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Cultura.Sul 140 10JUL2020

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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o

JULHO 2020  n.º 140 www.issuu.com/postaldoalgarve

9.839 EXEMPLARES

NASCIDA NO MONTE •••

Porto Seguro Teresa Lança

Educadora de infância nascidanomonte@gmail.com

Vagueio pela casa: um apartamento pequeno e colorido, salpicado de recordações que vão mudando de lugar e cor, ao comando do meu coração e da minha vida desgastada que me enviou para aqui. Um lugar que fui preparando com cuidado, por saber que seria aqui o final da linha – da linha do horizonte que levei mais de meio século a alcançar na vida e que com os olhos da alma nunca a perdi de vista. Espreito através da janela e reparo no trepidar do ar lá fora, onde o sol do Alentejo tolda a mente, enquanto nos acostuma a viver prisioneiros duma imensa liberdade. Deito-me no sofá e cerro os olhos, tentando descansar das lembranças espalhadas por todos os cantos e paredes da casa que agora explodem de saudade em mim. Penso nos recantos que cada uma delas ocupa e merece, dentro e fora de todos os lugares onde eu habito.

Sinto saudade de quando o meu mundo era pequeno; de quando a minha memória ainda não tinha memórias. Sinto saudade de quando abria a porta da vida e o meu mundo ficava inteirinho atrás das minhas costas e cabia no relance do meu olhar; sem passado porque, para além das quatro paredes que o cercavam e o deixavam à vista, não existia mais nada – toda a minha existência estava ali presente! Que saudade do tempo em que a minha vida se dividia em dia e noite; em que a porta aberta para as colinas a perder de vista, me deixavam inventar vidas de faz-de-conta, que eu não sabia chamar de “sonhos”, nem que tudo o que sentia brilhar dentro de mim era ser feliz. Muito menos ainda que os sentimentos escuros que apertavam o meu peito, tinham a cara do medo – um medo ignorante que não conhecia ainda o preço a pagar por cada metro a palmilhar no dia a dia da vida! Saudade desse medo que sentia ao olhar a imensidão do espaço vazio e infindável, e eu na porta do mundo sem coragem para começar a caminhada. Saudade de saber fazer coisas simples e duradouras, daquelas que a infância não mudou aqui, dentro desta arca de sonhos, mas que o tempo levou a chave que eu não encontrei mais. Tento fazer o caminho de volta,

mas, ora adormeço nos recantos do passado, ora deslizo numa correria louca esbarrando nos atalhos deste labirinto que levei tanto tempo a construir, e sinto medo. Medo de olhar para trás e me dar conta de não avistar a porta por onde entrei, de não ver mais aquela luz que eu seguia e que iluminava o paraíso que procurava alcançar lá adiante no futuro, e agora tento encontrar no passado: um passado que avisto desfocado pelo muito que se distanciou! Aqui estou eu inutilmente de olhos fechados: inutilmente por não conseguir fechar os únicos olhos que veem todos os meus caminhos – os antes e os depois. Por não conseguir impedir as visitas frequentes aos lugares onde deixei mascarados de coragem os meus medos, nem onde em redemoinhos continuam a azucrinar os turbilhões dos meus fantasmas. Tento desenvencilhar-me desta teia de pensamentos em que frequentemente me enleio, abro de novo os olhos e corro para aqui. Quero escrever, falar dos trilhos que agora me assaltam à memória, daqueles que deixei na vida, daqueles que segui deixados por outros, daqueles que os meninos que cuidei deixaram gravados a ferro e fogo nos lugares secretos que com eles percorri nas suas infâncias, e se tornaram por isso meus também. Talvez daqui a pouco eu já não veja

nítidos como agora, todos os pontos onde as crianças que fomos tão distantes no tempo se cruzaram, e os lugares esquecidos dentro de mim que com elas de mãos dadas e olhos fechados percorri até a minha meninice. Como se todos os caminhos de todas as crianças se cruzassem algum dia em algum lugar! Quero escrever, mas o meu pensamento corre mais veloz do que os meus dedos que aqui e ali deixam para trás marcas desvanecidas pela poeira cerrada que a minha corrida pelo tempo entretanto levantou. Quero escrever as sombras que atravessei dentro de mim, numa proteção inconsciente de todos os que me viam sem me ver. Quero descansar do muito que corri enquanto pensava fugir de tudo o que não conseguia perder de vista, arrastando-o numa corrida louca à minha frente e eu atrás, colada a mim, sem me poder distanciar, sem me dar conta que só o tempo passava. E aqui continuo eu tentando de novo. Mais uma vez de novo. Agora, lado a lado comigo, num caminho de regresso à infância que foi minha e num lugar onde só eu cabia: dentro de mim! Quero imprimir a minha alma que agora me fala da criança que fui e que sempre será o meu porto seguro. Em qualquer cais, em qualquer saudade! l

Ficha técnica Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Henrique Dias Freire Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes Visuais: Saúl Neves de Jesus • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Filosofia Dia-a-dia: Maria João Neves • Letras e Literatura: Paulo Serra • Marca D'água: Maria Luísa Francisco • Nascida no Monte Teresa Lança • Reflexões sobre Urbanismo: Teresa Correia • Colaboradores desta edição: Vítor Azevedo Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com online em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/ postaldoalgarve FB: www.facebook.com/ postaldoalgarve/ Tiragem: 9.839 exemplares

