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Mortos de Fome

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46l Sexta-feira, 29 de maio de 2009 l Jornal de Brasília

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CULTURA

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ESTREIA FOTOS: DIVULGAÇÃO

Documentário acompanha a vida de quatro famílias nordestinas – mistura de água com açúcar é, muitas vezes, o único alimento consumido por adultos e crianças

Mortos de fome Novo filme de José Padilha, diretor de Tropa de Elite, põe o dedo na ferida na fome no Brasil

tuação estão no Nordeste, região onde a fome grassa desde muito antes do romance Vidas Secas, obra-prima de Graciliano Ramos. Garapa choca logo em uma das primeiras cenas: a mãe põe na boca do filho uma colherada de açúcar – provavelmente única "refeição" que a criança terá no dia.

G Cristiano Bastos

ESTÔMAGO VAZIO Antes da sessão para convidados, José Padilha conversou com o Jornal de Brasília sobre o filme. A "questão da fome", ressalta o cineasta, nunca deixou de existir no Brasil: "Nos últimos anos, o País evoluiu. Contudo, a última pesquisa feita pelo Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) mostrou que mais de 50 milhões continuam de estômago vazio. Muitos recebem o Bolsa Família, mas ainda passam fome". Padilha iniciou as filmagens de Garapa em 2005. Ou seja, antes de Tropa de Elite. Durante um mês, o diretor esquadrinhou a penúria de quarto famílias do sertão cearense. Duas delas, constatou, recebiam benefícios do Governo Federal; enquanto as outras duas nem documento de identidade possuíam. São indigentes, na verdade – privados até mesmo de acesso aos

cristianobastos@jornaldebrasilia.com.br

mbora Garapa, novo filme de José Padilha (Ônibus 174, Tropa de Elite), seja um cruel instantâneo sobre a fome, a palavra que melhor o define é "indigesto". Rodado em preto e branco, o documentário – focado no flagelo de três famílias brasileiras – é sobretudo um filme para não ser esquecido. Na terça-feira passada, Garapa teve sua pré-estreia em Brasília, com a presença de seu diretor. Hoje, a produção entra em cartaz, em circuito nacional. O título do filme alude à mistura de água com açúcar utilizada por famílias pobres como base da dieta alimentar – muitas vezes, essa é a única "comida" disponível. As maiores vítimas dessa si-

E

SAIBA

programas sociais, seja qual for esfera do Executivo. "Para essa gente, o recebimento do Bolsa Família é a diferença entre comer garapa 15 dias no mês ou, então, o ano inteiro". Sem pudores (e vínculos partidários), Padilha assume-se "totalmente favorável" ao programa de transferência de renda. Garapa aborda a chaga da miséria, da qual a fome é apenas uma faceta. O álcool, por exemplo, é desgraça igualmente presente. Um dos pais das famílias retratadas, desocupado e de barriga vazia, parece fazer pouco caso da situação. "Nóis bebe demais; nóis é americano", diz, transtornado pelo efeito do cachaça. Outra cena denuncia a horrenda qualidade dos alimentos que, eventualmente, chegam ao prato das famílias. O comentário de uma mãe, a respeito do feijão que serve aos filhos, é tragicômico: "De tão duro, é só calocar na espingarda que vira arma". Mas não dá para rir. Causa dó, assim como a engenharia necessária para carregar a água do açude balde a balde. Enquanto toneladas de alimentos são desperdiçadas, diariamente, em todo o mundo, um outro pai estarrece os espectadores ao revelar: "Em 28 anos e vida, não houve uma vez sequer que merendei, almocei e jantei no mesmo dia".

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Garapa nasceu a partir de uma conversa, realizada em 200, entre José Padilha e Marcos Prado, sócios na Zazen Produções, sobre a questão da fome no Brasil. "Tínhamos uma

preocupação séria com em relação a dois temas que gostaríamos de senvolver: a questão da fome no Brasil e o problema global de escassez de água", conta Marcos Prado.

A intenção de José Padilha, no filme, era que fosse retirado tudo que não fosse essencial do ponto de vista do cinema. Por iss, ele decidiu fazer o filme em 16mm, sem trilha sonora, com som praticamente em mono e

em preto e branco. Não houve uma seleção prévia de quais famílias seriam retratadas. José Padilha reuniu uma equipe de cinco pessoas e partiu

para o Ceará, tendo apenas o contato de ONGs que atuavam na região. Dados da ONU revelam que 963 milhões de seres humanos passam fome hoje no mundo.


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Mortos de Fome by Cristiano Bastos - Issuu