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Cultura.Sul 136 6MAR2020

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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o

MARÇO 2020 n.º 136 www.issuu.com/postaldoalgarve

6.673 EXEMPLARES

MISSÃO CULTURA •••

Trabalhar para a Educação e para a Cultura nas Ruínas Romanas de Milreu - I

Ficha técnica

foto d.r.

As Ruínas de Milreu podem envolver a aprendizagem em torno de várias disciplinas de forma criativa e dinâmica •

As Ruínas Romanas de Milreu estão classificadas como Monumento Nacional desde 1910. Situadas no concelho de Faro e junto da vila de Estoi, têm aptidão para serem dinamizadas junto da comunidade. É que um sítio arqueológico pode envolver a aprendizagem em torno de várias disciplinas de forma criativa e dinâmica. Esta abordagem tem vindo a ser explorada através da colaboração com várias associações e entidades regionais desde 2015, através de um pequeno e eficaz financiamento da DRC Algarve – o DiVaM. Os principais beneficiados deste programa são os alunos da Escola de Estoi. A vontade e a vitalidade das Professoras Cidália Teixeira, Conceição Graça, Isabel Trindade e a proximidade física da Escola ao Monumento (o seu percurso é a pé, dispensando a reserva de autocarros escolares do município) foram indispensáveis a esta frutuosa colaboração. A exploração dos provérbios, por exemplo, desenvolve a reflexão em torno de temas, como o meio ambiente, as relações entre pessoas e gerações, a justiça e a moral. Os provérbios foram o mote para contar

histórias com sombras chinesas, com materiais reutilizados, com marionetas, com representações de grupo, sempre com a presença da música. Manifestações vivas da experiência das comunidades, os provérbios viajam, tendo Fernão de Magalhães conduzido os alunos numa viagem em diferentes línguas e até Tavira. Ali, participaram no Congresso Internacional de Paremiologia, conviveram com os especialistas, no simpático hotel Vila Galé, tendo como anfitriões os Doutores Rui e Marinela Soares. Milreu recebeu também uma autêntica invasão de cientistas da Universidade do Algarve, que mostraram o quanto se pode ensinar, brincando nas ruínas arqueológicas! Desde aprender como se vivia sem frigorífico na época romana, identificar as espécies de peixes da costa algarvia, o uso das plantas na saúde, estética ou bem-estar, tomar refeições nos confortáveis triclinia, explorar a caligrafia romana, as rochas do Algarve, as técnicas de construção e medição no mundo romano, e até um marco miliário levaram para casa. Sem esquecer os

simpáticos campus ludi à sombra da amendoeira, onde os mais pequenos brincavam “à romana”. Tudo foi dinamizado pela fantástica equipa do Centro de Ciência Viva do Algarve. Os utentes da ASMAL também usufruíram deste espaço, expondo as suas experiências artísticas em pintura, tapeçaria e barro, de exploração do património cultural algarvio, acarinhados pelas vozes do grupo “Cleftomania”, ou cozinhando e saboreando receitas da Antiguidade. O grupo de teatro da Escola Pinheiro e Rosa realçou a vocação cénica de Milreu, tendo sido recriadas interessantes peças, cujos temas cruzam a antiguidade clássica com a actualidade, através da dedicada orientação dos Professores Ana Oliveira e António Gambóias. Em Milreu, ouviram-se maravilhosos concertos de abertura e encerramento do ano letivo (com a Academia de Música de Lagos), contaram-se belíssimas e divertidas histórias, modelaram-se peças de barro, fizeram-se os dias de Arqueologia para todos, as oficinas de cinema e leitura (com o Cineclube de Faro) e também o ciclo de conferên-

cias “Amatores in Situ” (associação Civis, com UAlg e Associação Portuguesa de Estudos Clássicos). Muito mais há para contar sobre esta aventura de divulgar Milreu. Este artigo surgiu a propósito de uma reflexão sobre o trabalho desenvolvido, suscitando a recordação de todos os que têm acarinhado este monumento (por isso foi acrescentado “I” ao título). Finalmente Milreu vê a sua equipa reforçada (de 4 para 6 elementos), originando um novo desafio: reforçar os laços criados com entidades e associações, acolher projetos

Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Henrique Dias Freire Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes visuais: Saúl Neves de Jesus • Espaço ALFA: Raúl Grade |Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ao Património: Isabel Soares • Filosofia dia-a-dia: Maria João Neves • Letras e literatura: Paulo Serra • Missão Cultura: Direção Regional de Cultura do Algarve • Reflexões sobre urbanismo: Teresa Correia • Colaboradores desta edição: Cristina Tété Garcia Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com online em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/ postaldoalgarve FB: www.facebook.com/ postaldoalgarve/ Tiragem: 6.673 exemplares

inovadores e pôr em prática com as escolas um programa de atividades e oficinas pedagógicas. Um óptimo 2020 para todos! l Cristina Tété Garcia (Coordenadora das Ruínas Romanas de Milreu – DRC Algarve)

Milreu recebeu concertos de abertura e encerramento do ano letivo •


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LETRAS E LEITURAS •••

A Educação dos Gafanhotos, de David Machado Romance trata a ténue relação entre a literatura e a vida

fotos d.r.

Paulo Serra

Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

David Machado nasceu em Lisboa em 1978 e a sua obra é publicada pela Dom Quixote. O seu livro Índice Médio da Felicidade foi adaptado ao cinema por Joaquim Leitão e vencedor do Prémio da União Europeia para a Literatura. Escreve ainda literatura infanto-juvenil, com obras de destaque como Não te afastes ou O Tubarão na Banheira. Depois de Debaixo da Pele, aqui recenseado em 2017, David Machado aventura-se num romance sobre dois jovens, David e Marco, que no Verão de 2001 estão numa road trip pelos Estados Unidos da América. Apesar do narrador na primeira pessoa, o leitor pode sempre levar o seu devido tempo a querer

Os livros de David Machado estão publicados em mais de uma dezena de línguas •

associar o nome da personagem ao do autor. Estes dois jovens irreverentes e recém-licenciados, que se envolvem em situações por vezes controversas, decidem suspender com esta viagem o desfecho que é convencionalmente esperado ao terminar os seus cursos. A «viagem depois da viagem» é uma espécie de horizonte sem metas, em que se alimenta o sonho de viver sem prisões nem regras. A única certeza que norteia David e Marco é serem livres e não cair na armadilha de uma vida normal, feita de rotinas e hábitos: «Pouco tempo antes, eu também fora assim, orientando-me

pelo mesmo guião aborrecido pelo qual toda a gente regia a sua vida, sem questionar nada, uma normalidade convencionada, um logro cómodo para todos, porque tudo o que era diferente exigia um esforço que preferíamos evitar. Olhávamos o mundo através da mesma lente baça. Todos os nossos gestos eram repetidos – embora não soubéssemos explicar porquê. Éramos réplicas perfeitas uns dos outros, ovelhas num rebanho autónomo, sem necessidade de pastor, seguindo-se umas às outras. Eu tinha vinte e três anos: estava na altura de deixar o rebanho.» (p. 10)

Estes dois gafanhotos, aos saltos entre uma cidade e outra – até que subitamente são de tal forma abanados pela realidade que percebem qual é o seu inevitável destino –, transportam consigo muito pouco além dos seus cadernos que servem de diário da viagem. Pois essa é outra certeza a que se agarram: querem ser escritores. Os eventos que lhes ocorrem podem assim ser definidos de duas formas – “isto é muito Faulkner” ou “isto é Hemingway puro”: «Enquanto Hemingway descreve sem grande detalhe os acontecimentos – deixando espaço para o leitor interpretar aquilo que as personagens estão a sentir e a pensar -, Faulkner narra sem freios e de forma exaustiva o caos interior de um ser humano – oferecendo ao leitor todos os ângulos e leituras possíveis. De certa forma, podemos considerá-los pais de toda a literatura que se lhes sucedeu, pois, de maneira mais ou menos consciente, qualquer escritor acaba por escolher uma destas duas abordagens.» (p. 21) A Educação dos Gafanhotos é ainda isso – um romance que trata a ténue relação entre a literatura e a vida e qual delas pode ser mais verosímil. De como a literatura só interessa quando bebe da vida, apesar de esta por vezes superar qualquer plausibilidade e lógica. De como um escritor pode até ter muito mau génio e detestar pessoas, apesar de escrever para elas – e é sintomático que o jovem David acabe por ser esmurrado algumas vezes em virtude das suas diatribes verbais, pois cospe a verdade como um veneno e nem todos reagem bem quando se vêem confrontados com as mentiras que contam a si próprios. De como alguém sente necessidade de escapar à sua verdade perante os outros e de se redefinir na mentira mediante as mais rocambolescas ficções. E de como a literatura pode ser o derradeiro escape para alcançar a liberdade e reescrever a sua própria história: «Escrever era a minha forma de rejeitar qualquer definição que o mundo me quisesse impingir. Através da literatura, eu mesmo me definiria» (p. 145). E de como a memória pode trair um escritor, ao ponto de as personagens e situações que narra conforme aconteceram parecerem tão inverosímeis que o próprio narrador suspeita se terá realmente acontecido assim ou se agora o imagina. l

