Skip to main content

Relatório Metodológico - Luiz Lucas

Page 1

UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL CURSO DE JORNALISMO

LUIZ LUCAS FERREIRA JUNIOR

QUEBRADA DE CORPO E ALMA: A VISÃO PERIFERIANA DA COMUNICAÇÃO E CULTURA NO EXTREMO SUL DA CIDADE DE SÃO PAULO

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

SÃO PAULO - SP 2019


LUIZ LUCAS FERREIRA JUNIOR

QUEBRADA DE CORPO E ALMA: A VISÃO PERIFERIANA DA COMUNICAÇÃO E CULTURA NO EXTREMO SUL DA CIDADE DE SÃO PAULO

Relatório

de

Metodológica

Fundamentação apresentado

ao

Teórica

e

Curso

de

Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, como requisito para obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientador: Prof.º Antonio Lucio Rodrigues de Assiz

SÃO PAULO - SP 2019


Dedico este trabalho à Thais Siqueira e Ronaldo Matos. Sem eles eu não me entenderia como periferiano e provavelmente este tema como Trabalho de Conclusão de Curso não teria surgido.


Agradeço primeiramente a minha mãe, meu irmão e minha grande amiga, Gisele Amaral, que apoiaram todas as minhas decisões e me deram forças para continuar durante os quatro anos de curso.

Agradeço aos professores, especialmente ao

professor

Antonio

Assiz,

pelas

conversas trocadas desde o primeiro semestre e pelo apoio e carinho ao jornalismo periférico, na busca por um curso que converse com todas as pessoas.

Agradeço também aos amigos de sala, sobretudo ao grupo formado durante o segundo Tavares,

ano

de

curso

Giovanna

com

Lima,

Beatriz Jéssica

Franciele, Juliana Souza, Maria Melo e Wesley Santana. Me inspiro muito nesses futuros profissionais, que buscam contribuir para um Jornalismo melhor.

E por último, agradeço a Daniela Martins e Jean Bezerra, que me auxiliaram nas entrevistas para a revista, ajudando a construir um trabalho que mostre o lado positivo da periferia onde moramos.


“Eu nasci no gueto, mas eu nasci pro mundo”. (Tarde Para Desistir, Rincon Sapiência)


FICHA TÉCNICA

Título do relatório Quebrada de Corpo e Alma: a visão periferiana da comunicação e cultura no extremo sul da cidade de São Paulo

Título do produto Quebr.ada - Comunicação e Cultura Periferiana

Autor Luiz Lucas Ferreira

Orientador Professor Mestre Antonio Lucio Assiz

Data da edição Novembro de 2019

Local São Paulo


RESUMO

Este trabalho tem como objetivo resgatar a autoestima de pessoas que moram nas periferias, principalmente da Zona Sul de São Paulo, através de reportagens que mostram iniciativas de comunicação e cultura criadas por pessoas que também habitam nestes locais. Para isso, a palavra periférico (a) foi substituída por periferiano (a), a fim de mostrar que as periferias em conjunto não são só as bordas das cidades, mas sim uma nação, e a partir do momento que o morador (a) que está inserido nesses lugares passa a ter orgulho do seu local, ele se torna pertencente à nação periferiana.

Palavras-chaves: periferia; comunicação; cultura; periferiano; quebrada.


SUMÁRIO

1.INTRODUÇÃO ................................................................................................... 10 2.JUSTIFICATIVA ................................................................................................. 12 3.OBJETIVO GERAL ............................................................................................ 14 4.OBJETIVO ESPECÍFICO ................................................................................... 14 5.PROBLEMATIZAÇÃO ........................................................................................ 15 6.HIPÓTESES ....................................................................................................... 15 7.PLANO ESTRATÉGICO – REVISTA IMPRESSA .............................................. 16 7.1 Escolha do nome e slogan ........................................................................... 16 7.2 Estrutura....................................................................................................... 16 7.3 Periodicidade ............................................................................................... 16 7.3 Público-alvo.................................................................................................. 17 8.ESTRATÉGIA PARA DEFINIÇÃO DE LAYOUT ................................................ 18 8.1 Capa ............................................................................................................ 18 8.2 Cor ............................................................................................................... 18 8.3 Fonte ............................................................................................................ 18 8.4 Fotos ............................................................................................................ 19 9.EDITORIAS ........................................................................................................ 20 9.1 Editorial ........................................................................................................ 20 9.2 Din din .......................................................................................................... 20 9.3 Especial........................................................................................................ 20 9.4 “Fala no microfone!” ..................................................................................... 20 9.5 Batendo um lero ........................................................................................... 21 9.6 Bastidores .................................................................................................... 21 9.7 Quebrada indica ........................................................................................... 21 9.8 Caça-gírias ................................................................................................... 22


9.9 Da ponte pra cá ............................................................................................ 22 9.10 Infográfico .................................................................................................. 22 10. PLANO ESTRATÉGICO - DIGITAL ................................................................ 23 10.1 Canal no Youtube ...................................................................................... 23 10.2 Redes sociais ............................................................................................. 23 11. TÉCNICAS UTILIZADAS................................................................................. 24 12. REFERENCIAL TEÓRICO .............................................................................. 25 13. REFERÊNCIAS ............................................................................................... 32 14. CRONOGRAMA .............................................................................................. 37 15. ORÇAMENTO ................................................................................................. 38 16. APÊNDICES.................................................................................................... 39 16.1 Transcrição das entrevistas ....................................................................... 39 16.1.1 Din din.................................................................................................. 39 16.1.2 Especial ............................................................................................... 49 16.1.3 “Fala no microfone!”............................................................................. 60 16.1.4 Batendo um lero .................................................................................. 66 16.1.5 Bastidores ............................................................................................ 77 16.1.6 Da ponte pra cá ................................................................................... 85 16.2 Fotos .......................................................................................................... 87 16.2.1 Capa .................................................................................................... 87 16.2.2 Editorial ................................................................................................ 88 16.2.3 Din Din ................................................................................................. 89 16.2.4 Especial ............................................................................................... 90 16.2.5 “Fala no microfone!” ............................................................................. 91 16.2.6 Bastidores ............................................................................................ 92 16.2.7 Da ponte pra cá ................................................................................... 93 16.3 Diário de campo ......................................................................................... 94


16.4 Pesquisa Google Formulários .................................................................... 98 17. ANEXOS ....................................................................................................... 104 17.1 Fotos ........................................................................................................ 104 17.1.1 Din din................................................................................................ 104 17.1.2 Especial ............................................................................................. 106 17.1.3 “Fala no microfone” ............................................................................ 110 17.1.4 Batendo um lero ................................................................................ 111 17.1.5 Bastidores .......................................................................................... 113 17.1.6 Quebrada indica ................................................................................ 114 17.2 Referências .............................................................................................. 117 17.2.1 Revista Na Responsa ........................................................................ 117 17.2.2 Documentário Visionários da Quebrada ............................................ 120 17.2.3 Artigo Brasileiro não é nacionalidade, é profissão ............................. 121 17.2.4 Música Tarde Para Desistir................................................................ 122 17.3 Autorização de uso de imagem ................................................................ 123 17.3.1 Din din................................................................................................ 123 17.3.2 Especial ............................................................................................. 125 17.3.3 “Fala no microfone ............................................................................. 126 17.3.4 Bastidores .......................................................................................... 128 17.3.5 Da ponte pra cá ................................................................................. 129


10

1. INTRODUÇÃO

Quando se pensa em periferia é perceptível o quanto a mídia pode influenciar a população através de uma visão estereotipada sobre o que predomina nesses extremos: violência, assassinato, roubos e crimes. Conforme Cotelo e Rodrigues (2011) afirmam:

No Brasil o termo periferia carrega um significado pejorativo, uma vez que representa um território de pobreza. Ao contrário dos Estados Unidos, as áreas periféricas das cidades não são habitadas pela classe média afluente, mas predominantemente por pessoas pobres, uma vez que o padrão de distribuição espacial da população de diferentes grupos de renda no Brasil e na América Latina é invertido, com os grupos mais ricos ocupando o núcleo.

Baseando-se nas Teorias da Agenda-Setting, Gatekeeper e Newsmaking, onde é notável a influência da mídia a fim de persuadir quem consome determinados assuntos, a revista sobre jornalismo periférico “Quebr.ada Comunicação e Cultura Periferiana”, como o próprio nome diz, tem o objetivo de desmistificar a imagem negativa e quebrar essa agenda, enaltecendo iniciativas culturais e comunicacionais que ocorrem no extremo sul da cidade de São Paulo. Os objetos de pesquisa do trabalho são: a) a mídia de massa e o tratamento que ela dá a determinados assuntos relativos à pesquisa e b) os projetos culturais e comunicacionais elaborados pela periferia da Zona Sul da cidade de São Paulo. A ideia para o trabalho surgiu a partir da leitura do artigo “Brasileiro não é nacionalidade, é profissão” do ator, humorista, roteirista e escritor Gregório Duvivier, onde o autor diz: “Nacionalidade, no português”, dissertou o palhaço, “é -ano (italiano, americano, mexicano) ou -ês, (inglês, francês, polonês). Mais raramente, termina em -ino (argentino, marroquino) ou -ense (costarriquense, israelense).” Sim, Palhaço Pasquale, mas onde o senhor quer chegar com essa gramática de botequim? “Não tem nenhum outro povo que termine em -eiro que não o brasileiro. Pode procurar.”


11 Procurei. Não achei. “Quem termina em -eiro é banqueiro, pedreiro, marceneiro, bicheiro. Brasileiro não é nacionalidade, é profissão.” (DUVIVIER, 2018).

Como morador de periferia e consumidor do que ela produz, também parei para refletir sobre a música “Tarde Para Desistir1”, da banda NX Zero em parceria com o rapper Rincon Sapiência. Nela, Rincon canta: “tô honrando minha existência/ Sou virginiano, tenho persistência/ Tipo um queniano, tendo resistência/ Periferiano, conheço a violência”. (FERRERO E SAPIÊNCIA, 2010). Tendo as palavras “brasiliano” e “periferiano” como reflexão de local de pertencimento, fica mais fácil objetivar onde o trabalho almeja chegar: periferianas são as pessoas que fazem parte da nação periférica e o objetivo deste Trabalho de Conclusão de Curso é inflar a autoestima delas, a partir da ideia de pertencimento a uma nação da qual se orgulhem de fazer parte, mostrando as iniciativas de comunicação e cultura de onde estão inseridas.

2. JUSTIFICATIVA

1

Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8YfzqOGS3Zo>. Acesso em: 11 abr. 2019.


12

Como morador da região do Jardim Ângela, extremo sul de São Paulo e percebendo o quão é difícil enxergar o que se produz de positivo nessa região, a revista “Quebr.ada - Comunicação e Cultura Periferiana” surge com o intuito de mostrar iniciativas de comunicação e cultura no lugar onde cresci e vivo, a periferia da Zona Sul da cidade de São Paulo. Além disso, o impresso tem como função resgatar as raízes dos grupos sociais que moram nessa região, para que possam se enxergar com a mesma igualdade que as regiões mais centralizadas, e não só como “cidades dormitórios”, como é apresentado nas escolas, desde a época de revolução e crescimento industrial até os dias atuais, segundo Burgos, em sua tese de doutorado para o curso de Geografia, na Universidade de São Paulo:

Tornaram-se a forma predominante do padrão periférico de urbanização, numa lógica espacial estruturada em função do deslocamento de trabalhadores dos “bairros dormitórios” para os locais de trabalho. Outras formas de moradia, ligadas à pobreza urbana também estão historicamente presentes no espaço da metrópole, como os cortiços e as favelas, estas últimas em ritmo crescente em direção ao término do período considerado. A partir da década de 70, sob o regime militar, predominaram as políticas habitacionais que deram origem a inúmeros e enormes conjuntos habitacionais, sem contudo conterem a “auto-construção” e a favelização, que permanecem na atualidade como continuidade da desigualdade social deste processo histórico. (BURGOS, 2009, p. 15).

O tema se mostra relevante quando aplicado à questão social e profissional, mostrando aos estudantes de jornalismo, as possibilidades em uma área de atuação que ainda está sendo explorada e discutida. Claro, ainda é difícil distinguir uma estratégia de monetizar a comunicação periférica, mas o debate precisa vir à tona nas universidades, pois o jornalismo está em transição, está se especializando e utilizando a estratégia de nicho, como dito por Kotscho (2014):

Você já sabe o que vai ler quando vê o nome do autor, não importam o assunto, à época, o lugar. Num jornalismo como o brasileiro, em que os veículos da nova ou velha mídia são cada vez mais indiferenciados, seguidores de um pensamento único no noticiário e nos editoriais, a concorrência feroz agora se dá entre colunistas e/ou blogueiros que disputam estes nichos de mercado.


13

Logo, não seria diferente com o jornalismo periférico. Todavia, o mesmo é tratado como mídia independente, o que não deixa de ser, porém, existe uma diferença territorial que muda a perspectiva do estilo:

Existe diferença entre mídia independente e a mídia periférica. A narrativa é outra. Ou seja, a gente o tempo todo está contando a história daqui, a partir deste território a partir desta memória, a partir destas histórias, a partir destas demandas. Tem muita mídia independente, por exemplo. A gente também é mídia independente. Mas é esse recorte que a gente está chamando à atenção. A gente bate muito nesta tecla, é pautada pelo território, se estabelece a partir do território. Somente quando é pautado pelo território, ou seja, a partir do local onde a gente mora, que a gente pode dizer, por exemplo, quais são os termos que nos incomodam quando a mídia tradicional vai falar sobre o meu território. (MARLON, 2018).

Compreendendo essa diferença fica mais fácil entender o motivo do assunto ser levado às universidades e discutido neste trabalho, que serve como princípio para fazer ouvir a voz periférica e entender a própria mídia periférica.


14

3. OBJETIVO GERAL

Checar os processos de comunicação da mídia hegemônica em relação ao tratamento de assuntos periféricos e a visão dos moradores das periferias da Zona Sul da cidade de São Paulo em relação a si mesmos, a partir do consumo dessas mídias.

4. OBJETIVO ESPECÍFICO Confeccionar como Trabalho de Conclusão de Curso a revista impressa “Quebr.ada - Comunicação e Cultura Periferiana”, com o objetivo de promover a autoestima e resgatar os valores dos moradores periféricos do extremo sul da cidade de São Paulo, mostrando à população local e não-local o que se produz de positivo nessas regiões, através de matérias e reportagens referentes a iniciativas de comunicação e cultura.


15

5. PROBLEMATIZAÇÃO

O quanto a mídia é responsável pela visão estereotipada de que o que predomina na periferia é a violência? A partir do recorte das notícias retratadas nas periferias, como é a visão da própria população pertencente a este lugar? O quanto isso afeta a autoestima das pessoas?

6. HIPÓTESES

A partir da problematização apresentada, foram desenvolvidas as seguintes hipóteses:

a) Os

veículos

hegemônicos

de

comunicação

privilegiam

notícias

relacionadas a crimes, roubos, mortes e violência em geral quando se referem à periferia, logo:

b) A população desenvolve uma visão distorcida do seu local de moradia, cultivando o estereótipo, pois o mesmo é visto como perigoso, causando, inclusive, vergonha de falar que moram neste lugar.


16

7. PLANO ESTRATÉGICO - REVISTA IMPRESSA

7.1

Escolha do nome e slogan A revista foi nomeada como “Quebr.ada” pois é uma gíria utilizada por

moradoras e moradores das periferias quando se referem ao local onde vivem. Exemplo: “pô, cola lá na minha quebrada, fica no Jardim Ângela”. O ponto inserido entre as letras “R” e “A” tem o intuito de dar a percepção literal de quebrar a palavra. Já o subtítulo “Comunicação e Cultura Periferiana” se refere aos dois conteúdos abordados na revista e o local onde ela vai circular. Todavia, foi trocada a palavra “periférico”, comumente utilizada para se referir a quem mora nesses lugares, por “periferiano”, pessoa que faz parte da nação periférica, como explicado nos aspectos teóricos.

7.2

Estrutura

Tamanho: 20x26;

Tipo de papel: couché com capa em gramatura 150 e miolo em gramatura 115;

Quantidade de páginas: 24 páginas mais capa;

4 cores (4x4).

7.3

Periodicidade A ideia é que a revista tenha periodicidade trimestral, a fim de que haja tempo

hábil para contato com as fontes, captação das entrevistas em vídeo, decupagem, confecção das matérias, edição dos conteúdos, diagramação da revista e postagens dos vídeos.


17

7.4

Público-alvo Moradoras e moradores das periferias de São Paulo. Na primeira edição, a

revista tem como foco a zona aul, podendo expandir e abordar outras regiões nas próximas tiragens. A escolha da divulgação do conteúdo no impresso e no digital tem o intuito de que o material chegue tanto a pessoas que não tem acesso à internet, redes sociais e afins, através da revista, quanto a quem não tem costume de ler coisas em papel, acessando o conteúdo audiovisual no Youtube e redes sociais.


18

8. ESTRATÉGIA PARA DEFINIÇÃO DE LAYOUT

8.1

Capa

A capa é composta por uma foto tirada da laje do “Instituto Favela da Paz” de uma favela do Jardim Nakamura, com as casas laranjas, comuns nas periferias, e o céu azul, entre nuvens. O logotipo “Quebr.ada” em laranja está sob o céu, fazendo com que a cor combine com as casas. Uma casinha da mesma cor do título substitui o ponto que fica entre as letras “R” e “A”. Logo abaixo vem o subtítulo “Comunicação e Cultura Periferiana” na cor preta.

8.2

Cor

A cor predominante na revista é o laranja. Como já explicado, ela é muito visível nas periferias, pois muitas vezes as casas não têm reboco e não são totalmente acabadas, deixando os blocos laranjas expostos. Além disso, é a cor dos campos de futebol de várzea, também comum nas periferias. Outras cores que compõem o impresso são o preto e o branco, cores padrões que combinam com a cor principal.

8.3

Fonte

As fontes escolhidas para os títulos, linhas finas e olhos foram:

-Adumu; -Advent Pro; -Intro Demo (Black caps e Black caps inline); -Cambridge Round (Regular, Bold e Semibold Itálica); -Copa Sharp; -Adreena Script.

A fonte escolhida para o texto é Cambridge Round regular.


19

Foi optado por uma não padronização dos títulos, linha fina e olhos, a fim de que as matérias fiquem menos formais e mais chamativas.

8.4

Fotos

As fotos se revezam entre autorais ou de arquivos das fontes entrevistadas. Em sua maioria, as imagens mostram os entrevistados, com o intuito de aproximar quem está lendo com os temas abordados.


20

9. EDITORIAS

9.1

Editorial Com o título “Eu sou o meu lugar”, o editorial da revista mostra como eu me

descobri periferiano e os caminhos que me fizeram escolher a comunicação periférica como tema de Trabalho de Conclusão de Curso. Uma foto minha também foi inserida no editorial, mostrando ao leitor quem escreve.

