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Proclamar Libertação 35 - 2010-2011

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PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 35

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO A

Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

Coordenação: Martin Volkmann

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© Editora Sinodal Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, Nelson Kilpp, João Artur Müller da Silva, Mauro Batista de Souza, Verner Hoefelmann e Júlio Cezar Adam Coordenação editorial: Martin Volkmann Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos

Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 est@est.edu.br P963

Fax: (51) 2111-1411 www.est.edu.br

Proclamar libertação, v. 35: Auxílios homiléticos / [Coordenado por] Martin Volkmann. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2010. 15,5x22,5 cm. ; 392p. Série: Proclamar libertação ISBN 978-85-62865-34-3 1. Teologia prática – Homilética. I. Volkmann, Martin. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273

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SUMÁRIO

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 1° Domingo de Advento – Romanos 13.11-14 ---------------------------------------9 2° Domingo de Advento – Mateus 3.1-12 ------------------------------------------ 14 3° Domingo de Advento – Isaías 35.1-10 ------------------------------------------- 22 4° Domingo de Advento – Mateus 1.18-25 ----------------------------------------- 28 Noite de Natal – Gálatas 4.4-7 ------------------------------------------------------- 33 Natal de Nosso Senhor – Tito 2.11-14 ---------------------------------------------- 40 1° Domingo após Natal – Mateus 2.13-23 ------------------------------------------ 46 Véspera de Ano Novo – Eclesiastes 3.1-13 ---------------------------------------- 51 2º Domingo após Natal – Jeremias 31.7-14 ---------------------------------------- 58 Epifania de Nosso Senhor – Efésios 3.1-12 ---------------------------------------- 64 1° Domingo após Epifania – Isaías 42.1-9 ----------------------------------------- 69 2° Domingo após Epifania – João 1.29-42 ----------------------------------------- 75 3° Domingo após Epifania – Mateus 4.12-23 -------------------------------------- 81 4° Domingo após Epifania – Miqueias 6.1-8 --------------------------------------- 87 6° Domingo após Epifania – Deuteronômio 30.15-20 ---------------------------- 93 7° Domingo após Epifania – Mateus 5.38-48 --------------------------------------- 99 8° Domingo após Epifania – 1 Coríntios 6.24-34 ---------------------------------106 Último Domingo após Epifania – Mateus 17.1-9 --------------------------------- 114 Quarta-feira de Cinzas – 2 Coríntios 5.20b-6.10 ---------------------------------120 1° Domingo na Quaresma – Gênesis 2.15-17; 3.1-7 ------------------------------127 2° Domingo na Quaresma – Romanos 4.1-5,13-17 -------------------------------133 3° Domingo na Quaresma – João 4.5-26 ------------------------------------------139 4° Domingo na Quaresma – Efésios 5.8-14 ---------------------------------------145 5° Domingo na Quaresma – João 11.1-3,17-27 -----------------------------------151 Domingo da Paixão – Mateus 26.14-27.66 ----------------------------------------157 Quinta-feira da Paixão – Mateus 26.36-56 ----------------------------------------162 Sexta-feira da Paixão – Salmo 22.1-19 --------------------------------------------169 Domingo da Páscoa – Mateus 28.1-10 ---------------------------------------------176 3° Domingo da Páscoa – 1 Pedro 1.17-23 -----------------------------------------182 4° Domingo da Páscoa – Salmo 23 -------------------------------------------------187 5° Domingo da Páscoa – João 14.1-14 ---------------------------------------------192 6° Domingo da Páscoa – João 14.15-21 -------------------------------------------200 Ascensão do Senhor – Lucas 24.44-53 ---------------------------------------------206 7° Domingo da Páscoa – Gênesis 2.4b-15 ----------------------------------------- 211 Domingo de Pentecostes – João 7.37-39 -------------------------------------------216 1° Domingo após Pentecostes – Mateus 28.16-20 --------------------------------222 2° Domingo após Pentecostes – Mateus 10.40-42 --------------------------------229 3° Domingo após Pentecostes – Romanos 7.15-25a -----------------------------234 4° Domingo após Pentecostes – Mateus 13.1-9,18-23 ---------------------------240

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5° Domingo após Pentecostes – Isaías 44.6-8 -------------------------------------246 6° Domingo após Pentecostes – Mateus 13.44-46 --------------------------------253 7° Domingo após Pentecostes – Romanos 9.1-5 ----------------------------------261 8° Domingo após Pentecostes – Mateus 14.22-33 --------------------------------267 9° Domingo após Pentecostes – Isaías 56.1,6-8 ----------------------------------274 10° Domingo após Pentecostes – Mateus 16.13-20 ------------------------------278 11° Domingo após Pentecostes – Romanos 12.9-12 -----------------------------284 12° Domingo após Pentecostes – Mateus 18.15-20 ------------------------------290 13° Domingo após Pentecostes – Gênesis 50.15-21 -----------------------------295 14° Domingo após Pentecostes – Mateus 20.1-16 --------------------------------302 15° Domingo após Pentecostes – Filipenses 2.1-13 ------------------------------309 16° Domingo após Pentecostes – Mateus 21.33-46 ------------------------------315 18° Domingo após Pentecostes – Mateus 22.15-22 ------------------------------323 19° Domingo após Pentecostes – 1 Tessalonicenses 2.1-8 ----------------------329 20° Domingo após Pentecostes – Mateus 23.1-12 --------------------------------335 Dia da Reforma – Gálatas 5.1-11 ---------------------------------------------------341 Dia de Finados – Isaías 35.1-10 -----------------------------------------------------347 21° Domingo após Pentecostes – Amós 5.18-24 ---------------------------------352 22° Domingo após Pentecostes – 1 Tessalonicenses 5.1-11 ---------------------357 Domingo Cristo Rei – Ezequiel 34.11-16,20-24 ----------------------------------363 Ação de Graças (Festa da Colheita) – 1 Timóteo 2.1-7 --------------------------370 ÍNDICES -------------------------------------------------------------------------------377

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PREFÁCIO

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m novo Ano da Igreja se inicia, e novamente está em suas mãos um novo volume de Proclamar Libertação (PL) para auxiliá-lo na nobre tarefa de anunciar a Boa-Nova. Desde o ano de 1976, a cada ano, com exceção de 2006, foram editados os estudos homiléticos nessa série de Proclamar Libertação. Com isso, o PL – como é carinhosamente chamado – já faz parte da vida e da ferramenta de trabalho de muitas pessoas. E nós do Conselho Editorial sentimo-nos satisfeitos por ter conseguido publicar mais este volume. Mas nos sentimos especialmente gratos a tantas pessoas que, com seu empenho, tornaram possível esta publicação. Pois, seguindo a ideia desde o seu surgimento, o PL é fruto de trabalho em mutirão. Por isso, aos autores e às autoras, manifestamos nosso sincero agradecimento. O presente volume contém 60 estudos homiléticos e litúrgicos para os domingos e demais datas do Ano Litúrgico, indicados no Lecionário Comum Revisado, adotado pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) desde 2006. Com este volume iniciamos novamente pelos textos indicados na série A. Como é de seu conhecimento, cada série contém, além do Salmo, como leituras do dia, três textos: Antigo Testamento, Evangelho e Epístola. Mesmo que não se deixe de considerar todas as leituras na dimensão litúrgica da celebração, o PL sempre priorizou um texto específico como base para a pregação e, consequentemente, como tema de estudo em especial. Por isso, para que não se repetissem reflexões sobre os mesmos textos do volume 32, também sobre a série A, foram definidos pelo Conselho Editorial os novos textos, dentre os indicados para cada domingo, como base para a pregação. Dessa forma, ao enfocar mais especificamente um texto dentre as leituras indicadas como base para a pregação, cremos estar contribuindo concretamente e com maior intensidade para que a mensagem bíblica continue a ser e se tornar sempre de novo viva vox evangelii, ou seja, anúncio da Boa-Nova hoje! Porque quando pregadores e pregadoras se esforçam para preparar boas pregações, bem fundamentadas no testemunho da Escritura, a comunidade sairá animada e fortalecida em sua fé para o testemunho no dia-a-dia. O PL quer ser um estímulo e uma ajuda nessa nobre tarefa.

Martin Volkmann pela Coordenação do PL

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

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1o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: ROMANOS 13.11-14

28 NOV 2010

ISAÍAS 2.1-5 MATEUS 24.36-44

Odair Braun

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Introdução

A noite está findando, fulgente o dia vem. Erguei a voz, louvando a estrela de Belém, compôs Jochen Klepper – Hinos do Povo de Deus I, nº 3. Estamos no início do Advento, um período entendido como tempo especial de reflexão e preparação. Um tempo que se mostra como oportunidade de colocar a vida à luz da palavra de Deus. Por isso cantamos na continuidade do hino: No escuro, em agonia, quem teve de chorar, verá com alegria: a luz lhe há de brilhar. Advento é um tempo para nos aninharmos diante de Deus, permitindo que ele fale conosco. As leituras indicadas para esse domingo conduzem para essa atitude. O profeta Isaías e seu povo viviam numa época de violência e guerra. Sua terra era ameaçada. Morte, assassinato e emboscadas eram parte integrante do dia-a-dia dos caminhos de Israel. Observando atentamente os cinco primeiros capítulos de Isaías, vemos a descrição de parte dessa violência e anúncio do juízo. Essa observação principalmente mostrará que, em meio a tal descrição, encontramos o texto de Isaías 2.1-5, em que o profeta recebe por meio de uma visão a vontade e a determinação de Deus. Por isso Isaías 2.1-5 expõe palavras de encorajamento e motivação para uma realidade de violência e de dificuldades. Nas palavras de Klepper: Deus faz a luz brilhar. Em Mateus 24.36-44 estão reunidas palavras de Jesus sobre o fim dos tempos, as tribulações, o juízo final, os critérios que conduzirão à vida ou à morte e a necessidade de estarmos preparados. No seu ensino, Jesus não deixa dúvidas de que a história da humanidade está nas mãos de Deus. Por isso ordena: vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor. Já em Romanos 13.11-14 (não se deveria deixar de usar os versículos anteriores, ou seja, Rm 13.8-10), podemos observar um comovente chamado de Paulo para pôr os pés no chão e decidir-se a viver sob a luz de Deus. Essa é uma decisão que precisa ser tomada por cada qual em algum momento de sua caminhada. Em Romanos 13.8-10, vemos um forte chamado para o amor. Essa atitude afasta do mal e coloca perto de Deus. Advento é o tempo em que somos lembrados de modo incisivo dessa realidade. Advento é, portanto, o tempo de preparação, ou, nas palavras do hino de Klepper: Embora habite em treva, Deus faz a luz brilhar. No juízo, a alma eleva em vez de a aniquilar.

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1º Domingo de Advento

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Exegese

A passagem de Romanos 13.11-14 pode ser descrita de modo simples: A escuridão é causada pelo pecado. A solução vem com a alvorada, com o amanhecer, ou seja, quando nos colocamos sob a luz de Deus. Assim sendo, é uma passagem que incentiva e admoesta para viver na luz de Deus. A passagem em estudo encontra-se num contexto de chamado (Rm 13.810) para o amor ao próximo, como forma de cumprir a lei de Deus. Para tal, o apóstolo Paulo aponta para uma ética pessoal, convocando a cristandade a uma prática de engajamento e pleno compromisso. O contexto do capítulo 13 de Romanos sinaliza para o compromisso da cristandade frente ao mundo. Nesse compromisso devem prevalecer o amor, a doação e a solidariedade. Assim sendo, os versículos 13 e 14 chamam especial atenção para o tempo de despertar e pôr-se em ação. Também é oportuno observar que, na passagem em questão, Paulo não se demonstra preocupado com previsões apocalípticas, tal como podemos muitas vezes observar ser pregado e anunciado em alguns ambientes. A realidade com a qual o cristão se defronta é clara: Noite X Dia Sono X Vigília Obra das trevas X Revestidos da luz Orgias e dissimulações X Andar dignamente. Nesse confronto se desenvolve a ideia central do texto, chamando-nos para despertar. No caso, a necessidade de despertar simboliza o descaso e a alienação frente à realidade que nos envolve. O convite para andar dignamente é o chamado para ter postura de vida transparente e sem nada que precise ser ocultado. Nesse confronto, revestir-se de Jesus Cristo é a chave para a resistência frente ao pecado. Podemos afirmar que, na passagem em análise, Paulo define os cristãos como pessoas que devem conhecer a realidade na qual estão inseridos, ou seja, devem conhecer o tempo. Ao conhecer a realidade, também se faz necessário dar sinal concreto frente ao contexto visto. Assim sendo, essa passagem aponta para o encontro de Deus conosco e com o mundo. Nesse encontro, decide-se a continuidade, para o qual devemos ter posição clara e imperativa. Romanos 13.11-14 visa, portanto, incentivar para que julguemos nossa situação e nossa atuação frente ao mundo à luz da chegada de Cristo. Ou seja, Paulo convida para analisar a maneira pela qual estamos vivendo e definindo as prioridades. Essa passagem pressupõe que cada cristão saiba dizer NÃO às coisas e aos comportamentos que se contrapõem aos ensinamentos de Deus. Por isso Paulo fala da necessidade de lutar com as armas da luz. Nesse sentido, a passagem do evangelho ensina que não sabemos o momento escolhido por Deus para intervir e transformar radicalmente a realidade que nos envolve. Assim sendo, fica o convite para estar permanentemente vigilante (Mt 34.36-44). Estar vigilante permitirá a transformação preconizada pelo profeta Isaías, que nos enche os olhos com sua descrição em Isaías 2.1-5, ou seja, de que as armas de guerra serão transformadas em instrumentos de trabalho. Sejamos vigilantes para que possamos concretizar

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aquilo que o profeta Isaías afirma, ou seja, “vamos caminhar na luz que o Senhor nos dá” (Is 2.5).

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Meditação

No hino de Klepper (HPD I – Hino 3) cantamos: Ainda há de tocar-vos da noite a escuridão. Mas tendes a guiar-vos a estrela do perdão. Por ela iluminados, as trevas enfrentais, seguindo, confiados, o brilho que avistais. Aqui se encontra, em nosso ponto de vista, o resumo das passagens desse domingo. Um novo Ano da Igreja começa. Esse começo é marcado pela celebração do Advento, sinal de confiança e esperança, apesar de muitas serem as dificuldades que se colocam diante de nós. O profeta Isaías acreditava e pregava com vigor e extrema confiança. Mesmo em meio às dificuldades, ele pregava que todos precisavam crer e confiar em Deus. Nesse sentido, a passagem de Romanos 13.11-14 fala do amanhecer que se aproxima, indicando a renovação que vem com a luz da manhã de um novo dia. Assim sendo, Advento não é mera lembrança, mas Advento pode ser alegre esperança de ampla transformação. Advento deve ser alegre esperança, pois a promessa de Deus é acabar com a escuridão, com o sofrimento, com a violência e a guerra, assim como anunciado pelo profeta Isaías. A passagem do evangelho desse domingo aponta para o fato de que, ainda hoje, muitos vivem de modo autossuficiente, ou seja, fazendo de conta de que de Deus não precisam, não lhe concedendo lugar, voz e vez no transcorrer da caminhada. A passagem alerta para – e Advento é tempo oportuno para tal – ficarmos alertas para não ser surpreendidos. Consequentemente, a comunidade cristã precisa estar atenta e vigilante. Parece-nos que aqui cada qual, em seu contexto, poderia apontar fatos que exemplificam a falta de vigilância da parte dos cristãos. Igualmente interessante é, na continuidade, poder junto com a comunidade olhar para sinais da luz de Deus manifestando-se em seu dia-a-dia, visando tirar desafios concretos para a ação comunitária. Nesse sentido, ousamos indicar um exemplo. Em Curitiba, há um programa mantido pela Secretaria Municipal de Abastecimento, chamado Câmbio Verde. Em resumo, visa trocar lixo reciclável por hortifrutigranjeiros. No mês de março de 2010, esse programa recolheu 354 mil quilos de lixo reciclável. Cada 4 quilos de lixo reciclado é trocado por 1 quilo de hortifrutigranjeiros, que são adquiridos diretamente dos produtores, fazendo com que recebam um valor mais justo. A iniciativa é simples. Contudo, o resultado final é significativo: a) Melhora o valor recebido pelos produtores dos hortifrutigranjeiros; b) Melhora a condição alimentar dos que fazem uso desse programa; c) Retira dos lixões, das ruas e dos rios grande quantidade de lixo, melhorando a qualidade de vida de todos e aliviando o meio ambiente; d) Trata-se de uma forma de incentivar a cidadania. Esse é um exemplo simples. Mas demonstra claramente como sinais de esperança são produzidos em nosso meio. Advento é também um tempo especial de perceber a realidade em que nos encontramos, visando buscar e adotar medidas

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1º Domingo de Advento

simples que geram impacto transformador. Ou seja, Advento é também um tempo para despertar para uma vida responsável.

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Imagens para a prédica

A pregação desse domingo poderia ser desenvolvida em torno de dois pontos centrais: a) Deus vem ao nosso meio: o que fazer diante dessa realidade? b) Revestir-se de Jesus Cristo! O que isso significa? A pregação poderia focar que, no primeiro Domingo de Advento, acendemos uma das velas da Coroa de Advento. Essa vela demonstra que a luz de Deus veio, vem e continuará vindo. Essa primeira vela acessa demonstra que a noite, que as trevas e a escuridão terão fim, porque Deus está a caminho. Uma vela brilha. Ainda há bastante escuridão. E por isso as passagens desse domingo convidam: Acordemos! Despertemos! Sejamos vigilantes! Deixemos as trevas de lado. Coloquemo-nos inteiramente sob a luz de Deus. A realidade de violência, morte e medo chegará ao fim quando todos os povos e nações atenderem ao convite, ao chamado de Deus, o qual Isaías expõe no versículo 5: “Venham, descendentes de Jacó, vamos caminhar na luz que o Deus eterno nos dá”. E por que, afinal, caminhar na luz que o Deus Eterno nos dá? Para ser o sal da humanidade – aquilo que dá gosto e sabor ao mundo. Visando concretizar essa realidade, Paulo, na passagem de Romanos 13.11-14, conclama para que estejamos despertos a fim de ser vigilantes, conforme advertido por Jesus. Em Jesus Cristo a visão revelada por Deus ao profeta Isaías se torna realidade. A visão exposta por Isaías queria mostrar que Deus tem capacidade e o desejo de transformar povos e nações. Este desejo se torna real na atuação libertadora de Jesus. Assim como Isaías, também Jesus viveu em meio a muita violência. Mas ele não se deixou contagiar pela mesma. Ele atuou no sentido de eliminar a violência. Ele atuou concretamente para integrar pessoas excluídas, ou seja, cegos, surdos, mudos, prostitutas, ladrões, na sociedade, ou seja, queria transformar uma realidade de guerra e morte em vida plena e abundante. Afirmamos acima que a passagem de Romanos se encontra inserida num contexto de convite para o exercício do amor ao próximo, exercício esse que visa alcançar as pessoas menos favorecidas, assim como aquelas que vagueiam em busca de sentido e orientação. Isaías 2.3 diz: “Vamos ao Templo do Deus de Israel. Ele nos ensina”. Jesus nos convida: “Fiquem vigilantes, pois o Filho do homem chegará” (v. 44). E Paulo adverte: “Está na hora de acordarem, pois o momento de sermos salvos está mais perto agora do que quando começamos a crer” (v. 11). Portar-se dessa maneira concretizará aquilo que Isaías 2.4 revela: a guerra é eliminada. As armas da guerra serão transformadas em instrumentos de paz e de produção de alimentos. Ao invés de serem usadas para a destruição, serão usadas para fomentar a vida. Isso é Advento. Há 2.700 anos, o profeta Isaías colocou uma seta indicativa de um novo caminho a ser trilhado pelo povo de Deus. Essa seta continua valendo para nós hoje. Jesus convocou-nos para constantemente estar alertas, despertos e vigilantes, a

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fim de não ser pegos de surpresa. Paulo admoesta para colocar-nos a serviço de Deus. Deixemo-nos iluminar pelas palavras do profeta e pelos ensinamentos de Jesus Cristo, para que concretamente estejamos acendendo pequenas luzes que, com o passar do tempo, irão brilhar muito, lançando luz sobre as trevas que hoje se colocam sobre nós. Se assim for, podemos altivamente cantar com Klepper: A noite está findando, fulgente o dia vem. Erguei a voz, louvando a estrela de Belém.

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Subsídios litúrgicos

Saudação: Zacarias 9.9 ou Salmo 37.5-6 Hino: Caso possível, o grupo de canto ou coral, ou mesmo um cantor individual, poderiam preparar o Hino do HPD I – Hino 03. Kyrie: a) Pedimos por aqueles que enfrentam dificuldades com a depressão, com a falta de perspectiva, com a falta de trabalho; b) Pedimos por aqueles que não conseguem perceber em sua vida a luz de Deus; c) Pedimos por todos aqueles que sofrem por causa de enfermidades, por luto e por vícios; d) Pedimos pelas situações de injustiça que, em muitos lugares e situações, ainda são muito fortes e presentes. Oração: Deus amado! Vem para o nosso dia-a-dia. Vem para o meio do nosso sofrimento e falta de perspectiva, que, muitas vezes, é forte a nossa volta. Vem para o meio da realidade de escuridão que, às vezes, se abate sobre nós. Vem e ascende em nosso meio sinais de luz. Vem e toma morada em nosso coração, em nossa vida e em nossas comunidades. Amém. Bênção: Abençoe-te o Deus criador e doador da vida. Abençoe-te o Filho, Jesus Cristo, que por meio de sua morte nos perdoa e renova. Abençoe-te o Espírito Santo, que te conforta e sustenta na caminhada. Assim te abençoe o Trino Deus. Amém.

Bibliografia KUSS, Otto. Carta a Los Romanos. Barcelona: Editora Herder, 1976.

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2o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: MATEUS 3.1-12

05 DEZ 2010

ISAÍAS 11.1-10 ROMANOS 15.4-13

Scheila dos Santos Dreher E a nova vida na terra será antevista nas festas. É Deus que está entre nós em esperança solidária. Hinos do Povo de Deus – Vol. 2 – n° 432

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Introdução

O texto indicado para a pregação (Mt 3.1-12) encontra-se também nos outros dois evangelhos sinóticos (Mc 1.1-8; Lc 3.1-20), com variáveis consideráveis, e, em parte, também no Evangelho de João (Jo 1.19.28). É possível encontrar auxílios homiléticos em volumes anteriores do Proclamar Libertação tanto sobre o texto conforme Mateus como sobre os textos paralelos. Isso significa que, em muitas ocasiões, esse texto foi utilizado como texto de pregação em nossas comunidades, inclusive nesta época de Advento, na qual nos encontramos. Significa, então, que “tudo já foi dito” à comunidade? Certamente que não! Para animar o estudo e a reflexão em torno do texto, no preparo à pregação, lembro frase do reformador Martim Lutero: “A Escritura é uma ervinha: quanto mais a trituras, mais perfume ela solta”. O conjunto dos textos indicados conclama ao anúncio e ao preparo para a vinda do Messias e para o seguimento daquele que é fonte de toda esperança (Is 11.1; Mt 3.11; Rm 15.4,13). O princípio dessa vida com Cristo está no arrependimento (diário, numa perspectiva neotestamentária) e no batismo (único, conforme Efésios 4.5, mas com vivência diária). A vida com Cristo faz o que parece improvável acontecer (Is 11.1-9; Rm 15.5-7,12).

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Exegese

2.1 – Quem era o João que, de fato, “prepara o caminho para o Senhor passar” (Mt 3.3b)? Cada um dos evangelistas conta-nos algo sobre João. Segundo o evangelista Lucas, João Batista era filho de Isabel e do sacerdote Zacarias – de linhagem sacerdotal, portanto –, concebido em idade tardia dos pais, como resposta de Deus à sua oração. Durante o tempo de gravidez, Isabel foi visitada por Maria, grávida de Jesus. Isabel reconheceu que Maria carregava em seu ventre o Senhor/o Messias esperado (Lc 1.39-45). Quando João Batista nasceu, Zacarias entoou uma canção: “Você, meu menino, será chamado de profeta do Deus Altíssimo.

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2º Domingo de Advento

Você vai adiante do Senhor para preparar o caminho para ele. Vai anunciar ao seu povo a salvação que virá pelo perdão dos seus pecados. Porque o nosso Deus é misericordioso e bondoso. Ele fará brilhar sobre nós a sua luz e do céu iluminará todos os que vivem na escuridão da sombra da morte, para guiar os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1.76-79). João Batista usava roupa de pelos de camelo e um cinto de couro; comia gafanhotos e mel do campo (Mt 3.4). Ele foi ouvido pelo povo como profeta. Jesus, no entanto, disse ser ele mais do que isso: “João é aquele de quem as Escrituras Sagradas dizem: Aqui está o meu mensageiro [...]. Eu o mandarei adiante de você para preparar o seu caminho. Lembrem-se disto: João Batista é o maior de todos os homens do passado. Porém quem é menor no Reino do céu é maior do que ele” (Mt 11.10s). O início de sua pregação esteve localizado, geograficamente, no deserto da Judeia, quando Tibério era o imperador romano, Pôncio Pilatos o governador da Judeia, Herodes governador da Galileia, Anás e Caifás os Grandes Sacerdotes (Lc 3.1s). Pessoas dos arredores e da capital vinham ouvi-lo (Mt 3). Jesus veio a seu encontro para deixar-se batizar por ele nas águas do rio Jordão (Mc 1.9-11). Sua pregação foi corajosa, autêntica e resoluta. Chamava as pessoas ao arrependimento e a uma vida coerente com a fé em Deus. Ele dizia, por exemplo: “Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma, e quem tiver comida reparta com quem não tem” (Lc 3.11). Falou ao povo, em geral, aos soldados, aos cobradores de impostos e às autoridades (Lc 3). Ele não temeu criticar autoridades civis e religiosas em desacordo com a vontade de Deus (Mt 3; 14). Como consequência de sua postura foi preso (Mt 11.2, 14) e, posteriormente, assassinado por ordem de Herodes (Mt 14). Em toda a sua atuação não chamou atenção sobre si, mas esteve a serviço, de fato, da preparação do “caminho” para o Senhor, que era esperado, de quem ele não se considerava digno sequer de carregar as sandálias: Jesus de Nazaré, o Messias enviado por Deus (Mt 3.11). 2.2 – Qual era o anúncio, a mensagem central de João Batista? Conforme Mateus 3.2, João dizia: “Arrependam-se dos seus pecados porque o Reino do céu está perto!”. Proponho uma reflexão a respeito com dois desdobramentos: Arrependimento – metanoia: O que é? Segundo Leonhard Goppelt, o termo foi usado pelos profetas para indicar o movimento necessário de retorno a Deus e à sua aliança. Quando o povo se afastava de Deus, era preciso acontecer “metanoia”, isto é, fazer o movimento de tornar a Deus (Jr 15.19). Em muitas passagens veterotestamentárias, Deus, por sua vez, promete não concretizar o juízo emitido sobre o povo, se o povo se arrepender de seu afastamento e voltar novamente para ele (Jr 4.1s; 26.1-3 ). Jesus, no entanto, não apenas pregou o movimento de retorno a Deus, mas também apontou para o futuro. Segundo Goppelt, Jesus resume em dois conceitos novos o que ele espera do homem: seguir e crer, discipulado e fé. No entanto, o conceito tradicional “arrependimento” abrange tudo isso, se o entendermos como a profecia ou o querigma missionário da comunidade (At 2.38; 3.19; 17.30). [...]

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Com o reino não vem um novo Deus, mas justamente o Deus de Israel! [...] Por isso o dirigir-se ao reino de Deus é também a volta ao Deus de Israel [...]. Assim [Jesus] não relaciona a sua atividade salvífica apenas com o reino que há de vir, mas apresenta-a como cumprimento das profecias [...] veterotestamentárias [...]. Cada parte da atividade de Jesus quer ser compreendida a partir da relação com esses dois polos: a aliança de Deus com Israel, e o reino que há de vir. Justamente nessa polaridade ela se torna histórica e universalmente eficaz (p.109s). Nas comunidades primitivas, a confissão dos pecados foi sinal de arrependimento mediante a qual Deus justifica, por graça, o pecador contrito, como está escrito em 1 João 1.8s: “Se dissermos que não temos pecados, enganamos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Mas, se confessarmos os nossos pecados a Deus, ele cumprirá a sua promessa e fará o que é justo: perdoará os nossos pecados e nos limpará de toda maldade”. Na Confissão de Augsburgo, escrita por Felipe Melanchthon – colaborador de Lutero e professor da Universidade de Wittenberg – por ocasião da Dieta de Augsburgo no ano de 1530, lemos o seguinte: [...] o arrependimento consiste, propriamente, nas duas partes seguintes: uma é a contrição, ou os terrores metidos na consciência pelo reconhecimento do pecado; a outra é a fé, que nasce do evangelho, ou absolvição, e crê que os pecados são perdoados por causa de Cristo, consola a consciência e liberta dos terrores. Depois devem seguir-se boas obras, que são os frutos do arrependimento (p. 22).

Arrepender-se, portanto, implica reconhecer o erro (passado), voltar-se a Deus, interceder pelo perdão, crer que Deus o concede, unicamente por sua graça (dimensão presente), e viver em seguimento a Cristo na perspectiva da plenitude do reino de Deus (dimensão futura). Mesmo em João Batista já se pode fazer tal “leitura”, porque também a nova postura de vida que reconhece o senhorio de Jesus Cristo (discipulado), fruto de um coração contrito, era esperada por João (Mt 3.8; Lc 3.10-14). Isso se mostra quando fariseus e saduceus vieram até João pedir pelo batismo (de arrependimento). João Batista questionou a falsa segurança que eles encontravam no cumprimento rigoroso das muitas leis e no ensino da Escritura, respectivamente, bem como no pertencimento étnico, como descendentes de Abraão. “Façam coisas que mostrem que vocês se arrependeram dos seus pecados” (Mt 3.8), disse João. Ou, como disse Jesus: “Não é quem me diz: Senhor, Senhor, que entra no Reino, mas quem, de fato, realiza a vontade do Pai” (Mt 7.21). A íntima ligação entre o arrependimento e a nova atitude de vida é assumida nas comunidades primitivas, como bem expressa Tiago: “Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ação, é coisa morta em si mesma” (Tg 2.17). Intimamente ligado a essa nova postura de vida está o Batismo. Batismo de Arrependimento e Batismo com o Espírito Santo: O que isso significa? De onde vêm essas práticas/tradições? Como elas se inter-relacionam? João Batista chamava ao arrependimento, dada a proximidade do Reino (“Arrependam-se dos seus pecados porque o Reino do céu está perto!” – Mt 3.2), e, por consequência, realizava o ato batismal (“Eles confessavam os seus peca-

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dos, e João os batizava no rio Jordão” – Mt 3.6), não sem antes perguntar pelos sinais de arrependimento (Mt 3.8). Ainda assim, apontava para o batismo que seria realizado pelo Messias/o Senhor, revestido de nova significação: “Eu os batizo com água para mostrar que vocês se arrependeram dos seus pecados, mas aquele que virá depois de mim os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele é mais importante do que eu” [...] (Mt 3.11). Leonhard Goppelt ajuda-nos a entender o surgimento e o significado do Batismo de Arrependimento e do Batismo com o Espírito Santo na origem do cristianismo. Segundo Goppelt, João Batista seguia uma prática de realizar o batismo de arrependimento para o perdão dos pecados, i.e., um banho de água que purificava de tudo o que ocorrera até então e que propiciava perdão e arrependimento. (Certamente foi realizado, desde o início, por meio de imersão ou derramando água sobre o batizando.) [Nas comunidades primitivas], ao que tudo indica, esse ato estava ligado, desde o início, com a invocação do nome de Jesus [...] sobre o ato do batismo, [...] pelo que batizava [...]. O batizando tinha que concordar com a invocação por meio de uma confissão batismal. [...] Batizavase [...] em nome de Jesus, [...] expressando o seguinte: Pedia-se que o exaltado provocasse, por meio do batismo, o que o próprio batismo prometia: perdão e arrependimento. [...] Ao que é batizado dessa maneira é prometido o Espírito. [...] Os Atos dos Apóstolos relatam que, ocasionalmente, batismo e concessão do Espírito ocorriam separadamente [...]. Isso, no entanto, era sempre determinado por situações especiais. Esses relatos pressupõem [...] que batismo e concessão do Espírito estavam normalmente ligados. É certo que a vinda do Espírito nunca estava ligada de maneira exclusiva ao batismo, mas era prometida ao batizado [...]. Mas qual foi a motivação que fez com que [o batismo da comunidade primitiva] partisse do batismo de João? [...] Os discípulos haviam recebido uma ordem de batismo nas aparições pascais. [...] Os discípulos estavam comissionados pelo envio [...] a agir “em nome de Jesus”, a invocá-lo, portanto, também por ocasião do batismo. [...] Jesus fora batizado por João [...] e também testemunhara, por meio de sua atitude, que reconhecia o batismo de João como o sinal de arrependimento escatológico, dado por Deus [...]. Com a participação de Jesus no batismo penitencial de João, ocorrera o que o batismo, em seu nome, propiciava; tanto aqui como lá, propiciam-se filiação e Espírito. [...] O batismo, consequentemente, não é um mero retrocesso a um antigo ritualismo. O próprio Jesus não chamara apenas de maneira generalizada ao arrependimento, mas provocara sua concretização através do oferecimento do discipulado pessoal. [...] O batismo não relaciona apenas o batizado com o exaltado, mas, ao mesmo tempo, com os demais batizados ou com os discípulos que haviam recebido o Espírito em Pentecostes, sem batismo, e distingue-o do restante da nação judaica (p. 261-264).1

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Sobre a evolução da prática batismal sugiro, como leitura de aprofundamento, MARTINI, Romeu Rubem (org.). Batismo e Educação Cristã. Por uma vivência diária da fé. São Leopoldo: Sinodal, 2006; e, ainda, KIRST, Nelson. Livro de Batismo. São Leopoldo: Oikos, 2008.

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No Batismo, e também na Santa Ceia, pela função sacramental de ambos, recebemos, por graça, o perdão dos pecados. Como diz Martim Lutero: “Deus não quer tratar com nós homens de outra maneira senão mediante a sua palavra externa e pelos sacramentos”, isso porque o sacramento é “Palavra visível” na vida da pessoa cristã. No entanto, ainda que o Batismo seja único (Ef 4.5), o arrependimento e a necessidade de perdão permanecem sendo diários, porque nós somos, como diz Martim Lutero, simultaneamente pessoas justas e pecadoras (veja mais a respeito em Martinho Lutero, Obras Selecionadas, v. 3, p. 202ss). Isso significa, portanto, que, “por arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos. E, por sua vez, deve sair e ressurgir diariamente nova pessoa, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre” (Catecismo Menor de Martim Lutero). Sim, mas se no Batismo recebemos perdão dos pecados e, ainda assim, precisamos cada dia voltar a Deus e continuamos carecendo de seu perdão, então pergunta Martim Lutero: “De que me serve [...] o Batismo, se não apaga nem afasta completamente o pecado? Aqui é preciso compreender e discernir corretamente o Sacramento do Batismo: o proveito do venerabilíssimo sacramento do Batismo consiste em que, nele, Deus se alia e se une contigo num pacto gracioso e consolador. Em primeiro lugar, é preciso que te entregues ao Sacramento do Batismo e seu significado, isto é, que desejes morrer juntamente com os pecados e ser renovado no último dia, conforme denota o sacramento [...]. Deus aceito isso de ti e faz com que sejas batizado. A partir desse momento, ele começa a te renovar e te infunde sua graça e seu Espírito Santo. Esse começa a matar a natureza e o pecado e a preparar-te para morrer e ressuscitar no último dia. Em segundo lugar, é preciso que te comprometas a perseverar isso, destruindo, enquanto viveres, eu peado mais e mais, até a morte. Também isso é aceito por Deus, que te exercita durante toda a tua vida com muitas boas obras e uma variedade de sofrimentos. Com isso realiza o que desejaste no Batismo: ser livrado do pecado, morrer e ressuscitar, renovado, no último dia, consumando, assim, o Batismo (veja mais a respeito nas Obras Selecionadas de Martinho Lutero, v. 1, p. 418ss). Por isso o Batismo marca, necessariamente, o início da vida cristã ou de uma vida coerente com a fé (em Cristo). Essa vida cristã acontece em comunidade, junto com outras pessoas batizadas, irmãos e irmãs na fé, igualmente acolhidas como filhos e filhas no ato do Batismo pelo Deus que se revela a nós como Pai e Mãe. A comunidade cristã primitiva entendeu, portanto, que no ato batismal Deus oferecia o perdão de pecados à pessoa arrependida, o dom do Espírito Santo, e propiciava o início de uma nova vida em seguimento a Cristo, juntamente com outras pessoas batizadas. Por isso Batismo não é uma experiência momentânea, mas marca o início de uma nova vida, de fato, em comunhão com Cristo e com outros irmãos e irmãs na fé. Nesse sentido, a pregação do Batista não é outra coisa senão o chamado ao arrependimento diário e à vivência do Batismo, à coerência entre fé e vida. A vivência do Batismo, por sua vez, não é outra coisa senão a possibilidade de participar da realidade do reino de Deus, já agora, por

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meio de seus sinais, certos de que, pela promessa de Jesus, ele se fará pleno no tempo oportuno de Deus.

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Meditação

Enquanto escrevo este texto como auxílio para a pregação no segundo domingo de Advento, acontece a Copa do Mundo; os estados de Pernambuco e Alagoas vivenciam uma semana de caos em função de enchentes e vendavais (só no estado de Alagoas são mais de 80 mil pessoas desabrigadas) e experimentam solidariedade por parte de entidades privadas e de pessoas voluntárias, além do socorro governamental; candidatas e candidatos à Presidência da República dão polimento a seus discursos e propostas de governo e iniciam campanhas, tecendo alianças cá e acolá; ribeirinhos e ambientalistas protestam contra a construção de uma usina hidrelétrica em Belo Monte/Pará; policiais tentam reconstituir a cena do crime de pessoa baleada “por engano” em São Paulo; a comunidade da qual sou membro prepara-se para o Culto de Ação de Graças no próximo domingo. Nesse misto de situações que vivenciamos no cotidiano, de vida e de não-vida, de acertos e de incoerências, que serão outras em dezembro, mas, de certa forma, semelhantes a essas do mês de junho, como se preparar para a celebração do Natal, cumprimento do primeiro Advento de Cristo, com os olhos voltados para o segundo Advento (a segunda vinda de Cristo)? Como o cristianismo pode contribuir para a vida com dignidade/em abundância – desejo de Deus – através da comunidade de pessoas batizadas nos diversos espaços onde ele tem expressão, na perspectiva do reino de Deus? Onde está a nossa esperança? Zygmunt Bauman, um sociólogo polonês, escreve em seu livro intitulado “Modernidade Líquida” a respeito das características da sociedade moderna capitalista, avaliando permanências e mudanças sofridas com o passar do tempo. “Sólido” serve como indicativo para o que permanece/o que tem constância; líquido, para o que sofre mudanças e assume um caráter transitório. Nesse sentido, entre outras, Bauman aponta o individualismo como uma das características da sociedade moderna, que estimula, por sua vez, relações cada vez mais provisórias e desapego afetivo. A liquidez das estruturas sociais e dos referenciais/balizas/ valores humanos, a rapidez com que se processam informações e com que produtos se tornam obsoletos, também são tidas como características dessa sociedade moderna. Importam a velocidade e a novidade, o consumo e a facilidade de descartar, e não a durabilidade das coisas, situações ou relacionamentos. Nessa sociedade, nós também estamos inseridos; se não estamos totalmente absorvidos por tal modernidade líquida, também não estamos isentos de sua lógica e do que ela produz. Muitas vezes, nossas comunidades reúnem, sob o mesmo “teto”, membros muito ativos e comprometidos com o próximo, com a vida comunitária e, em consequência, com a sociedade maior que os envolve e, também, “membros líquidos” (se é possível tomar emprestado o conceito), que não se envolvem, de fato, na vida comunitária (nos grupos, cultos, no cuidado e comprometimento mútuos). Parece que o Batismo que receberam também ganhou o caráter de “líquido”, de momentâneo, que rapidamente se tornou algo do

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passado. Uma ou outra vez se percebe que a filiação a uma comunidade evangélico-luterana visa, prioritariamente, ao direito à utilização do cemitério, quando houver necessidade, e não à participação ativa no corpo de Cristo. “Façam coisas que mostrem que vocês se arrependeram dos seus pecados” (Mt 3.8), disse João Batista aos fariseus e saduceus quando eles lhe pediram pelo batismo. O que João Batista pede é, de fato, coerência entre a fé e a vida. A consequência do arrependimento diário e da libertação dos pecados concedida por Deus, também diariamente, é vida em seguimento a Cristo, cujo maior mandamento foi, claramente, o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo (Mt 22.37-39). O arrependimento e a oferta de perdão da parte de Deus, portanto, unidos à fé, que são dom/graça de Deus, libertam, comprometem e abrem horizontes de vida, lá e cá: libertam da necessidade da salvação por mérito, libertam de um orgulho/arrogância pela nacionalidade ou pertencimento étnico (Mc 16.16), libertam para a vivência do amor dentro do corpo de Cristo – comunidade de batizados – e para além dele (Lc 3.10-14)! Também colocam balizas numa sociedade de valores e vivências “líquidas”: importa, sim, viver como pessoa neste mundo de Deus no espírito do pertencimento ao corpo de Cristo. Nesse corpo, os laços de compromisso propõem-se a ser “sólidos”, visíveis, por exemplo, no cuidado e na aceitação mútuos (Rm 15.5-7). Por isso João está, sim, preparando o caminho para o Senhor passar (Mt 3.3), mas também está preparando pessoas para andar pelo caminho com Cristo! Autêntico evangelho! Nós cremos que a vida com Cristo, o discipulado a partir da vivência diária do Batismo, faz diferença na vida em família, na vida matrimonial, na vida em comunidade, na vida em sociedade. Nosso testemunho a esse respeito, em palavras e ações, também é coerência entre fé e vida. Por isso convidamos pessoas para além da comunidade cristã a caminhar conosco, em comunhão com Cristo, na perspectiva do reino de Deus. Ainda que estejamos “patinando”, como sociedade e, às vezes, como comunidade, em nossa própria “liquidez”, pela fé afirmamos que nossa esperança de um “mundo melhor” no âmbito familiar, comunitário e civil está em Cristo, no mesmo Cristo/Messias anunciado por João Batista. Isso porque Jesus Cristo é como um ramo que brota de um toco (Is 11.1); é a esperança diante de algo (uma realidade) aparentemente sem vida. Justiça e cuidado para com os necessitados são marcas de seu governo (Is 11.3-5). Ele inclui nessa comunidade/corpo de Cristo também aqueles e aquelas que não são judeus (Rm 15.12) ou, como diz João Batista, aqueles que não são descendentes de Abraão (Mt 3.9), ensinandonos sobre a necessidade de ser uma comunidade inclusiva. Deus não se afasta da pessoa pecadora; antes prega o arrependimento em Jesus e, já através dos profetas, concede-nos perdão porque deseja para nós a vida em plenitude, que só é possível com Cristo. Ser pessoa batizada significa saberse amparado pelo Deus que chama de volta, perdoa, indica o caminho a seguir e promete estar conosco (Mt 28.20). No Advento, o arrependimento e o perdão preparam a celebração pelo nascimento de Cristo: o Natal! As pessoas batizadas participam dessa espera ativa com alegria todos os dias do ano.

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Imagens para a prédica

Quando Martim Lutero vivenciava momentos ou situações de sofrimento e crise, fazia questão de escrever diversas vezes: “Sou batizado!”. Isso significa que ele não se sentia sozinho porque, de fato, não estava sozinho. Desde o Batismo, tinha Deus por Pai/Mãe; participava da comunhão dos crentes e tinha comunhão com Cristo! Deus estava com ele; sua vida havia sido presente de Deus e ele lhe pertencia pelo Batismo. Sua vida acontecia, por isso, em seguimento a Cristo.

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Subsídios litúrgicos

Sugestão de canções: HPD n° 8 (Alerta, ó consagrados) – vol. 1; HPD n° 109 (Da Igreja é fundamento Jesus, o Salvador) – vol. 1; HPD n° 308 (Advento é tempo de preparação) – vol. 2; HPD n° 441 (Jesus Cristo, esperança para o mundo) – vol. 2.

Bibliografia GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Editora Teológica, 2002.

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PRÉDICA: ISAÍAS 35.1-10

12 DEZ 2010

MATEUS 11.2-11 TIAGO 5.7-10

Michael Kleine

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Introdução

Isaías 35.1-10 fala da vinda do Senhor para a salvação de seu povo (v. 4). O texto realça os sinais dessa vinda, perceptíveis na transformação de pessoas e de seu meio ambiente. Outro aspecto importante é o “caminho” aberto por Deus para conduzir seu povo libertado até Ele. – Mateus 11.2-11 trata de Jesus como “aquele que estava para vir” (v. 3) e cita Isaías 35.5s para falar dos sinais de transformação (as “obras de Cristo”, v. 2) que o Messias esperado produz por onde passa. O evangelho também menciona o “caminho” (v. 10), mas a ênfase é na preparação do caminho que servirá para a vinda do Senhor (cf. Ml 3.1). Tiago 5.7-10 anima a comunidade a ter paciência e confiança, “pois a vinda do Senhor está próxima” (v. 8). Esse aspecto do consolo/ânimo diante do sofrimento, baseado na expectativa da vinda salvífica de Deus, também está presente em Isaías 35.3s. Os três textos propostos possuem vários pontos de contato e podem reforçar-se mutuamente numa pregação que procure esclarecer aspectos da “vinda do Senhor” (Advento).

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Exegese

O livro de Isaías é uma coleção de textos produzidos ao longo de um extenso período da história do povo de Judá. Normalmente, o livro é dividido em três partes, de acordo com três grandes etapas históricas desse povo: cap. 1-39 (monarquia, tempo em que viveu e pregou o profeta Isaías), cap. 40-55 (destruição do reino de Judá e exílio babilônico), cap. 56-66 (tempo da restauração de Judá sob domínio persa). A redação final do livro deve ter ocorrido por volta do ano 400 a.C. Essa redação deixou suas “marcas” no livro todo, produzindo uma releitura pós-exílica dos textos mais antigos (cf. Croatto, p. 11-14). Apesar de pertencer à primeira parte do livro, Isaías 35 é claramente um texto da época pós-exílica. Ele é dirigido aos “exilados”: “os resgatados do Senhor [que] voltarão e virão a Sião” (v. 10). Seu objetivo é convencer judeus exilados para que retornem a Jerusalém (cf. Croatto, p. 209). Após a queda do império babilônico, os judeus deportados receberam dos persas a permissão para retornar à sua terra natal. Há bons motivos para supor que essa autorização não gerou muito entusiasmo entre os “exilados”. A maioria estava plenamente integrada à sociedade babilônica. Além do mais, o antigo reino de Judá havia sido reduzido a um pequeno território ao redor de Jerusalém, cercado de vizinhos hostis. A área disponível era árida e pouco apropriada para a produção agrícola. O pouco que

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era produzido estava sujeito aos pesados tributos cobrados pela administração persa. A subprovíncia de Judá tinha pouco a oferecer aos descendentes de seus antigos habitantes deportados. Apesar das condições extremamente desfavoráveis, havia um grupo muito empenhado na edificação de uma comunidade judaica em Jerusalém. Isaías 35 expressa a esperança desse grupo, baseada na vinda do “vosso Deus” (v. 4). O texto começa e termina com o tema da alegria. Chama a atenção a ligação entre a “alegria” da natureza (v. 1-2a) e a alegria do povo que chega a Jerusalém/Sião (v. 10). Essa ligação é sublinhada pelo acúmulo de sinônimos (alegria, júbilo, exultação, gozo), que aparecem tanto nos v. 1-2a como no v. 10. A “alegria” da natureza fica visível quando a terra árida na Palestina (o deserto, a terra seca e o ermo/a estepe) fica fértil e floresce. A “glória do Líbano” são as suas árvores (cf. 60.13), cuja madeira foi usada na construção do templo (1Rs 5.15ss). O Carmelo e o Sarom são regiões conhecidas por sua fertilidade. A beleza e o esplendor desses lugares são dados a Jerusalém (como em 60.13), como indica o sufixo feminino (lit. “foi dado a ela”). Os mesmos termos “glória/esplendor” são atribuídos também a Javé. Ou seja: a glória de Deus manifesta-se na transformação do deserto em uma região fértil e rica. Em Isaías 4.2, os frutos da terra servem de ornamento e glória para o povo resgatado (cf. Wildberger, p. 208). A glória de Deus é visível na fertilidade, na vida que brota onde só havia morte. Nosso texto fala para dentro de uma realidade de desespero. A edificação da comunidade judaica em Jerusalém e arredores esbarrava em inúmeros empecilhos: ameaças dos povos vizinhos (samaritanos, edomitas), situação econômica difícil, sincretismo religioso. Aqueles que se mantêm fiéis a Javé estão em minoria, e os “exilados” se recusam a voltar. A destruição do país e o exílio são vistos como castigo de Deus a seu povo infiel. Por isso, nos v. 3-4, um grupo é instruído a animar pessoas enfraquecidas pelo desespero: “fortalecei”, “firmai”, “dizei”. O motivo para o novo ânimo está na vinda do “vosso Deus”. Ele mesmo toma a salvação de seu povo em suas mãos. Ele traz “vingança”, quer dizer, ele defende a causa de seu povo (cf. 34.8) e restabelece a justiça, inclusive punindo os inimigos que o oprimem (cf. Is 34). “Vingança” é uma ação que procura corrigir uma situação marcada por delito e culpa. “Restituição” significa colocar em ordem uma situação de desgraça (cf. Wildberger, p. 197s.). Os v. 5-6a descrevem os efeitos da presença de Deus: as deficiências físicas não impedirão as pessoas de perceber a salvação (cegos e surdos) nem de expressar sua alegria (coxos e mudos). Cegueira e surdez podem ser usadas para descrever a dificuldade do povo de Deus em ouvir sua palavra e andar no seu caminho (cf. Is 42.18-25). Esse foi o motivo do castigo e da ira (cf. 42.25). A salvação manifesta-se quando o povo de Deus reconhece a verdade (cf. 32.3-5). Os v. 6b-7 comparam a vinda de Deus com a chegada da água em regiões áridas. Assim como a vida depende da água, o povo depende de Deus. Sua ausência é morte certa, sua presença traz vida em abundância. Os v. 8-10 introduzem um novo tema: a volta dos “libertados/resgatados” (v. 9b-10a) a Jerusalém. O caminho que leva a Sião é santo, por ser Santo aquele a quem ele pertence. A imagem do caminho aberto no deserto aparece outras vezes,

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sempre em conexão com a vinda de Javé para libertar seu povo (cf. 40.3), com a volta do povo de Deus disperso (cf. 11.16) e com a manifestação da glória de Deus a todos os povos através da restauração de Jerusalém (cf. 62.10). O “caminho” é uma alusão à libertação do povo de Deus da escravidão egípcia (cf. 11.16), quando o próprio Deus guiou o seu povo pelo deserto (cf. Êx 13.21s.) rumo à terra prometida. Foi nesse caminho que Israel foi constituído como povo santo (cf. Êx 19.6) através do recebimento dos mandamentos e da aliança com Deus. “Impuros” podem ser aqueles/as que justamente andam por outros caminhos e assim se afastaram de Deus (cf. Is 64.5s.). Quem teve olhos e ouvidos abertos e deixa-se guiar pelo caminho santo é purificado. “Louco” é quem não conhece Deus (cf. Jr 4.22) e pratica a maldade (Is 32.6). “O temor do Senhor é o princípio do saber, mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino” (Pv 1.7). Podemos dividir Isaías 35.1-10 em duas partes. A primeira (v. 1-7) trata da transformação da natureza e das pessoas provocadas pela vinda de Deus. A segunda parte (v. 8-10) descreve uma outra consequência da vinda de Deus: o seu povo é colocado em movimento sobre o Caminho que leva até Ele (= até Sião, que é a Sua morada). Isaías 35 fecha uma seção (os cap. 28-35), cuja característica é a alternância entre palavras de juízo e anúncio de salvação. O cap. 35 é a contraparte positiva do cap. 34, que fala da vinda de Javé para o juízo. Isso deve ser dito para lembrar que a expectativa da vinda de Deus para a salvação só é possível onde se experimenta a realidade da ausência e do juízo de Deus. Para Isaías, ela é consequência da rebeldia do povo (Is 54.8; 57.17; 63.10,17; 64.5,7; 65.1-7) e manifesta-se no sofrimento e na desolação.

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Meditação

É muito clara em todo o livro de Isaías a compreensão de que a desgraça de Israel é resultado da ira e do juízo de Deus sobre seu povo por esse ter virado as costas a seu Deus: “rejeitaram a lei do Senhor... e desprezaram a palavra do Santo de Israel. Por isso se acende a ira do Senhor contra o seu povo, povo contra o qual estende a mão e o fere” (5.24s). Deus transforma sua “vinha” num “deserto”, retirando sua proteção e permitindo que ela sirva de pasto e seja pisada (5.1-7,26-30). A destruição do país, a dispersão e a deportação de uma parte do povo, as invasões de povos vizinhos, a consequente diminuição do território e a dominação de impérios estrangeiros são sinais visíveis e concretos de que Deus se retirou e entregou seu povo à própria sorte. Nessa mesma linha, a fé bíblica proclama que existe uma relação intrínseca entre o pecado humano e a miséria deste mundo como um todo. O ser humano quis ser como Deus (Gn 3.5) e acabou transformando a vida numa luta pela sobrevivência (Gn 3.14-24). O ser humano carrega a culpa de ter corrompido a boa criação de Deus. Assim como a rebeldia contra o Criador trouxe consequências bem concretas para a criação como um todo (luta, sofrimento, dor, morte), a redenção do ser humano traz consigo também a redenção de toda a criação (cf. Rm 8.15-23).

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Aqui está a característica principal de Isaías 35: o texto proclama a salvação como um processo de transformação de toda a realidade material. Deus vem e liberta/resgata seu povo de uma situação de opressão e o conduz de volta para casa, para junto de si. Mas a vinda de Deus produz ainda outros efeitos: o florescimento da região árida de Judá, a cura dos cegos, surdos, coxos e mudos, o restabelecimento da justiça. Segundo nosso texto, a salvação não acontece apenas para os seres humanos, mas também para a terra habitada por eles. Não apenas o ser humano experimenta a proximidade e a presença de seu Deus como nova criação e vivificação, mas também a natureza a seu redor – o mundo que pertence a Deus e que sofre por causa da rebeldia do ser humano contra o Criador. “Eis o vosso Deus... ele vem para vos salvar” (v. 4). A salvação acontece quando Deus vem a este mundo (Advento). Para Isaías 35, salvação acontece com a volta do povo de Javé a Sião. Somos lembrados/as de que “Deus vem” e manifesta sua glória também hoje, enquanto aguardamos sua vinda definitiva. Mateus 11.2ss mostra-nos que, antes de vir definitivamente, Deus veio a nós em Jesus Cristo e que essa vinda já traz sinais da revelação definitiva da glória no fim dos tempos: “nós vimos a sua glória” (Jo 1.14). Isaías 35 fala dos sinais dessa glória/salvação na renovação e no novo nascimento de pessoas e de seu meio ambiente. A vinda de Deus ao mundo de morte produz frutos e nova vida. A vinda de Deus abre olhos e ouvidos, produz alegria onde só havia sofrimento e liberta lá onde só há limitações e opressão. Jesus Cristo vem ao mundo de forma concreta, audível, palpável e degustável. Ele vem com sua palavra que consola, liberta e mobiliza. Através do Batismo assume e transforma cada indivíduo, pessoalmente, e integra-o a seu povo. Ele liberta oprimidos/as e deprimidos/as pela culpa através do perdão e absolvição de pecados. Ele se oferece como alimento na jornada, dando seu corpo e sangue. Com esses seus meios de salvação e de vida, Jesus Cristo nos emprega para transformar nossos relacionamentos pessoais (perdão), as relações sociais (justiça, igualdade) e a relação com o meio ambiente. Isso ainda não é o reino de Deus, mas manifestações concretas desse já agora. Aqui entramos no segundo aspecto do texto: a vinda de Deus coloca o seu povo em movimento (v. 8-10). Os/as cansados/as e abatidos/as são fortalecidos/ as com a vinda/presença de Deus, “cegos” e “surdos” percebem novamente o caminho de Deus. Deus não apenas liberta e revigora, mas ele coloca os/as libertados/as no caminho que ele mesmo abriu e que leva até ele. Eles/as não precisam abrir caminhos novos nem ficar procurando trilhas escondidas. A estrada está aí, o Caminho Santo (v. 8). No meio do deserto e protegido dos perigos, um caminho conduzirá aqueles/as que tiveram seus olhos e ouvidos abertos para a promessa da vinda de Deus. O caminho conduz seguramente ao objetivo posto por Deus: a “Sião”, a morada de Deus. Só existe um caminho que leva a Deus, o caminho que ele mesmo estabeleceu. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Esse é o “caminho da vida”; qualquer outra opção é “caminho de morte” (Jr 21.8; cf. Mt 7.13). O caminho é para “os resgatados do Senhor”, o povo que Deus forja para si e que se deixa guiar por ele. “Impuros” e “loucos” são

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os que escolhem outros caminhos e/ou não reconhecem o verdadeiro caminho. Mas, uma vez que o reconhecem, são “purificados” e conduzidos ao alvo certo. O povo de Deus vive de seu Advento. A vinda constante de Jesus Cristo aos seus, em Palavra e sacramentos, coloca-os e mantém no caminho que leva ao Reino – nele próprio! Assim ele os fortalece, mobiliza e organiza para transformar e vivificar o meio em que vivem: seu círculo familiar e de amizade, seu ambiente de trabalho e moradia, a sociedade como um todo. Ali promovem inclusão, partilha, luta por justiça e paz, reconciliação. A ação de Jesus Cristo em nós, principalmente através do Batismo e da Santa Ceia, atinge-nos de forma concreta e material. Envolve nosso corpo e todos os membros: mãos, pernas, coração, olhos, ouvidos, boca, que empregamos para perceber a realidade de miséria (“deserto”) ao nosso redor e para lutar contra ela. Jesus Cristo vem ao mundo através daqueles/as que foram incorporados/as nele (Batismo), nos/as quais ele mesmo se incorpora e materializa (Ceia). Neles/as, sua glória torna-se concreta e visível. Dessa forma, ele prepara o caminho para o seu Advento definitivo.

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Imagens para a prédica

O texto está repleto de imagens. Basta escolher! A vinda de Deus a este mundo é comparada com a vinda da água aos lugares desertos. A água é elemento essencial à vida. Necessitamos dela tanto quanto a terra e os demais seres vivos. Somos feitos de água, o elemento essencial e comum a todos: “Creio que Deus me criou a mim e a todas as criaturas” (Catecismo Menor, 2ª Parte). Não dispomos da água; ela é pura dádiva. Não podemos produzir água, nem substituí-la por outro elemento. Mas podemos buscá-la onde ela está, cavando poços, levando-a para as regiões áridas. “Buscai-me e vivei” (Am 5.4). Jesus Cristo traz “água viva” (Jo 4.10). É impressionante o efeito que a água produz na paisagem quando alcança as terras secas! Revigora, vivifica, enche de beleza. Semelhante é a ação de Deus sobre nós, com efeitos em todas as áreas da vida.

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Subsídios litúrgicos

Seguem algumas sugestões de hinos que reforçam/desdobram os temas de Isaías 35.1-10: – “Alerta, ó consagrados” (HPD n° 8 – Vol. 1): um hino de Advento que se dirige aos/às de “mãos frouxas”, “joelhos vacilantes” e “desalentados de coração”, consolando-os/as com a vinda de Jesus Cristo. Aponta onde essa vinda pode ser percebida já hoje: “Em toda parte estão seus dons consoladores: A voz dos pregadores – batismo e comunhão”. – “Veio Jesus, manancial de alegria” (HPD n° 40 – Vol. 1): o Filho de Deus já veio e sua vinda trouxe libertação e alegria. O tema da água aparece nas estrofes 1 e 6. – “Há sinais de paz e de graça” (HPD n°165 – Vol. 1) lembra onde podemos perceber a vinda de Deus: na cruz (3), na comunidade/igreja (4), na palavra do perdão e no abraço do/da irmão/ã (5).

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– “Dá-nos olhos claros” (HPD n° 166 – Vol. 1) concretiza a vinda do Senhor, que emprega nossos corpos e membros como sua presença libertadora/consoladora no mundo. – “Viver com Jesus é cantar” (HPD n° 181 – Vol. 1) traz o tema da alegria dos/ “redimidos/as”/“libertados/as”, que “mostram” Cristo e seu amor aos “muitos que vivem na dor”.

Bibliografia WILDBERGER, Hans. Königherrschaft Gottes – Jesaja 1-39, Teil 2. Neukirchen-Vluyn, 1984. CROATTO, José Severino. Isaías: a palavra profética e sua releitura hermenêutica. Vol. 1 (1-39: o profeta da justiça e da fidelidade). Petrópolis, 1989.

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4o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: MATEUS 1.18-25

19 DEZ 2010

ISAÍAS 7.10-16 ROMANOS 1.1-7

Erni Drehmer

1

Introdução

O texto é indicado para o tempo de Advento e expressa-o por si só. O anúncio do nascimento de um Salvador e de sua origem divina está expresso também nos textos paralelos. Em Isaías, há um paralelismo até mesmo no nome: “Emanuel”. Em Romanos, o apóstolo Paulo registra a descendência de Davi, ao mesmo tempo em que acentua a santidade divina, que, segundo o apóstolo, se confirma com a ressurreição. O que une o texto de Mateus com Isaías e Romanos é o destaque do nascimento do Salvador como cumprimento de uma promessa divina de enviar a seu povo alguém que o orientasse e conduzisse à salvação. Os três textos estabelecem uma interessante unidade, retratada em três dimensões de ação divina: a presença de Deus entre seu povo (Isaías); o nascimento divino de Jesus em meio a provações e inseguranças humanas (as dúvidas de José superadas pela mensagem divina em Mateus); a ressurreição como prova final e irrefutável da filiação divina de Jesus (Romanos). Essa unidade pode servir como interessante argumentação para a pregação.

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Exegese

Em Mateus, não temos relatos diretos sobre concepção e nascimento de Jesus. O que se relata são as consequências desse fato. Os desdobramentos para José, por um lado, e para Herodes, por outro (em 2.1, fala-se da preocupação de Herodes, despertada pela notícia do nascimento daquele que deveria ser “rei dos judeus”). Com isso o autor reafirma duas coisas: o nascimento de Jesus aconteceu em Belém e foi gerado pelo Espírito Santo. Nada muito além disso. Diferentemente do relato de Lucas, em Mateus há um destaque especial para José. Esse “sempre fazia o que era direito” ou “sendo justo...” Há um consenso de que essa referência não quer tanto acentuar a fidelidade à lei (conforme o determina Deuteronômio 22.20s), mas sua bondade. Convém lembrar que noivado (ou contrato de casamento) implicava peso semelhante ao casamento. Quebra desse contrato correspondia a adultério, que, conforme a lei descrita em Deuteronômio 22, era castigado com apedrejamento ou poderia, no máximo, ser reduzido para açoites. O dilema colocou-se para o homem José: uma acusação de infidelidade fatalmente se desdobraria em uma execração pública de Maria. Mas o texto expressa claramente que José não tinha interesse em tomar tais atitudes. Com a decisão de desmanchar o contrato de casamento de forma secreta, ou seja,

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através de uma carta de divórcio, ele estaria tomando sobre si toda a culpa, sem uma acusação pública. Aqui o conceito de justiça de José manifesta-se tanto em seu compromisso com a lei como em sua bondade para com o ser humano. O divórcio deverá ocorrer sem execração pública (δειγματίσαι) e em segredo (λάθρα). As reflexões e planejamentos humanos de José são interrompidos por uma súbita intervenção divina. O autor não se interessa em desdobrar qualquer familiarização com o contexto social de José e Maria, que poderiam levar a uma solução humana para a situação após eventuais discussões entre o casal. Tão-somente interessa ao autor tornar visíveis a ação e o plano de Deus. O meio é o sonho. Deus, em forma de anjo, aparece a José em sonho. Trata-o como amigo de Deus, que é iniciado nos planos de Deus. José é chamado de descendente de Davi, isto é, descendente de Davi e herdeiro das promessas dirigidas a essa família. José é instado a aceitar Maria em sua casa como esposa. As desconfianças são dissipadas. Com isso a criança não somente é protegida da condição de órfã, como também passa a ser da linhagem de Davi, já que à criança adotada cabiam os mesmos direitos que às crianças geradas do próprio ventre. Revela-se aqui o Deus protetor e guiador. Ao mesmo tempo, é o Deus que cria e age. O anjo revela a José que a gravidez de Maria não é fruto de qualquer pecado, mas de intervenção divina. José é nomeado pai da criança a ser gerada por Maria. A ele é concedido o direito inalienável de dar o nome a seu filho, mas não da escolha do nome. A ordem é: o nome dele será Jesus. O nome está relacionado à missão que irá cumprir. Que missão é essa? Ele será o salvador. Para o povo judeu, o Salvador viria para libertar o povo da dominação estrangeira. No entanto, contrariando essa expectativa, o messias salvará o povo “dos pecados deles” (v. 21b). Assim, o opressor não é de ordem política, mas é o pecado que aprisionou o povo, que o envolve como uma erva daninha e o sufoca. A profecia do Antigo Testamento é invocada para apontar para o nascimento de Jesus como seu cumprimento. O nome dado ao messias no texto de Isaías é Emanuel, isto é, “Deus conosco”. Como se chega a igualar o nome Jesus com “Deus conosco”? No nome Emanuel está contida a promessa de Deus dirigida desde Abraão e a todos os líderes do povo de Israel: “Estou convosco”. Essa promessa recebe como resposta dos agraciados por ela a afirmação de fé: “Deus conosco”. Ora, sendo Jesus quem liberta do pecado, o qual separa Deus de seu povo e o aprisiona, acontece a reconciliação entre Deus e o povo, e assim se concretiza o desejo de Deus de estar com seu povo. Por isso o nome Jesus a ser dado à criança que vai nascer traduz a essência de sua missão: concretizar a presença de Deus entre seu povo, anunciada desde os tempos mais remotos, e promover o restabelecimento da condição de Deus e seu povo. O evangelista retorna ao relato dos fatos (v. 24) e mostra a atitude de José: ele é justo e, como tal, obedece a uma ordem divina. Recebe Maria como sua esposa e assim resolve a questão de suas dúvidas e inseguranças. Faz parte dessa obediência a abstinência de qualquer relacionamento sexual com Maria, o que encontra paralelo na compreensão antiga de que uma mulher dedicada à geração de um filho divino estava indisponível para um contato íntimo humano. Seguindo a ordem divina, José dá ao menino o nome de Jesus.

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Meditação

Confusão – esse é o termo que melhor consegue definir o estado em que se encontra a cabeça de muita gente em relação à sua fé. E não apenas dos chamados “vacilantes” ou “turistas acidentais” em nossos templos e celebrações. Também pessoas com uma bagagem considerável na tradição de participação na vida comunitária balançam perigosamente. Por quê? A progressão geométrica com que surgem novas “igrejas”, novos espaços comprados ou canais exclusivos nos meios de comunicação para difundir teologias, novas interpretações de prosperidade, enfim, novas interpretações, releituras altamente interesseiras do que é salvação e intervenção divina na história – tudo isso chega às famílias com uma eficiência mercadológica indiscutível e literalmente “dá um nó” na prática de piedade de muita gente. Desafio – esse é o termo que melhor define a tarefa que se tem de pregar sobre esse texto. Um homem é orientado por Deus, em sonho, a confiar que a gravidez de sua mulher não é fruto de adultério, mas é obra de Deus, que tem um claro propósito: gerar o Messias, o Salvador, que salvará seu povo do pecado que o afasta de Deus. Que não concederá a esse povo o que ele quer, mas o que ele precisa. Como falar disso em meio a promessas de riqueza, de prosperidade com direitos adquiridos junto a Deus, na condição de seus filhos e filhas, herdeiros de seu reino? Como falar disso numa sociedade brasileira em que a cada 15 segundos uma mulher ainda é agredida por seu companheiro, apesar de todos os avanços já conseguidos em termos de proteção e atendimento à mulher? Em meio a essa confusão de ideias e compreensão de salvação, é mister que se reafirme o nascimento de Jesus Cristo como a concretização do projeto de Deus de fazer morada entre as pessoas. Deus conosco, “Emanuel”, está entre nós e nasce de uma mulher. Deus está conosco, não para nos proteger dos sofrimentos e das dores, mas para nos dar a mão e nos acompanhar em meio a elas. Deus conosco, não para nos conceder conforto, riqueza, solução de todas as nossas dúvidas, mas para nos libertar do pecado, que nos afasta de sua presença e que se manifesta na injustiça, na exploração, na exclusão e produz sofrimento, dor e morte. A presença de Deus neste mundo confirma-se em Jesus Cristo, anunciado desde os tempos mais antigos como o Salvador, gerado pelo Espírito Santo e desafiando um homem a superar suas suspeitas tipicamente humanas para submeter-se confiantemente à vontade de Deus. A presença real e verdadeira de Deus entre nós ajuda-nos a enfrentar nossas próprias inseguranças e medos, mas também a superar todas as formas de insegurança e medo criadas por mecanismos sociais de exclusão, exploração do mais fraco, egoísmo, ganância. Todas essas atitudes são tipificadas a partir de uma realidade só: o pecado, o afastamento de Deus. Pecado do qual Jesus, o Salvador, nascido de Maria, nos quer libertar.

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Imagens para a prédica

As dúvidas de José, clareadas e afastadas pela intervenção do mensageiro divino, oferecem uma boa ponte de embarque para a pregação: Deus nasce em meio às tensões e dualidades da vida humana. Num contexto familiar do casal José e Maria, marcado também por eventuais tensões, como de qualquer casal, Deus escolhe o meio e o caminho de chegar ao mundo. Isso nos autoriza a afirmar: para encontrar Deus neste mundo, não precisamos nos transportar para um mundo acima do qual vivemos. É em meio às dualidades e tensões desse mundo que Deus nasce em Jesus Cristo. As dualidades e tensões têm cara e nome, e deveríamos poder desenhar essa cara e declinar esse nome. Deus conosco revela a aparência de nossas dificuldades e sofrimentos e vem dizer, através de Jesus Cristo, nascido de mulher, que está entre nós. Não para cumprir e atender nossos desejos pessoais de prosperidade, sucesso, fartura, mas para estabelecer seu reino de paz, esperança, inclusão, vida digna. Creio ser essa uma boa forma de embarcar no texto, além de trazer para mais perto da realidade de cada ouvinte o ato totalmente divino do nascimento totalmente humano do Filho de Deus. Uma palavra de Ernst Lange (tradução livre): “Jesus não é nenhum milagre, ele não cai do céu, ele é homem (ser humano) como nós, nascido de mulher e colocado sob a lei (Gl 4.4). Mesmo assim (e para isso a igreja tem tentado apontar com sua pregação insistente sobre a concepção virginal), Jesus não é um pico de produção no processo de autocivilização da raça humana, não é um acaso bem-sucedido da evolução, não é uma rara e casual exceção. Ele é um milagre, um crédito de Deus para sustar a bancarrota da humanidade” (Ernst Lange, em Christsein heute und morgen, p. 203).

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Subsídios litúrgicos

Acolhida: Esta é a fé da misericordiosa graça que a palavra de Deus e sua obra exigem: Que você creia que Cristo nasceu para você e que seu nascimento aconteceu para o seu bem. Pois a Escritura Sagrada não afirma apenas: Cristo nasceu, mas diz: Nasceu para vocês. Também não afirma apenas: Eu anuncio uma alegria, mas diz: Eu anuncio uma alegria para vocês. (Martim Lutero) Confissão de pecados: Deus gracioso e misericordioso. Mais uma vez nos preparamos para comemorar o Natal. Apesar de termos prometido para nós mesmos que desta vez seria diferente, já sentimos que queremos nos preocupar mais com a correria típica desta época do ano e menos com a reflexão e a compreensão do que significa o teu nascimento entre nós. Perdoa-nos por isso. Ajuda-nos com essa confusão em nossas vidas. Dá-nos teu perdão e a força do Espírito Santo para que possamos

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mudar, de fato, nossas atitudes no dia-a-dia. Por Jesus Cristo, Senhor e Salvador, imploramos por teu perdão quando cantamos: C: Perdão, Senhor, perdão. Oração do dia: Senhor, peço-te por alegria, não pela grande alegria celestial, mas pela pequena alegria terrena, que dá asas ao coração e me faz sorrir e cantar. Dá-me a alegria que vence ira e raiva; abraça tudo ao redor; supera a melancolia; afugenta a teimosia; desvanece a tristeza e desfaz a intransigência. Senhor, dá-me a alegria de poder estar ao lado de outras pessoas; de saber que tu te tornaste pessoa, que nasceste, viveste e morreste por mim. Amém. (Deus se faz gente, Ed. Sinodal, p. 118)

Bibliografia GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Matthäus. 5.ed. Berlim: Evangelische Verlaganstalt, 1981. SCHNIEWIND Julius. Das Evangelium nach Matthäus, in: Das Neue Testament Deutsch. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1954.

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PRÉDICA: GÁLATAS 4.4-7

NOITE DE NATAL

ISAÍAS 11.1-9 LUCAS 2.1-7

24 DEZ 2010

Anelise Lengler Abentroth

1

Introdução

“Acendemos uma luz, em nome de Deus: Ele iluminou o mundo e nos deu o sopro da vida. Acendemos uma luz, em nome do Filho: Aquele que veio ao mundo, Nascido na estrebaria, E estendeu sua mão em nossa direção. Acendemos uma luz, em nome do Espírito Santo: Ele circunda o mundo e abençoa a todos Com esperança insistente. Três luzes para a Trindade do amor: Deus sobre nós, Deus conosco, Deus em nosso meio.” Há muitas luzes neste tempo de Natal. As pessoas buscam por momentos e mensagens que lhes devolvam a esperança. Tem-se a impressão de que a felicidade está distante, a paz não é possível. Isaías (11.1-9) projeta para o reinado de Ezequias o sonho de uma sociedade diferente. Esse reinado estará alicerçado no Espírito de Deus e no temor a Ele. Haverá justiça e fidelidade. A paz e a harmonia reinarão. O Novo Testamento (Lc 2.1-7) vê o cumprimento da profecia no nascimento de Jesus, num tempo histórico definido. Tempo de dominação romana sobre a Palestina, tempo de recenseamento, do jugo de impostos pesados, de muita exclusão e abandono social: não havia lugar para José e Maria. Nesse tempo, Deus envia Seu Filho, nascido de mulher (Gl 4.4-7). Deus quer resgatar seu povo para que, de escravo do domínio e da lógica econômica, sociopolítica e religiosa, possa experimentar e viver algo novo: ser filhos e filhas de Deus. Viver a partir dessa relação de adoção, de entrega, de confiança, para um novo “vir-a-ser”: herdeiros do reino de Deus. Não mais escravos que tudo precisam fazer por obrigação, mas filhos e filhas que vivem novas relações por causa de sua fé, no Deus que age e é gracioso. Isso ainda é muito atual, pois também vivemos sob leis, não só jurídicas. Há uma “lógica” que perpassa todas as áreas da vida. Essa está nos escravizando. Ainda hoje, necessitamos aprender a viver uma relação filial que Deus nos deu em Jesus. Isso é Natal!

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Noite de Natal

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Exegese

A Carta aos Gálatas é destinada aos moradores da região da Galácia (Ásia Menor – At 16.6). O apóstolo Paulo visita essa região em sua segunda viagem missionária. Os moradores são gauleses, procedentes da Europa no século II a.C. Diante de uma série de conflitos que surgem nessas comunidades, Paulo escreve essa carta, em que aborda os seguintes temas: fé, liberdade cristã, carne x espírito, lei do amor, igualdade em Cristo, frutos do Espírito. Todos esses temas são perpassados pela mensagem central: a salvação em Cristo, oferecida pela graça de Deus, que nos torna livres e produz frutos visíveis na vida pessoal e no entorno, modificando relações assimétricas existentes no contexto. A Carta aos Gálatas pode ser considerada a epístola da liberdade e da justificação pela fé. A perícope indicada faz parte da segunda parte da carta e trata da filiação divina pela fé em Cristo. Ela é a conclusão de parte central e está estruturada desta forma: V. 4 – Fala do tempo ou marco divisório do agir de Deus. A plenitude do tempo não quer dar margem à discussão sobre a razão de ser nesse ou naquele tempo a vinda de Cristo ao mundo. Mas, sim, Deus é um Deus que age e intervém na história concreta de sua criação. Não é apenas o Criador, que, após a criação, fica distante, apático, olhando tudo de longe. Em Jesus, Deus “desce”, nascido de mulher, neste mundo, sob a lei, sob as normas, costumes, tradições, conflitos e rupturas que a realidade contempla. V. 5 – Paulo dá a entender que há um perigo rondando a comunidade: há judeus querendo impor aos gentios convertidos a circuncisão e a obediência à lei de Moisés, como condição para a filiação de Deus. Ele afirma que a vinda de Cristo é a virada da história. Não são as leis e o cumprimento dos preceitos que nos fazem herdeiros de Deus. Mas é Ele mesmo, com o envio de Jesus ao mundo, que salva. A lei faz com que as pessoas acreditem obter a salvação a partir de méritos próprios. Paulo compreende o viver sob a lei como o ser escravo(a). O Filho de Deus, nascido sob a lei, veio resgatar os que vivem sob o seu peso, a fim de “vir-a-ser” (receber a adoção) de filhos e filhas. V. 6 – A divina adoção filial dá ao coração (ao âmago) o Espírito do Filho de Deus. Esse novo ser que recebemos corresponde ao novo espírito, a uma nova mentalidade, um novo querer e agir. É a ousadia e a confiança de dirigir-se a Deus “como filhos amados ao querido Pai” (M. Lutero, no Catecismo Menor). Abba é a expressão usada pelas crianças ao querido pai. Expressa relação estreita, afetiva, de entrega, de segurança, de redenção. V. 7 – Essa nova relação não permite um viver escravizado. A relação filial não é escrava. Amor de pai, amor de mãe confere autonomia e liberdade aos filhos e filhas. E a quem Deus torna filhos e filhas por graça, esses se tornam herdeiros de seu reino. Sob o jugo da lei, numa observância rígida e cega, somos escravizados e muitos, excluídos. Nessa condição, não há direito à herança. Daí a razão pela qual, na plenitude dos tempos, enviou o seu Filho para resgatar os que estavam sob a lei para receber a adoção de filhos e filhas. Somente filhos e filhas recebem a herança.

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Chamo a atenção para a reflexão de Haroldo Reimer no PL 30. Ele sugere que se busque um destaque mais positivo da Torá (Lei). A fé em Jesus não revoga ou abole a lei. Jesus mesmo disse que não veio para revogar a lei, mas para cumpri-la. O autor diz: “No caminho da pessoa rumo à liberdade, a Lei/Torá é um esteio importante para conduzir a pessoa, a comunidade ou o povo para uma vivência eticamente regrada” (p. 34). A vivência em sociedade necessita de regras claras e limites. É preciso manter uma “dialética entre a vivência da liberdade na fé e o serviço no amor e na letra dos mandamentos éticos” (p. 35).

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Meditação

Em nossos dias, a noite de Natal está carregada por uma prática simbólica, permeada por ritos e tradições. Diz-se que as pessoas estão mais predispostas a atitudes humanitárias, de generosidade, de reconciliação e de paz. Muitas celebrações de encerramento do ano aconteceram: grupos de trabalho nas comunidades, entidades, clubes sociais, escolas etc. Também as indústrias, os comércios procuram marcar esse tempo com algumas gratificações aos funcionários e colaboradores. Tudo isso dentro da lógica do “dar para receber”. Creio que o maior desafio para a pregação cristã nesse dia é diferenciar dos sentimentalismos e dos apelos que muitas mensagens natalinas nos remetem. Os textos previstos podem ajudar-nos muito. A perícope de Lucas 2.1-7 situa historicamente o nascimento de Jesus. Deus vem ao mundo num tempo determinado. Tempo de recenseamento, de recontagem da população não para melhorar suas condições de vida, mas para melhor recolher impostos. José e Maria, filhos desse tempo, obedecem à ordem do imperador e colocam-se a caminho. E Deus escolhe esse casal, da descendência de Davi, para dar à luz a Seu Filho. Mesmo assim, como talvez para tantos outros, não havia mais lugar. Em tempo de dominação, há muito sofrimento, exclusão e indiferença. Quem se importa com um casal de migrantes pobres, cuja mulher está prestes a dar à luz? Pois é justamente aí que Deus se manifesta e está presente. Em Gálatas 4.4-7, Paulo novamente se reporta à vinda de Jesus como a plenitude do tempo: o marco divisório da vida sob a lei e sob o amor e a graça de Deus. Sob a lei não há lugar para todos(as). Alguns não merecem, não fazem por merecer. Porém, sob a graça de Deus, as pessoas são resgatadas e recebem uma nova condição: tornam-se filhos e filhas. E em seus corações recebem um novo Espírito, semelhante ao que Isaías (11.1-9) descreve como: espírito de sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, conhecimento, temor a Deus. Esse Espírito não permite que se viva buscando uma obediência cega a normas, regras e tradições, ou numa prática de vida centrada em si mesmo e em recompensas. O Espírito novo baseia-se no amor de Deus, na consciência infantil de saber-se aceito, amado, seguro e cuidado pelo Deus que veio ao mundo como Pai amoroso e querido. A partir desse amor, somos livres para ir ao encontro de todos, como Jesus o fez, especialmente daqueles que a lei excluía, dos diferentes. Deus nos faz aprender com as crianças, pois o seu prazer é interagir, buscar, conhecer e

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alegrar-se com crianças. As diferenças não atrapalham; ao contrário, elas é que aproximam, despertam atenção, compaixão e partilha. Em Gálatas 4.5, certamente encontramos alusão ao nosso Batismo. Jesus Cristo, nascido de mulher, nos resgatou. Concedeu a todos o morrer da velha natureza humana para uma nova dignidade: de filhos e filhas de Deus. É aí que reside o maior presente de Natal: nossa libertação de um viver e agir centrado em nós mesmos e nos apelos da sociedade (escravidão ao capital, a imagens, etc.), para um agir livre e comprometido com a justiça e a fidelidade à vontade de Deus, onde as diferenças não são uma ameaça, mas a possibilidade criativa a amorosa para um viver em paz. “Lobo e cordeiro, leão e cabrito, bezerro e leão pastarão juntos.” Ambos descobrirão a necessidade que têm um do outro e que há formas de coexistir sem se machucar, sem se destruir ou devorar. As perícopes remetem-nos a uma constante avaliação da maneira como vivemos essa filiação divina inaugurada por Jesus no Natal. Estamos constantemente na tensão dialética entre a ruptura e a continuidade. Mas é inegável que o que Deus fez no primeiro Natal não nos permite voltar a viver a “velha mentalidade” sem correr o risco de nos tornar escravos e de jogar fora a herança graciosa. Ser filhos e filhas é viver a liberdade que Jesus nos ensinou: a liberdade de servir em amor. É uma profunda reorientação pessoal diante de tantas propostas e apelos escravizantes.

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Imagens para a prédica

1 – Proponho que se motive a comunidade a pensar nos mimos e presentes e gratificações que receberam nos últimos dias. Também pedir que cada um pense nos critérios que usou para presentear pessoas nesse Natal. Normalmente pensamos: “Recebi porque mereci, participei, trabalhei, me dediquei etc... Vou presentear quem também trabalhou, esforçou-se, esteve a meu lado e colaborou e merece” O mérito está bem presente na economia de mercado, que perpassa todas as relações (até as afetivas). Também as “igrejas” andam vendendo o evangelho ou anunciando que a graça e as bênçãos de Deus são para aqueles que fazem por merecer. Nem precisamos abordar o presentear nas diferentes classes sociais, pois essa lógica meritória está presente em todas. Enfrentar essa lógica e apontar para o real presente de Natal e suas consequências é nosso desafio. 2 – Certo dia, no aniversário de Jesus, apareceu uma criança tímida e triste na sua casa. – Chega mais perto, disse Jesus. Por que estás com medo? – Eu não trouxe nenhum presente para ti, respondeu a criança. – Oh, mas eu gostaria que me desses três coisas, disse Jesus. – Mas eu não tenho nada para te dar, respondeu a pequena encabulada. – Podes dar-me o desenho que fizeste hoje de manhã?, perguntou Jesus. – Ninguém gostou desse desenho, disse a criança com tristeza.

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Noite de Natal

– É por isso mesmo que eu o quero, disse a criança na manjedoura. Quero que sempre me dês aquilo que os outros não gostam e também aquilo que tu mesmo não gostas em ti e o que te deixa frustrada, nervosa e triste. – É isso mesmo que queres, Jesus?, espantou-se. – Como segundo presente dá-me o teu prato. – Eu o quebrei hoje de manhã. – Sim, é por isso que o quero. Quero consertá-lo. Quero que sempre me tragas o que quebra em tua vida. E como última coisa, quero as respostas que deste a teus pais quando te perguntaram se havia quebrado o prato. Aí a criança ficou triste e disse bem baixinho: – Eu menti! – Eu sei, respondeu Jesus. Mas quero que tragas sempre para mim o que está errado: tua maldade, as mentiras, tuas tristezas, tua inveja, tua falta de confiança. Não precisas carregar tudo isso contigo. Quero libertar-te e, a partir de hoje, podes vir sempre conversar comigo. Hoje, no meu aniversário, é um dia especial e apropriado para fazermos um acordo: – Minha alegria para tua tristeza, – minha vida plena para o teu vazio, – minha paz para tua ansiedade, – minha verdade para tuas mentiras, – meu amor para cada dia do novo ano, – minha companhia para viveres em comunhão com todos. – Obrigado, Jesus!, respondeu a criança. Assim terei um ano novo e uma vida mais feliz! (Adaptação de uma história do Zimbábue, África)

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Subsídios litúrgicos

Acolhida: Barriga bem grande, pés inchados... Cansados da viagem, com fome e sedentos, Entraram em Belém pedindo hospedagem. Cumpriram as ordens daquele que manda e impõe o seu poder. Sem pensar na justiça, pois a lei da cobiça é a sede de TER! Chegaram, bateram... andaram. Bateram e nada se abria. Tudo estava cheio! Restava somente a estrebaria. E lá se abrigaram no meio do feno, junto aos animais... Com dores de parto, sem conforto, sem quarto... Não aguentou mais! E Ele nasceu! Palhas e fenos o abrigaram e lhe deram calor! Lágrimas, sorrisos, braços e abraços o cercaram de amor... Lá fora corria a notícia do censo e só se ouvia o agito do povo. Mas ninguém sabia que, na estrebaria, chegava o novo Rei!

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Noite de Natal

E lá estavam os animais, em ato contemplativo, numa inquieta suspeita: Pobre criança! Será que o mundo se encanta ou será que o mundo a rejeita? Pobre criança! (poesia do P. Jairo dos Santos) “O reformador Martin Luther disse: Esta é a fé da misericordiosa graça que a palavra de Deus e a sua obra exigem: que você creia que Cristo nasceu para você e que o seu nascimento aconteceu para o seu bem. Pois a Escritura Sagrada não afirma apenas: Cristo nasceu, mas diz: Nasceu para vocês. Também não afirma apenas: Eu anuncio uma alegria, mas diz: Eu anuncio uma alegria para vocês.” “De palavras e ações que provocam discórdia, preconceito e ódio, Ó Deus, liberta-nos. De desconfianças e medos que são obstáculos no caminho para a reconciliação, Ó Deus, liberta-nos. De acreditar e dizer mentiras sobre outros povos e nações, Ó Deus, liberta-nos. Da indiferença cruel ao clamor dos famintos e desabrigados, Ó Deus, liberta-nos. De tudo o que nos impede de cumprir tua promessa de paz, Ó Deus, liberta-nos. Salva-nos de nossa própria ruína, oramos , Ó Deus, E por tua graça e presença restauradora resgata-nos... Para as águas de descanso e pastos verdejantes, Ó Deus Criador, salva-nos. Para a liberdade e perdão que encontramos em ti, Ó Cristo Ressurreto, salva-nos. Para a difícil tarefa de amar os nossos inimigos, Ó Jesus, salva-nos. Para servir-te em alegria no teu nome, Servo de todos e todas, salva-nos. Para a promessa de novo céu e nova terra, Para a integridade da justiça, Para o poder de sua paz, Ó Espírito Santo, salva-nos hoje e nos dias porvir. Transforma as nossas vidas e as nossas igrejas com o poder de tua paz, ó Deus. Domine nossos medos e enganos com a promessa de tua presença. Faze de nós sinais de tua generosidade e justiça. Ilumina nossos dias com a tua presença, para que andemos em tua verdade e em teu nome sejamos uma encarnação de teu amor. Amém. (Em tua Graça, Livro de Cultos e Orações. CMI, p. 39-40)

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Noite de Natal

Bênção: Que o Deus “Aba” querido Transforme a todos com o Seu amor. A dureza de corações, em ternura. O ódio, em compreensão e amor. A tristeza, em alegria. O lamento, em esperança. A indiferença, em amizade. A passividade, em ação. A discórdia, em paz verdadeira. Assim os abençoe o Deus, o Pai e Mãe, o Filho e o Espírito Santo. Amém.

Bibliografia EM TUA GRAÇA, Livro de Culto e Orações, Nona Assembleia, Conselho Mundial de Igrejas, Genebra, 2006.

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NATAL DE NOSSO SENHOR

PRÉDICA: TITO 2.11-14

25 DEZ 2010

ISAÍAS 9.2-7 LUCAS 2.1-14(15-20)

René Krüger

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Relação entre os três textos

O texto do Salmo expressa o pleno reconhecimento da justiça, da misericórdia e da verdade de Deus e transforma essa confissão numa promessa de bem-aventurança. O texto de Lucas é bastante conhecido: nascimento de Jesus, os anjos e os pastores. Estabelece um gigantesco e assombroso arco que vai desde a figura mais enaltecida de seu momento, o imperador Augusto de Roma, a um bebê recém-nascido num lugar “impossível”, em condições pobres e sem nenhuma “glória”. E precisamente desse bebê, de aparência insignificante, que se afirma o mais grandioso que se pode dizer: ele é o Salvador, Cristo (o Messias esperado ansiosamente) e Senhor. Os humildes cuidadores de gado pequeno (ovelhas?) são os primeiros beneficiados com essa notícia, confirmam e a compartilham com outras pessoas. No texto dessa epístola pastoral, atribuída ao apóstolo Paulo e dirigida a Tito, um cristão de procedência gentílica (isto é, não-judia), esses antecedentes (do Salmo e de Lucas) combinam numa declaração querigmática que sintetiza numa forma muito condensada os elementos nucleares/centrais da fé cristã. A unidade de Tito 2.11-14 quer dar fundamentação à vida alternativa que há de viver a comunidade cristã diante de falsas acusações (Tt 2.8-10). Além de resistir a essas calúnias, a vida cristã irrepreensível será um testemunho claro do evangelho, oferecido ao entorno.

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Exegese

A primeira parte do capítulo 2 o autor desenvolve uma série de exortações dirigidas aos anciãos, anciãs, jovens esposas, homens jovens, escravos e a Tito mesmo, como ministro que deve dar o exemplo para a igreja. Ao terminar esses conselhos, proporciona um fundamento para a harmonia que deve reinar na comunidade. Essa é a unidade do texto para a pregação de Natal. Trata-se de uma unidade querigmática, na qual o autor desenvolve três dimensões teológicas correspondentes a três passos histórico-salvíficos: • a obra de Deus: manifestação da graça de Deus na entrega de Jesus Cristo por nós; • nossa transformação num povo que pratica a vontade de Deus; • a expectativa da manifestação definitiva do Senhor.

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V. 11 – A partícula grega gár indica que o que segue está vinculado explicitamente com o anterior. A saber, a unidade querigmática dá fundamento às exortações. E não somente a essas em Tito. É comum que os autores das epístolas fundamentem cuidadosamente suas propostas práticas no quérigma, introduzindo de tanto em tanto núcleos teológicos em suas listas de sugestões. A vinculação entre o conteúdo essencial da fé e a vida prática também é sublinhada pelo emprego do adjetivo sotérios, salvífico, que reitera a referência ao Sotér (Salvador) do v. 10 e antecipa o Sotér (Salvador) do v. 13. Essas reiterações indicam qual é o “coração” do texto. O verbo epefanê, foi manifestado, emprega-se no helenismo para referir-se expressamente a aparições de divindades (Isis, Artemisa, Afrodite). Mas, em Tito 2.11, não se trata de uma tal aparição, senão da graça salvífica de Deus. A epifania definitiva se realizará somente no final dos tempos (v. 13). É chamativa a fórmula a todos os homens. Embora esse universalismo pertença à bagagem teológica paulina autêntica (veja 2Co 5.14; Rm 8.32; 1Tm 2.6). Essa dimensão universal contradiz todo o particularismo, seja religioso, étnico, cultural, de tradições ou o que sempre foi, como foi sustentado na Antiguidade, apesar de algumas concessões judias à salvação de alguns gentios, como também à superação de tais fronteiras por alguns filósofos e religiões de mistério. Aqui é possível ver uma referência à celebração da Ceia do Senhor. Toda a unidade Tito 2.11-14 pode ser lida nessa explicação. A formulação a todos os homens equivaleria, então, a por muitos na explicação de Jesus a respeito de seu sangue derramado (Mc 14.24; Mt 26.28). V. 12 – Nota-se a mudança do tempo verbal do passado do v. 11 ao presente de ensinando. O que apareceu (v. 11) atua imediatamente agora em nós (v. 12). A oração final, encabeçada pela conjunção subordinante hina, para que, indica que há um processo de superação expressado pelo particípio aoristo negando, o qual vem primeiro; e o verbo no subjuntivo aoristo vivamos. O mundo do jovem cristianismo qualificava o estilo de vida do paganismo como impiedade, tendo herdado essa qualificação do mundo religioso judeu. Era a maneira de expressar o ter tomado distância de um estilo de vida equivocado, anterior à sua conversão a Jesus Cristo. A essa forma superada também pertencia o que se qualificava como desejos mundanos. Sob esse conceito se subentendiam diversas coisas, desde determinadas práticas sexuais até os espetáculos públicos do entorno romano. Cirilo de Jerusalém fala do teatro, corridas de cavalos e caçadas; Tertuliano menciona o circo e as procissões com imagens de divindades que exibiam as pompas das crenças pagãs que tinham por objetivo suscitar certos desejos. Frente a esses desejos, manifestações, mentalidades e práticas de seu entorno greco-romano, os cristãos devem desenvolver uma orientação diferente e manifestá-la em práticas novas. O autor já havia se referido à sobriedade nos v. 2 e 5 do mesmo capítulo. É a dimensão da sensibilidade, o autocontrole, a modéstia, a moderação. A justiça evidencia-se numa ampla tradição que está enraizada na concepção bíblica do Deus justo e sua exigência de relações justas entre os seres humanos, como reflexo de sua própria justiça. A terceira marca é a piedade, que se opõe à impiedade da vida não-cristã, superada precisamente pela transfor-

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mação operada por Deus em nós. Essa transformação há de se manifestar agora a Cristo na vida das pessoas crentes. Os termos éticos empregados pelo autor também aparecem como virtudes cardeais dos moralistas gregos clássicos: prudência, justiça, força, moderação; mas cabe destacar que, em Tito, não aparece a força (que é mencionada em outros textos judeus do entorno: 1 e 2 Macabeus, Filo e Josefo), de maneira que não cabe especular com uma influência platônico-helenista sobre o autor da epístola. V. 13 – Agora o autor introduz a dimensão escatológica. Também aqui pode haver uma referência implícita à Ceia do Senhor, pois essa era celebrada na expectativa da manifestação definitiva do Senhor. A formulação aguardando a esperança bem-aventurada soa algo curioso, pois geralmente cremos que a esperança é uma atitude que abrigamos em nosso interior. Aqui aparece como algo exterior, algo que vem a nós da parte de Deus. Na existência cristã, existe uma tensão contínua entre o passado (o ato da iniciativa salvífica de Deus em Jesus Cristo), o presente (a vida cristã) e o futuro (o que ainda esperamos que se manifeste plenamente). Esses três momentos ou dimensões inseparáveis sempre estão presentes em cada momento de nossa vida. Pertencem ao mistério expressado na feliz formulação “já e ainda não” (acrescentar: “do todo”). Cristo já se manifestou, mas ainda se manifestará plenamente. Mas não estamos sentados entre dois cavalos, com a ameaça de uma inexorável queda. É um só lugar em que estamos parados e caminhamos ao mesmo tempo. Estamos percorrendo o caminho entre ambas as manifestações: a já realizada, que o autor indica no v. 11, e a esperada, mencionada no v. 13. Estamos, somos, vivemos e nos movemos entre essas duas manifestações, a primeira recebida com fé e a segunda aguardada ou esperada. Nossa ética pessoal, familiar, comunitária e social deve-se a essas manifestações. Esse modelo do “já e ainda não” é uma superação da doutrina das duas inteligências eternas, cujos espaços estão clara e inconfundivelmente separados. A fórmula Grande Deus é afirmação da fé comum no âmbito do antigo próximo Oriente e, em seguida, do helenismo (veja At 19.27-28, onde o epíteto é aplicado à deusa Diana). É possível que por ali também tenha passado o culto cristão sob a forma de alguma aclamação. Segue uma série de genitivos que causaram alguma dor de cabeça à exegese. Qual é a relação entre esses genitivos? Haveria três possibilidades: 1) O grande Deus e Salvador é Jesus Cristo. A favor dessa possibilidade fala a falta do artigo junto a Salvador no texto grego. 2) O autor distingue entre Deus e Jesus Cristo. Então estaria dizendo que na epifania final a grandeza de Deus se manifestaria na parusia de Jesus Cristo. 3) De Jesus Cristo seria oposição a da glória, querendo o autor dizer: a manifestação da glória do grande Deus e a de nosso Salvador, a saber, a manifestação da glória de Jesus Cristo. Essa última possibilidade é rebuscada e equivocada, já que a revelação de Jesus Cristo condicionaria a de Deus. A segunda possibilidade é uma construção artificial, sem base suficiente no próprio texto.

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Ora, a rejeição da primeira leitura vai de mãos dadas com a afirmação errônea de muitos exegetas que sustentam que Jesus Cristo não é chamado de Deus no Novo Testamento. Não é lícito desconhecer os dados evidentes dos textos simplesmente porque o que dizem não se enquadra nos prejuízos teológicos de quem os estuda. É a filosofia simplista e cega de “não existe aquele que não deve ser”. Lamentavelmente, não temos espaço suficiente para ampliar aqui sobre as afirmações neotestamentárias explícitas acerca da divindade de Jesus Cristo, não somente como Filho de Deus, mas como Deus, mas seria interessante que Proclamar Libertação dedicasse em algum momento um espaço para uma tal análise. Por três motivos optamos pela tradução manifestação gloriosa de nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo (edição Almeida revista e atualizada – 1993: Manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus): • Não há artigo antes de Salvador no texto grego. A construção da frase é, pois, clara. • O autor pode qualificar como Salvador tanto a Deus (Tt 1.3; 2.10; 3.4) como a Jesus Cristo (Tt 1.4;3.6). Se ele concebe com clareza essa “compatibilidade”, também pode afirmar que Jesus Cristo é Deus. A teologia também é, pois, clara. • Uma aproximação sem preconceito da afirmação de Jesus Cristo como Deus. Além disso, o judaísmo da diáspora via Deus como Salvador, sendo-lhe favorável um dos significados de Sotér, Salvador, como benefactor na religião grega. V. 14 – Agora vem uma conclusão teológica. O verbo se deu, no aoristo, remete à obra já realizada, como o primeiro verbo da unidade no v. 11. Mas a forma verbal seguinte a fim de remir-nos tem caráter final e remete à obra contínua da graça que nos ensina. Novamente estamos diante dessa combinação, redacionalmente tão bem alcançada, dos diversos momentos de um único processo libertador e salvífico. A formulação a fim de remir-nos de toda iniquidade é um composto que provém do Salmo 130.8: É ele quem redime a Israel de todas as suas iniquidades (pecados). A combinação com o conceito de povo próprio de Deus, composta a partir de Ezequiel 37.23 (eles serão o meu povo) e Êxodo 19.5 (sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos) destaca, por um lado, o distanciamento de toda a iniquidade e, por outro, o compromisso de marcar a diferença. A libertação do povo de Israel da escravidão do Egito teve o claro propósito de convertê-lo em um “povo especial”, próprio de Deus, propriedade dele. O autor da epístola anima-se a aplicar essa linguagem agora à igreja cristã. O quérigma da libertação realizada por Deus e concretizada na criação do povo zeloso de boas obras tem, pois, um conteúdo ético decisivo, como o desenvolveu o autor na primeira metade de sua carta e como o fará agora na segunda.

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Meditação

Apesar do espaço litúrgico enraizado amplamente na tradição cristã, Tito 2.11-14 não é um texto tipicamente natalino. Mas a ordem dos textos o tem previsto para o Natal, e isso significa que precisamos enfrentar esse desafio. Esperamos que o texto proporcione alguma boa surpresa, no sentido de servir para “despertar-nos” da “letargia natalina”. Ou talvez de falsas expectativas com respeito ao que se “deve dizer” no Natal. Nessa magna festa da cristandade, a comunidade chega com diversas expectativas para a celebração. Uma grande parte vem com recordações da infância e carregada de emoções, que, longe de serem um impedimento para a recepção da mensagem evangélica, podem constituir uma ponte para a novidade que contém a proclamação, quando essa não tem um tom de negação (Natal não é... não significa... não pede isso, mas aquilo...), mas que busca as pessoas ali onde se encontram nesse momento e leva-as cuidadosamente a admirar a incrível profundidade da obra de Deus em Jesus Cristo a nosso favor. Então, com referência à manifestação da graça de Deus, o autor não está falando do ato singular do nascimento de Jesus Cristo, mas sim de toda a intervenção de Deus através de Jesus Cristo, desde sua concepção até sua glorificação, a pregação pode apresentar com a força o conteúdo do quérigma ou também levar os presentes a uma decisão alegre de responder com sua própria vida a essa obra de Deus, cuja postura na cena terrena, por assim dizer, estamos celebrando hoje. Se bem que fica proibido traçar paralelos e semelhanças simplistas entre aquele mundo de Tito e o nosso, não é demais dizer que também em nosso mundo atual vemos múltiplas manifestações de impiedade, paixões mundanas, insensatez, injustiça, iniquidade e impureza e que Deus requer que seu povo viva de maneira diferente, alternativa e claramente oposta. Que pratique sensatez, justiça, piedade, boas obras. É tarefa de quem prega indicar situações concretas tanto do primeiro (o mundo ímpio, injusto e impuro) como do segundo (práticas de sensatez, justiça, boas obras). Não é tarefa de quem escreve a meditação para Proclamar Libertação inventar tais exemplos.

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Rumo à prédica

Há duas linhas fundamentais nesse texto, e a ênfase da pregação pode recair sobre qualquer uma delas, sempre que a outra esteja implicada. Primeira: a linha querigmática. Enfatizá-la significa admirar a grandeza de Deus, que fez algo tão grande por mim, pessoa pequena e insignificante, por nós, comunidade, quem sabe, grande em número ou edifícios, mas pequena em amor; pela humanidade, titânica em resultados positivos, mas terrível em seu caráter destrutivo e autodestrutivo. Essa obra gigantesca de Deus teve um começo terrenal pequeníssimo e insignificante no nível das aparências: uma gravidez de uma virgem/moça, um nascimento numa estrebaria de animais, um bebê em panos colocado num cocho. Apenas uma pequenina luzinha numa noite escuríssima.

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Segunda: a linha ética. Enfatizá-la significa fomentar uma decisão alegre, bem de acordo ao ambiente natalino, de querer viver como o Senhor o quer. A obra do Senhor marca uma diferença de vida com respeito aos que não aderem a esse Senhor. Dentro das estruturas do mundo, a vida está marcada por impiedade e desejos mundanos; na esfera salvífica, a vida caracteriza-se por sobriedade, justiça e piedade. Deus nos chama a discernir com sobriedade a buscar e praticar a justiça e a ser fiel a ele. Em meio a uma total relativização, a um individualismo exacerbado pelo sistema neoliberal, em meio a um egoísmo de “salve-se quem puder”, a filosofia do eu, as tribos urbanas enfrentadas em ferozes lutas e os países em guerra, aí a igreja tem uma valiosa oferta para fazer: o evangelho da graça, o perdão, a aceitação mútua, o serviço, a vida em comunidade, o valor de cada ser humano. É decisivo acentuar que isso vai na contramão com a tendência pós-moderna atual, para a qual tudo é o mesmo, tudo é igual, nada importa, tudo é bom, bem como diz a tradicional saudação: “Tudo bem?” “É, tudo bem!” A justiça não é uma mera prática jurídica, mas na concepção bíblica deve ser marca fundamental da vida de todos os membros do povo de Deus. Mas não como um esforço de resultados meritórios por causa de uma grande quantidade de atos individuais de justiça, mas sim como uma atitude de vida correspondente ao ato de haver sido justificado por Deus mesmo, para empregar a terminologia paulina e evangélica. Essa vida de acordo com a vontade do Senhor é possível porque chegamos de uma intervenção de Deus em Jesus Cristo, celebrada também hoje nesse encontro natalino; caminhamos com esse Jesus Cristo e nos dirigimos a sua manifestação plena e definitiva. Estamos entre suas duas manifestações, a já acontecida e a que ainda acontecerá no final dos tempos.

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Subsídios litúrgicos

Para qualquer uma das linhas sugeridas para a pregação, pode-se pensar no seguinte subsídio ilustrativo: antes da leitura do texto, colocar uma vela apagada sobre o altar ou sobre o púlpito, apagar todas as luzes no templo, acender a vela e pedir que os presentes pensem sobre o que lhes sugere acender uma vela em plena escuridão. Não é necessário compartilhar as associações em voz alta. Em seguida, deixa-se a vela acesa obre o altar ou púlpito, e as luzes do templo são acesas e desenvolve-se a prédica.

Bibliografia HOLTZ, Gottfried. Die Pastoralbriefe. Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 19925. CARSON, D.A.; FRANCE, R.T.; MOTYER, J.A.; WENHAM, G.J. Nuevo Comentario Bíblico. Siglo Veintiuno. El Paso, Texas: CBP, 2000. KEENER, Craig S. The IVP Bible Background Commentary, New Testament. Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1993.

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1º DOMINGO APÓS NATAL

PRÉDICA: MATEUS 2.13-23

26 DEZ 2010

ISAÍAS 63.7-9 HEBREUS 2.10-18

Paulo Roberto Garcia

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Introdução

Respira-se o ambiente fraterno do Natal. Neste primeiro domingo após o Natal, somos desafiados a refletir sobre um texto com sinais de violência, em especial a violência contra as crianças. Herodes quer tirar a vida da criança! Por que o Evangelho de Mateus coloca, praticamente na abertura do evangelho, esse texto? Temos de atentar que o evangelho, ao apresentar, logo após os textos celebrativos pelo nascimento de Jesus, uma história marcada pela violência e fuga, quer dar um caráter fundamental a essa perícope. A proteção da vida dos pequeninos é um dos temas centrais do evangelho. Os pequeninos são caracterizados pelas crianças; pelas mulheres; pelos enfermos; pelos endemoninhados, pelos estrangeiros, por todos aqueles que sofrem à margem da vida. Por isso, na abertura do evangelho, surge a contradição entre a alegria e o medo pelo nascimento da criança Jesus. Magos e reis; adoradores e assassinos, violência e proteção. Tudo isso se entrelaça no início do evangelho.

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Exegese

Antes de apontar detalhes exegéticos na perícope, é importante apontar alguns pressupostos do Evangelho de Mateus. O embasamento desses pressupostos, que apresenta novidades, pode ser encontrado na bibliografia ao final desta reflexão. 2.1 – Um evangelho da Galileia Diferentemente da maioria dos comentaristas, localizamos o Evangelho de Mateus na Galileia, como fruto de uma comunidade judaico-cristã, escrito entre os anos 80 e 90 d.C. e participante de um embate teológico sobre o verdadeiro judaísmo. São dois grupos judaicos em debate. De um lado, temos o judaísmo formativo, que tem a sinagoga como seu lugar de reunião e a Lei como referência religiosa, encontrando nela o caminho para o perdão de pecados. Do outro lado, temos os judeu-cristãos de Mateus, que têm na casa seu lugar de reunião e em Jesus – o cumpridor pleno da Lei – sua referência de fé e de perdão de pecados. Esses dois grupos têm – pós-destruição do Templo de Jerusalém – um embate na busca de se consolidar como o verdadeiro Israel. A Lei de Moisés ocupa o centro desse debate.

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1º Domingo após Natal

O Evangelho de Mateus quer fortalecer sua comunidade nesse embate teológico, oferecendo aos participantes dela, em especial aos que são influenciados pelo pensamento da sinagoga, elementos teológicos que apontem Jesus não só como o verdadeiro intérprete da Lei, mas como aquele que perdoa os pecados. Desse modo, o evangelho tem duas ênfases importantes: a interpretação da Lei e a figura de Moisés. 2.2 – A Lei e os pequeninos No embate teológico, a pergunta de fundo é: o que significa guardar a Lei? Para o grupo da sinagoga, guardar a Lei significava cumprir uma série de preceitos que os aproximava de Deus. Imitar Deus na misericórdia (esmolas, vestir os nus) e na piedade (descansar no sábado, comer cumprindo os rituais de pureza, conhecer a Lei). Isso se constituía em obrigação e em lista de preceitos a cumprir. Por isso o grande desafio era normatizar o cotidiano para definir como cumprir cada preceito (ou seja, definir o que era permitido e o que era proibido). Para o grupo de Mateus, guardar a Lei era compreendido como a prática da misericórdia. Jesus é apresentado guardando a Lei à medida que priorizava a vida, em especial a dos pequeninos. Desse modo, a comunidade é desafiada a seguir os passos de Jesus: “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me” (Mt 25.35-36). A pergunta dos justos é: “Quando fizemos isso?”. Nessa pergunta percebe-se que a ação em favor da vida dos mais fracos é espontânea; ela parte da existência de fé e não de uma lista de obrigações para cumprir. Desse modo, percebemos que, no evangelho, cumprir a Lei nasce da espontaneidade da vivência cristã. É o caminho do discípulo. 2.3 – A Lei e Moisés Há, para os dois grupos que olham a Lei tendo como referencial a fé, uma valorização muito grande de Moisés. Para o grupo da sinagoga, eles eram portadores da tradição oral da Lei (a Torá oral), dada por Moisés aos fiéis intérpretes como um complemento à Lei escrita. Assim, somente as lideranças ligadas à sinagoga e às casas de rabinos intérpretes da Lei teriam a autorização para determinar o certo e o errado em torno dela. Já para o grupo de Mateus, Jesus era um novo Moisés. Por isso o evangelho reconta a tradição oral acerca dos gestos e palavras de Jesus, tendo como pano de fundo a vida de Moisés. Ele é salvo de uma matança; vai para o Egito; volta do Egito; proclama uma nova lei em um sermão proferido no monte (5-7); proclama cinco sermões (5-7; 10; 13; 18; 24-25) e, no fim de sua existência terrena, antes de sua ascensão, envia os discípulos desde um monte (28). Com isso temos Jesus como aquele que é o fiel intérprete e, mais do que isso, um novo Moisés a orientar a vida de fé de seu povo.

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1º Domingo após Natal

2.4 – A perícope Nossa perícope, como uma abertura do evangelho, prenuncia todos esses temas. Ela se apresenta bem estruturada em um esquema com três unidades (v. 13-15; 16-18; 19-23). A primeira e a última unidades são correlatas. Ambas iniciam com uma ordem dada a José, em sonho, usando o verbo levantar (egertheis) e a mesma frase: “toma o menino e a mãe dele” (v. 13 e 19-20). A essa ordem ele obedece e, no final, há um anúncio de cumprimento de profecia (v. 15 e 23). No centro, está a violência de Herodes contra as crianças. Nessa estrutura se conjugam os dois temas vistos acima: Moisés, cuja vida será espelho da história de Jesus, e a defesa da vida dos pequeninos contra os poderes do mal. Jesus, ao ser apresentado por Mateus, seguindo a mesma trajetória da vida de Moisés, é anunciado como aquele que vem libertar seu povo e orientá-lo para a terra prometida. Esse novo Êxodo se concretizará na vivência da comunidade. Nela encontramos a formação de uma comunidade de fé que se apoia mutuamente; que se perdoa e atua em favor da vida. Uma comunidade que dá tanto valor à vida vivida em função do reino de Deus a ponto de ser comparada a alguém que, ao encontrar um tesouro ou uma pérola de grande valor, vende tudo o que tem para possuí-la. O outro tema, a defesa da vida, em especial dos pequeninos, aparece em toda a perícope. Ao apresentar a história de Jesus à luz da trajetória de Moisés, a perícope enfatiza a proteção de Deus ao pequenino Jesus e à sua mãe. Quando lemos a unidade central da perícope (v. 16-18), defrontamo-nos com a violência contra os pequenos. Herodes, em seu intento de matar a criança, pratica uma violência sem limites. Há pranto sem medida e, uma vez mais, a unidade termina com o cumprimento de uma profecia. Essa, porém, de dor e de pranto. Desse modo, na união das unidades da perícope, temos no centro a violência que se abate sobre a comunidade. Porém a violência não vence. Através dos sonhos, Deus orienta José no caminho de proteção da vida do pequeno Jesus e de sua mãe. A obediência de José é instrumento da salvação de Deus. Assim, Jesus – o novo Moisés – é, ao mesmo tempo, o pequenino protegido, juntamente com sua mãe. Esse tema – a proteção dos pequenos –, tendo Jesus como protagonista, já aparecera no momento da descoberta da gravidez: José, ao tomar conhecimento de que Maria estava grávida, ao invés de denunciá-la para que ela fosse apedrejada e morressem, ela e a criança, ele “sendo justo” (na perspectiva do evangelho) resolve fugir. Assim, ele chamaria sobre si a maldição, mas preservaria a vida da mulher e da criança. A proteção aparece também quando Deus orienta os magos a não voltar a Herodes, e, finalmente, em nossa perícope, orienta José a fugir para o Egito; mais tarde, a voltar do Egito e, depois, a estabelecer-se em Nazaré. Toda essa dinâmica vista acima cria identidade e responsabilidade para a comunidade. Da mesma forma que Jesus – o novo Moisés e o Messias cumpridor das profecias – foi, enquanto pequenino, protegido por Deus através da obediência de José, assim também Jesus, em todo o seu ministério, defendeu a vida dos pequeninos. Cabe à comunidade, discípula de Jesus, o desafio de defender

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os pequeninos que estão ao seu redor. Fazer isso é, para o evangelho, defender e cuidar do próprio Jesus.

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Meditação

No primeiro domingo após o Natal, enquanto respiramos ares de fraternidade, amizade e paz das celebrações familiares e eclesiais, somos confrontados com uma história que nos desafia. Jesus, o Messias nascido em uma manjedoura, tem sua existência colocada em risco. As forças imperiais, violentas e déspotas levantam-se contra a esperança encarnada. O desejo de perpetuar-se no poder leva Herodes a cometer atrocidades. Porém a criança se salva! Da mesma forma que Moisés, sendo salvo por Deus, libertou seu povo, Jesus, sendo salvo, exerceu um ministério que possibilitou a vida, a liberdade e a salvação. Jesus anunciou uma nova Lei, que é, na verdade, o resgate do princípio da Lei: a defesa da vida dos mais desprovidos de condições de sobrevivência. No final de seu ministério, essa tarefa de conduzir o povo em direção à terra prometida foi confiada aos discípulos. Ao ser enviada por Jesus para fazer discípulos, a comunidade de Mateus, em sua caminhada de vida e fé, promoveu e defendeu a vida dos encarcerados, dos que estão nus, dos famintos, dos enfermos etc. Ao fazer isso, agiram em favor do próprio Jesus, porque ele está presente na vida de cada um desses pequeninos. Assim, nossa perícope se constitui em memória e desafio. Relembramos que as forças da morte estavam presentes naquela ocasião e, ainda hoje, colocam em risco a vida de pequeninos que habitam em nossos bairros, cidades e país. Porém a esperança se apresenta na medida em que Deus, através da obediência de José, protege a vida do pequeno Jesus; Jesus protege a vida daqueles e daquelas que estão ao seu redor, e nós, hoje, somos desafiados, em obediência ao envio de Jesus, a dar continuidade a essa tarefa de proteção da vida, sinal do reino e ação em favor dele.

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Imagens para a prédica

A realidade dos últimos anos é marcada pela violência provocada pela intolerância na relação entre os povos. Intolerância religiosa, cultural etc. Os pequeninos são sempre os que mais sofrem, em especial as crianças. Como imagens para a prédica, a sugestão é apresentar situações ao redor do mundo, ou então em nosso país, em que as crianças sofrem pelos desmandos, indiferença, guerra etc. O objetivo é, diante da imagem do pequenino Jesus, perseguido por poderes imperiais que promovem a violência, sendo protegido por Deus através da obediência de José, possamos nós refletir nessas imagens como um desafio para que, através de nosso compromisso de fé, defendamos a vida em uma atitude evangélica. A indiferença aos que sofrem nos ocultam o próprio Jesus. No Evangelho de Mateus, após a alegria e a celebração pelo nascimento, segue-se a proteção do pequenino contra a violência. No primeiro domingo após o Natal, somos desafiados a, em meio à alegria pela celebração, lembrar-nos dos que sofrem.

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Subsídios litúrgicos

Como subsídio litúrgico, oferecemos uma oração de confissão alusiva ao cuidado junto às crianças. A sugestão é que, diante do desafio de proteger os pequeninos, as crianças sejam tema e símbolo de compromisso nesse culto. Oração de confissão: Perdoa-nos, Senhor, quando não recebemos as crianças como tu nos ensinaste. Ajuda-nos a não olhar para sua etnia, classe social ou religião. Perdoa-nos, Senhor, quando nos preocupamos só com as crianças do nosso entorno... ... e não com as crianças do nosso país e do mundo, que sofrem todo tipo de violência e abandono. Perdoa-nos, Senhor, quando não fazemos do grito dessas crianças o nosso grito. Livra-nos da insensibilidade. Ajuda-nos a sair da inércia e do descaso. Perdoa-nos, Senhor, quando, nós, a tua igreja indivisa não denuncia a impunidade. Ajuda-nos a amar e a instruir os nossos adultos de amanhã com os valores do evangelho. [Glen Ynguil Fernandez; inspirada no Credo sobre os direitos da criança do Pr. José do Carmo da Silva] Fonte: http://www.metodista.br/fateo/materiais-de-apoio/fateo/materiais-deapoio/liturgia/liturgias/?portal_status_message=Changes%20saved.

Bibliografia GARCIA, Paulo Roberto. Sábado – A Mensagem de Mateus e a Contribuição Judaica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010. OVERMAN, J. A. Igreja e Comunidade em Crise – O Evangelho Segundo Mateus. São Paulo: Edições Paulinas, 2000.

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PRÉDICA: ECLESIASTES 3.1-13

VÉSPERA DE ANO NOVO

MATEUS 25.31-46 APOCALIPSE 21.1-6a

31 DEZ 2010

Clarise Ilaine Wagner Holzschuh Vivian Raquel Gehrke

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Introdução

A data prevista para a pregação a partir dos textos acima citados – Véspera de Ano Novo – é um momento de olhar para o que se está fazendo e avaliar a caminhada. É uma data que também proporciona julgamentos como: Estou agindo corretamente? Onde ou em que preciso mudar minhas atitudes, meu jeito de ser? Virada de ano é o fim de um período – ano velho – e o início de um novo período. Falar em ‘fim’ evoca ‘fim do mundo’, evoca ‘salvação’. Creio que aí se motiva a escolha de textos que falam de julgamento e salvação. O evangelho (Mt 25.31-46) coloca-nos diante do ‘grande julgamento’, que avalia as atitudes das pessoas em relação ao próximo. Tudo o que se faz nesta vida para ou com alguém na verdade está se fazendo ao próprio Cristo. Terá salvação quem praticar a justiça. E praticar a justiça, segundo o evangelista Mateus, é fazer a vontade de Deus, expressa na sua Palavra. O Apocalipse dispensa comentários. Apocalipse 21.1-6a é um tema clássico diante do novo que se espera e que vem sem nossa intervenção. Todo novo ano vem ‘adornado’ como uma noiva. Há muita expectativa diante do novo ano, e a esperança é por dias melhores, por felicidade e realizações. Importante lembrar que também este novo ano está sob os cuidados de Deus, e é ele que o criou. Como as palavras de Eclesiastes 3.1-13, que falam de ‘tempo’ e ‘trabalho’, entram nessa temática? Acompanhemos o estudo abaixo e deixemo-nos levar pela palavra de Deus.

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Exegese

2.1 – Autoria e data Eclesiastes foi escrito numa época em que a cultura helenística se expandia por todo o Oriente. O próprio escritor chama-se de Cohélet (em hebraico, é um termo feminino), que provavelmente propõe um ofício de convocador de assembleia ou de um liturgo. Lutero traduziu como “Pregador”. Não se sabe ao certo quem escreveu o livro de Eclesiastes. Há indicações de que foi Salomão, pois o escritor se refere a ele como filho de Davi (Ec 1.1) e afirma que foi rei sobre Israel (1.1; 1.12). Seu nome, porém, não é mencionado em nenhum lugar. No entanto, o estilo em hebraico, característico do livro de

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Eclesiastes, e as ideias nele apresentadas reportam a uma época posterior à era salomônica. Se for Salomão o seu autor, o livro pode ter passado por uma modernização posterior da linguagem. Estima-se que o livro tenha surgido na Palestina após a dominação persa, durante a primeira fase do helenismo, provavelmente no século III a.C. 2.2 – Helenismo – Império Grego É de extrema importância ter bem presente a situação da época (Sitz im Leben) em que foi escrito o Eclesiastes, pois era uma realidade de dúvida e incerteza, que gerou pensamentos como os que ali estão registrados. Alexandre Magno foi o grande conquistador de terras com sua genialidade filosófica e na estratégia militar. Ele mudou o mapa do mundo de sua época, levando a cultura grega a todo canto. Isso atingiu diretamente a cultura judaica. À medida que conquistava regiões, levava também pessoas da cultura grega para povoar as terras conquistadas. Com a construção de ginásios, teatros, palácios no modelo grego, as cidades ganhavam nomes helênicos, a língua grega foi se tornando universal, o mundo da época foi “helenizado” com muita rapidez. Quanto à religião, à medida que os judeus se mostravam submissos ao rei, os cultos judaicos eram tolerados. Porém o perigo não veio da influência na religião e, sim, no atrativo que a cultura grega exercia sobre as pessoas, o que acabava atingindo o jeito de viver, modificando a cultura e interferindo na religiosidade. Para preservar a cultura e religião judaicas, foi essencial reforçar a consciência de suas antigas tradições pela Lei. Da cultura helênica destacamos alguns pontos que influenciaram o judaísmo: 1. A posse da terra era particular e individual; enquanto em Israel a posse era coletiva. 2. Havia três camadas sociais – ‘livres’, ‘libertos’ e ‘escravos’. Esse fator fomentava o empobrecimento de agricultores e pequenos comerciantes, que não tinham condições de ter escravos, e desses muitos se tornaram escravos dos gregos. 3. Cultura essencialmente urbana – toda organização política e social era para a cidade e o bem-estar de quem nela vive. 4. Através da dominação que exerciam sobre outros povos, os gregos difundiam seu modo de vida: estilo de vida, organização e administração das cidades, cobrança de impostos, comércio e moeda, filosofia e literatura, língua grega, religião com suas divindades e mitos, arquitetura, esportes e diversão, exército e armas etc. 5. A cultura helênica estava centrada no indivíduo, que buscava a afirmação de sua liberdade e a satisfação de seus sentidos, enquanto o judaísmo estruturava-se na família e disciplinava-se pela Lei. 6. A religião dos gregos é politeísta, e seus mitos, fatalistas. Sua mensagem era legitimar a situação existente. Ou seja, como para o judeu a medida das coisas é Deus, para o grego, é o próprio ser humano.

