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Trágico e Erudito

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Fotos: Flora Pimentel

arte

Filipe Camarão, o negro Henrique Dias e os portugueses João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros. A oficina é um dos pontos turísticos mais visitados do Recife. A literatura teve importância primordial em sua escolha pela arte. Na juventude, desfrutou ao máximo da biblioteca da mãe, educada no colégio Sacre Coeur do Rio de Janeiro. Sua iniciação às letras, portanto, foi feita pelo viés feminino: “A biblioteca de meu pai era diferente da biblioteca de minha mãe. Tive de ler Jane Austin, Virginia Woolf, Sidonie Colette. Uma literatura de liberdade, modernidade e avanço”, lembra. Foi lendo a obra Um Gosto e Seis Vinténs, de Somerseth Maughan (biografia ficcional do pintor francês Paul Gauguin) que Brennand confirmou, de fato, sua vontade de se tornar pintor. “Dos pintores modernos, Gauguin foi o que teve a vida mais aventurosa. E isso me atraía”, diz o artista. Do traço à forma Ao dar utilidade às ruínas da antiga fábrica do pai, Brennand se identificou com o que os europeus começaram

FACHADA

a chamar, nos anos 70, de arqueologia industrial. Londres

Na Oficina da Várzea, a 25 quilômetros do Recife, abriga-se o universo onírico do escultor

talvez seja o melhor exemplo desse processo ao ter transformado imensos pavilhões de produção metalúrgica em espaços de arte. E ao ter transformado, não sem algum sofrimento, antigos bairros operários em verdadeiros guetos culturais. Pois no período do açúcar, no século 18, Pernambuco foi a província mais rica do Brasil. Nesse tempo, a região da Várzea, onde o artista tem sua oficina, era cheia de enge-

Trágico e

ERUDITO

Ceramista por excelência, o artista também foi homena-

nhos. Recife é uma cidade que começou a se desenvolver na

geado em 2007 com uma retrospectiva no Museu AfroBrasil,

presença dos holandeses. Olinda, a antiga capital da provín-

em São Paulo, por conta de seus 80 anos. “Peças de barro são

cia, era uma das cidades mais ricas das Américas, conhecida

difíceis de transportar, mas mesmo assim trata-se de um ar-

no mundo todo pelas suas igrejas e pelo ouro que enfeitava

tista importante no cenário internacional pela sua originalida-

seus altares. “São elementos que ainda estão presentes na

de”, diz o crítico Elisio Yamada, que auxiliou na curadoria da

cultura pernambucana”, lembra o artista.

exposição. Olívio Tavares de Araújo, mineiro radicado em São

Curiosamente, foram os abastados senhores de terra –

Paulo, há quatro décadas, é o curador da mostra, montada

de quem Brennand é um herdeiro legítimo – que começaram

especialmente para preencher a lacuna em relação ao artis-

a conspiração contra os holandeses. No terreno da Várzea

Pela primeira vez expondo no Rio Grande do Sul, Francisco Brennand investe numa arte repleta de simbologia clássica e (mal) classificada como popular

ta. “Museus do Rio, São Paulo e Curitiba apresentaram o

começaram as primeiras escaramuças, que inspirariam deci-

Brennand verdadeiro em várias exposições grandes nos últi-

sivamente o artista: em 1961, Brennand pintou o seu mais

mos anos, mas no resto do Brasil ainda sobrevive muito do

famoso mural, A Batalha de Guararapes, encomendado pelos

CRISTIANO BASTOS, de Recife

outro, tido como religioso-nordestino”, critica o curador. A ex-

irmãos Farias, ilustres banqueiros de Minas Gerais. No mural,

jornalista

posição, de fato, não deixa dúvida de que se trata de uma

um mestiço sustenta uma bandeira republicana. “Era século

obra que vai muito além do regionalismo nacionalista. “Nem

17, mas resolvi antecipar a nacionalidade”, justifica.

Brennand, nem sua arte, possuem nada de popular. Ambos

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são inteiramente eruditos”, completa Araújo.

Brennand até hoje se diz honrado pela oportunidade

ntrar na oficina do artista pernambucano Francisco

ser vista na cidade em setembro, no Museu da UFRGS. As 33

de Paula de Almeida Brennand, no bairro da Várzea,

esculturas, 17 pinturas e nove desenhos do artista per-

Em 1971, Brennand transformou a Cerâmica São João –

cessidade que existe de respeitar – e ressaltar – a história

em Recife, é viver uma aventura onírica nos domínios

nambucano fazem parte da exposição itinerante que come-

que fabricava telhas e tijolos, erguida pelo pai em 1917 e

brasileira: “Não vejo nenhum intectual criticando o que está

da história, da natureza, dos signos e da existência. Aventu-

mora os 200 anos do Banco do Brasil e que percorre outras

abandonada desde 1945 – na Oficina Cerâmica Francisco

acontecendo na Amazônia”, critica ele. “Não é apenas a

ra maior, no entanto, é conhecer o criador no mundo onde

duas cidades brasileiras até 25 de novembro. Uma amostra

Brennand, espaço monumental de pórticos, totens e escul-

possibilidade de invasão estrangeira que aflige as frontei-

habitam suas criaturas.

modesta selecionada entre as mais de 1,7 mil peças da ofici-

turas transfiguradas, cada qual com significado particular:

ras. É o crime do desmatamento e das queimadas. São os

Uma pequena parte das obras de Brennand não está

na do artista, mas ainda assim relevante: Brennand nunca

do mítico ao histórico, do humanístico ao heróico, a

pretextos de desenvolvimento sustentável. Está todo mun-

aqui, no Templo da Várzea, pois integrou em Porto Alegre a

havia exposto no Rio Grande do Sul, embora acumule indivi-

semiologia avulta-se em cada recanto. Num quadrilátero,

do silencioso, em um silêncio amedrontador”, constata.

exposição itinerante Brennand: Uma Introdução, que pôde

duais na França, Alemanha, Itália e Estados Unidos.

os heróis que expulsaram os holandeses do Brasil: o índio

que recebeu de fazer o mural. O motivo é a premente ne-

Brennand, entretanto, não ficaria preso às formas pla7


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Trágico e Erudito by Cristiano Bastos - Issuu