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CULTURA.SUL 135 7FEV2020

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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o

FEVEREIRO 2020 n.º 135 www.issuu.com/postaldoalgarve

6.919 EXEMPLARES

MISSÃO CULTURA •••

A alfarroba na identidade algarvia foto luísa melão/2019

Ficha técnica Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Henrique Dias Freire Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes visuais: Saúl Neves de Jesus • Espaço ALFA: Raúl Grade |Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ao Património: Isabel Soares • Filosofia dia-a-dia: Maria João Neves • Letras e literatura: Paulo Serra • Missão Cultura: Direção Regional de Cultura do Algarve • Reflexões sobre urbanismo: Teresa Correia • Colaboradores desta edição: Cristina Fé Santos Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com online em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/ postaldoalgarve FB: www.facebook.com/ postaldoalgarve/ Tiragem: 6.919 exemplares

A exposição de fotografia de Luísa Melão, "Alfarroba – memória(s) de uma vida", pode ser visitada no Museu Municipal de Faro até 11 de abril •

Num primeiro olhar, poderemos ser levados a questionar-nos em quê a alfarroba se cruza com Cultura. A paisagem cultural cruza Natureza com Cultura, uma intervenção do Homem que modifica o território de forma a que produza meios de subsistência para a sua sobrevivência. Em cada região, encontramos uma paisagem que lhe é tradicional, respondendo às condições climatéricas, aos solos e às formas de vida humana que se ajustam ao espaço que ocupam. O Homem não aceita o espaço natural, mas modifica-o, para que, em simbiose, ambos possam ter uma relação de sobrevivência e coexistência. Se este paradigma se ajusta à vida fora das grandes cidades, o certo é

que o espaço natural vai ficando cada vez mais ocupado pela civilização. No Algarve, deparamo-nos, assim, com uma alteração da paisagem tradicional, em que o pomar de sequeiro, tão tipicamente algarvio, se substitui por ocupação humana intensiva, com o crescimento das cidades e lugares, mas também com a ocupação de novas culturas que o espaço e os locais não reconhecem. Pensar na Alfarroba, como uma identidade cultural da região, leva-nos a diversos olhares. - um olhar enquanto aliada nas alterações climáticas: uma árvore que sobrevive com poucos recursos hídricos, adaptando-se naturalmente ao terreno que ocupa e com capacidade para captar e processar o dióxido de carbono da atmosfera;

- um olhar afetivo de memórias familiares, no espaço de família e na tradição de reunião para a apanha do seu fruto; - um olhar de subsistência, por ser ainda para muitos uma ajuda na economia familiar a que associamos, ainda, um olhar económico mais industrial, pois permite também desenvolver a economia da região como matéria-prima de uma indústria local, única a nível nacional, em que a alfarroba e os seus derivados têm um papel importante na exportação de produtos regionais, levando-a aos quatro cantos do Mundo; - um olhar gastronómico, pois a alfarroba deixou de ser um produto destinado exclusivamente à alimentação animal para fazer parte dos

produtos utilizados na alimentação humana, integrando a doçaria regional, num espaço que se relaciona com a Dieta Mediterrânica; - um olhar para as suas características intrínsecas, por exemplo, enquanto aglutinante utilizado nos gelados que tão bem nos sabem no calor do verão da região; - um olhar mais científico, com a investigação à volta da múltipla aplicação dos seus produtos e subprodutos, que nos chegam de outras paragens; - um olhar que nos transporta para a visão de que o natural e tradicional se transformam num produto turístico muito procurado, uma identidade única que nos distingue de outros lugares e que traz até nós muitos que querem ter a experiência

Algarve, para além do Sol e Mar; - Por fim, um olhar artístico, registado pelas imagens que muitos partilham nas redes sociais e que a exposição de fotografia de Luísa Melão «Alfarroba – memória(s) de uma vida» (a visitar no Museu Regional do Algarve, até 11 de abril) – uma parceria da DRCAlg com o Museu Municipal de Faro – pretende valorizar, registando um espaço industrial (desaparecido) que depende deste produto. Atenta ao mérito de se fazerem registos deste património imaterial, materializado de tantas formas, a DRCAlg promove a sua salvaguarda, estudo e valorização incentivando a sua divulgação.l Cristina Fé Santos (Direção Regional de Cultura do Algarve)


