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CULTURA.SUL 66 - 7 FEV 2014

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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO

FEVEREIRO 2014 | n.º 66 8.302 EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve ricardo claro

Espaço CRIA:

d.r.

Novo dicionário Cultural

p. 2

Espaço AGECAL:

d.r.

“Se não vai à eira, vai à feira” - Ou talvez não...

p. 3

Espaço ALFA:

Alexandra Gonçalves: As expectativas de uma nova liderança na Cultura p. 4 e 5

d.r.

d.r.

Crescer a fotografar para mais tarde recordar

p. 7

Na senda da Cultura: d.r.

Patrícia Reis:

Monchique a serra d’água

Por Este Mundo Acima p. 8

p. 6


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07.02.2014

Cultura.Sul

Editorial

Espaço CRIA

As pequenas coisas

Novo dicionário Cultural

Ricardo Claro

Editor ricardoc.postal@gmail.com

Não interessa a marca, nem o modelo. Pouco interessa o proprietário, ou o negócio que lhe possa estar associado. Interessa sim que de pequenas coisas se pode fazer a diferença na cultura. Incidentalmente cruzei-me nas viagens ‘facebookianas’ com a Carrinha das Artes. Branca, disponível, e preparada para carregar para os mais diversos destinos o material de artistas que têm na mobilidade especiais dificuldades. A ideia é lisboeta, mas bem poderia ser replicada por terras algarvias, se é que o já não é de forma menos formal. De acordo com o promotor da ideia a Carrinha das Artes “destina-se a todos os artistas que andam na estrada e muitas vezes não têm como transportar material de maiores dimensões, como cenários, instrumentos musicais, obras de arte, etc.”. Está tudo explicado na página do Facebook - https://www. facebook.com/acarrinhadasartes/info - as características técnicas, preços associados e outras descrições necessárias para perceber o que se disponibiliza. Eis uma ideia onde ganham todos, o proprietário e promotor do conceito e aqueles para quem a mobilidade possa constituir um problema e que não podem investir num meio de transporte por sua conta. Este é apenas um exemplo de muitos que poderiam ser explorados para uma verdadeira promoção do desenvolvimento da produção de cultura em rede. O desafio está aliás cada vez mais aqui, na majoração do aproveitamento dos investimentos em meios, tornando-os por um lado acessíveis e por outro sustentáveis do ponto de vista da rentabilidade dos investimentos realizados. Porque os tempos parcos de financiamento assim o exigem e porque não devemos desperdiçar a oportunidade de, ainda que à força, aprendermos que unir esforços é mais do que, simplesmente, somar aritmeticamente.

Marisa Madeira Gestora de Ciência e Tecnologia no CRIA - Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da UAlg

Todos ficámos confusos com as alterações ortográficas na Língua Portuguesa, tivemos de suprimir “cs” de algumas palavras (e não foram poucos), mas o mais valioso C manteve-se, quer no novo acordo ortográfico, quer na predominância: a Cultura. Qualquer dicionário universal define Cultura (do latim colere, que significa cultivar) como um conceito que abrange vários ramos do conhecimento humano. Independentemente do tipo de Cultura de que se fala, o seu conceito, por si só, evidencia Saber. Apesar desta qualidade nos distinguir dos animais, muitas vezes, é subjugada como pouco necessária para a evolução e condição humanas. A Cultura não existe apenas nos dicionários, não é somente uma palavra com significado, não é estática, é uma ação viva, intemporal, geracional, que faz tanto

a diferenciação como a ligação entre povos (ou culturas). Cultura é o cultivo incessante das nossas necessidades e desejos enquanto passageiros deste mundo. Todos temos alguma responsabilização relativamente ao papel da Cultura, mesmo quando a desprezamos, pois a Cultura é sensível às influências exte-

Ficha Técnica:

durecimento pessoal. É deveras um valor acrescentado, tanto a nível humano como económico. Por estas e outras razões, a Comissão Europeia lançou no início de janeiro o programa de apoio Creative Europe (Europa Criativa), dirigido aos profissionais das áreas do Cinema, Televisão, Cultura, d.r.

riores, precisa de ser bem alimentada e regada para que o seu crescimento seja saudável e frutuoso. A Cultura estimula a autoestima pessoal e da sociedade, constrói sociedades mais inclusivas e promove o ama-

Música, Artes do Espetáculo, Património e domínios conexos. Foi sem dúvida uma excelente notícia para começar o ano de 2014, perspetivando-se este apoio até 2020, que, com certeza, irá impulsionar estes setores que são

uma importante fonte de emprego e crescimento. A nível nacional também existem apoios, basta estar-se atento e informado. Citam-se, como exemplo, as bolsas e os subsídios que a Fundação Calouste Gulbenkian tem vindo a promover para ajudar na criação artística e cultural. Mas a Cultura não se faz apenas de subsídios, é certo. Faz-se de muita vontade, persistência e cada vez mais de espírito empreendedor. É preciso ter perspetiva negocial para abarcar a Cultura como uma atividade rentável, que contribui para o desenvolvimento intelectual e experiencial da sociedade. O CRIA está cada vez mais empenhado em ajudar criadores e profissionais das áreas culturais e criativas do Algarve, ou que queiram implementar-se na região, para efetivação do seu negócio. Aqui, estamos dispostos a potenciar a criatividade, a produção artística e cultural, e a trabalhar para que estas palavras não fiquem estanques nos dicionários. O nosso futuro acordo cultural contemplará palavras que se afirmem em feitos, criando um dicionário ativo e rico, repleto de significados e realizações que preencham as páginas da nossa existência, comunidade e História.

Juventude, artes e ideias

Ouve lá Jady Batista

Estudante Coordenadora do jornal J

A partir do século VI a. C., as crenças e as práticas budistas já se tinham desenvolvido por mais de trinta países. Jesus Cristo nasceu há mais de 2000 anos. Estes dois homens responsáveis pela criação de religiões são seguidos por milhares de pessoas, homens estes que de certa forma tentaram transmitir o que o ser humano é. Em 1946, Wilhelm Reich (psicanalista austríaco) escreveu o livro Escuta, Zé Ninguém!, um livro onde o autor desnuda o ser humano. “(...) O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno.

O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; (...) A verdade diz que mais ninguém senão tu é culpado da tua escravatura. (...) Quanto menos entendes, mais prezas. (...).” Estes excertos de Reich fazem-me pensar que o ser humano conseguiu desenvolver, excelentemente, a tecnologia. Alguns até tentaram transmitir o conhecimento da essência do ser e tornaram-se personalidades deturpadas para o consumismo a partir do usufruto da esperança. Concluo que a dor define toda a nossa vida, criando diferentes tendências que andam nos cantos do decidir da mente. Ensinam-nos a ven-

d.r.

Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro Paginação: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N: Pedro Jubilot • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço CRIA: Hugo Barros • Espaço Educação: Direcção Regional de Educação do Algarve • Espaço Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batist a • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Momento: Vítor Correia • Panorâmica: Ricardo Claro • Património: Isabel Soares • Sala de leitura: Paulo Pires Colaboradores desta edição: Luísa Ricardo Marisa Madeira Paulo Serra Tânia Guerreiro Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelagoncalves3@gmail.com

on-line em: www.issuu.com/postaldoalgarve

Tiragem: 8.302 exemplares

der superficialidade, fazendo com que indivíduos vivam escondidos a vida inteira. A dor faz com que indivíduos que lutam pela prosperidade sirvam de chacota para homens que se auto-vitimi-

zam; e estes pseudo-mártires pintam-se como vítimas da sociedade. Ó Mulher, cala-te masé! Todo mundo só quer saber com quem te deitas. O resto, é o resto.


