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Cultura.Sul 130 9AGO2019

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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o

AGOSTO 2019 n.º 130 13.367 EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve

MISSÃO CULTURA •••

Públicos nos monumentos fotos d.r.

Fortaleza de Sagres - Vila do Bispo •

No âmbito das várias atribuições da Direção Regional de Cultura do Algarve, compete a este organismo gerir os monumentos e sítios que lhe foram afetos e assegurar as condições para a sua fruição pelo público,

os órgãos municipais no domínio da cultura, como previsto no Decreto-Lei n.º 22/2019, de 30 de janeiro), e, com estruturas de acolhimento e bilhética, a Fortaleza de Sagres, a Ermida de Nossa Senhora de Gua-

Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe - Vila do Bispo •

que, atualmente, são: o Castelo de Paderne, o Castelo de Aljezur, o Castelo de Loulé, a Villa Romana da Abicada (que irão passar para as câmaras municipais dos concelhos onde se inserem, no âmbito da transferência de competências para

dalupe, os Monumentos Megalíticos de Alcalar (outro dos monumentos a transferir) e as Ruínas Romanas de Milreu. Do conjunto dos monumentos com entrada controlada é possível extrair alguma informação sobre os

públicos, nomeadamente a nacionalidade - nacionais ou estrangeiros - e as várias tipologias de visitante, de acordo com as várias modalidades de ingresso existentes. Reportando-nos aos últimos 5 anos, nota-se uma evolução bastante positiva. Se no ano de 2014, no conjunto dos monumentos, foram registados 316.460 visitantes, no ano de 2018 foram registados 487.848, verificando-se um aumento de cerca de 55%. No ano de 2019, com base nos resultados já apurados no primeiro semestre, verifica-se um ligeiro aumento de cerca de 2% comparativamente ao período homólogo do ano anterior. Apesar de não existir um estudo aprofundado dos públicos nos monumentos afetos à Direção Regional de Cultura do Algarve, contudo, no que se refere à sua tipologia, pode-se obter alguma informação. Considerando o ano de 2018, e apesar de existirem diferenças entre os monumentos e ligeiras variações nas tipologias ao longo dos anos, verifica-se que os visitantes estrangeiros têm uma maior representatividade, cerca de 85% das entradas. Já na análise das tipologias, pode-se verificar que os visitantes com bilhete individual representam cerca

de 52% do total das entradas, os que beneficiam dos vários descontos existentes, cerca de 33%, e as entradas gratuitas, 15%. Pode-se verificar, também, que cerca de 15% representam visitantes integrados no bilhete família, cerca de 12% são visitantes seniores, 12% são jovens ou crianças e 1% estão integrados em visitas de estudo. Já os visitantes integrados nos bilhetes circuito disponíveis representam cerca de 4,6%. A Direção Regional de Cultura do Algarve procurou ter mais informação, pelo que, através de uma avaliação externa, no ano de 2017, foi possível aferir o grau de satisfação dos visitantes. Os resultados obtidos foram bastante positivos, sendo, numa escala de 0-5, nunca inferior a 4. Com vista a melhorar cada vez mais os serviços e as condições de fruição dos monumentos, a questão do conhecimento do tipo de público que nos visita revela-se bastante útil, tanto para a programação e adaptação das diferentes atividades, bem como na tomada de decisão em diversas áreas, nomeadamente no planeamento ou disponibilização de produtos e conteúdos. Sabendo quem nos procura podendo, podemos procurar atrair quem ainda não nos conhece. l

Ficha técnica Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Henrique Dias Freire Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes visuais: Saul de Jesus • Espaço ALFA: Raúl Grade |Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ao Património: Isabel Soares • Filosofia dia-a-dia: Maria João Neves • Letras e literatura: Paulo Serra • Missão Cultura: Direção Regional de Cultura do Algarve • Reflexões sobre urbanismo: Teresa Correia • Colaboradores desta edição: Alexandre Ereira Bastos, Vico Ughetto Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com online em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/ postaldoalgarve FB: www.facebook.com/ postaldoalgarve/ Tiragem: 13.367 exemplares

Direção Regional de Cultura do Algarve

Ruínas Romanas de Milreu - Estoi •


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CULTURA • SUL

LETRAS E LEITURAS •••

Para que serve a filosofia?, de Mary Midgley fotos d.r.

Paulo Serra

Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

Em resposta a esta pergunta, Mary Midgley escreve um manifesto em que analisa e entretece algumas das questões mais prementes da actualidade, como o papel das humanidades na educação, o aquecimento global, e em particular as consequências da evolução científica e tecnológica. Procurando responder aos materialistas que alegam que só a máquina e a ciência interessam à vida, a autora demonstra como até os escritores de ficção científica foram capazes de antever os perigos da supremacia constantemente atribuída à matéria, como no caso dos cientistas que apregoam as virtudes da inteli-

Mary Midgley defendia que a filosofia é essencial à formação do ser humano • do poder da nossa mente e do nosso livre-arbítrio como a única forma de encontrar respostas e tomar decisões sensatas.

