UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL
ANA CAROLINA FIEL DA SILVA CARINE GIOVANA SANTOS PAULA RAPHAELA TEIXEIRA MARTINS THAMIRES BRITO AFFONSO
DOCUMENTÁRIO: EU SOU E ESTOU AQUI TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
ANA CAROLINA FIEL DA SILVA CARINE GIOVANA SANTOS PAULA RAPHAELA TEIXEIRA MARTINS THAMIRES BRITO AFFONSO
EU SOU E ESTOU AQUI
EU SOU E ESTOU AQUI
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Cruzeiro do Sul, como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social de Rádio, Tv e Internet. Orientador: Krishna Gomes Tavares
Sumário INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 8 CAPÍTULO 1. PRODUTORA .................................................................................. 10 1.1 ABELHA PRODUÇÕES .................................................................................... 10 1.2. DEFINIÇÃO DO LOGO .................................................................................... 10 1.3. IDENTIDADE ORGANIZACIONAL ................................................................... 11 1.4. ORGANOGRAMA ............................................................................................ 16 1.5. PORTOFÓLIO.................................................................................................. 17 1.5.1 Jogo Evolute (2018) ..................................................................................... 17 1.5.2 Quadrinhos A2 (2018) .................................................................................. 17 1.5.3 Radionovela Adeus Argentina (2018) ......................................................... 18 1.5.4 Programa de TV Tô na Rua (2018) .............................................................. 18 1.5.5 Box Set (2018) .............................................................................................. 19 1.5.6 Trupecália (2018) .......................................................................................... 20 1.5.7 Programa caminhos (2019) .......................................................................... 20 1.5.8 O Ateliê (2019) .............................................................................................. 21 1.5.9 Programa de Rádio Pop Game (2019) ......................................................... 22 1.5.10 Força Feminina (2020) ............................................................................... 22 1.5.11 Documentário Influenciadores (2019) ....................................................... 23 1.5.12 Vozes da Quarentena (2020) ...................................................................... 23 1.5.13 Websérie Entre lados (2020) ...................................................................... 24 CAPÍTULO - 2. ÉTICA E O QUE É DOCUMENTÁRIO........................................... 27 2.1 O QUE É UM DOCUMENTÁRIO?..................................................................... 27 2.2 MODOS ............................................................................................................ 30 2.2.1 Modo poético ................................................................................................ 31 2.2.1.1 Elena (2012)................................................................................................. 31 2.2.2 Modo expositivo ........................................................................................... 32 2.2.2.1 Trabalhadores Presentes (1975) .................................................................. 33 2.2.2.2 O dilema das redes (2020) ........................................................................... 34 2.2.3 Modo observativo ........................................................................................ 35 2.2.3.1 Restos (1975) ............................................................................................... 35 2.2.3.2 A vida em mim (2019) .................................................................................. 36 2.2.4 Modo participativo ....................................................................................... 37
2.2.4.1 Nascidos em bordéis (2014) ......................................................................... 38 2.2.4.2 Feministas: O Que Elas Estavam Pensando? (2018) ................................... 39 2.2.5 Modo reflexivo .............................................................................................. 40 2.2.5.1 I am - Você tem o poder de mudar o mundo (2010) ..................................... 40 2.2.6 Modo performático ....................................................................................... 42 2.2.6.1 40 M² (2020)................................................................................................. 42 2.3 A REPRESENTAÇÃO DO OUTRO ................................................................... 43 2.4 A ÉTICA E A VOZ NA COMPOSIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO.......................... 44 CAPÍTULO - 3. O DESLOCAMENTO FORÇADO NO MUNDO ............................. 51 3.1 PESSOAS EM SITUAÇÃO DE REFÚGIO NO MUNDO .................................... 51 3.1.1 Categorias de deslocamentos forçados ...................................................... 51 3.1.2 Por que isso acontece? ............................................................................... 53 3.1.3 América Latina ............................................................................................. 54 3.1.4 ACNUR e Direitos Humanos Universais ..................................................... 56 3.2 REFUGIADOS NO BRASIL .............................................................................. 58 3.2.1 Direitos dos refugiados no Brasil ............................................................... 58 3.3 CONVENÇÃO DE 1951 ..................................................................................... 59 3.4 ESTATUTO DO ESTRANGEIRO ....................................................................... 60 3.4.1 Lei de Migração ............................................................................................. 61 3.5 REFUGIADOS EM SÃO PAULO ....................................................................... 62 3.6 SITUAÇÃO DE REFÚGIO MEDIANTE A PANDEMIA DE COVID-19................. 65 3.6.1 Reabertura das fronteiras ............................................................................. 66 CAPÍTULO 4 - BÍBLIA DE PRODUÇÃO “EU SOU E ESTOU AQUI” ................... 68 4.1 EXPLICAÇÃO DO TÍTULO ............................................................................... 68 4.2 SINOPSE/APRESENTAÇÃO ............................................................................ 68 4.3 OBJETIVOS ....................................................................................................... 68 4.3.1 Geral ............................................................................................................... 68 4.3.2 Específicos .................................................................................................... 68 4.4 CLASSIFICAÇÃO DO PROJETO ..................................................................... 69 4.4.1 Classificação Indicativa ............................................................................... 69 CAPÍTULO 5 - ARGUMENTO ................................................................................ 70 5.1. VISÃO ORIGINAL ............................................................................................. 70 5.2 PROPOSTA DE DOCUMENTÁRIO .................................................................. 71 5.3 ELEIÇÃO E DESCRIÇÃO DO(S) OBJETO(S) ................................................... 72
5.3.1 Personagens reais ........................................................................................ 72 5.3.2 Poema ............................................................................................................ 72 5.3.3 Objetos representativos ............................................................................... 73 5.3.4 Cartelas .......................................................................................................... 73 5.3.5 Visão subjetiva .............................................................................................. 73 5.3.6 Visão objetiva ................................................................................................ 73 5.3.7 Arquivo de memória...................................................................................... 73 5.4 ELEIÇÃO E JUSTIFICATIVA PARA A(S) ESTRATÉGIA(S) DE ABORDAGEM . 74 5.4.1 Personagens reais ........................................................................................ 74 5.4.2 Poema/Objetos representativos ................................................................... 74 5.4.3 Luzes .............................................................................................................. 78 5.4.4 Prédios/ruas .................................................................................................. 78 5.4.5 Equipe ............................................................................................................ 78 5.4.6 Cartelas .......................................................................................................... 79 5.4.7 Visão objetiva/Visão subjetiva ..................................................................... 79 5.4.8 Arquivo de memória...................................................................................... 80 5.5 SUGESTÃO DE ESTRUTURA........................................................................... 80 CAPÍTULO 6 - DESENHO DE PRODUÇÃO .......................................................... 81 6.1 PESQUISA E MATERIAL DE ARQUIVO............................................................ 81 6.2. CONTRATAÇÕES ............................................................................................ 87 6.3 OBJETO(S) DA ABORDAGEM .......................................................................... 88 6.3.1 Detalhes da Abordagem ............................................................................... 88 6.4 PROVIDÊNCIAS E INFRAESTRUTURA DE PRODUÇÃO ................................ 90 6.5 EQUIPE DE GRAVAÇÃO .................................................................................. 92 6.5.1 Equipamento de Vídeo .................................................................................. 93 6.5.2 Equipamento de Áudio ................................................................................. 93 6.5.3 Material sensível ........................................................................................... 93 6.6.1 Horas de Gravação por dia ........................................................................... 93 6.7 INFRAESTRUTURA PARA EDIÇÃO ................................................................. 94 6.7.1 Montagem - Manipulação de Sons e Imagens ............................................. 94 6.8 EQUIPE ............................................................................................................. 95 6.9 PÓS-PRODUÇÃO .............................................................................................. 96 6.10 REFERÊNCIAS ESTÉTICAS ........................................................................... 96
6.10.1 Atlantics- Netflix (2019) ............................................................................... 96 6.10.2 Atlânticos - (2009) Curta-metragem/experimental .................................... 97 6.10.3 "Marked” – Netflix (2021) ............................................................................ 98 6.11 PÚBLICO-ALVO ............................................................................................. 100 6.12 VEICULAÇÃO/DISTRIBUIÇÃO ..................................................................... 101 6.13 JUSTIFICATIVA ............................................................................................. 101 6.14 CRONOGRAMA DE PRODUÇÃO ................................................................ 102 6.15 ORÇAMENTO PREVISTO ............................................................................ 103 6.16 ORÇAMENTO REAL..................................................................................... 107 CAPÍTULO 7 – CONSIDERAÇÕES PARCIAIS DA PRODUTORA ...................... 111 7.1 CONSIDERAÇÕES FINAIS DA PRODUTORA – RELATO INDIVIDUAL .............. 112 7.1.1 Ana Carolina Fiel Da Silva ................................................................................................................... 112 7.1.2 Carine Giovana Santos........................................................................................................................... 113 7.1.3 Paula Raphaela Teixeira Martins ................................................................................................... 115 7.1.4 Thamires Brito Affonso .......................................................................................................................... 116 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................. 119 8.1 DOCUMENTÁRIOS ................................................................................................................................................ 119 8.2 LIVROS .......................................................................................................................................................................... 120 8.3 PALESTRAS ............................................................................................................................................................... 121 8.4 SITES .............................................................................................................................................................................. 122
APÊNDICE ........................................................................................................... 124
INTRODUÇÃO
O presente documento tem como finalidade apresentar a bíblia de produção do documentário “Eu sou e estou aqui”, realizado pela produtora universitária Abelha Produções para o Trabalho de Conclusão de Curso em Rádio, Tv e Internet da Universidade Cruzeiro do Sul. O documentário apresenta duas mulheres em situação de refúgio de diferentes nacionalidades, a proposta do documentário é apresentar as vivências delas inseridas em uma nova cultura, demonstrar as trajetórias e o desejo de serem livres. No primeiro capítulo é apresentado a identidade da produtora, como missão, visão e valores, assim como cada integrante do projeto, também um breve resumo de outras produções que foram realizadas ao longo do período acadêmico que hoje fazem parte do portfólio individual de cada membro da produtora. Já no segundo capítulo são fundamentadas as características do gênero documentário e as suas definições, o autor principal escolhido para seguir a fundamentação foi Bill Nichols. Ainda neste capítulo, são abordados dados demográficos sobre refugiados no mundo, Brasil e São Paulo. Por fim, no terceiro capítulo é estruturada a bíblia de produção do projeto, trazendo atributos técnicos e teóricos para a construção do documentário. Também, foi inserido como será a abordagem com os atores sociais, assim como os objetos de estudo. Esse material como um todo, possui o conhecimento adquirido por todos os integrantes, no decorrer desses anos de formação.
10
CAPÍTULO 1. PRODUTORA
1.1 ABELHA PRODUÇÕES
A Abelha Produções é uma produtora universitária fundada em 2020 por alunos de Rádio, TV e Internet com o intuito de trazer informação e inovação para o público por meio de conteúdos audiovisuais criativos e sensíveis. As integrantes que compõem atualmente a produtora são: Ana Carolina Fiel da Silva, que fez parte de outras produtoras, sendo: Odin e Câmera Um, também as integrantes Carine Giovana Santos, Paula Raphaela e Thamires Afonso Brito, que ao longo dos semestres fizeram parte de outras produtoras universitárias, sendo: Set Produções, Reset Produções, Estúdio Coruja e Da Vinci Audiovisual onde colaboraram com outros integrantes em produtos audiovisuais de qualidade e que ajudaram na construção e na formação acadêmica. Qualidade, criatividade e cumprimento de prazos, esses princípios regem o dia a dia da Abelha Produções, as produções são realizadas sempre com dedicação para promover o melhor conteúdo.
1.2. DEFINIÇÃO DO LOGO
A logomarca da Abelha Produções nasceu da ideia de que abelhas são produtivas, organizadas e tem um sistema cooperativo para fazer o mel, o que significa que a produtora unida produz conteúdos audiovisuais bons e com harmonia entre a equipe.
11
Com variações do logo, a produtora além de visar construir uma identidade visual, também busca criar interações pelas redes sociais divulgando trabalhos, projetos e prêmios contemplados.
Figura 1 - Identidade Visual
Fonte: Autoria própria
1.3. IDENTIDADE ORGANIZACIONAL
Missão: Criar conteúdo criativos e que contribuem para reflexão e informação do público. Visão:
12
Visamos produzir conteúdo de qualidade e com originalidade, nosso objetivo é construir relações que tornem melhor a vida dos indivíduos. Valores: Valorizamos a diversidade e estética, assim como o trabalho em equipe, respeito e ética. Queremos que nosso público acredite que nossas produções sejam como uma das melhores e as mais criativas. Buscamos superar expectativas com inovação e singularidade.
ANA CAROLINA FIEL DA SILVA Natural de São Paulo, atualmente está cursando o 7° semestre em Comunicação Social com habilidade em Rádio, TV e Internet na Universidade Cruzeiro do Sul. Estagiária de comunicação no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Durante o ensino médio, coordenou uma oficina de teatro que era realizada uma vez por semana com os alunos, e durante o mesmo período, realizou o curso profissionalizante de Artes Cênicas no Teatro Macunaíma durante 2 anos. Em 2020, realizou o curso de produção de vídeos para a internet no SENAC com duração de 6 meses.
CARINE GIOVANA SANTOS Natural de São Paulo, atualmente está cursando 7º semestre de Rádio, Tv e Internet na Universidade Cruzeiro do Sul. Foi estagiária de comunicação na Fundação Memorial da América Latina. Estudou na ETEC Carlos de Campos o curso de Modelagem do Vestuário e o curso de Audiovisual na Casa de Cultura Raul Seixas no período de 2016. Formada em francês pelo Centro de Estudo de Línguas da Secretaria Estadual de Educação (C.E.L), 2016. Diretora do documentário Vozes da Quarentena, que faz parte do Projeto Curta em Casa do Instituto Criar e Novas Mídias e da série original Globoplay “40 M²”.
thamires brito affonso Natural de São Paulo, atualmente cursando 7° semestre em Comunicação Social com habilidade em Rádio, TV e Internet na Universidade Cruzeiro do Sul. Trabalha como Social Media e Assistente de E-commerce na empresa Outlet LIngerie no setor de Marketing. Foi apresentadora do programa musical de TV “Tropicália”, roteirista do programa de rádio Flash Love, atuou como personagem Júlia na radionovela “Adeus Argentina”, figurinista e assistente de produção na revista eletrônica “Caminhos” assistente de produção do documentário Vozes da Quarentena, que faz parte do Projeto Curta em Casa do Instituto Criar e Novas Mídias e da série original disponível no Globoplay “40 M²”, diretora de fotografia da websérie “Entre lados” e diretora da videoclipe “Já dizia Cardi B”.
PAULA RAPHAELA TEIXEIRA MARTINS Natural de São Paulo, atualmente está cursando o 7° semestre em Comunicação Social com habilidade em Rádio, TV e Internet na Universidade Cruzeiro do Sul. Trabalhou como atriz na companhia teatral Arte e Faces realizando turnês em diversos estados do Brasil, atualmente trabalha para uma empresa de gestão empresarial como auxiliar de produção audiovisual para a primeira plataforma multimídia na área contábil. Foi diretora do Programa Caminhos e assistente de direção e produção do documentário Vozes da Quarentena, que foi selecionado pelo projeto Curta em Casa do Instituto Criar e Novas Mídias e compõe a série original Globoplay ‘’40m²”.
ÇÃO E MONTAGEM Carine Santos Paula Raphaela Teixeira Martins
Ana Carolina Fiel da Silva Carine Santos Thamires Brito Affonso Paula Raphaela Teixeira Martins
Ana Carolina Fiel da Silva
Paula Raphaela Teixeira Martins
Carine Santos
17
1.5. PORTOFÓLIO 1.5.1 Jogo Evolute (2018) Figura 2 - Jogo Evolute
Fonte: Produtora Set Produções
Jogo realizado no primeiro semestre de Rádio, Tv e Internet da disciplina História Social da Comunicação, da Universidade Cruzeiro do Sul.
1.5.2 Quadrinhos A2 (2018)
Figura 3 - Quadrinhos A2
Fonte: Produtora Câmera1
18
Transposição dos quadrinhos para uma versão auditiva. Transpondo o terceiro volume da série de Paulo Crumbim e Cristina Eiko.
1.5.3 Radionovela Adeus Argentina (2018)
Figura 4 - Quadrinhos A2
Fonte: Produtora Reset
Sinopse: Pedro sai do interior e decide morar em um albergue na cidade de São Paulo, onde começa uma jornada de busca por emprego e amizade com dois moradores: Santiago e Julia. Ambos os três passam por mudanças e situações que transformam suas vidas. A radionovela tem como proposta o seguimento da narrativa seriada, onde cada episódio é independente e em caso especial dois episódios são feitos para contar uma história. A história tem como embasamento teórico o proposto pelas disciplinas: Comunidades e o Terceiro Setor, Políticas Públicas e Teoria da Comunicação.
1.5.4 Programa de TV Tô na Rua (2018)
19
Figura 5 – Tô na Rua
Fonte: Produtora Câmera1
Revista eletrônica que evidencia artistas de rua mostrando suas histórias pessoais, arte e impacto na cidade. No primeiro episódio seguimos artistas que fazem da Avenida Paulista seu palco.
1.5.5 Box Set (2018)
Figura 6 – BOX SE7
Fonte: Produtora Câmera1
Programa geek para televisão que em cada episódio aborda um gênero cinematográfico. No primeiro episódio a história sobre o gênero Terror é abordada.
20
1.5.6 Trupecália (2018)
Figura 7 – Programa de Clipes Musicais
Fonte: Produtora Set Produções
Programa de clipes musicais com dois apresentadores. O programa pensado na temática do movimento artístico musical tropicália, tem como objetivo a cada semana montar top 10 de músicas nacionais por meio de votação do público.
1.5.7 Programa caminhos (2019)
Figura 8 – Tô na Rua
Fonte: Produtora Estúdio Coruja
21
Programa de televisão em formato de revista eletrônica, focado em cidades turísticas de São Paulo, onde habitantes dos grandes centros possam viajar para outras cidades do estado em que vivem para um final de semana de novas experiências, um programa para pessoas que gostam de viajar e conhecer novos lugares.
1.5.8 O Ateliê (2019)
Figura 9 – O Ateliê
Fonte: Produtora Vinci Audiovisual
Sinopse: a cada episódio, 3 novos talentos das artes visuais passarão por desafios e colocarão suas técnicas em jogo para serem avaliados por jurados especialistas que determinarão o vencedor. O Ateliê é um programa televisivo no formato de talent show de artes visuais, com o total de 4 episódios por temporada, sendo o último episódio a grande final entre os três vencedores dos episódios anteriores, que determinará qual deles será o “Mestre do Ateliê”.
22
1.5.9 Programa de Rádio Pop Game (2019) Figura 10 – Pop Game
Fonte: Produtora Câmera1
Game show radiofônico sobre cultura geek, com locução diversa que muda de acordo com o programa.
1.5.10 Força Feminina (2020)
Figura 11 – Força Feminina
Fonte: Autoria própria
Força feminina é um programa de rádio voltado para o público jovem. Com
temas
sobre
empreendedorismo
feminino,
empoderamento
e
23
autoestima, o programa convida especialistas para falar sobre os temas escolhidos do dia.
1.5.11 Documentário Influenciadores (2019)
Figura 12 – Influenciadores
Fonte: Produtora Câmera1
Documentário sobre dois influenciadores digitais e seu dia a dia, contando com participações especiais de Bibi Tatto e Laddy Nada.
1.5.12 Vozes da Quarentena (2020)
Figura 13 – Documentário Vozes da Quarentena
Fonte: Autoria própria
24
Sinopse: Em meio à trajetória do avanço da pandemia do coronavírus, surgem diversas medidas de isolamento social, a qual para uma parcela da sociedade torna-se difícil de cumprir. Vozes da Quarentena apresenta relatos de pessoas que em meio à pandemia necessitam continuar expostos nas ruas devido ao trabalho e outros que têm o privilégio de trabalhar em casa, entretanto, essas vozes em meio ao período atual precisam se readaptar com a nova realidade, esses relatos ultrapassam a crise econômica anunciada para refletir a crise emocional e readaptação em meio ao isolamento social. Vozes da Quarentena é um documentário produzido por estudantes de Rádio, TV e Internet, foi selecionado para o Projeto Curta em Casa realizado pelo Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias, com o apoio do Paradiso, Spcine e Curta Kinofórum. A Abelha Produções, recebeu uma bolsa para a criação do curta metragem cujo tema é sobre conteúdos que reflitam o momento de pandemia, a partir da perspectiva de suas casas. O documentário além de ser selecionado pelo projeto faz parte da série original Globoplay chamada: 40M² (quarenta metros quadrados).
1.5.13 Websérie Entre lados (2020)
Figura 14 – Websérie Entre Lados
Fonte: Autoria própria
25
Sinopse: Laura Lopo com amnésia pós-traumática tem memórias fragmentadas do seu pai. Com as ações do centro oprimindo a favela, onde Laura Lopo hoje vive, ela descobre que o seu pai está vivo e é aliado a este poder dominante. Para encontrar seu pai e descobrir a verdade sobre sua história, ela busca refúgio no mercado clandestino de cidade, o limbo, mas para isso, será necessário prestar favores para ele.
27
CAPÍTULO - 2. ÉTICA E O QUE É DOCUMENTÁRIO
2.1 O QUE É UM DOCUMENTÁRIO?
O documentário é um gênero onde se pode avaliar sua evolução a partir de comparações de documentários feitos ao longo da história, mas também é algo sujeito a mudança e dinâmico, onde a forma de fazer documentário desempenha um papel cada vez mais inovador de acordo com cada documentarista. Com base nas informações de Carl Platinga, o documentarista João Moreira Salles, afirma no artigo ‘’a dificuldade de documentar o mundo’’:
O gênero documentário, ao contrário do cinema ficcional clássico, jamais contou com a força estabilizadora da indústria para impor convenções estilísticas e padrões narrativos relativamente homogêneos (SALLES, 2015, pg.333).
À medida que a sociedade muda e novas tecnologias e maneiras de representar o mundo e refletir sobre ele surgem, faz com que o documentário desde seu início tenha essa forma de saber distinguir o que é e mesmo assim não o limitar a somente algo, mas sendo algo que pode abranger a percepção, além de defini-lo, partindo sempre do documentarista e como é sua perspectiva inovadora na forma de se fazer documentário. No livro ‘‘A verdade de cada um’’, no artigo “Documentar o mundo’’, Wintonick afirma:
Para a Geração D (de digital), vivendo na Era Digital, o documentário está se reencarnando como documento digital. Um documento que pode incorporar
28
elementos de ficção, realidade, animação, artes gráficas, linguagens cibertextuais, áudio, TV e design de games (WINTONICK, 2015, pg. 292).
Mesmo que o documentário incorpore elementos de ficção, João afirma: ‘’manipular o material não significa aproximá-lo da ficção’’ (SALLES, 2015, pg.342). O documentário é um filme em que lida com a verdade e pode ser abordado de uma forma mais liberal, onde o cineasta leva o espectador a entender a narrativa através da perspectiva escolhida. Não existe uma fórmula mágica para a produção cinematográfica documental. O gênero não é fácil de definir, justamente por conter uma profundidade tão rica, uma diversidade fílmica e abordar diversos métodos, estilos e técnicas. O documentário traz à tona a emoção do espectador a partir da sua vivência pessoal. Não é apenas uma forma de contar, mas uma maneira de contar como alguns acontecimentos marcaram toda uma sociedade, é o como estes refletem na sociedade contemporânea. A montagem do documentário pode ser utilizada através de arquivos históricos, imagens, entrevistas, mesmo existindo um roteiro, o formato final somente se define com as filmagens, a edição e a montagem. Silvio Da-Rin em “Espelho partido: Tradição e transformação do documentário”, cita Christian Metz que se refere ao documentário como um dos “grandes regimes cinematográficos" (DA-RIN, 2004, pág.18), pois as abordagens são fluidas e incertas, por mais que não exista uma definição específica, a linguagem do documentário é clara, pois qualquer espectador que entre em contato com o gênero, saberá que se está assistindo é ou não um documentário. Já John Grierson, diz que “Documentário é o tratamento criativo da realidade” (GRIERSON, 2004, pág. 18). O documentarista acredita que para que o documentário mantenha a espontaneidade, a filmagem deveria existir um período de convivência do cineasta com o ambiente e as pessoas do lugar. Esse método era considerado uma premissa básica. Uma qualidade que Grierson reputava fundamental era a finalidade, o documentário predomina um efeito de subjetividade. Grierson sintetizou sua distinção entre a aparência
29
fenomenal que a lente da câmera registra e a compreensão da realidade que a interpretação criativa pode proporcionar: “No documentário nós lidamos com o atual, e, neste sentido, com o real. Mas a realidade, por assim dizer, é algo mais profundo. A única realidade que conta, enfim, é a interpretação que consegue ser profunda” (GRIERSON, 2004, pág. 18). No documentário a parcialidade é bem-vinda, ao contrário do jornalismo em que busca uma imparcialidade. O gênero é marcado principalmente pelo ponto de vista do diretor e seu objetivo de transmitir a mensagem. Dziga Vertov traz o fundamento do cinema-verdade que é “a verdade expressa por todo o leque das possibilidades cinematográficas" (VERTOV, 2004, pág.116) e seu objetivo principal era a verdade. Vertov entendia que, durante a filmagem, a câmera não deveria interferir no curso normal dos acontecimentos. Para mostrar a vida como ela é, era necessário um registro absolutamente espontâneo. A última relação que se define o que é documentário, parte do público e de como enxergam o produto documentário que contém a representação de algo, ou alguma coisa com imagens e sons fidedignos com o que também vemos no mundo real. Para Salles, uma das formas de diferenciar ficção e não ficção é como o espectador enxerga o documentário, além disto, a veracidade do que será exibido e posteriormente visto, tornam-se parte desta diferenciação. Sendo assim, se cria uma expectativa quando um público específico gosta e deseja ver um documentário: deseja-se ver este vínculo de imagem e som, ou seja, a representação do real, como se faz a transformação desse vínculo, o que significa, de como contar esta história e da importância do reconhecimento do ponto de vista colocado ali, constituído e construído com personagens reais, o público deseja perceber a oscilação entre o que é o mundo real e o que está sendo representado na tela para não quebrar a expectativa que se cria, onde são definidas pelo que se apresenta como elementos reais, representados de um ponto de vista do documentarista, não sendo somente filmagens documentais, mas algo que o público espera
30
mostrar algum ponto de vista do mundo em que vivemos e causar-lhes algum tipo de reação.
2.2 MODOS
O que define o documentário como um gênero é ter características suficientes que o diferem de um filme de ficção, Bill Nichols em seu livro “Introdução ao Documentário" apresenta uma estrutura muito importante a partir de análises feitas de documentários existentes, o que é definido como “modos” no documentário, significam uma estrutura, protótipos ou modelos de documentários. A análise feita por Nichols destes documentários existentes pôde perceber que os modos caminham com as inovações e movimentos artísticos, avanço dos problemas da sociedade e como o documentário serve de base para retratar estes problemas ou mostrar indagações do mundo histórico por meio dos documentaristas que os realizaram. Bill Nichols, diz que:
Modos também distinguem o documentário de outros tipos de filmes. Os modos aproximam-se dos movimentos, posto que um novo modo geralmente tem seus defensores, além de princípios e objetivos; no entanto, também costuma apresentar base mais ampla de apoio, de forma que diferentes movimentos podem derivar de um único modo (NICHOLS, 2001, pg. 62).
Os modos, sendo os protótipos existentes de documentários, não carregam uma estrutura limitadora ou uma regra rígida de como são os documentários em cada modo específico, são modelos que servem como uma representação, uma base para organizar o produto audiovisual, chamados por Bill Nichols de: Modo poético, Modo expositivo, Modo observativo, Modo participativo, Modo reflexivo e Modo performático.
31
2.2.1 Modo poético
O
modo
poético
apresenta
características
predominantes
no
documentário associadas às vanguardas europeias e próximo ao movimento modernista, pois não carrega em si uma linearidade de acontecimentos em seu estilo de documentário e foi próximo ao surgimento destes (primeira metade do século XX), tendo como características o uso de emoções dos personagens, seus estados de espírito e ações persuasivas, do que de fato usar a persuasão em seu discurso oratório. Sobre o modo poética, Nichols afirma que:
O modo poético começou alinhado com o modernismo, como uma forma de representar a realidade em uma série de fragmentos, impressões subjetivas, atos incoerentes e associações vagas (NICHOLS, 2001, pg.140).
2.2.1.1 Elena (2012)
Figura 15 – Documentário: Elena
Fonte: Poster de divulgação do documentário dirigido por Petra Costa
32
Um exemplo de documentário do modo poético é o documentário: Elena (2012) de Petra Costa. O documentário narra em primeira pessoa como é o sentimento, marcado por memórias e percepções da vida pessoal de Petra em relação a sua irmã que se suicidou. Além da montagem seguir uma característica forte do modo poético, também tem as características de “Associações visuais, qualidades tonais ou rítmicas, passagens descritivas e organização formal”. (NICHOLS, 2001, pg. 62) Neste documentário, a diretora resgata a trajetória de sua irmã, que se mudou para Nova York com o sonho de ser atriz.
2.2.2 Modo expositivo
O modo expositivo está ligado a uma montagem do documentário mais direta e objetiva, onde se apoia pelo argumento e o uso de imagens construídas como “provas” deste argumento, o que vale como elemento de persuasão está inserido no discurso oratório, segundo Nichols, o modo expositivo enfatiza a impressão de objetividade e argumento bem-embasado (NICHOLS, 2001, pg. 144).
33
2.2.2.1 Trabalhadores Presentes (1975)
Figura 16 – Documentário: Trabalhadores Presente
Fonte: Poster de divulgação do documentário dirigido por João Batista de Andrade
Dirigido por João Batista de Andrade, o documentário é situado em São Paulo e expõe a primeira festa organizada por trabalhadores desde 1964, a festa é situada em um estádio de futebol na região do ABC. Na festa organizada pelos trabalhadores, eles lutam por reivindicações de melhores condições para a classe operária, aumento de salário e questionam sobre a falta de representação sindical e regularização de horas extras, lutam para que esta classe seja ouvida e que ações benéficas sejam implementadas. O documentário com o modo expositivo presente, compõe-se de elementos deste modo: a narrativa que apresenta argumentos da classe trabalhadora em relação a esta luta e estas questões são apresentadas ao espectador, a voz over é composta para complementar informações e narrar acontecimentos e imagens implementadas para comprar o que está sendo dito.
34
2.2.2.2 O dilema das redes (2020)
Figura 17 – Documentário: Trabalhadores Presente
Fonte: Poster de divulgação do documentário dirigido por Jeff Orlowski
Dirigido por Jeff Orlowski, o documentário foi lançado em 2020 e especialistas em tecnologia e profissionais da área apresentam argumentos para comprovar como as redes sociais podem ter um impacto devastador sobre a democracia e a humanidade. Com depoimentos de ex-funcionários de grandes empresas que regem o campo da internet, como o Google e o Facebook, o documentário é intercalado com simulações dos depoimentos de ex-funcionários da área, usando uma família de atores para representar um jovem que tem sua vida influenciada totalmente pelas redes sociais e com vício de consumo delas, sem conseguir ou perceber que está usando mais que o necessário. O documentário usa o jovem (ator) como exemplo de como as redes sociais podem influenciar desde ações na vida pessoal, até em larga escala podendo influir numa democracia inteira, essas dentre outras, são características fortes do modo expositivo presente no documentário, sendo o argumento bem-embasado, com simulações e exemplos narrados com ações e voz-over.
35
2.2.3 Modo bservativo
Neste tipo de documentário a ação que está ocorrendo independe da existência da câmera ou do documentarista ali presente, a câmera observa as ações que estão sendo mostradas.
2.2.3.1 Restos (1975)
Figura 18 – Documentário: Restos
Fonte: Poster de divulgação do documentário dirigido por João Batista de Andrade
Dirigido por João Batista de Andrade, o documentário foi produzido no antigo lixão da Raposo Tavares em São Paulo. O documentário observativo apresenta aos espectadores a realidade dos catadores no lixão e a repressão policial sobre eles. O documentário é segmentado por telas, como por exemplo ‘’restos de comida’’ e ‘’mulheres, crianças e velhos’’, e em seguida a narrativa da
36
segmentação é exposta ao espectador, este modelo de segmentação também se encontra presente no documentário boca de lixo (1993) de Eduardo Coutinho. Com o modo observativo ativo no documentário Restos, a câmera torna-se oculta diante dos personagens e a realidade dos catadores está à frente do documentarista, as imagens são registradas tal como a realidade mostra-se presente diante da câmera sem a intervenção do documentarista para com os acontecimentos. Em um momento, os catadores são impedidos de continuarem coletando e câmera observa uma mulher que ao seu lado está uma criança, sendo abordada por um policial, a mulher é coagida a deixar a sua coleta e a câmera vigia a mulher colocando as sacolas no chão enquanto afasta-se do policial. O documentário expõe a realidade à sua frente sem a interferência de efeitos sonoros, entrevistas ou a interferência do documentarista.
2.2.3.2 A vida em mim (2019)
Figura 19 – Documentário: A vida em mim
37
Fonte: Poster de divulgação do documentário dirigido Kristine Samuelson e John Haptas
Dirigido por Kristine Samuelson e John Haptas, o documentário foi lançado em 2019 e apresenta a realidade de crianças refugiadas na Suécia após desenvolver a Síndrome da Resignação, uma doença com sintomas do coma. Apesar do documentário possuir um modo híbrido, é observado a presença do modo observativo exposto no dia a dia e a relação dos familiares com as crianças com a Síndrome da Resignação. Contém um ponto de vista sobre a questão do refúgio na Suécia, as crianças com síndrome da Resignação tem como uma das características o medo e trauma passado no seu país de origem que as fizeram ficar em coma no novo país por esse país não lhes garantir total segurança, algumas famílias sem a certeza que não serão mais apátridas ou aceitas devidamente com documentos e direitos de refugiados na Suécia, acabam passando o sentimento de incerteza para os filhos ou essas crianças observam isso dos pais, o que faz com que elas criem uma maneira de segurança que as fazem ficar em coma. Sendo um assunto muito sério, o modo observativo é essencial para entender e dar ênfase no que essas famílias desejam melhorar suas condições de vida no país atual e dar segurança de vida para seus filhos.
2.2.4 Modo participativo
Neste modo, o documentarista torna-se ativo no documentário, sua interação é mais direta, geralmente é feito por meio de entrevistas, locuções ou outra forma que aproxime o documentarista do tema apresentado. O documentarista é ativamente engajado neste tipo de documentário.
38
2.2.4.1 Nascidos em bordéis (2014)
Figura 20 – Documentário: Nascidos em Bordéis
Fonte: Poster de divulgação do documentário dirigido Ross Kauffman e Zana Brisk
Dirigido por Ross Kauffman e Zana Brisk, o documentário foi produzido na Índia em 2004 no Distrito da Luz Vemelha, Calcutá e recebeu os prêmios de melhor documentário no National Board Of Review - Prêmio da Audiência: Sundance Film Festival e Los Angeles Film Crtics. O documentário apresenta a vida de crianças que são filhas de prostitutas e que vivem nos bordéis. A fotógrafa e documentarista Zana Brisk, mantém-se presente na narrativa durante o documentário por meio das entrevistas que realiza, da locução que enfatiza a realidade à sua frente e principalmente da interação direta que é construída com as crianças dos bordéis por meio das aulas de fotografia que decide lecionar para que tenham a oportunidade de expressarem seus olhares, pensamentos e a realidade em que vivem por meio da fotografia. Estas crianças, têm consciência do ambiente em que estão e o futuro à sua frente, durante as entrevistas, uma delas declara ‘’é preciso
39
aceitar que a vida é triste e dolorosa’’, outra menciona que conhece o seu destino: a mãe gostaria de faturar com ela. O modo participativo envolve-se na narrativa com a envoltura que a documentarista constrói, tornando-se presente no tema. Com o objetivo de conceder uma oportunidade para as crianças e com a participação ativa da Zana neste processo, as fotografias realizadas pelas crianças, tornam-se objetos de exposição em Nova York, além disso, a fotógrafa busca pessoalmente oportunidades nos internatos para que as crianças sejam matriculadas e tenham um futuro diferente do que já foi definido.
2.2.4.2 Feministas: O Que Elas Estavam Pensando? (2018)
Figura 21 – Documentário: O Que Elas Estavam Pensando?
