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Piracicaba,
seu rio, seus peixes. Nelson de Souza Rodrigues | Luccas Longo
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PatrocĂnio Cultural
Apoio
Realização
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Apresentação Em gentil deferência pediu-nos o colega Engº Agrº Nelson de Souza Rodrigues para que eu fizesse a apresentação de seu livro, “Piracicaba, Seu Rio, Seus Peixes”, tarefa sobremodo honrosa que espero poder cumprir, para assim fazer jus à grande admiração por sua pessoa e à amizade que nos une. Conheço Nelson de Souza Rodrigues desde os idos de 1947, ao tempo de memoráveis lutas políticas em prol dos interesses do Centro Acadêmico Luiz de Queiroz, órgão de classe dos estudantes de Agronomia da Universidade de São Paulo, quando já despontavam suas qualidades de líder estudantil. A partir dessa época, após a formatura na ESALQ, seguimos caminhos diferentes em decorrência das atividades a que viemos nos dedicar na carreira profissional: ele como técnico e pesquisador cientifico da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Este livro, que ora vem de ser publicado, reflete muito de seus trabalhos realizados como pesquisador na área de piscicultura, tanto no Posto de Piscicultura do Instituto de Pesca da Secretaria de Agricultura, como também na Estação de Biologia e Piscicultura de Pirassununga, subordinada ao Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e posteriormente, após a aposentadoria, no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), em Piracicaba. Porém, vai mais longe, pois, em ultima análise, como bem diz o seu título, representa uma completa revisão das tradições históricas e culturais da cidade de Piracicaba, ligadas ao seu importante rio, descritas com as minúcias próprias de um abalizado conhecedor do assunto, de um pescador inveterado, cheio de entusiasmo pelo
velho ofício, e pelas glórias e acontecimentos de um passado já distante, pleno de muitas alegrias e conquistas, às vezes eivadas de algumas desilusões e amarguras, mas relatadas sempre com sabedoria e bom humor. O livro engloba catorze capítulos tendo como tema principal, uma espécie de pano de fundo, a importante influência exercida pelo rio sobre o desenvolvimento da cidade e a região de Piracicaba, desde as primeiras etapas de sua fundação, em meados do século 18, até os dias atuais. Como salienta o autor ao dizer nas páginas iniciais, “nossa intenção ao conceber este livro foi educativa, ao dar conhecimento de dados geográficos de nosso rio e da biologia dos peixes; histórica, ao ressaltar a importância de seus peixes na própria história de Piracicaba; folclórica, ao relacionar “causos” verdadeiros ocorridos com os mesmos peixes e apresentar uma coletânea de verbetes do palavreado dos pescadores profissionais do nosso rio de décadas passadas”. Os capítulos iniciais incluem uma introdução histórica e os dados geográficos sobre o rio, onde se salienta desde logo a importância da mudança da primeira povoação da margem direita para a esquerda em 1784, tendo em vista aproveitar as melhores condições de solo desta última ,relacionadas à sanidade do local e a uma boa qualidade da terra para plantio, sem dúvida, de grande incentivo e garantia para a atividade pesqueira que, na época, já despontava promissora. Os dados geográficos, que destacam a extensão da bacia de 177 quilômetros e 450 metros e superfície de 1.245.000 hectares, revelam a importância do rio para a região central do Estado.
nossa intenção ao conceber este livro foi educativa, ao dar conhecimento de dados geográficos de nosso rio e da biologia dos peixes; histórica, ao ressaltar a importância de seus peixes na própria história de Piracicaba 7
Nos capítulos intermediários, de início o autor, após discorrer sobre algumas generalidades sobre a vida dos peixes, indispensáveis para a boa compreensão do que vem a seguir, faz menção sucinta à ictiometria, à reprodução e à determinação das idades da espécie, para em seguida tratar da descrição dos principais peixes do rio Piracicaba. Este capítulo VII deverá ser o preferido dos apreciadores da pesca esportiva, não somente pela quantidade das informações disponíveis sobre peixes de renome, hoje em dia pouco encontradiços, mas que já foram destaque na produção pesqueira do rio em anos passados, bem como pela descrição pormenorizada de técnicas utilizadas em diferentes modalidades de pescaria de bote ou de barranco, quase sempre entremeadas de “causos” ou histórias de pescador que já fazem parte do folclore da atividade. Primeiros Registros
“Historia Naturalis Brasiliae (História Natural do Brasil) (1648) Guilherme Piso e George Marcgrave” 8
Para completar o assunto, o autor descreve os dados referentes ao levantamento feito em 1979-1980 sobre a pesca de barranco (com vara), da linha de mão, do sondar, do espinhel, do pindacuema, da rede de espera, e de rodada, que apresenta grande importância para um confronto com a situação atual em relação à permanência ou não de diversas espécies. Segue-se outro capítulo assaz interessante e instrutivo sobre a terminologia adotada pelos pescadores na região de Piracicaba. A propósito, foi elaborado um pequeno glossário constituído por mais de 50 termos populares, alguns curiosos e pitorescos, que, com certeza, já devem ter sido catalogados como expressões típicas de nosso folclore caipiracicabano. E finalmente, para completar as informações geográficas fornecidas inicialmente, houve o cuidado especial de incluir um capítulo muito especial sobre os chamados trechos do rio, definidos como locais ao longo de seus 111 quilômetros, da cidade até a foz no Tietê, assinalados por denominações conhecidas pela ocorrência de situações diversas como irregularidades rochosas, maior presença de pedras agrupadas no leito do rio ou nas margens, diversidade de correnteza das águas na calha, curvas mais abertas ou fechadas do curso, presença de pequenas ilhas ou edificações ribeirinhas, ou ainda devido aos “causos” singulares acontecidos e transmitidos ao longo dos anos pelas gerações de pescadores. Um pequeno croqui anexo permite assinalar os locais mencionados, em número de 40. Os três últimos capítulos são dedicados à luta pela sobrevivência do rio. A discussão do assunto é importante porque o homem, embora seja o maior admirador das belezas físicas e naturais do rio, bem como da produção de magnífico pescado, continua sendo o seu grande predador, diretamente, ao não observar de forma correta a regulamentação aprovada para garantir a sobrevivência
das redes hidrográficas do país, ou indiretamente, quando permite que cursos sejam desviados ou aproveitados para atender a outros interesses fora da região a que pertencem ou são destinados. No primeiro caso, muita coisa já foi corrigida mediante a severa fiscalização implantada que vem coibindo as práticas prejudiciais à sanidade dos rios, como a manutenção correta da mata ciliar dentro dos limites fixados, a proibição de lançamento de esgotos comunitários e industriais na bacia, e o aproveitamento da vinhaça como fertilizante do solo, eliminando de vez o seu descarte em águas fluviais, para citar apenas três exemplos de medidas protetoras dos cursos d’água. No segundo caso, porém, os prejuízos decorrentes são mais sérios e difíceis de enfrentar porquanto envolvem a salvaguarda ou a garantia do direito à vida de populações carentes de suficiente água potável. A leitura dos capítulos XII e XIII nos oferece uma ideia mais precisa daquelas duas situações de perigo para a sobrevida do rio Piracicaba. Os dizeres da lápide de inauguração da “Praça do Protesto Ecológico”, em 1979, transcritos ao final do capítulo XII, são por demais eloquentes para nos transmitir a gravidade dos fatos nele narrados com muita veracidade: “Este marco representa o protesto de um povo em defesa de um bem que, dado por Deus, foi conspurcado pelos homens: o rio Piracicaba. É o protesto contra a ineficiência, a incompetência dos órgãos saneadores e fiscalizadores; a apatia dos governadores, a ganância do poder econômico e, contra aqueles que, de uma forma ou de outra, contribuem para poluir o meio ambiente”. O capítulo XIII cuida especificamente de descrever a “Campanha Ano 2000 – Redenção Ecológica da Bacia do Piracicaba” e todos os fatos importantes que precederam seu lançamento em circular de 4/10/1985, da Associação dos Engenheiros
Primeiros Registros
“Historia Naturalis Brasiliae (História Natural do Brasil) (1648) Guilherme Piso e George Marcgrave” e Arquitetos de Piracicaba (AEAP). O lançamento da Campanha teve ampla repercussão na imprensa local, e de outras cidades dentro da bacia do Piracicaba, e a princípio se desenvolveu de modo informativo e educativo, mediante palestras em escolas, clubes de serviço, artigos e reportagens em jornais. Entre os objetivos visados estava a implantação de um organismo intermunicipal tendo como representantes os prefeitos das cidades da bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí que, uma vez eleito, se constituiu no mais importante órgão para solicitar a adoção de várias medidas consideradas prioritárias para o saneamento hidrográfico na região. Muitas dessas reivindicações, infelizmente, ainda não foram atendidas, mas em compensação a luta empreendida para alcançá-las valeu para Piracicaba uma referência muito especial na defesa de seu patrimônio natural, e se transformou em um exemplo a ser imitado por outros movimentos ambientalistas que se seguiram a esse pioneirismo de sua gente. Prof. Dr. Aristeu Mendes Peixoto (In Memorian) 9
Borrego na beira do Piracicaba
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BORREGO Do nome de nascido, ninguém SABIA Desde jovem, a Rua do Porto era a sua MORADIA Muito popular, todo mundo o CONHECIA Pela alcunha de Borrego é que ATENDIA A roupa única, mal cheirosa, via água quando CHOVIA O beiço rachado, vez por outra, até SORRIA A mão trêmula, de pele crestada, mal lhe SERVIA A voz rouca, da boca, mal SAÍA Zelando os botes, a orla do rio PERCORRIA Como primogênito dos flanelinhas, levou
PRIMAZIA Tornou-se “FLEX” total, pelas pingas que BEBIA Viver sua vida era o que mais QUERIA Indiferente ao que ao seu redor OCORRIA Até o dia que, em todas as bocas virou NOTÍCIA O Borrego morreu, saiu da paisagem que VIVIA E assim, tornou-se o rio, mais pobre, de luto pela AUSÊNCIA Do antigo símbolo que já não EXISTIA Borrego era uma figura singular que durante décadas, fazia parte dos personagens folclóricos da Rua do Porto. A essa figura, dedico essa homenagem. Nelson de Souza Rodrigues.
Homenagem
Agradecimentos
Ao saudoso Hugo Pedro Carradore (i.m.), bacharel em Direito Jurídico, que durante muitos anos, contribuiu de maneira brilhante para o enriquecimento da literatura nacional, em múltiplas áreas como no teatro, folclore, meio ambiente, poesia, cordel, etnografia e outras. Sempre presente em movimentos sociais, sua dolorosa ausência será parcialmente compensada pelo conteúdo de suas dezenas de obras publicadas, inclusive esta última “Memórias do Rio Piracicaba” (2009), que a fatalidade de sua morte, não permitiu que viesse a usufruir todas as merecidas glórias pela excelência da obra. Euclides Buzetto (i.m.), professor aposentado, ex-vereador, líder do PT na gestão do prefeito José Machado, onde teve atuação destacada em todas as ações defensoras do rio Piracicaba e sua Bacia. Como professor emérito, era chamado “Clidão” pelos seus alunos, aos quais nunca deixava de transmitir princípios conservacionistas. Como idealizador do Fórum Permanente em Defesa do Rio Piracicaba, sua ação se fez presente na luta pelos princípios que abraçou.
- À Yonne de Toledo Martins Rodrigues, minha falecida esposa, pelos anos de dedicação, apoio, amor e companheirismo, sem o qual não poderia ter me dedicado ao longo dos 58 anos de casamento as causas em defesa da natureza. - Agradeço ao meu neto primogênito e coautor dessa obra, Luccas Guilherme Rodrigues Longo, meu grande incentivador e colaborador a cada detalhe deste livro, e pelas dezenas de ilustrações de caráter científico, ou de humor, todas de sua autoria. - Á Marília Martins Rodrigues de Barros Neto, minha neta, pela digitação e ordenação do texto e colaboração nos temas; - Á Mariana Hortelani Carnececa Longo, pela produção do mapa hidrográfico do Rio Piracicaba e idéias; - Á Jocelyne Martins Rodrigues, minha filha, pelos incentivos, idéias e tratamento das imagens; - Ao Fausto Guilherme Longo, pelo apoio na captação de recursos para publicação desse livro. - Ao Luigi Rodrigues Longo, meu neto, pelo incansável trabalho de concretizar a captação de recursos para a publicação dessa obra. - Ao Marcel Rodrigues Nascimento, meu neto, pelo tratamento digital nas imagens e por ter enriquecido esse livro com suas belas fotos; - Á Monica Rodrigues, minha filha, pelo incentivo e contato com os pescadores do rio Piracicaba, figuras essenciais para o relato de alguns dos causos que compõe esse livro; - Aos demais filhos, Pedro Francisco
Rodrigues e Márcio Martins Rodrigues; netos, Leonardo (Léo) Rodrigues Longo, Ariel Rodrigues, Lívia Maria Rodrigues e Marina Rodrigues e demais familiares, pelos apoios e incentivos; - Ao Luiz Fernando Carneseca, por ter me contado o causo da piava, ocorrido em terras araraquarenses; - Ao Sinésio Cursio, antigo morador e pescador da Rua do Porto, pelo incentivo e identificação dos trechos do rio; - Ao colega e amigo, Professor Dr. Aristeu Mendes Peixoto (i.m.), pela apresentação do livro e pela sábia orientação na confecção deste trabalho. - Aos meus antigos companheiros de pescaria, Hélio (i.m), Dinival (i.m.), Wilson (i.m.), Júlio (i.m.), Armando (i.m.), pelos dias de gratas lembranças que me proporcionaram. - Ao Marcio Alves e demais amigos da ABCD Cultural, pelo grande apoio, e dedicação que possibilitaram que essa obra se concretizasse. - “Gostaria de agradecer ao Grupo Pizzinatto, representado pelo Sr. Fabio Pizzinatto, por acreditar e entender a relevância desta publicação. A tranquilidade desta parceria permitiu tornar nosso projeto grandioso.” E para finalizar, agradeço a minha progenitora, Maria de Souza Rodrigues por desde minha infância ter plantado em mim seu testemunho de amor e respeito pela natureza, o que me levou a seguir a carreira de agrônomo.
Nelson de Souza Rodrigues 11
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Dedicatória A todos que: Dedicaram suas vidas ao estudo da natureza; Que transferiram aos seus filhos, alunos e público os conhecimentos adquiridos; Que, como guardiões da sobrevivência humana, sempre estiveram presentes na defesa dos princípios ecológicos; Oferecemos este trabalho, que consideramos um fruto de suas atividades.
Prefácio Nelson de Souza Rodrigues, engenheiro agrônomo e pesquisador, tem sua vida intimamente ligada às questões do meio ambiente. Sua formação e sua paixão pelas pesquisas foram determinantes para que se tornasse um dos pioneiros na luta pela conservação dos recursos naturais, em especial nossos rios. Destacam-se, entre seus inúmeros estudos, aqueles relativos à fauna aquática, aos processos alternativos de tratamento de efluentes e, também, a idealização de uma das primeiras mobilizações ambientais em defesa dos nossos rios, qual seja, a Campanha pela Redenção Ecológica da Bacia do Piracicaba, lançada em 1985 e que resultou numa verdadeira revolução na forma de pensar a gestão dos recursos hídricos em nosso país. Este livro é um importante legado desse pesquisador, profundo e consciente conhecedor da Bacia do Piracicaba, e que sempre compartilhou com a sociedade o seu saber. Uma publicação ricamente comentada e ilustrada, consubstanciada em pesquisas científicas, informações biológicas, ecológicas e culturais, relacionadas às principais espécies da fauna aquática desse curso d’água,
que influenciou, inclusive, a formação do primeiro povoado que deu origem à bela cidade que carrega seu nome, Piracicaba! O livro propõe ainda, por meio de comentários e ilustrações, artigos e verbetes, o resgate da cultura pesqueira. A contribuição técnica, conceitual e artística de Luccas Longo, biólogo, mestre em conservação da natureza e artista gráfico, foi essencial para completar o sentido e a intenção contidos nesta obra. Disseminar o conhecimento sobre o rio Piracicaba e sua rica e peculiar fauna certamente irá contribuir significativamente para ampliar a consciência quanto à necessária e recomendável preservação e utilização sustentável de seus recursos. Esta publicação, por sua importância documental e de pesquisa, com certeza, irá cumprir seu papel e tornar-se referência de alto valor pedagógico na área da educação ambiental. Se o rio deu vida à cidade, com certeza Nelson de Souza Rodrigues contribui para garantir a longevidade deste rio que tanto ama e por ele vive! Prof. Dr. Antonio Carlos de Mendes Thame
Se o rio deu vida à cidade, com certeza Nelson de Souza Rodrigues contribui para garantir a longevidade deste rio que tanto ama e por ele vive! 13
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Sumário Apresentação Borrego Homenagem Agradecimentos Dedicatória Prefácio Capítulo I Introdução Histórica Capítulo Ii Rio Piracicaba – Dados Geográficos Capítulo Iii Peixes – Generalidades Ictiometria Reprodução dos Peixes Determinação da Idade dos peixes Principais Peixes do Rio Piracicaba Canivete Cascudo Curimbatá Dourado Jaú Jurupoca Lambari Mandi Pacu Peixe-Sapo
7 10 11 11 13 13 17 17 23 23 27 27 31 35 41 45 46 48 52 56 62 66 68 70 72 74
Piapara PIava Pintado Piracanjuba Tamboatá Traíra Ictiologia do Rio Piracicaba (1979-1980) Capítulo IV Pesca e Legislação Capítulo V Terminologia Pesqueira – Rio Piracicaba Capítulo VI O Rio e Seus Trechos Capítulo VII A Luta pelo Rio Capítulo Viii Campanha Ano 2000 Capítulo IX História Noticiada Capítulo X Festa do Divino Sr. Nelson Autores Relação de fotos e ilustrações Bibliografia
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Capítulo I
Introdução Histórica 17
Com o desenvolvimento da Vila de Itu, novo traçado de estrada foi proposto partindo de Itu, seguindo o caminho do rio Capivari e daí, o rio Piracicaba, em 1725, quando então Piracicaba seria uma “paragem” no caminho a Cuiabá, devido às privilegiadas condições já encontradas pela povoação existente
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Piracicaba sempre esteve ligada, desde sua origem, ao seu rio e aos seus peixes. Embora os peixes sejam consequência do rio, deve-se a eles a primazia da escolha da localidade, como também por várias circunstâncias que contribuíram para o prestígio e o desenvolvimento da cidade. A dificuldade de transposição do salto favoreceu, à sua jusante, a concentração de cardumes de diversas espécies, oriundos de sua barra com o Tietê, a cerca de 100 km. Essa circunstância determinou, desde período imemoriável, a instalação de uma aldeia paiaguá que, pela fartura de peixes e pela facilidade com que eram apanhados, geraram o nome, “Pira-cycaba”, em que pira = peixe e cycaba = lugar ou modo de cercar ou apanhar o peixe, sendo essa a primeira correlação peixe/cidade. Desde a descoberta do “Novo Mundo” (Brasil), os peixes despertaram grande interesse nos meios acadêmicos da Inglaterra e da França principalmente, cujos escritos, através de relatórios por vezes muito fantasiosos, descreviam e ilustravam espécimes vegetais e animais de nossa terra. Entre muitos, George Moregrave, em 1648, com o precioso e raro livro contendo a descrição e a ilustração de peixes existentes em nossa região, como mandis e principalmente o nosso pintado, todos sob a denominação de bagre e grande bagre, e o historiador português Gabriel Soares de Souza, estudioso da biologia brasílica, que lançou em 1587 o Tratado Descriptivo. Somente após 1758, quando Lineu (Carolus Linnaeus) apresentou a 10ª edição do seu trabalho Systema Natural, de ordenação sistemática dos seres vivos e botânicos no 10º Congresso Internacional de Nomenclatura, foi que a identificação científica deixou de ser unicamente descritiva. Por volta de 1693, período das Entradas e Bandeiras, a região começou a ser percorrida e desbravada, devido à solicitação de Pedro de Morais Cavalcanti por uma sesmaria que
prometeu povoar juntamente com sua família “de uma banda a outra, ficando o salto no meio”. Visitando-a, encontrou o aldeiamento paiaguá na margem direita do rio, com sua ampla subsistência de peixes. A promessa não foi cumprida e só em 1718, dada a insegurança da viagem por via fluvial (nos rios Tietê e Paraná), foi aberto um picadão entre São Paulo e a região do salto, para o abastecimento das minas de ouro de Cuiabá. Esse picadão favoreceu o trânsito de aventureiros, comerciantes e condenados da Corte, que deram origem à pequena povoação que, por não terem provimento agrícola devido à recente chegada, se estabeleceram graças à caça e à contribuição valiosa dos variados cardumes ali aglomerados e facilmente apanhados, inequívoco fator de permanência no local. Com o desenvolvimento da Vila de Itu, novo traçado de estrada foi proposto partindo de Itu, seguindo o caminho do rio Capivari e daí, o rio Piracicaba, em 1725, quando então Piracicaba seria uma “paragem” no caminho a Cuiabá, devido às privilegiadas condições já encontradas pela povoação existente. Com a decadência da mineração em Mato Grosso, a navegação fluvial foi abandonada e novamente, em 1765, quando foi restabelecida a Capitania de São Paulo, Piracicaba voltou a aparecer na história dos caminhos paulistas pelo desenvolvimento de sua agricultura, principalmente da cana, a que Belmont denominou “Pequeno Ciclo do Açúcar”, exigindo a lavoura canavieira uma rede de transportes, fossem eles fluviais ou mesmo terrestres. Para tanto, pelo governador Morgado de Matheus, foi solicitada a Antônio Corrêa Barbosa a criação de novas povoações de que seria diretor, sendo umas delas na barra “que faz o rio Piracicaba”. Entretanto, Corrêa Barbosa, achando o local indicado impróprio, subiu o rio até onde já se encontrava a povoação criada anteriormente (no salto) não só pelas condi-
ções privilegiadas de antigamente, como também pela facilidade de atracações para o transporte fluvial. E, assim, foi fundada oficialmente a Povoação de Piracicaba (Neme, M ., 1940), em 1º de agosto de 1767, na margem direita do rio, que era de propriedade de Antônio Corrêa Barbosa, e onde já se achavam estabelecidos ranchos de pescadores, de sertanejos e áreas cultivadas com hortas e pomares. Antônio Corrêa Barbosa, como construtor de barcos e botes para pesca, criou na freguesia a primeira indústria piracicabana. Já que toda atividade estava voltada à margem direita do rio, portanto sem muito interesse em atravessá-lo para a margem esquerda, deduz-se que a fabricação dos barcos era destinada mais à pesca, surgindo assim, mais uma vez, o peixe influindo na história piracicabana. Sob a alegação de que, graças ao grande desenvolvimento da Freguesia de Piracicaba, o lugar já não era suficiente para abrigar a povoação e por estar “cheyo de Pantanos e a terra estéril para plantaçoens e pouco saudável por sujeito a maleystas”, os moradores da Freguesia, encabeçados por Corrêa Barbosa, solicitaram a transferência para a margem esquerda, em fevereiro de 1784, ao capitão-mor Vicente da Costa Taques Goes e Aranha. Em julho do mesmo ano, veio a aprovação pelo mesmo capitão-mor que a justificava por ser “capaz de fundar muitíssimas fábricas de açúcar, pois produz todo o tipo de cultura”. Aos 2 de agosto de 1784, após missa realizada por Frei Tomé de Jesus na capela da margem direita, o capitão-mor, o povo e o mestre entalhador e armador Corrêa Barbosa foram ao lugar destinado, “logo abaixo do Salto ou em todo o intervalo deste até defronte a barra do Ribeirão Corumbatahy”. E assim, subindo pela picada depois chamada rua Direita e agora rua Moraes Barros, foi ordenado “que se roçasse a chapada entre o ribeirão Itapeva e o rio Piracicaba”, para se pro-
Casa do povoador
ceder ao alinhamento do terreno delineado por Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e executado pelo alferes José Caetano Rosa, constante de “cinco ruas com seus nomes e outras tantas travessas com os seus nomes, ficando a igreja com seu pátio de 50 braças de comprimento e 40 de largo, e também uma praça destinada para a cadeia” (Torres, M.C.T.M, 2003). A transferência para a margem esquerda trouxe problemas aos pescadores, pois, além de terem seus ranchos com todas as suas tralhas e os pontos para “apoitar” os seus botes na margem direita, o peixe, diariamente, era levado para lá e o seu comércio tornou-se mais difícil, já que os compradores moravam na margem esquerda. Como alternativa, iniciaram a transferência para a margem esquerda, a partir da rua direita, para então ficar o produto mais acessível aos seus compradores. Assim, mais uma vez o 19
Aldeiamento paiaguá
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peixe interfere na já Vila da Nova Constituição, dando outra direção ao seu desenvolvimento com a rua da Praia e posteriormente com o desenvolvimento da navegação, na conhecida rua do Porto. Essa rua era interrompida próximo da atual ponte da Nova Piracicaba por um brejal, alimentado por nascentes existentes no final da Loja Maçônica e que se constituía num ótimo viveiro de rãs, além de, para os pescadores, oferecer para a pesca do dourado; depois de devidamente saneado e drenada a sua água para o rio, o brejal deu origem ao lago do parque da rua do Porto. A sucessão de casas de pescadores, que se estendia por toda a rua, constituía uma verdadeira colônia, que, invariavelmente, todas as manhãs era transitada por particulares e comerciantes para a compra de peixe. As casas, geralmente com a frente caiada de branco, erguidas na linha da frente do lote, com uma ou duas janelas, às vezes azuis, outras vezes verdes, davam acesso aos compradores que, da própria janela, escolhiam o peixe deixado sobre o piso cimentado, frio, para melhor preservá-lo, onde era coberto com um pano de aniagem molhado. Na parede oposta, todas as tralhas do pescador, como motores, redes (em sacos), tarrafas, galões de gasolina. As varas eram dispostas por baixo do beiral à direita de um corredor fechado por pequeno portão de ferro, que dava entrada para a porta da frente e da cozinha, e desta para o dormitório do fundo. No quintal do fundo, algumas frutíferas. Quase todos os pescadores moradores da rua do Porto tinham um rendimento extra, muito necessário quando o rio estava ruim de peixe. Guardavam, mediante pagamento, motores e tralhas de outros pescadores de fora, como também tomavam conta de seus botes. Normalmente serviam de piloto, e ainda providenciavam iscas para a pescaria. Além do salário mensal, também recebiam um extra pelo dia de pescaria e parte do pescado. Infe-
lizmente, o complexo da rua do Porto, que por mais de um século constituiu uma referência para a cidade sob o ponto de vista social, histórico e econômico, foi paulatinamente alterado, tornandose um centro econômico de degustação, devido à grande valorização dos lotes e à baixa piscosidade do rio. Outra questão também ligada aos peixes, na década de 1940, era o número de botes. A começar da frente do ex-Regatas (ou porto de extração de areia) até a proximidade da ponte da Nova Piracicaba, a área se constituía num compacto estacionamento (ou apoitamento) de botes. Fossem eles de pescadores profissionais ou de operários do Engenho Central, que também os usavam para pescar, sabiam que “quem saísse perdia o lugar”. Isso tornou obrigatório o uso de se levar fortemente presa ao bote uma corrente de cerca de 6 m dotada de cadeado e ligada a um trilho com cerca de 2 m, para conseguir apoitar no difícil lugar que encontrassem. Como as três linhas de bondes inauguradas já atendiam a bairros distantes, como Vila Rezende, Paulista e ESALQ (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”), que tinha seus alunos e professores por eles transportados (1940), o número de carros particulares e mesmo de táxis (um ponto ao lado da Igreja Santo Antônio) era muito reduzido, dando margem a predizer que o número de botes era maior do que o número de carros na cidade. Outra circunstância que prestigiou Piracicaba, em razão de seus peixes, foi a criação pelo secretário da Agricultura de São Paulo, Dr. Fernando Costa, de uma comissão de professores da faculdade de medicina de São Paulo e da ESALQ, sob a presidência do Dr. Rodolpho Von Ihering, para pesquisar piracemas do rio Piracicaba entre 1928 e 1929. Contou essa comissão com a valiosa colaboração do conhecido Conde Lara Campos que, além de arcar com todas as despesas de hospedagem, construiu um
barco de 10 m, o “São Paulo”, com chapas de ferro, e laboratório para exames expeditos, comportando dez pesquisadores. Exames complementares eram feitos nos laboratórios do Engenho Central. No período das piracemas, o barco, com motor de 40 cavalos, com o rio mais cheio, percorria 18 km rio abaixo a partir da rua do Porto, trecho julgado suficiente para as pesquisas. Graças também a pesquisas realizadas no rio Mogi Guaçu, Ihering, proclamado “pai da piscicultura moderna”, conseguiu anunciar ao mundo científico a descoberta da reprodução induzida dos peixes (por hipofização) (Ihering et.al, 1936), como prêmio da obstinada intenção profetizada vários anos antes: “Haveremos de criar peixes, como se criam galinhas”. Fora uma previsão extrapolada, pois, na ocasião, não existia chocadeira elétrica. Entre os peixes, as maiores preferências dos turistas eram o dourado e o pintado que, posteriormente, foram mal substituídos pelo filhote. Outras circunstâncias em décadas passadas também contribuíram para o prestígio de Piracicaba, principalmente o dourado. A fábrica de gelo do Maluf (situada na esquina da São José com Alferes), durante décadas, despachou por via férrea dourados embutidos em barras de gelo, perfeitamente condicionados em serragem e envoltos em tecido de embalagem, para vários municípios vizinhos, como presente para parentes e amigos, com uma média de 70 kg/dia e, nas vésperas de Natal, mais de 100 kg/ dia. O Mercado Municipal de São Paulo, no período da piracema, colocava faixas externas com os dizeres “dourado de Piracicaba”, prestigiando o peixe e a cidade. O melhor reconhecimento da importância dos peixes na história de Piracicaba está estampado em seu brasão. Ladeados por um ramo de café e uma palma de cana, sabiamente dispostos no escudo central, sobre um leito representando o rio em posição prestes a saltar e trans-
por o salto, estão cinco peixes, representando o dourado, o mais afamado do rio. Nossa intenção ao conceber este livro foi tripla: EDUCATIVA – ao dar conhecimento de dados geográficos de nosso rio e da biologia dos peixes; HISTÓRICA – ao ressaltar a importância de seus peixes na própria história de Piracicaba; FOLCLÓRICA – ao relacionar “causos” verdadeiros ocorridos com os peixes e apresentar uma coletânea de verbetes do palavreado dos pescadores profissionais do nosso rio, de décadas passadas. Acreditamos que o conhecimento destes elementos tornará o “caipiracicabano” mais orgulhoso de sua terra; o nosso visitante, mais admirado pelas singularidades conhecidas; e o brasileiro, mais brasileiro, por ver integrados em sua pátria, Piracicaba, seu rio e seus peixes.
