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Semana dos Povos Indígenas 2008

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AMIGA E AMIGO! O conhecimento, o respeito e a troca de informações com os povos indígenas são os objetivos deste caderno, elaborado para a Semana dos Povos Indígenas. Neste ano vamos abordar a temática: “Povos Indígenas em Espaços Urbanos”. Nos últimos tempos está cada vez mais evidente a presença de indígenas nas cidades. Os motivos que os levam para os contextos urbanos são os mais diversos, contudo, sem abrir mão de ser indígena seguem afirmando sua identidade, lutando pelos seus direitos e reconstruindo suas relações e organizações. Queremos ouvir e olhar para grupos de diferentes povos, que vivem em espaços urbanos, e mostrar o contexto, o cotidiano, a luta e os desafios da vida em cidades como Campo Grande, Dourados, Manaus, Cuiabá, Porto Alegre e São Leopoldo. A primeira parte é elaborada para crianças, a segunda volta-se para o público juvenil, servindo também como fonte de informações para educadoras, educadores e pessoas que irão orientar, animar e facilitar as reflexões. Todo o caderno traz importantes subsídios sobre os povos indígenas em espaços urbanos. Informações complementares podem ser encontradas no site www.comin.org.br que podem servir como passo inicial para pesquisa e aprofundamento.

Semana dos Povos Indígenas 2008 Responsabilidade e Coordenação: Conselho de Missão entre Índios – COMIN Organização: Cledes Markus. Pesquisa dos dados: Francelina da Silva Souza, Graciela Chamorro, Mara Cambeba, Luis Manoel Gil da Silva, Dário de Oliveira, Traudi M. Kraemer, Hans A. Trein, Doroty Mayron Taukane, Tserenho A Pronhõpa, Silas Moraes, Teobaldo Witter, Firmino Salvador, Pedrinho Eufrásio, Ari Ribeiro, Francisco dos Santos, Erondina Vergueiro, Valdomiro Vergueiro, Antônio dos Santos, José Vergueiro, Dorvalino Cardoso, Marinez Garlet, Ingrid Kamiski, Lúcio R. Schwingel. Elaboração: Sônia L. Trapp Mees, Maria Ione Pilger, Maria Dirlane Witt, Lori Altmann, Edson Ponick, Ivan Vieira, Hans A. Trein, Marta Nörnberg e Cledes Markus. Diagramação, capa e cartaz: Ivan Vieira Fotografias: Acervo COMIN Impressão: Con-Texto Gráfica e Editora Realização: COMIN em parceria com Departamento de Educação Cristã da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Apoio Financeiro: Igreja Evangélica Luterana da Baviera (ELKB), Kerkinactie da Holanda e Kirchen helfen Kirchen.

Tiragem: 30 mil exemplares ISBN: 978-85-89732-97-0 Editora Oikos Ltda. Rua Paraná, 240 93120-020 São Leopoldo/RS www.oikoseditora.com.br

Sumário

INDÍGENAS NA CIDADE ......................... 03 A CAMINHADA DE VIDA DA SUA FAMÍLIA ...................... 05 SER INDÍGENA NA CIDADE ................... 05 ARTESANATO ......................................... 07 EDUCAÇÃO ............................................. 09 SAÚDE ..................................................... 11 RE-SIGNIFICAR CONCEITOS E PRÁTICAS ..................... 13 PARA SABER MAIS ................................. 22


ALGUNS MOTIVOS QUE LEVAM OS INDÍGENAS A MORAR NA CIDADE: • O estudo em escolas e universidades. • Dificuldades para manter seu espaço no meio rural. • A busca de recursos para cuidar da saúde. • Maior possibilidade de vender o artesanato. • O crescimento das próprias cidades que, assim, estão chegando perto das terras indígenas.

Na cidade, como em qualquer outro lugar, existem dificuldades e desafios a serem enfrentados, como a discriminação ao seu modo de viver, a forma como cuidam da saúde e ensinam as crianças.

