sou colega da Noemi, ela me convidou para organizar o livro porque eu tenho uma certa agilidade para fazer essas coisas. E na hora eu topei porque, como eu trabalho com saúde pública, depois desse evento eu fui tomando consciência do quanto isso estava presente também no meu trabalho. Eu aprendi muito sobre o racismo nessa era. É claro que era uma coisa que eu já tinha consciência, mas eu amplifiquei minha consciência com esse evento e com a organização do livro.
33 A ideia do livro é justamente poder atingir várias outras pessoas e poder ampliar a consciência das pessoas a respeito dessa questão violenta e tão importante na nossa sociedade. Como é a abordagem do racismo na psicologia como um todo e na psicanálise. Ainda tem coisas que precisam mudar? Eu acho que tem que mudar porque o tema racismo dentro da sociedade ainda é muito visceral e pouco dito, assumido. O brasileiro faz questão de dizer que não é racista. E a gente sabe que o brasileiro é racista. Basta você ir a um restaurante de classe média que você vai ver quem está sentado na mesa e quem está servindo. É muito claro. Eu acho que a psicologia, fazendo parte dessa sociedade, também tem muito que desenvolver esse respeito. Tem colegas que têm uma consciência maior, um cuidado maior, mas ainda existem psicólogos que quando um paciente negro, diz que sofreu racismo ou preconceito dentro do trabalho ou dentro da faculdade, vão tratar isso como uma fantasia e não como algo verdadeiramente vivido pelo paciente. Quando um paciente negro chega para mim dizendo: "olha, sofri preconceito no restaurante" eu não vou tratar isso como uma fantasia dele, como "ah esse cara está viajando e vamos ver por que ele se sente perseguido ou excluído", não. Eu vou escutar sabendo que vivemos em um País onde, de fato, essas coisas acontecem e vou tratar isso como uma realidade. Isso faz muita diferença para o paciente que está escutando. Porque a pessoa que vive na pele um preconceito como essa escuta de um psicólogo "olha, isso é uma fantasia da sua parte", a pessoa pode achar que está enlouquecendo. Isso faz muita diferença. Existe uma preferência de pacientes negros por psicólogos negros justamente por entenderem melhor? É um movimento forte, que vem por parte dos pacientes. Os pacientes negros tendem a preferir um analista negro, com toda a razão. Outro dia eu ouvi uma história de que uma paciente branca foi encaminhada para uma analista negra e na hora que ela entrou no consultório da analista disse: "acho que errei de endereço". Depois ela se deu conta do
34 que fez, ligou na analista, pediu outro horário, foi até lá e se desculpou pela reação dela e ficou. Aí ela fez a análise com essa analista. A analista negra estuda muito a questão do racismo, está super descolada com essa questão então pôde escutar a paciente. Existe uma dificuldade de nos reconhecermos como pessoas racistas. Como a senhor vê isto? Você pode perguntar se a pessoa tem preconceito ou se a pessoa é racista. São duas coisas diferentes. Uma coisa são os preconceitos que carregamos que é quase impossível não carregar porque a gente foi criado e vive dentro dessa sociedade. Outra coisa é o que você faz com o preconceito. A pessoa pode ser racista ou não e pode discriminar ou não. Essa moça que foi na analista negra tem o preconceito, foi racista no primeiro momento, mas voltou atrás. Tem uma grande diferença aí. Quando a gente vai se dando conta do preconceito a gente tende a atuar menos o racismo e a discriminação. Isso faz toda a diferença. Na nossa sociedade é impossível não termos algum preconceito. Agora, o que você faz com isso faz toda a diferença. Como pessoas brancas, que não têm a experiência do racismo, podem combater o racismo (se podem)? Eu tenho tentado abrir espaço para analistas negros. Eu trabalho na UNIFESP, no Departamento de Psiquiatria. A gente tem um serviço na UNIFESP que atende alunos. Então, me juntei com duas analistas negras e elas montaram uma roda de conversa com alunos cotistas da medicina, da fono, da enfermagem. Porque esses alunos têm as cotas nas universidades, mas eles sofrem o racismo no campus. Elas montaram essa roda de conversa para ajudá-los a permanecer no campus. Eu coordeno esse trabalho. Eu só posso simpatizar com a causa porque não vivo isso, mas eu acho que, como a gente ocupa lugares de poder e de fala na sociedade, a gente pode abrir espaço para os negros para eles irem ocupando os espaços de uma forma menos dolorida. Então, o combate ao racismo, por nós, passa por abrirmos mão dos nossos privilégios?
