Skip to main content

RELATÓRIO METODÓLOGICO - Patricia Canuto

Page 1

UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL CURSO JORNALISMO

PATRÍCIA CANUTO DE ABREU

QUATRO DENTRE AS DEZOITO: O PRAZER E OS DESAFIOS DE SER MULHER POLÍTICA NO PAÍS DA SUBREPRESENTATIVDADE

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

São Paulo, SP 2019


PATRÍCIA CANUTO DE ABREU

QUATRO DENTRE AS DEZOITO: O PRAZER E OS DESAFIOS DE SER MULHER POLÍTICA NO PAÍS DA SUBREPRESENTATIVDADE

Relatório metodológico apresentado ao curso de jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, como requisito para a obtenção do título de bacharel em jornalismo

Orientador: Prof° Ms. Antonio Lucio Rodrigues Assis

São Paulo, SP 2019


PATRÍCIA CANUTO DE ABREU

QUATRO DENTRE AS DEZOITO: O PRAZER E OS DESAFIOS DE SER MULHER POLÍTICA NO PAÍS DA SUBREPRESENTATIVDADE

Aprovado em 26 / 11/ 2019

BANCA EXAMINADORA


FICHA TÉCNICA

TÍTULO : Quatro dentre as dezoito

CARACTERISTICAS TÉCNICAS Produto: Reportagem extensa voltada para a Web Caracteres: 27643 Site publicado: https://www.projetonexojornal.com/

REPORTAGEM, PAUTAS E PRODUÇÃO Patrícia Canuto de Abreu

ORIENTAÇÃO Prof. Me. Antônio Lucio Rodrigues Assis

ENTREVISTADOS: Marina Helou (31 anos) – Deputada estadual Beth Sahão (62 anos) – Deputada estadual Erica Malunguinho (37 anos) – Deputada estadual Leci Brandão (75 anos) – Deputada estadual


RESUMO

Com a trajetória e depoimentos de quatro deputadas da Assembleia Legislativa de São Paulo, o presente produto e

reportagem extensa buscou

responder

associadas

as

questões

que

possam

estar

com

a

baixa

representatividade da mulher na nossa política institucional. Apesar das histórias e repertórios diferentes, essas mulheres além de terem a luta feminista como algo em comum, também deram seus primeiros passos ainda muito jovens e tiveram a educação como principal ferramenta

Palavras chaves: Representatividade, política, luta e educação.


Dedico esse trabalho a minha famĂ­lia e a todas as mulheres de luta do meu passado, presente e futuro.


Agradeรงo a Deus. Aos meus pais e amigos, em especial ao Higor Del Carmo, por todo o apoio. Aos meus mestres professores queridos


SUMÁRIO

1.

INTRODUÇÃO .......................................................................................... 9

2.

OBJETIVOS ............................................................................................ 11

3.

PROBLEMATIZAÇÃO E HIPÓTESES .................................................... 12

4.

JUSTIFICATIVA ...................................................................................... 14

6.

REFERENCIAL TEÓRICO ...................................................................... 18

7.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 23

8.

CRONOGRAMA ...................................................................................... 26

9.

INVESTIMENTOS ................................................................................... 27

10.

APÊNDICE ............................................................................................. 28

11.

ANEXOS ................................................................................................ 60


9

1. INTRODUÇÃO O presente trabalho de pesquisa foi desenvolvido para pautar uma nova reflexão acerca da sub-representatividade da mulher na política brasileira, com depoimentos e a história de quatro deputadas da Assembleia Legislativa de São Paulo. Apesar das mulheres já terem conquistado grandes direitos, principalmente no que tange à educação e ao mercado de trabalho, a presença dela na política ainda se encontra muito aquém do desejado. Segundo uma pesquisa realizada pela União Interparlamentar (UIP) em parceria com a Onu Mulheres (2017) 1o Brasil ocupa a posição 167° no ranking de participação das mulheres no executivo, ficando atrás de países como o Irã e o Iraque. Em relação ao ranking de participação no congresso, o país ficou na 156°, com 55 cadeiras da câmara ocupadas por mulheres, e 12 dos 81 assentos no Senado ocupados por representantes femininas. Mas claro que não posso deixar de mencionar e considerar todos os avanços das mulheres na nossa política até hoje. No Brasil, até o início da República Velha ser mulher era se submeter, cuidar da casa e obedecer ao marido. Com a decepção da constituinte de 1890, que excluía as mulheres do direito ao voto, começaram a surgir grupos de mulheres em diversas partes do Brasil que passavam então a lutar pelo direito ao sufrágio. Em 1910, antes mesmo da chegada de Bertha Lutz, Leolinda Daltro liderou o Partido Feminino Republicano, uma estratégia para pautar o direito de voto das mulheres. Foi ela quem conseguiu fazer com que fosse apresentado o primeiro projeto de lei a favor do sufrágio feminino, em 1919. O senador Justo Chermont, autor da proposição, sofreu pressões que levaram ao adiantamento da discussão do projeto, o que somente ocorreria em 1921, sem, no entanto, jamais ser realizada a segunda e necessária rodada de votação para converter o projeto. (GRAZZIOTIN; MORAES; e BARBALHO, 2015). Em 1927, o Rio Grande do Norte deu o direito do voto a primeira eleitora, 1

Disponível em https://nacoesunidas.org/brasil-fica-em-167o-lugar-em-ranking-de-participacao-demulheres- no-executivo-alerta-onu/ <Último acesso em 17/06/2019, ás 17h04>


10

Celina Guimarães Viana ‘’ foi ela quem requereu o alistamento baseado no texto constitucional do estado que mencionava o direito ao voto sem distinção de sexo". (GRAZZIOTIN; MORAES; e BARBALHO, 2O15). Dois anos depois, em 1929, o estado elegeu a primeira prefeita da América do Sul, Alzira Soriano, que ficou à frente da cidade de Lajes. A iniciativa do estado trouxe novas discussões no Poder Legislativo Federal e, mobilizou dezenas de mulheres brasileiras que já não se intimidavam com o conservadorismo da época. ‘’A partir desses fatos, outras eleitoras foram requerendo alistamento nos mais diversos estados brasileiros, conquistando o direito da prática, diante da realidade, não restou outra alternativa que não regulamentar o direito do voto. (GRAZZIOTIN; MORAES; e BARBALHO, 2015). De lá para cá, o papel feminino na sociedade passou por diversas transformações. No ano de 1997 mais uma conquista na política foi alcançada pelas mulheres brasileiras. A lei de cotas, de 30 de setembro, que garante 30% da participação política nas chapas eleitorais, além de 5% do valor da campanha para incentivar uma maior representação da mulher na política foi aprovada. Já no ano de 2018, na Assembleia Legislativa de São Paulo, de 10 cadeiras as mulheres passaram a ocupar 18, e a primeira mulher transgênero foi eleita. Mas, mesmo com grandes conquistas registradas ao longo da história, o campo da política no Brasil, como podemos ver nas pesquisas apresentadas, é quase que dominado por homens. Sendo assim, o presente trabalho acadêmico e produto jornalístico tem como base estudar os motivos que levam as mulheres brasileiras a enfrentar a sub- representatividade na política.


11

2. OBJETIVOS Os acontecimentos referentes às últimas eleições de 2018 trouxe à tona, de uma forma mais agressiva, discussões e conflitos acerca dos direitos das minorias. Em se tratando da mulher, nos deparamos com novas pesquisas que mostraram que, ano vai e ano vem, elas continuam sendo sub- representadas na política do país, mesmo já sendo maioria e adentrando as universidades e ao mercado de trabalho. Além do mais, estudos também revelaram que muitos são os partidos que burlam as leis de cotas com as chamadas mulheres laranjas. A partir disso, temos a necessidade de realizar o presente trabalho, para que possamos denunciar este problema, mostrando que nossa sociedade ainda não compreendeu que a mulher pode, deve e tem capacidade para estar nos maiores cargos.

a. Objetivo Geral

●

Analisar de forma profunda as questões que envolvem a subrepresentatividade da mulher na política Brasileira.

b. Objetivos especificos ●

Esclarecer ao leitor como se dá a baixa representatividade feminina na política brasileira, dando voz às mulheres da política de São Paulo, além de mostrar qual a importância da mídia nessa questão e como o jornalista precisa se comportar referente a mulher-candidata.


12

3. PROBLEMATIZAÇÃO E HIPÓTESES O problema de pesquisa encontrado para a construção deste trabalho diz respeito a baixa representatividade da mulher na política brasileira, mesmo depois da sua entrada em massa no mercado de trabalho e nas universidades, sendo assim, por que ainda é difícil para as mulheres exercerem grandes cargos na nossa sociedade? Para responder essas questões temos as seguintes hipóteses: a. O carater machista da sociedade Um dos motivos que podem estar por trás da sub-representatividade da mulher na política, nos remete ao machismo da nossa sociedade. Hoje, mais do que nunca, o direito das mulheres vem sendo confrontados e, muitas pessoas tem discursado palavras que mostram o quanto nosso país ainda não suporta a ideia de viver em equidade. Exemplo disso é a fala do atual presidente nacional do PSL, ao ser questionado sobre as cotas de gênero na política e a polêmica acerca de seu partido liderar pesquisas que revelam mulheres laranjas 2. Luciano Bivar respondeu desta forma ‘’Eu acho que é uma questão de vocação (...), a mulher tem outras preferências, ela prefere assistir o Jornal Nacional e criticar do que entrar na vida partidária, não é muito da mulher”. Para Stuart Mill (2006, pg.30), o poder atual apresenta uma linguagem mais suave, e seja quem for que tal poder coloque sob opressão é sempre com a intenção de fazer o bem, deste modo, quando algo é proibido para as mulheres, considera-se necessário dizer e desejável acreditar que elas são incapazes de fazê- lo.

b.

Os limites da lei de cotas e como modificar esse cenário A lei eleitoral Brasileira que exige 30% de participação feminina na política

foi sancionada em 1997, mas desde então estudos e pesquisas comprovam que pouco foi o avanço das mulheres na política brasileira. Esse limite pode se dar principalmente porque partidos burlam as leis de cotas com as chamadas ‘’Mulheres Laranjas’’. O estudo mais recente foi realizado pelas professoras Malu Gatto, da 2

Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/02/politica-nao-e-muito-da-mulher-dizpresidente-nacional-do-psl.shtml <Último acesso em 17/06/2019 ás 17h20>.


13

University College London, e Kristin Wyllie, da James Madison University, a pesquisa, revelada com exclusividade pelo portal de notícias BBC News Brasil 3, revelou que todas as 30 legendas com representação no Congresso Brasileiro tiveram mais de 10% de possíveis candidatas laranjas. O termo “laranja”, neste sentido, se refere a uma pessoa que assume um cargo no papel, mas não na prática. Os partidos ao invés de cumprir com a lei e realmente buscar uma efetividade das mulheres na política, preferem adotar cada vez mais essa medida para boicotar as regras.