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É nesse dilema que se encontra o “pregador” de Eclesiastes. Em meio a duas culturas antagônicas. 2.3 – Conteúdo do livro Cohélet, o Pregador, busca pelo sentido da vida: “Que proveito tem o homem [e a mulher] de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?” (Ec 1.3). O livro de Eclesiastes questiona sobre como nós seres humanos podemos viver de maneira satisfatória. A vida vale a pena ser vivida? Onde nós podemos encontrar a verdadeira felicidade? O pregador tem uma visão pessimista quanto ao sentido da vida considerada a partir da sabedoria humana. A vida é frágil e transitória. A sabedoria humana não passa de vaidade e vazio: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Ec 1.2; 12.8). Conforme Eclesiastes, o trabalho, as riquezas, os prazeres não trazem sentido à vida. As riquezas podem acabar a qualquer hora. Os que são ricos hoje amanhã podem estar na pobreza. A morte é o destino de todos nós. E como diz o ditado popular: “o caixão não tem gavetas”, ou seja, com a morte nada levamos. Por isso devemos desfrutar aqui e agora dos dons de Deus, pois ninguém sabe o que o futuro nos reserva. O autor lembra que certamente a vida tem suas alegrias (Ec 2.24s; 3.12s; 5.17s; 9.7s; 11.9), de que podemos desfrutar como bênçãos que vêm de Deus (Ec 9.7; 3.13; 5.19). Mas também a alegria é frágil diante da realidade da morte (Ec 2.1; 3.22; 8.15). A vida é repleta de mistérios. O autor se pergunta: “Por que os maus prosperam e os justos sofrem?” “Por que os maus têm vida longa e os justos morrem cedo?” Contudo, ele se dá conta de que ninguém faz o bem o tempo todo: “Não há entre os humanos um justo sobre a terra, que (somente) faça o bem e que não peque” (Ec 7.20). Por outro lado, o pregador descobre que a vida só tem sentido através do correto relacionamento com Deus. Só Deus tem a resposta para a verdadeira satisfação na vida. A vida que não está centrada em Deus é vazia. Em suma, Eclesiastes motiva-nos a viver uma vida temente a Deus, pois um dia haveremos de prestar-lhe contas: “Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos” (Ec 12.13). “Deus o julgará por tudo o que fizer” (Ec 11.9; 12.14). 2.4 – Comentário da passagem bíblica Eclesiastes 3.1-8 é um dos poemas mais famosos da Bíblia. Nesses versículos, o autor resume tudo o que acontece em nossa vida. Nascer e morrer. Plantar e colher. Chorar e rir. Amar e se aborrecer. Guerra e paz. Assim é a nossa vida. Ela tem seus “altos” e “baixos”. A vida tem um início, mas também tem um fim. É tudo passageiro. Conforme Eclesiastes, é Deus que ordena os acontecimentos de nossa vida. Deus tudo faz, também os dias ruins: “No dia da prosperidade, goza do bem; mas

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no dia da adversidade, considera em que Deus fez tanto este, como aquele” (Ec 7.14). Por isso devemos confiar na vontade de Deus e descansar nele. Eclesiastes 3.9-13 revela que Deus tem um plano para a nossa vida, que é limitada. Como seres humanos finitos não temos a capacidade de prever a totalidade da obra que Deus realiza. Não é possível compreender o tempo de Deus. Isso nos alivia daquela ânsia de que temos que saber o tempo das coisas. Reconhecendo, pois, a nossa limitação, somos chamados a viver o presente, uma vez que só Deus conhece o plano inteiro. A nossa vida vem diariamente das mãos de Deus, e é dele que recebemos todas as coisas (comida, bebida, os frutos do nosso trabalho), para que possamos desfrutá-las. Nós dependemos de Deus, pois sem a presença dele nada somos. Por isso devemos a Deus o respeito e o temor, em reconhecimento por tudo o que ele nos dá e nos faz. Isso é mais do que nosso compromisso.

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Meditação

Nos dias em que escrevemos este auxílio, refletimos sobre a “Torre de Babel” (cf. Gn 11.1-9). Nas reflexões em grupos de famílias da paróquia, identificamos algumas “torres de babel” de nosso cotidiano. As ‘integrações/parcerias’ na criação de aves e suínos, na produção de leite – em que as ordens vêm, e quem não se adapta não consegue vender o seu produto –, o domínio das multinacionais, a moeda e economia única que domina o mundo são exemplos de dominação e escravização que há hoje em dia e que dificilmente conseguimos evitar. Concluímos que não estamos muito distantes da realidade que assombrava o Pregador de Eclesiastes. A modernidade trazida pelos helenistas desafiava a cultura de Israel. O prazer e a alegria individual são atraentes em qualquer época e cultura. É pelo prazer e alegria individual que o consumismo domina tantas pessoas hoje em dia. O Pregador tem muitas perguntas e algumas indicações. Respostas – são poucas. Achamos a delimitação da perícope estratégica para compreender o texto. É preciso compreender o poema do tempo a partir da pergunta pelo proveito da vida (v. 9) e da conclusão de que cada pessoa possa desfrutar do resultado de seu trabalho. Identificamos o Pregador como alguém da cultura judaica que foi atingido pelo helenismo. Alguém que experimentou os prazeres da vida urbana com sua cultura voltada ao indivíduo, com seus teatros, adrenalina no esporte competitivo dos ginásios, literatura filosófica que busca ‘o eu’ e a divindade em si mesmo, a liberdade do indivíduo sem preocupação fraterna e solidária. Porém, num momento de introspecção, não encontrou dentro de si as respostas que esperava. Talvez olhando o mundo ao seu redor, vendo muitas pessoas sofrendo, irmãos e irmãs israelitas padecendo nas mãos de escravizadores, pessoas com aspectos miseráveis devido à fadiga do trabalho árduo e não tendo nem o mínimo para uma vida digna com alimento e saúde. Que modo de vida é esse que promove alguns em detrimento de outros? Que sociedade é essa onde uns trabalham e são outros que se regalam? Que re-

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ligiosidade é essa que justifica suas atitudes criando divindades para cada transgressão da Lei de Moisés? Que ser humano sou eu que vejo tudo isso e não faço nada porque eu sou abençoado por Deus (segundo a filosofia levada pelo helenismo)? O poema do tempo é uma conclusão do Pregador baseada na cultura e religião judaicas. Tudo tem o seu tempo, e há tempo para todo propósito debaixo dos céus. Portanto não pode haver para algumas pessoas somente tempo de morrer, de matar, de chorar, de prantear, de perder, rasgar, ficar calado etc. e para outras pessoas somente os bons tempos de alegrias, abraços e regozijo. Essa conclusão provoca a pergunta que segue: “Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga?” (v. 9). Essa não é uma palavra de rebeldia diante do trabalho, conclusão fácil de chegar numa leitura fatalista e descomprometida. Porém, iluminados pela realidade da época (Sitz im Leben), concluímos que é uma pergunta pela justiça de Deus, conforme a cultura e a fé judaicas. Se a terra pertence a Deus, se é de Deus que recebemos vida e força para o trabalho que provê o sustento do trabalhador e da trabalhadora, como podem aquelas pessoas que se afadigam no trabalho não ter sequer o mínimo para seu sustento e tem que entregar tudo para o regalo daqueles que só vivem nos palácios e festejam com impostos e desfrutam do trabalho alheio? Viver como esse segundo grupo, regozijar-se e levar uma vida regalada é tudo vaidade. Isso não é bênção de Deus. Pensar somente em si, no seu bem-estar e em sua felicidade não leva ninguém à salvação. O Pregador vive num mundo que procura Deus em função do ser humano. E observou que sabedoria, riqueza, trabalho ou glória são vaidade e não têm valor para uma vida que valesse a pena. Pois quem buscar Deus no ser humano jamais o encontrará. Eclesiastes é um livro que quer prevenir contra as ilusões da vida e sugere que o caminho a seguir é aquele que Deus dá aos seres humanos. O Evangelho de Mateus 25.31-46 mostra qual é esse caminho.

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Imagens para a prédica

Antes de ler esta parte, leia o ponto 5. Subsídios litúrgicos, pois a imagem é trabalhada a partir da liturgia. Sugestão 1) No baú trazido para o culto na liturgia de entrada poderiam estar alguns “papiros” com respostas para quem procura a felicidade. (Ex.: poder e riqueza; ciência, cultura e intelecto; glória, prestígio e aplausos; amor de Deus) Conta uma história que: Um rei poderoso e muito rico, desiludido e insatisfeito, convocou uma pesquisa entre os maiores sábios de seu reino, suplicando que lhe dessem o segredo da felicidade. (Numa representação, o rei poderia sentar-se com um súdito para revelar a pesquisa.) No primeiro papiro que o súdito retirou do baú estava escrito:

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– Felicidade é riqueza, é poder! O rei reage: – Sou rico e poderoso... e não sei o que é felicidade. Outro papiro é retirado: – A felicidade reside na ciência, na cultura e no raciocínio intelectual. O rei reage: – Não acredito! Leio livros, possuo a maior biblioteca do reino e desconheço dias felizes. Um terceiro papiro diz: – O coração humano precisa de glória, prestígio e aplausos para sentir-se realizado e feliz. O rei reage: – Conversa fiada. Tenho um reino inteiro a meus pés e durmo mal a noite, sinto medo e insegurança o tempo todo. O quarto papiro anuncia: – Sem o amor de Deus na vida e no coração não existe felicidade! O rei ficou em silêncio. Duas lágrimas afloram em seus olhos. Todas as criaturas, com todos os seus dons e encantos, não bastam para aplacar a sede profunda e misteriosa que é a sede de Deus! (Baseado numa história de autoria desconhecida) Assim como também nessa ilustração, o autor do livro de Eclesiastes descobriu que a vida só tem sentido se for vivida em Deus. A verdadeira felicidade não vem de nós. Ela vem de Deus. É a fé e o amor a Deus que consistem na realização de nossa vida. Sugestão 2) Não obstante, o amor a Deus implica o amor ao próximo. Deus nos ama e por isso nos exorta a amar uns aos outros. Como diz o poema de Johnson Gnanabaranam em seu livro “Senhor, renova-me”, p. 61: “Se eu não amar meu Jesus, não serei capaz de amar o meu próximo. Se eu não amar o meu próximo, não serei capaz de amar meu Jesus. Meu Jesus, ajuda-me a amar o meu próximo, para que eu possa amar-te para sempre. Amém.”

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Subsídios litúrgicos

Sugerimos dar uma olhada carinhosa na liturgia do Livro de Culto da IECLB, p. 71 a 75. Para o Kyrie e Glória está sugerida uma dinâmica com um baú. Sugerimos usar o baú e valorizar esse símbolo também na pregação, como sugerido no ponto 4. Imagens para a prédica. Quanto à dinâmica da água sugerida no Livro de Culto, p. 73, sugerimos deixar fora, pois a perícope de Apocalipse 6 está delimitada do v. 1 a 6a, o que exclui a imagem da água. O tema de Eclesiastes está voltado para o compromisso com o próximo, assim como o grande julgamento de Mateus, compromisso esse que temos movidos pelo amor a Deus que se revela em nossas atitudes com o próximo. Assim

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podemos diminuir os símbolos de dores no baú da vida e colocar mais símbolos da presença da glória de Deus. Na oração de intercessão, pode ser usado o baú mais uma vez. Elaborando pedidos a Deus como: Retira do baú da vida... (citar e amontoar os símbolos do Kyrie e depositá-los no altar como entregar a Deus); e preenche o baú da nossa vida com... (colocar os símbolos do Glória). Para a liturgia de saída, pode-se deixar preparado no fundo do baú cartões com mensagens de ânimo e compromisso para o novo ano e entregá-los no encerramento do culto. Sugestão para Oração do Dia: Querido e amado Deus. Graças te damos, pois tu tens nos acompanhado até aqui. Estamos no fim de mais um ano, assim olhamos para trás e revisamos aquilo que fizemos e o que deixamos de fazer. E também refletimos sobre o que há de vir no novo ano que está chegando. Sabemos, Senhor Deus, que todo o tempo está sob os teus cuidados. Tu és o Senhor de todas as horas e dias do novo ano. Lembra-nos disso sempre, quando estamos em busca de felicidade e sentido para a nossa vida. Que a tua Palavra nos fortaleça a nossa fé em ti e nos lembre do nosso compromisso com nosso próximo. Dá que possamos entregar os nossos planos, sonhos, preocupações... enfim, o nosso viver a ti, Senhor Deus, em confiança, sabendo que tu estás conosco sempre, até o fim dos séculos. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, na unidade do Espírito Santo. Amém.

Bibliografia RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Aste, 1973. SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1994. CURSO DE BÍBLIA – Época da dominação grega. Elaboração: Ildo Bohn Gass. São Leopoldo. CEBI.

ANO NOVO: NOME DE JESUS FILIPENSES 2.5-11 NÚMEROS 6.22-27 LUCAS 2.15-21

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2o DOMINGO APÓS NATAL

PRÉDICA: JEREMIAS 31.7-14

02 JAN 2011

JOÃO 1.(1-9)10-18 EFÉSIOS 1.3-14

Haroldo Reimer

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Introdução

O ‘espírito’ deste domingo certamente está carregado com a virada de ano. Na comunidade, houve possivelmente alguma celebração de véspera de ano novo. Talvez no próprio dia de ano novo, a comunidade tenha se reunido em culto. Pode, assim, ter havido assiduidade maior aos eventos celebrativos na igreja. Para muitos, contudo, as emoções dos últimos dias talvez tenham sido marcadas somente por fogos, festejos, bebidas, programas televisivos, enfim, essas coisas profanas que as pessoas costumam fazer na virada do ano. No conjunto dos textos, há certa continuação com o espírito de Natal. O texto do Evangelho de João celebra o Verbo encarnado, enfatizando a sua constante presença em meio à história humana. Destaca-se, em especial, o plano eterno ou a vontade de Deus de fazer das pessoas filhos e filhas de Deus (v. 12), esperando a resposta às suas manifestações. O trecho da Carta aos Efésios destaca o louvor por causa do amor de Deus em fazer das pessoas filhos e filhas dele. A filiação divina é motivo para a ação de graças e louvor. O texto indica para elementos que se tornaram ‘dogmáticos’, tais como o estar sentado à direita. Esse tema, em si, remete aos chamados ‘salmos messiânicos’ (Sl 2; 46; 72; 110). Em conjunto com essas leituras, o texto previsto de Jeremias 31.7-14 ganha em destaque. Ele afirma a boa-nova do cuidado de Deus para com as pessoas feridas, machucadas, deslocadas e deportadas. Antevê-se a chegada ao monte Sião como momento de grande alegria. Com a indicação para “trazer de volta” (v. 8), o tema da conversão (dar meia-volta) marca presença.

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Exegese

O livro canônico de Jeremias é resultado de um complexo processo de transmissão, redação e composição. Isso já se depreende do fato de ser, depois dos Salmos, o segundo livro mais volumoso da Bíblia. Ele tem estrutura e composição diferenciadas na versão do cânone hebraico e do cânone grego da Septuaginta. A versão grega realizou vários rearranjos na sequência dos textos da versão hebraica, além de ser mais breve do que o suposto original hebraico (a versão hebraica tem 1/7 a mais de texto). Na base do livro estão certamente palavras, eventos, sinais, ações simbólicas relacionadas com a figura histórica do profeta Jeremias, o qual dá nome ao

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livro. A atuação desse profeta costuma ser localizada ao longo do período entre o ano 626 a.C., em que se situa sua vocação profética, e os anos posteriores à destruição de Jerusalém, em 587 a.C., quando ocorreu a destruição dessa cidade e a deportação. Esse Jeremias teria atuado por mais de 40 anos, com conteúdos diferenciados em sua mensagem, vindo a encontrar a morte no Egito, para onde foi levado por companheiros após o colapso da capital do reino. O período de governo do rei Josias, tido em grande estima pelos autores deuteronomistas, é acompanhado com silêncio e elogio, vindo sua crítica a desabrochar novamente após a morte do rei. Um dos temas marcantes no conjunto da mensagem do profeta Jeremias é o anúncio da atuação do Deus Yahveh na história do povo hebreu. Jeremias situa-se na linha da chamada profecia radical ou crítica, que tem em Amós, Isaías e Miqueias precursores importantes. Especialmente na linha do profeta Isaías (139), Jeremias anuncia aos habitantes de Jerusalém e Judá que não se deve confiar em alianças políticas com os babilônios, mas colocar a confiança unicamente no Deus Yahveh. Faz isso pelo motivo de que os povos mesopotâmicos seriam braço estendido ou o “cálice da ira” de Deus (Jr 25.15s.) para fazer justiça entre o seu próprio povo (Is 10.5; Jr 36). Esse anúncio foi dirigido por Jeremias de diferentes formas a seus contemporâneos, gerando, não raro, reações que o levaram à prisão (Jr 36.29), o que origina também muitas lamentações desse profeta. O relato de vocação estilizado em Jr 1.4-10 indica quatro verbos para caracterizar o aspecto negativo da mensagem (arrancar, derrubar, destruir, arruinar – v.10) e dois verbos de conotação positiva (edificar, plantar), prevalecendo, pois, o aspecto do anúncio de juízo ou desgraça. O sujeito das ações dos verbos, contudo, não é Jeremias, mas na maioria das 85 ocorrências é o próprio Deus. Por estarem situados numa linha crítica, palavras e relatos de gestos simbólicos devem ter sido acolhidos e transmitidos por simpatizantes e seguidores que formaram o grupo de suporte de Jeremias. O texto de Jeremias 26 é muito elucidativo a respeito. O “povo da terra” fez memória de palavras críticas de Miqueias, que atuou décadas antes de Jeremias. Esse grupo do povo da terra também pode ser concebido como transmissor de palavras de Jeremias. Assim, fragmentos diversos da mensagem de Jeremias lograram sua transmissão até o período posterior à destruição de Jerusalém. No período do pós-exílio, a profecia crítica passa por um processo de seleção e colecionamento, gerando uma transformação que situa Jeremias e outros profetas bíblicos como “profetas verdadeiros”. A base para a releitura é provavelmente uma codificação relativa à atividade profética, que se encontra em Deuteronômio 18.15-20 (cf. PL 31, p. 52-56, e PL 33, p. 92-100). Esse texto determina que o critério para a determinação da profecia verdadeira é seu cumprimento. Ora, o anúncio da destruição feito por Jeremias havia se realizado, inclusive com os agentes históricos previstos. Com isso as palavras de Jeremias convertem-se em profecia verdadeira. O processo de colecionamento e reelaboração das palavras de Jeremias, bem como de outros profetas, é atribuído a ‘círculos deuteronomistas’. Esses realizaram as releituras sob o prisma das leis deuteronômicas, que realçam especialmente a adoração exclusiva ao Deus Yahveh (monoteísmo),

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a centralização do culto em Jerusalém, a ausência de imagens (aniconismo) e o cuidado com os empobrecidos. Da pena dos redatores deuteronomistas provêm provavelmente várias das perícopes que se encontram no chamado “livro da consolação” em Jeremias 3031. O nome ‘consolação’ deriva do fato de que os textos aqui agrupados, provavelmente de origem diversa, têm no anúncio de salvação seu ponto de cristalização. O texto de Jeremias 31.7-14 tem conteúdo eminentemente salvífico, isto é, de anúncio de graça. O tema que perpassa a perícope é o anúncio de que os outrora deportados para as terras do norte haverão de ser reunidos e trazidos de volta à sua pátria, Judá. Inicialmente, há um imperativo hínico. Um grupo nominalmente não-definido é conclamado a louvar a Jacó e a exultar por causa da “cabeça das nações”. O motivo do louvor são ações (futuras) de salvamento a serem realizadas pelo próprio Deus Yahveh. Esse reunirá e salvará o “resto” de seu povo. O termo ‘resto’ tem sentido aberto; aqui provavelmente se refere aos cegos, aleijados, mulheres grávidas e às de parto (v. 8); pode, contudo, também designar aquela parte do povo que foi deportada para a Babilônia; no caso, a antiga elite, agora na condição de empobrecidos. De qualquer forma, “chegar em casa”, “voltar ao lugar de origem” é o tema da perícope. A visão da fartura de bens materiais na chegada é sedutora. Com o esboço desse idílio do regresso, o texto de Jeremias 31.7-14 situa-se nas proximidades de textos do chamado Dêutero-Isaías (40-55), em que o cuidado especial de Deus para com os regressantes, em especial com os mais fracos (Is 40; 43; 55). Por isso a origem do texto em tela deve ser situada em contexto do exílio; nesse contexto, também se realizam as releituras para redefinir a própria imagem de Deus.

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Meditação

As imagens sedutoras do regresso com a abastança na chegada buscam cativar os que estão dispersos a dar ouvidos aos mensageiros do Deus Yahveh e a colocar nesse a sua confiança. Há a necessidade de um “trabalho retórico” para promover mudanças nos ouvintes ou interlocutores. Pois, a partir da boca de Jeremias, havia saído o anúncio do juízo com guerras, mortes, deportações. A desolação já havia se instalado. Para os que sofreram as consequências da desgraça, a crise teológica e existencial era ver no próprio Deus o autor dos referidos eventos. Agora se tratava de modificar essa imagem de Deus: “aquele que espalhou a Israel o congregará e o guardará, como o pastor, ao seu rebanho” (v. 10). Por isso no texto há ênfase em mostrar o Deus Yahveh como um Deus que cuida, zela e protege. Isso não é um traço novo na imagem de Deus, pois muitos textos, especialmente do livro de Deuteronômio (15; 22), mas também de profetas como Oseias (3.1-5;11) ou mesmo dos Salmos, já mostram essa dimensão do Deus que cuida dos mais fracos e pobres. No sentido do cuidado, destaca-se a imagem do Deus pastor (v. 10), a qual junto com a referência aos ribeiros de água (v. 9) remete para o conhecido Salmo 23.

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Outra imagem é a do Deus pai (v. 9). Nessa imagem, parece-me haver um diálogo à distância com palavras proféticas de Oseias 1-2, nas quais se fala do rompimento da relação paterna com os filhos tidos como da prostituição. A indicação para a primogenitura de Efraim e a condição de filho de Israel remete diretamente para Oseias 11, embora nesse texto possa haver elementos maternos na imagem de Deus. Tradições do norte podem estar presentes aqui. Essas duas referências conectam-se com a dimensão das atribuições divinas. No curso da construção da religião de Israel houve, especialmente no século VIII com a profecia de Oseias, uma discussão sobre quem é responsável pelas dádivas e bênçãos da natureza. No imaginário popular, dentro de uma matriz politeísta como era a do Oriente Próximo naquele período, atribuíam-se ao Deus cananeu Baal as dádivas da fertilidade do solo e dos ventres. Contra isso se insurge o profeta Oseias, propagando a mensagem de que por trás das dádivas da terra e dos ventres está o próprio Deus Yahveh, o qual deveria ser venerado como o verdadeiro doador desses bens. Correr atrás de outros deuses, como Baal ou Asherah, para prestar-lhes agradecimento, passou a ser rotulado como ‘idolatria’ (Os 2.4-11). No texto de Jeremias, essa polêmica já está pacificada no sentido de se mostrar que, no regresso da dispersão, Deus haverá de prover a abundância dos bens da terra (cereal, vinho, azeite, cordeiros, bezerros etc.). Esses são identificados como “bens do Senhor” (v. 12). O acesso a esses “bens do Senhor”, que promovem fartura, satisfação, conduzem para a alegria e o folguedo de danças. Mulheres jovens (virgens) e pessoas idosas celebrarão de alegria, porque a sua situação foi revertida. Aqui se pode pensar em textos do livro de Lamentações, no qual mulheres lamentam a má sorte e a desgraça da gente de Jerusalém, causando dor e lamento para as “filhas de Sião”. A tristeza de outrora será transformada em regozijo e alegria (v. 13). Até os sacerdotes são incluídos na cena da abastança de comidas. Haverá “carnes gordas” (um bom churrasco) para os responsáveis pelo culto e santuário. Assim, todo o povo poderá gozar da abastança. A localização dessa cena futura de bem-estar “nas alturas de Sião” é significativa. Com isso o texto está sintonizado com uma série de outros textos de caráter messiânico, nos quais a peregrinação a Sião é tema central (Is 2.1-4; Mq 4.1-5; Is 11). Isso evidencia a perspectiva judaíta presente no texto. Embora haja referência a Jacó, que remete para a realidade das tribos e do reino do norte, o alvo da cena futura de bem-aventurança é o monte Sião. Isso denota claramente traços da teologia deuteronomista. Essa insiste em afirmar que o Deus Yahveh é uno e responsável pelas mais diversas dimensões da vida, incluindo os bens da terra, a fertilidade dos ventres e a decorrente abastança. Com isso se constrói uma imagem de Deus mais complexa e inclusiva, mas que revela claramente a perspectiva monoteísta na fase conclusiva da história da religião do antigo Israel (REIMER, 2009). Sião ou Jerusalém é o ponto de convergência da bem-aventurança futura. A menção dos sacerdotes, e com eles a alusão ao templo, pode provavelmente remeter para as expectativas e propagandas para a reconstrução do templo no período do pós-exílio, como se pode ler muito bem nas palavras de Ageu. Esse conclamou para a reconstrução do templo, dizendo que por meio

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de tal realização haveria a possibilidade de bênçãos para todo o povo. Também trechos de Malaquias são ilustrativos nesse sentido, especialmente o conhecido texto de Malaquias 3.7-10, que também apresenta visão de abastança das bênçãos de Deus, embora condicionando a mesma à regularidade das ofertas e dízimos para o “tesouro da casa do Senhor” (v. 10). O bem-estar, também e em especial de ordem material, será indicativo para a presença de Deus na vida e na história. Isso é o traço messiânico no texto. A presença de Deus manifesta-se no abrigo solidário dos mais fracos.

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Imagens para a prédica

Como o texto de pregação projeta uma imagem de bem-aventurança futura, eu experimentaria a pregação nessa mesma lógica. Os textos de leitura, juntamente com o próprio contexto da celebração de culto, já asseguram os contornos dogmáticos: Deus encarnado, Jesus sentado à direita de Deus para fazer justiça etc. Poder-se-ia indicar rapidamente para diversas imagens de Deus: Deus que salva (êxodo), Deus que faz justiça (Is 3.12-15; 10.1-3); Deus que fere e mata; Deus que dispersa (profetas); Deus que sara e cuida etc. A cena que eu esboçaria na pregação seria uma confraternização na comunidade. A referência seria a alegria da reunião após vivências de dispersão. Indicaria para a dispersão dos evangélico-luteranos no contexto brasileiro; para a dispersão dos membros da igreja no contexto das cidades; o afastamento por causa de processos sociais e econômicos (desemprego, doença, empobrecimento etc.). Se a imagem de bem-aventurança esboçada no texto será realidade, isso dependerá de passos concretos. Em nosso país, nos últimos tempos, tem havido muitos programas geradores de bem-estar nas famílias e para o povo mais pobre. A comunidade de fé deve participar desse processo, não imitando simplesmente os programas públicos, mas fazendo os seus programas. Igreja e comunidade, em muitos lugares, além de espaços de proclamação da Palavra, têm sido, infelizmente, espaços excludentes em termos sociais. Por isso projetaria a imagem de reuniões de comida na comunidade a preços bem acessíveis, convidando especialmente aquelas pessoas que não têm condições econômicas para fazer grandes despesas num evento da comunidade. Sendo integradas na comunidade, sentindo-se acolhidas, essas pessoas contribuirão para o bem-estar da comunidade. “Cuidar do bem da igreja” não consiste somente nas finanças comunitárias em dia, mas no fluir de pessoas no espaço comunitário, na dinâmica inclusiva do reino de Deus. A comunhão de pessoas diferentes em torno dos “bens do Senhor”, tanto a feijoada comunitária como a Santa Ceia, será efetivamente sinal da presença de Deus.

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Subsídios litúrgicos A sopa comunitária

Numa certa localidade apareceu uma pessoa que se instalou na praça central do lugar. Ali, para o espanto de muitos, fez um fogo e começou a cozinhar uma sopa. Para a admiração geral, porém, no caldeirão não havia mais do que água e pedras. Diante da admiração por essa estranha refeição, várias pessoas que passavam por ali espontaneamente foram dizendo que poderiam colaborar com alguma coisa da sua casa para melhorar aquela sopa. Assim, alguns trouxeram batatas, outras, cenouras, ainda outras, um pouco de arroz, um pedaço de carne, sal e temperos. Cada pessoa que se sentia tocada trazia alguma coisa para ‘engrossar’ a sopa, temperá-la, dando-lhe sabor e consistência. Até sobremesa e bebida alguém acabou trazendo. Aquela estranha pessoa ia mexendo a sopa. Após algum tempo, a sopa estava pronta. Acabou virando uma ‘supersopa’, demais para uma só pessoa. Assim aquele estranho e bizarro homem convidou todos para um banquete na praça. A sopa de água e pedra individual transformou-se em um farto e diversificado banquete comunitário. Poema “Esperança” Mário Quintana Lá bem no alto do décimo-segundo andar do Ano Vive uma louca chamada Esperança E ela pensa que quando todas as sirenes Todas as buzinas Todos os reco-recos tocarem – Ó delicioso voo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada. Outra vez criança... E em torno dela indagará o povo: – Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!), Ela lhes dirá bem devargarzinho, para que não esqueçam nunca: – O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Bibliografia REIMER, Haroldo. Inefável e sem forma. Estudos sobre o monoteísmo hebraico. São Leopoldo: Oikos; Goiânia: PUC, 2009. MEYER, Ivo. O livro de Jeremias. In: ZENGER, Erich e outros. Introdução ao Antigo Testamento. Tradução de Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2003. p. 398-420.

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EPIFANIA DE NOSSO SENHOR

PRÉDICA: EFÉSIOS 3.1-12

06 JAN 2011

ISAÍAS 60.1-6 MATEUS 2.1-12

Humberto Maiztegui Gonçalves

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Introdução

Estamos na Epifania (do grego epi [sobre, em cima de] e fanós [lanterna, luz]), tempo em que a igreja cristã, desde os primeiros séculos, lembra dessa tradição da comunidade de Mateus (2.1-12), segundo a qual o nascimento de Jesus teria sido acompanhado da aparição de um “astro” ou uma “estrela” (astéra). No entanto, a raiz que dá nome à “epifania” não aparece nesse texto. O termo em si pode ser anterior mesmo aos evangelhos, trazido pelo apóstolo Paulo na 2ª Carta aos Tessalonicenses, quando fala, paradoxalmente, da manifestação do “inimigo” de Cristo. Somente em textos “deuteropaulinos” é que encontramos esse termo ligado à revelação de Cristo, como em 1 Timóteo 6.14, referindo-se à “manifestação gloriosa” de Jesus em sua segunda vinda ou parusia. Sendo a comunidade de Mateus, composta por um número significativo de pessoas cristãs vindas do judaísmo, não é de surpreender que vinculassem a vinda de Jesus a um evento cósmico. Sabemos que o mero nascimento de Cristo de uma mulher (mesmo que virgem) não era suficiente para o imaginário judaico em relação à vinda do Messias. Os judeus esperavam, como diz o próprio Evangelho segundo Mateus, que o Messias viesse “na glória de seu Pai, rodeado de seus anjos” (16.27b). De certa forma, o texto de Trito-Isaías (56-66), indicado para este domingo, fala-nos de uma “epifania” de Jerusalém. O sentido da epifania é atrair todas as nações e pessoas para esta cidade que será, ao mesmo tempo, centro concentrador e difusor da vontade de Deus.

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Exegese

Alguns estudiosos da literatura neotestamentária manifestam dúvidas sobre a autoria autenticamente paulina dessa carta, listando, entre outras questões, a ausência de detalhes concretos, salvo uma menção à prisão do apóstolo (como acontece em 3.1). O apóstolo não parece ter tido nenhum contanto direto com os destinatários e qualifica-os de “gentios”, isto é, “não-judeus” (também em 3.1). Outros falam da possibilidade de ser essa uma “carta circular”, que posteriormente teria sido identificada como sendo dirigida aos Efésios (já que essa atribuição não aparece em diversos manuscritos) ou que ainda fosse dirigida a todas as igrejas da Ásia. Paulo é apresentado como um missionário mandado por Deus aos gentios (3.2ss). Outra possibilidade, indicada desde os primeiros tempos do estudo dessa carta, é que tivesse sido originalmente dirigida ao Laodicenses (cf.

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Cl 4.16). Enfim, a hipótese de uma carta circular geral, que pode ter sido escrita totalmente, ou em parte, pelo apóstolo Paulo, parece ser a opção autoral mais recomendada. Se for assim, devemos buscar em seu texto uma referência geral à visão eclesiológica do apóstolo no que se refere à inclusão das pessoas que se converteram ao cristianismo a partir das religiões greco-romanas. Por mencionar a prisão de Paulo, também devemos considerar o contexto da perseguição do Império Romano contra as comunidades cristãs como pano de fundo. Há também um forte paralelismo entre a carta deuteropaulina aos Colossenses e a Carta aos Efésios. O texto indicado para esse domingo é apontado em paralelo com Colossenses 1.14-19, por exemplo. Segundo Maurice Carrez, isso pode indicar que a Carta aos Efésios seria uma versão ampliada da Carta aos Colossenses. Portanto também consideraremos isso em nossa análise. O texto de Efésios 3.1-12 encontra-se, dentro da estrutura geral da carta, no final da primeira parte (1.3-3.21), onde o assunto é o ministério da inclusão dos gentios no plano de salvação de Deus. A parte central (2.11-22) mostra justamente essa ênfase ao afirmar que, em Cristo, judeus e gentios estão reunidos no surgimento do “novo ser humano” (2.15). A perícope em questão pode ser dividida em duas partes: 3.1-7 (falando do ministério inclusivo de Paulo como apóstolo entre os gentios) e 3.8-13 (onde é feito o anúncio do mistério de Cristo Ressuscitado aos gentios). Podem notar aqui um problema de delimitação, já que o texto litúrgico vai até o versículo 12. Certamente a delimitação litúrgica não considerou a versão grega do texto. O versículo 13 está diretamente ligado ao assunto anterior, iniciando com o termo dió, que pode ser traduzido como “pelo que”, indicando uma consequência argumentativa do assunto anterior. Portanto, mesmo fora do texto indicado, devemos também considerar exegeticamente esse versículo. Por outro lado, nesse versículo, fala novamente das tribulações do cárcere, fechando o círculo argumentativo iniciado no versículo 1, quando indica ser “prisioneiro”. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, podemos vislumbrar uma construção textual concêntrica com um eixo que liga as duas partes que indicamos anteriormente. Vejamos: A – 3.1-2 (Três elementos da realidade vivida pelo apóstolo: prisão, graça, revelação). B – 3.3-6 (O mistério da inclusão dos gentios na “mesma herança”). C – 3.7-9 (O ministério de Paulo como sinal de sua própria inclusão). B’ – 3.10-11 (A igreja como instrumento de inclusão no projeto de Jesus Cristo). A’ – 3.12-13 (A nova realidade que une Paulo aos gentios: liberdade em Cristo, fé, glória). A inclusão é o assunto que perpassa toda a perícope. A prisão tem sentido porque acontece dentro do projeto inclusivo de Jesus (v.1-13). A revelação é justamente que gentios e judeus participam da mesma herança (v. 6), mesmo que o apóstolo não use a palavra “israelitas” ou “hebreus” como em 2 Coríntios 11.22. Na primeira parte do texto, ele fala dos gentios (tá étne) em terceira pes-

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soa, afirmando que são “co-herdeiros” (v. 6.). A inclusão fica fortemente delineada no texto grego através do prefixo sun, isto é, “com”, como em “co-herdeiros” (sugkleronóma) e depois sússoma (co-corpóreos) e finalmente summétoxa (coparticipantes). No centro, o ministério do apóstolo é descrito como um processo de inclusão pela graça (v. 7). Ao se apresentar como “último-dos-últimos” (elaxistotéro), o apóstolo identifica-se com os gentios, que eram os últimos a participar da herança de Deus, agora inclusiva em Cristo. Enfim, ele afirma “em Cristo, portanto, nós temos, pela fé nele, a liberdade de nos aproximar com toda a confiança” (v.12; TEB). Chegando a essa nova realidade, onde não mais “eu e eles”, “últimos e primeiros”, mas “nós”.

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Meditação

Evidentemente, a ligação encontrada pelas pessoas que originalmente propuseram o lecionário entre a Epifania e Efésios 3.1-12(13) foram as palavras presentes em 3.3: egnoríste (“manifestado” ou “dado a conhecer”), unida à palavra apokálupsin (revelação). De fato, Paulo mostra que a inclusão dos gentios é uma verdadeira revelação, que não somente iguala toda a humanidade por filiação e por herança, mas que a une em um destino comum de libertação e vida. Olhando a Epifania por esse prisma e lembrando que esses magoi do Oriente são apresentados como “gentios”, revela-se perante nossos olhos a vontade inclusiva da divindade criadora, que, através de um sinal cósmico e universal, une todos em Cristo. Sendo assim, o sentido cósmico de Cristo é, como disse o próprio apóstolo Paulo, que “Deus seja tudo em todos” (1Co 15.28b). A estrela brilhou acima de todos, e a notícia foi trazida de fora, pelos distantes, pelos últimos dos quais se esperaria tal feito. A pergunta que nos traz esse tempo é: O que vemos quando olhamos para as estrelas do céu? O que teriam visto esses astrólogos/astrônomos do povo? Eles viram uma revelação sem exclusão! A mesma revelação que Paulo viu pelas estradas, nas cidades, nos rostos, nas vidas, nas histórias das pessoas que esperavam a boa-nova (o evangelho) de que seriam tão herdeiras do legado de Deus quanto qualquer outra; que, mesmo carregando a culpa do pecado, seu pecado não era maior do que qualquer outro e que a graça derramada por Deus estava próxima e acessível a todos. Paulo viu essa revelação em sua própria vida! Agora a estrela que o inclui era mostrada para todos os povos. Possivelmente foi o sentimento daqueles magoi quando sentiram a enorme alegria, o fantástico entusiasmo de ver que, finalmente, chegara a salvação para todas as pessoas sem restrição, sem exclusão. Temos aqui caminhos que se encontram em Cristo. O caminho da estrela, que ilumina desde a imensidão do universo uma pequena cidade da periferia, o caminho de um “herdeiro” que se descobre último-entre-os-últimos e ao mesmo tempo irmão de todos e co-herdeiro com todos. Epifania quer nos apontar para o encontro, para o “com”, para o “nós”, para o “juntos”.

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Imagens para prédica

A Epifania convida-nos a olhar para o céu em uma noite estrelada. Ficar em quietude olhando para as estrelas como quem espera que elas nos deixem alguma mensagem. Uma estrela mais forte, uma estrela cadente (um desejo), mergulhar em uma imensidão sem fim, sem poder perguntar por fronteiras. Podemos colocar estrelas na igreja, podemos desligar as luzes e podemos, se a celebração for à noite e a noite o permitir, convidar todas as pessoas para sair e ficar alguns minutos olhando para as estrelas. Esse céu está acima de todas as pessoas, sem distinção, nos iguala e nos fala de eternidade! Com a imagem do céu em nossas mentes e corações, podemos olhar para multidões de pessoas, para seis bilhões de seres humanos e tentar ver o mesmo que vimos no céu. Assim foi que Jesus Cristo se revelou ao apóstolo Paulo, mostrando que todas as pessoas são igualmente dignas, igualmente herdeiras. Aceitamos as estrelas do céu? Aceitamos a nossa igualdade diante de Deus? Então vimos a estrela da Epifania brilhar e apontar para Cristo em nossa comunidade. Olhar para o que se apresenta diferente e ver como a diferença nos enriquece e nos orienta é outra maneira de distinguir a mensagem que cada estrela tem para nós. Podemos colocar os nomes de todos os povos da terra em estrelas. No Brasil, quantos povos há? Só de indígenas mais de 170 povos! E no mundo? O que nos diz isso sobre inclusão e co-herança, co-corporalidade e co-participação?

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Subsídios litúrgicos

Procissão de entrada: Pode ser levada uma estrela maior com a palavra INCLUSÃO ou JUNTOS/AS ou PARA TODOS E TODAS. Enquanto se canta algum canto que fale de inclusão. Cada pessoa da comunidade pode receber também uma estrela de cartolina, em que escreverá seu nome e que será levada para o altar na hora do ofertório ou comunhão. Acolhida: As pessoas que animam a celebração podem dizer a frase do evangelho: “Vimos sua estrela no Oriente e viemos prestar-lhe homenagem”. Todos podem responder, dizendo ou cantando: “Louvemos ao Senhor!”. 1. Se for à noite ou em um lugar que possa ser escurecido, podemos durante o sermão ou orações projetar luzes (como estrelas), o que pode ser facilmente conseguido com uma bolinha de espelhos e uma lâmpada ou lanterna. 2. Depois de cada oração podemos responder juntos/as: “Graças a Deus, que nos uniu em um mesmo corpo, nos fez participar de uma mesma herança e nos redime com a sua graça” (ou algo nesse mesmo teor, que indique a inclusão em Cristo, podendo ser usado o refrão de algum canto que fale de unidade).

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Epifania de Nosso Senhor

Bibliografia CARREZ, Maurice. As cartas aos Colossenses e aos Efésios, o bilhete a Filemom. In: As Cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas. São Paulo: Paulinas, 1987. p. 225-230.

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1º DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: ISAÍAS 42.1-9

(BATISMO DO SENHOR)

MATEUS 3.13-17 ATOS 10.34-43

09 JAN 2011

Carlos A. Dreher

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Introdução

O evangelho previsto para o 1° Domingo de Epifania, Mateus 3.13-17, contempla claramente o tema da data: o Batismo do Senhor. Importante, porém, é observar que o batismo de Jesus, realizado por João Batista, não tem a mesma conotação que o batismo que todos e todas nós recebemos. Não se trata aqui de um batismo para a remissão de pecados. É por isso que João quer dissuadir Jesus de seu pedido. A insistência de Jesus leva a que se perceba o que esse batismo realmente representa: trata-se de sua unção como Filho de Deus, em quem o Pai se compraz (v. 17). Aqui, o tema da eleição de Jesus torna-se central. O Espírito de Deus está sobre ele (v. 16). Esse tema da eleição/unção está também presente em Isaías 42.1-9, claramente já no primeiro versículo, e retomado no v. 6: “Eis aqui o meu servo, o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz” (v. 1); “Eu te chamei...” (v. 6). Embora com a variação Servo-escolhido/Filho, Mateus 3.17 é uma clara referência a Isaías 42.1. Essa referência também está presente em Atos 10.34-43, ao referir-se à unção de Jesus (v. 38). Contudo, há mais um ponto de contato entre essa passagem e o texto de Isaías: trata-se da abertura para os gentios (Is 42.2,6), que é o tema de abertura da passagem de Atos. Diante do chamado de Cornélio, Pedro expressa que Deus não faz acepção de pessoas (v. 34), claramente uma referência aos mesmos gentios. Estamos, pois, em companhia de duas ênfases-chave nesse domingo: a eleição e o envio a todas as pessoas, sem acepção.

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Texto

A passagem faz parte do Segundo Isaías (Is 40-55), que atuou por volta de 550-540 a.C. entre os exilados na Babilônia. O recorte contém o primeiro dos Cânticos do Servo de YHWH, encontrados em Isaías 42.1-4(5-9); 49.1-6(7-13); 50.4-9(10s); 52.13-53.12. Pelo conteúdo dos dois últimos, também são conhecidos como Cânticos do Servo Sofredor. Embora integrem o Livro do Segundo Isaías, os cânticos apresentam peculiaridades que os colocam em certo isolamento e lhes conferem um caráter enigmático. Questões envolvendo a figura do Servo não encontram respostas unâni-

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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)

mes. Quem é o Servo? O próprio profeta? Um “novo Moisés”? O rei persa Ciro (cf. Is 45 1)? Ou é, em termos coletivos, o povo exilado? Ou um pequeno grupo em meio a ele, mas especialmente fiel a Javé? Essa última hipótese é assumida por Carlos Mesters em seu livro “A missão do povo que sofre” (1981). É também a que mais me atrai pessoalmente. Contudo, é preciso assumir que não sabemos quem foi o Servo. O Novo Testamento relaciona-o a Jesus, como se vê no evangelho desse domingo. Também essa interpretação cristológica, porém, não pode ser assumida como a verdade em termos científicos, sob pena maior de nos indispormos com nossos irmãos judeus, a quem, na verdade, a Bíblia Hebraica pertence em primeiro lugar. Mais importante do que descobrir a identidade do Servo certamente será buscar compreender sua missão. É nisso que me empenho a seguir. Observando o recorte proposto, percebo que Isaías 42.1-9 não é uma única perícope. Os v. 1-4 são uma unidade fechada. A apresentação do Servo e o anúncio de sua missão estão concluídos no v. 4. A pesquisa, no geral, assume apenas os v. 1-4 como o primeiro cântico do Servo de YHWH. O v. 5 é um novo início, com a fórmula introdutória “Assim diz Deus YHWH”. O epíteto divino também inicia os v. 6 e 8, o que amarra o conjunto. Os v. 5-8, evidentemente, aludem ao conteúdo de v. 1-4, mas já não mencionam explicitamente o Servo. Em boa parte, linguagem e conteúdo lembram o Terceiro Isaías (compare Is 42.7 com Is 61.1s). O v. 9 não parece fazer parte desse segundo conjunto. Não tem relação clara com o anterior. Soa um tanto fragmentário e deixa aberta a pergunta por quem é esse “vós” ao qual se dirige. A primeira unidade (v. 1-4) não define o sujeito que fala. Evidentemente, trata-se de Deus, que apresenta o Servo em duas afirmações paralelas: ele é meu Servo, o que significa que sua missão lhe é conferida por Deus. Deus o sustém, isto é, guarda-o e dá-lhe sua força, seu poder. Essa primeira apresentação é repetida com outras palavras: o Servo é o meu escolhido. Deus agrada-se dessa sua escolha. A sustentação do Servo é também repetida, agora com a formulação pus sobre ele o meu Espírito. A expressão lembra a convocação dos líderes carismáticos do Livro de Juízes. O Espírito de Deus apossa-se deles (cf. p. ex. Jz 6.34; 11.29). A missão do Servo, porém, não é derrotar inimigos. Ao contrário, trata-se de promulgar o direito de Deus. Sua tarefa é anunciar a lei de Deus, certamente a lei do amor e da solidariedade, decorrentes do amor divino pelos mais fracos. Para quem deve fazê-lo? Justamente para os gentios, isto é, os povos que não creem em YHWH. Não se trata, pois, de liquidar com o diferente, nem de convertê-lo. Trata-se de ajudá-lo a ser melhor. O Servo tem outra “guerra santa” para travar. Por isso não clama, nem grita, nem faz ouvir a sua voz na praça (v. 2). Não há alarido nem alarde. Sua missão é silenciosa. Sua missão não é brutal. Não se trata de esmagar a cana que já está quebrada, nem de apagar o pavio que apenas ainda fumega (v. 3). O direito de Deus, a sua justiça, nada tem a ver com liquidar, arrasar, destruir. Tem a ver com cuidar daquilo que já está fragilizado, com erguer

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do chão quem já está caído. Tem a ver com devolver as forças, restabelecer a cana quebrada, avivar o restinho de chama que ainda há no pavio. Não é, porém, tarefa fácil. O Servo pode desanimar, pode até quebrar-se (cf. Is 50.4-9; 52.13-53.12). Porém a promessa de Deus é que ele não desanimará nem se quebrará até que a missão esteja cumprida: o direito de Deus estará posto na terra. As “terras do mar” – certamente o mundo inteiro – guardarão a doutrina, os ensinamentos do Servo, que, de fato, não são dele: são o direito, a justiça de Deus (v. 4). A segunda unidade basicamente repete a primeira, buscando esclarecê-la. Os v. 5 e 6 retomam v. 1, agora deixando evidente que é YHWH Deus, o TodoPoderoso, quem ordena a missão (v. 5). O v. 6 reproduz a eleição e o comissionamento do Servo com a garantia de proteção. A missão é agora duplicada: o Servo será “mediador da aliança com o povo e luz para os gentios”. Povo é aqui uma referência ao próprio povo de Deus. Se o Servo deve mediar a aliança com o povo, isso significa que ela não está sendo levada a sério, ou seja, o direito não está sendo respeitado nem praticado como deveria. Não são, pois, apenas os gentios que devem aprender o direito de Deus. O próprio povo de Deus precisa reaprendê-lo. O v. 7 interpreta em que consiste o direito de YHWH: “abrir os olhos aos cegos, tirar da prisão o cativo, e do cárcere, os que jazem em trevas”. Essa explicitação corresponde à ideia anterior de não esmagar a cana quebrada nem apagar o pavio que fumega. Os versículos finais (8 e 9) apenas ratificam o conteúdo expresso anteriormente. Em suma, a missão do servo não consiste em lutar contra os gentios, nem em convertê-los à fé em YHWH. Trata-se de propor uma solidariedade universal com os que sofrem.

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Reflexão

Se em Isaías 42.1-9 não é possível identificar o Servo de YHWH, no texto de Mateus 3.13-17 ele é compreendido como prenúncio de Jesus. Isso é linguagem de fé. É preciso crer que Jesus Cristo é o verdadeiro Servo de Deus. Embora Mateus escreva seu evangelho para judeus, é perfeitamente compreensível que, para muitos deles, isso continue a ser escândalo (1Co 23), bem como, para muitos gentios, continuará a ser loucura. Apenas a linguagem da fé cristã é capaz de dar esse testemunho. A passagem de Atos 10.34-43 dá um passo a mais nessa compreensão. Pedro, um bom judeu-cristão, tem dúvidas, a partir de sua tradição de fé original, sobre a possibilidade de o evangelho também ser anunciado a gentios. “Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se de alguém de outra raça”, diz ele em Atos 10.28a. Contudo, porque já descobriu que “ao que Deus purificou não deve considerar comum” (At 10.14), pode agora testificar: “Mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo” (At 10.28b). Ele agora sabe que “Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (10.34s).

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Pedro continua a falar, fazendo um resumo do evangelho de Cristo (36-43). E ainda fala quando o Espírito Santo “caiu sobre todos os que ouviam a palavra” (v. 44) Os “fiéis que eram da circuncisão [...] admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo” (v. 45). Esses dois últimos versículos já não fazem parte do texto proposto como uma das leituras para o nosso domingo. Não obstante, é fundamental que nos apercebamos dessa ação admirável: o Espírito Santo cai sobre os gentios! E cai ainda antes de eles serem batizados (v. 47s). As reflexões em torno dessas três passagens levam a ver um desenvolvimento de um a outro. Ao Servo, escolhido e sustentado por Deus, é dada a missão de promulgar o direito de YHWH aos gentios, mas também em meio ao próprio povo de Deus. Jesus recebe essa tarefa e a cumpre. Também ele promulga o direito de YHWH, não só em meio ao povo de Deus, mas também aos gentios, embora pareça ter hesitado a princípio, como no caso da mulher cananeia (Mt 15.21-28; Mc 7.24-30). Por outro lado, vai ao encontro do pedido do centurião de Cafarnaum (Mt 8.5-13; Lc 7.1-10). Jesus atribui a seus discípulos a missão. Devem ir por todo o mundo, fazendo novos discípulos (Mt 28.18-20; Mc 16.15-18; Lc 24.44-49). Para Pedro, esse “ir por todo mundo” parece difícil, a não ser que o mundo todo se torne prosélito do judaísmo e depois se converta à fé cristã. Essa será a razão de sua briga com Paulo. É nesse sentido que a passagem de Atos 10 surpreende. Deus não faz acepção de pessoas, e o Espírito Santo cai também sobre os gentios, independente de já pertencerem ou não à comunidade. O passo seguinte nesse desenvolvimento é a igreja. Mais um passo adiante, e então estamos nós, descendentes de gentios convertidos. Agora nós somos chamados a ser os servos de Deus. E a missão continua a mesma: promulgar o direito de Deus a todas as pessoas, membros ou não da igreja, crentes ou não crentes. Nem cá nem lá, Deus quer canas quebradas e pavios fumegantes. É nossa a missão de restaurar a cana e a chama. Todas as canas e chamas, pois esse é o direito promulgado por Deus. Penso que a prédica deverá atender esses dois passos. O primeiro será demonstrar o desenvolvimento acima mencionado: o Servo de YHWH, o Servo Jesus, os discípulos enquanto servos, a igreja de Jesus Cristo, incluindo a nós. Nesse último aspecto do desenvolvimento, seria oportuno lembrar os conceitos de igreja visível e igreja invisível: a primeira enquanto massa e estrutura; a segunda enquanto grupo fiel à missão, ainda que pequeno. Nossa fé nos fala que onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, ele estará no meio deles. Valeria a pena apontar aqui para algumas situações em que tais pequenos grupos fiéis atuaram na história. Lembro aqui apenas a Igreja Confessante na Alemanha nazista com sua iniciativa de defender, esconder e ajudar irmãos judeus a se refugiar. Não eram da mesma fé, mas o direito de Deus, naquele momento, valia mais para eles do que para quaisquer outros. O segundo passo está na ênfase na missão recebida pelo Servo, por Jesus, pelos discípulos e por nós: promulgar o direito de Deus dentro e fora de seu povo,

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restaurando canas quebradas e pavios fumegantes, onde quer que estejam e quem quer que sejam.

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Imagens para a prédica

A primeira imagem que me vem à mente é negativa. O fato ocorreu na semana da Páscoa, pouco antes da Copa do Mundo, momento em que escrevo. Foi noticiado em diversos jornais. Tomo aqui a versão da Folha de São Paulo: Jogadores do Santos se recusam a participar de ação beneficente por motivo religioso O que era para ser um gesto de caridade virou uma saia justa para os meninos da Vila. Trinta e quatro pessoas, incluindo crianças e adolescentes, a maioria com paralisia cerebral, aguardavam na quinta-feira, 1º de abril, a chegada do elenco santista, que faria a doação de ovos de Páscoa no Lar Espírita Mensageiros da Luz, em Santos. Ocorre que boa parte dos atletas – incluindo os mais badalados e aguardados, como Neymar, Robinho e Ganso – não saiu do ônibus. O aparente motivo do levante foi religioso: a instituição beneficente segue a doutrina espírita. Ao lado dessa triste imagem “evangélica”, lembro de outros personagens bem conhecidos na história: um não-cristão, Mahatma Ghandi; outro cristão, Martin Luther King Jr. O primeiro, independentemente de sua casta, colocou-se pacificamente ao lado de todos os indianos em busca de independência, a começar pelo direito ao sal. O segundo, evangélico de fato, colocou-se ao lado de todos os negros norte-americanos, fossem ou não cristãos, na luta pacífica por seus direitos. Refizeram, ambos, canas quebradas e pavios fumegantes.

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Subsídios litúrgicos

O tema do culto nesse 1º Domingo após Epifania é a missão para dentro e para fora do povo de Deus. Essa missão, dada originalmente ao Servo, a Jesus e aos discípulos, agora compete a nós. Não é uma missão catequizadora ou proselitista. Trata-se de promulgar o direito de Deus, especialmente às canas quebradas e aos pavios fumegantes. A partir disso, sugiro utilizar Isaías 42.3 como versículo de introito. A confissão de pecados e a oração de coleta deveriam refletir a temática: a primeira poderia dar ênfase a nossas omissões, nossos preconceitos em relação aos descrentes ou (muito) diferentes na fé e a nossos receios diante da missão. A segunda pode ater-se ao fortalecimento que recebemos de Deus para a missão, enfatizando a escolha que ele faz por nós e a sustentação que nos promete. A oração de intercessão fará bem em lembrar as canas quebradas e os pavios fumegantes deste mundo, acentuando os casos mais próximos da comunidade, Além disso, será oportuno orar por aquelas pessoas que se dedicam à missão, bem como pedir que Deus nos encoraje a imitá-las.

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Importante é uma mensagem de envio ao final do culto. A missa = missão começa agora. A bênção enfatizará a promessa de Deus para esse envio.

Bibliografia Para informações sobre o Servo de YHWH, aponto para as p. 672ss de VON RAD, G. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: ASTE, Targumim, 2006. Além disso, há dois bons auxílios homiléticos anteriores: SCHULTZ, V. 1º Domingo após Epifania – Isaías 42.1-7; Atos 10.34-38; Mateus 3.13-17. In: SCHNEIDER, N.; DEIFELT, W. (Coords.) Proclamar Libertação, v. 21. São Leopoldo: IEPG, Sinodal, 1995. p. 51-54; e DEIFELT, W. 1º Domingo após Epifania – Isaías 42.1-7; Atos 10.34-38; Marcos 1.4-11. In: WITT, O. L.; DA SILVA, J. A. M. (Coords.). Proclamar Libertação, v. 25. São Leopoldo: IEPG, Sinodal, 1999. p. 80-85.

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2º DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: JOÃO 1.29-42

16 JAN 2011

ISAÍAS 49.1-7 1 CORÍNTIOS 1.1-9

Vera Immich

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Introdução

Grande parte do primeiro capítulo do quarto evangelho é testemunho de João, o Batista, sem diminuir nem desconsiderar os demais personagens. Com habilidade e boa retórica, João tira a si mesmo do centro das atenções e põe aquele que é o centro: Jesus. A intencionalidade de João está clara: ele quer levar o ouvinte à fé. “Eu não sou o Cristo” (1.20) e, tão conhecido texto, símbolo de humildade: “Não sou digno de desamarrar as suas sandálias” (1.27). Nosso texto concentra-se no eixo teológico: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, proferido por João várias vezes. Essa máxima teológica deverá ser o guia do pregador/a. No texto de Isaías 49.1-7, encontramos o poema de anúncio da vinda do Servo Sofredor. Autores afirmam ser a primeira alusão ao fato de ser um caminho de dor e de sofrimento. No v. 2, encontramos a alusão da palavra de Deus, como sendo mais cortante do que uma espada de dois gumes. Para seguir essa palavra, são necessários submissão e coração aberto. Palavra que escandaliza e que faz inimigos, que leva ao deboche. Ao escrever a Primeira Carta aos Corintos, Paulo está preocupado com as divisões internas. Ele chama sua comunidade a unir-se em torno das verdades pregadas e ensinadas e comunica-lhe que são motivo de suas orações e de sua gratidão a Deus. Paulo lembra os ensinamentos de que devem manter-se unidos e fiéis ao Deus do amor, pois são seus santos e receberam os dons, enquanto aguardam o fim, quando deverão apresentar-se perante Deus de forma irrepreensível. A carta de Paulo inicia de forma bastante amorosa, mas clara de que espera obediência. E para obedecer são necessários humildade e um sentimento de unidade comunitária. Ainda hoje é um texto desafiador que leva o ouvinte a esquecer-se de suas verdades e voltar-se para as verdades do Senhor da Igreja.

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Exegese

Nosso texto inicia com João dirigindo-se a Jesus e revelando que ele é o Cordeiro que tira o pecado do mundo (2.29); esse é o Servo de Isaías 53, que carrega o pecado dos homens e se oferece como “cordeiro de expiação”. O rito do cordeiro pascal lembra o símbolo da redenção de Israel (At 8.31-35 e 1Co 5,7). A imagem do cordeiro também se aplica a Jesus em outros textos do Novo Testa-

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mento, lembrando o cordeiro da Páscoa (Êx 12.1-24; 1Co 5.7), o Servo sofredor do Senhor (Is 53.4-7) e o Cordeiro vencedor universal de todo mal. João testifica que esse é o esperado, o anunciado, que veio após ele, mas já existia antes dele. Sua missão é anunciar sua vinda. João batiza com água, mas ele com o Espírito Santo. Entra então a imagem da pomba, a materialização do Espírito Santo, definindo a obra do Messias anunciada desde o Antigo Testamento, “porque o Espírito repousa sobre ele” (Is 11.2,42.1). O Messias poderá dar o Espírito Santo à humanidade e o fará, através do batismo do Espírito Santo, após sua morte e ressurreição. Somente depois de “elevado” e de passar para o Pai. Somente então ele enviará o “consolador” (Jo 14.26, Jo 15.26) e então o Espírito de Deus se difundirá sobre o mundo. João testifica a revelação feita pela pomba, que, ao repousar sobre Ele, distingue-o e revela-o como sendo o Messias esperado e aguardado. A partir do v. 35 até o v. 42, ocorre o reconhecimento por parte dos primeiros discípulos de que ele é o Messias e o seguimento voluntário provocado pelo testemunho de João. Eles o confessam como seu Mestre e querem segui-lo, querem saber onde ele vive. Chamam-no de rabi, que é aquele que ensina o Antigo Testamento, de onde vem a palavra rabino. Jesus acolhe-os e convida-os para que o acompanhem até sua casa. Concluindo nosso texto, Jesus aceita Simão, filho de Jonas ou de João (há discussões em torno desta questão), e muda seu nome: “Será chamado Cefas, que quer dizer Pedro” (v. 42). No original aramaico, a mesma palavra é usada para designar Pedro e pedra. Ao mesmo tempo, a materialidade da rocha e o nome de um discípulo, sobre o qual será edificada a igreja (Mt 16.18).

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Meditação

O nosso texto oferece várias possibilidades ao pregador. Convém delimitar e enfatizar algumas para não se perder com muitas informações. Temos o evento da referência ao batismo de Jesus, que, juntamente com o nascimento e a morte/ ressurreição, destacam-se como os eventos mais importantes da vida de Jesus. A partir do batismo é possível destacar algumas boas-novas. Destacamos alguns pontos: 3.1 – Deus reconcilia “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (v. 29). João encontra Jesus e testemunha que esse veio para reconciliar o mundo com o Pai. O pecado afasta o ser humano de Deus, mantém-no isolado, infeliz, amargurado, acumulando bens, amarguras, inimigos, bajuladores e distanciando-o da vida plena e do amor de Deus, de relações autênticas, não perfeitas, mas fiéis e constantes e não de acordo com a conveniência. O cordeiro quer tirar o pecado o mundo, “lavar” nossas vidas da cobiça, do desamor, da insegurança e das muitas transgressões, às quais sucumbimos. Em Isaías 44.22 há uma belíssima palavra sobre isso: “Desfaço as tuas transgressões como a névoa e os teus pecados, como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi”. Ainda no texto de Isaías, da leitura

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bíblica, somos lembrados de que não viemos ao mundo por acaso, mas que desde o ventre de nossa mãe já existimos no projeto de Deus e somos amados por ele e capacitados para viver neste mundo. 3.2 – Deus chama e acompanha Deus chama com as mesmas palavras de João sobre Jesus aqueles que estavam com ele: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Dessa forma, João Batista chama a atenção dos ouvintes e também de nós hoje que é hora de largar tudo o que nos separa de Deus e que nos mantém ocupados demais e voltar nossos olhos e corações ao cordeiro de Deus. Imagino que alguns devem ter achado que o excêntrico andarilho conhecido por João Batista estava querendo impressionar com seu discurso aquele que elegera como seu rabi. Como? Olhar para Jesus, o nazareno? Seria esse o Messias, o Salvador prometido há tanto tempo? Não pode ser. De que forma uma pessoa tão humilde como Jesus pode salvar? Ainda ontem ele fora batizado, e gerou-se um falatório a respeito do batismo, que teria tido seu ápice com a presença misteriosa de uma pomba que testificava ser esse o Filho amado: “E, sendo batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16,17). Outros, porém, deixam-se sensibilizar pelo anúncio de João e seguem Jesus, não sem antes indagá-lo por onde vive. Jesus, então, sem cerimônia, convidaos para ir com ele e passar o resto do dia onde ele vivia. Convém destacar que nem João Batista tampouco Jesus fazem um discurso com apelo conversionista. Apenas ocorre o testemunho revelador de que Jesus é o Messias esperado e que batizará com o Espírito Santo. Também se observa que o texto deixa claro que João faz o mesmo discurso no dia do batismo, não acontecendo nada. Somente “no dia seguinte”, ou talvez nos dias seguintes, é que, repetindo o mesmo discurso, leva ao seguimento. Outra figura que pode ser explorada na pregação é a do cordeiro, tão conhecida pelos judeus da época. O Messias tão esperado estava entre eles, embora não fosse como muitos esperavam: não veio com grande majestade e glória; não veio como leão de Judá, embora o fosse; não veio como rei, mas como servo (Mt 20.28). Diariamente, cordeiros eram sacrificados no templo. Aos nossos olhos, uma cena chocante: um animal manso e indefeso era degolado inocentemente em favor dos pecados do povo. Assim veio o Messias. O salvador. O redentor. Como um cordeiro. E da mesma forma foi morto, ao ser pregado na cruz do Gólgota. O cordeiro conclui a obra “Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, Tem piedade de nós. Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, Dá-nos a paz”.

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A canção litúrgica ensina-nos constantemente que, cantando ao cordeiro de Deus, damos testemunho de sua obra salvífica, clamamos para que tire o pecado do mundo e tenha piedade de nós. Acertadamente, cantamos duas vezes, implorando piedade, e somente na terceira é que clamamos pela paz. Esse cântico se encarna na realidade individual e comunitária de todos os ouvintes. O mundo está cheio de pecado e de tristezas, que fazem o ser humano sofrer e que, muitas vezes, o afastam da igreja. São tantas as mortes prematuras causadas pela violência urbana, por assaltos, invasões de domicílio, quando não é somente a casa que é invadida, mas o warmes Nest, o aconchego e o espaço de descansar e recarregar as energias; o espaço da individualidade e de silenciar para ouvir a voz de Deus. Porém não sem antes verificar se as portas e janelas estão trancadas, se as grades não foram serradas. Clamar ao cordeiro para tirar o pecado do mundo, porque a paz urge. Da paz que vem de Deus e que chega mesmo para aquele que está atrás das grades ou está triste ou desiludido, tomado de dor e tristeza. Paz que vem de Deus, revelada no cordeiro, é paz maior que todas as tribulações, que toda a dor, que toda perda ou insegurança que se pode sentir e experimentar. A paz que vem do cordeiro inspira mansidão. A imagem do cordeiro tem algumas semelhanças com o próprio Jesus. Primeiro chama a atenção por sua natureza mansa. Em seu Espírito de humildade, Jesus personifica o cordeiro. No livro de Apocalipse, o autor refere-se a Jesus 28 vezes como cordeirinho. Além da mansidão, o cordeiro também tipifica pureza. O cordeiro que era oferecido em sacrifico não podia ter mancha ou defeito. Quando Deus deu instruções para a primeira Páscoa, também recomendou um cordeiro sem defeito (Êx 12.5). Cristo, o cordeiro de Deus, anunciado por João, personifica essa qualidade. E a terceira e mais forte semelhança deve-se à forma de sua morte. O cordeiro nascia para passar para a morte sacrificial. Desde Abel, que ofereceu as primícias do rebanho (Gn 4.2-4). Também em Números 28 e 29, são apresentados muitos cordeiros para ser sacrificados. E, na plenitude dos tempos, Deus providencia um sacrifício melhor, sem mancha e sem defeito. Deus, em sua infinita sabedoria, fez desse grande, último e definitivo sacrifício uma fonte ininterrupta de redenção, da qual também cada um de nós pode participar ainda hoje ao clamar: “Este é cordeiro de Deus”.

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Imagens para a pregação

O pregador poderá levar um triângulo (instrumento musical) ou, na falta desse, levar em cartolina, quem sabe com a indicação dos três vértices iguais, sendo que a do cume aponta para Deus e as duas da base, uma representa o indivíduo e a outra o próximo, conforme ilustra o texto abaixo.

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A força do amor Martin Luther King (in: As mais belas orações do todos os tempos, org. MURARO, R.M. e CINTRA, F. R., Ed. Rosa dos Tempos, p. 130) Toda a vida tem três dimensões: comprimento, largura e altura. A extensão da vida, o seu comprimento, é o caminho interior de cada homem à procura de seus fins: ambição, bem-estar, realização. A largura é a procura do bem-estar, realização. A largura é a procura do bem-estar do próximo. A altura é a subida para Deus. A vida completamente realizada é um triângulo coerente. Num de seus ângulos está o indivíduo; no outro, o próximo; no cume, a pessoa infinita de Deus. Sem o desenvolvimento adequado de cada parte do triângulo, vida alguma estará inteiramente realizada. Somente o amor permite ao homem atingir estas três dimensões: o amor de si mesmo, visando a realização sadia e justa de sua personalidade; o amor do próximo, como a si mesmo; o amor de Deus, fonte e centro de tudo o mais. Deus está sempre no seu universo. Nossas realizações técnicas e científicas não o podem banir nem do espaço microcósmico do átomo, nem das vastas e insondáveis extensões do espaço interestelar. Vivendo num universo em que as distâncias de certos corpos celestes devem ser medidas em bilhões de anos-luz, o homem moderno pode ainda exclamar como o salmista antigo: “Quando contemplo os céus, obra de tuas mãos, o que é o homem, para que te lembres?” João elevou-se a essa alta visão. Permita Deus que também nós a percebamos e nos ponhamos em marcha para a cidade perfeita – em que a extensão, a largura e a altura são iguais. Como autênticos filhos de Deus.

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Subsídios litúrgicos

Bênção: Deus te abençoe além do dia. Deus te abençoe e te dê alegria. Deus te abençoe e te ilumine. Deus te abençoe com poder. Deus te abençoe com saber. Deus te abençoe com saúde. Deus te abençoe a virtude. Deus te abençoe em seu labor. Deus te abençoe a vida inteira. Assim te abençoe o Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!

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Bibliografia ROLOFF, J. A Igreja no Novo Testamento. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2005. MURARO, R.M.; CINTRA, F.R. Poemas para encontrar Deus. Editora Rosa dos Tempos, 1970. MURARO, R.M.; CINTRA, F.R. As mais belas orações de todos os tempos. Editora Rosa dos Tempos, 1995.

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3O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: MATEUS 4.12-23

23 JAN 2011

ISAÍAS 9.1-4 1CORÍNTIOS 1.10-18

Claiton André Kunz

1

Introdução

Quando olhamos ao nosso redor, percebemos a quantidade de pessoas sem Deus, sem esperança e sem razão para viver. Parece que as coisas estão cada vez mais difíceis e mais complicadas. Entretanto, as dificuldades não são privilégio nosso; problemas não começaram a existir em nossos dias. Já no Antigo Testamento era assim. Isaías falou de uma terra que estava aflita, de um povo que andava em trevas, daqueles que viviam na região da sombra da morte (Is 9.1-4). Chega a ser assustadora essa descrição. Mas a boa notícia é que já o profeta anunciou que isso não continuaria assim. Esse mesmo povo veria uma grande luz. Essa profecia se cumpre com a vinda do Messias, e Mateus identifica-a com Jesus (Mt 4.12-17). A luz de Cristo resplandeceu aos que viviam nas trevas e aos que viviam na sombra da morte. A vinda do Messias trouxe consigo a manifestação do reino de Deus, e a chegada do Reino traz implicações para todas as pessoas. Primeiramente, a exortação de que todos precisam colocar a sua vida em dia, e, portanto, a chamada é: “Arrependeivos!” (Mt 4.17). Mas, ao mesmo tempo, surge a convocação de que cada um precisa seguir o Messias e entregar-se totalmente a Ele, como fizeram os discípulos de Jesus (Mt 4.18-22). Finalmente, é necessário que aqueles que experimentaram a luz de Cristo possam proclamar essa mensagem a todos aqueles que ainda não a conhecem. Paulo tinha isso como sua missão: Cristo não me enviou para outra coisa, senão para proclamar o evangelho, a mensagem da cruz (1Co 1.10-18).

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Exegese

Mateus e Marcos confirmam que Jesus voltou para a Galileia depois da prisão de João Batista. Mas Mateus é mais específico, afirmando que Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, no lado ocidental do mar da Galileia. Alguns comentaristas querem afirmar que isso foi uma fuga de Jesus do perigo de Herodes. Entretanto, a Galileia e também a Transjordânia estavam sob a jurisdição de Herodes Antipas (denominado por Lucas de “a raposa” – 13.32), que daria a ordem para que se decapitasse João Batista (Mt 14.1-12). Assim, parece que Jesus se dirige à Galileia a fim de assumir a obra de João e, em certo sentido, desafiou a ação de Herodes. Parecia ser apropriado que Jesus iniciasse seu ministério público na Galileia, pois era um distrito da Palestina densamente povoado e muito fértil. Josefo

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informa que a região tinha inúmeras cidadezinhas, e a menor delas com pelo menos 15 mil pessoas. A Galileia não era uma região de interior, mas uma área produtiva, cortada por duas estradas muito usadas na época. Como o próprio nome Galileia sugere (significa “anel” ou “circuito”), ela estava rodeada por gentios (fenícios a oeste, sírios ao norte e leste e samaritanos ao sul). Por isso ela é chamada no v. 15 como a Galileia dos Gentios. A cidade de Cafarnaum tornou-se a sede do ministério de Jesus na Galileia. Em 9.1, Mateus refere-se a Cafarnaum como sendo a própria cidade de Jesus. Essa cidade localizava-se onde antigamente ficava a região de Zebulom e Naftali. Assim, quando Jesus se muda para essa cidade, Mateus vê o cumprimento da profecia de Isaías 9.1-2, a qual afirma que a terra de Zebulom e a terra de Naftali, onde um povo vivia em trevas, viram grande luz. Mateus faz então um resumo da pregação de Jesus: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (v.17). Sua mensagem insiste nas palavras do Batista, que proclamava o arrependimento diante da vinda iminente do reino dos céus (3.2). Embora haja uma similaridade muito grande entre as palavras de João Batista e as de Jesus, a diferença era que, com a chegada de Jesus à Galileia, o reino de Deus tinha-se tornado uma realidade presente. O rei do reino estava ali pessoalmente. Mateus passa a relatar os efeitos práticos da pregação de Jesus junto aos pescadores do mar da Galileia. Esse mar (também chamado de Genesaré em Lc 5.1 e de Tiberíades em Jo 21.1) é um mar em formato de pêra, medindo 20 km de norte a sul e 13 km de leste a oeste. Na verdade, é um lago de água doce e fica em torno de 200 metros abaixo do nível do mar. Josefo relata que, na época de Jesus, havia pelo menos nove cidades que prosperavam em suas praias, ficando o mar repleto de pescadores. Os primeiros pescadores avistados por Jesus são Simão Pedro e André, os quais lançavam as redes ao mar. Ambos eram de Betsaida, no lado norte do lago, onde desemboca o rio Jordão (Jo 1.44), mas parece que agora estavam morando em Cafarnaum. Jesus os chama, e eles deviam deixar de apanhar peixes e tornar-se “pescadores de homens” (v. 19). Conforme João 1.37, André e João eram alunos de João Batista, através do qual conheceram Jesus. Eles seguiam Jesus, mas ainda não estavam constantemente com ele. Exerciam paralelamente o seu ofício de pescadores (cf. Lc 5.1-5). Agora o convite que lhes foi feito é que abandonassem totalmente sua profissão. Sua reação foi imediata. Pedro e André abandonaram tudo e seguiram Jesus. A palavra grega eutheos, traduzida por imediatamente, é seguida por ekolouthesan, que frequentemente tem o sentido de um discípulo bem disposto e obediente, que segue seu mestre como aquele que aprende e que serve. São dois pares de irmãos. O primeiro par chama-se Simão e André. O segundo par de irmãos eram filhos de Zebedeu e, de acordo com Marcos 15.40, de Salomé. Quando são mencionados em conjunto, Tiago é citado primeiro. Deve ter sido o mais velho, enquanto João era o mais novo. Tiago e João, junto com Pedro, formaram o círculo mais íntimo dentre os 12 discípulos. Tiago e João estavam trabalhando com seu pai num barco, consertando redes. Convocados

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por Jesus, ambos abandonam suas redes e o seguem. A urgência do chamado e a reação imediata dos pescadores são fatos dignos de nota. Mateus finaliza essa parte, resumindo o ministério de Jesus, de forma muito semelhante a Mateus 9.35. “Percorria Jesus toda a Galileia...”. Percebemos aqui que Jesus não se limitava em propagar o evangelho apenas onde estava, mas percorria vários lugares anunciando sua mensagem. A palavra grega para “percorria” significa literalmente andar em derredor, o que denota um andar contínuo e incansável no cumprimento de sua tarefa. Nesse verso encontramos três particípios, que resumem o ministério de Jesus enquanto andava de um lugar para outro: a) Ensinando (didaskon): O ensino era uma prática constante de Jesus. Muitos eram alcançados por seu ensino, pois o próprio evangelista Mateus relata que as multidões ficavam maravilhadas com a sua doutrina, porque Ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas (Mt 7.28-29). b) Pregando (kerysson): A palavra grega traduzida por pregar significa “proclamar como um arauto (keryx). c) Curando (therapeuon): O verbo curar significa restaurar, sarar, restabelecer. Jesus tinha uma grande preocupação com o bem-estar das pessoas. Obviamente, ele primeiro preocupava-se em restaurar e sarar a vida espiritual das pessoas, mas também a sua vida física.

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Meditação

A proclamação central, tanto de João Batista como de Jesus Cristo, era a chegada do reino dos céus. Entretanto, a chegada desse reino, que significa o domínio soberano de Deus sobre as vidas e sobre tudo o que existe, implica algumas coisas: 3.1 – O reino dos céus implica arrependimento O v. 17 afirma: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus”. A chegada do reino exige uma reação das pessoas; elas não podem permanecer como estão. Arrependimento significa voltar atrás, significa uma mudança de mente (ou direção), significa remorso pelo pecado (muito mais do que sentir pesar). Em Atos 3.19, Pedro exorta o povo que está no templo ao arrependimento e justifica claramente sua exortação: “para que sejam cancelados os vossos pecados”. A fé que recebe Cristo precisa ser acompanhada pelo arrependimento que rejeita o pecado (John R. W. Stott). Também Lutero afirmou que “não voltar a fazer determinada coisa é a essência do mais verdadeiro arrependimento”. 3.2 – O reino dos céus implica seguir a Cristo A chegada do reino significa também seguir a Cristo. Há uma exigência dupla: primeiramente, de deixar o pecado, mas também de voltar-se a Deus. A primeira precisa ser complementada pela outra.

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Jesus deixa muito claro que o caminho do discipulado não é simples e nem fácil, mas é necessário. Mais adiante diz a seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24). Ir após Jesus significa negar-se a si mesmo, negar o próprio EU. Tomar a própria cruz é interpretado muitas vezes como algum problema particular que precisa ser carregado durante toda a vida. Mas o texto não tem nada a ver com isso. Cruz sempre foi símbolo de morte, e portanto seguir a Cristo implica crucificar a própria vontade em detrimento da vontade de Cristo. Não é mais a minha vontade que é a mais importante, mas sim a vontade de meu Senhor. É exatamente isso que oramos na oração do Pai-Nosso, quando dizemos: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. 3.3 – O reino dos céus implica levar outros a Cristo Ao serem convidados a seguir Jesus, os discípulos foram confrontados com um apelo específico: “eu vos farei pescadores de homens”. Jesus não queria simplesmente que eles o seguissem, mas que eles levassem outros a fazer o mesmo. Embora com algumas dificuldades, parece que Pedro e João aprenderam a lição de forma muito clara. Percebe-se isso quando, após a ressurreição e ascensão de Jesus, estando eles na presença do Sinédrio, que lhes ordenara que absolutamente não falassem nem ensinassem em nome de Jesus, simplesmente respondem: “Nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.20). Quando no v. 23 se afirma que Jesus “percorria” toda a Galileia, isso significa literalmente que “andava em derredor”, num andar contínuo e incansável no cumprimento de sua tarefa. Hoje, geralmente colocamos desculpas ou algum empecilho para justificar nosso comodismo. Entretanto, temos de estar cientes de que hoje dispomos de muito mais recursos para alcançar qualquer local, por mais longínquo ou de difícil acesso que seja; e lembrar também que o Senhor Jesus percorria longas distâncias em regiões acidentadas da Palestina apenas com a força e a resistência de seu próprio corpo. Jesus procurava as pessoas ali onde elas estavam. Não esperava que elas viessem a Ele. Samuel Keller disse: “A chave para a alma das pessoas está pendurada em sua casa. Por isso é necessário ir até elas, procurá-las em sua vida cotidiana, em suas aflições, em suas doenças, em sua solidão”. A exemplo de Jesus, precisamos ensinar, pregar e curar, a fim de levar muitos a Cristo. Em 2 Timóteo 4.2, vemos a exortação de Paulo: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não...”. É essa postura de pregadores incansáveis e persistentes que deve ser assumida por nós, quer aproveitando oportunidades, quer criando, “provocando” oportunidades, mas convém que o evangelho seja pregado. Também o ministério de cura pode ser muito amplo em nossas igrejas hoje, pois há muitas coisas que podemos fazer pelo bem-estar das pessoas. Jesus nos proíbe deixar de lado a grande miséria física, social e econômica das multidões, como se não tivéssemos nada a ver com ela.

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Imagens para a prédica

4.1 – A visita do rei Um arauto real rodou pelas ruas da aldeia, proclamando sua urgente mensagem: “Vem o rei! O rei virá amanhã à vossa aldeia. Preparai vossas casas, pois ele almoçará com um de vós quando chegar”. Grande foi a atividade que se seguiu. Varria-se aqui, esfregava-se ali, lavava-se acolá, removia-se o pó, podavam-se as árvores, limpava-se o quintal, punha-se aqui e ali um adorno – e assim se passaram todo o dia e parte da noite. Certo homem, no entanto, não se uniu aos preparativos exteriores. “Melhor que isso é eu limpar meu coração”, disse ele simplesmente. “Cuidarei de que tudo esteja direito entre mim e meus semelhantes. Essa será a melhor maneira de me preparar para me encontrar com o rei”. Segundo conta a história, o rei preferiu almoçar numa casa humilde, cujo único ornamento era uma rosa branca no parapeito da janela; e seu morador, um homem que não se preocupou com tantos preparativos. “Receio que os outros tenham procurado encobrir injustiça e maus sentimentos”, justificou o rei, “mas esse homem embelezou o coração. Almoçarei com ele”. 4.2 – Arrependimento “Esquadrinhemos os nossos caminhos, provemo-los, e voltemos para o Senhor” (Lm 3.40). Na Guatemala, a tribo de índios kekchi tem uma boa palavra para arrependimento, cujo sentido é: “dói meu coração”. Distante dali, no interior da África, a tribo baouli tem um vocábulo talvez ainda melhor; o termo que usam quer dizer: “dói tanto que quero desistir disso”. Ao nos esquadrinharmos, podemos descobrir muita coisa que careça de ajuste. Lá na África existe uma interessante palavra tribal que descreve o que acontece ao coração de uma pessoa que se arrepende. Dizem eles: “torna-se destorcido”. Isso é justamente o que Deus deseja: destorcer todas as coisas torcidas, endireitar tudo o que está torto! Pode haver alguma dor nesse processo de destorção. Deus permite que doa o suficiente para desejarmos “desistir disso” e voltar “para o Senhor”.

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Subsídios litúrgicos Para uso na liturgia, seguem algumas sugestões:

Leitura bíblica: – Mateus 9.9 – Lucas 13.1-5 – Atos 2.36-41

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Frases de impacto: • Arrependimento é uma transformação completa do coração natural do homem com respeito ao pecado (J. C. Ryle) • Arrependimento e fé são irmãos gêmeos. • Ninguém vai para o porto seguro da glória sem navegar pelo canal estreito do arrependimento (William Dyer) • O arrependimento é o único portão pelo qual o evangelho é recebido (Basilea Schlink) • Verdadeiro arrependimento é parar de pecar (Ambrósio) • Arrependimento não é uma ideia; é uma ação (J. Blanchard) • O arrependimento começa na humilhação do coração e termina na reforma da vida (John Mason) • Nunca é cedo para se arrepender, porque não se sabe quão depressa pode ser tarde demais (Thomas Fuller) Testemunhos: – Se houver na comunidade alguma pessoa que tenha tido alguma experiência marcante em termos de uma decisão de seguir a Cristo, pode lhe ser solicitado que compartilhe a sua experiência.

Bibliografia MOUNCE, Robert H. Mateus: novo comentário bíblico contemporâneo. São Paulo: Vida, 1996. 280 p. RIENECKER, Fritz. Evangelho de Mateus. Trad. W. Fuchs. Curitiba: Esperança, 1998. 460 p.

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4O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: MIQUEIAS 6.1-8

30 JAN 2011

MATEUS 5.1-12 1CORÍNTIOS 1.18-31

Cláudio Kupka

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Introdução

Em clima de férias de verão, temos diante de nós um texto explosivo e inquietante. O texto de Miqueias quer nos convidar a revisar profundamente nossa relação com Deus. Não pretendo me deter na investigação histórica e contextual a respeito de Miqueias e o próprio texto em questão. Os comentários de Carlos A. Dreher (PL XXIV, p. 79-87) e Wanda Deifelt (PL XXVII, p. 58-64) tratam do assunto em altíssimo nível. Recomendo a sua leitura como complemento. Entendo minha colaboração na compreensão mais contextual e homilética desse texto. Para isso, valho-me de uma leitura dialogal e associativa. A ideia é “conversar com o texto”, buscando nesse diálogo uma compreensão a partir de temas e ideias que o texto e a nossa realidade têm em comum. Em determinados momentos da reflexão, podem-nos ocorrer ideias e associações úteis na etapa da reflexão e preparação da prédica. Nesses momentos, inserirei a seguinte observação entre parêntesis (Convém guardar em mente essa referência – pode ser um ponto importante na reflexão mais adiante.) Resisto à ideia de dissecar o texto de qualquer associação em busca do escopo e da sistematização das ideias básicas do texto. Defendo a coleta paralela de ideias, metáforas e ilustrações à medida que o texto vai se revelando para a gente. Farei referência aos textos complementares no final deste auxílio homilético.

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Primeira aproximação

O nosso texto é um diálogo ambientado num tribunal fictício entre Deus, seu povo e o profeta. Através dele se faz um balanço sobre a relação do povo de Israel com Deus. O tom do diálogo assemelha-se àquele que a mídia atual, ávida por dar um tom espetacular a tudo, faz quando há uma investigação de crimes de impacto nacional. (Convém guardar em mente essa referência – pode ser um ponto importante na reflexão mais adiante.) O convite ao embate de pontos de vista é público. Deus não tem o que temer. A clareza e a visibilidade de seus argumentos são a chave para o convencimento. O texto começa quando Deus convida como testemunhas as montanhas, notórias por sua visão madura e experiente da história. Se o povo esquece, os

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montes não. Se, por um lado, o convite é amplamente divulgado, por outro, o tom da análise dos argumentos é sóbria. Deus inicia num tom de lamento, autoquestionando-se se em algum momento errou para com o povo. Parece um pai avaliando sinceramente em que momento errou na educação dos filhos. Deus pergunta-se se sua presença e ação de alguma maneira foram intensas demais, a ponto de causar um estranhamento por parte de seu povo. Ele lembra então do Êxodo, conhecido no estudo exegético como o evento central da história de Israel. O Êxodo define quem é Deus. Alguém sensível ao sofrimento das pessoas e ativo no sentido de liberá-las da escravidão. Os eventos miraculosos só destacam a intensidade do agir libertador de Deus e seu amor pelo povo. Mas Deus continua. Cita dois eventos que caracterizam seu compromisso com Israel. O primeiro é o episódio citado em Números 22-24, quando o rei moabita Balaque tenta subornar Balaão, para proferir maldição contra Israel por sentir-se ameaçado pela aproximação desse povo do seu. Balaão, advertido por Deus a não proferir tal maldição, acaba não aceitando o suborno e revelando a Balaque que o povo de Israel é protegido por ele e que os moabitas não poderão fazer nada contra isso. O segundo episódio é relatado em Josué 3.1-4.18 e diz respeito à passagem do povo pelo Jordão e como miraculosamente o rio foi represado para que o povo o cruzasse. Fala de mais uma renovação do pacto de Deus com Israel. Com esses argumentos Deus espera ter lembrado o teor de suas intenções para com seu povo. Espera ter credibilidade, mesmo quando permite que aconteçam crises e dificuldades. Nesse ponto, a voz do povo de Israel é verbalizada. E qual é o teor de seu argumento? Seria de autojustificação ou acusação? Não, o povo cogita aplacar a ira de Deus, apresentando sacrifícios. Não sacrifícios comuns, mas “supersacrifícios” com muitos carneiros e litros de azeite ou até mesmo com o sacrifício do filho primogênito. O exagero dos números torna a proposta muito suspeita. O mecanismo típico de Israel para lidar com a culpa é demonstrar merecimento de perdão através de sacrifícios. Mesmo constatando a importância do sistema de sacrifícios do templo, é tão simples assim estabelecer que toda a culpa deve ser expiada automaticamente com um sacrifício? (Convém guardar em mente essa referência – pode ser um ponto importante na reflexão mais adiante.) Até aqui o roteiro da sessão do tribunal foi o esperado. Algo, porém, muda. Em vez de sentença ou nova rodada de argumentos de cada lado, o profeta verbaliza, provavelmente em reação ao posicionamento de Israel, o que de fato Deus espera de seu povo. Há aqui uma palavra de correção em relação à típica compreensão judaica sobre como lidar com a culpa. Culpa não se combate somente com sacrifício. Com culpa se lida também com a prática da justiça, da misericórdia e da humildade. Aqui há algo novo, pelo menos com a ênfase que é dada. Aqui há algo a ser investigado teologicamente: qual a relação da culpa, do afastamento da vontade de Deus com a prática automática de sacrifícios, em vez da vivência das três atitudes básicas da fé, tal como Deus espera?

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O texto termina com essa correção da compreensão da vontade de Deus. Israel não só errou ao afastar-se de Deus, como, ao voltar, fê-lo de uma maneira equivocada. Poder-se-ia dizer que o que afastou Israel de Deus continua mantendo-o longe, mesmo sob um clima de aparente retorno e arrependimento.

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Meditação

a) A ideia do julgamento levanta uma expectativa ambígua. Para Deus, julgamentos, mesmo que parciais e em momentos de crise na relação com seu povo, são oportunidades de autoavaliação, de confronto com a sua expectativa e de arrependimento sincero, ou seja, correção de rumo. Não se trata de um jogo de faz-de-conta, de aparências ou jogos emocionais. Trata-se da negação real de nossa possibilidade humana de produzir sentido e noção do que é correto para a nossa vida. Através do arrependimento, reconhecemos que precisamos depender do perdão e da vontade de Deus. Para nós, julgamentos são oportunidades de exercitar uma justiça exterior e aparente. Trata-se do exercício humano de evidenciar exacerbadamente o erro alheio e sentenciar o culpado, ao mesmo tempo em que procuramos nos isentar de qualquer culpa ou possibilidade de erro semelhante. Quando, nesse exercício, somos desmascarados, ou seja, quando nós somos alvo do julgamento alheio, então apelamos para dois mecanismos, nossos velhos conhecidos: tornar-se vítima e oferecer um sacrifício meritório. A exposição pública de casos de julgamento, eventos cíclicos muito explorados pela mídia, parte do pressuposto de que o povo exercita assim esse espírito de julgamento, mesmo que inconsciente. Esse processo não serve para produzir justiça ou purgar a sociedade de seus males reais. Em geral, mais atrapalha do que ajuda o sistema judiciário. Ele serve para outra coisa: a autojustificação que acalma nosso desejo humano por justiça externa. Não surpreende que Israel se sirva do mesmo expediente. Esse instinto humano é tão antigo quanto a própria humanidade. É mais fácil para Israel reforçar um discurso de culpa, que pode ser facilmente superado com um sacrifício, do que de fato confrontar-se com a vontade de Deus, relacionando-se com ele de maneira viva, expondo os valores de sua vida individual e social à apreciação do julgamento de Deus. O sistema de sacrifícios nunca foi instituído alienado da busca da compreensão da vontade de Deus. Os mandamentos, por exemplo, eram tão valiosos quanto os sacrifícios do templo. b) A afirmação surpreendente de que Deus, na verdade, espera a prática da justiça, o amor à misericórdia, e a atitude humilde diante de Deus traduz a síntese da vontade de Deus aplicada àquele momento histórico. Com culpa não se lida ignorando a causa do erro. Com culpa se lida com a compreensão dos passos que nos levaram ao erro. É o caminho de volta. Sem voltar pelo caminho do erro, iremos prosseguir errando da mesma maneira. Esse exercício do confronto com nosso eu rebelde, através do dolorido reconhecimento de nossa arrogância e egocentrismo, é crucial. Dele faz parte admitir quanto sofrimento produzimos ao nosso redor, quantas marcas nossa culpa

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deixou em nosso próximo. Falando em termos de sociedade, devemos dizer que o mal enraizado na maneira de como convivemos só pode ser superado através do reconhecimento de nossa participação nele, na admissão de nossa culpa diante daqueles que sofrem as suas consequências e no pedido de perdão e no recebimento da absolvição. Sem isso, o mal somente é “domesticado”, como se não existisse ou fosse um problema “dos outros”. A prática da justiça requer uma revisão das relações sociais, das leis, dos mecanismos de regulação econômica. Se em Israel já havia exploração, corrupção e pobreza como um sistema enraizado nas relações sociais, imaginem a dimensão desse problema hoje. Claro, é fácil escusar-se alegando a grandeza do problema, mas, assim, acabamos não resolvendo nem mesmo o mal que entranha as relações de nosso pequeno círculo de convivência. O amor à misericórdia é outro exercício fundamental ao nosso ser, possível somente pela graça de Deus. Olhar o próximo, considerando-o tão digno de cuidado, perdão e dignidade como nós, liberta-nos dessa visão tendenciosa e cheia de autopreservação que nos é característica. Andar humildemente com Deus é o começo de tudo. Os itens parecem estar em ordem de importância invertida. De uma relação saudável com Deus deduzimos uma relação saudável com nosso próximo. De uma compreensão libertada e libertadora da vida humana provém uma prática de misericórdia e justiça. Se cremos que somos amados graciosamente por Deus como criaturas pecadoras (reconhecendo que essa é a única possibilidade de sermos justificados), podemos viver a reconciliação com Deus e com o próximo. Humildade com Deus é dependência de sua graça e compromisso de amor com ele e com o próximo.

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Imagens para a prédica

4.1 – Sugestão para o começo da prédica A prédica poderia iniciar fazendo referência a algum julgamento que esteja tendo alguma exposição na mídia. Uma ideia poderia ser estimular, através do tom da retórica, o espírito de julgamento dos ouvintes. Durante a prédica, ao referir-se à atitude que Deus espera de nós em relação à culpa, ir frustrando essa maneira de fazer justiça para mais adiante reelaborar a postura digna, conforme a expectativa de Deus. 4.2 – Ilustração: A cerca Para reforçar a ideia de que o mal deixa marcas e que, por isso, não pode ser tratado de maneira leviana, sugiro usar a ilustração sobre a cerca. “Era uma vez um menininho que tinha um mau temperamento. O pai dele deu um saco de pregos a ele e disse que, para cada vez que o menino perdesse a calma, ele deveria pregar um prego na cerca. No primeiro dia, o menino pregou 17. Nas semanas seguintes, como ele aprendeu a controlar seu temperamento, o número de pregos pregados na cerca diminuiu gradativamente. Ele des-

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cobriu que era mais fácil se segurar do que pregar aqueles pregos na cerca. Finalmente, o dia chegou quando o menino não perdeu a calma mesmo. Ele então falou a seu pai sobre isso e o pai sugeriu que o menino agora tirasse da cerca um prego por cada dia que ele não perdesse a calma. Os dias passaram, e o menininho então estava finalmente pronto para dizer a seu pai que tinha retirado todos os pregos da cerca. O pai então o pegou pela mão e foram até a cerca. O pai disse: “Você fez muito bem, meu filho, mas, veja só, os buracos que restaram na cerca. A cerca nunca mais será a mesma! Quando você fala algumas coisas com raiva, elas deixam cicatrizes como essa aqui. Você pode enfiar a faca em alguém e retirá-la. Não importa quantas vezes você diz desculpe, a ferida ainda está lá. Um ferimento verbal é a mesma coisa que um ferimento físico.

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Subsídios litúrgicos

Litania introdutória: L: Tu não tiveste vergonha de caminhar por nossas ruas C: Por mais que as nossas ruas estivessem cheias de ódio, violência e injustiça. L: Tu não ignoraste as casas abandonadas C: Por mais que elas estivessem cheias de solidão, sofrimento e conflitos. L: Tu não desististe de amar as pessoas C: Por mais que elas tivessem perdido o amor-próprio. L: Tu não desanimaste de semear a paz C: Por mais que o mundo te rejeitasse e te levasse à cruz. L: Tu não esqueceste das crianças C: Por mais que o mundo desconhecesse sua força. L: Tu não desististe da tua criação, C: Mas nos chamaste à comunhão pela fé no poder de teu Espírito. L: Por isso nosso coração se enche de alegria quando cantamos: Confissão de pecados: Confesso o Teu nome e agradeço que me perdoaste dessas coisas tão terríveis. Atribuo isso à tua graça e à tua misericórdia, que derreteram o meu pecado como se fosse gelo. Também te agradeço pelos pecados que não me permitiste cometer. Confesso os pecados que cometi e os que não cometi – pois qual é o homem que, conhecendo sua própria enfermidade, pode atribuir pureza e inocência à sua própria força? Para que assim te ame menos e viva como se tivesse menos necessidade de tua graça, através da qual perdoas o pecado daqueles que se voltam a Ti? Agostinho (354-430 AD) Oração do dia: Vê, Senhor, eu sou um vaso vazio, que carece ser enchido. Enche-me, meu Senhor. Sou fraco na fé, fortalece-me. Sou frio no amor, aquece-me. Faze meu coração arder para que meu amor transborde e assim envolva o meu próximo.

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Em minha carência só há pecado; em ti, Senhor, há plenitude de justiça. Por isso permaneço contigo. A ti não preciso dar. De ti posso receber. Amém. (Martim Lutero) Textos complementares: O nosso texto tem uma relação muito interessante com os textos complementares. Mateus 5.1-12 compõe a abertura do Sermão do Monte, conforme esse evangelista. As bem-aventuranças representam a síntese da visão de Jesus do que vem a ser uma vida abençoada. É do esvaziamento da visão triunfalista que resgatamos uma fé piedosa, humilde e solidária. 1 Coríntios 1.18-31 igualmente se harmoniza com nosso texto profético ao revelar a preferência de Deus pela ação humanamente identificada como loucura e fraqueza. Essa postura, quando vivenciamos a dependência de Deus, preservanos de uma postura de autopreservação e cheia de vaidade.

Bibliografia DREHER, Carlos A. Miqueias 6.1-8. In: Proclamar Libertação, v. 24. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p. 79-87. DEIFELT, Wanda. Miqueias 6.1-8. In: Proclamar Libertação, v. 27. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 58-64.

5º DOMINGO APÓS EPIFANIA MATEUS 5.13-20 ISAÍAS 58.1-9a(9b-12) 1 CORÍNTIOS 2.1-12(13-16)

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6O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 30.15-20

13 FEV 2011

1 CORÍNTIOS 3.1-9 MATEUS 5.21-37

Roberto E. Zwetsch Há que escolher: a vida e o bem, ou a morte e a desgraça!

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Introdução

O Deuteronômio é um dos livros mais importantes da fé judaica. Nele encontramos a profissão de fé central do povo de Israel, conhecida pelas primeiras palavras do texto hebraico: Shemá Israel. “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Essas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te e ao levantar-te” (6.4-7). A complementação dessa profissão de fé é o que vem logo a seguir: “Quando teu filho de futuro te perguntar [...] então dirás a teu filho: Éramos servos de faraó no Egito; porém o Senhor de lá nos tirou com poderosa mão. Aos nossos olhos fez o Senhor sinais e maravilhas, grandes e terríveis, contra o Egito e contra faraó e toda a sua casa; e dali nos tirou, para nos levar e nos dar a terra que sob juramento prometeu a nossos pais” (6.21-23; compare com Êx 3.7s). Quando o escritor de Deuteronômio menciona que essas palavras valem para “hoje”, podemos perceber que é trabalho redacional de testemunho antigo. E, de fato, exegetas afirmam que esse livro em sua forma atual pode ter levado mais de 300 anos para chegar à atual composição. Ele carrega, portanto, uma longa história, que passou por altos e baixos, mas que revela como Deus acompanhou seu povo escolhido e procurou fazer dele um arauto de sua divindade aos povos. O texto de Deuteronômio 30.15-20, previsto para a pregação deste domingo, foi estudado no PL 34 pela pastora Claudete Beise Ulrich. Recomendo sua leitura para auxiliar este estudo. Importa destacar que estamos diante de um texto elaborado possivelmente por levitas pregadores, isto é, estudiosos da lei de Deus que assumiram a grande responsabilidade de retomar a lei de Deus que andava esquecida e atualizá-la para o seu tempo, século 7 a.C. O desafio da interpretação e da atualização vem de longe, portanto. As leituras previstas para acompanhar essa pregação nos remetem ao Evangelho de Mateus 5.21-37 e 1 Coríntios 3.1-9. O Evangelho de Mateus faz parte do assim chamado Sermão do Monte (5-7), que reúne palavras de Jesus num longo discurso. No trecho escolhido, Jesus retoma a lei de Moisés e, com ousadia impensável para um rabi de seu tempo, radicaliza-a ao dizer: Ouvistes o que foi

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dito aos antigos [...]. Eu porém vos digo [...]. Essas palavras de Jesus já causaram e continuam causando muito mal-estar nas comunidades cristãs, sobretudo se forem interpretadas literalmente. Mas se as interpretamos de modo espiritual, buscando seu sentido teológico, igualmente corremos o risco de baratear o que Jesus afirmou. Esse evangelho cruzou os tempos e chega até nossos dias como um espinho em nossa carne. Talvez só o possamos compreender quando pudermos viver em toda a sua radicalidade o mandamento maior: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (v. 44). O mandamento do amor passa necessariamente pela convivência com as pessoas mais próximas de nós, esposa, marido, filhos, filhas, irmãos, irmãs, pais, mães, amigos e amigas. Mas ele não para aí. Ele se comprova na relação com o outro, com a outra, que não estão no horizonte de nossas relações fraternas¸ que nos desafiam a ser íntegros sempre: “Seja tua palavra: sim, sim; não, não. O que disso passar vem do maligno” (v. 37). Em 1 Coríntios 3.1-9, o apóstolo Paulo adverte a comunidade sobre os perigos das contendas e disputas entre pessoas e grupos da comunidade. Ele faz distinção entre as pessoas carnais e espirituais, comparando as primeiras a crianças que ainda não podem receber alimento de adultos na fé. São palavras duras de quem viu aquela comunidade nascer para a fé em Cristo e agora a percebe envolta em ciúmes e contendas, que, no final, só comprometem a vivência do evangelho da paz e da reconciliação. Ora, Paulo procura dissuadir as brigas afirmando que importante não são os pregadores, aqueles que plantam e regam a planta do evangelho, mas Deus que dá o crescimento. Esse Deus chama todas as pessoas para ser suas cooperadoras no serviço da lavoura de Deus, na edificação de sua comunidade e do próprio reino de Deus em sinais que já vão surgindo aqui e ali. Essas leituras devem contribuir para a compreensão do texto da prédica. Elas demonstram que a palavra de Deus desafia à reflexão e à mudança de vida. Não será fácil abordar esses textos como se fossem uma unidade. Cada um deles exigiria um tempo para si. Mas deixemos que o Espírito de Deus conduza a comunidade reunida em culto para tal tarefa. À pregadora ou ao pregador compete anunciar com fidelidade o que a palavra de Deus hoje lhe anuncia a partir do texto de Deuteronômio.

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Exegese

O Deuteronômio recebeu esse nome devido a um equívoco na interpretação do que está escrito em 17.18, trecho que prescreve como um dos deveres do rei a “cópia dessa lei” e não uma “segunda lei”, para que ele aprenda a temer ao Senhor seu Deus, a fim de guardar todas as palavras da lei. Na verdade, trata-se da informação de que havia um texto anterior que possivelmente são os capítulos 12 a 26, material encontrado no templo de Jerusalém no tempo do rei Josias (621 a.C.). De qualquer forma, assim ficou conhecido e é tratado pelos estudiosos da Bíblia. O livro pode ser dividido em quatro partes: 1-11 – introdução histórica e teológica; 12-26 – código deuteronômico; 27-30 – conclusão da aliança; 31-34 – apêndice com exortações, cântico, bênção e morte de Moisés. Vê-se que há uma grande unidade na apresentação do material. Uma informação importante é que

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boa parte da legislação que aparece no código deuteronômico tem sua origem no período pré-estatal. Esse material foi retrabalhado especialmente no Reino do Norte em meados do século 8 a.C. Com a queda de Samaria, muitos israelitas vieram para o Sul e trouxeram suas tradições. Junto veio o material do Deuteronômio, que serviu de plataforma para as reformas de Ezequias e Josias no século 7 a.C., realizadas pelos escribas da corte (final do cap. 4 até 28). Somente no exílio e pós-exílio, o texto recebeu uma introdução (1 a 4) e uma conclusão (29-34). A partir de então, o Deuteronômio torna-se uma ponte entre o final do Pentateuco e os livros da Obra Historiográfica Deuteronomista (Josué até Reis). Nessas releituras e composições, alguns pontos merecem destaque: 1) o espírito das leis é fruto da experiência de escravidão e pobreza vivida no Egito e simbolizada no êxodo (24.18ss): Deus ouve o grito do povo e “desce para libertar” (Êx 3.7) ; Deus não só libertou o povo, mas fez uma aliança (Sinai) com esse povo pobre por pura gratuidade e amor. Tal experiência primordial cria no povo uma sensibilidade para com os pobres, as viúvas e os estrangeiros (14.28-29) e um profundo espírito de gratidão para com o Deus vivo e libertador na vida do povo (Êx 3.14s). Por causa dessa experiência histórica, que marca profundamente a constituição de Israel, a organização dessa sociedade deveria ser caracterizada por igualdade, descentralização e prática da justiça (15.1-18). Mas isso não aconteceu. Então os profetas denunciam a não-realização do compromisso assumido com Deus e a necessidade de conversão e mudança de rumos. Esses fatos aconteceram principalmente no período do reinado e, não por acaso, na lei do rei esse é apresentado como escolhido de Javé para defender os pobres e oprimidos (Sl 89 e 72). O texto deste estudo encontra-se na terceira parte, que trata da conclusão da aliança. Temos os ritos da aliança, bênçãos e maldições e o terceiro discurso de Moisés. Diante do exílio, entendido como punição pelos pecados do povo, a volta à terra se dará graças à conversão do povo. Deus o ajuntará novamente “de todos os povos da terra entre os quais te havia espalhado”. Isso acontecerá assim porque “o Senhor teu Deus mudará a tua sorte e se compadecerá de ti” (30.3). Tal reviravolta será uma nova experiência do povo com seu Deus. “O Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas” (30.6). Esse mandamento e várias outras partes do Deuteronômio são citados com frequência no Novo Testamento. Há nesse livro uma tensão latente entre pelo menos duas correntes de levitas. A dos levitas do rei, ligados à corte, que reforçam a tese principal de Javé como único Deus verdadeiro, da centralização do culto no templo e da função do rei como filho de Deus e defensor dos pobres. São esses também que estão a serviço dos sacerdotes que dirigem as celebrações no templo, mais tarde duramente criticados. Já os levitas itinerantes revelam uma forte preocupação social e exortativa, geralmente não exercem função litúrgica e são mencionados ao lado de pobres e desamparados (12.12ss; 14.27ss; 16.14; 26.11ss). Eles são pregadores-catequistas com a missão de ensinar a Lei (31.9ss). Como os profetas, ele criticavam as instituições e as relações sociais corrompidas e anunciavam o caminho da conversão, que se realiza por meio de uma nova fidelidade à aliança.

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O critério dessa pregação era a aliança do Horebe (Sinai), na qual o povo recebeu o Decálogo (Dt 5). Moisés é relido desde esse ponto de vista, e os mandamentos não podem ser apresentados apenas como uma lei imposta, mas algo que precisa estar inscrito nos corações (Jr 31.31ss). Essa releitura da tradição mosaica no tempo da monarquia representa uma avaliação crítica da transição política, econômica e social na passagem do sistema tribal para o sistema tributário. O Deuteronômio mostra que o custo do desenvolvimento é a idolatria, que surge com uma sociedade dividida em classes e construída sobre a injustiça e a desigualdade. Voltar à Javé e “tomar posse da terra” que ele prometeu aos pais é, simbolicamente, atravessar pelo caminho da fé a fim de revolucionar completamente o sistema daquela sociedade (Storniolo). O Deuteronômio é, pois, um veemente apelo à conversão (30.15ss), único caminho que pode conduzir à vida verdadeira. Trata-se de uma conversão pessoal e social, um recomeço de todo o Israel. E isso deve acontecer hoje (27.9). V. 15 – Moisés propõe a retomada da aliança nestes termos: escolham a vida e o bem, ou a morte e o mal. A decisão histórica é uma reavaliação do passado e uma nova visão de futuro. Como foi dito acima, Deus antecipou-se ao escolher por amor um povo para si. Agora se trata de retornar àquele pacto pela vida. V. 16 – Esse pacto ou aliança concretiza-se guardando os mandamentos de bem viver que Deus deu ao povo, os juízos e estatutos que organizam a vida e a fazem multiplicar. Seguir esses mandamentos e juízos de Deus significa viver numa terra abençoada. V. 17 – Mas há sempre o perigo de seguir outros deuses, de se deixar levar pela sedução da riqueza, da acumulação de bens, do esquecimento da solidariedade que une os mais fortes aos mais fracos. Tal idolatria é servir aos “deuses”, e isso não ficará sem consequências. A idolatria corrompe o coração e a mentalidade (razão). V. 18 – Viver de forma idolátrica servindo a outros deuses que não ao Deus vivo e libertador significa morte. E morte equivale a perder a terra e corromper a comunhão de vida. Possuir a terra é experimentar uma vida abençoada como povo e como famílias. É muito oportuno aqui sempre lembrar que a lei de Deus inclui o estrangeiro, a viúva e o órfão. V. 19 – Como se a história e a própria criação fossem testemunhas dessa decisão crucial na vida do povo, Moisés afirma que os céus e a terra depõem contra o povo. E nesse tribunal da história é preciso escolher entre vida ou morte, bênção ou maldição. O profeta exorta com todo o amor que pode colocar em suas palavras: escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência. Escolher hoje o caminho da vida repercutirá nas gerações futuras. A escolha é, portanto, vital e tem dimensões de futuro. V. 20 – Tal escolha vital não se dá por um frio cálculo de possibilidades, colocado na balança da justiça da lei. Na Bíblia, não há lugar para a lei de Gerson, aquela que ensina a levar vantagem em tudo. É algo maior. Bem maior. Diz respeito a como entender o Deus vivo e relacionar-se com ele. Por isso o profeta ensina: a escolha do caminho da vida se dá amando o Senhor teu Deus, dando ouvidos à sua voz, apegando-se a ele (observem aqui a semelhança com a lingua-

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gem profética de Oseias). Aí está o que significa “circuncisão do coração” (30.6), que também o apóstolo Paulo retoma ao elaborar o seu evangelho da graça e do amor que salva e liberta (Romanos 4 e o exemplo de Abraão). Seguir a lei do amor é apegar-se a esse Deus, é ouvir sua voz. Só assim cumprir os mandamentos de Deus não será uma carga a mais, mas exercício de liberdade para que a vida seja longa sobre a terra e se possa viver nela conforme as antigas promessas dadas aos pais Abraão, Isaque e Jacó.

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Em vista da prédica

O estudo do texto merece considerar todo o capítulo 30. Isso pode ajudar a pregadora ou o pregador a encontrar os ganchos que os ajudem a atualizar a mensagem para seu contexto e em vista da comunidade que atentamente estará aguardando a inspiração para a vida cotidiana. O pastor Mauro Batista de Souza fez estudos sobre a nova homilética e afirma que a grande mudança que precisamos considerar hoje em dia é a seguinte: na pregação importa mais o ouvinte do que o pregador. É o ouvinte que deve estar no centro da pregação. Por isso não se deveria fazer da pregação uma palestra, discurso ou aula de teologia. A pregação narrativa ajuda a despertar no ouvinte o gosto pela palavra e pela mensagem que ela quer transmitir. E se bem atingido pela experiência do pregador, ela ou ele saberão tirar as consequências que a mensagem sugere. Nesse sentido, falar das escolhas fundamentais que fazemos na vida é um tema importante e muito oportuno em nossos dias. Fazemos escolhas diariamente. Tanto na profissão como em outras atividades corriqueiras. Até cansamos de ter de escolher com tanta frequência. Por essa razão, o sistema e sua propaganda nos envolvem a todos sutilmente ao nos informar que já fizeram as “melhores” escolhas por nós. Podemos ficar tranquilos então. Até mesmo agradecidos. Basta pagar o preço que nos pedem (fazer um pacto), e podemos viver felizes na terra que Deus nos deu a graça de receber como país, pátria, lugar de vida. Essa seria uma forma de compreender a escolha fundamental segundo a ótica do sistema que hoje domina o mundo. Nessa lógica, sobra pouco espaço para os derrotados, os que não aderem a esse pacto pelo sucesso. Solidariedade e compaixão para com os desamparados, nem pensar. É uma lógica do sucesso, da prosperidade particular, quando muito familiar. Por isso temos de refletir juntos sobre o que significa escolher a vida e a bênção por “amor ao Deus da vida”, por apego à sua voz e chamado. Sob essa perspectiva, a escolha fundamental jamais será algo puramente individual ou privado. Ela envolve as pessoas com quem convivo e a “descendência”. Escolha de longo alcance, portanto. E que nos dias de hoje inclui também o meio ambiente, os animais, as plantas, as matas, os rios, os mares, o ar que respiramos. Vale a pena desafiar a comunidade para repensar suas escolhas e nelas procurar discernir o que significa escolher a vida e a bênção, ou a morte e a desgraça.

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Subsídios litúrgicos

A pregadora ou o pregador poderiam imaginar o que significa hoje estabelecer um pacto pela vida. Então seria o caso de escolher uma imagem ou um símbolo desse pacto. Talvez algo que lembre o cordão umbilical ou a coroa da vida que Deus prometeu a quem permanecer fiel, ainda que em meio a tropeços, desvios ou fraquezas. A quem Deus escolheu ele não deixará de acompanhar, pois sua fidelidade e misericórdia duram para sempre (Sl 118). Quando meu filho Binô Mauirá nasceu na aldeia Kulina de Maronáua, Acre, as mulheres que auxiliaram minha esposa no parto entregaram-me a placenta do menino e eu, sem saber o que fazer, perguntei a meus amigos como proceder. Eles me disseram para ir atrás da casa e enterrar a placenta na terra. Foi o que fiz, acompanhado por Pama, a filha e irmã mais velha. Depois os Kulina me disseram: “Isso significa que o teu filho é parte desta terra. Aqui é a sua terra”. Importante seria escolher bem os hinos para esse culto. Para o início, sugiro o canto de repetição do HPD n° 330 – Vol. 2. O dirigente canta, e a comunidade responde. Para as demais partes, procurar hinos que traduzam a vivência dos mandamentos como lei do amor, por exemplo, do HPD n° 397; n° 436; n° 457 – Vol. 2. Para a Ceia do Senhor, sugiro o HPD n° 419 – Vol. 2. Oração de Martim Lutero: “Senhor Deus, Pai de todas as dádivas e firmeza, fortifica por graça o que começaste em nós por intermédio de teu Santo Espírito, para que Satanás não nos enfraqueça e torne cansados através de falsidade e violência, de modo que deixemos tua palavra e teu reino. Vivemos em época perigosa, porque muitos são enganados por entusiastas e também decaem. Iludidos pela falsidade de Satanás, julgam ter o bastante e saber tudo. Assim se tornam preguiçosos e ingratos. Por isso deixa-nos permanecer no fervor da fé, para que cresçamos nela diariamente, em Jesus Cristo, nosso verdadeiro e único auxílio. Amém.” Bênção: “A bênção do Deus de Sara, Abraão e Agar, a bênção do filho nascido de Maria. A bênção do Espírito Santo de amor, que cuida com carinho qual mãe cuida da gente, esteja sobre todos nós. Amém.” Há uma versão cantada dessa bênção.

Bibliografia HOMBURG, Klaus. Introdução ao Antigo Testamento. 4.ed. Trad. Geraldo Korndörfer. São Leopoldo: Sinodal, 1981. NAKANOSE, Shigeyuki. Para entender o livro do Deuterenômio. Uma lei a favor da vida? In: RIBLA – Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. N. 23, p. 176-193. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1996. STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro do Deuteronômio. Escolher a vida ou a morte. São Paulo: Paulinas, 1992.

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7O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: MATEUS 5.38-48

20 FEV 2011

LEVÍTICO 19.1-2, 9-18 1 CORÍNTIOS 3.10-11, 16-23

Gerson Correia de Lacerda

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Introdução

O texto de Mateus deve ser focalizado tendo em vista o seu contexto. Em Jesus de Nazaré, Deus manifesta-se e revela a sua presença entre nós. A manifestação de Deus acontece em toda a atuação de Jesus. Ele dá início a seu ministério depois da prisão de João, saindo de Nazaré e indo para Cafarnaum (Mt 4.12-12), onde proclama a mensagem da chegada do reino de Deus e convida ao arrependimento (Mt 4.17). A seguir, chama algumas pessoas e forma uma comunidade de discípulos (Mt 4.18-22). E, imediatamente, passa a andar por toda a Galileia, ensinando, anunciando a chegada do reino e curando os enfermos (Mt 4.23). O ensino de Jesus é detalhado nos capítulos 5 a 7 de Mateus, ao passo que sua atuação curativa é destacada nos capítulos 8 e 9. Em seu ensino, conforme apresentado pelo Evangelho de Mateus, Jesus trabalhou com antíteses (Vocês ouviram o que foi dito a seus antepassados... Mas eu lhes digo). O texto para este domingo apresenta duas antíteses (Mt 5.38-42 e Mt 5.43-48). Elas têm algo em comum: tratam do modo como devem agir os seguidores de Jesus diante dos que lhes fazem mal. Uma coisa fica clara: a comunidade dos discípulos deve apresentar um novo modo de relacionamento. Representa o que Warren Carter chamou de “mundo alternativo marcado não pela opressão, mas por relacionamentos sociais reestruturados e por recursos acessíveis e redistribuídos”. É desse reino alternativo que também trata o texto de Levítico 19.1-2,9-18. Sua exortação é para que o povo de Deus não seja como os outros povos. Sua obrigação é ser um povo diferente ou um povo santo. Na mesma linha caminha, o texto de 1 Coríntios 3.10-11,16-23, no qual a igreja é comparada ao templo de Deus, no qual habita o seu Espírito, em que cada um é orientado a fazer o trabalho de um construtor competente, edificando sobre o alicerce que é Cristo.

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Exegese

2.1 – O problema da resistência ao perverso A difundida tradução de Almeida, revista e atualizada, traduz: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais

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ao perverso...” A Nova Versão Internacional traz: “Não resistam ao perverso”. A Bíblia de Jerusalém: “Não resistais ao homem mau”. Warren Carter propõe uma tradução diferente para o texto: “Não resistais violentamente ao malfeitor”. Sua proposta de tradução ao verbo “resistir” (antistënai) baseia-se em obra de W. Wink (Beyond Just War), na qual afirma que a raiz desse verbo é utilizada em inúmeros termos compostos para referir-se à insurreição armada e à guerra violenta. Essa argumentação tem sentido. O texto bíblico, se traduzido simplesmente “não resistais ao perverso”, apontaria para uma atitude de submissão total e completa diante da pessoa má. Ora, quem se submete dessa maneira está, de fato, dando sua colaboração para que o mal prevaleça. Devemos lembrar-nos aqui do procedimento do próprio Senhor Jesus. Ele foi tentado pelo diabo no deserto (Mt 4.1-11). Defrontou-se, pois, com o “perverso”. Contudo, resistiu. Não recorreu à violência contra o tentador. Mas resistiu, opondo-se radicalmente à submissão. Carter complementa: “O assunto não é resistir ou não (submissão passiva ou retaliação violenta), mas como se resiste ao mal. O ensino de Jesus oferece uma terceira opção: resistência não-violenta”. Depois de ordenar “Não resistais ao perverso”, Jesus deu quatro exemplos a respeito do que queria dizer com a não-resistência: a) “Se alguém lhe der um tapa na cara, vire o outro lado para ele bater também”; b) “Se alguém processar você para tomar a sua túnica, deixe que leve também a capa”; c) “Se um dos soldados estrangeiros forçá-lo a carregar uma carga um quilômetro, carregue-a dois quilômetros”; d) “Se alguém lhe pedir alguma coisa, dê; e se alguém lhe pedir emprestado, empreste”. Em todos esses exemplos, Jesus não estava ordenando submissão irrestrita ao perverso. Ao contrário, estava oferecendo exemplos de resistência não-violenta. Dar um tapa na cara de outra pessoa representa um gesto insultante de alguém que se considera superior. Oferecer a outra face mostra a resistência não-violenta de quem não se deixou intimidar. Tomar a túnica num processo é um gesto desumano que contraria a própria lei do Antigo Testamento (Dt 24.10-13). Entregar também a capa é uma atitude que expõe a crueldade de quem move o processo. Um soldado estrangeiro podia obrigar um judeu a carregar seu equipamento militar por um quilômetro. Carregá-lo voluntariamente mais um quilômetro mostraria que o soldado não tinha controle da situação. Finalmente, dar e emprestar são atitudes que representam resistência a um sistema econômico que defende o egoísmo e a avareza. Stott resumiu bem o que Jesus ensinou sobre a resistência não-violenta, dizendo: “Ele não ensina a irresponsabilidade que incentiva o mal, mas a paciência que renuncia à vingança. A autêntica não-resistência cristão é a não-retaliação”. 2.2 – Próximos e inimigos A tradução atualizada de Almeida traz: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Mt 5.43). A Bíblia de Jerusalém e a Nova Versão Internacional repetem a mesma oposição entre os termos próximo e inimigo.

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Ao falar em amor ao próximo, Jesus estava fazendo referência ao texto de Levítico 19. Devemos observar que o texto do Antigo Testamento se dirigia ao povo de Israel. Chega a dizer especificamente: “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Lv 19.18). Portanto é um texto no qual o próximo são todos aqueles que fazem parte do povo de Israel ou estão no meio do povo de Israel, podendo ser os membros da própria família (Lv 19.2), os pobres e os estrangeiros (Lv 19.10, 33-34)), os idosos (Lv 19.32) etc. Por outro lado, o texto de Deuteronômio 20, ao apresentar leis acerca das guerras, deixa claro que os inimigos são as nações estrangeiras, contra as quais Israel iria pelejar. A partir da conjugação desses textos do Antigo Testamento, era fácil estabelecer a distinção entre próximo e inimigo: próximo são os de nosso próprio povo ou entre os que vivem entre nós; inimigos são os adversários nacionais estrangeiros. Jesus, porém, não se referia a essa distinção. Em seu ensino, inimigos podem ser os membros da própria família (Mt 10.36). Na verdade, Jesus deixou claro, no próprio Sermão do Monte, que seus discípulos iriam sofrer oposição por segui-lo (Mt 5.11-12). Em outras palavras, teriam inimigos entre os próprios parentes. Assim, cai por terra a distinção a que estavam acostumados os ouvintes do sermão de Jesus entre próximo e inimigo. Próximos podem ser inimigos. Gentios estrangeiros podem ser próximos. Tudo isso tem a ver com o novo reino que Jesus anuncia e proclama. Esse reino irrompe em nosso mundo e transforma todas as relações humanas. E o ensino de Jesus é a respeito de como devem agir seus seguidores como verdadeiros cidadãos do reino de Deus tanto diante do próximo como diante do inimigo.

