Universidade Cruzeiro do Sul
HISTÓRIAS DE LUTA E FÉ Victorya Batista
São Paulo 2020
Batista, Victorya Nascimento (1996-) Histórias de Luta e Fé: a representação da força feminina nas religiões de matriz africana / Victorya Nascimento Batista — 2020 Orientadora: Prof.ª Dra. Mirian Meliani Nunes Trabalho de conclusão de curso (graduação) — Universidade Cruzeiro do Sul, 2020.
Questionei muitas vezes se deveria escrever este livro ou falar sobre esse assunto, pois, antes de tudo, eu via apenas que uma mulher branca estava decidida a escrever sobre mulheres negras de uma religião da qual também não faz parte. Assim, o julgamento interno me consumiu mais do que o prazer em contar essas histórias.
Prefácio Durante o tempo pesquisando sobre as religiões afro-brasileiras e sua influência no fortalecimento e emancipação da mulher, através do forte elemento do matriarcado presente nessas religiões, me deparei com a seguinte pergunta: em vista de todo o preconceito e intolerância que sofrem, como as religiões de matriz africana ainda persistem e continuam lutando para preservar seu sagrado? Em dada oportunidade, fiz essa pergunta à Prof.ª Dra. Patricia Teixeira Santos, da Unifesp, durante uma entrevista em que pude compreender que não havia uma resposta palpável, na qual eu pudesse me apoiar, mas ainda assim havia a compreensão humana, sentida e conectada: — Na minha visão, o que faz as religiões afro-brasileiras persistirem é porque elas respondem aos anseios da espécie humana. Quando entrei na faculdade, em 2017, me deparei com o novo mundo de ideais, ao qual me julgava preparada e convicta dos caminhos a seguir. Indubitavelmente, a minha percepção a respeito disso estava completamente errada. Ao longo dos últimos anos pude sentir as alegrias e dificuldades do caminho que escolhi, enquanto cada novo conhecimento adquirido me fez perceber que estava ainda menos preparada do que antes para o porvir — afinal, quem realmente está preparado?
Mas, inspirada pela relação de descoberta e crescimento pessoal, que experimentei durante esse tempo, decidi que este projeto faria mais pelas histórias que eu procurei conhecer do que por mim. Então, ainda pensando sobre isso, refleti sobre o que o jornalismo representava para a minha vida e, depois de ouvir conselhos e apoios durante o processo de pesquisa, comecei a entender qual era meu real papel. Eu não estava tomando um lugar de fala, mas abrindo espaço para que essas histórias fossem ouvidas. E isso respondia aos meus anseios de conhecimento. Ao longo desse projeto, em que decidi abordar o matriarcado das religiões afro-brasileiras, conheci mulheres fantásticas que abriram suas casas e seus corações para uma estranha. Adentrar em seus espaços pessoais, cheios de simbolismo e regados de fé, além de trazer uma experiência única de conhecimento, me trouxe uma conquista individual: a desconstrução dos pensamentos criados desde a infância sobre a demonização dessas religiões. Ao mergulhar no mundo delas, desde a primeira entrevista, pude sentir como tudo estava fluindo para o caminho certo, partindo do momento no qual saía de casa para conhecê-las, passando por todas as pessoas que me auxiliaram para que eu chegasse ao meu destino, até o meu retorno. Assim, o que a princípio eram apenas entrevistas, com relatos sobre histórias de vida, se transformou em horas a fio de conversas que me ofereceram muito mais do que uma reportagem, me ofereceram a construção de laços, com a promessa de retorno.
Fé e Isolamento
E
u não a conhecia. Minha primeira fonte surgiu através de uma conversa com uma amiga da faculdade, Carolina, antes do período de isolamento social. Ao me passar o contato, me informou que essa seria a pessoa ideal para me ajudar no que eu estava buscando - relatos reais e vívidos de quem ainda precisa lutar para defender sua fé. Já em tempos de pandemia do novo coronavírus, conversei com Vera Aparecida Nascimento algumas vezes por mensagens, apreensiva se poderíamos marcar nosso encontro, pois a mesma faz parte do grupo de risco de agravamento da COVID-19. Eu realmente não sabia o que esperar, mas me comprometi a ser o mais cuidadosa possível, não queria me contaminar e muito menos fazer com que mais alguém corresse o risco de contaminação. Assim, depois de algumas semanas, Omolewa (nome em Iorubá e pelo qual Vera prefere ser chamada) pôde me receber.