A política reproduz muitos dos conceitos machistas da sociedade. A começar pelos próprios partidos políticos, que não oferecem condições para as mulheres se candidatarem (...) as mulheres ainda enfrentam grandes dificuldades e preconceitos ao decidirem adota a vida política. Os partidos, muitas vezes, além de não darem o devido espaço para a presença feminina, também não contam com uma estrutura que facilite a sua participação. Eles não dão condições para as mulheres se candidatarem (PAIVA, 2006).

3

Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47446723 <Último acesso em 17/06/2019 ás 17h22>


14

4. JUSTIFICATIVA A importância para a criação deste projeto reside principalmente nos problemas ainda enfrentados pelas mulheres no que tange à participação na política, e como o nosso cenário sociopolítico atual e a mídia vêm questionando e confrontando os desafios acerca da igualdade de gênero. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) 4as mulheres são maioria no Brasil com 51, 6% e também no eleitorado com 51,7%. No mercado de trabalho já é notável um grande avanço, mas é preciso lembrar que elas ainda sofrem preconceitos por parte de empresas, 27,1% 5das mulheres brasileiras recebem menos que os homens. Os dados também revelam que os cuidados com os filhos e afazeres domésticos é quase que dobrado em relação a eles. Claro que essa questão não tem que ser vista como uma possível hipótese para a sub-representatividade da mulher na política, mas sim servir de reflexão para entender que a mesma sociedade, que insiste em dizer que a mulher não é suficiente para exercer grandes cargos, coloca a grande responsabilidade do lar e da criação dos filhos inteiramente na figura materna. Na vida pública os dados de 2017 mostram que as mulheres ocupam 10,5% dos assentos da Câmara dos Deputados, nos cargos gerenciais 60,9% são ocupados por homens e apenas 39,1% ocupados por mulheres. Mas vale ressaltar que esse número aumentou na última eleição, agora as mulheres são 15% das cadeiras da casa. Ao delimitarmos para a cidade de São Paulo, podemos observar que os números não são muito diferentes, isso porque segundo o levantamento da Consultoria Pública para o Movimento Transparência partidária6, entre os anos de 2008 e 2016 tivemos 2,5 mais de candidaturas masculinas do que femininas. São um total de 2.553 homens, contra 1.00O mulheres. Os números apontam ainda que os números de mulheres eleitas chegaram a apenas 14%, uma diferença

4

Disponível em https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101551_informativo.pdf<último acesso em 17/06/2019 ás 17h07>. 5 Disponível em http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/496489 <último acesso em 17/06/2019 ás 17h09> 6 Disponível em https://exame.abril.com.br/brasil/a-dificil-vida-politica-das-mulheres-em-sp-nobrasil-e- no-mundo/ <Último acesso em 17/06/2019 ás 17h11>.


15

gigante em comparação aos 86% de homens eleitos. Neste sentido, a relevância do projeto parte dos números em diversas pesquisas ao longo dos anos que revelam que pouco foi o avanço feminino na política brasileira e, como a sociedade se comporta de maneira preconceituosa referente a mulher, principalmente as que resolvem ingressar na vida pública.


16

5. PLANO ESTRATÉGICO

a. Título: Quatro dentre as dezoito b. Mídia: Digital c. Classificação: Indicado para todos os públicos A reportagem extensa "quatro dentre as dezoito" foi construída com o intuito de trazer uma nova discussão acerca da sub representatividade da mulher na política brasileira, demilitando para a Assembléia Legislativa de São Paulo. Com o depoimento de quatro deputadas estaduais, buscamos responder as possíveis hipóteses que podem estar associadas com nossa problematização, além de também mostrar os desafios que foram enfrentados por elas para que ambas hoje estejam ocupando um cargo, que ainda no Brasil, é majoritariamente ocupados por homens heteros e brancos. Durante a construção da reportagem, mais precisamente nos depoimentos dessas mulheres, foi notório observar que ambas tiveram seus primeiros passos ainda na educação usando suas escolas e universidades como principal ferramenta. Foi a partir dessa percepção que nos surgiu a ideia de futuramente transformar o nosso site, que será autêntico, em um espaço educacional, onde meninas e meninos possam, através do jornalismo, entender e se interessar ainda mais pela nossa política e a partir dai poder compreender a importância de termos esse espaço ocupado tanto por homens quanto por mulheres. Sendo assim procuramos trazer, talvez ainda em uma forma sucinta, o debate da educação em nossa reportagem. Os valores para a construção deste projeto se remete na segurança da informação, respeitando e dando voz as histórias de Beth Sahão, Erica Malunguinho, Marina Helou e Leci Brandão. Essa técnica usada foi necessária para que essas mulheres pudessem se sentir confiantes na hora de nos relatar sobre os seus desafios no campo da política e como elas enxergam o principal problema apontado neste trabalho teórico. A ideia, como já foi dita acima, se consolidou em construir uma grande reportagem voltada para o jornalismo digital. A web foi escolhida por acreditarmos que ela está cada vez mais ocupando seu espaço e se tornando essencial no meio jornalístico. De início queremos alcançar os nossos adolescentes e jovens, mas


17

claro que também desejamos que outras pessoas possam ler a nossa reportagem, por isso optamos por deixar livre para todos os públicos. No momento de pensarmos em qual site seria recomendável para publicarmos "quatro entre as dezoito", o Nexo Jornal foi o que mais nos interessou. Com anos no meio digital e diferente de outros jornais na web, o Nexo tem um olhar mais sensível para as questões voltadas para a desigualdade social. Somente durante algumas semanas em que o estudamos, conseguimos captar diversas matérias que trazem um debate para a equidade de gênero. No ano de 2018, por exemplo, o jornal foi responsável por construir uma série de reportagens a respeito da representatividade feminina na politica. A nossa reportagem contém características encontradas no Nexo, tal como a fonte Sintenel Smd corpo 12. mas como diferencial trouxemos a reportagem extensa, ainda não veiculada no jornal, além de vídeo multimídia. Durante a criação do projeto sete fontes foram contatadas por e-mail, sendo que dessas sete foram entrevistas quatro. Para a captação dos audios foi usado p gravador do celular Samsung J7, as imagens também foram tiradas com a camara do aparelho, mas vale ressaltar que algumas imagens foram cedidas pelas entrevistas, devido ao pouco tempo em que elas tiveram para a realização das fotos. Em um dos topicos de nossa reportagem abordamos a forma como a mídia enxerga as mulheres políticas e tivemos a opinião de algumas de nossas fontes. É importante mencionar que entramos em contato com o Nexo jornal, na intenção de que eles pudessem nos responder algumas questões voltadas para o tema, porém o mesmo retornou o nosso contato informando que não respondia questões opinativas, mas que estaria a disposição para demais questionamentos. Deixaremos um print dessa resposta anexada a este trabalho. Como metodo de pesquisa, usamos a qualititiva e aplicadas, uma vez que que lidamos com fatos históricos e histórias de vida. No nosso aspecto metológico tivemos como base estudos de teses e dissertações, além de livros essencias para entendermos a principal questão apontada neste trabalho. Posteriormente as entrevistas das deputadas foram a soma para a finalização do trabalho.


18

6. REFERENCIAL TEÓRICO Para que este trabalho e futuro produto jornalístico tenha base teórica foi-se necessário a leitura das obras: "Política: palavra feminina, a reivindicação dos direitos das mulheres, mulheres e poder: um manifesto, entre outros. Vamos começar por entender sobre a trajetória das mulheres na luta pelos seus direitos. Sabemos que os primeiros registros da luta feminista surgiram ainda no século XVIII, época em que a Europa passava por uma grande transformação em decorrência da revolução francesa

O século XVIII e suas revoluções deram muita atenção aos direitos dos homens. Mesmo que atualmente possamos ver essas lutas iluministas como a busca dos direitos de todos os seres humanos, percebemos pelo texto de Wollstonecraft que esse não era o caso. Por exemplo, a ideia aristotélica de que as mulheres não tinham alma ainda permeava a sociedade ocidental, enquanto Rousseau (1712-1788) acreditava que as mulheres

eram

incapazes

de

pensar

abstratamente.

(WOLLSTONECRAFT, 2015 p. 12)

Nascida na segunda metade do século XVIII, Mary Wollstonecraft foi uma das pioneiras em perceber e denunciar a educação que era imposta às mulheres. Sua obra considerada o primeiro grito feminista é também atemporal e, foi dedicada principalmente, ao filósofo Charles M. Talleyrand, cujo discurso na Assembleia Nacional da França não a agradou. Em um trecho ele diz: ‘’A casa paterna é a melhor para a educação das mulheres, elas devem aprender menos sobre a necessidade de lidar com os interesses dos outros e habituar-se mais a uma vida calma e isolada’’ (WOLLSTONECRAFT, 2015 p.14). Boa parte desses ensinamentos se davam sobre o pretexto de que as mulheres eram inferiores por uma questão genética, mas segundo Wollstonecraft ‘’admito que a força parece oferecer ao homem uma superioridade natural sobre as mulheres, mas essa é a única base sólida para a construção dessa ascendência sexual".


19

Para ela, tanto os homens quanto as mulheres foram colocados ao mundo para desenvolver-se, sendo assim as mulheres também tinham o direito e deveriam ser educadas, mas para isso elas precisariam desenvolver razão, pois só assim entenderiam quais as suas verdadeiras obrigações. "Elas deixariam de lado o mundo das meras aparências, o mundo dos desejos insaciáveis, que era a base da sociedade do século XVIII, conforme explicado lucidamente por Adam Smith (TOMASSELLI, Sylvana apud WOLLSTONECRAFT, 2015 p.14). O debate acerca dos papéis de gênero como construção social não parou em Wollstonecraft, muito pelo contrário, sua obra abriu caminhos e causou uma grande revolução na luta pelos direitos femininos, trazendo mais à frente uma asserção muito significativa das mulheres na vida pública. Quase cem anos depois da ‘’reivindicação para os direitos das mulheres’’, a escritora, filósofa e ativista política Simone de Beauvoir, em o Segundo Sexo (1949) nos vai dizer que não acreditava que existiam valores, qualidades e modo de vida especificamente femininos e, acreditar nesta hipótese seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. No Brasil, a luta feminista se fez presente principalmente após a chegada da paulista Bertha Lutz ‘’Líder do movimento que conseguiu significativos sucessos na conquista de direitos das mulheres, Bertha Lutz inicia sua campanha no Brasil após seu retorno da Europa, em 1918. ’’. (SOIHET, Raquel 2000 p.97). Mas antes mesmo de sua chegada, ainda na década de 1830 o manifesto de Nísia Floresta, que inclusive foi inspirado na obra de Mary Wollstonecraft, abriu caminhos para os debates feministas no país inteiro ‘’ de qualquer forma, no Brasil, desde o protesto de Nísia Floresta, na década de 1830, manifestaram-se com mais força insatisfações femininas. Constituiu- se aqui uma imprensa feminina, cujo primeiro periódico, O Jornal das Senhoras, data de 1852, seguindo-se outros, como o de Josefina Álvares de Azevedo, que conjugava duas lutas: a do abolicionismo e a do feminismo’’. (SOIHET, Raquel 2000). Mas embora as mulheres estivessem se mostrando engajadas, a luta ainda seria muito árida e, em meio a um cenário machista, elas enfrentariam diversas barreiras até a consolidação do voto feminino em 1934.