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Meditação

Quando Jesus transmitiu seus ensinamentos, todas as regiões ao redor do mar Mediterrâneo estavam sob domínio romano. Com frequência, nos dias de hoje, tem-se uma visão a respeito da dominação romana que não corresponde à realidade histórica. Imagina-se que os romanos subjugaram os outros povos com violência, privando-os de toda liberdade e impondo-lhes suas leis, costumes e cultura. Isso não corresponde a toda a verdade. De fato, os romanos conquistaram e dominaram. Mas não dominaram e conquistaram somente com a violência. Ao contrário, souberam também dominar com astúcia. Procuraram respeitar os costumes e a cultura dos povos dominados. Fizeram o possível para seduzi-los, atraindo-os às vantagens oferecidas pelo Império Romano. A dominação chegava a ser atraente. Roma prometia a Pax Romana. Algo semelhante está a ocorrer no mundo atual. Ao invés de Roma, o deus capitalismo atrai e encanta. Aos que o adoram e se submetem às suas leis, essa nova divindade promete um reino de paz e de prosperidade. Mas essa nova divindade é exigente. Cobra submissão total às suas determinações. Uma delas, por exemplo, é a avareza. Ela foi transformada em virtude e recebeu um novo nome;

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tornou-se previdência. Outra delas é a ganância. Também foi transformada em virtude e recebeu um novo nome; passou a ser amor à poupança. É diante desse mundo e sua realidade que se coloca o ensino de Jesus. Ele anuncia a chegada de um novo reino. Trata-se do reino de Deus, ou seja, um império no qual prevalece a vontade de Deus. O reino de Deus proclamado por Jesus é diferente do reino capitalista vigente em nosso mundo. Nesse sentido, o Sermão do Monte apresenta o novo estilo de vida do reino de Deus. E o texto de Mateus 5.38-48 coloca dois diferentes princípios do novo tipo de vida no reino de Deus. 3.1 – Princípio da resistência não-violenta ao mal No reino deste mundo, tal como na época de Jesus, prevalece a Lei de Talião: “Olho por olho, dente por dente”. Trata-se da lei da retribuição da maldade na mesma proporção em que é praticada. Considera-se tal lei um princípio de justiça. Sem a sua observância, teme-se que prevaleça a impunidade e a vida em sociedade se torne um caos. O reino de Deus, no entanto, proclamado por Jesus, anuncia o estabelecimento de um novo princípio: ao invés da retribuição, a resistência não-violenta. Será que esse tipo de princípio funciona? É aplicável em nosso mundo? Há muitos que duvidam de sua exequibilidade. No entanto, temos dois exemplos de que a sua prática dá resultado. Em primeiro lugar, a atuação de Gandhi no processo de libertação da Índia da dominação inglesa. Ao ler o Sermão do Monte, ele declarou: “Foi esse sermão que me fez estimar tanto a Jesus”. Colocou em prática o ensino da resistência não-violenta ao mal e conseguiu vencer o formidável poderio militar britânico. Em segundo lugar, e profundamente influenciado por Gandhi, destaca-se a figura de Martin Luther King. Ele resistiu pacificamente aos que defendiam a discriminação racial. Acabou sendo vítima do ódio de seus opositores. Mas, sem dúvida, conseguiu a vitória em sua luta pela justiça. Tanto na Índia como nos Estados Unidos, havia aqueles que defendiam a resistência violenta e a prática da vingança. Tanto Gandhi como Martin Luther King enfrentaram tremenda oposição na obediência ao ensino de Jesus. Isso mostra que o caminho da resistência não-violenta é muito difícil de ser trilhado. 3.2 – Princípio do amor até aos inimigos Ao ordenar o amor até aos inimigos, bem como a oração em seu favor, Jesus esclareceu que essa forma de agir tem um fundamento divino. Deus age dessa maneira ao não estabelecer discriminação alguma no seu amor, pois “faz com que o sol brilhe sobre os bons e sobre os maus, e dá chuvas tanto para os que fazem o bem como para os que fazem o mal”. Isso quer dizer que, ao amarem e orarem por seus inimigos, os seguidores de Jesus mostram que são filhos de Deus. Stott relembra, a respeito disso, as palavras de Alfred Plummer: “Retribuir o bem com o mal é demoníaco; retribuir o bem com o bem é humano; retribuir o mal com o bem é divino”.

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O princípio do amor até aos inimigos não significa concordância passiva com tudo o que fazem. Jesus é o exemplo máximo do amor de Deus. Amou certamente a todos, até os que se opunham a seu ministério. Isso, porém, não o impediu de denunciar os seus pecados. Recordamos as palavras de Stott: “As duas últimas antíteses revelam uma progressão. A primeira é uma ordem negativa: Não resistais ao perverso; a segunda é positiva: Amai os vossos inimigos e procurai o seu bem. A primeira é um chamado para a não-retaliação passiva; a segunda, para um amor ativo. Ou, nas palavras de Agostinho: ‘Muitos têm aprendido a oferecer a outra face, mas não sabem como amar a pessoa que os esbofeteou’”.

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Imagens para a prédica

4.1 – Prece de Gandhi “Não terei medo de ninguém sobre a terra. Temerei apenas a Deus. Não terei má vontade para com ninguém. Não aceitarei injustiças de ninguém. Vencerei a mentira pela verdade e, na minha resistência à mentira, aceitarei qualquer tipo de sofrimento.” 4.2 – Eu tenho um sonho “Eu tenho o sonho de que, um dia, os homens se ergam e percebam que são feitos para viver uns com o os outros, como irmãos. Hoje, ainda tenho o sonho de que, um dia, todos serão julgados com base no seu caráter e não na cor de sua pele e de que todos os homens respeitarão a dignidade e o valor da personalidade humana. Ainda sonho, hoje, que um dia as indústrias paradas serão revitalizadas e os estômagos vazios serão cheios; a fraternidade será mais do que algumas palavras no fim de uma oração; será o primeiro assunto em todas as agendas legislativas. Ainda sonho, hoje, que um dia a justiça jorrará como a água e o direito será um rio caudaloso. Sonho, hoje, que em todos os nossos estatutos e assembleias serão eleitos homens que praticarão a justiça, possuirão piedade e serão humildes ante o seu Deus. Sonho que, um dia, a guerra chegará ao fim; que os homens transformarão as espadas em arados e as lanças em machados, e as nações não mais se levantarão contra outras nações, nem se estudará mais a arte da guerra. Ainda sonho, hoje, que um dia o cordeiro e o leão ficarão lado a lado e todos os homens poderão sentar-se sob a sua vinha e sob a sua figueira, e ninguém sentirá medo. Sonho que, um dia, todos os vales serão exaltados e todas as montanhas e colinas aplainadas, e a glória do Senhor será revelada e toda a mortal humanidade a verá em conjunto. Ainda sonho que, com essa fé, seremos capazes de derrotar o desespero e levar uma luz nova às câmaras escuras do pessimismo. Com essa fé apressaremos a chegada do dia em que haverá paz na Terra e boa vontade para com todos os homens. Será um dia de glória. As estrelas da manhã cantarão em coro e os filhos de Deus gritarão de alegria” (Rev. Martin Luther King Junior).

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5 Subsídios litúrgicos Oração de confissão: “Nosso Pai que está nos céus, tu que nos dás nosso pão no dia de hoje, volta nossos olhos e nosso coração para todos aqueles que, em nosso mundo, não têm pão, nem lar, nem justiça, nem esperança. Perdoa as nossas ofensas e, especialmente, nosso desejo insaciável de ter, porque temos muitas coisas, quando outros necessitam delas. Ajuda-nos a viver com sensibilidade, a vencer as necessidades criadas pela imaginação, a acabar com gastos exagerados, de maneira que possamos compartilhar mais e mais amar. Assim seremos irmãos e irmãs uns dos outros, e iremos trabalhar contigo pela vinda do teu reino na terra como no céu, para que tua vontade seja feita em nosso mundo. Amém” (Guia de Adoração da Aliança Reformada Mundial, Seul, 1989). Canto ao subversivo: “Feliz o que não aceita pegar uma metralhadora para matar seu irmão. Feliz o que não cede a pressões externas e é testemunha da verdade. Feliz o que não se cala às injustiças que vê, mesmo que seja condenado por muitos. Feliz aquele que assina com obras as verdades que prega. Feliz o que põe sua boca à disposição dos mudos; sua inteligência a serviço dos ignorantes; dá sua palavra de ânimo aos decaídos e denuncia o explorador. Feliz aquele que é considerado subversivo e digno de condenação por causa dos irmãos. Feliz será porque o Deus dos subversivos será seu forte e poderá resistir à força de qualquer inimigo.” Oração de súplica: “Ó Cristo, tu nos ordenaste orar pela vinda do reino do teu Pai, quando a sua justa vontade será realizada na terra. Nós guardamos as tuas palavras, mas esquecemos o seu sentido. Nós te louvamos por aquelas almas em que teu Espírito soprou, em todos os tempos, de sorte que elas puderam ver, ao longe, a fulgurante cidade de Deus, e pela fé deixaram as vantagens do presente para andar atrás da visão. Assim como fomos capazes de dominar a natureza por amor à riqueza, ajuda-nos a transfigurar as relações entre os homens, para que possamos estabelecer a justiça e construir um mundo de irmãos. Pois que vale a uma nação tornar-se grande e rica, se perder o senso do Deus vivo e a alegria da fraternidade humana? Ajuda-nos a viver por verdades e não por mentiras, a construir nossa vida comum sobre os alicerces eternos da justiça e do amor, deixando de escorar as paredes rachadas da casa da injustiça por meio da crueldade e da força legalizadas. Ajuda-nos a fazer com que a lei suprema desta terra seja o bem-estar dos cidadãos. Derruba de seu trono o deus Lucro, que mastiga, sem fim, o corpo das pessoas e coloca em seu lugar o seu trono, ó Cristo, pois morreste para que os seres humanos possam viver. Mostra aos teus vacilantes filhos o caminho que vai da Cidade da Destruição para a Cidade do Amor e realiza as aspirações dos profetas. Nosso Mestre, uma vez mais a tua fé é a nossa oração: Venha o teu reino! Seja feita a tua vontade na terra!” (Walter Rauschenbusch)

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7º Domingo após Epifania

Bibliografia CARTER, Warren. O Evangelho de São Mateus – Comentário sociopolítico e religioso a partir das margens. São Paulo: Paulus, 2002. STOTT, John R. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo: ABU Editora, 1986.

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8O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 6.24-34

27 FEV 2011

ISAÍAS 49.8-16a MATEUS 6.24-34

Olmiro Ribeiro Júnior A bela flor com muita bravura cresceu entre as pedras, solitária e radiante ela floresceu. Passou um rapaz apaixonado e admirou-se com aquela beleza. Arrancou uma flor e levou-a para sua amada como prova de seu amor, raro, precioso e único, como aquela flor que nasceu entre as pedras. Passou uma família alegre por ir à igreja, viu a flor e encantou-se com aquele milagre; assim, resolveu arrancar duas flores e levar ao altar para glorificar a magnífica criação de Deus. Passou um jovem pelo local e percebeu a florzinha solitária, admirou-se com aquela beleza. O jovem voltou para casa correndo, pegou a enxada, um pouco de adubo orgânico e voltou ao local. Chegando, afastou as pedras, afofou a terra e colocou adubo; diariamente voltava para regar a florzinha, que em pouco tempo se tornou um belo jardim.

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Introdução

Final de fevereiro lembra que as férias estão acabando, o ritmo da vida volta à normalidade do trabalho e do estudo. As comunidades de fé também reiniciam suas atividades com força total. Nesse fim de semana também antecede o carnaval, uma grande festa popular de beleza e alegria. Entrementes, uma festividade marcada, em geral, pelo apelo sexual e erótico, pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas, pelo aumento no tráfico de drogas e de acidentes no trânsito. Diante desse tempo de reiniciar a vida e preparar-se para o carnaval, participando ou não, pois todo o país para, os textos bíblicos nos falam de diaconia, de serviço às necessidades e de cuidado com a vida e dos conflitos existenciais. Pensando em nossas comunidades, como começamos o ano, que planejamento é feito, quais as prioridades? Como reunir as pessoas novamente, motivando-as a seguir vivendo a fé com compromisso, gratidão e diaconia? O profeta Isaías relata a aliança e a bênção de Deus, que não se esquece de seu povo. Deus protege e vai restaurar Israel, sarando as injustiças e desigualdades, incluindo os excluídos. Deus cuida de Israel com amor maior do que o de uma mãe amorosa e responsável com a maternidade. O evangelista Mateus relata a narrativa de Jesus em que censura a preocupação excessiva com o sustento, com o acúmulo de bens e a necessidade de consumir e lucrar. Jesus revela que a vida não é garantida pela acúmulo econômico, mas pela fé alicerçada na palavra de Deus. O apóstolo Paulo destaca na Carta aos Coríntios a exortação de viver a fé como cooperadores de Deus, despenseiros, fazendo da vida de fé uma prática diaconal e não um compêndio jurídico de depreciação.

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Exegese

2.1 – A Epístola de Paulo aos Coríntios Essa carta é uma das primeiras exortações teológicas escritas e contidas no Novo Testamento. Nela Paulo enfoca os conflitos vigentes das relações sociais da capital da Província Senatorial Acaia, instruindo os membros da comunidade, formada em grande maioria por trabalhadores braçais, exilados, excluídos e desempregados, a viver a comunhão cristã diante dos conflitos e do antagonismo urbano e social de uma grande cidade. Paulo instrui e questiona a comunidade referente a sua indiferença, passividade em resolver e trabalhar os conflitos existentes. A comunidade, ao invés de buscar a reconciliação, o perdão e a diaconia como forma de enfrentar e resolver os conflitos, utiliza o juízo depreciativo que divide as pessoas ainda mais. Especificamente na perícope abordada neste estudo, Paulo relata a necessidade de cuidado, de diaconia entre os membros, para resolver os conflitos e evitar o juízo depreciativo. 2.2 – Contexto narrativo A perícope está situada no grande bloco de 1.10-4.21 – As exortações da palavra da cruz contra a tradição filosófica de Corinto. Paulo destaca que agradamos a Deus e testemunhamos a fé mediante a diaconia e não apenas com mera discussão de ideias e conceitos religiosos e filosóficos. Relata que seguir a Cristo, viver a fé em comunidade não corresponde à discussão filosofal, mas a serviço, a diaconia, ou seja, cuidar da vida e enfrentar os conflitos sociais. O capítulo 3 destaca a existência de divisões, a luta por poder como consequência dos ensinamentos equivocados baseados na sabedoria e filosofia humana. O capítulo 4.6s destaca a responsabilidade no ensino da palavra como prática vivencial, como diaconia. O mestre necessita ser exemplo. 2.3 – Análise de contexto V. 1 – Paulo inicia a perícope destacando que os membros da comunidade necessitam ser reconhecidos pelo serviço que prestam uns aos outros, e não por discussões e questões intelectuais e econômicas. Ser reconhecido como servos de Cristo na convivência, não apenas pela aparência ou conhecimento filosófico e religioso. Ministro: A tradição bíblica neotestamentária enfatiza o ministério como vocação e autorização no testemunho do evangelho. Pessoas capacitadas para dar continuidade ao serviço de divulgar a boa-nova de Jesus Cristo (At 6.4 – escolha dos diáconos; At 20.24 – ministério e vocação de Paulo). No âmbito do trabalho ministerial, um fator determinante é especificar o sentido diaconal do ministro. Ou seja, pessoas escolhidas e capacitadas para servir, diferenciando do caráter

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depreciativo que o termo ministro tem quando relacionado ao governo e a leigos na Igreja Católica. Despenseiros: Pessoas responsáveis pelo mantimento e hospedagem em pousadas e embarcações. O encarregado de garantir a sobrevivência e a qualidade de vida daqueles que estão sob a sua tutela. Mistérios de Deus: O amor e a salvação de Deus que não podem ser entendidos plenamente pela humanidade. Por ser o mistério de Deus, é uma força acolhedora e envolvente e não assombrosa. V. 2 – Não é exigido outra coisa dos despenseiros do que cumprir a sua função, ou seja, servir. V. 3 – Paulo destaca que nenhuma pessoa poderia acusar ou medir o seu ministério, seja a sua consciência, a comunidade ou o tribunal humano. Esse julgamento cabe somente a Deus. V. 4 – Mesmo com a consciência tranquila, Paulo não pode se manter satisfeito com seu trabalho, necessita seguir trabalhando, testemunhando o evangelho, pois ele terá que prestar contas não à comunidade, mas a Cristo, que por amor o convida a servir, a ser seu ministro. V. 5 – Paulo conclama a comunidade a não viver no juízo depreciativo, baseado em acusações e intrigas, pois o julgamento não cabe a eles. No dia do Senhor, tudo será revelado: o serviço, as intenções e a vida que agrada a Deus. O texto de 1 Coríntios 4.1-5 enfatiza a necessidade das pessoas motivadas a viver a comunhão cristã encontrar o foco essencial na vida comunitária. Ou seja, que elas estejam ocupadas na divulgação do evangelho e na diaconia e não em discussões e intrigas pessoais. Que os conflitos possam ser resolvidos no amor e na comunhão ao invés de preocupar-se com julgamentos depreciativos, que causam divisão e intriga.

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Mensagem

A mensagem bíblica necessita motivar a comunidade a envolver-se nos conflitos sociais que a cercam. Os textos nos revelam que não somos ilhas, mas despenseiros, ministros de Deus. O cuidado é uma preocupação de advertência ou uma ocupação diaconal? Dessa maneira, pensando no início das atividades nas comunidades, o que divide as pessoas, o que preocupa elas e como a comunidade trabalha seus conflitos e preocupações, para resolver, superar e suportar mediante a comunhão e a diaconia. Olhando para a festa do carnaval, como a comunidade se comporta: participa, critica, fica indiferente? Como despenseiros de Deus, como parte do corpo de Cristo no mundo mediante o Batismo, não nos envolvemos nas contradições do carnaval, como excesso de bebidas alcoólicas, prostituição, apelo à sexualidade, mortalidade no trânsito. Não salientamos aspectos positivos das festas populares sem apelar para os exageros e incentivos consumistas e alienantes?

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3.1 – O que o texto bíblico traz como lei (libertar do quê?) No contexto das três leituras bíblicas, eles libertam: • Da indiferença que, às vezes, perpassa a vida comunitária eclesial, em que as comunidades estão centradas e preocupadas com o mantenimento estrutural e não as dores e conflitos das pessoas. • Do comodismo e inércia de algumas propostas pastorais e eclesiais centradas na realização de atividades e no cumprimento de obrigações, ao invés de envolver-se na divulgação do evangelho, na diaconia, no serviço aos necessitados e no acompanhamento das pessoas que dentro e fora da comunidades estão perdidas, desamparadas em seus conflitos existenciais e sociais (separações, luto, dependência química, filhos que saem de casa, desemprego). • Da mentalidade mercantilista do lucro que predomina nos presbitérios, em que se prioriza a contribuição e não a oferta. Igreja como associação e clube; os que pagam têm direito, os necessitados são rejeitados imediatamente. • Da mentalidade sofista e racionalista que conceitualiza a vivência de fé em discursos moralistas e sentimentais ao invés de motivar a vivência prática da espiritualidade mediante a diaconia na sociedade em que estamos inseridos. • Da mentalidade moralista e depreciativa que julga os atos das pessoas causando intriga, divisão. 3.2 – O que o texto traz como evangelho (libertar baseado em quê?) • Na promessa, na aliança e presença de Deus, que age em amor incondicional, narrado no profeta Isaías como uma fonte de amor maior do que de uma mãe amorosa, e no Evangelho de Mateus como cuidado e graça. • No cuidado que Deus tem por sua criação, e principalmente com seus filhos e filhas salvos por Cristo e mantido na comunhão, na palavra de Deus e nos sacramentos. • No exemplo de Jesus Cristo, que agiu em diaconia, servindo e acolhendo as pessoas que necessitavam. No seu chamado a sermos seus ministros, despenseiros no dia-a-dia. • No Batismo que nos torna parte do corpo de Cristo e vocacionados para o sacerdócio geral de todos os crentes na diaconia. 3.3 – O que o texto traz como imperativo (libertar para quê?) • Para repensar, recriar a convivência comunitária como espaço inclusivo, diaconal e terapêutico. Ocupando com os conflitos existenciais e sociais ao invés do juízo moralista e da preocupação com sustentabilidade.

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• Para que a comunidade possa ser uma voz profética na sociedade, promovendo a justiça e a dignidade, fomentando acolhimento e consolo e sendo um exemplo de diaconia. • Para motivar os membros a exercer seu ministério, atuando na sociedade como compromisso de fé. Ou seja, viver a fé diariamente como força transformadora, acolhedora e diaconal. • Para que nossa preocupação econômica seja com a gratidão e não com o lucro, com a solidariedade e não com a ostentação.

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Tópicos para prédica

4.1 – Refletir com a comunidade quais são as suas preocupações e conflitos. Trabalhar se a comunidade e a fé em Cristo auxiliam na resolução das dificuldades, se a comunidade é uma fonte diaconal. Trazer a relação entre preocupação e ocupação, ou seja, se nos preocupamos com as coisas ou nos ocupamos para resolvê-las. A comunidade se preocupa ou se ocupa com seus membros? 4.2 – Abordar a concepção de participação dos membros. A atuação é como ministros, como despenseiros ou como convidado de honra, que vem, desfruta e vai embora, muitas vezes reclamando do que lhe foi oferecido. Qual a concepção de comunidade, de corpo de Cristo que os membros têm. 4.3 – Questionar se a falta de contribuição, se a inadimplência é um problema econômico ou de fé. 4.4 – Trabalhar a mentalidade crítica na comunidade, buscando a defesa da justiça e prática da reconciliação e não o juízo moralista e depreciativo. Destacar o cuidado de cuidar, o cuidado diaconal e não o cuidado como ameaça e censura.

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Contextualizações

5.1 – Dinâmica: A celebração poderia ter duas abordagens práticas para trabalhar o tema da diaconia a) Uma seria utilizar o símbolo das mãos, confeccionar mãos de cartolina e distribuir aos participantes, ou até mesmo confeccionar duas mãos grandes de tecido que saiam do altar. Trabalhando nossas mãos e as mãos de Deus.

As mãos! Há mãos que sustentam e mãos que abalam. Mãos que limitam e mãos que ampliam. Mãos que denunciam e mãos que escondem os denunciados. Mãos que se abrem para levantar, para curar e mãos que se fecham para bater, agredir.

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Há mãos que afagam e mãos que rasgam. Mãos que ferem e mãos que cuidam as feridas. Mãos que destroem e mãos que edificam. Mãos que batem e mãos que recebem as pancadas. Há mãos que apontam e guiam e mãos que desviam. Mãos que são temidas e mãos que são desejadas e queridas. Mãos que dão com arrogância e mãos que se escondem ao dar. Mãos que escandalizam e mãos que apagam os escândalos. Mãos puras e mãos que carregam censuras. Há mãos que escrevem para promover amor, paz e amizade e mãos que escrevem para ferir, destruir. Mãos que pesam e mãos que aliviam. Mãos que operam e que curam e mãos que amarguram e causam doenças. Há mãos que se apertam por amizade e mãos que se empurram por ódio. Mãos furtivas, perversas, que traficam destruição e mãos amigas que desviam da ruína, que mostram outro caminho. Mãos finas, delicadas que provocam dor e mãos rudes, fortes que espalham amor. Há mãos que se levantam para a verdade e mãos que encaram a falsidade. Mãos que oram e imploram pela paz, pela justiça e mãos que devoram, que oprimem. Mãos de Caim que matam. Mãos de Jacó que enganam. Mãos de Judas que entregam e traem. Mas há também mãos de Simão, que ajudaram a carregar a cruz de Jesus. Mãos de Mônica, que enxugaram o rosto de Jesus. Onde está a diferença? Certamente não está nas mãos e sim no coração e na mente. É através da transformação de nossas mentes, da sensibilidade e solidariedade do coração que nossas mãos serão instrumento de graça, de amor, de perdão, de construção. Que as mãos se levantem para abençoar, que se abaixem para levantar o caído, que se estendam para amparar o cansado. Que possam ser como as mãos de Deus que criam, que guiam, que salvam, que nunca faltam, que nos deram Jesus Cristo e a ressurreição. Há mãos e... Mãos! As tuas quais são? De quem são? Para que são? Elas dão vida ou matam, constroem ou arrasam, amam ou odeiam, lutam pela paz ou se omitem diante da guerra, combatem ou geram violência, semeiam comunhão, fraternidade ou intrigas e maldades? b) Outra alternativa seria realizar um café da manhã no culto e, assim, trabalhar o tema de ser despenseiros. Participamos na comunidade para servir ou para ser servidos. O café da manhã poderia ser junto com a Ceia do Senhor no culto. Nesse caso, o cuidado e a diaconia estariam centrados no alimentar-se, no partilhar, como também abordar por que e para que os alimentos na igreja. Os ingredientes do café poderiam ser ofertados pelos grupos da comunidade ou por famílias.

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5.2 – Culto com Ceia – Café da manhã Intróito: Canção da chegada – n° 333 Hinos do Povo de Deus Vol. 2. Acolhida: Os primeiros cristãos reuniam-se nas casas, em torno da mesa, para saciar a fome física e também a espiritual. Seguindo esse exemplo, reunimo-nos ao redor desta mesa para ter comunhão, para nos alimentar na partilha amorosa através da Ceia do Senhor, a ceia do amor de Deus por nós. Cantos: Vento que anima – n° 321 – Hinos do Povo de Deus Vol. 2 – ornamentação da Ceia – preparo da mesa. Prefácio: L: Que Deus esteja com vocês. C: E também com você. L: Vamos elevar os nossos corações a Deus. C: Ao Senhor os elevamos. L: Demos graças ao Senhor, nosso Deus. C: Isso é digno e justo. Amado Deus, reunimo-nos em torno de tua mesa, não isolados, mas irmanados na fé que une, na esperança que impulsiona a caminhada e no amor que nos transforma; por isto te louvamos. Canto: Santo salvadorenho – n° 362 – Hinos do Povo de Deus Vol. 2. Nós repartimos as nossas dificuldades, suportamos as cruzes impostas por sistemas do mal e do pecado; e por partilharmos as nossas aflições e fardos, eles se tornam leves e suportáveis para carregar. Canto: Louvemos todos juntos – n° 349 – Hinos do Povo de Deus Vol. 2. Deus de toda vida, tu és a comunhão, o alimento que sacia todos os nossos tipos de fome, tu és a ressurreição e a cura. Mediante a ação do teu sopro divino, utiliza este pão, fruto da Terra-mãe, e o suco da videira, símbolo da nova aliança, arte e trabalho de nossas mãos, para nesta refeição serem o corpo e o sangue de Cristo. O alimento para a terra sem males, para a partilha e a dignidade. Por isso celebramos a ceia como Jesus pediu e como seus discípulos fizeram para matar a fome, a sede e a saudade que temos de Deus entre nós. 1 Coríntios 11.23-29 Canto: Santo mistério – n° 357 – Hinos do Povo de Deus Vol. 2. L: Pelo Batismo, somos parte da família de Deus. Comemos na sua mesa e somos cuidados como suas criancinhas frágeis, carentes e travessas. Por isso oremos de mãos dadas com elas, como Jesus ensinou: Pai nosso... L: Quando a saudade dá o tom em meio à amizade, o encontro é tão bom... É pura felicidade! O encontro é mais encontro, o abraço é mais abraço... E a

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vontade de que esse encontro dure para sempre. As partidas são inevitáveis, e por isso fica a saudade outra vez, essa chama que aquece a esperança de encontrar-se outra vez... E assim ter paz. Desejar a paz Fração e partilha: Convite: Vinde, pois tudo já está preparado; é o próprio Deus que em amor convida todas as pessoas para comer e beber em torno de sua mesa. Deus chama a todos nós e em amor nos serve. Comunidade partilha a ceia e toma o café comunitário. Enquanto as pessoas tomam o café, são realizadas a Liturgia da Palavra e a Liturgia Final. Obs.: A celebração do café da manhã no culto foi uma experiência realizada na Comunidade de São Borja (RS).

Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. MESTERS, Carlos. Paulo apóstolo, um trabalhador que anuncia o evangelho. Série: A Palavra na Vida, n. 41. Belo Horizonte: CEBI, 1981.

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ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: MATEUS 17.1-9

06 MAR 2011

ÊXODO 24.12-18 2 PEDRO 1.16-21

Jeferson Andre Samuelsson

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Introdução

A perícope tem três momentos específicos: a transfiguração; o aparecimento de Moisés e Elias; e a voz que veio da nuvem e os envolveu, dizendo que Jesus é o Filho amado de Deus, e um pedido de que o ouçamos. O que pregar sobre esse texto? Pode-se optar pela exaltação de Jesus em sua transfiguração, levando em consideração as diferenças e semelhanças entre essa e a de Moisés. Por outro lado, pode-se tratar do conteúdo da afirmação vinda da nuvem, destacando a pessoa de Jesus e os motivos pelos quais precisamos ouvi-lo. “Este é meu filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.” Se atentarmos para o final dessa frase – “a ele ouvi” –, sem observar o que antecede a perícope, não daremos muito valor a ela. Basta voltar um pouco no texto para perceber dois diálogos significativos. O primeiro traz a confissão de Pedro, que é a confissão da igreja: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. O segundo, por sua vez, versa sobre o sofrimento e a morte que Jesus teria de passar e sua ressurreição, bem como o caráter do discipulado. Esse nos leva ao período da Epifania. O texto de Êxodo 24.12-18, das leituras do dia, apresenta Moisés subindo ao monte para receber as tábuas da lei. Existem aspectos semelhantes com o evento registrado em Mateus: um monte, a glória do Senhor pousou sobre o monte, uma nuvem o cobriu, do meio da nuvem o Senhor chamou Moisés. Além de Êxodo, propõe-se a leitura da Segunda Carta de Pedro 1.16-21. Nessa, Pedro destaca que seu testemunho é fidedigno, porque eles foram testemunhas oculares da majestade de Jesus no monte. Estavam junto dele quando Deus lhe deu honra e glória. Destaca ainda que ouviram a voz que veio do céu, que confirmou a palavra anunciada pelos profetas.

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Exegese

Seis dias depois do quê? O evangelista tem o cuidado de registrar que seis dias depois de Jesus ter anunciado que era necessário ele sofrer muitas coisas, ser morto e ser ressuscitado, tomou Pedro, Tiago e João e levou-os, em particular, a um alto monte. Não se pode deixar de dizer que se tratava de um momento crítico de seu ministério. Talvez esteja aí uma possível explicação para a presença de Moisés e Elias. Eles o estavam consolando? O que eles conversaram?

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Enquanto Jesus orava, um evento maravilhoso acontece. Ele é transfigurado na presença dos discípulos. Um detalhe! Não somente seu rosto brilhava como o sol, mas suas vestes se tornaram brancas como a luz. O brilho do sol e a luminosidade excessiva ofuscam a visão de qualquer pessoa. Contudo, eles viram perfeitamente, a ponto de Pedro propor a construção de tendas para permanecer ali por mais tempo. Pedro, Tiago e João reconheceram Moisés e Elias. Como? O texto não diz, porém as palavras de Pedro testificam isso. Os personagens históricos, que eles conheciam das profecias e de quem ouviram Jesus falar, estavam ali, em pessoa conversando com Jesus. Outro aspecto relevante da perícope diz respeito ao testemunho do próprio Deus sobre seu Filho. Maravilhados pela transfiguração, vendo Jesus com seus interlocutores, percebem a presença de um quarto personagem. Uma nuvem envolveu-os e do meio dela veio a voz que disse: “Este é meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi”. Ouvindo essa voz, os discípulos caíram de bruços, tomados de grande medo. As palavras ouvidas são parecidas como as ditas no evento do batismo de Jesus. A afirmação é um testemunho solene a respeito de Jesus como Messias e Filho de Deus, que quer entrar nos corações e mentes. Nesse sentido, a parte final das palavras de Deus merece destaque – “a ele ouvi”. 2.1 – Transfiguração No Novo Testamento, a palavra metamorphoõ é empregada quatro vezes: Mateus 17.2; Marcos 9.2; Romanos 12.2 e 2 Coríntios 3.18. Lucas, relatando a transfiguração, omite a palavra. No relato de Êxodo 34, a pele do rosto de Moisés resplandecia, depois de haver Deus falado com ele. Diferentemente de Moisés, na transfiguração de Jesus suas vestes também ficaram brilhantes: “brancas como luz”. Os três evangelhos sinóticos mencionam as roupas radiantes. A aparência total de Jesus foi transformada. Os apóstolos encararam a experiência como um evento real. Pedro, em 2 Pedro 1.16-18, utiliza a transfiguração como evidência da fidedignidade do evangelho cristão. Ele considerava que o evento histórico tinha um valor apologético convincente, pois declarou que ele mesmo fora testemunha ocular. Cabe ressaltar que o significado essencial do evento da transfiguração não se centraliza em um acontecimento passado ou futuro; centraliza-se, acima de tudo, na pessoa transfigurada. A voz do céu revela isso. As palavras proferidas por Deus relembram quatro passagens cristologicamente importantes: Salmo 2.7 sobre a realeza do Filho (“Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei”); Gênesis 22.2 acerca do Filho amado (“Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei”); Isaías 42.1 a respeito do servo escolhido em quem a alma do Senhor se compraz (“Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios”); e Deuteronômio 18.15

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sobre a profecia de Moisés (“O Senhor, teu Deus, e suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás”). 2.2 – Ouvir Ouvir pode ter tanto um sentido de audição física como também apreensão de algo com a mente. Apreensão exige aceitação, escuta, compreensão e atenção à coisa ouvida. Na revelação bíblica, o “ouvir” tem significativa relevância, justamente porque Deus, em sua Palavra, encontra-se com o homem pelo ouvir. Isso não exclui a revelação de Deus na esfera visível. Na transfiguração, os apóstolos viram e ouviram. Seguidamente, no Antigo Testamento, deparamo-nos com as seguintes afirmativas: “Assim diz o Senhor” e “Fala, pois teu servo ouve”. Essa última expressa a disposição daquele que recebe a revelação. Assim deveria ser a disposição de todos aqueles que querem ouvir ao Senhor. Ouvir ao Senhor é ouvir a Jesus, pois Ele é a palavra de Deus que se fez carne. No Novo Testamento, além de outras acepções, o ouvir (akouõ) merece destaque quando perguntamos: como o homem ouve a mensagem do Novo Testamento? O conteúdo dessa mensagem é Jesus Cristo, o Messias prometido. Essa foi a revelação da voz que veio da nuvem. No entanto, também o ver está associado ao ouvir. Jesus disse: “Bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque veem; e os vossos ouvidos, porque ouvem. Pois em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram e ouvir o que ouvis e não ouviram” (Mt 13.16-17). No monte da Transfiguração, os discípulos de Jesus viram a sua glória oculta e ouviram a voz que lhes dizia: “a ele ouvi”. Os pastores, que viram Jesus na manjedoura, voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado (Lc 2.20). A respeito disso, cabe ressaltar que o Novo Testamento não faz distinção entre a pregação de Jesus e a dos apóstolos. Esses são testemunhas autorizadas de Jesus. Ouvir a mensagem é ouvir a Cristo e ouvir a palavra da verdade (Ef 1.13; 4.20-21). Constantemente, Jesus chamava a atenção de seus ouvintes: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt 11.15; 13.9; Mc 4.9; Lc 8.8); “ouvi e entendei” (Mt 15.10); “atentai no que ouvis” (Mc 4.24); “quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2.7,11,17; 3.6,13,22). Alguns eram receptivos às palavras, outros não. Lucas escreve (Lc 15.1ss) que, certa ocasião, muitos cobradores de impostos e outras pessoas de má fama chegaram perto de Jesus para ouvi-lo. Essas pessoas ouviam-no com devoção, com o coração. Entre as palavras duras ditas aos fariseus, Jesus disse que as prostitutas estavam tomando os lugares deles, isto é, estavam precedendo-os no céu.

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Meditação

Ainda sabemos ouvir? Quando não queremos ouvir algo, tapamos os ouvidos. Entretanto, a declaração de Deus foge a qualquer tipo de som. Os três caíram

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no chão. Ela retrata o cumprimento da promessa feita pela boca dos profetas. Deus disse: “Este é o meu Filho amado”. Contudo, ela diz mais e é o próprio Deus dizendo: “a ele ouvi”. A grande questão é que não mais sabemos ouvir. Talvez um dos grandes males de nossa sociedade, de nossa igreja, hoje, seja que as pessoas não mais sabem ouvir. Porém nós temos necessidade de ser ouvidos. Gostamos muito quando nos dão atenção. Para Deus podemos dizer tudo. Ele nos ouvirá com toda a certeza. Mas nós ouvimos a Deus quando ele quer falar conosco? Ele está nos dizendo que Jesus é o seu Filho querido e que precisamos ouvi-lo. Somente aqueles que não creem em Deus não conseguem ouvi-lo. As Escrituras dão testemunho de Deus e de Jesus. Nelas, podemos ouvir voz de Deus e ser agraciados com a vida eterna. Muitos fariseus endureceram seu coração, murmuravam quando ouviam a multidão comentando a respeito do que Jesus fazia. Muitas pessoas murmuram hoje contra aqueles que ouvem e creem em Jesus. Jesus, para testificar que era o Filho de Deus, convidou Pedro, Tiago e João para ir com ele ao monte. Havia um costume judeu de que as coisas eram confirmadas pelo testemunho de duas ou mais pessoas. E foi o que aconteceu. Os três viram a majestade de Jesus. Puderam ver aquela cena maravilhosa – Jesus em glória conversando com Moisés e Elias. Pedro, atônito, não queria que aquilo terminasse; queria fazer tendas para os três: Moisés, Elias e Jesus. Então uma voz veio de uma nuvem, foi o próprio Deus quem falou: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi”. A voz era tão forte, tão alta, tão poderosa, que Jesus precisou acalmá-los dizendo: “Não tenham medo”. Falando sobre o evento, Pedro atesta em sua segunda carta: “Não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares de sua majestade, pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: ‘Este é meu Filho amado, em quem me comprazo’. Ora, essa voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo. Temos assim tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como uma candeia que brilha em lugar tenebroso; até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração” (2Pe 1.16-19). Como ouvir verdadeiramente o Filho amado? A atitude das pessoas de má fama dá-nos um excelente exemplo. Nossa vontade, porém, na maioria das vezes, afasta-nos da presença de Deus. Através de uma simples leitura da Escritura podemos ouvir, pelo auxílio do Espírito Santo, a voz de Deus. Basta saber ouvir, mas nos enfadamos facilmente. Cansamos! Nem nos damos conta de que ela é uma linda canção de amor que Deus cantou para nós, pela boca dos profetas, pela boca dos apóstolos, e canta pela boca dos pastores, pela boca de todos os cristãos que testemunham a respeito de Jesus. Os profetas cantaram essa promessa. Ela se cumpriu. Nós podemos ouvir essa bela canção – Jesus.

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Imagens para a prédica

O próprio relato proporciona uma imagem que aguça o sentido dos ouvintes. Obviamente, é preciso narrá-la como se estivesse cativando a atenção de crianças para o evento maravilhoso e fantástico que se descortinou frente aos olhos daqueles apóstolos. Os sentidos da visão e da audição precisam ser aguçados. Os antigos contadores de histórias tinham a capacidade de pintar com as palavras imagens na mente das pessoas. O que nos diferencia deles é que não estamos mais acostumados a contar e nem ouvir histórias. Nós assistimos a filmes! Nós assistimos ao noticiário! Caso a ênfase do sermão recaia sobre o ouvir, duas parábolas podem ser utilizadas como ilustração. A parábola do semeador, que saiu a semear, especialmente a explicação de que o próprio Jesus dá a seus discípulos, em Mateus 13, a respeito dela. A outra é a que termina o Sermão da Montanha (Mt 7.24ss). Jesus compara o homem que ouve e pratica a palavra de Deus com aquele que edifica a sua casa sobre a rocha. Em ambas, pode-se retomar a ideia do ouvir no sentido de apreensão, compreensão e atenção à coisa ouvida.

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Subsídios litúrgicos

Oração (Coleta): “Ó Deus, que na gloriosa transfiguração do teu unigênito Filho confirmaste os mistérios da fé pelo testemunho dos pais e que, por meio da voz que saiu da nuvem luminosa, predisseste de maneira maravilhosa a adoção de filhos, concede, misericordioso, que sejamos co-herdeiros do Rei em sua glória e no-la faze desfrutar; mediante Jesus Cristo, teu Filho amado, nosso Senhor. Amém.” (Liturgia Luterana) Oração responsiva: Oficiante – Ó Senhor, nosso Deus, tu tens feito grandes coisas por nós. Não há ninguém igual a ti. Tu tens feito muitos planos maravilhosos para o nosso bem. Ainda que nós quiséssemos, não poderíamos falar sobre todos eles, pois são tantos que não podem ser contados. Congregação – Ensina-nos a esperar com paciência por tua ajuda, pois sabemos que tu escutas e ouves a nossa oração. Oficiante – Ó Senhor, nosso Deus, tu nos deste ouvidos para ouvir, e por isso nós respondemos: “aqui estamos para ouvir as tuas instruções, registradas na Escritura Sagrada”. Congregação – Ensina-nos a cantar uma nova canção e que seja um hino de louvor a ti, para que, quando as outras pessoas a ouvirem, ouçam a voz do teu Filho. Oficiante – Ó Senhor, nosso Deus, na reunião de todo o teu povo, cantamos a boa notícia de que tu nos salvas.

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Congregação – Ensina-nos a anunciar a notícia da tua salvação. Ajuda-nos a falar da tua fidelidade e do teu poder salvador. Oficiante – Ó Senhor, nosso Deus, sabemos que nunca deixarás de ser bom para aqueles que ouvirem as palavras do teu Filho amado. Por isso, nós te pedimos. Todos – Ouve a nossa oração. Amém. (Adaptada: Salmo 40)

Bibliografia BROWN, Colin; COENEN, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. V. 1 e 2. São Paulo: Vida Nova, 2000.

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QUARTA-FEIRA DE CINZAS

PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 5.20b-6.10

09 MAR 2011

JOEL 2.1-2,12-17 MATEUS 6.1-6,16-21

Cristina Scherer

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O tema

A Quarta-feira de Cinzas inicia o tempo da Quaresma. É nesse tempo dentro do calendário da igreja que intensificamos a oração, a meditação pessoal e comunitária na palavra de Deus, a solidariedade e o desprendimento como sinais de conversão, de mudança de rumo. Quaresma é tempo de perguntar: Que mudança eu quero que aconteça em minha vida, na igreja, no mundo? Qual o caminho que quero trilhar pessoalmente e na comunidade cristã? As leituras bíblicas e o texto da pregação querem nos conduzir para as respostas das perguntas acima. O Evangelho de Mateus 6.1-6,16-21 fala da oração, da prática da humildade, do jejum sincero, do desprendimento de bens materiais. Todos esses são caminhos que nos conduzem a Deus e nos fazem ter uma prática justa e coerente com a sua palavra, especialmente neste tempo da Quaresma. Jesus aconselha as pessoas a se livrar de práticas hipócritas que escravizam e matam o Espírito de Deus e fazem com que o orgulho e a soberba endureçam o coração do ser humano. Jesus aponta-nos o caminho da humildade, simplicidade, do amor e de abnegação, do serviço e da justiça. Esse caminho somos chamados a trilhar. No Antigo Testamento, o profeta Joel (2.1-2,12-17) aconselha o povo a mudar de atitude e prática diante da grande calamidade da seca e dos gafanhotos que assolou o povo de Judá. Arrepender-se e mudar a forma de pensar e de agir são sinais concretos de que estamos no caminho para a prática da justiça e do serviço amoroso, sinais de que mais vale o que passa em nosso interior e não no exterior.

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Motivos da Segunda Carta aos Coríntios

Crises são normais. Fazem parte da vida. Assim também houve muitas crises no início do cristianismo. Na comunidade de Corinto, não foi diferente. Surge o problema com a coleta para os cristãos de Jerusalém. Disso Paulo fala em 2 Coríntios 8 e 9, o que pressupõe que a coleta tenha sido interrompida. Outra crise se evidencia no fato de que pessoas haviam contestado a autoridade de Paulo como apóstolo. Outros apóstolos tinham chegado a Corinto e evangelizavam. Alegavam que Paulo não tinha autoridade suficiente, pois esse não tinha conhecido o Jesus histórico/humano, anunciava somente o Cristo morto e ressurreto. Outra crítica que lhe faziam é que queria trabalhar para sustentar-se como construtor

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de tendas, sendo que viam nessa atitude uma incompatibilidade com o anúncio do evangelho. Para Paulo, esses que o criticam são falsos apóstolos e anunciam o falso evangelho. Esse é o motivo de Paulo ter escrito a chamada Carta da apologia/defesa (2Co 2.14 -7.4) para tentar uma reconciliação com os coríntios (2Co 1.1-2.13; 7.5-16). Os adversários de Paulo querem desacreditá-lo perante os coríntios, mas, ao mesmo tempo em que se defende, Paulo também ataca ao denunciar e questionar a atitude dos que se diziam apóstolos e o criticavam. Paulo encarna o verdadeiro apóstolo de Cristo, que veio ao mundo como o servo sofredor, disposto a tudo por amor à causa de Deus. Muitos queriam que Paulo manifestasse poder e glória, majestade e honra; criticam-no por sua aparência e atitude de trabalhador. Ao chegar à cidade de Corinto, Paulo procura os trabalhadores, fazedores de tendas. Dirige a palavra aos operários e trabalhadores, pessoas simples do povo. Em Corinto, havia um pequeno grupo de judeus, entre os quais estavam Priscila e Áquila, fazedores de tendas, dos quais Paulo se aproximou quando chegou a Corinto (cf. At 18.2-3). Paulo chegou a Corinto em 50 a.C. e começou a evangelizar a partir dos judeus, fazendo-se amigo dos artesões e trabalhadores (cf. 1Co 1.16). O apóstolo opta pelo caminho da humildade, do trabalho manual, das coisas do povo; dispensa a glória e trilha o caminho da cruz. O poder do apóstolo verdadeiro não está em sua aparência, mas sim na pobreza, sofrimento e perseguição. A glória de Cristo não está nas aparências (5.16). A cruz é o sinal visível de Cristo e daqueles que o seguem. Dessa forma, Paulo combate as ideias de triunfalismo e de glória na missão de Deus, afirmando que o verdadeiro apóstolo deve estar disposto a encarnar essa cruz e a viver na humildade e no amor. Paulo afirma que há critérios para discernir sobre os verdadeiros e falsos anunciadores do evangelho e faz isso usando a imagem do servo sofredor, gloriando-se da sua fraqueza e não da sua força. Sabe que por causa de Cristo terá forças para passar por tribulações e aflições. Não se baseia na teologia da glória, e sim na força do Cristo ressuscitado, que sofreu e ressurgiu para dar esperança aos que o seguem.

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Reconciliação e serviço

Nesse texto, Paulo está dando continuidade a um discurso sobre a natureza de seu ministério, pois essa carta da apologia inicia em 2.14 e vai até 7.4. Nesse longo trecho, Paulo defende o verdadeiro ministério, ou seja, quem realmente está a serviço da vida, disposto a amar, servir e até sofrer pela causa de Deus. Paulo afirma que possui um ministério válido, aprovado, verdadeiro. E faz isso porque havia falsos apóstolos, que se diziam missionários e, na comunidade de Corinto, querem tirar a autoridade de Paulo como anunciador da palavra de Deus e fundador da comunidade cristã. Paulo reage, dizendo que os falsos apóstolos são os que pedem cartas de recomendação (3.1), invocam o exemplo de Moisés (3.7-15), usam procedimentos secretos e vergonhosos (4.2) e pregam a si mesmos (4.5).

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Paulo diferencia entre duas formas de servir a Deus e de encarar o ministério: o ministério de morte, que escraviza, é da letra, seduz, engana, ilude, faz falsas promessas, distorce a verdade, é charlatão, baseia-se na glória e se autopromove; e o ministério que é de vida (4.1), que vem do Espírito, liberta, baseiase na humildade, no serviço, na cruz de Cristo, é verdadeiro, humilde, pobre, servidor, não usa máscaras, não busca a autoglorificação, é o que é pela graça de Deus. Esse ministério é o que Paulo defende veementemente. Ele deseja que os coríntios permaneçam firmes no caminho da verdade e da justiça e não se deixem seduzir por falsas mensagens oriundas de missionários iludidos (5.11-13) e fala como ele compreende a Cristo em contraposição a seus adversários (5.14-17). Paulo fundamenta seu apostolado no amor de Cristo. E por causa desse amor pede para que os coríntios se reconciliem com Deus e, se isso acontecer, automaticamente estarão se reconciliando com Paulo também. Deus é o agente da reconciliação. Ele vem ao nosso encontro. Tudo é graça. Os ministros/as, missionários/as, anunciadores do evangelho são embaixadores de Deus para anunciar essa reconciliação oferecida por Ele. A partir de 5.20, Paulo apresenta-se como “embaixador em nome de Cristo”, que tem a tarefa de anunciar o serviço da reconciliação. Paulo é embaixador da reconciliação, é enviado de Deus para que os coríntios aceitem a reconciliação com Deus e assim aceitem também o ministério de Paulo. Somente ele está habilitado a convidar os coríntios à reconciliação com Deus. Nos v. 6.1-10, ele discorre sobre seu ministério, mostrando as características de um ministério aprovado. Ministério vem da palavra diakonia, em grego, que quer dizer: serviço, ofício (cf. At 1.17; 20.24; Rm 12.7; 1Co 12.5 e 2Co 5.18). Podemos nos perguntar: qual serviço, ofício ou ministério Paulo exerceu e qual é a tarefa que hoje cabe aos “ministros/as” da igreja? A própria palavra diakonia, diakoneo, quer dizer, em primeiro lugar, servir à mesa, mas também designa cuidar, auxiliar, ajudar, apoiar (cf. 2Co 3.3; At 6.1). Assim como Paulo se dispôs a cuidar e apoiar os coríntios nos primeiros passos da fé cristã, assim também ministros/as da igreja são convocados a não esmorecer diante da árdua e linda tarefa de guiar, acolher, auxiliar o povo de Deus, a exemplo do Bom Pastor (cf. Sl 23, Jo 10). São muitas as provações e tentações que os servidores de Deus passam nos dias de hoje, sendo que o maior desafio é permanecer coerente com a boa-nova do evangelho, sem esquecer-se da denúncia de injustiças e opressões, sendo coerente com o próprio Cristo que veio para servir e não ser servido. A diakonia é central para a Segunda Carta aos Coríntios. O termo serviço aparece 12 vezes na carta, cinco vezes o termo servidor e três vezes a palavra servir. Serviço nada mais é do que a proclamação do evangelho (4.1), a proclamação da reconciliação (5.18; 11.8-15) e concretiza-se no serviço da coleta aos pobres de Jerusalém (8.4;19-20). O que iluminou o agir e pensar de Paulo em sua missão foi o servidor de Deus, oriundo do profeta Isaías (Is 49.8). 2 Coríntios 6.2 faz referência ao dia oportuno, da salvação, ao “agora”. Enquanto em Isaías o texto dirige-se ao servo de Deus, nesse texto é transferido para a comunidade, sendo que o tempo

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favorável é sempre o tempo da chegada de Deus neste mundo. Assim, quando os coríntios receberem a carta que Paulo lhes escreveu e envia, será esse o momento da vitória de Deus no mundo. Paulo deseja servir a Deus, sendo cooperador dele na missão. Quando somos embaixadores aprovados do reino de Deus, somos capazes de reconhecer que nossa ação neste mundo é de cooperadores com Deus. A palavra que é utilizada no texto grego e traduzida por “cooperador” é synergontés. Essa palavra pode ser traduzida por “aquele que trabalha ao lado de outro”. Nesse caso específico, Paulo está dizendo que estamos trabalhando ao lado de Deus. Como embaixadores ou representantes do reino neste mundo, a igreja precisa tomar consciência de que sua missão é compartilhada com a missão de Deus. Isso nos enche de honra, não de arrogância; de responsabilidade, não de mediocridade. Nosso ministério é dar continuidade à obra iniciada por Cristo quando se encarnou e morreu por nós. Por isso a igreja, assim como Cristo, apregoa a reconciliação (5.20). Quando nos dispomos a ser ministros/as, servidores/as de Deus em sua missão, sabemos que esse não será um caminho de rosas e plumas. O ministério de Paulo é marcado pelo sofrimento físico e também pela constante graça espiritual. Paulo não vê seu ministério de forma triunfalista e pleno de vitórias, mas de forma realista e cheio de lutas. Há ofensas, há desonra, há infâmia, mas também há honra, há reconhecimento, há boa fama, há vitória. Assim como o ministério paulino, a igreja deve reconhecer sua realidade ambígua, sendo santa e pecadora, sujeita à infâmia e perseguição por estar unida com Jesus, que encarnou o serviço ao próximo e ao mundo ofertando sua vida e que jamais pecou. Não devemos nos assustar, quando, no exercício de nossa ação de embaixadores, somos injuriados e perseguidos, porque esses são sinais de que estamos agindo da forma certa. 2 Coríntios 6.3-10 – Defesa do verdadeiro ministério Aqui Paulo repete a descrição que deu da pobreza do ministério apostólico, exposto em 4.7-12. Reafirma que está agindo sob o sinal da cruz, da fraqueza de Cristo. O ministério verdadeiro é aquele que encontra sua força no meio da fraqueza que passa e sente. Aqui, nesse trecho do texto, aparece um retrato do servidor de Deus. Como servidor (dyakonos), Paulo não pretende se vangloriar, mas se justificar perante a comunidade dos coríntios. Ele não tem recomendação de ninguém para exercer o seu ministério, antes a si mesmo se recomenda pela trajetória de seu serviço. Ele dá testemunho de sua trajetória de fé e vida. Assim, o verdadeiro ministro/servo de Deus: V. 3 – Não dá motivo de escândalo em cousa alguma. V. 4b-5 – Vive com a virtude da paciência, que significa confiança, fidelidade, apoio, capacidade de resistir, continuidade, perseverança. Não seriam essas as atitudes que regem a vida do verdadeiro ministro/a servo/a de Deus? Ao mencionar a virtude da paciência, Paulo lembra de suas tribulações, necessidades, angústias, o que prova que em nenhum momento viveu da glória, de vitórias ou triunfalismo; antes enfrentou sofrimentos na prisão, tendo que trabalhar arduamente para sustentar-se, passando até por privações de comida.

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V. 6 – Segue a virtude da pureza (3.13; 4.2), significando aqui a lealdade e sinceridade do apóstolo/discípulo de Jesus. Paulo não deseja enganar ninguém, tampouco usar máscaras; não usa segundas intenções em seu serviço de proclamador do evangelho. V. 7 – Proclama a palavra da verdade = evangelho, aquela palavra que não se deixa desvirtuar, corromper, permanecendo fiel ao evangelho da cruz e da pobreza; recebe unicamente o poder de Deus = o apóstolo não conta com outros poderes humanos; usa as armas da justiça = tal qual o soldado, quem exerce o ministério na igreja fá-lo como um constante combate, sem descanso, sempre perigoso, podendo encontrar a vitória ou a derrota, a boa ou a má fama. V. 8-10 – Seguem sete antíteses. Aqui Paulo retoma todas as acusações que lhe são feitas e faz a sua defesa a partir do ministério do serviço da cruz de Jesus Cristo. Essas antíteses resumem toda a carta de apologia do apóstolo: Os falsos ministros: da autoglorificação Desonra Infâmia Enganador Desconhecido Moribundos Tristeza Riqueza

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O verdadeiro ministério: do serviço Honra Boa fama Verdadeiro Conhecido Vivos Alegria Pobreza

Indagações para a pregação

Ser ministro/ministra é ser dyákonos, servidor, auxiliador, apoiador, cuidador. Em que sentido essas qualidades aparecem em sua comunidade? Em que situações? No início da Quaresma, qual caminho de ministério somos convidados a seguir: o da morte ou da vida, dos falsos apóstolos ou do ministério do serviço, da humildade e da cruz ou da glória? No Encontro de Obreiras e Obreiros da Pastoral Popular Luterana (PPL), realizado nos dias 01 a 03 de junho de 2010, foi realizada uma análise de conjuntura política/econômica/social e eclesial. Nessa foram partilhados alguns pensamentos para “comemorar o dia da pastora e do pastor” em 10 de junho. Compartilho alguns desses pensamentos que querem orientar nossa caminhada de ministros e ministras, a fim de que optemos pelo ministério do serviço e da cruz, tal qual fez o apóstolo Paulo em seu tempo. Em “Reflexões em torno de Lutero” v. 1, uma edição especial da revista Estudos Teológicos de 1981, na página 77, consta esta afirmação de Lutero: “Por isso o pregador deve conhecer o mundo muito bem e reconhecer que ele é desesperadamente mau, propriedade do diabo, na melhor das hipóteses”.

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Lutero diz ainda: “Pregar Cristo é um ministério pesado e perigoso. Se outrora eu tivesse sabido disso, nunca teria aceito, mas diria, como Moisés: ‘Envia quem tu quiseres!’ Se eu tivesse sabido, ninguém haveria de me convencer” (“Reflexões em torno de Lutero” vol. I, uma edição especial da revista Estudos Teológicos de 1981, página 81). Também diz na Tese 21 da Demonstração das Teses Debatidas no Capítulo de Heidelberg: “O teólogo da glória afirma ser bom o que é mau e mau o que é bom; o teólogo da cruz diz as coisas como elas são. Isso é evidente, pois enquanto ignora Cristo, ele ignora o Deus oculto nos sofrimentos. Por isso prefere as obras aos sofrimentos, a glória à cruz, o poder à debilidade, a sabedoria à tolice e, de um modo geral, o bem ao mal. Esses são os que o apóstolo chama de inimigos da cruz de Cristo, certamente porque odeiam a cruz e os sofrimentos, ao passo que amam as obras e a sua glória”. A maioria das paróquias gostaria de ter pastores “transgênicos”: com genes do Sílvio Santos e do Faustão misturados aos do Roberto Carlos para realizar o ‘show da fé’ para encher a igreja. Lutero diz com ironia e sarcasmo: “O pregador, como o mundo agora o quer, deve ter as seis seguintes características: 1. ser erudito; 2. ter boa pronúncia; 3. ser eloquente; 4. ter boa aparência, para ser amado pelas mocinhas e senhoritas; 5. não aceitar, mas ainda por cima distribuir dinheiro; 6. falar aquilo que o pessoal quer ouvir”. F  alando agora da coerência do/a pregador/a, Lutero diz: “Um bom pregador deve ter as seguintes qualidades e virtudes. Primeiro, deve saber ensinar direito e corretamente. Segundo, deve ter boa cabeça. Terceiro, deve ser bem articulado. Quarto, deve ter boa voz. Quinto, boa memória. Sexto, deve saber parar. Sétimo, deve estar certo do que fala e ser aplicado. Oitavo, deve investir na sua tarefa o corpo e a vida, os bens e a honra. Nono, deve saber aturar o desprezo de todos”. “Aquilo que anunciamos a vocês não se baseia em erros ou em má intenção; e também não tentamos enganar ninguém. Pelo contrário, sempre falamos como Deus quer que falemos, porque ele nos aprovou e nos deu a tarefa de anunciar o evangelho. Não queremos agradar as pessoas, mas a Deus, que põe à prova as nossas intenções. Pois vocês sabem muito bem que não usamos palavras bonitas para enganar vocês, nem procuramos tapear vocês para conseguir dinheiro. Deus é testemunha disso” (1Ts 2.3-5 NTLH).

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Subsídios litúrgicos

Liturgia de bênção com cinzas: Essa liturgia relembra que fomos formados do mesmo elemento do pó da terra (Gn 2.7), lembrando o aspecto da humildade que Jesus ressalta em sua vivência. Voltar para o caminho da humildade e serviço são mudanças concretas e necessárias em nossa vida. Igualmente a Bíblia nos relata vários momentos em que os dirigentes e/ou o povo “vestiam-se com panos de sacos e cobriam-se com cinzas”, a fim de demonstrar seu arrependimento e mudança de rumo na vida, por exemplo: Jeremias 6.26-30; Daniel 9.3-19; Jonas 3.6-10; Lucas 10.16 etc.

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Quarta-Feira de Cinzas

Na liturgia da Quarta-feira de Cinzas, pode ser introduzido o gesto simbólico da bênção com as cinzas, que é o sinal de nossa entrega a Deus no caminho da conversão, da mudança de rumo que Ele nos propõe a partir desse tempo quaresmal. A bênção pode ser realizada após a pregação como gesto simbólico de comprometimento com a mudança que é necessária ocorrer na vida de cada pessoa, aspergindo um pouco de cinzas sobre a cabeça da pessoa ou fazendo o sinal da cruz na testa (ou as duas coisas), dizendo: “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás!” (Gn 3.19); ou: “Segue o caminho da humildade, servindo a Deus e a teu próximo, hoje e sempre”. Como podemos jejuar na Quaresma? Jejue de julgar os outros e descubra Jesus que vive neles. Jejue de palavras que ferem e farte-se de frases que purificam. Jejue de descontentamentos e viva cheio de gratidão. Jejue de ofensas e injúrias e farte-se de mansidão e paciência. Jejue de pessimismo e encha-se de esperança e otimismo. Jejue de preocupações e satisfaça-se de confiança em Deus. Jejue de lamúrias e queixas e satisfaça-se com as coisas simples da vida. Jejue de pressões e farte-se de oração. Jejue de tristeza e amargura e encha seu coração de alegria. Jejue de egoísmos e encha-se de compaixão pelos outros. Jejue de rancores e encha-se de atitudes de reconciliação. Jejue de palavras e viva de silêncios para escutar a outros. Jejue de pensamentos de fraqueza e encha-se de promessas que inspiram. Jejue de tudo o que o afaste de Jesus e procure tudo o que DELE lhe aproximar. Se todos vivermos esse jejum, nossos dias se irão inundando de paz, de amor, de confiança. Que os corações se abram com o jejum na Quaresma para receber o Jesus Ressuscitado! (Autor desconhecido)

Bibliografia COMBLIN, José. Segunda Epístola aos Coríntios. Petrópolis: Vozes, Sinodal, Metodista, 1991. V.V.A.A. As Espístolas aos Coríntios. São Paulo: Paulinas, 1983.

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1º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: GÊNESIS 2.15-17, 3.1-7

13 MAR 2011

MATEUS 4.1-11 ROMANOS 5.12-19

Norberto da Cunha Garin

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Introdução

Neste Primeiro Domingo na Quaresma, sugerimos uma meditação relacionando a criação divina com a destruição provocada pelo ser humano. Como se trata de um período dedicado à contrição, consideramos significativo refletir sobre a trajetória humana a partir dos relatos da inserção do homem e da mulher no jardim do Éden e sua descoberta a partir do encontro com a natureza. É fundamental considerarmos a condição humana e a generosidade de Deus, sempre pronto a nos oferecer uma nova oportunidade de amor, que se efetiva em Jesus Cristo, o novo Adão.

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Exegese

2.1 – A moldura O texto da meditação faz parte do conjunto conhecido por Narrativa da Criação, atribuída a tradições javistas (2.4b-3.24), cuja composição aconteceu provavelmente entre 960-930 a.C. sob o reinado de Salomão. Tratava-se de um escritor que contava com o apoio real, e sua narrativa exaltava a epopeia do reinado a partir da visão de Judá. O conhecimento constitui um privilegio de Javé, que teria sido usurpado pelo ser humano1. A narrativa em foco descreve o ambiente natural no qual o ser humano foi colocado e as primeiras orientações que recebe para desenvolver-se nele. Por outro lado, narra as mudanças de comportamento do ser humano, que tem como consequência a sua saída desse ambiente. 2.2 – O texto 2.15 – Na narrativa javista, até aqui Javé, como agricultor e jardineiro, dedicou-se a preparar um ambiente propício para o ser humano. As condições foram construídas de tal sorte que o acomodasse perfeitamente; não há o que reclamar, pois esse ambiente natural possuía tudo o que ele necessitava para vi-

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É interessante fazer uma correlação com a tragédia grega, especialmente a de Prometeu Acorrentado, do século IV a.C.

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ver bem. O local escolhido para essa colocação é o “jardim do Éden”. Ainda que possamos fazer uma relação com os jardins das nobrezas da época, o foco desse lugar não é propriamente um jardim, mesmo que o v. 9a fale de “toda a sorte de árvores agradáveis à vista”. A função do Éden não é uma praça de recreação, mas prover alimentos para o ser humano. É notável que a descrição do paraíso traga consigo a necessidade de um trabalho para o ser humano: não se trata de um jardim para passear e olhar. O termo “Éden” é uma expressão suméria que passou pelo acádio e significa “planície”. Pela narrativa, é possível localizá-la como a planície que existe entre os rios Tigre e Eufrates com ampla gama de canais e fossos d’água. De qualquer modo, Éden está relacionado, originalmente, a uma área de abundância e riqueza de provimentos. Há outras alusões ao Éden em Ezequiel 27.23; 28.11-19; 2 Reis 19.12 e Isaías 37.12, mas esses casos se referem a países e não podem ser comparados ao texto do Gênesis. Nesse texto, fica muito clara a noção de que se trata de um lugar criado para o ser humano e não de morada de Javé, visto que a criação do homem se dá fora do Éden e posteriormente ele é colocado ali. Nesse lugar, a missão do homem era “cultivar e guardar”, ser o agricultor daquela terra. Essa também será sua tarefa quando ele for tirado dali “para lavrar a terra de que fora tomado” (3.23). Fica claro que não há distinção para o ser humano em relação à sua tarefa: no Éden ou fora dele, fará a mesma coisa. A utilização da expressão “Javé Deus” aparece em alguns relatos relacionados com a criação, mas não é muito comum na tradição javista e se trata muito mais de uma união redacional nas narrativas da criação. O tema principal deste versículo repete o tema do v. 8B: “... e pôs nele o homem que havia formado”. Isso faz pensar na superposição de tradições sobre o mesmo tema. Mas o autor acrescenta no v. 15 a missão do homem, que nos remete a um período histórico quando Israel já havia se estabelecido como reinado, com propriedades agricultáveis e vítima de ameaças externas; 2.16-17 – Há um encontro no qual Javé ordena ao ser humano comer de toda a planta que se cultiva no Éden; ele deseja que o ser humano se alimente adequadamente – é uma disposição divina. Correspondente a essa ordem de alimentação de tudo o que há no jardim, está a proibição de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, descrita já em 9b. A fórmula utilizada pelo javista corresponde à mesma do Decálogo – é uma maneira de redigir comum nos textos apodíticos. Essa ordem vem acompanhada de outra fórmula: a condicionante da desobediência “no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. É perceptível a força da palavra divina que ordena e não permite questionamentos. 3.1 – O ser humano, constituído de homem e de mulher, entra em cena e confronta-se com um projeto distinto daquele traçado por Javé – o projeto da serpente. É um personagem estranho, mas conhecido do ser humano (a serpente), que se apresenta para sabotar a ordem divina. A narrativa acentua a sagacidade desse animal criado por Deus. Esse versículo está diretamente relacionado a 2.1617 ao recuperar os “mandamentos” ali declarados. Nessa narrativa, a serpente apenas retoma as instruções de 2.16. 3.2-3 – Ao responder à serpente, a mulher repete a ordem que Javé havia dado ao casal, além de reforçar e de ampliar a proibição que Deus fez em 2.17:

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“nem tocareis nele (fruto)”. A mulher percebe Deus apenas como aquele que dá uma proibição, deixando em segundo plano o aspecto da provisão. Estão dadas as condições para que a serpente construa a sua interpretação da ordem de proibição. 3.4-5 – A serpente inicia sua fala pelo final da afirmação da mulher: “É certo que não morrereis”. Dessa forma, a serpente desclassifica a afirmação de Javé em 2.17 e começa a colocar dúvida no raciocínio da mulher. Pode-se perceber que, tanto no discurso de Deus como no da serpente, há um jogo de sentido entre a morte “mediata” e morte “imediata” (3.6 e 3.19). Da mesma forma, a certeza dada pela serpente de que o casal não morreria (eternidade) não se efetiva (2224). Entretanto, agindo dessa forma, a serpente coloca sob suspeita a ordem de Javé, afasta o medo provocado pela ameaça e prepara o caminho para a satisfação do desejo, pois coloca no seu raciocínio a possibilidade de conhecer o bem e o mal. Além dessa possibilidade, a serpente desperta na mulher o desejo da eternidade. Essa conquista coloca o ser humano no mesmo nível de Deus no cenário do conhecimento ético. Dessa forma, a serpente nivela-se a Deus ao demonstrar que sabe tanto quanto ele sobre o certo e o errado. Pode-se perceber aqui uma proximidade com o mito de Prometeu da mitologia grega. 3.6 – São três argumentos que a mulher encontra para provar da árvore, todos os três como resposta às sugestões que a serpente lhe faz: em primeiro lugar, o olhar da mulher é seduzido pela visão de que a árvore era boa para se comer e seu fruto era agradável. Em segundo lugar, pela beleza da árvore, que era agradável à vista; esses dois argumentos correspondiam às outras árvores do Éden (2.9; 3.2). O terceiro argumento distingue-a das demais árvores do Éden: “desejável para dar entendimento”. Dessa forma, a sedução da mulher é realizada pela visão (estética), pelo sabor (frutos bons) e pelo entendimento (ética). Isso representa o processo de autoconvencimento, que a leva a uma dupla decisão: comer e dar ao companheiro. Os dois primeiros argumentos são construídos pela própria mulher – são autoconvencimento. Porém o terceiro é o argumento construído pela serpente e destina-se ao desejo da mulher. Outro aspecto que chama a atenção é que na narrativa não aparece qualquer menção ao diálogo travado entre homem e mulher. É estranho que não haja registro sobre alguma informação que a mulher tenha dado nem questionamentos que o homem possa ter feito: a decisão dela representa a decisão dele. Esse silêncio da narrativa pode estar associado ao fato de que 3.1-6 seja a continuação de 2.17, material proveniente de outra fonte. 3.7 – O primeiro efeito da ação de comer do fruto acontece de fato como estava descrito em 3.5b: “abriram-se, então, os olhos de ambos”, e o resultado não tem a ver com a ameaça divina de 2.17: “certamente morrerás”, nem com o restante da promessa da serpente em 3.5b: “sereis conhecedores do bem e do mal”. Ao contrário disso, descobrem a própria nudez. Porém o v. 22 relata a aquisição desse conhecimento, que deveria estar em 3.7. A narrativa parece localizar na constatação da nudez a aquisição do conhecimento ético, visto que, em 3.8, a narrativa denota a capacidade de distinção entre o certo e o errado. Tudo isso aponta para a possibilidade dessa narrativa focar uma explicação etiológica da vestimenta humana, mas isso é desmontado pelo v. 21: “Fez Deus vestimenta de pele para Adão e sua mulher e os vestiu”. Outro elemento estranho é que a nudez

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descrita em 2.25 constituía um elemento importante de aproximação entre homem e mulher, de tal sorte que constituía sua intimidade. Agora, no v. 7, a nudez passa a ser um elemento que afasta um do outro, a tal ponto que fazem disfarces para cobrir-se. Não apenas separa o casal, como separa ambos da companhia divina, conforme v. 10. É importante notar que o conjunto 3.1-7 não inclui Javé em nenhum momento; aparece apenas em 3.1 na boca do narrador.

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Meditação

O foco principal dessa narrativa está na desobediência, mas a fonte dela é o desejo de superação da própria limitação de entendimento. A vontade de aproximar-se do conhecimento total, somente possível a Deus, induz o ser humano a fraudar uma determinação de Javé. A ordem é divina – foi Javé quem estabeleceu os limites para o ser humano; portanto faz parte da Criação como elemento fundamental de ordenação da vida. A desobediência é humana – faz parte da sedição do homem e da mulher de superação dos seus limites, desobedecendo às ordens ou burlando a ordenação estabelecida por Deus. Trata-se de uma narrativa etiológica relacionada à exploração das possibilidades da fraude. É notável que, nessa narrativa, a fraude possui motivações externas, mas pelo menos dois terços da mesma são constituídos de autoconvencimento. O ser humano percebe que a árvore, sobre a qual repousava a proibição, “era boa para se comer”, ou seja, a subjetividade humana projetada sobre um elemento da natureza, alimentada pelo desejo. Junto a isso estava outra subjetividade: a árvore era “agradável aos olhos”. Tinha uma beleza que satisfazia a necessidade de ver o belo no ambiente onde vivia. É o ser humano que busca internamente as justificativas para suas ações fraudulentas. Por último, o elemento externo, estabelecido por Deus como peculiaridade da árvore: “o conhecimento do bem e do mal”. Esse último fez parte da sedução alimentada pela serpente: “se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal”. A ordenação da criação é esquecida rapidamente, porque a vontade de conhecer assim como o Criador conhece é mais forte do que todo o conforto do jardim bem construído e harmonizado para sua habitação. O convencimento provocado pela serpente desconstrói a ordem divina ao induzir que Javé estava mentindo: “certamente morrerás” versus “é certo que não morrereis”, sendo alimentado poderosamente pelas motivações subjetivas do homem e da mulher. Para conquistar o infinito do conhecimento, eles se aventuram pelos descaminhos do desconhecido. Preferem a trilha da desobediência à comodidade da paz que reinava na harmonia entre ser humano e natureza. A consequência da fraude é a descoberta da distância que separa uns dos outros, mesmo que se trate de um casal acostumado à intimidade cotidiana. Agora, portadores do conhecimento, descobrem-se desnudos. Aquilo que antes era tão peculiar à intimidade aparece como estranho. Um elemento de separação se estabelece, impondo distância entre o ser humano e seu próprio corpo, entre a criatura e seu Criador. O conhecimento ético é simbolizado pela descoberta de que homem e mulher estavam nus. Uma nova tarefa agrega-se a de “cultivar” e

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“guardar o jardim”: preservar a intimidade. Trata-se de uma tarefa que não mais está ligada ao cultivo do jardim, mas explora a natureza para satisfazer a necessidade de cobrir-se.

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Imagens para a prédica

Coloque, com antecedência, algumas folhas de figueira penduradas diante do púlpito. Quando a prédica estiver se desenvolvendo, as folhas já estarão murchas. Sinalize que a principal consequência da fraude, da desobediência é a separação. Em primeiro lugar, a separação entre o ser humano e o restante da criação – ele agora necessita explorar a natureza para cobrir sua intimidade. Ao explorar a natureza para satisfazer suas necessidades, o ser humano provoca dor e morte à natureza e, consequentemente, sofrimento à natureza e a Deus, seu criador. A partir daí explore as outras formas de separação que a fraude provoca.

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Subsídios litúrgicos

Litania: Perdão pela desobediência Dirigente: Senhor Deus, perdoa-nos porque a nossa sede de conhecimento e de superação tem nos levado a desobedecer e a fraudar a harmonia da tua criação. Congregação: Perdoa, Senhor, a nossa desobediência. Dirigente: Perdoa-nos, Senhor, porque, ao tentar inventar uma nova criação, à nossa imagem e semelhança, perturbamos a tua criação com a nossa sedição de poder. Congregação: Perdoa, Senhor, a nossa desobediência. Dirigente: Perdoa-nos por provocar sofrimento, dor e morte ao desobedecer às tuas ordens na realização de nossas ambições de grandeza humana. Congregação: Perdoa, Senhor, a nossa desobediência. Dirigente: Perdoa-nos, Senhor, por provocar tanta separação entre nós e nosso próprio corpo, entre nós e outros seres humanos, entre nós e a tua criação. Congregação: Perdoa, Senhor, a nossa desobediência. Oração comunitária: Bendito Deus, ao contemplarmos a grandiosidade da tua criação, percebemos a dimensão de nossa pequenez. Tu nos encheste de bênçãos e de privilégios, e nós, seguidamente, te respondemos com lamentações e mesquinharias. Mesmo assim, tu nos valorizas e nos acolhes diariamente, apontando para o amor de teu Filho Jesus Cristo, que, apesar de nossa condição, ofereceu sua vida em resgate da nossa. Agora, Senhor, permite que nossa dedicação à tua obra possa te trazer alegria e que nosso testemunho de fidelidade a ti conduza outras pessoas ao teu encontro. Que tua igreja seja forte e faça a diferença num tempo marcado pela destruição do que tu criaste. Por Cristo e em Cristo. Amém.

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Bibliografia CROATTO, José Severino. Crear y amar en libertad: Estudio de Génesis 2:43.24 (El hombre en el mundo v. II). Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1986. HOEFELMANN, Verner; DA SILVA, João A. M. Proclamar Libertação: auxílios homiléticos sobre a série ecumênica trienal. Ano A, V. 30. São Leopoldo: Sinodal/IEPG, 2004. GOTTWALD, Norman K. Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica. São Paulo: Paulinas, 1988.

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2º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: ROMANOS 4.1-5, 13-17

20 MAR 2011

GÊNESIS 12.1-4a JOÃO 3.1-17

Manoel Bernardino de Santana Filho

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Considerações gerais

A Epístola aos Romanos é a primeira carta que Paulo escreveu a uma comunidade que ele não fundou. A estrutura da carta é uma mescla de orientações teológicas (1-11) com exortações pastorais (12-16). A carta foi de importância fundamental para os escritos da igreja, para firmar as mais importantes doutrinas como aquelas apresentadas por Agostinho contra Pelágio (Pelágio dizia que o ser humano tem participação na salvação porque ele precisa responder ao apelo de Deus – é a doutrina da cooperação ou sinergismo) e como texto central nos escritos reformatórios de Lutero e Calvino, e mais recentemente em Karl Barth. A carta foi destinada originalmente a uma comunidade de peregrinos judeus, prosélitos, que presenciaram o acontecimento do Pentecostes em Jerusalém no ano 30 d.C. e converteram-se com o sermão de Pedro (At 2.14-41). Não foi fundada pelos apóstolos, mas o fortalecimento da fé cristã em Roma foi provavelmente obra de Pedro em 64 e Paulo um pouco depois. Por estar no centro do império, a comunidade sofreu durante a perseguição aos cristãos. Assim viveu a opressão, a escravidão, a exploração, a desvalorização como uma realidade diária. O medo e o temor às leis e aos poderes do império e o clima hostil fomentaram ainda mais tensões na vida da comunidade em relação à fé e às reflexões teológicas. Assim, a carta procura acalmar os ânimos, consolar a angústia e, sobretudo, clarear as ideias da comunidade em relação à vida de fé em Jesus Cristo. Em Romanos, encontramos a explanação sobre a justificação pela fé e não pela lei, enfatizando o evangelho da graça. A lei que condena e a graça que liberta mediante a fé. Os textos destacam libertação como aceitação, valorização, compromisso, convicção, paixão. Em seu prefácio a essa carta, Lutero disse: Essa carta é verdadeiramente a mais importante peça do Novo Testamento. É o evangelho mais puro. É de grande valor para um cristão não somente para memorizar palavra por palavra, mas também para ocupar-se com ela diariamente, como se fosse o pão diário da alma, ou seja, da vida. O texto selecionado da Carta aos Romanos apresenta a experiência de fé de um homem que acreditou na promessa que lhe foi confiada (Gn 12.1-4a). Abraão creu e por isso partiu. Deixou tudo para trás. Foi a fé que o pôs em movimento. Gênesis é a história dessa promessa. Romanos recupera a experiência de Abraão para nossa edificação. O quarto evangelho põe a fé em ação. O que importa é o

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ato de ter fé, ou seja, a fé como ação. Todo o que nele crê (Jo 3.16) é justificado, assim como foi Abraão.

2 Aproximação ao texto Abraão não é apenas o pai espiritual de Israel. É pai de todos os que creem. Coube a ele nos ensinar o que significa ter fé. Não é por acaso que o pensador dinamarquês Sören Kierkegaard dedicou a ele o texto: Temor e Tremor. Em um dos capítulos – Elogio de Abraão – afirma: houve grandes homens por sua energia, sabedoria, esperança ou amor. Abraão, porém, foi o maior de todos. Grande pela energia, cuja força é a fraqueza; grande pelo saber, cujo significado é loucura. Abraão não nos deixou lamentos. Mesmo quando a esperança se tornou absurda, ele acreditou. Por ele se viu no mundo o que é ter esperança. Ele era o eleito de Deus e herdeiro da promessa de que todas as nações seriam abençoadas em sua posteridade. Que significa ser o eleito de Deus? É ver recusado o desejo de juventude na primavera da vida, para só obter tal favor na velhice, depois de grande dificuldade. Abraão acreditou e por isso se manteve jovem, porque aquele que espera sempre o melhor envelhece na decepção e o que aguarda sempre o pior mais depressa se gasta; mas o que crê conserva a eterna juventude. Nosso texto fala desse homem de fé chamado Abraão. O homem que alcançou graça diante de Deus, sendo justificado por sua fé. Aliás, é bom lembrar aqui o conselho de Paul Tillich, que sugere que não se diga, justificação pela (by) fé, mas justificação por meio (through) da fé. A justificação é mediada pela graça de Deus. Tillich escreveu um pequeno livro – “Dinâmica da Fé” –, em parte para corrigir as terríveis deformações do conceito de fé. Segundo esse autor, a fé é distorcida quando passa a ser concebida antropologicamente como conhecimento (intelectualismo), como ato (moralismo) ou como sentimento (emocionalismo). Para ele, a fé é um estado a ser tomado pela preocupação suprema, ou seja, a fé envolve tanto as profundezas como a totalidade do ser. Portanto nunca devemos dizer justificação pela fé, e sim justificação pela graça por meio da fé (Ef 2.8). O poder justificador é a graça divina; o canal por meio do qual as pessoas recebem essa graça é a fé. O texto estudado hoje se situa na parte teológica da carta e é antecipado por dois blocos temáticos: 1. Depravação humana – ira divina – pecado da humanidade (1.18-3.20). Pecado e condenação de todo ser humano (3.9-20). 2. Justificação pela graça mediante a fé (3.21-31). Nesse contexto, Paulo destaca a pecaminosidade do ser humano, a inutilidade de leis e da autojustificação. O ser humano não consegue ser justo, ter valor, ser aceito por Deus, mediante suas obras. Por outro lado, mediante a fé em Cristo, Deus abraça o ser humano gratuitamente. O caminho para os braços amorosos de Deus não é a lei, mas a fé em Cristo.

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O texto

Na epístola, o capítulo 4 ocupa posição-chave. É aqui que se dá a prova escriturística da justificação pela graça por meio da fé, que é apresentada em Romanos 3.21-31. Isso só tem sentido se a fé de Abraão anteceder de algum modo a fé cristã e identificar-se com ela. Paulo apresentou seu evangelho da justificação pela fé e, em seguida, defendeu-o contra os que o criticavam (3.27-31), enfatizando, ao fazê-lo, que esse evangelho é atestado pelas Escrituras do Antigo Testamento. Para exemplificar o que ele quer dizer, vai buscar o mais ilustre dos patriarcas de Israel: Abraão. Inicia com uma pergunta: “Que, pois, diremos ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?” (4.1). Será que ele foi sem o acréscimo da graça de Deus? Paulo rejeita com veemência a hipótese de que Abraão teria sido justificado por obras. Isso poderia fazer com que ele tivesse de se gloriar, mas logo ele corrige, quando diz que Deus credita justiça ao homem independente de obras. Outra razão para ele rejeitar essa ideia é a própria Escritura. Que diz a Escritura? Pergunta ele e responde segundo Gênesis 15.6: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”. Depois ele vai até Davi (Sl 32.1-2). A segunda pergunta de Paulo é se a bem-aventurança da justificação destina-se apenas aos circuncisos ou também aos gentios. Ele foi justificado antes ou depois da circuncisão? A resposta é que não foi depois, mas antes (v.10b). Sua justificação está assinalada em Gênesis 15, e sua circuncisão foi em Gênesis 17. Segundo os rabinos, um evento está distante do outro pelo menos 14 anos. Abraão recebeu a circuncisão como sinal, selo de justiça que ele tinha pela fé, quando ainda não fora circuncidado. A circuncisão era um sinal de aliança. Assim, Abraão recebeu dádivas distintas de Deus: a justificação e a circuncisão. E nessa ordem. Por isso Abraão é, de fato, o pai de todos os que creem. É pai dos gentios crentes, e para esses a circuncisão é tão desnecessária quanto foi para ele (v. 12). Paulo volta a enfatizar (4.13) que Abraão não foi justificado por lei. A justiça de Deus chegou a Abraão e sua descendência não por causa da lei, mas mediante a justiça que vem da fé. Abraão, de herdeiro da terra de Canaã, torna-se, no Novo Testamento, herdeiro do mundo. A promessa é herdada pela fé e não pela lei. Há três razões para isso: Primeiro, está em Gálatas (3.17) que a lei vinda depois não anula a aliança; Segundo, é uma questão de raciocínio lógico. O que Deus disse a Abraão é: “Eu o abençoarei, creia na minha promessa”, e não: “Obedeça a essa lei, e eu o abençoarei”. Terceiro, lei e promessa se excluem; a lei produz ira. Onde não há lei, não há transgressão. Lei, transgressão e ira pertencem à mesma categoria de pensamento e linguagem: a lei transforma pecado em transgressão, e transgressão provoca a ira de Deus. Por isso o que Paulo afirma em relação a Abraão diz respeito à graça e não à lei. Deus é gracioso, e a salvação origina-se exclusivamente disso.

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Paulo conclui esse capítulo, aplicando a nós, seus leitores, lições relativas à fé de Abraão. A expressão “lhe foi creditado” não diz respeito só a Abraão, mas também a nós. Tudo foi escrito para nossa instrução (Rm 15.4). O mesmo Deus que creditou justiça a Abraão vai creditar essa justiça a nós. É uma declaração que abrange todo o evangelho. Paulo orienta-nos com respeito à natureza da fé. A fé pode ser fraca (v. 19) ou forte (v. 20). Mas como então ela cresce? Sobretudo através do uso de nossa mente. Fé não é enterrar a cabeça na areia, nem torrar os miolos para acreditar naquilo que sabemos não ser verdade ou então assobiar no escuro para esquecer o medo. Fé é uma confiança racional. Não se pode crer sem pensar. Fé é agir como Abraão (v. 19), que, mesmo vendo seu corpo amortecido, envelhecido, pensou também que Sara não podia ter filhos. Quer dizer, reconheceu, enfrentou os fatos. Mas não deixou de crer em Deus. Ele é o Deus que ressuscita os mortos e chama à existência as coisas que não existem (v. 17). Por que esse Deus não poderia transformar aquela situação? E assim, à medida que sua mente foi acolhendo as promessas, os problemas foram encolhendo na mesma proporção, pois ele estava plenamente convencido de que Ele era poderoso para cumprir o que havia prometido (v. 21). A doutrina da justificação pela graça mediante a fé é bíblica e não apenas paulina. Abraão é o modelo de crente; é o homem que creu acima de todas as circunstâncias; por isso devemos imitar o seu exemplo.

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Meditação

No texto analisado, Paulo fala que as pessoas se refugiam na lei e não encontram consolo, mas condenação. A lei revela que toda a humanidade é culpada, que agride a presença e a face de Deus na experiência humana. O texto revela que a graça de Deus envolve o ser humano mediante a fé em Cristo, transformando a vida da pessoa, libertando-a e tornando-a agente de libertação no seu dia-a-dia. Essa libertação é oferecida gratuitamente (v. 24) em Jesus Cristo. É um presente oferecido por Deus em Jesus Cristo. Deus acolhe o pecador, não considerando sua culpa (v. 25), mas olhando para a ação de Jesus, o Cristo. A ação de Deus (v. 26) que justifica não é algo futuro, destinado ao fim dos tempos. Deus perdoa e liberta a pessoa, proporcionando que ela viva em liberdade. Lutando contra o mal, promovendo libertação mediante a fé e refugiando-se nos braços de Deus. Não existem vanglória, autoglorificação, porque não conquistamos a libertação, seja por obras, seja por tradição. A fé em Jesus Cristo oferta-nos gratuitamente a redenção. O ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da lei (27-28). Obras devem ser frutos da fé. Para que tipo de libertação precisamos ser libertos? 1. das tradições e legislações humanas – cf. Colossenses 2.20-23; 2. da ânsia do ser humano de ser centro de tudo. Temos essa tendência de nos colocar como modelo, como centro. A cultura ocidental colocou-se como

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centro do mundo e passou a olhar o mundo a partir de seu próprio umbigo. Por isso dizemos: Oriente Médio, Oriente Próximo, Oriente Longínquo... longe de quem? Perto de quem? 3. libertar do poder do pecado, o valor em si, a compra e a venda de aceitação, que aliena e acomoda as pessoas, revelando que as injustiças, opressões e idolatrias são realidades normais da vida; 4. libertar da acomodação em que se encontra a igreja (seja nos tempos da Reforma, seja hoje). Libertar do marasmo, da indolência, da mesmice, da falta de sentido para a vida cristã. Pessoas que não sabem o que fazer, que apenas tentam manter o que têm. Não se preocupam com questões de fundo, que é a mudança de status quo (da situação existencial), de reformas estruturais que geram vida. A libertação baseia-se... Na ação amorosa de Deus, que acolhe o pecador, convidando-o a viver a justiça mediante a fé em Cristo. Convite gratuito e transformador. Na presença de Cristo, na comunhão dos pecadores, dos excluídos, dos sofridos, dos que necessitam perdão, consolo e valorização. No perdão oferecido gratuitamente como força transformadora e reformadora, mudando vidas, estruturas e relações.

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Imagens para a prédica

Sugiro que se promova a preparação de um cartaz, uma faixa de pano, uma cartolina, para marcar essa mensagem com um recurso visual. Pode-se também usar a mídia, o data show para apresentar essa mensagem. Pode-se usar o recurso numa apresentação em power point. Paulo afirma em 1 Coríntios 3.11: “Ninguém pode lançar outro fundamento além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo”. Somos justificados por Deus, ou seja, aceitos, perdoados, incluídos no seu reino mediante a fé. Não temos mérito. Temos, sim, culpa a confessar. A imagem para ilustrar essa experiência libertadora de salvação é apresentada pelo profeta Habacuque. Dionísio Pape diz que ele é o primeiro profeta a pregar por meio de outdoor. A mensagem é esta: o justo viverá pela sua fé (Hc 2,4b). Aqui está o primeiro panfleto evangelístico do mundo. A pregação por meio de manchetes. Muitas vezes, ficamos perplexos: Deus não tira o tirano do poder, não faz parar as máquinas de guerra, os tanques invasores. E, nesse momento, as dúvidas invadem a alma, assaltam o raciocínio e o homem piedoso é tentado a abandonar sua fé. Mas a resposta de Deus é esta: “O justo viverá por usa fé”. Fé em quem? No Senhor da História, naquele que reina hoje e sempre. Fé naquele que nos ensinou a orar “venha o teu reino” e mais ainda: “pois teu é o reino”. Paulo diz que o mundo aguarda a restauração (Rm 8.22-23).

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Nosso otimismo deve ser gerado pela fé. O justo, vivendo num mundo de injustiça, só pode viver pela fé (2Pe 3.13).

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Subsídios litúrgicos

No tempo da Quaresma, a liturgia deve apresentar convites para a libertação. Sugiro a leitura do capítulo 15 de Êxodo e ler/cantar a antífona de Miriã como paradigma de libertação.

Bibliografia KÄSEMANN, Ernst. Perspectivas Paulinas. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1980. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas, v. 8. Interpretação Bíblia; princípios. Trad. Adolpho Schimidt, Eduardo Gross, Elisa L. Schulz, Luís H. Dreher, Walter O. Schlupp. São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 2003.

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3º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: JOÃO 4.5-26

27 MAR 2011

ÊXODO 17.1-7 ROMANOS 5.1-11; JOÃO 4.5-26

Léo Zeno Konzen

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Introdução

Na caminhada para a Páscoa, o terceiro domingo na Quaresma convidanos a aprofundar o conhecimento e a experiência existencial de nossa relação com Jesus como água viva que sacia nossa sede e torna-se dentro de nós uma fonte a jorrar da mesma água. O livro do Êxodo lembra a crise provocada pela falta de água no deserto e relata como, através de Moisés e de alguns anciãos, Deus saciou o povo sedento, fazendo jorrar água da rocha. Na Carta aos Romanos, embora sem usar a linguagem da água, Paulo lembra que, se o amor de Deus tomou a iniciativa e nos envolveu sem que o merecêssemos, tanto mais ele nos sacia agora que já fomos reconciliados por seu amor. E o evangelho apresenta o episódio do encontro de Jesus com a samaritana, no qual a comunidade cristã joanina revela suas convicções profundas a respeito de Jesus: ele é a fonte da água viva, que sacia definitivamente nossa sede, sejamos nós judeus ou samaritanos, homens ou mulheres, jovens ou adultos; ele é o verdadeiro marido que torna livre a mulher, isto é, toda e qualquer comunidade humana, libertando-a dos ídolos que dela se apossam e a escravizam; ele é o profeta que denuncia o vazio dos templos, cultos e doutrinas que não estão a serviço da libertação e da vida dos seres humanos; ele próprio é o novo templo que acolhe santos e pecadores dispostos a entrar na dinâmica do amor e da partilha.

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Exegese

O Evangelho segundo João foi escrito com a intenção de aprofundar o reconhecimento da importância de Jesus e da comunhão com ele para a vida das pessoas e do mundo. Isso fica muito claro em 20.31-32, primeira e original conclusão desse evangelho. Para alcançar seu objetivo, a comunidade que está por trás desse texto e seu redator final – seja ele uma pessoa ou uma equipe – apresentam diversos episódios, em que vai aparecendo quem é esse Jesus, privilegiando a sua relação profunda com Deus e seu projeto de vida. A identidade de Jesus vai se revelando primeiro através de algumas ações (denominadas sinais), como a do vinho no casamento em Caná, e de encontros com pessoas representativas, como Nicodemos. No capítulo 4, é o encontro com a mulher samaritana que está em foco. Trata-se também de um encontro de revelação da identidade de Jesus e do projeto de vida ao qual serve.

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Mas, antes de analisar esse encontro, convém recordar um pouco da história da comunidade joanina. Ela se originou de maneira semelhante às demais comunidades das origens, mas cedo tomou rumos próprios. Uma das marcas desses novos rumos foi a integração bem-sucedida de samaritanos. Essa decisão da comunidade joanina lhe custou suspeitas e críticas por parte de outras comunidades cristãs e, muito mais, das comunidades do judaísmo lideradas pelos fariseus e escribas. Mas também lhe trouxe inovações surpreendentes: os samaritanos não foram tidos como um apêndice da comunidade; ao contrário, tiveram participação ativa na mesma, fazendo com que, inclusive, a maneira de compreender Jesus e a linguagem sobre ele ficassem marcadas pela cultura samaritana. Esse fato explica, em parte, as enormes diferenças entre os chamados evangelhos sinóticos e o Evangelho de João. No evangelho deste domingo, aparece uma dessas diferenças: a compreensão de Jesus como Messias está relacionada mais com Moisés e o prometido profeta semelhante a ele (“quando ele vier, nos explicará tudo” – 4.26) do que com a tradição do messias filho de Davi, muito identificado com os interesses político-religiosos dos judeus. Muito mais do que “rei dos judeus”, Jesus será o “salvador do mundo” (4.42). O que foi dito no parágrafo anterior conduz a outra constatação da exegese: é provável que o episódio da samaritana expresse muito mais a ação evangelizadora da comunidade joanina do que de Jesus mesmo. Não há nada de estranho nesse modo de proceder, pois os evangelhos todos fundem em seus relatos aspectos do Jesus histórico e da ação evangelizadora das comunidades. Os sinóticos apoiam nossa constatação: enquanto no Evangelho de João Jesus desenvolve importante ação evangelizadora na Samaria, nos sinóticos ele não se mostra muito preocupado com os samaritanos e até pede a seus discípulos, quando os envia em missão, que não vão aos samaritanos (Mt 10.5). É verdade que, apesar disso, o Jesus dos sinóticos revela simpatias para com os samaritanos, principalmente em Lucas, único a contar a parábola do samaritano que socorre o assaltado à beira do caminho (Lc 10.25-37) e do único leproso curado que volta para agradecer, sendo esse um samaritano (Lc 17.11-19). Indica na mesma direção o texto de Atos dos Apóstolos que narra a boa acolhida que tiveram entre os samaritanos os discípulos helenistas de Jesus, que tiveram de fugir de Jerusalém após o martírio de Estevão (At 8). Essa cena dos Atos levanta a suspeita de que o capítulo 4 de João tenha a ver com essa atividade dos helenistas na Samaria. No texto em foco neste domingo, aparece um elemento muito significativo: a fonte ou o poço de Jacó. Talvez mais do que importante fonte de vida, esse poço representa a própria cultura e identidade dos samaritanos. Então, o fato de a mulher buscar água nessa fonte pode significar que ela, representando também os samaritanos todos, está se abastecendo de sua própria história, da religião, das tradições e dos valores de seu povo. Talvez isso ajude a compreender melhor as implicações do gesto de Jesus. Ele, cansado da viagem, senta-se junto ao poço. Em seguida, quando chega a mulher, revela que tem sede e pede água. Não poderíamos dizer que o pedido de Jesus representa um interesse pelas crenças, pelos costumes e pelos valores dos

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samaritanos? Não estaria se mostrando necessitado dessa comunicação com o diferente, no caso com a cultura e a história dos samaritanos? Se for assim, também se entende melhor a estranheza manifestada pela samaritana: como é que um homem, identificado como judeu, pode dignar-se a querer “beber” da “água” dos samaritanos? O gesto de Jesus era inusitado demais. E a mulher somente vai compreender a atitude de Jesus quando esse lhe revela que não está tão identificado com os judeus quanto ela pensa. E ela começa a se interessar também pela “água” que Jesus eventualmente lhe possa oferecer. Quando a samaritana começa a se interessar pela água que Jesus (e nele as comunidades joaninas) tem para partilhar, o texto introduz uma nova surpresa: a samaritana diz não ter marido. E Jesus aprofunda o tema, dizendo que ela tem razão, que teve cinco e o que tem agora não é seu marido. Se estamos lendo todo o texto numa chave de representatividades, também podemos falar aqui de que a situação matrimonial confusa da samaritana tem a ver com a leitura que a comunidade joanina faz da situação religiosa dos samaritanos: seu sincretismo e sua atual identidade religiosa merecem respeito, mas representam uma carência profunda, uma série de “casamentos malsucedidos”... O encontro com Jesus faz com que essa comunidade humana também encontre seu verdadeiro esposo e possa celebrar a aliança com o vinho novo e de excelente qualidade, conforme anunciado no casamento em Caná (cap. 2). O encontro do verdadeiro marido representa também uma nova relação com templos e lugares sagrados: Jerusalém, Garizim ou qualquer outro “monte sagrado” podem ter sua importância, mas somente à medida que ajudam a cultivar a relação decisiva que é, nas palavras do evangelho, “adorar o Pai em espírito e verdade” (4.23). O verdadeiro templo será o próprio esposo, isto é, o corpo de Jesus, como é anunciado no início do evangelho (2.21). A samaritana, como já ocorreu com Nicodemos, percebe que necessita romper com ídolos que a escravizam. Romper com eles nem sempre é fácil – que o diga Nicodemos! Ainda mais quando esses ídolos vêm revestidos de mantos sagrados, como em geral são os dogmas e as instituições religiosas. A samaritana parece ter se dado conta!

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Meditação

Nossa vida é feita de relações. Relações com outras pessoas, com os acontecimentos do mundo, com as coisas, com a cultura, com as questões mais profundas da existência etc. Nosso ser depende dessas relações. Podemos até dizer que nós somos o que são nossas relações. Por um lado, as relações vão nos constituindo, isto é, nossa identidade vai sendo marcada pelas relações nas quais estamos envolvidos. Se sofremos violências, isso marca nosso modo de ser; se somos amados e valorizados, também isso interfere profundamente em nosso modo de ser. De algum modo, podemos então dizer que somos “vítimas” ou resultados das relações nas quais estamos envolvidos. Por outro lado, nós também podemos tomar decisões quanto às relações que queremos estabelecer ou quanto à maneira de integrá-las em nossa vida. Podemos

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escolher, em certa medida, as pessoas com quem queremos caminhar na vida; podemos decidir se queremos, ou não, participar desse ou daquele evento, fazer parte de uma comunidade, dessa ou daquela; podemos decidir se investimos, ou não, em nossa própria formação, dessa ou daquela maneira. Enfim, se há relações que nos envolvem e nos constituem sem nossa livre decisão, há outras que nós mesmos estabelecemos. E as relações que nós estabelecemos com relativa liberdade implicam, às vezes, rupturas com outras que herdamos ou nas quais nos vemos envolvidos. A liturgia do terceiro domingo na Quaresma convida-nos para uma revisão de nossas posturas no que se refere às relações que vivemos. Ela nos chama a tomar consciência dessas relações e a avaliá-las a partir do encontro com Jesus Cristo. Podemos imaginar que hoje Jesus senta junto à fonte ou poço onde nós costumamos buscar água e nos pede de beber. Qual será essa fonte ou esse poço? Talvez seja nossa comunidade. Talvez nosso mundo marcado por tantas transformações. É possível que nos admiremos, como a samaritana, de que Jesus se digne a pedir-nos de beber de nossa água, principalmente se for da água de grupos humanos que discriminamos, quem sabe até em nome de Deus! Hoje somos muito sensíveis ao novo, pois vivemos num mundo de constantes, rápidas e profundas transformações. Pode parecer estranho, mas há um “novo” que não é pela idade nem por não ter existido antes, mas pela capacidade de surpreender e enriquecer sem limites. Esse novo é Deus mesmo, que se fez humano em Jesus de Nazaré e acompanha a história da humanidade. Abrir-se para esse “novo” de Jesus em suas práticas e prédicas significa, para pessoas e comunidades, estabelecer uma relação libertadora e humanizadora. Entrando nessa relação, pessoas e comunidades, inclusive igrejas, percebem que a vida é muito mais do que dizem os ídolos que nos mantêm presos e amordaçados. Na relação com ele, descobrimos que ninguém pode se apropriar de Deus e dominar pessoas. Ninguém tem esse direito: nem templos, nem lugares, nem igrejas, nem instituições, nem pessoas. Todas essas coisas têm seus valores, e podemos precisar delas, mas elas só se justificam à medida que se colocam a serviço da vida e tornam-se “lugares” onde possamos beber da água que verdadeiramente mata nossa sede. Talvez até consigamos nos convencer de que Deus, através de Jesus, pede de nossa água para beber. Mais difícil poderá ser admitir que ele também faça isso com grupos humanos que nós discriminamos ou excluímos. Essa dificuldade já foi vivida por judeus e cristãos que não conseguiam aceitar os samaritanos. Hoje ela pode se expressar na dificuldade de reconhecer que Deus queira se relacionar de maneira simpática também com aqueles que não são de nossa igreja, como aidéticos, homossexuais, presidiários etc. Pode ser que Jesus nos ajude a descobrir ou a reconhecer que também nós tivemos “cinco maridos” e o que temos hoje não é o nosso... Quer dizer, é possível que, apesar de pertencermos a uma comunidade cristã, não tenhamos nos encontrado verdadeiramente com aquele que tem a partilhar conosco a água viva que nos sacia e se torna uma torrente dentro de nós. Isso pode também acontecer com nossa igreja e com as igrejas cristãs em geral.

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Imagens para a prédica

Um ditado popular pode ajudar-nos na reflexão neste domingo: “Dize-me com quem tu andas, e eu te direi quem tu és”. Ele expressa bem a importância das relações na constituição de nossa identidade. Ele pode ajudar a entender que nos relacionamos com valores, mentalidades, pessoas e instituições que nos alienam ou então que nos tornam mais conscientes e livres. O ditado ainda expressa a possibilidade de escolhermos com quem queremos nos relacionar. Embora sempre dentro de limites, nós temos um relativo livre-arbítrio para decidir com quem queremos construir nossa história e, portanto, de quem queremos receber mais influências. O convite que a liturgia nos faz neste tempo de Quaresma, especialmente neste domingo, é de acolhermos Jesus como companheiro de caminhada. Ele se revelará como fonte de água viva. Ele também nos conduzirá aos “samaritanos” de hoje, em atitude de respeito, partilha e solidariedade. Há um filme chamado “Patch Adams – o amor é contagioso”, que apresenta a história de um homem que teve sua vida transformada a partir do momento em que, internado num hospital psiquiátrico, ajudou um colega e esqueceu um pouco seus próprios problemas. Daí em diante, em meio a muitas resistências e oposições, apostou tudo na busca de ser tornar médico para ajudar outras pessoas. Sua maneira de ser transformava muitas pessoas, inclusive as mais resistentes. É difícil não ver no personagem central do filme uma imagem do próprio Jesus e das transformações que a relação com ele provoca na vida de quem decide aceitá-la. Outro filme, chamado “Daens – um grito de justiça”, apresenta a história de um padre que, por circunstâncias diversas, acabou se aproximando dos pobres na época da revolução industrial na Bélgica (final do séc. XIX). Essa relação com os “samaritanos” de sua época transformou completamente sua vida, a ponto de também entrar na vida política, tornando-se deputado para defender as causas dos pobres. As reações dentro e fora da igreja foram violentas, mas o povo pobre e trabalhador renasceu para a esperança.

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Subsídios litúrgicos

Pode-se construir uma representação de um poço no lugar onde se realiza o culto. Junto com isso, pode-se também fazer uma encenação do evangelho ou uma leitura dialogada. Interessante também pode ser o gesto de convidar a comunidade toda a beber um pouco de água junto à representação do poço no final do culto ou noutro momento oportuno, fazendo-se a devida motivação para isso. Há um canto do padre Zezinho que é bem apropriado para a ocasião: “Eu te peço desta água que tu tens...”

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Bibliografia BROWN, Raymond E. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas, 1984. KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: Amor e Fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 2000. MATEOS, Juan; BARRETO, Juan. O evangelho de São João: análise linguística e comentário exegético. 2.ed. São Paulo: Paulus, 1999.

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PRÉDICA: EFÉSIOS 5.8-14

4º DOMINGO NA QUARESMA

SAMUEL 16.1-13 JOÃO 9.1-41

03 ABR 2011

Ervino Schmidt

1 Introdução Há épocas e situações diversas. Há particularidades. Não é possível simplesmente harmonizar escritos. Mas é possível destacar intenções básicas comuns. É o que a igreja pretendeu ao agrupar trechos bíblicos específicos para os diversos domingos do Ano Eclesiástico. Temos três textos indicados para o 4º Domingo na Quaresma. Iniciemos com 1 Samuel 16. O profeta Samuel é encarregado de escolher o líder para o povo. Na verdade, ele é apenas o mediador. Quem escolhe é Deus. E ele o faz de acordo com seu olhar peculiar. Ele não se fixa em aparências. Sinais externos de grandeza não o enganam. Não olha para os aspectos físicos ou de poder, nem para quaisquer outros indicadores que tanto contam na sociedade. Aqui, por exemplo, Deus não escolhe o mais velho dos filhos de Jessé, nem a nenhum outro dos sete irmãos, o que era de se esperar. Ele, ao invés disso, fixa-se no menor, no mais jovem, que nem sequer fora chamado para a reunião. Esse, tão pequeno e frágil, certamente não seria escolhido, assim pensavam. Mas exatamente ele, o frágil Davi, é ungido rei de Israel. João 9.1-41 – Temos aqui um longo relato. É o episódio da cura de um cego de nascença. Fala da passagem das trevas para a luz, da cegueira para a visão. É um relato cheio de detalhes. No início está a pergunta dos apóstolos que dá a entender como eram consideradas as enfermidades no tempo de Jesus. Conforme a concepção da época, ou o pecado do doente ou de seus pais deveria ser o motivo de sua cegueira. Jesus, porém, responde: “Nem ele nem seus pais pecaram”. Importa engrandecer no cego o nome de Deus. No final, temos as fortes palavras de Jesus: ”Eu vim para este mundo para um julgamento, a fim de que aqueles que não viam vejam e aqueles que viam se tornem cegos”. Nesse relato aparece também sua afirmação: “Enquanto eu estiver no mundo, eu sou a luz do mundo”. Enfim, é Deus mesmo quem nos abre os olhos e nos faz ver sua suprema realidade. Efésios 5.8-14 – O texto para a pregação. Chama atenção, logo de saída, a contraposição “trevas-luz”. Trevas eram símbolo do pecado, do desconhecimento de Deus, das ações impuras. Os cristãos, porém, são convidados a viver como filhos da luz, como pessoas que despertaram com Cristo do sono da morte. Agora são chamados para ser luz no mundo. Devem viver como filhos da luz, da qual “bondade, justiça e verdade” são os frutos. Mas, assim como nos outros dois trechos bíblicos mencionados, também aqui a iniciativa é de Deus. “Cristo

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ilumina.” Somente em sua luz, incorporados nele pelo batismo, os cristãos fazem o que é agradável ao Senhor.

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Exegese

Temos aqui um grande documento teológico-pastoral. O desígnio de Deus, escondido durante séculos, revelado em Jesus Cristo, desemboca na igreja. O. Cullmann já dizia: “A doutrina central da epístola aos Efésios é eclesiológica, quer dizer, que ela tem por assunto a igreja e as relações de Cristo com ela” (A Formação do Novo Testamento, p. 75). Várias figuras comparativas são usadas na carta para destacar essas relações. A igreja é para Cristo o que o corpo é para a cabeça, o que a esposa é para o marido (cf. 1.23 e 5.21ss). O interesse está no crescimento desse corpo e na edificação da casa de Deus. “Integrados pelo batismo nesse conjunto no qual estão reunidos Israel e as nações pagãs, os cristãos se transformam no homem novo. Por meio do louvor, do conhecimento e da obediência, eles constituem o núcleo da reunificação do mundo que Cristo reconciliou em sua morte” (TEB, Introdução à Epístola aos Efésios). Temos no coração da história uma nova criação de Deus. Através do instrumento igreja o seu desígnio tem continuidade. A redenção realizada em Cristo deve repercutir em todo o universo. Para isso, é necessário estar integrado no corpo de Cristo pelo batismo. A relação igreja-batismo é essencial. Aliás, muitos pesquisadores veem no capítulo 5 partes de uma instrução batismal. E o último versículo de nossa perícope é tido como fragmento de uma antiga liturgia batismal. Ele, por sua vez, é uma citação de Isaías 60.1: “Põe-te de pé e torna-te luz, pois está chegando a tua luz: a glória do Senhor se levantou sobre ti”. Aqui a palavra passa a ser uma conclamação para a presença transformadora das comunidades cristãs no mundo. Olhemos mais de perto a nossa perícope. Chama atenção o emprego dos contrastes. “Outrora-agora”, “trevas-luz”. “Outrora éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor” (5.8a). Já no capítulo anterior aparecem as contraposições “dissolução-santidade cristã” e “o velho e o novo”. Os cristãos não andam como os gentios que vivem “na vaidade dos seus próprios pensamentos”, que são obscurecidos de entendimento e entregam-se à dissolução. Eles são conclamados, isto sim, a revestir-se do novo homem “criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (4.24). O dualismo “trevas-luz” não é muito frequente no Novo Testamento. Aparece principalmente em Efésios e na Epístola aos Colossenses. Mesmo assim, não se trata aqui de um dualismo de distintas esferas, de dois mundos em guerra, do bem e do mal. Não se defende uma concepção de mundo a partir de dois princípios opostos e irredutíveis entre si. Não é por aí que se argumenta. Ao contrário, abandona-se esse tipo de raciocínio especulativo em favor de uma compreensão existencial. O acento recai sobre ser luz e andar na luz. E mais: Os cristãos não são luz a partir do desenvolvimento de alguma potencialidade inerente a eles próprios. Essa seria uma concepção gnóstica. O ser

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humano liberta-se a si mesmo através de algum exercício de autocompreensão. Basta ter o conhecimento necessário. Dessa forma chega-se a ser iluminado. Os cristãos “são luz no Senhor”. Não temos luz própria! Podemos dizer: luz vem de luz. Vem de fora. É o extra nos, tão caro à teologia da Reforma. É graça! Isso posto, estamos em condições de entender melhor a exortação: “Andai como filhos da luz” (v. 8b). Aquela velha dificuldade de relacionar corretamente indicativo e imperativo está solucionada em nossa perícope já na afirmação de abertura. E todas as demais recomendações que seguem devem ser vistas nessa mesma perspectiva da graça. “Andar como filhos da luz” implica sempre provar “o que é agradável ao Senhor” (v. 10). É a necessária orientação na caminhada. Perguntar pela vontade divina faz parte do ser luz-reflexo daquele que é a Luz. E outra vez uma imagem: “os frutos da luz”. Que feliz expressão! A boa árvore traz bons frutos (Mt 7.17). Simplesmente os traz. É de sua natureza. Do mesmo modo, a luz ilumina, dissipa as trevas e traz à luz as obras infrutíferas, as que não alimentam para a vida. Os cristãos anunciam e, ao mesmo tempo, denunciam o que não coopera para o sustento da vida humana e social. Mas essa denúncia ocorre naturalmente. O próprio testemunho cristão expõe o que não promove “bondade, justiça e verdade”. É, por assim dizer, consequência automática. Não há necessidade de “guerra santa”. “Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas” (v. 13). E, por fim, “desperta, ó tu que dormes” (v. 14a). O símbolo da luz leva o autor a acrescentar essa palavra, conhecida dele e da comunidade, que mais uma vez relaciona a luz com Cristo. É uma referência, como dissemos acima, à celebração do batismo.

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Reflexão

Na série Proclamar Libertação, encontramos duas boas interpretações sobre Efésios 5.8-14. A primeira (em PL III) é de autoria de Huberto Kirchheim. Ele parte da realidade das comunidades. Observa passividade e indiferença. Percebe a estrutura da comunidade de atendimento, “da comunidade de consumo”. Preocupado, constata que a vida é muito restrita ao culto dominical e fica “sem expressão maior para dentro da realidade de vida no contexto social, político e econômico do país. A maioria das comunidades se assemelha a guetos dentro do mundo”. A igreja precisa ser manifestação vivencial! E é nesse sentido que entende “andar como filhos da luz”. O cristianismo caracteriza-se por sua “dinamicidade, pela sua expressão concreta de vida”. A segunda interpretação (em PL 24) foi escrita por Werner Fuchs. O autor acentua o “caminho de baixo”, o caminho da cruz. Volta-se contra uma distorção da mensagem de Efésios por grupos carismáticos radicais e de evangélicos agressivos que propagam uma teologia da “batalha espiritual”. Também o simbolismo

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trevas-luz está, conforme ele, sendo entendido no esquema de “guerra”: trevas infernais contra luz celestial. Tal leitura “beligerante” é, assim Fuchs, equivocada. Igualmente o “andar na luz” não pode ser uma ordem legalista. Ser luz é graça! Ambas as interpretações destacam a gratuidade da salvação. Isso é muito procedente. O autor da Carta aos Efésios realmente descreve a vida cristã, a vida da igreja com base no agir amoroso de Deus, que a tudo antecede. Os cristãos foram acordados, despertados para uma nova vida. Foram colocados na luz. Somente integrados em Cristo podem eles próprios ser luz, luz do mundo. O próprio imperativo “desperta” só é possível porque o antecedeu o chamado para acordar. Os membros da comunidade são admoestados a andar “como filhos da luz”, porque já “são luz no Senhor”. Esse raciocínio todo aponta para o batismo. Já dissemos acima que o trecho da epístola previsto para a prédica no 4º Domingo na Quaresma tem a ver com instrução batismal e que o v. 14 parece ser um fragmento litúrgico. No Batismo, a luz do Ressurreto é lançada sobre nossa vida. “Pelo Batismo nós somos ligados tão intimamente a Cristo, que a sua morte se torna a nossa morte e a sua ressurreição a nossa ressurreição” (H. Kirchheim). Poderíamos dizer que tudo mais é decorrência. O agir dos cristãos no mundo é consequência do estar em Cristo. Assim, o mesmo não será legalista, não será pesada observância de um sem-número de leis, nem adoção de um determinado estilo de vida (way of life). Nosso agir acontece na régia liberdade dos filhos e das filhas de Deus. Mas é exatamente assim que a presença cristã fará toda diferença! Simplesmente com nossa vivência, com nossa maneira de ser vamos contribuir para que se instalem “bondade, justiça e verdade”, ou seja, os frutos da luz. Simplesmente deixando a bondade luzir é que o mal se tornará manifesto. Como cristãos seremos automaticamente críticos, mas jamais arrogantes. Não assumiremos a atitude de quem sabe tudo melhor e para tudo tem solução pronta. A atitude da bondade é o diálogo. É dessa a maneira que não somos “cúmplices nas obras infrutíferas das trevas ”. É essa a maneira de reprová-las. É nesse espírito que cristãos buscam viver o evangelho no pequeno círculo pessoal, em sua comunidade e na sociedade. Como exemplo de um envolvimento político-social mais amplo, poderíamos citar as Campanhas da Fraternidade Ecumênicas. Na virada do milênio e no contexto do Grande Jubileu, as igrejas, reunidas no CONIC, realizaram a primeira campanha ecumênica sob o tema “Dignidade Humana e Paz”, com o lema “Novo Milênio sem Exclusões”. Foi gratificante ver como em todos os lugares surgiram grupos ecumênicos para discutir o tema e planejar mobilizações. Realmente, encontramos muita gente disposta a iniciar o novo milênio mais unida e mais solidária com os que sofrem. A Segunda Campanha da Fraternidade Ecumênica aconteceu em 2005. E o tema foi: “Solidariedade e Paz” – “Felizes os que promovem a paz”. O objetivo foi contribuir para a superação da violência em nosso país.

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Reconheceu-se a necessidade de superar o espírito, a lógica e a prática da violência, tanto direta como estrutural, e de se opor a qualquer forma de exclusão e intolerância. Reconheceu-se a necessidade de promover uma cultura de paz. A terceira Campanha da Fraternidade Ecumênica, a deste ano de 2010, teve por tema “Economia e vida” e como lema “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6.24c). Mesmo que à primeira vista não pareça, continua presente aqui a preocupação com paz e vida digna das campanhas anteriores. Não há paz quando o interesse econômico sacrifica pessoas e cria desigualdades inaceitáveis. Viver a fé significa enxergar essa realidade. Não podemos fechar os olhos diante dela. Importa sermos “luz do mundo” nessa situação e dar testemunho de “bondade, justiça e verdade”. Devemos ser irmãs e irmãos! Quem se conforma com um sistema econômico que marginaliza e gera desespero para tantas pessoas de fato não está sendo irmão. Nossa fraternidade tem que incluir tudo o que atinge a família humana. Exatamente nessa consciência foi formulado o objetivo da campanha: “Unir as pessoas de boa vontade na promoção de uma economia a serviço da vida, sem exclusões, contribuindo na construção de uma cultura de fraternidade e paz”. Ser luz do mundo significa para nós envolvimento não somente nos assuntos do nosso pequeno círculo, de nossa comunidade local, mas também nas questões que afetam a vida do nosso povo.

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Dicas para a pregação

4.1 – Sugiro iniciar, convidando os ouvintes para uma breve recordação do Batismo. É nele que se dá a passagem das trevas para a luz. Agora “vós sois luz no Senhor”. Que consequências isso traz? 4.2 – Leitura do texto. 4.3 – Meditar, no sentido pleno da palavra, sobre a relação “Jesus, a luz da vida” e “vós sois a luz do mundo”. Não temos luz própria! 4.4 – “Andai como filhos da luz.” Vivência cristã no dia-a-dia, na sociedade. Imagino que se poderia trabalhar, a título de exemplo, a responsabilidade cristã no tocante à temática da CF 2010-Ecumênica. Mas sempre destacando o caráter livre, leve e dialogal do nosso agir. Que nossa contribuição aconteça em humildade e não de cima para baixo. 4.5 – Somos uma comunidade, uma igreja, com suas limitações e falhas, mas cada membro individualmente e todos em conjunto, por mais pálida que seja nossa luz-reflexo, faremos a diferença no mundo. Isso porque estamos “na luz do Senhor”. Acontecem tantos “frutos da luz” na igreja e através dela. Não há razão para desânimo, mas para agradecimento.

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Subsídios litúrgicos

Saudação: Luz de Deus, Inunda a terra, visita nossos corações e permanece conosco.

Confissão: Lanternas e lâmpadas, Velas e luz do sol, Que necessidade temos De mais luz.

Um salmo dos nossos dias: A ressurreição de Jesus Nos anuncia a esperança De tempos novos. Tudo poderá ser diferente. Pedras são removidas, Lágrimas enxugadas, Medos vencidos.

Mas no nosso dia-a-dia Há tanta escuridão: Ignorância e egoísmo, Amor ao poder, Medo do desconhecido. Jesus é a luz da Vida. Ele nos chama A ser luz do mundo.

A luz que nos ilumina É mais forte do que A escuridão da noite. O ódio não prevalece Contra o amor, Os humildes triunfam, Bondade, justiça e verdade Se instalam. Os céus se abrem, A luz divina resplandece. “Desperta, ó tu que dormes, Levanta-te de entre os mortos, E Cristo te iluminará.”

Por isso não nos ocultemos. Ao contrário! Que nossa fé Brilhe em nosso viver! Para que todos possam Ver Jesus.

Bibliografia FRIEDRICH, Johannes. Meditação sobre Ef 5.8b-14. In: BONHAEUSER, H. Neue Calwer Predigthilfen, ano II, v. B. Stuttgart, p. 107-115. FUCHS, Werner. Meditação sobre Ef 5.9-14. In: SCHNEIDER, N. e WITT, O. (Coord). Proclamar Libertação, v. 4. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p. 105-110. KIRCHHEIM, Huberto. Meditação sobre Ef 5.9-14. In: Van KAICK, Baldur (Coord). Proclamar Libertação, v. III. São Leopoldo: Sinodal, 1978. p. 153-160. OTTO, Gert. Denken um zu Glauben. Hamburg: Furche-Verlag, 1970. p. 92-96.

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PRÉDICA: JOÃO 11.1-3,17-27

5º DOMINGO NA QUARESMA

EZEQUIEL 37.1-14 ROMANOS 8.6-11

10 ABR 2011

Júlio Cézar Adam

1

Introdução

Devo dizer que, à primeira vista, fiquei um pouco confuso com a delimitação do texto bíblico. É o texto da ressurreição de Lázaro, mas, então, por que se deixa fora justamente a parte que relata a ressurreição de Lázaro (v. 38-44)? Somente depois de refletir cuidadosamente sobre o texto e do trabalho exegético é que fui me dando conta de que se trata, sim, da ressurreição de Lázaro – esse é o pano de fundo –, mas o tema central dessa perícope é a fé naquele que é a ressurreição e a vida, Jesus Cristo. Nessa perícope, essa fé tem como protagonista Marta, irmã de Maria e de Lázaro. Não só a ressurreição de Lázaro quer ser contada, mas a ressurreição que se dá a partir da ressurreição. A ressurreição que toma conta da vida das pessoas nesta vida. Os textos que acompanham o evangelho, segundo o Lecionário Comum Revisado, vão por esse caminho. O texto do Antigo Testamento, Ezequiel 37.114, conta sobre o vale dos ossos secos. O Espírito de Deus faz voltar à vida os ossos secos, as pessoas secas de esperança e vida por causa do exílio. O texto da epístola é de Romanos 8.6-11, que nos leva a refletir sobre os efeitos do viver sob a influência do Espírito de Deus. Se Cristo vive em vocês, então, embora o corpo de vocês vá morrer por causa do pecado, o Espírito de Deus é vida para vocês porque vocês foram aceitos por Deus, diz Paulo no v. 10. A mensagem que quer ser proclamada, portanto, neste 5º Domingo na Quaresma, dois domingos antes do Domingo da Páscoa, é a ressurreição. Não só como evento, mas a ressurreição como marca e pilar da fé cristã, a ressurreição como tecido da fé do cristão.

2

Exegese

O Evangelho de João é um dos últimos livros do Novo Testamento. Provavelmente tenha sido escrito na cidade de Éfeso, através de muitas mãos da comunidade do Discípulo Amado. Por isso acabou sendo atribuído a João. O evangelho demorou cerca de 60 anos para tornar-se um texto. Antes de ser escrito, foi vivido e tecido em meio a dificuldades e conflitos. Em torno do ano 100, recebeu a redação definitiva. A comunidade de João é composta por diferentes grupos: judeus convertidos, samaritanos, pagãos, bem como gregos. Grandes conflitos são enfrentados pela comunidade: conflito com o mundo e a humanidade, como sistema social injusto; com a fé e a tradição judaica, aqueles que tentam apagar a luz (cf. 1.5);

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com os seguidores de João Batista, por isso o esforço de dizer que João Batista não era a luz, mas testemunha da luz (cf. 1.6-8), dentre outros conflitos. Todo o evangelho pode ser dividido em duas grandes partes. A primeira parte seria a parte dos sinais, e a segunda parte o grande sinal, a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Segundo Bortolini, podemos organizar o livro da seguinte forma: Prólogo (1.1-18) 1ª Parte: O livro dos sinais (1.19-12.50) (Primeira semana – 1.19-11.57) 1º Dia (1.19-28) 2º Dia (1.29-34) 3º Dia (1.35-42) 4º e 5º Dias (1.43-51) 6º Dia (2.1-11.1ss) Início dos sinais da vida 1º Sinal (2.1-12): O casamento de Caná 2º Sinal (4.46-54): A cura do filho do funcionário real 3º Sinal (5.1-9): A cura do paralítico 4º Sinal (6.1-15): A partilha dos pães 5º Sinal (6.16-21): Jesus caminha sobre as águas 6º Sinal (9.1-41): A cura do cego de nascença 7º Sinal (11.1-44): A cura de Lázaro. (Segunda semana – 12.1-19.42) 2ª Parte: O grande sinal (13.1-20-29) Lava-pés (13.1-30) Discurso de despedida (13.31-17.26) Paixão, morte e ressurreição de Jesus (18.1-20.29) Epílogo (20.30-31) Apêndice (21.1-23 – O dia que não termina) Segundo epílogo (21.24-25) Nossa perícope, 11.1-3,17-27, encontra-se, portanto, dentro da primeira parte do livro, sendo um recorte do último sinal, antes do grande e decisivo sinal, vivenciado por Jesus Cristo. O sétimo sinal, a ressurreição de Lázaro, vence uma barreira que parecia insuperável: a morte. Jesus já tinha mostrado muito: curas, milagres, outros sinais, mas esse é o maior de todos: a ressurreição do amigo morto a quatro dias. A ressurreição de Lázaro não é uma metáfora. Entendo-a como um acontecimento real, mesmo que traga consigo elementos simbólicos para a interpreta-

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ção. Confirma o que o prólogo afirma: Na Palavra estava a vida, e a vida era a luz das pessoas (1.4). O sinal está ligado com o capítulo 10, pois Lázaro é a ovelha que escuta a voz do pastor e volta à vida. O sétimo sinal pode ser assim estruturado: I.

