Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 1
Complexo de Oleanna de Rafael VogtMaia Rosa
Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 2
Personagens João Berger, 47 anos, artista plástico, Campos, colecionador, 74 anos Luz de Sousa,arte-educadora Bryana, curadora Participante, Senhora Bart (sotaque anglo) Primo Caio, homem de 40 anos Performer, mulher de 30 anos Policial 1, Policial 2, Voz do Piloto Visitantes
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Cena 1 Motel.Luz de Sousa e Primo Caio estão deitados, nus. Toca ao fundo Cada um Cada um. Luz Você realmente parece meu primo. Primo Caio O mesmo tom de pele. (Cantando) “Quando a vida, me iluminou..., a minha luz... era você.”Dá pra acreditar que ninguém quis gravar essa canção? Luz Zoli é o mestre dos magos para mim. Bendita a hora em que me fez as honras.Mas a prova do seu bom gosto veio mesmo quando te pedi para me tirar da festa porque estava menstruada e você acabou fazendo outra festa, transformando o quarto do motel no Desvio para o Vermelho. A expansão do universo. Primo Caio Água mole em pedra dura. Luz Mas com um exagero..., uma intensidade. Você não sabe parar, Caio?Nunca vi gostar tanto de chupar uma buceta. Primo Caio levanta-se da cama, pega algo em sua mochila e dispõe sobre a mesa. Primo Caio Só se for a sua. (Pausa) Quer ver? (pega uma pistola embrulhada numa flanela. Manuseando) Acabou o tempo de fingir que atiro desde criança. Luz (Luz levanta-se da cama e veste um vestido leve).Gostei do que fez, sua atitude quando mandou todo mundo guardar os cigarros eletrônicos e serviu aquela erva maravilhosa. Sexta-feira, os monitoressaindo... Acho que está indo bem.Só não precisa encher a cara com o pessoal do restaurante até às quatro da manhã em véspera de abertura. Primo Caio (guarda a arma, escapando da abordagem, e pula de volta na cama entusiasmado.) ... Sabe o que eu pensei? Luz Presta mais atenção, Caio... Estou te pedindo. Primo Caio Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 4
no instituto vocês não ensaiam pra falar? Não é assim tambémnos seus relatórios como cotista? Luz O que isso tem a ver com sacralidade do solo? O que quer que eu faça? Primo Caio Eu queria que voltasse aquie se sentasse na minha cara. Luz (Prepara-se para sair, incomodada) E quem vai filmar? Primo Caio Quem falou em filmar, aonde vai? Estava brincando. Luz Na sua escolinha de tiro você não aprendeu a usar as mãos? Se vira! (Abrindo a porta pra sair) E eu só vou dar para você de novo quando perder essa barriga nojenta. Você é um cara jovem ainda, tem obrigação de perder esse troço. Segurança com barriga é miliciano, e eu não transo miliciano. (Quase arrependida do que falou.)Está tudo bem...Fica em paz e curte aí o seu presente de aniversário. (sai)
Cena 2 Avião de grande porte. Berger ...embarquei e peguei no sono. Esse negócio chapa, apaga a luz na hora, você sabe. (pausa) Por que escolheu esse lugar, quer trocar? Campos Pelo contrário, preciso poder levantar, aqui, quando quiser... Esse problema na coluna. Berger Desde quando você tem problema na coluna? Campos Essa mesma aeronave, digo, um A330. Berger Como é que é? Campos Desde 98, um cisto sinovial em L5 com S1. Jantar é servido.
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Berger Divide comigo? (indicando uma garrafa de Pinot) Campos não estou bebendo. Berger se serve do vinho. Berger (suspende o copo) Saúde. (pausa. Bebe sozinho) O que está lendo? Campos (mostra a capa do livro) “Oleannas”. Berger Mamet? Campos Quase isso, na linha do Mamet, “o mamadeira”. (lendo a contracapa) “Os meus melhores amigos nunca tiveram coragem suficiente para dissociar estética da política do compadrio.” Sabe como é o trato desses aloprados. Mas aqui tem convicção de sobra. Berger Lê, por favor. Campos (apresentando a história) Ela é uma garota humilde, descendente de indígenas. Começa a trabalhar como bibliotecária, lendo para deficientes visuais. Tudo indo bem até que um “jovem empreendedor” a conhece em uma cerimônia na prefeitura e a convida para um programa de residências, em sua fazenda, a cento e cinquenta quilômetros dali. Vou ler para você enquanto come esse frango. (lendo) “...Mas, até aí, seria apenas uma extravagância de um homem não tão maduro, mas lindo, delicado e muito influente. Difícil descrever a ansiedade de todas nós naquela tarde de sexta-feira. O sol se pondo, uma atmosfera de dúvida no ar. (Pausa)Ficamos hospedadas em uma nova ala que ele construiu especialmente para o programa. Quietas, algumas mais assustadas. Depois da ceia, recebo uma mensagem com ele me chamando reservadamente para me mostrar a segunda pedra mais cara da coleção, um primeiro teste de convivência... Acabei chorando pela terceira vez, quando me pôs nas mãos a turmalina da Faixa de Thomas, nas montanhas de Utah, e, com gestos sempre gentis e elegantes, leu comigo o horóscopo do dia: ´aqueles que são predestinados à união, quando um príncipe e sua dama chegam a um mútuo depender, devem vir um ao encontro do outro.” (Pausa) Pensa assim: eu não tenho filhos, não posso saber.Mas se aquela fosse sua filha, te juro, vai ler uma coisa assim e pensar em castração química a cada página.
