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Semana dos Povos Indígenas 2003

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amiga e amigo! O conhecimento, o respeito e a troca de informações com os povos indígenas são os objetivos desta cartilha, elaborada para a Semana dos Povos Indígenas. Neste ano, queremos refletir sobre o tema: “Parentes e amigos unidos pela reconstrução da vida : A natureza como fonte e parceira do povo”. Nos últimos tempos, a preocupação em torno da natureza (destruição, preservação, transformação...) tem ocupado um espaço cada vez maior. Mas, como concebemos a natureza? Como a imaginamos e interagimos com ela? Existe uma só compreensão sobre a natureza e sua relação com os humanos? São algumas questões que surgem. E, é nesse espírito, que iremos conhecer um pouco sobre um dos povos mais numerosos do Brasil, e que vive na região sul-brasileira. A cartilha não quer ser uma resposta a todas as perguntas apresentadas ou a serem levantadas por vocês. Mas quer ser um desafio. O desafio de conhecer mais sobre o povo Kaingang, sua história, seu jeito de ser e entender o mundo. A cartilha quer desafiar a busca de mais informações sobre o povo Kaingang. O desafio é sermos: “P arentes e amigos na reconstrução da vida”. “Parentes semana dos povos indígenas 2003

Índice

Coordenação: Conselho de Missão entre Índios COMIN Informações: Natalino Góg Crespo, Armandio Kenker Bento, Dirceu Bento, José Ninsu Sales, Juraci Emílio Vicente, Laisa Erê Inês Sales Ribeiro, Pedro Sales, Miraldo Fagtanh Oliveira, José Manuel P. Palazuelos Ballivián, Lúcio Roberto Schwingel e Sandro Luckmann Elaboração: Marta Nörnberg da Silva, Cláudio G. Becker, Maria Dirlane Witt, José Manuel Palazuelos Ballivián, Arteno Spellmeier e Sandro Luckmann Capa, ilustrações e pr og. visual: Artur Sanfelice Nunes prog. Fotografias: Projeto Nutrição Guarita, E. E. Indígena de Ensino Fundamental Davi Régjo Fernandes, José Manuel Palazuelos Ballivián, Sandro Luckmann e Lúcio R. Schwingel Impressão: Con-Texto Gráfica e Editora Realização: COMIN em parceria com Departamento de Catequese e Departamento Nacional para Assuntos da Juventude da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

Apresentação 2 Um povo originário do sul do Brasil 3 Os Kaingang e sua origem 4 Dois antepassados 6 Terra Indígena Guarita 7 Uma carta para você 8 Carta enigmática 9 O alimento que vem da natureza 10 Conhecendo e reconhecendo 12 ~ ~ Mito da Criação do Sol e da Lua 13 Os irmãos Kame e Kajukre 14 Espíritos protetores 15 Economia? Sustentabilidade! 16 Depoimentos 17 Gincana pelos direitos do Povo Kaingang 19 A vida Kaingang 20 Palavras cruzadas 22 Você sabia que... 23 Para saber mais 23


UM POVO ORIGINÁRIO DO SUL DO BRASIL Você sabia que na região sul vive um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil? Circule as letras escritas da mesma forma e descubra o nome desse povo.

aKAdIjNwGLANzG

O nome ____________________________ passou a ser utilizado a partir de 1882. Ele foi introduzido pelo Coronel Telêmaco Enéias Augusto Morocines Borba, que ajudou a dominar e expulsar os índios de suas terras. Conforme o Coronel Borba, o significado da palavra _________________________ é:

CAA = MATO + INGANG = MORADOR Para o povo ____________________ esse nome os identifica tanto frente aos não-índios como em relação aos outros povos indígenas. Antes da denominação Kaingang, o povo também recebeu outros nomes: Guayanás, Cor oados, Bugres, Botocudos Coroados, Botocudos. Para descobrir a população deste povo: a) Escreva o primeiro algarismo do ano em curso, b) Some os números do ano em curso. _ _ . 000

“A terra cria a vida, a vida vem da terra, sem ela não tem nada.” José Ninsu Salles (professor Kaingang bilíngüe)

A natureza, principalmente a mata, é muito importante para o povo Kaingang. No mato, eles encontram tudo o que precisam para viver bem: frutas, ervas medicinais, animais e também muita paz.


