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Um Dia Novo na voz única de Viviane
Espaço Cria: d.r.
Empreendedor: uma atitude de vida
p. 5
p. 2
Espaço AGECAL: d.r.
O património hidráulico Espaço ALFA:
Património religioso, fé e fotografia
p. 3
d.r.
p. 7
Da minha biblioteca: d.r.
AGOSTO 2014 n.º 72
As Primeiras Coisas
Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO p. 11
9.650 EXEMPLARES
www.issuu.com/postaldoalgarve
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Cultura.Sul
Editorial
Espaço CRIA
‘Out of the box’
Ser empreendedor, uma atitude de vida
Ricardo Claro
Editor ricardoc.postal@gmail.com Susana Imaginário Psicóloga e Gestora de Ciência e Tecnologia do CRIA - Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da UAlg
O CRIA, Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da Universidade do Algarve, no âmbito do projeto Algarve 2015 – Empreender e Inovar +, associou-se aos Cursos de Verão da UAlg e mostrou que “é de pequenino que se torce o pepino” através da realização do curso “Ser Empreendedor – Uma Atitude de Vida”. Este curso, distribuído por duas edições semanais, foi frequentado por jovens entre os 15 e os 19 anos de escolas básicas e secundárias das regiões do Algarve e do Baixo Alentejo. Vivemos numa época em que somos frequentemente bombardeados com notícias que apontam para a existência de uma grave crise económica, sendo o empreendedorismo e a criação de empresas ou do próprio emprego apontados como possíveis soluções para o aumento da competitividade da
Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro
cos da região; que promovam a iniciativa empresarial e o empreendedorismo jovem, nomeadamente no sector primário, na indústria transformadora, nos serviços avançados de tecnologia e turismo, nas indústrias culturais e criativas, e na saúde d.r.
Qualificado, I&DT e Inovação, este projeto oferece uma série de atividades que contribuem para a criação de consórcios Empresa – Universidade para o desenvolvimento de projetos de I&DT com o objetivo de valorizar comercialmente os recursos naturais, científicos e tecnológi-
e bem-estar; e que dinamizem a criação no Algarve de um ecossistema de inovação que estimule e apoie o surgimento de novos produtos e serviços. Com a realização deste curso pretendeu-se sensibilizar os jovens estudantes para a temática do empreendedorismo e da ino-
vação, procurando demonstrar a importância do desenvolvimento de novos produtos e serviços na economia da região e do país. Ao longo de cada uma das edições do curso os alunos tiveram a possibilidade de conhecerem e desenvolverem as suas competências empreendedoras, de contactarem com os passos e processos necessários para a criação de uma empresa e de aprenderem a importância da propriedade intelectual e da imagem corporativa. Estes jovens tiveram ainda a possibilidade de conhecer a experiência de algumas das empresas ajudadas pelo CRIA e de visitarem algumas das empresas incubadas na Universidade do Algarve, conhecendo as suas histórias e os seus empreendedores. Com este curso colaboraram as empresas EasySensing e Gyrad, na primeira edição, e Caviar Portugal e Untapped Events, na segunda. No âmbito das atividades deste projeto foi ainda realizado o concurso “Ideias em Caixa 2013” e têm sido efetuados vários workshops e seminários de sensibilização para a temática do empreendedorismo junto de jovens estudantes em colaboração com Associações de Estudantes e com outras entidades de Promoção do Desenvolvimento Local.
Juventude, artes e ideias
A lenda do Arraúl
Vítor Dias
Presidente da GORDA
Sou um filho de Olhão e sinto um certo orgulho pelo trabalho de embelezamento levado a cabo na zona histórica da cidade, depois de muita critíca e má vontade o resultado foi muito bom. Adorei a ideia das estátuas da Floripes e do menino dos olhos grandes, e só é pena que não se tenha colocado também uma estátua do Ar-
raúl, muito mal comparado, depois da obra feita, é como se um individuo depois de se ter vestido a rigor para uma cerimónia se tenha esquecido de pôr a gravata. E já que falei no Arraúl, e com todo o respeito pela história colocada na placa que é dedicada a esta personagem do nosso imaginário, deixem-me discordar. O que eu sei deste Arraúl é que era um homem estranho e singular que quando bebia água férrea urinava arame farpado, assava sardinhas debaixo de água com um tromax acesso e tinha uma árvore no quintal que dava pãezinhos com manteiga, tinha em casa um porco e quando queria um bife cortava um bocado de carne do lombo do
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Paginação: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N: Pedro Jubilot • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço CRIA: Hugo Barros • Espaço Educação: Direcção Regional de Educação do Algarve • Espaço Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Momento: Vítor Correia • Panorâmica: Ricardo Claro • Património: Isabel Soares • Sala de leitura: Paulo Pires Colaboradores desta edição: Isabel Valverde Marco Sousa Santos Paulo Côrte-Real Paulo Serra Susana Imaginário Vítor Dias Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelagoncalves3@gmail.com
on-line em: www.issuu.com/postaldoalgarve d.r.
A Cultura é cada vez mais uma realidade que se quer ‘out of the box’, e quer-se assim nas mais diversas vertentes. Se por um lado a Cultura se quer cada vez mais fora de portas - em particular nestes tempos de estio -, ela quer-se também cada vez mais liberta dos formatos tradicionais e das elites culturais tantas vezes bafientas. A Cultura saltou para as ruas, abandonou as tradicionais tábuas, fez-se maior e ganhou maioridade e, não de somenos, conquista a cada passo transversalidade. A noção de Cultura e de bens culturais são hoje conceitos indeterminados e revelam as mais variadas formas e meios de consubstanciação. Desamarrada de preconceitos ou supostas limitações, a Cultura é hoje outra realidade diversa da de outros tempos e é-o a bem de todos e de si própria enquanto actividade criativa e, diga-se sem pudores, económica. Por outro lado, os gestores e actores culturais foram, pela evolução do seu conhecimento do próprio métier e pelas contingências de uma economia largamente marcada pelas restrições, forçados e de um mesmo passo capazes de pensar a gestão cultural e dos espaços culturais ‘out of the box’. Do falar sobre sinergias se passou à efectiva potenciação das mesmas, do favor ao produto cultural local se passou à sua inclusão regular nos programas, das soluções tradicionais de programação e bilheteiras se passaram a soluções em que as responsabilidades e riscos são partilhados por todos os actores da produção cultural. Estas são algumas diferenças, filhas da necessidade, mas também filhas da arte e do engenho de quem para todos cria, gere e programa a cena cultural. E são diferenças, a larga maioria das vezes, positivas porque mais justas e abrangentes e mais transversais e globalmente satisfatórias. Há a cada passo uma nova forma de fazer Cultura e ainda bem porque o passado dificilmente se fará, neste como noutros campos, novamente presente.
economia e para geração de emprego qualificado. É com base neste pressuposto que surge o projeto Algarve 2015. Tendo como âmbito geográfico o território algarvio, uma das regiões mais deficitárias ao nível do Empreendedorismo
Ficha Técnica:
Tiragem: 9.650 exemplares
porco e aplicava tintura, e um dia queria um presunto cortou uma perna ao porco e aplicou-lhe uma perna de pau.