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LETRAS E LEITURAS •••

A Barata, de Ian McEwan fotos Helen cat

Paulo Serra

Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

«Naquela manhã, ao acordar, Jim Sams, esperto, mas algo leviano, depois de uma noite cheia de sonhos perturbadores, viu-se transformado numa criatura gigantesca.» (p. 11) Nas primeiras frases de A Barata, de Ian McEwan, publicado pela Gradiva, um texto breve como uma novela que parece responder aos mais recentes acontecimentos de um Reino Unido que decidiu apartar-se da União Europeia, é possível reconhecer o início de A Metamorfose, de Kafka. E, para que não restem dúvidas, Jim Sams, o nome do protagonista, faz eco do de Gregor Sams. Mas se a obra de Kafka se caracteriza pela alegoria que faz uso do fantástico, em A Barata impera uma sátira em que tudo é inversão, numa espécie de parábola que pretende ilustrar co-

Ian McEwan, através de A Barata, pretende ilustrar como o mundo está de pernas para o ar •

mo o mundo está de pernas para o ar – um pouco como Jim Sams se sente quando acorda, deitado de costas durante um bom tempo, enquanto contempla horrorizado os únicos quatro membros que lhe restam e sente saudades das suas perninhas castanhas. Conforme se vai familiarizando com a sua nova e repugnante aparência humana, sempre a partir da sua perspectiva de barata (capaz de lembrar ainda o gosto das moscas varejeiras), Jim Sams vai recordando fragmentos daquela que é a causa, a missão, que o trouxe do mundo dos insectos e, além dele, outros mais, com que o primeiro-ministro se vai cruzando e que consegue reconhecer de forma algo instintiva. «Foi durante esses segundos, enquanto fitava o olhar brando de Trevor Gott, o chanceler do ducado de Lancaster, depois o ministro da Administração Interna, o procurador-geral, o líder da bancada, o ministro dos Transportes, o ministro sem pasta, que, num momento surpreendente de reconhecimento instantâneo, uma alegria inusitada, transformadora, transcendente, percorreu todo o seu corpo, passando pelo coração e descendo pela espinha. (...) Praticamente todos os membros do seu Conselho de Minis-

tros partilhavam as suas convicções. Mas, muito mais importante do que isso, e só nesse momento o soubera, partilhavam as suas origens.» (p. 30) O que estes insectos recentemente convertidos em políticos, de modo a cumprir uma missão em nome do povo, procuram decidir não é o Brexit, mas sim o florescimento de uma economia regressista e que deve ser implementada já no dia 25 de Dezembro, dia em que o comércio está fechado. O autor detém-se com algum cuidado na teoria do regressismo (a ideia não é totalmente nova), procurando explicá-la desde as suas origens, sendo que este consiste na inversão do fluxo do dinheiro. Em suma, a economia será estimulada com o cunho de mais moeda para que as lojas possam pagar aos seus clientes, e os clientes possam pagar pelos seus empregos, da mesma forma que os funcionários pagam um salário para que lhes seja permitido trabalhar, e quanto mais investirem em formação melhor, pois permitir-lhe-á encontrar um trabalho mais dispendioso, pelo que mais compras terá de fazer para o pagar. A lei passa portanto a proibir a acumulação de poupanças, pois o dinheiro parado vence elevadas taxas de juro negativas, o que o reduzirá a nada, obrigando portanto

as pessoas a investirem o seu tempo em lojas onde são generosamente compensadas por todos os artigos que conseguirem levar a preço de retalho. A certa altura a chanceler alemã – que tal como o presidente francês (Sylvan Larousse) ou o presidente americano (Archie Tupper) também passa por esta sátira – pergunta a James Sams «Warum?» (Porquê?), ao que a única resposta possível é «porque sim» (p. 97). Na narrativa de Ian McEwan esta tese de inversão do que é a ordem natural das coisas afigura-se como a verdadeira crítica a um país que está empenhado em se destruir, vogando contra a corrente mas determinado a servir o seu povo. O livro parece perder um pouco da sua irreverência e ímpeto iniciais, mas a ironia cáustica de Ian McEwan permanece incisiva numa história que se quer com final feliz: «Agora, a Grã-Bretanha estava entregue a si própria. O povo tinha falado. A genialidade do líder do nosso partido permitira o cumprimento do desejo do povo. O destino do povo estava nas mãos do povo. O regressismo tinha sido cumprido! Sem mais hesitações nem demoras! A Grã-Bretanha estava sozinha!» (p. 106). l