20

Porém, a trilha para as mulheres seria espinhosa. As autoridades, políticos em geral, juristas negam-se a considerar positivamente as pretensões da autonomia feminina respaldam-se na ciência da época, sinônimo, naquele momento, da verdade absoluta. Apelando para tais convicções e para os prejuizos acarretados a familia, já que esse era seu espaço prioritário, buscam limitar as mulheres nas suas ações, desejos e emoções, naturalizando determinações historicamente e socialmente estabelecidas (SOIHET, 2000 p.100).

E assim como as mulheres também se utilizaram da mídia para pautar as questões feministas, os homens ao perceberem que elas estavam cada vez mais chegando perto do rompimento com o mundo privado, se utilizaram de jornais e revistas para ataca-las. Segundo Roos Mallmann, Márcia Fernanda de Mello (2012), ‘’às críticas a tais mudanças foram de uma acidez corrosiva. Sabe-se, que uma maneira de criticar, rebaixar e desconsiderar o outro é através do humor ao fazer graça, diante de suas ações. A zombaria e o deboche foram fortes armas anti-sufragistas e anti-feministas em revistas e jornais’’. Para Raquel Paiva (2006), " A representação pública das mulheres na mídia não é homogênea, porque corresponde as distintas expectativas. No entanto, não se pode separar essa representação dos valores sociais dominantes, presentes em todas as esferas da intervenção social e da cultura". Nesse sentido, é notório observar que em muitos casos as mulheres são pautadas de acordo com o senso comum. Ainda de acordo com Raquel Paiva (2006). " Ao agirem dessa maneira, os jornais reproduzem os preconceitos e atuam na cena cotidiana como se fossem o cidadão comum no ato de contar uma piada, um chiste, ou até mesmo uma fofoca, em que o preconceito aparece de maneira velada, mas sempre reforçada. Essa estrutura narrativa tem efeitos tão ou mais reafirmadores do senso comum que discursos sérios e formais”. As mulheres em muitos momentos aparecem nas colunas da imprensa, ou como musas, ou masculinizadas ou como vimos mais acima ridicularizadas "Mais uma vez, o destaque, em se tratando de mulheres, em vez das ideias e questões centrais das negociações, esteve na maneira de vestir-se ".( PAIVA, raquel 2006 p.121). Tal representação também foi percebida pela professora de classes Mary Beard " em outras palavras, não temos modelo para a aparência de uma mulher poderosa, a não ser que ela se parece bastante com um homem. Os terninhos regulamentares, ou pelo menos as calças compridas, usadas


21

por tantos líderes políticas no Ocidente, de Angela Merkel a Hillary Clinton, podem ser convenientes e práticos, podem ser um sinal da recusa em se tornar uma escrava da moda, o que é o destino de tantas esposas de políticos; mas são também uma simples tática - como engrossar o timbre da voz- para fazer com que a mulher pareça mais masculina e adequada ao papel de poder (BEARD, mary 2018 p.63). Mas vale ressaltar que todos esses casos descritos acima vieram de pesquisas especificas e não tão recentes. Sabemos que a mídia e o jornalismo têm suas mudanças constantes e, devido ao advento da internet e principalmente das redes sociais, as pautas que discutem a desigualdade social e de gênero estão ganhando mais força no jornalismo digital, televiso, impresso e também radiofônico. Saindo do campo teorico e adentrando ao nosso projeto experimental, é importante mencionarmos a respeito da escolha do produto, bem como a mídia selecionada. O jornalismo digital surgiu em meados dos anos 90, mas naquela época haviam poucos pesquisadores interessados em estudá-lo, isso porque para muitos deles o jornalismo digital, assim como a própria web não passavam de um modismo. Hoje é quase inevitável não perceber a importância das mídias sociais e de como o jornalismo digital tem ganhado força no meio da sociedade. Segundo Ferrari, Pollyana (2010), os impactos provocados pela utilização das novas tecnologias de comunicação ocasicionaram transformações no ser humano, no seu modo de pensar e ver o mundo. Mas as novas tecnologias não vêm somente mudando as pessoas, mas também a maneira de se fazer jornalismo. ‘’pelas práxis tradicionais, o controle da informação está no emissor (jornalista). Nas práxis do jornarlismo digital, deve se privilegiar o sujeito (sujeito conectivo: receptor), ele quem decide. Caindo assim por terra a teoria do Gatekeeper (FERRARI, Pollyana p.77). Entre

as

principais

caractéristicas

do

jornalismo

digital

está

a

hipertextualidade e a interadividade. É o momento em que o leitor pode, por meio de seu tablet celular e computador, interagir e propor ideias, tudo em tempo real.


22

As hard news ‘’notícias rápidas’’ se tornaram um pilar do jornalismo digital, que necessita acompanhar a rapidez e influência da internet. Nesse caso vale mencionar o que nos levou a realizar uma reportagem extensa para esse meio. Fenônemo recente na web jornalismo, a reportagem extensa ou longform vem ganhando cada vez mais espaço em sites e portais noticiosos. O termo inglês Longform é usado para definir o tratamento mais longo e aprofundado de um tema. Segundo Longui e Winques (2015) outros sites que exploram o longform são grandes veículos de referências, como o The Guardian e o The New York Times, que há algum tempo fizeram uma clara opção pelo texto longo e isso não apenas em projetos multimídias, como também em artigos diarios. Da mesma forma, vários outros veículos optaram por ampliar suas narrativas jornalísticas incluindo a opção longform. Por fim vale lembrar que escolhemos esses autores para mencionar em nosso aspecto téorico, porém outras teses, dissertações, livros e notícias foram lidos para que a construção deste projeto fosse possível.


23

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAUJO, Rita de Cassia Barbosa de. O voto de saias: A constituinte de 1934 e a participação das mulheres na política. 2003. 18 f. Tese (Especialização em História) - Universidade de São Paulo, São Paulo,2003. BARROS FILHO, Clóvis de. teorias da comunicação em jornalismo: reflexões sobre a mídia. São Paulo: Saraiva, 2010. 143 p. 5 v. BEARD, Mary. Mulheres e poder: um manifesto. São Paulo: Planeta do Brasil, 2018. 125 p. BRASIL, Nações Unidas. Brasil fica em 167°lugar em ranking de participação de mulheres no executivo, alerta ONU. 2017.Disponível em: <https://nacoesunidas.org./brasil-fica-em-167o-lugar-emranking-coparticipaçãode- mulheres-no-executivo-alerta-onu/>. Acesso em: 5 jun. 2019. BRASIL, Portal BBC News. Candidatas laranjas: pesquisa inédita mostra quais partidos usaram mais mulheres para burlar cotas em 2018. 2018. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47446723>. Acesso em: 27 maio 2019. BRUM, Juliana de. A hipótese da Agenda Setting:: estudos e perspectivas. 2003. Disponível em: <razonypalabra.org.mx/anteriores/n35/jbrum.html#jb>. Acesso em: 07 nov. 2019. CAIO, Sartori. Por que fazer um gráfico para esse assunto?: a metodologia do Nexo Jornal. 2017. Disponível em: <brasil.estadao.com.br/blogs/em- foca/porque-fazer-um-gráfico-para-esse-assunto-a-metodologia-do-nexo-jornal.>. Acesso em: 11 nov. 2019. CALEGARI, Luiza (Ed.). A difícil vida política das mulheres em SP, no Brasil e no mundo. 2018. Disponível em: <https://exame. Abril. com.br/brasil/a difícilvida- politica- das mulheres-em sp-no- brasil- e- no- mundo/>. Acesso em: 5 jun. 2019. CHISTOFORI, Elaine Cunha. O Jornalismo do futuro: o processo de comunicação no jornalismo digital. 2006. 87 f. Monografia (Graduação em Jornalismo) - UFJF FACOM, Minas Gerais,2006. FÁBIO, Rodrigues. Características que sustentam as reportagens longform


24

na internet. 2016. 152 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Comunicação social) - Centro Universitário de União de Vitória, UNIUV, Vitória,2016. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 5. ed. São Paulo: Loyola, 1996. 79 p. GRAZZIOTIN, Vanessa. Mais Mulher na política, mulher tome partido! São Paulo: Senado Federal, 2015. 57 p. IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -. Estatísticas de gênero: indicadores socias - as mulheres no Brasil. 2017. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/multidominio/genero/20163estatisticas-de-genero-indicadores-sociais-das-mulheres-nobrasil.html?edicao=20164&t=resultados>. Acesso em: 19 jun. 2019.

LÍVIA, Machado. mulheres representam 10,6% da atual legislatura da Assembléia

de

SP.

2018.

Disponível

em:

<g1.globo.com/sp/sao-

paulo/notícia/mulheres-representam-106-atual-legislatura da Assembleia de SP>. Acesso em: 11 nov. 2019. MATTOSSO, Camila. 'politica não é muito da mulher'diz presidente nacional do PSL. 2019. Disponível em: <https://WWW1.folha.uol.com.br/poder/2019/02/politicanao- e-muito-da-mulher-diz-presidente-nacional-do-psl.html>. Acesso em: 5 jun. 2019. MARINA, Estarque. Além da notícia: site brasileiro inova ao investir em jornalismo de contexto 2017. Disponívelem: <knightcenter.utexas.edu/ptbr/blog/00-18238-alem-da-noticia-site-brasileiro inova-ao-investir-em-jornalismode-contexto-e-multidis>. Acesso em: 11 nov. 2019.

MARK, Briggs. Jornalismo 2.0: como sobreviver e prosperar. Maryland: Knight Fondation, 2007.

MILL, Stuart. A Sujeição das Mulheres. São Paulo: Escala, 2006. 140 p.WOLLSTONECRAFT, MARY. Reivindicação dos direitos das mulheres: O primeiro grito feminista. São Paulo: Edipro, 2015. 378 p. PAIVA, RAQUEL. Política: palavra feminina. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008. 239 p.


25

POLLYANA, Ferrari. A força da mídia social: interface e linguagem jornalistica no ambiente digital. São Paulo: Factash, 2010.

WOLLSTONECRAFT, MARY. Reivindicação dos direitos das mulheres: O primeiro grito feminista. São Paulo: Edipro, 2015. 378 p.