Parti em minha pequena aventura em direção a Poá, na capital paulista, em um domingo ameno. Durante todo o percurso até a casa de Omolewa, segui as orientações de uma amiga, que também reside no município. Patrícia me guiou de forma divertida e até a estação de trem, enquanto conversávamos sobre a possibilidade de eu me perder no meio do caminho - algo quase certo, dada à minha falta de senso de direção. Mas, seja por sorte, coincidência ou destino, Patrícia morava a cerca de 20 minutos da casa da minha entrevistada e gentilmente obrigou seu noivo a me buscar na estação e me levar ao destino final - mas claro, não sem antes apreciar um agradável almoço na casa de sua avó, dona Maura. Ao longo de minha pequena viagem até a casa de Omolewa, fiquei me questionando: “será que ela vai me receber bem?”, “será que a história dela é o que eu estou buscando?”. Já em frente ao portão, esperando para ser recebida, notei algo que pareceu singular, embora comum na maioria dos bairros perto de casa: no fim da rua, a poucos metros da casa de Omolewa, músicas gospel tocavam em alto e bom som. E nesse breve momento, pude refletir sobre essa outra manifestação de fé e fiz um questionamento interno... “Será que as músicas que vêm do terreiro, de dentro da casa de Omolewa, poderiam tocar da mesma forma que os cultos gospels sem que houvesse sinal de comoção dos vizinhos pelo volume do som ou seu conteúdo?” Eu sabia a minha resposta.
Pouco tempo depois, uma mulher elegante, de estatura média e com roupas coloridas, em tons fortes de amarelo, abriu o portão. Omolewa, junto de seu marido e de um cachorro [Spike] alegre e ansioso por receber uma aparente inesperada visita, se apresentaram sorridentes e gentis. Ao passar pelo portão, observei o quintal de pedra que abrigava o espaço do cão, a casa rústica que se seguia por toda a extensão lateral do quintal e envolta por uma telhado coberto de palhas, junto a decoração, que em sua simplicidade trazia a paz de um lar sagrado. Omolewa me guiou até seu espaço, onde o terreiro ficava, aos fundos de sua casa, em um lugar amplo e claro, que para minha surpresa, e evidenciando minha ignorância, não haviam imagens sagradas para serem cultuadas. Depois de um breve momento, Omolewa me resgatou de meus devaneios sobre o espaço como uma pergunta: - a Carol te contou que aqui é um terreiro de Candomblé? Por algum motivo a pergunta me pegou de surpresa - a ideia de que ela pensasse que eu me sentia desconfortável, de alguma forma, me incomodou. Em nenhuma hipótese queria que ela se sentisse apreensiva pelo meu olhar curioso, então fui enfática em minha afirmativa a pergunta. Durante nossa conversa, não houveram perguntas sem alma ou ensaiadas. Meu objetivo era fazer com que Omolewa se sentisse confortável ao abrir sua história de vida para uma estranha, e naquele momento tomei a decisão que guiou toda a essência deste livro: eu escutei. “A minha família era kardecista. Minha família toda, [por causa da] minha avó.” contou Omolewa, “Eu sou bisneta de escrava. [...] A minha avó foi uma mulher muito humilde, tinha raiz mesmo, nós somos descendentes de terra de Angola. Ela [a avó] foi filha de africanos, mas não conhecia o fundamento do Candomblé. Aí, ela seguiu o Kardecismo. Eu acabei fazendo meu santo na [nação] Ketu, em 1975. [...] não imaginava que um dia ia abrir casa, ser uma zeladora de santo. Mas com o decorrer do tempo, foram acontecendo coisas e acabei tendo que abrir minha casa de santo.
“E eu fiz meu santo com quinze anos de idade.”
