PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 34
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO C
Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
Coordenação: Martin Volkmann
2009
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© Editora Sinodal Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, Nelson Kilpp, João Artur Müller da Silva, Mauro Batista de Souza, Verner Hoefelmann e Júlio Cezar Adam Coordenação editorial: Martin Volkmann Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 est@est.edu.br
P963
Fax: (51) 2111-1411 www.est.edu.br
Proclamar libertação, v. 34: Auxílios homiléticos / [Coordenado por] Martin Volkmann. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2009. 15,5x22,5 cm. ; 394p. Série: Proclamar libertação ISBN 978-85-62865-09-1 1. Teologia prática – Auxílios homiléticos. I. Volkmann, Martin. CDU 251
Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273
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SUMÁRIO
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 1° Domingo de Advento – Lucas 21.25-36 ------------------------------------------- 9 2° Domingo de Advento – Filipenses 1.3-11 --------------------------------------- 16 3° Domingo de Advento – Lucas 3.7-18 -------------------------------------------- 24 4° Domingo de Advento – Miqueias 5.2-5a ---------------------------------------- 30 Noite de Natal – Lucas 2.1-7 --------------------------------------------------------- 38 Natal de Nosso Senhor – Tito 3.4-7 -------------------------------------------------- 45 1° Domingo após Natal – João 21.20-25 -------------------------------------------- 53 Véspera de Ano Novo – Isaías 55.6-11 ---------------------------------------------- 63 Ano Novo: Nome de Jesus – Lucas 2.15-21 ---------------------------------------- 69 2º Domingo após Natal – Efésios 1.3-14 -------------------------------------------- 75 Epifania de Nosso Senhor – João 1.43-51 ------------------------------------------ 80 1° Domingo após Epifania – Atos 8.14-17 ------------------------------------------ 85 2° Domingo após Epifania – João 2.1-11 ------------------------------------------- 89 3° Domingo após Epifania – Neemias 8.1-3,5-6,8-10 ---------------------------- 95 4° Domingo após Epifania – Lucas 4.21-30 --------------------------------------- 100 5° Domingo após Epifania – 1 Coríntios 15.1-11 --------------------------------- 105 Último Domingo após Epifania – Lucas 9.28-36(37-43) ------------------------ 109 Quarta-feira de Cinzas – Mateus 6.1-6,16-18 ------------------------------------- 116 3° Domingo na Quaresma – Isaías 55.1-9 ----------------------------------------- 120 4° Domingo na Quaresma – Lucas 15.1-3,11b-32 -------------------------------- 125 5° Domingo na Quaresma – Filipenses 3.4b-14 ---------------------------------- 133 Domingo de Ramos – Lucas 19.28-40 --------------------------------------------- 138 Quinta-feira da Paixão – João 13.1-17 e 31b-35 ---------------------------------- 144 Sexta-feira da Paixão – Hebreus 4.4-16;5.7-9 ------------------------------------- 153 Domingo da Páscoa – João 20.1-18------------------------------------------------- 162 2° Domingo da Páscoa – Apocalipse 1.4-8 ---------------------------------------- 169 3° Domingo da Páscoa – João 21.1-9 ----------------------------------------------- 178 4° Domingo da Páscoa – Atos 9.36-43 --------------------------------------------- 184 5° Domingo da Páscoa – João 13.31-35 -------------------------------------------- 191 6° Domingo da Páscoa – Apocalipse 21.10,22-22.5 ------------------------------ 195 Ascensão do Senhor – Mateus 28.16-20 ------------------------------------------- 203 7° Domingo da Páscoa – Atos 16.16-34 -------------------------------------------- 211 Domingo de Pentecostes – João 14.8-17(25-27) ---------------------------------- 219 1° Domingo após Pentecostes – Romanos 5.1-5 ---------------------------------- 224 3° Domingo após Pentecostes – 2 Samuel 11.26-12.10,13-15 ------------------ 231 4° Domingo após Pentecostes – Lucas 8.26-39 ----------------------------------- 237 5° Domingo após Pentecostes – Gálatas 5.1,13-25 ------------------------------- 243 6° Domingo após Pentecostes – Lucas 10.1-11,16-20 --------------------------- 252 7° Domingo após Pentecostes – Deuteronômio 30.9-14 ------------------------- 257
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8° Domingo após Pentecostes – Lucas 10.38-42 --------------------------------- 264 9° Domingo após Pentecostes – Marcos 10.35-45 -------------------------------- 270 10° Domingo após Pentecostes – Lucas 12.13-21 -------------------------------- 278 11° Domingo após Pentecostes – Gênesis 15.1-6 --------------------------------- 283 12° Domingo após Pentecostes – Lucas 12.49-56 -------------------------------- 289 13° Domingo após Pentecostes – Hebreus 12.18-24 ----------------------------- 296 15° Domingo após Pentecostes – Deuteronômio 30.15-20 ---------------------- 303 16° Domingo após Pentecostes – Lucas 15.1-10 --------------------------------- 309 17° Domingo após Pentecostes – 1 Timóteo 2.1-7 ------------------------------- 314 18° Domingo após Pentecostes – Lucas 16.19-31 -------------------------------- 321 19° Domingo após Pentecostes – Habacuque 1.1-4;2.1-4 ----------------------- 327 21° Domingo após Pentecostes – 2 Timóteo 3.14-4.5 ---------------------------- 333 22° Domingo após Pentecostes – Lucas 18.9-14 --------------------------------- 340 Dia da Reforma – Mateus 10.26b-33 ----------------------------------------------- 347 Dia de Finados – Isaías 25.1,(6-7)8-9 ---------------------------------------------- 353 24° Domingo após Pentecostes – Lucas 20.27-38 -------------------------------- 359 Domingo Cristo Rei – Lucas 23.33-43 --------------------------------------------- 365 Ação de Graças (Festa da Colheita) – Lucas 17.11-19 --------------------------- 371 ÍNDICES ------------------------------------------------------------------------------- 379
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PREFÁCIO
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ui incumbido pela Reitoria da Faculdades EST para coordenar a edição deste material, que já prestou tantos serviços à edificação do povo de Deus. Sinto-me honrado e agradecido por essa tarefa, junto com os demais membros do Conselho Editorial. Sou um antigo colaborador de Proclamar Libertação desde os seus inícios lá nos anos 1970. Mas, pela primeira vez, cabe-me escrever a apresentação de um volume. O presente volume contém 57 estudos homiléticos e litúrgicos para os domingos e demais datas do Ano Litúrgico, indicados no Lecionário Comum Revisado, adotado pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) desde 2006. Como todos os demais volumes de Proclamar Libertação desde o seu surgimento em 1976, também este é fruto de um trabalho em mutirão. São contribuições de teólogos e teólogas, em sua maioria da IECLB, mas também de pessoas de outras denominações. Contamos também, já há mais tempo, com a participação de representantes de fala espanhola. Com relação a essas contribuições, há uma inovação neste volume. Elas foram traduzidas para facilitar o acesso a leitores e leitoras de fala portuguesa. A autores e autoras, seja por suas muitas contribuições ao longo dos anos, seja por terem colaborado pela primeira vez, expressamos nossos sinceros agradecimentos por sua disposição e seu empenho em tornar possível mais um exemplar de Proclamar Libertação. A leitores e leitoras desejamos que essas reflexões sejam úteis e motivadoras na tarefa de anunciar a boa-nova ao povo de Deus. Proclamar Libertação quer ser justamente isto: um auxílio na proclamação da boa-nova libertadora, que nos é oferecida da parte de Deus. Autores e autoras esforçaram-se para elaborar bons subsídios para que aquelas pessoas que têm a tarefa de anunciar a boa-nova às pessoas que anseiam por essa mensagem tenham os elementos para fazer de sua pregação uma mensagem consistente, desafiadora e orientadora. E uma pregação nesse sentido exige dedicação e preparo. Que os estudos deste volume ajudem vocês nessa tarefa sublime. Martin Volkmann pela Coordenação do PL
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PRÉDICA: LUCAS 21.25-36
1o DOMINGO DE ADVENTO
JEREMIAS 33.14-16 1 TESSALONICENSES 3.9-13
29 NOV 2009
Hans Alfred Trein
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Introdução
Desde a minha infância, o Advento sempre indicava para o Natal. Era o tempo em que em família nos preparávamos para a festa do nascimento do menino Jesus. O texto de pregação dá uma dimensão completamente diferente do Advento que só apareceu bem mais tarde no horizonte adulto de minha fé. Duas leituras são possíveis: uma seguindo a história interpretativa que remete à segunda vinda de Cristo no fim dos tempos; outra que entende esse sermão profético como alusivo à própria paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ambas podem ser relacionadas de modos diferentes ao Advento: a primeira é Jesus Cristo que vem uma segunda vez no final dos tempos; a outra é uma nova realidade, um novo éon que se inaugura com a redenção através da morte e ressurreição de Cristo. Um éon chega ao fim, e uma outra realidade, um outro éon, advém: Advento! A perícope encerra recomendando, desde já, viver a partir desse futuro, na perspectiva do que advém, para não ser flagrado vivendo ainda no antigo.
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Exegese
O texto apresenta claramente uma estrutura de três unidades. A primeira vai dos versículos 25 a 28 e trata dos sinais que indicam para a vinda do Filho do Homem a redimir as criaturas cabisbaixas e prostradas; o termo redenção, literalmente resgate, aparece unicamente aqui nos evangelhos e outras sete vezes em Paulo. A segunda vai dos versículos 29 a 33, trazendo uma imagem rural como analogia sinalizadora – como que dizendo: vocês sabem ler os sinais da natureza, também saberão ler esses outros sinais – e reafirmando a palavra de Jesus Cristo como imperecível. A terceira vai dos versículos 34 a 36 e admoesta a uma postura de sobriedade e vigilância em relação ao que há de vir. A história interpretativa marcou esse texto como sendo alusivo à segunda vinda de Jesus no fim dos tempos. Olhemos um pouco para os sinóticos. Marcos (13.24-37) especifica os sinais no sol, na lua e nas estrelas e acrescenta que os anjos reunirão os escolhidos dos quatro ventos de uma à outra extremidade dos céus. Admoesta à vigilância e à
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oração. Enfatiza que ninguém sabe a hora, nem os anjos e nem o próprio Filho, senão apenas o Pai. Traz a imagem do patrão que se ausenta e volta de repente, admoestando os empregados a não ser surpreendidos dormindo. Mateus (24.2944) segue Marcos. Fala do sinal do Filho do Homem, sem especificar exatamente o que é, lembra o tempo de Noé, das orgias e festas, indica para o caráter seletivo do arrebatamento, além de enfatizar que ninguém sabe a hora, pois tudo acontecerá como quando vem um ladrão, para então finalizar também com a admoestação à vigilância. Penso que Marcos e Mateus trazem muito mais elementos e detalhes que corroboram – também com seus respectivos contextos – a perspectiva sobre o fim dos tempos e a segunda vinda de Cristo. Nessas alturas, João traz a missão do consolador, palavras de despedida e a oração sacerdotal de Cristo. Um problema difícil de resolver nessa interpretação é a expectativa criada de que tudo isso ainda aconteceria sem passar essa geração que os evangelhos sinóticos trazem. Estabeleceu-se a ideia de que a expectativa escatológica imediata das primeiras comunidades cristãs foi um equívoco. Mas talvez haja também uma outra interpretação para o termo geração. Poderia ter um significado sinônimo a era ou a éon. Seria essa geração efêmera de alguns milhares de anos chamada de humanidade, que, com sua duvidosa inteligência, construiu uma realidade de vida no planeta Terra, que está fadada a ser superada por um novo éon. Em lugar de competição, concorrência, ambição, dominação, guerra, uma passagem para o novo éon estará marcada por cooperação, complementação, satisfação, humildade, reconciliação, amor... A redenção é a superação do velho éon. Podem alegrar-se todos aqueles que nele sofrem e esperam pelo novo. Não posso deixar de compartilhar uma alternativa de leitura desse texto que me assaltou durante o processo de reflexão. No Evangelho de Lucas, a perícope está inserida no sermão profético de Jesus. Nesse contexto são mencionados a destruição do templo, sofrimentos e perseguições e a destruição de Jerusalém. Se não fosse pelo versículo 27, poderse-ia dizer que Jesus está se referindo ao próprio processo de paixão e sofrimento, que finalmente o conduziu à crucificação e não a um tempo escatológico. Há indicadores que permitem a hipótese de que havia diferenças de avaliação entre Jesus e o seu grupo quanto ao desfecho de seu movimento. No dia da crucificação, os sinais previstos se realizaram: o céu escureceu, houve eclipse solar, a terra tremeu, pessoas desmaiaram, a cortina que encobria o santo dos santos rasgou e tudo aconteceu “antes de morrerem os que agora estão vivos” (v. 32 BLH). Teologicamente, também seria possível sustentar que, com crucificação e ressurreição, se cumpre plenamente a obra redentora de Deus através de Jesus Cristo, inaugura-se o reino de Deus – mesmo que ainda numa categoria do já agora – ainda não; aliás, uma categoria teológica muito semelhante àquela da fé judaica em relação ao Messias esperado. Nessa argumentação teológica, então, não haveria necessidade de completar a obra redentora de Jesus Cristo com seu retorno in personam à terra. Além disso, em Pentecostes, Jesus enviou o Espírito Santo; através dele Jesus já está com o seus, não precisa voltar. O foco está no
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reino de Deus que se aproxima (v. 31). Portanto há que se refletir se esse texto de fato tem o cunho escatológico que a história interpretativa lhe atribuiu ou se nele prepondera a profecia da paixão, morte e ressurreição do próprio Jesus Cristo como Filho do Homem. Há que se prestar atenção à palavra sinais. Sinais são indicadores, lembretes. São apresentados como absolutamente autônomos, independentes, cósmicos. Não se pode associá-los a qualquer atividade humana que compromete a sobrevivência da terra. Os sinais não apontam para a destruição do mundo, mas para a vinda do Filho do Homem, do reino de Deus. Volta a ideia de que não é possível nem apressar, nem barrar o curso da história. O reino de Deus vem!
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Meditação
Tive que resistir à primeira tentação de “rasgar” o texto, escolher aquele enfoque mais fácil de atualizar. Precisamente a realidade velha que acaba e a realidade nova que começa – em qualquer das leituras alternativas referidas acima – lhe garantem uma dinâmica peculiar. Resisti também ainda a uma outra tentação: dar uma versão atual para os sinais do fim. Impressiona que em muitos séculos sempre houve atualizações que fizessem sentido, para um fim do mundo que acabou não vindo, nem na mesma geração de criação desse texto (v. 32) nem em muitas outras que se seguiram. Uma atualização nesses termos hoje seria apenas mais uma interpretação simplória que mais revela sobre o medo de perdas do que o anelo pelo novo. Convenhamos que também é uma presunção apostar sempre no estágio escatológico, final e absoluto do reino de Deus ao invés de contentar-se com mais um salto de qualidade em sua direção: pode ser que estejamos saindo de uma era (cartesiana) do homo sapiens para uma era do homo consciens e que até a plenitude ainda seja um longo caminho. Para qual público-alvo vamos pregar? Prevalece um público sofrido e angustiado com o atual estado de coisas ou é mais um público que se arranjou com as regras vigentes, achou o seu lugar ao sol e não gostaria muito de mudanças que possam ameaçar seu padrão de vida? Provavelmente, a maioria tem mais medo de uma violência, da disseminação do crack ou de epidemias do que de um fim coletivo do mundo, pois nesse caso não sobraria ninguém para sentir dor. Há que se cuidar para não fazer coro a uma lamúria recorrente de que está tudo piorando. Por vezes, tive a sensação de que esse texto não se presta para pregação dominical nas comunidades eclesiais de hoje. Ele deve ser guardado para aquelas ocasiões em que o grupo-alvo da pregação – que não precisa ser uma comunidade de igreja – esteja passando exatamente pela situação dramática de desesperança, sofrimento e perseguições do contexto fundante. A ideia de fim do mundo pode conduzir a uma atitude absolutamente cínica: o mundo vai acabar mesmo! Então, por que ainda se esforçar para consertar as coisas? Por que lutar pela preservação do meio ambiente? Por que ainda se empenhar por reparação de injustiças históricas cometidas contra indígenas e descendentes de escravos africanos? Podemos encontrar tanto a atitude do “comamos e
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bebamos que amanhã morreremos” como aquela outra perversa de dedicar-se apenas às coisas espirituais e transcendentes e deixar que esse mundo se lasque de uma vez – qualquer empenho por melhoras só faz postergar o fim. “O mundo está condenado! Vai terminar mesmo! Está na Bíblia!” E aí vão se enquadrando as notícias de aquecimento global, aumento do nível do mar engolindo cidades litorâneas, enchentes, secas, insegurança de causar desmaios, guerras e epidemias..., resultando numa postura de “nada a fazer!”. Mas, então, o que seria a boa notícia para os e as ouvintes de uma pregação sobre esse texto? Se o nosso objetivo não é apenas conseguir que as pessoas voltem a ser mais piedosas ou igrejeiras e nem alcançar os resultados dos mercadores da teologia da prosperidade, vamos simplesmente insistir na afirmação de que o reino de Deus vem! Com certeza! Assim como vem o verão depois da brotação na primavera?! Pode-se anunciar melhor boa notícia para esse Advento? Para alguns ouvidos, ela vai soar como profecia, para outros como evangelho, redenção. Isso não está mais no controle do/a pregador/a. Na tradição da Reforma, a teologia da cruz tem um lugar de honra. Mas será que a teologia da cruz é uma postura de princípio das comunidades de hoje? Admitir que é necessário que o justo passe por sofrimento e paixão para alcançar uma nova qualidade de vida para outros... pode-se partir disso como um traço característico da fé vivida nas comunidades? Não é assim que, nesses casos, se ouve muito mais “como pode Deus permitir?” ou “quem mexe com fogo pode se queimar!” Em 1 Tessalonicenses 3.9-13, Paulo ajuda a “reparar as deficiências de vossa fé” com uma atitude amorosa. Cabe indicar para o novo e sua superior qualidade. Esse novo traz valores como a justiça social reparadora para os oprimidos, que produzirá mais paz e menos violência, uma predisposição fundamental para a reconciliação como modo de superar conflitos históricos e com isso subtrair-lhes o seu potencial destrutivo. Aqui está a relação com a leitura de Jeremias. A justiça que ele anuncia se realizará na história. Jesus está precisamente nessa tradição e ainda supera sua limitação davídica. As relações econômicas, sociais e políticas – seguramente a organização em Estados-Nação – no mundo têm que ser superadas; caso contrário, o planeta não consegue mais se regenerar. Em lugar de competição, concorrência, ciência, o novo trará cooperação, satisfação, consciência. Apertados por sinais, esses sim, em sua maioria, resultantes de atividade humana, a humanidade pode, desde logo, frear seu consumismo orgiástico, livrar-se do que faz pesar o coração: tanto o colesterol acumulado como também as muitas concessões que se vai fazendo a esse sistema econômico, social e político idolátrico. É hora de organizar sua vida dentro do novo que advém. É hora de alegrar-se com os pequenos passos que se consegue dar, de pedir que o Senhor faça crescer e aumentar o nosso amor para com todos, de confirmar os corações em santidade, como diz o apóstolo Paulo aos Tessalonicenses no trecho da outra leitura.
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Imagens para a prédica
Proponho uma prédica mais no estilo de convite à reflexão do que propriamente de anúncio (Verkündigung). O objetivo da reflexão é que cada um/a possa derivar para si e para a vida da comunidade consequências dos diferentes enfoques comentados do texto. Três passos seguindo a estrutura do texto: 1. Os sinais. São apenas sinais e não o próprio objeto a que apontam. Se não temos os sinais cósmicos, quais são os sinais que hoje indicam para o esgotamento do atual modelo de organização da vida no planeta e apontam para um novo paradigma? Buscar aqui os elementos referidos nos blocos anteriores. 2. O que vem? O que esperamos no Advento? Seja o retorno de Cristo no fim dos tempos, seja o salto de qualidade e de éon, a vinda do reino de Deus, através de sua obra redentora com cruz e ressurreição, o novo reafirma os valores de cooperação, satisfação, consciência, justiça, reconciliação, paz e a tarefa de implementá-los em nossas estruturas planetárias. 3. Como esperar? A espera é ativa. Não é uma espera sem fazer nada. Viver já agora no horizonte do novo que virá. Vigiar e manter-se sóbrio é postura ativa (resista a moralizações!). Livrar o coração de pesos é atitude de iniciativa. O novo que vem vindo é certo! E não é produzido por nossas ações. De outro lado, se com nossas ações melhorarmos o mundo, estaremos sinalizando o reino de Deus que com certeza vem! Os pequenos passos que vamos dando podemos celebrar no Advento! Ofereço uma imagem. O pregador deve decidir se ela cabe em sua prédica. Ela traz um exemplo de outra cultura, de como os Yanomami creem que se dá a preservação da criação de Deus1. O sinal é a xawara (lê-se csauára). Omamë, o Criador, mantinha a xawara escondida. Não queria que os Yanomami mexessem com isso. A xawara vem do ouro que os brancos tiram da terra e queimam como se fosse farinha. Isso faz sair fumaça dela. Assim se cria a xawara, que é essa fumaça do ouro. Ela vai se alastrando pela floresta e ameaça acabar com os Yanomami. Quando essa fumaça chega perto do céu, ele começa a ficar muito doente também. A terra também fica doente. E mesmo os espíritos auxiliares dos pajés ficam muito doentes. Até mesmo Omamë está atingido. Deosimë, o Deus dos cristãos, também. É por isso que estamos agora muito preocupados. Tem também a fumaça das fábricas. Vocês pensam que Deosimë pode afugentar essa xawara, mas ele não pode repelir essa fumaça. Ele também vai morrendo disso. Mesmo sendo um ser sobrenatural, ele vai ficar muito doente. Nós sabemos que as coisas andam assim, por isso estamos passando essas palavras para vocês. Mas os brancos não dão atenção. A xawara cresceu muito, está muito
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Extrato de texto referido por Davi Yanomami, extraído do texto da palestra “Deus, Criação e Povos Indígenas”, realizada por Roberto Zwetsch no John Knox Centre, Genebra/Suíça, entre 1721 de setembro de 2006.
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alta no céu, alastrou-se muito longe. Os brancos não percebem que a xawara está nos devorando; ela está comendo também um monte das suas crianças, devora-as sem parar, mata e moqueia como se fossem macacos. É assim, xawara tem muita fome de carne humana. Quando os pajés tentam afugentar a fumaça da xawara que está no céu com chuva, também não dá, porque ela está muito alta, fica fora do alcance. O céu vai acabar rachando. Nós pajés também trabalhamos por vocês brancos. Por isso, quando os pajés todos estiverem mortos, vocês não conseguirão livrar-se dos perigos que eles sabem repelir. Vocês ficarão sozinhos na terra e acabarão morrendo também. Quando o céu ficar realmente muito doente, não se terá mais pajés para segurá-lo com seus espíritos auxiliares. Os brancos não sabem segurar o céu no seu lugar. Eles ouvem a voz dos pajés, mas pensam que eles estão falando à toa, que é só mentira. Quando os pajés ainda estão vivos, o céu pode estar muito doente, mas eles vão conseguir impedir que ele caia. Sim, ainda que ele queira cair, que ele comece a querer desabar em direção à terra, os pajés o seguram no lugar. Isso porque nós, os Yanomami, ainda estamos existindo. Quando não houver mais Yanomami, aí o céu vai cair de vez. São os espíritos auxiliares dos pajés que seguram o céu.
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Subsídios litúrgicos
Oração inicial: Deus Todo-Amoroso! Inicias conosco mais um ano da igreja. Advento nos enche de esperança por dias melhores. Alivia os nossos corações de tudo o que os torna pesados. Orienta as nossas mentes e toda a nossa consciência sobre o que é essencial. Ensina-nos a observar atentamente os sinais, anima-nos a orar e a ser vigilantes. Permite que com alegria levantemos as nossas cabeças, confiantes na redenção que tens preparado. Amém. Kyrie: Criador do Céu e da Terra! Trazemos-te a nossa tristeza e angústia por causa das injustiças e da falta de paz em nosso mundo. Mesmo sabendo que de grande parte delas nós somos co-autores, pedimos que tenhas piedade! Vê, Senhor, o sofrimento e a miséria dos mais fracos em nossa sociedade. Eles não recebem justiça e experimentam a sua vida como uma noite eterna. Imploramos que venhas com a tua justiça socorrê-los e resgatá-los. Vem com a tua luz amanhecer-lhes um novo dia. Tem piedade de nós, Senhor! Oração de coleta: Deus Todo-Poderoso! Que através da vida, paixão e ressurreição de Jesus Cristo inauguraste o teu reino entre nós, nós te pedimos: faze-nos sentir aquela alegria de escravos prestes a ser libertados, para que sejamos teus fiéis servidores
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e te louvemos sem cessar pela redenção e a vida em teu reino de justiça e paz. É o que te pedimos por Jesus Cristo, teu Filho que contigo e com o Espírito Santo vive e reina, de eternidade a eternidade. Amém. Oração geral da igreja: – Que a pregação do evangelho seja vigorosa e disponha pessoas de boa vontade à prática da justiça, à reconciliação, a substituir a competição, concorrência e a acumulação por cooperação, satisfação e consciência. – Que Deus assista as autoridades e responsáveis públicos com discernimento, para que resistam a qualquer corrupção e se tornem servidores fiéis ao povo que os escolheu. – Que Deus esteja especialmente ao lado das pessoas que estão entristecidas por luto ou que por doença se sentem abandonadas. – Confirma em todos/as nós a fé em teu reino de justiça e anima-nos a viver, desde já, nessa nova realidade.
Bibliografia BACHMANN, Mercedes Garcia. A nova justiça. In: Proclamar Libertação, vol. XVII. São Leopoldo: Sinodal, 1991. p. 9-13. GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Lukas. Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament 3. Sechste Auflage. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1971. p. 384-7.
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2o DOMINGO DE ADVENTO
PRÉDICA: FILIPENSES 1.3-11
06 DEZ 2009
MALAQUIAS 3.1-4 LUCAS 3.1-6
Eloir Enio Weber
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Introdução
Um texto da “Epístola da Alegria” para esse alegre tempo de Advento! Anunciar e viver o evangelho é motivo de alegria, pois ele traz como cerne a salvação que Deus, em Cristo, traz às pessoas de fé. Esse tempo de Advento é um tempo diferente nos sentimentos das pessoas: por um lado, todas estão esgotadas e anseiam por algum período de descanso; por outro lado, elas estão espiritualmente mais abertas para acolher a mensagem do evangelho. Por isso, em primeiro lugar, a “Epístola da Alegria” quer ser um convite para que o evangelho de Cristo nos faça erguer os olhos e esboçar um sorriso, pois “aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (v. 6). O Advento aponta para esse dia e nos impulsiona a viver a vida e a fé, sabendo que esse dia chegará. Há uma convergência bonita entre os três textos indicados para este domingo. O texto para a pregação (Fp 1.3-11) mostra uma relação de afeto e de carinho muito especial do apóstolo Paulo com a comunidade de Filipos. Uma relação de proximidade que aumentou porque a comunidade sempre cooperou e participou com dedicação para que o evangelho de Cristo fosse mantido na sua essência. Essa proximidade é expressa, neste texto, em forma de gratidão: “por tudo o que recordo de vós” (v. 3) e “pela vossa cooperação no Evangelho” (v. 5); e, num segundo momento, em forma de pedido: Que o amor entre os cristãos de Filipos aumente cada vez mais a fim de que possam estar “cheios do fruto da justiça” (v. 11) e “inculpáveis para o Dia de Cristo” (v. 10), cooperando com o Evangelho, “para a glória e louvor de Deus” (v. 11). O texto do Antigo Testamento (Ml 3.1-4) é uma reação diante das injustiças praticadas pelo povo. O texto afirma que Deus vai intervir na história produzindo uma nova ordem (Nova Aliança?), na qual a justiça será praticada e o direito será restabelecido para todos. Então o culto será “agradável ao Senhor” (v. 4), pois as injustiças serão “derretidas e lavadas” (v. 2). O texto apresenta um mensageiro que virá para preparar o caminho diante de Deus. Esse mensageiro, no Novo Testamento, é apresentado como João Batista (Mc 1.2). O Evangelho (Lc 3.1-6) é um texto clássico para o tempo de Advento. João Batista traz como mensagem o “batismo de arrependimento” (v. 3) e, com as palavras do profeta Isaías, anuncia que “toda carne verá a salvação de Deus” (v. 6).
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Temos, pois, no Antigo Testamento o anúncio que Deus vai intervir; no Evangelho é dito que esse tempo se cumpriu. O texto da pregação ressalta como a boanova é aplicada na prática comunitária em Filipos.
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Exegese
2.1 – A Carta aos Filipenses Filipos foi a primeira cidade europeia que recebeu a mensagem do evangelho. Ela foi fundada durante a segunda viagem missionária do apóstolo Paulo. O primeiro núcleo dessa comunidade surgiu na casa de Lídia, uma vendedora de púrpura, que ouviu a mensagem de Paulo nas margens do rio, junto com outras mulheres (At 16). Não se sabe ao certo o lugar e a data em que a carta foi escrita. No entanto, a maior parte dos estudos aponta para o tempo na prisão, na cidade de Éfeso, por volta dos anos 54-55. Apesar de provavelmente ter sido escrita na prisão, em meio às incertezas do autor, ela é chamada de “carta da alegria”, porque esse é um tema que aparece forte na mesma. 2.2 – O texto O texto em estudo encontra-se na parte introdutória da carta de Paulo aos Filipenses. Logo após a saudação inicial, Paulo faz referência aos sentimentos que tem em relação à comunidade em forma de ação de graças e súplica. Pode-se dividir o texto em duas partes: a) os motivos que os filipenses dão a Paulo para agradecer a Deus (oração de agradecimento – v. 3-8); b) o que Paulo pede a Deus intercedendo em favor dos filipenses (oração de intercessão – v. 9-11). V. 3-5 – Inicialmente, percebe-se a proximidade que o apóstolo Paulo tem em relação à comunidade. Ele começa dizendo que dá “graças ao meu Deus”: ação de graças tem a ver com o coração, com o sentimento, com a fé. Na prisão, Paulo percebe as pessoas e as comunidades que permanecem na fé em Cristo e cultivam um sentimento de fraternidade com ele. Ele ressalta que agradece a Deus por tudo o que recorda dos filipenses e por sua cooperação no evangelho. A gratidão que Paulo demonstra é motivada pela fé dos filipenses e por sua dedicação em manter a essência do evangelho. V. 6 – Nesse versículo, Paulo aponta para Deus, que começou a obra em Filipos. Apontando para Deus, ele tira o foco de si mesmo. O missionário é um agente a serviço de Deus. A ação missionária não tem o ponto de partida na ação de seres humanos, mas na ação de Deus, que age pelo Espírito Santo. Assim como Deus iniciou a obra, ele há de encaminhá-la a bom termo, de forma completa e definitiva no “Dia de Cristo Jesus”. Percebe-se que a ação missionária tem como objetivo o reino de Deus. O início, o meio e o fim da missão estão no próprio Deus. V. 7-8 – Paulo reafirma o seu sentimento de afeto pelos filipenses: “vos trago no coração” e “saudade que sinto de vós”. Com essas afirmações o apóstolo
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Paulo dá testemunho da comunitariedade da fé cristã, que relaciona as pessoas ligando as suas vidas e trazendo a esperança de que todos são participantes da graça. A participação na graça de Deus, em Cristo, coloca-nos em pé de igualdade; isso Paulo transmite à comunidade de Filipos. V. 9-11 – Na oração de intercessão que Paulo faz em favor dos filipenses, ele suplica que o amor entre eles aumente cada vez mais. A comunidade de fé sustenta-se no amor de Deus. Esse amor precisa refletir na prática comunitária que se desdobra em afeto, misericórdia, comunhão, diaconia e na prática da oração. A origem do amor cristão deve estar na fé em Jesus Cristo, e o alvo do agir cristão é que todas as pessoas estejam “inculpáveis para o Dia de Cristo”. Nesse ponto, Paulo aponta para o reino. Ele se propõe a orar para que o amor cresça entre os filipenses a fim de que todos cheguem ao reino. O amor produz “o fruto de justiça”. A comunitariedade expressa-se na prática da justiça, pois o amor não suporta e não convive com as injustiças. O sentimento fraterno requer tratamento igualitário.
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Meditação
Dois temas centrais saltam aos olhos de quem lê a perícope: gratidão e intercessão. São temas fortemente interligados: tanto gratidão como intercessão são temas comuns em nossas orações. Portanto o ponto de partida é a postura de oração. Estamos vivendo o tempo de Advento. Muitas pessoas aproveitam esse período para começar a fazer um balanço do ano civil, que está por encerrar. No calendário litúrgico, já estamos no início de um novo ano. É um tempo de preparação para celebrar o Natal. Portanto um momento para reflexão sobre o sentido da nossa vida e da nossa fé. Perguntar pelo espaço que a oração tem em nosso cotidiano. Olhar para as pessoas, a igreja e o mundo e perceber que somos, como cristãos, chamados a orar, trazendo ações de graças e súplicas diante de Deus. Ao olhar para o mundo atual, pode-se dizer que, cada vez mais, as pessoas estão insatisfeitas. Supervalorizam as perdas e não percebem os sinais do amor de Deus em suas vidas. Não percebem as pequenas e grandes bênçãos em sua volta. Neste tempo de Advento, especialmente, estão preocupadas em acertar nos presentes de Natal. E, não raras vezes, dão-se conta do quanto é difícil a tarefa de agradar os outros e acertar os gostos alheios. É difícil agradar o ser humano. Vale refletirmos sobre esse tema, pois somente um coração grato agradece verdadeiramente. Advento é um tempo de reflexão sobre o grande amor de Deus revelado em Jesus Cristo. Por isso mesmo o sentimento da época deve ser de gratidão. O apóstolo Paulo, ao olhar para a comunidade de Filipos, encheu o coração de alegria e em ação de graças colocou-se diante de Deus. Na vivência comunitária, percebe-se a importância das outras pessoas, que são irmanadas conosco pelo Espírito Santo. A nossa capacidade de agradecer demonstra onde está o nosso coração. Somente conseguimos agradecer plenamente por aquilo que enche o nosso coração de alegria. No caso do apóstolo Paulo, ao olhar para a fé e o exemplo de
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comprometimento com o evangelho de Cristo da comunidade de Filipos, a reação foi de gratidão. A nossa capacidade de agradecer está intimamente ligada à capacidade de interceder. A gratidão faz-nos olhar para além de nossas necessidades pessoais. A confiança em Deus faz surgir o amor em nós. O amor não permite que nos ocupemos somente conosco; ele não tolera o egoísmo. O Advento é tempo de anúncio. O tema central do anúncio cristão é a salvação em Cristo Jesus. A salvação leva-nos a olhar para frente, para o futuro, para onde os nossos olhos não conseguem enxergar ainda: o reino. Advento não é só um período de preparação para a festa que rememora o nascimento de Cristo. A fé não pode contentar-se em celebrar somente o passado. Ela quer celebrar e antever o reino. É tempo de preparação para essa festa maior, que é o reino. O texto em questão, ao natural, trata desse tema central para a fé cristã: Paulo fala duas vezes do “Dia de Cristo Jesus” (v. 6) e “Dia de Cristo” (v. 10).
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Imagens para a prédica
Penso que a pregação precisa ir ao encontro daquilo que o texto traz como conceito central: agradecimento e intercessão, fazendo uma ligação com o tema de fundo para o tempo de Advento: apontar o reino. A seguir, trago quatro pontos pelos quais a pregação pode passar. a) Trazer uma leitura exegética do texto: É importante localizar os ouvintes no contexto da perícope. Levar os ouvintes a ler o texto sob a perspectiva da gratidão e intercessão, tendo como pano de fundo para a fé cristã e que se reflete neste tempo de Advento, que é o reino de Deus. b) Refletir sobre o tema da gratidão: O texto aponta para a gratidão. Refletir sobre gratidão e ingratidão. Provocar essa reflexão a partir da constatação de como é difícil agradar as pessoas. As pessoas supervalorizam as perdas e acontecimentos negativos e não conseguem olhar a vida sob a ótica da graça de Deus, oferecendo ação de graças. c) Refletir sobre o tema da intercessão: Como está a nossa solidariedade? Orar pelos outros requer comprometimento com a vida dos mesmos. d) Advento e o reino: Percebe-se que há uma dificuldade de compreensão desse tempo de Advento. Muitas vezes, ele é visto somente como um tempo de preparação para o Natal. Não deixa de ser, mas não é só isso. Quer ser um tempo de olhar para a volta (a parusia) de Cristo. A pregação deveria pegar esse tema que o apóstolo Paulo trata pelo menos duas vezes no texto, refletindo sobre esse tempo de Advento.
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5 Subsídios litúrgicos Acolhida: Prepara, Senhor, nossas mãos. Prepara, Senhor, nossas mãos para um toque diferente. Para despertar ternura, afeto, consolo e amizade. Que elas possam brindar, sustentar, construir e orientar. Prepara, Senhor, nossos braços para um encontro diferente. Para sentir a unidade, a proximidade, o manto da misericórdia que nos cobre, O calor que nos faz um só corpo. Que eles possam fortalecer, proteger, alcançar a quem está longe. Prepara, Senhor, nossos ombros para uma carga diferente. O peso das lágrimas alheias, da culpa do mundo, Da própria cruz e de tantas outras. Que possam eles ser cavalgadura dos filhos e filhas Que entram no reino de Deus. Prepara, Senhor, nosso coração para um pulsar diferente. Para bombear a vida que se esgota, Para sentir-nos dentro desse grande peito Que é a comunidade e a terra. Que possa ele alegrar-se, festejar, ser redimido do desamor E do abismo da prepotência. Prepara, Senhor, nossa mente para uma verdade diferente. Para pensar em como viver de outra maneira, com pureza, Justiça, sabedoria, honradez e confiança. Que nossas ideias possam nascer todos os dias E compreender como o sol, que dá a luz sem discriminação, Sem julgar, sem submeter, sem condenar. Prepara, Senhor, nossos pés para um caminho diferente. Para vencer o veneno, a traição e o medo. Para andar como de dia, sem cansaço, sem desculpas. Que eles levem a boa notícia, o bom humor, o bom semblante, A boa fé, nossos corpos humildes ressuscitados por tua Palavra. Autor: Amós López (Cuba). (Rede Clai de Liturgia) Texto: Prepara, Señor, nuestras manos. Tradução e adaptação: Eloir E. Weber.
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Confissão de pecados: Aonde vai nossa terra? Aonde vai nossa terra? Aonde vai nossa terra cheia de lágrimas? Se o amor é assassinado, Se permanecemos divididos, Aonde vai nossa terra? Deus de amor, perdoa-nos! Nada pode renascer, Nada pode renascer e viver; Se nossos punhos se fecham E nosso esforço é desperdiçado, Nada pode renascer. Deus da vida, perdoa-nos! Para construir a cidade, Para construir a cidade em festa, Necessitamos compartilhar O vinho, o sal e o trigo, Para construir a cidade. Deus da partilha, perdoa-nos! No imenso mundo, No imenso mundo em armas, O ser humano tem sido feito para amar, Para trabalhar pela paz No imenso mundo. Deus da paz, perdoa-nos! Nunca, jamais a guerra! Nunca, jamais a guerra! Queremos a amizade. Anunciamos a unidade: Nunca, jamais a guerra! Deus da fraternidade, perdoa-nos! Extraído de: “Los árboles del mar”. Didier Rimaud. Tradução: Eloir Enio Weber.
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Kyrie eleison: L.: Quando clamamos a Deus em favor dos que sofrem, queremos demonstrar que não estamos alienados do mundo, nem insensíveis ao que se passa ao nosso redor. Supliquemos a Deus, que promete ouvir nosso clamor: L.: Clamamos, Senhor, por todas as pessoas que sofrem por estar envolvidas em guerras, em conflitos entre nações, por todas as que sofrem fome, sede, dor, injustiças e abandono. Escuta-nos, quando a ti clamamos: C.: e Tem, Senhor, piedade... L.: Clamamos, Senhor, pelas pessoas que aparentemente têm suas necessidades supridas, mas sofrem opressão, ameaças, sofrem aquela violência silenciada e escondida, protegida por quatro paredes, pelo medo das vítimas, pelo consentimento de sociedades injustas. Escuta-nos, quando a ti clamamos: C.: e Tem, Senhor, piedade... L.: Clamamos, Senhor, enfim, pelo nosso planeta, pela tua criação: dá que se estabeleça a paz na terra, usa a tua igreja, Senhor, para realizar esse Shalom. Escuta-nos, quando a ti clamamos: C.: e Tem, Senhor, piedade... Oração geral: L.: Interceder é entregar nas mãos de Deus causas, pessoas e situações. É um reconhecimento humilde de que nós não damos conta de tudo sozinhos e que precisamos da intervenção de Deus. É oportunidade que temos, como cristãos, de olhar para além das nossas necessidades com o olhar carinhoso do próprio Cristo, percebendo sinais de dor e de sofrimento. No final de cada intercessão, cantamos juntos: “Ouve nossa oração...”. Oremos. L.: Senhor, tu nos convidas para nos achegarmos a ti. Aconchegados em tua graça, pedimos em favor da tua igreja no Brasil. De forma especial pela IECLB. Concede que o amor entre os seus membros aumente mais e mais em pleno conhecimento da tua bondade. Anima para que a fé produza os frutos da justiça até o Dia de Cristo. Senhor, em tua bondade. C.: e Ouve nossa oração... L.: Intercedemos pelos governos e governantes de nossa nação, dos estados e municípios. Fortalece e encoraja aqueles e aquelas que procuram realizar seu trabalho com transparência e empenho pela vida. Corrige os que têm em vista apenas os seus próprios interesses. Senhor, em tua bondade. C.: e Ouve nossa oração... L.: Intercedemos em favor dos que sofrem porque estão solitários, enlutados, doentes ou desamparados. Intercedemos pelos idosos desta comunidade, os viúvos, os portadores de deficiência. Ajuda-nos a ser uma comunidade viva e presente pelo nosso testemunho e pelos nossos gestos. Senhor, em tua bondade. C.: e Ouve nossa oração... L.: Tudo o mais que guardamos em nossos corações, entregamos a ti em confiança. Amém.
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Bibliografia BORTOLINI, José. A carta aos Filipenses: O Evangelho encarnado. São Paulo: Edições Paulinas, 1991. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. 4. ed. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural, 1983. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.
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PRÉDICA: LUCAS 3.7-18
13 DEZ 2009
SOFONIAS 3.14-20 FILIPENSES 4.4-7
Felipe Gustavo Koch Buttelli
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Introdução
O Advento, via de regra, traz à discussão o tema da preparação para as comunidades cristãs. O Natal entra decisivamente na rotina das vidas, alterando o ritmo da comunidade. A sociedade como um todo recebe cores novas, cidades enfeitam-se e verdadeira corrida se instaura no cotidiano. Ninguém quer deixar pendências para o período de Natal e Ano Novo. Ceia, presentes, o Natal acaba sempre se tornando um momento de ápice da sociedade de consumo. Não se deve desvalorizar ou sonegar o fato de que as pessoas que frequentam nossas comunidades também estão imersas nessa onda de consumo. Nesse sentido, de modo mais secularizado, o Advento não deixa de ser período de preparação para um evento social amplamente concorrido. Contudo, não é essa preparação que se costuma enfatizar na interpretação cristã do Advento. E, de fato, muitas comunidades e muitas pessoas resguardam em suas vidas uma prática devocional bastante bonita durante o Advento. A oração, a sondagem individual, as velas dos quatro domingos de Advento, tudo isso compõe em boa medida a vida de muitas cristãs e muitos cristãos. Eles se preparam para a chegada de Cristo! E, nesse sentido, o Natal permanece sendo um dos eventos mais marcantes no ano litúrgico, ainda que concorra com o apelo da sociedade de consumo. Sabendo que a boa tradição do Advento não morreu, é necessário que seja sempre estimulada essa devoção, essa religiosidade, essa tradição. Por isso devemos pensar o que a fundamenta! Qual é o conteúdo, quais são as características dessa preparação? Por que e para que necessitamos nos preparar? Em suma, que novidade traz o Natal para nossas vidas, para que precisemos nos preparar para o nascimento de Cristo? Encontrar o sentido profundo para essas perguntas pode auxiliar nossas comunidades a reforçar essas práticas devocionais, essa autossondagem, bem característica do tempo de Advento. Pode também criar uma contracultura ao apelo demasiado da sociedade de consumo, atribuindo sentido ao evento e não ao que dele decorre. O infante na manjedoura sempre nos traz a alegria de ver renovada a esperança. Esperança, portanto, é tema sempre presente no Natal e no Advento. A cada ano nasce uma nova esperança. Preparação e esperança – estão sempre presentes no ano litúrgico. As perguntas: Em que se espera? Por o que se espera? Por que se espera? devem sempre nos acompanhar na reflexão do Advento. Quem
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espera algo fá-lo por não estar feliz, satisfeito, completo. Pode também estar com medo, angustiado, sofrendo. Espera-se, no Advento, por uma mudança. Mas que mudança é essa? O que deve mudar?
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Texto
O texto de Lucas 3.7-18, combinado com as outras leituras bíblicas previstas, fornece uma boa reflexão sobre o que fundamenta e a que se referem a preparação e a esperança, que já nos parecem tão familiares, portanto, comuns no Advento e no Natal. Esse parece ser o desafio de quem prega: demonstrar continuamente a novidade e a atualidade do evangelho! Demonstrar por que que ele faz sentido para as nossas vidas e a que situações ele traz alento! O texto de Lucas para o terceiro Advento já foi bastante comentado anteriormente no PL, já que é recorrente para o Advento. Portanto algumas discussões já foram repetidas mais de uma vez. No entanto, algumas serão aqui retomadas, postas ao lado de outras. Joseph Fitzmeyer, em El evangelio segun Lucas, ao comentar a passagem de Lucas, oferece a pregação de João Batista em três aspectos diferenciados: escatológico, ético e messiânico. No primeiro momento (v. 7-9), designado escatológico, ela atenta para a ira vindoura. Aqui sua pregação se assemelha à dos profetas do Antigo Testamento, que apontavam para o juízo de Deus. Carlos A. Dreher, oferecendo-nos a pesquisa de Goppelt, demonstrou anteriormente que Lucas, diferentemente dos outros sinóticos, prega a “multidões” (v. 7) e não somente a habitantes da Judeia e de Jerusalém. Essa “abertura” para diferentes destinatários encontra sua explicação na própria perícope de Lucas, já que ele cita, posteriormente, exemplos de como o arrependimento demonstra frutos tanto para publicanos como para soldados romanos, notoriamente não pertencentes ao grupo de “muitos fariseus e saduceus”. A “raça de víboras” é compreendida como toda pessoa que corre ao Jordão para ouvir sua pregação. Interessante é que as pessoas vão, por vontade própria, até João para ouvir sua pregação e para se deixar batizar. Ainda assim, ele as chama de víboras e as inquire a respeito de sua “fuga da ira vindoura”. Para Goppelt, o que já fora apresentado por Dreher, isso está vinculado a uma percepção ritualística que as pessoas tinham do batismo de João, recorrendo às noções de ritos de purificação presentes no AT. O batismo que João oferece requer, portanto, um arrependimento e uma mudança ética que ultrapassem a noção de purificação. Isso se torna evidente no v. 8, quando João afirma que já não é mais suficiente ser “filho de Abraão”. O critério do arrependimento encontra-se no aspecto ético: “dar bons frutos”. Essa metanoia pode ocorrer com qualquer pessoa da multidão; de qualquer pedra pode se “suscitar filhos de Abraão” (v. 8). Importante é, por isso, percebermos que o critério escatológico encontra-se vinculado ao arrependimento. Tanto Goppelt como Fitzmeyer ressaltam que a expressão metanoia é fundamental para João Batista. No grego não-neotestamentário, essa expressão significa modificar a mente, arrepender-se, mudar seu pen-
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samento. No entanto, a compreensão do termo nos sinóticos está vinculada ao termo hebraico schub, que significa inverter a direção, dar um giro de 180º, retornar a Deus. Arrepender-se, em termos breves, significa mudar não somente de pensamento, mas de postura, atitude. Espera-se uma nova atitude em direção oposta à anterior. O segundo momento (v. 10-14) da perícope traz elementos éticos, como decorrentes do processo de arrependimento. Essa parte é notoriamente exclusiva do Evangelho de Lucas. Por isso mesmo, por demonstrar a um público mais amplo que decorrências éticas, de comportamento, resultam do arrependimento, é que o teor da pregação escatológica é atenuado. Parece que Lucas quer transmitir a mensagem a pessoas que estão situadas em um contexto ordinário de vida. Lucas, pelo que se depreende dessa parte do texto, não cogita uma mudança estrutural. Tanto publicanos como soldados romanos não devem abdicar – é o que se pode interpretar de suas funções – nem tomar “a cruz” do discipulado em termos radicais (poderia se sugerir que abandonassem suas funções de serviço ao império romano). Basta que cumpram sua função social com justiça. Ninguém é chamado a abdicar de suas “túnicas”, o que, evidentemente, está vinculado aos bens materiais, mas deve apenas cuidar para não acumulá-los quando há quem esteja em necessidade. Nesse sentido, Lucas não apresenta o ascetismo de João Batista manifesto nos textos paralelos. O terceiro momento é o messiânico (v. 15-18). Aqui Lucas admite que aquele que virá é mais poderoso do que o próprio João Batista. Retornando ao teor de juízo presente na primeira parte da perícope, nesse anúncio da vinda de Cristo, João trata-o em termos de Juiz, que trará a pá na mão e queimará em fogo inextinguível quem não produzir bons frutos. É nesse sentido que é mencionado o batismo no Espírito e no fogo. O batismo de Jesus é completo, mais poderoso do que o batismo de João. Espírito e fogo representam bem a ideia de vida e purificação. Jesus, perante o qual João não se sente digno de desatar as sandálias, batiza com nova vida e com purificação plena.
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Meditação
Esse pequeno esboço exegético do texto de Lucas nos apresenta aspectos importantes a ser levados em conta na pregação para o período de Advento. Quando se fala em preparação e esperança, que precedem o nascimento de Cristo, fala-se em arrependimento, concebido como mudança de atitude, em dar bons frutos. João Batista anuncia ira. Faz uso de palavras duras, como “raça de víboras”. Em que medida somos nós também “raça de víboras”? Parece que a defesa expressa na frase “temos por pai Abraão” (v. 7) demonstra que também nós tentamos estabelecer alguma segurança diante da ira de Cristo. “Tal ira não pode incidir sobre nós”, podemos pensar, elaborando um discurso de justificação. Nós que estamos presentes na vida da comunidade auxiliamos de uma forma ou outra, somos bons cristãos. Nós não somos, demonstra o
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texto, diferentes da raça de víboras por ser filhos de Abraão; o critério do arrependimento são os frutos. O que Lucas oferece como modelo de arrependimento é uma atuação justa na sociedade. Ele convida a repartirmos o que há de sobra (v. 11), isto é, a não deixarmos desamparados os que não têm. Não cobrar mais imposto do que o estipulado (v. 13) e não dar denúncia falsa nem querer obter mais do que o soldo (v. 14). Ora, a despeito da interpretação de que isso ainda não é uma atitude radical, no sentido de reconstrução das relações sociais, mesmo essas palavras fazem muito sentido para a nossa sociedade. Há péssima distribuição de renda no Brasil. Há muito para poucos. Os exemplos dados ao publicano e ao soldado podem se referir ao nosso contexto, se apontarmos para a corrupção generalizada em todas as camadas da população brasileira. Não são somente os políticos os corruptos no Brasil. Há, sim, uma cultura de corrupção em diversos espaços da sociedade. Policiais corruptos, sonegação de impostos, extorsão, mau uso da coisa pública etc. O que João Batista espera daqueles que o escutam é que sejam bons cidadãos e cumpram a lei. A Lei que, como sabemos da teologia luterana, é o próprio Cristo. Cristo é a lei, e o seu cumprimento só se dá através dele. Cristo também é o juízo. Seu juízo é mais severo que o de João. É inapelável. Não há a quem recorrer. Como vimos acima, o batismo do Senhor será no Espírito e no fogo. Vida e purificação. Jesus, de um lado, é quem purifica e, de outro, traz a pá e queimará quem não produz bons frutos em fogo inextinguível. João, ao mesmo tempo em que exorta, anuncia o evangelho! É necessário, fazendo uma leitura atual, saber que esperança é essa que está implícita na espera do Senhor. Por que estamos desesperançados hoje? Muitos refletem sobre o que alguns chamam de pós-modernidade. Esse novo contexto em que vivemos caracteriza-se por uma crise de referências. Perdem-se as referências, os limites, as fronteiras são fluidas, fala-se em liquidez. Vivemos em uma sociedade em que não se sabe quem regula. Não se sabe quem ameaça, quem julga. Não se pode falar de uma moral. Não se pode falar de uma ética. Que lei exerce poder na sociedade da violência? Que medos têm os seres humanos em relação a seu futuro? Tudo é mais difícil de definir. Que esperança Cristo traz para o nosso mundo? Para visualizar essa reflexão de modo mais claro, apoiamo-nos nos textos recomendados para leitura nesse mesmo domingo: Sofonias 3.14-20 e Filipenses 4.4-7. O texto de Sofonias é caracterizado como um hino. Ele nos convida a rejubilar, a regozijar e a exultar. Mas por quê? Aqui podemos encontrar pistas para o motivo da nossa esperança. O Senhor afastou as sentenças, anuncia o profeta (v. 15). Em contraposição à ira e ao juízo anunciados por João, Sofonias nos aponta a esperança de que esse Deus se fará logo presente no meio de nós (v. 17). Não mais veremos mal algum, eis que o próprio consolador se fará presente. Nesse sentido, não há porque temer. O Senhor que vem é poderoso para nos salvar (v. 17). Ele se alegrará em nós, não pelo que somos (raça de víboras), mas porque nos renovará em amor (batismo no Espírito Santo). Ele congregará aqueles que estão condenados pela dureza da lei (opróbrios), salvará os que coxeiam (v. 19). Ele fará um louvor e um nome dos que sofrem em toda a terra de “ignomínia” (não reconheci-
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dos como cidadãos). Esses ele fará voltar, recolherá e congregará (v. 20). Essa é a nossa esperança. O Cristo que nascerá em breve mudará nossa sorte. Esse é o motivo da nossa alegria. Não há somente ira e juízo, mas o próprio Deus se encarregará de nos transformar e de nos tornar aptos a dar bons frutos. Essa é a obra de Cristo que nasce por nós: nos absolve, renova em amor e acolhe. Se o juízo de Cristo é inapelável, mais severo do que aquele imaginado por João, sob o qual nenhum ser humano pode justificar-se a si mesmo, só se pode compreender que somente Cristo pode transformar-nos (fogo – Espírito Santo – presença entre nós). Ele nos transforma, renovando-nos no amor. Em Fp 4.4-7, encontramos uma doxologia bastante conhecida. Sabe-se já do motivo da nossa alegria. É esse Cristo que está para nascer! Por isso Paulo recomenda moderação, pois perto está o Senhor (v. 5). Não precisamos ser ansiosos, mas temos de permanecer em oração, fazendo petições e ações de graça (v. 6). É esse o tipo de preparo que se anuncia aos cristãos no Advento! Moderação, sem ansiedade, permanecendo em oração. Nisso consiste o modo de vida cristã diante da esperança que está para nascer. Nessa espera, Cristo nos guardará em paz, dando-nos o necessário entendimento para não nos abatermos na espera, sem medo, sem angústia. Em tempos de incerteza, como os que vivemos, sem referências, sem saber muito o que dizer do futuro, essa mensagem pode ser um verdadeiro porto seguro para quem navega num mar sem rumo. Talvez essa possa ser uma das tarefas da igreja hoje: reencontrar referências, criar espaços para que as pessoas se sintam seguras. E é justamente esse aspecto que a meditação pode acolher. Evidentemente, a consciência em relação à iminência da vinda de Cristo sempre nos interpela no aspecto ético. Espera-se uma metanoia constante na vida do cristão. João Batista nos demonstra que não há um status cristão que atribui segurança. A nossa parte na obra de Deus manifesta-se nos frutos que surgem da nossa postura de vida, de nossa atitude em relação a uma sociedade que padece. É nessa sociedade que devemos estar atuantes, alegres e confiantes nas promessas de Deus, mas mostrando ao mundo os frutos desse amor que nos regenera diariamente.
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Imaginando a prédica
A prédica poderia concentrar-se em discutir a situação atual da perda de sentido, da perda de esperança, apontando para o Advento como um período no qual fazemos esse balanço. Sondamos a nossa situação, colocamo-nos na frente de Deus, sabendo que somos “raça de víboras” que fogem da sua ira. Não conseguimos interagir no mundo demonstrando os frutos bons que Deus espera de nós. Este mundo continua contaminado, perdido, sucumbindo em violência, em corrupção, em desigualdade. Não somos capazes de reverter esse quadro. Por outro lado, alimentamos a esperança nas palavras do profeta Sofonias. A vinda de Cristo é a razão da esperança, porque ele é capaz de operar boas obras através de nós. Ele nos renova, batizando-nos no Espírito, purificando-nos com o fogo. E
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nossa espera ainda assim permanece sóbria, em alegria, mas com moderação. Advento é tempo de orar, de colocar nossa situação de vida diante de Deus e dar graças, confiantes de que da parte dele vem a nossa esperança. Essa é uma ideia para darmos fundamento à preparação e à esperança que tanto se pregam no Advento.
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Subsídios litúrgicos
Oração do dia: Bondoso Deus, chegamos à tua presença neste tempo de Advento. Agradecemos pela esperança e pela possibilidade de pensar em nossas vidas. Pedimos que tu participes desse nosso momento de reflexão e nos mostres qual caminho devemos seguir. Por muitas vezes estamos perdidos e já não sabemos mais em que esperar. Vivemos com medo, ansiosos, sem ter algo em que podemos nos agarrar. Agradecemos porque tu te apresentas novamente como a razão para esperança neste mundo. Dá que possamos nos entregar em confiança à pequena criança que há de vir. Amém.
Bibliografia FITZMEYER, Joseph A. El evangelio segun Lucas. Madrid: Cristiandad, 1986. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3. ed. São Paulo: Teológica, 2002.
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PRÉDICA: MIQUEIAS 5.2-5a
4o DOMINGO DE ADVENTO
LUCAS 1.39-45 (46-55) HEBREUS 10.5-10
20 DEZ 2009
Manoel Bernardino de Santana Filho
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Introdução
Um dos grandes problemas da sociedade hoje é o medo da solidão. Apesar e por causa da globalização, do desenvolvimento de diversas formas de comunicação pessoal, o número de pessoas solitárias aumenta a cada dia. Copacabana, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, é o bairro que concentra o maior número de pessoas solitárias do Brasil. Pessoas de alto poder aquisitivo, que, por isso mesmo, foram se isolando mais e mais do contato com outras pessoas e estão envelhecendo na solidão, da qual não mais conseguem fugir. A solidão é produzida por diversos fatores, entretanto, por mais que se tente resolver, tal problema tem aumentado dia a dia. Daí porque as narrativas sobre o nascimento de Jesus adquirem uma importância singular: os evangelistas afirmam que Deus não é um Deus solitário. Deus é Deus de comunhão, de partilha, de estar junto, Deus que faz parceria com o ser humano, que compartilha suas alegrias e tristezas, que se faz presente em todas as horas. Portanto Deus é o Deus que não nos deixa sozinhos, solitários, desamparados, e essa mensagem é revelada em toda a Bíblia, pois Deus é revelado como Deus de companheirismo, amizade e relacionamentos. Hoje, ao comemorar o Natal, lembre-se que ele significa a presença de Deus em meio a seu povo. Então não desanime. Por maiores que sejam as dificuldades, não deixe que o pavor da solidão se abata sobre sua vida, porque não estamos sós. Deus está conosco. Jesus é nascido. Ele se faz presente em nossa vida e quer o melhor para mim e você. Nunca estamos sozinhos!
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O texto
“E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me saíra o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. Portanto o Senhor os entregará até ao tempo em que a que está em dores tiver dado à luz; então, o restante de seus irmãos voltará aos filhos de Israel. Ele se manterá firme e apascentará o povo na força do Senhor, na majestade do nome do Senhor seu Deus; e eles habitarão seguros, porque agora será ele engrandecido até aos confins da terra. Este será a nossa paz.”
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Exegese
O livro do profeta Miqueias orienta-se pela sequência de palavras de desgraça e salvação. Pode-se dividi-lo em quatro partes: 1. 1.2-3.12 (desgraça) 2. 4.1-5.14 (salvação) 3. 6.1-7.7 (desgraça) 4. 7.8-20 (salvação) O título de 1.1 atribui o livro a Miqueias de Moreshet Gat, cidade situada a 35 km a sudoeste de Jerusalém, onde ele era ancião do clã ou da localidade. Isso o levou a estabelecer contato com a capital Jerusalém por motivos funcionais. Miqueias é também chamado de “Amós do Reino do Sul”. Com Amós ele tem em comum a sensibilidade pelos abismos sociais e pelos problemas e causas estruturais. As palavras de desgraça (Mq 1-3 e 6.1-7.7) constituem uma crítica maciça ao Estado e à sociedade que enfrenta sem tolerância a ordem econômica que arruinava os pequenos agricultores no período médio do reinado e no início da época pós-exílica. Os agricultores estavam sendo liquidados pela prática sistemática e inescrupulosa do endividamento. Isso levou à destruição da ordem social igualitária, que se assentava, no século VIII a.C., sobre o princípio: um homem, um campo, uma casa. Miqueias é uma denúncia contra o estabelecimento de uma sociedade de classes, promovida pelos ricos latifundiários, que demanda exigências de exploração dos pequenos agricultores. Tudo isso levou à decadência social e à perda da solidariedade. Portanto nossa perícope se coloca dentro da mensagem de salvação e gira em torno da renovação de Sião enquanto lugar de justiça abrangente, o que fascina as nações e conduzirá ou à espontânea transformação do armamento bélico (espadas em relhas de arado e lanças em podadeiras, 4.3) ou à destruição violenta de todos os equipamentos de guerra e ídolos. Miqueias projeta a visão de um novo começo messiânico, que virá não em Jerusalém, mas em Belém, cidade natal de Davi, pelo nascimento de um “soberano de paz” (Is 7.14-17; 9.1-6; 11.1-9). Mateus e Lucas recorreram (Mt 1-2; Lc 1-2) a Miqueias 4-5 para proclamar, à luz dessa promessa, Jesus como portador messiânico de justiça e paz. Miqueias identifica a pequena cidade como lugar do nascimento do futuro Messias. Com dezenas de cidades na região, a escolha de Belém torna-se uma profecia notável. E se Maria tivesse demorado apenas mais 24 horas na viagem de Nazaré a Belém, Jesus teria nascido fora da cidade proferida pela profecia messiânica (Mt 2.5). Se essa profecia de Miqueias não se tivesse cumprido, toda a estrutura profética do Antigo Testamento teria caído com ela. O lugar do nascimento é tão exatamente predeterminado, que os fariseus e os escribas, quando consultados a respeito por Herodes, sem vacilar citam o nosso texto. Beth-lehem, a cidade de Davi, antigamente teve o nome de Efrata (Jo 7.42; Gn 35.19; 1Sm 17.12). Era o lar da família de Noemi (Rt 4.11), dos descendentes
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de Rute, como Davi (Sl 132.6); eram os antigos efratitas. A pequena cidade não pertencia aos “milhares”, pois a sua população não chegava a isso. Foi pois, em si, uma cidade de pouca importância. Na época de Davi, como lugar do nascimento desse rei, se tornou conhecida. Efrata quer dizer “frutífera”. O profeta, humilde cidadão de uma vila inexpressiva, alegrou-se com a revelação divina de que o Cristo nasceria numa cidadezinha parecida com a sua, e não na imponente capital. A revelação confirmou que o futuro soberano de Belém reinaria e, mais ainda, que ele seria um ser que existe “desde os dias da eternidade” (5.2). Ele teria o coração de pastor para apascentar o povo e a força necessária para cumprir o propósito de Deus (5.3). Não é que ele viria simplesmente para impor a paz: Miqueias afirma que “ele será a paz” (5.5). Paz universal, paz implantada no coração de cada pessoa, não resultado de qualquer pressão externa. A tradução literal é: “este (homem) será paz”. Outra versão diz: “e este homem será a paz”, a paz personificada: ele conquistará e transmitirá a paz. Desde o cântico dos anjos (“Paz na terra”; Lc 2.14) até as saudações do ressuscitado: “Paz seja convosco” (Jo 20.19), ele, em toda a sua atividade, em todas as suas palavras, comprova ser o prometido Príncipe da Paz. É essa mensagem que os profetas anunciaram, que os apóstolos e evangelistas proclamaram mundo afora: Nele, e só nele há paz com Deus. Deus escolheu esse homem simples, Miqueias, para ser o porta-voz de acontecimentos que se cumpririam alguns séculos depois. Após longa demora, o mundo ouviu a proclamação dos anjos: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra entre os homens”. Nascia Jesus, o Príncipe da Paz, que no seu ministério declarou: “A minha paz vos dou” (Jo 14.27). Não é a paz instável das políticas humanas, mas a paz duradoura da reconciliação com Deus por meio de Jesus Cristo. Temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 5.1).
4 Meditação A profecia de Miqueias trata de justiça e esperança. Essa pequena profecia, não em qualidade, mas na dimensão física de seu texto, contém uma das mais belas mensagens de toda a Bíblia. O Miqueias histórico foi contemporâneo de Isaías e Oseias. Diante da opressão do pobre e da corrupção moral, ele e seus companheiros foram solidários com os menos favorecidos. Miqueias se alegrou, como humilde cidadão, com a revelação de que o Cristo nasceria numa cidade semelhante à sua. A revelação confirmou ainda que o menino seria o próprio Filho de Deus. Como Isaías, viu o futuro Messias. Como Oseias e Amós, que denunciaram a opressão do pobre e a corrupção moral e espiritual, Miqueias reflete em seu texto os ecos dessas advertências proféticas. Anuncia que ele será a nossa paz. Não a paz instável das políticas estabelecidas por formas de governos. Nem a paz estabelecida por alianças espúrias, por conveniências de Estado. Políticas de paz que Israel conhecia muito bem por ter diversas vezes tentado livrar-se de seus inimigos, estabelecendo relações iníquas com nações que não queriam seu bem.
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Estamos vivendo dias que chamamos de expectativas do Advento. Vemos que cada evangelista procurou dar um enfoque diferente àquilo que seria o acontecimento mais importante de todos os tempos: o nascimento do Messias. Lucas apresenta a narrativa do ponto de vista de Maria. Ali vemos a maneira como ela encarou todos os acontecimentos relacionados ao nascimento: o espanto, o temor, a submissão. Mateus apresenta a narrativa do ponto de vista de José. É com esse homem simples que aprendemos muitas coisas sobre nossa relação com Deus. Vivemos em um mundo mágico onde a fé simples e racional dá lugar a crendices, misticismos, horóscopos. É verdade que precisamos não racionalizar completamente a nossa fé. É necessário perceber um certo “rumor de anjos” em nossa sociedade (Peter Berger). Quantas vezes não descremos da maneira como Deus pode vir falar conosco? Deus enviou um anjo para esclarecer as dúvidas do coração aflito de José e também de Maria. Precisamos estar atentos à voz de Deus, porque a vontade dele é sempre esclarecer nossas dúvidas. Mas o “anjo” pode ser uma pessoa próxima, pode ser um irmão, pode ser alguém estranho, como pode ser alguém do meu convívio, que Deus usa para esclarecer meus espantos. O autor aos Hebreus afirma que homens houve que sem saber “acolheram anjos” (Hb 13.2). Por isso não se deve desprezar a palavra de ninguém. É preciso ponderar todas as coisas, pois aquele que você rejeita pode ser o porta-voz de Deus para esclarecer suas dúvidas e acabar com seu tormento. Advento é tempo de revelação da verdade de Deus. Maria confrontou seu esposo. Confrontou a verdade. Jesus é aquele que vai nos levar à verdade, mas é certo que muitos haverão de rejeitar essa verdade. Será que estamos dispostos, prontos, para enfrentar os desafios da verdade de Deus em Cristo? O Senhor nos chama à verdade. Estranha para alguns, mas verdade. Sempre verdade. Advento é a coragem de ser mãe. Preparar o ventre para a salvação. Ali em Belém Maria teve seu Filho, Salvador do mundo. Muita gente diz sim aos planos de Deus, mas não tem coragem de ir adiante. É tempo de salvação, de reconciliação, de paz. O mensageiro anuncia a salvação e sai de cena. Anuncia sua mensagem e vai embora. É Cristo quem precisa ficar em seu coração. Ele é a mensagem de Deus encarnada, que vem dar um novo sentido à nossa vida. Advento é o anúncio de que algo prometido virá para renovar a nossa vida e responder à nossa angústia. O Natal nos anuncia que toda vida é sagrada e remete a um mistério sacrossanto. Portanto todo atentado contra a vida é uma agressão ao próprio Deus. Estamos falando de Natal, mas vivemos em um constante estado de guerra, seja em nível mundial, seja em nível da nossa sociedade. Conflitos étnicos, econômicos e sociais eclodem em toda parte. Nossas cidades são assoladas pela violência cotidiana. Não é muito diferente dos dias de Acaz. Isaías remete-nos ao tempo da guerra. Judá, o Reino do Sul, estava sob ameaça de invasão bélica. Uniram-se, na época, o rei da Síria e o rei de Israel (Reino do Norte) e atacaram Jerusalém. Isso gerou grande angústia nos moradores de Jerusalém, a ponto de o texto bíblico
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dizer que “o povo ficou com tanto medo que tremia como varas verdes” (Is 7.2, de acordo como a Bíblia na Linguagem de Hoje). Foi nessa circunstância que Deus levantou o profeta Isaías para transmitir ao rei Acaz uma mensagem de conforto. Deus queria que o rei Acaz lhe pedisse um sinal, mas esse se recusou. Então Deus falou por intermédio do profeta Isaías: “O Senhor mesmo lhe dará um sinal: a jovem concebeu e dará à luz um filho e porá nele o nome de Emanuel, Deus conosco” (Bíblia de Jerusalém). O termo hebraico almah significa jovem ou jovem casada, sem filhos. É um termo que é aplicado a Miriã (Êx 2.8), que tinha 14 anos, e a Rebeca (Gn 24.16). Jovem aqui não é virgem. Diz respeito apenas a uma jovem mulher, independente de sua condição sexual. Isaías estava se referindo à jovem esposa de Acaz, grávida do herdeiro do trono. Provavelmente se esperava que o sucessor fosse o Messias, aquele que reuniria de novo Israel e Judá e promoveria a paz. Isso fica evidente no capítulo 9, quando Isaías celebra o nascimento de Ezequias, herdeiro de Acaz, dizendo: “Já nasceu uma criança, Deus nos deu um menino que será nosso rei. Ele será chamado de Conselheiro-Maravilhoso, Deus-Forte, Paieterno, Príncipe da paz”. Esses títulos são comparáveis ao protocolo que era preparado para o faraó quando de sua coroação. O menino de estirpe real terá a sabedoria de Salomão, a bravura e a piedade de Davi e as grandes virtudes de Moisés e dos patriarcas (11.2). A tradição cristã que se exprime na liturgia de Natal, ao dar esses títulos a Cristo, mostra que Ele é o verdadeiro Emanuel. De fato, Ezequias é muito elogiado (2Cr 29). Mas não era o Messias, e o próprio Isaías irá reconhecer isso. Na mensagem do Novo Testamento, que relê os textos proféticos a partir da nova realidade inaugurada por Cristo, pela morte e ressurreição do Senhor irá compreender que Ele sim é o Messias. Por isso Mateus, ao compor seu texto, recorre àquele episódio entre Isaías e Acaz. Só que ele usa a versão da Septuaginta, que traduz almah (jovem) por virgem. Essa tradução trouxe alguns problemas para a fé cristã, tais como o horror à sexualidade e a valorização da virgindade como estado ideal. Mas o que importa é a mensagem nas entrelinhas do texto: Jesus sim é o Emanuel, o Deus conosco, o próprio Deus em forma de criança. Deus veio ao mundo na forma de criança; criança pobre, envolta em panos. Essa criança trouxe paz e luz a todas as nações (Is 9.1). O povo esperava o Messias, e naquela noite, em Belém, a espera findou. O nascimento de Jesus se deu em circunstâncias desfavoráveis. Tempos ruins, de dominação estrangeira, como nos dias de Isaías. José e Maria foram a Belém porque o imperador Augusto ordenou um recenseamento. Veja as semelhanças entre os textos de Isaías e Lucas: O povo estava em trevas. E Lucas afirma que aos pastores da noite sobreveio uma grande luz (Lc 2.9). O homem sem Deus está diante das trevas da noite e da escuridão. Os pastores foram as primeiras testemunhas desse fato inusitado. Eram gente desprezada; aos olhos da elite, gente sem classe. Deus subverteu tudo. Não apareceu nos palácios, nem nos templos. Pastores, gente humilde, à margem da socie-
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dade, foram as testemunhas do maior evento da humanidade. A luz brilha para a humanidade a partir dos menores. Finalmente, é preciso dizer que muitos hoje experimentam suas vidas como que envoltas em penumbra e trevas. Hoje há muitos famintos e outros tantos desempregados, pessoas enfermas, com problemas familiares. E o que é pior: sem esperanças. Não há maior escuridão do que essa, ou seja, quando andamos como cegos, desorientados e sem esperanças. A grande promessa de Deus é esta: “Uma grande luz brilhando na escuridão”, discernindo caminhos, oferecendo orientação diretamente do Maravilhoso Conselheiro e prometendo a paz outorgada pelo Príncipe da Paz.
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Imagens para a prédica
5.1 – Vamos a Belém encontrar o rei Jesus é o grande presente, é a promessa de Deus aos homens. Ele é o rei prometido desde os tempos antigos. Isaías diz: “A glória do Senhor nasce sobre ti”. Mas é o mesmo profeta que também prediz o nascimento do Messias: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (9.6). Os reis deste mundo são inacessíveis. Não se pode falar com eles em qualquer lugar. Nem mesmo podemos falar com eles por nossa própria vontade. Mas Jesus é um rei diferente. Ele está sempre à disposição. Qualquer um de nós pode chegar até ele com nossas orações. 5.2 – Vamos a Belém encontrar o amor Todos conhecem a mensagem de João: “Porque Deus amou o mundo ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (3.16). Aqui o autor tenta expressar o amor de Deus por nós. Ele amou o mundo e deu seu filho. Em Belém, encontramos esse maravilhoso presente de Deus. Ali, no estábulo, nasceu aquele que foi preparado por Deus para dar sua vida em nosso lugar. Deus manifestou sua graça e misericórdia enviando seu filho amado. Deus é amor. Em Belém encontramos o amor de Deus encarnado. Maravilhoso amor. Somente aquele que teme a Deus é que pode, pelo Espírito Santo, entender a dimensão desse amor. Não sabemos falar de Deus, mas, quando agradecemos a Deus, é porque o Espírito Santo nos dá condições de dizer: “Senhor Jesus”.
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5.3 – Vamos a Belém encontrar o perdão O Messias veio por causa de uma dívida que precisava ser paga, e nós, nenhum de nós tinha condições de pagar. Se Deus tivesse outra maneira de pagar essa dívida, não há dúvida que ele teria poupado seu filho. Mas não havia. A lei requeria um cordeiro inocente, sem mácula, para cobrir o pecado da humanidade. Nos antigos sacrifícios da lei, os animais oferecidos em sacrifício deviam ser os melhores do rebanho. Não podia ser aleijado, nem doente. Precisava ser são. Mas por mais perfeito que fosse, ainda assim não era o sacrifício perfeito. A Carta aos Hebreus nos diz que tudo aquilo eram sombras daquilo que viria depois em forma perfeita (10.1s). Deus em Cristo nos concedeu o perdão completo. Não há mais dívida. Seu sacrifício cobriu todos os nossos pecados. Deus nos ofereceu o perdão. Estamos perdoados e nele não há mais contas a pagar. Ele pagou tudo. 5.4 – Vamos a Belém encontrar a alegria Os textos que lemos nos falam da alegria da salvação. As boas-novas anunciadas aos pastores de Belém diziam: “Eis que vos trago boa nova de grande alegria...” Jesus é nossa salvação, mas essa salvação deve se traduzir em alegria pelo perdão alcançado. Somos agraciados. Jesus é a nossa alegria. Evangelho é boas-novas. 5.5 – Vamos a Belém encontrar a paz Ele é a nossa paz. Justificados em Cristo, temos paz com Deus (Rm 5.1). Não há paz com Deus senão por meio de Cristo Jesus. Ele é aquele que nos proporcionou a paz. Mas é preciso tomar uma atitude: Em Jesus temos o rei, o amor, o perdão, a alegria e a paz. Mas é preciso ir a Belém. A palavra Belém quer dizer: “Casa do pão”. Não há nome mais apropriado. Jesus é o pão da vida, o alimento que todos precisam para não mais sentir fome.Ele preenche nosso vazio. Você quer saciar sua fome, quer encontrar o rei, quer sentir-se amado, quer o perdão, quer sentir-se alegre e quer a paz? Então tome a direção de Belém. Vá a Belém, para não dizer, vá até Cristo. Dirija-se a ele. Busque a ele. Coloque sua vida e seus projetos diante dele. E o vazio de sua existência desaparecerá. Nesta noite de Natal, lembre-se de que Jesus nasceu para nossa alegria. Alegre-se com o que ele nos oferece. Vá até Belém. Vá até Jesus.
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Subsídios litúrgicos
Magnificat: O Senhor fez em mim maravilhas. Santo é seu nome. A minha alma engrandece o Senhor, meu espírito Exulta em Deus, meu Salvador. Pôs os olhos na humildade de sua serva, Doravante toda terra cantará os meus louvores. O Senhor fez em mim maravilhas. Santo é seu nome. Seu amor sempre se estende Sobre aqueles que o temem. Demonstrando o poder de seu braço, Dispersa os soberbos. Abate os poderosos de seus tronos E eleva os humildes. Sacia de bens os famintos, Despede os ricos sem nada. Acolhe Israel seu servidor, Fiel ao seu amor. E à promessa que fez a nossos pais, Em favor de Abraão e de seus filhos para sempre. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, Desde agora e para sempre, pelos séculos. Amém.
Bibliografia BIBLIA SAGRADA. Sociedade Bíblica do Brasil. Versão Revista e Atualizada. Brasília. 1969. BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulinas, 1986. BERGER, Peter. Rumor de Anjos; a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. BRUEGGEMANN, Walter. A Imaginação Profética. Tradução: José Wilson de Andrade. São Paulo: Paulinas, 1983. ZENGER, Erich et al. Introdução ao Antigo Testamento. Tradução:Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2003.
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PRÉDICA: LUCAS 2.1-7
NOITE DE NA NATTAL
ISAÍAS 11.1-9 ROMANOS 1.1-7 OU GÁLATAS 4.4-7
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Vera Cristina Weissheimer Deus estava louco de paixão pela humanidade, quando olhou para este mundo e disse: ‘Vou visitá-lo!’ E veio! E, como os apaixonados cometem loucuras, fez-se carne e habitou entre nós de forma simples, humilde e cheia de amor. Nasceu em Belém, que não tinha cinco estrelas. Apenas uma clara e bonita para anunciar a louca paixão de Deus por todos nós.