Tiago - criança Kaingang

“Na cidade, senti um choque. Me senti diferente, olhada... Depois, o tempo foi passando e eu fui ficando mais à vontade e comecei a achar que essa curiosidade podia ser também interesse para conhecer e que, conhecendo a gente, os colegas podiam respeitar mais os povos indígenas.” (Francelina da Silva Souza, Dourados/MS) Os povos indígenas se organizam, vivendo conforme a sua cultura e os ensinamentos dos seus antepassados. A vontade de conquistar um espaço que é de todos está sempre presente.

AQ

CASA

M BE

E AD D I C

SENTIMOS

U I

TAMB ÉM

Copie as palavras que estão nas sementes, preencha as lacunas da frase e descubra o que disse o indígena Francisco dos Santos, de Porto Alegre/RS.

__ __ __ __ NA __ __ __ __ __ __ NÓS NOS __ __ __ __ __ __ __ __ MUITO 4

Resposta na página 23


__ __ __, PORQUE AQUI __ __ __ __ __ __ É A NOSSA __ __ __ __.

Organize um encontro na sua família para conversar sobre a sua história. Dicas de perguntas: A sua família mora no mesmo lugar em que nasceu? Se houve uma mudança de local, qual foi o motivo para isto ocorrer? Todos os familiares moram na mesma cidade? Alguém deixa de pertencer a uma família ou de ser o que é por morar em outro lugar? Aproveite o momento Família Kaingang – Morro do Osso – Porto Alegre/RS para olhar fotos dos lugares onde seus familiares já moraram ou estiveram. Organize um álbum, leve-o para a escola e conte aos seus colegas pouco da caminhada da suaaprenderam família. a lidar com os peOs povosum indígenas continuam a ser de vida tepassados indígenas mesmo morando na cidade. Per- rigos que havia nas florestas... Não foi encebemos isso na forma como entendem o frentando dificuldades que o ser humano que acontece à sua volta e na sua atitude aprendeu o que sabe?” (Francisco dos diante dessa realidade. Viver em comuniSantos, Porto Aledade, morar próximos e se organizar em gre/RS) grupos familiares ajuda a Os indígeenfrentar os desafios que nas que moram existem na cidade. Eles na cidade mantambém lembram têm contato com aquilo que seus anseus parentes de tepassados vivealdeias rurais. Vão ao ram e ensinaram. interior quando ocorre uma Kaingang “Tem perigos – São Leopoldo/RS festa, o nascimento, a dona cidade? Tem. Mas ença ou a morte de um panós já estamos aprenrente. Também é lá que buscam os chás dendo como lidar, assim como nossos an- para cuidar da saúde e os materiais para fa5


Aldeia Kaingang situada na BR116 em São Leopoldo/RS

A cultura dos povos indígenas é cultivada através da sua linguagem, das histórias contadas de geração em geração, da forma como fazem o artesanato, através da dança, do cuidado com a saúde e a natureza.

Aldeia – Agrupamento de casas em pequena povoação indígena. Povoado. Em língua tupi, taba de tawa.

Montagem: foto arquivo CECA com desenhos de Jakson e Nilceu

zer o artesanato que não encontram na cidade. Quem mora no interior e vai à cidade para fazer uma visita ou cuidar da saúde também encontra um lugar de aconchego. Nessas visitas, trocam-se experiências, valorizando a vivência que cada um tem no lugar onde mora. Os povos indígenas que moram na cidade não esquecem suas raízes e os que ainda moram no interior, lembrando que, mesmo à distância, a união entre eles permanece.