Perguntei sobre sua infância e como foi viver o candomblé tão jovem. Sentada à minha frente, Omolewa puxou pela memória cada detalhe da história dos seus primeiros anos no candomblé “Eu tinha que ir para a escola de branco, com pano na cabeça os trajes que são exigidos para o sacrifício na religião. Eu ia, mas sofri muita discriminação... As crianças riam de mim, muitos colegas se afastaram de mim quando ficaram sabendo que eu tinha feito santo no candomblé, me chamavam de macumbeira, mas eu fui superando, sozinha.” Diante dessas memórias, Omolewa me trouxe outros detalhes de sua infância, entregando a realidade de uma criança negra que, embora enfrentasse uma verdade cruel, nunca deixou de ser quem era. - [...] tive problema com professores também. Já tinha por conta de ser negra e eu tinha boas notas, e isso não era muito bem aceito. Uma vez eu fui participar de uma peça de teatro, [...] quando o diretor da peça ficou sabendo que eu seria a terceira a falar ele me tirou e me colocou no fundo do palco, eu não podia me destacar. Quis saber mais sobre sua juventude e como se seguiram os anos a partir dali. Perguntei sobre seus primeiros trabalhos e estudos, mas o que pude notar foi que, independente dos anos que se seguiram em sua vida, nada daquilo que ela sofreu mudou. Se antes Omolewa sofria preconceito por parte dos colegas de classe, depois a descriminação veio por parte de seus colegas de trabalho. - Eu tive dificuldade quando fui trabalhar no jornal, [Omolewa quis atuar no jornalismo em seus primeiros anos de estudo] há muitos anos, acho que em 1979. Esse jornal [se] chamava Shopping News, no Bom Retiro. Estava tudo certinho para eu trabalhar. O pessoal me apresentou o dono do jornal e eu estava com tudo certinho, os critérios que ele pediu tudo direitinho. Quando cheguei lá eram muitos encarregados, aí eles não aceitaram. [Depois disso] também sofri muito preconceito quando eu entrei na prefeitura, [onde atua no serviço público], as pessoas discriminam.
“Amo o que eu faço, amo orixá, faço com muito amor tudo o que eu faço. É muito humilde, muito simples, porque na verdade o candomblé é humildade.”
O caminho de Omolewa até a abertura da casa de candomblé não se tornou mais fácil com o tempo, ela apenas aprendeu a enfrentar todas as pessoas que usam suas palavras e atitudes como forma de opressão a sua fé. “Não foi fácil. A gente, sendo mulher negra, é difícil. A gente encontra o preconceito por ser mulher, por ser negra e [ser] mãe [de] santo piorou ainda, porque a religião já sofre preconceito. Quando eu fui abrir essa casa de candomblé, aqui em Poá, eu sofri muita discriminação, principalmente, aqui no bairro, porque eu cheguei e [esse] é o único terreiro que tem aqui nesse bairro. E os vizinhos não entendem, não conhecem, [mas] já acham que é alguma coisa de mal, de magia negra, essas coisas, e não é. O Candomblé é uma nação de raiz. A primeira religião, na verdade, surgida. Veio antes do catolicismo, mas as pessoas não aceitam.” “Já começa o preconceito quando se fala magia negra, né?” perguntei a ela. “A descriminação já vem por ser uma religião de negros, porque nós cultuamos os orixás, nós cultuamos as nossas raízes, os nossos ancestrais, então é complicado, é difícil. Então, eu vim para cá, abri minha casa, sofri muita descriminação, tanto com vizinhos [quanto de] pessoas tentando que eu não conseguisse abrir, é muito complicado. Mas, estou aqui. [...] toco meu candomblé, amo o que eu faço, amo orixá, faço com muito amor tudo o que eu faço. É muito humilde, muito simples, porque na verdade o candomblé é humildade.” - ela respondeu. “É humildade e axé, porque nossos ancestrais foram escravos, sofreram muito, não tinha luxo. O começo do candomblé era chão batido, dançavam com o pé na terra, os orixás não tinham roupa
direito, eram panos amarrados. Aí vai passando o tempo, vai mudando e o luxo na verdade vem do homem, não é do orixá. O orixá, o que você colocar nele, ele aceita, mas o homem é vaidoso, ele quer se enfeitar. [...]mas, aqui a minha casa é muito simples, eu toco Angola bate folha. Minha raiz de santo, [pois] sou bisneta de Pai Erê Pires Fernandes, do Rio de Janeiro, neta de Namboazae e filha de Ubiacylé, que faleceu há três anos. E... continuo levando o legado do meu pai, tenho meus filhos de santo... e é isso.” concluiu. Ao questioná-la sobre como havia tocado a casa durante a pandemia, Omolewa foi clara em dizer que estava difícil, já que faz parte do grupo de risco - “Então eu não estou tocando, por conta de eu ser de grupo risco, estou preferindo fazer uma reunião com eles de longe, alguns só, meia dúzia de pessoas para não correr risco. Então eu não estou tocando e está difícil porque para tudo, porque nós temos obrigações. [...]Mas, o que acontece? Com a pandemia atrasou tudo porque nós estávamos com todo o calendário pronto, para recolher as pessoas, então acabou atrasando.”