ESPAÇO ALFA •••

Falemos um pouco sobre fotografia foto vitor aZevedo

dia ou os tons dourados do final da tarde vamos fazer as nossas fotos. Utilizemos um pouco de flash de enchimento para fazermos fotos em contra luz ao cair do dia e vamos ver que o assunto da nossa imagem ficará com mais recorte, mais tridimensional e enquadrada num fundo dramático e quente, ou, sem flash, Vítor Azevedo Membro da ALFA exploremos o recorte da luz de fun- Associação Livre Fotógrafos do Algarve do na silhueta que fotografamos. Sabemos que esta hora do dia se Agora que os dias estão mais lon- escoa muito rapidamente e por isso gos e o confinamento mais curto devemos saber aproveitá-la, contudo, temos duas boas razões para voltar um pouco antes dessa hora de luz máa fotografar no exterior. gica, sós ou com o nosso modelo, se for Usando a luz suave do início do o caso, desfrutemos dos aromas e da

serenidade do cair da tarde esquecendo por momentos os “clicks”, relaxando, acalmando o corpo e a mente. Após esses momentos de relaxamento o resultado do trabalho fotográfico terá muito melhor precisão e qualidade, tudo fluirá com harmonia e sincronia, feito ao ritmo certo, sem pressões. Se nunca utilizaram esta técnica de relaxamento, experimentem e depois digam-me se concordam ou não com o que digo, o que sentiram, como viram os resultados das vossas fotos, como sentiram a relação com o vosso modelo. E como é Verão e a vida espera-nos, hoje fico-me por aqui, até um próximo encontro. l

/ d.r.

Fim de tarde na Ria Formosa •


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LETRAS E LEITURAS •••

Margarida Espantada, de Rodrigo Guedes de Carvalho fotos vitorino CoraGeM

/ d.r.

que este livro tenha saído primeiro em audiolivro, e narrado na própria voz do autor – se bem que foi a pandemia a principal causa que levou a isso), não permitindo propriamente um envolvimento com as personagens. A prosa é muitas vezes torrentosa, com frases que se distendem em gradações e repetições e enumerações (a copulativa e é constante). A ironia atravessa a narrativa, com uma intenção de forte crítica social que chega, por vezes, ao vitupério e à obscenidade do vocabulário como forma de chamar o mundo à razão. Os próprios nomes das personagens denotam alguma ironia, constituíndo-se

Paulo Serra

Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

Todos nós já assistimos, provavelmente, às consequências que a depressão pode ter em quem nos é próximo. Possivelmente até já a conheceram por dentro, na própria pele, ou de perto, com familiares ou amigos. Eu sei que passei dias a observar alguém que se sentava em silêncio na sala e ficava a fitar a televisão, umas vezes sem som, outras desligada. E ficava assim todo o dia, levantando-se quase de tarde e rondando a casa durante a noite. Para adormecer a dor era preciso adormecer a mente. E para muitas pessoas, a depressão é apenas uma “mania”, uma moda, um ócio de gente desocupada... Até que calha acontecer-lhes. Mas a verdade é que pode inclusive matar, como aconteceu há bem pouco tempo com o suicídio de mais uma figura pública. Depois de Jogos de Raiva e O Pianista de Hotel, o novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, Margarida Espantada, publicado pela Dom Quixote, é descrito pelo autor como uma história sobre família, mas também sobre «violência doméstica e doença mental. É um efeito dominó sobre a dor.» Esse efeito dominó representado na própria capa pode ser entendido como uma falsa calma que reina sobre os dias e que, subitamente, se desmorona, pois um ínfimo gesto ou uma situação aparentemente banal podem espoletar uma reacção em cadeia, despertando sentimentos reprimidos mas latentes. E pode ter consequências nefastas até para os que estão isentos dessa dor, como acontece com o caso descrito do avião despenhado... Mas este livro vai muito além da depressão, adentrando-se no lado obscuro da mente, passando pela demência, pelo mal (porque este é também um livro sobre a violência doméstica e aqueles que tiram gozo da dor infligida), pela dissociação de personalidade, pelas perturbações e transtornos mentais. Não é por acaso que Joana Ofélia estuda para psicóloga. Em torno da personagem principal que, como o título aponta, é Margarida, sendo também aquela sobre quem menos sabemos – e aquilo que se saberá é sempre a partir da perspectiva dos irmãos e dos outros – chega a haver epsiódios que nos aproximam do sobrenatural, não fosse o caso de sabermos estar a lidar com uma personagem deprimida e fortemente medicada.

quase sempre como binómios sonoramente estranhos (Paulo Paulino, Aida Vanda, Margarida Rosa, Joana Ofélia). Torna-se difícil entrar verdadeiramente na história, mesmo nos capítulos finais, de maior tensão narrativa, que alternam entre a inspectora e o psicólogo forense, na sua “perseguição” automóvel, e o que terá acontecido entre os irmãos. Porque a intenção principal da narrativa parece ser a de denunciar o “desconcerto do mundo” (particularmente no capítulo 33, com a enumeração de tudo o que vai mal no mundo, quando Margarida já não consegue continuar e perde as defesas, o filtro). É também quando «o horror do mundo explode na cara de Margarida Rosa» que tudo se precipita pois, ao saber da morte da irmã (e daí que, conforme o nome indica, Ofélia é também o cordeiro sacrificado ou o fim da bondade possível), Margarida (espantada) deixa-se levar pela única via que conhece, desde criança, de saber lidar com o mundo... quando se deixa submergir na consciência de outrem. l foto d.r.

O novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho é descrito pelo autor como uma história sobre família •

A ironia atravessa a narrativa, com uma intenção de forte crítica social Na primeira parte do livro, a narrativa é mais hesitante, lançando pistas que são retomadas na parte final, e parcelada, alternando entre personagens, com constantes analepses e prolepses. Se, primeiro, parece tratar da violência doméstica, depois, conforme conhecemos os vários membros das duas gerações da família Duval, as várias pontas enlaçam-se e percebe-se que além de um pendor agressivo transmitido de pai para filho, houve algo mais herdado geneticamente. Sabe-se, por exemplo, que os irmãos Manuel Afonso e Margarida Rosa têm em comum um comportamento com

«ecos de espectro muito mais suaves e espaçados» no primeiro e «mais constantes e gritantes» na segunda (p. 124). Mas no seio desta família disfuncional, em que quase todos se encontram sozinhos, ou com problemas sérios nos seus relacionamentos, a solidão surge associada à incapacidade de amar o próximo, à excepção de Joana Ofélia, a “benjamim” da família. À solidão comum a todas as personagens subjaz um sentimento de frustração – o que já surgia no romance anterior do autor, O Pianista de Hotel. Aproveitamos também para destacar a referência intranarrativa que é feita a essa outra obra do autor, a certa altura, deixando esse jogo de descoberta a cargo do leitor. A voz narrativa é distanciada, como quem faz um relato (é curioso

O livro é sobre violência doméstica e doença mental •

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Caronte à Espera, de Cláudia Andrade >

fotos d.r.

Cláudia Andrade é a mais recente aposta da Elsinore, editora que discretamente tem vindo a apostar em novas vozes literárias, como João Reis ou Raquel Gaspar Silva, mas sobretudo em autores que além de inéditos trazem uma nova voz ao panorama literário português, uma assinatura de estilo na sua prosa. Depois do furor causado pelo seu livro de contos Quartos de Final e Outras Histórias, publicado em Setembro de 2019, considerado um dos melhores livros do ano pela crítica, finalista do Prémio Autores 2020 (Melhor Livro de Ficção Narrativa) da Sociedade Portuguesa de Autores, Cláudia Andrade presenteia-nos agora com o seu primeiro romance, Caronte à Espera, que reafirma a força da sua voz na literatura portuguesa. Caronte à Espera é uma narrativa breve, que não ultrapassa as 130 páginas, mas capaz de deixar o leitor tão agarrado quanto desconcertado, possivelmente até capaz de voltar ao início do livro para o reler. A prosa é burilada, em frases que se distendem e emaranham, um pouco como as acções das próprias personagens que são tão complexas e enigmáticas quanto desamparadas. Há aliás uma passagem do livro que parece relevar isto mesmo: «Não vejo motivo para contar a vida com a pressa insensível com que somos obrigados a vivê-la» (p. 66). Artur, o protagonista, reformou-se há um ano e vive agora entediado e desinteressado da vida, como se percebe logo no início do romance quando a mulher lhe pousa em cima o álbum de fotos do seu casamento: «Artur carecia tanto da força para suportar como para repelir a eterna repetição daquele ritual» (p. 7) Quando ao oitavo dia da sua reforma, e sétimo dia de treino desde que se determinou a ficar em boa forma física, Artur se vê conduzido numa ambulância por se lhe ter prendido uma virilha, fica dado o mote para a narrativa pícara da vida deste pobre coitado que na própria semana em que decide suicidar-se rapidamente vê gorados os seus recentes planos de morte ao descobrir numa foto do álbum de casamento, visto e revisto, um rosto que se distingue entre os familiares pela «não-familiaridade dos traços, o ar de eslava anemia, a aura de poeta no desemprego» (p. 10). É nesse instante-revelação que Artur é acometido por uma visão que lhe dá novo ímpeto, levando-o a dirigir as suas intenções numa nova direcção ao longo de toda a narrativa, da mesma forma que aí inicia esta narrativa que é afinal o conto dessa viagem, que implicará sair de casa e deixar a mulher. Viagem ini-

ler Morte em Veneza (e tal como a personagem central do livro vive obcecado na busca de um homem que é também um ideal de beleza) enquanto o seu novo amigo, Ivan, lê Margarita e o Mestre (que narra a visita do Diabo à cidade de Moscovo). Conforme tudo isto se desenrola, Caronte é deixado numa espera, como o próprio título indica, enquanto Artur tão depressa se decide a morrer como depois esbraceja para se agarrar à vida, sendo, por isso, bom para “chamar a morte”, dada a sua lentidão e indefinição. Mas esse ajuste de contas com o passado, desencadeado por um belo desconhecido numa foto, torna-se afinal um ajuste de contas com a vida. Cláudia Andrade nasceu em Lisboa. Autora dos livros de contos Elogio da Infertilidade, vencedor do Prémio Ferreira de Castro 2017 (sob o pseudónimo que lhe era habitual de Vitória F., entretanto abandonado), e Quartos de Final e Outras Histórias, finalista do Prémio Autores SPA 2020 – Melhor Livro de Ficção Narrativa. A autora considera-se sobretudo contista, embora esteja já a trabalhar num segundo romance, e antes de ser lida em Portugal foi inicialmente publicada no Brasil. l