9.2

Din din Editoria que fala sobre empreendedorismo. O título “No Corre das notas” é

uma referência à marca de roupas “Corre” e à música “Corre das notas”, do rapper Djonga, citado durante a entrevista.

9.3

Especial

Essa editoria é composta por duas matérias e tem como objetivo resgatar as raízes periféricas. “Favela vive” conta a história do “Instituto Favela da Paz” e sua importância para o local em que está inserido, o Jardim Nakamura. A outra matéria é “Parça, desenrola e não me enrola”, onde Thais Siqueira conta a história do coletivo “Desenrola E Não Me Enrola” e os projetos que nasceram a partir dele, como o “Centro de Mídias M’ Boi Mirim” e o “Você Repórter da Periferia”.

9.4

“Fala no microfone!” Editoria voltada à cultura. Nessa edição mostra o “Slam do Treze”, uma

batalha de poesias que acontece uma vez por mês dentro do Terminal Santo Amaro. O título é autoexplicativo: “Entre motores e poesias”.


21

9.5

Batendo um lero

Entrevista no modelo pingue-pongue. O entrevistado é Jeferson Delgado, jornalista e produtor, também conhecido como “fotógrafo dos bailes”. Delgado conta como passou de vendedor de bebidas na fila do festival Lollapalooza à convidado do mesmo, após ganhar notoriedade fotografando artistas do rap e do funk e criando o canal no Youtube “Favela Business”. Com o título “Antes eu procurava no Google, hoje é o Google quem me procura”, a matéria fala exatamente sobre a virada de chave na vida de Jeferson.

9.6

Bastidores

Conta o bastidor de algum evento periférico. Nesta primeira edição o entrevistado foi Igor Nogueira. O produtor do “PerifaCon” revela detalhes da primeira edição e spoilers do que vai rolar na próxima. “Não é desenho”, título da matéria, se refere a música do rapper Rashid, que esteve presente no evento.

9.7

Quebrada indica

Indicações de filmes, séries, livros e rolês com a temática periférica. Na estreia da revista o leitor é convidado a conhecer a hamburgueria “Rap Burger,” na Rua Augusta, ler o livro “Reservado”, de Alexandre Ribeiro, assistir ao “Canal do LOAD”, que fala sobre quadrinhos e representatividade e visitar o “Solo Sagrado Guarapiranga”, próximo a represa que leva o mesmo nome, na Zona Sul.


22

9.8

Caça-gírias Para descontrair, o “Caça-gírias” é uma forma do leitor se familiarizar com as

gírias pronunciadas durante as entrevistas e aumentar seu vocabulário periférico. O título dado ao passatempo é “Gíria não, dialeto”, uma referência a uma parte da música “Negro Drama”, do grupo “Racionais MC’s”.

9.9

Da ponte pra cá

Outra referência aos Racionais, dessa vez com uma editoria que leva o nome de uma música. Essa é a última da revista e em cada edição será contada a história de um morador antigo de algum bairro periférico de São Paulo. O primeiro entrevistado é Paulo Idei. De família japonesa, ele chegou no Bairro Jardim Aracati, cercado pela represa Guarapiranga, há 42 anos.

9.10 Infográfico

Mostra dados sobre distritos específicos da cidade. O escolhido para a primeira edição da “Quebr.ada” é o Jardim Ângela, com seus 295 mil habitantes2 em 37 mil metros quadrados.

2

Censo 2010.


23

10. PLANO ESTRATÉGICO - DIGITAL

Para uma melhor distribuição, além da revista, o projeto tem como complemento digital redes sociais e canal no Youtube, com mesmo conceito artístico do impresso. Em cada texto, o leitor é convidado a colocar de fundo uma música sugerida pelo autor. No final de cada matéria da revista existe um QR Code que leva aos vídeos das entrevistas postadas no Youtube. As músicas sugeridas nas matérias são as mesmas da abertura do vídeo.

10.1

Canal no Youtube

O canal “Quebrada de Corpo e Alma” é composto por vídeos que duram de três a 10 minutos, com imagens captadas durante as entrevistas para a revista impressa. O conteúdo audiovisual é um complemento para que o leitor tenha a opção de acompanhar o processo de criação da revista e ter uma prévia dos temas abordados nas próximas edições, já que o conteúdo é postado um mês antes da revista ser lançada. Além disso, quem receber a revista e ainda não viu os vídeos, tem a opção de ser levado para esses conteúdos com um QR code presente no final de cada matéria.

10.2

Redes sociais

Todos os processos, tanto de confecção da revista quanto dos vídeos, são postados nas redes sociais da marca “Quebr.ada”, com o intuito de uma maior integração com o público.


24

11. TÉCNICAS UTILIZADAS

Nesta edição foi optado por uma revista que destaca a cor laranja, além do preto e do branco. Ícones e fotos que remetem à comunicação, cultura e periferia foram utilizados para que haja uma familiaridade com o leitor. Já os títulos não padronizados, com fontes e tamanhos diferentes, foi uma forma de quebrar um padrão estético e deixar o impresso mais jovem. Os títulos que fazem referência a letras de músicas é uma forma do leitor se lembrar dos ritmos que pautam a vivência periférica, como o rap e o funk, muito citados durante as entrevistas. A revista também busca unir o digital com o clássico. Os conteúdos são divulgados tanto no impresso quanto no digital e os vídeos postados no canal buscam manter o padrão estético da revista.


25

12. REFERENCIAL TEÓRICO

Esta pesquisa se fundamenta na tríade criada na segunda fase das teorias da comunicação. São elas a Agenda Setting (Teoria do Agendamento), o Gatekeeper (Guardião do Portão) e o Newsmaking. Essas três teorias se baseiam na comunicação de massa e em como a mídia influencia a sociedade através do seu discurso, interligados principalmente a assuntos políticos e na forma que esse discurso é levado ao público, como escrito por Alexandre Tambelli no jornal online GGN: Com este poder todo de controlar a informação que chega até nós, podemos assistir uma realidade, onde, se cria uma opinião pública condenatória ao refém da mídia e que acaba por interferir nas decisões de tribunais, que por medo da opinião pública e da opinião publicada por estes meios de comunicação hegemônicos pode decidir pela condenação de um inocente, por medo e imposição das massas, que são levadas inconscientemente a querer condenar o refém da Mídia. (TAMBELLI, 2016).

Fundamentada na década de 70 nos Estados Unidos pelos pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw, a Teoria do Agendamento parte do pressuposto de que a mídia tem influência no que será pautado nas conversas da população, agendando o que é ou não relevante e vantajoso de ser tratado, influenciando a população a pensar e conversar sobre o tema proposto. A ideia do Agenda-Setting, “definição agendada”, diz que os meios de comunicação determinam os assuntos discutidos pelas pessoas. O conceito de “agenda” refere-se a um grupo definido de temas discutidos em lugar e tempo específicos. Assim, a “agenda da mídia” são os temas presentes nos meios de comunicação; “agenda pública” são os temas e assuntos presentes nas conversas entre as pessoas. O modelo do Agenda-Setting prevê que os temas da agenda da mídia definem a agenda pública, isto é, passarão a ser discutidos pelas pessoas uma vez pautados pela mídia. Dessa maneira, se a mídia falar dos temas A, B e C, há uma tendência do público a tratar igualmente desses temas em suas conversas. (MARTINO, 2013).

Analisando na prática, o texto de Elias Brown ao site Casa dos Focas, portal direcionado à estudantes de jornalismo, mostra um relato sobre a chamada Agenda Setting:


26 No dia 09 de abril de 2013, um jovem de 19 anos foi morto durante um assalto na zona leste de são Paulo, o suspeito do assassinato completaria 18 anos três dias depois de cometer o crime e por isso cumpriria a pena como menor de idade. O caso ganhou as páginas dos principais jornais do Brasil e em poucas horas se tornou um dos assuntos mais comentados do país. Poucos dias depois, uma pesquisa do Datafolha com a seguinte questão “Se houvesse uma consulta, você votaria contra ou a favor da redução da maioridade penal para 16 anos?” Alarmava: 93% dos moradores da capital paulista queriam redução da maioridade penal. Infelizmente assassinatos desse tipo ocorrem diariamente, em vários lugares do país e por inúmeros motivos, mas por causa da abordagem parcial da mídia que deixou de contextualizar as causas deste tipo de problema social, a população tomou quase que unanimemente a decisão “Queremos redução da maioridade penal!”. (BROWN, 2014).

A segunda teoria surgiu no final da década de 40 e foi aplicada ao jornalismo no ano de 1950 por David Manning White. Ela está interligada à ideia de Agenda Setting, mas ela é relacionada mais ao profissional jornalista individual chamado de “Guardião do Portão” e os critérios que ele usa para a divulgação ou não de alguma notícia. Esses critérios podem ser chamados de valor-notícia e critério de noticiabilidade, como explicado por Gislene Silva, no periódico Estudos em Jornalismo e Mídia, da Universidade Federal de Santa Catarina: É no percurso dessa longa cadeia produtiva da notícia que devemos investigar a rede de critérios de noticiabilidade, compreendendo noticiabilidade (newsworthiness) como todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo da produção da notícia, desde características do fato, julgamentos pessoais do jornalista, cultura profissional da categoria, condições favorecedoras ou limitantes da empresa de mídia, qualidade do material (imagem e texto), relação com as fontes e com o público, fatores éticos e ainda circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais. (SILVA, 2005).

Segundo o periódico, esses critérios podem ser divididos de três formas: (a) na origem dos fatos (seleção primária dos fatos / valoresnotícia), considerando atributos próprios ou características típicas, que são reconhecidos por diferentes profissionais e veículos da imprensa; (b) no tratamento dos fatos, centrando-se na seleção hierárquica dos fatos e levando-se em conta, para além dos valoresnotícia dos fatos escolhidos, fatores inseridos dentro da organização, como formato do produto, qualidade do material jornalístico apurado (texto e imagem), prazo de fechamento, infraestrutura, tecnologia etc., como também fatores extra


27 organizacionais direta e intrinsecamente vinculados ao exercício da atividade jornalística, como relações do repórter com fontes e públicos; (c) na visão dos fatos, a partir de fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos do jornalismo, compreendendo conceitos de verdade, objetividade, interesse público, imparcialidade que orientam inclusive as ações e intenções das instâncias ou eixos anteriores.

A última teoria, intitulada como Newsmaking está ligada à forma da indústria produzir notícias. Ela exime o jornalista (guardião) da culpa do critério de noticiabilidade e diz que as notícias só são passadas do jeito que são, pois, as normas profissionais assim as estabelecem, como explicado no artigo “Jornalismo e newsmaking no século XXI: novas formas de produção jornalística no cenário online”, da revista Alterjor, da Universidade de São Paulo. Nas teorias do jornalismo, uma abordagem que pode lançar caminhos para pensar o fazer jornalístico é o newsmaking. A marca mais importante das teorias produzidas dentro deste paradigma são as considerações acerca das rotinas de produção de notícia. Na lógica do newsmaking, a elaboração da pauta, a seleção das fontes e o trabalho de apuração, redação e circulação da notícia constituem elementos determinantes da operação de produção informativa. Trata-se de um processo que envolve também escolhas pessoais e direcionamentos político-editoriais e ideológicos. (JÚNIOR E ANTONIOLI, 2016).

Fazendo uma analogia das teorias da comunicação, os contrastes das vivências das periferias em relação a mídia hegemônica atualmente e o tema do trabalho, fica perceptível que o ambiente periférico é consumido, midiaticamente falando, negativamente, como escreve Ansel (2013) coordenador do projeto Direito à Comunicação e Justiça Racial do Observatório de Favelas: “os estereótipos sobre as periferias - com maior ou menor destaque no imaginário midiático nas últimas décadas - têm contribuído sobremaneira para a naturalização de um quadro de extermínio da população, predominantemente negra, dos espaços populares”. A mídia não enfatiza os produtos culturais que emergem das periferias, o que esses locais têm a oferecer além dos índices de criminalidades retratados nas notícias. Sendo assim, os próprios cidadãos periféricos consumidores das mídias de massa ficam à mercê de uma visão negativa, imposto através de agendamentos de notícias com ênfase negativos, e presos a estes pré-julgamentos. Mesmo sabendo o que realmente se passa nesses lugares, a visão estereotipada da


28

população local se sobressai, como é deixado bem claro pelo compositor Mano Brown, do Racionais MC’s, na música Pânico na Zona Sul, no álbum Holocausto Urbano: “então quando o dia escurece, só quem é de lá sabe o que acontece/ Ao que me parece prevalece a ignorância/ E nós estamos sós/ Ninguém quer ouvir a nossa voz3”. As teorias clássicas são muito importantes para uma introdução a discussão do tema, mas esse é o ponto de partida das teorias em sua base. Será que hoje em dia ainda funciona assim? Como dito na primeira parte deste trabalho, a comunicação atual é uma comunicação segmentada, assim bem como o jornalismo. Não seria diferente com o jornalismo periferiano. A internet é uma ótima aliada ao novo jornalismo pois as opiniões e discussões do ambiente digital atingem muitas pessoas e nos tornamos emissores e receptores “ao mesmo tempo” e os dois processos se interligam, como escrito no artigo Algoritmos: uma releitura da teoria do gatekeeper na era pósmassiva. A evolução tecnológica e o surgimento dos meios digitais provocaram mudanças drásticas nas maneiras pelas quais as mensagens chegam aos seus destinatários. No final do século XX, os computadores inauguraram uma lógica reticular de comunicação cuja principal característica era a horizontalidade do ato comunicacional. Esse é o início de um novo ambiente denominado ciberespaço onde todas as pessoas são potencialmente produtoras de informação/conteúdo bem como receptoras. Sendo assim, as interações entre emissores e receptores se tornam muito rápidas e eficazes. Esse tipo de comunicação permite a criação de conceitos como o de Inteligência Coletiva, elaborado pelo sociólogo e pesquisador em ciência da informação Pierre Lévy. (VERA, 2017).

As redes sociais, por exemplo, são locais utilizados para esse tipo de comunicação. Um vídeo introdutório para a questão do modelo de mídia é a fala do ativista social e midiativista do Coletivo Papo Reto, Raull Santiago (2017), ao Mídia Ninja4. O termo midiativista, ligado diretamente a ativistas digitais, representa muito bem esse novo modelo.

3 4

Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7VORiKdVKoo>. Acesso em: 28 abr. 2019 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Dtaleqzf0dE>. Acesso em: 11 mai. 2019.


29 Quando acontecem coisas como atividades culturais, inovação, arte, cultura, - toda positividade existente dentro das periferias quando isso está em efervescência, você não consegue uma grande mobilização dos veículos dominantes da comunicação hegemônica para cobrir aquela atividade, mas basta dar um tiro, “pá!”, que aparece todo mundo, querendo cobrir, querendo explorar, essa imagem negativa que se cria daquele espaço. [...] Quem tá dentro da favela, quem convive, quem vai lá, vê o quanto ela é rica, o quanto acontecem coisas positivas. Quem olha para o preconceito e para o racismo, com um olhar que inferioriza nosso espaço, só passa a nos enxergar a partir do ouvir-nos ver, sem ver. Cria o imaginário do problemático, a partir de uma lógica racista, da desigualdade social e de todos os problemas. O eu multimídia, o comunicador independente, a nossa força, é exatamente essa de chegar com a comunicação nóis por nóis.

“Comunicação nóis por nóis”. É o que resume essa parte atual do jornalismo, escrita aqui como um aspecto teórico/prático. Essa frase é encontrada muitas vezes em letras de raps, como do músico Emicida, na música Nóiz5, e até se tornou título de um longa-metragem, criado em 2017 que será lançado em breve. Em suma, a comunicação periferiana é composta por veículos independentes, com pessoas que vivem a realidade daquele lugar e faz com que as outras que estão ao seu redor tenha um outro viés de noticiabilidade. Coletivos como o Desenrola E Não Me Enrola e o Periferia em Movimento, ambos da Zona Sul, acreditam nesse “novo” modo de se comunicar. Ronaldo Matos, do Desenrola, explica como é a produção de uma comunicação periférica na visão do grupo, que parte do pressuposto de um jornalismo não padronizado. “Para não reproduzirmos os estereótipos da grande mídia, produzimos um jornalismo para investigar as invisibilidades das periferias6.” Por fim, estudando as teorias clássicas, a mudança de perspectivas da comunicação, a troca de lugar de fala entre a mídia hegemônica e a mídia independente/periférica, é importante ressaltar a própria palavra “periferiano” como um aspecto teórico, sendo o termo o que levou a esse tema de projeto de pesquisa.

5

Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fQU0cSXpHBw>. Acesso em: 11 mai. 2019. Fala de Ronaldo Matos durante a III Semana de Jornalismo na mesa de debate “Na borda: o jornalismo periférico como combate à marginalização. Universidade Cruzeiro do Sul, em 29 abr. 2019. 6


30

Como estamos falando sobre uma comunicação de nicho e segmentada, partindo de um grupo social, falando sobre o próprio grupo social, é importante esse grupo sentir-se pertencente à uma nacionalidade, essa chamada de “nação periférica”. A partir da leitura do artigo “Brasileiro não é nacionalidade, é profissão” (DUVIVIER, 2018) e do estudo sobre a música “Tarde Para Desistir” (FERRERO; SAPIÊNCIA, 2010), foi pensado no sujeito periférico como pertencente à esta nacionalidade. Logo, essa pessoa que tem a noção da periferia como sua nacionalidade é chamada de “periferiana”, mas para ela ter essa noção de pertencimento, deve primeiro entender os contextos que a faz periférica. Tendo em vista essas reflexões, foi estudada a tese “A formação dos sujeitos periféricos: Cultura e política na periferia de São Paulo”, onde Tiarajú Pablo D’Andrea diz: Em torno dessas situações e dessas experiências, a população periférica engendrou uma narrativa e elaborou uma subjetividade para explicar seu lugar no mundo e fundamentar sua existência. A narrativa criada por essa população foi aquela expressa por um movimento cultural que soube condensar expectativas e sentimentos da população periférica. A principal expressão desse movimento é o grupo de rap Racionais MC’s. Por outro lado, surgiu uma nova subjetividade por meio de uma intensa luta para se colocar no mundo e se perceber por meio do orgulho, e não do estigma. Quando o indivíduo portador dessa nova subjetividade age politicamente é denominado neste trabalho como sujeito periférico. (DANDREA, 2013).

Com base nesses pensamentos, sobretudo na formação do sujeito periférico, chegou-se à conclusão teórica de que uma revista voltada ao público periferiano seria importante. Para a construção do produto, como layout, foi levado em conta as referências obtidas na revista “Na Responsa”, da “Énois – Agência de Jornalismo”, feita em parceria com a “Ambev7”. O conteúdo traz pautas periféricas com um design colorido, a fim de chamar a atenção dos jovens, seu público público-alvo. Foi

7

Produtora e distribuidora de bebidas.


