música
A
Imagem cedida por Nelio Rodrigues
mais de 3 mil léguas submarinas, o telefone ringe: de Brasília, capital federal, a ligação soa em algum endereço incerto de Tapes, bucólico recanto irrigado
pela Lagoa dos Patos. Peço por Marco Antônio Figueiredo, vulgo “Fughetti Luz”. Trata-se do pioneiro homem, que, pode-se pontificar, desferiu para o Brasil a “palhetada fundamental” de um cancioneiro pop sul-rio-grandense. Dos versos “Ouça menina, essa nova música/ Que será sucesso durante um mês”, Por
Favor, Sucesso virou fenômeno entre a magrinhagem setentista gaúcha. Composto em 1969, o hino do Liverpool leva assinatura do poeta Carlinhos Hartlieb, jovem agitador das concorridas Rodas de Som daquele tempo. Presentemente, Luz – cuja idade é mistério maior do que ele próprio – faz outro tipo de súplica: “Por favor, me deixem em paz!”. Calejado, antes mesmo que eu me identifique como repórter, o cantor adivinha o mote da prosa. Malfadado, o bate-papo deveria ser a respeito da profusão de bandas gaúchas que batem em retirada para tentar a sorte
À FRENTE DA MODA
Em 1969, guiados por Mimi Lessa (E) e Fughetti Luz (D), o Liverpool pavimentou a estrada dos retirantes gaúchos
em São Paulo, centro econômico-cultural do país. Tal como o Liverpool fez ao pôr o pé na estrada rumo ao Rio de Janeiro 40
a erva de chimarrão. Grande parte dos retirantes, porém, como
anos atrás – quando a fuga tinha no eixo Rio-São Paulo o des-
bons filhos à casa retornaram. Em 2001, confessa o frontmen
tino mais cobiçado. Majestade que, de certa forma, os cariocas
da Bidê ou Balde, Carlinhos Carneiro, o conjunto passou por altos
perderam. A Meca do rock, hoje, é São Paulo. Em seu intratável,
e baixos em sua estadia paulista. Dos mais aplaudidos da cena
mas divertido, azedume, Fughetti Luz reina ao telefone: “Não
contemporânea do rock nacional, os guaibenses do Superguidis
quero mais falar sobre o Liverpool, não”. A negativa só faz miti-
se apoderam da famosa frase de Dom Pedro II: “Se é para o bem
ficar a reputação de punk por natureza do autor de hits como
de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que ficamos!”,
Olhai os Lírios do Campo, Bixo da Seda e Trem.
diz o guitarrista Lucas Pocamacha, parafraseando a História para
Em 1964, ainda crooner do conjunto Flamboyant, Elis Re-
POR FAVOR,
SUCESSO! FAMA, ARTE E RECONHECIMENTO: QUE FENÔMENO LEVA BANDAS GAÚCHAS À PAULICEIA EM BUSCA DO DESVAIRADO SONHO ROCK-AND-ROLL?
POR CRISTIANO BASTOS (DE SÃO PAULO, GOIÂNIA E BRASÍLIA – MENOS DE PORTO ALEGRE) JORNALISTA, COAUTOR DE GAULESES IRREDUTÍVEIS – CAUSOS E ATITUDES DO ROCK GAÚCHO
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justificar permanência em terra pampeana. Ainda.
gina também deu no pé. Do IAPI, em Porto Alegre, direto para
Em solo bandeirante, Pedro Metz ajeita um carreteiro – “só
o Rio de Janeiro. Atitude rock, sem dúvida. Ainda mais para
para não perder o costume”. Conta que a escolha por São Paulo
uma mulher cuja arte estava recém começando a amadurecer
foi, acima de tudo, profissional. O perfil macro da cidade pareceu
naquele primeiro ano de chumbo. Bandas e artistas pop (Os
ideal para as ambições criativas da Pública. Louros, inclusive, re-
Cleans, Os Brasas, Almôndegas, Hermes Aquino, Rosa Tattooada,
pousam na “estante de prêmios” dessa (Re)Pública, onde com alta
Garotos da Rua – e muitos outros), em suas respectivas épocas,
rotatividade recebem visitas de congêneres paulistanos. Como
nem pestanejaram quando convidados a sair de Porto Alegre.