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Introdução
“Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” Apocalipse 21.3-4 São trechos que remetem aos profetas Ezequiel e Isaías, que há quase três mil anos foram impelidos a manifestar os juízos de Javé ao povo de Israel, exortando-o à conversão e fortificando a sua fé no aguardo não de um “salvador da pátria”, mas do próprio Senhor Deus, que viria em breve morar junto com os seus, dando uma nova vida, de igualdade e justiça, a todos os homens e mulheres. É até um tanto engraçado que mais ou menos por volta do ano 5 a.C. o primogênito de Maria, Yehoshu’a ben Yosef, nasça na pequena Belém da Judeia. O problema desse ligeiro adiantamento está na fixação do calendário durante a Idade Média. No entanto, isso é o que menos importa, pois um grande número de pessoas, que a princípio era pequeno – constituindo-se em mais um grupo do judaísmo daquele período –, crê que essa criança, nascida do mesmo modo como nós, em condições tão precárias quanto a de qualquer criança excluída pelo sistema por nós mesmos criado, é o próprio Deus feito homem, feito carne, feito gente. Só mesmo sendo Deus para se fazer tão, mas tão humano.
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Noite de Natal
Neste Natal comemoramos não o aniversário de Jesus, mas sim a sua encarnação em nosso meio, aliás coisa muito mais significativa.
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Exegese
O evangelista escolhe a brevidade e a simplicidade para narrar o nascimento do salvador. O Messias nasce como qualquer um de nós: “No ventre materno foi esculpida minha carne... também eu respirei o ar comum, e ao cair na terra que todos pisam, estreei minha voz chorando, como todos; criaram-me com mimo, entre cueiros” (Sabedoria 7.3-6; Gálatas 4.4). No entanto, mais pobremente do que a maioria: “As raposas têm tocas, as aves têm ninhos, mas este Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9.58). V. 1 – Os planos humanos de poder, controle e domínio sobre a população (recenseamento) se subordinam ao plano divino, como é anunciado pelo profeta: o Messias, como descendente de Davi (1Sm 16.1; Mq 5.1). “No sexto mês, Deus enviou o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem prometida a um homem chamado José da família de Davi” (Lc 1.27). São 42 gerações ao todo, de Adão, passando por Davi, até o Messias. Uma genealogia entre carpinteiros e reis. Mencionar a genealogia de Jesus não é um mero detalhe nessa história. Assim os evangelistas mostram que Deus fincou raízes entre a humanidade. Ao alistar-se, José, Maria e o menino que está por nascer entram oficialmente na lista dos súditos do imperador Augusto (30 a.C.-14 d.C.). Jesus nasce como súdito do imperador do mundo de então. V. 2 – Para explicar discrepâncias históricas, alguns traduzem: “Este recenseamento foi precedente/anterior ao governo de Quirino/Cirênio na Síria”. V. 4 – Sobe-se à Judeia e a Jerusalém: primeira subida para nascer; chegará outra para morrer (9.51). Belém é a cidade de origem de Davi, não de reinado (1Sm 16; Mq 5.2). A palavra Bet-lehem significa a casa do pão; o que, aliás, é uma bela imagem para a prédica. O pão vivo que vem para saciar nossa mais profunda fome. V. 5-6 – Uma jovem israelita chamada Maria aguardava de forma mais intensa do que qualquer outra pessoa a vinda do Messias. Depois de haver aceito a inusitada gravidez, Maria passou a carregar em si uma esperança ainda mais concreta. Uma certeza que os outros ainda não poderiam ter. Ela estava grávida. Ela era o barco que singrava pelas areias de Nazaré e vinha carregado de uma novidade ainda secreta. Nove meses de espera, de alegria e de dificuldades, nove meses de certezas e dúvidas. Mas, antes de tudo, eram nove meses de gestação. Algo novo estava sendo criado, algo muito novo estava por nascer. O mundo passaria a conhecer uma nova imagem de Deus — não mais um Deus distante, riquíssimo e poderoso, mas um Deus próximo, humano, nascido de uma mulher. Enquanto todos continuavam suas vidas, esperando a salvação para um futuro qualquer, Maria gestava e carregava o futuro em seu útero. Engravidar antes do casamento, e não do noivo, José, era no mínimo um disparate para a comunidade em que eles
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Noite de Natal
viviam. Era preciso coragem. Ela era a única que tinha certeza da chegada do filho de Deus. Mais do que isso: Ele já se encontrava com ela! E nós? Como acontece conosco hoje? A história de Maria mostra-nos a diferença entre uma espera passiva, que simplesmente aguarda o passar do tempo, e uma espera que se deixa seduzir pelo toque divino. V. 7 – Manjedoura – Além das representações tradicionais, podia tratar-se de uma casa semiescavada na rocha ou de uma gruta adaptada como moradia, com uma parte destinada à habitação familiar e outra parte destinada a ser estábulo.
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Meditação Quando Deus inverte tudo
É um desafio meditarmos sobre os textos natalinos, pois eles já foram tão usados, que quem fala deles dificilmente escapa de repetir o que outros já falaram. Ao mesmo tempo, de tanto serem usados, lidos e relidos, esses textos ficam familiares, íntimos de nosso pensamento, e acabamos por não perceber suas qualidades e sutilezas. Por isso, mais uma vez voltamos a eles, mas buscando detalhes que normalmente são esquecidos ou enfeitados. É. São enfeitados. Temos uma certa dificuldade em ver aquele menino deitado entre palhas. O Salvador, o Cristo-Senhor, será encontrado como recém-nascido numa estrebaria – num estábulo – e como criança. Ele não vem como guerreiro, superherói. Vem frágil. Vem como criança. A maioria das traduções faz uma troca por “manjedoura”. Essa palavra é mais bonita; é até poética. Usamos a palavra manjedoura para diminuir o impacto. Jesus então nasce numa manjedoura porque na casa principal não havia lugar. É como tentar tapar o sol com a peneira: o sentido do Natal foi “amansado”. Construímos presépios perfumados, com jogos de luzes, vaquinhas de carinhas angelicais, numa festa em que o tamanho dos presentes importa, e muito. É difícil ler que Jesus nasceu num estábulo porque não havia outro lugar para ele. Mais uma vez, temos uma inversão. A concretização de nossas esperanças vem de onde ninguém pode esperar: de um recém-nascido num estábulo. Inversões que nos levam a pensar. Esse singelo texto que aparece nos evangelhos e é revisitado todos os natais, que tanto nos emociona nos teatros natalinos das crianças, traz em cada palavra um forte desafio. Um desafio que se encontra presente no cristianismo e deve nos questionar hoje. Enquanto a religião oficial esperava a salvação de Deus vinda de um guerreiro manifestando-se aos puros, o Messias surge em meio ao cheiro de esterco de animais, tendo como uma das primeiras visitas os pastores de ovelhas, um grupo que não merecia muita confiança na época. Não é interessante? Deus inverte a lógica das coisas. Deus inverte a lógica de nossa vida. Quando não acontece o que desejamos, acontece o que necessitamos. E isso geralmente é melhor do que tí-
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nhamos capacidade de sonhar. Ou não estávamos preparados para aquilo que tanto sonhamos e planejamos. O menino Jesus brinca com os sonhos e vira uns em cima dos outros, diz Fernando Pessoa em “O guardador de rebanhos”. “Num meio-dia de fim de primavera, Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que Ele é o Menino Jesus verdadeiro. A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E a outra a tudo o que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver. Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum, Que é o de saber por toda a parte Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena. Ele dorme dentro da minha alma e às vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos. Vira uns de pernas para o ar. Põe uns em cima dos outros E bate as palmas sozinho, Sorrindo para o meu sono. Esta é a história do meu Menino Jesus. Por que razão que se perceba Não há de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filósofos pensam E tudo quanto as religiões ensinam?” (Do “Guardador de Rebanhos”, de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro)
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Quando achamos que somos senhores de nossa vida, a própria vida nos mostra o contrário. Ela nos mostra caminhos diferentes e nos emociona com a simplicidade de cada Natal. Recebi num desses natais um cartão que dizia o seguinte: “Natal é muito simples. É um menininho que nasceu em meio aos bois, vacas, ovelhas, cavalos, jumentos. Era um menininho pobre. Mas diz a história que, quando ele nasceu, aconteceu uma mágica com o mundo: tudo ficou diferente”. Na noite do Natal, antes da ceia, antes de abrir os presentes, por favor, contem a história do menininho.
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Imagens para a prédica
É possível contar essa história de diversas maneiras. Por exemplo, jogando estrelas (pode-se confeccionar com um grupo da comunidade estrelas de diversas cores e somente uma verde). A história da estrela verde Eram uma vez... milhões e milhões de estrelas no céu. Havia estrelas de todas as cores: brancas, prateadas, douradas, vermelhas, azuis. Um dia, elas procuraram o Senhor Deus, Todo-Poderoso, o Senhor Deus do Universo, e disseram-lhe: – Senhor Deus, gostaríamos de viver na Terra entre as pessoas. – Assim será feito, respondeu Deus. Conservarei todas vocês pequeninas, como são vistas, e podem descer à Terra. Conta-se que naquela noite houve uma linda chuva de estrelas. Algumas se aninharam nas torres das igrejas, outras foram brincar e correr com os vagalumes no campo, outras misturaram-se aos brinquedos das crianças, e a Terra ficou maravilhosamente iluminada. Porém, passado algum tempo, as estrelas resolveram abandonar as pessoas e voltar para o céu, deixando a Terra escura e triste. – Por que voltaram?, perguntou Deus, à medida que elas chegavam ao céu. – Senhor, não nos foi possível permanecer na Terra. Lá há muita miséria, muita desgraça, muita fome, muita violência, muita guerra, muita maldade e muita doença. E o Senhor lhes disse: – Claro, o lugar real de vocês é aqui no céu. A Terra é o lugar do transitório, daquilo que se passa, do ruim, daquele que cai, daquele que erra, daquele que morre, é onde nada é perfeito. Aqui no céu é o lugar da perfeição. O lugar onde tudo é imutável, onde tudo é eterno, onde nada padece. Depois de chegarem todas as estrelas, e conferindo o seu número, Deus falou de novo: – Mas está faltando uma estrela. Perdeu-se no caminho? Um anjo que estava perto retrucou:
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– Não, Senhor. Uma estrela resolveu ficar entre os homens. Ela descobriu que seu lugar é exatamente onde existe imperfeição, onde há limites, onde as coisas não vão bem. – Mas que estrela é essa?, voltou Deus a perguntar. – Por coincidência, Senhor, era a única estrela dessa cor. – E qual é a cor dessa estrela?, insistiu Deus. E o anjo disse: – É a estrela verde, Senhor. A estrela do sentimento de esperança. E quando então olharam para a Terra, a estrela não estava só. A Terra estava novamente iluminada, porque havia uma estrela verde no coração de cada pessoa. Porque o único sentimento que o homem tem e que Deus não tem é a esperança. Deus já conhece o futuro, e a esperança é própria da natureza humana. Própria daquele que cai, daquele que erra, daquele que não é perfeito, daquele que ainda não sabe como será seu futuro.
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Subsídios litúrgicos
Um responsório para o início do culto, uma oportunidade para valorizar as velas da coroa de Advento: Todos: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz...” Acendemos a primeira vela. Todos: “Vejam, estou mandando o meu mensageiro para preparar o caminho à minha frente”. Acendemos a segunda vela. Todos: “Terminou para Israel o tempo de gravidez e ela deu à luz um filho...” Acendemos a terceira vela. Todos: “Alegrem-se o deserto e a terra seca, o campo floresce de alegria...” Acendemos a quarta vela. Oração de Natal: Senhor, esperávamos-te maior, e vieste na fraqueza de uma criança. Esperávamos-te numa outra hora, e vieste no silêncio da noite. Esperávamos-te poderoso como um rei, e vieste ser humano e frágil como nós. Esperávamos-te de outra maneira, e vieste assim tão simples. Quase não havia quem te reconhecesse ao ver-te assim, tão homem. Nós havíamos feito uma ideia de ti, e vieste, Senhor, rompendo todo o previsto. Dá-nos fé para crer em ti e reconhecer-te assim como vieste. Fortalece nossa esperança para confiar em ti, na simplicidade em que vieste. Ensina-nos a amar como tu amas, que sendo forte te fizeste fraco para ser nossa força em todo momento e pelos séculos dos séculos. Amém. (J. J. Coma)
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Credo de Natal: Cremos em Deus, que se tornou gente para chegar mais perto da humanidade. Cremos em Jesus Cristo, Deus feito gente, e no poder do evangelho, que começou em Belém. Cremos naquele para quem não havia lugar para hospedar-se e teve pastores de ovelhas como primeiras testemunhas do seu nascimento. Cremos naquele cuja vida transformou o curso da história e a quem os reis da terra desprezaram e a humanidade orgulhosa não conseguiu compreender. Cremos naquele a quem os pobres, os oprimidos, os tristes, os enfermos, os cegos e os leprosos deram as boas-vindas e o aceitaram como Senhor e Salvador. Cremos naquele que, por meio do amor, transformou os corações de homens e mulheres. Cremos na paz, no perdão e na reconciliação e no poder transformador do evangelho. Cremos que este mundo pode transformar-se através da humildade e fé. Cremos que ele faz soprar em nossas vidas o poder do seu Santo Espírito para nos animar, capacitar e inspirar. Cremos no verdadeiro sentido do Natal. Amém.
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PRÉDICA: TITO 3.4-7
NA NATTAL DE NOSSO SENHOR
ISAÍAS 62.6-12 JOÃO 1.1-14
25 DEZ 2009
Manfredo Siegle
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Preliminares
Eis aí um texto de prédica cujo escopo destaca Deus e Cristo como agentes de salvação. Pela fé, os seguidores e as seguidoras de Cristo têm acesso à esperança da vida eterna. “A fim de que, justificados por graça, nos tornemos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna” (v. 7). Em comparação com o texto previsto para a Véspera do Natal, Lucas 2.1-7, a perícope que fundamenta a prédica do 1º Dia do Natal poderá apresentar dificuldades de contextualização. Embora seja possível estabelecer associações ao evento do Natal, o texto da Epístola de Tito revela um teor abstrato com características dogmáticas. Justifica-se, pois, a pergunta pela relação direta entre o texto e o acontecimento do Natal. Não é tarefa difícil descobrir, no Novo Testamento, uma série de textos que se esmeram em interpretar e atualizar o milagre da revelação de Deus a partir da história da criança Jesus Cristo. Não faltam os testemunhos que relacionam e comprometem esta história com a vida dos seguidores e das seguidoras, cujas existências sofreram transformações profundas. O que valeu para os cristãos das primeiras gerações continua sendo válido também para nós na atualidade, depois de dois mil anos de história do cristianismo. Festejamos o nascimento de Cristo na perspectiva do tempo pós-pascal. Lembramos da criança, festejamos o seu nascimento, porque a Páscoa se tornou realidade. O Príncipe da Paz, executado pelo poder de ocupação romana na cruz de Gólgota, e o Cristo ressuscitado na Páscoa são a mesma pessoa. Em verdade, a trajetória da cruz já está sinalizada no fato de que aquela criança não tinha lugar direito para nascer. Restou uma manjedoura, berço humilde, na estrebaria localizada na miserável Belém.
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O dia
O casuísmo que inunda o grande Dia do Natal é notório e enfático. O Dia do Natal, todo tempo que o envolve, apresenta-se como período conturbado. O movimento é intensivo nas estradas, no comércio, nos bancos, nas famílias. A máquina geradora do ativismo estressante, sobretudo no mês de dezembro, está bem presente. Suas marcas são contundentes: sobressaem as compras dos presentes, assinalam a necessidade da faxina geral em casa, geram a expectativa
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nervosa diante das visitas anunciadas ou daquelas que nós mesmos faremos. Esse modelo de invólucro, onde se enfiam tantos compromissos, contrasta com a mensagem simples do nascimento de Deus. Deus quer felicitar a humanidade pelo nascimento de seu Filho para salvação de toda a humanidade. Enquanto Deus vem para reconquistar a dignidade do ser humano e curar as feridas existenciais, a sociedade humana está empenhada para um mundo nervoso e cheio de contradições. Não tarda para que o menino nascido mensageiro da paz seja devolvido bem depressa e “em glória” aos céus. Em razão do seu impacto emocional, a festa natalina é explorada intensivamente, sem escrúpulos, pelo mercado consumista. É impossível ficar alheio ou passivo diante do assédio publicitário fantástico e típico, anunciando que a felicidade do Natal passa pela aquisição de artigos natalinos. O brilho que se espalha maravilhosamente, somado à magia que emana da festa do Natal, faz suspeitar que a tendência humana é glorificar o Cristo, por tempo concentrado e limitado, para devolvê-lo, o mais depressa possível, às alturas dos céus. É atitude muito tranquila assegurar que, até o ano seguinte, Cristo o Messias aguardado e mandado do céu, o mensageiro da paz, tem o seu lugar garantido nas regiões celestiais. A imagem desse Deus, assim glorificado por falsa religiosidade até as alturas do céu, é, na realidade, um Deus distante. Jesus, o Messias esperado, o Deus encarnado e próximo à vida humana, vem para ficar, para iluminar a escuridão de um mundo em descompasso. Jesus Cristo nasce para promover transformações profundas na existência da humanidade fragilizada. O Filho de Deus veio para revolucionar as estruturas do mundo gerenciado por senhores vidrados em autossuficiência. Em razão das suas posições de soberania, declaram a morte de Deus. A humanidade finge viver o sentimento de aparente tranquilidade em relação ao Deus que se afasta para longe e que é festejado no céu, a distância. A cada novo ano, a festa celebrada no Natal do Príncipe da Paz focaliza sempre mais o Natal-Luz, o culto ao bom velhinho de barba branca, o Papai Noel. O acontecimento central, o verdadeiro eixo do Natal, no entanto, é marginalizado, permanece encoberto por falsa religiosidade, porém sem maiores consequências. Continua ausente a grande novidade que irrompeu em meio ao mundo obscuro e de fracassos humanos; mundo esse sem paz e isento de justiça, cheio de violência brutal. Apesar da “invasão” do céu na realidade mundana (Natal), a presença de Deus continua sendo uma presença marginal, na fronteira e longe do centro. Passada a noite santa do dia 24 de dezembro, espaço mágico dos festejos de Natal, terminado o trabalho de abertura dos pacotes de surpresas, acabada a Ceia do Natal e digerida a comilança e bebedeira na véspera, os dias seguintes continuam no embalo do ritmo velho, marcado pela correria e pelo estresse. Continuamos então falando de Deus quando as forças humanas estiverem no limite. Trata-se do deus ex machina em busca de soluções aparentes para os problemas pessoais e do mundo. Ele deixa de ocupar, como Deus diferente, o centro da vila, da roça, da cidade, por vezes até da própria igreja. Para alguns, o 1º Dia do Natal, 25 de dezembro, transformou-se em dia comum, porque o ápice do Natal já aconteceu e o seu significado maior carece de substância. A comunidade que se encontra, nesse dia, em culto – restam somente
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poucas pessoas – tende a avaliar o 1º Dia de Natal do Salvador como se já fizesse parte de uma história do passado. É história que se assemelha aos pastores que, na Vigília do Natal, procuraram aquela estrebaria em Belém, para em seguida voltar às lidas diárias no campo cuidando dos rebanhos. Para outros, o dia 25 de dezembro representa um espaço interessante para o merecido sossego. O dia transforma-se em porta aberta ao descanso e à distensão necessária. Se nos dias anteriores, com seu ponto culminante na Véspera do Natal, as famílias priorizaram a organização das suas festas em âmbito familiar, o 1º Dia do Natal transforma-se num oásis de descanso e de recolhimento pessoal. Por que não?
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O texto
A Epístola de Tito está situada no bloco denominado de cartas pastorais no Novo Testamento. Apresenta-se como se fosse uma carta do apóstolo Paulo, endereçada a seu colaborador Tito (1.14). Esse detalhe evidencia o tamanho da autoridade que o texto da carta requereu para si e a importância que detinha quando da organização do cânon neotestamentário. O documento dirige-se a um dos cooperadores conhecidos de Paulo a Tito. Na ilha de Creta, Tito recebe a tarefa de organizar e ordenar o que não foi possível ao apóstolo Paulo (Tt 1. 5). Foi ele que acompanhou o apóstolo Paulo quando do importante Concílio em Jerusalém. Na oportunidade, algumas comunidades sob a influência judaica passaram por crises de identidade em razão da observância ou não quanto à prática da circuncisão. No Concílio, foi delineada uma estratégia que trouxe orientações às ações missionárias no mundo gentílico (Gl 2.1,3). Tito, cidadão grego e gentio, tornou-se exemplo vivo dos frutos colhidos em função das viagens missionárias empreendidas pelo apóstolo Paulo. Entre os exegetas há consenso de que a carta a Tito, assim como as demais epístolas pastorais, as duas cartas a Timóteo, não remontam à autoria de Paulo. É oportuno frisar que permanece o detalhe da autoridade. É prerrogativa inerente à carta. Trata-se de um documento importante a colocar balizas claras, fundamentais às primeiras gerações de comunidades cristãs, fundadas em meio ao mundo não-cristão. Os conteúdos da epístola focalizam um eixo importante: a fé sadia (1.13). Os protagonistas, promotores de uma fé desequilibrada e doentia, são identificados como “insubordinados, palradores frívolos e enganadores” (1.10). Eles devem ser calados (1.11). A carta de Tito destaca todo empenho do(s) apóstolo(s) quanto à autoridade do evangelho. A palavra de Deus age como orientação confiável e determina a vivência de uma espiritualidade equilibrada, combustível ao exercício da “fé sadia”. O texto legitima uma nova diretriz imprescindível à boa orientação nas comunidades. Tendo essas afirmativas como “pano de fundo”, a leitura do texto coloca, lado a lado, de modo concentrado, numa “pegada” só, uma multiplicidade de temas. A estrutura literária sugere que se descubra nela uma linguagem poética. Os conceitos aplicados são relevantes e identificam a visão sobre Deus, sua “grande benignidade”. Destacam a centralidade do Cristo Salvador. É ele o autor de trans-
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formações históricas. A confiança nele traz renovação; salva mediante “o lavar regenerador do Espírito Santo” (batismo) e coloca a vida dos crentes na dimensão de herdeiros, sob a esperança da vida eterna (v. 7). A perícope em apreço localizase, historicamente, no tempo de grandes dificuldades; dispersão e perseguições são experimentadas pelas comunidades cristãs. Encontramo-nos no 2º século da era pós-Cristo. Por causa de um homem conhecido pelo título de Cristo, eclodiram rixas. O texto-base da prédica, texto previsto para o 1º Dia do Natal, expressa críticas à divinização do imperador romano. Quem assegura vida plena e de sentido, vida feliz, equilibrada e aberta ao bom futuro é a benignidade de Deus; é oferta encarnada em Jesus Cristo. Já destacamos, anteriormente, que o texto apresenta um emaranhado de conceitos doutrinários básicos. Seu objetivo é destacar que deles depende a “saúde da fé”. Onde começar quando desafiados à tarefa da pregação? O Natal de Jesus Cristo, esse caso fantástico, somente é mencionado de forma direta no v. 4. As formulações decorrentes, nos versos seguintes, provêm da presença da “graça salvadora” de Deus (2.11), são frutos da oferta da “benignidade divina e do seu amor para com todos”. A visita graciosa de Deus tem consequências no cotidiano. “O lavar regenerador e a purificação” de vidas centradas em si mesmas, por isso impiedosas, insensatas, medrosas e injustas (2.11s), é ato sacramental que provoca profundas mudanças na existência individual e na história da humanidade. Lutero, o Reformador, valorizou sobremaneira o 1º Dia do Natal. Opinava que a novidade do milagre de Deus, fazendo-se presente no mundo como criança, deveria coincidir com o início de um novo ano. O Reformador equacionou o Dia do Natal e a inauguração do Ano Novo! Assim como o Batismo inaugura uma nova vida, Natal nos presenteia com o começo de uma nova existência. O acontecimento em Belém abre a janela para que os olhos descubram uma paisagem de esperança e possam enxergar o novo futuro. Na noite da grande alegria, quebrou-se a monotonia dos pastores enquanto cuidavam do rebanho. Tanto o texto na carta de Tito como os textos complementares para leitura bíblica estão encharcados de “boas notícias de grande alegria para todo o povo”; despertam esperança e testificam a novidade. As boas-novas, porém, não marginalizam no humano nem o medo e nem o sofrimento. A humanidade continua presente, ela nos acompanha no cotidiano. O pregador que anuncia, no Natal, a luz do novo dia, o início de uma nova vida, não poderá calar em relação às trevas, cunhando o dia-a-dia. O evangelho do nascimento do Príncipe da Paz, o Salvador da humanidade, foi notícia de forte impacto. O ambiente na insignificante localidade de Belém da Judeia sinaliza a liberdade da ação de Deus. É nessa ação contraditória e mundana que acontece o prenúncio da inauguração de um novo reino, o reino de Deus. Tito, o apóstolo, define o milagre do Natal de Jesus como bússola que devolve “a saúde da fé”. A “benignidade de Deus” se traduz e se atualiza através do nascimento da criança na estrebaria, o filho de Maria e de José. A vivência da bondade de Deus reflete-se nas pessoas e promove esperança, além de inaugurar um novo relacionamento consigo mesmo e
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com o próximo. A autoridade da Palavra lembra que a graça de Deus torna os fiéis “solícitos para a prática de boas obras” (3.8).
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Consequências homiléticas
25 de dezembro, o 1º Dia de Natal, faz crer que a comunidade reunida na Véspera de Natal tenha sido confrontada com a boa-nova do nascimento do Salvador. A luz brilha no meio da noite para afastar as trevas. O céu abriu-se sobre Belém. Nessa direção deve ter caminhado o texto previsto para o dia 24 de dezembro. O desenrolar da história da salvação, a exemplo da mensagem de Lucas, é, de fato, uma “boa notícia que causou grande alegria para todo o povo”. As situações paralelas do contexto atual aproximam o passado do tempo presente. Nos dias de hoje, continuam dificuldades: persiste a perseguição ao cristianismo, a seus propósitos. O mundo religioso em nosso país, assim como ele se apresenta em suas variações adaptadas ao mercado mercantilista da sociedade pós-moderna, deturpa a teologia e despreza a revelação de Deus em Jesus Cristo. Repetem-se as situações das comunidades em crise. Somam obreiros/as e líderes comunitários que vivenciam crises existenciais e vocacionais. Há gente decepcionada, os sentimentos podem ser de frustração e de desespero. Momentos de crise apresentam consequências, perturbam a credibilidade da igreja, a autoestima decresce. Vozes proféticas são caladas ou inexistem. Em particular, nós luteranos sofremos sob a inibição que nos parece peculiar. Somos acanhados para mostrar nosso rosto na sociedade brasileira. O evangelho (= Boa-nova) do Natal é instrumento através do qual se anunciam grandes novidades. Nasce, em Belém, o primeiro humano novo, de verdade. O mundo pode ser diferente; as pessoas podem ser diferentes, as estruturas que regem a sociedade sempre são passíveis de reforma, a igreja é chamada à novidade, a melhoramentos constantes. Lutero falava em melhoramento na igreja! A postura de conservadorismo e de excessiva preocupação com o passado contradiz o espírito da Reforma. O apóstolo Paulo recomenda aos cristãos uma atitude de constante transformação de mente e de coração (Rm 12.2). “A igreja, por mais problemática que seja em muitos aspectos, preserva a notícia sobre Jesus” (Jörg Zink: Quem crê pode confiar, p. 57). Enquanto servir, ela existirá! “Os seres humanos transformados se tornarão colaboradores de Deus” (Jörg Zink: Quem crê pode confiar, p. 57 e p. 59). O nascimento do Salvador, expressão da benignidade de Deus, é boa-nova. Aconteceu algo que leva a grandes mudanças, para toda a humanidade, em todos os tempos, a começar pelo tempo chamado Hoje. Natal desafia à missão!
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5 A prédica A “descida” de Deus das regiões celestiais espelha um fato extraordinário e revolucionário. Não foi qualquer pessoa que nasceu em qualquer tempo e em qualquer lugar! É notícia, cujas implicações se estendem a toda a humanidade. A mensagem do nascimento do Salvador não afasta ninguém deste mundo. A realidade de mundo continua cultivando as suas contradições. Permanece a tendência humana de sublimar as pessoas, levando-as ao mundo fantástico das aparências; na realidade, um mundo fantástico, sem raízes e sem profundidade, seu futuro é uma incógnita. A mensagem do Natal está centrada na realidade do mundo. “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu único Filho” (Jo 3.16). É boa-nova que fortalece a humanidade para que faça frente às contradições entre as gerações e etnias, entre a escravidão e a liberdade, entre raças e povos inteiros, anima a resistir ao egoísmo e a seus frutos: à violência, à falta de paz e de dignidade, à ausência de justiça. Permanece o convite à atitude altaneira de prosseguir de cabeça erguida na estrada da vida. O fato de Deus “descer do céu” tem então como contraposição o olhar firme e a postura esperançosa do ser humano. Podemos anunciar a mensagem do Natal, e isso de forma corajosa no 1º Dia de Natal, observando os seguintes passos: 1) Algo especial aconteceu e acontece em meio às histórias do cotidiano. A benignidade de Deus motiva à transformação de mente e de coração. Damos glória a Deus nas alturas, de aparência distante, na esperança de que se identifica sendo o nosso próximo. 2) O “lavar regenerador no Espírito Santo” (v. 5) traz à memória e atualiza, diariamente, o nosso Batismo. A história do nascimento de Cristo dirige-se a mim e a nós com toda a força e nos integra no corpo de Cristo. O presente de Deus é oferta bonita e importante. É dádiva que motiva a sermos igualmente generosos. Os presentes do Natal não se inspiram na avalanche da propaganda maquinada pelo mercado. Presenteamos porque a iniciativa da bondade humana vem de Deus. 3) A boa notícia transforma o futuro, muda as criaturas, muda a criação, renovada é a conjuntura da história e tudo o que nela cabe. O Natal do Cristo de Deus, revelado numa criança frágil, é como “boca no trombone”; serve de instrumento para ecoar em todas as partes do mundo. É boa notícia que causa alegria em toda a humanidade.
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Frases no contexto
– O orientador do Ensino Confirmatório repetia, a cada ano, a mesma pergunta, frase velha e já desgastada: “Por que festejamos, a cada ano, a mesma coisa: o nascimento do Salvador?” Prontamente o adolescente reagiu: “Sempre de
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novo é anunciado o milagre de Deus”. De Belém vem a boa-nova: Nasceu o Salvador! – E se Cristo tivesse nascido mil vezes em Belém, mas não em tua vida, condenado estarias para sempre. (Angelus Silesius) – Glória a Deus nas maiores alturas. É este mesmo Deus que desceu até nós, atolados na mais profunda miséria. (Autor desconhecido) – Apesar dos muitos desejos terrenos não realizados, a vida acontece em abundância. (Dietrich Bonhoeffer) – Tenho toda a liberdade do mundo para afirmar que, na Escritura Sagrada, não há palavras mais amáveis traduzindo a graça de Deus quanto aquelas duas, e elas são especiais: benignidade (christotés) e amor (filantropia). A fim de possuíres um retrato da graça de Deus: Imagina ao teu lado um bom amigo e terás a fotografia do Deus-humano. (Martim Lutero) – Pessoas criam tanto os amigos como os inimigos. Deus, porém, faz nascer o próximo. (Autor desconhecido) – Ó Deus, Aquele que te abandona morre. Quem retorna à tua companhia desperta para a vida. Àqueles que em ti permanecem é prometida vida em abundância. (Agostinho)
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Subsídios litúrgicos
Lema da semana: O profeta Isaías diz: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa Deus conosco (Mt 1.23). Lema do dia: Socorre, Senhor, Deus meu! Salva-me, segundo a tua misericórdia! (Sl 109.26). Louvor a Deus: Querido Deus-Menino, queremos louvar-te pela tua doce presença entre nós. Louvamos-te pelo teu Espírito que nos ensina a ser como as crianças. Queremos louvar-te pela tua graça que nos reúne em comunidade. Porque só tu tens a palavra e nós confiamos em ti. (Ou palavras do Salmo 96)
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Oração do Kyrie: Ó Deus, saímos das nossas casas e dos nossos lares para o encontro contigo. Aproximamo-nos de ti de mãos vazias e com corações ansiosos. Preenche-nos com a luz que procede do Natal. Dá que possamos ouvir com alegria a história que aconteceu em Belém. Concede-nos o discernimento e a concentração necessária para compreendermos o milagre do teu nascimento. Ouve-nos, Senhor. Anúncio da graça: Louvado seja o Senhor, Deus de Israel. Porque visitou e redimiu o seu povo (Lc 1.68). Oração do dia: Deus da benignidade, tu vieste a nós e te tornaste igual a nós, companheiro e irmão. Rogamos pela força do teu santo e bom Espírito. Que nos ajudes a viver do jeito como tu desejas, sejamos criaturas amorosas, pessoas inteiras e curadas. Permite, ó Deus, que possamos ter bons pensamentos, agir e sentir amparados e confiantes em Jesus Cristo. Ele vive e reina contigo, de eternidade a eternidade. Amém. Bênção: Que o amor de Deus, Salvador de todos os povos, Se faça de novo presente como uma criança Em cada homem e em cada mulher. Que o nosso mundo seja transformado em seu reino Pela ação do seu Espírito de amor. E que a nossa vida seja plena de alegria Porque, hoje, um menino nos foi dado! “O mundo tornou a começar”. Amém. (Culto e Arte; org. Rubem Alves, Advento/Natal/Epifania; p. 48). Sugestão de hinos: Hinos do Povo de Deus – vol. 1 - nº 17; nº 20; nº 31; nº 235; Hinos do Povo de Deus – vol. 2 - nº 311; nº 312; nº 400; nº 438.
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PRÉDICA: JOÃO 21.20-25
1º DOMINGO APÓS NA NATTAL
GÊNESIS 1.1-5, 26-31 1 JOÃO 1.1-2.2
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Mauro Alberto Schwalm
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Introdução
Vejamos três aspectos introdutórios importantes para este estudo: a) Em lugar do texto do Evangelho de Lucas para o primeiro domingo após o Natal, somos motivados pelo Conselho Editorial a nos ocupar com o personagem do dia 27 de dezembro, de acordo com o calendário de nomes santificados: João, apóstolo e evangelista. Ao invés da visita do garoto Jesus de doze anos aos doutores no templo, portanto, somos convidados a dirigir nossos olhares para a vida do discípulo filho de Zebedeu e seu significado para a tradição cristã. E em lugar da perícope de um dos evangelhos sinóticos temos diante de nós parte de um capítulo considerado acréscimo posterior no quarto evangelho. b) Tematicamente nos encontramos no contexto litúrgico das celebrações natalinas. Essa época está presente nas celebrações e nos sentimentos das pessoas como uma época de luz em contraposição a trevas; como uma época de ternura em contraposição à dureza de coração; como época de sensibilidade e bons sentimentos em contraponto a razões e argumentos; como época de fraternidade e confraternização. Embora o Natal já tenha sido celebrado, é esse conteúdo que ainda está movendo as pessoas. Muitas, de fato, movidas pela fé e pela valorização desse significado. Outras tantas porque simplesmente se deixam levar pelas belas luzes, pelas belas melodias, pelos bons propósitos (ou por sedutoras propagandas interessadas em promover o consumo numa “aldeia globalizada”). c) Finalmente, as leituras do dia complementam o conjunto temático e resgatam elementos da teologia do Natal. Do primeiro capítulo da Bíblia serão lidos versículos relacionados à luz: porque o Espírito de Deus (fonte de luz) pairava sobre a face das águas, as trevas são superadas; e serão lidos versículos relacionados ao ser humano, imagem e semelhança de Deus, a quem é dado poder sobre a criação. O relato do AT culmina repetindo: “e Deus viu que era bom”. Na primeira Carta de João, é retomado o tema da luz: Deus é luz e nele não há trevas! Portanto andar na luz é ter comunhão com Deus, o qual está na origem da vida, também da vida de Jesus Cristo, nascido de Maria em Belém. Ou seja, criação e redenção se encontram no evento do Natal.
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Exegese
2.1 – O Evangelho O exegeta Hermann Strahtmann destaca que o Evangelho de João tem peculiaridades que o diferenciam dos evangelhos sinóticos. Nesse ponto comunga de uma opinião consolidada entre muitos estudiosos do Novo Testamento. Embora tanto os sinóticos como o Evangelho de João requeiram autenticidade histórica, há diferenças significativas nas suas narrativas. Os milagres em João são narrados para evidenciar a messianidade de Jesus, ao passo que nos sinóticos trata-se, antes, de ação misericordiosa em favor das pessoas. Ou seja, no Evangelho de João a autorrevelação de Jesus ocupa lugar central. Para Strahtmann, João não faz questão de acumular elementos narrativos estanques na sua exposição. Ele repete o mesmo tom com base em diferentes elementos, como que para evidenciar algo: “É como se ele tivesse um cristal na mão, o qual move para lá e para cá, deixando-o brilhar por entre os dedos” (Strahtmann, p. 2). Ou como se quisesse “corrigir” a tradição sinótica, apontando sempre de novo para a glória divina de Jesus, sem se restringir aos aspectos narrativos históricos, procurando demonstrar o que a comunidade tem em Jesus e não em primeiro lugar quem ele era (Brakemeier, p. 11). 2.2 – O capítulo 21 Esse capítulo do Evangelho de João é considerado na exegese um “acréscimo posterior”. Há uma formulação conclusiva do evangelho em 20.30-31. Isso significa que a versão do Evangelho de João que encontramos no Novo Testamento é uma versão revisada e acrescida de conteúdos já nos primórdios da sua transmissão, tendo passado pelas mãos de pessoas que integravam uma assim chamada “escola joanina” (Brakemeier, p. 10). A pergunta acerca da autoria do Evangelho de João é igualmente complexa para a exegese. O evangelho é atribuído ao discípulo João, embora não esteja redigido na perspectiva de uma testemunha ocular, pois a ênfase é notadamente pós-pascal. Brakemeier conclui: Nossa falta de conhecimento é dolorosa. Mas não diminiu o valor desse evangelho. João é um autor que, à luz da antiga tradição evangélica, repensou e reafirmou a fé cristã em seu contexto específico, constituindo-se num dos mais profundos pensadores teológicos do Novo Testamento (Brakemeier, p. 10-11).
Lidamos, portanto, com parte de um capítulo que foi acrescentado ainda muito cedo ao Evangelho de João e que é parte importante do testemunho dos primeiros cristãos. No seu todo, o capítulo 21 conta aspectos de um encontro entre Jesus e alguns de seus discípulos às margens do lago de Tiberíades. O v. 14 deixa claro que se trata da terceira manifestação do Ressurreto. Alguns elementos do conteúdo do cap. 21 merecem ser sinteticamente mencionados aqui: a) apenas sete discípulos estavam juntos (onde estavam os outros?); b) Pedro decide pescar
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e é acompanhado pelos demais (não deveriam estar cumprindo a “grande comissão”?); c) Jesus apresenta-se (novamente num contexto de frustração para os pescadores, afinal nada tinham pescado); d) após palavra decisiva de Jesus, eles pescam em abundância e Jesus lhes prepara uma refeição (comunhão); d) nos v. 15-19 há um diálogo entre Jesus e Pedro, no qual se rememora a fragilidade de Pedro (três vezes Jesus pergunta se Pedro o ama) e no qual o mesmo é convocado a apascentar as ovelhas e a seguir Jesus apesar do prenunciado martírio futuro (Pedro como símbolo da tensão entre firmeza e fragilidade?); e) finalmente, o bloco dos v. 2025, em que se articula uma comparação por parte de Pedro em relação a João. 2.3 – O texto Até o versículo 19 tem-se a sensação de que tudo se desenrola à beira de um “fogo de chão”. E nem há por que imaginar a cena de modo diferente; afinal, o diálogo está inserido no contexto de uma refeição, “depois de terem comido” (v. 15). É no final do versículo 19 que vem o chamado/convite: Segue-me! Imediatamente, no v. 20, fica claro que o seguimento (caminhada) havia iniciado: Pedro literalmente segue a Jesus. Mas não é o único! Embora não se fale dos demais discípulos, ao menos um – além de Pedro – está seguindo ativamente. Será que esse não captou que o convite tinha sido para Pedro? O “segue-me” do v. 19 foi dirigido diretamente a ele! Pedro inquieta-se e formula uma pergunta. Qual terá sido a motivação de Pedro ao querer saber acerca do futuro do discípulo a quem Jesus amava? O tema do diálogo não era dos mais fáceis, pois tinha a ver com a forma da morte futura. Será que Pedro perguntou zelosa e “pastoralmente” preocupado ou perguntou movido por ranço e mágoa (Strahtmann, p. 256)? A resposta de Jesus é dura e deixa ver claramente que isso não deveria importar a Pedro; afinal, a história dele e a história do outro discípulo eram histórias diferentes. A Pedro cabia segui-lo: segue-me tu (v. 22)! Com isso fica relativizado o questionamento de Pedro. Os v. 23-24 são decisivos para a compreensão do texto. Jesus havia dado a entender, no v. 22, que “o discípulo a quem Jesus amava” (v. 20) talvez não iria morrer. Ou pelo menos assim poderia ser compreendida a afirmação de Jesus. Acerca de como Pedro a entendeu não há a menor referência. Realmente o v. 23 confirma o fato de que essa hipótese havia sido divulgada entre a comunidade na tradição posterior e logo procura corrigi-la com a afirmação de que Jesus não tinha dito que ele não morreria. Por que uma tal correção se fazia necessária? Provavelmente por causa do confronto com a realidade da morte do referido discípulo. É possível imaginar o desconforto na comunidade (ou entre alguns de seus membros): “Mas Jesus não tinha dito que provavelmente aquele discípulo não ia morrer? Como é que agora ele está morto?” (Ou eventualmente diante da morte iminente) Argumentação: “Calma, irmãos e irmãs. Ele não disse isso assim, com essa clareza toda. Ele disse que poderia, se assim quisesse, permitir que vivesse até a sua volta. Dessa forma ele lembrou Pedro de que ele não deveria se importar com isso e que deveria fazer o que lhe cabia: seguir!” O v. 24 funciona como elemento de legitimação: “isso
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acerca do que estamos” (quem? integrantes da escola joanina?) “compartilhando foi testemunhado por ele e por ele escrito. E é verdadeiro! Afinal, é o próprio discípulo acerca do qual se disse que talvez não morreria que repassou essa narrativa”. O v. 25 repete e retoma o final do capítulo 20.30-31. Com essa repetição procura-se confirmar que a tradição só conseguiu “guardar” uma parte de tudo aquilo que se comunicava acerca de Jesus e do grupo dos seus seguidores. De certa forma dando a entender também que esse capítulo 21 resgatava um elemento importante relacionado à tradição de João, apóstolo e evangelista, e que existiam muitas outras narrativas, mas que não seria possível resgatá-las todas nesse evangelho. Com isso é reforçada a posição de destaque de João enquanto evangelista no contexto da tradição cristã. 2.4 – A tradição joanina João é conhecido como o discípulo a “quem Jesus amava”; ele foi o discípulo que se encontrava aos pés da cruz e que recebeu a incumbência de zelar pela mãe de Jesus. Esse último aspecto recebe grande destaque na tradição católica: ao jovem discípulo amado, ao qual se atribui ter sido solteiro e optante pela abstinência sexual (virgindade), coube zelar e cuidar da “virgem Maria”, mãe de Jesus, até o final. No Evangelho de João é narrado que ele correu mais rápido do que Pedro para chegar ao túmulo vazio depois da notícia dada por Maria Madalena. Era filho de Zebedeu e irmão de Tiago. Atribui-se a João a fundação das sete pequenas comunidades da Ásia, as mesmas às quais se reporta no livro do Apocalipse, o qual teria redigido quando de seu banimento na ilha de Patmos. Em suas cartas, ele fala de Deus como “luz”, como “amor”. Estima-se que João tenha falecido em avançada idade (por volta de 94 anos) e que tenha sido sepultado em Patmos. De acordo com a tradição, João foi o único dos apóstolos que não morreu em consequência de martírio (embora tenha sobrevivido milagrosamente a uma tentativa por parte do imperador Domiciano, razão pela qual foi banido). Conforme assinala Jerônimo, quando João já era muito ancião, se fazia levar às reuniões dos cristãos, e o único que lhes dizia sempre era isto: “Irmãos, amai-vos uns aos outros”. Uma vez lhe perguntaram por que repetia sempre o mesmo, e ele respondeu: “É que esse é o mandamento de Jesus, e se o cumprimos, todo o resto virá além disso”. Uma narrativa que se atribui a Clemente de Alexandria conta que ele havia colocado um de seus jovens discípulos sob os cuidados de um bispo. Esse o instruiu e batizou. Depois disso, o jovem teria acabado por se juntar a um bando cruel de salteadores. Quando o queria reencontrar, João ouviu do bispo que o mesmo estava perdido e morto espiritualmente, mas lhe disse onde o poderia encontrar. João teria ido a seu encontro e o teria trazido de volta ao seio da fé com as seguintes palavras: “Meu querido filho, por que foges de teu pai? Não temas, pois eu quero interceder por ti junto a Deus e estou disposto a morrer por ti, da mesma forma como o Senhor morreu por nós. Deixa essa vida para trás, meu querido filho, pois Deus me enviou a ti”. Na tradição posterior, a águia aparece como símbo-
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lo ao lado do apóstolo e evangelista João, em alusão à sua teologia, que aponta para o alto, para os céus. O dia de João Apóstolo e Evangelista está fixado tão próximo do Natal justamente porque se trata de uma época de revelação do amor e da luz que procedem de Deus em favor da criação, mensagem à qual João dedicou a sua vida. E está em contraposição ao dia de Estevão, que foi o primeiro mártir e que é lembrado justamente no dia 26 de dezembro. Nascimento de Cristo, martírio de Estêvão e dia do apóstolo e evangelista João compõem assim uma tríade interligada de conteúdos: a alegria do Natal quer ser proclamada em associação ao tema do seguimento que não foge às tribulações. A celebração dos dias festivos relativos aos apóstolos e evangelistas perdeu seu espaço na tradição protestante. Talvez em parte porque tais “dias” não coincidem com domingos (é o caso com este auxílio), quando a comunidade normalmente celebra culto, ou porque seria algo antes de perfil “católico”. Certo é que, desde o século 18, houve um afastamento gradativo dessas datas no contexto do protestantismo. O artigo 21 da Confissão de Augsburgo (disponível no site da IECLB), porém, menciona a importância de relembrar como os mesmos foram auxiliados pela fé e tornaram-se assim exemplos para a vida cristã. A cor litúrgica dos dias dedicados aos apóstolos e evangelistas é a cor vermelha, relembrando, por um lado, o martírio da maioria deles e, por outro, a paixão que os movia por ação do Espírito Santo.
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Meditação
3.1 – João 21.20-25 É impossível meditar sobre esses versículos sem ter em mente e como pano de fundo o capítulo 21 em seu todo. No contexto de uma revelação de Jesus após a sua ressurreição tem lugar um diálogo entre Jesus e Pedro. Curiosamente, o “personagem João” apenas aparece como alguém a respeito de quem se fala, mas ele mesmo não participa do diálogo. A respeito dele é dito que “seguia” (v. 20). Se seguia e ouviu o diálogo, como será que se sentiu? Será que alimentou a esperança de que “ficaria” (vivo) até que Jesus viesse? Caso tenha alimentado tal esperança, como foi comum naqueles primórdios, qual o problema? Certamente nenhum... O problema era, de fato, de Pedro, o qual precisava contar com o martírio, ao passo que ao discípulo amado aparentemente seria concedida a graça de poder viver até o fim! Não é de descartar, portanto, certo desconforto por parte de Pedro no enfrentamento desse tema. Mas uma correção é necessária no rumo da história. De duas uma: ou João já havia morrido quando o cap. 21 foi incluído, ou estava diante da morte. E Jesus ainda não havia voltado. Como entender essa incongruência? Quer dizer, nem chega a ser incongruência. É preciso ler direito. E essa reinterpretação hermenêutica já precisou ser feita bem cedo no contexto daqueles que tinham se unido em
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torno da tradição joanina. No diálogo com Pedro não há uma afirmação cabal de Jesus acerca do futuro de João. Afinal, o futuro de ambos pertence a Deus, seja como for! Essa é a mensagem que dá lastro à narrativa. Quero destacar alguns aspectos que me chamam a atenção nessa narrativa do final do Evangelho de João: a) Embora o convite para seguir tenha sido dirigido, em primeiro lugar, a Pedro (v. 19), esse não segue sozinho! João sente-se igualmente chamado e entende o convite dirigido também para ele. Ele seguia atrás de Pedro, mas se sentia parte daquele corpo, daquele grupo. Quando Jesus disse “segue-me” a Pedro, não foi um convite exclusivamente particular, pessoal. Afinal, eles integravam uma pequena comunidade, comunhão. E João o interpreta de modo correto ao sentir-se incluído. Há aí um potencial significativo para pensar acerca do convite para seguir. Mesmo que eu não ouça meu nome, posso sentir-me incluído. Esse é um aspecto que contrasta com a tendência humana de desejar sempre receber convites nominais, pessoais e particulares. Creio que é um dilema com o qual muitos pastores/as convivem. Membros muitas vezes não se sentem atingidos quando não são massageados em seu ego. No Batismo, somos chamados pelo nosso nome! b) Pedro preocupa-se por causa do discípulo amado. Talvez tenha havido um pouco de mágoa em sua pergunta, afinal ele continuva sendo o mesmo Pedro que negou e a quem Jesus perguntou repetidamente se o amava. Mas pode ser que estivesse de fato zeloso: “Eu, Pedro, intrépido, creio que vou dar conta desse recado; mas e este? Mais jovem, mais frágil, será que terá de sofrer do mesmo jeito?” Eu não sei e não posso determinar o que prevaleceu. Mas a resposta de Jesus impede de continuar as especulações, sejam as de Pedro, sejam as minhas: “O que te importa? Segue-me tu!” João recebe destaque por ter seguido sem ter sido nominado e sem fazer perguntas... Mas é significativo relembrar, nesse ponto, que esse é o mesmo João que, de acordo com Mc 10.35-45, queria poder sentar-se com seu irmão Tiago ao lado de Jesus em seu reino e que precisou ouvir, naquele contexto, que nem a Jesus cabia determinar algo nesse sentido. c) Ler a Bíblia significa interpretar. A gente sempre lê com certo lastro de informações e experiências determinantes. Já os primeiros cristãos tiveram de fazer correções e releituras. Na verdade, o suposto erro não estava na Bíblia, na palavra atribuída a Jesus. Estava na leitura que tinha sido feita, e essa precisava ser corrigida! Talvez alguns seguidores de João ou membros das comunidades estivessem valorizando esse episódio mais do que deveriam... Da mesma forma, muitas leituras precisam hoje ser corrigidas. Ler a Bíblia é como pilotar um barco em águas caudalosas: o rumo de nossas leituras sempre precisa ser corrigido para evitar que a corrente leve para a direção equivocada. d) Finalmente, quero destacar a forma como se lidou com o legado de João para a comunidade: “sabemos que seu testemunho é verdadeiro”. Coloca-se aqui um selo de credibilidade, de resgate do valor e significado da herança joanina. Lembro-me da declaração de escrivães em muitos documentos que se reportam a originais aos quais não se tem acesso ou que certificam um acontecimento: “o referido é verdadeiro e dou fé”. Aqui se está “dando fé” a um documento: o Evangelho de João.
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4 Imagens para a prédica Penso que, para a pregação neste domingo, com ênfase temática na figura do apóstolo e evangelista João, sem exceder na abordagem de elementos de uma tradição que soa estranha às peculiaridades protestantes, mas que faz jus ao princípio destacado no artigo 21 da Confissão de Augsburgo, poder-se-ia lançar mão de aspectos já mencionados, que retomo brevemente aqui. a) Havia uma relação afetiva especial entre Jesus e João. Os evangelhos não detalham essa afetividade. Talvez o seu elemento culminante seja, de fato, a vinculação materno-filial entre João e Maria por parte de Jesus aos pés da cruz. Partindo do princípio de que seres humanos são diferentes entre si e ocupam-se diferentemente de suas tarefas, posso entender que João – talvez de fato marcado mais profundamente por uma “inteligência afetiva” – tenha sido a melhor opção e escolha para que no momento da morte Jesus pudesse entregar seu espírito na paz do necessário amparo à sua mãe. Eu evitaria maiores especulações em torno dessa afetividade, a qual pode ser entendida no contexto de uma relação fraterna e mediada pelo coração. Creio que cada um de nós sabe de suas próprias relações, que algumas podem ser mais marcadas por afeto do que outras... Além disso, convém lembrar que isso não garantia para João um lugar especial, seja à direita seja à esquerda do trono de Jesus em seu reino, e isso ele precisou ouvir e aprender apesar do especial afeto. Mc 10.35-45 serve de alerta e contraponto em tempos de ufanismo e hybris teológico-entusiástica: não há “relações especiais” que garantam lugares destacados no que respeita à salvação. Não por último, lembro-me de muitas relações “político-afetivas” que geram danos coletivos por causa de favorecimentos particulares, as quais precisam ser denunciadas e combatidas. b) O Evangelho de João é tido como o evangelho do amor de Deus, sobretudo por causa do versículo 16 do capítulo 3. O evangelista coloca toda a sua ênfase na comunicação de que em Jesus se cumpre o propósito de Deus para a humanidade desde a criação, pois o verbo se fez carne (Jo 1.14) e trouxe luz para dentro de uma realidade de trevas (Jo 1.5,9). Se concordarmos com inúmeros exegetas, essa é a peculiaridade de João: apontar para Jesus Cristo como aquele que nos possibilita a vinculação com Deus (não por nascimento natural: Jo 1.13; 3.5-7; Jo 20.31). Ou seja, João dá destaque à perspectiva vertical da fé (Jo 6.27-33). Considerando que o evangelista e apóstolo João é descrito na tradição como um teólogo “mais voltado para o céu” e que a ele foi associada a imagem da águia, talvez se possa fazer referência a esse elemento. Não se pode esquecer, porém, que à verticalidade se amalgama a horizontalidade da fé, sem a qual a pregação e a celebração perdem conexão com a realidade. Por que a águia sobe aos céus? Para ter uma visão mais ampla e localizar melhor seu objetivo no solo. Toda pregação acerca do amor de Deus perderá seu sentido se não se voltar para seu objetivo (Jo 13.34-35; 1Jo 2.7-11). c) João seguiu, mesmo sem ser instado explicitamente para tanto. Creio que essa é a principal imagem/mensagem que o texto passa. O diálogo principal estava acontecendo entre Jesus e Pedro, embora João fosse o “discípulo amado”. Apenas posso fazer um exercício de imaginação especulativa, sabendo da limitação
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de tal exercício: João sabia do papel de liderança de Pedro, por isso encara com naturalidade que o chamado a ele dirigido nominalmente também a ele se estende. Pedro recebe a orientação “segue-me”. João é parte do grupo dos seguidores. Portanto o que vale para Pedro também vale para João. E seu afeto igualmente fala alto: “se Pedro segue, é óbvio que eu também vou seguir”. Lideranças da comunidade nem sempre conseguem “convidar” todas as pessoas nominalmente. E sempre há aqueles que somente se sentem incluídos quando ouvem seu nome. Integrar o corpo de Cristo também implica seguir o chamado mesmo quando o próprio nome se dilui na coletividade. Uma relação afetiva também implica solidariedade nas causas comuns. Muitas vezes, vi situações em que pai ou mãe precisavam sair de casa para o trabalho e precisavam deixar seus pimpolhos para trás, os quais os seguiam choramingando mesmo diante da ordem contrária, para ficar em casa. João não seguiu choramingando. Mas não queria ficar para trás. Seu lugar era ao lado de Pedro no seguimento ao Mestre.
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Subsídios litúrgicos
Canções relacionadas ao tema do seguimento: “Deus chama a gente pr’um momento novo” (Cancioneiro O Povo Canta, PPL, p. 44); “No caminho de Emaús” (Cancioneiro O Povo Canta, PPL, p. 112); “Senhor, se tu me chamas” (Cancioneiro O Povo Canta, PPL, p. 262). Introito: “Como é bonito ver um mensageiro correndo pelas montanhas, trazendo notícias de paz, boas notícias de salvação! Ele diz a Sião: ‘O seu Deus é Rei!’” (Is 52.7 – tradução Bíblia na Linguagem de Hoje). Acolhida: O dia 27 de dezembro é o dia que a tradição cristã desde cedo dedicou ao evangelista e apóstolo João. Queremos dedicar um pouco de nossa atenção no dia de hoje a esse importante personagem da história da fé em Jesus, pois ele foi um mensageiro de notícias de salvação, enfatizando que Jesus é o Filho de Deus, que ele “é a luz verdadeira, a luz que veio ao mundo e ilumina todas as pessoas” (Jo 1.9). João, o discípulo amado, exalta o amor de Deus por nós e nos convida ao amor recíproco em seguimento a Jesus. Louvado seja Deus por esse seu servo, cujo testemunho nos inspira na fé! Oração de confissão: Penso que a oração de confissão de culpa pode enfocar a facilidade com que nos acomodamos e fazemos de conta que o “chamado” não nos diz respeito, simplesmente porque não ouvimos nosso nome; pode tematizar da mesma forma o risco de uma fé por demais desconectada da vida e enfocada unilateralmente na glória de Deus.
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Anúncio da graça: “Mas, se confessarmos os nossos pecados a Deus, ele cumprirá a sua promessa e fará o que é justo: perdoará os nossos pecados e nos limpará de toda maldade” (1Jo 1.9). “Porque Deus mandou o seu Filho para salvar o mundo e não para julgá-lo” (Jo 3.17). Oração do dia: Penso que nesta oração pode-se enfatizar a gratidão pelo serviço que Deus realizou através de João na condição de apóstolo e evangelista; que através do seu testemunho e de todos aqueles que o acompanharam chega até nós uma mensagem convicta de amor e acolhimento e de inspiração para a fidelidade, seja através do evangelho, das suas cartas ou do livro do Apocalipse; pode incluir também o louvor pelo olhar de João na perspectiva da águia (“do alto”). Oração de intercessão: Interceder por todos os cristãos da terra para que ouçam o chamado ao seguimento; interceder pela comunidade local, para que siga a mensagem do evangelho numa relação afetiva e de ternura com Deus e com o próximo; interceder para que o louvor a Deus não nos impeça de nos ocupar dos problemas reais do cotidiano, ao contrário, que a visão “do alto” nos ajude na busca da superação do mal em amor na perspectiva dos olhos da águia, na perspectiva dos olhos e do amor de Deus; interceder para que nas festividades de fim de ano a sabedoria prevaleça e sejamos poupados dos excessos prejudiciais à vida. Envio: “A Pedro Jesus disse: Segue-me! Mesmo sem ouvir seu nome, também João o seguiu! Agora eu digo a vocês: Vão! Vão na paz de Jesus e no seguimento, tal qual Pedro, tal qual João. Que a luz que vem do alto ilumine os seus passos e clareie a sua vi-são, para que possam olhar as pessoas e toda a criação com os olhos do amor de Deus.” Duas sugestões adicionais (“Werdet weise und verständig...”, Gebete aus der Ökumene; p. 8 e 12; tradução própria livre): Eu quero acender uma luz em nome de Deus: Ele iluminou o mundo e me deu o sopro da vida. Eu quero acender uma luz em nome do Filho: Ele salvou o mundo e estendeu a sua mão em minha direção. Eu quero acender uma luz em nome do Espírito Santo: Ele circunda o mundo e abençoa minha alma com impaciente esperança. Nós vamos acender três luzes para a trindade do amor. Deus sobre nós, Deus ao nosso lado, Deus em nosso meio, O princípio, O fim e aquele Que permanece.
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Quebrados pela tensão do nosso cotidiano, buscamos tua presença na esperança de encontrar restauração. Muitas preocupações e receios, inúmeros e diferenciados objetivos nos afastam uns dos outros e geram divisão em nós mesmos. Mas nós sabemos que nenhum galho será completamente cortado da árvore da vida, que a todos nós sustenta. O Espírito vivaz de Deus nos chama e reúne a todos com vistas ao testemunho, à celebração e ao empenho! Vamos estender as mãos uns aos outros, assim como Deus estende a sua mão em nosso favor.
Bibliografia BRAKEMEIER, G. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de João. In: Proclamar Libertação. Vol. VIII, p. 7-15. São Leopoldo, 1982. DUTZ, Freddy (Ed.). Werdet weise und verständig... Gebete aus der Ökumene. 6. ed. Hamburg, 2008. STRAHTMANN, Hermann. Das Evangelium nach Johannes. (Das Neue Testament Deutsch. V. 4.) Vandenhoeck & Ruprecht, Göttingen. 1968. h t t p : / / www.daskirchenjahr.de — http://www.luteranos.com.br (Confissão de Augsburgo)
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PRÉDICA: ISAÍAS 55.6-11
VÉSPERA DE ANO NOVO
MATEUS 18.1-5 HEBREUS 13.8-9b
31 DEZ 2009
Yedo Brandenburg
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Introdução
Véspera de ano novo é oportunidade para pensar sobre o que passou e o que virá. Nós o fazemos sob a luz da palavra de Deus. Em Mateus 18.1-5, Jesus chama uma criança, coloca-a na frente dos discípulos e diz: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se vocês não mudarem de vida e não ficarem iguais às crianças, nunca entrarão no reino dos céus”. Jesus não fala da infância como o lugar da inocência, como o paraíso antes da queda. Jesus fala da infância como o lugar do início. Na infância começa tudo. Assim como a criança, Jesus mostra aos discípulos que a vida com ele é o lugar do início de um novo tempo de confiança em Deus e de alegria. Infelizmente, ao findar o ano, nós constatamos que nem sempre conseguimos viver o novo tempo que Deus nos trouxe com Jesus Cristo. Há o reconhecimento de culpa, de atitudes inadequadas para com Deus, as pessoas e o meio ambiente. Quais são nossos anseios, nossas expectativas, nossas esperanças para o novo ano? Hebreus 13.8-9b diz de forma sucinta: “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre. Não se deixem levar por ensinamentos diferentes e estranhos que tiram vocês do caminho certo”. Isaías 55.6-11 nos traz uma realidade de tristeza, de desânimo, de resignação. O profeta diz que é tempo de procurar a ajuda de Deus, de orar a ele, de abandonar os maus pensamentos e de mudar a forma de viver. Nós podemos voltar para Deus porque ele tem compaixão e perdoa completamente. A sua palavra liberta-nos da resignação e nos traz ânimo e coragem para enfrentar as intempéries da vida.
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Informações exegéticas
O texto de Isaías 55.6-11 faz parte do bloco dos capítulos 40 até 55, atribuídos a um profeta anônimo que é designado na pesquisa bíblica de Dêutero-Isaías ou Segundo Isaías. Esse profeta atuou numa época difícil para o povo israelita. Era o tempo do exílio babilônico no século VI a.C. Os israelitas moravam de forma precária nas imediações das cidades e precisavam colocar suas forças de trabalho à disposição dos babilônios. As belas cidades dos babilônios contrastavam
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com a lembrança de Jerusalém destruída. Mais doloroso ainda era ver o grande templo babilônico e saber que o templo de Deus em Jerusalém estava destruído. Quantas perguntas, quantas dúvidas acerca do Deus dos pais! Deus esqueceu-se do seu povo lá na Babilônia? É ele realmente o Deus verdadeiro? Onde ele estava quando Judá foi ocupada pelos invasores babilônicos e o templo destruído? Onde ele está agora? Os mais jovens dentre os israelitas não mais conheciam a sua pátria e estavam mais suscetíveis à influência da religiosidade do povo babilônico. Eles pouco esperavam do Deus de seus pais, do Deus de Israel. Um Deus que não se vê e que não interfere para tirar o seu povo da Babilônia, que Deus é este? Nessa situação de sofrimento, de tribulação, de resignação e até de indiferença da parte de alguns dos exilados, Deus faz ouvir a sua palavra por meio do profeta. V. 6 – “Procurem a ajuda de Deus” designa a adoração exclusiva de Deus: confiar somente em Deus e ser obediente a ele. Procurar a ajuda de Deus é uma meta de vida (Sl 34.10s). A afirmação “orem ao Senhor” aprofunda esse aspecto de confiar em Deus nas necessidades. O pedido de procurar a ajuda de Deus tem como consequência a promessa de que Deus pode ser encontrado. O sentido é portanto: Deus se deixa achar, ele está próximo (compare 49.15; 54.7s). V. 7 – Após o convite animador (v. 6), o v. 7 é assustadoramente concreto. As pessoas perversas são aquelas que não servem a Deus (Ml 3.18), que são inquietas e sem paz (Is 48.22; 57.20s). Elas têm mentalidade contrária a Deus. Da mentalidade para a ação maldosa há um pequeno passo. Após a admoestação por mudança na forma de pensar e de agir, há a promessa da compaixão e do perdão de Deus (43.24 s; 44.22; 54.10). V. 8-9 – A promessa salvífica do v. 6 encontra aqui a sua fundamentação: os pensamentos e os caminhos de Deus estão bem acima dos pensamentos e dos caminhos das pessoas. Deus não pode ser comparado a outros deuses (43.10-13; 44.6). Deus é incompreensível em sua grandeza e em seu poder (40.12.18; 48.12s), inescrutável em seus pensamentos (40.13s.28; 55.8s), especialmente em seus pensamentos salvíficos (41.10.14; 49.22s; 51.3; 53.7-10; compare também Jr 29.11). V. 10-11 – A superioridade dos pensamentos e dos caminhos de Deus é explicada. Assim como a chuva molha o chão e o fertiliza, assim também a palavra de Deus é acompanhada da ação. A imagem da chuva e da neve, que possibilita a fertilidade da terra e o crescimento das plantas, tem a ver com o campo da ação abençoadora de Deus (Dt 11.13-15) e aponta, mais uma vez, para os pensamentos salvíficos de Deus. A “palavra” do profeta é palavra salvífica de Deus a seu povo no exílio. Essa palavra é determinada por sua ação: a palavra de Deus realiza a salvação (compare Sl 33.4-11), ela é evento, é fato. Assim se comprova a superioridade dos pensamentos e caminhos de Deus, pois apenas aquele que faz acontecer o prometido merece ser louvado como Deus (41.21-24; 48.3). Um processo da natureza é usado como parábola para mostrar a eficácia da palavra de Deus. A criação divina tem grande valor para o profeta. Chuva e neve bem como a palavra de Deus alcançam sua meta. Disso advém a confiança na eficácia da palavra de Deus, que não volta vazia.
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Diante da crise de fé e até da indiferença para com Deus por parte dos exilados, o profeta aponta para a grandeza e majestade de Deus e para a sua fidelidade para com o povo. Contra a indiferença, a resignação e toda a falta de ânimo dos exilados, a palavra-ação de Deus mostra o caminho para fora da crise de fé.
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Meditação
3.1 – Deus está perto O texto foi dirigido a israelitas no exílio babilônico no século VI a.C. Na Babilônia, os israelitas não tinham problemas apenas com a terra estranha, na qual eram obrigados a trabalhos forçados. Eles tinham também problemas com a sua fé em Deus. As duras experiências no exílio, o longo tempo de sofrimento, as esperanças não-realizadas – tudo isso machucou o povo de Deus na Babilônia e trouxe questionamentos para a fé. Sentindo-se abandonado por Deus, o povo não via uma luz no túnel. Para dentro dessa situação o profeta afirmou: Deus está aqui. Ele se deixa achar também agora e aqui nesta terra estranha. Deus pode mudar tudo! É necessário sair do ciclo da opressão interior, da resignação, da falta de ânimo, da indiferença, do medo, da culpa. Deus está perto, ele se deixa achar também no exílio. Assim, o povo desanimado foi encorajado a procurar a ajuda de Deus. No ano que finda, talvez nós também tenhamos sentido a ausência de Deus nas horas de tristeza e de sofrimento. Resignação, desânimo, medo e culpa fizeram parte de nossa vida neste ano. Devido a isso, vale para nós: Procurem a ajuda de Deus! Orem para ele! Ele está bem perto. 3.2 – Deus está acima de nossos pensamentos e de nossas ações No sofrimento, na dor, nas situações de perda, de luto, quando os fatos se tornam incompreensíveis para nós e o mundo parece desabar, nós ouvimos: “Assim como o céu está muito acima da terra, assim os meus pensamentos e as minhas ações estão muito acima dos seus” (v. 9). Por trás dessa frase está a experiência de que nós, com nossas concepções acerca de Deus, facilmente incorremos em erro. Nós queremos ditar como Deus deve agir neste mundo e onde ele deve intervir. Nós criamos um deus conforme os nossos anseios. Quando os acontecimentos são diferentes do imaginado, nós entramos em crise de fé, caímos na resignação e até descartamos Deus de nossas vidas. Procurem a ajuda de Deus, do Deus verdadeiro. Não daquele deus que é uma projeção dos nossos planos. O Deus verdadeiro está muito acima de nossos pensamentos e de nossos caminhos: ele é o Deus da compaixão e do perdão (v. 7), nada comparável com a nossa pequena forma de perdoar; ele é o Deus das possibilidades,
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que está bem além de nossos pensamentos e de nossos caminhos. Ele é o totalmente diferente. Ele é Deus e não um super-homem divinizado e criado por nós. Ainda bem que Deus não se deixa manipular por nossos pensamentos e nossos planos. Ainda bem que os nossos planos não chegam nem perto do que Deus tem reservado para nós (vide Is 64.4; 1 Co 2.9). Quando se trata do futuro de Deus conosco, nós não conseguimos ver muito longe. Nosso horizonte é limitado. Justamente por isso nós somos convidados a colocar toda a nossa confiança nas grandes possibilidades de Deus. Com seus pensamentos, Deus está muito acima de nós; com sua palavra que age, no entanto, bem pertinho de nós. Fundamentados no testemunho do Novo Testamento e olhando para o Natal há pouco celebrado, nós afirmamos: em Jesus Cristo, nós temos o Emanuel, o Deus conosco, o Deus pro nobis, o Deus por nós. Deus está bem perto de nós na palavra da Bíblia e nos sacramentos. Ali ele se deixa encontrar. 3.3 – A palavra-ação de Deus A palavra de Deus não é uma palavra a mais entre as muitas que chegam diariamente aos nossos ouvidos, mas é a força que mantém a nós e ao mundo. Uma força que pode transformar pessoas e circunstâncias. Nós percebemos que existem coisas que nós não conseguimos mudar. Desaparece, então, a vontade de arriscar o novo. Surgem o desânimo, a resignação. Quando nós estamos no fim de nossos recursos, Deus nos abre novas possibilidades. O profeta exemplifica isso com uma comparação. A palavra de Deus age como a chuva. A chuva cai na terra seca, e a terra fica fertilizada. Assim também a palavra de Deus entra no deserto de nossa vida e o fertiliza. Nós não devemos ressecar internamente, mas viver. Para isso Deus nos dá a sua palavra. A palavra de Deus é mais do que conselho e orientação. A palavra de Deus oferece-nos uma compreensão mais profunda das nossas experiências de vida. A Bíblia fala nesse contexto muitas vezes de “frutos”. Um bom sentido tem uma vida que produz frutos. Agora, cuidado! Fruto não significa logo sucesso. Sucesso é visível e dá para medir no que uma pessoa tem: em sua conta bancária, em seus bens materiais. O sucesso, contudo, esvai-se com a mesma rapidez com que veio. Fruto é algo diferente. É necessário esperar, ter paciência. Frutos crescem quando nós nos abrimos para a palavra de Deus e a levamos conosco para toda a nossa vida. Frutos surgem quando nós colocamos os nossos dons a serviço das pessoas e da integridade da criação divina. Deus afirmou que a sua palavra não voltará vazia. O fato de participarmos do culto é um sinal de que a palavra de Deus nos coloca em movimento e trabalha em nosso íntimo, transformando-nos e abrindo espaço para o novo, para a esperança. Deixemos a nossa vida ser orientada pela palavra de Deus. Então tudo será diferente: nossa vida frutificará. A palavra mais poderosa de Deus é Jesus Cristo (Jo 1.1,14). Dele parte a ação decisiva no mundo. Ele é o vigoroso doador da vida (exemplos: Jo 4.1-12: água da vida; 6.25-59: pão da vida; 6.68: palavras que dão vida eterna). Em Jesus
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Cristo, Deus está bem perto de nós, nele Deus se deixa achar. Nele Deus nos liberta de toda resignação.
4 Imagens para a prédica Diante de tristeza, de sofrimento, de desânimo, de resignação e de crise de fé, Isaías 55.6 diz: “Procurem a ajuda de Deus enquanto podem achá-lo, orem ao Senhor enquanto ele está perto”. Nas palavras do profeta há um alerta: “enquanto podem achá-lo, enquanto ele está perto”. Deus nem sempre está disponível. Deus não é como mercadoria de supermercado, sempre à nossa disposição. Deus também pode ocultar-se. Portanto, cuidado! A procura por Deus não permite adiamento, quem sabe até pouco antes da morte. Ainda é tempo para procurarmos a ajuda de Deus. Era uma vez um homem louco que, em pleno dia, caminhava com uma lanterna acesa pela cidade e gritava: “Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!”. Muitos que o viam e ouviam não acreditavam em Deus e riam dele, dizendo: “Será que Deus se perdeu como uma criança? Será que ele se escondeu de nós? Deus tem medo de nós? Ele se mudou para outro lugar?”. O homem, por sua vez, caminhava no meio dessas pessoas, fulminava-as com o seu olhar penetrante e dizia: “Onde está Deus? Eu vou dizer para vocês: Nós matamos Deus, você e eu!” (Friedrich W. Nietzsche, 1844-1900). Também em nossos dias há pessoas para quem Deus morreu. Elas não mais contam com Deus. Acreditam somente no próprio esforço, na tecnologia, na capacidade humana. Só que humanidade sem divindade se transforma em bestialidade. Devido a isso, o apelo do profeta: “Procurem a ajuda de Deus enquanto podem achá-lo, orem ao Senhor enquanto ele está perto”.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecado: Misericordioso Deus, tu nos guardaste e guiaste ao longo do caminho percorrido neste ano. Reconhecemos, no entanto, que nós tendemos a criar um deus que corresponde aos nossos anseios. Nós não procuramos a tua ajuda, deixamos de orar a ti, resignamos e até nos tornamos indiferentes a ti. Nós não colocamos os nossos dons a serviço de tua comunidade. Por amor de teu Filho Jesus Cristo: liberta-nos da resignação, tem compaixão de nós e perdoa-nos. Amém. Palavra da graça: Jesus Cristo disse: “Se vocês pedirem ao Pai alguma coisa em meu nome, ele lhes dará” (Jo 16.23 b).
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Oração do dia: Deus bondoso, nós agradecemos por todo o bem recebido no ano que termina e por nos reunires como tua família. Tu nos consolaste e fortaleceste nas horas difíceis e nos concedeste momentos de alegria. Por isso aqui estamos para dar glória e honra a ti, para procurar a tua ajuda e para receber a orientação da tua palavra. Dela precisamos para olharmos o novo ano com confiança e esperança e para sermos lembrados de que tu estás ao nosso lado em todos os momentos de nossa vida. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina para todo o sempre. Amém. Oração de intercessão: Deus, doador da vida, na véspera de um novo ano, nós te pedimos: tira de nós a insegurança e o medo diante do novo e do desconhecido. Nós somos gratos por tua palavra, que nos liberta do desânimo, da resignação e da indiferença, e por poder contar contigo no novo ano. Intercedemos pelas crianças que não têm o necessário para viver de forma digna. Faz com que os governantes reconheçam e assumam a sua responsabilidade junto a essas crianças. Abre também o nosso coração para podermos auxiliar pelo menos uma criança no resgate da vida digna que tu inauguraste com Jesus Cristo. Desperta nos jovens a alegria que brota de uma vida contigo e voltada para o bem das pessoas. Auxilia os casais em crise para que procurem a tua ajuda, superem divergências e encontrem o caminho da paz. Dá sabedoria, amor e paciência aos pais no exercício de sua tarefa educativa junto aos filhos. Concede ânimo e esperança por melhoras às pessoas que estão doentes. Rogamos-te em favor das pessoas que perderam um familiar e que, especialmente nesta época, sofrem com a sua falta. Fortalece esta comunidade com a tua palavra e sacramento para que seja um sinal vivo do teu amor. Amém. Bênção: Deus esteja à tua frente para te mostrar o caminho certo; a teu lado para te proteger; atrás de ti para te preservar da maldade das pessoas; abaixo de ti para te amparar quando caíres; dentro de ti para te consolar quando estiveres triste; contigo para te libertar da resignação e te animar para a esperança por um novo tempo. Assim te abençoe Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
Bibliografia SIEBERT, John-Walter. Suchet den Herrn, denn er ist nahe. In: Ludwig-HofackerVereinigung (Herausgeber). Zuversicht und Stärke. 5. Reihe. Heft 2. Neuhausen: Hänssler-Verlag, 1989. p. 5-12. VOIGT, Kerstin. Gott reisst heraus aus aller Resignation. In: LUBKOLL, HansGeorg (Redaktion). Pastoral Blätter, Perikopenreihe 5. Heft 2. Stuttgart: Kreuz Verlag Zeitschriften GmBH, 1995. p. 86-89.
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PRÉDICA: LUCAS 2.15-21
ANO NOVO: NOME DE JESUS
NÚMEROS 6.22-27 FILIPENSES 2.5-11
01 JAN 2010
Werner Wiese
1
Introdução
Atrás de nós está uma das principais celebrações do calendário eclesiástico: a comemoração do nascimento de Jesus. Neste dia, salvo exceções, a casa de Deus (“igreja”) está cheia. Isso se sabe de antemão e pode ser um incentivo para preparar o culto e, dentro dele, a prédica com dedicação e alegria. Mas como será a frequência do primeiro culto após o Natal? Em comunidades mais rurais, após o Natal a vida no campo segue seu ritmo. No contexto urbano, muitos membros de nossas comunidades já vivem em clima de férias. Aliás, nós mesmos podemos estar contagiados por esse clima. Quem sabe, este primeiro culto depois do Natal seja o último culto antes de nós pessoalmente usufruirmos merecidas férias. Somado ao cansaço das intensas atividades das comemorações que precederam o Natal e se condensaram nesse dia, poderíamos pensar: só mais esse culto e só mais essa prédica, então posso descansar. Seja como for, não esqueçamos que, independente do número de pessoas que virão para o culto, para muitos dos que estarão no culto, o Ano Novo pode estar carregado de perguntas e preocupações, como: O que o novo ano trará consigo? Como vou passar por este ano? Outras pessoas que estão no culto entram neste ano cheias de projetos para realizar. Levando esse possível cenário em conta, o texto para a prédica é orientador. O texto sinaliza para atitudes geradas pelo agir de Deus (anúncio do nascimento de Jesus): assim que os anjos se ausentam, os pastores de ovelhas se “mobilizam” e, de ouvintes do recado de Deus, tornam-se anunciantes do que viram e ouviram. E assim a mensagem vai se propagando como efeito de uma “reação em cadeia”. É a dinâmica do evangelho que se manifesta. Olhemos com mais atenção os detalhes do texto.
