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Sexualidade humana Paradoxo Entender as diferenças Como e quando falar sobre sexo? Toda forma de amor vale a pena? A beleza da sexualidade Sexo dura a vida inteira
ÍNDICE
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ajuda humanitária
Os civis são as vítimas
Ano 11 –> Número 51 –> Maio/Junho de 2013
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Navegando com os marinheiros
Liminares: Uso e abuso
missão
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legislação
comunicação Luteranos na TV em Porto Alegre
SEÇÕES OLHAR COM HUMOR > 6 MOSAICO BÍBLICO > 6 NOTAS ECUMÊNICAS > 7
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RESSOCIALIZAÇÃO Socioeducador: uma vocação
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TESTEMUNHOS > 33 O REFORMADOR > 34
memória
REFLEXÃO > 38
Emilio Castro
ESPIRITUALIDADE > 40 PENÚLTIMA PALAVRA > 42 NOVOLHAR.COM.BR –> Mai/Jun 2013
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AO LEITOR Revista bimestral da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil-IECLB, editada e distribuída pela Editora Sinodal CNPJ 09278990/0002-80 ISSN 1679-9052
Diretor Nestor Paulo Friedrich Coordenador Eloy Teckemeier Redator João Artur Müller da Silva Editor Clovis Horst Lindner Jornalista responsável Eloy Teckemeier (Reg. Prof. 11.408) Conselho editorial Clovis Horst Lindner, Doris Helena Schaun Gerber, Eloy Teckemeier, Ingelore Starke Koch, João Artur Müller da Silva, Marcelo Schneider, Nestor Paulo Friedrich, Olga Farina e Vera Regina Waskow. Arte e diagramação Clovis Horst Lindner Criação e tratamento de imagens Mythos Comunicação - Blumenau/SC Capa Arte: Diego Oliveira Impressão Gráfica e Editora Pallotti Colaboradores desta edição Carine Fernandes, Dario Dorsch, Eloir Enio Weber, Hermann Wille, José Outeiral, Karl Kepler, Kátia Biehl, Leandro Hofstaetter, Maria Alice Rodrigues, Marcelo Schneider Ornulf Steen, Paula de Oliveira, Roberto Soares, Rubens Olbrisch, Rui Bender, Silvio Schneider, Valdemar Gaede, Vilnei Warzim e Willy Schumann.
Publicidade Editora Sinodal Fone/Fax: (51) 3037.2366 E-mail: editora@editorasinodal.com.br Assinaturas Editora Sinodal Fone/Fax: (51) 3037.2366 E-mail: novolhar@editorasinodal.com.br www.novolhar.com.br Assinatura anual: R$ 30,00 Correspondência E-mail: novolhar@editorasinodal.com.br Rua Amadeo Rossi, 467 93030-220 São Leopoldo/RS
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Sexualidade e moral cristã
S
exualidade não é um tema de fácil abordagem em nossa sociedade tão moldada pelos limites de uma moral cristã doentia e que interpreta mal diversas passagens bíblicas e até mesmo um livro inteiro, como Cantares. Por conta dela, a nudez virou atentado ao pudor e tudo o que está ligado a sexo foi pintado de coisa suja. Em vez de contribuir para a abordagem sadia do tema, essa visão contribuiu para atiçar a curiosidade e fomentar perversões e taras, inclusive dentro dos muros eclesiais. O texto do teólogo e psicólogo Klaus Kepler joga uma preciosa luz sobre as origens dessa persistente visão falsamente bíblica, que transformou preceitos morais na própria palavra de Deus. A sexualidade humana é uma preciosa dádiva que se torna imunda apenas em nossas mentes poluídas. Essa é uma lição que temos que aprender com outros povos e culturas. Por exemplo, com as impressionantes esculturas da civilização inca no Equador, que representavam casais em pleno ato amoroso com uma naturalidade que beira o divino, em numerosos objetos cerâmicos de uso intenso no seu cotidiano. Quanto a nós e nossa duvidosa moral dissimulada, criamos significados abstratos até para os símbolos do masculino e feminino, que estão em nossa capa e na página de abertura das matérias sobre o tema. Segundo a explicação balizada pela moral, eles têm origem na mitologia grega. O círculo com a cruz representaria o espelho de Afrodite, e o círculo com a flecha dirigida para o alto, o escudo e a lança de Ares. Na verdade, essa explicação bem-comportada mascara o real significado dado por alquimistas medievais, que criaram o símbolo masculino representando o órgão sexual do homem e a cruz para baixo o órgão sexual da mulher. Na realidade, mais do que ter sido transformada num assunto que enrubece nossas faces, a sexualidade humana tem a ver com tudo aquilo que somos como seres humanos dos gêneros masculino e feminino. Além das características anatômicas externas, ela molda nossos sentimentos e reações, nosso comportamento e até mesmo a nossa espiritualidade e a relação que temos com Deus. Ao abordar tema tão cheio de não-me-toques e melindres, a Novolhar busca dar mais uma importante contribuição num assunto do qual preferimos desviar no campo da espiritua lidade. Desejamos uma boa leitura e um debate sadio. Equipe da Novolhar
opinião
IECLB
Tema do Ano 2014 Dentro da trilha dos temas dos anos anteriores, a reflexão do próximo ano abordará a tarefa missionária da igreja a partir dos desafios das cidades
A
cidade como alvo da missão da igreja estará no centro dos debates temáticos na IECLB no próximo ano. A apresentação do Tema e do Lema do Ano para 2014 aconteceu durante a reunião da Presidência com os pastores sinodais da IECLB em São Bento do Sul (SC) nos dias 12 a 15 de março no Lar Vila Elsa. A temática foi estabelecida em março do ano passado em reunião conjunta da Presidência com os pastores sinodais, que decidiram abordar a missão urbana e as teologias da cidade. Um grupo de trabalho constituído em setembro de 2012 definiu o Tema
e o Lema de 2014 na linha da “Igreja nas (grandes e pequenas) cidades”. O grupo era integrado pelos pastores Nestor Friedrich, Romeu Martini, Guilherme Lieven, Edson Streck, Eloir Weber, Carlos Eberle e Antônio Oliveira, pelas catequistas Débora Conrad e Dirlane Witt, pelo professor Rudolph von Sinner, pela assessora Cerise Pahl e pela jornalista Letícia Montanet. O novo tema segue a trilha temática iniciada em 2012 com “Comunidade Jovem - Igreja viva” e seguida em 2013 com a formulação “Ser, Participar, Testemunhar - Eu vivo comunidade”.
Visite nosso site Os conteúdos de todas as edições da NOVOLHAR estão à sua disposição no site. Visite, consulte, faça uso: www.novolhar.com.br
Tema da próxima edição
A edição nº 52, de Julho/Agosto de 2013, abordará a temática das PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. Assuntos como as políticas públicas, preconceito e inclusão estarão em nossas páginas.
Novos olhares Obrigado que a revista nos convide e provoque a ter novos olhares mais justos e inclusivos, mais solidários e comprometidos. Abraços a toda a equipe da revista. José Manuel Palazuelos Ballivián – pelo Facebook
Capa de janeiro
Sou assinante da revista. Por isso, gostaria de comentar a capa de janeiro e fevereiro. Ela não me dá vontade de SER-PARTICIPAR-TESTEMUNHAR ou viver em comunidade. Ela me faz lembrar instituições que vêm do norte das Américas (para não citar nomes). Todos são bonitos, bem vestidos, brancos e se dirigem a uma cruz que me lembra um símbolo de seita extremista. Viver em comunidade é conviver com diversidade de povos, classes sociais. Minha visão luterana se foca no evangelho da esperança e não da cruz. Paulo Ricardo Drecksler – por e-mail Esta linda capa poderia ser o cartaz do Tema do Ano da IECLB. Parabéns ao arte-finalista. Daniel Richter – por e-mail
Qual é a graça? Folheando o último exemplar da revista Novolhar, deparei-me com a sessão de humor da revista (p. 8). Por favor, ajudem-me a compreender onde está o humor da “dupla jornada de trabalho de uma mulher”. Rosangela Stange – por e-mail NOVOLHAR.COM.BR –> Mai/Jun 2013
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olhar com humor
MOSAICO BÍBLICO
Ao ler Salmos, é importante que o leitor lembre que se trata de: Poesia – Portanto, trata-se de um texto repleto de imagens e metáforas e, por esse motivo, nem tudo deve ser interpretado literalmente. Louvores – O título do livro em hebraico é Tehillim (“Canções de louvor”), enfatizando que se trata de um conjunto de canções para ser cantadas, ou seja, cânticos de louvor a Deus por quem ele é, o que ele representa e pelo que ele realizou. A palavra “salmos” provém do título do livro na Bíblia grega: Psalmos, “música tocada por instrumentos”. Orações – Palavras dirigidas a Deus, e não palavras ditas por Deus. Nesse sentido, embora expressem sentimentos do autor (por exemplo, “feres nos queixos a todos os meus inimigos”, Salmo 3.7), não necessariamente expressam sentimentos de Deus. O leitor deve, portanto, cuidar para não confundir as duas coisas. Por outro lado, essa maneira de expressão revela que as pessoas têm liberdade para apresentar-se diante de Deus, com absoluta honestidade em suas orações. Profecia – Mas só algumas vezes! Alguns salmos apontam diretamente para Jesus ou foram citados por ele (por exemplo, Salmo 22.1, Salmo 110.1, Salmo 118.22). O Novo Testamento registra 116 citações de Salmos, tornando-o o livro mais citado do Antigo Testamento. N Fonte: Bíblia Sagrada com Enciclopédia Bíblica Ilustrada – Sociedade Bíblica do Brasil – 2011
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Salmos
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Notas ecumênicas
Sem violência o sucesso e o futuro da paz internacional e de um desenvolvimento sustentável dependem da eliminação do flagelo da violência de gênero.
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A professora Magali do Nascimento Cunha, docente da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, foi admitida como pesquisadora na Comissão Nacional da Verdade. Ela passa a integrar um dos doze grupos de trabalho da comissão intitulado “Papel das igrejas durante a ditadura”.
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A costarricense Jessica Mora Romero, 26 anos, da Igreja Evangélica Presbiteriana da Costa Rica, é a nova coordenadora continental da Pastoral da Juventude e Cultura de Paz do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) para o biênio 2013-2014. A Pastoral da Juventude está organizada em 17 países da América Latina e Caribe com equipes e animadores nacionais.
Deus foi transformado num gordo e ávaro banqueiro, pronto para rerpartir suas benesses com quem pagar bem. O antigo conto do vigário foi substituído pelo conto do pastor. Essa teologia não tem respaldo bíblico.
Magali do Nascimento Cunha
Missão
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Comissão da Verdade Pastoral jovem
Conto do pastor
ARIOVALDO RAMOS, líder da Comunidade Cristã Reformada de São Paulo, sobre a teologia da prosperidade
JOHN NDUNA, secretário-geral da Aliança ACT, por ocasião do Dia Internacional da Mulher
Jessica Mora Romero
DIÁLOGO: Para o pastor luterano chileno Martin Junge, que é o secretário-geral da Federação Luterana Mundial, “uma igreja não pode ser por si própria. Ela requer laços fortes de relações e intercâmbio mútuo e edificante. Os diálogos ecumênicos são uma expressão importante do que é ser igreja na sociedade de hoje”.