os músicos das bandas Biônica e Rock Rocket. Entre os troféus, a
E, nesse segundo decênio, nossos artesãos do pop, outra vez,
estatueta arrebatada com o videoclipe de Casa Abandonada na
estão na crista da onda. Na eleição dos melhores de 2010 feita
edição de 2007 do Video Music Brasil. “Nos sentimos desafiados
pela revista Rolling Stone, três álbuns gaúchos aparecem no top
a tentar”, ressalta Metz, que arremata: “Não curtimos a situação
25: Fresno, Superguidis e – ora, veja só – Vitor Ramil. Afundado
cômoda que ficar no Rio Grande do Sul representa”. E logo se
num sofá da casa da Pública, a conversa que levo com Pedro
reconcilia: “Amamos Porto Alegre”. Parceiro de empreitada, o
Metz, cantor e letrista, versa justamente sobre este ir ou não ir.
baixista Guilherme Almeida (filho do nativista Iraci Rocha) tam-
Na capital paulista, o casarão onde os guris da banda residem,
bém discorre sobre o autoexílio. E fala por todos: “A escolha foi
ensaiam e compõem, fica em meio à boemia da Vila Madalena.
importantíssima em nossas vidas”. No caso dele, a brincadeira ainda tem rendido novos sons: além da Pública, Almeida anda
CARA, CORAGEM E ERVA DE CHIMARRÃO
enredado em projetos com Martin (guitarrista da banda de Pitty)
Mas o papo, assim como o rock de agora, muito pouco tem
e com Tita Lima – cantora paulistana que é acompanhada pelo
de novo. No gaulês Rio Grande do Sul, historicamente afeito
guitarrista Guri Assis Brasil, outro integrante da Pública.
a pelejas de toda sorte, o debate existe desde o dia em que
Agora façamos o favor: o caso desfraldado pela banda
cunharam a alquebrada insígnia “rock gaúcho”. Nos áureos anos
porto-alegrense Fresno, estampado em todas as possíveis mídias,
1980/1990 (boom do rock brasileiro, como gostam de chamar),
merece ser narrado. Em tempos que a indústria fonográfica
muitas bandas gaúchas dançaram embaladas pelo suingado
agoniza em mortal concordata, a façanha conseguida por esses
esquemão bancado pelas grandes gravadoras. Como destino, as
nativos da capital é um admirável triunfo. Autodefinida como
selváticas plagas cariocas e paulistas. Cara, coragem e, no alforje,
“powerpop-rock-shoegaze” (decerto para espantar a alcunha 15
música
REPUBLICANOS
A Pública foi esquadrinhar seu lugar ao sol na capital paulista. Louros são colhidos no jardim de casa. Lema: profissionalismo
de “emo”), a Fresno soube elevar seu cartaz para muito além
por exemplo, a participação no programa Estúdio Coca-Cola
dos estertores do underground. Para “além das capitais”, como
Zero, lado a lado com Chitãozinho e Xororó, astros oriundos da
cantou Humberto Gessinger. A partir do álbum Ciano, de 2006,
dimensão nem tão paralela assim do gênero “popnejo”. O que
foram incontáveis as aparições da Fresno no meio televisivo.
pode ser considerado, no mínimo, psicodélico. A cartada, cabe
Incalculável, também, é a miríade de downloads já realizados
lembrar, foi costurada pelo gaúcho Carlos Eduardo Miranda, o
de suas músicas. Filho de Camaquã, o baixista Rodrigo Tavares
popular “Gordo Miranda”. Miranda é outro mago do pop verde-
revela que, no álbum seguinte, Redenção, abraçaram o pop
amarelo. No pretérito do sucesso, não esqueçamos, o produtor
propositalmente. A jogada arrebatou uma fervorosa turba de
também curtiu seus tempos de chinelagem. Em Porto Alegre,
novos fãs, ainda mais ensandecidos. E, como sempre rezou a
integrou formações do Taranatiriça e do Urubu Rei, dirigiu o selo
missa do rock-and-roll, groupies, muitas groupies.