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Berger apaga. Horas depois. Campos cutuca-o para acordá-lo. Campos Ei! Berger (um pouco assustado) Onde estamos? Campos Estava dizendo um monte de merda aí. Alto! Berger (Se recompõe. Pausa)Sonhando com o Telles... Ele ficava repetindo, bêbado, que eu havia passado por cima dele e que havia mais consistência dramatúrgica na transcrição dos quatro minutos fatais do Air France 477 do que em todo o programa de fomento ao teatro do Sistema S. Campos Aí, sim, você tem um duelo importante entre tecnologia e natureza. E um som aerodinâmico terrível jamais ouvido por um ser humano. Berger (alheio) Pois tem de haver uma maneira de remediar... esse novo conselho está fazendo lavagem cerebral no educativo. Outro dia me enviaram um warning por eu ter dito “lápis cor de pele” em um podcast de apoio, sem perceber que estava ofendendo muitos ali. Aliás, você leu o que esse palhaço escreveu sobre minha sala? Campos Não leio mais jornais brasileiros. Berger ... dá uma olhada nisso (enquanto pega o jornal)Essecara vê o trabalho do Doug Aitken como um vibrador gigante, é inacreditável! Veja só (Lendo): “Berger, por anos praticamente um curador-adjunto durante a gestão mais controversa da instituição, de volta de mais de um de seus retiros sabáticos, em Paris, apresenta um conjunto escultórico em alumínio policromado em que quer retratar as vaginas de mulheres com as quais se relacionou nos últimos anos... (Pausa) Ainda mais infeliz é a nota de que a instalação chegou a ser apelidada de Pompéia, numa referência ambígua ao desastre de Mariana. Ora, isso é bem diferente do que vemos nas obras que tiveram a sensibilidade para captar a terra em sua fragilidade inerente, e se constituíram como um prenúncio do segundo desastre.” (Tosse funda) Dá para acreditar numa bosta dessas? É de um ressentimento tão anal, você não acha? Quer dizer, o cara chega e diz simplesmente que o artista produziu trabalhos sérios e outros menos, com sério querendo dizer que são obras que comentam o impacto de desastres ambientais
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que ainda não aconteceram? Puta que o pariu! Isso, sim, é o improfanável. Campos A discussão sobre o “lápis de cor” é uma bobagem, porque querer pensar e ter talento para isso é que são coisas realmente diferentes e a obsessão causalista desse pessoal é triste, o Adorno deve se revirar no túmulo toda vez que vão ao Lincoln Center e saem falando que o Concerto Número Cinco é morfologicamente inferior ao Tríplice. (Pausa) Agora, a aluna enviar um poema chamado A Minha Vagina é Minha Vagina para o grupo de whatsup dos colegas, com uma foto da própria vagina menstruada, dizendo que “quem mente nunca terá”, ou coisa que o valha, aí é diferente, aí você pode ter até uma peça jurídica, dependendo de até onde se queira levar. Esse pessoal que faz o miliciano falar a língua do Scorcese, a fórmula épico/hipernarrativa, a cópia perfeita, digamos, aí você consegue trazer o monstruosismo e o “impessoal”, do Esposito, tudo junto. Berger ...um pesadelo que vai deixar todo mundo realmente assustado... Campos Sim, com muito mais medo, porque o espectro do chumbo está se ampliando e o dedo da morte toca os mais inocentes e vulneráveis, indo para a escola. Turbulência amena. Berger ...E isso está na internet e tudo mais? Campos (Irrita-se) É claro que não está na internet, me admira você. Se estivesse, tinham fechado o parque. É preciso ter muita obstinação para conseguir explorar um nicho desses, não dá pra resolver como está pensando, na flauta e clave marxista. Berger Pois é... Eu preciso te falar sobre essa moça… Campos Moça?... Deixa eu pensar aqui... (Pausa) Olha, sobre isso você vai me desculpar, mas eu não consigo falar sem beber. E, como você percebe, não estou bebendo. (leva a mão à cabeça). Berger Você está bem, quer uma água? Campos
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(aceitando a água numa garrafa plástica oferecida por Berger) ... Escuta: o feio entrou na arte por conta de camponeses que aprenderam um ofício, quem sabe? Mas isso não tem nada a ver com justiça social, com sacralidade do solo. Você não é um ideólogo. O que eu sinto, às vezes, é que vai chegando o final do ano e começa a ficar com o coração batendo como um a lebre. É uma afobação que não cabe mais, você vai indo, indo... Berger Não me dê exemplos, por favor. Campos Não, agora você me desculpe, vai ter que me ouvir: quando perdeu a cabeça na casa dos Dupprast, a Angélica me escreveu. Berger está louco pra me contar uma merda dessas, nessas alturas? Campos Ela me disse que pensaria a vida inteira sobre ter aberto mão de se casar contigo, que era o príncipe que nem a realeza poderia lhe dar. Mas, que quando você começava a beber, usar suas coisas, e falar sobre teoria de gênero, era como o próprio Arimã encarnado, um clown autodestrutivo de uma violência verbal sem par na arte brasileira. Berger Ela não te falou isso. O que quer dizer com essa história? Campos Você precisa receber esses caras, João. Quero que ouça eles e depois deixe que tomem as providencias e achem que estão mudando tudo, limpando a casa, convertendo os fiéis. Afinal, você é um artista e artistas não mexem com isso, anymore. Não pode ser uma questão. Berger Me abala muito te ouvir falando desse jeito. Sinto saudades das vezes em que estávamos nesse mesmo “retorno ao poço”, celebrando as virtudes do nosso próprio pedaço. Campos Faz o que quiser, só não me obrigue a rever nosso acordo e pense que é o momento de agir e sair desse seu estol. (Pausa) Sabe... é impossível que não possa se sacrificar um pouco pelo seu próprio trabalho. Silêncio. Berger aprendi muito contigo nessa vida. Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 9
Campos Acho que não. (Pausa) A pergunta é: você não tem vontade de inscrever o mito na realidade? Não tem vontade de se antecipar ao problema e resolver o trabalho numa consistência fora do puro desastre, criando algo que possa ser tecnicamente transformado em valor cultural? Berger Continua, por favor. Campos São três valetes e uma dama. Até onde se pode ir com um tema que seria presumivelmente ultrajante? Você tem moral para destacar a vida privada do piloto mais velho que saiu da cabine para descansar segundos antes deles entrarem na Zona de Convergência Intertropical? Especular sobre a notícia de que ele teria passado a noite anterior ao voo, no Rio, com uma cantora lírica com quem tinha um caso? Seria a voz dela a nos devolver, dez anos depois do acidente, conhecido de toda parte, mas que ainda não tem um valor mais específico, não existe como fato estético? (Pausa) Agora, você não deve demonstrar uma intimidade promiscua com a Natureza, porque se fizer isso, não vão te perdoar nunca como heterossexual, branco e católico nas horas vagas... que vive no exterior. Berger Amém.