Missão tem a ver com contextualização e inculturação, o que evidencia a necessidade de um duro e paciente trabalho de inserção na cultura hospedeira, sem o qual se pode comprometer o anúncio do evangelho e a própria presença missionária. ROBERTO E. ZWETSCH é teólogo luterano e professor de missiologia na Faculdades EST em São Leopoldo (RS) NOVOLHAR.COM.BR –> Mai/Jun 2013
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CAPA
O paradoxo da sexualidade
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O TEMA DA SEXUALIDADE HUMANA CAUSA CONSTRANGIMENTO E É TABU, ainda mais QUANDO VISTO COMO SINÔNIMO DE SEXO. ENQUANTO ESsE ESTÁ LIGADO à REPRODUção, AQUELA determina O QUE SOMOS E COMO NOS COMPORTAMOS. NAS PÁGINAS A SEGUIR, A NOVOLHAR reúne informações relevantes sobre essa temática, para motivar sua abordagem de modo aberto e adequado.
por Carine Fernandes
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esde os primeiros minutos de vida até nossos últimos dias, ela nos acompanha, fazendo parte de nosso desenvolvimento biológico. Sua presença surge ainda na concepção, quando herdamos de nossos pais os cromossomos xy e xx, que determinam se seremos do gênero masculino ou feminino. A partir desse momento, ela faz parte do nosso ser. Estamos falando da sexualidade, “conjunto de todos os caracteres morfológicos e fisiológicos, externos ou internos, que os indivíduos apresentam, conforme o sexo a que pertencem”, segundo define o dicionário. Apesar de ser algo natural, inerente ao ser humano, ainda é um tabu em nossa sociedade em pleno século 21. Na opinião do psicólogo e psicanalista Julio Cesar Walz, sexualidade sempre foi e sempre será um tema delicado. “É um assunto que causa mal-estar, constrangimento, desconfiança, o não saber lidar ou mesmo aversão. Ela ocupa uma grande importância especialmente pela dimensão prazerosa, afetiva e mesmo reprodutiva. Mas, contraditoriamente, inúmeras vezes nos enredamos em pensamentos confusos com ela ou sobre ela”, pondera. Por sua vez, o psicólogo Vilnei Roberto Varzim acredita que a dificuldade em falar do assunto dá-se pela forma como ele é conduzido pelas famílias: “Historicamente, o tema sempre foi de difícil discussão, sobretudo para crianças e adolescentes; a curiosidade, a percepção das diferenças no próprio corpo e no corpo
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Igor Sperotto
do outro, a descoberta das carícias e a fonte incontestável de prazer que o sexo representa fizeram do assunto um tabu e algo que ‘não é conversa para crianças’, contribuindo ainda mais para aguçar a imaginação de cabecinhas ávidas por informações. Famílias que reproduzem o ‘mistério’ do assunto, de geração em geração, foram construindo um misto de proibido e curiosidade a respeito”. Vilnei acredita que a sexualidade será vista como algo natural quando houver espaços abertos para o diálogo, desmistificando o tema, sem tirar dele a beleza e a importância que contém. “Famílias que conversam, escolas que debatem e igrejas que não omitem um assunto de tamanha relevância”, sugere. Fernanda Almeida Bastos, psicóloga e doutora em Neurociências, também aposta no diálogo aberto para quebrar esse tabu, inclusive na igreja. “Muitas religiões ainda mantêm uma visão desatualizada sobre o desenvolvimento da sexualidade humana e sobre a própria sexualidade adulta, vista como sinônimo de sexo, transfor-
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conceito e a diferença entre sexualidade e sexo. “O sexo Os adolescentes já possuem é biológico, isto é, caracterizado pela função repromuitas informações na dutora e explicitado pela escola, têm um mundo genitália externa e interna. infinito na internet, mas Também tem a ver com a relação sexual, com um ato. acho que em casa a gente Já a sexualidade é psicológipode tentar ajudar no ca, faz parte do dia a dia da tema do autocuidado. pessoa. Sexualidade não é um ato nem um órgão, mas Os adolescentes, por sim um comportamento”, característica da idade, às explica o psicólogo Vilnei vezes se atrapalham nisso, Varzim. Com esse esclarecimene cabe nossa ajuda. to, pais e posteriormente a Julio Cesar Walz escola devem assumir um papel importante na educação sexual de crianças e jovens. Em primeiro lugar, mando o tema em tabu. Informações a família, que deve ser a primeira extremamente relevantes, tais como fonte de informação dos filhos quando desenvolvimento da sexualidade no surgem as primeiras perguntas sobre adolescente, vida sexual do adulto, o tema. “Uma criança curiosa pode métodos contraceptivos, doenças começar a mostrar interesse pelo sexo sexualmente transmissíveis (DSTs), aos dois, três anos, mesmo sem o uso devem ser abordadas e discutidas de palavras específicas. A maior parte abertamente e de modo adequado”, o fará entre os quatro e seis anos. Nesdefende Fernanda. se período, o que a criança quer saber Cláudio Kupka, pastor da IECLB é muito pouco, e por isso não é preciso na Paróquia Matriz de Porto Alegre, explicar detalhes, mas também é imreconhece a dificuldade de tratar do portante não mentir e não brincar, mas tema dentro da igreja: “Se o tratarmos explicar o básico na linguagem que de forma isolada, facilmente pode ser ela puder entender”, diz o psicólogo compreendido de modo moralista ou Vilnei. “Se os pais a repreenderem, a como atitude controladora em nome do criança nunca mais lhes perguntará e interesse dos pais sobre os filhos, mui- continuará tão curiosa quanto antes; tas vezes num contexto de insegurança afinal, está numa fase de descobertas”, e falta de diálogo”. O pastor acredita alerta o especialista. Quando chega a adolescência, que a igreja pode falar do assunto ao abordar o comportamento ético nos re- muito mais do que informação, os lacionamentos amorosos, valorizando pais devem investir na orientação. “Os adolescentes já possuem muitas as relações responsáveis. Por mais que a igreja se esforce informações na escola, têm um munem falar do assunto, o local onde ele do infinito na internet, mas acho que precisa ter amplo espaço, e desde em casa a gente pode tentar ajudar cedo, é na família. Para isso é preciso no tema do autocuidado. Os adolesdistinguir e conhecer muito bem o centes, por característica da idade,
mentos”, alerta o psicólogo. É fundamental que o casal reserve tempo para conversar sobre as questões que estão sendo apontadas como dificuldades. “Tão difícil quanto conversar com o filho pequeno ou adolescente é ficar frente a frente com o cônjuge e tratar dessas questões. Difícil, porém extremamente necessário.” Já na chamada “melhor idade”, o desafio é não deixar que as perdas comuns desse período, como saída de filhos, aposentadoria, sinais de envelhecimento corporal e solidão, afetem a área sexual. “Saúde sexual é muito mais do que não ter doenças. É ter capacidade de viver a intimidade do relacionamento. Depende do bem-estar do indivíduo e de seu senso de autoestima”, completa Vilnei. O paradoxo da sexualidade, que beira entre a naturalidade e a complexidade, faz dela um tema difícil, sim, mas extremamente necessário de se abordar e conviver em todas as fases de nossa vida. N CARINE FERNANDES é jornalista em Porto Alegre (RS)
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às vezes se atrapalham nisso, e cabe bizarro ou complexo que seja, alivia nossa ajuda”, acredita o psicólogo e a ansiedade, evita o comportamento psicanalista Julio Cesar Walz. Essa impulsivo e reativo e a busca de orienaparente “irresponsabilidade”, típi- tação com a turma de amigos, muitos ca da adolescência, tem explicação deles más influências”, complementa neurológica. a especialista. “A adolescência é um período do Passada a fase das descobertas e desenvolvimento humano que inicia experimentações, a sexualidade atinge com a puberdade (10 a 12 anos). Nessa sua maturidade com a chegada da vida fase, o cérebro envia sinais neurais ao hi- adulta. “Nesse período, inúmeras dúpotálamo, que inicia o processo de con- vidas já foram sanadas, experiências já trole e liberação dos hormônios sexuais foram avaliadas e a oportunidade de (andrógenos, estrógenos e progestinas), se autorredescobrir torna-se viável. É que irão transformar de modo abrupto justamente na idade mais madura que o corpo do jovem. O comportamento é podemos reavaliar nossos próprios influenciado por esses hormônios e pela conceitos e valores, assumindo novos modificação cerebral: ocorre a ‘poda caminhos e abandonando os ultrapasneuronal’, ou seja, circuitos neuronais sados”, acredita Vilnei. Essa também que não estão sendo utilizados são é uma fase em que se deve cuidar eliminados, dando espaço para novas para que a sexualidade não fique em formações. Isso altera não só a morfolo- segundo plano, atrás das inúmeras gia, como também o funcionamento do responsabilidades que chegam com cérebro. Esse se torna mais sensível tam- a vida adulta, como trabalho, filhos, bém aos neurotransmissores dopamina administração financeira. e oxitocina, responsáveis pelo prazer da “É importante a atenção para que recompensa e pelo rápido aprendizado. a manutenção aconteça de forma O reflexo dessas modificações cerebrais saudável, sem cair na monotonia do é visto na alteração do comportamento: emaranhado de tarefas do dia a dia. É impulsividade; instabilidade; altera- aí que costumam morrer os relacionação e flutuação do humor; intolerância; perda pelo interesse em assuntos, pessoas e brinquedos que antes O sexo é biológico, de interessavam e entretinham; baixa autoestima; busca por função reprodutora e novidades incessantemente, explicitado pela genitália. entre outras”, explica a neuroTambém tem a ver com a cientista Fernanda Bastos. relação sexual, com um Por toda essa transforato. Já a sexualidade é mação na vida do jovem, os pais devem mostrar-se psicológica, faz parte dispostos a ouvir seus filhos, do dia a dia da pessoa. “na essência”, buscando enSexualidade não é um ato tender o que eles realmente nem um órgão, mas sim um querem dizer. “Muitas vezes, o simples fato do filho saber comportamento. que tem liberdade para conVilnei Varzim versar com seus pais sobre qualquer assunto, por mais
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CAPA
Entender as diferenças As diferenças nos corpos de homens e mulheres estão além da aparência e dos órgãos sexuais. o cérebro apresenta características femininas ou masculinas, gerando diferenças de comportamento, sentimentos e modos de pensar. por Paula de Oliveira
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esde a época dos homens das cavernas, passando pelas antigas civilizações orientais, pela antiguidade clássica e ainda posteriormente, o papel dos gêneros feminino e masculino na sociedade sempre foi bem delimitado. Quando o assunto era relacionar-se com o sexo oposto, cada um, de acordo com os paradigmas sociais de sua época, sabia como devia proceder. Havia regras pré-definidas pelas “amarras” sociais. Por isso nem homens tampouco mulheres perdiam muito tempo refletindo sobre atração, sedução ou qualquer assunto relacionado à interação entre os sexos. A partir da década de 1960, esse cenário começou a mudar com os movimentos feministas, que tomaram força conquistando direitos legais e sociais para as mulheres. Não obstante, essas conquistas influenciaram o comportamento e a sexualidade de mulheres e homens. Na década de 1990, a sociedade começou a aceitar que “a
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mulher possui necessidades sexuais”. Ao lado disso, consolidou-se, paradoxalmente, a ideia de que há grandes e importantes diferenças entre os gêneros feminino e masculino. Hoje, no mundo contemporâneo, essas questões são consideradas fundamentais para o entendimento das diferenças de comportamento sexual feminino e masculino. Segundo explica a psicóloga e sexóloga Carla Cecarello, a diferença entre as sexualidades feminina e masculina vai desde a anatomia e fisiologia até o valor que cada um dá ao comportamento do outro, ou seja, o que a mulher vê em um homem que a estimula sexualmente e o que um homem vê em uma mulher que o estimula também. “O homem apresenta um erotismo que enfatiza o visual e partes do corpo feminino. Já a mulher valoriza um erotismo mais tátil, considerando a pele nossa maior zona erógena. O erotismo masculino é mais visual, mais genital; o feminino, mais tátil,
muscular, auditivo, mais ligado aos odores, à pele e ao contato”, explica a sexóloga. Mas o comportamento sexual dos homens e das mulheres vai além da questão hormonal ou fisiológica. Com o surgimento da pílula anticoncepcional, por exemplo, a mulher passou a questionar por que ir para uma relação sexual, já que podia escolher se queria engravidar ou não, e passou a correr atrás de seu prazer. “Também com o aparecimento do Viagra, a mulher
direito, que propicia uma relação mais holística ou intuitiva com o mundo. A mulher é sutil, delicada ao falar, e o homem é naturalmente menos afetivo no dia a dia. Como os homens podem aprender a interpretar melhor o que as mulheres dizem, fazem ou pensam e vice-versa? Pensando em auxiliar no entendimento dessas diferenças pela perspectiva fisiológica, a médica e fisiologista Cibele Fabichak escreveu “Sexo, Amor, Endorfinas & Bobagens”, da
Cécile Graat
precisou sair atrás do problema do parceiro para buscar ajuda; passou a ficar mais exigente, não aceitando mais qualquer tipo de carícia ou abordagem; e o homem ficou inseguro diante dessa nova mulher, que sabe bem mais o que quer”, afirma Carla. Mas as principais diferenças entre mulheres e homens estão no modo de se expressar: a tendência masculina é dominar o hemisfério cerebral esquerdo, mais voltado à análise lógica; as mulheres dominam melhor o lado
O livro de Cibele Fabichak para responder perguntas sobre paixão, amor, sexo, infidelidade e fatores biológicos do comportamento sexual
Editora Novo Século. “A ideia de escrever o livro começou a nascer há algumas décadas, quando certas perguntas biológicas sobre paixão, amor, sexo começaram a tornar-se teimosamente insistentes: qual a diferença entre a paixão e o amor? A infidelidade tem explicação biológica?”. Por meio dessa obra a médica responde a várias questões, mostra os diversos aspectos da biologia e da química do amor e oferece uma checklist para avaliar seu relacionamento. Mas, afinal, como o casal pode lidar com as diferenças entre a sexua lidade feminina e a masculina? Para Cibele, o mais importante é conhecer e refletir sobre essas diferenças: “É preciso entender que o homem e a mulher comunicam-se diferentemente, pensam, sentem, percebem, reagem, respondem, amam, necessitam e apreciam diferentemente. Entender as diferenças resolve muitas frustrações causadas pelo desconhecimento do sexo oposto”. Já a psicóloga e sexóloga Carla Cecarello afirma que “as mulheres fingem querer sexo para ter amor, e os homens fingem amor para ter sexo. E, no fim das contas, ambos querem relacionar-se com qualidade e prazer; por isso o diálogo é o principal caminho. Afinal, ninguém é obrigado a adivinhar o que o outro está pensando ou sentindo”. N PAULA OLIVEIRA é jornalista em São Paulo (SP) NOVOLHAR.COM.BR –> Mai/Jun 2013
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CAPA
Como e quando falar sobre sexo “quando deve começar a educação sexual?” a resposta é que ela começa em casa, na interação da criança e seus pais, já no primeiro ano de vida. por José Outeiral
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Pode parecer estranho, mas a palavra sexualidade nem sempre é bem compreendida. Em geral, é associada a aspectos da vida genital e adulta. Também não é incomum associá-la a algo “complexo” e não raramente a sentimentos de culpa ou vergonha.