OS KAING ANG E SU A ORIGEM KAINGANG SUA Os Kaingang contam que sua origem foi assim: Em tempos idos houve uma grande inundação que cobriu toda a terra onde viviam os nossos antepassados. Só o cume de uma montanha ficou fora da água. Os Kaingang, Kajrukre~ e Kame~ nadavam na direção dela, cada um levando na boca um tição luminoso entre os dentes. Os Kajrukre~ e os Kame~ cansaram, afundaram nas águas; indo morar no centro da serra. Os Kaingang e alguns Kuruton alcançaram, com muito esforço, o cume da serra, onde ficaram, uns no chão e outros nos galhos das árvores, por falta de lugar. Ali ficaram uns dias, sem que as águas baixassem e sem comer. Já esperavam morrer quando ouviram o canto das saracuras, que traziam cestos com terra e jogavam na água, que começou a baixar devagar. Os Kaingang gritaram para que as saracuras se apressassem, diminuindo o canto e convidando os patos para ajudar. Em pouco tempo, chegaram com a terra ao cume, formando uma espécie de açude, por onde saíram os Kaingang que estavam no chão. Os que estavam seguros nos galhos das árvores se transformaram em ~ macacos e os Kuruton em bugios. As saracuras tinham começado o seu trabalho do lado onde sai o sol; por isso, nossos rios e águas correm para o poente. Depois que as águas secaram, os K aingang se estabeleceram perto da serra. ~ Os Kajrukre~ e Kame, cujas almas tinham ido morar no centro da serra, começaram a abrir caminho pelo interior dela. Depois de muito trabalho, ~ onde brotou um chegaram a sair por dois caminhos: um aberto por Kajrukre, lindo arroio e era todo plano e sem pedras; por isso têm os pés pequenos. O ~ levava por um terreno pedregoso onde machucou outro, aberto por Kame,


os pés, que incharam durante a marcha; por isso conservam os pés grandes até hoje. Pelo caminho que abriram não brotou água e, pela sede, tiveram de ~ que deixou que eles bebessem o quanto precisassem. pedi-la a Kajrukre, Os dois irmãos, Kame~ e ~ depois de deixarem a Kajrukre, montanha, criaram o jaguar das cinzas e do carvão; depois a anta ou tapir apenas das cinzas. O tapir, que possuía orelhas pequenas, ouviu que ele devia comer ervas e ramos, quando os seus Criadores tinham lhe dito para sobreviver de carne. Kajrukre~ também fez o grande tamanduá, o qual ele não teve tempo para terminar, daí sua boca sem dentes e sua língua que é somente uma pequena vareta posta às pressas por Kajrukre~ em sua boca. Kajrukre~ fez os animais ~ úteis, entre eles a abelha; Kame, as criaturas odiosas (os pumas, as serpentes, as vespas, etc.) Os irmãos resolveram matar os jaguares. Eles os fizeram ficar em cima de um tronco de árvore jogado dentro de um rio. Kame~ empurrou o tronco e o fez flutuar na correnteza do rio. ~ assustado com o seu rugido, Alguns jaguares chegaram às margens e Kame, não ousou empurrá-los novamente dentro da água. Foi devido à falta de coragem que os jaguares ainda existem. ~ casaram-se entre si. Como os homens O povo de Kajrukre~ e o de Kame eram mais numerosos que as mulheres, eles uniram-se também com os ~ os Kame ~ e os Kaingang passaram Kaingang. A partir deste tempo, os Kajrukre, a se considerar parentes-amigos. O mito sobre a origem dos Kaingang conta que eles nasceram da terra. Desse mito, podemos concluir que eles são filhos e filhas da terra, mostrando sua íntima relação com a natureza.


DOIS ANTEP ASSADOS ANTEPASSADOS Segundo o mito sobre a origem dos Kaingang, eles possuem dois antepassados. Substitua os símbolos pelas letras correspondentes e descubra os seus nomes. Depois, procure no mito e veja o que eles são e fazem. LEGENDA

k

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Kaingang no Brasil Há famílias do povo Kaingang vivendo nos estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, mas a maior parte vive no Rio Grande do Sul. Observe o mapa e pinte a região do Brasil onde vivem os Kaingang.