Cultura.Sul

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Grande ecrã Cineclube de Faro

Programação: cineclubefaro.blogspot.pt IPJ | 21.30 HORAS | ENTRADA PAGA CICLO EROTICIDADES 11 FEV | HISTÓRIAS QUE CONTAMOS, Sarah Polley, Canadá, 2012, 108’, M/12 18 FEV | GRAND CENTRAL, Rebecca Zlotowski, França/Áustria, 2013, 94’, M/12 25 FEV | NINFOMANÍACA, Vol 1, Lars Von Trier, Dinamarca/Alemanha/França/Bélgica/ Reino Unido, 2013, 124’, M/18 SEDE | 21.30 HORAS | ENTRADA GRATUITA CICLO OLGA RORIZ... A BAILAR NA TELA

13 FEV | OLGA RORIZ - PROPRIEDADE PRIVADA + TANGO PRIVADO, Rui Simões, Portugal, 2000, 58’ 20 FEV | OLGA RORIZ - ANJOS, ARCANJOS, SERAFINS, QUERUBINS E POTESTADES, Rui Simões, Portugal, 2000, 34’ 27 FEV | OS SAPATOS VERMELHOS, Michael Powell e Emmeric Pressburger, EUA, 1948, 133’ FILME FRANCÊS DO MÊS | BIBLIOTECA MUNICIPAL | 21.30 HORAS 28 FEV | COMPLICES, Frédéric Mermoud, França, 2010, 93’, M/12

Tavira recorda Senna Todos os anos é a mesma cantiga, estamos quase a chegar à altura em que as distribuidoras estreiam os melhores filmes do ano, já que as nomeações para os Óscares estão próximas. As listas de previsões de estreias incluem muitos títulos com interesse para os cineclubes. Infelizmente, apenas podemos programar uma sessão por semana... Para poder contar com a ajuda do Instituto do Cinema e do Audiovisual (cujo concurso para 2014 ainda não abriu, continuando neste momento à espera de receber e assinar o contrato para 2013...), somos obrigados a programar 30% de cinema nacional (ou co-produções com Portugal). Por isso, este mês iremos exibir dois. Na sexta feira, 14 de Fevereiro, numa sessão extraordinária e em colaboração com o Cineclube de Guimarães, apresentaremos um dos melhores documentários dos últimos anos (que não estreou entre

Cineclube de Tavira d.r.

Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | 965 209 198 | 934 485 440 cinetavira@gmail.com SESSÕES REGULARES Cine-Teatro António Pinheiro | 21.30 horas 13 FEV | O BEFORE MIDNIGHT (ANTES DE MEIA-NOITE), Richard Linklater - E.U.A. 2013 (108’) M/12 14 FEV | SENNA, Asif Kapadia - Reino Unido/França 2010 (112’) M/12 20 FEV | TERRA DE NINGUÉM + REDEMPTION, Salomé Lamas - Portugal 2012 (98’) M/16 27 FEV | LIKE SOMEONE IN LOVE, Abbas Kiarostami - França/Japão 2012 (109’) M/12

O piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna nós): SENNA. Sim, sobre Ayrton Senna. Por favor, não o percam, é realmente muito bem feito e

ainda por cima a sessão será gratuita para todos... Até breve! Cineclube de Tavira

Espaço AGECAL

“Se não vai à eira, vai à feira” - Ou talvez não... d.r.

Luísa Ricardo

Antropóloga, sócia da AGECAL

A primeira mala escolar que tive oportunidade de escolher na minha vida foi, mau grado a piroseira à vista de hoje, quadriculada. Quadrados verdes e azuis. Recordo-me dela, não pelo seu bonito aspecto, mas porque foi muito negociada no seio da família - os meus pais e os meus avós paternos. A mala custou-lhes o rendimento da venda do excedente dos margutões* daquele ano, algures no final da década de 80. Os meus avós paternos eram agricultores de subsistência. Muito daquilo que tinham em casa era fruto directo do seu trabalho nas lides no campo, do que resultava da venda do excedente que não era muito e, ainda, da reforma, igualmente parca. “Se não vai à eira, vai à feira”, disse-me, há uns tempos, uma senhora que vende produtos hortofrutícolas no mercado municipal, a propósi-

Imagem de margutões, variedade de pêssegos de Monchique to da sua actividade. Questionado o seu sentido, deparámo-nos com várias interpretações, todas elas remetendo para a ideia de que todo o produto é aproveitado - guardada a quantidade suficiente para consumo próprio, o restante serve para

venda. Ideia igualmente proveitosa para retratar a chamada agricultura familiar, de ontem e de hoje. E o que é que isto tudo tem a ver com gestão cultural? Falemos de património cultural imaterial. Mais precisamente, de “dieta mediterrâ-

nica”. Esta não é só um receituário, é um estilo de vida, que inclui , entre outros aspectos, os modos de produção que estão a montante da “comida” propriamente dita. A salvaguarda das manifestações de património imaterial, mais precisamente, as que se relacionam com a agricultura familiar (e áreas afins) poderá passar por várias vertentes: a) transmissão das técnicas “tradicionais” de produção (em contexto educativo informal- demonstrações, passeios de interpretação da paisagem, oficinas, etc. - e em contexto educativo formal); b) sensibilização para o consumo de bens alimentares produzidos de forma sustentável (social, ambiental e económica); c) salvaguarda do produto alimentar propriamente dito. Sobre esta última vertente, bem como as outras, claro, importa ouvir as pessoas que o fazem - as suas expectativas e, também, as dificuldades. Terminou no passado dia 31 de janeiro, o prazo para os pequenos agricultores e outras actividades afins se colectarem nas Finanças. Esta questão levanta problemas. As novas regras fiscais obrigam a novos gastos que os rendimentos agrícolas não suportam. O resultado, alvitram algumas vozes, poderá ser o aban-

dono dos campos ou, noutros casos (como seria, provavelmente, o dos meus avós paternos), a não disponibilidade de certos produtos no mercado- algo que já se vai verificando nos mercados locais... bancas vazias, aqui e ali. Volto à mala. Ou não. Volto antes ao cheiro e sabor (maravilhosos!) dos margutões dos meus falecidos avós, e de tantos outros bens alimentares, de tantas outras pessoas que vão vivendo (ou sobrevivendo) da sua produção e comércio, e que, se não forem devidamente salvaguardados, poderão desaparecer das nossas mesas. Apesar desta conversa, sou optimista. Há testemunhos positivos sobre circuitos curtos de produção e consumo. Creio que, de uma forma concertada (pessoas, comunidades, instituições), saberemos lidar com estes e outros problemas que se colocam hoje no panorama da agricultura familiar. E que, actualmente, e de um ponto de vista mais alargado, também dizem respeito a uma gestão participada do património. 31 de janeiro do ano de 2014, Ano Internacional da Agricultura Familiar. * nome dado a uma variedade de pêssego na serra de Monchique.


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Panorâmica

Alexandra Gonçalves, a primeira grande entrevista da nova directora regional de Cultura Maria Alexandra Patrocínio Rodrigues Gonçalves, assim se chama a nova directora regional de Cultura, nomeada para o cargo pelo secretário de Estado da Cultura, Jorge

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Depois de uma breve passagem, um “regresso”, à Universidade do Algarve, instituição onde se formou e é docente, Alexandra Gonçalves regressa aos domínios da coisa pública, uma área que se tornou um espaço de conforto e desafio, que a directora regional diz “gostar” de assumir, numa herança que lhe “ficou da experiência autárquica” na câmara farense. Como sempre e em todas as áreas da administração desconcentrada do Estado, há muito para fazer na Direcção Regional de Cultura (DRCAlg) e a responsável reconhece a importância do desafio e as dificuldades que lhe estão inerentes. Desde logo na área do património, onde o Plano Regional de Intervenções Prioritárias do Algarve (PRIPALG) apresenta necessidades de investimento identificadas no domínio patrimonial, da responsabilidade directa da DRCAlg, dos municípios e de outras entidades, nomeadamente, privadas, orçadas actualmente em 17,7 milhões de euros. Não há verba para responder a este esforço por inteiro e, por isso, o PRIPALG é o responsável por ordenar por prioridades as intervenções. Neste âmbito, a directora regional refere que a “identificação de prioridades é uma importante ferramenta a que o plano dá resposta e fá-lo de forma actualizada anualmente”. “Sabemos onde estão os principais problemas neste domínio e a respectiva identificação está feita”. “Esta é a base necessária para a tomada de decisões para futuros investimentos nesta área”, diz.

