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HORA EXTRA: Histórias de profissionais que lidam com a depressão - Camila Lapa de Menezes

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HORA EXTRA: histórias de profissionais que lidam com a depressão

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FICHA TÉCNICA

CAMILA MENEZES

Autora: Camila Lapa de Menezes Ano: 2020 Número de páginas: 89 Formato: 14 x 21 cm Orientação: Mirian Meliani Revisão: Beatriz Ferreira Projeto Gráfico e Diagramação: Thiago de Barros Carneiro Ilustração: Paloma Figueiredo Universidade Cruzeiro do Sul

HORA EXTRA: histórias de profissionais que lidam com a depressão

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Este livro é dedicado à todas as pessoas que passam ou já passaram pelas angústias de uma doença psicológica. E, acima de tudo, aos que lutam todos os dias para vencer seus problemas.

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SUMÁRIO Prefácio - por Beatriz Ferreira ................................... 11 1. A depressão como hora extra ................................. 15 2. A pressão que vem pelo telefone ............................ 23 3. O peso emocional de uma farda ............................ 37 4. As consequências de ser um educador que se importa com seus alunos ......................................................... 47 5. A segregação e a pressão corporativa que afetam a vida pessoal ................................................................ 61 6. Afinal, vida pessoal e profissional se misturam?..... 69 Agradecimentos ........................................................ 83 Procure ajuda, você não está sozinho ..................... 87 Notas ......................................................................... 88

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PREFÁCIO

“Nada acontece a alguém que a natureza não o tenha preparado para aguentar!” O gladiador

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Quero começar este prefácio dizendo que eu tenho certeza, que você conhece alguém, amigo, parente ou vizinho, que sofre ou já sofreu, de depressão. Esta pessoa pode ser inclusive, você mesmo, afinal, diante da enorme pressão emocional que temos vivido diariamente, seja no ambiente de trabalho, na vida estudantil ou familiar, entre tantas outras, esta doença, infelizmente, se tornou comum. Resumindo, somos cobrados por todos e a todo momento, em tudo que fazemos. Com isso, realmente é possível dizer que a depressão se fixou como a doença do século XXI. Na verdade, eu iria até mesmo além dessa afirmação e diria que, a ansiedade exasperada que temos vivenciado, estabeleceu este cenário. O desgaste emocional é constante. As crises então, cada vez mais comum. Não à toa, cresceu o número de pessoas em busca de terapia ou projetos que envolvam o tema. A pandemia mundial do novo Coronavírus por si só realçou a importância do assunto, uma vez que, os medos e as incertezas, tornaram-se constantes. Ou seja, não basta priorizar somente a saúde física, visto que, o nosso mental compromete (e muito), basicamente tudo. Vou contar um segredinho para vocês, eu mesma faço terapia, e não tenho vergonha em dizer. Precisamos quebrar determinados tabus e parar de permitir que doenças como esta, afetem negativamente como nos sentimos, pesamos e agimos.

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As rotinas exaustivas associadas a pressão por excelentes resultados e a necessidade de melhorar continuamente o desempenho no ambiente de trabalho, precisam ser equilibradas, pois mais do que um emprego, precisamos ter qualidade de vida para mantê-lo. Desse modo, dado a relevância do tema, quando a Camila me convidou para escrever este prefácio, eu já imaginava que as histórias presentes neste livro, seriam incríveis, mas confesso e afirmo, que você leitor, irá se surpreender e muito, afinal, são narrativas de pura superação e lição de vida. Tudo com muito amor e carinho, aspectos extremamente fundamentais para a abordagem de um assunto tão delicado, mas necessário atualmente.

Beatriz Ferreira

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CAPÍTULO 1 A depressão como hora extra

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Desde o momento do nascimento ao término da vida, os seres humanos possuem relações estabelecidas por meio da interação e do convívio em sociedade. Essas interações são moldadas pelo ambiente e pelos avanços da humanidade. Estes avanços também influenciam a forma como nos informamos, trabalhamos, estabelecemos relacionamentos e até, como mantemos a qualidade de vida. E nossa qualidade de vida não é moldada apenas na saúde física, mas também, na saúde emocional. A depressão é a doença do século. Com certeza você já ouviu essa afirmação em algum programa de TV, leu em algum jornal ou revista. E, se você ouviu, é porque de fato, a depressão é a doença que mais tem afetado as pessoas na atualidade, logo, a que mais tem sido falada pelos meios de comunicação, algo que até pouco tempo, não víamos. Um exemplo disso pode ser a reportagem de 14 minutos realizada pelo programa Fantástico da emissora Globo, exibida em 2013, que trouxe o doutor Drauzio Varella mostrando que quem sofre de depressão tem, pelo menos, dois sintomas, como falta de prazer e tristeza profunda. Podemos chamar de um grande avanço para a visibilidade da doença e de quem a possui, o espaço para interação que a internet proporciona. Outra amos-

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tra disso, foi descobrir, através da internet, que o famoso humorista e youtuber, Whindersson Nunes, lutava contra a doença. O jovem do Piauí, de apenas 25 anos, possui mais de 41,3 milhões de inscritos no YouTube, e mais de 47,2 milhões de seguidores no Instagram. Porém, nada disso foi suficiente para suprir o vazio e a tristeza que ele sentia por causa da doença. “É justo o questionamento das pessoas. Poxa, tem tudo, tem dinheiro, tem a viagem dos sonhos, tem isso, tem aquilo. Não é algo que me revolta, porque a pessoa fala isso. Na verdade, é um problema para mim. Porque eu penso: ‘Poxa, realmente eu não devia ter passado por isso’”, falou em entrevista para o Fantástico, em 2019. Muitos artistas da grande mídia também divulgaram sofrer com a doença, como: a cantora Paula Fernandes, o ator e diretor Selton Mello, os atores conhecidos por suas comédias, Jim Carrey e Owen Wilson, e até a falecida princesa Diana, que chocou a família real britânica quando deu uma entrevista à rede de TV BBC, em 1995, dois anos antes de sua trágica morte. Além de expor o fracasso da sua vida conjugal com o príncipe Charles, ela contou que sofreu com a depressão pós-parto, chegando a se automutilar. Em 2004, a emissora divulgou trechos inéditos em que ela dava detalhes sobre sua tentativa de suicídio¹. O público em geral fica atônico quando um artista ou personalidade de mídia comete suicídio. E esse fato já ocorreu com diversos nomes da mídia, como: o vocalista do Linkin Park Chester Bennington (19762017), o DJ Avicii (1989-2018), em um caso mais recente, o ator Flávio Migliaccio (1934-2020). O fato de pessoas famosas divulgarem publica-

mente que tem o diagnóstico da depressão, que tratam e convivem com a doença, ajuda a desmitificar e diminuir os tabus em torno dela, o que causa mais visibilidade e relevância, ao passo que vemos, cada vez mais, campanhas de prevenção que auxiliam estas pessoas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 300 milhões de pessoas sofrem de depressão no planeta. Dentre essas 300 milhões de pessoas, pode estar seu amigo, vizinho, colega de trabalho, parente, até mesmo você. A doença que pode ser crônica, principalmente quando não é tratada, é resultado de uma complexa soma de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Além disso, em seu nível mais elevado, pode causar o suicídio. Ainda segundo a OMS, entre 2010 e 2016, a taxa global de suicídio caiu 9,8%, com quedas que vão de 19,6% na região do Pacífico Ocidental a 4,2% na região do Sudeste Asiático. A região das Américas, onde o acesso a armas de fogo é um importante meio de suicídio, é a única que registrou um aumento, de 6%. Porém, mesmo com dados que demonstram uma considerável queda, cerca de 800 mil pessoas acabam com suas vidas todos os anos no mundo, o que equivale a uma morte a cada 40 segundos. Com um cenário de aumento anual agravante, (entre 2005 e 2015, o número de casos da doença cresceu 18%, revelou a OMS), a depressão pode ter como estopim, fatores de diversas categorias no dia a dia, como no ambiente de trabalho. Uma pesquisa feita pela revista Health, listou as profissões com mais riscos de despertar depressão no mundo, entre elas: profissionais da saúde, agentes da lei, profissionais da educação, empresários, garçons, e até operadores de telemarketing.

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Em 2016, a Previdência Social registrou o afastamento de mais de 75 mil trabalhadores no Brasil por causa de depressão, cerca de 37,8% do total de licenças por doenças mentais, segundo a revista Exame. “Estes novos números são um sinal de alerta para que todos os países repensem suas abordagens à saúde mental e tratem-na com a urgência que merece”, afirmou a diretora-geral da OMS, Margaret Chan². A partir desse cenário mundial, é importante enfatizar o que muitas pessoas ainda insistem em dizer o contrário: a depressão é sim, uma doença. Pode ser despertada por fatores ocorridos na vida do indivíduo, por altos níveis de estresse, pela morte de algum ente querido etc. E falamos em despertar, pois a depressão, como veremos mais para frente, em entrevista com uma psicóloga, é um transtorno de humor, com causa química e psíquica. Isto é, ela pode ser agravada no ambiente de trabalho, porém, o estresse e a pressão vividos na rotina profissional não são causas da depressão, e sim, as ‘gotas d’água’, para o agravante da doença. É essencial salientar que há tratamento, apesar de ainda não ser falado em uma cura efetiva. No quesito profissional, as empresas, organizações, empregadores e o Governo, são essenciais para ajudar na prevenção da doença, com ações de intervenção e cuidado psicológico nos ambientes de trabalho. Um exemplo de campanha para a prevenção, é a do Setembro Amarelo, que fala mais especificamente sobre a prevenção ao suicídio. A campanha se iniciou nos EUA, quando Mike Emme, de 17 anos, cometeu suicídio, em 1994. Mike era um rapaz muito habilidoso e restaurou um automóvel Mustang 68, pintando-