Kaingang no RS Para saber qual a população Kaingang no Rio Grande do Sul, faça a seguinte adição: 3.500 + 4.000 + 1.500 + 2.500 + 2.000 = ___________________ No Rio Grande do Sul, há 14 Terras Indígenas Kaingang: Cacique Doble, Ligeiro, Ventarra, Carreteiro, Votouro, Monte Caseiros, Serrinha, Nonoai, Rio da Várzea, Iraí, Guarita, Inhacorá, Rio dos Índios (em fase de demarcação) e Borboleta (em fase de estudo). No mapa ao lado, conte o número de áreas indígenas já demarcadas no Rio Grande do Sul.


Terra Indígena Guarita A Terra Indígena com maior população é a Terra Indígena Guarita, com cerca de 5.700 Kaingang, e extensão de 23.406 hectares (demarcada em 1917). Guarita fica nos municípios de Tenente Portela, Redentora e Erval Seco, na região noroeste do Rio Grande do Sul. A Terra Indígena Guarita é organizada em oito aldeias, com onze escolas, em que 1.523 estudantes freqüentam o ensino fundamental. Em escolas fora da terra indígena freqüentam o ensino fundamental e o ensino médio 665 estudantes e o ensino universitários 16 estudantes. O total de estudantes indígenas é de 2.204, cerca de 38% da população.

Atualmente atuam nas escolas indígenas 85 professores e professoras indígenas e 21 professores e professoras não indígenas.


UMA CARTA P ARA VOCÊ PARA Meu amigo ____________________ (Escreva aqui o seu nome!) Minha amiga ___________________ (Escreva aqui o seu nome!) povo.

Olá! Eu sou uma criança Kaingang e vou contar como vive o nosso

Quando uma criança nasce, ela recebe dois nomes: um nome Kaingang e um nome que vem da sociedade brasileira. O nome Kaingang pode ser o nome de uma árvore, uma planta, uma flor, um pássaro ou de um animal selvagem. Para o nosso povo, o mato é o lugar onde encontramos quase tudo para viver: a comida, as plantas para fazer remédio, os ensinamentos e a sabedoria para resolver os problemas do dia-a-dia. Um dia, o governo brasileiro resolveu que nós índios deveríamos viver como eles. A maior parte da mata foi derrubada. A madeira foi vendida, e nós ficamos quase sem casa para morar. No lugar da mata, foi plantado um só tipo de lavoura. Sem o mato, muitos de nós esqueceram como usar as ervas para curar as doenças. Um dia, uma criança ficou doente. Um tempo mais tarde, uma índia mais velha disse que a mãe da criança deveria ter surrado a árvore com o mesmo nome da criança para que ficasse curada. Uma vez, meu pai disse para um homem branco que trabalha aqui na área: – “Antes tinha de tudo. Da mata, a gente tirava a comida: mel, frutas,


peixes e outras coisas”. O meu pai contou que a sua avó chorou pela mata que o homem branco derrubou. Tudo isso aconteceu porque a educação vinha de fora da casa. O branco queria que o nosso povo vivesse como ele. Minha avó disse que antes a educação vinha de dentro de casa. A gente aprendia sobre a água e os ensinamentos da mata. Só que hoje não é assim, porque não tem mais mato... Agora, nosso povo já sabe que precisamos viver perto do mato e que precisamos plantar árvores novamente. Todos os dias, as crianças Kaingang vão à escola. Também tem gente grande que vai à escola. Aqui, a gente tem escola bilíngüe, onde os professores ensinam o Kaingang e o Português. Quando não estamos na escola, jogamos bola, corremos e brincamos com a terra, nadamos e conversamos. E o seu povo, como ele se relaciona com a natureza? Pedro Kasin Mãg

CARTA E NIGMÁTICA ENIGMÁTICA Decifre esta carta e veja mais uma amostra da sabedoria Kaingang...

Veja essa frase escrita em Kaingang: ~ ti en ~ ka ty kukryr tu ~ti ser. Eg~ ~ ka kyr Gangoa fi ty~ pryg ~ ve~ser. Kar en~ ka ty ~eg~ ty ty~ né kar fy~ krãnkrãn ge ta kryg ~ ke ka ny ge~ ser. kó~ ry koj

banana já está madura.