metade do livro é que une as pontas das várias ideias que foi colocando como pistas. Ela própria parece reconhecer esse método de abordagem quando a certa altura afirma: «As pessoas perguntam-me por vezes qual é o tópico sobre o qual investigo e eu respondo que não faço a mínima ideia» (p. 23). Começando por alertar para os perigos da crescente especialização e compartimentação do saber, a autora procura depois defender como a filosofia, ciência que levanta mais perguntas do que respostas, é essencial à formação do ser humano, sendo a sua tarefa central «lidar com problemas que são radicalmente irresolutos» (p. 64): «A filosofia olha para as diferentes maneiras de pensar e tenta mapear a sua relação. É uma forma de dar sentido ao todo. (...) Assim, a

razão pela qual alguns filósofos acabam por ser recordados não é por terem revelado novos factos, mas por terem sugerido novas formas de pensar que implicam novas formas de viver» (p. 73). Recorrendo às palavras da escritora Iris Murdoch, Mary Midgley procura explanar como é insuficiente pensarmos que o mundo se cinge ao visível e palpável, quando afinal somos seres modelados social e culturalmente: «cada um de nós tem um mundo com um grande enquadramento que a nossa cultura nos fornece já pronto» (p. 69). E nessa compreensão do mundo em que emergimos e imergimos a literatura tem, a par da filosofia, um papel crucial para «figurar e compreender situações humanas» (p. 70), além de que a própria ciência se subsume

em conclusões, tecidas com palavras, cuja influência na nossa saúde e sanidade mental é tão poderosa como a nossa dieta e capaz de enraizar hábitos profundos. Este livro é uma análise lúcida de uma mente brilhante, com a capacidade de clarificar o complexo e de não se deixar desviar das questões verdadeiramente essenciais à vida, ao contrário dos materialistas que reivindicam a era da tecnologia e da máquina (um “escravo sem mente”) como o único e desejável futuro: «As confusões que agora afligem a vida humana não são sobretudo devidas a falta de inteligência, mas a causas humanas vulgares, como a ganância, o preconceito, a parvoíce, a avareza, a ignorância, a ira, a falta de bom senso, a falta de interesse, a falta de sentimento público, a falta de trabalho em equipa, a falta de experiência, a falta de consciência e talvez devido sobretudo à ausência de reflexão.» (p. 210) Mary Midgley foi professora de Filosofia na Universidade de NewCastle entre 1962 e 1980. Escreveu profusamente sobre a natureza humana, a ética, a ciência, o ambiente, e faleceu o ano passado, no mesmo ano em que este livro foi publicado, agora traduzido e lançado entre nós pela Temas e Debates. E porque escreveu a autora este livro – ou porque se defende aqui a sua leitura essencial? «O que faz com que escreva livros é em geral a exasperação contra todo o credo redutor, cienticista, mecanicista e fantasista que continua a distorcer constantemente a imagem do mundo da nossa era. Esse credo (...) continua a ostentar o lisonjeiro nome de mentalidade “moderna”.» (p. 211) l

Livro procura responder a questões importantes • gência artificial e da superioridade do computador ao homem mas são incapazes de perceber que passar da confiança em Deus para um mundo regido por máquinas é passar ao lado

A primeira parte do livro, apesar da linguagem clara, é um pouco mais vaga, talvez porque a autora se aproxima do tema que lhe interessa numa circunvolução, e só a partir de

Mary Midgley foi uma das mais importantes filósofas do séc. XX •

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CULTURA • SUL

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LETRAS E LEITURAS •••

Less, de Andrew Sean Greer fotos d.r.

Andrew Sean Greer venceu o Prémio Pulitzer de Ficção em 2018 com o romance "Less" •

Less, de Andrew Sean Greer, publi>cado em maio deste ano pela Quetzal,

foi um dos livros sensação de 2017, vencedor do Pulitzer de Ficção, do Northern California Book Award, do Washington Post Best Book, bestseller do New York Times e recomendado como um dos melhores livros do ano pela The Paris Review ou America Library Association.

um azul lessiano (adjectivo que predomina ao longo do livro), que se torna apagado. Arthur Less, o nosso protagonista peripatético, com olhos cor de safira, magro e elegante, com laivos de herói pícaro, trapalhão e vítima de si próprio, é tão menor que até como homossexual parece dar mau nome aos seus amigos gay, por não ser “suficientemente gay”. Além

Andrew Sean Greer já escreveu vários romances • Arthur Less é, como o nome indicia, um homem menor, prestes a fazer cinquenta anos, em tempos o jovem parceiro de um génio literário, agora rejeitado pelo seu jovem amante, escritor aclamado pelo seu romance de estreia, é um homem tão discreto, apesar do seu fato de

de abandonado pelo amante, Less vê ainda o seu mais recente romance de Less rejeitado pela editora; curiosamente intitulado de Swift (como em Jonathan Swift), esse romance parece aliás reflectir a própria narrativa de Less: «um romance peripatético. Um homem a vaguear por São Fran-