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História da Violência, de Édouard Louis Pode dizer-se de um livro que é claustrofóbico? O livro História da Violência, publicado pela Elsinore, é uma narrativa de pendor autobiográfico em que Édouard Louis narra a violência de que foi vítima. Mas conforme a narrativa se reparte em múltiplas vozes – com a irmã de Édouard a contar ao marido a sua versão da história pontuada pelos seus apontamentos sobre o que pensa e sente em relação ao irmão, os polícias que tomam nota da queixa com o seu indisfarçado preconceito, os próprios apartes de Édouard que surgem aqui e ali entre parênteses, como se não fosse ele o narrador e autor, mas sim alguém que ao coligir uma série de fragmentos que compõem a versão oficial dos factos não consegue impedir de deixar os seus comentários – percebemos que este relato não é uma confissão mas quase uma carta de amor. Édouard foi, lamentavelmente, uma vítima. Um jovem homossexual que foi abordado na rua por Reda, um estrangeiro sedutor que o ilude. Esta é a sua história de como uma noite de um amor fugaz entre dois homens estranhos se transforma num pesadelo, de uma noite de amor consentido, pelo menos no início, cujo acto se repete por várias vezes, se converte numa violação e numa violentação que deixa marcas. Mas, e é aí que o livro oprime, Édouard também se apaixona pelo seu agressor, nessa noite em que fizeram amor – é mesmo assim que o acto sexual é designado. Lê-se na contracapa do livro: «A história de Édouard é difícil, íntima e dolorosa; tanto que, sem espaço para devaneios da imaginação, lhe resta apenas o relato agitado, por vezes, implacável, daquilo que a realidade um dia lhe trouxe». Mas na verdade Édouard ilude-se. Ao ponto de inventar pedaços da história do homem que o violentou. De criar histórias que insere na infância do homem que lhe deu atenção naquele dia e que o fez sentir-se especial. Édouard narra de forma honesta e crua, como uma confissão pessoal A narrativa de Édouard é feita de forma honesta e crua, como uma confissão pessoal. «Nessa noite, não percebia como é que a minha história podia já não me dizer respeito (isto é, que eu estava excluído da minha própria história e que, simultaneamente, estava incluído nela à força, uma vez que me obrigavam a falar ininterruptamente dela, isto é, que a inclusão era a condição da exclusão, que ambas eram uma coisa só (...), a história da qual já não tinha o direito de sair).» (p. 41) Mas da mesma forma que a história

vida.» (p. 71) Édouard Louis nasceu em Hallencourt, França, em 1992. Estudou História na Universidade de Picardia e Sociologia na Escola Normal Superior de Paris. Venceu o Prémio Goncourt para Primeiro Romance com a publicação do seu livro de estreia, Acabar com Eddy Bellegueule (Fumo Editora, 2014 – actualmente esgotado), onde se unem o pendor autobiográfico confessional e a força do romance moderno. Uma nota acerca da tradução ou revisão do livro: não deixa de ser estranho que a obra de estreia do autor seja mencionada neste romance (aparentemente escrita um mês antes), referindo-se o título original (pág. 82) sem qualquer alusão ao facto de haver edição do mesmo em Portugal. l

fotos d.r.