Respostas: Quando a cigarra canta não tem mais geada, e é tempo de plantar qualquer semente e a


O ALIME NTO QUE VEM DA NATUREZ A ALIMENTO NATUREZA O milho Os derivados do milho, como o pixé (pisé: milho torrado com cinzas e socado no pilão) e a canjica (kajyka), são bastante consumidos pelos Kaingang. A mulher é quem soca o milho no pilão. O pixé é um tipo de farinha. Com a parte grossa dessa farinha, é feita a quirera. Muitas famílias Kaingang não fazem mais a quirera. Elas compram a farinha de milho pronta, nos supermercados. Outras até já substituíram a farinha de milho pela farinha de trigo. O milho é consumido quando verde, cozido ou assado na brasa. Com a farinha é feito o pão assado na brasa em fogo de chão e cozido com mistura de carne.

Bolo nas cinzas O bolo nas cinzas é feito tradicionalmente com a farinha de milho.Hoje, alguns já misturam farinha de trigo ou fazem só com farinha de trigo. Ingredientes: Farinha de milho e água Modo de preparo: Misture a farinha de milho com a água, e amasse até formar uma massa consistente. Como assar: Faça uma fogueira com madeira boa. Deixe virar em brasas. A seguir, arrume um espaço entre as brasas para colocar o bolo de milho, cobrindo-o com as brasas. É preciso virar o bolo para que asse uniformemente. Quando ficar todo marrom por fora, o bolo nas cinzas está pronto.


Acompanhamento: Pode-se comer puro, mas também pode-se comer junto com feijão (rãngró), erva-moura (fuva) e carne. Para os Kaingang, o bolo tem mais vitamina, principalmente a casca do bolo. Inclusive, afirmam que tem mais vitamina que o pão branco, comprado na padaria ou mercado.

Mel traz vida e saúde “O mel da abelha é gostoso e doce. Também é remédio, serve contra a tosse”. A fala dessa mãe revela que o mel é um alimento muito apreciado pelos Kaingang. Mas, atualmente é pouco consumido, pois ele já não é encontrado, porque “já não tem mais mato”. Nos dias de hoje, os Kaingang estão replantando diferentes espécies de árvores. Às vezes, na escola, as crianças também realizam o plantio de árvores. Para isso, perguntam aos mais velhos sobre quais eram as árvores e as frutas nativas. As pessoas idosas dizem: o pinhão, a jabuticaba, a guabiroba, a pitanga, o araticum, o araçá, o milho crioulo. O mel também era usado na fermentação do Kiki, uma bebida feita com milho para as festas. Descubra como é escrito o nome de alguns alimentos em Kaingang: a) Veja o número de cada alimento; b) Ligue o alimento com a palavra em Kaingang que possui o mesmo número de letras; c) Escreva ao lado da palavra em Kaingang o nome em Português.

12

Batata-doce

gãr

5

Abóbora

rãngrò

4

Moranga

~ matata-grejgy

6

Feijão

mómra

3

Milho

pého


Conhecendo e reconhecendo Emã e Ware X Aldeamento O povo Kaingang ocupava um extenso território que se estendia do oeste paulista ao centro do Rio Grande do Sul. Viviam em pequenos grupos que se movimentavam facilmente. Um grupo familiar permanecia em local fixo, denominado Emã, enquanto que outro vivia em acampamentos temporários denominados Ware. Por esta razão, no período em que o Rio Grande do Sul era colônia espanhola, os missionários não p u d e r a m alcançá-los para a redução em aldeamentos, tampouco os bandeirantes puderam escravizá-los. Porém, a partir de meados do século XIX e início do XX, foram todos fixados em áreas restritas, denominadas reservas. Foram, pois, abruptamente privados de seus meios de vida e a concentração compulsória afetou profundamente sua organização social tradicional. Atualmente, os Kaingang são um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil. Eles estão presentes nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.