Cláudia Andrade é uma nova voz no panorama literário português •

ciática, rito de passagem, que inicia com essa demanda quixotesca de Artur – um pouco ao jeito dos Cavaleiros arturianos da Távola Redonda –, mas sempre sujeita aos revezes da ironia do destino, como quando finalmente se decide a apanhar o metro, decisão laboriosamente descrita que desemboca no risível, e depois se dá a revelação, ao sair para a plataforma, de que Artur afinal viajara no sentido errado. Cláudia Andrade já está a trabalhar no segundo romance A indefinição e indecisão de Artur estende-se inclusivamente às dúvidas que este nosso antiherói, e o leitor com ele, tem sobre a sua

sexualidade. Mas a saga atribulada de Artur pode ser lida sobretudo como uma alegoria da condição humana, em que predominam símbolos quer literários quer míticos. Além do nome Artur, temos Beatriz, a sua mulher, cujo nome é quase indissociável daquela outra mulher-anjo que conduziu Dante ao Inferno e ao Paraíso, mas que para este Artur representa apenas o tédio e fastio da vida doméstica de casado. Existe depois um homem que parece tornar-se o amante de Artur, mas que pode ser tão somente o lado sombrio da sua consciência. Há duelos entre o bem e o mal, representados por anjos. E há as inevitáveis referências literárias, como é o caso de Artur

“Caronte à Espera” é o primeiro romance de Cláudia Andrade •


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FILOSOFIA DIA-A-DIA •••

Da máscara ao sentir

fotos d.r.

Maria João Neves Ph.D Consultora Filosófica

Existe um novo acessório de utilização obrigatória que está a modificar tanto os nossos hábitos que talvez não tenhamos ainda a noção do seu devido alcance: a máscara. O governo decretou o seu uso obrigatório por todos aqueles que permaneçam ou acedam a espaços interiores fechados, ou utilizem os transportes públicos. De facto, verificamos uma utilização generalizada da máscara: no queixo ou no pescoço, na testa ou em jeito de bandolete; pendurada na orelha ou no cordão dos óculos ao pescoço. Às vezes, a máscara até aparece bem colocada, sobre o nariz e a boca, protegendo as vias respiratórias. A máscara também viaja guardada de muito diversas formas, aos tombos na carteira das senhoras misturando-se com toda a tralha que lá existe, esticadinha na carteira dos homens como se de mais uma nota se tratasse. E claro que sendo necessária, ela é colocada de modo automático, sem um pingo de reflexão sobre a legitimidade da sua função depois de se ter roçado com todos estes elementos de higiene duvidosa. Poupa-se dinheiro na esteticista, pois já não há que realizar a depilação do buço e não fazem falta os batons na cor da moda. Porém, acresce o cuidado com os olhos e as sobrancelhas. De repente, as mulheres latinas tornam-se turcas ou marroquinas, com esta espécie de burca sanitária que só nos deixa livre o olhar. Mas agora é verão e os olhos ocultam-se debaixo dos óculos de sol... Saímos à rua e não reconhecemos ninguém, e ninguém nos reconhece a nós. A máscara modificou também os rituais de chegada a casa. Quem vive em blocos de apartamentos coloca-a à entrada do prédio, permanece com ela posta no elevador e, conscienciosamente, não a retira ao chegar ao seu andar. Há primeiro que descalçar os sapatos e deixa-los cá fora, abrir cuidadosamente a porta tentando não tocar em nada, e realizar um passo de equilibrista do sapato da rua para o chinelo caseiro. Uma vez dentro, há que lavar muito bem as mãos, e depois, só depois, tirar a máscara. Entretanto, os filhos já se desinteressaram da chegada do progenitor/a. Não há a corrida para os receber, nem o beijo ou o abraço espontâneo.

A máscara não nos deixa alternativa, a cara, o rosto todo, resume-se quase somente ao olhar •

A máscara modificou o gesto. Não se vendo se sorrimos ou se esboçamos algum esgar, as pessoas tentam comunicar da forma possível e desatam a esbracejar. Jamais vi tanto gesticular como agora! Ao aumento do volume da voz, pois há que falar através da máscara, corresponde também uma desengonçada dança dos membros superiores que tentam, em vão, suprir a falta de expressão facial. Inevitavelmente olhamos nos olhos do outro, para compreender e tentar ser compreendidos. Antes da máscara tal não seria justificável, poderia ser tomado como um acto invasivo. O olhar directamente nos olhos do outro é algo muito íntimo

e, por isso mesmo, sujeito a algum pudor entre pessoas que não se conhecem, quase um tabu. Agora, a máscara não nos deixa alternativa. A cara, o rosto todo, resume-se quase somente ao olhar. Antes da pandemia a nossa época parecia caracterizar-se por, nas palavras do filósofo italiano Mário Perniola, vivermos num “já sentido”. No seu livro Do Sentir publicado em 1991 o filósofo afirma: “Aos nossos avós, os objectos, as pessoas, os acontecimentos apresentavam-se como algo para ser sentido, para ser vivido como uma experiência interior, causa de alegria ou de dor, objecto de participação sensorial, emotiva, espiritual, ou,

pelo contrário, algo de que não se apercebiam ou se recusavam a perceber. A nós, pelo contrário, os objectos, as pessoas, os acontecimentos apresentam-se como algo já sentido, que vem ocupar-nos com uma tonalidade sensorial, emotiva, espiritual já determinada.” Estamos a viver algo que nunca se viveu antes Agora estamos a viver algo que nunca se viveu antes. Após anos de sensações mastigadas, de condutas pre-estabelecidas, de sentires recalcados a cheirar a mofo, eis que nos encontramos em território desconhecido. Embora existam normas de conduta, desde a etiqueta respiratória