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Frankissstein, de Jeanette Winterson Mesmo quando iniciamos a leitura de um livro em branco (leia-se in tabula rasa), como normalmente opto por fazer, há ainda assim uma certa expectativa subjacente, um horizonte que criamos mais ou menos involuntariamente e talvez até de modo inconsciente. Pelo título apenas presumi que se tratasse de um romance biográfico que desse conta do processo de escrita de Frankenstein, um dos livros que mais me marcou na adolescência. A narrativa inicia justamente com um cenário idilíco e uma prosa lírica, quando Mary Shelley caminha nua nas margens do Lago de Genebra em 1816. Contudo, no capítulo seguinte, num Reino Unido pós-Brexit, encontramos Ry Shelley, um médico, numa espécie de convenção ou feira de robótica, que pretende estudar de que forma os robôs afectarão a saúde mental e física dos humanos. Ao longo do livro, as duas histórias alternam, e as personagens de uma época encarnam noutra. Este romance pretende romper com as convenções, ao mesmo tempo que intenta uma crítica mordaz, divertida, ao limiar da realidade que conhecemos, num mundo que se aproxima cada vez mais do imprevisível. Victor Stein (que partilha o nome do médico do clássico de Mary Shelley), é um investigador da Inteligência Artificial; Ry Shelly, outrora mulher, é um médico transgénero, que fornece partes de corpos humanos a Victor, com quem se envolve numa relação amorosa e sexual que não se pretende classificar; Ron Lord, um empresário que tem em mente criar uma inovadora gama de sex dolls; Polly D, uma jornalista em busca de um furo; e Claire, uma cristã evangélica que consegue ver no trabalho de Victor algo de religioso.

muito a remover, e as hormonas já me tinham alterado o peito. Gosto do meu peito como o tenho agora: forte, suave, plano. Uso o cabelo puxado para trás num rabo-de-cavalo, como um poeta do século XVIII. Quando me olho ao espelho, vejo alguém que reconheço. Foi por isso que escolhi não fazer a cirurgia ge-

É muito particularmente em Ry que parece recair a simpatia da autora, um transgénero que pode aliás ser tomando como transhumano: «Não sou muito alto, com 1,72 metros. A minha constituição é magra. Tenho ancas estreitas e pernas compridas. Quando fiz a mastectomia, não havia

nital. Sou aquilo que sou, mas aquilo que sou não é uma só coisa, um só género. Vivo com a duplicidade.» (p. 84) Jeanette Winterson entretece neste livro diversas questões actuais, cada uma por si só suficientemente problemática e passível de

tarde para outras opções.» (p. 232) Contudo, um leitor atento consegue perceber que a narrativa se contradiz, e daí a sua complexidade ou não fosse este livro também uma paródia, pois noutra passagem Victor proclama, numa declaração de amor a Ry, que «Os seres humanos evoluíram. Estão a evoluir. A única diferença, aqui, é que estamos a pensar e a desenhar uma parte da nossa própria evolução. Deixámos de esperar pela Mãe Natureza. Temos todos de crescer. Não é a sobrevivência do mais apto – é a sobrevivência do mais esperto. Nós somos os mais espertos. Nenhuma outra espécie é capaz de interferir com o seu destino.» (p. 140) Voltando à história de amor entre Victor e Ry, uma pequena nota sobre a tradução do livro. Intitulado, no original, Frankissstein: A Love Story, a Elsinore optou por simplesmente suprimir o subtítulo. É certo que este pouco parece acrescentar, mas se olharmos o grafismo do título, quer no original, quer na capa da tradução portuguesa, com o jogo de cores, percebemos que este contém também um jogo de palavras, pois podemos separá-lo em 3 palavras: Frank kiss Stein. l

fotos d.r.

Jeanette Winterson é uma das mais conhecidas escritoras inglesas •

se ramificar em diversas perguntas existenciais, mas sem querer deter-se demasiado para as aprofundar. A autora pretende sim brincar com este admirável mundo novo onde homens e mulheres preferem robôs que fazem a vez de brinquedos sexuais e de parceiros perfeitos; em que o alcance da imortalidade é uma possibilidade, como em Frankenstein, através da criogenética ou com um simples download dos nossos cérebros para uma cópia de segurança que sobreviva ao nosso corpo e permita um futuro upload num corpo de carbono; em que uma mulher consegue alterar a sua biologia e transformar-se num homem; onde a incerta perfeição da Inteligência Artificial não será, ainda assim, pior que a inteligência humana, até porque num mundo pós-humano, a inteligência artificial vence a raça humana, pois por não ser sentimental tende para os melhores resultados possíveis (p. 71). «Li hoje que os seres humanos dizimaram 60 por cento da vida selvagem desde 1970. No Brasil, temos um ditador a fazer-se passar por presidente democraticamente eleito que está a abrir a Amazónia aos interesses comerciais. Os seres humanos não têm mesmo melhor hipótese do que a IA. É demasiado


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REFLEXÕES SOBRE URBANISMO •••

O ordenamento do território e as crianças fotos d.r.

