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Boletim Salesiano n.º 544 - Separata 11

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Separata

Dom Bosco, empenhado no seu tempo, empenhado no futuro “Queridos jovens, amo-vos de todo o coração, e basta-me que sejais jovens para que vos ame ainda mais. Posso garantir-vos que encontrareis muitos livros escritos por pessoas de mais sólida virtude ou mais sábias do que eu, mas dificilmente encontrareis alguém que vos ame mais do que eu em Jesus Cristo e deseje a vossa verdadeira felicidade”. (S. JOÃO BOSCO, O jovem instruído)

BOLETIM SALESIANO 544 MAIO/ JUNHO 2014


O sacerdote dos novos tempos As palavras de Dom Bosco, destacadas na página anterior, dão-nos a chave da sua vida e do seu compromisso: Viveu pelos jovens e para os jovens, como realização concreta da vocação a que se sentia chamado pelo Senhor, plasmada desde o sonho dos 9 anos. BOLETIM SALESIANO mai/jun 2014 2

O seu compromisso vital, “até à morte”, por Deus e pelos seus jovens, empenhou-o no seu tempo – não em vão foi chamado também “o sacerdote dos novos tempos” –, compromisso que transcendeu a sua vida e obra num horizonte de futuro. É surpreendente que um jovem camponês, com escassos meios, proveniente de uma família pobre de uma aldeia do Piemonte, chegasse a ser um sacerdote que, em sintonia com o seu tempo, entrevisse as necessidades dos jovens pobres e operários, muitos deles camponeses – como ele –, emigrantes para a grande cidade, produtos da revolução industrial no Piemonte do século XIX. Dom Bosco tornou-se o sacerdote dos jovens de Turim, da grande cidade, industrial e burguesa, dinâmica capital do reino que daria origem a nova Itália. O seu perfil de camponês piemontês não lhe impediu de se adaptar à cidade e aos novos tempos; pelo contrário, aptidões e vir-


tudes como a laboriosidade, a confiança permanente em Deus providente, a nobreza do trabalho manual, a destreza prática para enfrentar as dificuldades, a tenacidade e firmeza nas suas convicções, adquiridas desde muito pequeno junto de Mãe Margarida, permitiram-lhe ser capaz tornar realidade um sonho: ser o sacerdote dos jovens.

e bons cristãos”, sintetizava na prática a sua tomada de posição perante os vaivéns ideológicos, políticos, teológicos e eclesiais. Para Dom Bosco, o melhor italia-

no era o bom cristão, fiel filho do Papa e da Igreja, que cumpria na perfeição os seus deveres e direitos de cidadão.

Sacerdote dos jovens na Europa das unificações A vida de Dom Bosco decorre paralela, quase do princípio ao fim, ao devir do apaixonante século XIX. Tocou-lhe vivê-lo no Piemonte, reino pujante e dinâmico, onde se instalou firmemente a revolução industrial que lideraria a unificação italiana. Profundas mudanças sociais, políticas, económicas que viveu na sua própria carne e das quais foi testemunha de primeira linha e, de certa maneira, protagonista de algumas delas. Na Itália do Risorgimento, fugirá da política partidária como da peste – e o mesmo inculcará aos seus filhos –, mas ninguém poderá apelidá-lo de antiitaliano ou antipatriota. Terá presente aquilo a que hoje chamaríamos “compromisso político”: colaborará em cheio, embora discretamente, para melhorar as relações entre Igreja e estado – com papel relevante na provisão de sedes episcopais vacantes –; negociará com ministros e autoridades; insistirá com os seus primeiros missionários para atender os emigrantes italianos da Argentina; fomentará a aprendizagem do italiano como língua comum do Oratório; assumirá e potenciará a prática do sistema decimal na Itália do livre comércio. O seu lema e objetivo, formar “honestos cidadãos