26

8. CRONOGRAMA Tabela I – Cronograma Etapa 2 ( 2° semestre de 2019). AGO

SET

Busca de referencias

X

X

Leitura de referencias

X

X

Estudo teorico

X

X

Contato com as fontes e entrevistas

X

X

OUT

NOV

FASES

Construçao da reportagem

X

X

X

X

Redação do relatório final

X

Revisão do relatório final

X

Banca Pública

X

DEZ


27

9. INVESTIMENTOS

ITEM

QUANT

VALOR UNITÁRIO

VALOR TOTAL

Criação da reportagem extensa

1

_

_

Revisão do texto

1

Realizada pelo orientador em conjunto com a autora

_

Transporte

18

R$ 12,90

R$ 232, 20

4

Cedidos pela autora

Construção do site

1

R$ 450, 00

R$ 450, 00

Alimentação

18

R$ 4,00

R$ 72,00

43

R$ 466,90

R$ 754,20

Equipamentos de gravação

TOTAL


28

10. APÊNDICE

APÊNDICE A – Pautas

PAUTA

NOME DO VEÍCULO

EDITORIA

TEMA/ASSUNTO:

EDIÇÃO

Mulheres na POLÍTICA

política de SP: Os

05__/_09____/2019_____

desafios da subrepresentatividade HISTÓRICO

No contexto social da maior cidade da América Latina, as mulheres já se mostram muito presentes nas diversas áreas de trabalho, mas assim como no restante do país, elas lidam com uma baixa representatividade na política que aparece em diversas pesquisas realizadas ao longo dos anos. São números preocupantes se pararmos para refletir que assim como os homens, as mulheres também possuem o direito de estarem atuando em espaços de poder. Sendo assim, traremos em nossa reportagem a empatia e a pluralidade necessária para dar voz às mulheres que atuaram e atuam na política da cidade. Tal medida será necessária para que o público que leia possa refletir e entender que as mulheres podem e tem capacidade de serem representadas nos parlamentos, mas em muitos casos, elas de alguma forma são boicotadas e impedidas.


29

PERSONAGEM BETH SAHAÃO

Perguntas:

Vamos conhecer a deputada Beth Sahaão

Qual o momento em que a política chegou até a senhora?

Qual a reação das pessoas próximas?

Quais são os principais fatores que provocam essa sub-representatividade?

Beth, consegue nos descrever alguns momentos em que a senhora foi alvo de machismo? Fora e dentro da Assembleia?

Como burlar esse sistema? Quais os meios para que nós, mulheres, possamos usar para driblar as provocações e chistes?

Acompanhando sua trajetória, vi que a senhora foi a responsável pela criação de um projeto de lei que proíbe homens - agressores de mulheres - a exercer cargos públicos, além do projeto que obriga o funcionamento das DDM’s 24h. Entendemos que leis como essas são extremamente importantes em se tratando da situação de violência contra a mulher que vivemos não somente em São Paulo, mas também no país. Sendo assim, como essa questão é vista pela Alesp? E como foi abordada pela mídia?

A senhora acredita que existe uma certa resistência em aprovar projetos que buscam a promoção da igualdade de gênero?


30

A lei de cotas para as mulheres na política foi sancionada em 97 , mas desde então não tivemos um grande avanço na participação feminina, principalmente porque partidos costumam tentar burlar a lei com as chamadas mulheres laranjas. Qual sua opinião para mudar esse cenário?

Beth, como a senhora acredita que a mídia aborda a mulher na política? Acredita que ela também pode ser culpada desse cenário?

A senhora já foi alvo de machismo por parte da mídia e jornais?

Consegue me citar alguns desses momentos?

Por fim, meu plano futuro é construir um site educacional, voltado para os jovens e principalmente nossas jovens, com o objetivo de promover uma maior participação feminina na nossa política. Peço que a senhora deixe um recado a todas elas.

ALINHAMENTO EDITORIAL - ENFOQUE/ANGULAÇÃO 

Entrevistas com as personagens

Construção da reportagem extensa

Criação do site e decupagem do material

OBSERVAÇÃO


31

PAUTEIRA:

REPÓRTER:

PATRICIA

PATRÍCIA

PAUTA

NOME DO VEÍCULO

EDITORIA TEMA/ASSUNTO: EDIÇÃO Mulheres na política de SP: Os _05___/__09___/_2019____ POLÍTICA desafios da sub representatividade HISTÓRICO

No contexto social da maior cidade da América Latina, as mulheres já se mostram muito presentes nas diversas áreas de trabalho, mas assim como no restante do país, elas lidam com uma baixa representatividade na política que aparece em diversas pesquisas realizadas ao longo dos anos. São números preocupantes se pararmos para refletir que assim como os homens, as mulheres também possuem o direito de estarem atuando em espaços de poder. Sendo assim, traremos em nossa reportagem a empatia e a pluralidade necessária para dar voz às mulheres que atuaram e atuam na política da cidade. Tal medida será necessária para que o público que leia possa refletir e entender que as mulheres podem e tem capacidade de serem representadas nos parlamentos, mas em muitos casos, elas de alguma forma são boicotadas e impedidas.

PERSONAGEM MARINA

Vamos conhecer a Marina Helou

Qual o momento em que a política chegou até você?


32

Qual a reação das pessoas próximas?

Ao longo da minha pesquisa, pude comprovar que um dos grandes fatores para a sub-representatividade da mulher na política, senão o maior deles, é o caráter machista enraizado em nossa sociedade, você também concorda?

Marina, consegue nos descrever alguns momentos em que você foi alvo de machismo? Fora e dentro da Assembleia?

Como burlar esse sistema? Quais os meios para que nós, mulheres, possamos usar para driblar as provocações e chistes?

Marina, acompanhando sua trajetória vi que você é uma das responsáveis por fundar o movimento ‘’vote nelas’’, que tem o objetivo de trazer mulheres para todo o legislativo do país. Quais os resultados? e como tem sido a luta para uma maior participação feminina na política?

Você acredita que existe uma certa resistência em aprovar projetos que buscam a promoção da igualdade de gênero?

A lei de cotas para as mulheres na política foi sancionada em 97 , mas desde então não tivemos um grande avanço na participação feminina, principalmente porque partidos costumam tentar burlar a lei com as chamadas mulheres laranjas. Qual sua opinião para mudar esse cenário?

Marina, durante meus estudos em relação ao tema, pude perceber que a mídia, jornais e jornalistas abordam a mulher política, em algumas vezes, visando seu comportamento, suas roupas, trejeitos. Em outros casos até as comparando com os homens. Sendo assim, você acredita que a mídia tem o seu papel nesse cenário de sub-representatividade?


33

Você já foi alvo de machismo por parte da mídia e jornais?

Consegue me citar alguns desses momentos?

Por fim, meu plano futuro é construir um site educacional, voltado para os jovens e principalmente nossas jovens, com o objetivo de promover uma maior participação feminina na nossa política. Peço que a senhora deixe um recado a todas elas.

OBSERVAÇÃO Perguntas adicionais: Qual a consequência de uma sociedade com a baixa representatividade da mulher?

PAUTEIRA (O) Patrícia

PAUTA

REPÓRTER Patrícia

NOME DO VEÍCULO

EDITORIA

TEMA/ASSUNTO: A

Política

sub-

EDIÇÃO

representatividade da _05___/__09___/_2019____ mulher na política brasileira HISTÓRICO

No contexto social da maior cidade da América Latina, as mulheres já se mostram muito presentes nas diversas áreas de trabalho, mas assim como no restante do


34

país, elas lidam com uma baixa representatividade na política que aparece em diversas pesquisas realizadas ao longo dos anos. São números preocupantes se pararmos para refletir que assim como os homens, as mulheres também possuem o direito de estarem atuando em espaços de poder. Sendo assim, traremos em nossa reportagem a empatia e a pluralidade necessária para dar voz às mulheres que atuaram e atuam na política da cidade. Tal medida será necessária para que o público que leia possa refletir e entender que as mulheres podem e tem capacidade de serem representadas nos parlamentos, mas em muitos casos, elas de alguma forma são boicotadas e impedidas.

PERSONAGEM LECI

Perguntas:

Quem é a Leci?

Há uma diferença da Leci política para a Leci Cantora?

Qual o momento em que a política chegou até a senhora? O que te motivou e quais foram os critérios para seguir com o PCdoB?

Qual a reação das pessoas próximas no momento em que a senhora resolveu entrar na política institucional?

Na sua opinião, quais são os principais fatores que provocam essa subrepresentatividade?

A senhora é engajada luta por pela igualdade racial. Como é ser mulher negra em uma sociedade machista e racista? Como promover e buscar uma maior participação de mulheres negras na política?

Em se tratando de machismo, consegue nos descrever alguns momentos em que a senhora foi alvo de machismo e? Fora e dentro da Assembleia?


35

Como burlar esse sistema? Quais os meios para que nós, mulheres, possamos usar para driblar as provocações e chistes? E como trazer as mulheres para política?

A senhora acredita que existe uma certa resistência em aprovar projetos que buscam a promoção da igualdade de gênero?

A lei de cotas para as mulheres na política foi sancionada em 97, mas desde então não tivemos um grande avanço na participação feminina, principalmente porque partidos costumam tentar burlar a lei com as chamadas mulheres laranjas. Qual sua opinião para mudar esse cenário?

Leci, como a senhora acredita que a mídia aborda a mulher na política? Acredita que ela também pode ser culpada desse cenário?

A senhora já foi alvo de machismo por parte da mídia e jornais?

Consegue me citar alguns desses momentos?

Como a senhora vê o atual cenário para as meninas que desejam entrar na política? Por fim, meu plano futuro é construir um site educacional, voltado para os jovens e principalmente nossas jovens, com o objetivo de promover uma maior participação feminina na nossa política. Peço que a senhora deixe um recado a todas elas.

OBSERVAÇÃO

Solicitar a Assessoria de Imprensa a enviar releases para os jornais digitais nexo, folha de SP e nexo, para analisar a recepção dos jornais em relação a mulher política.


36

PAUTEIRA (O)

REPÓRTER

Patrícia

Patrícia

APÊNDICE B

Transcrição das entrevistas

MARINA HELOU Qual o momento em que a política chegou até você? Resposta: A política como construção de um espaço comum sempre foi algo que eu gostei, que estava dentro de mim. Eu acredito que as pessoas nascem com vocações e eu acho que essa era uma coisa que sempre esteve comigo. Na escola eu fundei o grêmio, fui presidente, fundei três organizações sociais. Organizava eventos, trabalhos voluntários, além de outras várias coisas. Sempre participei de g iniciativas, porque eu acho que isso era uma coisa que eu gostava e que me fazia bem. Mas eu nunca tinha pensado em entrar na política institucional, nem quando eu estava na faculdade e acho que isso tem muito a ver com a falta de referências. A gente não tem referências de mulheres na política, quando fechamos os olhos pensamos político como um homem branco, mais velho, profissional. Mesmo tendo feito administração pública, eu entrei porque eu queria trabalhar no terceiro setor. Lá eu tive mais contato com o governo e com a política, mas continue sem pensar em fazer parte desse movimento. Entrei em uma grande empresa, estava trabalhando. Em 2013 quando teve as manifestações, eu comecei a me envolver com os movimentos, achei legal. Então em 2015, procurando mais opções de me envolver e me engajar em movimentos ativistas, dentro dos termos que eu gostava, eu conheci a Raps - Rede de ação política pela sustentabilidade, lá eu conheci muita gente que já estava entrando na política institucional e eu vi que poderia ser uma possibilidade. Comecei a me engajar e pensar mais sobre o tema. De 2015 a 2016 eu queria atuar em uma campanha, para aprender como funciona, pois, eu não conhecia ninguém que já havia feito campanha, quanto mais estar na política. Só


37

que eu queria que fosse de mulher, jovem, que falasse de sustentabilidade, que tivesse algumas das pautas em que eu queria trabalhar. Não tinha nenhuma opção, então minhas amigas falaram ‘’por que você não vai? Nós vamos contigo, a gente aprende junto’’. Fizemos um encontro e dele eu me candidatei a vereadora aqui em São Paulo, realizamos a campanha sem saber nada e aprendemos muito. Já em 2018 eu resolvi ser candidata a deputada e, então, esse é o primeiro mandato.