Fonte: Poster de divulgação do documentário dirigido por Johanna Demetrakas
Dirigido por Johanna Demetrakas e lançado em 2018, o documentário resgata fotos dos anos 70 que captaram o despertar do feminismo, o filme mergulha na vida das mulheres retratadas que expõem suas vivências e conversam sobre o feminismo nos anos 70. O modo expositivo apresenta-se na interação da cineasta com o tema por meio das entrevistas que realiza com as mulheres, onde elas apresentam
40
fotos e contam sobre movimentos feministas que realizaram na época e sobre suas vivências pessoais. 2.2.5 Modo reflexivo
Este modo é o que questiona o mundo, que apresenta no documentário características de questionar uma crença, uma ideia, ou até mesmo aquilo que o público vê, o que pode ser construído para questionar o próprio documentário. Há também dentro deste modo os documentários politicamente reflexivos, que dizem que neste tipo de vídeo, (2001, pg.166) de uma perspectiva política, a reflexão aponta para nossas suposições e expectativas.
2.2.5.1 I am - Você tem o poder de mudar o mundo (2010)
Figura 22 – Documentário: I am Fonte: Poster de divulgação do documentário dirigido por Tom Shadyac
Dirigido por Tom Shadyac, o documentário foi lançado em 2011 nos Estados Unidos. Após contrair uma consunção, o documentarista Tom
41
Shadyac, decide viajar e entrevistar líderes intelectuais e espirituais questionando: o que há de errado com o nosso mundo e o que podemos fazer para melhorar? Ainda que o documentário seja híbrido, com a presença do modo performático na combinação de realidade por meio das entrevistas e ficção com a narrativa construída por meio de personagens fictícios para ilustrar as reflexões apresentadas, o modo participativo, com a participação ativa do documentarista iniciando-se com a sua biografia explanando a decisão de iniciar o documentário, o documentarista participa ativamente conduzindo as entrevistas e participando, resultado em umas das características que compõem os modos. Estes modos são usados como mecanismo para elucidar as reflexões apresentadas ao decorrer do documentário, resultando-se I am Você tem o poder de mudar o mundo, em um modo reflexivo. Ao longo do documentário e diante das questões apresentadas inicialmente, os entrevistados refletem e abordam questões como por exemplo, como a cultura tornou-se consumista e como o processo de adquirir bens materiais tornou-se sinônimo de alcançar a felicidade, entretanto, refletem que a riqueza não proporciona felicidade e gera competição. Os líderes refletem que existe uma conexão em um nível mais profundo entre os seres humanos e o ambiente externo, embora a olho nú, essa conexão não seja possível de comprovar, de acordo com modo que o indivíduo se relaciona com o exterior por meio das emoções individuais ou ações, o ambiente físico é afetado por um campo magnético. Com isso, os líderes consideram que mesmo que um indivíduo se sinta solitário, é resultado de uma percepção rasa, pois o indivíduo está conectado profundamente com o exterior, afastando-o de uma possível solidão. Os entrevistados apresentam a conscientização como o caminho para mudar o mundo e exemplificam esta reflexão. Diante destes exemplos e outros assuntos que são apresentados e refletidos diante da questão inicial, o documentarista decide mudar o estilo de vida.
42
2.2.6 Modo performático
Questiona também como o modo poético, sobre a compreensão do mundo, mas contém uma objetividade como o modo expositivo, é a junção destes dois modos, mas que contém características próprias que vão além destes. (2001, pg.170). Os filmes performáticos dão ainda mais ênfase às características subjetivas da experiência e da memória, que se afastam do relato objetivo. Também mostra um engajamento maior e a vontade do documentarista de causar algo no público, seja impacto social ou emocional.
2.2.6.1 40 M² (2020)
Figura 23 – Documentário: 40 M²
Fonte: Poster de divulgação do documentário dirigido por Tatiana Lohmann, Jéssica Queiroz e Samya Carvalho
43
Um exemplo de documentário performático se encaixa na série documental chamada “40 M²” (quarenta metros quadrados) que foi lançada pelo streaming Globoplay em 2020. Nesta série, foi construído, ou seja, feito uma nova montagem, um compilado, de documentários feitos por 200 (duzentos) artistas de diversas periferias da cidade de São Paulo, relatando suas perspectivas sobre a pandemia e o coronavírus que influenciou em estados de espíritos e mudança de vida de indivíduos no ano de 2020. Dentro destes pequenos documentários de seis minutos, há vários tipos de modos, alguns construídos em modos poéticos, outros argumentativos e outros performáticos. Porém, a série em si, como característica documental de mostrar todas essas perspectivas, têm como característica maior o modo performático, onde em cada episódio (sendo no total de quatro episódios) é mostrado partes dos relatos e sentimentos destes diversos grupos marginalizados que tiveram situações agravadas devido a pandemia, mostrando assim, a partir desta nova montagem, uma perspectiva mais persuasiva para causar impacto emocional e social para o público que assistir.
2.3 A REPRESENTAÇÃO DO OUTRO
O documentário serve como um veículo de expressão do ponto de vista de quem o está produzindo, ou seja, o documentarista “verbaliza”, mostra sua representação de mundo, constrói sua alteridade e sua subjetividade no produto audiovisual, a partir de um recorte da realidade social que ele deseja contar, problematizar, explicar ou indagar. Mas, diferente de um filme, o documentário lida com personagens reais, o que torna a ética parte fundamental dessa construção entre o documentarista e a construção do documentário, este tipo de documentário é chamado de não-ficção. A representação do outro então torna-se peça principal de como será feito a postura ética do documentarista, de querer contar sobre uma história ou determinado tema e de como essa relação será conduzida, porém, são linhas tênues que existem entre ética e a forma de fazer um documentário, o
44
que faz com que a ação ética seja pratica do documentarista, o respeito ético é o que ele deve construir com o tema ou personagem durante o processo do documentário e que notavelmente também será percebido pelo público como se deu esta construção ética com personagem ou tema, observando a forma como está sendo mostrada, com intenção ou sem intenção por parte do documentarista. No documentário existem maneiras de representar o outro, o personagem ou tema que deseja ser abordado, como por exemplo, um narrador, “a voz de Deus” (Eu falo deles para você) que pode ser feito em primeira pessoa tendo características como voz-over, ou até mesmo o narrador falando diante da câmera. Há também a forma de “falar de”, como se fosse uma história a ser contada, uma narrativa construída com os próprios personagens reais que são partes do tema para que aconteça o documentário ou algo que conte essa história dentro do universo do tema a ser abordado. “Você” também seria uma forma que é construída os documentários, que são feitos a partir de retóricas para o público, como forma de inseri-los no tema, como se estivesse falando com o público, enquanto que também existe uma forma que é contrária a esta, a forma de representação do outro na construção do documentário definido como “Eles”, onde há uma distância do público, como se estivessem assistindo de longe, como se o público somente observasse sobre o tema que está sendo mostrado, sem participar. Por último há também as formas de representar o outro que são definidas como “Ele fala deles para você” e “Ele fala deles – ou de alguma coisa – para nós".
2.4 A ÉTICA E A VOZ NA COMPOSIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO
O documentarista tem um compromisso ético e responsável durante a construção do documentário, tem o comprometimento com a verdade, excluindo a possibilidade da manipulação da veracidade dos fatos. É imprescindível que o documentarista mantenha a ética na relação com o personagem sendo indeclinável que os valores pessoais do documentarista
45
se destacam sobre os valores do personagem, resultando em um possível constrangimento e questionamentos dos valores pessoais. É necessário que não exista uma imposição sobre o outro, para que os vínculos de proximidade e confiabilidade sejam possíveis de serem estabelecidos e a fim de que os valores dos personagens e a integridade sejam preservados. De acordo com Salles, (2015, pg.346) ‘’ O que nós documentaristas temos de lembrar o tempo todo é que a pessoa filmada possui uma vida independente do filme. É isso que faz com que nossa questão central seja de natureza ética’’. Segundo Wintonick:
O documentário é um empreendimento ético, nunca houve um filme que não levantasse questões éticas. Variando desde quem está financiando o filme, passando por questões sobre a relação do cineasta com os assuntos durante a filmagem, até manipulações editoriais e marketing, a ética ergue sua adorável cabeça. (WINTONICK, 2015, p.290)
Ética é estabelecer um diálogo com o personagem e compreender os seus limites em relação ao tema que será discutido, é essencial estar disposto a ouvir e respeitar seus questionamentos. O corpo e a mente do documentarista devem estar presentes e atentos aos possíveis sinais de desconforto ou bem-estar do personagem, de acordo com Coutinho ‘’[...] hesitações, silêncios, tropeços, ritmos, inflexões, retomadas diferenciadas dos discursos. E gestos, franzir os lábios, de sobrancelhas, olhares, respirações, mexer de ombros etc.” (2015, p.285 e 286). Compreendo assim, o limite do outro. Em decorrência do tema em questão e as relações que serão préestabelecidas com os atores sociais participantes, a equipe tem como compromisso ético não os traumatizar e não os forçar a reviverem os traumas, uma vez que, a gravidade do impacto na vida social relacionado aos eventos, podem ter afetado a saúde mental dos indivíduos resultando em medos, inseguranças, dificuldades de convívio em sociedade, desenvolvimento de doenças psíquicas etc.*. Não os forçar significa, ouvi-los, respeitá-los de
46
acordo com o que estão dispostos a contar, e principalmente não questionar os seus limites. A questão ética permeia além da pessoa que se encontra em situação de refúgio e que está disposto a contar a sua história, questionar a sua exposição no documentário é um compromisso para assegurar graves consequências para o entrevistado e parentes que ainda se encontram no país de origem, visto que, o refugiado solicita proteção no país que agora se encontra. As medidas de segurança podem ser preservadas como por meio da atribuição de outro nome e da não identificação da entrevistada, resultando em uma abordagem que antecipa os riscos em relação à exposição do entrevistado. Tendo em vista que as pessoas que estão em situação de refúgio possuem trajetórias e razões distintas é imprescindível que a sua exposição no produto audiovisual não seja generalizada em relação a sua nacionalidade, ou seja, é dever da produtora dar voz para os atores sociais que são os únicos protagonistas que possuem a capacidade de expor suas próprias vivências, com o objetivo de desconstruir preconceitos em decorrências de estereótipos em torno da questão do tema de refugiados. No livro Ética Pós-Moderna, no capítulo Responsabilidades Morais, Normas Éticas, segundo Bauman:
Como nos aproximarmos das pessoas no campo de nossa visão e alcance, e como decidir quais ações são boas (e, sendo assim, devem ser feitas) e quais ações são más (e, sendo assim, devem ser evitadas), dependendo de seus efeitos visíveis e previsíveis sobre essas pessoas (BAUMAN, 1997, p.25)
Respeitar as culturas, hábitos e tradições dos atores sociais envolvidos no projeto audiovisual e decidir as ações adequadas na abordagem, é indispensável o aprofundamento dos estudos relacionados a cultura e aos
47
hábitos dos envolvidos, além da compreensão do contexto social, físico e mental que eles se encontram decorrentes da migração forçada. Além
do
compromisso
ético
para
com
o
personagem,
o
documentarista, Nichols também define o que é a voz do documentarista:
O estilo assume uma dimensão ética. A voz do documentário transmite qual é o ponto de vista social do cineasta e como se manifesta esse ponto de vista no ato de criar o filme (NICHOLS, 2001, pg. 76).
A voz do documentário está ligada a perspectiva do documentarista que significa como ele deseja mostrar sua intenção sobre questões da sociedade, para isso, é definida no livro dois tipos de vertentes: voz do comentário e voz da perspectiva, que nada mais é que a forma explícita do documentarista mostrar seu ponto de vista (voz comentário) ou mostrar sua voz implícita (voz da perspectiva) que significa colocar no filme seu ponto de vista em segundo plano, como se a mensagem não estivesse totalmente exposta, mas que é deixada por meio da montagem, sem seguir uma linha argumentativa sobre a ideia que deseja revelar implicitamente por meio da mensagem. Compreendendo a barreira linguística como um mecanismo de inviabilidade da integração na sociedade acolhida sendo decorrente da insuficiência na língua portuguesa, para que a comunicação entre a equipe e o ator social seja efetiva, é atribuído a ferramenta de escuta ativa* que tem como objetivo um diálogo eficiente. Na utilização desta ferramenta determinados fatores são essenciais, tais como, o interesse pelo assunto e pela fala do interlocutor; Estar presente e demonstrar acolhimento por meio de perguntas para esclarecer os assuntos mencionados, mas manter distante a interrupção da fala do ator social sobre opiniões pessoais, debate ou situações constrangedoras, é responsabilidade da equipe saber as ações adequadas de acordo com a receptividade do outro e por fim, validar a mensagem que a pessoa em situação de refúgio transmitiu, é uma questão
48
ética tendo em vista que as perguntas podem ser compreendidas erroneamente pelo ouvinte e respondidas de acordo com as pautas que não foram abordadas e se tornando objetos tendenciosos para o participante. Portanto, para a execução da construção da voz do documentário a atenção na comunicação é direcionada para resultar em uma voz genuína. Para o documentarista Peter Wintonick, o documentário tem a capacidade de mudar o mundo, uma vez que, para ele, o documentário tem uma função social com a capacidade de defender ideias individuais e coletivas e lutar a favor das questões sociais. Wintonick (2015, pg. 291), afirma que ‘’ Deveríamos tentar verter nosso trabalho e ativismo na forja do serviço humano’’. Para Wintonick, é primordial preservar os motivos que o levaram a querer construir esse documentário porque serão um alicerce para o processo de criação, tornando-se elementos fundamentais para compor a voz, ou seja, a mensagem do documentário. Segundo Wintonick (2015, pg.289), Gandhi o ensinou que Satyagraha significa a força da verdade, e para ele, o documentário é a narrativa da verdade, além disso, a crise de mísseis de Cuba o inspirou a questionar e a partir deste fato, ele passou a questionar tudo. No livro a verdade de cada um, no artigo ‘’a montagem como uma conversa a quatro vozes’’, Frederick Wiseman, afirma:
Para mim, o elemento crucial é tentar pensar a fundo minha própria relação com o material mediante todas as combinações de sentidos possíveis. Isso implica uma necessidade de conduzir uma conversa a quatro vozes entre mim mesmo, a sequência em que estou trabalhando, minha memória, valores gerais e experiência. (WISEMAN, 2015, pg.234).
Sobre o processo de criação da voz por meio da montagem, Wiseman ainda afirma que:
49
Tenho que descobrir o significado de cada uma, ou seja: preciso identificar para mim mesmo o que está acontecendo em cada tomada. O significado pode às vezes ser um, embora frequentemente sejam vários. Montar é conversar comigo mesmo, e nessa enclausurada e limitada conversa tenho que tentar me forçar a ficar tão ciente quanto possível das várias coisas que estão acontecendo: primeiro na tomada, depois na sequência e por fim na relação entre as várias sequências (WISEMAN, 2015, pg. 235).
Nichols definiu os modos dos documentários, entretanto, os documentaristas são livres para experimentar novos formatos no processo de captação, ou ainda, na construção da montagem do documentário. A construção de uma nova linguagem,
possibilita ao documentarista
experimentar um novo formato, e assim, entregar a mensagem que deseja por meio de uma nova experimentação. Os documentaristas podem utilizar-se de mais de um modo, ou seja, utilizar modos híbridos para provocar sensações diferentes no público ao longo do documentário, ou ainda, para enfatizar uma mensagem de formas diferentes. Cabe ao documentarista escolher o modo ou constituir uma nova experimentação.
51
CAPÍTULO - 3. O DESLOCAMENTO FORÇADO NO MUNDO
3.1 PESSOAS EM SITUAÇÃO DE REFÚGIO NO MUNDO
Refugiado é a palavra que define o nome dado às pessoas que fogem de conflitos geopolíticos ou de guerra e que pedem refúgio em países vizinhos ou em outros países. Segundo a Declaração Universal de Direitos Humanos em seu Artigo 14, define: “Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países”. As pessoas que estão refugiadas deixam suas casas de forma não planejada, muitas vezes saem em situação de vulnerabilidade por se sentirem perseguidas, seja por perseguição política, por ser LGBTQI+ ou outras definições que se englobam na definição de refugiado, como pessoas em situação de refúgio que buscam apenas uma oportunidade melhor de estudo, que buscam liberdade para poder exercer sua doutrina religiosa, também àquelas que sofrem catástrofes ambientais que faz com que procurem um lugar seguro com mais dignidade e oportunidades ou pessoas que buscam viver em outros países em busca de paz, para não viver em meio a territórios cheio de conflitos. Qualquer pessoa pode estar sujeita a se tornar uma pessoa em situação de refúgio, pois qualquer país pode estar sujeito a essas questões climáticas, instabilidades políticas ou de guerra. Até final do ano de 2020 cerca de 82,4 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar no mundo, dentro desse número alarmante, 26,4 milhões eram refugiados (Fonte: ACNUR/18 de junho de 2020).
3.1.1 Categorias de deslocamentos forçados
52
Há categorias para cada grupo específico que sofrem deslocamentos forçados no mundo. O refugiado é aquele que teve de deixar seu país de origem e busca proteção internacional em outro país. Segundo o folder educativo da ACNUR – “quem conta essa história, refugiados jornalistas ou jornalistas refugiados? ” Há termos como: “retornado” refugiado que retornou voluntariamente para o país de origem, o “deslocado interno” que deixou sua casa, mas se mantém no território de seu país e o “solicitante de asilo” que pediu o reconhecimento da condição de refugiado no país de acolhida, sem que seu caso tenha sido julgado. Para adequar os termos corretamente em relação às pessoas em situação de refúgio, é necessário conhecer os conceitos e as diferenças acerca da questão migratória, uma vez que, os termos podem ser usados de uma forma inadequada, gerando contradições com a veracidade das condições migratórias. Apátrida: São pessoas que não têm sua nacionalidade reconhecida por nenhum país. Pessoas apátridas normalmente vivem à margem da sociedade e em situações precárias, pois sem identificação não conseguem exercer seus direitos legais como frequentar a escola, casar, abrir uma conta bancária, etc. Deportação: A deportação acontece quando um indivíduo entra ou permanece irregularmente no território de outro País. Após ser descoberto o indivíduo é enviado de volta para seu local de origem. Não oficialmente, a deportação também ocorre por preconceito étnico, religioso ou financeiro como no caso dos ciganos expulsos da Espanha e os Judeus da Alemanha. Extradição: A extradição ocorre por meio de procedimento legal, quando um indivíduo comete um crime e é expulso de um país sendo obrigado a voltar para seu país de origem. Mas a extradição só ocorre se houver um tratado ou acordo entre as nações envolvidas. Expulsão: A expulsão é feita quando a pessoa comete uma infração contra a segurança nacional, a ordem política ou social. Uma vez expulso a pessoa não pode retornar ao país.
53
Imigrante: Imigrar vem da junção entre migrare, “mudar de residência/condição” + in “para dentro”. Imigrar refere-se à entrada de uma pessoa em um determinado país e sua acomodação. Migrante: Imigrante e Migrante são opostos. Todo imigrante no país de destino é um emigrante em seu país de origem. Portanto, o emigrante é aquele indivíduo que deixa seu local de origem para residir por tempo indeterminado em outro país. Reassentamento: O Reassentamento acontece quando uma pessoa refugiada é acolhida em um país provisoriamente, e a partir desse país vai para um terceiro local que aceita conceder-lhe permanência no local. Refugiado: É reconhecido como refugiado todo indivíduo que,devido à grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país. Situação irregular ou indocumentados (as): Estes são termos corretos para referir-se à condição migratória de uma pessoa que não possui documentos. Entretanto, os termos como “ilegais” ou “clandestinos” são popularmente utilizados, porém são incorretos e possuem uma conotação negativa.
3.1.2 Por que isso acontece?
A questão de pessoas em situação de refúgio no mundo é algo que permeia ao longo da história, as principais causas de migrações forçadas no mundo são devido aos conflitos antigos de grupos étnicos, grupos de diferentes doutrinas religiosas, países colonizados por países imperialistas, guerras civis ou questões mais complexas como acontece nos casos de países da América Latina. Por séculos, por exemplo, israelenses e palestinos têm conflitos de territórios. Segundo o livro Valentes, 5,5 milhões de palestinos eram refugiados em 2018. (CARARO, 2020, pg. 83).
54
Há também outras causas que provocam o deslocamento de refugiados, como os países colonizados pela Europa que têm consequências até os dias atuais dos conflitos da colonização até os processos de independência, nos casos de países como Angola e República Democrática do Congo que fazem parte do continente africano. Entre esses países, existem muitas guerras civis e rixas por tribos de diferentes etnias. Na República Democrática do Congo, por exemplo, (CARARO, 2020, Pg.134) havia 735 mil refugiados congoleses em março de 2018, a maioria em países africanos, segundo a ONU. Isso acontece devido a Conferência de Berlim que houve nos anos de 1884 e 1885, onde países decidiram partilhar o território africano, dentre elas, o Rei Belga Leopoldo II ficou com o Congo, mas este não foi definido como especificamente uma colônia e sim como uma fazenda de Leopoldo II, que cometeu genocídio matando mais de 8 milhões de congoleses na época, o país só conseguiu sua independência em 1960. Já na Angola também há números grandes de pessoas refugiadas, cerca de 600 mil pessoas fugiram para outros países. Angola sendo um país colonizado por Portugal conseguiu sua independência em 1975, mas após a independência, os conflitos aumentaram (CARARO, Aryane. 2020, pg. 161) o comércio ilegal de diamantes foi uma das principais fontes de financiamento da Guerra Civil angolana. Guerras civis também são os principais motivos que causam o deslocamento forçado de pessoas, no contexto da Guerra Fria, muitos países que tiveram apoio das duas potências causaram grandes movimentos de refugiados pelo mundo, sendo a Angola uma delas.
A Guerra Civil de Angola aconteceu na esteira da Guerra Fria entre as duas grandes potências que dividiam o planeta no período: Estados Unidos e a antiga União das Repúblicas Socialistas (URSS) (CARARO, Aryane. 2020, pg. 160).
3.1.3 América Latina
55
Na América Latina o país que mais tem crises e que causam a migração forçada de pessoas são países como Venezuela, Colômbia, Haiti e Cuba. No caso destes países, há questões variadas e complexas que acabam tomando proporções grandes que vem aumentando o número de pedidos de refúgios ao longo dos anos. Como no caso da Venezuela, segundo o site da ACNUR, até 2016 o número de pedidos de refúgio de venezuelanos chegou a ser cerca de 34 mil pedidos, em 2017 esse número aumentou para 48.500 aproximadamente.
Venezuela: A dependência do petróleo, aliada à instabilidade política alimentada pelas disputas de poder e pelo autoritarismo, levou ao colapso. (Cararo, Aryane. Pg. 229).
O destaque sobre o país Venezuela é uma questão importante, sendo vizinho ao país o Estado de Roraima, há uma crise migratória muito grande de venezuelanos para o Brasil, com o aumento do preconceito, inúmeros casos e relatos de agressões e violência com refugiados venezuelanos aumentaram.
56
Figura 24 – Solicitações de reconhecimento da condição de refugiado no Brasil em 2020
Fonte: https://www.acnur.org/portugues/wpcontent/uploads/2021/06/Refugio_em_Numeros_6a_edicao.pdf
3.1.4 ACNUR e Direitos Humanos Universais
No contexto da criação de direitos humanos básicos e os direitos do imigrante e da pessoa refugiada, bem como entidades internacionais como a ACNUR, a postura dos países de acolher e prestar serviço humanitário para aqueles que tenham a necessidade de deixar seu país de origem sucedeu após os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, assim como também a promulgação dos Direitos Humanos Universais.
57
Quando foi fundado, em 14 de dezembro de 1950, tinha como meta ajudar os milhões de europeus que fugiram ou perderam suas casas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45). Seus esforços eram focados no reassentamento. (CARARO, Aryane, 2020. Pg. 22)
Como as leis se adaptam de acordo com a sociedade, os Direitos Humanos incluem cada vez mais leis para incluir novos desafios que esta sociedade traz, que precisam ser combatidos, o que faz com que países pensem em formas de tornar o imigrante em direitos mais inclusivos, mais igualitários.
Estamos testemunhando uma mudança na realidade: o deslocamento forçado hoje em dia não é apenas muito mais disseminado, mas simplesmente não é um fenômeno temporário e de curto prazo. - Filippo Grandi Alto Comissário da ONU para refugiados. (Fonte: Extraído do site Agência da ONU para refugiados: unhcr.org/globaltrends2019/).
Segundo o relatório internacional sobre refúgio no mundo, afirma que a questão do refúgio é algo que vem crescendo ao longo dos anos. É uma constante que sempre existiu ao longo da história humana e que vai se tornar cada vez em maior escala, o que faz com que as políticas pensadas no passado como algo temporário já devem ser evoluídas para políticas públicas com inclusão e igualdade no meio social. Há pilares essenciais para a pessoa que está refugiada, sendo elas a documentação, assistência humanitária e a terceira o processo de integração, o que podemos fazer enquanto sociedade e documentaristas é relatar o presente com uma visão positiva de querer um futuro melhor no decorrer das gerações, com esta inclusão e integração e menos xenofobia. Ainda é um assunto que precisa ser falado, documentado, debatido, pois são valores que precisam estar em pauta sempre, para reafirmar valores de sociedade ou nós como humanidade começar a moldar essa escultura, em
58
permanente debate e desafios, sempre relembrando, que pode acontecer com qualquer país, com qualquer pessoa, com o próximo, com você.
3.2 REFUGIADOS NO BRASIL
A proposta do documentário é de refletir sobre a questão da pessoa refugiada em São Paulo, para que reforce a ideia de pluralidade na cidade e inclusão de pessoas refugiadas. O Brasil embora tenha uma lei sobre refúgio, Lei nº 9.474, de 22 de julho de 1997, considerada uma das mais modernas, tem mais brasileiros refugiados pelo mundo e pouco se tem a imagem de acolhimento por parte da própria população. Após mudanças políticas e de Estado acontecerem no Brasil, como o avanço da extrema direita nos cargos políticos e na presidência, a pessoa em situação de refúgio costuma sofrer mais para se estabelecer socialmente e profissionalmente no país, do que devido a leis que a impedem de permanecer no Brasil.
3.2.1 Direitos dos refugiados no Brasil
Em relação à liberdade de movimento, no Art. 13 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, define: i. Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. ii. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país. (Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948). Houve uma mudança na Constituição Brasileira para que hoje os refugiados tenham acesso e usufruam dos direitos que estão estabelecidos nesta Constituição. Os direitos dos migrantes e refugiados no país, aplicava-
59
se no Estatuto do Estrangeiro, n° 6.815, de 19 de agosto de 1980, neste período o país foi governado por militares durante os anos de 1964 a 1985.
O Estatuto aprovado pelos militares trata o imigrante como um estranho, como uma suposta ameaça à segurança nacional. A nova Lei, por sua vez, cuida para que os imigrantes não sejam vitimados pela xenofobia. (https://fernandasial.jusbrasil.com.br/noticias/469957698/entenda-asdiferencas-entre-o-estatuto-do-estrangeiro-e-lei-de-migracao)
A Lei de Migração, n° 13.445, de 24 de maio de 2017, substituiu o Estatuto do Estrangeiro de 1980, que tratava os migrantes como risco à segurança nacional. Agora, todos os direitos garantidos aos migrantes são concedidos aos refugiados, tais como: direito a educação, sendo vedada a discriminação da condição migratória e da nacionalidade; acesso à justiça; saúde e assistência social, que possibilita o acesso aos sistemas de saúde; Direitos trabalhistas; Moradia; Participação social; Bancarização.
3.3 CONVENÇÃO DE 1951
Após o fim da Primeira Guerra Mundial e o surgimento da Revolução Russa, o aumento significativo de pessoas em situação de migração forçada na Europa, fez com que um debate fosse aberto a respeito da proteção dos direitos tanto das pessoas refugiadas quanto do país de acolhimento. Em 1921 surgiu através do Conselho da sociedade das Nações, o primeiro Alto Comissariado para Refugiados. Em 1948 a Declaração Universal dos Direitos Humanos passou a reconhecer legalmente o acolhimento de pessoas em abrigos. Isso inclui a proteção de pessoas que são perseguidas por causa de raça, nacionalidade, opiniões políticas, religião ou grupos sociais. Porém, somente em 1951 que foi estabelecido juridicamente com a reforma do
60
Estatuto do Refugiado das Nações Unidas. Desde a origem desta proteção legal internacional, os direitos dos refugiados começaram a entrar em discussões sobre migração e migração forçada, e os critérios para institucionalizar a migração voluntária em diferentes âmbitos. Também foram inseridas discussões a respeito de vulnerabilidade e preconceito. Quando o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) analisou as mudanças nos fatores que levaram ao conflito e à perseguição em toda a história da proteção de refugiados, enfatizou que, no contexto de sua criação, o foco em 1950 era a proteção contra o fascismo e stalinismo. No entanto, nas últimas décadas, os conflitos armados que se desenvolveram
principalmente
no
contexto
do
pós-Guerra
Fria
desempenharam um papel decisivo no aumento de pessoas em situação de refúgio.
3.4 ESTATUTO DO ESTRANGEIRO
A antiga Lei de Estrangeiros promulgada em 1980 imediatamente declarou claramente em seu primeiro artigo as preocupações do país sobre a natureza militar, como a segurança nacional. O uso do termo "em tempo de paz" confirma isso, e essa é uma condição muito específica para a validade de todas as leis da Lei de Estrangeiros. Não é à toa, afinal, a situação política em 1980 era liderada pelos militares, e esse regime durou 21 anos, de 1964 a 1985. Naquela época, o estatuto tinha por objetivo definir a situação política dos imigrantes no país, focalizando inteiramente os interesses nacionais. Naquela época, o estatuto tinha como objetivo definir a situação política dos imigrantes no país, focalizando inteiramente os interesses nacionais. Além de mencionar, por exemplo, "segurança nacional", a Lei dos Estrangeiros também menciona a "proteção dos trabalhadores domésticos" como uma das razões para a existência de tal instrumento jurídico. Portanto, no artigo de abertura, o viés defensivo generalizado na "Lei dos Estrangeiros" é óbvio, o que naturalmente levou o governo efetivo da
61
época a impor sanções a ele. Esse tipo de protecionismo é esperado quando apenas as forças armadas nacionais estão por trás do processo legislativo nacional.
3.4.1 Lei de Migração
A Lei de Migração, n° 13.445, de 24 de maio de 2017 surgiu para substituir o estatuto do estrangeiro de 1980 que se tratava de leis de migração de uma perspectiva nacional, com a adoção da lei de migração, ocorreu diversos avanços significativos para os migrantes. Como por exemplo: a não criminalização por migrar, facilidade para a regulação migratória, isenção de taxas por razões de hipossuficiência econômica, emissão de documentos para migrantes vulneráveis, acesso pleno a direitos, sem discriminação da condição migratória e proibição de deportações coletivas. A lei também garante aos migrantes reunião familiar, no caso de cônjuges e companheiros (as) não há discriminação em relação à orientação sexual ou identidade de gênero. Direito à educação pública, acesso aos serviços de saúde pública e assistência social. É garantido às pessoas migrantes amplo acesso à justiça e à assistência jurídica integral gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos. Direitos trabalhistas. Participação social, como em sindicatos, associações, além da liberdade de expressão. Também garante acesso à cultura, moradia, aberturas de contas bancárias no país e direito de acesso à informação e garantia de confidencialidade quanto aos dados pessoais. Obviamente, existem muitas diferenças entre a Lei de Imigração e a Lei de Estrangeiros. O decreto aprovado pelos militares trata os imigrantes como estranhos e uma ameaça à segurança nacional. Por sua vez, a nova lei garante que os imigrantes não se tornem vítimas de xenofobia.
62
3.5 REFUGIADOS EM SÃO PAULO
A cidade de São Paulo, município brasileiro, é o único que contém a Lei Municipal n° 16.478/2016, regulamentada pelo Decreto Municipal nº 57.533/ 2016. Esta lei é uma forma de tornar permanente políticas públicas implementadas para os direitos de imigrantes, segundo a lei, chamada de “A Política Municipal da População Imigrante de São Paulo” (PMPI): população imigrante são todas as pessoas que emigram para o Brasil, incluindo trabalhadores imigrantes, estudantes, pessoas em situação de refúgio, apátridas e suas famílias. A cidade também é uma das maiores cidades da América Latina, muitos relatos de pessoas em situação de refúgio que vieram para São Paulo, relatado no livro ”Valentes”, vem para cá com o intuito de conseguir maiores chances de empregabilidade e também devido a melhor acesso e apoio para se estabelecer pelas Ongs como a Cáritas, Missão da Paz que ajuda a pessoa refugiada com assistência médica, jurídica, cursos para o mercado de trabalho e alojamento por um período de seis meses, sendo a Casa do Migrante; como também ongs como a ADUS (Instituto de Reintegração do Refugiado) que possui projetos de cuidado com a saúde mental para refugiados para tratamento de traumas por sua vivência nos cenários de guerra, projetos voltados ao ensino da língua portuguesa e a inserção no mercado de trabalho. Há grandes fluxos de haitianos, bolivianos entre outras nacionalidades na cidade. A cidade de São Paulo sempre foi vista como uma cidade de grande foco para imigrantes, porém o que poderia ser referência como um lugar plural e de exemplo de inserção de diferentes tipos de pessoas para questões de trabalho e crescimento da metrópole, de fato é algo que não acontece. O que é visto são muitos relatos de exploração de trabalho para o imigrante que chega na cidade.
63
“O Ministério do Trabalho e Emprego recebe, desde os anos 1990 e de forma crescente, denúncias de violência no ambiente de trabalho relacionadas ao fluxo migratório boliviano. Em geral, dizem respeito à servidão por dívida, trabalho forçado, maus-tratos, condições precárias de segurança e saúde, assédio moral e sexual, espancamentos, jornadas de mais de dezesseis horas de trabalho e outras violações de direitos humanos. ” Valentes (Cararo, Aryane. Pg.256)
Cerca de 52.570 pessoas já solicitaram pedido de refúgio para a cidade de São Paulo:
Figura 25: Número acumulado de solicitações de refúgio realizadas no estado de São Paulo (1993 - 2020)
Fonte: MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. CONARE. “Solicitações de reconhecimento da condição de refugiado ativas e inativas até 31 de maio de 2020”, disponível em: https://www.justica.gov.br/seus-direitos/refugio/refugio-em-numeros
Algo de se analisar que também acontece na cidade de São Paulo é a quantidade de imigrantes ou refugiados que por não terem apoio para se
64
estabelecer em empregos ou em alguma moradia, são encontrados em ocupações no centro da cidade. Um exemplo destes é a Ocupação Nove de Julho, relatada no livro “Valentes”. O que faz com que o centro da cidade como locais de comércio tenha mais fluxo destes imigrantes, o que aumenta a ideia generalizada sobre estas pessoas, além de medos e preconceitos só por serem de nacionalidades diferentes e pelas barreiras da língua, como a dificuldade que alguns têm de falar o português, a vivência na metrópole é cercada por muitas dificuldades.
Ocupação Nove De Julho 131 famílias. 400 moradores, entre brasileiros e estrangeiros (refugiados e imigrantes). Países de origem: Angola, Haiti, Gana, República Dominicana, República Democrática do Congo, Peru, Argentina, Paraguai. (Cararo, Aryane. 2020. Pg. 285)
Figura 26: Número de pessoas imigrantes registradas em São Paulo por país de origem, junho de 2019
Fonte: OIM. Perfil 2019 da Cidade de São Paulo: Indicadores da Governança Migratória Local (MGI). Genebra, 2019.
65
3.6 SITUAÇÃO DE REFÚGIO MEDIANTE A PANDEMIA DE COVID-19
No início do ano de 2020, as fronteiras foram fechadas por completo para conter a disseminação do vírus COVID-19. Muitos países fecharam suas portas para viajantes e estrangeiros com o objetivo de proteger seus cidadãos, mas essa barreira criada pelos governos, afetou muito a vida das pessoas em situação de refúgio. Com fechamento das fronteiras não há formas legais de deslocamento de um país para o outro, fazendo com que muitas dessas pessoas optassem por meios clandestinos de deixarem seus territórios, como a Rota do Mediterrâneo Central, que é o principal trajeto utilizado por refugiados sírios no acesso clandestino à Europa pelo mar. Durante esses deslocamentos, os navios comportam um grande número de pessoas, contribuindo na proliferação
de
Coronavírus
entre
essas
pessoas.
De acordo com a Plataforma COVID-19, criada pela Agência das Nações Unidas para Refugiados, 48 países ainda negavam acesso a seus territórios em
maio
de
2021.