2
Exegese
2.1 – Inserção do texto no seu contexto literário imediato Tal qual o texto nos foi transmitido e preservado, nossa perícope é parte de uma unidade literária maior, composta de Lc 2.1-20 (21). Exegeticamente, essa unidade não deveria ser dividida. Contudo, são vários os auxílios homiléticos que separam o texto para a prédica de hoje de sua unidade maior. Homileticamente
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falando, isso não só é possível, mas é até recomendável, pois dentro da unidade maior se detectam unidades menores: a) Os v. 1-7 narram o nascimento de Jesus propriamente dito. Essa narrativa não tem paralelo sinótico exato. Obviamente, nós não conseguimos mais lê-la sem pensar em Mt 2.1ss e seu contexto. b) Os v. 8-14 narram o anúncio do nascimento de Jesus aos pastores de ovelhas no campo. E, por fim, c) os v. 15-20(21) destacam reações evocadas pelo anúncio do nascimento de Jesus. A observação consciente desses fatos é importante para a elaboração da prédica. 2.2 – Contexto histórico e teológico A unidade literária maior da qual nossa perícope faz parte não deve desconsiderar seu contexto maior. Dele fazem parte aspectos históricos seculares e teológicos: a) Aspectos históricos seculares são claramente sinalizados pela expressão adverbial de tempo “naqueles dias” e pelos nomes de “César Augusto”, “Quirino” (Lc 2.1-2) e “Herodes” (Mt 2.1, 3, 16, 19; cf. ainda Lc 1.5) – mandatários políticos da época e local dos acontecimentos narrados pelo escritor bíblico. b) Aspectos teológicos são nítidos nos “prefácios” às narrativas do nascimento de Jesus em Lc 1.5ss e Mt 1.1ss. Também os aspectos teológicos querem ter acento histórico concreto (Lc 1.5). Tudo isso deixa claro que o agir de Deus não é virtual nem somente uma questão de interpretação existencial individual, mas ocorre em meio aos desafios da vida diária e política, na maioria das vezes contrários ao evangelho. Aliás, o interesse pela história ou pela “pesquisa histórica” é nítido no Evangelho segundo Lucas (Lc 1.1-4). 2.3 – Aspectos linguísticos e teológicos internos do texto Dentro do texto para a prédica de hoje ainda podem ser destacados alguns aspectos distintos úteis, inclusive a estruturação da prédica para fins didáticos comunicativos: a) Os v. 15-17, 20. Esses destacam acima de tudo resoluções e atitudes dos pastores de ovelhas após terem ouvido o recado do anjo. b) O v. 18 enfatiza a reação das pessoas à mensagem ouvida da boca dos pastores. c) No v. 19, sobressai a atitude de Maria. d) O v. 21 (e v. 22): a criança nascida recebe o nome Jesus. O v. 21 é, de fato, um elo que marca a transição entre o evento natalino em si e a inserção de Jesus no contexto histórico-teológico do seu povo. Desdobremos esses aspectos: V. 15-17,20 – No v. 15 fecha-se a cena aberta no v. 9 e forma-se, por assim dizer, um contraponto à locução “um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam”; contrapõe-se “ausentando-se deles os anjos para o céu”. Chama a atenção que no v. 9 fala-se de anjo e aqui de anjos. Certamente o plural subentende a milícia celestial mencionada no v. 13. A presença de anjos (= mensageiros “celestiais”) não é comum no cenário do povo de Deus, mas constitui um momento singular em circunstâncias específicas e para uma tarefa específica. Eles são hermeneutas/intérpretes do agir incompreensível de Deus. Acabada a tarefa que lhes cabe, não se justifica mais sua presença. Chama a atenção que, entre a função do(s) anjo(s) e a atitude dos pastores, existe um paralelismo: os anjos são os
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anunciantes e intérpretes primários dos grandes feitos de Deus. Os pastores do campo – gente humilde e até desprezada – “assumem” o bastão e anunciam o evangelho em segunda instância a outros. É significativa a resolução: “Vejamos os acontecimentos...” A palavra grega traduzida por acontecimento é rêma e pode ser associada à palavra hebraica dabar, que significa “palavra, evento”. A palavra do Senhor é mais do que simples junção de fonemas ou emissão de sons. Ela é e realiza o que diz – é acontecimento. Esse acontecimento não dispensa a verificação ou certificação, mas a torna possível. Veja para tal o v. 12: “Isto vos servirá de sinal...” Um sinal estranho, pois a criança na manjedoura não trazia consigo uma auréola que pôde ser vista a distância e que atestava ser essa o messias. Era preciso crer a partir do ouvir e ir ver para confirmar a fé. Assim como os anjos louvaram a Deus e voltaram ao céu, os pastores dos campos também louvaram a Deus e voltaram para o seu lugar, a seus afazeres diários. V. 18 – A palavra grega traduzida como “admirar” é thaumazein e expressa surpresa, estar atônito. Isso mostra que, de fato, na criança nascida em Belém (Jesus) não havia nenhum sinal extraordinário que por si só evidenciasse o sentido mais profundo do nascimento dela. O que aconteceu careceu do anúncio por parte dos pastores do campo de acordo com o que ou como esses haviam ouvido da boca dos anjos (cf. os v. 16 e 20. Nesse último versículo, a expressão grega kathôs = como). Admirar-se não significa um êxtase que desencadeia um movimento que arrasta multidões sem que essas percebam o que estão fazendo. É uma reação à percepção, ainda que momentânea, de algo que normalmente não é captado pelos quatro sentidos do ser humano. “Todos... se admiraram...” é o início do cumprimento daquilo que foi dito pelo anjo no v. 10. No contexto das narrativas em torno do nascimento de Jesus e de João Batista, essa reação aparece quatro vezes (Lc 1.21, 63; 2.18, 33). V. 19 – A atitude de Maria é outro fator surpreendente. Causa-nos bastante estranheza. Pois como essa atitude combina com o que fora dito a ela em Lc 1.2638? Essa estranheza, contudo, não nos deve levar inevitavelmente a pensar que apenas nos movemos num campo lendário. Nos “todos” do v. 18, Maria está incluída. E, em última instância, o que aqui acontece e se expressa é fortalecimento de fé para Maria, pois o que lhe fora dito em Lc 1.26-38 não a torna imune contra a dúvida séria (cf. Lc 1.27). Mesmo alguém que é “usado” por Deus como seu “instrumento” necessita de fortalecimento e confirmação da fé. A postura de Maria registrada no v. 19 reaparece mais uma vez em Lc 2.51. Se, por um lado, Maria está incluída nos “todos” (v. 18), sua postura ainda se distingue ou vai além do admirar-se. “Admiraram-se” (no grego usa-se o aoristo ethaumasa) pode sinalizar algo momentâneo, não necessariamente duradouro. De Maria diz-se que ela “guardava todas essas palavras” e “meditava-as no coração“. Para guardar no grego emprega-se o imperfeito synetêrei, que está ligado ao raciocínio humano consciente. Já para meditar usa-se o particípio presente symballousa, que significa “refletir sobre”, colocar algo lado a lado para comparar. Talvez se deva pensar aqui inclusive num exercício de comparação das palavras ditas pelos pastores do campo e pelo anjo em Lc 1.26ss.
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Teologicamente falando, onde Deus age, também e especialmente fora dos padrões normais, a postura correta do ser humano é o silêncio ou o ouvir meditativo, a partir do qual podem nascer outras atitudes. V. 21(22) – Estamos tão acostumados com o nome JESUS, principalmente em textos que são abordados em datas próximas ao Natal, que nem sempre nos damos conta da sua relevância ou da ênfase que se está dando ao mencionar esse nome. Assim pode acontecer com o texto para a pregação. À primeira vista, o nome parece estar mais à margem. Mas, no fundo, é para ele que tudo conflui. Há dois momentos importantes a serem mencionados. Um é que, quando se destaca que deram ao menino (à criança) o nome JESUS, deparamo-nos com um sinal de cumprimento de promessa dada por boca de anjo (Lc 1.31). No fundo, é desse nome que tratam todo o evento Natal e a prédica deste domingo. Teologicamente falando, aqui também está uma conexão muito nítida do nosso texto com as leituras indicadas: a centralidade desse nome e o vínculo que ele estabelece com o Deus verdadeiro. O outro momento é que a circuncisão dessa criança também é sinal de cumprimento, não de uma promessa, mas da exigência da lei do Antigo Testamento. Se o apóstolo Paulo diz: “O fim (no grego é usado telos = cumprimento/alvo) da lei é Cristo, para a justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4; cf. também Mt 5.17), então na circuncisão da criança já inicia o cumprimento desse telos. Inclusive ao se submeter ao batismo de João Batista, Jesus cumpre a justiça de Deus (cf. Mt 3.15). Pode-se dizer que o Senhor da lei submete-se à lei para cumpri-la (compare também Lc 2.21-24 com Gl 4.4).
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Para a prédica
3.1 – Meditação do texto O recado primário transmitido pelo anjo (v. 10-12) e entoado em forma de louvor a Deus pela milícia celestial (v. 14) não se perdeu no vazio da noite nos campos ao redor de Belém. Pelo contrário, ressoou em duplo sentido pela boca dos pastores de ovelhas: Por um lado, os pastores que eram os ouvintes primários da mensagem do nascimento de Jesus tornaram-se os primeiros proclamadores dessa mensagem a terceiros. Parece que os pastores dos campos de Belém estavam sob o peso da alegria do céu, de modo semelhante ao que é testemunhado em At 4.20: “Pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos“ (cf. também 1Jo 1.1-4). Assim se desencadeou um processo de proclamação dos grandes feitos de salvação de Deus, que, desde então, passa as gerações, percorre o mundo até hoje e chega a nós sempre de novo. O primeiro efeito público da proclamação feita pelos pastores foi a admiração dos ouvintes (v. 18). O que aconteceu com essas pessoas depois dessa proclamação não nos é dito. A atenção está centrada no evento em torno da criança recém-nascida que recebe o nome JESUS, pois somente nessa criança e não em todas as crianças que nascem está o Emanuel – o Deus conosco (cf. Mt 1.23). De qualquer forma, os ouvintes dessa mensagem
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tornam-se representantes de todos os ouvintes posteriores dessa mensagem. E a proclamação do evangelho pode ser feita sob a perspectiva e expectativa de encontrar eco entre os ouvintes. Nem sempre esse eco é como nós o esperamos, pois o efeito da proclamação da palavra de Deus não está em nossas mãos. E isso é bom, caso contrário o pregador teria que produzir resultados; o que não só não seria bom, mas altamente perigoso e facilmente perverteria a proclamação da palavra sob nossas mãos ou em nossa boca. Por outro lado, é da boca dos pastores que o louvor que desceu dos céus sobe aos céus (v. 20). E de forma semelhante aos ouvintes da mensagem dos pastores (v. 18), nada sabemos desses pastores, a não ser que retornaram às suas atividades diárias, “glorificando e louvando a Deus”. Mas aqui está toda a diferença. G. Voigt diz: “Desde que ele nos está tão próximo, vive-se diferente”. Aqui há um aspecto importante a ser enfatizado, tanto para o próprio anunciante da palavra como para os ouvintes dela: o nosso dia-a-dia depois do dia de Natal na maioria das vezes não é diferente do que era o nosso dia-a-dia antes do dia de Natal, mas a presença de Deus faz com que possamos encará-lo de modo diferente. Na medida em que nos é dado compreender isso de mente e coração, podemos fazer coro com os pastores de Belém e dessa forma convidar e motivar outras pessoas a fazer o mesmo. 3.2 – Sugestões para estruturar a prédica O domingo ou o texto para a prédica de hoje destaca que não se trata de qualquer palavra, prédica nem qualquer fé. A palavra e, por conseguinte, a pregação e a fé estão focadas no que Deus fez ao vir a este mundo na criança da manjedoura de Belém, que recebe o nome JESUS. Dele vale o que é testemunhado em Atos 4.12: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. O nome JESUS é o Deus conosco – Emanuel. Por isso: 1) Dele, de Jesus, precisamos e podemos ouvir. Aqui é indispensável que se destaque a relevância do testemunho bíblico a respeito de Jesus. Sugere-se atenção especial para que a prédica não se torne genérica, de modo a ofuscar o específico da mensagem a proclamar a partir do texto sugerido para este dia. Aqui inclusive é possível e recomendável fazer a conexão com Fp 2.5-11, um dos textos das leituras bíblicas do culto de hoje. A singularidade do nome JESUS é muito clara nessa leitura bíblica. 2) A ele proclamamos. A partir do testemunho bíblico surgem a pregação e a fé, como o apóstolo Paulo registra em Rm 10.17 e seu contexto: “E, assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo”. Poderíamos traduzir também: “Ora, a fé surge a partir do ouvir a pregação e pregação vem pela palavra (rema) de Cristo”. É importante enfatizar mais uma vez que o ouvir precede o ver e crer. Isso é um específico do texto sobre o qual pregamos hoje. 3) Nele cremos. Se, por um lado, a pregação se baseia no testemunho bíblico, isto é, na palavra de Deus que nos é preservada, então, do outro lado, a pregação está sob a promessa de gerar a fé; não qualquer fé, mas a fé no nome de Jesus. E aqui é possível fazer a ligação com Nm 6.22-27 – outro texto da leitura bíblica
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para o culto. Vale refletir sobre a ligação entre a bênção sacerdotal no final do culto e a fé que surge a partir do ouvir o anúncio da palavra que testemunha os grandes feitos de Deus.
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Subsídios litúrgicos
Confissão dos pecados: Senhor, nós te agradecemos por poder estar reunidos na tua presença neste dia. Mas, Senhor, na tua presença não apelamos para a nossa justiça, pois pecamos contra ti e nosso próximo em pensamentos, desejos, palavras e atitudes. Por isso pedimos que queiras ser misericordioso conosco e perdoar os nossos pecados por causa de Jesus, teu Filho, que é nosso Salvador. Conceda-nos, Senhor, a tua alegria para viver na tua presença hoje e todos os dias do novo ano. Amém. Intercessão: Sugerir primeiramente que a comunidade cite motivos de intercessão. Dependendo da quantidade dos motivos, é possível que se interceda por alguns e se intercale o Kyrie eleison. E, por fim, que o pastor ou a pastora abranjam os pedidos pela igreja no mundo, pelas autoridades, pela comunidade local e encerrem com o Pai-nosso, se não houver Ceia.
Bibliografia L’EPLATTENIER, Charles. Leitura do Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulinas, 1993 VOIGT, Gottfried. Der schmale Weg. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1978. p.44-50. VOLKMANN, Martin. Proclamar Libertação, v. 32. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007. p. 41-45.
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PRÉDICA: EFÉSIOS 1.3-14
2o DOMINGO APÓS NA NATTAL
JEREMIAS 31.7-14 JOÃO 1.(1-9)10-18
03 JAN 2010
Marcia Blasi
1
Introdução
Ainda estamos no tempo de Natal. Passada a euforia da véspera, do dia de Natal e da virada de ano, vale a pena relembrar que ainda é tempo de ouvir o anúncio do nascimento de Jesus, da Palavra que se fez ser humano e que veio para transformar também a nossa vida, trazendo paz e esperança. É salutar continuar celebrando neste culto o tempo de Natal e não antecipar o tempo de Epifania. A celebração da Epifania terá seu próprio tempo. Durante os 12 dias do Natal, nós continuamos a cantar e a regozijar-nos na bondade de Deus. Nós celebramos a luz que venceu a escuridão: Jesus Cristo. Essa luz vem até nós pela encarnação: a palavra se tornando carne e vivendo entre nós. Natal é um tempo de acolher, assim como Deus nos acolheu – acolher a pessoa estranha, acolher a forasteira, acolher a ovelha perdida, acolher a criança recém-nascida. É tempo também de acolher a Palavra e desejar que ela se torne viva em nós. Não é tempo de recriminações, mas de celebrar e acolher Deus em nós, para que ilumine nosso ser, cure nossas feridas e nos encha de esperança.
2
Os textos
Jeremias 31.7-14 – O texto é um convite para celebrar e confiar no amor de Deus. Mais uma vez, Deus ouviu o clamor do seu povo e vai cumprir a aliança estabelecida com ele: Deus vai trazer o seu povo de volta do exílio para reconstruir a nação. O povo vai voltar “chorando e orando”, e Deus o guiará. Quando o povo chegar, vai experimentar os presentes preparados por Deus. João 1.(1-9)10-18 – O Evangelho de João nos apresenta Jesus como a manifestação plena da graça e do amor de Deus. “A Palavra se tornou um ser humano e morou entre nós” (Jo 1.14), e por meio desse ser humano temos recebido “bênçãos e mais bênçãos” (v. 16). Nosso viver e nosso testemunhar revelam esse amor ao mundo, iluminando a realidade com uma nova luz. Efésios 1.3-14 – Não há consenso sobre a autoria da carta. Enquanto alguns autores afirmam ser uma carta de Paulo, escrita durante seu tempo na prisão, outros autores e autoras afirmam ser uma carta escrita por um jovem “discípulo” de Paulo e atribuída a ele como forma de honrá-lo. Também o destino da carta não é muito claro, nem se de fato ela foi escrita exclusivamente para a comunidade de
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Éfeso. A referência ao destinatário não é encontrada em muitos manuscritos. Também não são mencionados nomes conhecidos ou fatos sobre a comunidade. Provavelmente a Carta aos Efésios foi uma “carta circular”, enviada para muitas comunidades, e seu tema principal é a unidade em Cristo.1 Depois de saudar as pessoas destinatárias da carta, o autor expõe o tema da mesma, bendizendo Deus por ter realizado seu eterno plano de reconciliação com toda a criação. O povo de Deus faz parte desse plano e participa dele. Por meio de Cristo nos tornamos filhos e filhas de Deus e pelo Espírito Santo fomos selados/as nesse amor. O texto é ao mesmo tempo um hino de louvor a Deus e uma confissão de fé2 . Versículo 3 – Um convite para agradecer a Deus – bendizê-lo; a palavra eulogetos seria melhor traduzida por “bendito” e é uma palavra usada somente com referência a Deus. Acima de tudo, Deus é bendito por ser Pai de Jesus Cristo e por meio dele com “dons espirituais no mundo celestial”. Essa expressão aparece somente nesta carta e se refere à união entre o mundo terreno e o mundo celestial. Versículo 4 – Deus nos escolheu “antes da criação do mundo” para viver “unidos em Cristo” (tanto judeus como gentios). Por causa disso precisamos ficar “sem culpa diante dele”. Versículo 5 – “Deus já havia resolvido… pois esse era o seu prazer e sua vontade”. Aqui fica bem claro que a escolha é obra de Deus. Foi Deus quem tomou a iniciativa. Algumas traduções usam o termo “adotou”. Por causa do seu amor, Deus nos adotou, dando-nos o status de filhos e filhas. A adoção reforça a iniciativa da parte de Deus e é um ato de amor, determinação e esperança. Versículo 6 – Por “sua gloriosa graça” Deus merece ser louvado. Por graça Deus nos concedeu um favor que não merecíamos, portanto foi presente gratuito. “Por meio do seu querido Filho” nos lembra o batismo de Jesus, quando do céu veio uma voz que o identificava como “meu filho querido” (Mc 1.11). Versículos 7-8 – “Pela morte de Cristo na cruz”: salvação e perdão dos pecados são possíveis. A graça de Deus é dada a nós com fartura. Versículo 9 – Em Cristo Deus nos revelou o seu plano de salvação para toda a sua criação. Versículo 10 – Quando o tempo de Deus chegar, Deus irá reunir tudo “o que há no céu e na terra”, sem distinção nem separações. Versículos 11-14 – A carta afirma o lugar das pessoas que recebem a carta como beneficiárias do plano de Deus. Tanto gentios como judeus fazem parte desse plano e agora são parte do “nós” cristão. Essas pessoas já foram marcadas pelo Espírito Santo, seladas por ele e de antemão já receberam um aperitivo das promessas de Deus.
1 2
Russell, p. 6-8. O texto foi tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos em 2000.
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Meditação
Não podemos pensar nosso relacionamento com Deus como algo construído somente por nós. Pelo contrário, esse relacionamento é um presente gracioso de Deus, dado a nós através de Jesus Cristo. O convite e o sacrifício para pertencermos à sua família foi exclusivamente obra de Deus. A Carta aos Efésios nos convida a louvar essa bondade de Deus. Puramente pela graça nós fomos abençoadas/ os, escolhidas/os, tornadas/os filhas/os, perdoadas/os e salvas/os. Pela vontade de Deus temos recebido graça sobre graça, herança misericordiosa e fomos marcadas/ os com o selo do Espírito Santo, com a promessa de que receberemos o que Deus prometeu. Por termos sido escolhidas/os por Deus, temos a responsabilidade de responder a seu amor. Por seu poder e misericórdia Deus pode transformar o mundo, como de fato transforma, dando pão a quem tem fome e água a quem tem sede. Deus também nos convida a colaborar nessa tarefa. Como integrantes da família de Deus, precisamos assumir nossa parte na construção desse novo reino, não como condição para fazer parte dele, mas em gratidão por já termos recebido bênçãos e mais bênçãos. A graça de sermos filhas e filhos de Deus, salvos pelo amor de Cristo e selados pelo Espírito Santo, precisa nos levar a viver a alegria do Natal e da Páscoa em tudo o que fizermos. Nesses dias de Natal, a verdade sobre o grande amor de Deus pela humanidade pode ficar escondida por trás de tanta propaganda e de tantas tarefas a fazer. Por isso vale a pena preparar um bom culto de Natal ainda no dia 03/01, proporcionando um espaço de vivência, reflexão e gratidão pela maravilhosa obra de Deus e pela maneira como Deus optou em realizar essa obra. “A Palavra se tornou um ser humano e morou entre nós.” Essa palavra precisa ser contextualizada e precisa alertar para a realidade do nascimento de Jesus, que aconteceu em uma estrebaria sem luz, sem esterilização e sem o mínimo de conforto. Para que a Palavra nasça no meu coração, é preciso que eu me dispa de tudo aquilo que impede que eu veja o pobre bebê deitado numa manjedoura. Somente quando eu entender a grandeza dessa obra é que o louvor vai ser verdadeiro, pois vai brotar de dentro, vai brotar de um coração agradecido. E mais: o louvor vai se tornar ação, apontando para Deus e para a esperança no reino de paz, justiça e amor.
4
Imagens para a prédica
Após uma breve introdução, enfatizando a época natalina, e talvez relembrando os acontecimentos dos últimos dias, sugiro informar à comunidade que chegou pelo correio uma carta de alguém que a ama muito. Depois sugiro abrir um envelope com o texto bíblico e ler o texto de Efésios 1.3-14. Assim como nas primeiras comunidades cristãs, as comunidades atuais também são formadas por pessoas diferentes, com dons, habilidades e sonhos diferentes. Em Cristo, no entanto, essas diferenças são consideradas importantes
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partes de um todo. Creio que o grande enfoque da pregação deveria ser a unidade no amor de Deus. Essa unidade no amor não apaga as diferenças. Ao contrário, elas são importantes para a diversidade na comunidade. A unidade precisa tornar-se concreta no envolvimento em ações que transformem a realidade de fome e injustiça em gestos de solidariedade e esperança. Infelizmente, os gestos de solidariedade (visitas, distribuição de alimentos, troca de presentes, generosidade natalina) que acontecem no tempo de Advento e Natal não fazem parte da vida de fé o ano todo. É importante incentivar a comunidade a continuar vivenciando o amor de Deus, recebido por meio de Cristo. Fazemos isso quando nos comprometemos com a vida, buscando os irmãos e as irmãs entristecidas, esquecidas, doentes, desamparadas, famintas de pão e carinho, sedentas de água e de esperança. Por Cristo nos tornamos parte da grande família de Deus e através do Espírito Santo recebemos todos os dons necessários para transformar o mundo em que vivemos. Infelizmente, nem sempre confiamos nisso. Esperamos que Deus transforme o mundo sem o nosso envolvimento e sem o nosso esforço. Pensando e agindo assim, perdemos a maravilhosa oportunidade de viver em comunhão, de sentir Deus agindo também por nós. Essa oportunidade deve ser relembrada a cada pregação.
5
Subsídios litúrgicos
Cântico de entrada: Bom é estarmos unidos – Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 334; O Povo Canta n° 157. Oração do dia: Deus de bondade, tu encheste nosso coração com a luz de Cristo. Permite que nossa fé seja um reflexo dessa luz e que, em tudo o que fizermos, transpareçam a tua vontade e o teu amor; por Jesus Cristo, nosso Senhor, que contigo e com o Espírito Santo reina de eternidade a eternidade. Amém. Kyrie: O amor que recebemos de Deus também nos convida a abrir nossos ouvidos ao clamor de tantos irmãos e irmãs que choram por causa de injustiça, violência, opressão e morte. Por isso vamos unir nossas vozes e clamar pelas dores deste mundo cantando: Pelas dores deste mundo, ó Senhor... (Rodolfo Gaede Neto). Versículo de aclamação: “A Palavra se tornou um ser humano e morou entre nós.” Aleluia!
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Sugestão de hinos: Que a graça do Senhor Jesus – Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 350; Cantai cristãos a Deus louvai – Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 14; Vinde a Cristo, ó vinde unidos – Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 19.
Bibliografia CONSELHO NACIONAL DE IGREJAS CRISTÃS DO BRASIL. Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, 4 a 11 de junho de 2000: Bendito seja Deus... que nos abençoou em Cristo (Ef 1.3-14). Brasília: CONIC, 2000. FOULKES, Francis. Efésios: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1963. RUSSELL, Letty M. Imitators of God: A Study Book of Ephesians. New York: General Board of Global Ministries – The United Methodist Church, 1984. Sundays and Seasons: Year C. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2004.
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PRÉDICA: JOÃO 1.43-51
EPIFANIA DE NOSSO SENHOR
ISAÍAS 49.1-7 2 CORÍNTIOS 4.3-6
06 JAN 2010
Norberto da Cunha Garin
1
Introdução
A manifestação divina através de Jesus Cristo é descrita de maneiras diversas pelos evangelhos e epístolas. No Evangelho de João, a Epifania adquire um significado especial, pois a apresentação de Jesus é feita através dos diferentes títulos messiânicos que estavam presentes no imaginário judaico da época. A descrição desses títulos obedece a uma ordem, que se pode dizer crescente, até sua culminância com aquele título que, segundo os evangelistas, era o de maior simpatia do Senhor – Filho do Homem –, como porta de acesso a Deus. Essa Epifania é narrada numa trama de diálogos envolvendo personagens fundamentais para a igreja nascente, como os seus apóstolos.
2
Exegese
O cenário do texto envolve o chamamento dos apóstolos. Após o batismo, Jesus encontra diversos homens, a quem convida para serem seus seguidores. O contexto desse vocacionamento é o testemunho de João Batista, que o aponta como o Cordeiro (Jo 1.29 e 36). O texto evolui até culminar com a declaração de Jesus sobre a visão dos anjos subindo e descendo sobre o Filho do Homem. V. 43-44 – Encontro com Filipe: a ordem dada por Jesus a Filipe (o que ama os cavalos) repete a fórmula dos evangelhos sinóticos (Mt 8.22; 9.9; 19.21; Lc 5.27; 9.59; 18.22); implica o sentido de “tornar-se discípulo”: seguir sua pregação e seu modo de vida; essa fórmula será repetida pelo próprio João em 21.19 e 22; a informação que o texto nos passa é que Filipe é conterrâneo de André e de Pedro, da cidade de Betsaida (casa da caça), fundada no séc. X a.C. e localizada ao norte do mar da Galileia. Tratava-se de uma aldeia de pescadores, sobre um pequeno monte de cerca de 30m de altura em um vale fértil que outrora teria sido parte do próprio mar; Filipe é o discípulo a quem Jesus interroga sobre onde se poderiam comprar pães no deserto (Jo 6.5); nota-se a caminhada teológica na percepção que João atribui aos discípulos: “Cordeiro de Deus” (1.35); depois “Mestre” (1.38); passando para “Messias” (1.41); avança para “Profeta” (também com sentido de Messias) (1.45), até chegar ao reconhecimento de Rei de Israel (v. 49) e Filho do Homem (1.51).
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Epifania de Nosso Senhor
V. 45-46 – Encontro com Natanael: os encontros se sucedem; aqui a fórmula do convite para ser discípulo repete a mesma da perícope anterior (36-42), quando André, que havia sido chamado por Jesus, encontra Simão e o leva ao Senhor; o próprio Filipe, recém tornado seguidor, anuncia Jesus a Natanael (dom de Deus) num processo de discipulado contínuo; a maneira de Filipe apresentar Jesus a Natanael repete a fórmula da interrogação sobre o testemunhos das escrituras: “aquele de quem” (Lc 7.27; Jo 1.15; 13); esse Natanael é considerado pela tradição exegética como sendo a mesma pessoa que aparece como Bartolomeu (filho de Talmai) nos sinóticos (Mt 10.3; Mc 3.18; Lc 6.15 e em At 1.13); outro argumento para essa relação é que, nas listas dos apóstolos de Mateus e de Marcos, Filipe e Bartolomeu aparecem juntos; a tradição menciona que Natanael teria sido missionário na Índia e morrido crucificado de cabeça para baixo1 ; antes de aceitar o convite, Natanael propõe uma dúvida, que denota uma parcela de desprezo: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?”; dúvida semelhante também é levantada pelos conterrâneos de Jesus, os habitantes de Nazaré durante a visita narrada por Lc 4.22-24; na apresentação que Filipe faz está inculcada a certeza de que Jesus é o Messias prometido pelo Antigo Testamento, como se fosse um novo Moisés (Dt 18.15); essa expressão indica que possivelmente Filipe e Natanael já haviam discutido sobre esse assunto antes; a fórmula “vem e vê” é análoga àquela empregada pelos sinóticos quando se referem aos discursos de Jesus, onde aparece “quem tem ouvidos para ouvir, ouça (Mt 11.15, 13.9, 43; Mc 4.9; Lc 8.8; 14.35); representa um elemento enfático de comprovação de verdade indiscutível; é possível perceber em João a tendência de apresentar “a verdade” completa em cada episódio. Na vocação de Natanael, o autor encaixa um trocadilho com o significado popular de seu nome: aquele que vê Deus é convidado por Filipe a vir e ver. Depois é o próprio Jesus quem lhe declara ter visto antes. V. 47-48 – A reação de Jesus: antes mesmo de conversar com Natanael, Jesus faz uma declaração importante a respeito dele: “Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo”; Jesus se referia ao caráter dele, declarando que ele era um homem que não praticava a falsidade, numa referência à sua integridade moral judaica de respeito à lei; há um indicativo sobre aquilo que o apóstolo Paulo classifica como o verdadeiro israelita: a circuncisão do coração (Rm 2.2529); há um jogo de palavras entre a significação popular do nome Natanael2 e a visão que Jesus tem dele sob a figueira; esse jogo de palavras junta a visão e o conhecimento; Natanael demonstra surpresa por Jesus declarar que já o conhecia; o tema do conhecimento é comum nos evangelhos (Mt 13.11; 17.12; Lc 24.31), mas é no Evangelho de João que esse tema tem maior relevância (Jo 4.10; 8.19 entre outros); parece que “debaixo da figueira” identificava um local tranquilo utilizado pelos israelitas, especialmente os rabinos, para meditação; Natanael fora visto nesse lugar, provavelmente exercitando a sua meditação.
1 2
Condenação comum na tradição sobre os apóstolos. Na etimologia popular significa “homem que vê Deus”.
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Epifania de Nosso Senhor
V. 49-51 – Confissões teológicas: nesses três versículos finais é possível encontrar as declarações teológicas fundamentais sobre a identidade de Jesus: Filho de Deus, Rei de Israel e Filho do Homem; Filho de Deus não se refere à filiação natural, mas é um título messiânico, também atribuído a outros personagens bíblicos, como até mesmo a todo o Israel (Êx 4.22); todos os títulos atribuídos a Jesus estão no contexto joanino de reconhecer nele o próprio Deus; é possível traçar um paralelo com o personagem Israel (ou Jacó) do Antigo Testamento, que viu a face de Deus na visão do sonho (Gn 28.10-17) e a declaração do próprio Israel sobre Peniel: “vi a Deus face a face” (Gn 32.30). Natanael representa a visão do novo Israel, que vê o Filho do Homem como o “céu aberto e o os anjos de Deus subindo e descendo”; o chamado dele aponta para o novo acesso a Deus: assim como aconteceu lá no Antigo Testamento, o acesso a Deus é face a face, na face de Jesus; esse parece ser o único título que Jesus aceita e se atribui no decorrer das narrativas evangélicas (Mt 8.20; 11.19; 20.28; 24.30; 25.31); originalmente, esse título tinha o conteúdo de distanciamento entre Deus e o ser humano e referia-se ao profeta que deveria falar ao povo (Ez 2.1); em Dn 7.13 assume a conotação messiânica, sentido utilizado por João e em outras narrativas evangélicas; por outro lado, esse título já aparecia no Sl 80.17. Essa perícope encerra aquilo que podemos denominar de introdução ao Evangelho de João. Constituída de um conjunto de testemunhos a respeito de Jesus, encerra com uma declaração teológica sobre a sua identidade como Filho do Homem (bar Adam) enquanto meio de ligação entre Deus e o ser humano. Parece que a intenção do autor joanino é listar na introdução de sua narrativa os títulos messiânicos aos quais a igreja primitiva estava acostumada. Outra percepção significativa é que o título Rei de Israel, utilizado pelos sinóticos como sarcasmo (Mt 27.42; Mc 15.32), nos escritos joaninos aparece como legítimo título messiânico, reaparecendo na entrada triunfal em Jerusalém na boca da multidão (Jo 12.13).
3
Meditação
Este segundo domingo da Epifania nos reserva a reflexão sobre a apresentação de Jesus conforme a narrativa joanina. Ela é singular, visto que retoma os títulos messiânicos do judaísmo, que aparecem numa trama de apresentações/ chamamentos. O encontro com Filipe possui apenas o caráter de meio para chegar a Natanael, o personagem importante para a Epifania de Jesus como Messias, Filho de Deus, Rei de Israel e Filho do Homem. Jesus é a resposta que os israelitas aguardavam para resgatá-los da miséria em que viviam, pois agora estavam face a face com Deus. Assim como aconteceu com Israel (Jacó) em Gn 28.13, quando Deus se posta junto dele e se revela seu Senhor e como Deus dos seus pais, Jesus é revelado ao novo Israel (Natanael) como o Messias, Filho de Deus, Rei de Israel e Filho do Homem. Constituem os principais atributos messiânicos que apareciam no imaginário do povo. Numa pessoa única se concentravam todas as respostas aguardadas por gerações.
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Epifania de Nosso Senhor
No reconhecimento de Natanael (Israel) está o projeto messiânico de Jesus: ele era a face de Deus revelada a um povo que, mesmo vivendo no meio da perversidade das lideranças, tanto do próprio Israel como dos romanos, havia se mantido puro, sem dolo. Jesus era Deus manifestando-se aos justos, aqueles que ainda mantinham a fé e a esperança no antigo e bom Javé, que havia conduzido seus pais através do deserto ao encontro de uma terra prometida.
4
Imagens para a prédica
Monte um quebra-cabeça com grandes peças de papelão3 , cuja montagem resulte na figura da cruz. Deixe-as diante do púlpito desarrumadas, mas reserve uma peça fundamental. Durante a prédica, peça a um grupo da comunidade para montá-lo enquanto a pregação se desenvolve, ou numa pausa entre a leitura bíblica e a prédica. Depois de algumas tentativas, o grupo descobre que se trata de uma cruz, mas que ainda não consegue completá-la: falta uma peça fundamental. No momento em que o grupo descobre que está faltando uma peça, a pessoa que a tem consigo se apresenta e sobre a peça escreve Jesus ou algum dos títulos messiânicos: Ele é a peça que faltava para completar nossa remissão.
5
Subsídios litúrgicos
Litania: D: Deus é Espírito, Luz, Poder e Amor. Deus é Espírito. T: Aqueles que o adoram, o adoram em Espírito e em verdade. D: Deus é Luz. T: Se andarmos na luz como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e verdadeiramente nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo. D: Deus é Poder. T: Aqueles que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão e não se fatigarão. D: Deus é amor. T: De tal modo o Pai nos tem agraciado com o seu amor, que somos chamados filhos e filhas de Deus. Conhecemos o amor de Deus porque ele deu sua vida por nós. Amém.
3
Como construir um quebra-cabeça: tome uma embalagem grande de papelão (ou cartolina grande) e pinte-a, com tinta guache, listas ou ondas coloridas. No outro lado, desenhe uma cruz grande e dentro dessa desenhe as peças do quebra-cabeça. Depois, recorte-as e coloque-as empilhadas numa caixa para levá-las ao culto.
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Epifania de Nosso Senhor
Oração comunitária: Ó Deus de Amor, assim como tu és Um com o Filho e o Espírito Santo, concede-nos que também sejamos um em ti. Em tua palavra temos aprendido que, quando acolhemos nossos irmãos e irmãs, é a ti mesmo que acolhemos. Por isso ajuda-nos, Senhor, a compreender que não há comunhão verdadeira quando existe mútua rejeição. Ó Deus, aceitando-nos uns aos outros, de todo o coração, nós reconhecemos que habitas em nós e manifestamos o nosso amor para contigo. Derrama, pois, pelo teu Espírito, a chama viva do amor entre nós. Que sejamos sinais da tua graça redentora e testemunhas da fraternidade que vence o ódio e o preconceito. O amor venceu, o amor é sempre vitorioso! Bendito sejas, ó Deus Eterno, Senhor nosso. Amém.
Bibliografia BROWN, Raymond. Evangelho de João. São Paulo: Paulinas, 1975. DODD, C. H. A interpretação do quarto evangelho. São Paulo: Paulinas, 1977. LA CALLE, Francisco de. A teologia do quarto evangelho. São Paulo: Paulinas, 1978. RIENECKER, Fritz; ROGER, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento grego. São Paulo: Vida Nova, 2000.
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PRÉDICA: ATOS 8.14-17
1º DOMINGO APÓS EPIFANIA (BA TISMO DO SENHOR BATISMO SENHOR))
ISAÍAS 43.1-7 LUCAS 3.15-17, 21-22
10 JAN 2010
Erni Walter Seibert
1
Introdução
Nos domingos de Epifania, os textos bíblicos procuram mostrar as diversas manifestações de Jesus como o Salvador de todas as pessoas. Os textos deste domingo também mostram a ação salvadora de Deus para com todos. No texto de Isaías, a ênfase está na restauração de Israel. Isaías 40 inaugura a grande seção do livro do profeta que trata diretamente do consolo do povo. Ao chegar no capítulo 43, o profeta mostra como Deus restaura o povo de Israel. Ele cuida do seu povo, ele o protege e salva. A leitura do evangelho deste domingo fala do batismo de Jesus. João Batista pregava o arrependimento. Entre as pessoas que o ouviam, alguns achavam que João poderia ser o próprio Messias. No entanto, João não deixa a dúvida criar raízes. Ele afirma que o Messias é Jesus. E quando Jesus é batizado, acontece uma manifestação rara da Santíssima Trindade indicando que Jesus é o Salvador. É uma das epifanias mais explícitas de Deus e da obra redentora encontradas na Bíblia. Nesse contexto, também deve ser vista a leitura que serve de base para esta pregação: a leitura de Atos. O contexto geográfico do episódio é a Palestina. Os apóstolos em Jerusalém (mais ao sul da Palestina) recebem a notícia de que os samaritanos (o centro da Palestina) haviam recebido a palavra de Deus. Receber a palavra de Deus significava que eles haviam crido. Eram, no entanto, novos na fé, não tinham muito conhecimento. Para ajudá-los em sua jornada de fé e para orientálos na palavra, os apóstolos enviaram, de Jerusalém para a Samaria, Pedro e João. A ação dos dois apóstolos na Samaria é o foco do texto e mostra como Jesus se manifestava Salvador de todos, inclusive dos samaritanos.
2
Exegese
O contexto da perícope em destaque neste domingo mostra como tinha sido a pregação do evangelho na Samaria. Filipe havia pregado, praticado milagres e batizado as pessoas. A pregação de Filipe e os milagres que realizou impressionaram muito o povo. Até mesmo um cidadão muito conhecido por praticar a feitiçaria naquela região chegou à fé. Seu nome era Simão.
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
Simão gozava da admiração dos samaritanos. Ele era ouvido pelas pessoas que consideravam que seus milagres eram fruto de um poder especial que ele tinha. Atribuíam esse poder a Deus. Simão tinha recebido o título de “Grande poder”. No entanto, Simão, ouvindo a pregação de Filipe e vendo os milagres que fazia, incluiu-se entre os novos cristãos. Essa recém-formada comunidade de crentes era o alvo da visita de Pedro e João. Essa comunidade precisava ser instruída na fé e ser firmada nos ensinamentos de Jesus Cristo. Comunidades recém-formadas na fé costumam ter lacunas no seu conhecimento da fé cristã. A fé precisa amadurecer. Uma das lacunas verificadas era quanto à questão de receber o Espírito Santo. Usualmente, o Espírito Santo é dado às pessoas no momento em que elas creem. Vemos isso em Atos 10.44, 19.2 e Efésios 1.13. No entanto, em Samaria, essa era uma questão aberta. Assim como o Espírito Santo desceu sobre os discípulos em Jerusalém (At 2), agora ele precisava descer sobre os cristãos de Samaria. Lucas, no livro de Atos, mostra que o Espírito Santo era dado a todos os que chegavam à fé. Em Atos 10.44-48, para grande admiração dos judeus, o Espírito Santo também foi dado aos gentios. O nosso texto mostra a ocasião em que o Espírito Santo foi dado aos samaritanos. Mas o texto está num contexto esclarecedor. Simão, o mágico, que a essa altura identificava-se com o grupo dos novos crentes, via as coisas extraordinárias que aconteciam e queria ter poder semelhante. Para Simão, o ponto principal não era a fé em Jesus, mas os acontecimentos extraordinários, os milagres que aconteciam. E isso era um desvio da fé. Ele até fez uma proposta financeira para também ter esse poder. Daí, inclusive, vem o termo “simonia”, que descreve a compra e venda ilícita de benefícios espirituais. O texto bíblico mostra-nos que receber o Espírito Santo faz com que a pessoa tenha também um espírito santo. Simão não podia comprar o dom do Espírito Santo. E a prova de que ele não tinha recebido o Espírito Santo estava no fato do coração dele não ser honesto diante de Deus (v. 21). Simão não tinha um espírito santo. Ele precisava arrepender-se de seus pecados, tirar essa má intenção de seu coração e confiar em Cristo. Seu coração precisava ser purificado (v. 22-23). A manifestação do Espírito Santo na vida do que crê dá-se por uma vida santa. Não há negociata com Deus. Além disso, todos os que creem em Jesus Cristo recebem o Espírito Santo.
3
Meditação
Ao deparar-nos com esse texto de Atos, uma das tentações do pregador é fazer uma prédica que fale sobre receber o dom do Espírito Santo. Seguindo esse caminho, o pregador possivelmente irá falar sobre as diferenças de compreensão dessa questão entre as igrejas tradicionais, históricas e as igrejas pentecostais. Seguir esse caminho, no entanto, além de não ser o foco do texto em questão, não permite entrar na riqueza que esse texto traz.
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
A primeira coisa que a perícope menciona é que os apóstolos em Jerusalém ficaram sabendo que o povo de Samaria havia recebido a palavra. Saber a respeito do progresso do evangelho é um assunto de interesse da igreja. A igreja não apenas enviava pessoas para todos os lugares para que o evangelho fosse pregado, mas também acompanhava o resultado da pregação por meio de informações que recebia. Sabemos que a maioria das igrejas oferta para as missões. Muitas igrejas não apenas ofertam, mas participam ativamente do envio de missionários. No entanto, os missionários não podem ficar abandonados na frente de missão. O que está acontecendo na frente de missão é do interesse da igreja. Os meios de comunicação da igreja, sejam revistas, jornais, rádios, TV, convenções, encontros, precisam repassar notícias sobre as missões. Isso entusiasma o povo e ao mesmo tempo mostra o cuidado que se tem com os novos convertidos e o trabalho que lá foi feito. O segundo aspecto que o texto salienta é que o apoio não ficou apenas no conhecido “apoio moral”. Os apóstolos enviaram a Samaria Pedro e João com a missão de apoiar a nova igreja. Dois dos mais conhecidos apóstolos deslocaramse a Samaria para dar apoio à nova igreja. Igrejas recém-formadas precisam de apoio. Elas podem facilmente enveredar por erros na doutrina ou na praxe. A fé ainda não está consolidada. A experiência de pessoas maduras na fé pode ajudar muito. É o que podemos aprender no incidente de Simão, o mágico. Simão era personalidade importante na Samaria. Era conhecido e influente (ouvido). No entanto, o espírito que ele tinha não era santo. Por isso ele precisou ser repreendido. O apóstolo Pedro tinha autoridade para corrigi-lo. E assim foi feito. Graças a isso, aquele trabalho recém-iniciado não sofreu danos ainda piores. O cuidado da igreja de Jerusalém para com a igreja de Samaria mostra o cuidado que Deus tem por seus filhos. Deus buscou os pecadores em Cristo. Ele enviou seu Filho ao mundo para salvar as pessoas. Ele não ficou distante. Ele se envolveu a ponto de dar sua própria vida. Cristãos têm o espírito de Cristo. É o Espírito Santo. Um terceiro aspecto que o texto mostra é que nem tudo o que parece religioso ou extraordinário é de Deus. Milagres não são a prova definitiva de que uma mensagem vem de Deus. Há feitos extraordinários praticados por feiticeiros que, nem por isso, vem de Deus. É preciso distinguir os espíritos. O batismo em Jesus Cristo tem como característica o recebimento do Espírito Santo. Algo está errado quando alguém é batizado em Cristo e não tem o Espírito Santo. Os apóstolos Pedro e João foram a Samaria e impuseram as mãos sobre os que ali foram batizados e esses receberam o Espírito Santo. Estar em Cristo e, ao mesmo tempo, ter o Espírito Santo é algo natural na vida dos cristãos. O ponto-chave é estar em Cristo. Por outro lado, fazer milagres e promover fatos extraordinários nem sempre é prova de que alguém é de Deus. Simão, o mágico, fazia coisas extraordinárias sem estar em Cristo. Ele também pensava que o poder do Espírito Santo era algo que podia ser comprado. Ele, com esses pensamentos, estava longe de Deus. Quando colocamos lado a lado os textos das perícopes deste domingo, podemos ver a centralidade de Cristo na mensagem. Ela deve transparecer igualmente na prédica.
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
4 Imagens para a prédica Para chamar a atenção ao texto, o pregador pode trazer algumas notícias sobre frentes de missão e compartilhar com a igreja. As notícias irão mostrar a situação e os desafios daquele lugar de missão. Notícias podem ser tiradas de revistas da igreja ou de sites da internet. Pode-se, inclusive, pedir que alguns membros procurem notícias da frente missionária e tragam para compartilhar no culto. Foi uma situação semelhante que provocou o acontecimento descrito na perícope de Atos. Uma notícia da Samaria motivou a visita de Pedro e João à frente missionária. É importante que a igreja se preocupe com as novas missões e se sinta responsável por elas. Quais os desafios e as preocupações que as missões trazem para nós hoje?
5
Subsídios litúrgicos
Como no período de Epifania a igreja se dedica especialmente a olhar para as missões, a manifestação de Jesus como Salvador de todas as pessoas, é importante que a escolha de hinos seja feita levando em consideração esse tema. Se a igreja local enviou algum missionário, que neste domingo sejam trazidas notícias do trabalho dessa missão. Se a igreja local contribuiu para alguma missão específica, que ela seja mencionada nas orações do dia. É possível, via internet, capturar imagens de vários países e do trabalho missionário que aí é realizado. Se a igreja possuir um data-show, projetar essas imagens e trazer algumas informações sobre o que está sendo feito ajudará a trazer entusiasmo pelas missões aos participantes do culto.
Bibliografia Bíblia de Estudo NTLH. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2005. SCHILLE, Gottfried. Die Apostelgeschichte des Lukas. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1984.
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PRÉDICA: JOÃO 2.1-11
2º DOMINGO APÓS EPIFANIA
ISAÍAS 62.1-5 1 CORÍNTIOS 12.1-11
17 JAN 2010
Carlos Luiz Ulrich
1
Introdução
O texto de João 2.1-11 já foi trabalhado na série Proclamar Libertação por Walter Altmann (PL v. IX, p. 41-49), Heinz Ehlert (PL v. XX, p. 44-49) e Gottfried Brakemeier (PL v. XXVI, p. 40-46), apontando para questionamentos e dificuldades em relação à pregação da narrativa em apreço. No entanto, queremos lembrar o tempo litúrgico no qual nos encontramos. Estamos no 2º Domingo após Epifania. Epifania é o tempo da revelação. Portanto queremos abordar o texto a partir da revelação do ministério de Jesus, a partir do seu primeiro sinal, nas Bodas de Caná. Os demais textos de leitura são Isaías 62.1-5 e 1 Coríntios 12.1-11. O texto de Isaías aponta para a esperança, para o Deus que se coloca ao lado dos pobres e sofridos. Atualmente, quais são os sinais de justiça e libertação que animam a caminhada de nossas comunidades evangélicas de confissão luterana? O texto de 1 Coríntios 12.1-11 aponta para a diversidade de dons, mas o Espírito Santo age em todos, mas ninguém o possui plenamente. O Espírito Santo está entre nós. Precisamos, por isso, valorizar os serviços e ministérios mais esquecidos e menos valorizados na comunidade. Por que se dá mais valor ao que é mais vistoso e tem aparência de extraordinário? Como os serviços exercidos na comunidade a tornam mais viva e unida em torno do dom maior que é o amor?
2
Reflexão exegética
2.1 – Contexto É provável que o texto de João 2.1-11 dê sequência ao contexto de João 1.19-51. Se “no terceiro dia” (Jo 2.1) faz soma com os “quatro dias” de João 1.1951, o relato de João 2.1-11 é a completude de uma semana. A semana termina com alegria, com uma festa de casamento (lembra o dia do descanso: Gn 2.2-3). O milagre das Bodas de Caná, portanto, seria um primeiro exemplo da frase no fim do episódio anterior: “Pois maiores cousas do que estas verás” (Jo 1.50), dando início à semana inaugural do ministério de Jesus, a qual termina em João 2.11.
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2.2 – Texto O relato de João 2.1-11 apresenta-se como narrativa de milagre. No entanto, o evangelho fala: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia...” (Jo 2.11) Temos aqui o primeiro sinal de Jesus, dando início a seu ministério público. Jesus participa de uma festa de casamento. É um momento de alegria. Quando se constata a falta de vinho, a mãe de Jesus toma a iniciativa e o incentiva a intervir nessa situação. Jesus mantém um breve diálogo não muito amistoso com sua mãe. Parece haver, nesse ponto, uma quebra na narrativa: Jesus parece resistir à sugestão de sua mãe (v. 4). Reage inclusive de forma brusca: “Mulher, que tenho eu contigo?”. Essa quebra, de acordo com KONINGS (2000, p. 112), “fornece a chave de compreensão para o relato como João o entende; ainda não é a hora de Jesus. Mesmo que seja uma manifestação de glória, o feito de Jesus é apenas um sinal, início de sua obra, não a plenitude daquilo que vem realizar (v. 11)”. Entre os convidados é mencionada primeiramente a mãe de Jesus. É interessante observar que ela nunca é chamada pelo nome. No nível do simples relato, a menção prioritária da mãe pode corresponder a seu papel familiar ou social. No entanto, também pode ser que o Evangelho de João queira destacar a mãe de Jesus no início, assim como será destacada na “hora” da consumação (19.25-27) da obra de Jesus. Pode até sugerir o papel da mãe na introdução do “noivo” das núpcias messiânicas ou na entronização do “Rei de Israel” (como Jesus é chamado na cena anterior, 1.49). O Evangelho de João também pode estar querendo chamar a atenção para a importância das mulheres no ministério de Jesus, em que, muitas vezes, a sua presença é silenciosa e sem nome, invisibilizada. Elas estão presentes, mas muitas vezes os seus nomes e suas histórias não são lembradas. “E no terceiro dia” celebram-se “núpcias” em Caná da Galileia (Jo 2.1). As núpcias podem se reportar às núpcias messiânicas. Na comunidade joanina é conhecida a ideia das “núpcias do cordeiro” (Ap 19.7-9). Cordeiro de Deus (Jo 1.29) é o primeiro título dado a Jesus na semana inaugural do seu ministério, que aqui chega à sua conclusão (Jo 1.19-2.11). O livro sagrado do povo cristão, a Bíblia, conta a história amorosa entre Deus e seu povo, na qual a alegria se manifesta. O terceiro dia não deve ser entendido apenas como elemento narrativo, mas aponta para relações simbólicas. Na Bíblia, “o terceiro dia” não deve ser entendido de forma matemática; geralmente indica um breve espaço de tempo, às vezes relacionado com o pronto agir divino (Gn 22.4; 34.25; 40.20). Não é possível responder como Jesus pode viajar da região do Jordão até Caná nesse curto espaço de tempo. Foi “no terceiro dia” que Deus entregou a Torá (Lei, Orientações para uma vida ética) ao povo (Êx 19.11, 19.15). No terceiro dia, Deus também socorre o seu povo (Os 6.2; Lc 13.32, Mt 16.21). Jesus é ressuscitado por Deus (Jo 20.18). No Evangelho de João, há um arranjo narrativo entre a semana inaugural (Jo 1.19-2.11) e a semana final (cf. a indicação de tempo em Jo 12.1). Não podemos excluir uma correspondência com “o terceiro dia” da ressurreição, ainda mais por ser o sinal de Caná a manifestação inicial da glória de Jesus (2.11), seguido por um gesto profético de Jesus anunciando a ressurreição (Jo 2.13-21). Observemos
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ainda que o “terceiro dia”, ao mesmo tempo que indica continuidade (sobretudo aqui, somando com os quatro dias anteriores indica a completude de uma semana), sugere também novidade de vida, intervenção de Deus. Na plenitude do tempo, o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14). Que festa de casamento é essa em que falta vinho? Como pode faltar o vinho, símbolo da alegria e do amor (cf. Ct 1.2; 7.9; 8.2)? É a mãe de Jesus que avisa o seu filho. Quem necessita de vinho, isto é, de alegria e amor? Será a prática do judaísmo? Jesus responde: “Mulher”, que desejas de mim? Que há entre ti e mim, maneira de marcar distância, interesses diferentes (2Sm 19.22, Mc 1.24) ou suspense (2Rs 3.13, Os 14.8). O porquê do suspense aparece logo: “A minha hora ainda não chegou” (Jo 2.4). O que Jesus vai fazer é apenas um sinal, mas não a obra em si. Ele completa a sua obra na crucificação e na ressurreição (Jo 19.17-20). O questionamento de Jesus resulta numa palavra de confiança da mãe. Ela dá a orientação: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2.5). Jesus manda encher de água os jarros de purificação e servir essa água, que ao ser servida se revela vinho (Jo 2.7). Estavam aí seis talhas de pedra, das bem grandes (de duas a três medidas, uns cem litros cada) (Jo 2.7). Elas são de pedra (como o Talmud aconselha por causa da pureza) e serviram para as purificações rituais, que o judaísmo, sobretudo de tendência farisaica, tanto prezava. Jesus manda encher as talhas com água. Os que servem à mesa executam a ordem de Jesus. O Evangelho de João chama os serventes de diáconos, fazendo alusão ao serviço da comunidade. “A água transformada em vinho” (Jo 2.9): não se diz como isso aconteceu, mas a voz passiva sugere uma ação de Deus ou de seu enviado, sua Palavra criadora (Jo 1.3). Jesus manda levar essa água-vinho ao encarregado da festa, que não sabe “de onde” vem. O termo “de onde” aponta em João para a intervenção de Deus (Jo 3.8). O encarregado da festa prova da água e constata que é vinho. Vinho excelente, a tal ponto que comenta para o noivo: “Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora” (Jo 2.10). Em Israel, quem oferece a festa de casamento é o noivo. Jesus é quem providencia “agora” o vinho melhor e abundante do tempo messiânico (Is 25.6; Jr 31.12-13). É importante lembrar: * Com muita frequência, o casamento é na Bíblia sinônimo de aliança (conforme 1ª leitura: Isaías 62.1-5). Ser infiel à aliança é a mesma coisa que ser uma pessoa adúltera, prostituta. * É necessária uma nova aliança. “Eles não têm mais vinho” (Jo 2.3). * O que sustentava a antiga aliança eram os ritos de purificação (Jo 2.6 – as talhas para a purificação estão vazias). Os ritos de purificação não são mais importantes. * Jesus é aquele que inaugura a Nova Aliança, aquele que traz o novo vinho, de ótima qualidade, em abundância e alegria. O vinho, por sua vez, é símbolo
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muito forte do amor (Ct 1.2, 7.9, 8.2). Segundo o Evangelho de João, Jesus é a completude do amor (Jo 13.31-35). * Jesus é o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo. * As Bodas de Caná nada tem a ver com beberagens, mas apontam, simbolicamente, para a alegria, a festa do reino. * O texto também aponta para a importância das mulheres na comunidade joanina. É a mãe de Jesus que toma a iniciativa, quando acaba o vinho, de falar com Jesus, bem como de dar a orientação aos diáconos: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. * O reino de Deus aponta para o compromisso que resulta em alegria.
3
Meditação
Jesus inicia em Caná da Galileia seus “sinais” proféticos. João chama as obras maravilhosas de Jesus de sinais, nunca de milagres, como os sinóticos. Isso mostra uma ligação da comunidade joanina com o AT, que chama assim os gestos pelos quais os profetas provam que são mandados por Deus, como Moisés em suas narrativas de convencer o faraó (o termo bíblico para as “dez pragas” do Egito é “sinais” – Êx 4.8-9). O sinal não recebe seu sentido de si mesmo, mas daquilo que ele assinala. O sinal de trânsito não tem seu sentido em si (em suas cores), mas no alerta e perigo que assinala. O sinal de Caná não aponta para um fornecimento espetacular de vinho, mas para a missão messiânica de Jesus. O vinho da alegria transforma-se em sangue derramado para a remissão de nossos pecados. É o início dos sinais, não a plenitude. Em João 2.4, Jesus falou que a “sua hora” ainda não tinha chegado. Sua hora será da plenitude, do amor consumado, quando disser: “Está consumado” (Jo 19.30). Portanto a manifestação de sua glória é, nas Bodas de Caná, apenas o inicial. Se, pois, os discípulos creem nele, é também de modo inicial. A fé por causa de um sinal é apenas um primeiro passo. O discipulado mostra-se no seguimento e na fidelidade a Jesus. João aponta para esse caminho, o cumprimento do mandamento do amor (Jo 13.34).
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Imagem para a prédica
Levar vários sinais de trânsito – e perguntar à comunidade o que significam. Será que todos sabem o que significam os sinais de trânsito? Os sinais do trânsito – o que vemos e o que eles significam? Eles representam mais do que a sua imagem e suas cores. É preciso estudá-los, aprender o que significam e respeitálos no trânsito. A imagem, por si só, não diz o significado. A educação do trânsito é fundamental para uma boa convivência entre as pessoas, para que haja respeito e vida digna. Assim também é necessário entender o sinal nas Bodas de Caná. Jesus inicia o seu ministério no meio do povo, num casamento, numa festa e com alegria. A transformação da água em vinho lembra-nos da plenitude que se realiza tam-
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bém no sacramento da Santa Ceia e na doação integral de Cristo na cruz e na sua ressurreição.
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Subsídios litúrgicos
Saudação: Epifania: Saudade do reino No comecinho do ano, celebramos a Epifania: Deus se manifesta à humanidade na pessoa de Jesus Cristo. Na epifania do Filho que nasce da esperança viva de um povo, na epifania de seu amor feito corpo, Deus se torna peregrino e servidor. Da sua própria boca ouvimos prenúncios de um reino vindouro: “E vimos a sua glória... “O Reino está entre nós...” (Luiz Carlos Ramos) Confissão de pecados: Ó Cristo, redentor de todos e todas, Com tua vinda derrubaste o Muro de separação entre os povos, Começando uma nova presença entre nós. Perdoa nossa teimosia ao reconstruir cercas E, por tua ternura, desafia-nos a romper Com toda discriminação e exclusão, Para acolhermos tua presença renovadora Entre a humanidade. Tu que nos revelaste o rosto cuidadoso de Deus Através dos teus sinais de amor Em comunhão com o Espírito Santo. Perdoa nossos pecados e renova em nós a graça do amor Para colocar sinais do teu Reino de paz em nosso mundo. Amém. (Adaptado de Paulo Roberto Rodrigues) Absolvição: Deus amou tanto o mundo, que enviou o seu Filho. As estrelas do céu falam-nos de seu perdão Ao brilhar nas noites escuras de nossas vidas. Amém. (Inês de França Bento) Oração de intercessão: Lembrar que Deus fala através dos sinais. Jesus inicia os seus sinais em uma festa, num casamento. A alegria faz parte do reino de Jesus. Precisamos, no entanto, evitar os excessos, que conduzem a doenças e à morte. Orar pelas pessoas que não conseguem viver com responsabilidade e se deixam levar pelo êxtase do momento.
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Lembrar pessoas doentes devido a álcool, drogas, excesso de comida e de consumo. Também nós, seres humanos, criamos sinais para nos comunicar e viver melhor. Necessitamos conhecer e respeitar os sinais de trânsito, para que diminuam as imprudências e mortes entre nós. Orar por uma educação responsável no trânsito em nosso país. Lembrar que em nosso mundo há desperdício por uma camada da população e, por outro lado, há pobreza e miséria. Orar pelos que passam fome devido ao esbanjamento de outros. Oramos e pedimos: Aumenta entre nós o respeito e a paz. Dá-nos esperança, fé e amor!
Bibliografia ALVES, Rubem (Org.). CultoArte: Advento/Natal/Epifania. Petrópolis: Vozes; Campinas: CEBEP, 1990. KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: Amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 2000.
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PRÉDICA: NEEMIAS 8.1-3, 5-6, 8-10
3O DOMINGO APÓS EPIFANIA
LUCAS 4.14-21 1 CORÍNTIOS 12.12-31a
24 JAN 2010
Odete Líber de Almeida
1
Introdução
Neemias 8 é um texto que pertence a uma unidade maior, Neemias 8-10, que foi compilado com o objetivo de apresentar a renovação da aliança da comunidade restaurada no período pós-exílico. Como unidade, Neemias 8 é delimitado pela indicação da data (v. 1) e o v. 13, que continua a narrativa ao apresentar a frase inicial: “no segundo dia”. Além disso, apresenta uma unidade temática, isto é, a leitura e explicação da lei por Esdras ao povo de Deus, o qual, com boa vontade, respondeu às exigências que lhe foram feitas. A leitura da lei estabelece também a ligação com a segunda parte do capítulo (v. 13-18), a celebração da festa dos tabernáculos, que está subordinada a esse tema maior; os v. 13-15 relacionam-se com Esdras e a lei, enquanto os v. 16-17 mencionam a festa que foi observada pelo povo de Deus. Neemias 8 focaliza a leitura da lei por Esdras ao povo de Deus reunido. Tudo o que está envolvido no texto, incluindo os elementos litúrgicos dos v. 5-6, está subordinado à leitura da lei.
2
Considerações exegéticas
Neemias 8 é uma narrativa da reunião do povo de Deus para ouvir a lei na época de Esdras e Neemias. A razão para a reunião não é apresentada, mas se pode deduzir de Levítico 23.23-25 que eles se reuniram “no primeiro dia do sétimo mês”, por ser considerado dia do descanso consagrado ao Senhor, provavelmente o festival do Ano Novo. Levítico chama o primeiro dia do sétimo mês de “dia de completo descanso”, convocação santa para ser comemorada com sons de trombetas. O sétimo mês era também o tempo em que o altar tinha sido erguido e no qual a comunidade começava o culto do sacrifício (Ed 3.3). A iniciativa para a leitura pública da lei veio de todo o povo de Deus, ou seja, toda a assembleia reunida, composta por mulheres, homens e, pelo menos, algumas crianças: “todos os que eram capazes de entender o que ouviam” (v. 2-3). Foi então construído um “púlpito de madeira” (ARA), o povo permaneceu em pé até que Esdras finalizasse a leitura da lei, que durou da “alva até ao meio-dia” (v. 3). Apesar de tempo tão longo, o povo permaneceu atento e ouviu com atenção o que estava sendo lido.
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3º Domingo após Epifania
Esdras e os levitas aplicaram a lei à situação contemporânea. Os levitas eram responsáveis pela interpretação da lei, tendo aproximadamente o mesmo papel atribuído a eles em 2 Crônicas 17.7-9. Esdras também bendisse o povo, que respondeu “amém” duas vezes (Dt 10.17; Jr 32.18; Dn 9.4; Ne 1.5; 9.32). Não é fácil saber que textos foram lidos e o que foi acrescentado hermeneuticamente (8.14-18), mas a leitura da lei e sua explicação tiveram grande efeito sobre o povo de Deus, que se tornou consciente de seus pecados e chorou por causa deles. Em vez de uma reunião festiva, o povo chorou, uma reação que não está muito de acordo com o caráter do dia que deveria ser de alegria. Esdras, contudo, exortou o povo a não chorar, embora eles tivessem essa reação ao ouvir a leitura da lei, provavelmente refletindo sua culpa por não observála atentamente. A leitura da lei levou o povo ao choro, mas Esdras não queria que o povo regressasse às suas casas naquela situação. Era necessário considerar que aquele dia era “santo” ao Senhor, além de estar relacionado com a promulgação da lei na renovação da aliança a cada sete anos (Dt 31.9-13). Esses dias de festa eram regularmente associados à alegria no Antigo Testamento (Dt 12.1; 16.11), talvez por estar ligados ao memorial da graça de Deus para com seu povo em seus atos históricos de redenção. O povo foi enviado a suas casas para comer e beber, porque aquele dia deveria ser não de amargura, mas sim de regozijo. Era uma refeição de “ação de graças”, e porções dela foram enviadas aos que não tiveram a oportunidade – ou haviam se afastado – de se preparar para aquela celebração (Ne 8.12). Esdras disse também ao povo para não chorar ao partir, porque a “alegria do Senhor é a vossa força” (v. 10). “A alegria do Senhor” era a alegria que cada israelita sentia nesses festivais, à medida que se identificava com o povo de Deus e com a salvação e, de forma apropriada, em sua própria geração, com a salvação que fora dada aos antepassados. Nesse ato de identificação, que assumia a forma de uma alegre celebração, estava a proteção do povo, cuja força estava na “alegria do Senhor”.
3
Sugestões para a prédica
O tema dominante de Neemias 8 é a leitura da lei de Deus, sua explicação e a consequente resposta do povo. O povo reunido ouviu a lei de Deus e respondeu às exigências feitas. A leitura da lei por Esdras e o ensino dos levitas ao povo de Deus levaram-no à compreensão do que fora lido e, portanto, à alegria. Num primeiro momento, a leitura da lei produziu tristeza, mas Esdras e os levitas asseguraram que a mensagem da lei envolvia também a graça e a salvação dispensadas não somente aos antepassados, mas também ao povo de Deus atual, transformando sua tristeza em alegria. Há uma grande distância ente a teoria e a prática da autoridade da Escritura. A ortodoxia protestante geralmente sustenta que somente a Bíblia deve regular a fé e a conduta dos cristãos. Contudo, qual é o valor dessa autoridade se ela não é corretamente entendida? Além disso, o que acontece quando os textos individuais
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3º Domingo após Epifania
são entendidos de forma contrária ao ensino prevalecente da Escritura como um todo? Em outras palavras, o texto sem uma hermenêutica aceitável corre o perigo de tornar-se nada mais do que um objeto fossilizado de veneração. Tanto no passado como hoje a palavra de Deus é orientação para nossas vidas. Há hoje, muitas vezes, um zelo puro e simples ou um mero discurso a respeito das Escrituras Sagradas, o que não é suficiente para a vida da igreja cristã, pois pode transformar-se numa ortodoxia sem entendimento, sem nenhuma relação com a vida da comunidade cristã como povo de Deus. As Escrituras devem ser, para nós, orientação de Deus e livro que conduz à vida. Lembremos que a palavra definitiva de Deus não é de exclusão ou julgamento, mas sim um convite de sua própria graça. 3.1 – Pistas práticas para a vivência na comunidade Na época de Neemias, havia falta de identidade de fé, resultado da assimilação de outras práticas religiosas, de radicalismos na prática religiosa e de alianças por interesse econômico. O povo estava confuso, e Neemias evitou o fantasma da desintegração da comunidade. Ele mostrou como se enfrenta o desafio da reconstrução moral, social, econômica, política e religiosa de um povo angustiado, dividido e oprimido ao promover a solidariedade entre os irmãos e irmãs da comunidade judaica. Foi nesse contexto que a leitura da lei por Esdras assegurou ao povo que a mensagem da lei envolvia a graça e a salvação ao atual povo de Deus, o qual transformou e transforma a tristeza em alegria. Nesse sentido, Neemias contrariou e eliminou as tendências desintegradoras na comunidade, reforçou as antigas práticas e costumes tribais e religiosos e fez a comunidade redescobrir sua identidade em meio à adversidade. Nossa sociedade desintegra-se dia a dia, e a comunidade cristã deve participar da reconstrução da comunidade de fé, propiciando identidade pessoal e comunitária. Manter a memória dos textos bíblicos, da lei, é contribuir para que mulheres e homens, ao se depararem com catástrofes e confusões, afluências e dor ou perturbações, saibam como lidar com essas situações (Dt 6.20-24). O senso de identidade se expressa na forma de histórias – vividas, contadas, recontadas e intersubjetivamente transformadas. Esse caráter “historiado” da identidade permite-nos referir-se a ela como identidade narrativa. As histórias contadas pelas pessoas são não somente uma prática social, mas também uma atividade de autoconhecimento: as pessoas se reconhecem e transformam ao engendrar novos significados e comportamentos e tomar posição frente a eles numa perspectiva ética e religiosa. Esdras não mediu esforços para atingir seu objetivo, para que todos/as respondessem sim a Deus com um gesto público e solene. E ao responderem sim a Deus, encontraram sua identidade, sua história e vivenciaram sua fé. A fé é uma orientação da personalidade em relação a si mesma, ao próximo, ao universo; é uma resposta total; uma forma de ver as coisas e de lidar com as coisas com as quais se lida, quaisquer que sejam; uma capacidade de viver além do nível mundano; de ver, sentir e agir em termos de uma dimensão transcendente.
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3º Domingo após Epifania
Identidade e fé implicam sempre um alinhamento do coração ou da vontade, um compromisso de confiança e lealdade. Significa que a comunidade de fé e as pessoas que dela fazem parte descobrem uma nova forma de vivenciar a palavra de Deus, porque colocam, sem qualquer equívoco, o coração “em”. E colocar o coração “em alguém” ou “em algo” requer que a pessoa tenha “visto” ou “veja o propósito de” aquilo a que ela é leal. A identidade e a fé, portanto, implicam visão. É um modo de conhecer, de reconhecimento, de manifestação da graça de Deus, que se antepõe a toda atividade humana tanto no plano social como individual/ pessoal. Uma pessoa ou uma comunidade comprometem-se com aquilo que é conhecido ou reconhecido e vivem lealmente, tendo sua vida e caráter moldados por esse comprometimento. A vida é graça, e não conquista e mérito. A vida de cada pessoa reflete a vida de sua comunidade, de sua identidade e de sua fé.
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Imagens para a prédica
Bússola – A bússola é um objeto com uma agulha magnética que é atraída para o polo magnético terrestre. A história nos diz que sua invenção é atribuída aos chineses. Uma enciclopédia chinesa descreve a fabricação de agulhas magnéticas, as quais previam os acontecimentos futuros. Mais tarde, essas agulhas passaram a indicar o caminho aos navegantes. Em poucas palavras, a bússola é um pequeno imã em forma de agulha que gira sobre uma rosa-dos-ventos. Afastada de qualquer imã, é um eficiente instrumento de orientação, uma vez que aponta sempre para o polo norte terrestre. Do mesmo modo, a palavra de Deus é orientação para nossas vidas. A mensagem da palavra de Deus traz a graça e a salvação não somente aos antepassados, mas também ao povo de Deus atual. Afinal, ela transforma toda a tristeza em alegria. Cântico – “Tua Palavra na vida”: Tua palavra na vida é fonte que jamais seca, água que anima e restaura todos que a queiram beber. Tua palavra na vida é qual semente que brota, torna-se bom alimento, pão que não há de faltar. Tua palavra na vida é luz que os passos clareia para que ao fim no horizonte se veja o reino de Deus.
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3º Domingo após Epifania
5 Subsídios litúrgicos Invocação: Deus, Criador de todas as coisas, que nos fizeste à tua imagem e semelhança, invocamos a tua presença entre nós. Declaramos que dependemos de ti e de tua graça. Que a presença de Jesus, que se fez ser humano e esteve entre nós demonstrando seu amor eterno, e a presença do Espírito Santo nos anime e encoraje, para que possamos ser o povo que se identifica com o povo de Deus e a salvação que por ele nos é dada. Amém. Confissão de pecados comunitária: Deus, nós nos aproximamos humildemente para te pedir perdão. Perdão, Senhor, porque não temos sido povo cuja força está na “tua alegria”. Perdão, Senhor, porque não temos promovido a solidariedade entre os irmãos e irmãs desta comunidade e não temos vivenciado a tua palavra e nos afastamos de ti. Perdão, Senhor, porque esquecemos a tua vontade e pecamos contra a vida humana. Perdão, Senhor, porque valorizamos a aparência e não a essência. Perdão, Senhor, porque valorizamos o ter e não o ser e, com isso, desrespeitamos o ser humano na sua totalidade, porque os tratamos como objetos descartáveis. Perdão, Senhor, porque ferimos as pessoas e não as respeitamos em suas diferenças. Perdão, Senhor, porque sua Palavra não tem sido orientação para nossas vidas. Perdão, Senhor, é o que te pedimos e te suplicamos. Concede-nos o perdão e fortalece a nossa fé para que nos animemos a agir de modo diferente! Perdão, Senhor! Envio e bênção: Conhecendo a graça de Deus em Cristo Jesus e atentos e atentas às palavras das Escrituras, orientação de Deus e livro que conduz à vida, que possamos lembrar, no decorrer da semana, que a palavra definitiva de Deus não é de exclusão ou julgamento, mas sim um convite de sua própria graça. Que sejamos conhecedoras e conhecedores de nós mesmos, com identidade e fé, e que a nossa vida seja um reflexo da vida em comunidade. Vão em paz e que Deus abençoe, guarde e fortaleça a todos vocês.
Bibliografia FENSHAM, F. Charles. The books of Ezra and Nehemiah. Grand Rapid (Michigan): W. B. E. Publishing Company, 1982. FOWLER, James. Estágios da fé: a psicologia do desenvolvimento humano e a busca de sentido. São Leopoldo: Sinodal/IEPG, 1992. THE NEW INTERPRETER’S BIBLE. Nashville: Abingdon Press, 1999. WILLIAMSON, H. G. M. Ezra, Nehemiah. Word Biblical Commentary. Waco (Texas): Word Book, Publisher, 1985.
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PRÉDICA: LUCAS 4.21-30
4O DOMINGO APÓS EPIFANIA
JEREMIAS 1.4-10 1 CORÍNTIOS 13.1-13
31 JAN 2010
Kurt Rieck
1
Introdução
O período após Epifania lembra-nos que Deus se manifesta em Jesus Cristo. O Evangelho de Lucas 4.21-30 vem somar ao anúncio dessa verdade. Entre os demais textos de leitura prevista encontramos Jeremias 1.4-10, que descreve a ação divina que chama e capacita o profeta para que anuncie o propósito de Deus para com as pessoas. É Deus agindo e interferindo na história da humanidade. Ao lermos 1 Coríntios 13, encontramos a força do ágape, do amor incondicional expresso em atitudes concretas. Somente essa força será capaz de salvar a humanidade. Deus revela-se em completo amor. A dimensão do período após Epifania, em que é sublinhado o propósito de Deus em comunicar-se conosco e o bem que deseja à humanidade, pode ser melhor compreendido através de uma metáfora. Num grande formigueiro, uma pessoa observa formigas buscarem comida em meio a latas de veneno. Como alertar as formigas do risco que estão correndo? Falar alto, fazer barulho, nada disso faria com que as formigas entendessem o que queria dizer. Depois de muito pensar, concluiu que havia apenas uma chance de se fazer entender: tornar-se uma formiga. E assim se deu. Fez-se formiga e, na linguagem delas, mostrou que o caminho em que andavam as levaria à morte. Orientou as formigas a buscar comida em outra trilha. Assim, tornando-se uma formiga, salvou-as da destruição, e as formigas o compreenderam. Deus se fez gente para que os seres humanos entendessem a sua intenção e aceitassem o propósito da sua criação.
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Exegese
2.1 – Contexto Jesus está onde viveu a maior parte da sua vida. A sua fama é conhecida em Nazaré. Na sinagoga, a plateia reconhece ser Jesus um profeta. Detalhes V. 21 – Jesus, com mais de 30 anos, maduro, adulto, agindo no poder do Espírito Santo (Lc 4.14) e consciente da sua autoridade, vale-se do manuscrito de
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4º Domingo após Epifania
Isaías, capítulo 61, versículos 1 e 2. Manifesta aos ouvintes que nele acontece o cumprimento da Escritura que acabara de ler, a tarefa para a qual veio a este mundo. V. 22 – A plateia reconhecia quem ele era, no entanto, reagia com desdém, subestimando-o. Como pode o filho de José, aquele simples carpinteiro, arrogar estar se cumprindo nele aquela profecia anunciada pelo profeta Isaías? V. 23 – Há no enredo um vazio. Dá para deduzir que os nazarenos instigaram para que Jesus curasse todos os doentes que estivessem ao seu redor. Jesus fala por eles. Ele não iria comercializar ou banalizar as curas. Ele não entra no jogo dos nazarenos. É como se eles dissessem: “Vamos ver se você é bom mesmo!” A provocação não deixa de ser uma tentação. Jesus novamente é posto à prova, a exemplo do que lemos em Lucas 4.12. V. 24 – Os habitantes de Nazaré não puderam ser abençoados pelas obras do Messias, pois trataram Jesus com desdém. Não o respeitaram. Até para ele serviu o velho ditado: “Santo de casa não faz milagre”. Pelo tratamento que lhe foi dado, fazer o que os nazarenos pediam seria como “jogar pérola aos porcos”. A desconsideração deixa os nazarenos surdos, indiferentes e insensíveis. V. 25 e 26 – Jesus lhes mostrou que os profetas não faziam suas obras admiráveis para todos e para isso utilizou duas ilustrações. Lembrou o exemplo de Elias, que foi enviado à viúva de Sarepta, conforme registrado no livro de 1 Reis 17.8-24. Havia grande seca. Muitos estavam morrendo de fome. O profeta Elias dirigiu-se a uma pobre viúva, que tinha seu filho doente, um pouco de farinha, azeite e nada mais para a sua última refeição. Foi desafiada a dar aquele pouco. Em fé soube dar o que lhe restava. Por pura graça, recebeu o sustento por muitos dias. Depois faleceu o seu filho e, mesmo indignada, a viúva foi agraciada por Deus. Viu seu filho reviver por intercessão do profeta Elias. V. 27 – Jesus lembrou também do profeta Eliseu, conforme registrado no livro de 2 Reis 5.1-14. Um comandante do exército do rei da Síria, de nome Naamã, herói de guerra, era leproso. Ficou sabendo do dom de cura do profeta e buscou por ajuda e foi curado. Essa experiência fez Naamã reconhecer como sendo único o Deus de Israel. Tomando por exemplo os dois profetas, o texto sublinha que, em ambos os casos, pessoas estrangeiras foram auxiliadas. Também muitas pessoas sofrem em decorrência de dificuldades, mas apenas uma pessoa, em cada exemplo citado, foi auxiliada. Para essas o ingrediente fé foi decisivo. V. 28 – Os ouvintes encheram-se de ira. Por motivos religiosos, dentro da sinagoga, surge a ideia de executar a justiça sumariamente, linchando Jesus. A reação é semelhante à da organização de uma “guerra santa” ou à de uma “cruzada medieval”. Outros denominariam esse gesto de “raiva santa”. V. 29 – Levaram Jesus até o alto de um monte com o propósito de jogá-lo para baixo. Não há rejeição maior do que desejar a morte de alguém. As palavras de Jesus levaram-nos a perder a razão pelos seus atos. V. 30 – Jesus conseguiu escapar do linchamento. A missão de Jesus estava apenas iniciando. A cruz estava por vir.