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Capítulo II
Rio Piracicaba
Dados Geográficos 23
Formação: pela junção dos rios Jaguari (MG) e Atibaia (SP), a partir de Americana (SP). - Extensão: 177 km e 450 m. - Desembocadura: no rio Tietê, à margem direita, no reservatório de Barra Bonita, no limite de Santa Maria da Serra, São Manoel, Botucatu e Anhembi. - Desnível: 69 m, da altitude 522 m para 453 m. - Afluentes: Margem direita – Ribeirão Tatu, Ribeirão Coqueiros, Ribeirão Palmeiras, Ribeirão Guamium, Rio Corumbataí, Ribeirão Ara-
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guá, Ribeirão Samambaia, Ribeirão do Meio, Ribeirão Vermelho. Margem esquerda – Ribeirão Quilombo, Ribeirão dos Toledos, Ribeirão Lambari, Ribeirão Tijuco Preto, Córrego da Figueira, Ribeirão Dois Córregos, Ribeirão Piracicamirim, Ribeirão Itapeva, Ribeirão do Enxofre, Ribeirão dos Marins, Ribeirão de Itaperú. Total: 9 na margem direita, 11 na margem esquerda. - Salto: altura de 14 metros. - Largura média: 70 m. Na desembocadura, entre 70 m e 120 m, em Santa Maria da Serra. - Vazão média: 120 m3/s. - Vazão média mínima: estipulada pelo Sistema Cantareira em 40 m³/s. - Vazão mínima já ocorrida: 16 m³/s. - Situação geográfica: ocupa parte central do Estado de São Paulo, a noroeste da capital, correndo no sentido leste-oeste, a 22º40’ de latitude Sul em quase todo o seu percurso, e entre as longitudes de 46º e 48º30’ Oeste. Corresponde a uma superfície de 1.245.000 hectares, dos quais 1.138.800 em território paulista (91,5%) e 106.200 hectares (8,5%) em Minas Gerais. - Municípios que banha: Americana, Limeira, Santa Bárbara d’Oeste, Piracicaba, São Pedro, Anhembi, Santa Maria da Serra. - Deságua na margem direita do rio Tietê, a cerca de 155 km da cidade de Piracicaba. - Cobertura vegetal: em 1854, cobria 82% do seu território. - Uso do solo: 70% da área total, sendo 68% ocupação rural e 2% ocupação urbana.
Bacia do Rio Piracicaba
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CapĂtulo III
Peixes
Generalidades 27
Devido a problemas técnicos e econômicos, na produção de alimentos em criatórios de peixes para consumo as espécies mais viáveis são as onívoras, pela diversidade de alimentos, e as herbívoras, pela facilidade de alimentação 28
Os peixes são os animais mais antigos entre os vertebrados e habitantes do maior ecossistema da Terra: os oceanos, rios e lagos. Possuem o sangue frio, retirando oxigênio da água através de órgãos especiais: as brânquias. Há cerca de 25.000 espécies conhecidas internacionalmente (Fooler, 1951). No Estado de São Paulo, de água doce, estimamse 261 espécies, e no rio Piracicaba, 101 espécies naturais (Rodrigues, N.S., 2002, 3º volume). Apresentam corpo fusiforme e hidrodinâmico, para favorecer o deslocamento no meio hídrico, e pertencem à classe Osteichthyes – de esqueleto ósseo. Podem ter o corpo coberto de escamas (exoesqueleto) ou de couro. A locomoção no meio onde vivem é feita por nadadeiras peitorais (par), abdominais (par), dorsal, anal, caudal e adiposa facultativa. A caudal, de acordo com seu formato, pode ser: dificerca – quando simetricamente arredondada na extremidade; homocerca – quando dividida em dois lobos iguais; e heterocerca – quando com dois lobos desiguais. O mussum e a piramboia não possuem as nadadeiras peitorais e dorsais. A fecundação dos óvulos é externa (no meio líquido) na grande maioria das espécies, e interna na família Poecilidae (guaru-guaru). A idade dos peixes pode ser determinada pelo exame de escamas e por peças ósseas, como esporões peitorais e dorsais, vértebras e opérculo e o otólito (do sistema de audição). A dentição é variável de acordo com a espécie: dentículos em faixas (cascudos), em série semelhante a incisivos (pacu), em série e pontiagudos (traíras), semelhante à de roedores (piava). Ao longo do corpo os peixes de escamas apresentam a linha lateral, formada por escamas diferenciadas por pequena proeminência tubular, em cujo interior incidem terminações nervosas que permitem a captação de sons e vibrações, a acomodação a variações de temperatura, pressão osmótica, e eletrocondutividade da água. Atribui-se também a es-
sas perfurações tubulares a função de espalharem sobre a superfície do corpo o produto de glândulas excretoras, um muco gorduroso que protege os peixes de doenças, de variações bruscas de temperatura e de ferimentos abertos. Essas glândulas existentes na derme e na epiderme, também se acham presentes nos peixes de couro e em cascudos, ao longo do corpo ou em outras regiões. A bexiga natatória exerce importantes funções: permite a estabilidade hidrostática do peixe no meio líquido, reduz o seu próprio peso pela ação da flutuação, e, em certas espécies, funciona como reservatório de ar (e de oxigênio), além de facilitar sua locomoção e ajudar na estabilidade em qualquer profundidade. Pela posição dos olhos, sem pálpebras, a visão é lateral. Células pigmentadas da derme, chamadas células cromatóforas, dão coloração aos peixes. A coloração pode ser permanente ou involuntária, de acordo com a coloração e a iluminação do ambiente. Um pouco antes da nadadeira anal, situa-se a papila anogeniturinária que contém os orifícios excretores do reto, das glândulas sexuais e da uretra. A fecundidade de uma fêmea é calculada pelo número de ovócitos (média) contados em 1 (um) grama do ovário, multiplicado pelo peso total do ovário. A fecundidade de uma fêmea pode ser absoluta (FA) quando o número total de óvulos é proveniente de uma desova total, como ocorre com o dourado ou o curimbatá. A fecundidade é relativa (FR) quando o número de ovócitos contados corresponde a uma das desovas parceladas, como a das piavas. De acordo com o regime alimentar, os peixes são classificados como: iliófagos – quando se alimentam de organismos contidos no leito dos rios ou lagos (curimbatá); herbívoros – quando se alimentam de plantas como macrófitas aquáticas ou não aquáticas (ximboré, taquara); carnívoros quando se alimentam de organismos vivos, como os ictiófagos, que se alimentam de peixes (doura-
Peixe - anatomia externa
do, tabarana, jaú, pintado); onívoros – quando se alimentam de várias espécies de organismos vivos ou não (pacu, tambaqui); insetívoros – quando têm predileção por larvas e insetos (lambari). Devido a problemas técnicos e econômicos, na produção de alimentos em criatórios de peixes para consumo as espécies mais viáveis são as onívoras, pela diversidade de alimentos, e as herbívoras, pela facilidade de alimentação. Nas espécies carnívoras, além das dificuldades da produção de alimentos, há o problema de canibalismo entre os próprios alevinos, desde alguns dias de vida livre: quando não é pela ingestão, é pelo engasgamento, com dupla morte, do predador e de sua vítima. Tendo por base experimentos com carpas, estima-se que o peixe ingere por dia, de 5% a 10% do peso vivo. A conversão alimentar é de 2,5: 1 ou 2,5 kg de alimento para produzir 1 kg de peso vivo. A questão do oxigênio dissolvido (OD) na água é de grande importância para os peixes. Em regiões serranas, por exemplo Campos do Jordão - SP, com altitudes maiores de 1.000 metros e temperaturas baixas próximas de 0 ºC, o OD pode atingir níveis maiores do que 10
mg/L, propício à existência da truta. Em nosso meio (Piracicaba), com altitude pouco superior a 500 metros e temperatura em torno de 30 ºC- 32 ºC, a taxa de OD máxima, em águas límpidas, sem nenhum despejo poluente, é de 8 mg/L. Efluentes de origem doméstica e industrial rebaixam essa taxa a níveis em torno de 1 mg/L, ou mesmo menos, quando ocorrem as mortandades de peixes. O nível mínimo tolerável é de 4 mg/L. A determinação prévia da taxa de DBO – demanda bioquímica de oxigênio – de efluentes é de grande importância para a preservação dos rios e de seus peixes. Indica quantos miligramas de oxigênio por litro serão retirados com seu lançamento. O esgoto comunitário tem uma DBO média de 45 mg/L e a vinhaça, de usinas de açúcar, 13.000, em média. Se o manancial onde forem lançados esses poluentes tiver um OD de 6 mg/L, o esgoto necessitará de 7,5 litros de água por litro lançado, para que não cause dano; e a vinhaça, 2.166 litros. Com estes dados em mãos e a vazão do rio, pode-se calcular o volume de poluente que pode ser lançado sem prejuízo à fauna íctia. 29
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Ictiometria 31
Na piscicultura, essas mensurações são muito úteis para determinar o desenvolvimento das espécies através de vários parâmetros, como também, sob o ponto de vista econômico, permite uma avaliação entre espécies com melhor desenvolvimento e seu gasto com o arraçoamento e o período de manutenção 32
A ictiometria é um ramo da ictiologia, destinada ao estudo das medidas corporais dos peixes e suas relações com outros índices. Na piscicultura, essas mensurações são muito úteis para determinar o desenvolvimento das espécies através de vários parâmetros, como também, sob o ponto de vista econômico, permite uma avaliação entre espécies com melhor desenvolvimento e seu gasto com o arraçoamento e o período de manutenção. Naturalmente, devem ser também avaliados os fatores físicos e químicos da água e do ambiente com possibilidade de influírem nos resultados obtidos. Essas medidas devem ser tomadas obedecendo o sistema métrico, segundo homologação internacional, em centímetros para peixes menores ou de porte médio, e em metros e suas frações para peixes maiores. As determinações (mensurações) normalmente são restritas às partes externas dos peixes, e eventualmente, em casos especiais (da cavidade abdominal e da capacidade volumétrica) de exemplares fêmeas, excluindo-se o volume das vísceras e do ovário. Os dados obtidos relacionados a pesos e idades fornecem ao pesquisador, e principalmente ao criador, os elementos para uma criteriosa avaliação. A forma mais comum dos peixes é a fusiforme, que sofre menor resistência aos deslocamentos no meio hídrico e favorece uma melhor avaliação nas mensurações, por apresentar uma simetria bilateral, contrariamente aos das espécies assimétricas, como o aramaçá (Soles reticulatus), as arraias (gen. Dasyatis) e outros. A representação esquemática das mensurações, geralmente tem por base exemplar a família Characidae, de escama típica, não só por apresentar o maior número de espécies de água doce, como também a maioria dos elementos externos encontrados nas espécies da fauna íctia. Alguns desses parâmetros são representados por siglas, a saber (Castagnolli,N. et.al., 1986):
CC – comprimento da cabeça – da ponta do focinho à borda do opérculo. CP – comprimento-padrão – da ponta do focinho ao fim do pedúnculo. CF – comprimento Fork – da ponta do focinho ao vértice da nadadeira caudal. CT – comprimento total – da ponta do focinho à maior extremidade da nadadeira caudal. Altura (h) – do início da nadadeira dorsal à região ventral. Perímetro – medido na região da altura. Essas medidas, entretanto, terão validade se relacionadas às idades dos peixes, pois diferentemente dos outros animais, não param de crescer durante sua existência. Por região: Região cefálica – corresponde ao comprimento da cabeça (CC). Região do tronco – do fim do opérculo ao início da nadadeira anal. Região caudal – do início da nadadeira anal até a maior extremidade da nadadeira caudal. Outros caracteres eventuais: Linha lateral – ao longo do corpo; contínua ou truncada. Nadadeira adiposa – presente. Nadadeiras – dorsal, caudal, anal e par de peitorais e ventrais; descrever comprimento, altura, e eventualmente o formato; Nadadeira caudal – tipo heterocerca, dificerca ou homocerca. Nadadeira dorsal e caudal – número de raios e tipo duro ou mole. Dentição – número de dentes e formato. Arcos branquiais – número e formato. Escamas – formato e número ao longo da linha lateral e número acima e abaixo dela.
Peixe - ictiometria
Perfil – longitudinal e transversal (formato do corpo). Perfil transversal – comprimido, deprimido, truncado, achatado. Outros caracteres poderão ser anotados como auxiliares das mensurações, principalmente quando as espécies coletadas forem condicionadas em soluções conservantes, geralmente soluções
de formol, prejudicando uma avaliação posterior. Estes caracteres são tão importantes que chegam até mesmo a figurarem na classificação científica, como o mandi (Pimelodus maculatus) pelas máculas ao longo do corpo; o guaru-guaru (Phalloceros caudimaculatus) pelas máculas da região caudal; o lambari (Astynax bimaculatus) pelas duas manchas humerais. 33
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Reprodução
dos peixes 35
Diante de tanto amparo paterno, e com um índice de sobrevivência acima de 85%, algumas dezenas de óvulos contidos em uma desova já serão suficientes para garantir a perpetuação da espécie. Para os peixes de piracema, de escama, denominados reofílicos, as condições do ambiente de reprodução são totalmente diferentes 36
O ciclo reprodutivo dos peixes, que se repete todos os anos quando adultos, está intimamente relacionado a alterações ambientais sazonais, culminando com a reprodução. Tanto os peixes que vivem em ambientes lênticos (lagos e lagoas) como os de ambientes lóticos (rios) sofrem essas influências, mas, como vivem em ambientes totalmente diferentes, também têm seu modo reprodutivo diferenciado. A desova em ambiente lêntico, por razão da água parada, é mais segura por vários motivos. Os óvulos, geralmente depositados num trecho previamente limpo, a pouca profundidade para receber luz e calor solar, são fecundados pelos espermas diretamente ejaculados pelos machos, após sobrenadar a desova. Durante todo o período de desenvolvimento do embrião, e mesmo depois do nascimento das larvas e da fase de alevino, são protegidos pelos pais. Em algumas espécies da família Ciclidae, a qualquer sinal de perigo, os alevinos procuram a proteção da boca ou o espaço aberto dos opérculos dos pais como refúgio. Diante de tanto amparo paterno, e com um índice de sobrevivência acima de 85%, algumas dezenas de óvulos contidos em uma desova já serão suficientes para garantir a perpetuação da espécie. Para os peixes de piracema, de escama, denominados reofílicos, as condições do ambiente de reprodução são totalmente diferentes. A desova e a fertilização dos óvulos se processam em águas torrentosas, em que, num determinado momento, machos e fêmeas do cardume ejaculam suas células reprodutivas e, como num verdadeiro orgasmo, são levados em estado de êxtase pela corrente. Algumas espécies, como o curimbatá (Prochilodus scrofa), chegam a emitir roncos, audíveis à distância. A partir desse exato momento, cessa toda a ação paternal, cabendo unicamente aos princípios
divinos da natureza a continuidade do processo. O espermatozoide milimétrico, com frenética agitação de sua cauda, procura vencer a cortina d’água em busca de um óvulo, também milimétrico. Na imensidão da água em que estão mergulhados, não basta, porém, encontrá-lo. Há necessidade do encontro da única e microscópica entrada possível oferecida pelo óvulo, a micrópila, para que se realize a fecundação. E isso é premente, pois a energia do pequeno ser dura poucos minutos e o óvulo, ao se hidratar, aumenta de volume, torna-se mais pesado e fecha a micrópila, tornando-se infecundo. As perdas são grandes, estimadas acima de 80%. Dos fecundados, estima-se que 1/10.000 atingirá a fase adulta. Para compensar essas perdas, a natureza inseriu atenuantes, como o de 1 (um) grama de ovário de fêmea de dourado (de água doce) conter milhares de óvulos; 1 (um) kg desse mesmo peixe representa, em média, 140.000 óvulos e portanto, uma fêmea de dourado, de 25 kg potencialmente pode gerar 3.500.000 óvulos, de acordo com estimativas de Ihering (1936). Os ovos (óvulos fecundados) que permanecerem ao sabor da corrente não desenvolverão seus embriões pela ausência de condições propícias. Por essa razão, e precisamente por ela, é que os peixes de piracema, embora já “maduros” para a reprodução, só a efetuam quando o rio, já com água abundante, sofre um “repique”, tem pequena elevação em seu nível, proporcionando o encaminhamento dos ovos às margens vegetadas e, principalmente, às lagoas marginais, consideradas verdadeiras maternidades, onde as larvas encontrarão o plâncton necessário para as primeiras alimentações, o calor necessário ao pleno desenvolvimento e maior proteção contra o seu maior predador, o lambari.
Reprodução
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desenvolvimento embrionário
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O eminente cientista brasileiro Rodolpho Von Hiering (1883 – 1939), conclamado “Pai da Piscicultura Nacional”, bacharel em Ciências e Letras, ingressou no Museu Paulista primeiramente como assistente do diretor e depois curador, quando desenvolveu 34 trabalhos sobre a fauna brasileira que lhe valeram o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Giessen na Alemanha; ainda estagiou durante dez anos em cursos de aperfeiçoamento, na Europa. De volta ao Brasil, dedicou-se especialmente ao estudo de aves e peixes do país, criando em 1926 o Serviço de Piscicultura do Ministério da Agricultura e desenvolvendo trabalhos de coordenadoria, junto ao Conselho Técnico de Piscicultura do Nordeste, do DNOCS (Departamento Nacional de Obras contra as Secas). Graças ao constante contato com pesquisadores de entidades oficiais, envolvidas em pesquisas sobre nossos peixes, procurou desenvolver tecnologia capaz de obter a reprodução de peixes de água doce, de piracema, em laboratório. Como grande conhecedor da biologia de nossos peixes, por vários anos acompanhou a piracema de nossos peixes nobres (em Piracicaba, o dourado) a fim de desvendar o enigma daqueles que, por não completarem a migração, mesmo maduros sexualmente, não conseguiam a reprodução. Outro fator relevante era o conhecimento da fantástica perda de óvulos, durante a reprodução, como também, possivelmente, a degradação do meio hídrico de nossos principais rios e seu seccionamento para fins energéticos, que diretamente atingiriam nossos peixes mais nobres, como o piracanjuba, o dourado, o pacu, o pintado, o tambaqui,
o matrinchã, além dos peixes forrageiros, como lambaris e saguirus. As primeiras pesquisas foram feitas com o amazônico curimatã-pacu (Prochilodus argenteus) com injeções de urina de égua em gestação, por conter gonadotrofina coriônica, capaz de estimular a hipófise dos peixes, na maturação sexual e na reprodução. Com a obtenção de resultados não satisfatórios, iniciou novas pesquisas usando hipófises de peixes em avançado estágio de maturação sexual. Com resultados discordantes, positivos e negativos, procurou estabelecer as dosagens necessárias para conseguir a completa extrusão de óvulos e ejaculação de espermatozoides, graças a uma leve pressão sobre a região abdominal, e tendo por base o número de hipófises por peso vivo (PV) dos peixes receptores, o sexo, o estágio de maturação e, em doses crescentes, com intervalos de 6 a 8 horas. A publicação da pesquisa, juntamente com o pesquisador Pedro Azevedo, do antigo Departamento de Caça e Pesca da Secretaria da Agricultura de São Paulo, nos Arquivos do Instituto Biológico (SP), em 1936, levou ao conhecimento internacional a possibilidade da reprodução induzida de peixes reofílicos, em laboratório, determinando um elevado crescimento da piscicultura internacional. A crescente procura por hipófises de salmão e carpa que abasteciam o mercado despertou o interesse de pesquisadores e laboratórios comerciais, para a fabricação de hormônios sintéticos de alta potencialidade, aplicados em doses de 1 a 5 unidades internacionais (UI) por grama de PV. Os óvulos extruídos, recebidos em recipiente asséptico, com pequena quantidade de água
e totalmente desmembrados delicadamente, após receberem diretamente a ejaculação dos espermatozoides, pela compressão abdominal nos machos fertilizados, após alguns segundos de revolvimento são levados a incubadoras com água corrente, límpida, rica em oxigênio, com controle rigoroso da temperatura, até a eclosão das larvas, quando são conduzidas aos berçários ou diretamente a tanques, ricos em plâncton. A descoberta da tecnologia para a reprodução induzida dos peixes pelo cientista brasileiro Rodolpho Von Ihering, além de ter contribuído para o desenvolvimento da piscicultura atual, apresenta os seguintes aspectos positivos: - Alta fertilização dos óvulos (mais de 80%) ante uma perda de cerca de 80% quando as desovas ocorrem em ambientes naturais; - Permite a escolha das matrizes, para o melhoramento genético e a obtenção de híbridos; - Antecipa a reprodução de peixes de ambientes lênticos; - Proporciona maior segurança na reprodução de peixes nobres; - Contribui para a obtenção de grande número de alevinos para o povoamento de lagos, rios e engorda para fins comerciais; - Favorece a preservação de espécies nobres, ante a crescente poluição fluvial e o seccionamento de importantes rios para fins energéticos, impedindo a reprodução de peixes reofílicos; - É uma tecnologia inteiramente acessível a países pouco desenvolvidos, principalmente empregando hipófises de peixes nativos; - Pode se constituir numa grande fonte de proteínas, de baixo custo, a populações carentes.
As primeiras pesquisas foram feitas com o amazônico curimatã-pacu (Prochilodus argenteus) com injeções de urina de égua em gestação, por conter gonadotrofina coriônica, capaz de estimular a hipófise dos peixes, na maturação sexual e na reprodução
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Determinação
da idade dos peixes 41
A determinação da idade dos peixes é de suma importância, não só para efeito de pesquisas científicas, como também comerciais. A determinação científica da idade permite trazer aproveitar uma relação muito importante: peso-idade. É possível, através de inúmeras e sucessivas determinações, estabelecer um ganho de peso gradativo, de acordo com a idade, facilmente compreensível se mostrado graficamente. Essa informação também é de grande valor para o criador. Tendo conhecimento da relação quilos de ração X ganho de peso vivo, ele poderá facilmente, com base no preço da ração, saber até que idade ou por quanto tempo é econômica a manutenção de um lote de peixes para ser comercializado. A determinação da idade dos peixes pode ser feita por diferentes processos: por escamas, pelos otólitos, por ossos verdeterminação da idade - escama
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tebrais, operculares, ou pelo primeiro raio ósseo (ferrão) das nadadeiras peitorais e da dorsal dos Siluriformes. Segundo estudiosos, os peixes nunca deixam de crescer durante toda a sua vida. Esse crescimento é “registrado” em algumas partes ósseas, gradativamente, ano a ano. O método mais comum é a determinação por escamas, ciência conhecida por Lepidologia ou Escalemetria. Existem quatro tipos de escamas: ctenoide, ganoide, placoide e cicloide. A grande maioria dos peixes de escama, como a de nosso rio, possui a escama cicloide, e por isso a ela vamos nos ater. A leitura pela escama apresenta a inconveniência de, ao ser destacada por acidente durante a vida do peixe, faz surgir outra, que não oferece segurança na leitura, o que não acontece com os outros métodos. O local ideal para a retirada da escama é no dorso, acima da linha lateral, no meio da região entre o opérculo e o início da nadadeira dorsal, e no lado esquerdo. O curimbatá (Prochilodus scrofa) de nosso rio possui a forma típica de escama cicloide de formato arredondado na parte posterior, de inserção membranosa com pigmentação (melanóforos), punctiformes e estelares, que fica inserida na camada que cobre o corpo. Na parte central, apresenta o focus de onde partem raios até a margem posterior. A partir do focus, em direção à parte anterior que delimita a região que fica exposta da cobertura das escamas, são encontradas finas ranhuras concêntricas, acompanhando o perfil da escama, chamadas circulus, e, mais espaçadamente, ranhuras mais espessas acompanhando o desenho das anteriores, os annulus. Os circulus indicam o crescimento normal do peixe durante o correr do ano, podendo inclusive mostrar, de acordo com o seu número (ou largura da faixa), se foi um ano bom ou mau. Os annulus indicam os anos de vida, a partir do focus. Como na maioria dos peixes mais importantes, como o
dourado, o curimbatá, a piapara etc., as fêmeas começam a reproduzir com dois anos, sendo o primeiro annulus correspondente a 2 anos de vida. Para os machos, já reproduzindo no primeiro ano, cada um equivale a um ano. O surgimento dos annulus está ligado a um período de reprodução que acontece uma vez por ano. Durante esse período, o peixe praticamente não se alimenta, seu metabolismo fica alterado, deixando de crescer, alterando o surgimento dos circulus. Passado o período, mais magro e esgotado, ativa o regime alimentar, dando origem aos annulus pela concentração de circulus. A escama substituta de uma original não apresenta o focus; em comparação com outras, originais, pode indicar com quantos anos foi perdida, por qualquer acidente, pelo confronto de annulus. É denominada “escama regenerada”. Após a retirada, as escamas devem ser limpas delicadamente (água, sabão, detergente), secas, pinceladas com solução de gelatina apropriada e colocadas entre lâminas de vidro em séries de quatro a cinco. A leitura dos anos pode ser feita através de um projetor ou por transparência, com auxílio de uma lente sobre um vidro com foco de luz. Escamas muito pequenas podem ser “lidas” com microscópio ou lupas. Os otólitos são pequenas deposições calcárias, situadas na base do cérebro, pertencente ao ouvido interno dos peixes. Através de vibrações da bexiga natatória dos peixes, transmitidas a ossículos do aparelho de Weber, eles recebem as vibrações sensoriais. O crescimento do otólito é descontínuo, apresentando alternância de circulus claros e escuros, de acordo com as estações do ano, e, portanto, representando em cada ano os períodos de descanso e de reprodução. Diferentemente das escamas, os circulus e os annulus apresentam-se em círculos em torno do focus, que é central. Através de polimento ou do corte de lâminas em micrótomos, por transparência
Determinação da idade - vértebra e otólito
determina-se a idade. A determinação da idade com ossos operculares se dá graças ao crescimento e à formação de pequenas franjas com o crescimento, a partir da inicial, permitindo a leitura. A determinação da idade através do primeiro raio das nadadeiras peitorais e dorsal dos peixes Siluriformes, como o pintado, o jaú e o mandi de nosso rio, a piraíba e a pirarara do Amazonas, vulgarmente conhecidos por ferrões ou arpões, é feita através de lâminas da parte próxima da base, com micrótomos. A milimétrica espessura da lâmina permite verificar, por transparência, as camadas concêntricas de crescimento a cada ano, e assim, a determinação da idade. 43
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Principais peixes
do Rio Piracicaba 45
Canivete
Canivete - Characidium sp. 46
Pequenos e graciosos peixinhos pertencentes à ordem dos Characiformes, com três gêneros: Paradon, Apareiodon e Characidium e com sete espécies. Com pequenas diferenças morfológicas para o leigo, apresentam o corpo fusiforme, que tem de 7 a 15 cm, com pequenas pintas ou faixas estreitas transversais, nadadeiras hialinas, sendo as peitorais e as ventrais bastante desenvolvidas, cabeça acarneirada com boca voltada para baixo. Encontrados em todos os rios de São Paulo, assim como em outros Estados sulinos, com exceção aos de clima muito frio. Embora o pequeno tamanho não apresente valor econômico como alimento, na área da aquariofilia é cada vez mais procurado. Com a parte anterior do corpo elevada, apoiada nos raios das nadadeiras peitorais, causa admiração dos presentes, principalmente se estiver em cima de uma pedra ou tronco. Nessa posição, parecem vigiar os arredores e, segundo alguns técnicos, têm a possibilidade de movimentar a cabeça. Essa posição é também praticada nas águas de ribeirões e rios, geralmente em águas com correnteza. Sua alimentação na natureza é fitoplanctônica e também, por vezes, zooplanctônica. Sob o ponto de vista ambiental e ecológico, tem um grande valor, pois está sempre presente nos hábitos alimentares de todas as espécies piscívoras, sendo assim considerado um peixe forrageiro. No meio ambiente é muito arisco: basta que se sinta ameaçado para que se desloque. As espécies são ovulíparas – põem óvulos que são fecundados no meio hídrico. São peixes de piracema, com reprodução a partir de outubro. Geralmente aparecem antes do dourado, seus grandes apreciadores, como se estivessem fu-
gindo de seu grande inimigo. Seu nome popular foi dado por justa causa, pela semelhança com um pequeno canivete. Pode ser encontrado em vários países sul-americanos como Argentina, Paraguai, Bolívia, Uruguai, Equador, e recebe várias denominações no Brasil; também é conhecido por vários nomes: canivete e tanchim, no rio Piracicaba – SP; piau (NE); tambiú (RJ). De uma reprodução em aquário, foi observado que a desova é parcelada, com seis a oito óvulos por vez, entre a vegetação do fundo.
Encontrados em todos os rios de São Paulo, assim como em outros Estados sulinos, com exceção aos de clima muito frio
Vida no aquário
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Cascudo
Cascudo - Plecostomus sp.