Na sua obra, Édouard Louis narra a violência de que foi vítima •

de Édouard rapidamente lhe escapa, o relato do que lhe sucedeu converte-se num retrato da actualidade, em que explora o ódio racial e o mal-estar da França e da Europa de hoje. Porque Reda é cabila (argelino)... «Mataram-no, foi uma agressão, um árabe estrangulou-o, foi estrangulado por um filho da puta de um árabe» (sempre a mesma tendência para chamar árabe a tudo o que se situa para lá da Espanha, incluindo os portugueses, os gregos e até os espanhóis)» (p. 134) Releve-se a passagem em que o autor-narrador afirma a sua necessidade de uma clivagem social, de se demarcar da família (o que lembra Regresso a Reims, de Didier Eribon). «Reda quis saber porque é que, com pouco mais de vinte anos, tinha deixado a família e sobretudo porque é que não passava o Natal

com ela. (...) Respondi-lhe que para mim os estudos tinham sido para mim mais uma consequência da minha fuga. Que primeiro tinha fugido. Os estudos, a ideia de estudar tinha surgido muito mais tarde, quando compreendi que esse seria o único caminho possível, ou pelo menos o único caminho que me permitiria afastar-me não só geograficamente, mas também simbolicamente, socialmente, e, portanto, totalmente do meu passado. Podia tornar-me operário, como o meu irmão, numa fábrica a trezentos quilómetros de casa dos meus pais e nunca mais os ver; essa fuga seria parcial. A presença dos meus tios, dos meus irmãos ficaria em mim: o mesmo vocabulário, as mesmas expressões, os mesmos hábitos alimentares e de vestuário, os mesmos interesses e mais ou menos o mesmo modo de


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REFLEXÕES SOBRE URBANISMO •••

As cidades e as epidemias fotos d.r.

Teresa Correia

Arquitecta / urbanista arq.teresa.correia@gmail.com

A circulação de pessoas e bens como base da Economia A circulação de pessoas e bens tem sido a base da criação de um mercado único e concorrencial na qual se procura o aumento de mercados por blocos ao nível mundial, tendencialmente em crescimento. A existência de um vírus que gera uma pandemia ao nível global é agora uma ameaça brutal e ninguém está preparado para tal. As economias serão altamente atingidas com a expansão de uma doença fortemente contagiosa, criando uma suspensão de viagens turísticas e de negócios, entre outras. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que o risco global é "alto". Nomeado oficialmente de 2019-nCoV, o novo coronavírus causa uma infeção respiratória aguda, sendo de grande contágio. O cerco de cidades inteiras em quarenta e a ponderação quase sem nexo de encerramento de fronteiras europeias é um sinal de pânico geral que revela onde poderemos chegar face às dificuldades em saber lidar com a situação. As estações de comboios, assim como os transportes fluviais e aéreos são aqueles que mais facilmente se poderão controlar pelas suas interfaces. Já no que diz respeito aos transportes rodoviários será

A existência de um vírus que gera uma pandemia ao nível global é uma ameaça brutal •

de muito maior dificuldade, embora possível, como se pode observar pela cidade de Wuhan. As cidades e as emergências médicas Nos países mais atingidos, as decisões dos governantes vão no sentido

de isolar os espaços públicos, fechar escolas e suspender os eventos de impacte relevante, nomeadamente internacionais, como seja os desfiles de moda em Itália, por exemplo. Será sempre um congelamento na vida das pessoas, como se estivessem em prisão domiciliária, como já alguém se referiu.

Nas nossas cidades, não se encontram os meios hospitalares adequados, logo desde o início, nem para a vivência normal, como é na região do Algarve. Outra questão é

colocação de recursos como “pontos” para lavagem de mãos, em equipamentos públicos, e por último uma coordenação entre os meios de segurança e saúde, ou seja, pugnar

O cerco de cidades inteiras em quarenta é um sinal de pânico geral •

As economias serão altamente atingidas com a expansão de uma doença fortemente contagiosa •

se existirão formas de controlar as entradas nos aeroportos, com medição de temperaturas ou outras, ou até por meio fluvial. Não parece existir uma reação rápida, embora possa estar previsto nos órgãos governamentais. Face à existência iminente de uma retração económica, decorrente de um refreamento dos fluxos turísticos, numa região tão dependente como o Algarve, deste sector, quais as reações que os administradores públicos das cidades podem fazer? Higienização forte, divulgação de medidas a ter em conta nas empresas, e nos serviços públicos,

para que haja infraestruturas preparadas com tempo para aquilo que é certo que vem. É preciso ação concertada, mas rápida e eficaz, no controlo e não apenas confiar na sorte. As ações de planeamento não são apenas de urbanismo, mas também de emergência, com planos de contingência que deverão ser pensados e revistos nestes momentos. É bastante óbvio, que essa deverá ser uma prioridade para os governantes, a prevenção, e o estudo do problema aplicado à sua região, em nome da defesa dos interesses da população. l