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4º Domingo após Epifania
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Meditação
Todo texto tem inúmeros pontos de abordagem. Cada comunidade tem seu momento, e é esse que deve ser percebido. 3.1 – Vemos a força da palavra de Deus que lida, proclamada, desencadeia reações. Somos movidos por palavras que nos influenciam. Como a palavra de Deus age em nós e em nossa comunidade? 3.2 – Santo de casa não faz milagre. Encontramos a rejeição daquele que era conhecido desde criança. Entenderam que Jesus estava se alçando a uma função que jamais lhe caberia. A tendência do ser humano é escutar os outros. As palavras ditas pelos de casa são menosprezadas. Na família, ocorre isso com frequência. Os filhos preferem ouvir alguém outro e não os de casa. Como esse fenômeno se dá em nossas comunidades? 3.3 – O tema cura pode ser desenvolvido. Curas ocorrem. Quem é merecedor de cura? Muitos acreditam que podem exigir de Jesus a cura. Quantas vezes ouvimos: Eu te ordeno, Senhor, faça isso ou faça aquilo. O ser humano é petulante ao querer fazer de Deus a sua marionete. Jesus não deixou que seus conterrâneos o enganassem com falsas promessas. Quantas denominações cristãs se valem da cura como objeto de negócio! Aliás, por sinal, parece ser um negócio muito rentável. Que jamais caiamos nessa tentação! Jesus cura, mas apenas com o propósito de engrandecer o nome de Deus e prover vida digna a seus filhos. Jesus, conforme texto em estudo, não fez da cura uma graça barata. Elias e Eliseu são exemplos de profetas que agiram em nome de Deus, inclusive alcançando pessoas que não pertenciam ao povo de Israel. A graça de Jesus vai muito além dos nossos limites étnicos e geográficos. Seguidamente, nós luteranos somos identificados como a “igreja dos alemães” ou de “igreja particular”. Bastamo-nos em nós mesmos, tal qual fez o povo de Israel. Sem perder a nossa identidade, precisamos acolher os que buscam e carecem da salvação realizada em Cristo Jesus. 3.4 – A “ira santa” é mais um assunto presente no texto. Como é possível matar em nome de Deus? Guerras santas são episódios do Antigo Testamento. A partir de Jesus, com a abolição da lei de talião, do “olho por olho, dente por dente”, conforme Mateus 5.38-48, inicia-se um novo tempo. Como é possível em nome de Deus articular uma falcatrua? Como uma religião pode desejar a morte do próximo? Como de dentro de um templo sagrado pode se conspirar a morte de alguém? A história humana é pródiga nesses exemplos, começando com Caim e Abel e chegando aos nossos dias. Por motivos pseudossagrados incentiva-se o ódio contra o próximo, promovendo verdadeiras “batalhas espirituais”. Jesus deu um basta a tudo isso. O centro da fé cristã é a encarnação de Deus na pessoa de Jesus Cristo. Ele veio para cumprir esse chamado.
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4º Domingo após Epifania
4 Imagens para a prédica Muitos leram livros de Agatha Christie ou olharam algum filme baseado em seus romances. Lembro, entre outros, do Passageiro para Frankfurt, Assassinato no Expresso do Oriente e Morte no Nilo. Normalmente são tramas revestidos de morte. O leitor é instigado a descobrir o autor e a causa do crime. Gostaria de convidá-lo para, num primeiro momento, olhar o evangelho previsto para este domingo a partir desse ponto de vista. Proponho um título para essa pregação: A trama da sinagoga. 4.1 – Construa um enredo envolvente, no qual os ouvintes consigam perceber o momento dramático vivido por Jesus. Imagine o que possa ter ocorrido nas entrelinhas do texto. Instigue a curiosidade. Assim, começamos pelo fim, baseando-nos nos versículos 28 e 29, falando do grupo de linchadores que tramaram a morte de Jesus. Qual seria o motivo que os levou a tramar a morte de Jesus? 4.2 – Leitura do texto. 4.3 – Descreva o contexto no qual Jesus se encontrava: na sinagoga Jesus lê palavras do profeta Isaías. 4.4 – Apresente os motivos que desencadearam a tentativa de assassinato de Jesus. 4.5 – Desenvolva algum dos temas abordados na meditação que venha a ser relevante para a sua comunidade. 4.6 – Conclua lembrando o período litúrgico após Epifania, sublinhando a forma como Deus se mostra à humanidade. Tal qual foi em Nazaré, as pessoas continuam não entendendo que Jesus é Deus entre os humanos. Cabe-nos apontar para o centro da fé, que é Cristo Jesus.
5
Subsídios litúrgicos
Hinos: Quando da leitura de Jeremias: Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 323. Após a pregação: Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 475. Após a confissão de fé: Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 471. Confissão de pecados: Senhor, como é difícil reconhecermos as nossas culpas. Acreditamos que sempre temos a razão. Senhor, como é fácil julgar os outros e ver neles o quão culpados são. Cristo, obrigado por receberes com uma palavra de perdão aqueles que te desprezam. Cristo, também com severidade exorta os satisfeitos em si mesmos e os que reprimem qualquer sentimento de culpa.
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4º Domingo após Epifania
Tem piedade, de nós, Senhor. Tem piedade, de nós, Jesus. Tem piedade, de nós, Senhor. Proclamação da graça de Deus: Arrepender-se é reconhecer a culpa. Arrependimento é o senso que nos leva a Deus, que, por sua vez, nos revela o seu amor e o seu perdão. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Oração de coleta: Senhor! Neste domingo buscamos descanso dos livros, das cartas, das atas, dos e-mails, das chaves e do relógio. Descansamos nas tuas mãos nossos medos, nossas preocupações, nossas tristezas e nossos anseios. Descansamos totalmente em silêncio, consolados, em tua proteção e em tua paz. Obrigado pelo domingo que nos ensina a descansar em ti. Amém. Intercessão: Senhor, graças te damos pela oportunidade de termos estado aqui, no teu templo, para te louvar e ser alimentado por tua palavra. Imploramos, fortaleça a nossa fé e a fé dos nossos filhos e filhas. Tu vieste ao mundo dos humanos por intermédio de Jesus Cristo. Sabemos que tu apenas queres o nosso bem. Que possamos ouvir os teus ensinamentos e crescer na fé. Isso é o que pedimos em nome de Jesus Cristo. Amém!
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado, v. 2, Sociedade Religiosa A Voz Bíblica. BARCLAY, William. El Nuevo Testamento, v. 4. Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1973.
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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 15.1-11
5O DOMINGO APÓS EPIFANIA
ISAÍAS 6.1-8 (9-13) LUCAS 5.1-11
07 FEV 2010
Pedro Kalmbach
1
Introdução
Conforme o Antigo Testamento, Deus chamou uma e outra vez pessoas para incumbi-las com uma missão. Assim existem diversos chamados: Abraão, Moisés, Gideão, Samuel, Amós, Isaías, Jeremias e outros. Isaías 6 apresenta o chamado ou a vocação de Isaías. Lucas 5 relata o chamado que Jesus fez a Pedro, que de pescador no lago de Genesaré passou a ser pescador de pessoas. Nos primeiros versículos de 1 Coríntios 15, Paulo afirma e recorda que é apóstolo pela graça de Deus (em Atos 9.3-6, Lucas narra a aparição de Jesus na vida de Paulo). Encontramos nos três textos o tema da vocação daquelas pessoas que foram chamadas por Deus. As três pessoas chamadas, conforme esses textos, têm em comum que não se consideram dignas para a tarefa proposta [Isaías afirma que está perdido e que não pode dizer nada (Is 6.5); Pedro se reconhece como pecador e por isso pede que Jesus se afaste dele (Mt 5.8); Paulo não se considera digno de ser chamado apóstolo por ter perseguido a igreja (1Co 15.9)].
2
O texto
No capítulo 15, Paulo confronta-se com a incredulidade dos coríntios diante da ressurreição em geral. A ressurreição de Cristo parece que era algo indiscutível, mas essa eles (a comunidade dos coríntios) não relacionavam com a ressurreição dos mortos. Paulo assinala que a fé na ressurreição dos mortos não é um detalhe a mais para os cristãos. Segundo esse apóstolo, entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição dentre os mortos existe uma íntima relação. Os versículos 1 a 11 são, nesse contexto, um prelúdio para o que segue e que é um tema central para Paulo: a ressurreição dos mortos. Nos versículos 52 e 57, o apóstolo afirma que Deus nos quer fazer coparticipantes de sua vitória sobre a morte. Nesse sentido, a afirmação e confissão de que Cristo morreu e ressuscitou (v. 3 e 4) passa a ser o fundamento da esperança que vai além da morte. A ressurreição da morte, vida a partir da morte. É disso que se trata e é o que dá força para resistir à morte, apesar de ter de morrer. Pois Deus não venceu somente a morte para ele e para seu filho. Dessa maneira, Paulo enfrenta as dúvidas e a incredulidade a respeito da ressurreição que existiam entre os coríntios. O texto da prédica (v. 1-11) relembra a comunidade e cada pessoa de que no horizonte da ressurreição dos mortos estão o fundamento e o princípio da fé cristã.
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5º Domingo após Epifania
Cristo morreu por nossos pecados (v. 3) e ressuscitou no terceiro dia (v. 4). Paulo identifica o Cristo morto com o Cristo ressuscitado. Esse Cristo foi visto por Cefas, depois pelos doze, mais tarde por mais de quinhentos irmãos e irmãs etc. (v. 5-7). Por último, ele apareceu a ele, ao menor dos apóstolos (v. 7). Paulo lembra as pessoas cristãs em Corinto de que a fé que os sustenta vai muito além da morte e que elas vivem sob a graça de Deus por meio de Cristo. Apesar de não merecer ser apóstolo, por ter perseguido a igreja de Deus, Paulo compartilha que é apóstolo por pura graça e bondade de Deus. É Cristo que, com sua presença, com sua misericórdia e doação, fá-los comunidade, sustenta e chama para viver assim como ele vive.
3
Meditação
Mesmo que 1 Coríntios 15 aborde fundamentalmente o tema da ressurreição dos mortos, sugiro delimitar o tema que o texto de 1 Coríntios tem em comum com os outros textos (Lucas e Isaías) para o 5 ° Domingo após Epifania: a vocação dos que foram chamados por Deus e que essa vocação vai mais além das aptidões das pessoas e de sua história. Deus chamou Abraão, Isaías, Pedro, Tiago e João, Paulo e um sem-número de pessoas ao longo da história. No sentido estrito, ao expressar sua misericórdia e seu amor, Deus chama cada pessoa que se diz cristã. A cada uma ele dá dons, vocaciona para que possa responder a esse chamado, dando testemunho de sua presença e de sua vitória sobre a morte. Liturgicamente, as comunidades cristãs celebram o chamado de cada pessoa com o Batismo. É ali que se marca radicalmente o que o ato salvífico de Cristo é para cada pessoa. Por sua vez, a celebração do Batismo expressa que Deus chama a pessoa ao seguimento. Nesse sentido, a vocação é expressão da confiança que Deus deposita na pessoa. Apesar de todas as calamidades, apesar da rebeldia humana, apesar da morte imperante no mundo inteiro, Deus não desiste do ser humano, confia nele e o vocaciona para que dê testemunho seu, para que ele o ame acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Paulo, que havia perseguido os cristãos, confessa que foi a graça de Deus que o converteu em apóstolo (v. 10). Isso não foi por mérito próprio; foi porque Jesus lhe falou e assim o quis. Diante de sua busca, esse apóstolo encontrou uma resposta clara e assim o compreendeu até o fim de seu ministério. É provável que muitos de nós não encontremos sempre uma resposta clara para nossa busca. Em todo caso, a resposta terá que estar relacionada com a forma na qual entendemos que Jesus está falando a nós. No mundo globalizado em que vivemos, com seu sistema socioeconômico neoliberal, as regras do jogo na sociedade castigam aqueles que fracassam no trabalho, no estudo e nas relações humanas em geral, sobretudo quando não se consegue cumprir determinadas expectativas de consumo. Essas situações podem levar ao desespero, à depressão (estima-se que, no ano de 2020, a depressão será a segunda enfermidade, considerando a percentagem de pessoas doentes na popu-
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5º Domingo após Epifania
lação mundial), a uma autoestima frágil e deteriorada. Frente a essa situação pode ser de vital importância o ato de saber-se vocacionado por Deus para a realização de uma tarefa neste mundo. Se Deus pede que amemos o próximo como a nós mesmos, é porque ele confia em nós e sabe que temos a capacidade para fazê-lo. Se ele pede que amemos, é porque ele nos amou primeiro. Entendo que nesse texto Paulo nos coloca frente a três questões básicas: a) Lembra quem eras. Tantas vezes vivemos nosso ser cristão como se fosse algo de rotina ou como se fosse simplesmente algo que damos por subentendido, sem que isso faça ou produza alguma diferença em nossas vidas. O apóstolo lembra-nos a insegurança e a fragilidade de nossa confissão. Ele nos chama a atenção para o fato de que tantas vezes já nem somos conscientes do privilégio que significa o ato de saber que não estamos sozinhos frente às diversas mortes e nos lembra, em meio a esta vida, nossa fé na ressurreição a partir da morte. b) Ele vive e também tu deves viver. Na vida de muitas pessoas não faltam as coisas materiais para viver. Sem dúvida, suas vidas estão tomadas pelo medo, pela tristeza, pela dor, pela solidão, pela inveja, pelo ciúme, pela avareza, pela cobiça. Na vida de muitas pessoas ainda faltam as coisas materiais para viver dignamente. Tanto em uma como na outra situação, o Ressuscitado chama para a vida, para a busca irmanada por uma vida digna de mútua entrega. c) Lembra sempre qual é o fundamento de tua vida hoje e amanhã. Paulo perseguiu a comunidade cristã. E o fez ouvindo falar sobre Jesus. Somente quando sente/escuta o chamado de Jesus em sua vida, ele se converte em cristão. Diante das críticas e dúvidas dos coríntios a respeito de sua pessoa e autoridade, Paulo não formula argumentos, exceto o de testemunhar que Jesus também apareceu para ele. É sobre esse fundamento que o apóstolo escreve a Carta aos Romanos: “Pois eu tenho a certeza de que nada pode nos separar do amor de Deus: nem a morte, nem a vida; nem os anjos, nem outras autoridades ou poderes celestiais; nem o presente, nem o futuro; nem o mundo lá de cima, nem o mundo lá de baixo. Em todo o Universo não há nada que possa nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor” (Rm 8.38-39).
4
Imagens para a prédica
Quantas vezes desesperamos quando os planos que tínhamos fracassaram ou quando em situações de crise ou de tomada de decisões não temos em que nos agarrar. Por outro lado, costumamos encher-nos de orgulho e de certa onipotência quando as coisas saem como havíamos planejado ou quando temos êxito em nossos empreendimentos. No fundo, ambas as situações, a do desespero e a da onipotência, têm em comum o fato de que se sustentam na dificuldade de poder colocar a vida nas mãos de Deus, tomando consciência de que a fonte de vida e de nossos dons está nas mãos de Deus. Para a pregação podem ser usados exemplos de situações de onipotência ou de desespero que são comuns na vida cotidiana e contrapô-las ao chamado e à vocação de que somos destinatários.
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5º Domingo após Epifania
Confiar no chamado e na vocação é poder confiar na ressurreição, é deixar-se guiar sem que nossos olhos possam divisar o que ainda está por vir. É poder despojar-se, deixar de lado as seguranças construídas com as próprias mãos e dessa maneira abrir-se para o novo e diferente que há de vir. Assim como Abraão e Moisés, que se puseram a caminho deixando para trás as velhas seguranças, confiando tão-somente na promessa dada pela palavra de Deus. É importante lembrar sempre que somos cristãos, que nosso fundamento na vida encontra-se na misericórdia, na justiça e no amor de Deus; que foi ele quem nos deu a vida e que nos chama a sair de nosso egoísmo, de nossos medos e de nossas clausuras.
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Subsídios litúrgicos
Litania: L: Dos medos e das clausuras, te pedimos: C: livra-nos, ó Senhor. L: Da falsa segurança que oferecem os bens e o dinheiro, te pedimos: C: livra-nos, ó Senhor. L: Da cultura do consumo e da superficialidade, te pedimos: C: livra-nos, ó Senhor. L: Da violência em nossos lares, na rua, no trabalho, nas escolas, te pedimos: C: livra-nos, ó Senhor. L: Da indiferença frente ao sofrimento de nosso próximo, te pedimos: C: livra-nos, ó Senhor. L: Da indiferença frente à destruição da tua criação, do meio ambiente, te pedimos: C: livra-nos, ó Senhor. L: Da escravidão das drogas e de outros comportamentos adictos, te pedimos: C: livra-nos, ó Senhor. L: Da angústia e da indiferença, te pedimos: C: livra-nos, ó Senhor. L: De uma falsa espiritualidade e de uma vida sem ti, te pedimos: C: livra-nos, ó Senhor. L:Tu que és a vida, o caminho e a verdade, livra-nos em tua misericórdia, em teu amor e verdade. C: Amém.
Bibliografia COMBLIN, José. Paulo, apóstolo de Jesus Cristo. Petrópolis: Vozes, 1993. QUESNEL, Michel. Las cartas a los corintios. Estella (Navarra): Verbo Divino, 1985. (Cuadernos bíblicos nº 22) SCHNEIDER, Nélio. “Meditação sobre 1 Coríntios 15.1-11”. In: Proclamar Libertação. V. XVII, São Leopoldo, 1991.
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PRÉDICA: LUCAS 9.28-36 (37-43)
ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA
ÊXODO 34.29-35 2 CORÍNTIOS 3.12-4.2
(TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR) 14 FEV 2010
Léo Konzen
1
Introdução
Todos nós somos constantemente influenciados por outras pessoas e pelo ambiente em que vivemos. Sempre fomos seres de relações e nunca deixaremos de ser. Grande parte das relações que nos constituem não dependem de nossas decisões. Muitas coisas, porém, resultam das nossas escolhas individuais e coletivas. Podemos optar conscientemente por valores e modos de vida, fazer opções políticas, escolher de quem queremos nos aproximar, com quem dialogar e conviver, de quem queremos aprender etc. A celebração deste domingo convida à reflexão sobre as escolhas que podemos e devemos fazer em nossas vidas. Ela traz à nossa memória as opções do povo hebreu, que havia saído da escravidão no Egito e rumava para a “terra prometida”, destacando a liderança de Moisés, transfigurado pelo encontro com Deus no Sinai (1ª leitura). Traz presente especialmente a liderança de Jesus, cuja prática libertadora desperta muitos conflitos, mas que é confirmada pela Escritura e, diretamente, pela voz divina no relato de sua transfiguração (evangelho). Evoca, ainda, a reflexão e a prática das primeiras comunidades cristãs, que vão aprendendo aos poucos a ler com novos olhos todo o seu passado para encontrar nele as forças para o testemunho fiel de Jesus Cristo (2ª leitura). Os textos bíblicos apresentam momentos de luz e de confirmação das lideranças que animavam a difícil caminhada em busca de mais vida, de vida plena.
2
Exegese
O Evangelho de Lucas esforça-se para mostrar a solidez da fé da nova comunidade (cf. 1.1-4). Ele apresenta o seu relato mostrando um Jesus com credibilidade para ser seguido. No relato da transfiguração de Jesus, isso se torna evidente. O contexto da narrativa é o final da atuação de Jesus na Galileia e a sua partida (literalmente, seu “êxodo”) para Jerusalém, onde, passando pela morte na cruz, será “elevado” ao céu. Pouco antes e logo depois, Jesus fala do seu futuro sofrimento e ressurreição
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e das condições para o seu seguimento, colocando aí a exigência de tomar a cada dia a cruz. O relato da transfiguração indica que houve, na conflitiva caminhada de Jesus, experiências de percepção do sentido e do significado profundo de sua pessoa e de sua proposta. Essas experiências foram relidas e reinterpretadas, posteriormente, à luz da presença do Jesus ressuscitado na vida das comunidades e com cores e luzes que vinham da Bíblia. E cada evangelista, por sua vez, deu seus retoques ao relato, harmonizando-o com as grandes linhas de seu evangelho. Os retoques de Lucas são impressionantes. Destacamos apenas os mais salientes. Em primeiro lugar, a referência à oração: Lucas é o único evangelho a dizer que o motivo para Jesus subir à montanha foi “para orar” e que a transfiguração de Jesus ocorreu “enquanto orava”. Outro detalhe é o assunto da conversa de Moisés e Elias com Jesus: eles falavam do “êxodo” de Jesus, que iria se consumar em Jerusalém (os outros evangelhos não especificam o assunto). Uma terceira característica é o sono dos discípulos, que faz lembrar o sono deles no monte das Oliveiras durante a agonia de Jesus. Quarto detalhe: a voz que veio do céu coloca Jesus como “meu Filho” e acrescenta “o Eleito”, fazendo lembrar os Cânticos do Servo de Javé, do Livro de Isaías. A referência à oração de Jesus está em perfeita sintonia com o que Lucas apresenta em todo o seu relato, inclusive nos Atos dos Apóstolos. Muito mais do que os outros evangelhos, ele mostra Jesus em oração; nos Atos, apresenta as comunidades também como orantes. Isso sugere que o autor acredita na oração como espaço de manifestação de Deus. A comunidade pode refazer a experiência da transfiguração no contexto de seus momentos litúrgicos e de oração, contanto que estejam em sintonia com o projeto do reino de Deus, como ocorreu com o próprio Jesus. A referência ao “êxodo” de Jesus, sobre o qual Moisés e Elias conversam com ele, revela a compreensão de Lucas sobre o sentido da caminhada de Jesus, que culmina na paixão e morte na cruz. O evangelista vê o caminho de Jesus como uma espécie de reedição do êxodo da escravidão no Egito e da entrada na terra prometida. A morte de Jesus na cruz, então, não é um fracasso ou uma derrota. Ela é, antes, o momento alto de um caminho de libertação. Por esse caminho Jesus vai para a glória de Deus, e sua morte é também sua “elevação” para junto de Deus. Não se trata, evidentemente, da libertação da alma de Jesus em relação a seu corpo, como se esse fosse sua prisão, nem de uma libertação da condição humana de Jesus, como se essa fosse um embaraço para ele. Trata-se, isto sim, da atribuição do sentido mais profundo e radical às opções, à prática liberadora e, enfim, à própria pessoa de Jesus. Para caracterizar esse sentido profundo da atuação e da vida de Jesus, aparecem no relato da transfiguração Moisés e Elias, representantes qualificados das Escrituras (Lei e Profetas). Lucas diz que os dois conversavam com Jesus sobre o “êxodo” que iria se consumar em Jerusalém. Portanto a paixão e a morte de Jesus são refletidas aqui com estas características: estão em harmonia com as Escrituras e representam a partida de Jesus para junto de Deus, de onde enviará, depois, o
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Espírito Santo. Esse testemunho das Escrituras é reforçado pela voz proveniente da nuvem, isto é, de Deus mesmo. A referência à inclusão do termo “o Eleito” na voz que veio do céu mostra a necessidade de se interpretar a Bíblia à luz da prática de Jesus e de sua elevação para junto de Deus. Por outro lado, a prática e a pessoa de Jesus tornam-se compreensíveis quando vistas à luz de textos como aqueles dos Cânticos do Servo de Javé, o Eleito. O sono dos discípulos aproxima esse episódio do relato da agonia de Jesus no monte das Oliveiras. Lucas associa intencionalmente as duas cenas, mais do que os outros evangelistas, uma vez que tem todo o interesse em mostrar o sentido positivo da cruz para a qual Jesus se encaminha, cruz que é consequência de sua corajosa ação profética, libertadora e conflitiva no meio do povo.
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Meditação
No filme Titanic, entre outras coisas, impressiona um jovem que tinha entrado clandestinamente no navio. Durante a viagem, ele se enamora de uma mulher e os dois estabelecem um relacionamento muito significativo. Naufragado e estando prestes a morrer nas águas geladas, ele não se arrepende de ter participado da viagem que o levou à morte, mas, ao contrário, diz à mulher amada que a viagem valeu a pena porque foi nessa que a conheceu. Assim como esse jovem, as pessoas são capazes de grandes sacrifícios quando veem sentido nas escolhas que fizeram e naquilo que fazem ou devem fazer. Ao contrário, resistem e se negam a grandes esforços ou renúncias quando não percebem razões para isso. A opção pelo seguimento de Jesus sempre foi algo exigente. Também hoje é assim. E sempre será. No próprio evangelho não faltam advertências em relação a isso. É preciso tomar a sua cruz cada dia – diz Jesus no Evangelho de Lucas (9.23). Mas não nos faltam testemunhos de pessoas que abraçam essa cruz com alegria e entusiasmo. Muitos dizem que encontram aí o sentido de suas vidas. Alguns chegam mesmo ao dom da própria vida no martírio. E não se queixam disso, como também não se queixou o jovem do Titanic. Onde encontraram e encontram tanta vitalidade? Certamente na experiência de sentido. Essa, porém, é misteriosa, e nem todos a fazem em torno das mesmas coisas. De qualquer maneira, sem experimentar sentido ninguém vai longe em compromissos livremente assumidos. Os discípulos de Jesus tinham se entusiasmado com a pessoa, as práticas e a proposta de libertação dele. Como muita gente, eles percebiam que “um grande profeta surgiu entre nós” e que “Deus visitou o seu povo” (Lc 7.16). Mas não podiam imaginar, pelo menos no início, as implicações desse projeto. O próprio Jesus certamente foi crescendo nessa percepção das consequências de suas opções. No caminho, porém, a cruz começou a aparecer no horizonte. Confusão e medo também. Para Jesus, as coisas pareciam mais claras, mas não para os discípulos.
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Nesse contexto, apresenta-se no evangelho a cena da transfiguração. Ela é, acima de tudo, uma experiência de sentido. Sentido que provém de um olhar para trás e de um olhar para frente. Olhando para trás, os discípulos puderam perceber que Jesus estava em profunda sintonia com o coração da Bíblia. No relato da transfiguração, isso está representado na aparição de Moisés e Elias, que conversam com Jesus. E, segundo Lucas, falam justamente daquilo que é o nó da crise dos discípulos, ou seja, a cruz de Jesus. Interessante é que Lucas classifica o assunto da conversa como “seu êxodo” ou “sua partida”, que deveria se realizar em Jerusalém. Essa sintonia e concordância entre a vida de Jesus como um todo (particularmente sua morte na cruz) e as Escrituras é uma das questões que afligiam as pessoas das primeiras comunidades cristãs. Isso não é difícil de entender, considerando que havia se difundido uma interpretação da Bíblia que fazia do Messias um poderoso ungido de Deus que derrotaria os inimigos de Israel e extinguiria os impuros do meio do povo. Além disso, havia sinagogas judaicas que condenavam veementemente Jesus e seus seguidores. Perceber e mostrar, então, a sintonia de Jesus com as Escrituras era de grande importância, que fazia reencontrar o sentido da caminhada. O relato da transfiguração também projeta um olhar para frente: Jesus é percebido com características divinas, semelhantes ao Jesus das aparições póspascais. O aspecto do seu rosto alterou-se, diz o texto, e suas vestes tornaram-se de fulgurante brancura. Mais adiante, uma nuvem o envolveu, a ele e aos dois discípulos. Essa nuvem faz lembrar aquela da ascensão e é um símbolo bíblico tradicional para expressar a presença divina. Quando o olhar para frente faz perceber que “há uma luz no fim do túnel” ou quando se pode experimentar antecipadamente um pouco dos resultados dos esforços, então as pessoas se reanimam. Foi o que aconteceu com os discípulos de Jesus. Eles fizeram a experiência do sentido profundo da caminhada de Jesus. Essa não era uma caminhada para a morte, embora a morte estivesse incluída nela. Era, isto sim, uma caminhada rumo à glória. Era um êxodo que, como aquele do livro do Êxodo, levava a um bom termo. Uma tentação sempre presente na vida das pessoas e das comunidades é querer a “terra prometida” sem passar pelo êxodo do deserto ou da cruz. Essa pode ter sido também a tentação de Pedro, que quis fazer tendas, talvez para perpetuar a experiência sem precisar voltar ao árduo caminho da construção da sociedade na qual reine a vida. Não deveríamos relatar aqui também as tentações de tantas pessoas, comunidades e instituições que cultivam uma religiosidade milagreira e triunfalista, sem querer carregar a cruz da construção de um outro mundo no qual reinem a justiça e a paz? Onde e como podemos fazer experiências de sentido que nos motivem a continuar no caminho do seguimento de Jesus, na construção do reino de Deus? O Evangelho de Lucas nos indica um locus especial, certamente não único: a oração. Ele destaca essa prática em vários momentos, tanto na vida de Jesus como na das comunidades cristãs. A oração e as celebrações são espaços próprios para experimentar a presença de Jesus, ao mesmo tempo crucificado e glorificado ou ressuscitado. Mas essa experiência não é automática nem mágica. As orações e
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celebrações precisam ser devidamente preparadas e realizadas num contexto de práticas de seguimento; caso contrário, elas se tornam vazias e sem sentido. Para Lucas, a oração e as celebrações ajudam a fazer a experiência do sentido justamente da caminhada profética, libertadora e conflitiva, que faz acontecer o “ano da graça” do Senhor.
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Imagens para a prédica
Diversas imagens podem ajudar na prédica: Pode-se lembrar o efeito de uma boa avaliação de nossa caminhada, na qual se percebe o sentido daquilo que vem sendo feito e alcançado e na qual se olha também para frente, vislumbrando as “luzes no fim do túnel”. Também poderá ser de proveito a imagem da celebração do aniversário, bastante valorizado em nossa cultura, constituindo-se num momento de luz, de “transfiguração”, integrando o passado, o presente e o futuro. Certamente valerá lembrar que nada de importante se conquista sem grandes esforços e sacrifícios. E que, para manter-nos animados na busca, é necessário criar momentos de vivência antecipada do que se busca alcançar. Pode-se evocar, ainda, as festas que se realizam ao longo do processo de construção e por ocasião da inauguração de alguma obra importante para uma comunidade, principalmente se ela resultou do esforço da própria comunidade. Finalmente, a imagem do aperitivo poderá ajudar também: o aperitivo já é o início da refeição que virá a seguir e, ao mesmo tempo, anuncia que algo melhor e maior está para chegar. Quando conseguimos produzir “aperitivos” do reino de Deus, estamos diante de transfigurações que animam para prosseguir na caminhada.
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Subsídios litúrgicos
Oração do dia: Ó Deus, fonte de luz, que na transfiguração do teu Filho Jesus nos revelaste o sentido profundo do exigente esforço humano para construir um mundo de vida para todos os teus filhos e filhas, concede à tua igreja a graça de uma alegre e confiante coragem de comprometer-se de modo perseverante com teus projetos de amor. Isso te pedimos por teu Filho Jesus Cristo e em união com o teu Santo Espírito. Amém. Preces: Apresentemos, agora, nossas preces a Deus, que está presente no meio de nós. Digamos após cada oração: Ilumina, Senhor, teus filhos e filhas! Oremos pelos seguidores de Jesus Cristo, para que em meio a seu esforço de humanizar o mundo encontrem momentos de luz e renovação de seu compromisso. Oremos pelos governantes, para que liderem suas comunidades e as nações na busca da justiça e da paz.
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Oremos pelos líderes das comunidades eclesiais, para que se inspirem sempre no exemplo de Jesus e não tenham medo das dificuldades. Oremos pelas vítimas da violência, para que seu sofrimento se transforme em apelo de transformação da realidade. Oremos por nós todos, para que tenhamos a coragem de tomar a cada dia nossa cruz e caminhar com Cristo para a vida plena.
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PRÉDICA: MATEUS 6.1-6,16-18
QUART A-FEIRA QUARTA-FEIRA DE CINZAS
JOEL 2.1-2,12-17 OU ISAÍAS 58.1-12 2 CORÍNTIOS 5.20b-6.10
17 FEV 2010
Marlei Adam Arcari
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Introdução
Os três textos bíblicos chamam a atenção para um grande tema: a prática da justiça. O texto de Isaías 58.1-12 mostra que as práticas religiosas carecem de valor se não estiverem acompanhadas pela justiça e pelo amor ao próximo. O verdadeiro jejum não consiste em atitudes exteriores (v. 5), mas na renúncia à injustiça e na sincera dedicação ao serviço dos demais. No texto de 2 Coríntios 5.20b-6.10, Paulo enumera ocasiões em que deu provas de paciência e firmeza no seu trabalho apostólico, ações essas que deram credibilidade a seu ministério apostólico. O texto de Mateus 6.1-6,16-18 refere-se às três principais práticas da piedade judaica de então: a ajuda aos necessitados, a oração e o jejum. O texto estabelece um contraste entre fazer os atos piedosos para serem vistos pelos outros e fazê-los para que Deus os veja.
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Exegese
2.1 – Fonte Desde o segundo século, a tradição da igreja tem atribuído a composição desse evangelho a Mateus, o publicano, chamado também de Levi, filho de Alfeu, o coletor de impostos, a quem Jesus chamou e uniu ao grupo de seus discípulos. Tem-se afirmado que Mateus é, por excelência, o evangelho da igreja, escrito para instruir o novo povo de Deus acerca de Jesus.
2.2 – Observações exegéticas sobre os versículos da perícope V. 1 – Jesus se refere à justiça prática, legítima, que era abusada. As autoridades judaicas queriam ser vistas pelos homens e atrair a atenção para si mesmas, mas não se interessavam pelo caráter espiritual da religião. V. 2 – Podia-se dar esmolas no templo, nas sinagogas e nas ruas. Eram grandes as oportunidades para exercer essa “justiça”. As circunstâncias favoreciam a ostentação, o que era aproveitado pelas autoridades religiosas. Mas Jesus mos-
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trou que a religião ostensiva só merece uma recompensa, que de resto é o grande alvo colimado – o favor dos homens. V. 3 – Jesus não desaprova a prática das esmolas, mas apenas orienta sobre a forma como isso deve acontecer. Ele ensina que a intenção ocupa o primeiro lugar na ordem da importância, e não a aprovação dos homens. Aquele que dá não deve orgulhar-se disso nem deve procurar a aprovação alheia em face de sua atitude. A esmola deve beneficiar os pobres, e não o próprio doador. V. 4 – Se a esmola for dada a um desconhecido, em lugar afastado das estradas de intenso trânsito, longe da vista de qualquer pessoa, à noite, ainda assim os olhos de Deus verão tudo. O ato de caridade pode escapar à atenção das pessoas, mas o Pai das misericórdias toma conhecimento de tudo. Esse Pai misericordioso galardoa com amor. V. 5 – “Em pé” era a posição usual na oração. Os judeus se punham de pé para orar, voltados de frente para o templo ou para o lugar mais santo. Não é isso o que Jesus critica, e sim o fato de as pessoas estarem em lugares públicos nos horários de oração para ostentar sua piedade. V. 6 – Jesus não condena a adoração pública, mas a atitude de espetáculo, teatral, envolvida nessas orações em público. Se a oração não estabelece contato com Deus, torna-se inútil e é um desperdício de tempo. Um bom número de “homens de oração” nos dias de Jesus não passava de atores. Eram piedosos por aparência, mas não de coração. V. 16 – O jejum é o terceiro exemplo da prática da verdadeira religião. O jejum era uma parte importante da tradição da piedade judaica. A lei judaica previa pelo menos um dia nacional de jejum: o dia da festa solene da expiação. O valor do jejum dependia da intenção e das disposições de quem jejuava. Com o tempo se atribui um valor independente às disposições pessoais. V. 17 – Nos dias de jejum, os atos de ungir-se e lavar-se eram proibidos, para que houvesse demonstração de tristeza pelo pecado. A unção e a lavagem eram símbolos de alegria. Para Jesus, a pessoa pode jejuar, pode ter tristeza no coração por causa do pecado, pode jejuar até mais vezes do que o indicado, mas não deve ostentar o que fez com seus lamentos, exibindo o lado negativo da religião. Pelo contrário, deve dar a impressão de que vai para uma festa, evitando assim o olhar aprovador de outros, os quais de outra maneira saberiam que está jejuando. V. 18 – Como no caso das esmolas, o jejum deve ser secreto, fugindo de toda a inclinação ao orgulho espiritual. Ele tem em vista uma causa que levamos a Deus, e não uma causa pessoal que queremos ostentar diante dos outros.
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Meditação
O texto de Mateus 6.1-6,16-18 reflete sobre três práticas da justiça: esmola, oração e jejum. Essas podem ser praticadas na perspectiva de receber o elogio humano. Quem assim age não recebe recompensa da parte de Deus, pois não está sendo sincero consigo mesmo. Esse texto nos ensina que os frutos da vida religiosa destinam-se a Deus e não aos seres humanos. O texto diz: “Com o fim de não
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parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (v. 18). Dar esmolas: não precisamos tocar trombetas para anunciar um ato de misericórdia. Jesus não censura atos de misericórdia, mas o alarido quando se ajuda alguém, a busca de elogios para nós mesmos. No v. 3, Jesus ilustra a maneira mais secreta de fazer algum ato de misericórdia. O bem deve ser feito em segredo – e não teatralmente para ser visto pelos seres humanos. Quem pratica o bem deve ser tão silencioso, sem alardear o que fez, como se uma das mãos ficasse sem saber o que a outra fez. Pois quando alarmamos, estamos humilhando quem recebe a ajuda e nos enaltecendo. Quem alardeia o seu ato de misericórdia mostra sua pequenez e comete não um ato grandioso, mas constrangedor. Devemos fazer o bem por amor ao beneficiado, nunca por amor a nós mesmos. A esmola em segredo é vista pelo Pai (v. 4). Não é preciso anunciar para Deus o que fazemos. Ele vê o secreto e o oculto. Deus vê o mais íntimo. Por isso sejamos autênticos, pois Ele recompensa o que é feito com autenticidade. Sabemos que fazer o bem não salva. “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10). No caso da oração dos fariseus, Jesus evidentemente não desaprova a oração em si, mas a intenção com a qual ela era realizada. O problema é que os fariseus queriam ser o centro, e não Deus. Usavam a oração para a própria glória. Esqueciam a humildade, na qual se revela a dependência de Deus e se compreende que é Ele quem concede tudo através da sua graça, e não de acordo com o merecimento humano. Como evangélicos luteranos cremos que toda a boa dádiva vem de Deus. Afirmamos que ele concede tudo segundo a sua graça e não de acordo com o nosso merecimento. O que recebemos, portanto, não é recompensa pelo que somos ou fazemos. Como então devemos entender as palavras de Jesus: “Teu Pai... te recompensará?” Jesus certamente não está pensando naquilo que alguém conquista através de obras. A recompensa não deve ser vista através da capacidade e das qualidades humanas e sim a partir da bondade do Pai (cf. Mt 20.15). A sua bondade o leva a dar muito mais do que alguém merece. Deus nos surpreende com as suas dádivas. Os que Jesus convida a “entrar na posse do reino” (Mt 25. 34-40) não haviam praticado o bem com o objetivo de ser recompensados. Eles se admiram com as palavras do Juiz e sentem-se agradecidos. Para todos aqueles que praticam o bem com a finalidade única de ser recompensados valem as palavras de Jesus: “Eles já receberam a sua recompensa” (Stiegemeier, in PL XIV, p. 247). Ao convidar para orarmos no quarto, Jesus quer nos proteger das intenções secundárias. De maneira nenhuma ele é contra as orações em comunidade. Como exemplo podemos citar a oração do Pai-Nosso. Quando oramos “pai nosso”, isso significa que Deus é Pai de todos. Nessa oração, ele se revela como um Deus próximo, a quem podemos chamar de Pai. Nela Deus é o centro.
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Deus é o Pai de todos/as. Sendo pai, ele deseja o contato pessoal com seus filhos/as. Sabemos que filhos se relacionam com seus pais, dialogam com eles. Deus também espera que seus filhos se comuniquem com Ele através da oração, seja ela individual, em seu quarto, ou comunitária. Pela oração entramos em comunhão íntima com Deus e nos fortalecemos na fé. Fortalecidos na fé, também agimos com fé. Quanto ao jejum: em Mateus 6.16-18, Jesus ensina que não devemos nos gabar de nosso jejum. Jesus não está condenando o jejum, e sim aqueles que alardeavam seu jejum, ou seja, faziam o jejum aparecer. Pois o jejum não deve ser usado para causar uma boa impressão nos outros. No texto em estudo, Jesus fala do jejum como expressão de fé, de forma semelhante ao dar esmolas e oração. Com Jesus a prática do jejum é algo livre. Não se trata, em primeiro lugar, de uma preocupação com o próprio corpo e bem-estar. Importa sentir-se mais leve e livre para o contato consigo mesmo, com Deus e com o próximo. Comer além dos limites não nos deixa cansados? Bonhoeffer afirma: “A carne bem alimentada não gosta de orar e nem se dispõe ao serviço dedicado”. Quantas vezes comemos a sobremesa e alguém diz: “Isso é gula. Não é fome”. Seria possível abster-se da sobremesa durante uma semana e alegrar uma criança carente na Páscoa com esse recurso? Jejum no tempo da Quaresma é deixar de beber ou comer algo que me faz muita falta para dar isso aos que necessitam. E colocar esses necessitados em oração. Quando jejuamos, podemos descobrir a medida de dependência de determinada bebida, comida ou costumes, sem os quais pensamos não poder viver. Jejuar é sempre um ato de largar, libertar-se e ser libertado. Ao mesmo tempo, é um voltar-se para Deus, que simultaneamente se expressa no amor ao próximo.
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Imagens para a prédica
Uma conclusão que podemos tirar de Mateus 6.1-6,16-18 é que toda graça e benefício que recebemos de Deus querem ser passados adiante, sem alarde, para não constranger o outro. O texto leva-nos a refletir sobre a maneira como damos esmolas, oramos e jejuamos em nossas casas e também em nossa comunidade. Será que fazemos isso em silêncio ou fizemos questão de alardear o nosso ato? Podemos convidar as pessoas a se abster, nesse período da Quaresma, de algo que gostam muito e oferecer isso a alguém necessitado. É importante orar por esse alguém.
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5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Deus da graça, nosso Pai! De vez em quando, notamos que perdemos a ligação contigo. Essa é a grande culpa que te apresentamos. Confessamos o quanto falhamos quando damos esmolas para receber elogios ou porque elas não são parte do que temos, mas o resto do que não queremos mais. Deus misericordioso, mediante Jesus Cristo, teu filho, tu nos ofereces a possibilidade de comunhão contigo através da oração. Perdoa-nos quando chegamos diante de ti, em oração, sem humildade. Bondoso Deus, perdoa-nos quando queremos ser o centro das atenções e usamos o teu santo nome para nos vangloriar diante das outras pessoas. Ajuda-nos a ser humildes e a confiar na tua graça. Amém! Anúncio da graça: Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos e filhas de Deus! O Senhor da graça nos perdoa e vem a nós em amor e nos resgata, para que sejamos humildes e assim possamos viver em comunhão com as outras pessoas, conforme a sua vontade. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. V. 1. São Paulo: Agnos, 2002. STIEGEMEIER, Werno. Proclamar Libertação, nº XIV. São Leopoldo: Sinodal. p. 246-252. WITT, Maria Dirlane. Castelo Forte – Meditações diárias, ano 39. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2007.
1º DOMINGO NA QUARESMA
2º DOMINGO NA QUARESMA
ROMANOS 10.8b-13 DEUTERONÔMIO 26.1-11 LUCAS 4.1-13
LUCAS 13.31-35 GÊNESIS 15.1-12, 17-18 FILIPENSES 3.17-4.1
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PRÉDICA: ISAÍAS 55.1-9
3º DOMINGO NA QUARESMA
LUCAS 13.1-9 1 CORÍNTIOS 10.1-13
07 MAR 2010
Michael Kleine
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Introdução
O texto da pregação é um convite insistente para beber na fonte da vida. Deus está perto (v. 6) e oferece nova possibilidade de vida: “Ouvi, e a vossa alma viverá!” (v. 3). As leituras previstas têm outra ênfase. Lucas 13.1-9 é uma admoestação: “Se não vos arrependerdes, perecereis” (v. 3 e 5). Da mesma forma 1 Coríntios 10.1-13: “Aquele que pensa estar em pé veja que não caia” (v. 12). Sugiro que as leituras sejam substituídas. Para leitura do evangelho proponho João 7.37-43, onde Jesus convida: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (v. 37). É o convite de Isaías 55.1: “Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas”. Para a leitura da epístola sugiro Apocalipse 21.1-7 ou 22.12-17. Ambos os trechos citam Isaías 55.1.
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Exegese
Isaías 55 é a parte final da coleção de textos conhecida como DeuteroIsaías (Is 40-55). O tema dominante dessa coleção são a libertação e o retorno daquela parte do povo de Israel que havia sido deportada para a Babilônia. Os dois últimos capítulos (54 e 55) tratam do tempo da graça e da salvação, das bênçãos que serão concedidas por Deus a Israel após a libertação do cativeiro. Proponho a seguinte estrutura para Isaías 55: 1-3a: introdução 1-2a: “Vinde e comprai/comei!” 2b-3a: “Vinde a mim e ouvi-me!” 3b-5: anúncio de salvação: a aliança perpétua 6-7: “Buscai o Senhor!” (retoma o convite de 1-3a) 8-9: os caminhos do Senhor são diferentes dos nossos 10-11: a palavra de Deus é eficaz (fundamenta 2b-3a) 12-13: o novo êxodo Considero apropriado incluir os v. 10 e 11 na reflexão e na pregação. Eles retomam, desdobram e fundamentam o convite e a oferta que são feitos na introdução: “Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” (3a).
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V. 1-3a – O v. 1 lembra o apelo de um vendedor na feira tentando convencer os passantes de uma oferta especial. Ele é insistente: “Vinde!” (3x), “Comprai!” (2x). O produto oferecido é alimento: água e pão (o verbo šabar/comprar significa “comprar cereal”), vinho e leite. Gêneros de primeira necessidade e que representam fartura e festa. Trata-se de uma promoção “imperdível”: tudo de graça! Ele chama justamente os necessitados: “os que têm sede” e “os que não têm dinheiro”. – De início, não fica claro quem está fazendo a oferta. Apenas no v. 3 descobrimos: é o próprio Deus (só ele pode firmar uma “aliança eterna”). Mas o que significa a imagem do alimento? V. 2b: o “comer” é resultado do “ouvir com atenção”. V. 3a: “viver” é resultado do “ouvir”. Assim também fala a Sabedoria: “Vinde comer do meu pão e beber do vinho que misturei” (Pv 9.5; também ela é insistente, grita nas praças e encruzilhadas, Pv 1.20s.; 9.3). V. 1-3a parecem nos dizer: Seremos saciados e teremos vida se inclinarmos nossos ouvidos a Deus e o ouvirmos. “Não só de pão viverá o ser humano, mas de tudo o que procede da boca do Senhor” (Dt 8.3). – V. 2a questiona o investimento de forças e de recursos naquilo que não alimenta e não satisfaz. V. 3b-5 – Aqui é apresentado o “produto” para o qual se está fazendo propaganda: a palavra que pode saciar e dar vida. Trata-se de uma promessa de Deus: ele quer firmar uma “aliança eterna/duradoura” com seu povo (“convosco”). Deus quer dar ao povo como um todo aquilo que ele havia prometido dar a Davi: um “reino eterno” (2Sm 7.16) e “descanso de todos os teus inimigos” (2Sm 7.11). A prosperidade da dinastia davídica significava para o povo uma vida em segurança na terra dada por Deus. Era um sinal da graça, fidelidade e misericórdia de Deus (2Sm 7.15). Com a destruição dessa dinastia e do reino de Judá, o povo passou a viver sob o domínio de estrangeiros. A própria religião estava ameaçada por causa da dispersão do povo e da pressão das religiões oficiais dos povos dominantes. “Israel” passou a ser um grupo minoritário, espalhado por vários países e tendo que lutar para manter sua fé e sua identidade religiosa. Por isso Deus promete e garante algo inusitado: que o povo de Israel assumirá o papel que era do rei Davi: “príncipe e comandante dos povos” (v. 4). Israel será um povo de reis e rainhas. Terá um papel de liderança entre as nações, não no sentido político-militar, mas religioso: “testemunha (de Javé) aos povos” (v. 4s.). Em meio às crises de fé e contra toda a probabilidade Javé cobre seu povo de esplendor/glória (v. 5). – É essa promessa que dá novo sentido ao povo de Deus, que sacia sua sede de vida e dá fundamento e razão à sua existência. V. 6-7 – O convite para inclinar os ouvidos a Deus é repetido com outras palavras. “Buscar” (drš) tem o sentido de “perguntar”, “examinar”, “tirar informações”, “consultar”. “Buscar a Javé” no AT significa procurar saber o que ele diz, procurá-lo na necessidade, confiar em sua palavra e fazer o que ela diz. A quem busca Javé é prometida a vida: “Buscai-me e vivei” (Am 5.4,6). Nas palavras de Isaías 55: “Ouvi (a promessa), e vossa alma viverá” (v. 3). Como mostra o convite insistente na introdução (“Vinde!”), Deus está muito perto e pode ser encontrado: na sua palavra. – Mas, para encontrá-lo, pode ser preciso dar meiavolta, mudar de rumo, admitir que se está procurando no lugar errado – como já foi constatado no v. 2a. Deus aceita de volta quem tomou um caminho oposto ao
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dele e, assim, se tornou culpado. Ele chama de volta (“Vinde!” – “Buscai!”) e perdoa o arrependido. V. 8-9 – Se no v. 7 eram “o perverso” e “o iníquo” que tinham caminhos opostos aos de Deus, aqui os “vossos” caminhos e pensamentos são diferentes dos de Deus. Parece que todos se tornaram “perversos” e “iníquos” e necessitam dar meia-volta. Segundo o AT, os caminhos e pensamentos errados de Israel são a causa da desgraça atual: deportação, dispersão, domínio estrangeiro (cf. 1Rs 8.4651). Na linguagem do v. 2a: todos procuraram “alimento” e “satisfação” lá onde não há, longe de Javé. V. 10-11 – No v. 2 temos o convite: “Ouvi, e vossa alma viverá”. O simples ouvir produz vida e sacia. Essa confiança no poder criador da palavra de Deus é enfatizada nos v. 10 e 11. A palavra pronunciada por Deus realiza aquilo que ela diz. Ela não é apenas comunicação a respeito de algo, mas ela própria é acontecimento. È palavra eficaz e poderosa e, por isso, confiável. Aqui aparece novamente a metáfora do alimento: a palavra é como a chuva e a neve, que fazem brotar e dão “semente ao semeador e pão ao que come”.
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Meditação
Vejo no v. 3 o tema central de Isaías 55.1-11: “Ouvi (a promessa), e vossa alma viverá”. Trata-se do convite insistente para ouvir a palavra de Deus e a promessa de que essa palavra é fonte de vida. Os versículos anteriores conduzem a esse centro, formulando o convite de forma figurada e relacionando o “ouvir” com o “comer”. Os versículos posteriores apresentam o conteúdo da promessa (a “aliança eterna”), as bênçãos que dela derivam (“esplendor” para Israel); repetem o convite (“Buscai o Senhor”) e fundamentam a confiança no poder da palavra (v. 10s.). Se essa interpretação estiver correta, temos em Isaías 55.1-11 uma unidade temática. A palavra de Isaías 55.1-11 dirige-se a indivíduos que perderam as bases da sua identidade e da sua fé. Com o fim do reino de Judá e a deportação das lideranças políticas e religiosas para a Babilônia, os/as adoradores/as de Javé entraram em profunda crise. Até então, a religião javista era a religião oficial do reino de Judá e apoiava-se na segurança proporcionada pela dinastia davídica. O bem mais precioso era a vida segura e independente na terra prometida e dada por Javé. Isso, agora, não existe mais. Vivendo sob o domínio de povos estrangeiros e suas religiões, a fé em Javé corre o risco de desaparecer. Nosso texto é um convite aos “sedentos”, àqueles/as que estão à procura de alimento para sua fé e de sentido para sua existência. Desorientados, procuram aqui e ali, mas nada encontram para saciar sua fome e sede. De tanto procurar, estão sem forças (veja o paralelismo entre “dinheiro” e “suor/esforço” no v. 2). São os “cansados e sobrecarregados”, a quem Jesus também se dirige: “Vinde a mim” (Mt 11.28); ou os/as “que têm fome e sede de justiça” (Mt 5.6), aos quais ele promete fartura. “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7.37). – Quantos membros e filhos de membros da IECLB não estão nessa situação? Estão à procu-
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ra de sentido e seguem aqueles que fazem a oferta melhor. Estão dispostos a dar tudo o que têm para saciar sua “fome” e “sede” de sentido e de vida. São esses e essas que Deus convida com insistência em Isaías 55.1-11. Não se recusa a gritar bem alto, como um vendedor ambulante. Entra no mercado religioso e faz a sua oferta, plenamente convicto de que é a melhor (v. 2). E a promessa que ele faz é grande: De indivíduos dispersos, atomizados e sem esperança ele fará um povo de reis e rainhas (o “sacerdócio real” de 1Pe 2.9). Por sua proximidade, Deus coloca a sua glória sobre esse povo, de forma que ele será bênção até para os outros. Deus não apenas sacia as “necessidades básicas”, mas concede abundância (“finos manjares”) suficiente para distribuir adiante. “Quem crer em mim, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38). Essa promessa é feita a todos/as que buscam o Senhor lá onde ele está, lá onde ele fala. É a Palavra que transforma indivíduos sedentos e cansados num povo saciado capaz de alimentar outros. “Ouvi (a promessa), e vossa alma viverá” – “Procurai-me e vivereis” (Am 5.4,6). O simples ouvir produz vida e sacia. Confiança irrestrita no poder da palavra (v. 10s). A convicção no AT é que Deus está perto do seu povo através da sua palavra revelada, a Torá (Dt 30.14); a Torá é – aos olhos de outros povos – uma prova da grande proximidade de Deus (Dt 4.6-8). “Porque esta palavra não é para vós outros cousa vã; antes, é a vossa vida” (Dt 32.47). Nós “cremos, ensinamos e confessamos” que a palavra de Deus revelada está em Jesus Cristo, a palavra encarnada. Em Jesus Cristo, a expectativa e a promessa de Isaías 55 se cumprem. Através de Cristo, Deus se tornou próximo e pode ser encontrado. Cristo oferece vida – a sua própria. Ele é “o pão de Deus... que dá vida ao mundo”: “o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.33,35). Ele também questiona: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará” (Jo 6.27; cf. Is 55.2). Tarefa da prédica é mostrar onde o “pão de Deus” pode ser encontrado. Sabemos que a Palavra encarnada vem até nós de variadas formas. É bom enfatizar que a palavra pregada não é apenas um ensino a respeito de Cristo, mas ela é o próprio Cristo encarnado. De forma visível e degustável, a encarnação acontece também na Ceia do Senhor, onde o próprio Jesus Cristo “é a comida e a bebida, o cozinheiro e o garçom” (Lutero). Cristo está presente “onde dois ou três” estiverem reunidos em seu nome (Mt 18.20). Se ligamos essa promessa de presença real com a promessa “ouvi, e vossa alma viverá”, poderemos dizer: No culto da comunidade acontece a Palavra que alimenta e dá vida. O que Deus faz através da sua comunidade é algo fantástico e inusitado: ele usa “mendigos” para alimentar outros “mendigos”. Graças à força e à eficácia da sua Palavra! Isaías 55.1-11 é mais convite (“propaganda”) do que descrição do “produto”. No centro está a “aliança eterna”, mas pouco é dito sobre ela. O texto afirma que a Palavra traz vida, sacia e concede fartura; mas pouco é dito sobre o conteúdo desse “alimento”. Parece que a intenção é criar expectativa e curiosidade, mostrando onde a fome e a sede podem ser saciadas: “Venham! Aqui está o que todos procuram. Aqui tem, de graça, aquilo para o que todos estariam dispostos a pagar um alto preço. Aqui tem o que a maioria procura em lugar errado”.
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Pregadores/as precisam estar convictos de que no culto, através da pregação e dos sacramentos, acontecem “vida e salvação” (Lutero). É o que Isaías 55 está nos dizendo. O esvaziamento dos cultos evidencia que as pessoas não creem nisso. Nossa tarefa é convidar com insistência e confiar na eficácia da Palavra encarnada.
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Imagens para a prédica
Se optarmos por enfatizar a importância do culto para a vida de fé, podemos lançar a seguinte pergunta: É possível levar uma vida de fé longe do culto? É possível ficar longe da pregação da Palavra, da Santa Ceia, do anúncio do perdão, da oração em conjunto e da bênção e mesmo assim continuar “vivo” (como cristão/ã)? Dá para ser membro do corpo de Cristo longe de Cristo? Ocorrem-me as seguintes imagens: Um membro do nosso corpo que perdeu a conexão com o cérebro (acidente) fica paralisado e morre. Um aparelho elétrico desconectado da tomada não recebe energia e não funciona – por mais que ele esteja inteiro em seus componentes. Um ramo que está separado do caule e das raízes não produz frutos – ele seca e morre. O culto é a conexão que nós precisamos com a fonte da vida. Através daquilo que acontece no culto, nossa fé é alimentada, é fortalecida – e pode produzir frutos. No culto, Jesus Cristo partilha conosco algo do seu poder, da sua energia, da sua vida.
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Sobre a responsabilidade pela pregação
Sobre a relação entre pregação e alimento e sobre a responsabilidade do/a pregador/a de ser canal para esse alimento, cito o seguinte relato de Dietrich Bonhoeffer (Tentação. São Leopoldo: Sinodal, 1995, p. 12): Esta manhã culto na igreja, Pastor G. (...). Homem já de mais idade. Fui até a sacristia. Foi uma cena meio constrangedora. Primeiro minha pergunta: Por que não prega Cristo? Por que nos deixa sair famintos? Houve resistência. Pergunta dele – Mas vós ainda quereis ouvir? – Reviravolta. Depois total capitulação. ‘Eu não posso pregar o que não tenho!’ e ‘Sim, o senhor tem razão!...’. Foi o fim. Um sacerdote frustrado. É muito triste...
Bibliografia FREY, Hellmuth. Das Buch der Weltpolitik Gottes. Kapitel 40-55 des Buches Jesaja. 4. ed. Stuttgart: Calwer, 1954. WESTERMANN, Claus. Jesaja 55,1-5. In: Calwer Predigthilfen, Band 4, 1965, p.174-184.
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PRÉDICA: LUCAS 15.1-3, 11b-32
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JOSUÉ 5.9-12 2 CORÍNTIOS 5.16-21
14 MAR 2010
Ângela Zitzke
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Introdução
O texto da prédica, referente à parábola do filho pródigo, bem como o texto do AT, onde se celebra a Páscoa, têm estreita ligação com o tema da reconciliação, abordado na leitura de 2 Coríntios. O tema reconciliação está presente quando Jesus narra a parábola. Ele afirma que o pai tem amor incondicional e que aceita seu filho independentemente do que esse fez de mal ou do que faz para se regenerar; o pai o aguarda ansioso e está disposto a ajudá-lo. O pai não pode impedi-lo de ir embora, uma vez que lhe deu o livre-arbítrio, mas pode recebê-lo de braços abertos sempre que esse se abrir e aceitar o seu abraço gracioso e acolhedor. A celebração da Páscoa é muito significativa para as pessoas cristãs, pois remete à entrega de Cristo feita em favor da humanidade. Esse gesto de amor, experimentado de forma radical, serve para mostrar ao ser humano até que ponto a autodoação pode chegar; pretende ser, além de um modelo, um ato salvífico, no qual a humanidade recebe seu amor e passa a vivê-lo em seu coração. Jesus morre, não para ser um pagamento substitutivo, e sim para “ser por nós”, para mudar a situação humana e mostrar que há perdão tanto para os que “comem com os porcos” como para os que “fazem tudo direito”, verdadeiros “irmãos irrepreensíveis”, como ilustra a parábola. Afinal de contas, Jesus Cristo passa da dor para a resplandecente alegria, da morte para a vida, do sofrimento para a plenitude, das trevas humanas para a luz divina. O perdão e a reconciliação são ofertados incondicionalmente e atemporalmente para todo ser humano que estiver disposto a aceitar a fé, romper o afastamento e abrir-se para a reconciliação com Deus em unidade com Cristo.
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Exegese
Para falar da reconciliação entre Deus e a humanidade, é preciso observar cinco passos em um processo no qual um passo dá seguimento a outro:1 (1) o ser 1
Processo observado na tese de doutorado que venho produzindo no primeiro semestre de 2009. Possui base, principalmente, na observação de teologias e dicionários do Novo Testamento, como George E. LADD, J. D. DOUGLAS, Alan RICHARDSON, Lothar COENEN e Colin BROWN.
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humano reconhece que está afastado de Deus; (2) o pecado aliena o ser humano; (3) Cristo age em seu favor; (4) a morte é manifestação suprema de amor e (5) a nova relação de igualdade. Primeiro processo: O ser humano reconhece que está afastado de Deus! A reconciliação só é necessária quando duas partes reconhecem que estão separadas. No caso da linguagem bíblica, Deus é santo e o ser humano é pecador, portanto precisam de algo que os vincule novamente. Por causa dessa diferença, dessa hostilidade, o ser humano vive em estado de queda, um brusco afastamento do amor, do divino, do ser e da santidade de Deus. Enfim, ele está só. Segundo processo: O pecado aliena o ser humano! Como Deus não pode abrir mão de sua santidade, o ser humano tenta chegar até ele, mas não consegue. Vive uma ilusão, característica da natureza humana. Ao tomar o controle, movido pelo seu pecado, o ser humano acha que pode fazer algo por si e pelo mundo, mas sem o amor divino não consegue. Ele jamais conseguirá gerar obras de gratidão que não tenham um interesse secundário de vanglória, autopromoção ou benefício próprio. É a “boa intenção” que espera sempre por algo em troca. Terceiro processo: Cristo age em favor da humanidade! A reconciliação só é possível porque Deus age primeiro, mostrando o que é o amor incondicional. Todas as trevas que rodeiam o ser humano caído podem ser afastadas, e esse ser humano é preenchido pela luz e pela presença divina através de Cristo, que é o sujeito primordial da reconciliação. Se dependesse do ser humano, ele continuaria vivendo e atuando de forma má, pois é fraco diante dessa força natural em si. Mas graças ao Cristo, que está definitivamente presente e ao lado do ser humano, há sempre a oportunidade desse humano ser reconciliado com o que há de divino e não mais com o que há de mal em seu ser (dual). Aceitar essa proposta de crescimento e de transformação, generosamente oferecida por Deus, só é possível através da fé. A fé, fator que vincula a humanidade maculada ao Deus que é santo, não vem da condição humana em se arrepender e pedir perdão. Essa fé, que representa o novo vínculo reconciliatório com Deus, vem de algo maior do que ele mesmo; é dada por Cristo através de sua entrega amorosa. Basta deixar que a fé o leve novamente até a casa do Pai, cada vez menos conivente com o mal em si e mais transformado pela ação de Cristo. Quarto processo: A morte como manifestação suprema de amor! Para Paulo, a morte tem papel central (Rm 5.6-10; Ef 2.13; Cl 1.20), pois é essa que efetua a reconciliação. A morte de Cristo não quer ser entendida como punição ou castigo, mas antes como uma prova do amor divino à humanidade ainda pecadora e ímpia. Ao se entregar até a morte, Jesus mostra a sua não-conivência com a maldade humana. Ele poderia ter reagido com violência diante da violência de atos desprovidos de amor, atos pecaminosos, mas optou por agir com amor em resposta à vontade humana de agredi-lo. A morte de Cristo foi um ato de fé e de confiança no Deus de amor. Jesus morre para “ser por nós”, para mudar a situação humana graças à iniciativa divina. Sua morte é dádiva, é exemplo de perdão até mesmo diante da injustiça. É sinôni-
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mo de recomeço e oferta de nova vida. Pode-se concluir que a morte de Jesus deixa clara a opção de Deus em ser um Deus de misericórdia. Quinto processo: A nova relação de igualdade! A entrega doadora e amorosa de Cristo significa que sua dor foi real, pois a humanidade padecia na dor; seu sacrifício foi real, pois representava a maldade humana em seu estado de pecado e desligamento de Deus. O divino irrompe na história da humanidade para lhe oferecer a reconciliação mediante a fé. Essa é uma proposta tremenda que desafia a humanidade justamente a parar de sentir ou gerar dor e iniciar uma nova trajetória regida e guiada pelo amor. A proposta de Cristo pede para que se pare com a produção de atrocidades e que se passe a viver em amizade e unidade. Nessa nova condição, o ser humano é tido como amigo de Deus; visto de forma igual e não-discriminatória ou partidária. O desafio trazido à humanidade é poder olhar uns para os outros sem discriminação, assim como Deus olha para seus/as filhos/as. A perspectiva divina para os relacionamentos humanos e planetários é que a igualdade amorosa se realize em seu meio, estendendo-se, inclusive, para todo o ecossistema – os animais e a natureza que habitam o planeta.
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Meditação
Reconciliação em dimensões pessoais e comunitárias: independente de sistemas religiosos, Jesus vem ofertar, através da reconciliação, o desafio da quebra de barreiras sociais. A inimizade entre judeus e gentios vinha da lei. Ao superála, Jesus demonstra que nem judeus (o correto irmão mais velho) tampouco pagãos (o irmão que está perdido no mundo, à procura de um sentido de vida) precisam fazer algo para reconciliar-se com Deus, a não ser amar-se, o verdadeiro caminho da superação. Depois que o pai recebe ambos incondicionalmente, contra qualquer conceito de justiça ou de mérito, cabe aos dois darem o passo seguinte e apertarem as mãos. Enquanto um deve abrir mão do orgulho e do prazer no reconhecimento de sua conduta exemplar, o outro deve abrir mão da vergonha e do prazer na maldade. A família experimentou uma crise no retorno do filho, mas o amor do pai fez possível uma nova e aprofundada realidade de vida para a família. Ele ensinou o respeito mútuo. Percebe-se que a reconciliação é possível quando as pessoas optam em agir com respeito, reconhecimento de valor, admiração e manifestação de dignidade no relacionamento com o próximo e, inclusive, com a religião do próximo. Assim, judeus (irmão correto) e samaritanos/gregos (irmão perdoado e acolhido) são desafiados a dar as mãos e, num gesto de abraço afetuoso, acolhimento e respeito mútuo, unir-se para conversar sem brigas. O judeu experimentou a crise diante da alegria de salvação oferecida para o gentio. Assim teve a oportunidade de redescobrir qual era o seu próprio sentido de vida (Por que estava trabalhando ao lado do pai até aquele momento? Queria isso ainda? O seu prazer estava apenas em ser um exemplo para os outros? O que gostava e desgostava em sua vida? Como melhorar sem precisar ir embora como seu irmão mais novo e impul-
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sivo...) e onde estava o fator motivacional de sua alegria; sua alegria está na promessa de Deus, que tem uma aliança inquebrável com ele (Lc 15.32: “tu sempre estás comigo, o que é meu é teu”). Todas as nações e religiões são desafiadas a conviver sustentando a reconciliação ofertada como dádiva divina em suas vidas e na vida dos povos deste planeta. Afinal, haverá harmonia no mundo e em toda a natureza quando a salvação ofertada for experimentada através da fé. Enquanto não se encontrar através da fé, o ser humano também não saberá como aceitar a reconciliação oferecida a ele por Deus, que tanto lhe quer bem e quer bem às criaturas que vivem ao seu redor. É justamente nessa entrega e através dessa disposição em servir a Deus, ao próximo e à natureza que o ser humano se deixa reconciliar e transforma-se em servo: um verdadeiro instrumento nas mãos de Deus, filho amado e amoroso, que se entrega abnegadamente, respeitando-se e respeitando a vida ao seu redor. Isso não vem dele, mas é dom de Deus. Reconciliação em dimensões sociais e globais: a reconciliação já foi irrompida por Cristo, mas agora desafia igualmente o ser humano a praticá-la e assim reconciliar-se com o mundo ao seu redor. Ele é convidado a parar de machucar ou parar de desconsiderar a natureza, num ato de desrespeito ou indiferença, e passar a lutar por ela, numa atitude de coragem, determinação e fé. Nessa busca por uma solução ecológica para o mal que assola o planeta, seguramente o amor é a possível resposta para a união entre indivíduos, céus e terra. Somente através da reconciliação com Deus os seres humanos poderão existir em plenitude. Quando a pessoa é guiada não mais por seus instintos ambiciosos, que visam tão-somente o lucro através da exploração da natureza, e sim pela integração e manutenção da vida, com respeito e carinho pela vida no planeta, então estará pronta para experimentar a verdadeira libertação. Até hoje, a humanidade ainda insiste em viver o castigo, pois desrespeita e mata (foge da casa do Pai numa atitude egoísta e rebelde). A partir do momento em que essa unidade benéfica com Deus e as criaturas ao seu redor for uma realidade (readaptação do filho pródigo no lar que o acolhe novamente), a humanidade estará pronta para viver em favor da criação divina. Estará pronta para viver em unidade com a mesma, querendo para a vida no planeta o próprio bem que hoje quer para si. O filho mais novo fará as mesmas atividades que antes, mas com um novo sentido, uma realização que antes não tinha. Agora finalmente ele se sente em casa, em paz com sua vida e muito grato pelo lar que o acolhe. O lar possui agora uma “nova cara”, um “novo jeito”, um “novo sabor”. O filho mais novo redescobriu o brilho/sentido/ alegria de viver ao lado do Pai/Deus, que antes não conseguia ver. A nova criação já começou através da entrega de Cristo. Isso significa que a transitoriedade de nossa situação presente é uma transição que vai em direção a algo melhor para este planeta. Através da fé, essa transitoriedade torna-se uma possibilidade real para toda a humanidade. Jesus iniciou uma nova vida. Imitando-o, a humanidade descobre que não precisa mais pensar no progresso como acumulação de bens materiais (a aparente beleza de usufruir da herança). A ênfase está justamente na qualidade de vida interior, bem como na realização enquanto ser familiar e habitante deste planeta (atividades que envolverão o filho mais novo depois do retorno ao lar). O seu sentido de vida é o que mais importa, e não o
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acúmulo financeiro que o faz destruir a vida do planeta e dos irmãos que trabalham ao seu redor. Essa mudança de atitude garantirá a manutenção da vida, pois o ser que habita este planeta é um ser dotado de sentido, de amor e de alegria (acolhido e sustentado pelo Pai). A salvação da humanidade está no respeito entre irmãos diferentes, na abertura para o afeto incondicional do Pai e na nova conduta depois do aprendizado de retorno ao lar. O ato reconciliatório gera a verdadeira comunhão entre natureza e seres humanos diante do desvelamento da divindade, onde Deus está em tudo e tudo está em Deus. Desse modo, a reconciliação divina transmitida através da palavra de Deus e do gesto doador e amoroso de Jesus Cristo romperá fronteiras, não só entre nações e gênero humano, mas também para todo o seu ecossistema, e então se tornará verdadeiramente divina, amorosa e reconciliatória.
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Imagens para a prédica
No judaísmo do primeiro século, as cidades do Oriente Médio ofereciam diversas oportunidades de diversão, muito mais do que a Palestina em questão. O processo de Pax romana implantou nas cidades todos os prazeres e luxos para encantar seus cidadãos (mais ou menos como o atual american way of life), tornando-os, tão-somente, reféns nas mãos de seus dominadores.2 Para o judeu, tornar-se “porqueiro” ou “cobrador de impostos” era virar gentio. Assumir esse “jeito de ser romano” significava ser conivente com o dominador. A essa altura, o filho já estava morto para seu pai, e qualquer judeu o teria desprezado se tivesse voltado depois de contatar com tamanha miséria. Atualmente essa situação de desentendimento narrada nos relatos bíblicos repete-se quando um grupo opta por excluir o outro, gerando exclusivismo e rejeição. O diálogo com o mundo no sentido reconciliatório não pode ficar fechado apenas entre confessionalidades cristãs. Pode expandir-se e reconciliar cristãos separados, judeus, culturas negas, indígenas e asiáticas.3
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A romanização dos territórios era visível em toda parte com a construção de ginásios, fontes, pórticos, templos, oficinas e escolas. Esses eram tidos como presentes, que fluíam de Roma para seus súditos, mas o que os “súditos” ignoravam é que o pressuposto desse fluir era muito maior e corria para o sentido contrário. “Camponeses do interior ansiavam pelos luxos da cidade; extravagâncias de outrora pareciam necessidades de agora; e o feitiço da excitação e das facilidades arrastava para as cidades filhos e filhas de lavradores” (SAVELLE, 1971, p. 301). Até mesmo os africanos, asiáticos e europeus queriam desfrutar dos prazeres, negócios e educação proporcionados pelas urbes, e, assim, iam se entregando “à influência amolecedora do vício: pórticos, banhos e seletos banquetes. E isso chamava-se, para os ingênuos, modo de viver (humanitas), quando, na verdade, era apenas um elemento de escravização” (WENGST, 1991, p. 63). Por muito tempo, o evangelho foi tido como impositor e civilizador, isto é, onde era recebido, fazia surgir uma nova civilização e uma nova cultura. Hoje em dia, sabe-se que asiáticos, indígenas e o povo de origem africana têm o direito de recuperar tudo o que simboliza o divino para eles, de acordo com sua própria língua e cultura, e assim libertar-se do discurso colonial (cristianismo de conversão) (GIBELLINI, 1998, p. 457).
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Deve-se continuar lutando para manter essa reconciliação ativa, nunca apenas por parte de Deus, mas sempre por parte do ser humano, que ora aprende o amor e o manifesta, ora prefere o ódio e deixa que seus instintos naturais e corrompidos o guiem. Não só Deus nem apenas a humanidade são responsáveis pela vida no planeta, mas ambos a representam e juntos podem cumprir com o seu papel. Se o ser humano passar a contribuir unido com Deus em harmonia e entrega, então o planeta estará salvo.
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Subsídios litúrgicos
Oração de coleta: Amado Deus, agradecemos-te, pois em Cristo Jesus nos reconciliaste contigo. Já estiveste presente com teu povo na celebração da Páscoa, e esse rejubilou por celebrar tão importante marco de unidade e vínculo a ti. Hoje, através do teu gesto de vir até nós, temos o privilégio de retornar à casa do Pai sempre que nos conscientizamos do afastamento gerado pelo pecado em nós. Graças a teu amor incondicional, sabemos que manténs e sustentas o planeta e que, através de nosso coração disposto, nos usas para dar continuidade a teu ato reconciliatório entre todos os irmãos, povos, natureza e o planeta como um todo. Usa-nos, Senhor, até que a humanidade esteja totalmente reconciliada em ti na unidade com Deus através de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém. Oração de intercessão: Diante de tua atitude divina e amorosa, em que estendes tuas mãos para oferecer reconciliação, queremos humildemente aceitá-la e nos dispor a ser agentes de amor e de união entre os seres humanos e a natureza ao nosso redor. Por isso te pedimos para que abençoes todas as igrejas luteranas que se reúnem hoje e que, neste momento, celebram culto a ti. Pedimos por seus membros, presbitérios e obreiros/as. Cuida de suas famílias e auxilie-os para que atuem em seus postos de trabalho com responsabilidade e amor. Também por nossos governantes pedimos que, diante do poder que lhes é outorgado pela sociedade, aprendam a administrar com sabedoria os desafios que lhes são propostos. Sabemos que, frente a grandes problemas, é preciso atuar com muito amor. Que tua proposta de reconciliação os alcance e transforme, bem como os seres pelos quais são responsáveis. Fortalece-os e guia-os por tua graça. Por nossa paróquia/comunidade também intercedemos, pedindo que tu te manifestes transformando realidades. Abrimo-nos para teu poder de unir-se ao que é humano e assim reverter más situações em momentos de graça e carinho incondicional. Assim como o Pai acolhe o filho e lhe concede novo sentido de vida, pedimos-te que venhas até nós e nos ensines a gratidão e a alegria de te termos ao nosso lado. Faze de nós membros atuantes, que, assim como o filho mais velho, trabalham com empenho para o bem e a implantação do teu reino na terra.
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4º Domingo na Quaresma
Oração eucarística: (Prefácio) L: É digno, justo e do nosso dever que em todos os tempos e lugares rendamos graças a ti, Deus eterno e todo-poderoso, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Pois ele, em seu ato amoroso incondicional, entregou-se para nos reconciliar consigo e com o mundo ao nosso redor e nos aguarda ansioso, como um pai à espera de seu filho. Por isso, com toda a tua igreja e os coros celestiais, adoramos teu glorioso nome, cantando: (Com.) Santo, Santo, Santo (Em tua casa, n°43). (Anamnese) L: Damos-te graças, Deus Pai Santo, pois é por causa do teu amor que podemos nos reunir ao redor desta mesa comum e partilhar do corpo e do sangue de Cristo. Ele nasceu, viveu e ofertou a unidade com Deus através do retorno à casa do Pai. Isso custou-lhe a vida e, graças a essa vida entregue, podemos retornar à unidade contigo, perdoados e reconciliados. Ele foi ressuscitado por ti, está contigo e no final dos tempos acolherá tanto a vivos como a mortos. (Narrativa da instituição): Portanto todas as vezes em que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos a morte do Senhor até que ele venha e em completa integração reconciliatória com nossa comunidade/paróquia, nosso planeta, todos os povos e todo o ecossistema. (Epiclese) L: Envia-nos, Senhor, o teu Santo Espírito unificador, que nos proporciona completa integração com o Pai, o Espírito do Cristo ressurreto, para que, partilhando o pão da vida e o cálice da salvação, nos tornemos, em Cristo, um só corpo, que anuncia a tua ressurreição. (Mementos) L: Lembra-te de todas as pessoas que nos antecederam e que foram, por tua graça e acolhimento incondicionais, comunidade unida a ti. Guianos, pois, à festa da alegria, preparada para todo o teu povo, em tua presença, a qual esperamos na certeza de que essa unidade reconciliatória contigo, com os irmãos e com a natureza já faz efeito através de nós e em nosso lares. (Com.) Por Cristo, com Cristo e em Cristo (Em tua casa, n° 12). Litania: Este responsório pode ser feito com a comunidade. Ela começa lendo um versículo de cada vez do texto de 2 Coríntios 5.17-21 e o/a celebrante/a fala o trecho orado como resposta. Esses trechos podem ser mudados segundo a interpretação e oração que o/a obreiro/a achar mais adequadas. 17 (Comunidade lê o v. 17) L: Ajuda-nos, Senhor, a permanecer sempre vinculados em Jesus Cristo e em seu amor. Ensina-nos o significado e a verdadeira alegria de ser novas criaturas (leitura do/a liturgo/a). 18 (C: leitura do v. 18) L: Revela o prazer de vivermos segundo as coisas novas que ofereces a toda pessoa que está reconciliada contigo e vive pela fé, em profunda gratidão ao Altíssimo. 19 (C: leitura do v. 19) L: Teu perdão nos inunda e transforma. Agradecemos pela oportunidade de acessar pela fé teu amor, experimentando-o vivo em nossos corações. 20 (C: leitura do v. 20) L: Aceitamos o desafio de viver o amor e, em unidade contigo, transmitir esse amor a toda a humanidade.