cisco, e pelo seu passado, retornando a casa após uma série de reveses e desilusões («Só sabes escrever o Ulisses em versão gay», disse Freddy); um romance melancólico e pungente acerca da vida difícil de um homem. Da meia-idade falida e gay.» (p. 39) Para contornar esta triste notícia, e para declinar com justa causa o convite para o casamento do seu ex-namorado com outro homem que não ele, Arthur Less decide embarcar numa viagem pelo mundo, em que uma série de convites sobrepostos – que um escritor mais afamado certamente recusaria – lhe permitirão viajar pelo México, por Itália, Alemanha, França, Marrocos, Índia e, por fim, Japão. Tal como a personagem do seu primeiro romance, Kalipso, uma espécie de reescrita da Odisseia, em versão gay, em que um soldado dá por si numa ilha deserta e se apaixona por outro homem, até que volta para casa e para a mulher, Arthur Less terá as suas próprias peripécias ao longo das viagens que empreende. Apesar de ser visto como um homem distinto, de ar elegante e delicado, por aqueles com quem se cruza, Arthur não deixa de se comprazer na sua dor e na visão menor que tem de si próprio, que impossibilita aliás reconhecer que ainda há quem o veja como um grande autor... talvez por ter vivido largos anos sob a sombra de um génio poeta... e porque entende que aos cinquenta anos já ninguém se pode tornar mais apelativo... quando na verdade Less é

ainda uma criança grande e inocente, capaz de se relacionar com o mundo sem consciência dos seus perigos...

com azar nas coisas que não interessam e uma sorte pródiga nas que interessam. «Pois ele já conheceu a genialidade. Já foi acordado pela genialidade a meio da noite, pelo som da genialidade a percorrer os corredores para trás e para a frente; já preparou café à genialidade, e o pequeno-almoço, e a sanduíche de presunto e o chá; já esteve nu ao lado da genialidade, impediu a genialidade de entrar em pânico com falinhas-mansas, foi buscar as calças da genialidade ao alfaiate e passou as camisas a ferro para um recital. Já apalpou cada pedacinho de pele da genialidade; já sentiu o cheiro e o toque da genialidade.» (p. 113) Less, tal como o romance gorado de Arthur Less que ele acaba por decidir reescrever, nada tem afinal de melancólico, mas sim de risível, de enternecedor, e de revelador, em como o homem dá a volta ao mundo para descobrir o seu destino quando regressa à porta de casa. Sem que, de facto, o leitor consiga sentir tanta piedade pelo nosso herói como a compaixão que ele sente por si próprio, ao viver uma vida que é claramente melhor do que a de qualquer outra pessoa que possamos conhecer, inclusive a nossa... l


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CULTURA • SUL

ARTES VISUAIS •••

Pode a fotografia contar histórias? fotos mário cruz

Saul Neves de Jesus

Professor Catedrático da Universidade do Algarve; Pós-doutorado em Artes Visuais; https://saul2017.wixsite.com/artes

Em artigos anteriores temos salientado o “poder da imagem”, na linha da expressão popular “uma imagem vale mais do que mil palavras”, quase que expressando as histórias que podem ser sintetizadas pelas imagens. O nome escolhido para o museu com as obras de Paula Rego, “Casa das Histórias”, em Cascais, ilustra isso mesmo. No entanto, parece-nos que, para além da pintura, a fotografia também tem um potencial enorme, pelo realismo que comporta e pelas histórias que permite sintetizar. A verdadeira “alma” da fotografia está em interpretar a realidade e não em copiá-la. O resultado da arte fotográfica não está na máquina ou tecnologia utilizada, mas sim no olhar do fotógrafo que, de forma subjetiva, perceciona e captura um determinado momento, tornando-o eterno. No âmbito da fotografia, e em particular no fotojornalismo, a World Press Photo é, desde 1955, considerada a exposição e o concurso anual mais importante do mundo. Várias categorias aos prémios que distinguem os fotógrafos profissionais pelas melhores imagens que contribuíram, no ano anterior, para o jornalismo visual. Em 2019, na sua 62ª edição, o concurso conta com uma categoria nova que vai distinguir "As Histórias do Ano" em cada categoria, procurando homenagear o fotógrafo que melhor expresse a sua

Foto "Viver entre o que foi deixado para trás”, de Mário Cruz • criatividade visual na história que produza sobre um acontecimento ou assunto de grande importância jornalística em 2018. As imagens a concurso foram selecionadas por um júri independente que avaliou 78.801 imagens captadas pelos 4.738 fotógrafos que concorreram ao prémio. Foram distinguidos 140 imagens das várias categorias a concurso, captadas por 43 fotógrafos, oriundos de 25 países, as quais constituem a exposição itinerante que percorre várias cidades do mundo. O fotógrafo português Mário Cruz conseguiu o 3º lugar na categoria “ambiente”, com o trabalho "Living Among What's Left Behind" ("Viver entre o que foi deixado para trás”), uma imagem do rio Pasig em Manila, nas Filipinas, chamando a atenção para as comunidades de Manila que vivem sem saneamento, junto ao rio