Fugindo de Jerusalém, Jesus retira-se para o outro lado do rio Jordão (10.4042) II. Volta à Judeia. Lázaro morre antes de Jesus chegar (11.1-16) III. Jesus encontra-se com Marta na entrada de Betânia (11.17-27) IV. Jesus fala com Maria e segue-a para visitar o túmulo (11.28-37) V. A ressurreição de Lázaro (11.38-44) VI. Complô contra Jesus (11.45-53) e retirada para o deserto (11.54) Nosso texto, portanto, é um recorte. Toma alguns versículos da parte II, que serve para localizar o ouvinte no acontecimento, e da parte III, que é o encontro de Jesus com Marta no velório de Lázaro. Aqui está o ponto central para a pregação: o encontro de Jesus com Marta. Poderíamos dizer que todo o sétimo sinal tem como tema central a fé de Marta e Maria. A ressurreição de Lázaro é o sinal, o pano de fundo. A fé das duas irmãs é o kérigma desse texto (11.1-44). Numa dimensão mais ampla, o que está em jogo é a fé em Jesus a partir dos sinais, a incredulidade e a rejeição mortal por parte das autoridades judaicas, que culminará nos eventos do grande sinal, a cruz. Numa dimensão menor, está a fé das irmãs de Lázaro, que envolve a fé da comunidade em torno de Jesus. Nossa perícope, especificamente, trata da profissão de fé de Marta. O 7º sinal do evangelho tem grande impacto tanto para Marta e Maria como para a comunidade de Betânia, os discípulos, os adversários de Jesus Cristo e, sem dúvida, o próprio Lázaro. Não é algo comum. A reanimação da filha de Jairo (Mc 5.21-43 e par) ou do filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17) é pouca coisa em comparação com a ressurreição de alguém que já está em estado de decomposição. Na tradição judaica, até o 3º dia após a morte, ainda havia esperança de que a pessoa pudesse voltar à vida. O 4º dia representa o fim da esperança. Existe uma preocupação na redação em situar o ouvinte quanto aos personagens. Fala-se de Marta e Maria como pessoas conhecidas. Se há uma relação com a história narrada em Lucas (Lc 10.38-41), não é possível averiguar. Maria é apresentada como a que ungiu os pés de Jesus com óleo e secou seus pés com os cabelos (Jo 12.1-8). Lázaro era alguém que Jesus amava (v. 3,5). Não se sabe exatamente por que Jesus não vai logo curar Lázaro após receber o aviso de que ele estava doente (v. 3,6). Talvez Jesus achasse que ele não iria morrer ou deixa que ele morra para revelar a glória de Deus (v. 4,15), ou porque Jesus temesse voltar para perto de Jerusalém e ser morto (v. 8). Na minha compreensão, a morte de Lázaro e sua ressurreição servem como base para a reflexão e edificação da fé em torno da ressurreição, preparando, assim, a comunidade para a grande ressurreição, a do próprio Jesus. Há sim uma clara intenção de relacionar o último sinal com o grande sinal que o procede. A ressurreição de Lázaro prefigura de certa forma a morte e a

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ressurreição do próprio Cristo. A proximidade de Betânia com Jerusalém (apenas 3 km) sinaliza uma proximidade não só geográfica, mas também em relação aos eventos que estão se aproximando. Dois domingos apenas faltam para que tudo aconteça. Finalmente, Jesus vai a Betânia. Maria, diferente do relato de Lucas, é aqui mais distante de Jesus. Marta, ao contrário, vai ao encontro de Jesus. Aqui é Marta quem busca algo em Jesus. A fé de Marta é de confiança em meio à dor. Sabe que, se Jesus estivesse lá, seu irmão não teria morrido. Mesmo estando morto, ela confia que Deus atenderá o que Jesus pedir. Não espera uma ressurreição. Como judia, ela acredita na ressurreição no último dia. Jesus anuncia a ela a novidade: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim nunca morrerá”. Jesus pergunta: “Você acredita nisso?”. E então temos a confissão de Marta: “Sim, Senhor! Eu creio que o Senhor é o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (v. 25-27). Marta crê sem ver.

3

Meditação

Desenvolvo esta parte em forma de teses inter-relacionadas. A prédica poderia seguir uma dessas teses. a) O texto apresenta o cerne da fé cristã: a ressurreição anunciada por Jesus Cristo e a fé nesse anúncio. Temos hoje uma inflação de fé. Fala-se de um renascimento da espiritualidade, da religiosidade, da piedade etc. Se essa fé é fé cristã, ou seja, fé a partir da e para dentro da ressurreição, tenho lá as minhas dúvidas. Acho que as pessoas, também os membros ativos de nossas comunidades, não têm clareza da base da fé enraizada na ressurreição. Outras interpretações, compreensões, filosofias interpõem-se e se sobrepõem à grandeza e exclusividade da ressurreição. Faz parte da cultura brasileira um sincretismo nato. No que se refere ao pós-morte, existe muita especulação. Infelizmente, muitos se encantam com as especulações e não vão além disso. A igreja, por outro lado, me parece vaga na catequização para uma fé solidamente baseada na ressurreição. Como preparação para a Páscoa, parece-me extremamente apropriado trabalhar o tema como preparação para receber e viver a Páscoa da ressurreição. b) A ressurreição como base da fé é por demais abstrata para os tempos que vivemos. A própria fé é algo por demais invisível e precisa cada vez mais de sinais. Na sociedade do espetáculo, das imagens, do concreto, a promessa da ressurreição não impacta nem alimenta a fé. Teria que ser demonstrada e, mesmo assim, teria que ser averiguada, para ver se não seria um truque de imagem. A confissão de Marta, a partir da promessa de seu mestre e amigo, é uma fé em extinção. “Sim, Senhor! Eu creio que o Senhor é o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”, diz ela. Essa fé confiante, segura, entregue é o que mais carecemos e ao mesmo tempo o que mais precisamos. Marta crê, porque Jesus fala. Ela é outra pessoa depois de ouvir a promessa de Jesus. Quaresma é tempo de deixar-se refazer na fé e na confiança, como forma de se preparar para a Páscoa. Sem Quaresma, a Páscoa corre o risco de passar sem que a gente passe por ela e ela por nós. A ressurreição fica, então, relegada apenas à tradição. Se a Páscoa não

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tiver a ver com a fé, com confiança na promessa da ressurreição, não é Páscoa, não morremos nem renascemos com Cristo. Ficamos iguais. c) A fé na ressurreição não é algo apenas para nos ocuparmos na morte. Em si, na morte, só nos resta a entrega nos braços de Deus. A fé na ressurreição tem a ver com a vida. Isso é o que podemos aprender com Marta. Sua fé é uma fé confiante. Em meio à dor, ela não espera por demonstrações, provas, nem por um milagre. Ela crê simplesmente nas palavras de seu amigo, mestre e messias: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim nunca morrerá”. Marta vive e ressuscita antes de Lázaro. Sua fé renasce. Quase podemos dizer que a ressurreição de Lázaro, assim como tantos outros milagres, acontece a partir da fé das irmãs Marta e Maria. A fé das irmãs é maior até mesmo do que o desejo de ter o irmão Lázaro de volta. A fé de Marta não é condicional: se Lázaro for ressuscitado, eu vou crer; mas é uma fé que confia na promessa do mestre. Fé na ressurreição para dentro da vida é confiar na promessa daquele que se intitula a ressurreição e a vida. A ressurreição de Cristo é algo tão grandioso, que desmonta qualquer intenção de compreensão racional, especulação, comprovação. A ressurreição é esperança que invade a vida e gera esperança, acolhe, conforta, desperta a fé. Por isso a fé na ressurreição não é uma fé para o dia da morte, mas uma fé para todos os dias da vida. d) O Batismo parece ser a grande âncora em que podemos pendurar todas essas considerações. A Páscoa é tradicionalmente o dia do Batismo dos cristãos. É o dia também em que rememoramos nossos votos batismais. A fé ancorada no Batismo tem a ver com morrer e ressuscitar no dia-a-dia. Como diz Lutero, a vida cristã outra coisa não é que Batismo diário, começado uma vez e sempre continuado. A fé de Marta é uma fé que faz parte do dia-a-dia, embala suas alegrias e consola sua dor e tristeza. Nada mais apropriado do que refletir sobre a vida no Batismo, como preparação para a grande festa da ressurreição, a Páscoa.

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Imagens para a prédica

Quando reflito sobre a ressurreição como mensagem central da fé cristã, sempre me dou conta de duas coisas: o quanto não falamos o suficiente sobre a ressurreição e o quanto não vivemos a fé da ressurreição em nossa vida, o quanto não vivemos o Batismo no cotidiano, na vida. Às vezes, estamos tão envolvidos com a ressurreição como verdade teológica, que já não a percebemos, nem a vivenciamos; não conseguimos mais trazê-la para dentro da vida, não nos deixamos ressuscitar pela própria ressurreição, pela promessa que sai da boca de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Já não nos entusiasmamos como Marta se entusiasmou, nem nos entregamos confiantes à promessa como ela. Uma história tem me ajudado a perceber essa aparente contradição. Estava indo para o Congrenaje (Congresso da JE) em Santa Maria de Jetibá/ES no ano de 2008. Era um voo direto de Porto Alegre a Vitória, com escala no Rio de Janeiro. No banco da frente viajava um menino, de uns quatro anos aproximadamente, com sua mãe e outro familiar. A criança viajou de Porto Alegre até o Rio na maior tranquilidade: brincou, comeu, pintou, dormiu. Quando aterrissamos no

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Rio, a criança olhou para fora e viu lá longe um outro avião taxiando no pátio do aeroporto. O menino ficou extasiado! Se pudesse, teria pulado para fora do avião. Empurrava o rosto da mãe em direção à janela e dizia insistentemente: – Mãe, eu vi um avião, estou vendo um avião... Olha o avião, mãe! Olha! Quem percebeu a situação achou tudo muito engraçado. A criança não se dava conta de que ela mesma estava dentro de um. Com a ressurreição parece que fazemos algo parecido. Estamos envolvidos com ela pelo Batismo. Estamos tão envolvidos, que já não nos damos conta de sua realidade, sua promessa, sua grandeza e singularidade. Percebemos “aviões” do lado de fora e não percebemos o “avião” dentro do qual estamos, o avião que nos leva. Marta confiou na promessa da ressurreição, sem necessidade de uma comprovação externa. Confiou na ressurreição antes de ver a ressurreição do irmão amado: Eu creio, Senhor, que tu és o Messias que devia vir ao mundo.

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Subsídios litúrgicos

a) O ideal é que a rememoração do Batismo, assim como batismos, ocorram no Domingo de Páscoa e não na Quaresma. Poder-se-ia, no entanto, nesse culto, lembrar o Batismo de forma especial e preparar a comunidade para a rememoração dos votos batismais a ser feita no culto pascal. b) A confissão de fé poderia ser a confissão de Marta, ou usar a confissão de Marta como introdução para a confissão de fé.

Bibliografia BORTOLINI, José. Como ler o Evangelho de João: o caminho da vida. São Paulo: Paulus, 1994. KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes/Sinodal, 2000.

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DOMINGO DA PAIXÃO

PRÉDICA: MATEUS 26.14-27.66

17 ABR 2011

ISAÍAS 50.4-9a FILIPENSES 2.5-11

Rene Zanandréa

1

Introdução

Estamos muito próximos da celebração da Páscoa da Ressurreição de Jesus Cristo. Por um longo período que antecede essa celebração da centralidade da fé cristã, viemos acompanhando os relatos bíblicos que mostram a atividade pública de Jesus propondo o reino. Tal proposta não foi compreendida pelas pessoas de sua época; essa proposta de amor fraterno ainda não é suficientemente compreensível. A tensão que se cria entre a proposta salvífica e a má acolhida a ela – sobretudo pelos mais abastados – resulta na condenação de Jesus à morte. E morte humilhante. Isso já fora prenunciado pelo profeta: “Apresentei minhas costas para aqueles que me queriam bater e ofereci o queixo aos que me queriam arrancar a barba e nem escondi o meu rosto dos insultos e escarros” (Is 50.6). A condenação de Jesus não se dá ao acaso. Há um sistema organizado que não permite qualquer questionamento. No império, não há espaço para pensar; não há lugar para quem trabalha e é explorado. No império religioso, a dependência é “prato cheio” para lideranças que se beneficiam de um rebanho incapaz de perceber um Deus misericordioso. O reino proposto por Jesus restabelece a dignidade do homem e da mulher encurvados, resignados. Por isso o sistema o rejeita e condena. Poderia Jesus se livrar disso tudo? Sim, poderia. Mas não o fez, conforme a narração: “Contudo, não seja feito como eu quero, e sim como tu queres”, disse (Mt 26.39). Esvaziou-se, humilhou-se… por isso Deus o exaltou (Fp 2.5-11).

2

Exegese

O texto atribuído ao profeta assegura: o Senhor Deus veio em meu auxílio. A terceira profecia do Servo Sofredor (também conhecido por Servo de Javé) descreve, em antecipação, a vida e a paixão de Jesus. Apesar de todas as provas e dificuldades, o Servo mantém uma atitude de confiança em Deus e de amor pelo próximo, em especial pelos desanimados. Ele mantém-se seguro e, apesar de tudo, calmo, porque sabe que sua missão não é em vão. Recém-chegado a Jerusalém, Jesus revelou-se como o Messias, o Rei servo, humilde, pacífico, anunciado pelos profetas. Há um crescendo de pessoas que o seguem por causa disso. Em sua pregação, opõe-se ao poder, glória e tirania dos

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Domingo da Paixão

poderosos. Ele é a esperança de salvação para o povo que o aclamara festivamente em sua entrada na cidade com trechos do Salmo 118. Jesus celebra a ceia com seus discípulos no contexto da Páscoa judaica. Mas a ceia de Jesus adquire um sentido novo. Não se menciona o cordeiro, pois Jesus é o novo Cordeiro pascal, que entrega sua vida pela salvação definitiva de toda a humanidade. Jesus assumiu, através da aceitação plena da humanidade, a pobreza radical do homem diante de Deus. Coerente com essa escolha, apoiou-se exclusivamente na palavra do Pai, que, através das Escrituras e dos acontecimentos, lhe indicava o caminho para o cumprimento de sua missão. Sujeitou-se inclusivamente à condição do homem pecador, ao sofrimento, aos limites da natureza humana, sem excluir a própria morte física. Afinal, aceitou até as últimas consequências a condição de homem, um homem como todos, um pobre homem que não é sequer poupado ao pior dos martírios daquele tempo. Fez-se obediente até a morte. Um dos mais belos e profundos textos que há no Novo Testamento propõe-se como convite a adotar os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo, que, apesar de ser quem era, não duvidou em fazer-se o último de todos. Esse gesto de aniquilamento é tanto mais admirável quanto mais alto, digno, perfeito e nobre é Aquele que lhe dá rosto. Jesus não teve medo e, como verdadeiro servo sofredor, viveu até a morte, e morte de cruz, a experiência humana. Mas, depois disso, Ele foi glorificado como Senhor. Também nisto Ele nos serve de modelo, pois a maior parte das vezes pensamos que a humilhação, a entrega e a morte pelos outros é uma inutilidade. A liturgia relembra e convida-nos a celebrar esses acontecimentos da vida de Jesus, que se entregou ao Pai como vítima perfeita e sem mancha para nos salvar da escravidão do pecado e da morte. Crer nos acontecimentos da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo é crer no mistério central de nossa fé; é crer na vida que vence a morte; é vencer o mal; é também ressuscitar com Cristo e com Ele vivo e vitorioso viver eternamente. É proclamar, como nos diz São Paulo: “Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fl 2.11). Há algumas características próprias do evangelista Mateus narrar a paixão de Jesus. Escrevendo para cristãos provindos do judaísmo, Mateus tem muito cuidado em justificar e provar o que vai dizendo com a confirmação das previsões do Antigo Testamento: tudo o que está a acontecer tinha sido previsto pelos profetas. Mateus também é o único que denuncia explicitamente o uso da força e da violência. É interessante verificar, a esse propósito, que só em Mateus encontramos a seguinte frase dirigida a Pedro quando esse puxou da sua espada para se defender: “Guarde a espada na bainha. Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão” (26.52). Por estranho que pareça, dois pormenores são exclusivos de Mateus: o sonho da mulher de Pilatos (27.19) e o gesto de Pilatos de lavar as mãos (27.24). Somente em Mateus encontramos a frase: “Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos”, como reação e resposta do povo às palavras de Pilatos: “Eu não sou responsável pelo sangue desse homem. É um problema de vocês” (27.25).

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Outro episódio referido apenas por Mateus é a morte de Judas (27.3-10). E, finalmente, só Mateus nos fala dos guardas do sepulcro (27.62-66).

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Meditação

Jesus veio para salvar toda a humanidade, servindo, amando e se compadecendo especialmente dos que mais precisam de salvação. A morte de Jesus tem um significado redentor, como mostram também os diversos sinais que a acompanham (Mt 27.51-53). O véu do templo, que se rasga, simboliza a aliança que Deus realiza com todos os povos por meio de Jesus Cristo, rompendo as barreiras de separação. A morte de Jesus inaugura uma nova etapa e torna-se esperança de ressurreição dos mortos. Jesus entrega sua vida pela salvação de todos os que o confessam Filho de Deus, a exemplo do centurião (Mt 27.54), e o seguem e servem, como as mulheres discípulas (Mt 27.55-56). Como o servo sofredor realçado pelo profeta Isaías, Jesus permaneceu fiel à missão superando as dificuldades e humilhações. Assim ele é o exemplo a ser seguido. Assim o enfatiza a Carta de Paulo aos Filipenses através de um hino cristológico bem conhecido. As leituras convidam-nos a meditar sobre o mistério do sofrimento de Jesus Cristo, que passou pelo aniquilamento da cruz e da morte para chegar à glória da ressurreição. A paixão de Cristo, servo sofredor, continua em todos os sofredores de hoje. Seguindo os passos da paixão de Jesus, somos convidados a nos despojar para celebrar a grande festa da Páscoa, a vitória sobre a morte. O exemplo de fidelidade de Cristo impele-nos a seguir o plano de amor do Pai até o fim, dedicando nossa vida inteira a serviço da justiça, solidariedade e libertação. Quem considera que a vida do cristão, seguidor de Cristo, é uma vida triste, de puro sacrifício e humilhação, está equivocado. O sacrifício estará presente, não importa se a pessoa é cristã, budista ou muçulmana. Pelo menos seguindo a Cristo não será outra coisa senão feliz. Felicidade não como abandono ao vício, às superficialidades da vida, mas como seguimento alegre de Cristo. Acompanhemos Cristo de perto nesta Semana Santa. Não devemos fazê-lo como quem está sentado numa poltrona assistindo a uma novela, como telespectador passivo. Vivamos o mistério como quem está dentro da cena. Efetivamente, estamos envolvidos; por nós se realiza a redenção. Sigamos a Cristo acompanhados de Maria, que sofreu terrivelmente, mas se alegrou como ninguém com a ressurreição de Cristo. Demos graças a Deus pelo abaixamento e pela morte de Jesus Cristo, que, inocente, quis sofrer pelos pecadores, pelos criminosos e foi condenado a morrer. Sua morte apagou nossos pecados, e sua ressurreição nos trouxe vida. Nele, nossos sofrimentos e nossa morte têm sentido, uma vez que a morte não é a última palavra.

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Imagens para a prédica

O refrão “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão” pode ser cantado repetidas vezes ao longo da pregação. Tal refrão será cantado intermediando breves falas do orador, que recorda a ação de Jesus: 1) indo até as últimas consequências do amor pela humanidade; 2) não reagiu violentamente, mas aceitou ser humilhado como o servo que sabe o porquê de determinada causa; 3) Deus o exaltou: a morte não tem a última palavra. O desejo de Deus é que a vida, a dignidade, a justiça prevaleçam; 4) inspira nossa vivência no hoje da história: amor desmedido, fraterno e responsável para com a humanidade e todo o planeta.

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Subsídios litúrgicos

A festa da cruz: Hoje, eu vejo nosso Senhor Jesus Cristo sobre a cruz e nós em festa, para que se aprenda que a cruz é festa e festa solene em sua espiritualidade. Antigamente, a cruz era de condenação. Agora, ela é objeto de honra. Antigamente, símbolo da morte. Hoje, princípio de salvação. Pois ela se tornou raiz de muitos benefícios. Ela nos libertou do erro, ela nos iluminou quando estávamos nas trevas. Vencidos, ela nos reconciliou com Deus. Inimigos, ela nos devolveu a amizade com Deus. Distantes, ela nos aproximou dele. Destruição da amizade, garantia da paz e tesouro de milhares de riquezas. Graças a ela, não estamos mais perdidos no deserto, mas conhecemos o caminho verdadeiro. Não habitamos mais fora do palácio real, pois encontramos a porta. Não tememos mais as flechas de fogo do demônio, pois descobrimos uma fonte. Graças à cruz, não somos mais viúvos, mas recebemos o esposo. Não vivemos mais no meio do lobo, pois temos o bom pastor. Eis porque nós estamos em festa ao celebrar a memória da cruz. João Crisóstomo (+407) Homilia sobre a cruz e o ladrão, I, 1,4 Dicas: É importante preparar bem e com antecedência a leitura da paixão, distribuindo as diversas personagens para tornar mais dinâmica a participação. Tratando-se de um texto bastante longo, as pessoas podem ficar sentadas. Quando se narra a morte de Jesus, todos se ajoelham e permanecem alguns minutos em silêncio. Se necessário, pode-se intercalar a leitura da paixão com algum refrão adequado.

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Bibliografia CARPANEDO, Penha; GUIMARÃES, Marcelo. Dia do Senhor: Guia para as celebrações das comunidades – Ciclo Pascal. São Paulo: Apostolado Litúrgico Produções, s.d. REVISTA DE LITURGIA. Publicação bimestral do Apostolado Litúrgico. São Paulo.

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QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO

PRÉDICA: MATEUS 26.36-56

21 ABR 2011

ÊXODO 24.1-11 1 CORÍNTIOS 10.16-17

Ramona Weissheimer

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Introdução

Quando comecei a pensar na tarefa que tinha pela frente, inicialmente bateu um desespero enorme: onde conseguir material? Aqui, tão longe dos grandes centros de pesquisa e produção de material, é difícil encontrar algo. Recorre-se às livrarias, o que vem de fora é caro, pede-se aos vizinhos. E, no final, quem diria, o material reunido era tanto e tão interessante... quase me perdi. O desafio deu mais sede e fome por ler, por ouvir, por conversar com Mateus, com o povo para quem o evangelho foi fonte de força e vida, como povo pequeno e pobre, doente e oprimido, mas cheio de esperança e fé. G. DANIELI diz que a Paixão está entre os textos mais antigos do evangelho, se não for mesmo o mais antigo, podendo-se aqui até olhar o Evangelho de João ao lado dos outros três como sinótico. Quanto aos textos que acompanham Mateus 26.36-56 nesta Quinta-feira da Paixão, em Êxodo 24.1-11, as leis de Deus são lidas ao povo, que se compromete com elas. No momento do sacrifício, que sela a aliança, o povo novamente se compromete a guardar o que lhe é dito, e Moisés, intercessor entre Deus e o povo, simbolicamente o une, aspergindo o sangue de uma única vítima sobre o altar de Deus e sobre o povo. Depois, aos notáveis é permitido ver Deus, e todos comem. Em 1 Coríntios 10.16-17, o apóstolo pergunta aos coríntios se o cálice da bênção não é comunhão e se o pão partido não é comunhão, pois, se é comunhão, participamos todos juntos dessa bênção. O texto do Evangelho de Mateus vem logo após a comunhão da mesa, instituição da Ceia; logo após, o compromisso é afirmado e reafirmado por aqueles mais próximos de Jesus de que jamais o abandonariam. Aponta para o sangue a ser derramado: nova aliança! Jesus é o único intermediário, sacrifício que nos une ao Pai e aos irmãos. Por vezes, também nós precisamos ouvir as palavras que nos chamem à realidade: não é esse o sacrifício que nos une?

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O texto

“O evangelho carrega as marcas do mundo em que foi criado e para o qual foi endereçado” (W. CARTER, p. 32). Vou correr o risco de estar “chovendo no molhado” com algumas colocações. Mas como talvez haja entre os leitores pessoas em situação semelhante à minha – os anos da Faculdade já distam, e a literatura à disposição, por causa da

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distância e da dificuldade de aquisição, é pouca – quem sabe ajude um pouco. Ou console. Conforme W. CARTER, o Evangelho de Mateus teria sido escrito entre 80 e 90 d.C., provavelmente em Antioquia, na Síria. Outros autores, como M. BARROS, trazem-no para próximo de Antioquia, nas colinas de Golan, mas talvez não na cidade. Quanto à data, seria após a destruição de Jerusalém pelas tropas romanas em 70 d.C. e após a reorganização do judaísmo, por escribas e fariseus, em Jamnia. A destruição de Jerusalém deixa marcas profundas também nas comunidades do Nazareno, pois foram alvo dos judeus, que os consideravam traidores que teriam atraído a ira divina, e talvez eles mesmos se sentissem culpados pela desgraça. Nazarenos traidores ou povo de Deus? Para permanecer firme na fé, fazia-se necessário atualizar a palavra, a vida, de Jesus. Com uma audiência de maioria judaica, o texto deixa claro a todo instante que Jesus é o cumprimento das promessas feitas aos profetas. Não fica tão claro se a primeira audiência era composta apenas por pessoas pobres, “marginais involuntários”, ou por pessoas de alguma posse, chamadas a se preocupar com a missão entre os pobres. Provavelmente, um grupo misto. Para o estudo dos versículos, tomei as traduções propostas pela Bíblia de Jerusalém (BJ) e por W. CARTER. V. 36-38 – “Então Jesus foi com eles para um lugar chamado Getsêmani. E disse aos seus discípulos: Sentai aqui enquanto eu vou até ali para orar. Levou consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu. Jesus começou a ficar aflito e agitado” – BJ; “começou a entristecer-se e a angustiar-se” – “Então lhes disse: Estou profundamente aflito, até a morte; permanecei aqui e vigiai comigo” – BJ; “Minha alma está triste até a morte.” Getsêmani, conforme a BJ, significa “lugar de azeite” e ficava ao pé do monte das Oliveiras; cf. Zacarias 14, é o local da vitória escatológica de Deus. Vai com Jesus o grupo mais próximo: Pedro, Tiago e João. Esses viram a transfiguração (17.1-8); agora estão presentes no seu reverso de angústia. Tiago e João haviam pedido lugares de honra no reino, proclamaram poder beber o cálice do sofrimento de Jesus; Pedro proclamara mais de uma vez seu amor e confiança totais em Jesus. Apesar disso, nenhum parecia compreender efetivamente o caminho da cruz. É dada ênfase à humanidade de Jesus, que se angustia até a morte. “Minha alma está abatida”, cita um refrão dos salmos de lamentação. V. 39 – “E indo um pouco mais distante, caiu com o rosto em terra e orou: Meu Pai, se é possível que passe de mim este cálice. Contudo, não seja o que eu quero, mas o que tu queres.” Jesus ora sozinho. Três vezes a oração é repetida, como três foram as tentações no deserto. Cair com o rosto em terra é posição bíblica para orar e encontrar-se com o divino, e também uma posição de desespero e angústia. Como na oração que ensinara, ele ora a “meu Pai”, e ele também tem medo. Mas, pior do que a morte dolorosa, seria atrapalhar o reino. Deus não lhe dá resposta. Jesus resigna-se a fazer a vontade Dele. V. 40-41 – “Jesus voltou para os discípulos e os achou dormindo. Ele disse a Pedro: Então, não pudeste vigiar comigo uma hora? Vigiai e orai para que não entreis no tempo da prova” – BJ; “não entreis em tentação” – O espírito está dis-

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posto – BJ; “está pronto, mas a carne é fraca”. Jesus não ensina a orar contra ser tentado à deslealdade, pois a tentação parece inevitável, e já fora predita (26.3135). Nem os manda fugir da tribulação. Mas cuidar para não duvidar da fidelidade de Deus ou do compromisso para fazer sua vontade. Os discípulos pensam estar firmes e fortes nos propósitos de Deus (espírito), mas terão que lutar para fazer isso (carne). V. 42-44 – “Novamente retirou-se pela segunda vez e orou: Meu Pai, se isso não pode passar sem que eu o beba, seja feita a tua vontade. Novamente ao voltar, achou-os dormindo, pois os seus olhos estavam sonolentos. Então, deixando-os novamente, retirou-se e orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.” Jesus resigna-se às consequências de ser fiel à vontade de Deus e repete as palavras da terceira petição do Pai-nosso (Seja feita a tua vontade). V. 45-46 – “Então veio aos discípulos e lhes disse: Ainda estais dormindo e descansando?” – BJ; “Dormi agora e repousai” – “Vede, a hora está perto, e o Filho do Homem é entregue nas mãos de pecadores. Levantai-vos, vamos. Vede, meu traidor está perto.” Conforme a BJ, as palavras de Jesus são de “doce ironia”: agora vocês podem dormir, pois a hora em que deveriam estar comigo passou. Agora o que virá deverá ser enfrentado sozinho. E a hora chegou, está perto, como o traidor está perto. O Filho do Homem, que no discurso escatológico julga o mundo e estabelece o reino de Deus, é condenado pela elite e traído por um dos seus. V. 47 – “Enquanto ainda falava, eis que Judas, um dos doze, chegou; com ele estava uma grande multidão com espadas e paus, da parte dos chefes dos sacerdotes e anciãos do povo.” A tragédia é sublinhada pelo fato de ser o traidor um daqueles que fora chamado e comissionado por Jesus, um que o acompanhara e fora por ele instruído. Jesus fora contra a violência, e eles vêm a ele com espadas e paus. Josefo registra que, mais ou menos em 59 d. C., chefes dos sacerdotes usavam turbas violentas para fazer cumprir sua vontade. V. 48-50 – “Ora, o traidor tinha lhes dado um sinal, dizendo: Aquele que eu beijar é o homem” – BJ; “Prendei-o”, também. NESTLE-ALAND não escreve “homem”. – “Logo, aproximando-se de Jesus, disse: Saudações, Rabbi! e o beijou. Jesus lhe disse: Amigo, faze o que deves fazer aqui” – BJ; “Para que estás aqui? – Então vieram, botaram as mãos em Jesus e o prenderam.” Jesus põe termo à hipocrisia do gesto; passa logo à ação. Outras duas coisas chamam bastante a atenção nesse trecho: toda a vida de Judas é definida por esse único ato. E enquanto as mãos aqui falam de traição e violência, Jesus sempre usou suas mãos para curar, salvar, abençoar. V. 51 – “Eis que um dos que estavam com Jesus pôs a mão na espada, a desembainhou e golpeou o escravo do sumo sacerdote cortando a orelha.” Não é dito quem foi, mas que um dos que estavam com ele pegou a espada. Em todo caso, alguém que não entendeu ainda a necessidade dos acontecimentos. Na melhor tradição do “sabe com quem está falando?”, ferir o escravo do sumo sacerdote era atingir o próprio dono notável. E também cortar a orelha pode estar aqui de propósito: a elite não quis escutar!

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V. 52-53 – “Então Jesus lhe disse: Repõe tua espada no lugar. Porque todos os que pegam na espada pela espada perecerão. Ou pensas tu que eu não posso apelar para o meu Pai para que me envie, imediatamente, mais de doze legiões de anjos?” Resistência não-violenta, talvez a comunidade tenha bem viva na memória a própria destruição de Jerusalém por Roma, como consequência da insurreição dos judeus. Jesus rejeita a “guerra santa”. Ele poderia pedir mais de doze legiões de anjos ao Pai – uma legião tinha, mais ou menos, 6 mil homens – e, havendo três ou quatro estacionadas próximo de Antioquia, teria superioridade numérica para acabar com todos. Mas não o faz, porque aceita a sua missão. Só usa o seu poder em benefício dos outros. Inspiração para busca de meios alternativos de resistência. Importante: só em Mateus é citada a reação armada de um dos discípulos. V. 54 – “Mas como se cumpririam então as Escrituras, as quais dizem que deve acontecer desse modo?” V. 55-56 – “Naquela hora, Jesus disse às multidões: Saístes com espadas e paus para me prender como se eu fosse um bandido? Dia após dia eu me sentei no templo ensinando, e não me prendestes. Mas tudo isso aconteceu para que as Escrituras dos profetas se cumprissem. Todos os discípulos o abandonaram e fugiram.” Aqueles que fizeram do templo um covil de ladrões mandam prender Jesus como se fora um ladrão. Jesus não é violento, nem se esconde. Provavelmente, a ação se passa à noite. A intenção da elite religiosa se executa no escuro, em segredo. E todos os que se julgavam fortes o abandonaram e fugiram. Tudo para cumprir as Escrituras.

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Pensando na prédica

O sofrimento de Jesus diante do abandono e da missão é terrível. Sua humanidade transparece. A alma está triste até a morte. Os seus dormem. Deus parece não ouvi-lo. Não é fácil. Só Mateus coloca o orar “comigo”, e os fortes que o acompanhavam não conseguiram vigiar. Anotei algumas coisas para as quais eu não havia atentado antes e que talvez possam dar um rumo à meditação: 1) a oração no Getsêmani, com toda a sua dor, é o reverso da transfiguração; 2) os discípulos que acompanham Jesus são justamente aqueles que haviam estado na transfiguração e que mais vezes se mostraram senhores de uma fé inabalável, isto é, os que se proclamavam fortes são fracos e dormem; 3) no início do ministério, aparecem as três tentações no deserto, agora são três momentos de oração; 4) há uma ênfase muito grande na humanidade de Jesus, que tem medo, sim, da morte dolorosa, mas mais medo de atrapalhar a vinda do reino; 5) a comunidade a quem Mateus escreve é pacifista, pois só aqui alguém toma a espada e logo é mandado guardá-la; 6) Jesus assume as consequências da rejeição a Deus. E tudo se faz como cumprimento das Escrituras. Marcelo BARROS, no belo livro “Conversando com Mateus”, faz de seu texto uma conversa com a comunidade de Mateus. Como ela coloca as palavras da forma que julga mais apropriadas para o seu contexto e entendimento.

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Realçam-se a dor e a angústia do Jesus que sofre enquanto seus amigos dormem, como comunidade pequena e perseguida que sofre e se angustia também. Que ora e confia no Pai, ainda que seja doloroso o que está por vir. É interessante lembrar que os três textos previstos encaixam muito bem: antiga e nova aliança, sacrifício, comunhão.

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Imagem para a prédica Sugiro o poema de Dietrich BONHOEFFER: Quem sou eu? Quem sou eu? Frequentemente me dizem Que saí da confinação da minha cela De modo calmo, alegre, firme, Como um cavalheiro da sua mansão. Quem sou eu? Frequentemente me dizem Que falava com meus guardas De modo livre, amistoso e claro Como se fossem meus para comandar. Quem sou eu? Dizem-me também Que suportei os dias de infortúnio De modo calmo, sorridente e alegre Como quem está acostumado a vencer. Sou, então, realmente tudo aquilo que os outros me dizem? Ou sou apenas aquilo que sei acerca de mim mesmo? Inquieto e saudoso e doente, como ave na gaiola, Lutando pelo fôlego, como se houvesse mãos apertando minha garganta, Ansiando por cores, por flores, pelas vozes das aves, Sedento por palavras de bondade, de boa vizinhança Conturbado na expectativa de grandes eventos, Tremendo, impotente, por amigos a uma distância infinita, Cansado e vazio ao orar, ao pensar, ao agir, Desmaiando, e pronto para dizer adeus a tudo isso? Quem sou eu? Esse ou o outro? Sou uma pessoa hoje e outra amanhã? Sou as duas ao mesmo tempo? Um hipócrita diante dos outros, E diante de mim, um fraco, desprezivelmente angustiado? Ou há alguma coisa ainda em mim como exército derrotado, Fugindo em debandada da vitória já alcançada?

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Quem sou eu? Essas minhas perguntas zombam de mim na solidão. Seja quem for eu, Tu sabes, ó Deus, que sou Teu!

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: “Miserere Nobis” Roberto E. Zwetsch (em Salmos para tempos de Incerteza – Editora Sinodal): Bondade e misericórdia minha, tem piedade de nós! Quando olho para dentro de mim, O que encontro? Um mar de dúvidas, lágrimas, Desejos insatisfeitos, Um favo de amor, Mesquinharias e tolices, Egoísmo vil. Quem me poderá livrar Desta carga que pesa Sobre meus ombros Como um fardo de séculos? Só o Senhor é Deus. Só Tu, Deus encarnado, Podes compreender a minha angústia. É por isso que busco o teu favor. Não me decepciones. Era pequeno e já escutava O teu povo cantar: Tem piedade de nós, Senhor! Não me esqueci disso, Ainda que a vida me tenha Trapaceado tantas vezes A ponto de eu duvidar de ti, De mim mesmo, Do amor que tudo ama. Hoje lembrei deste canto: Miserere nobis! Miserere nobis! Paz na terra E entre aqueles a quem amas Com o teu amor maior.

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Bibliografia CARTER, Warren. O Evangelho de São Mateus: comentário sociopolítico e religioso a partir das margens. São Paulo: Paulus, 2002. DANIELI, Giuseppe. Mateus. São Paulo: Paulinas, 1983. MOSCONI, Luís. O Evangelho segundo Mateus. 2.ed. Belo Horizonte: CEBI, 1990.

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SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

PRÉDICA: SALMO 22.1-19

22 ABR 2011

MATEUS 27.33-50 2 CORÍNTIOS 5.19-21

Mara Sandra Parlow

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Introdução (...) Ó mistério, mistério, suspenso no madeiro o corpo humano de Deus. (...) 1

Silêncio e perplexidade são atitudes que adotamos diante de situações de extremo sofrimento. Pois... Que emoção poderá conter o coração da pessoa crente no dia em que se notabiliza a morte de Jesus Cristo, nosso Mestre, Senhor e Salvador? Que arrepios percorrerão nosso corpo falível ao percebermos a realidade do pecado que festeja seu triunfo ao pendurar criminosamente o corpo humano de Deus à cruz? Ao mesmo tempo, que calor acende nosso ser nessa ocasião em que o significado da cruz aponta para a oferta ao mundo da chance definitiva e contínua de reinícios? Que esperança experimentamos diante do misterioso novo pacto de reconciliação no madeiro da Sexta-feira Santa? A morte de Jesus foi crime humano, ação de oposição a Deus. Foi obra do pecado. E pior: na crucificação, o pecado é jogado em cima de Jesus e o faz vítima. Simultaneamente, porém, nesse ato fundante para a fé, efetiva-se o amor de Deus na reconciliação radical, para a qual a mesma cruz aponta. Assim, a reunião comunitária na Sexta-feira Santa primará por atitudes celebrativas de introspecção e contrição. Quem sabe, sejam oferecidas experiências meditativas mais sinestésicas do que convencionalmente discursivas, vivenciadas através da corporeidade colocada em ação no evento cúltico. A Sexta-feira da Paixão é situação de muito mais silêncio do que falas... Momento de constatação sincera de nossa fraqueza humana e da opção de Deus pela força sub contrario na fragilidade. É momento de referir o desvelamento do amor incondicional de Deus, por nós, no corpo sofredor. Aquele corpo que grita “... por que me desamparaste?”, mas que não desiste de nossos corpos, que não nos renega, mesmo diante da tentação do sistema que o engana, suborna, questiona e ridiculariza para fazê-lo deixar de ser humilde, deixar de estar “lá embaixo”, deixar de estar aí para os outros, deixar de estar aí para nós.

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PRADO, Adélia. Festa do corpo de Deus. In: Poesia Reunida, p. 279.

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Observações exegéticas

Os textos a serem tramados para a construção da reflexão, no evento Sextafeira Santa, sugerem o Salmo 22 como aquele que completa e absorve a circularidade hermenêutica. Esse Salmo é um brado de dor e de tormento de quem se encontra debaixo de provação e sofrimento. Todos/as nós, quando estamos em angústia e aflição, podemos nos identificar com o conteúdo dessa oração. O Salmo 22, cujo autor é o rei Davi, é uma das expressões mais profundas do sofrimento nas orações bíblicas. É composto de duas partes: (1) lamentação individual (v. 1- 22) e (2) cântico de ação de graças (v. 23-31). Na delimitação a que nos propomos (v. 1-19), o salmista, abandonado e solitário em sua dor e privado da presença divina, apela ao Eterno, lembrandolhe as promessas relativas aos justos. Depois de relatar seus sofrimentos morais e espirituais, alude, em sucessão trágica, às dores físicas, aos tormentos corporais e ao terror da morte. No extremo da dor – que não deverá ser reduzida, tampouco enaltecida em “subjetivismos”, pois que, no salmo, está impressa na corporeidade (ossos desconjuntados, coração feito cera, vigor extinto, língua seca, vestes sacadas e repartidas) –, destaca-se a força das imagens “materiais” do sofrimento no corpo, bem conhecido de Deus. Corpo por Deus cuidado desde a sua geração no ventre materno (v. 9-10), contudo suplicantemente orante. O Salmo 22 refere-se ao próprio rei Davi, que lamenta a sua sorte, não sendo, portanto, uma profecia, mas originário de um fato histórico. Por seu turno, o evangelista Mateus registra, no relato da crucificação, a atitude orante de Jesus ao proferir as palavras do Salmo 22. Em extrema agonia, Jesus brada o que sabe de cor (= aquilo que está gravado no mais íntimo de si e que “sabe” no coração). É certo que o conjunto de preces que compõem o Salmo 22 fazia parte do repertório educativo-catequético judaico, trazido à tona exatamente nesse momento-limite na mente do homem de Nazaré. No grito que faz parte da cena da crucificação, após rejeitar a bebida que possivelmente lhe traria alívio, mas que também materializava a tentação de ter abrandado seu sofrimento pelos métodos de quem causava a dor, há um encontro, uma fusão da dor do mundo e da resistência divina. O grito desamparado de Jesus sai de sua boca, mas para além de sua concreta humanidade (“o corpo humano de Deus”) é igualmente a expressão do gemido da humanidade já carente de Deus. Vicariamente, Jesus Cristo traduz com as palavras do salmista o sentimento de frustração e de confusão predominante em torno do evento de sua crucificação. Com esse aspecto, dentre outros, tramada está a perícope de 2 Coríntios, também prevista para esta Sexta-feira da Paixão, na qual Paulo sustenta seu testemunho e serviço no fato de que Deus está absolutamente implicado com nossa humanidade – bem concreta, bem corporal, imperfeita e finita –, em Cristo, na cruz. Deus subsistia em Cristo na fraqueza – totalmente identificado com a obra redentora fundamental.

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A sugestão que se faz, portanto, para a reflexão no encontro comunitário nesta Sexta-feira Santa é que a ênfase interpretativa se coloque no sofrimento de Jesus Cristo, provocado pelo pecado humano de desprezo ao projeto de reino de Deus e expresso no corpo falível. Solicita-se que não seja aliviada (metaforicamente, como que com uma “esponja com vinagre”) a consternação do corpo de Cristo na subjetivação apressada da agonia de Jesus.

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Meditação (...) E teu corpo na cruz, suspenso. E teu corpo na cruz, sem panos: olha para mim. Eu te adoro, ó salvador meu, que apaixonadamente me revelas a inocência da carne. Expondo-te como um fruto nesta árvore de execração o que dizes é amor, amor do corpo, amor. 2

Foi só depois da ressurreição que os discípulos e as discípulas principiaram a atinar sobre o sentido da morte de Jesus. Isso sabemos. Anteriormente, essa morte não lhes parecia senão um escândalo e um absurdo. O tipo de morte por que Jesus passara manifestava não ser ele o Messias. Ninguém esperava um Messias sofredor. E que qualidade de sofrimento! É perceptível nos escritos bíblicos que discípulas e discípulos levaram tempo para compreender na morte de Jesus o seu caráter de acontecimento salvífico. Mesmo depois da Páscoa, teriam considerado simplesmente um fracasso, martírio do justo, rejeição (e aí muito aplicada ao próprio discipulado). A princípio, a cruz foi o assassinato do Salvador e de seu projeto de salvação. Na Sexta-feira Santa, essa sensação vem à tona. Compartilhamos o desamparo das primeiras testemunhas cristãs na suposta “ausência” de Deus. Também sentimos no corpo uma tristeza grande, uma dor no peito, um sentimento de perda dos mais profundos. Custa-nos, assim como aos primeiros seguidores e seguidoras, crer que a morte de Jesus é libertação. Admitamos isso e coloquemo-nos, na Sexta-feira da Paixão, em atitude penitencial e contrita. É essa aceitação – da dor do corpo de Jesus, ressoando em nossos próprios corpos – que abrirá nosso ser humano à realidade pascal, ao evento salvífico por completo.

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PRADO, Adélia. Festa do corpo de Deus. In: Poesia reunida, p. 279.

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Nos dias de hoje, vários atalhos para os sofrimentos do corpo3 são oferecidos pelo sistema, assim como foi oferecido a Jesus, na agonia da cruz, um “refresco estupefaciente” (= anestésico). Na “corpolatria” imperante, recorre-se demasiadamente à idealização do corpo e à negação da dor. Falamos aqui, inclusive, das dores “d’alma” (= centro de/do ser). Na “loucura da felicidade” a qualquer preço, poucas são as pessoas que olham com coragem para o sofrimento. Há uma busca intensa à alegria imediata e consumida em “cápsulas”. Recorrência à negação da cruz, ainda em nossos dias e entre nós? No Salmo 22, Davi enfrenta o que realmente sente quando escreve: “Meu Deus! Eu clamo de dia, mas não respondes (…) Mas eu sou verme, e não um ser humano (…) Como leão voraz rugindo, escancaram a boca contra mim (…) e todos os meus ossos estão desconjuntados (…) e a minha língua gruda no céu da boca; deixaste-me no pó, à beira da morte” (…) Esst escrito de sincero pedido de alento em Deus modela a fidelidade, um tipo de fé mais profundo e misterioso, em que, ao contrário dos momentos de proximidade, quando as orações são atendidas de forma inequívoca e Deus parece íntimo e atencioso, experimentamos dias sofridos, em que Deus se cala, em que nada funciona de acordo com as fórmulas e promessas, inclusive as bíblicas, e essas nos parecem descaradamente falsas (= realidade de/da CRUZ = “suspenso no madeiro o corpo humano de Deus” = abandono, sofrimento, angústia). Assim, exatamente olhando para a cruz e para o Crucificado (evidências de morte e do aparente abandono), um dos aspectos da fé é aprender a confiar que, além dos limites do desamparo e da escuridão, Deus reina e não nos abandonou. Inspirando-nos em Davi, creio que devemos cultivar um relacionamento com Deus que tenha a mesma abertura. Não devemos esconder nem a nossa falta de fé, confessando o nosso temor mais íntimo de que suas promessas não se cumpram em nossas vidas e, ao mesmo tempo, sendo capazes de transcender o sofrimento, reconhecendo o seu mando sobre toda forma de vida e seu amor para conosco (“Expondo-te como um fruto nesta árvore de execração o que dizes é amor, amor do corpo, amor”). Deus nos conhece por inteiro e aproximou-se de nós radicalmente na circunstância de “corpo humano”, experimentado até a “última gota” na morte de cruz. Portanto, mesmo que em atitude penitente por ainda não nos entregarmos à realidade salvífica da cruz indo depressa demais ao domingo da Páscoa, podemos expor em oração e atitudes, como fez o salmista, o que vai em nosso corpo: ser inteiro e inteiramente nas mãos de Deus.

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Conforme Hugo ASSMANN, para fundamentar críticas radicais ao mito do autômato benfazejo mercado e para reinstaurar o princípio da solidariedade, é necessário algo mais concreto do que conceitos genéricos de afirmação da vida. São necessários renovados “envolvimentos” com o corpo humano. É necessário um novo conceito de corporeidade, aplicável tanto ao âmbito da existência individual como, análoga e correlatamente, ao da sua inserção em processos biossociais. In: ASSMANN, Hugo. Metáforas novas para re-encantar a educação – Epistemologia e didática, p. 208s.

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Imagens para o ato celebrativo/prédica

Tanto o Salmo 22 como o relato do suplício e da crucificação de Jesus no Evangelho de Mateus contêm fortes imagens do corpo4 em aflição e de aspectos ligados à corporeidade desorganizada pela situação de sofrimento. Sugere-se que essas figuras sejam exploradas e trazidas à reflexão ao longo da ocasião celebrativa na Sexta-feira Santa: *Mãos lavadas: a atitude de Pilatos pode ser referida celebrativamente no momento da confissão: participamos do pecado da negação do projeto divino para o mundo quando “lavamos nossas mãos” diante de situações em que deveríamos tomar posição.4 * Gostos e desgostos: ao refletirmos sobre nossos pesares e sofrimentos cotidianos, na mirada à cruz, pode-se ofertar à comunidade algo amargo para degustar (cravos-da-índia, por exemplo). Também se pode sugerir que as pessoas experimentem suco de uva bem ácido (azedo), simbolizando as “anestesias” que o sistema oferece para “aliviar nossas dores e sofrimentos” ou para nos desviar das “cruzes” que nós mesmos/as implantamos na vida de nosso próximo. * Despojamento de vestes: o altar pode ser desnudado, colocando-se sobre ele panos de cor preta ou simplesmente nada. * Brados e silêncios: somos demasiadamente acostumados ao barulho. Nesse dia de contrição, nossa atitude reflexiva pode estar envolta em silêncio. Silêncio que constrange, que afeta, que mexe... mais do que os “sons nossos de cada dia”.

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Subsídios litúrgicos

Acolhida comunitária: Celebrante: O nosso Deus caminha conosco. Todos/as: Está no meio de nós. Bendito seja nosso Deus! C: Desde os tempos mais antigos, passando pela cruz e até o momento presente Todos/as: Tem guiado nossos passos e as obras de nossas mãos. C: Jesus Cristo, o motivo da nossa fé, é o próprio Deus que se manifesta na cruz e no poder do Espírito Santo. Todos/as: Nos reunimos como povo, C: por nosso Deus convocado, para celebrar comunhão e afirmar a vida verdadeira. Todos/as: Não estamos sós!

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Os versículos que mencionam a atitude descomprometida de Pilatos, na qual se “autoabsolvia” da responsabilidade pela morte de Cristo, não estão indicados, mas podem ser trazidos ao ato cúltico, porque estão presentes em nossa memória no que se refere à condenação de Jesus.

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Confissão de pecados: Celebrante: Deus Todo-Poderoso! Perdoa de tua igreja sua riqueza frente aos pobres, seu medo ante os injustos, sua covardia frente à opressão. Perdoa-nos enquanto teus filhos e tuas filhas: nossa falta de confiança em ti, nossa falta de esperança em teu reino, nossa falta de fé em tua presença, nossa falta de confiança em tua misericórdia. Todos/as: Restabelece-nos na aliança com teu povo; leva-nos a um arrependimento verdadeiro; ensina-nos a aceitar o sacrifício redentor de Cristo; dá-nos fortaleza pelo Espírito Santo. Quebra-nos quando somos orgulhosos e orgulhosas. Fortalece-nos quando somos fracos. Faze-nos humildes quando confiamos estritamente em nós mesmos. Dá-nos um nome quando nos encontramos perdidos. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém. Anúncio da graça: Cristo é nossa paz. Aos que estavam separados, Ele os uniu. Cristo rompe as barreiras de separação com sua vida, com seus ensinamentos e com sua morte, assim que: Voltemse a Ele e creiam, a reconciliação lhes tem sido anunciada. Vivamos como povo reconciliado! Amém. Kyrie: Pa: Pela paz no mundo inteiro, por quem sofre dores, oremos ao Senhor: C: Tem, Senhor, piedade! (3x) Pa: Por quem sofre desprezo e perseguição por causa do seu comprometimento com o anúncio do evangelho, oremos ao Senhor: C: Tem, Senhor, piedade ... Pa: Por essa comunidade e por todas as pessoas que aqui oferecem sua adoração e buscam entusiasmo ao seu serviço em favor do próximo, oremos ao Senhor: C: Tem, Senhor, piedade ... Pa: Para sermos libertos de discórdias, dúvidas e competição que nega a fragilidade, oremos ao Senhor: C: Tem, Senhor, piedade ... Pa: Por graça, socorre-nos, Senhor: C: Amém. Intercessões: (1. Celebrante; 2. Comunidade) 1 – Oremos ao Senhor pela paz que vem do céu: 2 – Faze com que a paz se realize através da tua compaixão. 1 – Oremos por paciência: 2 – Concede paciência em meio a todas as aflições. 1 – Oremos pelas pessoas que perderam pessoas queridas: 2 – Concede-lhes amparo e consolo em ti.

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Sexta-Feira da Paixão

1 – Oremos pelas pessoas que governam: 2 – Concede-lhes sabedoria e o temor do Senhor. 1 – Oremos pelas pessoas que em nossa comunidade têm responsabilidades específicas: 2 – Concede disposição para servir e paciência para persistir. 1 – Acolhe os nossos pedidos e agradecimentos, incluindo aqueles que estão silenciados. 2 – Senhor, que se cumpram a tua vontade e o teu poder. Amém. Pai-Nosso (em versos) ... Se em minha vida não atuo como filho e filha de Deus, fechando meu coração ao amor, será inútil dizer: Pai nosso. Se os meus valores são representados simplesmente pelos bens materiais terrenos, será inútil dizer: Que estás no céu. Se penso apenas em ser cristão por medo, superstição ou comodismo, será inútil dizer: Santificado seja o teu nome. Se acho tão sedutora a vida vazia, cheia de supérfluos e futilidades, será inútil dizer: Venha a nós o teu reino. Se no fundo o que eu quero mesmo é que todos os meus desejos se realizem, será inútil dizer: Seja feita a tua vontade. Se prefiro acumular riquezas, desprezando a vida e meus irmãos que passam fome, será inútil dizer: O pão nosso de cada dia nos dá hoje Se não me importo em ferir, injustiçar, oprimir e magoar, será inútil dizer: Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Se escolho sempre o caminho mais fácil, que nem sempre é o caminho do Cristo, será inútil dizer: Não nos deixes cair em tentação. Se por minha vontade procuro somente os prazeres materiais e tudo o que é danoso me seduz, é inútil dizer: Livra-nos do mal. Se sabendo que sou assim, limitado e falho, continuo me omitindo e nada faço para repartir, para melhorar a vida no mundo e para servir, será inútil dizer: Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Se desconfio do poder de Deus, então será inútil dizer: Amém.

Bibliografia ASSMANN, Hugo. Metáforas novas para re-encantar a educação – Epistemologia e didática. Piracicaba: UNIMEP, 1996. PARLOW, Mara Sandra. De corpos de conhecimento ao (re)conhecimento do corpo. Elementos para a composição de uma epistemologia corporal no âmbito da fé. Tese de Doutorado. São Leopoldo: IEPG / EST, 2004. PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.

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DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: MATEUS 28.1-10

24 ABR 2011

JEREMIAS 32.1-6 COLOSSENSES 3.1-4

Gottfried Brakemeier

1

Introdução

Páscoa é o dado fundante da cristandade. Jesus, crucificado, morto e sepultado, aparece vivo a um número relativamente grande de pessoas, transformando um punhado de gente angustiada em destemidos/as missionários/as que levam a mensagem de Jesus aos confins da terra. A Sexta-feira Santa não colocou o ponto final. Pelo contrário, Deus confirmara a palavra e a ação de Jesus, ressuscitando-o dos mortos. Sem a Páscoa não haveria igreja cristã, não haveria um livro chamado Novo Testamento, não haveria nem mesmo lembrança de Jesus de Nazaré. A morte mais essa vez teria aniquilado tudo e condenado Jesus de Nazaré ao esquecimento. A fé cristã vive da notícia da Páscoa. Essa notícia, porém, chega a nós em surpreendente variedade de vozes. Os relatos dos evangelistas divergem numa série de detalhes, mostrando ter havido tradições diferentes na primeira cristandade a esse respeito. No essencial, porém, há consenso. A fé pascal tem o encontro com o Jesus vivo por origem. Não foi a descoberta do túmulo vazio pelas mulheres que a despertou. Jesus mesmo convenceu as testemunhas de sua vida. Ele ressuscitou para nunca mais morrer. A onipotência da morte foi quebrada. É isso o que os evangelistas transmitem cada qual à sua maneira, e, todavia, unânimes. Também o relato de Mateus apresenta particularidades, algumas difíceis de ser compatibilizadas com o depoimento dos demais evangelistas. E, no entanto, elas se revestem sem nenhuma exceção de profundo significado. Vejamos o texto, trabalhado nesta série já por Sílvio Meincke (PL 6, p. 167s) e Guilherme Lieven (PL 24, p. 139s).

2

O texto

Ao raiar do primeiro dia da semana, duas mulheres dirigem-se ao túmulo de Jesus (v. 1). São elas Maria Madalena e a “outra Maria”, mãe de Tiago e José (cf. 27.56). O nome de Salomé (Mc 16.1) foi suprimido. Elas vão não para embalsamar o cadáver de Jesus, mas simplesmente para ver onde jaz. Ao chegar, elas se tornam testemunhas de acontecimentos dramáticos (v. 2-4). Trata-se de uma tradição exclusiva de Mateus. Num terremoto, um anjo de Deus desce do céu, remove a pedra na entrada do sepulcro e senta sobre ela. O branco de sua aparência indica origem divina (cf. Dn 7.9; Ap 1.14). Conforme a Bíblia, terremotos costumam acompanhar teofanias (Êx 19.18; 1 Rs 19.11), mostrando que a transcendência irrompe na imanência. Diante de tal força, os guardas postados

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para impedir um possível furto do cadáver de Jesus (27.62s) caem como mortos. Vale anotar que as mulheres enxergam a remoção da pedra, mas não o ressurgir de Jesus. A ressurreição como tal não pode ser contemplada nem descrita. Permanece um mistério a ser respeitado. Apesar das circunstâncias incomuns, a descoberta do túmulo vazio parece ter fundamento histórico seguro. Pois teria sido fácil aos adversários da fé cristã provarem a natureza fraudulenta da notícia da ressurreição mediante exibição do cadáver de Jesus. Não foi isso o que aconteceu. A mais antiga polêmica nunca questionou o túmulo vazio. Mesmo assim, ele permanece um fenômeno ambíguo. Pode ter muitas causas. A fé não se prende a ele. Tem na vida de Jesus seu alicerce. A mensagem do anjo perfaz o centro da perícope (v. 5-7). Ela interpreta o sucedido. Não há motivo para temor. Jesus ressuscitou como havia dito. Sua profecia se cumpriu (16.21; etc). A morte não conseguiu segurá-lo. No túmulo, ele não está. O anjo até convida as mulheres para verificá-lo. Elas buscavam Jesus o crucificado, mas se defrontam com a notícia de sua ressurreição. E mais! Elas recebem a incumbência de anunciar isso aos discípulos. O próprio Jesus irá à frente de seus seguidores para encontrá-los na Galileia. As mulheres tornam-se “apóstolas” da Páscoa. A localização das aparições aos discípulos na Galileia é particularidade de Mateus e Marcos. Conforme Lucas e João, elas se deram em Jerusalém. A maioria dos comentaristas, porém, nega-se a enxergar nisso uma contradição. Deve ter havido aparições tanto cá como lá. De outra forma não se explica o lado-a-lado das duas tradições. Confirma-o o cap. 21 do Evangelho de João. A Galileia era a terra natal dos discípulos e o principal lugar da atuação de Jesus. À dessemelhança do que se lê em Marcos (Mc 16.8), as mulheres obedecem à ordem do anjo (v. 8-10). Ao medo de que ainda estavam possuídas se mistura a alegria. Elas percebem que algo novo havia acontecido e correm para informar os discípulos. Essa novidade se torna concreta no encontro com o próprio Jesus. Já não é Pedro nem outro discípulo a quem o ressuscitado aparece primeiro, e sim às mulheres. Ele as saúda, ao que elas se lançam ao chão, agarram seus pés e o adoram. Desse modo, as mulheres tornam-se testemunhas não só com os olhos, mas também com o tato. O “contato” com o corpo de Jesus documenta a realidade da ressurreição. Não é um fantasma que lhes aparece. E então Jesus fala. Ele repete e confirma as palavras do anjo. Diz não haver motivos para o medo e ordena que avisem “seus irmãos”. Pelo que tudo indica, a expressão faz referência à passagem do Salmo 22.23, que diz: “A meus irmãos declararei o teu nome”. Existe paralelismo também com Romanos 8.29, onde Jesus Cristo é apregoado como sendo o primogênito entre muitos irmãos (cf. Hb 2.11) – o que naturalmente inclui as irmãs. De qualquer maneira, “os irmãos” devem ser entendidos no sentido de pessoas achegadas a Jesus. A perícope encerra com a promessa de que na Galileia o verão.

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Meditação

Uma gigantesca pedra fecha a sepultura de Jesus. Ela é como um lacre assinalando haver ali um limite inviolável. Ali ninguém entra e ninguém sai. As-

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sim é a morte. Uma sepultura é como uma prisão. Dela ninguém escapa. Assim também no caso de Jesus. Quando o tiraram da cruz, José de Arimateia colocou-o num túmulo novo, aberto na rocha. E, “rolando uma grande pedra para a entrada do sepulcro, se retirou” (27.60). É esse o último serviço que se pode prestar a pessoas falecidas, a saber, colocá-las numa sepultura e dar-lhes um enterro condigno. Entre nós, é comum cobrir o caixão com terra ou fechar a sepultura com cimento e lajes de pedra. Não há outro recurso. E, mesmo em caso de cremação, a cinza colocada numa urna não tem como romper o cárcere da finitude. A pedra colocada na entrada da sepultura de Jesus é símbolo dessa dura realidade. Aliás, túmulos podem ser violados, sim. Há ladrões que buscam objetos de valor junto aos cadáveres. Mas tais atos abomináveis quebram apenas aparências. A pedra que separa os lá dentro e os lá fora e que faz a fronteira entre a morte e a vida permanece irremovível. Frente à morte resta somente a resignação. É isso o que está em evidência na atitude das mulheres. Enlutadas e cheias de saudosismo, elas querem ver onde tinham colocado Jesus. Diferente dos homens, elas têm a coragem de se identificar como seguidoras do mestre crucificado. Mas também elas se veem obrigadas a capitular frente à realidade. Jesus está morto, derrotado, acabado. Mesmo o gesto carinhoso de embalsamá-lo não passaria de mais outro sinal de desesperança. O bálsamo preserva um defunto, mas não lhe devolve a vida. As mulheres são exemplos de pessoas feridas pela perda de um ente querido. Há quem diga não temer a morte. Morrer seria um processo natural que não mereceria a costumeira dramatização. Sem duvidar da honestidade de tal afirmação, permanece verdade que a morte exerce terror. Não é possível fazer as pazes com ela. Manifesta-se em qualquer tipo de medo, na inconformidade com o envelhecimento, na raiva por sobre a finitude do ser humano. E quando arranca do nosso meio uma pessoa amada, choramos. A morte é cruel. Ela acaba com tudo. Enquanto o papel das mulheres é simpático, o dos guardas é ridículo. Devem prevenir um escândalo. Lembrados de que Jesus havia predito sua ressurreição, eles, por ordens superiores, devem assegurar que não haja trapaça. Há gente interessada em que Jesus permaneça morto. Querem apagar sua memória. Mesmo o boato de uma ressurreição seria catastrófico. Os soldados devem vigiar a pedra. Se ela permanecer intocada, Jesus pode ser definitivamente esquecido. Mas Deus dá um rumo diferente à história. Acontece um abalo sísmico, e um anjo desce do céu e abre a sepultura. Se ninguém consegue remover a pedra, Deus é capaz do impossível. Ele tira Jesus da sepultura. Não existe explicação científica para o fenômeno. Os soldados caem desmaiados. E quando recuperam os sentidos, o túmulo está vazio. Enquanto isso, as mulheres ouvem uma voz, dizendo: “Ele não está aqui, ressuscitou”. É a mensagem da Páscoa por excelência. O anjo é pregador, comunicador de um mistério, enviado de Deus para anunciar a vitória do crucificado. E ele tem uma promessa: “Vocês o verão”. As mulheres são encarregadas de levar a notícia aos discípulos. Eles não vão ficar na dependência do testemunho de terceiros. Jesus mesmo vai convencê-los de sua vida. Quem insiste em procurá-lo entre os mortos não vai achá-lo. Ele rompeu a

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barreira da morte e espalha vida neste mundo. O anjo deixa isso muito claro: Se vocês querem achar Jesus, o cemitério não é o lugar. A Páscoa tem sua origem nas aparições do Jesus crucificado. Elas tiveram seu tempo. Não se repetiram na história posterior da igreja. Paulo distingue-as claramente de outras visões e revelações (2Co 12.1s). Revestem-se de natureza singular. Mesmo assim, a fé cristã alicerça-se não somente na credibilidade das primeiras testemunhas. A vida de Jesus deu “demonstrações” sempre novas no decurso dos tempos. É o que fundamenta a esperança cristã. Assim como os apóstolos anunciavam “em Jesus a ressurreição dentre os mortos” (At 4.2), assim a comunidade cristã deve fazê-lo. Jesus é o “primogênito entre os mortos” (Cl 1.18). Pois “Deus ressuscitou ao Senhor e também ressuscitará a nós pelo seu poder” (1Co 6.14; cf. Cl 3.4). É claro que vamos morrer. A morte pertence à nossa condição de criatura. E, no entanto, as aparições de Jesus mostraram que a morte já não pode realmente matar. Deve devolver suas vítimas. Também em nossa sepultura deveria ser inscrito: “Ele ou ela não está aqui!”. Isso apesar de que nosso cadáver ainda se encontra lá. No fundo, ressurreição não exige sepulturas vazias. Em Jesus, esse tem sido o caso, sim. Mas não é necessário que assim seja. Ressurreição é mais do que reavivamento de um defunto. É nova criação. Ressurreição transfere para outra realidade, assim como o vemos em Jesus. Eis o motivo de júbilo para a comunidade cristã. Já não precisamos ter medo. Existe muita “cruz”, muito sofrimento neste nosso mundo. Basta pensar nos terremotos, nas enchentes, nas catástrofes naturais ou então nos crimes praticados pelo ser humano. Há pessoas em agonia ou desesperadas em razão de terríveis golpes. À luz da Páscoa, porém, todos os males deste mundo passam a ser coisa penúltima. O sofrimento dura somente até a sexta-feira. O domingo, a “primeira-feira” de uma nova semana, vai transformar todo pranto em alegria, assim como Jesus o prometeu no sermão da montanha. A morte não terá a última palavra neste mundo. Justamente por isso somos encorajados a combater desde já as causas do sofrimento e da angústia entre nós. O anjo disse às mulheres: “Não temam!”. Páscoa liberta de temor e compromete com a luta contra os poderes da morte. Ela consola e simultaneamente mobiliza para a ação.

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Imagens para a prédica

Sugiro que a prédica utilize as imagens oferecidas pelo próprio texto. São as que já foram destacadas na meditação acima, a saber, a pedra, as mulheres, os guardas, o anjo, as aparições e o júbilo da comunidade. Páscoa é motivo de alegria, e é ela que deverá marcar o culto pascal. Se Israel comemora na Páscoa a libertação do Egito, a comunidade cristã celebra na Páscoa a libertação da morte, a quebra de sua onipotência, a abertura dos horizontes para além de cruz, sofrimento e finitude. Existe uma “reserva de vida” que a morte não pode destruir e que está nas mãos do Cristo ressuscitado. Não há notícia mais revolucionária do que essa.

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Domingo da Páscoa

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Subsídios litúrgicos

Confissão dos pecados: Senhor! Por demais vezes vivemos como se a Páscoa não tivesse acontecido. O desânimo então nos domina e paralisa nossas energias. Não temos forças suficientes para enfrentar dificuldades e vencer obstáculos. Em vez de encorajar outras pessoas, tornamo-nos um peso para elas. Jesus Cristo! Tu que ressuscitaste da morte, perdoa-nos a nossa pequena fé e a falta de esperança. Ajuda-nos a recuperar a alegria sempre que a tristeza nos quer derrubar. Tem compaixão de nós. Amém! Oração de coleta: Bendito sejas, Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que em tua graça nos tens dado motivo para uma viva esperança através da ressurreição de Jesus Cristo dos mortos. Já não mais somos reféns de um mundo sem saída. O céu abriu-se e nos mostrou haver terra nova além da morte. Nosso destino é a vida eterna, não a ruína eterna. Por isso cantamos “aleluia” e nos alegramos. Ajudanos a vencer o medo e a viver de um modo “pascal”, irradiando a luz da Páscoa em nosso ambiente de vida e fazendo-o alegre. Nós te agradecemos, Senhor, pelo evangelho da ressurreição de teu Filho Jesus Cristo. Amém! Intercessão: Senhor! São fortes os sinais do triunfo da morte em nosso mundo. Somos testemunhas de terríveis tragédias e de crimes hediondos. É imenso o sofrimento, e é grande a angústia. Nós intercedemos pelas pessoas ameaçadas do desespero e da perda da fé. Queiras fazer com que a Páscoa renove suas forças para reerguer a cabeça, resistir ao mal e criar nova coragem. Desperta em tua igreja pessoas dispostas a se engajar na libertação do mal e no protesto contra a tirania da morte. Nós intercedemos não por último pelas lideranças na economia, na política, na indústria. Estão comprometidas com a promoção de um mundo justo, sustentável e pacífico, inspirador de esperança. Falta de esperança vai produzir o pânico com todas as loucuras que tem. Por isso, Senhor, pedimos que a mensagem da Páscoa ressoe forte entre nós e crie novidade de vida, já agora e no futuro. Amém!

Bibliografia SCHMOLL, Gerd. Neue Calwer Predigthilfen. Dritter Jahrgang, Bd. A. Stuttgart: Calwer Verlag, 1980. p. 252-261. SCHWEIZER, Eduard. Das Evangelium nach Matthäus. Das Neue Testament Deutsch, NTD 2. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1973.

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Domingo da Páscoa

2º DOMINGO DA PÁSCOA ATOS 2.14a,22-32 JOÃO 20.19-25 1 PEDRO 1.3-9

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3º DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: 1 PEDRO 1.17-23

08 MAI 2011

LUCAS 24.13-35 ATOS 2.14a, 36-41

Odete Liber Adriano

1

Introdução

Os textos propostos para o terceiro Domingo da Páscoa assinalam a importância da ressurreição de Jesus para a fé cristã, além de trazer a ideia de pertença, de inclusão na promessa de Deus, de comunhão e proteção mútua. Lucas 24.13-35, a narrativa do encontro do Cristo ressuscitado com os discípulos no caminho de Emaús, mostra que os discípulos estavam tristes e desanimados (v. 17), frustrados e decepcionados com a religião de sua época (v. 20), desiludidos quanto às esperanças que haviam depositado em Jesus (v. 21), céticos quanto aos testemunhos que ouviram de outros (v. 22-24). Atos 2.14a,36-41, a parte final do sermão de Pedro no dia de Pentecostes, cujo tema é a ressurreição de Jesus, afirma que Deus fez daquele Jesus Nazareno humilhado na cruz o Senhor e Cristo. Essa afirmação de fé é obra do Espírito Santo, conforme o apóstolo Paulo. “Messias” ou “Cristo” significa o rei ungido, que traz o reinado de Deus. A afirmação a respeito do Crucificado/Ressuscitado prepara o caminho para o responso dos ouvintes e leitores, que consiste em voltar para Deus e ser batizado em nome de Jesus. 1 Pedro 1.17-23 assinala o senso de comunidade, de comunhão, acolhida e proteção mútua. Os exilados a quem Pedro se dirige são “povo de Deus” pela ressurreição de Cristo e reconhecem que Deus não faz acepção de pessoas, pois os escolheu. No mundo em que os destinatários da carta sofriam acusações falsas e injúrias sem proteção da lei, ter um Pai que não faz acepção e que, na cruz de Jesus, foi solidário com os sofredores e com os que não têm lugar, era e é uma porta aberta para a edificação de um povo que vive em relações fraternas, igualitárias e de hospitalidade.

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Exegese

1 Pedro 1.17-23 é considerado pelos comentaristas como parte de uma seção maior que se estende de 1 Pedro 1.13-2.10, chamada “renascimento e nova conduta”, “o novo status dos cristãos e suas consequências” ou “a conduta moral como dom e a tarefa do novo nascimento”. 1 Pedro relembra aos cristãos o dom que receberam (1.3-13), e o desenvolvimento da carta extrai as consequências das declarações apresentadas. A esperança futura não está desvinculada do presente. Assim, a seção, que é tipicamente de admoestação, apresenta seções indicativas

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3º Domingo da Páscoa

e imperativas: as seções indicativas fundamentam as imperativas, quase como explicações do porquê de assim proceder. O texto continua o tema da santidade, iniciado em 1.13. A salvação em Cristo deve conduzir à santidade; a salvação, “doação do Espírito de santidade”, deve expressar-se em santidade vivida. O fundamento da salvação é a morte de Cristo na cruz (1.19), o sangue derramado para nos resgatar de um modo de vida anterior fora da esfera divina. O v. 17, que assinala a transição para a sequência de indicativos, afirma que os leitores podem chamar a Deus de Pai. O nome de Deus não é mencionado, segundo o costume judeu, mas Ele é designado por um de seus atributos: “Aquele que julga sem acepção de pessoas”. Ao assinalar a responsabilidade de cada um por suas obras, o texto não deve ser entendido no sentido de uma intransigente justiça das obras. Paulo fala da mesma forma. Exige a fé, que se manifesta nas obras do amor, mas exclui a vanglória das obras. 1 Pedro fala também, como complemento e tensão dialética, da necessidade da graça. Depois da afirmação de que os cristãos são peregrinos na diáspora (1.1), o texto acrescenta: “Portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação” (1.17). 1 Pedro fala repetidamente sobre a peregrinação do povo de Deus na terra, em especial devido ao influxo das expressões tipológicas do Antigo Testamento. O temor do juízo, no início do texto, tornou-se agora conhecimento, cheio de temor reverencial. Aquele que foi redimido sabe que sua situação anterior era de desespero e que sua libertação custou o sangue do Cordeiro. Esse sentimento se manifesta na gratidão e alegria, mas também no temor de Deus, que determina cada momento de sua vida. Assim, ao lado do compromisso com uma nova conduta de vida por meio de Deus, o Juiz, surge a fundamentação para tal pela lembrança da redenção oferecida. O resgate aconteceu “não mediante coisas corruptíveis”. Não aconteceu por meio de “prata ou ouro”, bens que potencializam a avareza, usualmente utilizados para pagamento de resgate no comércio. A fixação no que é passageiro não possibilita a liberdade da futilidade dessa existência. Para que isso ocorra, a doação de uma nova vida é necessária. Os cristãos “foram comprados” dessa fútil existência, de modo que o texto, referindo-se à ação libertadora de Deus na história, deixa claro que o resgate por Deus sinaliza uma mudança de propriedade, além da libertação das relações vividas anteriormente, compreendidas como escravidão. O resgate através do sangue de Jesus é comparado em seu efeito redentor com o cordeiro sacrificial do Antigo Testamento. O sacrifício, muito mais do que mero desempenho humano substitutivo, é a reconciliação com Deus. Significa, no grande dia da reconciliação, a doação vicária da vida, possibilitada por Deus, a fim de que possa novamente voltar a estar no meio de seu povo, cuja vida havia sido arruinada. É também a doação de vida de Jesus Cristo. Não foram os seres humanos que se reconciliaram com Deus, mas Deus os reconciliou consigo mesmo, não só a eles, mas a todo o mundo, através de Jesus (2Co 5.19). A redenção aconteceu segundo o plano salvífico de Deus, “concebido antes da fundação do mundo, oculto durante algum tempo, mas agora revelado”. Cristo é o fundamento da fé, é aquele que Deus ressuscitou dos mortos e glorificou: Ele preexistia antes

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de todas as coisas, foi revelado nos últimos tempos, ressuscitou dentre os mortos e foi exaltado nas alturas. A santificação, como “filhos da obediência”, requerida antes (1.14) é agora retomada na solicitação de purificar as almas na “obediência à verdade”. “Tendo purificado as vossas almas” destaca um fato passado que tem relevância para o presente. Ao aderirem à verdade do evangelho, reconhecendo sua pecaminosidade e ignorância e aceitando em fé o resgate propiciado pelo sacrifício de Cristo na cruz (1.19-20), as suas vidas foram purificadas. Foram também “resgatados do individualismo egoísta que caracteriza a existência humana no pecado” e colocados num “novo tipo de ‘existência corporativa’, como membros do povo de Deus, onde cada um não deve ter em vista ‘o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros’” (Fp 2.4). O propósito real da nova vida em Cristo é o amor fraternal. Originalmente, o amor estava relacionado com Cristo, mas agora é o amor ao próximo que, como consequência da fé na salvação, deve determinar a maneira de viver de todos aqueles que creem. O fundamento do mandamento do amor ocorre pela renovação da referência à “regeneração”. Apesar do esforço próprio, necessário para um comportamento renovado, a nova existência não se fundamenta na ação própria, mas no cuidado divino antecedente, responsável pela renovação do ser humano. Dessa forma, fica novamente acentuada a proveniência “não-mundana” do meio de salvação redentor, nesse caso a antítese semente “corruptível” e a palavra de Deus, “incorruptível, viva e permanente”.

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Meditação

Os cristãos foram resgatados de um modo fútil de vida, herdado de seus antepassados, “não mediante coisas corruptíveis”, isto é, “prata ou ouro”, mas através do “precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo”. Duas contraposições destacam-se no texto: o sangue de Cristo com os bens terrenos; o metal precioso “corruptível” com o sangue de Cristo como o “cordeiro sacrificial, sem mancha e sem mácula”. O evento redentor assinalado pela obra de Cristo é, portanto, apresentado em oposição à esfera terrena da transitoriedade. Dessa forma, a vida humana redimida passa a ter um valor excepcional, ou seja, ela é envolta pela ação salvífica de Deus através de Jesus Cristo. A vida humana é medida a partir da morte de Jesus Cristo. Nenhum esforço ou sacrifício humano se iguala ao sacrifício que Deus realizou através de seu Filho. Ele demonstrou em atos e palavras todo o seu amor por nós, quando veio ao nosso encontro, “assumindo a forma humana e tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.7-8). Os cristãos foram “resgatados do individualismo egoísta que caracteriza a existência humana no pecado” e colocados num “novo tipo de ‘existência corporativa’”, razão por que cada um não deve ter em vista “o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Fp 2.4). O propósito real da nova vida em Cristo é o amor fraternal. O amor, originalmente relacionado com

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Cristo, é agora amor ao próximo, o qual, como consequência da fé na salvação, determina a maneira de viver de todos os que creem. Nesse contexto, destaca-se a importância do v. 17: “Ora, se invocais como Pai aquele que sem acepção de pessoas julga segundo as obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação”. Temor não é simplesmente um sentimento de medo, mas o reconhecimento amoroso da presença do Deus justo. Ademais, para não arrefecer os ânimos no empenho por uma vida de justiça, a “verdadeira e mais profunda medição dos valores tem de ser posta na perspectiva do eterno que irrompe em Cristo, pois na sua gratuidade Ele põe em cheque as nossas falsas perspectivas e valores”, nossos sonhos vãos e fúteis. Todo cristão/ã é chamado a construir sua vida numa nova base: a realidade de Deus. Isso acontece todos os dias, pois todo dia é tempo de renovação e conversão. A tarefa cristã é testemunhar os feitos de Deus em suas vidas, dia a dia. Afinal, Deus é nosso alicerce, e em Jesus somos fortalecidos constantemente. Com Ele nossa esperança não se perde, nossa fé é fortalecida e, como comunidade de fé, nossos sonhos e angústias nos unem e nos fortalecem, pois não andamos sós, somos corpo! O preço dessa nova forma de relações foi alto. O texto deixa claro que a constituição do povo de Deus não está baseada em coisas perecíveis, como prata ou ouro, “mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (v.18-19). O importante a destacar aqui não é o sangue, mas o que ele representa – o dinamismo da vida. O sangue de Jesus derramado no calvário não pode ter sido em vão. Antes foi “por causa de vós” (v. 20), ou seja, por nossa causa mesmo, nós que hoje afirmamos que somos o povo sacerdotal de Deus. É importante trazer à memória o sinal batismal do nascimento para a esperança, para o novo em Cristo. O nascer de novo pela palavra deve ser entendido como outra forma de dizer: “vocês foram resgatados”. Páscoa significa mudança de vida. Novas possibilidades de vida, mudança dos valores banais para os valores do reino. Da tristeza para a alegria; da decepção religiosa para a vida em comunidade; de uma visão errada do Cristo a uma visão correta; da morte para a vida. Enfim, somos desafiados a renascer e viver uma nova conduta todos os dias de nossa vida.

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Imagens para a prédica

Um ramo seco com brotos verdes. O galho seco representa a nossa vida, e os brotos, a esperança e a força que vêm de Cristo. Significa que, mesmo quando achamos que nada é possível, com Ele, o Cristo, sempre é possível recomeçar. É possível, todos os dias, construir e reconstruir uma nova base, um novo alicerce em e com Cristo.

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Subsídios litúrgicos Colocar os galhos secos com pequenos brotos à frente da mesa da Euca-

ristia. Oração: Deus, contigo a vida tem um novo valor, porque somos envolvidos/as pela ação salvífica de Deus por meio de Jesus Cristo. Sabemos que nenhum esforço humano se iguala ao sacrifício que realizaste em nosso favor através de Jesus Cristo. Com isso, pela gloriosa ressurreição de Jesus, teu Filho, destruíste a morte e trouxeste à luz a imortalidade. Concede a todos/as nós, que fomos ressuscitados com Ele, que permaneçamos na sua presença e nos alegremos na esperança da glória eterna; por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo, e pelo Espírito Santo, um só Deus, por todo o sempre. Amém! Confissão comunitária de pecados: Deus da graça e da verdade, muitas vezes perdemos a ligação contigo e com o próximo. Nós confessamos que, muitas vezes, nos esquecemos de que nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz e ressuscitou por amor a todos nós. Nós confessamos que, muitas vezes, nos esquecemos dos valores do reino e que o propósito real da nova vida em Cristo é o amor fraternal. Nós confessamos que nos esquecemos de testemunhar os teus feitos em vidas. Apresentamos-te nossa grande culpa e te pedimos perdão. Perdão, Senhor!

Bibliografia MÜLLER, Ênio R. 1 Pedro: Introdução e contexto. São Paulo: Mundo Cristão/ Vida Nova, 1988. FELDMEIER, Reinhard. A primeira carta de Pedro: Um comentário exegéticoteológico. São Leopoldo: Sinodal/Faculdades EST, 2009.

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4º DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: SALMO 23

15 MAI 2011

JOÃO 10.1-10 1 PEDRO 2.19-25

Martin N. Dreher

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Introdução

No Oriente Antigo, o título “pastor” estava reservado para os governantes; os governados formavam o “rebanho”. Israel, a comunidade joanina e a comunidade à qual Pedro se dirige experimentaram pastores muitas vezes violentos. Os textos do domingo, outrora dedicados ao “domingo do bom pastor”, apresentam pastoreio, domínio alternativo, destinado ao povo de Deus do Antigo e do Novo Testamentos: o domínio de Javé, o domínio do reino de Jesus Cristo. Falam a comunidades que experimentaram cruz e sofrimento e que podem encontrar descanso junto ao guarda de Israel, ao que cuida de suas ovelhas, ao que dá a vida por elas e que as reúne em comunidade. Assim, os textos anunciam evangelho à comunidade pascal, que deve saber que nada nem ninguém pode arrancá-la das mãos, do cuidado, do amor, da dedicação do Deus que se revelou em Jesus Cristo.

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Exegese

O Salmo 23 é talvez um dos textos mais conhecidos da Bíblia. Foi e é lido em bons e maus dias. É lido em tom idílico, bucólico. Pode ser lido em bênção matrimonial, em situação de luto, por livres e cativos, tristes e felizes. É canto de confiança. No entanto, os sons de confiança quase infantil que dele ressoam não provêm de despreocupação juvenil. Eles são resultado de vida madura, que experimentou muitas situações amargas, como as constantes nos v. 4 e 5, são cantados quando a vida começa a anoitecer, na velhice, e depois de muita experiência amarga encontrou forças na comunhão com Deus. Formulado no mundo oriental, o salmo está prenhe de imagens, o que nem sempre facilita a interpretação, pois devemos nos perguntar a que a imagem está fazendo referência. No entanto, a imagem que apresenta Javé como hospedeiro (v. 5) e a referência à sua “casa” (v. 6) estão a sugerir que o motivo da composição do salmo seja experiência feita em culto, na qual o autor experimentou a felicidade e a bênção encontrada na comunhão com Deus. V. 1 – No Antigo Testamento, a imagem do pastor não se apresenta para falar da relação de Deus com o indivíduo. Deus sempre é pastor de um coletivo, do povo da aliança. Nesse sentido, é cantado no Salmo 80.1. Terá esse salmo levado o autor do Salmo 23 a pensar em sua situação especial diante de Deus? No encontro da comunidade, o indivíduo pode pensar em sua situação especial. Em todos os casos, a imagem do pastor desperta no autor a certeza: nada me faltará!

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Talvez recorde juventude despreocupada, em pasto verde e junto a regato tranquilo. Expressa a certeza de que essa tranquilidade se mantém na velhice e o acompanhará até o fim. Sua fé expressa concomitância de tempos, certeza presente na fé de Israel: O mesmo Deus que salvou no passado salva no presente e salvará no futuro. A esperança brota de experiência. V. 3 – Acrescenta mais uma interpretação à imagem do pastor: Deus é o guia do peregrino na jornada da vida. Fazendo retrospectiva de sua caminhada, o autor verifica o que nem sempre percebeu enquanto caminhava: guiou-o por caminhos certos. Com uma palavra, o autor expõe o lugar, a partir do qual chega a essa convicção: Por amor do seu nome. Na vida não importa a imposição de nossa vontade, mas a vontade de Deus. Como aprendeu a ler sua vida a partir de Deus e de sua vontade, confessa ter sido vontade de Deus que andasse “pelas veredas da justiça” = salvação. Isso é confissão de fé. V. 4 – A esperança que brota da experiência permite ao autor gloriar o sofrimento. Não foi poupado de andar por muito vale escuro. Recordando essas passagens de sua vida e a superação das mesmas, verifica a bênção que vem de íntima relação com Deus. Por isso passa a expressar-se na linguagem da oração, dirigindo-se a Deus com um “tu”. Deus, que não o abandonou nas horas de dificuldade e tirou-lhe o medo, foi seu guia, proteção e consolo na difícil caminhada. Por isso a lembrança dos tempos difíceis é transfigurada em sentimento de gratidão por profunda comunhão com Deus, permitindo-lhe seguir caminhando sem temor e esperançoso, independente do que o futuro vier a trazer. V. 5 – Observando o ambiente em que se encontra, o salmista volta-se à outra questão. Parte do culto findou, os hinos emudeceram. Parte-se agora com roupas festivas, tendo a cabeça ungida com óleo, para a ceia sacrificial no templo. Cf. Salmo 45.7; Lucas 7. 46. É motivo de alegria poder ser hóspede de Javé (cf. Sl 15.1). Já outras vezes, o salmista há de ter participado dessa cerimônia, louvando o hospedeiro. Ela lhe lembra que, durante toda a sua vida, vem sendo hóspede de Javé; dele recebeu comida e bebida. Mesmo seus inimigos não podem tirar o brilho de sua alegria pela presença e bondade de seu hospedeiro. Assim, a alegria em Deus se apresenta como possibilidade de superação das amarguras, provocadas pelos desacertos na convivência humana. O salmo nada diz a respeito do passo que deve ser dado para a superação da inimizade: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem! Esse talvez seja o déficit do salmo. V. 6 – O reconhecimento da muita bênção recebida provoca no autor um grito de imensa alegria: Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias de minha vida. Ele descobriu a grandeza da bênção de Deus em sua vida. Sua felicidade não pode mais ser diminuída por experiências más. Até o fim de sua vida, nada poderá separá-lo da bondade e do amor de Deus. A experiência da proximidade de Deus no templo transforma-se em certeza do que há de acontecer no futuro. Novamente a concomitância de tempos da fé de Israel: para todo o sempre. É óbvio que o “para todo o sempre” não se refere mais ao templo, mas à comunhão com Deus, pois o templo não durará para todo o sempre. Mesmo assim, o templo é o lugar santo no qual se experimenta mais profundamente a proximidade de Deus do que na balbúrdia das avenidas.

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Meditação

“O Salmo 23 é salmo de gratidão, no qual o coração cristão louva a Deus e lhe agradece por ensiná-lo e mantê-lo no caminho certo e consola e protege em toda a necessidade por meio de sua santa Palavra. Compara-se a uma ovelha, bem apascentada por pastor fiel em capim tenro e água fresca. Do mesmo modo também toma do Antigo Testamento e de seu culto cálice e óleo qual parábola e designa a tudo de Palavra de Deus, com a qual também designa cajado, bordão, capim, água e caminho certo. Ele pertence ao terceiro mandamento e à segunda prece (do Pai-Nosso)” (Lutero, WA 38,25,13-21). Ao meditar sobre o Salmo 23, fui ao encontro de Lutero e procuro aqui deixá-lo falar. Não o cito ipsis litteris, mas sigo a intenção que teve, em 1530, quando se encontrava na fortaleza de Coburgo, enquanto seus amigos, enfrentando situação complicada, se defrontavam com Carlos V em Augsburgo. Ali meditou sobre o Salmo 23. Dizer O Senhor é meu pastor é palavra de gratidão. A expressão, contudo, também contém promessa de bens para a vida e para a fé. Quem as profere sabe de tudo o que recebe para o sustento de sua vida e de sua fé. É belíssima alegoria. Poder expressá-lo é poder ter tranquilidade. – Nada me faltará é confissão de fé: Se tenho a Deus, que mais me faltará? Tenho comida, tenho um pastor. – Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Quem pode dizer isso não tem temores. Crê ser ovelhinha, que tem casa e capim em abundância, onde pode pastar sem preocupação. – Leva-me para junto das águas de descanso. É Deus quem me conduz, quem me situa na vida, me dá comida, e não só isso: também me dá água, de modo que nada preciso temer. Dá-me, pois, comida e bebida, descanso e paz. – Refrigera-me a alma. Naphash significa recuperar-se e saciar-se. É como diz a expressão: “um bom gole ajuda o corpo e a alma”, ou: “Sobre barriga cheia tem que estar cabeça alegre”. Por isso também dizemos após ter comido: “Agora tá melhor!”. Essa é a primeira metade do Salmo. Deus não nos abandona em nossas necessidades diárias. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Essa é outra dádiva de Deus. Deus nos deu o ministério da Palavra. Sua função é me conduzir para a vida eterna. Por sua Palavra, esse tesouro tão querido, conduz e estabelece como devemos viver e nos mover. – Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum. Assim que a Palavra se manifesta, o diabo e seus anjos vêm com suas tentações. Ao dizer ainda que eu ande, confessa que o que é dito e feito por nosso Deus deve ser experimentado na provação e passar pelo fogo. Ele está dizendo: Mesmo que tenha que viver em dificuldade, mesmo assim quero reter essa palavra e ater-me a ela. Em Augsburgo, os nossos agora se encontram em tal vale. Podem estar tremendo, mas não há razão para temor. – Porque tu estás comigo. E mesmo que pareça que me abandonaste, ainda assim sei que estás comigo. Não te vejo, não te sinto, mas te ouço. Por isso continua: A tua vara

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e o teu cajado me consolam. Com isso confessa que sente muito bem a desgraça, pois diz: não temo, e: consolam-me. Vemos que está aflito, do contrário não usaria essas expressões. A vara é a Palavra que nos guia. O cajado é a Palavra que nos sustenta. Pois é isso que significa o termo hebraico naham, um cajado no qual podemos nos apoiar. A vara está sobre nós, o cajado sob nós. – Preparas uma mesa na presença dos meus adversários. Que belo protetor! Os seus estão assentados à sua mesa e assim enfrentam os inimigos. Até poderíamos pensar: preparas-me armas e muro seguro, mas o texto diz: uma mesa. Com isso está anunciando o maravilhoso poder da Palavra. Nossa vitória consiste simplesmente em comer e beber, isto é, em tomar a Palavra e nela crer. Pois a Palavra também nos é servida, assim como os pães são servidos na mesa de Moisés. Com isso nos é dito qual é nosso muro de proteção: crer. Sossegando e confiando, vocês serão fortes (Is 30.15 e Sl 4.4), como está escrito: Sossegai (permanecei firmes). – Unges-me a cabeça com óleo. Davi bem poderia ter dito: pensei que ele iria me colocar um elmo (capacete) na cabeça, mas me passou óleo, como se estivesse a caminho do baile! Como é possível que o Espírito Santo fale com tanta arrogância contra o diabo! No fundo, não te está escrito: tu me ungiste, mas: tu me besuntaste, isto é, tu me mergulhaste na Palavra, consolaste, ensinaste e fortaleceste. Tal unção é nosso armamento. Ah, o diabo vai ficar maluco, quando ouvir que fazemos pouco caso de sua raiva, pois estamos saindo para o baile. – O meu cálice transborda. O cálice sou eu. Estou cheio, estou provido, tenho um pastor. Estou bem! – Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida. Trata-se de agradecimento por bens recebidos no passado e pedido por bens no futuro. Confirma em nós, Senhor, o que nos fizeste: aumenta, no futuro, tuas bênçãos sobre nós, enquanto estivermos na terra. – E habitarei na casa do Senhor para todo o sempre. É prece por questões políticas e espirituais. É como quisesse dizer: assim como deste tua Palavra, permite que a preserve comigo. Pois morar na casa do Senhor é estar ali, onde se ouve a palavra de Deus. Onde não se ouve a palavra de Deus, ali não há casa de Deus.

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Imagens para a prédica

O texto do Salmo traz uma profusão de imagens. O mesmo acontece com a meditação a partir de Lutero. A comunidade reunida em culto conhece muito bem o Salmo. Ela também conhece e experimentou imagens; por isso deveria ser convidada a participar com elas. O pregador pode convidá-la a falar e a colocar as demais imagens.

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Subsídios litúrgicos

Hinos de graça, louvor e adoração devem ser cantados em profusão. Idosos podem ser valorizados nessa comunidade do quarto domingo após a Páscoa e convidados a formular as orações a partir da experiência do idoso no Salmo 23. Cajados, bengalas, varas, água, óleo (também fixador de cabelo), a cruz, o cálice, a pia batismal, uma ovelha (?) não deveriam faltar na ornamentação simbólica do

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local de culto. Por que não instrumentos musicais para lembrar o baile sugerido por Lutero?

Bibliografia KRAUS, Hans-Joachim. Gottesdienst in Israel. Grundriß einer alttestamentlichen Kultgeschichte. München: Chr. Kaiser Verlag, 1962. MÜHLHAUPT, Erwin (ed.). D. Martin Luthers Psalmen-Auslegung, Bd. 1. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1959. WEISER, Artur. Die Psalmen (Das Alte Testament Deutsch 14/15). Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1966.

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5º DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: JOÃO 14.1-14

22 MAI 2011

ATOS 7.55-60 1 PEDRO 2.2-10

Jorge Batista Dietrich de Oliveira

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Introdução

O texto do evangelho indicado para o 5º Domingo da Páscoa já foi abordado diversas vezes em Proclamar Libertação. Entretanto, os três textos aparecem juntos pela primeira vez e perfazem uma unidade temática em torno do caminho que leva a Deus. Na primeira leitura (At 7.55-60), encontramos o relato do apedrejamento e da morte de Estevão, um dos sete primeiros diáconos da igreja primitiva e o primeiro mártir do cristianismo. Condenado à morte por supostas blasfêmias, olhou para o céu, viu a glória de Deus e Jesus. Ao contar o que viu, despertou a fúria de seus opositores a tal ponto que o arrastaram para fora da cidade e o apedrejaram até a morte. Tal visão é, para Lucas, um sinal de que Deus recebeu seu mártir. Seguindo o exemplo de Jesus, Estevão morre pedindo a Deus que perdoe seus agressores. Na segunda leitura (1Pe 2.2-10), o autor emprega várias figuras veterotestamentárias para falar sobre Jesus e sobre a igreja como templo de Deus: um templo não construído com pedras inertes, mas com pedras vivas que somos nós, os batizados. O autor apresenta Jesus como a pedra principal da construção, que foi rejeitada pelos seres humanos, mas que ressuscitado se tornou pedra viva. Do mesmo modo, os cristãos unidos a Jesus tornam-se “pedras vivas” que Deus usa na construção de um templo espiritual, em que eles servirão como sacerdotes (v. 5). No evangelho, Jesus fala sobre o caminho que leva à casa paterna, seu relacionamento com o Pai e do relacionamento dele e do Pai com os discípulos. Diante da despedida de Jesus, os discípulos ficarão abalados, não apenas por perder o líder e amigo, mas por ver frustradas as esperanças depositadas nele. Jesus diz a seus discípulos que vai partir, mas isso não deve perturbá-los. Jesus vai para preparar-lhes um lugar na casa do Pai. Vai para depois levá-los e tê-los sempre consigo. Quem quiser chegar a Deus precisa crer em Jesus e praticar seus ensinamentos, pois ele próprio é o caminho para o Pai. O 5º Domingo da Páscoa, em outra tradição litúrgica, é chamado de Cantate, do latim: Cantate Domino canticum novum. Baseia-se no Salmo 98.1: “Cantai ao Senhor um cântico novo”. Nessa data, Jesus pede-nos que tenhamos confiança nele, que edificados sobre a rocha viva pratiquemos seus ensinamentos com alegria e demos testemunho das obras maravilhosas de Deus para que todos possam chegar, com Cristo e conosco, à casa paterna.

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O texto

A perícope indicada para a pregação é matéria exclusiva do Evangelho de João e faz parte dos chamados “discursos de despedida” de Jesus. Esse bloco inicia no final do capítulo 13 e prolonga-se até o capítulo 17. Sabemos que, atrás da história de Jesus, encontra-se refletida a história de uma comunidade marcada por conflitos e polêmicas. Numa realidade de cismas e perseguições, nasce a necessidade de valorizar a fé cristã. Por isso, o evangelho joanino traz ênfases teológicas que refletem muito mais a situação posterior da comunidade de João. Raymond Brown chama a atenção para o fato de que as obras do Novo Testamento dirigiam-se às comunidades que os apóstolos deixaram atrás de si, com o objetivo de ajudá-las a sobreviver (cf. Raymond Edward BROWN, As igrejas dos apóstolos, p. 05). A comunidade “joanina” sofre vários confrontos externos: a) com o Império Romano, por não reconhecer o imperador como Senhor; b) com o judaísmo farisaico, que expulsa os cristãos da sinagoga por confessar a Jesus Cristo como o Messias; c) com os seguidores de João Batista, que não reconhecem Jesus como Senhor. Internamente, a comunidade joanina sofre: a) com o fato de que alguns cristãos negam publicamente sua fé, pois temem a expulsão das sinagogas e suas consequências; b) outros sofrem a influência da gnose e trazem, para o seio da comunidade, interpretações erradas quanto à pessoa de Jesus; c) para completar o quadro, existem ainda as diferenças em relação às comunidades apostólicas, que têm uma forma totalmente diferente de viver sua fé. Nesse contexto, o Evangelho de João foi escrito como uma memória coletiva de uma comunidade que enfrentava muitos conflitos externos e internos e lutava para manter a fé em Jesus, o amor e a unidade, bases de sua convivência comunitária. Há várias sugestões para uma subdivisão dessa perícope. Optamos pela seguinte: a) v. 1-3 – Jesus promete preparar um lugar para seus discípulos na casa do Pai; b) v. 4-7 – o caminho para a casa do Pai; c) v. 8-11 – vendo o Pai no Filho; d) v. 12-14 – trabalhar e orar. V. 1 – No final do capítulo 13, Jesus predisse que seria traído, que Pedro o negaria três vezes e que ele iria para um lugar inacessível a seus discípulos. Provavelmente, os discípulos já estavam angustiados pelo que tinham ouvido. Por isso Jesus traz uma palavra de conforto e uma chamada à fé numa hora difícil de despedida. Apesar das circunstâncias, os discípulos deveriam crer firmemente em Deus e em Jesus. Ele nunca os tinha abandonado; também agora não o faria. V. 2-3 – A casa do Pai é uma metáfora para falar da morada junto de Deus no céu. Jesus está indo na frente para preparar a “hospedagem”, onde seus discípulos também têm um lugar prometido.

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No grego, o substantivo monê (morada) deriva do verbo menô (permanecer) e tem o sentido de “um lugar para ficar”. Jesus havia dito em 12.26: “Onde eu estou ali estará também o meu servo”. Agora ele amplia essa promessa, dizendo que levará seus seguidores pessoalmente para que eles estejam junto com ele na casa do Pai. V. 4-7 – Predominam os verbos saber, conhecer e ver. Como saber o caminho que leva a Deus Pai? A pergunta de Tomé (v. 5) recebe de Jesus a afirmação: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. Jesus é o caminho para Deus Pai, porque ele é a verdade de Deus (cf.1.14) e a vida de Deus (cf. 1.4; 3.15; 11.25). Essa afirmação é uma forte reivindicação de exclusividade, pois toda a verdade é de Deus, assim como toda vida é de Deus. E a verdade e a vida de Deus estão encarnadas em Jesus. E somente por ele ser a verdade e a vida, que ele pode ser também o caminho para os discípulos chegarem a Deus. Quem deseja chegar ao Pai precisa seguir a Jesus, pois ele próprio é o caminho até o Pai. Todo o movimento cristão primitivo era designado de “caminho”. Caminho significa o conjunto de valores ensinados e vividos por Jesus. V. 8-11 – Assim como Tomé queria saber o caminho, Filipe quer ver Deus. Jesus responde que Filipe deseja ver algo que já está diante de seus olhos. Deus está presente na pessoa de Jesus. Os discípulos já começaram a conhecer o Pai, porque chegaram a conhecer o Filho. E o conhecimento do caminho que leva a Deus Pai pressupõe a fé na unidade entre Jesus e seu Pai. Aqui se destaca a importância do “crer” que apareceu no v. 1: “Credes em Deus, crede também em mim”. Não basta apenas saber. Ver ainda não é tudo. Crer é fundamental, pois sem a fé em Jesus é impossível conhecer o verdadeiro Deus. V. 12-14 – Jesus vai voltar ao Pai e promete a seus seguidores o poder do Espírito Santo. Assim eles poderão fazer maiores obras do que Jesus fez. Tudo o que for pedido em nome de Jesus é como se esse o fizesse. O Pai nada nega ao Filho. Mas isso não garante que Deus fará tudo o que pedirmos só pelo fato de adicionarmos a nossa oração “Em nome de Jesus”. Orar em nome de Jesus significa identificar-se com os propósitos que ele viveu e ensinou. A comunidade que segue Jesus no caminho para o Pai criará novos sinais dentro deste mundo, gerando a esperança e promovendo a vida fraterna.

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Meditação

A pregação deveria levar em conta os três textos bíblicos indicados para este domingo, priorizando o texto do evangelho. Proponho fazer do tema “caminho” o eixo central para esta meditação. Você conhece o caminho? Muitas pessoas gostam de viajar. Outras gostam de aventuras na natureza, fazer caminhadas por trilhas no meio da mata. Quando se viaja, é preciso saber, em primeiro lugar, aonde se quer chegar. Depois é preciso ter um mapa do caminho, uma bússola ou então um guia. Para se chegar ao alvo, é preciso conhecer o caminho a ser percorrido para não se perder em atalhos e desvios que não levam ao destino final. Você conhece o caminho? Os textos indicados para este 5º

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Domingo da Páscoa falam sobre o único caminho que nos pode levar até Deus – Esse caminho é Jesus. O evangelho conta-nos que Jesus está na iminência de ser morto. É momento de despedidas, pois Jesus vai para junto do Pai. Um lugar inacessível para os discípulos. Eles ficarão sozinhos, sem o mestre. Havia muitos laços de ternura entre Jesus e seus discípulos, e é de se esperar a tristeza daqueles que ficarão órfãos. Por isso Jesus procura consolá-los dizendo que irá preparar um lugar junto do Pai para eles. Jesus afirma também que sua ausência será breve, e a separação apenas temporária. Ele voltará para ficar em companhia de seus amigos. Interessante observar que os discípulos não compreendem as palavras de Jesus. “Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?”, pergunta Tomé no v. 5. Jesus procura mostrar então que Ele é a revelação plena de Deus. Daí porque o caminho que conduz a Deus passa por Jesus. Ninguém pode chegar ao Pai se não passar por ele. Outro discípulo chamado Filipe, que estava ouvindo a explicação de Jesus, pede para ver Deus. “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (v. 8). E aí Jesus afirma que Filipe solicita ver algo que já se encontra diante de seus olhos. Quem vê o Filho vê também o Pai, pois todo o ministério de Jesus foi revelar o Pai. Suas palavras, sua obra e sua vida revelam a Deus Pai. Assim como os discípulos, também nós temos dificuldades para compreender que Jesus é o caminho que leva até Deus. Quando olhamos nossa realidade, percebemos que existem muitos caminhos e muitas verdades que afirmam conduzir para a vida, mas, na maioria das vezes, conduzem para a morte. Há uma história que ilustra esse fato: Dois homens caminhavam por uma estrada. Em determinado momento, chegaram a um ponto onde o caminho se dividia em duas partes, direita e esquerda. Por onde seguir? No caminho da esquerda, havia muitas pegadas, sinal de que muitos já tinham passado por ali. No da direita, perceberam poucas pegadas. “Poucos passaram por aqui”, concluíram eles. Resolveram seguir a maioria, foram pela esquerda... Chegaram a um rio, que parecia calmo e tranquilo. Começaram a atravessá-lo. Porém não chegaram à outra margem. O rio era calmo, sim, mas traiçoeiro. No meio dele havia um redemoinho, só percebido de muito perto. Os dois morreram afogados. Um detalhe não fora reparado pelos viajantes: o caminho da esquerda realmente estava mais batido, mas só havia pegadas de ida, ninguém voltara; o da direita era pouco batido, mas com pegadas de ida e volta. Rastros não indicam necessariamente a direção correta. Pelo contrário, eles podem representar uma emboscada. Podem indicar uma trilha enganosa, que leva ao nada ou até terminar em um terrível acidente. Em nossa realidade, percebemos também que há uma multiplicidade de igrejas e confissões de fé. Todas afirmam possuir o caminho correto, que conduz a Deus. Mas há grandes diferenças entre elas. Essa situação gera confusão. Como saber qual das igrejas está no caminho certo? Algumas conduzem ao extremismo e ao fanatismo, que levam ao ódio e à destruição. Outras deixam tudo por conta do acaso e não transmitem esperança. Há também aquelas que exigem boas

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obras para alcançar a salvação. E não faltam aquelas que deturpam o evangelho e vendem a bênção de Deus. São todas elas pegadas enganadoras, que levam à destruição. Sabemos que não existe uma igreja perfeita. Mas os textos indicados para este domingo apontam alguns critérios que podem nos ajudar a identificar a igreja que busca estar no caminho que é Jesus. A comunidade joanina soube enfrentar com muita perseverança e fé os conflitos e superar com criatividade e amor as dificuldades que foram aparecendo. Podemos aprender com ela que: a) A igreja de Jesus é cristocêntrica. Jesus está no centro da pregação, do ensino e do testemunho da igreja. Para saber o caminho, as pessoas precisam conhecer Jesus, sua vida, obra e ensinamentos. Pois sem Jesus ninguém chega até Deus. b) A igreja de Jesus precisa estar comprometida com a verdade. Ela vive a fé de maneira compromissada com o evangelho, pois Jesus e a verdade andam juntos. Ele veio para dar testemunho da verdade (Jo 18.37). Por isso afirmou: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). Também orou: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). Essa verdade nos impulsiona a viver o amor ao próximo, a solidariedade e a justiça ensinadas por Jesus. c) A igreja de Jesus luta em defesa de toda a vida, pois Jesus veio trazer vida em abundância para todos (Jo 10.10). O compromisso com a vida leva, necessariamente, ao engajamento e à luta pela restauração de toda a criação. Leva também à promoção da dignidade humana, da justiça e da paz na construção de uma sociedade mais equitativa e solidária. Quem descobre Jesus como o caminho, a verdade e a vida assume o seu papel de povo de propriedade exclusiva de Deus. Tem a tarefa de proclamar os poderosos feitos de Deus e anunciar a boa-nova da salvação por graça, mediante a fé em Jesus Cristo. Quem está no caminho promove a comunhão e concretiza o amor, colocando-se a serviço da vida e do bem-estar de todas as pessoas e denunciando as injustiças e tudo aquilo que se opõe à vida plena. A exemplo de Estevão, testemunha Jesus e assume riscos. Sofre a oposição do mundo e, até mesmo, o martírio. Mas se torna instrumento a serviço do reino de Deus. Vive e reflete os valores do reino aqui e agora. Compartilha com a humanidade as dádivas do reino, que são a justiça, a paz e o amor. Torna-se parte do caminho que leva até Deus Pai. Você já encontrou esse caminho? No dia-a-dia da vida, seguimos muitos caminhos, conhecemos muitas verdades e buscamos a vida em muitos lugares. Cuidado! Muitos caminhos são apontados como verdadeiros. Não se deixe confundir. Nem todos levam a Deus. Quem procura o caminho que leva até Deus e anseia pela verdade e pelo sentido da vida precisa orientar-se pelo guia que é o Espírito Santo, estudar o mapa que é a palavra de Deus com muita atenção e dedicação. Então encontrará em Jesus o caminho, a verdade e a vida. Então chegará até a casa do Pai.

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Imagens para a prédica O caminho A vida é feita de caminhos... caminhos que levam, caminhos que trazem... sonhos, alegrias, tristezas, amores, esperanças. De qualquer forma, nada vem ou vai sem caminho. O caminho é parte integrante de nossas vidas. Antes mesmo da concepção... já buscávamos percorrer caminhos. Nossos primeiros passos foram treinados... para conquistar caminhos. Alguns fazem bom proveito do caminho... outros se perdem pelo caminho. Uns tiveram tudo para caminhar... Outros, muita dificuldade para chegar. Um dia, deixaremos de ser parte do caminho... e chegaremos ao ponto

final. Certamente fomos feitos para abrir caminhos, romper barreiras, ultrapassar limites e vencer. Deus, na sua infinita misericórdia, não nos abandonaria num deserto de incertezas. Não nos deixaria à beira do caminho, condenando-nos a um fim sem propósitos. Ele nos preparou um caminho que nos levará de volta para casa... Eu sou o caminho, a verdade e a vida... O autor desta frase é o autor da vida... É o Alfa e o Omega. O Princípio e o Fim. O único caminho que tem o poder para mudar o rumo da nossa história. É fonte de vida para os que nele confiam. Siga os passos daquele que pode te conduzir para um caminho de paz... Jesus Cristo. O autor da vida. Autoria atribuída a Lincoln Ferreira

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Subsídios litúrgicos

Oração do dia: Querido Deus, tu que nos chamaste para ser teu povo, para proclamar os teus poderosos feitos e para anunciar Jesus Cristo como o único caminho que conduz ao Pai. Nós te pedimos: fortalece em nós a fé e concede-nos o Espírito Santo, o consolador. Para que possamos compreender a tua Palavra, conhecer a verdade que liberta e experimentar a vida abundante que Cristo concede a todos os que nele creem. É o que te pedimos por Jesus Cristo, teu Filho amado, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina, de eternidade a eternidade. Comunidade: Amém. Oração geral da igreja: Misericordioso Deus, intercedemos por tua igreja espalhada pelo mundo. Que ela seja um testemunho vivo da verdade, que ela defenda a vida e aponte o caminho que conduz ao Senhor. Clamamos pelo teu povo para que em momentos difíceis creia em Jesus, teu Filho amado, e assim viva como ele viveu, seguindo o seu caminho, proclamando a verdade e alcancemos a plenitude da vida. Oramos: Comunidade: Ouve nossa oração e atende nossa súplica. Deus de toda consolação, intercedemos pelas pessoas que estão com sua vida ameaçada, pela enfermidade, pela violência, pela fome e pela falta de esperança, para que através da solidariedade do teu povo vidas sejam restauradas, bocas sejam alimentadas e muitos redescubram a alegria de viver. Oramos: Comunidade: Ouve nossa oração e atende nossa súplica. Deus da verdade, intercedemos pelas autoridades do nosso país, estado e municípios, para que governem com justiça, em favor daquilo que favorece a vida de todas as pessoas. Para que prevaleçam a ética, a verdade e a honestidade ensinadas por Jesus. Oramos: Comunidade: Ouve nossa oração e atende nossa súplica. Bondoso Deus, ouve nossa oração e atende-nos, segundo a tua vontade. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, na unidade do Espírito Santo. Comunidade: Amém. Bênção: Que a paz de Deus confirme a teu coração que Jesus é o caminho que conduz ao Pai. Que o poder do Espírito Santo te fortaleça na proclamação da verdade. Para que alcances a plenitude da vida que Cristo conquistou para todos. Assim, abençoa-te o Deus todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém. Envio: Agora vá e proclame que Jesus é o caminho, a verdade e a vida.

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Siga esse caminho, vivendo a cada dia a verdade e encontrarás a verdadeira vida. Vá em paz e sirva ao Senhor com alegria.

Bibliografia BLANK, Josef. O evangelho segundo João. 2ª parte. Petrópolis: Vozes, 1991. BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas, 1983. ______. As igrejas dos apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1986. BRUCE, F.F. João. Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1990.

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PRÉDICA: JOÃO 14.15-21

29 MAI 2011

ATOS 17.22-31 1 PEDRO 3.15-22

Acir Raymann

1 As leituras do dia A primeira leitura – Atos 17.22-31 – apresenta o apóstolo Paulo falando aos atenienses no Areópago, também chamado Monte de Marte, o deus da guerra. Seus ouvintes parecem ter conhecimento do Antigo Testamento (v. 17), mas, quando o assunto da ressurreição vem à tona como ápice do discurso, seus ouvintes o repelem. 1 Pedro 3.15-22 afirma que a salvação vem através do Batismo, que, por sua vez, está ligado à ressurreição de Jesus.

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Contexto e texto

A pregação de hoje tem como base a leitura do evangelho do dia, a saber: João 14.15-21. Esse texto faz parte do discurso de despedida de Jesus no Cenáculo, na Quinta-feira Santa, em Jerusalém. Parece estranho falar de um texto da Paixão quando estamos no período da Páscoa. Como é próprio de Jesus, ele está a antecipar fatos e eventos futuros a seus discípulos e a nós também. Despedir-se de alguém que a gente ama é muito difícil. Há tristeza, dúvidas e muita emoção envolvidas. Se alguém já teve essa experiência, pode imaginar o momento em que Jesus se despede de seus discípulos. Mas o Jesus que se despede é também o Jesus que promete voltar. Essa parte do discurso enfoca não o que Jesus tem feito até agora, nem o que ele espera que seus discípulos façam depois que ele partiu, mas o foco está no que ele continuará a fazer depois de deixá-los. Jesus continua vivo. Ele ressuscitou. Não tivesse ele ressuscitado, essas palavras encheriam de muita tristeza os discípulos e a nós. Sua ressurreição, entretanto, dá a esse discurso uma nova perspectiva, nova dimensão. Claro, Jesus está tentando ajudar especialmente seus confusos e assustados discípulos a lidar com o fato de que ele os deixaria. Jesus sabe que eles estão perturbados com o sentimento de ser deixados, num certo sentido, órfãos. Antes, em 14.1-12, ele os havia confortado, mostrando-lhes “o Caminho, a Verdade e a Vida”, ou seja, ele mesmo. Agora ele os conforta falando-lhes da provisão que ele e o Pai tomaram para suprir a carência entre a sua partida e seu retorno no fim dos tempos, a saber, o “outro Consolador”. V. 15 – Numa primeira leitura, parece que Cristo está impondo uma carga pesada sobre seus já fragilizados discípulos e a nós, mas essa é a primeira impressão. Nesse sentido, Lutero afirma: “Cristo diz: Eu lhes dou mandamentos que vocês podem e irão cumprir sem coação se, de fato, me amam. Se não existir amor, não faz sentido eu lhes dar um monte de mandamentos, porque eles de qualquer

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maneira não seriam observados. Por isso, se querem guardar meus mandamentos, vocês precisam me amar e refletir sobre o que eu fiz por vocês”. Jesus não nos dá um novo mandamento de sorte, que devemos amar uns aos outros; antes Cristo afirma aqui que tudo agora flui do amor que temos por ele. Essa será a base para nossas ações e o fundamento de nossas vidas. V. 16-17 – Os três evangelhos sinóticos não enfatizam tanto o Espírito Santo como faz o Evangelho segundo João. Esse dá bastante destaque à vinda do Parácleto e sua atividade na vida e na comunidade dos discípulos. Em seu discurso de despedida, Jesus faz referência ao Espírito Santo nada menos do que cinco vezes (14.16-17; 14.26; 15.26-17; 16.7-11; 16.13-15). Em lecionários da igreja, essas cinco perícopes são lidas na Festa de Pentecostes ou nos domingos imediatamente antecedentes. A presença de tais textos no Evangelho segundo João fez com que alguns Pais da Igreja qualificassem o quarto evangelho como evangelho espiritual. A inclusão de tantos textos que falam sobre o Espírito Santo também tem sido um dos motivos da popularidade do Evangelho segundo João entre grupos carismáticos, pentecostais e neopentecostais desde os tempos dos montanistas, no segundo século, até os dias de hoje. Teologicamente falando, é importante notar que o Espírito Santo é “outro Parácleto” ao lado de Jesus. Isso significa que Jesus não se identifica com o Espírito Santo. São pessoas distintas. Mesmo em relação a seu futuro e sua existência celeste, Jesus não é o Espírito, e o que se diz do Espírito em outros lugares é distinto do que se fala de Jesus. Essa distinção de pessoa e obra é mantida todas as vezes que lemos a respeito de Jesus e o Espírito Santo (cf. 15.26; 16.7). Uma característica do quarto evangelho, entretanto, é o quanto a obra do Espírito Santo como Parácleto da igreja está atrelada à do próprio Jesus e deve ser entendida à luz dessa. O Parácleto é outro Parácleto além de Jesus, alguém que o Pai enviará a pedido de Jesus e a serviço do que Jesus havia dito e ensinado (cf. v. 26). O Espírito não falará de si mesmo, mas glorificará Jesus, ensinando todas as coisas e lembrando tudo o que “eu [Jesus] vos tenho dito”. Logo, toda obra do Espírito Santo retroage à obra de Jesus (cf. 16.13ss). Daí se depreende a intimidade da obra do Espírito com a obra do próprio Jesus. Vez por outra, as atividades de ambos até coincidem, como em 14.23, onde é dito que Jesus, juntamente com o Pai, “fará morada” na pessoa que guarda a sua palavra – coisa que se diz também do Espírito praticamente com os mesmos termos em nosso texto de hoje (cf. 14.16, 17). Durante seu ministério, Jesus refere-se pouco ao Espírito Santo. À medida que ele “sobe a Jerusalém” a caminho da cruz, a relação da sua obra com a do Espírito Santo se intensifica. Agora, às vésperas de sua partida, Jesus chama-o de “outro Consolador”, o que significa que o próprio Jesus era um Parácleto. Em 1 João 2.1 se diz: “Filhinhos meus, essas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo”. “Parácleto” é alguém que é chamado para acompanhar e ajudar alguém. No grego secular, a palavra é empregada para descrever o defensor de alguém que está no tribunal. Mas não significa apenas defensor, como também acusador. No capítulo 14 e aqui em nosso texto, Jesus fala do Parácleto como o defensor dos discípulos; no capítulo 16, falará do Parácleto como acusador do mundo. Durante seu minis-

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tério terreno, Jesus foi nosso Parácleto na terra. Depois de sua ressurreição, Jesus é nosso Parácleto diante do tribunal celeste, e o Espírito Santo é nosso Parácleto, advogado e defensor aqui na terra. Por meio das palavras que o Parácleto nos coloca na boca, podemos testemunhar diante de acusadores, juízes, governadores e reis deste mundo (Mt 10.18-20). Por isso o Espírito é também chamado de “Espírito da verdade” (v.17). O Consolador será como que um “substituto” de Jesus, continuando seu ministério entre os discípulos enquanto Jesus estiver ausente deles. Jesus ensinara (7.14; 13.13), assim também o Espírito ensinará (16.13); Jesus testemunhou a verdade (8.14), assim fará também o Consolador (15.26ss); Jesus convenceu o povo do pecado deles ((15.24), também assim fará o Consolador (16.8-11); Jesus estará com seus discípulos para sempre (14.23), assim será também com o Espírito Santo (14.16). Embora o Espírito Santo seja como Jesus, coube apenas a Jesus dar a sua vida pelos pecados do mundo. V. 18-21 – O termo grego orfanús, “órfãos”, designa não apenas quem foi privado de seus pais como alguém que foi abandonado por eles. Pelo que se observa na narrativa desse capítulo, a preocupação dos discípulos está relacionada ao segundo sentido. A ausência de Jesus deixá-los-á abandonados diante de um mundo hostil. É verdade que, em 13.33, Jesus chama seus discípulos de “filhinhos”, mas em lugar algum Jesus é chamado de seu pai. De que vinda Jesus está falando ao dizer: “Voltarei para vós outros”? Há possibilidade de três respostas: a Parusia, o Pentecostes e a Ressurreição. A primeira possibilidade é que Jesus esteja se referindo à sua segunda – e final – vinda, descendo nas nuvens para julgar vivos e mortos. A segunda, defendida por alguns teólogos da Teologia da Libertação, como José Porfírio de Miranda, Jesus estaria falando aqui de sua vinda no Espírito Santo. Conforme Miranda, o Pentecostes é a única segunda vinda de Jesus que acontece e, visto que o Pentecostes já aconteceu, ela, portanto, já se realizou. Diz Miranda que os cristãos não devem esperar outra segunda vinda, mas devem assumir agora a tarefa de transformar a si mesmos e ao mundo em reino de Deus, lutando contra sistemas corruptos, forças desumanas e, a partir daí, edificar o reino de Deus. Essa interpretação, que se propõe a transformar o mundo aqui e agora por iniciativas próprias, é denominada de escatologia realizada. A terceira maneira de se interpretar o “voltarei” de Jesus nesse versículo é entendê-lo na relação com sua ressurreição. O verbo emfanízoo em 14.21 indica manifestações visíveis de Jesus, como as que ocorrem no capítulo 20: “Por um pouco e o mundo não me verá mais, vós, porém, me vereis”. Palavras semelhantes constituem o discurso de Pedro na casa de Cornélio tempos depois da ressurreição de Jesus: “A esse ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto, não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos” (At 10.40-41). Assim, a ênfase principal aqui provavelmente está na manifestação de Jesus em sua ressurreição. Essa ênfase, contudo, possui uma dimensão mais ampla e estende-se até a sua efetiva, visível e final segunda vinda.

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As belas palavras de Cristo, que com muita frequência são usadas pelos cristãos em cartões ou mensagens de Páscoa – “porque eu vivo, vós também vivereis” – demonstram que Jesus não está se referindo a uma escatologia realizada, mas à sua ressurreição dentre os mortos. Afinal, é assim que a igreja cristã no mundo entende, e por isso essa perícope integra esse sexto Domingo após a Páscoa. A ressurreição de Jesus é a garantia de que nós também ressuscitaremos. Essa é base de nossa esperança e de nosso consolo em tempos de angústia, sentimento de abandono e morte. “Por um pouco” – assim nos ensina o Parácleto em tempos de sofrimento, hostilidade e perseguição. Depois “voltarei para vós outros”. O Espírito Santo nos lembrará de que as aflições dos cristãos não são sinais da ira de Deus, mas de seu amor, por meio dos quais podemos testemunhar nossa fé e manifestar em nós a vida que temos em Jesus Cristo (2Co 4.7-17). Em meio a nossos sofrimentos, o Consolador nos lembrará as palavras de Jesus: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32). Qualquer dúvida sobre a relação de Jesus com o Pai ou sobre seu poder de levar a termo o que ele prometera desvanecerá “naquele dia”, ou seja, naquele dia em que o Senhor derramará o seu Espírito Santo sobre seu povo, fazendo-o lembrar tudo o que Jesus disse e fez (14.26). Essa promessa é dada a todos os que amam Jesus. Aquele que ama Jesus é amado pelo Pai. A ele Jesus continuará a se manifestar através do Consolador, não apenas na sua ressurreição, mas também e continuamente após ela até a sua parusia.