31

levado em conta principalmente as cores, fontes das letras e ícones utilizados na revista. Outra referência utilizada foi o “Visionários da Quebrada”. Produzido em 2018 por Ana Carolina Martins, o documentário traz as histórias de 10 personagens que mudaram o cotidiano das periferias de São Paulo a partir de suas vivências. A diretora utilizou de uma campanha de financiamento coletivo para captar recursos financeiros para a confecção do documentário. Uma das recompensas para quem apoiou foi uma camiseta escrito “eu sou o meu lugar”. Essa frase foi utilizada como referência para o texto encontrado no Editorial da revista impressa.


32

13. REFERÊNCIAS

ASSIS, L. Virada Comunicação: Como coletivos de comunicação das periferias estão construindo uma nova forma de se comunicar. Anagrama, v. 12, n. 1, 28 jun. 2018. BARROS, Gracinda Vieira. A literatura marginal periférica nos movimentos sociais em rede. 2017. 189 f. Tese (Doutorado) - Curso de Estudos Literários, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2017. Disponível em: <https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao /viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=5015247>. Acesso em: 20 mar. 2019. BORGES, Pedro. Não existe comunicação mais forte que a negra, feminista e periférica. 2018. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/nao-existe-comunicacao-mais fort e-que-a-negra-femin>. Acesso em: 10 mar. 2018. BROWN, Elias. A Teoria do Agendamento ou Agenda Setting. 2014. Disponível em: <http://www.casadosfocas.com.br/a-teoria-do-agendamento-ou-agendasetting/>. Acesso em: 05 mai. 2019. BROWN, Mano. Pânico na Zona Sul. São Paulo: Zimbabwe, 1990. Voz.

BURGOS, Rosalina. Periferias urbanas da metrópole de São Paulo: territórios da base da indústria da reciclagem no urbano periférico. 2009. 357 f. Tese (Doutorado) - Curso de Geografia Humana, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde10032010110647/publico/R OSALINA_BURGOS.pdf>. Acesso em: 08 abr. 2019. CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino; SILV, Roberto da. Metodologia científica. 6. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2014. COTELO, Fernando Cardoso; RODRIGUES, Juciano Martins. Favela e periferia como espaços de pobreza: estudo sobre a configuração urbana de metrópoles brasileiras. 2011. 20 f. Monografia (Especialização) - Curso de Observatório das Metrópoles, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011. Disponível em: <https://www.anpec.org.br/encontro/2011/inscricao/arquivos/000fc7308246dab129c326a470798186d24.pdf>. Acesso em: 08 abr. 2019. DIAS, Bruno et al. [Vivências] A Resistência da Quebrada, 11 mar. 2019. Podcast. 68 minutos. Disponível em: <https://quebradev.com.br/a-resistencia-daquebrada/>. Acesso em: 13 abr. 2019.


33

DIP, Andrea. Língua e ginga: As gírias da quebrada são incorporadas ao idioma dos branquelas. 2010. Disponível em: <https://www.redebrasilatual.com.br/revistas/50/lingua-e-ginga>. Acesso em: 12 maio 2019. DUVIVIER, Gregorio. Brasileiro não é nacionalidade, é profissão: Fôssemos brasilianos ou brasileses, talvez restassem mais Amazônia e, quem sabe, respeito às urnas. Folha de S. Paulo. São Paulo, 16 abr. 2018. p. C5. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2018/04/brasileiro-nao-ena cionalidade-e-prof>. Acesso em: 11 abr. 2019. EMBARQUE NO DIREITO: Laboratório Popular de Comunicação e Direitos. São Paulo - Zona Sul, 2019. EMICIDA. Nóiz. São Paulo: Laboratório Fantasma, 2018. Voz. Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=fQU0cSXpHBw>. Acesso em: 11 maio 2019. FERRERO, Di; SAPIÊNCIA, Rincon. Tarde Para Desistir. São Paulo: Universal Music, 2010. Voz. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8YfzqOGS3Zo>. Acesso em: 11 abr. 2019. FREITAS, Guaciara Barbosa de. A relação entre mídia e periferia: Um estudo sobre o projeto Central da Periferia da TV Globo. 2011. 253 f. Tese (Doutorado) Curso de Ciências da Comunicação, Unidade Acadêmica de Pesquisa e Pósgraduação, Universidade do Vale do Rio Sinos - Unisinos, São Leopoldo, 2011. Disponível em: <http://www.repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/4272>. Acesso em: 15 mar. 2019. D'ANDREA, Tiarajú Pablo. A formação dos sujeitos periféricos: Cultura e política na periferia de São Paulo. 2013. 309 f. Tese (Doutorado) - Curso de Sociologia, Cultura e Política na Periferia de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-18062013-095304/pt-br.php>. Acesso em: 15 set. 2019. GUIMARÃES, Isabel Padilha; SILVEIRA, Ada Cristina Machado; RESUMO, Aline Roes Dalmolin. Um outro olhar sobre as periferias: a cobertura jornalística de revistas semanais brasileiras frente à emergência das práticas colaborativas na rede. Eco Pós, Rio de Janeiro, v. 16, n. 3, p.84-97, 07 out. 2013. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/eco_pos/article/view/833/pdf_6>. Acesso em: 13 abr. 2019. JOSIVALDO FILHO,; BRANDÃO, Pedro. Memórias Foto (Gráficas) do Jardim Ângela. São Paulo: Hq em Foco, 2015.


34

MATOS, Ronaldo et al. Você Repórter da Periferia: Visões e vivências do jornalismo nas periferias. São Paulo: Filoczar, 2018. 91 p. KOTSCHO, Ricardo. A tendência do jornalismo é o nicho de mercado. 2014. Disponível em: <http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-emquestao/_ed810_a_tendencia_ do_jornalismo_e_o_nicho_de_mercado/>. Acesso em: 12 abr. 2019. LEAL, Kaio et al. [Politize-se] O papel da autoestima na ocupação dos espaços. QuebraDev, 23 ago. 2018. Podcast. 60 minutos. Disponível em: <https://quebradev.com.br/o-papel-da-autoestima-na-ocupacao-dos-espacos/>. Acesso em: 25 mar. 2019. LEAL, Kaio et al. [Vivências] Periferia e a Comunidade. QuebraDev, 14 mai. 2018.Podcast. 46 minutos. Disponível em: <https://quebradev.com.br/periferia-e-a-comunidade/>. Acesso em: 25 mar. 2019. MARLON, Tony. Virada Comunicação: Como coletivos de comunicação das periferias estão construindo uma nova forma de se comunicar. [Entrevista concedida a] Larissa Gould de Assis. Anagrama, v. 12, n. 1, p. 5, set. 2017. MARTINO, Luís Mauro Sá. Teoria da comunicação: Ideias, conceitos e métodos. 4.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2013. 292 p. MENDES, Eliston Antonio. Periferias na cidade de São Paulo: o caso do Jardim Ângela e do Jardim Riviera. 2011. 196 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Geografia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: <https://tede2.pucsp.br/handle/handle/12295>. Acesso em: 20 mar. 2019. NASCIMENTO, Érica Peçanha do. É tudo nosso! Produção cultural na periferia paulistana. 2011. 225 f. Tese (Doutorado) - Curso de Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo,São Paulo, 2011. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-12112012-092647/ptbr.php>. Acesso em: 10 mar. 2019. NÓIS por Nóis. Direção de Jandir Santin e Aly Muritiba. Produção de Antônio Junior. Roteiro: Aly Muritiba, Henrique Santos e Jandir Santin. 2018. (100 min.), color. MORAES JÚNIOR, Enio; ANTONIOLI, Maria Elisabete. Jornalismo e Newsmaking no século XXI: novas formas de produção jornalística no cenário online. Revista Alterjor, São Paulo, v. 2, n. 14. 2016. Disponível em: <Http://www.revistas.usp.br/alterjor/article/view/121436>. Acesso em: 10 mar. 2019.


35

PEREIRA, Alexandre Barbosa. Breves reflexões sobre o asfalto: novas e velhas questões na periferia de São Paulo. Ponto Urbe, São Paulo, v. 6, 31 jul. 2010. Disponível em: <https://journals.openedition.org/pontourbe/1590>. Acesso em: 13 abr. 2019. RIBEIRO, Alexandre. Reservado. São Paulo: Miudeza, 2018. 208 p.

SANTIAGO, Raull: Uma nova perspectiva sobre a favela. Rio de Janeiro: Mídia Ninja, 2017. Son., P&B. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Dtaleqzf0dE>. Acesso em: 11 maio 2019. SANTOS, André. Debate sobre jornalismo nas periferias encerra 11ª MostraCultural da Cooperifa. 2018. Disponível em: <https://www.agenciamural.org.br/debate-sobre-jornalismo-nas-periferias-encerra11 a-mostra-cultural-da-cooperifa/>. Acesso em: 10 mar. 2019. SILVA, Gislene. Para pensar critérios de noticiabilidade. Estudo em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 2, n. 1, p.2-2, 2005. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/2091>. Acesso em: 06 mai. 2019. SILVA, Gustavo Souza da. Pontos de vista em documentários de periferia: estética, cotidiano e política. 2011. 253 f. Tese (Doutorado) - Curso de Estudo dos Meios e da Produção Mediática, Escola de Comunicações e Artes, Universidade deSão Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-23092011-192558/ptbr.php >. Acesso em: 20 mar. 2019. SILVEIRA, Ada Cristina Machado da. Modos de ver e devorar o outro: A ambivalência na cobertura jornalística das periferias. 2009. Disponível em: <http://www.observatoriodeseguranca.org/files/index.pdf>. Acesso em: 13 mar. 2019. TAMBELLI, Alexandre. Sociedade brasileira tornou-se refém dos meios de comunicação. 2016. Disponível em: <https://jornalggn.com.br/midia/sociedade brasileira-tornou-se-refem-dos-meios-de-comunicacao-por-alexandre-tambelli/>. Acesso em: 05 mai. 2019. VERA, Beatriz Camilo. Algoritmos: uma releitura da teoria do gatekeeper na era pós-massiva. Revista Comfilotec, São Paulo, 15 maio 2017. Disponível em:<https://www.fapcom.edu.br/iniciacao_cientifica/algoritmos-uma-releitura-dateoria-gat ekeeper-na-era-pos-massiva>. Acesso em: 19 maio 2019.


36

VISIONÁRIOS da quebrada. Direção de Ana Carolina Martins. São Paulo, 2018. Color.


37

14. CRONOGRAMA

Atividade Contato com as

Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez X

X

X

X

fontes Aplicação de

X

pesquisa Entrevistas

X

X

X

Decupagem

X

X

X

Redação da

X

X

X

revista Edição dos

X

vídeos Revisão Layout

X X

X

Diagramação Impressão

X

Apresentação

X


38

15. ORÇAMENTO

ITEM

QUANTIDADE

VALOR

Câmera Canon T6i

1

R$ 2.300,00

Tripé

1

R$ 79,00

Designer gráfico

1

R$ 300,00

Impressão do relatório

3

R$ 120,00

Impressão da revista

6

R$ 202,20

TOTAL

-

R$ 3.001,20


39

16. APÊNDICES

16.1

Transcrições das entrevistas

16.1.1 Din din No Corre das notas – Kaique Nazario e Otavio Luis 0’8 Como surgiu a ideia do nome? E por que uma marca de roupa? 12’ K - A gente tem o projeto Café de Quebra, que é pra dar voz a quem é da periferia, tá ligado? E a gente precisava manter esse projeto, precisávamos de grana. O projeto é nós entrevistando uma galera e subir isso pras redes, mas não tinha grana, já que não tinha o patrocínio de nada, nem ninguém, só algumas pequenas parcerias e precisamos de grana pra continuar alimentando esse projeto, que é um puta trampo legal. Daí veio a ideia da marca, pra trazer grana pra conseguir manter o projeto e marca, e seguir com os dois. A gente já tinha a ideia de lançar uma marca de roupa, e começamos a pensar em um nome para essa marca. Não é um rolê muito da hora, mas a gente tava numa tabacaria. A gente sempre fazia reunião em lugares aleatórios. Decidimos pelo Corre porque todo mundo tá no corre. A gente teria uma marca que seria citada constantemente por todo mundo, todo mundo fala corre diariamente, em qualquer conversa. Rolou muita coisa antes de Corre. Foi bem na época que o Djonga tinha lançado um CD com aquela música “Corra”, tava rolando o filme “Corra”, que é um puta filme foda também. Então teve tudo isso de inspiração. 1’55 O - Foi um liquidificador. Chegamos lá no dia e falamos “temos o projeto”, mas veio a ideia de fazer outra coisa pra complementar o projeto do Café de Quebra. Vamos fazer a reunião de pauta pra saber o que é isso, e já decidimos “marca de roupa”, agora vamos por uma figura nela, uma identidade visual. Então a gente foi nesse rolê aí, sentamos lá e fizemos… Branding que fala, né? - Em que você está se inspirando agora, ultimamente? O que você está ouvindo? - E a gente foi falando. Eu, Kaique, Melissa e Fabrício. Fomos falando um monte de coisa pro ar, nomes bem toscos. Fomos assitir o jogo do Palmeiras nesse dia, inclusive. E aí saiu.


40

Alguém falou “o corre”, “a correria” e fomos amadurecendo. O nome é estético, é legal, né? Falar “corre”. E aí tem todo esse significado, de correria. A ideia também no começo era que a marca tem um camaleão como logo, porque... 3’26 - K - O camaleão se adapta pra sobreviver, tá ligado? E quem tá na periferia hoje tem que ter esse espírito de se adaptar para sobreviver, se não você não vive. 3’53 E o Café de Quebra, qual o intuito dele? 4’04 K - Estamos juntos há muito tempo, a gente já se conhecia… Eu não conhecia muito o Otávio. Eles tinham desenrolado um projeto chamado “Ocupe-se”, na época das ocupações das escolas, eu ajudei meio que distante. 4’43 - O - Foi aí que eu conheci o Fabrício, mas eu tava participando mais das ocupações. 4’45 - K - O Café de Quebra não existia ainda, eu ajudei o Fabricio e o William, um parceiro nosso, mas bem distante, mais nas apresentações e tal, e aí juntou a galera e depois desse projeto que rolou muito bem, foi um trampo muito legal, tá no Youtube, até hoje a gente recebe notificação desse vídeo.

Juntou nós quatro, o William também, ele fez parte um bom tempo do Café de Quebra, que no início era Café no Sacolão porque gravamos lá no Sacolão das Artes, depois achamos melhor não seguir no sacolão, trocamos o nome e começamos a gravar aqui. Continuou no projeto eu, Fabricio, Melissa e Otávio. E o objetivo foi esse, dar voz pra quem é da quebrada e não tem voz. A gente entrevistou muita gente boa, muitos professores, cantores, artistas. A ideia do projeto era postar vídeos curtos e já marcar outras entrevistas e assim seguimos. 6’17 Qual a relação de vocês com a periferia? 6’2 K - A gente é daqui, nascemos aqui. Cada um veio de uma quebrada próxima mas todo mundo é da região, do Capão, São Luís, Capelinha.


41

O - 100% original.

K - Ninguém é de fora, de bairro de boy, 100% da quebrada. Por isso a ideia do Corre. O que levou a gente a levar corre nome era porque tava todo mundo trampo e estudando pra caralho e até hoje tá assim, todo mundo tem o trampo fora, estuda fora, e ainda mantém o Corre o Café de Quebra, só sendo muito corre pra fazer isso. O - Esse bagulho que você falou muito da periferia e até ligando no nome, “Corre” é uma palavra bem marginalizada, mano. Pra quem não é de quebrada assim, galera mais boy, quando ouve “ah, o cara vai fazer um corre” e tal, ou até a gente mesmo que tem esse costume de falar corre, pra algo tipo roubo, ou coisa do tipo, e esse a gente também traz isso, pra usar o nome e quebrar esse estereótipo, esse bagulho de corre ser atribulado a coisa ruim e nóis, jovens de periferia, também já estamos atribulados a várias coisas ruins e ainda assim a gente usa o nome marginalizado, tem todo esse conceito do nome e da estética, que mostra que é uma marca de quebrada. 08’14 Já sofreram discriminação por pertencer a este lugar? 08’24 O - Com certeza, né, mano?

K - Eu trampo em banco, a galera lá e mais pá. Eu visto corre em qualquer lugar que eu vou. A gente procura fazer modelo pra você usar no trampo, no rolê, na balada, praticando esporte, eu uso constantemente em qualquer lugar que eu vou. Então eu vou trampar de corre, praticar esporte de corre, quando eu chego no trampo com uma camiseta escrita ‘corre’, todo mundo olha torto. quem é próximo questiona por quê, é da hora porque eu explico e a pessoa entende que não é a parada marginalizada. Mas muita gente tem preconceito. O - E outra, só de olhar pra gente já começa por aí. A pessoa olha pra gente primeiro e já vem tudo, já vem a desconfiança, aí além disso, se você usa uma camisa do corre… Quando eu cheguei com a ideia em casa a família já ficou meio “olha esse nome, olha essa ideia. Você andar na rua e tomar enquadro com a camisa corre…”


42

É óbvio que não é nada de nada porque eu e Kaique já somos o perigo por ser quem somos, ainda mais com o corre exposto no nosso peito. Nóis tem uma camisa, que é essa daqui, “Do Contra”, que ela tem umas mensagens atrás, contra o machismo, homofobia, racismo, sexismo, qualquer tipo de preconceito, que é nossa luta.

Ser contra esses preconceitos e estar estampado na marca, a gente já sofre preconceito por ser contra esses bagulho, e quem pratica esse tipo de coisa, até veladamente, já olha e cria o estereótipo de que você é contra machismo, homofobia, você já é discriminado. Então com certeza a gente já sofreu preconceito. 11’10 Como vocês acham que a marca contribui para o crescimento da cultura periférica? 11’18 K - é um caminho constante de crescimento. É um trabalho artístico e todo trabalho artístico tem uma mensagem. Claro que a gente faz também pra ganhar dinheiro, tem o lucro envolvido, mas ela contribui sim.

A gente busca chegar longe e não se manter só na quebrada. É uma marca da quebrada, pra quem é da quebrada consumir. A primeira preocupação foi uma marca de qualidade e pra todo mundo poder comprar, pra quem é daqui do lado vestir o corre e ter orgulho que veio daqui. E por outro lado a gente chega em outras quebradas.

