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Notícia de Crime: O trabalho da polícia militar no periférico município de Itaqua - Diego Juan

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Dedico este livro aos corajosos Policiais Militares e às vítimas da criminalidade.


TIPOGRAFIAS UTILIZADAS Arial - Narrow, Italic e Bold Segoe UI - Italic Nota de direitos autorais Agfa Monotype Corporation Old Press - Italic Nota de direitos autorais Copyright 2012 - Galdino Otten

2020 - 1º Edição Impressão: BOK2 Instagram: @dgojuan Por: Diego Juan


SUMÁRIO

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12.

UM CONTRASTE INICIAL .......................................................06 ITAQUAQUECETUBA...............................................................09 MORTES VIOLENTAS...............................................................22 POLICIAMENTO COMUNITÁRIO............................................28 DENÚNCIAS ANÔNIMAS.........................................................39 CÂNCER NARCÓTICO..................................................................44 DOS CRIMES PATRIMONIAIS..................................................62 POLICIAMENTO NA PANDEMIA..............................................79 DEPOIMENTO SOBRE O CALDEIRA .....................................90 CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................91 AGRADECIMENTOS ÀS FONTES.........................................94 BIBLIOGRAFIA..........................................................................95


A maldade humana vai sempre existir, não há dúvida disso. Mas o que me preocupa é o silêncio, a omissão dos bons. Diego Juan


UM CONTRASTE INICIAL

O texto inicial deste livro, é para contar como vejo a importância que o repórter pode - e deve ter. -

Quando se conhece a realidade de vida, os bastidores e o cotidiano desses homens e mulheres que se arriscam, aprendi, inclusive, que muito se evolui em contato com os maus. É perigoso da mesma forma que é para policiais e para os moradores. Talvez a noção real de perigo e colocar o pé na lama serviria para forçar a ter empatia. Nos colocar no lugar do outro deveria nos fazer analisar melhor as ocorrências do dia a dia. E claro, proporcionaria mais textos (e leis) baseados em fatos reais. Não devemos falar sobre o que desconhecemos. Não podemos questionar o que não vivenciamos. Mais que acompanhar esses homens e mulheres no asfalto, milhares de vezes os acompanhei subindo e descendo pelos becos das favelas.

Aquele que relata fatos, e não o que funciona apenas como “telefone sem fio”, produzindo e repassando informes de terceiros. No policiamento, acompanhei equipes bem equipadas, formadas por três, até quatro policiais, como na Força Tática - focadas em ocorrências específicas - até às equipes ditas convencionais, conhecidas no meio policial como Rádio Patrulha, atendendo às mais variadas ocorrências, já sem a mesma estrutura. Percorri de igual forma, áreas com indicadores criminais mais controlados, como na cidade de Mogi das Cruzes, que possui mecanismos e apoio capazes de proporcionar tal cenário. Sobretudo, o que me chamou a atenção, em meio a tudo isso, é a produtividade em locais periféricos. Longe de estruturas e cidades descritas como ricas, captei a essência do patrulhamento na periferia do Alto Tietê, em especial, no município de Itaquaquecetuba. Bem como, na teoria e, na prática, o que proporciona proximidade entre policiais e moradores. Fui batizado de “terceiro” ou “quarto” homem, enquanto alguns acreditam que isso é proximidade de mais - e que mal haveria se fosse? - Eu tenho certeza de que é a única forma de ter credibilidade com aqueles que realmente importam. Credibilidade com aqueles que trabalham, credibilidade com a população sofrida dos bairros e municípios.

Tenente Vivian e Soldado Paulo realizam incursão na Invasão, captura de foragido da justiça.

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Do contrário daquilo que muito se “vê” ou se escreve por aí, na prática, há pouquíssimo drama no ramo de atividade policial. O que há, são incertezas por vezes ingratas, dedicação pela causa pública e coragem. Ao acompanhar ocorrências factuais, no asfalto e nas comunidades, pude sentir o quão difícil e quão prazeroso é, em simultâneo, o trabalho do Policial de rua. Evidenciando as condições subumanas em que essas pessoas vivenciam e habitam. Busquemos a verdade e a legalidade. Dignidade acima de tudo.

1º Sgt Crisanto, patrulhamento de Força Tática do 35º BPM/M no Terra Prometida.

1º Tenente Dirceu, apreensão de drogas da Força Tática do 17º BPM/M em Jundiapeba.

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Sexta-feira, 27 de julho de 2018. ‘Polícia Militar, bom dia!’ A voz pausada do policial atendente, no início da manhã, tranquiliza a pessoa, que apressada e ofegante, tentava passar rapidamente todas as informações que auxiliassem a Polícia Militar sobre um indivíduo. Desta vez, o chamado refere-se a um possível esconderijo de armas de fogo, que estariam escondidas na casa de um sujeito que acaba de voltar para casa do hospital, após sofrer uma tentativa de homicídio, orquestrada supostamente por rivais. O chamado acabará sendo registrado como denúncia anônima. Ainda pela manhã fria e chuvosa, em posse das informações repassadas a PM reúne equipes e parte para averiguar. No local, o suspeito possuindo ficha criminal encontrava-se em recuperação de um atentado, ocorrido num baile funk, com um “buraco” na boca, decorrente de um dos disparos. Ocasionando dificuldade para se comunicar. Naquela data, operava-se inibindo qualquer possibilidade de ataque nos populosos bairros entre as divisas de Itaquá, Arujá e Guarulhos, onde mortes ligadas ao tráfico de drogas estavam ocorrendo ao menos, desde 2016. Evidenciando uma rixa entre quadrilhas. Somente naquele ano, há registros oficiais de 44 mortes violentas, 36 tentativas de homicídios e 65 armas de fogo apreendidas pelo trabalho da Polícia. E assim se iniciam nossas histórias. O difícil trabalho policial no periférico município de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo.

Policiais militares checam denúncias anônimas. 2018.

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Ocupando uma área de aproximadamente 83 Km², fazendo divisa ao norte com Guarulhos e Arujá, ao sul com Poá e Ferraz de Vasconcelos, a leste com Suzano e Mogi das Cruzes e a oeste com o Itaim Paulista, Zona Leste da Capital. Cortada por rodovias como a SP-66, SP-56, SP88 e a Rodovia Ayrton Senna, que as interliga nos municípios vizinhos, estatisticamente, áreas de fronteira costumam concentrar problemas de calamidade pública e de violência, principalmente quando não se percebe nitidamente limites municipais. Itaquá, como é chamada pelo munícipe, tornou-se uma das cidades mais vulneráveis do extremo leste e a segunda mais populosa do Alto-Tietê, na atualidade, estima-se que vivem cerca de 375.011 pessoas, segundo a estatística do IBGE 2020. E claro, famosa durante décadas por concentrar elevados índices de violência, avaliada ao longo do tempo como uma das cidades mais violentas do Estado pelo Instituto Sou da Paz, sendo manchete dos jornais como tal. As dimensões (periféricas) muito se assemelham com suas sete cidades vizinhas, vide a capital e Guarulhos.

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Comunidade localizada entre os bairros Jardim Odete e Jardim São Paulo. 2019

Habitações na comunidade Marengo Baixo. 2020

Habitações em Guarulhos, Vila Galvão. 2019

Habitações em comunidade da Vila Galvão. 2019


Se as dificuldades se consolidam com o fato de que há grande fluxo de moradores deslocando-se diariamente para fora do município, que denota uma cidade dormitório, contendo pouco mais de 60 anos de emancipação. Passou a se industrializar pela vocação, tornando-se polo industrial e moradia de centenas de migrantes que vinham à procura de emprego. Sobretudo, não seria difícil identificá-la como mais uma, entre tantas outras, de que a grande mídia por vezes se limitaria às aparições para relatar, de forma tendenciosa, somente casos de violência e corrupção. De acordo com o Atlas da Notícia, que mapeia veículos de notícias, 62% dos municípios não obtém cobertura. Totalizando 37 milhões de pessoas, ou seja, 18% da população brasileira sem acesso à informação local. Itaquá figura esse meio, em que pese a existência de alguns projetos, porém observa-se o vínculo à políticos ou pessoas que almejam se alçar de forma nauseante para o cargo público.

Existe uma realidade pouco divulgada por muitos que teriam a condição de formar uma sociedade rica em informação e empatia, ao contrário, vê-se os avanços do sensacionalismo e do desrespeito à pessoa humana, que exerce atividade de alto risco, quando se divulga apenas violência, abusos e corrupção.

“É uma cidade da qual detém grande quantidade de casos policiais. Embora haja divulgação, cabe também aos autônomos fomentar alguns

assuntos, principalmente para alertar a população e atrair a atenção para uma solução. Infelizmente, o município abriga uma quantidade de pá-

Tenente Coronel Caldeira realiza preleção com a tropa, 2017.

ginas das quais somente publicam o que lhes agrada, como elogios a

“Casos de violência e corrupção existem. Onde há ser humano há violên-

determinados políticos. [...] Não só ocorrências policiais, a cidade precisa

cia e corrupção. O que verifiquei em toda minha vida na PM é que parcela da imprensa costuma focar aspectos negativos da instituição...” – Caldeira

que outros assuntos sejam revelados. Há muito o que se discutir.” – Jornalista Marcus Pontes.

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O policial vive total pressão psicológica. Cada decisão pode culminar na sua prisão, expulsão ou na perda da própria vida. Entretanto, ignora-se. Embora excessos também devam, serem expostos e combatidos, boas ações e a vida do policial parece ‘valer’ menos. Essa ideia oculta na sociedade, não poucos grupos ideológicos trabalharam nas bases sociais do Brasil, semeando a divisão clara entre ‘raças’, direita e esquerda, ricos e pobres, homens e mulheres, Polícia e Favela. Veja que “todas” as vítimas de “balas perdidas”, em especial no estado do Rio de Janeiro, provêm das armas de policiais. Por outro lado, prega-se a necessidade de ações mais violentas de modo geral.

“Os extremos, os radicalismos, são bastiões da ignorância. Estejamos aten-

- Caldeira. Há de ambos os lados, “justiceiros sociais” praticando linchamentos; e que não suportariam um dia desta realidade. Muitas vezes, moradores de áreas vulneráveis têm a Polícia como a presença do Estado. to a ambos os discursos. Busquemos a harmonia e a legalidade.”

Equipes de Força Tática do 35º Batalhão se equipando, ao fundo Slogan do quartel. 2018

Esta realidade pode ser medida pelo trabalho dos Batalhões de Área, mais próximos da população. Haja vista o 35º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (35º BPM/M), sediado no município de Itaquaquecetuba, subordinado ao CPA/M-12, com sede em Mogi das Cruzes. É nesse meio complexo que surge o nosso factual. O dia a dia, o difícil trabalho de um Batalhão num município periférico do Estado. Raros são os dias em que não há denúncias de pessoas corajosas, moradores de locais vulneráveis ao crime organizado, destinadas, muitas vezes, diretamente ao Batalhão de Itaquá. No quartel, um slogan chama a atenção. “Sentinelas do Alto-Tietê”, atribuída ao então Major Caldeira, que assume o posto de Tenente-Coronel em 2017, assumindo em setembro daquele ano o Comando. Ladeado à tropa, Caldeira continua um difícil trabalho de redução dos índices criminais, iniciado pelos antecessores.

Equipe policial sobe morro na periferia da cidade, checando denúncias da população. 2018.

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Para Caldeira na época, o trabalho policial deveria ser pautado no combate forte ao crime, através de ações preventivas e repressivas, bem como na aproximação com as pessoas que residem nessas áreas de intenso nível de vulnerabilidade social e criminal. As portas do Batalhão são abertas para civis, ocorre uma parceria entre policiais e jornalistas na divulgação de ocorrências e a atenção é voltada aos crimes denunciados via Disque Denúncia, além do progresso nas denúncias onde moradores se deslocam ao quartel - sem se identificarem -, para relatá-las diretamente ao Comandante. Em 2017, através do trabalho de aproximação desenvolvido pelo Caldeira e a Comunicação Social, passei a me aproximar de fato da PM, sendo bem quisto nas ruas, registrando fotograficamente casos pelas ruas da cidade. E a partir de 2018, as dificuldades do policiamento numa ótica jamais vista. Operacional. RPM acompanha manifestação de servidores públicos municipais, 2017.

ROCAM monitora Greve Geral, 2017.

Capitão Chen comanda operação. Equipe de ROCAM apreende moto irregular, 2017.

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A que me chama a atenção naquele ano - saindo do comum - acabará sendo uma reintegração de posse. De acordo com dados do IBGE, Itaquá possui 35 aglomerados subnormais, as populares favelas. É o município da região que mais abrange comunidades. Mais de 15 mil famílias residem nesses aglomerados. Os dados estimam que na cidade vivem cerca de 375.011 mil pessoas, figurando o segundo município mais populoso do Alto-Tietê. Sobretudo, essas dificuldades não se limitam apenas nas favelas. Em matéria veiculada ao G1, aponta que a cidade contém 180 áreas de ocupação irregulares, vivendo cerca 200 mil pessoas. Dessas, o Mapeamento de Riscos de Movimentos de Massa e Inundações, realizado pelo Instituto Geológico - IG, da Secretaria do Meio Ambiente, apontou que Itaquá contém 7.400 mil moradias sob riscos.

Sendo o maior número entre os dez municípios da região quando verificadas as que estão em maior risco. Muitas vezes se tratando de invasões. - São consideradas áreas invadidas quando apropriadas ilegalmente ou quando o dono não atende aos requisitos da lei de loteamento dos municípios e a revende para terceiros -. São pessoas humildes que vivem em meio a sujeira, sem ter para aonde ir, morando em casas construídas a base de blocos e tijolos, que ficam à beira dos barrancos e córregos espalhados por toda a cidade. Um segundo levantamento, da Defesa Civil de Itaquá, também apontou os locais. De acordo com o documento obtido, Itaquá totaliza 19 áreas de inundações, 30 de alagamentos e 18 de deslizamentos. O Marengo Baixo e o Morro do Borges apresentam alguns dos pontos em que há riscos iminentes de desastres.

Casa sob risco de ser engolida, comunidade Marengo Baixo, 2020.

Morro do Borges, casas construídas em área de risco, 2020

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A maioria das áreas de risco de inundações estão localizadas nas várzeas do Rio Tietê, abrangendo os bairros Jardim Fiorello, Vila Sônia e Vila Japão, área central da cidade. No local também há incidência de tráfico de drogas e roubo de carros.

“Quando você tem uma região degradada, onde você não tem aces-

so a infraestrutura pública, você faz com que o crime se instale mais facilmente, porque a população com medo, aliás, a comunidade que vive, as pessoas que vivem nessas comunidades são do bem, a grande maioria são pessoas que trabalham com a sua humildade, muitas vezes na informalidade, pessoas que tentam criar os filhos mas o ambiente não é muito favorável. Por isso que muitos pais e mães perdem seus filhos para o crime.” – Coronel Wagner Tadeu Silva Prado, ex comandante do CPA/M-12.

Vila Japão e Maria Augusta após inundação. 2018

Barraco na Estrada dos Batistas, na Vila Sônia, divisa com Guarulhos. 2020

Defesa Civil conversa com moradores sob água, 2019. Fotografia acima referencia do outro ângulo, nas margens do Rio Tietê.

Invasão Estrada dos Batistas, limite entre Itaquá e Guarulhos, nas margens do Rio Tietê. 2020.

“

Eu sei que não é dos melhores lugares do mundo para morar, mas o que eu já passei na vida, pra mim é uma maravilha. Eu vou sentir muito no coração se me tirarem do meu lugar” – Verônica, moradora de invasão na Vila Sônia. *Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

Casas construídas nas margens do rio tietê, na Vila Japão, alagadas. 2019

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Móveis abandonados após enchente na Rua São Judas Tadeu - Vila Geni, ao lado da Rodovia Ayrton Senna. 2018

Moradora e Agente da Defesa Civil sob água do Rio Tietê represada, 2019

Ouço diversas vezes, vizinhos conversando nas enchentes. Um diálogo chama-me a atenção: perdeu quantos eletrodomésticos dessa vez? - Três. Responde a moradora do Maria Augusta, caminhando sob a água. Entre 2017 e 2019, diversas enchentes ocorreram no entorno da Vila Japão. Em março de 2019, ruas permaneceram alagadas pouco mais de dois meses, moradores alertavam sobre sintomas de doenças possivelmente por conta do contato com a água, aparição de cobras e infestação de ratos. O fato não foi confirmado oficialmente. Dias antes, moradores foram retirados das áreas mais críticas com ajuda de botes da Defesa Civil e da Guarda Municipal.