Barreto Xavier, sob proposta da Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública. Depois da passagem pela Câmara de Faro, ricardo claro

no consulado de Macário Correia, Alexandra Gonçalves é aos 41 anos a mulher à frente dos destinos da Direcção Regional de Cultura no Algarve. e manutenção dos nossos próprios monumentos”. Orçamento

Alexandra Gonçalves, directora regional de Cultura Mas o orçamento é escasso. Em 2013 a direcção regional teve um orçamento de 2,192 milhões de euros, dos quais 547,7 mil se destinaram a investimento e 1,644 milhões a despesas de funcionamento. Assim se podem ver as dificuldades inerentes à alocação financeira de verbas às necessidades do PRIPALG. Alexandra Gonçalves é nesta matéria clara, “os recursos são os que são, num orçamento que está fechado a esta altura” e “a prioridade em termos de PRIPALG está

na aplicação das verbas disponíveis no nosso orçamento naqueles monumentos que são nossa responsabilidade directa e que são monumentos nacionais”. A responsável ressalva a possibilidade de recurso, “caso haja necessidade”, ao fundo criado pela Administração Central para responder a necessidades de intervenção de emergência. Mas neste momento, refere, “a prioridade para o Algarve foi identificada como sendo a Fortaleza de Sagres, sem esforço directo do orçamento

“CORTIÇA - DA TERRA AO CÉU” Até 2 MAR | Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira Apoema Calheiros mostra 30 fotografias sobre o descortiçamento e as diferentes fases do processamento industrial da cortiça

da DRCAlg, mas com o empenhamento de verbas do orçamento geral do Estado e de fundos europeus”. “A acção será assim predominantemente virada para aquela que é a jóia da coroa do património do Algarve”, diz a directora regional. A fechar, Alexandra Gonçalves refere que “de momento na intervenção programada da DRCAlg não estão previstas mais nenhumas obras ao nível do património, excepção feita a pequenas e pontuais intervenções de conservação

Em termos de orçamento da DRCAlg para 2014, “os valores são muito semelhantes a 2013”, refere a titular regional da Cultura. Há uma diminuição dos custos de funcionamento, nomeadamente de pessoal, que se deve a duas razões, por um lado a gestão partilhada de recursos e por outro a saída de pessoal que ou se reformou ou optou por aderir ao programa de rescisões amigáveis na Administração Pública”. Este é um esforço que Alexandra Gonçalves pretende continuar à imagem e semelhança “do que está a ser feito um pouco por todas as esferas da Administração Pública”. No âmbito da gestão partilhada, a responsável destaca o trabalho já realizado em parcerias com as autarquias de Albufeira (Castelo de Paderne), Portimão (Alcalar) e Aljezur (Castelo de Aljezur) e que, refere, “importa aprofundar e alargar”. Neste momento estamos a rever o protocolo com Albufeira e a terminar a definição final dos termos do protocolo tripartido que se celebrará com a Câmara de Aljezur. “Nesta área a conservação e manutenção serão sempre da nossa responsabilidade, mas as dinâmicas associadas à vivência do património contam assim com a preciosa ajuda de quem estando perto dos monumentos pode de forma mais eficiente garantir o seu aproveitamento e a majoração das interac-

ções com o mesmo”, diz. A direcção regional como motor da dinâmica cultural A DRCAlg que Alexandra Gonçalves herda das mãos de Dália Paulo é um organismo muito diferente daquele que normalmente os algarvios associavam a uma Direcção Regional de Cultura. Dália Paulo tirou-lhe a distância face à acção cultural, quebrou a ideia de casa dos subsídios culturais e deu-lhe visibilidade. A acção é para continuar. Isto mesmo se retira do discurso da nova titular que quer a instituição perto dos algarvios e em relação directa com a cultura e o território. “Iniciei desde a tomada de posse um périplo por todos os municípios da região que, mais do que servir para as normais apresentações, tem por base a ideia de uma relação estreita com quem, em cada local melhor compreende as necessidades de cada comunidade e de cada território, sob todos os aspectos, nomeadamente o cultural”, refere Alexandra Gonçalves. “Articulação com os municípios e estratégias de cooperação para o futuro” são as palavras de ordem deste início de um mandato que se prolongará por cinco anos. Nos contactos com a Região de Turismo do Algarve (RTA) também já se definem estratégias. “Há muito trabalho a desenvolver no âmbito das rotas, itinerários e percursos que neste momento estão disseminados entre aquilo que é produzido pela RTA, pelos municípios e pela

“JOSÉ PEDRO MACHADO” Até 1 MAR | Biblioteca Municipal de Loulé Exposição bibliográfica pretende assinalar o 100º aniversário do nascimento, na cidade de Faro, do filólogo, bibliógrafo, arabista e historiador que foi José Pedro Machado (1914-2005), que, pelos estudos desenvolvidos, atingiu notabilidade internacional


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própria DRCAlg”. Para Alexandra Gonçalves “importa perceber aquilo que pode ter interesse turístico-cultural e dinamizar essas rotas de forma a poder criar verdadeiros produtos nesta área capazes de diferenciarem a oferta que fazemos nesta que é a região turística de excelência no país”. Para Fevereiro a directora regional conta ter em campo os contactos com o sector privado no sentido de também nesta área definir estratégias capazes de ajudar a desenvolver a Cultura na região. Dinâmicas integradas

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Ao nível do património Alexandra Gonçalves sublinha “a necessidade de se continuar e certamente de se reinventar a aposta nas dinâmicas integradas em que o património deixe de ser algo imóvel que espera a visita das pessoas, para passar a ser por um lado um espaço de dinamização cultural e simultaneamente passar a integrar as dinâmicas já existentes noutras rotas e percursos onde as sinergias podem ser aproveitadas para que se conheça e valorize cada vez mais o valor destes espaços”. “O nosso património pode ser pouco mas tem potencialidades e de facto a interacção com várias outras realidades pode ter um efeito catalisador que deve ser aproveitado”, refere. As redes e as parcerias são hoje, diz a responsável pela pasta na região, “determinantes” e “quanto mais houverem melhor”. “É aqui que reside em grande medida a resposta para a falta de recursos de que actualmente padecemos, mas também é por aqui, cada vez mais, que se selam cooperações deter-

A Fortaleza de Sagres é a grande aposta no investimento em património minantes para o desenvolvimento cultural integrado e sustentável”, sublinha. Apoio à acção cultural Na casa dos 70 a 80 mil euros nos últimos anos - excepção feita ao ano de 2013 onde por razões específicas se saldou em 230 mil euros - o apoio à acção cultural da responsabilidade da DRCAlg é um importante instrumento de desenvolvimento cultural. Nesta área de intervenção, Alexandra Gonçalves avança que há uma lógica diferente na análise e definição dos apoios que serão prestados no domínio do apoio à acção cultural, uma matéria que ainda está em discussão ao nível do Governo. Certo é que entrará nas fileiras destes apoios o incentivo à edição de produção cultural nas diversas áreas que terá por base um júri capaz de decidir em cada ano para que se aposte naquilo que se produz localmente e que importa dar a

conhecer. No âmbito do resto dos apoios culturais passam a existir novas linhas mestras para definição em sede de selecção quais aqueles que merecerão o apoio da direcção regional.

Património imaterial da humanidade, que futuro? Para a nova responsável da Cultura, esta área, ainda que tenha contado com uma intervenção muito marginal da

DRCAlg no processo de candidatura é um dos pontos de maior interesse a nível cultural na região. “Nesta área a CCDR está a ter um papel preponderante na medida em que domina o processo de planeamento estratégico para a região”, refere Alexandra Gonçalves, que afirma estar a procurar envolver-se profundamente neste âmbito. Em particular a directora regional realça a importância da participação da direcção regional na área da inventariação, que é um ponto fulcral das acções a desenvolver no âmbito da classificação atribuída pela UNESCO. Novidades para breve Na calha está a criação de um programa de dinamização e valorização dos monumentos. “O desejo é o de que a programação para os monumentos na dependência directa da direcção regional possa rapidamente ser dericardo claro

Nova directora regional de Cultura tem pela frente um grande desafio

“14º FESTIVAL AL-MUTAMID” 8 FEV | 21.30 | Centro Cultural de Lagos Neste espectáculo Chekara & Media Luna Flamenca promovem um encontro entre a música árabe-andalusí e o flamenco mais tradicional