Empenhado na educação integral dos jovens Ancorado por origem e convicção no Antigo Regime, soube adaptar-se aos novos tempos e, muito mais importante, que as novas circunstâncias se adaptassem à forma do seu sapato. Trabalhador incansável, camponês prático e industrioso, não se refugiou em fórmulas moribundas, mas soube aproveitar as novas oportunidades para cumprir o seu objetivo primordial de salvar a juventude abandonada, a do seu tempo. Longe de ficar paralisado na crítica pertinaz aos males que traziam as mudanças que a nova sociedade industrial operava, deambulava pelas ruas e subúrbios ao encontro dos jovens necessitados, no seu próprio ambiente, os seus sapatos sujavam-se de cal e de areia dos andaimes e a sua batina ficava manchada ao abraçar os limpa-chaminés. Sem se relacionar com o movimento operário, preocupa-se concretamente com os seus rapazes, visitando-os nos seus lu-

gares de trabalho, urdindo uma espécie de contratos de trabalho, que salvaguardem a justiça e o trato correto por parte dos patrões. Consciente da importância do seu futuro, proporcionará aos seus jovens oficinas, que, estando sempre na vanguarda técnica, lhes assegurem uma sólida e competente educação. O Oratório/Escola converter-se-á numa verdadeira empresa, antecipação e sinal daquilo que hoje conhecemos como formas e variantes da Formação Profissional. No século do liberalismo, optará por dar ampla liberdade de ação e compromisso aos seus rapazes; e no meio da preocupação política por unificar a educação, universal e gratuita, forjadora do novo Estado, Dom Bosco considerará a salvação da juventude e o seu trabalho evangelizador como obra fundamentalmente educativa. Nos inícios da pedagogia como nova ciência contemporânea, não figurará nos seus anais como eminente erudito da mesma, mas a sua intuição de fino educador porá em prática o que serão sinais de identidade da nova pedagogia: atenção personalizada ao educando, opção 3


pelo sistema preventivo, interesse pelo uso, como meio e fim, da música, do teatro, das atividades ao ar livre (a importância do jogo – pátio, – dos passeios/ excursões outonais…).

O seu compromisso transcende a sua vida

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Poderíamos dar nome atual a tão plural ação e vida: compromisso social, compromisso político, compromisso educativo, compromisso evangelizador… Muitas variantes de um único compromisso ou, melhor dito, de uma única pessoa que dá a sua vida por Deus, pelo Deus da história, comprometido com o seu povo, pelo Deus que se torna presente nas circunstâncias próprias de cada homem no seu tempo e lugar. E por isso, comprometido até à medula com o seu tempo, com

a sua terra, com a sua gente, vocacionado, o seu compromisso chega a tal ponto que o torna fiel abrindo um futuro de esperança para os seus jovens e salesianos. Não se limita a dar resposta pronta aos problemas dos seus rapazes, mas inventa e cria estruturas que apontem um futuro de vida: Oratório – fórmula atualizada que é casa, escola, pátio e igreja –, escolas de sempre e escolas de hoje (novos métodos, oficinas, “Formação Profissional”…), e o legado do seu Sistema Preventivo, Salesianos – Consagrados e Leigos –, Família Salesiana, que continuam o seu mesmo empenho, espírito e dedicação, num projeto de salvação e de libertação da juventude. O padre Rua sintetizaria para sempre o genial compromisso de Dom Bosco com palavras que perduram nas Constituições Salesianas: “Não deu passo, nem pronunciou palavra nem acometeu empresa que não tivesse por objeto a salvação da juventude. A sua única preocupação foram as almas”.

Entre setembro de 2012 e maio de 2014 a edição do Boletim Salesiano Português foi acompanhada da publicação de 11 destacáveis sobre Dom Bosco, originalmente editados pelo Boletim Salesiano Espanhol. Terminamos nesta edição a sua publicação. O nosso agradecimento aos seus autores.

JOAQUÍN TORRES/ BOLETÍN SALESIANO ESPAÑA TRADUÇÃO: BASÍLIO GONÇALVES


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