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Pasig, rodeadas de lixo. A imagem mostra uma criança que recolhe materiais recicláveis para obter algum tipo de rendimento que lhe permita ajudar a família, deitada num colchão rodeado do lixo que flutua no rio. O rio foi declarado "biologicamente morto" nos anos 90, na sequência de uma combinação de poluição industrial e lixo doméstico das comunidades que o rodeiam, sem infraestruturas sanitárias adequadas. Mário Cruz comentou que “não é um cenário projetado para um futuro negro, mas sim a atualidade, o que se está a passar neste preciso momento (...) É um exemplo extremo, mas real (...) É realmente dramático olhar para um rio e não ver água, apenas lixo”. Com apenas 32 anos, Mário Cruz foi já distinguido com vários prémios, incluindo o primeiro lugar

do World Press Photo, na categoria "Temas Contemporâneos", em 2016, com o trabalho "Talibés - Modern Day Slaves" (“Talibés – Escravos Modernos”), sobre a a escravatura de crianças Talibés, no Senegal, onde mais de 50.000 crianças são escravizadas, torturadas e abusadas. Mário Cruz sintetizou esta situação na imagem do jovem Abdoulaye, de 15 anos, num quarto com grades numa Foto "Talibés – Escravos Modernos”, de Mário Cruz • daara, uma escola corânica no Senegal. haja entre as pessoas, as culturas e Havia tomado conhecimento das os países, o planeta terra é a Casa de falsas escolas corânicas em 2009, todos nós, sendo fundamental ajudar durante uma reportagem na Guinéa preservá-lo! l

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POSTAL DO ALGARVE - Rua Dr. Silvestre Falcão, nº 13 C, 8800-412 Tavira

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-Bissau, onde ouviu falar de casos de crianças que estavam a ser levadas para o Senegal para serem escravizadas por líderes religiosos. Fez uma pesquisa durante seis meses e tirou uma licença sem vencimento para, durante cerca de dois meses, investigar o que estava a acontecer a estas crianças, no Senegal e na Guiné-Bissau. Contou esta história através das fotografias que tirou, tendo sido distribuídos panfletos com estas imagens, e conseguiu que centenas de crianças talibés tenham sido resgatadas, evitando a vida de escravatura que lhes estava perspetivada. Esta história foi entretanto publicada em livro, com o mesmo título do foto premiada, em edição quadrilingue (português, inglês, francês e árabe). Mário Cruz espera que o prémio agora conseguido em 2019 também consiga ter impacto prático, contribuindo para uma maior "visibilidade" sobre a problemática ambiental. Esperemos que sim!... Conforme já concluímos num artigo anterior, as novas gerações vão viver no mundo que ajudarmos a criar e, por muitas diferenças que

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FILOSOFIA DIA-A-DIA •••

As perguntas de Prometeu fotos d.r.

Maria João Neves Ph.D

Consultora Filosófica

Este Verão, enquanto se transpira na Alemanha, Holanda, ou França, refresca-se nas praias do Algarve. Que terá dado a Zeus, agitador de nuvens, para brincar com as temperaturas? Que terá dado a Éolo, comandante dos ventos, para convocar Bóreas, nortenho frio e violento, para fustigar as nossas praias? Que é feito de Zéfiro, o vento oeste, com a sua brisa suave e agradável de final de tarde? Devemos ainda temer Euro, de leste, criador de tempestades? Alegremo-nos por Noto, do flamejante sul, nos ter poupado a sua ira, enquanto sopra impiedoso por toda a Europa a norte de nós. Que terá dado a Poseidon para nos esfriar as águas do oceano, em época de nos banharmos nele? Ou para nos enviar mantos de algas verdes que dissuadem veraneantes e cobrem as brancas areias como se alguém relvasse a praia? Ou ainda para nos inquietar com algas vermelhas, de teor desconhecido, que concentram os estudos dos investigadores e proíbem de mariscar? Que terá dado a Perséfone, que já não passa metade do ano com seu marido Hades nas profundezas, mas permanece todo o ano sobre a terra? Será que as plantas de tanto florirem sem descanso não se extinguirão? E as borboletas, abelhas e libélulas, quem as salvará da confusão? Quione, deusa da neve, adoeceu. Mesmo a feroz Despina, deusa das geadas, parece afectada por um distúrbio qualquer: graniza a destempo destruindo colheitas e capôs de automóveis; derrete lagos quando era altura de se patinar neles; e abandonou os polos, tanto o do norte como o do sul, que choram lágrimas de degelo pedindo-lhe que regresse, mas em vão!

Caído nas margens do Olimpo Prometeu chorava e gemia •

Durante séculos Prometeu padeceu a sua sentença: agrilhoado a um rochedo, uma águia vinha pela ma-

Roubou o fogo de Hestia para o dar aos mortais, o que permitiu que estes desenvolvessem o seu engenho

Tartaruga aprisionada • nhã comer-lhe o fígado, demorando todo o dia em cruel degustação. Pela noite o órgão reconstituia-se para que o suplício se voltasse a repetir no dia seguinte. Jamais vacilou!

