UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL GRADUAÇÃO EM JORNALISMO
FUNK: A expressão cultural da periferia
SÃO PAULO 2020
UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL GRADUAÇÃO EM JORNALISMO
FUNK: A expressão cultural da periferia
ANA VITÓRIA BISPO DA SILVA RGM 1777412-8
Relatório de Fundamentação Teórica e Metodológica apresentado ao Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Bacharel.
Orientador: Profª Dr. Nivaldo Ferraz
SÃO PAULO 2020
DEDICATÓRIA Dedico esse trabalho aos meus pais e minha vó Terezinha, que sempre me apoiaram durante todo esse longo percurso de aprendizado, e se orgulharam a cada degrau que subi.
AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus, por ter segurado em minhas mãos, e mostrado que sou capaz de realizar quantos sonhos eu quiser e me dispor. Agradeço a minha família, em especial os meus pais, por terem acreditado e me apoiado tanto durante esse longo processo. Sinto que o sonho de me formar jornalista não é apenas meu, mas deles também. Obrigada por sonharem comigo. Aos meus amigos, que me deram tanto suporte emocional e acreditaram em mim quando nem eu mesma achei que seria capaz. Um agradecimento especial a Karina e o Adnael. Obrigada por me ajudarem, me aconselharem e surtarem junto comigo. Estendo esses ao André, Samuel e a Danikelli, vocês foram essenciais e os responsáveis pelos momentos mais memoráveis e incríveis que vivi durante essa graduação. Tenho o maior orgulho de ter trilhado esse caminho com todos vocês e chamá-los de amigos de profissão. Por último, e não menos importante, agradeço a todos os meus professores por todo esforço e compromisso conosco. Muito obrigada a todos, que de alguma forma, estiverem presente comigo nesse caminho. Vocês são muito especiais.
FICHA TÉCNICA Título: No ritmo do fluxo
Característica Técnica do Produto: •
Produto: Reportagem para rádio (podcast)
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Formato: Áudio em MP3
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Duração: 24 minutos
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Recursos de edição: Audacity Sinopse: Por meio de um podcast, o programa “No Ritmo do Fluxo” visa
compreender e debater o funk como uma expressão cultural da periferia e o seu importante papel para jovens periféricos. Com uma linguagem simples e clara, os entrevistados transitam sobre diversos assuntos acerca do funk e debatem sobre como o preconceito poderia ser solucionado, fazendo com que o gênero fosse melhor aceito pela sociedade e visto como uma forma de cultura pertencente as favelas. Edição de texto: Ana Vitória Bispo Reportagem: Ana Vitória Bispo Roteiro: Ana Vitória Bispo Técnico de Áudio: Núcleo de Comunicação Universidade Cruzeiro do Sul Orientador: Prof° Dr. Nivaldo Ferraz Coordenador do curso: Prof° Me. Antônio Lúcio R. Assiz Entrevistados: Danilo Cymrot – Pesquisador pela USP Renato Barreiros – Produtor Cultural Gabriel Simões – Estudante
RESUMO
Este Relatório de Fundamentação Teórica e Metodológica apresenta uma análise sobre o universo do funk brasileiro e as questões que o cercam, como os preconceitos e os conflitos muito rotineiros com a sociedade e com a polícia. No formato podcast, com uma linguagem simples e clara, os entrevistados transitam sobre diversos assuntos acerca do funk e debatem sobre como esse problema poderia ser solucionado, fazendo com que o gênero fosse melhor aceito pela sociedade e visto como uma forma de cultura pertencente as favelas.
Palavras-chave: Funk; Periferia; Música; Cultura.
ABSTRACT This Report on Theoretical and Methodological Basis presents an analysis of the universe of Brazilian funk and the issues surrounding it, such as prejudices and very routine conflicts with society and the police. In the podcast format, with a simple and clear language, the interviewees transit on several subjects about funk and debate on how this problem could be solved, making the genre better accepted by society and seen as a form of belonging culture the slums.
Keywords: Funk; Periphery; Music; Culture
SUMÁRIO
1. Introdução........................................................................................................ 8 2. Objetivos......................................................................................................... 10 2.1 Objetivo geral.............................................................................................10 2.2 Objetivos específicos.................................................................................10 3. Problematização e hipóteses...........................................................................11 4. Justificativa......................................................................................................13 5. Plano estratégico…..........................................................................................15 6. Referencial teórico...........................................................................................16 7. Referencial metodológico................................................................................19 8. Referências......................................................................................................20 9. Cronograma.....................................................................................................23 10. Investimento...................................................................................................23 Apêndices 1. Diário de campo............................................................................................. 25 2. Pautas.................. ......................................................................................... 26 3. Transcrição das entrevistas ............................................................................29 4. Roteiro.............................................................................................................42 5. Autorizações....................................................................................................55 6. Artes................................................................................................................58
1. Introdução
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O funk é um importante símbolo da cultura brasileira e tem suas raízes ligadas a história da periferia. Criado por músicos como James Brown, Sly Stone e influenciado pelo jazz, o funk nos Estados Unidos era um importante instrumento da representação do orgulho negro nas décadas de 1960 e 1970. Em 1970, o funk estadunidense, começa a criar seu espaço nos subúrbios do Rio Janeiro, onde aconteceram os primeiros “bailes”. Nessa época surgiu Fernando Luiz, um jovem que começou a se aventurar como DJ após se identificar com as batidas norte-americanas. Fernando destacava-se por tocar nos bailes e era reconhecido nas comunidades cariocas. Quando chegou a década de 1980, passou a ser chamado pelo nome artístico, DJ Marlboro, um dos pioneiros na criação do funk carioca. Desde então, tudo mudou. Com músicas que traziam uma batida eletrônica e contagiante, além de letras que retratavam a realidade da violência existente nas favelas, o produtor conseguiu introduzir a cultura brasileira no movimento. O sucesso se espalhou pelas ruas cariocas, ultrapassou fronteiras e tornou-se uma referência nacional no cenário da música. O pancadão e as rimas já eram reconhecidas, assim como os novos artistas. Com o passar dos anos, o funk sofreu diversas mudanças e segmentações foram formadas até chegar ao atual “funk brasileiro” com seus diversos subgêneros: funk carioca, ostentação (paulista), pop e “proibidão”. O gênero musical se consolidou no Brasil, e hoje é um importante elemento da nossa cultura, embora muitas vezes isso não seja aceito. Socialmente relacionado com a cultura pertencente as favelas, de onde surgiu, o funk é símbolo de uma identidade marginalizada. Produzido por jovens periféricos, em suas letras é muito comum serem retratados a realidade da periferia e o orgulho de pertencer a ela, mas, mesmo com todo o seu crescimento e visibilidade alcançada, o preconceito contra o funk ainda pode ser percebido por diversos fatores e isso não se relaciona só com a música, mas envolve questões como desigualdade social, preconceito racial e criminalização da pobreza. A cultura do funk não se limitou a estar apenas nas favelas, onde é sua origem, mas ultrapassou esse estereótipo e hoje é um produto consumido também pela classe média e alta, rompendo barreiras sociais e estando sempre presentes nas músicas mais ouvidas do país em diversas plataformas digitais. Um exemplo de sua expansão, aconteceu em 2019, no Festival Lollapalooza, durante a apresentação do cantor americano Post Malone. Durante o show do artista estrangeiro, o público foi
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surpreendido por uma aparição do MC Kelvin O Chris, que cantou dois de seus maiores sucessos e foi acompanhado por toda a enorme plateia do festival, geralmente frequentado por jovens de classe média e alta. Tal acontecimento nos esclarece dois pontos a respeito do funk: sua validação como música e cultura e o seu reconhecimento global. O presente trabalho debate o movimento do funk como o lugar de fala dos jovens periféricos e expressão cultural produzida e consumida dentro das favelas brasileiras.
2. Objetivos
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2.1 Objetivos Gerais Este trabalho, por meio de metodologia bibliográfica e etnográfica, buscou entender o funk como expressão cultural da periferia e revelar o seu importante papel para jovens periféricos que o veem como uma forma de externar seus desejos, sonhos e lutas.
2.2 Objetivos específicos O presente projeto de pesquisa desenvolvido para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo, teve como objetivo específico adentrar o universo do funk como o lugar de fala dos jovens periféricos, que veem no funk não só um gênero musical e entretenimento, mas uma forma de expressão da realidade vivida nas favelas. A partir desse pressuposto, entender as razões pelo qual o funk sofre com o preconceito e tem a identidade criminalizada pela sociedade, de maneira que não acontece com os outros estilos musicais.
3. Problematização e hipóteses
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O problema de pesquisa apontado durante a elaboração desse trabalho, foca no
preconceito contra o funk, pois, desde seu surgimento no Brasil, o ritmo enfrenta
o pré-conceito e a censura. Em 2017, houve tentativa de criminalização, onde alegava-se que o funk se tratava de “crime de saúde pública à criança, aos adolescentes e a família”. O projeto não foi levado adiante na época, mas, reflete o pensamento de muitos a respeito do movimento, onde o funk não é considerado como cultura, mas, como crime. O art. 215 da Constituição Brasileira nos garante que “O Estado, garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. ” Ou seja, em teoria, devem ser valorizadas, reconhecidas e promovidas todas as manifestações culturais brasileiras, não importando suas origens. Portanto, a própria constituição afirma o funk como cultura. O estilo musical é constantemente alvo de críticas, bem como os movimentos ligados a ele, tais como os bailes e shows, onde são levantando pontos que o funk faz apologia ao sexo, tráfico, violência e uso de drogas ilícitas. Por retratar assuntos polêmicos em suas letras, é comum que o funk seja visto como um propagador de valores negativos dentro da sociedade. De fato, é necessário ressaltar que há milhares de composições que suavizam temas como crimes, drogas, objetificação feminina, dentre outros. Mas é importante compreender que essas letras são apenas o retrato de situações cotidianas vividas nas periferias brasileiras e não é apenas o funk que retrata esses acontecimentos. Para tratar do preconceito acerca do funk, consideramos a hipótese abaixo: O funk enfrenta muita resistência da sociedade por se tratar de um movimento de origem negra, produzido na favela, por jovens periféricos. O preconceito contra o funk não acontece por conta das letras polemicas e nem tão pouco pelo estilo, mas, por quem o produz e onde se produz. Essa hipótese pode ser confirmada se, olhando para trás observarmos outros três movimentos culturais de origem negra que também sofreram tentativas de censura, são eles: a capoeira, o samba e o rap. Na perspectiva do racismo estrutural, os movimentos afrodescendentes são vistos no Brasil como “menos cultura”. Outro ponto que podemos levantar a respeito dessa hipótese é sobre a música eletrônica, gênero que possui acusações similares ao funk na questão sobre consumo
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de drogas. Apesar das raves terem uma concentração muito grande de uso de drogas, assim como acontece em muitos bailes funks, o gênero não sofre com nenhum tipo de repressão. Fazendo a comparação, podemos perceber que a principal diferença entre os dois movimentos são as classes sociais predominantes em cada um. O funk, originado na favela, tem ligação com o jovem negro e pobre, já a música eletrônica tem suas raízes ligadas ao jovem branco, de classe média e alta. Para que produtos afrodescendentes sejam considerados cultura, no funk em questão, foi feito uma “elitização” para que o mesmo fosse mais bem aceito e veiculado na grande mídia, coisa que até então, não acontecia.