Em meio a tantas dificuldades que ela enfrentou, em todos os seus dias, após fazer a escolha de viver o candomblé, perguntei se sua fé já havia se esvaído em algum momento: - “Já. Eu já tive problemas de saúde muito sérios, tive que parar no hospital, fiquei muito ruim. O médico me desenganou, falou que eu ia morrer e eu fiquei meio revoltada, porque a gente fica, somos seres humanos. Então você fala “Meu Deus, eu cuido[...] quem está na minha casa está todo mundo bem. Se outros estão bem, por que estão fazendo isso comigo?”. Mas a gente tem que pensar que nós somos comuns como qualquer outra pessoa, nós somos seres humanos, e quem manda em tudo é Deus. Não cai uma folha se Deus não quiser. [...] Eu acredito... é uma fé que não tem explicação.”
“Não foi fácil. A gente, sendo mulher negra, é difícil. A gente encontra o preconceito por ser mulher, por ser negra e [ser] mãe [de] santo piorou ainda, porque a religião já sofre preconceito.”
Palavras de Mãe
E
u saí da casa de Omolewa com mais do que uma boa história para contar, pois foi através dela que pude conhecer a minha fonte seguinte. Maria de Fátima Gonçalves é a própria personificação do título que abriga este capítulo. Dona de uma verdade transformadora sobre si, mãe Fátima, que é da umbanda, me mostrou mais uma face das religiões afro-brasileiras durante nossa conversa. Dessa vez, minha pequena aventura me levou até o bairro do Itaim Paulista, em São Paulo. Após um rápido contato por mensagens, marquei um encontro com Maria de Fátima Gonçalves, mãe Fátima, para o fim de semana. Era um sábado quente e seco, e depois de um longo e difícil período de calor e excesso de pessoas no transporte público, tive a surpresa: encontrei um velho amigo dos meus tempos de estágio, o “Marrom” (apelido pelo qual ele prefere ser chamado). Trabalhávamos juntos em um colégio particular de Guarulhos, e eu não o via desde então. Assim, conversamos sobre esse tempo passado e como as coisas estavam diante das incertezas da pandemia, quando
por fim ele me perguntou para onde eu estava indo. Coincidência ou não, estávamos indo para o mesmo lugar. Marrom morava a poucas quadras da casa de Fátima e foi meu guia durante todo o percurso até lá. Ao me deixar no portão da casa, disse que qualquer coisa eu poderia perguntar a qualquer um por ele, já que todos na vizinhança o conhecem. Ao chegar, tive o mesmo sentimento de quando fui me encontrar com Omolewa, “como vai ser?”. Fátima me recebeu no portão, sorridente, como uma amiga de longa data. Seu sorriso gentil e acolhedor me fez sentir bem. Ao entrarmos, fui recebida por todos os seus cães, eram muitos, ao nos aproximarmos da casa, ouvi uma voz calma e forte, que aconselhava alguém. Ao entrar na casa, percebi que Fátima tinha visitas. Uma mãe, junto da filha, buscavam os conselhos sobre os estudos da menina. Pai Tião, um senhor negro e alto, tinha uma expressão calma em seu rosto enquanto as aconcelhava. Depois de um tempo ouvindo as histórias de Pai Tião, segui com Fátima para o espaço dedicado aos orixás. Ao contrário do que vivenciei na casa de Omolewa, o espaço de Fátima era completamente oposto. Um pouco menor, mas muito aconchegante, a sala era repleta de estátuas, velas coloridas, quadros, fotos e tambores, que estavam distribuídos em todas as paredes de sua sala. Após um tempo observando aquele espaço, nos sentamos para conversar. Perguntei a ela se a umbanda fazia parte da sua vida desde sempre ou se ela havia chegado ali de alguma outra forma. “Minha história é assim: Minha mãe já era babá, e faleceu em [19]77, acho que eu tinha uns nove anos mais ou menos. Minha mãe já tocava a macumba dela - eu falo macumba no modo de falar, no jeito de se expressar [risos].” - contou Fátima. “Com sete anos eu já virei santo, [pois] sempre fomos umbanda aqui. Com oito [anos] sofri um acidente, [e] só não morri por Deus e minha mãe, [que] fez uma promessa para Bom Jesus da Lapa, que se eu sarasse ela ia me levar lá, lavar minha cabeça na gruta e eu ia me tornar uma filha de santo.”
Era nítido no olhar de Fátima a saudade da mãe e como as lembranças estavam guardadas em seu coração. “Quando eu tinha nove anos, minha mãe faleceu. Eu era só uma criança, e minha mãe deixou um menino adotivo, que ela pegou para criar... Meu irmão tinha um ano. Foi muito difícil, mas eu pedi para os orixás da minha mãe, onde eles estivessem, [para] que eles me ajudassem, porque eu precisava ajudar meu pai a criar meu irmão. Tenho meu irmão não só como meu irmão, mas como um pedaço de mim, porque ele foi meu companheiro.”