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odos nós nascemos com uma sexualidade que fará parte de nossa saúde ou, em alguns poucos casos felizmente, de patologias. Assim podemos dizer que a sexualidade faz parte da vida e da saúde de cada um de nós.
É necessário retomar o verdadeiro sentido da palavra sexualidade. Ela vem “seccionar-se”, dividir-se, e foi Platão, o filósofo grego da antiguidade clássica, que criou na metáfora mítica da “caverna” a história de que os seres humanos eram constituídos de duas cabeças, quatro braços e pernas etc. – tudo em “duplo”. Tendo cometido algo que desagradou os deuses, o ser humano foi “condenado” a ser dividido ao meio, e desde então um “pedaço” busca, com desejo, encontrar o outro “pedaço”... Essa metáfora nos permite entender que a sexualidade é, antes de mais nada, a busca e o encontro com um outro. O encontro de uma mãe e seu bebê é a expressão primeira da sexualidade humana. A mãe e o bebê eram um só, e com o nascimento ocorreu a “divisão” de que falou Platão. Temos, agora, dois seres: a mãe e o bebê (que nem sabe ainda que sua mãe existe), que estão estreitamente
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MARCELO SCHNEIDER é teólogo e trabalha para o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em Porto Alegre (RS)
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saiba mais Divulgação Novolhar
interligados. Quando escrevo “mãe”, refiro-me também ao pai. Os exemplos deles serão fundamentais para a formação da personalidade da criança por intermédio dos mecanismos de identificação. O bebê tem uma estrutura neurológica que está em processo de desenvolvimento, o que irá perdurar por alguns anos, e a maturação desse processo revela estruturas mais desenvolvidas na cabeça (olfato, sucção, visão, audição, tato) e que vão evoluindo no sentido cefalocaudal e proximodistal, isto é, da cabeça até os membros inferiores (por isso os bebês mamíferos levam tanto tempo para andar) e do centro para a periferia. Nesse sentido, as estruturas mais desenvolvidas estão nos órgãos localizados na face. Teremos, então, o que Sigmund Freud chamou de desenvolvimento psicossexual. A primeira etapa desse desenvolvimento psicossexual chama-se “fase oral” e é fundamental para nosso desenvolvimento emocional. Constitui nossas primeiras experiências “se xuais” (cuidados que nossos pais nos dispensam) e vai, de certa maneira, ser um “padrão” para os “encontros” que virão a seguir: relacionamento na família com os pais e irmãos, com os colegas e professores na escola, namoros, atitudes no trabalho etc. Assim, ao surgir uma pergunta frequente “quando deve começar a educação sexual?”, a resposta é que ela começa em casa, na interação da criança e seus pais, já no primeiro ano de vida. As experiências nos anos iniciais são fundamentais. Dificuldades vivenciadas na infância podem ser modificadas, mas não será uma tarefa fácil. Nossa personalidade é constituída, como explica a psicanálise, por uma “equação etiológica”:
Doenças Sexualmente Transmissíveis As doenças sexualmente transmissíveis (DST) são transmitidas principalmente por contato sexual, sem o uso de camisinha, com uma pessoa que esteja infectada. Geralmente elas se manifestam por meio de feridas, corrimentos, bolhas ou verrugas. As mais conhecidas são AIDS, gonorreia e sífilis. Algumas DST podem não apresentar sintomas, tanto no homem como na mulher. E isso requer que, se fizerem sexo sem camisinha, procurem o serviço de saúde para consultas com um profissional de saúde periodicamente. Essas doenças, quando não diagnosticadas e tratadas a tempo, podem evoluir para complicações graves, como infertilidade, câncer e até a morte.
personalidade = constituição (nosso corpo biológico) + vivências infantis + acontecimentos atuais. Você entenderá, dessa forma, como os primeiros anos, os cuidados que recebemos, são importantes para a vida toda, para a saúde e para a sexualidade, mesmo para a sexualidade genital e adulta. Muitas vezes, escuto pais perguntando como e quando devem “falar de sexo” com seus filhos. Devem responder em função das perguntas que eles fazem e da capacidade de entendimento deles. Os pais sabem por intuição o quanto os filhos podem entender. Sugiro também ficarem atentos não somente às perguntas como também a interesses demonstrados, por exemplo em determinadas cenas de filmes e novelas de televisão. Muitas vezes, é necessário colocar limites ao que nossos filhos, conforme suas idades, assistem.
Dar limites é demonstrar interesse, cuidado, amor, enfim aspectos da sexualidade. Dar limites, então, curiosamente é um dos aspectos da sexualidade humana. Assim como nos primeiros anos da infância, a puberdade (modificações físicas) e a adolescência (aspectos psicossociais) constituem também um momento importante para a sexualidade: a sexualidade genital. Na cultura contemporânea, esses processos têm acontecido cada vez mais cedo, e os exemplos da sociedade são bastante discutíveis. Todos, pais e professores, têm de estar atentos e prontos para ajudar nossos jovens. Mas não devem esquecer que as raízes estarão nos primeiros anos de formação. N
JOSÉ OUTEIRAL é médico, psiquiatra e psicanalista em Porto Alegre (RS)
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CAPA
Toda forma de amor vale a pena?
físico, visual –, em que a gratificação esperada é instantânea. Se por alguma razão funcional a atração de eros progride para um interesse genuíno, em que a admiração pelo outro gera importância vital, dá-se ali essencialmente o começo do relacionamento denominado de philia. Já na dinâmica de estar “vivendo em conjunto”, efetiva-se a construção de histórias e memórias, constituindo ágape um amor virtuoso e, embora com desejo, iluminado pela consciência e pela sabedoria. Nesse estágio, os três amores coexistem, e há a harmonia do casal. No entanto, a experiência tem apresentado o desenvolvimento das relações conjugais de outro modo: quando o amor passa a ser carinhoso, ao atingir philia e ágape, perecem o romance e os desejos ardentes/eróticos (de eros). A atração sexual no amor em eros enfraquece sua vitalidade, visto que a qualidade do investimento no relacionamento incondicional diminui com a conjugação dos amores fraternos. Ao invés de eros unir-se à
[...] E a gente vive junto E a gente se dá bem [...] E a gente vai à luta E conhece a dor Consideramos justa toda forma de amor […] “Toda Forma de Amor”, Lulu Santos
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estrofe da música de Lulu Santos “Consideramos justa toda forma de amor” clama à reflexão: será que realmente toda forma de amor vale a pena? Inicialmente, é importante entender o que significa amar. Que experiência é essa na qual “te amo” vira sinônimo carinhoso de “até breve” para os próximos e para os não tão próximos? Nesse sentido, é preciso perceber a dignidade do ato de amar, muito maior do que um sentimento, sendo em sua literal extensão um verbo: o ato de investir em quem é o sujeito dessa ação. O que o sujeito realmente ama é viver o amor. Por que é difícil amar? Não é difícil, mas sim complexo, pois existem várias maneiras de amar. E, muitas vezes, se esquece que todas elas valem a pena “se a alma não for pequena”, como diria Fernando Pessoa. Entre tantas maneiras de amar, os gregos indicaram três concepções: ágape, philia e eros. As três teriam uma
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intrincada interação nos relacionamentos, sendo que ágape significaria o amor universal, altruísta. Estaria localizado no coração; simplesmente se ama e ponto. Philia seria ainda um amor fraternal, explicitado na lealdade, na dedicação ao objeto amado. Teria sua localização na região psicomental, em que se escolhe por admiração o que se ama, manifestando-se essa vontade de amar como prazer mental, intelectual e cultural. Eros seria o amor voltado ao prazer, à necessidade de possuir o objeto amado. Estaria localizado na zona material e sexual do indivíduo. Voltando à música do Lulu Santos, um casal experimenta essas três formas de amor em tempos diferentes e simultaneamente equivalentes, transitando por elas conforme o verbo amor se conjuga nas funcionalidades e nas escolhas provindas dos investimentos desses pares na relação afetiva. Desse modo, um relacionamento inicia em eros, na escolha do “objeto de prazer” pelo estímulo dos cinco sentidos físicos – algo mais visceral,
Eng Chun Chia
por Kátia Biehl
a eternidade, aquele do desfrute prazeroso da companhia do parceiro –, ainda que fosse perfeito, não atingiria seu objetivo maior: a imortalidade. Mesmo que perene no arroubo do soneto “eterno enquanto dura”, não sendo extinto por negligência – ausência
Para reduzir a vulnerabilidade de adolescentes e jovens às DST, à infecção pelo HIV e à gravidez não planejada, foi criado o projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE) em 2003. Com ações nas escolas e nas unidades básicas de saúde, o projeto destaca a escola como o melhor espaço para a articulação das políticas voltadas para adolescentes e jovens. É lá que se encontram os principais sujeitos desse processo: estudantes, famílias, profissionais da educação e da saúde.
de qualquer forma de afeto –, qualquer forma de amor valeria a pena, uma vez que traz vida, querer bem a quem se tem. Fica a pergunta: por que não se dedicar a toda forma de amor? N KÁTIA BIEHL é psicóloga em Novo Hamburgo (RS)
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POLÍTICAS VOLTADAS PARA A JUVENTUDE
Janaína Kadosh
ágape e causar a perfeição do amor romântico e sensual, progredindo para a parceria do amor recíproco, gerado por afinidades intelectuais e espiri tuais, o amor em íntima unidade pela junção de ágape, philia e eros acaba por murchar. A solução para evitar a falência desses tipos de amor seria cultivar a atenção no sujeito amado, investindo contínua energia vital nele, dedicando-se a manter a chama sempre acesa. Para preservar esse encantamento ardente, seria necessário manter uma pessoa agradável, bem-humorada, interessante, atenta ao mundo, sobretudo com olhos sobre seu amor. É preciso dedicar-se a protagonizar um ambiente de romance, esse que move as expectativas no outro e para o outro, que tira as teias que encobrem os sentimentos e encanta os afortunados, nutrindo ágape, philia e eros, criando vida e emoção para os dois. Enfim, o amor de todas as maneiras – aquele apaixonado que promete
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A beleza da sexualidade por Karl Kepler
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corpo – e é exatamente isso que todas essas fontes de pornografia estão fazendo: visando dinheiro e usando o dinheiro para tentar preencher o que somente o coração de uma alma gêmea pode proporcionar... de graça. Creio, então, que em nosso contexto falta a promoção dessa sexualidade bela e sadia, que merece ser cultivada, respeitada e tratada com muito carinho. Pois, muito mais do que um perigo, a sexualidade é, acima de tudo, boa e bonita. Sabendo disso, poderemos olhar para o outro lado também. Contexto brasileiro – Sempre devemos levar em consideração a sociedade em que Deus nos colocou. No terreno da sexualidade, para o bem e para o mal, a cultura brasileira é diferente daquela de outros países. A influência maciça da televisão (e agora da internet), com grande apelo à nudez e ao erótico, certamente está deixando marcas no amadurecimento sexual de nossas crianças e no comportamento dos adultos. Extremamente publicizada, a sexualidade povoa nosso imaginário cultural desde cedo neste país. No ensino neotestamentário, mais claramente nas cartas de Paulo, podemos ser cristãos em qualquer condição social (escravos, mulheres, senhores etc.), e o cristianismo não é prioritariamente uma bandeira para uma “revolução nos costumes”,
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Bíblia utiliza várias vezes a sexualidade como um modelo para a espiritualidade, para o nosso relacionamento com Deus. O livro de Cantares inteiro fala da beleza da atração entre homem e mulher. Já em Gênesis, a união sexual (“sede fecundos... serão os dois uma só carne”) é parte importante da bênção de Deus na criação, muito antes da queda no pecado. A relação sexual foi criada por Deus no contexto do processo natural de deixar pai e mãe e formar um novo casal: com ela expressamos a aceitação incondicional e desejada do outro num clima de total confiança (tanto que nos despimos de tudo), celebrando uma aliança, uma união de almas. De acordo com Efésios 5.31,32, é provável que o prazer sexual, o orgasmo, seja um sinal do que será a futura união de Cristo com a igreja, as bodas do Cordeiro – um sinal humano, terreno, natural, mas muito bonito. A união sexual do casal é uma celebração de autoentrega, de confiança mútua, de recebimento do outro tal como ele é, sem adereços nem ressalvas, de amor humano. Por isso a prostituição e a pornografia são bastante combatidas na Bíblia. Transformar a preciosidade de se dar numa relação de compra, em que o corpo de outro ser humano vira mercadoria, coisa, é visto como um pecado horrível contra a natureza do próprio
nem para frente tampouco para trás. Primeiramente, o reino de Deus não é deste mundo; se perdermos essa perspectiva, provavelmente nos perderemos nas ações. Em segundo lugar, porém, é exatamente neste mundo que o Senhor nos quis deixar até sua vinda. Ser sal e luz, então, será traduzido via obras boas, sabedoria nos posicionamentos e ações, pureza e “agradabilidade” nas comunicações (Colossenses 4.6). Além da sociedade brasileira, estamos integrados no mundo ocidental, onde as tradições herdadas de nossos avós vão sendo substituídas cada vez mais rapidamente, e essas mudanças
vão sendo aceitas em nossa sociedade sem grandes traumas. Exemplos dessas “modernizações” dos costumes são a aceitação do divórcio, a adoção “à brasileira”, a prática do “casamento sem papel passado”, como também mudanças no conceito de namoro, o desuso crescente do noivado, a visão de casamento e separação, a aceitação de algum tipo de união homoafetiva. Tudo isso poderia ser visto apenas como um “avanço do pecado”, mas, ao mesmo tempo, também se percebem nessas mudanças elementos de amor legítimo. Lembremos que o Filho de Deus veio para salvar o mundo, não para condená-lo.