Áudio 2 0’9 A marca foi criada para as moradoras e moradores periféricos ou isso não foi levado em conta? 0’17 K - Com certeza foi levado em conta a gente criou para quem é daqui, pra quem é de quebrada ter um pano de qualidade e não precisar pagar uma fortuna em qualquer shopping por aí. Então quando iniciou tudo, a maior preocupação era qualidade de tudo que a gente estava fazendo, tanto é que eu fiz várias paradas de


43

teste e acabei não vendendo. A gente tomou um bom prejuízo no início, até achar os fornecedores da hora mesmo. para fazer um produto de qualidade e entregar para geral então com certeza o foco é quem está aqui mas a gente buscar vender para todo mundo uma para divulgar a mensagem e respondendo a pergunta interior para a galera se conscientizar. A gente coloca muitas coisas na camiseta são coisas de quem é da quebrada sofre e acho que todo mundo tem que entender essa visão entender a mensagem que estamos querendo passar. 1’04 E também o contexto que torna a marca de quebrada e para quebrada: primeiro que todos os ensaios são aqui. A gente fez até um que é numa oficina os cenários são sempre daqui, todos os modelos são garotas e garotos daqui de quebrada e esse é o conceito. Apesar que a gente já fez um ensaio na Paulista, no cenário urbano, mas vai ser muito difícil vocês verem a gente fazendo algo sem envolver uma galera que não é de quebrada, um cenário que não tem nada a ver. até o conceito de marketing e divulgação a gente gosta que seja prioritário uma identidade visual de quebrada para galeras ter uma identificação boa os modelos serem parecido com a gente também.

A gente traz também um conceito de uma economia solidária, que contribui para o crescimento. A gente tem como referências marca como a Fundão, a 1 da Sul, que são marcas já conceituadas aqui da quebrada e temos inspiração total nos caras, porque eles já começaram 20 anos atrás o trampo deles e a gente está começando agora. Tem toda uma parada que a gente inspira, mas os caras também passam maior veneno para produzir criar desenvolver, e a gente estava vendo esse veneno porque estamos no mesmo tipo de produção. Por que você tem que pagar 200 conto numa camiseta da Nike se você pode pagar mais barato na nossa? E com um bagulho da quebrada a gente tenta trazer essa visão, para molecada que mora aqui dentro. Vamos fazer o dinheiro girar aqui.

Vamos consumir coisas da quebrada, tá ligado? A gente faz uma marca de quebrada para quem é daqui, para quem tá no corre mesmo.


44

3’31 E como está a procura pela marca? 3’39 K - É um corre, né, mano? No início a gente não tinha tanta grana para chegar e produzir em massa para atender todos os pedidos, mas a gente nunca deixava ninguém na mão, isso eu posso falar com certeza. Todo mundo que pediu, em qualquer meio, recebeu. Mesmo que uma ou outra coisa demorasse mais para chegar porque não tinha pronta entrega. Mas tá boa a procura, tudo que a gente faz a gente vende. 4’12 O - E já faz um ano, estamos vendo os frutos vindo.

c- a gente vÊ gente de outra quebrada usando, a gente entrega no Brasil inteiro e até para quem vai para fora também. teve caso de conhecido nosso colar para fora e levar um pouco. nem que seja só para divulgar, tem gente que comprou, vendeu lá, distribuiu...

O - tem gente Nova York já, fi.

K - O corre tá chegando longe...

O - A gente deve muito a isso a propagação da marca Corre com a parceria que a gente fez com Crônica Mendes É sempre bom lembrar ele coordena a Batalha das fábricas na fábrica de cultura do Jardim São Luiz ele já era amigo da gente de um tempo entrevistamos ele no café de quebra e ele disse ó Tem uma galera aqui tem um público Legal vamos fazer uma parceria a gente chegou no momento na batalha que não tinha nada eles não tinham Patrocínio só tinham o espaço e faziam a batalha quando a gente chegou com a camisa para o vencedor patrocinando eles e divulgando a imagem para quem ia depois de um tempo aumentou hoje tem várias marcas que chegam lá. O crônicas ajudou a propagar bastante dentro do nosso meio do nosso bairro, que é importante isso, a gente chegar em várias quebradas. A gente chegou num momento que a batalha estava meio fraca K - 6’05 e era o início pra nós, a gente se fortaleceu junto, Graças a Deus a gente tá crescendo e eles estão bem grandes lá também, tem uma galera patrocinando.


45

Toda última quinta do mês na fábrica de cultura jardim são luís. O vencedor ganha a camisa do corre, se ele quiser é só chegar lá e batalhar.

O - Nossa loja é totalmente digital, só pelas mídias sociais, a gente não tem loja física ou algum ponto que você passe lá e sabe que ali é a loja do corre. A gente tem alguns lugares que deixamos algumas camisetas, mas a loja é totalmente digital. A gente já foi em outras batalhas também mas o forte sempre foi a do São Luís, ajudou muito a propagação visual e física.

Estamos caminhando. É óbvio que pela correria da nossa vida a gente não dedica todo o tempo do dia pro corre, mas o tempo que a gente tem , que a gente consegue, acho que produzimos mais do que poderíamos dentro de um ano. 07’25 Vocês se inspiraram em alguém? 7’45 O - essas referências de marcas, que é a fundão, a 1 da sul

K - marcas de quebrada em geral a gente se espelha bastante

O - toda essa correria de fazer um pano pra quem é de quebrada e que tenha qualidade é nossa missão. Esse lado mais conceitual de uma música ou um filme foi o que fomos juntando e formou o nome, que ´djonga, que é um dos caras que está estourando no rap, pra nós quatro, tanto que a gente até teve a oportunidade de conhecer ele e dar uma camisa pra ele e tal e as músicas deles inspirou muito a gente, as duas músicas, Corre das Notas e Corra. Essa última música é baseada no filme que também inspirou a gente. 8’47 Fizeram um clipe de uma música chamada Corre em que eles usam a marca de vocês. Como foi essa troca? 9’03 K - eles são conhecidos de uma das integrantes do Corre, eles chegaram nela e ela trouxe a ideia pra gente. Qualquer marca que surge na quebrada, no início o que mais tem é pedido de patrocínio e parceria. A gente já perdeu até as contas. é uma troca da hora, a gente chega sempre que pode. claro que não dá pra atender


46

todos, infelizmente. Mas nesse foi uma das oportunidades, eles falaram que queriam lançar um clipe e a gente achou da hora a ideia e a gente chegou e fortaleceu eles também, foi um fortalecimento de mão dupla. A divulgação deles foi da hora. 9’53 O - Na hora que a ideia chego lá na “mesa de reunião”, fiquei meio pá, falei não sei, mas beleza. Eles gravaram, mandaram umas fotos e a gente fez o lançamento da camiseta “Do Contra”, depois de uma cota lançaram a música eu escutei e falei “Caralho, essa música é muito foda”, superaram minhas expectativas. Tem um moleque lá que eu esqueci o nome dele, o vulgo nele no instagram é “mikespeed”, ele ganhou uma música, mas ele faz um trampo de divulgar de coração e você vê que o moleque curti os bagulho, curte a marca, posta direto foto, sem pudor nenhum. A gente confiou e eles valorizaram. O trampo dos caras é firmão, escuta lá a música. É essa a parceria que une. 11’08 - Qual música você acha que representam vocês ou a Corre? O - 11’15 é bom eu falar de uma música que envolve o corre, tem o nome corre também, que é do Edi Rock, do Racionais. O produtor dele conheceu a gente num show. Na época demos uma camisa pra ele e trocou uma ideia, tiramos umas fotos. E aí o Edi Rock lançou uma música chamada corre neguinho, com o Xande de pilares, e aí o produtor deles deu um salve na gente, nem sabíamos que ele iria lançar, que ia ter essa música. e aí ele falou “o edi rock vai lançar uma música com o nome corre, encosta aqui, traz umas camisas, vamos fazer essa aliança.”. O cara mó gente boa. O racionais é inspiração pra tudo que a gente possa pensar de quebrada, os caras estão ali. E aí um dos caras teve esse cuidado de lembrar da gente. 11’27 A gente colou na apresentação da música, foi num evento que teve lá na Tidal e a gente levou umas camisas. a Música tem uma parada muito louca, fala de um moleque de periferia que sobrevive em meio a tudo, muito louco. Então eu acho que uma das inspirações musicais minhas é o Edi Rock. Ele lançou um cd novo agora, “origens”, muito foda. É isso. Rap.


47

12’ - A gente curte muito rap, tá ligado? A quebrada consome muito rap.O mundo deveria consumir mais rap, talvez as pessoas teriam mais noção das merdas que estão fazendo. A gente curte muito rap mesmo, não dá pra falar quem é melhor que quem. A gente citou bastante racionais e djonga que é o equilíbrio, racionais é um rap mais clássico, djonga é um dos caras novos que está mandando bem pra caralho, mas tem muita gente boa, eu não vou nem citar todo mundo senão eu posso esquecer alguém. ot - 13’34 Escute um bom rap, porque tem uns bagui aí… e leia bastante, de tudo, pesquisa as referências do rap. “A gente curte muito rap, tá ligado? A quebrada consome muito rap.O mundo deveria consumir mais rap, talvez as pessoas teriam mais noção das merdas que estão fazendo” 13’47 Quais os próximos passos para a marca? 13’51 K - coleção nova, a gente já desenhou metade, está desenrolando o resto agora. A gente vai fazer um evento pra lançar a próxima coleção. A gente ainda não tem data definida ou local definido, mas já tem bastante coisa desenhada, só não posso adiantar muita coisa agora, porque não está tudo tão decidido assim, mas é questão de dois meses, no máximo. 14’ A gente lançou recentemente moletom, bag, touca, pensando mais no inverno e a próxima coleção vai ser pensando mais numa parada primavera verão 14’44 O - quem diria, eu tô pensando igual a C&A: primavera-verão. A gente vai lançar umas roupas mais pá pensando no calor. 14’46 K - Agora tá frio pra caralho, então a gente teve que lançar moletom, touca e tal, foi da hora, saiu bastante 15’ O - a gente lançou o corre na época de frio, mano, e a gente não pensou muito.


48

15’10 K - é que ano passado foi aquela treta, não tínhamos contatos tão definidos, então a gente sofreu com confecção. Nossa preocupação sempre foi com a qualidade, a gente acabou não atingindo essa qualidade, então nem vendemos as paradas que fizemos pro frio no ano passado. Esse ano a gente se propôs em se preparar muito mais, hoje já temos uns contatos mais consolidados que fazem os bagulhos pra gente e a gente conseguiu lançar uns bagulho da hora e agora a próxima coleção vai ser um pensado no calor mesmo, vai ter bermuda, boné e é isso que eu posso falar por enquanto. 15’55 O - não só nas próximas coleções, mas os próximos passos é pensar em crescer em todos os sentidos: planejamento interno, visual, as fotos, criar um site. Mas a gente precisa sempre dar o tiro certo também, não adianta fazer o bagulho sem ter perna pra cuidar.

As coisas também vão acontecendo naturalmente. Esse convite do Edi Rock, também recebemos um convite para um jogo beneficente em Osasco, que tinha o Gabriel Jesus, então essas coisas vão acontecendo naturalmente e ajudam a crescer.


49

16.1.2 Especial Favela vive – Claudio Miranda 00’25 Como surgiu a ideia de criar o instituto? 00’39 Comecei com uma banda né junto Com os amigos daqui em 89 a gente foi um dOs primeiros grupos de pagode e de samba Dessa região Do Jardim Ângela A gente vai fazer música Por que a gente amava a gente gostava de fazer música então começamos a bater lata, a gente não tinha instrumento. Então eu tinha facilidade de tocar os instrumentos, minha mão tinha facilidade de construir Instrumentos a partir das Latas então a gente Começou o grupo poesia do Samba na época pra fazer Música. O Jardim Ângela era um lugar de muita violência naquela época a rua aqui era de terra, Era considerado um dos bairros mais violentos do mundo pela ONU, e o que a gente achava de interessante para fazer música. A partir daí a gente criou essa banda. essa banda participou de muitos festivais, meu Pai foi o empresário sem dinheiro da banda. como todo empresário aqui da quebrada é a mãe ou o pai. levou a gente para tocar em muitos lugares participamos de muitos festivais, gravamos disco, fizemos, muitas coisas. De 89 a 2001 nós éramos um grupo chamado poesia do Samba que arrastava gente para tudo quanto é lugar, Festival na comunidade na quebrada aqui mesmo a gente ia tocar e lotava, dava duas mil pessoas, Porque a gente tocava nas rádios piratas. E a gente percebeu que a música Era um caminho muito fácil para a gente se comunicar, Onde tinha música não tinha violência. E a gente começou também a dar aula de música. Oi a gente tem aqui Uma quarta geração de músicos num Projeto já, mas A gente começou a dar aula em muitos pagodes da região, montar e apoiar muitos grupos aqui da região e a gente começou dessa forma esse é nosso trabalho social mesmo era Fazer músicas e apoiar para ter outros grupos. Em 2001 a gente resolveu mudar o nome da banda porque a gente era um grupo de pagode e naquela época não é igual hoje que a você tem vários estilos de música circulando no mesmo ambiente Brasil hoje está misturando muitos estilos de música naquela época era assim tinha o pagode saia o pagode entrava sertanejo do Sertanejo entrava na Lambada, Então na época surgiu Axé e sumiu a onda do Pagode e A gente resolveu voltar para as nossas origens, A gente ouvia muito Michael Jackson,


50

muita música americana, black music, e a gente também ouvia muito samba. Então a gente partiu de colocar o nome da banda de poesia samba Sou.l Aí a gente começa uma outra jornada em 2001, só ficou eu e o Fábio na banda, saiu todo mundo porque pagode acabou, então eu e o Fábio para renovar aquilo Que a gente estava fazendo e voltar para uma origem Queria a gente colocou o nome de poesia samba soul Nós começamos a remontar a banda novamente. Com isso a gente também abriu um estúdio de música, porque havia muitas bandas de rap, muitos grupos aqui que não tinham onde gravar. A gente voltou com uma pegada mais social, cultural.

Uma outra etapa da nossa vida foi quando eu viajei para fora do país em 2009. Tive uma viagem para portugal, uma ecovila que fica no sul de portugal, toda autossustentável, que funciona com energia solar e juntava jovens do mundo inteiro para uma “universidade-verão”, então tinha lá 500 pessoas, 60 países envolvidos, e eu era esse único jovem que saiu aqui do brasil pra entrar nesse congresso durante 3 meses. Então aí foi uma outra jornada, a partir dali a gente criou o instituto favela da paz. Eu voltei pro Brasil, todos os meninos trabalhavam fora, eu era o único que já tinha largado o emprego, trabalhava desde os nove anos de pegador de bolinhas no clube indíano, em 2001 eu ja tinha largado tudo, fiquei só fazendo música, encarei a música como uma profissão de vida, mesmo não ganhando praticamente nada. Em 2009, depois que eu volto, eu vi várias cenas na ecovila que pensei “caramba, o fabio iria se dar bem”, o fábio sempre foi muito inventor, já tínhamos improvisado um estúdio com circulação de ar natural. Falei “fábio, a gente tem que viajar pra lá em 2010”. Lá tinha um lance de comida vegana, eu fiquei 3 meses sem comer carne, quando eu voltei, estava com um outro pensamento sobre alimentação, fiz uma reflexão do que é se alimentar de uma forma natural e orgânica. Conversei com a Elen, ela cozinha super bem… falei “sai do emprego que nós todos vamos viajar em 2010” pra portugal. Não tinha convite, não tinha passagem, só tinha uma intuição muito forte, que é uma coisa que acho que a periferia, a favela tem muito forte é que nós somos seres intuitivos ainda, a gente não perdeu nossa intuição, a questão material a nossa volta ainda é pequena, então a gente mantem nossa intuição. Se entra uma pessoa na favela, a primeira coisa que ela vai fazer é olhar e te sentir. Você entra na cidade, a pessoa vai perguntar o que você está fazendo lá, é mais racional, já a gente é mais intuitivo.


51

Então eu tive essa intuição de que a gente ia viajar, eles confiaram em mim, saíram do emprego, tiraram passaporte, quando foi no final do ano de 2009, eu recebi a proposta de levar a banda toda pra portugal. Eaí a gente começa uma outra jornada das nossas vidas. O poesia samba soul vai pra portugal, uma ecovila, pra um encontro de novo de três meses, a gente chegou lá e os meninos ficaram todos deslumbrados com tudo aquilo. A gente foi duas vezes em 2010 para portugal: fomos pra um encontro de músicos do mundo e depois fomos pra um encontro chamado Campus Global, voltadas a iniciativas em àreas de risco. Tinha gente da áfrica, palestina, israel, e a partir dali começa uma outra jornada.

Em 2011 a gente recebeu uma proposta dessa ecovila para ir numa comunidade chamada Comunidade de Paz San Jose, na Colombia, no meio de uma mata, numa parte da Amazônia, onde mataram 250 pessoas. Primeiro foi só eu, depois numa segunda viagem fomos nós todos, e aí lá que a gente teve a ideia de montar o instituto favela da paz, aquela comunidade nos inspirou, apesar de tanta violência que eles sofreram, eles conseguiram se reerguer e se manter como comunidade.

De 89, quando a gente começou a banda até 2010 a gente nunca recebeu apoio financeiro de ninguém. Em 2011 conhecemos um amigo alemão que queria apoiar financeiramente o instituto. A gente não tinha uma conta, nada disso, então resolvemos abrir uma organização, que é o Instituto Favela da Paz, com o intuito de receber também esse recurso financeiro que vem de fora do país, e aí foi o primeiro recurso que a gente recebeu.

De lá pra cá a gente fez muitas viagens, já fomos pra mais de 30 países, rodamos muito. A gente foi para os Estados Unidos, muitos países da europa, fomos para o médio oriente, já chegamos a tocar na Palestina, em Israel. Então a gente girou o mundo, a banda continuou fazendo a parte musical e agora estamos numa fase que a gente nao consegue fazer muito a parte musical, a gente tem um show no sesc agora e não conseguimos nem se juntar para ensaiar, porque cada um começou a fazer muita coisa: o Fábio criou o projeto do Periferia Sustentável, a Hellen criou o Vegearte, o pequeno está com as crianças. o Luis também tem um projeto de percussão com as crianças, o Paulinho tem um projeto chamado biotipos de cura e esta lá em portugal com o Rafa e Agatha. Então cada um está fazendo vários


52

projetos então acabou que a gente parou um pouco de fazer música, mas a gente quer retomar.

Em 2015 a gente gravou um DVD independente, foi o primeiro dvd gravado nessa região. A gente chamou de dvd colaborativo, ganhamos um cachê de 5 mil, dividimos em partes iguais e gravamos o dvd. 70 pessoas organizando e 800 pessoas no show, dentro da fábrica de criatividade.

Então por não recebermos apoio durante muitos anos, aprendemos a fazer tudo de uma forma muito colaborativa. De 30 anos que estamos trabalhando, impactamos a vida de muita gente e agente nem sabe, e as nossas vidas mudou muito também.