Banguela (juntamente com os Titãs, e que revelou gente como
Simbolicamente, é possível orçar o sucesso da Fresno pelas
Os Raimundos) e fez fama nacional como jurado do programa
láureas que acabam empilhando a cada nova investida. Editado
Ídolos, quando ainda era exibido pelo SBT. Tal como fazia em
pela Universal Music, Redenção foi Disco de Ouro. Ou seja: ven-
Ídolos, Gordo Miranda não é de poupar neófitos, como deixou
deu, pelo menos, 50 mil cópias. Para crescer o mito da fama, o
bem claro em depoimento ao livro-reportagem Gauleses Ir-
dourado prêmio foi pessoalmente entregue pelo produtor Rick
redutíveis – Causos e Atitudes do Rock Gaúcho, publicado em
Bonadio – considerado uma espécie de Midas da manufatura
2001. “Quantas bandas tentaram vir para São Paulo e quebraram
de rock no Brasil. A notoriedade rendeu à Fresno frutos como,
a cara? Na boa, o som da maioria serve apenas para tocar em
André Cavalheiro
Guilherme Thiesen Netto
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“QUANTAS BANDAS TENTARAM VIR PARA SÃO PAULO E QUEBRARAM A CARA? NA BOA, O SOM DA MAIORIA SERVE APENAS PARA TOCAR EM SEU PRÓPRIO ESTADO. E OLHE LÁ!” GORDO MIRANDA
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HITS EM CASCATA
O sucesso nacional da Fresno não foi pedido a ninguém. Fórmula: imaginação, cortes de cabelo e profusão de êxitos radiofônicos
É PRECISO DAR VAZÃO AOS SENTIMENTOS
A Bidê pode até “desafinar”, mas o lema da banda justifica “falhas”: “Ame o rock”. Em 2011, os baldes derramarão outro grande álbum no mercado
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música Danilo Christidis
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CACHORRADA MEDONHA
ELEFANTISMO
Desde sempre, a Cachorro Grande lutou para ser uma banda nacional. Em São Paulo, a estreia foi em 2001: sucesso logo de cara
Para cuidar dos negócios da Pata de Elefante, o power trio montou QG em São Paulo, de onde Prego (D) governa o futuro de sua bem encaminhada carreira solo
seu próprio Estado. E olhe lá!”. No caso da Fresno, nada mau para uma gurizada que, em 1999, se juntou para fazer suas versões de hits do hardcore californiano no esquema “só por diversão”. Há 12 anos, até o nome era outro: Democratas. Em verdade, o pulo do gato da Fresno começou, mesmo, com os amadores Democratas. Ou nem tão amadores assim, já que as canções gravadas caseiramente se espalhavam (como nunca antes havia acontecido na história do pop nacional) pelo infindável universo da internet. O recurso: enviar mensagem. O meio: e-mail.