O ensino na igreja – As igrejas que trabalham junto aos irmãos mais humildes ainda têm como prática não falar em sexo. Aos poucos, há alguma abertura, mas muito pequena. Com esse silêncio do povo de Deus, crianças e adolescentes crescem com a impressão de que o sexo é um assunto totalmente afastado de Deus, talvez até oposto a Ele. Há muitas histórias, que seriam cômicas não fossem trágicas, de casais que não sabem o que fazer para integrar a vida sexual com sua condição de cristãos. E há também muitos abusos, que passam ignorados por todos, menos por Deus. E os jovens abandonam previsivelmente a igreja em grande número quando descobrem que sua sexualidade não cabe no discurso oficial. Foi mais ou menos nesse contexto da década de 1970 que se difundiram em acampamentos de jovens evangélicos as palestras sobre namoro, noivado, sexo e casamento. O que aqueles preletores ensinavam (alguns continuam ensinando) era basicamente: masturbação é pecado; namoro que não é sério está errado; sexo fora do casamento é pecado; sexo dentro do casamento é uma bênção; separação de casais é pecado. A grande virtude dos irmãos que ensinaram esses princípios foi que finalmente puseram o assunto “sexo” em pauta. Os jovens daquela época começaram a ouvir um monte de proibições e alertas sobre sexualidade, mas pelo menos ouviram alguma coisa dentro do ambiente cristão. Mas, passadas quatro décadas, esses ensinamentos mostraram-se insuficientes para lidar com a realidade. Agora percebemos que, às vezes, não falar nada pode ser melhor do que só falar contra. As igrejas brasileiras sentiram a necessidade de um ensino e de orientação bíblica mais completos, que integrem a verdade bíblica com
a realidade da vida. Muitas pessoas continuam “presas” àqueles princípios das palestras, como se eles fossem textos bíblicos – e não são. Algumas igrejas já descobriram a verdade de que “pessoas são mais importantes do que coisas”, o que foi um avanço. O próximo passo necessário seria aprender e afirmar, como nosso Senhor fez, que “pessoas são mais importantes do que princípios” (esse é o sentido de “o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado”). Isso precisa ser aplicado também em relação à realidade. Pessoas estão sofrendo em nosso meio, especialmente mulheres e meninas, mas também rapazes e casais, e aparentemente esses princípios que foram libertadores 40 anos atrás hoje têm efeito aprisionador. É claro que a solução não é simplesmente contrariá-los. Mas há uma necessidade muito evidente de reestudar a questão, de ter a coragem para questionar os princípios pregados e voltar ao texto – e contexto – bíblico a fim de buscar com Deus uma orientação mais eficaz. Acredito que estamos sendo cúmplices de sofrimentos e situações tais como: muitas mulheres ficam solteiras sem desejar, gravidezes indesejadas, casamentos efetuados cedo demais (com consequentes separações posteriores), experimentações homossexuais como fuga, sem falar de culpas neuróticas, abusos e violências causadas por falta de uma orientação saudável da sexua lidade. Tenho certeza de que Deus se importa, e muito, com o sofrimento de seus filhos e filhas mais jovens. Boa parte desse sofrimento provém da terrível conexão automática feita entre sexo e pecado. Felizmente, a boa notícia é que a sexualidade é boa e bela. Pena que essa notícia seja pregada tão pouco... N KARL KEPLER é teólogo, psicólogo e jornalista em São Paulo, autor de Neuroses Eclesiásticas e editor da Bíblia de Estudo Conselheira
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Sexo dura a vida inteira por Willy Schumann
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ão há dúvida de que a sexualidade é algo importante na vida do ser humano, que influencia diretamente a saúde e o bem-estar de cada um, independente da idade. O desenvolvimento da sexualidade ocorre em todas as fases da vida. Cada vez mais, o tema deixa de ser tabu para ser tratado de forma explícita, principalmente na esfera educacional, para ser compreendido cientificamente e trabalhado de maneira construtiva, a fim
de que seja a expressão da qualidade de uma relação em que se projeta um idealismo inicial de que essa relação será preservada, cheia de sensações prazerosas, e vivida plenamente por toda a vida. Com o passar do tempo – dentro do processo natural de envelhecimento, em que ocorrem alterações físicas e psicológicas consideráveis –, essa relação mútua, que outrora era dinâmica e crescente, acaba deteriorando naturalmente. Tem-se a impressão
de que a vida a dois perdeu o brilho, e a sexualidade no casamento não faz mais muito sentido. Será possível resgatar esse sentimento? Para o psicoterapeuta cristão Guilherme Falcão, a sexualidade contemporânea não é necessariamente uma relação amorosa, mas uma relação fraterna, de companheirismo, mas com vidas independentes. “Isso não é normal. O casamento tem que ser algo compartilhado. Compartilhar vida, não só teto, comida ou filhos. Isso não configura um casamento, mas um estado civil. Casamento é companheirismo de vida. É um companheirismo biológico, social, espiritual e também amoroso”, explica ele. Para Falcão, o segredo de um casamento saudável está na Bíblia. “A palavra de Deus fala que os dois serão uma só carne, os dois terão uma vida em comum, terão filhos e cuidarão dos filhos, mas o apóstolo Paulo alerta para que o homem atenda
Mandate Pictures/Imagem Filmes/Sony/Columbia/Divulgação
UM DIVÃ PARA DOIS: O filme protagonizado por Meryl Streep e Tommy Lee Jones retrata o drama do resgate da vida amorosa no relacionamento
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as necessidades da mulher e a mulher atenda as necessidades do homem”, ressaltou ele. O tema é tão recorrente, que foi tratado com muita propriedade no filme “Um Divã Para Dois”, produzido em 2012. Meryl Streep interpreta uma dona de casa insatisfeita com seu casamento de 30 anos, que parece mais uma amizade, em que a falta de amor e a indiferença permeiam a vida do casal. Apesar da idade avançada, ela tenta restabelecer a vida sexual de ambos, que está apagada pelo comodismo da vida rotineira. Tommy Lee Jones interpreta o marido rabugento. Como o casamento já não é mais uma coisa importante para ele, toda a sua energia está concentrada em seu trabalho como contador, a razão de sua existência. Ao retornar para casa diariamente, o casal janta em silêncio. Depois ela vai lavar a louça, e ele vai para a frente da TV assistir aos programas sobre torneios de golfe até a hora de ir para cama, invariavelmente quando não cochila na sala de estar. Os dois dormem em quartos separados, costume adquirido depois que ele teve uma lesão na coluna. Para ficar a maior parte do tempo imóvel, ele foi dormir no quarto de hóspedes da casa. Após várias tentativas – em vão – de resgatar a vida sexual do casal por meio de olhares e roupas sedutoras, a esposa decide apelar a um tratamento com um famoso terapeuta sexual e escritor de best-sellers sobre o tema. A partir daí, eles iniciam um processo de reformulação da relação, que começa com o resgate da afetividade até chegar à sexualidade. Falcão destaca que a situação apresentada no filme é muito comum e que o desinteresse do personagem masculino é muito mais do que sexual. É um desinteresse pela vida da companheira, em saber o que ela
COMO FAZER O TESTE DE AIDS Saber do contágio pelo HIV precocemente aumenta a expectativa de vida do soropositivo. Quem busca tratamento especializado no tempo certo e segue as recomendações do médico ganha em qualidade de vida. Além disso, as mães soropositivas têm 99% de chance de ter filhos sem o HIV se elas seguirem o tratamento recomendado durante o pré-natal, parto e pós-parto. Por isso, se você passou por uma situação de risco, como ter feito sexo desprotegido ou compartilhado seringas, faça o exame! O diagnóstico da infecção pelo HIV é feito a partir da coleta de sangue. No Brasil, temos os exames laboratoriais e os testes rápidos, que detectam os anticorpos contra o HIV em até 30 minutos, colhendo uma gota de sangue da ponta do dedo. Esses testes são realizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), nas unidades da rede pública e nos Centros de Testagem e Aconselhamento – CTA. Os exames podem ser feitos de forma anônima. Nesses centros também há um processo de aconselhamento, antes e depois do teste, para facilitar a correta interpretação do resultado pelo paciente. Também é possível saber onde fazer o teste pelo Disque Saúde (136).
necessita, quais são seus sonhos, suas frustrações, que ele descreve como sexualidade como um todo. Para a esposa, a questão sexual em si é uma necessidade biológica, que se contrapõe à sexualidade, que é expressa através de carinho, respeito e cuidado. “Quando falta assunto, quando falta interesse pela vida um do outro, é natural que a sexualidade também vá caindo. Quando a gente partilha vida, há um ímã entre os dois; do contrário, partilha a vida dos outros, não as nossas. É natural que o sexo se torne algo desinteressante, porque essa pessoa não me atrai mais, e não me atrai apenas sexualmente, não me atrai de um modo geral”, analisa ele. Idade não é motivo para o encerramento da vida sexual de um casal. É o que aponta o Relatório Hite, um polêmico estudo publicado em mea-
dos da década de 1970 pela sexóloga teuto-americana Shere Hite, que entrevistou dezenas de mulheres que falaram explicitamente sobre a questão da sexualidade moderna nos Estados Unidos. O relatório descreve que um grande número de casais entre 80 e 92 anos ainda desfruta da sexualidade. Falcão é enfático ao afirmar que até mesmo num casal em que se faz necessário aparar arestas é possível resgatar a vida sexual. “A questão principal é a comunicação, seguida de carinho, amor, compreensão e um projeto de vida juntos. Se os dois caminham juntos e têm as mesmas necessidades, eles jogam fora 80% das diferenças e vão viver a vida deles, porque sexo é vida e dura a vida inteira”, finaliza o N psicoterapeuta. WILLY SCHUMANN é jornalista e documentarista em Curitiba (PR)
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DEPOIMENTO
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Os pastores das duas igrejas luteranas celebraram um culto em conjunto na comunidade de Guaratuba (PR), que é atendida pelo pastor brasileiro Euclécio Schieck (à direita)
Unindo comunidades por Dario Dorsch
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sse é um bom título para compartilhar as vivências que experimentamos durante os três primeiros dias de janeiro deste ano ao visitar a comunidade evangélica da IECLB em Guaratuba, no litoral paranaense. Tratava-se de um acampamento de jovens da Igreja Evangélica do Rio da Prata, da Argentina e Paraguai. 38 jovens trabalharam durante o ano para
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arrecadar fundos e realizar o sonho de viajar às praias paranaenses. Os jovens argentinos são oriundos de uma congregação cuja origem teológica é suíça/reformada, enquanto os jovens do Paraguai são luteranos, cujos pais e/ou avós vieram, no final da década de 1970, do Brasil para povoar terras paraguaias. O ônibus, que partiu de Foz do Iguaçu (PR), levou-nos até o prédio da
comunidade evangélica de Guaratuba, a poucas quadras do mar. O prédio oferece instalações para receber grupos de jovens e adultos. Um momento muito especial foi vivido durante o culto na comunidade de Guaratuba. Era um grupo pequeno, mas com um coração enorme. O pastor Euclécio Schieck, que tem sua sede em Garuva, convidou-nos para fazer o culto de forma conjunta. E foi assim que os jovens contribuíram com música e canto, a pastora Mariela Bohl com o Powerpoint para projetar e o pastor Armando Weiss com a prédica. A liturgia esteve a cargo do pastor brasileiro. Foi muito emocionante, porque começamos a dialogar e percebemos que os integrantes pertenciam a três países diferentes, a duas igrejas coirmãs, mas a uma só fé, unidos por Jesus Cristo. Tudo isso levou-nos à reflexão sobre a fé e os desafios que a vida nos apresenta. Consideramos que o maior dos desafios é o compartilhar. Compartilhar um tempo com o outro, uma oração, uma conversa, uma reflexão conjunta sobre algum tema vivencial. A fé é que nos mobiliza para encontrar-nos com o outro, apesar de estar longe, ser diferente, falar outra língua. A fé provoca nossa curiosidade para ver como é o outro. Isso é o que os jovens decidiram fazer. Unir-se a outros jovens, desconhecidos, de outro país e língua, e aventurar-se a viver durante dez dias juntos no Brasil, país que a maioria não conhecia. A presença de Jesus entre nós durante essa viagem tornou-se visível na vivência diária. A cortesia,
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O acampamento de jovens argentinos deu a eles a oportunidade de aproveitar o litoral brasileiro e crescer como grupo, facilitando a integração
as brincadeiras compartilhadas, a ajuda aos jovens do grupo com dificuldades emocionais, o calor, a profundidade nos devocionais. E tantas coisas... Esse acampamento de jovens, além de nos permitir aproveitar as praias paranaenses, permitiu-nos
crescer como grupo, como pessoas, e o mais importante: facilitou a união de várias comunidades que estão a milhares de quilômetros e que confessam a mesma fé. Por isso damos graças a Deus Pai. Graças porque seus caminhos nos levam ao encontro do outro, do diferente.