35 Passa por abrirmos espaço para os negros que não têm espaço. Deveria ser uma política de governo, mas pode ser uma política de toda a sociedade também. Abrindo espaço para eles existirem, porque eles vivem como pessoas invisíveis na sociedade. Então, por exemplo, esse livro que eu lancei, saiu esse primeiro volume, a Editora Perspectiva lançou uma coleção de livros sobre o racismo, mas só com autores negros. Então a gente abriu uma porta para eles entrarem. Dentro das famílias, que é uma coisa que eu me apeguei. Jovens estão mais conscientes? Olha, tem jovem que votou no Bolsonaro. Acho que tem um movimento social mais intenso de conscientização. Eu lembro que quando eu lancei o livro a minha família me disse: mas por que você está estudando isso? Existe mesmo racismo? As pessoas estranham um pouco. Uma parente japonesa ficou ofendida porque também sofre preconceito. Quem sabe em outro momento eu estude. Tem as pessoas que de cara empatizaram, fizeram questão de ir no lançamento, dizendo que precisamos trabalhar por isso. Acho que, socialmente, tem um movimento de abertura que a gente não perde mais. Nem o governo Bolsonaro é capaz de calar isso. Acho que as cotas nas universidades trouxeram um espaço maravilhoso para esses jovens. É uma geração que vai marcar história. Brigas dentro de casa. Qual a melhor forma para discutir? Não sei se tenho essa resposta, mas sou sempre a favor de uma coisa tranquila. Acho que o embate, ainda mais do jeito que nós estamos polarizados hoje, os embates tendem a ser diálogos vazios, é uma queda de braço que no final ninguém tem razão. Desde que escrevi esse livro eu tenho convivido muito mais com pessoas negras da minha área profissional. A convivência nem sempre é fácil porque a gente sempre trabalha com equipe e sempre que surge essa questão muitas pessoas lidam mal com elas e a gente fica cheia de dedos de como falar na frente de colegas negros para não magoar. Quer dizer, a gente não tem a cultura dessa convivência ainda e de todo respeito que essa convivência requer. A gente tem que medir muito as palavras. A gente mede quando você
36 está com uma pessoa branca, você não fala qualquer coisa para aquelas pessoas. Você fala coisas que não vão ofender, é uma questão de educação. Como a gente está muito acostumado a viver só os brancos e sempre sai piada de negros na presença de negros a gente tem de se conter. É uma questão de educação, não de politicamente correto. Como é o papel do acesso à informação no combate ao racismo? É fundamental. É necessário, mas não é suficiente. Acho que tem uma questão aí que vem de berço do respeito ao próximo que em algumas famílias isso é passado para os filhos e em outras não. Como conter isso? Hoje temos leis que criminalizam o racismo e, nesse sentido, a informação faz toda a diferença. A pessoa que carrega esse preconceito dela muitas vezes pode não conseguir se desfazer desse preconceito. Às vezes é uma condição que a pessoa não tem - de se desfazer do preconceito, de questionar o preconceito. Mas existem leis na sociedade que protegem os crimes raciais contra os negros e essa pessoa é obrigada a respeitar essas leis. A gente não pode exigir que ela não tenha preconceito, mas a gente pode exigir que ela não discrimine, porque é contra a lei. A senhora está otimista? Eu sou super otimista. Acho que nós fizemos conquistas que não voltam atrás, mesmo com todo conservadorismo do atual governo. Acho que tem pessoas que esse governo representa que sempre pensaram assim. Pessoas que não pensam assim vêm crescendo e acho que tivemos algumas conquistas sociais, poucas, insuficientes, mas foram conquistas sociais que acho que é muito difícil a gente perder. É muito difícil abrir mão do que nós conquistamos.