SOBRE CACHORROS E ELEFANTES A festa de lançamento de Gauleses..., em 2001, rolou no Café Uranus, em São Paulo. As atrações roqueiras foram Cachorro Grande e Bidê ou Balde. Maior que a curiosidade despertada pela obra jornalística, o esperado frisson da noite era o show da Cachorro Grande. A Bidê ou Balde, que não era marinheira de primeira viagem na cidade, lançava o disco Outubro ou Nada!. A performance da cachorrada assinalava o debute dos guris no
Em Porto Alegre, pelo menos, o jogo da banda Volantes
grandioso – e, então desconhecido – “campinho” que São Paulo
está praticamente ganho. No ano passado, arremataram três
representava. “A Cachorro”, afiança o guitarrista Marcelo Gross,
importantes categorias do Prêmio Açorianos de Música: melhor
“sempre lutou para ser uma banda nacional”. Há dez anos, a
disco, compositor (Arthur Teixeira) e revelação. Mas Arthur, que
jornalista paulistana Flavia Durante, editora do Blah Blah Blog,
também é o vocalista, assume: a banda nasceu com pretensões
resenhou em seu blog: “Estou ouvindo o MP3 deles [Cachorro
nacionais. “Nossas canções podem fazer sentido para grandes
Grande] há um mês, sem parar. O mundo está precisando de mais bandas assim”. Editor do magazine eletrônico Urbanaque (urbanaque.com. br), também colunista da revista Rolling Stone, Leonardo Dias Pereira fala do cimo de sua experiência como produtor de shows. A marca Urbanaque divulga e promove bandas de todo o Brasil. Não há preconceito estético, muito menos territorial na proposta. Na ótica de Leo, São Paulo possui a grande conveniência de ser “o” polo cultural do Brasil. Que abarca nichos musicais com distintos alcances de público. Mas, de fato, São Paulo é mesmo a mãe do rock brasileiro? Se a banda atrai público fora de sua cidade ou região, a mudança não é necessária, aposta ele. Interessante é investir no que se pode chamar de temporadas paulistanas. “Pode ser um fim de semana, uma semana, um mês: o legal é dar as caras pro público paulistano”, sustenta Leo. Dos destaques do pop 2010, ele menciona os também sulistas do Nevilton. Naturais da pequena Umuarama, no Paraná, o grupo ganhou recentemente exposição privilegiada em importantes veículos da cena musical, como Rolling Stones e MTV. “Rolam coisas muito legais ligadas
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“SERÁ QUE OS CARAS DE RECIFE PENSAM NESSE TIPO DE QUESTÃO? NÃO DÁ PARA FUGIR: É UMA PROBLEMÁTICA BEM GAÚCHA” CARLOS MALTZ
Divulgação
públicos”, aposta. O teste em São Paulo tem se revelado, no mínimo, promissor. O single Ouça!, por exemplo, chegou à oitava colocação no Top 10 da tradicional rádio Brasil2000. A estadia rendeu, também, o clássico-e-obrigatório “rolê” de shows que as bandas cumprem pelos inferninhos da cidade, como Studio SP, Outs e Fun House. Gustavo “Prego” Telles, baterista do power trio Pata de Elefante, está morando em São Paulo, desde 2004. É lá que está montado o quartel-general de onde, além de gerir os negócios da Pata, Prego governa o destino de sua bem encaminhada carreira solo. Com o álbum Do Seu Amor, Primeiro É
Você Quem Precisa, rebento romântico no qual canta e compõe, Prego se anuncia como grata surpresa. Daniel Mossman e Gabriel Guedes, seus elefânticos comparsas na Pata de Elefante, por sua vez, estão constantemente no ir-e-vir dos aeroportos. Gustavo Prego define a mudança para São Paulo como imperativa. “Foi aqui que as coisas começaram a dar certo para nós. Fora o inegável: aqui é o centro econômico-cultural do país”.
NA ESTRADA, MUITO ALÉM DE SÃO PAULO
à cultura rock na metrópole paulista: casas de shows, revistas,
Salto para a capital goiana, centro-oeste do Brasil. Vou
lojas de roupas. Um mundaréu de atrações. E a tendência é só
acompanhar a 16ª edição do Goiânia Noise Festival – o mais
crescer”, reforça o editor-produtor.
importante encontro de rock independente do Brasil, ao lado
ROMANTISMO & SARCASMO
Para os Volantes, suas canções fazem sentido para o grande público. Em Porto Alegre, o jogo está praticamente ganho
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música
do Abril por Rock, de Recife. Para variar, a Superguidis é a
ante as atuais vitórias: “Está mais do que bom”.