Ou, se calhar não é esta a lenda e isto é tudo mentira. Parabéns Câmara Municipal de Olhão.
Cultura.Sul
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Grande ecrã Cineclube de Faro
Programação: cineclubefaro.blogspot.pt VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO | “VILA REAL A CÉU ABERTO” - CINEMA AO AR LIVRE | JARDINS DA AVENIDA DA REPÚBLICA | 22 HORAS
Cinema marca presença no Verão em Tavira
Cineclube de Tavira
Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | cinetavira@gmail.com
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13 AGO | AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, Miguel Gomes, Pt, 147’ M/12 20 AGO | O VAGABUNDO, Charles Chaplin, EUA, 1915, 25’, M/4 O IMIGRANTE, Charles Chaplin, EUA, 1917, 30’, M/6 O CIRCO, Charles Chaplin, EUA, 1928, 71’, M/6 27 AGO | ANTES DA MEIA-NOITE, Richard Linklater, EUA, 108, M/12
8 AGO | DALLAS BUYERS CLUB (O CLUBE DE DALLAS), Jean-Marc Vallée, E.U.A., 2013, (117’), M/16 9 AGO | HER (UMA HISTÓRIA DE AMOR), Spike Jonze, E.U.A. 2013, (126’), M/16 10 AGO | SHORT TERM 12 (TEMPORÁRIO 12), Destin Cretton, E.U.A., 2013, (96’), M/16 11 AGO | SAMSARA - Estreia nacional - Ron Fricke, E.U.A./Indon/Singap/Tailân/Quén/ Dinam/Brasil/Jord/Emir Ár./Aráb. Saud./ Áfr do Sul/It/Gha/Egípto/Chin/Jap, 2011, (102’), M/12
CACELA VELHA | “SOB AS ESTRELAS EM CACELA VELHA” | 22 HORAS
O Convento do Carmo em Tavira é o palco escolhido para a sétima arte
28 AGO | A PAISAGEM DE ARTUR PASTOR, Fernando Carrilho, Portugal, 2014, 55’
9ª MOSTRA DE CINEMA NÃO-EUROPEU – AR LIVRE | CLAUSTROS DO CONVENTO DO CARMO | 21.30 HORAS
As nossas anuais Mostras de Cinema de qualidade ocupam um lugar de destaque no Verão em Tavira. Ano, após ano, voltamos a ver caras conhecidas de amantes de histórias sensíveis e bem contadas através
de imagem e som. Procuram Tavira para umas semanas de férias, sabendo que cada noite, atrás das portas dos Claustros do Convento do Carmo e num ambiente acolhedor e informal, lhes será contada uma história
que lhes alimenta a alma. Este ano não será diferente, lá estaremos mais uma vez, para vos oferecer uma selecção coerente e significativa dos melhores filmes disponíveis para exibição no nosso país.
A SEGUINTE SESSÃO TERÁ LUGAR NOS CLAUSTROS DO CONVENTO DO CARMO – 21.30 HORAS: 14 AGO | FILM D’AMORE E D’ANARCHIA, OVVERO… (FILME DE AMOR E ANARQUIA, OU ESTA MANHÃ...), Lina Wertmüller – Itália, 1973, (124’), M/16
Espaço AGECAL
O património hidráulico d.r.
Marco Sousa Santos Historiador de Arte convidado da AGECAL
O património hidráulico, isto é, o conjunto de estruturas edificadas dedicadas à captação, condução, armazenamento, distribuição e aproveitamento de água, tanto em meio urbano como rural, constitui um conjunto de valor inestimável que urge inventariar, preservar e proteger, e no qual se incluem noras, levadas, tanques, poços, fontes, cisternas e moinhos de maré ou de água doce, entre outras construções destinadas a aproveitar a água para regadio ou então como força motriz. Esse património, as estruturas que nele se incluem e as técnicas tradicionais associados à sua construção, utilização e manutenção, reflectem aspectos da história económica e social e do milenar processo de adaptação das comunidades humanas ao território. Acrescendo ao valor etnográfico e histórico, muitas dessas es-
truturas, construídas com propósitos funcionais, podiam ainda revestir-se de valor artístico, apresentando trabalhos decorativos em argamassa, ladrilhos e até elementos de cantaria lavrada, que lhe conferiam uma valência adicional de carácter estético. Todos esses factores concorrem para reforçar o interesse do património hidráulico e a necessidade de o defender e estudar. Por isso, numa época em que a maior parte dessas estru-
turas se tornou obsoleta, em virtude do processo de industrialização e da evolução tecnológica dos últimos cem anos, e corre o risco de desaparecer, importará, mais do que nunca, preservá-las e estudá-las. De certo modo, a indispensabilidade de preservar esse património torna-se ainda mais premente agora que a cidade de Tavira, na qualidade de comunidade representativa de Portugal, garantiu a inscrição da Dieta Mediterrânica
na lista de Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, entendendo-se dieta (do grego daiata) como sinónimo de estilo de vida e de modelo cultural. O conjunto é diversificado, vasto e, de um modo geral, encontra-se bastante disperso. Nesse sentido, não é exequível, nem desejável, preservar todas as estruturas. Não obstante, é fundamental que todas sejam inventariadas, georreferenciadas, foto-
grafadas e descritas, sob pena de se perder com cada estrutura destruída e não estudada uma fonte de informação. Só a inventariação sistemática permitirá identificar os exemplares mais representativos do conjunto e/ ou os que apresentam características que, do ponto de vista histórico ou artístico, justificam a sua protecção. É assim fundamental que todas as estruturas sejam identificadas e que algumas sejam recuperadas e posteriormente protegidas através da classificação enquanto Imóveis de Interesse (Municipal ou Público). Para concluir, e ainda no âmbito da preservação das estruturas que constituem o nosso património hidráulico, é preciso ter em conta que cada uma delas constitui apenas um elemento de um sistema complexo que só pode ser entendido no respectivo contexto. Nesse âmbito, a título de exemplo, fará pouco sentido restaurar e preservar uma nora sem fazer o mesmo com o tanque que dela se servia e com a levada que estabelecia a comunicação entre esses dois elementos, já que as estruturas só podem ser verdadeiramente entendidas através das relações que mantinham com o espaço envolvente, e com a comunidade, e só desse modo se preserva, de facto, a sua memória.