4. Justificativa
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Um ritmo popular e dançante, o funk se tornou um dos maiores símbolos da cultura do nosso país, mas, apesar de representar e retratar a realidade das periferias brasileiras, sofre duramente com a repressão e os pré-conceitos da sociedade. Falar sobre funk, é algo comum. O objetivo do presente trabalho é buscar entender o motivo pelo qual o funk é sempre visto com uma identidade marginalizada pela sociedade. Em 2017, chegou ao Senado, um projeto de lei de autoria do empresário paulista Marcelo Alonso que pretendia criminalizar o funk como “crime de saúde pública à criança, aos adolescentes e a família”. O projeto ganhou força com mais de 20 mil assinaturas a favor, mas não foi levado adiante pelo então relator, Cidinho Santos (PR). A tentativa de criminalizar o funk é uma maneira de calar a voz da periferia e vem de uma parcela da sociedade que não quer escutar a juventude periférica, e por isso, criminaliza sua fala. Nos bailes funks que acontece nas favelas, a polícia militar (PM) sempre tem uma abordagem agressiva e violenta, tratando os frequentadores desse tipo de movimento, como verdadeiros criminosos. Bombas de gás e disparos com armas de fogos são acontecimentos comuns nesses ambientes. O ano de 2019 acumula casos de agressões de policiais contra frequentadores de bailes nas periferias. Em outubro, durante uma operação, a PM invadiu uma casa e encurralou mãe e filho contra uma escada, agredindo-os com um skate do jovem. Em novembro, em uma outra ação, no distrito de Guaianases, durante a dispersão da polícia uma jovem de 16 anos perdeu a visão do olho esquerdo, atingida por um tiro de bala de borracha. Em dezembro, nas favelas de Heliópolis e Paraisópolis, duas ações deixaram 10 jovens mortos. Não é preciso fazer uma grande análise para perceber o que esses casos têm em comum. É fácil identificar que todos aconteceram em regiões periféricas, frequentados por jovens moradores da favela. Será que o problema está mesmo na música? Nas letras? Ou esse preconceito é com quem produz o funk, e onde é o seu local de origem? O presente trabalho compreende o funk como uma expressão cultural da periferia, legitimando o funk como cultura, e buscou entender os motivos pelo qual esse movimento tem a identidade criminalizada pela sociedade. Utilizando o funk paulista como objeto de estudo, o trabalho visa contribuir com o universo do funk em busca de um espaço de fala sem censura e preconceito.
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5. Plano estratégico para desenvolvimento do produto
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5.1 Descrição do projeto Linguagem: A linguagem a ser utilizada no programa será de fácil compreensão. A ideia é tratar do assunto de forma simples, sem termos técnicos, para fácil entendimento de todos os ouvintes. Linha editorial: A linha editorial a ser seguida tem como princípio um jornalismo crítico, ético e pluralista. Nossa missão é dar visibilidade aos jovens periféricos e abraçar a causa de que suas manifestações culturais devem ser validadas. Área e formato Área: Este projeto experimental está sendo desenvolvido para a área radiofônica Formato: Desenvolvimento de um programa de debates (podcast) Características: O programa tem como característica principal o formato com entrevistas separadas, onde será debatido o funk, de suas origens, até as atuais produções que temos acesso hoje e a censura que o gênero sempre enfrentou. Periodicidade: 1 único programa Duração do programa: 24 minutos Público alvo: O presente trabalho tem como principal público alvo as pessoas que ainda têm um certo pré-conceito com o funk, pois possui como objetivo mostrar para a sociedade o funk visto por uma outra vertente. Sinopse: Por meio de um podcast, o programa “No Ritmo do Fluxo” visa compreender e debater o funk como uma expressão cultural da periferia e entender os motivos pelo qual esse movimento tem a identidade criminalizada pela sociedade. Seria a censura contra o funk, reflexo de um racismo estrutural enraizado em nossa sociedade? Missão: O projeto visa contribuir com o universo do funk em busca de um espaço de fala sem censura e preconceito e preza por valores como liberdade de expressão, ética e respeito a diversidade. Visão: Combater o pré-conceito e defender a liberdade de expressão. Valores: Jornalismo pluralista, ético, que apoia a diversidade e a liberdade de expressão. 6. Referencial Teórico
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No final da década de 1970, os primeiros bailes começaram a acontecer no Rio de Janeiro. Eram bailes realizados em um espaço de eventos na área nobre da zona sul do Rio, o chamado “Canecão”, mas com o aumento da popularidade da MPB, que começou a ocupar o espaço que os chamados “Bailes da Pesada” começaram a migrar para regiões de subúrbio. A partir dos anos 90 o funk se consolida como gênero nacional. Por se tratar de um movimento muito ligado a cultura da periferia, parte da mídia fazia grande esforço para negar a legitimidade de sua importância cultural. Um marco para o gênero, onde o funk foi noticiado pela primeira vez em larga escala e passou a ser difundido com a violência e criminalidade, foi em um episódio que aconteceu em 1992, quando começou a se popularizar as batalhas de MC’s e duas facções rivais protagonizaram um desses eventos na Praia do Arpoador, no Rio de Janeiro. Facções rivais de jovens funkeiros se encontraram na Praia do Arpoador e reproduziram ali, em pleno asfalto, em plena luz do dia, os rituais de luta dos bailes de briga. Isso sob o olhar chocado de uma elite que desconhecia esse universo e correu em pânico – achando se tratar de assalto. No dia seguinte, fotos ocupavam as primeiras páginas dos jornais em todo o país e ganhavam manchete no mundo. (MEDEIROS, 2006)
Esse fato contribuiu para que fosse criado a narrativa de que o gênero é violento, faz apologia ao crime, drogas e perversão. Conforme o movimento foi crescendo, mais foi causando desconforto para as elites e o preconceito enraizado por conta da ligação com as classes sociais mais baixas e a maneira como o funk expõe a realidade de seus contextos foi ficando cada vez menos encoberto. É perceptível que o preconceito contra o funk está associado ao racismo estrutural enraizado no Brasil. Para que os movimentos de origem negra sejam aceitos pela sociedade, é necessário um “embranquecimento” do produto. Segundo Thedor Adorno e Max Horkheimer, da escola de Frankfurt, até mesmo a cultura e manifestações artísticas podem ser apropriadas pelo sistema capitalista e serem transformados em “produtos”, e é o que claramente acontece com o funk no Brasil. O funk tipicamente produzido nas periferias é visto como criminoso, vulgar, hostil e problemático, para que ele seja validado como cultura, é necessário a criação de figuras como Ludmilla, Anitta e Kevinho, por exemplo. O funk produzido por essas pessoas não sofre a mesma censura e preconceito do funk que sai, de fato, da favela.
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Para ilustrar essa comparação, podemos referenciar o caso DJ Rennan da Penha, produtor de funk e um dos organizadores do Baile da Gaiola, evento de funk que acontecia no complexo da Penha, no Rio de Janeiro, que foi preso por associação ao tráfico de drogas. A relação com o consumo de drogas – que nem sempre é utilizada por todos apreciadores do movimento – é um ponto bastante presente no funk e forte fator utilizado para sua criminalização perante a sociedade. Segundo Danilo Cymrot (2011) o fato de haver consumo de drogas nos bailes funks não justifica o fechamento dos mesmos, uma vez que, fazer ações para fechar as “bocas de fumo” faria muito mais sentido. Para ele “a guerra contra as drogas tem uma função política muito clara, de ampliar os poderes punitivos do Estado e o controle social, criminalizar e demonizar populações inteiras, as mesmas de sempre (negros, pobres, imigrantes).” O funk é ameaçador porque, apesar de ter se popularizado, ainda é identificado com aglomerações de jovens negros, pobres e favelados. Um setor visto de forma generalizada de uma sociedade racista, que não fornece estruturalmente os meios para realizarem de forma lícita as metas culturais. (CYMROT, 2011)
No ano de 2010 o funk deixou de se tornar um estilo associado exclusivamente ao Rio de Janeiro, isso porque começaram a surgir novos artistas e projeções em cidades do estado de São Paulo, inicialmente na Baixada Santista e depois na região metropolitana da capital. O funk ostentação marcou o começo da invasão paulista no gênero. Desde então, artistas como MC Guimê, MC Bin Laden, MC João, MC Livinho, MC Fioti, entre muitos outros, ganharam fama e notoriedade nacional. Em São Paulo, o combate aos “pancadões” virou lei em 2017, quando o então governador Geraldo Alckmin (PSDB) assinou um decreto que permitia a intervenção repressiva da Polícia Militar em eventos na rua. No decreto não era citado nenhum gênero, mas o texto previa a fiscalização e controle de sons automotores com volume alto. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, no ano de 2019 foram realizadas mais de 7.500 operações em bailes funks no estado de São Paulo. Mesmo sem espaço significativo na grande mídia, tentativa de criminalização e leis que impõem uma série de protocolos para a realização de bailes funks, é inegável o crescimento e popularização do gênero, tamanha sua expressividade. É um produto de massa presente em todo país em todos níveis sociais. Sua ascensão dá voz a
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minorias invisibilizadas, expressando uma realidade não maquiada e sendo a esperança e porta de escape de muitos jovens periféricos. Eu costumo dizer que o funk salvou minha vida, e o funk vem salvando vidas. Ele não está só salvando vidas, ele está enriquecendo pessoas. E quais são essas pessoas que ele está enriquecendo? É o preto, o pobre, o favelado, a mulher. A mulher totalmente fora dos padrões que canta músicas feministas, no meu caso. Isso não agrada. O funk não agrada. O maior crime que o funk comete é deixar pretos ricos, porque droga tem em todo lugar, tem no Rock in Rio, no Lollapalooza, em boates, em todos os lugares. (MC Carol, em entrevista ao site Brasil de Fato. 2019)
No conceito de Habitus – também conhecido como capital incorporado – desenvolvido por Pierre Bordieu, ele defende um sistema de disposições incorporadas. São tendências que organizam as formas pelas quais os indivíduos percebem o mundo social ao seu redor e a ele reagem (em termos de classe social, religião, nacionalidade, etnia, educação, profissão etc.) e reflete a realidade vivida a que os indivíduos são socializados. O Habitus é, portanto, um conjunto unificador e separador de pessoas, bens, escolhas, consumos, práticas, etc. O que se come, o que se bebe, o que se escuta e o que se veste, constituem práticas distintas e distintivas; são princípios classificatórios, de gostos e estilos diferentes. O que estabelece, perante habitus esses esquemas classificatórios, o que é requintado e o que é vulgar, sempre de forma relacional, já que, por exemplo, o mesmo comportamento ou o mesmo bem pode parecer distinto para um, pretensioso ou ostentatório para outro e vulgar para um terceiro. Tomando por exemplo o gosto musical como pauta, este não pode ser visto apenas como subjetividade direta, mas também como uma objetividade interiorizada, condicionado pela estrutura social. Em sua obra “A distinção”, Bordieu defende que os “gostos” não são privilégios naturais, mas sim, resultado do processo geral de educação, seja ligado a instrução formal, seja ligado a herança familiar. Perante o conceito de Habitus podemos definir que o funk reproduz aquilo que é vivenciado nas periferias. As letras, sejam elas falando de drogas ou violência, repassa para a sociedade a realidade cotidiana das favelas. Conforme defende Bordieu, nossos gostos são influenciados pelo campo e estrutura social em que vivemos.
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7. Referencial metodológico Para que o proposto projeto de pesquisa fosse desenvolvido de forma satisfatória, foi utilizado os seguintes métodos de pesquisa: levantamento bibliográfico e documental, pesquisa qualitativa (entrevista em profundidade), e pesquisa etnográfica – mergulho no meio social como observador. A pesquisa bibliográfica e documental será concentrada em reportagens, livros, dissertações e teses a respeito do tema para um melhor entendimento e aprofundamento do mesmo e fortalecer a base dessa pesquisa. Um dos trabalhos que será utilizado como referência é a dissertação de mestrado “A criminalização do funk sob a perspectiva da teoria crítica”, de Danilo Cymrot e os documentários “Funk Rio” de Sergio Goldenberg e “Funk Ostentação” de Korand Dantas e Roberto Barreiros. Paralelo a essa pesquisa, foram escolhidas as teorias Culturológica e Crítica como base teórica, temos como autores principais, respectivamente, Pierre Bourdieu defendendo o conceito de Habitus e Thedor Adorno e Max Horkheimer com o conceito da Indústria Cultural. Em seguida, passamos para a pesquisa qualitativa, que terá sua base em entrevista direta com o personagem central desse trabalho, jovem periférico frequentador de baile e shows de funk, pesquisador e produtor cultural ligados ao movimento do funk. Finalizaremos com a pesquisa etnográfica, pois, para a conclusão deste trabalho, é importante a vivência no meio social que está sendo estudado. Para obtermos um panorama completo sobre o tema, é primordial acompanharmos esse movimento de perto.