festejada atração deste evento, cuja tônica não é outra
Falando em engenharia, “essa é uma questão bem
da Bidê ou Balde, morar em São Paulo representou “vários
senão o som de guitarras em volume excruciante. Por aqui,
gaúcha”, filosofa o ex, porém eterno, Engenheiro do Hawaii
lances”. Em 2001, a banda rumou para o sudeste com tudo
na terra do sertanejo, os Guidis não são novatos. Já pisaram
Carlos Maltz. Ao inverso de Pocamacha, Maltz abandonou
financiado pela gravadora (a extinta Abril) e pelo produtor,
no chão vermelho-escarlate de Goiânia uma dúzia de vezes.
a engenharia duas vezes: saiu da faculdade de Engenharia
o faraó Manoel Poladian. Durante um ano, desfrutaram
Eu mesmo, em três ou quatro oportunidades, presenciei a
para formar... os Engenheiros. Tempos depois, largou a
benesses que geralmente são concedidas às bandas que
catarse que é vê-los vazando suas agridoces microfonias
banda e se converteu em psicólogo junguiano e renomado
assinam com grandes gravadoras: casa, comida e assesso-
para deleite da juventude goiana, sempre faminta por rock.
astrólogo em Brasília. Abancado à sua frente – como fosse
ria de imprensa pagas, por exemplo. Mas nem tudo eram
Entre uma cerveja e outra, interpelo o guitarrista Andrio
eu o entrevistado –, Maltz se sai com um sofisma pop-
flores. Na época, discorre Carneiro, pintaram dificuldades
Maquenzi no senegalês mormaço goiano. Com tamanho
gaudério da maior legitimidade: “Será que os caras de
para transpor o jeito como a Bidê “fazia as coisas”. Poladian
reconhecimento, por que insistir com a capital gaúcha? “Eu
Recife pensam nesse tipo de questão? Não dá pra fugir:
até queria que os bidezes ficassem por mais tempo em
tenho uma vida plena em Porto Alegre, ainda que São Paulo
está encilhado em nossa história”. Os Engenheiros do Hawaii
São Paulo. “Mas temíamos a tal da geladeira. Voltamos
seja uma cidade legal. Há tanta gente lá que, certamente,
tiveram – ainda tem – grande protagonismo na concepção
praticamente fugidos.” Nesse aspecto, em especial, Carneiro
haverá nicho para a música de todo mundo.” Maquenzi
do modelo vigente. Nos anos 1990, é bom lembrar, eram,
sempre se encantou com o jeito mineiro de ser. Ou seja:
acredita que o fluxo do cenário independente está tão
de fato, a maior banda brasileira. É irônico pensar que a
“Entre estar ou não no eixo Rio-São Paulo, eles geralmente
descentralizado que não vale a pena mudar de mala e
estreia fonográfica do grupo foi seu eterno e hour concours
preferem ficar em Minas”, lembra. Para o compositor Mar-
cuia. Lucas Pocamacha, o outro guitarrista, explica-se: “Eu
recalque: Longe Demais das Capitais. “Adorávamos dizer
celo Birck (Graforréia, Prisão de Ventre), em qualquer lugar
tenho um assunto inacabado em Porto Alegre. Chama-se
que ficaríamos em Porto Alegre... Quando nos demos conta,
do planeta a matemática que rege o mercado musical
Engenharia Elétrica. Se é para passar trabalho, prefiro ser
éramos uma banda do Brasil e nem sabíamos.” Mais insano
é simples. Obrigatoriamente, quem quer trabalhar com
engenheiro”. Naquela noite, antes de subir ao palco (para
ainda é o fato de que ninguém avisou para todo o Brasil que
música autoral deve saber: “O mercado carece ser criado a
tocar acompanhado do Plebe Rude Phillipe Seabra, produtor
existia a tal questão gauchesca. “Eles nunca entenderiam,
cada nova circunstância”. Não há regras, atalhos ou estra-
dos aclamados álbuns dos Guidis), Andrio Maquenzi sorri
mesmo”, completa o baterista-astrólogo.