-o de amarelo. Por conta disso, ficou conhecido como “Mustang Mike”. Seus pais e amigos não perceberam que o jovem tinha sérios problemas psicológicos e não conseguiram evitar sua morte. No dia do velório, foi feita uma cesta com muitos cartões decorados com fitas amarelas. Dentro deles tinha a mensagem: “Se você precisar, peça ajuda”. A iniciativa foi o estopim para um movimento importante de prevenção ao suicídio. Como consequência dessa triste história, foi escolhido como símbolo da luta contra o suicídio, o laço amarelo, assim como outros laços de inúmeras cores, usados em diversas campanhas³. Ao decorrer das pesquisas e entrevistas para este livro, vemos que a depressão é formada por diversos “episódios depressivos”. Esses episódios podem ser categorizados como leves, moderados ou graves, dependendo da intensidade dos sintomas. Um indivíduo com episódio depressivo leve, pode vir a ter alguma dificuldade em continuar um trabalho simples e/ou interações sociais, mas, provavelmente, sem grande prejuízo no funcionamento geral de sua saúde emocional. Porém, durante um episódio depressivo grave, é improvável que a pessoa afetada, possa continuar com atividades sociais, de trabalho ou domésticas. Ambos os tipos de depressão podem ser crônicos (isto é, acontecem durante um período prolongado), especialmente se não forem tratados. Por isso, com a junção de todas as histórias aqui relatadas, a importância e a relevância para cuidados com a saúde emocional de cada profissional, e, primeiramente, cada ser humano, é para se destacar. Um profissional com seu emocional abalado pode afetar seu

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desempenho. Um médico que sofre de depressão pode cometer um erro grave numa mesa de cirurgia. Um policial com níveis exasperados de estresse pode destruir a vida de um inocente. A saúde emocional está relacionada à qualidade de vida, ao bem estar e ao equilíbrio da pessoa consigo mesma e com o mundo. Desse modo, se há esse desequilíbrio, é importante entender os sintomas, suas complicações e as possíveis formas de lidar com as adversidades.

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CAPÍTULO 2 A pressão que vem pelo telefone

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Todos nós sabemos que quando temos algum problema na nossa linha telefônica ou de internet, na maioria das vezes, a melhor solução, é ligar para o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) da empresa que oferece o serviço e, com isso, temos que estar munidos de muita paciência, porque o atendimento das empresas de telefonia no Brasil está entre os piores e mais precários do mundo. O atendimento via Call Center pode levar até mais de uma hora, dependendo do caso. São pedidas diversas informações, a pessoa é transferida de um atendente para o outro e, no final, na maioria dos casos, o problema não é resolvido. Podemos encontrar experiências ruins de clientes com operadores de telemarketing facilmente, é só tocar no assunto em qualquer roda de conversa, que todos tem uma história para contar, e os que ainda não tem, com certeza vão ter um dia. Mas, será que, em algum momento, esses indivíduos pararam para pensar sobre a situação da pessoa do outro lado da linha? Já tentou se colocar no lugar do atendente de Call Center? “Você não presta pra nada!” essa é uma das milhares de frases que muitos operadores relataram já ter escutado, durante a sua rotina de trabalho. Os operadores de telemarketing trabalham, em média, 6h20 por dia, têm pausas cronometradas (assim como idas ao banheiro) e apenas 20 minutos para refeição. A profissão de atendente de Call Center – ou operador de tele-

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marketing – está na lista das profissões mais estressantes do mundo, e no Brasil não é diferente. Segundo o site Sintratel, existem 5 principais problemas que todos os atendentes de telemarketing enfrentam: 1. A péssima remuneração. Normalmente, as empresas que trabalham com o telemarketing possuem um plano de carreira que pode ser alcançado pelo funcionário: ele começa em um setor e, dependendo de seu desempenho, pode ir subindo de cargo. Porém, devido a maioria das empresas de telefonia e telemarketing terceirizarem os atendentes, a remuneração costuma ser baixa, e os aumentos são escassos. 2. A pressão psicológica. São comuns os casos de atendentes de Call Center, afastados de suas funções por problemas psicológicos ou de depressão, “a pressão no telemarketing é muito grande, você entra ali e são só cobranças, muitas vezes, palavras não agradáveis, e a gente termina tendo que dispor mais do que deveria para poder entregar o que precisa” relata Marilena de Sousa Vieira, 34, que trabalhou três anos e meio no telemarketing e, hoje, é Analista de Pricing marítimo. Toda empresa de telemarketing e telefonia possui metas que seus funcionários devem alcançar todos os dias. Os supervisores são responsáveis por cobrar os resultados, e os atendentes são advertidos até quando deixam de atender (por algum motivo) tal ligação. Além disso, eles têm algo chamado de Tempo Médio de Atendimento (TMA), que

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determina que eles não podem ficar muito tempo em um só cliente, e precisam atender um determinado número por dia. 3. Bodes expiatórios. Quando uma pessoa entra em contato com um operador de telemarketing, normalmente, ela já está estressada e frustrada. Nas empresas de telefonia e telemarketing existem as “áreas de retenção”, que são setores responsáveis por reter um cliente que liga disposto a cancelar o serviço. Esse setor tem que fazê-lo mudar de ideia para que não cancele. E é justamente nessa área em que os funcionários encontram os clientes raivosos e revoltados que entram em contato. “Quando um cliente se excede, você não tem o direito de revidar de nenhuma maneira, ele pode gritar o quanto quiser, você tem que se manter calmo, mantendo o controle da situação, da melhor maneira possível. Se formos ríspidos ou gritarmos de volta, recebemos uma monitoria negativa e isso acaba prejudicando o trabalho de alguma maneira. Se o cliente chegar a ofender, temos o direito de avisar para ele que se isso acontecer mais duas vezes ao longo do atendimento, podemos encerrar a chamada. Nada além disso. E, por parte do cliente, além da monitoria, corremos o risco de ele fazer uma reclamação formal” contou Isabella Beatriz Nascimento Fonseca, 19, que trabalha como atendente de telemarketing há pouco mais de um ano. 4. “Escravidão”. Muitos dos ex funcionários de telemarketing relatam ter vivido uma espécie de escravidão dentro das

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5. “Pede pra sair!” Na teoria, em todas as empresas dessa área, há setores especiais para manter o bem-estar do funcionário: equipes de psicólogos, médicos do trabalho, palestrantes etc. Entretanto, quando os funcionários estão insatisfeitos ou discordam de algumas coisas, podem começar a sofrer pressão de seus superiores para que peçam demissão, ao invés de incentivá-los e tentar entender seus problemas. Vários são os relatos de ex-funcionários que ouviram, de forma indireta, dos seus superiores um “pede pra sair!”. Os problemas dos profissionais dessa área, obviamente, vão além destes citados. Uma das entrevistadas, a então atual analista de pricing marítimo, Marilena Vieira, relatou algo muito comum não só na área de telemarketing, mas em qualquer profissão: o assédio sexual. “Eram dois supervisores, um de manhã e outro a noite. Como eles me colocavam em muitas situações, eu terminava dobrando os meus períodos de trabalho, e às vezes, eu ficava trabalhando nos dois períodos. O

chefe da noite chegou a fazer propostas sexuais, e eu na época muito boba, não estava entendendo. Uma pessoa da equipe da noite também, mas essa chegou a verbalizar quanto ela pagaria para sair comigo”. Uma juíza da 3ª Vara do Trabalho de Brasília, determinou que a SFB Serviços de Apoio Administrativo Ltda. pagasse indenização por danos morais no valor de R$ 4 mil a uma operadora de telemarketing vítima de assédio sexual no ambiente de trabalho. De acordo com informações colhidas, a empregada era assediada por um supervisor, o qual dizia, em voz alta, que queria transar e ficar com ela. A prática do assédio sexual ocorria, muitas vezes, na presença de outros trabalhadores¹. O fato ocorreu em 2014, porém, não é difícil encontrar histórias parecidas atualmente. Quando perguntado se Marilena chegou a registrar um boletim de ocorrência contra o assédio, ela respondeu: “eu cheguei a falar com a coordenação, denunciei o assédio apenas lá dentro, sem ir à polícia. Eu me relacionava com uma pessoa de dentro da empresa, e comentei com ele as coisas que eu estava passando. Quando eu fui conversar com a coordenação, eles me falaram que uma pessoa já tinha passado as informações, e que os supervisores não iam mais fazer isso. Depois de um tempo, esse menino que eu me relacionava, me disse que foi ele quem fez a reclamação formal”. Como já vimos antes, a profissão de atendente de operador de telemarketing está na lista das profissões mais estressantes do mundo. A profissão é comum, principalmente, entre os jovens e é considerada a porta de entrada para o mercado de trabalho para boa parte deles. Estudos mostram que, além das mulheres serem

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empresas de telefonia. Isso porque, quanto mais baixo o cargo, mais trabalho o funcionário tem. As pausas e o tempo para refeição também são um exemplo dessa situação. Muitos falam não conseguir mastigar direito, e acabam engolindo a comida por medo de levar uma advertência – fato que já ocorreu diversas vezes. “Eu trabalhei 3 anos lá, a partir do segundo ano, eu chorava todos os dias. Era uma pressão muito absurda, um estresse muito absurdo, eu era muito cobrada, eu lembro que eu entrava chorando e saia chorando” , conta Marilena.