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8. Referências CAETANO, Bruna. MC Carol: “O maior crime que o funk comete é deixar pretos ricos”. Brasil de Fato, São Paulo, 02 abr. 2019. Disponivel em: <https://www.brasildefato.com.br/2019/04/02/mc-carol-o-maior-crime-que-o-funkcomete-e-deixar-pretos-ricos>. Acesso em: 10 jun. 2020. COSTA, Jean H. Reflexões sobre a indústria cultural a partir de Pierre Bourdieu: a importância dos conceitos de Habitus e Capital Cultural. Revista Espaço Acadêmico, [s.l], n. 140, p. 14-15, jan. 2013. Disponível em: <file:///C:/Users/avbispo/Downloads/18411-Texto%20do%20artigo-79738-2-1020130116.pdf> CHAGAS, Inara. Como o funk surgiu no Brasil e quais são suas principais polêmicas? Politize, [s.l.], 08 ago. 2018. Disponível em: <https://www.politize.com.br/funk-no-brasil-e-polemicas/>. Acesso em: 15 abr. 2020. CYMROT, Danilo. A criminalização do funk sob a perspectiva da teoria critica. 2011. Dissertação de mestrado (Área de concentração: Direito Penal, Medicina Forense e Criminologia). Universidade de São Paulo, SP, 2011. FERRARI, Marcio. Pierre Bourdieu, o investigador da desigualdade. Nova Escola, [s.l.], 01 out. 2008. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/1826/pierre-bourdieu-o-investigador-dadesigualdade>. Acesso em: 29 mai. 2020. FUNK OSTENTAÇÃO – O FILME. Konrad Dantas. Roberto Barreiros. São Paulo. 2012. Documentário disponível em: https://kondzilla.com/m/funk-ostentacao-ofilme/#materia FUNK RIO. Sergio Goldenberg. Carlos Marchand. Rio de Janeiro. 1994. Documentário disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=349OLoSMbAc LIMA, Juliana D. Um projeto de lei quer criminalizar o funk. De onde vem essa vontade? Nexo Jornal, [s.l.], 03 jun. 2017. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/06/03/Um-projeto-de-lei-quercriminalizar-o-funk.-De-onde-vem-essa-vontade>. Acesso em: 25 abr. 2020. MEDEIROS, Janaina. Funk Carioca: crime ou cultura? O som dá medo e prazer. Editora Terceiro Nome, 2006. MOREIRA, Rafael Hermés Mondoni. É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado. 2016. Trabalho de conclusão de curso (Bacharel em Música). Curso de Música. Universidade Estadual Paulista, São Paulo, SP, 2016.
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POLETTO, Lucas Pontes. O funk como luta identitária: Uma análise do seu crescimento nos cenários cultural e social no Brasil. 2019, 48 p. Trabalho de conclusão de curso (Bacharel em Publicidade e Propaganda). Curso de Publicidade e propaganda. Universidade de São Paulo, SP, 2011. RABELO, Jana. O papel social do funk no Brasil. [s.l.], [s.e.], 28 out. 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=vMQUcje0WwQ>. Acesso em: 01 jun. 2020. ROCHA, Camilo. Popular e perseguido, funk se transformou no som que faz o Brasil dançar. Nexo Jornal, [s.l.], 22 out. 2017. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/10/22/Popular-e-perseguido-funkse-transformou-no-som-que-faz-o-Brasil-dan%C3%A7ar>. Acesso em: 02 mai. 2020. ROCHA, Camilo. O que o funk representa para a cultura jovem de São Paulo. Nexo Jornal, [s.l.], 04 dez. 2019. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/12/04/O-que-o-funk-representapara-a-cultura-jovem-de-S%C3%A3o-Paulo>. Acesso em: 02 mai. 2020. RODRIGUES, Arthur; PAULUZE, Thaiza. Ações da polícia contra bailes funk acumulam abusos em SP. Folha de São Paulo, São Paulo. 06 dez. 2019. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/12/acoes-dapolicia-contra-bailes-funk-acumulam-abusos-em-sp.shtml>. Acesso em: 20 de abr. 2020. SOARES, Nana. Criminalização do funk revela preconceito e discriminação contra as periferias. Portal Aprendiz, [s.l.], 02 ago. 2017. Disponível em: <https://portal.aprendiz.uol.com.br/2017/08/02/criminalizacao-funk-revelapreconceito-e-discriminacao-contra-periferias/>. Acesso em: 28 abr. 2020. VELOSO, Vinicius. Funk brasileiro: das raízes clássicas até a nova geração frenética. Correio Braziliense, Brasília, 07 ago. 2018. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-earte/2018/08/07/interna_diversao_arte,699492/funk-brasileiro-das-raizesclassicas-ate-a-nova-geracao-frenetica.shtml>. Acesso em: 15 abr. 2020.
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9. Cronograma geral Cronograma anual.
MÊS FEVEREIRO MARÇO
ATIVIDADES Escolha do tema, delimitação do tema, mapa mental; Justificativa e introdução, início da montagem do projeto;
ABRIL
Estudo dos principais teóricos, desenvolvimento do projeto;
MAIO
Desenvolvimento do projeto; apresentação do seminário de delimitação teórica e metodológica
JUNHO
Entrega do projeto experimental;
JULHO
Férias
AGOSTO
Início do desenvolvimento prático do projeto, contato com as fontes;
SETEMBRO
Gravação das entrevistas, decupagem das entrevistas e criação da identidade do programa;
OUTUBRO
Gravação das sonoras, criação do roteiro e início da edição;
NOVEMBRO
Finalização da edição e entrega do produto final;
DEZEMBRO
Apresentação para a banca.
10. Investimento Devido a pandemia, todo o projeto foi produzido remotamente, evitando quaisquer custos.
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APÊNDICES
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1. Diário de Campo AGOSTO Após as voltas aulas eu estava muito perdida em relação a todo o processo de construção na prática do meu projeto. Confesso que foi bem difícil no começo e as primeiras orientações foram primordiais para que eu entendesse todo o cenário e começasse o desenvolvimento do meu trabalho.
SETEMBRO No mês de setembro realizei o contato com as minhas fontes e fiz as minhas principais entrevistas, que deram todo o suporte teórico para o meu podcast. Realizei a decupagem das entrevistas e criei um nome e uma arte para o meu programa. Nas minhas orientações, discutimos muito sobre identidade e formas que o programa teria e quais seriam as estratégias para desenvolvê-lo da melhor maneira.
OUTUBRO No mês de outubro foi realizada a última entrevista e com isso criei o roteiro do programa. Tive algumas tentativas de entrevistas frustradas com outra fonte que havia planejado, mas não deu certo. Foi um mês sem grandes avanços. Comecei a trabalhar em meu relatório e modificar algumas partes que julguei necessário.
NOVEMBRO Em novembro, último mês de desenvolvimento do trabalho eu gravei as minhas sonoras e realizei a edição do programa junto ao núcleo de comunicação da universidade. Após finalizar essa parte prática, fiz os ajustes necessários no relatório.
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2. Pautas PRÉ-PAUTA
Ana Vitória Bispo FUNK: A expressão cultural da periferia
PRODUTO: TEMA/ASSUNTO: Programa de Preconceito contra o funk debates (podcast)
DATA DA ENTREVISTA: Segundo semestre de 2020.
HISTÓRICO O funk se consolidou no Brasil, e hoje é um importante elemento da cultura brasileira. Popular nas favelas, é produzido por jovens periféricos e em suas letras é muito comum serem retratados a realidade da periferia e o orgulho de pertencer a ela, mas, mesmo com todo o seu crescimento significativo, o preconceito contra o funk ainda pode ser percebido por diversos fatores e isso não se relaciona só com a música, mas envolve questões como preconceito racial e criminalização da pobreza. O presente projeto de pesquisa tem como objetivo específico adentrar o universo do funk como o lugar de fala dos jovens periféricos, que veem no funk não só um gênero musical e entretenimento, mas uma forma de expressão da realidade vivida nas favelas. A partir desse pressuposto, entender as razões pelo qual o funk sofre com o preconceito e tem a identidade criminalizada pela sociedade, de uma maneira que não acontece com os outros estilos musicais. Fontes: • • •
Danilo Cymrot – advogado e pesquisador em ciências sociais, autor da dissertação “A criminalização do funk sob a pesperctiva da teoria crítica” Renato Barreiros – produtor cultural e diretor do documentário “Funk Ostentação” Gabriel Simões – frequentador de baile funk
ENFOQUE/ANGULAÇÃO O trabalho busca adentrar o universo do funk e compreende-lo como expressão cultural das periferias. O enfoque está voltado a entender os motivos pelos quais esse movimento sofre com o preconceito e a censura. Como objeto de pesquisa mais aprofundado, utilizaremos as periferias da zona sul de São Paulo.
POSSÍVEIS PERGUNTAS
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Danilo Cymrot 1. Porque o funk você acredita que o funk sofre com um preconceito e uma repressão, que por exemplo, o sertanejo não sofre? 2. Porque acontece a tentativa de criminalização do funk? Essa ação é um tipo de censura? 3. Qual o fator principal que faz o funk sofrer com a censura? Onde começa essa repressão? 4. Você acredita que existe uma forma de tornar o funk “proibidão” seja ele falando de sexo, ou de drogas, menos censurável? 5. Porque o funk da Anitta, por exemplo, tem um espaço que as músicas tocadas no baile funk não tem? 6. Você acredita que todos os subgêneros do funk sofram repressões igualmente? 7. A tentativa de criminalização do funk tem ligação com o racismo estrutural enraizado em nossa sociedade? Renato Barreiros 1. Mesmo com repressão policial, os bailes funks são onipresentes na periferia de São Paulo. A que atribui a força desse fenômeno? 2. Incidentes envolvendo a polícia e pessoas feridas são comuns na cena do funk de SP. Como vê essa relação? 3. Você acredita que seja, de fato, necessário que os movimentos ligados ao funk, tenham a “supervisão” da polícia? 4. Enquanto trabalhou na prefeitura, você implantou o projeto dos “permitidões”, quais tipos de iniciativa você acredita que falta hoje para os projetos ligados ao funk e para que essa relação funk x polícia x sociedade seja melhorada? 5. Você acredita que todos os subgêneros do funk sofram repressões igualmente? 6. A tentativa de criminalização do funk tem ligação com o racismo estrutural enraizado em nossa sociedade? Gabriel Simões 1. Porque você acredita que o funk sofre com repressão, tanto da sociedade, quanto da policia? 2. Você se sente menosprezado pelo restante da população por ser frequentador de baile funk? 3. Você acredita que o funk sofre com a censura por se tratar de um movimento que vem da favela? 4. O que você acredita que poderia ser melhorado nos bailes funks para que eles fossem melhores “aceitos”?
FONTES Documentário “Funk Rio” – Silvio Goldenberg
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https://www.youtube.com/watch?v=349OLoSMbAc Documentário “Funk Ostentação” – Konrad Dantas e Roberto Barreiros https://kondzilla.com/m/funk-ostentacao-o-filme/#materia Livro “Cultura de Massa no século XX” – Edgar Morin EQUIPAMENTOS Entrevistas captadas pela plataforma Zoom
REPÓRTER Ana Vitória Bispo
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3. Transcrição das entrevistas Danilo Cymrot Por que você acredita que o funk sofre com o preconceito que outros estilos musicais – o sertanejo – por exemplo, não sofre? Eu acho que há alguns elementos, eu acho que inclusive o sertanejo que é muito popular ele também sofre um tipo de preconceito que é diferente do preconceito, mas ao mesmo tempo semelhante com o preconceito que o funk sofre num certo sentido. Tanto o sertanejo, quanto o funk são considerados pela elite cultural muitas vezes como uma música de má qualidade, de mal gosto, com letras pobres, uma música pobre, uma música alienada, nesse ponto o funk e o sertanejo eles se encontram. Mas existe uma diferença, porque o funk além de ter esse estigma que o sertanejo tem, sobre ser uma música pobre e alienada e de má qualidade ele também tem um outro estigma que o sertanejo não tem que é de ser uma música que incentiva a criminalidade, que incentiva a vida sexual precoce, a utilização de drogas, o consumo de drogas, então nesse ponto o funk é mais estigmatizado que os outros ritmos musicais. Isso se da por dois motivos, primeiro porque de fato já há um histórico de estigmatização e criminalização de gêneros musicais que são identificados com uma parcela da população que é justamente vista como uma parcela ameaçadora e que tem um estereótipo de criminoso, que são justamente jovens, negros e pobres. Essa questão não é tanto em relação ao funk, mas em relação a essa parcela da população que é a parcela que lota os presídios, que é perseguida pela polícia, que já tem um estereotipo de criminoso e pelo fato de o funk ser o gênero mais consumido por essa parcela da população o gênero acaba sendo criminalizado, assim como houve épocas em que outros gêneros musicais, também consumidos por esse público, o samba por exemplo, também eram muito mal vistos. Mas além disso, o funk de fato tem uma vertente, e ai é importante dizer que não é todo funk, é apenas uma vertente, que é chamada “proibidão” e que faz, digamos assim, narra a vida no crime e é acusado de fazer apologia as facções criminosas, além disso existe um outro subgênero de funk que também é considerado proibidão, mas vai em uma outra vertente, que é o funk putaria, que tem letras explicitas que falam sobre posições sexuais, então isso é muito mal visto por uma sociedade que ainda é muito conservadora e religiosa.