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senvolvida de forma integrada e com um horizonte de antecipação pelo menos anual”, diz Alexandra Gonçalves. O conceito de programação pretende pôr no terreno uma imagem e marca já desenvolvidas internamente e que se chamará Bons Momentos, destinado a identificar o conceito de experiência pessoal na relação das pessoas com o património. “Há bons momentos de música, teatro, artes visuais e tudo o mais, querendo-se passar a mensagem que no património há lugar a verdadeiros Bons Momentos”, diz a responsável, que aposta este ano na temática “40 anos de Democracia”, exactamente no ano em que se atingem quatro décadas sobre a data da revolução de Abril. Lugar ainda para a criação de um prémio destinado a reconhecer trabalhos culturais desenvolvidos na defesa e promoção da igualdade de género e de oportunidades entre homens e mulheres no valor de cinco mil euros, com novidades sobre esta matéria a serem prometidas para breve. Entretanto, é tempo de trabalho, muito, e Alexandra Gonçalves não deixa os créditos por mãos alheias pelo que a nova directora regional já está no terreno. São cinco anos para mostrar o que pode e sabe fazer com a sua dedicação à luta pela Cultura num lugar de topo na administração desconcentrada do Estado. O Algarve, esse, e os algarvios, esperam sempre o melhor de quem quer e pode dar a cara pelo interesse comum da região a bem de todos, porque o desafio é enorme, tão grande como é decerto a vontade da nova titular de o vencer. Ricardo Claro

“CONTACTO DE AUTOR” Até 7 MAR | Galeria de Joalharia Pontos Iguais (Rua Castilho, 16 - Faro) Exposição apresenta um grupo da escola Contacto de Autor, do Porto, dando a conhecer os melhores trabalhos de Ana Negrão, Joana Andresen, Nádia Basto, Tatiana Barros e Ângelo Cardoso


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Letras e Leituras

Nenhum homem é uma ilha

Paulo Serra

Investigador da UAlg associado ao CLEPUL

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Por este mundo acima é um livro peculiar de uma autora que, como tantos outros nomes que inundam os escaparates das livrarias, é também jornalista. No entanto, a sua escrita é de uma sensibilidade apurada e toca temas de forma alegórica enquanto outros insistem em mastigar e deglutir a mensagem por inteiro. Patrícia Reis nasceu em 1970, estudou História de Arte e Comunicação, tendo passado por diversos órgãos de comunicação, como o Expresso, Marie Claire e, mais recentemente, dirige a revista Egoísta. No final do ano passado lançou dois livros, o romance Contracorpo, e uma entrevista em jeito de conversa com Simone de Oliveira, intitulada Força de viver. É ainda autora juvenil, tendo escrito uma interessante coleção que apresenta, através do Micas, diversos museus e instituições culturais. Os seus últimos dois romances, Por este mundo acima e Contracorpo, possuem em comum o facto de se dirigirem a um filho ou, por outras palavras, a essa camada da população portuguesa em que reside o futuro e que vive estes momentos de confusão e angústia mas que, provavelmente, não sente ainda muito a necessidade de parar para pensar no que será esse mesmo futuro. O tema da adolescência parece assim revestir-se de alguma importância na escrita da autora, como se pode constatar em Antes de ser feliz (2009) ou no seu mais recente Contracorpo, onde se tece uma conversa, durante uma road trip, em que uma mãe tenta comunicar com um filho que se fecha na sua concha de um mutismo quase autista, ainda que falar de autismo acerca da adolescência pareça um pouco redundante... O romance Por este mundo acima nasce de um cenário de destruição, ainda que este seja apenas subtilmente delineado no livro. Nunca se sabe concretamente o que destruiu Lisboa, havendo apenas alusões indiretas a um qualquer acidente (nu-

clear?) que inclusivamente acarretou consequências nas crianças nascidas depois disso. Da mesma forma que estes cenários pós-apocalípticos já se vão tornando familiares, mediante o visionamento de certos filmes e séries televisivas, a própria ação começa «in media res», um pouco como uma imagem de um filme, em que a imagem que abre o filme é depois retomada a meio da narrativa: «A VIDA TRANSFORMA-SE. Agora está ali o miúdo. Continuamos a andar. Pedro à frente, saltando rochas e declives, os ténis sujos de terra. Eu fico um pouco mais atrás, as mãos nos bolsos, passos hesitantes, por vezes a falhar, um certo receio em avançar, mas enfeitiçado pela sua voz. Trauteia uma melodia sem letra. Saudades súbitas de música. E digo-o./ Tenho saudades de música./Sim? Eu tenho uma harmónica. Tenho, sim, em casa. Era do meu pai. Nunca aprendi a tocar./ É pena./Se soubesse tocar, tê-la-ia trazido comigo./Tu falas muito bem./A minha mãe obrigava-me a falar correctamente. Diz que é muito importante. Dizia./A tua mãe tinha razão.» (pág. 15-16). Neste trecho com que se inicia o romance, e que aparecerá novamente repetido mais à frente, delineiam-se duas linhas centrais de um romance aparentemente fragmentário, como que escrito em desabafo, aos soluços: a importância da música, que é como quem diz da literatura, aliada à importância da língua e do bem falar, mesmo que o mundo se tenha desmoronado e esses valores não sirvam a ninguém como instintos básicos de sobrevivência. A escritora chamou a este livro, em entrevista, de “peregrinação futurista”, pois projeta num futuro ficcionado os desafios que se colocam à Humanidade de hoje. Os valores humanos são, sem dúvida, a cola que permite refazer a destruição e a luz que ilumina o vazio de uma vida. A

d.r.

Patrícia Reis

autora foca-se assim, “como quem escreve uma carta a um filho”, em construir uma parábola sobre o valor da amizade e da solidariedade, independentemente da idade, da situação e da existência de laços de sangue. Os flashbacks no livro, através de Eduardo, são constantes, quando recorda os amigos que deixou, enquanto este homem se move pelo cenário de desolação, talvez como forma de tentar encontrar um fio condutor na ruína que o cerca e atravessar o peso da solidão, até porque ao contrário de Pedro, o rapaz que ele depois encontra, os outros que se movem pela paisagem, deslocam-se fugidiamente, esquivando-se: «As pessoas, os sobreviventes, não querem conversar.». Pedro torna-se então homem sob a alçada de Eduardo, o editor, e com ele vai aprender o valor não só

“PEQUENAS E GRANDES MARAVILHAS DA NATUREZA” Até 28 FEV | Polo Museológico Cândido Guerreiro e Condes de Alte – Loulé Fotografias de Alexis Morgan retratam algumas espécies botânicas e borboletas que se encontram na região

da amizade mas também dos livros. Eduardo é uma memória prodigiosa que reúne imensas histórias que vai partilhando com Pedro, educando-o, tal como a mãe antes o preparara a falar corretamente, para o gosto pela leitura e pela maleabilidade e inventividade das palavras. Em jeito de compensação, o jovem vai aprender de tudo um pouco, tornando-se instruído, mesmo que o conhecimento já pouco se aplique a um mundo que deixou de ser. O horizonte de esperança com que o livro encerra é o facto de este jovem, depois da morte de Eduardo, o editor, se apaixonar por uma mulher, conseguir recuperar técnicas tipográficas que permitem fazer um livro. Como gesto de amor para com o editor que o adota, Pedro recupera, inclusivamente, as técnicas de imprensa gráfica. É esse o manifesto gesto de esperança que pode redimir a vida de uma humanidade praticamente desaparecida, quando um livro, de um jovem autor, curiosamente chamado Sebastião, é descoberto pelo editor. Este nunca chega a ler o livro antes da catástrofe, apesar de ter sido apresentado ao jovem e ficado intrigado com o mesmo, e só depois de tudo mudar e um livro de um jovem autor parecer uma ninharia a quem tenta sobreviver, reveste-se, independentemente da sua genuína qualidade, da maior

importância para outro tipo de pessoas. Como uma elite que vive dessas pequenas grandes inutilidades, como a música e a literatura, que animam os nossos dias e podem até, em última análise (histórica, cultural, antropológica) reflectir os nossos valores. É curioso que se registe, quase no final do livro, como o legado que Eduardo deixa ser a sua biblioteca: as estantes de livros que herdara da avó, e que, depois, tentou compor com alguns “empréstimos” de outros locais por onde iam pilhando o que precisando, biblioteca essa que constitui um centro conglomerador das réstias da humanidade: «Decidiram passar a biblioteca da avó de Eduardo para um centro cultural, para estar sempre disponível, para ser a memória de todos. Ocuparam a estação de metropolitano que ficou intacta: têm um centro de acolhimento, um centro de estudos, a biblioteca e uma sala de convívio.» (pág. 180). E, mais uma vez, é inevitável um outro paralelo com os media, quando a adaptação cinematográfica da obra A rapariga que roubava livros acaba de estrear, sobre uma jovem que, durante a II Guerra, salva livros de arderem nas fogueiras ateadas pelos nazis. Nenhum homem é uma ilha, portanto, mesmo que cada leitor possa ter em si uma biblioteca imensa que o entretenha.