tégias. Gestão, no entanto, é fundamental. Em relação ao
Ana Volpe
“OS ARTISTAS GAÚCHOS NÃO SE EMPENHAM PARA AVANÇAR SOBRE O MERCADO NACIONAL. E NEM DEVERIAM: O RIO GRANDE DO SUL É GRANDE O SUFICIENTE” RICARDO ALEXANDRE 20
Carlinhos Carneiro conta que, na estrada de dez anos
LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS
Primeiro álbum dos Engenheiros do Hawaii foi Disco de Ouro. “Na época, nem Caetano Veloso tinha um”, conta Carlos Maltz
POP OU POP
Carneiro, da Bidê ou Balde: “Somos uma banda pop. Que se alimenta até de coisas nada pop, mas que enxerga viabilidade pop em tudo que gosta”.
Divulgação / Monstro Discos
RIFFS E MICROFONIAS
Os guaibenses Superguidis estão léguas distantes de serem chamados “indies de apartamento”. Eles têm a cara da “juventude suburbana emergente”.
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música
GAULESES DE SUCESSO Embora “invisível”, uma integração extremamente profissional afirma-se a cada temporada no panorama do rock independente
WALVERDES: CONCISO E EFICIENTE
Mini: “Se há 15 anos a gente pudesse fazer turnês por nordeste, sudeste e centrooeste, iriam rir. Mas aconteceu”
Mas, voltando ao eixo São Paulo-Porto Alegre/Porto Alegre-
sul-americano. Ou seja, São Paulo não é a única ”estrada” para
São Paulo, há muitas outras histórias de sucesso. Ou, pode-se
as bandas trilharem. A música latina, enfim, movimenta-se para
dizer, quase sucesso. Algumas ficaram só na promessa. O caso
transpor a fissura geocultural que aparta países da América do
mais misterioso é o do publicitário e músico Hermes Aquino. Hoje,
Sul. Cambiando experiências e sonoridades, roqueiros argentinos,
ele vive em Porto Alegre, onde tem uma empresa especializada
uruguaios, brasileiros, colombianos e de outras plagas, também
em fazer jingles. Hermes foge das entrevistas, bem ao “estilo
ganharam o trânsito das Américas. Essa é a aposta do produtor
João Gilberto”. Eu mesmo tentei falar com o homem umas tantas
do festival El Mapa de Todos, o gaúcho Fernando Rosa, cuja
vezes – sem sucesso. Hermes Aquino, para quem não sabe, é
entrevista pode ser conferida com exclusividade no site de APLAUSO (aplauso.com.br). A primeira edição do festival
a novela global O Casarão. Você Gosta?, parceria sua com Tom Zé,
aconteceu em Brasília, em 2008. A próxima será em Porto Alegre,
por exemplo, foi gravada pelo Liverpool, e Planador, pela banda
autor do hit Nuvem Passageira. Em 1976, a canção bombou com
em abril. Rosa, que também edita o portal Senhor F (senhorf.
paulista Os Brazões. Na Capitol, que lançou seu segundo LP, Santa
com.br), anuncia a presença de artistas oriundos de variadas
Maria, Hermes desentendeu-se com a gravadora.
correntes musicais: “Do Peru, por exemplo, estamos trazendo
Editado em 1990, o primeiro álbum da Rosa Tattooada,
a banda Bareto. Na edição porto-alegrense, avançaremos até a
homônimo, foi lançado pela gravadora Nova Idéia e a produção foi
Venezuela com o grupo de surf-rockabilly Los Mentas”, revela, em
do nenhum de nós Thedy Corrêa. O disco emplacou nacionalmente
primeiríssima mão.