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Cultura.Sul
Letras e Leituras
O sentido da beleza segundo Michael Cunningham
Paulo Serra
Investigador da UAlg associado ao CLEPUL
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Michael Cunningham é o autor de As Horas, galardoado com o Pulitzer Prize e o PEN Faulkner Award, tendo este livro sido adaptado ao cinema num também excelente filme, com Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman nos principais papéis. Um livro difícil ao início, pela escrita complexa e densa, mas onde depois se mergulha numa história envolvente e sobejamente original, onde se cruzam três tempos, três espaços e três histórias diferentes. Parte-se da ideia desenvolvida por Virginia Woolf no seu clássico Mrs. Dalloway, para passar a contar uma história condensada num único dia determinante na vida destas três personagens femininas: a escritora Virginia Woolf, a leitora Laura Brown, que vive um momento de profunda crise emocional e cujas decisões ao final do dia serão marcantes na vida de toda a sua família, e a editora Clarissa que vive na moderna Nova Iorque. Clarissa é a melhor amiga de Richard e uma espécie de pilar ou de ponte com o exterior entre este escritor, que vive confinado no seu apartamento, onde está a morrer com VIH. O início do livro é ainda profundamente marcante pela própria cena profundamente visual em que a escritora Virginia Woolf se aproxima de um riacho onde entra completamente vestida e com pedras nos bolsos dos casacos, pronta a cometer suicídio. A partir desse prólogo inicial, recuamos no tempo até um dia aparentemente como qualquer outro na vida da autora, mas num dos piores anos da sua vida, num período em que sofria de depressão profunda e a história vai sendo narrada de forma alternada e tripartida. Laura Brown, além de estar a ler o livro escrito por Virginia Woolf umas décadas antes, tem em comum com essa personagem o facto de se sentir igualmente deprimida, centrando-se a sua história no dia do aniversário do seu
marido, em que ela, acompanhada pelo seu filho de cerca de quatro anos, se sente na obrigação, enquanto esposa e dona de casa, de fazer um bolo de aniversário perfeito como forma de agradecer ao marido o seu casamento perfeito. De forma subtil, em que a escrita do autor entra através da «corrente de consciência» no pensamento das personagens, um pouco à semelhança do próprio estilo de Virginia Woolf, e conforme o período em que esta começava a entrar em “moda”, pelo que nós leitores nunca sabemos bem o que está a ser objetiva ou imparcialmente narrado e o que é pensamento das personagens. O grande trunfo do seu romance é a chave de ouro no final, em que percebemos que duas das histórias se cruzam e se interligam de forma muito mais direta do que inicialmente se poderia ter previsto. Michael Cunningham é ainda o autor de Uma Casa no Fim do Mundo, igualmente adaptado ao grande ecrã, com Robin Wright e Colin Farrel nos principais papéis, que conta a história de uma relação de amor e amizade entre dois homens e a sua melhor amiga, e de Sangue do Meu Sangue, cuja ação se centra essencialmente num jovem adolescente, e acompanha três gerações de uma família, com as suas ambições, desilusões e amores. Dias Exemplares foi o romance que se seguiu imediatamente ao premiado As Horas, possuindo como traço comum o facto de ser um livro cuja história é construída, mais uma vez, de forma tripartida. As diversas partes do romance parecem não se intercruzar de forma eficaz, apesar da história procurar ser inovadora e original, lembrando um pouco o livro Atlas das Nuvens, de David Mitchell, adaptado recentemente ao grande ecrã. Encontramos sempre o mesmo grupo de personagens - um rapaz e um casal - neste tríptico: «Dentro da Máquina» é uma história situada na Revolução Industrial, época em que a humanidade enfrentava as realidades alienadoras da nova era mecanizada; «A Cruzada das Crianças» decorre no início do século XXI, narrando a perseguição a um grupo de bombistas suicidas que aterrorizam a cidade de Nova Iorque; «Uma Espécie de Beleza» evoca uma Nova Iorque futura invadida por uma vaga de refugiados oriundos do primeiro planeta ha-
fotos: d.r.
‘A Rainha da Noite’ é o último romance de Michael Cunningham bitado a ser contactado pelos seres humanos. Cruzam-se assim, ao estilo pós-moderno, as convenções de géneros tão díspares como o romance policial e a ficção científica. O romance Ao cair da noite, narra a vida de Peter e Rebecca Harris, um casal que anda na casa dos quarenta e vive em Manhattan. Ele é negociante de arte e ela trabalha como editora numa revista da especialidade. Habitam um moderno apartamento, têm uma filha a estudar na universidade de Boston e entre amigos inteligentes e sofisticados levam um animado e invejável estilo de vida urbano contemporâneo, parecendo ter todas as razões para serem felizes. Toda esta construção que não é de todo uma fachada acaba por ruir quando o irmão muito mais novo de Rebecca surge em cena. Ethan, conhecido na família como Mizzy, «O Erro», visita-os e parece colocar em causa a heterossexualidade de Peter, que começa a sentir-se estranha e irremediavel-
“QUEM MAIS GAMOU… MELHOR FICOU” 8 de AGO | 21.30 | Centro Cultural de Lagos Um espectáculo com pouca gente bonita, mas muito talentosa! “Aqui estão os Piratas” que vêm para reinar numa Caravela de Esperança e encontram um país na Bancarrota, completamente desorganizado...
mente atraído pelo cunhado. Numa espécie de Morte em Veneza, e relacionando-se mais ou menos diretamente com o tema da arte, esta atração parece catalisar questões maiores e mais filosóficas como o significado da beleza e o papel do amor nas nossas vidas. A Rainha da Neve é o último romance do autor, tendo sido lançado há poucos dias pela Gradiva, com um muito curto espaço de intervalo entre a sua publicação original e esta subsequente tradução. É descrito como um «romance luminoso» pois começa justamente com uma visão. Corre o mês de Novembro de 2004 e Barrett Meeks, tendo perdido um amor uma vez mais, atravessa o Central Park quando se sente impelido a olhar para o céu. Ali avista uma luz pálida, translúcida, que «parece olhar para ele de uma forma inequivocamente divina». Barrett não acredita em visões nem é particularmente devoto, mas nunca coloca em causa o que viu e
sentiu, como se um olho divino tivesse rasgado o céu e o fitasse diretamente. Entretanto, Tyler, o irmão mais velho de Barrett, é um músico em busca de inspiração pois tenta, aparentemente sem grande sucesso, escrever uma canção de casamento para Beth, a sua noiva doente com cancro. Tyler procura compor uma letra de uma música que não seja simplesmente mais uma balada sentimental mas a manifestação expressa de um amor duradouro. O autor segue os irmãos Meek nos seus diferentes percursos em busca de uma espécie de transcendência, um nas relações amorosas e outro na forma de cristalizar e eternizar a memória desse amor através de uma forma de arte - sendo a questão da arte e, por conseguinte, da beleza, uma constante nos romances de Michael Cunningham. Este último romance retorna aos anteriores na medida em que a história parece compor-se de momentos chave na vida das personagens, que desta vez vamos acompanhando ao longo do tempo, numa notória evolução das suas vidas, em que cada mudança por muito trágica que pareça parece significar efetivamente uma melhoria na vida de cada ser humano aqui descrito.
“CORES E FORMAS DOS NOSSOS ARTISTAS” Até 12 de SET | Galeria Municipal de Albufeira Exposição constituída pelos trabalhos seleccionados no âmbito de um concurso que contou com a participação de 26 artistas que apresentaram um total de 91 obras a concurso
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Panorâmica foto: d.r.