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Sugestões homiléticas

Tema: Dois consoladores para o desconsolado 1) Jesus está anunciando sua partida “por um pouco”. Qualquer partida, por mais breve que seja, desperta insegurança, tristeza, angústia. Os discípulos sentem isso, assim como nós sentimos. Nos capítulos anteriores, Jesus aponta para si mesmo como base para o conforto quando deles se ausentasse; em nosso texto, afirma que, na verdade, não se ausentará de seus discípulos, visto que lhes dará outro Consolador. Nesse ínterim, entre sua saída e seu retorno, fornece a eles meios de como serão consolados. Ao fim e ao cabo, tais meios não serão diferentes, porque o Espírito Santo, pelos meios da graça, continuará a lhes/nos dar testemunho de Jesus e sua obra redentora. 2) Não são poucas as vezes em que nos sentimos órfãos, separados de Jesus. O fato não é apenas sentimento (que não conta muito), mas especialmente porque o pecado nos conduz a essa separação. 3) Jesus consola-nos por meio do Parácleto, o Consolador, o Advogado, que nos foi dado através do Batismo e por causa da sua ressurreição (cf. a Epístola do Dia de 1 Pedro 3.15-22). 4) O Parácleto é distinto de Jesus. Ele é o “outro Parácleto”, mas da mesma essência. Fará muitas coisas que Jesus fez quando esse esteve com seus discípulos. Ele é o Espírito da Verdade, que falará toda a verdade. Trará à nossa lembran-

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ça tudo o que Jesus falou e ensinou e especialmente o que ele fez por nós ao subir a Jerusalém. 5) Não somos órfãos; não fomos abandonados por Jesus, nem pelo Pai. Ausente sim, mas nem tanto. Jesus está conosco como prometeu (14.23) e, mesmo assim, enviará o outro Consolador. Em meio à transitoriedade da vida, da hostilidade do mundo, das implicações e consequências do pecado, temos a segurança e a certeza da presença “dupla” de Deus na pessoa e obra de Jesus e na pessoa e obra do Espírito Santo, reveladas na Palavra e sacramentos. 6) O amor ao mandamento de Deus não deve ser visto como carga a ser carregada por nós, mas como um privilégio, uma bênção, decorrente do amor que Jesus teve para conosco. Guardar os mandamentos, portanto, flui dessa relação natural e espontânea com Jesus iniciada em nosso Batismo. O assunto central dessa perícope é a obra de Deus a nosso favor. Esse texto, na verdade, é cheio de conforto. Em seu sermão sobre essa perícope, Lutero diz: “Aqui, de jeito nenhum, existe ira, ameaça ou terror para os cristãos”; e acrescenta: “Aqui há apenas um sorriso amigo e um doce consolo nos céus e na terra” (LW, 24.111). 7) Há uma passagem no Mishná, o código de leis e tradições dos escribas e fariseus, que diz que, por cada mandamento que guardamos neste mundo, recebemos um parácleto ou defensor no céu. Por cada mandamento que desobedecemos aqui na terra, recebemos um acusador. Por esse motivo, os escribas, com suas obras de justiça, tratavam de obter tantos defensores quanto possível. Nosso texto claramente desmente que tenhamos outros defensores no juízo final. Nossos Parácletos, nossos defensores, mesmo quando pecamos, são apenas dois: o Filho e o Espírito Santo.

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Subsídios litúrgicos

Invocação: Oficiante: Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Congregação: Amém. Confissão e absolvição: O.: As palavras de Jesus – “Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados” – nos dão autoridade e garantia neste momento de confissão e arrependimento. Confessemos, pois, diante do Deus justo e santo, com humildade todos os nossos pecados, os conscientes e os inconscientes. E arrependidos, aceitemos o seu gracioso perdão. O. e C.: Senhor Deus, quem sou eu diante da tua santidade e justiça? Sou apenas uma pessoa dividida ao meio, pois não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Tenho prazer na tua lei, ó Deus, mas ao mesmo tempo me sinto prisioneiro da lei do pecado. Assim dividido estou eu, por isso me sinto desventurado. Nesse estado suplico a tua graça e o teu perdão em Cristo. O.: Agora já não há mais condenação para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida em Cristo te livrou da lei do pecado e da morte.

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Em ti habita o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Esse mesmo vivificará também a ti, mediante o seu perdão e reconciliação. Perdoados estão todos os teus pecados. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. C: Amém! Introito (falado responsivamente): O.: A tua palavra é lâmpada para guiar os meus passos, é luz que ilumina o meu caminho. O.: Ó Senhor Deus, a tua palavra dura para sempre; C.: ela é firme como o céu. O.: A tua fidelidade permanece em todas as gerações; C.: tu colocaste a terra no seu lugar, e ela fica firme. O.: De acordo com as tuas ordens, todas as coisas permanecem até hoje, C.: pois tudo te obedece. O.: Se a tua lei não tivesse sido o motivo de minha alegria, C.: eu já teria morrido de tanto sofrer. O.: Nunca esquecerei os teus ensinamentos, C.: pois é por meio deles que tens conservado a minha vida. Todos: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo; como era no princípio, agora é e para sempre será, de eternidade a eternidade. Amém. O.: A tua palavra é lâmpada para guiar os meus passos, é luz que ilumina o meu caminho. Oração do dia: Ó Deus, doador de tudo o que é bom, por tua santa inspiração concede que possamos pensar naquelas coisas que são corretas e por tua misericordiosa direção possamos realizá-las; por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor, que contigo e o Espírito Santo é Deus e reina sobre nós agora e sempre. Amém.

Bibliografia BLANK, Rodolfo. Juan: Um comentário teológico y pastoral al cuarto evangelio. Saint Louis: Editorial Concordia, 1999. RIDDERBOS, Herman N. The Gospel according to John: a Theological Commentary. Trad. John Vriend. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1997.

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ASCENSÃO DO SENHOR

PRÉDICA: LUCAS 24.44-53

02 JUN 2011

ATOS 1.1-11 EFÉSIOS 1.15-23

Joe Marçal Santos

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Introdução

A unidade temática dos textos previstos está em torno do símbolo da Ascensão do Senhor, bem como da teologia que o sustenta e da qual emergem significados para nossa atualidade. Um contexto mais ou menos secularizado como o nosso traz certo grau de dificuldade para o desenvolvimento de uma liturgia e uma prédica sobre esse tema, pois ao mesmo tempo se trata de um símbolo que toca um imaginário religioso muito presente e difundido. Nas observações que seguem, procuramos destacar elementos do texto bíblico que ajudam a dar um significado sensível e humano à Ascensão. É imprescindível assimilar, na interpretação do evangelho, o texto que lhe dá continuidade: os Atos dos Apóstolos. A perspectiva do próprio texto é a atividade apostólica; a relação com os primeiros versículos de Atos, inclusive oportuniza o enriquecimento de detalhes para a percepção das atitudes dos discípulos – o que poderia fazer paralelo a aplicações pastorais do texto na prédica. A relação com o texto indicado na Epístola aos Efésios ajuda, do mesmo modo, a identificar elementos centrais na interpretação do texto indicado, bem como fornece uma série de motivos relativos ao tema litúrgico.

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Exegese

O texto que conclui o Evangelho de Lucas convida para uma visão de conjunto de todo o evangelho e faz-nos pensar sua mensagem como impulso ao que segue nos Atos dos Apóstolos. Ambos os aspectos se desenham como horizonte de interpretação (intenção e recepção) do evangelho. Numa palavra, nesse texto, o evangelista ressalta que o testemunho da boa-nova é movido pela experiência de encontro com o Cristo vivo e glorificado, cuja memória (e promessa que encerra) é celebrada pelas comunidades de fé em torno do partilhar do pão e da leitura das Escrituras, sob a ótica do que se cumpriu em Jesus, sua crucificação e ressurreição. Como indicam várias introduções, é importante considerar que esse relato é ele mesmo uma leitura ou uma revisão de fontes do testemunho sobre a pessoa e a obra de Jesus (1.1-4), com alguma contribuição pessoal do autor, tanto de conteúdo como de estilo. A intenção de Lucas é mais teológica do que histórica; o que ele tem em vista não é apenas a rememoração litúrgica do que fora realizado em Jesus, mas uma instrução na fé a seus leitores, personalizados em “Teófilo”

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(1.3), seu interlocutor direto. Assim, Lucas zela pela organicidade da narrativa (com omissões e novos arranjos em relação aos outros evangelhos, principalmente Marcos) e, ao mesmo tempo, o faz com uma declarada intenção literária e poética na valoração de alguns temas e, sobretudo, dos discursos de Jesus. Como autor, Lucas parece querer alcançar seus ouvintes de modo semelhante àquele com que o “estranho” que acompanhava os discípulos a caminho de Emaús expunha as Escrituras: fazendo-os arder no coração (24.32). Era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito (v. 44-49) Essa palavra poderia servir de título para este bloco. Nela estão elementos importantes para o que segue nos v. 45s – uma interpretação cristológica das Escrituras na boca do próprio Jesus: a necessidade de cumprimento do que fora “dito/escrito” sob a autoridade das Escrituras. Lucas, seguindo suas fontes, legitima essa interpretação cristológica como autocompreensão de Jesus em sua identificação com a tradição messiânica do Servo de Deus (cf. Lc 4.16-21). Também situa o ensino do conteúdo da fé no Cristo na comunhão eucarística (24.43). No v. 44, a partícula de tempo “a seguir” remete ao que antecede esse momento do relato. Lucas dedica o fechamento de seu relato ao testemunho em torno do encontro com o Cristo ressuscitado, caracterizando a presença de Jesus na situação da partilha de alimentos (24.30,43). Lucas recorre a essa situação “eucarística” para caracterizar o encontro com o Jesus ressuscitado. Esse argumento eucarístico, junto à expressão “lhes abriu o entendimento” (v. 45), remete ao ocorrido no caminho entre Jerusalém e Emaús (24.13-35). A maneira como Jesus se dirige ao grupo de discípulos – “caminha” e “come com eles” – implica também uma comunhão de entendimento, isto é, de uma fé compartilhada e confessada comunitariamente. A partir disso, Lucas relata o que seriam palavras de Jesus, retomando ditos dos profetas para dar expressão à autocompreensão messiânica de Jesus. Essa mesma interpretação cristológica das Escrituras provoca o “ardor no coração” dos discípulos no caminho de Jerusalém a Emaús (cf. 24.32), cuja percepção se dá mediante o partir do pão (24.30). No v. 47, o tema do comissionamento na pregação do arrependimento “em nome do Cristo” converge com Mateus e Marcos. Porém Lucas dedica outro livro para narrar seu desdobramento; na verdade, como vimos, o testemunho apostólico ilumina toda a sua narrativa (1.1-4) e enfatiza o argumento missiológico de sua teologia. A interpretação das Escrituras é selada pela afirmação do v. 48: “Vós sois testemunhas dessas coisas” (cf. At 1.8), cujo comprometimento repercute na comunhão de fé entre os discípulos e ouvintes desse evangelho. Não se trata, porém, de um comprometimento formal. O testemunho a que o evangelista se refere surge da experiência de encontro com o Cristo ressuscitado, o messias revelado, agora sob a promessa (v. 49): “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai”. Essa formulação de Lucas sugere uma teologia do batismo do Espírito Santo, cuja chave de interpretação está na noção de promessa, evocada numa relação trinitária entre o Filho que envia a promessa (Espírito Santo) do Pai.

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Jesus encerra suas palavras (v. 49) ordenando que os discípulos permaneçam na cidade de Jerusalém (cf. 24.33) “até que do alto sejais revestidos de poder”. A permanência é temporalmente indeterminada e apenas sinalizada por um evento que é referência de Lucas ao Pentecostes. A cidade de Jerusalém não é mero registro geográfico, mas um tema teológico para Lucas – a Cidade Santa é o lugar messiânico onde o evangelho inicia e desde onde as nações o receberão. O poder a que se refere Jesus está relacionado à promessa – sugerido pelo aoristo passivo de “revestir” (endushsqe). Isto é, os discípulos devem aguardar até ser objetos de uma ação do Pai, a quem pertence o poder (cf. Bíblia de Jerusalém, até serdes revestidos da força do Alto). (...) enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu (v. 50-53) Segue ao encontro de Jesus com os discípulos outro momento (o v. 50 inicia com uma partícula de tempo indeterminado), no qual o próprio Jesus guia os discípulos a um desvio de Jerusalém ao povoado vizinho de Betânia – um distanciamento que poderia se justificar pela ação que segue: “erguendo as mãos, os abençoou”. São três ações simultâneas: Jesus abençoa e se distancia (sujeito ativo) e é elevado ao céu (sujeito passivo), lugar de onde virá a promessa. Novamente sugerindo uma teologia trinitária, Lucas relaciona a Ascensão de Jesus com a promessa do Espírito Santo, identificando a comunhão dessa promessa com a fé no Cristo, agora colocado sobre todas as coisas, o cabeça de um corpo pleno entre as nações e tudo o que existe (cf. Ef 1.22-23). Por fim, imbuídos da promessa – não ainda revestidos de poder –, os discípulos retornam a Jerusalém e fazem do Templo o lugar da espera pelo cumprimento da promessa de Jesus.

3

Meditação

Tomamos a Ascensão como motivo litúrgico para a interpretação do texto indicado. Isso, contudo, implica uma inversão da estrutura do texto, o que não pode passar desapercebido. O aspecto glorioso da Ascensão, que coroa a aparição do Ressuscitado e entroniza-o como o Senhor, é determinado por uma teologia eucarística, bem como o tema do envio apostólico e o símbolo da promessa. Quer dizer, trazer a Ascensão para um primeiro plano na liturgia e na prédica não deveria comprometer esses referenciais, isolando-a de seu conteúdo teológico. Próprio a uma perspectiva evangélica luterana, o símbolo da Ascensão, com toda a sua glória, tem de ser também interpretado desde uma teologia da cruz. No texto, a Ascensão está relacionada a duas outras ações: a bênção e o distanciamento de Jesus em relação aos discípulos. Numa palavra, poderíamos dizer que se trata de uma solene despedida, significada pelo gesto da bênção como encorajamento para uma presença apostólica no mundo. É o fechamento que Lucas dá a seu relato do evangelho, cujo motivo teológico principal é o encontro do Ressuscitado com seus discípulos: encontro que promove uma comunhão no alimento e no entendimento, em torno de uma nova e cristológica interpretação

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Ascensão do Senhor

das Escrituras, que, por sua vez, reitera o envio apostólico sob a promessa do Espírito Santo. Como ação e sinal do que fora cumprido em Jesus, a Ascensão coroa sua glorificação, agora o Cristo de Deus. Ela testifica a promessa e motiva a esperança. Por isso enche os discípulos de alegria, enquanto aguardam o cumprimento neles do que já fora cumprido em Jesus. O distanciamento de Jesus e a ausência que segue, com a Ascensão, tornam-se fonte de coragem e fé para a comunidade de discípulos. Ela antecipa a promessa de um poder que fará o movimento contrário: do céu para a terra, isto é, o reino de Deus. Num contexto cultural e religioso mais amplo, marcado por uma frequente tendência a uma “teologia da glória” em detrimento de uma “teologia da cruz”, de conteúdo profético e transformador, não deveríamos nos acanhar diante desse evangelho. A experiência que inaugura a fé no senhorio de Cristo é justamente aquela que caminha silente de Jerusalém a Emaús e é surpreendida pelo Cristo vivo, cuja presença é tão humana quanto é o gesto de partir o pão. A Ascensão, como tema teológico e símbolo religioso, sugere um vínculo “entre céu e terra”, que dá sentido à vida comunitária e a toda realização, na qual essa se reconhece. A relação com o alto aponta, por sua vez, para a santidade. O poder que sugere, principalmente porque esse é objeto da promessa de Deus, tem de ser caracterizado como “poder do alto”. Isto é, não é qualquer poder, mas poder de Deus, poder santo e santificador. O que realiza esse poder? Com o que se ocupa? A preocupação de Lucas, de fato, é preparar seus leitores para o que ele desenvolve em Atos dos Apóstolos. Todo o conteúdo do evangelho é, na verdade, motivo para inaugurar uma ação apostólica orientada à pregação para o arrependimento de pecados, visando todas as nações. O texto convoca ao comprometimento com a comunidade que assume para si o projeto de Cristo contra o mal e a injustiça (em seu padecimento) e a realização profética que tem continuidade num pacto pela vida (a ressurreição) e pela justiça (o arrependimento).

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Imagens para a prédica

A Ascensão do Senhor como tal merece o devido destaque na liturgia e na prédica. Ela mesma é uma imagem que deve ser pressuposta. Há todo um imaginário religioso e uma iconografia que a comunidade certamente traz consigo e não poderia ser ignorado. Uma vez que o tema deverá estar sendo explicitado ao longo da liturgia, a prédica deveria dialogar com essas convenções. Para uma abordagem pastoral, sugere-se enfatizar mais o aspecto simbólico e teológico do que a literalidade da Ascensão enquanto evento histórico. Mais do que objeto de fé, a Ascensão deveria ser anunciada como símbolo de encorajamento da fé. A questão central é seu significado para a ação apostólica da comunidade cristã, e é nisso que devem orientar-se quaisquer imagens para a Ascensão. Jesus vai para o mesmo lugar de onde a comunidade espera a promessa de Deus como presença espiritual que a sustenta e a fortalece em sua presença concreta no mundo.

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Ascensão do Senhor

Uma metáfora significativa a ser explorada é a relação céu e terra, pressuposta pela Ascensão. Jesus “é elevado” porque vai para junto do Pai; e desse mesmo lugar a comunidade de discípulos deve aguardar o poder, pelo qual poderá realizar sua vocação apostólica. A “geografia” sugerida pelo texto não é de “natureza” e “sobrenatureza”. Quer dizer, não se trata da crença em um poder sobrenatural, anônimo e impessoal; mas a espera na presença de Jesus junto ao Pai, que é a mesma que deverá revestir a comunidade de um poder reconciliador na missão que recebe do próprio Jesus.

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Subsídios litúrgicos

O motivo litúrgico da Eucaristia está muito presente no texto de Lucas e deveria ser algo também presente no desenvolvimento da liturgia em torno da Ascensão do Senhor. Poderia ser inclusive uma oportunidade para trabalhar a liturgia da Eucaristia desde uma abordagem catequética, considerando-a situação de ensino, tal como no relato é descrito. Normalmente, a explicação da Ceia se reduz à oralidade durante a prédica. Aqui se poderia aproveitar o próprio momento da realização da liturgia eucarística como vivência da situação de encontro com Jesus, procurando alcançar alguns desdobramentos sensíveis de conteúdo teológico desse encontro para a vida comunitária e individual. O que significa a presença de Jesus em nossa vida? O que significa pertencer a essa comunhão e testemunhar sua participação no reino de Deus? De uma forma mais vívida, essa sensibilização poderia também ser feita enfatizando o gesto de partir o pão – que Lucas menciona em 24.30, quando os discípulos reconhecem Jesus. Também pequenas intervenções motivadas pelo/a liturgista poderiam ser feitas, convidando a comunidade a refletir sobre a própria realização da Ceia e seu significado. Outro momento litúrgico que pode ganhar relevo a partir do texto da prédica são a bênção e o envio, enfatizando o que vier a ser ressaltado durante a prédica e o sentido dado ao símbolo da Ascensão do Senhor. Motivar que a comunidade se dirija com a bênção uns aos outros, referindo ao significado da comunhão que ali acontece e enfatizando a necessidade de viver responsavelmente essa comunhão, como expressão da presença de Jesus entre nós. De todo modo, o movimento da Ascensão deveria ganhar essa orientação evangélica de repercutir na presença da comunidade de discípulos no mundo e seu papel na missão dada pelo Cristo.

Bibliografia GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento: v. 1 – Jesus e a comunidade primitiva. 3.ed. São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, 1988. BOYER, Orlando. Lucas, o Evangelho do filho do homem: Comentário sobre o Evangelho segundo Lucas. 2.ed. Rio de Janeiro: O.S. Boyer, 1964.

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7º DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: GÊNESIS 2.4b-15

Dia da Consciência Ecológica

MATEUS 5.13-16 COLOSSENSES 1.15-20

05 JUN 2011

Erní Walter Seibert

1

Introdução

Dentro do ano da igreja, o natural seria falar, neste domingo, sobre os textos do 7º Domingo da Páscoa. Mas, como se celebra no dia 5 de junho o Dia da Consciência Ecológica, vamos tratar desse tema no estudo em questão. Na tarefa da pregação, há certos temas que se impõem. A pregação é o diálogo entre a palavra de Deus, conforme registrada na Bíblia Sagrada, e a realidade. Normalmente, vai-se primeiro ao texto e então se procura a relação com a realidade. Essa é a proposta regular das séries de leituras conforme o ano litúrgico. No entanto, há situações (sepultamentos, casamentos e outras) em que a realidade se apresenta e, depois dela, busca-se um texto adequado para dar resposta às perguntas que a realidade faz. É o caso deste domingo. O tema da ecologia poderia ser proposto pela agenda da igreja. No entanto, fundamentalmente não foi. As mudanças climáticas, as catástrofes naturais e os estudos da ecologia levaram as pessoas a refletir e falar mais sobre os cuidados com o planeta. A igreja já falava sobre a criação, especialmente vinculada ao primeiro artigo do Credo. Com o despertar da consciência ecológica, esse tema passou a ser mais visitado dentro dos círculos eclesiásticos. É o que sugerimos que seja feito neste domingo. Os textos bíblicos sugeridos têm a ver com a história da criação (texto do Antigo Testamento), com uma palavra de Jesus no Sermão do Monte (evangelho) e com a centralidade de Cristo, tanto na obra da criação como na da redenção (epístola). O texto da epístola liga de forma magistral a questão da criação e redenção do universo. O texto do evangelho é tradicionalmente mais utilizado para enfatizar a responsabilidade evangelizadora dos cristãos e da igreja. Mas ele utiliza figuras que podem ser consideradas bastante ecológicas: sal e luz.

2

Exegese

Esse é um dos textos bíblicos mais ricos em significados de nomes e em imagens. Dentro do livro de Gênesis, ele traz uma nova narrativa da criação, em que a ordem dos fatos é um pouco diferente da ordem do primeiro capítulo de Gênesis. Também é empregado um nome diferente para referir-se a Deus. Embora esses detalhes sejam importantes para a discussão exegética do texto, eles não

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7º Domingo da Páscoa

alteram alguns fatos que aparecem ao longo de todo o texto bíblico: “Deus fez o céu e a terra” (v. 4), “o Senhor soprou no nariz dele uma respiração de vida” (v. 7), “o Senhor Deus plantou um jardim na região do Éden” (v. 8), “o Senhor Deus pôs o homem no jardim do Éden para cuidar dele e nele fazer plantações” (v. 15). Em resumo, o texto diz que Deus criou todas as coisas, que o ser humano foi criado no contexto da natureza – ele é parte da natureza – e ele deveria cuidar e cultivar a natureza. Salienta-se, por um lado, a ação de Deus. Por outro lado, é expresso o que se espera da ação humana. Entre as palavras que aparecem no texto e merecem especial atenção escolhemos as seguintes para comentar: 1. “Senhor Deus” – o hebraico utiliza pela primeira vez o tetragrama YHWH, em geral traduzido por “Senhor” ou transliterado por “Jeová” ou “Javé”, ao lado de Deus (Elohim). Elohim é um nome genérico para Deus. Essa palavra também é usada no Antigo Testamento para referir-se a outros deuses. No entanto, a palavra “Senhor” refere-se somente ao Deus da aliança do povo de Israel. Ou seja, não foram deuses ou um Deus qualquer que criou o mundo. O criador do universo é o mesmo Deus que fez a aliança com seu povo e o mesmo Deus que enviou seu filho Jesus Cristo para salvá-lo. 2. “Corrente de água” (v. 6) – algumas traduções utilizam a palavra “neblina”. A expressão pode ser traduzida por “água que brota da terra” ou manancial. Salienta a importância da água na criação. 3. “Pó da terra” (adamah) e “ser humano” (Adam) (v. 7) – em hebraico as expressões “pó da terra” (adamah) e “ser humano” (Adam) são parecidas. No hebraico, na realidade, temos um jogo de palavras que na tradução se perde. Salienta a estreita vinculação entre o ser humano e a natureza. Isso está expresso em outros versículos como Gênesis 3.19 (“Terá de trabalhar no pesado e suar para fazer com que a terra produza algum alimento; isso até que você volte para a terra, pois dela você foi formado. Você foi feito de terra e vai virar terra outra vez.”). Se, de um lado, o texto, pelo jogo de palavras, vincula o ser humano com a terra, por outro lado, em nenhum momento, ele dá a entender que a vida humana depende sobretudo da terra. A terra é o contexto em que a vida humana se dá. No entanto, quem dá e preserva a vida é Deus. No Salmo 104.29-30, isso é ressaltado, utilizando as imagens de Gênesis e mostrando a total dependência do ser humano de Deus: “Quando escondes o rosto, ficam com medo; se cortas a respiração que lhes dás, eles morrem e voltam ao pó de onde saíram. Porém, quando lhes dás o sopro de vida, eles nascem; e assim dás vida nova à terra”. Pode-se ver, também nesse texto, a grande fragilidade da vida humana. O v. 7 também mostra o extremo cuidado que Deus teve com a criação do ser humano. O ser humano é a única criatura cujo processo de criação é descrito com tantos detalhes. Deus envolveu-se na criação do ser humano de forma especial. O verbo utilizado para descrever isso é o mesmo que descreve a ação do oleiro ao confeccionar sua produção em barro.

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7º Domingo da Páscoa

1. “O Senhor Deus plantou um jardim na região do Éden” (v. 8) – A palavra jardim, na Septuaginta, é traduzida por “paraíso”. Paraíso, no Novo Testamento, é uma palavra empregada para designar o “céu” (Lc 23.43; 2Co 12.3). A palavra “Éden”, em hebraico, significa “delícia” ou “prazer”. A compreensão dos termos mostra que o lugar onde o ser humano foi colocado por Deus realmente era excepcionalmente bom. Pode-se dizer que Deus caprichou muito para colocar o ser humano num lugar especial. Tanto o ser humano foi criado de forma especial por Deus como o lugar onde ele foi colocado foi um lugar especial. 2. O lugar do Jardim do Éden é desconhecido. Embora, pela localização dos rios, o lugar descrito fica no Oriente Médio, sua localização exata, no entanto, não é conhecida. 3. As árvores da vida e do conhecimento do bem e do mal são de difícil compreensão. Elas estavam ao alcance do ser humano. Logo depois da perícope escolhida para este domingo, no v. 17, aparece a restrição do uso do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Livre-arbítrio e perda dessa capacidade estavam, aparentemente, em jogo. Quanto disso se revela no relacionamento do ser humano com a criação após a queda em pecado é uma das questões a ser discutida.

3

Meditação

O texto bíblico, por assim dizer, coloca o cenário e os personagens de uma história. A perspectiva de história também está presente. O cenário é a criação, a boa obra da criação de Deus. Os personagens são o autor da criação e o ser humano. A história aqui está no seu começo. Ela começa a se desenvolver. Mas a história também terá meio e fim. Essa perspectiva de história com começo, meio e fim é fundamental para a cultura hebraica e permanece a mesma na fé cristã. O autor ou Senhor da história é Deus. A preocupação ecológica com a natureza tem muitos aspectos, também numa perspectiva bíblica. Por um lado, está a destruição de um legado que Deus deu ao ser humano para cultivar. O ser humano é, muitas vezes, irresponsável no uso dos recursos que Deus lhe colocou à disposição (má mordomia). Poluição é uma evidência disso. Além disso, há o uso desregrado dos recursos naturais, visando apenas o lucro, sem levar em conta a dignidade humana e o amor ao próximo. No entanto, na preocupação ecológica aparecem certas perspectivas que demonstram o descompromisso do ser humano com Deus. Quando se quer preservar o mundo indefinidamente (como se isso fosse possível), pode parecer um empreendimento como o da Torre de Babel. Esse é o outro extremo a ser evitado. Andar com equilíbrio nessa questão não é fácil. Mas o texto de Gênesis fornece alguns indicativos. Um indicativo dá-nos a percepção de história linear. Houve um começo, há um meio e haverá um fim. A história não é cíclica, nem se repete. Nessa perspectiva bíblica de história, no entanto, não há mais a perfeição da criação. O pecado é uma realidade, e seus efeitos são perceptíveis até mesmo na natureza.

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Outro indicativo é o plano que Deus tinha para a ação humana no cenário da criação. O ser humano deveria cuidar da natureza e fazer plantações. No aspecto do cuidado, a preservação da natureza fica bem evidente. Cuidar é preservar. Quem cuida não destrói. Mas há um segundo aspecto que implica uma ação criadora do ser humano na natureza. Trata-se do plantar. Há uma intervenção humana na natureza – plantar –, mas isso é feito com cuidado. A destruição do seu habitat não fazia parte do plano de Deus para a intervenção humana na natureza. A realidade do pecado fez com que o ser humano fizesse intervenções danosas na natureza. A própria natureza sofre por causa do pecado. Finalmente, o grande indicativo aponta para Deus. Deus é o Senhor da história. Ele planejou a criação, executou a criação e, em Cristo, planejou a redenção da criação. Deus, inclusive, pagou o preço dessa redenção em seu Filho Jesus Cristo. Deixamos aqui duas sugestões de sequência de pensamento, que podem ser seguidas para apresentar a prédica sobre esse texto. A primeira seguiria uma linha mais histórica. Sob o tema “A história do jardim que Deus preparou para o ser humano viver”, poderiam ser mostradas, em primeiro lugar, a realidade da criação e a perfeição da criação. Logo a seguir, poderiam ser mostradas a queda em pecado e suas consequências, tanto no ser humano como na natureza. E, finalmente, a obra redentora de Cristo e o novo papel do ser humano redimido como sal e luz. A outra sugestão seria colocar ênfase maior na ação humana prevista para o ser humano na natureza: a primeira seria a ação de preservar, e a segunda, a de cultivar.

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Imagens para a prédica

Se a igreja dispuser de computador e data show, na hora da pregação é possível apresentar cenas, capturadas da internet, de locais paradisíacos do universo e cenas de desastres ambientais. Essas cenas podem muito bem ilustrar os dois aspectos que a Bíblia aponta e que são: a beleza da criação e o efeito nefasto do pecado sobre ela. Dependendo do tamanho da congregação, poderá ser feito um pequeno exercício com jornais e revistas recentes, quando se fazem painéis com fotos e reportagens sobre as realidades da beleza da criação e da destruição da mesma. O Brasil foi assolado, nos últimos anos, por muitas inundações, secas, vendavais, tornados e outros fenômenos da natureza. O que esses acontecimentos falam sobre a questão tratada no texto de Gênesis? Em muitas cidades, como São Paulo e outras, as várzeas dos rios foram ocupadas, o curso dos rios foi modificado e hoje essas cidades sofrem anualmente com enchentes. O rio São Francisco, no Nordeste brasileiro, está sendo transposto para que suas águas sejam levadas a uma região de secas. Essas ações podem ser consideradas como parte do trabalho criativo do ser humano na natureza ou elas podem ser, ao contrário, falta de cuidado com a natureza? Que pensa a igreja local sobre isso?

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7º Domingo da Páscoa

Que oportunidades a igreja tem de ser sal e luz e apontar para Cristo no meio da situação atual em que tanto se fala de mudanças climáticas e catástrofes naturais?

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Subsídios litúrgicos

A obra da criação é mencionada na liturgia de todos os cultos regulares da igreja quando se utiliza qualquer um dos credos históricos de fé da igreja cristã. No primeiro artigo dos Credos Apostólico e Niceno, confessa-se que Deus Pai é o Criador dos céus e da terra. No seu Catecismo Menor, na explicação do primeiro artigo, Martim Lutero faz uma bonita descrição da obra e de como ela se relaciona com a fé cristã. Lutero diz: “Creio que Deus me criou a mim e a todas as criaturas; e me deu corpo e alma, olhos, ouvidos e todos os membros, razão e todos os sentidos, e ainda os conserva; além disso, me dá vestes, calçados, comida e bebida, casa e lar, esposa e filhos, campos, gado e todos os bens. Supre-me abundante e diariamente de todo o necessário para o corpo e a vida; protege-me contra todos os perigos e me guarda de todo mal. E tudo isso faz unicamente por sua paterna e divina bondade e misericórdia, sem nenhum mérito ou dignidade da minha parte. Por tudo isso devo dar-lhe graças e louvor, servi-lo e obedecer-lhe. Isso é certamente verdade”. Essas palavras de Lutero certamente indicam vários aspectos da atitude do cristão diante da obra da criação de Deus.

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DOMINGO DE PENTECOSTES

PRÉDICA: JOÃO 7.37-39

12 JUN 2011

NÚMEROS 11.24-30 1 CORÍNTIOS 12.3b-13

Iára Müller

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Introdução

O Domingo de Pentecostes é uma das datas mais importante da cristandade. Ali o Espírito de Deus transborda, alastra-se, espraia-se, não se contém mais e transforma a realidade. Ali um mistério se inicia, e quem nele crê não se cansa de proclamar. É uma responsabilidade grande pregar nesse dia e fazer com que a comunidade sinta que o Espírito também é concedido a ela para grandes e pequenas transformações. As leituras previstas – Números 11.24-30, 1 Coríntios 12.3b-13 e João 7.37-39 – têm uma relação significativa entre si. Números faz alusão ao tempo de Moisés, tempo em que ainda se vivia em tendas, e como o Espírito pousou sobre os setenta anciãos e depois repousou sobre Medade e Eldade, e esses não pararam de profetizar. Coríntios também faz alusão ao Espírito, que, quando é concedido, leva a profetizar, a servir, a fazer milagre, a falar e a interpretar línguas, dons muito diferentes, mas cada um com um fim proveitoso. E nosso texto da pregação não fala de outra coisa: Jesus anuncia que aquele que receber o Espírito será como uma fonte, que jorrará em favor de um mundo mais misericordioso. Três textos sob medida para o Domingo de Pentecostes, pois se entrelaçam, complementam e dão respaldo coerente para a pregação. É importante saber que há cinco auxílios homiléticos no Proclamar Libertação VI, XII, XVI, XXII e XXVIII sobre esse texto, e sugiro que, ao preparar a pregação, na medida do possível sejam lidos, pois cooperam grandemente para a compreensão do cenário em que ocorre o texto a ser pregado neste domingo. Eles também esclarecem uma questão problemática de tradução do grego, a qual vou me abster de discutir, pois neles há argumentos suficientes para fazer uma opção clara. Fico com a tradução de Lutero e Almeida, como fez o P. Kunert no PL 28.

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Exegese

Há um contexto e uma trama a serem compreendidos aqui. Jesus foi à Festa dos Tabernáculos em Jerusalém, mas não foi sem a preocupação de passar despercebido nos primeiros dias da festa. Foi como clandestino, sozinho. Os discípulos foram antes. A festa durava mais dias, e temos certeza de que esteve por lá, pois até ensinou no templo, mas não atraiu publicidade sobre si mesmo, somente no último dia. Ele sabia que havia pessoas querendo matá-lo.

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Domingo de Pentecostes

Havia cochichos sobre ele. Não há consenso sobre o que falavam de Jesus. Uns o admiravam, outros queriam eliminá-lo. Os que o admiravam baseavamse nos sinais que haviam visto: milagres, compaixão com os necessitados, palavras de sabedoria, partilha, senso crítico em relação ao poder dominante. Os que queriam eliminá-lo temiam que ele liderasse as pessoas consideradas pobres e sem noção (“plebe que nada sabe”), que as influenciasse “mal”, contrariando a liderança confortavelmente acomodada em suas próprias normas. Os líderes religiosos observavam silenciosamente o movimento de Jesus e da população ali reunida. Eles se lembravam da confusão armada por ele na Páscoa, quando expulsou negociantes do templo e confrontou seus líderes. A Festa dos Tabernáculos era a maior e mais sagrada festa para os judeus. Um acontecimento popular alegre, com música, canto e dança; tomava-se o melhor vinho. Durava em torno de sete dias e celebrava a saída do povo do Egito e sua peregrinação no deserto, onde a água era escassa. A festa ocorria depois da colheita. Por isso, com o passar dos anos, acrescentou-se a celebração pela colheita ao significado da festa, daquele tempo em que já não eram mais povo peregrino e tinham água para as plantações, mas nunca em abundância. Os tabernáculos ou pequenas choupanas que construíam para a festa ao redor do templo podiam representar as tendas em que viveram durante a peregrinação no deserto, antes de se fixar, bem como o local onde o povo celebrava a colheita depois do trabalho, antes de existir o templo, no tempo em que já estavam na terra prometida. Mesmo ali havia tempos de seca; assim, a água sempre teve um significado vital para a sobrevivência desse povo. Na Festa dos Tabernáculos, havia todo um ritual em torno da água. Era um ritual de agradecimento pela água e, ao mesmo tempo, um pedido por chuvas abundantes para garantir a vida. Ambos equivaliam ao pedido pela salvação. Eles não conheciam uma fonte de água que jorrasse sem parar, sem deixá-los em situação precária e de desespero frente à perda da colheita e frente à falta de água no geral para cozinhar, banhar-se, higienizar o ambiente, regar as plantas, dar aos animais. Toda a cerimônia lembrava os tempos difíceis de escassez de água, as secas, as plantações destruídas e, consequentemente, a fome. A festa celebrava experiências antigas permeadas de tradição religiosa. A água é personagem de destaque na Festa dos Tabernáculos. A cada manhã, os sacerdotes buscavam água na fonte de Siloé, num recipiente de ouro, e em procissão a levavam ao altar. Misturavam a ela um pouco de vinho (pela colheita), derramando-a em duas bacias também de ouro, enquanto o povo ali admirava aquele ritual tradicional. Isso também acontecia no ápice da festa no último dia. Para eles, a água simbolizava a abundância nos tempos escatológicos. Por isso o grande impacto que causam as palavras de Jesus: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, do seu interior fluirão rios de água viva”. Como se atreve? Tirar a abundância de água do momento escatológico e dizer que, já agora, nele há como saciar a sede? Isso acontece no último dia, o mais importante da festa. Ele aparece, sai do anonimato, expondo-se à raiva dos que o observam e querem eliminá-lo. Berra heresias aos quatro ventos, quebrando o clima de festa e a harmonia e pertur-

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bando o ambiente. Ele insinua que nem o ritual da água tampouco o vinho ali bebido em abundância matam a sede. Só Ele é quem substitui essa água. É muita coragem de Jesus. Para os outros, é um ato de petulância. Com esse enfrentamento, Jesus quer mostrar que não é o templo nem os sacerdotes que determinam e nem garantem isso, mas Deus. E a água já está dentro daquele que acreditar em Jesus e em sua proposta. Que não é lá no futuro, mas agora, se crerem em Deus que haverá abundância. É uma cena, sem dúvida nenhuma, dramática. Alguém berrando coisas que não fazem sentido! Toda essa festa, sua liturgia, sua alegria, a confluência do povo demonstravam a esperança pela vinda do Messias. E Jesus numa aparição dramática dá-se como substituto disso tudo? Ele rompe com a religião oficial e reafirma ser o enviado pelo Pai. Jesus não só critica o ritual do templo, que não saciava mais a sede do povo, nem sua necessidade de solidariedade, paz e sentido de vida, mas se coloca, ele mesmo, como a fonte que sacia e não seca nunca. Ainda dá a possibilidade de cada pessoa ser uma fonte para outros. Ele diz isso na perspectiva do recebimento do Espírito para aqueles que nele cressem. Cabe ainda explicar que não se sabe bem a que passagem bíblica Jesus quis se referir quando disse: “Quem crer em mim, como diz a Escritura...”. Comungo da mesma opinião da maioria, de que ele se refere à Escritura (Antigo Testamento) no geral, onde estão profetizadas sua vinda e sua missão, sua boa- nova.

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Meditação

É interessante explicar para a comunidade que essas palavras de Jesus vêm logo depois do texto em que guardas são enviados pelos sacerdotes e principais fariseus para prender Jesus, pois ele fala abertamente que ele é o Cristo, enviado pelo Pai, que eles não conhecem, e isso desinstala e ameaça a tradicional festa. É um perigo para a tradição, que está acostumada há anos a fazer tudo da mesma forma, ser liderada sempre pelos mesmos critérios. Isso cega a comunidade para outras formas de fazer, para outros jeitos; impede de ver a essência, marginaliza algumas pessoas. Para resolver a questão, os principais sacerdotes e fariseus mandam prendê-lo para evitar novo tumulto. Tudo isso ocorre em meio à festa. E o que acontece? Jesus fala as palavras da fonte, e o texto que vem a seguir mostra os guardas voltando de mãos vazias. Não prenderam Jesus. Dá-se um diálogo: – Por que não o trouxestes? Será que também vós fostes enganados por ele? – pergunta a liderança da época. E os guardas atordoados diante da autoridade, com medo por ter descumprido uma ordem e por admiração pelas palavras de Jesus, respondem: – Jamais alguém falou como este homem. Aqui é dado a perceber que a palavra de Jesus é loucura, poucos a entendem. Mas os humildes entendem: os que não estão no poder, os submissos, que foram fazer um serviço sem saber bem por que e voltam sem tê-lo feito, porque também foram impactados pela fala e, mais ainda, pela autoridade da fala de Jesus.

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Domingo de Pentecostes

Quem crer em Jesus recebe o Espírito e dele fluirão rios de água. Primeiro temos que beber da fonte de Jesus para então nos tornarmos fonte para outros. É um serviço de solidariedade e amor. Não se compra nem se vende a água dessa fonte, somente se recebe e se dá. Jesus ensina que quem nele crer recebe uma fonte tão poderosa, que é impossível estancá-la. Ela jorra sem esforço nosso, é dádiva. Por isso a distribuímos também, pois é abundante. Não é algo que diminui quando dividimos, como um bolo ou dinheiro, mas aumenta! Quanto mais gente beber dessa fonte, mais abundância haverá na terra. Abundância de solidariedade, misericórdia e justiça. Eu entendo que Jesus estava furioso à vista dos rituais e de toda a festa que promovia a plenitude somente para o momento escatológico; fazia-a depender dos sacerdotes e, ainda por cima, deixava muitos de fora dessa alegria. Eu entendo Jesus se levantando e berrando alto que há outra maneira de viver. Que existe uma vida que brota sem esforço, da graça de Deus. Neste Domingo de Pentecostes, é vital que a comunidade sinta que o Espírito também é concedido a ela, para grandes e pequenas transformações. Que de cada pessoa é possível fluírem rios de água viva. A pregação pode beneficiar-se também da ideia da importância da água para nossa vida, da percentagem de água que perfaz o planeta e da percentagem de água que compõe o corpo humano. Não é difícil comparar toda água que habita ao nosso redor e dentro de nosso corpo com rios que podem fluir de nós se bebermos da fonte chamada Jesus. Outra possibilidade também é falar o que ocorre com a falta de água em nosso corpo – a desidratação – e compará-la com a escassez de espiritualidade, com a vida sem sentido, sem solidariedade. Pentecostes é a festa de beber da água de Jesus e deixar-se transbordar com o mesmo Espírito de misericórdia e amor.

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Imagem para a prédica

Na casa de meus avós, havia dois poços. Um no jardim na frente da casa, mais perto da cozinha, e outro nos fundos do terreno, quase na divisa com os vizinhos. Ambos estavam circundados por muitos bambus e árvores frondosas, estavam abrigados pelas sombras abundantes. Éramos proibidas de abrir a tampa dos poços e brincar sentadas nele. Aprendemos a respeitar a importância e a autoridade dos poços. Jogar algo dentro? Jamais! Nunca podíamos buscar água no poço por conta própria, somente acompanhar um adulto nesse serviço. Jogava-se um balde leve, de latão, com uma longa corda lá para baixo e puxava-se de volta um balde pesado, cheio de água. O balde subia balançando, derramando o excesso, e meus avós ainda derramavam um pouco da água do balde de volta, para não derramar e desperdiçar. Depois passavam a água para o balde que ficava sempre na cozinha. Era incrível olhar para dentro do poço: aquela escuridão, aquele silêncio e frescor restaurador, e lá no fundo um brilho se movia. Nossos avós nos seguravam pela camiseta nessa hora.

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Domingo de Pentecostes

Essa experiência durava breves segundos, mas era muitas vezes repetida e não cansava, não saciava a nossa curiosidade de ver o fundo do poço. A água dos poços era doce, e a água do poço dos fundos era mais fresca ainda, quase geladinha. O poço da frente era o mais usado. E quando chegava o verão com a seca, com a escassez de água, recorria-se ao outro poço. Tínhamos que caminhar um pouco mais, e era mais pesado para eles levarem o balde de volta à cozinha. O poço dos fundos tinha mais água. Ao lado dele ficava uma cisterna que recolhia a água que fluía abundantemente dele, para evitar o desperdício. Ao lado da cisterna ficava o tanque de lavar roupas. E aquela era também a água dada aos animais. Durante o inverno, quando chovia muito, o poço transbordava, alagando toda a região do tanque e cobrindo a cisterna, que desaparecia com tanta água. Lembro de meu avô dizendo que aquele poço nunca os deixara na mão, sem água. Até vizinhos vinham ali pegar água no verão. Era grátis, ninguém pagava, pois era compreendida como dádiva. Durante o auge do verão, ao redor do poço dos fundos, tudo estava seco, não havia abundância de água, a cisterna estava vazia, ma no fundo do poço sempre havia água. Era necessário ter uma corda mais longa para o balde alcançar a água, mas o poço nunca secou. Assim gosto de imaginar a fonte que Jesus diz que fluirá dentro de nós se crermos nele. Uma fonte inesgotável de onde tiramos para dar aos outros.

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Subsídios litúrgicos

Oração do dia: Deus querido e misericordioso, ajuda-nos a entender o presente que tu nos dás. Ajuda-nos a viver da tua graça abundante e a entender melhor a tua Palavra. Que possamos beber de ti e dar aos outros de beber de nossa própria fonte de fé e misericórdia, que vem como um lençol de água, que não se vê, mas nos sustenta. Que a tua palavra nos hidrate e nos faça terra frutífera, seara abundante. Amém. Confissão: Aqui chegamos, Senhor, na tua presença como comunidade. Conscientes de nossas falhas e erros. Pedimos-te paciência com nossa falta de cuidado com nossa espiritualidade. A ela não dedicamos tempo em nossa agenda, para ela não buscamos recursos como para outras situações. Ainda bem, querido Deus, que ela não depende só de nós, mas jorra de ti. Perdoa-nos pelo mau uso da água do planeta, pelo desperdício de algumas pessoas que lavam calçadas com mangueira, que poluem os rios e mares, envenenando nossa própria moradia. Confessamos nossa inabilidade de lidar também com a saúde de nosso corpo, o templo do teu Espírito, que necessita da água para ser saudável. Acolhe-nos como tua criação, como teu sonho e não por causa de nossa conduta. Assim te pedimos em nome de Jesus, a fonte, o doador dos rios que fluirão de dentro de nós. Amém.

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Domingo de Pentecostes

Bênção: Que o Senhor nos abençoe com o discernimento sobre o uso da água. Que o Senhor nos abençoe com a constante nutrição de nossa fonte, a fim de que ela transborde para os outros. Que o Senhor nos abençoe com seu manancial de misericórdia. Assim nos abençoe o triúno Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

Bibliografia NEWSON, Carol A. Women’s Bible Commentary. Kentucky: Westminster/John Knox Press, 1992. PROCLAMAR LIBERTAÇÃO volumes VI, XII, XVI, XXII e XXVIII.

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PRÉDICA: MATEUS 28.16-20

1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

GÊNESIS 1.1-2,4a 2 CORÍNTIOS 13.11-13

(TRINDADE) 19 JUN 2011

Antonio Carlos Ribeiro

1

Introdução Foi primordialmente por causa de sua visão missionária que Mateus se pôs a escrever seu evangelho, não para compor uma ‘vida de Jesus’, mas para oferecer orientação a uma comunidade em crise quanto à maneira como deveria entender sua vocação e missão. David J. Bosch

O fundamento da missão é o evangelho, do qual as igrejas são meios. E a missão visa aos outros, que estão aí permanentemente. Sua presença interpela, pede respostas, força o sair-de-si. Fazer missão pensando apenas em si mesmo nega a eclesialidade. Igreja, para Lutero, é criatura da Palavra (Creaturae Verbi). Não é fim, mas instrumento de anúncio da salvação. Ela “não é nem o sujeito e nem o objeto da missão, mas é seu meio, o espaço libertado em que se celebra a presença de Deus no lado inverso do mundo. Não é o lugar em que nasce, mas apenas aquele em que ressoa o anúncio”, ensinou Westhelle. A autoridade é de quem aceita a missão. Destinada a todos. A autoridade da igreja está a serviço do carisma. Se a igreja não exerce o carisma, ele é dado a outras igrejas. Salvação é conceito teológico fundante, igreja é derivado. Toda autoridade foi dada para o exercício do anúncio a todos. Privilegiar um grupo revela insegurança, visibiliza as demais populações a serem alcançadas pela missão e mostra as muitas trincas no suposto monólito eclesial, feito de espaço e anúncio. Se o espaço sufocar o anúncio, esse não progride e outro espaço é criado. Crescem as igrejas em que o anúncio pede espaço, em que cabem todos, categoria da qual a salvação não abre mão. O Evangelho de Mateus reflete, por essa razão, um subparadigma de interpretação e da experiência de missão da igreja primitiva. Esse novo parâmetro não era necessário para a original comunidade de fé, da qual vieram os seguidores de Jesus. Mas sinalizava que algo diferente estava a cobrar a atenção da comunidade ensimesmada. Mesmo a ruptura da comunidade joanina, que precisou reinventar a fé cristã a partir da Síria, denuncia a comunidade que se nega ao objetivo que empresta sentido à sua existência. Com disposição e resiliência, resistimos à realidade dualista, insistindo na dualidade de levantar os véus (apokalypse) um a um, percebendo o segundo a partir da recusa de reconhecimento do primeiro. Talvez por essa razão, Harnack

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tenha brincado com a ideia de que essas palavras poderiam ser um acréscimo posterior ao evangelho, no esforço de entender as intenções de Mateus. Os cristãos da comunidade mateana parecem ainda não ter se entendido como membros de uma religião separada em contraposição ao judaísmo, mas ainda se entendem primordialmente como um movimento de renovação dentro dele. O público a que Mateus se dirige já tomou conhecimento da vigorosa expansão missionária entre os gentios, mas se recusa a reconhecê-la porque ela acontece fora de sua experiência e do alcance de sua visão. Ao abrir mão do direito de ser destinatários da pregação de Jesus, por causa de sua conduta, os judeus acabaram por reconhecer a propagação do evangelho, que se faz à revelia de sua legitimação. O discurso ressentido é um reconhecimento. O texto de Gênesis 1.1-2, 4a mostra o Espírito que paira sobre o caos e põe em marcha um processo de ordenamento que resultará na criação. Já no início do processo, o mesmo Espírito contempla o que foi criado e intervém aprimorando. Na segunda carta aos cristãos de Corinto (13.11-13), o autor recomenda que a comunidade se console, seja do mesmo parecer, viva em paz, e impetra a bênção pedindo a comunhão do Espírito Santo.

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Exegese

A pregação está baseada no texto da chamada grande comissão (Mt 28.1820), a última perícope do primeiro evangelho. A circunstância é o exato ponto de passagem da pregação de Jesus sobre o reino dos céus e a resposta comunitária de estruturação para o atendimento à ordem de anunciar o evangelho e discipular. Conquanto a comunidade cristã nascente lute com a premência de afirmar-se frente à comunidade judaica, da qual saiu, não conseguiu ainda lidar com suas definições mais básicas, incluídas as primeiras noções de sua eclesialidade. É, ao mesmo tempo, uma comunidade à margem da sociedade, perseguida pela sinagoga e pelo império, que vive em tensão com os adversários. A comunidade de Mateus tem os privilegiados, que vivem nas cidades maiores, enquanto nas periferias e no campo estão os trabalhadores, os escravos e as mulheres. A relação com a etnia, que força a saída dos membros que não têm ascendência judaica e a criação da comunidade joanina, é a mais forte expressão desse momento. A força da comunidade joanina brota da necessidade de “reinventar” a fé cristã da periferia do mundo político e religioso da época, ao elaborar a ruptura com a comunidade judaica, marcada pelas decisões de Jâmnia. E se consolida com essa última ruptura com a comunidade cristã de Jerusalém. A pregação sobre a grande comissão possibilita a reflexão sobre a experiência de rejeição. Por isso o teologúmeno elaborado pela comunidade joanina para lidar com a separação traumática foi viver confiado no amor do Pai e ancorado nessa experiência. O discipulado (matthai, mattenai, mattanaya) é dádiva concedida a quem ama e tem no amor o único instrumento para viver a vida. Essa intervenção surge na experiência de fé de um funcionário da alfândega de Cafarnaum, o qual pela fluência em falar e escrever línguas teve a possibilidade de coletar e elaborar a experiência de sua comunidade, marcada por

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tradições judaicas, principalmente na liturgia. Por ser provavelmente um judeu de nascimento, Mateus esforça-se para enquadrar Jesus nesse ambiente – que se opõe ao judaísmo oficial –, buscar forças para crer e perseverar na esperança. As ações de Jesus nesse ambiente de traço judaico propõem uma pedagogia da inclusão e uma inversão de expectativas. A Pax Romana é o pano de fundo político mantido por mais de quatro séculos, que garantiu a ausência de maiores conflitos armados na região. Ela se estabelece pela supressão de todas as liberdades, autonomias e governos, pela atuação das legiões que atuavam como um rolo compressor. O aperfeiçoamento constante de armas, escudos, armaduras e catapultas tornava as legiões uma força militar frente à qual não havia resistência possível. O outro modo de opressão era a cooptação de nobres e ricos, que se posicionavam ao lado dos romanos para assegurar seus interesses e manter privilégios. Desse modo, sempre assumiam posições favoráveis aos romanos, em primeiro lugar, conciliando com os interesses religiosos do templo, em segundo, e por último, contrárias ao povo, no mais das vezes. Essas são as configurações sociopoliticoeconômicas que compõem a conjuntura do ambiente na Judeia no fim do primeiro século, época da redação do evangelho.

3

Meditação

Fazer discípulos de todas as nações, batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinar todas as coisas que Deus tem ordenado (Mt 28.19-20). Essa é, segundo Joachim Jeremias, uma fórmula litúrgica tardia, usada aqui pelo evangelista para animar a comunidade em meio à crise de indefinições do fim do primeiro século. Hoje as igrejas estão no início de um novo século, também enredadas na crise própria do tempo e se indagando se recorrem às respostas tradicionais, que já não serviram antes, ou se ousam ao menos aproveitar a mesma fórmula para se perguntar sobre a autoridade que o texto lhes atribui. Se as perguntas básicas desta época – como nos dirigir ao público?, como motivar os jovens?, como falar uma linguagem que alcance as pessoas?, como provocar impacto? – forem deixadas para o segundo momento, é possível voltar à pergunta inicial. Como voltar ao sentido primeiro de nossa identidade eclesial? Não o sentido confessional, o primeiro mesmo: a salvação que fomos incumbidos de anunciar. Ele é primeiro e dá sentido porque é matricial. As igrejas, todas elas, não escolhem a salvação que vão anunciar. Elas foram reunidas na força do Espírito Santo, como confessamos nos credos, para o anúncio da salvação. A propósito, se não servirem a essa tarefa, estão como sal que não salga, já que existem e receberam um mandato precipuamente para esse fim. No atendimento ao chamado, num segundo momento, descobrem seu próprio papel e, após analisar a realidade, o sentido que poderão produzir dentro dela. Perguntar sobre isso ajuda a dimensionar a forma como lidamos com a mensagem de Cristo e os seres humanos comuns, feitos alvos primordiais do

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amor apaixonado de Deus. E como o evangelho é uma realidade que não podemos interpretar ao próprio gosto, podemos ao menos nos perguntar sobre os parâmetros pelos quais vamos inculturá-lo em nosso ambiente, os esforços que fizemos e os que estamos dispostos a fazer, sem perder de vista as exigências para testemunhá-lo no pluralismo cultural brasileiro. A história de nossa igreja – da comunidade local à denominação –, da qual somos herdeiros precisa ser entendida e estudada, mas precisamos descobrir nosso posicionamento frente a ela. Voltar a ela, rever sua história e confrontar esse dado como quem somos ajuda-nos a perceber qual a nossa contribuição neste momento. Se pertencemos a uma história tão própria que não toca nas questões reais de nosso mundo, temos pouca chance de ter interlocução com ele. Ou nos sentiremos tão bons e o veremos com tanto desprezo, que não teremos o que dizer ou, muito aquém do dinamismo da sociedade, diante da qual nos sentimos impotentes para corresponder. O decréscimo do número de membros em nossa igreja nas últimas décadas, em contraposição ao crescimento populacional e, na última década, pelo desenvolvimento econômico de nossa sociedade, gera certo desconforto, sugerindo a pergunta: o que está acontecendo? Isso nos faz indagar sobre questões já colocadas: a afirmação e defesa desse passado tão fortemente não dificulta nosso diálogo com a sociedade, a realidade multicultural e os que buscam respostas às questões de nosso tempo? Será que o balizamento dado pela visão de mundo (cosmovisão) das comunidades do interior nos dá condições de enfrentar os centros urbanos? No caso das igrejas étnicas, com a consciência de grupo mediada pela etnia, mais comum no interior, ou sucumbiu à consciência de classe, como nas cidades, em que a etnia não altera a condição social? Isso gera um conflito: se no interior a consciência de grupo é orientada pela consciência de classe, nas cidades o discurso sobre a imigração parece a defesa dos interesses de classe da elite econômica dos membros da mesma igreja. E esse conflito perpassa organismos como presbitérios, diretorias e funções, por vezes denunciados e contestados, mas com marginalizações. Sem identificar esse debate com o do conjunto da sociedade, como em igrejas grandes, vivemos em dois universos que só estão próximos confessionalmente. E o diálogo é dificultado pela dessemelhança. Nas assembleias sinodais e concílios, essa perspectiva prevalece, por causa do número maior de delegados, com visões próprias das regiões de onde vêm, configurando a postura defensiva do seu modo de vida, que dá resultados naquela região. Uma situação bastante comum é vermos a defesa apaixonada dos cultos em alemão, sob o argumento de que faz sucesso. Apenas com os mais velhos. Esse conflito se agrava com o fluxo migratório cada vez mais intenso para os centros urbanos, sem debate e sem mediação, no qual, com a luta pela sobrevivência e a busca de novas identidades no novo ambiente, muitos acabam por romper com os velhos vínculos. Parte significativa da “perda” de membros acontece nesse processo. As demais igrejas também perdem membros, mas ganham outros. Ao mesmo tempo, as linhas do crescimento populacional da sociedade

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e da membresia das igrejas distanciam-se no gráfico, a primeira para cima e a segunda para baixo. Ao debater a autoridade para a pregação do evangelho, a igreja quer ser pública, mas não as debate; por isso também seu papel fica tão diminuído nos centros urbanos. Parece que as respostas que desenvolveu servem para outro tempo e lugar, e não para as pessoas e o tempo em que estão. Isso levou o pastor Gottfried Brakemeier, ex-presidente da IECLB, a afirmar: “Urge romper as cercas que a comunidade evangélica ergueu em torno de si”, para em seguida indagar: “Se é verdade que a graça de Deus fundamenta a comunidade, por que há tantos entraves para a filiação de gente que não comunga a mesma origem étnica, a mesma classe social, o mesmo nível cultural? A padronização do ‘estilo de vida’ de uma comunidade redunda em exclusão das pessoas que nela não se sentem em casa nem encontram espaço. Onde estão, por exemplo, os jovens, os intelectuais, os negros luteranos?” Para a que a igreja exerça sua autoridade sobre a sociedade, precisa de uma membresia que se projete sobre o conjunto da sociedade, com o objetivo de estabelecer trocas profundas, pelas quais dê de si mesma e receba os estímulos e interpelações que a sociedade lhe traz. Dizendo de modo existencial: para exercer a autoridade – colocar-se a serviço –, é preciso sair de si, afirmar-se, sofrer contestações e buscar novas sínteses. Numa palavra: experimentar trocas, reencantarse com o mundo e suas possibilidades para voltar a si e propor-se uma nova forma de realizar a mesma tarefa. A autoridade toda dada no céu e na terra e transmitida por Jesus à igreja é aquele primeiro mesmo, o ligado à salvação, o universal, que vale para todo o mundo e frente ao qual as demandas de uma igreja particular ficam relativizadas. Se já superamos a tentativa de demonstrar que nossa igreja é “a igreja”, precisamos apoiar-nos no básico da compreensão eclesial do Reformador: Igreja é criatura da Palavra. Sua palavra só fará sentido se ela estiver bem plantada em sua realidade e não perder a dimensão de que seu anúncio é universalizável – possível de aceitação em todo o mundo habitado –, e somente assim será a igreja à qual foi dada toda a autoridade.

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Imagens para a prédica

Para refletir sobre a autoridade dada à igreja universal e como ela se traduz na estrutura da minha “igreja”, trago um conceito do filósofo Friedrich Schiller, mostrando uma situação similar no campo da arte: Como na realidade é impossível encontrar um efeito estético puro (pois o homem não pode escapar à dependência das forças), a excelência de uma obra de arte pode apenas consistir em sua maior aproximação daquele ideal de pureza estética e, por grande que seja a liberdade alcançada, sempre iremos abandoná-la com uma disposição e uma direção particular. Quanto mais geral for essa disposição e quanto menos limitada for a direção que um determinado gênero de arte e um produto particular dele dão à nossa mente, tanto mais nobre será aquele gênero e tanto mais excelente será tal produto. Isso pode ser experimentado em obras de diversas artes e em diversas obras da mesma arte.

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Subsídios litúrgicos

Saudação: O celebrante deve dizer à comunidade reunida que, na tradição cristã, estamos celebrando o tempo de Pentecostes, época em que a igreja celebra seu nascimento, já que ela existe pela ação do Espírito Santo, que produz comunhão entre os santos. Assim somos chamados a nos deixar mover pelo Espírito e envolvernos nos diversos movimentos que ele provoca à nossa volta. O/a celebrante afirma: É o Espírito que nos faz descobrir que somos igreja de Jesus Cristo no mundo. Mas como estar no mundo supõe uma localização, concluímos que somos igreja de Jesus Cristo no Brasil. Na alegria desse compromisso, saudemo-nos uns aos outros. Amém. Confissão de pecados: Estamos aqui, Senhor, para admitir as circunstâncias em que temos dificuldade de nos sentir pessoas humanas comuns, alvos do mesmo amor que destinas a outros filhos e filhas teus. Nosso egoísmo e arrogância nos impelem a desconsiderar, invisibilizar e não admitir as pessoas em nossa comunidade como alvos privilegiados de teu amor. Perdoa nosso olhar seletivo, nossa suposição de saber, nossa vaidade que exige reconhecimento. Envolve-nos na tua comunhão, suscita desejos de encontro e troca e dispõe-nos ao encontro do diferente, para que com calma e paciência possamos redescobrir o igual. Ajuda-nos, confiantes em teu amor e graça, a viver na esperança e sob o teu cuidado. Tem piedade de nós, Senhor! Oração do dia: Deus, que no Espírito nos faz ser comunidade, ajuda-nos a encontrar e integrar pessoas que estão em busca de teu amor. Em nossa particularidade, dános coragem para esse gesto tão universal! Ajuda-nos a criar espaços de troca e possibilidades de participação na comunidade. Ajuda-nos a dialogar mais e de maneira mais profunda com as situações de nosso cotidiano e a buscar melhores respostas às questões de nosso povo. Amém. Oração final: Neste momento, a comunidade é convidada à oração. As palavras de Dietrich Bonhoeffer, ao se perguntar sobre sua autenticidade no testemunho, devem inspirar a pensar em nós mesmos, e nos disponhamos a ir ao encontro do outro, como vamos diante de Deus: Quem sou eu? Este ou aquele? Sou hoje este e amanhã um outro? Sou ambos ao mesmo tempo? Diante das pessoas um hipócrita? E diante de mim mesmo um covarde queixoso e desprezível? Ou aquilo que há em mim será como um exército derrotado, Que foge desordenado à vista da vitória já obtida?

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Quem sou eu? O solitário perguntar zomba de mim. Quem quer que eu seja, ó Deus, tu me conheces, sou teu. E como o Espírito é huah e pneuma, ambos vento que a tudo movimenta, deixemos que as crianças distribuam balões vermelhos, cheios de ar.

Bibliografia BOSCH, David J. Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão. Trad. Geraldo Korndörfer e Luís M. Sander. São Leopoldo: EST, Sinodal, 2002. JEREMIAS, Joachim. Abba y el mensaje central del Nuevo Testamento. Salamanca: Sígueme, 2005. MAZAROLLO, Isidoro. Evangelho de Mateus. Rio de Janeiro: Mazarollo, 2005. STANLEY, David M. Evangelho de Mateus. Trad. Ana Flora Anderson e Gilberto Gorgulho. São Paulo: Paulinas, 1975. STANTON, Graham N. A gospel for a new people. Louisville: Westminster, John Knox, 1993. WESTHELLE, V. Missão e poder – o Deus abscôndito e os poderes insurgentes. Estudos Teológicos/EST, 31 (2): 183-92, 1991.

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PRÉDICA: MATEUS 10.40-42

2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JEREMIAS 28.5-9 ROMANOS 6.12-23

26 JUN 2011

Ângela Lenke

1

Introdução

Entre o texto de Jeremias e de Romanos temos o texto que aponta o fio principal de nossa reflexão. Jeremias, um profeta fiel e corajoso para trazer o povo de Deus exilado na Babilônia para junto de Deus, revela que é um profeta que não dá falsas esperanças, aponta para o pecado e a volta a Jerusalém por causa da misericórdia de Deus. Romanos 6 traz a mensagem muito clara de que estamos sob a graça de Deus; portanto o pecado precisa ser abandonado. No passado, fomos servos e escravos do pecado, mas agora é preciso andar como verdadeiro discípulo de Jesus, que segue a verdadeira justiça e não a justiça do pecado. O antigo pecado está morto pela obra de Cristo. Mateus 10.40-42 é a mensagem carinhosa e confortante de Jesus para aqueles que servem a ele como Senhor e Salvador. Ele é o profeta principal.

2

Exegese

V. 40 – “Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.” A boa-nova desse versículo é que receber Jesus Cristo significa receber Deus e a salvação que ele oferece. Receber Jesus Cristo é o mais importante. Ele vem em primeiro lugar, porque, recebendo-o, recebe-se Deus. Quem cumpre a tarefa do fazer conhecido o nome de Jesus Cristo são os discípulos; assim encoraja seus amados discípulos, afirmando quão nobre é a sua vocação. O fato de receber os discípulos revela a intimidade de Jesus com seus discípulos. Jesus os encoraja, mostrando-lhes que quem os recebe tem a salvação. Assim, Jesus mostra aos discípulos quão elevada posição ocupam. O verdadeiro discípulo sustém as relações com Deus e aponta que a cruz que levam é fonte de bênção, apesar das perseguições, abdicações e sofrimentos (2Tm 1.7-9a). V. 41 – “Quem recebe um profeta na qualidade de profeta receberá a recompensa de profeta; quem recebe um justo na qualidade de justo receberá a recompensa de justo.” A figura do profeta, desde o Antigo Testamento, é respeitada. Para nós ministros, não é novidade que no Antigo Testamento o profeta era o elo entre o povo e Deus. Não apenas transmitia a mensagem de Deus para o presente, mas com autoridade anunciava o futuro, julgava as ações do povo em forma de denúncia. No Novo Testamento, o profeta tem o ministério mais elevado após os apóstolos. Jesus classificava João Batista como o maior dos profetas, sendo que

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João Batista nem fez milagres e suas profecias foram poucas. A profecia é dom, em que a autoridade e a orientação vêm diretamente do Espírito Santo. Os profetas eram instrumentos especiais de anúncio e denúncia. No texto, Jesus declara que receber um profeta significa receber a mensagem de Deus e deixar-se corrigir por sua palavra (2Tm 3.16s). Naturalmente, os apóstolos eram profetas; entretanto, outros também exerciam papel profético. Receber um profeta significa receber os benefícios vinculados ao profeta. Os escritos judaicos registram: “Aquele que recebe em sua casa um homem sábio ou presbítero é como se tivesse recebido o shekinah (a presença de Deus)” [...] “Aquele que fala contra o pastor fiel é como se falasse contra o próprio Deus” (CHAMPLIN, p. 370). Provavelmente, Jesus usa a expressão “Quem recebe um justo, no caráter de justo, receberá o galardão de justo”, para que as pessoas não tenham somente o cuidado em receber ministros ou profetas, mas todas as pessoas de bem, independentemente de seu serviço, classe social ou profissão. Assim, Jesus inclui todo servo e discípulo fiel de seu reino. O galardão prometido a quem recebe profetas ou justos refere-se às bênçãos neste mundo, mas principalmente ao mundo vindouro. V. 42 – “E aquele que der até mesmo um copo de água fresca a um desses pequeninos, na qualidade de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá a sua recompensa.” Considerando a região seca e quente de Israel, era uma atitude hospitaleira quando um judeu dava um copo de água fria em vez de água normal ou quente. Isso envolvia todo um cuidado com a água. Quem era considerado importante recebia água fria para saciar sua sede. Jesus chama seus discípulos de “pequeninos”, expressão usada pelos rabinos para com seus alunos. Ele sabia da fraqueza e do medo de seus discípulos. É uma forma carinhosa, simpática e misericordiosa de chamar assim a quem se quer bem. “Todo aquele que lhes mostrasse misericórdia, que lhes prestasse algum serviço, ainda que pequeno, ajudando-os no caminho e aliviando-lhes a sede, não deixaria de ser notado por Deus e ser abençoado física e espiritualmente” (CHAMPLIN, p. 371). Nota-se, nesse texto de Mateus 10.40-42, uma escala descendente, segundo Champlin: 1. Receber um profeta; 2. Receber uma pessoa justa; 3. Receber um “pequenino”. Entretanto, analisando o texto, a escala seria: 1. Receber Jesus Cristo; 2. Receber um profeta; 3. Receber uma pessoa justa; 4. Receber um “pequenino”/discípulo. O galardão (= a recompensa) será dado àqueles que receberem e servirem a Jesus Cristo, porque é em seu nome que os discípulos agem e, recebendo a ele, recebe-se o próprio Deus.

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2º Domingo após Pentecostes

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Meditação

“Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (Mt 10.40). Todos nós que somos os fiéis discípulos e testemunhas de Jesus Cristo são englobados nessa expressão de proteção e encorajamento de Jesus Cristo. Jesus sabia que muitos não receberiam seus discípulos, que muitos iriam apontar dedos acusando-os (Mc 14.66s). Nos primeiros séculos da fé cristã, não foi diferente. Muitos cristãos não foram recebidos, muitos morreram. Os anos passaram e, ainda hoje, é um desafio, especialmente nas cidades, ser recebido para evangelizar, para ter um pouco de atenção das pessoas que são ou não cristãs. Devemos levar em consideração que essa palavra de Jesus também pode significar que é necessário recebê-lo em nosso coração e em nosso convívio familiar. Quem receber um profeta, uma pessoa justa ou algum “pequenino” discípulo tem a promessa da recompensa. “Quem recebe um profeta na qualidade de profeta receberá a recompensa de profeta; quem recebe um justo na qualidade de justo receberá a recompensa de justo” (Mt 10.41). Temos aí algo muito delicado a tratar enquanto Igreja Evangélica de Confissão Luterana. O ser humano aspira por poder, saber e ter. A competição é ensinada desde cedo e parece ser tratada como normalidade. As crianças são educadas a fazer para poder receber. A teologia da prosperidade vinga mundo afora. As pessoas estão carentes e acham que tudo se resume numa troca. Acontece que Deus não faz trocas, não negocia. E muitos ainda pensam que receber alguém renderá um benefício no futuro. Deus salvou-nos por graça, e receber alguém em seu nome é resultado da gratidão. O galardão, ou seja, a recompensa é andar diante de Deus com a consciência e o coração limpos e certo de que está praticando seu discipulado. A recompensa será como eu receber e tratar quem vem em nome de Deus. Como reconhecer e receber um enviado de Deus? Será que essa não é a pergunta de milhões de pessoas? Sempre houve profetas, mas entre eles houve profetas falsos. O texto de Jeremias 28. 5-9 esclarece que a veracidade da profecia é comprovada com o tempo: “O profeta que profetizar paz, só ao cumprir-se a sua palavra, será conhecido como profeta, de fato, enviado do Senhor” (Jr 28.9). Jesus nos alerta: “Acautelai-vos dos falsos profetas” (Mt 7.15); “...levantar-se-ão muitos falsos profetas” (24.11); “Surgirão falsos cristãos e falsos profetas” (Mc 13.22). Também o apóstolo Paulo orienta: “...tais sãos falsos apóstolos, obreiros...”. O verdadeiro profeta e cristão que deseja ser recebido e precisa entrar nos lares e nas comunidades cristãs é aquele que ensina o puro e reto evangelho, para o qual basta somente a Escritura, somente a graça, somente Jesus Cristo e somente a fé. Muitas pessoas já me disseram que não abrem as portas de suas casas por causa da insegurança, especialmente nas cidades. Cada ovelha deveria conhecer seu pastor. Cada ovelha precisa receber o alimento que sua igreja oferece para que outros profetas (e podem ser falsos) não os afastem com outras ovelhas para outros pastos. Enquanto isso, há também pessoas tão frias e materialistas, que já

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deixaram seu coração e sua fé esfriarem, que nem ouvem ou fazem de conta que não ouvem quando Jesus bate à porta e deseja ser recebido em seu coração e em suas casas. Onde está a insegurança? Parece que até queremos estar seguros de que mandamos quando Jesus pode ou não entrar em nossa vida e na vida das outras pessoas, esquecendo que Deus veio ao nosso encontro e nos alcançou por graça. Havemos de esperar outra recompensa? Havemos de servir para receber recompensa? A Escritura nos diz: “... mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23b). Não receber um dos “pequeninos” de Jesus é desobedecer à sua ordem, o que implica pecado, e pecado é tentar viver escondido de Deus, como fez Adão. E a Escritura adverte: “... o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14). Somos alcançados pela graça de Cristo, que morreu por nós. Então, como ficam nossas ações? O cristão sabe que “a fé é ativa no amor” (Gl 5.6). Por isso nossas ações sempre precisam ser fruto de nossa fé em Jesus Cristo, que nos ensinou como servir através dos diferentes dons. Todo cristão é chamado para servir como resposta de sua alegria em saber que foi salvo gratuitamente através de Cristo. Um gesto pequeno, como dar um copo de água, feito sem a intenção de receber recompensa, pelo contrário, feito agindo em nome de discípulo de Jesus Cristo, “Ele que vê tudo” saberá dar a recompensa. Enquanto isso, não precisamos ficar ansiosos. Façamos tudo, em palavra e em ação, com moderação (Fp 4.5; 2Tm 1.7), e em nome de Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus Pai (Cl 3.17). “E aquele que der até mesmo um copo de água fresca a um desses pequeninos, na qualidade de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá a sua recompensa” (Mt 10.42). Ainda hoje temos realidades de seca, como da Palestina, e mesmo que moremos em área privilegiada nem sempre temos coragem e disposição para dar um copo d’água a alguém que vem de fora. Cada pessoa na comunidade é chamada a servir e a dar do que tem. A água é o elemento básico, mas na comunidade nem sempre temos pessoas dispostas a dar um pouco do que possuem em prol do reino de Deus, do anúncio do evangelho. A vida perde sua dignidade na frente de nossos olhos, sem que compartilhemos o que temos e sentimos. É necessário que nos perguntemos que recompensa os pais e as mães têm recebido dos filhos em sua velhice? Que recompensa têm recebido as crianças amáveis, que são curiosas por natureza como um dia fomos, que nascem sem saber se terão carinho, cuidado, proteção, alimento e educação? Que recompensa tem recebido a pessoa honesta que vota, que paga os impostos, que conduz sua família com fidelidade? Se olharmos a situação de cada pessoa/cidadão, com certeza podemos concluir que falhamos, que não conseguimos por nossas forças e capacidades controlar as carências e a corrupção, saciar a miséria e aliviar o sofrimento de tantas pessoas e da criação de Deus. Assim chegamos à conclusão de que somos, sim, instrumentos de justiça e misericórdia neste mundo, mas a verdadeira recompensa é a vida eterna.

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Imagens para a prédica

* Um dos textos que ajudará a ilustrar essa pregação é a parábola que Jesus conta em Mateus 25.31- 46. Esse texto aparece só no Evangelho de Mateus, assim como o evangelho indicado para o dia: Mateus 10.40-42. * O livro Um olhar para o Vale 3, organizado por Osvino Toillier, tem uma boa reflexão que poderá ajudar na mensagem do culto (veja p. 27).

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Querido e misericordioso Deus, confessamos que deixamos a desejar em receber tua palavra e os que o Senhor envia para nos anunciar o evangelho. Deixamos a desejar quando, no dia-a-dia, esperamos recompensa. Somos fracos ao tentar enganar as outras pessoas, querendo sempre vantagens para nós mesmos. Pecamos quando não servimos em amor, quando negamos ajuda e quando não amamos quem o Senhor confiou aos nossos cuidados e para nossa companhia. Pecamos quando não recebemos nossos familiares e irmãos da tua igreja. Falhamos quando fechamos nosso coração para ti, quando ousamos o poder e a autossuficiência. Ajuda-nos, Senhor! Tem misericórdia de nós e perdoa os nossos pecados. Amém. Bênção: O Senhor derrame sobre ti a sua paz. O Senhor te dê sensibilidade para perceber os dons ofertados a ti. O Senhor te ensine a amar sem esperar recompensa. O Senhor te ensine a servir com justiça e misericórdia. O Senhor te acalme quando estiveres eufórico, achando que tudo depende de ti. O Senhor te ofereça segurança e fé. O Senhor te carregue quando estiveres cansado. O Senhor seja tua fortaleza e porto seguro nas horas de dor, dúvida e sofrimento. O Senhor seja a fonte de alegria da tua vida e a razão para servi-lo. O Senhor seja contigo em todos os teus caminhos, para todo o sempre. Assim te abençoe o Pai, e o Filho, e o Espírito Santo. Amém.

Bibliografia CAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. V. 1. São Paulo: Ed. Hagnos, 2002. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. V. 4. São Paulo: Ed. Hagnos, 2002. TOILLIER, Osvino (org.). Um Olhar para o Vale: 100 Mensagens de Fé, Esperança e Amor. 3.ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004.

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3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: ROMANOS 7.15-25a

03 JUL 2011

ZACARIAS 9.9-12 MATEUS 11.16-19,25-30

Kurt Rieck

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Introdução

A tensão vivida por Paulo, quando, embora desejando o bem, acaba fazendo o mal, provoca a pergunta: “Quem me livrará do corpo dessa morte?”. Como resposta aponta para a solução: “Jesus Cristo, nosso Senhor”. Assim se encerra o texto de Romanos indicado para a pregação deste 3º Domingo após Pentecostes. Com a solução apontada, somos convidados a olhar para o texto de Zacarias 9.912, que lembra a vinda do Rei, justo e salvador, que pactua uma aliança selada com sangue. Quando lemos Zacarias com o olhar cristão, pensamos em Jesus e em sua entrada triunfal em Jerusalém. O capítulo 11 do Evangelho de Mateus pergunta: “Jesus é de fato o Messias?” (PL 32, p. 221). E Jesus se apresenta afirmando ser um com o Pai, chamando toda a responsabilidade sobre si. O relativismo humano tem em Cristo a sua saída.

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Exegese

O texto divide-se em dois blocos: v. 14 a 20 e 21 a 25. Ambos começam apontando para a lei de forma positiva. As mesmas coisas são escritas duas vezes, iniciando e concluindo de forma semelhante. 2.1 – Discussão em torno da lei Paulo reflete sobre o papel da lei no propósito de Deus. Qual é o lugar da lei no discipulado cristão? A lei é espiritual (Rm 7.14), boa (Rm 7.16), santa (Rm 7.12), contudo incapaz de nos tornar santos. Ela conscientiza do pecado (Rm 3.20) e condena o pecador (Rm 3.19). Os pecadores são justificados por Deus, não por observar a lei, mas pela fé em Cristo (Rm 3.27 e 28). Os cristãos não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça (Rm 6.14). Em torno desse contexto gira a palavra escolhida para a pregação. 2.2 – A pecaminosidade inata Entra em cena a pessoa fazendo uma autoanálise e se pergunta: como posso entender a minha forma de agir? Paulo está olhando para dentro de si, desnudando a sua própria alma e convidando o leitor a fazer o mesmo. Vem à tona o “eu” humano:

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“Não faço o que prefiro, e sim o que detesto” (v. 15); “Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero” (v. 19). A pecaminosidade inata é para Paulo uma questão de autoconhecimento: “sabemos” (v. 14), “eu sei” (v. 18) que a lei é espiritual, mas o ser humano é carnal (sarkinos). Todas as pessoas são oprimidas por sua natureza egocêntrica. Na Confissão de Augsburgo, Artigo II: Do Pecado Original, lemos: “Ensina-se, outrossim, entre nós que, depois da queda de Adão, todos os homens naturalmente nascidos são concebidos e nascidos em pecado, isto é, que desde o ventre materno todos estão plenos de concupiscência e inclinação más e, por natureza, não podem ter verdadeiro temor de Deus e verdadeira fé em Deus” (Livro de Concórdia, p. 29). 2.3 – Conflito interior “Por um lado, não faço o que desejo e, por outro, (faço) o que odeio (v. 15b). De semelhante forma, o que faço não é o bem que desejo. Pelo contrário, o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo (v. 19). (Ele) Paulo tem plena consciência de seu ‘eu’ dividido: existe um ‘eu’ que quer fazer o bem e detesta o mal, e existe um ‘eu’ que é pervertido e que faz o que ele odeia e não faz o que ele gostaria. O conflito está entre o desejo e a realização: o desejo existe, mas a capacidade de fazê-lo não. ... É o conflito de uma pessoa regenerada, que conhece, ama, opta pela lei de Deus e anseia por ela e, no entanto, descobre que por si mesma não consegue cumpri-la. ... Somente o poder do Espírito Santo habitando nele poderia mudar as coisas.” (STOTT, p. 254) O “eu” que faz o contrário é o pecado que habita em mim (v. 17 e 20). Sarx (v. 18) é o “eu” caído, o impostor. O “eu” verdadeiro é o “eu” que ama, que deseja o bem e que odeia o mal. “O conflito é entre minha mente renovada e minha “carne”, sarx, que ainda não se renovou” (ib., p. 257). Na reflexão do apóstolo Paulo, verificamos a existência de: 1. Dois egos (v. 21): “Tanto o mal como o bem estão presentes ao mesmo tempo, pois ambos fazem parte de uma personalidade caída, mas convertida” (STOTT, p. 256). 2. Duas leis (v. 22 e 23): A lei do pecado está continuamente guerreando com a lei de minha mente. 3. Dois clamores do coração (v. 24): Miserável, “desventurado homem que sou! “Quem me livrará do corpo dessa morte?” Trata-se de um grito de clamor por socorro, que brota do fundo da alma e que termina com um ponto de interrogação. O segundo clamor encerra com um ponto, expressando confiança e gratidão: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor”. 2.4 – A saída “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor.” Deus fez, através de seu Filho, aquilo que a lei não tinha poder para fazer. Assim esse conflito tem uma

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saída: Jesus Cristo. O título completo dado a Jesus é usado aqui como em outras quatro vezes mencionadas no livro de Romanos (1.4; 5.21; 6.23; 8.39). “Lei e graça são princípios opostos que refletem a antiga e a nova ordem, de Adão e de Cristo. ... Estar debaixo da graça é reconhecer a nossa dependência da obra de Cristo para a salvação, e assim ser justificados ao invés de condenados – e, portanto, libertados” (STOTT, p. 216). Lembramos o que nos diz a Confissão de Augsburgo no Artigo IV: Da Justificação: “Ensina-se também que não podemos alcançar remissão do pecado e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossos, porém que recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu por nós e que, por sua causa, os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eterna” (Livro de Concórdia, p. 29 e 30). Jesus Cristo é divino, não foi dominado pela “carne”. Ele, a lei de Deus viva, se faz gente. Ter Jesus como Senhor é acreditar ser ele a orientação certa para a vida. Aceitar a salvação em Jesus Cristo é crer nele. Confessamos que ele é o nosso Senhor. Viver essa confissão nos torna outro. Isso é possível porque Jesus foi – e é – o Filho de Deus. Por ele nós também passamos a ser filhos de Deus. Cristo fazendo parte de nossa confissão altera a direção de nossa vida. Nele acontecem o morrer do velho homem e o nascer de um novo homem (Jo 3). Esse fato desencadeia um processo de santificação, operado pela ação do Espírito Santo, que interfere no conflito humano anteriormente descrito. O cristão continua pecador; no entanto, encontra-se num processo de santificação, em que a lei do amor incondicional, pela ação do Espírito Santo, opera a transformação necessária. A graça de Deus torna-se o agente transformador do ser humano.

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Meditação

Confiar na lei é para nós cristãos uma falsa segurança. Olhar para as próprias deficiências é essencial. Desejar o bem e fazer o mal é inerente ao ser humano. 3.1 – Outros pensadores Os contemporâneos de Paulo pensavam assim: Sêneca, filósofo romano, falou de “nossa impotência nas coisas necessárias”. Ovídio, o poeta romano, escreveu: “Eu vejo as coisas melhores e as aprovo, porém sigo as piores”. Os judeus afirmavam que em cada pessoa há duas naturezas, duas tendências, dois impulsos. Era convicção judaica de que Deus fez os seres humanos com impulso bom e impulso mau. No entanto, ninguém tem por que sucumbir ao impulso mau. Para eles, era uma questão de escolha (BARCLAY, p. 111). Há uma festa hinduísta chamada Semana do Holi, ou festival das cores, em que os participantes se banham de multicores, comemorando o triunfo do bem sobre o mal.

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Podemos ampliar esse horizonte, pesquisando como outras seitas e religiões entendem esse conflito humano. 3.2 – Perguntas de aproximação Paulo elabora esse conflito dizendo: “Não faço o que prefiro, e sim o que detesto”(v. 15). “Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero” (v. 19). A essência humana continua a mesma, e para refletir sobre a atualidade da questão, fazemos as seguintes indagações: 1. Como podemos definir a luta interna do mal contra o bem? 2. O que nos faz agir dessa forma? 3. Descreva momentos em que isso ocorre ou ocorreu em sua vida. 4. Qual é a solução para essa incoerência? 3.3 – Poimênica Numa visita pastoral, conversei com uma pessoa que passou por uma depressão profunda. Pedi a ela que descrevesse seus sentimentos quando estava em depressão. Ela relatou de uma luta interna do mal contra o bem. O mal tentava sufocar o bem. Pensamentos positivos em luta com pensamentos negativos. Consciente do valor da vida, constantemente era tomada pelo desejo de se suicidar. Como explicar tais sentimentos? Eles estavam longe de ser dominados. 3.4 – Contrição e graça Fazendo uma autoanálise, verificamos que todos trazemos “defeitos de fábrica”. É a marca do Adão que está em todos. Há falhas em nosso modo de ser que, sem desejar, voltamos a praticar. Tornamos a cometer erros já confessados. As falhas que residem em nossa constituição são mais fortes do que o nosso desejo de não falhar. A transformação desses defeitos requer avaliação profunda. Aconselhamento pastoral é essencial. Faz-se, em muitos casos, necessário buscar orientação psicológica. Os processos de conscientização, arrependimento e transformação se dão graças à ação do Espírito Santo, que nos convence do mal que cometemos. Por vezes, nada mais resta senão dizer: Espírito Santo, tenha misericórdia de mim pecador e atue em mim tal qual o oleiro faz com o barro, refazendo os pedaços quebrados. Nunca seremos tão bons quanto sabemos que deveríamos ser. Essa é a nossa condição humana. Mas essa afirmativa não serve de justificativa para nos acomodarmos em nossos erros. No capítulo 12, versículo 9 de Romanos, Paulo diz: “Detestai o mal, apegando-vos ao bem”. Trata-se de uma atitude necessária e consciente. Já no capítulo 6, versículo 14, lemos: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça”. “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 5.25), que a graça terminará vencendo. A graça de Deus estende-se aos filhos pródigos que retornam para casa. Esse amor perdoador refaz relações e promove a salvação.

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Imagens para a prédica

4.1 – Introdução O conflito entre o bem e o mal é da humanidade. É fácil encontrar um fato relacionado ao tema, que ocorreu na semana, para ilustrar a relevância da temática. A conexão chamará a atenção dos ouvintes ao que será anunciado. 4.2 – Leitura do texto a) Falhamos Sabemos o que é errado. Há o mal involuntário, o mal explicado, o mal interpretado, a incoerência, as máscaras. Na família, essa realidade se desdobra. O lar é constituído a partir do amor que une duas pessoas. Os filhos são esperados com muita expectativa. É nela que exercitamos a mais profunda intimidade. Nesse ninho de amor se desenvolvem os maiores atritos. Brigamos com aqueles que nos são mais caros. Verifique a abordagem mais conveniente para tratar do conflito interior que existe em cada ser humano. b) Lei e evangelho Fale acerca da função da lei. Ela aponta, dá limites, orienta, deseja estabelecer regras em favor da vida. Disserte sobre a função do evangelho. O evangelho não é legalista. O evangelho atua na essência do ser humano. Ele age na estrutura de cada ser a partir da graça de Deus. c) Jesus salva “Quem me livrará do corpo dessa morte?” A salvação reside em Cristo. Jesus não só sabe o que é o mal, mas também corrige o mal. Ele não oferece uma crítica, e sim uma ajuda. Ele estende a mão e nos resgata desse conflito. 4.3 – Conclusão No Evangelho de João, capítulo 3, versículo 17, lemos: “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”. Por intermédio da aceitação de Cristo experimentamos a graça transformadora que atua na essência humana.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Palavras que nos ajudam a dar relevância à confissão de pecados: “À medida que alguém oculta o que faz, também oculta partes de seu próprio ser; nega-se

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a revelar sua identidade aos outros. O grande perigo é que termina por desconhecer-se: produz-se uma crise de identidade que costuma ser acompanhada de intensa angústia. A culpa deve ser enfrentada de forma realista e construtiva, com atitudes que impliquem confissão e restituição” (Daniel Schipani). Oração: Senhor Jesus, falamos contigo sobre a nossa fragilidade. Queremos o bem, desejamos que as relações sejam permeadas de amor, almejamos a paz. Quando nos damos conta, promovemos o mal, não conseguimos aceitar o outro com as suas diferenças e acabamos causando inúmeras intrigas. Venha com a força do Espírito Santo transformar aquilo que a nossa humanidade não consegue. O perdão é a contrapartida da confissão; sem um, o outro não existe. A confissão é um salto no escuro em busca de compreensão e ajuda. Anúncio da graça: “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3.17). Oração do dia: Em tuas mãos colocamos os pensamentos inquietos, os sentimentos confusos, a vida. Em teu colo colocamos a cabeça cansada, os frutos do trabalho, as preocupações. Sob teu manto colocamos o corpo desprotegido, a alma machucada, o espírito abalado. Em tuas mãos colocamos os amigos, os não-amigos, a vida. Amém! Bênção: Que o caminho seja brando a teus pés. Que o vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe sobre o teu rosto. Que as chuvas caiam serenas em teus campos. Que Deus te guarde na palma de suas mãos. Que nossas vozes proclamem a fé no Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!

Bibliografia BARCLAY, William. Romanos. Buenos Aires: Asociación Editorial La Aurora, 1973. LEENHARDT, F. J. Epístola aos Romanos. Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, 1969. STOTT, John. Romanos. São Paulo: ABU Editora, 2000.

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PRÉDICA: MATEUS 13.1-9,18-23

4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 10 JUL 2011

ISAÍAS 55.10-13 ROMANOS 8.1-11

Marcia Blasi

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Introdução

Estamos vivendo o tempo após Pentecostes ou Tempo Comum. Esse não tem como auge uma grande celebração, nem é marcado por inúmeras datas festivas. É o tempo em que somos convidados a perceber a ação de Deus nas coisas comuns da vida diária: no acordar e no dormir, no cantar e no chorar, no trabalho e no descanso, no semear e no colher. Neste domingo, os textos bíblicos levamnos a perceber que a criação inteira se alegra com a libertação do povo de Deus, que o Espírito Santo nos proporciona força e coragem para andar no caminho de Deus e que, por causa de tudo isso, somos convidados a continuar o trabalho do Semeador, semeando sem medo e com o coração cheio de esperança e amor. O texto do profeta Isaías, capítulo 55, versículos 10 a 13, relata que a fartura e a abundância da natureza são sinais daquilo que Deus fez, faz e continuará fazendo. O profeta anuncia a mensagem de esperança que vem de Deus: a palavra de Deus sempre é criativa e produz resultados. A salvação prometida vai ser alcançada. Na Carta aos Romanos (8.1-11), o apóstolo Paulo afirma que a vida das pessoas que creem não pode ser dominada pela lei, que, muitas vezes, é injusta. Suas vidas devem ser guiadas pelo Espírito Santo, que vive nelas e as liberta para viver o amor e construir novas relações baseadas nesse princípio. O texto também afirma que a salvação já foi alcançada por Jesus e, da mesma maneira como Deus ressuscitou Jesus, Deus também pode salvar-nos dessa vida morta que vivemos. O texto do Evangelho de Mateus previsto para a pregação neste final de semana procura responder aos acontecimentos descritos nos capítulos anteriores do livro de Mateus: Jesus veio para trazer nova vida, mas muitas pessoas rejeitaram seus ensinamentos. Mateus 13.1-9,18-23 relata a parábola do semeador e sua explicação. Não fazem parte de nossa perícope os v. 10-17. Nesses versículos, Jesus afirma que os segredos do reino dos céus são revelados somente para as pessoas que já aceitaram Jesus, nesse caso, os discípulos, e que as parábolas não seriam entendidas pelo povo. Há muita discussão em torno do motivo que levou Jesus a contar parábolas. Para um grupo, as parábolas (seriam) são contadas ao povo e entendidas somente como histórias bonitas, enquanto outro grupo acredita que o poder das parábolas é de justamente ajudar o povo a entender o que é o reino de Deus. Há também controvérsias entre os exegetas quanto à explicação da parábola. Algumas pessoas afirmam que ela é original, tendo sido elaborada por Jesus, enquanto

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outras pessoas afirmam que a explicação é um acréscimo desenvolvido nas primeiras comunidades. A parábola do semeador é encontrada também em Marcos e Lucas. Das muitas parábolas contadas por Jesus, somente duas contêm uma explicação. Essa é uma delas.

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Exegese

V. 1 – Naquele mesmo dia, saiu de casa: a expressão “mesmo dia” é uma continuação do relato anterior de Mateus 12.46-50, em que Jesus está numa casa, muito provavelmente a casa onde ele fica quando está em Cafarnaum, e recebe a visita de seus familiares. Jesus saiu dessa casa e foi ensinar à beira do lago da Galileia. O espaço limitado da casa também limitava o ensino. A margem do lago possibilitava o ensino a um grupo maior de pessoas. V. 2 – A multidão é tão grande, que ele precisa entrar num barco e ensinar de lá, enquanto as pessoas ficam na beira do lago. V. 3 – Jesus usou comparações παραβολαϊς: parábolas são a maneira favorita utilizada por Jesus para ensinar a multidão. Jesus não utilizou conceitos teológicos abstratos, como fez o apóstolo Paulo, mas fez uso de experiências bem concretas para ensinar sobre Deus e seu reino. Uma pessoa saiu para semear: trata-se de uma tarefa comum, bem conhecida de seus ouvintes. V. 4 – Sementes caem à beira do caminho e são comidas por pássaros. V. 5-6 – Sementes caem onde há muita pedra e pouca terra. Semente nasce logo. O sol queima as plantinhas que não têm raízes profundas. V. 7 – Sementes caem no meio de espinhos, que sufocam as plantas. Os espinhos ou outras plantas são mais fortes. V. 8 – Sementes que caem em terra boa produzem fruto em abundância. V. 9 – É um chamado: Prestem atenção. Pensem. Isso não é somente uma historinha. Abram suas mentes e corações e descubram o que isso significa para a vida. V. 18 – Jesus quer que seus discípulos aprendam a interpretar as parábolas e por isso lhes dá o que podemos chamar de uma “aula inicial”. V. 19-23 – Semente significa palavra de Deus, e os tipos de solo são as pessoas que recebem ou não as sementes. O convite de Jesus na parábola tem três passos: primeiro, ouvir a palavra; o segundo é segurá-la firme, deixar criar raízes, deixar crescer; o terceiro é produzir bons frutos.

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Meditação

A parábola do semeador é talvez uma das parábolas mais conhecidas. Quem sabe você cantou no Culto Infantil ou canta hoje com as crianças a canção que diz: “O passarinho comeu a semente que caiu na beirada do caminho...” Ou então aquela outra canção: “A tua palavra é semente, e tu és o semeador, o meu coração é a terra que tu semeaste, Senhor”.

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Justamente por ser tão conhecida, é um desafio pregar sobre essa parábola. A pergunta que precisamos fazer é: o que a parábola do semeador ainda tem a nos dizer? Ou então, o que a parábola do semeador tem a nos dizer em 2011? Esse texto já foi trabalhado em PLs anteriores com diferentes enfoques. Neste estudo, gostaria de enfatizar o desperdício de sementes que acontece na parábola como sendo algo bom. Esse desperdício tem tudo a ver com a graça de Deus. Deus semeia graciosamente em nós a semente-palavra e confia que possamos fazer as escolhas certas para que as sementes do amor, da justiça e da solidariedade possam brotar dentro de nós, crescer e produzir mais sementes para ser repartidas. Acredito que cada um e cada uma de nós tem dentro de si todos os tipos de solo. Somos tudo ao mesmo tempo, e Deus sabe disso. Segundo a teóloga feminista Sallie McFague, uma parábola é uma metáfora expandida. Para ela, parábola não é alegoria, em que o significado é encontrado fora da história, nem é uma história-exemplo, como a história do bom samaritano, em que todo o significado é encontrado na história. Segundo McFague, o significado da parábola é encontrado somente dentro da história, mas não é limitado por ela (Mc FAGUE, Sallie. Speaking in Parables, p. 6). O extraordinário de uma parábola é que ela utiliza algo extremamente comum e, através de um certo exagero, ela nos leva a uma nova compreensão. Seguindo essa lógica, podemos constatar um exagerado descuido do semeador, que joga sementes para todo lado, confiando que alguma vai cair em solo fértil. Parábolas nos fazem pensar em nossa história e em nossa vida. Parábolas começam despretensiosamente. Vamos ouvindo-as e, quando menos esperamos, estamos dentro delas, e dali de dentro não temos mais como escapar. Eis um dos grandes méritos de Jesus como pregador, como anunciador do reino de Deus. Em nossas comunidades, entra muitas vezes em questão se as atividades que desenvolvemos darão certo. Fazer estudos bíblicos nos bairros vai trazer mais gente ao culto? Destinar verbas a uma sala de costura que vai atender pessoas de fora da comunidade não é jogar dinheiro fora? Construir um jardim de oração e um labirinto ao lado da igreja vai trazer mais gente para a comunidade? Não deveríamos construir ali um estacionamento rotativo, que daria lucro certo? Perguntas como essas são comuns. Por um lado, é muito difícil para presbitérios apoiarem projetos que não visem ter algum lucro financeiro como resultado. Por outro lado, ministros e ministras estão tímidas/os em suas iniciativas. Nesse contexto, a parábola do semeador tem muito a contribuir, pois facilmente constatamos que, na parábola, há um desperdício enorme de sementes. Quem, nos tempos de hoje, com a “agricultura de precisão”, ainda joga sementes para todo lado? Acredito que ninguém. A maioria das sementes utilizadas nas lavouras custa muito caro e não pode ser desperdiçada. Técnicos fazem as contas de quantas sementes podem cair das máquinas para garantir uma colheita farta. Na parábola, nada disso acontece. Sem fazer distinção entre os tipos de solo, a pessoa que semeia vai semeando. Algumas sementes caíram “à beira do caminho e foram comidas pelos pássaros (aqui poderia também ser explorada a pergunta se alimentar os pássaros é algo ruim). Outras sementes brotaram, mas por causa das pedras ou dos espinhos não cresceram. Em todo caso, seguindo a

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lógica comum, o semeador não cumpriu sua função corretamente: ele desperdiçou sementes. Acaso não é também isso que Deus faz? Deus “desperdiça” seu amor por nós. É preciso deixar claro também que, em nenhum dos casos acima, a não-produção tem algo a ver com a semente. As sementes são boas; são as forças alheias que não as deixam crescer. Olhando novamente para nossas comunidades e também para nosso ministério, pergunto se não estamos muito cuidadosas/os em lançar sementes. Com nosso excesso de cuidado com a semente, deixamos de semear, e muito solo fértil não está recebendo sementes. Essa parábola desafia nossa maneira de compreender o jeito que trabalhamos, servimos, pregamos, estudamos, a maneira como nos reunimos em culto. Será que devemos “desperdiçar” o batismo em crianças cujas famílias não participam da comunidade? Será que devemos “desperdiçar” o pão e o vinho com um grupo de pessoas pecadoras? Será que devemos “desperdiçar” nosso tempo fazendo cobertinhas para os bebês em situação de pobreza? Será que devemos “desperdiçar” a boa palavra em presídios? Será que plantar flores não é “desperdiçar” a contribuição das famílias da comunidade? Essa parábola anima-nos a arriscar, a tentar coisas novas, a não nos preocupar tanto com o resultado, mas a confiar que, acima de tudo, Deus está agindo. O importante aqui é o processo. Deus está preparando o solo e convida-nos a jogar sementes. Cedo ou tarde, elas brotarão, e essa é a esperança que nos move. Cada uma e cada um de nós pode, e precisa, participar dessa tarefa. “Ainda que a olhos humanos tantos trabalhos pareçam inúteis e infrutíferos, por mais que na aparência insucesso siga insucesso, Jesus está cheio de ânimo e de confiança: a hora de Deus vem e com ela a bênção duma colheita que supera todo desejo e compreensão. Apesar de todo insucesso e de toda oposição, Deus fará emergir dos inícios sem esperanças o fim magnífico que ele prometeu” (JEREMIAS, Joachim. As Parábolas de Jesus, p. 52-53).

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Imagens para a prédica

Sugiro relacionar o solo onde a palavra cresce com Gênesis 3.7, que diz: Do pó da terra o Deus Eterno formou o ser humano. Somos pessoas feitas de terra, e todos nós temos o potencial de germinar sementes. Seria interessante levar até o púlpito uma bacia de vidro com terra e algumas sementes, pedras, espinhos. Explore um pouco essa imagem, mas, acima de tudo, reconte a parábola do semeador com muito empenho. Uma parábola bem contada já é em si uma profunda pregação. Jesus não só contou uma história; ele quis que cada pessoa caminhasse pelo caminho, semeando, experimentando sensações. Jesus também queria que as pessoas fossem terra, espinhos, pedras, pássaros. Isso é o que faz uma parábola. Você pode proporcionar às pessoas que o ouvem um momento único. Confie que cada pessoa vai descobrir na parábola algo que fale para ela naquele momento. Enfatize o desperdício como algo bom, algo gracioso, algo esperançoso. Reparta com a comunidade exemplos de “desperdício” que trouxeram e trazem vida. Tenho certeza de que cada uma e cada um de vocês têm exemplos

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para contar. Aqui pode ser muito salutar fazer uma ponte com o tema do ano: Paz na criação de Deus – esperança e compromisso.

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Subsídios litúrgicos

Invocação: Em nome de Deus, que cria e recria a boa semente. Em nome de Jesus Cristo, que espalhou as sementes neste mundo. Em nome do Espírito Santo, que cultiva e protege a boa semente para que possa germinar e crescer. Hinos: A tua palavra é semente – Hinos do Povo de Deus 2 – n° 380; A boa colheita – Hinos do Povo de Deus 2 – n° 490. Oração geral da igreja: Espírito de paz, enche toda a terra com tua presença renovadora. Que as lideranças de todas as nações possam governar com maturidade e justiça. Que todas as nações possam desfrutar de tranquilidade e que seus filhos e filhas sejam benditos. Que os povos e seus rebanhos e manadas estejam livres de moléstias. Que os campos possam produzir fruto abundante e que a terra seja fértil. Que a face de todos os inimigos possa voltar-se em direção à paz. Resposta cantada: Espírito de unidade, oramos por tua igreja. Enche teu povo com toda a verdade e paz. Onde há corrupção, torna-nos pessoas puras. Onde há erros, corrige-nos. Onde há faltas, transforma-nos. Onde há justiça, fortalece-nos. Onde há necessidade, sustenta-nos. Onde há divisão, aproxima-nos uns dos outros e umas das outras. Resposta cantada: Espírito de amor, zela pelas pessoas que passam a noite acordadas em vigília ou em pranto e guarda com teus anjos aquelas pessoas que dormem. Atende as pessoas doentes, provê repouso às pessoas cansadas, concede coragem às mulheres prestes a dar à luz, conforto as pessoas que sofrem e abençoa as pessoas que estão à beira da morte. Resposta cantada: Deus da criação, do plantio, da produção e da colheita. Assim como a semente se dispersa nos campos e terrenos férteis, semeia em meio a este mundo o potencial pleno de tua Palavra em nossas vidas.

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Pela presença de teu Filho, nossa luz e nossa vida, sustenta as sementes da fé para que elas cresçam fortes e sadias. Pelo poder de teu espírito, ajuda-nos a ceifar uma colheita de fé sincera, unidade, justiça, paz e amor. Amém. (adaptada de: Em tua graça. Livro de culto e orações. Nona Assembleia, Conselho Mundial de Igrejas, 2006. p. 44-45) Bênção: Que a terra abra caminhos sempre à frente dos teus passos. E que o vento sopre suave nos teus ombros. Que o sol brilhe sempre cálido e fraterno no teu rosto. Que a chuva caia suave entre teus campos. E até que nos tornemos a encontrar, Deus te guarde no calor do teu abraço; e até que nos tornemos a encontrar, Deus te guarde, Deus nos guarde em seu abraço (Coleção Miriã 2, 34).

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PRÉDICA: ISAÍAS 44.6-8

5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 17 JUL 2011

MATEUS 13.24-30,36-43 ROMANOS 8.12-25

Felipe Gustavo Koch Buttelli Não temas, ó Jacó, servo meu, ó amado, a quem escolhi. Derramarei água sobre o sedento e torrentes sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes; e brotarão como a erva, como salgueiro junto às correntes das águas. Segundo Isaías

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Introdução

O texto de Isaías previsto para este domingo ainda não foi comentado nenhuma vez nos 34 volumes anteriores de Proclamar Libertação. Houve um comentário para a perícope anterior e um para a perícope posterior, esse último tematicamente bastante próximo do nosso texto. Isso significa que ele não costuma ser usado para pregações em nossas comunidades. Esse fato revela que talvez seja um texto difícil de ser usado para pregação, com poucas visualizações de possíveis temáticas para a prédica. Se, por um lado, isso pode ser um sinal de que muitos adotarão os outros textos bíblicos previstos para o domingo como texto para a prédica, por outro lado, percebemos que a palavra de Deus sempre nos interpela com algo novo, desafia e convida-nos a refletir sobre novas temáticas. Pessoalmente, também me senti bastante desafiado a desvendar uma mensagem para essas palavras que seja significativa para nossa vida, para nosso cotidiano comunitário. Proponho ler e interpretar todos os textos de leitura previstos para o domingo em uma só moldura temática, reconhecendo algo do sentido que originou a escolha dos mesmos em consonância. Portanto minha sugestão de reflexão para a pregação de Isaías 44.6-8 envolve necessariamente uma leitura conjunta de Mateus 13.24-30 e Romanos 8.12-25. Pois, ao lermos os três textos desde a perspectiva da perícope de Isaías, projeta-se um modo de interpretá-los, que revela um significado próprio, que eventualmente poderia não ser lido dos textos individualmente.

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Exegese

O texto sugerido para a pregação encontra-se no início de um bloco temático um pouco maior. Isaías 44.6-23 é sugerido por muitos exegetas como um bloco razoavelmente identificado por uma mesma temática, embora apresente variações de estilo de linguagem e, provavelmente, seja constituído de partes

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escritas em épocas diferentes. A temática que perpassa esse bloco maior é o relacionamento entre Javé e outros deuses (CROATTO, p. 106). Em seu comentário sobre Deutero-Isaías, Westermann compreende que há um bloco homogêneo de textos que tratam da questão da manufatura de ídolos, e um desses acréscimos teria sido interposto nos v. 9-20 posteriormente. Argumento a esse favor seria uma perceptível mudança de linguagem. Os v. 8 e 21 parecem apresentar uma unidade, tanto no modo de escrita, assemelhando-se a um discurso judiciário (WIÉNER), como no sujeito da fala, no caso o próprio profeta apresentando a palavra de Javé. O texto de Isaías 44.9-20 não apresenta sequer a expressão Javé, utilizada diversas vezes em Isaías 44.6-8,21-23. No entanto, o fato de presumirmos que há um acréscimo posterior no meio do bloco temático (Is 44.9-20) não altera propriamente o tema do mesmo, nem a possibilidade de o interpretarmos conjuntamente. Croatto, portanto, sugere a seguinte divisão interna do bloco temático: 44.6-8: Javé, o único capaz de anunciar novos acontecimentos; 44.9-20: Burla sobre os símbolos religiosos; 44.21-23: Lembra-te que foste redimido. Todo o bloco aborda o conflito entre Javé e outros deuses. O texto de Isaías 44.6-8 é identificado por Wiéner como um discurso judiciário, o qual “parece ligado às próprias origens da aliança” (WIÉNER, p. 35). Esse tipo de discurso costuma conter, entre outras características, o testemunho dos compromissos assumidos, a recordação de benefícios passados, ameaças ou advertências sobre o descumprimento da aliança ou, como parece ser o caso, a reafirmação da validade da aliança e das promessas que a constituem. Algumas informações podem ser reafirmadas a respeito do contexto em que surgiu a perícope. Ela está contida no assim chamado livro de Deutero-Isaías ou Segundo Isaías (Is 40-55). Esse profeta, do qual não constam muitas informações, viveu no final do período do exílio na Babilônia, portanto provavelmente perto do ano de 540 a. C. O exílio foi uma experiência de diáspora, de distância da elite do povo de Israel, longe de Jerusalém, do Templo, de Judá. Esse fato mudou consideravelmente a cultura e a teologia do povo judeu. Durante o exílio, houve considerável produção teológica. O chamado Escrito Sacerdotal refez toda a leitura da criação baseado na importância existencial dessa experiência. Aspectos teológicos foram enfatizados nessa época, como a importância de guardar o sábado como modo de afirmar a identidade em terra estrangeira. A ausência do Templo de Jerusalém fez com que emergisse a necessidade de um local alternativo de culto, as sinagogas, onde ao menos se poderia ler a Torá, entoar salmos de lamentação etc. O Segundo Isaías sabe da eminência do Império Persa sob o domínio de Ciro e apresenta sua profecia como um ressurgir de esperança para o povo que até ali tanto sofrera. O texto de Isaías (1-39) ou as lamentações do profeta Jeremias são uma demonstração do tipo de interpretação teológica da experiência do exílio. A dívida foi paga, é tempo de libertação, proclama o Segundo Isaías. Esse acontecimento salutar é visualizado pelo profeta como um segundo êxodo, cheio de glória (VON RAD, p. 230). Se Javé teve poder de entrar na história e conde-

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nar seu povo ao exílio em virtude do descumprimento da aliança, somente Javé terá poder para libertar o povo. Trata-se, portanto, de uma libertação em termos socio-históricos, com decorrências necessariamente políticas e culturais. O estilo de oráculo de salvação constante nesse escopo geral da obra do profeta encontra correspondência no texto previsto para a pregação. Essa teologia que aponta para a presença ou a irrupção de Javé na história, para o benefício de seu povo, costuma apegar-se à importância da palavra de Javé, do conteúdo e da efetividade de suas promessas. Javé já predisse outrora a experiência do exílio. Predisse também a libertação, e esse fato é constantemente explorado pelo profeta para recordar um povo humilhado, escravizado, deprimido e quase descrente de que Javé tem mais poder sobre os deuses da cultura local. “No conflito entre Javé e os falsos deuses, a prova pela predição é que constitui a differentia specifica” (VON RAD, p. 233). Esse talvez seja o aspecto teologicamente mais latente no texto de Isaías 44.6-8. Ao menos quando lido a partir da realidade que a pesquisa histórica consegue conjeturar. Von Rad transcreve-o com precisão: O Segundo Isaías insiste muito sobre o fato de que os acontecimentos dessa história foram todos preditos e se produziram conforme as predições; isso nos mostra que Javé toma a sério sua palavra e que, por conseguinte, podemos confiar nas predições que dizem respeito às coisas novas. Essa argumentação nos mostra, além do mais, que o Segundo Isaías partilhava a ideia muito espalhada em sua época – cf. o Deuteronomista –, segundo a qual a história da salvação era uma história predita por Javé (VON RAD, p. 237).

Se Javé cumprir com sua palavra, isso significaria, portanto, um crepúsculo generalizado dos deuses pagãos, os quais seduziam o povo de Israel em seu momento de fraqueza e incerteza em relação ao futuro. Por fim, em termos exegéticos, o texto aparentemente não apresenta nenhum problema mais grave de tradução, principalmente na versão de Almeida Revista e Atualizada. A única expressão que apresenta uma tradução ambígua é a palavra Sur, que Almeida traduz corretamente por rocha, mas que também tem a conotação de montanha. O v. 8d poderia também ser traduzido da seguinte maneira: “Não há montanha! Não conheço (nenhuma)!”. O interessante é que ambas as traduções são possíveis, mas cada uma apresenta uma referência própria de significado. Rocha poderia fazer menção a uma linguagem muito comum dos Salmos, em que Javé é a rocha. Não haveria assim outra rocha que pudesse dar firmeza e salvação. No entanto, é possível traduzirmos por montanha, linguagem recorrente em Deuteronômio, quando se fala de outras divindades. Possivelmente o profeta quis atribuir as duas conotações. Abaixo consta, portanto, a versão de Almeida para a perícope: V. 6 – Assim diz o SENHOR, Rei de Israel, seu Redentor, o SENHOR dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus. V. 7 – Quem há, como eu, feito predições desde que estabeleci o mais antigo povo? Que o declare e o exponha perante mim! Que esse anuncie as coisas futuras, as coisas que hão de vir!

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V. 8 – Não vos assombreis, nem temais; acaso, desde aquele tempo não volo fiz ouvir, não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas. Há outro Deus além de mim? Não, não há outra Rocha que eu conheça.

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Meditação

Muito se falou na exegese sobre a afirmação de que esse texto se encontra como uma autoafirmação de Javé como aquele que é capaz de libertar efetivamente o povo do exílio. Essa libertação se dará em termos históricos através do servo de Javé: Ciro. Essa autoapresentação de Javé (Eu sou o primeiro e eu sou o último), encontrada em diversas outras passagens, faz referência à presença de Deus na história do povo, desde a experiência de Abraão. Deus esteve presente desde a criação, relacionando-se com o ser humano através de sua fala, suas predições. Por essa razão, Javé evoca seu povo como testemunha histórica. “Porventura não teria Javé predito tudo o que aconteceria?” Javé quer, e assim ressalta o profeta, que o povo permaneça confiante até o fim. O exílio pode ser compreendido como uma das experiências mais duras em termos existenciais pela qual o ser humano pode passar. Javé clama alto que já afirmara desde o início da história da salvação que, ainda que seu povo passasse por dificuldades, sua promessa de salvação permanecia válida. Ele rechaça fortemente o culto aos ídolos do povo babilônico, como se seus deuses o tivessem sobrepujado. Deus manifesta-se em tempo para evitar a idolatria e para isso invoca os termos da aliança. Pede o testemunho de seu próprio povo. “Não foi sempre assim, que vocês confiavam em minhas palavras?” – exclama Javé. Mais do que isso, ele desafia os deuses pagãos, chama-os à baila para que digam algo sobre o que há de acontecer. Pois sua promessa é de plena salvação. Para isso, Ciro está a caminho. A problemática que parece interpelar a partir desse texto pode ser descrita no binômio idolatria-confiança em Javé. Javé requer a confiança em suas palavras num contexto de sofrimento e desesperança. O povo insiste em confiar nos deuses pagãos, fazendo imagens para cultuar (Is 44.9-20). Essa temática parece reincidir sobre os outros textos previstos para o domingo. No Evangelho de Mateus, Jesus conta a parábola do joio. Joio e trigo coexistirão até o tempo da colheita. Não cortar o joio é o modo confiante de crer na promessa de Deus, de que, no final, o bom agricultor fará criteriosa seleção, jogando o joio ao fogo. Confiar em tempos de circunstâncias adversas parece ser de novo o desafio que Deus nos coloca. Não julgar joio por trigo, nem trigo por joio, mas aguardar paciente e confiantemente no juízo de Deus parece descrever bastante a distinção que se pode fazer entre idolatria versus confiança em Deus. A idolatria parece ser sempre o caminho mais fácil. O deus que responde mais rapidamente a meus anseios, no caso da parábola, à minha sede por justiça é o ídolo que nos seduz. Confiar em Deus é abdicar de apressar o tempo. Deus já deu sobejos testemunhos de que invadiu a história em nosso favor e sobejas promessas de que tomará a história em suas mãos no tempo que lhe convier.

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O texto de Romanos também nos parece oferecer uma mensagem semelhante, a saber, de que os herdeiros, os filhos adotados por Deus, hão de conviver com o sofrimento e com a dúvida até que Deus venha para libertar. A idolatria, nesse contexto, parece ser a falta de confiança na irrupção de Deus na história para libertar toda a criação do sofrimento, em virtude do qual geme (Rm 8.22). Confiar no período de adversidade nas palavras de salvação, anunciadas desde sempre por Deus, é o reiterado desafio deste mundo. Ceder a outras crenças mais imediatistas sempre foi refúgio para aqueles que não conseguem esperar. E Paulo ensina, contra essa tendência idólatra do ser humano: “Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos”. O termo idolatria parece necessitar, em favor da interpretação que aqui sugerimos, uma pequena elucidação. No texto de Isaías 44.9-20, o profeta satiriza o povo que faz deuses da mesma madeira como usa lenha para se aquecer e cozinhar. Nós podemos, contudo, afirmar que a concepção do termo idolatria já teve diversas outras orientações. Lutero mesmo expandiu essa concepção na explicação do primeiro mandamento: “Deus é aquele de quem esperamos todos os bens e em quem procuramos amparo em todas as angústias. Assim, ‘ter um Deus’ significaria: confiar-se a ele e crer nele de todo o coração. Já o disse repetidas vezes: a confiança e a fé podem ser tanto em um ídolo como em Deus”. Se no texto de Isaías o povo não permanece confiante em meio ao sofrimento e recorre a ídolos de madeira, na parábola do joio, aquele que quer com suas próprias mãos arrancá-lo, não confiando no juízo que Deus fará a seu tempo, também incorre em idolatria. Assim, confiar em Deus, no texto de Romanos, é o desafio a que Deus chama seus filhos e filhas, para que não cedam à desconfiança e ao medo. Esses são os caminhos ao ídolo. “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.21). Mas a idolatria não pode ser considerada apenas nos termos etéreos da relação de confiança com Deus, mas também em termos bastante práticos, historicamente verificáveis, como bem lembra a Teologia da Libertação. Oneide Bobsin já sugere(rira) essa interpretação para a continuação de nossa perícope, ao afirmar que, no mundo capitalista, a idolatria manifesta-se através do fetiche da mercadoria, do dinheiro e do capital. Em sua interpretação, confiar em Deus representaria uma crítica em termos sociopolíticos contra o deus “mamon”, capital idolatrado. Assim, percebemos que a temática da idolatria não deixa de ser atual e acompanha o ser humano na história, representando sempre o caminho mais curto para uma satisfação fugaz. (Sempre) É uma explicação mais rápida, mais fácil. É (sempre) uma relação que apresenta seus benefícios de modo mais imediato. Quanto a esse risco nos alertam os textos, sobretudo o previsto para pregação, onde Deus se autoapresenta como aquele que sempre proferiu sua palavra e promessa em favor do ser humano.

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Imagens para a prédica

Pregar o evangelho hoje significa olhar para as questões mais candentes em nosso mundo. A mensagem que contrapõe idolatria a um modo de vida confiante

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na palavra de Deus tem espaço para ser pregada no mundo atual? É de se confessar que o mundo “muda tão rapidamente” que o que parece atual agora, quando escrevo estas linhas, pode já não ser algo significativo amanhã. O que parece ser uma realidade que nos tem atravessado, do campo à cidade, do sul ao norte, do oriente ao ocidente, é o fato de que há um processo de globalização, de mundialização, como alguns preferem. Independente do juízo que façamos desse fato, ou até mesmo da capacidade de incidência que a globalização tenha sobre determinadas realidades, o que parece ser possível constatar é que ela faz emergir algumas questões, para as quais a mensagem poderia ter uma boa ressonância. Sugiro uma imagem que talvez possa inspirar uma pregação. Trata-se da chamada sociedade de consumo. Mais abrangente do que o fetiche pelo capital, mencionado por Bobsin, a caracterização de nossa sociedade como baseada numa cultura de consumo parece ser mais arraigada à “humanidade” que nos compõe hoje. Nosso modo de ser é descrito pelo modo de consumir. Somos o que consumimos. Somos qualificados e julgados em termos sociais por nosso potencial e modo de consumo. O consumo, mais do que aquilo que é consumido, parece ser um invariável ídolo de nossa sociedade. Confiar em Deus poderia ser descrito como um contrajuízo social, segundo o qual não olhamos para o mundo com as lentes da cultura do consumo. Deus não nos aceita pelo que consumimos. Também não podemos consumir Deus. Confiar em Deus é contracultura, quando pensamos que as pessoas adquirem segurança em termos sociais pelo consumo. O ídolo chamado “consumo” gera sofrimento, pobreza em termos econômicos, pois que se estabelece em relações de trabalho que priorizam o produto e não o produtor. Gera também frustração em termos de autorrealização do ser humano, vazio, incompletude, insaciabilidade. Distinção social, exclusão e depressão. É o que resta para quem não consome, e mesmo quem consome bastante é constantemente assolado por essas maledicências. O ídolo “consumo” apresentase como promessa de vida boa. Seus efeitos são, no entanto, fugazes. O valor do consumo esvai-se à medida que surge algo novo para consumir. Que alternativas poderia gerar a fé em Deus num mundo ditado pela lógica do consumo? É a pergunta que lanço a você, pregador ou pregadora!

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Bondoso Deus: Nós pecamos constantemente. Nós não vemos mais os ídolos em que tropeçamos diariamente. Desconfiamos de tuas promessas, esquecemos de tuas proezas. Aceitamos aquilo que não é bom no lugar do teu amor. Não sabemos mais esperar em ti e queremos fazer com nossas mãos aquilo que só cabe a ti. Pedimos-te que nos perdoes. Mostra os nossos pecados, abre os nossos olhos, esquenta nossos corações, para que reconheçamos tua presença no mundo desde que o fizeste. Dá-nos teu Espírito, para que possamos aceitar as tuas promessas em fé paciente. Que o resultado de nossa idolatria pare de ferir outras pessoas e o belo mundo que nos deste. Que possamos confiar em ti para sempre. Amém.

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Oração do dia: Querido Deus, obrigado porque tu nos trouxeste de novo à tua casa. Que bom que tu não desistes de viver com a gente! Nós queremos te louvar, cantar para ti, agradecer o que nos dás e receber de ti a tua bênção. Dá-nos tua palavra saborosa e que dela possa renascer a nossa confiança em tuas promessas. Desarma nossos espíritos e dá que vivamos verdadeira comunhão. Que tua paz seja nossa alternativa ao mundo cheio de ídolos. Em teu nome oramos, em Jesus Cristo e na unidade do teu Espírito consolador. Amém.

Bibliografia CROATTO, José Severino. Isaías: a palavra profética e sua releitura hermenêutica. Petrópolis: Vozes, 1989. RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. 2.ed. totalmente revisada. São Paulo: ASTE, Targumim, 2006. WESTERMANN, Claus. Isaiah 40-66: a commentary. Philadelphia: Westminster, 1971. WIÉNER, Claude. O Dêutero-Isaías: o profeta do Novo Êxodo. São Paulo: Paulinas, 1980.