Cena 3 Instituto. Palco de um talkshow com luz natural. Um grande jardim com lagos e pavilhões modernistas ao redor. Trechos de um teste de som de Bossa Nova. Bryana está sentada em uma cadeira moderna brasileira. Berger aparece no telão em uma projeção de uma reunião por Zoom. Falam diante de uma plateia. Bryana ...que também se considera um escultor porque já vi você afirmar que Pompéia não é propriamente uma instalação, que são esculturas com som. Berger Acho que para um escultor, uma peça sonora é sempre mais atraente do que a própria matéria dada. Agora, isso é muito diferente de dizer que os melhores trabalhos do instituto são aqueles conectados com a terra, como se o pênis do Matthew Barney e orifício do Doug Aitken fossem espécies literais de sismógrafos ou termômetros de engajamento, opondo um corpo espiritual a um corpo marxista, histórico, ou algo assim, essa autoconsciência construída numa Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 10
redação de jornal por um grupo de três ou quatro pessoas que veem no mundo da arte o único lugar em que al ser reconhecidas, porque nem na Universidade conseguiram se destacar... isso é cascata, mentira, absoluta desonestidade intelectual. Como diria uma amiga de Florianópolis, isso é como a vetorização de aves canoras no Oeste Catarinense. Uma hipercorreção num nível protocolar, digo burocrático, literalmente. Agora, o trabalho como documento jurídico me interessa e o peso e teor de um Richard Serra, seu enorme pau na mesa ou nos fundos da instituição museológica, o tamanho do pênis vai continuar sendo uma questão incomoda para o banco se os herdeiros forem homens, quer dizer, para a coleção, seja ela qual for. Agora, exaltar a falta de lirismo do Burden é apenas ignorância, uma visão pobre mesmo... (Pausa. Bebe algo em uma caneca de cerâmica) Até me perdi aqui. Me desculpem. Mas é isso: se pra apreciar uma obra a gente tem que abrir mão, de cara e para sempre, de qualquer possibilidade de identificação, de desejar algo, de se iludir minimamente... de se envolver com aquilo de qualquer maneira que não seja puramente intelectual, aí eu acho o fim, a morte da coisa toda. Bryana E o título e a relação com o desastre de Mariana, você me desculpe falar assim, mas não é um pouco apelativa a demonstração desse nível de intimidade com a Natureza, talvez um pouco como ter feito um pedido de casamento, ao vivo, em meio a uma tragédia que tirou a vida de tantas pessoas? Rojões aleatórios e distantes. Berger pega e toma um copo de água. Digo, o título e o fato de uma das colaboradoras do projeto, ter esse mesmo nome... Berger Marina... Olha, todos aqueles que sentem que esse clima mais positivamente erótico não combina com o tipo de efemérides do A-I 5 que estamos presenciando em termos de uma nova política para as armas, respondem a uma tristeza, à tortura, ao sofrimento real, às mortes e aos negócios mais obscuros com os EUA, na época da Guerra do Vietnã. Mas não posso falar por eles. O seu nome, mesmo a grafia dele, entende? Bryana Absolutamente não, o que quer dizer? Berger (visivelmente enebriado) Será que nossa mensagem para o mundo, em 1970, não era praticamente a mesma das pessoas nas esquinas nevadas de Manhattan: “Don’t forget Christmas is right around the corner?” (Pausa) O sistema de arte paulista está na época do feudalismo. Os marchands melhores ranqueados chantageiam seus artistas com uma Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 11
agenda que também tem suas veleidades conceituais, um hermetismo deliberado, muitas vezes, canhestro. Jantares secretos, congelados. De qualquer maneira, um modo de ser importado de algum estabelecimento no Chelsea, um jeito frio, autoritário, burro de lidar com a cultura em geral e a arte muito em particular. É aquela velha história de só acreditar na eficácia da mais pura e aparentemente desinteressada agressividade. Chamar o concorrente de “lixo”, como em uma novela das 8. (Bebe da caneca.) Não abrem na 2ª feira, dá pra acreditar? Reação tímida da plateia. Música. Bryana Em uma entrevista recente você afirmou que “havia mais consistência dramatúrgica na transcrição dos quatro minutos finais do diálogo dos pilotos do voo da Air France que caiu no Atlântico do que em todo o teatro fomentado pelo Sistema S.” O que quis dizer pra além da piada? Berger Já ouviu esse áudio? Bryana Na verdade, não. Berger (discretamente delirante) Pois, então, não é uma piada. Chegamos infelizmente a um ponto em que a favor de uma certa justiça e coerência o artista só encontra alguma reciprocidade se abordar algo que diga respeito a experiência da maioria que, na verdade, é aquela mesma minoria de que te falei, quatro ou cinco pessoas que ainda têm uma vida sexual ativa e querem transformar as artes num namoro, numa troca de segredos e favores. Bryana Bom... (incomodada) alguém gostaria de... Berger (atravessando a fala de Bryana) O senso comum foi se estabelecendo assim, especialmente nos últimos quinze anos, como uma obrigatoriedade, um valor pedagógico/didático, se você quiser. O fato é que também no campo da cultura nós estamos com informações encobertas, zonas aparentemente neutras que a cumplicidade entre a universidade e mercado está levando a um processo de estolque vai se tornar, em pouco tempo, irreversível como no voo que mencionou. Bryana ...que você mencionou. (apontando para Berger com discrição) Berger