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ESPAÇO AGECAL •••

Fazer quinhentos anos “Nada nos velhos portos da expansão espanhola, se assemelha à estranha fisionomia do remate das casas de Tavira. Por um lado eles não pertencem ao património das tradições muçulmanas tão bem conservado nas cidades espanholas do sul. Por outro lado, a navegação com as Índias Ocidentais, sem tocar directamente a China ou a India, não podia ter trazido para os portos da Metrópole elementos semelhantes aos que se encontram nos de Portugal”.

foto d.r.

Orlando Ribeiro, in “Geografia e Civilização temas portugueses” Fazer quinhentos anos não é uma efeméride, é memória social, marítima, económica, cultural, militar, urbanística, arquitectónica, artística, das ciências,… Quinhentos anos são conhecimentos indispensáveis nos dias que vivemos, integram milhares de informações, documentos guardados em arquivos, à espera de quem os leia e analise, exercícios indispensáveis para a compreensão de um País antigo inserido no mundo e a actualidade. Sem uma elite culta a dirigir os destinos do País nesses dois séculos nada de relevante teria sido possível nos séculos XV e XVI, porque o poder do armamento e dinheiro, ontem como hoje, não bastam. Foram necessários sábios, matemáticos, cartógrafos, astrónomos, engenheiros construtores e carpinteiros dos navios, arquitectos e mestres pedreiros, marinheiros que eram também pescadores,… As viagens dos portugueses pelo mundo foram criação de uma economia mercantil internacional que ajudou à edificação do Estado Moderno, contributo de várias gerações, de monarcas da primeira e segunda dinastias, de D. Dinis a D.João II, com

Tavira celebra este ano quinhentos anos de elevação a cidade •

envolvimento de muitas cidades portuguesas, Lisboa, Porto, Évora, Setúbal, Tavira, Lagos e outras… Tavira foi, como todos os autores o referem, de Frei João de São José a Joaquim Romero de Magalhães, a “Principal” do Reino do Algarve nos séculos XV e XVI, mas o mistério é a quase ausência de referências a esta cidade nas várias Histórias de Portugal. As explicações são várias e não cabem neste texto. Portugal transformou-se no século XV no “Portugal de aquém e de além-mar em África” pela acção militar e mercantil das gentes de Afonso V “O Africano”, homem de cultura

guerreira e temperamento instável, pouco dado a repousos de corte, que em Tavira e no Algarve esteve por várias vezes nas suas idas e vindas ao norte África… Não foi por acaso que neste período esplendoroso se projectou no mundo a cultura, as ciências e as artes portuguesas, que herdámos as obras de GiI Vicente, João de Barros, Bernardim Ribeiro, Damião de Góis, André de Resende, Sá de Miranda, Luis de Camões, Pedro Nunes, Garcia de Resende, Álvaro Pires, Garcia da Orta, Diogo de Teive, Fernão Mendes Pinto, Diogo Boitaca, Francisco Arruda, Jorge Afonso, Grão Vasco,

Francisco de Holanda,… Seria possível conceber hoje Lisboa sem o Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém? E Tavira sem as marcas desses séculos nos seus conventos e igrejas, no urbanismo e nos telhados de tesouro, nos seus cidadãos,… O perfil de cidade cultural ficou para sempre, Orlando Ribeiro a descreveu com o olhar de um geógrafo que compreendia Portugal e também o fotografava. Curiosamente, na mesma data e um ano depois, Fernão de Magalhães chegava às Filipinas a 16 de Março de 1521. Um ano antes D. Manuel I decidiu escrever a Tavira a carta honorífica,

justificando-a pelos méritos da então vila algarvia, que ele próprio certamente bem conheceu quando em 1508 veio à urbe para organizar a maior concentração militar de que havia memória no sul do País. Fazer quinhentos anos, herdar cidades como Tavira, é uma responsabilidade que obriga à compreensão e preservação de um País que várias gerações construíram ao longo de quase mil anos. Portugal se quiser ter futuro tem que ter o seu passado como bússola. l Jorge Queiroz (Sociólogo e sócio da AGECAL) pub