Peixe da família Loricariidae , tem seu nome derivado da couraça que reveste o seu corpo, como uma casca de árvore. Habitante de rios com leito lajeado ou de grandes pedras, vive em suas tocas para se proteger de seus predadores; ou nas superfícies lajeadas ou das grandes pedras para se alimentar. Para tanto, a boca voltada para baixo, provida de grossos 48
lábios com tecido áspero, ao mesmo tempo em que se fixam por sucção, vencendo a força da corrente, vão “raspando” as algas da superfície. Depois da família Characidae , é a que possui maior número de espécies. Segundo Fooler (1951), tem quatro subfamílias, 39 gêneros e 249 espécies. Durante muitos anos teve baixo valor comercial, procurado mais por pescado-
res profissionais para servir como isca e eventualmente pela população ribeirinha como alimento de baixo custo. Devido à escassez de peixes mais nobres, a partir de 1953 a carne deliciosa e rosada dos cascudos começou a ser procurada pela população de maior renda, que os adquiriam limpos e sem a carapaça, não só na rua do Porto como também nas peixarias e no Mercado Municipal. Segundo Monteiro (1953), o volume de pescado de cascudo, que por vários anos se manteve em 6º ou 7º lugar, a partir de 1953 foi galgando posições, passando nos anos finais da década de 1960 para a primeira colocação do pescado em Piracicaba com 12.129 kg, cerca de 20% do total, derrotando peixes de consumo tradicional como curimbatá, dourado, pintado e mandi. Entre as dezenas de espécies do rio Piracicaba, o cascudo-preto, gênero Hypostomus e espécies H. albopunctatus, paulinus e aspera , eram os mais encontrados, não só pela beleza da carne rosada como também pelo seu volume, que podia chegar a 3 kg. Por essas excelentes razões, em anos posteriores a 1960, pela antiga Divisão de Caça e Pesca da Secretaria de Agricultura do Estado, foi introduzido no rio Mogi-Guaçu e no rio Paraíba, onde depois de seis anos já era também muito procurado. A pesca dos cascudos é feita com tarrafa, quando o rio está cheio, capturando os exemplares que se encontram na superfície dos lajeados, ou por redes de espera, quando eventualmente vagueiam pelo rio, e à mão, quando o rio está com nível baixo, diretamente em suas tocas. Para tanto, a toca, à profundidade de um braço ou um pouco mais, com a cabeça mergulhada, o pescador procura os cascudos. Estes, ao serem tocados, normalmente assustados, procuram fugir por uma abertura lateral, ou pela que
favorece a entrada da mão. E quando isso acontece (e acontece várias vezes), com uma entrada estreita e um cascudo mais corpulento, a mão do pescador fica entalada contra a pedra e a áspera couraça do peixe. Sua retirada exige grande esforço, causando ferimentos muito dolorosos. Se estiver com a cabeça mergulhada, há risco de vida se não conseguir um rápido socorro. Entre 1955 e 1965, no rio Piracicaba foram encontrados vários cascudos pretos com pigmentação alterada, manchas brancas tomando parte do corpo e também exemplares totalmente brancos, albinos. De acordo com Monteiro (1953), do Instituto de Pesca, foram capturados para estudo 341 exemplares. A quantidade de “esbranquiçados” foi tanta que não prejudicou sua procura. Os exemplares para pesquisa foram mantidos em tanques com água corrente, sendo que 16, em adiantado estágio de maturação sexual, foram hipofisados (técnica de reprodução induzida), mas não chegaram a reproduzir. A pesquisa, que resultou em um boletim técnico, continha as seguintes observações: entre 5060 dias, exemplares totalmente despigmentados voltaram à coloração normal; a ocorrência nunca foi observada anteriormente a 1955, e foi relativamente frequente até o ano de 1960; alguns exemplares morreram sem retornar à coloração natural; um exemplar totalmente branco permaneceu em cativeiro por 123 dias. A prolificidade (capacidade de reprodução) pode ser considerada baixa quando comparada a outras espécies, principalmente as reofílicas, que chegam a gerar, numa só ovulação, mais de uma centena de milhares de óvulos. Nomura (1984) relata o caso de uma fêmea da espécie Hypostomus fluvialis, com 13 centímetros, com 61 óvulos, e outra de Loricaria piracica-
A prolificidade (capacidade de reprodução) pode ser considerada baixa quando comparada a outras espécies, principalmente as reofílicas, que chegam a gerar, numa só ovulação, mais de uma centena de milhares de óvulos
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Mão entalada 50
bae, pouco maior, com 207 óvulos. Isso, porém, não significa uma baixa prolificidade ao saber que o número de sobreviventes pode chegar, na maioria das vezes, a um total muito maior do que as reofílicas. Isso porque a desova é concentrada e protegida pela fêmea e pelo macho, e a fertilização dos óvulos pelo macho é direta (ejacula diretamente sobre os óvulos), garantindo total fertilização. Os ovos já fertilizados são permanentemente protegidos, assim como os alevinos resultantes. Técnicos em piscicultura citam o fato que a espécie H. piracicabae adere ao seu próprio corpo os ovos já fertilizados e em desenvolvimento embrionário na região ventral, protegendo (machos e fêmeas) as larvas geradas e os alevinos. Pescadores profissionais também citam casos de fêmeas adultas carregando seus ovos sobre a própria cabeça, aderidos por substância mucilaginosa,
restando a dúvida: como foram parar na cabeça, se foram gerados na outra extremidade e no lado inverso? De acordo com seu formato, coloração ou estrutura externa, recebem seus nomes populares. Em Piracicaba, as espécies Loricaria piracicabae e L. macrodon recebem a denominação de cascudo-espada ou cascudoviola, e eventualmente cascudo-lima, devido à forma do corpo. A espécie Pterygopliplichthys gigas, o nome do cascudo-espinho, pelas espículas da carapaça, alcança o tamanho de até 6 kg. As espécies Hipostomus margatifer e H. strigaticeps, pode ser o cascudo-chita, devido à semelhança das pintas dos tecidos. A espécie H. ancistroides , tem o nome de cascudobugio, devido à coloração semelhante a do macaco, pardo-violáceo. A espécie Hemipsilichthys gobio é conhecida como cascudo-barbado, pela série de espinhos nos cantos da boca. As espécies H. albopunctatus, H. paulinus e Revinelepsis aspera pela cor preta opaca, dão os cascudos pretos. A espécie do gênero Loricaria sp., pelo nome de cascudo-viola, dado o formato longilíneo do corpo, largo e achatado na cabeça, tem semelhança com o instrumento musical. No Paraná, os índios tupiguarani lhe deram o nome de yaru-itaguara, onde ita = pedra e guará = buraco. No campo da aquariofilia, os cascudos, principalmente os de pequeno porte, têm sido bem apreciados por múltiplas razões. São pacíficos (não brigam) com outros peixes, são graciosos pela aparência, são permanentemente responsáveis pela eliminação de algas sobre os vidros, troncos e pedras, consomem os restos de comida e mesmo as fezes dos companheiros do aquário, evitando problemas de eutrofização (meio anaeróbio) do aquário, consomem pouco oxigênio da água, não prejudicam o meio. O siste-
ma mais comum de consumo do cascudo é o ensopado ou escabeche, pois uma vez “descascado”, sua delicada e deliciosa carne não se presta para ser assada. No entanto, os pequenos, uma vez limpos, descouraçados e fritos, transformam-se em apreciados “tira-gostos” em bares e restaurantes ribeirinhos. Em ranchos, muitas vezes, devido à precariedade de utensílios (panelas), é empregado o sistema aprendido com nossos indígenas, assando-o em braseiro na própria casca. Uma vez aberta a parte ventral e limpa (os índios não o faziam), tempera-se o interior e de costas coloca-se sobre o braseiro. A própria “casca” protege a carne do fogo direto e deixa passar o calor para um excelente assado. Além dos sistemas tradicionais de pesca do cascudo, a excelente e infelizmente não mais editada revista Caça e Pesca, de agosto de 1942, em artigo do Dr. Manoel de Abreu Campanário, sob o título “A Pesca do Cascudo-Barbado pela Fisga”, nos revelou um outro sistema. O apetrecho a ser usado constava de uma taquara ou bambu, maduros, com cerca de 5 cm de diâmetro e 2 metros de comprimento, tendo numa das extremidades rebaixadas um anzol com cerca de 3 cm de abertura, firmemente encastoado. De posse da fisga e sobre o lajeado com água pelo joelho ou à meiacoxa, com uma das mãos o pescador procura a toca. Uma vez localizada, introduz-se lentamente a extremidade sem anzol na toca, para saber se muito funda ou rasa, e, pelo toque, conhecer onde é pedra e onde está o peixe. Este, assim que é tocado, reage com um movimento. Sabendo onde ele está, introduz-se a extremidade com o anzol, chega-se ao peixe e, num brusco puxão, ferra-se o cascudo. Para evitar o vai-evem no barranco, mantém-se um saco amarrado à cintura para recolher os “fisgados”.
No entanto, os pequenos, uma vez limpos, descouraçados e fritos, transformam-se em apreciados “tira-gostos” em bares e restaurantes ribeirinhos. Em ranchos, muitas vezes, devido à precariedade de utensílios (panelas), é empregado o sistema aprendido com nossos indígenas, assando-o em braseiro na própria casca 51
Curimbatá
Curimbatá - Prochilodus scrofa.
Também conhecido por corimbatá, da família Prochilodontidae, nome científico Prochilodus scrofa. Peixe de bom porte, pode atingir 8 kg com 72 cm de comprimento total aos 23 anos. Encontrado em todo o território nacional e também nos países vizinhos. Peixe essencialmente limnófago (comedor de limo), o que confere à 52
sua carne o sabor de barro. Por essa razão, é mais consumido pela população de baixa renda, devido ao baixo preço. Os machos, com 22 a 23 cm aos 2 anos já podem reproduzir, e as fêmeas, ao terceiro ano, quando medem entre 26 e 27 cm. É um peixe bastante prolífico, pois os ovários das fêmeas podem pesar
até 27% do peso total, com exemplares de 60 cm, à razão de 1.400 óvulos por grama. A eclosão das larvas ocorre de 22 a 26 horas após a fertilização. Como peixe reofílico (de piracema) efetua duas migrações por ano: a migração reprodutiva (ou ascendente), e a migração trófica (ou descendente). A reprodutiva, quando procuram atingir o “lar” de reprodução. A trófica, após a reprodução, quando voltam ao lar de alimentação e engorda. As migrações se processam uma vez ao ano e são estimuladas por um complexo conjunto de fatores de natureza física, química e endógena ou hormonal, como pluviosidade (chuvas), foto-período (insolação), turbidez e temperatura da água, oxigênio da água (OD), pH, grau de poluição (DBO) e o progressivo desenvolvimento dos ovários e dos testículos, até atingirem o estágio de reprodução. Esse processamento é iniciado a partir de julho ou agosto, dependendo das condições climáticas. Segundo especialistas, o próprio dispêndio de energia favorece o “amadurecimento” das glândulas sexuais, com alterações endógenas, como o teor de ácido láctico que, em excesso no sangue, ativa a hipófise e a liberação de hormônios gônado-estimulantes, os quais favorecem a maturação dos gametas e sua própria liberação. Experimentos efetuados na Estação de Piscicultura do Ministério da Agricultura, em Pirassununga, comprovaram que peixes (curimbatás, piavas, mandis, lambaris) mantidos em lagoas, por dois a três anos, desenvolviam até certo ponto os estágios de maturação sexual durante o período da piracema, sem, entretanto, atingirem o estágio final. E o interessante foi que alguns desses peixes, uma vez marcados e soltos no rio Mogi, e recapturados, posteriormente demonstraram que tinham reproduzido, evidenciando
com isso que a dinâmica do rio é fundamental para os peixes de piracema. Experimentos de marcação e captura posterior de peixes, realizados por técnicos da mesma Estação nos rios Mogi, Piracicaba, Grande e Paraná, revelaram que o curimbatá, durante o período migratório, pode percorrer até 700 km ou 1.400 km em rumos ascendente e descendente, dependendo de sua bacia hidrográfica; que a velocidade de migração é maior na ascendente (ou reprodutiva); que a velocidade pode variar de 5 km/ dia a 39 Km/dia; que durante esse período de migração o peixe deixa de se alimentar, possivelmente por uma sábia prevenção da natureza de preservação (pois passa a não ser capturado pelo anzol). O acúmulo de gordura adquirido durante o período de permanência no lar de alimentação favorece o jejum no período de reprodução. Com o jejum, seu crescimento fica prejudicado, o que é assinalado nas escamas, com seus “annulus” (um por piracema). Segundo crença de velhos pescadores da rua do Porto, o gosto de barro da carne do curimbatá pode ser anulado “tirando-se o fio”. Esse “fio” pertence ao sistema nervoso do peixe e está situado ao longo e logo abaixo da linha lateral. Para retirá-lo, basta fazer um corte transversal ao peixe, logo atrás do opérculo, e com a abertura do corte, aparece o comentado “fio”. Com o dorso da lâmina de uma faca, é suspendido; uma vez puxado, sai facilmente em toda a sua extensão. Essa crença, também citada por Ihering (1929), é seriamente defendida por pescadores nas suas “histórias”, mas inteiramente descomprovada por todos de bom paladar. Por ser um peixe essencialmente comedor de limo dos rios (limnófago), por isso também conhecido pela alcunha de “papa- -terra”, sua boca é inteiramente voltada para baixo, totalmente
Segundo especialistas, o próprio dispêndio de energia favorece o “amadurecimento” das glândulas sexuais, com alterações endógenas, como o teor de ácido láctico que, em excesso no sangue, ativa a hipófise e a liberação de hormônios gônadoestimulantes, os quais favorecem a maturação dos gametas e sua própria liberação
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Por essa razão, dificilmente é pescado com anzol. Ihering, entretanto, relata que no rio Guamium, afluente do Piracicaba, que recebia o esgoto de um matadouro próximo, curimbatás eram pescados com anzóis pequenos, mas muito fortes, com pequenos pedaços de coágulos de sangue ou bucho de porco como isca
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desprovida de dentes, provida de um tecido áspero e coriáceo, que lhe permite “mamar” o limbo. Por essa razão, dificilmente é pescado com anzol. Ihering, entretanto, relata que no rio Guamium, afluente do Piracicaba, que recebia o esgoto de um matadouro próximo, curimbatás eram pescados com anzóis pequenos, mas muito fortes, com pequenos pedaços de coágulos de sangue ou bucho de porco como isca. Para tanto, era necessário o uso de uma vara bem fina, para sentir o peixe “mamando” a isca, o que contribuiria extraordinariamente para aumentar a sensação do pescador ao usar uma vara tão branda, própria para lambaris, ao segurar um peixe de alguns quilos. Outro sistema usado é a colocação de uma pequena pelota de massa feita com farinha de trigo na linha, pouco acima do anzol tridente (garateia). Ao perceber que o peixe está “mamando” a massa, dá-se o chascão que pode ferrar o curimbatá. Em Piracicaba, como na maioria dos rios onde é encontrado, o curimbatá geralmente representa cerca de 50% da população existente, o que o torna de maior valor. Em Piracicaba é comum considerar os curimbatás maiores, com peso acima de 5 kg, um peixe de outra espécie, chegando a chamá-los de curimbatá-uvú, derivado de açu = grande, em tupi. Entretanto, de acordo com especialistas em taxonomia, não há diferenças que justifiquem a origem de uma nova espécie. Nomura (1984) relaciona outras espécies do mesmo gênero, como o curimatá – pacu (P. argenteus) dos rios São Francisco e das Velhas; o P. marcgrave do rio São Francisco e na Argentina; o P. nigricans , de rios amazônicos e também da Bolívia, do Paraguai e da Colômbia; o P. cearensis , do Ceará, em rios e açudes; o P. curimbata encontrado no Rio Grande do Norte, no Ceará e na Paraíba. Em Piracicaba
é encontrado ainda o conhecido curimbatá-delagoa (Prochilodus vimboides) , de menor tamanho que o do rio, corpo fusiforme, coloração pardo-amarelada, visto preferencialmente em lagoas marginais e por vezes, no rio, devido ao extravasamento de lagoas durante as enchentes, e de baixo valor comercial. A reprodução do curimbatá pode ocorrer entre os meses de novembro a janeiro, embora, como todos os outros peixes de piracema, caso se encontre no estágio “maduro”, a reprodução nunca se processa se o nível do rio se mantiver estável ou rebaixando. Durante esse período, os exemplares machos emitem um ronco, audível até das margens, muito conhecido pelos pescadores profissionais. O Departamento de Tecnologia Rural da ESALQ (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”) empreendeu ensaios visando a conservação da carne do curimbatá e de outros peixes, para transformá-la em alimento de maior valor, face à grande produção, e sua salga, secagem e defumação. A salga, através da salmouragem, foi mais eficiente quando a concentração da salmoura foi acima de 25% de sal, ou seja, acima de 70% da solução saturada. Os de defumação e os não defumados tiveram a mesma conservação, sendo que os primeiros apresentaram melhor aroma, sabor e cor nos ensaios organolépticos, e de maneira geral, foram mais apreciados. Porém, após uma exposição ao ar por 12 meses, surgiu um ranço oxidativo, percebido desde os três primeiros meses de conservação, sendo mais pronunciado nos exemplares maiores de 1.200 gramas, devido à gordura. Foi observado ainda que, embora exemplares de 800 g se conservem bem, a quantidade de espinhas se torna mais presente devido ao menor volume de músculos, que diminuem mais com a secagem.
Papa terra
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Dourado
Dourado - Salminus maxillosus
Desde o período do descobrimento do Brasil, por volta de 1.500, o dourado já impressionava os primeiros colonizadores. Relatório da época, de Cabeza de Vaca, citava que o pirajuba (peixe de cabeça amarela) era usado pelos índios guaranis na medicina tribal. Sua gordura, usada pelos índios, uma vez esfregada nas canelas, evitava 56
o bicho-do-pé (Tunga penetrans) e também tinha poderes para a cura da sarna e da lepra. Morais Fº e Schubart (1955) relatam que, em 1884, por sugestão de D. Pedro II, foi tentada a introdução do dourado no rio Paraíba, no tempo do pleno florescimento econômico do vale. Entretanto, tal tentativa não foi coroada de sucesso, o
que ocorreu somente em 1945, com alevinos dos rios Mogi-Guaçu e Piracicaba, introduzidos por técnicos da antiga seção de Caça e Pesca da Secretaria da Agricultura de São Paulo e da Estação Experimental de Biologia e Piscicultura de Pirassununga, do Ministério da Agricultura. Foram lançados ao todo 500 douradinhos com cerca de 25 cm de comprimento, divididos em dois lotes: um em Pindamonhangaba e outro em Guaratinguetá. Terminam o relato esclarecendo: “Hoje se encontra o dourado completamente adaptado no trecho médio do rio Paraíba”, isto dito no ano de 1955. A criação artificial do dourado, através da técnica de hipofisação, embora fosse ideal para obtenção de alevinos destinados a povoação de rios ou criatórios, apresenta séria dificuldade devido ao seu canibalismo. Desde que se encontre em local confinado, durante seu crescimento após a fase larval, já apresenta tal tendência. Com cinco dias, já são observadas lutas em tentativas do animal “um pouco maior” tentar engolir o “um pouco menor”, e com isso ocorrem muitas mortes por engasgo. Peixe pertencente à família Characidae, subfamília Salmininae, gênero Salminus, espécie S. maxillosus, era bem conhecido desde período remoto pelos nossos índios. Era usado na medicina tribal e apreciado como alimento. Rodolpho Von Ihering, considerado pai da piscicultura nacional, que estudou sua biologia por várias décadas, assim o distinguia: “O dourado é sem dúvida o peixe máximo destas águas, cabendo-lhe todos os bons predicados. Seu belo colorido é inconfundível, dourado, com subtil desenho de laivas vermelhas” (Ihering 1929). É um peixe típico da bacia do rio da Prata (Argentina) em toda a sua extensão de 3.209.000 km², e na bacia do Paraná com 1.415.000 km². Não é encontrado na bacia amazônica. Devido ao seu grande valor para a pesca esportiva,
despertou a cobiça dos pescadores por saltar das águas, quando fisgado, por cerca de 2 m, levando ao pico sua adrenalina. Era tão apreciada sua pesca que pela oficina de marcenaria dos irmãos Adamoli, de Piracicaba, foi criado o bote piracicabano tipo “oga”, especial para a pesca de “rodada” do dourado. Tinham cerca de 9 m de comprimento para abrigar as varas de 8 m de cana-da-índia que, uma vez deitadas, não ultrapassavam a ponta do barco para não se quebrarem. As pontas, devido à grande força exercida pelo pescador na luta contra o dourado, levavam um “cabresto”, feito de um fio de aço (de 6 a 12 fios) encastoado com um fio fino de cobre que, por sua vez, era encastoado nos dois ou três segmentos da ponta da vara. O cabresto era dobrado deixando uma alça, onde era transpassada a linha de aço da vara, obrigatória na pesca do dourado. O bote levava o piloteiro (ou piloto) sentado na popa, geralmente tendo entre as pernas uma vara (de pesca) controlada com a mão esquerda, e na direita um remo para impedir que o bote fosse levado pela corrente, como também o conduzia a locais que acreditava serem mais favoráveis para encontrar o peixe. Na proa, geralmente outro pescador, mais favorecido, e geralmente o dono do bote (patrão), com a frente toda livre para encaminhar a isca. Eventualmente, levava um convidado que ficava sentado no meio, com todo o cuidado para não atrapalhar os outros pescadores. Controlada pela altura da vara, a isca ia à frente dos pescadores, à meia-água, isto é, nem se arrastando pelo fundo, para não enroscar, e nem na superfície, avançando muito, pois era levada pela correnteza. Uma vez “pegada” pelo peixe, era logo sentida pelo pescador que, apesar de toda a emoção, deveria ter o máximo controle para não agitar a vara e espantar o peixe. O dourado, depois de “mordiscar” a isca algumas vezes (2, 3, 5) e apro-
Era tão apreciada sua pesca que pela oficina de marcenaria dos irmãos Adamoli, de Piracicaba, foi criado o bote piracicabano tipo “oga”, especial para a pesca de “rodada” do dourado. Tinham cerca de 9 m de comprimento para abrigar as varas de 8 m de canada-índia que, uma vez deitadas, não ultrapassavam a ponta do barco para não se quebrarem
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O dourado é essencialmente piscívoro (comedor de pequenos peixes), mas não desdenha outras espécies, principalmente se estão se debatendo na água, como pequenas cobras, camundongos, filhotes de pássaros e especialmente andorinhas surfando a superfície hídrica para beber água 58
vá-la, abocanha-a resolutamente e geralmente dispara rio abaixo puxando a vara violentamente. Este momento exige toda a perícia do pescador para decidir o tipo de “ferrada” que vai dar: “de braço” ou de “ponta de vara”. São somente alguns segundos, mas decisivos para conseguir ferrar o peixe. Exige que o anzol penetre logo acima do osso maxilar, na abóbada palatina, e sua ponta com a farpa atravesse a parte óssea. A ferrada “de braço” é dada quando a vara se encontra em relação à água em ângulo bem aberto (mais do que 45º), permitindo um brusco movimento para cima. A ferrada “ponta de vara” ocorre quando a ponta da vara ou mesmo parte dela se acha mergulhada e o pescador pratica um forte puxão contrário ao deslocamento do peixe, que é rio abaixo. Os anzóis, geralmente importados, das marcas Sobey ou Mustad, de tamanho variado, também devem ser “adequados” ao porte do dourado. Um anzol de número grande, dificilmente consegue “ferrar” um dourado pequeno, como também um anzol pequeno, ferrar um exemplar grande. O dourado é essencialmente piscívoro (comedor de pequenos peixes), mas não desdenha outras espécies, principalmente se estão se debatendo na água, como pequenas cobras, camundongos, filhotes de pássaros e especialmente andorinhas surfando a superfície hídrica para beber água. Entre os peixes pequenos, os mais apreciados são, pela ordem: tuvira, cascudinhos, lambaris, saguiru. Sua larga abertura bucal (e voracidade) permite deglutir presas avantajadas em relação ao seu porte. Em registro constante da Estação de Pirassununga (SP), consta o encontro de uma piava já semidigerida no estômago de uma fêmea de dourado, que correspondia a 54,8% do comprimento total da sua predadora. Embora muitos técnicos em piscicultura admitam que somente 2% a 3% de uma desova sejam fertilizados, o índice de ovulação (gramas X
número de óvulos) é elevado, garantindo um bom número de alevinos. O registro de uma fêmea de dourado com 18,50 kg de peso e ovário com 2.071 g, revelou um índice de 1 g = 1.247 óvulos e 2.582, 537 total de óvulos. Estima-se que esse índice em média, oscile entre 1.000 e 1.200 óvulos por grama de ovário, que representam de 15% a 24% do peso total das fêmeas e de 1% a 1,5% dos testículos dos machos que, aos 2 anos, já atingem idade reprodutiva, e as fêmeas, aos 3 anos. Durante seu desenvolvimento, o dourado passa por vários regimes alimentares: como larva = planctófago (fito e zooplâncton); alevino = planctófago e larvófago (classe insecta); juvenil = insetívoro; adulto = carnívoro (piscívoro). Ao longo de sua existência, todos os anos efetuam uma migração conhecida como piracema. Deslocando-se da região conhecida como lar de desenvolvimento e engorda, executam a migração reprodutiva rio acima, até atingir o lar de reprodução. Após a reprodução, retornam ao seu lar de desenvolvimento e engorda: é a migração trófica, onde permanecem até a próxima migração. Esses deslocamentos, de acordo com a bacia hidrográfica a que pertence o peixe, podem representar até milhares de quilômetros. O pesquisador Manoel Pereira de Godoy, da Estação de Biologia e Piscicultura de Pirassununga, entre 1954 e 1963, nos períodos de piracema, com a concentração de peixes na cachoeira de Emas do rio Mogi-Guaçu, procedeu à marcação de vários milhares de exemplares de diferentes espécies a fim de investigar os trajetos migratórios, os quilômetros percorridos e a velocidade nos transcursos, de preferência em 704 exemplares do dourado examinados. Entre as milhares de anotações registradas, concluiu que o dourado apresenta uma velocidade de deslocamento entre 2 e 10 km/dia e que pode migrar, em trânsito de ida e volta até 2.060 km. Já para o pacu, de configura-
Pesca de rodada
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dourado na banheira
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ção menos favorável ou menos hidrodinâmico, registrou a velocidade de 3,3 km/dia durante um percurso de 100 km. Entre os “causos” relatados por pescadores, relativos ao dourado, figurava um atribuído ao pescador Bico-fino. Certa feita, ele descia lentamente de rodada, na corredeira “quebra-canela”, famosa pelo encontro de grandes dourados, quando sentiu a “pegada” de um peixe que, em ziguezague, mordiscava a isca como se a estivesse experimentando. O coração do pescador palpitava ao máximo, quase saindo pela boca. E o peixe continuava a brincar com a isca até que resolveu “sair”. A vara que se encontrava alta, acompanhou o movimento do peixe rio abaixo, mergulhando sua ponta n’água. Saiu em “ponta-de-vara”. Bico-fino, reunindo toda a força de seus braços, deu a ferrada indicada para a situação, contrária ao movimento do peixe e imediatamente suspendeu a vara a fim de que a força de mola, ao envergar, evitasse que o anzol se soltasse da boca do peixe. Nesse movimento, ouviu um estalido, e a vara subiu chicoteando, com a linha de aço quebrada no cabresto que a prendia ao anzol. Não chorou na hora porque homem não chora, mas amargou profundamente a perda do anzol Sobey, que o acompanhava já por dezenas de anos. Era uma relíquia que afiava carinhosamente todas as semanas, e tão extraordinário era o número de dourados que ferrara para seu dono que tinha o nome de “matador”. Passaram-se vários meses, até promessas foram feitas para o encontro de outro que, pelo menos, se igualasse ao “matador”. Certa manhã, novamente “rodando” no “quebracanela”, recordando e lamentando a perda do seu “matador”, sentiu uma pegada. E o peixe mordiscando a isca vai de um lado para o outro sem sair. O coração aos trancos aguarda a corrida final. Sai o peixe vigorosamente rio abaixo.
Vara já mergulhada, ferrada em ponta-de-vara, toda a força para cima para amortecer a força do peixe, que num esplêndido salto, mais de 2 metros da água, se revela: um belo dourado. Nos saltos seguintes mostra certa diferença em sua cabeça, um apêndice saindo da boca. E finalmente, ao embarcar o pescado, prontamente Bico-fino soltou vigoroso grito: reconhecera o seu “matador” atravessado no “canivete” da boca do dourado, ainda com um resto do cabresto. Estava atendida a promessa que fizera a Nossa Senhora com tanto fervor para reaver o seu precioso “matador”. Em décadas passadas, era muito conhecido e afamado o cidadão alcunhado João da Curva, pelas histórias que contava, afirmando com a maior “cara de pau” serem verdadeiras, mas que não passavam de inverossímeis. A própria alcunha teve sua origem na história de que, para matar um veado que sempre fugia na curva de uma trilha, entortou o cano de sua espingarda, do mesmo lado da curva e, com tiro certeiro, abateu o fugitivo. No rol de suas histórias havia uma envolvendo o dourado. Certa vez, no trecho do rio, abaixo do “vai-e-vem”, pescou um dourado de uns 4 kg, muito bonito, tão belo que resolveu levar para casa para criar. Encheu a velha banheira de ferro, de quatro pés, e lá instalou sua presa, que era alimentada várias vezes por dia com lambaris comprados na rua do Porto. E cada vez que o alimentava, treinava-o por algum tempo, progressivamente, a ficar com a cabeça fora d’água. Como os períodos de treino foram se alongando, e se cansava de ficar segurando o peixe, instalou uma pequena plataforma na superfície da água para que, sem esforço, o peixe ficasse instalado. Certa ocasião, decorrido um bom tempo, quando o treinamento fora d’água já durava horas, deixou o dourado na plataforma
e foi à cidade fazer umas compras. Encontrou-se com um velho amigo e, na prosa, esqueceu do dourado. Quando se lembrou, dando toda força às pernas, saiu correndo para casa e lá chegando deparou com uma grave visão: o dourado caíra da plataforma e morrera afogado. Certa ocasião, descíamos o rio de “rodada”, no trecho conhecido por “ondas”, na esperança de ferrar um dourado. O Hélio, na popa, de piloto, eu no meio, e na proa, o Zico. Sol a pino, o silêncio quebrado pelo bater da água nas laterais do bote, nos preocupávamos em manter as varas em boa altura, para evitar que os anzóis enroscassem nas pedras. Inesperadamente, com grande alarido, o Zico, solta um vibrante “atchimmm”, seguido de um também vibrante, “f.d.p”, pois sua dentadura, descrevendo um semicírculo, foi cuspida por uns três metros à frente do bote, mergulhando na água. Com grande esforço, conseguimos segurar as gargalhadas, lamentando o companheiro pelo ocorrido, que, aliás, nos pediu para não revelar com receio de gozações. Na verdade nem foi preciso nenhuma revelação aos companheiros, pois a insistência do Zico, de falar com a mão cobrindo a boca, prontamente revelou o ocorrido e com ele o surgimento de piadas que se alastraram como rastilho de pólvora, de um dourado com uma dentadura no bucho ou de outro com uma dentadura entalada na boca, substituindo sua dentição natural. A história atingiu tamanha proporção que chegou ao noticiário do “O Diário”, um dos jornais da cidade, o curioso anúncio: “Dentadura à Prova de Espirro. Executa-se com perfeição e segurança, dentadura à prova de espirro, mantida por delicada correntinha de ouro ou prata presa a uma corrente no pescoço. Facilita-se o pagamento. Tratar com Mateus pelo telefone 0195”.