“A nossa maior dificuldade está nas legislações vigentes, que não se

enquadram às necessidades reais diárias. Sobre nossas ações, há falta de recursos financeiros, materiais e quantidade de pessoas para compor o quadro da Defesa. Em situações de novas ocupações é dado ciência a Fiscalização de Posturas a qual tem a competência legal para adotar as medidas necessárias. Casos de desocupação, realizamos o acompanhamento dado possibilidade de riscos quanto as edificações.” – Anderson Silva, Coordenador Defesa Civil

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Colunas sendo construídas dentro das margens do rio tietê, 2017.

Policiais Militares e moradores da área invadida observam demolições. 2017

Em apenas 25 anos, Itaquá registra oficialmente 20 mortes ocasionadas por desastres naturais, de acordo com o levantamento apresentado por meio do Mapeamento de Riscos de Movimentos de Massa e Inundações. Os dados compreendem ocorrências registradas entre 1994 e 2018. Devido à necessidade do emprego de efetivo, policiais militares do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência - PROERD também participaram da reintegração.

No dia 27 de junho de 2017, ao todo 260 casas foram demolidas na Vila Sônia, através de uma ação judicial movida em 2013 pela prefeitura do município, a pedido do Ministério Público. A área que seguia como preservação ambiental, era várzea do Rio Tietê, sendo ocupada irregularmente por uma população vulnerável. Determinada pelo Juiz da 2º Vara cível, foi estabelecida a ordem de reintegração e demolição das casas, mas sem ter para aonde ir, muitas pessoas acabaram voltando ou ocupando outros pontos que apresentam riscos iminentes.

“[...] Fica difícil para qualquer instrutor trabalhar em uma ocorrência

“Normalmente as pessoas acham que é normal o cenário por morarem

onde tem alunos do PROERD. A lei tem que ser cumprida, mas as crianças não têm culpa. Nessa reintegração trabalhei depois que aconteceu. Eu e mais um policial ‘Proerdiano’ tivemos a missão de fazer cumprir a lei a noite, para que as pessoas não voltassem para o local anteriormente invadido.” – Sargento reformado José Roberto, ex instrutor

ali a anos e nunca ter ocorrido nenhum problema, quando muitas vezes o risco é iminente. Mas no final, geralmente acatam a determinação.” – Anderson Silva, Coordenador Defesa Civil

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Major Caldeira e efetivo conversam com moradores durante reintegração de posse.

Cenário das casas demolidas durante a reintegração de posse.

Na época, Caldeira destacou: “Aqui é uma área de preservação permanente. Sendo várzea do tietê, essa região fica sujeita às inundações e não há condições das pessoas viverem aqui sob riscos.” - Major PM Caldeira, 2017. Naquela ação, mesmo que não tenha ocorrido conflitos, pude perceber o quanto é difícil o trabalho do policial militar, especialmente em áreas periféricas. Uma dosagem de lei e empatia.

Muitas famílias moravam no local. Não obtive dificuldades para registrar a ação, não ocorrendo conflitos entre a Polícia e a população. Há várias situações, na proximidade das eleições, fiz registros de invasões de terras, contendo armas brancas. Presumindo censura devido o teor político de alguns envolvidos, que usam a população humilde com objetivos eleitorais, imagens não foram anexadas neste livro. Raramente, políticas públicas são constantes, funcionam um pouco cerca de um ano e meio para as eleições.

“As atuações da PM em reintegração de posse são altamente com-

“Não, eu não comprei o terreno, é que (oculto) ele tomou conta daqui do

terreno desde quando era novinho, agora o homem é velhinho, foi embora e deixou eu ficar aqui e até agora, ninguém veio tomar de mim. Disse que eu podia fazer um barraquinho e eu não tenho condições de pagar aluguel.” - Verônica, invasão da Vila Sônia.

plexas. Diferentemente do que é propagado, a Polícia Militar age em reintegração apenas por determinação judicial de modo a garantir que os oficiais de justiça cumpram a ordem judicial.” – Tenente-coronel Caldeira

*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

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*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

Obras abandonadas atraem usuários de drogas e traficantes. É o caso de um posto de saúde e firmas na região que abrange os bairros Vila Monte Belo, Vila Virgínia, Jardim do Carmo, Valparaíso e Arizona.

Nesses bairros, ficam localizadas diversas comunidades vulneráveis.

“A gente não escolhe onde vive, quando eu vim do nordeste eu vim

“Não podemos perder a nossa dignidade só porque moramos em lu-

gares nessas condições. O único posto de saúde que tem aqui perto (equipamento do estado), o que geralmente a gente usa é o UBS Jardim do Carmo, aquele perto do trevo. Ele favorece essa área toda aqui, mas num caso se aquele ali em cima abandonado (Jardim Zélia), que virou o ponto de drogados, se viesse para ser feito todinho, né? E colocada à disposição do povo, seria menos gente indo atrás de vaga de exame no Jardim Carmo, a gente espera na fila de exame por mais de trinta dias e não consegue. Enquanto isso o lugar fica lá sendo usado pelo tráfico”

morar aqui porque não tinha outro lugar, já estou morando aqui há cinco anos... Pra quem já mora na comunidade é normal, mas pra quem vem à visita é meio assustador, muitos moradores saem de madrugada, cinco, quatro e meia... para conseguir chegar no trabalho, muitas crianças de cinco a sete anos ficam no meio do tráfico (de drogas), muitos usuários, mas é normal, já é a (nossa) normalidade, né? Mas são coisas que poderia melhorar, porque se tivesse alguma coisa mais digna pras crianças, eles não estariam no meio desse povo ali e procurava um estudo ou alguma coisa.” – Antônia, Moradora Favela da Invasão

Obras do posto de saúde abandonado, Jardim Zélia. 2018

Firma abandonada entre a Invasão e Tubulação. Tenente durante abordagem. 2018

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*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

“Morar em Comunidade a gente aprende a viver melhor, sentir o que o

outro sente, vivemos muito a vida um do outro e a gente aprende a viver em comunidade sentindo na pele o que cada um passa. A comunidade se torna na verdade uma grande família. Esse é o ponto positivo... O ponto negativo é até mais fácil de explicar, é a falta da presença do Estado... deixa muito a desejar, o poder público muitas vezes não vê a gente como um ser humano e a gente se sente muito abandonado em diversos momentos... É nesse momento que a gente acaba por perceber que acabamos perdendo os nossos filhos para o tráfico... É onde as mães e os pais de família saem para trabalhar e o criminoso usa essas crianças, os pais sempre estão ausentes para trabalhar e é nesse momento que o traficante ele entra, se infiltrando nos menores, pois são alvos fáceis, presas fáceis para eles, para serem utilizados para o tráfico de drogas e outros crimes...” – Fabiane, Marengo Baixo. Divisa entre as comunidades Favela do Hospital e Favela do Casarão. 2020

Córrego entre as casas humildes, Comunidade Marengo Baixo. 2020

Morro Pedra do Urubu, 2019

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Toda essa complexidade fez com que a PM destinasse um Batalhão para atuar na repressão da criminalidade. Fenômeno de Segurança Pública presente apenas nos municípios de Itaquá e Diadema. Instaladas na localidade, a região da 1º CIA - Companhia de Policia Militar, que perfaz a área central, populosa, com maior comércio e aparatos públicos, se concentram ocorrências de roubo, tráfico, furtos, roubos de veículos e cargas. Na 2º Companhia, com características mais periféricas e industriais, o delito de maior incidência é o tráfico, desmanches, sequestros e os homicídios dolosos. Seja nos bairros populosos ou nas comunidades, são pessoas que convivem em meio a sujeira, na miséria, vivendo sob condições subumanas. O desemprego também fala mais alto, principalmente para o jovem que precisa ingressar no mercado de trabalho. Com essas dificuldades e a fragilidade das leis, migra-se para o mundo do crime. 2º Companhia checa denúncia de tráfico na comunidade Jardim Adriana. 2020

Tenente Vivian e Soldado Souza, incursão na Favela do Ozéias. 1º Cia, 2019.

Patrulhamento noturno no entorno da área central, 2019

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Índice de Exposição a Crimes Violentos (IECV) - elaborado pelo Instituto Sou da Paz. Indicador leva em consideração registros de roubos, estupros e homicídios em cidades paulistas.

A cidade é conhecida pelo elevado número de homicídios e roubos. Figurando as manchetes dos jornais principalmente de forma sensacionalista, como cidade violenta, devido ao elevado Índice de Exposição a Crimes Violentos. Em 2002, com a criação do Batalhão, que inicialmente também era destinado a patrulhar Arujá e Santa Isabel e mais tarde, somente Itaquá, em que pese o baixo efetivo, viu a taxa de homicídios despencar anualmente, pelo empenho policial nas detenções e apreensões. Itaquá parecia um município esquecido até meados de 2000. Por conta “ disso criou-se a fama de cidade violenta, devido os altos índices de roubos e mais de 200 pessoas assassinadas quase que anualmente... Houve drástica redução dos indicadores criminais com a criação do Batalhão sediado para patrulhar exclusivamente a cidade.” – Capitão Calderaro

Cápsula deflagrada. Jovem com passagens por tráfico assassinado no Maragogipe, 2018

Ao que tudo indica disputas em locais de comércio “ de drogas. Pontualização na região do Maragogipe (Vie-

Acompanhando missões de prevenção, pude entender o trabalho realizado pela Polícia Militar, empenhados para brecar os homicídios envolvendo o tráfico de drogas, bem como ligações criminosas onde bandidos atuam nos mais variados tipos de crimes, descritos por Caldeira como ‘varejo do tráfico’. “[...] Todos os crimes ‘no varejo’, seja o tráfico, roubos ou furtos, têm relação com o tráfico nos bairros...” – Tenente Coronel Caldeira, 2018.

la Advogados). Estamos voltados a entender o porquê e o indicativo até agora é de disputa entre quadrilhas pelo domínio das ‘lojinhas’ do local. Aumentamos a presença nesses locais e abordagens massivas nas bocas de fumo...” – Tenente Coronel Caldeira, 2018

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Tenente Hayashida e Cabo Fagundes, ao fundo, pichações de facção criminosa. 2018.

Pichações de facção criminosa na entrada do Morro Pedra do Urubu. 2018

Existe uma forte ligação entre parcela dos homicídios dolosos praticados na cidade ao tráfico de drogas, vinculando-se muitas vezes às dívidas, aos popularmente chamados “acertos de contas” e conflitos entre quadrilhas rivais. Em 2017, a PM passou a atuar reprimindo ações que indicavam a tentativa de atuação da facção criminosa Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade (CRBC), nas áreas de divisa e nos bairros periféricos de Itaquaquecetuba. Uma série de ocorrências em cidades vizinhas também apontam a existência do conflito já em anos anteriores. Vide o epicentro, Guarulhos. Mogi das Cruzes, Ferraz de Vasconcelos, limite entre Itaquá e Arujá e no Vale do Paraíba.

“Conflitos e disputas entre quadrilhas sempre houve e sempre haverá,

tendo em vista a busca incessante de poder e lucros entre eles. Têm correlação direta com as localidades vulneráveis do ponto de vista de apoio do Estado. Onde o poder estatal/legal não comparece, cria-se um vácuo que será ocupado pelo crime ... resultando invariavelmente nos homicídios registrados nas divisas entre Guarulhos, Arujá e Itaquá.”

– Anderson Caldeira Lima, coronel da reserva

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Patrulhamento na Favela do Hospital. 2019

Bandidos realizam homenagem a suposto gerente do tráfico, assassinado por facção rival. 2018

“Chamou-me atenção disputas havidas no Jardim Patrícia em Itaquaque-

A violência em áreas periféricas, parecem que, atraem, somente quando há a possibilidade de vincular a Polícia com o crime.

cetuba (Favela do Hospital, KM 40), lá na divisa com Arujá. Na localidade temos um antigo hospital psiquiátrico que se tornou uma ocupação bastante populosa. Um local bem distante dos centros de Arujá e Itaquá, às margens da rodovia Dutra e com acessos rápidos para o Rodoanel e a Rodovia Ayrton Senna.” – Anderson Caldeira Lima, coronel da reserva

“Se fica uma casa muito tempo vazia, eles tomam conta. Não só ban-

didos, outros vizinhos se aproveitam também... Boa parte deles já morreram. - Por qual motivo isso ocorria? - Por drogas, por querer subir na hierarquia... Se matavam entre eles mesmo... O último caso aqui foi em dezembro (2019), mas não morreu ninguém, foi só tiros... Não chamamos a Polícia por medo, mas no dia seguinte tinha viatura” – Leandro, Favela do Hospital.

De 2011 até 2016, a cidade contava com um Setor de Homicídios e a DISE, por falta de recursos alegados pela prefeitura, comandada na época por Mamoru Nakashima, o departamento que se empenhava nas investigações acabou sendo fechado. Havia um empenho em conjunto entre as polícias na solução de crimes, que funcionava.

*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

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Antigos quartos na Favela do Hospital, ocupados por famílias como moradias.

Entrada da Favela em situação precária, 2019

“[...] como é um local geograficamente bem posicionado, ‘longe dos olhos’

“A estratégia foi aumentar a presença da PM de Itaquá nesses bairros,

de uma sociedade que cobra mais os órgãos públicos, populoso e com grande potencial de possibilitar armazenamento de grandes quantidades de drogas, virou motivo de disputa entre facções criminosas rivais.” – Anderson Caldeira Lima, coronel da reserva

mapeá-los, captar denúncias e fazer as apreensões. A população, em que pese o excessivo medo de retaliações, acabou fornecendo à PM as informações necessárias.” – Anderson Caldeira Lima, coronel da reserva

Em novembro de 1974, atendia 138 pacientes de surto de meningite que assolou a capital, sendo fechado entre 1993 e 1995, após rebeliões de pacientes que se queixavam de agressões e choques elétricos, sendo manchete de jornais. A expressão “mandar para o 40”, tinha o sentido pejorativo, de que a pessoa deveria ser internada por ter problemas mentais ou de drogas. Atualmente abriga famílias humildes, batizada de “Favela do Hospital”.

Localizado na Estrada do Perobal, que ligava a via Dutra com o “Km 40” da Estrada de Santa Isabel, uma linha de ônibus que existe desde a década de 80 é denominada Hospital, ligando aos bairros o antigo IMIL. Durante 20 anos, funcionou um hospital psiquiátrico que recebia pacientes do Alto Tietê. A favela também é conhecida como KM 40. Segundo o historiador Cláudio Sousa, não começou como local para o tratamento de transtornos mentais.

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Corpo encontrado após denúncia anônima. Na casa, entorpecentes e diversas garrafas de bebidas alcoólicas. Autor responde por homicídio qualificado pelo emprego de meio cruel e ocultação de cadáver. 2020

Após ligação via sistema 190, policiais militares encontram carro em chamas. No interior do automóvel, corpo carbonizado. Vítima encontrava-se amarrada, sendo identificada como motorista de aplicativo. 2020

Chamadas de “mortes suspeitas”, não são contabilizadas, mas para se ter ideia, de acordo com os dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), em 2001, foram registrados 209 homicídios dolosos. 2002, 195. 2009 fechou com 66 casos e em 2017, 35. Em 2018 um novo aumento para 42 homicídios, algo perto de 11 casos para cada cem mil habitantes, mas acaba sendo o ano de 2019 que surpreende as estatísticas, com o registro de 19 ocorrências - duas indicativas de rixa -, o menor de toda a sua história desde que os dados são divulgados pela secretaria. O registro seguiu redução, entretanto, sofreu alteração no ano de 2020, ainda que controlados. Sendo registradas novamente mortes indicando conflitos internos, no Jardim Joandra e na Favela do Ozéias.

Mais de 280 armas foram retiradas das ruas entre 2017 e 2020. Somente no último ano, a cidade registrou a apreensão de 87 armas pelas polícias, enquanto avistava a nova variação no aumento de mortes violentas.

“A região é formada basicamente por invasões de terra, pessoas que

saíram muitas vezes numa condição já ruim e vieram tentar criar uma vida melhor em Itaquá, obviamente gera problemas de diversas naturezas especialmente os problemas sociais, que refletem na polícia, refletem na segurança pública. Mesmo que a cidade seja patrulhada, ela acaba sendo violenta pela condição subumana que muitas pessoas vivem. [...] Sozinha a Polícia Militar não conseguiria dar conta” – Coronel Wagner Tadeu Silva Prado, ex comandante do CPA/M-12.