Mito dA Criação do Sol e DA Lua Para conhecermos um pouco mais da cultura Kaingang, religiosidade, economia e meios de sobrevivência, podemos ver o que nos diz o Mito da Criação do Sol e da Lua: No princípio, havia dois sóis, os irmãos Rã e Kysã. Não tinha noite, somente dia. Os dois irmãos se encontraram numa encruzilhada e Rã deu um tapa no olho de Kysã, que ficou com uma vista e, por isso, sem força. Kysã perguntou: - Por que você me bateu? - Porque basta um sol para clarear o mundo. - E agora como eu fico? - O nosso calor está secando os rios, as matas. Os animais, as crianças e demais pessoas também estão ficando fracas. Então, eu cuido de toda a criação durante o dia e você, à noite. Durante o dia eu aqueço e à noite você esfria e traz a água da cerração para voltar o mato, a água. A partir daí, o Sol esquenta e a Lua refresca. Kysã até hoje corre de medo do Sol.

O Mito da Criação do Sol e da Lua explica o princípio da natureza fértil e toda a vida dependente desta relação. O sol assume, simultaneamente, um papel de doador da vida e de causador de males, ou seja, possui aspectos bons e destrutivos.


~ e Kajrukre ~ Os irmãos Kame Através do mito e da separação dos dois irmãos são estabelecidas as tarefas e as qualidades específicas de cada um, garantindo o equilíbrio e restauração da vida na terra. O mito desperta questões referentes ao ciclo da vida e à saúde-doença-cura apontando para aspectos cosmológicos e determinando características opostas complementares: dia – noite, nascente – poente, claro – escuro, quente – frio, seco – úmido. As oposições apresentadas fazem parte de uma ampla organização dual do mundo Kaingang que tem como base a divisão de metades exogâmicas Kame~ e Kajrukre~, refletidas em toda a natureza: elementos, astros, animais, plantas (...) todos eles pertencem a uma ou outra metade. Percebemos através dos mitos e ritos dos Kainkang que eles sugerem uma restauração do mundo e da sociedade. É praticamente consenso que o ~ (ligado ao leste) é mais forte em relação ao Kajrukre~(oeste). Do mesmo Kame ~ quente, seco e forte) e a Lua – Sol que se põe – modo entre o Sol (Kame, ~ (Kajrukre, frio, úmido e fraco). No Mito da Origem, os dois irmãos saem de debaixo da terra. O lugar por onde sai o Kame~ é seco e predregoso e por


onde sai o Kajrukre~ tem água. Kame~ e Kajrukre~ criam do barro os animais. Estes são divididos conforme a metade de cada um. No Mito do Sol e da Lua, encontra-se a base da restauração e a possibilidade para que esta organização se manifeste.

Espíritos protetores Os Kaingang partilham a idéia de que todos os animais possuem “senhores”, isto é, espíritos, guias ( jagre ) que os controlam e os protegem. Tais espíritos consentem em dar algum de seus protegidos para satisfazer as necessidades dos seres humanos, mas se enraivecem se as pessoas os destroem sem necessidade ou se os caçadores recusam um animal “oferecido” a eles. Os espíritos podem conversar com o xamã (kujã – líder espiritual) em longos assobios, dizendo-lhe onde encontrar uma terra de caça abundante, muito mel, ervas medicinais. Eles também podem revelar as conseqüências e os resultados de um empreendimento que envolve o grupo. É o xamã (kujã) que tem o poder de transitar no mundo dos espíritos. A atividade do xamã se manifesta durante a noite, assim como as criações de ~ também foram à noite. ~ e Kajrukre Kame


Econ omia? S ustenta bilidade! Economia? Sustenta ustentabilidade! Quando o Diferente faz a diferença Olhar para a cultura de sustentabilidade dos povos indígenas, onde as pessoas índias se entendem como parte integrada e responsável pela natureza, nos desafia a assumir a nossa responsabilidade como pessoas não indígenas, de outras culturas, na promoção e sustentação de todas as formas de vida. A partir da experiência indígena somos convidados a assumir um compromisso de preservação do meio ambiente, garantia de vida. Ao passo que vivenciamos isto, nos assumimos como parte integrada da natureza. Entendimento de relação Na cultura Kaingang, quando uma criança está “suja” de terra, significa que a criança “brinca” e a terra não é sujeira. É da terra que provém a vida; sem ela não tem vida. As letras vão deslizar verticalmente e você as encaixará nos espaços indicados – mas não na ordem apresentada – de tal maneira que, horizontalmente, você descobrirá como inicia a fala de Pedro Sales, uma liderança Kaingang, dizendo o que significa a terra para o seu povo. Para ajudar, já colocamos duas palavras, riscando as letras correspondentes.