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Verdade, me perdoe. (Pausa. Bebe da caneca) O que eu estava querendo explorar era mais o seguinte: ao ter que abrir mão do processo de identificação, por qualquer razão, por patrulhamento ideológico, por exemplo, você ganha uma nova dimensão de verossimilhança, qual seja, um processo em que a performance é a inscrição instantânea de uma ficcionalidade. (Pausa) Sabe de uma coisa, eu uma vez toquei piano para ele e cantei um inglês homofônico. Ele me disse: “é esse o único jeito certo”. Esse grau de alienação, compreende? Mas é também uma sintonia especial e, no caso dessa primeira sala, isso veio do que chamou de “mobiliário sonoro”. Como não poderia deixar de ser, é a história de uma amizade. Porque era muito difícil não se encantar pela sensibilidade dele, pela maneira como ele descrevia as coisas ao seu redor. E ele trabalhou a vida inteira com o dinheiro, mas isso sempre esteve associado à palavra. Então ele era um pouco um portador da verdade e um pregador, avant la letre. (Pausa) Por outro lado, é fato também que ele comprou todas as peças de minha primeira exposição individual, financiou toda a série que faria no ano seguinte, até chegarmos aqui a esse lugar. Eu não preciso te dizer que foi um outro momento, a era do filho, o Filiarcado. Naqueles tempos, nós ainda não estávamos submersos numa negatividade absoluta, na desconfiança total. Pelo contrário. E isso gerava ainda mais potência para todos os envolvidos, obviamente, muito mais. Era toda uma convivência baseada na própria manutenção permanente da confiança nesse lugar e em nós mesmos... num outro grau que, pelo que vejo, vem se perdendo. Enfim,nosso poço foi poluído pelasobras para as Olimpíadas no Rio. Bryana Concorda, de todo modo, que é difícil saber se é a favor de explorar esses aspectos mais polêmicos como a pornografia associada à morte trágica? Berger Como seria isso? Bryana A ideia de que uma mulher possa se submeter a um processo de moldagem ao vivo, em sua zona genital? Berger Nem por isso temos o direito de condenar o trabalho de artistas nascidos no Brasil porque são heterossexuais ou mesmo brancos ou porque não estão filiados aos organismos de esquerda que não sejam a própria universidade e que tiveram alguma experiência ou vivem no exterior. Não é possível mais sustentar essa polarização em que você só consegue se estabelecer pelo desastre do outro, compreende? (Pausa) Mas talvez você tenha razão quanto à moldagem, ao vivo: nós somos fracos e, na vida privada, fazemos aquilo que condenamos no comportamento, na vida social do outro.
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Bryana Você é quem está dizendo. Berger Exatamente. E isso foi destruindo, sem que os artistas mesmo percebessem, todas as possibilidades de uma nova consistência. Bryana Ainda assim... Berger Diga, por favor. Bryana Para mim, parece apenas uma crítica. Berger (mais nervoso e acelerado) Só se for uma crítica não-especializada, porque não se trata, como esse repórter diz, de uma “representação”, que eu “queira representar as vaginas das mulheres com quem me relacionei”, e isso ele sabe bem porquecita o ensaio da Rosalind Krauss. Essas peças foram feitas a partir de moldes tirados diretamente em seus referentes, ou seja, nos corpos dos que participaram. São como fotografias. Não há representação, visão pessoal, muito menos um meta-crípticopaternalismo ou uma risível glamourização de minha vida sexual. E talvez aí esteja o que constrange: foram feitas apenas a partir da disposição dessas pessoas para fazer parte..., a vontade delas de, digamos, assim, transformar algo absolutamente íntimo e privado, em algo público. Ou seja, é uma suspensão momentânea do pudor e da imolação diante do que se apresenta. (bebe mais água) E, se isso passou pela cabeça de um homem branco, não significa que seja menos justo. Silêncio. Algo vindo da plateia. Bryana (Olhando como se procurasse) Parece que alguém quer falar... Luz de Sousa, de algum lugar da plateia, levanta-se e pede o microfone. Luz (com um microfone na mão) Olá, sou Luz de Sousa. (Pausa) Vocês estão me ouvindo? (esperar uma reação da plateia que não vem)Trabalho como monitora aqui no educativo do instituto e, como você mesmo diz em um vídeo, ninguém deve se privar de interromper uma formalidade porque é necessário algum tipo de gafe para que algo realmente importante seja dito... Enfim, eu queria dizer que acho as críticas formais ao seu trabalho, ao menos pela minha experiência com o público daqui, em geral, bastante genéricas. E entendo que o mais Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 14