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(C: leitura do v. 21) L: Tua vontade justa é que toda a humanidade se reconcilie contigo. Aceitamos o desafio e nos dispomos a servir, trabalhando pelo bem e, cada vez mais unidos contigo, unindo o mundo com teu amor incondicional e entregue. Amém.
Bibliografia GIBELLINI, Rosino. A teologia do século XX. São Paulo: Loyola, 1998. SAVELLE, Max. História da Civilização Mundial; as primeiras culturas humanas. Minas Gerais (BH): Italiaia Limitada, 1971, v. 1. WENGST, Klaus. Pax Romana, pretensão e realidade; Experiências e percepções da paz em Jesus e no cristianismo primitivo. São Paulo: Paulinas, 1991.
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PRÉDICA: FILIPENSES 3.4b-14
5º DOMINGO NA QUARESMA
ISAÍAS 43.16-21 JOÃO 12.1-8
21 MAR 2010
Clarise e Jair Holzschuh
1
Introdução
A Epístola de Paulo aos Filipenses é uma carta pessoal. Ela não é um tratado teológico, mas demonstra reconhecimento e gratidão mútuos entre Paulo e a comunidade de fiéis de Filipos por auxílios em tempos de dificuldade. Além disso, ela possui outros assuntos, como a crítica a algumas pessoas que o apóstolo chama de “falsos pregadores” (Fp 3.2) e “inimigos da cruz” (Fp 3.18). A perícope de Filipenses 3.4b-14, indicada para o 5º Domingo na Quaresma, identifica Paulo, fala sobre a vida na justiça de Deus e enfatiza que a dádiva da fé precisa ser uma constante na vida da pessoa cristã. Como leituras complementares estão indicados os textos de Isaías 43.16-21 e João 12.1-8. O profeta Isaías fala da superação do velho e da vinda do novo. Deus escolhe seu povo não por razões étnicas, por mérito da lei ou porque é um povo sem falha, mas por sua justiça, povo que ele “formou para si”. O evangelho traz Maria perfumando o corpo de Jesus, como que o embalsamando. É o reconhecimento de Maria de que só pode acolher como Jesus acolhe quem tem seus atos guiados por Deus, ou seja, quem age segundo a justiça/vontade de Deus. Podemos vislumbrar na ação de Maria a unção de Cristo como nosso Rei e Salvador. Maria é instrumento nas mãos de Deus para a realização da obra salvífica de Cristo.
2
Exegese
A carta aos Filipenses é cercada por alguns mistérios que não permitem localizar sua redação num tempo exato. Certo é que foi redigida na prisão, em companhia de Epafrodito, cristão de Filipos, que acompanhava Paulo em sua clausura. Paulo passou por diversas prisões como infrator da lei. Mas, dessa vez, está preso como missionário cristão (Fp 1.12ss). A redação está datada entre os anos 53 e 55 d.C. Foi escrita com a finalidade de agradecer a ajuda da comunidade de Filipos, que enviou dinheiro através de Epafrodito. Esse também esteve doente nesse período e agora pode voltar a Filipos com saúde, levando a carta de Paulo. Há uma discussão quanto à unidade da carta, pois de 3.2 a 4.1 o tom da conversa muda consideravelmente. Há pesquisas que apontam para a possibilidade de terem sido escritas mais cartas à comunidade de Filipos, que posteriormente
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5º Domingo na Quaresma
teriam sido unificadas. Não é possível comprovar isso com apoio na própria carta, ficando como uma hipótese que carece de aprofundamento. A comunidade de Filipos foi a primeira comunidade fundada por Paulo na região da Europa em sua segunda viagem missionária. A cidade era uma colônia militar romana, e Paulo teve grandes dificuldades nessa cidade. Sua missão em Filipos é conhecida pelos relatos de Atos 16.12-40, que menciona Lídia com sua família (16.14s) e a família do carcereiro (16.33s) como os primeiros convertidos à fé cristã. A partir dos nomes citados na carta (Epafrodito, Evódio, Síntique, Clemente) e da afirmação de não-circuncisos deduz-se que era uma comunidade essencialmente gentílico-cristã. A carta tem três momentos claramente distintos. De Filipenses 1.1-2.30 Paulo faz saudações e agradecimentos pessoais, situa-se como prisioneiro por causa da fé e faz exortações para a vida comunitária a partir de sua situação pessoal. De Filipenses 3.1-4.1 abre uma discussão sobre falsos pregadores e falsas doutrinas, com palavras em tom alterado. Para finalizar, em Filipenses 4.2-4.23 Paulo faz suas recomendações e agradecimentos, voltando ao tom amistoso. A perícope em questão situa-se na discussão sobre falsas doutrinas e constitui-se em duas partes distintas: Filipenses 3.4b-11: em que/quem a pessoa deposita sua confiança e Filipenses 3.12-14: a comunidade a caminho da salvação. No contexto maior, Filipenses 3.1-4.1, Paulo critica duramente pessoas que pregam doutrinas com as quais não concorda. São missionários cristãos que se vangloriam da sua procedência judaica, que acentuam privilégios étnicos e tradições religiosas em detrimento da graça divina (3.2s). Destaca-se que Paulo não dirige seus ataques contra os judeus ou a religião judaica, mas contra “maus pregadores”, ou seja, pregadores/missionários cristãos que se achavam melhores por seguir tradições judaicas e ser descendentes do judaísmo. Por isso Paulo faz uma espécie de autobiografia e declara tudo isso como “perda” (v. 7), pois o que importa é a “causa de Cristo”. Nos v. 7-11, Paulo chama à razão as pessoas que pregam e vivem segundo a carne, ou seja, as que procuram basear sua conduta e edificar sua vida sobre algo transitório, visível e passageiro. A verdadeira circuncisão não é confiar na carne ou em um sinal exterior, mas adorar a Deus no Espírito e gloriar-se em Cristo Jesus. É preciso “conhecer a Cristo”, a “sua causa”, “ganhar a Cristo” e “nele ser encontrado”. “A ele quero conhecer”, diz Paulo. Essas palavras encontram-se nos v. 7-10. E o aspecto que Paulo destaca em meio a esse ardente desejo em conhecer Cristo é a dikaiosyne – justiça, a “justiça de Deus” em contraposição à “minha justiça” (v. 9). A versão de Almeida traduz dikaiosyne por “justiça, justificação”, e a Bíblia na Linguagem de Hoje, por “obediência à lei”. No judaísmo rabínico, a justiça identifica-se completamente com a conformidade à lei e tinha a intenção de treinar os seres humanos na obediência para, com isso, adquirir méritos aos olhos de Deus. Paulo usa o termo com frequência. A justiça de Deus e a justificação dos pecadores por Deus são um tema central em sua teologia. A justiça de Deus (ek Theou dikaiosyne) é o modo de Deus tratar o seu povo, baseado na sua aliança, que se constitui numa nova humanidade composta por judeus e gentios. Ninguém
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5º Domingo na Quaresma
pode chegar a Deus por méritos de obras da lei (Rm 3; Gl 2); quem deseja ser justificado pelas obras da lei “cai da graça” (Gl 5.4); mediante Cristo, a lei perdeu validez “absoluta” (Rm 10.4). Quando alcançados pela justiça de Deus, totalmente envolvidos por ela, é que se pode fazer a vontade de Deus. Somente quem é justificado e morreu para o pecado pode fazer a vontade de Deus (Rm 6). Assim, a justificação dá-se somente pela fé em Cristo, mediante a confiança total e exclusiva na graça de Deus, que é dom gratuito (Rm 3.24; Fp 3.9).
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Meditação
Nos dias em que escrevemos este auxílio homilético, ocorrem mobilizações dos pequenos agricultores em todo o sul do país, especialmente nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. As mobilizações reivindicam auxílio à agricultura familiar atingida pela seca e pelos preços baixos, causados por uma crise financeira global. Sentindo-se injustiçados por não ter atendidas as suas reivindicações e, por outro lado, vendo os bancos recebendo altas somas destinadas a fábricas e indústrias, também para o agronegócio, os pequenos agricultores, produtores da comida nossa de cada dia, puseram-se nas ruas, estradas e pontes, pedindo atendimento básico, justiça social e econômica. JUSTIÇA – esta também é a palavra-chave da perícope do 5º Domingo na Quaresma – Filipenses 3.4b-14. O dicionário da língua portuguesa define “justiça” como “conformidade com o direito; atitude que faz dar a cada qual o seu; faculdade de julgar com equidade”. Diante dos fatos, parece que a justiça não está sendo contemplada em seu significado. Mas é dado o direito a quem “tem mais” poder, dinheiro, influência, possibilidades. No v. 9, o apóstolo Paulo anuncia: “Não é minha própria justiça que eu quero, que provém da lei, mas a justiça que Deus concede à base da fé, a que vem por intermédio da fé em Cristo”. Há uma clara rejeição à justiça humana, baseada na lei, em favor da justiça de Deus, recebida na fé. Dentro do contexto (especialmente v. 8-10) é a ação salvífica de Deus caracterizada pela morte e ressurreição de Cristo que conduz necessariamente à rejeição da justiça da lei. Não é apenas um jeito de pensar, mas algo que muda o jeito de falar e, sobretudo, de agir. A “justiça que vem da lei” é o que Paulo chama de “minha própria justiça”, e essa leva a pessoa a vangloriar-se de si mesma, de suas próprias atitudes e feitos. É o vangloriar-se “na carne” severamente criticado por Paulo. Em clara oposição a isso, apresenta-se “a justiça que vem de Deus à base da fé”, ou seja, que Deus confere aos que creem, o que Paulo chama de “justiça de Deus”. Ao que crê Deus confere a sentença: justo. Entretanto, a justiça da qual vive a pessoa que crê em Jesus Cristo não é a sua própria justiça, mas uma justiça alheia; ela é dádiva de Deus, que lhe é concedida à base da fé em Cristo. Assim não confia em si mesma, mas apenas no Deus que, em Cristo, declara justo o ímpio (cf. Rm 4.5). Na mesma
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linha de raciocínio está a parábola de Jesus sobre os trabalhadores da vinha, em que o dono resolve pagar o mesmo valor a todos, independente da hora em que iniciaram o seu trabalho (Mt 20.1-16). Portanto a centralidade dessa palavra é a justificação pela fé em Cristo, que o ser humano não vive de sua própria realização, mas de uma justiça alheia que lhe é concedida por Deus. Diante disso, não é possível ficar calado frente à justiça do mundo, que tem mais peso num lado da balança. A justiça de Deus olha para a necessidade, enquanto a justiça humana olha para o merecimento. A justiça divina olha para o coração, enquanto a justiça humana olha para o lucro, o mercado, o retorno e a glória pessoal. A justiça de Deus preza pelo comunitário, e a humana, pelo individual e pessoal. Não que a justiça divina vise somente o comunitário, desprezando o individual e pessoal. Ela supera a visão do pessoal e a integra em sua visão. A justiça de Deus é universal, enquanto a nossa é local e parcial. O ser humano tem em si o senso de justiça, mas tem dificuldade para aplicá-lo ao próximo. Enquanto a justiça humana sofre de miopia, a justiça de Deus enxerga longe e consegue até mesmo enxergar o que se passa no coração e na mente das pessoas. A busca da justiça é uma constante na vida das pessoas cristãs. A justiça não é algo que se conquista uma vez para sempre, mas é o alvo de constante e incessante busca na vida cristã. A busca pela justiça passa por sofrimentos, tentações, tensões e perseguições. O caminho da pessoa cristã é comparável a uma corrida, segundo Paulo mesmo afirma em Filipenses 3.12ss. Durante o desenrolar da corrida, não é possível se vangloriar pela vitória final, mesmo sabendo que em Cristo nós já a tenhamos recebido antes de encerrar a corrida. Essa postura evita vanglória e coloca-nos em nosso lugar de criaturas de Deus. A corrida a que Paulo se refere é a nossa vida. A luta contra as injustiças – egoísmo, opressão, desunião, guerras... – está presente em toda a vida.
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Imagens para a prédica
A imagem clássica da justiça é a balança. A necessidade de nos preocuparmos tanto com a justiça é a presença real e concreta da injustiça entre a humanidade. Cada ação injusta carrega em seu cerne a morte como fim e meio últimos. Subverte a justiça de Deus em sua essência. A justiça divina promove a vida e a dignidade para toda a criação. A existência de juízes entre nós só tem sentido se estiverem a serviço da promoção e do restabelecimento da justiça entre as pessoas. Supondo que fosse possível sermos libertados da justiça humana, ainda não estamos livres da justiça de Deus. Levando em consideração o acima exposto, sugerimos levar para a igreja uma balança. Durante a pregação colocar sobre a balança, num lado, o que faz parte da justiça/injustiça humana e, no outro, da justiça divina. Egoísmo, consumismo, “particularismos”, materialismo... só podem ser superados quando somos contagiados pelo amor de Deus, que tem no seu centro a justiça para todas
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as pessoas, sem levar em conta merecimento ou apadrinhamentos. Na reflexão sobre a justiça de Deus, não podemos esquecer o que ela significa em relação à criação como um todo, ao meio ambiente. Só o amor de Deus transformou a crueldade humana, estampada na cruz de Cristo, em salvação para a humanidade toda. Sugerimos que de fato se leve uma balança e se explore essa imagem, mesmo sabendo que nossa justiça é sempre parcial e local.
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Subsídios litúrgicos
Sugerimos a liturgia constante no Livro de Culto, p. 154-156, sob o título: “Porque Deus nos serve, promovemos a justiça”. Na oração de intercessão pode ser cantado o refrão: Dá, Senhor, pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão.
Bibliografia BARTH, Gerhard. A Carta aos Filipenses. São Leopoldo: Sinodal, 1983. KÜMMEL, Werner G. Introdução do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982.
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DOMINGO DE RAMOS
PRÉDICA: LUCAS 19.28-40
28 MAR 2010
SALMO 118.1-2,19-29 ISAÍAS 49.1-7
Vera Maria Immich
1
Introdução
Motivação: Em uma conversa entre jovens surgiu a questão da dificuldade de crer em fatos e eventos que ocorreram tanto tempo atrás e da dificuldade de hoje identificar a ação de Jesus em nossa vida. Um dos jovens então disse que as pessoas no tempo de Jesus eram privilegiadas, pois podiam desfrutar de sua presença e ver seus feitos e milagres. Outro falou: “Para o povo daquele tempo era tudo mais fácil”. Mas será que era mais fácil? Basta lermos as Sagradas Escrituras e observamos o quanto também havia dúvidas e questionamentos naquele tempo, o quanto a fé não é comprovada por fatos externos e mensuráveis, mas vem de Deus e quer encontrar acolhida dentro de nós. O texto de Lucas vai nos mostrar claramente que crer contra todas as circunstâncias não é tarefa fácil, mas se empolgar com grandes feitos é uma de nossas fraquezas. O texto de Isaías é considerado um dos cânticos do Servo Sofredor. Nos versículos 1-4, o Servo dá testemunho da missão que recebeu do Senhor e descreve também sua frustração, pois aparentemente fracassou. Nos versículos 5 e 6, ele recebe consolo do Senhor, que afirma que seu trabalho não foi em vão. Pela primeira vez, percebe-se de forma bem explícita que o caminho do Servo Sofredor seria de sofrimento. Na entrada em Jerusalém, é a primeira vez que, simbolica e publicamente, Jesus assume ser o Messias e traz no bojo de seu silêncio aquilo que haveria de vir, enfim seu caminho de dor e sofrimento.
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O texto
Ao entrar “triunfalmente” em Jerusalém, Jesus está cumprindo velhas profecias e atualizando sonhos de libertação. Os sinais de que ele é o Messias são colocados por Lucas para não deixar dúvidas no meio do povo e da comunidade dos seguidores de Jesus. Para que a certeza se estabeleça no coração dos discípulos é que temos alguns gestos simbólicos. A subida para Jerusalém é um deles. É a parte mais original de Lucas, bem como os ensinamentos e parábolas de Jesus. A morte de Jesus deve ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida: Anunciar um mundo novo de justiça, de paz e de amor para todos os homens.
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Domingo de Ramos
Para concretizar esse projeto, Jesus “peregrinou” nos caminhos da Palestina, “fazendo o bem” e anunciando um mundo novo de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos; ele ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem os pecadores; ele ensinou que os leprosos, os paralíticos, os cegos não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus; ensinou que eram os pobres e os excluídos os preferidos de Deus e aqueles que tinham um coração mais disponível para acolher o “reino”; e avisou os “ricos” (os poderosos, os instalados) de que o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, o fechamento só podiam conduzir à morte.
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Meditação
Ouvindo o texto, a princípio, podemos achar que de fato tudo era bem mais fácil. Vimos que o povo estava impressionado com a presença e a atuação de Jesus. Achavam e esperavam que com Jesus todas as suas expectativas seriam preenchidas. Os sinais e milagres falavam por si e davam a certeza de que se tratava do esperado Messias, aquele que proporia cura e salvação integral. As curas e os milagres davam a certeza de se tratar de um rei que libertaria todo o povo do sofrimento. Não creio que era tudo mais fácil naquele tempo. Muitas atitudes de Jesus eram difíceis de ser compreendidas e pareciam contraditórias, como receber a ordem de buscar o jumento, sem comprar, mas simplesmente pegar e dizer que o mestre precisa dele. Isso pressupõe uma obediência incondicional. Acompanhar Jesus, aclamado pela multidão, e ser reconhecido como parte do círculo íntimo de Jesus deve ter sido bem recompensador. Mas quando Jesus passa a ser odiado, desprezado e açoitado publicamente, toda honra e glória humanas ora experimentadas desaparecem. A espera pelo libertador era grande. A Páscoa era tempo de recordar a saída da terra da escravidão e de como Deus os havia auxiliado. Agora o povo de Israel era novamente oprimido, dessa vez pelos romanos, que ocupavam as suas terras, que os escravizavam, que lhes impunham a sua cultura e religiosidade. Diante dessa dura realidade se perguntavam: Quando Deus agirá? Quando ele virá para nos libertar? Quando Deus enviará o Messias? Em meio a essa expectativa veio Jesus Cristo. O povo preparou-lhe uma chegada e uma entrada triunfal em Jerusalém. Com grande festa e júbilo receberam Jesus na entrada da cidade. Certamente o pensamento coletivo era que finalmente havia chegado o Messias, que libertaria o povo e transformaria toda a situação. As notícias em relação a Jesus haviam se espalhado por Jerusalém e região, tal como fogo em palha seca, ou seja, com rapidez. Essas notícias informavam que Jesus havia ressuscitado Lázaro. E diante dessas notícias não é de estranhar que havia grande multidão saudando a chegada de Jesus a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa. Vemos o texto nos relatando o ocorrido. A multidão que o acompanhava tirava suas vestes para que Jesus passasse sobre elas em uma clara e típica manifestação de boas-vindas. Uma saudação a reis e majestades.
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Domingo de Ramos
A multidão, em êxtase, louvava o Senhor em voz alta por todos os milagres que havia feito. Ali transparece a fraqueza da fé daquela multidão e também da nossa fé, que, muitas vezes, precisa de eventos que comprovam a força e o poder de Jesus para se afirmar. A multidão acolhia Jesus com muito ânimo e disposição, clamando: “Bendito é o rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas”! (v. 38). Assim louvava todo o povo nas ruas de Jerusalém. Sentiam que o rei de Israel estava diante deles. Provavelmente, cada um tinha a sua própria imaginação em relação ao jeito, à aparência e ao modo de agir do Messias. Certamente, cada um tinha os seus desejos e expectativas em relação ao Messias. E naquele júbilo, quando da chegada de Jesus, todas essas diferentes expectativas e imaginações foram unificadas. Fico pensando nos possíveis sentimentos e pensamentos que podem ter passado pela cabeça de Jesus. Ele sabia o que o esperava e o motivo da sua vinda. Ele não se deixava seduzir pela aprovação humana e nem pelas glórias advindas de seus milagres. Na entrada em Jerusalém, comumente chamada de triunfal, Jesus faz a síntese entre o chamado da cruz, a glória e a GLÓRIA. Ele é acolhido com grande glória humana, mas carrega em seu coração o prenúncio da cruz e enfrenta a partir desse momento todo abandono, traição, solidão, mudança de humor e perda de credibilidade junto aos que o seguiram e aclamaram. Mas não devemos esquecer que ele venceu tudo isso e em Glória verdadeira foi para junto do Pai, onde está preparando muitas moradas. No livro “A cabana”, de William P. Young, encontramos uma bela paráfrase do amor de Deus, que age em meio às desgraças, transformando-as e não sendo seu arquiteto: “... crio um bem incrível a partir das tragédias indescritíveis, mas isso não significa que as orquestre. Nunca pense que o fato de eu usar algo para o bem maior significa que eu provoquei ou que eu preciso dele para realizar os meus propósitos. ... A graça não depende da existência do sofrimento, mas onde há sofrimento você encontrará a graça de inúmeras maneiras” (p. 173). O Domingo da Paixão, que inicia a Semana da Paixão, traz-nos elementos proféticos que se atualizam, mas que não diminuem a graça manifesta de Deus, que não precisava desse caminho, tão duro e cruel, mas que permitiu que se cumprisse para que todos tivessem chance de chegar aos braços de Deus e aí descansar sua vidas sofridas e desiludidas. Podemos, também, dizer que a morte de Jesus é o ponto mais alto de sua vida; é a afirmação mais radical e mais verdadeira daquilo que Jesus pregou com palavras e gestos: o amor, o dom total, o serviço. Ele toma um burro e, montado sobre ele, entra em Jerusalém. Jesus não chega a Jerusalém com grandes e fortes cavalos. Mas, mesmo assim, ele é rei da paz, o Deus forte, maravilhoso e conselheiro, como o profeta Isaías havia definido. Jesus desejava e deseja a paz. A paz entre povos e nações, entre Deus e seu povo. Por isso ele é um rei de esperança, cura e salvação. Um rei voltado para a justiça e o bem-estar. Por isso ele é também um rei que, com sua morte e ressurreição, dá-nos a vida eterna. Jesus veio em nome do Senhor. Veio como rei da salvação e assim trouxe a toda a humanidade a possibilidade de vida eterna. Jesus traz justiça que não acusa o povo pelos erros e indefinições. Para Jesus, o importante não é o que a pessoa fez ou ganhou, mas o que ela precisa. Por
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isso, com sua morte, perdoa e concede nova vida. Jesus traz nova justiça, justiça marcada pela misericórdia e pela possibilidade da vida eterna. Jesus traz cura e salvação. Mas a proposta de Jesus é que tudo isso não venha de cima para baixo, mas que surja de baixo para cima, para que possa criar boas e fortes raízes. O pequeno e frágil burrico no qual Jesus vinha montado é sinal disso. O povo não havia compreendido isso. Estavam cegos para esse caminho. Estavam cegos por causa de suas próprias expectativas e esperanças. E isso provocou a surpresa do povo perante Jesus. Essa surpresa toma conta de todos, tal como quando da chegada de Jesus em Jerusalém. Só que agora pelo lado negativo. O povo passa logo a dizer: “Esse tipo de rei não queremos”. Deve ter sido bastante difícil e doloroso para Jesus perceber como a opinião do povo mudara. O júbilo, Hosana, transforma-se em gritos histéricos: “Crucifica-o”. Deve ter sido doloroso ouvir no lugar do “bendito o que vem em nome do Senhor e que é rei de Israel”, os gritos de: “não temos outro rei além de César”. Estamos hoje no começo da Semana Santa. Nesta semana, somos convidados a refletir sobre o caminho de sofrimento de Jesus, sobre o caminho de sua morte e ressurreição. Então virá a Páscoa. E Páscoa traz a certeza: “Jesus Vive”. A ele pertence o futuro. Por isso haverá cura, salvação, paz e justiça. Acima de tudo isso haverá vida eterna. O caminho percorrido por Jesus lembra-nos da semelhança de nossos caminhos de dor e sofrimento, ressalvando as grandes diferenças que também nós temos que discernir para não nos deixar enaltecer com as glórias humanas e sucumbir ante as tragédias que se abatem sobre nós. É possível pensar de maneira especial nas tragédias que adquirem a dimensão da mídia e assim acarretam sofrimento ainda maior a todos, fazendo da sociedade uma partícipe ativa e opinante sobre cada detalhe mórbido; as tragédias que se abatem em famílias que precisam despedir-se de seus filhos vítimas de acidentes estúpidos, da dependência química e dos prazeres perigosos. Caminhos difíceis de serem trilhados porque contam com a desaprovação da sociedade, a autoculpabilização por não terem conseguido mudar o desfecho e a grande desolação pelo fato consumado.
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Imagens para a prédica
O próprio texto oferece muitos elementos a serem explorados e dependerá da ênfase dada pela pregadora. É possível explorar a glória humana, a glória verdadeira e o prenúncio da cruz que encontramos em toda a caminhada de Jesus. Pode-se colocar alguns ramos em uma cruz, se houver na igreja. Ou até mesmo levar uma cruz e falar dessa tríplice mensagem que o Domingo de Ramos nos apresenta: glória e louvor humano com suas limitações, glória verdadeira, que vem de Deus, mas não sem antes passar pela cruz de dor e sofrimento. O caminho também é uma ilustração possível de ser explorada, podendo ser usado como recurso pela pregadora. De um lado, o caminho de Jesus desde antes de chegar a Jerusalém até a entrada “triunfal”, que traz consigo toda a contradição humana e a incondicional obediência de Jesus; de outro lado, os nossos
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Domingo de Ramos
caminhos e descaminhos nessa vida contraditória que nos ilude e onde pensamos que tudo é possível e que conosco certas coisas não acontecerão e, em contrapartida, a queda que expõe nossa vulnerabilidade. Também se pode elencar algumas tentações que podem nos derrubar assim como a multidão que seguia Jesus em seu caminho, tais como vaidade, aprovação popular, grandes feitos e eventos, para ficarem na lembrança das pessoas, mas que não tocam seus corações.
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Subsídios litúrgicos
Acolhida: Tu nos enlaças, Senhor (Antoine de Saint-Exupery – 1900-1944)
Senhor, a missão do tempo que se escoa É de curar-nos e de transformar-nos Em alegria para a tua glória. Senhor, abre-nos de par em par para a tua porta E faze-nos penetrar lá onde nada será respondido, Porque não haverá mais resposta, Mas haverá beatitude, Que é a resposta a todas as perguntas E presença que satisfaz! De uns e de outros eu não solicito o amor para mim... Pouco me importa que me ignorem ou me odeiem Conquanto me respeitem Como o caminho que conduz a ti; Porque o amor eu o solicito somente a ti, A quem pertenço e a quem eles me pertencem, Atando o feixe dos movimentos de tuas adorações E o confiando a ti. Eu também me dirijo ao longo da rampa, Que estou subindo, para a serenidade de Deus, Aceitando as renúncias que são condições para a alegria, Como a imobilidade das crisálidas É a condição de alçar o voo. Tu me enlaças, Senhor, no mais alto que eu.... Sei que não chegarei à paz e ao amor sem ti... Porque somente em ti, Senhor, Se confundem, enfim, Numa unidade sem litígios, O amor e as condições do amor!
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Oração: Querido Deus e pai de Jesus Cristo, nosso Senhor, damos-te graças por este dia que nos concedes; por mais este tempo da paixão de teu filho amado. Ensinanos com a humildade de Jesus que não se deixou seduzir pelos aplausos da multidão, que frustrou as expectativas do povo, mas se manteve com retidão no teu projeto de redimir todo o povo; ensina-nos a perdoar de antemão e assim estar livres para o teu amor incondicional. Envolve-nos com teus braços e teu amor. Amém! Bênção: “Sobre os nossos corações e nossas casas... Seja a bênção de Deus. Em nossa vida e paixão, Seja o amor de Deus. Em nossa despedida e até um novo começo, Sejam os braços de Deus que nos acolhem e nos conduzem de volta ao lar.” (Comunidade de Iona, Escócia)
Bibliografia ALVES, Rubens. CultoArte. Celebrando a vida – Tempo comum. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. DOMAY, Erhard. Gottesdienst Praxis – Serie B. Gütersloh, Deutschland, 2002. YOUNG, William P. A cabana. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
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PRÉDICA: JOÃO 13.1-17 e 31b-35
QUINT A-FEIRA QUINTA DA PAIXÃO
ÊXODO 12.1-4(5-10),11-14 1 CORÍNTIOS 11.23-26
01 ABR 2010
Olmiro Ribeiro Junior Quem foi ele? Foi um jovem homem que se doou. Ofertou o que possuía. Que fez a sua presença em pão e suco da videira. O pão repartido, o suco da videira servido para todos e todas que têm fome de pão e de amor e sede de justiça e vida digna. Olhem, atentem, a esse homem que se entregou, se repartiu, pedaço em pedaço, dia após dia, ceia após ceia, para que o mundo viva o amor e a fé que serve e liberta.
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Introdução
Quinta-feira Santa! E assim, mais uma vez, a comunidade cristã é convidada a andar e refletir os acontecimentos finais da vida de Jesus de Nazaré e do início da fé no Cristo ressuscitado. Data marcante para a identidade da comunidade de fé mediante o Senhor que serve e se entrega por seus amados e amadas. As comunidades que celebram o Tríduo Pascal reforçam ainda mais a centralidade da Semana Santa para a vivência da fé nas comunidades cristãs. Os textos bíblicos abordam a ceia do Senhor e o lava-pés. Na IECLB, infelizmente o lava-pés foi trabalhado muito pouco liturgicamente . De forma simplória, podemos comparar a pouca atenção dada ao lava-pés pelos estudos homiléticos no PL, enquanto há mais de 12 estudos referentes à ceia do Senhor, encontram-se apenas três estudos do lava-pés. Logicamente, quando falo do lava-pés, não estou falando das belas e ricas encenações, teatro e bibliodrama feitos nos mais diversos templos e comunidades na IECLB. Mas sim do lava-pés como rito litúrgico e proposta de ser igreja de Jesus Cristo que serve em diaconia. Nessa ótica, necessitamos refletir qual a importância do serviço, da diaconia nas comunidades da IECLB, principalmente para o ministério pastoral. Pois participamos da ceia do Senhor como o encontro com Cristo, com a comunidade e todos os santos de Deus, e somos alimentados para servir. Os demais textos bíblicos – Êxodo 12.1-14 na instituição da Ceia, como na narração de Paulo em 1 Coríntios 11.23-26 – enfatizam a Ceia como alimento para a salvação, para a libertação. Refeição que perdoa, acolhe e envia com o compromisso de alimentar e acolher, ou seja, servir.
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Exegese
2.1 – O Evangelho de João O Evangelho de João é polêmico e contraditório, possuindo ênfase teológico e dialogal. Ou seja, o ponto de partida do evangelho não é histórico, como nos sinóticos, contendo a narração ou biografia de Jesus de Nazaré, seus feitos e ensinamentos. João propõe um diálogo com enfoque na eternidade. O início do evangelho já destaca essa característica quando diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. João não quer uma narração histórica, mas uma reflexão que produza a fé nos seus ouvintes em Jesus Cristo. Eles, membros de uma comunidade cristã que conhecem os feitos e ensinamentos de Jesus, provavelmente localizada na Síria e situada no final do século I, são os destinatários do evangelho. Essa comunidade é convidada a dialogar e refletir sobre Jesus como o Filho de Deus, o Salvador. Uma das características de João é revelar realmente quem é Jesus Cristo. João busca no evangelho despertar e alimentar a fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus no qual “a palavra era logos” (cf. Jo 1.2). Ele nos mostra que Jesus é o próprio Deus vivo, e a sua função é revelar o Pai aos seres humanos até ao ponto de se ofertar na cruz por amor à humanidade. “Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” (João 20.30-31) Embora os ensinamentos de Cristo tenham um grande lugar nos evangelhos sinóticos, no Evangelho de João eles têm um lugar de destaque na estrutura do livro, mas de maneira um pouco distinta. Ao invés de encontrarmos ensinamentos paradoxais, parábolas ou grande destaque para o ensino sobre o reino de Deus, em João vemos que os discursos de Cristo são longos e confrontantes. Em contraste com os evangelhos sinóticos, o foco não está sobre o reino de Deus, mas sim sobre a pessoa do Messias. 2.2 – Contexto narrativo A delimitação da perícope prevista para a Quinta-feira Santa não condiz com a delimitação literária do evangelho. O texto previsto faz parte do discurso de despedida aos discípulos (13.1-17,26): 1. Última ceia e lava-pés – 13.1-30. 2. Primeiro discurso: novo mandamento e consolador: 13.31-14.31. Dessa maneira, para o culto de Quinta-feira Santa, o texto foi mesclado com o início do bloco da ceia e lava-pés e início do discurso acerca do novo mandamento: 13.1-17 e 31b-35. Com isso, a perícope destaca o lava-pés como mandamento ao serviço, indicando que esse serviço glorificará Jesus como Filho de Deus mediante o novo mandamento do amor.
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2.3 – Análise de contexto em João 13.1-17 e 31b-35 V. 1 – João inicia a narração da ceia destacando a convicção de Jesus. Ele foi para a ceia sabendo do seu fim. A ceia é a prova de amor sem fim de Jesus pela humanidade. Podemos reforçar a determinação de Jesus analisando a oração no Getsêmani. Nos evangelhos sinóticos (Mt 26.36-46, Mc 14.32-42 e Lc 22.39-46), Jesus ora pedindo para afastar o cálice se for possível (ora para evitar a cruz); já no Evangelho de João 17, Jesus ora pelos discípulos. V. 2-3 – Traição de Judas como obra do maligno e ênfase na consciência de Jesus para os fatos posteriores à ceia: sua crucificação. V. 4 – Término da ceia e início do lava-pés. Algo interessante é que Jesus não está fazendo um rito de purificação, pois o rito de lavagem para purificação acontecia na entrada da casa antes da refeição. Jesus faz o lava-pés após a ceia: para revelar o sentido de serviço no discipulado, a diaconia. V. 5-7 – Ato de lavar os pés dos discípulos. Discussão inicial entre Pedro e Jesus acerca do lava-pés. Pedro questiona Jesus, e ele tenta convencê-lo. V. 8 – Pedro energicamente e eufórico se nega a ter seus pés lavados e Jesus o repreende duramente, revelando que então não terá parte com ele. Pedro não entende a lógica do serviço, ainda está preso à mentalidade do poder e da força. V. 9 – Arrependido, Pedro pede para ser lavado totalmente, porque ainda não tinha entendido o gesto de Jesus e tentava justificar-se pedindo para ser todo purificado, lavado completamente. V. 10-11 – Jesus novamente repreende Pedro, revelando que não está purificando os discípulos com o lava-pés, pois eles já estão limpos, menos Judas, o traidor. V. 12-14 – Explicação do lava-pés como exemplo de discipulado. Jesus sendo Mestre lavou os pés dos seus discípulos para que eles sirvam uns aos outros em humildade. Jesus inverte a ordem de serviço: mestre serve os discípulos, isso porque eram os discípulos que lavam os pés dos mestres em respeito e obediência. V. 15-17 – Jesus revela o valor igual entre servo e senhor, o que é enviado e o que envia, mediante o serviço. O lava-pés não é simbologia, mas prática de fé; bem-aventurados os que o praticarem. V. 31b-33 – Glorificação de Jesus está se aproximando, e assim Deus será glorificado, por isso Jesus se despede dos discípulos. V. 34-35 – Despede-se pedindo o novo mandamento do amor como marca da sua presença nos seus discípulos. O texto bíblico une duas partes diferentes, enfatizando o serviço como marca do discípulo de Jesus. A fé em Jesus Cristo é serviço, diaconia, e esse serviço somente acontece mediante o amor a Deus e ao próximo.
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Mensagem pastoral
A Quinta-feira Santa através da ceia do Senhor e do lava-pés determina o jeito de ser comunidade, igreja, corpo de Jesus Cristo. Uma proposta de pessoas que se encontram em comunhão de partilha e de serviço. Comunhão que traga libertação através do amor como ação de cuidado da vida dos famintos e sedentos, dos excluídos, oprimidos e entristecidos que andam entre nós. Jesus ressignificou a ceia pascal como memória de libertação do povo israelita para gesto concreto de salvação. Sirvam como eu servi em amor a Deus mediante a diaconia. A ceia não pode ser uma memória, uma tradição, mas comunhão que liberta, que salva e serve. 3.1 – O que o texto bíblico traz como lei (Libertar do quê?) • Libertar da concepção equívoca, fatalista e acomodada da ceia como lembrança da libertação. O povo israelita estava novamente sob o domínio dos romanos na época de Jesus e assim não era livre. Por isso, como festejar a libertação? • Libertar da disputa de poder, da segregação das pessoas, da mentalidade de Pedro que não entende uma fé que serve as outras pessoas. A identidade dos discípulos a partir do serviço ao próximo como grande e único mandamento: amor a Deus e ao próximo. • Libertar da prática da fé indiferente, em que o central é apenas o encontro com Deus. Jesus destaca fé como serviço ao próximo. 3.2 – O que o texto traz como evangelho? • Baseado na salvação, na libertação de Cristo, que enfrenta a cruz, consola seus amigos e institui a ceia como sua presença e exemplo de serviço através da diaconia. • O amor de Deus e sua aceitação incondicional por nós são ofertados na ceia, em que Cristo nos alimenta e capacita a servir. O amor de Deus em Cristo por nós vence até a morte. Em Cristo estamos em Deus, e a ceia é o lugar de encontro, de salvação. 3.3 – O que o texto traz como imperativo? • Liberta para que nossa vida seja testemunho da presença de Cristo, do amor de Deus mediante o serviço a outras pessoas. • Para que as nossas comunidades possam ser diaconais, com preocupação de ser instrumento de solidariedade, justiça, ou seja, do amor de Deus. • Para que o serviço, a humildade sejam a marca das pessoas que professam a fé nos templos e encontros das comunidades na IECLB. Mas principalmente que possamos amar com coragem até o fim.
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• Que nossos encontros e celebrações possam impulsionar as pessoas a servir no dia-a-dia. Superando a concepção individualista de fé por tradição, lembrança ou autojustificação.
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Tópicos para prédica
a) Jesus institui a nova Páscoa, a rememoração da sua presença entre os seus. Jesus não quer mais celebrar a lembrança da libertação do povo israelita no Egito. Ele quer celebrar uma dádiva presente mediante a sua presença nos elementos, e assim celebrar e viver a comunhão, o perdão, a partilha. Manter a fé que liberta em atos concretos de libertação: reconciliação mediante o perdão, fé e paz mediante a comunhão, superação das injustiças mediante a partilha e a diaconia. b) A ceia é o banquete do perdão, da partilha. Um convite, uma oferta e um envio. Assim como somos perdoados – perdoamos, assim como somos acolhidos – acolhemos, assim como partilhamos das bênçãos de Cristo – partilhamos nossa vida em comunidade e sociedade. Isso não por obrigação, mas por compromisso da fé em Cristo. O banquete é acompanhado de um ato de humildade e serviço. Jesus lava os pés dos discípulos, não como purificação, mas como exemplo a ser seguido. c) Trabalhar a centralidade do ato do lava-pés como prática vivencial da igreja como corpo de Cristo no mundo. Abordar o diálogo que revela a mentalidade de Jesus serviço e a de Pedro poder e autojustificação. Esse diálogo revela a mentalidade humana e o propósito de Deus. Como Pedro, nós também relutamos sobre o desafio, o chamado de ser uma igreja atuante, ativa e participativa, disposta a servir as pessoas na sociedade. E, muitas vezes, interpretamos as coisas sob a ótica da contemplação. Analisar como é a prática de fé em nossa comunidade: serviço ou contemplação egolátrica. d) O lava-pés revela o propósito e o fundamento da existência da igreja: servir como Jesus serviu. Servir independente da condição social, da descendência, da origem. Servir porque Jesus serviu e pediu isso a quem o seguisse. Como o texto revela: O que Jesus fez, seus discípulos necessitam fazer, para ter parte com ele e com Deus. Lavar os pés é demonstrar a solidariedade, o amor, o serviço. Mostra que a igreja, que a comunidade está aí, está aqui para servir os seus membros. E que os membros são convidados, motivados a seguir lavando outros pés. O lava-pés e a ceia do Senhor nos convidam a ser uma comunidade que vive a fé de forma prática e não apenas contemplativa. Não somos chamados a ser admiradores de Jesus, mas sim seus braços, pernas, solidariedade, amor e serviço. e) Refletir sobre que Jesus está em nossa comunidade e que comunidade somos. Aquela que serve? Analisar como são os jogos de poder na comunidade, quais os projetos de diaconia que a comunidade têm. A ceia nos alimenta para que: para a obesidade da fé ou para o serviço na sociedade?
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Possíveis contextualizações
5.1 – Ato litúrgico Convidar os líderes da comunidade para o lava-pés ou mãos no início do culto, trabalhar a temática em grupos e avisar a comunidade do ato litúrgico. Utilizar as reações e os debates na reflexão da prédica. Quem serviu sentiu o quê? Quem foi servido sentiu o quê? 5.2 – Dinâmica Distribuir presentes no início do culto (caixa de chocolate). Chamar voluntários e entregar gratuitamente. Na prédica, questionar o que as pessoas vão fazer com o seu presente. Abrir uma caixa e partilhar os chocolates, trabalhar a doçura da Páscoa como serviço às outras pessoas. Como estamos vivendo o presente da fé? 5.3 – Música Amanhã ou depois Nenhum de Nós – Composição: Thedy Corrêa Deixamos pra depois uma conversa amiga Que fosse para o bem, que fosse uma saída Deixamos pra depois a troca de carinho Deixamos que a rotina fosse nosso caminho Deixamos pra depois a busca de abrigo Deixamos de nos ver fazendo algum sentido Amanhã ou depois, tanto faz se depois For nunca mais... nunca mais Deixamos de sentir o que a gente sentia Que trazia cor ao nosso dia-a-dia Deixamos de dizer o que a gente dizia Deixamos de levar em conta a alegria Deixamos escapar por entre nossos dedos A chance de manter unidas as nossas vidas Amanhã ou depois, tanto faz se depois For nunca mais... nunca mais
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5.4 – Poema Servir Gabriela Ministral Toda a natureza é uma aspiração de servir. Nessa vontade: serve a nuvem, serve o vento, servem os sulcos do arado. Onde houver uma árvore a plantar, planta ela tu; onde houver um erro a emendar, emenda ele tu; onde houver um esforço a quem todos se neguem, aceita ele tu. Seja aquele e aquela que retira a pedra do caminho, o ódio entre os corações e as dificuldades do problema. Há a alegria de ser sadio e a de ser justo, mas há, sobretudo, a formosa, a imensa alegria de servir. Que triste seria o mundo se tudo nele estivesse feito! Se não fosse possível plantar uma flor nele ou iniciar um gesto de solidariedade entre as pessoas! Não. Não gostes apenas dos trabalhos fáceis. É belo fazer aquilo que os outros evitam porque é difícil! Não cai no erro de acreditar que só há grandeza nos trabalhos nobres: há pequenos gestos, que são imensos trabalhos: adornar e servir a mesa, pentear uma criança, plantar uma flor... Há uns que criticam, há outros que destroem – seja tu aquele que serve. Servir não é tarefa dos inferiores. Deus, que dá o fruto e a luz, serve. Assim podemos chamá-lo: “O que serve!”. Quando o crepúsculo chegar, fixa teus olhos em tuas mãos e perguntar a cada novo dia: Servi hoje? A quem? À árvore, a teu próximo, à tua mãe?
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Bondoso Deus, mediante Jesus Cristo tu vieste ao mundo, para reconciliar as pessoas, consigo, com as demais e contigo. Tu deixaste a ceia do Senhor, o lava-pés, como exemplo de convivência, de superação das dificuldades, de solidariedade aos necessitados, de perdão nas desavenças. Por mais que se espalham movimentos espiritualistas, igrejas em cada esquina, a vida está cada vez mais conturbada, aumenta a violência, prolifera a maldade, estimulam o egoísmo, e assim prolifera a ausência da tua presença entre nós. Falta-nos viver a fé como estilo de vida e não como modismo, solução fácil, tradição. Esquecemos que a ceia é um convite ao perdão, à comunhão, à reconciliação, que o lava-pés é um exemplo para vencer as dificuldades da vida, no serviço e na humildade. E assim pedimos: Perdoa-nos, renova-nos e purifica-nos, para enxerga a vida, a nós mesmos, as outras pessoas com os teus olhos de amor, paz, justiça, solidariedade e perdão. Absolvição: Quando o sofrimento for demais doloroso, que ouçamos Jesus dizendo: Eu também sofri sozinho. Pega na minha mão, pois a minha graça te basta. Quando
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desânimo tomar conta de nossos corpos e mentes, que ouçamos Jesus dizendo: Eu também estive cansado, sobrecarregado pela cruz, mas tenha bom ânimo, pois a minha graça te basta. Quando a maldade, as injustiças assolarem nossos olhos e nossas vidas, ouçamos Jesus dizendo: Eu fui condenado inocentemente, eu venci as injustiças. Segue tua vida comigo, pois a minha graça te basta. Que as palavras de Jesus Cristo nos estimulem a viver o perdão e a viver a graça de Deus, absolvendo-nos e nos motivando a perdoar. Liturgia da Ceia do Senhor: L: O senhor esteja com vocês. C: E com você também. L: Elevai os corações. C: Ao Senhor os elevamos. L: Demos graças ao Senhor, nosso Deus. C: Isto é digno e justo. L: Sim, é digno e justo e do nosso dever que, em todos os tempos e lugares, rendamos graças a ti, Deus Eterno e Todo-Poderoso, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Com teu Filho unigênito e o Espírito Santo és um só Deus e Poder. Por isso, com toda a tua igreja e os coros celestiais, louvamos e adoramos teu glorioso nome, cantando o sempiterno canto: HPD – Vol. 3 – n° 362. Oração eucarística: L: Nós te bendizemos, ó Pai, pela salvação que nos trouxeste por Jesus, teu Servo. Pois, na noite em que foi traído, Ele, nosso Senhor Jesus Cristo, tomou o pão, rendeu graças, partiu-o e o deu a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é o meu corpo que dado por vós. Fazei isto em memória de mim”. C: Louvemos todos juntos o nome do Senhor. L: Nós te bendizemos, ó pai, pela vida que nos revelaste por Jesus, teu servo, o qual, depois de cear, tomou também o cálice, rendeu graças e o deu a seus discípulos, dizendo: “Bebei dele todos, porque este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vós, para remissão dos pecados. Fazei isso todas as vezes que o beberdes em memória de mim”. C: Louvemos todos juntos o nome do Senhor. L: Reunidos nesta mesa, celebramos a vitória do sofrimento, morte e ressurreição de teu filho. E te rogamos que, mediante o Espírito Santo, nos concedas receber remissão dos pecados, nova vida e salvação. C: Louvemos todos juntos o nome do Senhor. Gesto da paz: Jesus Cristo, tu disseste: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Concede também a nós paz e guia-nos à perfeita unidade do teu reino, para que se cumpra a tua vontade. C: Amém. L: A paz do Senhor seja sempre convosco. C: E contigo também.
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Oração do Pai-Nosso Comunhão: L: O cálice da bênção que abençoamos é a comunhão do sangue de Cristo; o pão que partimos é a comunhão do corpo de Cristo. C: Nós, embora muitos, somos um só corpo. L: Vinde, pois tudo está preparado Oração pós-comunhão e Oração de intercessões: L: Deus de amor sem fim, agradecemos-te que nos restauraste através da comunhão do corpo e do sangue de teu Filho. Concede, em tua infinita misericórdia, que essa ceia nos fortaleça na fé em ti e no amor ao próximo, concedendo-nos ânimo e coragem para servir ao teu Reino de paz e de justiça. Isso te pedimos por Jesus Cristo, nosso amigo e Senhor. Cantos: Senhor, se tu me chamas (Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 413); Pronto para ouvir (Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 379); Por um pedaço de pão (Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 405); Lava-pés (O Povo Canta n° 261); Comece em sua casa (Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 422); Arde a voz no meu peito (Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 446).
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA – Barueri SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. DODD, Charles Harold. Interpretação do Quarto Evangelho (tradução José R. Vidigal). São Paulo: Ed. Paulinas, 1977. KÜMMEL, W. Oscar. Síntese Teológica do Novo Testamento: de acordo com as testemunhas principais: Jesus, Paulo, João (tradução de Sílvio Schneider e Werner Fuchs). São Leopoldo: Editora Sinodal, 1974.
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PRÉDICA: HEBREUS 4.14-16; 5.7-9
SEXT A-FEIRA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
OSEIAS 5.15b-6.6 LUCAS 23.33-49
02 ABR 2010
Ana Isa dos Reis
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Introdução
O presente recurso homilético destina-se à celebração da Sexta-feira da Paixão. Esse dia integra o Tríduo Pascal, que são as celebrações dos três dias que formam uma unidade: a Quinta-feira da Paixão, a Sexta-feira da Paixão e a Vigília Pascal (no Sábado Santo), culminando na Festa da Vida, a Páscoa, no domingo. Etéria ou Egéria, possivelmente uma monja, registrou sua visita à Terra Santa e descreveu a liturgia dos dias da Páscoa jerosolimita do século IV. É a partir especialmente desse escrito que temos informações como os dias da Páscoa eram celebrados. Olhando a partir da unidade que o Tríduo Pascal forma, especialmente a partir do relato de Hipólito, sabemos que a Sexta-feira da Paixão é um dia de jejum. O jejum iniciava na Quinta-feira da Paixão, após a Eucaristia, e era quebrado somente com a Eucaristia da Vigília Pascal (apenas às mulheres grávidas, que não se sentiam bem, era dada a possibilidade de quebrar o jejum, observando-o apenas no sábado). A prática de não celebrar a Eucaristia na Sexta-feira da Paixão é muito antiga, visto que a Ceia é a refeição das pessoas cristãs e reatualiza toda a obra salvadora de Jesus, também sua ressurreição e ascensão. O destaque da Sexta-feira da Paixão deve estar na reatualização das últimas horas de vida de Jesus, nos fatos que ali aconteceram, especialmente sua morte na cruz. Sugere-se que o culto da Sexta-feira da Paixão seja celebrado num clima de silêncio e meditação, sem perder de vista a ressurreição. Nesse dia, muitas pessoas vêm ao culto. Muitas delas porque, em virtude do trabalho excessivo ao redor da Páscoa (aspecto comercial), só conseguem vir ao culto na Sexta-feira da Paixão por ser feriado. Há aquelas pessoas que vêm ao culto mais por uma questão de “tradicionalismo”, porque acreditam que, assim, cumprirão suas “obrigações religiosas”. Nesse sentido, o texto de Oseias deixa claro que Deus quer que as pessoas o amem de todo o coração e não lhe ofereçam sacrifícios como forma de cumprir uma exigência ritualista, mas que nada tem a ver com a vida, o amor e a obediência a Deus. A Sexta-feira da Paixão quer ser um momento de parada e reflexão sobre o abandono, o sofrimento e a morte de Jesus – e também um momento para olharmos nossa vida, para as vezes que somos iguais àqueles que condenaram Jesus à morte, para as vezes que também experimentamos o sofrimento. À luz de Hebreus, a Sexta-feira da Paixão convida-nos a reatualizar os acontecimentos da vida, mor-
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Sexta-feira da Paixão
te e ressurreição de Jesus, reconhecendo que Jesus é verdadeiramente ser humano e verdadeiramente Deus e que Ele, como Filho de Deus, é o Sumo Sacerdote e o próprio sacrifício. A Carta aos Hebreus, assim chamada pela tradição da igreja, tem mais uma característica de tratado teológico. Apenas seu final tem um aspecto de carta (13.1825). Não temos informações muito claras e precisas a respeito desse tratado. Há pesquisadores que dizem que o tratado teria sido escrito a uma comunidade de judeus cristãos. Há outros que defendem que foi escrito a um grupo de cristãos que estava enfrentando perseguição. E há quem defenda que foi escrito não a uma situação específica de uma comunidade, mas para a igreja cristã em geral. Quanto à datação, também não é possível datá-lo com exatidão. A maioria dos pesquisadores defende que ela foi escrita no período entre 80 a 96 d.C. durante a perseguição de Domiciano. O autor é desconhecido, mas é alguém possuidor de uma formação aprimorada. Em seu tratado, o autor tenta assegurar a lealdade de seus leitores a Cristo, afirmando que Cristo é superior a tudo: à antiga revelação (1.13), aos anjos (1.4-2.18), a Moisés (3.1-19), a Josué (4.1-13) e ao sacerdócio do Antigo Testamento (4.14-10.31).
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Exegese
2.1 – Estrutura do Tratado aos Hebreus e da perícope – Hb 1.1-6.20: Preparação do tema central: teses fundamentais: 1.1-14: O Cristo preexistente e encarnado é promovido a Filho de Deus 2.1-14: Exortação para escutar a palavra 2.5-18: O Cristo humilhado e morto é promovido a sacerdote celestial 3.1-6: Exortação à fidelidade 3.7-4.13: Midraxe sobre o Salmo 95: o povo peregrino e a promessa de descanso 4.14-16: Exortação à confissão de culpa 5.1-10: O Filho de Deus como Sumo Sacerdote 5.11-6.20: Ponte para a parte principal: exortação aos ouvintes e as características da palavra a ser proferida – Hb 7.1-10.18: O tema principal: o sacerdócio do Filho – Hb 10.19-13.17: Consequências para a fé – Hb 13.18-25: Recomendações finais
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2.2 – Observações exegéticas acerca dos versículos da perícope Cap. 4: V. 14 – O tratado de Hebreus é o único documento (teologicamente orientado do NT) que apresenta o título “Jesus” sem nenhum adorno, sem cognomes. É provável que a intenção do autor tenha sido lembrar que foi na humanidade, na mortalidade que o Filho de Deus trouxe a salvação. Jesus é o Filho de Deus e nosso Sumo Sacerdote. Para os judeus, o Sumo Sacerdote era o intermediário entre o ser humano e Deus. Uma vez por ano, o Sumo Sacerdote entrava no Santo dos Santos. No Templo havia o átrio dos gentios, o átrio das mulheres, o átrio dos homens, o santuário dos sacerdotes (Lugar Santo) e o Lugar Santíssimo ou Santo dos Santos, lugar mais sagrado da presença de Deus, onde somente o Sumo Sacerdote podia entrar, depois de cumprida uma série de purificações e exigências. Nesse Santo dos Santos estavam a arca da aliança e as tábuas da lei. Junto ao Santo dos Santos havia o Lugar Santo, que era a parte da Tenda da Presença de Deus e do Templo, em que ficavam a mesa dos pães oferecidos a Deus, o candelabro e o altar sobre o qual os sacerdotes ofereciam incenso todos os dias. O Santo dos Santos era separado do Lugar Santo por um véu (ou cortina), que, segundo o relato bíblico, rasgou-se quando Jesus morreu para oferecer um sacrifício a Deus. Hebreus confirma que, agora, Jesus é o Sumo Sacerdote, ou seja, através de sua vida, morte e ressurreição ele fez o sacrifício final e decisivo, sendo, além de Sumo Sacerdote, também a vítima desse sacrifício, firmando nova aliança. Antes, o sacrifício feito pelos Sumos Sacerdotes era constantemente repetido, por ser impotente para expulsar o pecado. Hebreus diz que, pela oblação do próprio sangue, Jesus penetrou uma vez por todas no Santo dos Santos, tornando-se o grande e verdadeiro Sumo Sacerdote, permanecendo como tal para sempre. V. 15 – O termo grego para compadecer-se é sumpatheo, que significa “mostrar simpatia por”, “simpatizar com”, dando a ideia de sentir e compreender nossas fraquezas. Jesus, verdadeiro ser humano e verdadeiro Deus, sabe muito bem o que é sofrer. Jesus pode entender quando as pessoas sofrem, quando têm medo, quando estão angustiadas; afinal, ele também experimentou o temor, a tristeza, a tentação, o temor da morte, a traição, a injustiça e a própria morte. Ou seja, Jesus conhece a realidade humana porque também foi humano, contudo, sem pecado. Para Champlin, a impecabilidade de Cristo deve significar mais do que a rejeição de atos pecaminosos; Jesus nunca favoreceu a atitude do pecado; não pecou em seus desejos e em seus motivos, muito menos em suas ações. Jesus mesmo, segundo Champlin, deixou claro que o pecado reside nos desejos e motivos dos homens, e não apenas em atos pecaminosos. Para Champlin, a verdadeira natureza humana é impecável; a natureza humana pervertida é que peca e por isso necessita de redenção. Sua impecabilidade também fez com que Jesus, como Sumo Sacerdote, não precisasse oferecer sacrifício por si mesmo. V. 16 – É um convite para que a pessoa se achegue confiadamente ao trono da graça. Naquela época, o povo conhecia o trono do imperador, que matava cristãos, que impunha tributos, leis rígidas e um modo de vida condizente com aquilo
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que o imperador julgasse que um “súdito” deveria ter. Aqui, o trono é de outro alguém. É daquele que penetrou os céus, lembrando da ascensão, mas que antes sofreu, morreu morte de cruz, ressuscitou e é o Sumo Sacerdote. No “trono” está quem tem poder. Hebreus diz que é Jesus quem tem poder. O trono de Deus é da graça, da misericórdia, da vida. Ao nos achegarmos ao trono da graça, receberemos misericórdia, ou seja, perdão dos pecados, ajuda em nossas enfermidades e sofrimentos, renovação diária, coragem e o necessário para a vida. Essa aproximação, continua Hebreus, nos trará o socorro no momento oportuno: uma expressão indefinida que pode envolver vários significados, mas que garante que a pessoa não estará abandonada. Cap. 5: V. 7 – O tratado dos Hebreus combate o docetismo, uma das primeiras heresias a aparecer na igreja cristã e que afirmava que Jesus não era, realmente, um homem, mas fingia ser. O tratado dos Hebreus é um dos livros que melhor descreve a humanidade e também ensina que Jesus é divino. Nesse versículo, fica clara a humanidade de Jesus e também sua reação frente à morte iminente. Jesus sabia que, através de suas ações, ele poderia ser condenado à morte; afinal, suas atitudes questionavam ferozmente o poder religioso, político e econômico da época. E diante desses poderes, o desfecho era a morte ou a prisão de seus opositores. Mas, frente à morte, Jesus orou para ser libertado, dirigiu-se a Deus com clamor, lágrimas, orações e súplicas. Quem de nós não faria o mesmo? Quando a morte se aproxima, o ser humano grita desesperadamente por Deus; afinal, ninguém quer morrer. Nesse versículo, segundo os pesquisadores, Hebreus faz referência direta ao que Jesus experimentou no Getsêmani e que os evangelhos relatam. Hebreus diz que Jesus foi ouvido por Deus; seu clamor não chegou a ouvidos surdos. V. 8 – Apesar de ser Filho de Deus, Jesus, verdadeiro ser humano e verdadeiro Deus, sofreu, aprendeu a obediência, morreu, mas ressuscitou. V. 9 – Nesse versículo, o autor menciona que Jesus foi aperfeiçoado. Segundo Champlin, significa que Jesus aprendeu a participar das virtudes espirituais de Deus, venceu em todas as provações por que passou, foi aperfeiçoado no decurso do cumprimento de sua missão terrena, foi metafisicamente transformado, de tal modo a tornar-se o Deus-homem e, portanto, o Sumo Sacerdote. Para Ladd, como homem sem pecado, Jesus tinha que aprender a completa confiança e dependência de Deus. Esse Jesus, levado à perfeição, tornou-se aitios, do grego, “causa” ou “fonte” da salvação eterna aos que o obedecem. Conforme o dicionário Aurélio, obedecer significa: sujeitar-se à vontade de outrem; estar sujeito; não resistir, ceder; cumprir; executar ordens. Ou seja, as pessoas que desejam tal salvação precisam assumir o compromisso de, assim como Jesus, ser obedientes a Deus.
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Meditação
A Sexta-feira da Paixão faz-nos refletir sobre a morte. Especialmente sobre a morte de Jesus e todo o horror que ele experimentou. Refletindo sobre a morte, precisamos concluir que ninguém quer morrer, nem mesmo o suicida. A morte corta as relações entre as pessoas, rompendo a possibilidade das pessoas voltarem a se encontrar em seus espaços de convívio (seja em casa, na escola, no trabalho, na igreja), provoca um sentimento de perda dolorosa, lança as pessoas no abandono. A morte sempre significa despedida, angústia e luto. Mesmo que todos nós saibamos que a morte é a única certeza que temos de algo que vai nos acontecer, cada um de nós, na hora em que ela se aproxima, é tomado por um sentimento de impotência, angústia e dor. O próprio Jesus também experimentou esse sentimento, também clamou, chorou, orou, suplicou. Em sua humanidade, Jesus sabe muito bem o que significa estar diante da morte. Jesus experimentou alegrias, sim, também festa e convívio justo e fraterno. Contudo, ele também experimentou sofrimento, abandono, tristeza, traição e injustiça, sabe o que é morrer. Saber que Jesus entende o sofrimento humano traz consolo e ânimo. Quando, especialmente na Sexta-feira da Paixão, falamos dos sofrimentos de Cristo e de sua morte, que também as pessoas que passam por sofrimentos possam ter a certeza de que Jesus sabe o que elas estão passando e que ele sabe porque também passou por isso, se é que não sofreu ainda mais horrores. Ou seja, Jesus é o Sumo Sacerdote que se compadece com o sofrimento do seu povo, que tem compaixão, que se coloca ao lado daqueles que sofrem, que choram, que suplicam. Jesus vai ao nosso lado nos pedaços difíceis do caminho de nossa vida ou nos carrega no seu colo. Jesus não nos abandona em meio aos sofrimentos. Ele nos ouve, nos toma em seus braços e ali nos consola e anima. Também Jesus não esteve abandonado, ainda que tenha sentido e até dito que se sentia abandonado por Deus (“Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” Mc 15.34). Mas sabemos que Deus não abandonou seu Filho, antes ressuscitou Jesus, que vive e reina com ele e com o Espírito Santo. As orações que dirigimos a Deus, assim como a de Jesus, chegam aos ouvidos atentos de Deus. Precisamos lembrar que, mesmo quando nossas orações não são atendidas, elas são ouvidas por Deus. Deus inclina seu ouvido e ouve a aflição do seu povo, assim como fez com Jesus. Hebreus diz que Jesus foi ouvido. Não foi ouvido sendo libertado da morte de cruz, mas foi ouvido recebendo forças para poder dizer: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito” (Lc 23.46). Muitas vezes, pedimos que Deus nos livre do sofrimento, mas ao invés disso ganhamos força e ânimo para enfrentar o sofrimento. Como Sumo Sacerdote, Jesus livra-nos, sempre de novo, de ter que fazer sacrifícios a fim de aplacar a ira de Deus. Na Sexta-feira da Paixão, vemos pessoas que se autoflagelam, que se sacrificam em prol de Cristo. Ora, como Sumo Sacerdote, Jesus realizou o sacrifício único e perfeito, oferecendo-se a si mesmo como sacrifício. Isso nos liberta de ter que matar animais ou nos colocar no lugar de Cristo. O sacrifício de Jesus tem validade eterna. Não temos que repeti-lo. A Sexta-feira da Paixão reatualiza o sacrifício de Jesus também para nós hoje. Ou seja, ao celebrar-
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mos sempre de novo a Sexta-feira da Paixão, estamos rememorando o ato salvífico de Deus em Jesus Cristo, reiterando-o e revivendo-o, tornando-o presente e atuante em nossa vida. A vida, morte e ressurreição de Jesus continuam com o mesmo valor ainda hoje e também para cada pessoa em sua época. A Sexta-feira da Paixão, no entanto, não é um ato fúnebre. Ela rememora os acontecimentos finais da vida de Jesus, sua morte na cruz e seu sepultamento, mas lança o olhar para a ressurreição. A morte continua, sim, a última inimiga a ser vencida, mas já não tem mais a última palavra. Jesus venceu-a com sua morte e ressurreição. Hoje, a partir de Jesus, como pessoas cristãs, cremos na promessa da ressurreição para a vida eterna. E também podemos ter a certeza de que nossa pessoa querida falecida não está jogada à própria sorte ou abandonada. A morte não nos lança ao nada, e sim nos braços de Deus. Como diz Paulo: “nem a morte e nem a vida, (...), nem nada pode nos separar do amor de Deus que é nosso por meio de Cristo Jesus” (Rm 8.38ss). Tudo o que vem com a morte já foi experimentado por Jesus. Que a venceu. O texto de Hebreus destaca Jesus como o Sumo Sacerdote, que é fonte de salvação para todas as pessoas que o obedecem. Ou seja, o compromisso que nós temos é de ser obedientes a Deus. Ou seja, deixar “Deus ser Deus” e nós sermos “os seres humanos que Deus quer que sejamos”. Somos chamados a ser obedientes ao senhorio de Deus, que nos quer dar o melhor para a vida. Colocando-nos sob a obediência de Deus, tornamo-nos livres; os mandamentos de Deus são orientações para que se viva uma vida boa, feliz, digna e justa para todos. Essa obediência não é por coação ou imposição. Mas é uma obediência em amor, sabendo que Deus nos preenche com o necessário para a vida. Confiantes nele, deixamo-nos em suas mãos, cumprindo com aquilo que Ele nos chama a cumprir, ou seja, amando a Ele e ao próximo como a nós mesmos.
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Imagens para a prédica
A cruz poderia ser usada em sua dualidade: cruz rude e de morte, e cruz que trouxe vida nova e salvação. Explicando: a Sexta-feira da Paixão fala de Jesus e, a partir do texto de Hebreus, que ele é o Sumo Sacerdote, verdadeiro ser humano e verdadeiro Deus. Mas quem foi Jesus? Pode-se contar sobre Jesus: seu nascimento no madeiro da manjedoura, nascido de mulher, sua trajetória junto ao povo, as emoções vividas (alegria, festa, tristeza, abandono, incredulidade em relação a Ele, tentação, traição), sua morte de cruz, sinal de horror, de julgamento, mas que se converteu em cruz vazia, que vence a morte, que traz nova vida e salvação. A vida, morte e ressurreição de Jesus qualificaram-no como Sumo Sacerdote, onde acontece, de uma vez por todas, o sacrifício único e perfeito, sendo Jesus o próprio sacrifício. A cruz lembra-nos da solidariedade de Deus, que ouve Jesus, que converte a dor e o horror da Sexta-feira da Paixão na alegria da Páscoa. A cruz lembra de Jesus, que se coloca ao lado das pessoas que sofrem, que também experimentam a cruz. A cruz lembra que também nós, muitas vezes, somos aqueles que crucificam, que praticam o horror que traz a morte. A cruz lembra-nos do
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compromisso que temos em ser obedientes a Deus, a seguir os passos de Jesus, a amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (pensando nas duas dimensões da cruz: verticalmente – com Deus, e horizontalmente – com o próximo).
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Subsídios litúrgicos
Questões litúrgicas: Sugere-se que o sino não soe no início e nem no final da celebração. Em algumas comunidades, no entanto, o sino é tocado às 15h, o que é sugerido que seja mantido. É sugerido que não haja introito musical e nem solo instrumental nesse dia. O evangelho não é aclamado com “Aleluia”, e nem é entoado o “Glória a Deus nas alturas”. Sugere-se usar o menorá (candelabro de sete velas), cujas velas podem ser apagadas durante a celebração (veja sugestões no livro “Tríduo Pascal”, na bibliografia). Nesse dia, pode-se convidar a comunidade a ajoelhar-se durante a oração (para tal, seria interessante prever pequenos travesseiros, visto que nossos templos não dispõem de genuflexórios). Em algumas comunidades, a celebração da Sexta-feira da Paixão dá-se através de procissão ou através da encenação da Paixão de Cristo. No Proclamar Libertação volume 24, o auxílio homilético escrito por Silvia Genz traz uma sugestão de programa para a Semana da Páscoa. Os conteúdos da Sexta-feira da Paixão inspiram diversas moldagens litúrgicas. Livro Tríduo Pascal (ver na bibliografia): esse livro, de Sissi Georg, contém sugestões litúrgicas para a celebração da Sexta-feira da Paixão (p. 40-59, 101-108). Símbolo: Se for possível, cada pessoa poderia receber uma cruz (essa pode ser confeccionada com dois palitos de picolé, ou ser de crochê, ou de papel cartão ou de outro material). Essa cruz poderia ser entregue logo à entrada, na recepção, ou mesmo durante a prédica (onde também as pessoas poderiam ser convidadas a se dirigir até onde as cruzes estiverem [poderia ser aos pés da cruz ou mesmo junto à pia batismal ou à mesa da comunhão] num gesto de compromisso), ou no envio, ou logo após a liturgia da contemplação da cruz. Confissão de pecados: que se tenha um momento de silêncio para confissão individual e depois o/a liturgo/a dirige a confissão comunitária. Misericordioso Deus, confessamos que, assim como tua comunidade, pecamos em palavras, ações e omissões. Achegamo-nos confiantemente ao teu trono, Senhor, sabedores da tua graça, da tua piedade, da tua disposição para perdoar. Em Jesus, o Sumo Sacerdote, que carregou a cruz que não era sua, foram depositados os nossos pecados, a nossa culpa. Confessamos, Senhor, que não somos obedientes a ti, desconfiando de ti e do teu amor. Perdoa-nos, ó Deus, quando não somos solidários àqueles que sofrem. Ajuda-nos a perceber quando imputamos dor a alguém, quando crucificamos alguém. Ajuda-nos a sempre de novo pedir perdão e voltar aos caminhos de teu amor. Por isso nós te pedimos, a ti que és Senhor sobre a vida e a morte, Senhor da esperança e da ressurreição: perdoa os
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nossos pecados e ajuda-nos a seguir os teus caminhos de amor e justiça. Por Jesus Cristo. Amém. Absolvição: Antes de tudo e de todos está o amor de Deus. Deus ouve vossa confissão sincera e perdoa os pecados, chamando a andar em novidade de vida. Anuncio o perdão dos pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Oração do dia: Deus da graça e misericórdia, que vieste até nós em Jesus Cristo, verdadeiro ser humano e verdadeiro Deus, agradecemos-te porque Jesus é nosso Sumo Sacerdote. Agradecemos-te, Senhor, por teu imenso amor revelado em Jesus Cristo, que levou sobre si a nossa culpa, experimentando morte de cruz e nos reconciliando contigo. Rogamos, Senhor, que teu Espírito nos ajude a ser obedientes a ti, a assumir o compromisso de viver sob teu senhorio, amando a ti sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Pedimos-te que esta celebração nos ajude a refletir sobre os acontecimentos da Sexta-feira da Paixão, lançando nosso olhar para a cruz de Cristo. Por Jesus Cristo que morreu, mas ressuscitou e que vive e reina contigo e com o Espírito Santo. Amém. Oração geral da igreja: Na Sexta-feira da Paixão, a oração geral da igreja ganha destaque especial. Pode-se formular as intercessões através de preces em que a comunidade intercede em silêncio sobre o motivo apresentado ou canta um refrão. Dentre as preces menciona-se: pela igreja em todo o mundo, pelos obreiros e obreiras e lideranças das comunidades, por aquelas pessoas que se preparam para o Batismo e pela comunidade das pessoas cristãs, pelos grupos humanos que não reconhecem Jesus como o Filho de Deus, o Sumo Sacerdote, pelas lideranças públicas, pelos grupos de sofrem (enfermos, enlutados, injustiçados, “crucificados”, desempregados...). Sugestão de hinos: Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 50 (Nossos corações pertencem); Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 48 (Ó meu Jesus, que mal tu cometeste); Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 46 (Agradecemos-te, Jesus); Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 53 (Ó fronte ensaguentada); Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 54 (Cristo, quero meditar); Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 174 (Por tua mão me guia); Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 216 (Segura na mão de Deus); Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 473 (Em tua presença); Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 316 (Semente de libertação). Liturgia da contemplação da cruz: L. Neste momento, vamos receber a cruz de Jesus, que será trazida em procissão. Por três vezes a cruz será apresentada à comunidade. E, nas três vezes, a comunidade responde, dizendo em conjunto: “Vamos contemplá-la”.
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L. (na primeira parada no caminho, destapa a parte superior da cruz e diz) Eis aqui a cruz que dá a vida. Dela pendeu a salvação do mundo. Vamos contemplá-la. C. Vamos contemplá-la. L. (parada no meio do corredor, destapa o braço direito e diz) Eis aqui a cruz que dá a vida. Dela pendeu a salvação do mundo. Vamos contemplá-la. C. Vamos contemplá-la. L. (na frente do altar, retira todo o pano e diz) Eis aqui a cruz que dá a vida. Dela pendeu a salvação do mundo. Vamos contemplá-la. C. Vamos contemplá-la. L. Tenhamos um tempo de silêncio e reflitamos sobre o mistério do Salvador crucificado, o mistério da salvação. Enquanto contemplamos a cruz, ouçamos os lamentos de nosso Senhor. Lamentos do Senhor: L. Que te fiz, ó povo meu? Que te fiz, meus escolhidos? Onde falhei, em que foi que te faltei? Fiz-te sair do Egito, com maná te alimentei; dei-te uma boa terra, com fartura, leite e mel, e tu preparaste para mim, teu rei, esta cruz, rude e cruel. Dei-te uma bela vinha, água doce, o que precisaste, e foste amargo comigo até o fim. Dos teus perseguidores te salvei, afogando-os no mar, e a mim entregaste sem piedade aos inimigos. Dei-te água e o maná do céu enquanto peregrinavas no deserto; recebi fel e vinagre, quando na cruz eu tive sede. Dei-te terra, vitórias sobre povos inimigos; recebi açoites, bofetadas no rosto e uma coroa de espinhos. Dei-te prosperidade, filhos, companhia; deste-me a cruz, e ali me abandonaste. Onde foi que te faltei? [breve silêncio]
Bibliografia CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1986. EST/Depto Bíblico. Roteiro para a Leitura da Bíblia. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1996. (p. 92-93) GENZ, Silvia B. Auxílio homilético sobre Hebreus 4.14-16, 5.7-9. In: Proclamar Libertação V. 24. São Leopoldo: Sinodal, 1998. (p. 133-138) GEORG, Sissi. Tríduo Pascal. São Leopoldo: Sinodal, 2001. (Estudos de Liturgia, 1). LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001. (p. 529-542) MUELLER, Enio. Padeceu sob Pôncio Pilatos. In: ALTMANN, Walter (Org.). Nossa fé e suas razões. São Leopoldo: Sinodal, 2003. (p. 90-103) VON ALLMEN, J.J. Vocabulário Bíblico. São Paulo: ASTE, 2001. (p. 516-530)
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DOMINGO DA PÁSCOA
PRÉDICA: JOÃO 20.1-18
04 ABR 2010
ISAÍAS 65.17-25 1 CORÍNTIOS 15.19-26 OU ATOS 10.34-43
René Krüger
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Introdução
O texto completo de João 20.1-18, previsto para a pregação no Domingo da Páscoa, contém dois relatos, cada qual com suas características e seus conteúdos sumamente densos e condensados. Como é difícil abarcar ao mesmo tempo numa prédica duas narrações tão complexas, proponho optar por uma das duas, ou seja, a de João 10.1-10 (o relato sobre os dois discípulos) ou João 20.1,11-18 (o relato sobre Maria Madalena e o encontro com o ressuscitado). Para este estudo exegéticohomilético, permiti-me optar por essa segunda possibilidade, o que não impede alguém de optar pela totalidade dos versículos propostos. Normalmente, os textos da Páscoa costumam dividir-se em dois grupos: os do “túmulo vazio” e os das aparições. Chama a atenção o fato de que a exegese normalmente fala do “túmulo vazio” (ou “sepulcro vazio”, quando na realidade se impõe falar do túmulo aberto e do corpo desaparecido). Uma olhadela nos textos pascoais dos evangelhos permite descobrir que todos põem ênfase no fato de que o corpo de Jesus já não se encontra no sepulcro, mas que o Senhor ressuscitou. Empregam, pois, a categoria dinâmica da ressurreição e não a qualificação estática do “túmulo vazio”. Essa foi introduzida por uma certa maneira de fazer exegese a partir de categorias bem mais filosóficas em vez de ater-se estritamente aos dados literários, narrativos e históricos do texto bíblico. A distorção exegética chegou ao ponto de afirmar que se trata de uma história apologética criada para dar credibilidade à proclamação da ressurreição do Crucificado. Isso é colocar o cavalo na parte traseira da carroça. Ao contrário: a proclamação da ressurreição não se poderia manter nem um só dia em Jerusalém se no túmulo se havia mantido o cadáver. Evidentemente, a manipulação do relato do túmulo é uma projeção de dificuldades modernas de certos exegetas para textos antigos, sem prestar atenção ao que implicava naquela circunstância a terminologia empregada para falar da ressurreição. Sob nenhum conceito se relacionava com meras experiências ou visões. Além disso, ninguém teria perseguido os discípulos se esses teriam proclamado somente uma fé num fantasma. O que essa exegese “estática” também não costuma perceber é a ilação narrativa entre os relatos de paixão, morte e ressurreição, como entre a unidade sobre o túmulo e as demais unidades dentro dos capítulos pascoais dos evangelhos. Há um crescendo que vai desde a intenção de ungir um cadáver até as respectivas palavras finais dos quatro evangelhos, em que se afirmam a certeza da ressurreição
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de Jesus Cristo, a transformação das pessoas interventoras e os respectivos envios missionários. Isso também vale perfeitamente para João 20.1-18. Aqui se transformam os dois discípulos e Maria Madalena, assim como posteriormente todos os outros personagens desse capítulo, também os do agregado capítulo 21. A unidade sobre o túmulo é patrimônio evangélico de absoluta antiguidade. Isso é assim, pois os quatro evangelhos o compartilham, cada qual com sua respectiva ênfase, mas com idêntica estrutura. Onde há mais variações é na transmissão das aparições do Ressuscitado, devido muito à multiplicidade dessas aparições e das pessoas envolvidas, como também às ênfases teológicas de cada evangelista. Hoje nos ocupará, pois, a peculiaridade joanina da aparição diante de Maria Madalena.