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Porque acontece a tentativa de criminalização do funk? Essa ação é um tipo de censura? O funk ele é reprimido de diversas formas, muitas vezes os bailes se dão em ambientes de fato inapropriados, no meio da rua, em horários que avançam a madrugada, sem isolamento acústico, o que causa muito tumulto. Na verdade, o que é reprimido lá não é tanto o funk, o gênero musical, é o acontecimento festivo, uma festa, no meio da rua, de madrugada, muitas vezes há consumo de drogas, o que não significa que não haja consumo de drogas em outros espaços, sociais, mas lá, por ocorrer na rua, as pessoas acabam sendo mais expostas e ficando mais vulneráveis a repressão policial. Um dos motivos pelo qual o funk é reprimido é esse, a poluição sonora, e aí ele é reprimido por violar regras de direito administrativo, urbanístico, que proíbem som alto em determinados locais da cidade e em determinados horários. Por outro lado, existe um outro tipo de repressão, que aí se aproxima mais da censura mesmo que é a repressão ao proibidão, esses funks são acusados de fazerem apologia ao crime, então os MC’s que cantam esse tipo de música que falam das facções criminosas, alguns deles já foram presos e processados e acusados até mais do que a apologia de serem associados ao tráfico de drogas, de fazerem parte de uma quadrilha e caberia a esses MC’s de fazerem a propaganda do negócio. Então nesse ponto existe uma censura que é muito criticado pelos pesquisadores de liberdade de expressão, primeiro porque existe um limite que não é muito claro, muitas vezes entre você fazer uma crônica da realidade e você fazer apologia a uma conduta criminosa, segundo que no fazer artístico você tem que levar em conta que você não pode levar a letra ao pé da letra, porque a pessoa quando canta uma música muitas vezes ela exagera, ela fantasia, ela mistura ficção e realidade, então não tem como você prender uma pessoa por ela ter contado uma historia de um traficante em uma musica né. Na verdade, essa repressão acaba sendo muitas vezes inócua, porque não é reprimindo o proibidão que você vai acabar com a violência da guerra as drogas que é causado em grande parte até pela própria criminalização da venda de drogas, então já houve momento em que se proibiram os bailes, prenderam os MC’s que o tráfico de drogas continuou acontecendo normalmente, então não é isso que vai acabar o negócio. Comentário sobre como viabilizar bailes de funk:
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Já houve tentativas nesse sentido, de organizar bailes funks com a participação da prefeitura, mas por uma razão ou outra o projeto não foi adiante. Muitas vezes o que acaba acontecendo é que quando muda o governo, existe um projeto que está em curso e ele é descontinuado. Não existe uma política de estado para a cultura muitas vezes e para o funk, existe uma política de governo, troca o governo, muda a orientação política, e aí acaba. Houve então organização de bailes funks em horários mais apropriados, com uma estrutura melhor, que era oferecida pela própria prefeitura, palco, banheiro químico, esse tipo de coisa. Se isso fez com que os pancadões diminuíssem, ou até mesmo os próprios rolezinhos, aí é outra história. Veja, não é porque a prefeitura vai oferecer um baile gratuito, organizado, que vai terminar as dez da noite, ou meia noite, que seja, que os jovens vão querer ir pra casa e dormir. Mas, eu acho que em uma democracia, todos tem que ceder um pouco, fazer concessões, então eu acho que o poder público, e é o que eu defendo, ele tem mais legitimidade para reprimir os abusos se ele oferece alternativas do que reprimir se ele não oferece. Porque se a única face do estado que a periferia conhece for a face repressora, se a única relação que o funk da periferia tem com o estado são com os policiais que chegam jogando bomba, o estado ele fica deslegitimado e desacreditado por parte dessa população. Porque acontece a tentativa de criminalização do funk? Essa ação é um tipo de censura? Eu acho que basicamente são esses dois fatores que fazem com que o funk seja mais perseguido mesmo, ele acontecer em ambientes sem os devidos cuidados de infraestrutura, trazendo vários transtornos para a vizinhança, problemas de barulho e tudo mais, por serem pessoas pobres elas têm menos (...) fazer valer os seus interesses. Então as vezes existem outras manifestações culturais que são feitas no meio da rua, mas são feitas por jovens de classe média e pode até haver repressão, não é que não haja, há, mas talvez ela não seja tão violenta quanto a repressão que ocorre nos bailes. O segundo motivo é o fato de o funk trazer letras que são consideradas de apologia ao crime ou de apologia ao sexo. Isso é muito mal visto pela sociedade e oferece um pretexto para que o funk seja reprimido ainda que esse tipo de produção estar presente em outros ritmos musicais, acontecem com menos frequência, até porque o funk é basicamente ouvido por jovens e se você for ver, quais são os interesses dos jovens, né? Sexo, eles estão na fase de descoberta, então muitas vezes eles acabam cantando e dançando funk de uma forma que eles
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estão contando vantagem, não é porque eles cantam sobre sexo que eles fazem tudo aquilo que eles cantam, então alguns pesquisadores falam que apesar de muitas musicas serem de putaria, de fato eles não presenciaram nos bailes nenhuma cena de sexo explícito, é muito mais uma “criancice” aquela coisa do adolescente precisar se afirmar de alguma forma e ele se afirma dessa forma, simulando que ele pertence há uma facção criminosa, simulando que ele faz sexo, que muitas vezes não é verdade, então é por isso. Não, acho que nem deve acontecer, porque veja bem, a gente vive em uma sociedade que é conflituosa, então a gente vê os movimentos feministas, os movimentos LGBTs entrando em confronto muitas vezes com outros setores da sociedade, religiosos e fundamentalistas, isso é natural em uma democracia. Então eu penso por que falar abertamente sobre sexo é uma coisa que escandaliza tanto as pessoas, há outras coisas que deveriam escandalizar muito mais e em relação a facções criminosas, enquanto houver guerra entre facções e essa guerra violenta que é causada com esse pretexto de combater o tráfico de drogas, mas a gente sabe que não combate de fato, não resolve, vai haver músicas falando sobre isso. Não é calando esse tipo de produção que você vai acabar com o problema. Porque o funk da Anitta, por exemplo, tem um espaço que as músicas tocadas no baile funk não tem? Esse funk mais comercial, que chega a Rede Globo, as vezes chega até fazer sucesso lá fora, a primeira coisa é que ele é um funk mais bem produzido. São pessoas que já tem uma infraestrutura melhor, então acabam fazendo arranjos mais elaborados, são funks mais melódicos, mais dançantes, muitas vezes o proibidão, até por ser um proibidão ele acaba sendo gravado em um celular com uma batida de fundo e só, ele não é musicalmente não é tão palatável ao gosto estético consolidado. O funk da Anitta se aproxima do Pop, ele é mais pop, do que funk, mesma coisa em relação a Ludmilla. Isso em relação a música, em relação a letra, existe essa preocupação para atingir públicos mais amplos da sociedade e de aliviar a letra. Você não vê essas cantoras cantando funks explícitos de facções criminosas ou mesmo sobre sexo, elas até cantam sobre sexo, mas com um duplo sentido. Inclusive, os funkeiros têm duas versões, um com as letras mais explicitas que eles cantam ao vivo nos shows em determinados shows, e outro que é a versão permitida que vai pra rádio e pode ser ouvida por todo mundo, desde a criança até a vovó.
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A tentativa de criminalização do funk tem ligação com o racismo estrutural enraizado em nossa sociedade? Existe um componente racista na criminalização do funk no sentido de que o público que mais se identifica com o funk é a periferia ouvido e cantado principalmente por negros, os principais MC’s de funks são negros e vem da periferia, então nesse sentido, existe uma coisa de transcende o funk, uma imagem racista em que o criminoso é sempre associado ao jovem negro, cantar funk faz com que o próprio estigma contamine o próprio gênero musical. Muita gente vê o funk como marginal porque é visto, escutado e cantada por marginais, e aí existe um componente racista, por que algumas pessoas são vistas na sociedade como marginais e outras não? O jovem negro que é traficante de drogas, mas ganha uma merreca comparado aos grandes traficantes de verdade, ele é visto como marginal e outras pessoas bem consolidadas na sociedade, brancas, ricas, que cometem outros tipos de crimes, essas pessoas não são vistas como marginais. Nesse sentido, existe um componente racista. Comentário sobre raves x funk O que eu descobri na minha pesquisa é que pelo menos no papel, na letra da lei, as raves são tão reprimidas quanto os bailes funks. Existem alguns projetos de lei que buscam reprimir as raves, impor uma serie de requisitos para que as raves sejam realizadas, tão ou mais rigorosas quanto os requisitos impostos aos bailes funks. Agora na prática, se de fato existe mais repressão policial nas raves do que nos funks eu acho improvável, por alguns motivos. Primeiro, porque tenho a impressão de que existem muito mais bailes de ruas acontecendo do que raves, na cidade de São Paulo. Segundo, porque muitas vezes as raves são feitas em ambientes mais afastados, fazendas, sítios, galpões abandonados, então não existe aquele conflito com a vizinhança que muitas vezes no caso do funk existe. Além disso, a gente tem que cogitar a possibilidade de haver corrupção policial, não é só que a polícia não reprime a rave porque é frequentada por brancos, porque negros também frequentam. Seja porque a polícia sabe que se ela chegar em uma rave ela sabe que vai acabar sofrendo muita pressão política, porque a sociedade não está acostumada a ver jovens brancos serem atacados por balas de borracha, esse tipo de coisa, mas também porque não descarto a possibilidade de haver corrupção. Na verdade, é uma coisa que transcende o funk e a rave. A gente sabe que se os
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consumidores sabem onde fica uma boca de fumo, muito provavelmente a polícia também sabe, e por que a polícia não age? Porque muitas vezes os policiais acabam recebendo dinheiro do tráfico pra deixar o negócio funcionar. O que você acha que pode ser feito para ser melhorada essa relação polícia x funk x sociedade? Eu acho que o buraco é mais em baixo, porque a gente vive em um país muito violento e a polícia é violenta e sofre violência. Então a gente precisa entender o lado do policial também que chega lá pra reprimir e é recebido muitas vezes com garrafadas e pedradas, então a relação da polícia com os jovens é historicamente problemática, a gente não vai resolver isso de uma hora pra outra, nem realizando bailes funks com o apoio da prefeitura e nem proibindo baile funk. O fato, se você for ver, quem é a parcela da população que mais morre nas mãos da polícia? São jovens, negros e periféricos, o mesmo perfil que frequenta esses bailes. Então, em relação ao funk, houve tentativas de aproximação do poder publico que foi necessária, mas não foi suficiente. Não dá pra iludir ninguém dizendo que vai resolver um problema que é histórico de relação com a polícia e a juventude negra e pobre da periferia porque não vai. O que vai acontecer é que pelo menos pra quem está a fim de curtir um baile funk com segurança, ele vai poder curtir o baile dele em paz. Agora todas as questões que giram em torno disso, violência, tráfico de drogas, isso precisaria de uma reforma mais radical da sociedade que a curto prazo eu não vejo como isso ser feito.