maioria no setor e os principais alvos de assédio moral e sexual por parte dos supervisores (como demos um exemplo bem claro disso), são também as que têm a saúde mais afetada, por causa da sua jornada de trabalho nos seus lares, que é somada ao estresse diário dentro das empresas. Para exercer a função, os interessados costumam passar por alguns dias (às vezes semanas) de treinamentos, que variam entre aulas de português e de boas maneiras à uma parte específica sobre os procedimentos da empresa que irão atender. “Eu entrei primeiro como jovem aprendiz, então teve um cursinho de capacitação dentro da empresa, no qual a gente ficava um determinado período numa sala como se fosse uma escola”, conta Isabella. O dia a dia da profissão, a pressão e os fatores ruins que os profissionais vivenciam podem ser o estopim para uma doença emocional, como a Isabella contou: “eu fiz um tempo de terapia antes de entrar na empresa, pois eu já tinha um quadro de ansiedade, e também já tive um quadro de depressão antes. Eu não chegava a ter ataques, eu me sentia ansiosa, me sentia mal, mas não chegava a ficar com falta de ar, com tremedeira, nada disso. Porém, desde que eu comecei a trabalhar nessa área, isso começou a acontecer. Inicialmente com ataques mais “leves”: me sentia ansiosa e começava a suar e ter tremedeira, depois cheguei a um ponto de ter dor no peito e jurar que eu estava infartando”. O número de doenças diagnosticadas em pessoas que exercem essa função é crescente. Somente na Região Metropolitana de São Paulo, de acordo com dados do Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing (Sin-

tratel), existem aproximadamente 100 mil profissionais nesse segmento. Além disso, ainda segundo o sindicato, sobre as doenças do trabalho, pesquisas apontam que 36% sofrem de lesão por esforço repetitivo (LER), 30% de transtornos psíquicos e 25% apresentam alguma perda auditiva ou de voz². “Esse quadro de ansiedade é o que eu mais percebo entre os operadores. Já cansei de entrar no meu trabalho e ver colegas tendo um surto de ansiedade, pelo menos um ou dois operadores por dia, a gente acaba presenciando” completa Isabella. A pressão e o desgaste emocional nesse tipo de trabalho é algo esperado e possível de se imaginar por alguém que está se candidatando a vaga. Isabella conta que já no curso preparatório, os funcionários foram alertados de uma certa incidência no estresse que um operador de telemarketing pode passar: “eles chegaram a comentar no treinamento que esse tipo de coisa acontecia. Não falaram para ninguém que era comum, até para não assustar. Porém, falaram que, às vezes, acontece do cliente te xingar e que você tem que manter a calma”. Ela ainda conta que teve sorte, pois o seu supervisor se formou em psicologia, e tentava ajudar os funcionários de alguma forma: “ele percebeu algumas diferenças de operadores na equipe. Tem aquele operador que é mais estressado, então o nosso supervisor sabe como esse funcionário vai reagir, e quando ele percebe que o atendente está gritando com o cliente, ele derruba o contato ou ele fala para o atendente derrubar e ir tomar uma água. Tenta se manter o mais compreensível possível. Ele trabalhou como operador, e por ter se formado psicólogo, ele entende melhor, não fica forçando o atendente a continuar o atendimento,

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mesmo não estando bem, como acontece com outros supervisores”. Conforme realizei as entrevistas para este livro, perguntei a todos que desejaram dar os depoimentos sobre as suas histórias, se a organização em que eles trabalham ou trabalhavam, disponibilizavam algum tipo de ajuda psicológica. Em alguns casos, como veremos mais para frente, os profissionais tinham a sorte de possuir essa ajuda disponível em seus ambientes de trabalho. Mas, em algumas situações, como a de Isabella, a história era diferente. “Como falei, eu sempre fui ansiosa, mas assim que eu comecei o meu trabalho, eu percebi que isso se intensificou de uma maneira muito agressiva. A frequência com a qual eu tenho crise de ansiedade, desde que eu comecei a trabalhar, é muito maior. Meus colegas me contaram que isso é uma coisa muito comum dentro da operação de telemarketing. Não temos assistência médica para quem tem algum transtorno, não tem campanha nenhuma, não tem nenhuma avaliação psicológica. Aliás, na minha empresa, não tem nem psicólogo presente”. Os traumas de quem trabalha ou já trabalhou com o telemarketing, podem perdurar a vida toda. Isabella, por exemplo, contou que não consegue deixar o celular pessoal com volume. “Quando o meu telefone toca, eu começo a ficar, automaticamente, ansiosa e irritada, mesmo sem saber quem está ligando. Pode ser qualquer pessoa: minha mãe, meu namorado, um amigo. Só o barulho do telefone tocando, já é o suficiente”. Esse é um problema relatado pela maioria dos funcionários de call center, juntamente com o costume de atender ligações pessoais, com o mesmo script usado

para atender às ligações na empresa, e até a perda de uma porcentagem de audição, como vimos antes. No caso de Marilena, o trauma do emprego, como operadora de telemarketing, a acompanha até hoje, na sua vida pessoal: “semana passada eu fiquei dormindo o final de semana inteiro, e tenho muito pesadelo. Uma das coisas que me fazem ficar assim, tenho certeza, é a questão do telemarketing. Estamos numa época de muito desemprego, e o telemarketing em si, é uma área mais fácil de conseguir uma vaga. Até hoje, eu não comprei um apartamento por conta do telemarketing, sabe por quê? Um apartamento, é uma dívida, muitas vezes, que dura para o resto da sua vida. Quando eu pensava em comprar, me vinha na cabeça que eu trabalho na minha área hoje, e ganho muito mais, mas mesmo assim, eu pensava ‘se eu comprar um apartamento e ser demitida depois, pelo menos no telemarketing eu conseguiria emprego, pela experiência’ então só de pensar na possibilidade de um dia eu ter que voltar para lá, ainda não consegui me envolver em algo muito longo, como um financiamento de moradia, por exemplo”. É importante deixar claro que tanto a Isabella (apesar de já ter feito tratamento antes de trabalhar em call center) quanto a Marilena, não procuraram algum tipo de tratamento para superar seus traumas. “Eu não procurei ajuda, embora na época eu tenha pesquisado sobre psicólogos, não cheguei a fazer nenhuma consulta, porque eu sabia que tudo isso que estava na minha cabeça seria investigado, e para mim era algo bem doloroso. Hoje em dia eu penso em procurar, mas ainda não tomei coragem. Não desenvolvi a vontade e a coragem

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de procurar ajuda, embora eu saiba que preciso”. Com todos os relatos que ouvi, e todas as pesquisas que realizei, mais uma vez, é clara a influência do capitalismo, que mostra que, os lucros importam mais do que a saúde dos trabalhadores. Uma explicação completa disso, é o pensamento do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, autor do livro Sociedade do Cansaço. O autor esclarece que, na maioria dos casos, a saúde emocional do funcionário se abala por um excesso de positividade, uma gana por melhores resultados, uma coisa que podemos ver muito na atualidade, no segmento de coaching. O esforço, quase que sub humano, é romantizado e tido como essencial para se obter melhores resultados. “É bem verdade que os adoecimentos neuronais do século XXI seguem, por seu turno, sua dialética, não a dialética da negatividade, mas a da positividade. São estados patológicos devidos a um exagero de positividade” diz Han em seu livro. É preciso acabar de vez com a exploração, com a pressão e assédio moral da supervisão e até dos clientes que ligam para a central, e muitas vezes, disparam ofensas inimagináveis aos atendes “eu tive muitas ligações que sai chateada. Teve cliente que me xingou, que xingou minha família, que me ameaçou, e isso, vai se acumulando com o tempo. Você começa a pensar: poxa, eu só queria ajudar”, relata Marilena. Lutar por salários e condições dignas de trabalho, e assim o direito mais básico a esses trabalhadores: o direito a sua saúde física e mental, é essencial e indispensável na atual sociedade, tão propensa a adquirir doenças psicológicas.

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CAPÍTULO 3 O peso emocional de uma farda

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“Se é pra cair, vamos cair atirando!” a frase do personagem Capitão Nascimento, além de ser uma das mais famosas, que englobam o roteiro do filme policial brasileiro Tropa de Elite, do ano de 2007, que tem como tema a violência urbana na cidade do Rio de Janeiro, junto com a ajuda do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, resume, muito bem, a rotina de um policial militar, pois retrata a realidade de uma profissão que é treinada para lutar, todos os dias, contra a morte. O Brasil possui, aproximadamente, 500 mil policiais militares atualmente. Apenas no Estado de São Paulo, as mortes de PMs aumentaram 137%, no primeiro semestre do ano de 2020, segundo dados da própria Polícia Militar. O jornalista Alexandre Garcia afirmou, ao vivo durante os programas “Bom dia Brasil” da TV Globo e na rádio CBN, que o Brasil é o país do mundo onde mais se mata policiais. No país morrem, por ano, em média, 490 policiais. “Vamos cair, vamos morrer, mas vamos levar um bandido junto com a gente!” A pesquisa “Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública” publicada em 2014, pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas (CPJA), da Escola de Direito da FGV de São

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Paulo, e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, constatou que, entre mais de 21 mil profissionais de segurança pública (policiais civis, militares, rodoviários federais, agentes da polícia científica, peritos criminais e bombeiros), 38,8% afirmaram que já foram vítima de tortura física ou psicológica no treinamento ou fora dele, e 64,4% disseram ter sido humilhados ou desrespeitados por superiores hierárquicos. 98,2% de todos os profissionais (incluindo de outras áreas) que responderam à pesquisa, afirmaram que a formação e o treinamento deficientes, são fatores muito importantes para entender a dificuldade do trabalho policial. “Existe a pressão sobre o policial. Nós somos criados para sermos os caras que resolvem os problemas de todo mundo, e os problemas da sua vida você não consegue resolver, e o policial tem muitos problemas. Alguns não conseguem se livrar disso”, conta o nosso PM entrevistado que prefere ser identificado como RF. De seus 46 anos de idade, 24 são dentro da polícia. E, como acontece em grande parte da corporação, foi diagnosticado com depressão. “Minha depressão, hoje eu sei, através do meu tratamento, que na verdade, está associada a vários acontecimentos da minha vida: algumas perdas que eu tive e não soube superar, aliado à minha profissão de policial militar, que não é fácil”. Em estudo, a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), exemplificou que, em uma mesa de almoço com sete policiais, três possuem problemas psicológicos decorrentes da profissão. Os problemas são dos mais diversos. Síndrome do pânico, depressão e, inclusive, alguns trabalham sob efeito de algum medicamento. “A rotina na rua estressa demais,

você é confrontado o tempo todo de uma forma que, como ser humano, acaba se questionando do porque você passa por aquilo, então isso vai te trazendo uma revolta interna”, revela RF. Outra análise realizada pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção com foco no suicídio policial no Brasil, entrevistou mais de 18 mil policiais militares em 2015. Destes, 650 tentaram suicídio, e 3.225 policiais cogitaram o autocídio, quando o carro é utilizado como instrumento para provocar a própria morte. O pensamento suicida é algo que fez parte da história de RF com a depressão: “pensei em cometer o suicídio porque eu sentia muita tristeza. Eu pensei em como fazer, e cogitei me enforcar. Eu já estava sem arma, pois haviam me tirado logo quando me afastaram”. Quando perguntado o que o impediu de cometer o suicídio, ele respondeu que foi o ‘buraco’ que ele deixaria na família: “quando pensei no dano que deixaria para trás, na vida da minha mulher, do meu filho, em toda a minha família, eu desisti”. “É um tabu discutir suicídio. Quando um policial militar morre em serviço, vai o comandante do batalhão, os colegas, enfim, muita gente vai prestigiar o policial morto. Há um mausoléu de policiais mortos aqui em São Paulo. Mas, quando um policial comete suicídio, não vai quase ninguém, porque ainda vê no ato uma fraqueza. Então não vai prestigiar a fraqueza”, relata em entrevista à Sputnik Brasil, Benedito Mariano, ouvidor que lidera a Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo. O preconceito que a maioria das pessoas depres-