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PRÉDICA: MATEUS 13.44-46

6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

1 REIS 3.5-12 ROMANOS 8.26-39

24 JUL 2011

Manfredo Siegle Usa o mundo. Não te deixes cativar por ele. Vieste para sair, não para permanecer. Vais caminhando. Esta vida é um hotel. Usa o dinheiro, assim como o viajante usa mesa, copo, leito: como alguém que abre a mão das coisas, não como alguém que se instalou para ficar. (P. Lindolfo Weingärtner. In: Flores no Jardim de Agostinho, p. 27)

1 A linguagem de Jesus Quando foi a última vez que você saiu à “procura de um tesouro”? Levando em consideração essa pergunta, já nos situamos em meio a duas histórias desenhadas em figuras muito especiais. Não deixa de ser relevante o fato de que pessoas, em razão de um achado valioso, abandonam tudo para adquirir aquele bem descoberto. Trata-se de um tesouro muito precioso e da felicidade decorrente desse achado. A ênfase da descoberta é só o começo da história; o que vem a seguir é descrito em pequenos fragmentos. O escopo, assim deduzido, está implícito em duas pequenas parábolas. Frente ao presente do reino de Deus não se justifica qualquer tipo de sacrifício ou de boas obras. Uma tolice querer avaliar o texto, as atitudes dos protagonistas das duas histórias, a partir das implicações jurídicas que a aquisição desse chão ou da pérola preciosa pudesse ter. Importa a alegria diante do achado ou a enorme satisfação face à promessa do reino. Jesus, ao fazer uso da comunicação figurada, destaca que o achado feito gera grande alegria. Ambas as parábolas animam à compreensão de um fato, considerando os sentimentos do coração, da emoção, a expressão de felicidade e de alegria; nesse contexto é dado um valor secundário à razão. O valor do tesouro descoberto ultrapassa todas as expectativas do ser humano. A ambos – ao agricultor humilde, como ao comerciante de pérolas – é dada a oportunidade de fazer uma descoberta fantástica. Os dois protagonistas alegram-se intensamente com a surpresa da descoberta. À medida que pessoas vivem sob a promessa do reino, “ele está presente entre vocês”, anunciava Jesus, nasce uma enorme alegria; o achado feito é, de fato, motivo de grande satisfação. A manifestação é diferente daquelas pessoas que correm, avidamente, atrás de tesouros perecíveis, sujeitos à traça e à ferrugem, tesouros passíveis do roubo de ladrões (Mt 6.20). Aos olhos da fé, o achado de uma riqueza de valor incomparável, a surpresa do reino de Deus, enriquece sobremaneira, trazendo muita expectativa. É tanta a alegria, por isso precisa ser repartida. Imaginem vocês se descobertas importantes, na área das ciências, da

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medicina, da biologia, da física, da comunicação e da matemática ficassem reservadas somente aos pesquisadores ou a um pequeno e seleto grupo? A interpretação mais apropriada das duas parábolas sublinha a grande felicidade da descoberta. Frente à expectativa da dádiva gratuita do reino, o peso não recai sobre a exigência de sacrifícios ou de obras meritórias, nem de exercícios especiais de piedade. Tudo isso para agradar a Deus. Em razão da enorme alegria do achado, nasce a vontade de tomar posse do mesmo. O que é motivo de alegria no mundo presente? O que traz satisfação especial na sociedade humana em nossos dias? Seria a alegria motivada por nossas celebrações de culto ou ela se manifesta por causa de tantas atividades interessantes em comunidade? Na época que precedeu a Copa do Mundo 2010, observei que havia uma alegre expectativa diante da possibilidade do Brasil de conquistar o hexacampeonato de futebol. A televisão mostrava, nas semanas de concentração e treino que antecediam os jogos na cidade de Curitiba, milhares de torcedores e fãs superfelizes porque conseguiram ver ou até tocar em algum dos jogadores famosos da seleção brasileira. Ao lado dessas pessoas alegres há outras que alimentam sua alegria sonhando com a loteria acumulada. E há quem pense ter encontrado tesouros para usufruí-los na vida na forma de ofertas interessantes no campo do lazer: nas baladas e festas, em passatempos prediletos ou em viagens maravilhosas.

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O texto

O texto reflete uma particularidade, segundo o evangelista Mateus. O capítulo 13 do evangelho constitui um bloco monolítico e relaciona sete parábolas voltadas à promessa do reino dos céus. A perícope alinha-se às várias parábolas contadas por Jesus e transmitidas por Mateus. Jesus coloca em linguagem de figuras a boa notícia da presença do reino de Deus, que é bem peculiar e deixa a expectativa da novidade no ar. Embora os v. 44 a 46 sejam considerados, no aspecto da composição literária, de intenções convergentes, reunidas numa “parábola dupla”, a estrutura do texto, assim como aspectos temáticos, apresenta pequenas diferenças. Os conteúdos traduzidos pelo evangelista espelham o jeito de viver dos seguidores de Jesus Cristo. Jesus quer integrar os ouvintes dentro da paisagem narrada; desafia-os a aprender, a partir dessa paisagem, uma nova forma de vida no horizonte do reino de Deus. Analisando os conteúdos das duas parábolas, observa-se que não se trata de figuras alternativas. O que vale, então? Jesus sublinha: quem fez uma grande descoberta não fica como está, como se nada tivesse acontecido; haverá mudança, sim! No exercício do discipulado, a esperança do reino chama à conversão e à novidade de vida. Prioritária é a vontade de Deus; a implantação de seu reino é promessa que faz parte de seu plano de salvação. A esperança do reino, antes de levar a um exercício de sacrifícios e de boas obras, anima o discípulo a vivenciar profunda alegria. Por isso aqueles homens renunciam a tudo e investem pesado para obter o tesouro no campo e o segundo para adquirir a pérola mais preciosa. É preciso haver renúncia para vivenciar a bênção da descoberta. Até se pode

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suspeitar que, nos dias de hoje, a atenção maior está no voltar-se a si mesmo em detrimento da doação ao próximo. Marcante é o que o apóstolo Paulo escreve à comunidade dos Filipenses: “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.8) Ou na Carta aos Colossenses: “Em Cristo estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3). O dois lemas servem de “fio vermelho” a perpassar os conteúdos da prédica.

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Meditação

3.1 – O reino dos homens e o reino de Deus Em suas falas, Jesus aborda temas essenciais. Ênfase especial cabe à pregação do reino de Deus. Aliás, Jesus Cristo é considerado o primeiro cidadão desse reino. O evangelista Mateus soma sete parábolas no cap. 13, cujo enfoque aponta ao reino dos céus. Na oração do Pai-nosso, Jesus intercede para que “venha o reino de Deus”. Orando assim, expressamos o desejo de que Deus assuma o poder no mundo. Conforme o evangelho, o reino de Deus é dos pobres (Lc 6.20) e são “os mansos que herdarão a terra” (Mt 5.5). São várias as passagens bíblicas nas quais Jesus destaca a presença do reino e anuncia que o reino está no meio dos discípulos. A imagem do reino não se vincula, em primeiro lugar, a uma imagem física. O ensinamento de Jesus sublinha o desenvolvimento da postura interior do ser humano. Em determinada conversa com os fariseus, Jesus afirma que o reino de Deus “não vem com visível aparência”; o reino de Deus não se sobrepõe com alarde, ele “está dentro de vocês”, quando são meus seguidores: Lucas 17.20-21. O apóstolo Paulo (Rm 14.17) interpreta a realização do reino como atitude espiritual. Identifica o reino como vivência de “justiça, paz, de alegria no Espírito”. A quem pertence a hegemonia: aos reinos dominados pelos senhores e reis deste mundo ou a Jesus Cristo, o Filho do Homem? Assim é formulada a pergunta teológica e política dos cristãos. Deus coloca sementes de seu reino no chão da comunidade (Rm 14.17). Não se trata de uma instituição de visível aparência. A esperança pelo reino aponta, ao mesmo tempo, para fora do mundo interior. A fé e a esperança no reino de Deus não promovem a retirada para a interioridade ou individualidade religiosa. À fé pertence um reino maior do que céus e terra. O reino, pelo qual rogamos, vem de fora, vem de Deus, “não é deste mundo”. O reino de Deus não se identifica com a instituição igreja nem com a realidade do mundo presente. O evangelho não anula nem se opõe à realidade terrena; os seguidores de Jesus são chamados a agir como “sal da terra” e “luz do mundo”; eles atuam como “fermento na massa”. Jesus insiste em dizer: “Olha, há um futuro que vem e é preciso estar tranquilo e aberto a esse futuro”. O profeta Daniel projeta a história universal em forma visionária. Ele sonha com o poder que rege o mundo, sendo, por um lado, poder usurpador como se instintos animais determinassem as ações humanas. Na mesma visão, Daniel enxerga outra realidade. “Nas minhas visões da noite, eis que vinha com as nu-

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vens do céu um como o Filho do Homem. Foi-lhe dado domínio e glória e o reino para que todos os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é eterno” (Dn 7.13s). O Filho do Homem não emerge do caos, mas vem de Deus. Vem para distribuir justiça, chama à vida verdadeiramente humana. Vem para resgatar na pessoa humana a imagem de Deus. Deus restabelece o direito sobre a sua criação. Cremos e anunciamos que Deus não permite que o mundo criado sucumba ao caos desenvolvido pelo próprio homem. À medida que intercedemos pelo reino, colocamo-nos a serviço da reconciliação com Deus e com o mundo. A visão do reino de Deus nasce da semente da esperança. “A coisa mais terrível seria a face de uma comunidade que, havendo perdido a esperança, entregou-se aos rituais da morte” (R. Alves). 3.2 – Pérolas – O reino dos céus não é como objeto perdido na rua, tampouco visível para todas as pessoas. O reino também não é mercadoria de consumo em supermercado. – O tesouro achado, em verdade, é muito mais do que um tesouro. A surpresa do achado (Mt 13. 44) sobrepôs-se a tudo o que o agricultor no campo podia esperar e descobrir. – Há tesouros na história do povo de Deus, os quais precisam ser redescobertos. – Tesouros podem transformar o ser humano. Nas duas parábolas, a surpresa do achado transformou-se em força que convenceu, profundamente, aquele homem do campo. – Algo semelhante aconteceu com Jesus. Ele exerceu tamanha ação sobre os humanos, a ponto de contagiá-los e envolvê-los na missão. – Existem pessoas que, constantemente, estão em busca do sentido da vida; a outras o sentido é dado de graça. – Às vezes, os tesouros e as pérolas estão bem próximos; outras vezes, é difícil localizá-los. – Jesus não era nenhum alienado: ele sabia muito bem que o ser humano precisa, para sua vida abundante, tanto de si, estar voltado para si, mas também se completa com a outra pessoa. – Quando consigo manter distância de mim mesmo, sou capaz de descobrir quem eu, de fato, sou. Exemplarmente, os dois homens em nossa história renunciaram a tudo para adquirir um tesouro maior. – A vivência, em obediência ao evangelho, assim como o fato de deixar valer o que outros descobriram no discipulado de Jesus: são essas as lições que o homem do campo e o negociante de pérolas nos legaram até os dias de hoje.

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Caminhos à prédica

4.1 – A promessa do reino, fonte de alegria O texto de prédica que abordamos está previsto para o sexto domingo após a festa de Pentecostes de 2011. Face à proximidade do evento de Pentecostes, vale relembrar o presente do Espírito Santo em Pentecostes. O bom e santo Espírito de Deus devolveu à comunidade dos discípulos a certeza de que os cuidados do Pai permanecem. “Nada nos poderá separar do amor de Deus.” Assim cuidados, somos livres para a cooperação na edificação da comunidade e na transformação do mundo. Nós seres humanos somos carentes do Espírito Santo. Sem a presença e distante da companhia do Espírito Santo, o ser humano torna-se uma ameaça à humanidade e à criação. A linguagem dos fatos aponta para essa realidade. Seres humanos, sem a interferência do bom Espírito de Deus, deixam de ser fonte de bênção. A alegria, em razão do achado do tesouro no campo ou da pérola preciosa, de valor inigualável, é dom de Deus, fruto do Espírito Santo. Ambos, tanto o agricultor como o comerciante de pérolas, extravasaram sua alegria. A vontade de Deus torna-se perceptível mediante a compreensão do coração alegre. Tudo o mais passa a ser secundário. Rosto e coração refletem a alegria que vem do coração. A justificação por graça nos faz viver nas mãos de Deus, razão para o serviço e motivo de alegria inconfundível. As regras que alimentam tamanha alegria partem de fontes diferentes daquelas observadas no sistema de mercado, em que prevalece a lógica do lucro e do acúmulo de bens, da posição social (Mt 13.12). Viver segundo o “tesouro do céu” (Mt 6.20) é experiência diferente daquela que se vive guardando e cuidando de tesouros e de pérolas, só para aumentar o capital e o status próprio. 4.2 – Pérolas do reino desembocam no mar da alegria Tomo a liberdade de colocar no “baú das ideias”, a serviço da estrutura e dos conteúdos da prédica, frases e pensamentos motivadores. Lembrando que pérolas e tesouros, na perspectiva do reino de Deus, geram alegria, gratidão e aumentam a vontade de tomar novas iniciativas e andar por novos caminhos. A ordem é desfazer-se de tudo, para adquirir o que de mais precioso posso abraçar, mas que ainda não alcancei. É grande a ansiedade humana por uma vida feliz e plenamente realizada, sob a promessa de um bom futuro. 1 – Pérolas preciosas, tesouros? Existem sim; é possível descobri-los; às vezes, os tesouros e as pérolas estão bem mais próximos do que imaginamos. 2 – Como identificar os tesouros? Quais são eles? Não faltam exemplos. Enumero alguns: a família, os filhos e filhas, o cônjuge, o amor, os pequeninos irmãos, a profissão, a vocação, os dons e talentos, as amizades, os passatempos, entre muitos outros.

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3 – O achado provoca intensiva e profunda alegria; a experiência é fantástica. 4 – Jesus parte de sua realidade e conta as duas parábolas relativas ao tesouro oculto no campo e à pérola de rara beleza e inestimável valor. Faz sentido ler ou reler agora o texto! 5 – A descoberta resultou em renúncia a tudo; a sensação prazerosa, em decorrência, é combustível para investir pesado no achado. 6 – O céu é citado, tantas vezes, como sinônimo do reino de Deus. Que valor damos ao céu? Na medida em que sou rico apenas aos próprios olhos, ele significará muito pouco, quase nada; exemplo: o jovem rico (Mt 19.16-26), indisposto à renúncia em favor da vida eterna. Cito, igualmente, Lucas 12.16-21. Jesus admoesta: “Buscai, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33) 7 – Vem à memória a história de Abraão e Sara. Deixaram para trás as terras e suas famílias, todas as suas posses. Partiram sob os cuidados e sob a promessa de Deus. Carregam dentro de si uma confiança firme, uma esperança que fortalece; eles partem com amor, o sentimento de alegria está presente; não faltam as expectativas diante da novidade à sua frente. Abraão e Sara são chamadas a ser uma bênção para todas as famílias da terra. 8 – A caminho das descobertas de tesouros e de pérolas, o alvo maior nem sempre se reduz ao alcance de algo interessante ou importante, algo de raro valor. A descoberta da novidade e a esperança dela decorrente transformam-se em bênção. Os achados que são bênção beneficiam outra gente. Diante dos achados traduzidos em bênção, o investimento de dons e recursos acontece em favor de alguém fora dos nossos muros. São tesouros e pérolas descobertas colocados a serviço da missão. 9 – Você somente descobrirá a verdadeira riqueza, que satisfaz a vida, à medida que deixar de calcular conforme a lógica do lucro e da razão; por natureza, lucros e o poder da razão são calculistas. 10 – A verdadeira alegria transforma os fundamentos de nossa vida. O que seria da alegria se ela não fosse gerir ainda muito mais alegria?

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Contextos

É do conhecido escritor Mark Twain a frase: “Saciamo-nos plenamente de alegria se uma outra pessoa também for contagiada à alegria”. Na Índia, um jornalista saiu-se com esta diante das ações misericordiosas encabeçadas pela Madre Teresa de Calcutá: “Nem por um milhão de dólares eu viveria a sua vida”. Ao que ela respondeu: “Por um milhão só eu também não levaria a vida assim”. “Quando quiseres fazer para ti uma grande alegria, considera os benefícios que causarás a teu próximo” (Imperador Marco Aurélio, 121 a 180 da era cristã).

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Subsídios litúrgicos

O 6º Domingo após Pentecostes cheira ao Pentecostes. Recebemos do alto, de Deus, o alimento, o oxigênio e a força inspiradora para as descobertas no chão da vida, da sociedade e da realidade comunitária. Pentecostes lembra o vento impetuoso dos céus. Vento de Deus Tu que sopras onde quer, Vento de Deus dando vida, Aproxima-te, sopra fecundo! Sopra-me vida em teu sopro! Faze-me todo janelas, Olhos abertos e abraço. Leva-me em Boa Notícia Sobre os telhados do medo, Passa-me em torno das flores, Beijo de graça e ternura. Joga-me contra a injustiça em furacão de verdade. (Pedro Casaldáliga) Lema bíblico introdutório: “Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12.48). Confissão de pecados: Senhor e Deus, procedentes da realidade do cotidiano nos achegamos a ti. Confessamos o nosso grande desejo de autonomia e de mais poder em nosso próprio benefício. Procuramos tesouros que nos garantem segurança e prestígio. Nessa ânsia perdemos de vista o discipulado de Jesus Cristo e o que ele já tem feito por nós. Ajuda-nos, Deus, a redirecionar nossos olhares e rumos motivados pelo plano de salvação inaugurado por Jesus Cristo. Rogamos por tua presença, para que vivamos em confiança para contigo. Que tu sejas o ponto de partida e o alvo da procura por esperança, felicidade e da vida em abundância, tesouros que o evangelho nos proporciona. Perdão, Senhor... Salmo 40. 9-12 Convite ao cântico: Glória, glória, glória a Deus nas alturas...

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Oração de coleta: Caminhamos por caminhos próprios; Atenta, Senhor, para os caminhos por nós trilhados. Impede que nos desviemos do teu caminho. À semelhança do tesouro escondido e descoberto, tu nos descobres e, em Cristo, nos resgatas. Que a luz do evangelho seja como luz que brilha no nosso andar! Dá-nos coragem para seguir contigo. Amém. Oração de intercessões: Nessa oração, o/a celebrante poderá introduzir cada intercessão destacando que o falar com Deus é motivado: ... por causa da confiança no Deus triúno; ... por causa da esperança semeada através da ressurreição de Cristo, na Páscoa; ... em razão da fé no Cristo que é solidário, presente nas diferentes situações da vida pessoal, coletiva, comunitária, vida social; ... pela coragem e fidelidade, pela unidade e novidade que brotam da ação do Espírito Santo. Vivemos da convicção de ser achados por Deus, por ele ouvidos e por ele cuidados/as.

Bibliografia BRAKEMEIER, G. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus. In: Proclamar Libertação, V. 2, p. 9ss. MOLTMANN, J. Mensch, V. 11. Stuttgart/Berlim: Kreuz Verlag, p. 160ss. RADECK, Rose. Mateus 13.44-46. In: Werkstatt für Predigt und Liturgie. Bermoser+Höller Verlag AG, 2001. p. 237ss. SCHILLING, Ulrike. Mateus 13.44-46. In: Gottesdienst Praxis. V. 3. Gütersloher Verlagshaus, 1995. p. 143ss.

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PRÉDICA: ROMANOS 9.1-5

7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

ISAÍAS 55.1-5 MATEUS 14.13-21

31 JUL 2011

Ana Isa dos Reis

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Introdução

O presente conjunto de textos está dentro do chamado Tempo Comum, que se estende do fim do ciclo pascal (terminado no domingo de Pentecostes) até o início do Advento, somando 28 a 30 semanas. Esse tempo após Pentecostes, diz James White, “sinaliza o longo ínterim da igreja da nova aliança até a vinda de Cristo em glória”. Os textos bíblicos lembram a continuação das obras salvíficas de Deus e chamam as pessoas a ser seguidoras de Jesus Cristo através de suas palavras e ações. No texto de Isaías, o Senhor estende gratuitamente o necessário a todas as pessoas, convidando que elas venham, comprem e comam, investindo naquilo que é essencial. O texto do Evangelho de Mateus mostra Jesus preocupado com as pessoas, com a integralidade delas, que recebem o alimento espiritual através de suas palavras e curas, mas que também precisam do alimento material, a fim de manter sua saúde. Os textos de Isaías e Mateus abordam a temática do alimento, do oferecimento gratuito desse alimento e dos desafios que essa graça traz. Tecendo algo em comum entre esses dois textos e a perícope de Romanos, poderíamos dizer que Romanos pergunta quem é esse que alimenta o povo e preocupa-se para que todos tenham acesso, gratuito, à vida abundante. O texto de Romanos fala que esse é o Cristo em que muitos, no entanto, não creram. E dentre as razões para tal está a frustração por esse homem não ser bem assim como as expectativas pintavam e diziam.

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Exegese

2.1 – Fonte O apóstolo Paulo foi quem escreveu a Carta aos Romanos, provavelmente entre os anos 55 e 59. Há pesquisadores que afirmam que teria sido escrita no inverno do ano de 57. Paulo nunca esteve na comunidade de Roma, mas desejava muito visitá-la (Rm 1.10). 2.2 – Estrutura da Epístola aos Romanos e da perícope * Rm 1.1-17 – Introdução

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* Rm 1.18-11.36 – Desenvolvimento do tema principal “justiça de Deus” 1.18-3.20 – A ira de Deus por causa da injustiça humana 3.21-5.21 – Deus atribui sua justiça ao ser humano 6.1-8.39 – Consequências do evangelho para a vida da pessoa 9.1-11.36 – Consequências do evangelho para a relação com Israel a) A preocupação de Paulo com seu povo: 9.1-5 b) O chamado de Deus: 9.6-29 c) A palavra da fé: 9.30-10.21 d) A fidelidade de Deus para com seu povo: 11.1-32 e) Aclamação: 11.33-36 * Rm 12.1-15.13 – Consequências do evangelho para a vida prática da comunidade cristã/parênese *Rm 15.14-16.27 – Conclusão 2.3 – Observações exegéticas acerca dos versículos da perícope V. 1-3 – Paulo demonstra sua grande tristeza e a situação de seus compatriotas. Para assegurar a verdade do que escreve, demonstrando sua sinceridade, Paulo chega praticamente a fazer um juramento solene. Nesse testemunho, Paulo deixa claro o quanto se importa com seu povo de origem, os judeus, e qual o tamanho de sua dor por esses não crerem em Jesus como o Messias, o Salvador, Filho de Javé. O termo original grego ǎδιάλειπτος ơδύνη τη καρδία μου indica alguma dor profunda e consumidora. Tais são a angústia e a dor de Paulo, que ele, se pudesse e se resolvesse a questão e seus irmãos judeus cressem em Jesus, desejaria ser anátema, ou seja, separado. O v. 3 tem provocado muitos debates entre os estudiosos, especialmente porque consideram irracional que uma pessoa como Paulo realmente pudesse desejar ser separado, excluído, anátema. V. 4-5a – A incredulidade dos judeus assombra Paulo. Ele também foi um perseguidor dos cristãos; contudo, desde que Jesus veio a seu encontro, Paulo experimentou uma mudança radical em sua vida. Essa experiência com Jesus, o Cristo, Paulo passou a testemunhar entre gentios e judeus. Especialmente entre seu povo Paulo encontra maior resistência contra a fé cristã. Paulo elenca oito particularidades, declarando as diferenciações entre Israel e as demais nações. Todas essas características dos israelitas, descendentes de Abraão, herdeiros do pacto feito entre Deus e Israel, estão descritas com o verbo no tempo presente, destacando que o povo de Israel continua sendo alvo da herança e do amor de Deus: adoção: em Êxodo 4.22, Deuteronômio 7.6 e em outras passagens do Antigo Testamento, lemos que Deus adota o povo israelita como seus filhos e, justamente por isso, recebem os privilégios, as bênçãos que somente os filhos de Deus podem receber; glória: trata-se da presença simbólica e visível de Deus sempre ao lado de seus filhos (Êx 16.10; 40.34);

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alianças: o termo no plural significa os diversos pactos estabelecidos por Deus com os israelitas: Noé, Abraão, Moisés no Sinai, Davi; legislação: refere-se às tábuas da lei, ou seja, os mandamentos; culto: significam os diferentes ritos, cerimônias, sacrifícios e ordenanças religiosas que o povo prestou a Deus, rendendo-lhe culto e louvor; promessas: provavelmente indicam as promessas esboçadas nos vários pactos feitos com Israel e também a promessa messiânica; patriarcas: através desses antepassados dos israelitas, Deus fundamenta a história salvífica com seu povo. Estudiosos dizem que o termo usado por Paulo poderia designar não só os antepassados antigos, como Abraão, Isaque e Jacó, mas também incluiria outros famosos líderes de Israel, a exemplo de Moisés e Davi; o próprio Cristo: além de todos os argumentos anteriores, Paulo ressalta que o próprio Cristo, Jesus, é descendente do povo judeu. O termo segundo a carne faria alusão ao nascimento e à natureza humana de Jesus Cristo, descendente, inclusive, da linhagem davídica. V. 5b – Em volta das palavras Deus bendito para todo o sempre têm surgido muitas controvérsias. A questão está em como pontuar essa parte do versículo, visto que os manuscritos originais não incluíam sinais de acentuação. Assim, a controvérsia está a quem se dirige e se refere a doxologia: se a Deus ou a Cristo. Champlin baseia-se na interpretação de muitos estudiosos sobre os pais da igreja, que teriam sido unânimes em afirmar que a doxologia desse versículo se dirige à divindade de Cristo.

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Meditação

Apesar de ser o povo escolhido por Deus, Israel não consegue crer na revelação de Deus em Jesus Cristo, tampouco aceitar que Jesus de Nazaré seja o Messias, aquele que viria libertar o povo. Auscultando o povo israelita, percebemos que a imagem que faziam do Messias pouco ou nada coincidia com sua expectativa messiânica. Diante do domínio romano, o povo esperava um líder militar, armado, forte e organizado, que libertasse o povo da dependência estrangeira. Em âmbito político, esperava um rei articulador, ousado, formador de um novo sistema governamental. Na esfera econômica, ao invés de um Messias que convidava à partilha, fazendo dela o milagre da multiplicação, esperava um rei rico ou, pelo menos, com recursos o suficiente para reorganizar o povo, privilegiando, certamente, a elite econômica, religiosa e política da época. Jesus, ao contrário das expectativas messiânicas de seu povo, frustra os israelitas: nasce humilde, cresce em ambiente pouco favorável, coloca-se ao lado dos injustiçados e excluídos, preocupa-se com a integralidade do ser humano, devolvendo sua dignidade e reintegrando-o a seu ambiente familiar, social e religioso. Ao invés de aplaudir a elite dominante, Jesus a repreende, exalta os humildes e mansos, ensina que a verdadeira obediência a Deus parte de um coração amoroso e envolvido com a causa de seu reino. Ao invés de carros e armas de guerra, Jesus se reveste de amor, de solidariedade, de mansidão. Quem poderia amar alguém assim tão

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‘subversivo’? Para uma grande parte do povo israelita, Jesus nada tinha a ver com a imagem e a postura do Messias sonhado. A resposta a essa frustração vem em sua incredulidade. Apesar das iniciativas de Paulo, de sua preocupação com seu povo, a quem amava, ele via suas tentativas se esvaírem e o povo endurecer o coração, fechar os olhos para a encarnação do Verbo. Mesmo tendo podido conviver com o próprio Jesus, grande parte do povo escolhido por Deus limitou-se a ignorá-lo como o Messias esperado, crucificando-o e perseguindo muitos de seus seguidores. Olhando para nossa vida, quantas vezes não nos assemelhamos a esse povo israelita? A partir de Jesus, as bênçãos de Deus estenderam-se a todas as nações. Não há mais privilegiados, tampouco excluídos. Deus quer alcançar todas as pessoas através de seu amor, especialmente revelado em Jesus de Nazaré. No entanto, quantas vezes rejeitamos esse amor? A partir de nosso Batismo, Deus comprometeu-se publicamente a estar ao nosso lado, e nós, inicialmente através de nossos pais e padrinhos, posteriormente confirmado em nossa confirmação e a cada dia, comprometemo-nos a ser discípulos no dia-a-dia de nossa vida. Porém quantas vezes esquecemos esse compromisso? E quantas vezes também duvidamos de Deus? Quantas vezes nossos preconceitos e nossas expectativas são maiores do que o amor de Deus? Quantas vezes esperamos que as coisas se realizem do nosso jeito, não aceitando nenhuma vírgula diferente? Muitas vezes, nosso relacionamento com Cristo é distante e vazio. Em nossas comunidades, muitas vezes pintamos Cristo de um jeito e nem nos perguntamos se esse jeito coincide com o que nos diz o evangelho. Quantas vezes rejeitamos pessoas, excluímos outras, prendemo-nos a uma única forma de celebrar, às vezes já desprovida de sentido profundo, constituindo-se muito mais em um rito vazio do que em um encontro verdadeiro e que provoque atitudes concretas de amor e solidariedade. Muitas vezes, queremos receber essa ou aquela bênção de Deus, mas rejeitamos tão logo ela venha embrulhada diferente de nossa expectativa. Quantas vezes nosso relacionamento com Deus se resume a elencar um sem-número de virtudes e boas ações nossas, achando-nos merecedores da recompensa divina, esquecendo que somos tão simultaneamente justos e pecadores. O texto será pregado na estação do inverno, que, no sul, traz consequências para a vida das pessoas e muda radicalmente a paisagem. Muitas vezes, nosso relacionamento com Cristo está tão frio quanto o inverno. Somos portadores da adoção de Deus desde nosso Batismo, da glória, das alianças, da legislação, do culto, das promessas, dos patriarcas e do Messias, e, no entanto, nada disso nos aproxima realmente de Jesus, nada cria um relacionamento verdadeiro e profundo. Igualmente se pensarmos em nosso relacionamento como membros nas comunidades. Quantas vezes nosso relacionamento é frio com as outras pessoas que participam de nossa igreja, quantas vezes nosso coração é frio quando somos chamados a ofertar com alegria e gratidão. Apesar de toda a incredulidade, as promessas feitas por Deus a Israel não se apagaram. O povo israelita continua sendo alvo do amor de Deus. Assim também para conosco: apesar de nossa incredulidade e infidelidade, Deus continua querendo nos alcançar com sua graça, seu amor, seu perdão, sua misericórdia.

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Que o Espírito Santo nos ajude a enxergar além de nossas expectativas (às vezes cheias de preconceitos) e ver a graça de Deus que se revela diariamente em nossa vida sob tantas formas diferentes. E que, assim, em gratidão e alegria, nos envolvamos com o reino de Deus, sendo testemunhas como Paulo foi, partilhando como Jesus ensinou e vivendo como discípulos fiéis.

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Imagens para a prédica

Gosto da dinâmica que muda a embalagem, o rótulo de algo bem conhecido, colocando dentro desse rótulo outro produto. Por exemplo: o rótulo rosa com a estampa do casal dançando logo nos lembra do chocolate “Sonho de Valsa”. Você poderia trocar o chocolate, que é preto, colocando dentro do rótulo um chocolate branco ou mesmo um biscoito. Também poderia se valer de um belo embrulho em que, dentro dele, tivesse algo sem muito valor, a exemplo de uma caixa de fósforos vazia ou de um papel de bala ou de uma pedra brita. E poderia ter outra caixa de presente bem simples, sem muitas fitas, com um papel bonito, mas simples. E dentro dessa caixa colocar algo de muito valor, inclusive de desejo do povo de seu lugar: ouro, diamante, pedras preciosas, a Bíblia, a manjedoura com Jesus... Essa dinâmica nos convida a refletir sobre as nossas impressões e nossos julgamentos prévios. Nem sempre embalagens lindas guardam tesouros. Muitos tesouros são guardados em simples embalagens. Jesus não veio “embrulhado” como a grande maioria do povo esperava. Para muitos, essa “embalagem diferente” foi pedra de tropeço para a fé em Jesus como o Messias e Salvador. Também para nós, que, muitas vezes, julgamos a partir de aparências ou estamos separados de um relacionamento verdadeiro com Jesus, não conseguimos aceitar as revelações de Deus que fogem às nossas expectativas, frustrando-nos quando as coisas acontecem diferentes do que sonhamos e acreditamos ser a única forma possível e real.

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Subsídios litúrgicos

Recepção: Uma equipe pode estar à porta recebendo as pessoas que chegam para a celebração. Caso optar pela dinâmica do bombom e desejar que todos o recebam, esse poderia ser entregue nesse momento, convidando, no entanto, para que a pessoa não o abra, mas espere para o momento da reflexão. Confissão de pecados: (Que se tenha um momento de silêncio para confissão individual, e depois o/a liturgo/a dirige a confissão comunitária.) L: Bondoso Deus, confessamos que somos pessoas pecadoras e que carecemos do teu perdão. Confessamos que criamos expectativas em relação a ti e às outras pessoas e acabamos nos frustrando profundamente quando as coisas não acontecem como esperamos. Perdoa-nos quando te embrulhamos do nosso

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jeito e não aceitamos que sejas diferente. Perdoa-nos quando colocamos outras coisas acima de ti, Senhor, e da tua revelação humilde, mas cheia de graça e misericórdia. Perdoa-nos, Senhor, quando não somos fiéis discípulos e nem nos preocupamos em ser tuas testemunhas, que falam e vivem a partir do teu amor e da tua graça. Tu nos conheces, Senhor, e sabes tudo o que pesa em nós. Livra-nos de nossos pecados. Por Jesus Cristo, o Messias, nosso Salvador. Amém. Anúncio da graça: L: Antes de tudo e de todos está o amor de Deus. O Deus amoroso ouve nossa confissão sincera, perdoa nossos pecados e chama para andar em novidade de vida. Por Jesus Cristo. Amém. Oração do dia: Misericordioso Deus, agradecemos-te por te revelares em Jesus Cristo e estenderes tuas promessas a todos os povos, também para nós. Ajuda-nos, Senhor, a te reconhecer apesar de nossas expectativas e aumenta em nós a fé, a fim de não ser incrédulos. Sopra teu Espírito Santo e faze-nos fiéis testemunhas da tua graça e misericórdia. Por Jesus Cristo, o Messias, nosso Salvador. Amém.

Bibliografia CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1986. LÜCKEMEYER, Valdemar. Meditação sobre Romanos 9.1-5, 31.10-4. In: Proclamar Libertação. V. 13. São Leopoldo, 1987.

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PRÉDICA: MATEUS 14.22-33

8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

1 REIS 19.9-18 ROMANOS 10.5-15

07 AGO 2011

Arteno Ilson Spellmeier

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Introdução

Sobre os três textos indicados para o 8º Domingo após Pentecostes: a) 1 Reis 19.9-18 – Elias sente-se abandonado por todos, frustrado em sua missão de combater os falsos deuses e está ameaçado de morte. Deus tira-o de seu isolamento não através de manifestações de poder (vento muito forte, terremoto e fogo), mas através de “um cicio tranquilo e suave” (v.11-12), confirmando sua missão, pondo companheiros a seu lado e indicando o caminho a seguir. Deus é fiel à sua missão e não abandona aquelas pessoas que confiam nele. b) Romanos 10.5-15 – O apóstolo Paulo reflete sobre a situação do povo de Israel como povo eleito diante da salvação por graça e fé: “Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (v. 9); “Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (v. 12). Jesus é Senhor e não abandona aquelas pessoas que confiam nele, independente de seu passado. c) Mateus 14.22-33 – Após a multiplicação dos pães e peixes, Jesus ordena que seus discípulos atravessem o mar da Galileia, de barco; no meio da travessia, são surpreendidos por uma tempestade; Jesus vai sobre a água ao encontro deles, comprova a pequena fé de Pedro e acalma a tempestade. Ao que os discípulos confessam: “Verdadeiramente és Filho de Deus!” (v. 33). Jesus é Filho de Deus e não abandona aquelas pessoas que confiam nele, independente de seus medos e pequena fé, e restaura a criação.

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Exegese

2.1 – O texto previsto para a prédica – Mateus 14.22-33 – é antecedido pelo milagre da multiplicação dos pães e peixes e sucedido pela narração da cura de muitos doentes. 2.2 – Após obrigar os discípulos a entrar no barco e rumar para a outra margem do mar da Galileia, Jesus fica sozinho para orar. A opção de enfrentar a viagem de barco à noite não foi dos discípulos. Jesus os obrigou. Como pescadores que eram, (a) sabiam dos riscos de tentar atravessar o mar à noite e (b) temiam as tempestades sobre o mar como o caos que existia antes da criação por Deus. Ficar à mercê de uma tempestade no mar significava para eles que o caos original voltou e que Deus os abandonara, porque tirara sua mão ordenadora.

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2.3 – A palavra caos vem do grego e significa originalmente bocejo, abismo. Na história das religiões, caos é simplesmente o contrário de criação ou de cosmo e, a partir da mitologia grega, reflete o estado original das coisas. Nos mitos de criação de quase todos os povos, o ser humano crê num ato original que explica que o cosmo não nasceu a partir de si, mas de uma ação ordenadora que o obriga para dentro de uma ordem dada pelo ente criador. Na Mesopotâmia, caos significava, antes de mais nada, mar profundo e revolto, tempestade, escuridão, neblina, devastação, morte (Gn 1.1.-2). Na Palestina, no entanto, caos significava, primeiramente, deserto, falta de água, seca, morte (Gn 2.5). De acordo com as narrativas de criação do Antigo Testamento, Deus pôs ordem no caos e colocou-lhe limites, criando a luz, o firmamento, a separação das águas, a terra, todos os seres vivos... Deus cria o equilíbrio entre os elementos e as forças para que a vida seja possível. 2.4 – Pessoas dentro de um frágil barco exposto às tempestades têm sido, desde o início do cristianismo, símbolo da comunidade, da igreja cristã. Nele é acentuada a sua fragilidade. Os discípulos em seu medo e em sua vulnerabilidade são como uma amostra do que estava acontecendo ou aconteceria com as primeiras comunidades cristãs. Essas, no entanto, nem sempre foram frágeis e vulneráveis, principalmente depois que o cristianismo se transformou em religião oficial do Império Romano no 4º século e depois que começou a usufruir e a disputar o poder político e econômico com os demais atores da sociedade. 2.5 – O caos não se manifesta apenas exteriormente, através do mar revolto, mas também interiormente, através do medo e pavor dos discípulos. Ao ir ao encontro deles no meio da tormenta, Jesus lhes fala: “Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais!” (v. 27). Repetidas vezes, Jesus anima seus discípulos nos evangelhos com as palavras “não temais”. A causa do medo dos discípulos, a tormenta que ameaça suas vidas, ainda não foi eliminada. Eles sabem agora, no entanto, que a figura no meio da tempestade não é um fantasma e que o mestre não os abandonou. 2.6 – O quanto o medo continua presente entre os discípulos no barco fica claro no episódio sobre Pedro, que pede a Jesus: “Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo por sobre as águas” (v. 28-30). Esse episódio é contado exclusivamente em Mateus, com o que o evangelista quer expor: (a) Pedro vem se destacando como líder dos discípulos; (b) Pedro fracassa no atendimento à ordem de Jesus para caminhar sobre a água, pois tem medo e afunda; (c) Pedro é humano, nada divino em seu fracasso, pois não conseguiu pôr caos interno, o medo, nem o caos externo, o mar agitado, em seus limites. 2.7 – Jesus expõe que foi a pequena fé – não a falta de fé – que impediu que Pedro caminhasse sobre as águas: “Homem de pequena fé, porque duvidaste?” (v. 31). A pequena fé impediu que Pedro restabelecesse o equilíbrio na criação, dentro e fora dela. A pequena fé e o fracasso no meio da tormenta e em inúmeras oportunidades posteriores não impediram que Pedro viesse, mais tarde, a dar testemunho fiel de seu Senhor. O projeto de Deus com cada um/uma de nós pessoalmente para dentro de sua comunidade não depende de nossa opção por ele nem

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do tamanho de nossa fé, em primeiro lugar, mas de sua opção e de seu amor por nós e de nossa capacidade de crescer, de fracasso em fracasso, na confiança nele. A tempestade acalmou-se, e o medo dos discípulos sumiu, assim que Jesus subiu no barco juntamente com Pedro (v. 32), restabelecendo a ordem da criação. 2.8 – De acordo com a crença de diferentes povos, um ser humano não pode andar sobre as águas, somente Deus. Se Jesus anda sobre as águas, então ele deve ser “Filho de Deus”. Se Jesus restaura a ordem das coisas, acalma a tempestade e os discípulos, se ele faz o que Deus, o Criador, fez no início dos tempos, pondo o caos dentro de seus limites, restaurando o equilíbrio na criação, então ele deve ser Filho de Deus. A adoração e a confissão dos discípulos “verdadeiramente és Filho Deus” (v. 33) originam-se menos do ato extraordinário e quase mágico de acalmar a tormenta ou duma aparente demonstração de poder por parte de Jesus e mais do fato de Jesus ter agido como Deus agiu por ocasião da criação, pondo o caos dentro de seus limites e restabelecendo o equilíbrio. Tudo isso não acontece como demonstração de poder e senhorio, mas como “um cicio tranquilo e suave”. Deus, enfim, não abandonou os discípulos, mas ficou a seu lado do jeito dele.

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Meditação

As confissões “... se confessares Jesus como teu Senhor, serás salvo” e “verdadeiramente és Filho de Deus” são o centro da mensagem deste domingo. Como elas se relacionam? • A confissão dos discípulos de que Jesus é verdadeiramente Filho de Deus acontece após sua salvação do mar revolto. Jesus agiu como Deus havia agido no início dos tempos, quando criou equilíbrio entre os elementos e as forças para que a vida fosse possível. Jesus superou o caos externo, o mar revolto e a tempestade e o caos interno, o medo e o pavor dos discípulos. Jesus é verdadeiramente Filho de Deus porque agiu assim como o Pai agiu. • “Antes, Jesus havia dominado a fome de uma multidão. Há instantes, havia dominado o pânico de seus discípulos. Agora, domina o mar revolto, os ventos e as ondas. Ao desembarcar no outro lado, revelará mais uma vez seu domínio sobre a doença, curando todos os enfermos que lhe são trazidos” – E. Streck PL 27, p. 206-207. • Quando a fome do faminto é saciada, Deus ordenou o caos para dentro de seus limites. Quando a doença é afastada da pessoa enferma, Deus ordenou o caos para dentro de seus limites e vida se tornou possível. Quando a ressurreição se impõe à morte, o caos voltou para dentro de seus limites como por ocasião da criação de Deus e perde seu poder. • A afirmação de Paulo “se confessares Jesus como teu Senhor” acontece quando ele reflete sobre o destino do povo de Israel como povo eleito e sobre o centro de sua teologia, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23) e “concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (v. 28).

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As primeiras pessoas que confessavam publicamente a “Jesus como Senhor” corriam o risco de ser – em diferentes épocas com mais ou menos intensidade – perseguidas, presas, torturadas e mortas, de perder seus empregos, de ter seus bens confiscados pelo Estado, de perder a cidadania e, assim, entrar na categoria de escravos, de ter suas casas de oração destruídas e os livros sagrados queimados. Confessar Jesus Cristo como único Senhor implicava riscos e sofrimentos naquele tempo. Confissão e testemunho de vida se completavam. Por motivos políticos, o imperador Constantino passou a tolerar, a partir do ano de 313, o cristianismo e, mais tarde, transformou-o na religião oficial de todo o Império Romano. Com isso as comunidades cristãs passaram de impotentes a poderosas, de ameaçadas a ameaçadoras, de perseguidas a perseguidoras, de minorias a maiorias, de livres para ouvir e viver de acordo com o evangelho a comprometidas com a política do Império. As pessoas ameaçadas não eram mais as pessoas que confessavam publicamente que Jesus é Senhor, mas as que não pertenciam à comunidade cristã. • A confissão de que Jesus é Filho de Deus e que Jesus é Senhor tem consequências para a nossa relação com os nossos bens e com todos os sistemas que provocam morte, cerceiam a liberdade, atropelam a justiça porque se julgam donos de tudo e de todos. Ela tem consequências para a nossa relação com o meio ambiente, com as outras pessoas, para a nossa vida comunitária, familiar e espiritual e para a forma que nos vemos a nós mesmos. Ela tem consequências para a nossa relação com a morte porque a fé na ressurreição dá um novo sentido à vida. “... e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10.9). • Se for a participação no poder que cria tantas dificuldades para a nossa sintonia com Jesus Cristo como Filho de Deus e Senhor, por que não tentamos olhar o mundo e ler as Escrituras com os olhos dos pobres, viver a impotência das pessoas com deficiência, sofrer com as mães que têm filhos dependentes químicos, sentir o abandono das crianças de rua? • Se for a participação no poder que cria tantas dificuldades para a nossa sintonia com Jesus Cristo como Filho de Deus e Senhor, por que não tentamos organizar o nosso engajamento a favor do meio ambiente e da preservação da criação de Deus como superação do caos, como restauração das condições de vida? • Quando Deus ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, ele superou o caos do pecado e restaurou as condições de vida que existiam antes da queda de Adão e Eva. • Jesus é Filho de Deus, é Senhor e não abandona aquelas pessoas que nele confiam, independente de seus pecados, medos e pequena fé, e restaura a criação.

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Imagens para a prédica •

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No século V, uns 150 anos depois do fim da perseguição à igreja cristã pelo Império Romano, o santo Hilarius escreveu: … Em lugar disto (das antigas perseguições) enfrentamos atualmente um perseguidor, um inimigo muito mais perigoso que nos adula, ou seja, o imperador de Roma. Ele não mais fere as nossas costas, mas pendura ordens e condecorações em nosso peito. Ele não confisca mais os nossos bens; pelo contrário, ele nos dá presentes de grande valor. Ele não nos obriga a ser livres de verdade, aprisionando-nos, mas nos transforma em escravos, quando nos honra e homenageia em seu palácio. Ele não mais nos ataca pelas costas, mas se apossa de nosso coração. Ele não mais nos manda decapitar, mas mata o nosso espírito com ouro... Ele diz sim a Cristo para, de fato, negá-lo. Ele anuncia união, mas impede comunhão. “No começo, Deus criou o céu e a terra. Não havia ordem nem vida na terra, que era coberta por um mar profundo. A escuridão cobria o mar, e o Espírito de Deus se movia por cima da água” (Gn 1.1-2). “Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o Senhor Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo” (Gn 2.5). “Ele (Jesus Cristo) se rebaixou, andando nos caminhos da obediência até a morte – e morte na cruz” (Fp 2.8). O barquinho frágil que simbolizava a igreja cristã dos primeiros tempos transformou-se paulatinamente, a partir de seu reconhecimento como religião oficial do Império Romano, num porta-aviões, num navio de guerra armado até os dentes, que a tudo e todos começa a submeter, transformando aquele que se esvaziou de todo o poder em potente senhor de guerra.

Subsídios litúrgicos

Hino inicial: Aqui chegando, Senhor, que podemos te dar? Um simples coração e uma vontade de cantar. Recebe o nosso louvor e tua paz vem nos dar, e tua paz vem nos dar. Saudação: “Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10.9). Confissão de pecados: Com o hino n° 150 – Hinos do Povo de Deus V. 1: Se sofrimento te causei, Senhor.

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Anúncio da graça: “Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12). Gesto de paz Canto: Hino n° 95 – Hinos do Povo de Deus V. 1: Jesus Cristo é Rei e Senhor. Oração de coleta: Deus de amor, que conduzes tua comunidade e, em Jesus, cumpriste tua maior promessa, nós te pedimos: restaura o equilíbrio em tua criação, sê misericordioso e fiel conosco, fortalece nossa fé para que confiemos em tua presença no meio de nós. Por Cristo Jesus, que contigo e com o Espírito Santo reina de eternidade a eternidade. Amém! Leitura bíblica: 1 Reis 19.9-18 Canto: Fala, Senhor. Fala, Senhor! Palavra de fraternidade. Fala, Senhor! Fala, Senhor! És luz da humanidade. 1. A tua palavra é fonte que corre, penetra e não morre, não seca jamais. 2. A tua palavra que a terra alcança é luz, esperança que faz caminhar. 3. A tua palavra é farol da justiça que vence a cobiça, é bênção e paz. Leitura bíblica: Romanos 10. 5-15 Canto: Fala, Senhor. Fala, Senhor! Palavra de fraternidade. Fala, Senhor! Fala, Senhor! És luz da humanidade. Evangelho: Mateus 14.22-33 Pregação Confissão de fé Avisos e anúncio da oferta Canto: Hino n° 98 – Hinos do Povo de Deus V. 1: Qual barco singra pelo mar a igreja do Senhor.

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Intercessão: Amado Pai, tu nos amas com a mesma intensidade com que a mãe ama seus filhos. Agradecemos-te por esse amor que tens por nós e por toda a tua criação. Agradecemos-te por aquilo que já criaste, pela vida que estás criando e ainda irás criar. Agradecemos-te por poder ser teus colaboradores e tuas colaboradoras no ato de criar e dispomo-nos a assumir essa tarefa com carinho, responsabilidade e firmeza. Queremos ser coerentes com o teu evangelho: – Queremos deixar de nos acovardar diante dos poderes que oprimem e eliminam o que é por ti criado e amado, pois participar de tua criação significa, antes de mais nada, evitar a destruição impiedosa das muitas formas e ciclos de vida; – Queremos superar a passividade diante de ideias, projetos e estilos de vida que significam vida para alguns poucos e morte para muitos; – Queremos assumir um jeito de viver sóbrio e parcimonioso, que procura respeitar o todo de tua criação e que não acontece às custas das gerações futuras. Pedimos-te em nome de teu filho, que por nós viveu e morreu: – Ajuda-nos a achar as respostas e alternativas certas quando estamos diante de problemas difíceis relacionados com a preservação tua criação; – Dá-nos discernimento para que preservemos o que deve ser preservado e modifiquemos o que precisa ser mudado; – Faze-nos permanentemente inquietos para não nos conformarmos com a destruição, exclusão e injustiça; – Dá-nos coragem para não fugir de tua cruz e dá o teu santo espírito às nossas comunidades para que a tua palavra crie vida nova em nosso meio; – Ajuda-nos a achar o nosso lugar como partícipes da tua criação. Agradecemos por continuares a apostar em nós. Amém! Pai-Nosso Bênção: Senhor, tu que és a fonte da bênção, abençoa-nos. Tu que és a fonte da força, fortalece-nos. Tu que és a fonte do amor, anima-nos para amar todas as tuas criaturas e, confiantes, seguir por teus caminhos.

Bibliografia MATTHIAS, Walter. Artigo “Chaos”. In: BRUNOTTE, Heinz; WEBER, Otto. Evangelisches Kirchenlexikon. V.1. Goettingen: Vandehoeck&Ruprecht, 1956. STRECK, Edson Edilio. Meditação sobre Mateus 14.22-33. In: HOEFELMANN, Verner; SILVA, Artur (Coords.). Proclamar Libertação. V. 27. São Leopoldo: Sinodal, 2001. VOIGT, Gottfried. Meditação sobre Mateus 14.22-33. In: ID. Die geliebte Welt: Homiletische Auslegung der Predigttexte: 3. Reihe. Göttingen: Vandehoeck&Ruprecht, 1980.

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PRÉDICA: ISAÍAS 56.1,6-8

9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 14 AGO 2011

MATEUS 15.(10-20)21-28 ROMANOS 11.1-2a, 29.32 Pedro Kalmbach

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Introdução

“Assim diz o Senhor Deus, que congrega os dispersos de Israel: Ainda congregarei outros aos que já se acham reunidos” (Is 56.8). “Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos” (Mt 15.27). “Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos” (Rm 11.32). Os três textos têm em comum a abertura a todas as nações, a todos os grupos, etnias, culturas, sociedades. Os planos de Deus rompem com as tradições de exclusão social, cúltica, econômica.

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Isaías 56.1,6-8

O Terceiro Isaías inicia com o capítulo 56, que trata da volta do cativeiro na Babilônia, provavelmente antes da reconstrução do templo de Jerusalém. O entusiasmo inicial dos repatriados derivou em desilusão, desânimo (as promessas do Segundo Isaías não se cumpriram) e dificuldades por causa da miséria econômica reinante na época e pelas tensões e diferenças entre os diferentes grupos existentes em Jerusalém: os judeus desterrados que haviam voltado, os estrangeiros que estavam instalados em Jerusalém e os judeus que não haviam sido levados para o cativeiro (que permaneceram em Judá). V. 1 – No capítulo 56, o anúncio da salvação situa-se num contexto histórico novo (diferente ao do Segundo Isaías; assim, por exemplo, 51.5 anuncia a vitória e a justiça que chegariam com o edital da repatriação), pelo qual a salvação segue dependente de um horizonte escatológico. Praticando a justiça e guardando o direito, é assim que as pessoas devem preparar-se para receber a justiça de Deus. V. 2-5 – Esses versículos, que não fazem parte da perícope, referem-se a dois grupos tradicionalmente excluídos da comunidade cúltica: os eunucos e os estrangeiros (Dt 23.2-9). Com respeito aos eunucos, o profeta afirma que eles já não devem sentir-se excluídos por sua condição. O que vale é a observação e o cumprimento da vontade de Deus. A saber, a pessoa escolhe e é aceita segundo sua decisão de fazer parte e cumprir as determinações. V. 6-7 – O profeta dirige-se aos estrangeiros nesses versículos. Para aqueles que guardam o sábado e perseveram na aliança, o Senhor oferece-lhes partici-

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pação plena na vida cúltica, alegria nas festas. E a casa do Senhor será casa de oração para todos os povos (v. 7). Ou seja, casa de comunicação com o Senhor. V. 8 – Essa nova legislação é promulgada com um oráculo e deixa sem efeito os limites que a legislação anterior colocava à participação/inclusão dos “outros” (estrangeiros, eunucos, bastardos etc.). Os muros do exclusivismo são derrubados.

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Meditação

Acredito ser importante levar em conta que o texto de Isaías 56.1,6-8 trata diretamente do problema da exclusão/discriminação do eunuco e do estrangeiro. Se falássemos hoje sobre grupos e pessoas excluídas das celebrações e demais atividades em nossas comunidades, suspeito que a lista seria extensa. Cada pessoa e cada comunidade poderiam fazer um exercício de sinceridade: Quem são as pessoas e os grupos excluídos hoje em nossa sociedade? Eles estão integrados na vida da comunidade cristã? (Vale, por exemplo, tão somente analisar a situação das pessoas com deficiência.) Seguramente, haveria pessoas excluídas por sua condição social, por sua origem étnica e cultural, por sua orientação sexual, por sofrer alguma deficiência (deficiência física, psíquica etc.), por sua idade, por sua ideologia etc. É interessante mencionar que o v. 1, que fala sobre a necessidade de praticar a justiça e guardar o direito, introduz a nova legislação que rompe com as tradições de exclusão. A salvação do Senhor está próxima, e a comunidade deve preparar-se para ela em seu aspecto ético e social. Dessa preparação faz parte a prática inclusiva/integradora. O profeta assinala que a palavra de Deus exorta todas as pessoas que querem fazer parte de seu povo a praticar a justiça (v. 1), a guardar a mão de cometer algum mal (v. 2). Esses preceitos valem para todos por igual. Para nosso contexto social e econômico, no qual o consumismo passou a ser o que rege as relações humanas e determina as decisões e a atuação de milhões de pessoas e de muitos governos e no qual continua aumentando a miséria econômico-social-cultural-educativa, as palavras do profeta são um lúcido chamado de atenção de que Deus espera de seu povo uma vida que se empenha pela justiça, pelo direito. Os critérios de inclusão, que deveriam ser característicos das pessoas que desejam ser seu povo (das pessoas cristãs), não têm a ver com a condição social, cultural, étnica, de gênero, poder de consumo, mas exclusivamente com o direito, com a prática da justiça, com guardar a mão de cometer o mal. Aqui valem as perguntas: Quais são as situações hoje em que a justiça e a prática do direito estão ausentes no contexto em que se encontra nossa comunidade? Em que medida nossa comunidade se empenha no trabalho pela justiça e pela prática do bem – justamente ali onde falta? Em que medida nossas comunidades são espaços nos quais se estimulam pessoas que se dizem cristãs a buscar a justiça e o bem?

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Imagens para a prédica

Dois temas ou assuntos podem ser ressaltados a partir do texto: inclusão/ integração e a prática da justiça e do bem. Proponho trabalhar o primeiro deles. Poderia resultar interessante trabalhar o tema nos diferentes grupos da comunidade (jovens, mulheres, estudos bíblicos, confirmandos) durante uma ou duas semanas antes do culto. Que pessoas estão excluídas, que sofrem discriminação na sociedade e especificamente na comunidade? Os resultados, as observações, as produções dos grupos, com certeza, serão uma importante contribuição para o culto e para a pregação (por exemplo, quadros, fotos e cartazes de pessoas excluídas da sociedade, da comunidade, dos cultos; uma situação de exclusão dramatizada por jovens/mulheres/crianças ou outro grupo). A pergunta é como a comunidade se posiciona diante da realidade de exclusão na sociedade e diante da exclusão existente no seio da própria comunidade, por exemplo, no culto (a exclusão “indireta” do culto comunitário – existente em muitos lugares – das crianças, dos jovens; a exclusão direta de pessoas com deficiência). Quais são os desafios que a palavra de Deus traz e que ações e mudanças concretas podem ser feitas?

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Subsídios litúrgicos Creio em ti Creio em ti porque tu me criaste; Porque, apesar de minhas imperfeições, me queres tal como fui, tal como sou. Creio em ti, porque tu te encarnaste, vieste até nós, para mostrar que cada pessoa, sem importar sua condição, sem importar sua cor, sem importar seu idioma, sem importar suas limitações, sem importar suas imperfeições, é importante para ti. Creio em ti, porque me queres, porque queres aquele que está ao meu lado, aquele que está abandonado, porque queres aquele que os outros rejeitam, e sempre de novo nos animas a seguir-te, me animas a seguir-te. Creio em ti, porque esse é o milagre, incrível, mas certo; porque somente Deus pode amar-nos e amar-me assim, porque somente ele pode perdoar-nos e perdoar-me, como somos, como sou; como fomos, como fui. Creio em ti, porque por teu amor cheguei ao amor de outras pessoas, por teu amor cheguei a amar a quem eu não queria, a quem eu rejeitava. Creio em ti. Amém.

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9º Domingo após Pentecostes

Bibliografia CRISTOFANI, José Roberto. “13º Domingo após Pentecostes”. In: Proclamar Libertação. V. XVIII. São Leopoldo, 1992. RIBEIRO, Antonio C. “13º Domingo após Pentecostes”. In: Proclamar Libertação. V. 30. São Leopoldo, 2004. SCHÖKEL, L. Alonso; SICRE DIAZ, J. L., Profetas. Comentário I. Madrid: Cristiandad, 1980.

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10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 16.13-20

21 AGO 2011

ISAÍAS 51.1-6 ROMANOS 12.1-8

Emilio Voigt

1

Introdução

Em Isaías 51.1-2 e Mateus 16.18, encontramos a figura da pedra: Sara e Abraão como pedra da qual foi “esculpido” o povo de Israel; Pedro, a pedra sobre a qual será edificada a igreja. Observa-se que as personagens Sara, Abraão e Pedro são apenas instrumentos do agir divino (quando eu o chamei, o abençoei e o multipliquei / edificarei a minha igreja). A expectativa escatológica de Isaías 51.3-5 é outro ponto de referência com o texto da pregação. No judaísmo à época de Jesus, o Messias (= o Cristo) era considerado o precursor do novo tempo de alegria, justiça e salvação. A leitura de Romanos tem clara relação com o tema igreja, embora a palavra não seja citada. Romanos 12.4-8 é um exemplo clássico para ilustrar a compreensão das primeiras comunidades cristãs a respeito da essência do ser igreja. A igreja é um corpo em Cristo (cf. também 1Co 12.12-31). O início de Romanos 12.2 pode ser relacionado com a pergunta em Mateus 16.15: independente da opinião corrente, os discípulos são chamados a dar sua própria resposta. Portanto não se conformam com “este século”. A unidade temática do culto e da pregação pode ser associada a dois termos: Cristo e igreja. A perícope já foi tratada nos volumes II, XXIII (16.13-19), XXIV e XXVII de Proclamar Libertação. Recomendo a leitura dessas contribuições para aprofundar questões exegéticas e obter mais estímulos para a prédica.

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Exegese

V. 13 – A partir do livro de Daniel (ex.: Dn 7.13s), o termo “Filho do Homem” tornou-se símbolo fundamental do reinado de Deus. No período romanohelenístico, o termo era uma das formas apocalípticas mais importantes para se referir ao messias. V. 14-15 – As respostas variadas mostram o reconhecimento de que Jesus desfrutava. Ser considerado um dos profetas é indicativo de reconhecimento. Elias e Jeremias eram figuras proféticas de destaque no Antigo Testamento. João Batista, por seu lado, exerceu grande influência sobre o povo na época de Jesus. A menção a Elias e a João Batista evoca expectativas escatológicas. De acordo com o Antigo Testamento, Elias voltaria no fim dos tempos (Ml 3.22-24). No Novo Testamento, João Batista é apresentado como precursor do Messias. A comparação entre Jesus e essas figuras ilustres demonstra que foi notada uma semelhança.

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Mas Jesus espera que seja percebida também a diferença. Por isso pergunta pela opinião dos discípulos. V. 16 – Pedro apresenta-se como porta-voz do grupo para expressar a resposta esperada: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A resposta de Pedro está em consonância com a pergunta inicial de Jesus, pois há sinonímia entre os termos “Filho do Homem” e “Messias”. A palavra grega Xristós tem seu equivalente no hebraico Masiah (Messias) e pode ser traduzida como “ungido”. Originalmente, a unção fazia parte do cerimonial de entronização de um rei e servia como legitimação para o exercício do poder. Em algumas tradições, o termo Messias (ungido) aparece também ligado ao sacerdote (Êx 29.1ss; 40.12ss; Zc 3.6,13). No período pós-exílico, e principalmente nos dois séculos antes do nascimento de Jesus, o termo Masiah firmou-se como designação para uma figura salvífica escatológica. A atividade do Messias está ligada ao estabelecimento do domínio de Deus. E esse é o tema central do anúncio e da atividade de Jesus: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo” (Mc 1.15). Reino de Deus não significa um território específico, mas aponta para o fato de que Deus é senhor e governa sobre todas as coisas. Reino de Deus tem caráter dinâmico: indica que Deus está exercendo o domínio. Nesse sentido, poderíamos trocar a palavra “reino” por domínio ou governo de Deus. Ao dizer “Tu és o Cristo”, Pedro reconhece que Jesus é o Messias, o ungido esperado. Convém lembrar que não havia uma compreensão única acerca do Messias, assim como não havia em Israel uma ideia uniforme acerca dos acontecimentos futuros. Em termos gerais, concordava-se que o Messias inauguraria o tempo da salvação. E esse tempo será incomparavelmente melhor do que o presente: será um tempo de paz integral, alegria e abundância. Deus colocará um fim à opressão e ao domínio estrangeiro e regerá seu povo com paz e justiça. O domínio de Deus sobre toda a criação será completo e infinito. Há quem julgava poder apressar a vinda do reinado de Deus através da oração e do seguimento fiel dos mandamentos. E havia pessoas que estavam dispostas a pegar em armas e conduzir uma guerra santa para libertar Israel do domínio estrangeiro. Quando Pedro confessa Jesus como Cristo, ainda não está claro que tipo de Messias ele esperava. Os versículos que sucedem o texto da prédica (Mt 16.21ss) mostram que a expectativa de Pedro não era semelhante à compreensão de Jesus. Pedro não esperava por um Messias que pudesse sofrer. A atividade de Jesus aponta para o início da concretização do reinado de Deus. Curas, exorcismos, perdão, acolhimento de pessoas marginalizadas e pecadoras são sinais da manifestação do poder de Deus. A partir da atividade de Jesus, o domínio de Deus espalha-se, cresce e envolve as pessoas. Como uma planta ou como a massa de pão (Mc 4.30-32; Mt 13.33), ele vai crescendo e tomando forma. V. 17-19 – O tema aqui tratado está ausente em Marcos 9.27-30 e em Lucas 9.18-20. A maioria dos comentários exegéticos vê nesses versículos um acréscimo de Mateus. Mas há também quem defenda que Marcos omitiu a bem-aventurança para salientar a repreensão dirigida a Pedro logo mais tarde (Mc 8.33 / Mt 16.23). Em todo caso, há um elemento novo, que causa certa estranheza.

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A expectativa da vinda do Messias sempre esteve ligada ao estabelecimento do domínio (reino) de Deus e não ao surgimento da igreja. Qual seria a relação entre minha igreja (igreja de Cristo) e reino de Deus? Certamente não se trata de duas grandezas contraditórias, mas complementares. Afinal, a igreja entende-se como espaço privilegiado da concretização do reinado de Deus. A igreja é constituída por pessoas que reconhecem Jesus como Messias e que vivem, já agora, sob o domínio de Deus. Nesse sentido, o trecho pode ser tratado na prédica, independente de ser ou não acréscimo de Mateus. A confissão de Pedro só foi possível porque foi revelada por Deus. Não veio dele, nem de outra pessoa (“carne e sangue” tem sentido de “ser humano” – cf. Gl 1.16). A igreja construída sobre a rocha terá estabilidade e durabilidade (cf. Mt 7.24s). Mas isso não acontece por causa de Pedro, e sim por ser igreja de Jesus Cristo. O termo “portas do inferno” significa provavelmente “poderes da morte”. Os poderes da morte não são mais fortes do que a igreja. A igreja persistirá, pois o Senhor estará com ela até o fim dos tempos (Mt 28.20). Pedro recebe uma incumbência especial: o ministério das chaves. Possivelmente se trata aqui de decisões no âmbito da doutrina. A tarefa do apóstolo seria abrir o reino dos céus através do anúncio e da interpretação da vontade de Deus. Esse ministério é ampliado em Mateus 18.18, a toda a comunidade de discípulos, mesmo que ali o acento esteja nas decisões envolvendo conflitos internos. V. 20 – A proibição de anunciar Jesus como o Cristo provavelmente está ligada ao perigo de que a compreensão que os discípulos têm acerca do Messias ainda é equivocada. A fala de Pedro em 16.22 é amostra disso.

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Meditação

A voz do povo não é a voz de Deus. Isso está bem claro nas diferentes respostas a respeito de quem seria Jesus. Mesmo assim, a opinião popular é necessária. Perguntar o que outros pensam a nosso respeito não implica necessariamente deixar-se orientar pelo julgamento alheio. A pergunta é necessária porque ela estimula a reflexão, traz clareza e provoca decisões. Ademais, ela ajuda a perceber se estamos conseguindo comunicar o que somos. O texto mostra que havia diferentes ideias a respeito de Jesus entre o povo. Mas Pedro e os discípulos sabiam exatamente quem ele é: o Cristo (Messias). Foi essa certeza que os levou a uma decisão. Por isso abandonaram tudo e o seguiram. Todavia, faltava ainda clareza a respeito do que seria esse Messias. Às vezes, precisam ser repreendidos pela falta de entendimento. No seguimento, vão aprendendo a conhecer e a compreender. A igreja peregrina ainda conhece o Messias com a visão obscurecida, como em espelho (1Co 13.12). A comparação entre Jesus e grandes personagens da religião judaica indicava reconhecimento. Mas Jesus representava mais. A diferença não foi percebida. Tratava-se de uma diferença tão tênue? Talvez. Mas o texto também dá pistas para outra explicação. O texto afirma que a confissão de Pedro não veio dele mesmo. Ela foi revelada por Deus. Não se chega à compreensão simplesmente por reflexão pessoal, ainda que essa seja necessária. Isso nos coloca no âmbito da

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graça e do dom de Deus. Naturalmente fica o questionamento: se Pedro recebeu tal revelação, por que outros não a receberam? Seria a graça algo destinado a poucos escolhidos? Certamente não! Para receber a graça, que permite perceber a diferença, é preciso também disposição para despojar-se dos próprios conceitos, anseios e expectativas. É necessária a renovação da mente (Rm 12.2). A pergunta de Jesus – “Vós, quem dizeis que eu sou?” – permanece atual. Somos convidados a dar resposta pessoal, a ir além da opinião que ouvimos. Somos convidados a perceber a diferença. Quem é Cristo para nós hoje? Podemos confessar como Pedro: “Tu és o Cristo”? E que tipo de Cristo (Messias) nós confessamos? A resposta determina nossa motivação e também nossa forma de seguimento. E certamente a nós também cabe responder: Por que pertencemos e por que vamos à igreja? O que a igreja de Cristo representa para nós? A falta de clareza a respeito de Cristo espelha-se na falta de clareza a respeito de sua igreja. A cada dia surgem novas igrejas disputando o “mercado religioso”. Em muitos casos, igrejas ditas cristãs aproveitam-se de fraquezas e necessidades para alcançar objetivos suspeitos. Como perceber a diferença? Afinal, o que caracteriza a igreja de Cristo? Quais os aspectos comuns que reúnem as pessoas como igreja? E o que marca a diferença entre participantes e nãoparticipantes de uma igreja? A metáfora do corpo humano pode ser uma grande ajuda na busca por respostas. A igreja como corpo de Cristo possui três elementos essenciais: unidade, diversidade, serviço. 1) Unidade – Os membros do corpo humano formam uma unidade na medida em que estão interligados: “Se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1Co 12.26). Quando damos uma martelada no dedão, a boca, que nada sofreu, emite uma palavra ou grito de dor e os olhos podem demonstrar a dor com lágrimas. A interligação e a unidade em uma comunidade são dadas através de Cristo, que é a cabeça da igreja (Cl 2.18-19; Ef 4.15-16). Batizados em um só corpo (1Co 12.13), os membros de uma comunidade manifestam a unidade através da fé no Trino Deus, do testemunho e da vivência do evangelho. 2) Diversidade – Assim como os membros do corpo são diferentes e possuem funções distintas, também uma comunidade cristã é constituída por pessoas com diferentes ideias e diferentes dons. A diferença não deve alimentar sentimentos de inferioridade ou de discriminação, mas apontar para a necessidade de complementação. Nenhum membro é autossuficiente. Cada pessoa tem algo a dar e a receber. Cada pessoa tem um dom, e cada dom é importante e necessário para o desenvolvimento da comunidade. 3) Serviço – Os membros não vivem para si, mas estão a serviço do corpo. Igreja não é prestadora de serviços, mas tem o serviço (diaconia) como essência. Por isso ela busca comunhão, solidariedade, partilha, paz, justiça. O serviço está em oposição à busca por grandeza, honra e vantagens de qualquer espécie. A chegada do domínio de Deus tem implicações nas relações de poder. No lugar do poder como dominação entra o poder como serviço. O texto de Marcos 10.42-44 expressa muito bem o contraste entre o poder exercido pelos “grandes” e o poder que pode ser exercido no seguimento de Jesus, ou seja, sob o domínio de Deus.

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Há uma inversão de valores e da ordem: poder significa serviço e não privilégio e dominação. A igreja é o local da vivência do domínio de Deus. Aqui será colocada em prática uma nova forma de agir, que buscará contagiar toda a sociedade. Pois a igreja de Cristo é chamada para ser sal e luz do mundo (Mt 5.13s). É ela quem deve influenciar a sociedade, e não o contrário. A igreja fará bem em aplicar o método de Jesus e perguntar pela opinião popular. Mas a sociedade não determinará quem é o Cristo e o que é sua igreja. A igreja de Cristo, constituída por pessoas que aceitam o domínio de Deus, não se conforma com este século.

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Imagens para a prédica

Explorar exemplos que indicam que palavras, gestos, atos ou coisas parecidas não são necessariamente iguais. Jesus poderia ser parecido com os profetas, mas havia uma diferença. A metáfora do corpo é uma imagem bastante conhecida, que pode ser usada para destacar o que é a essência da igreja de Cristo.

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Subsídios litúrgicos

Saudação: Jesus diz a seus discípulos: “A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus” (Mc 4.11). Reunimo-nos neste dia como comunidade de Cristo, para conhecer os mistérios do reino e para receber forças para viver sob o domínio de Deus [segue invocação trinitária]. Confissão de pecados: Bondoso e amado Deus: em humildade nos achegamos a ti para confessar nossos pecados e pedir tua misericórdia. Confessamos que é difícil perceber a diferença entre a tua vontade e os nossos próprios anseios e expectativas. Nem sempre temos clareza sobre quem é Jesus e quais as consequências de confessar Jesus como o Cristo. Oramos para que o teu reino venha e para que seja feita a tua vontade, mas nem sempre aceitamos o teu domínio sobre nós. Por isso nossa comunhão deixa a desejar e não colocamos nossos dons a serviço da comunidade e do próximo. Não amamos nosso próximo como a nós mesmos e não nos dispomos a servir. Deixamo-nos guiar por valores que são impostos pela sociedade quando deveríamos transformar a sociedade a partir dos valores do teu reino. Por isso te suplicamos: perdoa nossa incompreensão e nossa fraqueza. Dá-nos disposição para renovar a nossa mente, para viver sob o teu domínio e ser sal e luz para o mundo. Oração do dia: Ó Deus, nós agradecemos por tua misericórdia e por teu amor. Agradecemos-te porque enviaste teu Filho para inaugurar o teu domínio sobre nós. O teu domínio significa amor, cura, justiça, paz, alegria. Permita que vivamos sob o teu

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domínio, refletindo e vivendo de acordo com a tua vontade. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo nos congrega e nos anima a perceber os sinais do teu reino neste mundo.

Bibliografia GORGULHO, Frei Gilberto; ANDERSON, Ana Maria. A justiça de Deus: Mateus. Círculos Bíblicos. São Paulo: Paulinas, 1981. TASKER, R. V. G. Evangelho Segundo Mateus: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, Mundo Cristão, 1982.

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11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: ROMANOS 12.9-12

28 AGO 2011

JEREMIAS 15.15-21 MATEUS 16.21-28

Alfredo Jorge Hagsma Vera Regina Waskow

1

Introdução

As cartas apostólicas como um todo constituem um importantíssimo segmento do ensinamento neotestamentário, porque são um vasto celeiro de ensinamentos teológicos, doutrinários e morais. Elas marcam o momento em que a igreja sistematizou o conhecimento de Deus, até então expresso nos livros do Antigo Testamento, e desenvolveu, inclusive a partir da nova ótica trazida por Jesus Cristo, uma nova compreensão da forma como deveria relacionar-se com o Pai. Surge, nesse período, de forma mais clara e didática, a doutrina da Trindade, os temas do amor de Deus, do chamado dos gentios, da salvação pela fé em Jesus Cristo, da ressurreição dos mortos, da vida eterna e tantos outros. As cartas de Paulo compreendem mais da metade de todo esse legado da igreja primitiva e estão entre os mais importantes documentos que nos têm chegado às mãos. Dentre as cartas de Paulo, certamente a Carta aos Romanos ocupa lugar de destaque. Alguém já a chamou de “evangelho dentro do evangelho”, dado à forma linear, sistemática, profunda e completa com que seu autor expõe sua compreensão do plano da salvação. O texto indicado para a mensagem (Rm 12.9-12) para este domingo aponta, de maneira muito prática e concreta, para o agir e o viver da pessoa que tem a vida orientada pelo Espírito de Deus. Aparentemente, não revela as dificuldades do servir, mas enfatiza a alegria que esse servir pode proporcionar. Os demais textos – Jeremias 15.15-21 e Mateus 16.21-28 – apontam com muito mais ênfase para as dificuldades e para os sofrimentos inevitáveis e consequentes desse servir a Deus. Não obstante, os três textos relacionam-se e interagem a partir da entrega incondicional a Deus com todas as suas implicações.

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Exegese

A Carta de Paulo aos Romanos tem sido, ao longo da história, um importante instrumento para o fortalecimento da fé cristã. A entrega e a confiança absoluta de Paulo à graça de Deus dão a esse escrito autenticidade e profundidade como poucos na história cristã. Essa carta foi escrita provavelmente por volta do ano 55 durante uma estada de Paulo na cidade de Corinto. “Alguns veem, em Romanos, uma exposição ampliada, muito refletida e serena, da breve epístola aos Gálatas, enquanto que outros pensam que Gálatas é uma espécie de síntese polêmica e ve-

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emente da epístola aos Romanos” (Introdução aos Romanos na Bíblia de Estudo Almeida). Em qualquer das hipóteses, o que importa saber é que os dois textos revelam conceitos fundamentais similares: o domínio do pecado sobre todos os seres humanos, a incapacidade da Lei de Moisés para salvar o pecador, a graça de Deus revelada em Cristo, a justificação pela fé e os frutos do Espírito. A Carta aos Romanos está dividida em duas partes principais: a primeira (1.16-11.36) é basicamente doutrinária, e a segunda (12.1-15.13), de recomendações práticas para a vida comunitária. No texto em estudo para a mensagem neste 11º Domingo após Pentecostes (Rm 12.9-12), inserido no segundo bloco, o apóstolo Paulo exorta a comunidade a viver de acordo com a “lei do amor”. Toda pessoa que confessa a fé cristã é chamada a pôr em prática essa “lei” em sua vida. Segundo Paulo, a fé manifesta-se no amor. A fé opõe-se a qualquer atitude de soberba pessoal ou coletiva. Nesse sentido, não se trata de “lei do amor”, mas simplesmente de amor consequente. Todo o capitulo 12 trata do serviço a Deus, da diaconia, que brota da fé. Segundo o texto em questão, esse serviço se pauta por questões bem concretas, que têm a sua origem no amor. Daí provêm a sinceridade, a distância de tudo o que é mau, o carinho de irmãos de um para com o outro, a preferência ao outro, ou seja, a negação do egoísmo, o entusiasmo, a alegria, a esperança, a paciência e, não por último, a oração. As principais versões em português (Almeida, Bíblia de Jerusalém e Linguagem de Hoje), se comparadas, não trazem elementos divergentes em suas traduções. Não apenas os versículos em estudo, mas todo o capítulo 12 é basicamente um manual de orientações de como viver a vida conforme a vontade de Deus. V. 9 – O amor pode ser fingido, pode ser “adulterado”; o mal precisa ser rechaçado e o bem seguido. V. 10 – Amar uns aos outros, se preciso até com esforço. V. 11 – Trabalhar com entusiasmo, com alegria, sem preguiça. V. 12 – A esperança concederá a alegria necessária para suportar os sofrimentos. A nova existência em Cristo manifesta-se em relação a Deus com fé e concretamente na vida comunitária através da prática do amor. A fé se evidencia no amor. No v. 9 está a exortação clara para que o amor não seja hipócrita, mas autêntico e verdadeiro. Mostrar ao próximo um amor artificial seria um grande desrespeito a ele e uma volta à existência anterior, sem Cristo, sustentada nos próprios interesses. Os versículos seguintes (10-12) descrevem, de diferentes maneiras, a mesma preocupação. Seguidamente, apontam para o perigo de a velha criatura voltar a dominar a nova com seu amor próprio, sua incapacidade de identificar-se com o próximo, sua insensibilidade com as alegrias e sofrimentos de seus irmãos e irmãs. A partir do v. 11, percebe-se que o ardor original da nova existência em Cristo precisa ser constantemente renovado. Essa renovação só pode acontecer pela misericórdia de Deus e pela entrega absoluta a Deus, conforme o v.1, tal qual sacrifício vivo, santo e agradável. O v. 12 encerra garantindo que a relação com Deus fortalece, renova e capacita para o amor em todas as circunstâncias.

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Meditação

O escritor e poeta cubano José Martí disse: “A melhor forma de dizer é fazer”. Ou seja, conforme esse autor, a ortopraxia (prática ou conduta correta) está acima da ortodoxia (ensino correto). Não adianta falar muito; o que importa é fazer. Essa teoria encontra respaldo em muitas passagens bíblicas (Tg 2.14ss, por exemplo), inclusive em palavras do próprio Jesus, como em Mateus 7.21: “Nem todo aquele que me chama: Senhor, Senhor entrará no reino do céu, mas somente aquele que faz a vontade de meu pai que está no céu...” As igrejas luteranas têm enfatizado historicamente a justificação pela fé como base de sua teologia. É conhecida também como a Igreja da Palavra ou da ortodoxia. Tanto que Lutero caracterizou a carta de Tiago como uma “carta de palha” porque essa enfatiza a importância das obras na vida da pessoa cristã em “detrimento da fé”. “Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ação, é coisa morta em si mesma” (Tg 2.17). Conforme Heinz Ehlert, “a comunidade ou igreja de confissão luterana faz bem em lembrar-se constantemente desse fato, para a renovação de sua fé e conduta”. No entanto, não basta voltar ao fundamento, à razão de nossa fé; “é preciso buscar uma sintonia entre fé e ação, deixando que a misericórdia e o amor de Deus nos conduzam em nosso relacionamento com o próximo e em nossa ação e trabalho na sociedade” (PL v. V, p. 22). Essa sintonia não pode ser forçada; aquilo que vem antes, a fé, o fundamento, tem como consequência natural o serviço de amor ao próximo e a toda a criação de Deus. Se essa reação não acontece naturalmente, pode-se concluir que há um problema no fundamento. Conforme Heinz Ehlert, “a fé em Cristo dá um sentido que se cumpre quando se segue a ele, praticando o amor ao próximo”. Nesse sentido, tanto a ortodoxia como a ortopraxia, quando isoladas, são contraditórias ao evangelho de Cristo, são insuficientes por si só. A palavra de Deus – Sagrada Escritura – oferece subsídio para condenar tanto uma como outra (ortodoxia e ortopraxia). A fé tem como resposta natural as ações de graças, e essas, por sua vez, encontram sua fundamentação na fé. Nesse sentido, a comunidade cristã não faz assistência social, mas vive a diaconia. A ação das comunidades, vista a partir da perspectiva da assistência social, é muitas vezes um fardo para a comunidade cristã e, por conseguinte, não se consegue servir com o coração cheio de entusiasmo, conforme recomenda o apóstolo Paulo (v. 11). Quando a ação é uma exigência, não há alegria no servir; muito antes representa um peso. Como consequência da fé, o servir será sempre cheio de entusiasmo, de alegria e esperança. “Vivam alegres, com esperança que vocês têm, tenham paciência nas dificuldades e nunca deixem de orar” (v. 12). Essa é a recomendação mais adequada para um servir com sentido: alegria, esperança, paciência nas dificuldades e, sobretudo, nunca deixar de orar. Nas atas das reuniões dos presbitérios de nossas comunidades, é bem comum encontrar frases do tipo: “Após a parte espiritual, (meditação) realizada pelo pastor/a, passou-se para os assuntos da reunião...” Ou afirmações tais como: “O/a pastor/a cuida da parte espiritual, que o presbitério cuida da parte administrativa”. Ou seja, o “espiritual” não se relaciona com os demais assuntos. Não há

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uma interação entre eles. Há uma nítida separação entre “sagrado e profano”. A fé, a palavra de Deus, a oração estão à parte do dia-a-dia, das muitas atividades que a comunidade realiza. E, sendo assim, essas não passam de ativismo impensado e por isso provocam tamanho desgaste. O que o apóstolo Paulo recomenda aos romanos é um servir cheio de alegria e esperança, de entusiasmo e paciência, de carinho e amor, tendo esse servir como foco sempre a outra pessoa e não si próprio. Um agir assim só pode encontrar sua razão de ser na fé em Jesus Cristo.

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Imagens para a prédica

Mãe e filhinha de seis anos retornavam do culto quando, na rua, avistaram um cavalo pastando. A menina pergunta: Mãe, este cavalo também é cristão? A mãe fica assustada com a pergunta da menina. Mas que pergunta é essa, minha filha? Cavalos não são cristãos! Por que você perguntou isso? Mãe, é que ele também está com a cabeça baixa e com um semblante triste igual às pessoas que estavam lá na igreja! Por que as pessoas vão à igreja, ao culto, com um olhar de sofrimento, de dor e de cansaço? É bem provável que muitas tenham motivo para estar assim, mas, em muitos encontros, esse sentimento parece generalizado. Será que servir a Deus tem se tornado um fardo para a comunidade ou será que nossas celebrações não permitem uma postura diferente? A fé, o estar na presença de Deus e da comunidade, de poder celebrar com outras pessoas por si só é motivo de gratidão e de alegria. É da celebração que brota a força para um servir com sentido e alegria em qualquer circunstância. Um mestre do Oriente viu quando um escorpião estava se afogando e decidiu tirá-lo da água. Mas, quando o fez, o escorpião o picou. Pela reação de dor, o mestre o soltou e o animal caiu de novo na água e estava se afogando de novo. O mestre tentou tirá-lo novamente, e novamente o animal o picou. Alguém que estava observando se aproximou do mestre e lhe disse: “Desculpe-me, mas você é teimoso! Não entende que todas as vezes que tentar tirá-lo da água ele irá picálo?” O mestre respondeu: “A natureza do escorpião é picar, e isso não vai mudar a minha, que é ajudar”. Então, com a ajuda de uma folha, o mestre tirou o escorpião da água e salvou sua vida. A natureza da pessoa cristã é servir. E isso não por interesse, por mérito ou por obrigação, mas como disse o apóstolo Paulo: “Por causa da grande misericórdia divina, peço que vocês se ofereçam completamente a Deus como sacrifício vivo e dedicado a seu serviço e agradável a ele” (Rm 12.1). Essa natureza da pessoa cristã não é uma escolha, uma opção; é uma reação àquilo que Deus já fez. Quando a pessoa é tomada pela graça de Deus, ela não consegue mais agir de outra forma. O velho ser humano já não existe mais. Por isso o apóstolo Paulo também disse: “Porém Deus, na sua graça, me escolheu antes mesmo de eu nascer e me chamou para servi-lo” (Gl 1.15).

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Subsídios litúrgicos

Oração inicial: Deus bondoso, tu tens em tuas mãos todo o vasto mundo. Tu podes transformar corações e atitudes conforme teu agrado. Concede-nos a graça da fé, que nos permite experimentar teu abraço e tua proteção e que nos dá força para buscar a paz que une e refaz e semear o amor, teu grande poder transformador. Transforma nosso ser e também nosso viver. Por nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém. (Baseado na oração do Livro de Culto – IECLB, p. 285) Confissão de pecados (baseada no Salmo 31): Amado Senhor, em ti busco proteção, tu és a rocha de abrigo, a fortaleza. Não deixe que o pecado seja a armadilha que me afasta de tua presença. Perdoa, amado Pai, a minha falta de confiança, a minha falta de disposição. Não tenho vivido conforme a tua vontade, nem mesmo vivido como teu filho/tua filha, nem mesmo cuidado de tua criação. Tenho deixado de praticar o amor, fruto claro da fé em ti. Não tenho demonstrado minha fé no dia-a-dia, nem tenho confiado em ti. Muito antes tenho sido descrente e desconfiado. Tenho tido dificuldades para esperar em ti, para suportar as dificuldades, crendo que tu caminhas comigo. Senhor, perdão, em tuas mãos entrego minha vida, tenha compaixão de meu ser. A tristeza e a dor do pecado acabaram com minhas forças, mas a ti senhor eu peço: Olha com bondade para mim e perdoa minha desobediência e minha falta de amor com o irmão e a irmã. Por isso clamo a ti: Perdão, Senhor. Absolvição: Jesus Cristo disse: “Vinde a mim os que estão cansados e sobrecarregados que eu vos aliviarei” (Mt 11.28). O Deus da vida nos perdoa, nos restabelece e nos renova, para que possamos viver como povo perdoado, aliviado, disposto a perdoar e a partilhar o que Ele nos tem oferecido. Alegrem-se, pois os pecados de vocês estão perdoados: em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Kyrie eleison: A comunidade perdoada levanta o olhar e percebe as dores do mundo e por elas intercede a Deus: Clamamos, Senhor, pelas pessoas que sofrem por não crer, por não esperar em ti, por não te amar de todo o coração. Clamamos por mais fé, mais vontade de testemunhar nossa confiança em ti, por mais alegria em ser teus filhos e filhas. Clamamos, Senhor, por toda a criação, para que o amor e esperança, a fé e ação possam reger o viver de cada pessoa. Por isso pedimos cantando: Canto: Diaconia (Rodolfo Gaede) 1 Quero aprender de Maria a ouvir com devoção, ter de Marta a energia, pressa e dedicação. Acontece diaconia na ação com oração. Ser uma Marta-Maria: que bonita vocação.

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Estribilho: Vamos juntos trabalhar na seara do Senhor, Pois o povo está a vagar qual ovelhas sem pastor. Libertados pela graça nos dispomos a servir. Sirvamos com alegria, exaltando o Deus do amor. 2 Do pequeno, ser amigo, ao faminto dar o pão, com o nu buscar abrigo, com o doente comunhão. Acolher o forasteiro, ao sedento saciar. Libertar o prisioneiro e os mortos sepultar. 3 Todos nós somos chamados para este mutirão. Venham, pois, muito animados, integrar a comunhão, Vivenciar diaconia com os mais pobres deste chão; Resgatar cidadania, superar a escravidão! Obs.: Esse belo hino não se encontra nos hinários da IECLB. Sua melodia pode ser escutada no CD 1 do Grupo Espaço.

Bibliografia Romanos e a Teologia de Paulo (Originalmente publicado em Pauline Theology, V. III, ed. David M. Hay & E. Elizabeth Johnson). Minneapolis: Fortress, 1995. p. 30–67. http://www.ntwrightpage.com/port/Wright_Romanos_Teologia_Paulo.pdf (Carta de São Paulo aos Romanos. Rubem Martins Amorese. http://www.monergismo.com/textos/comentarios/romanos_amorese.htm Ehlert, Heinz. In: Proclamar Libertação. V. 5. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1979. p. 22ss.

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12º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 18.15-20

04 SET 2011

EZEQUIEL 33.7-11 ROMANOS 13.8-14

Paulo P. Weirich

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Introdução

Este domingo gira em torno da pergunta dos discípulos: “Quem é o maior no reino dos céus?” Uma pergunta que ainda está no ar. No reino dos seres humanos, essa pergunta tem muitas respostas. Mas o princípio é comum: Alguém deve ser maior. Com isso a humanidade escreve sua história, e os indivíduos escrevem suas biografias. Infelizmente, esse princípio pressupõe interesse pessoal, comparações, confrontos, sistemas de retribuição e retaliações. Nesse contexto, Jesus ensina que o reino dos céus implica não permitir que alguém venha a tornar-se “menor”. O que fazer para que ninguém se torne pequenino no reino dos céus? 1.1 – Ezequiel 33.7-11 Tomamos conhecimento de catástrofes que acontecem diariamente. Casas soterradas, enchentes, epidemias, crimes e guerras. A contagem não termina. O homem procura afirmar-se diante da natureza no esforço de dominar seus segredos. Entretanto, diante da catástrofe, o homem fica reduzido a uma sensação incômoda de insignificância e fragilidade diante da natureza descontrolada. Mas a tragédia mais incômoda é a tragédia diária das mortes no trânsito e dos traumas daí resultantes, tragédia com forte ingrediente não de fragilidade do ser humano, mas da presunção de domínio sobre a máquina a qualquer custo e consequência. Não é simples comparecer diante de uma comunidade para, diante desses fatos, anunciar que essa é a linguagem de Deus para dizer a todos: “Certamente morrerás”. É mais agradável deixar passar e falar de esperanças e possibilidades para a humanidade; falar de projetos e engajamentos por um mundo melhor; acreditar que o ser humano pode mudar tendências em sua natureza desde que seja modificado o ambiente. O profeta não deve repetir os slogans com os quais a humanidade constrói suas ilusões. Deus quer que as pessoas reconheçam nos acontecimentos a sua presença, tanto quando Deus salva como quando Deus sinaliza nos fatos do dia a presença e a vinda de seu juízo: “Por que haveis de morrer, casa de Israel?”. O juízo de Deus é real e mostra-se diariamente nas calamidades e tragédias, pelas quais Deus anuncia que é melhor buscar refúgio ali onde há real refúgio, ou seja, na graça e no perdão de Deus. Somente então a vida faz sentido.

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1.2 – Romanos 13.8-14 É o extremo desafio na vida cristã: A ninguém fiqueis devendo coisa alguma. Então se fala do amor que Deus restabeleceu para o mundo na obra vicária que realizou pela humanidade. É o amor que pressupõe o perdão e vive do perdão. Para que Deus efetivamente ame o pecador, Deus necessita executar seu juízo contra o pecador. O juízo que se abateu sobre o Filho de Deus não cancelou o juízo final de Deus. Desse juízo estamos nos aproximando a cada dia que passa. Ignorá-lo é impossível para a igreja. Os sinais aí estão, uns atestando o quanto o ser humano está distante da obra de Deus, outros atestando que Deus na natureza anuncia o juízo que está por vir. Em que situação ficamos? Revestidos do amor que nos foi confirmado na pessoa de Jesus Cristo. Ele nos ama através das pessoas que nos aceitam e nos amam como somos. As pessoas são sinais de um novo reino, para o qual fomos resgatados. O amor é o sinal do reino que desfrutamos quando nos damos conta de que somos amados por Deus nas pessoas que ele envia ao nosso encontro e que decidem estar ao nosso lado.

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Exegese

Já dividindo o espólio? Vejo como muito feliz a relação estabelecida pelos textos deste domingo. O evangelho trata de como o juízo e o amor de Deus estão presentes nas relações das pessoas que conhecem Jesus. 2.1 – Contexto A perícope de Mateus 18.15-20 deve ser compreendida no contexto em que surgiu. O evangelista Mateus relata como Jesus fala de sua trajetória pessoal no enfrentamento da morte. Até que ponto os discípulos compreenderam o significado do que se dizia, isso fica em aberto. Entretanto, perceberam que alguma coisa grandiosa se aproximava e que o enfrentamento deveria ser mortal. E com isso “se entristeceram grandemente” (17.23). A isso Mateus adere a questão de pagar ou não impostos a uma potência estrangeira e opressora. Estará Mateus dando a entender que os discípulos estavam antevendo algum enfrentamento social político? A narrativa não esclarece. Mas, sintomaticamente, logo após a narrativa de Mateus, continua: Naquela hora; naquele contexto, talvez, aproximaram-se de Jesus os discípulos com uma questão: “Quem é o maior no reino dos céus?” (18.1). A pergunta não é inócua. Ela revela a compreensão de uma estrutura nas relações entre as pessoas. O ser humano tem como princípio que as pessoas se distinguem umas das outras pelo fato de umas serem maiores e outras, por consequência, restarem menores. Os discípulos não perguntam por critérios de avaliação. Também não pedem por justiça e igualdade. Eles querem saber o que torna alguém merecedor de governar sobre os demais. Será que a narrativa de Mateus quer dar a entender que os discípulos já estavam procurando dividir qualquer

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possível espólio de poder e influência que a anunciada morte de Jesus poderia acarretar? Já estavam procurando um substituto? Jesus parece não responder à pergunta. Parece não se dar conta da importância que o problema adquire no estabelecimento e manutenção das relações entre as pessoas. É fundamental que alguém tenha a responsabilidade de definir e decidir sobre o que é certo ou errado, quem merece ou quem não merece a honra de fazer parte de um grupo. Alguém precisa decidir quando alguém se torna indigno de participação no grupo. Não é de honra e dignidade que se faz a pessoa e o ambiente em que está inserida?

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Meditação

Jesus então acolhe a pretensão dos discípulos e lhes oferece seu espólio: “Aqueles que pecaram contra ele”. Esse é o espólio que o reino de Jesus ajuntou para ser dividido entre aqueles que pretendem conduzir as coisas do seu reino depois de sua morte. Irmãos e irmãs estarão pecando contra irmãos e irmãs. Jesus ecoa algo que Moisés havia dito: “Não aborrecerás o teu irmão no teu íntimo” (Lv 19.17a). Esse texto faz parte da quinta seção do livro, que se debruça especialmente sobre a relação das pessoas entre si. O objetivo dessas admoestações era que o amor estivesse presente e refletido no trato com as pessoas no dia-a-dia. Especialmente focando as relações do ponto de vista de uma vida que reflete o culto a Deus, ou em outras palavras, a piedade daqueles que são crentes e pretendem ser vistos como povo de Deus (Lv 11.45). Portanto não se limita a leis e regras de convívio na sociedade mais ampla, das relações civis. Esse versículo leva o povo a olhar para dentro de si próprio, para o íntimo de cada um. Esse olhar para dentro de si próprio Jesus aponta para os discípulos, em especial no Sermão do Monte (Mt 5.32,33,38 etc.): “Ouvistes... Eu, porém, vos digo...” Jesus retoma os ensinamentos da piedade que Deus apontou no passado para seu povo e também como essa piedade fora interpretada por Moisés quando essa piedade não era exercida. Jesus mostra que, para o Israel da Nova Aliança, nada seria diferente. Haveria pessoas que cairiam da fé, agiriam contrariamente aos preceitos do reino e desafiariam e colocariam em risco a harmonia entre aqueles que estavam sob a aliança. Dos fiéis da Nova Aliança Deus esperaria o mesmo que Deus pedira dos féis da Antiga: “Olhem para dentro, para o próprio íntimo” (Lv 19.17). Falar com o irmão em falta não é meramente uma prescrição de um comportamento, mas deve brotar de uma disposição íntima em relação ao faltoso. “Não aborrecerás o teu irmão no teu íntimo”, isto é, a falta do irmão contra ti provoca ressentimento, mágoa e rancor. Não basta falar com ele. Mas falar precisa ser o antídoto do aborrecer ou guardar a mágoa para si, no íntimo. Mas falar também não é aquele falar que serve ao propósito superficial de “botar em pratos limpos”. Se o teu irmão pecar contra ti, ele se tornou alguém indigno, pois ofendeu Deus, que de todos espera que o amor guie as vidas daqueles que dizem que desejam obedecê-lo. A ofensa, na verdade, atinge Deus e

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não somente as pessoas. Guardar ressentimentos impede que você se aproxime dele e impede que a vontade de ajudá-lo se desenvolva. A questão não se limita ao plano horizontal das relações humanas. Ambos, ofendido e ofensor, estão na presença de Deus. Guardar ressentimentos ou tratar com indiferença aquele que errou manifesta a pecaminosidade de ambos. Essa é uma conversa que acontece na presença de Deus e não pode visar outros propósitos senão aqueles que Deus preparou. A missão de Cristo é a reconciliação com Deus (2Co 5.18-21). Por isso “ganhar o irmão” tem em vista a ligação que Deus estabeleceu com ele e da qual ele pode estar se afastando. Quais são os sentimentos, frustrações, desejos, ansiedade e mesmo ambições que o levam a ofender-te? Ou então, será alguma coisa em ti que pode ter causado a ele fazer de ti objeto de ofensa para ele? Nenhuma ofensa ou agressão nasce no vácuo. Cada gesto tem um contexto. Podemos julgar unilateralmente? Pode o erro estar somente de um lado? Como o ambiente contribuiu para tal desfecho? Cristãos têm somente um recurso e um objetivo para manter relações construtivas entre si: o perdão. Aquele que erra é um pequenino ou, na comparação de Jesus, uma criança que não pode ser abandonada à própria sorte. Na verdade, cada um é o pequenino que está sendo amparado pela graça de Deus e pelo amor dos que o cercam. O que mantém alguém de pé, aquilo que nos faz parecer grandes, é aquilo que as pessoas ao nosso redor nos atribuem: honra, dignidade, méritos. São dons maiores do que a nossa capacidade pessoal. Se as pessoas ao nosso redor começarem a não atribuir a nós nome e dignidade, nada somos. Por essa razão, se alguém ao nosso redor faz por ferir a sua própria dignidade, Jesus pede que corramos em socorro para resguardar a dignidade daquele que quer ferir nossa dignidade. Precisamos uns dos outros. O tesouro do reino de Jesus, ao qual os discípulos aspiravam, a merecida dignidade era, na verdade, a imerecida graça do perdão. Jesus não possui outro reino e nem outro tesouro. Ele desceu abaixo da humanidade, abaixo da indignidade do ser humano, em busca do perdão de Deus para todos. O juízo de Deus abateu-se sobre ele, porque ele se comprometeu com nosso pecar e da profundidade da condenação eterna trouxe junto com o perdão a vida que vivemos na harmonia que Deus estabelece entre as pessoas. A harmonia preserva-se e somente é possível ali onde as faltas são perdoadas e ocultas. Vai, “entre ti e ele só”. A dignidade que carregamos e que as pessoas reconhecem em nós é obra de Deus em nosso favor. Sendo isso verdade, como alguém se negaria a cobrir de dignidade aquele que nos ofendeu? Quantas vezes? Sempre. É interessante o fechamento desse ciclo de intervenções junto ao faltoso. Como coadunar essas três intervenções com a expressão “até setenta vezes sete”? Na verdade, ao fim e ao cabo, são três formas de se apresentar ao faltoso. Em outras palavras, é necessário saber se a indisposição do faltoso é de natureza privada, individual, contra uma pessoa da igreja, ou se a atitude é de natureza mais profunda, que revela uma indisposição contra os princípios que marcam a vida da igreja como um todo. Talvez então a conta seria três vezes setenta vezes sete. Talvez essa conta se aproxime melhor para servir de metáfora para que seres humanos visualizem e comecem a fazer ideia da dimensão

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da infinita misericórdia e compaixão de Deus sobre cada ser humano. O convite de Paulo aos Romanos busca essa dimensão da dimensão de amor que recebemos e que de tão plenamente dado a nós nunca faltará se quisermos utilizá-lo. O amor que devemos ao próximo é uma dívida impagável.

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Subsídio litúrgico

Coleta do dia: Onipotente Deus, que te compadeceste de nossa indignidade e nos cobriste com a tua santidade, nos te imploramos, dá-nos o teu Espírito para que entre nós possamos, em humildade diante de Ti, também cobrir as faltas uns dos outros e nos estimular a servir em amor para que o teu reino venha também a nós. Amém.

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PRÉDICA: GÊNESIS 50.15-21

13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

MATEUS 18.21-35 ROMANOS 14.1-12

11 SET 2011

Hans Alfred Trein Quando o passado não pesa mais, Deus transforma o mal em bem.

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Introdução

Faz 10 anos que um ato terrorista com milhares de mortos colocou abaixo as Torres Gêmeas, um símbolo do poder ocidental. O episódio reveste-se de significado histórico. Depois dele, o mundo não é mais o mesmo. As represálias foram expressas em duas guerras vingativas e punitivas de caráter intercultural e inter-religioso: Ocidente contra Oriente e cristãos contra muçulmanos. A relação entre as culturas foi colocada drasticamente na agenda mundial, de um lado, evidenciando a assimetria imperialista reinante e, de outro, a fragilidade de entendimento entre as culturas. Aos arautos da supremacia do Ocidente e aos profetas da guerra entre as culturas opõe-se o projeto de diversidade cultural e étnica. Através dele, desde os tempos pré-históricos da Torre de Babel, Deus busca uma alternativa de sobrevivência para o planeta. À imposição pela força opõem-se a firmeza e a permeabilidade da kenosis. Os irmãos de José do Egito, após a morte do pai Jacó, esperavam que ele se vingasse pelo mal que lhe tinham causado. Mas Deus mudou o mal em bem para salvar muita gente. José acalmou seus irmãos com palavras carinhosas, que tocaram seus corações. A reflexão de Jesus em Mateus sobre perdoar setenta vezes sete ao nosso irmão lembra-nos a nossa dívida infinitamente maior já perdoada por Deus, diante da qual nossas cobranças mútuas passam à categoria de picuinhas. Se não lidarmos consequentemente com elas, anulamos o perdão de nossa dívida maior. Na Carta aos Romanos, ressalta-se a diversidade de usos e costumes com comida e o tempo como sendo para a glória de Deus. Que cada qual permaneça firme em seus pensamentos diferentes! Nada de atropelos, pois tudo recebe sua finalidade em Cristo.

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Exegese

José teve uma história impressionante. Como filho mais novo, queridinho do já idoso pai Jacó, permitia-se algumas liberdades, que enfureceram seus irmãos. Um dia, veio a vingança dos irmãos: venderam-no como escravo para o Egito, o império de então. Lá sua história continuou com altos e baixos. Sua máxima de temer a Deus e fazer o que é justo guiou sua vida e marcou seu comporta-

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mento nessa terra e cultura estranhas. Lentamente, foi consolidando sua trajetória até o mais alto posto de confiança do Egito. Ali é confrontado novamente com seu passado, com seus irmãos, agora enfraquecidos pela fome e pela necessidade. A tentação de fazer valer seu poder, pelo menos numa brincadeira para borrar de medo seus antigos malfeitores, acaba sendo superada exatamente pelo temor a Deus que o leva a fazer o que é justo. Temer é um misto entre ter medo, venerar e adorar. Juntam-se nesse termo a adoração pelo Criador, pelo poderoso e santo, com o temor de que ignorá-lo pode resultar em desgraça. O temor a Deus impediu que José traísse a confiança de Potifar; por isso não cedeu às seduções da esposa dele. O temor a Deus motivou-o a respeitar os hebreus, mesmo quando suspeitos de espionagem, respeito a um direito humano básico. Temer a Deus implicou perdoar e desistir de qualquer revanchismo contra os irmãos. O temor a Deus impediu que ele partisse para abuso do poder quando ministro do faraó, negociando com a população faminta... O temor a Deus parece ter sido uma postura reguladora de toda a vida de José. Com ela José integrou-se sem problemas na cultura egípcia, totalmente diferente da sua. Em resumo: o temor a Deus leva a gente a fazer o que é justo. Em nosso texto, José percebe que os irmãos o temem. Mas temor é devido apenas a Deus. E José não é Deus. Essa distinção – que é tudo menos óbvia naqueles tempos – faz de José um precursor do Estado laico. Certamente não é um acaso que os irmãos invocam em José a memória ainda enlutada com a morte do pai para dar ênfase a seu pedido de perdão. Não acreditam que eles próprios tenham moral suficiente para mover o coração de José a uma atitude condescendente. A estrutura mental dos irmãos é aquela do “quem pode mais chora menos” ou “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Quem está por cima tem poder, quem está por baixo se curva, entrega-se como escravo. Com sua atitude de perdão, com seu temor a Deus somente, José rompe com essa lógica e cria uma outra realidade. Essa outra lógica, no fundo, é o evangelho experimentado pelos irmãos. Outra reflexão necessária é aquela que enfatiza o Deus do “Antigo Testamento” como um Deus vingativo, violento e cruel em contraposição ao do “Novo Testamento”, que é amável, perdoa, é bonzinho acima de tudo. Esse é um engano produzido por uma hermenêutica que não conseguiu livrar-se totalmente da síndrome de Marcião (cortar o Antigo Testamento da Bíblia cristã) e da ideia de que o cristianismo veio substituir um judaísmo degradado. Essa hermenêutica que chama de antíteses as radicalizações de Jesus no Sermão do Monte e que foi capaz de perverter o sentido original restaurativo do “olho por olho e dente por dente” deve ser urgentemente abandonada em favor de uma hermenêutica analógica entre o Primeiro e o Segundo Testamentos. Deus é o mesmo, e sua conduta é analógica. Ele transforma mal em bem para salvar a vida de muita gente. O temor a esse Deus capacita mesmo poderosos tentados à vingança a uma atitude de perdão e de carinho.

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Meditação

Os três textos relacionados para o domingo de hoje tematizam o perdão. Cada um a seu modo constata que a vida nos coloca diante de situações e dilemas e propõe uma atitude fundamental de compreensão, de superação, de respeito pelo outro. José foi amadurecido por sua trajetória de vida numa cultura estranha. Tendo alcançado nela um alto posto de poder, foi recompensado por Deus, que transformou mal em bem e não recaiu na mesquinharia do sentimento vingativo. Pelo contrário, tratar seus antigos malfeitores com generosidade e carinho causou-lhe grande alegria. Não reconhecer o dedo de Deus mantém a atitude mesquinha. Entretanto, ser perdoado e não perdoar implica juízo. Perdoar é mais difícil e desafiador quando se passa de uma cultura para outra, pois então valores e símbolos são muito diferentes, costumes às vezes incompreensíveis para o outro. Perdoar os inimigos e orar pelos que nos perseguem talvez seja o ápice desse desafio à compaixão. Alguns estudiosos das religiões destacam exatamente esse postulado como exclusivo na fé cristã. Não fui atrás para confirmar isso. Costumamos associar perdão com o âmbito religioso. O perdão solicitado e anunciado em celebrações religiosas pode levar à sua bagatelização. É tão fácil vir ao culto, pedir perdão, recebê-lo de graça, voltar para casa e tocar a vida. Quem não tem consciência do pecado obviamente não sentirá necessidade de pedir perdão. No senso comum vale: não matei, não roubei, não forniquei... vou pedir perdão para quê? Não temos, às vezes, a sensação de que tudo isso é um grande teatro ritualizado que a gente cumpre, mas que não tem efeito sobre o cotidiano? Os textos bíblicos de hoje exemplificam situações de vida que não estão num contexto necessariamente religioso. O maltratado tornou-se poderoso, a pessoa está endividada ou tem outros usos e costumes... São situações que geram conflito de relacionamento e convivência e, em geral, resultam em demandas judiciárias. É para dentro desse cotidiano que somos convocados/as a anunciar o evangelho. Está recebendo o nome de justiça restaurativa uma prática ainda em caráter muito incipiente e experimental no Judiciário Brasileiro, que tem o objetivo de restaurar relações entre ofensor e ofendido, propondo superação da violência e pacificação – bem no sentido original do antigo “olho por olho e dente por dente”. Há juízes e operadores/as do direito investindo para que essa prática possa ser realizada também dentro das instituições judiciais do Estado, se não como processo regular, pelo menos como procedimento complementar. A justiça restaurativa é proposta em contraposição à justiça retributiva em vigor. Para auxiliar na compreensão, duas breves caracterizações que você pode ampliar consultando a internet (veja bibliografia): • A justiça retributiva entende o crime como violação ao Estado. A justiça determina culpa e administra a pena, sujeita à sanção. Atualmente, a técnica da defesa é negar a responsabilidade. Aqui imperam culpa, perseguição, imposição, castigo, coerção.

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A justiça restauradora entende crime como violação a pessoas e relacionamentos. Envolve a vítima, o ofensor e a comunidade. Incentiva o assumir responsabilidade. Objetiva restaurar o estado ideal, original. Cria obrigações, acordos e compromissos. Remete às pessoas ofendidas e aos relacionamentos. A vítima pode dizer o que espera. Aposta na dignidade humana. Aqui predominam responsabilidade, encontro, diálogo, reparação do dano, coesão. Estrategicamente, a humanização da justiça restauradora tem que se dar a partir de fora da justiça institucional. Dentro dela não é possível, dado à montanha de casos que precisam de um tratamento sumário. Testemunho de juiz: Aprendi como julgar. Desde que conheci a justiça restaurativa tive que desaprender tudo o que aprendi. Na justiça restaurativa, não sou ninguém para dizer como as necessidades de uma vítima podem ser restauradas. É necessário reforçar os processos de justiça restaurativa, incluindo a mediação de conflitos. Núcleos de justiça popular são coisa nova; vem da década de 1980; são espaços políticos de aprendizado e transformação. No interior do Senegal, quando duas pessoas estão se confrontando, não se tem apenas os vivos presentes no confronto, mas também os mortos. Negar responsabilidade significa enfrentar os espíritos dos mortos, forças invisíveis e poderosas. São práticas culturais que podem servir de modelo. Assim também as práticas de povos indígenas.

Imagens para a prédica

4.1 – Primeiro causo Dois adolescentes assaltaram um policial à paisana. Esse reagiu com a arma que tinha escondida na canela. Um menino conseguiu fugir. O outro foi alvejado na perna e preso. Depois de julgado e condenado, a vítima do assalto visitou o menino agressor na FASE, onde cumpria internação com medidas socioeducativas. Na sequência, realizou-se um encontro entre o agressor e a vítima juntamente com os familiares de ambos. O círculo restaurativo foi moderado por um juiz, em que todo o episódio pôde ser analisado e sentimentos puderam ser manifestados. Houve oportunidade para o agressor dizer que sentia muito arrependimento do que fizera, assumir a responsabilidade por seu ato e pedir perdão. O policial vítima afirmou estar aliviado por não ter morto o garoto. Os familiares de ambos puderam dar depoimentos afirmativos da dignidade dessas duas pessoas, conhecer e olhar nos olhos uns dos outros na busca por superação desse ato de violência. No decorrer das conversas, soube-se que a mãe do ofensor se suicidara. Psicanalistas leram o episódio como uma tentativa do ofensor de reencontrar a mãe. A cura psíquica dá-se no momento em que o ofensor constata durante a conversa: “Agora a minha vó está no lugar de minha mãe”. Uma necessidade

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interna de reconciliação com sua mãe levou a um ato violento, resultante de uma necessidade não-atendida. A história do menino que, há alguns anos, manteve refém um ônibus da Linha 174 no Rio de Janeiro com desfecho trágico é muito semelhante. 4.2 – Segunda ilustração Sempre me pergunto sobre qual será a sensação dos familiares de uma vítima de assassinato que assistiram à execução do assassino condenado à pena de morte? É costume num povo indígena africano que a comunidade toda participe do julgamento de um ofensor. Em caso de uma condenação à morte por assassinato, o condenado é amarrado para ser jogado num rio de piranhas. A família ofendida é a única que pode impedir essa pena de morte, resgatando o condenado da correnteza. Isso significa em última análise: a família ofendida, mesmo que por um crime de assassinato, nesse momento está decidindo se está disposta a livrar-se do peso da ofensa sofrida e buscar um novo começo ou se quer assumir a duvidosa satisfação de carregar sua consciência com mais uma morte no intuito de compensar o dano sofrido ou vingar a morte do familiar querido (cena do filme “A intérprete” nas videolocadoras). 4.3 – Terceira experiência Em 2005, conheci um homem que perdeu as duas mãos num atentado de carta-bomba na África do Sul e tornou-se o mais aguerrido lutador pela paz. Trata-se do ativista político do Congresso Sul-Africano Michael Lapsley e de sua impressionante trajetória para superar o papel de vítima (confira www.healingofmemories.co.za). Com duas mãos mecânicas e uma notável precisão no uso cotidiano (conseguia tirar um cartão do bolso da camisa sem dificuldades), ele se apresentava com a frase: I am no longer a victim, nor even simply a survivor. I am a victor over evil, hatred and death (Eu não sou mais uma vítima, nem apenas um simples sobrevivente, mas um vitorioso sobre o mal, o ódio e a morte). O bispo Desmond Tutu apresentou-o de uma forma incomum: What happened was probably the best for him, and for all of us. As broken as he is, he was made for wholeness. He is probably the most whole person I know. He has been able to inspire people worldwide and has given the Institute for Healing of Memories credibility (O que aconteceu provavelmente foi o melhor para ele e para todos nós. Quebrado como é e se nos apresenta, ele foi feito íntegro. Ele provavelmente é a pessoa mais inteira que eu conheço. Ele tem sido capaz de inspirar pessoas mundo afora e tem dado credibilidade ao Instituto para a Cura de Memórias). De fato, com seus dois ganchos mecânicos em lugar das mãos, ele tem autoridade para propor a vítimas que arrisquem sair de sua condição de vítimas passivas para reassumir o controle e a direção de suas vidas.

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4.4 – Quarto subsídio Se você dispõe de aparelhagem de projeção, recomendo como ilustração o PowerPoint sobre a “Canção dos Homens”, de um grupo africano. Se não tiver acesso, baixe no site do www.comin.org.br.

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Subsídios litúrgicos

Oração inicial: Deus de amor e ternos afetos! Louvamos-te por tua fidelidade e dedicação, por tua palavra criadora, salvadora e animadora. Nesse culto, nos prestas mais uma vez o serviço sagrado de nos puxar para ti. Dá-nos a certeza de que estás perto de nós e nos acompanhas. Aquieta agora o nosso ser, para que ouçamos a tua boa-nova e saiamos daqui renovados para te servir e glorificar. Envia o teu Santo Espírito para coordenar toda a celebração. Canto inicial: Hino n° 360 – Hinos do Povo de Deus V. 2. Kyrie: Deus de toda a compaixão! Trazemos-te as nossas angústias com o estado em que se encontra o nosso mundo (cidade, país). Desavenças e guerras sacodem e ferem a tua bela criação. Injustiça e opressão estigmatizam as relações sociais. Os fortes não têm coração para os miseráveis. Há brigas por herança e desentendimentos nas famílias. A nossa comunidade não consegue influenciar para que as relações familiares e sociais se tornem mais compreensivas e amorosas, para que se tenha paciência com aqueles que se tornaram devedores. As diferenças culturais em nossa comunidade dificultam ainda mais a convivência baseada no teu grande perdão. Tem piedade, Senhor! Oração de coleta: Deus de toda a graça, que consegues transformar os corações das pessoas, como o de José do Egito, para que não reproduzam o mal que sofreram. Nós te pedimos que agora entres com tua palavra em nossos corações e mentes, libertando-nos dos pesos que nos amarram a sofrimentos passados, para que possamos em alegria servir-te, multiplicando a compreensão e o amor ao nosso redor. É o que te pedimos por Jesus Cristo, teu Filho que contigo e com o Espírito Santo vive e reina, de eternidade a eternidade. Amém. Canto da pregação: Hino n° 437 – Hinos do Povo de Deus V. 2. Oração geral da igreja: Deus todo-amoroso! Nesse momento em que nos dirigimos de volta ao nosso cotidiano, queremos agradecer-te por esse encontro contigo, pelo perdão,

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pela renovação da esperança, pelo novo ânimo com que nos envias de volta para a convivência. Acompanha-nos com o teu Espírito, para que levemos os impulsos aqui recebidos e organizemos a nossa vida ao redor deles. Pedimos que intervenhas em todas as religiões para que todos busquem uma convivência em respeito às diferenças e em favor de tua sagrada criação. Assiste governantes bem-intencionados e não permitas que assumam aqueles que apenas pensam em usurpar o poder. Concede-nos que consigamos sair dos caminhos da injustiça e do desentendimento para trilhar um novo caminho de justiça e de paz. Assiste as pessoas sobrecarregadas com seus sofrimentos passados, para que possam levantar-se e experimentar nova vida. Amém. Canto final: Hino n/ 433 – Hinos do Povo de Deus V. 2.

Bibliografia TISS, Frank. O conto de José, filho de Jacó: realizando a vontade de Deus para além das fronteiras. In: WEGNER, Uwe e WACHHOLZ, Wilhelm. Estudos Teológicos, EST, ano 42, n. 3, 2002, p. 80-9. Para mais informações, acessar o site www.justica21.org.br/ ou pesquisar no Google e no Youtube (vídeos) o verbete “justiça para o século 21”.

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PRÉDICA: MATEUS 20.1-16

14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 18 SET 2011

JONAS 3.10-4.11 FILIPENSES 1.21-30

Vera Cristina Weissheimer

1 Introdução O texto do Evangelho de Mateus 20.1-16 – a parábola dos diaristas da vinha – foi também abordado em PL 29 por Ricardo Willy Rieth (p. 296-301) para o dia da Reforma de 2003. Ao ler o texto, é preciso evitar – como também é preciso fazê-lo nas demais parábolas – a preocupação de encontrar a todo custo a transposição de todos os elementos à situação concreta de nossa existência. O importante é entender o cerne da parábola e apreender seu principal ensinamento: “Nossas relações com Deus não podem ser expressas em termos de justiça, mas são reguladas unicamente pela graça. Não podem ser reduzidas a uma contabilidade de haver e dever, de trabalho e justo salário. O que dita as leis é a misericórdia divina em toda a sua amplitude e com todos os seus imprevistos. Tudo é graça, poderia ser o comentário mais apropriado à parábola” (PRONZATO, p. 132). “Desde tempos imemoriais, a parábola sofreu a alegorização. Entre essas alegorizações está a conclusão centrada numa visão de julgamento a partir do versículo 16: ‘Pois muitos são chamados, mas poucos escolhidos’. Como a parábola justifica a verdade de que muitos são escolhidos, isto é, que o número dos que alcançam a salvação é pequeno? Os que foram chamados de manhã cedo, os primeiros, são compreendidos aqui como um exemplo de advertência. Com certeza, foram chamados, mas porque murmuram, porque apelam gloriando-se de seus méritos, porque se revoltam contra a decisão de Deus?” (JEREMIAS, p. 28). É preciso tomar cuidado para não transformar a parábola e a prédica numa parábola de julgamento. Parece ser também certo pensar que a parábola não quer dar nenhum ensinamento sobre a inversão da hierarquia no fim, pois todos recebem exatamente o mesmo salário. Os últimos e os primeiros estão em posição de igualdade, não há uma distinção valorativa, todos são iguais. Pontuar essa posição de igualdade com que todos os trabalhadores foram tratados pode ser um bom gancho para a mensagem. Temos que reconhecer que ainda há muitos protestantes que, apesar da teologia de justificação por fé e não por obras, estão apegados ao montante de obras e sacrifícios que são capazes de realizar e por esses atos tentam se justificar diante de Deus. Temos que reconhecer ainda que também nós, ministros e ministras, muitas vezes nos apegamos ao montante de trabalho que conseguimos produzir para nos justificar não diante de Deus, mas diante das comunidades. Uma pergunta precisa ser feita: Não estaria sendo esquecido o grande legado da Reforma – a justificação unicamente pela fé?

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Convém dar uma olhada na brilhante pintura Der Weinberg des Herrn, de Lucas Cranach (1569), que está na Stadtkirche St. Marien de Wittenberg (é possível vê-la na internet). Outro ponto para o qual cabe atentar é sobre quem são os destinatários da fala de Jesus. “Em Mateus, a parábola recebe um círculo totalmente diverso de ouvintes. Endereça-se, não como em Lucas, aos inimigos de Jesus, mas, segundo Mateus 18.1, aos seus discípulos. Correspondentemente, a frase de conclusão apresenta em Mateus uma acentuação diversa: Assim não quer Deus que nem sequer um de seus pequeninos se perca (Mt 18.14)” (JEREMIAS, p. 30). Portanto a ideia fundamental do texto é um convite para refletir sobre como anda nosso relacionamento com Deus.

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Exegese

V. 1 – Vinha ou videira é a imagem tradicional de Israel (Is 5; Sl 80 etc.) e aplica-se depois à igreja. V. 2 – A jornada costumava ser de sol a sol, e pagava-se diariamente (diária/ diurnalis). V. 6 e 7 – Deduz-se que os últimos fossem gente necessitada, sem trabalho e sem diária. V. 8 – Segundo o costume de Lv 19.13; Dt 24.15; Jó 7.2, a inversão da ordem normal é significativa. V. 15 – Sobre as referências a mesquinho e invejoso, ver a sutil instrução em Eclesiástico 14.3-10: O homem mesquinho não merece riquezas; o homem tacanho não merece o ouro; quem priva a si mesmo reúne para os outros, de seus bens desfrutará o estranho; quem é mesquinho consigo mesmo, com quem será generoso? Não desfrutará de seus bens; o mesquinho consigo mesmo é o supremo mesquinho, sua mesquinhez se volta contra ele. Se faz um favor é por descuido, no final acusa sua própria mesquinhez. O mesquinho pensa que sua porção é pequena, tira a do próximo e põe a perder a própria. O mesquinho olha ansioso a comida e oferece a mesa vazia. O generoso oferece comida abundante, a fonte seca destila água sobre a mesa. “Coração pequeno” e “olho mau” são literalmente expressões hebraicas para mesquinhez e avareza: coração ou mente, que rege os desejos; olho, como sede da faculdade que avalia. No livro de Jonas, Deus enfrenta a mesquinhez do profeta; no texto de Mateus 20.15, Jesus defende a generosidade de Deus contra a avareza e inveja humanas. V. 16 – A sentença final é aberta. Aplica-se à relação dos judeus e pagãos em relação ao reino; aplica-se dentro da igreja em diversas circunstâncias. Os primeiros refugiam-se em suas prestações de serviço; os últimos, na generosidade de Deus.

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Meditação

Há cristãos cujo exame de consciência à noite, mais do que um inventário das próprias dívidas com Deus, parece um inventário das dívidas que Deus tem para com eles. Apresentam uma “fatura” minuciosa. E, se pudessem, esticariam o pescoço para controlar se o patrão marcou tudo, se registrou cuidadosamente todas as boas obras praticadas. E repetem o exercício todas as noites... Acham que é bom refrescar todos os dias a memória de Deus... Mentalidade de mercenários. (Alexandre Pronzato) Compare a perícope com a pergunta de Pedro em Mateus 19.27. Pedro e os demais discípulos tinham deixado tudo para seguir Jesus. Isso seria recompensado, disse Jesus, em 19.28-29. Entretanto, o v. 30 contém uma advertência que parece estar sendo ampliada em nosso texto. O dono da vinha saiu a assalariar os trabalhadores. O primeiro grupo provavelmente questionou a respeito do salário e finalmente chegou a um acordo (v. 2). Ao segundo grupo foi prometido “o que era justo”, e ele depositou bastante confiança no empregador, a fim de aceitar a oferta. Ao último grupo o proprietário não fez qualquer promessa definida. Esse nem mesmo questionou a respeito do salário, mas foi para o trabalho, confiando que lhe seria dado um pagamento justo. Isso estava na base de pura graça. No fim do dia, o dono da vinha foi pagar os trabalhadores, e todos receberam o mesmo salário. Os do primeiro grupo criticaram-no, revelando assim a sua postura. O dono da vinha simplesmente recordou-lhes o ajuste feito. Ele tinha o direito de dar o salário que quisesse, mas ao mesmo tempo provou que era um homem justo. Todos receberam o mesmo salário, não porque os grupos tivessem feito a mesma soma de trabalho, mas porque durante o tempo destinado a eles os dois últimos grupos tinham mostrado zelo e confiança no seu empregador. Isso valia mais do que o trabalho feito, talvez de má vontade, somente para cumprir as horas do acordo do primeiro grupo. A todos os que entram no serviço cristão com a pergunta “o que é que ganharei com isso?” cremos que Jesus dará esta resposta: “Não é o que você faz, mas a fé e o amor que inspira; não é quanto você se sacrifica, mas por que se sacrifica; não é a quantidade o que conta, mas a qualidade. Deus conhece os nossos motivos”. “Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse amor, nada disso adiantaria” (1Co 13.3). Pronzato traz elementos relevantes para a meditação: “O que dita as leis é a misericórdia divina em toda a sua amplitude e com todos os seus imprevistos. (...) Que magnífico patrão o da parábola. Mais do que patrão da vinha, é patrão da própria generosidade. Percorre as estradas a cada hora do dia. Chama a todos. A todos apresenta suas propostas. Não é meticuloso no exame. A condição única é que aceitem o convite. (...) Não olha as ‘referências’: publicanos, prostitutas, ladrões, gente de pouco valor podem ser operários ‘ideais’ para a sua vinha” (PRONZATO, p. 132).