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Renato Barreiros Por que você acredita que o funk sofre essa perseguição, que os outros ritmos musicais não sofrem? Por exemplo, o sertanejo. Eu acredito que outros estilos musicais já sofreram e alguns ainda sofrem esse preconceito também, de outras maneiras. O sertanejo, por exemplo, quando começou lá atrás, hoje o sertanejo já esta uma coisa popularizada, mas quando começou lá atrás quando o sertanejo ainda não estava nos grandes centros urbanos, quando os jovens, a chamada elite ouvia MPB e Rock, lá com Chitãozinho e Xororó, essa turma começou a estourar também era visto como uma coisa inferior. Quem ouvia sertanejo era uma pessoa sem cultura. Então, tudo que não está presente nessa elite, não é de alguma maneira consumido por essa elite, você tem um preconceito. Então o sertanejo lá atrás teve, hoje em dia você tem preconceito com a música gospel, uma coisa também vista por essa certa elite cultural como coisa de gente ignorante, que obedece a tudo que o pastor manda, enfim, é uma coisa colocada como segundo plano, como algo desimportante. E o funk eu acho que por um lado ele conquistou uma parte dessa certa elite cultural, digamos assim, esses jovens de classe média alta há algum tempo ouve, mas também é muito presente ainda na comunidade. E não só por ser uma coisa da periferia, mas por ser uma coisa de jovem já tem um preconceito. A questão de ser da periferia é uma coisa que gera um preconceito, mas ser um ritmo que é consumido por jovem também gera preconceito. Na época que você tinha o rock como um ritmo que a juventude ouvia, que existia aqueles shows as pessoas “Olha lá, esses jovens no show de rock” e hoje, por exemplo, eu estava lendo outro dia um comentário de um site de notícias e era assim “Está vendo, quem espalha o vírus da covid são esses jovens que ficam indo no baile funk”, tudo era o baile funk, então virou um senso comum de onde o jovem está. Agora, é claro, por ser uma coisa consumida na periferia, que é muito produzida na periferia, embora pessoas de classe média estejam consumindo, tem um preconceito a mais de achar que lá é que moram os bandidos, esse preconceito com a favela de que os bandidos estão lá, o crime esta lá, uma coisa de “nós aqui do centro somos os puros e os que estão na favela e na periferia é onde tem o crime” quando a gente percebe que não é bem assim. Você pega todos os casos de corrupção, com quantidades enormes de dinheiro publico roubado e a maioria das pessoas, a polícia federal batia nas casas e moravam no
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Jardins, não era em Itaquera. Mas é esse preconceito dessa classe média alta de achar que aqui moram os bons e lá moram os ruins, acho que é um pouco desse contexto que o preconceito alcança e impera. Tem uma coisa que é muito forte também, você perguntar assim o que é música, a pessoa vai falar de música erudita, violino, e quando você pega o que a maioria da população consome, não é esse tipo de música, então você tem uma coisa do discurso de “vou falar como deveria ser” mas nem eu mesmo pratico esse como deveria ser. Incidentes envolvendo a polícia e pessoas feridas são super comuns acontecerem, a televisão muitas vezes até notícia esses acontecimentos. Como você vê essa relação? Eu não vou desconsiderar o que a polícia cometeu de abuso em operação de baile funk e temos ai diversos casos de que realmente existe abuso de poder, mas eu acho que existe um problema maior que muitas vezes acaba estourando na hora na polícia militar, que é o seguinte, o estado, quando eu falo em estado, eu falo de governo federal, governo estadual, prefeitura, ele tem que agir para que não ocorra o baile funk daquela maneira antes de começar o baile funk, porque na hora que você já está com o baile funk montado aquilo é diversão pra muita gente, mas também é problema no sentido de que vai fazer barulho, que as pessoa do lado querem dormir, você tem um monte de pai de família, principalmente na comunidade, que vai acordar cinco horas da manhã e de repente o sábado ou o domingo é o único dia que ele acorda mais tarde e ai tem vinte carros com o som estourando na porta da casa dele, quer dizer, baile de rua quando é colocado como um problema é porque é um problema por conta da forma como isso é feito, não por se tocar funk ou por serem jovens, então eu acho que o poder público ele tem que ir adiante, então a secretaria de cultura, a secretaria de esportes, lazer, ela tem que fazer eventos pra esses jovens nas comunidades mais carentes, para que esses jovens possam divertir e dançar o funk, com horário, num lugar que tenha um isolamento acústico. A polícia, acaba estourando na mão dela, não por isso eu estou tentando tirar a responsabilidade dela como no exemplo de Paraisópolis, onde muitas pessoas morreram, mas não adianta na hora que está formado ir lá a polícia porque não vai resolver, isso tem que ser pensado antes. A questão não pode ser vista baile funk x polícia, tem que ser visto baile funk e poder público, a hora que o poder público começar incorporar que eles também precisam dar uma solução pra
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diversão desses jovens que moram na periferia, se resolve, ai você não precisa mandar a polícia, ai o jovem vai ir, vai curtir, vai se divertir e vai voltar pra sua casa e o pai de família vai poder dormir dez, onze horas da noite até o outro dia de manhã e ter o sono dele tranquilo. Mesmo com essa repressão da polícia, os bailes funks são onipresentes, eles continuam acontecendo, a que se deve esse fenômeno? O que acontece é, o número de baile funks na cidade de São Paulo por final de semana, mobilizam mais ou menos quase oitocentas, um milhão de pessoas, eu tive acesso pelo secretario de desigualdade racial, compartilhou esses dados num grupo que a gente tinha de tentar achar uma solução, então você mobiliza um milhão de pessoas por final de semana, não tem polícia pra tudo isso. Você não consegue, como é que faz? O baile funk é a diversão do jovem, se amanhã a moda for reggaeton, vão ter os bailes de reggaeton, se depois de amanhã for o rock, vão ser os encontros do rock, então quer dizer que é a diversão da juventude. O que ta posto é, o jovem atual, ele tem uma necessidade de socializar e se divertir saindo a noite, nas áreas mais vulneráveis da cidade, nas áreas mais carentes, eles não têm dinheiro pra ir para os salões, as casas noturnas e acabam indo pra rua. Então como a gente consegue dar diversão e lazer pra esses jovens a noite? Ou pelo menos, como que a gente consegue organizar isso de maneira que vá até um certo horário, a resposta é essa, a gente não pode colocar uma coisa baile funk x polícia porque ai que está o problema, se você tá com um baile funk no meio da rua e a única coisa que o cidadão pode fazer é ligar para a polícia. Então assim, a gente já sabe que vai dar problema ai, que não é uma solução boa, que muitas vezes a polícia não vai agir como deveria agir e pode ter mortes, pode ter gente machucada, então anteriormente a isso a gente já pode pensar em como esse jovem pode se divertir de maneira saudável. E você acredita que todos os subgêneros do funk sofrem repressão igualmente? Porque atualmente nós temos o funk da Anitta, da Ludmilla, que é muito diferente do funk que é tocado em bailes funks. Esses artistas, a grande maioria dos artistas do funk eles não sofrem repressão, o que acontece é na favela, é na periferia, que você tem essa repressão aos bailes funks. Não acho que é uma questão da música que toca, eu acho que a questão é
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justamente por ser uma festa que acontece no meio da rua e que o poder publico deve dar uma resposta pra isso, tem que organizar. Eu acho que essa coisa do funk, se amanhã vier outro ritmo teremos o mesmo problema, a coisa é ser desorganizada, no meio da rua, não ter alvará de segurança, as pessoas que moram ao redor querem dormir, é esse o problema. Não é só uma questão de música, a questão da música de funk é aí vai em outro sentido, vai no sentido de repente uma rádio não querer tocar, aí tem um pouco de preconceito ainda sim. Falando nessa questão de um lugar mais organizado, enquanto você trabalhou na prefeitura de Tiradentes você implantou o projeto dos permitidões. Quais tipo de iniciativa você acha que falta hoje em dia para que esses projetos ligados ao funk e pra que essa relação funk x polícia x sociedade seja melhorada? Na parte do funk eu acho que isso ajuda, você organizar os permitidões que são bailes com horário pra acabar, acabam entre dez e onze horas da noite, que você tenha a polícia fazendo a segurança dos bailes e não restringindo bailes, que você tenha a fiscalização para que não haja o uso de bebidas alcoólicas para menores de idade, que não haja uso de drogas, acho que isso é um primeiro passo. Se houvesse isso com certeza a gente teria muito menos problema. Acho que falta um pouco de diálogo entre os jovens e a polícia, acho que poderiam abrir canais de comunicação, o afroreggae fez isso uma época no Rio de Janeiro, de tentar um contato o jovem contar as suas angústias e o policial contar o que ele vê negativo no jovem e de repente ali acho que falta um dialogo nessa sociedade, então fica uma coisa muito que a polícia sempre está certa e o jovem é vagabundo. Esse é um dos diálogos que não estão sendo feitos há muito tempo na nossa sociedade, entre jovens e a polícia militar.
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Gabriel Simões Por que você acredita que o funk ele sofre com a repressão, tanto da sociedade quanto da polícia? Porque a gente sabe que não é só uma briga entre frequentadores e polícia. Existe também uma repressão da sociedade a respeito disso. Por que você acha que isso acontece? Bom, eu acredito que isso aconteça, porque como parte das grandes manifestações culturais vindas de partes periféricas são sempre consideradas à margem da sociedade, algo que não é bem visto, que sempre vão tachar como “ai, que isso aí não é cultura”, “isso vem de quem não quer nada da vida”, “de quem é vagabundo”, “é coisa de bandido”. Então, nada que é erudito nunca ocupou, antigamente, as cadeiras de escolas de música ou sempre estiveram. É diferente das manifestações culturais que sempre estiveram nas primeiras páginas de jornais e tudo mais. Sempre vão ser vistas com esses olhos, ainda mais por ser uma manifestação cultural vinda de periferia, isso aí nunca, quer dizer, “nunca” não vai dar para falar, ainda existe muita repressão desde quando isso aconteceu. “Isso” eu digo a vinda do funk para a sociedade, e agora parece que está vindo de pessoas como a Anitta, essa galera que está despontando internacionalmente. Você já foi em bailes funk, você frequenta!? Sim. Você se sente menosprezado por ser um frequentador de baile funk? Tipo assim, você tem receio de falar que você frequenta baile funk com medo do que as pessoas vão pensar? Olha, receio eu não tenho muito porque, assim, é meu gosto, é uma decisão minha frequentar ou não, ouvir esse tipo de música ou não, mas agora em questão de frequentar, né, eu frequento por ser uma opção minha. Eu gosto e eu vou aonde eu me sinto bem, eu gosto onde as manifestações culturais que eu aprecio estejam rolando, inclusive o funk. Então, assim, agora, eu não falo espontaneamente. Se me perguntarem eu falo, mas se não perguntarem também eu não fico falando. Não por medo de sofrer algum preconceito de alguém me olhar torto, mas por opção mesmo. Mas você sente que as pessoas têm algum preconceito em relação a isso, sobre você frequentar ou não?