“RAÍZES” Até 28 MAR | Paços do Concelho de Albufeira Exposição de pintura de Zorba (Luís Romão), residente em Albufeira desde os dois anos. Autodidacta, utiliza muito pouco os pincéis, uma vez que o que lhe interessa são as texturas e movimentos que os materiais possam criar quando utilizados de forma ‘grosseira’


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Momento

Noite infantil Foto de Vítor Correia

Espaço ALFA

Crescer a fotografar para mais tarde recordar Tânia Guerreiro Sócia da ALFA

O meu interesse pela fotografia começou muito cedo. Desde os 12 anos que me lembro de andar com uma máquina fotográfica atrás e querer fotografar tudo: pessoas, animais, paisagens, etc. No entanto, só comecei a levar este meu “hobby” mais a sério há cerca de quatro anos. Foi quando a minha curiosidade começou a aumentar e senti necessidade de ter formação na área e foi assim que descobri a “Alfa” em 2011, com quem já fiz formações e passeios fotográficos que me permitiram evoluir enquanto fotógrafa. Cerca de três meses depois de me ter juntado a esta associação surgiu-me o meu primeiro trabalho remunerado, um casamento. Fotografar um dos dias mais importantes da vida de um casal é sempre uma grande responsabilidade mas também é uma experiência muito gratificante

e que me permitiu aprender muito enquanto profissional. Para mim, a fotografia é uma paixão. À medida que vou adquirindo mais conhecimento e formação a minha paixão aumenta. Espero horas se necessário para conseguir tirar a fotografia que quero e por vezes perco a noção do tempo. Pego na câmara e saio de casa para fotografar. Estou constantemente à procura de novas formas para fotografar lugares ou pessoas, de fazer algo diferente. Seja para trabalhos ou projetos pessoais, tenho sempre um enorme prazer e dedicação por aquilo que faço. Em Maio de 2012, tive a minha primeira exposição na Casa da Juventude de Olhão, que reuniu retratos dos trabalhos e projetos pessoais que tinha feito até aquela data. Já este ano, participei na mostra fotográfica Cor e Criatividade da Alfa, da qual fui vencedora da cor Branca e que está a decorrer até ao mês de Junho e convido todos a participarem. Peguem nas vossas câmaras e sejam criativos. Não se esqueçam também que a fotografia é também uma forma de eternizar aqueles momentos mais especiais. Podem encontrar mais informações sobre a mostra fotográfica Cor e Criatividade em www.alfa.pt.

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Na senda da Cultura

Monchique, a serra d’água A 902 metros de altitude estamos no ponto mais alto do Algarve. Altaneira a Fóia encima a Serra de Monchique feita de xisto e de fóiaite, um tipo raro de sienite (rocha granítica), e dela se pode mirar o oeste algarvio que se espraia até ao mar. A localização junto ao Atlântico dá à Serra de Monchique um clima único na região, misto de mar e altitude, denominado subtropical marítimo de montanha, característico pela humidade. É neste enquadramento que a serra de origem vulcânica se faz serra d’água, não só pelas famosas termas, nas Caldas de Monchique, onde a água medicinal brota a elevadas temperaturas (aproximadamente 32 graus centígrados) mas, também, porque no Inverno a face da serra exibe a sua beleza sob a forma líquida. Para quem desconhece, o Algarve também tem cascatas e em Monchique estão três das mais belas da região, com a força bruta da rocha a deixar-se acariciar pela água em catadupa que se solta das entranhas das escarpas. Vale a pena conhecer e deixar-se envolver pela beleza sempre impressionante das quedas de água enquanto se solta o pensamento aos ritmos borbulhantes do marulhar das águas que só à gravidade obedecem, rasgando por força dos séculos sulcos na encosta capazes de contar histórias de outros tempos. A cascata do Barbelote é a primeira de três jóias de Monchique que se convida a conhecer. Por entre a vegetação luxuriante do Inverno monchiquense, num estradão que sai da estrada nacional 266-2, ali se revela a queda de água onde o branco da espuma se impõe contra o fundo cinza da rocha pontilhado daquele verde único de Monchique que faz desta serra a Sin-

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Cascata do Barbelote tra do Algarve. Para chegar ao segundo deslumbre desta rota das cascatas o destino é a cascata do Penedo do Buraco, que se pode

encontrar quando se segue na estrada que liga Monchique Casais e Marmelete, desviando para a direita no sentido Marmelete – Chilrão antes de chegar ao

sítio dos Gralhos. Por fim, perto do sítio com o mesmo nome, pode ver-se a cascata do Penedo do Buraco, também ela acessível

a partir da estrada nacional 266-3, e com esta terceira maravilha se fecha o périplo pelas cascatas da Serra de Monchique. Pode ainda optar por fazer a rota pedestre proposta pela autarquia de Monchique. Na Rota das Cascatas a proposta é a de realizar um percurso de 20 quilómetros com uma dificuldade considerada alta e que propõe numa viagem circular percorrer as três cascatas com passagem pela Fóia. Para tanto, diz o sítio da autarquia na internet, serão necessárias três horas e a consulta do mapa da rota e demais dados pode ser feita on-line em www. cm-monchique.pt. Junte-se à paisagem rara oferecida por estes três sítios únicos com o que de melhor a serra tem para oferecer por aquelas paragens, leia-se enchidos, boa gastronomia serrana e o inestimável medronho de Monchique e o passeio é mais do que uma simples proposta e revela-se um must do por estes tempos de maior invernia. Há de facto para descobrir muitos algarves dentro do Algarve, insuspeitos e inusitados lugares que são segredos guardados por uma região onde a serra resistiu estóica aos avanços dos tempos e do homem. Imperdíveis estes lugares secretos são as preciosidades de uma região que tem muito por descobrir, mesmo para os algarvios, e há lá melhor forma de viver o Algarve do que conhecê-lo no seu íntimo e muito para além do óbvio. Deixe-se transportar para outro mundo, numa realidade em que tempo avança fora do compasso do relógio e em que a água em queda livre se propõe ser, por momentos, dona e senhora dos seus pensamentos, aqui mesmo ao lado na Serra de Monchique, a serra d’água. Ricardo Claro

Sala de leitura

Requisitar uma stripper numa biblioteca? Paulo Pires

Programador Cultural no Departamento Sociocultural do Município de Silves esteoficiodepoeta@gmail.com

Porque não? Ousem e imaginem uma biblioteca repleta de livros com títulos como: Refugiado, Treinador desportivo, Dono de Agência Funerária, Homossexual, Imigrante, Stripper, Alcoólico, Invisual, Doente com cancro, Cantor hip-hop, Cirurgião plástico, Desempregado, Matemático, Budista, Po-

lícia, Padre, etc. “Livros humanos”, que valem pelo seu conteúdo intrínseco e não pela sua capa/aparência, feitos de/por pessoas que, em regra, são representativas de um dado grupo social ou profissional, convictas das suas ideias e avessas a estereótipos, as quais pretendem partilhar as suas histórias, valores, experiências e visões do mundo, tal como os livros feitos de papel. Para os leitores é uma oportunidade inesperada de, gratuitamente, “requisitar exemplares únicos” – mediante reserva prévia e durante um período de tempo prede-

finido (variável, mas que pode ser, por exemplo, até 60 min.) –, interpelando-os, na primeira pessoa, sobre as suas inúmeras “estradas” e “folheando” assim, oralmente, páginas e páginas de vidas incríveis. Estes “human books” são geralmente escolhidos a dedo: pessoas reais (de proveniências diversas e até, nalguns casos, díspares), com estilos de vida e ideias diferentes que as tornam autênticas obras abertas, e que se voluntariam para dar a conhecer, a um ou mais “leitores” interessados” – num ambiente aberto, seguro e acolhedor –, a sua forma de

estar, pensar e sentir o mundo, feita de singularidades, imprevistos, originalidades, surrealismos e, não poucas vezes, de discriminações ou exclusão sociais. Nos países em que o projecto já foi implementado têm surgido figuras interessantíssimas, com estórias empolgantes, como uma mulher que cresceu na África do Sul em pleno apartheid, um ex-professor que passou por uma operação de mudança de sexo ou um ex-veterano da guerra do Vietnam. Os livros humanos ostentam uma t-shirt que identifica o seu título e ao leitor basta escolher o que quer ler.

