Skip to main content

Panetone & Circo

Page 1

DA GESTÃO DE RECURSOS PÚBLICOS POR PARTE DA FEDERAÇÃO LOCAL ATÉ A ORGANIZAÇÃO DA COPA DE 2014, PASSANDO POR AMISTOSO DA SELEÇÃO E UM CAÇULA DO CAMPEONATO BRASILEIRO, O ESQUEMA DE CORRUPÇÃO NO GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL CHEGA ÀS ENTRANHAS DO FUTEBOL BRASILIENSE

POR CRISTIANO BASTOS ILUSTRAÇÃO SAMUEL CASAL

EM 30 DE AGOSTO DE 1883, Dom Bosco revelou um de seus proféticos sonhos: “Entre os paralelos de 15° e 20°, numa depressão de terra larga e comprida, partindo de um ponto onde se formava um lago”. No devaneio, uma voz ecoou: “Quando vierem escavar as minas ocultas surgirá aqui a terra prometida, vertendo leite e mel. Será uma riqueza inconcebível...”. Para alguns, ele previra a construção de Brasília, motivo pelo qual o santo italiano se tornou padroeiro da cidade. Ele não pressagiou, porém, as rasantes de rapinagem que, mais de um século depois, explodiriam na capital brasileira, instalada há 50 anos no Planalto Central. Em novembro último, a Polícia Federal (PF) deflagrou a operação “Caixa de Pandora”, que investiga o esquema de distribuição de propina à base aliada e deputados distritais comandado pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (ex-Democratas) – líder da

patota que sovou “leite e mel” numa corrupta fornada de “panetones”. A gangue, inclusive, queimou ainda mais o filme do desprestigiado futebol candango, em uma série de negócios suspeitos que têm sempre um personagem em comum. Fábio Simão é tido como um dos baluartes do “Mensalão do DEM” (veja box) e preside a Federação Brasiliense de Futebol (FBF). Ele tem antecedentes de peso no poder. Na gestão passada, era o homem forte do então governador Joaquim Roriz, hoje maior inimigo político de Arruda. Desavenças a parte, logrou prestígio com o atual governador a ponto de entronar o disputado (e estratégico) posto de dirigente das ações da cidade na Copa do Mundo de 2014, o que deixava sob sua responsabilidade a licitação para construir o novo estádio Nacional de Brasília, obra estimada em R$ 520 milhões. O dirigente deixou as operações do Mundial

após ter o nome envolvido no escândalo de corrupção que tomou conta do Governo do Distrito Federal (GDF). Mas seu prestígio cruzava os contornos arquitetônicos da capital: foi bater às portas da CBF. Ricardo Teixeira, amigo íntimo de Arruda, reconheceu a gravidade da crise política atravessada por Brasília, mas argumentou que “nada muda” até o Mundial: “Não se escolhe sedes pelos governadores. Até lá, provavelmente, será outro governo. Vamos aguardar, nada foi provado”, ponderou. Talvez não mude mesmo. Como Simão não foi exonerado, nada impede que volte à ativa quando a poeira baixar. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o governador não descarta o regresso do “parceiro”. “Se não tiver nada contra ele, pode. Por que não?”, indagou. Por enquanto, Simão é “carta fora do baralho” para o corregedor do Distrito Federal, Roberto Giffoni: “O afastamento alcança todas as suas atividades administrativas”.

3


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Panetone & Circo by Cristiano Bastos - Issuu