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MARCA D'ÁGUA •••

Storytelling: o poder da palavra e a arte de contar Maria Luísa Francisco Investigadora na área da Sociologia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa luisa.algarve@gmail.com

Se o leão não contar a sua história, o caçador o fará. (Provérbio africano) Storytelling é uma palavra inglesa que está relacionada com uma narrativa e com a capacidade de contar histórias com impacto. É difícil indicar a data precisa da criação do Storytelling, mas é sabido que tem milhares de anos, já que contar histórias sempre foi uma característica do ser humano, mesmo

antes de existir a linguagem escrita. O especialista em Storytelling, James McSill, refere que “os nossos ancestrais já tinham o hábito, quando, ao fim de cada dia, se reuniam à volta das fogueiras e contavam as suas fantásticas caçadas e vitórias. Já naqueles tempos, essa era a maneira de legitimar uma liderança por meio da referência.” O Storytelling é uma emoção viva com base na memória e no fluir do saber estar e do saber dizer. E hoje em dia pode ser usado de muitas formas: como estratégia de marketing, para motivar os colaboradores internos de uma empresa, para ajudar no lançamento de um produto, numa campanha de publicidade, numa campanha política, na área motivacional e transformacional, etc… Actualmente, o Storytelling está presente em várias áreas de expressão, como o cinema, televisão, literatura, teatro e até mesmo

pub

NOTARIADO PORTUGUÊS JOAQUIM AUGUSTO LUCAS DA SILVA NOTÁRIO EM TAVIRA

Certifico: Que no dia 20-12-2019, a folhas 62, do livro de notas para escrituras diversas número 205-A, deste Cartório, foi lavrada uma escritura de JUSTIFICAÇÃO, na qual MÁRIO AUGUSTO MONTEIRO, NIF 177.620.382, natural da freguesia de Duas Igrejas, concelho de Miranda do Douro e mulher MARIA JOAQUINA RODRIGUES, NIF 206.894.066, natural da freguesia de Cachopo, concelho de Tavira, casados sob o regime imperativo da separação de bens, residentes em 61, Rue de Bitche, 92400 Courbevoie, França, declararam, que, com exclusão de outrem, são donos e legítimos possuidores do prédio urbano, composto por edifício de um piso, tipo T-dois, destinado a habitação, sito em Mealha, freguesia de Cachopo, concelho de Tavira, a confrontar do norte com herd. de Maria Serafina, do sul com o próprio, do nascente com herd. de João Rodrigues e do poente com Manuel Lourenço, com a área de setenta e seis virgula dezasseis metros quadrados, inscrito na matriz sob o artigo 1.855. Que adquiriram o referido prédio por compra verbal e não titulada por escritura pública, feita em data imprecisa do ano de mil novecentos e cinquenta e cinco a Manuel Afonso Martins e mulher Maria da Encarnação, residentes que foram no referido sitio de Mealha, pelo que adquiriram os prédios por usucapião. Tavira, em 20 de Dezembro de 2019 A funcionária por delegação de poderes, Ana Margarida Silvestre Francisco – Inscrita na O.N. sob o n.º 87/03 Conta registada sob o nº. PAO 1920 Factura nº. 01910 (POSTAL do ALGARVE, nº 1240, 06 de Março de 2020)

videojogos. James McSill refere que “uma história adequadamente alinhada vai encantar, sem haver encantamento, não há vendas nos dias de hoje. Raramente compramos um produto ou serviço, compramos o sonho ou a esperança de que aquilo nos fará melhores”. Uma boa história é autêntica, criativa, apela aos sentidos, faz conexão emocional e pessoal, inspira acção e leva o público por novos caminhos de mudança e transformação. Faz parte do tempero do Storytelling um toque emocional. A emoção conquista, envolve e desperta e é nesse contexto que pode surgir a transformação. Algumas frases que anotei nas formações em Storytelling com James McSill e, no Algarve com Ângela Martins, foram: “o ser humano estabelece ligações interpessoais