Parça, desenrola e não me enrola – Thais Siqueira 0’13, Thais, qual a sua relação com a periferia? 0’18 Minha relação com a periferia vem desde o meu nascimento. Sou nascida, criada e desenvolvo meus trabalhos aqui na periferia 0’30 1’08 Quando você se descobriu periferiana? 1’33 Eu me descobri enquanto sujeita periférica por meio do sarau. Começou por meio de uma descoberta a partir das reportagens que a gente fazia dentro do Desenrola e Não Me Enrola. Toda vez que a gente ia em algum espaço a gente aprendia com aquele espaço, saía com energia boas daquele espaço e compreendia vários processos do que acontece nas periferias, vários processos de projetos que estão desenvolvendo trabalhos pra poder fazer mudanças nos territórios. A partir desse momento eu comecei a entender a minha relação enquanto sujeita periférica e fui me descobrindo em relação a isso, fui entendendo essa relação do território enquanto comigo mesma. Eu já morei em vários lugares, várias periferias: já morei no Guacuri; no Grajaú; na Mata Virgem, que é divisa com Eldorado e Diadema. Cada periferia é única, cada território é único e cada um tem uma história, algo muito significativo e importante para contar.


53

3’10 Você já sofreu algum tipo de discriminação por pertencer a este lugar? 3’15 Eu já sofri e acho que todo mundo que é morador de periferia em algum momento já sofreu algum tipo de situação em relação ao lugar onde se vive. Porém, a realidade é essa: eu nunca tive vergonha de dizer de onde eu vinha. Em alguns momentos, em trabalhos, universidade, eu nunca tive medo de falar e sempre tive orgulho de falar de onde eu vinha e isso foi muito positivo porque alguns colegas meus que eram moradores de algum território periférico e que não falava onde morava, quando me viu falando que na época, enquanto estudante “sou morada do Grajaú”, daqui a pouco o outro falou “sou morador de Parelheiros”. Eu fui percebendo essa questão, quando comecei a entender o meu território e a me entender enquanto sujeita periférica eu comecei a traduzir ir por todos os lugares onde eu passava e isso foi muito legal porque aí a galera começou a dizer de onde vinha e se sentir à vontade, e isso pra mim fez muito sentido. Isso significa que de algum forma, o fato de não ter vergonha de dizer onde eu moro impactou aquele ambiente de uma forma positiva. 5’23 Como a sua vivência periférica contribui para o crescimento cultural e comunicacional das periferias? 6’ A nossa vivência se dá muito pelos coletivos que fomos encontrando no meio do caminho. Ninguém faz nada sozinho, ninguém chega em algum lugar sozinho. Eu não acredito em meritocracia e todo os coletivos culturais, socioculturais e articuladores que fomos encontrando foram de extrema importância para o desenrola desenvolver todos os projetos que ele desenvolve hoje. A galera do Nakamura, com o Poesia samba soul, são mateus em movimento lá da zona leste “salve nego tinho”, a galera do Grajaú, a galera da zona norte. Nossa vivência foi de aprendizado com essas pessoas. A gente tem que chegar no rolê com sangue novo e coisas novas, mas também temos que olhar pra quem começou lá atrás. Se há seis anos o desenrola pôde fazer tudo que fez e faz é porque antes vieram outros coletivos, como o Saraus do Binho e Cooperifa, mesmo a gente tendo a pegada da comunicação, olha como esses saraus literários fazem toda a diferença na nossa vida. Quem é do audiovisual passou por lá, quem é da comunicação passou por aquele espaço, quem é do teatro, já passou por aquele espaço, saca? Quem é


54

professor passou e ainda passa. Eles dois são só um exemplo. Toda a experiência de vivência que a gente tem hoje dentro do território devemos a galera que começou lá atrás e foi abrindo caminhos para que pudéssemos desenvolver o trampo que a gente faz hoje. 9’11 Desses trampos que vocês fazem, de quais vocês são criadores? 9’28 A gente tem o desenrola e não me enrola, que já atua há seis anos, com quatro frentes de trabalho: programa de formação com os jovens das periferias de são Paulo, que é o Você repórter da periferia; o próprio site de notícias; o infoterritório, que é uma frente de pesquisa, que é o projeto mais novo, que vem com a ideia de “mano, a galera vive fazendo pesquisa com a gente (periféricos), por nós mesmos não fazemos essa pesquisa?” Estamos começando a coletar isso. Recentemente fizemos uma pesquisa de cultura e comunicação com 500 jovens e em breve vamos trazer o resultado dessa amostra. A última frente que gente tem é o próprio espaço do centro de mídias, um coworking de quebrada, um espaço de trabalho colaborativo onde as pessoas podem vir e utilizar, temos estúdio, auditório, cozinha, sala de reuniões, que os coletivos podem utilizar. Hoje nós temos seis coletivos que ocupam o espaço e fora os coletivos e produtores que utilizam de forma rotativa. 11’10 como surgiu a ideia do projeto principal?

o Matos que estudava comigo, começamos a pensar num blog e na ideia de fazer alguma coisa. Mesmo eu sendo moradora da periferia eu tinha dificuldade de entender o que acontecia na periferia e não entendia o contexto do que estava acontecendo ao meu redor. O Ronaldo já conhecia um pouco disso e começou a me apresentar. A partir do Desenrola E Não Me Enrola , quando comecei a entender o que era essa cultura da periferia e o que acontecia dentro do território eu comecei a me entender e entender minha relação com esse território. Começamos a fazer várias reportagens, mas não queríamos falar só da zona sul, e até hoje temos essa pegada, atuamos de uma forma hiperlocal. Eu lembro que enquanto fazíamos algumas reportagens aqui na zona sul e tinha uma galera da leste que estava no evento, quando via a gente, falava “poxa, vocês poderiam ir lá”. Eles passavam o contato e agente ia. Nosso final de semana, em que poderíamos estar comendo


55

uma feijoada e se divertindo, enquanto estudantes de jornalismo, o que a gente estava fazendo? Reportagem! Muitas vezes sem dinheiro pra transporte. Nos bairros da zona sul onde moramos a gente ia à pé. Mas sempre foi muito gratificante fazer isso, todo lugar que a gente chegava, a gente saía com uma pauta e uma conexão nova. Quando percebemos, estávamos em em rede e essa rede é muito forte. Quando você começa a se conectar com as pessoas, você não está falando só de pauta, você está falando de histórias e vivências. A partir disso nasce o Desenrola. Então percebemos que só nós dois não daríamos conta. O Rafael Poesia entrou também no coletivo e nos ajudou, porém hoje ele não faz mais parte. Então gente pensou que tinha que criar alguma coisa para os jovens, então conversamos e surgiu o Você Repórter da Periferia, em que estamos na sexta edição, onde já passaram vários jovens que estão espalhados na cidade, fazendo trampos tanto dentro da comunicação como fora dela. 16’35 Desses jovens, algum continuou a ideia que ele absorveu nessa formação? 16’55 Todos eles têm uma relação com o território. Ninguém sai da mesma forma que entra. O Você Repórter tem essa pegada de senso crítico, pegada do direito à cidade, essa pegada do jovem poder olhar ao seu redor e entender o que está acontecendo, as questões sociais. Tem jovem que fizeram os próprios coletivos, tem jovem que se formou em história e dá aula em cursinhos da periferia, foi uma jovem que, enquanto professora, entendeu que isso fazia sentido pra ela, devolver pro território o saber. Tem jovem que foi pro meio corporativo. Nosso intuito é do jovem ser e fazer o que quiser. Se ele quer trampar numa multinacional, que ele vá trampar, se ele quer trabalhar com a periferia, que ele trabalhe com a periferia, se ele quer fazer o próprio coletivo, que ele faça e tenha êxito. O que é da hora é que tem jovem que participaram em 2014, 2015, 2016, 17, 18, 19, e é muito legal porque as vezes tem jovem que é de um ano e se encontra com outro de dois, três anos atrás e quando um fala pro outro que participou da formação, a relação passa a ser mais intensa e acaba nascendo uma amizade. 19’33 Para manter o projeto, como é financeiramente?


56

20’15 Costumamos brincar, falando que somos cria do VAI - Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais. Em 2014 ganhamos esse edital, da Secretaria de Cultura, onde ele tem como focado em jovens das periferias de São Paulo. Foi nosso primeiro financiamento e tivemos a oportunidade comprar equipamentos, alimentação pra galera que iria participar das oficinas do Você Repórter. Em 2015 ganhamos novamente, mas os integrantes dos coletivos tinham os seus trabalhos fora do coletivo. Já em 2016 fizemos o Você Repórter sem ter nenhum centavo e tiramos dinheiro do próprio bolso. Em 2017 ganhamos a Lei de Fomento à Cultura da Periferia e durante dois anos conseguimos manter o espaço do Centro de Mídias, o Você Repórter e todas as outras ações que desenvolvemos. A partir da Lei de Fomento também passámos a trabalhar 100% para o coletivo e isso foi muito libertador porque tínhamos vontade fazer muitas outras coisas, mas não conseguimos realizar por causa do trabalho. Eu gosto de realizar, mas fico preocupada com as palavras “sou realizador”, eu só quero ser a Thaís e ser eu mesma”.

No final de 2018, quando acabou à lei de fomento, já estávamos fazendo uma campanha de financiamento coletivo pra manter o espaço aberto. Eu não tinha a mínima noção de que as pessoas doariam para a campanha, mas antes de pedir nós passamos por uma formação e o Tony Marlon nos ajudou muito na formação. Nós passamos por um momento em que ficamos pedindo, mandando mensagem “Oi, gente, vocês já fizeram a doação?” E nós vencemos uma coisa muito louca, que é ficar pedindo dinheiro para as pessoas. Até eu colocar na minha cabeça e compreender que estava tudo bem em fazer isso, porque as pessoas só iriam ajudar se elas pudessem e tivessem, foi um processo grande.

A gente sempre escutou que nas campanhas de financiamento coletivo, a maioria das pessoas que doam são pessoas que não são da periferia, e que as pessoas da periferia não tem essa cultura de fazer doações. Mas quando finalizou a campanha e fomos olhar os dados na Juntos, que foi a plataforma que a gente usou, eles nos passaram o seguinte: a maioria das doações vieram de dentro da periferia, só que com valor menor, e a minoria veio de fora, porém com valor maior. De dentro da periferia O volume foi maior em pessoas e menos verba, e de fora menos pessoas e mais verba. Ficamos muito felizes porque percebemos que a galera da quebrada


57

fez a doação para que o espaço continuasse aberto, isso foi muito importante pra nós. Mais do que quem é de fora e doou mais dinheiro, porque a galera da quebrada que doou entendeu que o centro de mídias é importante. Outra coisa que a gente faz é sobreviver de prestações de serviços de comunicação, pra galera da própria quebrada, ou pra quem é de fora, mas nesse caso a gente tenta entender se faz sentido para as nossas vidas fazer o trabalho ou não. A gente vem se mantendo dessa forma neste ano. O financiamento garantiu o centro de mídias aberto, mas precisamos fazer a prestação de serviços de comunicação e correr atrás de outros apoiadores para manter os nossos corpos aqui e garantir os outros projetos. 30’ Você acha que os moradores e moradoras periferianos se orgulham do lugar em que vivem? 30’28 É relativo. Se estivermos falando da galera que desenvolve projetos na quebrada, é uma galera que tem orgulho de onde mora. Se estivermos falando de professores de cursinhos populares que trabalham para garantir que os jovens cheguem às universidades, essa galera tem orgulho. Se estivermos falando dos próprios alunos dos cursinhos, também estamos falando de uma parcela de pessoas que têm orgulho de onde moram. E também se estivermos falando de uma “tiazinha” que vende gelando em casa e aquele território é importante pra ela, essa pessoa também tem orgulho. Mas também temos uma parcela totalmente bombardeada pelas mídias tradicionais que quando falam de periferia falam de violência, de um lugar como o Jardim Ângela, citado sempre como um lugar violento. Recentemente vieram aqui e fizeram uma reportagem pra TV Brasil com o Jordan Fields, do Inglês na quebrada, e tinha tanta coisa bonita pra falar do curso, mas começaram a reportagem falando “o Jardim Ângela, um dos bairros mais violentos de São Paulo”... Nos anos 90, sabemos o Jardim Ângela foi considerado o bairro mais violento do mundo. Mas estamos em 2019 e a mídia tradicional vem sempre tratando da mesma forma, trazendo a questão da violência. Não conseguem simplesmente retratar o que está acontecendo de bom. Os moradores são bombardeados com essas informações negativas, de violência, assalto, morte, então muitos acabam tendo medo do próprio


58

lugar onde vivem e não se dando o direito de conhecer o que há de positivo ao seu redor e não deixando seus filhos andarem na rua por causa dessas informações negativas recebidas desses jornais e canais policialescos. Por isso que falei que é muito relativo: temos a galera que entende e compreende o contexto de tudo que acontece na quebrada e do outro lado a galera que é bombardeada. 35’50 Você já pensou em sair da periferia? 35’55 Nunca passou na minha cabeça. O que eu quero na realidade não é sair da minha quebrada, mas sim transformar num lugar melhor, através dos projetos que eu desenvolvo e que outras gerações façam isso. Que venham outras jovens e outra pessoas para contribuir muito mais. Estamos em um ecossistema da quebrada, onde contribuímos um pouquinho e daqui a pouco vem outra pessoa para contribuir um outro pouco e quando a gente perceber, o cenário estará todo transformado. Temos muita coisa boa aqui, muita coisa rica, muitas pessoas talentosas. Que isso continue no audiovisual, na cultura, na educação, na comunicação. Quem venham outras pessoas para poder somar e que façam mais foda que a gente. 39’15 E qual a maior riqueza que existe nas periferias? 39’40 São as pessoas, e dentro das pessoas a esperança. Esperança de mudança, de melhoras e um desejo de transformação. A galera do futebol desenvolve um trabalho incrível pensando na criança. Falta desenvolvimento urbano. Em bairros que não são periféricos tem parque pra correr, para as crianças brincarem. Quando se trata em poder público, parece que ele só se interessa em fazer asfalto. Parece que a cidade e a periferia não são pensadas para as pessoas,ela é pensada pra os carros e pros ônibus transportarem as pessoas até o trabalho e do trabalho pra casa. O lazer não existe. A gente tem vários coletivos culturais, articuladores socioculturais, por isso temos várias pessoas para trazer cultura e diversidade pra quebrada. A esperança de transformação de um lugar melhor é a maior riqueza. 41’55 escolha uma música que te representa:


59

Negro Drama, Racionais MC’s. Uma música que mexe muito comigo, porque ela fala de uma mulher negra sendo mãe solo, trazendo várias questões muito fodas. “Em São Paulo, terra de arranha-céu, a garoa rasga carne é a Torre de Babel”. Nunca me esqueço eu quando novinha, indo procurar serviço nas agências do centro. Eu olhava pra tudo aquilo e pensava “por onde eu começo, como vou conseguir emprego?” Porque minha relação sempre foi com a periferia, então quando chego no centro eu me assusto com o que estou vendo. “Como vou entrar nos lugares para entregar currículo?”


60

16.1.3 “Fala no microfone!” Entre motores e poesias – Thiago Peixoto e Rafael Ribeiro 00’ 01 Como surgiu o Slam do Treze? 00’04 O Slam do 13 surgiu num contexto em que o Islã não estava difundido tanto assim no Brasil em São Paulo Existiam três batalhas só em São Paulo e eu com outros poetas na época que já não fazem mais parte do Estado 13 éramos amigos e frequentamos a cena conhecíamos vários saraus em uma hora conhecemos o Islã e a gente pensou vamos montar um Islã na Zona Sul Porque só tinha ido lá na zona oeste no centro mas não tinha aqui e isso já faz seis anos nesse contexto de querer difundir essa modalidade em São Paulo aqui na nossa quebrada na zona sul. 00’45 Por que no Terminal Santo Amaro? 00’51 a gente queria fazer num lugar de fácil acesso para as pessoas. queríamos que fosse em um espaço público tinha um Slam da Guilhermina que era numa praça pública, na saída do metro guilhermina e a gente viu aquilo e achou legal e falamos mano Mano Pode ser na saída do metrô Largo Treze a gente pensou em ir para outros lugares mas iria dificultar um pouco acesso e o terminal é caminho para todo mundo aqui na zona sul todo mundo passa por aqui então a gente pensou acho que aqui vai funcionar a gente fez uma edição na saída do metrô aqui em baixo na segunda choveu a gente fez aqui deu certo a galera do terminal não embaçou e gosta Os seguranças até vem ver. Hoje somos referência aqui na Sul. De slam foi o primeiro. 1’47 Vocês tem alguma licença pra estarem aqui no Terminal Santo Amaro? 1’51 Nossa a licença é de Santo Amarense A gente literalmente ocupou o Islã não era desse jeito rolava umas 30 pessoas 20 pessoas Fazíamos uma roda era um bagulho mais discreto a gente não chegou metendo o pé na porta mas ocupando mesmo o espaço como fomos construindo esse relacionamento hoje é um evento grande mas rola normal tanto que vira e mexe Eles já emprestaram até extensão


61

para gente o terminal é parceiro da gente não oficial a gente não foi nem na SPTrans em nada mas a galera que trampa aqui tá ligado o que acontece. 2’38 Qual a importância dos slam para fomentar a cultura? 2’41 cara eu penso que o espaço de fala é muito importante não só na periferia mas em todo lugar a gente tá vivendo um momento que parece que estão diminuindo a nossa voz o poder de colocar as coisas que a gente pensa então esses espaços que se propõe abrir uma roda de debate através da poesia para você colocar o que você quiser eu acho que é fundamental e aonde a gente pode construir as nossas lutas onde as pessoas que estão se movimentando querendo construir cultura na cidade pode se encontrar. trazendo para a periferia se você pensar que a periferia é mais carente de espaços culturais é fundamental que a gente crie nossos espaços. Então nesse contexto é muito importante mas eu vejo que é para além da quebrada o importante é a gente estar em todos os lugares e podendo falar o que a gente pensa que o slam é esse lugar pra você falar o que quiser falar. 3’44 qual a diferença do slam do treze para outros slams existentes em são paulo? 3’50 Os slams tem características semelhantes às nossas, mas a peculiaridade do slam do treze é que a gente faz duas batalhas na mesma noite: a batalha de poemas curto e batalha de poema longo, Trezinho e Trezão. Além disso, a gente acontece num terminal de ônibus, não sei se existe outro slam que aconteça dentro de um terminal. Tem os que acontecem em espaços públicos, saída de metro e tal, mas as diferenças, propriamente ditas, são essas duas. 4’21 O rap tem alguma influência? 4’32 total, essa cena é filha do hip hop. faz parte desse movimento. Os saraus que vieram antes dos slams já é uma cria disso. Os primeiros poetas que começaram a fazer sarau falavam poesias como se fosse de rap então é um desdobramento. A gente é filho do saraus que é filho do rap e desse movimento do hip hop, que surgiu


62

na década de 80 e 90. então tem tudo a ver. O rap é ritmo e poesia a gente só tirou o ritmo e ficou com a poesia “O rap é ritmo e poesia a gente só tirou o ritmo e ficou com a poesia” 05’08 além do slam do treze, vocês têm outros projetos ou frequentam outras batalhas? 05’20 na medida do possível a gente tenta colar pra participar, ver qual que rola. A gente é uma rede, então isso rola. E eu faço parte de um grupo que se chama poetas ambulantes, onde a gente faz poesia dentro do busão e do metrô há sete anos. É um coletivo que eu toco em paralelo ao slam do treze. 05’56 se apresente

Eu sou Thiago Peixoto, apresento o slam do treze e faço parte dos poetas ambulantes, um grupo que faz poesia dentro do transporte público. Nossa missão de trabalho é que esse espaço se difunda e que a gente consiga apoio porque toda vez que o slam do treze consegue um apoio financeiro a gente repassa e fortalece um monte de poeta. Então toda vez que a gente dá esse passo de conseguir um contrato, seja com a prefeitura, com o sesc e tal, seja lá quem for que chamar a gente pra trampar, é essa nossa missão: ser um coletivo que consiga movimentar uma grana pra repassar essas grana para os poetas porque hoje tem vários poetas que recebem cachê por causa dos slams, os slams conseguem botar os poetas para se apresentar nos lugares, e a gente é um desses slams que faz isso e eu acho importante. Imagina, num país que nem valoriza a cultura, não valoriza nada, a gente conseguir ter um ponto cultural que proporciona isso, pra tentar fazer na raça, independente, pra gente é muito significante.