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sivas sofrem quando o diagnóstico é divulgado, é mil vezes pior dentro da polícia. “Muitos policiais ainda têm receio em procurar e aceitar ajuda especializada. No entanto, esses casos têm diminuído, felizmente, estamos vivenciando uma época em que os transtornos mentais são amplamente discutidos, o que diminui o preconceito incentivando a busca por tratamento”. Comenta Dra. Ana Paula, psicóloga da Associação de Subtenentes e Sargentos PM & BM do Estado de Goiás, em entrevista ao site Diário da Manhã. “Não tenho colegas muito próximo de mim que chegou a cometer suicídio, mas a maioria dos policiais cometem porque as vezes já estão numa fase desestruturada, e acabam em um dilema: ‘se eu me entregar e me tratar, eu vou ser um covarde’”, relata RF. Ele ainda contou que, apesar de hoje em dia ter diminuído o preconceito com quem tem depressão, ainda é algo muito comum dentro da PM. Perguntei ao RF como os PMs que possuem algum transtorno emocional é amparado dentro da corporação: ‘fiz um curso, que eles chamam de estágio psicoemocional, de 3 semanas, indicado pelo psicólogo. Fui afastado da rua e tive aulas de relaxamento e avaliações psicológicas, atividade física que é uma coisa maravilhosa que todos os funcionários públicos deveriam ter, não só os policiais. São 3 semanas para te afastar da rotina e tentar te trazer uma qualidade de vida, isso porque, chega uma hora que o policial vira um robô, não tem mais sentimentos. Esse programa se chama PAPM (Programa de Acompanhamento Policial Militar), e serve para medir o nível de estresse do policial e fazer o acompanhamento. No meu caso, como estava diag-

nosticado com depressão, eu fui encaminhado para lá, a partir do momento que eu comecei a falar de suicídio com o meu psicólogo. São várias terapias de grupo e fazem você enxergar a vida com outro olhar”. O peso da rotina e a pressão de não saber se voltará vivo para casa a cada dia em que eles vestem a farda, causam efeitos enormes na saúde emocional de quem foi treinado para garantir a segurança da população. Mas, além dos danos internos em cada policial, o que isso pode causar nos lares desses profissionais? “É muito difícil conviver com um policial. Ele tem tantos problemas, que acaba levando para dentro de casa. Ele se torna uma pessoa fria, enérgica, violenta, nem sempre com violência física, mas se torna uma pessoa de ‘palavras pesadas’. Aqui em casa, minha mulher e meu filho sempre conviveram com um homem enérgico, mas não era o mesmo de quando eu entrei na polícia. Você vai ficando intolerante, antissocial. A maioria dos policiais são antissociais, eles trabalham tanto em festas, na rua, em eventos, que quando há alguma confraternização de família, ele não quer ir, quer ficar isolado. E o isolamento social, também é um sintoma de depressão”. Há quase 3 anos, após o afastamento das ruas, RF está trabalhando internamente, com questões burocráticas: “também não é um serviço fácil, mas pelo menos você não está exposto à violência da rua, tanto a cometer, quanto a sofrer a violência”. Durante toda a entrevista ele ressaltou a importância da ajuda que recebeu com o estágio psicoemocional da polícia, e o tratamento com o psicólogo e o psiquiatra, que ele procurou de forma particular. Como fator essencial na sua opinião, o que o ajudou muito, foi lidar com as suas

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questões espirituais: “minha relação com a minha família melhorou muito, eu me redescobri, mudei minha forma de pensar, minha forma de agir. Me tornei budista e isso me fez ver a vida de uma forma mais realista, mudei muito minha cabeça em termos filosóficos. Hoje em dia, sei que o ser humano é fadado a ter esses altos e baixos, coisas que às vezes a gente não aceita. O budismo é baseado em saber sobre a existência do sofrimento, e a partir do momento em que você sabe, passa a viver o hoje da melhor maneira possível, e quando vier o momento de sofrimento, a gente sabe como encará-lo. O tratamento contra a depressão é um tratamento multidisciplinar, você tem que ter o bem-estar, tem que ter a religião, tem que estar bem com as pessoas, bem de saúde. Hoje em dia, eu sou um cara mais brando em casa, lógico que a gente passa estresse e nervoso, mas é muito diferente. Eu vejo os problemas e encaro de uma forma nova, não sofro mais com coisa pequena”. Como em todos os casos, o tratamento com um profissional é essencial. RF teve muitas sessões de tratamento e hoje em dia, só faz uso de uma medicação para dormir, pois possui muita insônia, algo que é hereditário em sua família: “fiz muitas sessões de apicultura, hoje faço yoga, meditação e me alimento bem”. Profissões que lidam com o bem-estar e segurança do próximo, são estressantes. Na maioria das pesquisas, são as que mais afetam a saúde física e emocional dos profissionais. E, infelizmente, na maioria dos casos, estes não procuram ajuda, algo que só vai acumular com o passar do tempo. Por isso, se você se enquadra nesses casos, procure ajuda! “Com o passar dos anos, o policial perde as esperanças de tudo. Ele presencia

tanta injustiça sendo cometida dentro e fora da polícia que, aliado ao fato de ter uma arma de fogo, e a ação impulsiva, ele pode cometer erros irreversíveis”.

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“Em nossas vidas, a mudança é inevitável. A perda é inevitável. A felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver a tudo de ruim”. Buda


CAPÍTULO 4 As consequências de ser um educador que se importa com seus alunos

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A violência nas escolas e faculdades não é algo que acontece só em outros países, como podemos exemplificar o caso do Massacre de Columbine, ocorrido em 20 de abril de 1999, na Columbine High School, em Columbine, onde os jovens Eric Harris e Dylan Klebold, abriram fogo contra alunos e professores, após o seu projeto de bomba ter dado errado. O atentado durou cerca de uma hora e deixou 15 mortos, e outras 23 pessoas feridas. Casos bem recentes, nos mostraram o quanto o problema é agravante no nosso país: 1. Massacre de Suzano: Ocorrido em 13 de março de 2019, na Escola Estadual Professor Raul Brasil no município de Suzano, no estado de São Paulo. A dupla de atiradores Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro, ex-alunos, mataram cinco estudantes e duas funcionárias da escola. Antes do ataque, num comércio próximo à escola, a dupla também matou o tio de um dos assassinos. Após o massacre, um dos atiradores matou o comparsa e em seguida cometeu suicídio. 2. Massacre de Janaúba: O vigilante noturno da creche Gente Inocente, no bairro Rio Novo, ateou fogo em si mesmo, em uma professora e em várias crianças, e acabou acarretando em 14 mortes (incluindo o autor do crime), no dia 5 de

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outubro de 2017, em uma creche municipal no município de Janaúba, no estado brasileiro de Minas Gerais.

Mesmo que na maioria desses casos e de outros, os alunos sejam as maiores vítimas, os profissionais da educação não estão livres dessas agressões e crimes. Conforme apontam os dados do próprio governo do estado de São Paulo, a cada dia, ao menos dois professores do ensino fundamental e médio, são agredidos fisicamente por alunos dentro da sala de aula de escolas estaduais. Em 2018, foram registrados 434 ROEs (Registros de Ocorrência Escolar) referentes a violência física dentro da sala de aula. Em média, são 2,17 agressões físicas por dia letivo contra professores¹. Não é novidade para ninguém que os professores no Brasil não são valorizados. O devido reconhecimento a quem está à frente da sala de aula, devia ser o carro chefe da educação. Um dos principais sintomas da falta dessa valorização, é o salário de quem dedica a vida a erguer os alicerces, sobre os quais se formarão outros profissionais. Um estudo do Movimento Todos pela Educação, mostra que um professor do ensino básico,

formado em nível superior, ganha, em média, 30% menos que outro profissional com a mesma escolaridade. Os educadores do ensino público, além de terem que lidar com a desvalorização da profissão, muitas vezes, precisam lidar com outros fatores, tais como: falta de material para aula, más condições nos ambientes de ensino, e na maioria das vezes, a violência dentro da sala de aula. Atualmente, as escolas públicas (em sua maioria), vem chamando a atenção pelo número de ocorrências de violência contra alunos e professores. É fácil vermos nos noticiários manchetes que denunciam, brigas violentas entre alunos, ameaças a professores, adolescentes armados, bebendo e se drogando na porta da sala de aula...assim como também, professores agredindo ou praticando bullying, contra os alunos. Rousseau afirmava que, os homens não nascem naturalmente maus, a sociedade é que os transforma. Os comportamentos do homem são fruto do ambiente em que ele é exposto. Vivemos em uma sociedade capitalista, onde o consumo é elevado e a tecnologia predomina, com isso, vemos a necessidade adaptativa das pessoas ao ambiente. Os responsáveis colocam seus filhos mais cedo em creches, ou deixam com alguém. Vemos isso com mais incidência em famílias de classe baixa à média, em que os responsáveis precisam trabalhar durante o dia, e necessitam de alguém olhando seus filhos. Chegam em casa exaustos, depois de um dia de trabalho, e ainda têm os afazeres domésticos. Assim, a criança é colocada sozinha na frente da TV ou vai brincar sem um adulto que lhe dê atenção. A relação familiar é centralizada nas necessidades físicas da criança, ou seja, na alimentação, na higiene e no descanso.