Quando você resolveu entrar na política institucional, qual foi a reação das pessoas próximas?

Resposta: No primeiro momento foi de incredulidade, não conseguiram entender o que eu estava falando. Depois veio as oposições, principalmente dos meus pais. Ainda é um lugar de muito receio, né? Eles falavam que a política não era um lugar para mim, que era muito perigoso, que eu estava sendo muito idealista e que eu não conseguiria transformar o que acredito e com isso me frustraria. Mas depois que eu me banquei e tive a certeza de que era isso mesmo que eu queria, as pessoas ao redor se engajaram bastante e isso foi fundamental na minha trajetória. Tanto meus pais, quando meu marido, minhas amigas foram essenciais como apoio, como suporte e incentivo.

Ao longo da minha pesquisa, pude comprovar que um dos grandes fatores para a sub-representatividade da mulher na política, senão o maior deles, é o caráter machista enraizado em nossa sociedade, você também concorda? Resposta: eu acho que super com certeza. A estrutura patriarcal da sociedade é construída de uma forma de que as mulheres não ocupam esse espaço, então, a gente criou um viés inconsciente de que a figura feminina não pode estar nos espaços de poder, tanto que eu nunca pensei em entrar na política. Eu não tinha nenhuma referência interna que me pudesse acreditar que era possível e isso é um ciclo que se propaga, porque daí as estruturas vão cada vez mais se referenciando e a gente acaba diminuindo as chances de mais mulheres adentrarem a política. Isso ficou muito claro para mim na minha própria campanha. Quando eu estava em campanha, eu escutava muito na rua ‘’ mas você tem cara de menina, o que você vai fazer lá? lá não é lugar para você.’’ Em uma democracia representativa a gente


38

não tinha que ter isso, a gente tinha que ter a segurança de que a política é um espaço para todo mundo. Mais do que isso, todo dia eu escuto ‘’você não tem cara de deputada’’, a gente precisa construir um espaço que deputada não tenha cara e que todas as pessoas possam ser. Quando a gente quando olha nos dados vemos que o Brasil está na posição 139° do ranking de 180 países, que mete a participação da mulher na política. Ficamos atrás toda a América Latina e de países como Paquistão e Iraque que tem muito menos empoderamento feminino, mas que já conseguiram o valor dessa questão. Isso tem muito a ver com a falta de normas que possam mudar esse regimento. Hoje nós temos uma lei de cotas que garante a participação de mulheres nas campanhas, mas que não garante a cota de cadeiras. Nisso já fazem mais de dez anos e a gente nunca alcançou o mínimo de 30% de eleitas em eleitas em nenhum dos níveis, nem nos congressos nacionais, assembleias. O que isso quer dizer? Que a lei não está funcionando, então cada dia mais eu estou convencida de que precisamos ter cotas de cadeiras, por um tempo, transitórios e que já estivesse determinada, mas que por um tempo pudesse garantir que 50% de mulheres e 50% de homens nos espaços da política. Quando eu levanto essa questão, escuto de muitos homens que isso é um absurdo, que eu quero excluí-los e que eu quero criar uma rigidez permitindo que a gente crie cotas, mas se a gente pensar que as mulheres não podiam nem votar e que por muitos anos elas não puderam ser eleitas, nos mostra que os homens, por um bom tempo, também tinham cotas na política que garantiam suas cadeiras. O que queremos é equiparar isso e repensar em um novo viés, uma nova consciência para entendermos que a política é para todos e, assim, as cotas já não serem mais necessárias. Marina, consegue nos descrever alguns momentos em que você foi alvo de machismo? Fora e dentro da Assembleia? Resposta: no primeiro dia que eu cheguei, logo que eu entrei, eu estava super feliz com a sensação de estar em um lugar novo, super orgulhosa. Veio um deputado antigo da casa e me deu um beijo no rosto - sendo que eu nem o conhecia - e me disse - ‘’você não precisa se preocupar a gente já fez uma votação e você é uma das deputadas mais bonitas da casa e com isso você pode ficar tranquila’’. Como se minha competência, quem eu estou representando e minhas pautas não fosse importante e a única coisa que importasse fosse minha aparência física. Ele ainda


39

achou que era um elogio, então são várias pequenas situações dessas. Mas sim, aqui na Alesp existe um espaço de respeito para com as mulheres e eu tenho muito orgulho de fazer parte da legislatura da casa com o maior número de mulheres, porém a gente ainda está falando de 80% de homens. Quando a gente observa quem ocupa os maiores cargos aqui, a gente só vê homens. Então ainda existe uma estrutura patriarcal, uma configuração, por exemplo, a gente só começa a trabalhar terça, quarta e quinta e votar mesmo no plenário somente às 19h e ficamos aqui até às 23h30. Um horário de quem não tem maiores responsabilidades, como cuidar da casa e família. Essa estrutura prejudica tanto as mulheres como os homens e a gente tem muito que lutar para mudar isso.

Marina, acompanhando sua trajetória vi que você é uma das responsáveis por fundar o movimento ‘’vote nelas’’, que tem o objetivo de trazer mulheres para todo o legislativo do país. Quais os resultados? E como tem sido a luta para uma maior participação feminina na política?

Resposta: O vote nelas surgiu no momento em que estávamos se aproximando das eleições e entendemos que a sociedade vivia o momento bem polarizado e distante dos partidos que não vinham comprido seu papel de conectar as pessoas com o espaço de poder e, que os movimentos cívicos de política ganhavam muita força. Os movimentos de renovação, de preparação de político, de apresentar novos candidatos ou de pautas. Quando a gente olhava esse cenário a gente via que nenhum deles tinha a questão de gênero na política como uma questão central e que isso sim era uma questão urgente para o país enfrentar, quando a gente olha todos os benefícios onde tem mais mulheres na política reproduzem. Então a gente resolveu montar um coletivo de nove mulheres que, mal se conheciam e, começamos a fazer várias reuniões para colocar de pé uma iniciativa de incentivar e pautar a questão de gênero na política. Mais do que apresentar candidatas apresentamos candidatas em todos os estados - o movimento venho com o intuito de colocar a importância de votarmos em mulheres. Vote nelas. Marina, durante meus estudos em relação ao tema, pude perceber que a mídia, jornais e jornalistas abordam a mulher política, em algumas vezes, visando seu comportamento, suas roupas, trejeitos. Em outros casos até as


40

comparando com os homens. Sendo assim, você acredita que a mídia tem o seu papel nesse cenário de sub-representatividade? Resposta: Acho que sim, em reforçar essas estruturas. Como a estrutura patriarcal é um pilar da sociedade, todas as instituições refletem isso de alguma forma. A política, a imprensa, a academia, as famílias porque isso está na forma como as pessoas criam um consciente delas. Precisamos de muito esforço para mudar isso. E isso é constante, essa questão de apontar sempre o cabelo, a roupa das mulheres e nunca ser assim como os homens, é um ótimo exemplo.

Você já foi alvo de machismo por parte da mídia e jornais? Resposta: Não me recordo.

BETH SAHAÃO

Qual o momento em que a política chegou até a senhora?

Resposta: Na verdade desde o ensino médio que eu era muito atenta a isso, meu pai sempre conversou sobre política dentro de casa e, acabou que nos influenciando. Sempre assinou os principais jornais de circulação o Estadão e a Folha, que são até os dias de hoje e, isso acabou dando um norte para nós. Todos os filhos se interessam pela política. Quando chegou o momento de eu ir para a universidade, as coisas ficaram mais intensas, eu fui participar de diretório, mas ainda no ensino médio e fundamental eu participei de grêmios estudantis. Estudei na Universidade estadual de Londrina e me envolvi com o DCE. Quando me formei continuei militando, até entrar no PT. Daí para a frente sempre na militância, nunca com cargos eletivos, até que a gente ganhou a prefeitura de Catanduva e eu fui ser secretária de governo da prefeitura. Fizemos um ótimo mandato, naquela época estávamos sendo liderados pelo PT e existiam muitas mulheres nos cargos. Por coincidência meu irmão que era prefeito e mais da metade do secretariado era composto por mulheres, até em secretárias que não se era muito comum imaginar mulheres, como em esporte, finanças, administração, chefias de gabinetes e


41

governo. A partir deste ponto decidimos juntos que eu teria que ser candidata, ganhei e daí já percebi que era um pouco diferente, porque você percebe mais dificuldades. Quando você está no executivo existe uma outra lógica da política, porque você tem a caneta e em um governo como aquele em que era equilibrado e existiam bastante homens e mulheres, não era perceptível a dificuldades das mulheres na política, isso falando da minha experiência, não do cenário global a qual sabemos que percentualmente nós ainda estamos muito longe de atingirmos, não, de chegarmos perto pelo menos do que nós temos de representatividade do conjunto do eleitorado, temos 52% de eleitores, aqui no estado, por exemplo, não temos essa proporção na representatividade em nenhum lugar. Eu desconheço, a não ser que a gente descubra aqui uma cidade, de 645 municípios do estado, uma cidade onde a câmara municipal, por exemplo, tenha mais mulheres do que homens. A minha cidade de quase 130 mil habitantes, não tem nenhuma mulher na câmara e já é a segunda legislatura consecutiva. Lembro que quando teve, teve uma apenas. Então isso numericamente não se manifesta, as mulheres continuam sendo minoria. Em relação aos cargos ocupados pelas mulheres nos parlamentos, também é complicada, porque aqui na Assembleia nós nunca tivemos uma presidenta, os cargos mais altos da mesa nunca foram ocupados por mulheres, ou seja, nem a presidência, nem a primeira secretária, nem a segunda. Isso demonstra que há uma grande barreira ainda para que as mulheres ocupem cargos que são importantes do ponto de vista da decisão, que denotam um empoderamento mesmo, porque uma coisa é quando a gente trata da participação das mulheres, tudo bem as mulheres foram mais para a política, foram mais para o mercado de trabalho… mas outra coisa é como você trata do empoderamento, qual a qualidade dessa ocupação, qual a dimensão, como as mulheres podem influenciar de fato com suas decisões outras mulheres, ou outros homens, a sociedade de modo geral, então em relação a isso acredito que ainda estamos muito aquém. Claro houveram muitas conquistas, não vou negar, até porque estou aqui por conta delas. Mas ainda falta muito, por exemplo, o financiamento para as mulheres fazerem suas campanhas é mais difícil, não é à toa que tivemos recentemente as denúncias de mulheres laranjas. O PT nesse sentido sempre foi um partido de vanguarda, porque ele foi o primeiro partido a levantar a questão paritária no executivo, ou seja, você tem que ter 50% de homens e 50% de mulheres, também no diretório. Depois a questão das cotas internas, que primeiro foi dentro do PT,


42

para depois se tornar uma realidade da lei eleitoral a qual estabelece que voce tem que preencher as vagas para a disputa no legislativo de 30% de mulheres e, se você não preencher corretamente a porcentagem, é obrigado a retirar um homem, isso é bacana. Eu penso que em função dessas denúncias a qual tivemos na candidatura majoritária do presidente, a legislatura terá uma fiscalização mais dura, para que não ocorra o mesmo nas eleições municipais.