Em um país que nem valoriza a cultura, não valoriza nada, a gente conseguir ter um ponto cultural que proporciona isso, pra tentar fazer na raça, independente, é muito significante”


63

Rafa Ribeiro 0’01 se apresente e nos fale como você começou a batalhar nos slams: 0’08 eu sou rafa ribeiro, sou de Poá, e eu comecei a batalhar nos slams no começo de 2018. Sempre escrevi poesia e comecei a colar nos slams em 2016 e 2017 pra assistir, mas as minhas poesias eu achava que não tinha muito a ver, tá ligado? Eu achava que não era ali, aquele lugar, e eu também não tava pronto, eu não me sentia pronto. Mas depois do slam BR de 2017 eu percebi que meus textos que estavam guardados tinham muito a ver com aquilo porque eu vivia aquele negócio, na verdade. O que eu escrevia não era exatamente igual, mas eu me via representado naquelas pessoas que estavam falando e eu queria fazer parte daquele grupo e o jeito que eu vi de fazer parte daquilo era recitar poesia. 0’57 qual você acha que é a importância dos slams pro fomento à cultura periferiana? 1’04 mano, é super importante porque é um jeito de mostrar que a periferia tem voz, tem gente pra falar e tem gente pra ouvir, mesmo que seja só entre nós, um ouvindo o outro. E é justamente isso, foi por isso que entrei, porque eu vi aquele bagulho que eu vivia na minha quebrada, os caras estavam falando lá, e eu podia trazer a minha visão sobre aquilo, a gente se ouvindo na maior parte do tempo, é a gente ouvindo a gente, é muito foda.

é super importante porque é um jeito de mostrar que a periferia tem voz, tem gente pra falar e tem gente pra ouvir, mesmo que seja só entre nós 1’29 Quais são suas influências na poesia? 1’39 eu sempre li, mas muito pouco. A gente não aprende a ler poesia na escola, né? Aí acaba sendo a rua memo. Eu me espelho muito no Márcio Ricardo, Kimani, Fernão, Kaya. Que pra mim eram ídolos, gente que eu achava que eu achava que eu ia ver no vídeo ou que eu só ia ver de longe no slam, porque eu não tinha


64

coragem nem de dar oi, e que hoje eles são meus irmãos, meus amigos, gente que eu mostro texto antes de publicar. 2’00 além do slam do treze, quais outros slams você frequenta? 2’15 Poá é longe pra caralho então eu aprendi a ir em todos. Eu fui em todos os slams de são paulo ano passado, esse ano eu vou em menos porque eu estou num ritmo mais devagar, mas eu venho bastante no treze, no O’z, no Broonks, slam sujeira, que é lá na minha cidade e o slam muinho resiste que eu entrei na organização ano passado. 2’40 qual a maior dificuldade pra organizar um slam? 2’50 é se levantar mesmo, a gente ter apoio um do outro. O coletivo do slam moinho resiste são três pessoas e a gente tem que tomar muito cuidado pra que na primeira quinta feira do mês, dois não estejam mal, porque a gente sabe que a gente passa por essas fases de não acordar muito bem. Então é sempre uma preocupação na quarta-feira, na terça-feira, um cuidando do outro: “meus, cêis tão bem? tá todo mundo bem?” porque a gente não tem muito esse direito de falar “mano, não vai acontecer” porque a gente tá mal. O slam muinho resiste a gente faz pelas crianças, tem a molecada lá que está esperando que tenha o evento, então a gente tem que acordar e do jeito que tiver a gente tem que ir porque a gente sabe que lá vamos ser resgatados, a gente vai ser salvo, pela poesia, pelas crianças, pelo espaço, por sentir que aquilo lá continua resistindo e que está plantando uma semente pra colher depois, tá ligado? 3’43 qual você acha que é a importância do slam do treze ser feito num terminal de ônibus? 3’51 mano, foi um dos motivos que me fez vir mais pra cá, porque aqui eu me sinto falando pra gente além dos nossos. É gente que tá passando, a gente ve direto gente que ta passando no terminal e para e fica até o final. Ela fala “vou chegar atrasado hoje, mas dane-se, vou ouvir poesia”. E você percebe que ela tá olhando,


65

ta prestando atenção, tá batendo palma, não é so superficial, ela esta realmente absorvendo alguma coisa nesse rolê.

A gente vê direto gente que ta passando no terminal e para e fica até o final. Ela fala “vou chegar atrasado hoje, mas dane-se, vou ouvir poesia”


66

16.1.4 Batendo um lero Antes eu procurava no Google, hoje é o Google quem me procura – Jeferson Delgado 00’18 Por que você escolheu o Jardim Rosana para dar entrevista? 00’21 Mano, aqui foi o lugar que eu cresci e morei até os meus 17. Hoje eu não moro mais aqui, mas foi daqui para o mundo, Foi aqui que eu tive todas as vivências, aprendi a ser o que eu sou, não tinha como não dar entrevista aqui. Toda vez que vou dar entrevista eu faço o máximo para dar entrevista na minha quebrada. 00’48 Quando você se entendeu como periferiano? 00’53 A gente se entender com o periférico é um bagulho meio doido porque a gente já nasce aqui, já cresce aqui tem todas as vivências daqui. Para entender você tem que achar uma coisa oposta, como por exemplo ter uma vivência com gente rica, e aí você entende as diferenças da sociedade e de classe social. Se você for preto você também entende a questão racial. Me entendi como periférico quando eu fui ver outra realidade, quando eu fui morar na USP e tinha muita gente rica, muita gente que não passava o mesmo perrengue que eu. Tendo contato com quem passava os mesmos problemas que eu dentro da Universidade a gente tinha mais empatia um pelo outro e entendia como era a correria. 1’45 Quando você se interessou por fotografia? 1’48 Meu contato com fotografia foi sempre por celular. Eu tinha um Androidzinho e editava no VSCO, utilizo até hoje quando eu quero editar foto rapidamente, pra artista ou para quem esteja fazendo foto. Meu pai tinha me dado uma cyber-shot da Sony , fiz umas fotinhas, pá, mas nada profissional, mas nunca imaginei que dava para seguir carreira com isso. E aí em 2016 eu estava na produção de um festival na USP chamado ‘Por que a USP não tem cotas?’, trabalhando no bar, vendendo bebidas. Como eu já trabalhava com isso naquela época, o pessoal deu


67

aquela função para mim. Num momento eu estava vendo o KL Jay tocar em cima do palco, olhei para câmera de uma menina que estava cuidando do audiovisual do evento e estudava na USP também e ela perguntou se eu queria fazer umas fotos e eu ‘ah, vamo nessa’. Ela entregou a câmera para mim, fiz umas fotos. Saiu horrível porque não sabia fazer fotometria, nunca tinha tido contato com câmera profissional, não sabia o que era ISO, obturador, mas foi o primeiro contato. Aquela câmera acabou ficando comigo e veio a criação do canal Favela Business, qeue fala sobre empreendedorismo periférico. Ou seja, o audiovisual em si, tanto gravação quanto foto, veio nesse contato dessa pessoa que deixou a câmera comigo. A câmera nem era dessa mina, era do Fernando, que é um mano que fazia audiovisual na USP e é de Campinas. Ele deixou a câmera de R$ 10 mil comigo por 6 meses. Foi um puta suporte que ele me deu e hoje eu estou aqui porque eu tive contato.

Ele confiou né porque eu poderia pegar a câmera e vender. Eu andei com essa câmera pelo centro, fazendo foto para cima e para baixo, de madrugada, depois que eu fui pesquisar quanto vale essa câmera. O Fernando foi um cara que ajudou eu trilhar meu caminho. 4’24 Como ser de quebrada contribui com a sua carreira? 4’28 Contribui porque eu falo sobre aqui, falo sobre tudo que eu já vivi e o que eu vivo, então todas as pautas de jornalismo que eu faço são sobre quebrada. Sempre quando o editor me entrega uma pauta muito fora, sabe que vai demorar um pouco mais. Não por dificuldade nem falta de interesse, mas eu gosto de escrever sobre um bagulho que tá acontecendo na quebrada ou já aconteceu, o que é cultural e está em alta. Então me entender periférico e ser de quebrada fortalece a carreira. Na fotografia quando eu vou fotografar eu sei tudo o que é cultural no baile que eu preciso captar. Eu sei andar em vários bailes, várias quebradas, sei como entrar e como sair., o respeito, a procedência, porque quebradas são quebradas, então ter aquela malícia de entrar em cada quebrada e ser de quebrada é isso. Igual os boyzão quando entra em quebrada sem disciplina nenhuma.


68

5’30 você se considera uma referência no trampo que você faz? 5’43 Quando o assunto é fotografia aqui no Rosana ninguém conhece outro fotógrafo Aqui no Capão Redondo óbvio que tem alguns estúdios outros fotógrafos mais um que foi tão longe assim Que transita entre várias áreas rap funk Que viajar trabalhando que trabalha com artistas querendo ou não Sou um dos poucos Porque eu me destaquei Hoje na quebrada eu acredito que sou referência mas Mantenho meu pé no chão. Eu entrevistei até um personagem ontem bacana e ele falou Que essa parada de referência é um peso é uma dificuldade também Por que quem não pode errar sou eu. E Os menorzinho que se espelha em você também Então às vezes você vai para o baile ou para o peão E se eu fosse um mano que usasse droga? Até com a bebida mesmo seguro minha onda Não deixo os menor ver eu bebendo Que querendo ou não é meu lazer Mas eu não quero passar esse espelho para eles se for passar espelho que seja no trampo E eu acredito que hoje eu consigo ser referência nessa questão

essa parada de referência é um peso é uma dificuldade também Por que quem não pode errar sou eu 7’00 Qual a sua dica pra quem quer ter seu próprio trampo? 7’07 É mil grau ser empreendedor na quebrada Independente do ramo Eu faço fotografia estou de quebrada era para eu estar 10 vezes mais evoluído se eu fosse o maluco que tivesse dinheiro porque A primeira barreira que vem é a social e a financeira A gente acessar os espaços e ter grana para comprar os bagulhos Deixa o tiozinho que quer comprar uma montar uma Quitanda Na esquina Ele vai começar com estoque menor ou eu que estou na fotografia Vou começar com uma câmera mais básica e demorar muito para fazer um upgrade Estou há 3 anos para fotografia, fui Trocar de câmera agora. Eu estava fotografando Racionais com uma câmera de iniciante Demorou para vir uma grana para conseguir trocar de câmera Comprar um equipamento melhor ai vem as lentes porque a lente da outra e não cabe mais nessa. Cartão de memória HD externo tem meu aluguel Tem minhas contas tem meus sonhos Fora da fotografia também Esse é o primeiro obstáculo e a dica que eu posso dar é acreditar Eu tenho muita fé no meu corre Minha carreira nos meus trampos Eu acredito muito e eu coloco metas Tudo que


69

eu conquistei hoje em questão de trampo todos os avanços que eu tive nA minha carreira foi porque eu decretei a parada “Eu vou fotografar Racionais” Eu vou começar fotografando Brown, devagarzinho, indo nos show solos dele e Eu vou fotografar Essa turnê E hoje a gente tá mais da metade da turnê E é foto para lá e para cá e sabe quem é o fotógrafo do Racionais Eu vou trabalhar com ngks Vou ter vivência com artista Pela madrugada à fora pelo Estado ou Pelo Brasil.Eu consegui Foi tudo travado metas. tem Coisas que não foram metas que eu nem acredito Por exemplo chegar em tal espaço conhecer tal pessoa, Tipo o Emicida que conhece meu trampo Foi outra fita que eu nem imaginava Ele respondeu do nada e eu não sabia que o Emicida conhecia meu trampo Mas é isso traçar metas acreditar no trabalho Vai ser difícil vai por essas duas questões e Se você é preto é três vezes pior E você tem que ser dez vezes melhor, Mas é a marcha nos Progressos 9’35 Como é ser empresário do NGKS, conhecido não só na quebrada, mas em vários outros lugares?

Primeiro que tem uma coisa que parece que a gente não está muito próximo de artistas Ou que não consegue chegar O ngks tava bombando já no Facebook vários vídeos batendo Milhões e eu pensei vou gravar um vídeo com Esses moleques porque eu tenho uma câmera melhor do que aqueles gravam dei um salve em um deles que passou para o produtor na época Que era o bafo que hoje continua no meu time Gravamos o vídeo estourou Depois de um tempo eles falaram que queriam fazer uma websérie Precisamos de alguém para trabalhar com foto e vídeo com a gente, e aí, vamo nessa? vamo. Batemos salário, tudo certinho. Foi assim, de um vídeo eu entrei pra equipe dos caras e ja vamos fazer três anos juntos, trampando. Mas foi numa ideia de mano, vou conseguir chegar nesses moleques, e querendo ou não a internet é potente pra isso. Foi no youtube, aí eu vi “qual o nome desse?” Guilherme Oliveira, aí fui nele, dele fui no Lucas Souza que é o Bafo e aí quando eu fui ver já estava dentro da equipe também. 11’07 Como é ter a responsabilidade de produtor com pessoas que tem praticamente a mesma idade que você?


70

11’19 ser jovem e artista é mil grau. é um bagulho que ninguém fala, principalmente no funk, muito menor mais jovem ainda que o NGKS estoura, por exemplo MC LF, Pikachu, Brinquedo, que estourou, bem antes, bem mais novos que o NGKS, então as vezes você não está preparado pra aquilo. A equipe NGKS, desde a produção, que tem o Bafo, um ano mais novo que eu, que tem 20 e eu 21, os moleques que tem de 18 a 21 também, a gente vai amadurecendo junto. É óbvio que a produção amadureceu mais rápido porque tem mais entregas e responsabilidades de água, cachê, subir no palco, ver se está tudo certo, pra nada atrapalhar os artistas de fazerem o espetáculo. Mas não significa que os moleques não amadureceram, porque é um amadurecimento conjunto. Por ser de quebrada a gente nunca imaginou que iria fazer 4 shows numa noite, ir pra outro estado. Teve uma vez que fomos pro Mato Grosso do Sul, só os cinco e eu. Imagina você em outro estado, hotel, check in, check out, contratante alimentação, e o NGKS não é um artista, um MC só, são cinco, se um está com dor de barriga, já pensou bate dor de barriga no outro também? Aonde você vai comprar remédio Em outra cidade? E o transporte do Aeroporto para hotel, do hotel Para casa de show, que horas vai subir no palco? Então é uma responsabilidade muito grande, que eu não imaginava, mas eu sempre quis ter, sempre falei “mano, ter vivência do lado dos artistas deve ser foda” E hoje eu tenho com eles, ou com artistas que estão completando 30 anos de carreira, então eu sinto esses dois lados da parada. Mas é questão de tempo e de vivência, com o tempo você vai amadurecendo e com a vivência também 13’13 O que mais representa a quebrada, rap ou funk? 13’19 os dois representam hoje muito be. O rap representou 100% no passado, pelo funk não estar tão em alta quanto ele está hoje, mas os dois representam 100% a periferia. Seja pelo rap mais raíz até o mainstreaming, o que mais vende, o que chega nos mais jovens, desde um poetas no topo ou um favela vive, até algo mais comercial, então representa muito, principalmente em questão de lazer. Hoje o funk também tem várias vertentes dentro dele, desde o que a gente chama de putaria, que é o que narra a vida noturna do jovem de quebrada, ou o consciente que fala das nossas necessidade, até o ostentação, que é o que a


71

gente projeta também. Então o rap e o funk tem a mesma projeção de representar a quebrada hoje. 14’24 A periferia está no hype? 14’34 A gente precisa entender o que é o Hype antes. Quando estamos falando de hype, estamos falando de moda? Se for partir deste princípio, até está, todo mundo quer se vestir igual nóis, andar igual nóis, falar igual nóis, mas não conseguem ter a mesma vivência que nóis. Essa é a diferença do bagulho, na bolinha do olho a gente consegue se identificar. Então meu papo quando a periferia está na moda é direto e reto: você pode andar, se vestir, porque é isso, tudo está acessível, principalmente pra boy, você quer comprar uma lacoste, um mizzuno? Tem lá, você vai comprar, mas nós vai saber o seu andar, seu falar. Tem gente que é bobo e até coloca boy pra dentro da nossa vivência, mas não arruma nada. 15’29 Diga uma música que te representa? 15’38 Uma é difícil, até o estilo também, entre o rap e o funk fica difícil. Tem músicas que fortalecem muito o corre. Tem uma playlist que eu até faço que o nome “é o corre”, porque as vezes eu estou cabisbaixo e as músicas dessa playlist que me ajudam. “Então toma”, do Emicida, do álbum Emicídio dele, fortalece muito; “Junho de 94”, do Djonga, “Frank e Tikão”, do FBC com o Chris, “Faça você mesmo”, do Ret. Então tem muita coisa que fortalece o corre, é difícil escolher uma música só, mas eu lembro de uma música que foi decisiva no meu corre, que é Sonhos, do Inquérito, com participação do KLJey, tem uma parte da música que é “você só vai saber quando tentar”, foi aí que eu lancei o favela business e tentei, eu só saberia se iria dar certo se eu tentasse, eu tentei, deu certo e tamo caminhando. Então eu acho que sonhos representa muito uma fase minha, mas tem muitas músicas que me representam e que ajudam a estar no corre.