Também queremos agradecer ao pastor Euclécio Schieck e a Sinécio Dickel e esposa pela acolhida, pelos presentes e pela amizade. N
DARIO DORSCH é pastor da Igreja Evangélica do Rio da Prata em Crespo, província de Entre Ríos/Argentina
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MEIO AMBIENTE
Luz verde para o Galo Verde
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om apenas seis abstenções, os delegados e as delegadas da 17ª Assembleia Sinodal do Sínodo Vale do Itajaí (IECLB) aprovaram moção de reconhecimento do Projeto Ambiental Galo Verde (PAGV). O histórico momento aconteceu no dia 6 de abril em Blumenau (SC). A moção pedia o reconhecimento oficial do Projeto Ambiental Galo Verde como um grupo de trabalho no sínodo. Pedia também a recomendação do PAGV para outros sínodos e para a IECLB e apoio a seu caráter ecumênico, de abertura para parcerias com igrejas irmãs. A ideia do Galo Verde foi introduzida no Brasil durante os debates em
torno do tema do ano de 2011, “Paz na Criação de Deus”. Um grupo de reflexão para sua implantação surgiu em outubro do ano passado. A inspiração é o Der Grüne Hahn, uma entidade que reflete ações ambientais no âmbito das igrejas da Alemanha há 15 anos. O objetivo é implantar, monitorar e certificar iniciativas ambientais em comunidades, instituições e eventos no âmbito eclesial. “Queremos apaixonar nossas comunidades e instituições pela ideia de assumir responsabilidade pela Criação e de implantar projetos que concretizem isso”, disse o pastor Clovis Horst Lindner durante a assembleia no Vale do Itajaí. “Para isso, basta que vocês
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Projeto Ambiental Galo Verde é apresentado aos delegados na assembleia sinodal
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digam ‘nós queremos!’, e o PAGV ajudará vocês a implantar o projeto”, desafiou Lindner. “A proposta do PAGV é tirar a nossa igreja da zona de conforto para promover ações concretas no controle da destruição ambiental em nosso meio”, disse o pastor sinodal Breno Carlos Willrich. O núcleo de reflexão do Projeto Ambiental Galo Verde, aprovado em Blumenau, é integrado por voluntários e voluntárias, pastores da IECLB, representantes da Igreja Católica Romana, ambientalistas e técnicos ambientais. Esse grupo está elaborando conceitos e critérios de certificação ambiental para as comunidades eclesiais que aderirem ao programa. A partir de auditorias periódicas, os passos da implantação serão avaliados e, no final do processo, será entregue uma certificação. O primeiro projeto-piloto está sendo implantado, desde março, na paróquia luterana do bairro Itoupava Central em Blumenau. Um segundo projeto-piloto deve acompanhar a construção da nova sede sinodal do Sínodo Vale do Itajaí. Um terceiro projeto já está sendo encaminhado num Centro de Educação Integral municipal, também em Blumenau. O PAGV está aberto para ajudar interessados a implantar projetos ambientais para futura certificação em comunidades, igrejas, retiros e eventos, em caráter ecumênico. O PAGV também se interessa por parcerias com outros sínodos. “Esperamos que essa ideia se espalhe pela igreja luterana e, quiçá, chegue também a comunidades de igrejas com as quais estamos ecumenicamente ligados”, explica o ambientalista e naturalista Nelcio Lindner, que também participa do PAGV. Mais informações podem ser obtidas pelo N e-mail clovishl@mythos.art.br.
RESSOCIALIZAÇÃO
Socioeducador: uma vocação por Rui Bender
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e dia, cabeleireiro – à noite, socioeducador. Rodrigo Ramos Mello (36 anos) passa o dia tratando da aparência das mulheres num salão de beleza em um bairro de São Leopoldo (RS). Mas,
depois das 19 horas até as 7 horas da manhã seguinte, ocupa-se com a ressocialização de adolescentes infratores no Centro de Atendimento Socioeducativo em Semiliberdade (CASEMI) num outro bairro da cidade.
A atividade no centro de atendimento envolve tensões, pois “lidar com jovens infratores é bem estressante”, admite Rodrigo. Em sua maioria, eles tiveram vínculos com o tráfico de drogas. “Sua linguagem é a mesma da cadeia. Por exemplo, leite é vaquinha”, relata o socioeducador. Já no salão, ele se “desestressa”, porque ali encontra um ambiente mais descontraído. Assim acaba se estabelecendo um equilíbrio em sua vida. Rodrigo está há quase uma década atuando no atendimento direto a adolescentes. Antes disso fora caminhoneiro e até marido de aluguel. Ele lembra que “caiu de paraquedas” na atividade socioeducativa e gostou.
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Rui Bender
RESSOCIALIZAÇÃO: Um desafio para Rodrigo Mello na atividade com adolescentes infratores há uma década
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MISSÃO
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Tudo começou no Lar do Menino em Novo Hamburgo (RS). Depois ele passou por um albergue de moradores de rua, teve outras experiências no serviço social e está agora há dois anos no CASEMI, um projeto do Círculo Operário Leopoldense (COL). A dedicação ao adolescente em conflito com a lei é sobretudo uma vocação. Existe preconceito contra pessoas que lidam com gente à margem da sociedade. De qualquer forma, essas prestam um grande serviço à sociedade ao garantir um tratamento digno a esses jovens infratores e ao fazer aflorar o que há de melhor em cada um deles. O socioeducador atua na execução de medidas socioeducativas, priorizando a qualidade de vida dos adolescentes, sempre com muito amor e carinho. A formação profissional é um aspecto importante, pois favorece a recuperação e a reinserção na sociedade.
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“Vale a pena esse trabalho”, reconhece Rodrigo, “pois a gente vê resultados”. O jovem tem uma tendência a mudar. “90 por cento querem mudar”, calcula o socioeducador. Mas é necessário romper a “camada protetora” que o adolescente criou. Pois a vida calejou o jovem em conflito com a lei. Rodrigo entende que a família exerce um papel fundamental nessa ressocialização. “Se ela não se envolver, pouca coisa vai acontecer”, argumenta. O socioeducador comenta que o jovem quer mudar, mas muitas vezes o ambiente familiar não favorece a ressocialização. Quando ele sai no final de semana do centro de atendimento e vai para casa, ele geralmente encontra um lar desestruturado e os velhos companheiros da criminalidade. No entanto, os doze jovens que moram atualmente no CASEMI leopoldense, todos procedentes de um Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE) por regressão de medida socioeducativa, têm sonhos e querem mudar sua história de vida. Para mudar essa história, o papel do socioeducador é fundamental. Rodrigo comenta que oferecer amor e carinho é essencial. Isso pode até ser por meio de um corte de cabelo. Também os jovens de periferia mantêm o hábito de se preocupar com sua aparência. Querem sentir-se “legais”. Rodrigo dá-lhes uma mão nisso com sua habilidade profissional, oferecendo-lhes “um trato no cabelo”. Enfim, o socioeducador é tão importante hoje em dia que até ganhou uma data especial lá em Mato Grosso do Sul. Comemora-se ali no dia 24 de janeiro o Dia do Socioeducador, com o propósito de reconhecer e homenagear aquelas pessoas que se dedicam à tarefa de ressocializar o adolescente em conflito com a lei. N RUI BENDER é jornalista em São Leopoldo (RS)
Meta é ser uma igreja a serviço de noruegueses que atuam
Navegando os marinhe por Ornulf Steen
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norueguês sempre se sentiu atraído pelo mar. A longa costa da Noruega convida a explorar o mar, a usar o mar como via de transporte e a deixar-se levar pela curiosidade a novos lugares. É natural, então, que um dia fosse estabelecida a Igreja dos Marinheiros (IdM), uma ONG vinculada à Igreja Luterana da Noruega, que neste ano completa 150 anos. A meta sempre foi acompanhar o marinheiro norueguês por onde quer que navegasse.