Ao longo da minha pesquisa, pude comprovar que um dos grandes fatores para a sub-representatividade da mulher na política, senão o maior deles, é o caráter machista enraizado em nossa sociedade, você também concorda?

Resposta: Sim, você tem fatores que são históricos, a condição da mulher historicamente vem dificultando a participação. Primeiro nós tivemos direito ao voto em 1932, mas foi efetivado mesmo apenas na década de 40, devido aos milhares de entraves encontrados no meio do caminho. Então a entrada da mulher na política já foi tardia, né? Então isso já é um ponto negativo. Toda a maneira em que a mulher está exposta na sociedade traz dificuldades, por exemplo, a questão da nossa cultura machista, que sempre estabeleceu que o público é do homem e o privado é da mulher, nesse sentido, a política adquire uma certa limitação para milhões de mulheres ainda. ‘’política? Isso aí não, isso é o meu marido que discute’’. Claro que com o tempo isso melhorou, não melhorou a qualidade, melhorou as discussões, por conta das redes sociais e das mulheres que falam, algumas falam até umas bobagens, mas falam, estão ali se manifestando. Também a questão da divisão do trabalho doméstico, a educação dos filhos os quais ainda são responsabilidades principal da mulher e, com isso, acaba sobrando pouco tempo para pensar em outras atividades. Quantas e quantas mulheres, por exemplo, que eu vou convidar para eventos e ouço: ‘’eu tenho que falar com meu marido’’, como se ela tivesse que ter a autorização, como se precisasse ter a autorização para poder chegar e participar, isso quando não o marido a conduz para ela poder participar. Mas quem dita as regras, quem faz os acordos e as condições de disputa ou, posteriormente, em uma eventual disputa, as vezes é o marido, quantas e quantas vezes eu vejo isso. Mulheres que estão no executivo, chefes do executivo em prefeituras, quantas e quantas vezes é o marido que dá as cartas. Já foi em prefeituras onde a mulher


43

era a prefeita, mas era o marido quem despachava, ele quem decidia de fato e de direito, praticamente. Então são coisas que é o resultado da nossa cultura machista, da submissão feminina, do preconceito que ainda cai sobre as mulheres, principalmente as que têm vida pública. Eu acho que a política ainda ela deveria ser, pela lógica, a área onde houvesse a maior participação feminina, ainda está longe disso. Nós temos um grande número de mulheres médicas, engenheiras, na própria justiça, há muitas promotores e juízas. Mas ainda na política, agora que nós demos o salto aqui, de dez mulheres passamos para dezoito, porém precisávamos ver e eu faço questão de salientar isso, que mulher que chega aqui? São aqui de fato quer romper com o machismo, com a misoginia, com a cultura sexista, ou é a mulher que reproduz tudo isso? Isso que temos que observar. Votar em mulher é importante, ter mulheres nos representando é importante, agora qual mulher é essa que vai nos representar? Porque às vezes é mais fácil ter um homem do que uma mulher que reproduz o machismo, às vezes até mais que os próprios homens, porque incorpora, né? Como se fizesse parte do cotidiano delas, mas não faz. Reverter essa situação não é tão fácil assim.

Como podemos mudar esse cenário? Como trazer mais mulheres que querem mudar esse cenário para a política?

Resposta: Primeiro é fazer com que elas tenham entendimento de que a política é um espaço importante de decisão e transformação social. A política é transformadora quando usada de forma correta, inteligente, criativa e com focos. Foco de investimento, de prioridade, com prioridade sobre tudo, ela é transformadora. A mobilização é importante, a organização das mulheres em grupos, a participação em eventos e manifestações, em debates, isso tudo é fundamental para trazermos mais mulheres, mas você tem que ter o trabalho de base e, o trabalho de base está na educação, na medida em que você busca uma educação igualitária. Falam em ideologia de gênero, mas não é isso, é ter uma educação que seja a mesma para meninas e meninos e, que a meninas saibam que elas têm o mesmo direito, o mesmo espaço que os homens. Que elas também podem ter a mesma perspectiva de sonhos que os rapazes, porque a partir daí que se faz nascer pessoas que querem estar eventualmente nos espaços públicos para


44

poder atuar de forma a transformá-los, porque senão você não consegue a participação dessas mulheres, não que você tenha esse tipo de educação e essas mulheres vão estar na política, não necessariamente, mas você pode prepará-las para onde elas estiverem poder atuar de forma a poder transformar o ambiente a qual elas estão, com empoderamento, com capacidade de decisão, de convicção das suas respostas. Então tudo isso é um conjunto de iniciativas que precisa ser implementado cada vez mais e de políticas públicas. Quando a gente cria, por exemplo, a Secretaria Especial de Políticas Públicas para as mulheres, criada no governo Lula, é para sinalizar isso, é para ter políticas para as mulheres. Não se faz política para as mulheres sem investimento, quando você muda a lei eleitoral para contemplar estatisticamente mais mulheres na política, é também para aumentar essa representatividade, quando o Supremo toma decisões que colocam homens e mulheres em uma equidade de gênero, também é para isso. É um somatório de coisas que precisamos fazer para almejar isso. A gente não vai conseguir se continuar assim, com o aumento dos estupros, do feminicidio, do suicídio de mulheres, pois aí fica difícil de você melhorar a autoestima feminina e trazê-la para a participação no mundo da política, para que ela tenha o exercício da vida pública, principalmente os cargos eletivos, onde ela vai disputar a eleição e vai ganhar, etc… da fiscalização também, que os órgãos de controle possam fiscalizar, para que chegue o recurso do fundo partidário na mão das mulheres, para que elas possam também fazer, porque o gasto é enorme. O mesmo que o homem vai gastar, a mulher vai gastar. Ela também tem o direito de ter esses recursos para que Elas possam viabilizar a sua candidatura, para que a mesma seja vitoriosa. Eu acho que é por aí, sem muito segredo. Que essas somatórias possam encorajar mais mulheres a participar da política, é isso que queremos. Agora esse é um ponto, a outra questão que você coloca: as mulheres de esquerda têm mais desenvoltura para levantar temas que são mais importantes na política e com a uma participação mais agressiva, mas não agressiva do ponto literal, mas elas talvez tenham um maior preparo, porque tem mais militância, porque estão mais presentes em movimentos sociais, sindicais. Então quando elas vêm para a política, elas trazem essa carga toda que é fundamental para o dia a dia da política, isso tudo tem peso. Respondendo, eu acho que tem sim uma diferença, é nítida. Aqui mesmo nesta casa, se você reparar a participação principalmente no plenário, nas comissões, nas audiências e tal, você vai ver que essas mulheres mais progressistas têm uma


45

participação mais intensa. Mas isso não significa que não exista mulheres de direita que também tem essa intensidade, talvez aqui não, porém no Senado Federal, por exemplo, você tem mulheres que sabem muito bem defender o lado delas.

Acompanhando sua trajetória, vi que a senhora foi a responsável pela criação de um projeto de lei que proíbe homens - agressores de mulheres - a exercer cargos públicos, além do projeto que obriga o funcionamento das DDM’s 24h. Entendemos que leis como essas são extremamente importantes em se tratando da situação de violência contra a mulher que vivemos não somente em São Paulo, mas também no país. Sendo assim, como essa questão é vista pela Alesp? E como foi abordada pela mídia?

Resposta: No caso das delegacias 24h da mulher, eu tive o apoio dos 93 deputados (a) da casa, todos, foi meio que unânime. O problema foi o governador, que é vaidoso e quer ser ele o autor. Como o projeto era muito bom e foi aprovado, ele veto, alegando que seria ele a colocar as delegacias em funcionamento. São 133 delegacias da mulher em funcionamento no estado e estudos apontam que, a presença da delegacia por si só reduz em 17% a violência contra a mulher, se ela funcionar aos finais de semana, feriados e período noturno, já temos indícios de que esse percentual pode melhorar ainda mais. Então, não caiu do céu, esse projeto foi resultado da nossa militância e ativismo nos movimentos de mulheres. Foi uma longa discussão e elaboração antes de chegarmos a aprovação. Mas enfim, a nossa luta continua para derrubar o veto. O outro é para desencorajar a violência, se o autor tem um boletim de ocorrência elaborado contra ele, ele tem que punido de alguma forma. Muitas vezes eu acho que as punições são muito brandas em relação a isso, porque é uma coisa impressionante como a violência contra a mulher se dá. Esses dias eu vi um estudo que diz que nos dias de jogos, as mulheres apanham mais de seus companheiros, ou seja, meu time perdeu em quem eu vou de descontar? Na minha companheira. Que convenhamos de companheira não tem nada, companheira vem de compartilhar, de estar próximo e estar junto. Então, ao que parece, cada vez mais essa violência tem mais motivações, sendo assim, precisamos brecar isso, impedir que avancem, que evoluem e matam mais mulheres. Os crimes em relação à violência contra a mulher foram os que mais


46

cresceram no estado de São Paulo, tanto o número de estupros, de feminícidio e de agressões. Não foi só na capital, pelo contrário, o interior teve a maior incidência, nos mostrando que houve uma capilaridade, infelizmente, nesses tipos de crime. Lembrando que isso é subnotificado, ou seja, existem milhares de mulheres que são estupradas e não comparecem nas delegacias fazer boletim de ocorrência. Primeiro porque nem sempre tem uma delegacia na sua cidade, segundo porque nem sempre estão abertas e terceiro, porque elas se sentem muito feridas no seu orgulho, se sentem humilhadas por passar por determinada situação e também por, algumas vezes, chegar na delegacia e ser destratada e colocada como culpada da situação. Ninguém tem que molestar ninguém. A mulher tem que ser respeitada no não. Por isso eu volto a falar para você, onde começa essa história? Na educação. Onde temos que trabalhar para que os meninos entendam que as meninas são iguais a eles, com o mesmo direito, o mesmo espaço. Infelizmente estamos vivendo, mais do que nunca, um momento de acirramento dessa violência, porque nós temos um presidente que estimula a violência, que coloca as mulheres no papel secundário. Então tudo isso acaba que reproduzindo condutas violentas em nossa sociedade.

A senhora pode me citar momentos em que foi alvo de machismo dentro e fora da Alesp, por ser mulher na política?

Resposta: Para você conseguir uma posição a qual a gente desfruta hoje, eu precisei dar muita cotovelada. Não caiu do céu, foi uma conquista, né? Então você tem que tentar se impor, às vezes você está falando com eles e eles não te dão atenção. Você entrava numa roda de deputados e eles fingiam que você não existia ali. Então, só para citar algumas coisas, na hora de articular, no encaminhamento da votação, na hora de discutir, a voz feminina aparecia muito pouco ou quase nada. Principalmente novata, porque eu estava chegando, eu falo muito da experiência do meu primeiro mandato, que foi dura. Isso está presente em todos os partidos, mesmo no PT, ainda também. Isso é tão verdadeiro, que eu fui líder da bancada, no ano passado, depois de 19 anos. Dezenove anos em que o PT está na casa e somente agora eles elegeram uma mulher para ser líder da bancada. Então você vê que mesmo nos partidos de esquerda, essa tarefa não é tão fácil assim, né? Mas


47

agora eu acho que a gente já avançou, eu sinto que mesmo aqui na casa, mas eu precisei viver uns mandatos para poder chegar a disfrutar a situação que eu desfruto hoje, de respeito, de ser ouvida e ser reconhecida. Mas isso você tem que ralar bastante para chegar.