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O termo Polícia Comunitária surge de forma pragmática, tratada nas Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública como Policiamento Comunitário. Na prática, há grande diferença entre Polícia Comunitária (filosofia de trabalho) e do Policiamento Comunitário (ação prática de policiar junto à comunidade). No Brasil, diversos estudos avançaram no início da década de 90 para a instalação do programa, que surge após um escândalo provocado por um caso de violência policial, tornando-se público através de uma reportagem-denúncia que foi ao ar em 31 de março de 1997, onde policiais militares da 2ª Companhia do 24º Batalhão agrediam moradores e supostos usuários de drogas na Favela Naval, no município de Diadema, região metropolitana de São Paulo. Em Itaquá, segundo relatos de policiais, o Batalhão sempre procurou se aproximar da população. Essa aproximação tornou-se mais evidente a partir de 2017, quando Caldeira assume o comando. Entretanto, também há o indicativo de 2010, quando o Capitão Doll passou a comandar a Seção de Comunicação Social (P5). Passados os anos, graduou-se Major, assumindo o Posto de Coordenador Operacional, momento em que o acompanhei no trabalho identificando abusos policiais e quando decidiu continuar auxiliando a Comunicação Social, de forma contínua participando de programas, palestras, reuniões do Conseg, projetos abrindo as portas para civis e acompanhando de perto o PROERD. Ações sociais promovidas pelo Comando de Policiamento também contribuíam com a aproximação regional. Conhecendo o serviço administrativo, civis visitavam o Batalhão, muitas vezes procurando o P5, para pedir a presença de policiais na festa de aniversário do filho, realizar o desejo de conhecer o quartel e fotografar na viatura. Ou, em alguns casos, “sem alarde” para conversar com o Caldeira. Houve a criação do projeto “Conhecendo o Quartel”, que durou até o início de 2019. Jovens podiam visitar a unidade e usar a quadra para práticas esportivas.

Major Doll participa de solenidade do PROERD. 2018

“Esse esforço é combinado com várias ações. Quando assumi a Seção

de Comunicação, iniciou-se um plano com várias frentes e multitarefas para atingir objetivos. PROERD, CONSEG e o Disque Denúncia sempre estiveram intimamente ligados a estes objetivos. [...] Todas as ações eram informadas à imprensa através de informativos pelas redes sociais e no programa da Rádio católica Total Fm, pelo radialista Tato Bonanza (87,5 MHz). A partir de 2017 tais ações foram divulgadas pelo fotojornalista Diego Juan, que cedia seu tempo de forma voluntária acompanhando exclusivamente o nosso dia a dia.” – Fábio Doll, tenente-coronel da reserva

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“[...] Praças são os Soldados, Cabos, Sargentos e Subtenentes....esses,

Durante minhas conversas com o Caldeira e o Coronel Prado, notei que ambos admiravam o trabalho jornalístico, em especial a figura do Repórter. Caldeira me recebia com continência. Na década de 90, participou de programas policiais, mostrando a realidade do policiamento.

junto com os tenentes comandantes de Força Patrulha são nossos anjos da guarda nas noites frias em que estamos em nossas casas no quente no conforto....Hoje exerço outra profissão mas nunca esquecerei dos Heróis reais que conheci em minha trajetória na PM Operacional...” – Anderson Caldeira Lima, coronel da reserva

“Naquele Programa ‘Na Rota do Crime’ da antiga TV Manchete, por

determinação superior passei a mostrar à Sociedade a realidade de uma polícia de periferia; a realidade dos Praças que são os verdadeiros Heróis anônimos e reais da Sociedade junto com os tenentes. [...] Repórteres junto a polícia era comum antigamente. A partir do lançamento do livro Rota 66 do Caco Barcellos, foi criado um estigma de falta de confiança com a classe, que perdura até hoje. Mas dependendo do caráter, profissionalismo, humildade, perseverança e dedicação, alguns têm conseguido se aproximar; é o seu caso e de outros profissionais.”

Conheci jornalistas parceiros da Polícia Militar. Comprovando a importância dessa aproximação Imprensa e Polícia para a sociedade.

“Infelizmente a mídia muitas vezes vende só o que é negativo e o que

é positivo quase não aparece. Essas pessoas que se aproximam da Polícia

acabam conhecendo de perto como que ela trabalha, nossas dificuldades e acabam divulgando positivamente. É o seu caso, por isso permitimos estar em nosso meio, conhecer a nossa realidade.”

Tenente Coronel Caldeira, durante patrulhamento. 2018

Coronel Wagner Tadeu Silva Prado, 2019.

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“Creio que programas policiais sempre me chamaram a atenção. Repor-

Jornalistas como a Cláudia Irente, Márcia Dias e o Marcus Pontes, foram alguns dos profissionais de imprensa que conheci neste meio policial e que muito me ensinaram.

cobri ali minha vocação no Jornalismo diário e até hoje vibro com as ocorrências policiais, pois escrevo matérias para mídias virtuais, com as quais colaboro, e faço assessoria de imprensa. Atuar na cobertura policial tem sido, literalmente, a minha vida como jornalista. E creio que assim vai ser até quando eu puder exercer minha profissão, independente de em quantos ramos eu atue. [...] Existem os bons e os maus profissionais em toda área. Essa proximidade que a polícia tem com a comunidade é muito importante, não só no recebimento de informações, mas principalmente para mudar o estereótipo de que a polícia é violenta.” – Jornalista Cláudia Irente

tagens especiais ou de investigações me atraem, especialmente porque denunciam o que ninguém quis/queria. São fatos que precisam ser mostrados. Atuar na reportagem policial é questionar. É, independente se haverá a divulgação das forças de segurança, analisar o contexto do local, imaginar como aconteceu e projetar perguntas das quais irão te fazer criar outras reportagens além da que acaba de presenciar. É sair de uma pauta com o texto pronto, e sempre mudar e querer acrescentar algo a mais, porque sabe que será importante. Detalhes sempre serão importantes nas ocorrências. [...] Não considero a cidade violenta, mas com a necessidade de uma administração descente. Há uma resposta das polícias Civil e Militar, mas alguns crimes continuarão ocorrendo independentemente.” – Marcus Pontes

Jornalista Cláudia Irente participa de treinamento Método Giraldi. Foto: Polícia Militar, 2015

Jornalista Marcus Pontes conversa com Tenente Galvão, Oficial P5

“Me colocaram para cobrir Polícia um dia e foi lá que me encontrei. Des-

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Tive a oportunidade de acompanhar de perto policiais tendo que se explicar. [...] Em que pese o fato de que errar é uma característica hu-

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Itaquá sempre teve cobertura jornalística policial, independendo de haver imprensa local ou não... Abracei o jornalismo policial naquela época porque foi a chance de alavancar a minha carreira. E a minha inspiração era o meu próprio feeling profissional já que até então eu não possuía respaldo suficiente para ser a versão feminina de Caco Barcelos. Foi uma grande lição de vida que aprendi ao longo de 11 anos de cobertura policial, onde cultivei amigos maravilhosos. Acho que todo jornalista iniciante deveria encarar esse desafio que, para mim, foi sinônimo de crescimento pessoal e profissional. Cheguei a participar do treinamento Método Giraldi e foi muito importante para se conscientizar - e valorizar ainda mais - o valoroso trabalho desses guerreiros que arriscam suas próprias vidas para nos proteger.” – Jornalista Márcia Dias

mana, quando se identifica um comportamento inadequado não passamos pano. Os procedimentos disciplinares e penais internos são levados e punidos com extrema seriedade, em especial na circunscrição do 35º Batalhão. Entre as minhas funções no posto de coordenador operacional, avaliava os erros cometidos pelos policiais. Você pôde acompanhar essa realidade, viu nesta unidade policiais sendo punidos por inúmeros motivos. E durante todo esse tempo felizmente não tivemos muitas ocorrências negativas, pois sempre estávamos monitorando o policiamento na rua e quem cometeu falhas foi punido, inclusive com expulsão. Nesse período teve cinco expulsos, sendo dois presos.” – Fábio Doll, Tenente Coronel da reserva

Jornalista Márcia Dias entrevista Tenente Coronel Caldeira. 2018

Major Doll monitora deslocamento de viaturas. 2018

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Entre os programas de aproximação, seria um equívoco não evidenciar a participação da sociedade civil organizada, através do Conselho Comunitário de Segurança, que surge em Itaquá, em meados de 2002. Presidente do Conselho desde 2007, a figura Dona Maria sempre está presente e atuante. É exatamente esse um dos intuitos. Uma proximidade da população com a polícia, gerando confiança. Foi esse o intuito do governador Franco Montoro quando sugeriu a criação. Reunir Polícia Civil, Polícia Militar e a população para resolvermos as mazelas da nossa sociedade. [...] Infelizmente o povo não é interessado no Conseg. Muitos criticam a segurança pública, porém poucos ajudam a propor soluções... muitos não demonstram interesse em ajudar. Mas estamos firmes e fortes lutando pela Segurança da nossa cidade.” – Dona Maria, presidente do CONSEG Central.

Fotografei viaturas por diversas vezes em estado precário, baixadas, aguardando reposição ou reparos. Uma das grandes conquistas do Conselho na cidade, foi a luta para que o Estado fornecesse novas viaturas em 2018. Verificamos que as viaturas que estavam na rua estavam em estado precário. Nos reunimos com o Comando da PM que era o Tenente Coronel Caldeira e achamos de bom tom pedir para que viessem mais viaturas do Estado. Foram feitas ações, abaixo-assinado, reunião com o secretário de segurança pública e deputados... Quando finalmente conseguimos viaturas. [...] Quando a pessoa começa a ver resultados da Polícia, a gente adquire confiança, a gente consegue ter êxito por causa da participação da sociedade civil com a Polícia. Mas ainda existe muito para se fazer... Muito.” – Dona Maria, presidente do CONSEG Central

Dona Maria, presidente do CONSEG, visita ao quartel para entrevista. 2020

Viaturas baixadas, aguardando reparos ou troca. 2018

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A entrega ocorreu com a reabertura da Base Centro, fechada por determinação do Comandante Caldeira, devido à falta de condições dignas para que policiais prestassem o serviço na Base Comunitária. A Base, desde que havia sido entregue em 2003, nunca teria passado por reformas. Diversos políticos participaram do evento, muitos discursos foram ouvidos, oriundos de candidatos e políticos. Entretanto, o Conselho Comunitário de Segurança, responsável pela batalha das viaturas optou por não discursar no evento. Exercermos uma atividade de ajudar a Polícia a identificar problemas para serem solucionados. Nós identificamos problemas de segurança, exercemos um papel comunitário e conseguimos realizar a vizinhança solidária. Somados os esforços dos policiais com a sociedade civil, quando tem participação da população, provamos que vem dando certo.” – Dona Maria, presidente do CONSEG Central

A Polícia Comunitária propiciou minha aproximação com o policiamento de rua, tornando-o Policiamento Comunitário. De forma particular, considero que me proporcionou conhecer o lado mais humano de cada indivíduo policial militar, seja de rua ou administrativo. O mesmo policial que reprime o tráfico, participa de ações que humanizam a atividade profissional inicialmente apenas repressora de delitos. Todo policial é um policial comunitário, é um promotor de direitos humanos e pregamos isso na região. [...] A Polícia Militar tem as portas abertas justamente para demonstrar que a Polícia não é um ‘bicho papão’. Mostrar que ela trabalha em prol da sociedade, defende a sociedade, protege as pessoas, salva vidas. Então, todos que eventualmente se aproximam da Polícia Militar, são bem-vindos para conhecerem o trabalho positivo que a gente faz.” – Coronel Wagner Tadeu Silva Prado, ex comandante do CPA/M-12.

Policiais posam na entrega de viaturas e Base Centro. 2018

Roger, fã da Polícia Militar que adquiriu hipertrofia infantil irreversível por conta de erro médico, visita Quartel, sendo recebido pelo P5 e pelo Major PM Joel Chen. 2019

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Essa aproximação polícia e comunidade, é o caso da pequena Dafne, uma garota de apenas 9 anos, moradora da periferia da cidade. Chamada de “Mascote do Batalhão” pelo efetivo, quase que diariamente visitava o Quartel para rever os amigos militares e sempre acompanhava formaturas do PROERD, desde 2017. Dafne declara que será Oficial da Polícia Militar do Estado de São Paulo. No dia 8 de fevereiro de 2019, a pequena comemorou oito anos de idade, abordando o tema “Polícia Militar” em seu aniversário, o Batalhão realizou uma grande surpresa para a mascotinha do Quartel. O Comandante interino (Major Doll) autorizou que todo o efetivo da Comunicação Social, ROCAM e Equipe de Comando Força Patrulha prestigiassem a festa de aniversário.

Dafne conheceu a Polícia Militar através do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência - PROERD, após participar do projeto pedagógico. Para José Roberto, ex instrutor do Programa e atualmente policial da reserva

Dafne abraça Cabo Adriana e Major Doll, Seção de Comunicação Social. 2018

Dafne sendo surpreendida pela Polícia Militar em sua festa de aniversário. 2019

“O comportamento do aluno do Proerd é mudado no decorrer do curso. E quando termina a atitude é alterada, o respeito pelas pessoas, a conscientização sobre o perigo das drogas e a percepção pelo trabalho do policial muda. Foi o caso da Dafne, essa menina incrível muito nos emocionou pela forma que demonstrava carinho pela gente quando nos via. Seja no Quartel ou na Rua.” – Sargento Reformado José Roberto.

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Criado inicialmente nos Estados Unidos, no Brasil, surge primeiramente no estado do Rio de Janeiro em 1992, posteriormente passa a ser adotado em todo o território nacional. O uso de drogas (lícitas e ilícitas) constitui-se em ameaça à sociedade, que para o usuário, representa sua degeneração enquanto pessoa, com maior propensão ao envolvimento em crimes, violência e ingresso num ciclo de decadência de valores. Crianças e adolescentes tornam-se o público mais vulnerável para a oferta da droga. No programa, policiais militares desenvolvem um curso de prevenção às drogas e à violência, pedagogicamente estruturado em lições das quais o policial atua em sala de aula como educador social, propiciando um forte elo entre a Polícia, a Escola e a Comunidade. No município, se desenvolve a partir de 2000, levando às crianças conscientização sobre cidadania e os riscos do uso, formando cerca de 78 mil crianças até o presente momento, muitas vezes com recursos mínimos.

Ao final de cada semestre, todas as escolas que participaram realizam formaturas. No evento, crianças recebem um certificado de conclusão e fazem um juramento, comprometendo-se a resistir à oferta da droga e à violência. Um trabalho bonito no qual senti que o José Roberto fazia por amor. Inclusive aos finais de semana, se prontificava para organizar material e se deslocava com o carro particular para ministrar aulas.

José Roberto prepara bandeira junto com seus “auxiliares”, Pedro (filho) e Dafne. 2019

Formatura do PROERD na Escola Municipal Chiozo Kitakawa, Jardim Caiubi. 2019

“Minha atuação nesta cidade que amo todo o tempo que servi, o amor por todos os alunos foi igual, tanto em escolas estaduais, municipais e particulares. Espero que continuem com o Programa após a pandemia. Espero em Deus que não deixem o sonho se acabar, nossas crianças necessitam do apoio da Polícia, principalmente através do trabalho desenvolvido. Estou fora agora, mas acompanharei de longe, como grandes amigos de farda que fiz e que hoje se encontram na reserva.” – Sargento Reformado José Roberto

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Essa aproximação com o policiamento, também foi o caso de Roger, que nasceu com epilepsia. Passou a infância internado para controlar os ataques. Com nove anos teve uma parada cerebral, ficando com mentalidade infantil. Realizando tratamento utilizando-se de medicamentos controlados, porém, em determinado momento, no ano de 2014 a família levou o Roger ao Hospital questionando que ele tinha quedas com frequência. Na época, os médicos afirmaram que o fato era normal por conta da epilepsia. Mais tarde, em 2017, tiveram que ir às pressas para o hospital, pois ele não conseguia se alimentar e sentia falta de ar. Após diversas internações, a família decidiu procurar outros médicos, sendo descoberto que Roger havia adquirido hipertrofia infantil irreversível por conta das fortes medicações que a ele foram dadas ao longo dos anos. Nesse meio tempo, sempre que via viaturas ficava agitado, foi quando conheceu um policial militar na Base Caiubi e, apesar de não falar com clareza, esboçou felicidade ao encontrar um policial fardado. Sensibilizado, o policial informou o Quartel sobre o Roger, que também sensibilizados com a história, o Serviço de Comunicação Social convidou ele e a família para conhecer e tomar um café no Batalhão. No dia, além de emprestar uma farda para se vestir, de modo que Roger tirasse fotos com policiais e nas viaturas, assim que adentrou no quartel, esboçou felicidade para a família e para os policiais. Apesar da doença degenerativa, não permitindo locomoção e falando com muita dificuldade, três policiais foram agraciados com a fala do Roger: o Major PM Joel Chen, o Cabo PM Militão e a Cabo PM Paulino.