A Igreja dos Marinheiros estabeleceu-se pela primeira vez no Rio de Janeiro em 1892 e lá permaneceu até 1900. Com o falecimento do pastor, vitimado pela epidemia da febre amarela, a igreja foi fechada. Em 1939, foi estabelecida uma nova igreja em Santos (SP). Mas, devido a mudanças no tráfego naval, essa igreja foi fechada em 1944. Em 1953, foi restabelecida a Igreja dos Marinheiros, mas outra vez foi fechada em 2003. A IdM faz parte também da Igreja Escandinava em São Paulo e, em 2005, estabele
No Rio de Janeiro, a IdM adquiriu uma casa que servirá de residência para o pastor e local para encontros
comunidade norueguesa nessa cidade. Em janeiro deste ano, foi assinado um contrato de compra de uma casa que servirá como moradia do pastor e lugar de encontros. A igreja está presente no dia a dia da comunidade norueguesa, preparada para fazer parte da vida das pessoas por meio de cultos, ensino confirmatório, atividades para crianças e atividades sociais. Dessa forma, a missão norueguesa está também preparada para acompanhar seus membros nas horas difíceis, seja em acidentes a bordo de algum navio, em problemas na família, falecimentos e também nas horas alegres com batismos e bênçãos matrimoniais, enfim, é uma igreja presente no dia a dia das pessoas. Pode surgir a pergunta: Por que uma igreja para noruegueses quando a IECLB já está presente no Rio? A resposta pode ser: Porque o público da IdM é de pessoas que não vêm para ficar permanentemente, mas para trabalhar em sua empresa por um determinado período. E muitas dessas pessoas trazem consigo suas famílias e depois regressam à Noruega ou mudam para outro país. Para essas pessoas, a IdM quer ser um recurso positivo, também para criar contato com a sociedade local. Nesse objetivo a IECLB também pode contribuir. N ORNULF STEEN é teólogo e pastor da Igreja dos Marinheiros Noruegueses no Rio de Janeiro (RJ)
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o com eiros
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em outros países em atividades ligadas ao mar
ceu-se na cidade do Rio de Janeiro. Essas mudanças também são sinal da flexibilidade necessária por causa das alterações no tráfego naval e nas atividades de empresas norueguesas no mundo. Hoje há poucos marinheiros, mas muitas pessoas trabalhando em outros setores, principalmente ligados ao petróleo e ao gás. No momento, a IdM está presente como igreja em 32 diferentes lugares no mundo (a lista completa você encontra no site: www.sjomannskirken. no/english). Além disso, a IdM tem pastores viajando por lugares onde não existe IdM, procurando servir aos noruegueses nesses lugares. São pastores para estudantes e pastores que atendem unicamente as instalações de petróleo e gás. Com as mudanças que houve na área naval com sempre menos noruegueses navegando e mais pessoas trabalhando como especialistas, mudaram também os desafios para a IdM. A principal meta continua sendo uma igreja a serviço das pessoas onde estiverem no mundo, contribuindo para que elas tenham coragem para fé, esperança e engajamento. São valores básicos; entre outros o valor absoluto do ser humano, a hospitalidade e a criação de pontes entre os noruegueses e a sociedade local onde moram e trabalham. A IdM restabeleceu-se na cidade do Rio de Janeiro em 2011, agora como entidade própria, servindo à
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OffProject Stinkfish
AJUDA HUMANITÁRIA
GRAFITE: Detalhe de um muro grafitado com o rosto de uma criança indígena, em Bogotá
Os civis são as vítimas por Silvio Schneider
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Colômbia é um país de contrastes. Nos últimos anos, melhorou consideravelmente sua imagem no exterior ao apresentar-se como um país aberto a investimentos privados nos setores mineiro e agroindustrial. Mas é o único país da América Latina que ainda continua com um conflito
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armado interno, que já dura mais de 50 anos. Esse conflito gera uma persistente crise humanitária, que afeta principalmente a população civil. De um total de 45 milhões de habitantes, um entre cada dez colombianos já foi forçado a sair de sua casa ou comunidade. É um claro indicador das consequências do conflito armado e dos desafios para proteger a população civil. Felizmente, iniciaram em Cuba os diálogos entre o governo colombiano e o grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) em busca de uma solução negociada para o conflito armado. Mas também há novos velhos atores armados no conflito. Para combater as guerrilhas nas décadas de 1970 a 1990, a população civil do campo foi armada pelo governo, sobretudo os proprietários de terras. São os paramilitares, que
escaparam ao controle e passaram a dominar a produção e o tráfico de drogas; em muitos lugares, atuavam em cooperação ou sob a proteção das forças públicas. Em 2005, houve um processo de desmobilização desses atores armados, e um ano depois admitiram ter cometido 161.758 homicídios ou execuções extrajudiciais. Os paramilitares subsistem sob outros nomes e são eufemisticamente chamados de bandas criminales. Exercem controle territorial, social, econômico e político em algumas regiões e cometem violações dos direitos humanos e do direito internacional humanitário, incluindo massacres, ameaças, violência sexual, execuções extrajudiciais, bloqueios armados de estradas e rios. Convidada pela Igreja Evangélica Luterana da Colômbia, a Federação Luterana Mundial (FLM) iniciou há oito anos, por intermédio do Departamento para Serviço Mundial (DSM), um programa de ajuda humanitária em Arauca, zona petroleira na fronteira com a Venezuela, e em Chocó, zona de mineração povoada por afro-colombianos e indígenas ao longo do Oceano Pacífico e que se estende até o Panamá. São regiões onde a igreja local não está presente. A necessidade de presença humanitária internacional é maior em Chocó. No sul de Chocó, a presença e a atividade de grupos guerrilheiros e de grupos de antigos paramilitares são grandes. Ali se estabeleceu um corredor estratégico, difícil de ser controlado pelos grupos armados estatais por causa das condições do terreno na Cordilheira dos Andes Ocidental. Os grupos armados ilegais plantaram minas terrestres nas áreas rurais e nos territórios indígenas. Historicamente, os indígenas e os afro-colombianos são coletores,
porque o território chocoano é caracterizado pela fertilidade de sua terra. Infelizmente, o conflito armado fez com que as comunidades passassem a ter limitado seu acesso às regiões onde tradicionalmente encontravam a alimentação. Com isso apresenta-se o desafio da segurança alimentar, pois o número da população é proporcionalmente superior à área disponível para a coleta de alimentos e mais vulnerável às pressões dos agentes armados ilegais. Desde dezembro de 2011, a situa ção agravou-se por causa de ações militares. Foi afetada a reserva indígena de Alto Andágueda, município de Bagadó. 53 famílias Emberá Katio tiveram que abandonar sua aldeia e foram alojadas num ginásio esportivo de Santa Cecília. Sofreram ameaças, acusações de cooperar com a guerrilha e os paramilitares, intromissão na justiça indígena, restrições à livre movimentação em seu território, atentados, assassinatos e altos índices de confinamento, causados por todos os atores armados legais e ilegais. Como disse um ancião indígena: “Esta guerra não é nossa, mas somos as principais vítimas”.
Em julho de 2012, houve bombardeios na mesma reserva e, em consequência, mais de 500 famílias tiveram que abandonar suas aldeias, deixando para trás suas plantações e seus animais. Os líderes indígenas foram buscar a ajuda da FLM em Quibdó. As comunidades distam três horas de carro de Quibdó, em rodovia de condições precárias em alguns trechos, e mais cinco horas de caminhada selva adentro e morro acima. As comunidades da Reserva de Aguasal del Alto Andágueda têm aproximadamente 200 famílias. Há muitas crianças, pois as adolescentes já dão à luz o seu primeiro filho entre os 10 e 12 anos de idade. A expectativa média de vida é de 55 anos de idade para mulheres e homens, ou seja, sete anos abaixo da expectativa de vida média nacional, o que tem a ver com desnutrição e falta de alimentação básica adequada, restrita ao consumo de banana. Uma equipe da FLM – um agrônomo e uma antropóloga – passou a executar um projeto de ajuda humanitária nas comunidades Emberá. Além da distribuição imediata
de alimentos compatíveis com sua cultura alimentar, foi necessário viabilizar que as comunidades produzissem sua própria alimentação e desenvolvessem capacidades para ali permanecer. É fundamental melhorar a produtividade das colheitas ao introduzir novas técnicas agrícolas que lhes garantam soberania alimentar de acordo com princípios de nutrição, quantidade, qualidade e pertinência dos alimentos, apesar das restrições de movimentos em seu próprio território. A resposta humanitária não pode causar danos às pessoas e deve levar em conta os aspectos culturais. Por isso vem acompanhada de apoio psicossocial, que ajuda a fortalecer a autoestima e o sentido comunitário, a superar traumas de violência e choques de culturas e a fortalecer as pessoas na passagem de coletores a produtores de alimentos que respeitem o meio ambiente por meio de práticas de agricultura orgânica. N SILVIO SCHNEIDER é teólogo e representante da Federação Luterana Mundial-FLM na Colômbia
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LEGISLAÇÃO
Liminares: uso e abuso por Maria Alice Rodrigues
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otícias sobre decisões judiciais tratam, com frequência, de medidas liminares. “O juiz concedeu uma liminar” – “O Tribunal cassou a liminar concedida pelo juiz”: essas manchetes nem sempre são compreendidas pela população. Afinal de contas, o que é uma liminar? Como uma liminar pode ser concedida por um juiz e cassada por outro? Existe abuso na concessão de liminares? O vocábulo liminar significa “aquilo que está ou é feito in limine, ou seja, no limiar, no começo, na entrada”. Os juristas divergem em relação ao conceito de liminar. Sem entrar nessa discussão, a preocupação dos jurisdicionados é com as decisões proferidas no curso do processo, que antecipam, negam ou concedem direito a uma das partes. Nesse contexto, é importante lembrar que as decisões judiciais podem ser classificadas, de acordo com sua natureza e conteúdo, em tutela definitiva e tutela provisória. A primeira caracteriza-se por examinar a questão levada ao judiciário de forma ampla, assegurando às partes envolvidas todos os meios necessários e adequados à defesa de suas posições jurídicas. No final do processo, as partes terão uma decisão que é definitiva e imutável. O principal valor dessa decisão é a segurança. Por sua vez, a tutela provisória tem como valor fundamental assegurar
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a efetividade imediata da prestação jurisdicional. Trata-se de uma medida que não pode aguardar o tempo que levará o processo até a decisão definitiva, pois pode comprometer a eficácia dessa decisão. Como medida de caráter provisório, pode ser modificada ou revogada a qualquer momento, desde que modificadas as situações fáticas que ensejaram sua concessão ou mudança na compreensão sobre os fatos e o direito afirmado. Em nossa legislação, são espécies de tutela provisória as medidas cautelares e as medidas antecipatórias, que podem ser chamadas de provimentos liminares concedidos em regime processual distinto. A cautelar é postulada em ação autônoma e visa assegurar a realização futura de algum direito, enquanto a antecipação de tutela é requerida na própria ação em que o jurisdicionado busca a tutela definitiva e tem por finalidade a satisfação antecipada do próprio direito. Para a concessão de uma liminar na ação cautelar, é necessário demonstrar que há um fundado receio de que uma parte, antes do julgamento final, cause ao direito da outra lesão grave e de difícil reparação. No caso da antecipação de tutela, é necessário demonstrar que existe prova inequívoca e verossimilhança da alegação, desde que haja fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação ou ainda quando fique caracterizado
no curso de um processo judicial, o cidadão tem assegurado vários direitos constitucionais, dos quais dois são de extrema importância: o direito à efetividade da jurisdição e o direito à segurança jurídica.
o abuso de direito de defesa ou manifesto propósito protelatório do réu no processo. Para melhor compreensão do tema, utilizamos como exemplo o direito alimentar. Se uma pessoa, seja criança ou adulto, necessita de alimentos e precisa ir ao Judiciário para garantir esse direito, não poderá aguardar até a decisão definitiva do processo. Nessa situação, o juiz precisa de imediato analisar o pedido e, constatando determinados pressupostos, tais como a relação de parentesco, a necessidade de quem faz o pedido e a possibilidade de quem prestará os alimentos, conceder antecipadamente os alimentos que estão sendo postulados. Se a pessoa que pede alimentos em juízo tivesse que aguardar a decisão final do processo, certamente teria
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comprometida sua própria sobrevivência. Para evitar essas situações de perecimento do direito é que a legislação processual permite a concessão
das chamadas tutelas de urgência, ou seja, provimentos provisórios que evitam o perecimento do direito durante a tramitação do processo.