37 ENTREVISTA 2: Isildinha Baptista, doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo
O que a senhora acha importante destacar sobre racismo dentro do ambiente familiar? Primeiro, eu entendo é que o racismo é institucional, o racismo é de Estado. A partir do momento em que ele é institucional e de Estado, as famílias passam a manter, são mantenedores do racismo. Às vezes não são, necessariamente, aqueles que criaram o racismo, mas a grande questão é a gente se perguntar de que maneira que a gente mantém as ideias racistas. É uma questão muito complexa à medida em que eu teria de conhecer cada família para entender como cada família mantém isto. Fica muito difícil quando você pergunta de que maneira nas famílias isto acontece. Até porque não vem das famílias, é do Estado. É um racismo institucional. É algo institucionalizado, mas se as pessoas quiserem refletir sobre isso as pessoas podem sim se questionar de que maneira mantém algo que está posto na sociedade. O racismo institucionalizado não é cada família em si, as famílias mantêm. Talvez a questão seja: o que fazer para nos perguntarmos de que forma mantemos? Quais são as formas de manutenção desse racismo? É algo enraizado, uma coisa da qual não se livra tão facilmente assim. Precisaria de uma mudança, penso, do ponto de vista da humanidade. O racismo não acontece só no Brasil, ele não é pontual. Ele tem uma especificidade do Brasil porque aqui os negros vieram de uma determinada forma, se manteve a escravidão por trezentos e vinte anos. É como a nossa sociedade se organizou, mas o racismo contra os negros existe em qualquer lugar do mundo, inclusive na África. As famílias reproduzem, mas não são o grande motor do racismo. É isto? É mais ou menos isso. Elas não são as criadoras disso, mas elas são as mantenedoras disso. Elas mantêm isso. No meu modo de pensar existe uma manutenção de um mecanismo de Estado. Qual é o caminho para os brancos deixarem de ser esses mantenedores? Como devemos pensar no lugar de fala?
38 Acredito que não é o lugar que faz a fala, mas é a fala que faz o lugar. Essa coisa do lugar de fala para mim é um pouco estranha. Porque, na verdade, um negro pode dizer para você o ponto de vista dele de que ele não sofre racismo ou dizer que os negros são "mimimi". Não é o lugar que faz a fala, mas a fala que faz o lugar. Provavelmente ele não se via tão discriminado quanto os outros negros. Do ponto de vista da psicanálise, eu penso mais nas especificidades de cada um, como cada um sente essa questão. É meu instrumento de trabalho. Nós não somos seres iguais, somos seres singulares. Eu posso ter uma visão mais ampla, social, desde que entenda que o racismo é institucional e é uma questão de Estado. Eu creio nisto. Bom, como os brancos podem deixar de ser mantenedores do racismo? Partindo do princípio do reconhecimento da humanidade dos negros. O que significa reconhecer a humanidade do negro? É deixá-lo de ter como igual, até porque a igualdade que a socialdemocracia garante impõe deveres. Eu sou igual à medida em que eu tenho que pagar impostos como todos os brancos, eu tenho meu dever em relação ao Estado como todos os brancos, igualzinho. Eu tenho deveres, mas não tenho retorno dos meus deveres. Quando os brancos me perguntam isso eu digo: "bom, basta nos olhar como semelhantes, porque aí teremos as mesmas condições". Porque enquanto esse olhar da dessemelhança acontecer nós não vamos ser iguais. Só