72

17’08 O que você curte mais: ser produtor, fotógrafo ou produtor de vídeos? 17’18 O corre se contempla nos três juntos, mas hoje eu tenho curtido muito a fotografia, tanto que eu não penso em deixar os vídeos nunca, mas já não estou na mesma bala de editar vídeo. Se fosse pra focar, eu estou mais na bala de editar foto, descobrir um novo olhar meu na fotografia. Produtor do NGKS é um bagulho que eu gosto muito de fazer porque é uma vivência noturna, quando a cidade está dormindo a gente tá trabalhando, isso é foda, isso ninguém fala. A cidade não dorme, porque tem gente trabalhando ali, seja a gente, seja os artistas, seja o pessoal que está trocando o banner de ponto de ônibus, seja os motoristas de busão 24 horas, a cidade não dorme, então a gente ta trabalhando, e é uma vivência que eu gosto muito. 21’58 Hoje a fotografia é um bagulho que eu tenho brisado muito, porque eu consigo registrar uma vivência fotográfica, seja na turnê, seja com o NGKS, eu acho que a fotografia hoje tem sido um direcional pra mim. 21’03 Como foi passar de vendedor de bebidas na entrada do Lollapalooza à convidado do festival? 21’15 o corre é louco, esses dias eu estava até pensando o que eu sou? eu ainda sou o que eu era ou sou o que eu sou hoje? É até uma pergunta meia doida, mas eu ainda sou o que eu sou, eu ainda sou o moleque que ninguém dava nada, ainda sou o moleque que foi expulso da escola, ainda sou o mesmo, nada mudou, só aprendi outras paradas, outras ferramentas, cheguei em outros espaços. Se eu pego tudo que a galera esperava de mim para o que eu sou hoje… Esses dias meu parceiro me chamou e falou “caramba, Je, ninguém dava nada pra você, né, mano? Cinco anos atrás ninguém dava nada pra você, hoje olha onde você tá, mano, você está com os caras, cê ta ali, cê tá aqui, cê tá viajando, todo final de semana cê tá num estado diferente. Eu falei “mano, nem eu entendo, cachorro”. O bagulho é que eu não tenho rancor de ninguém que me desejou mal, porque querendo ou não, aqui na quebrada é assim, todo mundo já nasce sem expectativa nenhuma, não sabe que pode ser um fotógrafo, um produtor ou até um artista, ninguém sabe aqui. Então eu ser essa pessoa e sempre estar por aqui,


73

ser referência para o pessoal daqui, uma referência próxima, não essas pessoas que estouram, ganham milhões e se mudam. Eu me mudei, mas sempre estou aqui, faço o mesmo peão que eu fazia quatro anos atrás: ainda vou nas tabacarias que todo mundo fala que é role de mongolóide, mas tô lá com meus amigos, ainda faço um role de quebradinha, quero tomar uma dose? encosto aqui, fico de resenha com os caras, porque é isso, ser referência próxima, nada de usar slogan e ficar “venci”, mas não adianta, tem que ter uma referência próxima.

Então a ideia do Lolla é um bagulho louco, foi uma época mil grau da minha vida, eu tava sem trampo, tava morando só, precisava pagar conta. Fiquei oito meses vendendo bebida e tirava uma baita de uma grana, mas o Lolla foi mil grau, tinha muito GCM, corri muito. Eu cheguei nove da manhã com o parceiro João, que foi vender trufa da mãe dele e eu fui vender Catuaba, vinho, água, cerveja, com dois cooler grandão, carrinho pesado e correndo pra caramba, das 9h a 13h da tarde, foi quando eu consegui vender minha primeira água, 13h20. E aí fui no segundo dia com minha ex namorada, que me ajudou a vender também, e aí, três anos depois, cheguei como convidado. Nossa, bebi demais, tenho vários copos lá em casa, porque os boyzão não leva copo de festival, já nóis ama copo… de graça, né? Foi uma virada, uma roda gigante, a vida é uma roda gigante. Eu fico pensando: hoje eu tô aqui, quem sabe eu posso estar em baixo, mas a gente sempre luta pra permanecer em cima. 23’54 Como é fazer parte do quarteto de quebrada? 24’00 o quarteto quebrada surgiu da ideia de unir nossas vivências quanto periférico, como pessoas de quebrada, porque isso no youtube é difícil. Tem muito youtuber de osasco, mas é uns caras que ficam fazendo outro bagulho, não fala como é ser de quebrada, até tem a mesma vivência, mas está em outro patamar, fala várias ‘grosa’, as vezes racistas também. Então hoje a gente se enxerga como periférico, mas com uma visão pra frente. Então a ideia é unir nossas vivências e criar. O lolla tava eu, Valter e PH, a Lucy não estava. Por exemplo, eu assisti o meu primeiro show de rock na vida, eu nunca tinha assistido um show de rock, mas depois daquele dia eu pensei que todo mundo deve assistir um show de rock porque querendo ou não quem é de quebrada teve acesso à MTV quando era no


74

canal aberto e você tinha uma vivência pequena do rock, alguma série ou algum filme que tem alguma coisa do rock, então ver um show de rock, sendo de quebrada, por mais que eu não goste, foi um bagulho louco. Eu até curti um pouquinho, eu falei “caramba, não é que o bagulho é da horinha, da pra ouvir memo? Ver aquela apresentação, aquela guitarra, aquela bateria… então é isso, a ideia do Lolla veio muito de unir nossas vivências periféricas em espaços diferentes. Os quatro são periféricos mas têm suas particularidades também. 25’24 Porque a comunicação e a cultura perifieriana são importantes? 25’33 Pra você ver como o lazer, a cultura, a informação é um bagulho que os políticos, principalmente, não querem, que é uma questão de avanço, é o momento que a gente vive do país hoje, os corte que a gente tem na educação, na cultura, enquanto o presidente está investindo milhões na questão militar. A gente vê que isso é um ataque direto, porque não querem que a gente cresça, que a gente abra nossa mente. Lazer, cultura, cursos como a É Nóis, o Você Repórter da Periferia, Escola de Notícias, muitos outros que ajudam o pessoal a ter contato, como me ajudou também, ou até cursinho popular, como o Carolina Maria de Jesus, ou o NCN que não fica aqui mas tem muita gente de quebrada que vai lá pra USP estudar e ter uma vivência diferente lá, assim como eu tive, é genial e transformador, um divisor de águas pra muita gente, assim como foi comigo. Eu acho que quem tem acesso, tem o privilégio, deve fortalecer, assim como às vezes as bases desses lugares são formadas por pessoas que tem privilégio, que dedicaram seu privilégio e sua grana pra ajudar a periferia, por entender que o país já não faz isso por muito tempo. A gente teve um governo que visou muito nossa ascensão social, a gente conseguiu andar de avião, comprar carro, ter acesso à isso e aquilo, mas questão até de educação a gente não evoluiu tanto, questão de consciência social a gente não evoluiu tanto, e o momento que a gente passa pelo país hoje é divisor de águas porque a gente percebe visivelmente à necessidade porque os milhões que votaram no atual presidente pode ter certeza que não são quem tem grana, é quem não tem grana, que tava na ideia de um futuro melhor e em oito meses de governo o cara está conseguindo destruir o país e tirar tudo que era nosso por direito, por direito, por necessidade. Hoje a gente


75

consegue ver o quanto a cultura e informação é essencial, pra gente não ramelar mais uma vez. 27’45 Qual sua dica para jovens que estão à procura do primeiro emprego, frente a questão econômica do país? 27’53 eu comecei trampar muito cedo, com 12 anos. Trabalhei na feira por anos, depois trabalhei numa granja, matando galinha todos os dias, ninguém falava comigo, ninguém tocava na minha mão. Depois fui entregar folheto. Trabalhei em shopping, fiz muitos trampos que estão próximos da gente. Querendo ou não são trampos de quebrada, que não são registrados, ganha pouco, mas foi o que conseguiu me manter por muitos anos. Eu lembro que teve um final de ano, um Natal que eu trabalhei muito na feira pra comprar uma camisa da Hurley verde, que vendia duas ruas acima daqui , numa loja que era dentro de uma casa. Então às vezes a gente tem várias necessidades. Tem muito parceiro meu que trampa nesses trampos mesmo, e é a marcha dos progressos. Mas a gente precisa entender também que temos acesso à universidade, que dá pra você fazer um cursinho que te ensine como entrar na universidade e fazer um vestibular. Tem vários escapes, tem jovem aprendiz, eu já fui jovem aprendiz, tem estagiário, tem o ciee, tem outros programas efetivos que consegue te colocar no mercado de trabalho.

Se abrace em outras referências também. Manda mensagem pra aquele cara que você acha que é foda, quem sabe ele vai te responder. Beleza, se for um Emicida da vida, fica difícil, mas as vezes tem um moleque da quebrada que canta rap e tá num patamar da hora e você vai ter um acesso com ele e ele vai te responder. Então se espelhe em quem está próximo , abrace quem tá próximo. A gente fica naquela dúvida: o que chega primeiro no jovem de quebrada, a universidade pública ou o acesso ao crime? Tem que pensar muito nisso. E a gente que está nesses espaços , não vou colocar nem como privilégio, porque eu vi um tweet esses dias falando que quem tem escola boa, escola particular e outras paradas não é privilégio pra quem é de quebrada, pra quem é preto, pra quem é pobre, porque era o que a gente deveria ter, mas o país nunca deu acesso pra gente. Se abrace em quem está nesses espaços, pede ajuda e fortalece. A ideia é essa.


76

Tem como, é possível, e várias pessoas estão aí pra provar. Eu não digo nem eu, tem muita pessoa pra provar, seja um Emicida da vida que está completando dez anos com a Lab, seja a Boogie Naipe, produtora de uns caras de quebrada que estourou nos anos 80 e hoje consegue se manter sólida. Então essa é a ideia, a gente tem exemplo pra caramba… Seja o Renê do vozes das comunidades, que na época dos ataques ao morro do alemão, twittava tudo que estava acontecendo e hoje ele é criador de um jornal comunitário que bomba pelo mundo inteiro. Ele consegue viajar. Tem o Renê, tem o Raul Santiago. Tem muitas pessoas próximas que a gente consegue se abraçar, trocar ideia, ter acesso e perguntar como é a parada. Assim como o jovem que perguntou pra mim como era fotografar e tal, eu ensinei e hoje ele está na equipe de um artista muito grande. A ideia é essa, ter acesso e questionar as paradas.


77

16.1.5 Bastidores Não é desenho! – Igor Nogueira 0’1 1 - Como surgiu a ideia do Perifacon e o nome do evento? 0’7 a ideia surgiu a partir de umas conversas que a gente tinha, principalmente o Mateus Ramos e o Naruto (Matheus Polito) de não ter acesso aos grande eventos de cultura pop, de ter que pagar o ingresso e depois, além de pagar o ingresso, não ter dinheiro para consumir nada lá dentro, não conseguir comprar nada, se alimentar. E pensamos: por que não existe esse tipo de evento na quebrada? Essa noção de falta de demanda foi unânime entre todos da equipe. O nome Perifacon…. Óbvio que o “con” vem de “comic con”, de conferência nerd e o “perifa” é porque é onde a gente tá. Pensamos em outras formas como favela con, outras ideias, mas o perifacon casou muito bem. 1’28 3 - Nós sabemos que o Grupo Omelete é um dos responsáveis pela CCXP, a Comic Con que ocorre aqui no Brasil. Vocês chegaram a conversar com eles? Qual a opinião deles sobre a Comic Con da Favela? 1’53 Sim, a gente teve muito contato com eles de diversas formas. Foi muito doido porque o primeiro contato que a gente teve com a comic con não foi com a daqui do Brasil. Um cara que é um dos fundadores da comic con San Diego escreveu sobre o perifacon quando ele ficou sabendo, foi logo no começo, quando estavam saindo as matérias. Saiu uma matéria na Ponte e aí alguém conseguiu o contato dele, contou sobre o perifacon e ele escreveu um pouco. A gente ficou muito emocionado, inclusive, dele falar da semelhança que tem, de como nasceu, como surgiu a ideia, que surgiu de forma pequena. Depois a gente teve contato principalmente com o Ivan Costa, co-fundador da comic con aqui do Brasil e um dos donos da Chiaroscuro Studio, que é uma agência de artistas, que fica responsável pela parte do artist aley da comic. Ele deu muita força pra gente, até financeira. Ele foi o único patrocinador da primeira edição, um dos responsáveis por ter acontecido,porque a gente não sabia da onde tirar dinheiro. A gente tem


78

esse contato até hoje. Tenho o Whatsapp dele, a gente troca mó ideia, pede dica, ele também vai patrocinar o próximo evento.

Depois a gente teve contato sim com o pessoal do Omelete, a gente chamou a Natália Bridi pra estar no evento, o Forlani também foi, os dois são os que a gente é mais próximo. A Natália foi como convidada do evento, ela super topou muito rápido. não precisou ficar correndo atrás. Ela respondeu o e-mail falando que ia, que achava a ideia sensacional e colou, fez uma mesa pra gente. E o Forlani também apareceu com o filho dele, curtiu o evento inteiro. Depois ele convidou a gente pra conhecer a sede do Omelete, foi um dia muito feliz pra gente. Eu consumo o Omelete desde quando eu era criança e ir lá, conhecer todo mundo. A gente também é muito fã do Fábio, e a gente conheceu ele, foi muito fofo com a gente.

Teve outras formas de contato também. A gente vai nessa edição da Comic Con, eu nunca fui na minha vida, a Andreza nunca foi, a Gaby nunca foi, a Luize nunca foi, então mano, vai ser muito louco, eu to mega ansioso. Também teve convites dele para fazermos coisas juntos, provavelmente a gente vai estar juntos de alguma forma na comic con e eles também no perifacon.A gente conversou muito sobre estar junto de não ser uma concorrência, não é isso que a gente quer, afinal eles têm o público deles e a gente tem o nosso, inclusive a gente só existe porque eles existem, a gente tem essa noção.

E principalmente, a gente cobriu uma demanda que eles não cumpriram, então estamos aí pra isso. A gente conversando sobre isso, com o Furlani, que é a pessoa do omelete que a gente é mais próximo, ele como pessoa apoia o evento pra caramba. A gente conversou muito sobre isso do nerd se ajudar e fazer um bagulho legal. 6’02 2 - Qual foi o feedback dos portais e das pessoas que compareceram? 6’37 A gente fez a contagem das pessoas, foram quatro mil pessoas que entraram no evento, que teve acesso a programação interna da fábrica, mas ficaram três mil pessoas. Ficou do lado de fora mas teve acesso a programação externa.


79

Infelizmente a gente não conseguiu colocar todo mundo por conta da lotação máxima de segurança da fábrica. Uma das coisas que a gente fala do público, muito mais importante do que a mídia e de qualquer coisa é a galera do bairro, o que mais impactou pra gente foi ver como eles curtiram, apreciaram e foram, ajudaram muito. Tem uma molecada que a Fábrica é a casa deles. A gente foi muitas vezes lá, fazer visita técnica e tal, eu fui em todas, então eu tive muito contato com a criançada e com os jovens da fábrica e fiz amizades com muitos, tanto que a gente voltou lá um tempo atrás, acho que faz uns dois meses, pra gravar uma matéria da Globo, e aí tinham dois meninos que estavam lá no evento que eu tinha feito amizade e eles me reconheceram, falaram “você que é o tio lá daquele evento louco”. Então isso que é o mais importante, como a gente conseguiu fomentar o bairro e girar a economia, porque teve uma galera que foi vender comida, tinha uma galera dentro das casas, que abriram a garagem e pra vender salgado, esse contato com o público e essa repercussão foi muito mais importante pra gente do que na mídia. Obviamente que a mídia foi uma coisa que surpreendeu muito porque nunca tivemos contato com nada disso e ver a gente saindo em lugares que a gente consome, tipo Kondzilla, Vice, foi muito importante. A gente teve um apoio da mídia muito foda, que normalmente as pessoas não tem, é muito difícil você acessar. No início a gente estava tipo Testemunha de Jeová na porta dos lugares pedindo pra galera publicar uma notinha sobre o perifacon e foi muito difícil ter as primeiras matérias e quando o Kondzilla soltou, explodiu: veio catraca livre, globo, record, uol, várias outras mídias vieram de forma orgânica, a gente não precisou fazer nada, até hoje as matérias saem, eles vêm atrás, isso é o mais da hora, não ficar correndo atrás dos outros. 11’50 o que pode ser melhorado na próxima edição? 12’03 Da pra listar um rio de coisas pra melhorar. Não éramos produtores, a gente se fez, nunca fizemos isso e conseguimos fazer um evento sensacional com sete mil pessoas. Uma das maiores preocupações, que é o que já estamos resolvendo, é ter dois dias de evento, porque percebemos que um dia só fica muito apertado pro tanto de coisas que colocamos e pro tanto de gente que foi, então seria mais legal ter dois dias, uma folga melhor de horário, pra quem não conseguir ir no primeiro vai no segundo.