Encontre o caminho que leva a família da cidade até o interior:

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Tiago da Silva - Porto Alegre/RS

Na cidade, o artesanato mostra a cultura e a tradição dos povos indígenas, mas também é uma importante forma de sobrevivência e um jeito do povo ser reconhecido pelas pessoas de outras culturas. Muitas vezes, uma conversa entre indígenas e pessoas de outras culturas inicia a partir da venda do artesanato. É assim que passam a se conhecer e se respeitar. Para fazer o artesanato, toda a família participa. As crianças aprendem com os pais e os avós, observando, ouvindo e, por fim, confeccionando junto. Em geral, os materiais usados para fazer o artesanato são taquaras, sementes e cipós colhidos no mato. Algumas vezes, é difícil encontrar este material na cidade. Por isso, outros materiais, como miçangas e tintas, são usados no trabalho indígena. O artesanato é vendido em feiras, parques ou praças. São momentos em que famílias indígenas de diversos lugares se encontram e conversam na sua língua. Contam as novidades e as notícias de parentes que moram em outras aldeias. Em alguns lugares, os indígenas vendem livremente o artesanato, andando de bairro em bairro, de porta em porta. O artesanato mostra a cultura indígena através dos desenhos, dos trançados, da forma como é feito em grupo, promovendo a reunião da família e dos amigos. Também, através dele, são transmitidos aspectos da religiosidade e da história do povo.

Artesã Kaingang – feira de artesanato em Porto Alegre/RS 7


Kaingang no Morro do Osso – Porto Alegre/RS

Zarabatana – Arma de arremesso que consiste em um tubo comprido pelo qual se impelem, com sopro, vários tipos de projéteis.

No caça-palavras, encontre o nome de 9 objetos confeccionados pelos Kaingang: Chapéu

Estrelas Zarabatana

Cesto

Anéis

Braceletes

Peixe

Colares

Brinco

O povo indígena utiliza com cuidado os materiais da natureza para confeccionar o seu artesanato. “Desenvolvemos a prática de preservação do cipó... Cuidamos do tempo certo da colheita. Com isso, preserva8

mos a natureza. Se abusarmos da natureza, ela acaba e acaba com todos nós. Mas, se cuidamos, a cada três meses vem uma colheita. Porque é do mato, quer dizer, da natureza que vem nosso sustento.” (Francisco, Porto Alegre/RS) Resposta na página 23


As crianças aprendem enquanto observam tudo o que acontece no dia-a-dia. Acompanham os adultos nas atividades e fazem o que eles fazem. Também aprendem através das histórias que são contadas de pai para filho, de mãe para filha, de avós para netos... como o mito do guaraná. Veja! “O guaraná originou-se de uma menina índia que morreu e a sepultaram no quintal da oca (da casa). Depois de um

mês, brotou uma linda planta, que é o guaraná.” (Alex, 14 anos, Sateré-Mawé) A história dos povos indígenas é rica em mitos, que são uma forma alegre e interessante de ensinar pessoas de qualquer idade. Através dos mitos, são apresentados valores, verdades e ensinamentos significativos para o povo.

Sala de aula em São Leopoldo/RS

Sala de aula em Manaus/AM

*Muitas pessoas consideram o mito como lenda, fábula, história in-

ventada de algum povo. No entanto, estudos comprovam que eles são relatos importantes que falam da vida, história e identidade de um povo e como tal contêm verdades fundamentais, sentidos e significados valiosos para este povo.

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Desenho de uma criança Sateré-Mawé

Ligue os pontos e veja o que aparece

Descubra outro mito que é contado de uma geração para outra. Ele fala sobre um peixe, o __ __ __ __. Faça uma pesquisa e descubra o que conta este mito. de é o estudo em escolas de ensino médio e universidades. Muitos usam a sua formação para melhorar a vida do seu povo. Veja o relato de uma indígena Terena!

Entre os povos indígenas, existe a preocupação com a continuidade da educação de crianças e jovens. Por isso, também as escolas ensinam a língua e a cultura indígena. Isto, muitas vezes, é feito por professores do próprio povo. Um dos motivos que leva muitos indígenas a morar na cida10

Desenho de uma criança Sateré-Mawé

Francelina da Silva Souza, Dourados/MS

“Tudo o que estudei serviu como reflexão sobre minha realidade... Meu pensamento era, desde o começo, estudar para continuar trabalhando na aldeia como professora. Por isso sempre escolhi temas relacionados com a minha aldeia como trabalhos na universidade.” (Francelina da Silva Souza, Dourados/MS)