“Minha mãe fez uma promessa para Bom Jesus da Lapa, que se eu sarasse, ela ia me levar lá, lavar minha cabeça na gruta e eu ia me tornar uma filha de santo.”
“O tempo passou e quando eu tinha dezessete anos, a esposa do meu outro irmão mandou um pedaço de bolo para mim... Olha, [depois disso] eu fiquei três dias em casa e cinco no hospital. Eu ia para o médico e ele não achava nada, mas eu não tinha nada que o médico pudesse achar. Aí, uma conhecida da minha mãe, que foi filha de santo dela, trabalhou das 7h da noite até as 2h da manhã com um baiano, Zé do Coco, ele falou “quando o dia amanhecer, você vai pegar essa menina e levar para a casa grande que ela vai sarar.” e foi realmente o que aconteceu. Aí, a partir dali comecei mais a minha fé, comecei aquele amor pelos orixás de verdade, depois disse eu sarei. Eu tinha uma grande amiga que me levou no terreiro em Itaqua, eu fiquei 35 anos nesse terreiro. Quando eu cheguei pela primeira vez nesse terreiro... sabe quando você chega em um lugar e já fala “você já esteve aqui”? nas suas vidas passadas... Aí uma filha de santo, que era cega e recebia uma Preta Velha, acho que o nome dela era mãe Luiza. Essa preta velha não me quis, pensei “acho que estou tão pesada, tão perturbada que a mulher não me quis”. Depois, ela me levou para uma mãe de santo e falou assim - “minha filha, o que você está fazendo da sua vida?” e eu disse - “Nada.” - ela continuou - “olha, eu tenho uma mensagem para você, da sua mãe”, as mesmas palavras que minha mãe falava a preta velha falou - “Aqui está sua casa minha filha, aqui é sua casa”. Eu abracei aquela Preta Velha e chorei muito.
“Fiquei até os últimos dias de vida da minha mãe de santo. Ela foi uma mãe, uma professora. Ali eu casei, ali eu batizei meus filhos, sabe? Então foi uma história muito bonita, é um lugar que eu tenho muita gratidão.”
[...]Aí que eu comecei a fazer a gira na minha casa, conheci o pai Tião, foi depois de muita falação, muita coisa porque eu não aceita o Candomblé, eu não aceitava a Angola, que eu fiz minhas “partinhas”, que eu fiz minha primeira obrigação para Iemanjá e Oxalá que a gente fala, então minha vida mudou. Nisso eu já tinha conhecido outra senhora que me ajudou muito, sabe? Me ensinou muito também. Porque não importa se você tem um ano, se você tem 2, se você tem 3, o que importa é seu amor por orixá, a Deus. “Eu só sei que começou tudo na minha vida foi assim. Já vai fazer 8 anos, então eu estou engatinhando, estou começando a engatinhar. Eu sei muita coisa da umbanda. Do candomblé não sei quase nada, às vezes eu pergunto para a Vera, pergunto para o pai Tião, quando eu não sei eu procuro quem sabe para não errar porque estou com a vida das pessoas, da minha vida tudo bem. VN: Como o candomblé e a umbanda se relacionam? Fátima: Veja bem, a umbanda veio um pouco no começo do candomblé, só que muita gente não dá muito valor para umbanda, porque a umbanda tem o catecismo, mas foram os africanos que trouxeram a umbanda para cá, só que muita gente acha que se você não é da umbanda você não é nada. Como o pai Tião falou “Se você não tiver aquelas bolas no pescoço para brilhar, você não é nada”. Eu chego em qualquer candomblé, ponho um fiozinho de oxalá que é o bem simplesinho, sento lá e fico. Porque se me perguntar alguma coisa do candomblé, se eu souber responder, eu vou responder e se eu não sei? É motivo de chacota do povo. O povo fala que no candomblé se você não sabe responder a pessoa fica te “chuchando”. Eu não vou mostrar o que eu não sou, para ninguém, jamais na minha vida. É como eu falo para os meus filhos de santo aqui “eu sou da umbanda”, é pé no chão, não tem muito glamour.
“Eu também, no fundo, não queria ter escolhido esse caminho, mas Deus me deu esse caminho. Eu fui pela dor, não pelo amor. Ou eu ia ou não ia, então falei “vamos lá, vamos encarar, né”.