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Sim, bastante. Até porque para as pessoas que eu já falei que eu frequento, eles falam “nossa, você frequentando esse tipo de lugar? Nunca imaginei”, “você faz faculdade e tal. Como que você se presta a isso”. E eu falo “olha, não é o fato de eu fazer uma faculdade ou seguir um caminho que vocês acham que todo mundo, a sociedade acha que é o caminho certo, o caminho do bem que eu não posso frequentar isso”. Do mesmo jeito que eu estou lá, pessoas que seguem o mesmo tipo de vida que eu também estão lá e se divertem. No que você acredita que poderia ser melhorado no baile funk ou que daria para ser feito, para que ele possa ser mais bem aceito, tanto pela polícia quanto pela sociedade para não ter tantos conflitos que, hoje em dia, a gente sabe que morre muitos jovens em bailes funk, por frequentar baile funk e tudo mais, a gente sabe que acontecem muitas fatalidades ali e aí muita gente acaba morrendo por frequentar o baile funk. Então, o que você acha que daria para ser feito para que isso fosse sanado. Talvez não sanado, mas melhorado essa relação entre funk x polícia e sociedade? Bom, eu acho que as pessoas tinham que começar a aceitar que do mesmo jeito que, claro, pessoas com más intenções vão a esses lugares, assim como vão a outros lugares como o shopping, eu acho que as pessoas tinham que começar a entender que pessoas ditas de bem por eles, também frequentam esse tipo de lugar. Pessoas que estão lá, estão se divertindo. Eu acho que a compreensão da parte da sociedade faria com que isso fosse mais aceito, inclusive pela polícia. Porque a pessoa que não gosta, obviamente, ela vai falar “pô, está acontecendo um baile funk aqui e tal, vou acabar com isso, vou chamar a polícia”. É uma coisa ligada a outra, então, a partir do momento, isso meu pensamento, que as pessoas começarem a aceitar que isso é uma forma das pessoas que moram por ali e que não tem acesso a outros meios de lazer, aceitar que aquilo ali também é um lazer, que aquilo também é uma forma de manifestação cultural periférica, que aquilo é uma forma de lazer da periferia e é isso. E só te completando com uma parte do meu pensamento. Tem gente que fala “por que não faz o baile em um lugar que seja fechado, que cobre entrada”. Aí eu acho que já entra em uma questão que é você tira a legitimação do evento, do baile. Do movimento, né. Que é uma coisa assim na rua, para o povo, assim né?Você acaba padronizando, né?
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Sim, a partir do momento que você vai e cobra, começa a cobrar entrada, você vai ter uma migração de público, porque, pode ser que sim, pode ser que não, mas a pessoa que vai na rave, como a gente falou anteriormente pode ir também no baile funk, são pessoas que antigamente não eram julgadas ou tratadas como marginal.
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4. Roteiro
Trabalho de conclusão de curso
GRANDE REPORTAGEM AUDIOVISUAL
EDIÇÃO PESQUISA E PRODUÇÃO: TEMA/ASSUNTO: FUNK: A EXPRESSÃO NOVEMBRO 2020 ANA VITÓRIA BISPO CULTURAL DA PERIFERIA
TEC:
TEXTO
ARTE CAPA
NO RITMO DO FLUXO PRODUTO: PODCAST DIREÇÃO: ANA VITÓRIA BISPO TEMPO: A DEFINIR ORIENTADOR: Nivaldo Ferraz
PROJETO EXPERIMENTAL COMO TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO, DO CURSO DE JORNALISMO, DA UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL. DEZEMBRO/2020 SOBE
BG
BATIDA
DE SEM TEXTO, SÓ A ARTE COM BG
FUNK (OS PRIMEIROS 5’’ DA TRILHA) DESCE
BG
DURANTE
BG BATIDA 3 MANTER BATIDA 3 TODO
O
PODCAST
LOC 1
ESTÁ COMEÇANDO O “NO RITMO DO FLUXO”, AQUI QUEM FALA
ANA VITÓRIA
É A ANA VITÓRIA E O NOSSO TEMA DE HOJE É O “FUNK: A
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FALA ANA 1
EXPRESSÃO CULTURAL DA PERIFERIA”. NOS ÚLTIMOS ANOS O FUNK TEM SE VALIDADO CADA VEZ MAIS COMO UMA CULTURA QUE É ENRAIZADA NO COTIDIANO BRASILEIRO. EM UMA RÁPIDA PESQUISA NA PLATAFORMA DE STREAMING SPOTIFY É NÍTIDO QUE O RITMO PREDOMINANTE ENTRE AS MÚSICAS NACIONAIS MAIS OUVIDAS SÃO DO GÊNERO FUNK.
MESMO COM O CRESCIMENTO SIGNIFICATIVO DO MOVIMENTO, A EXPANSÃO DAS MÚSICAS E DOS BAILES, É PERCEPTÍVEL QUE O FUNK AINDA SOFRE COM A REPRESSÃO, SEJA ELA DA POLÍCIA OU MESMO DA SOCIEDADE. PARA ENTENDER UM POUCO MAIS ESSE CENÁRIO, OS CONVIDADOS DE HOJE SÃO ESPECIALISTAS NESSE ASSUNTO. LOC 1
PARA O PRODUTOR CULTURAL RENATO BARREIROS, DIRETOR
ANA VITÓRIA
DO DOCUMENTÁRIO FUNK OSTENTAÇÃO QUE ATUA EM
FALA ANA 2
PROJETOS LIGADOS A CULTURA DA PERIFERIA DESDE 2008, ESSA REPRESSÃO QUE O FUNK SOFRE JÁ FOI VIVÍDA POR OUTROS ESTILOS MUSICAIS BRASILEIROS, EM OUTROS CONTEXTOS.
LOC 2
EU ACREDITO QUE OUTROS ESTÍLOS MUSICAIS JÁ SOFRERAM
RENATO BARREIROS
E ALGUNS AINDA SOFREM ESSE PRECONCEITO TAMBÉM, DE
1:42’ – 3:21’
OUTRAS MANEIRAS. O SERTANEJO, POR EXEMPLO, QUANDO COMEÇOU LÁ ATRÁS, HOJE O SERTANEJO JÁ ESTA UMA COISA POPULARIZADA, MAS QUANDO COMEÇOU LÁ ATRÁS QUANDO O SERTANEJO AINDA NÃO ESTAVA NOS GRANDES CENTROS URBANOS, QUANDO OS JOVENS, A CHAMADA ELITE OUVIA MPB E ROCK, LÁ COM CHITÃOZINHO E XORORÓ, ESSA TURMA COMEÇOU A ESTOURAR, TAMBÉM ERA VISTO COMO UMA COISA INFERIOR. QUEM OUVIA SERTANEJO ERA UMA PESSOA SEM CULTURA. ENTÃO, TUDO QUE NÃO ESTÁ PRESENTE NESSA ELITE, NÃO É DE ALGUMA MANEIRA CONSUMIDO POR ESSA ELITE, VOCÊ TEM UM PRECONCEITO. ENTÃO O
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SERTANEJO LÁ ATRÁS TEVE, HOJE EM DIA VOCÊ TEM PRECONCEITO COM A MÚSICA GOSPEL, UMA COISA TAMBÉM VISTA POR ESSA CERTA ELITE CULTURAL COMO COISA DE GENTE IGNORANTE, QUE OBEDECE A TUDO QUE O PASTOR MANDA, ENFIM, É UMA COISA COLOCADA COMO SEGUNDO PLANO, COMO ALGO DESIMPORTANTE. LOC 1
DANILO CYMROT, DOUTOR E MESTRE EM DIREITO PENAL PELA
ANA VITÓRIA
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, ACREDITA QUE EXISTE UMA
FALA ANA 3
OUTRA VERTENTE ACERCA DESSE PRECONCEITO.
LOC 3
TANTO O SERTANEJO, QUANTO O FUNK SÃO CONSIDERADOS
DANILO CYMROT
PELA ELITE CULTURAL MUITAS VEZES COMO UMA MÚSICA DE
0:53’ – 3:11’
MÁ QUALIDADE, DE MAL GOSTO, COM LETRAS POBRES, UMA MÚSICA POBRE, UMA MÚSICA ALIENADA, NESSE PONTO O FUNK E O SERTANEJO ELES SE ENCONTRAM. MAS EXISTE UMA DIFERENÇA, PORQUE O FUNK ALÉM DE TER ESSE ESTIGMA QUE O SERTANEJO TEM, SOBRE SER UMA MÚSICA POBRE E ALIENADA E DE MÁ QUALIDADE ELE TAMBÉM TEM UM OUTRO ESTIGMA QUE O SERTANEJO NÃO TEM QUE É DE SER UMA MÚSICA QUE INCENTIVA A CRIMINALIDADE, QUE INCENTIVA A VIDA SEXUAL PRECOCE, A UTILIZAÇÃO DE DROGAS, O CONSUMO DE DROGAS, ENTÃO NESSE PONTO O FUNK É MAIS ESTIGMATIZADO QUE OS OUTROS RITMOS MUSICAIS. ISSO SE DA POR DOIS MOTIVOS, PRIMEIRO PORQUE DE FATO JÁ HÁ UM HISTÓRICO DE ESTIGMATIZAÇÃO E CRIMINALIZAÇÃO DE GÊNEROS MUSICAIS QUE SÃO IDENTIFICADOS COM UMA PARCELA DA POPULAÇÃO QUE É JUSTAMENTE VISTA COMO UMA PARCELA AMEAÇADORA E QUE TEM UM ESTEREÓTIPO DE CRIMINOSO, QUE SÃO JUSTAMENTE JOVENS, NEGROS E POBRES. ESSA QUESTÃO NÃO É TANTO EM RELAÇÃO AO FUNK, MAS EM RELAÇÃO A ESSA PARCELA DA POPULAÇÃO QUE É A PARCELA QUE LOTA OS PRESÍDIOS, QUE É PERSEGUIDA PELA POLÍCIA, QUE JÁ TEM UM ESTEREOTIPO DE CRIMINOSO E PELO
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FATO DO FUNK SER O GÊNERO MAIS CONSUMIDO POR ESSA PARCELA
DA
POPULAÇÃO
O
GÊNERO
ACABA
SENDO
CRIMINALIZADO, ASSIM COMO HOUVE ÉPOCAS EM QUE OUTROS GÊNEROS MUSICAIS, TAMBÉM CONSUMIDOS POR ESSE PÚBLICO, O SAMBA POR EXEMPLO, TAMBÉM ERAM MUITO MAL VISTOS. MAS ALÉM DISSO, O FUNK DE FATO TEM UMA VERTENTE, E AI É IMPORTANTE DIZER QUE NÃO É TODO FUNK, É APENAS UMA VERTENTE, QUE É CHAMADA “PROIBIDÃO” E QUE FAZ, DIGAMOS ASSIM, NARRA A VIDA NO CRIME E É ACUSADO DE FAZER APOLOGIA AS FACÇÕES CRIMINOSAS, ALÉM DISSO EXISTE UM OUTRO SUBGÊNERO DE FUNK QUE TAMBÉM É CONSIDERADO PROIBIDÃO, MAS VAI EM UMA OUTRA VERTENTE, QUE É O FUNK PUTARIA, QUE TEM LETRAS EXPLICITAS QUE FALAM SOBRE POSIÇÕES SEXUAIS, ENTÃO ISSO É MUITO MAL VISTO POR UMA SOCIEDADE QUE AINDA É MUITO CONSERVADORA E RELIGIOSA. LOC 1
OLHANDO
ANA VITÓRIA
MOVIMENTOS CULTURAIS DE ORIGEM NEGRA QUE TAMBÉM
FALA ANA 4
SOFRERAM TENTATIVAS DE CENSURA, SÃO ELES: A CAPOEIRA, O
SAMBA
PARA
E
O
TRÁS
RAP.
OBSERVARMOS
NA
PERSPECTIVA
OUTROS
DO
TRÊS
RACISMO
ESTRUTURAL, OS MOVIMENTOS AFRODESCENDENTES SÃO VISTOS NO BRASIL COMO “MENOS CULTURA”.