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Exegese
V. 1-2 – A indicação temporal evidencia que se trata de material antiquíssimo, pois o desenvolvimento litúrgico posterior falou do terceiro (cf. o credo em 1Co 15.3-4). Ou seja, aqui existe memória histórica autêntica. João é seletivo. Enquanto que nos sinóticos se mencionam várias mulheres, João concentra a atenção exclusivamente sobre Maria Madalena. Ao ver o túmulo aberto, deduz que alguém levou o Senhor e comunica isso a Pedro e a outro discípulo (mesmo que aqui emprega o plural: … e não sabemos…; seguramente sinal de que a fonte original do relato falava de várias pessoas, como nos sinóticos). O texto deixa abertas várias possibilidades: traslado real, roubo do cadáver por inimigos, roubo por ladrões. O saque de túmulos era tão comum, que havia disposições penais sobre esse delito. O imperador Cláudio (41-54 d. C.) decretou a pena capital para quem destruía túmulos, removia cadáveres ou removia o lacre. Os vaivéns que se produzem a partir dessa primeira notícia repercutem tanto no encontro do Ressuscitado com Maria Madalena como nos demais. São, pois, dados preparatórios. Depois desse primeiro informe de Maria Madalena, o texto insere o relato da chegada dos dois discípulos ao túmulo, a constatação da existência dos lençóis (evidentemente vazios) e o sudário bem enrolado, a fé do discípulo amado, uma breve reflexão teológica e a retirada de ambos (Lucas 24.12 também informa sobre a inspeção do túmulo por parte de Pedro e a existência dos lençóis; e no v. 24 menciona alguns dos nossos). Na exegese, discute-se sobre a relação entre ambos os relatos: o dos dois discípulos e o de Maria Madalena. Deixemos para outra oportunidade essa discussão e a unidade sobre os dois discípulos e passemos diretamente ao v. 11, onde João continua com Maria Madalena. V. 11-18 – Os versículos 11b-14a apresentam a revelação dos anjos, paralela ao relato sinótico. Os versículos 14b-18(+19) contêm a revelação de Cristo, cujo paralelo sinótico se encontra em Mateus 28.9-10. Em João, as aparições do anjo e de Jesus encontram- se em certa tensão. Há quem veja aqui duas tradições separadas; outros, que a revelação de Cristo é a tradição original, correspondendo o v. 17 ao próprio evangelista; e que a revela-
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ção do anjo é uma adição de um redator ou uma elaboração do evangelista para reforçar o testemunho “mudo” dos lençóis do sudário mediante o recurso das figuras celestiais (v. 5-7). Também há quem pense que existem três relatos interrelacionados: a visita ao túmulo por várias mulheres (v. 1-2 e 11-13); a visita por vários discípulos (v. 9-10); a aparição do Ressuscitado a Maria Madalena (v. 1418). Todas as reconstruções são muito complexas e, em última instância, hipotéticas, e o que mais tem a interessar a quem tem a missão de pregar o texto é a forma final que tem o relato, pois os fragmentos anteriores e também seus sentidos acabam sumidos no discurso final, que projeta seu sentido teológico e querigmático próprio, que não equivale à simples soma dos sentidos parciais dos elementos originais. V. 11 – O relato mostra Maria chorando fora do túmulo, desconcertada pelo desaparecimento do morto, tal como ela mesma formula no v. 13. Ou seja, talvez não tanto pela morte do Mestre. Querer render um último ato de honra a um falecido, seja uma visita ou a unção, e não o contrário, realmente era uma tragédia. Pois até os ladrões de túmulo costumam deixar ali o cadáver, pois esse não os interessa, a não ser seus pertences. Para a cultura da época, qualquer tipo de profanação de túmulos e cadáveres era um ato horripilante. Maria não entrou no túmulo, mas apenas se inclinou para olhar para dentro da cova. Essa demora em entrar deve ser vista por trás do relato global, no qual os dois discípulos entram no sepulcro logo após o amado crê. V. 12 – Os anjos representam a irrupção do mundo de Deus (e em alguns textos do AT representam a Deus mesmo), reforçando-se essa referência mediante a cor branca das vestimentas. Seu número ajusta-se à necessidade de duas (ou mais) testemunhas para que o testemunho seja válido, tal como estabelece Deuteronômio 17.8;19.15 e como é retomado várias vezes no NT (p. ex. 2Co 13.1). As figuras cooperam com o testemunho anterior dos lençóis e do sudário, indicando que Deus esteve atuando aqui, e não ladrões de túmulos. V. 13 – Diferentemente dos relatos sinóticos, onde os anjos proclamam a ressurreição e elaboram mandatos, em João os anjos cumprem outra função. O discípulo amado chegou a crer sem ver e sem anúncio, e como Maria verá o Ressuscitado mesmo, o relato não exige que os anjos sejam intérpretes da ressurreição. Pronunciam uma suave reprovação à mulher desesperada, sumida na especulação com o ladrão de túmulos ou um traslado desconhecido. Remetem assim implicitamente ao que virá e querem ajudar Maria Madalena a formular seu problema. Aqui o relato se liga com a pergunta inicial dos anjos nos sinóticos. V. 14 – Aqui está preso o estopim para a “explosão” posterior do texto. Jesus está aí, ressuscitado, vivo; mas Maria não o reconhece. Alguns exegetas deram rédeas soltas às suas especulações sobre essa informação, falando dos olhos cheios de lágrimas que impediram ver com claridade; ou da posição orientada a partir do sol: como a boca do sepulcro dava para o oriente, Maria, ao dar a volta no sepulcro, olhava a partir da saída do sol, ficando como que deslumbrada; ou também lançando mão do recurso do corpo transfigurado, que era difícil de reconhecer, como no caso dos discípulos de Emaús em Lucas 24.16-31; ou em confusão com um espírito em Lucas 24.37. Agregue-se o dado no final extenso de Marcos
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16.12 e no reconhecimento em João 21. Como o texto mesmo não se perde em nenhuma dessas possibilidades, mas que constrói sua mensagem do reconhecimento do Ressuscitado a partir do momento em que esse chama Maria, podemos deixar de lado essas divagações. V. 15 – João trabalha brilhantemente o motivo do não-reconhecimento, apresentando uma dupla pergunta formulada por Jesus, cuja primeira parte é igual à pergunta dos anjos. Essa pergunta é muito mais do que retórica, como veremos na reflexão homilética. É uma nova exigência para Maria que formule seu problema. Maria continua em sua confusão, pensando que estava frente ao jardineiro, e não lhe ocorre coisa melhor do que pensar que esse podia ser o que havia trasladado o corpo. O que Maria propõe é por demais impraticável: Para onde ela quer levar sozinha o corpo? Mas não deve preocupar ao público leitor essa inviabilidade da proposta da mulher enlutada. É figura de um desespero crescente que leva a propostas como essa; e ela está encaixada na técnica joanina dos mal-entendidos: a compreensão dos que creem forma-se a partir de um mal-entendido. Ao mesmo tempo, em meio a todo o enredo de desespero e confusão, o texto começa a fornecer um dado valiosíssimo que mostra por onde se produzirá a solução: Maria diz kúrios ao que considera que é o jardineiro. Em seu sentido nãoreligioso, aplicava-se a um proprietário, dono; a uma pessoa que tinha autoridade sobre outras pessoas; e também podia ser designação muito respeitosa, como nosso você, senhor. No uso religioso, era designação e título pessoal para Deus e Jesus Cristo. Mas, em todo caso, o título lhe parecia por certo algo “grande”, embora não de todo impossível, a um trabalhador que cuidava jardins. Além do mais, esse não se ocuparia com túmulos, mas somente com o jardim em si. Ou seja, Maria produz maior confusão com sua pergunta. V. 16 – Aqui “explode” o texto: Jesus chama Maria por seu nome. Esse gesto não está isento de ternura. Retoma, por sua vez, o dito em João 10.3: As ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas. Maria, voltando-se de novo para ele (deduzindo-se disso que Maria voltou a olhar para dentro do túmulo), responde com seu reconhecimento como seu mestre. O emprego do termo transliterado do arameu rabbouni, uma forma peculiar de rabbi, mestre meu ou meu mestre, demonstra que Maria lhe atribui sua profunda reverência, fazendo-o, por sua vez, num tom familiar e menos formal. Esse termo arameu é outro dado a mais que evidencia que estamos diante de material antiquíssimo. Isso também é corroborado pelo termo em si, no idioma que seja. Um “retoque” ou, pior ainda, uma história forjada haveria empregado algum título muito mais sublime, teologicamente “mais puro e perfeito” que o familiar e popular rabbouni. V. 17 – À primeira vista, a resposta de Jesus desconcerta. Tem-se procurado compreendê-la a partir de uma possível origem arameia por trás do termo grego áptou, no sentido de apegar-se a alguém e também seguir. Existe aqui algum desenvolvimento textual a partir do transmitido por Mateus 28.9, onde as mulheres abraçaram os pés do Ressuscitado e o adoraram? É possível. A clássica formulação da Vulgata Noli me tangere serviu como título a uns quantos quadros com essa cena.
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Algumas pessoas introduziram aqui especulações sobre um estado intermediário de Jesus entre a ressurreição e a glorificação “definitiva”, apresentada em Lucas 24 e em Atos 1 sob a figura da ascensão. Como seria isso? Por acaso um estado intermediário entre o “corporal”, o “espiritual”, o “terrenal”, se bem ressuscitado, mas visível, palpável, audível etc. e o “celestial”, já invisível, “totalmente” glorificado, ubíquo? Pergunto, têm sentido essas especulações sobre a natureza, composição ou configuração do corpo do Ressuscitado? Certamente pode resultar mais fecundo ver na dupla ordem de Jesus (não retê-lo/tocá-lo ou o que fosse, e o anúncio a seus irmãos) a indicação de que Maria agora deve ir urgentemente dar testemunho e, por sua vez, que a relação entre o Senhor e Mestre e seus irmãos e irmãs se modificou. Mais além das dificuldades para o conceito de ressurreição e glorificação que requer a referência à subida ao Pai (tema que por razões de espaço não podemos considerar aqui), é importante destacar que o Ressuscitado coloca um acento duplo, e com isso especial, sobre a pertença ao Pai e a Deus. Meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus não remete a dois tipos de relação diferentes entre si, mas sublinha enfaticamente que meu Pai e Deus é vosso Pai e Deus. V. 18 – Esse final é impressionante. A mulher enlutada, logo barbaramente confundida, depois agraciada com a aparição e a apelação pessoal, volta crente entusiasmada, converte-se na primeira anunciadora pública do Ressuscitado. É altamente significativo que João não fale de uma reação incrédula e negativa dos discípulos que recebem o anúncio, como aparece em Lucas 24.11. Apesar de que a lista das primeiras testemunhas do Ressuscitado, representada em 1 Coríntios 15.5-7, não mencione Maria Madalena, nenhuma omissão do mundo poderá apagar jamais o ato de que a primeira pessoa que anunciou, proclamou, pregou o Ressuscitado foi a mulher Maria Madalena. E isso apesar das disposições da época contra o testemunho de mulheres. Ou talvez precisamente por elas.
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Reflexão homilética
Ensina a boa regra homilética que, para a elaboração de uma prédica, devese escolher e trabalhar um só entre os diversos focos ou núcleos teológicos do texto. Geralmente surge a tentação de pregar sobre tudo ou pelo menos sobre os aspectos relevantes, mas esses sempre costumam ser definitivamente muitos, destruindo-se assim mutuamente uma prédica que, por pretender oferecer muito ou tudo, finalmente não diz nada. Entre os diversos núcleos que podem ser trabalhados a partir desse texto destacamos tão-somente dois, deixando a critério de quem deve pregar a seleção final: a transformação de Maria Madalena e seu testemunho como mulher. 3.1 – Com respeito a seu testemunho como mulher, deverá partir-se da pesada carga religioso-cultural do contexto, que impedia que as mulheres pudessem dar testemunho nos julgamentos e tribunais, porque eram consideradas mentirosas (com uma “justificação” trazida dos cabelos, remetida ao ato de que Sara negara ter rido diante da promessa de descendência – como se Abraão fora me-
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lhor, mentindo de maneira muito mais vergonhosa sobre a identidade de seu cônjuge, fazendo passar Sara no Egito por sua irmã). Nesse contexto cultural, é surpreendente, insólito e inédito que se tenha conservado tanto na transmissão oral da primeira etapa da igreja como na que fora posto por escrito nos evangelhos: o ato de que o Ressuscitado apareceu em primeiro lugar a uma mulher e que essa mulher o anunciara a outras pessoas. Esse fato é uma prova muito convincente de que o duplo testemunho formado pelo de Maria Madalena ou de sua fixação literária não é algo forjado, pois a qual discípulo ou a qual evangelista teria ocorrido inventar uma história de tal calibre com uma mulher como testemunha feminina de semelhante categoria? Teria sido muito fácil desautorizar tal testemunho “inaceitável” quanto à sua portadora – salvo que o mesmo se baseara na realidade histórica. A partir desse núcleo implícito no texto pode-se trabalhar questões de valorização de gênero em geral e da situação das mulheres em geral. A seleção dos itens a elaborar fica sujeita à capacidade de quem deve pregar sobre esse texto. Não se pode esquecer que algum tempo depois a igreja não soube manter a atitude contracultural que Jesus e as primeiras comunidades cristãs haviam sabido construir com tanta coragem cívica, religiosa e teológica. Tempos depois recaíram de novo em esquemas patriarcais, assim como também voltaram ao clássico esquema sacerdotal e seu aparato sacrificial e ao conceito de templo como espaço especialmente sagrado, esquecendo que já não eram mais necessários os sacrifícios e que o verdadeiro templo, como espaço no qual vive Deus, é o corpo da pessoa crente e a comunidade como um todo. 3.2 – A transformação de Maria Madalena produz-se em várias etapas, que podem servir de paradigma para nossas próprias transformações. Maria Madalena chega cheia de dor ao túmulo. A dor pela morte é aumentada (quase desviada, teríamos que dizer) pela ausência do morto. Maria anda por tentativas quase cegas, faz perguntas que (aparentemente) desviam do objetivo fundamental do texto, sofre com mal-entendidos (usados habilmente pelo evangelista como recursos narrativos e teológicos) e recém “desperta” a partir do momento em que o Mestre a chama por seu nome. Nesse instante, ela o reconhece, reconhece o que está acontecendo, conhece a novidade absoluta, e ao receber o mandato do rabbouni, transforma-se na primeira pessoa que dá testemunho do Ressuscitado. De grande importância são as perguntas que Maria deve responder. Por que tantas voltas? Por que os anjos e logo Jesus não se dão a conhecer na entrada? Acaso não sabem por que chora a mulher? Acaso se trata de perguntas retóricas? De maneira nenhuma. Claro que sabem por que chora. Assim como Deus sabe onde estava Adão em Gênesis 3.9 e o que aconteceu com Abel em Gênesis 4.9. E o Ressuscitado sabe muito bem a quem Maria busca. Mas ela deve formular seu problema. Isso é o que Deus quis dela: que responda contando sua dor, que formule sua preocupação, que manifeste seu pedido. O desafio de descrever um problema é por certo uma oferta terapêutica. Mesmo que Maria esteja apontando numa direção “equivocada”, como já sabe quem lê o texto, sua resposta é importantíssima, pois expressa sua busca.
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E logo está a apelação direta mediante o uso por Jesus do nome da pessoa sofrida. Aí se produz o reconhecimento, “imperfeito” ainda, se se quer, mas decisivo. Da curiosa ordem de “não retê-lo” (ou, mais raro ainda, “não tocá-lo”) também pode derivar-se um elemento singular teológico. O evangelista indica que, a partir de agora, o encontro e o contato com o Mestre ressuscitado realizam-se na fé através da Palavra e no Espírito. Fica concluído o ciclo “terrenal” do ministério de Jesus, desenvolvido na terra de Israel, e agora sua projeção, que podemos chamar de universal, incluindo aqui a dimensão que Jesus indica com subir ao Pai e com a referência à comunidade ampliada. Uma prédica dedicada a esse foco pode trabalhar, então, nossos desesperos, buscas e situações problemáticas, desdobrar as possibilidades do encontro com o Ressuscitado através da fé, sua Palavra e no Espírito, vividos todos em comunidade, e apontar para nossa transformação para dar testemunho do Ressuscitado com nossas vidas e palavras. O anúncio do Ressuscitado deve incluir sempre o anúncio da possibilidade de nossa própria ressurreição, a diária e a escatológica, assinalando como a história de nossa vida pode cruzar-se com o Ressuscitado e levar até ele.
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Subsídios litúrgicos
Se for a opção pelo tema da transformação de Maria Madalena, pode-se pensar no seguinte subsídio: pendurar pedaços de tecido desde cinza ou marrom escuro (não preto), passando por cores mais claras, até chegar a algumas cores vivas e fortes: vermelho, azul, amarelo, verde, para simbolizar a transformação a partir da dor até a certeza da vida. Os pedaços de tecidos devem ir da esquerda para a direita, para que possam ser “lidos” como uma linha de escrita. Para cada passo da prédica, deve ser mostrada a respectiva cor simbólica.
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PRÉDICA: APOCALIPSE 1.4-8
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JOÃO 20.26-31 ATOS 5.27-32
11 ABR 2010
Günter Adolf Wolff
1
Introdução
O Apocalipse é o livro da esperança, que situa o povo cristão no tempo, para que possa resistir à perseguição do império romano. Os cristãos perseguidos pelo poder do império romano estavam desorientados por causa da repressão romana, e o livro do Apocalipse novamente os situa na história de Deus com seu povo. A perseguição era feroz e já havia levado muitos para a prisão e morte. As comunidades estavam desorientadas, e algumas já estavam entregando os pontos, dizendo que tudo estava perdido, pois os romanos venceram e que contra eles não dava para fazer nada. Eles dominavam tudo. Para esse povo desorientado e apavorado João escreve esse livro de esperança para mostrar que Deus continua sendo senhor sobre tudo, assim como foi no passado e continuará sendo no futuro. Apocalipse significa revelação, tirar o véu, des-cobrir os acontecimentos e o que está por de trás deles, é fazer uma análise da estrutura e da conjuntura do passado e do presente e também apontar para o futuro. Revelação de quê? João nos revela a ação de Deus na história para mostrar que Deus continua sendo o senhor da história. Nesse sentido, o Apocalipse é muito atual, pois os neoliberais sempre diziam que com o neoliberalismo chegou o fim da história, que não haveria futuro, pois ele já seria o presente. Mas de um dia para o outro a máscara caiu e o neoliberalismo desmoronou com todas as suas mentiras em 2008. No tempo de João, o império também dizia que o futuro era o presente, mas no auge do império João afirma que ele iria desaparecer; e foi o que aconteceu 400 anos depois. O poder romano era tido como imbatível; quem ousasse contestar esse poder político, econômico e militar era esmagado. Nada se igualava ao poderio militar romano. Roma era uma ditadura militar que reprimia ferozmente qualquer tentativa de oposição. A máquina de guerra romana era eficiente para reprimir revoltas e invadir outros países para saquear e fazer escravos a fim de alimentar a economia romana. O poder romano era tal que o próprio governante se autoproclamava deus. Parecia que nada poderia ofuscar o poder do império romano. Nesse contexto, o livro do Apocalipse assevera que o poder de Roma não era total nem eterno (Ap 18.2-3). De acordo com João, quem de fato tem todo o poder não é César, mas Jesus Cristo.
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O livro de Apocalipse é o livro da análise da estrutura e da conjuntura do império e das comunidades. O livro mostra-nos como devemos fazer análise também da sociedade atual. João nos dá uma visão panorâmica da igreja e do império. Jesus revela o presente, o passado e o que vai acontecer (Ap 1.8), mas o revela apenas a seus servos, não mostrando nada aos inimigos. A linguagem simbólica somente os cristãos tinham condições de entender. Bem-aventurados os que leem, ouvem e guardam as palavras aqui escritas. No meio do sofrimento e da perseguição que a primeira comunidade cristã sofria, João sonhava com o novo que Deus iria criar. João estava preso na ilha de Patmos. A prisão, porém, não lhe tirou o sonho que está embutido no evangelho: o nosso mundo, assim como está organizado, não vai durar para sempre. O nosso futuro ainda não é o presente. João estava sonhando o sonho de Deus. O sonho de Deus é transformar tudo de forma radical: ele vai recriar o universo para que possa haver a vida eterna. Subversivamente, João afirma que o mundo é de Deus Pai e de seu Cristo e que César, em Roma, não é nada e não manda nada. Essa confissão de fé é importante para nós, que, às vezes, achamos que não há saída para os problemas do mundo. Há saídas. No tempo da ditadura militar, muitos achavam que ela nunca iria terminar, mas caiu de madura após 21 anos. Se Jesus é o Cristo, por que sujeitar-se a fazer o que este mundo diz? O sistema deste mundo, o capitalismo, não tem a última palavra e não é eterno. No início do neoliberalismo, Fukuyama disse que estávamos no fim da história; só que em 2008 o neoliberalismo quebrou e mostrou que toda a propaganda capitalista é engodo. Somente Deus e seu Cristo são eternos. Por isso o desafio é viver segundo o evangelho de Jesus Cristo e não segundo as normas e dinâmicas do capital.
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Os sete conteúdos do texto
1. João, às sete igrejas que se encontram na Ásia João escreve às sete igrejas e através delas a todas as igrejas. Para o povo hebreu, sete é o número que significa totalidade. João acentua que Deus não morreu, mas continua agindo em favor de seu povo como sempre. Deus é aquele que era, que é e que será, ou seja, sempre agirá em favor de seu povo. 2. Da parte daquele que é, que era e que há de vir. Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso O texto fala no v. 4: “daquele que é, que era e que há de vir” e mostra como Deus agiu no passado, onde estamos hoje, o que Deus está fazendo e o que fará no futuro. O Apocalipse analisa conjuntura para entender a realidade do mundo e o projeto de Deus e para não confundir os dois. Na verdade, ele mostra a história como sendo algo parecido a um jogo de futebol, no qual estamos perdendo por 4 x 0, mas iremos vencer o jogo no final. As palavras de João representam um ânimo para que os cansados resistam, pois Deus continua sendo o Senhor da história; é só uma questão de tempo para que ele vença o embate. 3. Da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono
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Os sete Espíritos são a presença total do Espírito Santo no meio do povo. Deus está sentado no trono, portanto é o Senhor. A seu lado está Jesus, a Fiel Testemunha, o Soberano dos reis da terra. Conforme João, Jesus manda sobre os reis da terra. O imperador de Roma, que persegue os cristãos, está abaixo de Jesus e não é um deus. 4. Da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra Nos v. 5 e 6, João descreve o que Jesus faz: ele nos ama, pelo seu sangue nos libertou dos pecados e nos constituiu reino, sacerdotes para Deus Pai. Por isso damos glória a Deus – e não ao imperador – pelos séculos dos séculos. Esses dois versículos são um hino de louvor a Jesus, o rei, que está acima dos reis da terra. Essa é uma palavra subversiva, pois afronta o poder político de Roma. O imperador tem que sujeitar-se a Jesus, e não o contrário. O Estado não é abençoado por Deus; Jesus tem uma outra proposta para organizar o povo. 5. Aquele que nos ama e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados Não é o imperador que nos ama, mas Jesus, o Cristo. O imperador não morre por ninguém, apenas mata nas guerras para conseguir mais escravos; ele muito menos vai libertar o povo da opressão do pecado estrutural da sociedade. 6. Constituiu-nos reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém Jesus nos constituiu reino, ou seja, nós somos parte integrante do reino de Deus; portanto vivemos esse projeto em oposição ao projeto do capitalismo. Somos subversivos, pois viabilizamos o projeto do reino à medida que lutamos contra o projeto do mundo. Somos as pedras com as quais ele constrói o seu reino, que é o oposto do capitalismo. E, sobretudo, somos sacerdotes de seu Deus e Pai, somos pessoas importantes e especiais. Acabou o sacerdócio hereditário em Israel, em que somente quem nascia numa família sacerdotal podia ser sacerdote. Nós não somos sacerdotes por herança, mas pelo batismo, na medida em que vivemos esse batismo. 7. Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém O juízo perpassa todo o Apocalipse, como vemos nessa palavra. Juízo haverá! Todo o livro é uma grande liturgia que celebra o novo que virá após o juízo final.
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Meditação
“João, às sete igrejas que se encontram na Ásia.” Como sete é o número da totalidade, essa mensagem é para todas as igrejas do mundo. O Apocalipse luta contra o deus César, a besta, que recebeu o poder do dragão: o diabo (Ap 13.4: “adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta”). João fala da autoridade de Jesus e do porquê ele ser o nosso Salvador e da luta contra a idolatria, pois se Jesus é “o Soberano dos reis da terra”, então não é o imperador. Aqui se define quem Jesus é para contrapô-lo ao imperador. É a luta contra a idolatria.
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Hoje a idolatria continua, pois o grande deus é o mercado. A gente ouve a TV dizer que o mercado exige isso e aquilo, que temos que seguir as leis do mercado. Como se o mercado fosse deus e nós devêssemos obedecer cegamente às suas leis. Hoje as pessoas estão a serviço do mercado, são dominadas pelo mercado, como se ele fosse onipresente e regulasse tudo com mão invisível. Para nós cristãos, o mercado não é deus; o mercado um dia também vai acabar. O mercado é manipulado por alguns poucos grupos multinacionais que são os mercadores, dos quais Apocalipse 18.3 diz que enriqueceram à custa do sistema. Também o sistema capitalista vai desaparecer, pois foi construído pelas pessoas. Tudo o que é feito por pessoas é passageiro. Eternos são apenas Deus e a sua vontade. O mercado mostra-se todo-poderoso porque tem o Estado para protegê-lo e perpetuá-lo; isso nós vimos na crise neoliberal que começou em 2008. Deus é contra a constituição de uma sociedade que necessita do Estado, pois o Estado é o resultado das desigualdades sociais para defender sempre os mais ricos, que também controlam o Estado. A Bíblia já fala disso em Gênesis 11, onde Deus impede a construção da cidade, ou seja, o Estado, e continua dizendo o mesmo nos relatos do Êxodo e na tomada da terra, repete isso através dos profetas e, no final da Bíblia, no livro do Apocalipse, continua repetindo que ele é contra o Estado opressor, porque esse recebe a sua legitimação do diabo (Ap 13). O Estado faz parte de uma necessidade de toda a sociedade dividida em classes sociais antagônicas. Foi o Estado, o governador Pôncio Pilatos, que mandou crucificar Jesus e matar os primeiros cristãos. Essa sociedade Deus não aprova e propõe através de Jesus Cristo uma nova sociedade, que ele chama de reino de Deus, em contraposição ao reino do mundo, hoje dominado pelo capitalismo. Os dois excluem-se mutuamente; não há nada de comum entre eles, para escândalo de muitos “cristãos”. Mas esse mundo não admite outra proposta e, por isso, quer acabar com a proposta do reino de Deus pela força, perseguindo e matando aqueles que ousam viver e construir o sonho de Deus. Isso não apenas no tempo de João, lá pelo ano 95 d. C., mas também hoje o mundo não quer saber de ouvir falar do sonho de Deus nem de que esse sonho é possível. Muitos cristãos deixam-se levar pela conversa de que um outro mundo é impossível de ser realizado. Muitos que se dizem cristãos já se deixaram convencer de que a forma como o nosso mundo está organizado é a única possível e, por isso, o negócio é tentar tirar vantagem enquanto der. Por isso, como cristãos, nós temos que dizer que o capitalismo (o mundo) não presta e é o oposto do reino de Deus, é coisa do diabo, como diz Lutero: “Por isso o pregador deve conhecer o mundo muito bem e reconhecer que ele é desesperadamente mau, propriedade do diabo, na melhor das hipóteses” (“Reflexões em torno de Lutero” v. I – uma edição especial da revista Estudos Teológicos de 1981 na página 77, num texto de Nelson Kirst). Nós temos uma outra proposta: a proposta do reino de Deus anunciado e vivido por Jesus Cristo. Além disso, esse reino já começou, é viável e vai ser construído por Deus, quer queiramos ou não. Nada vai impedir que Deus termine a construção de seu reino; nem a morte o
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conseguiu, pois Jesus foi ressuscitado por Deus como contestação de uma decisão do Estado romano. Nós somos os convidados especiais para participar dessa construção e de usufruir das bênçãos desse reino, se formos fiéis como Jesus o foi: “a Fiel Testemunha”. A palavra do livro do Apocalipse fala do dia do juízo e do fato de muitos cristãos terem sidos assassinados por causa de sua fé em Jesus. Por que a fé em Jesus é tão perigosa que pessoas são mortas por causa dela? Porque a fé em Jesus requer mudanças na vida da pessoa e na sociedade toda. Sabemos que as pessoas, nós, não queremos mudar, e a sociedade que nós ajudamos a construir também não quer mudar. No império romano, os cristãos eram perseguidos porque se negavam a adorar o imperador como Deus. Negavam-se a adorar o Estado, César, como Deus, num gesto subversivo a partir da fé. Esse era seu posicionamento político e com isso deslegitimavam toda a ação do Estado. Assim como Jesus foi morto porque ameaçou com a proposta de seu evangelho os poderosos e as estruturas de sua época (Lc 23.2 e 5), assim também muitos cristãos foram mortos porque viveram esse evangelho na prática diária, questionando a religião, a cultura, a organização da sociedade e o sistema econômico classista, baseado na exploração de uma pessoa sobre a outra. Nós hoje temos que continuar repetindo o discurso de João: Deus vai construir o reino de Deus, conosco ou sem nós. Nós temos que repetir sempre de novo: o reino de Deus é possível e é essa a nossa proposta em oposição à proposta que o mundo tem na forma do capitalismo. Muitos chamados cristãos esqueceram o primeiro mandamento e adoram o deus capital e não permitem que esse deus seja questionado, inclusive perseguindo quem o ataca. Isso, porém, é a prova de sua idolatria. O que esse texto tem a ver conosco e com a comunidade? Quais são as nossas obras como sacerdotes e sacerdotisas a partir do batismo e como comunidade? Não dá para dizer que cremos em Jesus Cristo e viver e pensar conforme o sistema em que nosso mundo está organizado. Não dá para dizer que cremos em Jesus Cristo e defender o sistema deste mundo, o capitalismo, como o único modelo possível e resistir em participar de um processo de mudança. As nossas obras são fruto de nossa fé ou estão alinhadas ao sistema deste mundo? O texto faz-nos perguntar pela base de nossa vida e pelos objetivos de nossa vida. Se basearmos a nossa vida no evangelho de Jesus Cristo, então não iremos nos alinhar com as propostas de vida que o sistema capitalista nos propõe, mas iremos nos organizar como comunidade contra esse sistema e propor em lugar dele uma nova sociedade baseada nos preceitos do evangelho do reino de Deus. Esse evangelho tem outras propostas para a nossa vida e para a comunidade; ali o amor, a partilha, a igualdade, a solidariedade, a fraternidade e a comunhão são o forte e o decisivo. Se olharmos para as pessoas que faziam parte da comunidade cristã, veremos que eram mulheres, estrangeiros, escravos, pessoas empobrecidas e marginalizadas. Tudo gente frágil e sem poder, que ameaçava o poderoso império romano
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pelo poder da fraqueza (2Co 12.10). Esse império foi vencido por esses fracos, como vemos na história. O poderoso império romano tinha medo de pessoas fracas que tinham uma nova proposta de vida: amar a Deus acima de tudo, amar o próximo como a si mesmo, acolher os outros fracos e integrá-los numa nova proposta de convivência na qual todos eram considerados concidadãos (Ef 2.19), que construíam uma nova sociedade a partir de uma nova economia (At 4.32-35) e de novas relações de poder: o poder-serviço (Mc 10.42-44; Lc 9.48 diz: “aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande”). Vemos que historicamente os poderosos sempre tiveram medo dos fracos que eles subjugavam: o faraó tinha medo dos escravos (Êx 1.9-10), Herodes tinha medo de crianças (Mt 2.13) e o César de Roma tinha medo de mulheres, estrangeiros e escravos que compunham a comunidade cristã (Ap 6.9-10; 1Co 4.11-13: “nos afadigamos, trabalhando com as nossas próprias mãos [...] até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos”). Hoje os capitalistas têm medo da classe trabalhadora e necessitam do Estado para reprimi-la (pelo poder judiciário e policial) e controlá-la pelos aparelhos ideológicos de que dispõem (TV, jornais, rádio, igrejas, escolas, grandes cooperativas, sindicatos pelegos etc.).
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Imagens para a prédica
A estória abaixo faz uma análise da estrutura da sociedade e do Estado capitalistas com sua ideologia bem como do papel social da religião. A tarefa que o Apocalipse nos dá é aprender a fazer análise da estrutura e da conjuntura de nosso mundo e da igreja, para que possamos ter clareza do projeto de Deus frente à proposta do mundo. Se os tubarões fossem homens “Se os tubarões fossem homens”, perguntou ao Sr. K. a filha da sua senhoria, “eles seriam mais amáveis com os peixinhos?” “Certamente”, disse ele. “Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e tomariam toda espécie de medidas sanitárias. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, então lhe fariam imediatamente um curativo, para que ele não lhes morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente também haveria escolas nas gaiolas. Nessas escolas, os peixinhos aprenderiam como nadar para as goelas dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que esse futuro só estaria assegurado se estu-
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dassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e avisar imediatamente os tubarões se um dentre eles mostrasse tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras, eles fariam lutar os seus peixinhos e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, eles iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia o título de herói. Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas e suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que a seus acordes todos os peixinhos, com a orquestra na frente, sonhando, embalados nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões. Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disso, se os tubarões fossem homens, também acabaria a ideia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles teriam, com maior frequência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores, detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas etc. Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens.” Bertolt Brecht em “Histórias do Sr. Keuner”. (Obs.: provavelmente em alemão, o termo homens seja Menschen, ou seja, seres humanos, pessoas.)
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Subsídios litúrgicos
Versículo de entrada: “Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno” (Ap 1.18). Confissão de pecados: Confessamos, Senhor, que não conseguimos orientar-nos pela utopia do teu reino. Continuamos a cair nas armadilhas do sistema deste mundo e achamos que não há outra forma de organizar a nossa vida e a vida da comunidade a não ser a partir das orientações que o capitalismo nos dá. Confessamos que esquecemos que tu, ó Deus, és o Senhor da história e não o capitalismo, que afirma que findou a história e que o nosso futuro é o presente. Confessamos que
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continuamos a crer na ressurreição da alma e não conseguimos entender a ressurreição do corpo, que é o centro de nossa fé, confessada no Credo Apostólico. Aumenta-nos a fé para sermos também testemunhas fiéis do projeto do reino de Deus, que é a nossa utopia. Absolvição: “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6.8-9,11). Kyrie eleison: Pelas famílias que não conseguem mais nem se encontrar no domingo, pois tem horários de trabalho diferentes e em turnos diferentes. Pelos operários que recebem um salário indigno e vil e pelos camponeses que estão sujeitos a preços exorbitantes quando compram sementes e insumos e preços degradantes quando vendem seus produtos. Gloria in excelsis: Deus, todo-poderoso, nós te exaltamos, pois a tua palavra nos aponta para um futuro glorioso ao lado do Salvador. Jesus Cristo, nós te exaltamos, pois nos defenderás no dia do juízo final, sendo nosso advogado. Espírito Santo, nós te exaltamos, pois és a nossa força e nossa luz nos caminhos da luta pela justiça. Oração do dia: Ilumina-nos, Senhor, para entendermos pela tua Palavra como podemos ser fiéis testemunhas da esperança do teu reino. Dá-nos força para poder viabilizar a partir de fé em nosso Senhor Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o projeto do teu reino anunciado pelo santo evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Ajude-nos pelo poder do Espírito Santo para poder fazer uma leitura correta da realidade a partir da Sagrada Escritura, que agora ouviremos, para não ser enganados pelo poder deste mundo. Oração geral da igreja: Oramos, Senhor, por todas as pessoas que vivem em aflição e luto, doença e solidão, ajude-nos para que nós possamos estar a seu lado. Se há desentendimento entre as pessoas, dá-nos uma palavra de reconciliação. Fortaleço-nos, Senhor, sempre de novo para a oração e a intercessão, assim como tu esperas de nós. Intercedemos, Senhor, pelas professoras e professores para que sempre tenham ânimo nessa tarefa de ensinar, educar e capacitar para a vida. Lembramos das famílias nas quais tem alguém doente e sofrendo, olhe para todos eles e nos anime a ir ao encontro desses. Intercedemos pelos governantes para que possam governar segundo as propostas do teu evangelho e nos estimule a lutar pelo direito à vida plena, proposta pelo teu reino.
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Bibliografia Evangelho de João e Apocalipse. In: Roteiros para Reflexão IX. São Leopoldo: Cebi, São Paulo: Paulus, 2000. GORGULHO, Fr. G. S. e ANDERSON, Ana Flora. Não tenham medo. Apocalipse. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 1981.
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PRÉDICA: JOÃO 21.1-19
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ATOS 9.1-6 (7-20) APOCALIPSE 5.11-14
18 ABR 2010
Acir Raymann
1
Introdução
A primeira leitura (At 9.1-20) apresenta o episódio dramático da conversão do apóstolo Paulo no caminho de Jerusalém a Damasco. A voz de Jesus na visão lembra que o Cristo ressuscitado está presente no meio do seu povo, a igreja. A relação entre Cristo e a igreja chama a atenção para a simbiose, identidade e comunhão que existe entre ambos. É a igreja, a igreja cristã, que Paulo persegue e, contudo, é Cristo quem pergunta: “Por que me persegues?” Na segunda leitura (Ap 5.11-14), os anjos cantam em honra a Cristo: “Ao Cordeiro seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos”. O evangelho (Jo 21.119) narra mais uma das manifestações de Jesus no período pós-ressurreição. Jesus aparece repentinamente a seus discípulos na praia do mar da Galileia no contexto de uma refeição, que traz consigo associações naturais e diretas com a Eucaristia.
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Exegese
V. 1 – “Tornou Jesus a manifestar-se” – o verbo já ocorre em outros momentos (cf. 7.4; 13.4; Mc 16.12). “Tornou” (pálin = novamente) mostra que esse momento é posterior às manifestações em Jerusalém. O local é o mar de Tiberíades ou mar da Galileia (cf. 6.1). V. 2 – Nomeia sete dos discípulos: Simão Pedro, Tomé, Natanael – aqui mencionado como de Caná da Galileia para mostrar que mesmo não sendo do grupo de pescadores, juntava-se aos demais. Além desses, João, na sua forma reservada de falar, mostra-se como um dos presentes na expressão “os filhos de Zebedeu”. Eles estavam “juntos”, mas sem saber exatamente o que fazer. V. 3 – Simão não suporta ver outros barcos entrarem no mar e decide: “Vou pescar”. É um alívio para os demais, que se ajuntam à iniciativa. Assim que embarcam, apegando-se com afinco ao que estão habituados a fazer, imaginamos em que precária situação se acha o futuro do cristianismo. Os discípulos só pensam numa coisa, ou seja, em como sobreviver. Mas profissionais que são, frustram-se naquilo que talvez melhor sabem fazer. A pescaria é um fracasso. Com o clarear da madrugada, a frustração aumenta porque ela se espalha entre os demais pescadores. É constrangedor ficar “sapateiro” na pescaria. O v. 4 irrompe para quebrar a rotina e a frustração. De repente, Jesus “estava” na praia. O verbo estée já apare-
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ce antes, indicando um aparecer repentino (20.19, 26). No v. 5, o termo de saudação de Jesus paidía não deveria ser traduzido como “filhos” (ARA). Aristófanes emprega o termo ao se dirigir a homens no trabalho. Talvez a melhor opção seja a da NTLH com o termo “moços” (observe que os discípulos não haviam reconhecido que aquele homem era Jesus). A pergunta de Jesus “Tendes alguma coisa de comer” (ARA) não condiz com o original. Échete é termo semitécnico no contexto e significa: “Moços, pegaram alguma coisa?” (Cf. NTLH: “Moços, vocês pescaram alguma coisa?”. A resposta foi seca: “Não!”– sem ser acrescida de “Senhor” ou “Mestre”. V. 6 – “Lançai... lançaram”. Os discípulos imaginaram que aquele homem na praia havia talvez visto um cardume de peixes. Como não havia mais esperança, seguiram a sua orientação – e o milagre acontece. No v. 7, João é o que possui o mais profundo insight; Pedro é o que possui o maior ardor. Longo debate surge ao se tentar explicar por que Pedro se veste antes de se lançar ao mar. Da mesma forma, a interpretação dos 153 peixes no v. 11. Em caracteres hebraicos, Simão Jonas é equivalente a 118+35, ou seja, 153. Alguns pais da igreja entenderam que 100 significava os gentios, 50 os judeus e 3 a Trindade. Jerônimo cita a autoridade de naturalistas gregos para provar que havia 153 espécies de peixes, o que indicava a universalidade do evangelho. Quando estão reunidos ao redor do fogo, “veio Jesus, tomou o pão, e lhes deu, e, de igual modo, o peixe”. São palavras que conectam a pessoa de Jesus e à sua obra com a celebração da Eucaristia. No diálogo entre Jesus e Pedro, nos v. 15-18, muito se tem falado sobre a diferença dos verbos agapáoo e filéoo. No texto bíblico, ambos são empregados como sinônimos para expressar, por exemplo, o amor de Jesus por João (13.23, 20.2) e também seu amor por Lázaro (11.3, 5, 36). Tal distinção entre o significado dos dois termos não se sustenta em razão do v.17, quando Pedro entristece por Jesus ter usado três vezes: “tu me amas (filéoo)”, quando, na verdade, Jesus não emprega essa palavra três vezes.
3
Meditação
Esta é a terceira vez que Jesus aparece a seus discípulos depois da sua ressurreição. O objetivo não é outro senão convencer os discípulos do fato de que ele está vivo e fisicamente se revela para fortalecê-los na fé, no discipulado e na perspectiva da nova vida escatológica. A cena junto ao mar da Galileia, em que Jesus redivivo se manifesta a seus discípulos, é a última registrada nos evangelhos. É, por isso, significativa que ocorra no contexto do mar da Galileia. No Evangelho de João, em apenas uma outra ocasião um evento assim é localizado, a saber, a alimentação dos cinco mil (6.1). Não é sem razão que a geografia seja mencionada. Como Isaías afirma: “Mas para a terra que estava aflita não continuará a obscuridade. Deus, nos primeiros tempos, tornou desprezível a terra de Zebulom e a terra de Naftali; mas, nos últimos, tornará glorioso o caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos genti-
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os” (9.1). Ao tempo do profeta Isaías, as tribos de Zebulom e Naftali, que ocupavam a região noroeste do mar da Galileia, estavam sob o domínio da Assíria, suportando duramente as invasões de Tiglate-Pileser III ao redor do ano de 733 a.C (2Rs 15.29). Entretanto, esse “mas” de Isaías antecipa uma outra realidade, a manifestação de outro poder, não das armas, mas o poder e a manifestação salvíficos do Messias. São sete os discípulos que estão à beira do mar de Tiberíades. Desses, quatro são do grupo dos 12: Pedro, Tomé e os filhos de Zebedeu, entre esses o próprio João. Dos personagens identificados, Natanael merece atenção em vista da referência feita a ele por Jesus em 1.51: “... vereis o céu aberto...”. Talvez seja esse o momento especial para Nataniel. É surpreendente que esses que viram Jesus vivo em Jerusalém (20.10-23) e que foram enviados por Ele e receberam o Espírito Santo com poder para perdoar pecados (20.21-23) estejam agora se preparando para pescar no mar da Galileia. Pescar? Chama mais a atenção Tomé, que tivera um encontro privilegiado com o Jesus ressuscitado na presença dos demais discípulos e que o confessara como Senhor e Deus; já agora parece não demonstrar mais nenhuma evidência daquele momento impactante. Onde estaria a empolgação inicial de saber que o Senhor está vivo e que essa mensagem deveria ser propagada ao mundo? Esse capítulo tem como objetivo, parece, alertar os leitores e nós sobre o fato de que a fé no Jesus ressuscitado por vezes não redunda em ação efetiva e dinâmica como deveria ser. Qual é o problema? O que atrapalha a missão? Os discípulos que vieram a crer no Cristo vivo no capítulo 20 estão agora envolvidos na sua atividade rotineira e cotidiana, sem um sinal de que passaram por um momento marcante de transformação. Não estaria o existencial tomando espaço do essencial? Os discípulos, profissionais na arte de pescar, que conhecem os lugares adequados para lançar as redes como poucos, não têm sucesso no seu empreendimento. Passam a noite toda sem pescar nada. Quando a madrugada chega, ela é constrangedora. Como explicar que nada pescaram? É nesse momento que Jesus se manifesta. “Moços, pegaram alguma coisa?”, pergunta Jesus. O “não” enfático dos discípulos certamente fá-los lembrar de uma palavra dita por Jesus a eles tempos atrás: “Sem mim nada podeis fazer” (15.5). É interessante notar que nunca nos evangelhos os discípulos pescaram algum peixe sem a ajuda de Jesus. Embora já tivessem visto Jesus por duas vezes e Tomé tocado a mão e o lado de Jesus, nenhum deles o reconheceu. Só se pode reconhecer Jesus quando ele quer ser conhecido. Os que haviam visto Jesus não creram. Aqui o pregador tem um vislumbre evangélico para o povo de Deus hoje. Na ocasião Jesus dissera: “Bemaventurados os que não viram e creram” (20.29). Nós e muitos outros que virão pela graça de Deus fazem parte desse grupo. “Eu vos farei pescadores de homens”, diz Jesus no início do seu ministério (Mc 1.16, 20). Aqui no capítulo 21 de João, a assistência de Jesus revela-se fundamental para auxiliar a incapacidade humana de realizar ações as mais prosaicas. Jesus, o Criador e Redentor, fornece as orientações. O milagre acontece e, com ele, a abertura dos olhos. Em João 20, Pedro é o primeiro a crer olhando para a evidência dos lençóis (20.8). Agora ele é o primeiro a reconhecer Jesus pela evidência da pesca (21.7).
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A pesca é grande, por demais maravilhosa. Simão Pedro entra no barco e “arrasta a rede para a terra” (v. 11). O verbo “arrastar” (v. 6 e 11) é empregado também em momentos em que homens são “arrastados” para Jesus. Veja-se especialmente 6.44: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer, e eu o ressuscitarei no último dia”. Da mesma forma em 12.32: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”. Fica claro no Evangelho de João que a ressurreição pertence ao processo de Jesus ser elevado ao Pai ao mesmo tempo em que ele, o Cristo vivo, cumpre sua profecia de “arrastar” todos os seres humanos a si mesmo pelo ministério apostólico simbolizado no pescar e arrastar o peixe para a terra. O número 153 talvez não tenha o significado numérico atrelado ao nome de Pedro nem o sentido como queriam os pais da igreja (cf. parte exegética acima). Talvez Jerônimo tenha razão. Nesse caso, o número venha a indicar a universalidade da missão que os discípulos têm diante de si com a mensagem evangélica da ressurreição. Alguns ainda veem aqui o cumprimento de Ezequiel 47.10, onde pescadores se agrupam ao redor do mar Morto, de En-Gedi a En-Eglaim. Ali lançam suas redes e pescam tantas espécies de peixes no mar enriquecido pelas águas afluentes do templo quanto as espécies que há no mar Mediterrâneo. Assim sendo, o evangelista João estaria mostrando o cumprimento de uma profecia escatológica do Antigo Testamento. O que é certo é que, com o grande número e tamanho dos peixes, o texto mostra como os discípulos podem ter sucesso nesse empreendimento com a ajuda do Cristo que está vivo. “Vinde, comei”, diz Jesus. Assim como no início do seu ministério, Jesus faz um convite a eles (1.39). Agora, nas suas últimas palavras a seus discípulos no Evangelho de João, ele lhes faz outro convite: “Vinde, comei”. Essa não é a única manifestação de Jesus redivivo a seus discípulos, associada a refeições (cf. Lc 24.30, 42; provavelmente Mc 16.14; At 1.4; 10.41). Em Lucas 24.35, Jesus se dá a conhecer aos dois discípulos no caminho de Emaús no partir do pão. Aqui, como em Atos 2.46, a expressão denota um contexto eucarístico. Em outras palavras, a manifestação do Cristo ressurreto em tais momentos relembra aos leitores que, quando a igreja cristã parte o pão eucarístico, o Senhor vivo está presente no meio dela. Na verdade, aqueles que andavam com Jesus e com ele conversavam não o reconheceram depois da ressurreição, senão após o partir do pão. Também hoje os cristãos têm a bênção de desfrutar da sua presença viva na Santa Ceia como aqueles à beira do mar da Galileia a quem ele se manifestou. Muito se tem dito nesta perícope a respeito do seu simbolismo e até alegoria, ou seja, a respeito de pegar peixe, o número de peixes, as vestes de Pedro, o seu nadar até a praia, a rede que não se rompe. É preciso cautela em tais interpretações. É melhor deixar que o texto fale na sua clareza natural, evitando procurar por significados nele escondidos. Por outro lado, a linguagem demonstra que há certos simbolismos no texto quando esse é comparado à Escritura como um todo. Desde os primeiros intérpretes, nota-se simbolismo atrás do pegar o peixe: refere-se à missão apostólica de “pescar homens”. Tal simbolismo é óbvio: “Disse Jesus a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens” (Lc 5.10).
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Há outro simbolismo atrelado a essa perícope, que é a da Eucaristia. Na verdade, cada refeição providenciada por Jesus nos evangelhos pode ser relacionada à Eucaristia. Isso não significa que essa refeição à beira do mar da Galileia seja em si uma ceia eucarística. Mas ela certamente pode ser uma “memória”, uma alusão à Eucaristia (cf. v. 13), assim como a Santa Ceia em si é uma antecipação do banquete celeste que há de vir (cf. 1Co 11.25 e Lc 22.19).
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Imagem
Certa ocasião, Miguelangelo voltou-se para seus colegas artistas com esta admoestação: “Por que vocês continuam a encher galerias e galerias com pinturas sem fim sobre um mesmo tema: do Cristo fragilizado, Cristo na cruz, Cristo agonizando e especialmente um Cristo morto pendurado? Por que vocês se concentram nesse episódio que é passado como se essa fosse a cena final, como se a cortina se fechasse sobre esse momento de desastre e derrota? Está certo, mas tal episódio durou apenas algumas horas. Mais importante é que até a infinda eternidade Cristo vive, Cristo reina, governa e triunfa”.
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Subsídios litúrgicos
Invocação: Oficiante: Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Congregação: Amém. Confissão e absolvição: O.: Irmãos e irmãs: Muitas vezes como os discípulos após a Páscoa sentimonos desamparados e órfãos e nos escondemos, fechando-nos em nós mesmos. Mas “vede que grande amor nos tem concedido o Pai, ao ponto de sermos chamados filhos de Deus”. Filhos que, por causa da sua natureza congênita, muitas vezes se rebelam contra o Pai. Mas quando Jesus nos ensinou a chamar Deus de “Pai Nosso”, quis nos mostrar que “por estas palavras Deus quer atrair-nos carinhosamente para crermos que Ele é o nosso verdadeiro Pai e nós os seus verdadeiros filhos, para que lhe roguemos sem temor, com toda a confiança, como filhos amados ao seu querido pai”. Nessa confiança podemos chegar diante dele, confessar os nossos pecados e suplicar o seu perdão. O.: Temos a promessa de Jesus quando, após a sua ressurreição, apareceu a seus discípulos: “soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo. Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados”. Nessa certeza, como ministro da Palavra, chamado e ordenado, anuncio-vos a graça de Deus, e da parte e por ordem de Jesus Cristo, meu Senhor, vos perdoo todos os vossos pecados, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. C.: Amém.
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Coleta do dia: Ó Deus, que através da humilhação de teu Filho levantaste o mundo caído, concede que teu povo fiel, resgatado dos perigos da morte eterna, viva em alegria perpétua; por Jesus Cristo, nosso Senhor, que contigo e o Espírito Santo é Deus e reina sobre nós agora e sempre. Amém. Ação de graças: O. e C.: Bendito Deus, nosso Pai Celestial, damos-te graças e louvor porque tu estás conosco e nos garantes isso pelo corpo e sangue de teu Filho Jesus Cristo. Ó Senhor, habita em nossas mentes e molda-nos para que possamos pensar conforme a tua vontade. Ó Salvador, ilumina os nossos olhos para que possamos ver através dos teus. Ó Santo Espírito, toca os nossos lábios e abre o nosso coração para que possamos anunciar e viver o teu amor junto aos que nos cercam. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Bibliografia BLANK, Rodolfo. Juan: un Comentario Teológico y Pastoral al Cuarto Evangelio. Saint Louis: Editorial Concordia, 1999. DODS, Marcus. The Gospel of St. John. In The Expositor’s Greek Testament. London: Hodder and Stoughton, 1917.
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PRÉDICA: ATOS 9.36-43
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JOÃO 10.22-30 APOCALIPSE 7.9-17
25 ABR 2010
Arteno Ilson Spellmeier
1
Introdução
Atos 9.36-43 raramente é usado como texto de prédica e, pela primeira vez, é proposto como texto de prédica na série Proclamar Libertação. Ele relata: 1º Pedro ressuscita uma mulher caridosa chamada Tabita; 2º Isso acontece em seguimento ao agir dos profetas do Antigo Testamento e do próprio Jesus Cristo (1Rs 17.17ss; 2Rs 4.18ss; Mc 5.35-43); 3º Esse ato de Pedro acontece a partir e em função da missão. Os textos previstos como leituras bíblicas têm na promessa da ressurreição e na figura do pastor que conhece suas ovelhas pelo nome os seus acentos principais. Portanto missão que não tem o amor que Deus tem por “suas ovelhas” e a pregação da cruz e ressurreição como seu eixo principal está fora de foco.
2
Exegese
O texto de Atos 9.36ss fazia parte originalmente de uma antiga coletânea de textos sobre milagres e grandes feitos do apóstolo Pedro, transmitidos oralmente pelas primeiras comunidades (cf. At 3.1ss, 5.12ss). Lucas, o autor de Atos dos Apóstolos, dispõe-o quase como introdução ao relato do encontro de Pedro com Cornélio, que tem um papel importante na história da igreja primitiva. E isso em dois sentidos: uma vez, olhando para frente, para introduzir o texto seguinte, que fala da universalidade da salvação em Cristo; outra vez, olhando para trás, para garantir que se encontrava na tradição do Antigo Testamento e das práticas de Jesus. Apesar de preparar o relato posterior, Atos 9.36ss tem uma mensagem própria: Ao ressuscitar Tabita, seguidora de Jesus, bondosa e líder da pequena comunidade de Jope, (1) Pedro encontra-se na tradição dos profetas e de Jesus Cristo e (2) ele a ressuscita para a vida plena, abrangendo a história e a eternidade, qualificando o conteúdo da missão da comunidade. Pois o relato da ressurreição de Tabita tem um paralelo, quase verbal, no relato de Marcos 5.35-43, em que Jesus ressuscita a filha de Jairo. A mensagem é: Jesus continua a agir através de Pedro. Sua ressurreição tem continuidade na ressurreição para a vida de Tabita. A estreita vinculação com a atuação de Jesus está
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garantida. A práxis atual de Pedro tem sua legitimação na tradição dos milagres de Jesus. Ao mesmo tempo, o relato da ressurreição de Tabita lembra os relatos de Elias e Eliseu em 1 Reis 17.17-24 e 2 Reis 4.18-37. A estreita vinculação com a atuação dos profetas está garantida. A práxis de Pedro tem a sua legitimação também no Antigo Testamento. Antes de partir para a apresentação do totalmente novo e revolucionário, que é a universalidade da salvação em Cristo para todos os povos, Lucas olha para trás, assegurando que se encontra na tradição dos profetas e do Jesus histórico. Pedro encontra-se numa região em que Filipe estava atuando e em que ele já havia fundado inúmeras comunidades (At 8). Pressupõe-se que, enquanto Pedro e outros apóstolos atuavam entre pessoas de origem judaica, Filipe atuava mais entre pessoas de origem helenista. As comunidades muito pequenas certamente se diferenciavam por sua origem, língua e cultura. A ressurreição de Tabita acontece num ambiente judaico-cristão. Durante um bom tempo, essas comunidades de diferentes origens e tradições provavelmente viviam lado a lado, perseguidas e à procura do significado da mensagem do ressurreto para a sua vida diária. Em Atos 1 a 5, é transmitida a imagem de comunidades coesas e unidades ao redor do Cristo ressuscitado. A partir do capítulo 6 começam a ser expostas as diferenças e contradições existentes nas primeiras comunidades: “Algum tempo depois, o número de judeus seguidores de Jesus aumentou muito, e os que falavam grego começaram a se queixar dos que falavam hebraico” (At 6.1). Foi necessário instituir o ministério da diaconia. Eram difíceis e complexos os desafios culturais, teológicos, eclesiológicos e políticos a ser superados pelas primeiras comunidades cristãs. l Havia as pessoas de origem judaica que se convertiam a Cristo e que precisavam fazer a releitura de suas tradições e de sua história. Com a conversão essas ganharam um novo sentido e outra prioridade. Necessário era fazer uma releitura das tradições e dos textos sagrados. Uma dessas releituras do Antigo Testamento e da história do povo judeu foi feita de forma magistral por Estêvão em Atos 7. Pois defrontavam-se com muitas perguntas: Quais tradições e valores podemos manter? De que precisamos abrir mão no seguimento a Cristo? A lei, assim como entendida pelos nossos pais, ainda tem o mesmo sentido e peso? Como cristãos precisamos observar as leis judaicas da pureza? A quem é destinada a mensagem da salvação: somente às pessoas de origem judaica ou também às pessoas de outras origens? A partir de que teologia se deve dar resposta a essas perguntas? As respostas encontradas pelas diferentes comunidades e grupos variavam. A procura pela verdade era difícil, mas se impunha como necessidade incontornável. Acirravam-se as disputas e divergências internas. Tradições antigas eram postas em dúvida, novas tradições precisavam ser criadas. l Havia as pessoas de outras origens e tradições, por exemplo de fala grega, que se convertiam a Cristo e precisavam fazer a releitura de suas tradições e de seus conceitos de fé e religião. Também elas tinham muitas perguntas: Que importância têm para nós não-judeus o Antigo Testamento e a lei de Moisés?
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Quais as tradições nossas que podemos manter e quais as tradições judaicas que precisamos respeitar? Quais as leis judaicas que precisamos acatar no seguimento a Jesus Cristo e quais não têm importância alguma? O que pertence ao mundo judaico e o que ao mundo cristão? Os temas teológicos para responder essas e outras perguntas e, ao mesmo tempo, servir como base para uma teologia comum foram, em grande parte, definidos por Paulo: 1. A cruz e a ressurreição; 2. A graça e a lei; 3. A reconciliação com Deus operada por Cristo e a reconciliação com o mundo criado por Deus; 4. Os dons espirituais e o amor; 5. A igreja como corpo de Cristo....
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Meditação
A ressurreição de Tabita tem como consequência: 1. A pequena comunidade ganha a sua benfeitora e líder de volta; 2. Ela acontece de acordo com o agir dos profetas e de Jesus, isto é, com a tradição; 3. Muitas pessoas (de origem judaica, provavelmente) creram no Senhor, isto é, a ressurreição levou à missão. “As notícias a respeito disso se espalharam por toda a cidade de Jope, e muitos creram no Senhor” (At 9.42); 4. A compreensão de que assim como a ressurreição de Cristo também a de Tabita era para dentro desta vida, deste mundo, para dentro da história e da realidade. Como está a missão em nossas comunidades? Como é feita a releitura da tradição e da história dos antepassados? Como essa releitura está ajudando as nossas comunidades a achar respostas para suas perguntas relativas à vida e à fé de hoje? A fé na ressurreição de Cristo e da própria é algo vago, indefinido, desvinculado da vida, ou é fé de que ele ressuscitou para dentro de nossa história e de que a eternidade já tem seu início nela? Essa fé e certeza estão sendo base da vida da comunidade e da sua missão? Ela está “levando Pedro à casa de Simão, um curtidor de couro”, profissão considerada pelos líderes judeus como impura e desonrosa; isto é, como as nossas comunidades se relacionam com pessoas e grupos excluídos e à margem de nossa sociedade? As comunidades da IECLB, em sua maior parte, tiveram origem na imigração de pessoas de fala alemã, que se organizaram a partir de sua identidade étnica, linguística e cultural, para defender seu modo de ser e seus interesses. Nisso não há nada de errado, desde que não se tenham transformado em simples “associações religiosas”, que têm como meta cuidar exclusivamente das tradições, dos interesses grupais, da língua e da cultura... Têm elas na fé da ressurreição para a vida sua principal meta e fundamento? Cremos que Jesus Cristo não só se encarnou na realidade e história humanas, mas também ressuscitou para dentro dela e que com isso destruiu o poder da morte, deu poder à vida e rompeu com as fronteiras culturais, étnicas, linguísticas, sociais, políticas, econômicas... Após ressuscitar Tabita e devolvêla à sua comunidade para continuar a ser líder dela e a ajudar as pessoas, Pedro volta-se para o mundo não-judaico: “Agora eu sei que Deus trata todos igualmente, pois aceita todos os que o respeitam e fazem o que é direito, seja qual for
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a raça deles” (At 10.34-35). Em Atos 10 encontra-se a base para a missão fora do mundo judaico. Pessoalmente, estou participando desde 1967 da reflexão e discussão sobre tema da missão dentro da IECLB. Outros colegas certamente estão se ocupando há mais tempo ainda com a temática. Será que não é tempo demais? Não terá sido tempo demais se foi tempo de aprendizado, tempo de crescimento em fé e comunhão, tempo de definição de conteúdos e métodos. Não terá sido tempo demais se cada geração procurou os conteúdos e métodos próprios para dar relevância à mensagem da ressurreição para dentro de seu tempo. Foi tempo perdido se cada geração “voltou a inventar a roda”, isto é, se não houve um acúmulo de experiência, partindo do pressuposto de que as experiências anteriores eram sem valor.
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Imagens para a prédica
Como “na prática, a teoria é outra”, sugiro que reflitam com os membros sobre os fundamentos da fé e sobre a prática da fé. Cremos que Jesus ressuscitou como Tabita para dentro da vida e história humana, em que o reino de Deus e a eternidade já foram iniciados por Jesus Cristo. Como essa fé se manifesta concretamente na vida pessoal, familiar e comunitária de cada um? l Comunidades que vivem a partir da fé na ressurreição são comunidades abertas a pessoas de outras origens e que têm outras necessidades. Nossa comunidade é aberta em sua prática e na vida do dia-a-dia às pessoas diferentes, excluídas, marginalizadas, oprimidas? l Pessoas que vivem a partir da fé na ressurreição têm compaixão quando pessoas e o mundo criado por Deus sofrem. Os membros se têm solidarizado com o sofrimento das outras pessoas e da natureza? l Famílias que vivem a partir da fé na ressurreição são famílias que têm sensibilidade para as questões relacionadas com paz e justiça. As nossas famílias têm sido sensíveis a essas questões tanto a nível intrafamiliar como a nível mundial? l Grupos de comunidade que vivem a partir da fé na ressurreição são grupos que creem na presença do reino de Deus em meio às contradições de seu mundo e dão testemunho de sua fé em palavras e ações para dentro e para fora da própria comunidade. Eles se afogam no assistencialismo (que no fundo não quer mudar nada) ou têm capacidade de escutar a voz das pessoas excluídas? Comunidades que vivem a partir da fé na ressurreição são comunidades que não negam suas tradições e origens, mas as reinterpretam continuamente para estar a serviço do evangelho. Comunidades que vivem a partir da fé na ressurreição são comunidades que olham a tradição com muito respeito, mas sabem que é necessário fazer a sua releitura, a fim de que Jesus possa ressuscitar para dentro da nova realidade que deve ser transformada pelo seu evangelho.
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5 Subsídios litúrgicos Oração do dia: L: Deus da vida e do amor: A ressurreição de Jesus Cristo transforma as nossas vidas e nossas relações. Ele entrou em nossa história e em nossa vida. Não estamos mais sozinhos com as nossas dúvidas, incertezas e angústias. Ele tornou possível que todas as pessoas tenham o mesmo valor e estejam unidas em diálogo e fraternidade e que todos os povos e culturas colaborem para a glória do seu reino. Ajuda-nos a entender e praticar isso pela tua palavra. Pedimos isso em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina, de eternidade a eternidade. Amém! Confissão de pecados: Misericordioso Deus: Chegamos perante ti e confessamos a nossa falta de fé e disposição para cooperar com o teu reino e partilhar a experiência da ressurreição. Confessamos nossa omissão em não enfrentar o mal e o sofrimento ao nosso redor. Confessamos a nossa soberba, que nos achamos melhores e mais valiosos do que outras pessoas e culturas. Confessamos nossa arrogância em relação ao próximo, sem perceber suas virtudes. Rejeitamos os que têm outra cultura e outra maneira de pensar. Contribuímos para que povos e etnias ainda sofram discriminações, preconceitos e injustiças. Ajuda-nos a reconhecer as bênçãos que tens comunicado através desses povos e dessas culturas. Ajuda-nos a viver a reconciliação que tu trouxeste ao mundo. Tem, Senhor, piedade! Intercessão: Bondoso Deus, Agradecemos-te pelo novo dia de vida que nos deste. Agradecemos-te pelo mundo que criaste, pela riqueza em plantas, animais e fenômenos da natureza. Agradecemos-te por te teres encarnado em nossa cultura, por estares te encarnando na cultura dos povos indígenas e de todos os povos. Agradecemos-te por vires a nós dessa forma, mesmo que a cultura seja como um vaso frágil e até passageiro. Agradecemos-te por te encarnares antes de tudo nas culturas mais humildes e desprezadas (como era a cultura judaica do teu tempo) e não nas culturas e pessoas que se julgam superiores. Agradecemos-te por podermos ser diferentes. Agradecemos-te por não precisarmos ser tudo. Agradecemos-te por podermos ser limitados. Agradecemos-te por nos complementarmos uns aos outros. Agradecemos-te por nos aceitares em nossa alteridade e limitação. Agradecemos-te por teres ressuscitado para dentro da vida, vida plena e eterna.
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Agradecemos-te que também na morte a vida não perde o sentido, porque tu lhe dás uma nova forma e um novo sentido em tua eternidade. C: Glória a ti, Senhor, graças e louvor! Rogamos por tuas igrejas, pelo diálogo inter-religioso e pelo movimento ecumênico. Rogamos por todos aqueles que têm responsabilidade política, econômica, social, pastoral. Rogamos pelos mais fracos em nossa sociedade, pelas crianças, pelos doentes, pelos depressivos e tristes, pelas pessoas abandonadas, solitárias, sem rumo. Rogamos por nossas comunidades para que possam, a partir de sua história e tradição, assumir a responsabilidade missionária que lhes cabe na sociedade brasileira. Rogamos por nossos membros para que venham a ser divulgadores em palavras e testemunho da presença do teu reino, que já está em nosso meio. Rogamos pelos povos indígenas e por todos os povos originários que há séculos estão sofrendo sob o peso de uma fé cristã pervertida, opressora, destruidora; Rogamos por tua criação, que está sofrendo com os desmandos e a arrogância dos seres humanos: nós, a quem instituíste como cuidadores, nos transformamos em carrascos. Rogamos, Deus Pai, cuide de nós, para que aprendamos com a pedagogia de Jesus, que se caracteriza pelo olhar amoroso por tua criação, pelo respeito ao outro e à sua cultura, pelo amor desprendido por tuas criaturas, pela opção profética contra todos os projetos de submissão e opressão. Por isso te pedimos e agradecemos em nome de Jesus Cristo. Ele nos ensinou a orar: Pai-Nosso Bênção: Que Deus toque nossos olhos para que possamos enxergar a sua criação como ele a enxerga. Que Deus toque nossos ouvidos para que possamos ouvir os lamentos e louvores de sua criação como ele os ouve. Que Deus toque nossa boca para que possamos levar adiante a sua mensagem e a ele louvar. Que Deus toque nossas mãos para que as possamos usar para fazer o bem como ele faz. Que Deus toque nossa vida para que ela venha a ser morada do Espírito Santo. Que Deus toque nosso coração para que possamos sentir como ele sente.
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Bibliografia BEYER, Hermann Wolfgang. Die Apostelgeschichte. Das Neue Testament Deutsch. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1959. COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos V. I: 1-12. Petrópolis: Vozes, Sinodal, Metodista, 1988. HAENCHEN, Ernst. Die Apostelgeschichte. Meyers Kritisch-exegetischer Kommentar. Göttingen: Vandenhoeck&Ruprecht, 1977.
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PRÉDICA: JOÃO 13. 31-35
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ATOS 11.1-18 APOCALIPSE 21.1-6
02 MAI 2010
Ângela Lenke O amor é, no fundo, uma questão de fé e por causa da fé o amor deixa de ser uma opção, porque ele já é resposta da fé. O novo mandamento de amarmos uns aos outros é um chamado de vida e discipulado cristão.
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Introdução
João 13.31-35 faz parte das palavras de despedida de Jesus, que iniciam no capítulo 13 e vão até capítulo 17, com a oração sacerdotal de Jesus. Os textos anteriores e posteriores tratam do serviço amoroso que devemos prestar uns aos outros, em humildade, “lavando os pés” e servindo os outros. Eles enfatizam igualmente que, na vida e no ministério de Jesus, pessoas o enfrentaram, como Pedro, e o traíram, como Judas. Essa traição levará Jesus à morte na cruz.
2
Exegese
V. 31 – Após ter indicado Judas como traidor, Jesus comunica à sua comunidade de discípulos que ele será glorificado. Essa glorificação, no entanto, tem um sentido inusitado, ou seja, ela implicará sua morte e ressurreição. Secularmente, interpretamos glorificação como boa fama, reputação, elogio. Aqui a exaltação de Jesus acontecerá porque ele dará sua vida para salvar os seus. V. 32 – A glorificação destina-se a Deus, contudo Deus será glorificado em Jesus Cristo. Assim percebemos a unidade entre o Pai e o Filho e, ainda, a profunda obediência do Filho ao Pai. V. 33 – Nesse versículo, sentimos o profundo carinho que Jesus tem por seus discípulos, pois os chama de “filhinhos”. É a expressão de Jesus que mais chama nossa atenção nesse versículo. Jesus não poderia chamar os discípulos de forma diferente, afinal ele os resgatou, ensinou, deu-lhes sentido de vida e os ensinou a servir. Ninguém poderia acompanhar Jesus dali em diante. Jesus demonstra sua vontade em levá-los consigo, mas ele precisa percorrer sozinho esse caminho de morte, ressurreição e glorificação. V. 34 – O que Jesus deixará a seus discípulos é o amor. Jesus os instrui a permanecer no amor. Jesus ensina o novo mandamento, que implica amar além das fronteiras, além do grupo social e familiar, além dos grupos de solidariedade
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existentes na época. O amor deverá ser o símbolo de pertença a Jesus Cristo e de unidade entre os discípulos. Por causa do amor, eles serão conhecidos por todos como discípulos de Jesus. Jesus permanecerá conhecido porque ele é o Alfa e o Ômega (Ap 21.6), e somente ele poderá fazer novas todas as coisas (21.5).
3
Meditação
Ninguém pode ensinar a amar se não ama! Ninguém pode pedir para que outros amem se não tem o mandamento do amor como prática diária! Por isso somente Jesus poderia pedir para amarmos uns aos outros. Afinal, o seu amor por nós significou sua morte. Essa morte, no entanto, é morte para vida: vida eterna e salvação dos pecados. O que mais chama a atenção nesse texto são a forma e o conteúdo das expressões de Jesus. Ele gostaria muito de levar junto os seus discípulos, porque esses o acompanharam no seu ministério, na comensalidade, nas curas e milagres, nas festas e nos campos, na companhia alegre das pessoas e nas discussões sérias com partidos políticos e grupos religiosos. Jesus esteve sozinho muitas vezes, mas também tinha com quem caminhar, repartir, conversar. Agora ele sente que chegou a hora de ser glorificado. Sente na pele a traição, contudo a glorificação é mais importante. Sua tarefa é mais importante, e a traição faz parte do processo para a glorificação ao Pai. Somos humanos e sentimos o que uma traição representa em nossa vida. Pode ser traição de amigos, de membros da igreja, de familiares, adultério. Assim entendemos o início do texto e compreendemos a situação de Jesus antes da sua morte. Ninguém pode ensinar a amar se não ama! Jesus chama seus discípulos de “filhinhos”. Em muitos lugares dos evangelhos, vemos expressões de carinho de Jesus a seus discípulos. Jesus tem autoridade para ensinar o novo mandamento porque ele amou de verdade, amou sem distinção, amou e deixou-se amar (por exemplo, quando a mulher lava os pés de Jesus com perfume, enxuga-os com seus cabelos e derrama óleo na cabeça de Jesus – Jo 12.1-8). Jesus tem autoridade para ensinar o novo mandamento porque ele amou mesmo os que o contradiziam, condenavam e faziam fofocas às suas costas. Isso não era apenas exemplo de paciência, mas de amor, porque eles não sabiam o que estavam fazendo. O novo mandamento não deve ser encarado por nós como algo que já sabemos e que estamos saturados de pregar. O novo mandamento é nossa marca enquanto discípulos de Jesus Cristo! É muito fácil pregar sobre o novo mandamento e não praticá-lo. Quantos na comunidade não são amados! Quantos têm problemas e nós apenas apontamos para eles como sendo “os problemáticos” da comunidade, não os aceitando assim como são! Se tivéssemos um pouco mais de amor, provavelmente ajudaríamos mais. Só mostraremos serviço na comunidade se amarmos de verdade o que fazemos, se amarmos as pessoas que nos foram confiadas e a nós mesmos. É muito fácil falar em amar uns aos outros. Quando olhamos para o banco ao lado e vemos aquela pessoa que falou mal de nós, simplesmente esquecemos o
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exemplo de Jesus, que continuou seu caminho e amou as pessoas até a última hora, mesmo quando falaram mal dele. Amar! Amar!Amar! Quantas vezes esse verbo nos foi ensinado! Desde pequenos, somos instruídos a amar: no Culto Infantil, no Ensino Confirmatório, no ministério. A Bíblia sempre aponta para o amor. Mas no cotidiano parece ser tão difícil praticá-lo. Por que complicamos tanto quando é apenas uma questão de seguir o exemplo de Jesus, questão de obediência àquele que mais amou e que mais pregou o amor em ações e palavras? As pessoas falam: “Como posso amar o vizinho que roubou o que era meu?”, “como amar a colega da OASE que falou mal de mim no grupo da terceira idade?”, “como amar aquele presbítero que sempre bate de frente comigo?”. Os discípulos de Jesus também tiveram que ser ensinados a amar. Marcos 10.35-45 revela uma competição, João 6 revela a falta de amor dos discípulos para com aqueles que seguiam Jesus e estavam famintos. Nós seremos eternos discípulos de Jesus. Amando também erramos. Servindo também erramos. Contudo a nossa forma de amar não pode ser como nós achamos que é amar, e sim segundo o exemplo de Jesus. Na verdade, somos muito desobedientes a Jesus Cristo, porque odiamos mais, servimos menos e amamos menos do que ele pede e ensina. O amor é, no fundo, uma questão de fé, e por causa da fé o amor deixa de ser uma opção, porque ele já é resposta da fé. O novo mandamento de amarmos uns aos outros é um chamado de vida e discipulado cristão. O amor, em sua prática, não é cego. Amarmos uns aos outros não significa praticar assistencialismo, porque então, sim, o amor seria cego. Receber e distribuir é muito fácil! Porque não será necessário envolvimento, e o centro das atenções não será a transformação e o crescimento mútuo no amor e na edificação integral. Amarmos uns aos outros implica demandar esforços, delegar tarefas, envolver-se em causas do reino, buscar incessantemente a transformação para a autonomia, servir por causa da fé, imitar o exemplo de amor segundo Jesus. O “amarmos uns aos outros” implica importar-se com o outro, saber manter distância para educar. O “amarmos uns aos outros” não existe porque é legal, porque é bonito vivermos em harmonia, mas porque é o mandamento que Jesus ensinou. É “novo” mandamento porque esse amor que Jesus ensina ultrapassa o muros da nossa consciência de sociedade, igreja, grupo social e comunidade. “Novo” por causa de Cristo: “Eis que se fizeram novas todas as coisas” (Ap 21.5), porque tudo o que Jesus ensinou e purificou “não é comum” (At 11.9). Amar verdadeiramente significa sacrifício. Como esse “novo mandamento” é praticado por você no cotidiano? Como sua comunidade vive esse mandamento? Você ama as pessoas que fazem parte do seu círculo social, comunitário, familiar?
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Imagens para a prédica
Recorri a livros que me auxiliassem em alguma imagem ou parábola. Contudo a melhor fonte é a Bíblia. Por isso achei oportuno lembrar as palavras de
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Jesus em Lucas 6.43-45 sobre a árvore e seus frutos. Essa comparação que Jesus faz é ótima para ilustrar a pregação deste dia. Se somos verdadeiros discípulos de Cristo, amaremos por obediência e porque temos um coração puro. Nenhum discípulo pode ser infrutífero. Somos árvores que produzem frutos e sementes de amor? Que tipo de árvore somos? Do que nosso coração está cheio? “... porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45b).
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Subsídios litúrgicos
A pregação deste dia e o culto todo poderão ser uma oportunidade para promover reconciliação, perdão e oportunidade para ir ao encontro de quem ainda não fomos, para dizer às pessoas o quanto as amamos. Além do gesto da paz, através de mútuos abraços, esse culto poderia contemplar outras dinâmicas, como por exemplo: fazer grupos para orar em conjunto; incentivar a família a dar-se as mãos e orar, pedindo para que se aceitem as diferenças nela existentes; pedir às pessoas para ir ao encontro de algum irmão ou irmã com quem menos têm contato ou em relação ao qual houve algum mal-entendido, para orar em conjunto ou darse um abraço. Jesus Cristo veio ao nosso encontro, amou-nos sem distinção e amou-nos gratuitamente.
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. Barueri, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. BRUNKEN, Werner. In: Proclamar Libertação, Volume XXIX. Ed. Sinodal, 2003. p.149-153. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, Volume II. São Paulo: Ed Hagnos. JUCKSCH, Alcides. Amor sem Fronteiras. Gramado: Editora Conhecer a Bíblia, 1995. LIEVEN, Guilherme. In: Proclamar Libertação, Volume XVII. Ed. Sinodal, 1991. p.121-125.