Encontrou-se com um velho amigo e, na prosa, esqueceu do dourado. Quando se lembrou, dando toda força às pernas, saiu correndo para casa e lá chegando deparou com uma grave visão: o dourado caíra da plataforma e morrera afogado
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Jaú
Jaú - Paulicea luetkeni Enquanto a piraíba (Brachyplatistoma filamentosum), com seus 3 metros de comprimento e 150 kg de peso, reina na bacia amazônica como o maior peixe, o jaú (Paulicea luetkeni), na bacia paranoplatense, com seus 2 metros e cerca de 120 kg, assume esse posto. Da família Pimelodidae, de couro como seus congêneres, possui a cabeça igual ao da parte mais volumosa do corpo, de cor pardacenta no dorso e esbranquiçada na parte ventral. Tem boca larga que atinge toda a largura da cabeça, armada na parte superior e inferior por faixa de cente62
nas de fortes dentículos voltados para o interior da boca, que garantem a segurança dos peixes abocanhados. Devido a essa capacidade, certos autores admitem que, antes de engolir suas presas, o jaú pratica uma espécie de mastigação por meio de suas fortes mandíbulas. Nos exemplares adultos, o primeiro raio das nadadeiras peitorais atinge a grossura de um dedo indicador humano e pode ter mais de um palmo de comprimento, todo farpado na sua parte posterior, constituindo perigosa arma de defesa, pois uma vez penetrada, dilacera inteiramente o
ferimento ao ser retirada sem recurso médico. Sua força extraordinária, quando dentro d’água, faz parte de grandes histórias de pescadores como as reveladas por Magalhães (1931), sobre um pescador tarrafeando no Salto de Piracicaba, com a corda amarrada ao pulso, quando atingiu um jaú. Foi arrastado correnteza abaixo e desapareceu. Ele também fala do cadáver de um pescador, boiando e subindo rio acima, tendo na extremidade da corda presa ao seu pulso, um grande jaú, “emalhado” num resto de tarrafa!!! Sua pesca mais normal é feita pelos sistemas conhecidos de pindacuema, sonda (ou sondar), também conhecida por linha de mão, e o espinhel. O pindacuema consiste em se utilizar um galho pendente sobre o rio, onde se amarra uma corda, de preferência de linho ou hoje em dia de fios plásticos, sendo a rabeira, com boa folga, amarrada ao tronco da árvore. Na ponta pendente no rio, um anzol grande é iscado com um peixe ainda vivo (pelas costas) que fica se debatendo na superfície da água. Como isca, de preferência, curimbatás de tamanho médio (600 g), piavas e eventualmente cascudos que, por não se debater muito, não seriam indicados. O galho pendente servirá de mola. O peixe pegando a isca e se deslocando rio acima, arqueia o galho, que em seu retorno, o ferra . A tensão do galho, sempre contrária à força do peixe, faz o peixe cansar e não tentar escapar. A linha de mão ou sondar, como os próprios nomes já indicam, é executada no meio do rio, com o bote “apoitado” e a linha manejada com as mãos, em movimentos iguais ao de empinar “papagaio”, sondando o leito do rio com o anzol iscado e a chumbada adequada à força da correnteza. Por isso é mais apropriada para peixes de fundo, ou de couro, como o jaú. Enquanto a pesca com o sistema pindacuema não oferece perigo, a pesca com sondar, se a linhada for forte e resistir à força do peixe, é perigosa, pois pode representar o perigo de arrastar o pescador para dentro d’água, o corte nas mãos
(principalmente se for linha de náilon), ou mesmo o bote emborcado, como já consta de vários “causos”. Se depois de ferrado conseguir alcançar uma “loca” (toca entre pedras), resiste a qualquer pressão, restando ao pescador paciência por muitas horas ou a opção de abandonar o peixe. Eventualmente, o jaú pode pegar um espinhel (corda forte amarrada no barranco com poita pesada na ponta e vários anzóis). Além de deslocar a poita, dificilmente as linhadas dos anzóis seguram o peixe. É comum também, ao tentar abocanhar um peixe emalhado em uma rede de barranco (de espera), pela fragilidade dela, o peixe levar “tudo no peito”, como se diz popularmente. Do ponto de vista comercial tem bom valor, seja pelo peso e também pela carne branca, delicada, sem espinhas, que pode ser preparada de várias maneiras ou disposta em mantas que, secas ao sol, tomam uma coloração avermelhada, semelhante ao pirarucu. Magalhães (1931), Monografia Brasileira de Peixes Fluviais, nos dá conhecimento sobre a análise da carne fresca e do “azeite”: Análise da carne fresca (%): Matéria graxa .... 13,5340 Cinzas .... 10,2920 Fosfatos .... 0,1637 Calorias .... 510 Azeite – Composição centesimal: Água .... 2,104 Insolúveis no éter .... 0,076 Matéria gorda .... 97,82 Cinzas .... 000 O mesmo autor ainda esclarece que “tudo se aproveita do peixe. Um jaú de 60 kg, por exemplo, poderá dar, em condições normais, 20 kg de carne, 15 kg de azeite, 5 kg de cola e 15 kg de resíduos”. O azeite tem muitas aplicações nas indústrias, principalmente na de couros finos. Ihering (1934) que, entre centenas de espécies de peixes estudados, também o fez com o jaú revela que um exemplar
Enquanto a pesca com o sistema pindacuema não oferece perigo, a pesca com sondar, se a linhada for forte e resistir à força do peixe, é perigosa, pois pode representar o perigo de arrastar o pescador para dentro d’água, o corte nas mãos (principalmente se for linha de náilon), ou mesmo o bote emborcado, como já consta de vários “causos” 63
Pesca do jaú
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fêmea de 70 kg, com ovários pesando 4 kg, pode conter 3.640.000 óvulos. No rio Tietê, embora tenha vários afluentes favoráveis à subida de peixes, principalmente para fins de reprodução, o rio Piracicaba sempre foi privilegiado, possivelmente devido à qualidade de suas águas (antes de 1970) tanto física como quimicamente. Sua fauna, por possuir numerosas espécies, algumas de grande porte, em dé-
cadas passadas era uma atração para pescadores de diferentes origens. Há muitos anos, o pescador Leonardo me relatou que seu irmão, Manuel Santos Lamera, vulgo Português, pescador profissional, morador do trecho do rio conhecido por “prainha”, conseguiu pescar um jaú de 180 kg. Ante minha expressão de dúvida, asseverou que ainda no rancho do seu irmão era guardado o anzol que fora feito por
um ferreiro, como comprovante da pesca inusitada. Como não tive a oportunidade de checar a existência do anzol e a comprovação do autor da proeza, aqui fica o seu registro, com dúvidas se verdadeira, ou como mais uma história de pescador. Relato do pescador Sinésio Cursio revelou que um jaú fêmea, pescado no rio Vermelho (MT) pesou depois de limpo, 115 kg, e seus ovários 4,5 kg. Se considerarmos a barrigada como 20% do peso vivo (PV), o exemplar pesaria pouca mais de 140 kg. Outro “causo” registrado por vários autores, foi o de um jaú de 120 kg, “acontecido” de formas diferentes. Uma delas constava que os pescadores da rua do Porto, durante meses (período da piracema) sofriam com o ataque de um grande peixe, que destroçava todo o artefato de pesca, fosse pindacuema, espinhel e principalmente redes de espera; sem falar na linha de mão “sondá”, que tinha de ser solta quando ferrado o peixe, para o pescador não ser puxado para dentro d’água. Para pôr fim às ocorrências que causavam grande prejuízo aos pescadores, pela baixa produção do pescado e a perda dos artefatos de pesca, mandaram fazer na Oficina Dedini um anzol de aço, de tamanho especial, cerca de “palmo e meio”, para segurar o bicho. Encastoado em um cabo de aço de doze fios, iscado com um curimbatá de 4 kg, foi o cabo amarrado a um grosso galho de ingá, pendente sobre o rio, e sua extremidade ao tronco da mesma árvore, no fim de uma tarde. Lá pelas tantas, um grande alvoroço no rio. A escuridão da noite, mais um certo temor da luta no escuro, fez permanecer os pescadores nas suas casas, aguardando com certa curiosidade o amanhecer. Dia claro, dois botes com pescadores acercaram-se do cabo de aço, tenso, sem movimento nenhum. Bastou, porém, um leve toque, para começar a luta. Solto o cabo do pindacuema da árvore, o peixe, sem rebojar, rebocava um dos botes hora para cima, hora para baixo, ante a estupefação dos pescadores. Passaram-se horas até
que o peixe, já cansado, começou a rebojar. Porém, a cada rebojo e recolhimento do cabo que prendia o peixe, havia uma perigosa reação, com a ameaça de puxar o pescador para dentro do rio ou mesmo emborcar o bote. Depois de horas da luta ferrenha, a solução foi a convocação da Guarda Municipal que, com tiros de fuzil na cabeça do peixe, embarcaram o jaú. Pesou 120 kg. Dessa extraordinária façanha vieram também participar os habitantes de Piracicaba. O jaú colocado numa carroça, com seu focinho roçando o rabo do burro, atravessava o comprimento do transporte e a ponta da cauda ainda raspava o chão. Várias ruas da cidade foram percorridas ante as palmas de seus moradores, enobrecendo seus pescadores. Essa inusitada ocorrência foi citada por Ihering (1929) em seu livro Da Vida dos Peixes, assim como por outros credenciados autores. Por volta da 2ª Guerra Mundial, devido ao racionamento da gasolina, os pescadores deviam se registrar na prefeitura para ter direito a uma magra cota de gasolina por mês. A alternativa dos pescadores era descer o rio remando e só usar o motor na subida, portanto gastando menos gasolina. Os motores pequenos, até uns 10 cavalos, conhecidos pelo barulho que faziam como “tip-top”, na época das enchentes, da piracema, tinham dificuldade de subir o rio, principalmente quando estavam levando uns bons quilos de peixe. A solução era que só o piloto subia com o bote e os outros retornavam a pé. Na região do rio conhecida por matadouro, a transposição era complicada devido à quantidade de pedras submersas. A passagem favorável era pela margem esquerda, próxima do barranco, e sempre transposta com muita apreensão, pois era comum o fato de grandes jaús abocanharem a hélice do motor e quebrarem o pino, deixando o bote inteiramente ao sabor da correnteza. Sabíamos perfeitamente que não era pedra pelo rebojo do peixe, provavelmente atordoado pela força da batida da hélice em sua boca.
Há muitos anos, o pescador Leonardo me relatou que seu irmão, Manuel Santos Lamera, vulgo Português, pescador profissional, morador do trecho do rio conhecido por “prainha”, conseguiu pescar um jaú de 180 kg. Ante minha expressão de dúvida, asseverou que ainda no rancho do seu irmão era guardado o anzol que fora feito por um ferreiro, como comprovante da pesca inusitada
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Jurupoca
Jurupoca - Hemisorubim platyrhynchus.
Peixe de couro da família Pimelodidae , ocorrente nas bacias amazônica, do Prata e do Paraná, pode atingir 60 cm e 4 kg de peso. Sua carne amarelada é apreciada por seu sabor. Tem o corpo roliço, quase uniforme, e por essa razão também é conhecido por “braço-demoça”. Por viver em bocas de lagoas e poços, tem coloração escura com manchas irregulares 66
no dorso, um pouco mais claras nas laterais, e branca na parte inferior. A cabeça é pequena com quatro pares de barbilhões sensoriais. Apresenta prognatismo acentuado, com a mandíbula maior do que o maxilar superior, tornando a boca virada para cima, e dotada de uma faixa de dentículos voltados para seu interior. Seu corpo é recoberto por muco, que o torna difícil
de ser segurado com as mãos. O Hemisorubim platyrhynchus alimenta-se de peixes e invertebrados. Como peixe de fundo, é pescado principalmente em espinhel, em pesca de barranco, e às vezes por sondá. Por ser um tanto raro e de coloração escura, não é apreciado e tem pouco valor comercial. É mais apreciado por pescadores, por conhecerem o sabor de sua carne e porque não apresenta espinhos como os demais peixes de escama. Sua pele, depois de bem limpa e feita em tiras, uma vez frita, é apreciada pelos pescadores como tira-gosto. Magalhães (1931), porém, assevera que “en-
Ferroada
tre os peixes de pele é o melhor para a mesa, atingindo preços vantajosos no mercado, para os que conhecem”. O pescador Sinésio, apreciador de jurupoca, adverte sobre o perigo que representa para o pescador inexperiente. Se for segurá-lo com as mãos junto à base das nadadeiras peitorais, ele as fecha com grande pressão, causando dolorosos ferimentos. Com a prática adquirida em sua pesca, garante que quando se pesca um, é só insistir um pouco mais para pegar outro. Segundo sua observação, quando adulto o jurupoca é monogâmico, característica nunca citada anteriormente.
Como peixe de fundo, é pescado principalmente em espinhel, em pesca de barranco, e às vezes por sondá. Por ser um tanto raro e de coloração escura, não é apreciado e tem pouco valor comercial
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Lambari
Lambari - Astyanax fasciatus Pequeno peixe do rio Piracicaba, amplamente presente em todas as bacias do Estado, como também em Estados vizinhos. De pequeno porte, pode atingir cerca de 15 cm e peso de 35 g. É a espécie que, para a alegria dos pescadores, está sempre presente no rio. Em determinados trechos, mesmo em períodos fora da piracema, quando então forma grandes cardumes, em esplendoroso e cintilante espetáculo, os lambaris procuram vencer a impetuosidade das águas do salto. Esses peixes se alimentam principalmente de insetos e pequenos crustáceos e também de algumas espécies de algas e pequenos frutos. Ecologicamente, em todos os rios onde estão 68
presentes constituem um importante elo na cadeia trófica dos peixes carnívoros (ou piscívoros), como peixe forrageiro. Por essa razão, por serem muito atacados por outros peixes – dourado, tabarana, pintado, os pequenos cardumes se agrupam próximos às margens, entre a vegetação, e se qualquer inseto ou mesmo uma pequena folha ou fragmento vegetal atinge a superfície, saem do esconderijo, para verificarem de perto se é algo comestível ou não. Os pescadores com maior experiência, munidos de varas frágeis de ponta bem fina, e usando linhas finas de náilon com pequeno anzol, conhecido pelo nome de “mosca”, iscado com pequeno peda-
ço de minhoca, larva de inseto (tenébrio) ou massa, mesmo sem chumbada, precisam ser rápidos na fisgada, pois a ligeireza como o lambari pega a isca assim que toca a água e sai numa arrancada não permite nenhuma “moleza” do pescador. A desova é parcelada, isto é, pode ocorrer mais de uma vez durante o período da piracema, mais precisamente de novembro a fevereiro. Não desovam em ninhos ou outro substrato do meio aquático, mas nas águas correntes dos rios, sendo os óvulos, após fecundados, levados pela correnteza à vegetação submersa ciliar ou para lagoas ciliares, onde se desenvolverão os embriões para o surgimento das futuras larvas e alevinos. Popularmente é conhecida mais de uma dezena de lambaris, pertencentes a dois gêneros: Astyanax e Hemigrammus. A denominação popular é dada pela coloração das nadadeiras, dos olhos e pelo tamanho. Assim, o Astyanax fasciatus, lambaride-rabo-vermelho, é um belo exemplar de nosso rio, seja pelo seu tamanho ou principalmente pelo seu belo prateado e a coloração vermelho-sanguínea de seu rabo. Embora atualmente já um tanto raro, devido principalmente à poluição e à ausência de vegetação ciliar, constituiu durante décadas, ou mesmo mais de um século, um importante fator de atração turística: o cuscuz da rua do Porto, assim louvado por violeiros: Rua do Porto tem cuscuz mais verdadeiro Feitado em sua vorta de lambari de rabo vermeio De fato, as petisqueiras, entre elas a menina preta, faziam a diferença. Embora os ingredientes fossem os mesmos, o cuscuz com lambaris de rabo vermelho era o mais procurado e, portanto, mais caro. Montados com lambaris abertos ao meio e espalmados, o prateado do corpo e o vermelho do rabo limitavam cada bocado. A espécie apresenta mancha umeral difusa e mancha escura estendendo-se desde o pe-
dúnculo caudal em sua parte final até a reentrância da caudal bifurcada. A espécie é encontrada desde a América Central até a Argentina. O lambari-denadadeiras-vermelhas, Astyanax trierythropterus, de menor tamanho, corpo prateado, constitui bom ornamento na aquariofilia, assim como o lambari-olhode-fogo, Hemigrammus ocellifer, disputado para aquários ornamentais. O tambiú, Astyanax bimaculatus lacustris, como o nome indica é um peixe de lagoa, frequentemente é encontrado em rios, devido a transbordamentos de lagos, mas provavelmente não encontram aí ambiente propício à reprodução. Segundo Nomura (1984), que estudou sua biologia, é o mais desenvolvido entre os lambaris. Tem o corpo prateado, nadadeiras amareladas, mancha umeral forte e faixa longitudinal ao longo do corpo. É encontrado também em rios de Minas Gerais. Por pescadores amadores, para consumo próprio ou mesmo por esporte, são pescados “de barranco” onde sempre estão protegidos pela vegetação. Por pescadores profissionais, são pescados com tarrafas de malha “fina”, de 5 cm entre nós. Malhagem inferior a essa é proibida, somente autorizada para profissionais, para pesca de isca com malha de até 2 cm. Entre as espécies de menor valor, popularmente conhecido como “peixe-branco”, o lambari é a mais frequente, servindo mais à população de baixa renda ou a restaurantes onde, depois de frito, é servido (e muito apreciado) como tira-gosto. Embora o lambari constitua um importante elo da cadeia trófica dos peixes carnívoros, pode ser também classificado como um importante predador por ocasião da piracema. Ganhando o meio do rio, logo abaixo dos trechos em que as espécies reofílicas se encontram em pleno ato reprodutivo, como um verdadeiro enxame, ficam “caçando” a guloseima dos óvulos e ovos dispersos na corrente. E com essa predação, como num ato de vingança, os pequenos lambaris atingem seus principais predadores, os dourados.
O cuscuz verdadeiro
Rua do Porto tem cuscuz mais verdadeiro Feitado em sua vorta de lambari de rabo vermeio 69
Mandi
Mandi - Pimelodus maculatus Nome dado a diferentes espécies de peixes da família Pimelodidae, gênero Pimelodus. De porte pequeno, como o mandi-chorão, a porte médio, como o mandi-gonçalo, ou como o maior, o mandi-amarelo, cujos exemplares maiores são conhecidos por mandiúva, cientificamente denominados Pimelodus maculatus, estão sempre presentes no rio Piracicaba, onde, devido à poluição, tiveram sua aparição bastante reduzida. Em décadas passadas, o mandi chegou a representar o terceiro lugar no volume de pescado de Piracicaba. Devido à sua grande prolificidade, foram introduzidos no Nordeste, em 1933, provenientes do rio São Francisco; e no rio Paraíba, vindos do rio Piracicaba em 1955, com cerca de 3.500 exemplares adultos. Em 1958, começaram a 70
surgir exemplares filhotes (Nomura, 1984). Uma fêmea de 45 cm chega a atingir 1 kg de peso. Com 30 cm pode gerar 22.000 óvulos. O P. maculatus apresenta o dorso castanho-amarelado, laterais amareladas e a parte ventral branca. Sobre todo o corpo, há pequenas manchas escuras. Por muito tempo, essa espécie foi denominada P. clarias. Tanto a nadadeira dorsal como as duas peitorais são armadas por fortes acúleos (ou ferrões) que produzem dolorosos ferimentos a quem não está familiarizado com esse perigo, quando é pescado. Normalmente, o pescador profissional quebra os ferrões, assim que captura o mandi. Em tempos passados, era impressionante o modo como os pescadores profissionais se livravam dos perigosos ferrões dos mandis, quando
se encontravam tarrafeando no salto, em locais de perigo e de difícil acesso. Com uma das mãos, pegavam o mandi pelo dorso, quando ainda “emalhado”, levavam o ferrão à boca e, uma vez preso entre os dentes, davam uma torção no corpo do peixe, e o quebravam, um ferrão de cada vez, e depois os jogavam para dentro do saco preso à cintura, com só uma das mãos, pois a outra segurava a tarrafa para não ser levada pela força da água. Agora, um “causo” verdadeiro envolvendo o mandi: como sempre acontecia nas sextas- feiras à noite, eu e mais um pequeno grupo de amigos pescadores nos encontrávamos no jardim, defronte ao Passarela, para “trocar conversas”. Numa delas, durante o inverno, o amigo Armando lá apareceu convidando um de nós para ir pescar na manhã do dia seguinte, um sábado, pois estava louco de vontade de comer um cuscuz recheado com mandi. Em pleno inverno, tentar pescar um mandi todos sabiam que era uma loteria. Por mais que insistisse, não conseguiu o companheiro. No dia seguinte, sábado à noite, novamente na reunião, encontramos o Armando todo eufórico, pois conseguira pescar quatro mandiúvas, num poço que ele bem conhecia e que não falhava. Quase babando, ia lembrando como a esposa ia preparar o cuscuz com os mandis, que já estavam num tempero caprichado. Tirou da despensa o velho cuscuzeiro feito de lata por funileiros, constante de uma só peça. A parte inferior recebia a água, cujo vapor depois de fervida, cozinhava o cuscuz. A parte superior, cônica, recebia a massa que era cozida pelo vapor d’água ao atravessar o tampo intermediário, todo perfurado. Providenciou igualmente uma boa rolha para fechar a abertura por onde era colocada a água, que precisava ser retirada para “emborcar” o cuscuz numa travessa. Domingo cedo, depois da missa e antes do almoço, o assunto durante novo encontro só era o cuscuz do Armando. E todos nós, em provocação, prometíamos ir visitá-lo e outras coisas mais, ante a
negativa de que, como não tínhamos participado da pescaria, tínhamos perdido a oportunidade de saborear o quitute. E ainda nos atiçava: já tinha comprado três Antárticas, colocando-as no lugar certo na geladeira, para ficarem bem geladas. E recomendou: “Nada de fazer outra comida, só quero esse cuscuz”. No domingo à noite, uma vez reunidos, estávamos ansiosos para saber como tinha sido o almoço do cuscuz tão bem planejado. A expectativa era grande, e o Armando não aparecia. Conjecturas eram feitas: será que de tanto comer, passou mal? Depois de um bom tempo, ainda longe, foi visto o Armando. Vinha devagar, uma das mãos no bolso, meio cabisbaixo. Nossos olhares de interrogação e admiração se cruzavam. Ao chegar, todos fizemos uma só pergunta: “Então, como foi o cuscuz, estava muito gostoso?” Respostas imprecisas, balbuciadas, nada esclareciam. Depois de algum tempo, levantando a cabeça, inflando o peito, o Armando começou a falar: “Tudo estava perfeitamente certo. Troquei a roupa, vesti um pijama, sentei à mesa, abri a cerveja, empunhei o garfo e falei ‘manda brasa’. A esposa rapidamente apagou o fogo, embrulhou o cuscuzeiro numa toalha e tirou a rolha para sair a água. E, com a água, saíram quatro baratas cascudas!!!”. Em toda a praça foram ouvidas estrondosas gargalhadas...
Nossos olhares de interrogação e admiração se cruzavam. Ao chegar, todos fizemos uma só pergunta: “Então, como foi o cuscuz, estava muito gostoso?” Respostas imprecisas, balbuciadas, nada esclareciam
Cuscuz incrementado
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Pacu
Pacu - Colossoma mitrei
O pacu, cujo nome científico é Colossoma mitrei, teve gêneros diferentes ao longo dos séculos, como Pacu em 1877, Myletes em 1880 e só em 1928 o nome atual. Seu nome popular também sofreu variações de acordo com a região onde se encontrava, desde simplesmente pacu, até pacu-caranha, caranha e pacu-guaçu. Chega a atingir até 82 cm de comprimento e peso de 18,5 kg. Embora tenha o dorso mais escuro e a parte ventral esbranquiçada, pode adquirir coloração bem escura, razão pela qual foi classificado como Pacu Níger, por volta do século XIX. Devido ao formato discoide de seu corpo, evita corredeiras, preferindo remansos com certa profundidade. Embora seja encontrado nos principais rios 72
sul-americanos, abaixo de Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais, até na Argentina, em certos rios, sem uma explicação ou razão, surgiram apenas mais recentemente. Assim, no rio Pardo – SP, sua presença é registrada apenas após o peixamento (transplante), em 1966. No rio Mogi-Guaçu, só após 1970. Na bacia amazônica, há registro de uma captura, em Santarém, em 1915. Tendo em vista a época e as prováveis dificuldades para uma exata classificação, esse registro merece dúvidas. O formato discoide de seu corpo talvez explique a razão de sua inexistência em certos rios de baixo calado e muitas corredeiras. O longo tubo do aparelho digestivo indica uma digestão diversa e prolongada. Exames do trato estomacal re-
velaram restos vegetais secos e verdes, sementes variadas, penas de aves, diversos vermes e pequenos peixes. Por esses elementos vegetais, frutas, peixes e vermes, concluímos que o pacu é onívoro. Para tal diversidade de alimentos, possui uma potente dentição, semelhante aos incisivos do homem, mas com uma larga superfície de contato que funciona como os dentes molares, úteis para cortar, triturar e moer. Por essa razão, são apreciadores de coquinho. Pescadores experientes sabem que quando encontram um coqueiro com cacho debruçado sobre o rio, se existirem pacus, eles estarão lá, esperando pelos frutos caídos. Por isso, “apoitando” o barco bem próximo, isca-se o anzol com coquinho e, com auxílio da longa vara, o faz cair do mesmo modo que ele cai do coqueiro. A pegada e a corrida são instantâneas, só dando tempo para uma boa “ferrada” e muita força para tirá-lo da água, pois, segundo testemunho de vários pescadores, fica nadando de lado, em círculos, podendo dar croca na linha de aço e quebrá-la se não tiver um rodízio no cabresto do anzol. Sua pesca é facilitada pelo formato largo do seu corpo. Seja com tarrafa, com rede de espera, ou de barranco, logo são “emalhados”, ao contrário das espécies com corpo fusiforme que, quando pequenas ou com rede de malha aberta, transpassam com facilidade. Embora a reprodução em meio natural dos peixes reofílicos (de piracema) seja conhecida, para o pacu ainda restam muitas dúvidas. Já para os processos de reprodução induzida, a técnica é bem conhecida e atualmente seus produtos já representam boa parte, senão o total, do encontrado no comércio, onde recebe grande valor. E este é plenamente justificado pelo sabor de sua carne. Depois de assado, a sua costela constitui o ponto alto de muitos restaurantes especializados. Ihering (1968), já em 1940, em seu excelente trabalho Dicionário dos Animais do Brasil, assim se manifesta sobre o pacu: “Sua carne é excelente e, por todos os motivos, é uma das espécies mais promissoras
da piscicultura nacional”. E, quando fez essa profecia, a reprodução induzida dos peixes era um alvo ainda a ser atingido pelos pesquisadores. Do ponto de vista de produção (de carne), o pacu oferece uma característica excepcional quando comparado a outras espécies de peixes. Sua pequena cabeça deve representar apenas 5% do peso total, restando portanto 95% quase todo de carne, já que sua ossatura é pequena. A mesma família possui mais uma espécie de pacu, o Mylophus asterias, vulgarmente conhecido por pacu ou pacu-rosa. De menor tamanho que o descrito acima, a maior fêmea capturada alcançou 32,5 cm de comprimento e peso de 690 g, e o maior macho, 28 cm e peso de 450 g. De coloração clara, apresenta após o opérculo e no início da linha lateral uma mancha arredondada rosa, mais acentuada e maior no macho. Outro caráter de dimorfismo sexual é apresentado na nadadeira anal do macho, que é bilobada. Os exemplares pequenos sempre possuem o corpo marchetado com pequenas manchas irregulares mais escuras. Pesquisas por Travassos (In Ihering, 1968) revelaram intenso parasitismo sofrido pela espécie. Ihering, em seu Dicionário (1968), assim comenta a ocorrência: “Curioso é que várias espécies de pacu são vítimas de intenso parasitismo de vermes do gênero Rondonia, que lhe enchem completamente o estômago; contudo, aparentemente não lhe causam mal”. O conteúdo estomacal de vários exemplares revelou uma predominância herbívora. Por seu pequeno porte, pouca carne e muitas espinhas, apresenta pouco valor comercial quando adulto. Porém, quando pequeno, de 4 a 8 cm, é bom ornamento para aquários. Devido ao formato corporal, tem grande dificuldade de transpor obstáculos do meio hídrico. De acordo com a sabedoria dos velhos pescadores, quando depara com obstáculos, procura um trecho com maior vazão de água, arremete fortemente rio acima e “prancheia” (nada de lado) vencendo a correnteza.
do ponto de vista de produção (de carne), o pacu oferece uma característica excepcional quando comparado a outras espécies de peixes. Sua pequena cabeça deve representar apenas 5% do peso total, restando portanto 95% quase todo de carne, já que sua ossatura é pequena
Pacuquinho
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Peixe-sapo
Peixe-sapo Pseudopimelodus raninus
Peixe de couro da família Pimelodidae, nome científico Pseudopimelodus raninus, é encontrado em vários rios brasileiros, inclusive nos das bacias do Tietê e do Paraná. Sua cabeça um tanto achatada, acompanhando a largura do corpo, semelhante à de um sapo, deu origem ao nome popular, em tupi-guarani, piracururu, onde pira = peixe, cururu = sapo cururu. Tem um colorido pardo com manchas irregulares escuras e esbranquiçadas ao longo das nadadeiras dorsal e 74
anal. A nadadeira dorsal é armada, como o corpo, com acúleo recoberto com muco pegajoso. As nadadeiras peitorais também têm um primeiro raio duro com farpas. O corpo é cilíndrico por igual, com pequena depressão no pedúnculo. A nadadeira caudal é redonda. A boca é armada com pequenos dentes viliformes que facilitam a captura de pequenos peixes, de que se alimentam. Os olhos são pequenos, situados na parte superior da cabeça. A mandíbula e a maxila têm pares de
pequenos barbilhões. Têm hábitos noturnos; preferem poços dos rios e locas (tocas) em pedras. Nos períodos de grandes chuvas, com as águas dos rios bastante turvas por enxurradas, são encontrados durante o dia. Sua biologia é desconhecida. Diferentemente dos outros peixes, sua pesca com anzol não oferece nenhuma sensação ao pescador, pois ao abocanhar a isca, a engole de imediato, o que só é sentido pelo pescador quando puxa a linha e percebe certa pressão contra a retirada. Para não perder o anzol, normalmente é preciso abrir a barriga do peixe e retirá-lo de dentro do estômago. Alimenta-se de pequenos peixes, moluscos, detritos e vermes. Geralmente sua pesca é feita com sondá, com vara com boa chumbada e espinhel, usando como iscas pedaços de peixe, de coração de boi e principalmente minhocuçu. Embora seu aspecto não seja atrativo para a maioria das pessoas, sua carne rosada é apreciada pelos pescadores, depois de retirado o muco que o recobre com muito limão. Em algumas regiões é conhecido pelo nome de “pacamão”. Atinge pouco mais de 60 cm e peso entre 4 e 5 kg, quando adulto. Sobre o peixe-sapo, um amigo pescador relatou o seguinte “causo”: certa feita foi pescar num dia após muita chuva, com as águas do rio bem barrentas. Por essa razão, sabia que a pescaria seria de peixes de fundo: jurupoca, mandi e possivelmente até peixe-sapo. Iscado o anzol de tamanho médio, com boa porção de um minhocuçu e boa chumbada, lançou longe a linhada da vara com carretilha, onde sabia ter um grande poção. Depois de algum tempo, ao levantar um pouco a vara, sentiu certa pressão, como de um enrosco. Aguardou um pouco e novamente sondou a isca com maior pressão, que cedeu um pouco com pequenos solavancos, como se estivesse reagindo. Depois de alguns minutos sem movimento, recolheu mais um pouco de linha com
certa resistência e sempre com alguns solavancos, como para se livrar do anzol. Cada vez que recolhia a linha, o “peixe” se aproximava mais do barranco, rio abaixo. Os palpites dos pescadores ao lado eram bem diversos, mas pelo “jeito do peixe”, só podia ser peixe-sapo. Depois de outras tentativas, sem saber o que havia “ferrado” e com a linha já cruzando com as dos pescadores abaixo, resolveu recolher toda ela. Com a vara bem “embodocada” pelo peso do peixe foi recolhendo toda a linha restante, sempre com resistência e solavancos, até surgir na superfície o “misterioso” peixe. Com grandes gargalhadas dos presentes, um enrugado botinão que, pelo tamanho, devia ser número 42 ou 43.
Geralmente sua pesca é feita com sondá, com vara com boa chumbada e espinhel, usando como iscas pedaços de peixe, de coração de boi e principalmente minhocuçu
Pesca inesperada
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Piapara
Piapara - Leporinus elongatus
A piapara (Leporinus conirostris), da família Anostomidae, a que também pertencem as piavas, embora encontrada com menos frequência nos rios Piracicaba, Paraíba, Mogi-Guaçu, Doce (ES) e mesmo no Prata (Argentina), é considerada um peixe nobre, pelo tamanho que pode alcançar, 60-70 cm, e peso entre 7 e 8 kg, e pelo sabor de sua carne. Aos exemplares de 8 kg davam o nome de piapara-ussu ou piaparão, quando a altura do corpo atinge cerca de 25 cm . Embora seja preferencialmente vegetariana, a espécie não rejeita pequenos vermes e frutos. Apresenta várias faixas transversais no corpo, o focinho acarneirado, boca voltada para baixo, e, abaixo da linha dos olhos, é armada com dentes incisivos voltados para frente, o que lhes facilita o corte da 76
vegetação submersa, para alimentação. Tem preferência por cursos de água limpa e de correnteza, de pouco calado (60-70 cm) onde efetuam a reprodução logo no início da piracema, com as primeiras enxurradas. Os óvulos fertilizados permanecem entre a vegetação do leito ou das lagoas marginais, até a eclosão. O nome original, em tupi, era pirapara, em que pira = peixe, e para = rio, ou literalmente = peixe do rio. Embora não salte como o dourado quando “ferrado” pelo pescador, oferece grande resistência como as demais espécies da família, principalmente as piavas. Sua pequena boca, voltada para baixo, exige um anzol pequeno, iscado com massa, frutinhas, talo de folhas de couve, ou milho verde; exige perícia do pescador para conseguir tirá-la da água.
As barbatanas hialinas, bem desenvolvidas, favorecem a grande resistência oferecida. Pelo bom desenvolvimento em tanques, facilidade de alimentação e excelente sabor de sua carne, é uma espécie muito propícia à criação em tanques ou tanques-rede nos próprios rios. Devido à poluição de nossos rios, atualmente encontra-se extinta nos rios Piracicaba, Mogi-Guaçu e Paraíba. Ihering, em seu raro e excelente livro, Da Vida dos Peixes – Ensaios e Cenas de Pescarias (1929), relata um “causo” envolvendo a piapara. Certa ocasião, um senador de alto prestígio solicitou a um pirangueiro, excelente cozinheiro, que lhe preparasse uma piapara, para mostrar à comitiva que o acompanhava a excelência de sua carne.