80

O credenciamento das entradas das pessoas foi muito conturbado também, não conseguimos organizar muito bem. Na próxima vai ter uma empresa pra fazer isso, a gente conseguiu uma parceria. Outra coisa foi o beco dos artistas, ficou muito apertado por ser numa sala, a gente quer muito, não dá pra dar certeza, mas a gente quer muito que seja na área externa do centro de formação cultural cidade Tiradentes - olha o spoiler que eu estou te dando – mas pra conseguir fazer isso precisamos de dinheiro, porque precisa cobrir tudo, colocar tenda é caríssimo, o evento tá ficando muito mais caro do que ele foi na primeira por conta dessas questões, principalmente porque agora estamos tendo cuidado com várias coisas que não tomamos na primeira: a gente fez um evento sem gerador de energia, que é caro pra caralho, podia ter acabado a luz no evento e não iria ter nada. Dessa vez estamos com a preocupação de ter gerador, ambulância, a gente tem que zelar pela vida das pessoas. Estamos melhorando nesses aspectos. 14’15 como foi a escolha de local? 14’35 a gente postou nas redes sociais onde que a galera queria que tivesse o evento e esses posts bombaram em todas as redes, tivemos mais de 2 mil comentários de gente falando que queria que fosse na zona leste. Óbvio que a gente também queria, eu não sou da ZL mas frequento mais do que qualquer lugar na minha vida, por conta dos meus amigos, por conta dos rolês que eu faço, vivo em Itaquera, Cidade Tiradentes, Penha, Patriarca, então já tínhamos esse amor pela zona leste, mas foi por conta do público mesmo, de escolherem a zona leste. Ok, agora vamos procurar lugares dentro da zona leste que sejam maiores, então a gente achou esse, o centro cultural. Achou não, né? A gente já tinha na cabeça. A Andreza já tinha feito um evento lá uma cota atrás, uma campanha pro Rafael Braga e já tinha falado pra gente sobre esse lugar, mas já tínhamos esquecido. Aí a gente fez uma parceria com a FabLab, fica aí outro spoiler, que é um órgão da prefeitura, tem laboratório, impressora 3D, várias fitas muito loucas, e eles têm uma sede dentro desse centro de formação cultural. Eles entraram em contato com a gente pra tentar fazer alguma coisa no Perifacon 2020 e aí eles falaram


81

“meu, tem esse lugar, vocês podem ir lá, a gente faz a ponte”. E não deu outra, foi tudo certinho. A gente queria zona leste, tinha esse contato, marcamos de conversar com o gestor de lá, que é um cara preto, então foi facinho, saímos de lá com data, tudo certinho, foi mó fácil. 16’35 como vai ser feita a parceria do twitter? 16’52 Fomos chamados pelo twitter primeiro pra fazer uma curadoria de artistas negros pro twitter fazer um pitching. Nós levamos 15 artistas que estavam no beco – a gente é assim, escolhemos só os pretos – pra ir lá na sede do twitter, fomos mostrar suas obras, cada um se apresentou, falou da onde era, sobre seu trabalho e depois disso surgiram várias fitas. As mina conseguiram assinar um trampo pra Seda por causa do twitter, eles estão fazendo várias pontes com esses artistas. A princípio era isso e no dia dessa curadoria o twitter falou que iria apoiar o evento com dinheiro mesmo. Ainda não caiu na conta, mas eles falaram publicamente que iam patrocinar o evento, então a gente tá contando com isso, né, Twitter?! Mas eles são super parceiros da gente, a galera tem o olhar muito foda, eles estão olhando muito pra pessoas negras, pessoas que são da periferia, estão querendo puxar essa galera pra fazer trampo. Foi um evento muito louco, eles tiveram muito cuidado, a gente se sentiu muito em casa, estando na Vila Olímpia, num prédio super chique, numa sede de uma empresa super chique, e eles conseguiram fazer com que a gente e todos os artistas se sentisse muito bem acolhido, gente se emocionou pra caramba, porque também foi a primeira vez que ouvimos os artistas falarem sobre o evento, a gente nunca tinha conversado com eles, a gente conversa muito com os voluntários sobre o evento, como você, no caso, mas com o pessoal que esteve no evento como convidado, a gente nunca conversou, nunca tivemos oportunidade, e esse dia foi muito especial, foi a primeira vez que eles falaram do evento. Chorei pra caramba, sou o mais chorão. 19’35 a periferia está no hype? 20’ Acho que tudo tem um certo interesse. o capitalismo está aí e eu acho que o que acontece é que as marcas estão interessadas em atingir esse público que


82

eles nunca conseguiram atingir e é real como que as marcas não conseguem atingir esse público. O que mudou é o interesse, existe um interesse muito maior na periferia, mas no sentido de lucro. A gente tá cagando, né? “Dá meu dinheiro e meu copo que já era, quero ganhar o meu”. Então suave, é oportunidade pra galera, mas por outro lado tem esse viés de lucro mesmo, de querer acionar o consumidor. No perifacon a gente fala muito disso: como a gente pra caramba e que as marcas precisam olhar, precisam conseguir entrar de formas que não sejam abusiva mas que tenham um cuidado e um olhar delicado pra esse público que é gigantesco. É por isso que está no hype. Eu não acho que é porque é bonzinho e legalzinho não, é porque querem lucro, principalmente. Sempre quando a gente fala com uma marca, até quando da consultoria, a gente fala: “se você quer falar sobre periferia, primeiro tenha pessoas da periferia na sua empresa, pra você falar precisa ter vivência e conhecimento daquilo pra você não fazer merda e pra você saber chegar, pisar devagar, é uma coisa que a gente fala muito com as empresas, principalmente as que querem entrar no perifacon. Não queremos virar um shopping center e nem vamos virar, mas a gente quer que as marcas estejam ali e façam a diferença, que façam algum sentido elas estarem lá e que elas façam algo que deixe marcado quem esteve no evento. 23’28 Além da própria convenção vocês possuem outros projetos com a marca Perifacon, como o podcast, teve a parceria com a Casa Warner e a parceria com a Chiaroscuro Studios pra lançar HQ’s de periferian@S. Quais são os próximos projetos? 23’50 Esses são os principais. Desses, a principal é a Narrativas Periféricas com a Editora Amino e com a Chiaroscuro, esse é o nosso bebê, estamos torcendo pra caramba pra galera conseguir lançar e que isso mude a cena nacional de HQ. Também temos outras atividades: a gente vai fazer agora em outubro e novembro um ciclo de atividades no Sesc 24 de maio, que faz parte da programação de tecnologias negras de toda a rede do sesc, dentro de um departamento chamado ETA e estaremos no sesc 24 de maio. Teremos várias mesas de debates em todos os sábados, a partir do dia 5 de outubro, na parte da tarde, com mesas de debate falando sobre rap; quadrinhos; animação LGBT; narrativas periféricas; como a periferia também é cenário e também existe personagem pra história em


83

quadrinho; vai ter um dia que a gente vai falar sobre o próprio evento, que é um dos rolês que a gente mais faz. Vão ter outras atividades também, em outros sescs, mas são coisas mais pontuais, vamos fazer talvez uma mesa no Rio de Janeiro também. Também estamos sendo indicados para o Prêmio Cubo de Ouro, espero que a gente ganhe, espero que na matéria saia que a gente ganhou, e se a gente ganhar vamos pra Curitiba receber o prêmio. Nunca imaginei ser indicado pra uma premiação. Estamos criando várias outras atividades, mas essas não dá pra falar, mas a nossa ideia principal é levar o que teve no evento pra outros lugares, não deixar isso morrer e criar redes. A gente fez primeiro com os artistas do Beco, agora com a galera que estava nas mesas, e a gente procura deixar essa galera em contato também. A gente tem ideia de bastante parcerias com as empresas, algumas estão entrando em contato pra fazermos umas parcerias legais, mas somos em poucas pessoas, então não conseguimos dar conta de tudo, mas ideia pro ano que vem é ter grana, estamos indo atrás de grana pra conseguir ter um espaço físico nosso e conseguir contratar gente, se remunerar, porque a gente não ganha nada. Agora é um momento de estruturar a gente também, estamos dando até uma brecada nas atividades pra ter tempo de produzir. 27’25 qual a importância do evento pro fomento à cultura periferiana? 27’44 Vai parecer que eu tô cantando a bola pra cima mas é isso mesmo, o perifacon é foda demais! Só caiu a ficha no dia do evento porque até antes disso era só um rolezinho. Vimos a importância no dia do evento: vimos uma garotada lendo gibi sentadinho, um monte de gente que alcançou coisas depois do evento, como o pessoal do beco dos artistas, teve gente que estava expondo a primeira vez na vida e depois fez um monte de outras coisas, tem gente que conseguiu ser aceita no artist alley da ccxp, tem a galera que criou um game que vai pra angola, saiu várias matérias deles. Ver a galera conseguindo alavancar, essa galera que estava invisibilizada e hoje está tendo uma atenção, é sensacional. Esse feedback é mais de outras pessoas que falam pra gente. A importância principal é de conseguir levar alegria,não é a gente que fala, mas dizem que o perifacon foi um dia de festa, uma comemoração pra quebrada, isso


84

já é louco. A gente conseguir fazer um evento na cidades Tiradentes, que tem um índice de mortalidade, um lugar fodido pra caramba, de transporte, inclusive, esquecido pelo estado, conseguir fazer um evento desses de forma totalmente autônoma e levar o tanto de gente que a gente levou pra esses lugares é importante. Também movimentar o dinheiro da galera do bairro, as tias vendendo pastel, isso é sensacional, e ainda não cobrar nada pras tias venderem o pastel lá. As tias entram em contato com a gente pelo face mandando: “quando que vai ter de novo?” Acho bonito pra cassete. Essas coisas que a gente tá fazendo está mudando a história do cenário nerd mesmo. A gente é foda! 30’31 O que mais te marcou e emocionou e vai ficar na memória? 31’00 Teve uma menina que foi no evento mas não foi aceita no beco dos artistas porque não cabia mais do que 44. Ela era do Rio e a menina veio do Rio de Janeiro pra cá, com a pastinha de prints dela da mão. Chegou no dia do evento e falou assim: “eu não fui aceita no beco dos artistas mas eu trouxe umas obras, queria ver se tem um lugar pra mim. Loucamente, doidamente, uma pessoa do beco dos artistas não foi, então tinha uma mesa sobrando. Ela foi lá e conseguiu vender, teve dinheiro pra voltar pro Rio. Eu não acompanhei essa história na hora do evento, foi no final. Estava acabando o evento, essa menina veio e me abraçou, mas eu não estava entendendo, ela me abraçou tão forte e começou a chorar e aí eu comecei a chorar mesmo sem entender o porquê dela estar chorando e aí ela me contou essa história. Nunca pensei que na minha vida eu iria fazer um negócio desses, ter sete mil pessoas num lugar por causa de um negócio que eu fiz. Acho que o dia que eu consegui movimentar mais gente, além das badernas que a gente faz de queimar pneu, nas lutas que a gente faz, foi o meu tcc que eu reuni 30 amigos meus pra ouvir o que eu tinha pra falar.


85

16.1.6 Da ponte pra cá

Paulo Idei

Conte como foi sua trajetória no Jardim Aracati?

Quando cheguei era só estrada de barro. Pra pegar ônibus tinha que subir a pé até a Avenida M’Boi Mirim (cerca de 4 km, 50 minutos andando). Quando chovia tinha que tirar o sapato, colocar o sapato e ir pisando em poças d’água. Não tinha luz e a noite tinha problemas de segurança, então juntavam dois, três, quatro cinco pessoas e vinha a pé até aqui.

Vim do Paraná morar aqui porque meu sogro tinha mudado para o Aracati. Aqui não tinha casas, só brejo e chácara e na Estrada da Cumbica só passava caminhão de areia, não tinha esse movimento, ninguém tinha carro aqui. O único carro que tinha era minha Kombi e quando a mulheres ganhavam neném, já me davam o dinheiro da gasolina e deixavam avisadas: “se precisar, você socorre?”

As maiores dificuldades que eu enfrentei quando cheguei aqui era médico, creche e segurança. Qualquer coisa que acontecia, se chamasse a polícia, eles vinham de Santo Amaro, pra chegar aqui eram três ou quatro horas. Se tivesse um acidente, uma morte, aí era 12 horas até a viatura chegar. Não tinha ônibus, não tinha creche, quem cuidava dos meus filhos era a mãe de um outro morador, a única pessoa que cuidava de criança. Todo mundo conhecia todo mundo.

O primeiro comércio que eu consegui construir aqui foi um sacolão, depois uma padaria, um mercado e açougue. Eu nunca pensei em sair daqui. Eu fiz a vida aqui e não tem como sair. No bairro aqui do lado (Cidade Ipava) eu comprei uns lotes de uma rua inteira, então tinha que colocar um nome. Dei o nome do meu pai que veio do Japão, Yokiyoshi Idei.

Foi muita luta! Tinha que usar água de poço não tinha esgoto. Trabalhei de domingo a domingo pra trazer da prefeitura a iluminação, água, asfalto, que chegou em 87... Só três ruas tinham luz, as principais e a rua da escola.


86

Foi uma vida muito sofrida em vista de hoje. Hoje nóis tá no céu, né? Ônibus na porta,consegui trazer a companhia (Batalhão da Polícia Militar) pra cá, pra ter mais segurança. Agora tem duas ou três creches. Graças a deus está bem melhor.


87

16.2

Fotos

16.2.1 Capa


88

16.2.2 Editorial


89

16.2.3 Din din


90

16.2.4 Especial


91

16.2.5 “Fala no microfone!”


92

16.2.6 Bastidores


93

16.2.7 Da ponte pra cรก


94

16.3

Diário de campo

Fevereiro

Início do ano letivo. Primeiras conversas com a professora Miriam e pesquisas relacionadas sobre o tema periferia.

Março

Apresentação do levantamento bibliográfico sobre o tema escolhido contendo: artigos científicos, dissertações, teses, livros e matérias jornalísticas. Em paralelo, iniciei a produção do Projeto Experimental.

Abril Primeiras conversas com as fontes. Delimitação do tema “Comunicação e Cultura Periferiana” e definição da Zona Sul como foco principal do trabalho. Entrega do Projeto de Pesquisa.

Maio

Revisão do Projeto de Pesquisa, entrega do Projeto Experimental e escolha do professor orientador.

Junho

Férias.


95

Julho

Definição de personagens para a revista e marcação de datas para as entrevistas. No final do mês, especificamente no dia 23 de julho, foi realizada a primeira entrevista com Thais Siqueira, criadora do Coletivo Desenrola E Não Me Enrola. A entrevista foi realizada no Centro de Mídias M’ Boi Mirim, numa terçafeira. Logo em seguida, comecei a decupagem da mesma.

Agosto

Primeiras orientações com o professor Antonio Assiz. No início do mês, iniciei o texto da entrevista feita com Thais. Após as orientações, foi solicitado pelo professor novas pesquisas sobre o tema escolhido. Na metade do mês, dia 14 de agosto, fiz a entrevista com Kaique Nazario e Otavio Luis, criadores da marca de roupas Corre. A entrevista também foi feita no Centro de Mídias M’ Boi Mirim. Na semana seguinte fiz a decupagem e o texto para compor a revista. Ainda em agosto, no dia 26, entrevistei Thiago Peixoto, o “Poeta Ambulante”, que falou sobre o Slam do Treze. A entrevista foi captada à noite, onde acontece o Slam, no Terminal Santo Amaro. Contei com a ajuda da minha amiga Daniela Martins para a captação.

Setembro

No dia 07 de setembro, conversei com a designer Gisele Amaral sobre o layout da revista. O encontro foi realizado no Centro Cultural São Paulo. Ainda no início do mês, sob orientação do professor Antonio, montei um formulário no Google para entender o que as pessoas gostariam de ver em uma revista impressa sobre periferia.


96

No dia 20 fiz mais uma entrevista, dessa vez com o fotógrafo Jeferson Delgado. Para a captação, fui até o Capão Redondo, local em que Jeferson Nasceu. No dia seguinte, sábado, fui até o Instituto Favela da Paz, no Jardim Nakamura para entrevistar Claudio Miranda sobre como surgiu o instituto. Quem me ajudou dessa vez foi meu amigo Jean Bezerra e aproveitando a vista do local, fiz alguns estudos sobre a foto que iria para a capa da revista. Além disso, meu amigo tirou uma foto minha que compõe o editorial chamado “Eu sou o meu lugar”. Durante a semana foi feita a decupagem da entrevista com Delgado. No final de semana seguinte, dia 28 de setembro, sábado, fui até o Centro Desportivo Bento Bicudo, na Lapa de Baixo, entrevistar Igor Nogueira, produtor do PerifaCon. Ainda no final do mês analisei juntamente com o professor o resultado da pesquisa feita no Google Formulários que obteve o total de 145 respostas.

Outubro

O mês mais puxado. No início de outubro, foram feitas as decupagens e os textos das entrevistas sobre o Instituto Favela da Paz e o PerifaCon. No dia 12, fiz mais uma visita ao Instituto Favela da Paz para tirar a foto para a capa da revista. Em paralelo, comecei a editar os vídeos de todas entrevistas para os mesmos serem postados no canal no Youtube “Quebrada de Corpo e Alma”. O canal foi criado para que haja uma ligação entre o impresso e o digital, afim de atrair pessoas que consumam os dois tipos de mídia. No final do mês, comecei a escrever este Relatório Metodológico e no dia 20 de outubro, fiz a última entrevista. Conversei com Paulo Idei, morador do Jardim Aracati há 42 anos. Esta entrevista se deu após conversas com o orientador, que falou sobre a necessidade de um relato de um morador específico do bairro onde eu moro. A entrevista foi feita no próprio bairro, na casa da minha amiga Daniela Martins. No mesmo dia, editei a entrevista com o senhor Paulo.


97

No dia seguinte, fiz a decupagem da entrevista e logo em seguida o texto. No último final de semana do mês, editei o vídeo do Instituto Favela da Paz e gravei o vídeo que compõe o editorial com o auxílio de Daniela. Durante a semana, revisei os textos que compõe a revista impressa e finalizei o Relatório Metodológico.

Novembro

Encontrei com Gisele Amaral no dia 2, sábado, para a revisão da a revista. Durante a semana, arquivo foi para a gráfica e no sábado seguinte, retirei cinco revistas impressas com a designer. Fiz a revisão e a impressão do Relatório Metodológico, confeccionei o PowerPoint e no fim do mês apresentei do Trabalho de Conclusão de Curso.


98

16.4

Pesquisa Google Formulรกrios


99


100


101


102


103


104

17. ANEXOS

17.1 Fotos

17.1.1 Din din

Foto retirada do Facebook da marca Corre.


105

Foto enviada via WhatsApp por Melissa Rodrigues, uma das criadoras da marca.


106

17.1.2 Especial

Foto retirada do site do Desenrola E NĂŁo Me Enrola.


107

Foto feita por Rodrigo Elizeu e retirada do site ConexĂŁo Planeta.


108

Foto retirada do Facebook do Desenrola E NĂŁo Me Enrola.


109

Logo retirada do Facebook do Desenrola E NĂŁo Me Enrola.


110

17.1.3 “Fala no microfone!”

Foto retirada do Facebook de Rafa Ribeiro.


111

17.1.4 Batendo um lero

Foto retirada do Facebook do grupo NGKS.


112

Foto retirada do Facebook de Jeferson Delgado.


113

17.1.5 Bastidores

Foto retirada do Facebook do PerifaCon.


114

17.1.6 Quebrada indica

Foto retirada do Instagram do LOAD.


115

Foto retirada do site TripAdvisor.

Foto retirada do site TripAdvisor.


116

Imagem retirada do site Laboratรณrio Fantasma.


117

17.2 ReferĂŞncias

17.2.1 Revista Na Responsa

ReferĂŞncia de cores e fontes.


118

Referência de fonte de título para a matéria “Entre motores e poesias”.


119

1) Referência de ícones; 2) Referência para “Quebrada indica”.


120

17.2.2 Documentário Visionários da Quebrada

Referência de objeto de estudo.

Referência para texto “Eu sou o meu lugar” do editorial.


121

17.2.3 Artigo Brasileiro não é nacionalidade, é profissão

Referência para o pensamento de periferiano como nacionalidade.


122

17.2.4 MĂşsica Tarde Para Desistir

ReferĂŞncia de uso da palavra periferiano.


123

17.3 Autorizaçþes de uso de imagem

17.3.1 Din din


124


125

17.3.2 Especial


126

17.3.3 “Fala no microfone!”


127


128

17.3.4 Bastidores


129

17.3.5 Da ponte pra cรก


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Relatório Metodológico - Luiz Lucas by Rede Código - Issuu