Teresa Correia

Arquitecta / urbanista arq.teresa.correia@gmail.com

Os espaços verdes de utilização coletiva nas cidades As vivências das cidades evoluem com os anos e com as mudanças próprias da sociedade e hoje ninguém questiona a utilização de veículos automóveis nas deslocações frequentes entre casa e escola ou na casa-trabalho. No tempo da minha infância, todos tínhamos de caminhar para a escola, sozinhos, e regressar, sendo que depois dos trabalhos de casa, lá tínhamos a nossa rua e o nosso bairro, para brincar livremente com outros iguais. Que nem pássaros no ar, todos interagiam na rua, sem preocupações de segurança. Hoje, tudo está um pouco mais difícil, temos uma vivência muito maior em casa, ao computador, ao telemóvel, com comunicação via internet e redes sociais, e menos relacionado com o espaço público. No entanto, estes espaços são cruciais para as crianças, estas continuam a necessitar, agora mais do nunca, de correr, de brincar, e viver em espaços ao ar livre. O atual regime legislati-

As crianças continuam a necessitar de correr, brincar e viver em espaços ao ar livre •

posta a uma necessidade social que implica manutenção, boa localização e enquadramento adequado. Estes espaços são normalmente de domínio público municipal, os quais, face à grande dinâmica de loteamentos, provocaram alguma dispersão pelo território. Assim, a manutenção e a gestão é difícil e dispersa, mas será fácil de perceber que onde existirem pessoas a viver estes são necessários.

espaços, em áreas mais desprotegidas e desoladoras. Estas áreas de grande valor educativo e recreativo são exigentes e nem sempre as autarquias conseguem dar resposta ao número elevado de substituições de equipamentos infantis. Uma alternativa possível seria também a contratualização da sua manutenção com um grupo de moradores locais, o que está previsto na legis-

Os parques infantis são espaços de excelência para qualquer criança •

vo obriga, portanto, e com razão, a prever uma percentagem de terreno para cedências em loteamentos para espaços verdes de utilização coletiva. Esta área cedida em razão da sua localização deverá ser a res-

Os parques infantis e as crianças Os parques infantis são espaços de excelência para qualquer criança. No entanto, o vandalismo e o tempo têm transformado alguns destes

lação, mas em Faro nunca chegou a ser praticado. Outra hipótese, é uma tentativa de racionalização e acabar com alguns dos parques existentes e concentrar os esforços em poucos de maior dimensão,

estrategicamente localizados. Esta ideia de planeamento está correta do ponto vista teórico, mas não é fácil, uma vez que estes espaços foram promovidos com esta valência em loteamentos e parece uma desqualificação face às expetativas das pessoas que optaram por aqueles locais para viverem. Apesar da problemática da gestão, os espaços públicos são evolutivos e devem continuar a servir as necessidades da população, promovendo uma qualidade de vida, que ainda é aquela que torna as nossas crianças mais felizes.

concelho. As escolas sobrelotadas criam dificuldades de diversa ordem, seja de infraestruturas que não existem, como auditórios e bibliotecas em condições, como também em comportamentos pouco recomendáveis, como seja a formação de grupos de bullying. Este flagelo da nossa sociedade denota que algo está mal, sendo a origem a ausência de valores, a falta de compromisso das famílias, a desestruturação de comportamentos e os espaços desadequados. As escolas urbanas estão em grande maioria pouco vigiadas, sendo

Os equipamentos de Educação e de Desporto

muito difícil garantir a segurança e controlo, sem meios adequados, nem pessoal especializado. Será assim de aproveitar a revisão dos planos diretores, ou até alguns dos planos urbanísticos em curso, para refletir sobre as necessidades escolares, com um enfoque na localização adequada de novos espaços para escolas, assim como espaços desportivos. A oportunidade é ténue mas existe e visa preparar um futuro melhor para as nossas crianças. l