A mídia pode ser uma das responsáveis pela sub representatividade da mulher na política?

Resposta: Eu acho que não, eu penso que a nossa dramaturgia, um exemplo, a emissora Globo de televisão, que é mais importante atualmente, tem uma dramaturgia muito bem-feita e ela retrata os desequilíbrios sociais que nós enfrentamos. Então pelo menos ao longo dos últimos anos não me parece que ela desrespeite o universo feminino, muito pelo contrário, ela traz à tona questões e possibilita, estimula debates na sociedade dada a sua influência, capilaridade e audiência. Ela já colocou mulher apanhando, agora na novela das nove, por exemplo, tem uma personagem mais velha, separada, que sofre porque tem um menino novo gostando dela, a dificuldade que ela tem em lidar com isso, lidar na família, lidar consigo mesma. São questões que afligem as mulheres, porque as questões das mulheres e dos homens também, né? Precisam ser abordadas desde o íntimo, que angustia, até a vida pública. Então acho que nesse sentido não, a mídia tem contribuído e tido o papel importante nessa desconstrução, inclusive abordando dados. Recentemente a Folha de São Paulo trouxe a informação verdadeira do número de feminícidio, a qual o governo do estado estava escondendo. Estávamos trabalhando com o número de 57 e sabe quantas mulheres morreram de janeiro a julho deste ano? 227. Então, isso acontece por quê? Porque a pauta do feminismo, da igualdade de gênero e luta das mulheres está presente hoje nos principais jornais do país e nas emissoras de televisão e também nos debates tratados nas rádios. Eu fico muito feliz, acho que nesse aspecto a mídia tem tido um papel muito importante, eu não vejo nenhuma reprodução deste sistema patriarcal, pelo contrário, acho que eles sentiram isso e vem colocando já alguns anos o papel de destaque para as mulheres. Veja o Jornal Nacional, a qual o conteúdo não me agrada, mas a quanto tempo que ele é apresentado por um homem e uma mulher, né? Nesse sentido vão se quebrando paradigmas e a gente vai avançando. A imprensa é fundamental para isso, o problema é que, às vezes,


48

você tem nas redes sociais reprodução de falas que vão contra isso. Quando você vê um presidente reproduzindo o machismo. As pessoas votaram nele sabendo disso, ele falava nas campanhas. A gente conversava com as mulheres, dizíamos ‘’olha, você está votando em um cara que é misógino, machista’’, elas diziam ‘’a não, imagina, que isso’’. Agora elas estão tomando um pouco, mas as vezes precisamos apanhar para aprender, espero que aprendam. Nas minhas teses e pesquisas eu vi que em alguns momentos a mídia tratou a mulher de uma forma machista, pensando muito mais na sua aparência, seu comportamento do que em sua competência. A senhora nunca sentiu isso?

Resposta: A televisão é feita de imagem, você não acha que eles irão colocar uma apresentadora no jornal descabelada. Eu quando vou fazer meu programa na tv, eu passo uma maquiagem, porque tem a questão da luz e tal. Não é porque você luta pelas mulheres que você não vai ter vaidade, então eu vejo isso como um problema. É claro que pode haver uma reprodução disso, pode haver. Pode provocar angústia, porque você tem a ditadura das mulheres bonitas, do corpo perfeito, das roupas de grife, mas aí precisamos ter capacidade de discernir. Os jornais impressos nem tanto, mas quem trabalha com a aparência acaba tendo esse cuidado ao se apresentar na televisão. Então, para a gente encerrar, a senhora acredita que a mídia tem hoje um papel positivo em relação a mulher e a mulher política?

Resposta: A mulher sim, a mulher sim! Agora me surgiu um momento que eu lembrei, a Dilma, eu penso que ela, embora tenham negado isso, foi muito maltratada pelo fato de ser mulher. Carregou-se nas tintas, como a gente fala, talvez pelo fato dela ser mulher. Estudos posteriores podem chegar a essa conclusão, a história não é recente, ela sempre avalia lá atrás. Mas eu acho que teve sim, teve um pouco desse viés misógino na questão da Dilma, por parte da imprensa eu acho que teve sim. Talvez se ela fosse um homem muita coisa nem seriam citadas, não seriam notadas e nem observadas, mas como ela era uma mulher e a primeira mulher presidenta, muitas coisas acabaram sendo destacadas só pelo fato dela ser mulher. Tanto que a cassação e o golpe vieram desse fato. Tanto é verdade que o


49

Herote estava no Roda Viva e disse que se a Dilma tivesse de nomear o Lula, certamente ela não teria sofrido o golpe, porque seria um homem que estaria ali em um cargo provável. Ele iria ter diálogo com o congresso e com certeza apaziguaria os ânimos e ela não seria cassada. Mas não foi isso que aconteceu e a gente tem que olhar para a frente. Precisamos ver a história e se espelhar nela.

Existe um apagamento da mídia da mulher política?

Resposta: Eu acho que se você for se espelhar na superficialidade dos nossos jornais, você realmente vai ver poucos exemplos femininos. Até porque o jornal retrata aquilo que está acontecendo agora e aquilo que está acontecendo agora majoritariamente no mundo, acontece por mãos masculinas, sendo assim, ele vai retratar as coisas masculinas. Eu não acho isso não, acho que essa questão dos jornais, ele traz contribuições importantes, assim como os programas de tv. A gente precisa tomar cuidado para não achar que tudo está contra as mulheres, por exemplo, a política é dominada por homens, então como que eles podem retratar de um olhar feminino? ERICA MALUNGUINHO Quem é Erica Malunguinho?

Resposta: Nasci em Pernambuco. Minha família vem de uma diáspora em Pernambuco, que compreende uma região de matas que chama ‘’Mata de Catucá’’. Dentro dessa diáspora, minha família se constrói em um bairro chamado Água Fria, que é o bairro mais negro da cidade de Recife e também onde foi construído o primeiro terreiro de Candomblé, que foi fundado por uma rainha nigeriana chamada Ifatinoque. Ela era filha de Iemanjá Algunde - que significa mãe de todx. Após sair de Agua Fria eu fui morar na região metropolitana, em uma cidade chamada Paulista. Com 19 anos de idade eu saí de lá. Eu já estava produzindo trabalhos de artes em intervenção de moda, pensando na estética a partir de raça, gênero e sexualidade. Em São Paulo eu continue com a arte e adentrem na educação que é um lugar que eu acreditava, que eu acredito, ser o disseminador, um modificador


50

importante das narrativas da sociedade. A educação é mais um lugar debate público, né? Na Assembleia Legislativa é um lugar para colocar as questões do debate público, a educação é um outro lugar. São os nossos parlamentos, os nossos espaços de construção de política, de aprendizagem e de movimentação da sociedade, sua objetividade e enfim. Durante alguns anos eu dei aula para crianças e adolescentes, passei muito tempo fazendo formação de professores da rede pública além de continuar com meus trabalhos como artista. Até que chegou um momento em que eu senti que havia uma limitação desses espaços de trabalho e instituições para pensar de forma radical a mudança, porque o que eu percebia, sentia e via é que os espaços e as movimentações se davam de uma forma lenta, com várias negociações acontecendo e eu estava cansada disso, eu precisava de uma radicalidade, não bem uma oposição, mas colocar um discurso radical na esfera pública. Foi aí que associado ao meu trabalho artístico eu criei o Aparelha Luzia, que é um quilombo urbano e é um espaço que tece exatamente o posicionamento radical em relação aos temas estruturas, as violências estruturais. Então foi isso que aconteceu para eu chegar até aqui, é muito importante dizer que tudo isso que eu falei são trajetórias políticas, porque muita gente entende e a lógica da política brasileira é muito transferida para a qual as capitanias hereditárias que não compreende, por exemplo, o essencial, que a política se dá na dimensão da interferência do corpo no mundo. Política é você interferir na polis, na coletividade, então tem corpos que já são políticos. Um corpo negro é um corpo político apenas por ele estar vivo e presente, se ele for um corpo LGBT, marca também sobre isso, um corpo de mulher cisgênero, ou seja, todo o corpo que destoa da estrutura normativa está construindo e fazendo política, mas não a política que a gente conhece que está dentro desses gabinetes. É política porque ele está em constante processo de negociação com o mundo. Neste sentido é essa a política que me faz estar neste lugar e o que eu estou fazendo aqui é sistematizando essa política que parte desse corpo cultura para a institucionalidade. Obviamente esse corpo cultura é sensível, que está sensível, aberto e pensando no princípio e no fundamento que faz esse corpo ser esse corpo. Dentro de uma dimensão coletiva, pois eu não sou nordestina sozinha, não sou negra sozinha, não sou travesti sozinha. Eu acho que é isso. No meu ponto de vista institucional, que eu acho importante falar. Eu ouço sobre ela desde que eu era muito pequena, porque meus avós eles tinham uma proximidade forte com a política. Minha mãe foi batizada por um dos líderes das


51

Ligas Capezinas, que se chamava Henrique Julião. Não é que meus avós estavam na política institucional, mas eles entendiam que era um espaço importante de reivindicação, de crítica, para pensar a sociedade, a realidade. Durante a vida toda eu ficava ouvindo essa coisa toda. Eu lembro quando eu era criança, na primeira eleição direta que foi em 89 na disputa de Collor e Lula, eu peguei dois amiguinhos e nomeei um como Lula e um outro como Collor, saímos de porta em porta com uma caixa de sapato e um monte de cédulas que eu havia feito e fizemos uma eleição. Obviamente que quem ganhou foi Lula, por vários motivos. É isso, eu sempre tive esse lugar que é isso, de entender sempre de forma coletiva, conjunta. Não é uma existência solitária, individual. Nem tem essa opção de escolha com meu povo, porque tudo é de todo mundo. Eu criada nessa matriz de solidariedade constante, que está muito longe dessa lógica de se pensar coitadismo. Quando eu estava na quinta série, lembro disso esses dias, eu fui para uma escola pública que era muito interessante. Lá existiam pessoas de classe média, que eram filhos de comerciantes e, pessoas que não tinham nada, que os pais nem trabalhavam e, quando tinham pais, tem essa parte também. Nessa escola não tinha a política de transferir os livros de uma turma para a outra. Ai lá vai eu, vou para a turma seguinte e recolho todos os livros das turmas seguintes, volto para casa e apago todas as lições. Depois eu distribuía, claro que não de uma forma panfletária porque causava constrangimentos, para a turma que estava iniciando. Isso é uma coisa que eu não sei, mas sempre fez parte, sempre quando tinha eleição municipal, estadual e enfim, me chamavam para fazer uns diálogos ‘’Erica vem aqui, você precisa conversar com sicrano’’. Então é uma perspectiva, isso faz parte, porque eu acredito que isso faz parte da sociedade, a política faz parte de nós e nós fazemos parte dela. É nesse espaço que se decide muitas coisas que impactam diretamente na vida de cada pessoa. Por mais que eles tentem eu não consigo me sentir apartada, por mais que eles foram me apartando por diversas condições em que ela foi sendo colocada, eu sempre lutei, negociei para que eu pudesse me fazer presente sempre. Porque o entendimento é anterior, é entender que eles me disseram negra, que me disseram trans, que me disseram nordestina. Individualmente se eu não preciso lidar com essa cultura ocidental branco cêntrica eu não precisaria me dizer negra, porque afinal de contas estariam todos na África, suaves e com as tretas internas, mas eu só sou considerada negra a partir do momento em que chega um olhar estrangeiro e me diz isso, para ser considerada mulher trans, idem. Alguém com uma outra


52

lógica de pensar gênero e dizer que gênero se dividem em duas partes de forma não binárias e opostas e, a partir dessa concepção, eu sou uma pessoa trans. Mas sei lá, você pega os povos ancestrais da América do Norte, indígenas, tem lá oito gêneros catalogados. Nas várias sociedades africanas tem também multiplicidade, várias construções de gênero. Então, isso é muito sério e eu sei o quanto isso agora faz parte de mim, no sentido de inverter essa lógica que colocou esses termos em mim. Destruir e transformar isso em potência, em energia vital. É isso.