O ‘Dia Novo’ de Viviane
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Vinte e quatro anos depois de se ter lançado nas lides da música Viviane continua a mutar sobre um estilo e uma voz únicos, trabalhados sobre o cruzamento de um triângulo histórica e musicalmente indissociável que une a chanson francesa, o tango argentino e o tão nosso e já mundial e imaterial património, o fado. ‘Dia Novo’, o mais recente trabalho da cantora, é como Viviane disse ao Cultura.Sul “o meu fado” e não um disco de fado. Ali onde a guitarra portuguesa fez soçobrar o reinado do acordeão na sonoridade de Viviane, os poemas apelam a este novo fado que brota a cada canto actualmente e, de facto, ao ouvir-se o dedilhar da majestosa guitarra nacional o ouvido luso
tende a espartilhar rapidamente a melodia na categoria de fado. Mas este disco é muito diverso do fado, é Viviane reinventada tal como a par e passo nos habituou e é, essencialmente, alma numa melodia mais despida, menos tomada pela imensidão melódica do fole do acordeão e mais rasa para que sobressaia a interpretação.
título do disco. “É uma questão de feitio”, aponta Viviane como a razão para a permanente sede de descobrir rotas dentro dos mares musicais. Há um caminho que se faz a descobrir, vivendo e superando-se como no caminho ‘Do Chiado até ao Cais’ a que a cantora dá voz na pista que serviu de lançamento a este novo disco.
A força do novo a cada momento
As músicas inequeciveís na voz de Viviane
‘Dia Novo’ é o nome do disco, mas é para Viviane “um desafio de permanentemente aceitar novas experiências e novas linguagens”. Há, diz, “luz e energia neste título de um poema de José Luís Peixoto” e foram essas ideias que determinaram a escolha do
“Há músicas que nos marcam”, diz Viviane, e é ao pegar nelas e fazê-las suas num processo de desapego face às originais que surgem temas como ‘Com toda palabra’, de Lhasa de Sela, cuja morte prematura não deixou indiferente Viviane face
“QUIM ROSCAS & ZECA ESTACIONÂNCIO” 15 AGO | 22h00 | Palco principal junto à antiga lota de Portimão Duas personagens humorísticas interpretadas pelos actores João Paulo Rodrigues e Pedro Alves, que prometem muitas gargalhadas no Festival da Sardinha
à admiração pela cantora norte-americana. ‘A outra’, de Marcelo Camelo, é a segunda música que Viviane rapta para o seu repertório de ‘Dia Novo’, admiradora que se sente do trabalho deste brasileiro e finalmente, como quase que inevitável, surge Serge Gainsbourg reinventado na voz da cantora radicada no Algarve a partir da interpretação de Françoise Hardy de ‘Comment te dire adieu’. E quem poderia esperar a guitarra portuguesa a encher ‘Comment te dire adieu’, podem perguntar-se, mas a verdade é que nada surpreende quem conhece a camaleónica capacidade de reinvenção de Viviane, um estilo que lhe deu uma merecida legião de fãs e que é pela
cantora exercido com mestria de pura arte. Um ano de criação ‘Dia Novo’ “levou um ano” a pôr de pé, diz Viviane que prefere o trabalho feito da letra para a melodia, com os poemas pensados e vividos à exaustão antes de se lhes dar encorpo com a melodia. “Prefiro assim”, mas nem sempre assim é, e neste disco há o caso inverso com ‘Plenos pulmões’, de Tiago Torres da Silva, em que da música o letrista fez o poema de uma canção marcante. Ao lado de Tó Viegas, o seu parceiro de sempre nestas andanças de ser um dos nomes de referência da cena musical na-
cional está de volta Viaviane, em versão acústica, como ela própria gosta de se fazer ouvir, inconfundível e sempre arrebatadora. Agora falta levar à estrada a nova marca do percurso artístico de Viviane num caminho que a cantora gosta de fazer e de sentir. “É importante a empatia com o público e é essencial apercebermo-nos das reacções e emoções que conseguimos criar no público”, diz Viviane, para quem a estrada e o palco são elementos indissociáveis da arte de cantar. Há muito e tanto mais ainda para descobrir nos 12 temas de ‘Dia Novo’, há acima de tudo a voz inconfundível de um nome incontornável, Viviane. E o resto é música, por isso deixe levar-se por ela e descubra também um ‘Dia Novo’. Ricardo Claro
“VOLKER HUBER, O HOMEM E A SUA VIDA” Até 4 OUT | Galeria de Arte do Convento Espírito Santo - Loulé Através de documentos fotográficos e vídeo, esta exposição tenta retratar a personalidade do fundador do Centro Cultural São Lourenço, em Almancil, revelando também a sua veia artística
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Cultura.Sul
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Momento
A banhos Foto de Vítor Correia
Espaço ALFA
Património religioso, fé e fotografia Paulo Côrte-Real Membro da ALFA
O Património religioso português representa um vasto e riquíssimo espólio do nosso legado arquitectónico e cultural. Constitui-se como um elemento fundamental da nossa própria identidade como povo e como nação e assume um lugar ímpar na multiculturalidade do mundo. E está vivo! Vivo em cada Ser que o vive diariamente, lhe reconhece valor, dando-lhe sentido e continuidade. Testemunhar a vivência do Património é algo extraordinário. O Património religioso acolhe, congrega milhares de devotos que se entregam nas suas práticas reli-
giosas, procurando uma comunhão com o divino. Assim tem sido ao longo de séculos. As igrejas, com a sua arquitectura, elevam o espírito, mergulhando de seguida o Ser num ambiente de recolhimento, de interioridade, propiciados pelo silêncio profundo, pela luz ténue. Direi mesmo, Ser e espaço tornam-se unos rumo ao divino. Neste ato de entrega há algo único (e porque não dizer mágico - tantas vezes difícil de descrever), uma força e uma genuinidade capazes de mover montanhas, os obstáculos que cada um possui em
seu interior e que impedem, muitas vezes, do usufruto da vida de acordo com a natureza humana. A Fé, com uma natureza transcendente é essa força transformadora e geradora de tantas coisas inexplicáveis ao senso comum. Documentar momentos tão singulares, como forma de tributo, procurando-os imortalizar num dado instante, e para que estes se tornem também parte integrante de um Património cultural que se pretende cada vez mais rico, é o propósito deste projeto fotográfico.
