DOM NATURAL AOS 73 ANOS, JOÃO DONATO, UM DOS MAIORES MESTRES DA MPB, SE PREPARA PARA LANÇAR O SUCESSOR DE SEU DISCO MAIS EXPERIMENTAL, O CLÁSSICO A BAD DONATO. INCANSÁVEL E GENIAL, COMPÕE A TODO MOMENTO E TRANSFORMA QUALQUER OBJETO EM INSTRUMENTO PARA SUA MÚSICA – ATÉ MESMO UMA INOFENSIVA POLTRONA DE MASSAGENS
Por CRISTIANO BASTOS á um ano, o maestro Laércio de Freitas ancora à casa de João Donato – vista para a Baía da Guanabara, costas para o Morro da Urca, quase colada à cobertura de Roberto Carlos – e se acomoda na poltrona da sala de ensaios. O móvel não é ordinário, nota-se pelo nome: Shiatsu Massaging Cushing. Donato, compositor de “A Paz”, o trouxe de Denver (Colorado), em 2001, em seu colo, ao fim da temporada de shows no Vartan’s Jazz Club. Acionado por controle remoto e ligado à tomada, funciona por estímulo de vibrações eletromagnéticas. Produto fino e, pelo preço, uma bagatela. Por US$ 199 (por volta de R$ 350), as oscilações reproduzem técnicas da massagem japonesa surgida nos estertores da era Meijim, em 1800. Sem o saber, os fabricantes da HoMedics Inc. não apenas adequaram medicina oriental à traquitana: a tecnologia passou ao estado de arte pela maestria de João Donato de Oliveira Neto – um dos maiores da música popular brasileira –, que fez samba brotar do aparelho e, por tanto, nem cobrou royalties.
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O REI E SEU TRONO João Donato descansa na shiatsu machine em sua casa, na Urca (Rio de Janeiro): musicalidade à flor da pele
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Só para relaxar, Laércio senta-se na poltrona que – fora a musicalidade reinante – virou atração residencial à parte. Como gueixa eletrônica, massageia braços, pernas, cabeça, tronco, o corpo inteiro, até os dedos dos pés e mãos. Pode-se escolher a velocidade: lo, high ou speed. Quem tem o privilégio de visitar Donato e passar um fim de semana conhecendo de perto de sua vida e trabalho, sempre ensaia um relax na shiatsu machine, o carinhoso apelido doméstico do aparelho. Das incontáveis combinações de vibrações disponíveis, o maestro Laércio – respeitado arranjador e pai da atriz e cantora Thalma de Freitas – cismou com uma “vibração melódica” em especial. Freitas escuta música nas minúcias, “ouvido de tuberculoso”, e selecionou sua opção de massagem: primeiramente, pelo som; a seguir, pela terapia. O timbre da shiatsu machine é vagamente próximo ao das baterias eletrônicas setentistas – datado e bacana como as texturas de Giorgio Moroder, o mago italiano dos sintetizadores. Para Donato, o “som da poltrona” é o de menos – “O que importa é a sugestão rítmica”, parodia. A massoterapia de Laércio foi breve. Alarmado com o compasso musical da
sessão que escolhera, ergue-se sobressaltado e anuncia: “Essa poltrona tem música!”. E, entusiasmado com a descoberta auditiva, passa a reproduzir, no meio da sala de estar, a “batida”. Ao piano Goldmann, Donato e Laércio a repetiram e testaram. O resultado foi uma base instrumental primitiva. A cantora Vini Kjaergaard Iuel, dinamarquesa arrebatada pelo universo musical de Donato, estava no Rio e foi visitá-lo. Exausta de um longo vôo, sentou no musical assento, enquanto o via ensaiar com o guitarrista Ricardo Silveira. Medita, afundada em tranqüilidade: “Massagem ao som de Donato? Isso é perto do paraíso...” Nesse dia, ela também foi agraciada com um insight shiástico: escolheu sua modalidade e saiu espontaneamente a cantarolar o ritmo da massagem. Ao piano, Donato – mais um “ouvido de tuberculoso” – pede que repita as notas. A vocalização se encaixa na base instrumental criada meses antes por Laércio e Donato. Enquanto tornava a cantar, ela lembra, ele harmonizava a melodia ao piano: “Não adianta, se derem uma máquina de escrever para o Donato, alguma melodia vai sair dali”.
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