Aqui no Brasil, a ACNUR (A agência da ONU para Refugiados), fez um apelo em dezembro de 2020, para arrecadar US$ 745 milhões, graças à colaboração de governos, parceiros, empresas e pessoas físicas 64% do valor (US$ 477 milhões) havia sido arrecadado até a data da matéria publicada no site da instituição. Esse valor foi utilizado para ajudar pessoas em situação de refúgio e assegurar sua saúde. No total, 9,34 milhões de refugiados e deslocados internos em 151 países acessaram serviços de proteção, mais de 3,9 milhões de refugiados acessaram serviços de saúde e cerca de 265.000 pessoas deslocadas receberam serviços de auxílio psicossocial e saúde mental. O ACNUR distribuiu também assistência em dinheiro para 3 milhões de pessoas e adquiriu 41,2 milhões de máscaras e 195 respiradores e forneceu 8.000 Unidades de Habitação Emergencial em diversos países. A associação também tem tomado medidas para garantir que as pessoas em situação de refúgio, tanto no Brasil quanto no restante do mundo, sejam devidamente vacinadas como qualquer outro indivíduo.
66
3.6.1 Reabertura das fronteiras
As fronteiras brasileiras, são dirigidas por portarias interministeriais, que são atualizadas mensalmente pelo Governo Federal. A última atualização, foi feita em 23 de junho de 2021, onde foi delegado que a Portaria 655 mantivesse a autorização de entrada de estrangeiros no Brasil por qualquer aeroporto do País, desde que obedecidos os requisitos migratórios, como
portar
visto
de
entrada
quando
ele
for
exigido.
Foi permitido também, a entrada de venezuelanos e residentes habituais na Venezuela que sofrem com a crise humanitária, podendo a entrada ser feita tanto por vias terrestres, quanto aéreas, de qualquer ponto de fronteira mesmo que em situação irregular e indocumentado.
68
CAPÍTULO 4 - BÍBLIA DE PRODUÇÃO “EU SOU E ESTOU AQUI” 4.1 EXPLICAÇÃO DO TÍTULO
O título representa a vida das personagens que tiveram que sair de seu país de origem e pensar em uma nova forma de vida no Brasil, além disso representa a história e a vivência de cada uma, que traz a ideia implícita do documentário de refletir sobre inclusão e respeito.
4.2 SINOPSE/APRESENTAÇÃO
Duas mulheres em situação de refúgio, Venezuelana e Moçambicana, trilharam caminhos diferentes para chegarem à cidade de São Paulo com um objetivo em comum: a liberdade.
4.3 OBJETIVOS 4.3.1 Geral
Produzir um documentário audiovisual que exponha a trajetória de pessoas em situação de refúgio antes e depois de chegarem em São Paulo. Dar voz a essas pessoas e mudar a visão negativa e marginalizada que grande parte da população brasileira tem de pessoas refugiadas.
4.3.2 Específicos
1 - Apresentar a história das personagens;
69
2 - Exemplificar a importância da integração em uma nova cultura; 3 - Evidenciar a força e a coragem das personagens; 4 - Promover um olhar sensível e poético
4.4 CLASSIFICAÇÃO DO PROJETO
A produtora definiu o produto audiovisual no formato documentário. O documentário compõe-se de um modo híbrido prevalecendo os modos poético e expositivo.
4.4.1 Classificação Indicativa
O projeto aborda a vida e o cotidiano de pessoas refugiadas e a forma como elas vivem no Brasil, a classificação que está de acordo com o tipo de conteúdo que traremos é a partir de 14 anos, podendo contar com imagens de consumo de drogas e linguagem não apropriada para crianças. A classificação adverte sobre o tipo de conteúdo presente na obra, mas a decisão de quem terá acesso àquele conteúdo é das famílias.
É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação,
independentemente
de
censura
ou
licença.
(Constituição Federal, 1988)
Figura 27: Classificação Indicativa
Fonte: https://blog.elsys.com.br/como-funciona-a-classificacao-indicativa/
70
CAPÍTULO 5 - ARGUMENTO 5.1. VISÃO ORIGINAL
O tema escolhido pela produtora é sobre mulheres em situação de refúgio em São Paulo: a construção dos sonhos em uma nova cultura. O documentário apresenta duas mulheres em situação de refúgio de diferentes nacionalidades. O objetivo da produtora segue com uma proposta de relatar sobre o tema de pessoas em situação de refúgio, partimos de questões como: qual o processo que pessoas que estão refugiadas passam para se estabelecer na nova cultura? O que buscam para integrar sua cultura com a nova, como são os processos de se estabilizar no emprego, o que deseja para sua nova vida e enfim, quais seus sonhos? O documentário pretende além de tudo, fazer com que o público conheça estas pessoas e promover reflexão acerca de suas histórias aqui no Brasil e especificamente em São Paulo, marcadas, com desafios, mas que além de tudo é uma história de pessoas que existem e que buscam por respeito. Há dois valores intrínsecos e implícitos que construímos no produto audiovisual, o primeiro valor é sobre a visibilidade que as pessoas que estão refugiadas precisam ter, a humanização destas pessoas que de longe, pelo senso comum que existe no Brasil, é carregado de preconceitos, desrespeito e desumanização com estas pessoas que chegam aqui querendo apenas formas e possibilidades de reconstruir suas vidas. A segunda foi levantar o interesse social sobre estes preconceitos que involuntariamente às vezes as pessoas têm, quebrando estigmas e mostrando ao público que a pessoa refugiada é alguém de valores e crenças, de cultura diversa e que merece e precisa ser reconhecida como uma pessoa, retirando-as de um lugar onde são somente mostradas como estatística e números, informações em noticiários como mais um alguém que chegou ao país. Dar-lhes voz, dizer ao público que estas pessoas existem, vivem, sonham, podem ser sua amiga, podem viver
71
em paz, podem ser mais respeitadas e acreditar que a sociedade enfim em que ela esteja inserida seja uma porta aberta para ter uma vida normal com direitos humanos. Através de muitas pesquisas decidimos utilizar a abordagem teórica de Bill Nichols sobre modos de produção de documentário, mais especificamente uma abordagem de documentário com algumas características do modo expositivo, como: entrevistas com as narrativas individuais das personagens. Para compor a narrativa, o modo poético terá a presença de trilhas sonoras e imagens estáticas que serão usadas como metáforas e sentimento das personagens, além disso, o modo poético terá uma presença ativa na exposição com imagens e elementos que exemplificam os sonhos das personagens. A proposta tem como sugestão a gravação das entrevistas em um estúdio ou no local de maior comodidade para a personagem em um ambiente que faça parte da sua rotina.
5.2 PROPOSTA DE DOCUMENTÁRIO
O documentário propõe uma narrativa poética em torno de duas mulheres em situação de refúgio em São Paulo. Mostrar acerca de seus relatos como refugiadas no Brasil, suas sensações, experiências e cultura de seu país, sendo representados de forma abstrata e poética a partir de experimentações em vídeo. O elemento central do documentário são as mulheres que estão refugiadas, em segundo plano, tendo como objetivo evidenciar a importância da inclusão, por meio de seus relatos e dados mostrados em cartelas. O documentário começa com paisagens urbanas do Centro de São Paulo para localizar o público e enfatizar o contexto urbano que queremos abordar. As imagens da cidade servem como elemento narrativo descrevendo de onde estas personagens estão inseridas.
72
O documentário é dividido em quatro blocos, em cada bloco há um tema que é mais explorado, como por exemplo as cartelas. Cartelas - As cartelas aparecem no decorrer do documentário como fechamento do assunto.
Após o primeiro bloco, uma cartela aparece,
mostrando dados de refúgio no mundo. Após o segundo bloco, a cartela indica dados de pessoas em situação de refúgio que estão no Brasil. Após a terceira parte do poema, a cartela mostra dados sobre xenofobia e aumento de violência com as pessoas que estão refugiadas, para encerrar a última parte aparece uma frase ou fala das mulheres. Objetos/elementos da natureza - os objetos usados no final de cada bloco foram objetos montados com elementos da natureza que tem como representação o tema abordado em cada bloco. No decorrer do documentário é evidenciado por meio de narrativa poética os relatos do personagem, imagens de objetos dividindo os blocos com e o uso de imagens de arquivo. Poema - o poema "Sou Imigrante" do angolano imigrante Moisés Tiago António também compõe no decorrer do documentário, dividido em quatro partes, aparece como síntese de cada assunto abordado. O poema é sobre as questões de deslocamento forçado no mundo.
5.3 ELEIÇÃO E DESCRIÇÃO DO(S) OBJETO(S) 5.3.1 Personagens reais
Duas mulheres refugiadas com idades diferentes apresentando suas histórias, objetivos e sonhos.
5.3.2 Poema
73
Declamação de um poema autoral de um poeta Angolano sobre a migração forçada.
5.3.3 Objetos representativos
Globo terrestre, terra, pedra, luzes, prédios, ruas e equipe.
5.3.4 Cartelas
Informações sobre o tema em questão.
5.3.5 Visão subjetiva
Trata-se da vivência pessoal das entrevistas do ponto de vista do mundo.
5.3.6 Visão objetiva
Trata-se da vivência pessoal das entrevistadas.
5.3.7 Arquivo de memória
Imagens pessoais das personagens reais.
74
5.4 ELEIÇÃO E JUSTIFICATIVA PARA A(S) ESTRATÉGIA(S) DE ABORDAGEM
5.4.1 Personagens reais
As personagens foram trabalhadas por meio de entrevistas que foram realizadas em um estúdio localizado em São Paulo. Das duas mulheres que foram entrevistadas, uma delas é natural da Venezuela, professora de história e geografia e encontra-se nesta situação decorrente de uma perseguição política. A segunda entrevistada foi Lara Elizabeth Batista Cerqueira Lopes, de Moçambique, que se encontra em situação de refúgio devido à sua orientação sexual. As entrevistas têm o intuito de conhecer os novos olhares que foram transformados por estarem inseridos em uma nova cultura, o intuito das entrevistas foi conhecer suas vivências e seus anseios e também o que procuravam e conseguiram encontrar aqui em São Paulo. As entrevistas têm como foco conduzir os atores sociais para olhar para o futuro, porém isso não afasta a oportunidade do espectador de conhecer os indícios do seu passado e suas trajetórias no Brasil.
5.4.2 Poema/Objetos representativos
O poema “Sou Imigrante” de Moisés Tiago António, aborda as questões sobre as condições do imigrante e a migração forçada. O poema foi dividido em quatro partes e declamado em voz off ao longo do documentário com o auxílio de objetos que representam o poema. A primeira divisão do poema, aborda a luta de abandonar um país e a chegada em um novo destino, para exemplificar, foi utilizado um globo terrestre. A segunda divisão do poema, o autor diz sobre divisões geográficas, para exemplificar o que representaria esta divisão, foi usado um vaso sendo colocado terra dentro dele. A terceira divisão do poema, comunica que apesar das diversidades, as pessoas são
75
únicas e merecem ser respeitadas, para representar as diversidades, foram exibidas diferentes pessoas. O poema finaliza expondo a força das pessoas que estão nesta situação, sendo uma pedra o último objeto exibido como sinônimo de resistência. Os significados dos objetos são: A pedra é um elemento da natureza que sobrevive a vários tipos de temperatura, é um mineral sólido, buscamos o significado de pedra como algo resistente. A pedra tem como significado a força da pessoa em situação de refúgio que precisou sair de seu país e se refugiar em um novo lugar, ela representa a resistência. A terra no vaso tem como significado também ligado a natureza. A terra é um solo onde se planta árvores e vegetais, também é onde pisamos e construímos coisas, representa a essência da natureza humana, significa que a terra é um direito primário de todo ser humano que tem como direito à vida, à liberdade e de ter um lugar. O espelho/nuvens: As nuvens podem ser vistas de qualquer lugar do mundo, representam a integração, uma visão otimista de como desejamos que o mundo seja, sem fronteiras. Na imagem construída há mãos que seguram um espelho ao céu, que mostra através do espelho nuvens brancas. Esta imagem construída significa a visão por parte das documentaristas de enxergar um mundo melhor e integrado, é a representação de imagem do ponto de vista do documentário junto às falas positivas em relação ao que foi conquistado pelas personagens aqui. O poema contém assim, um ordenado estilo que serviu como estrutura narrativa para compor e contar as histórias das personagens sociais do documentário:
Sou Imigrante Sou Imigrante dalém
76
Lá do outro lado do oceano Forçado a abandonar o país Sim o país de origem Que há séculos venho lutando Querendo viver Batendo as portas nunca descerradas Sempre encerradas Não tenho terra Lá de onde eu venho Do qual vós chamais ou dizeis ser minha terra… Eu era igual uma flecha Querendo ir pra frente Eu era cada vez mais puxada pra trás Com mais força! E de tanto me puxarem Fui lançada veementemente Para atingir o alvo E vim aqui parar! Sou Imigrante Não tenho terra
77
Tudo é terra Não importa se aqui ou lá! Quem dera que não houvessem fronteiras! Quem dera que não houvessem leis Leis essas que nos prendem, Separam, Hostilizam, injuriam e abalam! Oh, se não houvessem fronteiras Divisões geográficas E que todos os homens fossem só homens! Sem distinção de cores, raças, nacionalidades! Que culpa tenho eu em ser Preto ou branco? Cristão ou muçulmano? Hindu ou Budista? Judeu ou Samaritano? Se talvez as raças negra ou branca, não existissem! Na verdade, não existem O que apenas existe é… Raça humana! Sou Imigrante, emigrante, migrante Resistente, com força pra viver, almejando viver Sou resistível como um Leão da África Tenho garras de um falcão do mato Sou persistente como a onda movível Porém, me respeitem! Só quero viver a vida… Porque a terra é nossa, de todos nós
78
Feito por Deus e entregue à todos os homens Não importa se aqui ou lá!
5.4.3 Luzes
Foram utilizadas luzes, luzes desfocadas, luzes coloridas, presenças de luzes na construção e composição de imagens para representar o lado subjetivo do relato das personagens sociais. As luzes remetem a algo abstrato, ao sentimento que as entrevistadas descrevem em certos momentos do documentário, trazendo a presença de luzes quentes ou frias, escuras ou claras que intensifiquem e esteja atrelado ao que a personagem narra.
5.4.4 Prédios/ruas
Os prédios foram utilizados como composição de imagem para representar a cidade e consequentemente a sociedade civil que nela mora. Os prédios e ruas hora tem como significado o acolhimento, a integração, mas representados no terceiro bloco, estes prédios e ruas estão totalmente de cabeça para baixo, o que representa o preconceito, a exclusão que acontece com as pessoas em situação de refúgio e as dificuldades que enfrentam no processo de integração aqui no Brasil, especificamente em São Paulo.
5.4.5 Equipe
A participação da equipe, que é mostrada em certos momentos do documentário, representa a voz intrínseca utilizada: "Nós falamos deles e de nós", como apresenta Bill Nichols em sua definição do que é documentário. A equipe representa a voz ativa e participativa que há na construção do documentário a partir do relato das personagens sociais, evidenciando nosso
79
compromisso ético construído com as personagens e também evidenciando a forma como gostaríamos de mostrar quem está por trás das câmeras representando as emoções e relatos das personagens, uma produção realizada 100% por mulheres, sem retirar a importância de suas histórias e nos colocar como participantes de narrar suas histórias por meio de imagens e modo poético sugerido desde o início.
5.4.6 Cartelas
Para contextualizar o tema em questão, as cartelas foram exibidas após a divisão de cada parte do poema. Sendo: A primeira cartela, tem o objetivo de informar os principais motivos de refúgio. A segunda cartela, apresenta as porcentagens (quantidades) das pessoas que estão em situação de refúgio das nacionalidades das entrevistadas com o intuito de introduzi-las neste contexto. A terceira cartela, apresenta os dados referente a xenofobia e a violência contra as pessoas em situação de refúgio.
5.4.7 Visão objetiva/Visão subjetiva
A visão objetiva trata-se da visão interna das personagens a partir das próprias vivências e a visão subjetiva resume-se às opiniões externas sobre o assunto. O poema, foi dividido de acordo com os assuntos tratados conforme mencionado nos itens anteriores, além destas divisões, também foram divididas em visão objetiva e visão subjetiva. Sendo a visão objetiva captada dentro do estúdio e a visão subjetiva nas ruas de São Paulo. Os objetos que representaram o poema, foram captados no campo interno, no estúdio, para representar as vivências do poeta e no campo externo, ou seja, na visão subjetiva para representar os pensamentos externos.
80
5.4.8 Arquivo de memória
Para construir a narrativa expositiva, foram utilizados arquivos de memória.
5.5 SUGESTÃO DE ESTRUTURA
O documentário foi dividido em duas histórias de mulheres que estão refugiadas de diferentes nacionalidades, intercalando seus depoimentos em quatro blocos, evidenciando em cada bloco um tema específico ou de maior evidência relatado por elas. ●
Bloco I: Pautas sobre sua cultura, seu passado e os
motivos que a fizeram chegar ao Brasil. ●
Bloco II: Pautas sobre preconceito, xenofobia,
dificuldade de acessos aos direitos. Será focado nas experiências e sensações que as personagens tiveram no Brasil, sendo tanto boas quanto ruins, de acordo com o que melhor for decidido pela entrevistada durante seu relato. ●
Bloco III: Pautas sobre como se adaptou em São
Paulo, sobre seus empreendimentos ou conquistas que foram possíveis serem realizadas. ●
Bloco IV: Pautas acerca do futuro, seus sonhos
realizados e o que deseja realizar aqui no Brasil
81
CAPÍTULO 6 - DESENHO DE PRODUÇÃO
ETAPA DE PREPARAÇÃO 1 DESENHO DE PRODUÇÃO
6.1 PESQUISA E MATERIAL DE ARQUIVO
O processo de pesquisa do documentário foi construído por meio de leitura de artigos, livros e eventos on-line e presenciais, sobre pessoas em situação de refúgio e suas vidas dentro do contexto cultural, profissional e pessoal. A equipe participou de 9 eventos on-line, sendo Data 14/06/2021
Tema Semana do refugiado: Empregabilidade e Empreendedorismo
Oficina de cobertura jornalista sobre 15/06/2021 refugiados 16/06/2021
Semana do refugiado: Educação
18/06/2021
Sarau do dia mundial do refugiado
18/06/2021
Cultura, gastronomia e artes
Organizador Comissão de Trabalho – NAMIR-UFBA ACNUR, Folha de SP e Memorial da América Latina Comissão de Trabalho – NAMIR-UFBA Memorial da América Latina Comissão de Trabalho – NAMIR-UFBA
82
18/06/2021
Relatório Tendências Globais – Deslocamento Forçado de pessoas em 2020
ACNUR com apoio do Memorial da América Latina e CONARE
19/06/2021
É preciso integrar – Uma conversa sobre refúgio e direitos humanos
Instituto Adus
Comissão de Trabalho – NAMIR-UFBA Ordem dos advogados Impactos da Pandemia de Covid 19 25/06/2021 do Brasil, Seção São na população migrante e refugiada Paulo 21/06/2021
Roda de conversa com migrantes
Os eventos foram transmitidos em diferentes plataformas com um tema específico e conduzidos por profissionais de diferentes áreas de atuação e pessoas em situação de refúgio que dividiram suas vivencias com os espectadores. Dos 9 eventos on-line, destacamos os que contribuíram diretamente com a formação do documentário: A “Oficina de cobertura jornalista sobre refugiados” neste evento, as informações à seguir foram apresentadas pela Jornalista Flávia Mantovani. A equipe conheceu os efeitos da comunicação sobre esta população que podem resultar na criação de estereótipos e afetar o processo de acolhida e a seriedade de diferenciar os conceitos: 1) imigrante, refugiado e apátrida e 2) ilegal, refugiado, indocumentado. O evento ressaltou a importância de diferenciar dois processos:1) Assimilação, quando a pessoa em situação de refúgio chega no local de acolhida e começa a entender os mecanismos e acessos aos meios produtivos do ambiente e 2) Integração, sendo o resultado da participação ativa da pessoa em situação de refúgio absorvendo e compartilhando os valores com os demais. Na oficina, foram apresentados exemplos de pautas sobre o respectivo tema, como: 1) Explicar o mundo, a partir da história de uma pessoa em situação de refúgio é possível contar a história de algum lugar. 2) Mostrar a vulnerabilidade, apresentar os problemas que são enfrentados no local de acolhida. 3) Mostrar potencialidades, apresentar as histórias de superação.
83
Ainda neste evento, conhecemos quais eram os cuidados necessários ao tratar sobre o tema, sendo: 1) Segurança do entrevistado, 2) Ouvir com respeito e tempo, 3) Não forçar a reviver uma história e 4) Fugir do sensacionalismo. Além disso, por meio do evento tivemos conhecimento do “Guia do ACNUR para profissionais e estudantes de comunicação” que dentre diferentes assuntos, apresentam quais são as dicas para uma cobertura apropriada e os cuidados ao realizar entrevistas com pessoas em situação de refúgio. Na semana do refugiado com o tema de “Empregabilidade e Empreendedorismo”, os convidados Adriano Pistorelo, advogado de imigrações do Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), Tânia Benevides, coordenadora da unidade acadêmica de educação a distância da UNEB e Carolina Menezes, coordenadora do Núcleo de Estudos em Ecossistemas de Empreendedorismo e Inovação do conselho Regional de Administração da Bahia, apresentaram o processo de empregabilidade para as pessoas em situação de refúgio. Neste evento, em relação a geração de renda, soubemos que alguns dos problemas enfrentados pela população que busca proteção e oportunidade em outro país são relacionadas as dificuldades de validar as habilidades, o desconhecimento local das normas e leis migratórias para concretizar a efetivação, além da ausência de políticas públicas parar gerir oportunidades. Os convidados ressaltaram a importância de contratar esta população para que possam agregar a cultura brasileira com os costumes, cultura e experiências em uma relação de troca de conhecimentos e destacaram a importância do empreendedorismo para as pessoas em situação de refúgio. Ainda na semana do refugiado, mas com o tema de “Educação e Universidade”, observamos que decorrente da migração forçada, esta população pode chegar ao país de refúgio sem uma documentação adequada e isto dificulta os processos. Neste evento, identificamos que barreira
84
linguística impede o acesso aos serviços essenciais e qual o papel do intérprete para estimular um sistema de comunicação inclusivo. O evento “Sarau do Dia Mundial do Refugiado” teve a presença de várias pessoas em situação de refúgio realizando uma apresentação artística, entre eles, conhecemos as duas pessoas que posteriormente integrariam o projeto do documentário: Marifer Vargas que foi mediadora do evento e o poema do Imigrante Angolano Moisés António, sendo declamado por uma mulher em situação de refúgio. A equipe participou de dois eventos presenciais, sendo:
Data
Tema Quem conta essa história? 01/07/2021 Jornalistas refugiados ou refugiados jornalistas? 01/09/2021 Visita a Casa do Migrante
Organizador Memorial da América Latina Missão Paz
Na exposição “Quem conta essa história? Jornalistas refugiados ou refugiados jornalistas”, dentre algumas histórias, lemos o relato do Carlos Escalona, que até então, a equipe não sabia da sua relação com a Marifer Vargas porque até o momento, não tínhamos entrado em contato com os participantes. A instituição Missão Paz acolhe migrantes e refugiados e apoia no processo de integração dessas pessoas no Brasil. A equipe encontrou em contato com a Instituição para que pudessem auxiliar como uma ponte no processo de aproximação com as pessoas em situação de refúgio porque a princípio, gostaríamos de realizar as entrevistas com as moradoras atuais da instituição e conhecer o processo de integração na instituição. No dia da visita, conhecemos a Isabela Davies que trabalha no centro de estudos migratórios desenvolvendo cursos de formação e capacitação sobre política, cidadania e direitos humanos, Isabela nos apresentou a instituição, mostrou o lugar onde é realizado as aulas de português para
85
aqueles que não tem o conhecimento da língua, a cozinha e o lugar onde fazem as refeições, o anfiteatro onde acontecem alguns eventos, a área jurídica que auxilia na questão da documentação e toda a estrutura da Missão Paz e a Casa do Migrante que está localizado dentro da instituição. O único local que não conhecemos foram os dormitórios porque os padres que coordenam o lugar preservam o ambiente com o objetivo de protegê-los. Após conhecermos a instituição, a Isabela explicou alguns detalhes e informou que os migrantes e refugiados que chegam na Missão Paz tem um prazo de 3 meses para se estabelecer, procurar um emprego e uma moradia fixa com o apoio da instituição. Em razão do cronograma individual da equipe e as burocracias internas da instituição, percebemos as dificuldades que teríamos para criar um vínculo com as moradoras da Casa do Migrante e que poderia afastar uma forma humanitária que gostaríamos de estabelecer, como por exemplo, ouvi-las com tempo. Por isso, estabelecemos um contato com o Alexandre Barbosa, gerente de assuntos acadêmicos do Centro Brasileiro de Estudos da América Latina e Raiane Carvalho, assessora de diretoria do Memorial da América Latina, eles auxiliaram informando os contatos de mulheres em situação de refúgio, dentre elas, Marifer Vargas que anteriormente havíamos assistido o evento do Sarau com a sua presença. Antes de estabelecermos um contato com a Marifer e com o objetivo de conhecer a sua história, por meio de pesquisas descobrimos que ela havia participado do programa do Caldeirão do Huck da emissora Globo, chamado “Quem quer ser um milionário”, nos dias respectivos dias 26/06/2021 e 03/07/2021, ela compartilhou um pouco da sua história no programa e descobrimos: Ela era professora de história e geografia, dava aula em uma escola pública na Venezuela, morava em Maracay em uma casa de 350m² e após o companheiro denunciar uma corrupção na emissora que ele trabalhava e que pertencia ao governo, eles foram sequestrados e ele teve que fugir para o Brasil e realizou o trecho por terra até Manaus e depois foi de avião até Fortaleza. Como o Carlos chegou ao Brasil primeiro, ele conheceu duas
86
Venezuelanas na Missão Paz que cantavam nos ônibus e decidiu se juntar a elas para conseguir o dinheiro para as passagens da Marifer e da filha para virem para o Brasil. Além do programa, lemos outros detalhes da história da família da Marifer e descobrimos que o relato do Carlos que estava presente na exposição que havíamos ido, se tratava do companheiro da Marifer e por meio do site da Acnur soubemos do empreendimento que eles possuem, a Nossa Janela. Após a equipe conhecer a história de Marifer, entramos em contato e marcamos uma reunião via meet para apresentarmos o projeto e convidá-la para participar do documentário. Durante a conversa, ela mencionou conhecer outras mulheres em situação de refúgio que assim como ela, conseguiram abrigo na Casa do Migrante. Marifer nos contou um pouco da história de cada uma e informou que estava disposta a ajudar compartilhando os contatos para que pudéssemos ter a segunda entrevistada, uma vez que relatamos que estávamos na busca de uma segunda história, dentre as mulheres que Marifer compartilhou, encontramos a nossa segunda entrevistada em situação de refúgio, Lara Elizabeth Batista Cerqueira Lopes, natural de Moçambique e chegou no Brasil em 2013. Antes de iniciarmos um contato, conhecemos a história da Lara por meio das entrevistas que ela concedeu ao Acnur na matéria “Brasil protege refugiados LGBTI, mostra levantamento inédito do ACNUR e do Ministério da Justiça”; Estou Refugiado com a matéria “Quem quer entender mais sobre Consciência Negra - e sobre discriminação em geral – precisa ouvir Lara Lopes” e Casa Um com a matéria “Com medo de ser morta por ser lésbica, Lara fugiu de Moçambique para SP”. Iniciamos o contato com a Lara, apresentamos a proposta do documentário e ela topou participar do projeto e ao conhecer mais sobre a
87
jornada das duas, percebemos que a instituição, Missão Paz, foi de grande importância na vida de ambas. Durante o evento “Sarau do Dia Mundial do Refugiado”, Prudence Kalabambay, natural da República Democrática do Congo e que está em situação de refúgio no Brasil devido a uma perseguição política, na apresentação artística, ela declamou um trecho do poema “Sou Imigrante” do poeta e imigrante angolano Moisés Tiago António, pesquisamos o trecho do poema na internet até chegarmos ao autor pelo Facebook e realizarmos o primeiro contato com ele. Moisés, chegou ao Brasil para buscar oportunidades na literatura e atualmente mora em Curitiba, desde que chegou lançou 5 livros: “Palavra é Arte”, “Miragem – Poesia Angolana na Diáspora”, “Sombra – No coração da África Misteriosa”, “Clarice – Em Mares de Rosas Nas Terras Além-mar Após o Inferno” e “Grito a Poesia” sendo que o último contém o poema “Sou Imigrante”. Após uma conversa, ele permitiu a inclusão do poema como material para o documentário.
6.2. CONTRATAÇÕES
A produtora Abelha Produções participará de todas as etapas do projeto com o objetivo de gerar portfólio e qualificar o documentário para concorrer aos festivais posteriores, entretanto para manter um laço de confiança entre a equipe e os participantes do projeto estabelecemos que incialmente o documentário terá apenas fins academicos e caso surja oportunidades, entraremos em contato para autorizarem a participação em outros meios.
Com o objetivo de gerar características qualitativas no projeto final, contratamos dois profissionais, sendo uma professora de inglês formada em
88
letras para realizar a legendas para o português e um professional graduado em Rádio, TV e Internet para aplicar a coloração do co
ETAPA DE FILMAGEM 2 DESENHO DE PRODUÇÃO
6.3 OBJETO(S) DA ABORDAGEM
A produtora utilizará mecanismos da metodologia de Eduardo Coutinho para constituir uma aproximação entre a equipe e o personagem. “A conversa como metodologia”, terá início antes das gravações a fim de transmitir a segurança para com o personagem, com o objetivo de coletar informações qualificativas para a construção da narrativa.
6.3.1 Detalhes da Abordagem
Quando começamos pensar no local onde seriam feitas as entrevistas, tínhamos duas opções para oferecer as entrevistadas, sendo o primeiro local a escolha de cada uma, ou seja, no ambiente em que elas se sentissem à vontade, e o segundo local no estúdio da faculdade por ter uma estrutura preparada para gravação, com iluminação adequada e espaço para os equipamentos. Para que a questão de cenário e outras questões fossem acordadas entre a equipe, fizemos reuniões individuais com cada uma delas e ambas preferiram realizar a gravação no estúdio da Universidade Cruzeiro do Sul, no Campus da Liberdade.
89
Nosso principal objetivo durante essa conversa era explicar o propósito do documentário e deixá-las à vontade para realizarem perguntas e contar um pouco sobre elas para estarmos devidamente preparadas para recebê-las. Para o dia da gravação, demos a liberdade para que elas escolhessem qual era o melhor dia para a gravação da entrevista, qual era a melhor forma de transporte, o que gostariam de comer e a roupa que gostariam de vestir. Para nós, estabelecer este comprometimento foi de extrema importância para que a Marifer e a Lara se sentissem seguras em participar do documentário. Com o Moisés, ao longo do processo, criamos uma relação amigável virtualmente e ele se demostrou solicito para auxiliar em questões pessoais da equipe. As pautas foram formuladas em 4 blocos, sendo: 1. História de vida Com o objetivo de criar um vínculo inicial e não traumatiza-las novamente, o foco inicial foi conhecer a pessoa por trás da situação do refúgio, como os costumes, habilidades, lembranças e gastronomia. Em seguida com o vínculo constituído, o motivo de terem vindo para o Brasil. 2. Adaptação e Integração Nesta
etapa,
queríamos
conhecer
as
dificuldades
que
elas
encontraram ao chegar no Brasil, os hábitos adquiridos, locais que frequentam, além de entender como a população pode contribuir para o acolhimento das pessoas que se refugiam em outro país.
3. Preconceitos Nesta etapa, as perguntas foram direcionadas para entender a importância de ter um local de fala para as pessoas em situação de refúgio,
90
entender a questão da discriminação e conhecer o significado da palavra “fronteira” para ambas. 4. Futuro Para marifer as perguntas foram difrecionadas para conhecer o empreendimento que ela e o companheiro possuem e para a Lara a mecânica que abriu.
6.4 PROVIDÊNCIAS E INFRAESTRUTURA DE PRODUÇÃO
Com o objetivo de custearmos a produção do projeto, a produtora elaborou uma rifa nas redes sociais com 200 números, sendo que cada número foi vendido no valor de R$15,00, concorrendo ao prêmio de Echo Dot (3°Geração) Smart Speaker com Alexa ou Air Fryer, podendo o vencedor escolher qual prêmio desejava ganhar. A produtora arrecadou R$2,405,00, sendo R$1.905,00 com a venda de 127 números e R$500,00 com uma doação anônima. Sendo que deste valor, com o objetivo de estabelecermos uma confiança com as entrevistadas e compensar as horas que cederam do seu tempo, oferecemos um cachê de R$500,00 para Marifer e Lara, e providenciamos o transporte e alimentação para ambas, para que elas não precisassem se preocupar com tais questões e pudessem direcionar o valor do cachê para suas questões pessoais. Para o Moisés, como anteriormente o poema “Sou Imigrante” foi solicitado para serviços acadêmicos e universitários, e mencionado em livros didáticos de educação no Brasil, acordamos um cachê de R$1.000,00 pela cessão do poema. Essas
questões
foram
discutidas
com
cada
personagem
individualmente e ressaltamos a importância do tema de pesquisa e que o cachê não simbolizava um serviço de troca.
91
Em relação as captações que permeiam o documentário, os objetos captados no estúdio foram realizados antes das entrevistas com o objetivo de verificarmos com antecedência quais seriam as necessidades para a produção das entrevistas, com a finalidade de decupar as entrevistas e decidir a narrativa do documentário, as demais captações foram realizadas após as entrevistas. Um dia antes de cada entrevista a produtora se encaminhou ao estúdio da universidade para preparar o cenário. Escolhemos um tecido amarelo para usarmos como fundo, penduramos em um suporte para fundo infinito e realizamos o teste de iluminação e câmera para que no dia seguinte estivesse preparado assim que a entrevistada chegasse. Nos dias das entrevistas chegamos 2 horas de antecedência para checar o cenário preparado no dia anterior e arrumarmos a mesa com o lanche que preparamos para recepcionálas. A primeira entrevista aconteceu no dia 29 de setembro de 2021 com a convidada, Marifer Vargas e por opção dela, ela preferiu chegar à Universidade Cruzeiro do Sul no Campus Liberdade por conta própria, assim que ela chegou, fomos recepcioná-la na porta e conversamos sobre o trajeto que ela havia feito, em seguida, a conversa começou a fluir de forma natural. Ao chegarmos no estúdio, localizado no 2° andar da Universidade, oferecemos os lanches que estavam à disposição da convidada, e antes de iniciarmos as gravações explicamos novamente como seria realizado, quais eram as etapas e deixamos claro que ela só precisava falar sobre o que ela quisesse e que se em algum momento sentisse necessidade de parar para beber água, comer, ir ao banheiro ou por qualquer outro motivo, ela tinha total liberdade, além disso, com o intuito de oferecermos um ambiente confortável para a entrevistada, perguntamos se ela estava confortável com o estúdio montado e os posicionamentos das câmeras e caso não estivesse, poderíamos alterar a estrutura. Durante a gravação, a equipe esteve atenta aos sinais da entrevistada, e em alguns momentos sugerimos algumas pausas entre as gravações. Após
92
o encerramento das gravações, solicitamos um carro de aplicativo para direcioná-la a sua residência e verificamos se ela havia chegado em segurança. A entrevista com a convidada Lara Elizabeth, aconteceu no dia 05 de outubro de 2021, e ocorreu no estúdio da Universidade Cruzeiro do Sul. Todo o processo de preparação de estúdio e a preparação que fizemos com a primeira convidada, repetimos com a Lara. Assim que a convidada Lara chegou, nos sentamos à mesa para que ela pudesse comer e conversamos sobre a pauta e a divisão dos blocos. O primeiro contato com a Lara pessoalmente, de início, foi tímido por ela ser mais reservada, mas aos poucos fomos encontrando pontos em comum sobre os quais poderíamos conversar para fazer com que ela se sentisse à vontade. As autorizações de imagem foram entregues as entrevistadas ao final das gravações. Como Moisés reside em Curitiba, a equipe orientou a gravação do áudio à distância encaminhamos um documento com as orientações de gravação, indicamos um aplicativo e solicitamos que ele gravasse em um local silencioso, posicionasse o celular em uma superfície e realize a gravação duas vezes com o objetivo de selecionarmos o melhor áudio posteriormente. Após as gravações, solicitamos os materiais de arquivos para as entrevistadas de acordo com a narrativa de construção.
6.5 EQUIPE DE GRAVAÇÃO
A equipe está formada por diretor, produtor, operador de áudio e câmera, sendo que estes profissionais estarão presentes até a finalização do projeto.
93
6.5.1 Equipamento de Vídeo
Para a realização do documentário, foram utilizadas duas câmeras DSLR, Canon T5i e Canon EOS Rebel SL2, por terem uma boa qualidade e por estarem disponíveis na produtora.