Quem é a Érica de essência? Há uma diferença da Erica Pernambucana para a Erica Paulistana?

Resposta: Olha eu não sei quem eu sou exatamente, é porque é difícil essa pergunta, é de um existencialismo que eu não alcanço sobre mim. Eu sou uma pessoa que preza e que é muito movida a felicidade, a prosperidade, as coisas mais positivas, mais boas da vida. Mas como isso não está garantido para o meu povo, para a população, eu vou brigar. Eu acho que eu sou existencialmente assim, sou uma pessoa que é movida a essas coisas positivas. Se há uma diferença entre a Erica Pernambucana para a Erica Paulistana, acho que o que posso dizer é que a Érica em Pernambuco tinha horizontes, tinha um marco constante eu acho que aquilo move muitas coisas em nossas ideias. O horizonte nos dá um parâmetro de pequenez, de inferioridade em relação ao todo que é o mundo, que é a própria natureza, que é muito importante. O respeito, sabe? E você ter esses elementos sempre muito fortes, vivos. A própria noção de compreender que a arte não está dissociada da vida, tão pouco dissociada da política. Em São Paulo eu acho que eu tenho uma racionalização desses processos, que foram muito intuitivos, muito orgânicos. Eu tenho essa racionalidade que talvez tenha servido para me proteger, porque afinal de contas eu estava só. Mas sem dúvidas eu não seria essa pessoa que eu sou se eu não tivesse nascido em Pernambuco. O que o Aparelha Luzia representou na sua candidatura?

Resposta: É importante dizer que o Aparelha nunca esteve, eu nunca a coloquei como um escudo ou como um elemento para que isso fosse possível, porque antes


53

de qualquer coisa aquele lugar ele se destina e serve aquilo em que ela se propõe. Então ela é um organismo vivo em si mesmo, que inclusive eu acredito que essas coisas deste lugar aqui corrompem o sentido do Aparelha. A Aparelha jamais permitiria que eu estivesse aqui, ela é radicalíssima, ela está em um outro lugar, então eu fiz questão de me distanciar dela e estou distante durante muito tempo. o que eu quero dizer que aquilo que foi construído ali me serviu como um laboratório para pensar nisso aqui mas aí eu posso falar que isso faz parte das etapas e do ciclo da vida. Pensar quando eu entro na educação junto com as artes, pensar em como esse laboratório deu subsídio para a Aparelha e esse laboratório dá subsídio para isso aqui. Ela foi importante e é importante porque ela fez parte desse processo, mas não como um objetivo político institucional, isso ela nunca teve, não tem e nem haverá de ter, porque ela tem um outro posicionamento político, inclusive. Ela é muito radical, entendeu? Eu estou até corrompendo ela. Ela deve ta pensando ‘’não gosto de você mais’’.

Como as pessoas lidam com o fato da Erica como deputada?

Resposta: Olha tem muitas coisas para falar sobre isso, ao contrário do que parece tem muita gente aberta aqui, gentil, que tem uma recepção positiva e você vê que são verdadeiras. Mas existem aquelas que só falam porque precisam do verniz. Político que só fala e ainda tem a audácia de dizer que não tem preconceito porque apertou a minha mão e deu um beijo no meu rosto. Quando a pessoa se justifica dessa forma a gente já sabe que existe uma coisa muito séria com essas pessoas em relação às pessoas trans e enfim. Tem que tirar esse joio do trigo, tem muita gente, funcionário das casas que são extremamente colhedores. Pessoas que trabalham em outros gabinetes que passam por mim e dizem que me adoram e tal, mas é isso, tem muita gente que me suporta porque não tem escolha. Agora, onde estou eu no meio de tudo isso? Eu vim cumprir um papel e, de forma alguma, eu me sinto individualmente atacada quando eles começam a fazer alguma coisa, mas eu fico triste pois me sinto coletivamente atacada. Eu fico imaginando as travestis que estão na rua, que estão se prostituindo. Imagino ‘’poxa’’ é sobre elas isso, sabe?


54

Por que MANDADA QUILOMBO? - Respondido pela assessora

Resposta: Acho que tudo está ligado com a atuação, trajetória e com o círculo a qual a deputada está envolvida. Como já foi dito ela tem atuação no campo da educação e da arte, né? E ela tem uma rede de mulheres negras muito forte em torno dela. Para além disso, trazemos esse nome no feminino porque além de sermos uma equipe majoritariamente composta por mulheres cis e trans, é também a forma como a atuação política se coloca nesses termos. Pensando em que a política é um espaço historicamente composto por homens brancos, cis e heterossexuais. Então como a gente cria maneiras de fazer políticas que não sejam masculinistas, pensando nessas questões tóxicas da masculinidade que se articulam dessa ocupação dos espaços de poder? A Mandada veio nesse sentido, pensar que a gente está aqui para propor algo novo, de acordo com nossos fundamentos que são raça e gênero. Fundamentos porque a gente não entende isso como recorde, não tem como recortar.

LECI BRANDÃO

Como que a senhora chegou na política institucional?

Resposta: Dois homens negros do partido Comunista do Brasil, em 2009 me fizeram um convite para que eu fosse candidata. No primeiro momento eu não aceitei o convite, porque eu entendia que eu sempre construí a minha luta através da arte. A arte para mim sempre foi um instrumento de luta pelos mais necessitados, por aqueles que são excluídos, apontados por preconceitos de toda ordem. Durante esses anos todos a minha carreira foi pautada nisso, cantar para aqueles que, de repente, não tinham voz para defender as suas demandas. Depois através de uma consulta espiritual eu recebi a resposta de que eu deveria aceitar esse desafio. Fui eleita e estou no meu terceiro mandado, graças a Deus e ao povo de São Paulo, que acreditaram em mim.


55

A quem a senhora atribui a sub representatividade da mulher negra na política? e como podemos promover uma maior participação delas na política?

Resposta: Isto é uma coisa que é a lógica da história do Brasil. Nossa ancestralidade veio para lá em condições terríveis, nós, quando eu digo nós eu me refiro a população negra, que na África vivia em liberdade e eram inclusive reis e rainhas, posteriormente foram jogados no porão de um navio a qual matou muitos durante a vinda ao Brasil. Morremos por tudo, por doenças, maus tratos, falta de higiene. Uma condição sub humana a forma como eles eram trazidos para cá. A partir daí toda essa vida, toda essa caminhada foi de inferioridade, tortura, maus tratos, toda a perversidade possível foi feita com população negra. Então esse fato, deles nunca terem dito a oportunidade de poderem crescer, de terem um futuro assegurado com a educação, com a cultura, com habitação, claro que o resultado nao poderia ser diferente. Os homens e as mulheres negras não têm o mesmo patamar de estarem na mesma posição que a população branca, embora sejamos mais da metade da população brasileira. Portanto a razão de estarmos fora desses espaços é relacionada com a história do nosso país, que sempre nos viu de forma inferiorizada.

Como podemos combater? Resposta: dando acesso a educação, a cultura, a igualdade, a Liberdade.

Como podemos trazer as mulheres para a política?

Resposta: Eu acho que a gente só pode trazer as mulheres para a política através da conversa, da conscientização, mostrando como é a nossa realidade. Mas também ao mesmo tempo mostrando que é possível, que somos capazes. Eu vejo hoje com muita alegria uma juventude de mulheres negras, que estão atuando como ativistas, em uma série de


56

ações que nos demonstram que está havendo uma mudança, mesmo que pequena ainda ela vai crescer, eu precinto que está havendo uma mudança dessa consciência e, eu dou todo o apoio a essa juventude negra.

APÊNDICE C

LINK PARA O PRODUTO FINAL - https://www.projetonexojornal.com/


57


58

APÊNDICE D

DIÁRIO DE BORDO

Durante os meses que se fizeram para a construção deste projeto, foi necessária muita dedicação, paciência

e esforço. De primeira tive

algumas dificuldades, pois apesar de gostar muito do tema a qual escolhi, escrever um trabalho tão signficativo não é tarefa fácil. Nas primeiras semanas desde último semestre tive como tarefa estudar um pouco mais sobre o tema e trazer maiores referencias para o meu projeto teorico. Além de realizar as pautas e constatar as fontes por email. Ao todo foram realizadas quatro idas até a Assembleia Legislativa de São Paulo, que foram divididas entre os meses de setembro e outubro. Ao adentrar o mês de setembro eu já havia conseguido a maioria das entrevistas desejadas, então foi o momento de transcrever e alinhar como


59

seria a escrita da reportagem. Confesso que neste momento o sentimento de procrastinação se fez um pouco presente, porém juntei forças para seguir e concluir este projeto. Em outubro, com o acompanhento do meu mestre orientador foi possível enfim concluir a escrita da reportagem. A construção do site foi realizada com ajuda de uma amiga, por isso confesso que não tive maiores dificuldades. Ele foi montado no final do mes de outubro. Durante os quatro anos de curso ouvi de grandes profissionais da area que, mesmo sendo jornalista, as pessoas mantinham a dificuldade de escrever. De ínicio eu não entendia muito bem essa questão, mas foi realizando este trabalho que eu pude entender o que essas palavras significam. Por fim esse seis meses foram de muitos momentos de força de vontade e um pouco de procrastinação, confesso que poderia ter me dedicado mais. A criação deste projeto foi de um grande conhecimento que com certeza será eterno.


60

11. ANEXOS

Termos de uso e imagens


61


62


63


64

IMAGENS USADAS DE BANCO DE DADOS


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
RELATÓRIO METODÓLOGICO - Patricia Canuto by Rede Código - Issuu