VN: Como é a gira? E como está sendo agora na pandemia fazer a gira? Fátima: A gente toca, reza. No candomblé eles rezam do jeito deles. A gente canta, a gente reza, quando começa, quando termina. A gente canta os pontos, salva Exu, salva Pomba Gira, trabalho com Ogum, com Oxossi… Sábado passado quando eu fiz, eu fiz fechado. Só os meus filhos de santo, só a minha prima e uma senhora. Não chamei mais ninguém, porque né… Desde fevereiro que eu não fazia nada. Só que o que acontece? Como eu vou fazer festa de Erê, eu tinha que conversar com os Erê. Ai, como eu vou conversar por telefone? Com espírito? Apesar que eu vejo cada coisa na internet... eu estava vendo uns vídeos... por isso que nossa religião está tão... outro dia eu vi um vídeo de um Oxum, fiquei besta. No final de nossa conversa, perguntei como era lidar com todos os percalços que a escolha da sua religião trazia para sua vida e o que levava ela a continuar - “Você tem que ter amor, amor mesmo, acreditar, ter fé e... sabe? Não tenho palavras, só tenho que agradecer por tudo que Eles me deram e Deus me deu. Pela minha família, pelo meu marido, por tudo que, a cada dia que passa, eu estou aprendendo mais e tenho que aprender muito mais porque a gente nunca para de aprender. Não tenho estudo. Eu me sentia muito inferior a muitas pessoas, mas a vida me ensinou uma situação: você sendo honesto, sendo verdadeiro, é a melhor coisa da vida. Você faz as coisas com amor, se dedicar. Tentar sempre estender a mão para o próximo, mesmo que às vezes o próximo não vá com a cara da gente, mas a gente não pode nunca desistir.”
Contos mil de uma vida Essa é uma história que eu não havia planejado. Ao contrário das minhas outras fontes, não tinha conversado ou tido algum tipo de contato prévio com o seu Sebastião Antonio da Costa, o Pai Tião. Entre a minha chegada a casa de Fátima, até o momento da nossa entrevista, foi que tive o prazer de conhecer e ouvir seus ensinamentos e as histórias de seu povo. Dono de uma memória excepcional e cheia de lembranças, Pai Tião se encaixou no meu projeto independente de seu gênero, pois sua experiência de vida dentro da religião era uma história que precisava ser contada. VB: É uma conversa, eu quero saber da vida de vocês, como vocês chegaram até aqui? Como é a conexão que vocês têm com os seus antepassados? Pai Tião: Então eu vou começar daquilo que meu povo passou para mim. Eu primeiramente, agradeço a Deus, depois aos Nkisi e também agradeço muito a minha mãe e ao meu povo que conheci. Eu nasci no ano 1953, às 20h e na mão de um orixá, que fez o parto de minha mãe. Nasci lá no meio do mato, na roça. Quem fez o parto de
minha mãe foi um orixá chamado Nanã, que na época eles contavam que o corpo estava com um só braço e uma perna, e na visão de hoje em dia seria uma cesárea, com o risco de morte. E a parteira que estava lá no momento, mãe Iaci, que viu a minha mãe naquele estado dentro do paiol de milho, botou a mão na cabeça e chamou mais duas parteiras para ir lá. As duas parteiras chegaram, também viram a situação, ficaram as três gritando. E tinha uma menina lá recolhida para Nanã, na época tinha 13 anos, que Nanã veio, pegou a cabeça dessa menina, tinha umas coisas lá do santo, passou a mão naquelas folhas que estavam ali, na água que estava lá e usou a barriga da minha mãe, soltou o Erê que foi na cozinha pegou o tição de lenha, virou e passou naquela cinza e cruzou a barriga da minha mãe, falou umas palavras e eu nasci e dali fui vindo.” VN: É uma história e tanto, o que aconteceu depois disso? Pai Tião: Em 1960, eu com sete anos brincando na rua, já era de tarde, apaguei e não vi nada, fui parar no hospital. Aí mãe Ansi foi lá no hospital, junto com meu irmão para ver onde eu estava, com um pano branco me tirou do hospital e me trouxe para roça, onde era o barracão e lá fizeram as coisas e eu virei um orixá com 7 anos, e estou nesse segmento até hoje. Então primeiramente, como eu falo, acredito em Deus e depois nos Nkisi e cada Nkisi para mim se refere a fonte da natureza que nós estamos vivendo, certo? Então desde de Exu, que as pessoas falam tanto mal de Exu que é isso ou aquilo, de chifre, rabo e essas coisas... VN: Para mim é o orixá da comunicação... Pai Tião: Orixá da comunicação, do caminho e assim vem vindo. Eu falo: nós dentro do conceito religioso temos que saber a teologia de cada orixá. Se a gente for ver a teologia de cada orixá, é igual eu Tião, nascido na mão de Nanã, que é a mãe mais velha do mundo para nós e foi mãe de três orixás Obaluaê, Ossaim e Oxumarê. Então ela foi mãe, quer dizer, todas as Yabás são mães. Eu sou uma pessoa rica de ter nascido na mão da mãe mais velha do mundo. E