6.5.2 Equipamento de Áudio
Para as entrevistas será utilizado o microfone lapela com o objetivo de captar apenas o que está sendo dito pelo personagem e reduzir possíveis ruídos externos. Como backup e para evitar falhas posteriores, será utilizado um gravador de voz.
6.5.3 Material sensível
Foram utilizados 1 HD externo 1TB, notebook, 2 cartões 32gb e 1 64gb.
6.6 DIAS DE GRAVAÇÃO
Para a realização das gravações foram necessários: 9 dias, 2 dias para as gravações dos objetos no estúdio, 2 dias para a montagem do estúdio, 2 dias para as entrevistas e 3 dias para captação de imagens.
6.6.1 Horas de Gravação por dia
A primeira entrevista, Marifer Vargas, ocorreu no dia 29 de setembro de 2021 e teve duração de 88 minutos e 13 segundos de conteúdo.
94
A segunda entrevistada, Lara Elizabeth, ocorreu no dia 05 de outubro de 2021 e teve duração de 120 minutos e 6 segundos de conteúdo.
ETAPA DE EDIÇÃO 3 DESENHO DE PRODUÇÃO
6.7 INFRAESTRUTURA PARA EDIÇÃO
Foram utilizados os programas de software da Adobe Premiere, versão 2021 e Adobe After Effects, versão 2021 e Lightroom, versão 2021. Configuração da máquina de edição: Dell, Intel Core i7 VPro e 7°Geração Visor: Samsung, color display unit.
6.7.1 Montagem - Manipulação de Sons e Imagens
A equipe realizou as transcrições das duas entrevistas na íntegra e em seguida, iniciamos a narrativa do documentário grifando as falas que entraram em cada bloco. Após as transcrições, o som foi pensado primeiro, antes mesmo das imagens, porque foi necessário construir o som para que fosse possível identificar pontos importantes para prender a atenção sobre os assuntos, colocar as falas das personagens em primeiro plano ou para contemplar as
95
imagens. Em alguns momentos o som é quase imperceptível para que em outros momentos surgisse como aliado para contar a história e induzir para as emoções.
O som do documentário "Eu sou e estou aqui" foi pensado como um item importante em consonância com a imagem. Foi dividido em trilhas brancas por gêneros como: alegria, tristeza, tensão e dramático e foram incluídos nos momentos em que as personagens sociais narram acontecimentos bons ou ruins, nos casos em que foram relatados casos de racismo e preconceito, o som foi incluído para intensificar as falas e as emoções, além disso, utilizamos a imagem para induzir o espectador a se incomodar com os casos de preconceitos narrados, como prédios de ponta cabeça e luzes em movimento constante.
6.8 EQUIPE
Diretor – Foi o responsável por conversar com o editor/montador a fim de estabelecer o conceito e a linguagem do documentário.
Editor/Montador - Foi o responsável por avaliar o material bruto e decupar para iniciar a montagem do documentário de acordo com as sequências das cenas previstas no roteiro de edição, este profissional foi o responsável pelo tratamento e mixagem do áudio com o objetivo de provocar sensações no espectador por meio da redução de possíveis ruídos e inserção de efeitos sonoros.
96
ETAPA DE FINALIZAÇÃO 4 DESENHO DE PRODUÇÃO
6.9 PÓS-PRODUÇÃO
Após a finalização da montagem do documentário, a produtora encaminhou o documentário fechado para a realização do tratamento de cor, sendo responsabilidade do contratado realizar este tratamento e para a profissional de legendagem. Após a finalização das duas etapas anteriores, a produtora ficou responsável por inserir as artes tais como: vinheta de abertura cartelas e créditos, sendo responsabilidade da produtora.
6.10 REFERÊNCIAS ESTÉTICAS
6.10.1 Atlantics- Netflix (2019)
97
Figura 35 – Filme: Atlantics
Fonte: Frame do filme Atlantics, dirigido por Mati Diop
6.10.2 Atlânticos - (2009) Curta-metragem/experimental
Figura 36 – Filme: Atlantics
Fonte: Frame do filme Atlantics, dirigido por Mati Diop
Atlantics, filme dirigido por Mati Diop, é um filme africano com idioma da língua Uolofe. Ganhou prêmios como o do Grand Prix de 2019, e de melhor fotografia do National Society of Film Critics Award. Há um curta-metragem experimental chamado ``Atlantics'', da mesma diretora, feito no ano de 2009, o que fez com que ganhasse uma versão de longa-metragem. Inspirado nas duas versões do curta e do longa-metragem, a produtora busca no documentário trazer composições com o azul predominante e detalhes em cor vermelha. Os ângulos utilizados no filme, também servem como base para inspirar a fotografia, o retrato dos personagens do documentário.
98
6.10.3 "Marked” – Netflix (2021)
Figura 37 – Documentário: Marked the documentary
Fonte: Frame do documentário dirigido por Nadine Ibrahim
Figura 38 – Documentário: Marked the documentary
Fonte: Frame do documentário dirigido por Nadine Ibrahim
O documentário “Marcados: Tradições da Nigéria” de 2021, relata a cultura nigeriana, onde há a escarificação no rosto (incisões feitas na pele) explicando suas simbologias e significados.
99
Bluesman álbum musical de Baco Exu do Blues - (2018) - CurtaMetragem
Figura 39 – Curta-Metragem: Bluesman álbum musical de Baco Exu do Blues
Fonte: Frame do curta-metragem dirigido por Bacu Exu do Blues
Figura 40 – Documentário: Bluesman álbum musical de Baco Exu do Blues
Fonte: Frame do curta-metragem dirigido por Bacu Exu do Blues
O curta-metragem musical de Baco Exu do Blues também é composto com predominância do azul, tendo composições em destaque no vermelho e amarelo. A ideia do documentário é justamente este tipo de composição, procurando sempre deixar em evidência o personagem real e as cores quentes sobre determinado assunto que procuramos dar ênfase.
100
6.11 PÚBLICO-ALVO
O mundo está cada vez mais digital e isso traz novos desafios para as produções
audiovisuais.
Os
consumidores
são
bombardeados
com
informações que podem ser interessantes ou não, o tempo todo. A geração Y se preocupa sobre os hábitos de consumo e isso reflete também no mundo do entretenimento. Portanto, identificamos que nosso público-alvo, que são socialmente conscientes e exigentes, preferem conteúdos que possuem maior informação e autenticidade. Através de uma pesquisa de perfil de público realizada
pelo Circuito SPcine em 2016 O
gênero não ficcional
(documentários) representa 50,40% de gosto popular e quando se trata de obras brasileiras esse número sobe para 71,60%. Por conta da pandemia causada pelo vírus Covid-19, houve um aumento considerável em busca de streamings. De acordo com um estudo realizado pela Kantar Ibope Media em março de 2021, o Inside Video, afirma que o Brasil teve um aumento considerável de novos assinantes nas plataformas de Streaming O Brasil como um todo se destaca no consumo de vídeo em relação à média global. 80% dos brasileiros assistiram vídeos online gratuitos, frente a 65% dos estrangeiros. E o crescimento ocorre independentemente da forma de acesso: 68% dos usuários de internet viram mais vídeo e TV online por streaming gratuito durante os períodos de isolamento e 58% mais streaming pago. Após pesquisarmos sobre nosso público-alvo percebemos que esse público se enquadra entre pessoas de 30 a 40 anos que consomem plataformas de streamings como Globo Play, que foi a plataforma escolhida como objetivo da Produtora, para hospedagem do documentário. A geração Y também está cada vez mais interessado pelo gênero nãoficcional, principalmente documentários que trazem uma reflexão sobre um tema, é por isso que o “Eu sou e estou aqui”, busca além de ter seu públicoalvo, uma expectativa de abranger o interesse desse grupo de pessoas, pois nosso objetivo é demonstrar de uma forma sensível e poética a importância
101
da inclusão de pessoas em situações de refúgio em uma nova cultura, assim como a esperança e construção de uma nova vida.
6.12 VEICULAÇÃO/DISTRIBUIÇÃO
A escolha de veiculação foi pensada para distribuir o documentário em festivais e mostras de audiovisual como o “É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários” que acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro, “Forumdoc.bh - Festival do Filme Documentário e Etnográfico” que acontece em Belo Horizonte e o “BIFF - Brasília International Film Festival”, que acontece em Brasília. Na intenção de ganhar notoriedade e conseguir patrocínio, visamos inscrever o documentário para estes festivais. Já pensando na distribuição do documentário a longo prazo, chegamos nas plataformas de streaming, e após analisar os documentários já disponíveis nas principais plataformas utilizadas no Brasil, chegamos à conclusão de que o Globoplay é a opção que mais atende projetos semelhantes ao nosso, de autoria independente e nacionais. A Globoplay é uma plataforma digital de streaming de vídeos sob demanda, desenvolvida e operada pela Globo, que faz parte do Grupo Globo, lançada em 3 de novembro de 2015. Em 2020, alcançou a marca de 20 milhões de usuários e tornou-se líder nacional de streaming.
6.13 JUSTIFICATIVA
O documentário pretende abordar o tema sobre pessoas que estão em situação de refúgio através de duas personagens refugiadas que vivem na cidade de São Paulo. O tema escolhido, parte do princípio das documentaristas de questões que são prioridade como a ética e o motivo pelo qual fazer o produto audiovisual: abordar sobre a pessoa refugiada de uma
102
maneira explicativa para o público, onde busca apresentar relatos e os sonhos destas pessoas que estão se integrando à cidade e à cultura brasileira. O tema possui importância devido ao contexto atual do Brasil, o país que antes apresentava sinais de acolhimento hoje já consta sinais retrógrados e preconceituosos sobre o imigrante no país, o que dificulta a vida destes imigrantes, aumenta a violência e outras questões como explorações de trabalho e desrespeito. Nota-se que também não há uma educação por parte da mídia, dos veículos de comunicação sobre a questão do refúgio, especificamente no Brasil, diante disso o documentário visa mostrar sobre a questão do refúgio para dar mais visibilidade a um tema que no senso comum ainda é algo carregado de preconceitos. O trabalho traz inovação na forma de contar sobre este assunto da contemporaneidade, justamente por ter o objetivo de fazer com quem assiste voltar à atenção para o que acontece e o que muito tem a se fazer ainda. O tema tem relevância política e social, que por meio das personagens sociais buscamos trazer reflexão sobre inclusão e respeito, além de como objetivo contribuir para quebrar paradigmas sobre a questão da pessoa refugiada na cidade de São Paulo.
6.14 CRONOGRAMA DE PRODUÇÃO
Tabela 1: Cronograma de Produção
Etapas Preparação
Duração
Pesquisa
120 dias
Duração total da etapa
120 dias
103
Filmagem
Duração
Gravação
7 dias
Duração total da etapa
7 dias
Edição
Duração
Montagem/Edição
7 dias
Duração total da etapa
7 dias
Finalização
Duração
Pós-produção de Áudio
7 dias
Pós-produção de Imagem
7 dias
Legendagem
7 dias
Duração total da etapa
21 dias
Total em dias
172 dias
6.15 ORÇAMENTO PREVISTO
No orçamento previsto, consideramos os valores de mercado de acordo com a tabela da Sindcine de 2021/2022 e orçamento de baixo custo, as tabelas seguem a planilha didática da oficina para formação de projeto DOC TV Brasil
104
Tabela 2: ORÇAMENTO PRÉ-PRODUÇÃO
Equipe Item
Qtd. Sem.
Unit.
Total
Pesquisador
1
2
R$2.744,26
R$5.488,52
Diretor
1
2
R$4.419,84
R$8.839,68
Diretor de Fotografia Operador de Câmera
1
2
R$ 4.017,27
R$ 8.034,54
Produtor Executivo
1
2
R$4.023,20
R$8.046,40
Produtor Geral
1
2
R$1.369,44
R$2.739,88
Subtotal
R$33.149,02
Subtotal da Pré-Produção
R$33.149,02
ORÇAMENTO PRODUÇÃO Equipe Item
Qtd. Sem.
Unit.
Total
Diretor
1
1
R$4.419,84
R$4.419,84
Produtor Geral
1
1
R$1.369,44
R$1.369,44
Produtor Executivo
1
1
R$4.023,20
R$4.023,20
Cenógrafo
1
1
R$ 2.744,26
R$ 2.744,26
Diretor de Fotografia/Operador de Câmera
1
1
R$ 4.017,27
R$ 4.017,27
Operador de Câmera
1
1
R$ 2.744,26
R$ 2.744,26
Making OFF
1
1
R$632,00
R$632,00
Subtotal
R$19.950,27
105
Equipamentos (Aluguel) Item
Fabricante
Qtd.
Unit.
Total
Câmera Rebel EOS SL3
Canon
2
R$324,00
R$648,00
Microfone Omni-lapela UWP-D21 UC14 Mhz 470 542
Sony
R$249,00
R$648,00
R$426,00
R$852,00
1 NINJA SHOGUN
2
Neewer
1
R$43,00
R$43,00
MANFROTTO
2
R$150,00
R$300,00
Zoom H8
1
R$303,00
R$470,30
Monitor Rebatedor Fotográfico TRIPÉ 502HD Gravador de áudio
Subtotal
R$2.961,30
Material Sensível (Aluguel) Item Cartão 256GB HD SSD Samsung 1TB
Fabric.
Qtd.
Sandisk Extreme
2
Seagate Expansion
2
Unit.
Total
R$45,00
R$90,00
R$150,00
R$430,11
Subtotal
R$520,11
Produção Item
Qtd.
Unid.
Unit.
Total
R$120,00
R$240,00
Alimentação – Entrevistadas
2
Cachê
2
Cachê
R$500,00
R$1.200,00
Transporte - Entrevistadas
4
Diária
R$40,00
R$160,00
Diária
Subtotal
R$1.600,00
Subtotal da Produção
R$23.431,68
106
ORÇAMENTO PÓS-PRODUÇÃO Equipe Item Diretor
Qtd.
Sem.
Unit.
Total
1
1
R$4.249,85
R$4.249,85
1
R$ 2.995,26
R$ 2.995,26
1
R$ 2.949,60
R$ 2.949,60
1
R$ 1.790,83
R$ 1.790,83
1
R$350,00
R$350,00
1
R$ 1.670,94
R$ 1.670,94
1
Editor/Montador
1
Editor de Som
1
Finalizador Legendagem
1
Produtor de finalização
1
Subtotal
R$14.006,48
Administrativa Item Combo (Bíblia e CD)
Qtd.
Unid.
Unit.
Total
1
Unidade
R$450,00
R$450,00
Subtotal
R$450,00
Subtotal da Pós-Produção
R$14.456,48
Pré-produção
R$33.149,02
Produção
R$23.431,68
Pós-Produção
R$14.456,48
Impostos
R$7.826,72
Taxa da produtora 10%
R$78.140.90
Total
R$157.004,80
Total
107
6.16 ORÇAMENTO REAL
ORÇAMENTO PRÉ - PRODUÇÃO
Item
Qtd.
Valor (Unitário)
Total
Caixa de alfinete
1
R$10,30
R$10,30
Cartolina
1
R$1,00
R$1,00
Celofane
1
R$ 6,60
R$ 6,60
Faca
1
R$ 3,00
R$ 3,00
Fita crepe
1
R$ 2,40
R$ 2,40
Fita dupla face
1
R$3,70
R$3,70
Madeira
1
R$11,70
R$11,70
Marcador
1
R$ 7,30
R$ 7,30
Pilhas AAA (Pacote com 4)
1
R$ 15,00
R$ 15,00
Pilhas AA (Pacote com 8 uni)
2
R$22,15
R$44,30
Tecido 6 metros
1
R$ 38,76
R$ 38,76
Tecido Crepe (Coral)
1
R$ 25,80
R$ 25,80
Tecido Helanca (Amarelo)
1
R$ 14,66
R$ 14,66
Tecido Oxford (Azul)
1
R$11,85
R$11,85
Vidro
1
R$25,90
R$25,90
Subtotal
R$222,27
108
ORÇAMENTO PRODUÇÃO
Item
Qtd.
Valor (Unitário)
Valor
Alimentação (Entrevistadas)
2
R$64,89
R$129,78
Cachê (Poema)
1
R$1.000,00
R$1.000,00
Cachês (Entrevistadas)
2
R$500,00
R$1.000,00
Taxa de transferência bancária
1
R$ 24,94
R$ 24,94
Transporte (Entrevistadas)
2
R$ 42,77
R$ 85,54
Subtotal
R$2.240,26
ORÇAMENTO PÓS-PRODUÇÃO
Item
Qtd.
Valor (Unitário)
Valor
Coloração
1
R$500,00
R$500,00
Legendagem
1
R$ 192,00
R$ 192,00
Revisão da bíblia (ABNT)
1
R$ 80,00
R$ 80,00
Combo (Bíblia e CD)
1
R$ 342,50
R$ 342,50
Prêmio (Rifa)
1
R$335,45
R$335,45
Subtotal
R$1.449,95
109
VALOR TOTAL DO PROJETO
Pré-Produção
R$222,27
Produção
R$2.240,26
Pós-Produção
R$1.449,95
Total
R$3.912,48
111
CAPÍTULO 7 – CONSIDERAÇÕES PARCIAIS DA PRODUTORA
Tendo em vista que existimos a partir do outro, nos perguntamos muitas vezes por que querer e trazer este tema para um documentário, por que querer relatar sobre pessoas refugiadas? Acontece que a partir dessas indagações chegamos a duas conclusões que regem tanto o lado profissional quanto pessoal de cada integrante como objetivo deste documentário: a de ser um agente transformador do mundo e o que podemos realizar no meio audiovisual que nos torna este agente. A partir disso, sabemos que muito tem a se fazer, caminhar pela realidade da vida é sair sempre das bolhas que nos cercam. A questão da pessoa refugiada nos faz perceber sobre o mundo, que a uma mudança de política e de forma de levar a vida ou questões maiores como desastres ambientais podem nos colocar em um mesmo conflito de buscar novos lugares para se viver. Hoje percebemos e indagamos constantemente sobre o que dizem termos: livre arbítrio. A exclusão de uma sociedade pode efetivamente acontecer comigo, ou com alguém próximo assim como acontece com uma parcela dela, sendo pessoas em situação de refúgio. Então como podemos ignorá-las ou não buscar compreender melhor? Como podemos nós viver apenas em uma bolha social se apesar de tudo, a qualquer passo que a vida tomar pode cair no mesmo caminho, necessitando de asilo, buscando um novo espaço, pedindo mais oportunidade em algum lugar? Por que de certa forma, nós integrantes da produtora também somos parte de uma parcela marginalizada da sociedade, então questionamos agora de uma maneira mais correta: como poderíamos simplesmente não falar desse tema?
112
7.1 CONSIDERAÇÕES FINAIS DA PRODUTORA – RELATO INDIVIDUAL 7.1.1 Ana Carolina Fiel Da Silva
Eu demorei muito para começar a escrever esse relato individual porque para mim é algo muito simbólico, é o último texto, último conteúdo que produzo para um trabalho de faculdade. Esses 5 anos de graduação me ensinaram demais, e eu quero começar agradecendo ao professor e coordenador Bruno Rogério Tavares, que me acompanhou desde o primeiro dia de aula e que tem total influência no meu crescimento como profissional. Agradeço também ao professor Alexandre Henrique que muitas vezes foi mais que um professor, foi amigo e irmão mais velho daqueles que te provoca, puxa sua orelha, mas que no fim só faz isso porque quer o seu bem. Grego, a sua voz continua ecoando na minha cabeça todas as vezes que eu chego atrasada em algum lugar, obrigada por me ensinar a ser mais pontual. A universidade Cruzeiro do Sul se tornou um universo para mim, eu vivi muitos dos melhores momentos da minha vida entre aquelas paredes, chorei demais pelos corredores e aprendi principalmente sobre as pessoas e suas diversidades, e eu sou grata por cada um daqueles com quem tive a sorte de dividir essa experiência grandiosa. Desenvolver e produzir o documentário “Eu sou e estou aqui” foi um desafio incrível. O processo todo foi muito significativo para nós pois é um projeto totalmente idealizado, planejado e produzido por mulheres. Começando conosco, as integrantes da produtora, 4 mulheres que se desafiaram em fazer um trabalho de conclusão de curso em um número muito reduzido, mesmo sabendo dos desafios que viriam e a carga de trabalho dobrada que teriam por conta da pouca mão de obra, mas que mesmo assim foram em frente e conseguiram realizar tudo com excelência, e que tiveram a orientação e auxílio de uma mulher genial, Krishna Tavares, que nos aguentou o semestre inteiro e nos ajudou a deixar o documentário sensível, poético e muito especial. E por último, mas extremamente importantes, as mulheres que deram vida ao nosso projeto, Lara e Marifer. Duas mulheres extremamente fortes que largaram uma vida inteira para trás na esperança de ter uma vida
113
feliz e segura aqui no Brasil, a força e determinação delas foram essenciais para o resultado final do documentário e totalmente inspiradoras para nós. Todo o nosso esforço, as noites mal dormidas, dores de cabeça e estresse valeram muito a pena porque o resultado final está lindo e eu me sinto verdadeiramente orgulhosa de ter feito parte desse projeto e ter vivido cada segundo dele ao lado de pessoas tão especiais. O ano de 2021 foi o pior de toda a minha vida, no dia 29 de abril eu perdi meu pai e isso me desestabilizou tanto que eu pensei seriamente em desistir de tudo, mas as meninas, Carine, Paula e Thamires me apoiaram muito, me deram espaço para viver meu luto mas também me acolheram de peito aberto, e eu jamais esquecerei isso. Viver toda essa experiência de TCC foi surpreendentemente transformadora, me ajudou a decidir meus próximos passos e os caminhos que quero seguir a partir daqui, e sou muito grata a produtora abelha pela nossa colmeia que se tornou meu refúgio. Obrigada meninas, amo vocês.
7.1.2 Carine Giovana Santos
A pré-produção do documentário “Eu sou e estou aqui” começou com uma necessidade por parte das integrantes de relatar sobre mulheres desde o quinto semestre da faculdade. Desde que nós, integrantes da produtora, decidimos realizar os trabalhos com um grupo cem por cento feminino, as ideias para produções audiovisuais com essa visibilidade foram pensadas para o Trabalho de Conclusão de Curso. Os processos de pesquisas foram construídos desde a estrutura do que é o documentário e suas formas de abordagens até a preocupação da construção de uma voz, um ponto de vista de como abordar o assunto sobre pessoas em situação de refúgio em São Paulo que realizasse a necessidade de dar visibilidade a esse tema e a temas que envolvessem a mulher e a
114
complexidade de ser mulher refugiada, que foi decidido ser o recorte para o produto audiovisual. Minha função como diretora do documentário, teve a necessidade de estar alinhada ao tema desde o início para que a voz escolhida por todas do grupo fosse mantida e ainda mais trabalhada, tanto audiovisual, como as imagens e os sons, quanto na parte teórica para que cada imagem construída e colocada no documentário fosse carregada de significados. Com isso, além de ler e pesquisar os livros e documentos importantes sobre o tema, como documentos atualizados anualmente pela ACNUR, o livro Valentes do ano de 2019, as pesquisas de definições sobre estar refugiado pelos órgãos federais como a CONARE, também participei de palestras e cursos sobre a questão do refúgio e o deslocamento forçado no mundo durante todo o período do mês de julho, junto ao meu grupo. No mês de julho também foi realizada uma rifa com o intuito de conseguirmos ajuda de custo para a realização do documentário. A produção do documentário foi realizada durante o mês de agosto, o que contou com muita dedicação, o compromisso com as datas estipuladas pelo grupo, as reuniões, os processos criativos e a organização em estúdio, partes cruciais para que um projeto como esse pudesse ser feito e chegar a um resultado de acordo com nossas expectativas. O processo de pós-produção contou com uma análise árdua de direção e também de montagem, realizada a maior parte da edição pela integrante Paula Raphaela. Montagem, sonorização, a concordância de manter o que foi proposto desde o início foram aspectos sempre observados com muito cuidado no processo de montagem do documentário como um todo. A experiência de ser diretora foi desafiadora, mas como sempre ocorreu nestes quatro anos do curso de rádio, tv e Internet, foram várias as áreas onde me encontrei e sempre tive muito apoio dos professores, agradeço especialmente à orientadora Krishna Tavares por ter nos guiado neste caminho de conclusão de curso e por ter entendido e apoiado este documentário com a sensibilidade que queríamos colocar nele, também quero agradecer aos professores Bruno Tavares, Alexandre Henrique e Maria
115
Aparecida, a todos que nas aulas me faziam acreditar no meu profissionalismo e postura diante dos trabalhos e seus feedbacks sempre enriquecedores. Gostaria de agradecer também às meninas do grupo, Ana Carolina Fiel da Silva, Thamires Brito Affonso e Paula Raphaela Teixeira Martins, que com certeza não teria sobrevivido a um ano turbulento como esse sem o apoio e a força de vocês, obrigada pelos vários momentos em que acreditaram em mim mais do que eu mesma. Agradeço à minha família que sempre me possibilitou sonhar alto e que se não fossem eles a abrir o portão de casa para mim às 23 horas da noite todos os dias por mais ou menos 4 anos, eu não estaria aqui, me formando. Por fim agradeço aos personagens sociais que deram vida a este trabalho sensível e muito dedicado, Marifer Vargas e Lara Lopes, que nos confiaram a contar suas histórias e a mostrá-las em um produto audiovisual documentário.
7.1.3 Paula Raphaela Teixeira Martins
Primeiro, eu dedico este relato ao meu querido avô, conhecido como Moca, ele infelizmente não está mais entre nós, mas a sua força e a vontade de viver refletiram em mim a vontade de persistir e ir em busca dos meus sonhos, afinal, com frequência, ele me dizia: “sem luta, não há vitória”, e foi assim, todos os dias, até um pouco antes da sua partida. Obrigada, meu avô! Aos meus pais, Paulo Martins e Elizabeth Martins e ao meu irmão Raphael Martins, não existem palavras para eu expressar a minha gratidão por terem me apoiado em noites de choros, por vibrarem com as minhas conquistas, por me incentivarem todos os dias e dizerem “vai ficar tudo bem!” As minhas companheiras de jornada, Ana, Carine e Thamires, com vocês eu aprendi o verdadeiro significado de apoio e amizade e carregarei os ensinamentos que vocês trouxeram para a minha vida. Ana, com você eu
116
aprendi a importância de ser forte nos momentos turbulentos e que existem pessoas que possuem um estado de espírito tão calmo que reflete no ambiente, essa é a sensação que paira quando você está presente; Carine, você me ensinou a essência de rir e a pensar fora da caixa ou pelo menos tentar; Thamires, você me ensinou o poder de se posicionar com cordialidade e a importância de ouvir. Com vocês, eu não me senti sozinha! À Universidade Cruzeiro do Sul, agradeço a todos os professores que compartilharam os seus conhecimentos e me fizeram enxergar esse universo com outros olhos, em especial, agradeço o coordenador e professor Dr. Bruno Tavares, por ter apresentado o audiovisual com maestria, paixão e pelo apoio ao longo da minha trajetória. O professor Alexandre, conhecido como Grego, que ensinou “a vida como ela é”, a professora Maria Aparecida que com a sua ternura ensinou o poder da escrita e a querida professora Krishna, confesso que as palavras não serão suficientes para expressar o poder da sua existência, mas digo: você é admirável. Marifer Vargas e Lara Elizabeth, obrigada por compartilharem as suas feridas, eu desejo que as mulheres que ainda estão caladas assim como vocês estiveram, tenham força e apoio para falarem, denunciarem e seguirem em frente. Encerro os meus agradecimentos com lagrimas, mas feliz por concluir este ciclo e entusiasmada com os próximos capítulos, afinal, “sem luta, não há vitória”. Obrigada, Deus!
7.1.4 Thamires Brito Affonso
Esse é o último relato individual em relação ao um trabalho de rádio, tv e internet em que escrevemos, e esse é o mais importante até aqui, pois é nosso TCC, a nostalgia é impossível de não aparecer, enquanto escrevo isso, quando olho para trás vejo toda minha trajetória até aqui e sinto orgulho de quem me tornei, me sinto também agradecida aos meus professores e
117
orientadores que me ajudou nesse percurso de 4 anos. Foram anos intensos de muitas alegrias, choros, alguns momentos de tensão, mas tudo isso ajudou no meu crescimento pessoal e profissional. Quero agradecer especialmente a professora Krishna, que foi nossa orientadora de projeto e nos ajudou muito com a sua sabedoria e sensibilidade. Fazer esse trabalho em especial, foi realmente muito lindo e envolvente, tomamos a decisão em fazer com apenas mulheres e um grupo reduzido de 4 pessoas, teve muito trabalho para fazermos, mas a sintonia e entrosamento em que tivemos sem dúvidas foi a melhor decisão que tivemos. Carine, Paula e Ana, vocês são incríveis e muito obrigada por partilhar essa experiência comigo, obrigada pelo companheirismo e amizade que ganhei. O documentário “Eu sou e estou aqui” para mim foi um dos trabalhos mais lindos e atenciosos que fizemos, espero que todos sintam o amor e dedicação que colocamos nele. E mais uma vez, obrigada!
119
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 8.1 DOCUMENTÁRIOS 40M². Roteiro: Tatiana Lo, Jéssica Queiroz e Samya Carvalhohmann. São Paulo: Instituto Criar, 2020. (30 min.), son., color.
A vida em mim. Direção de John Haptas. Suécia, Eua: Netflix, 2019. (40 min.), son., color.
Boca de Lixo. Direção de Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Cecip, 1992. (50 min.), son., color.
Elena. Direção de Petra Costa. Nova York: Busca Vida Filmes, 2012. (82 min.), son., color.
Feministas: o que elas estavam pensando?. Direção de Johanna Demetrakas. EUA: Netflix, 2018. (86 min.), son., color.
Nascidos em bordéis. Direção de Ross Kauffman e Zana Briskipaís. Índia: Ross Kauffman e Zana Briskipaís, 2006. (86 min.), son., color. Legendado.
O dilema das redes. Direção de Jeff Orlowski. Estados Unidos: Netflix, 2020. (89 min.), son., color.
O sanduíche. Direção de Jorge Furtado. Rio Grande do Sul: Casa de Cinema de Porto Alegre, 20000. (13 min.), son., color.
Provocações sobre ética. Direção de Leandro Karnal. São Paulo: Paprh Congresso, 2015. (66 min.), son., color.
Restos. Direção de João Batista. São Paulo: Movimento Cinema de Rua, 1975. (10 min.), son., P&B.
Trabalhadores - Presente! Direção de João Batista de Andrade. São Paulo: Dina Filmes; Raíz Produções, 1979. (36 min.), son., P&B.
120
8.2 LIVROS BAUMAN, Zygmunt. Responsabilidades morais, normas éticas. In: BAUMAN, Zygmunt. ÉTICA PÓS-MODERNA. São Paulo: Paulus, 2003. p. 23-46.
CARARO, Aryane et al. Valentes: histórias de pessoas refugiadas no Brasil. São Paulo: Seguinte, 2020. 296 p.
COUTINHO, Eduardo. O olhar no documentário - carta-depoimento para Paulo Paranaguá. In: LABAKI, Amir. A verdade de cada um. São Paulo: Cosac Naify, 2015. p. 224-229.
DA-RIN, Silvio. Espelho Partido: tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2004. 248
KIESLOWSKI, Krzysztof. Sobre o filme documentário. In: LABAKI, Amir. A verdade de cada um. São Paulo: Cosac Naify, 2015. p 197-198.
NICHOLS, Bill. Introdução ao Documentário. 2. ed. Campinas: Papirus Editora, 2016. 336 pg.
SALLES, João Moreira. A dificuldade do documentário. In: LABAKI, Amir. A verdade de cada um. São Paulo: Cosac Naify, 2015. p 265-281.
WINTONICK, Peter. Documentar o mundo. In: LABAKI, Amir. A verdade de cada um. São Paulo: Cosac Naify, 2015. p 230-245.
ZAKZUK, Maísa. Eu estou aqui: crianças que deixaram seus países para começar uma nova vida no Brasil. São Paulo: Panda Books, 2020. 93 p.
ACNUR, Miguel Pachioni. Cobertura Jornalista Humanitária: Guia do ACNUR para profissionais e estudantes de comunicação. São Paulo: Benitez Catalogação Ass. Editorial, Ms, Brasil, 2020. P 38-42.
SILVA, G. J et all. Refúgio em Números, 6ª Edição. Observatório das Migrações Internacionais; Ministério da Justiça e Segurança Pública/ Comitê Nacional para os Refugiados. Brasília, DF: OBMigra, 2021.
121
8.3 PALESTRAS BENEVIDES, Tania; MENEZES, Carolina; PISTORELO, Adriano. In: SEMANA DO REFUGIAFO: EMPREGABILIDADE E EMPREENDEDORISMO. Realização de Comissão de Trabalho – Namir-Ufba. 2021, BA. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pcr61EKHalM. Acesso em: 14 jun. 2021.
Oficina de cobertura jornalista sobre refugiados. Realização de Acnur, Folha de Sp e Memorial da Am. Latina. 2021. Acesso em: 15 jun. 2021.
FILHO, Penildon Silva et all. In: Semana do Refugiado: Educação. Realização de Comissão de Trabalho – Namir-Ufba. 2021, BA. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=70krwaWn3vo. Acesso em: 16 jun. 2021.
COHEN, Thiago et all. In: Semana do refugiado: Cultura, gastronomia e artes. Realização de Comissão de Trabalho – Namir-Ufba. 2021, BA. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ake3aVc0GNg. Acesso em: 18 jun. 2021.
Sarau do Memorial da América Latina. 2021. Dia do Refugiado; São Paulo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=O5OwezXAjBM&t=3504s. Acesso em: 18 jun. 2021.
É preciso integrar – Uma conversa sobre refúgio e direitos humanos. Instituto Adus. 2021. Vídeo (1h24) [Live] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=o8xMc7iwRg8. Acesso em: 25 jun. 2021. Participação de Mário Sergio Cortella e Leandro Karnal.
KATUMBA, Jean et all. In: Semana do Refugiado - Roda de conversa com migrantes. Realização de Comissão de Trabalho – Namir-Ufba. 2021, BA. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=o1cvPE4EwZE&t=5s. Acesso em: 21 jun. 2021.
122
8.4 SITES ACNUR. Refugiados. 2021. Disponível em: https://www.acnur.org/portugues/quemajudamos/refugiados/. Acesso em: 20 abr. 2021.
“Refugiados” e “Migrantes”: Perguntas Frequentes. ACNUR, 2016. Disponível em: https://www.acnur.org/portugues/2016/03/22/refugiados-e-migrantes-perguntasfrequentes/. Acesso em: 20 abr. 2021.
Perfil socioeconômico dos refugiados no Brasil. ACNUR. https://more.ufsc.br/filme/inserir_filme. Acesso em: 26 maio 2021
Disponível em:
FILMES, Dumela. Hábitos de consumo: como as gerações Y e Z interagem com conteúdos em vídeo? Dumela TV Blog, 2020. Disponível em: https://dumela.tv/blog/habitos-de-consumo/. Acesso em: 25 maio 2021.
Um ano depois do início da pandemia, plataformas de streaming contabilizam ganhos. FORBES, 2021. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-money/2021/03/um-anodepois-do-inicio-da-pandemia-plataformas-de-streaming-contabilizam-ganhos/. Acesso em: 25 maio 2021.
Classificação Indicativa: Informação e Liberdade de Escolha. Secretaria Nacional de Justiça. Disponível em: https://www.justica.gov.br/seusdireitos/classificacao/cartilh_informacaoliberdadeescolha.pdf. Acesso em: 26 maio 2021.
Consumo de vídeo bate recorde no Brasil. Kantar Ibope Media, 2021. Disponível em: https://www.kantaribopemedia.com/consumo-de-video-bate-recorde-nobrasil/#:~:text=O%20Brasil%20como%20um%20todo,(62%25%20x%2050%25). Acesso em: 25 maio 2021.
SIQUEIRA, Fernanda. Entenda as diferenças entre o Estatuto do Estrangeiro e Lei de Migração. JusBrasil, 2017. Disponível em: https://fernandasial.jusbrasil.com.br/noticias/469957698/entenda-as-diferencasentre-o-estatuto-do-estrangeiro-e-lei-de-migracao. Acesso em: 20 abr. 2021.
BRASIL, Lei Nº 13.445, de 24 de maio de 2017. Dispõe sobre os direitos e os deveres do migrante e do visitante, regula a sua entrada e estada no País e estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas para o emigrante. Disponível em:
123
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13445.html. Acesso em: 20 abr. 2021.