através do acto de contar histórias e estas deixam uma representação de nós próprios nos outros”. E ainda: “o que nos define é o somatório das nossas histórias, por isso elas são um legado”. Uma história pode ser contada de improviso ou pode ser uma história retocada e trabalhada. Também pode ser usada no contexto da aprendizagem, sendo uma importante forma de transmissão de elementos culturais tal como regras e valores éticos. O Storytelling é uma aptidão que pode ser desenvolvida e algumas pessoas já têm uma aptidão inata. Desde criança que me lembro de contar histórias e divertir-me a recriá-las acrescentando a imitação de sotaques. Adaptava os diálogos entre os personagens para tornar as histórias mais divertidas, dando-lhes uma marca de algarviandade! Mais tarde apercebi-me, já enquanto professora, que era impor-

tante contar histórias impactantes e coerentes que ilustrassem os conteúdos de forma a tornar as matérias mais interessantes para os alunos. Há uma frase do pedagogo brasileiro Paulo Freire que diz que as matérias entram mais facilmente na cabeça quando passam pelo coração. James McSill, o maior especialista mundial em Storytelling, tem vários livros publicados, faz palestras e ministra cursos em todo o mundo. Tive a oportunidade de ter formação com ele e ter terminado no mês passado a Certificação Internacional em Storytelling. É uma ferramenta importante e útil para quem escreve e cria conteúdos, faz palestras e organiza eventos. Escolhendo e amando as palavras, numa simbiose narrativa, o Storytelling transmite uma mensagem, deixando o interlocutor emocionalmente atento à arte de contar que existe em si! l

Município de Alcoutim nomeado para os Portugal Trade Awards foto d.r.

O município de Alcoutim é um dos nomeados para o Portugal Trade Awards. O evento realizado pelo Jornal Publituris, que promove dois eventos para distinguir a excelência no Turismo: os Portugal Trade Awards e os Portugal Travel Awards. Esta iniciativa, única no seu

género em Portugal, teve a sua génese em 1969 sob o nome de “Os Melhores do Turismo em Portugal”. Este ano, estão mais de 90 nomeados a concurso em 16 categorias, sendo uma das categorias “Município”. Os nomeados foram escolhidos

pela equipa do Publituris e os vencedores serão eleitos por uma média ponderada entre os votos dos assinantes da newsletter do Publituris (40%) e dos votos do júri (60%). Na categoria encontram-se nomeados os Municípios de Alcoutim, Cascais, Leiria, Lis-

boa, Loulé, Porto e Viseu. A eleição online decorre até o próximo dia 10 de março, no site https://premios.publituris.pt/trade/2020/. Os vencedores serão conhecidos no próximo dia 17 de março, pelas 10:30, n' O Clube Monsanto Secret Spot, em Lisboa.


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FILOSOFIA DIA-A-DIA •••

O mal de superfície e o prazer de deslizar fotos d.r.

Maria João Neves Ph.D Consultora Filosófica

Nestas curtíssimas férias de Carnaval desafiaram-me para esquiar. Mais vale tarde do que nunca, pensei. Disponibilidade motora não me falta, arrojo também não, e a perspectiva de cair em neve fofa não me assusta... Já levantar-se de skis postos tem bastante que se lhe diga, mas isso não sabia eu quando aceitei o desafio. Tem algo de anti-natural este desporto: se baixamos o centro de gravidade, coisa que instintivamente se faz ao prever uma queda, a velocidade aumenta; trava-se, pelo menos no início, metendo os pés para dentro e abrindo os calcanhares; e, last but not least há que colocar o corpo direito e o peso à frente para se manter o controlo dos skis... É um constante dizer ao cérebro para reagir ao contrário! Quando por fim o descontrolo deu lugar a algum equilíbrio, comecei a sentir o prazer de deslizar. Bastava elevar os braços à frente e o corpo movia-se sem esforço, ligeiras inclinações proporcionavam curvas discretas. Com o olhar na brancura imensa da neve brilhante naquele sol que, dir-se-ia de verão, deixei-me escorregar com suavidade pela pista da montanha e então... Deslizei dentro de mim para a memória de um texto da filósofa Chantal Maillard, que encontrei em Málaga há 22 anos atrás, e que aqui traduzo: “O mal de super�ície e o prazer de deslizar Andar na superfície tem a sua arte, e a arte tem algo de dom, e algo também de perseverança e dedicação. Nem a todos nos é dado saber andar na superfície; inclusivamente, dir-se-ía que oferece mais dificuldades e, sem dúvida, maiores perigos que a descida às profundezas. Maiores dificuldades porque a seriedade é uma atitude natural ou anterior no desenvolvimento do indivíduo social. O natural, o prévio é identificar-se com as situações que se padecem, suportam ou vivem. A profundidade supõe a identificação, supõe implicar-se no vivido. A profundidade oferece-se naturalmente à pessoa séria. Mais perigo porque, se bem que a profundidade não admite dispersão, a superfície oferece todas as possíveis. Não há nela caminho traçado nem objectivo que brilhe como um ponto final ou uma chamada, senão uma extensa rede com um horizonte circular. Seguir é o lema da profundidade; perder-se