Assim, no curso de um processo judicial, o cidadão tem assegurado vários direitos constitucionais, dos quais dois são de extrema importância: o direito à efetividade da jurisdição e o direito à segurança jurídica. Ao conceder ou negar uma liminar, seja como medida antecipatória, seja como cautelar, o juiz precisa permitir que convivam em harmonia simultaneamente a segurança jurídica e a efetividade da jurisdição. A tarefa não é fácil e depende da análise das provas levadas ao processo pelas partes. Eventuais divergências entre julgadores acontecem, pois pode ocorrer mudança na compreensão sobre os fatos e o direito afirmado em determinado processo. Algumas pessoas sustentam que existem abusos nas concessões de tais medidas. No entanto, considero que não existem abusos, mas uma preocupação maior do Judiciário em encontrar instrumentos processuais que atendam a uma reivindicação da sociedade contemporânea: que a prestação jurisdicional seja eficaz e rápida. N MARIA ALICE RODRIGUES é advogada em São Leopoldo (RS)
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COMUNICAÇÃO
Luteranos na TV em Porto Alegre
Divulgação Novolhar
por Eloir Enio Weber
Pastor Eloir Weber apresenta o programa
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ser humano, por natureza, é atraído e fascinado pela imagem. Na pré-história, as pessoas já produziam obras de arte e expressavam elementos do cotidiano por intermédio de pinturas nas paredes das cavernas. A história humana é repleta de grandes ou anônimos pintores que representam a sua visão de mundo, suas crenças e temores por meio de pinturas famosas ou esquecidas no tempo. O rádio foi um grande invento de comunicação de massa. A televisão, por sua vez, alcançou algo inimaginável: contemplar o som e a imagem em movimento. Foi, sem dúvida, uma revolução no conceito de comunicação social. No Brasil, a urbanização e a industrialização estão estreitamente ligadas à história da televisão brasileira. Esse fato tornou a televisão imprescindível nos lares brasileiros. Há algumas décadas, as igrejas cristãs perceberam a importância da televisão para as famílias brasileiras
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e investiram nesse meio de comunicação de massa. Também na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) houve pessoas preocupadas em ocupar esse espaço nobre. A Comunidade Evangélica de Porto Alegre (CEPA) iniciou as atividades do “Programa da CEPA” no ano de 1997. Hoje, esse é o programa de exibição ininterrupta mais antigo da televisão comunitária no país. A CEPA tem um papel de destaque na criação e manutenção da TV Comunitária em Porto Alegre. Atualmente, com a produção de Cristiano Aquino, da Patmos Cinema e Televisão, a CEPA, em quatro espaços semanais de trinta minutos disponíveis, mantém três programas na POATV, canal 6 da Net Porto Alegre: a) Programa da CEPA – de notícias das diversas instituições e uma pequena mensagem; b) Programa DECISÃO – de cunho evangelístico, apresentado pelo pastor Douglas Wehmuth; c) Programa CEPA DEBATES – debates sobre temas atuais, intermediado pelo pastor Eloir Weber (esse último disponível também na internet. Para assistir, entre no site YouTube e procure por “CEPA Debates”). No mundo de hoje, um dos grandes objetivos de um programa de televisão de cunho religioso é mostrar a sua teologia para dentro de um mundo de diversidades teológicas. Também nós procuramos marcar nosso espaço dentro dos lares de muitas pessoas que participam de uma comunidade luterana e um sem-número de outras que são – ou não – participantes de outras
denominações religiosas (cristãs ou não). A televisão, por excelência, é formadora de opinião. Acreditamos que temos, como igreja luterana (IECLB), algo a dizer às pessoas neste mundo conturbado e de pensamentos teológicos tão distintos. Nesse desafio, fazer um programa de televisão traz muitas alegrias e êxitos, mas também dificuldades e obstáculos. O reconhecimento do trabalho é uma das grandes alegrias. Receber feedback de pessoas que não têm vínculos eclesiais luteranos é a comprovação de que um dos grandes objetivos foi alcançado: a evangelização e a informação. Nas grandes cidades brasileiras, há inúmeras pessoas cujo único alimento de sua fé vem de programas de televisão – das mais diversas identidades teológicas. Precisamos reconhecer que, como igreja luterana (IECLB), somos tímidos nesse desafio. Além disso, investimos poucos recursos na comunicação. A lógica na comunicação é a mesma da maioria dos outros espaços: quanto mais – e com mais consciência – se investe, mais retorno se alcança. As iniciativas na área da comunicação na igreja ainda são muito isoladas. São frutos da boa vontade, da visão estratégica e do esforço de alguns poucos. Necessitamos de uma ampla política de comunicação, que possa traçar objetivos nos mais diversos meios. Isso, obviamente, não é trabalho só na base, nas comunidades, mas deve envolver a igreja como um todo. O fundamental é que apresentar e produzir um programa de televisão é uma arte muito boa e satisfatória. Colhemos muitos frutos bons por meio de nosso trabalho. Levamos com prazer, alegria e paixão uma mensagem de esperança cristã a muitas pessoas conhecidas ou anônimas, aflitas e N solitárias, alegres e realizadas. ELOIR ENIO WEBER é teólogo e ministro da IECLB em Porto Alegre (RS)
testemunhos
Foi dito que Jesus era inimigo de Roma e da Judeia. Mas eu digo que Jesus não foi inimigo de nenhuma pessoa e de nenhuma raça. Ouvi-o dizendo: “Os pássaros do ar e os topos da montanha não se preocupam com as serpentes em seus buracos escuros. Deixem que os mortos enterrem seus mortos. E vocês permaneçam entre os vivos e subam às alturas”. Eu não fui um de seus discípulos, mas fui um dos muitos que foram atrás dele para ver sua face. Olhava para Roma e para nós, que somos os escravos de Roma, como um pai olha para suas crianças, que brincam com seus brinquedos e brigam entre si por causa do brinquedo maior. E das alturas ele olhava para nós e sorria. Ele era maior do que o Estado e o povo; era maior do que a revolução. Era especial e solitário; e era um despertar. Chorou todas as nossas lágrimas não derramadas e sorriu todas as nossas rebeliões. Sabíamos que ele tinha o poder de nascer com todos aqueles que ainda não nasceram e de fazê-los ver, não com os olhos deles, mas com sua visão. Jesus foi o início de um novo reinado sobre a terra, e esse reinado permanecerá. Ele era o filho e o neto de todos os reis que construíram o reino do espírito. E apenas os reis do espírito governaram de fato nosso mundo. Fonte: KHALIL GIBRAN – autor do livro “Jesus – Filho do Homem” – Editora Sinodal
Arte: Roberto Soares
Benjamin, o escriba Que os mortos enterrem os seus mortos
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o reformador
Reproduções Novolhar: Wikipedia Commons
AS DORES DE CRISTO: O impressionante rea lismo das obras de Lucas Cranach evidenc ia-se neste retrato de Jesus sofredor
Lucas Cranach e a Reforma por Leandro Hofstaetter
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abemos que nosso reformador Martim Lutero não realizou sozinho as transformações que iniciaram através de sua pena. Era uma época em que os clamores por mudanças vinham num crescendo. As pessoas proclamavam ideais e ideias para que as estruturas da igreja e da sociedade pudessem ser transformadas. É necessário, portanto, afastar o pensamento ingênuo de que Lutero tenha “descoberto a roda”. Por outro lado, sem sua atua-
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ção decisiva, a Reforma não teria sido levada a cabo. Nessa empreitada, porém, contou com numerosas pessoas que, atingidas pela sua pregação, que apontava a volta à Bíblia como fonte de autoridade na igreja, engajaram-se nessa luta. Uma dessas pessoas foi o pintor Lucas Cranach. Nós podemos nos perguntar: mas o que um simples pintor poderia fazer para auxiliar esse movimento reformatório? Muito. Como gênio que era, Lucas Cranach
– provinha da cidade de Kronach, daí seu sobrenome “aus Kronach”, aquele que vem de Kronach – soube como nenhum outro colocar em imagens aquilo que Lutero escrevia em seus textos. Se as armas de Lutero eram a Bíblia, a língua do povo, a descoberta da impressão a partir de Gutenberg e a proteção do príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico o Sábio, Lucas Cranach concedeu-lhe uma arma que tanto a igreja como a sociedade da época já utilizavam, mas não de forma tão organizada e inovadora como fez esse pintor: a propaganda! Lucas Cranach, que se tornou um ícone da Reforma, teve seu primeiro aprendizado na arte da pintura com seu próprio pai. Depois foi a Viena, onde aprofundou seus estudos, de onde provêm seus primeiros trabalhos. Ali também entrou em contato com as ideias dos humanistas, que pretendiam transformar a sociedade por meio de uma educação livre das amarras da igreja. Sua vida e sua fama, entretanto, acontecem na cidade de
Wittenberg, quando, a chamado do príncipe Frederico, é convidado para ser o pintor oficial do palácio a partir de 1505. Assim se torna amigo de Lutero e Melanchthon e, como ninguém, absorve o pensamento reformatório com alma e coração, o que fica claro quando nos deparamos com suas pinturas.
Suas características que marcaram e auxiliaram a Reforma foram: seu rea lismo extremo, a inovação de colocar em suas pinturas relacionadas à igreja e aos ideais reformatórios os próprios protagonistas da Reforma. Vamos tomar como exemplo a pintura do altar na igreja de Wittenberg: Cranach pinta os sacramentos e o poder das
Diversos retratos de Martim Lutero e dos outros reformadores foram produzidos por Cranach. O realismo de seus traços neste retrato de Melanch thon impressiona
LUTERO COMO PREGADOR: Abaixo, uma das obras mais famosas do pintor, que retrata Martim Lutero no púlpito da igreja em Wittenberg, apontando para Jesus Cristo e, no lado oposto, a comunidade atenta, ouvindo a pregação do Reformador. A obra é de 1547
chaves, três pinturas que estão sobre o fundamento, que é a pintura que tem Cristo. No Batismo, Cranach utiliza Melanchthon, que não era pastor, batizando – significando o sacerdócio de todos os crentes; na distribuição da Santa Ceia, Lutero e demais pessoas da cidade de Wittenberg em uma verdadeira ceia juntamente com Cristo; o poder das chaves é dado às pessoas de Wittenberg não por conta de Pedro e da Igreja Católica Romana, mas sim por causa de Cristo; e tudo o que fundamenta os sacramentos e toda a igreja é o Cristo Crucificado e Ressurreto, que é objeto da pregação de Martim Lutero, que está entre o púlpito e a comunidade de Wittenberg. Essa tela está abaixo das outras, ou seja, significando que fundamenta tudo. As pessoas da comunidade reconheciam-se nessas pinturas. Estavam lá! Tudo isso encontra-se no altar da igreja da cidade. As pessoas, pois, que ainda não tinham acesso à leitura escutavam as pregações e os debates, mas principalmente
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MEMÓRIA
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viam a Reforma acontecendo nessas pinturas e também nas pinturas que acompanhavam os escritos reformatórios. Assim, mesmo bem distante de nossa época, a figura da propaganda fez diferença na época de Lutero, levando a palavra de Deus às pessoas que não sabiam ler e que, de outra forma, não poderiam ter participado do movimento. Abaixo, outro exemplo de uma das pinturas reproduzidas por seu filho, que hoje se encontra na igreja de Weimar. Observem as figuras de Lutero apontando para a centralidade da Palavra e Cristo, derramando seu sangue salvador sobre o próprio Lucas Cranach, o velho. Só Cristo salva e não o dinheiro da igreja. Graças a Deus, que nos dá pessoas com diversidade de dons para que sua Palavra N chegue aonde lhe aprouver.
Fotos: Arquivo do CMI
LEANDRO HOFSTAETTER é teólogo e doutor em Filosofia em Joinville (SC)
O ex-secretário-geral Emilio Castro durante uma reunião do CMI em 2006 em Genebra
Emilio Castro por Marcelo Schneider
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onsiderado um dos maiores líderes ecumênicos da segunda metade do século 20, o reverendo Emilio Castro foi lembrado pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) por seu “incansável esforço em unir a fé e a espiritualidade cristãs ao compromisso com as lutas por justiça”.
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Pastor e teólogo metodista uruguaio, Castro foi secretário-geral do CMI entre 1985 e 1992. Ele faleceu em Montevideo, Uruguai, no último dia 6 de abril, aos 85 anos. Vindo da Igreja Evangélica Metodista do Uruguai, Emilio Castro começou a trabalhar no CMI como diretor da Comissão de Missão Mun-
dial e Evangelização em 1973. “Como diretor da CMME, Castro abriu caminhos para uma participação ativa das igrejas dos países do Leste europeu na vida do Conselho”, afirmou o secretário-geral do organismo ecumênico internacional, reverendo Olav Fykse Tveit. “Sua liderança pessoal foi crucial para a produção de ‘Missão e Evangelização - Uma Afirmação Ecu mênica’, considerada a declaração mais importante e clara produzida pelo CMI sobre missão, adotada em 1982 após longas discussões ao redor do mundo”, lembrou Tveit. O líder ecumênico destacou as contribuições de Castro ao trabalho do CMI em torno do tema da missão, da justiça e da paz como um chamado autêntico à igreja. O teólogo uruguaio marcou sua passagem pelo CMI como defensor das causas sociais, tornando essa entidade a própria voz da igreja mundial, como uma entidade que falava no mesmo nível da ONU. Ele estava à frente da delegação do CMI que foi à África do Sul em ebulição pelas lutas contra o regime do apartheid, dando apoio oficial do movimento ecumênico mundial a Nelson Mandela.
MANDELA: O Dr. Emilio Castro comandou pessoalmente a primeira delegação do Conselho Mundial de Igrejas à África do Sul em 30 anos para dar apoio oficial do ecumenismo mundial à luta de Nelson Mandela contra o regime do apartheid. O encontro entre Castro e Mandela aconteceu no dia 14 de outubro de 1991 em Johanesburgo
O pastor metodista também foi uma personalidade importante para a democracia na América Latina. Durante as turbulências sociais no Uruguai nos anos 1970, Castro desempenhou um papel significativo através da criação de espaços de diálogo entre grupos políticos e a criação da Frente Ampla, uma grande coalizão de forças democráticas. Por seus esforços na defesa dos direitos humanos na América Latina nos anos 1980, Castro recebeu a Ordem de Bernardo O’Higgins, a mais alta honraria do governo chileno. O moderador do CMI, pastor Dr. Walter Altmann, recebeu com pesar a morte do colega uruguaio. “Castro foi um dos mais extraordinários líderes
ecumênicos da América Latina. Pregador eloquente, ele interligava convincentemente o chamado à missão e o compromisso social”, disse. “A oposição a ditaduras militares na América Latina nos anos 1970 e 1980 foi, definitivamente, uma consequência da fé em Cristo comprometida com o amor ao próximo, especialmente aos vulneráveis e oprimidos. Nossos corações estão cheios de gratidão pela vida e pelo testemunho que Castro deixou como inspiração”, concluiu Altmann. N MARCELO SCHNEIDER é teólogo e trabalha para o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em Porto Alegre (RS)
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REFLEXÃO
Voz sem fronteiras Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Provérbios 31.8
por Hermann Wille
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que nossa voz defende? Que alcance deve ter? Ante os desafios e a complexidade da vida, a que e a quem recorremos? Diante da insuficiência do mundo, crê-se que é necessário algo incomum para
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resgatar quem está abaixo do comum. Nisso há um grande jogo de cena, de consequências danosas. Como reagimos a isso? Recorremos a fórmulas que foram bem-suced idas no passado e acumularam mérito e autoridade pela
tradição ou apelamos a habilidades pessoais “incomuns”? A voz rejeitada – Instituições partem de sua natureza divina, distinguida por ornamentos, vestes e ritos, enumerando méritos e firmando-se como guardiãs do que é puro e certo, impondo autoridade incomum. Detentores da palavra lustram velhos ditos, esperando que voltem a brilhar como palavras que já forjaram eventos incomuns. Personalistas desenvolvem carismas e atribuem a pessoas o poder de incorporar forças incomuns. Instituições, eventos e personalismos ficam pelo caminho. Não conseguem emprestar voz aos que não a têm porque não se aproximam com o devido respeito dos que são “comuns”. Vozes adequadas não têm origem nobre. Não são filhas de uma monarquia ressentida diante da contemporaneidade nem se nutrem do passado. A voz com autoridade não brota em auditórios de palcos repletos de artifícios e outros interesses. O bom comunicador não aumenta artificialmente o talento que Deus lhe deu. Ele aumenta o seu conhecimento sobre a natureza humana e a vida. Aguça a sua percepção das coisas e pratica como bom pianista. Nada de bom pode vir de quem adora falar. Buscar as palavras adequadas não é fácil, pois falar é uma dor. A voz aceita – Qual é a voz a ser emprestada e aceita por quem não tem voz? O Evangelho de Marcos (1.22) dá uma pista: “As pessoas que o escutavam ficavam muito admiradas com a sua maneira de falar”. (A palavra grega exousia sugere autoridade que surpreende e encanta.) A fala de Jesus vai além de tudo o que já foi dito e obedece a um roteiro nunca antes escrito.