Um mar de plástico a perder de vista •

e se tornassem quase semelhantes a deuses e por isso foi condenado. Apesar da tortura nunca se arrependeu! Nunca... até os seus irmãos e irmãs pedirem autorização a Zeus para o levarem a ver os resultados da sua acção: Poseidon levantou o seu tridente e mostrou-lhe um mar de plástico a perder de vista, peixes, aves, belas e enormes tartarugas sufocadas em transparências mortíferas. Depois, obrigou-o a banhar-se numa maré negra, onde a oleosa densidade petrolífera o teria feito sucumbir se não se tratasse de um deus imortal. Ferido no seu âmago Poseidon coxeava. De cada vez que se apoiava no seu tridente-bengala gerava um tsunami; Gaia, moribunda, fez das tripas coração e mostrou-lhe as suas florestas devastadas, os seus polos

derretidos, as imensas lixeiras a céu aberto, o fumo das fábricas, dos automóveis, dos incêndios. Cada estertor de Gaia era um terramoto, cada vómito um vulcão. Os achaques de Poseidon e Gaia sacudiam Éolo, e a cada tropeço seu surgiam furacões e tufões. “Onde estão eles, os mortais?”, perguntou Prometeu afogueado. Palas Atena escondeu o rosto entre as mãos. “Nenhuma honra resta já”, disse a deusa guerreira; então Ares triunfante exclamou: “agora todos me louvam a mim!” Ares o deus sedento de sangue, o deus da guerra selvagem e da matança personificada, orgulhosamente levou Prometeu por um braço. Mostrou-lhe todas as guerras do planeta, todas as armas humanas desde o princípio dos tempos, de

“E tudo isto o fogo gerou?”, perguntou Prometeu incrédulo, os olhos a saltarem-lhe das órbitras, um fio de voz na garganta. Uma dor imensa trespassava-o, uma dor infinitamente superior ao da sevícia a que tinha sido condenado. Os deuses seus irmãos perceberam-no e decidiram não o voltar a acorrentar ao rochedo. Silenciosos, viraram-lhe as costas deixando-o na amargura do seu arrependimento. Caído nas margens do Olimpo Prometeu chorava e gemia, no seu pranto tinha perdido a noção do espaço em seu redor, não ouvia os sons, não sentia os cheiros. Por este motivo não se apercebeu que a fedorenta Penia, a pobreza, se aproximava sorrateira. Só se deu conta, de um salto, quando sentiu que Penia lhe remexia nos bolsos em busca de migalhas. A velha não se alarmou. Exibiu um sorriso desdentado e trocista. “Ainda não viste nada!”, disse Penia com desplante. E Prometeu num átimo de coragem retorquiu: “Mostra-me!” Então Prometeu seguiu a velha Penia, pelo avesso do mundo, por ruelas estreitas, sombrias, e mal cheirosas. Ela mostrou-lhe a fome e a sede que não matam logo mas incham as barrigas de crianças inocentes. Mostrou-lhe também o envelhecimento, a doença, o sofrimento e a morte. “Por que não usaram o fogo, catalisador da inteligência para curar tudo isto? Por que destruíram as florestas? Por que envenenaram os mares? Por que se matam uns aos outros? Por que preferiram a fealdade à beleza, o sofrimento ao prazer?” Penia, a miséria, abriu a bocarra desdentada e soltou uma gargalhada horrenda e pestilencial: “No vosso orgulho, ó deuses, não percebesteis que os humanos me veneram a mim?!” l

Desmatamento na Amazónia • pedras e cutelos, às armas de destruição maciça: biológicas, químicas, radiológicas e nucleares.

Inscrições para o Café Filosófico: filosofiamjn@gmail.com


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CULTURA • SUL

ESPAÇO AGECAL •••

O Algarve “O Algarve, para mim, é sempre um dia de férias na pátria. (…)” “A ideia que tenho dum paraíso terrestre, onde o homem possa viver feliz ao natural, vem-me dali”. (Miguel Torga) Alexandre Ereira Bastos Arquiteto

Salvo os núcleos urbanos, a arquitectura no barlavento (o extremo ocidental do Gharb al-Andaluz) é dispersa e a plataforma da casa vira-se contra o vento tanto no barrocal como no litoral, a planície, e a sua frente mais protegida dos ventos de sudoeste e norte aconchegam a entrada da casa a nascente-sul ou sudeste. Normalmente esta arquitectura popular de que falamos aqui, não é raro vermos os poiais afeiçoados à fachada principal, lugar sendo assim mais protegido, que no fim da jorna, incita à convivência. Uma arquitectura de fracos recursos mas nem por isso menos competente. Aliás, quem olha para o matagal vindo de Vila do Bispo e passando em Sagres não pode deixar de reparar nas tortuosas árvores e arbustos vencidos pela ventania constante, dobrados e inclinados para oriente. A casa também se defende desta constante. Normalmente em Taipa e adobe por dentro, o recurso a esta matéria é inevitável; barata, incombustível, estrutural, isolante às temperaturas ou muito frias ou muito quentes, acaba por ser também a economia do gesto e dos fracos recursos. Esta