importante no caso dessa sua nova sala seja mesmo se contrapor a uma anodinia do minimalismo norte-americano, quer dizer, no lugar da neutralidade dos cubos de Donald Judd em Marfa ou dos tijolos de Carl André, ou mesmo do peso institucional de um Richard Serra, do poder de uma “obra jurídica”, como você chamou, até o delírio ególatra de alguém capaz de confirmar indiferença em relação ao suicídio da própria companheira. Quer dizer, você nos revelaria o sexo em estado puro, essencial, transparente, de pessoas com as quais desfrutou de real intimidade, de qualquer maneira, inclusive ao produzir o molde, certo? Aparente falha no áudio. (retomando) Acontece que no texto de apresentação da instalação, há, sim, algo que me deixa bastante confusa e desconfortável e sobre o que eu gostaria de te pedir para falar um pouco, se não se importar, claro. Está aqui: (desdobrando uma folha de papel sulfite. Lendo) “o princípio obscuro, após ter sido eliminado, ressurge furtiva e inesperadamente no interior, abaixo. O princípio feminino, por sua própria iniciativa, vai ao encontro do masculino. Esta é uma situação perigosa e desfavorável, cujas possíveis consequências devem ser compreendidas e prevenidas a tempo.” (Pausa) isso não é a quinta essência da misoginia? Berger (para Luz, ainda oculta na plateia) Qual o seu nome? Luz Luz de Sousa. Berger (Tentando enxergar de longe, com a mão contendo o sol) Você é descendente de índios? Bryana (para Berger, interrompendo, diretamente) Indígenas, você quer dizer. Silencio. Berger Precisamente. Me desculpe, mais uma vez. Luz (no microfone) Isso faz diferença? Berger (atravessando Bryana) Nossa, mas é claro que faz! Você falou com brilhantismo,com toda propriedade sobre o trabalho e eu sou muito grato por sua apreciação. (Pausa) Muito obrigado. (Pausa) Mas sinto Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 15
que quanto ao seu incômodo, revolta até, quanto ao IChing, há diversos problemas envolvendo a tradução desse livro para o inglês, a edição norte-americana, ao menos, diferenças de entendimento do que seja a competição, o dinheiro, o universo profissional, espiritual também, diferentes valores culturais. Eu recomendo a leitura da tradução francesa que eu posso te emprestar assim que voltar ao Brasil. Luz Não, não! Você não chegou a me responderà questão sobre a misoginia no texto de apresentação de sua sala aqui no instituto. Por favor. Berger Você encontra, aí, de novo, a Guerra do Vietnã, a mercantilização do Natal. Silêncio. Luz faz o sinal de loucura com o indicador em torno na cabeça. Berger O que eu quero te dizer, é que as palavras não dão conta. No caso desse prefácio, trata-se mais da tradução de um gesto. Não se trata da distinção morfológica entre masculino e feminino em português brasileiro, na internet. Estou falando do mesmo gesto que leva a pessoa a consultar um oráculo. Por isso, a leitura do texto, nesse caso que você trouxe, foi tomada como um dispositivo. Porque o artista nem sempre faz a obra para afirmar sua subjetividade, mas na busca de um sinal, da revelação de quem ele realmente é em um processo dinâmico. Eu não costumo consultar com frequência, mas, num determinando momento em que enfrentei uma crise pessoal muito grande, acabei fazendo isso e, se tivesse continuado com a leitura, já no próximo parágrafo, está escrito que: “aqueles que são predestinados à união, entre os quais há um mútuo depender, devem vir um ao encontro do outro”. O que para mim significou superar o constrangimento, nossos familiares, nossos colaboradores diretos, o artista e sua assistente ou modelo, por exemplo, mudar de nome, inclusive. É um pouco do que eu aprendi quando estive na China, em 98. Bryana Alguma outra pergunta dos presentes? Luz (insistindo) E como fica a ausência do seu próprio corpo nesse processo? Quer dizer, suas performances sempre envolvem a nudez feminina, mas onde está o seu próprio corpo nisso tudo? Berger Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 16
Sempre estive presente em todas as etapas. Cá estou. (Levantando-se e ficando de pé diante da câmera na altura da cintura, abrindo os braços, como se desarmado) Luz Vestido. (fim da cena 3)
Cena 4 Berger está andando distraído, fumando maconha, descendo uma rua em direção à esquina. Percebe que um grupo de policiais faz um Cooper matinal. A fumaça da maconha chega aos policiais que esperam o sinal vermelho para atravessar a rua. Um deles olha em direção a Berger que, no susto, resolve engolir o cigarro. Dois policiais se destacam e se aproximam para a abordagem. Policial 1 empunha uma pistola que aponta na direção das pernas de Berger. Policial2 (seco) Documento. Berger entrega sua carteira. Policial2 Você tem mais maconha aíalém do que engoliu? Berger Não. Policial2 revista Berger. Policial1 Estava indo aonde? Berger À papelaria. Policial2 (Mostrando a carteira de Berger para Policial 1) tá explicado. (Passa o documento para Policial1.) Esse aqui éda universidade. Policial1 (checando o documento, ainda empunhando a arma) Mora onde? Berger No Rio de Janeiro. Estou hospedado aqui em um hotel no Centro.