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Cultura.Sul
Espaço ao Património
Da natureza nascem as casas: um contributo para a educação patrimonial
Isabel Valverde
Arquiteta Coordenadora do Gabinete de Reabilitação Urbana do Município de Albufeira
Em 1980, Natália Correia Guedes, na época Diretora Geral do Património, no âmbito do Concurso «Um Tesouro Para Descobrir – Uma Herança Para Defender», escreveu o seguinte texto: «Amigo Professor: De há muito tempo que todos nós assistimos mais ou menos impotentes à degradação dos bens culturais do nosso país. A poluição destrói a vida animal e vegetal, a ruína instala-se nos monumentos, da pequena Igreja ao Solar, do Convento ao Palácio. O tempo e os homens para isso têm contribuído; mas a casa popular, genuína representante do diálogo entre o Homem e a Natureza, e os preciosos utensílios que nos contam uma fase da história do trabalho rural, as danças e os cantares, a maquinaria das fábricas hoje tornadas obsoletas pelo avanço tecnológico são outros tantos pedaços da nossa memória colectiva que correm graves riscos de degradação, logo, de perca irreparável. E são os pelourinhos, as antas, os por-
fotos: rui gregório e filipe palma
tais, as janelas, os alpendres, os chafarizes, as bandas de música que vão acabando, os corais e ranchos, a necessidade de refazer tudo isto, na nossa dimensão, em memória-verdade para projecto de futuro. Há um pouco de tudo isto na comunidade onde dá aulas, e há muito com certeza que lhe apetecia trabalhar com os seus alunos, ou trabalhou já até, desenvolvendo neles o amor pelo rico património do nosso povo.». E foi neste espírito inspirador, que traduz de forma simplificada um conjunto ainda atual de recomendações e documentos doutrinais produzidos e subscritos pela maioria dos países do mundo, no âmbito de Convenções organizadas por Instituições Internacionais responsáveis por estas matérias, que o Município de Albufeira deu início, em Agosto de 2006, a um projeto pioneiro no nosso país: «Da Natureza Nascem as Casas: Um Contributo para a Educação Patrimonial» cofinanciado pelo Município de Albufeira e pela CCDR Algarve ao abrigo do PROALGARVE. A ambição do Município era pôr em prática o muito que se teorizava sobre o assunto, decidiu-se então avançar com o projeto envolvendo professores, auxiliares de ação educativa e alunos, sendo que estes seriam os veículos privilegiados de transmissão do
Aluno a atestar a temperatura libertada durante a reação química provocada pelo contacto da cal em pedra com água conhecimento adquirido para o seio familiar e estabelecendo-se como objetivos prioritários os seguintes: Sensibilizar para a preserva-
ção, perpetuação das práticas tradicionais de construção e dos materiais utilizados; Desmistificar a existência de um «modelo de casa al-
garvia» promovendo através da demonstração in loco da variedade arquitetónica/construtiva na região; Incutir o valor ecológico
que estas construções representam, promovendo a reintrodução de algumas destas técnicas na construção atual (mais tarde, por vontade do sr. vice-presidente da Câmara, Dr. José Carlos Rolo, foram ampliadas em taipa duas escolas em Albufeira). Salvaguardar o saber ancestral das várias profissões associadas a estas construções, mediante o contacto das crianças com as práticas tradicionais, o manuseamento dos materiais e a construção real mas de escala reduzida. Durante todo o mês de Agosto de 2006, um conjunto de crianças do ATL de Paderne, com idades compreendidas entre os 6 e os 12 anos, participaram numa experiência única, que não só lhes permitiu obter o diploma de construtores tradicionais de edifícios, como lhes valeu ainda a participação no documentário didático: «Da Natureza Nascem as Casas» e numa exposição itinerante sobre o trabalho realizado. O projeto pedagógico integrava uma componente teórica, constituída por visitas de estudo temáticas realizadas pelo Algarve (de sotavento a barlavento), onde estas aprenderam a «ler a arquitetura» através do contacto com os diversos sistemas construtivos existentes na região (construções de terra: taipa e adobe, alvenarias de pedra,
Na senda da cultura
Revista Nova Águia tem vice-directora algarvia A Revista Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da Cultura Portuguesa, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. A Revista Nova Águia pretende
ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, com participação dos mais importantes nomes da cultura portuguesa contemporânea. O Conselho de Direcção da Revista Nova Águia conta com nomes como Adriano Moreira, Guilherme d’Oliveira Martins,
Gentil Martins, António Cândido Franco, Baptista Bastos, Eduardo Lourenço, Mendo Castro Henriques, Roberto Carneiro e Manuel Ferreira Patrício. Maria Luísa Francisco enquanto vice-directora da Nova Águia tem apresentado a Revista nas Bibliotecas do Algarve e Alentejo e considera que têm sido momentos culturais de qualidade,
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que geram bons debates dando a conhecer o melhor da nossa cultura e da nossa identidade. A mais recente apresentação decorreu na Feira do Livro de Monte Gordo a 30 de Julho e em Junho na Biblioteca Municipal de Faro onde Maria Luísa Francisco deu destaque à vida e obra de António Ramos Rosa, biblioteca que tem o seu nome.
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elementos vegetais, etc.) e integrava uma componente prática onde lhes foi ensinado o necessário, para que, em conjunto, construíssem uma abóbada e uma casa à sua escala: construção em taipa, fabrico do adobe, execução de cobertura em telha de canudo e forro em caniço, argamassas de cal, construção de abóbadas de berço e o adequado manuseamento de materiais e execução de técnicas de construção tradicionais. Em Novembro, o documentário e a exposição foram apresentados ao público na CCDR Algarve e foi com grande orgulho que as nossas crianças assistiram ao entusiasmo que esta sessão suscitou no público presente. A partir deste momento o Município de Albufeira começou a receber inúmeros convites de entidades públicas e privadas no sentido de disponibilizar a exposição, o documentário e apoio à realização de pequenas ações práticas. O convite mais curioso chegou do Museu Nacional de Educação da Holanda, cuja Diretora de Comunicação deslocou-se de Roterdão a Albufeira com o propósito de estabelecer uma parceria. A recetividade do projeto levou o Município a concluir que esta experiência deveria ser continuada, inicialmente alargada às restantes crianças do concelho e posteriormente através da Direcção Regional de Educação a um universo a aferir, assumiu-se que o
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projecto deveria tornar-se mais completo, ao nível dos conteúdos abordados, da sua comunicação, da possibilidade de trabalhá-los em sala de aula e no exterior, do apoio ao professor, do material didático de apoio (fichas) e dos materiais de recurso. Decidiu-se criar um DVD interativo e bilingue dividido em três temas principais e estruturado através de seis subtemas: 1º Tema: As paredes (dois subtemas: alvenaria de taipa e alvenaria de adobe); 2º Tema: As coberturas dos edifícios (dois subtemas: telhados e abóbadas); 3º Tema: Os revestimentos das paredes (dois subtemas: A cal e o seu uso nas argamassas de revestimento e As terras corantes e a sua transformação em pigmentos para uso em caiação e outras técnicas de pintura: barramentos e escaiolas). Em cada um dos seis subtemas seria possível visitar: O álbum de viagens, com imagens dos locais visitados pelas crianças onde se pode encontrar a técnica em referência; A parte do documentário onde é ensinada a técnica; Fichas didáticas de apoio ao aluno sobre o subtema; Referências bibliografia de apoio ao professor, educador ou animador. Em Julho de 2007, no âmbito da reformulação do projeto, as nossas crianças do ATL de Paderne voltaram à ação,
Caiando com pigmentos naturais agora mais compenetradas do seu papel, mais à vontade com o trabalho prático e sobretudo com as câmaras
de filmar, foi abordado o 3º Tema, ainda em falta, e os respectivos subtemas: A cal e o seu uso nas arga-
massas de revestimento; As terras corantes e a sua transformação em pigmentos para uso em caiação e outras
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técnicas de pintura. O primeiro dos subtemas foi introduzido pela Professora Doutora Eng.ª Goreti Margalha (Técnica da C.M. Beja e docente da Universidade de Évora) com uma visita à Aldeia do Barro Branco, concelho de Borba, a um dos últimos fornos de cal ainda a funcionar em Portugal. O conhecimento adquirido do processo de transformação que leva à obtenção da cal permitiu já em estaleiro realizar as argamassas de revestimento com que foram rebocadas as mini paredes. O segundo dos subtemas contou com o apoio do Instituto Português de Conservação e Restauro através da Professora Doutora Milene Gil Duarte Casal e foi introduzido com a visita à Serra Corada no concelho de Barrancos, a um local onde é ainda extraída terra para caiações. As terras extraídas no local e em Paderne, num sítio onde há registo de antigas extracções, permitiram realizar caiações de diversas cores, barramentos e fingidos sobre o reboco realizado. Os constrangimentos financeiros que atingiram as autarquias contribuíram para que o projeto não fosse materializado na sua totalidade, contudo, irá avançar contando com o apoio do Sr. Presidente da Câmara de Albufeira e responsável pelo Pelouro da Reabilitação Urbana, Dr. Carlos Eduardo da Silva e Sousa.