As mulheres latinas tornam-se turcas ou marroquinas com esta espécie de burca sanitária que só deixa livre o olhar •

aos novos hábitos que se requerem: lavar frequentemente as mãos, uso obrigatório de máscara e distanciamento social, não há nada sobre o sentir de tudo isto. Não existe nem um manual, nem um exemplo a seguir, que nos mostre como gerir os sentimentos que toda esta modificação de comportamentos sociais acarreta. Este estado de coisas dá-se, precisamente, a jusante de décadas que privilegiaram o agir. A actividade tem tido um estatuto preponderante, a quietude, a passividade, o sentir, foram discriminados e adquiriram um estatuto de “menoridade ontológica”. Como conciliar isto com o dever cívico de recolhimento domiciliário? Desde os primórdios que a filosofia ocidental teve como meta a exclusão do sentir, em prol da objectividade, da imparcialidade, da independência, da universalidade, etc., etc. Este objectivo foi praticamente alcançado, contudo, os seus efeitos secundários não se fizeram esperar: Como bem aponta Mário Perniola: “a reflexão e o eco do já sentido substituiu o pensamento: tanto o agir como o pensar estão subordinados à negociação permanente das mercadorias sensológicas que pretendem esgotar todo o universo contemporâneo. Este é simultaneamente a realização e a abolição do projecto metafísico: por um lado foi de facto desprezado todo o impulso autónomo do corpo e dos afectos através da alienação do sentir, por outro tornou-se também vão todo o primado da actividade intelectual.” Assistimos também, um pouco por todo o mundo, a uma tensão entre a racionalidade e a animalidade. Se por um lado governantes e governados parecem unir esforços para estancar esta pandemia, por outro lado, surgem irrupções poder-se-ía dizer de cariz dionisíaco: a vontade da festa, do contacto com o outro, da diversão, do extravasamento, sobrepõe-se à racionalidade. Após décadas de desprezo pelo sentir, ele surge agora como uma fera indomável, egoísta e indiferente ao contexto, ao meio, às necessidades e direitos do próximo. O respeito desvaneceu-se. A necessidade individual surge de forma tão gritante que esquece que a irracionalidade de uns afecta impreterivelmente a vida de todos. Cegos para a falsidade da existência individual e separada boicotamos a possibilidade de nos salvarmos. Em tempo de rostos com máscara, nunca foi tão difícil evitar o face a face consigo próprio. À máscara exterior parece impreterivelmente corresponder o desmascarar interior, em camadas sucessivas. A paragem, o confinamento, obrigou-nos a isso. Não conseguimos continuar a fugir de nos sentirmos. l Inscrições para o Café Filosófico: filosofiamjn@gmail.com


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ARTES VISUAIS •••

“Regresso ao futuro” nas artes visuais após o estado de emergência? fotos d.r.

Saúl Neves de Jesus

Professor Catedrático da Universidade do Algarve; Pós-doutorado em Artes Visuais; http://saul2017.wixsite.com/artes

Após um período de vários meses em que não foi possível visitar museus ou exposições de forma presencial, tendo sido desenvolvidas iniciativas que permitiam visitas online a museus de todo o mundo e a visualização virtual de obras de arte, foi levantado o estado de emergência, começando a ser organizadas exposições presenciais. É o caso da exposição coletiva intitulada “Regresso ao Futuro”, inaugurada no dia 13 de junho, na sede da Associação 289 (Solar das Pontes de Marchil, em Faro), procurando prosseguir o caminho da criatividade, do conhecimento e da cultura, depois do período de confinamento forçado e de alguma incerteza em relação ao futuro. A Associação 289 é um coletivo de arte contemporânea, criado há três anos, em Faro. Segundo esta Associação, durante o período de confinamento, a atividade de planeamento e de execução artística não pararam, sendo agora tempo de regressar ao diálogo com a sociedade, através duma exposição coletiva em que participam 57 artistas sediados na região algarvia, mas também integrando alguns convidados nacionais. Desde nomes conhecidos no meio artístico, como Pedro Cabral Santo, Pedro Cabrita Reis, Rui Sanches ou Xana, até nomes de quem está a expor pela primeira vez, em particular alguns estudantes de Artes Visuais da Universidade do Algarve.