“...enquanto que o branco pensa que a terra é um instrumento de riqueza. Por isso ele não reconhece seu irmão, seu semelhante e discrimina cada vez mais aquele mais fraco, que não tem condições de enfrentá-lo, de concorrer com ele...” Pedro Sales, liderança Kaingang


Depoimentos: Quando os brancos descobriram que a terra era redonda, há muito tempo os Kaingang já sabiam que a terra era redonda. Eles têm um grande respeito com a terra, porque é nela que nasceu tudo que tem vida no planeta. Na terra que eles tiram a sobrevivência da sua família e do seu povo, e também, eles se comunicam com o espírito da terra, pedindo para ajudar a planta, para dar uma produção e agradecendo na colheita pela bênção que foi dada, da mesma forma agradecendo a Deus, o grande Tupã. Na comunicação que os Pajés (kujã) fazem com os espíritos da terra, eles falam que a terra está muito cansada com a produção, que com o passar do tempo não vai mais produzir, porque ninguém está tendo respeito com a terra. Usam adubos químicos, venenos e só está produzindo por causa das crianças que estão sendo consideradas, e por alguns usarem o respeito com ela. Dorvalino Cardoso, professor da Terra Indígena Votouro, RS

Os índios na época de hoje estão tão diferentes. A cultura indígena não é mais como antigamente. Os índios antigos não existem mais, existem alguns índios antigos que falam como eram os índios naquela época, mais não são mais iguais no tempo de hoje. Hoje a cultura indígena mudou porque está existindo muitos índios com estudo. Por causa do estudo os índios estão perdendo a sua cultura. E muitos professores índios, é índio, como crianças com muito estudo, é quase igual a cultura como a cultura do “não-índio” (branco). A natureza está sendo destruída por causa do incêndio nas matas, não está mais existindo caça, os rios estão sendo contaminados, porque os “nãoíndios” usam veneno nas plantas, é fruta sendo contaminada pelo veneno. Na época dos antigos não era assim. Veja como era na época dos antigos e veja como é hoje. Alexandre Fongue, estudante da 7ª série, na Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Antonio Kasin Mig, Setor Irapuá, Terra Indígena Guarita, município de Redentora/RS


Carta da professora indígena Laisa Erê Sales Ribeiro “Muito se fala em cultura e tradição do povo indígena no Brasil. Existem estudos, pesquisas e opiniões a respeito desse povo, mas ninguém até hoje sabe realmente entender essa maneira simples e humilde de viver. Vivo numa dessas aldeias (setores) indígenas, no município de Tenente Portela, na Terra Indígena Guarita. Infelizmente a aldeia fica próxima a cidade e, devido essa proximidade, dá pra imaginar a influência negativa que isso provocou e provoca nos indígenas, principalmente na juventude indígena. O Setor Três Soitas abriga cerca de 121 famílias, aproximadamente 30% são jovens que não têm identidade. Digo isso, porque são jovens sem perspectiva de futuro, um futuro de orgulho de ter nascido índio, pessoas que não conhecem sua história, suas crenças, suas raízes, apenas jovens. Não se preocupam em aprender com um velho o valor de um remédio do mato, ou um ritual de iniciação para a vida adulta, mesmo ainda tendo velhos que saibam o valor disso. Não existe quem sente e os ouça, pois na cidade, eles entendem que existe algo mais interessante pra saber. E, infelizmente, a partir daí começa o fim de uma riqueza cultural que deveria ser infinita, passada de geração à geração, pois até os mais velhos se sentem constrangidos diante de tanta modernidade, e começam a pensar que tudo que sabem não passa de coisas desvalorizadas e antigas. Enquanto houver esse contato direto que podemos chamar de massacre histórico, as tradições vão continuar sendo esquecidas e cada vez mais as crianças vão crescendo e indo pro lado negativo, se tornando alguém sem passado. Nós, enquanto índios, devemos lutar para que se resgate tudo que foi perdido, mesmo acompanhando essa evolução da humanidade que anda rápida demais aos nossos olhos, não querendo parar no tempo, mas fazer com que ela não leve o que realmente somos, e essa consciência deve crescer junto com nossos filhos para que nossos netos saibam ouvir histórias contadas por nós mesmos, de uma geração que quase desapareceu. Mas, como fazer? Como falar? Como entender esse processo? Não se tem uma resposta pronta, ela deve ser buscada dentro de cada um de nós, índios Kaingang sobreviventes da Terra Indígena Guarita.” Laisa Erê Sales Ribeir o moradora do Setor Três Soitas, na Terra Indígena Guarita, no município de Tenente Ribeiro Portela. É professora na Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Mu Kej. Também está cursando Sociologia, na UNIJUI