d.r.
O actual número da Revista Nova Águia tem um Dossier dedicado ao poeta António Ramos Rosa e tem como tema principal os 40 anos do 25 de Abril e os 20 anos da morte de Agostinho da Silva. Em 2008 quando a Revista surgiu havia quem a associasse a um clube futebolístico, pensando que “nova águia” era a mais recente aquisição do Benfica, refere o director da Revista, Prof. Doutor Renato Epifânio, que é ao mesmo tempo presidente do Movimento Internacional Lusófono (MIL). Assim como a Revista Águia estava associada ao Movimen-
to da Renascença Portuguesa, a Revista Nova Águia está associada ao Movimento Internacional Lusófono (MIL). Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da sociedade civil portuguesa, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente em Outubro de 2010, que conta já com mais de 20 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por 100 pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defende o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade. O MIL tem a sua sede no Palácio da Independência em Lisboa e tem um Conselho de Coordenadores Regionais sendo constituído por um coordenador no Norte: Joaquim Paulo Silva, um coordenador nos Açores: Eduardo Ferraz da Rosa, um Coordenador na Madeira: José Eduardo
Franco e uma coordenadora no Sul: Maria Luísa Francisco. A coordenadora refere que aceitou o duplo convite porque se identifica com este projecto cultural, tanto mais que a Nova Águia é uma revista de ensaio e poesia de elevado conteúdo. Refere ainda que a formação académica em Relações Internacionais e em Sociologia da Cultura encaixam perfeitamente no âmbito do MIL e da Revista Nova Águia. Está envolvida nestes projectos desde o início, tendo integrado anteriormente a Direcção do MIL e o Conselho Redactorial da Revista Nova Águia.
Maria Luísa Francisco Vice-Directora da Revista Nova Águia
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Cultura.Sul
O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N
Agosto Caminho de Mar e Luz
Adriana Freire Nogueira
Pedro Jubilot
pedromalves2014@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt
Estes dias de canícula fotos: d.r.
Zé Francisco, líder dos Marenostrum, lançou-se a solo (com a Orquestra Azul) num ‘Caminho de Mar e Luz’ (2013, AVM) – que traz num apurado trilho sonoro, uma bela homenagem aos homens do mar(es), não só os de Santa Luzia - Tavira, mas também às gentes e às músicas de outros portos.
Postais da Costa Sul ~ não reparar do tempo que passa, dormir sem malha na hora que calha, esquecer que não se é dono do destino, parecer que se perdeu o tino, sentindo-se de novo menino, andando livre. escolhem-se roupas leves e pedala-se contra o vento sudoeste que interfere com a música nos auriculares. mesmo assim o sol de frente aquece a cara protegida pelos óculos escuros. depois chega-se a um cais de pedra, colocam-se as mochilas aos ombros e segue-se o trilho que levará ao mar crescente. quem alcunhou esta estação de estúpida (‘silly season’), não devia estar de perfeito juízo ou não amava a liberdade ~
esta luz e esta terra embruxada.»… e escreve quase a segredar, tão a segredar, que terá sido mais um pensamento, muito intimo. Percebe-se pela paixão e pelo número de páginas que dedica a Olhão como foi esta a terra da costa sul que mais lhe ficou no coração «(…) este homem é um homem à parte no Algarve. Se veio de Ílhavo, como dizem, não sei, mas é o único homem arrojado desta costa». Deixou cerca de duas centenas de obras publicadas, mas é através de ‘Os Pescadores’ que nunca esqueceremos a voz do mar.
Estofo de Maré
Raul Brandão
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O olhar fascina-se nas cores de paisagem de ilha grega... mas a copiosa nortada nocturna deixa a água desfiando fria no dia de praia esperado. Desanimados, os banhistas regressam deste seu pedaço de mediterrâneo. O arroz de tomate acompanhando o peixe frito remedeia esta angústia ao meio-dia. Estes dias de canícula estão mesmo feitos dias de cão. Ainda a tarde cheira a fogareiro de assar peixe na vizinhança e já as rajadas de sudoeste na viragem da maré fazem bater as portadas das janelas de sul. Pequenas cristas brancas sobressaem na costa. O livro segurado pelos dedos começa a dar de si. As pálpebras já mal se elevam. A proeminente folga de sábado instalou-se.