temos deveres, não temos nenhuma benesse em relação à vida. Não morremos igual, não trabalhamos igual, não ganhamos igual, não vivemos igual. Porque existe uma dessemelhança de olhar e de lugar. Acho que a mudança real vem de tirar o negro desse lugar, do não-semelhante. A democracia nos trouxe deveres iguais, mas não nos faz cidadão iguais aos brancos. Quando os brancos se atentarem para essa questão, da semelhança, quando eu for semelhante eu vou ser tratado igual, mas quando eu for dessemelhante eu vou ser tratado de uma maneira inferior. Começaria por aí. Basta eu ver o negro como um ser humano. Enquanto a sociedade não nos humanizar, literalmente, nós vamos viver nessa dessemelhança pelo resto da vida. Seremos iguais, porque somos cidadãos votam, que pagam impostos e têm deveres, mas não temos nenhuma benesse. Nós pagamos impostos como qualquer outro branco. No entanto, a universidade pública é para uma maioria de brancos e é com o meu dinheiro que esses brancos estão fazendo universidade. Agora, eu não tenho sequer o direito de chegar próximo da
39 Universidade. Eu tive, estudei lá, mas digo individualmente. Não é o caso da maioria, que nem sabe que paga para os brancos, não tem essa noção. Eu pago e tenho pouco direito a ter acesso. Todo mundo paga impostos quando paga a luz, por exemplo. Em perdizes nunca me falta luz, mas você vai na Zona Leste e sempre falta, mas eles pagam impostos do mesmo jeito. Dentro da família, debates sobre racismo têm o poder de mudar a sociedade a longo prazo, ou isto ainda é muito pequeno? Acho importante o diálogo, isso ajuda a uma tomada de consciência, mas não resolve. É o Estado quem deveria garantir a nossa cidadania e não faz isso. Se eu tivesse uma cidadania equiparada à cidadania dos brancos, isso faria com que os brancos pudessem repensar no negro em outro lugar. Enquanto o racismo for institucional em todas as instituições brasileiras atualmente temos um presidente declaradamente racista - isto não ajuda a população a entender que este não é o modo de tratar um semelhante. É uma coisa horrível, e aparece ao lado de um negro dizendo que é amigo como se fosse uma garantia de cidadania. Triste é esse negro que foi se prestar a uma coisa que não faz o menor sentido. Então é importante, mas não resolve? Não soluciona a situação, mas acho que é uma possibilidade de a gente ir a caminho de uma resolução mais ampla. A senhora está otimista e vê que os jovens estão mais sensíveis para esta questão? Eu não sei como será lá na frente, eu tenho o desejo de que seja melhor. Eu tenho o desejo de que a gente possa avançar no reconhecimento de uma cidadania que seja para os seres humanos, não para amarelos, azuis ou cor-de-rosa. Nesse sentido sou uma pessoa otimista. Mantenho esse desejo em mim. Como o racismo é uma coisa institucionalizada, não é algo que acontece da noite para o dia, não acho que seja uma tarefa fácil, mas deve existir permanentemente. Quem sabe um dia chegaremos lá.
40 Não consigo dizer para você que isso é breve, porque esta é uma luta de uma vida toda para todos nós. A juventude é mais maleável a poder trocar as suas próprias escolhas e ideais do que as pessoas mais velhas, até porque elas estão experimentando a vida e a juventude é uma possibilidade importante. Se os jovens começam a discutir sobre isso e começam a pensar sobre isso a gente tem mais chances de estar revendo toda essa tragédia do racismo que não tem o menor sentido.