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E por que ele chama quem chegou por último? São esses simplesmente mais simpáticos? Não é difícil descobrir os motivos dessa simpatia do “patrão” para com aqueles que aceitaram servir na vinha no último horário do dia. Eles não fizeram reivindicações, não contrataram nada, confiaram cegamente. Os primeiros quiserem fazer contrato de doze horas de trabalho por um salário e receberam o que fora acordado. Os últimos aceitaram o convite: Ide também vós para a minha vinha. “Uma assinatura em branco. Por esse motivo puderam saborear a alegria da generosidade do patrão. Há cristãos por aí que pensam que religião consiste naquilo que eles oferecem a Deus. Ao invés, a religião consiste naquilo que Deus faz por nós” (PRONZATO, p. 133). Conectar-se, buscar a ligação com o divino, com a transcendência é deixarse tocar incondicionalmente por Deus, é deixar-se experimentar. Falar de Deus é fácil; difícil é deixar Deus falar a nós.

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Imagens para a prédica

Há duas palavras-chave que dão movimento à parábola: graça e misericórdia. Conseguir passar esse movimento, essa convocação para uma nova maneira de pensar sobre o relacionamento com Deus para a comunidade, pode ser o fio da meada para desenvolver a pregação. Pouco nos deixamos tocar por essas duas palavras: somos todos ainda muito julgadores e muito ligados ao montante de trabalho que conseguimos produzir. Da mesma forma como nos mostra o texto de leitura (Jn 3.10-4.11), no qual Jonas não conseguia entender a compaixão de Deus para com os pecadores de Nínive, mas se compadecia de uma mamoneira. Jonas então escuta de Deus: “Tu tens compaixão de uma mamoneira que não te custou cultivá-la, que brota numa noite e na outra morre, e eu não vou ter compaixão de Nínive, a grande metrópole, em que habitam mais de cento e vinte mil homens que não distinguem a direita da esquerda, e muitíssimo gado?” Abaixo coloco o texto “Misericórdia”, que talvez possa servir de inspiração. O poema “Graça”, de Johnson Gnanabaranam, que sugiro para a acolhida, define muito bem o que é graça divina. Misericórdia Vera Weissheimer Uma palavra nos livra de todo peso e dor da vida: a palavra é amor. (Sófocles) Conta-se que havia um jovem no exército de Napoleão que cometera um ato tão terrível, a ponto de ser condenado à morte. Na véspera de seu fuzilamento, a mãe do jovem foi falar com Napoleão e implorou misericórdia para o filho. Napoleão replicou: – Mulher, seu filho não merece misericórdia. – Eu sei – ela disse. – Se ele a merecesse, não seria misericórdia. Misericórdia é o que, em nossa estupidez, não merecemos. Misericórdia é o amor que nos alcança em nossa fraqueza, em nossa fuga de nós mesmos. Mi-

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sericórdia é o amor que nos cura quando o mundo nos esqueceu. É olhar com os olhos do coração para a miséria, seja material ou espiritual, do outro. Aurélio Buarque de Holanda define misericórdia como o sentimento de compaixão suscitado pela miséria alheia. Vem do latim misericordia, no qual juntam-se as palavras miser e cordis. A primeira faz-nos lembrar a miséria humana, e a segunda aponta que precisamos olhar para essa miséria com o coração. Misericórdia é sentimento fermentado em nossas entranhas, como diziam os gregos. Moldada em nossos momentos de dor e sofrimento, entre lágrimas e ranger de dentes. Seja misericordioso e encontrarás misericórdia, ensina Jesus no Sermão do Monte. Misericórdia é mais do que compaixão. É indulgência. É graça. Não é só um querer bem; é muito mais um fazer bem, que é a prática desse sentimento que nasce dentro de nós. E por nascer de nossas entranhas não pode ser somente teoria. Não é letra morta; o Verbo que se faz ação é palavra viva. Os cavaleiros da Idade Média carregavam no lado direito da cintura um punhal e com ele matavam os inimigos derrubados. Só não usavam o punhal se o inimigo gritasse: “Misericórdia!” Nos tempos em que Jesus andava pelo Oriente Médio, a misericórdia já não era mais esperada só da parte de Deus. Ela nasce em Deus, chamado de “Pai da Misericórdia” pelo apóstolo Paulo, mas agora a humanidade precisa seguir o exemplo divino e ser misericordiosa também. Misericórdia é algo que não merecemos, e é justamente por isso que é misericórdia.

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Subsídios litúrgicos

Acolhida: “É a graça que me encoraja quando minha alma está abatida. É a graça que me sacia quando minha alma está sedenta. É a graça que me diz quem eu sou de verdade quando gostaria de me autopromover. É a graça que me lembra dos meus deveres quando me esqueço do sentido de minha vida. É a graça que me conforta quando estou abalado. É a graça que me ergue do chão quando caio. É a graça que garante o meu futuro quando estou pessimista” (Johnson Gnanabaranam). Oração de coleta: Colocamo-nos diante de ti neste dia, Senhor, e pedimos: clareia nossos pensamentos, desanuvie nosso olhar, destrave as palavras de bondade de nossas línguas, dê-nos discernimento para compreender a tua vontade, o teu desejo, para que conheçamos a verdadeira extensão de tua graça, de tua misericórdia para com teus filhos e tuas filhas. Que neste culto possamos crescer um pouco mais em nosso relacionamento contigo. Abra os nossos ouvidos, nós te pedimos para que a tua Palavra entre por eles e toque nosso coração, que algumas vezes está endurecido e mal-acostumado com as coisas menos importantes. Amém.

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Oração eucarística: Ele olhou a mesa, pensando no melhor símbolo de sua passagem na Terra. Tinha diante de si as romãs da Galileia, as especiarias dos desertos do Sul, as frutas secas da Síria, as tâmaras do Egito. Deve ter estendido sua mão para consagrar uma dessas coisas quando, de repente, lembrou que a mensagem que trazia era para todas as pessoas em todos os lugares.E, talvez, romãs e tâmaras não existissem em determinadas partes do mundo. Tornou a olhar em sua volta, e outro pensamento lhe ocorreu: nas romãs, nas tâmaras, nas frutas, o milagre da criação se manifestava por si mesmo sem qualquer interferência do ser humano. Então Ele pegou o pão, deu graças, partiu-o e deu aos discípulos dizendo: Tomai e comei todos vós, porque isto é o meu corpo. Porque o pão estava em todos os lugares. E porque o pão, ao contrário das tâmaras, das romãs e das frutas da Síria, era o melhor símbolo do caminho até Deus. O pão era o fruto da terra e do trabalho do ser humano Da mesma forma, pegou o vinho (ou o suco da uva), que é a uva transformada por mãos trabalhadoras. Deu graças e o deu a seus discípulos, dizendo: “Bebei dele todos, porque este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vós, para a remissão dos pecados. Fazei isto todas as vezes que o beberdes em memória de mim”. Oração para depois da Santa Ceia: Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvida, que eu leve a fé; Onde houver erro, que eu leve a verdade; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria; Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó, Mestre, Fazei que eu procure mais consolar que ser consolado; Compreender que ser compreendido; Amar que ser amado, Pois é dando que se recebe, É perdoando que se é perdoado, E é morrendo que se vive para a vida eterna. Amém. (Oração atribuída a São Francisco) Intercessão: Senhor, pedimos por todos os seres humanos, tuas criaturas, que têm sede de vida e que estão frequentemente prestes a morrer de sede, de fome, de solidão, de abandono, de falta de solidariedade. Concede a todos nós coragem e esperança

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em ti até que venha o tempo em que ventos de justiça irão soprar e a paz corra como um rio de águas limpas. Pedimos-te coragem para interferir na nossa sociedade injusta e desigual. Que possamos ter coragem de denunciar todas as formas de violência a que homens, mulheres e crianças são submetidos. Pedimos que olhes por todos nós. Toma-nos em tuas mãos e faze-nos fortes e inteiros. E não nos abandones em nossas horas de fraqueza. Olha por nossa igreja, por nossas famílias e por todos nós. Amém. Bênção: Que o vento sopre suave sobre os seus ombros, trazendo sempre o aroma da paz; Que o fogo aqueça o seu coração, deixando-o sempre pleno de ternura; Que a palavra que sair dos seus lábios e as que visitarem os seus ouvidos levem e tragam sempre o som de uma bênção. (Luiz Carlos Ramos)

Bibliografia JEREMIAS, Joachim. As Parábolas de Jesus. São Paulo: Edições Paulinas, 1978. RIETH, Ricardo Willy. Mateus 20.1-16. Proclamar Libertação n. 29, 2003, p. 296-301. CULLMANN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1984. PRONZATO, Alexandre. Evangelhos que incomodam. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.

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PRÉDICA: FILIPENSES 2.1-13

15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 25 SET 2011

EZEQUIEL 18.1-4,25-32 MATEUS 21.23-32

Eloir Enio Weber

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Introdução

Humildade em tempos de autoexaltação. Amor fraterno em tempos de egocentrismo. Comunidade em tempos de isolamento. A temática que perpassa o texto da pregação (Fp 2.1-13) está posto. A comunidade de Filipos é convidada a evitar divisões através da competição interna. A busca pela unidade e a autêntica vivência do evangelho devem ser constantes. A comunidade deve zelar pela harmonia, que é alcançada quando há humildade. Cristo é o exemplo de humildade, fidelidade e obediência a Deus até a morte... e morte de cruz. O texto do evangelho (Mt 21.23-32) traz a discussão que Jesus trava com as autoridades em Jerusalém, pouco antes de sua morte na cruz. Jesus é questionado quanto à sua autoridade em ameaçar a estrutura defendida por elas. Ele devolve a questão com uma pergunta referente à autoridade de João Batista, cuja resposta as autoridades não sabem. Assim, Jesus dá a entender que sua autoridade vem de Deus. E que sua autoridade não requer autoexaltação, mas, sim, obediência, confiança e humildade diante de Deus. Ezequiel 18.1-4,25-32 – o texto de leitura – fala para as pessoas exiladas na Babilônia, combatendo a ideia de que elas estão sofrendo pela culpa dos antepassados. Cada geração é responsável por sua conduta individual e coletiva. Igualmente, para cada geração é dada a possibilidade de converter-se e, em se convertendo, viver. O caminho de Deus é direito; tortuoso é o caminhar das pessoas. Vejo uma confluência entre os textos colocados. O caminho de Deus é justo; injustos são os nossos atos em toda e qualquer geração (Ezequiel). Apesar de nossa incapacidade em relacionar-nos de forma saudável, somos desafiados a ser comunidade de fé que busca viver de forma harmoniosa a partir da humildade e da obediência ensinadas por Cristo (Filipenses). Viver em uma comunidade assim só é possível se estamos abaixo da autoridade de Deus (Mateus).

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Exegese

2.1 – A Carta aos Filipenses Filipos foi a primeira cidade europeia que recebeu a mensagem do evangelho. Foi fundada durante a segunda viagem missionária do apóstolo Paulo. O primeiro núcleo dessa comunidade surgiu na casa de Lídia, uma vendedora de

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púrpura, que ouviu a mensagem de Paulo nas margens do rio, ao lado de outras mulheres (At 16). Não se sabe ao certo o lugar e a data na qual a carta foi escrita. No entanto, a maior parte dos estudos aponta para a prisão na cidade de Éfeso, por volta dos anos 54-55. Apesar de provavelmente ter sido escrita na prisão, em meio às incertezas do autor, ela é chamada de “carta da alegria”, porque esse é um tema que aparece forte na mesma. 2.2 – O texto O texto inicia com a exortação chamando a comunidade a viver em unidade, humildade e harmonia. Retrata uma preocupação de Paulo referente a um possível desentendimento causado pelo espírito de competição e egoísmo de algumas pessoas. Não há indícios claros de que houvesse maiores problemas na comunidade de Filipos. Paulo exorta a comunidade preventivamente diante da ameaça dos pregadores judaizantes. Para exemplificar a unidade e a humildade que a comunidade deve buscar, ele traz, na segunda parte do texto, o Hino Cristológico. Para fechar o assunto dentro do texto, o autor aponta, ainda, para a ação de Deus na salvação do ser humano: “porque Deus é quem efetua...” (v. 13). V. 1 e 2 – O autor traz alguns elementos (ações e sentimentos) que nascem e florescem na vivência comunitária de uma espiritualidade saudável, que se fundamenta sobre o próprio Cristo. Ele cita a exortação em Cristo, a consolação de amor, a comunhão do Espírito e entranhados (vitais, profundos, vindos do âmago.... do coração) afetos e misericórdia. Sobre esses elementos se fundamentam a união e o comprometimento dentro da comunidade cristã, que se baseia em Cristo. A vivência comunitária necessita do “encorajamento” (exortação = paraklesis) em Cristo, do “incentivo” (consolação = paramuthion) ao amor, da “participação” comum no Espírito, do afeto mútuo e da “simpatia” que paira sobre a comunidade. Todos esses elementos, em separado ou em conjunto, servem de poderoso argumento em prol da submissão mútua entre os crentes em favor da harmonia entre eles, em favor da atitude que evita lutas e divisões por causa do egoísmo. A unidade da comunidade de Filipos traz alegrias ao apóstolo. E, para completar a sua alegria, ele pede que as pessoas pensem na mesma direção, tenham o mesmo amor, sejam unidas de alma e tenham o mesmo sentimento. V. 3 e 4 – A alegria pela unidade, no entanto, não elimina o sinal de alerta. O autor aponta, nesses versículos, para alguns perigos que podem ameaçar a unidade. Essa ameaça é constate, pois o coração humano é orgulhoso, e esse seu orgulho pode gerar divisões e discussões na comunidade. A desunião geralmente cresce onde o egoísmo e a ambição predominam, onde cada pessoa procura garantir o que é seu e quer mais do que as outras. Diante disso, ele aponta para a prática da graça altruísta, que é desencadeada pelo amor. Considerar os interesses alheios é a própria essência do amor cristão. Deve-se, outrossim, deixar claro que nem todas as diferenças e disputas teológicas podem ser atribuídas pura e simplesmente à vaidade pessoal; seria leviano e raso. V. 5 a 11 – Esses versículos trazem o Hino Cristológico. Toda e qualquer unidade na comunidade cristã só é saudável se provém de Cristo, promove Cristo,

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realiza a missão de Cristo, aponta para Cristo... Nesse ponto há radicalidade. O autor, a fim de dar fundamento mais sólido à exortação, aponta para a atitude de Cristo, que deve ser exemplo para todas as pessoas que estão unidas a ele. O hino apresenta, em forma poética, a humilhação de Cristo e sua exaltação. Provavelmente fazia parte da liturgia do culto cristão. O hino inicia com um imperativo: “Tende em vós...”. Percebe-se que a tônica continua sendo a exortação, apontando agora para o caminho e a conduta de Jesus. Jesus não deve simplesmente ser apresentado como exemplo ou um ideal a ser imitado pelos cristãos, mas é ao mesmo tempo aquele que fundamenta e possibilita o novo modo de pensar e agir dos crentes. Aliás, o hino dá um grande destaque ao evento salvífico. Ele renunciou à sua vida no modo de subsistência de Deus e nasceu como ser humano, foi humilde, obediente e fiel até a morte, e morte de cruz (teologia da cruz). O sofrimento e a cruz de Cristo apontam para nossa salvação. Deus torna-se humano e vai às últimas consequências para salvar a humanidade, ou melhor, a criação. O preço foi alto. A radicalidade da teologia da cruz não pode ser esquecida sob pena de deturparmos a compreensão da própria encarnação de Cristo. Assim como a história salvífica, o hino não termina na Sexta-feira da Paixão. Aponta para a Páscoa – ressurreição; para a Ascensão – subida ao céu. Deus não abandona na morte o Cristo obediente, mas o ressuscita e lhe dá o nome que está acima de todo nome, para que diante dele dobrem-se todos os joelhos e todas as línguas confessem que Jesus Cristo é o Senhor. V. 12 e 13 – Toda a vivência da fé cristã é motivada por Deus. A unidade na comunidade é ação de Deus através do ser humano. O grande plano de Deus para o ser humano é salvá-lo. Esses versículos apontam nessa direção. Os crentes devem viver na presença de Deus, sendo-lhes imputada a posição de glória mediante a atitude de humildade, sob a condição de trabalharem juntamente com Cristo, de modo a serem verdadeiros filhos de Deus. Em tudo transparece a verdadeira semelhança, ainda que imperfeita. O objetivo último é a salvação do ser humano. O texto aponta para a ação de Deus na salvação: “porque Deus é quem efetua...”. Se o ser humano pode manter a esperança na salvação, é porque Deus a realiza por sua graça, seu amor, sua misericórdia e seu perdão.

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Meditação

A exortação para viver a unidade na comunidade e seguir o exemplo de Cristo em sua humildade serve também para nós nos dias de hoje. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman refere-se ao tempo atual como sendo líquido. Ele usa essa designação, porque os líquidos, diferentemente dos sólidos, facilmente perdem sua forma. Movem-se com facilidade. Não ficam presos a formas preestabelecidas; pelo contrário, estão sempre propensos a mudanças. Os espaços são ocupados somente por um instante. A grande mobilidade dos fluidos é o que os associa à ideia de leveza, ausência de peso e inconstância. Há um efeito colateral lamentável que é provocado pela leveza e fluidez do poder cada vez mais móvel, escorregadio, evasivo: é a desintegração da rede social e a derrocada das instituições de ações coletivas. Tanto a desintegração

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social como a derrocada de instituições é uma condição e também um resultado da nova técnica de poder, que necessita de pessoas desengajadas e individualistas. Para que o poder possa continuar fluindo com liberdade, as pessoas devem estar desarticuladas. Uma rede densa de laços sociais é um obstáculo a ser eliminado. A grande meta das pessoas na atualidade é emancipar-se, sentir-se livres. Experimentar uma vida sem obstáculos e resistências que impeçam os movimentos. Sentir-se livre é conseguir atingir o equilíbrio entre os desejos, a imaginação e a capacidade de agir. E quando a pessoa não consegue atingir tal equilíbrio, vem o sentimento de derrota, vazio e incapacidade. A necessidade de buscar a emancipação torna-se por si uma escravidão. A marca registrada da sociedade moderna é a apresentação dos membros como indivíduos. A sociedade moderna move-se diária e incessantemente dentro do processo de individualização. De semelhante modo, as atividades dos indivíduos consistem na reformulação e renegociação diária da rede de relacionamentos chamada sociedade. Há uma interdependência. No entanto, nenhum dos dois lados – nem o coletivo, tampouco o individual – fica parado por muito tempo. Assim se cria mais uma das características dos tempos atuais: a mudança permanente da forma de organização individual dentro do coletivo. Grandes consequências do individualismo no qual vivemos são a corrosão social e a desintegração da cidadania. O interesse geral não passa de um conjunto de egoísmos. Edificar comunidade num contexto assim certamente não é tarefa fácil. Bauman ressalta que, se compartilhar intimidades tende a ser o método preferido – talvez único – de construir comunidade, o resultado previsível é de se ter comunidades tão frágeis e transitórias como emoções esparsas e fugidias, saltando de um interesse ao outro, na busca sempre incompleta de rumos e objetivos. Comunidades com temores, ansiedades e ódios compartilhados, mas não curados, pois cada indivíduo solitário “pendura” os seus solitários medos no “cabide” do individualismo coletivo. As pessoas vivem em comunidades, porque o ser humano é um ser relacional. Ele necessita de interação e de vida social. Para Bauman, um dos principais apelos do comunitarismo é a promessa de um porto seguro. E isso tem sido o sonho de muitas pessoas nesses tempos de incertezas, ansiedades e de falta de perspectiva. O tempo atual é marcado pelo individualismo; no entanto, o ser humano, exatamente motivado pela preocupação individual, vai buscar seu bemestar em relações comunitárias. Isso significa dizer que seus vínculos acontecem e são buscados, mas são mais distantes. Busca-se satisfação pessoal nas relações no grupo. Interação sem exposição e comprometimento demasiado. A igreja não está fora dessa realidade; muito pelo contrário, é um dos espaços que as pessoas ainda procuram para ter uma resposta diante das incertezas e tribulações da vida. Deveria ser o espaço, por excelência, de promover a vida. Percebe-se, no entanto, que esse modelo traz consequências para a igreja. Os laços de pertença, os vínculos das pessoas com a igreja são distantes e frágeis. Buscam-se satisfazer necessidades espirituais sem ter compromisso com a mesma. A comunidade cristã deve ser espaço de acolhimento e de fuga para lidar com os medos. Um espaço com uma proposta alternativa de vida em comunhão.

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As pessoas necessitam ter esse espaço. As pessoas vivem hoje num mundo conturbado, os medos são muitos e também motivados por diversas fontes. Traumas são criados, e é necessário superá-los ou aprender a lidar com eles. Por isso esse deveria ser um indicativo forte que deve ser levado a sério, pois ele leva as pessoas a buscar sarar as feridas e suportar as dores e medos em comunidade. Se a comunidade cristã não tiver espaço, essas pessoas vão achá-lo em outro espaço. A necessidade da autoproteção leva as pessoas a buscar um espaço de compartilhamento. Mesmo que a motivação e o fim sejam individualistas, o meio é comunitário. Diante do exposto, parece que o comunitário nos tempos atuais é, no fundo, o suprassumo do individualismo. Muitas são as pessoas que participam, mas não se envolvem. Buscam satisfazer suas necessidades individuais, sendo que o coletivo não é importante. Por outro lado, a exortação do texto de Filipenses continua “buzinando em nossos ouvidos”. O que fazer com ela? Bem ou mal, é nesse contexto que a comunidade cristã é exortada a viver a unidade e a humildade a exemplo de Cristo. É convidada a lançar suas redes e buscar criar vínculos seguros e duradouros. Mostrar que ela está aberta para acolher como Cristo acolheu.

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Imagens para a prédica

Sugiro que a pregação inicie com uma reflexão sobre o individualismo e as consequências para a vivência do evangelho de Cristo nos dias atuais (subsídios no ponto 3 deste estudo). Na sequencia, falar sobre a exortação à unidade e à humildade no texto bíblico (v. 1 a 4). Buscar, em seguida, falar do exemplo de Cristo no evento salvífico – Hino Cristológico (v. 5 a 11). Terminar a reflexão baseando-se nos v. 12 e 13 – a salvação (ação de Deus) é o fim último de vivermos a unidade, a humildade e o exemplo de Cristo.

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Subsídios litúrgicos

O Livro de Culto da IECLB, a partir da p. 279, tem recursos litúrgicos diversos. Eles são muito úteis para a moldagem da liturgia do culto em sua comunidade. Sugiro alguns: Acolhida: p. 280 – 3 Confissão de pecados: p. 298 – 8 Kyrie eleyson: p. 303 – 11 Oração eucarística: p. 317 – 2 Bênção: p. 326 – 11

Bibliografia BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

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BORTOLINI, José. A carta aos Filipenses: O Evangelho encarnado. São Paulo: Edições Paulinas, 1991. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. V. V. 4.ed. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural, 1983. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.

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PRÉDICA: MATEUS 21.33-46

16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 02 OUT 2011

ISAÍAS 5.1-7 FILIPENSES 3.4b-14

Ângela Zitzke

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Introdução

Tanto o texto de Isaías como o de Mateus descrevem a história de um homem que plantou uma vinha e que, tendo cuidado dela com carinho, ficou decepcionado. A vinha, que tinha tudo para ser perfeita, pois foi muito bem administrada, na hora de dar bons frutos apresenta apenas uvas bravas (Is 5.2,4). Os lavradores, que receberam tudo para ser gratos e felizes, na hora de devolver a parte que cabia ao senhor da vinha resolvem apoderar-se de tudo e, amotinados, matam os servos bem como o próprio herdeiro do vinhedo (Mt 21.38-39). Como reage esse homem – o próprio Deus –, representado pelos textos do Antigo e do Novo Testamentos? O Deus frustrado com a história humana de pecado é descrito de forma severa em Isaías como aquele que destrói seu vinhedo, transforma-o em pasto e deixa que cresçam sarças e espinheiros em seu meio. Tendo poder sobre a chuva, até mesmo essa ele não permitiu que caísse sobre tal vinhedo, para que ficasse deserto (Is 5.5-6). Essa é a punição para a nação que, ao invés de justiça, exerceu a opressão. Mas a fidelidade de Deus é inabalável. A passagem apenas evidencia que o ser humano foi infiel. Jesus também não admite que a maldade vigore no reino de Deus. Ele atua primeiro ao assumir sua condição de pedra angular. Jesus, como filho de Deus (o próprio herdeiro que foi morto), oferece a entrada no reino ao inaugurar o poder do perdão em meio à humanidade (Mt 18.22). Paulo afirma que essa entrada dá-se através da justiça que vem de Deus pela fé (Fp 3.9). Até que todo ser reconheça que, assim como Paulo, por seu próprio zelo jamais agradará a Deus e encontre na fé o caminho que leva até o alvo, Jesus aguarda pacientemente por uma nação que finalmente devolverá com alegria os frutos ao dono da vinha.

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Exegese

O texto de Mateus está dividido em duas partes: os versículos 33 a 39 tratam da parábola dos trabalhadores na vinha – uma história ilustrativa contada por Jesus, repleta de detalhes na intenção de fazer o povo e seus líderes refletirem os problemas de sua época; já os versículos 40 a 44 tratam da interpretação dessa história (os versículos 45 e 46 podem ser considerados consequência dessa interpretação, mas não deixam de fazer parte desse segundo bloco).

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2.1 – Parábola de Jesus (v. 33-39) Um pai de família constrói sua vinha. Como precisa ausentar-se, aluga aquelas terras para que lavradores as cuidem. Se esses cuidam bem ou mal da vinha, não há como saber; provavelmente cuidam muito bem. Com certeza, a terra devia ser muito fértil, pois, pela forma como atuam depois, ao que tudo indica, muito “dinheiro” estava em jogo. Na hora de devolver os frutos da terra ao dono, os servos acham-se no direito de apossar-se das terras e esquecer que essas não eram suas, mas pertenciam a alguém que muito antes as comprara, fertilizara, circundara (para proteção de intrusos e delimitação de terreno), construíra lagar (para tirar o precioso suco dos frutos), valado (com corrente límpida de águas para irrigação) e torre (para admirar seus vastos campos). Na hora de receber os frutos de sua colheita, envia seus servos. Esses são feridos, apedrejados e mortos. Tenta novamente com um número maior de servos, que igualmente são desrespeitados. Nem seu grande número intimida mais os lavradores cegos pela ganância. Como última alternativa, acredita que o amor e o vínculo de fidelidade que tinham para com ele no início se manifestarão novamente no coração e consciência dos lavradores. Acredita que, ao verem seu filho, reconhecerão a figura de respeito e autoridade do próprio homem com quem selaram seu contrato. Mas isso não acontece. Os lavradores conseguem apenas olhar para o filho como o cobiçado herdeiro; uma figura de autoridade que pode ser usurpada para si. Seu pensamento é levar vantagem em tudo e tentar tomar o que não lhes pertence, não importando os meios para tanto. É fora da vinha que o assassinato acontece, no território extraoficial, nas terras onde o dono não tem autoridade, em meio às sombras. E dessa forma, escondidos da face de seu locador, o responsável por seu cuidado, salário e bem-estar, eles matam o único que ainda poderia trazer de volta o arrependimento e reconhecimento de sua verdadeira condição: a de lavradores arrependidos e não de assassinos ambiciosos e revoltados. O texto de Paulo (Fp 3.4b-14) está diretamente relacionado com essa parte em que o arrependimento foi possível, mesmo diante de perseguições e disposição para matar. O texto de Paulo oferece a visão daquele que já viveu segundo as leis humanas e, mesmo de forma irrepreensível, considerou essa experiência como perda. Todo o seu zelo e autoconfiança deram lugar à confiança em Deus. Tudo o que fez baseado em seu radicalismo irrepreensível transformou-se em tristeza. As palavras relacionadas com a atuação humana de Paulo descritas na perícope seriam: fariseu, perseguidor da igreja, irrepreensível, confiante na carne (v. 4-6), e ainda depois de sua conversão as palavras “tenha alcançado” e “seja perfeito” (v. 12) refletem uma tendência humana natural de desejar ser maior do que Deus. A partir da compreensão de que a perda da imagem que criara para si é muito melhor, considerou como ganho transferir esse mérito a Cristo.

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2.2 – Interpretação de Jesus (v. 40-46) Agora o pai de família ganha um novo status nas palavras de Jesus: ele é nomeado “dono/senhor da vinha”. Isso traz um caráter de autoridade. A figura próxima e afetiva do pai é deixada de lado, e é aberto um novo padrão de reconhecimento para o mesmo homem que um dia construiu sua vinha e arrendou trabalhadores. Os lavradores receberam instruções claras de como deveriam ter trabalhado. Foi feito um acordo com aquele senhor. Diante das condições estabelecidas, nada mais justo do que devolver a parte dos lucros que cabiam ao dono. A punição dada por aqueles que escutaram a parábola foi de olho por olho, isto é, “afrontosa morte aos maus”, tendo em vista que o dono perdeu lucros na vinha, servos queridos e seu amado filho de forma injusta e cruel. O povo responde consolando a figura do pai para que esperasse pela próxima estiagem. Através do arrendamento de novos lavradores, receberá, a seu tempo, os frutos que, em esperança, hão de vir depois de superada tamanha tragédia em sua vida. O “pai de família” não se compraz com a vingança, nunca quis mortes, nem de seus servos, tampouco dos lavradores. Tem coração bom e puro, pois sempre confiou e quer continuar confiando não só nos servos fiéis, mas também na recuperação dos lavradores (chega a enviar três vezes a oportunidade de restauração e arrependimento para eles). Já a face do senhor da vinha não tem piedade e pune para que haja restauração de seus lavradores, que, por terem agido com maldade, precisarão ser corrigidos. O texto não diz o que o pai na parábola fez aos lavradores, qual foi o método para puni-los, ensinando a não cometer mais atos de violência contra a vida. Mas, com certeza, Deus não desistiu deles e jamais deixou de amá-los. A própria afirmação de Jesus entendendo-se como pedra angular demonstra que continua de braços estendidos, dando mais uma chance aos lavradores da vinha de seu pai (representados pelos principais sacerdotes e fariseus). Antes de ser aceito como pedra angular, Jesus foi rejeitado. Os lavradores cometeram inúmeros atos que seriam dignos de punição. Como podem ser esses ainda aceitos? Não deveriam ser trocados por outros que dessem frutos, que reconhecessem os frutos de seu locador e senhor, devolvendo-os àquele que é dono das terras e recebedor de direito? Jesus afirma que o reino será habitado por lavradores justos e negado aos maus. Mas isso também seria injusto, considerando que todo ser humano é pecador e não consegue fazer o bem; é humano e, por isso, mau por natureza. Pelo fato de ser humano, não consegue deixar de pecar. Para resolver esse problema, de cunho pessoal, humano e existencial, pois fala a respeito de todos, analisar-se-á de forma interpretativa cada aspecto sentenciado por Jesus na perícope de Mateus 21.42-44.

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Meditação

No intuito de trazer subsídios para a elaboração de uma mensagem/prédica, três aspectos serão analisados a respeito da entrada no reino de Deus, presentes na parábola dos lavradores na vinha:

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1 – O reino de Deus será negado aos maus, que serão despedaçados e reduzidos a pó. Os lavradores acumularam muitos pecados para si. Enumeremo-los: a) Foram ingratos, pois não conseguiram reconhecer que tudo o que o pai lhes dera (e eles estavam de acordo desde o início, quando foram contratados) era suficiente e bom para viver. Eles tinham um lugar lindo, terras férteis, emprego, família sustentada, garantias de conforto, labor e bem-estar, mas colocaram tudo a perder quando passaram a desqualificar o que tinham. É muito comum quando a insatisfação com pequenas coisas começa a tomar proporções maiores do que a realidade se apresenta. O choro, o lamento e a murmuração aumentam, gerando ingratidão. Seus olhos não conseguem mais reconhecer que, mesmo cercados de maravilhosas dádivas e ótimas condições de trabalho, seus problemas e provações ainda eram suportáveis e até solucionáveis. Quando a fé começa a esmorecer e a sensação de abandono aparece (pois o “pai/líder/senhor” parece estar longe), seguida da sensação de desistência (pois os problemas administrativos e desafios na vinha não deviam ser poucos numa terra tão grande), a raiva vem com toda a sua força. Essa raiva diante dos problemas reais que a vida coloca a cada ser humano na face da terra (para que cresça e se supere), bem como a insatisfação ilusória (fantasmas que cada um cria ao seu redor e fazem com que os problemas pareçam bem maiores do que são) geram desistência e ingratidão. Os lavradores foram ingratos, pois se revoltaram com a vida que levavam. b) Deixaram-se levar pela ganância – desejo de apoderar-se das terras de seu senhor, de possuir a herança que cabia apenas ao filho, tomando o seu lugar e assumindo esse lugar indevido de usurpação no seu íntimo. Em não cultivando uma sensação de gratidão em seus corações, mas antes deixando-se levar pela insatisfação, passam a experimentar a falta de honestidade, fé, amor e gratidão pela vida. A felicidade de trabalhar em tão boas terras e sob tão desafiadoras condições (que também exigiam esforço dos lavradores e, ainda assim, lhes garantiam o sustento como fruto de seu trabalho) foi aos poucos sendo esquecida. Justamente por ser próspera, agradável e bela, a vinha passou a ser cobiçada. Os lavradores passaram a compreender que aquele lugar era seu – talvez por morarem lá e não verem seu dono há tempo, talvez porque a casa era boa e os lucros muito altos – e apossam-se do que não era deles. Eles começam a lutar por esse lugar cobiçado, o lugar de dono, o lugar de quem não repassa os lucros, mas quer ficar com todos eles para si, como se dignos desse direito fossem. Portanto um lugar de usurpação em seu coração é aberto. Em assumindo seu livre-arbítrio para fazer o mal, assumem todas as consequências para lutar em favor de algo que nunca fora seu. Demonstram que perderam a fé em si mesmos e negaram a gratidão por seu senhor. c) Ousaram matar. Eles lutaram com todas as suas forças para fazer o mal, ferindo, apedrejando, até chegar ao ponto de matar para conseguir concretizar seus objetivos perversos. A consequência de uma queda são sempre a dor, a solidão, o desespero, a loucura, atos insanos, a agressão alheia, o desrespeito (ao próximo e a si mesmo) e o sofrimento, muito sofrimento para o mau lavrador. Ele sofrerá até que retire o verdadeiro ensinamento de sua dor e nunca mais deseje cometer o mesmo delito. Seu livre-arbítrio sempre estará presente para permitir que ele opte por fazer o mal novamente. Se fosse para fazer o bem, não precisaria

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usar do livre-arbítrio, pois isso está justamente em conivência com o desejo e os propósitos de Deus para sua vida. Ao olhar para suas atrocidades, os lavradores não sentiram culpa, pois estavam cegos. O papel do senhor da vinha, ou mesmo de Jesus como a pedra rejeitada, é de despedaçar e reduzir a pó aqueles que caírem sobre ela (Mt 21.44). Todos os “caídos”, os “lavradores maus”, os “sem limites”, os “delirantes” cegados pela ambição, aqueles que cometem crimes sem arrepender-se serão julgados. Sim, pois precisam aprender que tirar vidas é errado. Não está se falando de punição, mas antes de correção. Essa pode vir através do amor do pai que confia e aguarda até gerar arrependimento (enviando três vezes seus servos) ou através da dor e do sofrimento provenientes da própria maldade cultivada no coração de quem se opôs a receber amor (essa maldade precisa ser revelada a seus olhos). Pode-se concluir a respeito do primeiro aspecto (que nega a entrada dos maus lavradores no reino de Deus), levantado por Jesus nos v. 43a e 44, que, quando o lavrador insiste em seu ato rebelde de cometer o mal, não está mais conivente com a bondade e o amor que reinam na vinha. Essa facção que iniciou em seu coração vai levá-lo a um lugar de cisão e afastamento, onde irá aprender que não pode agredir o próximo (simbolicamente pode-se dizer que do céu ele vai para o inferno momentaneamente). Quando conseguir contatar com o amor novamente e reconhecer que os servos e o dono da vinha são seres dignos de respeito e não mais alvo de cobiça, terá a oportunidade de corrigir seus erros como ato consequente de seu arrependimento (ato simbólico de ressurreição com Cristo para atuar em novidade de vida). 2 – O reino de Deus será dado a lavradores responsáveis. Em tendo aprendido que sua natureza é má e tendo reconhecido que o que fez foi errado, o lavrador arrependido inicia o segundo processo, muito bem descrito por Paulo em Filipenses 3.4b-14. Ele irá tentar cumprir a lei de forma exemplar e correta. No entanto, convencer-se-á de que também não pode confiar na carne e em suas boas intenções. Ele é falho, humano, enfim, pecador. Jamais alcançará justiça por suas próprias mãos. Quando Jesus afirma que é a pedra angular, está ofertando a salvação através de seu ato justificador; é a lei divina restaurando a lei humana. Através de suas aflições, morte e ressurreição (Fp 3.10), Jesus possibilitou que a fé substituísse a busca humana desesperada por perfeição. Reconhecer esse agir e dar graças por ele, num ato de satisfação com a vida, humildade diante de Deus e agradecimento, sempre gerará prosperidade. Um lavrador responsável é aquele que reconhece através da fé a atuação de Deus, permite que ela continue através da gratidão e devolve a ele os seus frutos, vivenciando o amor (pois esse o alcançou primeiro). Essa devolução nada mais é do que o amor divino fluindo em seu coração, alcançando e curando tanto seu interior como outros lavradores; mas sempre será graças ao agir divino. A responsabilidade (ser um lavrador responsável) está no reconhecimento da falibilidade humana. 3 – O reino de Deus será dado a uma nação que dê frutos. Jesus não olha para o reino como a entrada em um lugar onde seus empregados sejam passivos e muito menos aproveitadores. As terras do reino são para lavradores que não usurpam o lugar de Deus, mas antes reconhecem sua condição de humildes servos.

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Não se trata de servidão ou escravidão humana, e sim de desenvolvimento de um caráter de humildade. Seria o lugar de valor e respeito diante do sagrado desenvolvido já aqui na terra, para que continue no “céu”. A possibilidade de entrada no reino será dada ao lavrador que devolver os frutos a seu senhor. Isso significa: colocar seus dons e talentos à disposição do agir divino, que é sobrenatural e tocanos incondicionalmente.

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Imagens para a prédica

a – Antes tido como “pai locador”, agora é visto como dono de grandes e prósperas terras, aquele que não é mais respeitado, mas cobiçado. A ganância brota nos corações dos lavradores, pois o desejo de ter o que não é seu superou o amor e o respeito pela pessoa que antes representava uma oportunidade de restauração em suas vidas (apenas os lavradores da parábola em questão poderiam dizer onde e em que condições viveram antes de ter conhecido o bondoso pai de família – se tinham uma vida sofrida, se passavam necessidade, se verdadeiramente melhoraram com a oportunidade de trabalho). b – Os lavradores, ao cometer o assassinato dos servos, tiraram o direto de outro ser humano de viver e cumprir seu papel (dado pelo pai/senhor/Deus). Eles interromperam a missão dada por Deus a muitos de seus servos, sem medir qualquer consequência, pensando apenas em si e em seu direito de usufruir de um lugar que não era seu. O lugar do dono estava com aquele pai de família, pois ele era digno do cargo. Quando o ser humano tenta usurpar o lugar de Deus, ele fracassa sempre. c – Quem toma o lugar de Deus pensa que pode tudo por suas próprias forças, quando, na verdade, o lucro, os frutos sempre foram de Deus. A vinha é de Deus, e seus frutos também. Os lavradores apenas cultivam, deixam que Deus atue através de suas mãos, reconhecendo seu lugar de trabalhadores. A vinha não é sua; foi o pai que comprou e a fez tão bonita e agradável para que os lavradores vivessem muito bem nela. As uvas brotam da terra, pois Deus a abençoou, permitindo que o fruto crescesse através da dádiva graciosa da vida. Quando Deus atua, é sempre graças a seus veiculadores, sejam eles humanos, celestes ou naturais (como a uva que cresce pela mão graciosa de Deus e trará o sustento através de seu suco ao lavrador que a cultivou). d – Colocar-se à disposição do agir amoroso de Deus é estar constantemente reconhecendo, assim como Paulo, que não recebe nenhum mérito por aquilo que faz por suas próprias forças, mas pode ser muito como servo de Deus. Ele fez tanto em sua tarefa missionária graças ao apoio, amparo e atuação de Deus em sua vida; do contrário, ainda estaria atuando como o lavrador cego que tirava vidas (At 9.1-6). Tudo o que foi gerado, e isso o ser humano lavrador deve sempre reconhecer, veio a ele por obra divina. e – “Tempo de podar e lavrar as vinhas”: no site abaixo, encontra-se a narrativa de Luís Pardal, natural de Castelo Branco Mogadouro, que cresceu em meio ao parreiral da região norte de Portugal (Bragança). Através de seu relato pode-se tirar ótimas ideias para melhor ilustrar a mensagem.

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http://www.castelobrancomogadouro.com/index.php?option=com_cont ent&view=article&id=260:tempo-de-podar-e-lavrar-as-vinhas-&catid=39:luispardal&Itemid=58

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Amado Deus, achegamo-nos diante de ti para confessar que, muitas vezes, agimos de maneira indigna. Assim como os lavradores da parábola, deixamo-nos levar por sentimentos humanos de ingratidão e murmuramos contra ti e contra nosso irmãos. Sentimos inveja e cobiçamos o que não nos pertence. Inclusive sentimentos de morte nos permeiam, desorientando nossos passos. Por tudo isso queremos pedir-te perdão, Deus de misericórdias sem fim. Sabemos que tua fidelidade é inabalável, mesmo quando a nossa fé se apresenta falha. Aceita nosso arrependimento, orienta novamente nossos passos e transforma-nos, por tua graça, em lavradores responsáveis, dispostos a devolver os frutos de nossas vidas para ti, pois por ti foram plantados! Oração de coleta: Deus de amor eterno! Temos consciência de que, querendo o melhor para nós, preparaste um lugar especial, um vinhedo com cerca, lagar e torre. Fizeste tudo para que o povo de Israel lhe entregasse frutos de justiça e compaixão, apesar de sua falibilidade humana. Queremos te pedir, relembrando esse gesto amoroso de carinho e compreensão no passado, que nos ensines a retribuir, para que esses frutos gerados por ti em nossos corações sejam estendidos até o próximo como forma de louvor a teu nome. É o que te pedimos por Jesus Cristo, teu filho, herdeiro de tua vinha, que contigo, o senhor da vinha e pai de família, e o Espírito Santo, que abençoa o bom crescimento da uva na terra, vive e reina, com eterna compaixão e misericórdia por nós, teus lavradores. Amém. Oração geral da igreja: Perdoa-nos quando pensamos que podemos tomar o teu lugar. Ensina-nos a reconhecer que todo ato benéfico vindo de nós foi gerado por ti primeiro. A vinha é tua, e seus frutos também. Nós lavradores apenas a cultivamos, deixando que tu atues através de nossas mãos. C: Ouve nossa oração e atende a nossa súplica. (2x) Pedimos-te perdão, Senhor, pois, mesmo quando agimos como maus lavradores, tu nos recebes em tua bondade. Perdão por sermos tão bem cuidados e nos negamos a cuidar, tão bem amados e nos negamos a amar, tão bem amparados e nos negamos a amparar. Transforma-nos e restaura-nos. C: Ouve nossa oração (...) Reconhecemos nosso lugar de trabalhadores e agradecemos por ter casa, família, enfim, uma vinha tão bonita e agradável para trabalhar e com tantos desafios para crescer.

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C: Graças, senhor! (2x) Por tua bondade, teu poder, teu amor, graças, Senhor! Graças te damos, Senhor, pelas uvas que brotam da terra, pois tu permitiste que o fruto crescesse através da dádiva graciosa da vida. Que ele nunca deixe de trazer o sustento ao lavrador que a cultivou. Nessa firme certeza de que é a tua fidelidade que governa nossas vidas te damos graças. C: Graças, senhor (...) Continua atuando através de teu eterno amor. Derrama-o sobre teus veiculadores, sejam eles humanos (o povo da terra, as lideranças da igreja, nossos governantes), celestes ou naturais (o fruto da terra e a própria vinha que nos abençoa o sustento). Unge cada um de teus trabalhadores para que estejam sempre dispostos e continuem transmitindo esse amor aos que cruzarem em seus caminhos. Amém!

Bibliografia http://www.madeirawine.com/html/p-lagares.html http://dasmargensdorio.blogspot.com/2009/02/lavadeiras-36.html

17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES MATEUS 22.15-22 ISAÍAS 42.1-7 1 TESSALONICENSES 1.1-10

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PRÉDICA: MATEUS 22.15-22

18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 16 OUT 2011

ISAÍAS 45.1-7 1 TESSALONICENSES 1.1-10

Sílvia Beatrice Genz

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Introdução

O texto de 1 Tessalonicenses 1.1-10 expressa parte do louvor e da gratidão que o apóstolo Paulo faz em toda a carta a Deus por essa igreja. “Damos sempre graças a Deus por todos vós.” O apóstolo fala em outros encontros, grupos e comunidades, da abnegação, do amor e da firmeza de esperança que os tessalonicensses têm no Senhor Jesus Cristo. Temos nós exemplos de comunidades para lembrar e mencionar nas orações? Vejo que isso acontece pouco. O apóstolo também lembra seu procedimento entre eles e que eles se tornaram imitadores “nossos” e do Senhor, pois receberam a Palavra em meio a muitas tribulações. Uma delas citada no v. 9: “deixando os ídolos ... para servir o Deus vivo e verdadeiro”. Tornaram-se exemplo, testemunho da forte e firme fé na Palavra do Senhor não só na Macedônia e na Acaia, mas em toda a parte. No v. 10, Paulo convida para que aguardem o retorno de Jesus para livrá-los da ira vindoura. Sugestão: conhecer e manter amizade com comunidades-irmãs não só da IECLB. Aprender com elas e principalmente saber que somos exemplo a partir de nossa vivência de fé na sociedade como um todo. Cada membro da comunidade deixa seu servir de acordo com sua convicção e vivência de fé. Nessa carta, somos incentivados a viver nossa fé em testemunho diário, pois não somos cristãos só quando estamos na igreja. Somos chamados a viver a fé na vida. Fé e vida são inseparáveis.

2

Texto

No texto de Mateus 22.15-22, os fariseus tramam como poderiam surpreender Jesus, enviando discípulos junto com os herodianos. Não que sejam unidos com eles, mas conchavam para atacar Jesus. Os herodianos não constituem um partido próprio; também não são uma seita religiosa, são simplesmente adeptos favoráveis à dinastia dos Herodes, completamente submissos à dominação romana. A discussão é travada sobre o pagamento de tributo. Querem arranjar um pretexto para que Jesus seja condenado pelas autoridades romanas ou que declare sua rebeldia contra Deus. No v. 16, podemos verificar “um aparente” reconhecimento da sabedoria de Jesus por parte dos interrogadores. Ou é apenas um elogio falso para introduzir o tema com mais facilidade, para apresentar uma pergunta que parece uma cilada.

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“É lícito pagar tributo a César ou não?” Jesus percebe logo a malícia e chama-os de hipócritas, que armam cilada contra ele. Parecia um golpe de mestre. Por que cilada? Pois se Jesus respondesse: SIM, seria uma resposta traidora à resistência popular, que era contra a cobrança de impostos pelos romanos. Se respondesse: NÃO, seria preso, conforme Lucas 20.20. Em Lucas 23.2, temos uma acusação clara, que os membros do sinédrio levam a Pilatos: “Pegamos este homem tentando fazer o nosso povo se revoltar, dizendo a eles que não pagassem impostos ao imperador e afirmando que ele é o Messias, um rei”. No texto em análise, a pergunta foi formulada de tal forma que Jesus, respondendo sim ou não, se desse mal. Queriam acusá-lo. Jesus reage à pergunta cheia de malícia com sabedoria. Lembramos suas palavras em Mateus 10.16: “Sede simples como as pombas, mas prudentes como as serpentes”. Jesus chama-os de hipócritas, deixando claro que entendeu que estão procurando uma prova contra ele. Jesus pede que tragam a moeda com que se paga o imposto ao imperador e pergunta: “De quem são o nome e a cara gravados nesta moeda?”. Os acusadores respondem que são do imperador. Será que Jesus devolveu a pergunta? Ou sua resposta tem mais de uma interpretação? Wegner diz: “A nosso ver, ambos os recursos foram empregados por Jesus na ocasião do texto. Sobretudo a estratégia de não dar resposta pronta a seus interlocutores, mas de fazer eles próprios pensarem melhor as coisas; é uma característica de Jesus, aplicada também em diversas outras ocasiões: cf. Marcos 2.9,19,25-26; 3.4 etc.” A moeda prescrita para pagar o imposto tinha grande circulação. Essa moeda apresentava na efígie a face do imperador e, ao redor da mesma, a inscrição que concedia atributos divinos a um simples mortal, o que representava sacrilégio e desacato à lei do Antigo Testamento. No v. 21, Jesus manda devolver a César a sua moeda que mandou cunhar e a Deus o que é de Deus. 2.1– O sentido da resposta de Jesus Aqui incluo a reflexão de Wegner, PL XVIII, p. 262-264: “A primeira parte da resposta de Jesus consiste no dito: ‘Devolvei a César as coisas de César’” (v. 21b). Segundo nosso entendimento, o que pertence a César Jesus deu a entender nos v. 19-21a: são as moedas que ele cunhou e que, por isso, levavam sua imagem e inscrição. Essas devem ser devolvidas a ele. O que implica uma tal proposta? Mìguez (p. 90), Stenger (p. 134s), Stauffer (p. 114) e vários outros destacam unanimemente o grande valor simbólico do denário imperial, ou seja, moeda obrigatória para pagamento de impostos. As moedas representavam, acima de tudo, um símbolo do poder hegemônico que os romanos detinham. A circulação de suas moedas por todos os lugares era a expressão monetária de que esses lugares todos estavam debaixo de seu poder, o que as inscrições e imagens dos imperadores só reforçavam ainda mais. A resposta de Jesus não deixa de ser bastante esperta. Por um lado, não nega a César o que lhe pertence: suas moedas; por outro lado, deixa de afirmar que lhe pertencem também os impostos exigidos pelos romanos. Em termos po-

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líticos, a resposta de Jesus implica perda para os romanos, perda do símbolo de seu poder, que representa os denários. Mas se trata de uma perda que, por outro lado, é digerível, pois representa simultaneamente um ganho, a saber, o ganho das moedas... Jesus realmente parece ter se safado da cilada. A segunda parte da resposta de Jesus é o v. 21c: “... e (devolvei) as coisas de Deus a Deus”. Para a interpretação da frase, é decisivo determinar o que vem a ser “as coisas de Deus”, que na ótica de Jesus lhe devem ser restituídas. As interpretações divergem bastante, mas, no fundo, são três as principais sugestões dadas: 1 – As coisas de Deus seriam as pessoas, que foram criadas à sua imagem e lhe devem obediência... 2 – As coisas de Deus seriam as coisas ligadas ao templo de Jerusalém. Jesus interpreta o que acontece com o templo em 21.13: “Vós transformais (a minha casa) em covil de salteadores”. A casa que deveria ser a casa de oração a Deus foi transformada em casa de negócios e ladroagem para certas pessoas. 3 – As coisas de Deus que necessitam ser devolvidas a ele são o seu povo e sua terra sob um regime de liberdade. Essa interpretação parte da pergunta: O que faz referência a Deus num contexto de pergunta sobre legitimidade de pagamento do imposto a César? Ora, os estudos da época mostram que a contestação do pagamento dos impostos a César era fundamentada exatamente com a referência a Deus. O Antigo Testamento pode fundamentar com várias passagens que... a terra pertence a Javé (Dt 12.10; 19.5; 26.8-9; Lv 25.23 etc.), bem como o povo judeu, do qual Javé era o verdadeiro rei (Dt 33.5; Is 41.21; Jr 8.19 etc). A evocação de Deus no contexto da pergunta pelo pagamento dos impostos a César tem assim uma finalidade nitidamente crítica na intenção de Jesus: “Devolver a Deus as coisas de Deus” dificilmente significará algo diferente do que devolver a ele a sua terra e o seu povo, dos quais os imperadores romanos se apossaram desde 63 a.C. com a entrada/ invasão de Pompeu na Palestina. O recado que Jesus dirige diretamente a fariseus e herodianos não pode restringir-se unicamente aos mesmos, mas implica também as pessoas e os grupos para cujo interesse trabalhavam, ou seja, os romanos. Como já vimos, o povo da Palestina pagava uma grande variedade de impostos. Pelos cálculos feitos por estudiosos, somavam 50% do orçamento familiar. Carlos Mesters e Mercedes Lopes descrevem, de um modo geral, as listas de impostos obrigatórios. Imposto direto sobre as propriedades e sobre as pessoas: Impostos sobre as propriedades (tributum soli), aos que tinham terra, e sobre as pessoas (tributum capitis), para os sem-terra, tanto para homens como para mulheres entre 12 e 65 anos. Tudo fiscalizado no local. Imposto indireto sobre transações variadas:

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Coroa de ouro: Originalmente, era um presente ao imperador, mas se tornou um imposto obrigatório. Era cobrado em ocasiões especiais como festas e visitas do imperador. Imposto sobre o sal. Imposto na compra e venda. Imposto para exercer a profissão. Para tudo se precisava de licença. Por exemplo, um sapateiro na cidade de Palmira pagava um denário por mês. Um denário era o equivalente ao salário de um dia. Até as prostitutas tinham que pagar. Imposto sobre o uso de coisas de utilidade pública. Outras taxas e obrigações: Pedágio ou alfândega: Era um imposto sobre circulação de mercadorias, cobrado pelos publicanos. Havia pedágio nas estradas. Nos postos fiscais, havia soldados para obrigar os que não queriam pagar . Trabalho forçado: Toda pessoa podia ser obrigada a prestar algum serviço ao Estado durante cinco dias, sem remuneração. Assim, Simão foi obrigado a carregar a cruz de Jesus. Despesa especial para o exército: O povo era obrigado a dar hospedagem aos soldados. Os camponeses deviam pagar certa quantia em comida para o sustento das tropas. Imposto para o Templo e o Culto: Imposto para a manutenção do prédio do Templo. Dízimo: Era o imposto para a manutenção dos sacerdotes. “Dízimo” significa a décima parte. Primícias: Era o imposto para a manutenção do culto. Primícias são os primeiros frutos de todos os produtos do campo.

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Meditação

Nos dias em que escrevemos esta meditação, acontecem os jogos da Copa na África do Sul, e muito se fala em Mandela, em dominação, em apartheid. É quase inacreditável perceber que isso foi ontem. O colonialismo resistiu até onde a corda conseguiu se esticar. Conversando com um grupo de jovens, para eles é inacreditável que algo assim aconteceu. É preciso olhar como hoje acontece a dominação. Será que tem o que devolver a Deus? No texto em estudo, vimos que é devolver a Deus a vida das pessoas, o seu povo, a terra, dos quais os imperadores romanos se apossaram. Para Jesus, a Torá estava clara, e ali se afirma: a lei de Deus está antes e acima de qualquer Estado. A lei foi dada antes da existência do Estado. Qual é a tarefa do Estado? Não podemos esquecer que ele é hoje, em sua maioria, formado por lideranças eleitas por nós. Elas cumprem o que é seu dever? O dinheiro dos impostos serve hoje a quem? Qual é nossa participação no destino da Amazônia e de nossos bens?

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Vemos hoje não só o Estado descumprindo a lei de Deus, mas igrejas que “exigem” de Deus perdão, cura e salvação, como donos da verdade, e isso ligado aos valores ofertados. Lutero diz: “Ora, a instituição humana não pode estenderse ao céu e sobre a alma, mas somente sobre a terra, o convívio externo dos seres humanos, onde pessoas podem ver, reconhecer, julgar, opinar, castigar e salvar”. Deus acima de tudo. Qual é nossa tarefa como cristãos e cristãs? Não separar fé e vida. Ser cristão é ter responsabilidade social. É participar e viver eticamente na família, na sociedade e na comunidade. Na Confissão de Augsburgo, lemos no Artigo 16: “As ordenações civis legítimas são boas obras de Deus, e é lícito ao cristão exercer ofícios civis... não destrói a ordem estatal ou familiar, mas exige muitíssimo que sejam preservadas como ordenações de Deus, e que exerça, em tais ordenações, o amor”. Somos preparados de fato para exercer funções públicas, segundo a justiça de Deus? Sentimo-nos pequenos diante de desafios que vão além de nossa localidade e país. Por isso é necessário unir forças. Somos poucos, mas unidos somos muitos. Na análise do texto de leitura de 1 Tessalonicenses ficou uma sugestão. Nessa carta, somos incentivados a viver nossa fé em testemunho diário, pois não somos cristãos só quando estamos na igreja. Somos chamados a viver a fé na vida. Fé e vida são inseparáveis.

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Imagens para a prédica

– Recontar o texto de Mateus. – Cilada armada para condenar Jesus. – Dominação do Império e suas consequências. – Desafiar para o intercâmbio entre comunidades, a exemplo de 1 Tessalonicenses. – Aprender de Jesus: amar a Deus acima de tudo, ao próximo como a si mesmo. – Ofertar para a missão de Deus. Tudo vem de ti, Senhor. E do que é teu te damos. (exemplificar projetos para ofertas) – Como perceber as ciladas e conchavos que são armados ao nosso redor. O selecionador de válvulas Num grupo de estudo bíblico num bairro, conversamos sobre esse texto. Um jovem lembra sua mãe de que necessita uma válvula para o coração e que está na fila de espera. “Por que essas válvulas são tão caras?”, pergunta o jovem. Outro jovem diz: “Sabe que eu faço a seleção das válvulas dos porcos na firma” (agroindústria onde trabalha). “Elas vão para o estrangeiro”, comenta ele, “por isso são tão caras”.

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O que se faz com os nossos bens? Por que custa tão caro se nós os produzimos? Recebi essa história que ilustra como a gente não se dá conta, muitas vezes, do que acontece ao nosso redor. A rã que não sabia que tinha sido cozida Imagine uma panela cheia de água fria, na qual nada tranquilamente uma pequena rã. Um pequeno fogo debaixo da panela e a água aquecendo muito lentamente. Pouco a pouco, a água fica morna, e a rã, achando isso bastante agradável, continua a nadar. A temperatura da água continua a subir... Agora a água está mais quente do que a rã gostaria. Sente-se um pouco cansada, mas, não obstante, isso não a amedronta. Agora a água está realmente quente, e a rã começa a achar desagradável, mas está muito debilitada. Então aguenta e não faz nada... A temperatura continua a subir, até que a rã acaba simplesmente morta e cozida.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Deus, doador da vida, de tudo o que temos e necessitamos. Tudo pertence a ti, mas vivemos como donos do mundo. Perdoa-nos, pois desconfiamos da promessa do pão de cada dia que não nos faltará. Por isso acumulamos com medo. Como pessoas cristãs, silenciamos diante de desmandos políticos. Reconhecemos que deixamos de praticar o amor. Pecamos com palavras, ações, pensamentos e omissões. Por isso pedimos com humildade: Comunidade: Perdoa-nos, Senhor, e concede-nos a graça de um novo começo. Amém. Sugestão de cantos: Hinos do Povo de Deus n° 206; n° 264; n° 263 – V. 1. Hinos do Povo de Deus n° 408 – V. 2.

Bibliografia WEGNER, Uwe. O que fazem os denários de César na Palestina? In: Estudos Teológicos nº 1, Ano 29, p. 87-105, 1989. WEGNER, Uwe. Mt 22.15-22. In: Proclamar Libertação, v. XVIII. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1992. p. 259-266. MESTERS, Carlos. A Palavra na Vida.184/185. CEBI, 2003.

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PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 2.1-8

19º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 23 OUT 2011

LEVÍTICOS 19.1-2,15-18 MATEUS 22.34-36

Marivete Zanoni Kunz

1

Introdução

Os textos para este domingo refletem as boas atitudes que um período como este, após o derramamento do Espírito, deve gerar em todo cristão. São textos que conduzem ao agir cotidiano, pois num mundo que tem prezado o individualismo e as realizações pessoais, somos exortados a agir diferentemente, amando a Deus e ao próximo. Os textos contrastam com alguns ensinamentos ou pensamentos errôneos vigentes na sociedade; por isso é importante, na celebração, trabalhar esse momento, enfatizando injustiças que são cometidas contra vidas inocentes. Tanto quando se refere a pessoas mais chegadas, como àquelas que não fazem parte do círculo íntimo. Também é importante mostrar a importância dessas ações estarem ligadas ao amor que sentimos em primeiro lugar pelo Senhor, sendo essas ações reflexos dos ensinamentos bíblicos vividos. Os textos complementam-se nessa direção. No primeiro (1Ts 2.1-8), Paulo mostra que tudo o que fez foi motivado pelo amor a Deus, sem se preocupar com bajulações às pessoas ou com ganâncias pessoais, razão pela qual ele foi amado por todos. O texto de Levítico 19.1-2,1518 vem em concordância, pois mostra que tudo deve ser feito por amor a Deus e ao próximo. Finalmente, o texto de Mateus 22.34-46 revela que contra isso não há contestação e disso dependerão todas as outras questões da vida.

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Exegese

V. 1 – Paulo e seus amigos buscam lembrar os irmãos do motivo por estar em Tessalônica. Fica claro que a missão era a tarefa de proclamação da Palavra, e a mesma foi cumprida. Isso se evidencia quando é afirmado que aconteceram muitas conversões ao Senhor; houve resultados e, em razão disso, o trabalho ali não foi algo em vão. Aqui, além de se buscar explicar a razão que os fez estar em Tessalônica, eles lembram ainda que os cristãos não deveriam se vangloriar de suas atitudes; pelo contrário, devem ficar atentos aos frutos que são colhidos a partir do trabalho em algo tão considerável no reino de Deus. V. 2 – Paulo deixa claro que sua motivação bem como a de seus companheiros para realizar as atividades provinha de Deus e não de forças humanas. Por isso não desistiram diante de dificuldades. O teor do texto expressa que, mesmo tendo sofrido maus-tratos por amor à palavra de Deus, foram ousados e corajosos. Esse versículo enfatiza o propósito de Paulo e seus amigos na estadia em

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Tessalônica; ele mostra que esse propósito foi cumprido devido às forças que provinham de Deus, mesmo que tivessem que passar por muitas lutas. V. 3 – Esse versículo enfatiza que tudo o que fizeram ou falaram era relevante, pois foi feito a partir da vontade do Senhor. Nega-se que realizaram suas atividades baseando-se em “engano, impureza e dolo”, como era comum a alguns pregadores. V. 4 – Esse versículo mostra que Paulo e seus amigos tinham algo a proclamar que não lhes pertencia, mas lhes foi confiado por Deus. Isso não pode ser comparado a algo obtido por prazer; ao contrário, só tinham o que tinham porque foi entregue pelo próprio Senhor, que, como diz o final do versículo, conhecia o “coração” dos seus. O verbo grego dokimazo revela que Paulo e companheiros foram examinados interiormente antes de receber o evangelho para anunciar. Pode-se perceber que, diante da prova pela qual passaram, e sendo aprovados, não poderiam fazer outra coisa senão falar para agradar aquele que os comissionou. E a forma de fazer isso seria transmitindo a mensagem conforme ele solicitou. V. 5 – O apóstolo e seus amigos evidenciam que, em nenhum momento, agiram com o coração voltado a bens ou com o coração cheio de ganância – palavra que no grego indica cobiça de todos os tipos –, usando assim de enganos ou segundas intenções para com os outros, a fim de alcançar algo pessoal. Pois isso era uma atitude comum naquele período. Muitos viajantes usavam de artimanhas, como falas agradáveis aos ouvintes, para conseguir favores pessoais. Eles, Paulo, Silvano e Timóteo, estão cientes de que muitas pessoas poderiam confundi-los com tais pregadores e por isso trazem tal explicação. Eles também sabem o quão importante é a tarefa que possuíam, razão que também os leva a falar com as mais sinceras motivações e não com interesses particulares. Disso Deus é testemunha. Em momento algum, aconteceram tentativas de enganar as pessoas, pois, acima de tudo, estava a fidelidade a Deus. V. 6 – Diante de honra tão maravilhosa de ser aprovado pelo Senhor para levar o evangelho, buscar a honra das pessoas seria algo irrelevante. Paulo e seus amigos acreditavam que seu trabalho não era algo apenas rotineiro, mas algo grandioso e muito digno. Diante desse fato, esqueceram inclusive os direitos à honra que poderiam ser reivindicados, visto que ocupavam uma posição de liderança nas igrejas fundadas e tinham o direito de ser honrados por tal razão. V. 7 – O sentimento que Paulo e seus companheiros tinham pelo povo é comparado ao sentimento de amor que uma mãe tem por seu filho. Esse amor era a base para que todo trabalho pudesse ser desenvolvido; sem ele a missão fracassaria. O amor de mãe é algo desinteressado. Era esse o sentimento desses mensageiros quando transmitiam a mensagem ao povo. Assim eles agiam por ter em mente o bem da igreja. Apesar do termo no original ser “ama”, a ideia é de uma mãe, pois o termo vem em conexão com a expressão “próprios filhos”. A etimologia da palavra “ama” possivelmente expressa o elemento “nutrir”, que desempenha uma ama. V. 8 – O amor de Paulo e seus amigos pelo povo era algo que os motivava inclusive a entregar suas vidas ou almas, caso preciso fosse. Isso revela que aquilo que eles realizavam era algo especial. Eles não viam isso somente como um

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mercado de trabalho, mas o empenho em tal atividade era total. O envolvimento com o povo era completo. E era assim que deveria ser, pois tal atividade necessita ser realizada com entrega total. No original, há a palavra grega homeiromai, que revela um profundo anseio que eles tinham de compartilhar e oferecer algo que também tinham como importante para si mesmos. Paulo usa a figura da própria vida, algo que é de muito valor a todos, para mostrar o quão precioso era a Palavra que tinham para anunciar. A palavra “vida” no texto grego é psyche, que também expressa o íntimo de seu ser. Ou seja, era isto que eles ansiavam compartilhar: coisas do mais profundo de seu ser. Esse anseio também provinha do fato de eles amarem muito os tessalonicences, amor que, na verdade, era o amor de Deus, expresso ali através de suas vidas.

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Meditação

Na passagem de 1 Tessalonicenses 2.1-8, percebe-se que havia oposição contra a vida dos missionários. Assim, Paulo defende seu ministério e o de seus colegas, baseado nas atitudes e no testemunho que deixaram quando passaram em Tessalônica. Primeiramente, esse texto é um encorajamento pastoral, mas pode ser usado como um bom exemplo para mostrar a todo cristão a importância de deixar um bom testemunho e como agradar a Deus através disso. Após mostrar que se preocupavam e queriam estar junto deles, Paulo e seus colegas descrevem coisas que gostariam de dizer. Eles falam de problemas que a igreja tinha para viver conforme a Palavra e das dificuldades externas enfrentadas pelos membros. É possível que pessoas de fora estivessem tentando prejudicar a imagem de Paulo e de seus colegas. Por isso eles se defendem, afirmando que não usaram métodos enganosos, os quais eram conhecidos por todos. Assim, fica o exemplo de como o cristão pode agradar a Deus. 3.1 – Servindo com compaixão ao próximo e sendo exemplo na conduta Isso se dá através de atitudes e comportamentos, pois tais coisas falam mais alto do que palavras. Nesse sentido, o ser humano precisa agir e comportarse tendo em vista o bem-estar do próximo. É preciso não querer coisas apenas para si, mas estar preocupado com as pessoas e suas necessidades. A fama, o prestígio, os bens materiais, por vezes, levam pessoas a fazer exigências de interesse particular. Entretanto, Paulo e seus colegas, como exemplo, estiveram dispostos a trabalhar para se sustentar, a fim de não parecer que estavam realizando sua missão com interesse em bens materiais. Foi por viver assim que eles puderam exortar o povo a ser exemplo. Esse é o modelo de líder que o povo quer, além de também ser um modelo de vida para todo cristão. Diante das oposições, Paulo e seus colegas não poderiam ter se defendido caso não tivessem tido um bom comportamento quando passaram em Tessalônica. O v. 4 mostra que Deus examina o coração do ser humano para verificar se ele está apto a realizar certas funções. Esse exame ocorre constantemente e não apenas uma vez, o que pode ser verificado no texto original através do uso do

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verbo no particípio presente. Deus sabia que, no coração de Paulo e seus amigos, estava constantemente o querer servir e agradá-lo, e isso dirigiria sua missão. Não ter o coração voltado para coisas particulares é almejar cumprir a vontade de Deus e servir ao próximo em detrimento de vontades pessoais. De modo algum, eles fizeram uso de posição de destaque para benefício pessoal, mas serviram aos outros sendo mordomos da Palavra que lhes foi entregue: através da proclamação da Palavra, cuidando do povo como uma mãe cuida de seus filhos, ensinando e amando-o. O v. 7 mostra que o cristão deve agir com o próximo de forma amorosa. Isso é possível quando há no coração um anseio sincero de compartilhar o que se tem de melhor. Em tudo o que fazemos precisamos dar do mais precioso que temos. Assim, devemos dar ao próximo o Cristo vivo e ressurreto. Isso Paulo e seus amigos queriam fazer pelos tessalonicenses. Muitas vezes, atividades feitas ao próximo são desencorajadas. Entretanto, nunca deveríamos esquecer que Deus prova o coração e somente quando agirmos com compaixão pelo próximo, sem egoísmo, seremos considerados dignos diante de homens e de Deus. Foi por agirem em prol do próximo que Paulo e o próprio Cristo, conforme o texto de Mateus, estavam em condições inquestionáveis perante os homens. Que cada um se pergunte até que ponto tem servido e sido exemplo ao próximo em atitudes e condutas. 3.2 – Não buscando a glória de homens, mas a honra de Deus Independente de quem sejam as pessoas que você considera importantes, sua preocupação não deve ser a de ter importância diante delas, pois isso não passa de mera ilusão. A admiração das pessoas pode vir a encantar; entretanto, digno de ser considerada é a busca da aprovação divina para nossas atitudes. O reconhecimento diante das pessoas é algo motivador, não podemos negar. Mas esse reconhecimento, conforme o texto, não deve ser “buscado ou procurado”. Isso deve vir como expressão natural dos que nos rodeiam, devido a nossas atitudes. A tentação de receber o reconhecimento de seres humanos acontece em todos os âmbitos da vida, até mesmo em áreas da espiritualidade. Ainda que o reconhecimento humano seja algo legítimo em alguns casos, como no de Paulo e seus amigos, essa não deve ser a motivação de nossas atitudes e comportamentos. A nossa motivação, além de ajudar o próximo, deve ser a convicção de que podemos ser para esse a expressão do amor de Deus. E isso será realidade quando fizermos as coisas com o coração voltado a glorificar Deus e não querendo reconhecimentos dos homens. É nesse momento que receberemos a honra que nos cabe, e essa virá do próprio Deus.

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Imagens para a prédica

As ilustrações abaixo ajudam a compreender melhor o que é agradar a Deus na prática.

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4.1 – Amor ao próximo Quando Sundar Singh, um célebre cristão indiano, viajava com seu guia pelo Himalaia, foi atingido por uma violenta tempestade de neve. Arrastando-se pelo caminho, ele e seu companheiro tropeçaram num homem semicoberto pela neve. O guia insistiu para que prosseguissem, dizendo que, ao socorrer a vítima, poriam em perigo sua própria segurança. Enquanto o guia prosseguiu sozinho, Sundar ergueu aquele corpo inconsciente aos ombros e enfrentou a tempestade, parecendo estar em desvantagem. Assim que a noite caiu, a boca de uma caverna se abriu à frente numa promessa de descanso seguro. Sundar, que se conservava aquecido pela carga extra que carregava, tropeçou no corpo gelado de seu guia. De acordo com o sentido do texto acima, a grande missão de nosso Senhor é a missão de cada cristão em relação aos outros. Embora não estejamos no serviço cristão por tempo integral, temos de ser cristãos integrais. 4.2 – Pecado contra o próximo: indiferença Bernard Shaw, grande escritor irlandês, ganhador do prêmio Nobel de 1925, é o autor da seguinte frase realista: “O maior pecado para com o próximo não é odiá-lo, mas lhe ser indiferente; essa é a essência da desumanidade”.

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Subsídios litúrgicos

A pergunta “Como agradar a Deus vivendo na sociedade atual?” pode ser um tema a ser desenvolvido. É recomendável destacar aquilo que Paulo fez e, a partir disso, ver o que a igreja pode fazer hoje, bem como cada cristão, tanto em termos de levar alento espiritual como do agir social. É importante fazer alguns apontamentos, indicando coisas práticas já realizadas e lançando novos desafios, a fim de levar cada ouvinte a analisar o que ele tem feito e até mesmo se tem cumprido com sua missão, assim como Paulo e seus amigos fizeram. É possível listar algumas coisas práticas a serem realizadas, mostrando como realizá-las em benefício da propagação da Palavra e auxílio à comunidade. Através disso pode-se destacar a esperança que nasce para muitos com o conhecimento da Palavra de Cristo. Também que a igreja e cada cristão podem ser uma porta de esperança para muitos que sofrem e não conhecem o amor de Jesus. É possível levar nomes de pessoas que agiram de forma exemplar na comunidade ou a nível mundial, bem como listar as atividades que essas pessoas desenvolveram e a diferença que isso causou. Pode-se trazer ainda alguém para testemunhar de atividades que tem realizado e dos benefícios das mesmas. Isso pode ser feito como uma forma de incentivo para o engajamento da comunidade em atividades práticas. É bom incentivar e lembrar que, no mundo moderno, muitas são as oportunidades para aqueles que querem ser testemunhas da graça salvadora do Senhor, basta que se tome isso por propósito.

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19º Domingo após Pentecostes

Bibliografia BOOR, Werner de; BÜRKI, Hans. Carta aos Tessalonicenses, Timóteo, Tito e Filemom. Curitiba: Esperança, 2007. 453 p. MARSHALL, I. Howard. I e II Tessalonicenses: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1993. 270 p.

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PRÉDICA: MATEUS 23.1-12

20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 30 OUT 2011

MIQUEIAS 3.5-12 1 TESSALONICENSES 2.9-13

José Manuel Kowalska Prelicz

1

Introdução

Estamos muito perto do fim do ano eclesiástico, a três domingos de Cristo Rei. Ainda que a temática geral do fim do ano vá em direção às coisas últimas, aparece neste domingo a temática da vida em comunidade e do exercício da autoridade. Também estamos na véspera do Dia da Reforma, que, mesmo não relacionada diretamente à temática dos textos para esse dia, pode ser incluída no sentido do papel das pessoas no espírito reformador. O evangelho, além de trazer a temática do domingo, também é o texto da pregação. Por isso nos basearemos nele para fazer a comparação com os outros. O texto de Miqueias, assim como o texto da prédica, fala de pessoas em quem o povo acredita e as quais estão fazendo o contrário do “pensamento de Deus”. É um bom exemplo de outro grupo de pessoas que não faz seu papel na sociedade israelita. Miqueias traz um juízo maior e com consequências graves para os falsários. O texto de 1 Tessalonicenses, ainda que parta da leitura contínua dessa carta, entra na temática de Mateus como um exemplo do bom exercício da autoridade. Nesse caso, o apóstolo Paulo não coloca cargas ou indica falsidade aos seguidores de Deus. O Salmo 43 também vai na mesma direção, mas ele trata a temática sob o ponto de vista da pessoa afligida pelas autoridades e na esperança do atuar divino para trocar a situação.

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Exegese

Em relação ao nosso texto, vale lembrar que Mateus, ao que tudo indica, é um escritor judeu-cristão que escreve a outros cristãos vindos do judaísmo. Assim, os modelos que se usa na perícope são conhecidos e lembram grupos respeitados no geral, mas que não valem para os cristãos e as cristãs. Mateus inclui somente esse ataque concentrado às autoridades religiosas do momento. Sobre o contexto, podemos indicar que a perícope traz respostas às questões colocadas anteriormente, podendo ser considerado um resumo do acontecido nos versículos anteriores: “Deem ao imperador o que é do imperador e deem a Deus o que é de Deus” (22.15ss), no v. 9; “A pergunta sobre a ressurreição” (22.23ss), no v. 1; “O mandamento mais importante” (22.34-40), na relação dos v. 2-7 versus 8-12; “Quem é o Messias / Cristo?”, nos v. 8 e 10. Em relação com o texto posterior, podemos ver um movimento do específico ao geral com o fim dos tempos. O texto está bem situado dentro da temática se seguimos a leitura de Mateus no final do ano eclesiástico.

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Os fariseus, do aramaico “separado”, é o grupo de judeus que surgiu no exílio, quando não se tinha acesso ao templo de Jerusalém. A sinagoga ganhou forma como lugar de culto e as tradições começaram a ser marca característica dos judeus. Eles reconheciam a tradição oral como norma de crença e vida. Tinham ritos externos e formas de piedade facilmente reconhecíveis, tais como lavagens cerimoniais, jejuns, orações. Acreditavam na chegada iminente do Messias, na esperança da ressurreição e na premiação de acordo com suas obras. Os fariseus tinham uma surpreendente influência entre o povo. Eles foram um dos grupos que mais fervorosamente brigou contra Jesus e sua causa. Os escribas ou mestres da lei são um grupo de profissionais que tinham como função principal e inicial “escrever”, ou seja, copiar a Lei, ao que se adicionou também o de fazer contratos. Logo, em conexão com a função de copiar a Lei, começaram a ensinar a Lei e realizar a interpretação da mesma às pessoas. Também compilaram a tradição oral, pela qual também é regida a interpretação da Lei. Os escribas formam um grupo de profissionais com uma indiscutível dominação sobre o pensamento das pessoas. Tinham “discípulos”, aprendizes da profissão escolhidos pelo rabi. Os títulos, costumes e adornos indicados por Jesus na perícope eram de uso costumeiro pelos escribas, principalmente pelos escribas que eram fariseus. O entusiasmo desse grupo pela Lei está relacionado com a ideia da retribuição divina no senso judiciário. A ideia profética da aliança que Deus fez com seu povo é interpretada de forma puramente judicial. As traduções do Almeida e Linguagem de Hoje são muito semelhantes. A tradução na NTLH traz o texto “digerido”. Assim, no v. 2 , “cadeira de Moisés” vem interpretada como “têm autoridade para explicar a Lei de Moisés” e “escribas” é traduzido como “mestres da lei”; no v. 5, é explicado o uso dos filactérios e das franjas; no v. 8, foi trocado “irmãos” por “membros de uma mesma família”; no v. 12, a tradução mais fiel “exaltar” é trocada por “engrandecer”. Nenhuma das três traduções troca ou “trai” o texto grego. O texto tem uma estrutura interna simples, podendo ser subdividido da seguinte forma: 23.1 – Introdução 23.2-7 – Crítica aos escribas e fariseus 23.8-12 – Indicações para os discípulos Podemos observar, na perícope, uma grande diversidade de títulos de poder dados às pessoas. A crítica de Jesus concentra-se no uso incorreto de termos colocados a pessoas, e por isso ele procura a exatidão no uso por seus discípulos. Apresentamos seu significado nesse contexto: rabbi, título honorífico para mestres da lei, v. 7 e 8; didaskalos, mestre, professor, título de honra e respeito, v. 8; adelfoi, irmãos e irmãs, a comunidade cristã; no singular masculino, irmão, v. 8; pather, pai, em sentido figurado usado como modo respeitoso de saudação, v. 9; kaqhghthj, mestre, líder, guia, instrutor (só aparece neste versículo em todo o NT), v. 10;

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diakonos, servo, ajudante, v. 11. Nos versículos finais da perícope, encontramos pensamentos trabalhados em outras passagens: do v. 11, o serviço, por exemplo, em Mt 20.26–27; Mc 9.35; 10.43–44; Lc 9.48; 22.26, e do v. 12, a humilhação e exaltação, por exemplo, em Jó 22.29; Pv 29.23; Lc 14.11; 18.14. A perícope traz um contraste entre os valores do reino dos céus e a forma superficial da religião. Volta à temática já tocada em Mateus 20.25-28, ainda que ali o contraste foi com os governadores dos povos pagãos; aqui é contra os supostos dirigentes do povo de Deus. A cadeira de Moisés refere-se à cadeira nas sinagogas, que era reservada à pessoa que ensinava a lei de Moisés. Por isso a expressão também se aplica à autoridade oficial de interpretar a Lei. Nos v. 3a e 4a, Jesus não é contra a utilização da Lei por fariseus e escribas. Mas ele é contra a falta de uso próprio por parte desses dois grupos. Por isso o acento não recai na primeira parte desses versículos, e sim na segunda: não imitar sua vida e a falta de coerência do pregador com o pregado.

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Meditação

Nesse caso, Jesus ensina com o exemplo negativo. Apresenta uma crítica forte e fervorosa diante de dois grupos (ou será realmente um só?) de pessoas que procuram a sua autopromoção e alimentam-se das honras e elogios que o povo faz a eles. Eles desejam a aprovação das pessoas para sentir que estão fazendo a coisa certa. Acreditam estar agradando a Deus, quando, na verdade, eles estão tirando Deus de seu lugar. Estamos aqui diante da quebra do primeiro mandamento? Hoje em dia, a crítica de Jesus pode estender-se a diversos grupos que atuam dentro da sociedade, das comunidades ou de outras organizações humanas: • Os “certinhos”: aqueles que acreditam que sempre estão certos e, a partir de sua compreensão, criticam todas e cada uma das pessoas que não atuam como eles desejam. • Os “seletos”: aqueles que se consideram diferentes do resto dos mortais. Sejam grupos de interesse, de classe econômica ou até de moradores de condomínio fechado. • As autoridades no sistema político: hoje, nós estamos diante de uma realidade social em que a opressão é institucionalizada, assim como era com os fariseus. Ainda assim, o povo os tinha em “lugar alto”. Vemos a curta memória histórica do eleitorado. Hoje descobrem-se escândalos de corrupção, amanhã os corrutos são eleitos para continuar em cargos públicos. Ainda que existam tentativas de cercear a atuação dos “entortadores da verdade”, continuaremos por muito tempo a coexistir com eles nos cargos públicos e de autoridade. • Neste mundo, os títulos e os cargos são importantes: doutores, pastores, governadores, diretores, executivos etc. Existem aqueles que gostam de aparecer e por isso mostram a todo mundo qual título tem e corrigem fortemente quem errar ao chamá-los sem a devida titulação.

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Jesus nos traz uma crítica à forma de vida comunitária. Os discípulos não podem seguir o esquema montado pelos fariseus, em que os títulos são mais importantes do que as pessoas. Os irmãos e as irmãs atuam diferente. O que Jesus reclama não é a utilização de títulos por funções desenvolvidas; ele não tira o nome de “escribas”. A função dentro da comunidade é uma realidade e até uma necessidade. Certas pessoas têm que estar incumbidas de algumas tarefas, pois todo mundo não pode fazer tudo; faltam capacitação e indicação. O que Jesus reclama é a vontade daqueles de fazer da função um culto à sua pessoa. Em muitos outros lugares, Jesus coloca as práticas exteriores, que servem somente para mostrar-se diante dos demais, como atitudes negativas e até contrárias à vontade divina. Estamos diante do perigo de nos colocar sempre do lado “certo”. Nós não somos como aqueles a quem Jesus critica. Somos discípulos e por isso não entramos na exaltação pessoal e sempre queremos servir. Mas será isso uma realidade verdadeira ou virtual? O culto à pessoa, criado na sociedade e cultivado nas comunidades, não é justamente o contrário? E assim, sem querer, colocamo-nos no lado “certo”. Fazemos de conta que não estamos agindo como os fariseus e escribas, mas essencialmente atuamos como tais. Ao mesmo tempo em que o texto é usado para acusar os outros de orgulho vão e fútil, também muitas vezes tem sido usado para baixar a autoestima, para lembrar que “não somos nada” e que “não podemos sentar no lugar importante”. Tem sido usado por poderosos para colocar os “pobres e humildes” no seu lugar. Duas leituras fazem o texto entrar em interesses conflitantes. O que realmente Jesus quis dizer com sua crítica? Cada coisa no seu lugar. Deus é o Pai. Cristo é o Mestre e Guia. Isso é o básico e mais importante. Nós somos irmãos e irmãs, família na comunidade cristã. Não para colocar-nos em lugares especiais, e sim para atuar em serviço. O importante está em colocar-se a serviço de Deus. Por isso não se elogia a exaltação pessoal ou se engrandece o indivíduo em detrimento da comunidade. Mas se elogia a colocação das pessoas em pé de igualdade diante de Deus, aquele a quem é devido verdadeiro louvor e adoração.

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Imagens para a prédica

– Exemplos no contexto local de: “Façam o que eu falo, mas não façam o que eu faço”. – “O Melhor Partido”, da Islândia, fundado por um comediante, conquistou o eleitorado com propostas como a construção de uma Disneylândia na ilha, a compra de um urso polar para o zoológico e a distribuição gratuita de toalhas. O comediante disse: “Vamos prometer o dobro dos outros partidos e cumprir o mesmo: nada”. – Conto “Melões sem semente”, adaptação do original de Mamerto Menapace: Ciríaco não tinha o que fazer; por isso foi visitar o compadre Nemésio. Quando chegou à sua casa, viu que Nemésio estava trabalhando na horta. Tinha arrumado tudo certinho, a terra, os sulcos, as ferramentas. Ciríaco não quis dis-

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trair o compadre. Apoiou-se na cerca e esperou até que ele terminasse o serviço. Foi esquisito o que enxergou. Nemésio tinha feito uns sulcos compridos e altos. O compadre caminhava uns metros, fazia um buraco com o pé. Colocava a mão no bolso, pegava alguma coisa, colocava-a no buraco e então, com o pé, fechava o buraco. Depois, voltava a fazer tudo isso uns metros adiante. Esteve trabalhando desse jeito umas duas horas sem notar a presença do Ciríaco. Quando terminou, viu o compadre e o cumprimentou: – Oi compadre, o que fazes? – Estava esperando que você terminasse seu trabalho. Mas o que estava fazendo? – Você viu: estava semeando. – Semeando? O que você estava semeando? – Melões. – Melões? Olha que estive observando você o tempo todo. Eu vi que você fazia quase tudo certinho, mas nunca vi que você colocasse uma semente no buraco. – Ah, é que esses são melões sem semente! Nemésio acreditava que, para nascerem melões sem sementes, tinha que fazer tudo igualzinho como se semeasse melões normais. A única diferença era não colocar a semente. Talvez por esse simples detalhe nada cresceu. – Ainda existem alguns templos em que o presbitério tem um lugar de destaque diante da comunidade: senta em lugar separado, especial. Uma imitação do jeito daqueles “senhores” que construíam capelas e que tinham um lugar de honra na igreja.

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Subsídios litúrgicos

No Livro de Culto da IECLB, parte IV, p. 200, encontramos uma liturgia completa para esse texto. Não traz uma temática específica, mas coloca elementos do texto em diversos elementos do ordo. Na elaboração das orações e frases, podem-se utilizar adequadamente os títulos que nos traz o texto: Pai, direcionado a Deus Criador; Mestre e Guia, a Jesus Cristo. Assim também os adjetivos de irmãos, irmãs, membros da mesma família e servos para identificar a comunidade reunida. Podemos incluir o Kyrie com o clamor pelas injustiças que existem no mundo, relacionadas com a existência de sistemas de opressão que pregam uma falsa justiça e onde poucos podem beneficiar-se em detrimento de muitos. Oração do dia: Deus, eterno e único verdadeiro Pai, tu que mostraste o teu amor e tua justiça através de Jesus Cristo, nosso mestre e guia, pedimos-te que nos ajudes a servir somente a ti e que não nos enganemos, colocando em nós e nas outras pessoas fardos pesados que não queremos carregar. Para que assim possamos seguir os ensinamentos de Cristo e sintamos em nossas vidas que tu nos exaltas quando

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nos colocamos humildemente a teu serviço. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, hoje e sempre. Amém. Na oração geral da igreja, podemos incluir a temática, tentando fazer um equilíbrio entre a denúncia (crítica aos grupos que atuam erradamente) e o anúncio (aos que sofrem pela exclusão criada), seja no contexto local e comunitário, seja no ambiente global.

Bibliografia CARSON, D. A.; FRANCE, R.T. Nuevo Comentario Biblico: Siglo Veintiuno. El Paso, TX: Casa Bautista de Publicaciones, 2000. GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do N.T. Grego/Português. São Paulo: Edições Vida Nova, 1993.

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PRÉDICA: GÁLATAS 5.1-11

DIA DA REFORMA 31 OUT 2011

ISAÍAS 62.1-12 MATEUS 5.1-10

Werner Wiese

1

Introdução

É bom celebrar o Dia da Reforma. O que não é celebrado perde importância para nós, especialmente numa época marcada por perdas rápidas de marcos significativos para a história. Ignorar a história passada aumenta o risco de perder na história o que vai se escrever para o futuro. Com a Reforma da igreja não é diferente. A rigor, o Dia da Reforma não é mera questão de ser lembrado uma vez por ano. A Reforma da igreja no século XVI, proclamada e proposta especialmente por Lutero, não era uma opção entre outras mais. Era questão de vida ou morte da própria igreja cristã. Não se tratava de interesses humanos. Esses se opuseram à Reforma e causaram muito mal à cristandade. Em jogo estava o evangelho a ser ou não trazido novamente à tona. A Reforma era e é questionamento da realidade presente na igreja. Ceder à Reforma é admitir fragilidades e erros e sinalizar a necessidade de socorro. Isso coloca em xeque a segurança diante de Deus, fere o orgulho e requer mudanças. Essas mudanças só podem brotar do evangelho redescoberto, proclamado e crido. Queremos ser “Igreja da Reforma”. Essa é nossa raiz! Mas ninguém é herdeiro perpétuo e automático do evangelho. É fácil ceder à tentação de querer complementá-lo ou mesmo confundi-lo com recados enganosos. Reforma coloca no centro o que Deus fez em Cristo. Isso é profundamente libertador! Partindo do texto para a prédica, é nossa tarefa proclamar esse fato com clareza e alegria. Tomando o elemento libertador do evangelho, pode-se apontar para as leituras adicionais. Isaías 62 sublinha o agir libertador de Deus. As bem-aventuranças de Mateus 5.1-10 são compreensíveis a partir da liberdade que só há em Cristo.

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Exegese

2.1 – O texto no seu contexto histórico-religioso As palavras “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou” (v.1a) são conhecidas. Elas caracterizam o centro da Carta aos Gálatas. Para entendê-las, é preciso olhar para seu pano de fundo. Destacamos dois aspectos: o primeiro é que Paulo, ex-observador rigoroso da Lei mosaica (Gl 1.13-14; Fp 3.2ss) e perseguidor da igreja de Deus (1Co 15.9), principalmente de judeus e prosélitos nas sinagogas que seguiam Cristo (At 9.1-2), tornou-se o principal proclamador do evangelho

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(Gl 1.23). Sendo judeu, Paulo tinha o direito de manifestar-se publicamente nos cultos sinagogais. Fazendo uso desse direito, anunciou o evangelho. Assim surgiram comunidades cristãs compostas por judeus e gentios também na Galácia. O segundo aspecto tange o núcleo da pregação: a crucificação e a ressurreição de Cristo dentre os mortos como agir salvador central de Deus para judeus e gentios. Isso significou o fim da lei e de quaisquer elementos como caminho da salvação. Em muitos momentos, foi causa de tensões e conflitos entre cristãos de origem gentílica e judaica, também na Galácia. Depois da saída de Paulo, “pregadores judeu-cristãos” ou “gentio-cristãos” que haviam aderido ao judaísmo, conhecidos como “judaizantes”, infiltraram-se nas comunidades da Galácia e tentaram convencer os gentio-cristãos da necessidade de submeter-se à circuncisão (Gl 5.2-4), observar dias festivos e dietas alimentares (Gl 3.1-2; 4.10; 6.12). Só assim seriam membros plenos do povo de Deus e teriam parte na “história da salvação”. Não negavam a Cristo, mas quiseram manter a Lei mosaica como necessária para a salvação. De acordo com eles, Cristo perdoava aqueles pecados que os “observadores da lei” ainda cometiam. Portanto a “observância da lei e a misericórdia de Cristo” juntas justificam o ser humano diante de Deus. A essa pregação Paulo reage com veemência e reafirma a justificação não por obras da lei, mas mediante a fé em Cristo (Gl 2.16; 3.2, 8, 24). A lei e Cristo não são dois caminhos diferentes de salvação. Quem, de alguma forma, aposta nas obras da lei para obter a salvação perde a Cristo e com ele a própria salvação. Quem crê em Cristo não precisa apelar às obras da lei. Fazê-lo seria escravidão. Crer em Cristo liberta. É nesse contexto que Paulo escreve a frase: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou”. Para o apóstolo, liberdade não é sinônimo de libertinagem, não carece de explicação aqui (Gl 5.13). 2.2 – Aspectos estruturais, linguísticos e teológicos do texto Na versão da língua original, sinaliza-se que o texto para a prédica pode ser dividido em duas partes: (a) Os v. 1-6. Nesses, o apóstolo destaca o fundamento da vida cristã. Trata-se da decisão central entre liberdade e escravidão ou entre Cristo e a lei. (b) Os v. 7-11(-12). Aqui fica claro que os gálatas ainda não haviam aderido aos “judaizantes”, mas estavam na iminência de fazê-lo. Contudo, para eles ainda havia esperança. O elo entre as partes são os imperativos “permanecei... firmes... não vos submetais...” (v. 1b) e a contraposição entre afirmação “corríeis bem” e a interrogação “quem vos impediu de continuardes...?” (v. 7). Empenho pelo evangelho, por um lado, e “incompreensão” da mudança sinalizada entre os gálatas, por outro, contrapõem-se. V. 1-6 – Os termos liberdade e jugo de escravidão e seus cognatos libertar e submeter no v. 1 resumem praticamente tudo o que foi dito até aqui na carta. O v. 1 é, por assim dizer, a transição (não separação) entre a argumentação teológica e a parte parenético-ética da carta. O que o evidencia é a frase indicativa: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou”, seguida da frase com duplo imperativo: “Permanecei, pois, firmes e não vos submetais...” A partícula pospositiva grega oyn, traduzida na versão da Bíblia de Almeida como “pois”, é o elo linguístico

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entre as frases. É importante observar os sujeitos destacados: Cristo é o sujeito da libertação. Esse é o indicativo da salvação. Os cristãos da Galácia são o sujeito da frase imperativa. Os imperativos resultam do indicativo. Impõe-se a pergunta: Que liberdade é essa para a qual Cristo nos libertou? Sintetizando, ela é: libertação do pecado, porque Cristo entregou-se por nossos pecados (Gl 1.4; 2.20); libertação da lei ou da maldição advinda da lei em decorrência da transgressão ou do não-cumprimento da lei, porque Cristo a cumpriu (Gl 3.13); libertação dos rudimentos do mundo – stoicheia toy kosmoy (Gl 4.3, 9). A versão da Bíblia de Jerusalém traduz “rudimentos” (stoicheia) por elementos, e a Nova Versão Internacional (NVI) traduz o termo por princípios elementares. De qualquer forma, stoicheia pode referir-se: a) a elementos básicos que compõem o mundo e que eram venerados como deuses; b) a espíritos elementares ou cósmicos que estariam habitando e governando o universo; c) a corpos celestiais como astros, que no imaginário religioso da época estavam ligados a poderes espirituais, e, por fim, d) a coisas criadas como a soma do mundo criado. Concluindo: Cristo liberta de todo tipo de escravidão, de modo que “nada nos pode separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (cf. Rm 8.31-39). Dito positivamente: em Cristo somos chamados na graça de Deus sob o evangelho (Gl 1.6), justificados mediante a fé (Gl 2.16; 3.8-9), recebemos o Espírito como cumprimento da promessa de Deus (Gl 3.2,14) e a adoção de filhos (Gl 4.5). Daí a insistência de Paulo: “Permanecei, pois, firmes e não vos submetais”. Os v. 2-6 desdobram o v. 1 em duas direções – uma negativa e outra positiva. Nos v. 2-4, aponta-se para as consequências negativas de qualquer tentativa de assegurar a salvação por meio de recursos humanos, adicionais ou paralelos ao que Deus fez em Cristo. No caso, tratava-se da circuncisão judaica. O termo central desses versículos é circuncidar (peritemnô). Para os judaizantes, a história de salvação de Deus continuava atrelada à circuncisão como sinal de pertença ao povo eleito por Deus – Israel. Por conseguinte, gentio-cristãos só poderiam pertencer ao povo de Deus e ser salvos se fossem circuncidados. Isso bate de frente com o evangelho e põe tudo a perder. Por essa razão o apóstolo é tão incisivo: “Eu, Paulo, vos digo... De novo, testifico...” (v. 2-3). Paulo quer colocar-se como pessoa na brecha que está a se abrir entre os gálatas e Cristo. Deixar-se circuncidar significa tornar a obra de Cristo inútil (Gl 2.21), obrigar-se a “guardar toda a lei”, desligar-se de Cristo e cair da graça (Gl 1.6). Essas palavras pertencem às mais sérias advertências que o apóstolo dirige a uma comunidade cristã. Seu objetivo é guardá-la do engano fatal. Nos v. 5-6, Paulo formula positivamente o mesmo objetivo: contra o erro fatal só existe um meio – permanecer na liberdade que Cristo conquistou. No horizonte do v. 5 está a esperança da justificação no juízo final, que é ser reconhecido por Deus como justo. Aliás, os judaizantes tinham o mesmo objetivo. Mas, enquanto esses últimos a aguardavam das obras da lei, cujo símbolo máximo se expressava na circuncisão, Paulo aponta para o Espírito como a “garantia” da justiça derradeira (cf. Gl 3. 2-5; cf. também 2Co 1.21-22; 5.5; Rm 8.23). No v. 6 fica evidente que o apóstolo não via problema na circuncisão de um judeu ou mesmo de um gentio prosélito como tal, mas na imposição da circuncisão a gentio-cristãos como requisito para a salvação. Nem

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a circuncisão e tampouco a incircuncisão justificam o ser humano, mas a fé em Cristo. E essa é ativa pelo amor; produz boas obras (cf. Ef 2.8-10). A justificação pela fé não é advogada da graça barata. V. 7-11 – Nos v. 7-9, o apóstolo evidencia que o que os gálatas estão prestes a fazer não procede daquele que os “chamou na graça” (Gl 1.6) e ainda os está chamando (v. 8). “Vós corríeis bem” (v. 7a) é uma figura extraída do mundo do esporte, que Paulo usa várias vezes (Gl 2.2; 1Co 9.24; Fp 2.16). Ela mostra que a fé e a vida cristã não são algo estático ou inerte, mas dinâmico. Tudo o que os gálatas receberam em Cristo – a verdade dada no evangelho – agora está em perigo. Não é possível dimensionar a influência efetiva dos judaizantes sobre os gálatas. A figura do fermento (v. 9) é uma advertência séria para não se deixar afetar de forma alguma, pois pouco já é o bastante para contaminar o todo. Apesar das preocupações externadas, Paulo está confiante no Senhor de que os gálatas percebam o que está em jogo e se deixem “reconquistar” pelo evangelho, ao contrário do “perturbador” (v. 10; cf. também 1.7-9). Paulo nunca se pronunciou contra a circuncisão de crianças de famílias judaicas. Partindo disso e associado a Atos 16.1-3 e 1 Coríntios 9.20, alguns exegetas supõem que Paulo foi acusado de ainda pregar a circuncisão. No v. 11, ele estaria rebatendo a acusação. Isso dificilmente procede, pois Paulo foi perseguido por judeus por não pregar a circuncisão. Pregar a circuncisão contrapõe-se a pregar a Cristo (1Co 1.17, 23; 2.2; 2Co 1.19; 4.5).

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Meditação e imagens para a prédica

Celebrar o Dia da Reforma representa um duplo desafio para a prédica de hoje: por um lado, convém destacar de maneira breve e clara o significado da “redescoberta do evangelho” no século XVI como fator libertador de descaminhos e abusos da religião que oprimiam as pessoas. De outro lado, convém perguntar pela relevância da Reforma hoje, num contexto profundamente alterado, tanto do ponto de vista pessoal como da realidade religiosa em geral. Primeiramente, a pergunta existencial de Lutero pelo Deus gracioso não é necessariamente a pergunta da maioria das pessoas hoje. Consequentemente, falar do evangelho como fator libertador hoje também não causa automaticamente o mesmo impacto que causou para Lutero e todas as pessoas comprometidas com a “causa da reforma da igreja” da época. Isso, contudo, não quer dizer que hoje não existam perguntas existenciais inquietantes que necessitam urgentemente de respostas. Muito pelo contrário, pessoas de todas as “classes sociais” vivem cada vez mais inquietas e muitas delas estão dispostas a pagar um alto preço para obter “respostas cabíveis”. A rigor, ninguém pode fugir o tempo todo da pergunta pelo sentido da vida, independente da época em que vive. Uma diferença inegável certamente é que, desde a Antiguidade até a Idade Média, a maioria das pessoas “recorria” a Deus ou ao sobrenatural para tratar das questões centrais da vida, ao passo que hoje elas são decididas sem Deus, como dizia Bonhoeffer. Isso não significa que em todos os casos se negue a existência de Deus. Mas Deus praticamente é dispensável, por-

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que a ciência se encarrega de explicar a vida em sentido amplo e o ser humano vive de forma autônoma no mundo. Defrontamo-nos com uma sociedade cada vez mais secularizada. Ainda assim, seria ingenuidade querer ignorar a força do elemento religioso hoje em larga escala da sociedade. Não temos dúvida de que a Reforma é relevante também para os nossos dias. Mas que significa isso? Sobre essa pergunta devemos refletir. Mais ainda: devemos dar resposta bem fundamentada com base no texto para hoje. A resposta certamente não será do tipo receita pronta. Isso nunca foi intenção da Reforma da igreja nem pode ser nossa intenção. Se fizéssemos isso, dispensaríamos as pessoas da articulação e argumentação própria da razão da fé e correríamos o risco de responder perguntas que não foram feitas e deixaríamos de responder aquelas que inquietam as pessoas. A pregação não passaria de um discurso distante das pessoas. Independente da forma ou de como se inicia a pregação, é fundamental que se veja a relação entre o indicativo e os imperativos, especialmente no v. 1. Os imperativos emergem do indicativo da salvação: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou” (v.1a). A ordem dos fatos não deve ser ignorada nem invertida na elaboração da própria prédica, sob pena de perdermos não só um dos focos centrais da Reforma, mas o próprio evangelho. Convém expor com brevidade o que essa liberdade significa. Só a partir dela e do risco de perdê-la os imperativos fazem sentido. Do contrário, fomentam o legalismo que não pode levar à “certeza” (certitudo), mas produzem “segurança” (sicuritas), que fomenta o orgulho e a arrogância pelo cumprimento de exigências religiosas ou, então, lançam em profundo desespero a quem não consegue corresponder a essas exigências. Apesar da enorme distância de tempo que nos separa de Paulo e de Lutero e da realidade profundamente alterada hoje, existem elementos comuns inerentes ao ser humano que transcendem a linha do tempo. Um deles é a pergunta pela relação entre Deus e o ser humano, que toca no sentido último da vida. Essa pergunta a ciência não pode responder e, no fundo, nenhuma filosofia de vida a pode calar e religiosidade humana alguma corresponder a ela. Cabe respondê-la a partir do evangelho. Toda argumentação e fundamentação teológica da justificação do ser humano mediante a fé em Cristo e não por obras da lei, que perpassa a Carta aos Gálatas e que está no centro da Reforma, não se dilui em discussão abstrata. O que se crê de fato tem repercussões na vida. Às vezes, é assim que o que se vive ou como se vive concretamente pode ser um indicativo daquilo que se crê, ou melhor, em quem se crê: em Cristo ou em ordenanças religiosas e recursos advindos do próprio ser humano. A liberdade cristã é obra de Cristo e deve ser valorizada como dom de Deus. Esse dom nos é dado no evangelho e só é mantido na medida em que o evangelho for o fator determinante da vida. Nada e ninguém podem nem devem nos dominar como se fossem senhores sobre nós. Inversamente, não devemos render-nos a nada e a ninguém como se fossem donos de nós. Somente Cristo é nosso Senhor. Isso nos lembra dos quatro princípios básicos da Reforma: solus Christus, sola gratia, sola scriptura, sola fide. Cristo, em quem cremos, não é

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Senhor arbitrário que explora e oprime. Eis a diferença fundamental entre a fé cristã em termos bíblico-reformatórios e qualquer “outra fé”. Para a prédica podem-se utilizar imagens do próprio texto, tais como: a) o contraste liberdade – jugo de escravidão. Elas podem ser “exploradas” a partir de nossa própria história política e religiosa, como a antiga escravatura, as ditaduras militar, econômica, tecnológica e as mais diversas facetas da oferta religiosa na mídia ou mesmo nos “shoppings religiosos” que se apresentam como evangelho, mas que fazem dos seus adeptos reféns; b) a figura do fermento; c) por fim, recomenda-se a leitura do livrinho de Lutero “Da liberdade cristã”. Pode-se destacar a célebre comparação do cristão como senhor livre sobre todas as coisas e servidor de todas as coisas.

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Subsídios litúrgicos

Saudação trinitária: Feita essa saudação, é oportuno indicar imediatamente para o Dia da Reforma, destacando a grandeza dessa dádiva, especialmente a bondade de Deus. É ela que nos convida ao arrependimento. Confissão dos pecados: Senhor, nosso Deus, tu nos congregas sob as tuas bondosas mãos. Agradecemos-te pelo Dia da Reforma, que nos lembra de teu agir gracioso na história de teu povo. Agradecemos-te pelas pessoas que levantaste para proclamar o evangelho, de modo que chegou até nós. Contudo, nem sempre valorizamos o que nos deste. Confessamos que pecamos contra ti e contra nossos semelhantes. Rogamos-te por perdão dos nossos pecados. Conceda-nos nova coragem para testemunhar o teu evangelho. Amém. Intercessão: Dependendo da situação, a comunidade poderia citar motivos concretos para a intercessão. Antes de interceder pelos motivos citados, podem-se incluir breves momentos para a oração silenciosa. Pode-se interceder intercalando o Kyrie eleison. Finalizando, o/a oficiante também intercede pela igreja como um todo, pela comunidade local, pelos doentes, pelas autoridades seculares e eclesiásticas, concluindo com o Pai-nosso.

Bibliografia BECKER, Jürgen. Der Brief an die Galater. In: Das Neue Testament Deutsch, v. 1. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1976. BUCHWEITZ, Wilfrid; MÄDCHE, Arnoldo. Dia da Reforma: Gálatas 5.1-11. In: Proclamar Libertação I-II, São Leopoldo: Editora Sinodal, 1979. p.125-135.

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PRÉDICA: ISAÍAS 35.1-10

DIA DE FINADOS 02 NOV 2011

MATEUS 22.23-33 1 CORÍNTIOS 15.12-20

Tânia Cristina Weimer Ninguém sabe o que significa crer a não ser aquele cuja canoa vai sendo invadida pelas ondas. Martim Lutero

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Introdução

A morte sempre foi um mistério profundo para todos nós. Ao visitar o cemitério onde estão enterrados nossos entes queridos, deparamo-nos com nossos limites e fraquezas, confrontando-nos com o fato de que um dia também nós estaremos lá. Ao mesmo tempo, a fé cristã assegura-nos que um dia ressuscitaremos. Jesus ressuscitou na Páscoa, e sua ressurreição é a primícia, a promessa de nossa própria ressurreição. O Dia de Finados é o dia de celebrar a vida eterna das pessoas queridas que já faleceram. Pois a vida cristã é viver em comunhão com Deus, agora e para sempre. Já no primeiro século, os cristãos costumavam visitar os túmulos dos mártires nas catacumbas para orar pelos mortos. No quarto século, já encontramos a “memória dos mortos” na celebração do culto cristão (Karl-Heinrich Bieritz, Das Kirchenjahr). Para nós, evangélicos de confissão luterana, não se trata de reverenciar os mortos ou, quem sabe, ainda procurar fazer algo por eles. Ao invés disso, o Dia de Finados move-nos a refletir sobre a realidade da morte, a anunciar a vitória da vida e a presença de Deus junto às pessoas, tanto na vida como na morte.

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Exegese

Os textos indicados para este dia falam sobre a esperança e a ressurreição. O texto da pregação faz parte de uma composição maior, que abrange os capítulos 34 e 35 de Isaías. Ele visa animar aqueles que se encontram no exílio babilônico a permanecer firmes. Ele quer consolar os desalentados para que não se deixem abater pelo sofrimento em que se encontram, pois Deus virá e trará salvação. O texto anuncia, com segurança, as maravilhas que se sucederão, transmitindo um sentimento de grande esperança aos que sonham retornar do exílio. Para dentro dessa situação de desesperança ecoa a voz profética, que começa com uma palavra cheia de consolo e ânimo: “Sejam fortes, não tenham medo”. O que fundamenta esse consolo é a presença salvadora de Deus: “Eis o Deus de vocês”.

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Dia de Finados

O texto do evangelho apresenta um confronto entre Jesus e os saduceus sobre a ressurreição. Ele diz que é errôneo pensar sobre o céu nos mesmos termos como se pensa sobre a terra. A vida no céu não será uma mera extensão da existência temporária na terra. Deus cuidará para que haja novos e maiores relacionamentos que transcendem os relacionamentos atuais. Em 1 Coríntios 15.12-20, Paulo assume, hipoteticamente, a falsa premissa de que não há ressurreição para mostrar as implicações de longo alcance que isso teria. O texto diz que Cristo é a primícia da ressurreição. As primícias são a primeira parte da colheita. Elas são uma garantia de que o restante da colheita está a caminho. Jesus ressuscitou na Páscoa, e sua ressurreição é a primícia, a promessa de nossa própria ressurreição. Os três textos já foram trabalhados em várias edições anteriores de Proclamar Libertação. Sugiro que se faça uso dessas valiosas reflexões.

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Meditação

A mensagem profética, a palavra de Deus, sempre é proclamada para dentro de um contexto, de uma realidade específica. Pensando na situação específica do Dia de Finados, qual é o sentimento que brota do coração das pessoas? Que sentimentos afloram do coração de um enlutado? Mãos cansadas, joelhos trôpegos, gente desanimada e desesperançada. Onde está Deus? Em situações de perda, pessoas enlutadas precisam de um sinal de esperança. O que seria esse sinal de esperança? A ressurreição de Jesus Cristo? Como crer na ressurreição numa hora dessas? Mas há outros sinais à nossa volta sobre os quais fala o profeta: “Os cegos verão, os surdos ouvirão, os aleijados pularão e dançarão, os mudos cantarão de alegria”. Esses são os sinais que envolvem as pessoas. Mas também há sinais que falam da transformação do meio ambiente em que vivemos: “Fontes brotarão no deserto, rios correrão pelas terras secas, a areia quente do deserto virará um lago...” A esperança não se limita somente a pessoas. O mundo todo deve ser mudado. Há sinais da presença e do amor de Deus em toda parte. A ligação entre Isaías 35 e Mateus 22 lembra, mais uma vez, que a esperança que temos em Jesus não se limita a satisfazer as necessidades individuais. Ela inclui transformação da sociedade, da natureza, das pessoas e do contexto que envolve a vida. Olhando para a realidade do exílio e para nossa atual situação, poderíamos dizer: “Não há muita razão para alegria”. A desesperança, a desconfiança tomou conta e é o sentimento que mais se manifesta entre as pessoas. Situações da realidade local e os últimos acontecimentos podem ser apontados. Sempre há coisas ruins acontecendo todo o tempo e em todo lugar. É a partir dessa realidade (a situação do exílio no tempo do profeta, as situações de sofrimento e opressão atuais, os desertos de nossa vida) que o profeta anuncia que Deus irá agir. E essa ação não acontecerá no além-túmulo ou num

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lugar onde as pessoas nada podem fazer. Ao contrário, o profeta anuncia que Deus age no presente e muda situações concretas. A presença de Deus transforma a situação de vida. Traz mudanças radicais. A saúde do povo é restabelecida integralmente. Os surdos ouvirão e os coxos dançarão de alegria. A natureza será totalmente recuperada. Fontes brotarão no deserto. O verde cobrirá a terra. O povo exilado voltará para sua casa e viverá feliz para sempre. Tudo isso o povo experimentará agora e no futuro. A ação de Deus manifesta-se já no presente, libertando-nos de nossas especulações e preocupações quanto ao futuro e à vida depois da morte. Em Jesus Cristo, temos a realização das promessas de Deus. Em Jesus, a palavra tornou-se carne e habitou entre nós. O futuro faz-se presente em Jesus Cristo, morto e ressuscitado. “O céu encostou na terra, como vemos no horizonte” (Oneide Bobsin, Semente de Esperança, 1988). Isso mostra que Deus é Deus dos vivos e não dos mortos. Portanto a vida eterna torna-se uma experiência presente. Nesse sentido, Mateus e Isaías se encontram. Em meio a esse deserto todo, a palavra de Deus surge como uma promessa. Não é palavra de juízo, não é palavra de condenação. Mas é, antes de mais nada, uma palavra de alento, uma palavra que fortalece as mãos e os joelhos cansados. Que imagem bonita em meio aos desertos de nossa vida! Deus quer fortalecer nossas mãos e nossos joelhos para que possamos continuar a caminhada. Assim é o nosso Deus. Ele não prometeu a nenhum de nós uma vida transcorrida apenas em vales férteis. No caminho de nossa vida estão também os desertos. Mas não estamos sós. Pensemos na velha e conhecida história “Pegadas na areia”: na hora das dificuldades, as pegadas individuais que aparecem não significam que estivemos sozinhos e que Deus nos abandonou, e sim que ele nos carregou nos braços. Deus está conosco nas areias do deserto, fortalecendo nossas mãos e nossos joelhos. Nenhuma família ou pessoa enlutada precisa passar sozinha por seu deserto. Deus está com ela nesse caminho. É verdade que o deserto procura fazer de nós cegos, surdos, mudos e aleijados. Isso já é a morte em vida. Quando não mais vemos, ouvimos, falamos e nos movimentamos ao encontro de Deus e dos irmãos, estamos experimentando a morte em vida. Há muita razão para a alegria. “Aqueles a quem o Deus Eterno salvar voltarão para casa, cantando. E viverão felizes para sempre. A alegria e a felicidade os acompanharão, e não haverá mais tristeza nem choro” (Is 35.10). Essa é a razão de nossa alegria. Não temos muitos motivos para nos alegrar com as circunstâncias de nossa vida. Não podemos nos alegrar com o que está acontecendo no mundo ou no meio ambiente. No entanto, temos motivos para alegria: “Pois a verdade é que Cristo ressuscitou, e isso é a garantia de que os que estão mortos também ressuscitarão” (1Co 15.10).

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Subsídios litúrgicos

Oração do dia: Deus da vida, nós te agradecemos pela vida eterna que tu nos ofereces. Abre, Senhor, os nossos ouvidos para ouvir a tua palavra. Concede-nos, a cada dia que passa, a certeza de que a morte foi vencida pela ressurreição de Jesus Cristo. Dá-nos, Senhor, coragem, fé e esperança, a fim de vivermos hoje e sempre a tua verdade. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo, hoje e sempre. Amém. Oração eucarística (dípticos ou mementos): Os dípticos ou mementos afirmam que celebramos a ceia em união com todas as pessoas que já partiram desta vida como seguidoras e testemunhas da causa de Cristo. Ao mesmo tempo, eles testificam a esperança cristã na ressurreição para a vida eterna, quando acontecerá o banquete que o próprio Senhor vai preparar, servindo a mesa (Série Colmeia, Fascículo 2). Ao iniciar os mementos, é trazido o livro de registros onde constam os nomes das pessoas falecidas na respectiva comunidade. Em muitos lugares, é costume lembrar os falecimentos do último ano. Pode-se dar uma flor a cada família ou mesmo uma vela. L: Guia-nos, Senhor, à festa da alegria preparada para o teu povo, em tua presença, com teus profetas, apóstolos e mártires, e com todos os que viveram na tua amizade. Lembra-te, especialmente, de nossos familiares e pessoas queridas falecidas na comunidade (nesse momento, lê-se o nome das pessoas falecidas). Guarda-nos em tua paz, Senhor. Unidos a essas pessoas queridas, que nos antecederam na morte, proclamamos teu louvor e anunciamos a felicidade do teu reino, para o qual em Cristo nos convidaste. (O livro é deixado em cima do altar.) C: Por Cristo, com Cristo e em Cristo. Gesto da paz: Destacar o gesto da paz como um momento especial em que familiares e comunidade se abraçam num anseio profundo por consolo e paz. E essa paz somente Jesus nos oferece (Jo 14.27). A paz que consola, anima e restabelece as pessoas de seu luto, sua dor e saudade. Tomar tempo para esse gesto. O nascer para o além... Texto: Padre Juca Adaptação: Sandra Zilio Há quem morra todos os dias. Morre no orgulho, na ignorância, na fraqueza. Morre um dia, mas nasce outro. Morre a semente, mas nasce a flor. Morre o homem para o mundo, mas nasce para Deus. Assim, em toda morte, deve haver uma nova vida.

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Essa é a esperança do ser humano que crê em Deus. Triste é ver gente morrendo por antecipação... De desgosto, de tristeza, de solidão. Pessoas fumando, bebendo, acabando com a vida. Essa gente empurrando a vida. Gritando, perdendo-se. Gente que vai morrendo um pouco a cada dia que passa. E a lembrança de nossos mortos, despertando, em nós, o desejo de abraçálos outra vez. Essa vontade de rasgar o infinito para descobri-los. De retroceder no tempo e segurar a vida. Ausência: – porque não há formas para se tocar. Presença: – porque se pode sentir. Essa lágrima cristalizada, distante e intocável. Essa saudade machucando o coração. Esse infinito rolando sobre a nossa pequenez. Esse céu azul e misterioso. Ah! Aqueles que já partiram! Aqueles que viveram entre nós. Que encheram de sorrisos e de paz a nossa vida. Foram para o além deixando esse vazio inconsolável. Que a gente, às vezes, disfarça para esquecer. Deles guardamos até os mais simples gestos. Sentimos, quando mergulhados em oração, o ruído de seus passos e o som de suas vozes. A lembrança dos dias alegres. Daquela mão nos amparando. Daquela lágrima que vimos correr. Da vontade de ficar quando era hora de partir. Essa vontade de rever novamente aquele rosto. Esse arrependimento de não ter dado maiores alegrias. Essa prece que diz tudo. Esse soluço que morre na garganta... E... Há tanta gente morrendo a cada dia, sem partir. Essa saudade do tamanho do infinito caindo sobre nós. Essa lembrança dos que já foram para a eternidade. Meu Deus! Que ausência tão cheia de presença! Que morte tão cheia de esperança e de vida!

Bibliografia BIERITZ, Karl-Heinrich. Das Kirchenjahr: Feste, Gedenk- und Feiertage in Geschichte und Gegenwart. München: Beck, 1994. CROATTO, J. Severino. Isaías, a palavra profética e sua releitura. V. I:1-39. São Paulo: Imprensa Metodista, 1989.

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PRÉDICA: AMÓS 5.18-24

21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 06 NOV 2011

MATEUS 25.1-13 1 TESSALONICENSES 4.13-18

Euler Renato Westphal

1

Introdução

A cidade natal de Amós, Tecoa (7. 12), situada em Judá, não aceitava seu título de profeta. O profeta vivia da criação de animais e era produtor de sicômoros, que é uma espécie de figueira brava com galhos fortes e raízes profundas (7. 14). Amós não era um pastor de ovelhas, mas um criador de gado de toda espécie. A partir disso deduz-se que ele poderia ser uma pessoa de posses. Ele também era culto, porque era conhecedor da realidade de seu tempo. Seus horizontes estendiam-se além do mundo que Tecoa proporcionava. Amós testemunhava que fora Deus quem atuara em sua vida. Por isso ele fala somente palavras de Deus. A palavra do Senhor forçou-o a pregar (3.8; 7.15), e isso pareceu semelhante ao rugido surpreendente e assustador de um leão. Sua atuação não está baseada em seus desejos, mas no falar do Senhor Deus. A perspectiva da proclamação de Amós é o juízo de Deus, o dia do Senhor. Também os textos do Novo Testamento nos colocam diante da realidade do juízo de Deus. Em Mateus 25.1-13, as virgens néscias e as prudentes tinham tudo em comum: tinham lâmpadas, sentiram sono, adormeceram, ouviram o noivo. Entretanto, algumas não estavam preparadas para encontrar-se com o noivo. Faltou azeite. Viver diante da perspectiva da eternidade faz-nos viver de modo responsável. A fé obediente nutre-se da perspectiva de que Deus vai nos encontrar em algum momento e que não temos domínio sobre o dia e a hora em que Deus vai nos chamar. O texto de 1 Tessalonicenses 4.13-18, que trata dos crentes que morreram, coloca-nos diante do evangelho de que Jesus Cristo morreu e ressuscitou e que ele venceu a morte. A esperança cristã está fundamentada no agir soberano de Deus. O consolo é saber que, para os que estão em Cristo Jesus, não há mais nenhuma condenação. Diante da perspectiva da eternidade, não faz diferença se aguardamos a ressurreição ou aguardamos o arrebatamento. Importante é que somos do Senhor.