Imagens de algumas das obras que integram esta exposição •

Cartaz da exposição “Regresso ao futuro” •

As Artes Visuais na UAlg têm desenvolvido um percurso em que tem sido desde sempre muito valorizada a relação com a comunidade no processo de formação dos estudantes, sendo todos os anos feita uma mostra dos trabalhos que estes produzem em diversos locais, em particular em Faro e Loulé. Além disso, têm procurado contribuir para o desenvolvimento da perceção, da reflexão e do potencial criativo, dentro da especificidade do pensamento visual, num processo que requer um elevado grau de interdisciplinaridade e de integração entre os diversos meios de produção artística. Com um corpo docente constituído sobretudo por artistas, os alunos têm oportunidade de vivenciar de perto o mundo da arte na sua complexidade. Tudo isto

suportado pela investigação desenvolvida no Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC), avaliado com “Muito Bom” pela FCT, permitindo uma oferta formativa que vai da licenciatura, ao mestrado e ao doutoramento. Mas voltando à exposição, o título desta remete para uma perspetiva de futuro com otimismo relativamente à possibilidade da arte ser vista ao vivo e para o regresso à interação social, não ficando inibida com a pandemia e o confinamento. Curiosamente, “Regresso ao futuro” foi também a designação do evento solidário de música, realizado no passado dia 20 de junho, que integrou a realização simultânea de 24 concertos, em vários locais do país. As receitas de bilheteira, geridas pelo Fundo de Solidariedade para a Cultura, pretendem apoiar financeiramente profissionais do setor cultural. Este apoio revela-se imprescindível para que muitos profissionais do setor artístico consigam fazer face a

este período, na expetativa de que, num futuro que se deseja próximo, as atividades artísticas possam voltar a ser realizadas como dantes. No entanto, há quem diga que nada será como dantes e, pelo menos a curto prazo, as exposições terão que respeitar um conjunto de regras de saúde pública, para garantir a segurança de todos. No caso desta, no dia da inauguração foi necessário ser feita marcação antecipadamente, para horários previamente definidos, sendo admitidos 10 visitantes de cada vez no interior do espaço de exposição e 20 no exterior. Além disso, o uso de máscara e a higienização das mãos são práticas obrigatórias, havendo

gel desinfetante para as mãos à entrada do espaço. Algumas das obras dizem respeito ao período em que vivemos, até pelos títulos que apresentam, como é o caso do trabalho “Experiência de quarentena” de Rúben Gonçalves, outras referem-se a temas bastante atuais na sociedade, como é o caso da obra “George Floyd”, de Raymond Dumas, mas é bastante vasto o conjunto de temas e de técnicas de produção artística usadas nesta exposição de arte contemporânea, a qual estará patente até 26 de Julho de 2020, com o horário de sexta-feira a domingo, das 15 horas até às 19 horas. Vale a pena... l


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CULTURA • SUL foto d.r.

MARCA D'ÁGUA •••

Da etiqueta pós-COVID Maria Luísa Francisco Investigadora na área da Sociologia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa luisa.algarve@gmail.com

“Às vezes a felicidade está a bater à porta e nós andamos à procura do trevo de quatro folhas no quintal” Anónimo Quando acontece algo difícil na vida ou terrivelmente novo, como tem sido a pandemia, temos três formas de lidar com a situação: entrar em desespero, em desânimo ou em desenvolvimento. Obviamente que o ideal será o desenvolvimento, com todos os sentidos que encerra. Neste tempo de pandemia, que ainda não acabou, temos que aproveitar para reencontrar o que realmente importa e o que

traz valor à vida. Para isso é importante apostar no desenvolvimento pessoal como tempo de olhar para si mesmo, porque o mundo vai ser diferente daqui em diante. Nos websites de vendas online os livros de desenvolvimento pessoal, auto-ajuda, motivacionais e conquista da felicidade tiveram mais destaque e provavelmente mais vendas. Dizem alguns comentadores que o mundo pós-pandemia será um mundo pós-trauma e que vai ser necessário que cada indivíduo desenvolva e faça coisas novas. Todos vivemos uma paragem forçada, uma paragem que para muitas pessoas foi angustiante e para outras foi revitalizante, com mudanças a nível profissional, pessoal e emocional. Muitos de nós ficámos com as agendas ainda mais preenchidas com webinars, reuniões, formações, cursos, debates e até congressos. Para além de ser uma forma de ocupar o tempo trata-se de tempo de aprendizagem. No fundo, procura-se aumentar o nível de felicidade, descobrir talentos em nós e nos outros,