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PRÉDICA: APOCALIPSE 21.10,22-22.5
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JOÃO 5.1-9 ATOS 16.9-15
09 MAI 2010
Odair Braun
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Introdução
Atos 16.9-15 e João 5.1-9 são as leituras indicadas para este domingo. Observando-as com atenção, percebemos que o tema que se apresenta com relevância e insistência é a missão, ou seja, a necessidade de anunciar a Boa-Nova a todas as pessoas em todos os lugares e a transformação que isso pode significar na vida de pessoas. Esse anúncio da Boa-Nova transforma a dura realidade que nos envolve. Onde a Boa-Nova é “plantada” e acolhida, abrem-se portas e corações. Isso ocorreu em Atos 16.9-15, onde vemos um grupo de missionários chegar à casa de Lídia. A transformação é grande. A partir daquela casa surge a primeira comunidade cristã na Europa, e as portas para a expansão da Boa-Nova se ampliam e expandem. O texto do Evangelho de João 5.1-9 expõe a Boa-Nova em ação, ou seja, transformando vidas e situações. E, mais importante, fá-lo mesmo tendo que subverter uma regra posta e que não considerava a vida e a sua dignidade. A regra subvertida, no caso, foi a obediência ao sábado. Essa passagem apresenta Jesus de mãos estendidas e inteiramente voltadas à dignidade da pessoa. Aquele homem que enfrentava sofrimento há 38 anos não recebia nenhuma ajuda dos demais que frequentavam aquele lugar. Estava entregue à sua própria sorte. Jesus se aproxima. Fica condoído. Não aplica lições de moral. Não passa a vasculhar o passado daquele sofredor. Jesus somente pergunta: Você quer ficar curado? Isso ensina que, para transformar situações, basta ter desejo e disposição. A partir disso, o caminho fica facilitado. Esses textos resumem com vigor o que se apresenta na passagem de Apocalipse 21.10,22-22.5, ou seja, a descrição da Nova Jerusalém, um lugar renovado, totalmente transformado, sem dor e sem sofrimento. Essa transformação somente pode ser plenamente realizada quando a Boa-Nova é anunciada. E, para o seu pleno e amplo anúncio, é de suma importância a nossa disposição e decisão de participar. Assim, portas se abrem, situações se transformam, vidas são reconstruídas e renovadas. E isso, tal como indica Apocalipse 21.10, é a vontade de Deus.
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Exegese
Apocalipse é um livro de contrastes. Há dois impérios contrários, representados por duas cidades: Babilônia, 18.21, e a Nova Jerusalém, 21.2, e por duas
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mulheres: a grande prostituta, 19.2, e a noiva do Cordeiro, 19.7. O confronto entre esses contrastes é decididamente desigual. Babilônia e a prostituta são destruídas. A Nova Jerusalém e a noiva do Cordeiro, santa e fiel, são abençoadas. Nos capítulos finais de Apocalipse, o império do mal é derrotado. Nenhum traço dele é encontrado no novo céu e na nova terra. Talvez isso tenha sido feito para encorajar os crentes dos dias do autor de Apocalipse, pois Roma era como a grande Babilônia. Uma visão do iminente reino eterno de pureza e de libertação seria especialmente significativa para os crentes, cercados pela imoralidade, pelo paganismo e pela opressão romana. Mas o contraste é também um lembrete constante aos crentes de qualquer tempo: ou perseveramos em nossa fé e no estilo de vida cristão, ou nos afastaremos do reino de Cristo. Hoje, uma combinação de um projeto assistido pelo computador e com a realidade virtual pode mostrar aos engenheiros de construção exatamente como será um prédio ou qualquer outra edificação, mesmo antes da obra começar. Chama-se isso de tour virtual. Isso é essencialmente o que temos em Apocalipse 21.10,2222.5: um passeio virtual pela Nova Jerusalém. Na Nova Jerusalém, “o tabernáculo de Deus é com os homens” (Ap 21.3) de um modo imediato e físico. Esse “tabernáculo” é a presença de Deus, que foi anteriormente isolado na parte mais interna do templo, o Santo dos Santos. Somente o Sumo Sacerdote poderia entrar ali, e apenas ele poderia fazer a reparação dos pecados das pessoas no Dia do Juízo. O pecado não mais existe na Nova Jerusalém. A cidade santa é uma Cidade de Santos, pois onde Deus está, há santidade. Isso significa que não é mais necessário um templo (Ap 21.22), e não há necessidade alguma do sol ou da lua, “pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua candeia”. A glória de Deus excede qualquer esplendor terrestre. A única resposta apropriada é curvar-se em obediência (Ap 21.24a) e render-se à glória em adoração (Ap 21.24b; Ap 4.10-11). A Nova Jerusalém também será um novo Éden. O primeiro Éden tinha uma única árvore da vida (Gn 2.9, 3.22-24) e um rio que regava o jardim (Gn 2.10). Mas, na Nova Jerusalém, as pessoas irão desfrutar não apenas de um rio comum, mas do “rio da água da vida” (Ap 22.1). Também estará presente mais do que uma árvore da vida; um coletivo de árvores, “de um e de outro lado do rio”, 22.2. Elas darão frutos, não apenas numa estação, mas “a cada mês” e com uma abundância de “doze frutos, dando seu fruto de mês em mês” (22.2). Suas folhas serão para “a saúde das nações” (22.2; Ez 47.12). O rio também não irá apenas fluir “do Éden” (Gn 2.10), mas do próprio “trono de Deus e do Cordeiro” (22.1), direto no “meio de sua praça” (22.2). Algumas palavras que aparecem no transcorrer do capítulo 21 merecem uma breve análise para clarear o contexto de nossa passagem. Nova: em qualidade, em contraposição com o que está gasto ou arruinado. Neós, que também se traduz como “novo” no NT (Mt. 9.17; 1Co 5.7), refere-se a algo novo no tempo. Com a palavra kainós o autor de Apocalipse quis destacar que os novos céus e a nova terra serão criados com os elementos purificados dos céus antigos e da antiga terra e que serão diferentes. Os novos céus e a nova terra são uma recriação, e não uma criação do nada.
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A cidade santa: Na antiga Jerusalém estava o templo, onde Deus podia manifestar sua presença a seu povo (1Rs 8.10-11; 2Cr 5.13-14; 7.2-3), como o tinha feito desde a porta do tabernáculo no deserto (Êx 29.43-46). A cidade de então foi descrita como “santa” (Mt 27.53); mas com o curso do tempo a degradação espiritual do povo chegou a ser tão grande, que Jesus qualificou o templo de “gruta de ladrões” (Mt 21.13) e predisse a queda da cidade (Mt 22.7). Mas Deus promete uma nova cidade. Dor: Uma grande parte do sofrimento e da angústia da vida é resultado da dor que nos assola; mas a dor será completamente eliminada daquele formoso mundo do amanhã. As primeiras coisas, isto é, as condições atuais passarão. Fiéis e verdadeiras: Isto é, autênticas e dignas de confiança. As palavras e as promessas de Deus são completamente dignas de confiança, e portanto pode-se estar seguro delas (22.6). Ao que tiver sede: O verdadeiro crente não tem desejos de acumular bens neste mundo, de ser rico em riquezas terrenas. Seu anseio é beber abundantemente das riquezas que provém de Deus. O que vencer: O cristão vive a vida vitoriosa pelo poder do Espírito Santo. Incrédulos: Os que carecem de fé, ou seja, que não permanecem fiéis. A glória de Deus: Refere-se à presença permanente de Deus entre seu povo através da eternidade. A glória que revela sua presença nunca se apartará da Nova Jerusalém.
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Meditação
A igreja cristã vive e se expande a partir do empenho de homens e mulheres missionários. Essas pessoas atuam desde os tempos de Jesus. Muitos desses enfrentaram problemas e dificuldades ao longo de sua atuação. Atos 16.6-15 fala de uma situação em que a missão estava impedida. O texto fala de Paulo e seu grupo, que viajava por muitos lugares, anunciando o evangelho. Nessas viagens, inúmeras pessoas se voltaram à fé em Deus. Mas houve um dia em que o grupo de Paulo se deparou com problemas. Atos 15.39 nos diz que “houve entre eles tal desavença que vieram a separar-se”. Isso parece assustador, afinal sempre achamos que pessoas da igreja, inspiradas e orientadas pelo Espírito Santo, não se deparam com tais situações. Mas desavenças acontecem. O importante é ter capacidade de fazer as pazes. Atos têm um tema central: Deus quer ver a sua palavra anunciada. Deus quer que todas as pessoas sejam ajudadas para que conheçam e reconheçam a verdade que vem de Deus. O Espírito Santo de Deus, na passagem em questão, demonstra a sua força e graça sob três formas: 1) A porta aberta: Deus quer que a mensagem cristã seja conhecida. Isso foi compreendido pelo grupo missionário do qual fala o texto. Trabalhavam de modo desenfreado e viajavam para todos os lados. Anunciar o evangelho era a sua missão. E, de repente, o caminho estava obstruído. Para anunciar o evangelho é preciso estar voltado para o Senhor da missão. É importante não estar preocupado com as coisas espetaculares, mas com o fato de ouvir Deus e o que ele quer falar.
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No ocorrido com Paulo, percebemos que o Espírito Santo atua de acordo com a vontade de Deus. O texto diz: “Assim que teve a visão, imediatamente procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para anunciar o evangelho” (v. 10). Paulo não perguntou se Deus lhe falava em sonhos. Ele se dispôs a seguir o chamado. Dispôs-se a entrar pela porta que Deus lhe abria. Dessa forma, destaca-se a necessidade de estar disposto e decidido a seguir o caminho de Deus. Na visão tida por Paulo, o chamado do macedônio equivale ao grito por ajuda de tantos que se encontram em dificuldades. 2) Um coração aberto: Seria muito interessante poder saber como foram os preparativos para a viagem, o que esse grupo falou e discutiu; poder saber o que eles conversaram e quais os planos que fizeram e quais as dúvidas com que se depararam. Contudo o texto em questão não dá informações a respeito. E aqui há um ponto de grande importância. O texto diz que eles “permaneceram naquela cidade por alguns dias” (v. 12). Certamente ficaram ali para descansar. E certamente aproveitaram esse tempo para a observação. Observaram as pessoas, os costumes, seu trabalho, seu dia-a-dia, seu jeito de pensar e falar. Aquele que quer ser instrumento para levar Deus às pessoas deve, antes de qualquer coisa, ser parceiro de diálogo, parceiro de caminhada. Ouvir não é algo que se dá somente com os ouvidos, com o concordar da cabeça, mas se dá também por meio do coração. Uma das mulheres que se encontrava próxima ao rio, chamada Lídia, ouviu a pregação de Paulo e seu grupo. Assim ela se tornou uma nova pessoa. Alcançou plena confiança em Jesus e abriu a sua vida para ele por meio do batismo. Houve, na vida e na família de Lídia, uma profunda transformação. 3) Uma casa aberta: Após o batismo, a casa de Lídia é colocada à disposição daquele grupo missionário. Na casa de Lídia passam a morar, por alguns dias, os missionários que estavam com Paulo. Na casa de Lídia forma-se um grupo de comunhão, no qual se cantava, liam-se as Sagradas Escrituras, havia tempo para o agradecimento e para oração e se celebrava a Ceia. Passou-se a ter tempo para Deus e para os seus semelhantes. O grupo missionário, após alguns dias, seguirá viagem para outras vilas e cidades anunciando a Boa-Nova. Mas uma preciosa semente permanecerá. Lídia e sua família e também a sua casa ficam abertas para a comunhão. É uma pequena semente plantada. Essa pequena semente germinou e veio a se constituir na primeira comunidade cristã da Europa. Sob os seus galhos muitos encontraram e continuarão encontrando abrigo. A atuação de Deus transforma plenamente a vida de Lídia e de toda a sua família. O mesmo pode ser observado em relação ao enfermo deitado próximo a um tanque onde ocorriam curas, desde que a pessoa chegasse até as ondas das águas. Sozinho ele não era capaz de tal. Fez-se necessário uma mão estendida; no caso a mão de Jesus. Em breves instantes, 38 anos de sofrimento são postos de lado. Jesus age com firmeza e determinação. Quebra a regra que determinava que no sábado nenhuma atividade deveria ser exercida. Ele o faz em prol da vida e da dignidade de pessoas. Se Jesus agiu assim, não menos se espera de nós. A nossa ação deve estar voltada e preocupada com o bem-estar das pessoas. A nossa ação deve estar voltada para a edificação da “Nova Jerusalém”, que nos é apresentada em Apocalipse 21.10,22-22.5.
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Apocalipse apresenta uma imagem fantástica, que inicialmente estava voltada para pessoas em sofrimento e perseguição. Por isso o texto em questão é também profundamente consolador. Isso transparece na descrição do paraíso perdido, que é retratado no texto em análise. A água da vida, assim como as árvores dos frutos da vida, aponta para a saúde de povos e nações. A Nova Jerusalém é sinal de que o caminho de Deus com este mundo ainda não está concluído. A Nova Jerusalém quer ser um indicativo do caminho a ser por nós trilhado. Confiar e desejar ver essa Nova Jerusalém equivale a fortalecer o nosso coração e firmar os nossos passos no sentido de cada vez mais anunciar a Boa-Nova de nosso Senhor e Redentor. A Nova Jerusalém para a qual nos voltamos, o reino de Deus, será de paz e harmonia.
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A caminho da pregação
Celebramos hoje o sexto domingo após a Páscoa. A ressurreição, celebrada no Domingo da Páscoa, é algo que deve fazer parte de nosso dia-a-dia, deve estar em nossas entranhas e, na medida do possível, deve ser vivenciado por cada qual em seu contexto. O texto de pregação tem início em Apocalipse 21.10, no qual se observa e insiste na obra de Deus que vem para o meio de nossa história, proporcionando transformação, a fim de cumprir a vontade de Deus e o desejo de Cristo. Os textos acima observados apoiam-se fortemente no chamado para o anuncio da Boa-Nova. E somente a Boa-Nova poderá proporcionar transformação integral, eliminando as trevas e a escuridão. Somente a plena divulgação da Boa-Nova fará o povo andar na luz, proporcionará partilha, igualdade e solidariedade (Ap 21.24). Somente a Boa-Nova amplamente propagada poderá eliminar a mentira e o engano, fazendo a glória de Deus brilhar com grande vigor (Ap 21.23). Assim sendo, cabe destacar que a divulgação da Boa-Nova é a tarefa maior da comunidade cristã. Para esse aspecto deverá ser apontado na pregação deste domingo. Mediante as considerações apresentadas, a estrutura da pregação poderia seguir os seguintes passos: 4.1 – O mundo em que vivemos: suas dificuldades e desafios: De uma forma breve apontar para as dificuldades que são enfrentadas todo dia: violência e desunião, falta de trabalho, falta de solidariedade, individualismo, falta de sentido e orientação etc. e as consequências oriundas dessa realidade. Estruturar de tal forma que fique evidente que cada dificuldade é um desafio para o corpo de Cristo/comunidade e para cada cristão individualmente. 4.2 – Esperança: realidade ou ilusão? Apesar das dificuldades vigentes, há esperança. A Boa-Nova pode transformar toda essa realidade, tal como observado na passagem do Evangelho de João. Podemos ter esperança, porque a palavra de Deus transforma situações. Apontar para a passagem de Atos em que a casa de Lídia foi profundamente transformada, tornando-se um ambiente a partir do qual a Boa-Nova penetrou por novas regiões. Igualmente para fazer a passagem para o
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terceiro ponto da pregação, apontar para o descrito em Apocalipse, que descreve uma realidade nova e profundamente transformada, permeada pela paz e harmonia. Nesse ponto, deve-se enfatizar que, apesar das dificuldades, a esperança, quando centrada em Deus, não é uma ilusão. Ela se torna realidade. 4.3 – A nova criação de Deus: Cada membro do corpo de Cristo, cada cristão e cristã, ao se empenhar na divulgação da Boa-Nova será um auxiliador na sua difusão. E para tal deve ser frisado: cada qual deve dispor de seus dons e capacidades. Sob esse item, poder-se-á inclusive fazer uma ponte para a importância da contribuição financeira com a sua comunidade e o que isso pode proporcionar. A tônica desse ponto deve girar em torno de que pequenos gestos e sinais, pequenas pedras colocadas, são essenciais no resultado final da obra. Aquilo que ocorreu na casa de Lídia mais uma vez pode servir de exemplo.
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Subsídios litúrgicos
Oração de coleta: Amado Senhor, Nós todos ansiamos pela cidade santa, a Nova Jerusalém, na qual não haverá mais lágrimas nem lamentos, porque o Cordeiro de Deus nela governa; na qual não haverá mais dores nem morte, porque nela se encontra a morada de Deus; na qual não haverá mais velhas ordens, porque tu fazes tudo novo; na qual não haverá mais noite, porque tua glória ilumina a cidade; na qual as portas não serão cerradas, porque não haverá mais medo e escuridão; na qual os rios cristalinos da vida correm pela cidade áurea e na qual a árvore da vida produz frutos o ano inteiro. Nós não sabemos quando a Nova Jerusalém será realidade para nós. No entretempo, Senhor, queiras abençoar nossos pequenos e grandes esforços em nossas cidades – de criar miniaturas da Nova Jerusalém. Ajuda-nos a lutar contra tudo que impede a aceitação da cidade de Deus na terra. (GNANABARANAM, Johson. Senhor, renova-me: reflexões. São Leopoldo: Sinodal, 1993. p. 83)
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Ilustração para a pregação: Falar da Nova Jerusalém, assim como falar e anunciar a Boa-Nova em todos os lugares, nada mais é do que buscar manter a esperança acessa e radiante. A esperança será a força motriz do atuar diário e constante, seja das comunidades, seja dos indivíduos que se colocam atuantes, a caminho do novo, da Nova Jerusalém. Uma ilustração para a pregação pode ser a história que segue: Quatro velas estavam queimando calmamente. O ambiente estava tão silencioso, que se podia ouvir o diálogo que tratavam... A primeira disse: “Eu sou a Paz! (...) Apesar da minha luz, as pessoas não conseguem me manter, acho que vou apagar”. E diminuindo devagarzinho, apagou totalmente. A segunda disse: “Eu me chamo Fé! (...) Infelizmente sou muito supérflua. As pessoas não querem saber de Deus. Não faz sentido continuar queimando”. Ao terminar sua fala, um vento bateu levemente sobre ela, e essa acabou se apagando. Baixinho e triste a terceira vela se manifestou: “Eu sou o Amor! (...) Não tenho mais forças para queimar. As pessoas me deixam de lado, só conseguem se enxergar, esquecem-se até daqueles à sua volta que as amam”. E sem esperar mais nada, apagou-se. De repente, entrou uma criança e viu as três velas apagadas. “Que é isto? Vocês deviam queimar e ficar acesas até o fim”. Dizendo isso, começou a chorar... Então a quarta vela falou: “Não tenhas medo, criança... Enquanto eu ainda queimar, podemos acender as outras velas... eu sou a Esperança!” A criança com os olhos brilhantes pegou a vela que restava e acendeu as demais... “QUE A VELA DA ESPERANÇA JAMAIS SE APAGUE DENTRO DE NÓS.” Confissão de pecados: A palavra de Deus põe a nossa vida às claras. Por meio dela somos confrontados com atos e falhas que cometemos e que em nada agradam nosso Criador e que igualmente ferem e causam dor ao nosso próximo. Por isso, inicialmente em silêncio, cada qual confessa as suas falhas, os seus pecados em silêncio e na continuidade o celebrante conduz a oração que segue: Deus bondoso e fiel. Cumpriste e continuas cumprindo as tuas promessas. Nós, porém, muitas vezes duvidamos dessa tua fidelidade. Nós, porém, muitas vezes nos apresentamos com fé fraca e duvidosa. Nós agimos muitas vezes como se a realidade que nos cerca nada tivesse a ver conosco e nos omitimos diante dos desafios, das dificuldades, da falta de paz, harmonia e solidariedade. Em nossa vida, muitas vezes nos portamos e agimos como se estivéssemos num campo de guerra. E assim esquecemos de buscar a tua Boa-Nova, esquecemos que devemos estar em busca da Nova Jerusalém. Por isso, na tua presença clamamos: Perdoanos, Senhor, os nossos pecados. Amém. Anúncio da graça: Então vi um novo céu e uma nova terra. O primeiro céu e a primeira terra desapareceram, e o mar sumiu. E vi a Nova Jerusalém que descia do céu. Ela vinha de Deus (Ap 21.1). Agora a morada de Deus está entre os seres humanos. Ele enxugará dos olhos deles todas as lágrimas. Não haverá mais morte, nem
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tristeza, nem dor e nem choro. As coisas velhas já passaram (Ap 21.3b-4). Diante dessa palavra e da sincera confissão de nossas falhas, renovamos a nossa fé, confiança e esperança. Diante dessa palavra, os nossos pecados são perdoados. Amém.
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PRÉDICA: MATEUS 28.16-20
ASCENSÃO DO SENHOR
ATOS 1.1-11 OU 2 REIS 2.9-18 APOCALIPSE 1.4-8
13 MAI 2010
Scheila dos Santos Dreher
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Introdução
Do texto previsto para a pregação neste dia da Ascensão do Senhor Jesus Cristo extraiu-se o tema da IECLB no ano de 2001 (“Ide, fazei discípulos”). Isso significa que as comunidades já se ocuparam, certamente naquele ano, com esse texto em cultos e, provavelmente, também no estudo bíblico em grupos específicos. Na ocasião, o lema bíblico indicava o objetivo do “Ide”: “para que tenham vida... em abundância” (Jo 10.10). Lembro, ainda, que em duas ocasiões já se escreveu sobre esse texto no Proclamar Libertação (X e XXX). É a primeira vez, no entanto, que ele vem associado à Ascensão. Proponho, portanto, que nos debrucemos sobre Mateus 28.16-20 à luz, especialmente, de Atos 1.1-11, que é propriamente o testemunho da Ascensão de Jesus. O culto no Dia da Ascensão acontece entre a Páscoa e o Pentecostes. O texto de Atos 1.1-11 apresenta os três momentos: dá testemunho do Cristo que “se apresentou vivo” aos discípulos, “com muitas provas incontestáveis [...] durante quarenta dias” (At 1.3). Em sequência, anuncia a vinda do Espírito Santo: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” (At 1.8). Finalmente, apresenta o momento “atual”: “E, estando eles com os olhos fitos nos céus, enquanto Jesus subia, [...] lhes perguntaram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu, assim virá do modo como vistes subir” (At 1.10s). O segundo texto indicado como leitura, Apocalipse 1.4-8, enfatiza a preexistência de Cristo e sua eternidade: o Senhor Jesus que agora sobe aos céus e que virá novamente é o mesmo que “é, que era e que há de vir” e, por isso, tem autoridade para enviar os discípulos a todas as terras e a todos os povos com a missão de dar testemunho do seu evangelho.
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Exegese
É de comum acordo que nenhum dos assim chamados “quatro evangelhos” foi escrito imediatamente após os fatos e os testemunhos em questão. Isso significa que o que se passou com Jesus e em torno dele é descrito, nos evangelhos, à luz dos acontecimentos e da vivência de uma comunidade ou pessoa algum tempo
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depois. Em outras palavras: a vida e os ensinamentos de Jesus a respeito do reino de Deus, relatados nos evangelhos, foram costurados com a experiência e a compreensão da própria comunidade ou pessoa que fez a redação. Ela compilou alguns materiais já existentes e também propôs releituras das Escrituras (AT) e fez tudo isso à luz do anúncio e da prática de Jesus. No caso da comunidade de Mateus, ao que tudo indica, já circulavam em seu meio o Evangelho de Marcos e o Evangelho dos ditos de Jesus (Q); esse último se perdeu, embora seja perceptível na comparação dos ditos de Jesus que se encontram nos evangelhos de Mateus e Lucas e não se encontram no Evangelho de Marcos. O que se sabe sobre o Evangelho de Mateus e a comunidade que está por trás dele? Não muito! Provavelmente esse evangelho tem sua origem em torno do ano 85 d.C., ou seja, depois da destruição de Jerusalém pelos romanos no ano 70. Por causa do massacre e da destruição do templo de Jerusalém, muitas pessoas fugiram da região e buscaram reconstruir sua vida em outros lugares. Ao que tudo indica, esse é o caso da comunidade na qual nasceu o Evangelho de Mateus. Ela era formada, em grande parte, por cristãos provenientes do judaísmo, que se entendiam na continuidade da história do povo de Israel, como aponta a genealogia no início do evangelho. Isso significa duas coisas: a vida do dia-a-dia no seio dessa comunidade estava permeada pela cultura judaica; para além disso, no entanto, ao mesmo tempo em que as Escrituras (AT) foram constantemente citadas nesse evangelho – algo comum dentro da prática judaica –, elas foram relidas à luz da Boa-Nova do evangelho de Jesus Cristo. Faz-se relevante relembrar, inicialmente, o contexto de construção do Evangelho de Mateus, porque a busca pela interpretação de um texto bíblico precisa, primeiramente, perguntar pelo sentido desse texto para as pessoas que se ocuparam com ele, tanto no aspecto redacional quanto como primeiras ouvintes, para depois fazer o exercício de atualizá-lo. Por exemplo: O povo de Israel encontravase sob domínio estrangeiro, como tantas vezes ao longo de sua história. Certamente a concepção de ser povo eleito/escolhido de Deus restaurava sua dignidade e não os deixava desanimar. A compreensão de ser nação escolhida era seu tesouro (1Cr 17.21; Is 49.3; Sl 89.1-4). Diante disso, como devem ter soado, para o grupo de discípulos mais próximos a Jesus, suas palavras: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações...” (Mt 28.19)? Como “abrir mão” de algo que lhes era tão precioso? Como superar um certo “orgulho nacional” e incluir outros povos e nações sob o “guarda-chuva” do amor e da salvação, oferecidos por graça pelo único Deus através da morte e ressurreição de Jesus Cristo? Que rupturas culturais e religiosas se fizeram necessárias a esse grupo de discípulos e a tantos outros seguidores e seguidoras de Jesus que também atenderam a seu chamado? A comunidade de Mateus certamente já estava ensaiando timidamente o imperativo de Jesus à medida que outras pessoas, não-judias, iam sendo incluídas em seu meio. Aliás, o fato de ela existir, provavelmente na Síria, revela que a ordem de Jesus estava acontecendo. Quão profundamente essas palavras de Jesus devem ter impulsionado essa comunidade a uma nova prática de vida e fundamentado sua atuação missionária! Se com a visita dos sábios do Oriente ao menino Deus nascido em Belém o anúncio da salvação estendeu-se a outros povos, agora, com a
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morte, a ressurreição de Jesus e o envio de seus seguidores e seguidoras, a igreja (comunhão das pessoas batizadas em nome do trino Deus) foi definitivamente incumbida de ser testemunha e missionária. Segundo Leonhard Goppelt, encontramos em Mateus 28.16-20 três momentos: a exaltação de Jesus através da ressurreição, o envio e a promessa de auxílio (p. 249). Num primeiro momento, os discípulos (no caso, o grupo mais próximo de Jesus) dirigem-se à Galileia, para o monte que Jesus lhes designara (Mt 28.16), segundo a orientação que receberam da parte de Maria Madalena e da outra Maria, ambas testemunhas da ressurreição (Mt 28.1,10). Na tradição do povo de Israel, “monte” é lugar de revelação de Deus. Foi no monte Sinai que Moisés recebeu de Deus os Dez Mandamentos (Êx 19.18ss); foi no alto de um monte que aconteceu a transfiguração (Mt 17.1ss). Além disso, chama a atenção o fato de que o monte em questão fica na Galileia, região cujo povo era olhado com suspeita pelos religiosos judaicos por entender que ali não se observava com seriedade a lei judaica. Na Galileia, Jesus passou sua infância; da Galileia, terra menosprezada, vem o enviado de Deus; na Galileia, Jesus envia os discípulos com a missão de fazer conhecida a todos os povos a salvação que é oferecida por parte de Deus através da sua morte e ressurreição. Jesus encontra-se com os discípulos, portanto longe de Jerusalém – centro da religião judaica. O fato de que os discípulos se dirigiram até o lugar indicado revela a busca pelo fim da angústia, da insegurança e pela superação do medo que certamente tomara conta do grupo depois da prisão e da morte de Jesus; ao mesmo tempo, há certamente aí o desejo de estar novamente com Jesus. A dúvida, o medo, a saudade, o desejo de encontrar-se com Jesus e a necessidade de “ver para crer” certamente os acompanharam. O encontro com Jesus foi o encontro com o Ressurreto. O mesmo Jesus que eles, a distância, viram pregado à cruz agora estava diante de seus olhos. Ele venceu a morte! Nesse momento, talvez nós esperássemos reações de euforia, de alívio e manifestações de glória a Deus da parte de todo o grupo. O encontro com Jesus, no entanto, provocou reações diversas: alguns o adoraram; outros, porém, duvidaram (Mt 28.17). Num segundo momento, revela-se a autoridade de Jesus e, com autoridade, ele envia os discípulos a todas as nações. Jesus é o enviado de Deus, e o plano salvífico de Deus cumpre-se em sua totalidade em seu enviado. Volto a uma questão abordada anteriormente: o povo de Israel é um povo que vive constantemente subjugado a outros povos. O povo estava, naquele momento, sob o poder do Império Romano. Na crucificação de Jesus, os discípulos viram, bem de perto, a extensão desse poder. Agora, junto a Jesus, ouvem de sua boca que ele, sim, tem “toda a autoridade”, não o imperador e os governadores instituídos por ele em cada região. O autor do Apocalipse testemunha a respeito da autoridade de Jesus dizendo ser ele o Alfa e o Ômega, aquele que é, que era e que há de vir (Ap 1.4-8). Sua autoridade não foi imposta pela força, mas vem de sua preexistência e de sua eternidade e, especialmente, da vitória sobre a morte. Ainda que o poder do Império Romano seja tremendamente assustador (esse deve ser, também, o sentimento da comunidade de Mateus, que se constituiu como tal longe de Jerusalém), em Cristo há a certeza de que o poder de Deus ultrapassa qualquer medida. Com a autoridade de ressurreto, portanto, Jesus envia os discípulos às nações com três
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tarefas interligadas: fazer discípulos, batizando-os e ensinando-os a guardar o que ele lhes ordenara (Mt 28.19-20a). Para esse pequeno grupo de discípulos e o grupo maior de seguidores e seguidoras de Jesus, que abraçam a missão para a qual foram incumbidos por Jesus, torna-se fundamental o fato de que o próprio Jesus se deixou batizar. Pelo Batismo, disse Jesus, Deus nos alcança a salvação (Mc 16.16). Nessa sequência indicada por Jesus (fazei discípulos batizando-os...), há que se ter em mente que, ali onde Jesus Cristo não era conhecido, era preciso primeiro anunciá-lo para depois convidar ao Batismo. Isso a comunidade primitiva tomou como prática inicialmente (veja “Livro de Batismo”, p. 16). Assim também aconteceu em Pentecostes (At 2). Aos poucos, pessoas já batizadas, que já participavam do corpo de Cristo, que é a igreja, traziam seus filhos e filhas pequenos para receber o Batismo e o aprendizado do discipulado acontecia na convivência familiar e junto à comunidade de fé (educação cristã contínua), após o ato do Batismo. Batismo foi e é, em todos os tempos, graça, presente de Deus, recebido sem qualquer merecimento. O Batismo passou a ser a porta de entrada para a igreja – comunhão das pessoas batizadas. A ordem clara de Jesus:“Ide, fazei discípulos” implica desinstalar-se. A BoaNova do evangelho não é apenas para um grupo de pessoas ou um povo; seu destino é chegar a “todas as nações”. Nessa ordem, Jesus invalida a primeira, na qual dizia “não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10.5b-6). A comunidade de pessoas batizadas guarda o que Jesus ensinou não de forma estática, mas vivencial, isto é, ela exerce o discipulado do qual foi incumbida e pelo qual é capacitada através do Batismo no dia-a-dia, à medida que pratica o amor que recebe de Deus no seguimento a Jesus: na inclusão, na busca pela justiça, na proposição de ações diaconais, no exercício do perdão e da reconciliação, no exercício do poder compartilhado e não-autoritário, no envolvimento transformador junto à sociedade que a cerca. No cumprimento da missão (fazer discípulos, batizando-os e ensinando-os a guardar o que Jesus lhes ordenara), os discípulos e as discípulas não seguirão sozinhos/as – palavra de Jesus. Jesus promete estar com aqueles que ora recebem a incumbência missionária e, por conseguinte, com toda a igreja que, a partir desse envio, torna-se, por excelência, missionária. Esse é o terceiro momento do texto.
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Meditação
A partir do texto de Mateus ou da relação desse com o texto de Atos, e mesmo com o de Apocalipse, poder-se-ia optar por direcionar a pregação para vários temas, entre eles Batismo, Trindade (autoridade), Missão, Formação Cristã Contínua, Discipulado Permanente; o risco, no entanto, é “usar” o texto como porta de entrada para um desses temas e não “explorar” o texto em si. Com a preocupação de manter o texto bíblico como foco principal, sugiro alguns aspectos que poderiam ser trabalhados na pregação, como atualização, a partir dos três momentos apresentados anteriormente:
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1 – O “Ide” somente é possível depois da inclusão no corpo de Cristo (igreja) pelo Batismo e pela ação do Espírito Santo. Os discípulos acolheram o convite de Jesus dirigido a eles através de Maria Madalena e da “outra” Maria e foram ao monte indicado na Galileia. Ao se encontrarem com Jesus, aí sim criou-se a possibilidade de serem enviados. Nós só podemos ser enviados por Deus ao mundo como seus instrumentos se aceitarmos o convite de, primeiramente, ir a seu encontro. Ele nos chama! Em termos bem concretos: Pelo Batismo somos incluídos e incluídas na grande família de Deus. Pela ação do Espírito Santo em nós somos capacitados e capacitadas para responder ao amor de Deus, colocando em prática o mandamento do amor. Nossa participação nos cultos, em grupos da comunidade, em celebrações, em cursos de formação faz-se necessária para que cresçamos na compreensão da palavra de Deus, para que nos fortaleçamos mutuamente, para que dialoguemos sobre a realidade maior que nos envolve como família, comunidade e sociedade e, assim, estejamos aptos a propor ações transformadoras. Sem aceitar o convite de Jesus e ir a seu encontro, o “ide” torna-se distante de nós. 2 – O texto de Atos dos Apóstolos apresenta-nos os discípulos “com os olhos fitos no céu, enquanto Jesus subia” (At 1.10). O “Ide” de Jesus quer provocar reação contrária ao êxtase que pode tomar conta da gente no encontro com Jesus ou diante da manifestação do seu poder. O “Ide” de Jesus sinaliza, isto sim, para que não fiquemos parados, “olhando para o céu”, inertes... É tempo de missão: “Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” (At 1.8). Fazer discípulos, ensinar a guardar o que Jesus nos ordenou, ser testemunha, todas essas expressões indicam movimento. Todas essas expressões são ações e fazem parte da nossa missão como pessoas batizadas. De 2008 a 2012, o Plano de Ação Missionária/PAMI da IECLB apresenta como lema “Missão de Deus – nossa Paixão”. A esse respeito está escrito no texto-base do PAMI: “Como a missão pertence à essência do ser igreja, ela deve tornar-se perceptível nas dimensões fundamentais da vida de cada comunidade, bem como na vida de cada pessoa cristã. A missão integral de Deus, compreendida como a comunicação do amor de Deus, dá-se no testemunho missionário da fé (evangelização), na vivência concreta do Corpo de Cristo (comunhão), no agir restaurador e curador (diaconia), na celebração do amor divino (liturgia). É aí, portanto, que a paixão de Deus pela humanidade se revela ao mundo através da vida da igreja” (p. 35). Dessa forma, a IECLB aponta eixos fundamentais através dos quais a missão de Deus (Jo 10.10), seu propósito para este mundo, vai acontecendo também (mas, nunca, unicamente) através da ação da igreja, quando o “Ide” é assumido. O Culto de Ascensão acontece, neste ano, no dia 13 de maio. Em 13 de maio de 1888 foi assinada a Lei Áurea pela princesa Isabel, abolindo a escravatura no Brasil. Assumir o “Ide” também significa, certamente, buscar a libertação de tudo o que impede que o propósito de Deus – vida em abundância – aconteça entre nós. A primeira Páscoa (libertação da escravidão no Egito) e a segunda Páscoa (libertação definitiva da morte para a vida mediante a ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo) conduzem-nos pela busca da Páscoa hoje: libertação de uma fé que
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não se alimenta na comunitariedade, mas é vivenciada apenas no êxtase e acontece descomprometida com a vida da outra pessoa; libertação da busca por bem-estar apenas individual; libertação do que consome nossa energia, tempo e trabalho (consumismo desenfreado), mas que não satisfaz; libertação da arrogância fundamentada na raça, na religião, na confissão religiosa, no partido político, na classe econômica, no gênero, que não constrói relações, antes cria divisões e situações excludentes. Os discípulos e, por consequência, toda a igreja foi e é enviada a todos os povos e nações. É Ascensão: O nosso Senhor sobe aos céus, isto é, está em todo lugar onde sua Palavra é pregada e vivida, conforme diz o reformador Martim Lutero; nossos olhos não podem ficar voltados para as alturas, mas precisam se voltar para aqueles e aquelas que foram o alvo dos olhos de Jesus. 3 – Não seguimos sozinhos e sozinhas como missionários e missionárias que somos desde o nosso Batismo. Cristo segue conosco! O mesmo Cristo que, com o Espírito Santo e com o Criador – Pai e Mãe –, existia antes de todas as coisas e permanecerá por toda a eternidade. Ainda que em nós haja receio e temor diante da missão da qual somos incumbidos, a certeza da presença de Cristo junto a nós não nos deixa desanimar.
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Imagem para a prédica
Uma canção que se utiliza no trabalho com crianças, da autoria de Harold Deal e Henry Batells: 1. Posso ser um missionariozinho, se falar de Cristo aos companheirinhos. Posso trabalhar em minha terra. Manda-me, pois, Senhor! 2. Não preciso atravessar os mares para dar aos outros novas salutares. Posso dar exemplo e amor aos outros, que meu Senhor mandou. 3. Hei de orar e trabalhar fielmente. Caso Deus me chame, seguirei contente para os campos que estão esperando: Dispõe de mim, Senhor!
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Subsídios litúrgicos
Confissão de culpa: Bondoso Deus, como comunidade chegamos a ti com humildade porque reconhecemos que precisamos de teu perdão. A ti confessamos a nossa fraqueza
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no cumprimento da missão da qual fomos incumbidos desde o nosso Batismo. Em nosso dia-a-dia, muitas vezes, não atendemos a teu convite e não participamos efetivamente dos espaços criados na comunidade que procuram proporcionar comunhão, que visam ao fortalecimento da fé e ao engajamento na transformação de situações que machucam e excluem. Outras vezes, temos buscado nos relacionar contigo, com “os olhos fitos no céu”, mas não entendemos que tu nos queres junto ao irmão e à irmã na busca por vida em abundância. Reconhecemos que a nossa ação missionária precisa ser, certamente, mais decidida, objetiva e comunitária. Reconhecemos que precisamos de ti, sim, todos os dias, ao nosso lado, em todos os tempos. Por isso te pedimos: Por tua graça, ó Deus, ouve-nos, perdoa-nos e renova-nos! Kyrie eleison: Sugiro, no momento do Kyrie, perguntar à comunidade o que tem trazido sofrimento às pessoas e a toda a criação ao nosso redor, por exemplo em nossa cidade. Podem ainda ser lembradas situações longe de nós que acompanhamos durante a semana pelos meios de comunicação. Após reunidos os lamentos/as dores do mundo, sugiro cantar “Kyrie Eleison”, da autoria de Rodolfo Gaede Neto. Glória: Porque Deus perdoa os nossos pecados, porque ele conta conosco, ainda que, por vezes, duvidemos de sua presença junto a nós; ainda que, por vezes, não assumamos com coragem a missão da qual fomos incumbidos; porque Deus age, sim, no mundo em nós e através de toda a cristandade para transformar situações de sofrimento, “louvemos todos juntos o nome do Senhor”. (Segue o canto em questão) Bênção cantada com gestos: “Amor e paz”, da autoria de Edson Ponick. Divisão da canção por gestos: 1. Aquele que era, 2. que é, 3. e que virá, 4. esteja a tua volta 5. com seu amor e paz. Formar trios. As duas pessoas das pontas voltam-se para a que está no centro. A pessoa que está no centro não faz gesto algum. 1 – Braços sobem e descem, bem devagar, para trás, lembrando o passado; 2 – Braços descem devagar ao longo do corpo, lembrando o presente; 3 – Braços estendem-se para frente, lembrando o futuro; 4 – As duas pessoas das extremidades se dão as mãos, formando um círculo ao redor de quem está no centro e caminham a seu redor enquanto cantam; 5 – As duas pessoas das extremidades abraçam quem está no centro – “abraço-sanduíche”. No caso da comunidade estar nos bancos, na igreja, pode-se fazer a mesma bênção lado a lado, e o abraço une as pessoas também nesse sentido. Sugestão de canções: Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 124 (Deus está presente); Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 130 (Senhor, tu nos chamaste); Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 181 (Viver com Jesus é cantar); Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n°
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434 (Momento novo); Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 441 (Jesus Cristo, esperança para o mundo); Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 442 (A canção do Senhor).
Bibliografia DANIEL-ROPS, Henri. A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1991. p. 263-285. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. Tradução: Martin Dreher e Ilson Kayser – 3. ed. São Paulo: Teológica, 2002. IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL. Livro de Batismo/ Organização: Nelson Kirst – 2. ed. São Leopoldo: Oikos, 2008. VASCONCELLOS, Pedro Lima; SILVA, Rafael Rodrigues de. Feliz quem tem fome e sede de justiça: a Boa Notícia segundo a comunidade de Mateus. São Leopoldo: CEBI, 1999. p.45-56.
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PRÉDICA: ATOS 16.16-34
7º DOMINGO DA PÁSCOA
JOÃO 17.1a, 20-26 APOCALIPSE 22.12-14,16-17, 20-21
16 MAI 2010
Ervino Schmidt
1
Introdução
Estamos diante de uma narrativa fascinante, dinâmica e cheia de ação. Sobre esse texto encontramos várias interpretações em Proclamar Libertação. Todas destacam o caráter narrativo do texto. Quanto à delimitação da perícope, podemos encontrar duas indicações nos lecionários da igreja: uma mais breve, Atos 16.23-34, e outra mais extensa, Atos 16.16-34. Particularmente prefiro a mais extensa. Ela leva em conta o contexto maior, ou seja, ela integra o motivo que levou à prisão de Paulo e Silas. Sob o ponto de vista histórico, fez-se a observação crítica de que todo trecho (v. 24-34) originalmente teria sido uma narrativa independente, pois o v. 35, sem prejuízo de conteúdo, daria boa conexão imediata com o v. 23. Seria um episódio isolado, uma típica lenda, construída nos moldes de histórias gregas de libertação. A tradição teológica liberal do século 19 tinha muito interesse nesse tipo de análise. O trecho todo era visto como um conglomerado de inverdades, que precisava ser eliminado. A libertação por meio de um terremoto, a tentativa de suicídio do carcereiro e sua tão repentina conversão despertam até hoje a suspeita do historiador. Mas mesmo que os detalhes da narrativa nos pareçam estranhos, ela se refere a algo acontecido no tempo de fundação da comunidade em Filipos. A conversão do carcereiro devia ter sido comentário corrente e estar baseada em algo realmente ocorrido. O próprio apóstolo Paulo menciona o episódio da prisão em 1 Tessalonicenses 2.2. Fala do sofrimento e dos insultos de que ele e Silas foram vítimas. Questões históricas à parte, a pergunta, assim me parece, deve ser antes de tudo: que experiência de fé o evangelista Lucas quis transmitir a seus leitores? É necessário precavermo-nos de dois extremos: declarar tudo lenda, por um lado, ou espiritualizar toda a narrativa, por outro lado. Que testemunho o evangelista quer passar para as comunidades? Eis a questão! Qual é a mensagem? O texto é extremamente rico. São muitos os temas que poderiam ser destacados. No meu entender – os estudos e as meditações que li vão basicamente na mesma direção –, são parte da mensagem os seguintes aspectos: – Tortura e prisão não são capazes de impedir o livre curso do evangelho. Em várias ocasiões, o apóstolo Paulo, lembrando suas viagens missionárias, confirma isso. Ao companheiro Timóteo, por exemplo, escreve: “Lembra-te de Jesus
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7º Domingo da Páscoa
Cristo, ressuscitado dentre os mortos, descendente de Davi, conforme o evangelho que eu anuncio e pelo qual sofro, a ponto de estar acorrentado como um malfeitor. Mas a palavra de Deus não está acorrentada” (2Tm 2.8-9). – Também em perseguição e sofrimento o apóstolo louva a Deus. Ele se sabe livre para o testemunho público, mesmo em circunstâncias adversas. Não teme e não se envergonha. Ele escreve: “Cristo será exaltado em meu corpo, seja por minha vida, seja por minha morte” (Fl 1.20b). – A libertação leva a gesto solidário. O apóstolo não está apenas livre. Ele está livre para servir. Através de seu testemunho o carcereiro chega a crer. – A fé em Cristo cria nova comunhão. Essa é, então, o espaço da vivência do amor reparador. A fé tem consequência prática. Faz “lavar as chagas”. Ter em mente esses aspectos da mensagem pode ajudar-nos a aprofundar alguns detalhes do nosso trecho bíblico.
2
Comentando o texto
2.1 – A prisão de Paulo e Silas (v. 16-24) O apóstolo e seu companheiro de viagem encontravam-se em Filipos, cidade principal do distrito da Macedônia e colônia romana. Ali fundaram uma igreja. Os inícios da mesma remontam à conversão de uma mulher, comerciante de púrpura, chamada Lídia. Mais tarde, Paulo enviaria uma carinhosa carta a essa jovem igreja: a Epístola aos Filipenses. Mas surgiram contratempos. Deram com uma criada “que tinha um espírito de adivinhação”. Diz o texto que “seus oráculos obtinham avultados lucros”. Predizer o futuro na época, como também hoje, era ocupação rendosa. Paulo, em nome de Cristo, expeliu esse espírito de adivinhação. Os patrões então arrastaram Paulo e Silas “até a praça pública perante os magistrados”. É interessante observar que o verdadeiro motivo da acusação contra os dois missionários não foi mencionado, qual seja, a perda dos “avultados lucros” que sofrem os patrões. Em vez disso, os acusadores apontam que esses homens estariam lançando a perturbação na cidade e mais: eram judeus e estariam “pregando normas de comportamento” que os romanos não poderiam seguir nem admitir (v . 20 e 21). Impressiona a astúcia com que se age para encobrir a questão econômica. Apela-se ao antissemitismo da multidão e ao orgulho de ser romano. Realmente uma construção engenhosa. Essa manobra surtiu efeito. A multidão se amotinou. Os estrategos (conforme a versão de Almeida, “pretores”) mandaram arrancar a roupa dos dois e açoitálos. E, por fim, são lançados no cárcere. Ainda um detalhe digno de nota: o carcereiro recebe ordem expressa de vigiá-los de perto. Com isso o autor já aponta para a grandiosidade dos acontecimentos que serão narrados em seguida.
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2.2 – Oração e canto à meia-noite (v. 25) Repetidas vezes é mencionado no próprio livro de Atos que, em contexto de perseguição, a oração e o louvor têm um lugar importante. Lembremos Pedro e João diante do Sinédrio (At 4) e o apedrejamento de Estevão. Enquanto o apedrejavam, ele pronunciou como invocação: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7.58ss). Outra situação: Enquanto Pedro está na prisão, “a oração ardente da igreja subia sem cessar para Deus em sua intenção” (At 12.5). Paulo e Silas em oração “cantavam os louvores de Deus e os outros presos escutavam”. Eles haviam apanhado muito. Foram brutalmente açoitados. Foram “moídos a pancadas” (v. 22s). Por fim, algemados, foram lançados no fundo de um cárcere. Tudo o que passaram seria motivo para grande revolta e amargura. Ainda mais sabendo que foram presos por ter feito o bem. Mas Paulo e Silas oraram e cantaram louvores a Deus. Assim fazendo, expressaram a inabalável confiança que tinham em Deus e a disposição de servi-lo mesmo diante do sofrimento. E Deus mostrou seu poder e seu amor naquela noite especial. 2.3 – A libertação (v. 26-28) Com certeza, o apóstolo Paulo e Silas esperavam sua libertação através de um ato de soltura por parte daqueles que detinham o poder temporal nas mãos. O agir divino acontece por meio das pessoas. Sabiam que homens podem ter poder, mas Deus é poder! Em nenhum momento, porém, é dito que os dois oraram por um milagre do tipo de um terremoto que viesse literalmente abalar a estrutura da prisão. Mas o texto narra de maneira dramática um tremor de terra tão violento, que destrói os alicerces do cárcere. Em consequência, “todas as portas se abriram no mesmo instante e os grilhões de todos os prisioneiros se arrebentaram”. Mesmo que uma relação causal entre oração e terremoto não pode ser afirmada, o evangelista Lucas não deixa dúvidas de que isso tudo é resposta de Deus, que manifesta seu poder e liberta das cadeias que nos prendem. Mas permanece: A narrativa aponta para muito além do abalo sísmico! Ela destaca a manifestação da presença de Deus junto a seus servidores e o testemunho divino em favor deles e através deles. 2.4 – A conversão do carcereiro (v. 29-31) O carcereiro havia sido instruído para vigiar de perto os presos. Ele sabia do seu compromisso. A lei romana era severa. De acordo com ela, se um guarda perdia um prisioneiro, sofreria a mesma pena dos que ele vigiava. Não é dito no texto, mas é provável que entre aqueles presos existiam condenados à morte. O carcereiro entrou em pânico. Era preferível tirar a própria vida a ter que passar pela execução. Queria suicidar-se. Paulo impede tal ação. Gritou bem alto: “Não faça isso! Todos nós estamos aqui!” Foi a grande surpresa! Os prisioneiros não tinham fugido. O carcereiro percebeu que aqui se manifestava um poder diferente daquele com o qual ele costumava lidar. É esse poder que fez esses dois homens
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agirem de uma maneira tão diversa do esperado. É esse poder que lhes deu a ousadia de desistir da liberdade, para em liberdade servir. “Paulo estava disposto a abrir a porta da salvação ao carcereiro que lhe havia trancado a porta da prisão” e “pregou ao homem que lhe prendeu os pés nos cepos” (Barclay, citado cf. van Kaick, p. 236). O mais tardar é aqui que se percebe não ser o violento terremoto o centro da narrativa, mas o milagre do vir a crer, ou seja, a conversão do carcereiro. A fé vem pelo testemunho. O próprio apóstolo Paulo diz: “Portanto a fé vem pelo ouvir a mensagem, e a mensagem vem por meio da pregação a respeito de Cristo” (Rm 10.17). Assim também aqui não é a conversão que produz a salvação; pelo contrário, a experiência de salvação do carcereiro leva-o à conversão. Ele percebeu que Deus manifestou o seu poder na libertação dos seus servos das cadeias que os prendiam. Surge então nele o desejo de ter parte com esse Deus que, em seu poder soberano, operou libertação. Assim ele se dirige aos apóstolos: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?”. Há intérpretes que entendem a alocução kyrioi em alusão indicativa para kyrios, o único Senhor e Salvador. A pergunta: “Que devo fazer?” encontramos em várias ocasiões no Novo Testamento. Alguns exemplos: As multidões perguntavam a João após ouvir sua enérgica proclamação: “Que devemos fazer?” (Lc 3.10). Um legista pergunta: “Mestre, que devo fazer para receber a herança da vida eterna?”, se bem que o faz para pôr Jesus à prova. Após o discurso de Pedro, a multidão dirige-se a ele e aos outros apóstolos, dizendo: “Que é que nós devemos fazer, irmãos?” (At 2.37). Essa é, pois, também a pergunta do carcereiro. E Paulo lhe responde: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (v. 31). Aqui a maioria dos intérpretes discute longamente a questão da correta relação entre fé e obras. Paulo usa o imperativo “crê”. Trata-se, então, porventura, de uma ação humana? Nelson Kirst conclui, em sua meditação, que ação divina e ação humana se complementam. “Crer é dom, mas esse dom precisa ser aceito e cultivado. No nosso caso, isso até pode ser entendido assim: na pergunta do carcereiro (v. 30) já se manifesta fé, fé que recebeu como dom; e agora (v. 31) Paulo o estimula a aceitar e cultivar essa fé” (PL VII, p.125). Chama atenção ainda que, na resposta do apóstolo, está incluída a família do carcereiro. Salvação é entendida como tendo dimensão comunitária. 2.5 – Vida em comunhão (v. 32-34) A fé do carcereiro tem consequências imediatas para as pessoas ao seu redor e a comunidade na qual vivia. Inicia a vida em conversão, voltando-se para Paulo e Silas, lavando-lhes as chagas. Esses, por sua vez, não tinham sequer lamentado a dor dos vergões causados pelos açoites. Eles, isto sim, haviam testemunhado o poder do amor de Deus e apelado para que as pessoas viessem a crer. O carcereiro creu e, em arrependimento sincero, mostra atitudes contrárias à vida que até então vinha levando. “O interessante é que esse homem imediatamente confirmou e provou sua conversão por meio de fatos. Nem bem se converteu a Cristo, lavou as feridas nas costas dos prisioneiros e lhes deu de comer.
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Nesse momento, seu cristianismo se expressou no mais concreto ato de bondade. Se o nosso cristianismo não nos torna bondosos, não é cristianismo” (Barclay, apud van Kaick, PL VII, p. 236/237). Sem mudança de atitudes, tratar-se-ia de algo ilegítimo e espúrio. Crisóstomo, teólogo e escritor cristão, patriarca de Constantinopla, que viveu no final do século IV, início do V, deu uma interpretação bem original. O carcereiro “lavou e foi lavado, lavou-lhes as chagas e foi lavado dos seus pecados” (Homilias 36,2). Um detalhe ainda, porém muito importante, precisa ser destacado, a saber: a pregação leva ao batismo, ou seja, à integração no corpo de Cristo e desemboca em grande alegria.
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Louvor em meio ao sofrimento – alguns testemunhos mais
“Um pássaro, mesmo preso numa gaiola, ainda canta uma linda melodia”, diz um provérbio. É necessário, porém, dizer que o canto, ao qual aqui nos referimos, brota de uma firme e inabalável fé em Deus. Ele não é simplesmente algo que provém da própria natureza humana. Mas, de fato, oração e canto de louvor, brotados de profunda experiência de fé, podem ser comparados a “uma linda melodia”. E, graças a Deus, ao longo da história, sempre houve destemido testemunho, mesmo em situação de perseguição e tortura Lembrei-me, nesse contexto, de um cantor de quem nós temos numerosos hinos em nosso hinário. Refiro-me a Paul Gerhardt. Ele viveu na Alemanha na época da Guerra dos Trinta Anos (1618- 1648). Era tempo de grandes tribulações. Havia muita fome. Havia a soldadesca espoliando, matando e estuprando. Alastrava-se a peste. Mais da metade da população foi dizimada. O pastor Paul Gerhardt sentiu na própria carne os horrores da guerra. Logo no início dela, perdeu os seus pais. Como muitos outros pastores resistentes, Paul Gerhardt foi destituído do seu pastorado. Não bastasse isso, perdeu quatro dos seus cinco filhos e também sua esposa. Mal podemos imaginar as angústias e as dores causadas por essas perdas. Em meio a todo esse sofrimento, ele escreveu poesias que refletem sua profunda fé. Basta ler os hinos que ele nos deixou para perceber seu poderoso testemunho. É como se estivesse a dizer: “Haja o que houver, cantate”! Lembrei-me, também, do pastor e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. É conhecida a sua história. Em meio às turbulências e agitações do regime nazista, ele foi preso. Seguiu paciente o caminho do sofrimento aquele que sempre se entendeu como instrumento nas mãos do Senhor da história. Seu entendimento de fé cristã não admitia passar ao largo dos padecimentos dos semelhantes. Via, isto sim, a necessidade de assumir em nome do Senhor o sofrimento dos outros e lançar-se à ação responsável. Ação responsável seria aquela que não é ditada pelo medo, mas que brota do amor libertador e redentor do próprio Cristo. “Mera expectativa passiva e assistência indiferente não são atitudes cristãs. O cristão... desperta com as experiências do sofrimento dos irmãos, pelas quais Cristo padeceu, e isso o impele à ação e à compaixão” (Resistência e Submissão, p. 28).
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Assim, Bonhoeffer não pode consentir com as injustiças e atrocidades contra os judeus. A situação era dramática! Importava tentar evitar o caos. Em 5 de abril de 1943, ele foi preso e, no dia 9 de abril de 1945, executado. Porém, mesmo na prisão, ele não deixou de dar seu fiel testemunho, que impressionou vivamente os companheiros de cela e mesmo os próprios guardas. Como terceiro exemplo, podemos citar Frei Tito de Alencar Lima, da história recente do nosso próprio país. Ele era conhecido por sua generosidade e por seu envolvimento decidido pela promoção da dignidade do ser humano. Mas esse, para a ditadura militar, era exatamente o seu “crime”. Ele foi um corajoso seguidor de Cristo, cujo incondicional amor experimentou em sua própria vida. Esse amor viveu, pois, concretamente. Frei Tito foi um dos milhares de presos políticos brasileiros no regime militar. Sabemos do horror que se instalou após o golpe de 1964. O caminho de sofrimento do frei foi desde as câmaras de tortura em São Paulo até ao exílio e, finalmente, até sua morte na França. Sua vida foi toda resistência. Viveu o amor de Cristo, apoiando decididamente as lutas por libertação. Entendeu igreja como necessariamente aberta aos excluídos. Seu testemunho destemido influenciou toda uma geração.
4
Observações quanto à prédica
A perícope prevista para o 7º Domingo da Páscoa é “um verdadeiro tesouro homilético. Oferece um sem-número de possibilidades para a pregação em termos de assunto e de formas” (N. Kirst. PL VII, p.126). Devido à riqueza de detalhes e ao dinamismo da ação, sugere ela uma prédica narrativa. Sem dúvida, isso é uma opção perfeitamente viável. Terá que se ter o cuidado, porém, de não dramatizar demais os elementos miraculosos do abalo sísmico. É necessário lembrar que temos diante de nós uma história de conversão. O evangelho é pregado aos gentios, a todos os povos. Os demais textos de leitura para o domingo também são, de algum modo, inclusivos. Em João 17, Jesus pede ao Pai “que todos sejam um... para que o mundo creia”. Sugiro iniciar mencionando o que significa sair de sua casa, de seu ambiente e enfrentar algo novo em um contexto cultural totalmente diferente. É o que o apóstolo Paulo e Silas fizeram. Seu caminho os leva, por um determinado período, através da Ásia Menor. Estão em viagem missionária. Em seguida, poderá ser narrado o que lhes sucedeu em Filipos. Os comentários feitos acima sobre o texto poderão ser de ajuda. Destaque merece a convicção expressa de que nada pode deter a divulgação da palavra de Deus. Mesmo em aflição e perseguição, ou seja, nas situações mais adversas, ela se impõe. Temos exemplos para isso. A Palavra se faz ouvir e desperta fé e, assim, leva à nova vida. O carcereiro imediatamente confirmou e provou sua conversão por meio de fatos concretos. Isolar-se e refugiar-se dentro de uma fé individualista seria cinismo. A fé leva a ações solidárias e é comunitária. Integra em nova comunhão.
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A ação de Deus é libertadora e vai além do que podemos imaginar. Pelo seu poder, Ele transforma situações de crise e dificuldade em oportunidades de profunda experiência de fé.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Senhor, colocamos diante de ti nossa omissão quando vemos tantas pessoas sofrendo fome, violência, desabrigo, discriminação. Tem piedade de nós, Senhor. Deus da misericórdia, quantas vezes nos acomodamos e esquecemos que fé não é algo meramente particular, mas quer ser vivida em comunidade e expressa em gestos solidários. Tem piedade de nós, Senhor. Deus uno, condoemo-nos ao olhar teus filhos e tuas filhas divididos, mas nos falta disposição para vencer fronteiras de separação. Não levamos suficientemente a sério o desejo de teu Filho que todos sejam um para que o mundo creia. Tem piedade de nós, Senhor. Oração de coleta: Ó Deus, tua Palavra alcança os confins da terra. És o Deus do amor inclusivo. Queres que todos se convertam e sejam um como tu és um. Abre os nossos corações para que possamos receber com devoção tua mensagem no dia de hoje. Amém. Oração de intercessão: Senhor, abre coração e mente das nossas autoridades para que não estejam tão preocupadas com o seu poder e com o acúmulo de bens e riquezas em proveito próprio. Dá que enxerguem as reais necessidades do povo. Senhor, fortalece e mantém no reto caminho os responsáveis pelas nossas igrejas para que as possam conduzir conforme a tua vontade. Abençoa os sinceros esforços em prol da unidade, a fim de que o trabalho realizado em comum seja um significativo testemunho para o mundo. Exemplo de hinos de Paul Gerhardt: Chama a atenção que somente uma fé fundamentada firmemente em Cristo é capaz de resistir e irromper em cântico mesmo na tribulação.
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Sou por demais pequeno para entoar louvor; Deus é o Rei supremo, eu uma murcha flor. Porque sou pertencente ao povo do Senhor, é justo que eu aumente no mundo o Seu louvor. (Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 257) Glória e louvor hei de cantar, Em alegria, sem cessar, na bem-aventurada luz do Reino teu, Senhor Jesus. (Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 12)
Bibliografia BEYER, H. Wolfgang. Die Apostelgeschichte. In: Das Neue Testament Deutsch. 4. ed. Goettingen, 1947. BONHOEFFER, Dietrich, Resistência e Submissão. 2. ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra; São Leopoldo: Editora Sinodal, 1980. KIRST, Nelson. Meditação sobre Atos 16.23-34. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, 1981. vol. VII. van KAICK, Baldur. Meditação sobre Atos 16.23-34. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, 1988. vol. XIV.
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PRÉDICA: JOÃO 14.8-17 (25-27)
DOMINGO DE PENTECOSTES
GÊNESIS 11.1-9 ATOS 2.1-21 OU ROMANOS 8.14-17
23 MAI 2010
Alfredo Jorge Hagsma
1
Introdução
“Jesus fez diante dos discípulos muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E, para que crendo, tenham vida por meio dele.” João 20.30-31. Eis a importância desse evangelho para a caminhada de fé, aliás, o Evangelho de João é ferramenta indispensável para a missão de Deus neste mundo. Dos quatro evangelistas, João é o único que aponta o objetivo de seus escritos, ou seja, tornar conhecido o Messias, o filho de Deus, Jesus Cristo, com o objetivo de despertar nos ouvintes a fé. Nesse sentido, o Evangelho de João é essencialmente missionário. O texto proposto para este domingo de Pentecostes condensa o propósito do Evangelho de João, ou seja, levar as pessoas a crer em Deus por intermédio de Cristo. A delimitação proposta (14.8-17) é tratada na série de auxílios homiléticos do Proclamar Libertação pela primeira vez. Os dois textos auxiliares – Gênesis 11.1-9 (A torre de Babel) e Atos 2.1-21 (a vinda do Espírito Santo) – estão em sintonia com o evangelho indicado para este domingo de Pentecostes. O texto do Antigo Testamento (Gn 11.1-9) revela o que o espírito humano é capaz de fazer: “… Agora vamos construir uma cidade que tenha uma torre que chegue até o céu. Assim ficaremos famosos e não seremos espalhados pelo mundo inteiro” (v. 4) Esses tentam garantir o status e a segurança a partir de suas próprias forças. O texto de Atos dos Apóstolos revela o que o Espírito de Deus é capaz de fazer: “… e todos ficaram muito admirados, porque cada um podia entender na sua própria língua o que os seguidores de Jesus Cristo estavam dizendo” (v. 6b). Esses experimentaram o entendimento, a compreensão a partir do Espírito Santo de Deus. O texto do Evangelho de João aponta para aquele que reconcilia o ser humano pecador com Deus, o gracioso: Jesus Cristo.
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Do texto à mensagem
“Na primeira parte do livro, o autor trata principalmente dos milagres que Jesus fez. Esses milagres são sinais, isto é, eles mostram quem Jesus é e a razão por que veio ao mundo. O maior desses milagres é a ressurreição de Lázaro, pela
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Domingo de Pentecostes
qual Jesus mostra que ele é a ressurreição e a vida. Outros milagres demonstram que Jesus é o pão da vida, é a luz do mundo, é aquele que dá vida às pessoas e prova que ele recebeu autoridade de Deus para julgar todos os seres humanos. A segunda parte desse evangelho fala da ligação que existe entre Jesus e os seus seguidores. Fala também dos ensinamentos que ele lhes deu e da promessa de que, depois que ele fosse embora, viria o Espírito Santo para ensinar-lhes toda a verdade a respeito de Jesus.” Esse escopo apresentado pela BLH (Bíblia na Linguagem de Hoje) sintetiza bem o que o quarto evangelho traz de igual e de novidade em relação aos sinóticos. Segundo W.G. Kümmel, o Evangelho de João difere dos sinóticos consideravelmente não só pela estrutura de sua descrição e apresentação, como também pelo material utilizado. São poucas as narrativas de João que estão registradas também nos sinóticos. A diferença não é apenas de conteúdo, mas também cronológica. Segundo Kümmel, a maior parte do material de João não é tomada nem do AT tampouco da tradição dos sinóticos. Segundo esse autor, a mais chocante diferença entre os discursos do Jesus joanino e os do Jesus nos sinóticos é a linguagem conceitual usada por Jesus em João, que em muitos aspectos remonta às concepções e formulações da literatura sapiencial judaica. Talvez essas informações não sejam importantes para a elaboração de uma mensagem a partir do texto proposto, mas são importantes para ter em conta a peculiaridade do Evangelho de João. O texto indicado para este domingo (14.8-17) encontra-se na segunda parte do livro. Conforme a estruturação da BLH, esses versículos fazem parte do bloco que sugere a ligação de Jesus com seus discípulos, ou seja, a continuidade da obra. Um pedido de Filipe dá início ao diálogo com Jesus: “Senhor, mostre-nos o pai. Isto é tudo o que precisamos”. Jesus deixa claro que o Pai dá-se a conhecer por intermédio dele. Isso significa que conhecer Jesus é o caminho para conhecer o Pai. Nesse sentido, W. G. Kümmel afirma que “a mensagem central do Evangelho de João é o envio do Filho pelo Pai ao mundo e a eterna união do Filho com o Pai”. Para João, fica claro que não há outro caminho para conhecer o Pai senão por intermédio de Cristo. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, somente por meio de mim é possível chegar ao Pai” (14.6) Assim Jesus responde à dúvida de Tomé sobre como chegar ao Pai. Especialmente no capitulo 14, o evangelista João apresenta uma unidade indissolúvel do trino Deus. O Filho e o Pai são um. “Você não crê, Filipe, que eu estou no Pai e o pai está em mim?”, questiona Jesus. Aquela pessoa que crer na unidade do Pai com o Filho será capaz de servir a Deus de forma plena. “Quem crê em mim fará as coisas que eu faço e até maiores do que estas...” (v. 12). Ou seja, a continuidade da obra passa pela fé inabalável no trino Deus. Segundo Kümmel, João “representa de maneira mais sistemática, mais original e de forma mais grandiosa que os sinóticos, não o que Jesus foi, mas que os cristãos têm em Jesus”. Isso não significa que João é atemporal, sem elementos históricos. Os escritos evidenciam esse conhecimento por parte do autor. Pode-se afirmar que João parte do Jesus histórico para a fé, e não o inverso. O texto em questão (14.8-17) aponta para uma relação íntima entre o crer em Jesus e o serviço. “Creiam ao menos por causa daquilo que eu faço”, disse Jesus. Ou seja, chegar a crer nesse contexto se dá não pelo ouvir falar, mas pelo
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presenciar, pelo sentir o amor encarnado de Jesus. Como disse José Martí, escritor cubano: “A melhor forma de dizer é fazer”. E o mais importante, esse fazer não acontecerá unicamente por forças próprias, pois Jesus mesmo promete: “Farei qualquer coisa que vocês me pedirem em meu nome”. A ação dos discípulos não será uma ação desorganizada, mas sustentada e fundamentada nos mandamentos de Deus e acompanhada pelo auxiliador, pelo Espírito da verdade.
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Pensando a prédica
Pentecostes. Que festa é essa que toda a cristandade celebra neste domingo? De acordo com o dicionário da BLH (Bíblia na Linguagem de Hoje), era uma festa antiga do povo judeu. Para essa festa, povos de toda a região se encontravam em Jerusalém. Conforme Atos 2.5,8-11, era muita gente. Pessoas que não se entendiam, gente com costumes e tradições totalmente diferentes, que falavam línguas diferentes. Todos esses num mesmo lugar. Certamente todos os anos essa festa era uma grande confusão. Há poucos anos aconteceu em Porto Alegre uma grande assembleia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Estavam reunidas em torno de 4.000 pessoas, vindas de todos os cantos da terra; eram mais de 300 igrejas representadas. Ortodoxos, protestantes, pentecostais, metodistas, anglicanos, católicos, enfim muitas diferenças. Falavam línguas diferentes, tinham costumes diversos. E eles conseguiram se entender. Por quê? Por um lado, porque havia tradução simultânea para muitas línguas: inglês, alemão, espanhol, português. Era só colocar um fone no ouvido, selecionar num botão o idioma que gostaria de ouvir e tudo estava resolvido. Havia compreensão por causa da tecnologia do mundo moderno. No entanto, em primeiro lugar, havia compreensão porque o Espírito Santo de Deus ali estava presente. Havia unidade no propósito do encontro. Lá em Jerusalém, não havia o recurso da tradução simultânea. E diz o texto de Atos que todos conseguiam entender, como se as pessoas estivessem falando na sua própria língua. Que coisa mais fantástica! Era o Espírito Santo de Deus agindo. Ali onde ele age há entendimento, há compreensão, povos e pessoas diferentes conseguem conviver em harmonia. No evangelho deste domingo, Jesus promete aos discípulos que Deus lhes dará desse espírito a eles. Nestes últimos tempos, muito tem se falado sobre o Espírito Santo nas igrejas, mas na verdade não tem como definir o que é ele, ou melhor, como é esse Espírito Santo de Deus. O texto de Atos 2.1-21 tenta dar uma interpretação, dizendo que algo extraordinário aconteceu. Parecia um vento muito forte, parecia como línguas de fogo. Sei lá, não dá para explicar o que ele é, mas dá para perceber o resultado de sua ação. Extraordinário, na verdade, é o resultado que o Espírito Santo de Deus pode promover nas mais distintas situações. Lá onde ele age proporciona união, compreensão, coisas fantásticas passam a acontecer. Os filhos e as filhas vão anunciar a mensagem de Deus. Os jovens terão visões, ou seja, serão profetas, os velhos sonharão. Talvez com um mundo melhor, com uma vida mais digna. Se o Espírito de Deus transforma a confusão em ordem e
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compreensão, o espírito humano, conforme Gênesis 11.1-9, causa confusão e desentendimento. É interessante que a pregação não se fundamenta apenas em um dos três textos. Se a opção for começar pelo Antigo Testamento, poderia levantar-se questões que hoje causam confusão em nosso meio. O texto de Atos aponta para soluções diante dos conflitos e confusões; a partir do Espírito Santo há entendimento. O evangelho aponta para a prática, fazer as coisas que Cristo fez e até maiores, ou seja, o Espírito Santo está intimamente ligado ao serviço, à diaconia. A partir da ação do Espírito Santo, a comunidade cristã reconhece a confusão causada pelo “espírito humano” e consegue encontrar novas formas de organizar-se e agir neste mundo. O Espírito Santo de Deus nos liberta do caos, faz-nos ter discernimento e reorganizar nosso viver.
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Subsídios litúrgicos Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 437: Quando o Espírito de Deus soprou.
Litania de abertura: Leitura do Salmo 104, intercalado com canto pela comunidade: L.: Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas. C.: Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. L.: Eis o mar vasto, imenso, no qual se movem seres sem conta, animais pequenos e grandes. Por ele transitam os navios e o mostro marinho que formaste para nele folgar. C.: Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. L.: Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se ocultas o rosto, eles se perturbam, se lhes cortas a respiração, morrem e voltam a seu pó. C.: Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. L.: Envias teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terra. A glória do Senhor seja para sempre! Exulte o Senhor por suas obras! C.: Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. Oração do dia: Amado Deus, tu que enviaste o Espírito Santo aos discípulos, dando-lhes coragem para levar a mensagem de Cristo a todos os lugares, iluminando vidas, criando a primeira comunidade cristã, nós te pedimos: concede constantemente o vigor e o poder desse Espírito, para que possamos ser luz e anunciar a tua vontade. Ilumina nosso coração e nossa mente para reconhecermos tua palavra orientadora em meio a tantas vozes e espíritos que nos iludem. Isso nós te pedimos por Jesus Cristo, teu Filho, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina eternamente. Amém.
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Bibliografia BÍBLIA NA LINGUAGEM DE HOJE. Sociedade Bíblica do Brasil, São Paulo, 1988. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. Ed. Paulinas,1973.
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PRÉDICA: ROMANOS 5.1-5
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PROVÉRBIOS 8.1-4, 22-31 JOÃO 16.12-15
(TRINDADE) 30 MAI 2010
Cláudio Kupka
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Primeira aproximação
Tenho por hábito preservar aquela primeira aproximação do texto, tentando perceber que impressões ele nos dá à primeira vista. a) Pelo fato do texto começar com a palavra “Justificados” e conhecendo a “fama” dos textos paulinos, podemos esperar (e até temer) que o texto seja muito pesado e conceitual. Conhecendo nossa tendência de preparar pregações pouco leves e contextuais, precisamos tomar um cuidado com a prédica resultante do estudo de um texto como esse. b) Por outro lado, o texto parece ser bastante “gracioso”. Justificados pela fé, paz com Deus, firmes na graça, participar da glória de Deus remetem à dimensão da vida cristã propiciada pela ação graciosa de Deus em nosso favor. Esse aspecto é bastante favorável ao elaborarmos o tom da mensagem, que não pode ser outro senão o de animar as pessoas a continuar firmes na vida cristã. c) O texto faz referência a tribulações e à compreensão dessa tribulação na perspectiva da vida cristã. Chama a atenção aqui a dimensão poimênica do texto. Em termos de contextualização da prédica, creio que essa é a dica para elaborarmos uma prédica menos teórica e mais contextual e mais poimênica. Ouso formular títulos para essa prédica a partir dessa impressão: Por que as crises não destroem a fé? Como sair fortalecido das crises? Quando a esperança não sucumbe a crises?
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Um segundo passo
Para não perder as ideias da primeira aproximação, é importante encaminhar a pesquisa de ideias e subsídios a partir dessas primeiras impressões. Elas podem ser úteis mais adiante. Uma primeira sugestão é aproveitar a relevância do tema justificação no contexto luterano e pesquisar uma citação interessante de Lutero sobre o assunto. Seria ideal se ela preservasse o valor da teologia da justificação no contexto do sofrimento humano. Seria muito útil coletar exemplos e testemunhos de pessoas que enfrentaram sofrimentos por longo tempo e, mesmo assim, cresceram na sua fé. Faltam exemplos positivos em nosso discurso de como é possível enfrentar crises de ma-
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neira afirmativa. Assim podemos contrapor o tom melancólico e negativo de muitas falas que ouvimos entre os membros. O tema esperança é chave nesse texto. Uma boa ilustração de como a verdadeira esperança é forjada no sofrimento seria de muita valia.
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A pesquisa do texto
Agora é hora de averiguar se as pressuposições da primeira leitura do texto conferem. O que não podemos, nessa fase, é “matar” a riqueza simbólica do texto com a exegese. A exegese precisa investigar o texto sem dissecá-lo, sem tirar-lhe a vida. Ao mesmo tempo, devo ter um olhar para a lógica do texto e para as alternativas que ele me oferece, pensando na prédica que vamos formular. É uma viagem de altos e baixos, mas que, no final, resultará num texto que seja interessante para a comunidade que tenho em mente. V. 1 – O texto começa com uma afirmação forte no tempo presente: “Justificados pela fé, temos paz com Deus”. Ele fala da obra salvífica de Cristo em nosso favor e da nova relação com Deus que nos proporcionou. Cabe aqui ressaltar essa nova condição de paz em relação à do pecado, que nos determina como seres humanos. A inimizade, a desconfiança e até a revolta do ser humano em relação a Deus dão lugar a uma confiante entrega e paz a partir do conhecimento proporcionado pela fé de quem é Deus, do que ele fez por nós e das suas intenções para conosco. V. 2 – Essa ação, reconhecida como movimento da graça, nos proporciona uma perspectiva escatológica de total superação de tudo o que nos afastou e afasta da vida plena que Deus desde o princípio desejou para sua criação. A sua glória é esse ideal de reconciliação de toda a criação com o Criador. A fé firma em nosso coração a certeza de um dia participarmos dessa glória. É interessante falar da graça, não só como um evento da ação salvífica de Deus, mas como um processo de vivência dessa realidade em nossa vida. Esse conceito da graça, que se manifesta e acontece em nossa vida, é um conceito interessante para o desenrolar da mensagem desse texto. V. 3 – A referência a “gloriar-se” vem a calhar quando se fala de fé e paz com Deus. É muito comum considerar o sofrimento como uma quebra do favor de Deus. A pergunta por que sofrer vem justamente da pessoa que não consegue conciliar a miséria humana, a justiça e o amor de Deus. Cabe aqui então explicar como pela fé podemos ver o sofrimento de maneira diferente. É importante observar que o verbo “gloriar-se” tem um sentido bem paradoxal, porque em Cristo não temos nada com que nos gloriar a partir de nós mesmos. Se há o que gloriar-se é pelo que Deus fez e fará por nós. Se a fé nos proporciona já agora enxergar a salvação como realidade, ela também nos proporciona ver além do sofrimento. Gloriar-se no sofrimento é humanamente inconcebível. Somente pela fé é possível perceber a vida de uma maneira nova e libertadora. A fé nos proporciona um novo olhar para o agir de Deus. Não somos mais precipitados em julgar o que nos acontece. Poderíamos dizer que Deus passa a
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“ter crédito” conosco. Sabendo do seu amor incondicional demonstrado em Jesus, o que é um sofrimento humano para alterar essa imagem de Deus? Sabendo que um dia viveremos numa condição de total superação do sofrimento, o que significa passar por crises? Se elas não mais destroem a fé e nos afastam de Deus, o que fazem por nós? A essa pergunta, Paulo desenvolve a ideia de um processo de aprendizado e crescimento através do sofrimento. Enfrentar o sofrimento gloriando-se em Deus significa inicialmente não admitir que o nosso sofrimento invalida a graça e o amor de Deus. Além disso, a constância dessa atitude diante do sofrimento produz a paciência, ou seja, justamente aquela ideia de dar crédito a Deus de que ele não é capaz de querer nos prejudicar ao permitir-nos sofrer. V. 4 – O texto segue encadeando conceitos, desenvolvendo uma ideia de processo. Do gloriar-se em Deus diante do sofrimento provém a paciência. Da perseverança vem a experiência, e da experiência vem a esperança. Esse encadeamento quer mostrar como surge e se fortalece a esperança cristã. Poderíamos dizer que esperança é a fé vivida e provada, que se projeta na perspectiva da glória de Deus. A esperança é forjada na luta diária da fé em busca de sentido no sofrimento. A esperança não é algo mágico e instantâneo, mas fruto de um processo diário de responder através da vivência da fé às perguntas da vida. V. 5 – É fácil concordar que a esperança, da maneira como recém definimos, não irá decepcionar-nos nunca, mas sim confirmar em nosso coração as intenções amorosas de Deus a nosso respeito, mesmo quando permitir nosso sofrimento. Além disso, a ideia de que somos misteriosamente amados por Deus em meio às crises é confirmada através do Espírito Santo em nossa vida. Um dos grandes projetos de Deus em nossa vida é que possamos perceber a presença e a eficácia do seu amor.