41 ENTREVISTA 3: Noemi Moritz Kun, doutora em psicologia e estudiosa das relações étnico-raciais brasileiras Como foi organizar o livro O Racismo e o Negro no Brasil: Questões para a Psicanálise? O que isso mudou na sua vida? Isso tem continuamente mudado não só a minha mente apenas, mas como eu entendo a função analítica. A questão do racismo diz respeito a todos nós, à negritude e também à branquitude, que é o espaço, supostamente, de privilégio e que as pessoas desejam fazer plena manutenção. Como essa questão entrou na minha vida? Eu sou irmã de uma grande pesquisadora do assunto, a Lilia Moritz Schwarcz. Esta é uma temática, portanto, que está na nossa família em função das pesquisas dela. Mas provavelmente a pesquisa dela tem a ver com a nossa história, não que seja tão difícil quanto negros, mas sofremos, como uma família de tradição judaica, um outro tipo de preconceito, uma marca de discriminação, que tem a ver com a questão judaica e que, de alguma maneira, se vincula à discriminação estabelecida contra o negro no nosso País. Na nossa família tem fugitivos da Segunda Guerra, que perderam seu espaço, sendo consideradas personas non-gratas. Talvez, no nosso psiquismo a questão da discriminação sempre foi presente, tanto que a Lilia se voltou à questão dos negros, não à questão judaica, mas à questão da negritude no Brasil. A pesquisa dela foi muito importante para mim também. Isso jamais havia surgido na psicanálise para mim, a não ser por uma colega muito querida, a Isildinha Batista, que era minha colega em um grupo de psicanálise. Isso antes desse tema virar um tema para mim. A Isildinha dizia que as pessoas se surpreendiam quando uma psicanalista era uma negra ou traziam temas da sexualidade porque, supostamente, os negros sabem muito de questões sexuais. Como psicanalista ela trazia questões importantes sobre a falta de um pensamento psicanalítico sobre a questão da escravização, que é a base do nosso País. Primeiro foi a barbárie de dizimar os índios e depois quatro séculos de escravidão e depois das leis abolicionistas a continuidade da discriminação e da diferença de espeço entre brancos e negros. Então a Isildinha foi o segundo ponto.
42 O que me abriu essa perspectiva foi quando, como narro na introdução do livro, numa aula, a Maria Lucia da Silva, a outra organizadora do livro, denunciou uma fala racista em sala de aula e se ela não tivesse denunciado aquela fala como uma fala racista eu jamais teria ouvido. Supus, por muito tempo, que eu tivesse dito. Não fui eu, mas poderia ter sido. NO fim, todos nós somos atravessados por esse preconceito racial. Não é que esse tema jamais havia aparecido nos meus estudos, mas não teve participação desse tamanho. Assistimos a um documentário juntas e depois passamos o resto do ano falando sobre isso. Ao final do ano, a Lúcia propôs que fizéssemos um seminário maior sobre o tema. E aí o seminário foi feito em 2012, com gente que vinha de outras áreas porque na psicanálise, praticamente, nada havia e foi transformado nesse livro. Gostaria que a senhora falasse sobre as especificidades do racismo no Brasil. Tem um texto do professor Kabemgele Munanga que diz que a questão racial no Brasil é um crime perfeito. Nós fomos acostumados a pensar na democracia racial e esquecemos que isso é só um mito, isso não existe. Vemos todos os indicadores raciais, colocamos a população negra que é mais da metade do País em posição desvantajosa em educação, criminalidade, educação, em todo e qualquer critério e valores, de posição de trabalho, de assassinato, de cuidados médicos. Em todos os indicadores sociais a população negra está em desvantagem em relação à população branca. Isso é negado. É diferente do apartheid na África do Sul, é diferente do apartheid nos Estados Unidos e faz parecer que temos uma convivência feliz e saltitante. No Brasil este é um crime que foi recusado, é um crime negado pelo Estado brasileiro. Apesar das leis agora trazendo o racismo como um crime hediondo nós vivemos como se isso não existisse. A democracia racial é um mito que borda a democracia racial como uma coisa alegórica, mas já coloca as marcas de quem é melhor e quem é pior. A senhora considera que os jovens estão mais sensíveis para este tema? Eu estudei na USP e no meu ano não vi um negro. A depender do lugar onde você circula esta é uma questão evidente.