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A cultura indígena também é conhecida através da sua preocupação com a saúde. Na cidade, os povos indígenas buscam formas de atendimento que respeite o seu jeito de cuidar da saúde. Querem a valorização da sua medicina, que chamam de tradicional, feita com plantas medicinais. “A gente busca, não importa onde esteja, a valorização da medicina tradicional.” (Mara Cambeba, Manaus/ AM). Guaraná - Originária da palavra wara’ná, língua tupi. Planta medicinal da floresta amazônica cultivada pelos indígenas Sateré-Mawé. Eles domesticaram e criaram o processo de beneficiamento da planta, possibilitando que hoje o guaraná seja conhecido e consumido no mundo inteiro.

afirmam: “Remédio de índio não estraga o corpo, já remédio de branco não é bom usar sempre, só quando o nosso não cura.” Os indígenas aceitam o tratamento com médicos ou em hospitais. Querem, contudo, um atendimento hospitalar que permita, por exemplo, levar junto a rede para deitar, o seu chá indicado pelo pajé, e ter a própria presença do pajé. Em Campo Grande/MS, existem agentes indígenas de saúde, como, por exemplo, do povo Terena. São pessoas da própria comunidade que auxiliam quem precisa de atendimento médico. Elas marcam consultas nos serviços públicos oferecidos, trabalham com prevenção de doenças, acompanham as pessoas que têm dificuldades de entender o português. É uma conquista importante e que respeita o pedido por um atendimento que valorize a sua forma de cuidar da saúde. Morro do Osso – Porto Alegre/RS

Alguns indígenas plantam as ervas medicinais no terreno onde moram na cidade. Muitas pessoas de outras culturas aprendem com os indígenas como usar chás e ervas medicinais para cuidar da saúde. O conhecimento das plantas medicinais pelos indígenas é um recurso muito utilizado pelo povo brasileiro. Dina e Noronha, indígenas do Mato Grosso, 11


Plantas Medicinais Macela

Nossa participação No livro Cultura, Ambiente e Sociedade, Sateré-Mawé tem uma pergunta feita a este povo: O que é ser indígena? Ele responde com sabedoria: “É não renegar a cultura, as tradições, as crenças, costumes e línguas. Sempre trabalhar na melhoria da sociedade a que pertence.” Jatobá

É tarefa de cada pessoa trabalhar para que a sua vida, a vida de outros seres humanos e tudo o que existe ao seu redor seja valorizado e melhorado. Como nós podemos colaborar? Pajé – Tem sua origem na palavra pa’yé da grande família lingüística tupi, denominando a liderança espiritual destes indígenas. É um misto de sacerdote, profeta e médico. Na linguagem regional amazônica significa benzedeiro/a, curandeiro/a.

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Açaí

Pequi


RE-SIGNIFICAR O tema Povos Indígenas em espaços urbanos, abordado neste caderno, é assunto de muitas discussões da sociedade nacional. Há muitas manifestações, conceitos e preconceitos em torno do assunto. A questão nos leva a ouvir e olhar para grupos indígenas de diferentes povos, que vivem em espaços urbanos, e a conhecer melhor sua história, seu modo de ser e de se compreender. Vamos conhecer grupos com diferentes traços culturais entre si e também diferenças culturais em relação à sociedade nacional. 13


Culturas são re-significadas nas relações entre sujeitos A cultura de determinado grupo étnico não é fixa ou parada no tempo. Ela é construída na relação entre sujeitos de um mesmo grupo e de diferentes grupos étnicos e, por isso, está sempre em processo de mudança, reconstrução e resignificação. Marshal Sahlins escreve sobre essa ação ativa e criativa na contracapa do livro Ilhas de História: “A história é ordenada culturalmente de maneiras diferentes nas diversas sociedades... Se, por um lado, a cultura é historicamente reproduzida na ação, por outro lado, ela é alterada historicamente na ação”.1 No seu relato, Francisco dos Santos, indígena Kaingang da aldeia do Morro do Osso, localizada na zona sul de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, ilustra o que está escrito acima: “Nossa arte vem do fundo de nosso espírito, que herdamos dos ancestrais... Nossa sabedoria nos ensinou a transformar parte de nossos bens tradicionais. Aqui na cidade, criamos muitos outros produtos, como pulseiras, anéis, colares e brincos, além de inúmeros objetos para uso pessoal e para as datas comemorativas dos não índios. São fruto de nossa imaginação e de nossos conhecimentos culturais.” 1- SAHLINS, Marshal. Ilhas de história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. 14