Mas não comunicamos apenas por reproduzir o que Jesus falou ou porque nossa instituição é oficial e tem a incumbência de falar. Nem porque há em seus quadros pessoas carismáticas que impressionam e fazem da comunicação um negócio. Emprestar a voz é despir-se das palavras que se esgotam na tradição, no fisiologismo institucional e pessoal e nos discursos atrelados. Em Provérbios, há sabedoria prática, em que a fé está ligada aos problemas da vida. Nesse sentido, “emprestar a voz” está em dissonância com o discurso oficial e desafia as posições consolidadas. Sem sabedoria, tudo se resume a bate-boca, e o empréstimo da voz fica em suspensão, interrompendo a ligação e adiando o direito dos desamparados. Na voz de Jesus, as pessoas se reconhecem. Em meio a tantas vozes, eis aquela que desfaz a mudez como condenação absoluta. Ela rompe barreiras e dá acesso aos excluídos, que deixam de ser banidos para reconhecer-se na voz que coincide com aquilo que se desenrola em seu íntimo, devolvendo-lhes vida em abundância.
A voz emprestada – A voz preciosa ecoa em vasos de barro (2 Coríntios 4.7). Palavras são tentativas de aproximação, marcadas pela precariedade da descrição da condição humana. Sem trapaça, reverbera no que é comum e dirige-se a comuns, causando admiração e surpresa; é levada a sério, sem data de validade. Em Paulo Freire, “o respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético”. Não é um favor conceder voz aos sem-voz. É a forma de estar sendo coerentemente exigido por seres que, inacabados, se assumem como tais e não se deixam seduzir por porta-vozes incomuns, dando testemunho recíproco do que é humano e ético. Deus não se dirige a nós por intermédio de conexões “incomuns”, de instâncias credenciadas. A palavra que surpreende nasce desde dentro, nas pessoas e entre as pessoas, porque Deus sempre se antecipa (Salmo 139). Mesmo sendo Deus, sua voz manifesta-se tão somente no que é comum, no momento mais emocionante na comunicação. Reconhe cer-se no que é dito dá vazão a uma experiência libertadora, que manifesta a intenção mais profunda do
que Deus sonha para nós. “O desejo mais fundo, desejo que esquecemos, mas Deus não esquece nunca”, diz Rubem Alves. O comunicador não deixa que as pessoas emudeçam. Ele desafia o impossível quando o constrangimento geral faz silenciar. Ao rejeitar ser “incomum”, o que parecia impossível passa a ser possível. Somos apenas artesãos da palavra, operários em busca de dizer o que não encontra expressão, engolidos pela dor, pela injustiça e pela decepção, que ficou à margem. Para o escritor Giorgio Agamben, “em toda pessoa existe qualquer coisa de não vivido, do mesmo modo que em toda palavra há qualquer coisa que fica por exprimir”. Antes de sermos vocacionados a ser voz, somos chamados à vida (João 10.10). A relevância da voz, inacabada, está ligada ao compromisso de ser guardião da vida, que sempre carrega algo de não vivido. A voz em seu estado de prontidão, em função do que poderia ser, tem algo de assustador e belo. N HERMANN WILLE é teólogo, mestre em Teologia, coordenador do PraXis-Núcleo de Desenvolvimento Comunitário em Santo Amaro (SP)
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ESPIRITUALIDADE
Vida eterna: dom de Deus
por Valdemar Gaede
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reio na vida eterna – Essa é a última afirmação do Credo Apostólico. O fato de ser a última frase não diminui sua importância para nossa confissão de fé. Muito pelo contrário, as demais afirmações do Credo Apostólico são vertentes abundantes que alimentam a plenitude do límpido rio de nossa esperança na vida eterna. Mas o que entendemos por vida eterna? Às vezes, tenho a impressão de que compreendemos mal a palavra “eterna” ou “eternidade”. Há o sentimento de que aquilo que é eterno não faz parte de nosso tempo. De acordo com essa visão distorcida, a eternidade deve ser esperada apenas no futuro. Essa compreensão é estranha ao que a Bíblia ensina a respeito da eternidade. A fé cristã será manca se limitarmos o eterno exclusivamente a um tempo que ainda virá depois da morte, depois da ressurreição ou depois da segunda vinda de Cristo. De acordo com o Antigo Testamento, a eternidade é, antes de tudo,
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uma qualidade de Deus. Ainda no alvorecer da revelação divina, Abraão anuncia o nome de Deus como o “Eterno Senhor” (Gênesis 21.33). Esse é o significado do divino nome “Javé”. Conforme o Antigo Testamento, a natureza eterna de Deus é sempre força salvadora no momento histórico que seu povo está vivendo (Isaías 40.2). A afirmação de que Deus é eterno, ou seja, de que ele existiu antes de se formarem a terra e os montes (Salmo 90.2), não fica no campo de uma subjetividade transcendental e futurística, mas é realidade consoladora e transformadora, que dá sentido à vida humana no momento histórico em que ela está inserida. Em outras palavras, poderíamos dizer que a natureza eterna de Deus invade o campo da história humana e dá-lhe um sentido divino: “Tu és o nosso refúgio de geração em geração” (Salmo 90.1). É a eternidade divina criando refúgio eterno para os humanos. De acordo com o Antigo Testamento, o Deus Eterno
Francisco Gonzalez / Wikimedia Commons
Há o sentimento de que aquilo que é eterno não faz parte de nosso tempo. De acordo com essa visão distorcida, a eternidade deve ser esperada apenas no futuro. Essa compreensão é estranha ao que a Bíblia ensina a respeito da eternidade.
dá um nome eterno aos seus, pois foi estabelecida uma aliança eterna (Gênesis 9.16). A eternidade é dada ao ser humano como dádiva para o futuro, mas também como tarefa e responsabilidade no tempo presente. Aliás, é assim com todas as dádivas que vêm de Deus. A eternidade é colocada diante de nós como um campo dentro do qual se movimentam o agir de Deus e o viver humano, que têm ambos a marca da eternidade quando se crê nesse Deus Eterno. A fé do ser humano no Eterno Deus acrescenta eternidade à vida humana em meio a uma história marcada pelo que é provisório e limitado. Vida eterna não é, portanto, uma expressão quantitativa que se refere a algo que terá início num tempo determinado para então ter uma duração cronológica ilimitada. É muito mais
SPES IN VITAM AETERNAM: MOSAICO ART NOUVEAU nUMA MONUMENTAL TUMBA FAMILIAR NO CEMITÉRIO DE PÈRE lACHAISE EM PARIS, frança. A FRASE EM LATIM PROCLAMA A ESPERANÇA NA VIDA ETERNA.
uma expressão qualitativa. Ela não é só promessa para um futuro que ainda virá, mas é realidade no presente para quem é abraçado pelos eternos braços do Deus Eterno. Ao voltarmos nossa atenção para o Novo Testamento, torna-se necessário olhar mais de perto a palavra grega (língua original do Novo Testamento) que, para o português, foi traduzida como “eterno” ou “eternidade”. A palavra original grega é aion. Aion deve ser traduzido como “ciclo” ou “época”. Assim, quando no Novo Testamento se fala de vida eterna, não podemos excluir a presente época da promessa de vida abundante contida no evangelho de Cristo. Quem crê não apenas terá a vida, mas tem a dsoen aionion (vida eterna). Na igreja de Jesus Cristo, a eternidade já se faz presente. Oculta ain-
da, mas poderosa, transformadora e ativa. Aqueles que creem e foram batizados já morreram e ressuscitaram (Romanos 6.4). No reino de Cristo, que já irrompeu, a eternidade invade o tempo presente, perpassa-o e nele se impõe (“Tragada foi a morte pela vitória” – 1 Coríntios 15.54), até que os acontecimentos do tempo presente sejam tragados e substituí dos totalmente pelo que não tem mais as marcas do que é provisório e passageiro. Para aqueles que creem, a vida eterna torna-se presente e real em sinais nos sacramentos do Batismo e da Santa Ceia, que são o cerne da existência da igreja. Vida eterna é dom de Deus para hoje. É tarefa da fé vivenciá-la agora e aguardá-la como abundante e plena no futuro. A compreensão apenas transcendental da eternidade é estranha à fé cristã. Por graça divina e pela fé no Deus Eterno, o ser humano desse aion temporal tem sua existência marcada pelo que é provisório, mas, ao mesmo tempo, tem a vocação de viver já agora o que será pleno no futuro com a segunda N vinda de Cristo.
VALDEMAR GAEDE é teólogo e ministro da IECLB em Santa Maria de -Jetibá (ES) - Revista Novo Ol 2013.03.11 - LUTERPREV 4410897
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NOVOLHAR.COM.BR –> Nov/Dez 2012
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penúltima palavra
Timidez na comunicação por Rubens Olbrisch
É
Divulgação Novolhar
por meio da comunicação verbal e não verbal que as pessoas se relacionam entre si e constroem uma sociedade. Podemos afirmar que não existiria sociedade sem comunicação. Comunicar é estar receptivo para ouvir e interpretar o que a outra pessoa tem a dizer. Um dos grandes comunicadores de nossa igreja foi o apóstolo Paulo. Paulo sempre soube comunicar-se com os que estavam a seu lado. Para chegar aos que estavam distantes, Paulo utilizava suas cartas com um só objetivo: trazer a todos a “palavra de Deus”. O escritor Chris Anderson faz em seu livro “A Cauda Longa” um comparativo da comunicação no século XV. Antes da revolução industrial, a cultura era fragmentada, gerando sotaques regionais e músicas folclóricas. A falta
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de meios de comunicação e de transportes rápidos limitava a miscigenação cultural e a propagação de novas ideias e tendências. Essa foi uma primeira era da cultura de nicho, determinada mais pela geografia do que pela afinidade. As influências variavam de cidade para cidade, pois os veículos que disseminavam a cultura eram muito limitados. Além dos grupos teatrais itinerantes e aos poucos livros disponíveis para os alfabetizados, boa parte da cultura espalhava-se com a mesma velocidade das pessoas. Havia uma razão para que a igreja fosse o principal fator de unificação da cultura na Europa Ocidental. Ela dispunha da principal estrutura de distribuição (igrejas) e, graças à imprensa de Gutenberg, o principal instrumento de comunicação: a Bíblia.
Hoje temos dentro de nossa igreja excelentes jornais, revistas, boletins, sites na internet e utilizamos diversas emissoras de rádio em todo o Brasil. Mas o que estamos fazendo está sendo o suficiente? Não deveríamos utilizar melhor esses meios, principalmente o rádio? Sinto que a IECLB utiliza o rádio discretamente e sem muita determinação. Observamos outras denominações religiosas utilizando o meio rádio como uma ferramenta para conquistar membros. Em muitos casos, a forma utilizada não é eticamente a mais correta e cristã. Elas utilizam seus veículos próprios ou alugam pagando valores absurdos para ter direito à transmissão. Depois de tantos anos de convivência no rádio, eu chego à conclusão que nós luteranos somos muito discretos quando o assunto é a comunicação de nossa igreja. Esse modo discreto impede que sejamos mais atuantes e persuasivos em nossos meios de comunicação, principalmente no rádio. Não somos de alardear dizendo que somos luteranos. Muitas vezes, ficamos no anonimato, evitando identificar nossa crença religiosa. Nossa igreja precisa saber identificar as oportunidades de comunicação com seus membros luteranos. Podemos e devemos melhorar nossa comunicação, primeiramente entre nossas próprias igrejas, sínodos e IECLB, para depois chegar aos membros de nossas comunidades. Alem de melhorar e aumentar a utilização do rádio em nossa igreja, precisamos melhorar a entrega de jornais e revistas a nossos membros e tornar a internet uma grande aliada da comunicação. N Vamos começar? RUBENS OLBRISCH é presidente do Sindicato das Emissoras de Rádio e TV de Santa Catarina e preside o Conselho Sinodal do Sínodo Vale do Itajaí em Blumenau (SC)