OUTRO PONTO QUE PODEMOS LEVANTAR A RESPEITO DESSA HIPÓTESE É SOBRE A MÚSICA ELETRÔNICA, GÊNERO QUE POSSUI ACUSAÇÕES SIMILARES AO FUNK NA QUESTÃO SOBRE CONSUMO DE DROGAS. APESAR DAS RAVES TEREM UMA CONCENTRAÇÃO MUITO GRANDE DE USO DE DROGAS, ASSIM COMO ACONTECE EM MUITOS BAILES FUNK, O GÊNERO NÃO SOFRE COM NENHUM TIPO DE REPRESSÃO. FAZENDO A COMPARAÇÃO, PODEMOS PERCEBER QUE A PRINCIPAL DIFERENÇA ENTRE OS DOIS MOVIMENTOS SÃO AS CLASSES SOCIAIS PREDOMINANTES EM CADA UM. O FUNK, ORIGINADO
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NA FAVELA, TEM LIGAÇÃO COM O JOVEM NEGRO E POBRE, JÁ A MÚSICA ELETRÔNICA TEM SUAS RAÍZES LIGADAS AO JOVEM BRANCO, DE CLASSE MÉDIA E ALTA. PARA DANILO, A TEORIA E A PRÁTICA SÃO UM POUCO DISTINTAS. LOC 3
O QUE EU DESCOBRI NA MINHA PESQUISA É QUE PELO MENOS
DANILO CYMROT
NO PAPEL, NA LETRA DA LEI, AS RAVES SÃO TÃO REPRIMIDAS
18:48’ – 19:51’
QUANTO OS BAILES FUNKS. EXISTEM ALGUNS PROJETOS DE LEI QUE BUSCAM REPRIMIR AS RAVES, IMPOR UMA SERIE DE REQUISITOS PARA QUE AS RAVES SEJAM REALIZADAS, TÃO OU MAIS RIGOROSAS QUANTO OS REQUISITOS IMPOSTOS AOS BAILES FUNKS. AGORA NA PRÁTICA, SE DE FATO EXISTE MAIS REPRESSÃO POLICIAL NAS RAVES DO QUE NOS FUNKS EU ACHO IMPROVÁVEL, POR ALGUNS MOTIVOS. PRIMEIRO, PORQUE TENHO A IMPRESSÃO QUE EXISTEM MUITO MAIS BAILES DE RUAS ACONTECENDO DO QUE RAVES, NA CIDADE DE SÃO PAULO. SEGUNDO, PORQUE MUITAS VEZES AS RAVES SÃO FEITAS EM AMBIENTES MAIS AFASTADOS, FAZENDAS, SÍTIOS, GALPÕES ABANDONADOS, ENTÃO NÃO EXISTE AQUELE CONFLITO COM A VIZINHANÇA QUE MUITAS VEZES NO CASO DO FUNK EXISTE.
LOC 1
É PERCEPTÍVEL QUE O PRECONCEITO CONTRA O FUNK ESTÁ
ANA VITÓRIA
ASSOCIADO AO RACISMO ESTRUTURAL ENRAIZADO NO
FALA ANA 5
BRASIL. PARA QUE OS MOVIMENTOS DE ORIGEM NEGRA SEJAM ACEITOS PELA SOCIEDADE, É NECESSÁRIO UM “EMBRANQUECIMENTO” DO PRODUTO. SEGUNDO THEDOR ADORNO E MAX HORKHEIMER, DA ESCOLA DE FRANKFURT, ATÉ MESMO A CULTURA E MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS PODEM SER APROPRIADAS PELO SISTEMA CAPITALISTA E SEREM TRANSFORMADOS EM “PRODUTOS”, E É O QUE CLARAMENTE ACONTECE COM O FUNK NO BRASIL. O FUNK TIPICAMENTE PRODUZIDO NAS PERIFERIAS É VISTO COMO CRIMINOSO, VULGAR, HOSTIL E PROBLEMÁTICO, PARA QUE ELE SEJA VALIDADO COMO CULTURA, É NECESSÁRIO A
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CRIAÇÃO DE FIGURAS COMO LUDMILLA, ANITTA E KEVINHO, POR EXEMPLO. O FUNK PRODUZIDO POR ESSAS PESSOAS NÃO SOFRE A MESMA CENSURA E PRECONCEITO DO FUNK QUE SAI, DE FATO, DA FAVELA. DANILO CYMROT EXPLICA O PORQUE ISSO ACONTECE. LOC 3
ESSE FUNK MAIS COMERCIAL, QUE CHEGA A REDE GLOBO, AS
DANILO CYMROT
VEZES CHEGA ATÉ FAZER SUCESSO LÁ FORA, A PRIMEIRA COISA É QUE ELE É UM FUNK MELHOR PRODUZIDO. SÃO
14:52’ – 16:27’
PESSOAS QUE JÁ TEM UMA INFRAESTRUTURA MELHOR, ENTÃO ACABAM FAZENDO ARRANJOS MAIS ELABORADOS, SÃO FUNKS MAIS MELÓDICOS, MAIS DANÇANTES, MUITAS VEZES O PROIBIDÃO, ATÉ POR SER UM PROIBIDÃO ELE ACABA SENDO GRAVADO EM UM CELULAR COM UMA BATIDA DE FUNDO E SÓ, ELE NÃO É MUSICALMENTE NÃO É TÃO PALATÁVEL AO GOSTO ESTÉTICO CONSOLIDADO. O FUNK DA ANITTA SE APROXIMA DO POP, ELE É MAIS POP, DO QUE FUNK, MESMA COISA EM RELAÇÃO A LUDMILLA. ISSO EM RELAÇÃO A MÚSICA, EM RELAÇÃO A LETRA, EXISTE ESSA PREOCUPAÇÃO PARA ATINGIR PÚBLICOS MAIS AMPLOS DA SOCIEDADE E DE ALIVIAR A LETRA. VOCÊ NÃO VÊ ESSAS CANTORAS CANTANDO FUNKS EXPLÍCITOS DE FACÇÕES CRIMINOSAS OU MESMO SOBRE SEXO, ELAS ATÉ CANTAM SOBRE SEXO, MAS COM UM DUPLO SENTIDO. INCLUSIVE, OS FUNKEIROS TÊM DUAS VERSÕES, UM COM AS LETRAS MAIS EXPLICITAS QUE ELES CANTAM AO VIVO NOS SHOWS EM DETERMINADOS SHOWS, E OUTRO QUE É A VERSÃO PERMITIDA QUE VAI PRA RÁDIO E PODE SER OUVIDA POR TODO MUNDO, DESDE A CRIANÇA ATÉ A VOVÓ.
LOC 3
EXISTE UM COMPONENTE RACISTA NA CRIMINALIZAÇÃO DO
DANILO CYMROT
FUNK NO SENTIDO DE QUE O PÚBLICO QUE MAIS SE IDENTIFICA
16:44’ – 18:11’
COM
O
FUNK
É
A
PERIFERIA
OUVIDO
E
CANTADO
PRINCIPALMENTE POR NEGROS, OS PRINCIPAIS MC’S DE FUNKS SÃO NEGROS E VEM DA PERIFERIA, ENTÃO NESSE SENTIDO, EXISTE UMA COISA DE TRANSCENDE O FUNK, UMA
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IMAGEM
RACISTA
EM
QUE
O
CRIMINOSO
É
SEMPRE
ASSOCIADO AO JOVEM NEGRO, CANTAR FUNK FAZ COM QUE O PRÓPRIO ESTIGMA CONTAMINE O PRÓPRIO GÊNERO MUSICAL. MUITA GENTE VÊ O FUNK COMO MARGINAL PORQUE É VISTO, ESCUTADO E CANTADA POR MARGINAIS, E AÍ EXISTE UM COMPONENTE RACISTA, PORQUE ALGUMAS PESSOAS SÃO VISTAS NA SOCIEDADE COMO MARGINAIS E OUTRAS NÃO? O JOVEM NEGRO QUE É TRAFICANTE DE DROGAS, MAS GANHA UMA MERRECA COMPARADO AOS GRANDES TRAFICANTES DE VERDADE, ELE É VISTO COMO MARGINAL E OUTRAS PESSOAS BEM CONSOLIDADAS NA SOCIEDADE, BRANCAS, RICAS, QUE COMETEM OUTROS TIPOS DE CRIMES, ESSAS PESSOAS NÃO SÃO VISTAS COMO MARGINAIS. NESSE SENTIDO EXISTE UM COMPONENTE RACISTA. LOC 1
O ANO DE 2019 ACUMULA CASOS DE AGRESSÕES DE POLICIAIS
ANA VITÓRIA
CONTRA FREQUENTADORES DE BAILES NAS PERIFERIAS. EM
FALA ANA 6
OUTUBRO, DURANTE UMA OPERAÇÃO, A PM INVADIU UMA CASA E ENCURRALOU MÃE E FILHO CONTRA UMA ESCADA, AGREDINDO-OS COM UM SKATE DO JOVEM. EM NOVEMBRO, EM UMA OUTRA AÇÃO, NO DISTRITO DE GUAIANASES, DURANTE A DISPERSÃO DA POLÍCIA UMA JOVEM DE 16 ANOS PERDEU A VISÃO DO OLHO ESQUERDO, ATINGIDA POR UM TIRO DE BALA DE BORRACHA. EM DEZEMBRO, NAS FAVELAS DE HELIÓPOLIS E PARAISÓPOLIS, DUAS AÇÕES DEIXARAM 10 JOVENS MORTOS. RENATO BARREIROS ACREDITA QUE ESSE PROBLEMA VAI ALÉM DE UM CONFLITO ENTRE OS JOVENS E A POLÍCIA E PARA SER RESOLVIDO, SERIA NECESSÁRIA UMA INTERVENÇÃO DE OUTRAS PARTES RESPONSÁVEIS.
LOC 2
A POLÍCIA, ACABA ESTOURANDO NA MÃO DELA, NÃO POR ISSO
RENATO BARREIROS
EU ESTOU TENTANDO TIRAR A RESPONSABILIDADE DELA
10:42’ - 11:47’
COMO NO EXEMPLO DE PARAISÓPOLIS, ONDE MUITAS PESSOAS MORRERAM, MAS NÃO ADIANTA NA HORA QUE ESTÁ
49
FORMADO IR LÁ A POLÍCIA PORQUE NÃO VAI RESOLVER, ISSO TEM QUE SER PENSADO ANTES. A QUESTÃO NÃO PODE SER VISTA BAILE FUNK X POLÍCIA, TEM QUE SER VISTO BAILE FUNK E PODER PÚBLICO, A HORA QUE O PODER PÚBLICO COMEÇAR INCORPORAR QUE ELES TAMBÉM PRECISAM DAR UMA SOLUÇÃO PRA DIVERSÃO DESSES JOVENS QUE MORAM NA PERIFERIA, SE RESOLVE, AI VOCÊ NÃO PRECISA MANDAR A POLÍCIA, AI O JOVEM VAI IR, VAI CURTIR, VAI SE DIVERTIR E VAI VOLTAR PRA SUA CASA E O PAI DE FAMÍLIA VAI PODER DORMIR DEZ, ONZE HORAS DA NOITE ATÉ O OUTRO DIA DE MANHÃ E TER O SONO DELE TRANQUILO.
LOC 1
O PESQUISADOR DANILO CYMROT NÃO ACREDITA QUE A
ANA VITÓRIA
SOLUÇÃO SEJA MUITO SIMPLES DE SER RESOLVIDA, MAS
FALA ANA 7
CONCORDA COM O FATO DE QUE O PODER PUBLICO PRECISA OFERECER MAIS ALTERNATIVAS PARA QUE ESSE TIPO DE EVENTO ACONTEÇA COM MENORES IMPACTOS.
LOC 3
VEJA, NÃO É PORQUE A PREFEITURA VAI OFERECER UM BAILE
DANILO CYMROT
GRATUITO, ORGANIZADO, QUE VAI TERMINAR AS DEZ DA
8:39’- 9:27’
NOITE, OU MEIA NOITE, QUE SEJA, QUE OS JOVENS VÃO QUERER IR PRA CASA E DORMIR. MAS, EU ACHO QUE EM UMA DEMOCRACIA, TODOS TEM QUE CEDER UM POUCO, FAZER CONCESSÕES, ENTÃO EU ACHO QUE O PODER PÚBLICO, E É O QUE EU DEFENDO, ELE TEM MAIS LEGITIMIDADE PARA REPRIMIR OS ABUSOS SE ELE OFERECE ALTERNATIVAS DO QUE REPRIMIR SE ELE NÃO OFERECE. PORQUE SE A ÚNICA FACE DO ESTADO QUE A PERIFERIA CONHECE FOR A FACE REPRESSORA, SE A ÚNICA RELAÇÃO QUE O FUNK DA PERIFERIA TEM COM O ESTADO SÃO COM OS POLICIAIS QUE CHEGAM
JOGANDO
BOMBA,
O
ESTADO
ELE
FICA
DESLEGITIMADO E DESACREDITADO POR PARTE DESSA POPULAÇÃO.