É fundamental – de forma a manter um diálogo estimulante e interessante com os leitores, respondendo às suas questões e ajudando-os a ultrapassar distorções sociais e outras ideias feitas – que estes “livros vivos” tenham personalidades estáveis e tenham desenvolvido previamente uma reflexão madura e consciente sobre os assuntos que estão abordando. Só assim se produzirá, junto dos receptores, o (literariamente) chamado “efeito de real” e o élan que certas obras escritas tanto almejam. A escolha, pela entidade organizadora, dos “títulos” dos livros deve ainda coa-


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Espaço ao Património

Património Cultural algarvio: o último espaço (ainda) habitável

Gestora cultural

Ontem como hoje as questões de salvaguarda e valorização do Património Cultural são complexas, sendo o seu papel como garante de memória e de evolução civilizacional controversas na opinião pública. Já no final do século XIX, um jornal algarvio, aquando das obras do Largo da Sé, em Faro, mandava que se tapasse os vestígios arqueológicos para os “arqueólogos não meterem o bedelho” e o arquiteto Alexandre Alves Costa no seu artigo “Lugares praticados versus lugares de memória”, na Revista Património, afirma que “A visão do desmoronamento do passado é tão desoladora como a mesquinhez dos sobreviventes e, por isso, Marinetti propôs, como terapia de choque, “libertar o país da sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários.””, sob pena de nos tornarmos “construtores de utopias”, como lembra Marc Guillaume, no precioso livro “Política do Património”. Esta erosão do passado não nos deve aprisionar, deve, pelo contrário, impelir-

dunar-se com as especificidades locais das áreas de implantação e estar atenta à conjuntura do momento. As bibliotecas são, entre outras vocações, verdadeiros lugares de aprendizagem intercultural, de reflexão sobre cidadania e direitos humanos, e de desenvolvimento (inter)pessoal, funcionando como contextos inclusivos que estimulam e propiciam a aproximação sensível e criativa, a humanização dos temas e a desconstrução mental (o “sair da caixa”). Daí que estes encontros entre leitores e livros humanos funcionem como pontes preciosas de diálogo construtivo entre pessoas que, em condições normais, não teriam a oportunidade de falar umas com as outras. O conceito de Biblioteca Humana surgiu em 2000, na Dinamarca, com a ONG “Parar a violência”, procuran-

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garve em colaboração com os Municípios, o que permite uma radiografia das necessidades de intervenção e uma linha orientadora; os museus da região têm trabalhado a questão do inventário do património (material e imaterial); requalificado a oferta museológica, tendo sido criada, em 2007, a Rede de Museus do Algarve que tanto permitiu ganhar escala como qualificar os seus técnicos. Foram trabalha-

do lutar contra os estereótipos e incrementar atitudes tolerantes face à diferença. Foi depois exportado para mais de sessenta países pelo mundo, sendo praticado em bibliotecas, escolas, associações, fundações e em espaços culturalmente menos convencionais. Na Internet – o site oficial é: http:// humanlibrary.org – é possível aceder a descrições de boas práticas, guias para organizadores, cursos de formação para dinamizadores, exemplos de catálogos de “livros” disponíveis, bem como a vídeos sobre projectos já desenvolvidos em diferentes realidades geográficas e culturais. Em Portugal, pelo que sei, apenas foram feitas duas experiências: o conceito estreou-se no Rock in Rio no Verão de 2004, de forma pontual; e no Município de Valongo a partir de 2010, através

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Dália Paulo

-nos a trabalhar o Património Cultural com um olhar atual, integrador na sociedade e não como último reduto de um passado que queremos preservar imutável. A consciência de que temos de fazer opções e perceber que muito da preservação de memória implica, igualmente, muito de esquecimento é um processo de construção (a cada momento) de um território. No Algarve, qual a importância do Património Cultural no desenvolvimento regional, no ordenamento do território e na construção/fortalecimento da nossa identidade? Na definição da estratégia regional o Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve, aprovado em Conselho de Ministros de 2007, preconizava para a área do património 12 objectivos operativos que se mantêm atuais e a necessitar de trabalho, objectivos para os quais têm de convergir as administrações, locais e central, focando a inventariação, a investigação e a conversão de recursos em produtos turísticos, bem como a monotorização, através de dados fiáveis, dos impactos da cultura e do património na região. Será legítimo o leitor perguntar: que caminho se percorreu, desde 2007, para dar corpo a esses objectivos operativos? Ora vejamos, a região dispõe de um Plano Regional de Intervenções Prioritárias, realizado pela Direção Regional de Cultura do Al-

dos, ainda que não em extensão suficiente, roteiros temáticos, como: o Al-mutamid, a Rota Europeia dos Descobrimentos e a Umayad; e, concluiu-se, em junho de 2013, os processos de classificação, como Monumento Nacional ou de Interesse Público, que estavam pendentes. Permita-me o leitor a incursão na prática da gestão deste Património Cultural. Muito se tem escrito sobre a falta de po-

líticas coerentes, consistentes e continuadas de educação para e pelo património e a relação deste com o turismo, sobre a descaracterização que o território sofreu ao longo das últimas cinco décadas e de como o desenvolvimento assentou em modelos (quase) aniquiladores da identidade dos lugares. Mas, ainda, pouco se escreveu ou discutiu sobre novas abordagens e olhares plurais da gestão do património, colocando o património no centro da discussão e não como “auxiliar” de um turismo cultural ou criativo; como o património deve ser visto como parte integrante do território e por isso um recurso útil, necessário e diferenciador dos territórios, fazendo parte do quotidiano das populações (residentes e visitantes) e assumindo-se como uma força da comunidade. Existe um longo caminho a percorrer sobre a questão da gestão privada do património: riscos e oportunidades. Este tema será discutido num seminário no dia 14 de fevereiro na CCDR Algarve, promovido na sequência do estudo nacional, que a Universidade do Algarve está a realizar intitulado, “Património e Território”, e integrado no “Plano de Estudos – Cultura 2020”, uma iniciativa do secretário de Estado da Cultura. Aí serão discutidas algumas destas questões: as apropriações da renda e o investimento na dua-

lidade público privado; o papel do privado e do Estado no Património português; quais os monumentos passíveis de gestão privada; quais os modelos sustentáveis de gestão do Património Cultural; e quais os garantes que a gestão privada pode dar na manutenção da identidade do lugar face aos perigos (mas também seduções) do modelo “one fits all”. Estes temas devem ser debatidos com grande abertura e sem preconceitos, ouvindo e criando novos pensamentos. A nível regional importa perceber que o património se tornou nos últimos anos no último espaço (ainda) habitável, e que isto obriga aos decisores políticos compreender que uma estratégia de desenvolvimento regional e de valorização turística só pode passar pela identidade e pela valorização patrimonial, porque aliado ao golfe e ao sol e mar (e não à praia) o Património Cultural é um produto 365 dias/ano. Cabe-nos a nós, mulheres e homens da cultura, nesta questão do Património Cultural - como nos recorda Paulo Pereira: “por ser um universo em permanente crescimento, será sempre, também, uma área em que o trabalho nunca acaba, nem é essa a sua natureza. Recomeçar, e recomeçar de novo” – ser resilientes e continuar a criar diálogos para contribuir para uma paisagem cultural de excelência e um foco de desenvolvimento.

da sua Agência para a Vida Local, que tem replicado anualmente este formato, já reconhecido internacionalmente. Há um poema de Adília Lopes que a certo passo diz: “eu não sou um livro / e quando me dizem / gosto muito de seus livros / gostava de poder dizer / como o poeta Cesariny / olha / eu gostava / é que tu gostasses de mim / os livros não são feitos / de carne e osso / e quando tenho / vontade de chorar / abrir um livro / não me chega / preciso de um abraço”. A este grande poema permitam-me contrapor: sim, (também) pode haver livros de carne e osso, com enredos cativantes, páginas surpreendentes e estilos inusitados – livros cujas histórias têm o poder de um abraço e de um silêncio pleno de gritos e danças lá dentro…


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O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N

Fevereiro te fria. os peixes não nadam por aqui. resta-me um livro de Hemingway que trago na mochila, com cheiro a sandes de conserva de cavala à portuguesa. e a paisagem que só olhos treinados neste horizonte daqui, conseguem perceber como se modifica.