As escolas são também os ambientes onde as crianças passam mais horas, construindo a sua educação, mas também criando laços, numa socialização por vezes saudável, outra vezes não. A realidade é que numa área tão populosa como a do município de Faro, ainda faltam escolas para o número de alunos que temos no


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ESPAÇO AGECAL •••

Paisagens e as casas, reaprender a viver em comunidade Jorge Queiroz

Sociólogo, sócio da AGECAL

“A arquitectura algarvia, resultante de uma harmonização entre o Homem e a terra é interessante exemplo da aculturação nela se esbatendo a clássica distinção entre arte erudita e arte popular, caracteriza-se por perfeita integração paisagística, reduzida e humana escala altimétrica, extrema delicadeza e grande qualidade plástica...” José Eduardo Horta Correia, in “ O Algarve em Património”, 4º Congresso do Algarve, 1986. “Preservar as características únicas e inconfundíveis de uma região, de uma cidade ou de um lugar, não é uma atitude passadista de quem recusa a modernidade, sucede é que esse passado constitui a base de sustentação

da criatividade e da inovação, ao destrui-lo que damos inelutavelmente no vazio espiritual” António Rosa Mendes, in “Cultura.Sul” Novembro de 2011 José Eduardo Horta Correia, natural de Vila Real de Santo António, professor de História da Arte e Urbanismo, tal como o saudoso historiador António Rosa Mendes, também algarvio e docente universitário, chamaram a atenção para a necessidade de estudar, valorizar e reabilitar o Algarve na sua dimensão cultural e patrimonial. Um dos aspectos mais interessantes na cultura algarvia é a arquitectura, o que dela subsiste na casa urbana ou do meio rural, as diferentes características e tipologias, consequência de necessidades de adaptação ao clima, aos solos e matérias-primas, às necessidades familiares, sociais e produtivas. O Algarve contrapõe à “civilização

do granito” do norte do País, a “civilização do barro” na visão da geografia humana de Orlando Ribeiro. Praticou-se no sul a construção de casas em taipa e adobe, barro amassado, misturado com areia e matéria vegetal, secado ao sol. Era usado em casas normalmente de um só piso, uma edificação barata, que poderia ser construída por quatro homens em apenas quinze dias, adaptada às amplitudes térmicas, frescas no Verão e amenas no inverno. Do ponto de vista do desenho há equilíbrio e harmonia, as casas “tradicionais” eram e são atraentes, bem integradas na paisagem. À sua volta nasceram pomares, hortas, vinhas, fornos de lenha, animais de criação e toda a biodiversidade que estamos a perder… A evolução da arquitectura algarvia poderia ser um sucesso, com investigação aplicada, se apoiada nos estudos de arquitectura e engenharia mediterrânicas. Baseada

Altura dedica Carnaval à "Mãe Natureza"

no uso racional dos recursos e aproveitamento das águas é sabedoria milenar, permitiria a construção e urbanismo orientados para aspectos qualitativos e identitários, uma contemporaneidade personalizada e diferenciada, ambientalmente sustentável. O Algarve tem sido dirigido, do ponto de vista do seu desenvolvimento, por interesses exteriores à região, que a transformou numa área dependente da monocultura do turismo e influenciada por fenómenos correlacionados. Estará fragilizada também pelo inadequado uso do território e agudização das alterações climáticas. Ao contrário do que alguns pensam, a avaliação do desenvolvimento não poderá continuar a reger-se por critérios quantitativos e do volume de negócios, mas por critérios ambientais, culturais, de inclusão social e sustentabilidade. O Algarve é, a nível europeu,

um dos mais significativos casos do impacto de uma determinada perspectiva de turismo nas transformações paisagísticas, sociais e culturais, consequência da “descoberta” em meados do século XX de uma das mais belas e preservadas regiões do mundo, privilegiada pela natureza e a sua história. Não são os mercados que definem as políticas, mas as políticas que devem orientar os mercados. A cultura é ampla e multifacetada, as paisagens e as casas são conhecimento e património, exprimem modelos culturais, serão decisivas na adaptação às novas formas de habitar nos tempos crescentemente instáveis que já vivemos. O regresso ao equilíbrio com a natureza será possível se reaprendermos a vida em comunidade de objectivos. É necessário redescobrir a cultura que nos construiu durante séculos. l

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Município de Tavira

Edital n.º 9/2020

Ana Paula Fernandes Martins, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Tavira

foto d.r.