Para a família, que não havia sido a primeira vez que a Polícia Militar havia entrado em suas vidas de forma positiva, pois, policiais militares realizaram o parto de uma irmã de Roger. De acordo com a mãe, dona Ivete, que recebe o apoio de uma psicóloga sobre a certeza de que um dia Roger irá partir:

“Não sei quanto tempo o meu filho ainda viverá, mas aquele mo-

mento, que foi fotografado, ficará eternizado para nós. Não só o fato das fotos, mas a forma como fomos tratados por todos os policiais, até o café no Batalhão. Às vezes a gente olhava a Polícia na rua e tinha receio e hoje por conhecer eu tenho a certeza que são nossos amigos e heróis, não são apenas os heróis do Roger.” – Dona Ivete

Roger posa fardado, ao fundo motos de ROCAM. 2019

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Francielle passou a frequentar o quartel após procurar notícias do tio desaparecido. 2020

Francielle chora ao lado do Cabo Balbino, após vestir a farda da Polícia Militar. 2020

E de Franciele, uma jovem de 15 anos, natural do interior da Bahia. Veio a passeio para Itaquaquecetuba em dezembro de 2019 e no momento de angústia, procurando notícias do tio desaparecido, foi até o quartel com a mãe em busca de ajuda. Porém, naquele momento os policiais perceberam uma reação estranha e perguntaram se estava tudo bem, foi aí que ela declarou que sempre quis conhecer a Polícia e pediu para fazer algumas fotos juntamente com os policiais militares ali mesmo, no serviço de dia, declarando admirar muito. Imediatamente a equipe presente sensibilizada a surpreendem, apresentando o quartel para a jovem menina, que ficou bastante emocionada.

No dia 2 de março, veio ao Batalhão se despedir para voltar à Bahia, e novamente foi surpreendida ao vestir a farda da Polícia Militar, minutos antes de partir de volta para o aeroporto, se despedindo com o objetivo de retornar em breve para ingressar na Polícia Militar do Estado de São Paulo. O tio de Francielle, que era morador de Itaquá e foi visto pela última vez em agosto de 2019 em uma comunidade de Guarulhos, foi encontrado no dia 27 de junho de 2020, passa bem. Dafne, Franciele e Roger conheceram características da Polícia Comunitária, desenvolvido especialmente pelos Batalhões de Área. Ao longo dos próximos capítulos, conheceremos o trabalho do Policial de Rua na prática.

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“A mola propulsora da justiça e da cidadania é o desejo de eliminar a impunidade pelo anonimato.” – Diego Juan Denúncias anônimas


“É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. A frase, presente no Artigo 5º da Constituição Federal, deixa explícito que é garantida a liberdade de expressão, sobretudo, o anonimato do autor é proibido, ele deve ser identificado. Veda-se, portanto, o anonimato. Nesse sentido, a validação de uma informação não poderia seguir parâmetros anônimos, motivo pelo qual a “denúncia anônima” sofrerá questionamentos plausíveis. Torna-se necessário que a autoridade policial, em posse de uma informação, deva, de alguma forma, identificar o autor da informação e caberá o convencimento da veracidade dos fatos para que investigações ‘preliminares’ ocorram antes da abertura de um inquérito policial, diante da comprovação ou não do fato, dará seguimento ao procedimento previsto em lei. No Juridiquês, pode ser compreendida pelo termo em português de “Notícia-crime”, utilizado para designar a informação preliminar de um delito que possa estar em andamento. Além da metáfora de que as ocorrências não se limitam à (sangue), dá origem simbólica ao nome desta obra. Se na teoria compreende-se que o anonimato não pode existir, na prática, aplica-se que é garantido no sentido de que não deverá o autor ser apresentado ao acusado em juízo, pois, o Art. 144 da Constituição de 1988, em seus incisos prevê participação popular no combate à criminalidade, assim descrita: “[...] A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio...”, ainda que existam discordâncias sobre a legalidade, cabe ao Estado desenvolver mecanismos para que seja garantida a participação popular no combate ao crime. Ao mesmo tempo, em que se veda o anonimato, o artigo 5º da Constituição Federal (1988) garante que: “IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;”.

1º Cia checa denúncia de invasão de residência com emprego de arma de fogo. 2018

A denúncia passa a ser batizada de “denúncia anônima” mantendo-se o anonimato perante o infrator. Se por um lado são questionadas as denúncias de forma anônima, em simultâneo, percebe-se que o poder público estimula e divulga a ferramenta para a população, através do Disque denúncia. Em São Paulo, o sistema 181 – Disque Denúncia, surge em outubro de 2000, administrado pelo Instituto São Paulo Contra a Violência (ISPCV), uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) em parceria com a Secretaria da Segurança Pública (SSP), através de investimentos da iniciativa privada e do Estado para manter o programa, recebendo denúncias como tráfico de drogas, homicídio, latrocínio, furto e roubo de veículos e cargas, foragidos da justiça, sequestros e más condutas de agentes.

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É uma espécie de contato pessoal entre policiais e moradores ou vítimas, na base da confiança mútua. Na prática, quando ocorrem prisões e apreensões por meio deste fenômeno criminal, o policial militar destaca no Boletim de Ocorrência Polícia Militar - BOPM, bem como em depoimento na Delegacia de Polícia Civil, para a elaboração do Registro de Ocorrência - RDO, utilizando o termo “após informações”, “informações via COPOM” ou “denúncia anônima”, sem qualificar a parte, que acabará de passar a informação. Nem todos os policiais estão preparados para trabalhar dessa forma junto à comunidade. O policial que acabará chegando nesse nível, demonstra vocação.

*Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, pelo Serviço de Informação ao Cidadão da Polícia Militar do Estado de São Paulo - SIC/PM

Em Itaquá, de acordo com o Serviço de Informação ao Cidadão da Polícia Militar - SIC PM, de 2017 a julho de 2020, a Secretaria da Segurança Pública contabilizou 3.140 denúncias, sendo 554 positivadas, acarretando apreensões e detenções. Há dificuldade na obtenção de informações sobre o disque denúncia, sendo necessária a solicitação por meio da Lei de Acesso à informação para obter dados estatísticos referentes ao tema, que foram atendidas pela PMESP. Sobretudo, de igual forma o levantamento teórico acabará sendo difícil.

“É uma ferramenta que mostra e estreita a relação da sociedade civil

com as policiais. Depende de as autoridades expor balanço sobre o resultado de disque denúncia para, deste modo, um número maior de pessoas confie nesse sistema. É uma mão de via dupla; não depende só da imprensa em falar sobre a importância se as polícias não expuserem informações de cunho informativo.” – Jornalista Marcus Pontes

Existe um segundo tipo de denúncia. As denúncias anônimas, fenômeno da Polícia Militar que segundo Caldeira antecede sua participação nos programas policiais da década de 90. Diferentemente do estático disque denúncia, possibilita muitas vezes a indicação de características atuais dos indivíduos e onde acabará de ser escondido produtos ilícitos no momento da fuga. 35º Batalhão liberta vítima de cativeiro no Jardim Americano, após informações repassadas ao Batalhão mogiano. 2020

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“A Polícia Militar é ostensiva, trabalha mediante as informações. Só po-

Seja no sentido do recebimento e atendimento dessas denúncias, seja prestando um serviço de Policiamento Comunitário que identifica necessidades e busca

demos atuar conforme elas são coordenadas para a equipe policial ou até mesmo via COPOM. Mediante à essas mensagens, trabalhamos em cima delas para levantar se realmente procede o delito, se existe o fato informado de crime. Então, a informação para nós é muito importante para combater a criminalidade. Dependemos de informações coletadas junto à comunidade para poder trabalhar mantendo a ordem pública. [...] A população fica de saco cheio, todo dia recebo uma denúncia no meu celular. Eu posso afirmar pra você que eu me espelho a trabalhar igual o Coronel Caldeira e alguns policiais antigos que já trabalhei, que trabalham junto com a comunidade, a comunidade de bem passa muita informação. Então acabo tendo o contato (pessoal).” – Cabo Dias

auxiliar a população como presença do Estado; é preciso ter empatia e responsabilidade, algo que somente policiais vocacionados tendem a compreender.

“ As denúncias que chegam à unidade da PM são as mais valiosas no sentido

de terem um maior número de dados aptos a criar um sucesso nas buscas pelo efetivo ostensivo, mas também são as mais vulneráveis no sentido de se criar uma frustração nas pessoas que buscam o órgão policial: infelizmente não são todos os policiais que verificam a necessidade da importância de denúncias e não são todos que tem empatia, motivação e preparo para lidar com a busca de empatia.” – Anderson Caldeira Lima, coronel da reserva

Incursão na comunidade Marengo Baixo. Operação Asfixia visando a redução de roubos de carga e a presença do tráfico de drogas na Comunidade. 2018

2º Cia surpreende quadrilha com uma tonelada de fios de cobre. A carga foi avaliada no valor de R$ 150 mil reais. Forte odor chamou a atenção da população que acionou o 190.

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Para Caldeira:

“Infelizmente já perdemos, quando diretamente envolvidos nessas ações, de-

núncias com riqueza de detalhes são perdidas pois o PM que atende não estava preparado para tal missão. Sempre havia a necessidade de se motivar e explicar ao PM o valor social que ele representa nesse papel de guarda das instalações e recepção de denúncias. É tênue a linha criada entre a confiança e desconfiança no serviço policial e isso depende fundamentalmente do Homem Policial.” – Anderson Caldeira Lima, coronel da reserva

“Essas pessoas confiam na gente e temos que dar uma resposta, a população

confiou a informação pra mim, me mandou a denúncia detalhada me pedindo ajuda! Se eu não vou ou se a Polícia Militar não vai o morador fica desiludido, não confia. Através dessa prisão (depoimento durante ocorrência de tráfico) que demos a resposta positiva, pode ter certeza que amanhã chegará mais e aos poucos a gente acredita que vai mudando, a vida fica melhor de se viver para essa região e para quem nos acionou e confiou na equipe que eu pertenço.” – Cabo Ricardo

Vale salientar que a Polícia não foi criada para estabelecer o paraíso. Atuante e legalista, é a presença do Estado. O jornalismo - real - foi feito para incomodar. Causar desconfortos, com realidades das quais muitos não estão acostumados. Quiçá, seja por esse motivo que falar de sociedade cause tanto incômodo, quando expomos o outro lado da história. Alguns os tratam como vilões, outros como heróis. Enquanto críticos não aguentariam um turno de serviço desta realidade, a Polícia Militar é a ausência mais sentida e a presença que mais incomoda.

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O tráfico de drogas conta com estrutura empresarial. Quadrilhas possuem uma hierarquia de cargos, com possibilidades de ascensão e quedas. Criminosos atuam em regime de plantão, por diversas vezes ainda dizem em tom de orgulho ‘trabalhar’ na lojinha. O primeiro na hierarquia é o ‘dono’ da favela. Dando as ordens nas localidades sob seu comando e raramente sendo visto no local, muitos comandam de dentro dos presídios. Na sequência, vem os ‘frentes’, também chamados de ‘Disciplina’ ou ‘Sintonia’, de confiança do dono. Neste cargo, atua como um ‘agente’, que administra tudo que ocorre na comunidade, passando as informações para o chefão. Em seguida, estão os ‘Torres’ (gerentes de boca de fumo), como são conhecidos os chefes dos pontos de vendas. Todos os ‘funcionários’ prestam contas a ele, anotadas como contabilidade. A visível fragilidade das leis, somadas ao fato de que muitas dessas pessoas não têm perspectiva de vida na legalidade, faz com

que muitos optem pela vida do crime, torna-se viável. O lucro e a imposição são muito altas, para combatê-los, Caldeira reunia equipes e partia para as regiões vulneráveis, atendendo pessoalmente denúncias na cidade.

Drogas, munições e anotações encontradas na casa de gerente do tráfico da Macieiras, 2019.

Operação integrada, 35º e 32º Batalhões checando denúncias na comunidade Marengo Baixo. 2018

“Qualquer denúncia é valiosa; todas tratam de crimes graves via de regra.

A denúncia anônima pode vir de duas formas: através do serviço 181 onde há um roteiro previamente estudado e seguido pelo coletor ou diretamente na unidade da PM. A pessoa que vai receber a denúncia tem de ter ‘psicologia’ para criar empatia com a aquele que deseja passar detalhes. Quem vai denunciar tem alto grau de ansiedade e o receptor necessita colocá-la numa situação de conforto, criando empatia. Criada a empatia, cria-se um clima de confiança e daí vem o sucesso da coleta de dados imprescindíveis para a ação de busca e apreensão.” – Tenente-coronel Caldeira

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A comunidade Marengo Baixo recebia uma atenção especial da Polícia. Fazendo divisa entre os municípios de Suzano e Itaquá, tendo em vista que limites entre cidades acabam sendo locais vulneráveis, se trata de uma região bastante esquecida por instituições públicas, tornando-se palco de disputas entre criminosos que se digladiavam pelo poder entre eles mesmos. Famosa pelos indicadores criminais, a área conflagrada era ponto onde se encontrava bandidos armados pelas vielas até 2017, sequestros de caminhoneiros e roubos de carros e de carga. A atuação forte da PM modificou boa parte deste cenário, sendo o policial militar bem quisto até os dias atuais dentro da comunidade.

“Antigamente criminosos andavam tudo armados aqui, a noite era a maior confusão. Graças a Deus agora está tudo estabilizado. Aqui é Policiamento Comunitário, somos amigos de todo mundo do bem daqui. Por isso que a Polícia Militar consegue segurar os homicídios no Marengo Baixo” – Tenente-coronel Caldeira, 2018

Cabo Felix durante patrulhamento em praça famosa por fluxos no Marengo Baixo. 2018

Incursão em viela anteriormente ocupada por traficantes. 2018

Policiais militares checando denúncia de “casa bomba”, 2018

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Não há dados que apontem quantas famílias residem no populoso Parque Residencial Marengo. Pela cidade, há inúmeras “mine cracolândias”, onde usuários acabam sendo aliciados por traficantes como olheiros, a traficância e para a prática de roubos, a fim de sustentar o próprio vício. Próximo ao córrego Jaguari, fica localizada uma. Um olheiro, por exemplo, ganhava em 2018, R$ 80,00 por turno de 12 horas no Marengo Baixo. A frequente presença de viaturas propícia denúncias via 190, trazendo informações de possíveis casas e características de criminosos. Somadas as recebidas pelo coronel e as mapeadas pelo Serviço Reservado (P2), a PM atua. Diante das informações repassadas, incursões a pé são montadas de modo que criminosos sejam surpresos. Se difere de outras comunidades o fato de as incursões geralmente se iniciarem de cima para baixo.

“Aqui o tráfico de drogas é fortíssimo. Conhecemos todo mundo daqui já... Se a gente descer com a viatura os olheiros tudo se ligam... Por isso estabilizamos viela por viela” – Tenente-coronel Caldeira, 2018.

Local de incidência de crack na divisa. Após incursão, usuários abordados. 2018

Vista da parte alta da comunidade. 2018

Por dentro da área apontada abaixo, barracos continuam presentes no local. 2020

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*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

A pedido de policiais, o local também evoluiu em alguns pontos de saneamento, melhorando a qualidade de vida. Por diversas vezes, a Polícia acaba realizando tarefas que não compete a ela. Policiais militares adentram em locais precários, onde viaturas não conseguem entrar, se tornam psicólogos, pais, desenvolvem ações sociais e por fim, prisões. O fato de haver detenções e apreensões “faz parte das perdas já previstas.” Entretanto, 2017 e 2018 a atuação forte do Batalhão de Itaquá causou uma reviravolta no cenário criminal existente dentro da comunidade Marengo Baixo.

“De todos esses anos, eu considero até 2017 negativa. Com a chegada,

com a atuação do coronel Caldeira tudo mudou. É positivo e continua, mesmo ele hoje aposentado, a gente continua com a presença da PM na comunidade com patrulhamento, e a gente considera positiva sim.” - Fabiane, Marengo Baixo. Cabo George durante incursão na Comunidade, 2019.

Caldeira checando denúncia de casa bomba. Precariedade do local perceptível. 2018

Equipe de Rocam estoura casa bomba na comunidade, gerente do tráfico preso. 2018

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Pela vivência com o patrulhamento, ouso afirmar que o tráfico de drogas é o crime mais importante para ser combatido, entre aqueles que mais afetam a população mais humilde. Das periferias. Pois, por causa dele há uma série de outros ilícitos que são arrastados, vide os homicídios e os crimes patrimoniais. Sigo a linha de raciocínio que identifiquei nas minhas longas conversas com o Caldeira e o coronel Prado, para eles, o problema das drogas está longe de ser resolvida, enquanto for tratada apenas como problema de segurança e não de saúde pública. Mas se por ventura o Comando da PM e o Estado “deixam de lado”, surgem problemas de corrupção policial e imposições do crime organizado, inclusive, impostas aos agentes, moradores da periferia.