43 É certo que recentemente as questões do racismo vem ganhando um tipo de proeminência. Não era tema antes. Na psicanálise não era tema até 10 anos atrás. Nas ciências humanas isso vem sendo comentado, imagino eu, há duas décadas e meia. Depende do jovem, de onde circula, da classe social. Como o amadurecimento dos filhos impacta na vida dos pais, quando os filhos passam a não ser mais cópias do pais? O desenvolvimento psicosexual faz com que as crianças sim, se identifiquem aos pais, mas diferenciam também. Como adultos um dos grandes desafios é sair de casa, criar sua própria casa, sua própria capacidade de discernimento do mundo. E qual o impacto disso para os pais? Tem pais que desejam que seus filhos fossem cópias e há pais que têm prazer em ver que seus filhos são pessoas diferentes, que não precisam ser como eles para serem bons. Gostaria de entender por que os pais têm tanta dificuldade em aceitar opiniões divergentes dos filhos. Acho que é posicionamento narcísico desses pais, como diz Caetano Veloso, "Narciso acha feio o que não é espelho". Mas não são só os filhos que aprendem com os pais, nós também precisamos aprender com o outro, o outro é alguém que me abre outras janelas de percepção. Agora, se tenho uma posição narcisista eu vou me sentir apenas reprovado ao invés de ter uma posição de aprendizado. Isso é uma postura, do meu ponto de vista, da genitalidade, quando eu não consigo entender que o outro é outro e posso aprender com ele. Para aqueles que têm posicionamento narcisista qual é a melhor forma de mostrar discordância? Como os filhos podem se posicionar e, ao mesmo tempo, não gerar um conflito que pode afastar os pais do debate?
44 Com respeito, argumentações consistentes e compreendendo que, para os pais, certos temas são difíceis. As gerações trazem perguntas, temas e desafios diferentes umas paras as outras. Os jovens podem ser igualmente narcisistas, ao invés de entender o posicionamento dos pais, por que o pai ou a mãe não concorda com essas posições apresentadas. A gente precisa ser respeitoso e convocar o respeito do outro sobre os nossos posicionamentos. A senhora está otimista em relação ao futuro quando o tema é combate ao racismo? No momento, estou bastante angustiada com o nosso País. Infelizmente chegou ao poder uma pessoa antidemocrática, ainda que por vias democráticas. Existe desrespeito de todas as ordens às mulheres, aos índios, a uma população que precisa da força governamental para garantir uma boa educação, segurança, habitação e condições básicas de higiene. É um governo perverso, dentro das estruturas psicanalíticas de compreensão, é um governo que acha que está acima da lei e não há o outro. Portanto, não estou muito animada, não por causa dos trabalhos que fazemos individualmente, como o seu, mas por causa de quem elegemos. Mas existem avanços que não serão revogados, concorda? O sistema de cotas, por exemplo, nele eu desigualo para depois igualar. Acho que as pessoas que saíram do armário, por exemplo, não vão mais retroagir. As reivindicações do movimento negro não vão ser caladas. Pode ser que a gente tenha um tremendo embate, mas essa população foi muito empoderada e não vai voltar atrás. Se a Lúcia não tivesse denunciado uma fala racista eu não teria percebido. Vai se mudando a educação. Quanto mais pessoas oriundas dos vários campos regionais, a questão social, a questão da origem de classe, essas coisas todas misturadas vão trazendo transformações que, espero eu, permaneçam. Se a gente for pensar no que está acontecendo com as ditas democracias, não é bom.