O pirangueiro, honrado com a freguesia, buscou no seu viveiro de peixes por uma bela piapara e não a encontrou. Só havia curimbatás. Desesperado por não poder atender ao honroso pedido, preparou um curimbatá com todo capricho, sem a cabeça, pois a falta dos dentes incisivos denunciaria a troca. Pela saborosa peixada, recebeu cumprimentos de toda a comitiva. A ocorrência, porém, logo se espalhou entre os pirangueiros, tornando-se mote na comunidade, até chegar ao conhecimento do senador. Sem se sentir ludibriado, o senador procurou o pirangueiro e o agraciou pela proeza e a grande experiência de transformar um curimbatá numa excelente piapara servida aos presentes.
A ocorrência, porém, logo se espalhou entre os pirangueiros, tornandose mote na comunidade, até chegar ao conhecimento do senador
A piapara do senador
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Piava
Piava - Leporinus copelandii
Também conhecida por piau, da família Anastomidae, gênero Leporinus, é encontrada em vários rios do Estado e nos Estados vizinhos, sempre representando uma boa porcentagem da população íctia. Tem coloração prateada, geralmente com duas manchas escuras nas laterais do corpo, e três manchas nos exemplares mais velhos. O corpo fusiforme e as nadadeiras hialinas desenvolvidas favorecem a transposição de obstáculos com mais de 3 metros de altura, além de conseguirem vencer a velocidade de uma lâmina d’água, graças ao grande esforço de suas nadadeiras peitorais e caudal. Como peixe reofílico (de piracema), atinge a velocidade de até 9 km/dia 78
nos períodos de migração. A espécie fabriei, antes copelandi, como as demais, possui oito dentes cortantes na maxila superior e oito dentes pontiagudos na mandíbula, como os roedores, tendo a capacidade de romper linhadas com facilidade para desespero dos pescadores que necessitam usar cabeçalhos de fios de aço em seus anzois para não perdê-los. As fêmeas podem atingir cerca de 50 cm e um peso de 1.400 g, e os machos, 40 cm e peso de 800 g. Aos dois anos de idade, os machos já podem reproduzir e as fêmeas, aos três anos. É considerado um peixe prolífico, pois o ovário das fêmeas no estágio final de reprodução pode representar até 15% do peso total, com
cerca de 95.000 óvulos. Faz parte da categoria conhecida como “peixes-brancos”, de terceira, devido à grande quantidade de espinhas. Exemplares acima de 35 cm ainda obtêm melhor valor comercial. Entretanto, pelos pescadores ávidos pela emoção da briga oferecida quando ferrada, a piava é valorizada. Com anzol pequeno, mas resistente, e uma chumbada de peso equivalente à força da correnteza, para manter a isca logo abaixo da superfície, pode ser ferrada com iscas variadas, como larvas de insetos, içás (tanajura), pedaços de peixe, coração de boi ou de moela de frango, insetos variados, milho verde ou cozido e massas de farinha. Na pesca profissional, é pescada com rede de espera, de lance (proibida), com tarrafa ou com covos. É considerada forrageira para peixes de bom porte, como o dourado, o pintado, o surubim e o jaú, e, pelo mesmo motivo, como excelente isca viva em pindacuema, ou em pedaços, em espinhel. Responde bem aos procedimentos de reprodução por hipofização. Por Godoy (1975), foi observado em um exemplar capturado no rio Mogi-Guaçu um caso de hermafroditismo duplo, contendo na cavidade celomática testículos que apresentavam esperma denso sob pressão e dois ovários sem óvulos visíveis, mas com características de pósdesova. O hábito alimentar é variado, sendo um peixe considerado insetívoro, herbívoro, frugívoro e também carnívoro pela ingestão de pequenos peixes ou alevinos; portanto, onívoro. Das sete espécies conhecidas, a Leporinus obtusidens, adequadamente conhecida pelo nome de piavuçú, é a de maior tamanho, obtendo maior valor comercial. Também é a mais cobiçada pelos pescadores pela “briga” que oferece quando ferrada. Como exemplo de peixe brigador, lembro do ocorrido em um pesqueiro de Araraquara-SP. Um pescador comodamente sentado em seu banqui-
nho teve sua vara com carretilha violentamente arrancada das mãos, depois de dar uma valente ferrada. De várias maneiras foi tentada a recuperação da sua vara e respectiva carretilha. Inconformado, voltou no dia seguinte, com outra vara armada e a linha com três anzóis garateia com boa chumbada. Depois de alguns lances, sentiu que pegara alguma coisa. Com todo o cuidado, recolheu a linha até fazer surgir, na superfície, a vara perdida. Ao recolhê-la, notou que a linha estava puxando. Bem devagar, foi recolhendo-a até fazer chegar à superfície um belo piavuçú, que roubou de suas mãos a estimada vara com sua carretilha. Recuperação premiada
É considerada forrageira para peixes de bom porte, como o dourado, o pintado, o surubim e o jaú, e, pelo mesmo motivo, como excelente isca viva em pindacuema, ou em pedaços, em espinhel
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Pintado
Pintado - Pseudoplatystoma corruscans
Peixe de couro, da família Pimelodidae, roliço, com cabeça alongada e achatada, seu comprimento atinge quase 1/3 do comprimento total. Apresenta três pares de barbilhões sensoriais. Dorso acinzentado, laterais claras e parte ventral branca. Ao longo do corpo revela pequenas manchas arredondadas escuras, que lhe valeram o nome de pintado. É conhecido em outras localidades por diferentes nomes, como surubim, surubim-pintado e piracajiara (do tupi = peixe pintado). O Pseudoplatystoma corruscans pode ser considerado esbelto, pois seu comprimento não corresponde ao seu peso, menor que a maioria dos peixes. Nomura (1984) cita um exemplar cap80
turado com espinhel no rio das Velhas, com 1,79 m de comprimento total, 1,03 m de circunferência na região abdominal e 55 kg de peso. Segundo alguns autores, pode atingir mais de 100 kg. É piscívoro por excelência e, embora migre por ocasião das piracemas e do maior volume de água, como no rio Piracicaba, não forma cardumes como os peixes de escamas, preferindo remansos. No inverno, como outros peixes de couro, procura poços ao longo do rio. Tem hábitos noturnos e, como “peixe de fundo”, é bastante capturado em espinhel. Outra captura frequente é por pindacuema, e mais raramente por “sondá”, ou mesmo rodada. Sua carne é excelente e, por décadas, até como
grande atrativo turístico, no restaurante Mirante à direita do salto do rio Piracicaba era servido o “pintado no espeto”. Em boa parte do século passado, os peixes para esse prato vinham do próprio rio; posteriormente, após 1960, têm outras origens. Em décadas passadas, por vários anos, ocupou o 2º lugar em volume de pescado em Piracicaba, depois do dourado, segundo Monteiro (1954). Na parte frontal da boca apresenta uma faixa superior e outra inferior, equivalentes a beiços, com milhares de dentículos voltados para o interior, o que lhe dá a garantia de que as presas, uma vez “bocadas”, só para o interior é que podem se deslocar, onde são deglutidas por inteiro. O depoimento de um pescador relata o caso de um pintado do rio Taquari, no Pantanal (MS), com 12 kg, contendo em seu estômago um cascudo de cerca de 30 cm, inteiro e em vias de ser digerido. Porém, um dos esporões peitorais tinha perfurado seu estômago e o ferimento já estava em processo de cicatrização. O manejo do pintado, depois de pescado, merece toda a atenção devido aos acúleos existentes, um na nadadeira dorsal e um par nas nadadeiras peitorais. Esses acúleos ou ferrões populares constituem o primeiro raio das respectivas nadadeiras e podem atingir mais de um palmo em exemplares adultos. Além disso, há dois grandes agravantes: possuem ao longo do comprimento, na face posterior, uma série de serrilhas que favorecem a penetração, mas dilaceram o tecido ao serem retirados; e, recobrindo esse acúleo, encontra-se um líquido pegajoso cuja composição causa intensa dor. Um dos atos peculiares dos peixes siluriformes é “armar” (abrir) as nadadeiras e dar uma espécie de cabeçada para o lado. Em certa ocasião, um pintado de uns 35 kg, capturado em um espinhel, foi embarcado e posto no fundo do bote. O pescador, descalço, com cada um dos pés ao lado do pescado, gri-
tava ainda de alegria quando soltou um urro de intensa dor. Numa cabeçada do pintado, o ferrão atravessou o pé que se achava ao seu lado. Arrancar o acúleo era totalmente impossível. Foi preciso serrá-lo em sua base e ir para a cidade para sofrer uma intervenção cirúrgica. Certa feita, era novembro, chovia muito, o rio “bufava” de cheio, e eu e mais três colegas da ESALQ estávamos em um rancho, no local conhecido por “pedra-branca”, no rio Piracicaba. Durante o dia, ao entardecer, instalamos na margem oposta, onde havia muitos pés de ingá com galhos pendentes para o rio, vários pindacuemas, iscados com piavas e cascudos, todos vivos. Com a chuva fina, o vento gelado, cada um em sua cama “trocava conversa” sob a luz bruxuleante da lanterna a carbureto. Cerca de meia-noite, o silêncio foi quebrado por um chacoalhar na água. Suspense de todos, olhares de interrogação, aguardamos alguns minutos em curiosa expectativa. E novamente, com maior vigor e continuamente, compreendemos que algo se debatia na superfície da água. Enfrentando a chuvinha e o vento, abrimos mais a luz da lanterna de carbureto para enxergar melhor e rumamos para o bote amarrado na margem do rio. Com a lanterna no bico do bote (proa), o Hélio no remo, vagarosamente rumamos para a margem oposta onde algo se debatia. A luz da lanterna mostrou ao longe uma imagem branca balançando sobre a superfície. Trocamos olhares de indagação e, ao nos aproximarmos mais, verificamos que a imagem branca observada nada mais era do que a parte ventral de um pintado, com meio corpo fora d’água, pendurado por dois pindacuemas, um cuja isca havia pegado pouco mais abaixo e outro, que também pegou, pouco acima, cada um deles, forçando o pintado de 35 kg a ficar pendurado e se debatendo na superfície d’água. Esta história, embora de pescador, é verídica.
Em décadas passadas, por vários anos, ocupou o 2º lugar em volume de pescado em Piracicaba, depois do dourado, segundo Monteiro (1954)
pesca de farolete
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Piracanjuba
Piracanjuba - Triurobrycon lundii
Ou também piracanjuva, para qualquer pescador antigo, era o peixe-rei do rio Piracicaba. Apesar de toda a fama adquirida pelo dourado, e dos grandes peixes como os pintados e os jaús (de mais de 100 kg), quando se falava em sabor, sempre era lembrada de forma absoluta a piracanjuba. Não formava cardume como o dourado, mas quando era pescada por um pesca82
dor profissional não ia para a banca de mercado, mas sim para a mesa dos fregueses que tinham encomenda de forma permanente. Atualmente é um peixe raro, praticamente extinto no rio. Embora a poluição dessas águas seja sempre apontada como a causadora disso, antes mesmo da poluição outro fator já contribuía para seu desaparecimento: a destruição da mata ciliar. A
ganância por mais um palmo de terra para plantar um pé de cana atingiu não só toda a área lindeira do rio, mas também a dos seus afluentes. Esse procedimento inconsequente determinou a extinção dos elementos primordiais no regime alimentar do peixe: pequenas frutas e insetos. Acreditamos ser a destruição da mata ciliar o fator preponderante do desaparecimento da piracanjuba, pelo fato de rios como o Piracicaba, o Mogi e o Pardo, com águas anteriormente bem pouco poluídas, mas com significativo desmatamento ciliar, também terem sofrido o desaparecimento do precioso peixe. Ihering em Da Vida dos Peixes (1929), relatava: “Há quem lhe conceda a primazia pelo sabor da carne, porém, seu porte nunca ultrapassa 4 palmos de comprimento com 10 kg de peso”. O mesmo autor atribui a baixa porcentagem da pesca da piracanjuba, em relação ao dourado “ao fato que este pega facilmente a isca, quando esta lhe agrada, ao passo que a piracanjuba, muito mais arisca e cautelosa, é menos fácil de pescar”. A piracanjuba é um peixe reofílico (de piracema) e tem seu regime alimentar constituído de folhas, flores, frutos e insetos. É prolífica, pois uma fêmea pesando cerca de 5 kg pode conter nos seus ovários cerca de 900.000 óvulos. O valor porcentual de seus ovários em relação ao peso total é de 12% a 20%, enquanto para os testículos dos machos é de 1% a 1,2%. As desovas e fertilização dos óvulos se dão em águas correntes, com o rio cheio e a temperatura entre 24 ºC e 30 ºC. Em pesquisas de marcação de peixes, pela Estação de Biologia e Piscicultura de Pirassununga, foi constatado que uma piracanjuba, em sua migração reprodutiva e trófica, pode atingir a velocidade média de 8,9 km/dia. As desovas e as fertilizações, ocorrendo quando os rios estão prestes a transbordar, tendem a fazer
com que os ovos já fecundados sejam transportadas pelas correntes até as lagoas marginais, onde terão uma temperatura mais amena e propícia ao desenvolvimento do embrião, livres de predadores (principalmente lambaris e larvas). Em meio à abundante vegetação, encontrarão ricos trechos de fito e zooplâncton, para garantia de sua sobrevivência até se tornarem juvenis, quando regressarão ao rio. Sua classificação científica é Triurobrycon lundii, do grego, em que etimologicamente significa tri = três; uro = cauda; brycon = morder, devorar com barulho. A tríade refere-se à característica de três pontas na nadadeira caudal. De coloração prateada geral, tem dorso mais escuro e a parte ventral clara. Nas laterais, tons rosados, verdes e azuis. A caudal é típica, cor de vinho tinto com uma faixa central escura. Uma fêmea adulta, com cerca de 80 cm, pode pesar 8,5 kg. De acordo com registro da Estação de Biologia e Piscicultura de Pirassununga, de um total de 19.519 peixes estudados no rio Mogi-Guaçu, entre 1938 e 1949, somente 83 eram piracanjubas, o que revela sua baixa proporcionalidade frente às demais espécies naturais do rio. Entre os pescadores profissionais do rio Piracicaba, especialistas na pesca de piracanjuba, havia quase uma obrigatoriedade: a criação da fétida barata cascuda. Em caixotes conhecidos como “de querosene” (por serem usados para o transporte de 2 latas de querosene com 18 litros cada) e um tampo com boa vedação, tendo à frente uma tela fina ou mesmo um pano para evitar fugas e dar ventilação, criavam as baratas em meio formado por folhas secas, pedaços de mandioca, pão seco, farinha de milho e outros elementos. De vez em quando, borrifavam um pouco de água para manter um certo grau de umidade. Obtida uma “muda”, composta de uma dezena das pe-
De coloração prateada geral, tem dorso mais escuro e a parte ventral clara. Nas laterais, tons rosados, verdes e azuis. A caudal é típica, cor de vinho tinto com uma faixa central escura
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Os pescadores, acostumados a pescar piracanjuba no rio Piracicaba, sabiam os lugares, além daqueles com árvores frutíferas, onde elas mais gostavam de estar. Entre esses, um lugar muito disputado ficava abaixo do salto, em frente ao palacete da Fábrica Boyes, cujo terreno chegava até o rio, todo arborizado
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quenas (ainda sem asas) ou uma meia dúzia de adultas, era só jogar no interior do caixão e esperar umas semanas para começar a retirá-las. A barata cascuda se constitui, inexplicavelmente, na principal isca para pescar a piracanjuba, de natureza muito esperta e arisca. Qualquer ruído no barranco, se o pescador estiver nele, ou no bote, será motivo para afugentar o peixe. Como “pega” na isca delicadamente, e a isca também é muito delicada, como um pequeno fruto ou inseto, há necessidade de toda sensibilidade por parte do pescador para notar que tem peixe na linha. Para isso, usa uma vara fina e bem branda, de ponta bem afilada, para sentir o menor toque ou notar na ponta da vara um leve movimento. Precisa ainda de todo o cuidado para dar a ferrada. A piracanjuba, já pela espécie de alimentos que consome, possui a estrutura da boca muito delicada. Uma ferrada muito forte provoca a ruptura dos tecidos e a fuga do peixe. Por essa razão, é comum a captura de exemplares cegos de um olho, ocasionada por uma ferrada mal executada. Os pescadores, acostumados a pescar piracanjuba no rio Piracicaba, sabiam os lugares, além daqueles com árvores frutíferas, onde elas mais gostavam de estar. Entre esses, um lugar muito disputado ficava abaixo do salto, em frente ao palacete da Fábrica Boyes, cujo terreno chegava até o rio, todo arborizado. O rio, com boa correnteza, escondia a uns 8 metros da margem uma grande pedra que era alcançada pelo pescador. Invariavelmente, sempre que lá estava um pescador, de cócoras na margem, estava o conhecido Quinzinho, sem nenhum afazer exceto conseguir “emprestar” do pescador uma piracanjuba para ir vendê-la a uma freguesia já bem conhecida e ganhar uns trocados resultantes da diferença do preço entre a venda e o cobrado pelo pescador. Para chegar até a pedra,
o pescador precisava atravessar a “vau” (com água até a cintura) a forte correnteza e os metros já citados. Como pescava com a isca predileta, ainda na margem, delicadamente como era necessário, já iscava o anzol da vara. Como a isca (a barata) era muito frágil, podendo ser perdida com o contínuo lançamento na correnteza, para não precisar voltar à margem para pegar outra barata, já levava algumas na boca, presas pela pressão das gengivas sem dentes. Certa ocasião, lá estava o pescador lançando a isca na corrente d’água, e o Quinzinho, ansioso pelo sucesso do pescador e dos trocados que iriam garantir seu almoço, quando, repentinamente, um forte pé-de-vento agitou violentamente todo o maciço de altas árvores, quando o tronco já seco de uma delas, com uma ponta que se erguia para o céu, desabou atingindo exatamente a cabeça do Quinzinho, que assim morreu com a esperança de ter mais uma piracanjuba para vender e ganhar seu dinheiro. Pouco acima da barranca, uma santa cruz, por muitos anos, “velou” a sua alma. Marcava a existência de uma vida que se extinguiu pela esperança de negociar uma piracanjuba. Alguns pescadores afirmam existir uma variedade conhecida pelo nome de “piracanjuba arrepiada”. O nome é dado devido ao fato de as escamas do peixe, geralmente fêmeas de maior porte, se encontrarem arrepiadas, isto é, como se as escamas, estivessem parcialmente deslocadas. Técnicos não encontraram uma justificativa para o fato. Como, muitas vezes, a pesca de uma “arrepiada” se dá pela ocasião da piracema, e as fêmeas, quando capturadas, estão prestes a desovar ou já estão desovando, surgiu a crença comum entre velhos pescadores que o arrepiado do peixe era para abrigar o produto da desova!!!...
Com as baratas entre os dentes
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Tamboatá
Tamboatá - Callichthys callichthys
Também conhecido popularmente pelos nomes de tamoatá, tambuatá ou tamatá, pertence à família Calicticidae e tem por nome científico Callichthys callichthys, a que pertencem também as corridoras, bem conhecidas pelos aquariofilistas. De maior tamanho, pois chega a atingir 20 cm de comprimento, tem o corpo inteiramente coberto por placas ósseas, verticais, imbricadas, o que lhe confere uma aparência invulgar. Por essa má aparência, raramente é encontrado à venda, embora pescadores afirmarem que sua sopa é saborosa, mas precisa estar inteiro (com as vísceras), o que lhe confere um sabor especial. 86
Para reproduzir, primeiramente o macho acumula na superfície d’água detritos vegetais com os quais forma um pequeno ninho. A fêmea projeta seus óvulos contra a superfície inferior, onde são imediatamente fertilizados pelo macho. O ninho é protegido pelo casal, não só do ataque de predadores, como também ao reconduzirem ao ninho os ovos que eventualmente se soltarem. As larvas nascidas são protegidas pelos pais durante todo o período em que estiverem com o saco vitelino, no período pós-larva. Uma característica bem conhecida pelos pescadores é a sua resistência fora d’água e sua capacidade de se deslocar quan-
do seca a água da lagoa ou o lodaçal onde estão. Nossos índios tinham conhecimento desse fato, e até lhe davam o nome de piracurururá, que significa o caminho “por terra” feito pelo peixe. A ocorrência também era conhecida por “piracema-terrestre”, embora piracema esteja vinculada à motivação reprodutiva, e esta, à questão da água. Segundo alguns, esses deslocamentos podem atingir até alguns quilômetros, e se dão em direção a locais onde exista água. Como se orientam favoravelmente para atingir esse objetivo é um mistério... A forte camada de placas que recobre o corpo facilita a “caminhada”, mesmo através do mato. Os fortes esporões que guarnecem o par das nadadeiras peitorais, como verdadeiros remos, garantem o deslocamento. A esse respeito, é conhecido no nordeste, um velho provérbio: “Tambuatá não emperra... Anda na água e na terra”. Também é do conhecimento de antigos caçadores e pescadores uma história a respeito, ocorrida no interior do Estado. Certa ocasião, um experiente caçador chamado Rineu, pegou seu cachorro caçador, sua espingarda calibre 24, o embornal, e foi tentar matar umas perdizes numa pradaria existente na entrada da pequena cidade. Puxado pelo perdigueiro, de nome “Boite”, chegou ao local. Desatrelou o companheiro e deu-lhe a ordem “Vamo, Boite”. O cão saiu em disparada, “varrendo” todo o terreno uma vez para a esquerda, outra para a direita, sob o incentivo do seu Rineu, “Vamo Boite”. Depois de horas, já meio cansado, sem caçar nada, notou o Boite parado perto de uma macega mais alta, estático, perna esquerda da frente (mão) levantada, rabo seguindo a linha do corpo, enrijecido. E o Rineu logo exclamou: “Até que enfim apareceu uma!”. Cautelosamente chegou a uns três metros do Boite, levantou o gatilho da espingarda, afastou os pés para ter firmeza e ordenou: “Vamo Boite”. E o cachorro não saiu. Com voz mais alta repetiu: “Vamo Boite”. E o cachorro, como uma pedra, não saiu. Já gritando e nervoso repetiu a ordem e o Boite, começou a ganir e
olhar para o dono. O Rineu, com sua experiência, pegou um cartucho com chumbo “Paula Souza” e devagar foi se achegando da macega que o Boite, de olhar fixo, estava mirando. O burburinho no mato já dava para ser ouvido e predizer que era uma cascavel. A um metro da macega, por entre a vegetação, com o dedo no gatilho, uma grande surpresa: um amontoado de peixes varando a vegetação. Estupefato com o achado se perguntava: como era isso possível se na imensa pradaria só ele estava ali??!!... Acariciando o Boite, como se desculpando da sua braveza, foi “enfieirando” os peixes num cordel do embornal, ainda incrédulo com o acontecido, de a caçada ter se transformado em pescaria. Ao chegar à cidade foi aquele reboliço. Todos queriam saber como, com a espingarda ainda nas costas, uma mão segurando o Boite, na outra sustentando uma fieira com uns vinte peixes ainda vivos, conseguira tal façanha. Por cada casa que passava era obrigado a contar a mesma história, ante a incredulidade e os olhares desconfiados dos ouvintes. O fato tomou conta da cidade, virou chacota, pois era só sair de casa, que as perguntas vinham de todo o lado. “Vai pescar hoje? Não se esqueça de levar o Boite”, ou “Como conseguiu transformar a espingarda em vara de pescar?”, ou ainda, “Hoje vai caçar para trazer peixe?”... Por não ter nenhuma testemunha, com medo de retornar ao local e não encontrar peixes, sofreu por certo tempo com as perguntas maldosas, até que um dia, resolveu enfrentar o desafio de provar que dissera a verdade. E, na companhia do Boite e uma de uma dezena de moradores, foi percorrer o terreno. Depois de algum tempo, depois de levantar três perdizes, o Boite “amarrou” e não cumpriu a ordem: “Vamo Boite”. Para alegria dele e grande admiração dos presentes, encontraram uma dezena de tamboatás procurando caminhar pela vegetação. O Rineu ajoelhou-se, pegou o Boite pela cabeça, e a beijou em agradecimento por ter-lhe salvo a reputação.
A ocorrência também era conhecida por “piracematerrestre”, embora piracema esteja vinculada à motivação reprodutiva, e esta, à questão da água
Pesca inusitada
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Traíra
Traíra - Hoplias malabaricus
A traíra ou taraíra, como também é conhecida, pertence à subfamília Erythrinidae e tem por nome científico Hoplias malabaricus . É encontrada em todo o Brasil como também em vários países sul-americanos, como as Guianas, a Argentina, o Equador, a Venezuela, o Uruguai, o 88
Peru e a Bolívia. De preferência é encontrada em ambientes lóticos (de águas paradas), mas eventualmente, devido a transbordamentos em lagos e açudes; também pode ser achada em remansos de águas correntes. É um peixe de carne saborosa, muito apreciada em comuni-
dades de baixa renda, devido ao seu baixo valor comercial. Sua baixa cotação no mercado é devida à quantidade de suas espinhas, “em forma de y”, finas e, dessa forma, é um alimento desagradável e mesmo perigosa. Dos 615 ossos que compõem seu esqueleto, 100 são em forma de y, incrustados na massa muscular (Godoy, 1935). Os casais formam-se a partir de julho, quando, depois do local escolhido, geralmente na beira de um lago com 25 a 30 cm de profundidade, limpam um espaço com cerca de 60 a 70 cm de diâmetro, cavando no meio uma pequena depressão. Assim está instalado o centro do território do casal, que é defendido vigorosamente. A desova ocorre geralmente de novembro a março e é parcelada, isto é, de 2.500 a 3.000 óvulos por vez, a cada 15 dias, totalizando de 25.000 a 30.000 óvulos. A cada desova, o macho nada por cima dos óvulos, ejaculando o esperma. Após quatro dias de incubação, dá-se a eclosão. Durante esse período, o macho periodicamente sobrenada vagarosamente a desova, agitando mais as nadadeiras para afastar todos os detritos e também para promover uma maior oxigenação aos ovos. As larvas conservam a vesícula por uns dez dias, quando começam a nadar livremente, sob a proteção do macho. Durante todo esse período, a proteção aos ovos e às larvas é rigorosa, não só em relação a peixes, principalmente lambaris, mas também a qualquer animal que se aproxime. Há casos registrados de banhistas descalços sofrerem ferimentos de certa gravidade devido à numerosa e afiada dentição da espécie. Uma fêmea adulta pode atingir até dois palmos de comprimento, com cerca de 2,5 kg, e os machos, 2 kg. Após a perda da vesícula, a larva adota o regime planctônico, primeiro fito e depois zoo, até atingir
cerca de 12 cm. Após esse período, o regime é insetívoro até atingir 15 cm, quando passa para o regime predominantemente piscívoro, pois basta qualquer ser de pequeno tamanho se agitar na superfície d’água para a traíra aparecer. Se for muito grande, só espreita, se for pequeno (pássaro, rã, cobra, lagartixas etc.) vira refeição. Certa feita, estava acampado à margem de um lago, quando verifiquei que ele estava bem “povoado” com traíras. Não tinha nenhum apetrecho de pesca, como vara, linha, anzol, e muito menos isca. Com um pequeno galho, improvisei uma vara, usando um pedaço de barbante e um pedaço de pano vermelho, para imitar uma presa ou isca. Com a ponta da vara, agitava a água para “provocar” a curiosidade da traíra. A seguir, soltando a linha, ou melhor, o barbante, fazia a isca, ou melhor, o pequeno pedaço de pano vermelho, “dançar” na superfície da água. Assim que a traíra atacava a isca, ou melhor, o pano, num rápido puxão era puxada e atirada longe. Outra tentativa, só seis a oito metros adiante, em território de outro exemplar. Fausto Lex (1941), em O Pescador Brasileiro relata o seguinte: “Para pescar a traíra é preciso fazer muito barulho com o caniço, o que lhe provoca a ira e a faz inchar e se atirar sofregamente à isca”. Em tese de doutorado, Paiva (1983), com exemplares de traíras oriundas de açudes nordestinos, verificou a influência da salinidade das águas devido a efeitos da evaporação sobre os óvulos, os ovos, as larvas, os alevinos, quando submetidos a significativas variações dessa condição. Esses mesmos efeitos naturalmente também devem ocorrer com a poluição do rio Piracicaba, influindo na disseminação da espécie. Paiva também determinou que, nas primeiras fases de vida, as fêmeas apresentam tamanho
Não tinha nenhum apetrecho de pesca, como vara, linha, anzol, e muito menos isca. Com um pequeno galho, improvisei uma vara, usando um pedaço de barbante e um pedaço de pano vermelho, para imitar uma presa ou isca
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pesca no pano vermelho
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e peso pouco maior que os machos, mas, com o correr dos anos, os machos superam com significativa diferença o tamanho e o peso das fêmeas, ocorrência rara entre os peixes fluviais. Entre os pescadores e técnicos em piscicultura, é bem conhecido o fato da grande resistência da traíra quando fora d’água. Sempre é lembrado que em lagos e açudes, depois de perderem totalmente a água por várias semanas, surgem traíras quando eles tornam a se encher. Permanecem vivas, enterradas na lama, abaixo da crosta de sedimentos, cobrindo a superfície do lago seco. Magalhães (1931) também cita esse fato, que ocorre no sul do Brasil durante o inverno, para se protegerem do frio. Outra característica que protege a traíra em situações críticas é o muco que cobre inteiramente o seu corpo, transudado de poros situados abaixo das escamas. Segundo Magalhães, “é o peixe mais liso de nossos rios”. Essa característica já é uma importante proteção, pois, uma vez fisgada, a traíra escapa facilmente das mãos do pescador desprevenido. Esse mesmo muco, além de atuar como termorregulador corporal, em períodos de extrema exposição ao sol, por ocasião de vazantes, seca como uma superfície de verniz, protegendo o peixe contra a dessecação das partes interiores, de acordo com Paiva (1983). Confirmando essas valiosas observações, certa ocasião, depois de pescar numa lagoa, três traíras foram “enfieiradas” num pequeno ramo e penduradas num galho de arbusto. Expostas ao sol, depois de algumas horas, foram encontradas inteiramente rígidas e secas. Para que retomassem um aspecto natural, foram deixadas na beirada da lagoa a menos de um palmo de profundidade. Ao voltar para pegá-las, algum tempo depois, ainda tive a oportunidade de ver a última delas
pesca no enxadão
fugindo, com a minha aproximação. Fausto Lex (1941), em seu precioso livreto sobre pesca Vamos pescar ... e trazer peixe , cita o fato de trabalhadores de uma rodovia, com enxadão, “pescarem” muitas traíras enterradas na lama, em hibernação, como fazem sapos e lagartos. 91
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Ictiologia
do Rio Piracicaba (1979-1980) 93
Desde muitas décadas, Piracicaba é conhecida (e afamada) pela piscosidade de seu rio. Não só o número de espécies, mas também seu volume sempre constituíram um grande atrativo para pescadores provenientes de distantes regiões que, por lazer ou mesmo para sua subsistência, ainda afluem à cidade, principalmente durante o período da piracema. O salto, com suas águas borbulhantes, revela como estrelas cadentes seus peixes que, em saltos magistrais, procuram vencer a impetuosidade da corrente. E, aos milhares ou milhões, procuram atingir águas de maior salubridade para garantir o desígnio da própria vida,
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a perpetuação da espécie. Como representante do Instituto de Pesca de São Paulo junto ao CENA (Centro de Energia Nuclear na Agricultura), para o desenvolvimento de assuntos relativos ao meio hídrico (o rio e seus peixes), sempre me questionava: “Quantas espécies de peixes estariam presentes?...” Para tanto, em paciente pesquisa bibliográfica, foi obtida uma listagem da fauna íctia original do rio, praticamente a mesma do rio Tietê. Pela obrigatoriedade do meu serviço junto ao CENA, de ter de transitar quatro vezes por dia (ainda não existia o Parque da Rua do Porto) pela rua do Porto, tinha a oportunidade de verificar as espécies de peixes de pescadores profissionais e amadores e assim, ao longo de 1979 e 1980, a sua ocorrência. Esse levantamento levou o mérito de representar o pescado da pesca de barranco (com vara), da linha de mão, do sondá (ou sondar), do espinhel, do pindacuema, da rede de espera e da rodada. Dificilmente um projeto com bases mais técnicas conseguiria obter uma variabilidade tão grande, pois, dependendo do tipo de pesca, também teremos a variação do pescado. Do levantamento resultou o seguinte: Espécies permanentes: 16 - Sigla (P) Temporárias ou quase extintas: 53 - Sigla (T) Espécies extintas: 33 - Sigla (E) Introduzidas: 3 - Sigla (I) No levantamento também foram registrados os nomes populares e os regimes alimentares das espécies. Embora esse levantamento já tenha 30 anos, sob o ponto de vista ecológico e ambiental constitui um parâmetro valioso não só para o confronto atual da permanência ou não de espécies, como também para uma avaliação futura, caso algum especialista se proponha a fazer um levantamento íctio, da mesma maneira que o já efetuado. Foi conservada a nomenclatura científica das espécies vigentes na época.