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Policial 1 guarda a arma no coldre, adianta-se um passo, e dá um tapa leve na cara de Berger. Policial 1 A mamata acabou pra vocês. (Retrocede à posição inicial. Para Policial2) Pode devolver os documentos do nossoprofessor. Policial2 joga a carteira e o documento de Berger no chão. Policial 1 (pausa) Agora você vai fazer o seguinte: você vai voltar pro seu hotel no Centroe passar o resto do dia pensando em porque é um esquerdista maconheiro filha da puta que não sabe respeitar os outros. Policiais se reagrupam e seguem com o cooper. Berger pega seus documentos e carteira no chão, vira-se e vai. Caminha, respira, tenta se acalmar, continua caminhando até que para e liga para alguém do celular. Pega um cigarro e começa a fumar aflito. Berger Alô, oi, tudo bem? (Pausa) É João Berger falando. (Pausa) Me aconteceu uma coisa muitochata. Estou precisando desabafar (Pausa) Não, não bebi, estou nervoso mesmo. (Pausa) Sabe aquele crítico de que te falei, que havia me convidado para essa exposição na Holanda? (Pausa mais longa) Isso mesmo. Pois ele me escreveu ontem de madrugada um email inacreditável. Disse que minha ideia, na década de 1970, teria facilmente a alcunha de “chupadora”, me chamou de “chupador”. Disse que não tenho voz própria. Olha, foi tão estranho e chocante que eu tive vontade de mudar de nome. (pausa) sim. Aquela sensação de irrealidade, mais uma vez. (Pausa) Fiquei pensando se não é o sinal que faltava de que me falou e se teria disponibilidade para me receber para uma conversa.
Cena 5 Confraternização noturna no Instituto. Luz está sozinha num amplo deque de madeira externo, enquanto uma reunião de pessoas com música acontece em um dos pavilhões. Ela segura uma taça de Champagne. Berger se aproxima empunhando um copo igual, que estende num brinde. Berger Luz de Sousa énome de artista. (Brinda, bebe) Luz (Brinda,bebe)Talvez eu tenha passado a impressão errada na sua entrevista. É um lindo jardim.
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Começa a tocar à distância, na festa, uma versão da música “The Look of Love”, de Burt Barcharach. Tempo. Berger Essa talvez não seja a melhor versão..., mas vocêquer dançar? (estende a mão para Luz.) Começam a dançar com discrição e tranquilidade. Berger Algumavez já saiu do Brasil? Luz Nunca. Berger Farei uma exposição individual em Londres, no semestre que vem, e preciso de alguém que possa dialogar comigo. Luz E está me convidando? Berger se me permitir, posso resolver isso ainda hoje, estão todos aí. Luz Será que é tão simples? Esse trabalho é tudo para mim. Berger para de dançar, atira o copo longe, coloca a mão em um bolso do paletó e tira um maçorobusto de dólares. Ele põe o dinheiro, com gentileza, nas mãos de Luz. Luz (Incrédula, com o maço na mão) O que é isso? Berger É para você poder pensar com tranquilidade até o momento da partida. Luz Você não me conhece. Berger Conheço o suficiente para saber que faria toda a diferença. Luz É assim que você trata uma mulher que te parece imprescindível? Berger Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 19
Eu pensei em te pedir em casamento na palestra, mas senti que pudesse achar um pouco precipitado. Luz Eu vou te falar, então, o que eu acho que é precipitação. Não é o que o texto diz, a palavra, mas o seu comportamento. Você não respeita porque na verdade não conhece uma mulher. Por isso é agressivo e adora falar para os seus amiguinhos de troca-troca que não consegue ir para Porto Alegre sem comer uma gaúcha.A sua autoconfiança é simplesmente ridícula, especialmente o delírio em relação à importância do próprio trabalho.
Cena6 Motel. Primo Caio está vestido, sentado à mesa pensativo, diante do maço de dólares. Luz está deitada na cama. Luz Que foi? Primo Caio são US$ 18.800 dólares. Luz Sentiu o cheiro? Primo Caio Sim e fiquei com a sensação ruim de que foi nossa última vez. Luz Para com isso, Caio! Essa atitude não tem nada a ver. Caio Na nossa proximidade, sempre me fez achar que estava tudo à mão, garantido, que você fosse uma coisa da terra, nossa, minha...e quando eu percebi... Luz Como assim? Percebeu o quê? Primo Caio Desde que comecei o curso de tiro pra conseguir a licença, perdi dez quilos e você nem notou. Luz Por favor... Primo Caio
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Não era o que queria? Por acaso o meu pau cresceu e você sentiu mais prazer? Luz São quatromeses. Primo Caio ...ora, sabe muito bem que não é disso que estou falando. Levar um maço de dinheiro para uma festa e apresentá-lona primeira conversa falando que é o preço de uma inseminação artificial em Nova Yorknão me passa pela garganta. Luz Elenão queria que tivesse dúvidas a respeito da oferta: um tanto suficiente para começar uma nova vida. Às vezes sinto que não preza a liberdade e a chance real de ter uma “nova vida”. Primo Caio É essa sua religião,mudar de vida? Luz Deveria ser.Acho que a gente está indo pelo caminho errado aqui. Somos primos, e sobreviventes. Não tem essa de amor branco e choroso entre nós. Agora temosque atravessar isso, mesmo à distância, e ajudar um ao outro a passar por essa, seja o que for. Não foi você que me falou que bastavam quatro tragadas, e um pouco de desafio? Qual o problema agora, Caio? Primo Caio leva a mão a testa como a esconder o rosto. Luz reage se levantando, pega um vidrinho com cocaína e dispõe três carreiras à mesa. Cheira uma, as duas outras sinaliza que são para ele. Ele cheira e se recompõe, mais confiante. Luz Temos muito trabalho pela frente. (prende o cabelo com um elástico)Um dia tudo isso voltará a ser um grande jardim... Até lá, nós somos a atração principal.