􀪭 Carnaval de altura já vai na sua 19ª edição O Carnaval de Altura, conhecido pela sua autenticidade, decorre no fim-de-semana de 22 e 23 de fevereiro, sendo realizado há 19 anos com o esforço e empenho da população e associativismo locais. Esta será a edição da "Mãe Natureza", um mote que tem dado largas à imaginação dos envolvidos, que constituem 10 carros alegóricos e 11 grupos de animação, que representam as Juntas de Freguesia de Altura, Castro Marim e Odeleite, o grupo de Amigos do Bairro Quente, Grupo de Zumba,

Amigos da Arrancada, Grupo de Amigos de Altura, o Clube Recreativo Alturense, a Associação Cegonha Branca e o Centro de Cultura e Desporto da Câmara Municipal de Castro Marim. Esta 19ª edição promete ter muita cor, ritmo e alegria, uma festa para a qual também contribuem os muitos foliões que se juntam ao cortejo. No sábado, depois do cortejo, o evento será animado pelo “Duo Reflexo” e Nelson Santos. No dia seguinte, será a vez de conhecer em palco todos os grupos que integram este Carnaval. A 19ª edição do Carnaval de Altura tem a organização conjunta da Junta de Freguesia de Altura e da Câmara Municipal de Castro Marim e o apoio do Supermercado Corvo, contando ainda com a colaboração das Juntas de Freguesia de Castro Marim e Odeleite, Clube Recreativo Alturense, Casa do Povo do Azinhal e outras associações e comércios locais.

TORNA PÚBLICO, que nos termos do n.º1 do artigo 56.º do anexo I à Lei n.º 75/2013, de 12 de setembro, em reunião ordinária de Câmara Municipal, realizada no dia 28 de janeiro de 2020, foram tomadas as seguintes deliberações: 1. Aprovada por unanimidade proposta n.º13/2020/CM - Donativo de garrafas de águas para apoio aos Bombeiros Municipais; 2. Aprovada por unanimidade a proposta n.º14/2020/CM - Atribuição de apoio ao Corpo Nacional de Escutas - Agrupamento 100 de Tavira - Tecoree Regional 2020; 3.Aprovada por unanimidade a proposta n.º19/2020/CM - Atribuição de apoio à Sociedade da Banda Musical de Tavira; 4. Aprovada por unanimidade a Proposta n.º20/2020/CM - Atribuição de apoio à OJA - Associação Orquestra de Jazz do Algarve; 5. Aprovada por unanimidade a Proposta n.º21/2020/CM - Atribuição de apoio à Associação Almadrava - Rede Cultural e Social de Santa Luzia - "Baile do Ano"; 6. Aprovada por unanimidade a Proposta n.º22/2020/CM - Atribuição de apoio ao Clube de Tavira - Cedência de auditório; 7. Aprovada por maioria a Proposta n.º23/2020/CM - 2.ª alteração orçamental permutativa | Orçamento 2020 Ratificação do despacho n.º 10/2020; 8. Aprovada por unanimidade a Proposta n.º24/2020/CM - Nomeação do representante do Município nos órgãos sociais da ALSUD. Para constar e produzir efeitos legais se publica o presente Edital e outros de igual teor que vão ser afixados nos lugares públicos de costume. Paços do Concelho, 28 de janeiro de 2020 A Presidente da Câmara Municipal, Ana Paula Martins (POSTAL do ALGARVE, nº 1238, 7 de Fevereiro de 2020)

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MARCA D'ÁGUA •••

Pão nosso de cada poema foto d.r.

Maria Luísa Francisco Investigadora na área da Sociologia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa luisa.algarve@gmail.com

A história das três grandes civilizações do Mundo Antigo, egípcia, grega e romana, acompanhou a evolução do pão, alimento com grande importância no decorrer destas civilizações. A civilização egípcia é considerada como a primeira civilização que confecionou pão; os Gregos não tinham grandes condições naturais para o cultivo de cereais e revestiram o pão de um valor emocional e deificaram-no; os Romanos entenderam o seu valor e aproveitaram-no politicamente (Panem et circenses). A política do pão e circo é uma expressão muito conhecida que foto maria luísa francisco