Gincana pelos direitos do Po vo Kaingang Pov Combine com seus professores e colegas uma gincana diferente. Forme equipes e, no mês de abril, durante a semana de conscientização e comemoração dos povos indígenas, se engaje nas tarefas abaixo. Lembre-se que, mais importante do que vencer a gincana, é a sua disposição e a da sua equipe de aceitar o desafio de conhecer e respeitar a identidade e a cultura de um povo que tem a sua história dentro da história brasileira. 1. Escolher um nome para a equipe ligado à cultura do povo Kaingang. 10 pontos 2. Confeccionar um grande painel com pesquisas, reportagens e fotos sobre o povo Kaingang, escolhendo, na sua escola ou comunidade, um local de destaque para afixá-lo. 20 pontos 3. Procurar e destacar na Constituição Federal os diferentes artigos e parágrafos que reconhecem o direito à cultura, à lingua, à educação diferenciada e à demarcação e proteção das terras indígenas. 40 pontos 4. Criar uma música, redação ou poesia sobre o que foi anteriormente pesquisado sobre os Kaingang. 40 pontos 5. Promover uma mostra de arte onde são criados, com material reciclado, elementos e objetos da cultura Kaingang. 40 pontos 6. Pesquisar sobre a alimentação do povo Kaingang e promover na sua escola ou grupo, uma festa com receitas típicas. 50 pontos 7. Para finalizar a gincana, promover uma caminhada, envolvendo a escola e a comunidade, em favor dos povos indígenas. 100 pontos

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A VIDA KAING ANG KAINGANG · Antigamente as casas do povo Kaingang eram feitas de esteira, cobertas com capim liso e folhas de palmeiras. Era colocado um esteio no meio da casa e, bem protegidas, ficavam no meio da mata. A cooperação estava muito presente entre as pessoas e quando alguém construía sua casa, todos ajudavam. Hoje, a situação mudou e alguns Kaingang têm casa de tijolos. Porém, ainda se faz casas cobertas de capim e de chão batido por considerá-las mais saudáveis. · Os Kaingang colhiam a embira, um arbusto que produz boa fibra, no mato para a confecção das vestimentas. Os homens usavam uma espécie de tanga e as mulheres usavam saias. · O artesanato servia para guardar muitas coisas: o cesto, por exemplo, era um importante utensílio para guardar o pinhão, o milho e a lenha picada. A peneira grossa, com furos maiores, era usada para abanar feijão, canjica e milho. A peneira fina, com furos menores, era usada para abanar a farinha. O chapéu de trança de taquara e de cipó servia para proteger do sol e a lança e a flecha eram usadas para a defesa e a caça. Hoje, o artesanato continua tendo essa função, mas também é uma fonte de renda muito importante para a economia Kaingang. Estes produtos são comercializados nas cidades vizinhas e suas vendas são destinadas às necessidades da família.


· A medicina tradicional Kaingang fazia uso das ervas medicinais colhidas na mata. · Na antiguidade, para obter o fogo os Kaingang giravam uma vareta de madeira rija entre as mãos. A extremidade inferior estava inserida num pedaço de madeira seca e mole. O movimento provocava faíscas que, em contato com folhas e casca seca de palmeira, produzia o fogo. Os Kaingang organizam-se socialmente no “sistema de metades”, com base ~ no Mito da~Origem e nos irmãos Kame e ~ Kajrukre. Cada metade é identificada com sua marca. A metade Kame tem ~ a marca com motivos compridos e a metade Kajrukre com motivos redondos. · A partir do sistema de metades, a organização social Kaingang configura-se por relações de oposição e complementaridade entre as duas metades, que também regulamenta as relações matrimoniais. A regra de casamento Kaingang implica que alguém deve buscar seu parceiro ou sua parceira matrimonial necessariamente junto à metade oposta à sua. · A respeito do casamento uma li~ derança Kaingang afirma: “Aqui entre nós Kaingang é assim: ~ Kame ~ casar com Kajrukre; ~ só pode Kajrukre só casa com Kame. Isso é lei para nós. É lei que vem de muito antigamente”. · Segue-se a linha paterna para se saber à qual metade clânica a pessoa pertence.