característica do material vai até ao Sotavento percorrendo toda a planície, barrocal e mesmo a serrania, sendo que esta última zona aproveita a pedra e o xisto nos palheiros circulares e de telhado de colmo na proximidade da casa. Neste litoral ventoso e agreste surge por vezes aqui e ali a platibanda e tanto pode surgir na urbe (Aljezur como em Sagres e Lagos como na habitação isolada e com muito mais frequência no Sotavento. Na zona Central (perto do Algarve-calcário) a casa é mais requintada, sobretudo em Silves, Loulé, os pormenores são aperfeiçoados, as platibandas com baixo-relevo, esgrafitos ou muito geometrizados e em quaisquer delas a cor fá-los sobressair e também a escaiola e os fingidos. Surge também com mais frequência a gárgula (que já desapareceu do léxico da construção civil) as açoteias e abóbadas que tomam a sua dimensão e profusão no litoral com especial relevo em Olhão e Fuseta (conhecem bem a cola de peixe que misturada com a cal dá uma espécie de grude, facilitando o manuseamento dos lambazes, tijolo ‘burro’ e tijoleiras) e sem dúvida a chaminé de balão quadrangular e mais rara a sextavada e a profusamente disseminada a chaminé ‘algarvia’ mais pequena na sua secção onde as

grelhas sempre diferentes (ponto de honra dos pedreiros que tentam não repetir o seu desenho de casa para casa). Faro, Olhão e Fuseta marcam a zona de charneira entre o Mediterrâneo e o vasto Atlântico sem fim à vista e mais tenebroso . As casas de ‘pedra e cal’ só tiveram grande incremento e autorização a partir de 1757 pela Casa da Rainha, de forma a substituir as cabanas de colmo situadas na praia. Fotografias há da coexistência entre estes tipos de construção - A Rua da Praia. O fumo da casa “cubista” é importantíssimo porque mais que a emoção vinda do lar que é um sentimento, companhia e afecto de quem se encontra no mar representa um aviso aos pescadores e contrabandistas. É a mulher que desempenha esse papel entre a horta e a preocupação do seu homem. (Deveras interessante os ‘Pescadores’ de Raul Brandão que toma apontamentos em amena cavaqueira com o contrabandista, e que, não pelo Algarve mas sim pelo País, tem sido quase esquecido). Chegados a Tavira surgem telhados que parecem estranhos e cuja masseira dos tectos faz lembrar o ‘baú’, o tesouro, mas não o telhado, que ora termina no cume ora se prolonga na curta cumieira – é a Tesoura. As habitações são mais ricas, as cantarias trabalhadas com

motivos florais e as portadas em rotulados ou melhor, em reixas. Assim temos a janela ventilada (que oculta quem está dentro e deixa ver quem está fora), semi em sombra debaixo de um Sol abrasador, cálido, que no seu auge impede quase a percepção do céu azul. Olhamos na horizontal e vemos bem definida ‘a curva da sela’ do telhado-beirado português que só tem paralelo no Japão (como dizia Orlando Ribeiro, extremo-oriente). Vila Real de Santo António é pombalino numa arquitectura-construção de recurso como sempre foi, mas desta vez mais pobre e cuja malha continua a ser ortogonal. Outrora chamava-se (Santo António de) Arenilha de pedra e cal e cabanas e foi varrida pelo terremoto e marmoto em 1755. Pombal quis apagar tal triste memória e mudou-lhe o nome. Do que é relatado, enfim com algumas dúvidas, emergiu um vulcão ao largo e submergiu algum tempo depois, formando vagas às acrescidas pelo tremor das placas téctonicas ao largo do Cabo de S.Vicente. Duma coisa é certa, toda a arquitectura, genericamente falando, é rebocada e quase sempre a cal, seja por cima da taipa, seja por cima do adobe e em finas camadas sobrepostas. E toda a arquitectura é pintada assim como a caixilharia. Os elementos arquitectónicos e

características que aqui são descritos servem de estímulo na recriação da habitação, mesmo que seja (e tanto quanto possível deve ser) em taipa ou adobe (ao contrário de outrora, hoje constrói-se em terra por opção e não por necessidade), material reaproveitado que retorna à Natureza e que ao contrário do que se pensa é completamente contemporâneo. Não se trata de fazer o cliché ou mimetismo mas de interpretar a realidade, expressão e actualidade na liberdade do espírito e da História que romanos, visigodos, berberes, almorávidas, almoadas e tantos outros povos nos deixaram, indelével, a memória com a sua cultura. “Construir é colaborar com a terra; é pôr numa paisagem uma marca humana que a modificará para sempre; é contribuir também para essa lenta transformação que é a vida das cidades. Quantos cuidados para encontrar a situação exacta de uma ponte ou de uma fonte, para dar a uma Estrada na montanha a curva ao mesmo tempo mais económica e mais pura…” " …colaborar com o tempo sob o seu aspecto de passado, apreender-lhe ou modificar-lhe o espírito, servir-lhe de muda para um mais longo futuro; é reencontrar sob as pedras o segredo das origens.“ Memórias de Adriano Marguerite Yourcenar l