Cena 7 Avião de grande porte, sobre a Europa. Classe econômica. Turbulência. Berger está de olhos fechados, rezando em voz baixa, sentado à janela. Luz, no corredor. Há uma cadeira vazia entre os dois. Luz Não imaginava que fosse religioso. Berger Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 21
Acho despeito voar assim sem me submeter e pedir por proteção. Luz Não é por conta da ressaca? Berger Que ressaca? Luz Está exalando álcool. Berger Há uma pessoa entre nós... (referindo-se ao assento vazio) Deve ser esse desodorizador que eles dispõem nos banheiros. É a nova coqueluche da Virgin. A cada vez que alguém levanta e passa para ir à fonte, o toilette. Luz Só falta você me dizer que fica excitado com o cheiro de ozônio na roupa das aeromoças. Berger Já sentiu? Luz pensei que fosse tudo o que um artista fizesse hoje em dia, voar, um“senhor das nuvens”. Berger Por exemplo? Luz Um boquete num 777. Tipo um troféu. Berger Um souvenir oral, você quer dizer? Olha, que lindo trabalho... (pausa)Está a fim de continuar com a gravação? Não vou ter coragem de dormir agora. Quem sabe não faz a pergunta clássica que Bryanaesqueceu de me fazer, sobre minha primeira epifania? (rindo ironicamente) Luz (Põe o celular na mesa aberta do assento) Está gravando... Berger faz um sinal de que está disponível. Luz você não quis ter filhos? Berger Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 22
Nunca contei isso, mas, agora que ele não está mais entre nós, é importante lembrar. Na época, era moda um colecionador participar de um processo de recuperação, escolher um artista jovem acompanhá-lo no rehab. E o ritual acabava com uma primeira obra “de cara limpa”, uma espécie de vestibular ou colação de grau. A minha primeira internação durou dois meses.Depois foram quatro..., decisivos para mim. Não preciso te dizer o quanto estava ansioso por demonstrar toda a minha gratidão. Resolvi, então, arriscar tudo em uma “homenagem”. Aluguei um enorme galpão em Niterói e dispus ali dezenas de peças em resina poliéster pigmentada, criando uma espécie de paisagismo com corpos cristalizados.Algo, assim..., imenso. (Pausa) Nunca vou me esquecer da expressão dele, um misto de decepção verdadeira e realincredulidade. Me disse, sem mais, que se fosse para me aventurar pelo campo da demagogiaque o incluísse “fora dessa”, que de nada valia o tratamento se não fosse para apontar para quem eu era de fato. Luz E o que você fez? Berger Bebi. Bebi muito...e acabei pagando para quemoradores de rua ali me ajudassem a jogar os corpos no mar. Luz Só não me diga que isso foi registrado por você mesmo, incógnito, que eu vou achar que é um plágio da ação do Artur Barrio. (sons eletrônicos da cabine) Voz do piloto Ladies and gentlemen, here isAidanColares, your captain (sons de uma conversa paralela) We try all indicated procedures and still have a critical problem with the landing gear(pausa) We will return to Orly Airport, where I asked for an emergency landing. Reações de angústia e algum desespero entre os passageiros. Luz isso sim éincomum. (chorando de nervoso) Berger Não significa o que está pensando. Me dá a mão. (estende a mão para ela) Luz Preciso de uma água, por favor. Berger providencia com presteza uma garrafad´água. Luz pega a garrafa. Bebe. Olha para Berger que voltou a rezar, baixo, e de olhos Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 23
fechados. Luz observa, aflita, até acompanhá-lo fechando os olhos também.
Cena 8 Sala de um apartamentomodernista com plantas e estantes com muitos livros. Bryana toca a campainha. Berger está com a cabeça embrulhada em uma toalha, sentado em um sofá. Berger Está aberta! Bryana Com licença… (entra)Me desculpe, e justamente nessa época do ano, os piores contratempos. Berger Muita água... Uma longa viagem..., mas cá estamos. Berger desenrola a toalha, levanta-se e cumprimenta Bryana com uma expressão amistosa. Bryana Eu sinto pela passagem do Campos. Imagino o quanto ele foi importante para você. Berger Obrigado. (Bate palmas e se ajeita) Agora vamos à carta: foi você quem redigiu? Bryana Em parte, colaborei com uma estratégia para lidar com o conjunto dos relatos. (entrega um envelope pra Berger) Berger abre o envelope e começa a ler. (tempo) Berger Conjunto de relatos? Mas isso aqui não faz nenhum sentido. E está mal escrito pacas. Bryana São oito relatos, questões de naturezas diferentes, é verdade,que dependem de ponderações pontuais. Por ora, falo pelo novo patronato econselho deliberativo. Berger
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(Cai em si preocupado.) Não faz dois meses, me escreviam para dizer que era a ala mais visitada do parque. Bryana Olha, Berger, eu tenho uma filha de nove anos que está me esperando pra aprender a andar de bicicleta, também quero resolver logo e esquecer tudo isso. Acontece o seguinte, vamos ser honestos aqui, esses relatos e descrições são incompatíveis, de todo, com o conteúdo presumido das suas obras. Pois, nesse momento de sobriedade e consternação, em memória das vítimas,decidimoslimitar o acesso à suasala. Lamento ter que estar aqui falando demais perdas, mas é isso que as tragédiasreaisnos trazem.Uma noção dos limites. E como você bem sabe, limites são coisas essenciais para a arte, certo?