SINDCINE. Tabelas Salariais. Disponível http://www.sindcine.com.br/pagina/10/tabelas. Acesso em: 08 nov. 2021.
em:
125
ROTEIRO
“Eu sou e estou aqui” Abelha produções
Direção: Carine Giovanna Decupagem: Paula Raphaela Transcrição: Thamires Brito
126
FADE IN: LOGO DA PRODUTORA: ABELHA PRODUÇÕES FADE OUT: EXT. LOCAIS DE SÃO PAULO - DIA VOZ OFF: MARIFER Eu gosto de muitas coisas, sobretudo de viver, mas de viver sem medo porque eu aprendi do jeito mais infeliz que o medo paralisa e que não é jeito certo de viver uma vida bonita, né?
EXT. LUZES E PESSOAS DESFOCADAS – DIA VOZ OFF: LARA Essa Lara que tem aqui, tem propósitos diferentes daquela Lara que tinha lá. Essa Lara que tem aqui, tem visões diferentes daquela Lara que estava lá. Aquela Lara não tinha nada, era tudo escuro, né? E aqui eu vivo numa claridade, numa luz, entendeu? VOZ OFF: MARIFER Quando eu decidi vir para o Brasil é porque eu decidi parar de sentir medo e aqui eu consegui. VOZ OFF: LARA Existem pessoas como eu. Nossa, posso viver, assim tipo entendeu? Foi uma luz no fim do túnel. Deixa eu investigar, deixa eu saber um pouco mais, e fui lá, né? Brasil. FADE IN: TÍTULO: EU SOU E ESTOU AQUI FADE OUT: VOZ OFF:
127
MOISÉS Sou Imigrante EXT. GLOBO NO CENTRO COM PESSOAS PASSANDO AO FUNDO MOISÉS Sou Imigrante dalém Lá do outro lado do oceano Forçado a abandonar o país Sim o país de origem Que há séculos venho lutando Querendo viver Batendo as portas nunca descerradas Sempre encerradas Não tenho terra Lá de onde eu venho Do qual vós chamais ou dizeis ser minha terra… INT. GLOBO NO CENTRO COM FUNDO AMARELO - NOITE VOZ OFF: MOISÉS Eu era igual uma flecha Querendo ir pra frente Eu era cada vez mais puxada pra trás Com mais força! E de tanto me puxarem Fui lançada veementemente
128
Para atingir o alvo E vim aqui parar! FADE IN: TELA PRETA COM AS INFORMAÇÕES:REFUGIADOS SÃO PESSOAS QUE ESTÃO FORA DE SEU PAÍS DE ORIGEM DEVIDO A FUNDADOS TEMORES DE PERSEGUIÇÃO RELACIONADOS A QUESTÃO DE RAÇA, RELIGIÃO, NACIONALIDADE, PERTENCIMENTO A UM DETERMINADO GRUPO SOCIAL OU OPNIÃO POLÍTICA, COMO TAMBEM DEVIDO À GRAVE GENERALIZADA VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS E CONFLITOS ARMADOS (ACNUR). FADE OUT: INT. ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO E PERSONAGEM SENTADA – NOITE MARIFER Eu sou Marifer Vargas sou da Venezuela, tenho 39 anos, eu sou professora de história e geografia. LARA Meu nome é Lara Elizabeth Batista Cerqueira Lopes, sou moçambicana, tenho 37 anos, é... FADE IN: EXT. IMAGENS DE ARQUIVO: LARA COM A FAMÍLIA. LARA Hoje casada, mãe...estou no Brasil desde 2013...setembro de 2013, faz oito anos já que tô aqui. E... Eu saí de Moçambique por conta da minha orientação sexual... FADE OUT: INT. ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO E PERSONAGEM SENTADA – NOITE LARA Não sei se muitos sabem, mas a questão da homossexualidade é um tabu bastante grande de se falar e de se respeitar, não só em Moçambique como em muitos países da África. MARIFER Eu já consigo contar sem chorar e sem tremer porque eu achei no relato a terapia para eu sarar, para eu sanar essa ferida.
129
FADE IN: EXT. IMAGENS DE ARQUIVO: MARIFER COM O MARIDO MARIFER O Carlos meu parceiro, ele é jornalista de profissão lá na Venezuela e aqui também, e ele era gerente de produção de um canal do estado. Lá toda imprensa é controlada pelo governo, FADE OUT/FADE IN: EXT. AREIA VERMELHA CAINDO MARIFER Então aí, ele começou a se dar conta, que estava vindo uns orçamentos de máquinas, luzes, aparelhos, equipamentos, muito alterados! Aí ele começou a correr atrás para saber “Ah, mas eu assinei um orçamento de X valor no mês passado e agora é o mesmo equipamento, mas superelevado, superfaturado” e aí ele descobriu um esquema de corrupção dentro do mesmo canal, dentro da mesma emissora, ele foi reportar para o chefe de imediato e o chefe de imediato naquele momento era o vicepresidente da república FADE IN: EXT. TELA PRETA, LUZES VERMELHA E MAGENTA. - NOITE
LARA As pessoas falam muita coisa. Já ouvi que “você é filha do diabo”, “você tem espírito mal”, você é... entendeu? Aí você começa a se perguntar, com esse tipo de situação se realmente isso que as pessoas estão a falar não é verdade. você não sabe quem está com você, até aquele que você acha que sente sua dor, né, que entende a sua situação, mas você não se sente seguro. Porque de um lado você ouve pessoas gritando nomes pejorativos, então assim... Não existia segurança. Não que no Brasil não exista isso, tem várias pessoas que sofrem por sua orientação sexual dentro das famílias, fora... Mas quanto você puder dialogar, em algum momento você consegue mudar, mentes, corações FADE OUT/FADE IN: EXT. IMAGENS DE LUZES COM FUNDO PRETO - NOITE MARIFER Até que em 29 de março de 2016, o dia do meu aniversário a gente saiu na tarde para comprar as coisas, porque caia sexta-feira, o meu aniversário caia essa mesma sexta-
130
feira na noite, quando a gente estava chegando em casa, no apartamento a gente foi trancado por outro carro na porta do estacionamento, desceram dois caras com escopetas, quebraram um vidro do Carlos, abriram a minha porta e me puxaram pelo cabelo e me colocaram no banco de trás, a gente achava que era um roubo normal, sabe? Ah, pega o carro e vai embora, não tem problema. Só que quando me colocaram no banco de trás, o cara que entrou no lugar do copiloto falou para Carlos “Carlos, você sabe que isso está acontecendo porque você se nega a colaborar”. EXT.IMAGENS DE TETO DA IGREJA - DIA LARA Eu sabia o meu momento de falar com Deus e os momentos que eu falei com Deus, as perguntas eram essas: em que momento eu iria ser feliz? Se realmente eu ser lésbica é coisa de satanás, se é um espírito, que ele me libertasse desse espírito naquele momento porque eu estava cansada, entendeu. FADE IN: EXT. JANELA COM PESSOA DESFOCADA - NOITE FADE OUT/ FADE IN: EXT: LUZES DE FARÓIS - NOITE MARIFER O Carlos é... foi, como chama? É... apanhado, apanhado, eu fui violentada, fui estuprada e soltaram a gente em uma avenida em um terrão que chama? Quando não tem nada. Nu, pelado. E falaram para a gente, “corre!”. E deram disparos no ar. E o que a gente fez, foi correr”. Logo, eu bati em uma porta de uma casa bem cedo, e aí pedi para a senhora que abriu a porta nos dar alguma coisa para gente se cobrir e me emprestar um telefone para eu ligar para o meu irmão. FADE OUT: EXT. LUZES AMARELAS – DIA LARA Quando decidir sair, sai sem falar para ninguém mesmo. Só a minha esposa sabia, só, nem minha própria mãe sabia. Ninguém. Porque... Não que tinha mágoa da minha mãe, não. Eu sou grata a ela. Mas eu precisava disso, precisava RECOMEÇAR. E quando você precisa recomeçar, você precisa recomeçar do zero mesmo. FADE IN/FADE OUT: INT. ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO E PERSONAGEM SENTADA – NOITE MARIFER
131
E a gente resolveu não ir na polícia, não ir em algum lugar, porque como você vai denunciar o governo se o cara que mandou sequestrar você é o vice-presidente! Ninguém ia acreditar na gente, sabe? Então, não... E eu não ia me expor a um forense, a me tocar mais, que me perguntassem coisas, que sei lá, não sei. LARA Eu perdi 29 anos da minha vida em Moçambique. 29 anos não é pouco, não é. Então assim, podem ter várias Laras lá, perdendo seus melhores momentos buscando uma aceitação da sociedade que não aceita o diferente, aí é complicado viver, né? Mas graças a Deus estou aqui. MARIFER Eu chorei muito, eu senti muito ranço de mim mesma, eu senti muita vergonha de mim mesma, até que um dia a minha filha me falou “mãe, por que você chora tanto?” ela não sabia e aí eu contei! E esse dia eu decidi que não ia mais chorar porque a minha filha não pode me olhar chorando, porque se eu superei isso, eu posso superar tudo! FADE IN/FADE OUT: EXT. TERRA CAINDO EM UM VASO COM PAISAGEM AO FUNDO – DIA VOZ OFF: MOISÉS Sou Imigrante Não tenho terra Tudo é terra Não importa se aqui ou lá! Quem dera que não houvesse fronteiras! Quem dera que não houvesse leis INT. TERRA CAINDO EM UM VASO EM ESTÚDIO – NOITE VOZ OFF: MOISÉS Leis essas que nos prendem, Separam, Hostilizam, injuriam e abalam! INT.ESTUDIO CAMERA SENDO AJUSTADA, LARA SENTADA – NOITE VOZ OFF: MOISÉS
132
Oh, se não houvesse fronteiras Divisões geográficas E que todos os homens fossem só homens! Sem distinção de cores, raças, nacionalidades! FADE IN: TELA PRETA COM AS INFORMAÇÕES: AO FINAL DE 2020 HAVIA 57.099 PESSOAS REFUGIADAS RECONHECIDA PELO BRASIL (CONARE). FADE OUT: INT. ESTUDIO COM FUNDO AMARELO E PERSONAGEM SENTADA – NOITE LARA Enquanto o brasileiro abrir as portas não é todo mundo que abre o coração e os braços, enquanto abrir as portas para a gente entrar, a gente tem que primeiro, nós imigrantes e refugiados, nós primeiro, respeitar a cultura brasileira, para o brasileiro respeitar a nossa. EXT. LUZES COLORIDAS – NOITE MARIFER E o enriquecedor que é conhecer uma pessoa de outro país. LARA A gente costuma falar assim eu costumo falar que a diversidade é uma coisa que eu ouvi e gosto, aliás inclusão que é: É você me convidar para sair, mas não me deixar parada né, mas me tirar para dançar né, me tirar para viver aquele momento verdadeiramente. Não só falar “vamos sair”, tá eu vou sair com você, mas eu posso não me sentir inclusa naquele ambiente em que você me levou, mas a partir do momento em que você me leva para aquele ambiente e dentro daquele ambiente você me coloca praticando ou fazendo atividades dentro dela eu vou me sentir inclusa. EXT.PAISAGENS DESFOCADA - DIA MARIFER Você vai converter o Brasil na sua nova casa e você tem que dar um jeito de se adaptar, então eu converti como minha casa, meu lugar, meu lar, meu refúgio não só no papel. EXT. RUA COM PESSOAS PASSANDO - DIA
133
MARIFER Mas também incorporei o Brasil na minha vida, então não tem como não ser de um jeito diferente.
EXT. VITRÔ COLORIDO DE CATEDRAL – DIA LARA Eu vivi milagres nesse país, nesse país Brasil, eu vivi. Então eu sou testemunha disso, então sim eu me sinto acolhida, desde o primeiro dia que eu cheguei, mesmo não conhecendo ninguém, o primeiro lugar que eu quis conhecer pessoalmente foi o santuário, primeiro lugar que eu quis conhecer foi o santuário e eu fui lá. EXT. ÁRVORES, BANCO, RUA – DIA MARIFER Eu consigo, eu consigo estar em paz, essa é a sensação que estranhamente São Paulo me dá, me sentir segura e me sentir tranquila. Eu sei que não é assim para todo mundo, mas eu me sinto assim. EXT. LUZES DESFOCADAS – DIA LARA Eu às vezes não tinha dinheiro nem para comer, mas eu conseguia pegar esse pouco, pegar um ônibus e ir para o santuário, parece brincadeira. E assim, às vezes que nem lugar para dormir tinha, mas eu dormia no chão porque eu sabia o que eu estava indo pegar lá, o que eu ia lá viver. EXT. MÃOS DADAS, IMAGENS DESFOCADAS – DIA MARIFER A memória me reconforta muito, eu sinto muito acolhida quando eu ligo para a minha mãe, ligo para a minha mãe e ela sempre tem alguma coisa para falar, é mãe, né? Mas faz parte, a gente aprende a viver com saudade. FADE IN/ FADE OUT: EXT. CENAS DE DIVERSOS OLHARES – DIA VOZ OFF: MOISÉS
134
Que culpa tenho eu em ser Preto ou branco? Cristão ou muçulmano? Hindu ou Budista? Judeu ou Samaritano? EXT. DUAS PESSOAS DE ABRACANDO EM FRENTE A UMA CAMERA GRAVANDO – DIA VOZ OFF: MOISÉS Se talvez as raças negra ou branca, não existissem! Na verdade, não existem O que apenas existe é… Raça humana! FADE IN: TELA PRETA COM TEXTO INFORMATIVO: A XENOFOBIA SÃO ATITUDES, PRECONCEITOS E COMPORTAMENTOS QUE REJEITAM, EXCLUEM E FREQUENTEMENTE DIFAMAM PESSOAS, COM BASE NA PERCEPÇÃO QUE ELES SÃO ESTRANHOS OU ESTRANGEIROS À COMUNIDADE, SOCIEDADE OU IDENTIDADE NACIONAL (ACNUR). FADE OUT: EXT. IMAGENS DE PRÉDIO DE PONTA CABEÇA – DIA LARA Tem pessoas que até hoje não entendem o que é você estar em uma situação de refúgio, não entendem! Acham que você é um vagabundo, que fugiu do seu país ou porque roubou, porque matou, alguma coisa errada que você fez, não para para pensar que você fugiu de uma guerra, que você fugiu de violência doméstica, no meu caso orientação sexual, então pessoas pensam de tudo um pouco, menos nessas coisas, então há que informar a sociedade né. Quando uma pessoa te fala que eu sou refugiada, é por quê? buscar saber, entendeu? MARIFER Você não gosta de ser maltratado, você não gosta de ser expulso, você não gosta de ser abandonado, você não gosta de ser excluído INT. ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO E PERSONAGEM SENTADA – NOITE MARIFER das coisas; então vamos tratar o outro como gostaríamos de ser tratados cada um de nós.
135
LARA E assim é normal isso para gente, não é normal você aceitar esse preconceito, não isso é inadmissível. EXT. IMAGENS DE PRÉDIO DE PONTA CABEÇA – DIA LARA Mas é normal a gente viver esse tipo de preconceito, por ser imigrante, por ser negra, entendeu? ser refugiado. É diário, diário, tem outros que já foram chamados de macacos. É! É sério, seríssimo! Macaco pelo próprio patrão. E aí? Aí demite, justa causa, qual é a justa causa? Me chamou de macaco e é justa causa? Quem vai defender? INT. ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO E PERSONAGEM SENTADA – NOITE MARIFER Eu já fiquei muitas vezes chata, porque a gente palestrando ou falando em lugares e nesses espaços tem pessoas que vem e falam quando termina tudo "Aí será que eu posso tirar uma foto com você?” E eu pergunto por que, “A é que eu nunca vi um refugiado”. EXT. IMAGENS DE PRÉDIO DE PONTA CABEÇA – DIA LARA Eu sofro preconceito, por ser gay, por ser lésbica na verdade, dos meus irmãos africanos. INT. ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO E PERSONAGEM SENTADA – NOITE
LARA Nunca brasileiro algum me apontou dedo, me xingou e falou nomes feios por eu ser lésbica, mas africano? vixi maria, você vê, eles saíram de lá, eu saí também, EXT. IMAGENS DE PRÉDIO DE LADO – DIA LARA Fugindo dele e viemos nos encontrar aqui, mas ele carrega ainda o mesmo preconceito, EXT. IMAGENS DE ÁRVORE DE PONTA CABEÇA – DIA LARA
136
O mesmo ódio, o mesmo rancor, entendeu? MARIFER Vivenciar na pele quando você sabe que não tem a mínima chance que o outro, pelo primeiro fato que é a língua... EXT. IMAGENS DE PRÉDIO DE PONTA CABEÇA, ARVORES, PAISAGENS AMPLAS DE PONTA CABEÇA – DIA MARIFER Que você não consiga se comunicar; quando você não consegue se comunicar em um país você é mudo. Então você não consegue acessar os serviços, você não consegue justificar certas condições, você não consegue reclamar seus direitos, você não consegue lutar pelos direitos e deveres do outro, então o idioma é a primeira barreira, o primeiro desafio por falar de algum jeito. INT. ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO E PERSONAGEM SENTADA – NOITE LARA Existem essas empresas que buscavam e buscam refugiados, por saberem que eles não conhecem seus direitos e saber que é um povo não vai se recusar a trabalhar em certas funções porque precisa, aí você vai lá pagar o salário que você quer, muitas das vezes você nem paga os direitos que a pessoa tem, muitas das vezes as pessoas sofrem dentro dessas empresas EXT. IMAGENS DE PRÉDIO DE PONTA CABEÇA – DIA LARA racismos, preconceitos, mas ficam caladas porque precisam, eu conheço inúmeros casos desses, pessoas que viveram esse tipo de situação então o Brasil poderia fazer muito mais do que já faz. INT. ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO E PERSONAGEM SENTADA – NOITE MARIFER O fato de ser uma migrante por perseguição política ou uma refugiada por perseguição política não significa que eu não possa levantar a minha voz e opinar sobre a política, não significa que estão vetados certos temas, ou que eu tenho que viver nas trevas, no escuro porque eu não posso falar porque eu não gosto, porque eu não quero ou porque... não, você pode falar de mil coisas. FADE IN/FADE OUT: INT. PEDRA NO ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO – NOITE
137
VOZ OFF: MOISÉS Sou Imigrante, emigrante, migrante Resistente, com força pra viver, almejando viver sou resistível como um Leão da África EXT. MÃO SEGURANDO UMA PEDRA COM FUNDO DE PAISAGEM COM CARROS PASSANDO - DIA VOZ OFF: MOISÉS Tenho garras de um falcão do mato Sou persistente como a onda movível
INT. DOCUMENTARIA APARECENDO, CAMERA E MARIFER NO ESTÚDIO COM FUNDO AMARELO – NOITE VOZ OFF: MOISÉS Porém, me respeitem! Só quero viver a vida… Porque a terra é nossa, de todos nós Feito por Deus e entregue a todos os homens Não importa se aqui ou lá! FADE IN/FADE OUT: EXT. IMAGENS DE ARQUIVO DE MARIFER – DIA MARIFER Nossa janela foi a resposta de como iríamos encarar nossa vida aqui no Brasil. A gente já viajou muito levando a nossa comida para outro lugar e sobretudo porque a gente não queria por exemplo, que as pessoas comessem a nossa comida só por comer. A nossa janela é filho de Carlos e meu, é nosso neném, então a gente cuida, ela dorme de vez em quando, levanta, bagunça tudo e logo dorme de novo, mas fica aí.
138
EXT. IMAGENS DE ARQUIVO DE MARIFER – DIA LARA A minha família hoje é aquilo que eu sempre quis ter em Moçambique, sem tabu de ninguém, sem medo de apresentar, sem precisar esconder o meu filho. Porque por incrível que pareça, a gente é o primeiro casal de lésbicas que tem filhos por inseminação, é a gente, entendeu? de Moçambique. É a gente. É claro que as pessoas vão ter curiosidades, mas não precisa justificar muito, né? Quando se tem conhecimentos suficientes. Até um casal de heteros fazem inseminação. FADE IN/FADE OUT: EXT. DUAS PESSOAS DANDO A MÃO – DIA
MARIFER E se eu consegui me levantar, todas nós podemos levantar, mas não é obrigatório se levantar, nem todas podemos. E cada uma se levanta no tempo de cada uma. FADE IN/ FADE OUT: EXT. MÃOS SEGURANDO UM ESPELHO APONTADO PARA O CÉU - DIA LARA Eu saí na esperança de ter uma vida boa, sai na esperança de ter um recomeço e tive. Tive o meu recomeço e a esperança de ter uma vida digna, eu acho que hoje eu tenho. FADE IN: TELA PRETA COM TEXTO INFORMATIVO:QUALQUER PAÍS ESTÁ SUJEITO ÀS INSTABILIDADES POLÍTICAS. TELA PRETA COM TEXTO INFORMATIVO: QUALQUER PESSOA ESTÁ SUJEITA A VIVER EM UMA SOCIEDADE QUE NÃO ACEITA COMO ELA É. TELA PRETA COM TEXTO INFORMATIVO: TORNA-SE UMA PESSOA EM SITUAÇÃO DE REFÚGIO, PODE ACONTECER COM QUALQUER UM, ATÉ MESMO COM VOCÊ. CRÉDITOS FINAIS FADE OUT / FIM.
139
TRANSCRIÇÃO – MARIFER VARGAS Legendas de acordo com a montagem final do documentário. Introdução: Amarelo Bloco I: Roxo Bloco II: Turquesa Bloco III: Cinza Bloco IV: Verde MARIFER: Sou Marifer Vargas sou da Venezuela, tenho 39 anos, sou professora de história e geografia e eu gosto de muitas coisas, sobretudo viver, mas viver sem medo porque eu aprendi do jeito mais infeliz que viver com medo não é um jeito de viver uma vida bonita, né? Então, quando eu decidi vir para o Brasil, eu decidi parar de viver com medo e aqui eu consegui. Minha vida na Venezuela era bem tranquila, era professora de história e geografia, os últimos 2 anos antes de vir pra cá, virei diretora da escola onde eu trabalhei por 15 anos. E aí minha vida era bem cômoda, confortável, morava em uma cidade que chama Maracay, ela fica uns 30 minutos da praia, então para mim, colocar os pés no mar era reconfortante. Eu gosto muito de dançar, eu gosto muito de comer, de viver mesmo, né? De experimentar coisas e de dar conta que a gente tem que valorizar e ser grato todos os dias porque você não sabe se acorda no dia seguinte, eu aprendi isso que a gente tem que valorizar cada dia e eu aprendi a gostar de valorizar a vida, então para mim é isso, viver é isso, é o que a gente tem que fazer. EQUIPE: Você disse que amava experimentar novas coisas, tem alguma coisa específica que você gosta?
140
MARIFER: Comer! Meu deus, eu como, como! Eu amo experimentar coisas, de experimentar comidas. A comida é o resultado de como são as pessoas, quando você come uma comida e tem o sabor, é porque ela foi feita sem aquela paixão, sem aquele amor, apenas para ser servida. E também, a comida é o reflexo de como são as sociedades. A comida do Brasil é muito diferente da comida da Venezuela. E dentro do brasil também, dependendo que você come vai explicar a geografia, o lugar, vai explicar até o estado de ânimo das pessoas que moram no lugar, então isso é bonito, isso é cultura. É diversidade, isso é viver, né? Eu gosto muito, por exemplo, aqui no Brasil, eu adoro, sou apaixonada pela comida nordestina, então nossa, não sei o que é tanto comido, sei lá, carne seca! Tudo tem que vir com carne seca, mas saber o processo, como se faz a carne seca, todo o valor histórico, todo o acervo histórico, de luta, de sobrevivência de resistência que tem a carne seca, é muito legal saber! E aí você vai sabendo, né? Vai aprendendo, sobretudo aprendendo. EQUIPE: E você tem filho/filha, cachorro, cachorra, gato? MARIFER: Eu tenho uma filha de 16, vai fazer 17 no mês que vem. Tenho um cachorro de um ano e 6 meses e tenho um marido de 38 e ele se vira quem fode melhor que o outro, mas eu amo a todos. EQUIPE: Qual o nome do cachorro? MARIFER: Mamute EQUIPE: Qual foi o período que você decidiu vir para o Brasil? O que aconteceu? Eu já consigo contar sem chorar e sem tremer porque eu achei no relato a terapia para eu sarar, para eu sanar essa ferida. Então foi assim, é... Ele vem desde o meu parceiro, o Carlos meu parceiro, ele é jornalista de profissão lá na Venezuela e aqui também, mas ele trabalhou durante 10 anos para a administração pública, e ele era gerente de
141
produção de um canal do Estado, certo? Lá, toda a imprensa é controlada pelo governo, certo? Então aí, ele começou a se dar conta, que estava vindo uns orçamentos de máquinas, luzes, aparelhos, equipamentos, muito alterados! Aí ele começou a correr atrás, “Ah, mas eu assinei um orçamento de X valor no mês passado e agora é o mesmo equipamento, mas super elevado, superfaturado" e aí ele descobriu um esquema de corrupção dentro do mesmo canal, dentro da mesma emissora, aí ele foi reportar para o chefe imediato e o chefe imediato naquele momento era o presidente da república, certo? Era o chefe do canal da emissora, vice-presidente da república, o ministro de comunicação e ele. Então simplesmente falaram para ele: “Carlos, deixa assim, a gente é governo, não tem problema não” e ele: “não porque a assinatura que está no papel é minha, se chega algum negócio, sou eu que vou preso, então, se esse é o esquema de vocês, assinem vocês e eu não jogo, vou embora, não tenho problema não, mas eu não entro!” e aí, começaram a falar “Mas você precisa do que? Você quer trocar de carro? Você quer um apartamento na praia? Você quer, sei lá, reformar a cozinha para a sua mulher?” e aí começaram a oferecer coisas, né? E ele “não, não! A gente tem tudo, tá tranquilo, não precisa de nada, eu só preciso que, eu não vou assinar mais” E certamente, ele não assinou mais e o monte de coisas foram acumulando e acumulando até que o mesmo chefe falou de novo para ele “Carlos, tem que assinar, se não assinar não vai liberar” e ele falou “eu não vou assinar porque isso é um esquema de corrupção” Isso começou na metade de 2015, em janeiro de 2016 começaram as ameaças! “Carlos, você sabe que a sua mãe, não sei o que, seu pai precisa de tal remédio, a Mari trabalha em tal lugar e não sei o que e tal” Até que em 29 de março de 2016, o dia do meu aniversário a gente saiu na tarde para comprar as coisas, porque caia sexta-feira, o meu aniversário essa mesma sexta-feira na noite, e a gente havia combinado de fazer um churrasco na casa da minha mãe que tem um quintal enorme que parece o quintal de seca, e tudo é enorme e grande e vão os amigos e a família, todo mundo! E aí a gente saiu no dia anterior a comprar coisas de churrasco, cerveja tudo e tal. E na
142
virada da meia noite, a gente comemora meu aniversário e vai para casa, certo! Quando a gente estava chegando em casa, no apartamento a gente foi trancado por outro carro na porta do estacionamento, desceram dois caras com escopetas, vocês chamam isso de escopeta? Aquela arma enorme que faz “Trárara” EQUIPE: Eu acho que é fuzil MARIFER: Fuzil! Desceram dois caras do carro que fechou o nosso na parte de trás, quebraram um vidro do Carlos, abriram a minha porta e me puxaram pelo cabelo e me colocaram no banco de trás, a gente achava que era um roubo normal. Pega o carro e vai embora, não tem problema. Só que quando me colocaram no banco de trás, o cara que entrou no banco do copiloto falou para Carlos “Carlos, você sabe que isso está acontecendo porque você se nega a colaborar” um sequestrador não sabe o seu nome, um malandro não sabe o nome de você, não sabe dados do seu trabalho, não sabe parte da sua vida e durante todo o trajeto do sequestro ele falava muita coisa referente a coisas muito especificas do que o Carlos fazia dentro do trabalho, coisas muito especifica do que eu fazia na escola, dados muito específicos da família da gente, por exemplo, os horários que a minha filha saia de casa e voltava para a escola, né? O horário que a minha mãe ia de casa para a missa, ia todos os dias ou como voltava, o horário que a mãe de Carlos ia na tarde para a padaria pegar o pão da tarde para voltar pra casa e fazer o jantar, para jantar na noite. Coisas assim que apavoraram a gente, porque significava que tinham muito tempo olhando a nós, muito tempo muita gente vigiando a gente, né? A gente chegou havia umas uma, duas da madrugada até umas oito, nove horas da manhã. A gente foi sequestrado, o que chamam aqui de sequestro relâmpago, o Carlos é... foi, como que chama? É... apanhado, eu
143
fui violentada, fui estuprada é... soltaram a gente em uma avenida em um terrão que chama? Quando não tem nada. Nú, pelado. É... E falaram para a gente, “corre!” e deram disparo no ar. Eu trabalhei muito tempo em comunidades, em bairros, né? Por falar de algum jeito, e eu conhecia muito bem a minha cidade, então logo a gente saber que a gente estava bem que não estava mais além do... Eu identificar o bairro que a gente estava, mais ou menos saber, “olha eu tô aqui em tal lugar, lá passa uma avenida, aqui um ônibus” É... e o que a gente fez, foi correr. Logo, eu bati em uma porta de uma casa bem cedo, e ai pedi para o senhor que abriu a porta nos dar alguma coisa para gente se cobrir e emprestar um telefone para ligar para o meu irmão. Eu não conseguia, como chama? Me lembrar outra coisa, a única coisa que vinha na minha cabeça era o número do telefone do meu irmão, não sei por que, não sei porquê. Foi a única coisa assim, eu esqueci da polícia, eu esqueci sei lá, de qualquer coisa, do telefone da minha casa, porque na casa de minha mãe, só estava a minha mãe e se eu ligasse para a minha mãe ela ia ficar apavorada chorando, sei lá. O Carlos estava em choque, total! E não dava para ele, aconteceu muita coisa nessa noite que ele não conseguiu ajudar, que ele não conseguiu resolver, que ele não conseguiu me cuidar do jeito que deveria ser, de ter feito como “homem”, então isso ficou muito ..., ele ficou muito magoado com isso, muito impotente, muito frustrado, né? Então é, eu não sei porque, quando eu estou em uma situação de muito estresse ou de muito risco eu só consigo focar em resolver, sabe? Em resolver rápido. Então eu bati naquela porta e falei “por favor, me dá alguma coisa! A gente foi solto de um sequestro agora, o meu parceiro está aí na calçada e a gente está nú, você por favor, me ajuda! E a senhora saiu, nos deu um cobertor, um negócio e nós entramos na casa dela. Ela ofereceu roupa e tal e aí eu pedi o telefone e liguei para o meu irmão e falei: “Fernando, estamos em
144
lugar X, por favor vem pegar a gente” e aí ele chegou depois de pouco tempo e chegou. E a gente resolveu não ir na polícia, não ir em algum lugar, porque como você vai denunciar o governo se o cara que mandou sequestrar você é o vice-presidente! Ninguém ia acreditar na gente, sabe? Então, não... E eu não ia me expor a um forense, a me tocar mais, a me perguntarem coisas que sei lá, não sei. Sabe, é um assunto de muita dignidade, de muito... E eu sentia que eu tinha que ser muito forte, eu sabia que eu ia ter o meu momento para chorar, para eu gritar, para eu drenar, para eu... Mas nesse momento, eu precisava ser forte, nesse momento eu precisava estar inteira porque eu via que o Carlos tava desmoronado, quebrado e alguém tinha que ser forte, alguém tinha que ser, né?. Então aí eu fiquei... Eu falei para o meu irmão “eu não vou na tarde desse dia porque era o meu aniversário”, eu liguei para a meu ginecologista mais ou menos expliquei e fui a uma consulta com ele na tarde, me revisou, um cara de confiança, né? Ele me revisou. Deu tudo e não sei o que, e ai logo que que me senti confortável com o meu médico de explicar o que tinha acontecido e tudo, aí foi que eu consegui chorar e me desabafar, não me acalmar, mas eu consegui dar conta do meu corpo, sabe? Dar conta que eu estava machucada, que a minha parte estava sangrando, que as minhas pernas tavam... É que faltava um pedaço de cabelo, que eu tinha a boca torta, sei lá, bateram na minha boca. Eu percebi que eu estava machucada, eu passei assim como um (não entendi), como um interruptor, modo, sobrevivi e pronto. O Carlos foi muito apanhado, a gente agora brinca e ri no sentido de que ele tinha dreads, assim, como esse. E ele tem o cabelo muito grosso e bateram nele, sabe com a pare debaixo da pistola onde pega? A gente chama de culata, o lugar onde você pega a pistola, e batiam com isso nele e não sei como não quebraram a cabeça dele, a gente fala que eram os dreads que protegeram ele disso, né? Mas apanharam no rosto, no corpo e tudo e tal, mas a gente logo daí.
145
É assim, como era data do meu aniversário, minha mãe achava que eu tava na minha casa com o Carlos e os pais de Carlos achavam que a gente tava comemorando o meu aniversário, então ninguém se preocupou, os pais dele e nem a minha mãe se preocuparam, “olha, por que não avisaram que chegaram e nem nada” a gente morava junta e as famílias não se preocuparam por esse sentido, né?E aí, é... Não foi isso que aconteceu, né? A gente não tava comemorando e aí logo meu irmão levou o Carlos para casa dos pais, a gente não foi para a nossa casa, é... ele levou Carlos para casa dos pais dele e logo me levou para casa de minha mãe. Minha filha não tava comigo, minha filha tava esse final de semana com o pai dela e ela viria na noite para casa para casa de minha mãe a comemorar, mas ela não conseguiu porque o pai dela morava em outra cidade, então por assunto de “ah, Mari o transporte, deixa a menina aqui e tal” por isso ela não estava com a gente. Então quando eu chego a casa de minha mãe, aí minha mãe “o que aconteceu” não sei o que e tal tal, aí tentei explicar de um jeito mais calmo, tomei banho, comi que podia comer e ai fui no médico porque o meu irmão me levou de novo. O Carlos ficou uma semana sem falar em estado de choque, eu tive que explicar tudo para os pais dele e logo foi, ainda recebi ameaças, ainda você vê o mesmo carro todos os dias diferente horas andando perto da sua rua e daí em frente eu não voltei a trabalhar e eu trabalhava há 10 minutos da minha casa, eu não consegui mais ir na escola, eu coloquei um transporte na minha filha, ela ia e voltada toda supervisada. Minha mãe não voltou mais para a igreja só quando ela tinha um transporte, tinha um cara perto da rua, na comunidade que fazia taxi e levava e trazia ela. A gente modificou toda a nossa vida, a gente era muito livre, muito tranquilo, a gente sabe que tem inseguridade, mas desse jeito não. o Carlos, nunca ligaram para ele do trabalho, nunca falaram para ele do trabalho “olha, por que você não voltou? Olha, você tem que vir entregar a chave da oficina, do escritório. Você tem que assinar, sei lá, cadê você?” Nunca ligaram para ele, nunca pagaram para ele. Ele nunca pediu demissão!
146
Isso aconteceu dia 29 de março de 2016, no dia 15 de abril, Carlos já estava aqui no Brasil. Porque ainda ligavam no telefone, ainda chamavam a gente ameaçando, ainda a gente se sentia vigiados. E a única opção foi, “Vai embora, Carlos! Vai embora” mais dor do que a gente sentiu nesse dia, a gente não vai sentir, sabe? E aí a gente decidiu e ele veio para o Brasil, ele chegou aqui em abril de 2016 e a Miranda e eu chegamos em agosto de 2017. Um ano e pouco separados e logo a gente se juntou aqui. E nesse um ano e pouco, a gente não fez terapia, a gente não conseguiu resolver isso de um jeito terapêutico, sabe? Falar isso, isso aconteceu e morreu nesse dia. A gente chorou, a gente se perdoou e a gente se desculpou, mas isso não se conversou mais. Só até que o Carlos chegou aqui, quando Carlos chegou aqui caiu na ficha que ele virou refugiado e que passou de ter apartamento, carro, tudo a morar em um abrigo. Passou a não ter nem para comprar um sabonete, e isso fez nele um trabalho de limpeza, sabe? Eu tenho que deixar isso para trás, e logo quando eu chego, aconteceu mais ou menos a mesma coisa comigo, porque logo do sequestro, logo da papelada para vir pra para o Brasil a gente nunca mais falou disso só até que a gente se encontrou aqui e era necessário falar disso, né? Era necessário, porque não dá para falar por whatsapp, esse negócio assim, né? É um assunto que você tem que olhar no olho do outro, que você tem que sentir o que realmente a sua fala é sincera, que a sua fala é do coração, né? Que você pede perdão para o outro e você é perdoado de coração de algo que não tem culpa nenhuma, nenhum dos dois tem culpa nenhuma, mas nós dois sentíamos muito culpados de um pelo outro. Então a gente conseguiu resolver isso aqui, a gente conseguiu falar disso abertamente aqui e não é porque a gente virou... um dos horrores da ditadura ou do governo, não! E que eu tenho que gritar para todo mundo que eu fui estuprada pelo segurança do vicepresidente e dois caras mais e blá blá blá, não! É porque se você não joga o lixo, você vai ficar fedendo sempre. Você precisa jogar o lixo e isso para mim era o lixo. Então eu não conseguia ficar segurando esse assunto, então eu decidi falar, eu não sinto vergonha por isso.