ESPAÇO ALFA •••

Preservar e promover as histórias pela fotografia foto vico ughetto

Vico Ughetto Sócio da ALFA

Num mundo de constantes imagens partilhadas e difundidas, é por vezes fácil esquecer uma das grandes utilidades da fotografia, que é contribuir para a preservação das memórias e da história ou, quando retrata o passado, uma forma de recuperar e recordar essas memórias, projetando-as assim para o futuro. Isto é o que diz a máxima de que não há futuro sem passado, mas que alguns dos nossos agentes culturais se vão es-

quecendo ou adiando. Para colmatar esta lacuna, a ALFA – Associação Livre Fotógrafos do Algarve, está a desenvolver um projeto editorial que visa utilizar as suas competências e vocação fotográfica, de modo a contribuir para que o conhecimento e os acontecimentos possam ficar registados de forma organizada e metódica, associando-lhe a devida divulgação e promoção, através de exposições e publicações fotográficas. O projeto pretende ter uma abrangência alargada pela região algarvia e visa promover sobretudo os territórios do interior, destacando as suas

novas oportunidades e perspetivas futuras, sempre com um pé no passado, claro está. Um desses locais é o Ameixial (Loulé) que tem vindo a recuperar algum protagonismo associado à sua boa localização, na agora mítica EN2, ou por ser a anfitriã do mais importante evento de caminhadas da região: o WFA – Walking Festival Ameixial. Porém, há muito mais a destacar e a descobrir nestes novos spots do Algarve interior, como a ALFA designa este projeto fotográfico, que estará brevemente em curso e que irá despertar o interesse em novas visitas e experiências. l

Esta escultura contemporânea, inaugurada em 2018 no centro do Ameixial, homenageia José Rosa Madeira (1890-1941), um ameixialense relojoeiro que tinha como paixão a Arqueologia e um dos pioneiros da fotografia no concelho de Loulé •


9 de Agosto de 2019

CULTURA • SUL

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MARCA D'ÁGUA •••

A água, a sede e a conversão ecológica Maria Luísa Francisco Investigadora na área da Sociologia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa luisa.algarve@gmail.com

Em Agosto de 2017 foi publicada no Jornal Postal do Algarve uma das crónicas que mais gostei de escrever: http://www.postal.pt/2017/08/ nova-cultura-da-agua-da-vida-experiencia-fluviofeliz/ Embora o nome desta rubrica mensal seja “marca d’água”, escrevi ao longo de dois anos temáticas que não referiram a água (excepto a do link acima apresentado), mas que foram a minha “marca d’água” no sentido de terem o cunho do meu sentir e da minha reflexão. Volto então à temática da água, referindo diferentes dimensões e procurando dar a frescura que se

espera numa crónica de um quente mês de Agosto! Quando há dois anos escrevi sobre a Fundação Nova Cultura da Água salientando esse novo olhar sobre a água, em especial sobre os rios, referi a Nova Cultura da Água, entendida como uma mudança de paradigma para a sustentabilidade ambiental, económica, social e cultural. Tenho acompanhado a Fundação e as suas iniciativas e verificado que a proposta de uma Nova Cultura da Água tem dado alguns passos e influenciado outros movimentos. Para além da preocupação com a sustentabilidade procuram a defesa do sentido patrimonial e público da água e a responsabilização pelo seu uso. A água contém propriedades que nenhum outro elemento possui, o que lhe permite simultaneamente ser um componente essencial às actividades humanas e ambientais, uma vez que permite a sobrevivência humana, dando dignidade à vida das pessoas através da higiene e do saneamento básico. A água enquanto elemento principal da vida está pre-

sente no dia-a-dia de cada um de nós, desde o banho até ao saciar a sede. É um dos elementos da natureza com maior presença simbólica em rituais e cerimónias e de extrema importância em todas as religiões. A Bíblia e literatura cristã usam o simbolismo da água para exprimir realidades importantes da vida espiritual. Elogio da Sede E porque o Verão também é tempo de leituras, recomendo a refrescante leitura do Elogio da Sede de José Tolentino Mendonça. Um livro de enorme riqueza espiritual, que pelos caminhos da prosa e da poesia nos faz descobrir muitas sedes em nós. O simples gesto de dar ou receber um copo de água é mais do que um gesto banal. Diz o autor que “esse gesto dialoga com dimensões profundas da existência, porque vai ao encontro daquela sede que está presente em todo o ser humano, que é sede de relação, de aceitação e de amor”. Neste livro, que em cada página

é um gole de inspiração, vejo uma ligação com o paradigma da Nova Cultura da Água porque há uma visão holística do ser humano como um todo físico e espiritual. O Padre Tolentino Mendonça para além de nos falar de uma ciência da sede lança algumas questões pertinentes ao longo do livro: “O que é que a nossa sede nos ensina? Que fonte ela ilumina e esclarece? Será que fazemos da nossa sede uma escola de verdadeiro conhecimento, nosso e de Deus? Ou, pelo contrário, aceitamos viver à míngua de água, procurando mascarar uma sede que não escutamos?” Com uma dimensão prática e espiritual continua a colocar questões que remetem para a dimensão mais profunda da vida: “Sentimo-nos nutridos pela memória ou secos pela velocidade de tudo? Sentimo-nos a caminhar devagarinho para uma fonte? Aqui, como em outros âmbitos da vida, a verdadeira conversão não consistirá em belas teorias, mas em decisões que resultem de uma tomada de consciência efetiva das nossas necessidades”.