aumentar a esperança e definir próximos passos para um futuro com sentido e propósito. Uma das palavras que mais ouvi nestes meses, para além de pandemia, foi a palavra propósito. Este termo está relacionado com a defini- É importante apostar no desenvolvimento pessoal como tempo de olhar para si mesmo • ção de objectivos que façam sentido na vida e para isso temos de ter um trazer a reflexão sobre o que é que Esta foi uma das actividade que repropósito que nos mova. nos faz realmente felizes. criei recentemente para valorização Talvez a COVID-19 tenha vindo A felicidade e a qualidade de vida do interior algarvio, das suas gentes, convidar a humanidade, e cada um são conceitos subjectivos, mas creio saberes e sabores. de nós individualmente, a repensar que os bons laços afectivos com Enfim, sabemos que as sociedao que realmente é um “propósito de amigos e familiares, uma vida com des “ditas avançadas” incutem mais a vida”. O que faz com que cada ser hu- sentido, o descanso de qualidade, o valorização do “ter” do que do “ser”, mano ponha o pé fora da cama a cada ter tempo para fazer o que se quiser, mais a valorização do urbano e da manhã, o que faz com que saia dos pesa mais no grau de felicidade do juventude, do que a valorização do seus “muros individuais” e viva para que os bens materiais. Obviamente rural e dos idosos, que são parte de algo que tenha um sentido maior, em que o dinheiro também é importan- um saber ancestral em extinção. sintonia com os seus valores. te, ainda assim acredito que adquirir Aprendemos todas as etiquetas Nem sempre é fácil conseguir o ali- experiências torna as pessoas mais fe- do uso da máscara e de lavagem nhamento entre valores e objectivos, lizes, do que adquirir bens materiais. das mãos, mas se calhar ainda não mas quando isso é conseguido há um Os bens materiais desgastam-se aprendemos a etiqueta do saber espropósito definido e tudo flui melhor, e deixam de ser novidade, as expe- tar (connosco próprios), do gerir a abrindo mais e melhores caminhos. riências vividas tornam-se parte da mudança e de nos renovarmos peEste tempo de resposta e combate memória e podem ser consideradas rante a adversidade. à COVID-19 também veio mostrar o bens culturais, como por exemplo Que as pessoas que nos desafiam e quão importante é o contacto com os viagens, experiências no mar, in- as situações que nos provocam desoutros e como o encontro/reencon- teracção com golfinhos, retiros na conforto sejam os nossos maiores tro é parte da nossa felicidade. Veio natureza ou piqueniques na serra. mestres nesta nova caminhada! l

ESPAÇO AGECAL •••

A cultura no pós 25 de Abril: Anos 90 e a Expo-98 (3) Jorge Queiroz

Sociólogo e gestor cultural, Sócio da AGECAL ‒ Associação de Gestores Culturais do Algarve

Nos anos 90 do século passado, final do segundo milénio, as políticas públicas para a cultura em Portugal registaram avanços, que foram no sentido de projectar o País no processo de internacionalização e sobretudo de “europeização”, após cinco séculos de expansão marítima e colonizações. Nesta estratégia, que deverá ser analisada com objectividade informativa e estatística, ocorreram iniciativas marcantes: a Europália 91 na Bélgica onde Portugal foi o País-tema, a Exposição Universal de Sevilha em 1992 com pavilhão próprio e grande número de iniciativas portuguesas, Lisboa 94 - Capital Europeia da Cultura, a Feira do Livro de Frankfurt de 1997 com a literatura portuguesa como tema central e a Expo 98, o grande acontecimento cultural do final do milénio que transformou física, económica e socialmente a zona oriental de Lisboa.

No plano político a década de 90 foi marcada por dois projectos, os governos de centro-direita de Cavaco Silva até 2005 e de centro-esquerda de António Guterres na segunda metade. Este reinstituiu o Ministério da Cultura com vários Institutos associados, deu continuidade a preocupações de descentralização cultural cujos resultados eram verificáveis na utilidade da rede de leitura pública. Tentou alargar-se esta experiencia a museus e cineteatros com a criação de Centros Regionais das Artes do Espectáculo/CRAE(s) em Viseu e Évora. De referir neste âmbito estratégico a criação em 1992 do Instituto Camões, definido como pessoa colectiva de direito público, com autonomia administrativa e patrimonial. Ficou sob tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros na orientação da política cultural externa. A principal vantagem da internacionalização no plano da gestão dos recursos culturais nacionais foi a passagem de um sistema organizativo semiamador e voluntarista para a concretização de objectivos definidos no tempo, planeamento

faseado e criação de equipa profissionalizadas, publicas e privadas. Importa referir que estas iniciativas no campo cultural corresponderam a sinergias diversas de afirmação política, mas também urbanísticas, tecnológicas, comerciais, mediáticas e de consumo, com o alargamento dos mercados e “criação de novos públicos”. As indústrias culturais, definidas como industrias que integram o trabalho cultural e artístico no produto transacionado, participaram nas estratégias para afirmação cultura-espectáculo. Do ponto de vista laboral estas I.C. privilegiaram a precariedade e a sazonalidade, surgiram profissões “independentes” com formas de dependência e de assalariamento menos visíveis. Do ponto de vista ideológico procurava-se afirmar Portugal como “País Europeu”, moderno, aberto ao mundo, participante ativo nos desígnios da globalização, ao mesmo tempo que se ia construindo a “Marca Portugal ” para um turismo massificado. Algumas expressões artísticas nacionais surgiam como exportáveis, como o fado e alguma

arte contemporânea. O grande acontecimento cultural da década foi a Expo-98, de Lisboa. Esta Expo dedicada aos Oceanos, inseriu-se no conjunto de exposições universais iniciadas na segunda metade do século XIX, em Londres e Paris, com evidentes propósitos estratégicos de afirmação de uma “modernidade industrial” e anúncio da “nova era” acompanhada de movimentos artísticos modernistas na arquitectura e nas artes. Se do ponto de vista da identidade nacional se procurou na Expo-98 celebrar os 500 anos da chegada da armada de Vasco da Gama à Índia em 1498, foi igualmente introduzido um olhar para a problemática dos oceanos, nomeadamente a necessidade da gestão internacionalmente partilhada e sustentável dos recursos marinhos. A Expo recebeu 11 milhões de visitantes, 82% nacionais e 18% de estrangeiros, destes quase metade provenientes de Espanha. Portugal no extremo ocidental da Europa mostrava o seu posicionamento periférico, com menor facilidade de acessos internacionais resultante de