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3. Massacre de Realengo: Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu a escola Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, no município do Rio de Janeiro, armado com dois revólveres e começou a disparar contra os alunos presentes, por volta das 8h30 da manhã, do dia 7 de abril de 2011. O assassino matou 12 crianças, com idade entre 13 e 15 anos, e deixou mais de 22 feridos, e se suicidou.


O emocional é deixado de lado. Mas como podemos esperar que um caráter se forme em uma criança, quando a sua realidade está além do que podemos imaginar? Maria Lúcia Calado Ogeda, de 48 anos, é professora da rede pública estadual há mais de 20 anos. Ela é um exemplo de educadora da rede pública que já viu de tudo nas escolas em que deu aula, mas vamos destacar o que é o cenário de sua história com a depressão. Situada em um bairro da zona leste da capital de São Paulo, a escola em que, Maria Lúcia, dava aula até o ano de 2019, é conhecida no bairro por ser grande, por sua localização, nome, história, e pelo lado ruim, conhecida pelas brigas entre os alunos dentro e fora da escola, além do uso de drogas entre os mesmos. A instituição, oferece aulas de Ensino fundamental II e Ensino médio, bem como supletivo. Maria Lúcia, sempre trabalhou acreditando na afinidade com o aluno, e que o amor e o respeito ao próximo, sempre é válido, e nós sempre acabamos colhendo os frutos disso. E, foi com essa filosofia, que ela ministrou as aulas de português para várias turmas do Ensino fundamental ll, em 2019. Porém, o ano não começou bem para ela. Um ex aluno, já formado e ainda muito querido, ao qual ela tratava como um filho, se suicidou em fevereiro, vítima de depressão. Isso abalou a professora, que se viu ainda mais preocupada com seus alunos, e mais disposta a ajudá-los, de todas as formas. Em meados de abril, a professora lecionava para turmas de 6º e 7º ano, com alunos de idade avançada para aquela turma, o que infelizmente, é uma realida-

de, em escolas públicas. E, foi o caso do aluno mais recente na turma, ao qual vamos chamar de Pedro. No início, por aparentar ser um menino muito acanhado, Maria Lúcia fez o que sempre fazia: tentou se aproximar dele de diversas formas. Porém, o tempo foi passando e Pedro foi se mostrando bem diferente do que ela esperava, com atitudes violentas e grosseiras. Foi quando Maria Lúcia e outros funcionários da escola, perceberam que, quando Pedro não cabulava aula, estava levando drogas para a instituição e passando para seus colegas. A fim de resolver a situação, a coordenação investigou seu histórico e descobriu que ele morava em um abrigo. Foram diversas tentativas de comunicação amigável, com os responsáveis pelo garoto de apenas 15 anos, mas em todas as vezes, o que a direção da escola ouvia do abrigo era que o garoto, estava sendo perseguido pela instituição, e que ele não fazia nada daquilo que os professores apontaram, e que ainda, a escola estava tirando o direito do menino de estudar, colocando implicâncias sobre ele. Mas, a situação foi se agravando e virou caso de polícia. A escola divide o terreno com um batalhão da polícia. Em uma, das muitas vezes, em que Pedro pulou o muro para fugir, foi encontrado pela própria polícia numa praça, onde estava se drogando. Pedro vivia falando para quem quisesse ouvir que ele não tinha nada a perder. Em uma aula, Maria Lúcia, chegou a ouvir dele que (em suas próprias palavras), a diretora era folgada, e que ele duvidava se lá fora, com um revólver na cara, ela agiria dessa forma. Isso preocupou a professora, que mesmo com tantas tentativas de aproximação, continuava sem saber mais sobre Pedro.

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Após tantos episódios parecidos, a escola, finalmente, conseguiu marcar uma reunião com os responsáveis pelo garoto e a direção, juntamente com o corpo docente, além de um supervisor de ensino, um representante da Vara da Infância e uma psicóloga, uma situação que a educadora nunca havia presenciado. Mesmo com todos os fatos apresentados, o representante do abrigo e responsável pelo Pedro, continuava colocando a culpa na instituição, nos professores, o que gerou um momento tenso com uma das colegas de trabalho de Maria Lúcia, que chegou a chorar e passar mal, se sentindo culpada pela situação de Pedro. A psicóloga, que atendia ele, chegou a relatar que o deixava usar drogas, antes das sessões, para que ele ficasse mais tranquilo ao conversar. Quando uma professora questionou o porquê de ele estar no abrigo, todos foram surpreendidos. Pedro, foi parar em abrigos por ter matado o pai e a mãe, quando tinha apenas 11 anos. Ele já havia passado por vários, colocou fogo em um, agrediu funcionários em outro. Isso deixou Maria Lúcia mais preocupada, afinal, Pedro realmente não tinha nada a perder, e se matou os próprios pais quando criança, o que o impedia de fazer algo contra ela e os demais funcionários da escola? Em todo o tempo da reunião, os representantes do abrigo fizeram questão de pressionar a direção da escola, para que Pedro não fosse transferido. Porém, a diretora e os professores, foram muito taxativos. Pedro, estava atrapalhando e influenciando os outros alunos durante as aulas, e com os problemas que causava, a melhor opção, era uma transferência. Em resumo, o supervisor se responsabilizou em conseguir uma vaga

para Pedro em uma outra escola da região, e posteriormente, a transferência foi feita. A nova escola de Pedro era da prefeitura, com horário de entrada até às 13h30, enquanto a escola onde Maria Lúcia lecionava e a anterior de Pedro, com o horário de entrada até às 13h. Essa diferença de horário possibilitou que o menino aparecesse na entrada da escola, em que Maria Lúcia lecionava por várias vezes. Ela dava aula para uma turma que tinha um amigo dele, e decidiu chamá-lo para perguntar quais eram as intenções de Pedro, em estar na porta da escola. A única resposta que Maria Lúcia obteve do aluno foi: “Professora, eu não posso falar nada, mas acho melhor vocês ficarem ‘espertos’”. A partir daí, o pânico se instalou entre os funcionários da escola, pois imaginaram que Pedro estava zangado, e queria se vingar dos responsáveis pela sua transferência. A instituição procurou a polícia militar, e por diversas vezes, uma ronda ficava na porta da escola nos horários de entrada e saída dos alunos e professores. Uma orientação da polícia chama mais atenção: deram a sugestão que os professores, se possível, trocassem de carro para irem trabalhar, e por várias vezes Maria Lúcia e seus colegas, iam até a casa de um amigo com seu carro e trocava de veículo para ir até a escola, assim revezando por vários dias, para evitar que seus veículos ficassem “marcados” por Pedro. A saída de diversos colegas de trabalho de Maria Lúcia foi tirar licença médica, por não conseguirem suportar a pressão e a tensão que se instalou na escola, após as ameaças. Maria Lúcia não podia tirar licença médica, pois estava no período probatório, e era seu último ano na escola, uma licença

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nesse período, poderia prejudicá-la na sua pontuação de funcionária pública. Quando a ronda escolar foi chamada e aparecia sempre na entrada e na saída dos alunos, o abrigo onde Pedro morava foi comunicado, que ele estava aparecendo na porta de sua antiga escola. A informação que foi passada era de que os funcionários do abrigo levavam as crianças até a escola. “Eles deixavam ele na escola que ele estava, porque tinham outras crianças que entravam antes desse horário, e nesse meio tempo que ele tinha, conseguia ir para a porta da nossa escola”, afirmou Maria Lúcia. A solução do abrigo foi começar a levar Pedro por último, para que ele não conseguisse ter tempo de ir até o portão de sua antiga escola. “Tentamos ver se conseguia uma transferência dele até para outro abrigo, mas achamos melhor não ficar entrando nessa parte burocrática, porque o responsável do abrigo, a todo momento, falava que nós éramos os culpados, que estávamos tirando o direito dele de estudar, mesmo ele tirando o direito dos outros alunos da sala de aula, e amedrontando-os, além de nós, professores”. A ronda não ficou por muito tempo nessa rotina de vigiar a entrada e saída dos alunos e funcionários, mas os professores mantiveram o rodízio de veículo até novembro, e depois, continuaram seguindo com as suas vidas. “Não sei o que aconteceu com esse menino, não sei onde ele está, não sei se ele mudou ou não de abrigo, se ele aprontou ou não, mas ainda fico receosa, ando desconfiada, pois não sabemos a cabeça de uma pessoa assim, se ele quer uma vingança, se isso já amenizou ou não”. Maria Lúcia teve consequências psicológicas gra-

ves. Começou a reparar que, estava muito tensa, e se irritava fácil, com qualquer coisa. Não conseguia mais dormir, e começou a ter medo de sair de casa. O ápice foi quando sua filha teve uma apresentação na escola e ela não conseguiu ir assistir. “Eu tinha medo de ir ao shopping, eu tinha medo de sair para qualquer lugar, porque eu achava que, a qualquer momento, esse menino estaria me seguindo. Não consegui ir em uma confraternização de professores, que aconteceu no parque próximo a escola. Eu tinha medo de me expor”. Esse foi o momento que ela percebeu que precisaria da ajuda de um profissional. Procurou diretamente por um psiquiatra, que receitou um antidepressivo e um remédio para dormir, com uma dosagem bem leve de início. “Fiquei uma pessoa totalmente diferente do que eu era, na minha casa, com os alunos, com tudo, e eu nunca senti tanto medo na minha vida, foi uma experiência horrível. A minha família presenciou toda essa tensão que vivi. Tenho duas filhas e isso afetou muito elas, porque, tinha momentos que eu não queria fazer nada, não queria sair de casa. Várias vezes, eu fiquei dentro do carro no próprio estacionamento da escola, para ver se eu conseguia ou não entrar”. O remédio foi o que conseguiu ajudá-la, e hoje em dia, ela não precisa mais tomá-lo, foi algo que foi se livrando gradativamente. “Foi uma luta interna enorme, porque não é fácil você ter medo, não é fácil você tentar lutar contra algo e você perceber que é apenas um menino de 15 anos que já tem uma história muito pesada, um verdadeiro psicopata. A escola tentou intervir várias vezes conversando, dialogando, fazendo o papel dela e ele era muito dissimulado”. Hoje em dia, Maria Lúcia, leciona em