Doroty - Bakairi

Assim, viver em espaço urbano não faz com que os indígenas abram mão de sua identidade étnica. Na convivência com pessoas de outras culturas ocorre uma resignificação de alguns de seus traços culturais. A busca do espaço urbano por um determinado grupo indígena pode ter vários motivos: a falta de


Culturas são reconstruídas no movimento e nos contrastes dos espaços urbanos terra e de incentivo para manter seu espaço no meio rural; a busca de recursos para cuidar da saúde; o estudo em escolas e universidades; maior possibilidade de vender seu artesanato; a visibilidade da situação dos povos indígenas no país; entre outras questões. Vão em busca de melhores condições de saúde e educação, venda do artesanato, visita a parentes, divulgação dos traços da sua cultura através da dança, artesanato e de palestras, entre outras

questões. Esse movimento para um novo espaço não lhe suprime sua identidade, ou seja, no espaço urbano, os Bakairi, Sateré-Mawé, Terena ou Kaingang não deixam de ser quem são. Vejamos duas histórias: 1- Luís Manoel Gil da Silva, indígena do povo Sateré-Mawé, chegou à cidade de Manaus, Amazonas, com a família em 1997 e em 2000, à atual aldeia urbana “Y’apyrehyt”, na qual é cacique. Conforme ele, buscaCriança Sateré-Mawé – Manaus/AM

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Indígenas reafirmam a identidade ram a cidade, especialmente, por causa de tratamento de saúde e estudo para os filhos. O espaço urbano possibilita fazer palestras nas faculdades e escolas e isto ajuda a reafirmar a identidade e a divulgar a situação do povo. A mobilidade e a vida num mundo plural e, ao mesmo tempo, globalizado, que é a cidade, ao contrário do que a maioria afirma, não substituem a identidade étnica de determinado indivíduo ou grupo indígena. Portanto, Luis Manoel Gil da Silva não deixa de ser indígena Sateré-Mawé por estar vivendo no espaço urbano. 2 - Francelina da Silva Souza, indígena do povo Terena, da aldeia de Jaguapiru, município de Dourados/MS, conta que foi para o espaço urbano em busca de estudo para, depois de formada, contribuir na melhoria da vida de seu povo. Fez o ensino médio, a graduação e pósgraduação na cidade. Hoje, ao ser questionada sobre sua identidade, Francelina diz: “...sou Terena, porque cresci assim, numa família que diz ser Terena e me fez sentir Terena. Sempre me afirmo como índia Terena em qualquer lugar...”

Sobre este aspecto o pesquisador Fredrik Barth trouxe contribuições importantes. Entre elas, ao tratar dos 16

Sateré-Mawé

Francelina da Silva Souza (no centro) e família – Dourados/MS

grupos étnicos e de suas fronteiras, afirma que a mobilidade, os novos contatos e as informações, não interferem no pertencimento a um determinado grupo étnico. Pelo contrário, a pessoa ou o grupo, ao travar contato com outras culturas, poderá reafirmar sua identidade e sua etnicidade, muitas vezes, de forma até mais forte.2

2- BARTH, Fredrik. Grupos Étnicos e suas Fronteiras. In: POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENART, Jocelyne (Orgs.). Teorias da etnicidade: seguido de grupos étnicos e suas fronteiras de Fredrik Barth. Tradução de Élcio Fernandes. São Paulo: UNESP, 1998.