Apreensões de drogas durante operações de ROCAM.

“Combater o tráfico é um trabalho de formiguinha... Não sujo a farda e o meu braçal que conquistei, com a lama e sangue do tráfico. Deus nos

dê temor e sabedoria para viver os dias difíceis.” – Cabo Medeiros

Cabo Medeiros durante apresentação de tráfico de drogas, embriaguez e receptação. 2019

CFP e ROCAM localizam drogas que abasteceriam a Favela do Ozéias. Denúnica anônima, 2019.

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Abordagem à usuário de drogas de classe média alta, na Favela do Hospital. 2018

Usuário utiliza cachimbo no meio da rua. Travessa Rua Suzano e Rua Campinas. 2020

“Falta o trabalho de prevenção na área de drogadição, que é um proble-

“O tráfico sempre continua, é muito forte, mas a gente procura ser uma

ma de saúde pública e não é um problema de polícia. Hoje, o crime de porte de droga, ele nem pena privativa de liberdade dá. Então, acredito que o usuário de drogas tem que ser tratado como um doente, como o alcoólatra, tem que ter internação, nem que seja compulsória, tem aí ferramentas para isso, mas o tráfico realmente é a polícia ostensiva, batendo direto, é a população participando por meio das denúncias com o investimento maciço que precisa na inteligência.” – Coronel Wagner Tadeu Silva Prado, ex comandante do CPA/M-12.

pedra no sapato não só do traficante, mas o criminoso de uma forma geral. O tráfico acaba sendo a mola propulsora de muitos outros delitos, por isso que a gente acaba batendo forte no sistema do tráfico. Virou um câncer na sociedade… Hoje há droga da classe A, classe E, é um crime que está em todas as esquinas, em todas as classes sociais, ela não distingue mais branco e preto, pobre e rico, de classe A à classe E.” – Coronel Wagner Tadeu Silva Prado, ex comandante do CPA/M-12.

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Durante transferência de chefões do crime, PM realiza operações simultâneas nos bairros onde moram policiais. Muros com supostas inscrições de facção na região do Odete, 2019

Frente do Quartel com viatura sob posição de defesa e bloqueio, fevereiro de 2019.

“Atenção 1º e 2º Companhias, 1º e 2º Companhias, CGP Uno e Dois. Pa-

Nessas regiões vulneráveis, a maioria da população é composta por pessoas humildes, onde há inclusive policiais morando. O momento em que houve sensação dramática, a foto acima registra o dia mais tenso que presenciei ao longo destes anos. A Polícia aquartelou-se novamente como no ano de 2006. Era fevereiro de 2019 e chefes de facções eram transferidos para presídios federais. O Comando da PM determinou operação de sobreaviso, que perdurou cerca de duas semanas. Via rede rádio, mensagens alertavam a necessidade de cautela redobrada:

trulhamento com fuzil em bandoleira, de preferência a partir desse QTR realizar patrulhamento focado na residência de policiais. Foco de prioridade nas residências e Bases Comunitárias. QSL. Respectivas Bases portarem arma longa QSL. É nihil de viatura de setor rondando sozinha bem como em atendimento de talão. Patrulhamento mínimo de duas viaturas. Charlie Uno e Charlie 99 automaticamente na pendência. Foco somente envolvendo as ocorrências com gravidade. QSL” – Comando Força Patrulha QTR: Neste horário. QSL, Nihil: Entendido, nada consta. Talão: Relatório. Charlie Uno e Charlie 99: perturbação e pancadão.

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Soldado Leonardo durante patrulhamento pelo bairro Jardim São Paulo. Fevereiro de 2019

Patrulhamento de Força Tática, viela dominada pelo tráfico na Tubulação. Fevereiro de 2019

“Atenção viaturas!!! Policial Militar, você é o responsável direto pela

360 graus, acompanhando os que estiverem pelo local ou àqueles que se aproximam. Enfim, quando se trata da sua própria segurança todos os detalhes são importantes e merecem atenção e prevenção. Ninguém melhor do que você mesmo para zelar por sua integridade e por sua vida, sua família te aguarda ao final do seu turno de serviço, a cautela é a sua melhor aliada.” ‘Mensagem do Senhor Comandante Geral, CORONEL PM MARCELO VIEIRA SALLES. À toda a rede, às 11:50.’ – COPOM, Centro de Operações da Polícia Militar do Estado de São Paulo, via rede rádio.

promoção da Segurança Pública de toda a população paulista. Por isso mesmo, é sempre bom lembrar, não descuide de sua Segurança pessoal em todos os momentos. Seja nas bases comunitárias fixas ou móvel; seja no patrulhamento a pé, de bicicleta, a cavalo ou de viatura. Seja na ocorrência simples ou complexa; seja na hora do rancho ou na brevidade dos deslocamentos; seja na chegada ou na saída dos locais de parada. Seja no estacionando ou entrando ou saindo de sua OPM, a atenção deve ser em

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*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

“[...] Diretamente, sobre dificuldades de atuar nessas áreas, vou ao ponto

Nesses lugares onde o crime, o qual o tráfico impera, são locais vulneráveis de equipamentos de segurança, educação, espaços para lazer e de infraestrutura. A falta de suporte faz com que pessoas presas continuem na prática criminosa. No meio dessa realidade sombria reside o morador.

central: o domínio do poder paralelo... Até uma década atrás os bandidos eram desarticulados.... Hoje não, trabalham em rede, possuem poder econômico. O crime virou uma empresa. A facilidade de comunicação sem dúvida é muito aproveitado pelo crime....lembro-me que há vinte anos quando você ia combater uma boca de tráfico, se capturasse um jovem olheiro, 90% de chance de êxito na prisão e apreensão... Hoje, com rapidez de comunicação, muito antes da aproximação da polícia fardada os traficantes já sabem da presença iminente da lei.... Isso favorece um fenômeno chamado “gueto”. O crime domina e impõe regras às pessoas, que nada podem fazer...só quem mora nesses locais pode dizer exatamente como eles agem.” – Anderson Caldeira Lima, coronel da reserva

por preservação) e eles usando na minha porta. Tem um monte de criança aqui no fundo, mas só que também os pais dessas crianças ficam tudo bebendo no bar, então eles não se incomodam, mas eu me incomodo. Tem um moleque de uns 13 ou 14 anos que fica traficando. Por isso decidi denunciar, primeiro pelo número e depois pessoalmente pois tem uma Tenente (mulher) que passou a vir direto e criei confiança.” – Luana, Favela do Ozéias.

Policiais Militares entram em casas para capturar traficante, após invadir moradia na tentativa de fugir da prisão. Comunidade Macieiras-Canoinhas, 2018.

1º Sgt Crisanto checa local de disque denúncia. Traficantes escolhem pontos que dificultam a localização dos entorpecentes. Comunidade Viela Advogados. 2018

“Às vezes é desanimador e já fui obrigada a reclamar pois estava (oculto

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*Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, pelo Serviço de Informação ao Cidadão da Polícia Militar do Estado de São Paulo - SIC/PM

De 2017 a setembro de 2020, o 35º BPM/M apreendeu 331,777 kg de drogas, fruto de operações atendendo gritos silenciosos, de moradores da periferia que não suportam a traficância, por vezes ocorrendo na porta de suas casas. Estima-se que até o final do ano, devido às operações focadas na desestabilização do tráfico a estatística ultrapasse mais de meia tonelada. conta das ruas e da Viela (Vila Nova), era a venda 24h “porOdiatráfisemco tomava o menor respeito com a gente e as crianças, a venda acontecia na frente das nossas casas, nos nossos muros e o uso pelos usuários também. Começamos a denunciar e a PM veio e passou a diminuir muito o fluxo de ‘pessoas estranhas’ e eles tiveram que ir para outras ruas e vielas. A PM continuou atuando e agora mesmo nessas (vielas) não existe mais (tráfico) 24h por dia... Tenho Gratidão à PM” – Luana, Favela do Ozéias.

*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

“Bastou patrulharmos dois serviços que as denúncias começaram a chegar.” – Tenente Vivian, 2019.

Embalagens de drogas jogados na porta de uma moradia. Favela do Ozéias.

Soldado Souza localiza Micro tubo de maconha em viela da Favela do Ozéias

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*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

“Onde a gente mora é muita sujeira é meio complicado de dizer, tem

Pelo tirocínio policial, indivíduos abordados costumam ter passagens por crimes como tráfico, porte ilegal de arma de fogo e roubos. Muitas vezes a Polícia Militar é a única força do estado que se faz presente, tentando amenizar problemas. Do mesmo modo, por diversas vezes flagrei nitidamente como o crime impõe suas regras para essas pessoas humildes, que nada podem fazer, apenas são obrigados a seguirem as determinações impostas pelos bandidos. Foi difícil conseguir para que algum morador topasse falar sobre essa questão. Em algumas localidades, durante as batidas policiais, moradores de repente surgiam nas ruas e vielas e ocorrem hostilidades.

lugar mesmo aqui que é um pouco feio. A gente sente medo de falar pra Polícia o que está acontecendo na vila. A gente tem que seguir o que eles (criminalidade) mandam. Não dá pra dizer não. A gente que é humilde depende da sobrevivência de se morar na favela... Pela segurança da minha família já fiz isso várias vezes mesmo que isso me faça sentir incapacitado de dar proteção para quem eu amo. Porém aqui até que é um lugar tranquilo e eu gosto de morar aqui mesmo com todas as dificuldades... [...] Já fui roubado próximo de casa e tive que procurar eles (crime) para resolver o meu problema.” – Alexandre, Vila Sônia.

Moradores começam a sair para fora após abordagem em acesso de comunidade. Criminosos com passagens por tráfico, furto e roubo de carros abordados. Campo Limpo, 2019.

Todas as batidas no Ozéias eram marcadas por moradores saindo para as ruas, após abordagem de traficantes na boca de fumo. Na imagem, moradores começam a surgir, disque denúncia apontava que drogas estariam escondidas no entulho, não sendo localizadas. Favela do Ozéias, 2019

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Nas batidas contra o tráfico, uma comunidade chama a minha atenção. Trata-se da Macieiras-Canoinhas, onde vivem aproximadamente 350 famílias, região do Caiubi. Um buraco onde pessoas humildes residem. A precariedade do lugar, assim como qualquer favela, é bem semelhante. Há sempre moradores no batente realizando novas construções, sejam elas ilegais ou regulares. O convívio entre a Polícia e moradores é bem amistosa, fenômeno que pode ocorrer devido à proximidade da instalação da 2º Cia há cerca de 800 metros da comunidade. Entretanto, também se difere a forte atuação do poder paralelo. A maioria das vezes que estivemos nas batidas contra o tráfico, notei que suspeitos e detidos em sua maioria não eram oriundos do local, mas sim, de favelas de outras cidades, vide a zona leste da capital, Arujá e Guarulhos.

Infelizmente nenhum morador da comunidade, temendo represálias por uma possível identificação, topou falar. Limitou-se a uma frase. “A gente vive nas leis de uma ‘favela de comando’, eles vêm de fora para ‘cuidar’ da Macieiras.” Talvez esse fato de indivíduos de fora controlar as vidas dessas pessoas também influencie as denúncias que ocorrem quase que diariamente, oriundas da Macieiras. A coragem de denunciar é uma resposta, diante do medo imposto pela criminalidade. A comunidade é chamada dessa forma pelas ruas que são mais populosas na localidade. Nas bocas de fumo, cada droga tem seu preço específico. A maconha, chamada pelos usuários de “chá”, “erva” e “paranga”, é vendida entre R$ 5 a 20 (Skank). A cocaína, o “pó” por 10, a “pedra” (crack) ao preço popular de 5 e o “lança” 10.

Vista da comunidade durante cerco para operação a pé. 2019

Tubos de lança perfume vazios, localizados próximo do “kit” contendo entorpecentes. 2020

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Diante das denúncias, o Sargento (Comando Grupo Patrulha) ou o Tenente (Comando Força Patrulha) é quem organiza operações, dividindo as equipes entre os becos e vielas. Graças as informações, se prevê por onde o indivíduo correrá, mapeando casas de possíveis envolvidos e por onde estará o material entorpecente.

“Muitos traficantes de lá eram de fora. É uma comunidade bem carente, eu

gostava de bater (no tráfico) lá. O tráfico tinha abandonado a atividade por um bom período pois não aguentou mais tanta prisão e tanto prejuízo que demos nesses caras. A comunidade ficou em paz um bom tempo. Infelizmente com o tempo foram ganhando espaço novamente. Mas o bem sempre vencerá o mal e hoje posso dizer com orgulho que fiz o meu melhor por essas pessoas humildes que conheci e que confiaram em mim, enquanto estive atuante no policiamento de rua” – Cabo Balbino, 2º Cia

Policiais da 2º Cia correndo durante incursão na tentativa de captura de traficantes, 2019.

Tenente Vivian e 1º Sgt Theodoro, Força Tática realiza operação na Macieiras. 2018

Cabo Balbino se abaixa para analisar movimentação no beco. 2018

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Locais abandonados possibilitam o armazenamento e a venda de drogas. O aparente abandono acabará sendo propício para a instalação de uma boca. Até meados de maio de 2018 haviam três instaladas na Macieiras. Com a forte atuação do policiamento velado, a 2ª Companhia e a Força Tática, a comunidade presenciou uma fase de redução de ‘pessoas estranhas’ pelos becos e vielas, tão logo a traficância. Em especial no final daquele ano, incursões foram marcadas pela falta de apreensões de drogas, haja vista a inexistência das bocas de fumo. A PM asfixiou o tráfico. Houve uma grande apreensão no Jardim Helena, onde supostamente ocorre o ponto que abastece a Macieiras, que seria uma espécie de extensão daquela região periférica da zona leste. Nunca pensei que iria presenciar a falência de biqueiras. Em 2019 o fato ocorreu novamente, após ações específicas contra gerentes. Embalagens de drogas na porta da casa de morador. 2020

Tenente Vivian checando ponto de venda de drogas na Macieiras. 2018

Espaços onde se guarda reciclagem são escondidos material entorpecente, 2019

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[...] Tinha duas situações distintas do cara da biqueira, o vendedor“ zinho lá, o vaporzinho trabalhava na seguinte situação: fazia o pacotão

dele, ele mesmo contratava o olheiro, era tudo por conta dele. Então o lucro era maior para ele. Quando o tráfico (facção) pagava olheiro, dava cento e vinte, cento e cinquenta por cada turno que vendia. E também tinha aquela coisa, dez por um, né? A cada dez que vendia, um real era dele. O tráfico tem bastante gente trabalhando e logística. Todas elas de gente ruim que oprimem a comunidade.” – Cabo Balbino, 2º Cia

1º Sgt Souza Reis e Cabo Bernardes, “kit” de drogas localizadas na viela. 2018

“

Nas batidas que nós fazíamos, o pino da cocaína era dez e a maconha cinco, a trouxinha, né? E as contabilidades eram diferentes, porque cada vendedor tem o seu período de atividades, ou seja, eles trabalhavam num período de dia ou da noite, intercalavam. Eram duas turmas traficando, daí tinha um vendedor e no mínimo, no mínimo quatro olheiros, tinha vendedor que já pegava o kit completo, que era duas sacolas com cem. Quando a gente batia, abandonavam a sacola e saíam correndo, mas a gente sempre pegava pela informação e o kit de droga que nós aprendíamos era dessa forma, cada uma tinha mais ou menos cem pinos de cocaína, cinquenta de pedra, cem trouxinhas de maconha e as vendas ocorriam nesse valor.” – Cabo Balbino, 2º Cia Cabo Dias, “kit” de drogas abandonadas durante tentativa de fuga. 2020

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Numa dessas operações, em 2019, a Polícia impôs um prejuízo de cerca de 12 mil reais. Policiais militares estouraram uma casa bomba apreendendo farto material entorpecente de um gerente do tráfico. Denúncias apontavam que um carregamento de drogas estaria na casa e que abasteceria as bocas de fumo localizadas na Macierais, diante das informações, a 2º Companhia com o apoio do Canil da Guarda Municipal localizaram-nas escondidas no guarda roupas, do quarto do adolescente, a segunda apreensão em três dias. O menor, de apenas 17, e a namorada, apontada como contabilidade do tráfico foram detidos na residência fora da comunidade, prisão que muitas vezes ocorre longe das favelas. *Casa bomba é o termo utilizado para casas que escondem grandes quantidades de drogas, geralmente em estabelecimentos abandonados, servindo para o esconderijo e até plantio.