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outra escola, em que a maioria são alunos muito pobres. Recentemente, fizeram uma campanha entre os funcionários para arrecadação de cestas básicas para as famílias carentes de seus alunos. “Estou bem. tem momentos que tenho angústia de tudo isso. Hoje eu vejo que ele amedrontou, ele destruiu um momento da nossa vida profissional, da nossa vida em família. O medo, é algo que começa a tomar conta da sua vida num nível que você começa a confundir o que é real do que é irreal. Você começa a imaginar o que pode acontecer. Eu tinha medo das minhas filhas indo para escola, tinha medo de ir até o mercado, porque como era um local muito próximo, esse menino poderia estar em qualquer lugar. Foi muito triste, muito pesado para mim. A verdade é que ele destruiu um momento da minha vida”. O Relatório para a Organização das Nações Unidas da Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (1996:95) reforça que: “a família constitui o primeiro lugar de toda e qualquer educação e assegura, por isso, a ligação entre o afetivo e o cognitivo, assim como a transmissão dos valores e normas”. À escola não se pode pedir que, além de ensinar os conteúdos programáticos exigidos pelo Ministério da Educação, tenha também a função educativa que compete aos pais e responsáveis. Segundo o site Agência Brasil, uma pesquisa inédita realizada pelo Instituto Locomotiva e pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) revela que 54% dos professores, já sofreram algum tipo de violência nas escolas. Em 2017,

o percentual era 51% e, em 2014, 44%. Entre os estudantes, 37% declararam ter sofrido violência (em 2014 eram 38%, e 2017, 39%). Uma pesquisa global da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que considera dados do ano de 2013, com mais de 100 mil professores e diretores de escola do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio (alunos de 11 a 16 anos), colocou o Brasil no topo de um ranking de violência em escolas². O Anuário Brasileiro de Segurança Pública também registrou que, mais de 8 mil professores sofreram tentativa de assassinato em sala em 2018³.

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CAPÍTULO 5 A segregação e a pressão corporativa que afetam a vida pessoal

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Com certeza, você já viu alguém passar pela seguinte situação: depois de um período de muita pressão e cobrança no trabalho, a pessoa ficou doente e precisou ficar alguns dias afastada. Isso se dá porque, o estresse e a grande pressão por resultados são enormes ameaças ao bem-estar no trabalho, podendo comprometer inclusive, a saúde do colaborador. O estresse de funcionários dentro de uma empresa é algo muito comum. Principalmente dentro de funções que exigem o cumprimento de metas, relacionadas a vendas ou produtividade diária. Isso pois, por buscarem resultados perfeitos constantemente, muitos trabalhadores acabam indo além dos seus próprios limites pessoais, algo que também podemos ver no livro do filósofo Han, já citado anteriormente: “Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho em que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor”. Quando sofremos com a rotina pesada de uma empresa, podemos começar a nos tornar nossos próprios carrascos, por buscarmos constante superação profissional. Porém, como já vimos, a pressão pode vir de outras fontes, e a questão da saúde emocional do funcionário não é um problema apenas dele: a empresa também sofre as consequências desse mal. Muitas vezes, não é a pressão, o estresse, ou a má remuneração que causam algum desagrado nos profissionais. Os colegas de trabalho e seus gestores podem

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ser os vilões, e culpados por trazerem problemas psicológicos para os funcionários. “A minha função em si é bem tranquila. Eu poderia fazer o que eu faço 12 horas por dia sem me estressar, e ficar numa boa. Porém, lidando com as pessoas exclusivamente do meu serviço, isso acaba influenciando muito no meu rendimento, porque o pessoal em si, é meio ‘xarope’”, conta o analista químico Guilherme Fogaça Colamaria, de 21 anos. Dentro de um ambiente profissional, é possível existir, diversos tipos de preconceito. Entre os mais comuns, estão os preconceitos por raça e gênero. Porém, para o desenvolvimento desse projeto, e com as pesquisas e entrevistas realizadas, pude destacar um tipo de preconceito que abala o emocional de quem sofre, e que, somado a pressão, que as profissões implicam nos colaboradores, podem causar distúrbios psicológicos. Esse preconceito, é o de cargo. Pare para pensar, em quantas vezes, você ouviu ou presenciou sobre alguém que sofreu alguma discriminação, por ter um cargo, considerado inferior, dentro de uma empresa. Quantas vezes um faxineiro ou um porteiro se sentiram invisíveis, quando funcionários do alto escalão estavam por perto? Garis, lixeiros, faxineiros, porteiros etc. Sabe o que essas profissões têm em comum? Todas são tratadas como inferiores, em nossa sociedade. O resultado disso: as pessoas se tornam invisíveis ao exercer a função. Um outro exemplo dessa invisibilidade, podem ser os garçons. Segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), muitos possuem salários baixos e enfrentam jornadas de trabalho cansativas, tendo de lidar com inúmeras pessoas mal-educadas e bri-

guentas. Enquanto 10% destes profissionais que enfrentam depressão a mais que no ano anterior, quase 15% são mulheres. Esse trabalho, muitas vezes, é ingrato. Os clientes podem ser rudes e há muito esforço físico diariamente, e quando os profissionais estão deprimidos, é difícil ter energia e motivação para o dia a dia de trabalho, assim como, os operadores de telemarketing. Isabella, a operadora de call center que contou sua experiência com a profissão no segundo capítulo, também relatou ter esse tipo de problema dentro da sua empresa: “É um trabalho que você percebe olhares diferentes dos outros funcionários da sua empresa, como se você fosse um ‘ser inferior’, sendo que os operadores são a base de uma empresa de telecomunicação! É muito comum um supervisor te xingar e te tratar de maneira inferior. Eu imagino que há um incentivo disso por parte das pessoas que treinam a supervisão, de não se misturar muito com o operador, porque você sendo chefe e sendo um amigo próximo do seu funcionário, isso pode gerar um problema de convivência dentro do ambiente de trabalho. Então, nesse sentido, eu imagino que quando os supervisores passam pelo treinamento, devem ter algum aconselhamento por conta disso. Porém, quanto aos demais cargos, não faria sentido. Acho que é mais uma questão das pessoas, naturalmente, se sentirem superiores por conta do cargo que ocupam, não acho que seja uma questão totalmente imposta. Porém, para todo o caso, tem uma exceção. Minha atual supervisora, por exemplo, almoça com os operadores, e vejo que ela não tem problema nenhum com isso, é algo natural. Mas, a maioria dos supervisores não se misturam, procuram falar o mínimo possível, e quando

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falam, é de uma maneira ‘eu sou o teu chefe’”. O analista químico Guilherme, passou por algo parecido. Por ser novo de idade e também na empresa, por muitas vezes, sentiu olhares e comentários direcionados a ele, e isso causou uma auto pressão psicológica, para não cometer nenhum tipo de erro: “Haviam momentos que eu sentia que as pessoas erravam e de algum jeito conseguiam atribuir a culpa a mim, o que eu achava muito estranho. Eram coisas que eu não lembro de ter feito, e eu não tinha como provar, porque não possuía conhecimento técnico avançado ainda, pois eu havia chegado a pouco tempo. (...) uma situação foi em relação ao serviço propriamente dito. Alguns funcionários de cargos mais altos, chegavam em mim e falavam ‘olha, tal pessoa está reclamando de você’ ou, ‘estão falando mal do seu serviço’. Isso foi me consumindo aos poucos, até que um dia eu me atrapalhei no trabalho, foi um erro bem insignificante, na verdade, eu apenas deixei uma peça cair no chão, um recipiente. Mas, foi o suficiente para eu iniciar com um surto muito forte. Comecei a chorar, fiquei estressado, e foi ali que eu percebi que as coisas estavam me afetando demais, e eu precisava de uma ajuda médica”. Por isso, um funcionário com depressão, é problema da empresa e/ou instituição, sim! “É um quadro muito sério. Quando um funcionário é contratado a empresa o faz considerando que ele produzirá para que se obtenha lucro. Nos casos de funcionários em depressão a produtividade é diretamente afetada. Logo, conciliar os interesses do negócio e tratar com humanidade o profissional adoecido não é uma tarefa simples”, explicou a administradora e especialista em Gestão de

Pessoas com ênfase em Psicologia Organizacional, Marília Tavares Pereira Ridolphi¹. Companhias que não valorizam e investem em seus colaboradores estão colocando em risco seu próprio sucesso. Ao contrário disso, as organizações que investem no bem-estar, na saúde física e mental e na satisfação de todos os seus funcionários, possuem grandes fontes de resultados positivos.

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CAPÍTULO 6 Afinal, vida pessoal e profissional se misturam?