A filósofa Chantal Maillard considera que "deslizar requer uma certa delicadeza de corpo e de espírito e também o ter sabido escolher entre a justiça e a intimidade" •

é o lema da superfície. A arte de andar em superfície é o deslizar. Traçar com o aflorar da própria existência as conexões que tornarão o gesto irrepetível, ao mesmo tempo que irá criando novos núcleos: espaços para o aparecer. Deslizar requer uma certa delicadeza de corpo e de espírito e também o ter sabido escolher entre a justiça e a intimidade, como diz Jankélévitch a respeito do homem irónico. A intimidade, realmente, torna o corpo mais pesado, porque a intimidade é uma forma de posse, e toda a posse cria lastro obstaculizando o deslizar. A justiça, pelo contrário, permite o alargamento tanto dos sentimentos como do conhecimento. A justiça: o dividir da atenção, supõe a aproximação compreensiva às múltiplas formas

de que o outro se reveste. Mas à justiça deve acompanhá-la um tempo adequado. É necessário que o movimento esteja em correspondência com o tempo interior. Isto é válido tanto para a superfície como para a profundidade, só que, na superfície o tempo dilata-se, enquanto que na profundidade se concentra. Um dos males que aflige o indivíduo na nossa sociedade ocidental é o de querer que os seus actos se realizem a uma velocidade que não se adequa ao ritmo próprio. Um exemplo claro pode encontrar-se no campo do saber, concretamente, do saber filosófico. Como consequência do desenvolvimento dos sistemas de comunicação, o saber quantificou-se. Todo o investigador se sente obrigado a estar informado sobre o que se disse, nas mais

diversas partes do mundo, acerca dos múltiplos temas sobre os quais se pensa na actualidade. A acumulação de informação disponível ultrapassa a capacidade de qualquer indivíduo normal. Quem é que não tem, numa ou em várias esquinas do seu quarto ou escritório, algumas pilhas de livros à espera de vez? Então, recorre-se a armazenar toda a informação possível na memória dos computadores. Isto tem uma consequência muito sintomática: sabe-se sem compreender. O saber sem compreender já não é exclusivo daqueles que só têm capacidade para armazenar dados. É também daqueles que, tendo capacidade de compreensão e criatividade, se vêem, no entanto, forçados a renunciar a pô-las à prova devido à falta de tempo de amadurecimento, de

recolhimento, e de sossego que para tal se requer. Esta íntima falta de conexão com os universos referenciais do que se diz provoca o discurso estéril, típico da época actual, da palavra cockteil: agitação de significados cujos referentes imediatos são discursos alheios que, por sua vez, se estruturaram a partir de outros discursos, e assim sucessivamente; a experiência original do primeiro discurso referencial perde-se no tempo. Falar a partir da experiência pessoal tornou-se algo estranho, próprio apenas das pessoas 'fora do comum'. Quem, no entanto, está 'fora do comum' se a condição humana é o nosso chão comum? O mal de superfície aflige aqueles que não possuem a arte de deslizar. À força de permanecer na superfície sem saber como deslizar, alguns tomam consciência de que algo seu, pessoal e comum ao mesmo tempo, adoece. Pretendendo curar-se empreendem a busca dos antigos caminhos do profundo, mas dão-se conta, com horror, de que que já não servem. Alguns descobrem então que os seus movimentos são inadequados, que tão somente se trata de aprender uma nova forma de honradez: investigar as crenças em que estamos, tomar consciência do vazio, da página em branco, da possibilidade de ser: de se fazer. A agitação, então, cessou e ocorreu uma experiência fundamental. A partir daí, poderão começar a falar”. l Inscrições para o Café Filosófico: filosofiamjn@gmail.com


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Cultura.Sul 136 6MAR2020 by POSTAL do ALGARVE - Issuu