a balada O Inferno Vai Ter Que Esperar, que tocou como água nas
centro do país, o Rio Grande do Sul, pondera Birck, ainda
Marcos – a poderosa tríade que forma os Walverdes – no bar
A “Urbanaque Apresenta”, encontros roqueiros promovidos
oferece oportunidades muito embrionárias: “Para vencer o
Outs, endereçado na Augusta, uma espécie de Osvaldo Aranha
pelo pessoal do site paulistano Urbanaque (urbanaque.com.br),
playlists. O êxito rendeu à banda o “sonho” de abrir, em duas
amadorismo, há muito que se trilhar”.
em Porto Alegre, só que bem mais trash. A banda lança na
sempre procurou em suas edições trazer bandas e artistas de fora
turnês diferentes, shows feitos pelo Guns N’ Roses no Brasil.
casa o recente Breakdance. Mini e eu discorremos sobre a
de São Paulo – e também do próprio rock, como conta o produtor
ponte, bem sólida, que musicalmente conecta Porto Alegre a
ex-Os Brasas Franco Scornovacca. Depois que a banda terminou, de pai do conhecido trio de irmãos que atendem pela sigla KLB.
VALOR DE PERMANECER À MARGEM
rádios gaúchas e, por muito tempo, foi primeiro lugar em vários
De todas essas histórias, uma das que mais renderam foi a do
E São Paulo? Será que a megalópole deseja os artistas
São Paulo. “Em Porto Alegre, o ‘mainstream local’ conta com
Leonardo Dias Pereira (em outra entrevista no site de APLAUSO). Antes de tudo isso, o “rock gaúcho” gozou, também,
gaúchos tal como eles a cobiçam? Na crítica do diretor de
uma rede de rádios fortes, a RBS, e um consistente circuito
de seus momentos de “pré-sucesso”. Lançado em fita K-7, Último
redação da revista Época São Paulo, Ricardo Alexandre, o
de shows no interior”. São equações assim que seguram as
Verão, álbum de estreia de Julio Reny, apresentava o petit hit Cine
mercado gaúcho é autossustentável. Alexandre (também
bandas em sua cidade natal: sem abandonar suas vidas,
Marabá. A canção tocou bem nos primórdios da Ipanema FM, em
do Sul. Ele atende pela alcunha de Luís Vagner, o “Guitarreiro”.
autor do hit literário Nem Vem Que não Tem – A Vida e o
elas conseguem se estabelecer profissionalmente. “Parte do
Porto Alegre, e, tanto quanto, na extinta Fluminense, a “maldita”,
Também saído do Os Brasas, em 1971, o guitarrista tocou no
Veneno de Wilson Simonal, Prêmio Jabuti de melhor biogra-
sucesso do manguebeat”, considera Mini, “calhou porque os
que irradiava os “venenos” de Niterói, Rio de Janeiro. Cine
álbum Vida e Obra de Johnny McCartney, de Gileno Azevedo.
fia) não crê numa teoria de resistência paulista. O jornalista,
caras precisavam vir para cá”, assinala. Caso contrário, a turma
Marabá, aliás, é um dos fonogramas cedidos por Reny que estão
Outra parceria de sucesso foi com o samba-roqueiro Bebeto. Em
de Chico Science e Fred04 minguaria em Recife.
reunidos na compilação “Gauleses Irredutíveis merecem
1973, Vagner escreveu Camisa 10, cantada pelo sambista santista
Aplauso”, com a qual a revista presenteia seus leitores.