147
Eu chorei muito, eu senti muito ranço de mim mesma, eu senti muita vergonha de mim mesma, até que um dia a minha filha me falou “mãe, por que você chora tanto?” ela não sabia e aí eu contei! E esse dia eu decidi que não ia mais chorar porque a minha filha não pode me ver chorando, porque se eu superei isso, eu posso superar tudo! E eu quero ser sempre para ela, não quero que ela seja uma mulher débil, né? Então por isso a gente já se arrepia, lembra, mas já não dói, sabe? Já não dói tanto. EQUIPE: eu nem sei o que falar. MARIFER: Agora que eu consigo (ela respira), porque antes só de lembrar eu chorava, e ficava muda, não conseguia sabe, vomitar, não conseguia... no começo eu falava com muita dor, muita raiva e logo um tempo eu comecei a olhar a... não tem por que eu sentir isso, eu já senti, né? E porque infelizmente eu não fui a primeira e não seria a última mulher a ser estuprada e se eu consegui se levantar, todas nós podemos levantar, mas nem todas podemos nos levantar e cada uma se levanta no tempo de cada uma. Tem pessoas que demoram mais, tem mulheres que é assim, superrápido. Tem mulheres que tem a necessidade obrigatória de se levantar e tem outras que não conseguem se levantar. Então cada uma a su reito, cada uma a seu jeito. Então cada vez que eu falo disso, eu agora tento não falar tanto, sabe? Mas eu preciso falar, certo? Eu preciso. EQUIPE: Obrigada por você ter aceitado! A gente escolheu esse tema, porque cada uma tem o seu... sabe? Tem umas coisas que você falou que eu me identifiquei sobre a vida, sabe? Cada uma tem história que...sabe? A gente entendeu, eu queria compartilhar isso com você. E eu tô chorando aqui. MARIFER: Tranquilo, amada. E eu aceitei porque vocês são um clã de meninas! Onde a gente vai conseguir um clã, uma tribo de meninas que faz isto? Então a gente tem que aproveitar, risos. Vamos lá, só quero que sim. Vou dar o melhor de mim para vocês. Equipe: Obrigada, você quer uma água? MARIFER: Vocês que precisam de água, vocês que precisam lavar a cara, vocês precisam sair, gritar AHHH, tranquilo.
148
EQUIPE: Vou aproveitar que você falou sobre a capoeira, você tinha contato com quais outras coisas do Brasil, português mesmo... MARIFER: Eu aprendi português quando eu cheguei aqui, eu nunca... porque assim quando a gente viajava para a feira de Fortaleza eu tinha ele e para você gastar você não precisa falar, você fala “eu quero”, mas do resto nunca falei português, quando “Mari, férias, não está de viagem de prazer” então, a gente precisou aprender, mas do resto... Aquele preconceito clichê que tem todo gringo, estrangeiro. Ah, o Brasil é Rio de Janeiro, Carnaval e Futebol e Xuxa. RISOS, eu sou apaixonada pela Xuxa. Então, eu também achava tudo isso, mas quando a gente mora, é bem diferente, bem distinto. Você tem que aprender a mergulhar na cultura do país que recebe você, tem que aprender o jeito do Brasileiro, tem que aprender a diferenciar que tem pessoas boas e tem pessoas ruins como todo o lugar do mundo, até na Dinamarca tem esse negócio ruim, mas você... você está no Brasil, vai viver no Brasil, você precisa falar português, você não está se adaptar. Você vai converter o Brasil na sua nova casa e você tem que dar um jeito de se adaptar, então eu converti como minha casa, meu lugar, meu lar, meu refúgio não só no papel, mas também incorporei o Brasil na minha vida, então não tem como não de um jeito diferente. EQUIPE: Quando você chegou ao Brasil, você ficou na casa do migrante, você também tem uma relação com a Cáritas? Como foi quando você chegou? MARIFER: Quando o Carlos chegou, ele morou na Casa do Migrante, sim? E toda a papelada de documentação, tudo o que em que ver com a situação de refúgio e tudo isso, foi a Caritas que ajudou, porque ele tem todo o serviço: você passa pela proteção, pela acolhida, integração... todo o serviço mesmo. E ele conheceu a Caritas, porque alguém recomendou ele para lá. Então quando eu cheguei com a Miranda, a gente fez esse mesmo percurso, a gente chegou na Casa do Migrante que é a nossa casa.
149
Lá na Venezuela, a gente tem um conceito do abrigo/refúgio como estrutura muito precário, muito! É um galpão com lençóis dentro. Esse é o refúgio lá, essa é a casa de abrigo lá. Então quando você chega aqui, não significa que seja tão diferente. Quando você chega a uma casa, como a casa do Migrante, eu não queria ir embora de casa, sabe? Eu me senti tão protegida, tão cuidada, tão sei lá, não sei... Tão amada, tão resguardada, tão acolhida que eu falei “meu deus! Não dá para não se desprender assim não, né” Mas é política da casa que você só tem 3 meses para morar lá, se nesses 3 meses, eles prestando todo o serviço, o serviço é: faz currículo que ajuda a validar o seu diploma, encaminha você para um emprego, dão a condição mínima e básica para você arrumar um emprego, conseguir arrumar um lugar digno, se tem filhos, encaminha para uma escola e tudo isso aí. Eles acham que em 3, 4 meses no máximo você consegue mais ou menos como ficar, sabe? E daí em frente eles continuam acompanhando você até que você levante as próprias pernas, e aí já vai... Mas a gente ainda depende, sobretudo emocionalmente da casa, né? A gente chegou a ir quase todos os domingos, a gente fez um vínculo muito grande com as pessoas de lá e essa é a nossa família aqui no Brasil, nossa primeira família aqui em São Paulo são eles. Então não dava para esquecer. A gente fala assim, a vantagem de ser refugiado, é que você escolhe a sua família, você não nasce com uma. Você tem que ter a oportunidade de escolher. Então a gente tem muito tio, muito pai, muita mãe, muito avó, também tem tia chata, mas você também escolhe aquela tia chata, tem muito sobrinho, tem muita família que você se permite escolher, e você se permite ser acolhida por eles. Então isso para a gente é de muito valor para nós. Então está o Padre Paolo, o Francisco que é um funcionário da casa, aí está a Cecilia, a Aura, Marcia, Cenáida, Domi, nossa, o monte de gente...Né?
150
Eu não sabia que o arroz com feijão podia ser tão amoroso, tão amoroso, como o arroz e feijão da casa. Então isso alimentou o espírito da gente, isso alimentou o corpo da gente e eu recuperei os 14 kilos que cheguei aqui (risos) e que perdi na Venezuela e recuperei aqui, graças ao arroz e feijão de Cecilia e de Cenáida. E a minha filha ficou muito mais forte, por exemplo com o arroz e feijão, então não tem como não agradecer a elas, a eles todos. E quando eu ouço alguém falando mal, eu não atendo no serviço (RISOS). EQUIPE: O que significa fronteira para você? MARIFER: Geograficamente é uma linha que divide os países, mas é um assunto muito chato que divide pensamentos. E quando você tem o pensamento dividido, entra o preconceito, né? Ah, mas porquê... Uma coisa é simples, se todo latino-americano fala espanhol, por que o Brasil não? Pela fronteira? Porque teve um processo de colonização diferente ao resto da américa latina que foi colonizado pelos espanhóis e aqui foram os portugueses. Por que falar que a fronteira vai dividir o vizinho que está passando (?), quando a sua casa está pegando fogo, você corre para onde? Para casa do vizinho e muitas vezes esse vizinho não abre a porta porque você não tem um papel que demonstra que você realmente está precisando, né? Então isso acontece nas fronteiras. E no caso da Venezuela, nós viramos um problema regional, porque Brasil é enorme, mas a porta desse brasil é Roraima e essa porta não é tão grande para servir tanta gente. Então logicamente tem uma situação lá no Norte, lá em Roraima que se você tem uma casa com 3 quartos, máximo 5 pessoas e chegam 20, vão dormir na sala, no chão, no quintal, na cozinha, sabe?
151
E infelizmente, é muita gente que lá está entrando. Então, Roraima, Boa Vista Pacaraima basicamente, está sobressaturada de venezuelanos, porque obviamente não é um estado que tem estrutura nem física e nem social nem econômica para atender tantas pessoas, né? Então, é lógico que a gente vira um problema e quando você incomoda você é como um peixe fora da geladeira aos 13 dias fede. Então isso incomoda o monte de pessoas e nós não gostamos de muitas pessoas. Assim como tem aquele que ajuda, tem aquele que não e que isso incomoda toda essa situação. E isso está acontecendo no Brasil, está acontecendo na Colômbia, no Peru, está acontecendo no Chile, então não é que seja normal, não tem que ser normal. A situação da Venezuela é relativamente recente e o venezuelano está dando tanto trabalho para se acostumar ou para se adaptar na sociedade que está chegando, e é porque o venezuelano não tem a cultura da migração. Porque na Venezuela por ser um país que é... por ter a posição geográfica que tem, é um país que recebe, não é um país que manda embora. Então a gente não precisava sair de lá, então posso falar com a absoluta certeza de que 80% das pessoas que saíram da Venezuela não tem passaporte porque não é uma necessidade. Vocês aqui no Brasil tiram o passaporte porque estão loucos para viajar e a gente não, porque a gente tinha tudo no mesmo país. Então a gente não estava nem aí para passaporte. Tinham campanhas do governo anterior a Chaves, não que obrigavam, mas que davam de presente passaporte, faziam publicidade “olha, você não tem passaporte? A gente dá” sei lá... companhias do mesmo governo para incentivar as pessoas a tirarem o passaporte, mas a gente não estava nem aí. Então acontece que chegaste à situação que infelizmente está atrapalhando todo mundo, as pessoas não conseguem se regularizar nos países que estão recebendo porque quando atravessam aquelas fronteiras não tem um
152
passaporte. E o documento de viagem típico, é o passaporte, se não, você é irregular no outro país e isso atrapalha a vida toda. EQUIPE: Como você acha que o Brasil lida com essa questão do refúgio? MARIFER: Eu posso dizer que o Brasil é um dos pouquíssimos países da Latino-americana que abriu as portas para o Venezuelano, que flexibilizou, que mudou a lei de migração para ser adaptada nas circunstâncias da acolhida dos venezuelanos. Então deu muita flexibilidade em certos sentidos, em certas partes da lei, como: não é obrigatório o passaporte, você com o seu RG, para nós chama cédula de identidade é suficiente para você passar. Por exemplo, na declaração de direitos humanos, você tem 5 razões, 5 critérios para solicitar refúgio em qualquer parte do mundo, sim? Por discriminação por raça, por gênero, por religião, por política que é o nosso caso e perseguição religiosa, Ah não, já falei... São 5 obrigatórias e que estão dentro da lei. É tão grave a situação dos venezuelanos que fizeram uma “cesta” dentro da declaração dos direitos humanos, mas como uma extensão, como uma estrelinha à parte, que é grave e generalizada crise de direitos humanos, né? Violação dos direitos humanos. Então a gente se encaixa e consegue flexibilizar o fato de solicitar refúgio no Brasil. Então o Brasil tem um órgão que se chama CONARE – Comissão Nacional de Refugiados – que estão acostumados a receber pouquíssimas população refugiada, quando chega um venezuelano de pronto em menos de um ano a solicitação de refúgio passam, sei lá, de 2 mil a 85 mil, se dispara no sentido de que até o CONARE não tem estrutura, sobretudo funcionários para atender toda essa população, né? Então quando a gente chegou, ainda não tinha explodido a situação da Venezuela, a gente passou pela experiência do CONARE, pela entrevista do CONARE e por isso a gente é refugiado por perseguição política, não entra
153
dentro da grave crise generalizada de violação de direitos humanos, né? Como é a maioria dos venezuelanos agora. Então isso faz que a gente tenha que lutar, seja por política pública, seja por políticas de leis, seja para modificar certas coisas porque a gente sabe se a lei de migração foi flexibilizada ou foi atualizada pela situação dos venezuelanos, não só atingem os venezuelanos, e isso vai caber os 20 (?) que estão chegando agora, os sírios que chegaram pela guerra e chegam ainda pela guerra, por aí chegam também e flexibilizam a situação dos povos africanos. Parece mentira, mas tem muitos países africanos que muitas pessoas da LGBTQI+, tem que fugir porque são perseguidas, porque estão condenadas à morte porque um grupo da comunidade, uma tribo declarou que ele é gay ou lésbica e tem que morrer a pedrada ou “corgado”. Então tem que fugir, porque ainda tem cultura obsoleta no mundo. Essa lei de migração, que foi modificada em 2017, permite realmente que o Brasil se abra a uma política migratória, tem dificuldades? Tem. Atrapalha cada vez? Sim. Mas com a mesma que os políticos tentam fechar uma portaria, a sociedade civil tenta abrir mais outras, então é uma luta. É um puxa... mas a gente consegue, a gente tenta conseguir, né? (RISOS) EQUIPE: O que você faz, talvez uma dança, um poema, uma música que você ouve... para se aproximar do seu país? MARIFER: Ligar para a minha mãe, sei lá... Eu sinto muita saudade de música em espanhol por exemplo que eu não consigo ouvir na rádio, mas a gente faz a nossa própria playlist e temos a nossa própria música. Eu também tenho muita saudade e já armei muito perrengue em livrarias porque quando você vai procurar literatura estrangeira, é só inglês. Então eu tenho que comprar os meus livros na Argentina ou na Espanha ou na Colômbia e esperar 3 / 4 meses para eles chegarem aqui para eu conseguir ler, né?
154
Não significa que eu não possa ler em português, mas por exemplo, tem uma escritora chilena que ela se chama Isabel Allende, ela é super feminista, ela é refugiada da década de 80 quando morreu Salvador Allende, que era seu tio e que era presidente do chile e entra Augusto Pinochet na ditadura por 25 anos. Então aí, ela foi refugiada e refugiada na Venezuela. Ela começou a sua carreira como escritora lá na Venezuela e ela tem uma caneta muito feminista, muito em prol daquele empoderamento da mulher que se vem a ser refugiada, também é mulher. Ela fala “quem é mulher, pode ser mulher em qualquer parte do mundo independente do documento migratório que tem”, então ela resiste a esse assunto. Então eu comecei a ler quando eu ainda estava na faculdade porque eu roubei um livro da biblioteca da faculdade e eu fiquei apaixonada pela escrita dela e logo eu comprei todos os livros dela lá no meu país e quando eu cheguei eu não consegui trazer os meus livros, mas ela é uma escritora que eu tenho que ler em espanhol, eu comprei o penúltimo livro dela e eu não passei do primeiro parágrafo, então essa coisa de ler com o dicionário do lado, eu não consigo. Então eu entrei na internet, mandei procurar na argentina, comprei de uma editora lá na argentina e demorou 3 meses e meio para chegar aqui, mas eu consegui ler em espanhol. Eu não consigo ver um sebo de livro que daí eu pergunto se tem alguma coisa em espanhol, é o único jeito de conseguir livro em espanhol é assim, aqui pelo menos em São Paulo. Então a respeito de ler alguma poesia é com ela. De música a gente se vira, quando a gente vai fazer faxina a gente coloca “música para faxina em espanhol” A memória me reconforta muito, me sinto muito acolhida quando eu ligo para a minha mãe, minha mãe sempre tem alguma coisa para falar, é mãe! Não sei o que acontece, mas quando vocês que moram com a sua mãe tem um dia chato, ruim e você não coloca a chave na porta quando a sua mãe já sente, quando a sua mãe já sabe. Dá uma cheirada “ah, a minha menina não tá bem” ou sente alguma coisa, a minha mãe sente pelo telefone, pelo
155
whatsapp. Então ela sabe, ela sabe quando a gente não tá bem, quando a gente tá demasiado de feliz e isso para mim é reconfortante. Falar com a minha melhor amiga que está nos EUA também é muito legal, a gente esgota a bateria do celular só falando... Mas faz parte, a gente aprende a viver com saudade, aprende, não tem outro jeito, aprende a viver com isso. EQUIPE: Queremos saber o que a gente, os brasileiros podemos fazer para integrar as pessoas que estão em situação de refúgio? MARIFER: Podem tratar a todos como gostariam de ser tratados. É o único jeito. Você não gosta de ser maltratado, você não gosta de ser expulso, você não gosta de ser abandonado, você não gosta de ser excluído das coisas; então vamos tratar o outro como gostaríamos de ser tratados cada um de nós. EQUIPE: No período de pandemia, você acha que o governo amparou as pessoas em situação de refúgio? MARIFER: Não. Se para o próprio brasileiro já foi muito difícil, que vá deixar para a população refugiada ou migrante, tá?! Porque a gente tem uma grande diferença, não é igual. Aquele que migra para o país quando já tem, quando vem com um emprego numa grande transacional quando já vem com assunto de estudo, que vem acomodado, ou que vem com uma logística com tudo semipreparado ou preparado, do que aquele que tem que fugir de casa porque precisava reborar a vida. Ou porque aconteceu algum desastre natural no seu país e tem que sair porque sei lá, um terremoto por exemplo, no Haiti devastou meio país e não tem recursos, não tem condição estrutural, nem política, nem humana para levantar aquele país então as pessoas precisam sair. Então é bem diferente quando você tem condição de refúgio. Tanto a condição de refúgio como a condição de migrante, a gente poderia até falar que é mais um status documentário ou migratório, sabe, de papel. Mas vivenciar na pele quando você sabe que não tem a mínima chance que o outro, pelo primeiro fato que é a língua, que você não consegue
156
se comunicar; quando você não consegue se comunicar em um país você é mudo. Você então não consegue acessar nenhum serviço, você não consegue justificar certas condições, você não consegue reclamar seus direitos, você não consegue lutar pelos direitos e deveres do outro, então aí já o idioma é a primeira barreira, o primeiro desafio por falar de algum jeito. Então em cambio aquele que vem com uma condição econômica diferenciada, estabelecido ou com um conforto prévio, é muito mais fácil porque chega em um lugar onde fala sua própria língua ou já conhece a língua, ou simplesmente as vezes nem precisa falar o idioma do país que acolhe pelo fato de que ali vai trabalhar em outra língua; vai trabalhar em inglês, vai trabalhar em um outro sentido então é bem diferente a situação de refúgio e o migrante econômico como se estabelece a lei ou como estabelece o glossário da ACNUR, são parâmetros bem diferenciados. EQUIPE: Certo, e agora falando sobre a integração, o que você achou do carnaval? MARIFER: : Eu amei! E a gente se inteirou ontem que os ensaios da escola começam dia 30, amanhã! e a gente desfila o dia 28 de fevereiro às 4:40 da manhã, mas é bom. (risos) É, a gente aprendeu aqui que o carnaval é uma bagunça planejada e organizada, não é esse assunto que a gente olha e assiste na tv que todo mundo tá feliz, nossa é muito complicado, muito complicado. Aquele assunto de que você assiste na tv todo mundo pulando e cantando “Eeei!”, você fala “nossa tá curtindo demais”, mas quando você está nos ensaios técnicos quando você faz parte de uma escola como nós, você... estão todos tão milimetricamente planejados que você não se pode adiantar, você não se pode atrasar, você tem que sorrir todo tempo. Você tá MORTO porque a fantasia pesa 30 quilos, mas você tem que tá pleno pleníssimo né, E não sentir aquela dor, aquele negócio pesado, você tem fome, já caiu chuva na gente e a gente desfilou com a fantasia toda molhada e pesa o dobro. Já fiquei menstruada em pleno e aí você não sabe se quer chorar, se ri, e sei lá, e TPM de inferno, minha filha já ficou com vômito dos nervos, é muita coisa que a gente aprende, mas a gente curte desfruta... Eu gosto do carnaval, mas não
157
gosto do bloco, é diferente. Mas eu adoro toda aquela magia que se faz no carnaval né. Eu lembro quando a gente... tinha mais ou menos dois anos e a gente já fazia parte da escola, aí a escola tava um pouco atrasada para as fantasias, para acabar as fantasias e o coordenador da ala fala para... como chama a gente que faz parte das alas... componentes! Aí ele falou “gente precisamos de uma força na fabricação para acabar as fantasias para entregar em sei lá, 15 dias” Tudo bem, ai a gente foi e eu lembro que eles perguntavam “você sabe fazer o que, você sabe fazer o que” e eu, minha mãe sempre fala que eu sou como as gavetas, pra fora. Aí ele me perguntou “Mari, você sabe fazer o que?” Aí eu falei, eu sei costurar. “Ah, tudo bem.” Ai eu senti que estava incorporando o trabalho escravo mas logo sentei em uma máquina de costurar a sei lá, cinco horas da tarde, quando eu levantei eram quinze para as oito da manhã, e falaram para mim “Mari, você vai pegar esse tecido e colocar este, como se fala adorno, enfeite.. um negócio como uma lantejoula que vai em cima né, e você vai colocar esse aqui nesse aqui e vai passar a costura reto.” Tudo bem. E cose, cose ,cose e costura ,costura, costura, levantava fazia xixi, levantava tomava café voltava, mas eu não sentia pesado sabe, e aí foram não sei, metrôs, quilômetros de tecido uma em cima do outro. Ai eu fui para casa, não tava nem ai deu cansada que estava aí no dia do desfile eu percebi que todos os metros de tecido que eu cosi eram as saias das baianas, e aí eu tava naquele pico de emoção porque minha mãe tava doente lá na Venezuela e eu sentia demais de saudade de minha mãe, quando eu olho as baianas, são todas umas senhoras, né, com aquele espírito de “quinceañeras” todas, que elas estavam vestido o que eu costurei, eu chorei todo o desfile. Eu chorei os dezenove minutos que a gente dura na avenida, chorando porque eu ia duas alas atrás das baianas, então para mim foi mágico, foi lindo, foi reconfortante porque eu sentia era minha mãe uma das que estavam dançando dando voltas lá né, então isso para mim foi muito lindo. A parte todo trabalho que traz o carnaval né, os carros são uma coisa deslumbrante, é tudo uma fábrica mesmo.
158
EQUPE: Quais lugares você costuma ir em São Paulo? Você acha que em São Paulo você tem esses lugares que você tem essa coisa da integração? MARIFER: Tá. Eu acho que São Paulo é uma cidade muito aberta, sí? relativamente acessível para todo mundo porque tem muitos espaços abertos, muito porque, muita avenida pra curtir, pra assistir, pra ir passear, é eu durante a pandemia não sai, a gente se cuidou muito, é mas um lugar que eu curto muito muito muito, mas muito é o centro cultural do Brasil que fica no centro né, eu gosto muito do Masp também, eu posso ver o mesmo acervo 30 vezes. Eu gosto muito do Masp, eu gosto muito do parque Trianon, eu sinto que ali é uma cúpula ante barulho. Você tá na Paulista com o maior escândalo, você entra no parque você não ouve nada, então eu curto esses lugares assim, eu gosto muito desses lugares abertos onde a gente consegue estar no meio de tudo mas ao mesmo tempo estar isolado de tudo né, é contraditório mas funciona assim. EQUIPE: Queria fazer uma pergunta mais das sensações assim, tem algum momento dessas integrações aqui, São Paulo, carnaval mais assim, qual a sensação que vem pra você assim descrevendo, sabe essa coisa desse pico
aqui
que
você
falou
sabe,
esse
pico
de
felicidade.
MARIFER: Eu me sinto livre! Eu consigo me sentir livre, eu consigo me sentir... soará louco, mas eu consigo me sentir segura. Eu consigo estar em paz, essa é a sensação que estranhamente São Paulo me dá, (risos) me sentir segura, me sentir tranquila. Eu sei que não é assim para todo mundo, mas eu me sinto assim, para mim São Paulo foi isso, foi paz. EQUIPE: Aí a gente queria saber também, qual que é a importância, a gente sabe que tem claro, qual que é a importância de ter lugares de fala para que as pessoas em situação de refúgio, elas possam falar de si possam falar das suas vivências e com certeza possam compartilhar para que a gente possa integrar vocês no nosso país. MARIFER: Eu acho que na medida que nós conhecemos o outro, somos mais empáticos e somos mais solidários. Solidário não significa sentir pena pelo outro, sentir lastima “Ai venha aqui no colo, ai coitado.” Não.
159
Solidário é sentir a força que o outro pode ter para crescer e eu apoiar essa força sabe, então a gente consegue nesses espaços falar dessa força né, que o fato de ser, de estar em uma condição de refúgio não me faz coitada. O fato de ser uma migrante por perseguição política, ou uma refugiada por perseguição política não significa que eu não possa levantar a minha voz e opinar sobre a política, não significa que estão vetados certos temas, ou que vivi nas trevas, no escuro porque eu não posso falar porque eu não gosto, porque eu não quero ou porquê... não, você pode falar de mil coisas. E o enriquecedor que é conhecer uma pessoa de outro país, porque não é só “Oi, tudo bem eu sou Marifer eu sou da Venezuela e na Venezuela a gente come arepa é o país com (não entendi) e tem as chaves do petróleo.” e já era. Não, é muito mais coisas né, muita mais enriquecedor, proveitoso conhecer por exemplo, que uma mãe de Namíbia acalma o dor dos filhos cantando, por exemplo. E que a cabeça da criança, seja da idade que seja, tem que ir no peito da mãe porque a mãe canta desde a garganta e faz como um gargalho aqui que a vibração faz que a pessoa que está no colo se acalme, e isso eu aprendi porque eu fiquei doente e quem me ajudou a lidar com a dor foi uma mãe Namíbia que me sarou assim. Eu morava na casa do migrante, ela me pegou no colo e ela cantava, mas ela não cantava abrindo a boca sabe com um assunto aqui, e no colo dela eu consegui dormir e deixar de sentir dor e ela logo me explicou que assim que se sara, porque a mãe é a única que tem o poder de sarar o filho. Isso você não vê em um documentário de nacional geográfica, você não aprende isso em sei lá, algum lugar; você aprende vivenciando, você aprende conhecendo o outro. Por exemplo, a mulher muçulmana só tira o belo em casa para o marido, não significa que ela não posa, mas é o respeito na religião né e só com mulheres da sua confiança ela pode tirar, e elas tem um cabelo hermoso porque elas são supercuidadosas com sua saúde, com seu corpo. Então, você não imagina que coisa enorme de cabelo que tem muitas mulheres muçulmanas, preciosas elas todas, então isso você só consegue conhecendo o outro. Então não dá, sei lá, eu não posso por exemplo, aprender a sambar se não é com uma mulher do Brasil, parece que esse assunto é genético em
160
vocês mas eu não consigo aprender com uma sueca que vem curtir o carnaval, eu tenho que aprender com um brasileiro mesmo, então isso são coisas que a gente aprende mas só conhecendo o outro, potencializando a força do outro não olhando assim “aa”. Eu já fiquei muitas vezes chata, porque a gente palestrando ou falando em lugares e nesses espaços tem pessoas que vem e falam quando termina tudo “Ai será que eu posso tirar uma foto com você?” E eu pergunto porque, “A é que eu nunca vi um refugiado” Eu tô no metrô da república numa sexta-feira às 18 horas da tarde ninguém vai perceber que eu sou refugiada, não tem um carimbo aqui, não tem uma faixa de miss refúgio sabe, eu passo como qualquer uma de todas vocês então porque eu me tenho que tirar uma foto com alguém que “eu nunca conheci um refugiado” eu tenho um negócio diferenciado? Eu sou distinta de outras mulheres? Sim, mas não se distingue alguém por fora sabe, se ninguém me escuta falar não percebe o sotaque que eu tenho, então esse assunto é chato (risos) mas se falam “ A eu quero tirar uma foto porque eu curti sua fala, porque eu gostei, porque sei lá, porque você é muito legal.” Então eu vou responder, “eu sei” e vamos tirar foto, mas se assim “a é porque eu nunca conheci um refugiado” eu falo e já falei um monte de vezes, “não, não gosto de foto, brigada.” Tem que respeitar, a gente não é um bicho pra tirar foto no zoológico e até os bichos não precisam de zoológico. EQUIPE: Queríamos que você falasse um pouco do Nossa Janela MARIFER: Nossa janela foi a resposta de como iríamos encarar uma vida nova aqui no Brasil, quando você chega você certamente tem muitos desafios, entre esses desafios você é você se recolocar na sua área. Por exemplo, o Carlos é jornalista e não conseguiu naquele momento trabalhar na sua área porque o diploma dele não tinha sido revalidado. No meu caso, eu sou professora de história e geografia e eu não queria voltar para a aula, além de que pra mim sairia mais barato fazer faculdade de novo aqui no brasil do que validar o meu diploma, né? Porque é muito diferente a pedagogia de lá, o peso da faculdade de lá do que aqui. Você sai pedagogo, lá o meu diploma é de professora de história
161
e geografia, então curricularmente é muito diferenciado, então teoricamente teria que fazer tudo de novo, sai mais barato cursar tudo outra vez. Então nossa janela surgiu porque o Carlos, quando estava no abrigo, ele foi chamado por uma chama migraflix naquele momento e ele estava começando bem na ONG e fazia um projeto que chamava “raízes da cozinha”, então eles pegaram 20 pessoas em condição de refúgio e imigrantes ONG que que mexiam com a culinária, e entendendo que o Carlos não sabia fazer nem ovo mexido. Ele sabe escrever, sabe pegar uma máquina, uma câmera, mas não sabe cozinhar não, só a comida de sobrevivência. Eu estava na Venezuela e ele me ligava falando “O que eu faço Mari? O que eu tento Mari? ...” E durante o tempo que eu estava na Venezuela ele fez o curso, esse curso de capacitação com a Migraflix, finanças, educação, gestão de negócios e tudo isso aí. Quando eu cheguei já foi bem no final do curso, e já tinha que colocar a mão na massa. Então a gente sempre gostou de cozinhar, e na casa da minha mãe, eu era a única que morava em “casa”, os meus amigos moravam em apartamento. O aniversário de Carine? Em casa de Mari, o aniversário de Camila? Em casa de Mari, de Paula em casa de Mari, tudo era na casa da Mari. Então a casa de Mari virou a casa de festas, então acabei cozinhando para todo mundo. Então a gente gostava de fazer muita salada, muito lanche, e ai a gente entrou com essa pegada da comida da Venezuela alternativa, sabe? Com aquele toque mais saudável, mais orgânico, porque todo mundo fazia arepa, os outros dois venezuelanos que estavam na turma ou faziam arepa ou caxapa, comida muito típica. Então a gente foi conservando o tempero da Venezuela por outra linha. Chama nossa janela porque o Carlos é muito fanático por um grupo que tem uma canção que se chama “abre a janela” e nossa, porque é nossa, então a gente pensou, “nossa janela” abre para todo mundo então a gente abriu esse nome e formalizou fez o mei a ..., a gente fez instagram, facebook
162
e a gente começou a dar conta que começaram a nos contatar empresas para fazer nossa comida em formato find food pequeninas, então a gente fazia arepa pequenininha, pão, porque a gente faz pão artesanal, 1000 pãezinhos, sei lá 5 mil pãezinhos, 500 arepas, e foi um bom momento porque sustentou a gente. Chegou um ponto que a gente precisou contratar mais duas pessoas porque dava trabalha e não dava perna para tanto trabalho e aí o Carlos começou a trabalhar no hotel, no hotel ibis na consolação, então tinha vezes que a gente tinha evento e tinha vezes que a gente não tinha nenhum, então a gente teve que segurar o arroz e feijão e decidimos o Carlos trabalhar no hotel e eu fico com o “nossa janela” então a gente se revezava, a gente trabalhava juntos. que a “janela” sustentou muito a gente mas a gente nunca sentiu preconceito para conosco, a Chegou um ponto gente nunca sentiu uma coisa chata para conosco, com a nossa comida ou alguma coisa, mas é um trabalho para corajosos, cozinhar para o outro é muito delicado a gente gosta a gente ama, a gente curte, a gente desfruta muito e tal. A gente já viajou bastante levando a nossa comida para outro lugar e sobretudo porque a gente não queria que comecem a nossa comida só por comer, então a gente experimentou e fizemos o que a gente chamou de experiência gastronômica, eu oferecia o seguinte: uma de vocês está fazendo aniversário e a gente vai servir toda a comida, todos os drinques, colocar até a música da gente, e a gente faz o serviço de jantar ou almoço em quatro pratos mas cada vez que você vai comer, a gente explica o que você está comendo, não é só tragar por tragar... Por que você está comendo? De onde vem essa arepa? Por que? Qual o ingrediente? Como evoluiu a arepa? Qual o significado para nós da arepa? Não é uma cozinha com leite condensado. É um assunto para nós muito significativo. porque por exemplo, a entrada logo a gente servia um prato típico da gente é o pabellón, porque se chama pabéllon? Porque tem carne desfiada com 3 cores de pimentão, tem arroz, tem feijão, tem banana da terra, então é um prato que vem desde a mestiçagem, porque significa ao índio, ao negro, ao branco, a mistura das raças lá na Venezuela, e o porquê das cores dos pimentões. Então tudo tem um acervo e um porquê histórico.
163
Carlos como jornalista, cuidava de toda a imagem da comida e eu como professora de história contava tudo que tinha que ver com o que você estava comendo, por que o cheiro do que você está comendo? E aí logo passa como algo que a gente chama de limpa boca, que é uma sopa é um creme é como a sopa de mandioquinha com frango. Sopa de mandioquinha é a primeira coisa que dão às mães para as crianças lá na Venezuela. Então por que? Porque você vira criancinha quando está limpando a sua boa, pq a mãe ensina o neném a deixar de mamar e a comer comida sólida e logo uma sobremesa que a gente come no natal e simboliza as avós e o natal com as famílias, então a gente vai explicando tudo isso. Então a gente percebeu que como a pessoa desfruta a comida é bem diferente. É bem diferenciado se você come já, fala com o outro e bebe uma breja, come com a boca cheia. Não, é como se fosse um jantar lá na Venezuela, Então a gente tentou trazer isso, explicar para as pessoas que contratam a gente e é uma experiência totalmente distinta, então a gente começou a funcionar há muito tempo até que chegou a pandemia e parou. Aí a gente deu uma virada diferente e começamos a fazer pão e deu tudo certo até eu começar a trabalhar onde eu trabalho agora e aí o tempo já não dava mas a janela está aberta aos finais de semana, a gente está esperando tomar a segunda dose da vacina para ir nas casas das pessoas, começar ir nas escolas, começar a palestrar diferentes A nossa janela é filho do Carlos e meu, é nosso neném, então a gente cuida, ela dói de vez em quando, levanta, bagunça tudo e logo dorme de novo. EQUIPE: O que você vê de perspectiva pro futuro? Essa visão assim de olhar para o futuro? MARIFER: Eu olho com a vontade de continuar me sentido livre e jamais sentir medo de novo, com a vontade que a minha filha possa escolher o que ela quer estudar, fazer de sua vida. Eu olho com a vontade de que tudo melhore, de que tudo vai melhorar, né? Pq a gente tanto pode ser cego ou viver em um mundo de fantasias aonde
164
não existem os problemas, onde não existem os desafios, onde não tem bagunça, é um mundo sem políticos! Mas a vontade da gente é crescer e na medida que a gente cresce e consegue ajudar o outro a gente se ajuda. Então eu olho com vontade de ajudar o outro, como muitos me ajudaram, acho que quem não se ajuda não avança, não cresce, e é isso aí.
165
TRANSCRIÇÃO – LARA ELIZABETH Legendas de acordo com a montagem final do documentário. Introdução: Amarelo Bloco I: Roxo Bloco II: Turquesa Bloco III: Cinza Bloco IV: Verde
EQUIPE: Onde você morava? Por quais motivos você veio para o Brasil?
LARA: Meu nome é Lara Elizabeth Batista Cerqueira Lopes, sou moçambicana, tenho 37 anos, é... hoje casada, mãe...estou no Brasil desde 2013...setembro de 2013, faz oito anos já que tô aqui. E...Eu saí de Moçambique por conta da minha orientação sexual não sei se muitos sabem, mas a questão é...da homossexualidade é um tabu bastante grande de se falar e de se respeitar, não só em Moçambique como em muitos países da África e... e isso me levou a migrar né, sair de Moçambique e pedir refúgio aqui no Brasil. E desde lá até aqui, tô aqui no Brasil graças a Deus vivendo minha sexualidade abertamente, claro sempre respeitando a opinião das pessoas em relação a isso, que acho eu acho que é fundamental essa base, respeito coisa que não tive em Moçambique.