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Ao longo das pesquisas e das entrevistas realizadas para a conclusão desta obra, pude notar muitas semelhanças nas histórias. Mesmo com a diferença tão grande entre as profissões, as causas e as consequências que cada situação trouxe para os profissionais, são quase as mesmas. E o porquê disso, é a pergunta que intitula este capítulo: a vida pessoal e a profissional se misturam, sim. Para entendermos esse ponto e concluir essa pesquisa, é importante discutirmos algumas questões. E para isso, chamei a psicóloga e analista de Recursos Humanos, Andréa Moraes Cruz, 43, que também é uma amiga e colega de trabalho. A primeira questão a se levantar e que a Andrea explicou muito bem, é que o excesso de estresse vivenciado no trabalho não vai causar a depressão. A doença é um transtorno de humor, com causa química e psíquica, e tem um histórico, que pode ser orgânico, algo que ainda se discute no meio psicológico. Se formos pensar que, por exemplo, a depressão não tem uma causa específica, e é só porque o depressivo se sente triste por diversas razões, essa pessoa está mais sensível. “Geralmente, há relatos do tipo: ‘hoje eu não estou muito bem, e aconteceu do meu chefe exigir coisas que não é da minha função, ou eu vi meu chefe brigar ou ser agressivo com colegas meus sem motivos’ Isso pode agravar a doença de um indivíduo? Pode, mas é impor-

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tante lembrar que não é motivo de causa de depressão, mas, se vivemos em um ambiente estressor, onde seu chefe te pede muitas coisas absurdas, e você não está legal, não vai conseguir trabalhar. Então, piora? Sim, piora e agrava”, explica Andrea. A doença da depressão é como uma bomba relógio. São as coisas que acontecem quando a pessoa já tem uma pré-disposição, são fatores específicos, que despertam, e isso explode, aparecendo a doença emocional. É um transtorno de humor, e é preciso ter uma pré-disposição, pois, ao pensar no termo da psiquiatria, fala que, por exemplo, eu e você, duas pessoas com químicas diferentes e características específicas, com o emocional específico, podemos conviver juntos no mesmo ambiente estressor, porém, você pode ter questões emocionais para conviver com aquela situação e eu não. Então, o ambiente estressor e tudo o que nele acontece, faz com que o meu emocional não saiba lidar com aquilo, e isso se torna um gatilho. “Para todo transtorno mental sempre tem um gatilho, por exemplo, uma pessoa próxima a mim, teve um problema de câncer, e precisou ser operado. Passou por muitas questões emocionais enquanto jovem, e depois deu a depressão nele, ou seja, a depressão teve um gatilho que foi o problema de saúde dele. A depressão sempre está associada a alguma coisa, é tudo muito específico, são fatores individuais. Tem pessoas, por exemplo, que não conseguem trabalhar, e por isso às vezes se afasta do trabalho. Tudo o que nós, que não temos depressão, conseguimos relevar, entender, a pessoa com depressão não consegue, pois ela está mais sensibilizada”, explica Andrea.

Outro ponto que é importante enfatizar, é que a depressão está associada com a ansiedade, e dentro do transtorno de ansiedade, há também: a ansiedade generalizada, o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), e o pânico. “A associação da ansiedade e da depressão, ocorre por conta da tristeza gerada pela constância das crises de ansiedade, e são coisas que andam juntas. Quem tem ansiedade, por exemplo, pode ter mais chances de ter depressão, e vice-versa. A medicação de TOC e ansiedade são as mesmas, por exemplo, que são os antidepressivos”, comenta Andrea. A ansiedade, segundo Andrea, é diagnosticada em uma pessoa agitada, com um pensamento acelerado, uma forma rápida de falar. Na maioria dos casos, dificilmente o depressivo gosta de conversar. Já o ansioso precisa conversar, porque ele necessita ter algum retorno do ouvinte que ajude a melhorar a sua ansiedade. Já quem tem a síndrome do pânico, possui uma causa específica, e tem critério corporal, por exemplo problemas com respiração, ataque cardíaco, e até sensação de infarto, como alguns dos principais sintomas. O TOC, tem várias nomenclaturas, e uma delas é a mania excessiva de algo, que pode estar associado ao medo de alguma coisa. Muitas vezes, para resolução do caso, a pessoa que tem TOC, acha que é necessário fazer uma espécie de ritual com data certa, onde ela realiza suas manias, e acha que com aquilo, está livre de qualquer tipo de risco. O tratamento para isso, segundo a psicóloga, consiste em compreender que os riscos que o paciente acha que tem, não correspondem à realidade. É entender que se ela não fizer o seu ritual, não vai acontecer nada com a sua vida.

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Somos seres humanos. Sofremos, nos emocionamos, sentimos todas as coisas, e mesmo que todos nós passemos por isso, com cada pessoa é único, assim como somos diferentes uns dos outros. Com isso, é impossível não misturar vida pessoal e profissional. Porém, podemos aprender a lidar com os dois ambientes de forma individual, para que quando eles se choquem, não causem problemas entre si. Andrea nos trouxe dicas para isso: “o princípio que a gente tem que ter, é o entendimento de quanto todos os problemas, estão te afetando. O quanto de problema você está levando para casa e como isso está te atrapalhando, interferindo na vida pessoal, e vice-versa, por exemplo: ‘as dificuldades que estou tendo em casa estão me atrapalhando no trabalho?’ Quando você sentir que uma coisa pode estar atrapalhando a outra, precisa procurar ajuda”. Em algumas histórias que conhecemos ao longo deste livro, podemos notar que as pessoas não procuraram ajuda. Um exemplo disso é a Marilena, que sofreu muito quando trabalhou como operadora de telemarketing, mas não buscou ajuda até hoje, anos depois, com medo dos médicos trazerem de volta nas sessões, tudo o que ela quer esquecer. Andrea enfatiza o quanto a procura por um profissional para te ajudar é importante: “os psicólogos tem uma escuta diferenciada por conta do lado profissional, auxiliando as pessoas em picos de ansiedade, e a pessoa com depressão não sabe o porquê, as vezes surge a ansiedade e não se sabe o motivo, só se sente mal e indisposto. Se está te atrapalhando busque uma ajuda profissional, as vezes não é propriamente a depressão, pode ser um momento de pico de ansiedade pelo qual a pessoa está passando, e o médico é a pessoa

certa para a orientação”. Muitas vezes, existe o preconceito em relação a buscar auxílio de profissionais da saúde mental, por acreditar que não é comum obter este tipo de atendimento, que é algo destinado apenas a “loucos”. Segundo o site IG, em 2019, o Ibope divulgou uma pesquisa alarmante sobre a saúde mental no Brasil. De acordo com o estudo, 39% dos adolescentes afirmaram que, caso recebessem o diagnóstico de depressão, não revelariam para os familiares. Também são eles os que mais se matam, tornando o suicídio a quarta maior causa de morte entre os jovens no país e a segunda no mundo inteiro. É necessário desfazer este conceito e orientar a pessoa de que buscar auxílio de um psiquiatra ou psicólogo é tão comum quanto buscar a qualquer outro atendimento médico. E o apoio de familiares e amigos nessa hora, é essencial. O indivíduo precisa sentir que tem a aprovação social para buscar tratamento. Ainda existe certo estigma em relação à depressão, e aos pacientes que fazem acompanhamento psicológico e uso de medicamentos específicos, mesmo com as campanhas e a visibilidade que os depressivos vêm tendo hoje em dia, como já falamos antes. Andrea trabalha atualmente, no RH de uma multinacional, na área de recrutamento e seleção. Ela acaba sendo procurada pelos funcionários, não como uma profissional do RH, mas como uma Andrea amiga, uma ouvinte para desabafar. “Existem funcionários que eu tenho um laço de amizade, e eu sei que tem e tratam depressão. Já presenciei algumas situações por causa da depressão, algum mal estar de um colaborador em es-

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pecífico, por excesso de trabalho, ou por alguma coisa da vida pessoal que acaba misturando, e que acabou atrapalhando um pouco as questões restritas dentro do trabalho”. Acredito que não seja novidade para ninguém que as pessoas que têm depressão ainda passam por muito preconceito. Mas, já imaginou essa situação na hora de procurar um emprego? “A pessoa não é avaliada pelo problema que ela tem dentro da empresa e sim pela entrega das demandas, porém, há coisas que não precisam ser ditas em entrevistas de emprego, como por exemplo, a necessidade de tratamento de uma doença psicológica. Mas, mesmo se isso for dito, a pessoa não é avaliada por isso e sim por características técnicas. Se for uma boa profissional e que realizará a entrega da demanda, a pessoa é contratada, sim. Mas, é importante dizer que, existem avaliadores que levam para o lado pessoal do candidato e não apenas para o profissional, e aí pesa o fato do candidato ter uma doença psicológica”, explica Andrea, quando perguntada se a doença afeta no momento da seleção dos candidatos a uma vaga de emprego. Andrea também enfatiza a cobrança com os psicólogos: “a ansiedade também afeta os psicólogos e os profissionais da área, como as cobranças excessivas no trabalho, e de novo nos remete ao pico de ansiedade, onde não conseguimos lidar com as situações. Às vezes me pego com esses picos, porém não é recorrente. Como disse antes, o problema é quando se torna algo recorrente. Tem casos que os sintomas são refletidos em dores físicas: dói o estômago, você deixa de comer ou, come demais. O seu pensamento para se autoavaliar,

tem que estar na recorrência dos fatos. Você está sempre triste? Quem mora com você está percebendo uma mudança de humor? Essas são características de quem tem a depressão em si. Porque, uma coisa é ter depressão, e outra coisa é ter um episódio depressivo (coisas corriqueiras). Se está de forma recorrente, busque ajuda”. As empresas, as organizações, os gestores e os líderes dos profissionais, podem ajudar na prevenção de situações como as que trouxemos ao longo deste livro. “As empresas realizarem as campanhas de Setembro amarelo, por exemplo, é muito legal. Porém, devemos ter a empatia de nos importarmos com esses temas durante o ano todo, e não só em um mês específico. É o ato de olhar para a pessoa que está ao seu lado e ver que ela trata de depressão, e pensar no que a gente pode ajudar, e o que a empresa enquanto organização, pode proporcionar para a saúde mental desse colaborador. As campanhas são importantes, o que estamos vivenciando no meio de uma pandemia, por exemplo, e tentar passar a mensagem para o colaborador de que é normal se sentir com medo, se sentir mal enquanto ser humano, é extremamente importante. É necessário entender e ter empatia pelo próximo, durante o ano todo”, conclui Andrea. Reuni algumas dicas disponíveis no site Psicologia Acessível, para que você, leitor, consiga ajudar alguém próximo que possa estar sofrendo com a depressão:

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1. Ao falar com o depressivo, é necessário manter a paciência e a empatia e demonstrar acolhimento, além de deixar claro que ele é compreendi-


do. Mostrar que você entende que os problemas enfrentados por ele não são fáceis, e que, assim como ele, você enfrenta ou já enfrentou momentos difíceis, é algo crucial para fazer com que ele sinta que não está sozinho nessa situação. 2. Evite colocar muito drama na situação, algo que pode provocar desgastes emocionais ainda maiores. É sempre bom pesquisar sobre a doença e tentar identificar os sintomas apresentados pela pessoa, como: irritações, insônia, alterações de apetite etc. Isso irá mostrar a ele de forma clara que estas são características da doença. Tente conversar sobre como essa doença ocorre e por que é necessário o tratamento adequado. 3. Deixar claro ao depressivo que você/família, entende que ele apresenta uma doença e apoia o tratamento, e que oferecerá o suporte necessário a ele.