Luiz Américo, que se tornou um hino futebolístico. Mas voltemos
que já editou a revista Bizz, elenca algumas bandas que se
Franco, em São Paulo, virou produtor e empresário musical – além Existe um que pouco – ou nada – é lembrado no Rio Grande
deram bem com o movimento vai-e-volta: Engenheiros, Ne-
E o rock de hoje: ainda carece de uma sonoridade
nhum de Nós, Cachorro Grande, Júpiter Maçã, Wander. Para
brasileiro-tradicional-pop-contemporânea? “De certa forma,
Editada em dois volumes, a coletânea traz surpresas de artistas
ao rock. Em parceria com Tom Gomes, Luís Vagner fez uma das
ele, o “grande lance” é que, via de regra, os artistas gaúchos
o Júpiter Maçã fez isso. E, embora ele não tenha estourado, A
e bandas como Rosa Tattooada, Almôndegas, Pupilas Dilatadas,
mais sublimes letras do gênero no Brasil: Sílvia 20 Horas Domingo, canção que o “príncipe” Ronnie Von imortalizou em seu cultuado
não se empenham suficientemente para avançar sobre o
Sétima Efervescência Intergalactica [primeiro lugar no rank-
Loomer, Júpiter, Os Replicantes, Irmãos Rocha e Lovecraft. Me
disparatado mercado nacional. “E nem deveriam”, apregoa,
ing Melhores do Rock Gaúcho, feito por APLAUSO em 2007]
Deixa Desafinar, novo single powerpop da Bidê ou Balde, é o hit
álbum psicodélico Ronnie Von nº 3. De poético primor pop, os
para depois completar: “O mercado do Rio Grande do Sul é
é das peças fonográficas mais influentes registradas no final
certeiro da coletânea. Mimi Lessa, lendário guitarrista do Liverpool
versos cantam: “Que alegria! Você estará comigo/Domingo que
grande o suficiente. Muito profissional e interessante. Falei
do milênio”, rememora Mini. No Outs, apenas meia dúzia
e do Bixo da Seda, hoje radicado no Rio, liberou duas gemas: uma
vem/Ficaremos sorrindo/ Eu darei com carinho uma flor pra você/ Pra lembrar marquei na agenda/ Silvia, não esquecerei”. Mas a
isso para o Julio Porto [ex-Ultramen] num show deles, no Bar
de gatos pingados apareceram para prestigiar os Walverdes.
delas é Por Favor, Sucesso, hino que dá nome a esta reportagem.
Opinião: ‘Tá vendo essa gatinha que veio te pedir autógrafo?
Metade eram gaúchos. Mas não faz mal: como de costume,
A outra é uma faixa inédita da banda carioca de Mimi, Orquestra
vinheta que antecede tais versos comprova o quanto Vagner tem
Se a gente estivesse em São Paulo, ela estaria num show
o desempenho do trio é perfeito para o que se propõe fazer.
de Guitarras: “São quatro destruidoras guitarras”, avisa, de
(assim como todos os gaúchos?) de “sangue paulistano”. O trecho,
do Daniel!’. Por que uma Ultramen deixaria de tocar num
“Não adianta ser a banda certa na hora e no local errados”,
antemão. O leitor poderá fazer o
na verdade, é um reclame comercial: “Bar Pires, Bar Pires/Um bar
Opinião lotado para tocar num bar vazio em São Paulo? Por
filosofa o guitarrista, na friorenta madrugada paulistana, meio
que deixaria de prestigiar a Rádio Atlântida para ter de pagar
embriagado com apenas uma caipirinha. Outra vez, sente-se
download gratuito de “Gauleses Irredutíveis merecem Aplauso” no site da revista. Os álbuns virtuais serão encartados com texto de
jabá para não (!) tocar na Mix FM? Sem chance”. “Sem tirar
feliz por estar no seleto rol dos afortunados que, apesar de
apresentação e informações sobre os fonogramas, tais como ficha
Comes e bebes bem cafonas no coração da Augusta”. Em Porto
nem pôr: é o que sempre pensei”, referenda Gustavo “Mini”
todas as intempéries e independentemente de lugares, man-
técnica e curiosidades que circundam as gravações. Os extras, que
Alegre, aliás, assim como na Augusta, tais coisas continuam
tém sua fé no imortal elixir da juventude: o rock-and-roll.
virão em anexo nos discos, serão uma floreada iconografia de
quentes até hoje – ao menos para o rock.
Bitencourt, guitarrista dos Walverdes. Encontro Mini, Patrick e 22
fotos, imagens e velhos flyers das bandas.
pra frente/Um bar que é quente/A onda na Augusta é comer e beber/Só no bar Pires/Entre você também na onda do Bar Pires/
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