EQUIPE: Só uma coisa você pode ficar tranquila, você não precisa olhar pra câmera, pode ficar tranquila, à vontade, pode olhar para onde quiser.
166
É...Aí gente queria saber também qual foi o momento que mais te marcou em Moçambique?
LARA: Em que sentido?
EQUIPE: Pode ser de felicidade, alguma coisa que você vivenciou lá ou também algo que você não gostaria de vivenciar novamente;
LARA: Ah...o que me marcou em Moçambique sinceramente, assim tipo algo, foi conhecer minha atual parceira. Que é uma pessoa assim, que... sofreu o mesmo que eu. Porque assim, É como se a gente...ela de um lado, porque ela não, num morava em Maputo , né, ela cresceu em outro país sendo moçambicana né, mas tinha o medo da mãe, nem é do pai, da mãe. Da aceitação dela né e assim, do meu lado não era medo da minha mãe, mas era medo da sociedade por conta das diversas coisas que eu já havia sofrido. E assim, encontrar ela e tipo ver que existia um pensamento recíproco assim tipo de querer viver né de querer buscar independentemente da onde fosse que tipo... tanto que estamos aqui a dez anos juntas né, então...é assim a gente migrar junto também buscar esse sonho de ter a
família que não é
considerada tradicional e não é aceita né, no nosso país assim ela, ela foi o meu momento assim. Agora um momento triste assim é...algo que.. nossa mexe comigo até hoje, que foi o abandono do meu pai né, que ele abandonou minha mãe por conta da minha orientação sexual. Então assim, é uma culpa que eu carrego até hoje né, mas assim, ter o apoio da minha mãe incondicionalmente depois disso alivia um pouco né, tira essa culpa de mim, ainda que ela diga que não é, mas se você ouve o que ele disse né, na altura quando ele saiu de casa, sem despedir sem nada, simplesmente pegou as coisas dele e foi embora. E... tempos depois quando minha mãe procurou saber o porquê dele ter saído ele ter respondido, o que ele falou lá: assim que não era verdade, é... ele sabia da minha orientação sexual, porque ele frequentava os mesmos ambientes que eu, eu jogava futebol na época, era
167
viciada em futebol e...assim ele usou argumentos para tentar abrir a visão da minha mãe no sentido de conversar comigo né, mas ele usou um motivo que ele sabe, que eu nunca tive relação com isso porque ele falou que usava drogas e eu nunca usei drogas, assim... Mas enfim, esse é um peso que carrego, mas... o apoio da minha mãe consegue de certa forma em certos momentos superar essa culpa né.
EQUIPE você comentou que você gostava de futebol, tinha outro esporte que você gostava bastante de praticar lá?
EQUIPE: Ou outra coisa?
LARA: Natação. Natação. Foi outro esporte que pratiquei lá. Mas o futebol é... até hoje infelizmente hoje eu não posso jogar por conta do acidente que eu tive, mas o futebol foi uma coisa que eu cresci na veia. Pratiquei até uns anos antes de vim para aqui. Então assim, é o meu xodó (risos)
EQUIPE: Quais foi o momento decisivo que você decidiu vir para o Brasil?
LARA: Nossa, foram vários gatilhos que eu tive lá, começando por esse do meu pai, começando por algumas situações que vivia dentro da minha família, com meus primos, tem momentos que...entre primos tem aqueles encontros né, que você vai com a sua parceira e tal e eu não podia ter esse privilégio de levar e falar que era minha parceira, muitas vezes levei alegando ser amiga, mas ninguém é besta né? Mas ouve um momento em que assim foi a gota d’água pra mim, que foi um momento entre nós primos né, primos e suas namoradas tipo cada um com sua parceira e pura e simplesmente eles me deixaram de lado assim e proibiam que as suas parceiras chegassem
168
perto de mim alegando que eu era má companhia, má influência, então se o ambiente é entre primos como é que você vai isolar alguém? O que aquela pessoa está a fazer? Aí você se sente inútil né, tipo você se pergunta: Será que tudo que eles estão fazendo tem razão? Assim, o que eles falam não é verdade mesmo? As pessoas falam muita coisa. Já ouvi que “você é filha do diabo”, “você tem espirito mal”, você é... entendeu? aí você começa a se perguntar, com esse tipo de situação se isso que as pessoas estão a dizer não é verdade. Entendeu? É... já fui parar na delegacia por estar com a minha parceira e a minha parceira ser assediada pelo próprio delegado é... colocada numa sela junto com homens, falar que por que minha parceira está comigo, se tem um monte de homens aí...então assim, a polícia é para proteger a população e não cometer esse tipo de...de situação, quando você vê esse tipo de situação desse vindo de uma polícia...o que a sociedade civil vai fazer? Pior. Se você entra em uma sala numa faculdade, que eu frequentava uma faculdade católica e o próprio professor é o primeiro a incitar violência contra os homossexuais, então você não se sente protegida nem na sala de aulas...então...sai fora. Então assim, eram vários e são várias coisas que aconteceram que...foram criando um desgaste meu. Então eu perguntava para mim mesma: Em que momento eu Lara vou ser feliz? Isso eu me perguntava, não perguntava as pessoas, perguntava a mim mesma. Eu sempre fui uma pessoa muito religiosa mesmo, uma pessoa que viveu fé. Nunca vivi a minha fé como vivi aqui no Brasil, mas eu rezava. Eu sabia o meu momento de falar com Deus e os momentos que eu falei com ele as perguntas que eu fazia eram só essas, em que momento eu seria feliz? Se realmente eu ser lésbica era coisa de satanás assim o espírito, que ele me libertasse desse espirito naquele momento porque eu tava cansada de...entendeu. Então assim, eram várias as coisas que aconteciam e você não via mudança né na sociedade, você era capaz de arrumar uma entrevista de emprego por você se vestir como você gosta, como se sente bem, você já era descartada ainda que você tivesse qualificação para aquela função, mas pelo simples fato de você se apresentar como você gosta e como você é, não tem inclusão. Tipo olha ela é assim, mas ela tem qualificação, ela tem competência, ela tem as aptidões que a gente precisa para essa vaga, não existe isso. Então como você vai viver num país que nem esse? Em que não te reconhece, porque sua
169
orientação sexual é diferente daquilo que são as convicções dele, de pessoa certa para viver em sociedade. Então foram os vários gatilhos, vários. Né, então assim, isso eu só conto alguns porque talvez esses sejam o suficiente para despertar se em algum momento eles lá em Moçambique, despertar eles. Porque existe muitas Laras, muitas. Eu perdi 29 anos da minha vida em Moçambique. 29 anos não é pouco, não é. Então assim, podem ter várias Laras lá, perdendo seus melhores momentos buscando uma aceitação da sociedade que não aceita o diferente, mas graças a Deus to aqui. Vida que segue.
EQUIPE: A gente viu também que você conheceu o Brasil por meio de uma novela
LARA: É, senhora do destino. Graças a Deus né que essa novela passou lá, tanto essa como tantas outras que estão passando agora, estão despertando nas pessoas esse pensar diferente. Em mim foi tipo: “puts, existem pessoas que nem eu. Nossa, posso viver” assim tipo entendeu, foi uma luz no fundo do túnel. Deixa eu investigar, deixa eu saber um pouco mais, né lá, né Brasil. A gente já conhece o Brasil estudando né a história do mundo, mas...tem canais lá que apresentam o lado ruim do Brasil, que é a criminalidade, essas assim, não era isso que queria ver, queria ver esse lado que eu podia viver minha sexualidade, então assim eu busquei, busquei conhecer, busquei investigar, e quando decidir sair sai sem falar para ninguém mesmo. Só a minha esposa sabia, só, nem minha própria mãe sabia. Ninguém. Por que... Não que tinha mágoa de alguém, não, minha mãe é... sou grata a ela. Mas eu precisava disso, precisava recomeçar. E quando você precisa recomeçar você precisa recomeçar do zero mesmo entender as suas dificuldades em se integrar, as suas fraquezas e eu descobri isso aqui. Passei muito perrengue, coisas que as pessoas nem sabe lá em Moçambique o que que eu passei, ninguém sabe, nem minha própria mãe sabe, entendeu? Então assim é minha história, eu construí minha história do zero. Então assim, é algo hoje que digo que é minha, não teve participação de ninguém, chorei o que
170
tinha que chorar, tive várias vezes vontade de desistir e voltar. Mas... tem uma coisa que eu conheci aqui que eu falei antes...fé, não deixou eu em nenhum momento eu voltar atrás. De todas as dificuldades que eu tive, de todas as dificuldades que eu vivi, pedi para que passasse e passou. Mas todo mundo tem dificuldades e tem aquele que tem tudo no mundo, na vida e em algum momento tem uma dificuldade, dinheiro não cobre tudo. E lá era isso que eu tava buscando, então eu buscava a felicidade pessoal minha, me alegrar por saber que eu posso andar na rua de mãos dadas com a minha parceira, me alegrar por saber que eu putz posso andar com meu cabelo curto, vestir como eu gosto e ninguém vai me xingar, ninguém vai tipo querer fazer ou me agredir sei la. Não to falando que no Brasil não tem agressão, não tem estupro, não tem...to falando de um dos países que mais mata trans no mundo é o Brasil, mas o simples fato de você poder falar sobre a questão da homossexualidade já te dá a liberdade de você se expressar. Coisa que eu nunca pude fazer em Moçambique. Então eu tava... eu tava acumulada. Tinha muita coisa que eu precisava falar, que eu precisava expressar para o mundo para as pessoas que me aceitavam como eu sou entendeu? Mas eu não fazia aquilo por medo. Eu não falei ainda aqui...mas eu já fui agredida na rua, por nada, por nada. Mas eu nunca fui a público lá e nem pras pessoas que eram próximas a mim falar “pó aquele ali fez isso” você não sabe quem está com você, até aquele que você acha que sente sua dor, né, que entende sua situação, mas você não se sente seguro. Porque de um lado você ouve pessoas gritando nomes pejorativos, então assim... Não existia segurança. Não que no Brasil não exista isso, tem várias pessoas que sofrem por sua orientação sexual dentro das famílias, fora...mas quanto você puder dialogar, em algum momento você consegue mudar, mentes, corações não é? porque você está a dialogar, você está a tentar a fazer entender aquela pessoa que olha, não é aceitação que eu busco de você, eu busco respeito. Aí já cabo de você aceitar não é, mas em Moçambique não te dá isso, então se eu não consigo respeito de meu povo, será que eu vou conseguir aceitação? não há aceitação. Então assim, eu me recuso me recuso mesmo. Eu sou moçambicana, gosto do meu país, mas eu me recuso a aceitar viver o que eu vivi lá novamente, eu recuso mesmo.
171
EQUIPE: Como você chegou no Brasil, em São Paulo, como foi esse processo?
LARA: Ah, assim. Eu não conhecia nada quando cheguei aqui. E... assim, estranho. Por estar num continente diferente, a milhas e milhões de quilômetros de distância, e... assim, nossa, integração é difícil para qualquer um. Eu tenho o português como vantagem, mas é difícil. Você ta vendo pessoas diferentes, você não sabe com quem falar, se pode perguntar tudo que você quer. E outra, você vai descobrindo que algumas palavras têm significado diferente, aí fica com receio às vezes de falar uma e outra coisa, com medo de ofender ou medo de falar o que não deve. E assim, não vou falar que não assistia os programas que só retratam as coisas negativas...assistia. Entendeu...então a pessoa vai com esse medo, um pouco desse medo. Mas assim, todo imigrante que não conhece ninguém chega aqui e vai para uma casa de abrigo e lá você encontra inúmeras nacionalidades. E eu tive o privilégio de dentro dessa casa conhecer várias pessoas, que infelizmente já não estão no Brasil, já foram embora, mas conheci,
foi tipo com essas pessoas caminhando buscando uma
afirmação...não é fácil. Primeiro por causa da documentação, segundo porque as pessoas não dão credibilidade pra você. Ainda que você uma tenha formação superior, ainda que você tenha experiência de trabalho em certas áreas. Mas você ta vindo de um país, de um continente que meu...ninguém conhece, entendeu. Ninguém sabe como provar que realmente você é apta naquela área, entendeu. É mais uma dificuldade. Para mim isso foi...andei em vários lugares com o certificado né e arrumei nada. Então assim, comecei do zero. Você tem que trabalhar muitas vezes em funções que não tem nada haver com você, mas aquilo faz parte do recomeço que você quer né. Por isso que mais tarde eu decidi fazer a faculdade porque eu falava meu “não tem como eu ficar trabalhando em uma coisa que não tem nada haver comigo” se tiver que estudar de novo eu estudo. Mas a integração é difícil, bem difícil.
172
Ninguém te dá a aceitação logo de primeira, principalmente quando você é imigrante assim, é complicado.
EQUIPE: E lá você era formada em TI também?
LARA: TI. Mas graças a Deus consegui estudar aqui e trabalhei um pouco nessa área também, mas... foi na época que eu tive o acidente tal, ai ficou difícil porque tem certos lugares que exigem um pouco de esforço de você e eu não podia fazer muito esforço com o pé né, e um dos trabalhos que eu tive era um bom trabalho mas em Caieiras, então complicado sair de São Paulo pra ir. Trem e tal, de muleta... mas tem aquele ditado né “Deus escreve certo por linhas tortas” então hoje estou bem, graças a Deus.
EQUIPE: Qual o significado de fronteira para você?
LARA: Fronteira. Nossa... limitação. Uma limitação que não deveria existir. Os países não deveriam ter fronteira devia ser uma coisa proibida, não é? Porque assim, o direito de migrar é bom, mas quando você coloca fronteira você coloca limitação entre as pessoas, não é? E assim, eu acho que não devia ter essas limitações por diversas razoes, diversas. Porque veja só, tudo bem existe a fronteira, existe povos diferentes. Mas o que é diversidade? É isso. É você sair pra lá com aquele pouco que você tem de diferente e dividir com o outro e o outro dividir com você, aí você vai criar uma diversidade. A gente costuma falar assim eu costumo falar que a diversidade é alguma coisa que eu vi, uma coisa que eu gosto. A de inclusão o que é? É você me convidar para sair, mas não me deixar parada né, mas me tirar para dançar né, me tirar para viver aquele momento verdadeiramente. Não só falar “vamos sair”, ta eu vou sair com você mas eu posso não me sentir inclusa naquele ambiente em que você me levou, a partir do momento em que você me leva para aquele ambiente e dentro daquele ambiente você me coloca praticando ou fazendo
173
atividades dentro dela eu vou me sentir inclusa, então assim, essa divisão que para mim é fronteira não deveria existir, fronteira é isso, divisão. Eu falo português, falo inglês falo... e venho aqui no Brasil eu posso dividir isso com vocês, mas eu não falo português e venho num país que fala, eu vou aprender isso. Eu nunca comi farofa, eu venho aqui e aprendi o que é farofa, eu respeito a farofa, não é? Então quando você tem fronteiras... “Ah a farofa é daquele país, não desse” por quê? A farofa pode ser do mundo, então eu sou do mundo. Então assim fronteira é isso, é limitação, e eu não tenho limites porque eu sou do mundo, meu país é o mundo eu diria né então eu Lara sou do mundo, to no Brasil, mas eu sou do mundo, eu nasci em Moçambique, mas sou do mundo. Então assim, não devia ter fronteira. Aí a gente não teria um monte de gente atravessando o Mediterrâneo aí pra chegar em países, a gente não teria um monte de gente...olha aí o que está acontecendo no Afeganistão, pessoas estão morrendo porque? Porque os que estão ao seu redor estão fechando as fronteiras, as pessoas querem ir para onde? Para países que tem que pegar avião? Por quê? Então não devia existir essa divisão, essas limitações, é complicado...
EQUIPE: Você se sente acolhida pelo Brasil?
LARA: Se sinto acolhida pelo Brasil? nossa! (risada descontraída) Sim, já tenho uma mãe aqui. Sou eu sou abençoada. A primeira mãe que conheci foi a padroeira do Brasil. Respeito todas as religiões, todas, mas eu sou católica. Eu vivi milagres nesse país, nesse país Brasil, então eu sou testemunha disso, então sim eu me sinto acolhida, desde o primeiro dia que eu cheguei, mesmo não conhecendo ninguém, o primeiro lugar que eu quis conhecer pessoalmente foi o santuário, primeiro lugar que eu quis conhecer foi o santuário e eu fui lá, não só pela minha religião, mas pelo povo brasileiro, assim tipo, eu vivo bem com o povo brasileiro, cada um tem seu jeito de ser, cada um tem suas ideologias de vida, mas sempre na base do respeito, vida que segue né, mas sim tive um acolhimento muito bom do povo brasileiro, graças a Deus.
174
EQUIPE: Qual foi sua sensação quando você foi para o santuário?
LARA: Vixe! Eu não sei, é incrível aquele lugar. É o lugar que eu mais sinto paz. Eu não vou em busca de tirar foto, tiro? Tiro, uma lembrança. Mas eu busco PAZ e eu sinto paz. Por incrível que pareça, eu sinto uma paz que...assim só quem crê vai saber, certo? E quando eu falo que eu tive milagres na minha vida é verdade, não é uma coisa que estou inventando, é verdade às vezes não tinha dinheiro nem para comer, mas eu conseguia pegar esse pouco pegar u m ônibus e ir para o santuário, parece brincadeira. E assim, às vezes que nem lugar para dormir tinha, mas eu dormia no chão porque eu sabia o que tava indo pegar lá, o que que eu ia lá viver. Então assim, até hoje, eu tenho meu carro, mas eu não vou pro santuário de carro, não levo eu quero ir de ônibus! Eu quero sentir as pessoas entendeu viver aquele momento de fé ali e tal, então eu vou ali e vivo minha fé e gosto de ir sozinha (risada). Agora preciso levar meu filho, quero levar ele lá. Mas sempre que eu vou eu vou sozinha. As pessoas mr convidam “Vamos no santuário” Vamo, vamo! Quando chega a hora eu desisto porque eu quero ir sozinha, não sei porque, mas eu quero ir sozinha. É uma coisa que eu gosto, eu levei a minha mãe quando ela esteve aqui, meu sobrinho e assim essa fé que eu vivo eu vivo pela minha mãe mesmo porque a minha mãe nossa senhora, ela sofre quando não vai em uma missa então acho que eu herdei isso dela. Dai eu gosto de assistir a missa por inteiro, de fazer a minha oração sem ter ninguém falando “Vamo aí” entendeu? Gosto de ter tipo os meus momentos, aquilo que eu decidi que vou fazer lá e fazer... é um que pra mim nossa senhora, não tem comparação, adoro ir lá! Tanto que eu até tatuei nas minhas costas, é um amor incondicional.
EQUIPE: Quando você chegou no brasil, as expectativas que você tinha, elas foram alcançadas?
175
Posso me considerar 90% realizada, 90% realizada daquilo que eu não pude realizar em Moçambique, isso eu posso considerar. Existem muitas coisas que eu quero fazer aqui, muitas coisas, muitas coisas... Mas aquilo que eu não poderia fazer em Moçambique, 90% eu já fiz graças a deus e uma das coisas é essa, o meu filho! Então são coisas que, para os que estão lá, acho que é uma coisa, quase que impossível, não porque as pessoas não tenham condições financeiras e tal, mas por inúmeros motivos, né? E é uma das coisas que, eu e a minha esposa pensa que... eu quero muito que ele vá lá conhecer, quero muito, porque por incrível que pareça, a gente é o primeiro casal de lésbicas que tem filhos por inseminação, é a gente de Moçambique, entendeu? É um fato, é! Você não acha que as pessoas vão querer entender? Vão! Mas é uma maneira de mostrar para as pessoas de lá e que podem acreditar. A vizinha da África do sul faz isso, mas é um país totalmente homofóbico em relação à essas questões, é bastante violento contra os homossexuais, entendeu? Então as pessoas podem ter até um pouco de medo por isso de se esforçar para chegar lá, entendeu? A minha família hoje é aquilo que eu sempre quis ter em Moçambique, sem tabu de ninguém, sem medo de apresentar, sem precisar esconder o meu filho. Entendeu? Então assim, sem precisar justificar. É claro que as pessoas vão ter curiosidades, mas não precisa justificar muito, né se tem conhecimentos suficientes. Até um casal de héteros fazem inseminação. Então assim, me considero uma pessoa super abençoada, em relação as realizações, eu me considero. Mas existem muitas coisas que eu ainda quero fazer aqui no Brasil, mas o que eu queria realizar em Moçambique, está 90%realizado.
176
EQUIPE: Qual sua opinião de como o Brasil lida com a questão do refúgio?
LARA: Vixi… Aí é complicado… Mas assim, cada país tem seu jeito, né? De lidar com essa situação. Eu acho que o Brasil poderia fazer mais, né? poderia fazer um pouco mais, poderia fazer um pouco mais, poderia ajudar um pouco mais né? Não só os refugiados mas o imigrantes, porque assim, eu não sei se as instituições que recebem os imigrantes, os refugiados aqui tem alguma coisa com o governo, tem algum subsídio do governo, primeiro, então assim se você se muda para algum país como Canadá, Estados Unidos, Canadá na verdade, é em algum momento eles te fornecem casa, principalmente se você tem criança pequena, eu acho que o Brasil poderia fazer isso de certa forma. Dar o auxílio, por um tempo, que nem aconteceu essa coisa do auxílio emergencial, dar esse auxílio um tempinho, seja por três, quatro meses, para que a pessoa possa se estabilizar, se firmar, porque nem todo mundo consegue vir com alguma coisa, de seu país. Então é a desvalorização… você pode ter muito lá e ser pouco aqui… não dá para você fazer nada, entendeu? Isso ajudaria muito, o governo poderia sim procurar, hoje está acontecendo muito isso, incentivar as empresas para que elas admitam, imigrantes, refugiados hoje em dia as empresas estão aderindo a isso, graças a Deus, mas, teve uma época que era difícil você, uma empresa entender o que era um protocolo, que era uma folha A4, com as suas informações e tal, aquilo lá era uma folha pra quem pegava mas para você era tudo, era seu documento, então assim teve um tempo em que eles diminuíram a folha agora voltou de novo, não tem assinatura, assinatura eletrônica, aí encontra um banco que não quer receber nenhum imigrante, aí você entrega “ah não, não é documento” entendeu “quero seu documento com foto”. Então assim, eu acho que o governo poderia fazer um pouco mais, em termos de ajuda, em diversos sentidos, subsídio, integração, informando as pessoas, porque assim tem pessoas que até hoje não entendem o que é você estar em situação de refúgio, não entendem, acham que você é um
177
vagabundo, que fugiu do seu país, roubou, matou, alguma coisa errada que você fez, não parar para pensar que você fugiu de uma guerra, que você fugiu de violência doméstica, no meu caso orientação sexual, então assim as pessoas pensam de tudo um pouco, menos nessas coisas, então há a questão da sociedade né, cada pessoa te fala, você é refugiada porque, buscar saber, entendeu, eu acho que isso é importante, existe muito preconceito em cima dessa palavra. Refugiado vem para isso, refugiado vem aquilo. Houve um tempo em que refugiado era o maior rival do povo brasileiro, período em que o índice de desemprego estava alto, que as pessoas achavam que era por conta dos imigrantes refugiados, quer dizer as empresas queriam mais imigrantes, não vamos dizer também, que não existia empresas que usavam disso, usava mão de obra de refugiado, por saber que a gente desconhece muito dos nossos direitos. Existem essas empresas que buscavam e buscam refugiados, por saberem que eles não conhecem seus direitos e saber que é um povo não vai se recusar a trabalhar em certa funções porque precisa, aí você vai lá paga o salário que você quer, muitas das vezes você nem paga os direitos que você tem, muitas das vezes as pessoas sofrem dentro dessas empresas, racismos, preconceitos, mas ficam caladas porque precisam, eu conheço muito casos desses, pessoas que viveram esses tipos de situações, então o Brasil poderia fazer muito mais do que já faz. É uma vantagem você ter um protocolo, ter o seu CPF, fazer uma carteira de trabalho, mas quando é para procurar emprego, quando é para se mostrar… é complicado, é bem complicado, então assim, a desvantagens de muitas vezes de quem fala português, então assim se o empregador tem a paciência, de tentar entender aquele funcionário, quantos não estariam empregados? Quantos? Entendeu? Então é complicado. Mas eu acho que poderia fazer um pouco mais, poderia.
EQUIPE: Você sentiu preconceito ao chegar no Brasil?
LARA: Por ser refugiada não, para minha orientação não, que eu trabalhei, trabalhei em um hotel e tinha uma tia lá, uma tia como vocês chamam que ela, é assim é normal para gente não é normal você aceitar esse
178
preconceito, isso é inadmissível, mas é normal a gente sofrer esse preconceito, por ser imigrante, por ser negra, ser refugiado, entendeu? É diário, diário, já fui chamada de macaca. É! É sério, seríssimo! Macaco, pelo próprio patrão. E aí? Aí demite, justa causa, qual é a justa causa? Me chamou de macaco e é justa causa. Quem vai defender? Quantos advogados a gente já pegou, que foi por dinheiro, entendeu? Mas é do tipo que não vou colocar eu como brasileiro, eu, você contra outro brasileiro, existem pessoas que pensam assim, pensam assim, às vezes a gente perde a credibilidade em algumas pessoas por conta disso, mas assim preconceito não só Lara já sofreu, um monte! Um monte que eu consigo colocar eles e falar, fala, vocês iam ficar horrorizados, então assim fazer o que né?! Mas eu por ser uma pessoa de revidar, mas certas coisas que eu prefiro ignorar, entendeu, não vou me estressar. Eu luto por uma causa bem mais importante que essa, bem mais complexa que esse meu ponto de vista, né? Porque é uma coisa que eu vivo diariamente, vivi 29 em um país para que? Então assim, preconceito por alguém, sei lá achar que eu como uma pessoa que vive em situação de refúgio que não deve fazer isso ou aquilo. Para mim é pequeno demais comparado ao que eu já passei né por conta da minha orientação sexual, dentro do meu país, para mim é irrelevante, até certo ponto né, porque assim não pode extrapolar do jeito que eu vou falar isso, mas é assim. É algo que, conheço pessoas que foram piores que eu, no caso de pessoas que não tinham nada para fazer, então existe um monte.
EQUIPE: Quando você chegou você ficou na missão paz?
LARA: Fiquei! Quem não ficar ali é doido… Brincadeira, todo mundo tem que passar por lá. Lá é casa de todos, tem que passar, eles tem um projeto lindo, você fica, claro que não são as condições que você está habituado, então assim, você tem um lugar para dormir, você tem um teto, sai cedo, toma um café, se a gente se comparar com tantos brasileiros que não tem esse privilégio, entendeu? Então assim, a maioria do pessoal que eu conheço. Agora, esses que estão chegando agora, já tem gente, já tem
179
familiares, aí já tem uma coisa mais confortável, não precisa passar nada, mas 2013, 2014, nossa, muitos já foram embora nesse caminho aí do Estados Unidos, mas muita gente ficou, conheço um monte, do mesmo jeito que conheço um monte que foi nesse caminho, mas assim são escolhas né.
EQUIPE: Tem alguma coisa que você faz, uma música que você ouve, ou assiste uma dança ou recita algum poema para você se recordar de seu país?
LARA: Não! Não quero me recordar de nada, eu recordo da minha mãe, não, se você me falar de meu país, não, mas tem uma música que eu escuto que eu lembro da minha mãe, uma, que essa música fala de mãe, o agradecimento que eu tenho a ela, por tudo que ela fez por mim, por ela ter investido em meus estudos, e fala que ela é minha flor é meu coração. Isso sim na minha língua é essa música minha língua local e falar que eu to escutando e lembrando de Moçambique, não! Tem músicas que eu gosto porque eu escutava lá, mas não para lembrar Moçambique. Não tenho nada para eu lembrar assim, entendeu? Não vou falar que eu não tenho pessoas que gosto, as pessoas que eu gosto eu falo com elas. Mas lembrar do país, não! O País não fez nada por mim porque eu vou lembrar do país?! Mas assim, tem músicas que eu escuto que me remete a minha infância, que eu escutava muito que eu gostava, músicas de certos cantores, mas assim pais, não! Isso não! Mas eu sinto que eu gosto, tem uma música que eu gosto e que eu divido com a minha mãe. EQUIPE: Qual é o nome da música?
LARA: Nome da música - que significa minha mãe. Ai essa música sim, é uma música que a moça fez para a mãe dela. então assim eu a escuto e dedico ela sempre a minha mãe que é pelo que ela fez que é uma verdade. Quanto a isso sou bem sincera, não, não, não.
180
EQUIPE: Existe muito preconceito com as pessoas em situação de refúgio, o que podemos fazer para que a gente reduza este índice?
LARA: Convidar a pessoa para festa e tirar para dançar, aquilo que eu falei, é essa integração, não é só convidar e não mostrar a sua cultura para pessoa, porque existe um choque cultural, existe, a gente tem um tipo de cultura diferente do brasil, completamente diferente, aqui existe o tal conservadorismo mas não é como nos países africanos isso eu vos garanto. A gente não beija na rua, a gente não namora na rua, são coisas que a gente precisa aprender, eu até hoje me incomodo com gente se beijando no metro, se agarrando no metrô, porque eu acho que não há necessidade para esse tipo de situação, mas é uma coisa cultural minha, se eu viesse de um país que isso era normal, talvez eu pudesse não levar tão, né. Mas para mim, o fato de um filho xingar uma mãe ou uma mãe xingar um filho com nome pejorativo, eu não me acostumo, porque meu país, isso é uma coisa de você levar, de alguém bater em você. Mas aqui não, um filho pode xingar uma mãe do nome que quiser, não que a mãe não bata, mas a mãe também xinga o filho do que ela quer, então assim existe. Então, se você quer me ensinar um pouco da sua cultura, você também tem que aprender um pouco da minha. Aprendendo a gente acaba se entendendo, Eu posso comer da sua comida do mesmo jeito que você pode comer a minha e eu faço muito disso, quando tenho convidados brasileiros eu faço um pouco da minha culinária para a pessoa aprender um pouco, para a pessoa conhecer e eu faço o'que tirou para dançar, oh essa é minha comida. A pessoa não é obrigada a comer e gostar, mas a pessoa foi apresentada. Teve um episódio né em que um chef africano foi lá em uma emissora e a apresentadora, olha assim eu tenho a minha opinião, ela não era obrigada a falar daquele jeito, mas ela não era obrigada a gostar daquela comida, porque não é toda comida do meu país que eu gosto, não é toda comida do seu país que você gosta, O que ela falou não foi o correto? Não foi! Mas ela não é obrigada a comer e gostar. Existem também inúmeros pratos que
181
aquela pessoa poderia levar também, porque não é só aquele prato que é típico, típico mesmo daquele país, então você poderia levar um prato, se ela achasse que aquele tem um aspecto melhor do que aquele, ele poderia apresentar vários pratos e falar “escolhe, qual é o melhor para apresentar no seu programa?”. Enquanto o brasileiro abrir as portas não é todo mundo que abre o coração e os braços, , mas enquanto abrirem as portas pra gente entrar, a gente tem que primeiro, nós refugiados, nós primeiro temos que respeitar a cultura brasileira pra então o brasileiro respeitar a nossa, não pode entrar aqui achando que é terra de ninguém. Aí também não né e tem que respeitar a sua cultura, os seus hábitos e costumes embora eu tenha o meu, como eu vou apresentar os meus se eu não conhecer os seus primeiros, você vai querer conhecer os meus? Não, vai falar que essa pessoa é sem educação. Não respeita a minha cultura não respeita os meus hábitos e costumes do meu país, primeiro tem que existir isso, eu Lara que cheguei tenho que conhecer essa cultura tenho que me integrar nessa culpara para eu poder apresentar a minha cultura para essa sociedade para esse pais, não são todos que não entender e aceitar, tantos que quantos então aqui refugiados e não se integram, por que? Porque eles se recusam a se integrar, se recusam, se você vem por exemplo, as mulheres africanas, muitas vem de seus países sem saber de seus direitos como mulher, chega aqui no Brasil e sabe que tem lei maria da penha, você acha que ela vai deixar de usufruir da lei maria da penha? Se ela sempre apanhou e não pode se queixar porque lá pode apanhar, então existe isso, mulheres chegam aqui hoje e se tornam autônomas, por que? Porque lá onde elas vivem de onde elas vieram, não tinha autonomia para nada, entendeu, chega em um país em que a mulher pode ter autonomia de si mesma, até de seu próprio corpo, coisa que lá muitas vezes não tem. Existem pessoas que aceitam e existem pessoas que não aceitam, primeiro existe a cultura de que chega, para você ir para os estados unidos, você chega lá com a sua cultura e aí como é que vai ser? Você não tem que conhecer a deles?
EQUIPE: Qual lugar no Brasil em que você costuma ir que em que você se sente integrada?
182
LARA: No Brasil ou na África?
EQUIPE: Ambos
LARA: Nossa, África é no centro, lá eu encontro tudo que é comida típica, amo, adoro comida típica. Agora Brasil é onde tem samba, pagode ai eu adoro, um churrasquinho, e tal, mas onde tem pagode e samba, ai eu vou é onde eu me sinto no Brasil mesmo. Agora para África mesmo é no centro, lá tem aquela galeria, não sei se vocês conhecem, lá a galeria presidente ela é maioritariamente ocupada por africanos, lá você encontra de tudo, tudo que você quer, lá você pode encontrar, por mais que as vezes qa gente pede para o pessoal trazer e tal, mas lá você encontra de tudo. Mas o Brasil é samba e feijoada, adoro, agora África é a galeria Presidente.
EQUIPE: E você gosta de carnaval?
LARA: Gosto, mas só pela televisão. Mas já fui na república, mas eu não sou muito de bagunça não.
EQUIPE: E o que você mais gostou da cultura brasileira?
LARA: Nossa, tanta coisa, para falar algo específico assim, as pessoas particulares, nossa é tanta coisa que eu possa especificar, é muita coisa. mas assim a coisa que eu possa falar mais assim, o que tornou a Lara que sou hoje, é o diálogo, é a abertura para poder se falar, sobre a sexualidade, uma coisa que nunca fiz na minha vida, nunca falei sobre, nunca estudei sobre
183
para poder falar com as pessoas, isso para mim é muito importante é uma abertura que eu que jamais imaginei poderia ter, e assim e hoje eu faço projetos com Sesc virados para isso, então assim, é muito importante, mudou muito a minha vida, a minha personalidade, os meus pontos de vistas, assim de tipo em relação a tanta coisa que eu desconhecia, que fazem parte do meu mundo, então assim essa abertura para mim, essa oportunidade de fazer, de falar sobre, é uma coisa que nossa, mudou, mudou minha vida demais.
EQUIPE: Quais os hábitos que você adquiriu no Brasil?
LARA: Hábitos, não sei, que eu não tinha antes? Você me pegou, hábito que eu não tinha antes… nossa senhora, vish, isso aí quem tem que responder é minha esposa. Ela vive reclamando, nossa, hábitos que eu não tinha, assim é difícil responder essa pergunta, porque assim, a Lara que eu sou hoje não é a mesma Lara que eu era em Moçambique, completamente diferente, é, uma pessoa mais alegre, uma pessoa mais dada, uma pessoa sem medos, não totalmente sem medos né, tem coisas que não tem como não ter medo, mas eu falo, medo de viver, medo de se expor, entendeu, e assim, aquela Lara que estava em Moçambique é totalmente diferente, assim, acho, voltando aqui a pergunta que você me fez antes, vou responder essa, que hábitos que eu aprendi, eu sou uma pessoa muito religiosa, mas eu comecei a viver verdadeiramente a minha fé aqui no Brasil, a gente vem, eu vim conhecendo redes sociais né, mas eu fiquei dois anos sem entrar nas redes sociais, por promessa, por oração, aprendi a rezar o terço aqui no Brasil, rezo o terço sem olhar para nada, então assim, aprendi muita coisa que tem a ver com a igreja, aqui no Brasil, não que eu não tenha vivido isso lá, conheci várias religiões, mas eu aprendi verdadeiramente sobre a fé aqui no Brasil, o que é prometer, o que é cumprir, o que é entregar, que é tipo jejuar, aprendi muito aqui, mas, porque essa Lara que está aqui é diferente da Lara que estava lá, essa Lara tem propósito diferente daquela Lara, essa Lara que está aqui tem visões diferentes da Lara que estava lá. Aquela Lara não tinha nada era tudo escuro, e aqui eu vivo uma claridade, uma luz, então assim é fácil eu
184
ter escolhas, é fácil eu ter opções, coisa que eu não tinha lá então assim, falar de hábitos é difícil, é difícil. é diferente, eu me sinto diferente, as pessoa que falam comigo me veem diferente, as pessoas que não me queriam, me querem diferente, entendeu, então é tudo diferente, eu estou aqui a oito anos, então estou vivendo a oito anos, tudo começou, a minha vida aqui se resume a 8 anos, de altos e baixos, mas assim, mas eu sou assim, eu sou calma, eu me acho calma, mas eu gosto de verdade, ainda que seja dura eu gosto da verdade, não gosto que as pessoas mintam, porque eu não gosto de mentir e acho que deve ser meu, não sei, mas é uma coisa que eu vivo aqui, eu vivo muito eu prego muito isso nas pessoas que vivem comigo, mas essa pergunta aqui quem tem que responder é ela que vive falando disso.