Indígenas visibilizam traços culturais O povo indígena Kaingang, na cidade de São Leopoldo/RS, manifesta sua identidade através de traços culturais como o artesanato, o uso de ervas medicinais, os ritos religiosos e, freqüentemente, através do grupo de danças. Formado por crianças, jovens e adultos, esse grupo possui cantos e adereços que fazem parte da cultura e da tradição Kaingang. Ele se organiza em duas metades clânicas, de acordo com a cultura Kaingang. As metades clâni-

cas e as danças fazem parte da sua sabedoria milenar. Sua memória se liga ao mito de origem do povo, construído no decorrer dos tempos. Através da dança, o grupo mostra sua cultura, tornando-a visível no espaço urbano. Historicamente, diferentes povos indígenas têm se deslocado em busca de matéria-prima para confeccionar artesanato, coletar comida e visi-

Apresentação de dança Kaingang numa escola em São Leopoldo/RS

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Indígenas transitam historicamente por diferentes espaços

Doroty Bakairi no Seminário do GTME em 2006

tar parentes. Transitam e moram em Compreender uma cultura difediferentes espaços, incluindo aqueles rente da sua envolve trabalhar a onde hoje há cidade. Portanto, deslocar-se e, a seguir, estabelecer mora- sensibilidade do ouvir e do olhar. Ouvir o que o/a outro/a, que tem dia temporária em determinados estraços culturais diferentes dos meus, paços é algo tradicional à maior parte dos povos indígenas. Dentro do pro- tem a dizer, antes de estabelecermos cesso migratório, as populações de pré-conceitos e conceitos, dizendo, outras culturas foram se aproximan- muitas vezes, inclusive, quem ele/a do ou avançando sobre as áreas ocu- é ou o que pode ou não ser. Permitir a si padas pelos povos inmesmo a experiêndígenas. Por seu cia do olhar. Assim lado, Indígenas como sugere Jorcomo Dorothy ge Larrosa3, olhar Mayron Taukane, do não o que passa, o povo Bakairi, tamque acontece ou o bém participaram que toca. Precisadesse movimento mimos olhar para o gratório, mas em Manaus Sateré-Mawé que nos passa, o sentido inverso, ou seja, para a cidade. Ela mora em Cui- que nos acontece, o que nos toca. Desta forma, buscaremos reabá e relata que, desde cedo, seu avô, significar nossos conceitos e prátiprevendo o crescimento das cidades, preocupou-se em ensinar sobre a cul- cas na questão indígena em espatura de seu povo e prepará-los para o ços urbanos. contato com a sociedade nacional. Dorothy hoje ainda canta na língua 3-LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. In: Revista materna e faz comidas tradicionais do Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, Jan/ seu povo. fev/mar/abr, 2002, nº 19, p.20-28. 18


Sugestões de atividades a - Para leitura e aprofundamento da temática aqui discutida, visite a página do COMIN na internet www.comin.org.br. Lá podem ser encontrados vários textos e subsídios para sala de aula e trabalho com grupos.

Desenho de uma criança Kaingang

c - Construir cartelas de cartolina contendo, cada uma, um pequeno depoimento de indígena que vive em espaço urbano. Em duplas, ler e conversar sobre o depoimento e depois trocar a

Desenho de uma criança Kaingang

cartela com outra dupla. Os depoimentos podem ser encontrados neste caderno e na página do COMIN. É importante sempre dizer de quem é o depoimento e o nome do povo indígena. d - Visitar uma aldeia indígena urbana e identificar elementos e conceitos aqui trabalhados.

Criança Kaingang, São Leopoldo/RS – acervo COMIN

b - A partir do estudo do caderno e na internet, aprofundar temas como: cultura e espaços; cultura e fronteiras; sujeitos e a re-significação da cultura; diferentes teorias sobre cultura; etc. Depois, produzir textos a serem compartilhados em diversos espaços (mural, jornal, debate entre grupos e turmas, elaboração de caderno, enviar para o COMIN).