é ligado a lama, pelo o que é falado a história, todos somos feitos da terra, do barro, então eu dou muita importância a isso. E também convivi com muitas pessoas que foram escravos, na minha cidade. Então eles contavam muitas histórias para mim, falavam as coisas. Na época, meu pai trabalhava na estrada de ferro da Leopoldina, que era uma companhia da Inglaterra. A gente era um pouco respeitado, mas era muito criticado, e eu nunca perdi a fé de Deus e dos orixás, daquilo que eu acho vale para nós aqui na face da Terra. Eu lembro das histórias que eles contavam e daquilo que eles passavam. E como o pessoal fala: que a palavra macumba é festa... VN: Achei que era um instrumento... Pai Tião: Pois é. É festa. É um instrumento. E o macumbeiro é quem ver ser o maestro. Então eu sou da nação Cassange com Congo, é um Angola. Então a história do meu povo é essa: diz que era um negro que trabalhava na fazenda e ele, na época, curou o filho do dono da fazenda e esse menino se agarrou muito com ele. Depois o dono da fazenda deu a carta de alforria para ele. O lugar está lá até hoje, chamado “Bela Aurora”, aí deram um pedaço de terra e ele ficou como pessoa da família. Ele passava em lugar e via um negro e falava “Aquele lá é meu parente”, aí o homem ia e comprava, trazia e deixava alforriado. E ali foram criados muitos. E também, com tudo isso que houve, ficou aquela aldeia ali. Você encontra negro lá que falavam diversas palavras que não sei falar, mas me lembro e entendia o que era. Lá ficou como um asilo, era uma casa grande e tinham aquelas camas feitas com colchão de palha de milho e os cobertores de saco de estopa que a mãe Nenê fazia. Tinha mais gente lá, a gente pegava os velhinhos e trazia para tomar sol e tinha umas outras meninas que ajudavam a dar banho, eu ia para a cacimba... sabe o que é cacimba? É uma bica d´água. Lá enchia as moringas de água, trazia e sentava nos pés de mexerica, laranja e me contavam as histórias. E sai com eles também, os que conseguiam andar, e eles mostravam as plantas que eram remédios e aprendi muito com eles. Fui filho da casa e dentro do nosso povo são três tipos de pessoas que não se raspa, que são: o Cutalo, ABiku e Ori-Axé. É passado todos
os conhecimentos, mas não se raspa. Quando faz 7 anos, cada um de nós recebemos a cuia, sabe o que é? A deká, onde você recebe a peneira... no nosso povo falamos cuia, mas outros falam oyê e outros deká. E uma coisa que sempre falavam para gente: todos os conceitos religiosos você tem que respeitar. Todos que dizem em nome de Deus você tem que respeitar. Que Deus para nós, dentro do nosso povo, vem Zambi, Olorum e assim em diante. E eu, na época, sofri muito porque tinha um pessoal que chegava para mim, passava perto da gente e falava: “negro diabo” outros falavam assim “você é um negro da alma branca”, então com isso tudo a gente passou. E eu vou falar para você: até hoje a gente encontra essa resistência, começou pela igreja católica, de falar que orixá é “isso ou aquilo”, e também muitas pessoas dentro do conceito, que não tem conhecimento, fica falando as coisas que não é. E nós temos que saber a teologia de cada orixá para poder falar do orixá, que nosso povo não sabe, não todos. Hoje tem uma oportunidade, você está escrevendo isso hoje, aquele que vai ler, vai entender. Os nossos antigos tinham como falar... VN: Hoje, o senhor sente que falta um pouco de respeito pelos mais velhos dentro da religião? Por que o nosso conceito religioso não é aceito? Principalmente aqui no Brasil, os culpados mesmos somos nós, nessa questão de distorcer, se você pegar uma imagem de exu, é escandalosa, é forma de um bicho, tem aquela caveira do lado, as imagens das mulheres com um decote, é uma coisa feia. Pra que isso? Vamos mostrar que não é nada daquilo. Deixa a casa de umbanda vender, compra quem quer, o cara vai vender mesmo, mas se você tem a sua consciência que não é aquilo, não é melhor não comprar? É uma falta de respeito. Hoje, você anda aí e vê nos postes “trago seu amado...” Isso aí é pantumia, é mentira, é o faz-me-rir. Hoje, muitas pessoas com aquela malícia na cabeça, com besteira na cabeça, quando chega em um lugar que fala a verdade, já não gosta. Porque, veja só, está atrapalhando a vida de uma outra pessoa, tirando o pão de cada dia da boca de uma criança e vem