“De quem são essas drogas? É do ‘G...’?” Com frieza de gente adulta e calculista, responde: “É minha senhor. Sou gerente da boca”. No local, foram apreendidos 693 pinos de crack e cocaína, 309 papelotes de maconha, 2 cadernos de contabilidade, 2 pedaços de maconha e dois foguetes de fumaça, utilizados para informar a chegada de entorpecentes na favela. Além de R$ 700,00 em espécie. Sendo confessada pelo menor, uma segunda carga estaria para chegar para o final de semana. Num dos cadernos de anotações, inclusive, estava descrito o prejuízo que levaram dois dias antes na comunidade, de R$ 800,00 entre drogas apreendidas e dinheiro oriundos da traficância. Na Macieirais, se manteve apenas uma boca de fumo durante um longo período de 2019. Em 2020, em meio à pandemia, o tráfico se reinventou.

Momento em que Cabo Geraldo aborda de surpresa traficante na viela da comunidade. 2019

Após denúncias anônimas, policiais surpreendem gerente do tráfico em casa. 2019

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*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

“[...] Chegamos a fazer denúncias diretamente à PM. Fui uma delas. Não

Essas apreensões quebram o sistema do tráfico. Entretanto, há condomínios que foram dominados, onde há limites de atuação favorecendo a criminalidade. Sendo denunciados os modos de atuação e, se a Polícia, não só a PM, fizer ação competente levando à Justiça criminosos, verifica-se que a paz social foi alcançada. Infelizmente nem sempre isso é possível.

Foi uma inscrição que a gente fez na Secretaria de Habitação e fomos privilegiados em ser sorteados... A gente pensou que seria algo abençoado, mas não foi bem a vontade de Deus. [...] É um local que tem pessoas boas e ruins, que é ‘da vida’ e do ‘corre’. A gente via o tráfico correndo solto e pessoas coniventes. Tinha gente que perdia o apartamento por imposição, pela visão privilegiada ou por dívidas.”

aceitávamos menores que faziam as vendas e usavam drogas nos blocos. Eu acredito que a justiça do Brasil é que não dá um suporte a uma pessoa que vai presa, a maioria desses jovens que entram no tráfico é falta de estrutura e quando são presos e saem voltam piores. Quando decidimos fazer denúncias o Caldeira sem palavras em pouco tempo estava lá. A gente teve suporte enquanto ele estava trabalhando na cidade, depois poucas vezes vimos e foi aí que eu decidi ir embora. Decidi com a minha família que ali não era um lugar saudável para criar os meus filhos. A gente acaba ficando desacreditado no serviço de alguns policiais, depois da ameaça (de bandidos), acabei abandonando mesmo, levando meus filhos para morar onde eu nasci, cresci e sempre convivi com todo mundo. Mas quero ir é embora de Itaquá um dia.” - Marcela, ex moradora.

PMs checam denúncias em Residencial. Últimos andares são utilizados para armazenamento de drogas e esconderijo de armas. 2018

Operação checa denúncias de quadrilhas de roubo de cargas em conjunto habitacional. 2018

“Fui moradora de um residencial, não tivemos escolha né, de ir para lá.

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Tenente Vivian e Soldado Fábio, Força Tática durante patrulhamento pela região central numa noite de sexta-feira. Furtos e roubos via rede rádio chegavam a todo momento. 2018

ROCAM encerra fluxo de motos, após denúncias de perturbação de sossego. Jardim do Carmo, 2019

Em que pese o previsto no artigo 157, que prevê “subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência à pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência. Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa”.

casos em andamento no Alto Tietê, daí surge a fama sombria de “Itaquaquistão”. Furtos e roubos ocorrem diariamente e 12 pessoas foram vítimas de latrocínio ao longo deste período no município. Alguns desses factuais foram marcados pelos meus registros, acompanhando o difícil trabalho no dia a dia. Sobre essas ocorrências, Caldeira já dizia:

E na sequência o artigo 155 do código penal, - furto e furto qualificado -, “Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.” Crimes de furto e roubo acabam sendo comuns na vida do povo paulistano. Há de fato ocasiões em que o Centro de Operações (COPOM) não para de comunicar

“A experiência de quase três décadas no patrulhamento de rua

faz com que tenhamos a certeza de que o mesmo jovem viciado em drogas ilícitas e ativo no sistema do tráfico, será aquele que roubará um carro, matará uma pessoa vítima ou praticará outros crimes...” – Tenente coronel Caldeira, 2018.

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É o caso dos desmanches clandestinos. Em vigor desde julho de 2014, a lei estadual 15.276 é pioneira na regulamentação dos desmanches e serviu de referência para a criação da lei federal 12.977/2015, que regula a atividade de desmontagem de veículos. Nela, para se atuar no ramo e participar de leilões adquirindo carcaças, comércio ou reciclagem das peças usadas de forma legal, a legislação exige o credenciamento das empresas no Detran. Com isso, o objetivo é inibir o furto e o roubo de carros, assegurando que profissionais continuem atuando no mercado. Entretanto, muitas vezes é o comércio ilegal que acaba faturando com a venda de peças. O destino de milhares de automotores todos os anos são de oficinas ilegais, que funcionam ligadas a bandidos. CB Souza checa veículo de envolvidos em furto de carro, com passagens por tráfico. 2019

Soldados Fábio e Leonardo interceptam moto em acesso da Favela do Quaity, 2019

CFP recupera moto conduzida por menor com passagens por receptação e roubo. Jardim do Carmo, 2019

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*Fonte com identidade preservada por segurança e ética.

Criminosos montam verdadeiras quadrilhas especializadas para desmanchar carros e revender peças a preços populares. Não há dados oficiais, mas profissionais de segurança acreditam que a maioria dos latrocínios ocorridos nas cidades tenham ligação com o roubo de veículos, através de bandos especializados que funcionam como puxadores e receptadores para o crime organizado. Desmanche é um tipo de autopeças do crime. Batemos muito em anos anteriores, hoje em dia infelizmente são poucas as denúncias desse tipo de crime que chegam, muitas pessoas gostam de comprar produtos roubados e furtados pelo preço baixo e essa atitude fortalece os criminosos.” diz um policial. Quando se tem essa característica, após o crime, automóveis são ‘abandonados’ pelos puxadores em locais específicos para que, eventualmente, outros integrantes possam buscar, sendo levados para desmanches clandestinos e desmontados.

“

Após denúncias anônimas, PM recupera carro roubado. Menor detido pela segunda vez, confessou que o veículo seria entregue à desmanche clandestino. 2º Cia, 2019

Cabos Ferreira e Nicolau, 2º Cia checa equipamentos danificados após furto.

Comando Força Patrulha recupera saveiro furtada, após intensa perseguição. 2º Cia, 2019

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“Realmente, a prática policial mostrou-me que o jovem viciado, invaria-

velmente, vai cometer outros crimes, principalmente patrimoniais. Mas há um impasse que vem sendo muito estudado e não há uma luz no fim do túnel...” – Anderson Caldeira Lima, coronel da reserva Criminosos alegam que ganhariam em média de R$ 500 à R$ 1.500 por carro. Numa dessas ocorrências, um indivíduo, desempregado, surpreendeu as equipes pelo fato de já estar assinando pela prática e conter medidas cautelares. Acabou liberado na mesma noite, através de uma fiança de mil reais. Entre janeiro de 2017 a dezembro de 2019, de acordo com a SSP, houve redução nos índices de furto e roubo de carros, especialmente em 2019. Em 2017, foram registrados 920 roubos e 586 furtos, 2018, 905 e 702 respectivamente e, em 2019, 783 roubos de veículos e 700 furtos de automóveis no município. Equipe do Cabo Nilson estoura desmanche clandestino no Pequeno Coração. 2019.

Policiais checando denúncia de desmanche na comunidade Marengo Baixo. 2018

Tenente Hayashida checa denúncias de desmanche de carros no morro Pedra do Urubu, 2019.

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Todos os crimes mencionados no capítulo estão relacionados a mortes. Neste cenário caótico, a ROCAM e a RPM desenvolvem um trabalho diferenciado. De dia e de noite, enquanto todos estão no aconchego há bravos policiais trabalhando, tentando defender a sociedade. Ladeados ao status 01, são os primeiros a chegarem em ocorrências, enquanto todos fogem do perigo. A adrenalina produzida pelo corpo os coloca altamente sob riscos cada vez mais complexos no dia a dia. Em apenas oito anos, a região retém a morte de pelo menos 14 policiais militares, da ativa e reserva. De cada 10 policiais mortos, 8 estavam de folga. São executados. Sabem que sua missão é essa, prevista na Constituição e o Juramento, cabendo a eles o dever de proteger a sociedade da criminalidade violenta, não ficando isentos que o cumprimento de suas funções envolva o risco elevado da própria vida. Entretanto, tombam, sem a chance de despedidas, muitas vezes de folga. Por defenderem a sociedade.

CGP e Soldado Sérgio recuperam moto de luxo no Odete, após intensa perseguição pelas vielas. 2019

Interceptação de cartões clonados. Quadrilhas disputaram pontos para a venda criminosa, 2019.

ROCAM durante perseguição de roubo de cargas. 2018

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Entre as ocorrências registradas uma acabará me impactando. Nas primeiras horas de patrulhamento, no dia 12 de outubro de 2019 (feriado) a princípio nada fora do comum: uma incursão visando a captura de um traficante, conseguindo dar “pinote” por uma região de mata na Favela do Ozéias. Uma averiguação de possível roubo de carga, sendo constatado trote... Parecia mais um feriado “tranquilo”, e assim comenta o motorista da equipe: “Feriado tranquilo Comando...” enquanto se focava na localização de um veículo roubado em data anterior, que estaria circulando na cidade praticando roubos, a equipe também monitorava um foragido visando sua captura. Via rede rádio se notícia um tiroteio em andamento.

Viaturas da 1° e 2° Companhias são avisadas com “brevidade” pela equipe de Rádio Patrulhamento com Moto (RPM), que acabará chegando no local com o fato em andamento. Diante de ocorrências consideradas perigosas, o policial da ponta da linha (status 01), solicita ao Centro de Operações para que seja dada uma “pausa na rede” a fim de que se possa narrar com clareza, dados importantes sobre a ocorrência e o local, solicitando o apoio necessário. Através do pedido: “COM BREVIDADE”, determina-se que a rede permaneça “em silêncio”, para que todas as equipes possam ouvir de forma clara e objetiva a comunicação, gerando ações de apoio das viaturas.

Soldado Souza, com vistas à veículo roubado na prática de roubos a pedestres.

Cabo Fagundes, deslocamento com brevidade para a ocorrência no posto de gasolina.

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Tratava-se de um assalto em andamento, no qual teria ocorrido reação armada. No local, quatro pessoas baleadas. Um cenário que mais parecia uma chacina, devido à quantidade de cápsulas deflagradas e sangue escorrendo pelo chão. Quando chegamos, a RPM tentava salvar uma mulher, que naquele momento olha para o policial e de repente, congela. Policiais permanecem por cerca de 2 minutos tentando reanimá-la, sendo confirmado o óbito. Conforme apurado no local, sendo constatado nos autos do boletim de ocorrência, dois bandidos se escondiam na passarela, esperando o momento certo para dar o bote. Identificados dois casais para o banquete, deram o bote. O que os bandidos não esperavam era que as vítimas seriam Guardas Municipais em dia de folga. No momento em que fugiam com a moto de luxo modelo BMW de um dos guardas, que decidiu reagir, começou um intenso tiroteio. Cápsula deflagrada. Vítimas permaneciam agonizando

Passarela utilizada pelos criminosos para tocaia

Cena do crime. Ao fundo, bairro Maragogipe

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nois tinha acabado de fazer o rateio para pagar a gasolina.” Chorando, a vítima repete: “Senhor me ajuda, nós iriamos vender no estádio, me ajuda por favor, sou trabalhador sou inocente! Tô baleado, sou inocente senhor! Como isso pode acontecer com a gente, somos inocentes, meus amigos estão todos furados de bala lá no carro, todos inocentes.”

Após o relato, me desloco até as vítimas e fotografo a cena. O motorista, conforme relatado, estava com o dinheiro na mão, agonizando, ainda vivo. Logo após as imagens, a equipe de paramédicos retiram-no e o dinheiro cai. Mais tarde a constatação de que a grave falha custou a vida de três inocentes, vítimas de latrocínio. - Roubo qualificado que resulta em morte.- Por terem prestado socorro, acionando a Polícia e o Resgate, os GCM‘s respondem em liberdade. As fotos, utilizadas de forma equivocada pela grande mídia, acabará comprovando a inocência das vítimas. Por sua vez os criminosos identificados, possuindo ficha criminal estão presos respondendo por latrocínio. Sendo um detido após dar entrada no hospital baleado, e o segundo, após denúncias anônimas onde acabará sendo localizado em seu barraco, na Zona Leste da capital com outras motos roubadas. A vítima, espancada e humilhada permaneceu presa até comprovar a inocência.

Grande poça de sangue escorrendo. Vítima sobreviveu e comprovou inocência

Motorista agonizando, com dinheiro do rateio na mão. Vítima faleceu no hospital

Naquele momento, chegava um veículo ocupado por três trabalhadores ambulantes, que assim como os Guardas, voltavam de Aparecida, após a venda de material. Numa ação rápida, no momento que se seguiu o tiroteio, o carro ocupado pelos vendedores acabará recebendo diversos disparos, vitimando na hora uma das vítimas. Ensanguentado, amarrado, baleado e agredido, como consta nas filmagens, o sobrevivente relata no local: Senhor, a gente é trabalhador senhor, o carro tá cheio de caixa de sor“ vete e água... estávamos vindo de Aparecida e paramos para abastecer,

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*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

Motoristas de aplicativos também se tornam, na atualidade, vítimas corriqueiras de criminosos em toda a região do Alto Tietê. O fato ocasionou manifestações e pedidos de mais segurança em 2019. Por parte da PM, operações são planejadas pelo Serviço de Inteligência e o P3 - Planejamento e Operações, responsáveis pelas estratégias visando a redução dos indicadores criminais através de ações de prevenção e repressão as ações criminosas.

“Os bandidos acham que a gente anda com bastante dinheiro no bol-

so e não é assim que funciona né? Agente só anda com dinheiro do troco mesmo e olhe lá. Então por conta disso ficamos aí a mercê da bandidagem que ataca motoristas e outros também que roubam os carros para praticar assaltos....” - Daniela, motorista de aplicativo. Força Tática do 17º BPM/M durante Operação Papai Noel, coibindo roubos de carros. 2019

Polícia Militar localiza veículo de motorista de aplicativo abandonado. Joandra, 2019.

Comando Força Patrulha recupera Onix de vítima em pancadão. Vila Sônia, 2019

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No tocante aos roubos, o roubo de cargas também me chamou a atenção. É um tipo de crime que, além da violência nas ações criminosas, possui alto grau de impacto econômico nacional, devido os prejuízos que causam. Desde 2020, a prática passou a ser considerada crime hediondo, alterando os artigos 155 (furto), 157 (roubo) e 180 (receptação). A alteração tipificou os crimes envolvendo cargas e os incluiu no rol dos crimes hediondos por se considerar uma ameaça que coloca profissionais em alto risco, e que dificulta economicamente o trabalho das transportadoras, sendo necessárias medidas preventivas e repressivas por parte da Polícia, para garantir a segurança e integridade. Seus efeitos afetam tanto o setor público como o setor privado, com a elevação de gastos de algumas empresas para a aquisição de sistemas de segurança particulares. Um pedido que está em voga pelos profissionais caminhoneiros e entregadores de encomendas.

Em São Paulo, os casos são mais frequentes nas rodovias, todavia, há em regiões periféricas, como o Alto Tietê margeado pela Zona Leste e Guarulhos, uma relação da ação de quadrilhas especializadas. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, de janeiro de 2017 a setembro de 2020, ocorreram 4.145 prisões. Porém, não há no site da Secretaria dados que tipifique cada tipo de prisão e por qual instituição teria ocorrido, apresentando a estatística de forma geral. Sobretudo, o roubo de cargas ocasiona diversas prisões de bandidos já fichados nos mais variados crimes, boa parte pelo empenho da Polícia Militar.

apresenta com índices elevados, em regra você consegue reduzi-lo com o criminoso preso ou ocorre uma mudança de área. Ele vai migrando” – coronel Wagner Tadeu Silva Prado, ex comandante do CPA/M-12

Soldado Luiz observa caminhão. Ao fundo, Rodovia Ayrton Senna, que divide as subáreas das 1º e 2º Cias do 35º Batalhão.