Pedro Jubilot

pedromalves2014@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

Prunus Dulcis fotos: d.r.

José Afonso

~ Estofo de Maré ~

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quero ficar na manhã para pescar na ria azul, a linha já lançada repousa agora na corren-

Vítor Gil Cardeira

que um determinado dia vimos a conhecê-las... a árvore já ali estava há tanto tempo, mas só hoje nos conhecemos. Gostei de falar com ela. Até lhe tirei uma fotografia que postei no facebook. Talvez fiquemos amigos e possamos aprofundar a nossa relação.

‘Os Pescadores’

Postais da Costa Sul Aqui neste lugar da costa sul onde me exilei para vos mandar postais, não posso ver campos de trigo a perder de vista, nem tão pouco olhando para as serras me é difícil adivinhar o seu ponto mais alto. Se caminho entre grupos de árvores consigo sempre ver o que está para lá delas. Mais de dois carros em marcha lenta à minha frente, já me trazem o desespero de um engarrafamento, e prédios com mais de 4 andares causam-me vertigem mesmo com os pés no chão. Se desço o rio, observo desde a nascente à foz. Só esse imenso pranto de água azul me preenche a totalidade do olhar até à infinitude.

Quando os dias que deixam Janeiro fora, se acrescentam de uma hora de mais luz, há uma outra luminosidade a cobrir as pequenas árvores caducifólias da nossa paisagem, do barrocal ao litoral. Essa planta levemente rosácea que cobre as amendoeiras, ao contrário da princesa nórdica da lenda, representa para mim o princípio do fim da estação Inverno. Nesta outra estação, a de Tavira, não há como não lembrar o poema de Álvaro de Campos (Tavira, 15.10.1890) que começa assim: «Cheguei finalmente à vila da minha infância./ Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei./(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado)./Tudo é velho onde fui novo.» (…)

‘Cantares de José Afonso’ (ep,Columbia,1964-1ªedição). Faleceu a 23 de Fevereiro de 1987.

Trauteando os seus tititirriiri, o distraído e sonhador Zeca era seguido pelos cães vadios da ‘branca noiva do mar’ (nome poético para a terra da Fuzeta), no caminho que o levava, passando pela doca ou parando no ‘Escandinávia bar’ (também nome de canção no lp ‘Galinhas do Mato’, 1985) a caminho da casa de Zélia… «O conhecimento da Zélia, no lugar da Fuzeta no Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores.» Refere-se a ‘Maria’, canção que se encontra em

“LOST HAVEN – YOU ONLY MISS WHAT’S GONE” 9 FEV | 21.00 | Cine-Teatro Louletano Trata-se de uma curta-metragem independente inteiramente rodada no Algarve pela New Light Pictures, a mesma equipa que criou “Comando”, curta que conquistou múltiplos prémios, fez sensação no Youtube, e foi exibida um pouco por todo o mundo

‘Espuma Evanescente’ é o mais recente livro deste autor (Conceição de Tavira,1958) e terá o seu lançamento em Tavira, no Clube de Tavira (r. da liberdade, 23) pelas 17h30, de sábado 22 de fevereiro, com apresentação de Miguel Godinho e Pedro Jubilot. Numa edição da editora CanalSonora, decorrerão leituras de textos da obra e música por Orlando Almeida (guitarra) e João Ornelas (viola). Do livro, página 32: A passagem conforta os que não têm nada os que procuram os que nunca encontram. A passagem é um caminho que reflecte as sombras do passado enquanto dormem os inúteis sobressaltos. Há gente que precisava de mais vidas para amar os sinuosos tremores da paixão as escolhas impossíveis e imateriais os labirintos claros da impotência que sopra da juventude difusa, larvar e narcótica. A passagem une o que respira ilusão. Os sonhos são a realidade por cumprir quando da solidão nasce a palavra que embriaga que sorve o conforto incontornável das distâncias. Há gente que precisa de mais vidas para sofrer.

Uma Árvore Hoje de manhã conheci uma árvore. Ali no cruzamento dos bombeiros. Como as pessoas que habitam a cidade há tanto tempo e

Quando alguém nascido e criado numa cidade costeira do litoral algarvio, abre e lê pela primeira vez ‘Os Pescadores’ (Raul Brandão, 1923) nunca mais o abandonará cioso que o levem da sua biblioteca. Os hábitos e costumes do povo e as suas práticas de pesca, a descrição da atmosfera, da paisagem, da luz, dos sentidos despertos, do olfacto…surpreendem pela sua aproximação à realidade, mesmo passados tantos anos. Brandão chegou ao Algarve no esplendor do mês de Agosto em 1922, e parece ter ficado tão enfeitiçado pelo estio destas terras levantinas, que chega mesmo a dizer: «...Teria aqui uma casa numa das vielas(…) seria um deslumbramento: no pátio caiado,(…) viver num meio adormecimento, seduzido pela luz, fora de todos os interesses e realidades...» E quando parte é: «Tarde. Olho pela última vez a brancura imaculada dos terraços com o céu todo de oiro em cima e deixo com saudade esta luz e esta terra embruxada.» ….e escreve quase a segredar, tão a segredar, que terá sido mais um pensamento, muito intimo. Percebe-se pela paixão e pelo número de páginas que dedica a Olhão como foi esta a terra da costa sul que mais lhe ficou no coração «(…) este homem é um homem à parte no Algarve. Se veio de Ílhavo, como dizem, não sei, mas é o único homem arrojado desta costa.» Deixou cerca de duas centenas de obras publicadas, mas é através de ‘Os Pescadores’ que nunca esqueceremos a voz do mar.».

“MOSAICO” Até 25 FEV | Galeria de Arte Pintor Samora Barros - Albufeira Lídia Almeida apresenta uma mostra colectiva que tem por objectivo dar a conhecer ao público os trabalhos executados pelos seus alunos, com vista a incentivar o seu talento, empenho e desenvolvimento artístico


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Da minha biblioteca

A Mulher que Venceu Don Juan ou As mulheres que venceram os “dones Juanes” desta vida d.r.

Adriana Nogueira

Classicista Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Teresa Martins Marques é professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e conhecida ensaísta no meio académico, sobretudo pelos trabalhos sobre José Rodrigues Miguéis e David Mourão-Ferreira. Em 2009 escreveu um conto, «Carioca de café», que já deixava antever a fluência da escrita, o mundano e o erudito fundidos nas personagens, tal como podemos encontrar neste seu primeiro romance, A Mulher que Venceu Don Juan. Don Juan e Doña Juana