uma mentira, quando vê é aquela briga, aquelas coisas todas. Se tudo aquilo existisse como está no papel no posto que é pregado... aí eu falo para você: aonde que aquelas escravas iam sofrer? sofriam estupro, abuso e as mães sabendo não ia fazer o feitiço? Então isso existe. A única coisa que o negro sempre lutou, que eles olhavam para cima “oh, Zambi, nós estamos pedindo a paz, queremos viver em paz”. Aonde que eles iam sair do porão de um navio para vir para cá se soubesse tanto como eles falam que é do “capeta”, com tanta sabedoria, eles iam sofrer aqui? Não ia. Ia fazer algo completamente diferente. Então nada disso. Vieram, sofreram, clamavam a Deus e ali iam os seus pedidos. Você um lugar falar assim “reza o pai nosso em português”, “vamos rezar o pai nosso em Iorubá” e é lindo! E você não vê rezar e para que esconder essa palavra tão bonita? A palavra que pai nos ensinou que é falada em diversos idiomas. Por que não é falado? Isso é um pecado. Nós temos histórias lindas e tristes, mas temos história aí. Tem coisa que nós temos do nosso povo que nós podemos trazer. Nosso culto religioso é bonito, é lindo. Presta atenção: “Ogum não devia beber / Ogum não devia fumar / A fumaça é a nuvem que passa / A cerveja é a espuma do mar”. O que traz isso para você? A fumaça é a nuvem que passa e a cerveja é a espuma do mar... então me traz uma lembrança, muito triste. Quando os negros vinham do porão, diversos estavam ali, diversos dialetos, todos eles davam as mãos juntos, escondidos, em uma lágrima só, em um sentimento só, olhavam para cima as nuvens passando, estavam ali no porão do navio olhando aquilo lá, aquelas espumas. Todos com uma dor só, um sentimento só e em um momento só, para todo mundo morrer junto.
Epílogo Ao sair de casa, para conhecer cada uma dessas histórias, me fiz atenta a cada movimento em meu entorno. O que diziam, o que faziam, o que se apresentaria para mim até chegar ao meu destino. E assim, fui tomada por uma série de eventos que poderiam facilmente se passar por simbolismos do divino, algo celestial ou como queira chamar. Diante do caminho que percorri para a primeira entrevista, minha jornada começou com uma pequena carta na caixa de correio. Escrita a mão, a carta dizia que alguém estava orando pelas pessoas residentes da casa e que bons momentos estavam por vir. Levei isso como algo bom, embora eu não siga uma religião, sempre aceito boas palavras. Nesta jornada, encontrei velhos conhecidos, tive ajuda (mesmo que remota) de amigos com quem passei os últimos 4 anos de faculdade, encontrei pessoas que me receberam de braços abertos e desconhecidos que foram gentis em me apontar caminhos. A todos que fizeram parte deste livro, direta ou indiretamente, meus sinceros agradecimentos.
Agradecimentos Antes de tudo, quero agradecer às minhas fontes, Vera Aparecida Nascimento, Maria de Fátima Gonçalves, Sebastião Antonio Costa e à Prof.ª Patricia Teixeira Santos, obrigada por me receberem e por dedicarem tempo a este projeto, sou imensamente grata. À minha orientadora, Prof.ª Dra. Mirian Meliani Nunes, não apenas pelas orientações, mas por ter caminhado comigo nessa jornada, por mais difícil que tenha sido, nunca me deixou desistir e acreditou até o fim. Aos meus amigos, Cassia Morais Martins, Patricia Pontes, Fernanda Iana, Carolina Mangieri, Pedro Henrique Paz e Daniel Lima e à minha prima Barbara Pires, por terem permanecido comigo até o último minuto dessa jornada. Sem eles nada disso seria possível.
“Não foi fácil. A gente, sendo mulher negra, é difícil. A gente encontra o preconceito por ser mulher, por ser negra e [ser] mãe [de] santo piorou ainda, porque a religião já sofre preconceito.”