1 – Subordem CHARACOIDEI: Família Characidae: Aphyocarax dificillis – piquirão – insetívoro e planctófago – (T)
Cheirodon piaba – piquira – (T) Aphyocheirodon hemigranus – piquira – (T) Odontostilbe microcephala – piquira (T)
planctófago
Holoshestes heterodon – piquira – (T) Astyanax bimaculatus – lambari-do-rabo-amarelo – (P) Astyanax lacustris – lambari, tambiú – (P) Astyanax fasciatus – lambari – (P) Astyanax shubarti – lambari-do-rabo-amarelo – (P) Astyanax scabripinnis – lambari – (P) Astyanax trierythropterus – lambari-da-nadadeira-vermelha – (P) Bryconamericus stramineus – piquira – (E) Piabina argentea – piquira – (T) Acestrorhynchus falcatus – peixe-cachorro – (T) Paraligosarcus pintoi – (T) Cynopotamus humeralis – peixe-cadela – (T) Serrasalmus rhombeus – piranha-vermelha – (T) Serrasalmus marginatus – piranha-branca – (P) Colossoma mitrei – pacu-caranha – (E) Myloplus asterias – pacu-prata – (E) Triurobrycon lundii – piracanjuba – (E) Salminus maxillosus – dourado – (E) Salminus hilarii – tabarana – (E)
insetívoro e frugívoro
planctófago
piscívoro
carnívoro
frugívoro
carnívoro
O salto, com suas águas borbulhantes, revela como estrelas cadentes seus peixes que, em saltos magistrais, procuram vencer a impetuosidade da corrente 95
“Quantas espécies de peixes estariam presentes?...”
Família Anostomidae: Leporinus striatus – canivete – insetívoro – (T) Leporinus fasciatus – ferreirinha, piava – insetívoro e frugívoro – (E) Leporinus octofasciatus – ferreirinha – onívoro – (E) Leporinus elongatus – piapara – frugívoro – (E) Leporinus lacustres – piava-de-lagoa – onívoro – (E)
Leporinus copelandii – piava – (T) Leporellus vitatus – solteira – (T)
Insetívoro e frugívoro
Leporellus retropinis – (E) Schizodon nasutus – taguara – (T)
insetívoro
Família Parodontidae: Paradon tortuosus – canivete – (P) Apareiodon afinis – canivete – (T) Apareiodon ibitiensis – canivete – (E) Apareiodon mogiguaçuensis – canivete – (P) Characidium gomesi – canivete – (T) Characidium fasciatus – canivete – (T) Família Curimatidae: Curimatus gilberti – saguiru – (T) Curimatus elegans – saguiru – (T) Curimatus plumbeus – saguiru-do-rabo-vermelho – (T) Família Prochilodontidae: Prochilodus scrofa – curimbatá – (T) Prochilodus vimboides – curimbatá-de-lagoa – (E) Família Erythrinidae: Hoplias malabaricus – traíra – (T) Hoplias lacerdae – trairão – (E) 2. Subordem GYMNOTOIDEI: Família Gymnotidae: Gymnotus carapus – tuvira – carnívoro – (T)
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carnívoro
Insetívoro e algívoro
limnófago
limnófago
Família Ramphichthydae: Eigenmannia virescens – tuvira – (T) Sternodigus macrurus – tuvira – (E)
planctófago e carnívoro
Família Sternarchidae: Sternarchus brasiliensis – tuvira – (E) Sternarhorhymphus hahni – tuvira – (E)
planctófago e carnívoro
3. Subordem SILUROIDEI: A) Familia Pimelodidae: Paulicea luetkeni – jaú – (E) Steindachnerido parahybae – surubim (E) Pseudoplatystoma corruscans – pintado (T)
piscívoro
Pimelodus maculatus – mandi-guassu / mandi-amarelo – (P) Pimelodella lasristriga – mandi-chorão – (P) Bergiaria westermani – mandi-branco – (T) Iheringichthys labrosus – mandi-branco – (T) Rhandia hilarii – bagre – (P) Rhandia sapo – peixe-sapo – (T) Nannorhandia schubarti – bagrinho – (P) Imparfinis piperatus – mandizinho – (P) Chasmocranus brevior – mandizinho – (P) Caecorhandella brasiliensis – mandizinho – (T) Pseudopimelodus raninus – peixe-sapo – (T) Pseudopimelodus zungaro – (T) B) Família Trachycorystidae Glanidium cesarpintoi – filhote-de-jaú – (T) Trachycorygthys galeatus – cangati – (E)
piscívoro e carnívoro
piscívoro
C) Família Doradidae Rhinodoras dorbignyi – mandi-serra – carnívoro - (T) D) Família Cetopsidae Pseudocetopsis gobioidis – limboso – carnívoro (T)
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E) Família Pygidiidae Paragtegophilus maculatus – bicho-do-dourado, piolho-de-peixe – hematófago – (E) Pygidium brasiliensi – (T) Trhichomycterus proaps – (E) Pseudosteophilus scarificator – (E) Paravandellia oxyptera – (E)
Pela obrigatoriedade do meu serviço junto ao CENA, de ter de transitar quatro vezes por dia (ainda não existia o Parque da Rua do Porto) pela rua do Porto, tinha a oportunidade de verificar as espécies de peixes de pescadores profissionais e amadores e assim, ao longo de 1979 e 1980, a sua ocorrência 98
F) Família Loricariidae Plecostomus tietensis – cascudo (T) Plecostomus regani – cascudo – (T) Plecostomus albopunctatus - cascudo – (T) Plecostomus margaritifer – cascudo – (T) Plecostomus paulinus – cascudo – (T) Plecostomus strigaticeps - cascudo – (T) Plecostomus hermani – cascudo – (T) Plecostomus macrops – cascudo – (T) Plecostomus ancistroides – cascudo – (T) limnófago e algiófago Plecostomus varicatus – cascudo – (E) Plecostomus auroguttatus – cascudo – (E) Plecostomus alatus – cascudo – (T) Plecostomus brevis – cascudo – (T) Plecostomus ihering – cascudo – (T) Plecostomus latirostris – cascudo – (T) Plecostomus plecostomus – cascudo – (T) Ancistrus stigmaticus – cascudo-barbadinho – (E) Pterygoplichthys aculeatus – cascudo-espinho – (E) Microlepidogaster bourguvi – cascudo – (T) Loricaria macrodon – cascudo-viola – (T) Loricaria latirostris – cascudo-espada – (E) Rhinelepis aspera – cascudo-preto – (T) G) Família Callichthyidae Corydoras microps – corridora – (E) 4. Subordem CYPRINODONTOIDEI Família Poeciliidae Phalloceros caudimaculatus – barrigudinho, guaru-guaru – (P) Phallocerus jucundus – (T)
insetívoro
5. Sub-=ordem SYMBRANCHIFORMES Família Symbranchidae Symbranchus marmoratus – mussum – carnívoro – (T) 6. Subordem PERCOIDEI Família Cichlidae Crenicihla lacustris – joaninha – (E) Geophagus brasiliensis – acará – (P)
carnívoro
7. Espécies introduzidas Poecilia reticulatus – lebiste – insetívoro – (P) Callichthys callichthys – tamboatá ou caborja – carnívoro – (T) Tilapia rendalli – tilápia-comum – herbívoro – (P) RESUMO 6 ordens 19 famílias 105 espécies Este levantamento consta do verbete “Ictiologia do rio Piracicaba”, de minha autoria, publicado na Enciclopédia Agrícola Brasileira, Vol. 4, p. 29-31, 2002.
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Capítulo IV
Pesca
e Legislação 101
De acordo com a nossa Constituição Federal, em seu artigo 24, a competência para legislar sobre a atividade pesqueira caberá à União, aos Estados e ao Distrito Federal e, em alguns casos específicos, aos municípios. A multiplicidade de órgãos abrangida por esta atribuição é centrada no Código de Pesca (lei federal), em leis de crimes ambientais e em portarias complementares do IBAMA – Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Reno-
váveis. Vários Estados brasileiros editaram legislação específica sobre a matéria, como também criaram unidades de fiscalização e repressão às atividades pesqueiras e inclusive de transporte e comerciais. Em São Paulo, junto à Polícia Militar, foram criadas Unidades Especializadas no Policiamento Ambiental, conhecidas popularmente como Polícia Ambiental. De acordo com os dispositivos institucionais, a pesca pode ser praticada visando três objetivos: desportivo, comercial e científico, dando origem a três tipos de pescadores: os amadores, os profissionais e os pesquisadores de institutos, devidamente credenciados por órgãos oficiais. A cada um deles, na pesca, cabe o uso dos seguintes apetrechos e restrições: Pescador amador (ou desportivo) – embarcados ou não: Apetrechos: linha de mão (sondar), puçá, caniço simples ou acoplado a molinetes ou carretilha, anzóis simples ou múltiplos, iscas naturais ou artificiais. Restrição: venda de pescado. Pescador profissional: licença obrigatória. Apetrechos: rede de espera de até 10 m por 2 m (comprimento e altura) com malha igual ou superior a 14 cm entre nós opostos; tarrafa com malha igual ou superior a 8 cm entre nós opostos; espinhéis de cordéis (não metálicos) que atinjam no máximo 1/3 do espaço aquático; rede caça-isca com 10 m por 2 m (comprimento e altura) ), malha com 6 cm entre nós opostos, sendo duas redes por pescador; linha de mão (sondar); caniço simples ou acoplado com carretilha ou molinete; pindacuema sem cabo de aço (de fibra ou náilon); iscas naturais ou artificiais.
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Pesquisador científico: Apetrechos: qualquer tipo dos usuais, desde que sejam imprescindíveis à captura, segundo o interesse das pesquisas. Para todas as classes de pesca é proibida a pesca de lambada (com anzóis múltiplos, simples ou garateias), a rede-de-lance, o uso de explosivos e de substâncias tóxicas orgânicas (como o timbó) ou de origem artificial. No Estado de São Paulo (e, portanto, no rio Piracicaba), a pesca é proibida, exceto para fins científicos, a menos de 500 m de saídas de esgotos, a menos de 50 m a jusante e a montante de barragens, a menos de 200 m do final de corredeiras e cachoeiras, e nos corpos d’água (lagoas) marginais. A restrição durante o período da piracema, em nosso Estado, está compreendida entre 1º de novembro e 28 de fevereiro, suscetível de alteração, caso as condições ambientais assim o determinem. A criminalização da pesca, tendo por base a Lei de Crimes Ambientais, prevê, além de multa pela infração da pesca de exemplares de tamanho inferior ao permitido ou de espécies preservadas, multa por exemplar pescado e mesmo pena de detenção. Espécie
Nome Científico
Comprimento Total (cm)
Curimbatá Piapara Dourado Piau Jaú Piracanjuba Jurupoca Mandi Pacu
Prochilodus scrofa Leporinus obtusidens Salminus maxillosus Leoporinus elongatus Paulicea lutknei Brycon orbignyanus Hemisorubim platyrhyncus Pimelodus maculatus Myloplus asterias
30 25 55 30 80 30 30 18 40
Tamanho mínimo de captura para comércio e transporte das espécies mais importantes do rio Piracicaba
A restrição durante o período da piracema, em nosso Estado, está compreendida entre 1º de novembro e 28 de fevereiro 103
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CapĂtulo V
Terminologia Pesqueira Rio Piracicaba 105
Sistemas de preparo de iscas
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Anzol de espera Arrastão Bate-cu – Ver Promombó Bicheiro Cabrestar Cabresto Canivete Ceva Chasquear Chumbada Cincerro
Colher Corricar Corrico Cóvo De braço Emalhar Encabrestar Encastoar Espinhel Garateia Girador
Isca Lambada Lóca Malha (rede) Malhagem Mosquetão Ova Patinho Passaguá – Ver Puçá Pegadô Pesqueiro Piava Piau Piava-ussu Piavuçu Pindacuema Poção Poita Ponta-de-vara Pranchar Promombó Puçá Pussaguá – Ver Puçá Rabicho Rebojo Rede Rede de espera Rede de lance Rodada Rufo Samburá Sapecar a vara Tarrafa Tralha Tridente Vara
ANZOL DE ESPERA – vide pindacuema. ARRASTÃO – tipo de pesca proibida. Rede com comprimento e altura adequados ao rio, de malha variável de acordo com a pretensão dos pescadores. É atravessada no rio, em boa extensão de sua largura, e levada pela correnteza, com o controle dos pescadores em botes, um em cada extremidade do rio, ou um bote em uma extremidade e uma boia grande na outra. Eventualmente também era usada uma tarrafa, aberta no sentido do comprimento do bote e a outra metade debruçada sobre sua borda e, como uma cortina, ia “varrendo” os peixes do rio. BATE–CÚ – vide Promombó. BICHEIRO – utensílio usado na pesca de grandes peixes. Consta de um cabo com cerca de um metro, tendo na extremidade, encastoado, um grande anzol ou pedaço de varão de aço, com o formato de anzol e ponta bem afiada. Sua grande utilidade é auxiliar o embarque de grandes peixes no bote, enterrando a ponta afiada no corpo do peixe. CABRESTAR (a vara) – vide cabresto CABRESTO – artifício feito nas pontas de varas para peixes de grande porte ou grande resistência, para evitar quebras. Uma linha de aço de dez ou doze fios, com cerca de 80 cm, é totalmente encastoada com fios de cobre na parte correspondente à futura alça. Formada a alça, junta-se a parte restante da alça com o restante da linha, encastoando-as à ponta da vara, até o primeiro e o segundo nós. No terceiro segmento, encastoa-se parte na sua metade e, no quarto segmento da vara, conclui-se o encastoamento que pode seguir até um quinto ou sexto, para maior segurança.
CANIVETE – pequenos peixes da família Paradontidae que, por terem aparência semelhante a um pequeno canivete, receberam esse nome. CÉVA – trecho do rio ou lago, onde periodicamente são mantidos alimentos para cevar peixes. De preferência são locais sem correntes onde são lançados alimentos granulados ou então pequenos galhos com frutos ou espigas de milho verde, amarradas pelas palhas a uma estaca. CHASQUEAR – movimento brusco do pescador, levantando a vara para ferrar o peixe. CHUMBADA – pequeno artefato de chumbo destinado a manter a isca da vara de pesca afundada, ou também auxiliar o afundamento da tarrafa quando lançada, ou manter as redes de espera sobre o leito dos rios ou lagos. Antigamente eram feitos artesanalmente com pequenos talos verdes de folhas de mamão, servindo de moldes, enterrados na areia úmida com um palito no centro. CINCERRO – sinaleiro de lata ou mesmo um pequeno sino, para assinalar a captura de um peixe em um pindacuema, espinhel ou rede. COLHER – apetrecho metálico com formato de colher alongada, contendo um anzol. Usado na pesca de corrico. CORRICAR – praticar a pesca de corrico. CORRICO – sistema de pesca no qual do barco a motor, percorrendo o meio do rio, é lançada uma linha de 20 a 30 metros, contendo na extremidade uma isca artificial, de preferência a conhecida por colher. O peixe, ao perseguir e abocanhar a isca, é prontamente ferrado. Esse tipo de pesca, embora proveitosa, não traz ao pescador a grande sensação da briga do peixe ao ser ferrado.
O peixe, ao perseguir e abocanhar a isca, é prontamente ferrado. Esse tipo de pesca, embora proveitosa, não traz ao pescador a grande sensação da briga do peixe ao ser ferrado 107
COVO – artefato antigamente só feito em talas de bambu amarradas com cipó ou barbante forte. Apresenta uma extremidade com maior diâmetro, com entrada afunilada, a fim de que o peixe, ao atravessá-la, fique aprisionado em seu interior. Na parte posterior, bem afunilada, encontra-se uma abertura de retirada dos peixes, protegida por uma pequena tampa do mesmo material. Atualmente são encontrados covos de arame. São armados próximos à barranca do rio, com a boca voltada a favor da correnteza para aprisionar os peixes subindo o rio. Eventualmente, para maior atração dos peixes, podem conter em seu interior pedaços de mandioca, de cupim, espigas de milho e frutinhas. DE BRAÇO – tipo de ferrada de peixe, na qual a posição da vara em relação ao nível d’água acha-se em torno de 45º e o pescador, com toda a força dos braços, chasqueia para o alto. EMALHAR – refere-se ao fato de o peixe, ao tentar atravessar as malhas da rede, ficar “emalhado”. ENCABRESTAR – ato de fazer cabresto nas varas. ENCASTOAR – operação que tem por fim proteger a ponta da vara de pesca, ou o rabicho do anzol, ou ainda a alça do cabresto da vara. É conseguido com o enrolamento compacto de um fio de cobre bem fino. ESPINHEL – corda de vários metros, de acordo com a largura do rio, de grossura e resistência adequada à pesca de mandi, jurupoca e peixes de escama, ou para pintado e jaú, destinado mais à pesca de “peixes de fundo” ou “de couro”. Uma extremidade amarrada na margem (uma estaca ou raiz) e a outra, quase atravessando todo o rio, com a poita. Para manter a corda “deitada” sobre o leito, podem ser usa108
das outras poitas intermediárias. Ao longo da corda, com espaçamento variável, de uns 60 cm para mandis ou de 80 cm para pintados ou jaús, são amarrados pequenos cordéis (de 50 a 60 cm para mandis e de 80 a 100 cm para pintados e jaús) com anzóis de tamanho apropriado à espécie do peixe. Podem ser iscados com minhocuçu, lambaris, cascudinhos, pedaços de peixes maiores. Normalmente, quando destinados a peixes maiores, a extremidade da margem leva um cincerro. GARATEIA – anzol com três pontas formado pela junção de três anzóis de igual tamanho, encastoados em posições diferentes feitos manualmente ou fabricados. Uso proibido na pesca de lambada (vide Lambada). GIRADOR – pequena peça metálica aplicada entre o anzol e a linha de aço, ou entre esta e o cabresto da vara, para evitar que a linha de aço, uma vez torcida, forme “cróca” e rebente. Recomendado na pesca de pacu. ISCA – atrativo ao peixe aplicado ao anzol. Pode ser produto da natureza, como vermes, insetos, larvas, peixes, frutos ou massas farináceas. LAMBADA – tipo de pesca proibida por lei, devido aos cruéis ferimentos causados aos peixes, principalmente por ocasião das piracemas, quando estão prestes a gerar milhões de descendentes. Consta de um longo e forte cordel que leva na extremidade uma chumbada e um ou mais anzóis tipo tridente (garateia). Arremessado o cordel no meio da corrente, aos trancos, vai sendo recolhido com a intenção de que um ou mais anzóis penetrem no dorso ou em outras partes do peixe. Com esse procedimento, grande número de exemplares do cardume é ferido mortalmente, sem a captura pelo pescador.
Apetrechos de pesca
LÓCA – pequena concavidade ou toca, encontrada em lajeados ou entre pedras nos rios, onde se refugiam os cascudos. MALHA (rede) – é a distância dos “entrenós” dada em centímetros, de redes e tarrafas. MALHAGEM – refere-se ao tipo de malha de uma rede, ou melhor, à distância dos entrenós da malha. MOSQUETÃO – vide Girador. OVA – ovário de fêmeas prestes a desovar, repleto de óvulos. PATINHO – madeira usada, depois de seca, como boia de redes de pesca, antes de surgir a boia de cortiça e isopor. Os pedaços de galhos, com cerca de 10 cm de comprimento e 7 cm ou 8 cm de diâmetro, depois de secos apresentam uma perfuração em seu centro, por onde era passado o cordel da parte superior da rede. Esse nome foi originado da flor branca, semelhante a um patinho, da árvore também conhecida por corticeira. PASSAGUÁ – vide Puçá. PEGADÔ – trecho especial do rio que os pescadores conhecem como bom para a pesca, principalmente do dourado. PESQUEIRO – denominação dada a rústicas construções de madeira, sobre certa altura da superfície d’água, ou diretamente sobre o barranco; de acordo com a vontade do proprietário, a denominação pode se estender a construções de alvenaria. PIAU – vide Piava. PIAVA – peixe de porte médio do gênero Leporinus, espécie piracicabana friderici. Há cerca de dez espécies nacionais. Devido a suas muitas espinhas tem baixo valor comercial. Muito usada em pindacuemas quando pequenas.
PIAVA-USSU – vide Piavuçu. PIAVUÇU – das várias espécies de piavas conhecidas, esta, a Leporinus obtusidens, como o próprio nome já indica, é a maior do gênero. Encontrada nos principais rios interiores do Estado. Aos 10 anos de idade atinge 5,5 kg de peso. Cor geral prateada, dorso acinzentado com manchas nas laterais, como as demais. PINDACUEMA – sistema de pesca constante de um forte cordel de 3 a 4 metros, tendo uma extremidade amarrada a um galho pendente sobre o rio e na outra, de bom tamanho, iscado um peixe de porte médio, vivo, nadando na superfície d’água. POÇÂO – pequeno trecho do rio, com maior profundidade, onde, no inverno, se refugiam peixes de couro.
Os pedaços de galhos, com cerca de 10 cm de comprimento e 7 cm ou 8 cm de diâmetro, depois de secos apresentam uma perfuração em seu centro, por onde era passado o cordel da parte superior da rede 109
POITA – pedra pesada com argola para engate, ou mesmo peça metálica usada para diferentes fins. Para “apoitar” barcos no meio do rio, na pesca de sondá, ou para manter esticada a corda do espinhel. PONTA-DE-VARA – tipo de ferrada de peixe em que a vara, usada em rodada, após a corrida do peixe, acha-se parcial ou totalmente mergulhada na água e o pescador dá um brusco movimento contrário à corrida do peixe. PRANCHAR – posição que toma o peixe depois de ferrado e, cansado pela luta, se entrega ao pescador. Sinônimo de pranchear. PROMOMBÓ – ou bate-cu – técnica de pescaria que consiste em bater as nádegas fortemente no fundo do bote, para que, com a repercussão dentro da água, o peixe salte e caia dentro do bote. Para evitar que o salto do peixe ultrapasse a largura do bote, costuma-se abrir um lençol, como uma vela, para o peixe cair dentro do bote. PUÇÁ – semelhante a uma rede de caçar borboletas, mas com o tecido, de diferentes tamanhos, de acordo com o porte das espécies de peixes que se vai captar. Consta de um arco metálico, geralmente circular, de tamanho variado, utilizado para retirar o peixe da água, depois de fisgado. Não se presta para peixes de maior porte como surubins ou jaús. PUSSAGUÁ – ver puçá. RABICHO – pequeno pedaço de linha de aço encastoada, com uma alça livre para fixá-la à linha de aço da vara e a outra, atravessada na argola do anzol. É essencial em rios com piranhas, pacus ou dourados. REBOJO – nome dado ao costume de grandes peixes, principalmente de couro, de atingirem a superfície rapidamente e depois mergulharem. Outra 110
ocasião é observada quando o peixe, depois de fisgado e cansado de lutar, reboja na superfície. REDE – artefato de pesca feito de tecido de malhas, de dimensões (comprimento e altura) variadas. Em décadas passadas eram tecidas com fios de algodão, cânhamo, tucum, linho ou sisal. Atualmente só são encontradas as de fios artificiais. Na parte superior levam as boias, anteriormente de madeira, chamadas “patinho”, depois de cortiça e agora de isopor. Na parte inferior, ao longo do cordel, levam chumbada que, no passado, eram peças de argila. A malhagem é variada de acordo com as espécies que se pretende pescar e é determinada pela distância entre os nós. A fiscalização estabelece as malhagens de acordo com as espécies a serem pescadas, preservando os peixes menores ou imaturos, com malhagens maiores. No rio Piracicaba são usadas as redes de espera (ou de barranco) armadas com uma extremidade próxima ao barranco e a outra, distanciada dele e em ângulo com o barranco, para que o peixe penetre no espaço e fique emalhado. A altura e o comprimento variam com os locais onde vão ser armadas. Geralmente são armadas ao entardecer e recolhidas na manhã seguinte. As redes de lance, para a pesca de arrastão, são de maiores dimensões e proibidas por lei. RODADA – tipo de pesca preferencial para o dourado. Com um bote piracicabano tipo “oga”, o piloteiro, sentado no banco da popa, com um remo “à esquerda” ou “à direita”, retarda a velocidade do bote, livre na correnteza, orientando-o a pontos mais favoráveis ao encontro dos peixes ou para desviar de pedras ou outros obstáculos. Pode levar um pescador na proa ou no assento do meio do bote. Com pequeno movimento da
vara, a isca ao sabor da corrente e mais à frente do pescador, vai sendo conduzida à “meia-água” para melhor atrair o peixe. Eventualmente pode ferrar outros peixes. REDE DE ESPERA – vide Rede. REDE DE LANCE – vide Rede. RUFO – dobra da rede da periferia da tarrafa, para seu interior, para ensacar o peixe. SAMBURÁ – em décadas passadas, era encontrado de taquara entrelaçada com cipós. Seu formato lembra uma moringa (um pescoço com a parte inferior arredondada) e tem uma pequena tampa, presa por um dos lados para não se perder. Geralmente era mantida dentro d’água, com os peixes que iam sendo pescados. Atualmente são confeccionados com tela metálica, que se distende como sanfona. O nome samburá, assim como o conhecimento de seu uso, deve-se aos nossos índios tupis. SAPECAR A VARA – preparar a vara para pescar. vide Vara. TARRAFA – rede de pesca de formato circular, com diâmetro variado, com cordel com chumbada em sua periferia e um cordel de vários metros saindo do seu centro, tendo na sua extremidade uma alça para prender no pulso do pescador. Com um especial manejo e a força dos braços, pode ser arremessada a vários metros, inteiramente aberta. Ao longo de sua periferia, na parte interior, possui o rufo, formado pela dobra da malha, onde os peixes que não foram emalhados ficam retidos. Pode ser lançada do barranco, ou com a água até o joelho, ou mesmo de dentro de um bote, exigindo um grande equilíbrio do pescador. Ao cair sobre a superfície d’água, deve estar inteiramente aberta para melhor resultado.
TRALHA – nome bastante usado por pescadores, para, genericamente, agrupar todos os utensílios de pesca, como redes, remos, galão de gasolina, almofadas de assento, caixa com anzóis. TRIDENTE – vide Garateia. VARA – embora atualmente se encontrem varas de pescar de diferentes materiais, até de fibra de carbono, há as tradicionais que ainda resistem a toda tecnologia, como a nossa velha conhecida cana-da-índia ou cana-do-reino (Arundo donax). Quando bem escolhida e bem preparada, deve ser leve, flexível, elástica e resistente. Para tanto, precisa ser colhida ainda verde, mas madura, no período da minguante. São cortadas com todo o cuidado para não ferir as fibras do corpo da vara, os brotos que saem dos nós. Após a limpeza, passar sebo de boi em toda sua extensão, deixando uma fina camada, e, a seguir, sapecar em fogo brando (mesmo de alguns jornais) cuidando para não sapecar demais a ponta. Enquanto quente, aproveitar para retificar qualquer tortuosidade. A seguir, deve ser pendurada de pé, com amarrio na ponta e um bom peso no pé. Estará pronta para o uso quando secar (amarelar) fora do sol.