Adolescente com passagens por furto e roubo de carros na página 67, é novamente detido, praticando roubo de cargas. 2020

“O crime é dinâmico, se você aperta em determinado delito que se

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Para se ter ideia, o fenômeno atualmente é um dos maiores desafios das forças de segurança de Itaquá. De 2017 a setembro de 2020, foram registrados 392 casos, aumentando de forma desenfreada anualmente, com redução observada desde o início 2020. Entre os anos de 2017 e 2018, acompanhei manifestações na cidade, quando pude ouvir questionamentos sobre segurança. Um dos bairros de maior reclamação era o “Marengão” e o Jardim Odete, bem como toda a região dos bairros no entorno. A região facilita a ação dos bandidos porque fica numa área limítrofe com a cidade de Suzano, e de fácil conexão a vias muito movimentadas, como a Rodovia Alberto Hinoto (SP-56), e a Rodovia Ayrton Senna (SP-70) que faz ligação com a zona leste da capital. Apesar de as transportadoras usarem muitas vezes o sistema de monitoramento dos veículos, impedir os roubos é difícil. Esse fato torna propício o sequestro de trabalhadores para que, por ventura, garantam a retirada total da carga antes de abandoná-los.

Em meio à pandemia, ocorrências 127 apontam que criminosos que pra118 ticam esse tipo de crime estariam migrando para o roubo através de 81 anúncios via aplicativos, anunciando 75 produtos pela internet. Ação comum na capital, criminosos se utilizam de regiões vulneráveis para a prática dos crimes, entre março e maio, mais de 30 casos teriam ocorrido, de Dados até Novembro 2020. Fonte: Secretaria da Segurança Pública acordo com a PM. No ato, marcam pela internet com as vítimas para entregar produtos, no local, anunciam o roubo. Levando dinheiro e veículos das vítimas. A capa do capítulo 1, evidencia a tentativa de capturar um foragido da prática desse crime na Viela Guaratuba, oriundo do roubo de cargas.

Operação integrada entre Batalhões de Itaquá e Suzano, comunidade Marengo Baixo, 2018.

Patrulhamento de Força Tática, em local de incidência de tráfico de drogas e roubo de cargas. 2018

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“SE CONTINUAR FUGINDO NÓIS METE BALA!”

*Fontes com identidades preservadas por segurança e ética.

Caminhoneiros e funcionários dos Correios são ameaçados por criminosos no município. No Marengo, para se ter ideia, em 2018 uma das vítimas durante roubo, marginais aplicaram tiros, sentido sua direção, acertando o veículo dos Correios. Na sequência gritaram palavras de ordem. A gravidade do ocorrido gerou grande repercussão e o cancelamento de entregas na região, com autorização da Central dos Correios em Brasília, que dura até hoje. À época, colhi o relato dos carteiros:

que não tem muitas viaturas... Pelo menos uma escolta motorizada garantiria as entregas e a nossa segurança”. Afirmou um entregador.

Segundo servidores, além do Marengo, o Morro Branco, Cidade Kemel (Tubulação), Jardim Anita, Vila Ferreira (Favela do Ozéias) Monte Belo (Favela da Invasão), Jardim do Carmo, Jardim Valparaíso, Jardim Odete, Jardim Fortuna, Jardim São Paulo (Favela do Kwaiti), Morro do Borges e Recanto Mônica, foram apontados pelos funcionários e descritos por policiais como bairros de risco, com situações de sequestro de funcionários e caminhoneiros. De forma particular, notei que há resposta das polícias, não só da PM, inclusive realizando ações integradas com a Guarda Municipal e a Polícia Civil. Porém, criminosos autuados em flagrante rapidamente são abordados novamente pelas ruas. Após dois anos, reencontrei carteiros para perguntar o que mudou daquela época para cá.

Greve dos correios em 2018. Central de Itaquá fechada

GCM frustra roubo de cargas dos Correios no Morro Branco. 2019

“Não temos o mínimo de segurança, a cidade é violenta, a Polícia diz

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*Fontes com identidades preservadas por segurança e ética.

“Então Juan, lá depois que o H... tomou tiro, ele foi fazer uma entrega e con-

“O pessoal tem um problema danado para entrar ali no Fortuna e região

Após tentativa de roubo a funcionário dos Correios, criminosos fogem para os trilhos, local conhecido como ponto de venda de drogas no Morro Branco. 2019

Quadrilha é presa após intensa perseguição. População auxilia com informações durante o roubo da carga. Rua Barra do Una, região do Odete. 2018

seguiu dar fuga nos bandidos no momento da abordagem... E aí eles ficaram nervosos e atiraram. O tiro furou a traseira e morreu numa chapa de ferro que fica atrás do carro dos correios. E aí eles analisaram lá (em Brasília) e cancelaram a entrega lá, não tem entrega mais, no Marengo não existe mais entrega todo mundo tem que vir buscar. [...] O bagulho é tão zoado que não se trata só de quadrilha especializada não, hoje em dia a gente tá passando com o carro (dos Correios) na rua, os moleque pode tá lá sentado na rua quando a gente vê já vem o bote! Jardim São Paulo é assim... Jardim Forturna... No Fortuna o negócio é tão embaçado que são o que... São quatro ruas, e com uma única saída ali, o que acontece... Ali mano o negócio é zoado, os caras rouba tudo que entra ali. Já roubaram carro do ovo, moto de pizza...”

né. Assim, só para você entender um pouco sobre a situação. Essa região do Odete, abrangendo ali o Terra Prometida, Marengo, Jardim São Paulo... essa região ali não tem entrega, o morador tem que retirar na Unidade por conta disso aí né. Teve um dos nosso aí que deu fuga nos bandidos lá no Terra Prometida aí o B... foi lá entregar de moto lá, quando pensa que não os cara jogaram bala pra cima dele então não tá tendo entrega nessa região, por isso que deu uma redução embora o C... uns dez dias atrás como te falei (pessoalmente)... Ele foi assaltado ali na Vila Japão só que prenderam o bandido né, deram o flagrante no ladrão lá. Mas a realidade é essa é que não está tendo entrega (em vários bairros) se tiver entrega todo dia vai ter roubo. É desse jeito, infelizmente é desse jeito que acontece a nossa realidade.”

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“Tem lugar que se colocar o carro dos Correios para entregar os caras

“Os roubos são os mais variáveis né, hoje em dia estão roubando bol-

roubam mesmo e não estão nem aí, roubam e tem moleque roubando na própria rua. Hoje em dia é em qualquer lugar, é como te falei... Está passando na rua a molecada estão ali só trocando ideia, fazendo nada, só passou os moleques já dão enquadro. Às vezes eles ficam já de campana próximo aos CDD’s e aí quando sai o carro eles vão na bota. [...] é embaçado, não é só encomenda não até as cartas os caras tão atacando. Tem lugar que se colocar o carro dos Correios os caras roubam mesmo e não estão nem aí.”

sa do carteiro porque vem a molecada que nos rouba, mas aí se trata de quadrilha especializada, vamos supor eles roubam a bolsa aí eles pegam, passa para a quadrilha, os caras já têm todo o aparato maquinário e gráfico e CLONAM. Vamos supor, pegam sua fatura, clonam e monta igualzinho só troca o código de barras e aí o que acontece... faz o envelopamento da correspondência, vai lá e deixa no seu endereço. Você pega, confere tudo... na hora que vai pagar lá (na lotérica) faz a leitura do código de barras e esse dinheiro cai na conta de um laranja, isso aí ocorre direto!”

Quadrilha tenta roubar caminhão de cargas. Na perseguição, tentam fugir pela região de mata do Jardim Napoli. Sendo um detido. 2019

Criminoso acaba sendo alvejado após tentativa de roubo de carro. Confessando o crime, declarou que dupla pretendia roubar carga. 2018

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*Fontes com identidades preservadas por segurança e ética.

“[...] essa travessa da Guaratuba ela é foda, assim, ali o bagulho é pesado

os moleques ali dessa travessa (Viela Guaratuba) são problemáticos, tinha um monte que estavam presos aí com essa história de Covid foram soltos. O pessoal do Jardim São Paulo vive em choque. Parece que mudou umas caras novas pra lá (tráfico) mas estão roubando em ponto de ônibus e tudo. [...] Estão falando que irão juntar os CDD’s, mas até então não há nada oficial para nós e fica desse jeito. Esse negócio de rastreio de pedido facilita muito para os bandidos, às vezes já pede o negócio já de H (para roubar) e fica esperando a rota para acompanhar. É desse jeito.” - Carteiros. Em que pese a visível redução, mesmo que a Polícia atue fazendo inúmeras prisões, não há luz no fim do túnel. A criminalidade migra ou evolui. É como um vírus que se adapta em condições ambientais adversas. Patrulhamento de Força Tática no acesso da Favela Invasão, Vila Monte Belo. 2019

Tenente Vivian e 1º Sgt Theodoro checam denúncia na região da Travessa Guaratuba. 2019

Carga recuperada após denúncias anônimas. Motorista ficou sob custódia dos criminosos. 2019

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*Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, pelo Serviço de Informação ao Cidadão da Polícia Militar do Estado de São Paulo - SIC/PM

Ao longo dos meses de março e abril, a doença Covid-19, originária do novo coronavírus, migrou dos grandes centros para as periferias, onde se tornou mais letal no Brasil. São Paulo, a cidade mais populosa do país, tornou-se a mais afetada com a confirmação de casos pela pandemia. No Policiamento, a segurança como serviço essencial continuou, com várias baixas para a terrível doença. Na batalha, de acordo com dados obtidos de forma exclusiva, a Polícia Militar do Estado de São Paulo registrou no total 3.642 casos confirmados através do TESTE PCR-RT COVID e 29 óbitos de Policiais da Ativa, até o dia 30 de novembro. A acelerada contaminação de agentes policiais ocorreu pelo fato de que esses profissionais estão na ponta da linha, enfrentando o vírus e a criminalidade em locais com características populosas, nos grandes centros e periferias espalhadas por todo o estado.

Somente em maio, 10 policiais - incluindo civis - faleceram. Diversas medidas para conter o avanço da doença entre policiais passaram a ser adotadas, porém, o estado acabou demorando para efetuar testagens e entregar EPI’s para policiais. Desde o dia 7 de maio, o Comando determinou que passasse a ser obrigatório o uso de máscaras de proteção facial por todo o efetivo, considerando a orientação do Ministério da Saúde, de que o uso de máscaras de proteção constitui uma medida de segurança durante o intervalo de aceleração epidêmica, decretando que: “... Enquanto perdurar a medida de quarentena instituída pelo Decreto nº 64.881, de 22 de março de 2020, fica determinado, em complemento ao disposto no Decreto nº 64.956, de 29 de abril de 2020, o uso obrigatório de máscaras de proteção facial, preferencialmente de uso não profissional”. Pontua um dos trechos.

Cabo George utiliza máscara de proteção facial durante incursão na Comunidade Tipoia, localizada a poucos metros do centro da cidade.

Policiais militares realizam reformas utilizando máscaras de proteção.

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*Fonte: Prefeitura Municipal de Itaquaquecetuba, publicada nas mídias oficiais.

Segundo o Governo do Estado, mais de 8 milhões foram investidos em equipamentos de proteção, sendo distribuídos para as unidades policiais. Entretanto, constatei que esse material demorou para chegar nos Batalhões da Grande São Paulo. Sendo estabelecidas medidas de higienização nas trocas de turnos, nas bases e viaturas para tentar conter a disseminação. Essas ações que duram até hoje visam trazer um pouco de segurança para o policial, que com a demora da chegada de equipamentos do estado, em gesto de apoio, diversos materiais passaram a chegar doados pela sociedade, como máscaras e álcool em gel que inicialmente saia do bolso dos policiais. Caso a máscara seja de tecido, passou a ser confeccionada nas cores preta, branca ou cinza, determinada pela Ordem de Serviço que não poderia conter marcas.

O vírus se espalhou rapidamente pela cidade, seguindo o ritmo da capital, com inúmeros casos aos poucos sendo confirmados. Segundo a prefeitura, sem a realização de testes em massa, contaminou mais de 5.800 até o início de novembro. Enquanto se pediam medidas radicais por parcela da população, inclusive anunciada pelo governo se não houvesse a compreensão de utilização da proteção, a PM realizou uma abordagem diferente. Devido ao alcance de uma quantidade razoável para manter a tropa, militares decidiram realizar a entrega de máscaras em comunidades. Sendo realizada pela primeira vez num sábado, 16 de maio, quando muita gente permanecia pelas vielas do Tipóia, servindo para conscientizar da necessidade de utilizá-la. Ações de proximidade se tornaram cada vez mais frequentes, ocorrendo desde o início da pandemia.

Com a demora da chegada de equipamentos de proteção, policiais improvisam álcool em gel do próprio bolso.

Entrega de máscaras na comunidade Tipóia, em meio ao avanço da pandemia.

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*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

*Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, pelo Serviço de Informação ao Cidadão da Polícia Militar do Estado de São Paulo - SIC/PM

Com a rápida circulação, as atividades do policiamento passaram a se reinventar. A Polícia teve que se adequar em meio a uma nova realidade. No tocante as operações atendendo denúncias via 190, por determinação do Comando da Polícia Militar, visando a proteção dos policiais devido à alta exposição de agentes, prisões e incursões passaram a se reduzir. Com a menor circulação de pessoas, roubos e furtos de carros também diminuíram ao longo do ano e moradores da periferia centralizaram em denúncias de perturbação do sossego, denunciando eventos irregulares espalhados pelo município. Para se ter ideia, se comparadas as denúncias entre 2019 - 4.863 -, até 29 de setembro de 2020 - 5.840 -, neste período, o ano ainda não fechou e a estatística de reclamações contra esse delito foi superada, sendo que já havia a expectativa de uma onda de reclamações no período do final do ano, quando são intensificados bailes ilegais na periferia.

Na atualidade, tenta-se vitimizar bailes clandestinos, onde há muitas vezes cumplicidade do tráfico, roubos e mortes, na desculpa da falta de lazer para os jovens. No Natal, cerca de 25 “caráter gerais” circulavam pelos fluxos. Em meio à paz idealizada, o final de ano torna-se um inferno para muitos.

“Tinham que fechar todas as adegas e lava rápidos, a gente percebe lu-

gares fechados de manhã e a partir das 18h30 temos que conviver com o barulho e aglomeração. A gente precisava de no mínimo dez viaturas nas vielas, mas duvido que a Polícia consiga essa quantidade para nos trazer paz. [...] Falta fiscalização (de posturas), para evitar que todos esses pontos que estão se iniciando novamente nos becos, são pequenos no momento, mas se não houver atuação vai aumentar muito... São quatro ou cinco pontos. O local do desmanche (foto) hoje em dia é um lava rápido.” – Fabiane

Carro de som na Favela do Casarão. 2020

Travessa Oswaldo de Andrade, Comunidade Marengo Baixo. Localidade de fluxo, aperentamente limpada após noite de pancadão. 2020

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Conforme mencionado no capítulo 5, o tráfico acabará sendo um dos crimes que se reinventou, reduzindo bocas de fumo pelas vielas das comunidades, espalhadas por todo o município. Em que pese o fato de ter feito bons registros de apreensões, não focarei totalmente nas ocorrências deste período. Sobretudo, a criminalidade é como um vírus que se adapta sob condições ambientais adversas.

“A pandemia, ela acabou por aumentar a criminalidade, tendo em vista que há muitas pessoas desempregadas no país e que acabam partindo para o lado da criminalidade. Sem contar que, com a necessidade de evitarmos a exposição (dos policiais), acaba prejudicando um pouco o nosso serviço durante as abordagens de veículos e pessoas.” – 1º Sgt Souza Reis

2º Sgt Da Silva, Cabos Geraldo e Bezerra. Incursão na Macieiras durante a pandemia

“O trabalho da Polícia Militar é pautado pela informação e legalidade.” – 1º Sgt Souza Reis, durante entrevista. Morro Pedra do Urubu, Vila Maria Rosa.

Abordagem durante a pandemia.