Cena 9 Instituto. Mesmos jardim com pavilhões modernistas, luz natural. Bryana conduz o grupo com um microfone de lapela. Caminham lentamente. Participante ...teria deixado“psicografias” em que a lavagem é o tema central... Bryana Elefoi um dos fundadores do instituto, e foi também um literato. Na sede antiga, estão expostos alguns de seus manuscritos e um deles, como a senhora mencionou, traz um diagramaem forma de dobradura do processo de lavagemde minério associadoà lavagem de dinheiro através da compra e venda de obras de arte. Participante (atravessando) ...e isso é visto de que maneira pelos curadores, pelo Conselho, como um fenômeno religioso? Digo, o álibi da psicografia e da dobradura anula esses documentos como prova incriminatória? Bryana o país ainda é a maior nação espírita do mundo. Recomendo, mais uma vez,uma visita ao nosso acervo na cede antiga e Biblioteca do Lago.Questionamentos como esse em relação à psicografia e minério de ferro têm farta documentação, iconográfica, inclusive.(Pausa)Agora eu vou convidar vocês a se deslocarem por aqui,para a segunda sala de João Berger, o plano infinito de sua instalação Pompéia. Lembro que é proibido filmar ou tirar fotos. Todos se deslocam em silêncio. Há um conjunto regular de pedestais com esculturas com uma coloração rósea e marrom quea plateia não consegue identificar. Bryana Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 25
(recitando) No lugar dos cubos anódinos de Donald Judd em Marfa, uma coisa depois da outra, uma série de esculturas que foram moldadas diretamente em seus referentes. O conjunto foi a último financiado pelo próprio artista, no instituto, antes de sua morte precoce em um acidente doméstico. Todos se aproximam das obras de forma randômica. Tempo de apreciação da obra. Silencio. Participante Se me permitem, gostaria de comentar... Bryana Mas é claro. Por favor. Participante são moldes ginecológicos? Bryana Perfeitamente. Participante Quem são essas pessoas? Bryana Pra resolver isso o artistaintroduziu uma “quebra de quarta parede.” está familiarizada com essa expressão? Participante Claro, é um termo brechtiano. Bryana Sim. O público pode se dirigir diretamente ao mundo da arte, à performer, no caso, ecom esse dispositivo, o artista, ainda hoje, no lugar de perder uma dimensão de ilusão e ser obrigado a se render ao processocrítico, ganha uma nova camada de teatralidade. A Performer está sentada em uma cadeira ao lado do último pedestal da série. Ela veste um vestido de verão. Participante It’s quite demanding so far. Bryana Peço paciência... (dirigindo-se à Performer) Boa tarde, você está bem? Silencio. Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 26
A Sra. Bart está conduzindo o grupo dessa manhã e quer saber sobre a identidade das pessoas envolvidas nesse trabalho. Você teria algo para falar sobre isso? Performer estou aqui como Luz de Sousa, supostamente a última pessoa com quem João Berger se relacionou. Participante E ele quem é? (apontando para o fundo infinito da sala.) Primo Caio aparece parcialmente imerso no fundo infinito. Primo Caio (ainda no escuro) Você está sem calcinha? Performer Sim, e me depilei como pediram. Primo Caio há uma bacia com um líquido leitoso e morno debaixo de sua cadeira.Agache-se nela, como se fosse urinar. Performerresponde maquinalmente, desloca a bacia debaixo da cadeira, puxa o vestido para cima até a altura dos joelhos e agacha sobre ela.Fecha os olhos e tenta se concentrar no processo. Começa a tocar uma versão da música Só Tinha de Ser com Você. Performer (Compenetrada, com expressão de incomodo) Está esquentando... Primo Caio Não se preocupe é a catalização. Performer ...não quero me machucar. Participante Você está drogada? (para Bryana) É essa a brincadeira: ela está drogada?(Pausa) Vocês acham que algo assim sensibiliza as pessoas..., ver alguém drogado? Luz Você não teria como saber. A rigorestou na mesma condição que todas as outras mulheres que tomaram parte nesse trabalho. mas não para satisfazer a curiosidade mórbida de ninguém, nem para falar dos que já não podem mais se defender, não é mesmo? Isso, sim, seria despeito e covardia: usar sua morte e associar o nome do artista a crimes ambientais que ainda não aconteceram. Complexo de Oleanna(por Rafael Vogt Maia Rosa,jan.2019) - 27
Primo Caio dá um passo à frente e aparece ainda mais nitidamente em cena. Ele empunha uma pistola. Alguns dos visitantes se alarmam. Ele se aproxima mais da Performer e oferece-lhe a mão. Performer (pegando a mão de Primo Caio) Talvez o problema de João Berger tivesse a ver com uma insegurança quando ao seu próprio nome: era mesmoum misóginobranco, alcoólatra, que tocava as mulheres sem seu consentimento, ou fomos nós que aceitamos a possibilidade de participar do mundo da arte a partir de suas propostas e que seguimos ao seu encontro de uma forma fluida e perfeitamente natural? Performeraperta a mão de Primo Caio, procurando ajuda para se levantar, de modo quase infantil.Levantando-se, com o molde grudado em seu corpo, de forma vulnerável, mas ainda compenetrada. ... deve estar pronto. (para Primo Caio) me ajude a desmoldar isso e conversamos. (começa a se desvencilhar do molde que está catalisado,perfeitamente maleável.Pausa. Olhando, de relancepara Primo Caio) É você mesmo?... Estámais magro. Está lindo.(Pausa) que bom que voltou,em algum momento, cheguei a pensar que fosse mesmo um estranho.(pausa)Ainda quer me comer?
Fim.
06.02.2019revisado 16.07.22
Imagem de capa: “Sala de Tiradentes” (2020), por Rose Klabin e Rafael Vogt Maia Rosa
ID do Direito Autoral-DA-2022-023476 Câmara Brasileira do Livro Rafael Vogt Maia Rosa (Autor) Hash do documento: 9cb9c0416932e805da7395bdf79ae3621673153466 990ba476c64d7969274b1a
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