PALAVRAS CRUZADAS Decifre esta cruzada e descubra o nome KAINGANG de seus cultivos: 1- Entrelaçamento de uma ou duas cordas, linhas ou fios 2- Inseto saltador 3- Roedor 4- A mãe do pai ou da mãe 5- Sentimento de afeição 6- Espécie de caixa para transporte de roupas em viagem 7- Órgão muscular que recebe e bombeia o sangue 8- Recipiente para água, sucos... 9- O fator ... define se o sangue é positivo ou negativo 10- Homem que deu origem a outro ser; progenitor 11- Mandioca = M Y N I O K A 12- Milho = _____________________ 13- Moranga = _________________ 14- Abóbora = _________________ 15- Feijão =_____________________ 16- Batata-doce = ______________ 17- Amendoim = _______________

PAI; 11-MYNIOKA; 12- GÃR; 13-PÉHO; 14-MÓMRA; 15-RAGRÓ; 16-MATATAGREJGY; 17-MINUI

Respostas: 1-NÓ; 2-GRILO; 3-RATO; 4-AVÓ; 5-AMOR; 6-MALA; 7-CORAÇÃO; 8-JARRA; 9-RH; 10-


VOCÊ SABIA QUE... · Antigamente as casas do povo Kaingang eram feitas de esteira, cobertas com capim liso e folhas de palmeiras e ficavam no meio da mata? E quando alguém construía sua casa, todos ajudavam? · Os homens usavam tanga e as mulheres usavam saias de embira? · O artesanato servia para guardar muitas coisas e hoje também é uma fonte de renda muito importante? · A medicina Kaingang fazia uso das ervas medicinais colhidas na mata? · Quando aparecem as formigas correção na casa de um Kaingang é sinal de que ele e sua família irão se mudar?

para saber mais Vídeos Brincando nos Campos do Senhor Senhor, de Hector Babenco - EUA,1991, 187 min. - Condor Vídeo. Kigrãg: Aprender Aprender, do Núcleo de Educação Indígena (SEE/RS) - Brasil, 2001, 16 min. Nonoai Tá K anhgág Kãme: Memórias K aingang Kanhgág Kaingang aingang, COMIN/UNIJUÍ, Brasil, 2003, 32 min. Iraí, T erra K aingang aingang, Comunidade Indígena Iraí/ Terra Kaingang COMIN, Brasil, 1993, 15 min. Livr os Livros Esta terra tinha dono - B. Prezia e E. Hoornaert CEHILA POPULAR - CIMI - FTD - S. Paulo/SP, 3ª ed.,1992. A temática indígena na escola - Novos Subsídios para pr ofessores de 1º e 2º graus - A. professores Lopes da Silva e Luís D. B. Grupioni - MEC, MARI E UNESCO, Brasília/DF, 1995. OP apel da R eligião no Sistema Social dos P ovos Indígenas - Eduardo V. de Castro, Papel Religião Povos GTM, Cuiabá/MT, 1999. os 500: pr otestantismo e a resistência indígena, negra e popular Brasil: outr outros protestantismo popular.. Ingelore S. Koch (org.). São Leopoldo: Ed. Sinodal, COMIN, IEPG, 1999 Leia também os Cadernos do COMIN e as publicações da Editora Sinodal Comin: Conselho de Missão entre Índios. Caixa Postal 14 - CEP 93001-970 - São Leopoldo/RS Tel.: (51) 590.1440 - E-mail: comin@est.com.br - Home-page: www.comin.ong.org Departamento p/ Assuntos da Juventude: Caixa Postal 191 - CEP: 93001-970 São Leopoldo/RS - Tel: (51) 591. 4295, e fone/Fax: 590.2366 - E-mail: dnaj@uol.com.br - Home-page: www.juventude.ieclb.org.br Departamento de Catequese: Caixa Postal 14 - CEP 93001-970 São Leopoldo/RS - Tel.: (51) 592.4491 - E-mail: depcat@uol.com.br

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