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e - Os/as alunos/as relembram com a família histórias ou canções que ouviram na infância. Depois analisam tais histórias e canções, identificando traços culturais valorizados ou reproduzidos no espaço familiar. f - Através de dinâmicas e atividades práticas, trabalhar a sensibilidade do olhar e do ouvir. Veja o exemplo na página seguinte.

Crianças – Sateré-Mawé

JOGO DAS 7 DIFERENÇAS

Desenho de Taira, 12 anos, da aldeia Kaingang, situada na Lomba do Pinheiro em Porto Alegre/RS

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Resposta na página 23


Formar grupos de até sete pessoas para realizar as atividades a seguir: 1) A partir da leitura do texto “Re-significar conceitos e práticas”, compartilhar nos grupos situações invisíveis, que podem transformar o nosso modo de ver o mundo. 2) Das situações compartilhadas, o grupo escolhe uma e cria uma cena estática. 3) Antes da montagem da cena, a pessoa que coordena pede que as demais pessoas que estão assistindo fechem os olhos, enquanto a cena é montada e coberta com um grande pano, que pode ser um lençol ou TNT. Após, as demais pessoas são convidadas a identificar o que está oculto debaixo do pano. Depois, a pessoa que coordena tira o pano e se conversa novamente sobre o que se vê agora. É importante enfatizar que, à medida que descortinamos o nosso olhar, passamos a ver as coisas como de fato elas são, desbancando preconceitos, possibilitando o respeito e o diálogo com o diferente. Compare o desenho sobre a venda de artesanato das páginas 20 e 21 e ache as sete diferenças.

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PESQUISA NA INTERNET O Conselho de Missão entre Índios disponibiliza material de pesquisa deste caderno para a sala de aula, como entrevistas, mitos, histórias e bibliografia: www.comin.org.br O Conselho Indigenista Missionário disponibiliza informações atualizadas e posicionamentos frente à política indigenista do governo: www.cimi.org.br O Instituto Socioambiental disponibiliza informações atualizadas e indicação de literatura sobre os povos indígenas: www.socioambiental.org.br O Repórter Brasil, numa série especial de Priscila D. de Carvalho, apresenta o cotidiano e o contexto da vida de indígenas em diversas cidades do Brasil: www.reporterbrasil.org.br

A Terra dos Mil Povos - História Indígena do Brasil contada por um índio Jecupé, Kaká Werá - Fundação Petrópolis, S.Paulo/SP, 1998.

VÍDEOS (CONFIRA NAS LOCADORAS) • Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco, EUA, 1991, 187 min. - Condor Vídeo. • A Missão, de Roland Joffé - ING, 1986, 121 min. - Distr. Flashstar. • Dança com Lobos, de Kevin Kostner - EUA, 1990, 128 min. Abril Vídeo / Hollywood. • Tainá - Uma Aventura na Amazônia, de Tânia Lamarca e Sérgio Bloch - Brasil, 2000, 90 min. Tietê Produções.

Divulgação/Globo Filmes

PARA SABER MAIS

LIVROS Esta terra tinha dono - B. Prezia e E. Hoornaert - CEHILA POPULAR/CIMI/FTD - S. Paulo/SP, 3a ed.,1992.

A temática indígena na escola – Novos Subsídios para professores de l0 e 20 Graus - A. Lopes da Silva e Luís D.B. Grupioni - MEC/MARI/UNESCO, Brasília/ DF, 1995. Papel da Religião no Sistema Social dos Povos Indígenas - Eduardo V. de Castro - GTME, Cuiabá/MT, 1999. Práticas Pedagógicas na Escola Indígena - Aracy Lopes da Silva, Mariana Kawall Leal Ferreira (Orgs.) - São Paulo: Global, 2001. 22

• Tainá 2 - A Aventura Continua, de Mauro Lima - Brasil, 2005, 80 min. Columbia Pictures.

Divulgação/Globo Filmes

Povos Indígenas: terra e vida - Egon Heck e Benedito Prezia - Ed. Atual, S. Paulo/SP, 1998.


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Semana dos Povos Indígenas 2008 by Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) - Issuu