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“Não podíamos deixar de lado e continuamos atuando. A comunidade

é muito importante, através das denúncias que a população faz, conseguimos efetuar diversas prisões e recuperar muitos veículos, prender muitos infratores. [...] Acredito que a população ainda tenha muito receio de denunciar pois ela convive dentro da comunidade e acaba sabendo de tudo que acontece, ficando com medo de ser descoberta, acreditando que se ela efetuar a denúncia, embora a gente garanta o anonimato, acredita que pode acabar sendo descoberta. Ela tem medo de colocar em risco a sua vida e a vida da própria família. Acredito que falta um canal mais direto (Polícia e população) onde a população consiga confiar mais na Polícia e denunciar mais o que acontece no seu bairro. Somente com a denúncia é possível que a gente possa agir dentro da legalidade da lei, principalmente agora.” – 1º Sgt Souza Reis Cabo Dias durante incursão na Favela do Casarão. Operação contra o tráfico de drogas

Tenente Ramalho e Soldado Paulo, patrulhamento em meio à pandemia

1º Sgt Souza Reis e Cabo Ricardo, incursão na Macieiras durante a pandemia

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Em levantamento realizado pelo Instituto Sou da Paz, aponta que a criminalidade não passou imune diante dos impactos da pandemia. Embora ainda ‘controlados’, se comparados os registros de mortes violentas durante todo o ano de 2019 (19), com os seis primeiros meses de 2020 (19), Itaquá figurou no estudo de volta às primeiras 10 posições do Ranking de Exposição a Crimes Violentos, ocupando o 8º lugar. Alinhado à pobreza e injustiça, se o Código Penal fosse reformulado, serviria como vacina para a violência endêmica, talvez teríamos chegado próximos de erradicar o problema. Não é o que se vê. Vemos a alta de crimes passionais e hediondos. Após o aprisionamento de milhares de criminosos, com uma ‘população’ carcerária com mais de 215 mil presos somente nas 176 unidades de São Paulo. Há ainda o surgimento de milhares de facções no sistema prisional, ocorrendo um massacre silencioso entre elas. A alta incidência de uma doença, pode ainda ser chamada de hiperendêmica. Mais de 243 kg de drogas apreendidas durante averiguação na Vila Celeste, região do Odete.

1º Sgt Castro e SD Sérgio prendem autor de crime passional em flagrante, vídeo auxilia.

RPM localiza carga que havia sido roubada no Marengo, na divisa com Mogi das Cruzes.

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“Eu pensei que eles iam me matar. Era muita pancada na cabeça”, contou em entrevistas W., torturado na madrugada do dia 13 de junho, no Jaçanã. A ação foi gravada e moradores afirmaram que sofreram retaliações. Ocasionando a prisão preventiva dos oito PMs envolvidos, que atualmente respondem em liberdade. As cenas recordaram Diadema, em 1997. Quando o que se espera é uma Polícia ética, que distingue e opera dentro da legalidade. Perdendo respeito por atuar de forma violenta ou suspeita de corrupção, é o que fortalece a criminalidade e matérias tendenciosas. Desvios de conduta devem, serem expostos e combatidos.

“A comunidade com o passar do tempo ela acabou se distanciando da

Polícia, devido algumas abordagens incorretas que policiais acabaram cometendo, erros todos nós estamos sujeitos a cometer, esses erros acredito que acabaram fazendo com que a população se afastasse. Estamos aqui para fazer cumprir a lei e apoiar a comunidade. Desde o início da pandemia nós conseguimos arrecadar cestas básicas e ajudarmos famílias que ficamos sabendo que estão passando necessidades.” - 1º Sgt Souza Reis Policiais entregam cestas básicas e máscaras para famílias de invasão.

Policiais que realizam ações sociais, são os mesmos que combatem a criminalidade.

Policiais entregam cestas básicas e máscaras no Morro do Borges.

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A agressão acabou sendo flagrada em simultâneo em que policiais realizavam boas ações em áreas periféricas. Em Itaquá, no total foram arrecadadas mais de 60 cestas básicas, entre doações de mercados, igrejas e “vaquinhas” do bolso dos policiais. Sendo distribuídas em comunidades espalhadas na subárea de patrulhamento pertencente a 2º Cia. Mas foi no dia 25 de junho que militares protagonizaram um bonito gesto na periferia. Durante mais uma ação de distribuição de cestas, uma cena chamou a atenção de todos. Após entregar os alimentos a uma senhora, o Soldado Vasconcelos acabou sendo surpreendido com um singelo abraço de um garotinho, filho da mulher que momentos antes recebeu alimentos de doação. Flagrando a cena, rapidamente mirei a câmera e disparei. Sem muito planejar, a cena acabará sendo captada. Já havia visto aquela situação em outras entregas, inclusive em Mogi, no Natal de 2019. Mas o calor daquele abraço, o momento que passamos atualmente... Acabou sendo um instante captado de forma simbólica, de mais uma operação policial na periferia.

A fotografia viralizou. Num momento de radicalismo. Com a população criticando maus policiais cometendo abusos no Estado. Embora a imagem não tenha se igualado midiaticamente, pois por algum “motivo obscuro”, culturalmente cenas negativas tomam proporções maiores, também causou repercussão nacional. Chamou-me a atenção que naquele dia, partimos com duas denúncias de tráfico e acabará sendo decidido entregar os donativos antes da incursão no bairro vizinho. Dias depois, o garotinho, identificado como o pequeno “chocolate”, reencontrou a equipe e novamente correu para perto da viatura e abraçou o Vasconcelos, quando nos viu desembarcar. A mãe do garoto disse que ele gosta de ver a Polícia passando com o giroflex ligado no bairro periférico e que ele percebeu o gesto de fraternidade feito para ela e as famílias do local tão humilde. Estivemos diversas vezes num dos bairros mais precários da cidade e visitamos a casa do garotinho para conhecer a realidade de vida de sua família. Mas por questões de segurança e ética não será exposto.

Garotinho abraça Soldado Vasconcelos após ver mãe recebendo cesta básica

Reencontro entre a equipe policial e o pequeno Daniel, “chocolate”

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A criminalidade vendo a atuação positiva logo deram as caras. Chegaram denúncias na base da 2º Companhia informando que criminosos teriam pressionado alguns moradores. O fato teria ocorrido em comunidades onde estivemos para levantarmos a entrega de cestas básicas e brinquedos. Para mim, o registro de como as quadrilhas, mesmo que as favelas sejam patrulhadas, acabam determinando o que as pessoas humildes podem ou não fazer. Só quem mora nesses locais sabem exatamente como eles agem. A comunidade se torna uma vítima silenciosa do poder paralelo. Sozinha, a Polícia não conseguirá.

“[...] Teve que ser feito nas escondidas, a criminalidade ameaçou comu-

nidades para que não recebessem as doações que estamos distribuindo. Isso demonstra o tamanho da força que o crime exerce dentro da periferia... Mesmo assim, conseguimos realizar um bom trabalho trazendo parcela da população como amigos da Polícia Militar.” – 1º Sgt Souza Reis

Viela de acesso na comunidade Macieiras-Canoinhas, após fuga de traficantes.

Patrulhamento no Morro do Borges e Jardim Paineira

2º Sgt da Silva, Cabos Dias e Geraldo. Incursão na comunidade Macieiras-Canoinhas

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*Nome fictício, fonte com identidade preservada por segurança.

criminalidade crescer. Um bairro que ficou no esquecimento até por volta de 2012, daí por diante começaram a ouvir nossos apelos de socorro melhorando as ruas, limpando o matagal na margem do córrego Jaguari e iluminando pontos que não tinham iluminação, facilitando um pouco. Até a chegada do Caldeira a comunidade sofria com mortes, policiais corruptos... Nunca me esqueço do prefixo da viatura (35103) que só vinha no morro para pegar arrego e foi ele com amor e com carinho pela gente que acabou com eles. (emocionada) O tráfico de drogas comandava nossas vidas, todas as vielas do nosso morro eram famosas biqueiras e a nossa realidade hoje mudou, mesmo ele não estando mais entre a gente faz dois anos nunca esquecemos que ele deixou um legado para nós e para os policiais que até hoje continua. Sou grata por tudo que ele fez junto com a Polícia Militar pelo Marengo Baixo.” - Fabiane, Marengo Baixo.

DEPOIMENTO SOBRE O CALDEIRA

“O Coronel Caldeira… (emocionada) Desculpa… (emocionada) O

Coronel Caldeira para nós foi a nossa luz, nós estávamos no fundo do poço, (emocionada) e foi o Caldeira que atuou com amor, com dedicação, e com uma responsabilidade (mantendo denunciantes no anonimato) que a gente nunca tinha visto na vida… Foi um grande pai para a nossa comunidade e para as comunidades (chorando) de Itaquaquecetuba, mas de uma forma muito especial onde eu moro foi o Coronel Caldeira que conseguiu controlar! Acabar a gente sabe que é muito difícil, mas ele conseguiu, com muito trabalho, dedicação e responsabilidade tirar as crianças que viviam traficando (do crime), aquelas mães que utilizavam seus filhos para circular drogas, e daí por diante todos os crimes que aconteciam na comunidade como roubo, sequestro, assassinatos que muito ocorreram na comunidade, quando o caldeira, que muitos não conhecem essas patentes que os policiais usam, alguns chamavam ele Caldeira, de policial Caldeira, outros chamavam de delegado Caldeira… Ele teve diversos nomes na comunidade mas no fundo o que o Caldeira fez no bairro do marengo, na nossa comunidade tão carente e que era dominada pelo tráfico de drogas, as vielas do nosso morro era onde a gente passava e encontrava gente armada e com a presença dele tudo isso mudou, a gente hoje apesar de não compreender que ele deixou a cidade de Itaquá, ele se aposentou, a gente ainda sente na pele a falta desse homem, desse grande comandante. É até difícil falar o nome dele, é muito forte… (emocionada) [...] O abandono por mais de 20 anos fez com que a comunidade sofresse vendo a

Caldeira durante incursão na Comunidade Marengo Baixo. 2018

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Diego, como diz parte da Canção da PMERJ, ‘Ser Policial é sobre-

Rebaixamos os indicadores de letalidade policial mortal e aumentamos exponencialmente o número de prisões. Foram ‘colocados para trabalhar’ os diversos atores do sistema de justiça criminal: PM, Polícia Civil, Ministério Público, Defensoria Pública, Poder Judiciário e Sistema Prisional... [...] Tenho a consciência tranquila de que o que ganhei nesses bairros e cidades mais humildes foram pessoas orando por mim…isso não tem preço…pessoas gratas e que me colocaram ‘em suas lembranças’, mesmo eu lá já não estando fisicamente…por isso é uma razão de ser.…fazer as coisas não esperando nada em troca…e recebendo sorriso, respeito, admiração e preces, pra mim é o que importa.” - Caldeira

tudo uma razão de ser..é enfrentar a morte, mostrar-se um forte no que acontecer! ’ Pra isso, para desempenhar a árdua missão, você tem de ser vocacionado…ser ‘chamado’ desde adolescente ou jovem a desempenhar a missão de ser Policial…isso é motivação.... Além disso, você deve ter um ideal de vida...e isso depende muito dos valores que foram passados desde a infância…ser útil à sociedade, senso de justiça…se o seu ideal de vida é servir e trabalhar pela população, consequentemente você será um Policial atuante; atuante não é ser atrabiliário, violento, etc..é saber dosar o uso da força e usar do poder da lei em prol das pessoas que estão necessitando.... Se está motivado a isso, tem isso como ideário de vida, independente de maus chefes, injustiças e falta de estrutura, atuará firme contra o crime... tudo isso explica o porquê nos locais onde trabalhei, procurei defender a população conforme meus ensinamentos na Família e na Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Desde que me formei na APMBB, trabalhei em áreas periféricas. Como membro da PM identificava-me mais com áreas periféricas pois ali eu verificava que ‘podia fazer algo’ melhor para aumentar um pouquinho a qualidade de vida das pessoas...se você é um Policial que procura ser íntegro, na acepção real do termo, você passa confiança e consegue criar empatia…com confiança e empatia, aliado à humildade no trato com as pessoas, logicamente começam a surgir as denúncias com fatos que tanto abalam a classe mais humilde da sociedade.... No período em que comandei o 35º, digo que foi muito profícua a interação entre Polícia e Comunidades.

*Anderson Caldeira Lima esteve no comando do 35° Batalhão até junho de 2019, reformando. Em dezembro de 2020, aceitou o desafio do secretariado da Segurança Urbana de Itaquaquecetuba. *No dia 28 de dezembro de 2018, perseguindo um menor infrator sob chuva, em posse de uma motocicleta, produto de roubo, com a via escorregadia e de asfaltamento precário, a viatura desviou para não o atropelar na queda, batendo num canteiro. Balbino ficou hospitalizado cerca de um mês e meio. Devido às fraturas, passou para o serviço administrativo, adquirindo cabelos brancos e queda de fios capilares, reformando no início de dezembro de 2020. O menor, já possuindo duas infrações, saiu da delegacia horas depois do ocorrido. Dentre tantas outras, Balbino atuou durante oito anos na favela Macieirais no serviço operacional, a qual considera uma comunidade diferenciada no patrulhamento.

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CONTINUA...


AGRADECIMENTO ÀS FONTES Pela parceria de todos esses anos, de forma particular, agradeço à profissional Cabo PM Adriana, do Serviço de Comunicação Social do 35º Batalhão, que me trouxe para dentro do Quartel, apresentando-me aos Comandantes. Aos moradores de comunidades que me confiaram suas palavras e inquietações de forma anônima. Coronéis da reserva Prado; Caldeira e tenente-coronel Fábio Doll, os quais considero grandes mestres que me ensinaram tudo que sei sobre Polícia. Tenente-coronel Alexandre Vasconcellos, Major PM Joel Chen, Capitães PM Brenda, Calderaro, Jesus e Magalhães pela hombridade e respeito. Tenentes Hayashida, Vivian, Ramalho, Dirceu e Galvão. Ex-Comandante Geral Coronel PM Marcelo Vieira Salles, ex-comandante do Batalhão Itaquaquecetubense Figueiredo, ex-comandante do Batalhão Mogiano Protásio, Jornalista Roberta Trindade, a qual me espelho. Jornal Leia o Gazeta - Gazeta Regional, jornalistas parceiros Cláudia Irente, Márcia Dias e Marcus Pontes. E as professoras Dra. Mirian Meliani Nunes e Ms. Flávia Daniela Pereira Delgado, por toda a instrução proporcionada em sala de aula do curso de Jornalismo. Ao Comando de Policiamento de Área Metropolitana Doze (CPA/M-12), 17º e 32º Batalhões igualmente subordinados a este comando, Defesa Civil de Itaquaquecetuba, SSP, Centro de Comunicação Social da Polícia Militar de São Paulo – CcomSoc; e claro, ao 1º Sargento PM Souza Reis e a todos os valorosos Praças que serviram no Batalhão de Itaquá, simbolizados na figura do mais novo soldado ao antigo que aparecem nesta obra, bem como àqueles que acabará não sendo possível. Agradeço-lhes a camaradagem e confiança mútua durante todo este período acompanhando o árduo trabalho da Polícia Militar do Estado de São Paulo na região do Alto Tietê. Esta obra teve como objetivo humanizar moradores de favelas e policiais que arriscam suas vidas para atender chamados anônimos. Dedico a cada um de vocês.

Cabo Dias realiza oração antes de incursão em favela. 2018

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Não espere reconhecimento daqueles que não conhecem o cheiro da pólvora ou o calor dos incêndios” - coronel Marcelo Vieira Salles, ex comandante geral.

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BIBLIOGRAFIA ATLAS DA NOTÍCIA - Deserto de notícias: um panorama do jornalismo local e regional no Brasil. 1ª Edição - Novembro de 2017. Disponível em: <https://www.atlas. jor.br/docs/Atlas_da_Not%C3%ADcia-jornais_online-resultados.pdf>

INSTITUTO SOU DA PAZ. Instituto Sou Da Paz Lança Nova Edição Do Índice De Exposição A Crimes Violentos; Confira A Posição De Sua Cidade Em 2020. Publicado em 17/082020

AGÊNCIA BRASIL. SP: mais de 4 mil policiais estão afastados por suspeita de covid-19. Publicação em 02/06/2020

LIRA, Natan. Justiça condena por latrocínio segundo suspeito de participar de morte de enfermeira durante assalto em posto de Itaquaquecetuba. Portal G1, Mogi das Cruzes e Suzano. Publicação em 09/10/2020

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MELO, Leandro. Prefeitura de Itaquaquecetuba regulariza áreas de ocupação irregular. Diário TV 1ª Edição. Publicado em 25/11/2019

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FÁBIO MIRANDA. Jovem é executado com quatro tiros no rosto. Portal News. Publicada em 13/01/2018.

SENADO NOTÍCIAS. Projeto torna crimes hediondos furtos, roubos e receptação de cargas. Publicado em 04/06/2018

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Notícia de Crime: O trabalho da polícia militar no periférico município de Itaqua - Diego Juan by Rede Código - Issuu