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Inicialmente publicado em forma de folhetim no Facebook, ganhou nova forma, de modo a tornar-se num romance consistente, sem deixar de lado a estrutura em pequenos capítulos que deixam o leitor em suspenso até que a história que cada um deles conta se complete mais adiante na narrativa. Neste livro não há apenas uma voz, pois vamos acompanhando a vida das personagens de diversas maneiras: através de diários, de pensamentos, de cartas e de comentários do narrador, que se vai transformando ao longo das 324 páginas, ora contando-nos tudo, ora fazendo-nos adivinhar que há muito mais para saber, até à revelação final, que liga todas as pontas que foram sendo soltas pelo livro. De que trata, afinal, esta história? O título e as epígrafes remetem para a personagem de Don Juan, o sedutor sem escrúpulos, que abandona as mulheres depois de as enganar, mas neste ro-

mance não são apenas os homens que seduzem e abandonam: as mulheres também o fazem. Joana (nome que já por si remete para o feminino “Doña Juana”, como, aliás, a jovem algumas vezes é tratada) é uma conquistadora de corações, uma destruidora de felicidade alheia, e assim se mantém até ao fim, sem remissão. Esta é uma das características mais marcantes das personagens, que nos faz pensar que não se deve esperar que as pessoas mudem, porque, no seu mais íntimo, elas não o fazem. Facto e ficção Talvez por resultar de uma publicação no Facebook que terá sido lida e comentada por outros membros desta rede social, ou apenas por opção da autora, muitos lugares e personagens são reais (se bem que ali, no livro, não deixam de ser criação literária), de Lisboa ao Porto, de Buenos Aires ao Rio de Janeiro, de Trás-os-Montes ao Algarve. Por aqui circulam conhecidos professores da Faculdade de Letras de Lisboa e intelectuais, aqui se explica muita história e filosofia (Kierkegaard e o seu Diário

do Sedutor são mesmo o alvo de uma tese de doutoramento de uma das personagens), aqui se aprende muita psicologia. Dos lugares, destaco, naturalmente, o Algarve, onde Rui e Marinela Soares, de Tavira, são os anfitriões de Luís e Sara (as personagens principais). Todo um capítulo (e um bocadinho de outro) é passado nesta cidade (da página 147 à 167), mostrando ao leitor a região, locais como a Ilha de Tavira, Praia do Barril ou Santa Luzia, alguns monumentos como a Igreja da Misericórdia, espaços como a Biblioteca Álvaro de Campos e algumas delícias gastronómicas, como o polvo ou a flor do sal. É destacada a intensa atividade da Associação Internacional de Paremiologia, presidida por Rui Soares, aproveitando a autora para nos “piscar o olho” e fazer uma passagem discreta pela história (lembrando Hitchcock a fazer de figurante nos seus filmes): «– A única história que conhecemos ligada ao Convento das Bernardas é a da bastarda

“A SOMBRA DA GUERRA” 8 FEV | 16.00 | Biblioteca Municipal de Lagos Apresentação do livro de Pedro Cantinho Pereira. Milhões de soldados anónimos esfumaram-se em cinzas, levando com eles sofrimentos incomensuráveis e inconfessáveis, e onde os agressores, quantas vezes, se transformaram em vítimas dos seus próprios actos

de D. João VI, que a Teresa Martins Marques nos veio há tempos contar. Luís perguntou: – A Teresa também esteve cá? Ela já me contou essa história. (…) Sara olhou para Luís com ar intrigado. Quem seria essa Teresa? Mas a boa educação impediu-a de perguntar.» (p.154-5) As mulheres que venceram os “Dones Juanes” desta vida Espero que a minha afirmação de há uns parágrafos não dê a entender que o livro mostra que não há esperança na mudança: esta ocorre, sim, mas apenas naqueles que querem modificar as suas circunstâncias, naqueles que lutam, que pedem ajuda e apoio para conseguir alterar o curso que as suas vidas estão a levar. Apesar de também haver uma personagem masculina que está numa situação algo semelhante e uma outra que de agressor passa a agredido, a maioria são mulheres, vítimas de violência

doméstica: «A Odete apanhou o marido a violar a irmã mais nova. Foi denunciá-lo à polícia e teve de fugir de casa. A Maria levou anos e anos a levar pancada do marido bêbado e foi a filha que a levou à esquadra. A Antónia era manipulada por um namorado violento que a obrigada a prostituir-se. A Marta vivia com um drogado que a sovava sempre que estava de ressaca» (p.133). Na verdade, quem venceu Don Juan não foi apenas a Sara, ou a Lúcia, ou a Manuela: foram as Odetes, as Marias, as Antónias e as Martas, que conseguiram interromper percursos de violência. Para o sucesso deste feito, demonstra-se que o recurso à polícia e à APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) são fundamentais. Há uma evidente preocupação em frisar a importância da colaboração entre estas entidades. A polícia é aqui representada por um comissário empenhado em apanhar os agressores e a APAV

por uma psicóloga dedicada a cuidar das vítimas. Nota-se um especial cuidado com as informações que são prestadas, não só nas inúmeras referências culturais, como neste aspeto específico, de modo que este livro possa também ser motivacional: que aqueles e aquelas que são vítimas de violência, quer doméstica, quer no trabalho ou na escola, não tenham vergonha nem medo de denunciar, pois a vergonha e o medo são algumas das armas usadas pelos agressores para perpetuarem o seu domínio. Como diz Manuela (a tipificação da jovem sensata): «Sabia, com uma sabedoria intuitiva, mas certeira, que não se forçam sentimentos, que não se empurram situações amorosas. Gostar de alguém começa por ser uma forma de respeito» (p.116). Nota: este livro vai ser apresentado no Salão Nobre da Câmara Municipal de Tavira, às 17.30 do próximo sábado, dia 8 de fevereiro.

“CONCERTO DE PIANO POR ANTÓNIO OLIVEIRA 8 FEV | 21.30 | Cine-Teatro Louletano No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Maria Campina vão ser interpretadas por António Oliveira músicas de alguns compositores preferidos da pianista


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Bons momentos

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d.r.

Castelo de Paderne Num texto de reflexão sobre lugares patrimonializados, que publicou faz agora 11 anos1, o professor Vítor Oliveira Jorge distinguia três categorias de perceção do território. «Espaço», correspondendo a uma realidade física mais ou menos extensa, suscetível de ser cartograda, administrada, subdividida, objeto de transações, convertida num ativo financeiro. «Lugar», correspondendo a uma realidade percecionada, repleta de nomes, experiências, narrativas, densa de história, de tempos e de sentidos, com uma espessura antropológica de pessoas concretas e memórias. «Sítio», situável entre as duas precedentes categorias e correspondendo a uma invenção da modernidade, fixando vivências, narrativas e passados ao espaço abstrato, tornando-o um recurso cultural convertível num produto suscetível de ser experienciado e fruído por todos. No Algarve, o Estado Português administra diretamente um conjunto destes «sítios», mediante a sua «afetação» à Direção Regional de Cultura do Algarve, feita por portaria dos membros do Governo responsáveis pelas áreas das finanças e da cultura. Isto é, o Estado assegura a administração pública desses imóveis através de um serviço periférico de tutela. São imóveis classificados como bens culturais de grau nacional, preservados e pre-

parados de forma a possibilitar que neles se cruzem públicos diversificados, estudantes, visitantes, turistas. Nesse rol se incluem o Castelo de Aljezur, a Fortaleza de Sagres, a Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, os Monumentos Megalíticos

A Direção Regional de Cultura do Algarve criou a marca «Monumentos do Algarve, Bons Momentos», mote de uma agenda de atividades de extensão cultural que inclui a mediação de saberes, contemplando a educação para o património e para as artes e a inclusão social, a conceção e curadoria de exposições, a qualificação das experiências de visita turística e a mobilização de recursos de Alcalar, a Villa romana da Abicada, o Castelo de Paderne, o Castelo de Loulé e a Villa romana de Milreu. Esses oito sítios museografados e os equipamentos que lhes estão associados (infraestruturas museográficas e centros de receção e interpretação) desempenham um papel incontornável na pro-

gramação de atividades de extensão cultural: na mediação de saberes, na conceção e curadoria de exposições, na qualificação das experiências de visita turística, na mobilização de recursos, mormente voluntariado, e na angariação de financiamentos. Para esse conjunto de sítios afetos, a Direção Regional de Cultura do Algarve criou a marca «Monumentos do Algarve, Bons Momentos». Este é o mote de toda uma agenda de atividades de extensão cultural que se configuram como projetos educativos e pedagógicos, compreendendo iniciativas com públicos escolares e juvenis, ações de difusão de conhecimentos e fruição dos sítios, privilegiando a boa articulação entre a Direção Regional de Cultura e outras entidades que prossigam políticas educativas e de inclusão social, maximizadas através de protocolos e de apoios pontuais ao associativismo regional e incentivando o voluntariado. Isto porque os «sítios patrimoniais» têm que ser espaços de aprendizagem mas também de fruição e de bem-estar. 1

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Os sítios arqueológicos como heterotopias. In: «Olhar o Mundo como Arqueólogo».

Coimbra: Quarteto Editora, fevereiro de 2003, pp. 147-162.

Direção Regional de Cultura do Algarve

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CULTURA.SUL 66 - 7 FEV 2014 by POSTAL do ALGARVE - Issuu