Quando alguém nascido e criado numa cidade costeira do litoral algarvio, abre e lê pela primeira vez ‘Os Pescadores’ (Raul Brandão, 1923) nunca mais o abandonará cioso que o levem da sua biblioteca. Os hábitos e costumes do povo e as suas práticas de pesca, a descrição da atmosfera, da paisagem, da luz, dos sentidos despertos, do olfacto…surpreendem pela sua aproximação à realidade, mesmo passados tantos anos. Brandão chegou ao Algarve no esplendor do mês de Agosto em 1922, e parece ter ficado tão enfeitiçado pelo estio destas terras levantinas, que chega mesmo a dizer: «...Teria aqui uma casa numa das vielas(…) seria um deslumbramento: no pátio caiado, (…) viver num meio adormecimento, seduzido pela luz, fora de todos os interesses e realidades...» E quando parte é: «Tarde. Olho pela última vez a brancura imaculada dos terraços com o céu todo de oiro em cima e deixo com saudade
“O ALGARVE!” Até 30 NOV | 21.30 | Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira Exposição com reproduções das pinturas de George Landmann, que apresenta imagens do Barlavento e Algarve Central no século XIX, captadas por um estrangeiro viajado e curioso
… uma fervorosa apaixonada pela literatura, e que está aqui na página do lado, disse ao webzine ‘Bóia da Canal’: «Nunca me canso disto. E vou lendo: leio, leio, leio. E escolho alguns livros, da minha biblioteca que não tem muito mais espaço para crescer, para sobre eles escrever no Cultura.Sul. São os meus preferidos? Nem sempre. Mas decidi fazer escolhas mais amplas, com vista à promoção da leitura (e não crítica literária, que o espaço não é para isso). Também leio e traduzo autores gregos (antigos, claro), actividade que me dá muito prazer. Não há futuro numa escrita sem passado. Não será por acaso que, mesmo tematicamente, os ecos do mundo antigo continuam a ressoar em tantos autores contemporâneos, nomeadamente na poesia. Volto sempre à Grécia. No discurso, nas escolhas pensadas e impensadas, nos gostos, no quotidiano. Às pedras, aos textos antigos, que nos dão acesso ao pensamento dos gregos que tanto influenciaram a cultura ocidental (…)» Tudo em (http://boia.blogs.sapo.pt/10623.html)
Mercador do Sul
detenho-me à luz remanescente, extinguindo-se por esta tarde adentro. na espera de seduzir vocábulos para um poema, que depois aquiesças com a leitura do teu corpo, que vale por tudo o que me fazes escrever na parte mais íntima do teu dia...
Em Olhão, na segunda rua à esquerda de quem desce a rua do Comércio, vira-se para a Mouzinho de Albuquerque. A seguir à típica travessinha de cimento, no lado direito, sem que nela entremos, teremos a surpresa da larga montra da loja ‘Mercador do Sul’, ali no nº 1. Livros, artesanato, alimentação e outras artes locais, num espaço surpreendente a visitar sem demora.
“CAIXA FORTE” Até 30 AGO | 22.00 | Teatro Municipal de Portimão Espectáculo com Fernando Mendes, Carla Andrino, Cristina Areia e Frederico Amaral, em que um segurança bonacheirão, uma rica arrogante e o seu jovem e maltratado marido vão ter de aprender a conviver juntos dentro da ‘Caixa Forte’
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Cultura.Sul
Da minha biblioteca
As Primeiras Coisas d.r.
d.r.
Adriana Nogueira
Classicista Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com
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Quando começo a ler um livro, gosto de ver as epígrafes e de pensar que estão ali com algum propósito conectado com aquela obra concreta, recontextualizadas. Fico sempre curiosa por ver o sentido que fazem (ou não). E depois esqueço-me completamente. Acabo de ler o livro, discuto-o com amigos, recomendo-o (ou não) e volta para a prateleira. Só quando regresso a ele (para o emprestar, ou por saudades – sim, às vezes tenho saudades de um livro – ou para sobre ele escrever, como é o caso) é que me apercebo que tem epígrafe. Claro que há algumas inesquecíveis, como a de Memórias de Adriano, de M. Yourcenar (Animula vagula, blandula,/ Hospes comesque corporis…), mas a maioria não sobrevive com a memória do livro. Releio a epígrafe de As Primeiras Coisas (Quetzal, 2013), romance de Bruno Vieira Amaral (mais conhecido como crítico literário e autor de um outro livro, muito útil e usado por muitos jovens às voltas com a disciplina de Literatura, Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa): «‘Por toda a Hiroxima, as paredes e outras estruturas que permaneceram de pé preservaram sombras de pessoas ou de objectos. Todas elas na direcção do clarão de luz. A criação de tais imagens é semelhante à marca deixada no braço por um relógio no fim de um dia ao sol na praia.’ Charles Pellegrino, O Último Comboio de Hiroxima». E tudo faz sentido. Se não tivesse que dar mais informações sobre o livro, diria que As Primeiras Coisas é constituído pelas sombras de pessoas e objetos que marcaram o percurso de Bru-
O escritor e crítico literário Bruno Vieira Amaral no (personagem homónima do autor e que com ele partilha algumas características, como o próprio admite. Para que fique claro, sempre que mencionar apenas este nome próprio, é à personagem que me estou a referir). Virgílio Tal como Dante teve o poeta latino para o guiar ao Inferno, também Bruno tem o seu Virgílio, um velho fotógrafo que o acompanha numa viagem forçada ao passado. Digo «forçada», porque Bruno regressa ao Bairro Amélia (um bairro periférico, na «margem certa» do Tejo, onde foram parar muitos deslocados que tinham ido procurar melhores condições na capital, a quem se juntaram os retornados sem vontade de continuar a viver em hotéis e a quem as famílias, quando as havia, tinham voltado as cos-
tas) de onde saíra depois da adolescência, apenas porque está desempregado («Regressar assim foi uma espécie de rendição, um cessar-fogo forçado», p.13), mas, por outro lado, dado o estado de prostração da personagem, este encontro com o fotógrafo foi a sua salvação: «Senti-me aturdido, como se estivesse a recuperar de uma anestesia. Ressuscitei no momento em que vi o conteúdo do envelope. Então moveu-se e eu segui-o logo» (p.56). Se ainda não tivéssemos percebido, esta citação (v.136 do canto I do Inferno, de Dante) iria situar-nos no momento em que o poeta italiano, personagem e autor, aceita o desafio de percorrer com o vate os círculos do Inferno. E mesmo estando perante uma obra de ficção, não podemos deixar de vislumbrar a vontade de, também aqui, autor e personagem se misturarem no caminho
“MÚSICA MUNDI: FAD’NU” 30 AGO | 21.30 | Centro Cultural de Lagos Um projecto que vive da cumplicidade intimista que nasce do diálogo cénico e musical entre a cantora (Cátia Alhandra) e o guitarrista (José Alegre), personagens fulcrais e identificadoras do género reconhecido como Fado
que é percorrido, assumidamente próximo do de Dante: «Guiado por Virgílio, pela profundidade dos seus olhos, pela experiência dos seus passos recatados, deixei-me levar para o interior do grande labirinto que eu conhecia desde criança e que me era tão estranho como uma terra fictícia, não cartografada». Dicionário incompleto, inventário amputado de sonhos É desta forma que Bruno descreve a obra que apresenta («Sem exagero, acho que este dicionário incompleto, inventário amputado de sonhos, memórias, fontes impressas ou descrições sem sentido, me salvou», p.57), no fim de um prólogo (pp.11-57), em forma de narrativa breve, preparando o leitor para o ambiente criado. A estrutura deste «dicioná-