uma única fronteira terrestre com um único País e uma extensa frente litoral atlântica. A requalificação da zona oriental de Lisboa foi a maior intervenção urbanística desde o terramoto de 1755 com mais de 300 hectares, foram construídas a segunda ponte para travessia do Tejo, a ponte Vasco da Gama, o Oceanário, pavilhão Atlântico, pavilhão da Ciência, gare do Oriente,.. Aspecto relevante surgido na década de 90 foi o papel do Poder Local na democratização cultural do País, contrariando as tradicionais macrocefalias de Lisboa e Porto, surgiram em muitas cidades e vilas equipamentos culturais, construídos de raiz ou a partir da reabilitação de edifícios antigos, foram criados serviços municipais e milhares de empregos permanentes em bibliotecas, arquivos, museus, teatros, centros de ciência, estações arqueológicas,… Depois do Estado Novo, da Revolução de Abril, foram os anos de estruturação de políticas publicas para a cultura, da emergência das indústrias culturais e do mercado das artes. l


10 de julho de 2020

CULTURA • SUL

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ESPAÇO ALFA •••

As cidades, a arquitetura e os arquitetos fotos d.r.

Teresa Correia

Arquiteta / urbanista arq.teresa.correia@gmail.com

As cidades como motor de desenvolvimento As cidades são hoje uma forte concentração de pessoas e de serviços que geram motores de desenvolvimento enormes. Por outro lado, os países e as cidades, competem entre si pela sua capacidade de atratividade de pessoas e bens, e de geração de conhecimento e inovação. Com a pandemia, percebeu-se também que as grandes cidades possuem um maior risco, e que a libertação de áreas de espaço público, assim como espaços verdes, são da maior importância para a salubridade e para a saúde pública. Qual o papel da arquitetura num desenvolvimento de uma cidade, num contexto de pós-covid? Desde logo, na criação de respostas sociais tanto de equipamentos hospitalares em dimensão e número suficiente, como de apoio aos idosos, questão que no nosso país parece ter ficado esquecida. Embora se possa considerar que estas opções não dizem respeito à arquitetura, esta poderia sempre dar o seu contributo. Mesmo nas catástrofes, o arquiteto bem formado está preparado para pensar em soluções que criam respostas, mesmo que provisórias. A verdade é que não se ouviu falar nessa possível colaboração ou intervenção da parte do arquiteto, em circunstâncias anormais.

Nesta pandemia, nem todos estávamos nas mesmas condições para estar confinados em casa •

As cidades são formadas em grande parte também por um tecido habitacional que permite a sua vivência. Nesta pandemia, foi evidente que nem todos estávamos nas mesmas condições para estar confinados em casa. Quais as respostas que o Planeamento e a Arquitetura poderá dar a esta questão? Criar modelos mais adaptativos e flexíveis? Promover protótipos de habitação social promovidos pelas autarquias, mas em espaços mais abertos, fora dos guetos? Porém, não existiu uma palavra do poder político para envolver os arquitetos até hoje.

A arquitetura, os arquitetos e o debate ausente

A arquitetura nem sempre é realizada por arquitetos, mas parece que existe já uma aceitação tão resignada por parte da sociedade, que nem os próprios arquitetos se revoltam. Após uma disputa das eleições para a Ordem dos Arquitetos parece que o debate não chegou a acontecer e tudo se virou sobretudo para o arquiteto premiado que irá constituir “uma salvação sebastianista” sobre um marasmo de toda uma classe. De facto, o arquiteto de renome internacional tem um valor inquestionável e até diria heróico, no entanto, será que a defesa dos pequenos arquitetos de luta diária será conseguida debaixo desta enorme manta de fama? Isto porque no passado e nos dias de hoje, os mais notáveis são cada vez ainda mais notáveis, tanto pela sua exposição pública, como pelo acesso aos grandes projetos e às adjudicações, e nem por isso alteram as regras do jogo dos mais pequenos, dos estagiários dos granMesmo nas catástrofes, o arquiteto bem formado está preparado des gabinetes, em função para pensar em soluções que criam respostas • do profissional liberal que

trabalha sozinho ou com pequenos grupos. Assim, coloca-se a questão, temos a arquitetura do dia-a-dia cada vez mais deprimida, e esmagada nas leis opressivas do nosso país, e por outro lado temos os ícones que, até de certo modo, são imagens públicas intocáveis, que usufruem até de alguma liberdade concetual. Qual o papel de uma Ordem dos Arquitetos defender apenas a arquitetura como bem público, ou também e sobretudo defender os profissionais desta arquitetura? Será de referir que uma questão não ne-

ga a outra, mas em termos políticos, parece que sim. No Algarve, por sua vez, ganhou a lista da continuidade, aquela que nunca esteve presente no passado, mas que passará a estar a partir de agora, esperando que haja a mudança necessária. Os arquitetos são como missionários que ambicionam ser felizes com os projetos que conseguem realizar dando de si, para um cliente, privado ou público, mas tantas vezes, esmagados pela competitividade e pelo mercado desregulado. Haja esperança que um dia, esta circunstância se altere. l

Os arquitetos são como missionários que ambicionam ser felizes com os projetos que conseguem realizar •


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Cultura.Sul 140 10JUL2020 by POSTAL do ALGARVE - Issuu