45 ENTREVISTA 3: Iracema Santos Nascimento, professora da Faculdade de Educação da USP ( FEUSP) Qual o papel da educação escolar na vida de uma pessoa? É um processo inerente à vida humana. Dependemos da educação para nos tornamos humanos. Não nos tornamos humanos se não convivemos entre humanos. Esse tornar-se humano depende da educação como transmissão de valores, convivência num determinado ambiente cultural. Processo extenso da transmissão dos valores já estabelecidos naquela comunidade, das pessoas mais velhas que acolhem os novos seres humanos, tensão entre os já estabelecidos e o questionamento desses valores e criação de novos valores. De forma geral sempre existiu entre os agrupamentos humanos independente da agência escola, da instituição escolar. A partir dessa compreensão bem ampla compreendemos a importância da educação de forma geral. Podemos formar humanos mais tolerantes, conscientes de seu papel, ou menos. A escola é a instituição criada pelo ser humano especializada em educação, sobretudo na transmissão de conceitos científicos, porque você pode aprender matemática na sua casa pela prática, porque seu pai é um comerciante e aí você aprende alguns princípios. Na escola, você deveria ter acesso às explicações científicas daquela lógica e isso vale para outros domínios do conhecimento. É o lugar onde saímos do senso comum. Vai aprender as matérias, história, biografia, a partir de conhecimento acumulado, tido como legítimo. Como a educação pode contribuir no combate ao racismo? É preciso lembrar que estamos em um País que passou por um processo violento de colonização e escravismo de populações africanas. Essa mão de obra foi fundamental para o processo de acumulação de capital da Europa. Então, a educação tem o papel de, em todas as áreas do conhecimento, contribuir para todos, negros e brancos, compreendam as raízes históricas do racismo e se posicionem a respeito disso. O que isso significa? Primeiro, admitir que existe racismo e que ele é fruto dessas condições históricas determinadas.
46 A importância da educação é conhecer essas origens, saber o que foi essa violenta exploração colonial e coisificação do ser humano, com participação da igreja católica, que justificava e autorizava esse tipo de violência pela ideia de que aqueles seres humanos, africanos, não teriam alma. A outra solução importante é permitir compreender que as lutas de resistência contra a escravidão que ainda estão sob pesquisa e divulgação histórica. Por muito tempo aprendemos na escola de educação básica e mesmo no ensino superior sobre a escravidão e pouco aprendemos sobre a resistência e seus vários formatos. Isso é importante porque coloca as pessoas negras em outro lugar, não só do lugar inferior. Já há pesquisas sobre as revoltas negras no Brasil e esse conteúdo vai aos poucos chegando nos livros didáticos. A outra função é contribuir para que enxerguemos a contribuição da população africana na constituição da cultura brasileira. Falamos em cultura e é entendida como manifestação artística. Precisamos ter uma visão ampla de tudo que é produzido pelo ser humano. É em todos os âmbitos da cultura. Na criação dos mais diferentes ramos de atuação humana. Nas edificações, por exemplo, que foram erguidas por braços negros. É necessário inteligência para construir isso. Podemos imaginar isso acontecendo nas várias áreas. Como a educação pode trazer elementos desde a primeira infância para ajudar a combater o racismo na sua origem. Quando você compreende o outro como sujeito igual a você possivelmente isso vai – como medidas de precaução como o racismo. Pensando que o racismo estrutural que está aí, qual o papel da educação? Há algum tempo pesquisadores e ativistas preferem utilizar a ideia de educação para as relações étnico-raciais. Ampliar o foco das pesquisas do que antes era na pessoa negra para as relações entre pessoas negras e não-negras. O racismo está nas relações. O racismo não é um problema do negro, um racismo é uma questão estrutural que diz respeito a todos nós e afeta as pessoas negras e brancas de um modo diferente. Não dá para dizer que o racismo tem o mesmo efeito nos dois. Se o racismo desumaniza a pessoa negra, faz o mesmo com a pessoa branca. Qualquer ser humano que está num estágio de