Após a limpeza, passar sebo de boi em toda sua extensão, deixando uma fina camada, e, a seguir, sapecar em fogo brando (mesmo de alguns jornais) cuidando para não sapecar demais a ponta
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CapĂtulo VI
O Rio e
Seus Trechos 113
Como numa via férrea com suas estações, o rio Piracicaba, ao longo dos 111 quilômetros da cidade à sua foz, também tem trechos assinalados por diversas denominações. Podem ser referentes à sua calha, à correnteza de suas águas, à existência de pedras formando montes ou ilhas, e a “causos” singulares que foram sendo transmitidos ao longo dos anos, de geração a geração de pescadores profissionais, permanecendo até hoje. E eram (e ainda são) tão marcantes que, quando citados por uma ocorrência, a identificação do trecho dispensava inteiramente a menção do nome do rio. Graças à piscosidade mais significativa correspondente ao trecho do salto até a sua foz, no rio Tietê, a ele nos reportaremos por julgarmos ser de maior interesse ou conhecimento de todos. A partir das ilhas do Salto, junto à ponte da Vila Rezende (Irmãos Rebouças), identificaremos por suas denominações as regiões e os trechos mais significativos. Ilhas do Salto – Cerca de 50 metros acima da ponte da Vila Rezende (Irmãos Rebouças), tem início um pequeno conjunto de ilhas, genericamente conhecidas por Ilhas do Salto. A primeira, com 6.300 m² recebeu o nome de Ilha dos Namorados. Separada da segunda por um veio d’água, se encontra a Ilha dos Amores, que atinge o início da queda do Salto, com 3.600 m², e a menor delas, na altura do Museu da Água, com 1.600 m², conhecida por Ilha da Conceição, devido à outorga dada ao Dr. João Conceição. Essas ilhas, no final do século XIX e início do século XX, constituíram importantes fatores para o maior prestígio da cidade, tanto do ponto de vista turístico como social. Transformaram-se, 114
juntamente com o salto, num dos recantos mais apreciados pelos habitantes e pelos turistas que aqui chegavam. Essa circunstância foi favorecida pela aprovação do pedido de outorga a André Sachs, “por uma das ilhas abaixo da ponte, para instalar um quiosque por 10 anos”, em dezembro de 1878. O empreendimento, onde eram servidos “alimentos frios e quentes, e bebidas refrigerantes”, tomou tal vulto que passou a ser, em confronto com o próprio salto, um dos locais mais frequentados da cidade. Principalmente nos finais de semana eram realizados saraus e outras atividades sociais, atraindo famílias da classe mais elevada. Através de trilhas e pinguelas, as ilhas eram inteiramente percorridas. A Gazeta, em 1º de agosto de 1882, entre seus anúncios, publicava: “Kiosque do André, no Salto. Encontram-se comidas quentes e frias a qualquer hora do dia e da noite. Bebidas de diversas qualidades, por preços baratíssimos. Serve-se tudo com prontidão e asseio.” O consumo era tão grande que obrigou o cidadão André Sachs a abrir na margem oposta (provavelmente onde hoje se encontra a Fábricas Boyes), uma fábrica de cerveja e refrigerantes, com água tirada diretamente do rio. Em dezembro de 1885, o engenheiro civil João Frick, vencedor da concorrência para o abastecimento de água à cidade, requereu, entre alguns imóveis necessários à implantação da futura empresa, a cessão da Ilha da Conceição, que tinha sido aforada ao Dr. João Conceição vários anos antes. A fim de garantir a sanidade da água, na tomada para o abastecimento da cidade, foi aprovada pela edilidade postura proibindo a retirada de água para fins de venda
em pontos abaixo do Itapeva, na altura da Ilha dos Namorados, como também a lavagem de roupa, de animais ou qualquer outra matéria, no porto que a Câmara mandou abrir acima da foz do Itapeva, no rio Piracicaba, destinado exclusivamente para abastecer de água a cidade, com multa de 5$000 (cinco mil réis). A concessão da
Ilha da Conceição à Empresa Hidráulica, como bem público, favoreceu a entrada de pescadores e curiosos que, através de uma prancha de madeira, dava acesso à Ilha dos Amores, o que causou pública reclamação do Sr. João Frick, pela perigosa passagem, em carta enviada à Gazeta de Piracicaba, em dezembro de 1895. 115
Caixão
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Salto – O promontório com cerca de 150 m de largura que constitui o salto de Piracicaba, por “necessidade de ofício” de antigos pescadores profissionais foi segmentado em pequenas partes, geralmente ligadas às suas atividades. Eram tão familiares aos antigos pescadores que, mesmo com a proibição da pesca no salto, para desespero do fiscal Geraldo Toledo, mesmo à noite era invadido pelos profissionais que, uma vez satisfeitos com a pescaria, se deixavam levar rio abaixo, com sua tarrafa e o saco cheio de peixes para fugirem da apreensão. A façanha constituía um verdadeiro risco de vida. Um conhecimento
só revelado a companheiros e filhos. A partir da margem esquerda e em direção à direita, com o rio a uma vazão de 200 a 250 m³/s , podem ser visualizados os seguintes pontos: 25 – entrada para o salto, nome de origem desconhecida; Banheira – pequena queda d’água com uma poça lembrando uma banheira; Pilão – onde os mandis costumam ficar aprisionados; Cadeia – vão entre as pedras que aprisiona os peixes; Fervedô – onde o refluxo da água lembra a água fervendo; Poço do Tanque – pouco abaixo da queda d’água onde o peixe para a fim de descansar; Pedrão – com grande pedra e poça boa para pescar mandis; Poço Quadrado – próximo à margem direita com poça d’água de forma quadrada; Pesqueirinho – bem próximo à margem, onde se pesca peixe miúdo; Ponta do Mato – na frente do vertedouro do Engenho Central, na ponta da pequena ilha; Seveiro – local onde o peixe para, descansando para tornar a subir; Véu da Noiva – erroneamente é dado este nome à pequena cascata formada com água que abastecia o engenho, semelhante a um véu de noiva; Caixão – pequeno veio d’água proveniente de nascentes e desvio da água; Rego do Pisca – rego no final da vegetação da Ilha da Conceição; Descarga do tratamento D’água – logo abaixo do Museu da Água, resultante do tratamento da água, onde, durante a piracema, com pequenas varinhas, pescam-se muitos mandis; Descarga da Boyes – descarga de água residuais da Fábrica Boyes;
Povoador – pequena corredeira em frente à Casa do Povoador. Bom para “pegar” cascudinhos; Vai e Vem – trecho onde as águas tomam direções incertas; Poção – em frente ao antigo Clube Regatas, onde normalmente os afogados nas imediações são encontrados pelos bombeiros. É o poço mais fundo (cerca de 8 m) do rio. Trampolim e porto de Areia – onde, por muitos anos, permaneceu uma armação de ferro, com cerca de 6 metros de altura, com um trampolim; e também por muitos anos, ponto de retirada de areia para construções; Rua do Porto – Primeiramente denominada rua da Praia, posteriormente tomou o nome de rua do Porto, pela atracação de barcos das companhias de navegação fluvial. Foi formada por pescadores, após a transferência da cidade (então já Freguesia) em 1784, da margem direita para a esquerda, onde foram construindo seus ranchos, ao longo do rio, para assim comercializar seus peixes para os moradores da povoação. Embora ao longo de toda a extensão recebesse esse nome, era subdividida pelo nome de antigos e famosos pescadores, nos seus portos de atracação, como o do Jéco Tiãozinho, do Tidigarsel, dos irmãos Bico-Fino (Romeu e Sílvio), do Luís Higiário, do Bigu, do Sinésio, do Tangará, alguns ainda vivos; Morato – após a ponte da Nova Piracicaba, onde existia a fazenda de Francisco Morato; Enxofre – fronteiriço ao morro do enxofre, nome dado pela coloração amarelada; Bongue e Poço do Bongue – onde, segundo pescadores, o rio mais cheio emite um ruído semelhante ao de um tambor africano chamado bongue;
Caixão – local onde certa ocasião, após enchente, foi encontrado numa pequena ilha de mesmo nome um caixão de defunto, vazio; Matadouro ou Guamium – onde, na margem direita, existia o antigo matadouro e os peixes, “cevados” com os seus resíduos, eram pescados com iscas de sangue coagulado, tripas, coração e massa; Corumbataí – na barra do rio Corumbataí com o Piracicaba; Onda Grande – local onde o rio se alarga com ondas grandes; Ondinhas – local raso, com muitas pedras e pequenas ondas; Ilha do Mirim – onde existe uma pequena ilha de pedregulho que surge quando o rio está baixo e onde ocorre a Corredeira do Mirim; Marins – onde deságua o ribeirão dos Marins; Laraya – onde existia um rancho de alvenaria do Sr. Laraya, de São Paulo; Scarranari - trecho do rio em que se localizava o rancho do Sr. Júlio Scarranari que, mesmo compartilhando essa propriedade com outros donos cotistas, era o mais antigo. Na margem oposta ao rancho, que costumávamos usar, no meio do alto barranco, corria permanentemente água de uma nascente usada por todos os pescadores que por ali passavam, pois provinha diretamente do lençol freático, sem contaminação. Embora o trecho apresentasse dificuldade de abastecimento, devido à forte correnteza, principalmente quando o rio estava mais cheio, uma telha paulista, das antigas, fincada no barranco, facilitava o serviço, como também uma grossa raiz pendente, que favorecia a estabilização do bote. Em certa ocasião, convidamos um colega de faculdade, o Dinival, para passar um fim
Na margem oposta ao rancho, que costumávamos usar, no meio do alto barranco, corria permanentemente água de uma nascente usada por todos os pescadores que por ali passavam, pois provinha diretamente do lençol freático, sem contaminação
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Dinival e o rolo de cobra
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de semana no rancho. Não afeito a pescarias ou ranchadas, aceitou o convite meio temeroso, pois tinha pavor de pererecas, lagartixas e principalmente de cobras. Antes de deitar, vasculhava todos os recantos do rancho para garantir um bom sono. Numa manhã, como precisávamos de água para beber e cozinhar, Dinival prontificou-se a buscar. Embora apreensivo, Hélio, que iria pilotar o bote até a nascente, explicou a ele que, quando encostassem o bote no barranco, ele deveria segurar fortemente na raiz e, com a outra mão, encher o vasilhame. Com grande esforço, devido à correnteza, Hélio foi pouco a pouco atingindo a outra margem até encostar o bote no barranco. E começou a gritar: “Segura, segura a raiz!”, enquanto com grande esforço com o remo, não deixava o bote se afastar. Dinival, de pé na proa, só apontava para a nascente, e balbuciava um “a...a....a.....” Quanto mais o bico do bote era jogado contra o barranco, mais espavorido gritava.
Vencido pelo grande esforço, Hélio voltou para o rancho e no caminho ia resmungando contra o Dinival que xingava de “frouxo” e outras coisas. Sentado, pálido e de olhar vago, Dinival nada respondia e, ao chegar no rancho, foi crivado de perguntas e criticado pelo insucesso da operação. Restabelecido, ante a expectativa de todos, Dinival falou: “Não segurei a raiz porque dentro do buraco da nascente tinha um rolo de cobra!”. Ante o imprevisto, recebeu de todos os presentes as devidas desculpas. Pedra Branca – onde, na margem esquerda, encontra-se um paredão esbranquiçado e com pedras brancas; Manso da Pedra Branca – local largo com mansa corrente; Ilha da Sepultura – onde, numa pequena ilha, existia uma cruz; Sbrissa – onde existia o rancho do empresário; Quebra-canela – local largo, raso, com lajeado com muitas tocas de cascudos, onde pescadores esfolavam a canela durante a pesca; Guaçu e Corredeira – rio grande com seu ribeirão; Ferreirinha – nome dado por antigo morador com seu poço; Nhana Borge – possivelmente devido ao nome da antiga moradora; Cabeça-do-negro – certa manhã, Pedro Chiarini, aposentado e aficionado pescador, estava pescando de “rodada” quando bateu no seu remo a cabeça de um negro, afogado. Com esforço, conseguiu levar o defunto para a margem direita, sem saber o que fazer. Era cedo para voltar, não tinha conseguido pescar nada, e assim julgou: “Já que o defunto afogado morreu por ‘causo’ da água, nada importa que nela fique mais um bocado” (palavras do pescador). Tomando uma fieira de amarrar peixe, passou-a em volta do pesco-
cabeçã de negro ço e amarrou o defunto numa raiz do barranco. Bem mais tarde, de volta à cidade, comunicou à polícia que, no trecho pouco acima da Ilha das flechas, estava amarrado pelo pescoço, no barranco, um “defunto afogado”. Por vários dias precisou ir prestar depoimentos e o trecho ganhou o nome de “cabeça-do-negro”; Ilha das Flechas – onde, em certa ocasião, foram encontradas várias flechas. A erosão as destruiu; Poço do Garcia – o poço mais profundo do rio, bom para pesca de peixe de couro como mandi, pintado e jaú; Tocas – local com muitas tocas com cascudo; Rebaixo – trecho do rio de baixo calado; Corredeira do Manduca – local do rancho do pescador Manduca; Itaperú – trecho com forte correnteza; Canal Torto e Corredeira – onde o rio faz grande curva com corredeiras; Ponte de Ferro – onde existe antiga ponte de ferro cujas ferragens foram trazidas da França para a Estrada de Ferro Sorocabana, em Ártemis (antigo Porto Ferreira); Ártemis (Porto João Alfredo) – importante porto para a Companhia de Navegação existente desde 1874; Corredeira do Limoeiro – onde havia um antigo pé de limão. É a última corredeira do rio; Araquá – foz do ribeirão; Paredão Samambaia – nome dado pela existência de samambaias no paredão; Paredão Vermelho – onde existe um grande e afamado paredão de coloração vermelha; Poço do Lúcio e do Guerra – um dos últimos poços do rio, com os ranchos dos antigos pescadores Lúcio e o Guerra;
Tanquã – Trecho do rio com grande largura, atingindo mais de 250 metros. Essa região também é conhecida como “pantanal piracicabano”, já que além de concentrar muitos peixes e outros animais, se destaca por abrigar centenas de espécies de aves entre residentes e migratórias, o que o torna em um importante refúgio ecológico que precisa ser melhor conhecido e conservado. O Tanquã também abriga uma das últimas colônias de pescadores da região e que assim como a fauna e a flora, também deveria ser reconhecida e conservada, pois ela agrega valor a cultura pesqueira e faz parte da própria história de Piracicaba. Barreiro Rico – trecho do Tanquã, em sua margem esquerda, correspondente à fazenda Barrei119
ro Rico – propriedade da família Magalhães desde 1926, que tinha originalmente cerca de 8.000 alqueires, dos quais perto de 5.000 foram inundados pela barragem. Do restante, cerca de 2.300 hectares são constituídos de espécies primárias de Mata Atlântica, entre as quais foram identificadas 351 espécies de aves, especialmente tinamídeos, dentre eles o macuco (Tinamus solitarius). A mata que margeia o rio foi transformada em RPP – Reserva Pública Privada por seu alto valor representativo da Mata Atlântica. Barra do Piracicaba – desembocadura no rio Tietê (Barragem de Barra Bonita), em sua margem direita, atingindo o rio Piracicaba 177 km e 450 metros de extensão. De acordo com a experiência de pescadores profissionais, o leito do rio, até Ártemis (por exemplo, Porto João Alfredo) é de pedra (blocos e lajeados). A partir desse trecho, praticamente é de areia. Graças a essa circunstância (não considerando a migração da piracema), o trecho com pedras (até Ártemis) favorece a permanência de peixes algívoros (comedores de algas), como cascudos (família Loricaridae) e canivetes (família Parodontidae), por excelência. Na parte final do rio, após Ártemis, o leito de areia, que favorece a sedimentação de resíduos, convida a presença de peixes liminófagos, como o curimbatá, (família Prochilodidae) e eventualmente, em trechos lênticos, peixes planctófagos (comedores de plâncton), como a tuvira (famílias Ramphichthydae e Apteronotidae). Independentemente do fator “leito”, naturalmente o fator “vegetação ciliar” é de capital importância para a permanência de peixes frugívoros (comedores de frutas) e insetívoros (comedores de insetos), que constituem a base alimentar dos peixes piscívoros (comedores de peixes). 120
Trechos do Rio
(a partir da Rua do Porto) 1- 2- 3- 4- 5- 6- 7- 8- 9- 10- 11- 12- 13- 14- 15- 16- 17- 18- 19- 20- 21- 22- 23- 24- 25- 26- 27- 28- 29- 30- 31- 32- 33- 34- 35- 36- 37- 38- 39- 40-
Rua do Porto Morato Enxofre Bongue e Poço Caixão Matadouro ou Guamium Corumbataí Onda Grande Ondinhas Ilha do Mirim Marins Laraya Scarranari Pedra Branca Manso da Pedra Branca Ilha da Sepultura Sbrissa Quebra-canela Guaçu e Corredeira Ferreirinha Nhana Borge Cabeça-do-negro Ilha das Flechas Poço do Garcia Tocas Rebaixo Corredeira do Manduca Itaperú Canal Torto e corredeira Ponte de Ferro Ártemis (Porto João Alfredo) Corredeira do Limoeiro Araquá Paredão Samambaia Paredão Vermelho Poço do Lúcio Poço do Guerra Tanquã Barreiro Rico Barra do Piracicaba
trechos do Rio Piracicaba
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CapĂtulo VII
A luta
pelo rio 123
o nascimento inesperado
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Embora Piracicaba seja o último município da bacia, recebendo dos situados a montante todos os seus efluentes, sempre se destacou em defesa do seu rio e dos problemas ambientais da própria bacia. O traçado da cidade, quando da mudança para a margem esquerda do rio, em 1784, de acordo com as coordenadas geográficas, já previa um melhor aproveitamento da radiação solar e uma existência saudável para seus moradores. Em 1883, por aprovação da Câmara, foi instituído o serviço de coleta de lixo na cidade, evitando que fosse jogado em áreas desabitadas e no rio. Em 1885, mediante Lei
Municipal, foi iniciada a instalação da rede de esgoto nas moradias. A medida foi bastante salutar ao ambiente da pequena população, pois após cinco anos já atendia 412 moradias ao longo de uma rede de 2.108 metros de extensão. Em 1913, foi inaugurado um grande crematório de lixo, visando sanar os problemas da acumulação do que já era coletado e da sua destinação no rio. Em 1942, o engenheiro agrônomo José Vizioli, prefeito de Piracicaba, ciente dos problemas do lançamento dos esgotos comunitários no rio, construiu próximo à rua do Porto (rua Rangel Pestana), um grande biodigestor para tratar grande parte do esgoto da cidade, evitando sua contribuição à poluição já existente no rio. O efluente do sistema apresentava uma redução de mais de 90% do potencial poluente do esgoto original, e o resíduo orgânico (biofertilizante) era vendido a baixo preço a horticultores e jardineiros que o disputavam por razões econômicas e pela grande fertilidade conferida ao solo. Apresentava, porém, um inconveniente: após alguns dias de aplicação, surgia um verdadeiro “tapete” de pés de tomate, oriundos de sementes nas fezes que não perdiam o poder de germinação, durante o processo de fermentação no biodigestor. Esse fato gerou uma ocorrência de grande repercussão na cidade. A praça José Bonifácio se achava em reforma e a terra entre os seus passeios necessitava de uma boa adubação. Para tanto, foi aplicada uma grossa camada de biofertilizante do biodigestor. Como já era previsto, depois de alguns dias, as áreas de terra estavam totalmente cobertas com um verdejante “tomatal”. Entretanto, com uma intrigante diferença: no meio dele um pé de abacate!!! O inusitado acontecimento, naturalmente,
favoreceu desencontrados comentários entre os transeuntes do local, como também de outros que, sabedores do “causo”, lá foram expressar sua opinião. Dos pequenos blocos de pessoas que se formavam, surgiam as mais variadas explicações e justificativas, umas devido a uma simples ocorrência, outras, pela origem das sementes, como um comprovante de fenomenal capacidade de um morador!!! A partir da década de 1930, para atender à demanda por cana de dezenas de usinas de açúcar da região, os canaviais foram invadindo paulatinamente áreas ocupadas com cafezais, culturas anuais e inclusive, mananciais, tornando o rio um verdadeiro canal de drenagem do alto poluente das usinas: o vinhoto (ou vinhaça). Na ânsia de mais um palmo de terra para mais um pé de cana, nem mesmo a área ciliar do rio e de seus afluentes foi respeitada. A vegetação arbórea retirada influiu diretamente na temperatura do meio hídrico, anulando a importante função termorreguladora, o que prejudicou seriamente a cadeia trófica (alimentar) dos peixes frugívoros pelo desaparecimento de pequenos frutos (pacu e piracanjuba); de peixes insetívoros (lambari, piava), pela ausência de insetos, e indiretamente de peixes mais nobres e de maior tamanho, como dourado, pintado, jaú, pelo desaparecimento dos pequenos peixes forrageiros. A lei que instituiu o Código Florestal, nº 4.771, infelizmente publicada só em 1965, favoreceu essa destruição. O Código, ampliado pela Lei 7.511 de 1986, estabeleceu as seguintes larguras para as faixas (ciliares) de preservação permanente (FPP): de 30 m para rios com até 10 m de largura, de 50 m para rios com 10 m a 50 m de largura, de 150 m para rios com 100 m a 200 m de largura e de
igual largura para rios com mais de 200 m de largura. De acordo com essa alteração, o nosso rio deveria ter uma FPP em torno de 100 m. Sem contar com o trecho do Tanquã, com várias centenas de metros. Devido ao agravamento das condições do rio, a CETESB obrigou todas as usinas a construir lagoas para a deposição da vinhaça produzida, evitando seu lançamento no rio. Inicialmente deram resultado, mas devido à impermeabilização do solo e à baixa redução do volume somente pela evaporação, tornaram-se um problema, obrigando, a cada safra, à construção de novas lagoas. Outro grande inconveniente também era o rompimento de tais lagoas. Com a safra em pleno período de chuvas, era muito comum o rompimento causado (ou mesmo provocado) por enxurradas que sempre atingiam o rio pela usual construção em áreas ribeirinhas. O sério problema foi resolvido, entre 1945-1950, pelo professor da ESALQ – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Jaime Rocha de Almeida, especialista na área de Tecnologia Rural, quando descobriu que a vinhaça, devidamente diluída e aplicada proporcionalmente na área de solo, se transformaria em valioso (e econômico) adubo para os canaviais, contrariando a ideia de décadas passadas que, se lançada ao solo, o esterilizaria. A aplicação da nova tecnologia demorou mais de uma década para o desenvolvimento da melhor metodologia de aplicação nas lavouras, por aspersão ou sulcos de irrigação. A retirada da vinhaça do rio trouxe mais tranquilidade para a população de Piracicaba, preocupada depois somente com a questão dos esgotos comunitários e industriais na bacia. Essa “pausa”, entretanto, durou até
A aplicação da nova tecnologia demorou mais de uma década para o desenvolvimento da melhor metodologia de aplicação nas lavouras, por aspersão ou sulcos de irrigação
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1966, quando deputados de Piracicaba tiveram conhecimento de obras já iniciadas nas cabeceiras dos rios formadores do Piracicaba. Os deputados José Domingos Aldrovandi e Francisco Salgot Castellon denunciaram obras de barragens nos rios Juqueri e Cachoeirinha, por isso denominado Sistema Juqueri que, complementado pelos rios Jaguari, Atibainha e Atibaia, deu origem ao Sistema Cantareira. Para tanto, houve necessidade da constituição de uma companhia de capital misto, para receber vultoso empréstimo conseguido junto ao organismo internacional BIRD, estando seus representantes, já no Brasil, para a assinatura do empréstimo. Para desespero do governador Abreu Sodré, nossos deputados “trancaram” o processo exigindo explicações sobre as consequências dessas obras para a nossa bacia. O professor Eduardo Riomei Yassuda, secretário de Obras e um dos autores do projeto, foi convocado pela presidência da Câmara para explicações, garantindo que o rio Piracicaba, na altura do clube Regatas, jamais teria vazões inferiores a 60 m³/s e que o desvio para a capital (São Paulo) seria de 30 m³/s. Requisitado para dar explicações diretas à comunidade piracicabana, em setembro de 1969, após cansativa explanação sobre o projeto, prometeu a vazão mínima de 40 m³/s (e não mais os 60 m³/s anteriores) com a mesma retirada. Após muitas disputas na Câmara Paulista, o projeto foi aprovado com a criação da COMASP – Companhia Municipal de Águas para São Paulo, substituída pela atual SABESP – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo. À medida que aumentava a poluição da água do rio, devido ao aumento da população da bacia, e a gradativa redução da 126
vazão até a conclusão das barragens do Sistema Cantareira em 1970, a população piracicabana foi se conscientizando cada vez mais da necessidade de uma ferrenha luta em defesa do seu rio e de seus peixes. Assim, primeiramente foi criada a ACOPARP – Associação de Combate à Poluição do Rio Piracicaba, que tinha como principal agente incentivador o Dr. Fortunato Losso, diretor do Jornal de Piracicaba. Análises da água eram feitas semanalmente nos laboratórios da SEMAE, mediante coletas de técnico do Instituto de Pesca, da Secretaria da Agricultura (SP). Seus resultados eram enviados a autoridades municipais e do Estado, a fim de que tivessem consciência do que vinha acontecendo com o rio Piracicaba. Encontros de música ecológica (I e II), confecção de cartazes, passeatas, aulas a alunos, principalmente do 1º grau, foram amadurecendo o espírito defensivo pelo rio e sua bacia. Um bom número de associações foi sendo criado, como a COVALPI – Conselho do Desenvolvimento Integrado dos Municípios do Vale de Piracicaba; o PRODEBAP – Programa de Desenvolvimento Regional da Bacia do Piracicaba; o CONDEVAP – Conselho de Defesa Ecológica do Vale do Piracicaba; o CEPIVI – Centro de Estudos de Piracicaba Viva que, em cinco seminários no campus da UNIMEP, discutiu amplamente e relatou os problemas da bacia, abordando as áreas de Educação, Meio Ambiente, Legislação, Desenvolvimento tecnológico, Cartas Constituintes Municipais, com a presença, por seminário, de mais de duas centenas de pessoas, entre alunos, jornalistas, ambientalistas e convidados. A organização do evento esteve a cargo do Dr. Paulo Afonso Leme Machado, promotor público internacionalmente
conhecido como mestre em Direito Ambiental. 1979 foi um ano marcante na luta pelo rio. O Clube da Toca, grupo de empresários amantes da espeleologia (pesquisa de cavernas), que já vinha trabalhando há anos contra a poluição do rio, representado pelo empresário Benedito Longo, em contato com o Dr. Hugo Pedro Carradore, então presidente do Conselho Coordenador das Entidades Civis de Piracicaba, levou ao conhecimento do então prefeito de Piracicaba, o engenheiro agrônomo João Herrmann Neto, a ideia da realização da “Semana de Protesto Pela Morte do Rio Piracicaba”, por ocasião dos 212 anos da fundação de Piracicaba, no dia 1º de agosto de 1979. Prontamente apoiada a ideia, surgiu outra, a da inauguração também da “Praça do Protesto Ecológico”. Na praça em frente ao Hotel Beira Rio, com o comparecimento de autoridades e ambientalistas, foi realizada a cerimônia da inauguração, com o fechamento do comércio das 12 às 13 horas. Sobre lápide de mármore confeccionada especialmente, discursaram além do prefeito, várias autoridades e ambientalistas participantes dos movimentos de repúdio. Dezenas de assinaturas, jornais do dia e moedas foram encerradas em nicho especial na lápide. Em sua frente, uma placa de bronze, expressando a dor pela morte do querido rio Piracicaba. Em continuidade à semana de protesto, foi criada pelo Dr. Paulo Afonso Leme Machado a Associação Brasileira de Direito do Meio Ambiente. No mesmo dia, o prefeito João Herrmann, através do então presidente do SEMAE, José Sérgio Guidotti, entrou com uma ação civil pública contra a SABESP e o Sistema Cantareira. Devido à dificuldade de fornecer água com a potabilidade ideal para a população, o prefeito
João Herrmann recorreu a um projeto de captação de água do rio Corumbataí, de menor vazão que o Piracicaba, mas de boa sanidade. Em 1º de setembro ainda do mesmo ano, pescadores da colônia Z-20, à qual pertenciam os nossos pescadores e que, em número a associados, era a segunda do Brasil, depois da de Santos, encaminhou ao governador Paulo Maluf uma solicitação para anular a portaria que reverteria o rio Piracicaba, da classe de apto para o lazer para a de categoria destinada à captação de esgotos e resíduos industriais. Além dos protestos pela injusta classificação, apresentaram razões de ordem social e econômica para os 1.000 associados, que tinham como garantia da sobrevivência 1.000 kg de peixes diariamente, de variadas espécies.