EQUIPE: Quando você chegou aqui, você falou um pouco sobre o choque de cultura, quando você teve algo que você tomou aquele susto de meu deus o que é isso e hoje você já entende, já acha normal? Teve alguma coisa que foi muito impactante assim?
LARA: Eu falei aqui, a questão das pessoas se beijando, isso até hoje, hoje menos, você vai habituando, mas no princípio eu olhava, ficava encarando, para ver se a pessoa parava, porque não entendia que era normal, então ficava ali encarando, do tipo, para com isso, mas falando dentro de mim, hoje eu entendo que é uma coisa, por exemplo uma coisa que uma vez eu até tentei interferir, que é na briga de casal, aqui não pode interferir na briga de casal, você não pode deixar um homem bater em uma mulher, mas se estão brigando você pode ir lá e meter o dedo, eu já fiquei de fazer isso e me chamaram atenção, “não Lara”, “Mas por que e se ele espancar?” entendeu, tanto é que agora tem esses negócios que fazem de fazer para ver se as pessoas olham para isso, então assim para aquilo ali é demais, e beijo nossa, meu deus, tem gente que beija e ponto final, mas tem gente que beija e você fala só falta, oh aqui não, então assim isso são coisas, para mim até hoje, e assim, as pessoas falam “Lara você não beija sua esposa?” posso dar um selinho na minha esposa, mas não sou muito de me expor, aquilo que eu falei
185
mais cedo se eu quero o respeito eu tenho que dar o respeito e a minha maneira de dar o respeito a pessoa é não fazê-la ver o que ela não gosta, é como eu penso, eu Lara penso assim, não é, porque assim se você não é ou não gosta dos homossexuais e de certa forma eu não tento convencer você ou conversar com você, porque tá bom, se você não gosta eu respeito, só que assim você não precisa ser invasiva ou malcriado ou agressivo com os homossexuais só porque você não gosta, você pode respeitar, o meio ali, mas você não pode chegar na frente dela e fazer algo, sabendo que ela não gosta, em algum momento ela vai respeitar a minha pessoa? Não vai, então eu penso muito isso, eu acho que às vezes as pessoas toleram, porque existe uma lei, existe tipo ah se eu fizer alguma coisa eu posso responder por isso, mas tenho certeza que muitas pessoas não toleram isso, então eu prefiro evitar, eu falo que as pessoa não tem que beijar, não que, não, você beija a vontade, mas acho que é uma coisa muito íntima para gente fazer em um transporte público, entendeu, para gente fazer em vias públicas, hoje em dia as crianças são bem antenadas , já sabem fazer as perguntas que você pensa o que eu vou responder aqui, mas é sempre bom evitar, é sempre bom porque você não sabe, o que aquilo pode ou não. Mas assim eu defendo uma coisa que deve se falar sobre sexualidade nas salas de aulas, eu defendo isso, porque, quando você fala da questão da sexualidade dentro da sala de aula, você não está tornando seu filho homossexual ou não, você fazendo seu filho a conhecer a si próprio e se ele conhece a si próprio ele começa a mostrar para você pai e mãe quem eu sou, não vai ser uma Lara que cresce sem saber quem ela é por simplesmente ter sentimentos por pessoas do mesmo sexo, agora quando você ensina a pessoa a questão da sexualidade, você está ensinando aquela pessoa questão de gênero, não é porque você nasceu com o sexo menina, que você é mulher, entendeu, essas coisas, que são coisas que você não aprende, os pais também não aprenderam na época, talvez não puderam transmitir essa informação e a gente foi buscar, hoje a gente busca muita coisa na internet, eu defendo que deve se falar sobre a questão de sexualidade nas salas de aulas, porque desde criança você começa a perceber e hoje a gente percebe mais as crianças, uma criança consegue se apresentar e ser ela mesma na sala de aula, do que na sua própria casa, como aquele professor que vê essa criança vai lidar com essa situação, vai levar
186
essa situação para a direção da escola por exemplo ou vai levar o encarregado da educação para conversar, então são coisas que são muito complexas mas estão relacionadas. Eu sei que essa fala, que essa fala pode gerar debate, mas que fique claro que é a minha maneira de pensar, minha visão, eu venho de uma cultura diferente da do Brasil. Para o brasileiro beijar é… e eu respeito, mas a minha cultura ainda me deixa com o pé atrás, porque é algo íntimo, da mesma coisa que um casal hetero não pode fazer coisas na frente de uma criança, então um casal gay também tem que ter essas limitações.
EQUIPE: Eu queria que você comentasse mais sobre o projeto do Sesc?
LARA: esse projeto, acho que é o melhor projeto que eu já participei, que são palestras que a gente faz para professores do ensino fundamental, que a base, é de lá, e a temática é sempre sexualidade, diversidade cultural, gênero, porque são questões que muita gente defende assim como os próprios professores defendem e deve ser falado em salas de aulas. Então, se você vai receber o filho de um imigrante, certo, ele já sofre preconceito, homofobia, xenofobia, sei lá, por ser filho de imigrante, porque muitas vezes tem um sotaque diferente, já sofre e vamos imaginar que esse filho seja gay ou seja lésbica, mostra tendência a isso, como aquela pessoa vai lidar com esse tipo de situação na sala dela, para diversos alunos, está encarregada educação, porque do mesmo jeito em que apresentei a situação do menino lá é filho de imigrante. Ele nasceu no brasil, é brasileiro, mas é filho de migrante, como que aquela professora percebeu que aquela criança tem uma tendência, certo, mas conhece por exemplo a postura ou o jeito do encarregado da educação daquela criança. Então esse projeto visa isso, nós como imigrantes e também mães, podemos ajudar a estes professores a lidar com esse tipo de situação, como esse professor tem que chegar em mim, eu, imigrante, que tenho por exemplo aquela minha cultura lá como base até viver no Brasil, “não
187
quero saber de cultura brasileira não, é minha e é minha, eu tô no brasil mas vou viver a minha” como você vai chegar nessa mãe, nesse pai para explicar, olha seu filho, sua filha apresenta isso e isso entendeu, então assim e fazer com que esses professores lutem pelo direito de falar sobre essas temáticas em sala de aula, entendeu sem criar este choque, isso, sem ouvir esse presidente aí (Jair Bolsonaro). Então assim é um projeto, que sem falar e contar minha história, né, uma pessoa com 29 anos não sabia falar, não sabia o significado de sexualidade, porque só para você falar para sua mãe, olha veio meu ciclo menstrual, é um problema. Só para te contar, tem uma região do Moçambique que só da menina ao atingir o ciclo menstrual é considerada mulher, não interessa a idade se tem 11, 12 e 13 é mulher. E essa menina, criança, adolescente é tirada da escola para cuidar de um lar e muitas das vezes são com homens mais velhos e muita das vezes são homens portadores do HIV e o índice do HIV dessa região é enorme e o índice de analfabetismo dessa região é enorme, mas por quê? Por desconhecimento da questão de gênero e sexualidade, porque gênero não é só se conhecer como mulher, como homem, mas também é se conhecer com os seus direitos, mesmo que você seja mulher ou homem, você vai saber como é sua autonomia e lá não tem isso, eles não dão conhecimento isso, por que? Porque não querem que você deixe de ser submissa, porque nascer mulher, já tem aquele rótulo, servir cuidar, casar, entendeu, então assim se você aparece uma Lara e fala assim, “nasci mulher sim, com o sexo feminino, mas” esse mas já é um problema, então esse projeto do Sesc é para tirar isso, trazer nossas histórias que são reais, para aquelas pessoa que desconhecem e se tiverem situações de filhos de migrantes em sala de aula, saberem como controlar esse tipo de situação e ensinar aquele pai e aquela mãe, infelizmente a gente sai da África mas a África não sai da gente, isso é um problema que eu vou te falar viu, eu sofro preconceito, por ser gay, por ser lésbica na verdade, dos meus irmãos africanos, nunca brasileiro algum me apontou dedo, me xingou e falou nomes feios por eu ser lésbica, mas africano, vixi maria, você vê, eles saíram de lá, eu sai também, fugindo dele e viemos nos encontrar aqui, mas ele carrega ainda o mesmo preconceito, o mesmo ódio, o mesmo rancor entendeu, e não se permite se reinventar, quando descobre diferente conhece diferente, ele carrega aquilo tudo lá e vem aqui com o
188
mesmo ódio, então é complicado, mas vida que segue, a gente está no Brasil e já era. A gente chama a polícia para eles.
EQUIPE :A gente tá indo para quarta parte agora e eu queria te perguntar sobre a sua oficina mecânica, para falar mais um pouco dela, como você começou
LARA: Nossa, presente de Deus é o nome dela, “Olush” um nome ibo, nativo lá da África exatamente da Nigéria, é um país africano então tem significado, presente Deus, essa oficina assim, foi conversa com um moço que era colega da minha esposa, que assim, eu e minha esposa temos nossas economias, ai entrou essa pandemia, beleza, o que vamos fazer? Temos que nos reinventar, e esse moço também tinha acabado de sair da empresa que trabalhava, ele trabalhou na Mercedez, ele também queria alguém que tivesse essa vontade de arriscar, na cara e na coragem e isso a gente sentou um dia. Ele já tinha manifestado essa vontade, com a minha esposa, aquela coisa, só que um dia ele chegou lá em casa e disse “oh a Maira, chegou a falar para você?” e eu disse “o que?” ele falou “ senta aí" me mostrou no computador e eu falei “ah, boa ideia viu” é uma coisa diferente daquilo que ele se formou e ele estudou, e o que eu me formei, mas naquela altura que era para gente oportunidade de negócio, então assim a gente viu na oficina uma oportunidade de negócio, sendo ele um cara com experiência nessa área e eu experiência na área de T.I que também não tem um vínculo, mas, a gente decidiu, a gente correu atrás do que tinha que correr atrás, financeiramente e pá, e graças a Deus ela tá aí, tá aí, engatinhando, que ainda é um neném, mas está ai e a gente acredita que ela vai seguir a sequência, então tá aí a “Olush”. EQUIPE: Pensando em tudo que você já conquistou até agora, qual seriam os próximos passos? Que você pensa assim, sobre sonhos?
189
LARA: Juro! Eu gostaria muito de ter uma casa própria, muito! Jesus Amado, quero muito, gostaria muito de realizar, as vezes eu sonho que me dão uma casa, mas é sonho, eu quero conquistar, assim, eu tive muita ajuda, muita ajuda e eu espero continuar tendo, tanto de direção, ajuda não é só financeira, mas é ideias, opiniões, assim é “força, não desista”, eu tenho uma mãe brasileira que é a Lucia, que olha, vou te falar viu, ela é nota mil, uma pessoa que me dá direção, tem dias que eu me sinto triste, triste com saudade da minha mãe, triste de algumas coisas, que tipo eu não consigo achar aqui, não é saudade do meu país, mas os meus momentos, meus momentos com a minha mãe, e assim é aquela pessoa que você liga e tá ali, é a mãezona, entendeu? Então assim, acho que a casa própria, hoje é o maior objetivo, não é fácil para gente imigrante comprar isso, não é fácil, porque infelizmente, ainda tem muitos contornos, era do avesso, uma das coisas que é das perguntas que vocês fizeram antes, que é do que o governo poderia fazer? É isso! dar essa facilidade de nós imigrantes, refugiados de conquistarmos a casa própria, porque muitos de nós vivemos aqui, mas temos que tirar um pouco daquilo que a gente ganha, para mandar para lá, para ajudar, então se a gente paga aluguel, escola e saúde, a gente tem o sus e outras entidades, que beleza, mas o salário, não é uma grande coisa, se a gente converte para nossa moeda lá também não é, então assim se você nos der a oportunidade de conseguir um jeito dessa casa própria, muitos imigrantes não precisava sair daqui correndo o risco por esses caminhos para chegar no estados unidos e muitos que ficam pelo caminho, se tivesse oportunidade no Brasil, de sair do aluguel, esse é o maior desespero dos imigrantes refugiados daqui, o aluguel, porque aquele dono daquela casa, daquele apartamento, não quer saber se você não tem dinheiro no final do mês para pagar, então a pandemia mostrou essa vulnerabilidade, de nós imigrantes refugiados, porque muitos perderam o emprego, não só nós imigrantes refugiados, os brasileiros também perderam, quantas histórias nós não vimos de pessoas que foram morar nas ruas, nas ocupações, por que? Porque não conseguiam pagar os aluguéis e maior parte da população brasileira, vive de aluguel, sem casa própria, então assim, se o governo, pudesse facilitar, tanto minha casa minha vida, essas coisas que têm, era bom, era muito bom, um subsídio, que você conseguisse todo mês pagar as parcelas que você tem que pagar, mas saber
190
que esse teto é meu. Eu não tô pagando aluguel, eu to pagando por exemplo parcela do meu, da minha casa, entendeu? Então assim, ia ajudar muita gente, muito, muitos não saíram daqui, eu tenho um ai que foi sábado, eu estava a falar com ele a pouco tempo, falando assim “você é corajoso”, mas é porque, é o tal do sonho americano, o dólar, não é fazer o que?
EQUIPE: Olhando assim para o futuro, tem alguma palavra ou alguma frase que representa o futuro para você?
LARA: Nossa, a frase… Frase que representa o futuro? Esperança. Quando você tem esperança, nossa, eu sai na esperança de ter uma vida boa, sai na esperança de ter uma vida boa e tive, tive meu recomeço, minha esperança de ter uma vida digna, eu acho que hoje eu tenho e tenho a esperança que amanhã eu vou conseguir ter a minha casa, já tenho a minha empresa, então assim, esperança, esperança e fé, esperança é… entendeu? Se você não tem isso, o que você vai ter? Lamentações? Todos lamentamos, mas se você tem a esperança de melhor, então você vai lutar por esse dia melhor, então é esperança. Para mim é esperança. EQUIPE: Você pretende permanecer com a sua família aqui no Brasil?
LARA: Sim.
EQUIPE: A pergunta agora é mais voltada pra sua família e se você pretende continuar no Brasil ou, permanecer com a sua família no Brasil e qual, como enxerga o futuro pra vocês aqui e como que é isso.
LARA: Não é Brasil, é Brasil só se o cara que tá ai ganhar de novo que a gente vai pensar em alguma coisa, porque quando ganhou a primeira a gente pensou né, pelos discursos e tudo mais, se por ventura isso acontecer
191
novamente ai a gente vai pensar nisso mas se não a gente fica aqui, a gente fica aqui por que assim, é onde tudo começou, e não há motivos fora isso que nos façam migrar para outro lugar, e a gente não pretende fazer isso também tipo, ficar andando com as crianças de um lado pro outro, não tem porque né, mas o objetivo é aqui mesmo, o objetivo é aqui, ficar aqui mesmo.
EQUIPE: É a Marifer tinha comentado que você participava de um sarau, eu queria saber mais, você declamava poemas?
LARA: É declamava poemas, você escolhe lá os poemas e você declamava. Eu declamava poemas é, o que eu mais gostava é um que fala da capulana da minha mãe, capulana é pano, não sei se vocês sabem, é pano é um negócio que a gente assim, por exemplo meu filho quer dormir, eu uso pra colocar ele nas costas pra dormir, se tem falecimento na sua casa usam aquilo pra cobrir você, tem festa pra dançar você é mulher, a mulher amarra aquilo entendeu?, você casa, amarra os noivos com aquilo então assim, tem um significado muito simbólico lá a capulana. Então esse que eu mais declamava, e um outro que tem a ver com questões de conteúdo mais agressivo né, que fala assim tipo sobre essa questão da sexualidade, mas esse não é, nunca li muito ele por essa questão né, as vezes no sarau tem mãe e tá com o filho lá e você fala esse tipo... mas o que eu mais declamava era esse “A capulana da minha mãe”. Todos declamavam, outros cantavam e tal cada um escolhia, outros dançavam e as vezes que a gente dançava também né, mas não sou muito de dança então eu declamava lá poema. EQUIPE: Você lembra de um trecho pra declamar pra gente?
LARA: Da capulana da minha mãe?
EQUIPE: É, ou de outro, se você quiser é claro se se sentir à vontade
192
LARA: Então a capulana da minha mãe é um pano, esse pano a gente usa para... eu aqui o uso pra colocar meu filho nas costas... A CAPULANA DA MINHA MÃE Tu nunca a viste sem a capulana, porque a capulana é a parte dela. A capulana de minha mãe é minha capulana. Também, quando eu era pequenina, foi o meu berço de menina nas costas da minha mãe. É dom de toda a família é transporte de mobília. É enfeite em casa de rico. A capulana de minha mãe serve de graça a qualquer e aceita ser emprestada a qualquer outra mulher. Pode servir detapete e ser pisada, ser joguete sem se queixar de ninguém. É querida se está doente, nas festas é um presente, Faz-se toalha de mesa, faz-se toalha de rosto, faz-se toalha de altar. Limpa a baba do menino, na morte é a nossa mortalha.
193
A capulana da minha mãe! Tudo cabe dentro dela, e nela tudo se agasalha. Quem tem coração generoso, jamais a recusou. Quem a louvou algum dia? Quem dela se recordou? A capulana da minha mãe é como o seu coração, nasceu para dizer sim e da vida faz oração! A capulana da minha mãe é para mim uma lição! LARA: Então é isso que representa a capulana, tudo aquilo que a gente usa, que a gente leva para usar. Então, eu não sei se vocês já foram na república, aqueles que vendem aqueles panos ali, aquilo é capulana, hoje em dia fazem bolsas, vestido, mas o verdadeiro significado dela não é esse; quando você tem filho hoje você usa o carrinho pra colocar seu filho pra dormir, mas a gente coloca o filho nas costas pra ele dormir, se você vai pra um falecimento você amarra esse capulana porque não pode ir com a sua roupa, você casou você e seu esposo ou sua esposa serão amarrados juntos dentro dessa capulana. Então ela tem esse chibante, chibante é isso eles abraçam você, como se tivesse a acolher você, então a capulana da sua mãe é isso, que a primeira pessoa que vai te dar a capulana é a sua mãe e ninguém mais, é a sua mãe que vai te dar a capulana e você sempre tem que ter ela na bolsa para qualquer eventualidade. Por exemplo, a gente tem o ciclo menstrual, sujo é a capulana que vai te cobrir então essa capulana é... é a capulana da minha mãe (risos). EQUIPE: Uma última pergunta, eu vi que você falou muito da sua mãe, que você sente saudade dela, e eu queria saber dessa relação agora que você
194
também é mãe, você tem o seu filho como que você enxerga essa figura da mãe, e essa coisa assim.
LARA: É a gente falou muito da minha mãe, eu que falei né, sempre tocava no assunto. Eu sou filha única, talvez por isso que eu sou assim muito apegada a ela. Na época em que eu não sabia dizer o que eu era, só sabia dizer o que eu gosto a minha mãe tava ali, ela perdeu o marido dela, mas ela tava ali. Perdeu o marido dela não porque morreu né, porque ele fugiu, abandonou a gente. Mas assim, ela sempre foi aquela mulher guerreira, ela sempre mostrou pra mim que independentemente de, você tem que ser você mesma, entendeu, ela nunca dependeu do meu pai, ela sempre foi uma pessoa que trabalhou para o dela entendeu, uma mulher super religiosa, quando eu contei pra ela não foi fácil, quando a gente sentou pela primeira vez e conversou sobre isso não foi fácil e eu entendo, “minha filha única, nunca ouvi falar sobre essa questão não sei o que que é isso, e nunca fui ensinada sobre essa questão de mulher gostar de mulher.” Eu pude perceber como ser humano esse lado dela, e me doeu também, diversas vezes que eu via as pessoas, tios principalmente falarem que eu devia dar netos, que eu devia casar por ser filha única e tudo mais... e eu ver minha mãe casar os meus primos, primas aquilo também me incomodava porque eu me perguntava também: “Puts, eu tenho o sonho de casar mas não o casamento que as pessoas veem, homem e mulher, não é esse casamento. Será que a minha mãe vai olhar pra mim do mesmo jeito?” Foi difícil? Foi. Mas ainda assim ela nunca desistiu de mim, ela mostrou a sua dificuldade em aceitar, ela mostrou a sua dificuldade em não saber do que se trata, ela veio e foi sincera nos seus sentimentos em dizer pra mim: “Olha, vamos procurar um curandeiro.” Porque ela achava que era uma coisa espiritual, e eu em momento nenhum me recusei a fazer isso, fui pra que ela pudesse perceber que não é essa a questão, entendeu. Então assim ela sempre foi uma pessoa que mesmo diante de tudo que as pessoas mostravam, mesmo ela não querendo ouvir das outras pessoas, querendo
195
ouvir de mim e não ouvia, mesmo assim ela nunca recuou e nunca disse “Não, eu não quero essa filha.” E hoje como mãe, nossa ela é uma super avó! Eu não sei se é porque o meu fato de migrar para cá mostrou pra ela o outro lado da vida, não é?! Porque eu me lembro que quando eu disse pra ela que a minha esposa estava grávida ela falou: “Olha, se foi o que Deus me deu, eu aceito de braços abertos.” Ela falou isso na minha casa, e antes de ela vir ela sempre pergunta agora se a minha esposa não vai se sentir incomodada, então é um respeito que ela buscou ter, não é?! Eu não quero saber se ela aceitou, mas eu sei que ela respeita a minha esposa, o meu filho que ela é louca por ele entendeu, então assim é o melhor presente que eu podia ter, então assim, eu tenho o maior respeito pela minha mãe e assim, tamos a viver (risos) né?! Estamos a viver. Eu acho que assim, a chegada do meu filho foi uma coisa que assim acabou revolucionando ainda mais essa relação minha e dela porque hoje em dia ela liga pra falar com ele não é pra falar comigo, entendeu. Então assim, é bonito de se ver, mas não é só esse lado bonito também porque tem minha sogra, que é o capeta (risos) é ela é, porque ela inferniza a minha vida mesmo tanto lá longe, entendeu, então eu sou xingada vocês não imaginam os nomes que ela me xinga, fala, mas em respeito a minha esposa eu não respondo, porque eu falo com a minha esposa, ela poderia ser minha mãe entendeu, não é mas poderia ser então eu não vou faltar com respeito a ela certo? E outra, minha esposa falou que quem me defende da família dela é ela, infelizmente do jeito que minha mãe recebe ela, trata ela, respeita ela, procura saber dela, como está, liga pra ela infelizmente eu não tenho a mesma coisa com a família dela entendeu, a pouco tempo até a gente conversou sobre isso né, ela fez mó cartona pra mim falando sobre isso, então assim a irmã as vezes tenta conversar comigo né mas você sente que não é a mesma coisa né, porque a minha mãe é diário, meu sobrinho fala com ela diário, se não fala comigo, não quer falar comigo quer falar com meu filho vai ligar pra ela entendeu, então assim, existe essa comunicação que com a família dela não existe não há isso de mandar mensagem pra mim “oi tudo bem?” não, não há que nem da minha mãe “a comprei um presente pra Mayra”, não há isso, mas
196
assim eu respeito. A minha mãe ela é, é um exemplo né, tipo de uma mulher que não sabe nada sobre a questão de sexualidade, de homossexualidade, mas que aceitou e abraçou a filha e que em momento nenhum rejeitou ela, assim tipo “É minha filha!”. Eu nunca gostei de andar de vestido, mas ela nunca me obrigou colocar vestido, nunca me obrigou a ser “Mulheer” né, como a sociedade queria que eu fosse. Então assim, eu respeito ela por isso, MUITO! E é saber que ela perdeu o lar dela por causa da filha e ainda assim ela não abriu mão da filha dela, então assim, a minha mãe tem todo um respeito assim. Ela é minha vida! Por isso que eu sempre falo dela assim, eu sinto saudade dela sim fisicamente, mas eu falo com ela todo dia, antes de vir pra cá eu tava a falar com ela, ela ligou pra saber do moleque também, então assim, ela é um exemplo assim, é uma pessoa que eu admiro e tipo quero ser, porque ela é guerreira. Ela tinha tudo pra entrar em uma depressão, pra fazer tudo, perdeu o lar, perdeu o marido, mas ela seguiu firme, tipo “é minha filha”. Ela criou inúmeros sobrinhos filhos dos irmãos, casou esses sobrinhos então eles têm uma gratidão também por ela que assim, tipo me confortar às vezes por eu estar aqui e ela lá. Já manifestei minha vontade de trazer pra ela ficar aqui, mas ela não quer, ela tem a vida dela lá, então assim quando ela achar que tá preparada pra vir ela vem, que aí eu que vou cuidar dela, entendeu.
EQUIPE: É a última pergunta (risos). O que seria olhar para o futuro pra você? Sabe, olhar o futuro, olhar para o futuro.
LARA: Eu acho que respondi essa, não?
EQUIPE: É, esperança.
LARA: Pra mim é. A gente pode usar outras palavras aí pra... mas esperança, porque assim é aquilo que eu falei, eu tive esperança de ter um recomeço, de chegar primeiro, depois de assistir a novela tive a esperança de
197
ir pro Brasil pá! Cheguei, esperança de recomeçar pá! Recomecei. Esperança de ter uma vida digna, formar minha família e hoje eu tenho isso. Não tenho tudo, mas tenho o essencial! Então
assim,
a
esperança
foi
essa
base
para
tudo
isso.
Então assim, tenho esperança de que as pessoas que estão em Moçambique, gays, lésbicas, trans, possam ter a mesma esperança que eu. Eu não falei aqui com vocês sobre uma coisa que me faz chorar, eu perdi duas amigas que cresceram comigo assassinadas em Moçambique, eu acho que vocês já viram em algum lugar, então é uma coisa que eu evito em falar porque me dói, e uma delas era uma que cresceu comigo assim, que a gente era tipo gêmea entendeu? Onde uma estava tava a outra, e cheguei aqui na minha esperança e não inclui ela entendeu, mas ela sempre foi aquela... E assim, infelizmente ela não tá aqui hoje. Quando eu tive a oportunidade de ir pra Moçambique e acreditar que ela não tava mais isso pra mim me doeu, e sempre que eu penso que se eu for pra Moçambique eu tenho que aceitar isso, me dói. Porque quando a mãe me abraça eu sinto como se fosse a minha mãe me abraçando entendeu, então assim, Foda.
198
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA SECRETARIA NACIONAL DE JUSTIÇA DEPARTAMENTO DE JUSTIÇA, CLASSIFICAÇÃO, TÍTULOS E QUALIFICAÇÃO 1. Natureza de Análise: marque apenas 1 opção:
☐X ANÁLISE COMUM Marque esta opção caso seja a primeira classificação da obra. Versão editada de obra já classificada, seja com acréscimo ou supressão de cenas, também é considerada “nova obra”. Portanto, este campo deve ser marcado.
FICHA TÉCNICA DE AUDIOVISUAL
☐ RECLASSIFICAÇÃO Marque esta opção apenas caso a obra tenha classificação indicativa atribuída antes de julho de 2006 e agora é submetida a uma nova análise sob a luz dos novos critérios de classificação. 2. Segmento de Mercado: marque o segmento no qual a obra será exibida inicialmente. Uma vez que tenha recebido a classificação definitiva pelo Ministério da Justiça, desde que não tenha sofrido alterações, a obra audiovisual está apta para qualquer outro segmento de mercado, sem necessidade de novo pedido de classificação ou aviso prévio ao Ministério.
☐ CINEMA COMERCIAL CINEMA ☐x HOME VIDEO (DVD, Blu-ray, streaming, etc) texto abaixo)
☐ MOSTRAS/FESTIVAIS DE ☐ TELEVISÃO (veja
2.1. Obras inéditas para televisão podem ser autoclassificadas pelo requerente ou classificadas por análise prévia pelo Ministério da Justiça. Contudo, você não tem esta escolha no caso obras editadas para televisão que já receberam classificação anterior igual ou superior a 12 anos: estas
199
devem ser classificadas por análise prévia. Marque a forma de classificação desejada para televisão:
☐ ANÁLISE PRÉVIA
☐ AUTOCLASSIFICAÇÃO
3. Categoria da obra: marque apenas 1 opção;
☐ Longa-metragem (70’’ ou mais) (até 30’’)
☐ Trailer
☐ Média-metragem (31’’ a 69’’)
☐x Curta-metragem
☐ Novela
☐ Episódio de série ☐ Conjunto de episódios de série ☐ Programa de TV
☐ Show Musical
☐ Outra_____________
4. Identificação e conteúdo da obra 1. Título no Brasil: Eu sou e estou aqui
2. Título original: Eu sou e estou aqui
3. Título da série: Eu sou e estou aqui
4. Ano da temporada: 2021
5. Ano de produção: 2021 6. Número do(s) episódio(s): 01
7. País de origem: Brasil
8. Distribuidor: Globo Play
9. Produtor: Ana Carolina Fiel da Silva, Paula Raphaela Teixeira Martins, Thamires Brito Affonso.
200
10. Diretor: Carine Giovana Santos
11. Elenco principal: Marifer Vargas, Lara Elizabeth Batista Cerqueira Lopes e Moisés Tiago António.
12. Cor:
13. Tempo de duração:
☐x Colorido ☐ Preto e branco
24’
☐ 35 mm internet
☐
☐
17. Data prevista de exibição:
☐ 10 anos
☐ 12 anos ☐ 14 anos
☐ 16
☐ 18 anos
16. Gênero:
☐ Drama
☐ Link de
☐ Cinema digital Outro________
☐ Livre
anos
15. Mídia enviada para análise:
☐ DVD/Blu-ray Arquivo digital
14. Classificação pretendida:
☐ Romance ☐ Comédia ☐ Faroeste
☐ Aventura ☐ Document ário ☐ Suspense
☐ Terror ☐ Guerra ☐ Cultura ☐ Policial
☐ Ação ☐ Animação ☐ Erótico
☐ Musical ☐ Ficção científica ☐ Outro_________
☐ Infantil
18. Emissora (obras para TV):
19. Praça de Exibição (obras para TV): ☐ Rede Nacional ☐ Regional:____________
13/11/2021
20. Violência: marque todos os itens que aparecem na obra ☐ Armas ☐ Ato Violento ☐ Cenas que Assustam
☐ Dor ou Sofrimento
☐ Morte / Assassinato
☐ Estupro
☐ Mutilação
☐ Exposição de Cadáver
☐ Sangue
☐ Ferimentos
☐ Suicídio
☐ Temas Angustiantes ☐ Tortura ☐ Violência de Forte Impacto
201
☐ Crueldade
☐ Violência Fantasiosa
21. Conteúdo Sexual: marque todos os itens que aparecem na obra ☐ Nudez Velada ☐ Nudez
☐ Linguagem Chula ☐ Linguagem de Conteúdo Sexual
☐ Relação Sexual Explícita
☐ Insinuação Sexual ☐ Relação Sexual
☐ Prostituição
22. Drogas: marque todos os itens que aparecem na obra ☐ Consumo de Álcool ou Cigarro
☐ Consumo de Drogas Ilícitas
☐ Tráfico de Drogas
☐ Consumo de Moderado de Álcool ☐ Consumo Medicinal de Drogas ou Cigarro Ilícitas
☐ Menção a Drogas
5. Interessado 1. Nome (pessoa ou empresa):
2. CPF/CNPJ (ou equivalente estrangeiro):
Abelha Produções
5. Endereço:
6. Cidade: São Paulo
7. Estado:
8. CEP:
SP 9. Email: producoesabelha@gmail .com
13. Observações:
10. Telefone/Fax: 11. Local e data: 13/11/2021
12. Assinatura:
202
Campos de Justificativa de Autoclassificação Preencha o restante apenas se você marcou a autoclassificação para TV no item 2.1 da página anterior. Para os demais casos, não é necessário enviar ao Ministério esta página nem a próxima.
1. Sinopse: Duas mulheres em situação de refúgio, venezuelana e moçambicana, trilharam caminhos diferentes para chegarem à cidade de São Paulo com um objetivo em comum: A liberdade.
203
2. Finalidades específicas: preencher apenas nos casos em que a obra apresente a finalidade. Deixe em branco se não apresentar. 2.1. Educativas:
2.2. Artísticas:
2.3. Culturais:
2.4. Informativas: Informações a respeito da pandemia de covid-19, em São Paulo no ano de 2020. 2.5. Respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família:
CONTEÚDO Assinale todos os itens presentes no conteúdo da obra. Para mais informações e descrições específicas de cada item, consulte o Guia Prático de Classificação Indicativa, disponível em português e inglês no Portal Online da Classificação Indicativa. FAIX A
Violência
Sexo
Drogas
☐ Violência Fantasiosa ☐ Presença de Armas sem Violência ☐ Mortes sem Violência
☐ Nudez não Erótica
☐ Consumo Moderado ou Insinuado de Drogas Lícitas
☐ Ossadas e Esqueletos sem Violência ☐ Presença de Armas com Violência ☐ Medo/Tensão
☐ Conteúdos Educativos sobre Sexo
☐ Descrições Verbais do Consumo de Drogas Lícitas ☐ Discussão sobre Tráfico de Drogas
204
☐ Angústia
☐ Uso Medicinal de Drogas Ilícitas
☐ Ossadas e Esqueletos com Violência ☐ Atos Criminosos sem Violência ☐ Linguagem Depreciativa ☐ Ato Violento ☐ Lesão Corporal ☐ Descrição de Violência ☐ Presença de Sangue ☐ Sofrimento da Vítima ☐ Morte Natural ou Acidental Violenta
☐ Nudez Velada ☐ Insinuação Sexual
☐ Ato Violento contra Animais
☐ Carícias Sexuais
☐ Exposição ao Perigo
☐ Masturbação
☐ Exposição à Humilhação
☐ Linguagem Chula
☐ Agressão Verbal ☐ Obscenidade ☐ Bullying ☐ Exposição de Cadáver ☐ Assédio Sexual ☐ Supervalorização da Beleza Física ☐ Supervalorização do Consumo
☐ Consumo de Drogas Lícitas ☐ Indução ao Uso de Droga Lícitas
☐ Consumo Irregular de ☐ Linguagem de Conteúdo Medicamento Sexual ☐ Menção a Drogas Ilícitas ☐ Simulações de Sexo ☐ Apelo Sexual
205
☐ Insinuação do Consumo de Drogas Ilícitas
☐ Nudez
☐ Morte Intencional ☐ Estigma/Preconceito
☐ Erotização ☐ Vulgaridade ☐ Relação Sexual ☐ Prostituição
FAIX A
Violência
Sexo
☐ Descrições Verbais do Consumo e Tráfico de Drogas Ilícitas ☐ Discussão sobre descriminalização de drogas ilícitas Drogas
☐ Estupro ☐ Exploração Sexual ☐ Produção ou Tráfico de Qualquer Droga Ilícita
☐ Coação Sexual ☐ Tortura ☐ Mutilação
☐ Relação Sexual Intensa
☐ Suicídio
☐ Consumo de Drogas Ilícitas ☐ Indução ao Consumo de Drogas Ilícitas
☐ Violência Gratuita ☐ Aborto, Pena de Morte, Eutanásia ☐ Violência de Forte Impacto ☐ Elogio/Glamurização/Apologia à ☐ Sexo Explícito Violência ☐ Situação Sexual ☐ Crueldade Complexa / de forte impacto ☐ Crime de Ódio ☐ Pedofilia ATENUANTES
☐ Apologia ao Uso de Drogas Ilícitas
206
☐ Composição de Cena Atenuante ☐ Baixa Relevância ☐ Pouca Frequência
☐ Contexto Esportivo / Histórico / Artístico / Cultural ou Científico ☐ Contexto Irônico ou Cômico / Caricato ☐ Contexto Fantasioso
☐ Insinuação / Simulação / Tentativa ☐ Motivação Justificada ☐ Contraponto ☐ Conteúdos Positivos
AGRAVANTES
☐ Composição de Cena Agravante
☐ Interação com o Expectador
☐ Alta Relevância
☐ Valorização de Conteúdo Negativo
☐ Alta Frequência
☐ Motivação
☐ Conteúdo Inadequado com Criança ou Adolescente ☐ Contexto de Impacto
207
208
209
210
211
212
213
214
215
216
218
219
220