"Num grão de trigo, habita alma infinita" (Fernando Pessoa) • pub

"Não sei se fazer um poema não é fazer um pão, um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre as linhas" (Herberto Helder) •

remete para o Império Romano. Na época, o imperador utilizava comida e entretenimento para apaziguar a população. Muitos historiadores consideraram esta atitude como uma política de manipulação de massas. O pão tem sido durante milénios uma importante base alimentar para ricos e pobres, tanto no meio rural como urbano, se bem que em algumas épocas, tenha assumido uma maior centralidade devido à dificuldade em aceder a outro tipo de alimentos. Num projecto que criei em 2015, intitulado Pão nosso de cada poema, fiz um levantamento de textos alusivos ao Pão e à sua simbologia e encontrei poemas da autoria de Fernando Pessoa, Miguel Torga, Guerra Junqueiro, Vitorino Nemésio, José Saramago, José Carlos Ary dos Santos, Herberto Helder, entre outros. Foi nessa altura que amassei pão pela primeira vez, e cozi no forno

antigo, seguindo todos os preceitos que aprendi com as gentes da serra algarvia. Inclusive a oração aquando da colocação do pão no forno: “Deus te acrescente e que dê para muita gente!” Liturgia popular do pão Pode dizer-se que existe uma liturgia popular do pão. Amassar e cozer o pão é quase um ritual religioso. Algumas pessoas mais antigas marcam o pão com cinco toques do dedo indicador direito simbolizando as cinco chagas de Cristo. A maioria das pessoas que amassa e coze pão recita orações junto do mesmo. Quase sempre fazem o sinal da cruz com a pá sobre o pão ou à porta do forno dizendo uma breve oração, que varia de acordo com a região do país. No Alentejo é usada, em algumas localidades, esta breve frase em jeito de oração:

“Deus te ponha a virtude, que eu fiz o que pude.” Ao amassar há quem diga, mais a Norte, esta outra oração: “S. Vicente te acrescente, S. João te faça pão, E Deus te cubra com a sua bênção” (No fim reza-se um Pai Nosso e uma Avé Maria) E ainda: “Deus te finte, Deus te acrescente, E as almas do Céu para sempre” Pão enquanto símbolo de partilha Na simbologia cristã o Pão está presente na Oração do Pai Nosso, sendo referência ao pão eucarístico e à sua partilha. Por sua vez, na tradição judaica o matzá é o Pão da Páscoa com a pureza do pão ázimo, sem fermento. Para os judeus a Páscoa é denominada

Pessah. Ou seja, a Pessah dos judeus e a Páscoa dos cristãos são celebrações intimamente relacionadas. Ambas as festividades se celebram em datas quase coincidentes, embora naturalmente encaradas sob pontos de vista históricos diferentes. Os judeus lembram a libertação da escravidão do povo hebreu no Egipto (cerca de 1280 a. C.). Os cristãos recordam a última Ceia, a partilha do Pão, a Morte e a Ressurreição de Cristo. O pão desde há muito que é um alimento com forte simbolismo. Alimento não só para o corpo, mas também para o espírito: “Nem só de pão vive o homem” como refere Jesus. O pão é um elemento sagrado, de partilha e de fraternidade. Que sejamos fermento numa sociedade com mais partilha de bens materiais e espirituais, ajudando a despertar a dimensão convivial e espiritual e, se possível, com um toque biológico e integral! l


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FILOSOFIA DIA-A-DIA •••

É Carnaval... Ninguém leva a mal! fotos d.r.

Maria João Neves Ph.D Consultora Filosófica

De acordo com a origem etimológica, a palavra carnaval vem do latim carnem levarem que significa abster-se da carne. O nome da festividade antecipa o período de privações inerentes à Quaresma onde não apenas a carne mas também o álcool e outras substâncias dadas à euforia são desaconselhadas. O jejum requer o afastamento dos prazeres mundanos. Preparamo-nos, pois, para a privação, com o excesso. O Carnaval é uma festa da exorbitância e do descomedimento. Não apenas se ingere carne, mas mostra-se a carne: os corpos cantam e dançam até à exaustão. No Brasil as escolas de samba exibem o seu virtuosismo em todo o esplendor. É o prazer do corpo, dos sentidos, da sexualidade que se exulta. Durante o Carnaval recorre-se à sátira, criticam-se as autoridades, vive-se uma inversão de papéis sociais, e como “é carnaval, ninguém leva a mal”. Já a actividade sexual pode tornar-se bastante concupiscente. Esta libertinagem tem até uma origem histórica: Durante os cinco dias que duravam as Sacéias, comemoradas na Babilónia, um prisioneiro escolhido à sorte assumiria a vida do monarca: vestia-se e alimentava-se como o rei e tinha até direito a partilhar o leito com as suas esposas. Mas este paraíso depressa acabava, pois findo o prazo o prisioneiro era chicoteado e depois enforcado ou empalado. Na Mesopotâmia, perto do equinócio da Primavera, o rei era despojado das suas insígnias de poder e espancado junto à estátua de Marduk, para demonstrar a sua submissão à divindade. Depois do ritual o monarca voltava a assumir o trono. Em Roma celebravam-se a Saturnália próxima do solstício de inverno em Dezembro, e a Lupercália em Fevereiro, mês das divindades infernais. Tais festas duravam dias, com comidas, bebidas e danças. Os papéis sociais também eram invertidos temporariamente, entre os escravos e os seus senhores. Por seu lado, os ritos dionisíacos gregos, ou as bacanais romanas eram festas marcadas pela embriaguez e pelos prazeres da carne. O lado mais negro do Carnaval é sem dúvida o do abuso sexual Temos, portanto, muito por onde herdar nas práticas carnavalescas ac-