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Exegese

V. 18 – Deus anuncia ameaça por meio da interjeição “Ai”, que vem sendo anunciada desde o v. 16. Aqui se trata de uma nota de falecimento, que foi mencionada em Amós 5.1. Os ouvintes são os cadáveres sobre os quais se lamenta a morte, “ó casa de Israel”. O profeta é o carpideiro. Essa não era somente a função

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das mulheres, mas a de homens também (5.16). Muitos tinham a função de lamentar os mortos. Em 2 Samuel 3.31, Davi ordena a Joabe e ao povo o lamento fúnebre. Veja também 2 Crônicas 35.25. A função das carpideiras era, mais tarde, específica das mulheres. O dia do Senhor é um dia fúnebre, que precisa ser lamentado e não desejado. O lamento dirige-se àqueles que buscam pela vinda do Senhor e não percebem que será um dia de juízo e de desolação. V. 19 – O dia do Senhor será cheio de surpresas. Pensa-se que se escapa do leão; no entanto, a pessoa torna-se presa do urso. Se pensa escapar ao entrar em casa, acaba sendo mordida pela serpente. As armadilhas estão colocadas em todos os lugares e não há escapatória. Faz parte da natureza de Deus nos surpreender. Não podemos colocar Deus nos moldes de nossos desejos e expectativas. V. 20 – Ninguém deve desejar a vinda do Senhor, pois ele virá para trazer destruição. O dia do Senhor significa noite, escuridão, terror e não será luz, dia e claridade. Israel pensa que o dia do Senhor será em favor de seu povo com a destruição de seus inimigos e a salvação de Israel. Deus não se presta a cumprir as expectativas egoístas e nacionalistas de seu povo. Muito pelo contrário, a soberba e a prepotência justificadas pela religião e pelo culto serão destruídas por Deus. Ele vai tirar a coberta e as máscaras de uma religiosidade criada pelos seres humanos para satisfazer seus desejos. O profeta vê-se na obrigação e na tarefa de mostrar ao povo de Deus a profundidade de sua maldade. Em nome de seu Deus, o povo pratica uma religiosidade vazia e perversa. Deus não deixará isso impune. Por essa razão, volta-se a falar, neste versículo, sobre o dia do Senhor como um dia de juízo. O profeta pronuncia-se contra aqueles que pregam coisas boas para justificar a maldade humana. De fato, esses profetas falam da justificação do pecado e da maldade humana. Entretanto, a justificação do ímpio transforma o coração do ser humano. Assim, a obediência da fé, a esperança, a justiça e o amor tomam conta daquele que foi justificado. V. 21-23 – O profeta fala contra a perversão do culto, ou seja, aquilo que é a expressão mais autêntica da fé em Deus transforma-se em um sentimento de repugnância a Deus. O profeta não está falando do culto aos ídolos; também não fala contra a mundanização do culto e nem mesmo a falta de respeito no culto. O profeta simplesmente rejeita os cultos festivos, porque o sangue da injustiça cola nas mãos dos “cabeças de Israel” (Am 5.10-12). O processo no portal (Am 5.12) é corrompido. Os anciãos teriam a obrigação de coibir a injustiça. O livro da aliança contém muitas dessas normas de convivência e de justiça entre o povo (Êx 23.6; Dt 16.19; 24.17). O direito pode ser ferido através de sentenças erradas, promulgadas por meio do suborno (Êx 23.7) e através de favores (Dt 16.19). De um lado, vê-se a injustiça gritante e, de outro, uma religiosidade muito bem elaborada e formalmente correta. Entretanto, nessa dicotomia é que residem o engano e a perversão do culto. A vida religiosa é, por vezes, caracterizada por uma piedade profunda. Trata-se de um culto avivado com corais, muitas ofertas; os cultos estão lotados com pessoas. Tudo extraordinariamente bem elaborado para um culto dominical. Entretanto, Deus rejeita tudo isso. Ele debocha dos sacrifícios com animais perfeitos, dos hinos, da piedade. Deus não se coloca contra o culto, a liturgia e os cânticos. Deus manifesta-se contra o uso do culto e de seus

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elementos como forma de influenciar Deus e manipulá-lo. O culto torna-se reprovável, porque ele não leva os crentes ao arrependimento, mas leva à justificação da maldade e do pecado. Assim, o pecado é justificado, e o pecador não se coloca debaixo do juízo de Deus. A impiedade na época de Amós deve ser entendida no contexto da política de Jeroboão II (782/1-753 a.C.), rei em Israel. Jeroboão II levou o povo e os camponeses à miséria e preparou a invasão da Assíria. O povo era pobre, mas a economia era forte. O comércio florescia, e as relações internacionais expandiam-se por meio do comércio. De outro lado, a ganância e a trapaça são usadas para aumentar os lucros. A construção civil (3.15) expandiase para as camadas sociais melhor situadas (5.11; 6.8). A decoração interna das casas era extremamente luxuosa (3.10; 3.12b; 3.15b; 6.4). Esse era o palco no qual os governantes usufruíam do luxo e promoviam orgias (4.1-3; 5. l-20; 6.114). O culto a Deus bem como a moral (2. 7-8) estavam corrompidos. O culto fora usado como meio de autojustificação para as classes abastadas, que exerciam o poder. Elas usavam a prosperidade como meio para legitimar seu modo de vida pecaminoso (4.4-5; 5.1-2). Havia o aspecto sombrio dessa época: a proliferação da pobreza e a injustiça social. Os ricos tornavam-se cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres. As pessoas mais pobres foram vergonhosamente extorquidas pelos mais fortes (4.1; 8.4). Os poucos direitos dos pobres lhes são tirados por meio da corrupção dos juízes e das ameaças feitas às testemunhas. V. 24 – O culto festivo deveria ser o lugar no qual a justiça e o direito tivessem seu lugar. Diante da presença de Deus não é possível viver oprimindo e destruindo pessoas. Israel pensava que a obediência aos aspectos formais da religião garantiria a segurança material e a existência do Estado. A partir do culto se queria reivindicar os seus direitos sobre Deus e fazer dele um servo dos desejos do povo. Com isso Deus foi destronado. Houve um “golpe de Estado”: Deus foi feito servo do povo, e o povo se fez deus. Deus é Senhor sobre seu povo, e por isso ele tem direito de reivindicar para si o direito de ser Deus. “O dia do Senhor” é o dia no qual Deus colocará um fim ao senhorio e à glória reivindicada por seu povo. Nesse dia, Deus se mostrará Senhor e fará valer o seu direito de ser Deus. Para Amós, Deus é o Senhor do culto de Israel. Por isso todo tipo de opressão é injustiça e pecado contra Deus. Nesse particular, ele lembra do êxodo do Egito como intervenção de Deus (9.7). A eleição de Deus (2.9; 3.2) coloca Israel em responsabilidade muito maior e não justifica qualquer segurança falsa que pudesse legitimar o pecado.

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Meditação

Amós preocupava-se com o fraco. Trata-se de pessoas inocentes e necessitadas que são feitas escravas. O motivo da venda é a cobrança de dinheiro emprestado. A dívida por causa de um par de sandálias é muito pequena para que alguém pobre seja feito escravo. Amós rejeita completamente a venda de pessoas, bem como a punição desproporcional de pobres e necessitados que devem pequenas somas. Amós é alguém que toma posição em favor do inocente e do injustiçado (Pv 31.1-9; Êx 22.16-31; 23.6-9; Dt 15.7-11). É possível que Amós tenha tido

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algum sucesso para que a prática do escravagismo, por causa de dívidas, fosse coibida. A injustiça praticada contra o pobre é mencionada como “opressão, estupro” (Pv 14.31; Pv 22.16-22). Injustiça é como roubar violentamente e pisotear. Amós condena aqueles que “pisam na cabeça dos que não têm ajuda”. Os pobres são aqueles corcundas e oprimidos. O Senhor é o único Deus. Ele não teme concorrentes. Ele é Deus sobre Israel, sobre os arameus, os filisteus, os amonitas e os moabitas. Ele é o único Deus dos povos, e Israel tem um compromisso de vida com ele. O único Deus que julga os povos, e ninguém pode fugir de seu juízo. Deus faz o seu pacto com seu povo. Todos os povos tornam-se culpados por ter pecado contra seus semelhantes. Em Amós, a culpa é medida no relacionamento com o próximo. Atitudes desumanas são pecado contra Deus. É pecado tratar pessoas como se fossem objeto, vendendo-as como mercadoria, cometer aborto ou comercializar cadáveres ao preço de mercado. Israel será submetido a condenações mais duras do que os povos pagãos. Israel não peca somente contra outros povos, mas contra seu próprio povo. O povo de Deus é explorado e oprimido pelas injustiças. Não obedecer a vontade de Deus no cuidado com o oprimido e o empobrecido e o solitário era o mesmo que romper a aliança com Deus. Deus não habita nos castelos e no sucesso material, mas ele se encontra entre os aflitos e os pobres. Ele se volta àqueles que foram injustiçados pelos líderes religiosos inescrupulosos. A igreja evangélica brasileira tem a tarefa de ser sal e luz. Ela não pode pactuar com a corrupção e a injustiça, que são muito comuns em nosso país. Amós condena aqueles que exploram os que estão em situação econômica falida. Amós procura entendê-los. Multas seriam cobradas quando homens, ao brigar, ferissem uma mulher que levasse ao aborto ou a uma anomalia (Êx 21.22). Além disso, existiria a possibilidade de cobrar multa se uma mulher fosse difamada (Dt 22.13-30). As indenizações deveriam acontecer nesses casos, mas não para angariar fundos para promover festas com bebedeiras e orgias (Am 6.6). Muitas pessoas pobres e ignorantes foram exploradas por causa de seus erros e seu desconhecimento das leis. Elas frequentemente são induzidas ao erro. O profeta rejeita o culto hipócrita, que se baseava nas aparências. Veja Salmo 34.18 e Amós 5.21-27. Assim, a religião pode tornar-se um instrumento para fugir das exigências do senhorio de Deus. Temos a admoestação apostólica em Romanos 12.1-2, que chama os cristãos à obediência da fé como culto a Deus. Quem sabe os cultos de louvor e adoração que conhecemos hoje não consideram suficientemente o arrependimento, a confissão de pecados, a equidade e a justiça! A palavra de Deus nos vem como lei e evangelho. A lei condena sempre; também condena as coisas boas que fizemos. O evangelho nos absolve e dá-nos a certeza do perdão. Quem não se coloca sob o juízo de Deus e quer viver a partir de sua justiça para manipular Deus, sobre esse vem o dia do Senhor, promulgado por Amós. Cristo assumiu o juízo de Deus sobre nós. A rigor, “o dia do Senhor” aconteceu na cruz, sobre o maldito, que é Jesus Cristo (Gl 3.13; 2Co 5.21).

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Imagens para a prédica

As imagens para a prédica não são tão difíceis de encontrar. Sugiro que se tomem exemplos de injustiça, lamentavelmente comuns em nosso país, que estão na ordem do dia. Também sugiro cautela no uso de tais exemplos para que eles não se sobreponham à mensagem. O exemplo deve servir para exemplificar a atualidade do texto de Amós. De qualquer forma, a obediência da fé leva-nos a olhar para a boa criação de Deus e para a necessidade de justiça entre nossos povos. O perdão de Cristo também é oferecido aos opressores, e a mudança de vida é decorrente do evangelho. Não se trata somente de enfatizar os grandes opressores, mas é necessário dizer que cada um de nós, à sua maneira, é o “lobo de seu semelhante”. Cada cristão precisa colocar-se sob a palavra como lei, que condena, e o evangelho, que absolve.

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Subsídios litúrgicos

Diante dos escândalos de toda sorte que acontecem nas igrejas cristãs, seria recomendável um momento reservado à confissão de pecados e ao arrependimento. A palavra do profeta Amós do “dia do Senhor” seria o dia de arrependimento do pecado pessoal e coletivo. Nesse mesmo momento, a súplica dirigida a Deus para que o evangelho transforme a vida das pessoas, para que exista justiça, equidade e o direito na vida dos cristãos. O testemunho do evangelho acontece pela vida que levamos.

Bibliografia KUNSTMANN, Walter. Os profetas menores: comentário bíblico. Porto Alegre: Concórdia, 1983. SCHWANTES. Milton. Amós: meditações e estudos. Petrópolis; São Leopoldo: Vozes; Sinodal, 1987.

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PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 5.1-11

22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JUÍZES 4.1-7 MATEUS 25.14-30

PENÚLTIMO DOMINGO DO ANO ECLESIÁSTICO 13 NOV 2011

Helga R. Pfannemüller

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Introdução

O penúltimo domingo do ano eclesiástico tem como tema a escatologia – a vinda do Senhor e a postura das pessoas nesse tempo de espera. As leituras propostas para esse domingo têm em comum a vigilância e o preparo para o dia do juízo. Mateus 25.14-30 conta a parábola dos talentos. Mostra que o dia do Senhor pode demorar (tardar), mas chegará inesperadamente para o ajuste de contas entre Deus e os seres humanos. Nesse dia, o Senhor nos perguntará o que fizemos durante o tempo que ele nos concedeu com os talentos que ele nos confiou. 1 Tessalonicenses 5.1-11 acentua: não importa o dia em que o Senhor voltará, mas importa que, quando o Senhor vier, ele encontre seus fiéis sóbrios e vigilantes. Mas o que significa, afinal, estar sóbrio e vigilante? Em Juízes 4.1-7, a tarefa da vigilância pode significar ações bem concretas da vida cotidiana. Elas requerem a participação e a liderança de homens e mulheres dispostos a servir.

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Exegese

Existe certa controvérsia entre os exegetas acerca do texto em questão ter sido obra do apóstolo Paulo ou um acréscimo posterior (algum autor do círculo de Lucas). Isso se deve ao fato de que os capítulos 4 e 5 mostram intenções opostas. Enquanto no cap. 4 se fala de “uma espera ansiosa” pelo Senhor – indicando a iminência de sua volta –, parece que no cap. 5 a crença no fim muito próximo enfraqueceu consideravelmente. 2.1 – Quando será o fim? (5.1-3) O v. 1 mostra que há uma incerteza por parte da comunidade tessalonicense quanto à data da última vinda do Senhor. A pergunta quanto “aos tempos e às épocas” em que isso aconteceria foi feita a Timóteo quando esse visitou a igreja de Tessalônica (FERREIRA, p. 95). No entanto, ao invés de uma data definitiva para a parusia, Paulo responde a essa pergunta fazendo uso de imagens. Primei-

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ramente surge a figura de um ladrão que chega no meio da noite quando os donos da casa menos esperam (v. 2), acentuando o inesperado, o imprevisto, o incalculável. O tom ameaçador dessa imagem aparece claramente no v. 3, onde a mesma ideia varia: “o dia do Senhor” é anunciado como um destino trágico (“repentina destruição”). A comparação com as contrações do parto de uma grávida enfatiza a falta de escapatória e reforça assim a ameaça. Essas imagens, assim como em Apocalipse, têm a função de mostrar o fim dos tempos como um tribunal do qual ninguém escapa. É interessante observar que as duas figuras (tanto a imagem do ladrão que vem no meio da noite como a da mulher grávida que sente as dores do parto) não dizem nada sobre o quando, mas sobre o como acontecerá a vinda do Senhor (parusia). Entretanto, segundo Rolf Christiansen (p. 244), os destinatários dessa explicação não são as irmãs e irmãos do v. 1, mas os representantes de uma corrente gnóstica que proclamava a segurança da salvação. Uma vez que para esse grupo a salvação já estava garantida, seus adeptos não viam mais importância na parusia, pois não havia mais nada a esperar do futuro. Por isso sua palavra de ordem era “paz e segurança” (v. 3). Nesse sentido, o v. 2 tem uma função crítica e rejeita um mal-entendido fundamental do evangelho. Pois “aqueles que se escondem em falsas seguranças e paz, ignorando a importância de assumir os apelos do evangelho, incessantemente serão pegos, inadvertidamente, sendo que a parusia será o começo das aflições” (FERREIRA, p. 96). 2.2 – É necessário esperar vigiando: a necessidade de preparação (5.4-11) Se os v. 1-3 trazem consigo um sentido crítico e um tom polêmico, nos v. 4-10 Paulo expõe seu próprio evangelho. Com duas frases indicativas ele fala à comunidade (“Mas vós, irmãos, não estais em trevas”, v. 4; “porquanto vós todos sois filhos da luz e filhos do dia”, v. 5), na qual ele mesmo se inclui numa terceira frase: “nós não somos da noite nem das trevas” (v. 5). No v. 4, “dia” contém inteiramente o mesmo acento escatológico do v. 2 (cf. também 1Co 1.8ss). A mesma ideia aparece em Romanos 13.11-14, um claro texto paralelo à nossa perícope. Aqui “tempo” (kairós) designa a era escatológica, em que os “filhos da luz” são aqueles que foram libertados do mundo mau e do império das trevas e por isso tomam parte desde agora no reino de Deus e de seu Filho (Cl 1.13) e já são cidadãos dos céus (Fp 3.20) – uma condição que determina e dirige todo o ser e o viver da pessoa cristã (cf. nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém sobre Romanos 13.11-14). Quando Paulo usa a formulação “vocês são os filhos da luz” (v. 5), ele provavelmente se refere à comunidade das pessoas batizadas e das dádivas da salvação que essas receberam através do Batismo. De acordo com E. Fuchs (citado por R. Christiansen, p. 245), a terminologia luz-trevas, respectivamente dianoite, vem do linguajar batismal. Os/as batizados/as “são” da luz e do dia, ou seja, pertencem “a nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 9). Para Paulo, os “filhos da luz” e do “dia” são as pessoas tornadas, através do Batismo, filhos e filhas de Deus, são pessoas escatológicas, ou seja, novas criaturas de Deus.

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Nesse sentido, a escuridão é uma esfera passageira reprimida pela luz. As palavras “trevas e noite” remetem à condição daquelas/es que vivem afastadas/os de Deus e das/os irmãs/os. Para os tessalonicenses, no entanto, isso não deve ser motivo de preocupação, pois Paulo os relembra de sua condição: “Não somos da noite nem das trevas”. Por isso não importa saber “os tempos nem as épocas” da vinda do Ressuscitado. Mas a preocupação com o futuro deve dar lugar ao reconhecimento da presença de Jesus como realidade presente já e agora na vida das/ os batizadas/os. Isso significa perceber que não é preciso esperar o futuro para ver o dia do Senhor, mas descobrir que essa já é uma realidade presente na vida dos filhos e filhas da luz aqui e agora. Os v. 6-8 apresentam-se como uma pequena parênese batismal. “Vigiar e ser sóbrio” é uma terminologia da exortação batismal. O v. 8 está repleto de linguagem batismal, como em Romanos 13.11-14; Gálatas 3.27; Colossenses 3.914; Efésios 6.10-19 e 1 Pedro 1.13. O que isso significa? A consequência prática é que quem vive na luz do Ressuscitado torna-se também luz. Assim, a comunidade de Jesus Cristo é o reino da luz, lugar de gente acordada, atenta, empenhada e comprometida. “O acontecimento da salvação deixa para os batizados, primeiro, um novo nome – eles se chamam Filhos da Luz e do Dia – e coloca-os em vigilância e sobriedade e garante a eles o mesmo futuro que Jesus vive” (E. Fuchs). A esperança da fé tem como alvo a comunhão eterna com o Senhor: “vivem com Ele” (v. 10b). Em outras palavras, o “viver em união com Cristo” significa “já”, aqui e agora, testemunhá-lo decididamente. “O fim (vinda do Senhor) tem sempre uma ligação com o presente (testemunho comunitário)” (FERREIRA, p. 96).

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Meditação

Diante da pergunta pelo fim dos tempos, a preocupação de Paulo quando escreve aos irmãos e irmãs de Tessalônica é de caráter poimênico. Seu objetivo principal não é ensinar. Por isso o que ele tem a dizer sobre o futuro de Deus não é nenhum projeto a respeito do fim do mundo, nenhum tratado teológico, mas visa pastoralmente seus leitores e leitoras. Ele quer que eles se consolem (5.11), admoestem (5.12) e edifiquem-se (5.11) mutuamente. Também hoje em dia vive-se em aflição em relação ao futuro. Em muitos aspectos, o futuro tem feições apocalípticas: a perspectiva de destruição global é concreta/real (guerra nuclear, catástrofes naturais como o efeito estufa etc). As reações a isso diferem: desde apatia, fuga da realidade (também mediante os mais diferenciados tipos de drogas e vícios) ou até mesmo o ativismo exagerado (dentro e fora da igreja). Por um lado, diz-se que estamos destruindo a terra, por outro, somos chamados a salvá-la. Isso gera uma sobrecarga nas pessoas. O texto lembra que o futuro de Deus não é feito com o que nós produzimos. É Deus mesmo que o prepara e nos oferece a possibilidade de participar dele. Nesse tempo de espera, o texto destaca dois pontos-chave:

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a) “Vós sois filhos da luz e do dia” Esse não é um conhecimento empírico, mas uma afirmação teológica. Isso a gente não consegue perceber olhando dentro de nós mesmos. É preciso que alguém de fora nos diga isso e que nos entreguemos em fé e confiança a essa verdade. Quando olhamos dentro de nós mesmos e ao nosso redor, frequentemente nos deparamos com noite e escuridão. Sempre de novo experimentamos que a escuridão nos agarra, que as sombras se lançam sobre nosso coração e nossa mente e nos deparamos com caminhos escuros, que não possibilitam nenhum futuro. Contra essa experiência de vida o texto faz uma afirmação ousada: “Vós sois filhos da luz e do dia”. Isso significa que nossos caminhos não terminam na escuridão e nossa vida não está destinada à ruína ou à perdição, mas a um viver “em união com ele”. Somos filhas e filhos da luz porque, em Jesus, a luz de Deus iluminou nossa existência. Através de Jesus Cristo sabemos então quem nós somos e a quem pertencemos. Nós temos o nosso lugar junto a Deus, porque nós pertencemos àquele que já assumiu seu lugar junto dele. E pelo fato de sabermos quem somos e a quem pertencemos (essa é a certeza da salvação), nossa vida e nosso futuro não precisam nos angustiar. Pois Deus quer cuidar dos dois. Paulo busca animar a comunidade a viver diante da incerteza do dia da salvação e a olhar com esperança para o futuro de Deus, ao invés de elaborar teorias sobre ele. No texto, a certeza da salvação é contraposta a uma segurança da salvação. A segurança da salvação conduz a um modo de vida tranquilo e acomodado. Já dentro da perspectiva da certeza da salvação, a pergunta quanto ao futuro é substituída pela pergunta pela existência escatológica no presente. O que significa tal existência escatológica no presente ilustra muito bem o reformador Martim Lutero: Ainda que a pessoa seja suficientemente justificada interiormente, segundo o Espírito, por meio da fé, tendo tudo o que precisa ter (...) até a vida futura – ainda assim a pessoa permanece na vida mortal sobre a terra, na qual é necessário que ela governe seu próprio corpo e lide com pessoas. Aqui agora começam as boas obras; aqui não se deve ficar ocioso; aqui por certo há que se cuidar para que o corpo seja exercitado com jejuns, vigílias, trabalhos e outras disciplinas moderadas e seja subordinado ao Espírito, para que obedeça e seja conforme à pessoa interior e à fé, não se rebele contra ela ou a impeça, quando é de sua índole quando não coibida. (Tratado de Martim Lutero sobre a liberdade cristã em Obras Selecionadas, p. 447).

É isso que a parênese do texto enfatiza: o novo ser dos batizados e das batizadas (a nova existência) pode ser perdido se ele não corresponder a um novo modo de vida.

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b) “Assim, pois, vigiemos e sejamos sóbrios” Quem coloca o futuro nas mãos de Deus não precisa elaborar teorias sobre ele, nem participar dos esquemas e tabelas que calculam com precisão a data do fim do mundo com suas consequências e seus estragos. Diante da pergunta pelo fim dos tempos, é preciso lembrar que não somos fugitivos nem prisioneiros deste mundo, não olhamos fixamente para o chão nem perdemos nosso olhar para o infinito vazio. Mas, porque o nosso lugar é junto de Deus, por isso nós pertencemos, enquanto nós vivermos, totalmente a esta terra e a este mundo. Sobre quem são e o que fazem (ou como fazem) os vigilantes e os sóbrios hoje, recomendo a leitura do artigo escrito por Albérico Baeske em Proclamar Libertação v. IX, p. 293-294.

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Imagens para a prédica

Algumas imagens ilustrativas: Conta-se que, na Alemanha, por volta de 1836, uma certa irmandade esperava ansiosamente a volta de Cristo. Por causa disso alguns deles desistiram de casar, outros deixaram de trabalhar. Contra isso um dos irmãos protestou: “Irmãos, se eu tenho a certeza de que o Salvador vem e ainda tenho que plantar uma árvore, então planto a árvore antes, e quando uma telha falta, então antes ela também precisa ser trocada”. Uma outra história do mesmo círculo – Uma criança pergunta ao pai: “Você sempre diz que o anticristo vai chegar logo! Então por que você não desiste de ficar arrancando o inço?”. “Sim, meu filho” – responde o pai – “e se nós soubéssemos que o anticristo viria já amanhã, então ainda hoje teríamos que trabalhar com zelo. O Senhor exige de nós fidelidade e que nós comamos o nosso pão com o suor de nosso rosto.” Conta-se ainda que Lutero, quando perguntado a respeito do fim do mundo, teria dito: “Se eu soubesse que o mundo terminaria amanhã, então ainda hoje plantaria uma macieira”.

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Subsídios litúrgicos

Oração de coleta: Querido Senhor e Deus, desperta-nos para que estejamos preparados quando o teu Filho vier, para que o recebamos com alegria e te sirvamos com coração puro. É por isso que te pedimos por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina para sempre. (Martim Lutero em: Querido Deus, coletânea de orações, p. 50) A história das cidades: Qualquer cidade tem algo de Babel, a cidade na qual as pessoas tentaram alcançar o céu através do sucesso.

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Qualquer cidade tem algo de Sodoma e Gomorra, as cidades pervertidas que foram extintas. Qualquer cidade tem algo de Babilônia, a cidade que seduzia nações e que foi extinta. Qualquer cidade tem algo de Nínive, a cidade que ouviu a pregação de Jonas e que se arrependeu. Qualquer cidade tem algo de Jerusalém, a cidade que matou profetas e mensageiros de Deus. Qualquer cidade tem algo de Atenas, a cidade cheia de ídolos. Qualquer cidade tem algo de Tessalônica, a cidade na qual habitavam pessoas que se tornaram modelo para todos os crentes, testemunhando a palavra para uma vasta região. Oração: Amado Senhor, nós todos ansiamos pela cidade santa, a nova Jerusalém, na qual não haverá mais lágrimas nem lamentos, porque o Cordeiro de Deus nela governa; na qual não haverá mais dores nem morte, porque nela se encontra a morada de Deus; na qual não haverá mais velhas ordens, porque tu fazes tudo novo; na qual não haverá mais noite, porque tua glória ilumina a cidade; na qual as portas não serão cerradas, porque não haverá mais medo e escuridão; na qual os risos cristalinos da vida correm pela cidade áurea e na qual a árvore da vida produz frutos o ano inteiro. Nós não sabemos quando a nova Jerusalém será realidade para nós. No entretempo, Senhor, queiras abençoar nossos pequenos e grandes esforços em nossas cidades – de criar miniaturas da nova Jerusalém. Ajuda-nos a lutar contra tudo o que impede a aceitação da cidade de Deus na terra. Amém. (Johnson Gnanabaranam em: Senhor, renova-me, p. 82-83)

Bibliografia CHRISTIANSEN, Rolf. Meditação sobre 1Ts 5.1-11. In: Neuer Calwer Predigthilfen, V. 6B, Stuttgart, p. 243-250, 1984. FERREIRA, J. A. Primeira Epístola aos Tessalonicenses: A Igreja surge como esperança dos oprimidos. São Bernardo do Campo, 1991.

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PRÉDICA: EZEQUIEL 34.11-16,20-24

DOMINGO CRISTO REI

MATEUS 25.31-46 EFÉSIOS 1.15-23

20 NOV 2011

Luiz Carlos Ramos

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Introdução

1.1 – O Domingo do Cristo Rei Este é o domingo que encerra o ciclo litúrgico anual. Como esperado, esse encerramento é literalmente apoteótico (apoteose: entre os antigos, era a cerimônia de divinização, especialmente dos imperadores romanos). O ano litúrgico tem início com o nascimento humilde da criança em Belém, mas termina com o advento do Cristo Pantocrator (todo-poderoso), governador supremo do universo. 1.2 – Mateus 25.35-46 No Ano A, as leituras indicadas para a Liturgia da Palavra estão focadas principalmente no Evangelho de Mateus. E o evangelho deste domingo (Mt 25.31-46) anuncia o “grande julgamento”, ocasião na qual o Cristo desempenha uma tríplice função: como rei (Kyrios), governa o mundo a partir de seu trono soberano e glorioso (v. 31, observe também o emprego do termo “rei” em 34.40 e 41); como pastor, demonstra seu cuidado para com aquela ovelha que está faminta, sedenta, sem abrigo, enferma, cativa (v. 32); e, como juiz, julga e faz separação entre as ovelhas e os bodes (v. 34ss). O texto é de uma riqueza inesgotável; no entanto, o contexto dessa perícope dentro do próprio Evangelho de Mateus merece alguma consideração: o Grande Julgamento encerra um bloco de discursos que tem início no Sermão da Montanha. E, ao longo dos diferentes discursos, uma tônica é recorrente: a oposição entre o construtor néscio versus o construtor sábio, as virgens néscias versus as prudentes, o que esconde versus o que aplica os talentos, entre outros que, finalmente, opõem-se as ovelhas versus os bodes. Em todos os casos, a oposição é essencialmente entre os que ouvem a Palavra, mas não a praticam, e os que a praticam. 1.3 – Efésios 1.15-22 Esta passagem é a leitura da epístola indicada para a ocasião, e nela o autor da epístola reafirma o poder de Deus manifestado em Cristo, “ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais” (v. 20), dando-lhe poder para dominar soberanamente sobre tudo e todos.

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1.4 – Ezequiel 34 Essa perícope é extraída do Primeiro Testamento. De certa forma, o contexto de Ezequiel 34 é semelhante ao de Mateus e em harmonia com o soberano apresentado em Efésios. Leiamos o que antecede imediatamente o cap. 34 de Ezequiel: “Eles vêm a ti, como o povo costuma vir, e se assentam diante de ti como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois, com a boca, professam muito amor, mas o coração só ambiciona lucro. Eis que tu és para eles como quem canta canções de amor, que tem voz suave e tange bem; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra” (33.31-32). Na sequência, no cap. 34, Ezequiel anuncia, assim como Mateus, a tríplice manifestação de Javé como pastor, como juiz e como príncipe (só que nessa ordem).

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Exegese

2.1 – Ezequiel, o profeta Parece que o significado do nome Ezequiel é “Deus dê força [ao menino]”. Esse por si já é um bom motivo para simpatizarmos com o profeta que, pelo que consta, estava entre os desterrados que, juntamente com o rei Joaquim, foram levados em 598 a.C. para a Babilônia pelo rei Nabucodonosor. Supomos que Ezequiel tenha desenvolvido seu ministério principalmente na Babilônia, em Tel-Abib, às margens do rio Kebar. Tendo recebido o chamado de Deus para ser profeta entre seus patrícios desterrados, passou a proclamar, com oráculos e performances cênicas, que Jerusalém estava profundamente corrompida e que, por não querer converter-se, Javé se via forçado a castigá-la; o seu fim se aproximava. De fato, Nabucodonosor conquistou Jerusalém em 587/86 a.C. Além da deportação de seus habitantes, a cidade foi incendiada e totalmente destruída. Outros detalhes biográficos sobre Ezequiel são escassos, e os que estão disponíveis são controvertidos e muito discutidos pelos exegetas; por essa razão não trataremos aqui dessa questão. Parece, no entanto, digna de nota a opinião de que Ezequiel, que era um sacerdote perito em culto e liturgia (cap. 40-48), experimenta a irrupção da glória de Deus de tal maneira que o sacerdote se transforma em profeta. E a queda de Jerusalém converte o pregador de condenação em pregador da esperança e da salvação. 2.2 – Ezequiel, o livro A tarefa dos profetas foi determinante para a consolidação da religião de Israel. Em circunstâncias análogas de aniquilação, deportação e diáspora, a maioria dos povos simplesmente se desintegrava como povo e como cultura, perdendo seus referenciais, inclusive religiosos. Profetas como Ezequiel e Jeremias ofereceram uma explicação teológica para a calamidade, o exílio. O motivo do sucedido não era o fato de que os deuses dos outros povos eram mais poderosos do que Yahweh, mas fora o próprio Yahweh quem soberanamente havia disposto de

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outros reis da terra para punir Israel pelo fato de esse ter sido infiel à aliança outrora estabelecida. Juntamente com a explicação teológica, vem o desafio à conversão, à fidelidade, à aliança, ao compromisso com os princípios mais caros para Yahweh: o direito e a justiça. Uma maneira relativamente simples de estruturar o livro de Ezequiel é a seguinte: (1) vocação do profeta (1.1-3.21); (2) julgamento de Jerusalém (3.22-24.27); (3) o castigo das nações (25-32) e (4) a restauração do povo aniquilado (33-37). Mas essa suposta simplicidade não nos deve iludir. O livro é complexo, principalmente é provável, pelos “ajustes” feitos pelos “discípulos” de Ezequiel, responsáveis pela redação final do livro. 2.3 – Ezequiel, a perícope (34.11-16,20-24) O cap. 34 está inserido, portanto, na quarta seção da estrutura simplificada apresentada: a restauração do povo aniquilado (33-37). V. 1 – “Veio a mim a palavra do Senhor”: fórmula característica do ministério profético. O sacerdote é tratado aqui como profeta. O nome de Deus empregado neste verso é Adon Yahweh. V. 2 – “Profetiza contra os pastores de Israel”: Na linguagem palaciana do antigo Oriente Próximo, os reis e outros chefes políticos eram chamados de “pastores do povo”. Nesse caso específico, parece que tais líderes só cuidavam de seus próprios interesses. Profetizar “contra” enfatiza o aspecto a princípio negativo da tarefa de Ezequiel. A rigor, o profeta proclama uma mensagem dialética (em sentido amplo): por um lado, apresenta uma denúncia e, por outro, proclama um anúncio. “Assim diz o Senhor Deus”: como “veio a mim a palavra…”, essa é outra fórmula que caracteriza o ministério profético. V. 3-4 – São abordadas aqui as mesmas questões levantadas no Grande Julgamento de Mateus 25: não dar de comer, não vestir, não curar, não proteger… O povo é espoliado enquanto seus líderes político-religiosos se locupletam. Uma possível alusão às taxas cobradas do povo na forma de impostos e à corveia, que era o serviço que alguém tinha que prestar gratuitamente ao soberano. V. 5-6 – “Minhas ovelhas andam espalhadas”: os líderes de Israel, em lugar de preservar a unidade do povo e consolidar a nação, contribuíam para sua dispersão no exílio. V. 10 – “Livrarei as minhas ovelhas”: este verso marca a virada no tom do discurso. A denúncia dá lugar agora ao anúncio. V. 10-16 – “Eu mesmo procurarei as minhas ovelhas”: Adon Yahweh apresenta-se como modelo antitético de governança em relação aos líderes de Israel. Sua plataforma política inclui: a busca das ovelhas, o livramento delas, sua reunião, a introdução delas em sua terra e seu cuidado pastoral contínuo (água, alimento, descanso, saúde…). Em uma palavra, a “justiça” (cf. v. 16) resume o plano de governo de Yahweh (“justiça” também é a palavra-chave do Evangelho de Mateus). V. 17-20 – “Eis que eu mesmo julgarei entre ovelhas gordas e ovelhas magras”: a partir desse ponto, enfatiza-se a ação de Yahweh como juiz. A justiça

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bíblica não implica igualdade de tratamento. Na balança da justiça de Yahweh, o prato dos oprimidos pesa mais. V. 23-24 – “Suscitarei para elas um só pastor”: para um povo que sofrera na carne com a divisão do reino em dois (Israel e Judá), que por décadas vinha sendo vítima de sucessivas invasões e massacres e cujos habitantes sobreviventes haviam sido, em grande parte, dispersos pelo mundo ou deportados para o exílio, a ideia de um rei único era especialmente significativa. “Apascentará”: o mesmo termo, em certo tempo verbal (piel), pode significar “ser amigo”. O rei desejado não haveria de ser um déspota autoritário, mas um cuidador fraterno. “Davi”: esse rei é apresentado aqui de maneira idealizada, mostrando o perfil daquele que haveria de reinar como sendo o ungido de Yahweh (um descendente de Davi). Vale lembrar que Davi havia sido pastor de ovelhas antes de tornar-se rei (cf. Também. V. 24: “Eu, o Senhor (Yawheh), lhes serei por Deus (Elohim), e o meu servo Davi será príncipe no meio delas”). V. 25-29 – “Aliança de paz”: durante um período de praticamente 100 anos, o povo de Deus vivera em constante clima de guerra. Mesmo no exílio, vivia permanentemente as tensões dos conflitos bélicos travados entre Assíria, Babilônia e Egito, entre si ou com outros. A paz, portanto, era seu anelo mais pungente. “Aliança” (beriyth): já no cap. 31, Ezequiel havia anunciado um novo ato redentor, uma “nova aliança”, na qual a lei seria escrita nos corações, e prenunciava a libertação do cativeiro como um “novo êxodo”, libertação na qual Deus repetiria os grandes atos salvíficos do passado. Essa salvação incluía uma vida próspera e harmônica em meio aos animais e à topografia, em face do clima e da produção do campo, e livre sobretudo da espoliação, quer estrangeira, quer doméstica. V. 30 – “Saberão que são… meu povo”: depois de tanta dispersão, de desintegração cultural, social e religiosa, Ezequiel reforça a ideia de “povo”, de comunidade unificada, com ideais e compromissos comuns. V. 31 – “Homens sois, mas eu sou o vosso Deus, diz o Senhor Deus”: as limitações e fragilidades humanas não são negadas, mas compensadas pela divindade de Yahweh.

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Meditação

3.1 – O profeta Ezequiel experimenta pessoalmente grandes conversões, tornando-se, assim, exemplo vivo de sua própria pregação. Primeiro: o sacerdote que se torna profeta ao adquirir consciência de que o povo se havia tornado infiel à aliança outrora estabelecida com Yahweh. Segundo: o profeta que pregava condenação quando vê que suas palavras se cumpriram, quando vê que Jerusalém estava completamente arrasada, que os sobreviventes agora tinham que se submeter como súditos e escravos a uma nação pagã e estrangeira, ele mesmo, entre seus pares, deportados e obrigado a viver em terra estranha… sim, quando Ezequiel experimenta tal desolação, passa por nova transformação: o profeta acusador converte-se em um profeta da esperança. 3.2 – Em lugar de limitar-se ao passado e ficar repetindo: “Eu não disse? Eu não avisei?”, ele trata de olhar para frente e começa a construir com suas pa-

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lavras o futuro que ele gostaria que viesse. A mesma voz que outrora anunciou a destruição agora convoca à reconstrução do reino, mas sobre outras bases. 3.3 – Diferente do reino infiel aniquilado, o reino restaurado haverá de se constituir sobre bases muito mais nobres, e a perícope de hoje apresenta justamente a plataforma de governo desse novo reinado. 3.4 – O modelo de governo é o próprio Yahweh: ele mesmo será a referência para todo ato de governo: buscar as ovelhas dispersas, reuni-las, apascentálas, alimentá-las, curá-las, fazê-las descansar. 3.5 – Essa prática será marcada por atos de justiça: “a gorda e a forte destruirei; apascentá-las-ei com justiça” (v. 16). A justiça de Yahweh consiste em fortalecer os fracos, e para isso é necessário destituir o poder e a opulência dos fortes. 3.6 – Politicamente, esse reino será um reino unido, pacífico, próspero, livre… Diferentemente da história pregressa de Israel, que foi marcada pela divisão e dispersão, pela opressão e escravidão… Assim, podemos metaforicamente sintetizar o plano de governo de Yahweh: Como pastor (cf. v. 12-16), Yahweh reunificará a nação, congregará o povo da diáspora, cuidará de seu povo com carinho e amizade, providenciando para que tenha tudo de que necessita para uma vida digna: alimento abundante, água limpa e pura, abrigo e proteção (segurança), saúde e higiene, liberdade e autonomia, descanso e lazer… Como vimos nas notas exegéticas, pastorear também significa “ser amigo”: Yahweh é um pastor que se importa, que se coloca no lugar das ovelhas, que estabelece vínculos afetivos com seu rebanho. Não é um líder distante, mas um companheiro querido muito próximo. O que acontece com suas ovelhas lhe diz respeito diretamente, e é como se acontecesse com ele mesmo, a ponto de Yahweh se incomodar, indignar e envolver profundamente. Como juiz (cf. v. 16-22), Yahweh eliminará as discrepâncias sociais: “… a enferma fortalecerei; mas a gorda e a forte destruirei; apascentá-las-ei com justiça”. A justiça de Yahweh consiste em fortalecer os fracos, e para isso é necessário destituir o poder e a opulência dos fortes. Essa justiça será aplicada em todas as instâncias, não somente em relação à opressão estrangeira, mas também em relação à doméstica, aquela praticada pelos próprios compatriotas: “eu livrarei as minhas ovelhas, para que já não sirvam de rapina, e julgarei entre ovelhas e ovelhas” (v. 22). Como príncipe, Yahweh será um promotor da paz: “Farei com elas alianças de paz…” (v. 25); será também um libertador e garantidor da liberdade: “saberão que eu sou o Senhor quando eu quebrar as varas de seu jugo e as livrar das mãos dos que as escravizavam” (v. 27); e será ainda um preservador do estado de direito e dos direitos individuais: “Já não servirão de rapina aos gentios [opressão estrangeira], e as feras da terra [opressão doméstica] nunca mais as comerão; e habitarão seguramente…” (v. 28), e mais: “… e nunca mais serão consumidas pela fome na terra, nem mais levarão sobre si o opróbrio dos gentios” (v. 28-29). 3.7 – Essa plataforma de governo, proposta por Ezequiel no cap. 34, representa um grande desafio para nós hoje como igreja e como cidadãos. Os modelos de governo que temos e promovemos, com frequência, reproduzem aquele que é

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denunciado pelo profeta. São modelos que exploram a boa-fé do povo, dilapidam seus bens, assolam suas propriedades, extorquem seus recursos, tolhem seu direito, privam sua liberdade, aniquilam sua dignidade. 3.8 – A consolidação do reino restaurado, com base nos princípios de governo de Yahweh, deve dar-se em todas as instâncias, desde as mais domésticas até as mais universais. Começando em casa, passando pela igreja, como instituição, e estendendo-se para as várias instâncias sociais e políticas (da associação de bairro à presidência da república). 3.9 – Cultivarmos um estilo de liderança cujo modelo seja o pastor Yahweh, o juiz Yahweh e o príncipe Yahweh: eis o nosso grande desafio. 3.10 – Neste domingo, no qual completamos mais um ciclo litúrgico, celebramos a consumação e a plenitude do governo pastoral, justo e soberano daquele que agora nos convida: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me” (Mt 25.34-36).

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Imagens para a prédica

Imaginemos a seguinte situação: A igreja inicia um trabalho com as crianças do bairro. Vêm crianças de todos os estratos sociais presentes na circunvizinhança. Umas mais abastadas, algumas mais carentes, e outras muito, muito pobres. Umas vêm bem vestidas, coradas, evidentemente bem nutridas, algumas até notoriamente com sobrepeso. Outras, trajadas muito modestamente; dentre essas, algumas notoriamente subnutridas, com peso bem abaixo do ideal. Umas se apresentam satisfeitas, outras, famintas. Os responsáveis pelo trabalho prepararam cuidadosamente um saboroso lanche a ser oferecido em determinado momento. Qual seria a atitude mais justa? Distribuir porções iguais para todos? Ou oferecer porção reforçada para os mais carentes? O que é mais justo: fatias de bolo iguais para todos ou fatias maiores para os mais famintos? Ser justo, segundo as Escrituras Sagradas, não é tratar todo mundo igual, mas tratar cada um conforme sua necessidade.

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Subsídios litúrgicos

Um cântico muito entoado nos anos 1980 pode ser particularmente inspirador para a liturgia do Domingo do Cristo Rei [partitura disponível em: MARASCHIN, J. C. (Ed.) O novo canto da terra. São Paulo: Editora do Instituto Anglicano de Estudos Teológicos (IAET), 1987]: Seu nome é Jesus Cristo Pe. André Luna (?) Seu nome é Jesus Cristo e passa fome E grita pela boca dos famintos, E a gente quando vê passa adiante

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Às vezes pra chegar depressa à igreja. Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa E dorme pelas beiras das calçadas, E a gente quando vê aperta o passo E diz que Ele dormiu embriagado. Entre nós está e não O conhecemos. Entre nós está e nós O desprezamos. Seu nome é Jesus Cristo e é analfabeto E vive mendigando um subemprego, E a gente, quando vê, diz: É um à-toa, Melhor que trabalhasse e não pedisse. Seu nome é Jesus Cristo e está banido Das rodas sociais e das igrejas Porque d’Ele fizeram um rei potente Enquanto Ele vive como um pobre. Entre nós está e não O conhecemos. Entre nós está e nós O desprezamos. Seu nome é Jesus Cristo e está doente E vive atrás das grades da cadeia E nós tão raramente vamos vê-lO. Sabemos que Ele é um marginal. Seu nome é Jesus Cristo e anda sedento Por um mundo de Amor e de Justiça, Mas logo que contesta pela Paz A ordem O obriga a ser de guerra. Entre nós está e não O conhecemos. Entre nós está e nós O desprezamos. Seu nome é Jesus Cristo e é difamado E vive nos imundos meretrícios, Mas muitos o expulsam da cidade Com medo de estender a mão a Ele. Seu nome é Jesus Cristo e é todo homem Que vive neste mundo ou quer viver, Pois pra Ele não existem mais fronteiras. Só quer fazer de nós todos irmãos. Entre nós está e não O conhecemos. Entre nós está e nós O desprezamos.

Bibliografia BRIGHT, J. História de Israel. Trad. Euclides Carneiro da Silva. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 1978. (Nova Coleção Bíblica, 7). BIBLIA. Português. Bíblia tradução ecumênica. Edição em língua portuguesa. São Paulo: Loyola, 1994. Ver especificamente a introdução ao livro do profeta Ezequiel.

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AÇÃO DE GRAÇAS (FESTA DA COLHEITA)

PRÉDICA: 1 TIMÓTEO 2.1-7 JOEL 2.21-27 MATEUS 6.25-33

Teobaldo Witter Ele foi manifestado na carne, justificado no Espírito, contemplado pelos anjos, proclamados às nações, crido no mundo, exaltado na glória. 1 Timóteo 3.16

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Introdução

“Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, [...]” (1Tm 2.1). Ações de graças são sempre momentos de alegria e de louvor, mesmo que talvez a colheita não tenha sido tão boa quanto esperávamos. Elas nos lembram que tudo o que temos e somos vem de Deus e vai para Deus. É por sua graça e amor que ele permite nosso viver e nosso trabalhar com dignidade para produção do “pão nosso de cada dia”. Os textos bíblicos indicados para este momento de ação de graças levamnos a relações com Deus e sua criação. O texto da pregação é 1 Timóteo 2.1-7. Ele nos ensina que as orações, intercessões, súplicas e ações de graças devem ser em favor de todas as pessoas. Deus derrama suas bênçãos gratuitamente sobre todas. “Deus faz com que o sol brilhe sobre bons e sobre maus e dá a chuva tanto para os que fazem o bem como para os que fazem o mal” (Mt 6.45b). Ninguém pode viver se não tiver a bênção de Deus. Mas Deus quer mais. Ele farta os famintos. Mas não apenas de pão, pois Jesus diz: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Ele quer que todas as pessoas conheçam a verdade e sejam salvas. Ele quer que todas sejam reconciliadas. Ele trabalha para isso. E ele nos deixa colaborar com ele nessa sua missão. Joel 2.21-27 é um grande convite para louvar, com alegria e entusiasmo, os feitos do Senhor. Convida para lançar fora o medo. Podem confiar, seres humanos. Podem confiar, animais. Haverá alimento. Ninguém será humilhado, como no tempo dos gafanhotos e das terríveis secas. Essa imagem me lembra o tempo de minha infância. Certo ano, não choveu durante quatro meses no verão. Depois veio o inverno. Tudo seco e sem vida. Nada para comemorar. Em junho, iniciou a chuva. Semeamos trigo. Em outubro, havia um lindo trigal. Foi colheita cheia. Ainda o milho, o feijão, o arroz, tudo era verde. Os animais no campo, as aves, as pessoas, todos muito felizes. Na primeira colheita do trigo, a mãe fez uma

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fornada de pão de trigo, coisa muito rara. Mas era para celebrar: “igual ao pão da Santa Ceia na igreja”, disse. Passamos ainda mel, porque, como havia muito verde e flores, as caixas de abelha estavam cheias. Joel 2. 26a escreve: “Vocês terão comida até não querer mais e louvarão o Senhor, seu Deus, que derramou tantas bênçãos sobre vocês”. O texto leva-nos para a dimensão fundamentalmente afetiva de Deus. Deus cuida de sua criação em todas as dimensões necessárias para vida digna agora e sempre. Mateus 6.25-33 são palavras de Jesus Cristo. Ela fala de situações reais da vida humana, isto é, a preocupação sobre o que vestir, onde morar, o que comer. Nos tempos atuais, quando muitas coisas são oferecidas pela propaganda e pela moda, muitas pessoas trabalham, correm, lutam, cansam para poder acompanhar a onda. Passam a vida como se não vivessem. Jesus pede para olhar as flores, as aves. A paz e a tranquilidade com que vivem nos são exemplos. Deus cuida delas. Deus cuida de nós. E pede para que nós confiemos em Deus, no reino de Deus e em sua justiça. Ele não pede para que tenhamos uma “vida à toa, vivendo na folga sempre, nas costas dos outros, sem rumo, sem cuidado”, mas pede para que cuidemos, na confiança de que o Senhor fará o melhor por sua criação, também por nós. Nos três textos, é interessante observar que Deus inclui todas as pessoas e todos os seres em seu plano de vida e salvação. A palavra ensina que, alegres e agradecidos, confiemos nele.

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Exegese

O texto indicado para a pregação no Dia de Ação de Graças é 1 Timóteo 2.1-7. Segundo Atos do Apóstolos (At 16.1-3; 17.14ss; 19.22; 20.4), Timóteo foi um amigo, companheiro de viagens missionárias e colaborador de Paulo. Esse o menciona em oito das treze cartas que lhe são atribuídas. A presente carta apresenta-o como filho na fé de Paulo (1Tm 1.2). Foi encarregado de organizar a igreja em Éfeso (1Tm 1.3) para zelar pelo reto ensino cristão. A motivação desse envio foi o amor sincero, a boa consciência e a fé sem hipocrisia (1Tm 1.5) de Timóteo, segundo Paulo. Há um cuidado muito especial pela vida cristã pessoal e comunitária. Por isso fala da luta contra a heresia, da busca pela unidade e do fortalecimento da comunhão cristã. A carta trata de temas contextualizados nas comunidades da época: o papel da lei, da graça, a fé, a boa consciência, a organização da comunidade, a solidariedade, mestres, membros, entre outros. A teologia é fundamentada em Cristo, pois “[...] Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1.15b). O fundamental da fé cristã, base teológica da carta, encontra-se no bonito hino cristológico: “Ele foi manifestado na carne, justificado no Espírito, contemplado pelos anjos, proclamado às nações, crido no mundo, exaltado na glória” (1Tm 3.16). O texto da pregação trata especialmente do desejo de Deus que é a salvação de todas as pessoas e da prática decorrente desse sonho, dessa visão do Senhor. V. 1 – “Antes de tudo, pois, exorto que...” O texto inicia pedindo calma e moderação. Antes da refeição, ore. Permita que seu corpo se acalme da agitação. Enquanto oramos, Deus prepara nosso estômago para receber os alimentos. Deus

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cuida de nós, também nos cuidados químicos de uma boa digestão. Antes de tudo, seja a confiança. Orar e confiar são dois verbos que não podem faltar na vida cristã. Orar e confiar sempre, em todos os lugares, sem ira e sem briga (v. 8). “[...] usem a prática de súplicas, orações, intercessões e ações de graça, [...]” Seja tempo bom, seja tempo ruim, as pessoas e a comunidade cristã são constantes na oração. A oração faz parte significativa de sua vida e ação. Por outro lado, as comunidades eram compostas por povos de várias e diferentes culturas, mas nem todas as culturas tinham a prática da oração. Segundo Jeremias, o mundo helenista não tinha a prática da oração (JEREMIAS, p. 283). Por isso seria a necessidade de inculcar a prática da oração. Mas não só por isso, pois a prática da oração deve ser lembrada sempre junto a povos de todos os tempos e lugares. Súplicas, orações, intercessões e ações de graças: há exegetas que dizem que se trata de repetições para reforçar a prática. Reforça essa ideia o fato de, logo a seguir, ser mencionado que devem ser feitos em favor de todos os homens (e mulheres). Tratar-se-ia, então, de intercessões. Nesse contexto, gostaria de lembrar os passos da liturgia do culto na IECLB: súplicas pelas dores do mundo, oração do dia (especialmente solicitando clarividência para que a comunidade possa ouvir e escutar a Palavra), intercessões, preferencialmente, para que Deus ouça o clamor do povo e ações de graças, o louvor e a gratidão a Deus. Gostaria de lembrar aqui a oração de Abraão, segundo Gênesis 18.16-33, quando intercede em favor do povo de Sodoma, que está prestes a ser destruído. A intercessão de Abraão é exemplo, porque ela expressa toda confiança do orante na misericórdia de Deus. Ela é uma oração respeitosa, memória da misericórdia de Deus, confiante, atrevida, insistente. Abraão intercede, com tremor e temor, mas está confiante no ouvir e no atender gracioso de Deus. “[...] em favor de todos os homens (e mulheres) [...]” A referida prática deve ser feita em favor de todos. Em favor das pessoas que nos são próximas, caras e queridas, mas também em favor das pessoas com as quais não nos entendemos e, quem sabe, até mesmo nos prejudicam. “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44). “Pois o Senhor é benigno até para os ingratos e maus. Portanto sede misericordiosos, como também é misericordioso o vosso Pai” (Lc 6.36). V. 2-4 – A prática é também em favor de todos os que têm autoridade. Muitas vezes, talvez nem pensamos em orar e interceder pelas autoridades. Logo vem à nossa memória a corrupção e o mau uso do cargo público. A carta, no entanto, exorta-nos para que oremos por elas. Isso por dois motivos: a) “[...] para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda a piedade e respeito.” As autoridades têm o compromisso de zelar por vida segura para todos e todas. Foram legitimamente instituídas através do voto e da aprovação de nossa legislação democraticamente elaborada. Mas também elas devem prestar contas a Deus de seus atos. A comunidade cristã não adora autoridades, não confia nelas, porque ela adora e confia em Deus. Mas a comunidade cristã acredita que as autoridades possam agir em favor da vida de todos e todas. Por isso ela ora em favor das autoridades legitimamente instituídas. Ela não é, no entanto, um cão de

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guarda moral da autoridade. Ela prega também que as autoridades devem prestar contas ao povo e a Deus. Orar por todos, pelas autoridades, para ter segurança social e para viver em liberdade e dignidade, isso é bom e agrada a Deus. b) “[...] o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” Deus quer salvar todas as pessoas e ajudá-las a conhecer a verdade. É sublinhada a palavra todas. Não há exclusividade de pessoas ou grupos. Tudo deve colaborar: vida tranquila, segurança, paz, igreja, autoridades instituídas estão a serviço do aprendizado da verdade. Paz, justiça, tranquilidade, boa educação, saúde, segurança, trabalho honesto são também motivos de ações de graça, porque são importantes para a cidadania e a vida da população. Orar, suplicar, interceder e ação de graças estão a serviço da missão de Deus de propagar a verdade e cooperar no conhecimento da verdade por todos e todas. A verdade deve ser pregada também para as autoridades. V. 5-6 – A verdade é Jesus Cristo, único mediador entre Deus e o ser humano. É dito que Jesus, homem, entregou-se voluntariamente para, com sua morte e ressurreição, reconciliar os humanos entre si e com Deus. O testemunho cristão está fundamentado no martírio do Senhor Jesus. Ele é a verdade. Existem muitas verdades construídas pelos seres humanos: a verdade dos fatos e dos acontecimentos. Mas a única verdade que liberta e que salva é Jesus Cristo, pois ele é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6). Jesus disse: “Se vocês permanecerem na minha palavra, serão verdadeiramente meus discípulos, [...], conhecerão a verdade e a verdade os libertará” (Jo 8.31-32). A igreja é testemunha dessa verdade. Deus manifestou sua vontade de salvar o mundo todo. Por isso a ação ampla de Jesus Cristo, homem, o nosso Senhor. V. 7 – Reafirma a autoridade e a missão do autor da carta: Pregador honesto, mestre de gentios na fé e na verdade.

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Meditação

Gafanhotos devoram a plantação. O principal está escasso: falta comida. Mas “Não temas” (Jl 2.21a), escreve Joel. E o medo de não ter comida, como fica? O povo vive tempos de escassez. Como viver em tempos de más colheitas? Teria, ainda assim, motivos para ações de graça? Quando penso sobre isso, vários acontecimentos vêm à minha memória. Estive recentemente, antes de escrever este texto, em Novo Xingu, minha terra natal. O seu Klan, um velho vizinho nosso, contou uma história que me deixou impressionado. Disse ele que, em 1954, houve uma seca muito prolongada nesse lugar. Não houve colheita. As águas estavam bem escassas. Somente um morador que plantara uma roça de milho fora da época colheu. Como plantou fora da época, a lavoura dele ainda recebeu chuva. Por isso as espigas se encheram de grãos de milho. Muitas famílias fizeram pão daquele milho. Sempre encontramos alguma coisa para comer. Todas as famílias podiam buscar naquele morador a semente para plantar no ano seguinte. Seu Klan relatou também algumas festas da colheita que foram celebradas pela comunidade. Faço, a seguir, um resumo do relato dele.

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Domingo foi dia de festa da colheita na igreja. Com essas palavras a minha família se colocava em corrida para recolher bons frutos para levar à igreja no dia da festa. Sempre foram as melhores espigas de milho, as canas mais cumpridas, a melhor semente de feijão, semente de trigo, um favo de mel, um queijo caseiro, uma lata de melado ou algum animal sadio. No dia da festa da colheita, as famílias, a pé ou de carroça puxada por cavalos, levavam frutos colhidos em suas roças. As estradas de chão e as trilhas nos matos estavam cheias de caminhantes. Enquanto os animais trazidos ficavam lá fora num cercado, os frutos da terra foram colocados ao redor do altar dentro da igreja. Isso era uma coisa fascinante para mim. Mas o que para mim foi mais gratificante e significativo foi o culto celebrado em meio aos nossos produtos. Foi quase como um culto na roça, onde eu, como criança, entendia melhor as palavras do pastor. Circulava em meio aos frutos colocados ao redor do altar. Tudo foi bem familiar para mim. Era tradição da comunidade realizar o culto no domingo de manhã. Durante o dia havia festa na igreja. À noite, sempre levávamos algum produto para casa, vindo da roça de outros irmãos. E meu pai ficava de olho em alguma semente nova que alguém trazia, porque dizia que a festa da colheita também era importante para melhorar a produção do próximo ano. No altar, acontece partilha de semente. Na vida, há partilha de comida e bebida. Penso que o pai e a mãe entendiam que, no altar, Deus estaria derramando as suas bênçãos sobre as mãos do semeador e das sementes a serem levadas para a terra. Poderíamos dizer que talvez houve até mesmo exagero. Mas também é verdade que, em anos de muita seca e frustração de safras ou de excesso de chuva, ninguém passou fome. Sempre havia o suficiente para viver. E a partilha entre a vizinhança e a comunidade ajudou a saciar fome e manter a vida com dignidade. Houve também tempos em que só havia restolhos de espigas. Apesar disso, lá estávamos nós na igreja, na festa de ação de graças, com nossos escassos frutos. Deus é e continua criador e libertador, apesar de nós. Isso é motivo de adoração e agradecimento. Certamente a bênção de Deus é real, também quando há fracassos ou não conseguimos corresponder, como se espera de nós. Cuidados, sim. Mas nada de fundamentalismos e de teologia da prosperidade. Na festa da colheita, celebramos a obra de Deus, as maravilhas do Senhor, inclusive quando há só restolho e sementes magrinhas. Hoje, no Brasil, a maioria das pessoas vive na cidade. Penso que há pessoas que nem conhecem a origem dos alimentos. Acham que o leite vem do supermercado e a água nasce na torneira ou na garrafa. Há, no entanto, muitos e diferentes frutos. Produtos das fábricas, das lojas, o dinheiro, a carteira de trabalho, salários e outros. Calma e serenidade social, com toda a piedade e dignidade (1Tm 2.2b), sem ira, nem guerra, são também motivos de ações de graça. Importa que, na festa da colheita e na vida de todos os dias, eles se tornem motivos de alegria, de louvor e de gratidão ao Deus criador e salvador.

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Imagens para a pregação

a – Procurar e localizar elementos contextualizados de motivos de ações de graça em sua comunidade. Referir-se a algum desses elementos no culto. Invocar e adorar a Deus, criador e libertador, pedir perdão, agradecer e interceder. b – Textos bíblicos 1) A alegria do texto de Joel. Convida para lançar fora o medo. Podem confiar, seres humanos. Podem confiar, animais. Haverá alimento. Ninguém será humilhado, como no tempo dos gafanhotos devoradores. Deus cuida de sua criação. Que ninguém se sinta desamparado por ele! 2) Mateus 6.33: Sem medo, sem preocupação exagerada. Buscar o reino de Deus e sua justiça. Deus faz crescer o pão nosso de cada dia. Deus partilha o seu amor, o seu pão com todas as suas criaturas. Na colheita na roça, na produção da fábrica, na gestão de políticas públicas para todos e todas, no trabalho de nossas mãos e mentes, na partilha dos bens, Deus cumpre sua promessa de providenciar o pão nosso de cada dia. 3) 1 Timóteo 2: Ações de graça e intercessões por todos. Na oração universal, não deixar ninguém fora. Que as políticas públicas permitam justiça, paz, tranquilidade, segurança, respeito e solidariedade. Deus faz jorrar leite e mel. Nas ações de graça, ser testemunha da verdade que deseja salvar todos. 4) A finalidade da ação de Deus: vida com qualidade para todos e todas com políticas públicas adequadas à vida digna; conhecimento da verdade, reconciliação, salvação e exaltação a Jesus, o Senhor. c – Temos isso em nosso lugar, em nossa região. Se não, o que falta? Em que podemos melhorar? Como corresponder ao convite de Deus? d – Uma história da prática comunitária de súplicas, orações, intercessões e ações de graça. Novo Maringá surgiu a partir da colonização particular no norte de Mato Grosso. Uma colonizadora vendeu as terras, mas não as legalizou. Sem recursos financeiros, os colonos enfrentaram muitas dificuldades. Buscavam a sobrevivência em trabalhos temporários, especialmente em fazendas mais antigas da região. As dificuldades, por vezes, foram sentidas na falta da própria alimentação. Membros da comunidade, nesse contexto, procuravam ligar a fé com a vida. A Bíblia lida e estudada na comunidade ajudou a ler a realidade. O projeto Vacas Comunitárias nasceu das atividades práticas de relacionar fé e vida, Bíblia e realidade, naquela comunidade. Os colonos tinham o projeto, o sonho, mas faltava parte do recurso financeiro para complementar a iniciativa local. A solidariedade interna foi ouvida por outras pessoas e comunidades. Foi nessa comunicação que o pastor Uwe Krause, na Alemanha, tomando conhecimento da situação das famílias através de relatórios da paróquia de Tangará da Serra e das reflexões junto com o pastor Arteno Spellmeier, na Alemanha, estudou o assunto nos grupos de lá. Fez uma coleta com a turma de adolescentes confirmandos/as em sua comu-

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Ação de Graças

nidade. Conseguiu arrecadar e remeter uma boa quantia em dinheiro para a aquisição de vacas para leite em outubro de 1987. Além dessa iniciativa comunitária do referido grupo de adolescentes, as famílias receberam ainda o dinheiro de uma coleta feita durante uma festa de aniversário do Sr. Hallaschka, na Alemanha. Foram compradas inicialmente nove vacas para ajudar as famílias empobrecidas na alimentação com leite. O dinheiro deu para isso. Com a participação da comunidade, o número de vacas foi se multiplicando a cada dois anos, suprindo a necessidade de leite na alimentação, especialmente das crianças, gestantes e pessoas doentes. O projeto foi conversado na IECLB local, que orou, intercedeu, estudou, celebrou, discutiu e decidiu a partir do estudo da Bíblia e da comunhão comunitária. Apesar de ter nascido numa comunidade eclesial, não foram beneficiados somente os membros, mas também pessoas não ligadas à IECLB, pois elas necessitavam de leite para a alimentação. O objetivo foi beneficiar a população. A prática de solidariedade da comunidade de Novo Maringá está no bojo de sua espiritualidade, fundamentada na leitura da Bíblia. Está na dimensão do reino de Deus. A palavra assumida pelo grupo e comprometida com a vida do povo levou a comunidade a trabalhar por uma economia a serviço da vida. O dinheiro serviu como meio para melhorar a qualidade de vida da população. A comunidade, lembrando o primeiro leite colhido e distribuído para as crianças, celebrou o culto de ação de graças. Deus providencia o pão nosso de cada dia de muitas e diferentes maneiras. Cria condições para a semente germinar na lavoura, crescer e produzir, mediante terra, clima, chuva e trabalho adequado. Cria condições para a justiça e a paz se encontrarem mediante bons governos, que colocam em prática políticas públicas adequadas para a vida de todos. Dá criatividade ao ser humano para construir fábricas para produzir bons produtos para proteger, assegurar e promover vida digna para a humanidade. Transforma o ser humano para que seja solidário e reparta as dádivas que de Deus recebeu. Por isso Jesus pode pedir: busquem, em primeiro lugar, o reino de Deus e sua justiça, e as demais coisas lhes serão acrescentadas (Mt 6.33). Damos ouvidos à sua solicitação, pois ele é o Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos, sendo o único mediador entre Deus e os seres humanos (cf. 1Tm 2.5-6).

Bibliografia CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millenium, 1986. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. 2.ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.

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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XXXV Advento – Celebração .......................................................................................................XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio ....................................................................................................XV, 304 Ação de graças ...................................................................................................................... XII, 300 ........................................................................................................................ XX, 322; XXXIII, 394 Ação de graças pela colheita ................................................XXXII, 212; XXXIV, 371; XXXV, 370 Achados e perdidos – experiências .................................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17) .....................IX, 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10) ........................... X, 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12) ...........................................................IX, 83 A velhice ...................................................................................................................................VI, 43 Batismo, alocução para ....................................................................................................XXVI, 357 Batismo, culto de .............................................................................................................XXVII, 299 Bênção matrimonial .............................................................................................XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13) .................................................................................................................. XX, 351 (Ct 8.7)...................................................................................................................... XX, 353 (Ec 4.9-12) ...............................................................................................................XXI, 329 (Ct 1.2-3) ............................................................................................... XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte ..............................................................................................................................XV, 77 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31) ....................................................................................................... X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) ....................................................................................IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) ..................................................................................VI, 40 (Sl 133.1-3)............................................................................................................ XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) ............................ XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) ......................... X, 84 Componentes éticos da organização popular ..................................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16) ................................................................................................ X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16)........................................................................................................ II, 187 (Dt 30.11-20) ............................................................................................................. VIII, 23 (Jo 6.66-69) .............................................................................................................. XII, 293 (Mt 5.14-16) ............................................................................................................. XX, 339 (Ap 1.9-18) ............................................................................................................... XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) ........................................................ XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5) ........................................................ XIII, 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22) ....................................................IX, 107 Culto batismal (Is 43.1)........................................................................................................XXI, 326 Culto de Batismo............................................................................................................... XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O) .......................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) ..................................................XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15) ...............................................................................V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) ........................................................................................... XX, 346 Culto eucarístico (alocução para)...................................................................................... XXIII, 237 (Lc 22.14-15) ............................................................................................................ XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ............................................................................... XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2) ....................................................... XIII, 42 Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34) ............................................... XII, 27 Deus na marginalidade .............................................................................................................XVI, 9 Dedicação de templo .........................................................................................................XXVI, 361

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Dia das Crianças (Zc 8.1-8) .............................................................................................. XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) .........................................................................................I, 68 (Jo 4.31-38) ................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8) ......................................................................................................................VI, 48 (1 Tm 4.4-5) ............................................................................................................ XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43) ............................................................................................. XVIII, 289 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15) ...................................................................................................V, 323 (Dt 26.1-11) .............................................................................................................. XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) .....................................................................................................V, 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) ..................................................................................XXXIV, 353 (Fp 3.20-21) .................................................................................................................. I, 143 (1 Co 15.50-58) ......................................................................................................... III, 176 (1 Co 15.35-39,42b-44) ................................................................................................V, 256 (Mt 22.23-33) .......................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14) .......................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29) .......................................................................................................... XVIII, 267 (1 Co 15.12-20) ...................................................................................................XXXII, 311 (Is 35.1-10) ..........................................................................................................XXXV, 347 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17) .........................................................................................I, 109 (1 Tm 2.1-4) ................................................................................................................ II, 336 (Mc 12.13-17).............................................................................................................III, 138 (Hb 13.12-16) ...............................................................................................................V, 205 (Mt 6.9-13) ....................................................................................................VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)...................................................................................................XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) .......................................................................................................I, 125 (Jo 8.31-36) ................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28) ..............................................................................................................III, 169 (Mt 5.1-10) ................................................................................................................. IV, 212 (Ap 14.6-7) ...................................................................................................................V, 249 (Mt 10.26b-33) ...........................................................................................................VI, 291 (Is 62.1-12) .............................................................................................................. VIII, 331 (Mt 10.26b-33) ...................................................................................XII, 268; XXXIV, 347 (Gl 5.1-6) ............................................................................................XIII, 267; XXXV, 341 (Fp 2.12-13) ...............................................................................................................XV, 282 (Jo 8.31-36) .......................................................................................................... XVII, 225 (Mt 5.1-10) ..........................................................................................................XXXII, 307 Dia de Penitência (Is 1.10-17) ...............................................................................................XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) ..............................................................................................III, 62 (2 Ts 3.6-13) ...................................................................................................................V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a) ............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31) ......................................................................................VI, 170 (Tg 5.1-6)................................................................................................................. XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ....................................................................................................XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) .........................................................................................XXI, 316 Domingo de Louvor através da Música ......................................................................... XXXIII, 401 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)])............. XII, 307 (Ap 3.14-22) ............................................................................................................ XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9) .......................................................................................... XX, 309 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15) .......................................................................... XIII, 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) ................................................... X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) .............................. XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ................................................................................... XIII, 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) ..................................IX, 15 Epifania, reflexões para o período de ...............................................................................XXVII, 303

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Época da Paixão I (Is 55.6-7) ....................................................................................................VI, 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46).............................................................................................VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ..................................................................................................VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) ...........................................................................................VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) ...........................................................................................IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) ........................................................................XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores ......................................................................... XIV, 60 Exercício homilético ............................................................................................................... XII, 91 “E viu Deus que isto era bom...” .......................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15) .............................................. X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ..................................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) ...........................................................................XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ........................................................... XIII, 80 (Is 65.17-25) ............................................................................................................. XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).........................................................XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana ........................................................................... XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) .............................................................................................. XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) .......................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) ........................................................................... XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías ................................................................................................... VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) .............................................................. X, 74 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer ....................................... XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida ..................................................XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay .......................................................................................XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas .............................................................................................XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) .................................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18) ........................................................................IX, 57 Marketing e igreja .................................................................................................................. XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) ...............................................................XI, 77 Meditação sobre a oração ..................................................................................................XXXI,303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) ............................V, 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos..............................................................V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ..............................................XI, 65 Missão (1 Co 12).................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10)...... X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ................................ X, 106 Mulheres agricultoras.............................................................................................................XVI, 15 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31) .................................................IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ........................................................... X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus .............................................. II, 176 Lucas .......................................................................................................................... X,139 João ............................................................................................................................ VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ................................................................ XII, 34 O desafio de ser autor de PL ....................................................................................................XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças...............................................................................XV, 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas .................................XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) .............................................. X, 48 O Lecionário Ecumênico .......................................................................................................XV, 315 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo ..............XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ................................................................................. XII, 11 Pago para ter (2 Co 8.1-15) .................................................................................................... XIII, 18 Pastoral Ecumênica de Periferia ............................................................................................ XIV, 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6) .................................IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37) ..................................................... XXII, 304

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Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) ........................................................... XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens .................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ............... XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6) ......................................................................... X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) .............................................................VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17) .......................................................VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21)......................................................VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ....................................................................... XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12)....................................................................IX, 50 Quem não faz política sofre política (1 Rs 12.1-15) .................................................................XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia ...................................................................XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38) ................................................................. XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB .........XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16).................................................................XI, 85 Semana do excepcional ...................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas ............................................................................................ XXIV, 347 Sepultamento............................................................................XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40) .............................................................................................................. XX, 355 (Jo 19.25-27) ............................................................................................................ XX, 360 (Sl 39.5-7)................................................................................................................. XX, 362 (Sl 142.1-2,5a) .........................................................................................................XXI, 336 (Ec 3.1-8) ........................................................................................................... XXVIII, 365 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26) ............................................................................................................XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) ......................................................................IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém .........................................................................................................XVI,37 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro ............... XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14) ............................................................... XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ...................................................IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra ................................................................................ XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados ................................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos ......................................................................................................... XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) ...................................................................................XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O)....................................................... XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) ....................................................XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-15) ...................................................................... XIII, 74 Vigília pascal ........................................................................................................................XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ................................................................................................ XII, 61

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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XXXV ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ........... VIII, 185 1.26-31; 2.1-3 ................................. III, 105 2.4-15 ..................................... XXVIII, 301 2.4b-15 .........................V, 330; XXXV, 211 2.7-9,15-17; 3.1-7 ...... XXX,66; XVIII, 84; ................................................. XXXV, 127 2.8-15 ............................................ XIII, 74; 2.18-24 ..................... XXII,254; XXV, 282; ............................................... XXXIII, 343 3.1-9 .............................................. XII,170; 3.1-19(20-24) ............................... XXV,214 3.1-24 ...............................................VI,133 4.1-16 ..............................VII,203; XIII,246 8.1-13 ..............................................XV,135 8.15-22 ................................... I, 71 (68); 78 11.1-9 .......................... XII, 205; XVII, 130 12.1-4 .......................................... XVIII, 88 12.1-4a ......................................... VII, 165; 15.1-6 ..................XXVI, 256; XXXIV, 283 17.1-13 .......................................XXVII, 40 18.1-10a(10b-14) ........................... XX,208 18.20-21(22)23-32 ......................... XX,214 21.8-21 ............................................ XIII,60 22.1-13 .............................................VI,144 22.1-14(15-18) ...............................XXII,65 28.10-17(18-22) .............................XXII,71 32.23-31 .......................................XVII,240 32.23-33 ..................................II, 207 (374) 50.15-21 ............... XXIV,272; XXVII, 240; ................................................. XXXV, 295 Êxodo 1.8-22 ........................................ IX,107 2.1-10 ..................................... XXVIII, 181 3.1-14 ..............................................XII,154 3.1-8,13-15................................ XXVI, 108 6.2-8 ........................XVIII,218; XXX,214 12.1-14 .......................................... XXI,108 13.20-22 ......................................... XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30) .... XXVIII, 276 16.2-3,11-18 ...................................XIV,283 19.2-8a ......................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17 ............XXII,75 22.21-27 ........................................ XXI,280 24.1-11 .....................................XXXII, 123 24.3-11 . XVI,224; XXV,164; XXVIII, 272 24.12,15-18 ................ XXI, 78; XXXII, 79 32.7-14 ....................... XV,225; XXIII, 177 33.18-23 ..........................................VI, 102 34.4b-10 ............................III,153; XV, 273 34.29-35 ...................................... XXV, 123

Números 6.22-27 ........................... XXXIII, 58 11.11-12,14-17,24-25................... VIII, 205 11.24-30 ...................................XXXII, 169 12.9-16 .............................................XII, 18 21.4-9 ..........VII, 101; XIII, 159; XXII, 80; ............................................... XXXIII, 146 24.15-19 .........................................XV, 120 Deuteronômio 4.1-2,6-8...................XXII, 235 4.32-34, 39-40 .........................XXVII, 148 5.12-15 .............................................. III, 43 6.1-9 ....................................... XXXIII, 373 6.4-9 ..............................XV, 246, XIX, 164 7.6-12 ..............................................VI, 219 8.6-10 ...............................................XII, 11 10.12-22 .................................... XXVI, 336 11.18-21,26-28 ........XXI, 164; XXXII, 184 17.14-20 ...........................................XII, 51 18.15-20 .. XIX, 67, XXXI, 57; XXXIII, 92 24.14-15 ............................................IX, 63 26.1-11 ................................... XXXIII, 394 26.3-11 ........................................ XXVI, 91 30.9-14 ....................................XXXIV, 257 30.11-20 ......................................... VIII, 23 30.15-20 ...............XXXIV, 303; XXXV, 93 32.36-39 ....................................... XXIII,79 34.1-12 ........................XVII, 74; XXIX, 77 Josué 1.1-9.............................................VII, 36 8.1-8 .................................................XII, 61 24.1-2a,13-25 .................................. III, 117 Juízes 4.1-7 ....................................XXXII, 319 5.24-31 ............................................... X, 37 9.7-15 ................................................IX, 98 Rute 1.1-19a ................................... XXIX, 289 1 Samuel 2.1-10............ II, 176 (343); VII, 113 3.1-10(19) ....................XIX, 55; XXXI, 44 3.1-10,19 ....................................... XXV, 86 11.1-15 ..............................................V, 337 2 Samuel 7.4-6,12,14a,16 ................... XXV, 35 11.26-12.10,13-15 .................... XXIX, 199; ................................................XXXIV, 231 12.1-10,13-14..................................IX, 264 12.1-10,13-15a ...............................XV, 261 1 Reis 3.5-12 .............. XXIV, 240; XXXII, 236 3.16-28 ....................................... XXX, 143 8.(21-23,27-30)41-43..................XVII, 141 8.22-24,26-28..................................VI, 189 8.22-30 ...........................................XII, 191 8.41-43 ...................................... XXIX, 188 17.8-16 .....................XVI, 292; XXXI, 286

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17.17-24 ..................XVII, 146; XXIX, 192 19.1-8(9-13a) ..............................XXII, 226 19.1-13a ....................XIV, 185; XVIII, 204 19.1-18 .............................................. III, 92 19.4-8 ..................................... XXXIII, 285 19.9-13a .................................... XXX, 204 19.(14-18)19-21 ......XVII, 159; XXIX, 205 2 Reis 5.1-14 ..................................... XXXI, 71 5.1-19a .............................................VII, 58 Neemias 5.1-5(6-12) ............................ XIII, 11 5.1-12 ...............................................IX, 83; 8.1-2,5-6....................XX, 183; XXXIV, 95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36)............. .................................................. XXXI, 263 Jó 7.1-7 .............................XIX, 73; XXXI, 63 38.1-11 ........................................ XXV, 221 Salmo 22.1-19................................ XXXV, 169 22.1-12,17-20............................. XXX, 104 22.2-12,17-20.............................XVIII, 116 23 ............................................. XXXV, 187 46.1-7(1-11) ........................... XXVI, 313 111............................................... XXVI, 27 112 ...................................................XII, 77 130.4 .................................................VI, 34 Eclesiastes 1.2; 2.18-26 ...................... XX, 225 3.1-8(-13) .......................VI, 48; XXXV, 51 3.9-15 ................................................. X, 16 4.1-4 ................................................... X, 84 5.18 .................................................... X, 65 9.13-18 ............................................... X, 25 Provérbios 8.22-31......................... XXIII, 109 9.1-6,10 .......................................XXII, 230 9.7-13 ........................................ XXIII, 172 16.1-9 ............................................. VIII, 80 24.10-14 ..........................................XII, 45 30.5-9 ........................................ XXVI, 215 Isaías 1.1-9 ........................................ XIII, 116 1.10-17 ...........................................XV, 297 2.1-5 ................. VI, 225; XVIII, 9; XXX, 9 5.1-7 .............. VII, 87; XIII, 147; XXI, 252 6.1-13 .............................. VI, 198; XII, 213 7.10-14 ........................................... XXI, 37 7.10-14(15-17) ..........XIII, 104; XXXII, 27 9.1-6 ............................................ XVIII, 31 9.1-6,10 .......................................XXII, 230 9.2-7 ..................................................V, 294 11.1-5 ............................................. XVI, 63 11.1-9 ......................XVIII, 58; XXXIII, 31 11.1-9(10-11) .............................. XIV, 148; 11.1-10 .......................................XXVII, 16 12.1-6 ........................................ XXVI, 114 24.12-16a ..................................... XIII, 312 25.6-8 ........................................... XIX, 114 25.6-9 ... XXI,258; XXXI,128; XXXIV,353

29.17-24 .........................................XII, 233 29.18-24 .......................................... III, 130 30.(8-14),15-17 .................................VI, 97 35.1-10 .XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346; .............................. XXXV, 22; XXXV, 347 35.3-7 .......................XXXI, 248; XIX, 237 35.3-10 ...............................X,158; XIV,115 35.4-7a ................................... XXXIII, 315 40.1-11 VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31 ..........................................IX, 216 42.1-7(-9) ....XXI, 51; XXV, 80; XXXV, 69 42.14-21 ......................XVIII, 92; XXX, 72 43.1-7 ......................................II, 132 (299) 44.1-5 ..................................... XXXIII, 401 44.6-8 ....................................... XXXV, 246 44.9- 20 .......................................... XIII, 50 45.1-7 ......................XXI, 264; XXXII, 293 45.22-25 ................................... XXVIII, 49 49.1-6 ................................................ III, 85 50.4-9 ....................II, 28, (195); XIII, 166; 50.4-9a ......................................... XXX, 94 50.4-10 .....................XIX, 241; XXXI, 252 51.1-6 .......................................XXXII, 259 52.7-10 ......XV, 100; XXII, 37; XXXIII, 70 52.13-53.12 V, 72; IX, 196; XV, 185; XII, 109 53.10-12 ...................................... XXV, 294 54.7-10 .............................IX, 183; XV, 170 55.1-5 .......... III, 68; VIII, 213; XVIII, 198; ................................................... XXX, 197 55.1-9 ......................................XXXIV, 120 55.6-7 ................................................VI, 24 55.6-11 ......................................XXXIV, 63 55.(6-9),10-12a ............................ VIII, 119 55,10-11 .....................................XXIV, 223 56.1,6-8 ............... XVIII, 213; XXX, 209; ................................................. XXXV, 274 58.1-9a ...........................................XV, 147 58.1-12 ....................... IX, 50; XXXIII, 125 58.5-9a ........................................XXIV, 88 58.7-12 ...........................................XII, 300 60.1-6 . V, 11; VIII, 92; XVII, 39; XXIV, 63; .................................................... XXIX, 54 61.1-3(4-9), 11 ............................. XIII, 120 61.1-3,10-11 ........................... XXVIII, 20 61.1-3,11,10 .....................................VII, 44 61.10-62.3 XIX, 42; XXV, 68; XXVIII, 59 62.1-5 ..........................XX, 23; XXVIII, 31 62.1-12 ................II, 256, (423 ); VIII, 331; 62.6-7,10-12 XIX, 279; XXII, 272; XXIV, 297 63.7-9(10-16) ........... XXIV, 44; XXXII, 46 63.15-64.3 ...................................... XIII, 91 63.15-16; 19b-64. 3 ................ I, 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 ................XXII, 9 64.1-9 ......................................... XXXIII, 9

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65.17-25 ......................... IX, 15; XXX, 133 66.10-14 .................................... XXIX, 213 Jeremias 1.4-10 ..................VII, 184; XIII, 228 7.1-11 ......................................... VIII, 257 7.1-11(12-1 5) ...............................XIV, 301 7.21-26 ......................................... XXX, 15 8.4-7 ........................... VIII, 349; XIV, 390; 9.22-23 ..............................................VII,71 11.18-20 .....................XIX,246; XXXI,256 15.15-21 ....................XVIII,222; XXX,220 17.5-8 ........................................... XXIII,55 20.7-13 .......................... VIII,145; XXI,181 22.13-19 .......................................... XIII,80 23.1-6 ............................................ XVI,217 23.2-6 ............................................. XX,301 23.5-8 .................................. VI,62; XII,103 23.16-29 .................. II,144, (311); XIII,209 26.8-15 ........................................ XXVI, 97 28.5-9 ........................XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a .......................................... III,34 31.1-13 ......................................... XXIX,35 31.7-9(-14) ................XXV,301; XXXV, 58 31.10-13(14) ..................................XVII,34 31.31-34 .........................................XXII,85 33.14-16 ........................................ XXVI, 9 Lamentações 3.21-26,31-32 .................VI,269 3.21-33 ......................................... XXV,226 Ezequiel 2.1-8a ................................. XXV, 231 2.3-8a; 3.17-19 .........................II, 96, (263) 17.22-24 ................................. XXXIII, 239 18.1-4,21-24,30-32 .........................IX,247; 18.1-4, 25-37............................XXVII, 243 33.7-9 .......................................XXVII, 230 34.1-2(3-9), 10-16......................... XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31.......................VI,170; 34.11-16,23-24 ......XXIV,328; XXXV, 363 37.1-3(4-10), 11-14 ................... XVIII,103 37.1-3,11-14 .................................. XXX,89 37.1-14 ...XV,193; XXIV,117; XXXII,108; ............................................... XXXIII, 228 37.24-28 .......................................... VIII,55 Daniel 5.1-30 ......................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) ................... XVI,311 12.1-3 ........................ XIX,296; XXXI,293 Oseias 5.15-6.2 ...................XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6 ......................................... XXI,169 11.1-4,8-9 .............. XXIV,323; XXVII, 284 Joel 2.12-18 ..........................................XII,166 2.21-27 ......................................XXXII,212 2.28-29 .......................................... XXI,153 Amós 3.1-8 .........................XXIV,75; XXX,54 5.18-24 ..................................... XXXV, 352 5.21-24 ..............................................VII,76 6.1-7 ........................................... XXIII,189

7.7-15 ..................................... XXXIII, 264 7.10-15(16-17) ............................. XVI,211 8.4-7 .......................................... XXIII,181 9.7-10 ................................................ X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10 .............XIX,61; XXXI,52 3.10-4.11 ...................................XXXII,274 Miqueias 5.1-4a........................ VI,88; XII,114 5.2-4 ............................................ XXIX, 21 5.2-5 ....... XVI, 63; XXVII, 29; XXXIV, 30 6.1-8 ....... XXIV,79; XXVII, 58; XXXV, 87 6.6-8 ...............................VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4............. XVII,219; ............................XXIX, 281; XXXIV, 327 Sofonias 3.14-18a .................................. XX,20 Zacarias 7.9-10 .............................. XXVI, 267 8.1-8 ...........................................XXIV,337 9.9-10 ..............X,91; XIX,106; XXXI,107 12.7-10(11) ..................................XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5...................... XXV,207 2.17-3.5 ........................................ XXIII,9; NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 . XVIII,25; XXIV,29; XXX,19 2.1-12 .X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; ............. XXVII, 46; XXXII,62; XXXV, 28 2.13-18(-23) ....................V,304; XXXV, 46 3.1-12 ...... XVIII,15; XXIV,24; XXXV, 14 3.13-17 ............. X,206; XVIII,53; XXIV,67; .................................... XXX,44; XXXII,66 4.1-11 ........... IV,14; XXVII,70; XXXII,85 4.12-17 ............................................XII,142 4.12-23 ...................... XVIII,61; XXXV, 81 4.23-25 .................................XII,35; XII,34 5.1-10 .......................... IV,212; XXXII,307 5.1-12 ........................................... XVIII,64 5.13-16 ............................................. X,390; 5.13-16(17-20) ............................. XVIII,69 5.17-20 ............................................ IV,125; 5.20-37 ......................................... XVIII,73 5.38-48 ....II, 193, (360); X,460; XXXV, 99 6.1-4 ..............................VIII,279; XIV,332 6.1-6,16-18..............................XXXIV, 115 6.5-13 ....................... II, 57, (224); XIV,247 6.9-13 ................................. VI,53; VIII,192 6.16-18 ............................................. IV,133 6.24-34 ......................... IV,180; XXXII,179 6.25-34 ............................................. X,428 7.15-23 ............................................. IV,140 7.21-29 .. XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27 ............................................VI,233; 9.1-8 ................................................. IV,198 9.9-13 ..... VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8 .................................... XVIII,170

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10.7-15 ...................................II, 104, (271) 10.24-39 ....................................XXXII,204 10.26-33 .................. XVIII,176; XXX,168; ................................................XXXIV, 347 10.26b-33 ........................ VI,291; XII,268; 10.26-36 ......................................XXIV,203 10.34-39 ..........................................XII,274 10.34-42 ....................XVIII,181; XXX,174 10.40-42 ................................... XXXV, 229 11.2-10 .............................................. X,170 11.2-11 ........ III,215;; XXI,30; XXVII, 22; ....................................................XXXII,21 11.16-19,25-30 ..........................XXXII,221 11.25-30 XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.22-30 ........................................... IV,217 12.33-35(36-37) ..............................XII,307 12.38-42 .................. II, 225, (292); XII,175 13.1-9(18-23) ......... XXI,196; XXVII, 188; ............................... XXX,189; XXXV, 240 13.24-30(36-43) ........ XVIII,289; XXI,203; ..................................................XXXII,229 13.44-46 II, 150, (317); VIII,253; XIV,295; ................................................. XXXV, 253 13.44-52 ...................XXI,207; XXVII, 194 14.13-21 XXI,213; XXIV,245; XXVII,198; ..................................................XXXII,241 14.22-33 ..VI,109; XXIV,249; XXVII, 202; ................................................. XXXV, 267 15.21-28 .... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; ..................................................XXXII,255 16.13-19 ....................................... XXIII,40 16.13-20 ............... XXIV,260; XXVII, 216; ................................................. XXXV, 278 16.13-20(23) .......................... II, 72, (239); 16.21-26 ................. XXI,223; XXVII,222; ..................................................XXXII,264 17.1-9 ............. X,216; XVIII,78; XXX,60; ................................................. XXXV, 114 18.15-20 .............II, 123, (290); XVIII,226; .............................. XXX, 227; XXXV, 290 18.21-35 ...... X,467; XVIII,232; XXX,234; ..................................................XXXII,269 19.16-26 ................................ II, 182, (349) 20.1-16a .IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16 ................. XXIX, 296; XXXV, 302 20.17-28 .......................XXI,96; XXVII, 87 21.1-9 ................................... III,194; X,149 21.14-17 ..................... II,52, (219); XII,185 21.23-32 ....................................XXXII,282 21.28-32 ........................ VI,247; XVIII,243 21.33-43(-46) ......... XVIII,250; XXXV,315 22.1-10 (11-14) ........XXX,243; XVIII,254 22.1-14 ...........IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21(-22) ......... XVIII,259; XXXV,323

22.23-33 ......... VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40 .......................................... IV,194; 22.34-40(41-46) ...... XXX,253; XXXII,298 23.1-12 .................II,158, (325); XXX,259; .................................................. XXXV,335 24.1-14 ............................ VI,68; XVIII,275 24.15-28 ........................................... IV,222 24.37-44 ......... XXI,21; XXVII,9; XXXII,9 25.1-13 ............ IV,243; XI,336; XXIV,312; .................................................... XXX,277 25.14-30 .. II, 233, (400); X,394; XVIII,272; ................................................... XXX, 286 25.31-37 .................................... XVIII, 297 25.31-46 ....... IV, 231; X, 472; XVIII, 298; ........... XXI, 302; XXVII, 291; XXXII, 51; .................................................XXXII, 324 26.14-27.66 ............................... XXXV,157 26.30-56 .................................... XVIII, 109 26.36-46(-56) ...............VI, 29; XXXV, 162 26.57-75 .....................................XXIV,122 27.11-26 .................................... XXXII,116 27.33-50(51-54) ........................... VIII,162; 27.33-54 .....................XXI,111; XXVII, 99 27.33-56 .........................................XIV,201 28.1-10 ...... VI,167; XXIV,139; XXXV,176 28.16-20 ....X,374; XXX,156; XXXIV,203; .................................................. XXXV,222 Marcos 1.1-8 ................XXII, 14; XXVIII, 13; ................................................. XXXIII, 16 1.4-11 .......................XXII, 48; XXVIII, 64 1.9-15 ..................................... XXXIII, 132 1.12-15 .......XIX, 79; XXV, 129; XXXI, 84 1.14-20 .. XXII,56; XXVIII,73; XXXIII, 84 1.21-28 ...................... XVI, 99; XXVIII, 79 1.29-39 ...............XXVIII, 87; XXXIII, 101 1.32-39 ............................ VI, 284; XII, 261 1.40-45 ............................ VI, 258; XII, 241 2.1-12 ........................ X, 453; XXVIII, 100 2.18-22 ......................................... VIII, 105 2.23-28 ..... VIII, 311; XIV, 367; XXII, 169; ................................................ XXVIII,228 3.1-6 ................................................. X, 114 3.20-35 .................. XVI, 192; XXVIII, 233 3.31-35 ............................................VI, 252 4.26-29 ............................................ VI, 113 4.26-34 ..................XXII, 175;XXVIII, 240 4.30.32 ...........................................XII, 313 4.35-41 ..XVI,200; XXII,182; XXVIII,247; ............................................... XXXIII, 244 5.21-24a,35-43 ...XXVIII,253; XXXIII,378 5.24b-34 ......................................XXII, 188 5.25-34 .............................................XII, 27 6.1-6 .......XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.1-13 ..................................... XXXIII, 256

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6.6b-13 .......................XIX, 201; XXV, 236 6.14-29 ............................................... X, 74 6.30-34 ...XIX, 206; XXV, 241;XXXI, 208; ............................................... XXXIII, 270 6.34-44 ...................................... XXX, 247 7.1-8,14-15,21-23 ....XIX, 233;XXXI, 242; ............................................... XXXIII, 309 7.31-37 ............IV, 163; X, 408; XXII, 239; ............................................... XXVIII, 307 8.22-26 ...........................VIII,269; XIV,317 8.27-35 ................... XVI,247; XXXIII, 323 8.31-38 ..............X,234; XIX,83; XXV,134; ..................................................... XXXI,91 9.2-9 ....XVI,105; XXVIII,108;XXXIII, 119 9.17-29 .............................................VI,278 9.30-37 ........................ XVI,255; XXII,245 9.38-50 ..................XXII,250; XXVIII,322; ............................................... XXXIII, 334 9.43-48 ...................II, 138, (305); XVI,263 10.2-12 .................................... XXVIII,326 10.13-16 .................................. XXVIII,313 10.17-27 .......XII,256; XVI,268; XXII,260; ............................................... XXXIII, 348 10.32-45 ............................................ X,106 10.35-45 ................. XXVIII,289; XVI,277; ................................................XXXIV, 270 10.46-52 ...................... XVI,283; XXII,265 11.1-11 ................................... XXXIII, 160 12.1-12 ............................................. X,242 12.13-17 ........................................... III,138 12.41-44 ...VI,138; XXII,281; XXXIII, 387 13.1-13 ...XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31 .................................. XXVIII,358 13.31-37 ....................................... XIV,397; 13.33-37 ............................XXV,17; XIX,9 14.3-9 ............................... VI,149; XXII,93 14.6-9 ..............................................XII,181 14.12-26 .XVI,134; XXII,104; XXVIII,144 14.17-26 ...........................................VI,156 15.1-15(16-20) ........ XVI,129; XXVIII,139 16.1-8 .IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; ................................................ XXVIII,159 16.9-14(15-20) ...............VIII,173; XIV,225 16.12-18 ................................. XXXIII, 184 16.14-20 ............................................. IV,77 Lucas 1.1-4 ...................................... XXIII,200 1.26-33(34-37) 38 .............. VI,81; XII,109; 1.26-38 ............. XVI,56; XIX,27; XXII,28; .............................XXVIII, 26; XXXIII, 24 1.39-45(46-55) ........................... XXVI, 20 1.(39-45)46-55(56) ......................... X, 175 1.46-55 .............................................V, 288 1.57-66 .......................................XXIV, 200 1.67-79 ...............................V, 270; VIII, 30

2.1-7 ......................... XXX, 24; XXXIV, 38 2.1-7,8-14,15-20 ............................ XVI, 63 2.1-14 ..... I, 161, (168); X, 181; XXXII, 41 2.(1-14)15-20 .......... XXIV, 41; XXXIV, 69 2.1-20 ................ III, 218; IV, 273; XVII, 28; XXI, 41; XXIII,21; XXIV, 34; XXVII, 34; .................................. XIX, 26; XXXIII, 37 2.41-52 ............................................ XX, 35 3.1-9 ..................................................V, 281 3.1-14 ................................................VI, 76 3.7-18 .......XVII, 21; XXIII, 15; XXIX, 16; ..................................................XXXIV, 24 3.15-17,21-22................ XX, 40; XXVI, 36 4.1-13 ........................ XXIII, 60; XXIX, 81 4.14-21 ............................VI, 19; XXVI, 47 4.14-21(22) .... XX, 50; XX, 59; XXVI, 47 4.16-21 ............................................. X, 186 4.21-30 ..................XXVI, 54; XXXIV, 100 5.1-11 . IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI, 59 6.17-26 .......................... XX, 69; XXVI, 66 6.27-38 ........................... XX,73; XXVI, 74 6.36-42 ..................................IV,112; X,368 7.1-10 ........................................ XXVI, 206 7.11-17 ..............................IV,186; VIII,293 7.36-50 ...... VIII,262; XIV,309; XXVI, 220 8.4-10 ............................................... X, 228 8.26-39 ....................................XXXIV, 237 9.10-17 ......................................... VIII, 241 9.18-24(25-26) .......... XX,190; XXVI, 226 9.28-36 .....XX,82; XXVI, 85; XXXIV, 109 9.51-56 ...........................................XV, 167 9.51-62 .......................................... XX, 198 9.57-62 ............................................ X, 251 10.1-11,16-20 ..........................XXXIV, 252 10.1-12,16 ...................................... XX,204 10.17-20 ......................................XXIV,285 10.21-24 ...................................II, 82, (249) 10.25-37 ........X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42 .... VI,124; XVII,170; XXIII,140; ............................XXIX, 216; XXXIV, 264 11.1-13 ................... XXIII,145; XXIX, 223 11.5-13 .............................................VI,184 11.14-23 ............................ VI,297; XII,283 12.13-21 ............... XXIII,149; XXIX, 228; ................................................XXXIV, 278 12.32-40 .......................................XVII,183 12.35-40 ......................................... III, 226 12.41-48 ..........................................VI, 302 12.42-48 .........................................XII, 289 12.49-53 XVII,189; XXIII,154; XXIX, 235; ................................................XXXIV, 289 13.1-9 ......... XVII,83; XXIII,72; XXIX, 93 13.22-30 XVII,193; XXIII,159; XXIX, 241 13.31-35 ......XVII,78; XXIII,65; XXIX, 88

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14.1,7-14 ............... XXIII,167; XXIX, 247 14.7-14 ........................................XVII,196 14.15-24 ................................. IV,96; X,354 14.25-33 ..... VIII,235; XX,251; XXVI, 277 15.1-3,11b-32 .......... XII, 220; XXXIV, 125 15.1-3,11-32 .IV, 209; XVII,88; XXIX, 100 15.1-7(8-10) ...................................... X,361 15.1-10 ...... IV, 106; XX, 255; XXXIV, 309 15.8-32 ................................... XXVIII, 265 16.1-9 .............................................. IV, 147 16.1-13 ...................... XX, 260; XXVI, 286 16.19-31 ...... IV, 88; XX, 265; XXXIV, 321 17.1-10 ...................... XX, 270; XXVI, 298 17.5-6 ...........................VIII, 286; XIV, 346 17.7-10 ........................... VI, 117; XII, 160 17.11-19 ............ IV, 172; X, 421; XX, 275; ............................XXVI, 305; XXXIV, 371 17.20-35 ............................................V, 275 18.1-8a ..................... XX, 291; XXIII, 213 18.1-8 ....................... VIII, 343; XXVI, 325 18.9-14 .. IV,158; XXVIII,333; XXXIV,340 18.18-23 .........................................XII, 249 18.31-43 ....................................... VIII, 124 19.1-10 ... II, 112, (279); VIII,219; XIV,275 19.28-40 ..............XXVI, 121; XXXIV, 138 19.41-48 ............................. IV, 153; X, 401 20.9-19 ......................XVII, 94; XXIX, 105 20.27-38 ..............XXIII, 223; XXXIV, 359 21.5-19 .......................................... XX, 296 21.25-36 ......... III, 209; XVII, 9; XXXIV, 9 22.7-20 ....................... XX,116; XXVI, 126 22.31-34 ........................VIII,131; XIV,172 23.33-43 ..............XXVI, 344; XXXIV, 365 23.(26-32)33-49 .......XVII,102; XXIX, 119 23.33-49 ...........................................VI,162 23.35-43 .......................................XVII,248 24.1-11(12) .................................... XX,127 24.1-12 .............................................. II,201 24.13-35 ...... VI,40; XXI,125; XXVII, 114; ..................................................XXXII,137 24.36-49 ........................XVI,164; XIX,128 24.44-53 .............. XXVIII,201; XXXV,206 24.(44-49)50-53 .......... XIX,148; XXII,145 24.50-53 ........................................... X,331; João 1.1-5.9-14 .....XIX,35; XXV,39; XXXI,24 1.1-18 ......................... XXIII,30; XXIX, 46 1.(1-9)10-18 ............................. XXXIII, 64 1.6-8,19-28 ......XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28) ............................... VIII,49; 1.29-34 .......................................... VIII,98; 1.29-34(35-41) ............. XVIII,57; XXI,55; .................................................... XXXV,75 1.35-42 .......................................... XII,227; 1.43-51 ............ XII,129; XVI,92; XXII,52;

............................. XXVIII, 68; XXXIV, 80 2.1-11 ...............IX, 41; XX, 44; XXVI, 40; ..................................................XXXIV, 89 2.13-22 ...............................VI,237; XIX,87 3.1-11(15) ......................................... X,347 3.1-17 XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91; ............................................... XXXIII, 232 3.14-21 .........XIX,95; XXV,144; XXXI,96 4.1-11 ........................................ XXXI,149 4.5-26 ..........................XXI,82; XXXV,139 4.31-38 ....................................II, 89, (256) 4.46-54 ............................................XII,148 5.1-16 .............................................XIV,360 5.1-16(18) ..................................... VIII,304 5.19-21 ...........................................XIV,215 5.24-29 ..XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; .................................................... XXX,271 5.39-47 .............................................VI,204 6.1-15 ... IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; ................................................... XXXI,213 6.(22-23)24-35 ............XIX,217; XXV,254; ............................ XXXI,218; XXXIII, 280 6.35 .............................................. VIII,151; 6.37-40(41-43),44 ..................II, 200, (367) 6.41-51 . XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; ................................................... XXXI,226 6.51-58 ...................... XIX,225; XXXI,232; ................................................ XXXIII,292 6.60-69 ......XIX,229; XXV,264; XXXI,237 6.66-69 ............................................XII,293 7.14-18 ............................................ VIII,87 7.37-39aXVI,187; XXII, 158; XXVIII, 211 7.37-39 ............VI,194; XII,199; XXII,158; .................................................. XXXV,216 8.1-11 ............................................ VIII,228 8.21-30 ...........................VIII,138; XIV,179 8.31-36 .. II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; ................................................... XXIII,209 9.1-7 ...............................VIII,248; XIV,290 9.1-41 ........................................XXXII,104 9.13-17,34-39...............XXI,91; XXVII, 81 9.35-41 .......................................... VIII,299 10.1-5,27-30.............................II, 40, (207) 10.1-10 . XXI,133; XXVII,119; XXXII,144 10.11-16 ............................................. IV,53 10.11-18 ...XIX,135, XXV,181; XXXI,139; ................................................ XXXIII,199 10.11-18,27-30 .................................. X,310 10.14-16,27-29.......................... XXXIII,50 10.22-30 .................................... XXIX, 141 10.22-30(31-39) ..........................XVII,117; 11.1,3,17-27 .......II, 188, (355); XXXV,151 11.1(2),3,17-27(41-45) ..................... X,434 11.47-53 ....... VIII,157; XIV,192; XXI,103;

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................................................ XXXIII,154 12.12-19 ..............................X,269; XX,110 12.20-26 ............................................ X,258 12.20-30 ....................................... XXV,150 12.20-33 ...................XIX,102; XXXI,103; ................................................ XXXIII,154 12.44-50 .......................................... VIII,65 13.1-15,34-35.................................... X,277 13.1-17,34 .............. XXX, 99; XXXIV, 144 13.31-35 ................. XVII,121; XXIX, 149; ......................... XXXIV, 144; XXXIV, 191 14.1-6 ..............................................XII,134 14.1-12 .....................XXI,139; XXVII, 124 14.1-12(14) ..........II, 63, (230); XXXV,192 14.8-17(25-27) ........................XXXIV, 219 14.15-19 .........................................XV, 232 14.15-21 ..................XXIV,165; XXXV,200 14.23-27 ............................... IV,82; X, 341 14.23-29 ..................XVII,126; XXIX, 154 15.1-8 ............. X,317; XIX,139; XXV, 189 ................................................... XXXI,146 15.9-12(13-17) .............................XIV, 374 15.9-17 ........VIII,317; XIX,143; XXV,192; ................................................XXXIII, 211 15.(18)26-16.4 ................................. X, 337 15.26-27; 16.4b-11..... XX,171; XXVI, 191 16.5-15 ............................................... IV,65 16.12-15 ..................... XX,177; XXVI, 200 16.16-23a ............................. IV,57; VI,179 16.16,20-23a ......................VI,129; VI, 176 16.22-28 ............................................. IV,72 16.23b-28,33 .................................... X,323 17.1a,6-19 ............................... XXXIII,221 17.1-15 ........................................XXIV,159 17.1-11 .....................XXI,148; XXVII, 132 17.9-19 .............................. IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19 ...........XIX,153; XXXI,157 17.20-26 .................... VIII,198; XXIX, 168 18.33-37 ......................XIX,299;XXXI,296 19.16-30 ................ IV,38; X,284; XIX,110; ............ XXV,170; XXXI,123; XXXIII,168 20.1-18 ....................................XXXIV, 162 20.1-2,11-18 ...............................XXIV,230 20.1-9(10-18) ........ XVIII,120; XXVI, 136; .................................................... XXX,109 20.11-18 ........................VIII,166; XIV,207 20.19-23 ...................XXIV,173; XXX,150 20.(19,23)24-29 .............. X,301; XIX,119; ..................................................XXXII,134 20.19-31 .XIX, 119; XXI,121; XXVII, 110; ................................ XXIX, 128;XXXI,133 21.1-14 .....................XVII,111; XXIX, 136 21.1-19 ....................................XXXIV, 178 21.15-19 ....................................... VIII,179

21.20-25 ....................................XXXIV, 53 Atos 1.8-14 .................................... XXIV,168 1.1-11 .......... XX,155; XX,160; XXVI,182; ...............................XXIX,161; XXXII,162 1.15-26 .................... XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11 .................................XI,242 2.1-13 ...............................................XI,249 2.1-21 ...................... XIX,158; XXVII, 139 2.14a,22-32 ................................ XXIV,143 2.14a,36-47 .................................XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39 .......................XV,239 2.36-41 ............................................... III,59 2.41a,42-47 ......................................XI,284 3.1-10 ..............................................VII,198 3.13-15,17-26.......... XVI,158; XXVIII,165 4.8-12 ..................................... XXVIII,172 4.32-37 .............................................. V,310 5.12,17-32 ..................................... XX,130 6.1-7 .............................. III,134; XXIV,155 8.14-17 ......................................XXXIV, 85 8.26-40 ... XIII,222; XVI,169; XXVIII,188; ............................................... XXXIII, 205 9.1-20 ............................................. XX,136 9.36-43 ....................................XXXIV, 184 10.34-38 ...XXIII,35; XXVII, 52;;XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18 ....................... XIX,49 10.34-43 ............. XXVII, 105; XXXIII,177 11.19-30 .................. XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25...............................XXII,33 13.44-52 .......................... XX,140; XX,143 14.8-18 .......................................... XX,148 16.6-10 ........................................... XX,164 16.9-15 ...............................IX,171; XV,141 16.16-34 ..................................XXXIV, 211 16.23-34 ..........................VII,122; XIV,233 17.1-15 ........................................XXIV,159 17.16-34 ...............................................I,34 17.22-31 .................... XV,213; XXXII,156 Romanos 1.1-7 XVI,77; XXV,55; XXVIII,54; ....................................................XXXII,36 3.19-28 .............. II,169; XX,278; XXI,267; ............................... XXV,287; XXXIII,364 3.21-25a ............................XXVII,156, 272 4.1-5,13-17............. XXIV,100; XXXV,133 4.13-25 .................................... XXXIII,138 4.18-25 ................... XXIV,184; XXVII,161 5.1-5 ... XVII,137; XXIX,180; XXXIV, 224 5.1-8 ..........................................XXXII,197 5.1-11 ...........XXVIII,122; V,51; XXXII,98 5.6-11 ..................... XXIV,190; XXVII,166 5.12-15 ......................................XXVII,172 6.1b-11 ................... XXIV,211; XXVII,183 6.3-8 .................................................XI,278 6.19-23 ................................ V,164; IX,258

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7.15-25a .................................... XXXV,234 8.1-11 ..................I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17 ...............................................V,170 8.14-17 ......................................... XXV,203 8.14-17,22-27............................. XXIX,174 8.18-23 ...............................................V,150 8.18-23(24-25) ........................... XVIII,192 8.26-27 ........................................ XXX,193 8.26-30 .............................................IX,233 8.31b-39 ...........................................XI,144 8.31-39 ......................... IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39 .............................. XVI,110 9.1-5 .......................................... XXXV,261 9.1-5,31-10.4 ................................ XIII,235 9.1-5; 10.1-4 ......................................V,185 9.30b-33 ........................................... III,124 10.5-13 ......................XVI,115; XXXII,248 11.13-15,29-32 ............................XXIV,255 11.25-32 .................................... I, 95, (102) 11.32-36 ............................................V,126; 11.33-36 ..........................................XI,256 12.1-8 ............................ XI,152; XXIV,265 12.9-12 ...................................... XXXV,284 12.6-16 .................................................V,19 13.1-10 .......................................... XXI,229 13.8-10(13-14) .................................XI,107 13.11-14 ...........IV,251; XXIV,19; XXXV,9 14.5-9 ............................................ XXI,234 14.7-13 .............................................. III,79 14.10-13 ..........................................XI,266 15.4-13 .........................XXI,25; XXXII,16 16.25-27 ....................................... XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9 ............. XXIV,70; XXXII,72 1.3-9 ............................. XVI,51; XXVIII,9 1.4-9 ...................................................V,228 1.10-17 ............................................ XXI,60 1.18-25 ............................................. XX,97 1.26-31 ..................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5 ................................ XXI,71; XXII,60 2.1-10 ................................VII,50; XIII,126 2.6-13 .............................................. XXI,74 2.12-16 ............................................VII,150 3.9-15 .................................XV,266; IX,269 3.16-23 .........................................XXII,193 4.1-5 .................................... IV,261; XI,119 6.9-14,18-20................................ I, 78, (85) 6.9-14(15-17)18-20...................... I,86, (93) 6.12-20 ...................................... XXXIII,76 6.24-34 ...................................... XXXV,106 7.29-31 .........................................XXIV,90 7.29-32a ................................... I, 46, (213) 8.2 .................................................. XIII,42 9.16-23 ........................... XIV,264, XXV,96 9.24-27 ....................... XI,165; XXXIII,112

10.1-13 ..................................V,179; XX,91 10.16-17 ..........................VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21) ......................... XXXI,113 10.31-11.1 .................................... XXV,107 11.23-26 .................. XXIV,127; XXVII, 94 11.23-29 ...............................................V,65 12 .................................................... XIII,34 12.1,4-11 ......................XVII,47; XXIX, 59 12.12-21,26-27........... XXIII,45; XXIX, 64 12.27-13.13 ..................XVII,52; XXIX, 71 12.31b-13.13 .......................... V,32; XI,182 14.1-3,20-25....................................VII,158 14.12b-20 .................................... XXIII,49 15.1-11 ................ XVII,108; XXXIV, 105 15.1-20 ............................................... III,13 15.12,16-20 ............... XVII,63; XXXII,311 15.19-28 I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; ..................................................... XXV,175 15.20-28 ...................XVIII,280; XXX,293, 15.35-38 .......................................... XIII,29 15.45-49 .........................................XVII,69 15.50-58 .......... V,78; XIX,286; XXVI, 320 2 Coríntios 1.3-7 ......................... I, 112, (119) 1.18-22 .............. VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6 ........................................... XXV,118 3.3-9 .................................................IX,283 3.12-4.2 ...........................XIX,76;XXXI,78 4.3-6 ................................. IX,157; XIV,165 4.5-12 .........................XIX,169; XXXI,171 4.6-10 ...............................................XI,158 4.7-18 ................................................. III,53 4.13-18 ........................XIX,173;XXXI,177 4.16-18 .......................................... XIII,192 5.1-10 ............................... IX,295; XV,288; 5.6-10 ....................... XIX,178; XXXI,183 5.14-21 ....................................I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21 ...... XVI,140; XXVIII,153 5.20b-6.10 ................................. XXXV,120 6.1-10 ...............................................VII,82 8.1-9,13-14 .................................. XIX,188 8.1-15 .............................................. XIII,18 8.7-15 ...................................... XXXIII,251 8.9 ................................................. XV,112 9.6-15 ................................... V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 .............. XIII,142 12.1-10 ................................................V,26; 12.7-10 .......................XIX,195; XXXI,199 13.11-13 ..... IX,240; XXI,158; XXXII,174 Gálatas 1.11-24 .............................. XXIII,113 2.16-21 .......................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 .......................... XXIII,119 3.28 ................................................. XII,70 4.1-7 ............................................... IX,144 4.4-7 ............ XV,106; XVIII,38; XXX,31;

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................................ XXXIII,44; XXXV,33 5.1-6 ............................................ XIII,167 5.1-11 ..................I, 118, (125), 124, (131); .................................................. XXXV,341 5.1,13-25 ..............XXIII,126; XXXIV, 243 5.25-26; 6.1-3,7-10 .........VII,214; XIII,253 6.14-18 ....................................... XXIII,131 Efésios .......... 1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ...................................................... XXX,37 1.3-14 .......... III, 62 XXII, 204; XXXIV, 75 1.3-6,15-18................................... XVIII,43 1.(16-20a)20b-23 ....... XXI,144; XXX,138 1.20b-23 .......................................... IX,227 2.1-10 .......................................... XXX,265 2.4-10 ...................... XVI,120; XXVIII,128 2.11-22 ................................................ X,48 2.13-22 .........................................XXII,209 3.1-12 ........................ XXXI,30; XXXV,64 3.2-12 ............................. XVI,83; XXII,43 3.14-21 ......................... V,212; XXXIII,275 4.1-6 .................................. V,218; XIV,353 4.1-7,11-16 .................................. XXII,215 4.17-24 .........................................XXII,220 4.20-32 ...............................................V,235 4.30-5.2 ......................................... XVI,228 5.1-8a ..............................................XI,205 5.1-9 ....................................................V,46; 5.8-14 ......................XXIV,105; XXXV,145 5.9-14 .............................................. III,100 5.15-20 .......................................... XVI,233 5.15-21 ............................................. V,241; 5.21(22-25)26-31 .......................... XVI,236 5.21-31 .................................... XXVIII,294 6.10-20 .................... XVI,242; XXXIII,300 Filipenses 1.3-11 ... XI,324; XVII,14; XXIX,9; ..................................................XXXIV, 16 1.12-21 ..............................................VII,95 1.20c-27 .....................................XXIV,280 2.1-4 .............................................. VII,173 2.1-5(6-11) .................................. XXI,245 2.1-13 ........................................ XXXV,309 2.5-11 ....V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; ................................. XXIX,111; XXXII,59 2.12-13 ............................................XV,282 3.4b-14 ....................................XXXIV, 133 3.12-21 ................... XXIV,290; XXVII,251 3.7-11 ...............................................XI,291 3.7-14 ................................................V,261 3.8-14 ............................................. XX,102 3.12-16 ..................................... II, 20 (187) 3.12-21 ......................................XXVII,251 3.17-21 .............................................XI,330 3.17-4.1 ............................................ XX,86 3.20-21 .................. I,136, (137); 129,(143)

4.4-7 ............................................. XXVI,15 4.10-20 .............................................IX,150 Colossenses 1.1-6 ........................... XXVI, 233 1.12-20 ....................................... XXIII,229 1.15-23 ..................................................I,47 1.21-28 ...................................... XXVI, 240 2.3-10 ............................................XIV,140 2.6-15 ........................................ XXVI, 250 2.12-15 .......................................... XIII,186 3.1-4 ............. III,48; XXI,117; XXXII,127 3.12-17 ...............................................V,107 4.2-6 ...................................V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a ................ XXIV,294; ..................................................XXVII,256 1.5b-10 .....................................XXVII, 263 1.2-10 ..............................................VII,210 2.1-8 .......................................... XXXV,329 2.8-15 ........................................XXVII,277 3.9-13 ............................................... XX,15 4.1-8 ....................................... V,38; XI,315 4.13-14(15-18) .............................. XXI,285 4.13-18 ......................................... XXI,292 5.1-8 .................................................IX,288 5.1-11 ........................XXI,297; XXXV,357 5.12-24 .............................................IX,274 5.16-24 .......................XXII,19; XXXIII,20 2 Tessalonicenses 2.1-17 ....................... III,165 2.(13-15)16-17; 3.1-5 ............... XXIX, 311 3.1-5 ................................................ IX,252 3.6-13 ................................V,97; XXIX,317 1 Timóteo ..1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 .................................... II, 169, (336) 2.1-8 .. XVII,211; XXXIV,314; XXXV,370 3.16 .............................................. XIV,132 4.4-5 ............................................ XIII,298 6.6-16 ......................XVII, 215; XXIX, 274 6.11b-16 .......................................... IV, 255 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14 ........... XXIII, 195 2.8-13 ........................................ XXIII, 205 2.8a(8b-13) .................................. XV, 198 3.14-4.5 ...................................XXXIV, 333 Tito 2.11-14 ..II,263, (430); XI,128; XXIV,34; .................................................... XXXV,40 3.4-7 ............... IV,280; XX,29; XXXIV, 45 Filemom 8-21 ................................. XXIX, 254 9b-17(18-21) ................................XVII,201 Hebreus 1.1-9 ................................... XVI,70 2.9-11 ..........................XIX,257;XXXI,274 2.10-18 ........................................... IX,188 3.1-6 ............................................. XIX,262 4.9-16 .......................... XIX,268 XXXI,281 4.12-13 .............................................XI,171 4.14-16 .............................................XI,192 4.14-16; 5.7-9 ...... XXIV,133; XXXIV, 153

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5.1-6(7-10) .............. XIX,273; XXXIII,356 5.7-9 ......... XI,211; XVI,125; XXVIII,134 9.15-17,26b-28............................... XX,122 9.15,24-28 ............................................ III,7 9.15,26b-28 .................................. XIII,179; 9.24-28 ........................................ XIX,291 10.19-25 ................... II, 241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10 ....................................IX,178 11.1-3,8-16 ..................................... XX,229 11.1-4 ........................................ XXVIII,39 11.8-10 ............................................XV,160 12.1-3 ..............................................XV,178 12.1-13 .......................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a ................ XV,127 12.18-24 ..................XX, 242; XXXIV, 296 13.1-8 ............................................. XX,246 13.(7)8-9b .................................... XIV,153 13.12-16 ............................................V,205 Tiago 1.12-18 ...................................... XV,154 1.17-27 ....................................... XXV,268 2.1-13 .......................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 ........................ XXV,275 2.14-24 ........................................... III,110 3.13-4.3,7-8a ........................... XXXIII,327 4.13-17 ........................... IX,34; XXIX, 40 5.1-6 ............................. XIII,265; XIX,252 5.7-8 ............................................... XI,114; 5.7-10 ........................................... XVIII,19 5.13-16 ............................................VII,220 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ..................... XIII,152; 1.17-21 .........................................XXX,118 1.17-22 ................... XVIII,129; XXXV,182 1.3-9 ..................III,22; XI,221; XVIII,125; .....................................................XXX,114 2.1-10 .......... I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 .......................XXX,128; XVIII,138 2.13-17 ..................................... I, 102 (109) 2.15-17 ............................................. VI,13 2.18-25 ........................................ XXX,122 2.19-25 ..................................... XVIII,133 2.21b-25 ............................... V,91; XI,229; 3.8-17 ............................................... V,156; 3.15-18 ....................XVIII,146; XXIV,165 4.7-11 ............................................... V,120 4.13-19 ..................................... XVIII,152 5.1-5 ................................................... III,27 5.5b-11 ................................ V,144; XI,307

2 Pedro 1.3-11 ..................................... III,145 1.16-19(20-21) .............................. IX,165; 1-16-21 .................... XXIV,95; XXVII, 65 3.8-14 ....... XVII,237; XXIII,218; XXV,23 1 João 1.(1-4)5-2.2 ............................XXII,124 1.5-10; 2.1-6 ............................... XIII,216 2.21-25 ..............................................VII,30 3.1-3 ................................................ VII,21 3.1-7 ........................................ XXXIII,191 3.13-18 .............................................. IX,57 3.18-24 ........................... III,159; XXII,130 4.1-6 ................................................. IX,72 4.1-11 ...........................................XXII,135 4.11-16 ....................................... XXXI,165 4.7-12 ............................................. XI,299 4.7-16 ............................................... V,196 4.(7-16a)16b-21 ......................... XXII,149 4.16b-21 ........................................... V,135 5.1-5 ....................................... V,84; XI,235 5.1-6 ........................................... XXII,118 5.11-13 ............................................ XI,138 Apocalipse 1.4-8.............. VII, 131; XIII, 204; ................................................XXXIV, 169 1.9-18 ...............................VII,65; XIII,133 1.9-20 ........................................ XXVI, 145 2.8-11 ..............................VII,228; XIII,275 1.9-20 .......................................... XXIII,84 3.1-6 ...........IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 .................................... II, 248 (416) 3.14-22 ........................................ XIII,304 4.1-11 ....................................... I, 144(151) 5.1-14 ................................................VII, 7 5.11-14 ................... XXIII, 90; XXVI, 150 7.9-12 ........................................ XVII, 230 7.9-17 ......... III, 182; XIII, 110; XXIII, 94; .................................................. XXVI, 159 12.1-6 ........................................ XXIII, 26 12.7-12 ....................................... XXI, 241 14.6-7 .............................................. V, 249 15.2-4 ........................................... XV, 218 19.11-16 ........................................ III, 195 21.1-5 ....................................... XXVI, 170 21.10-14,22-23.......................... XXVI, 176 21.10,22-22.5 ..........................XXXIV, 195 22.10-16 ............................................ X,11 22.12-17,20 ................................ XXIII,99

Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.

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COLABORADORES DO VOLUME 35 ABENTROTH, Anelise L.: anelisevilmar@gmail.com ADAM, Júlio C.: julio@ienh.g12.br ALMEIDA, Odete Líber de.: a.l.a.a@uol.com.br BLASI, Márcia: retalhos13@hotmail.com BRAKEMEIER, Gottfried: brakemeier@terra.com.br BRAUN, Odair A.: veraodair@terra.com.br BUTTELLI, Felipe G. K.: felipebuttelli@yahoo.com.br DREHER, Carlos A,: cdreher.nho@terra.com.br DREHER, Martin N.: martindreher@terra.com.br DREHER, Scheila dos Santos: drehersantos@uol.com.br DREHMER, Erni: ernidhemer@globo.com GARCIA, Paulo Roberto: paulo.garcia@metodista.br GARIN, Norberto da Cunha: ncgarin@terra.com.br GENZ, Silvia Beatrice: silvia@ieclbchapeco.com.br GONÇALVEZ, Humberto Maiztegui: humbertox@uol.com.br HAGSMA, Alfredo J.: hagsma@terra.com.br HOLZSCHUH, Clarise I. W.: clarisewh@yahoo.com.br e IMMICH, Vera M.: veraodair@terra.com.br KALMBACH, Pedro: pedro_kalmbach@yahoo.com.ar KLEINE, Michael: micha.kleine@yahoo.com.br KONZEN, Léo Z.: leokonzen@urisan.tche.br KOWALSKA, José Manuel: pastorkowalska@luteranos.com.br KRÜGER, René: renekruger@isedet.edu.ar KUNZ, Claiton A.: claitonk@terra.com.br KUNZ, Marivete: marivete@terra.com.br KUPKA, Cláudio: c.kupka@uol.com.br LACERDA, Gerson C. de: gclacerda@uol.com.br LENKE, Ângela: angelalenke@yahoo.com.br MÜLLER, Iára: iaram@est.edu.br OLIVEIRA, Jorge B. D.: pastorjorge@terra.com.br PARLOW, Mara Sandra: maraparlow@terra.com.br PFANNEMÜLLER, Helga Rodrigues: pastorahelga@yahoo.com.br RAMOS, Luiz Carlos: luiz.ramos@metodista.br RAYMANN, Acir: raymann@ulbranet.com.br REIMER, Haroldo: haroldo.reimer@gmail.com REIS, Ana Isa dos: anaisadosreis@hotmail.com RIBEIRO, Antonio Carlos: antoniocarlosrib@gmail.com RIBEIRO JÚNIOR, Olmiro: orjr_che@yahoo.com.br RIECK, Kurt: kurtrieck@gmail.com

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SANTANA FILHO, Manuel Bernardino: m.bernardinofilho@gmail.com SANTOS, Joe Marçal G. dos: jmgsantos@yahoo.com.br SAMUELSSON, Jefferson A.: jasamuelsson@gmail.com SCHERER, Cristina: crisitati@yahoo.com.br SCHMIDT, Ervino: ervinus@bol.com.br SEIBERT, Erní W.: erni@sbb.org.br SIEGLE, Manfredo: sinodonc@terra.com.br SPELLMEIER, Arteno: arteno.nho@terra.com.br TREIN, Hans A.: hans@est.edu.br VOIGT, Emilio: emilio@est.edu.br WASKOW, Vera R.: vrw@terra.com.br WEBER, Eloir E.: p.eloir@cpovo.net WEIMER, Tânia C.: pnovahartz@sinos.net WEIRICH, Paulo: ppweirich@yahoo.com.br WEISSHEIMER, Ramona: ramonaew@gmail.com WEISSHEIMER, Vera C.: veracw@uol.com.br WESTPHAL, Euler: eulerrw@brturbo.com.br WIESE, Werner: wwiese@flt.edu.br WITTER, Teobaldo: twitter@terra.com.br ZANANDREA, Rene: renezanandrea@yahoo.com.br ZIZTKE, Ângela: angelazitzke@yahoo.com.br ZWETSCH, Roberto Ervino: cetela@est.edu.br

Texto: Times New Roman 11 Títulos: DawnCastle 15 Datas: Baskerton 10 Subtítulos: Times New Roman 18/12 É proibida a reprodução total ou parcial sem permissão prévia.

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