6. É interessante diminuir o excesso de estímulos, como televisão, rádio, computador… (não eliminar, apenas reduzir). 7. É preciso também respeitar o tempo da pessoa – Caso não haja uma situação de risco à integridade física dela ou das pessoas que com ela convivem, não force o tratamento de forma agressiva, impositiva. Apenas oriente, demonstre apoio, acolhimento, mostre-se disponível e deixe sempre claras as vantagens e a importância de buscar tratamento, mas respeite o tempo dela, às vezes é necessário que ela vivencie esta situação por um período antes de aceitar e estar aberta para aderir ao tratamento.

4. Tentar fortalecer a autoestima do doente, assim reconhecendo até os menores progressos, e, também, suas características positivas e habilidades.

8. E uma última: saiba enxergar as situações de risco. Há casos em que o indivíduo, que não aceita tratamento, pode oferecer riscos à sua própria integridade física ou à das pessoas com quem convive. Um exemplo, são momentos de agressividade, e nesses casos é importante obter ajuda de outras pessoas e não lidar sozinho com o paciente.

5. Entender que a capacidade de julgamento e entendimento do indivíduo sobre a sua própria situação pode estar alterada. Por isso é preciso persistir, sem demonstrar raiva, irritação e sem perder a paciência. Não diga em hipótese alguma, coisas como: “você nem está tentando”, “você não quer realmente ser ajudado”.

Sempre que possível, busque auxílio e orientações próximas de profissionais da saúde mental, mesmo que a pessoa próxima de você que esteja com depressão, ainda não tenha aceitado receber esse tipo de ajuda. E mantenha sempre a paciência, pois como já mencionei antes, este processo nem sempre é rápido e simples, pode envolver muitos episódios difíceis antes

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que a pessoa finalmente aceite o tratamento. E o apoio das pessoas que o cercam é essencial, pois, na maioria dos relatos, os depressivos se sentem angustiadamente sozinhos. Todos nós, como ser humanos que habitam a terra, corremos o risco de possuir o problema do século. O que é necessário admitir, e que muitas pessoas ainda não o fizeram, é que a depressão é uma doença, e apesar de ainda não ser falado em uma cura efetiva, possuí tratamento eficaz. A nossa sociedade, e a forma com que ela é conduzida pelo capitalismo e pelos avanços na tecnologia, corre sérios riscos de sofrer com algum problema emocional que pode ser despertado por questões profissionais. Precisamos saber lidar com isso, aceitando e buscando um tratamento profissional. Como a Andrea disse, em uma parte da entrevista: “problemas emocionais todos nós temos, ninguém está ileso a nada, é preciso ter empatia e tudo bem, ninguém é sozinho no mundo”. Você policial, educador, operador de telemarketing, médico, engenheiro, jornalista, não é um super-herói. Você é, antes de tudo, um ser humano.

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“Estátuas e cofres E paredes pintadas Ninguém sabe o que aconteceu Ela se jogou da janela do quinto andar Nada é fácil de entender (..)É preciso amar as pessoas Como se não houvesse amanhã Por que se você parar pra pensar Na verdade não há” Pais e Filhos – Legião Urbana

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AGRADECIMENTOS Quando nossos professores, nos perguntaram se tínhamos alguma ideia para o tema do nosso trabalho de conclusão de curso, eu logo lembrei de um fato recente na minha vida. No início de 2019, meu penúltimo ano de faculdade, um colega do ensino médio, que sofria de depressão faleceu, vítima de suicídio, com apenas 19 anos. Apesar de não ser tão próximo assim da minha vida, eu o conhecia o suficiente para acompanhar a dor da família e dos amigos que o perderam. Os nossos orientadores, nos informaram que, o tema não precisava ser necessariamente jornalístico, mas o produto final deveria ser. Então, decidi: meu TCC seria sobre a depressão, e mais especificamente, a depressão no ambiente de trabalho, em diversas profissões, e sobre como ela afeta o dia a dia desses profissionais. A partir daí, foi fácil achar os personagens dessa história. Desde policiais até operadores de telemarketing, muitos foram os relatos colhidos. Por isso, gostaria de agradecer, a cada um, que se prontificou a responder minhas perguntas, a conversar comigo sobre um assunto tão necessário, logo que postei a minha pesquisa nas redes sociais. Espero que vocês se tornem cada vez mais fortes, e que possam ajudar, muitas pessoas, que sofrem da mesma doença que vocês. Agradeço a todos os meus professores, não só a minha orientadora Mirian, que se prontificou a me ajudar em toda e qualquer dúvida, que eu tive ao longo deste trabalho, mas a todos, desde o primeiro semestre: muito obrigada! Vocês não me ensinaram só a escrever

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notas, matérias, tirar fotos, redigir campanhas, produzir textos etc. Vocês me ajudaram a formar opiniões, me ajudaram a me engrandecer, intelectualmente e emocionalmente. Agradeço aos meus pais, meus irmãos. Não teve um dia que meu pai não me buscou na faculdade tarde da noite, e nenhuma noite em que cheguei em casa e minha mãe não tinha feito meu jantar. Eu vou me lembrar para o resto da vida. Amo vocês. Agradeço ao meu namorado: aquele mesmo que namoro desde meu segundo ano do ensino médio, e que uma professora chegou a falar no primeiro semestre “Faculdade é coisa de louco. Quem entra normal, sai pirado, quem entra namorando, sai solteiro. Não pensem que vocês estão livres disso”. Acho que somos uma exceção, não é? Agradeço às minhas amigas, que me acompanharam nessa jornada de quatro anos. Sem vocês, eu até poderia me formar, mas não me formaria tão feliz como estou por estar acompanhada de vocês. Espero que continuemos amigas, e que possamos continuar usando rosa às quartas-feiras. Agradeço à Deus, que me acompanha em todo e qualquer momento da minha vida, e que me abençoou milhares de vezes nessa jornada acadêmica. Tudo que tenho, devo à Ele. E por último, e não menos importante, agradeço a você, leitor, por dedicar um tempo para a leitura deste trabalho acadêmico. Me desculpe as falhas, afinal, eu (ainda) sou apenas uma universitária!

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PROCURE AJUDA, VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO. O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias.

mail/

Telefone: 188 Link para enviar e-mail: https://www.cvv.org.br/e-

Chat online: https://www.cvv.org.br/chat/ Ache um endereço próximo a você: https://www. cvv.org.br/postos-de-atendimento/

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NOTAS A depressão como hora extra 1. Veja famosos que enfrentam ou já enfrentaram depressão e outros transtornos psiquiátricos. BOL / UOL, 7 março, 2015. Disponível em: https://www.bol. uol.com.br/fotos/2015/07/03/veja-famosos-que-enfrentam-ou-ja-enfrentaram-depressao-e-outros-transtornos-psiquiatricos.htm?mode=list&foto=52 2. Depressão: OMS lança campanha para que mais pessoas busquem ajuda. Portal Fiocruz, 7 abril, 2017. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/ depressao-oms-lanca-campanha-para-que-mais-pessoas-busquem-ajuda 3. Setembro amarelo - mês da prevenção do suicídio. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. 2019. Disponível em: https://www.tjdft.jus.br/ informacoes/programas-projetos-e-acoes/pro-vida/dicas-de-saude/pilulas-de-saude/setembro-amarelo-mes-da-prevencao-do-suicidio A pressão que vem pelo telefone 1. Justiça determina indenização à operadora de telemarketing vítima de assédio sexual. Jusbrasil. 2014. Disponível em: https://trt-10.jusbrasil.com.br/noticias/163340507/justica-determina-indenizacao-a-operadora-de-telemarketing-vitima-de-assedio-sexual 2. ‘Você não presta para nada’: a rotina de estresse e xingamentos dos atendentes de telemarketing. Folha de São Paulo. 14 julho, 2018. Disponível

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em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/07/ voce-nao-presta-para-nada-a-rotina-de-estresse-e-xingamentos-dos-atendentes-de-telemarketing.shtml As consequências de ser um educador que se importa com seus alunos 1. A cada dia, ao menos 2 professores são agredidos em escolas estaduais em SP. UOL. 22 agosto, 2019. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/ noticias/2019/08/22/a-cada-dia-ao-menos-2-professores-sao-agredidos-em-escolas-estaduais-em-sp.htm 2. Brasil é #1 no ranking da violência contra professores: entenda os dados e o que se sabe sobre o tema. G1, 22 agosto, 2017. Disponível em: https://g1.globo. com/educacao/noticia/brasil-e-1-no-ranking-da-violencia-contra-professores-entenda-os-dados-e-o-que-se-sabe-sobre-o-tema.ghtml 3. Mais de 8 mil professores sofreram tentativa de assassinato em sala em 2018. IG. 10 setembro, 2019. Disponível em: https://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2019-09-10/mais-de-8-mil-professores-sofreram-tentativa-de-assassinato-em-sala-em-2018.html A segregação e a pressão corporativa que afetam a vida pessoal 1. Gestão: Como lidar com um funcionário em depressão? CRA-ES. 29 outubro 2019. Disponível em: https://craes.org.br/como-lidar-com-um-funcionario-em-depressao/

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