No Brasil as escolas de samba exibem o seu virtuosismo em todo o esplendor •

tuais. Dada a lascívia inerente a esta festividade as autoridades brasileiras lançaram em 2019 a campanha “Pare, pense e use camisinha” tendo distribuído 129 milhões de preservativos. Contudo, a adesão dos foliões a esta medida foi bastante fraca, alegaram que o preservativo atrapalha a relação e impede a espontaneidade, admitindo que se expõem a situações de risco. Em 2020, o governo de Bolsonaro prepara-se para lançar a campanha “iniciação sexual não precoce” precisamente antes do carnaval, para prevenir as doenças sexualmente transmissíveis, promover a abstinência sexual e evitar a gravidez na adolescência. Trata-se de uma verdadeira incitação à castidade cuja eficácia resulta duvidosa mesmo para os mais benevolentes. Porém, o lado mais negro do Carnaval é sem dúvida o do abuso sexual. Para lhe fazer face foi também lançada uma campanha de prevenção sob o lema “Meu corpo não é sua fantasia”. Pretendem prevenir e promover orientação e segurança das pessoas que sofrerem violência durante o período de folia em todo o país. Em termos legais, a “importunação” sexual foi definida como a prática de um acto libidinoso contra alguém sem a sua anuência “com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de um terceiro”. Com esta lei um “beijo à força ou qualquer outro acto consumado mediante violência ou grave ameaça, impedindo a vítima de se defender, configura crime de estupro”. Que pensar de tudo isto?

As festas são uma celebração de algo positivo, são geradoras de alegria As festas são uma celebração de algo positivo, são geradoras de alegria, de confraternização, de sentimentos de união e paz. O amor encontra uma das suas mais prazenteiras expressões nas relações sexuais. Os orgasmos produzem muitos benefícios como qualquer clique na internet pode ajudar a esclarecer, entre eles, o alívio das tensões e a união do casal propiciadora de estabilidade. Porque e como damos cabo de tudo isto? Os excessos provocadores de dano ao próprio ou a terceiros justificam uma intervenção de controle. As privações sustêm-se de forma mais eficaz quando precedidas de abundância ou mesmo enfartamento daquilo de que nos teremos de abster. O sentimento de culpa provoca uma enorme vulnerabilidade. Tudo isto sabem os poderosos! Vejamos o que tem Nietzche que dizer a este respeito no seu livro intitulado O Anti-Cristo: “A desobediência a Deus, isto é, ao sacerdote, à lei, chama-se agora pecado; os meios de reconciliar-se com Deus são, como é justo, meios que asseguram ainda mais profundamente a submissão ao sacerdote; só o sacerdote salva (...) em toda a sociedade organizada sacerdotalmente, os pecados tornam-se indispensáveis: são propriamente os instrumentos do poder, o sacerdote vive pelos pecados, tem necessidade de que se peque...”

Não querendo ficar sem a sua quaresma, a igreja consentiu e integrou o carnaval. Afinal o que são 3 dias comparados com 40?! Ainda por cima 3 dias propiciadores de muitos pecados. A seguir ao gozo vem o arrependimento. É preciso incutir durante o maior período de tempo possível o desalento, o desamparo, e a aspiração por algo superior. Sobre-

tudo, é preciso que as pessoas andem melancólicas! Gente feliz consome menos, portanto, precisa de trabalhar menos e é pouco influenciável. Os tristes e os que se sentem culpabilizados manipulam-se muito mais facilmente! l Inscrições para o Café Filosófico: filosofiamjn@gmail.com

Nietzche diz que o "sacerdote vive pelos pecados, tem necessidade de que se peque.."•


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