Este marco representa o protesto De um povo em defesa de um bem Que, dado por Deus foi conspurcado Pelos homens: o Rio Piracicaba É o protesto contra a ineficiência A incompetência dos órgãos saneadores, Fiscalizadores; a apatia dos governadores A ganância do poder econômico e, Contra aqueles que de uma forma ou de outra Contribuem para poluir o meio ambiente. 1/8/1979 (Dizeres na lápide de inauguração da “Praça do Protesto Ecológico”) 127
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CapĂtulo VIII
Campanha Ano 2000
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As espécies foram dispostas em 32 caixas de 1.000 litros cada, com água bombeada do rio durante um ano. A capacidade fitodepuradora das espécies foi sendo determinada, consagrando o aguapé como o de maior capacidade 130
Por volta de 1976, a mobilização popular em defesa do rio Piracicaba era grande, em razão da sua poluição, da ausência de providências reparadoras e das consequências já causadas pela retirada dos 33 m³/s (metros cúbicos por segundo) de água da nossa bacia para garantir 55% das necessidades hídricas da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo). Graças ao estabelecimento de normas pelo Estado, visando convênios de colaboração científica entre instituições de pesquisa, foram iniciados entendimentos entre o Instituto de Pesca – IP, da Coordenadoria de Pesquisa dos Recursos Naturais, da Secretaria da Agricultura – SP e o Centro de Energia Nuclear de Agricultura – CENA, da USP – Universidade de São Paulo. O estabelecimento do convênio, efetuado em 1975, quando era diretor o saudoso professor Dr. Admar Cervelini, deslocou o engenheiro agrônomo e pesquisador científico, Nelson de Souza Rodrigues, em exercício no Posto Avançado de Piscicultura, do IP, em Pirassununga – SP, para através do Setor de Ecologia do Meio Hídrico, criado especialmente no CENA, fossem desenvolvidas tecnologias visando a melhoria das condições do rio Piracicaba. Como primeira atividade, o Professor Cervelini, preocupado com os níveis de nitrato que eventualmente estariam presentes nos afluentes do rio, direta ou indiretamente provenientes das águas do lençol freático, e consequentemente, no rio, solicitou ao pesquisador Rodrigues a elaboração de um projeto para verificação de tal fato. Sua execução se desenvolveu por quatro tipos de solos da região, sob diferentes tipos de coberturas: mata, lavoura, pastagem e cana. Através de coletas quinzenais, diretamente de nascentes, durante dois anos, sua análise constatou a gravidade da poluição pelas amostragens, exceto das amostras
de mata, resultando num trabalho inédito e de repercussão sob o título Nitrate Concentrations in Ground-waters in Piracicaba Region, State of São Paulo, Brazil, apresentado no Coordinated Research Program Meeting – IAEA, em maio de 1978, em Viena, Áustria, como também no 1º Simpósio Nacional de Ecologia, sob patrocínio do Instituto de Terras e Cartografia do Paraná, em setembro de 1978. A essa pesquisa seguiram-se outras sob a coordenadoria do mesmo Setor de Ecologia, sempre voltadas direta ou indiretamente para problemas do rio, com plantas e peixes (lebistes) nele existentes, para avaliar sua capacidade como bioindicadores. Por solicitação do então diretor do CENA, professor Dr. Enéas Salati, devido à aposentadoria do Dr. Cerveline, foi instalado um projeto visando a capacidade de fitodepuração de plantas flutuantes em águas poluídas. Para estudar o problema, foram escolhidas por Rodrigues três plantas: aguapé (Eichornia crassipes), alface d’água (Pistia stratiotes), salvínia (Salvinia sp.) e lemnia (Lemnia minor). As espécies foram dispostas em 32 caixas de 1.000 litros cada, com água bombeada do rio durante um ano. A capacidade fitodepuradora das espécies foi sendo determinada, consagrando o aguapé como o de maior capacidade. Esse bom resultado deu origem ao Projeto Aguapé, com a instalação de um sistema fitodepurador, com água do ribeirão Piracicamirim, afluente do Piracicaba, pelo menos três vezes mais poluído, em projeto de 1.100 m², elaborado e conduzido por Rodrigues, em área da ESALQ, no qual foram obtidas excelentes taxas de redução da poluição hídrica, cerca de 80%, ao qual foi incorporado outro de solos filtrantes, idealizado pelo professor Salati, aumentando a capacidade despoluente para cerca de 95%. Graças aos excelen-
Lixo e morte do Rio Piracicaba
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tes resultados obtidos, o Projeto Aguapé transformou-se no projeto “Humanização da Bacia do Piracicaba” que visava a sua implantação, não só por particulares como também por vários municípios da bacia, contribuindo para a despoluição do rio. Para tanto, o Setor de Ecologia do Meio Hídrico, sob a chefia de Rodrigues, proporcionou estágios a enviados por usinas do Estado de São Paulo e de outros Estados, cursos (de três meses) a
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graduandos de Agronomia, Biologia e Ciências Ambientais, além de palestras (ou conferências) em órgãos interessados como CETESB, DAEE, ESALQ, Lions, Rotary, Faculdade de Agronomia de Botucatu, Assembleia de São Paulo e outros. Além dessas atividades, por intermédio do CENA, era prestada assistência técnica a empresas, tendo por base a fitodepuração por meio do aguapé, primeiramente através de um projeto-piloto, para conclusões preliminares, e depois a implantação do sistema, tendo por base os dados já obtidos. Entre outras assistências, destacamos a Duratex, pela elevada taxa de poluente do efluente e a Usina Leão, em Maceió (Alagoas) que, após os bons resultados do piloto, sob orientação de nosso exestagiário engº agrº Márcio Martins Rodrigues, instalou o projeto fito-depurador da usina em área de 11.400 m², que recebia 695 l/s da usina e conseguiu uma redução de 85%, sendo considerada a maior área com sistema fitodepurador com aguapés do país. O município de Brotas, com nossa orientação, instalou o sistema fitodepurador com aguapé que, por dois anos, reduziu a poluição do rio Jacaré pepira, em mais de 80%, mas infelizmente, por razões políticas, foi desativado. Durante esse período, além de participar de várias manifestações em defesa do rio Piracicaba, Rodrigues, como representante do CENA junto ao Conselho Coordenador das Entidades Civis de Piracicaba, tornou-se também seu assessor técnico. Em razão do alto prestígio do Conselho perante as autoridades públicas, resolveu (1980) enviar ao deputado federal e ministro Antônio Delfim Neto um trabalho intitulado A Problemática da Preservação e Recuperação do Meio Ambiente: Considerações e Proposições. O trabalho era constituído por três teses de autoria do engenheiro agrônomo
Nelson de Souza Rodrigues, do Dr. Paulo Affonso Leme Machado, especialista em Direito Ambiental, e o Dr. Paulo Checolli, economista. Infelizmente, as exposições e as proposições que envolviam interesses da bacia do Piracicaba não foram consideradas e acabaram esquecidas. Com a reestruturação da Associação de Engenheiros e Engenheiros Agrônomos de Piracicaba (AEAP), o engenheiro José Elidiney Pinto, associado e assessor técnico da Associação, convidou o também associado engenheiro agrônomo Nelson de Souza Rodrigues, em 1980, para assumir a presidência da Divisão de Meio Ambiente da citada Associação. Uma das primeiras preocupações do novo presidente foi constituir junto à Divisão um corpo técnico composto de universitários, engenheiros, ambientalistas, professores (não citados nominalmente pelo escrúpulo de esquecer alguns de merecida atuação), para o estudo das resoluções e das proposições que viriam a ser adotadas. Desde o princípio, porém, uma resolução foi tomada: “uma luta com bases técnicas a médio e longo prazo” e não somente quando os peixes morriam pela insalubridade da água do rio Piracicaba. A luta pela bacia com uma base mais sólida e técnica prosseguiu com maior vigor. Um dos primeiros enfrentamentos ocorreu quando a CETESB apresentou o programa “Melhor Água para o Rio Piracicaba” ao Conselho Coordenador. Encaminhado à Divisão de Meio Ambiente, para apreciação, foi posteriormente devolvido com outro programa e com o mesmo nome, por julgar as proposições apresentadas paliativas e não concludentes para a bacia. Por circular de 4 de outubro de 1985, assinada pelo engº Wanderlei Esmael, presidente da AEAP e pelo engº agrº Nelson de Souza Rodrigues, presidente da Divisão do Meio
Ambiente da mesma associação, foi lançada oficialmente a “Campanha Ano 2000 – Redenção Ecológica da Bacia do Piracicaba”, já aprovada anteriormente em reunião com todos os presidentes das divisões. O lançamento da Campanha, com ampla repercussão na imprensa local, de outros centros da bacia e fora dela, prioritariamente se desenvolveu de modo informativo e educativo, mostrando a que se propunha e para o melhor conhecimento dos problemas ambientais. Palestras em escolas, clubes de serviço, entrevistas, artigos e reportagens em jornais foram favorecendo uma maior conscientização dos problemas da bacia, como também serviu de base para mobilizações futuras. Aos 12 de outubro de 1985, o projeto da Campanha foi apresentado em reunião dos membros do Conselho Coordenador das Entidades Civis de Piracicaba, que não só o aprovou, como também o incorporou ao seu programa de atividades. Essa segunda fase da Campanha, de maior amplitude, que exigia um grande esforço, contou, como já vinha acontecendo, com a valiosa contribuição da imprensa local, o Jornal de Piracicaba e o Diário de Piracicaba, nas pessoas do Dr. Rosário Losso Neto e de Cecílio Elias Neto, respectivamente. No auge da Campanha, foi alcançada a criação da Frente Parlamentar, com políticos locais e de outras regiões, na Assembleia de São Paulo, através dos deputados Jairo de Mattos, José Machado, Walter Lazarini, Wanderlei Macris; na Câmara Federal, com os deputados Antônio Carlos Mendes Thame e Adhemar de Barros Filho. Além da continuidade das ações durante os dois anos seguintes, Rodrigues trabalhou no alinhamento de proposições a serem encaminhadas ao Governo do Estado, o clímax da Campanha. Os manuscritos eram levados à apreciação dos mem-
Os manuscritos eram levados à apreciação dos membros da Divisão de Meio Ambiente, e assim, de reunião em reunião, foi sendo composta a “Carta de Reivindicações”, como documento máximo da Campanha. Concluída nos fins de 1986, não foi levada ao governo, por estar prestes a se findar a gestão de Franco Montoro
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bros da Divisão de Meio Ambiente, e assim, de reunião em reunião, foi sendo composta a “Carta de Reivindicações”, como documento máximo da Campanha. Concluída nos fins de 1986, não foi levada ao governo, por estar prestes a se findar a gestão de Franco Montoro. Após a posse do governador Orestes Quércia, em cerimônia especial, em 30 de julho de 1987, foi apresentada a “Carta de Reivindicações ao Governo Orestes Quércia”, pelo presidente do Conselho Coordenador, empresário Angelo Pardi. A comissão especialmente composta para a entrega era composta pelo professor Dr. Humberto Campos, Diretor da ESALQ, o Dr. Rosário Losso Neto, do Jornal de Piracicaba, Décio Azevedo, representante das Lojas Maçônicas, jornalistas, representantes de entidades ambientalistas e sindicalistas. O engº agrº Nelson de 134
Souza Rodrigues, em nome da AEAP e como autor da Carta, expôs ao governador Orestes Quércia as proposições das 32 reivindicações nela incluídas, como também suas justificativas e soluções. Em resposta, assim pronunciou-se o governador: “Em toda minha carreira política, nunca recebi uma comissão que, ao apresentar suas reivindicações, as justifica e indica os procedimentos para suas soluções. Me esforçarei para sua concretização”. Entregando-a ao seu secretário, solicitou para que tirasse cópias e as enviasse a todas as secretarias envolvidas. A apresentação do documento agilizou os estudos da nova administração, relativos aos recursos hídricos do Estado que vinham se desenvolvendo no DAEE. E assim, em 11 de novembro de 1987, o Decreto 25.576, criou o Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CERH), com a missão primeira voltada aos problemas da bacia do Piracicaba. O CERH, em sua primeira reunião em 7 de dezembro de 1987, através da deliberação CERH nº 5, declarou como crítica a bacia do Piracicaba, determinando ao Comitê Coordenador do Plano Estadual de Gestão dos Recursos Hídricos (CCRHI), a elaboração, dentro de 120 dias, de um “Programa Prioritário para a bacia do Piracicaba”, tendo por base a Carta de Reivindicações. Para tanto, foram mobilizadas equipes técnicas de doze secretarias: ET – SB – Saneamento Básico; ET – AH – Aproveitamento Hidráulico; ET – EI/ LA – Efluentes Industriais e Legislação Ambiental; ET – IR – Irrigação; ET – MI – Mecanismos Institucionais; ET – PI, Piracicaba. As equipes técnicas – ET envolveram as Secretarias de Obras, Economia, Saúde, Indústria e Comércio, Transportes, Esporte e Turismo, Ciência e Tecnologia, Planejamento e Meio Ambiente. Aos 29 de abril de 1988,
a ET – PI, juntamente com as outras acima relacionadas, enviaram ao seu coordenador, engº Hiroaki Makibara, o Relatório de Apresentação dos “Programas Prioritários para a Bacia do Piracicaba”, para o encaminhamento ao Secretário Executivo do CORHI, engº Orlando Zuliani Cassettari. O citado documento, na sua parte inicial, comenta: “Além disso, o documento intitulado ‘Campanha Ano 2000, Redenção Ecológica da Bacia do Piracicaba – Carta de Reivindicações ao Governo Orestes Quércia’, elaborado pela Associação dos Engenheiros de Piracicaba, constitui-se em um item de consulta constante durante a formulação do presente relatório. O equacionamento das 32 reivindicações será objeto de um futuro relatório, juntamente com as propostas de encaminhamento institucional e de mecanismos institucionais necessários para a implementação destes programas”. O relatório dos Programas Prioritários foi oficialmente entregue ao Coordenador Técnico da Campanha Ano 2000, engº agrº Nelson de Souza Rodrigues e sua comitiva, pelo engº Paulo Bezerril, superintendente do DAEE, na sede em São Paulo, no dia 14 de julho de 1988. Poucos dias antes, era criada a “Bacia-Modelo de Gerenciamento Hídrico na Bacia do Piracicaba”, aos 10 de junho de 1988, pelo Decreto 28.489 (proposição nº 18 da Carta) pelo CERH, para orientar todos os programas hídricos das bacias do Estado. Três meses após, o engº Paulo Bezerril, também presidente do CERH, veio a Piracicaba proferir palestra sobre o alcance dos “Programas Prioritários” para as questões ambientais da bacia, na sede da AEAP. Por iniciativa dos prefeitos de Piracicaba e Americana, José Machado e Nicola Cortez, respectivamente, foram iniciados entendimentos com outros prefeitos, no propósito
de integrar os movimentos em prol da bacia e de seus problemas ambientais comuns. Estes objetivos correspondiam aos previstos na Carta da Campanha Ano 2000, na reivindicação nº 19 que propunha a “criação de um organismo intermunicipal eleito e representante de um Conselho Diretor de Prefeitos da Bacia”. E assim, em 13 de outubro de 1989, foi eleita a primeira diretoria do Conselho Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari (e depois, também o Jundiaí), tendo como presidente José Machado e como vice, Nicola Cortez. De igual importância teve o atendimento da reivindicação nº 31, determinando que “os recursos provenientes à bacia fossem recolhidos ao organismo Intermunicipal (Comitê) e que, de acordo com a reivindicação nº 30, teriam prioridade de aplicação pela seguinte ordem: a – tratamento de esgotos comunitários; b – reflorestamento de áreas de preservação permanente (APP); c – financiamento de projetos de incentivo à pesquisa; d – financiamento de cursos destinados à educação e conscientização ambiental das comunidades da bacia; e – financiamento de concursos abordando temas ecológicos. Infelizmente, embora já decorridas mais de duas décadas, algumas destas importantes reivindicações ainda não foram contempladas. Da mesma forma que Piracicaba se tornou uma referência de luta de uma comunidade em defesa do seu patrimônio natural, a Campanha Ano 2000 e sua Carta, tornaram-se igualmente referências para equipes técnicas e movimentos ambientalistas, na elaboração de projetos multidisciplinares para as bacias hidrográficas.
Estes objetivos correspondiam aos previstos na Carta da Campanha Ano 2000, na reivindicação nº 19 que propunha a “criação de um organismo intermunicipal eleito e representante de um Conselho Diretor de Prefeitos da Bacia”
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Cap铆tulo IX
Hist贸ria Noticiada
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À elaboração de proposições técnicas com suas respectivas justificativas, de médio e longo prazo, para a solução dos problemas da bacia
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Piracicaba, embora seja o último município da Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba, recebendo dos 39 municípios a montante seus resíduos domésticos e industriais, sempre lutou pela preservação de seus rios, por meio de campanhas e proposições aos órgãos competentes. Com a sangria da água do seu manancial para atender às necessidades do insidioso Projeto Cantareira, a situação do abastecimento de água da bacia bem como a poluição do rio tornaram-se drásticas obrigando a Divisão do Meio Ambiente da Associação de Engenheiros e Arquitetos de
Piracicaba (AEAP), juntamente com outras entidades representativas, à elaboração de proposições técnicas com suas respectivas justificativas, de médio e longo prazo, para a solução dos problemas da bacia. O documento gerou no governo de Orestes Quércia, que se instalava para administrar o Estado de São Paulo, uma nova política com respeito às bacias hidrográficas, tornandose modelo para outros Estados. As manchetes a seguir, desse capítulo da história, constituem um documento valioso a respeito da luta pela redenção do rio Piracicaba.
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CapĂtulo X
Festa do Divino 149
Sobre esse tablado uma estrutura em forma de casa é montada para que seja inteiramente enfeitada com bandeirolas multicoloridas e varas de bambuzinho cortados na lua minguante
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Entre as centenas de cidades brasileiras que mantêm sua data festiva religiosa, Piracicaba se destaca seja pela longevidade da data, seja pela repercussão e pelo número de participantes. A “Festa do Divino Espírito Santo” ou, como é mais conhecida em Piracicaba, “Festa do Divino”, tem influência portuguesa e está associada aos festejos realizados em períodos de colheita. Originalmente, tinham um propósito social, pois arrecadavam e distribuíam donativos nos períodos de escassez de alimento. Em Piracicaba, a festividade foi realizada pela primeira vez na época provincial, no ano de 1826, em virtude da realização do primeiro Encontro das Bandeiras, promovido por José de Viegas Muniz, que sugeriu que passasse a ser realizada no Rio Piracicaba com intuito simbólico, para pedir pela cura das enfermidades sofridas pela população ribeirinha. Deste então, ela vem transpondo séculos alternando períodos de grande participação e fervor e de quase esquecimento. Em 1965, a festa sofreu um grande golpe, pois foi dissociada da igreja católica, quando o Bispo Diocesano de Piracicaba, Dom Aniger Melillo, julgou que a festividade seria profana, pois continha vários aspectos que acabavam sendo contrários a certos princípios religiosos. Sua continuidade foi seriamente comprometida e isso fez com que ela sofresse interrupções. Por volta de 1972, em resposta ao clamor popular, a Prefeitura de Piracicaba, tendo como prefeito o Sr. Cássio Pascoal Padovani, procurou o presidente do Centro de Folclore de Piracicaba, João Chiarini, com a intenção de juntar-se ao movimento pela volta da festividade com a participação da igreja. Foram então estabelecidas algumas condições e assim, após sete anos, a Festa do Divino voltou a ser
celebrada na cidade. A Festa do Divido é celebrada cinquenta dias após a Páscoa, no Domingo de Pentecostes, mas, respeitando a tradição, a festividade é realizada em um sábado e um domingo. Durante cada edição, é nomeado o festeiro do ano seguinte com as seguintes condições: deve seguir a religião católica apostólica romana, estar acompanhado de sua mulher e ter posses suficientes para arcar com as despesas da festividade. Alguns meses antes de cada festa, o festeiro organiza algumas comissões para angariar prendas para o leilão. Essas comissões percorrem casas, sítios, fazendas e são compostas dos seguintes figurantes: 1 violeiro, 1 tocador de triângulo, 1 tocador de caixa e 1 bandeireiro que leva, como símbolo, a bandeira do Divino Espírito Santo. Em cada um dos lugares visitados, eles executam uma música ou cantoria, e depois solicitam uma prenda. Antes de tudo, deixam claro que as oferendas são muito poderosas para a obtenção de graças. Nos sítios e fazendas, é costume arrecadarem animais como cabritos, porcos e mesmo bois para o leilão. No Rio Piracicaba, em frente à Praça do Largo dos Pescadores, sobre dois batelões é armado um grande tablado de madeira com proteções laterais. Sobre esse tablado uma estrutura em forma de casa é montada para que seja inteiramente enfeitada com bandeirolas multicoloridas e varas de bambuzinho cortados na lua minguante. Nesse tablado, com capacidade para cerca de 60 pessoas, embarcam o festeiro, o padre, os coroinhas, autoridades civis e militares, e mais algumas pessoas de destaque. Esse conjunto representa a Irmandade do Divino. A embarcação é controlada por marinheiros que, com roupa branca e usando quepe, orientam-na com varões de bambu. Rio abaixo,
na curva situam-se três botes com suas bordas enfeitadas com bandeirolas de papel. Cada bote mantem sempre de pé, 6 ou 7 marinheiros com os mesmos trajes dos que estão no batelão. Em suas mãos, um remo todo pintado com várias cores. No sábado, quando chega a tarde (aproximadamente às 16h30), é iniciada a procissão do batelão rio abaixo e, rio acima, dos três botes, chamados “Irmãos do Pouso” (ou de Rio Abaixo). Durante a caminhada concomitante, os trabuqueiros (especialistas em disparar trabucos, mas que hoje disparam rojões) disparam suas armas com grande estrondo, aturdindo e ensurdecendo os acompanhantes da margem esquerda do Rio Piracicaba, na Rua do Porto. A expectativa dos acompanhantes é grande, com o batelão descendo rio abaixo e os três botes subindo rio acima, até o encontro da Irmandade do Divino (ou Rio Acima) e a Irmandade do Pouso. Um grande foguetório indica o momento exato, com a soltura de uma dezena de pombos brancos. Estando juntas, sobem o rio até o Clube de Regatas (hoje Agência Torres) e, uma vez no ponto de partida, todos os marinheiros, com auxílio de seus remos, levantam o mastro do Divino, que é todo pintado e enfeitado, e o implantam em uma cova anteriormente preparada. Em procissão pela Rua Moraes de Barros, se dirigem até a Praça José Bonifácio, no centro da cidade, e depositam a bandeira do Divino, junto ao altar da Catedral de Santo Antônio, onde é realizada a missa solene. No dia seguinte, pela manhã, ocorre uma missa e a distribuição de saquinhos de sal benzidos, que depois serão levados em procissão até que todos retornem para o rio, onde se realizará o leilão das prendas oferecidas para a festividade. 151
Em vez de estandartes efêmeros, Nelson levantou a bandeira ecológica por meio de trabalhos sérios, com resultados positivos, e deixou seu legado em manuscritos, tratados, e agora nesta obra de fundamental importância que retrata a biodiversidade do rio Piracicaba
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Sr. Nelson Numa tarde de outono chuvosa, envolvidos numa atmosfera de forte expectativa, chegamos a uma casa com um jardim bem cuidado e uma bela varanda, que nos acolhia da chuva. Ali, esperando pela entrevista que íamos realizar, estava o Sr. Nelson de Souza Rodrigues. Vestindo uma camisa passada com esmero, em pé e não querendo demonstrar sua empolgação, o autor deste livro mal se apresentou e já me fez de pronto pegar o gravador e assim dar início a uma enorme distribuição de valiosas informações sobre seu passado repleto de conhecimentos, curiosidade e, o principal, amor à natureza. Uma verdadeira aula informal de consciência ambiental que há muito começou, nos seus 92 anos de idade. Pelos extintos matagais do Ipiranga, na capital paulista, Nelson desde tenra idade já era fanático por répteis, abundantes naquela região, que recolhia em latas para desespero de sua mãe, e no jardim de sua casa os observava com a curiosidade típica da idade. Às vezes, apareciam cascavéis cuja periculosidade de manuseio a duras penas conseguiu identificar com o tempo. Dessa singela observação, conseguiu captar o mais importante, que é a preservação do habitat de todos os animais que podia “estudar”. Daí em diante travou várias lutas para a preservação da natureza, principalmente rios e suas margens, como forma de promover a sustentabilidade do ecossistema, e, já em 1948, levantou a bandeira ecológica, quando se formou em Engenharia Agronômica pela ESALQ. Com diploma na mão e uma grande vontade de modificar as diretrizes de utilização do solo, Nelson aplicou sua visão
preservacionista em todas as oportunidades que teve para que profissionais eempresários mudassem sua forma de utilizar os recursos naturais, adotando uma nova visão sustentável. Fez vários estudos aplicados, graduou-se em Química Agrícola, Piscicultura, e foi um dos pioneiros no Brasil a rever as políticas públicas de conservação do meio ambiente em uma época nada propícia a essa postura. Aliás, colocar aqui seu currículo seria impossível, pois conseguiu agregar tantos valores em cursos dados e recebidos que a lista seria desproporcional. Em vez de estandartes efêmeros, Nelson levantou a bandeira ecológica por meio de trabalhos sérios, com resultados positivos, e deixou seu legado em manuscritos, tratados, e agora nesta obra de fundamental importância que retrata a biodiversidade do rio Piracicaba. Com uma detalhada descrição desse ecossistema, oferece ao leitor a possibilidade de entender a importância da revitalização de um curso d’água tão rico e cheio de histórias que forma um dos principais meios de sobrevivência da população ribeirinha de um grande polo urbano do Estado de São Paulo. Já ao entardecer daquela terça-feira chuvosa, após conhecer seus inúmeros trabalhos como taxidermista, fotógrafo, artesão e tantas outras atividades, perguntei a ele se nosso planeta teria salvação. Ele respondeu: “Felizmente, as crianças estão bem mais conscientizadas. Vivendo nessa ideia ambiental, só tende a melhorar porque a natureza é uma coisa tão eficaz que basta dar um pouco de atenção a ela que ela se recomporá”.
Nelson de Souza Rodrigues e Luccas Longo, av么 e neto em um de seus in煤meros momentos de boa prosa
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Nelson de Souza Rodrigues Nelson de Souza Rodrigues é paulistano e, desde a infância, os bens naturais, além da família, constituíram a motivação de sua existência. Peixes, aves e o meio ambiente, sempre estiveram presentes em suas atividades. Paralelamente, a fim de perpetuar a presença ou a imagem desses elementos, desenvolveu a técnica da taxidermia e da fotografia que, por muitos anos, atenderam a seus interesses e aos de terceiros, participando de exposições (taxidermia) e Salões anuais nacionais e internacionais (fotografia), desde a adolescência. 1948 – Graduação na ESALQ – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, como engenheiro agrônomo, complementada com estágios e cursos de aperfeiçoamento. 1950 – Convidado pelo cineasta Alberto Cavalcanti, diretor artístico da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, para instalar e chefiar o laboratório de fotografia, com a função de documentar cenas dos filmes e produzir cópias fotográficas para propaganda (cerca de 3.000 por filme) e produzir grandes ampliações de fotografias (7 m x 10 m) para compor cenários. Os três primeiros filmes da “Vera Cruz” contaram com tais serviços. 1951 – Chefia, por direito de concurso público, na Secretaria da Agricultura [SA]-SP, do Setor de Documentação e Divulgação da Divisão de Conservação do Solo da SA, destinada a documentar os serviços de conservação do solo e combate à erosão realizados no Estado, bem como emitir, bimensalmente, boletim técnico a respeito. 1954 – a pedido, assume a Chefia da Região Conservacionista – Região São Paulo (capital) da SA. Tem então oportunidade de desenvolver técnicas conservacionistas para regiões de topografia inclinada, divulgadas em artigos e teses em Congressos (Congresso Nacional de Conservação do Solo – Campinas; cinco teses). 1958 – Chefia da Escola de Tratoristas de Pirassununga – SP, do antigo Departamento de Engenharia Mecânica da
Agricultura – DEMA – da SA. Durante as aulas práticas dos três cursos anuais, no solo do cerrado branco da região, o maior interesse era desenvolver técnicas de desbravamento não destrutivas, possibilitando pioneiramente o uso do cerrado para culturas anuais, pastagens e silvicultura, especialmente de eucalipto e pinus, favorecendo a alteração de serviços mecanizados e do plantio no cerrado. 1970 – na Chefia do Posto Avançado de Piscicultura, do Instituto de Pesca, da Secretaria da Agricultura de São Paulo, em Pirassununga – SP, além de desenvolver pesquisa com peixes do rio Mogi-Guaçu, proporciona elementos de pesquisa a outras divisões do mesmo Instituto. 1972 – Promoção, por concurso, à carreira de Pesquisador Científico. 1975 – Chefe do Setor de Ecologia do Meio Hídrico, por convênio entre o Instituto de Pesca da Secretaria da Agricultura – SP e o Centro de Energia Nuclear na Agricultura – CENA – USP, especialmente criado para o desenvolvimento de pesquisas envolvendo o meio hídrico, de preferência o rio Piracicaba, resultando no desenvolvimento de processos de fitodepuração de águas e efluentes industriais através do uso de rádioisótopos com peixes e plantas e sua capacidade como biomoduladores. 1980 – Presidente da Divisão de Meio Ambiente da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Piracicaba – AEAP. 1983 – 1º lugar no Concurso de Tecnologia Nacional – área Meio Ambiente, do Banco do Brasil, com o projeto “Unidade Bivalente – Despoluente Geradora de Energia”. 1984 – II Concurso Nacional de Tecnologias Apropriadas – Saneamento Básico – CNPQ – Projeto “Unidade Hidroagrícola como Fator de Desenvolvimento Rural”, selecionado para aplicação no “Programa de Transferência de Tecnologias Apropriadas ao Meio Ambiente no Meio Rural”. 1985 – Após a aposentadoria, o envolvimento no projeto de redenção da Bacia do Piracicaba foi crescente.
Luccas Longo Luccas Guilherme Rodrigues Longo é piracicabano, biólogo, especialista em Bioecologia e Conservação, pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), e Mestre em Conservação de Ecossistemas Florestais, pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP). Seus trabalhos são dedicados à conservação e à divulgação da fauna silvestre, com ênfase no estudo de aves. É coautor do livro Nosso Rio, Nossas Aves:
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As Margens do Piracicaba, publicação pioneira na divulgação fotográfica e biológica das aves no município. É professor e educador ambiental com experiência em observação de aves (birdwatching), atividade que acredita ser uma importante ferramenta de conservação ambiental. Além de sua formação como ambientalista, é artista gráfico premiado em Salões de Humor, com trabalhos voltados à temática socioambiental.
Relação de fotos e ilustrações Fotos Capa: Garça-moura no Tanquã by Marcel Rodrigues Contra capa: Nelson e seu companheiro by Desconhecido Pág.06: Tuiuiú no Tanquã By Luccas Longo Pág.10: Borrego na beira do Piracicaba estudo by Nelson de Souza Rodrigues Pág.12: Tanquã By Marcel Rodrigues Pág.14: Engenho Central by Marcel Rodrigues Pág.16/17: Rio Piracicaba e Engenho central By Nelson de Souza Rodrigues Pág.21: Casa do Povoador by Nelson de Souza Rodrigues Pág.22/23: Rio Piracicaba by Nelson de Souza Rodrigues Pág.24: Museu da Água e Rio Piracicaba by Nelson de Souza Rodrigues Pág.26/27: Curimbatá by Nelson de Souza Rodrigues Pág.30/31: Cabeça-seca by Luccas Longo Pág.34/35: Salto do Rio Piracicaba by Nelson de Souza Rodrigues Pág.40/41: Rua do Porto by Nelson de Souza Rodrigues Pág.44/45: Água do Rio Piracicaba by Marcel Rodrigues Pág.92/93: Margem do Rio Piracicaba by Marcel Rodrigues Pág.94: Curimbatá by Nelson de Souza Rodrigues Pág.97: Pescadores by Marcel Rodrigues Pág.99: Tanquã by Marcel Rodrigues Pág.100/101: Pescadores by Nelson de Souza Rodrigues Pág.102: Pescadores by Marcel Rodrigues Pág.103: Garças-brancas-grandes by Marcel Rodrigues Pág.104/105: Alfaces-d’água by Marcel Rodrigues Pág.111: Garça-branca-grande no Tanquã by Marcel Rodrigues Pág.112/113: Rio Piracicaba by Nelson de Souza Rodrigues Pág.115: Pontos do salto do Rio Piracicaba by Nelson de Souza Rodrigues Pág.122/123: Três crianças na Rua do Porto by Nelson de Sousa Rodrigues Pág.128/129: Salto do Rio Piracicaba by Nelson de Souza Rodrigues Pág.131: Morte no Rio Piracicaba by Nelson de Souza Rodrigues Pág.132: Elias Rocha, o Elias dos Bonecos by Nelson de Souza Rodrigues Pág.134: Casa do Povoador by Nelson de Souza Rodrigues Pág.136/137: Tuiuiú na margem do Rio Piracicaba by Marcel Rodrigues Pág.148/149: Festa do Divino by Nelson de Souza Rodrigues Pág.151: Ponte pênsil by Marcel Rodrigues Pág.153: Nelson de Souza Rodrigues e Luccas Longo by Marcel Rodrigues Pág.155: Nelson de Souza Rodrigues e Luccas by Marcel Rodrigues Pág.160: Tanquã by Marcel Rodrigues Ilustrações Pág.08: Primeiros registros by Guilherme Piso & George Marcgrave (1648) Pág.09: Primeiros registros by Guilherme Piso & George Marcgrave (1648) Pág.19: Casa do Povoador by Nelson de Souza Rodrigues Pág.20: Aldeamento paiaguá by Nelson de Souza Rodrigues
Pág.25: Bacia do Rio Piracicaba by Luccas Longo Pág.29: Ictiometria do dourado by Luccas Longo Pág.29: Anatomia externa do dourado by Luccas Longo Pág.33: Ictiometria do dourado by Luccas Longo Pág.37: Reprodução by Nelson de Souza Rodrigues Pág.38: Desenvolvimento embrionário by Nelson de Souza Rodrigues Pág.42: Determinação da idade by Luccas Longo Pág.43: Determinação da idade by Luccas Longo Pág.46: Canivete by Nelson de Souza Rodrigues Pág.47: Vida no aquário by Luccas Longo Pág.48: Cascudo by Nelson de Souza Rodrigues Pág.50: Mão entalada by Luccas Longo Pág.52: Curimbatá by Nelson de Souza Rodrigues Pág.55: Papa-terra by Luccas Longo Pág.56: Dourado by Nelson de Souza Rodrigues Pág.59: Pesca de rodada by Nelson de Souza Rodrigues Pág.60: Dourado na banheira by Luccas Longo Pág.62: Jaú by Nelson de Souza Rodrigues Pág.64: Pesca do jaú by Nelson de Souza Rodrigues Pág.66: Jurupoca by Nelson de Souza Rodrigues Pág.67: Ferroada by Luccas Longo Pág.68: Lambari by Nelson de Souza Rodrigues Pág.69: O cuscuz verdadeiro by Luccas Longo Pág.70: Mandi by Nelson de Souza Rodrigues Pág.71: Cuscuz incrementado by Nelson de Souza Rodrigues Pág.72: Pacu by Nelson de Souza Rodrigues Pág.73: Pacuquinho by Luccas Longo Pág.74: Peixe-sapo by Nelson de Souza Rodrigues Pág.75: Pesca inesperada by Luccas Longo Pág.76: Piapara by Nelson de Souza Rodrigues Pág.77: Piapara do Senador by Luccas Longo Pág.78: Piava by Nelson de Souza Rodrigues Pág.79: Recuperação premiada by Luccas Longo Pág.80: Pintado by Nelson de Souza Rodrigues Pág.81: Pesca de farolete by Nelson de Souza Rodrigues Pág.82: Piracanjuba by Nelson de Souza Rodrigues Pág.85: Com as baratas entre os dentes by Luccas Longo Pág.86: Tamboatá by Nelson de Souza Rodrigues Pág.87: Pesca inusitada by Luccas Longo Pág.88: Traíra by Nelson de Souza Rodrigues Pág.90: Pesca no pano vermelho by Nelson de Souza Rodrigues Pág.91: Pesca no enxadão by Luccas Longo Pág.106: Sistemas de preparo de iscas by Luccas Longo Pág.109: Apetrechos de pesca by Luccas Longo Pág.116: Caixão by Luccas Longo Pág.118: Dinival e o rolo de cobra by Nelson de Souza Rodrigues Pág.119: Cabeça de negro by Luccas Longo Pág.121: Trechos do Rio Piracicaba by Mariana Hortelani Carneseca Longo Pág.124: O nascimento inesperado by Luccas Longo
Expediente Pesquisador: Nelson de Souza Rodrigues Direção de arte: Rogério Callamari Macadura Diagramação: Purim Comunicação Visual Coordenação editorial: Marcio Alves Revisão de textos: Silvia Mourão e Renata weber Neiva Captação de recursos: Luigi Longo Impressão: Gráfica Ideal Realização: ABCD Cultural
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Com uma mistura de dados técnicos, folclore, causos e cultura popular, Nelson torna a leitura desse livro fácil e dinâmica. Encoraja-nos até a última linha a saborear cada frase, nunca se esquecendo do bom humor típico brasileiro. Um livro para pescadores, ambientalistas, estudantes e amantes da cultura nacional. “Piracicaba, seu rio, seus peixes” é uma volta ao passado e um esplêndido convite à reflexão.
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