47 respeito civilizatório há de concordar que atos racistas são violentos e a pessoa que comete também se constitui de maneira negativa, desumana. Esse racismo estrutural tratamos via educação para as relações étnico raciais. Às vezes se tem a ideia de que a escola só vai tratar dessas questões se só tiver pessoas negras na sala. É uma visão equivocada. Tem uma frase da Angela Davis: numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. Convoca todas as pessoas. Não discutimos em casa porque isso está fora de cogitação. Todos devemos estar preparados para enfrentar. É um processo civilizatório. Não significa que vamos conseguir mudar essencialmente pessoas racistas, mas precisam entender que, no mínimo, precisam se resguardar. Precisam saber que, no mínimo, podem ser processadas. Temos de ser esperançosos de que o trabalho de longo prazo vai modificando a sociedade aos poucos. Essa educação voltada às relações étnico-raciais é uma realidade do Brasil hoje? Aos poucos está acontecendo, mas ainda longe do necessário. Não com a expressão. Mas a questão da valorização do negro na cultura brasileira é uma reivindicação antiga do movimento negro. O preconceito de religiões de matriz africana termina se manifestando na escola. Tem vários casos de fundamentalismo religioso que não permitem certas discussões na escola. Vem acontecendo de maneira insuficiente e já enfrentando reação. O que tem acontecido é uma reação violenta. Conceito de branquitude. Não é para culpa. Não é para apontar o dedo para pessoas especificamente, mas para tratar disso como questão cultural. A formação do A senhora está otimista com o futuro? Quando a gente olha para a história temos que conseguir abstrair um pouco o momento para nos enxergarmos como sujeitos históricos num determinado momento, porque a história é muito maior. Viemos de lutas e vamos para lutas, as lutas nunca vão
48 acabar, porque isso faz parte da existência humana, sempre teremos interesses divergentes. Eu me mantenho com uma postura de esperança. Embora passemos por retrocessos, há muita resistência. Ao mesmo tempo temos um avanço que não tem volta. As mulheres usando cabelo crespo, por exemplo. Isso não tem volta. Parece uma coisa besta, mas não é. Hoje em dia tem muita menina usando cabelo crespo que não faz parte de movimento nenhum. Essa ação política de valorizar o cabelo crespo influencia a estética. Não é qualquer menina que usa cabelo crespo que participa de um movimento organizado. A pessoa já se reconhece como pertencente a si mesmo. Eu me mantenho esperançosa por achar que tem retrocessos, mas também há avanços que não têm volta.
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DIÁRIO DE CAMPO No início do projeto realizei uma pesquisa usando a ferramenta de formulários do Google para encontrar pessoas dispostas a falar sobre o tema. A partir das respostas, consegui bons personagens. Entrevistei cinco pessoas, mas julguei interessante incluir apenas três delas. Relevância e fluência do texto foram levadas em consideração para esta decisão. As especialistas foram encontradas a partir da pesquisa bibliográfica, realizada no primeiro semestre. Autoras de livros e teses importantes para a fundamentação teórica deste trabalho foram ouvidas. Todas se mostraram favoráveis à ideia do trabalho e colocaram à disposição para ajudar. Todas as entrevistas tiveram ótimo nível de fluência. Todas as fontes, tanto personagens como especialistas, se sentiram à vontade para falar sobre o assunto, sempre com conversas longas que renderam muito conteúdo para o texto. Durante o desenvolvimento do trabalho, houve uma mudança na escolha da mídia. A previsão era de realização de livro-reportagem. Porém, durante as orientações, fui aconselhado a produzir uma reportagem extensa para um veículo online. O motivo para isto é que o texto carecia de um grande fio condutor, como um personagem que conectasse tudo. Já que não haveria apenas uma história a ser contada, optei pela reportagem para um veículo online. Após esta decisão o texto ficou mais fluido por não se agarrar a uma tentativa forçada de encontrar um fio condutor para a reportagem. Pude utilizar recursos multimídia que ajudam a passar a mensagem para o leitor e direcionar a matéria a um grande veículo como o Nexo.