A nossa conversão para além de íntima e pessoal, creio que nos tempos actuais terá de ser também uma conversão ecológica, consciente de que os nossos comportamentos afectam o todo e que somos também responsáveis pela crise ambiental e climática. Para enfrentar esta crise, cada vez mais alarmante, é preciso mobilizar vontades e decisões, a começar por decisões pessoais e sustentáveis, diminuindo a nossa pegada ecológica porque está em causa o nosso futuro comum. Há uma forte expectativa com a Cimeira do Clima que começa no próximo dia 23 de Setembro em Nova Iorque. António Guterres ao convocar a Cimeira referiu que o mundo está hoje “em sérios apuros com a alteração climática” e que esta é uma “questão de vida ou de morte”. Que não seja apenas mais uma Cimeira e que não tardem novas medidas concretas com uma mais forte ética ambiental, porque, como diz o Papa Francisco, se tardar mais, é tarde demais! l pub


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9 de Agosto de 2019

CULTURA • SUL

REFLEXÕES SOBRE URBANISMO •••

O ordenamento do território e os incêndios fotos d.r.

Teresa Correia

Arquitecta / urbanista arq.teresa.correia@gmail.com

A época dos fogos Apesar de todas as medidas de prevenção, como limpeza de terrenos e de bermas de estradas, volta-se hoje a verificar o flagelo dos incêndios florestais, destruindo casas, património e, por vezes, também vidas humanas. Foi com enorme esforço financeiro e de recursos que se verificou a aquisição por parte do Estado de sistemas de comunicação como o SIRESP, a aquisição de serviços que, bem ou mal, foram realizados para tentar comba-

Apesar das medidas de prevenção, fogos voltam a assolar as florestas • O problema é complexo e persiste, porque é estrutural do nosso território. A economia da floresta não funciona, logo, não existe o cuidado da sua proteção e também o estímulo económico e o plano

Terreno com montado de sobreiros • ter em tempo, o caos anunciado da época dos fogos. No entanto, após tudo isto, continua, ano após ano, o flagelo a acontecer, e com uma dificuldade de gestão enorme, em momentos de crise.

adequado para que seja realizada a plantação de espécies mais resilientes. A floresta que existe é de monocultura, a população não tem alternativa senão optar por algo que seja economicamente mais vanta-

joso e logo as espécies autóctones como o carvalho, o azinheiro, o sobreiro, são tantas vezes preteridas. Compreende-se que as pessoas abandonadas, tantas vezes, pelo Estado após o desastre, tentem aquilo que mais lhes poderá render, não tendo apoios para fazer algo que seja diferente. Dos chamados Planos Municipais da Defesa da Floresta Contra Incêndios só se obteve apenas mais uma restrição urbanística à construção e pouca prática de proteção efetiva no que diz respeito à Proteção Civil. No Algarve, os referidos planos foram quase todos elaborados pela anterior legislação, não tendo sido traduzidos para os PDMs, uma vez que não foram revistos. Assim, não se respeitou o direito à participação pública, nem o direito à transparência, sendo, no entanto, exibidos e aplicados como um plano a cumprir do ponto de vista da proibição, desprezando os direitos mais fundamentais da Constituição. As reconstruções das habitações e os novos PDMs A reconstrução das habitações ardidas é de uma necessidade impe-

riosa para a fixação das populações, no entanto, parece ter existido uma delonga e um arrastar da situação nas zonas ardidas no Algarve, como seja, em Monchique. Qual a motivação para atrair pessoas e investimento para um concelho deprimido, se não existe proteção do Estado em eventos extraordinários como sejam os fogos? Será de toda a importância planear e criar as oportunidades certas para atrair população. Para tal, a reconstrução é de grande relevância e os apoios financeiros do Estado absolutamente necessários para tal objetivo. A construção de habitação social, o planeamento de parques industriais ligados à água por exemplo, ou à matureza, serão algumas das opções a ter em conta, para a revitalização do concelho. Se conseguir inverter a tendência da desertificação do interior, naturalmente, os incêndios serão também reduzidos, uma vez que existirá um desenvolvimento mais equilibrado do interior.

Visão integradora e de consciencialização do cidadão As estruturas locais e nacionais terão obrigatoriamente que acautelar a visão integradora de um território, pelo que a floresta, os matos, a agricultura e o solo rural devem progredir economicamente, devendo ser tratados com igual atenção. O isolar, proibindo, poderá nalguns casos piorar o estado atual de abandono, daí, o problema ser complexo. A estruturação do território deverá obedecer a leituras cruzadas, privilegiando os compromissos e o crescimento sustentável dos territórios. Daí que os estudos criteriosos, da geografia, da ocupação do solo, da estrutura viária, das fontes de água e das estruturas urbanas, devem ser rigorosos sob pena de existirem planos pouco fiáveis, criando injustiças. A formação das populações é também uma aposta importante, uma vez que aumenta a preparação

Incêndios destroem casas, florestas e, por vezes, vidas humanas •

A revisão do PDM será de toda a relevância, mas mantendo a visão da excecionalidade, das regiões deprimidas, e não a aplicação cega de regras nacionais, como seja a redução de perímetros urbanos.

das pessoas para encarar os novos fenómenos naturais, podendo salvar vidas. Esta situação não deverá ser descurada, para que a consciencialização do cidadão seja a maior aliança, no momento de crise. l

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