50
LOC 1
OS FREQUENTADORES DE BAILE FUNK SÃO VISTOS PELA
ANA VITÓRIA
SOCIEDADE COM UM OLHAR PROMÍSCUO. PARA GABRIEL
FALA ANA 8
SIMÕES,
DE
21
ANOS,
ESTUDANTE
UNIVERSITÁRIO,
O
PRECONCEITO É PERCEPTÍVEL.
ELE NOS RESPONDE SOBRE COMO SE SENTE COM O PRECONCEITO
DAS
PESSOAS
QUANDO
SE
DIZ
UM
FREQUENTADOR DE BAILES FUNK.
LOC 4
SIM, BASTANTE. ATÉ PORQUE PARA AS PESSOAS QUE EU JÁ
GABRIEL SIMÕES
FALEI QUE EU FREQUENTO, ELES FALAM “NOSSA, VOCÊ
7:36’ – 8:16’
FREQUENTANDO ESSE TIPO DE LUGAR? NUNCA IMAGINEI”, “VOCÊ FAZ FACULDADE E TAL. COMO QUE VOCÊ SE PRESTA A ISSO”. E EU FALO “OLHA, NÃO É O FATO DE EU FAZER UMA FACULDADE OU SEGUIR UM CAMINHO QUE VOCÊS ACHAM QUE TODO MUNDO, A SOCIEDADE ACHA QUE É O CAMINHO CERTO, O CAMINHO DO BEM QUE EU NÃO POSSO FREQUENTAR ISSO”. DO MESMO JEITO QUE EU ESTOU LÁ, PESSOAS QUE SEGUEM O MESMO TIPO DE VIDA QUE EU TAMBÉM ESTÃO LÁ E SE DIVERTEM.
LOC 1
É INEGÁVEL QUE OS CONFLITOS ENVOLVENDO O FUNK SÃO
ANA VITÓRIA
INÚMEROS
FALA ANA 9
ENTREVISTADOS COMENTAM SOBRE O QUE INCIALMENTE
E
ENVOLVEM
MUITAS
QUESTÕES.
NOSSOS
PODE SER FEITO PARA QUE SEJA MELHORADA A RELAÇÃO ENTRE
FUNK,
ARTÍSTAS,
CANTORES
E
SOCIEDADE.
COMEÇAMOS COM GABRIEL SIMÕES. LOC 4
BOM, EU ACHO QUE AS PESSOAS TINHAM QUE COMEÇAR A
GABRIEL SIMÕES
ACEITAR QUE DO MESMO JEITO QUE, CLARO, PESSOAS COM
10:09’ – 11:33’
MÁS INTENÇÕES VÃO A ESSES LUGARES, ASSIM COMO VÃO A OUTROS LUGARES COMO O SHOPPING, EU ACHO QUE AS PESSOAS TINHAM QUE COMEÇAR A ENTENDER QUE PESSOAS
51
DITAS DE BEM POR ELES, TAMBÉM FREQUENTAM ESSE TIPO DE LUGAR. PESSOAS QUE ESTÃO LÁ, ESTÃO SE DIVERTINDO. EU ACHO QUE A COMPREENSÃO DA PARTE DA SOCIEDADE FARIA COM QUE ISSO FOSSE MAIS ACEITO, INCLUSIVE PELA POLÍCIA. PORQUE A PESSOA QUE NÃO GOSTA, OBVIAMENTE, ELA VAI FALAR “PÔ, ESTÁ ACONTECENDO UM BAILE FUNK AQUI E TAL, VOU ACABAR COM ISSO, VOU CHAMAR A POLÍCIA”. É UMA COISA LIGADA A OUTRA, ENTÃO, A PARTIR DO MOMENTO, ISSO MEU PENSAMENTO, QUE AS PESSOAS COMEÇAREM A ACEITAR QUE ISSO É UMA FORMA DAS PESSOAS QUE MORAM POR ALI E QUE NÃO TEM ACESSO A OUTROS MEIOS DE LAZER, ACEITAR QUE AQUILO ALI TAMBÉM É UM LAZER, QUE AQUILO TAMBÉM É UMA FORMA DE MANIFESTAÇÃO CULTURAL PERIFÉRICA, QUE AQUILO É UMA FORMA DE LAZER DA PERIFERIA E É ISSO. LOC 1
AGORA, RENATO BARREIROS DARÁ A SUA OPINIÃO.
ANA VITÓRIA FALA ANA 10 LOC 2
NA PARTE DO FUNK EU ACHO QUE ISSO AJUDA, VOCÊ
RENATO BARREIROS
ORGANIZAR OS PERMITIDÕES QUE SÃO BAILES COM HORÁRIO
17:14’ – 18:59’
PRA ACABAR, ACABAM ENTRE DEZ E ONZE HORAS DA NOITE, QUE VOCÊ TENHA A POLÍCIA FAZENDO A SEGURANÇA DOS BAILES E NÃO RESTRINGINDO BAILES, QUE VOCÊ TENHA A FISCALIZAÇÃO PARA QUE NÃO HAJA O USO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS PARA MENORES DE IDADE, QUE NÃO AJA USO DE DROGAS, ACHO QUE ISSO É UM PRIMEIRO PASSO. SE HOUVESSE ISSO COM CERTEZA A GENTE TERIA MUITO MENOS PROBLEMA. ACHO QUE FALTA UM POUCO DE DIÁLOGO ENTRE OS JOVENS E A POLÍCIA, ACHO QUE PODERIAM ABRIR CANAIS DE COMUNICAÇÃO, O AFROREGGAE FEZ ISSO UMA ÉPOCA NO RIO DE JANEIRO, DE TENTAR UM CONTATO O JOVEM CONTAR AS SUAS ANGÚSTIAS E O POLICIAL CONTAR O QUE ELE VÊ NEGATIVO NO JOVEM E DE REPENTE ALI ACHO QUE FALTA UM
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DIALOGO NESSA SOCIEDADE, ENTÃO FICA UMA COISA MUITO QUE A POLÍCIA SEMPRE ESTÁ CERTA E O JOVEM É VAGABUNDO. ESSE É UM DOS DIÁLOGOS QUE NÃO ESTÃO SENDO FEITOS HÁ MUITO TEMPO NA NOSSA SOCIEDADE, ENTRE JOVENS E A POLÍCIA MILITAR. LOC 1
DANILO TAMBÉM NOS DEU A SUA OPINIÃO.
ANA VITORIA FALA ANA 11 LOC 3
EU ACHO QUE O BURACO É MAIS EM BAIXO, PORQUE A GENTE
DANILO CYMROT
VIVE EM UM PAÍS MUITO VIOLENTO E A POLÍCIA É VIOLENTA E
22:01’ – 23:53’
SOFRE VIOLÊNCIA. ENTÃO A GENTE PRECISA ENTENDER O LADO DO POLICIAL TAMBÉM QUE CHEGA LÁ PRA REPRIMIR E É RECEBIDO MUITAS VEZES COM GARRAFADAS E PEDRADAS, ENTÃO
A
RELAÇÃO
HISTORICAMENTE
DA
POLÍCIA
PROBLEMÁTICA,
COM A
OS
GENTE
JOVENS NÃO
É VAI
RESOLVER ISSO DE UMA HORA PRA OUTRA, NEM REALIZANDO BAILES FUNKS COM O APOIO DA PREFEITURA E NEM PROIBINDO BAILE FUNK. O FATO, SE VOCÊ FOR VER, QUEM É A PARCELA DA POPULAÇÃO QUE MAIS MORRE NAS MÃOS DA POLÍCIA? SÃO JOVENS, NEGROS E PERIFÉRICOS, O MESMO PERFIL QUE FREQUENTA ESSES BAILES. ENTÃO, EM RELAÇÃO AO FUNK, HOUVE TENTATIVAS DE APROXIMAÇÃO DO PODER PUBLICO QUE FOI NECESSÁRIA, MAS NÃO FOI SUFICIENTE. NÃO DÁ PRA ILUDIR NINGUÉM DIZENDO QUE VAI RESOLVER UM PROBLEMA QUE É HISTÓRICO DE RELAÇÃO COM A POLÍCIA E A JUVENTUDE NEGRA E POBRE DA PERIFERIA PORQUE NÃO VAI. O QUE VAI ACONTECER É QUE PELO MENOS PRA QUEM ESTÁ A FIM DE CURTIR UM BAILE FUNK COM SEGURANÇA, ELE VAI PODER CURTIR O BAILE DELE EM PAZ. AGORA TODAS AS QUESTÕES QUE GIRAM EM TORNO DISSO, VIOLÊNCIA, TRÁFICO DE DROGAS, ISSO PRECISARIA DE UMA REFORMA MAIS
53
RADICAL DA SOCIEDADE QUE A CURTO PRAZO EU NÃO VEJO COMO ISSO SER FEITO. LOC 1
O ART. 215 DA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA NOS GARANTE QUE
ANA VITORIA
“O ESTADO, GARANTIRÁ A TODOS O PLENO EXERCÍCIO DOS
FALA ANA 12
DIREITOS CULTURAIS E ACESSO ÀS FONTES DA CULTURA NACIONAL, E APOIARÁ E INCENTIVARÁ A VALORIZAÇÃO E A DIFUSÃO DAS MANIFESTAÇÕES CULTURAIS.” OU SEJA, EM TEORIA,
DEVEM
PROMOVIDAS
SER
TODAS
VALORIZADAS, AS
RECONHECIDAS
MANIFESTAÇÕES
E
CULTURAIS
BRASILEIRAS, NÃO IMPORTANDO SUAS ORIGENS. PORTANTO, A PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO AFIRMA O FUNK COMO CULTURA. O ESTILO MUSICAL É CONSTANTEMENTE ALVO DE CRÍTICAS, BEM COMO OS MOVIMENTOS LIGADOS A ELE, TAIS COMO OS BAILES E SHOWS, ONDE SÃO LEVANTANDO PONTOS QUE O FUNK FAZ APOLOGIA AO SEXO, TRÁFICO, VIOLÊNCIA E USO DE DROGAS ILÍCITAS. POR RETRATAR ASSUNTOS POLÊMICOS EM SUAS LETRAS, É COMUM QUE O FUNK SEJA VISTO COMO UM PROPAGADOR
DE
VALORES
NEGATIVOS
DENTRO
DA
SOCIEDADE. DE FATO, É NECESSÁRIO RESSALTAR QUE HÁ MILHARES DE COMPOSIÇÕES QUE SUAVIZAM TEMAS COMO CRIMES,
DROGAS,
OBJETIFICAÇÃO
FEMININA,
DENTRE
OUTROS. MAS É IMPORTANTE COMPREENDER QUE ESSAS LETRAS SÃO APENAS O RETRATO DE SITUAÇÕES COTIDIANAS VIVIDAS
NAS
PERIFERIAS
BRASILEIRAS
E
SÃO
AS
REFERÊNCIAS QUE MUITOS JOVENS TÊM. LOC 1
COM ESSA REFLEXÃO EU FINALIZO O NOSSO PROGRAMA “NO
ANA VITORIA
RITMO DO FLUXO”, GOSTARIA DE AGRADECER A TODOS OS
FALA ANA 13
ENTREVISTADOS PELA PARTICIPAÇÃO E A VOCÊ NOSSO OUVINTE POR TER NOS ACOMPANHADO ATÉ AQUI. UM ABRAÇO!
ENCERRAR COM BG
SEM TEXTO.
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10” CRÉDITOS TELA EM FADE (PRETA) COM LETRAS BRANCAS
NO RITMO DO FLUXO’ É UMA PRODUÇÃO AUDIOVISUAL DA ALUNA ANA VITÓRIA BISPO DA SILVA, APRESENTADA COMO PRODUTO DE SEU TCC. ORIENTAÇÃO, PROFESSOR dr. NIVALDO FERRAZ. CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL ANO 2020
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5. Autorizações Renato Barreiros – a fonte não enviou a autorização. Danilo Cymrot
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Gabriel Simões
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6. Arte Logotipo do programa