rio» tem a sua graça. Todo o livro é acompanhado por notas de rodapé, que não são simples notas explicativas que o autor (ficcional) faz ao texto inicial e ao dicionário propriamente dito. Dentro da ficção, é como o narrador se estivesse a autocomentar, como se entre o texto e as notas tivesse havido um hiato temporal e a personagem tivesse necessidade de explicitar alguma coisa. Mas com o avançar das entradas dicionarizadas, as notas ganham vida (literária) própria, sendo, muitas vezes, mais interessantes – e até maiores (cf. «Garcia», n. 49, p.135) – que o próprio texto, contando, por vezes, uma outra história (cf. «Pastor Joaquim» n. 81, na p.231). Há, até, um capítulo só com título e nota de rodapé, sem mais palavras (p.233, n.82). E apesar das várias referências a documentos supostamente verdadeiros (notícias de jornal, notas biográficas, monografias, etc.), há frequentemente uma nota de irreverência, de ironia inteligente, que nos faz sorrir com a piada escondida. Todo o livro usa uma linguagem crua, livre de preconceitos, violenta e sábia, consoante as personagens que a utilizam. Al-
gumas vezes emocionei-me. Para terminar, deixo aqui um excerto de uma das entradas do dicionário de que mais gosto: «O avô era tudo, árvore magnífica, rocha antiga e inabalável (…). Certo dia, (…) o pai, intrigado pela proximidade de avô e neto, quis pôr à prova os laços que os uniam. (…) Como a criança se recusasse a trair o avô, a embarcar na corrente de ódio, a mão do pai levantou-se para lhe cair com toda a fúria e frustração nas faces, nos braços, nas costas. O violento turbilhão de rancor terminou com o pai cansado de não ver as lágrimas no rosto do filho, a criança ainda imune ao vírus do ressentimento, os olhos magnânimos, ‘perdoo-te, pai, pois não sabes o que fazes’. Então o pai sentou-se, exausto, e viu a figura do velho avançar para a criança, a ancestral firmeza dos braços recuperada. O avô pegou no neto ao colo, os braços da criança enlearam-lhe o pescoço, as mãos miúdas e suaves na pele rugosa, como os veios de um rio que secou, os nós de uma árvore que dura, e essa união fundamental e incompreensível entre dois seres envergonhou o pai, que se levantou num vagar imbecil e estuporado e foi para a rua associar-se aos cães que se arrastavam junto dos muros. (…) A criança fez-se homem, o velho fez-se mais velho (…). Houve uma manhã, (…) Diógenes acordou mas tardou a levantar-se. Quando o fez, aproximou-se da porta do quarto do avô. (…) Não se ouvia nada. (…) Quando entrou, viu a cama vazia. (…) Correu para a rua. Ninguém.» (p.1067, «Diógenes»). Mas nós sabemos, pela epígrafe, que, tal como o clarão de Hiroxima, permanecem em nós as sombras que resultaram da luz emanada por aqueles que já nos deixaram.
“CONCERTO DE MAYRA ANDRADE” 14 AGO | 22h00 | Palácio da Galeria - Tavira A cantora cabo-verdiana traz à cidade do Gilão as suas sonoridades, que vão desde o romantismo ocidental até à sensualidade do sul, o reggae tradicional e a música africana
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Cultura.Sul
Sagres: está em curso a reabilitação das muralhas
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d.r.
A instalação de uma fortificação na Ponta de Sagres remonta ao século XV No âmbito do vasto Programa de Requalificação e Valorização do Promontório de Sagres (PRVPS), que a Direção Regional de Cultura do Algarve tem vindo a levar a cabo desde 2009 com o concurso do Turismo de Portugal e da CCDR-Algarve, e com fundos do Programa de Incentivos ao Turismo (PIT), do PIPITAL e do Quadro de Referência Estratégico Nacional/Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (QREN/FEDER), seguramente uma das intervenções de maior visibilidade e significado é a obra, atualmente em curso, de Reabilitação das Muralhas da Fortaleza de Sagres. A instalação de uma fortificação na Ponta de Sagres remonta ao século XV, quando Henrique, Infante da Casa de Aviz, ali funda uma vila fortificada. Algumas construções do recinto henriquino e da sua primitiva povoação chegaram até nós: caboucos e ruínas da velha muralha (em dente-de-serra, concebida ao modo tardo-medieval, como a de Portimão), a barbacã de acesso à vila, uma torre-cisterna, edifícios da «correnteza» (depois adaptados a casernas e hoje integrados no Centro Expositivo) e uma misteriosa construção térrea em círculo, cujos raios de pedras alinhadas recordam uma «rosa-dos-ventos», função que, seguramente, jamais lhe assistiu. Porém, a construção que se destaca na paisagem para quem se aproxima do promontório é a imponente fortaleza abaluartada, construída ao modo moderno nos finais do século XVIII. Ao longo de séculos, a primitiva fortaleza henriquina, com
sucessivos acrescentos abaluartados e adaptações promovidas por el-rei Dom Sebastião, pelos Filipes e no contexto das guerras da Restauração, pôde, pior que melhor, cumprir a sua função de praça de guerra. Mas o terramoto/maremoto de 1755 provocou enormes devastações no Algarve e a praça de Sagres não foi exceção: em julho de 1756, o sargento-mor Romão Rego constata necessitar a muralha «de uma total reedificação». Vendo aí uma oportunidade, preconizava que «como a frente da fortificação mais moderna não padeceu ruína era bem justo se acabasse seguindo o método do senhor Vauban». Desse projeto foi encarregue José de Sande Vasconcelos, um dos mais brilhantes engenheiros militares portugueses, que haveria de deixar no Algarve vasta obra cartográfica e de construção militar. Homem de grande formação técnica e experiência no terreno, complementada no exercício docente na Aula de Fortificação de Lisboa e no Regimento de Infantaria de Faro, Sande Vasconcelos legou-nos um notável acervo documental que inclui os estudos e projetos de remodelação da Praça de Sagres, desenvolvidos a partir de 1786. O resultado desta sua obra, concluída em 1793 - com diversas baterias, dois meios baluartes unidos por uma cortina central (onde se abre um elegante portal ao gosto neoclássico) e uma posição artilhada a «cavaleiro» instalada na torre que sobreleva a muralha -, é um notável monumento militar, que se encontra
atualmente em curso de reabilitação. Objeto de diversas reparações desde a sua construção, seguidas de profundas obras de recuperação nos finais dos anos Cinquenta dirigidas pelo saudoso arquiteto Ruy Couto, da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) e alvo de uma menos bem conseguida intervenção nos anos Noventa promovida pelo então Instituto Português do Património Cultural (IPPC), a Torre e Muralhas de Sagres, classificadas como Monumento Nacional desde 1910, obrigam, presentemente, a bem ponderadas soluções de conservação e restauro que procuram recuperar os rebocos primitivos do projeto de Sande Vasconcelos que nalguns pontos ainda subsistem, consolidar muitas das reparações de revestimento executadas pela DGEMN com argamassas de cal tradicionais e minimizar alguns estragos das, menos cuidadas, intervenções posteriores. Para tal, foram ensaiadas diversas composições de argamassas de cal, testados os métodos de aplicação mais adequados, procedendo-se à sua monitorização ao longo do quadriénio que antecedeu a obra agora em curso. O resultado, esperamos, recuperará a imagem da Fortaleza de Sagres nos finais do século XVIII, dará maior longevidade a esse notável monumento da engenharia militar portuguesa – e torná-lo-á ainda mais atrativo para quem visita o Algarve. Direção Regional de Cultura do Algarve
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