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Meditando sobre o texto
Creio que já está bastante claro em que direção esse texto quer nos conduzir. a) O agir de Deus motivado pela graça, no sentido de nos aproximar de Deus, não se resume a um momento de glória e exultação. A graça precisa ser percebida como um processo contínuo de restauração da nossa relação com Deus. Não é de uma hora para outra que introjetamos a graça como um novo princípio estruturador de nossas relações. Normal é a lei, o mérito, a troca, ou seja, a nossa pobre perspectiva humana de justiça é que diariamente insiste em gerir nossa visão de mundo e relações. Também em nossa relação com Deus. Em Gálatas 2.21, Paulo chama a atenção dos Gálatas: “Eu me recuso a rejeitar a graça de Deus. Pois, se é por meio da lei que as pessoas são aceitas por Deus, então a morte de Cristo não adiantou nada!” b) Como perceber o agir gracioso de Deus? Alimentando diariamente a visão de que Deus não deixa de nos amar quando sofremos. É no dia-a-dia que confirmamos em nosso coração pela fé que não mais julgamos a Deus perguntando pelo nosso merecimento. A questão do nosso mérito/demérito diante de Deus é
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um assunto totalmente superado quando cremos no que Deus fez para nos conquistar e nos dar a salvação. Não há palavras, justificativas nem senões. Somente há motivos de glória em Deus. c) Nessa atitude de profunda gratidão, creditamos a Deus o mérito de nos aprofundar no aprendizado do impacto e profundidade do seu amor por nós. Estou convencido de que a tarefa do Espírito Santo de nos revelar a profundidade do amor de Deus é uma das tarefas mais importantes. É experimentando diariamente esse amor que nosso eu é curado de suas falsas e distorcidas visões da vida. Nesse processo, aprendemos a ver a vida como Deus a vê. E, se essa visão não nos é clara, a fé nos permite seguir confiantes sem temer os limites da vida, nem cobrar imediata compreensão desses. d) Assim é forjada nossa esperança em Deus. De pequenas em pequenas experiências de fé, quando respondemos confiantemente ao chamado de Cristo. Fé e graça são vividas e assimiladas através de passos diários através daquelas experiências que nos inquietam e ao mesmo tempo nos aproximam de Deus. O que para muitos pode ser azar, abandono de Deus, para outros se torna oportunidade de crescimento. O que diferencia? A fé.
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Ideias e ilustrações
Trago aqui uma ilustração que pode bem ajudar a demonstrar o quanto a fé é feita de mistérios e requer de nós um distanciamento proporcionado pela fé. Apresento a seguir um relato de alguém que conheci e que me ensinou muito sobre o sofrimento e a alegria. Em terceiro lugar, cito um texto de Lutero, extraído de suas pregações e publicado em português no Castelo Forte de 1983 (http:// www.lutero.com.br/novo/vida_de_lutero_como_pregou2.php?id=270) a) Um menino pequeno estava contando à sua avó que tudo ia mal em sua vida. Problemas na escola, problemas na família, sérios problemas de saúde etc. Enquanto ele falava, a avó estava fazendo um bolo. Então ela perguntou a seu neto se ele gostaria de comer um pedaço de bolo. – Claro!, respondeu o menino. Então ela lhe ofereceu um pouco de azeite de cozinha. – Que horrível!, disse ele. Logo lhe ofereceu dois ovos mexidos. – Não, vó!, disse o menino. – Bom, talvez queira um pouco de farinha?, perguntou a avó. – Vó, tudo isso é horrível!, queixou-se o menino. A avó contestou: – Sim, todas essas coisas separadas parecem horríveis. Mas quando a gente as põe juntas da forma correta, viram um bolo maravilhosamente delicioso! b) Lembro muito bem de um episódio durante o meu estágio na Faculdade de Teologia em que, em visitas a um asilo de idosos em Blumenau, acompanhei por um período uma senhora com uma grave doença degenerativa. Seus músculos
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e tendões iam se atrofiando tanto, que ela cada vez mais diminuía de tamanho. Suas dores deviam ser horríveis. Tinha até dificuldade para falar. Eu, um estagiário desejoso de mostrar serviço e desempenhar o papel de conselheiro, surpreendi-me e até me emocionei ao conhecer verdadeiramente o testemunho dessa mulher. Nela eu não via uma pessoa triste, resignada diante do sofrimento. Suas palavras é que faziam bem a mim. Eu não tinha quase o que dizer. Com certeza, eu é que saía de seu quarto consolado. Ela ainda é para mim, em todos esses anos, o testemunho de alguém que compreendeu a presença e o crescimento na fé durante o sofrimento. O exemplo dela literalmente desmontou em mim todo e qualquer argumento para não aceitar de Deus como um gesto de amor qualquer situação da vida. Seu olhar sereno e alegre ainda hoje está diante de mim, falando sobre esperança e paz. c) Quando Deus deseja fortalecer alguém em sua fé, procede de forma tal que a pessoa tem a impressão de estar perdendo a fé. Deus parece tirar tanto a fidelidade como a fé e faz o indivíduo passar por toda sorte de dificuldades e lhe tira as forças a ponto de quase desanimar. Mas, ao mesmo tempo, dá-lhe forças para acalmar-se e aguentar firme. Essa é a perseverança que produz experiência, de sorte que, no momento em que Deus se volta para a pessoa e deixa o sol brilhar outra vez, ela abre os olhos, fica admirada e diz: “Puxa vida, Deus seja louvado que me livrei desse problema! Deus está nesse lugar, e eu não podia imaginar que tudo fosse terminar tão bem assim”. Depois de um ou dois dias, uma semana, um ano ou mesmo dentro de uma hora, aparece outra cruz, trazida pelo pecado: a desonra, perda de bens, mal físico ou qualquer outra coisa que nos incomoda. Aí começa tudo outra vez, e as nuvens negras estão de volta. Mas a pessoa se lembra de como, no passado, Deus foi gracioso e veio em seu auxílio. Sabe da boa vontade de Deus em nos castigar, para que nos lembremos de recorrer a ele pedindo ajuda. Então se consola e se gloria na tribulação, dizendo: “Aquele que no passado me ajudou tantas vezes vai ajudar-me também dessa vez”. Esse desejo íntimo (que leva a pessoa a dizer: Quisera estar livre disso! Que Deus me ajude!) é a esperança que não envergonha, pois Deus tem que ajudar essa pessoa. Dessa forma, Deus esconde a vida sob a morte, o céu sob o inferno, a sabedoria sob a loucura, a graça sob o pecado.
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Subsídios litúrgicos
Cantos: Uma série de cantos podem ser escolhidos fazendo uma ponte entre o(s) tema(s) do culto. Sugerimos: Oração da Igreja (Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 459), Senhor, tu tens sido nosso refúgio (Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 213), Tão longe (Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 461), Bondade e misericórdia (Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 232 ), Ontem hoje e sempre (Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 474).
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Confissão de fé: Creio que Deus pode fazer com que de tudo, mesmo do negativo, resulte algo bom. Para isso necessita de homens e mulheres que permitam e creiam que tudo lhes servirá para o bem. Creio que Deus pode nos dar em cada situação difícil a capacidade de resistir. Mas não a dá adiantado, para que não confiemos em nossas próprias forças, e sim em seu poder. Essa confiança nos livrará do medo e do temor pelo futuro. Creio que nossos erros e fracassos não são em vão e que para Deus não é mais difícil utilizá-los como o faz com nossos sucessos. Creio que Deus não é um destino cego e indiferente, mas que espera nossas orações e nossos atos responsáveis. (Dietrich Bonhoeffer) Oração responsiva: L: Chegamos aqui desorientados e cansados. A nossa vida é tão cheia de desafios e perguntas, que não damos conta dela. C: Ó Deus, teu mar é tão vasto e tão pequeno meu barco.
L: Não esperamos que nos dês respostas prontas. Queremos apenas lembrar que estás perto de nós e por isso podemos seguir seguros. C: Ó Deus, teu mar é tão vasto e tão pequeno meu barco. L: Queremos lembrar que a vida que nos deste não está nas mãos do mal. Que manténs controle de tudo mesmo em meio ao caos. C: Ó Deus, teu mar é tão vasto e tão pequeno meu barco. L: Se te buscamos é porque cremos que tu tens uma intenção com tudo o que nos acontece. C: Ó Deus, teu mar é tão vasto e tão pequeno meu barco. L: Perdoe quando falhamos. Seja quando deixamos a solidão nos dominar, seja quando não confiamos em ti. C: Ó Deus, teu mar é tão vasto e tão pequeno meu barco. Tem misericórdia de mim. L: O mar segue sendo vasto e nosso barco segue sendo frágil. No entanto, nada nos afasta da misericórdia e do amor de Deus. Segue tua jornada confiante. Deus seja teu horizonte, o vento que te impulsiona e aquele que dirige teu barco.
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Bênção: Que Deus, para quem a noite é tão clara como o dia, guie teus passos no caminho. Que Deus, que está contigo quando estás sentado e levantado, te rodeie com seu amor e te segure pela mão. Que Deus, que conhece teu caminhar e teu descansar, esteja contigo te dando esperança, seja a boa notícia que tens para partilhar com o mundo e te guie pelo caminho eterno. Amém. (Baseada no Salmo 139)
2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES LUCAS 7.11-17 1 REIS 17.17-24; GÁLATAS 1.11-24
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PRÉDICA: 2 SAMUEL 11.26-12.10,13-15
3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 7.36-8.3 GÁLATAS 2.15-21
13 JUN 2010
Haroldo Reimer
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Introdução
O entrelaçamento temático do culto é pecado, perdão e possibilidade de nova vida. Para isso indicam claramente os dois textos de leitura e o texto proposto para a pregação. O texto do evangelho, Lucas 7.36-8.3, narra a história da mulher que ungiu os pés de Jesus durante uma refeição na casa de um homem chamado Simão. Dela se afirma que muito havia pecado e que, em consequência do gesto como expressão de sua fé, muito lhe foi perdoado. Exatamente o gesto de derramar o bálsamo sobre os pés de Jesus é expressão da dimensão da entrega gratuita por amor e reconhecimento da messianidade de Jesus. O recorte do texto paulino em Gálatas 2.15-21 ressalta a dimensão da justificação pela fé em ou de Cristo Jesus. Assumir a caminhada na fé implica seguimento do caminho de cruz; é solidariedade com os que sofrem no pecado e na dor; mas é também solidariedade na recepção da graça que possibilita um novo viver. O texto da pregação põe em destaque a figura de Davi. Nessa figura paradigmática da história hebraica se discute o tema central do culto: pecado, perdão e possibilidade de nova vida. Esse texto, contudo, acrescenta ainda de forma marcante a dimensão da ação profética da denúncia dos desmandos de Davi feita por Natã. É a denúncia que possibilita a consciência da situação de pecado, e essa gera a possibilidade para nova possibilidade. Portanto falar sobre pecado, perdão e nova vida não deveria esquecer essa faceta importante da profecia bíblica, que é a denúncia de situações entendidas como “pecado”. O olhar profético está dirigido a práticas concretas e não somente à sua interpretação, quiçás até bem subjetiva.
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Exegese
O texto de 2 Samuel 11.26-12.10,13-15, previsto para a pregação neste terceiro domingo após Pentecostes, coloca em cena dois tipos ideais da historiografia bíblica: o rei e o profeta. Em termos concretos, os personagens da perícope a ser explicitada ao modo de pregação põe em cena o rei Davi e o profeta Natã. Na disputa entre os dois, na forma de uma “parábola”, é colocada em cena uma outra figura: o camponês empobrecido (hebraico: rash), apresentado como vítima dos
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desmandos de um homem rico. Esse é interpretado logo a seguir como sendo figura representativa do próprio Davi. O texto apresenta uma densidade própria. Vários fios de uma narrativa mais ampla estão aqui condensados. Ao ler esse recorte ou essa perícope, há que se ter presente que o texto está tecido dentro de uma trama literária maior. Trata-se da chamada Obra Historiográfica Deuteronomista, a qual busca descrever traços da história do povo hebreu desde a entrada na terra de Canaã, passando pelas experiências do tribalismo e das monarquias até a perda da autonomia política e da própria terra com a destruição de Jerusalém em 586 a.C. e a subsequente experiência do exílio. O “autor deuteronomista” que conta essa história situa-se numa espécie de metaponto do futuro na situação do exílio e olha para o transcurso da história e busca identificar uma lógica. Nessa lógica, o tema da transgressão do povo e o perdão de Yahveh é recorrente. Vários momentos da história são apresentados nessa dinâmica ondular: o povo ou representantes do povo transgridem, arrependem-se e se convertem, Deus perdoa e a vida continua de forma renovada até vir a próxima onda e, então, o mesmo esquema se repete. Assim, pois, não se deve ver o tema da “conversão” e do perdão de forma isolada nessa perícope. Há que se vêlo como elemento constitutivo de um tipo de escrita da história do povo hebreu ao longo da macronarrativa de Josué a 2 Reis. É claro que nessa reescrita reflexiva da trajetória histórica dos antigos hebreus houve o aproveitamento de materiais já existentes em termos de tradição escrita. Assim, especialmente a “história da ascensão de Davi” e a “história da sucessão de Davi” são entendidas como escritos incluídos na macronarrativa deuteronomista. Outro alerta vai à figura de Davi. A instituição e a preservação da linhagem davídica é preocupação central da historiografia deuteronomista. Por isso, o que se passa com Davi a partir da crítica feita por Natã nessa perícope deve também ser entendido a partir dessa “simpatia” dos redatores deuteronomistas com a casa davídica, que representa, em si, a estrutura central do poder no Reino de Judá ao longo de sua existência, isto é, a partir da divisão do reino de Davi até o desmantelamento da estrutura estatal judaica por meio dos babilônios. Assim, o que se diz de Davi e o que Davi faz na perícope em questão deve ser visto em perspectiva mais ampla do arco narrativo historiográfico. Isso, contudo, não significa que se deva perder os detalhes da própria perícope a ser enfocada. O início do texto (11.26-27) indica que Bateseba, a mulher de Urias, pranteava seu marido morto e nisso foi levada para o palácio de Davi. Essa nota remete ao episódio anterior da paixão de Davi por essa Bateseba, que, por sua vez, era mulher de um dos guerreiros de Davi. Esse “caso” tem consequências na medida em que a mulher engravida e Davi, ao sabê-lo, arma uma estratégia para se livrar do rival: envia-o para perigosa situação na frente de batalha, onde esse morre, abrindo caminho para o próprio Davi. Essa situação é utilizada por Natã, no capítulo 12, como recurso para esboçar uma crítica ao rei Davi. Natã, que nesse texto não leva o título de profeta, conta uma história, em geral chamada de “parábola”, a qual trata de um conflito entre um rico e um pobre numa cidadezinha em Israel. A história é conhecida, bastando indicar os pontos principais.
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Num lugar havia um homem rico que tinha muitos animais e outro pobre, que só tinha uma ovelhinha da qual gostava como filha. O homem rico, ao receber visitas, mandou tomar a cordeirinha para oferecê-la em banquete à visita certamente ilustre. Diante disso, Davi se infla e profere uma dupla sentença: o homem deve ser condenado à morte e deve restituir quatro vezes o que roubou do pobre. O rico deveria ser enquadrado duplamente em sanção penal e civil. Diante da reação condenatória do rei, Natã arremessa a famosa frase: Atah ha-ish = “Tu és o homem”. Com isso, embora aqui não sendo apresentado como profeta, Natã esboça um início de profecia crítica do mandatário. Natã utiliza aqui provavelmente um caso típico de conflito nos inícios da monarquia em Israel para aplicá-lo a Davi. Nessa aplicação, porém, permanecem dúvidas e ambiguidades. Em primeiro lugar, o desmando cometido por Davi no caso Urias-Bateseba não se enquadra no exemplo de Natã, que trata fundamentalmente de apropriação coercitiva de propriedade alheia a partir de prerrogativas de poder. Em segundo lugar, a sentença de Davi só em parte reage condenatoriamente ao caso relatado. Em si, pelas normas provavelmente vigentes à época, a pena deveria consistir somente na indenização pecuniária em quatro vezes o valor do bem roubado (Êx 21.27), não havendo previsão de morte no caso de roubo. Natã investe criticamente contra o rei com a famosa frase “Tu és o homem!” (v. 7), retomando, logo a seguir, o próprio episódio do adultério seguido de assassinato (v. 7-10). Trata-se de uma boa tentativa de crítica, a qual, contudo, logo é desdita ou relativizada. Natã, após o arremesso crítico, continua relembrando os favores de Deus para com o rei e, claro, implicitamente, favores do próprio Natã em favor de Davi. Isso porque Natã está vinculado diretamente com Davi e com a casa davídica. Em 2 Samuel 7, no famoso anúncio da longa duração do reinado davídico, Natã atrela-se a Davi e à corte como aquele que, em nome da divindade Yahveh, outorga legitimidade à casa davídica. “A tua casa e o teu reino serão firmados para sempre” (2Sm 7.16). Natã, pois, está vinculado ao poder na forma de legitimador divino do governante davidida. Essa sua vinculação mostrase também no episódio de 1 Reis 1, no qual Natã aparece como promotor de intriga na corte, fazendo a sorte da ascensão real recair sobre Salomão. Natã quase que impõe Salomão como rei. Natã inclusive foi educador de príncipe davidida. Nessa situação de atrelamento ao poder, Natã emerge em 2 Samuel 12. Suas palavras estão permeadas de cuidados diplomáticos. Louvável é que ele levanta a crítica e promove um enfrentamento crítico. Nisso reside sua faceta heroica. Mas ele é um herói ambíguo. Ele está nos inícios da profecia bíblica. Ele não é um Amós, embora talvez comungue de certos traços comuns com Isaías. Os castigos que Natã anuncia a Davi não atingem diretamente a Davi, mas são diluídos como acontecimentos eventuais suscetíveis no futuro aos herdeiros da casa davídica. Mesmo a indicação de que a instituição da monarquia davídica passará a carregar a mácula da violência pela espada é genérica. Reis governam com a espada! Espada é instrumento de poder! Também o anúncio, não contemplado na perícope de pregação (v. 11-12), de que o mal de Davi será expiado pelas mulheres do harém não é castigo direto, mas indireto na medida em que as mulheres do harém eram consideradas propriedade real e qualquer avanço sobre elas deveria ser entendido
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como atentado contra a dignidade do possuidor. Mesmo o anúncio, já no contexto do arrependimento de Davi, de que o filho da relação dele com Bateseba viria a morrer descarrega numa criança os desmandos do pai. Há, pois, certa lógica retributiva, mas o modo de contar a história procura “amaciar” a crítica inicial para com Davi. Em geral, a confissão de pecador feita por Davi costuma ser tomada como âncora para a leitura do texto.
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Meditação
No contexto da perícope, a afirmação peremptória de Davi “Pequei contra o Senhor!” (v. 13) certamente será explorada na mensagem para mostrar justamente o arrependimento e o consequente perdão divino para Davi. Ao assim fazêlo, contudo, devemos nos dar conta da complexidade da trama textual maior, da qual a perícope é somente um recorte. No todo, o arrependimento de Davi e o perdão dado a ele estão relacionados com o problema da injustiça. Não se trata de “injustiça” enquanto conceito genérico, abstrato. Trata-se de práticas sociais concretas e mapeáveis. No caso, foi o desmando de Davi para com Urias para facilitar a sua relação amorosa com Bateseba. A parábola do pobre camponês também é colocada no contexto para evidenciar essa dimensão da injustiça enquanto prática social. A tradição hebraica, vazada para dentro de formas literárias da Bíblia hebraica, situa o lugar do profeta na crítica de práticas sociais. O fenômeno da profecia tem no embate com o poder monárquico um de seus pontos de cristalização. Mas também as relações “microfísicas” do poder estão na mira de palavras críticas de profetas. Muitos e conhecidos são os exemplos que nos vêm dos textos dos vários profetas da Bíblia. Especialmente os mais críticos do século VIII devem ser lembrados. Aí injustiça não é um estado de espírito, subjetivo. Tem a ver com ações sociais concretas. Isso é importante também na atividade pastoral. A igreja deve buscar ser voz profética. Isso perfaz uma de suas dimensões, embora, claro, não a única. Na parte final da perícope prevista para a pregação, Natã aparece não mais tanto como profeta. Está mais para a figura típica de cura d’almas. Isso o coloca, claro, na grade das tarefas pastorais. Mas a pastoral não pode passar ao largo da dimensão profética, mesmo que seja esse tipo de profecia arranjada desse texto. Por isso é bom insistir que o perdão dos pecados, parte essencial da liturgia do culto, não se transforme em “graça barata”, isto é, na oferta de perdão, sem que haja algum gesto de efetivo arrependimento por parte dos fiéis. Pois isso acentuaria a dimensão da hipocrisia. Hipocrisia institucionalizada com o tempo vai desacreditando a venerável tarefa e missão da igreja. No conjunto da tradição hebraica ou judaica, é importante também levar em consideração que a justificação ou o “ser tornado justo” mantém relação estreita com a ética. No caso de Davi, não se sabe se ele realmente fez alguma indenização por danos causados. Diferente já é a narrativa neotestamentária acerca do cobrador de impostos Zaqueu, que, recebendo o rabi Jesus em sua casa,
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passa por uma experiência de conversão e decide restituir quatro vezes o que extorquiu a mais dos pobres, bem com desfazer-se de parte de seus bens. Aí a “vida nova” começa com um gesto efetivo de arrependimento. Assim, quando se anuncia o perdão de pecados ou se fala da dimensão da justificação, não deve faltar essa dimensão de referência à conduta ética. Em termos bíblicos, a ética está cristalizada na Torá, isto é, justamente naquilo que chamamos de “lei”. Aí há um fundamento a partir do qual se pode iniciar a reflexão sobre uma conduta ética adequada ao arrependimento e ao refazimento dos erros cometidos. Claro, nem todos os temas desafiadores em termos éticos estão presentes na Torá mosaica. Porém não se pode querer jogar a fé contra as disposições da “lei”. Pois “graça” também pode estar vazada na forma de “lei”. A ética do amor não pode prescindir da baliza da lei.
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Imagens para a prédica
Como a temática do arrependimento certamente estará no foco das pregações neste domingo, as seguintes estórias do universo judaico dos Hassidim podem ser ilustrativas. Quando o rabino Yechiel, neto do rabino Baruch de Medzibush, era uma criança pequena, perguntou ao seu avô: “Se Deus sabe de tudo, por que Ele chamou Adão, o primeiro homem, após o pecado e disse: ‘Onde estás?’” O rabino Baruch ouviu, mas nada respondeu. Algum tempo depois, o rabino Baruch perguntou ao pequeno Yechiel: “Queres brincar às escondidas?” O menino ficou encantado e correu para esconder-se. Esperou e esperou, mas nada do avô aparecer para procurá-lo. Finalmente, desistiu e saiu do esconderijo. O avô, percebeu ele, estava sentado à sua mesa e não tinha ainda tentado procurá-lo. O pequeno Yechiel começou a chorar. “Avô, esqueceste-te de mim! Nem ao menos tentaste procurar-me!” “Isto”, disse o rabino Baruch, “é a resposta à tua pergunta. É claro que Deus sabia onde Adão estava. Adão, entretanto, cometera dois pecados: comer o fruto da árvore e tentar esconder-se do Senhor do Universo. Se Deus não tivesse ido ‘procurar’ Adão, este não teria conseguido sobreviver por causa da sua vergonha. Ao ‘procurar’ por Adão, Hashem deu-lhe a oportunidade de ter contato com Ele novamente, para que pudesse uma vez mais ficar face a face com seu Criador.” “Um homem rico estava à beira da morte porque, embora estivesse com muita febre, não conseguia suar. O médico tentara de tudo o que fosse possível e nada funcionara. Por fim, convicto de que iria mesmo morrer, ele pediu a presença do rabino e este pediu-lhe que fizesse uma boa ação, pois a caridade livra até mesmo da morte. O rico homem pensou muito e, por fim, providenciou uma bela doação a uma instituição de ação social. Doou grande parte de suas riquezas para fins beneficentes. Assinada a procuração, o rabino já se ia quando o homem gritou: “Vê, rabino? Olha como estou suando!”.
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Alguns pensamentos também podem ser ilustrativos: “O remorso é uma impotência; ele voltará a cometer o mesmo pecado. Apenas o arrependimento é uma força que põe termo a tudo” (Honoré de Balzac). “O arrependimento prolonga a vida do homem” (Talmude babilônico). “O arrependimento é a chave que abre qualquer fechadura” (pensamento rabínico).
Bibliografia SCHWANTES, Milton. Natã precisa de Davi. Na esperança da igreja profética. Estudos Teológicos, São Leopoldo, v. 18, n. 3, p. 99-118, 1978. STOLZ, Fritz. Das erste und zweite Buch Samuel. Zurique: Theologischer Verlag Zürich, 1981.
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PRÉDICA: LUCAS 8.26-39
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ISAÍAS 65.1-9 GÁLATAS 3.23-29
20 JUN 2010
Paulo Roberto Garcia
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Introdução
O Evangelho de Lucas em sua composição literária é devedor ao Evangelho de Marcos e a uma fonte de ditos de Jesus (Fonte Q). Essa dependência não impede que, ao reelaborar o material recebido, ele dê o seu colorido e acabe por definir um caminho próprio. Esse caminho próprio é marcado por uma ênfase no encontro com o outro, de modo especial com o estrangeiro/estranho nos caminhos da vida e na celebração comunitária. Um exemplo clássico disso está no capítulo 24 – o relato dos caminhantes de Emaús –, onde o evangelho alcança seu ápice ao descrever a transformação que se dá no olhar de dois discípulos quando eles se permitem dialogar, caminhar e, principalmente, dividir a mesa com um estranho. Quando isso acontece, os olhos se abrem e Jesus é reconhecido. O mesmo acontece entre os capítulos 9 e 19, onde há um longo relato sobre a caminhada de Jesus a Jerusalém. Nela há conflitos e encontros, sendo uma parte significativa deles com estrangeiros. Esses dois exemplos nos apontam a realidade de uma comunidade que vamos descrever como culturalmente de fronteira. Ou seja, ela está entre duas culturas: a judaica (nesse caso, judaico-cristã) e a greco-romana. A convivência com o outro, de modo especial à mesa (lugar da refeição eucarística), é o desafio dessa comunidade. Diante disso, fugindo ao que a maioria dos pesquisadores aponta, vamos localizar essa comunidade na região da Antioquia, e não na Grécia. As tradições judaico-cristãs galilaicas de Mateus e Marcos encontram nessa região geograficamente limítrofe e culturalmente fronteiriça o desafio de dialogar e negociar com a cultura greco-romana. O evangelho é uma resposta a essa situação de conflito. Nossa pequena história acerca da salvação do endemoninhado geraseno, emprestada do Evangelho de Marcos pela comunidade lucana, acaba sendo embebida por essa realidade e por esses desafios.
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2
Exegese O endemoninhado geraseno e Jesus: um encontro transformador
Como afirmamos acima, essa pequena história foi assumida pela comunidade lucana a partir da tradição recebida do Evangelho de Marcos. Lucas conserva em grande parte tanto nossa pequena história como o bloco de narrativas da qual ela é parte na forma recebida, porém as pequenas mudanças redacionais que ele faz marcam uma nova construção de sentido para a comunidade. Com isso podemos afirmar que Lucas interfere redacionalmente no texto de Marcos, fazendo pequenas alterações, que se tornam significativas para o fortalecimento e a orientação da fé da comunidade. O primeiro nível de pequenas alterações significativas dá-se na reorganização das narrativas presentes nos capítulos 8 e 9 de Lucas a partir do material recebido de Marcos. A primeira constatação é que a ordem de Marcos não é seguida à risca. Em Lucas 6.17-8.3, o evangelho segue um caminho próprio sem lançar mão do material marcano. A partir de Lucas 8.4-9.50, há uma profunda dependência do Evangelho de Marcos, porém com ações redacionais, como podemos ver no quadro abaixo: Temas Ensino de Jesus em parábolas, resumindo o bloco recebido de Marcos A família de Jesus, ainda dependente de Marcos, mas retirado de outra parte do evangelho A tempestade acalmada O endemoninhado geraseno e a rejeição da cidade A filha de Jairo e a mulher encurvada A missão dos 12 Herodes e João Batista Multiplicação dos pães A confissão de Pedro e o desafio de levar a cruz
Lucas Lc 8.3-18 Lc 8.19-21
Marcos Mc 4.1-9,1020,21-25 Mc 3.31-35
Lc 8.22-25 Lc 8.26-39
Mc 4.35-41 Mc 5.1-20
Lc 8.40-56 Lc 9.1-6 Lc 9.7-9 Lc 9.10-17
Mc 5.21-43 Mc 6.7-13 Mc 6.14-29 Mc 6.30-44
Lc 9.18-27
Mc 8.27-31+ 8.34-9.1 Mc 9.2-8 Mc 9.14-29
A transfiguração A cura de um jovem possesso
Lc 9.28-36 Lc 9.37-43a
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Jesus anuncia sua morte e a discussão sobre o maior no reino dos céus A aceitação dos que expelem demônios em nome de Jesus sem segui-lo
Lc 9.43b-448
Mc 9.30-37
Lc 9.49-50
Mc 9.38-40
As linhas em negrito mostram os pontos em que a ordem apresentada pelo Evangelho de Marcos não foi seguida por Lucas. Há inserção de material oriundo de outra parte do Evangelho de Marcos, há omissões de narrativas e modificações na maior parte delas. O que se percebe é que Lucas registra nesse bloco uma predileção por relatos de milagres e ações milagrosas, envolvendo grupos periféricos na cultura da época, como o estrangeiro, a mulher, a criança, os possuídos de espíritos impuros. Um destaque importante é que esse bloco precede e prepara um bloco tipicamente lucano e importantíssimo para o evangelho, que é composto pelos relatos da subida a Jerusalém (9.51-19.27). O mesmo processo redacional percebido no bloco é encontrado também em nossa história. Lucas segue o texto de Marcos com pequenas e significativas alterações. A primeira alteração ocorre quando, ao apresentar a cidade dos gerasenos, Lucas acrescenta ao texto de Marcos que ela é fronteira da Galileia (8.26). A segunda alteração aparece na descrição do sofrimento do endemoninhado. Enquanto Marcos apresenta um catálogo de sofrimentos (Mc 5.3-5), Lucas espalha essa descrição em diversos versículos (27b, 29b-30) e de forma reduzida. Por exemplo, a autolapidação em meio aos sepulcros (Mc 5.5) é omitida. A terceira alteração é que Lucas modifica a descrição que Marcos faz do homem possesso como “possesso de espírito impuro” para possesso de demônios (única exceção é encontrado no v. 29, em que aparece a descrição “espírito imundo”). A quarta alteração é que, enquanto em Marcos (Mc 5.10) a súplica dos demônios é para “não sair da região”, em Lucas ela é substituída por não ir “para o abismo (abysson)”. A quinta alteração é que o latinismo encontrado no Evangelho de Marcos foi mantido com uma pequena alteração. Nesse evangelho – Marcos – encontramos como resposta à pergunta do nome dos demônios uma palavra proferida em latim: legião (legión), porque somos muitos (Mc 5.9). No Evangelho de Mateus essa parte foi suprimida (8.28-34). No Evangelho de Lucas, ela foi mantida modificando o complemento da resposta: Legião (legión), porque tinham entrado nele muitos demônios. Uma última alteração significativa que queremos destacar é a reação da cidade. Enquanto no Evangelho de Marcos a cidade, ao saber do que acontecera com o endemoninhado e com os porcos, pede a Jesus para se retirar, em Lucas encontramos que a cidade, ao saber como o endemoninhado fora salvo, pede a Jesus para se retirar, pois estavam possuídos de temor. Essas modificações na perícope apontam para uma mudança de perspectiva. A história em Marcos, que se localiza em meio à guerra judaica, enfatiza através da concentração de citações sobre o sofrimento do endemoninhado a violência das legiões. Já o texto de Lucas está focado nos sofrimentos de um estrangeiro que vive além da fronteira, é possuído por demônios que falam outra língua e que trazem um grande sofrimento para esse homem.
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Percebemos então duas ações redacionais que se complementam. A primeira no tratamento dado ao bloco recebido por Marcos, no qual a ênfase recai sobre diversos grupos periféricos atendidos por Jesus, sem omitir conflitos com os próximos – por exemplo, a família. A segunda, na história do endemoninhado geraseno, onde a ênfase se desloca para a localidade onde ele vive e para o sofrimento desse estrangeiro. É interessante perceber que a restauração daquele que vivia à margem da cidade determina uma ação de exclusão para com Jesus por parte dela. Por isso Jesus volta ao barco e, como desfecho dessa história, envia o homem restaurado de volta para casa, a fim de anunciar o que Deus tinha feito por ele. Se, por um lado, a cidade rejeita Jesus, de outro, ela se torna alvo da proclamação do homem que foi curado. Essas duas ações redacionais conjugadas podem oferecer-nos pistas para a reflexão.
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Meditação
A comunidade cristã em Antioquia, com sua memória registrada no Evangelho de Lucas e no livro de Atos, viveu o desafio da fronteira. Dobradiça entre o cristianismo judaico-cristão e o cristianismo gentílico que se espalhou no mundo mediterrâneo, articulou os desafios apresentados pelo choque de culturas. Entre os grandes desafios estava a mesa, lugar de encontro eucarístico, que deveria unir e dar identidade aos membros da comunidade. Nessa comunidade, infelizmente, a mesa dividia. Encontrar um gentio e um judeu assentados juntos seria algo impensável na cultura judaica da época. Como superar essa divisão? Como quebrar essa barreira? Como garantir o lugar do estrangeiro na vida de fé? Deveria ele se tornar judeu para ser aceito? Haveria outro caminho possível? Diante desses desafios, o evangelho reconta as histórias e ensinos de Jesus em uma nova perspectiva. A partir das tradições judaico-cristãs recebidas através do Evangelho de Marcos e da fonte dos ditos de Jesus (fonte Q), o evangelho relembra e anuncia para sua comunidade o que essas fontes também afirmam: que Jesus atuou na Galileia e morreu e ressuscitou em Jerusalém. Porém relembra e enfatiza que Jesus atuou nas cercanias da Galileia e que, ao trilhar um longo caminho a Jerusalém (descrito em dez capítulos), atravessou terras de estranhos/estrangeiros, ensinando, curando e fazendo missão. A preparação para esse caminho é o bloco de textos que inclui nossa história. Esses textos, recebidos do Evangelho de Marcos, são reorganizados em uma perspectiva que destaca a atenção de Jesus aos mais desprezados da sociedade. Em nossa história aparece o resgate de um estrangeiro endemoninhado. Um homem que está à margem da vida, sofrendo a violência da possessão demoníaca, abandonado pela cidade. A atuação de Jesus restaura a vida desse homem e, quando ele quer seguir Jesus, é enviado como um missionário à sua própria cidade, a mesma que pediu para que Jesus se retirasse dela (Lc 8.38-39). Esse estrangeiro impuro e marginalizado como também a sua cidade, que não estava aberta à presença de Jesus, são alcançados por sua ação restauradora. A dignidade e a vida
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4º Domingo após Pentecostes
desse homem são restauradas sem que ele se torne um judeu. Ao mesmo tempo, sua cidade intolerante com a presença de Jesus torna-se espaço para a ação missionária desse homem.
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Imagens para a prédica
A nossa perícope e o bloco na qual ela se localiza colocam problemas que desafiam as comunidades de fé e que podem ser evocados para uma reflexão. O primeiro desafio está no contexto das fronteiras que marcam nosso mundo e nossas comunidades. Fronteiras pensadas a partir de uma conceituação mais ampla, que mais do que descrever diferenças de espaços geográficos demarca também diferenças étnicas, de gênero, culturais, sociais, econômicas etc. Podemos iniciar a prédica destacando imagens daquilo que nos separa tanto em termos globais (guerras em nome de Deus, fome, violência, devastação do meio ambiente como marca do egoísmo humano) como também destacando imagens dos desafios e conflitos que nos separam no âmbito do cotidiano de nossas comunidades locais. Frente a essas divisões, Lucas enfatiza as ações de Jesus que rompiam as barreiras e iam em busca do outro. Aquilo que nos divide deve ser, na perspectiva do texto, o que nos desafia para uma ruptura de barreiras e construção de espaço de partilha. O segundo desafio é que, de acordo com o texto, a ruptura de barreiras constrói espaços de dignidade e restauração da vida do outro. O endemoninhado vivia fora da cidade, nos lugares da não-vida. O encontro com Jesus reconstrói sua existência, recoloca-o na cidade e na família e lhe confere um papel na vida de fé. Finalmente, as imagens da divisão podem ser retrabalhadas com imagens de encontro, partilha e construção da paz. Nesse ponto, pode-se enfatizar que o período após o Pentecostes na tradição litúrgica nos desafia a refletir sobre a vida debaixo da orientação do Espírito. A partir dos escritos ligados à autoridade lucana (evangelho e o livro de Atos) encontramos o desafio da superação das divisões. No evento de Pentecostes (At 2), as barreiras entre Deus e os seres humanos são quebradas no simbolismo da chama que toca a cabeça de cada discípulo. Imediatamente isso gera a superação das divisões humanas, quando cada um passa a ouvir em sua própria língua. A superação das divisões deve ser um processo gerador de vida e restaurador da dignidade de todos e todas.
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Subsídios litúrgicos
Abaixo, apresentamos alguns textos para uso litúrgico que enfatizam a inclusão, a quebra de barreiras e o amor transformador da vida. Esses e outros podem ser encontrados no seguinte endereço eletrônico: http:// www.luizcarlosramos.net/
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4º Domingo após Pentecostes
Saudação: Saudamos as diferentes pessoas que hoje se encontram em um mesmo espírito, numa mesma fé e no mesmo amor. Em nome da vida partilhada e da morte vencida; em nome da liberdade sonhada e da dor esquecida; em nome da justiça esperada e da lágrima sofrida; em nome do amor sem fronteiras e da humanidade redimida; em nome da esperança anelada e da paz atingida; em nome da unidade desejada e da dignidade vivida; sintamo-nos carinhosamente acolhidas e acolhidos. [Adap. por Prof. Dr. Luiz Carlos Ramos a partir de texto litúrgico de D. Pedro Casaldáliga] Acolhida do povo de Deus: Reunimo-nos como povo de Deus bem-aventurado, que celebra a força dos pobres; que enxuga as lágrimas dos que choram; que cultiva a mansidão; que sacia a fome e a sede na prática da justiça; que exercita a misericórdia; que de coração limpo contempla a face de Deus na promoção da paz; que com perseverança enfrenta perseguições e injúrias todos os dias. Somos povo, no entanto misericordiosos; pobres, porém mansos; famintos e sedentos, mas justos; perseguidos e injuriados e, ainda assim, pacificadores. Somos o que somos pela graça de Jesus Cristo, nosso Senhor. Somos o que somos pelo amor de Deus, nosso Pai. Somos o que somos pelas misericórdias do Espírito Santo, nosso eterno consolador. [Prof. Dr. Luiz Carlos Ramos, baseado em Mateus 5.1-12: As BemAventuranças] Creio, cremos: Creio, cremos, na unidade da igreja, casa dos pobres, comunidade de fé, mutirão de fiéis. Creio, cremos, na luta dos que sofrem, que cuidam da terra, que amam a vida, que celebram a paz. Creio, cremos, na palavra bem-dita do diálogo, poema que se faz carne, que se revela nas diferenças, que se cala para ouvir em meio às muitas vozes a palavra do totalmente Outro: aquele que, sendo eterno, nos atrai com cordas humanas e, sendo humano, nos une com laços eternos. [Prof. Dr. Luiz Carlos Ramos] Despedida: Graças te damos, ó Deus, porque derramaste sobre nós o teu Espírito Santo. Que essa comunhão nos ajude a crescer na fé e no amor solidário. Que possamos, também nós, sair daqui cheios do teu Espírito, animados e animadas a partilhar a vida do teu reino com todos aqueles e aquelas que de nós necessitam. Por Cristo, teu Filho amado. Amém. [Prof. Dr. Luiz Carlos Ramos]
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PRÉDICA: GÁLATAS 5.1,13-25
5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
1 REIS 19.15-16, 19-21 LUCAS 9.51-62
27 JUN 2010
Teobaldo Witter
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Introdução
Há um fio que liga as diferentes partes do texto. Liberdade é o tema central. Mas não é qualquer liberdade. Paulo escreve a respeito da liberdade cristã: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. A liberdade é dada por Cristo. Ela é preciosa. Deve ser assumida e vivida por nós, pessoas livres libertadas. Foi paga com o sacrifício de Jesus Cristo. Esse é o tema que perpassa os textos bíblicos selecionados para esta data. As igrejas da Galácia haviam entendido e assumido viver nessa liberdade cristã. O ser humano, no entanto, está sempre vulnerável. Diante da pressão e argumentação repensa as suas visões e compreensões. Pregadores judaizantes visitaram as igrejas. Semearam dúvidas em relação à legitimidade do apóstolo Paulo em pregar o correto evangelho. Implantaram a lei religiosa judaica nas comunidades. Com facilidade, as prescrições foram aceitas pelas igrejas. Paulo alerta com todas as letras a respeito do perigo das igrejas assumirem as leis recomendadas e, com isso, perderem Cristo e a liberdade para a qual ele os libertou. Conforme Gálatas 5.1, 13-25, Paulo enfatiza a liberdade, mas também conduz a liberdade à vivência real do amor fraternal. Cristãos são libertados e não podem fazer da liberdade dada por Cristo instrumento da vida sem compromissos. Assim sendo, contrapõe liberdade e escravidão; carne e espírito; frutos da carne e frutos do espírito. E conclui com vida nova no amor, sempre. As duas leituras indicadas são uma ponte importante para o olhar para trás. Para os gálatas, foi mais fácil fazer a ponte das obras da lei para a salvação, porque, em seu passado religioso, antes de conhecer Cristo, havia os comportamentos legalistas para poder viver em segurança, na idolatria. No texto a seguir, faço comentários exegéticos sobre a Carta aos Gálatas. Depois, segue a meditação com três destaques: a escravidão do nosso passado; para a liberdade Cristo nos libertou e vida no Espírito. Descrevo, então, uma imagem para a pregação e importantes subsídios litúrgicos. A Carta aos Gálatas é importante pela clareza de sua argumentação: salvação é obra de Deus; acontece somente pela graça de Deus, sendo aceita pelo ser humano em fé e confiança. As obras não são para ganhar a salvação, mas são frutos do amor já recebido.
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Exegese
Galácia é nome que vem de galas, povo descendente de tribos celtas. Esses haviam migrado, em torno do 3° século antes de Cristo, do centro da Europa para a Ásia Menor, onde ficava a Galácia. Hoje, a terra faz parte da Turquia. O último rei da Galácia foi Amintes. Ele morreu no ano 25 a.C. A partir de então, os romanos anexaram o reino da Galácia a seu domínio. Com exceção da carta de Paulo, a Bíblia revela pouco sobre a Galácia. São apenas cinco referências. Atos 16.6 menciona que Paulo, por causa de uma enfermidade, permaneceu algum tempo na região. Ensinou e organizou comunidades. Menciona dificuldade para pregar a Palavra, pois havia sido impedido pelo espírito. E foi chamado para anunciar o evangelho na Macedônia. No fim da segunda viagem missionária, Paulo atravessa a região da Galácia e Frígia, confirmando os discípulos (At 18.23). Em 1 Coríntios 16.1, Paulo lembra os cristãos de Corinto de que de-vem fazer da mesma forma como ele havia solicitado às igrejas da Galácia, isto é, ofertar no primeiro dia da semana para ajudar os necessitados de Jerusalém. Enquanto estava preso em Roma, Paulo menciona que Crescente o abandonou e foi para a Galácia, conforme 2 Timóteo 4.10. Em sua primeira carta, Pedro saúda os cristãos forasteiros, inclusive os da Galácia (1Pe 1.1). Essas poucas notícias contrastam com a importância que a Galácia tem para a história da igreja primitiva. Paulo escreve que esteve doente e, por isso, passou um período na Galácia. Na ocasião, pregou o evangelho pela primeira vez naquela região durante a sua segunda viagem missionária (Gl 4.13). Certamente Paulo fundou várias pequenas comunidades na região. A carta é dirigida aos crentes, às igrejas da Galácia (Gl 1.2). São pequenas comunidades dispersas pela província. Pela argumentação e relato de Paulo na carta, podemos perceber que as comunidades foram constituídas, em sua maioria, senão na totalidade, por pessoas de origem gentílica (Gl 1.12b; Gl 4.8). As pessoas destinatárias da carta são abordadas como antigos pagãos (LOHSE, p. 55), que não conheciam Deus, serviam a ídolos e estavam escravizados pela natureza do mundo (Gl 4.8-9). Mas que, pela pregação de Paulo, haviam recebido o evangelho com alegria, gratidão e exaltação (Gl 4.14-15). Estavam felizes pela graça da chance de conhecer a Jesus Cristo, que liberta para a liberdade (Gl 5.1). Tudo ia bem. No entanto, o primeiro amor foi esfriando (Gl 5.7). Paulo mostra-se perplexo diante da fragilidade da fé dos gálatas e pela rapidez com que estão passando para outro evangelho (Gl 1.6). Superficialmente, mudaram de lado. Bastou que alguns cristãos judaizantes passassem pelas comunidades e colocassem dúvidas em relação à pregação de Paulo e pronto! A confusão estava instalada. Um dos motivos da carta é o alerta e a exortação às comunidades para viver a sua fé da graça e liberdade que Cristo trouxe. Outro motivo da carta é o fato de “surgirem subitamente pessoas que trabalhavam contra Paulo” (LOHSE, p. 55).
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Paulo diz que são falsos irmãos aqueles que se intrometiam nas comunidades e perturbavam a vida delas com outros ensinamentos. Tinham o objetivo de “espreitar a liberdade que temos em Cristo Jesus e reduzir-nos à escravidão” (Gl 2.4). Essas pessoas de fora penetraram nas comunidades. Elas “[...] por um lado, suscitaram suspeitas de que Paulo não será um verdadeiro apóstolo e, por outro lado, atacaram o seu evangelho (Gl 1.10-12), declarando que eles estavam trazendo o Evangelho verdadeiro e completo (Gl 1.6-9), visto que Paulo procurava agradar a homens, teria retido aos gálatas a lei” (LOHSE, p. 55-56). Esses falsos irmãos, segundo Paulo, estão trazendo outro evangelho. Estão ensinando que “[...] do evangelho pleno faria parte também a lei, e por isso era necessário circuncidarse (Gl 5.2; Gl 6.12), aceitar o calendário de festas judaicas (Gl. 4.10) e observar as prescrições de pureza e alimentação (Gl 2.11-21). Justo perante Deus poderia ser somente aquele que tivesse obras para exibir, como a lei as exigia” (LOHSE, p. 56). Esse ensino certamente estava induzindo os gálatas a olhar para trás, para o tempo em que viviam das obras, na sua religiosidade popular de ver o mundo e as divindades. Ao olharem para trás, estavam sendo seduzidos novamente pelas obras como mérito para agradar as divindades e aplicar a sua ira. Olhar para trás, nesse sentido, significa a prisão das obras e a perda de Cristo Jesus. Paulo está incomodado com essa intromissão dos “falsos irmãos” com ensino diverso do seu evangelho. Ele diz que eles são “[...] destruidores de comunidades, os quais transformam a Boa-Nova em seu oposto (Gl 1.6-9). Quem aceita a sua doutrina torna-se obrigado a cumprir toda a lei, mas com isso perde a Cristo (Gl. 5.2) e recai na escravidão em que vivia como pagão (Gl 4.9s)” (LOHSE, p. 56). É interessante observar a clareza teológica e prática com que Paulo refuta o legalismo judaizante. Nas palavras de Lohse, “[...] contra a proclamação de que a lei é necessária à salvação, Paulo realça a verdade do evangelho, que não tolera nenhum complemento ou acréscimo. A salvação é concedida, unicamente, pela misericórdia de Deus e recebida exclusivamente na fé” (LOHSE, p.57). A Carta aos Gálatas é importante pela clareza de sua argumentação: salvação é obra de Deus, acontece somente pela graça de Deus, sendo aceita pelo ser humano em fé e confiança. A igreja não é um movimento cultural, moral ou um legalismo positivado. A Carta aos Gálatas, com o desenvolvimento de sua controvérsia, fundamenta-se como um bonito e comovente testemunho de que, como povo de Deus composto por judeus e não-judeus, a igreja não se resume a uma cultura, mas ela ensina e vive a palavra do seu Senhor junto a todas as diferentes criaturas.
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Meditação
Como fio condutor da meditação, busco a imagem de voltar atrás, olhar para trás. Tanto os textos das leituras como da pregação o permitem fazer.
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3.1 – A escravidão do nosso passado 1 Reis 19.15-16, 19-21 – Elias passa adiante o bastão da profecia para Eliseu. Esse, antes de aceitar, precisa resolver duas questões de seu passado. 1 – A sua junta de bois, com a qual estava lavrando a terra, junto com outros trabalhadores e bois. Eliseu mata a sua junta de bois. Quebra a canga, o arado e a carroça e faz deles fogo para assar a carne dos bois e a distribui ao povo. 2 – Eliseu volta para casa. Despede-se de seu pai e sua mãe com um beijo. Portanto Eliseu acerta a sua vida com o seu passado, para que possa estar livre para o desempenho da missão profética que recebera de Deus através de Elias. Lucas 9.51-62 – Jesus estava indo a Jerusalém. Pede pousada numa aldeia de samaritanos. Há exemplos do bom relacionamento de Jesus com samaritanos. Ele fala bem deles. Jesus até menciona samaritanos como protagonistas da ética do amor (Lc 10.25-37). Mas, nesse texto, como Jesus ia a Jerusalém, o passado de intrigas entre judeus e samaritanos falou mais forte. Os samaritanos negaram pousada a seu defensor: Jesus. Outras pessoas querem seguir Jesus. Um deles quer primeiro se despedir de casa. O outro quer, antes, sepultar seu pai. Todos têm assuntos ainda não resolvidos do passado. Jesus pega um exemplo da vida do povo: quem lavra e olha para trás não pode lavrar no reino de Deus. Na reflexão acima se enquadra a sabedoria popular: o corredor de rua (maratona) que olha para trás perde a corrida. Com esse gesto sinaliza que está cansando. Por outro lado, estimula seu concorrente a correr mais rápido. Ou a pessoa que romper seu relacionamento e sair para não voltar mais, se no caminho olhar para trás, voltará. São coisas do nosso passado que armazenamos em nosso ser e que, num momento oportuno, se manifestam. Decidimos, então, a partir deles. Toda pessoa que quer se livrar de algum problema (glutonaria, avareza, alcoolismo, drogadicção, luxúria etc.) só vai ter algum sucesso no seu intento se tomar a firme decisão de se livrar de seu passado. Caso contrário, será tragada pelos “fantasmas” do passado. 3.2 – Para a liberdade Cristo nos libertou Os membros das igrejas da Galácia estavam escravizados em sua cultura religiosa, onde “outrora, não conhecendo Deus, vocês serviam deuses que, por natureza, não o são” (Gl 2.8). Portanto estavam sujeitos aos rudimentos do mundo (Gl 4.3b). Esses deuses, aos quais serviam, não libertam, não podem ajudar, porque seu poder está no limite da criação humana. A esses deuses, conforme a lei, os gálatas serviam para aplicar ira e ser beneficiados. Eram naturais, nesse contexto do passado, “a prostituição, a impureza, a lascívia, a idolatria, a feitiçaria, as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as facções, as dissensões, os partidos, as invejas, as bebedices, as orgias e coisas semelhantes a essas” (Gl 5.18-21). Cada uma dessas obras da nossa carne é como um bichinho de estimação que criamos nos quintais de nossas casas. Essa é a vida sob o “mundo e a nossa carne”, segundo Martim Lutero. O mundo refere-se ao ambiente de relações e influências humanas. Nossa carne refere-se à nossa cabeça, ao nosso velho Adão e velha Eva,
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que foram afogados no Batismo, mas que sempre estão prontos para emergir, atacar, escravizar e destruir. Olhar para trás significa olhar para Adão e Eva e chamá-los para que venham e nos escravizem. “O batizar com água significa que, por arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos” (LUTERO, 2007, p. 18). Deve surgir nova pessoa. Mas não esquecer que a velha pessoa sabe boiar na água. Ela ressurge como um “fantasma” quando menos esperamos. Para os gálatas, a velha pessoa estava ressurgindo em forma piedosa e bem-intencionada a partir dos pregadores do legalismo religioso. Diante dessa realidade, Paulo não podia mesmo silenciar. Viver a religião cercado por leis é mais fácil, simples, dá a sensação de segurança. E o ser humano, por natureza, é um ser que quer leis e segurança. Mas religiões e igrejas que fundamentam sua fé e vida na segurança da lei estão perpetuando a idolatria e alimentando seu velho Adão e sua velha Eva como bichinhos de estimação no quintal. Porém esse bichinho de estimação lindo pode crescer e tomar conta da vida, assim como uma lagartixa pode virar um crocodilo. Os gálatas tiveram experiência de liberdade. Nós podemos ter experiência e vida de liberdade. Estamos sendo libertos por Cristo Jesus, por sua palavra, seus sacramentos e suas pegadas em nossa vida. É para a liberdade que Cristo nos liberta. Não vacilemos, pois facilmente caímos na superficialidade e pronto: estamos novamente na escravidão. Liberdade – esse é o tema do nosso texto. Liberdade, ensinada por Paulo, não é conquista humana. Liberdade é graça de Deus. Liberdade, o presente de Jesus Cristo. Liberdade, não entre no jogo de escravidão. Liberdade: cuidado, pois leis e costumes podem escravizar. Liberdade, pois a carne pode levar à escravidão. Liberdade, atenção, ande pelo espírito. Liberdade, sustentada por Cristo, vivida em amor. Não escravize, ame. O mandamento de Cristo cumpre-se no amor: amarás a teu próximo como a ti mesmo (Gl 5. 14). Por isso em amor sirvam uns aos outros (Gl 5.13). 3.3 – Viver no Espírito “Mas se vocês são guiados pelo Espírito, não estão debaixo da lei” (Gl 5.13). A lei mostra que todos são culpados. Ela tem a função de refletir, como um espelho, as manchas dos pecados. Mas a lei não perdoa pecados. Ela tem a função de indicar o caminho, mas ela não é o caminho. Ela tem a função de conduzir ao desespero, igual a Judas, que, sem Cristo, não encontrou saída. Somente Cristo liberta para a liberdade, porque Cristo perdoa. Cristo é o caminho. Cristo leva à nova vida, que, como em Pedro, reconciliou consigo o pecador penitente. Libertados para a liberdade por Cristo, amamos, porque Deus nos ama. A fé e a confiança em Deus levam-nos a produzir frutos do Espírito. Esses frutos são o amor, a alegria, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio (Gl 5.22-23).
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4 Imagens para a prédica “Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus” (Lc 9.62). Pedir às pessoas que, por um instante, olhem para trás. Assim como olhamos fisicamente para trás, também olhamos espiritualmente para trás. O que cada pessoa vê? Qual foi seu mundo espiritual? De liberdade e fé? De escravidão e descrença? O passado ajuda ou não na vocação cristã de fé? Numa reportagem sobre cultura religiosa, uma mulher contou que, numa cidade do interior de Minas Gerais, os pais ensinavam aos filhos que, na Sextafeira da Paixão, é proibido olhar para trás. Perguntada, ela disse que quem olha para trás nesse dia vê fantasmas atrás de si. Disse que muita gente já viu fantasmas. Certamente não há fantasmas nessa cidade, mas eles são coisas que as pessoas têm na sua cabeça. Os fantasmas estão na cultura e na cabeça do povo. Que fantasmas estão em nossa cabeça? Percebemos o mal que fazem? Há possibilidade de sermos libertados deles? Que “fantasmas” perturbam a vida e a comunhão em nossa comunidade? Não se trata de negar o passado, nem de desprezá-lo, mas de estar reconciliado com ele. Isso somente Jesus pode fazer. A psicologia pode ajudar a irmos ao ponto fundamental, escondido em nosso passado. Mas somente Jesus pode nos libertar, pois foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Somente ele pode nos perdoar e reconciliar com a vida. Depois dessa introdução, sugiro a leitura de Gálatas 5.1, 13-25 e que a pregação considere os três pontos da meditação: 1. A escravidão do nosso passado; 2. Para a liberdade Cristo nos libertou; e 3. Viver no Espírito.
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Subsídios litúrgicos
Saudação trinitária: Comecemos em nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém. Deus abriu seu coração misericordioso e se encarnou em Jesus Cristo para nos libertar para a liberdade. Deus derramou o seu Espírito Santo sobre o seu povo reunido, sobre a sua criação. Ele quer encher nosso coração para que ele transborde, como escreve João 7.8: “Rios de água viva vão jorrar do coração de quem crê em mim, diz Jesus Cristo”. Deus convidou-os para encher seu coração com sua Santa Palavra. Amém. Confissão dos pecados: “Os discípulos perguntaram a Jesus: Senhor, você quer que nós mandemos descer fogo do céu para os consumir? Jesus, porém, os repreendeu e disse: O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas veio para salválas” (Lc 9.54-56).
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Confissão de pecados: Todas as pessoas têm uma ou mais fragilidades. Muitas vezes, gostaríamos de ter comportamento melhor, de viver com mais amor, de nos dedicar com mais carinho à causa da fé, da confiança, da palavra, da igreja, da paz e da justiça. Mas a indiferença, o comodismo, a inveja, o medo, o senso comum e a competição manifestam-se em nossos relacionamentos. Nascemos com a velha natureza pecadora. Ela se manifesta em diversos momentos da nossa vida. Todas as pessoas têm problemas. Geralmente, as pessoas que mais nos amam são as mais prejudicadas com o nosso egoísmo. É necessário que olhemos para esses problemas, que os enfrentemos e que os tratemos. Sozinhos, no entanto, estamos verdadeiramente perdidos e sem chances. Jesus Cristo, por sua vez, está preparado, pronto e completo para nos acolher em nossas fraquezas. Vamos fazer, em silêncio, a confissão individual de pecados. (Deixar um tempo de silêncio para a confissão individual) Senhor, tu ouviste a confissão de pecados de cada pessoa aqui reunida. Reconhecemos que pecamos em palavras, pensamentos, ações ou omissões. Todos esses pecados pesam sobre nós, causando tua ira temporária ou eterna. No entanto, estamos diante de ti para confessar os pecados. Senhor, trata-nos com misericórdia. Perdoa as nossas injustiças, nossa indiferença, nossa pequena fé e aumenta-nos a fé, melhora a nossa vida e nossos relacionamentos. Inclui-nos em teus propósitos de vida e salvação por causa do sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo. Suplicamos por misericórdia, Senhor. Anúncio do perdão: “Assim diz o Senhor à sua casa: buscai-me e vivei” (Am 5.5). Vocês creem que seus pecados foram ouvidos e estão sendo perdoados por Deus? Como creem, assim seja com vocês. Anuncio, em nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, o perdão a todos vocês que fizeram a sua confissão de pecados. O Senhor mandou anunciar o seu perdão e a sua graça. Nesta casa, acontecem neste momento vida e salvação, pois onde há perdão, há vida e salvação (Martim Lutero). Vão em paz, meus irmãos e minhas irmãs. Amém. Kyrie: Queremos lembrar e trazer diante do Senhor as dores do mundo. Pedimos ao Senhor pelas pessoas que são escravizadas pelo medo, pela violência, pela escuridão da ignorância, pela religião da lei, pelo poder, por ameaças, pela fome, pelo desemprego, pelos diversos tipos de drogas, por seus problemas não resolvidos e pelas doenças. Que o Senhor esteja com elas ali onde se encontram, em nossa cidade, nosso município, estado, país e mundo. Dê-lhes, Senhor, a felicidade de viver e de servi-lo, com alegria, boa vontade, disposição e criatividade. Amém.
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Glória in excelsis: Podemos e devemos nos alegrar com Deus. Estamos felizes porque Deus nos trata com justiça, com misericórdia e com sabedoria. Queremos prestigiar, agradecer, dar glória e louvor ao Senhor com as palavras do Salmo 104.24-35. (Ler o salmo) Oração do dia: Deus, nós agradecemos, porque o Senhor nos convidou e conduziu até aqui, neste lugar, para culto. Pedimos que o Senhor envie o seu Santo Espírito. Que ele faça com que a tua palavra possa mexer conosco e nos capacitar para ser testemunhas de Jesus Cristo. Neste culto, em especial, pedimos que tu indiques também a parte que nos cabe como pessoas compromissadas contigo e com teu povo. Esteja presente, pela ação de tua Palavra e do teu Espírito, no cotidiano de todas as pessoas que se encontram aqui no culto. Assiste-nos com tua bondade e criatividade neste momento. Amém. Intercessões: Deus, obrigado pelo encontro e convívio, aqui neste culto, onde tu nos serviste com tua Santa Palavra. Graças pelo nascimento, vida, ensinamento, morte e ressurreição de teu filho amado, nosso Senhor Jesus Cristo, que trouxe luz e vida à nossa escuridão e morte. Obrigado pelo perdão que nos deste, por tua promessa em atender nossas súplicas pelas dores do mundo, pela pregação. Obrigado que tu permites nosso louvor através dos hinos. Graças pelo dinheiro que temos e que nos dá condições para viver melhor a vida e te ofertar para o trabalho da tua igreja, na sociedade. Obrigado, Senhor bondoso, pelo Espírito Santo que tu enviaste aos antigos e continuas enviando hoje. Ele nos consola, transforma, renova, fortalece e emprega no ministério do teu reino de vida, comunhão, fé, perdão e salvação. Senhor, o teu povo deseja interceder e pedimos que tu inclines teu rosto sobre nós e atendas as intercessões, se for de tua vontade e de nossa necessidade: (Mencionar motivos de oração da comunidade) Deus, nosso Criador, Libertador e Empregador, em tuas mãos nós confiamos as intercessões de tua comunidade, aqui reunida em oração. Queremos ainda, de forma especial, interceder pelos casais em conflito, pelos pais e filhos que têm dificuldades para se entender, pelos conflitos entre irmãos e irmãs, pelos conflitos comunitários, pelos conflitos na rua, no trabalho e em qualquer outra parte em que pessoas se agridem, traem, machucam, magoam. Pedimos que tu indiques também a parte que nos cabe como pessoas compromissadas contigo e com teu povo. Esteja presente, por tua Palavra e pela ação do teu Espírito, no cotidiano de todas as pessoas que exercem autoridade. Dá criatividade e ânimo ao presbitério para trabalhar e enfrentar as questões de fé e vida de fé de tua igreja em suas atividades. Dá coração aberto e sensibilidade para percebermos a importância da reconciliação contigo e com as pessoas ao nosso redor. Tudo o mais que precisamos para nossa reconciliação, vida e salvação, e tu bem sabes do que necessitamos, incluímos na oração que Jesus Cristo nos ensinou: Pai nosso....
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Liturgia de despedida Bênção: Que o Senhor os abençoe e guarde. Que o Senhor os guarde dos caminhos do mal, das trevas e da morte. Que o Senhor os proteja de todos os danos e perigos. Em nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém. Envio: Agora caminhamos em paz, na graça do Espírito Santo de Deus, cientes do nosso compromisso cristão de ensinar e viver na perspectiva do reino de Deus, que, em Jesus Cristo, já chegou. Enquanto caminhamos, vamos dizer ao mundo todo que o Senhor Deus é bom, justo e, através do perdão, mediante confissão, faz acontecer vida e salvação. Amém.
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Editora Sinodal, p. 53-58. LUTERO, Martim. Catecismo Menor. São Leopoldo: Editora Sinodal, 11. ed. atualizada, 2007.
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6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: LUCAS 10.1-11,16-20
04 JUL 2010
ISAÍAS 66.10-14 GÁLATAS 6.(1-6)7-16
Jefferson Andre Samuelsson
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Introdução
Lucas relata uma ação evangelizadora. Trata-se da universalização da missão salvífica de Jesus. Esse é o tema que ele nos apresenta nessa perícope. Tem um enredo completo: a convocação e designação dos setenta e dois, as instruções, o envio e, por fim, o retorno com o relato do cumprimento e as alegrias de uma tarefa bem-sucedida. A tradição atribui à missão dos setenta e dois um contexto mais amplo de abrangência, além dos muros da nação israelita. Daí a distinção entre essa e a dos doze. Uma das instruções aos doze era: “Vão às ovelhas de Israel” (Mt 10.6). Doze é o número das tribos de Israel (Mt 10.1-4). Assim como setenta e dois é, tradicionalmente, o cômputo das nações pagãs em Gênesis 10. Por isso temos no relato em estudo, pode-se dizer, a prefiguração da futura missão mundial da igreja. A Boa-Nova é para todos os povos. A narrativa da missão dos setenta e dois é exclusiva do Evangelho de Lucas (existe debate quanto ao número 70 ou 72, mas isso não é relevante para nosso estudo). A leitura do Antigo Testamento – Isaías 66.10-14 – apresenta uma imagem admirável. As outras nações mamarão nos peitos de Israel. O texto expressa que o Senhor estenderá sobre Jerusalém a paz como um rio e a glória como uma enchente, que transborda. E Jerusalém será como uma mãe: carregará as nações nos braços e, no colo, as abraçará com carinho. A mensagem de Isaías coaduna-se com a leitura de Lucas, porque as outras nações precisam saber da paz de Israel, isto é, precisam saber que “o reino de Deus está próximo”, precisam mamar também desse leite, que é a salvação. Na leitura da epístola do Novo Testamento – Gálatas 6.(1-6) 7-16 –, a imagem é a da ceifa. Aquele que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna. O texto trata da necessidade de fazer o bem enquanto tivermos oportunidade. Grande bem é ajudar na seara do Senhor. Alegrar-se na colheita dele. A glória do cristão, como Paulo diz, está na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo e não em seus feitos.
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6º Domingo após Pentecostes
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Exegese
A perícope em estudo é precedida de três breves diálogos. Mostra pessoas que tinham vontade de seguir Jesus, entretanto queriam adiar a sua resolução definitiva. Jesus disse, respectivamente, a eles: eu não tenho onde reclinar minha cabeça; deixem os mortos sepultarem os seus mortos; e ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus. Logo após esses diálogos, Lucas nos retrata a missão dos setenta e dois. Jesus tinha tomado o caminho para Jerusalém. Estava a caminho quando designou os setenta e dois. Provavelmente a missão dos setenta teve lugar na Pereia (sul da Transjordânia). Vejamos as ênfases: V. 1-3 – Quem são esses setenta e dois? E por que foram enviados de dois em dois? Não sabemos quem são; sabemos que faziam parte dos seguidores de Jesus. Foram enviados às cidades onde Jesus estava para ir. Registra-se que eles cumpriram a sua missão e retornaram “possuídos de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome” (v. 17). A alegria pelas bênçãos de uma boa colheita. A segunda pergunta talvez possa ser respondida em função do perigo e do sentimento de solidão que assolam muitos pastores e evangelistas – “eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (v. 3). Ou, ainda, porque a colheita é um trabalho conjunto em que se celebra o ajuntar dos frutos. Os setenta e dois agiram em nome e em lugar de Jesus. Jesus falaria através deles, pois os enviou para preparar seu caminho. Expressa o texto que “os enviou para que o precedessem em cada cidade onde ele estava para ir” (v.1). Era uma missão temporária, restrita, específica, enquanto Jesus subia a Jerusalém. O verbo utilizado é apostéllo – enviar. Desse verbo provém apóstolo. Eles foram enviados como legítimos representantes, com a autoridade daquele que os enviou. Eram seus arautos. No entanto, foram avisados de que eram impotentes quanto às suas próprias forças. Sua confiança era que iriam cumprir uma tarefa como predecessores do próprio Filho de Deus e tinham a sua autoridade. Seu trabalho era curar os enfermos e anunciar a vinda do reino de Deus na pessoa de Jesus (v. 9). V. 4 – Fornece dicas da ação dos missionários. Evitar as distrações pelo caminho para que a missão não fosse deixada de lado. Nas saudações orientais, o inferior parava e permanecia quieto enquanto o superior passava. Deviam deixar isso de lado, concentrar-se no tinham de fazer, parando somente nas casas. V. 5-11 – Instruções de procedimento e a mensagem que teriam de proferir: “paz seja nesta casa”; “até o pó da vossa cidade, que se nos pregou aos pés, sacudimos contra vós outros. Não obstante, sabei que está próximo o reino de Deus”. Isto é, apesar de alguns não receberem os missionários, também ouviriam a mesma mensagem – “a vós outros está próximo o reino de Deus”. Está próximo de todos. Daqueles que os receberam e dos que não os receberam. Qual a diferença? Para uns, é uma boa notícia, que consola, conforta. Para outros, é uma advertência, é juízo. Tomem cuidado! Saibam isso! O reino de Deus é o próprio Jesus. Esse reino veio a todos. Aos que o receberam deu-lhes o poder de ser feitos filhos de Deus. A rejeição é ao reino de Deus, isto é, rejeita-se a Jesus e a Deus que o enviou.
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6º Domingo após Pentecostes
V. 16 – O mesmo verbo enviar é novamente utilizado (v. 1, 4, 16). Os setenta e dois são legítimos representantes. Têm a autoridade de Jesus. Levam a paz e a salvação. Agem de acordo com a promessa que a eles foi dada. Eis aqui um consolo e uma advertência. Consolo porque, ao ouvir um mensageiro, estamos ouvindo Jesus; entretanto, ao não o ouvirmos, estamos rejeitando Jesus, e, ao rejeitarmos Jesus, rejeitamos Deus. V. 17-20 – O regresso e o relatório. Os missionários retornaram possuídos de alegria. Essa, porém, não deveria estar baseada em seus feitos, porque, na verdade, são feitos de Deus. Ele preparou a terra, plantou, limpou, regou. A alegria está em saber que os seus nomes estão arrolados nos céus. E “Satanás cair do céu” significa, talvez, o prenúncio da derrocada de Satanás, o que ocorrerá no final dos tempos.
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Meditação
A mensagem de Lucas é resumida em seu prefácio (Lc 1.1-4): “Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foi instruído”. A partir dessa perspectiva, devemos ler a missão dos setenta e dois. Sua missão era levar a mensagem da verdade de que “o reino de Deus está próximo”. Essa é a mensagem que levaram às pessoas das outras nações. O sermão baseado nesse texto de Lucas enfatizará a evangelização. Essa, por sua vez, é tida como uma árdua tarefa. Um trabalho maçante. Um trabalho que exige estudo, preparação de material, idealização de estratégias para o contato com as outras pessoas. Jesus a retrata, porém, como uma grande colheita, em que os trabalhadores são poucos. O primeiro passo dos trabalhadores é rogar por mais companheiros. Depois devem cumprir a tarefa a caminho. Ao chegarem na casa de alguém, dizem: “Paz seja nesta casa”. O sermão pode também mesclar as leituras do dia. Há nelas um conteúdo de fé e de obras. Aqueles que já mamam do leite de Israel devem oferecer esse mesmo leite às outras nações, aos que os cercam, fazendo o bem, como expressa a perícope de Gálatas. Desse modo, demonstra o apóstolo Paulo. A colheita tem alegrias, mas tem igualmente trabalho. A lei não é o motivo correto para evangelizar. Mas, sim, a alegria de participar da colheita. O trabalho mais árduo, sob a perspectiva da colheita, já foi feito. A preparação e o plantio já foram realizados: arar, semear, fertilizar, irrigar, capinar e zelar. Essas partes mais difíceis, o texto nos lembra, foram realizadas pelo Senhor da seara. A nossa parte é o regozijo da colheita, como aquela expressão de profunda alegria, demonstrada pelos missionários de Jesus que regressaram. No tempo de Jesus, milhares de pessoas não o conheciam. A missão dos setenta e dois era torná-lo conhecido. Pregar a respeito do reino de Deus, que
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estava próximo. Hoje milhares de pessoas igualmente não o conhecem, e a missão que nos cabe é torná-lo conhecido como o único Salvador. Em relação à imagem da colheita, muitos estão preparados para recebê-lo. O coração deles já foi preparado, a semente já foi semeada, cresceu e está pronta para ser colhida. A designação de Jesus aos setenta e dois também é para nós. Nós somos a nação santa, o povo de propriedade exclusiva de Deus, e para quê? Para anunciar às outras pessoas uma nova vida em Jesus. O reino de Deus está próximo de nós, próximo daqueles que nos recebem e próximo daqueles que não nos recebem. É provável que esses acontecimentos, narrados por Lucas, estejam no período da Festa dos Tabernáculos. Sendo correta essa hipótese, esse contexto é importante também do ponto de vista teológico. Pois a Festa dos Tabernáculos era a celebração da peregrinação de Israel durante 40 anos pelo deserto e a celebração das bênçãos da colheita dos primeiros frutos. Desse modo, leva-se em consideração, antes de tudo, o que Deus tem realizado por e para nós durante a nossa peregrinação neste mundo, e não o que nós realizamos. Deus preparou, plantou e cuidou. Nós nos alegramos com a colheita. Esta é a conclusão da perícope em estudo: “Regressaram os setenta e dois, possuídos de alegria”.
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Imagens para a prédica
Pode-se pensar em ações conjuntas, em que se quer atingir uma abrangência maior em menor tempo. Nesse sentido, a própria colheita é a imagem por excelência. Hoje as máquinas colhem, mesmo assim há grande movimentação quando chega esse momento. Antigamente, ajuntavam-se os vizinhos para colher e trilhar os grãos. Apesar das dificuldades e do trabalho duro, ao sol, todos se alegravam. Alguns faziam os montes, outros recolhiam os feixes e depois separavam a palha do grão. Compartilhavam suas tristezas, seus anseios, suas alegrias e divertiam-se no trabalho. As refeições também eram compartilhadas, comiam do que a família tinha preparado. O mesmo contexto, quanto à alimentação, expressa-se no texto, bem como a alegria dos enviados de Jesus e seu retorno da colheita. Outra imagem é a dos mutirões realizados no interior para fazer determinado trabalho. Convidavam-se os vizinhos para passar o dia trabalhando com um fim específico. Reuniam-se em torno de 20 a 30 pessoas com um objetivo (isso em um contexto rural). Nas cidades, ocorrem mutirões de cidadania. Profissionais das mais diferentes áreas realizam todos os tipos de trabalho e, assim, conseguem alcançar mais pessoas num curto espaço de tempo nos seus respectivos atendimentos. Cabe observar que sempre tem um idealizador do trabalho. Existe uma convocação e um objetivo a ser alcançado.
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5 Subsídios litúrgicos Oração de coleta: Ó Deus e Pai celeste, Senhor da seara. Teu Filho Jesus disse: “Rogai ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara”. O mundo é teu, Senhor. Tu o fizeste e zela por ele. Tu fizeste, também, com tuas próprias mãos, o homem e a mulher e deles formaste todas as nações da terra. As nações são a tua seara. Teu Filho nos convida a participar da alegria de colher os frutos. Por isso nós te pedimos: capacita-nos para a tua colheita para que também nós nos alegremos, cumprindo a tarefa que nos designaste. Por teu Filho Jesus, nosso Salvador. Amém. Litania (responsório): Oficiante: Cantem uma nova canção a Deus, o Senhor. Cantem ao Senhor, todos os povos da terra! Anunciem todos os dias que ele nos salvou. Falem da sua glória às nações; cantem a todos os povos as coisas maravilhosas que ele tem feito. Digam a todas as nações: Comunidade: O Senhor Deus é grande e merece todo o nosso louvor. Ele deve ser temido mais do que todos os deuses. Porque os deuses das outras nações são somente ídolos, mas o Senhor fez os céus. Ele está cercado de glória e majestade; poder e beleza enchem o seu Templo. Oficiante: Louvem o Senhor, todos os povos da terra! Louvem a sua glória e o seu poder. Deem ao Senhor a honra que ele merece; tragam uma oferta e entrem nos pátios do seu Templo. Curvem-se diante do Santo Deus quando ele aparecer; trema diante dele toda a terra. Digam a todas as nações: Comunidade: O Senhor Deus é Rei! A terra está firme no seu lugar e não pode ser abalada; ele julgará os povos de acordo com o que é direito. Oficiante: Alegre-se a terra, e fique contente o céu. Rujam o mar e todas as suas criaturas que nele vivem. Alegrem-se os campos e tudo o que há neles. Digam a todas as nações: Comunidade: O reino de Deus está próximo. O Senhor Deus vem governar a terra; então as árvores dos bosques gritarão de alegria diante dele. Ele governará os povos do mundo com justiça e imparcialidade. (Salmo 96 adaptado)
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PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 30.9-14
7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 10.25-37 COLOSSENSES 1.1-14
11 JUL 2010
Carlos Artur Dreher
1
Introdução
Os textos previstos para o 7º Domingo após Pentecostes apontam para o desafio constante na vida de pessoas dispostas a seguir Jesus Cristo: a prática do amor de uns para com os outros. Se para o Deuteronômio essa tarefa não é difícil (Dt 30.11), o intérprete da lei que se dirige a Jesus (Lc 10.25) não parece ter a mesma opinião. Embora conheça a lei – afinal, é seu intérprete – e saiba que essa se resume no amor a Deus e ao próximo, não sabe a quem amar. Será que a teoria o deixou confuso? Por outro lado, na Epístola aos Colossenses, o apóstolo sabe dizer da alegria pelo fato de o evangelho estar produzindo fruto (Cl 1.6), porque a comunidade ouviu e entendeu a graça de Deus. A fé em Cristo move aquelas pessoas ao amor para com todos os santos (1.4). Aí está o tema deste domingo: o convite ao cumprimento da lei, expresso no duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo, do qual a segunda parte parece ser a mais difícil. Ainda bem que da comunidade dos colossenses nos vem a feliz notícia de que, se é difícil, também não é impossível. Com certeza, nossas comunidades também vivem constantemente essa contradição entre amor e desamor. Contudo, embora haja fracassos e frustrações, é importante que se insista no convite e no estímulo: o mandamento que Deus, hoje, te ordena não é demasiado difícil, nem está longe de ti (Dt 30.11).
2
Considerações exegéticas
2.1 – Deuteronômio O Deuteronômio certamente tem uma longa história. É bem provável que tenha surgido no Reino do Norte, Israel, entre 750 e 722 a.C. Trazido para o sul após a catástrofe do norte, influenciou a reforma de Josias em 621 a.C. e continuou a exercer forte influência na comunidade de fé judaica no exílio e no pósexílio, e mesmo no tempo de Jesus. Nessa história, o núcleo original, composto pelos capítulos 12-26, sofreu acréscimos que se agregaram ao seu redor, apresentando-se na forma de um grande discurso de despedida de Moisés, dirigido ao povo antes da entrada na Terra
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Prometida. Deuteronômio 30.9-14 encontra-se na parte final desses acréscimos discursivos, composta pelos capítulos 29 e 30. Os capítulos 31-34 já se apresentam como uma conclusão do Pentateuco e alguns apêndices. Embora o Deuteronômio contenha uma ampla diversidade de leis, percebemse nele três acentos fundamentais, que podem ser resumidos em três afirmações: a) O Senhor é Deus único (cf. principalmente Dt 6.4: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor”). b) O Senhor escolheu um único lugar para ali fazer habitar o seu nome (cf. Dt 12.5, 11, 14). c) O Senhor tem um amor especial pelos mais fracos (cf. Dt 15.1-18; 16.9-17). Decorre daí que a lei – e isso se refere principalmente ao Deuteronômio – resume-se em amar a Deus e amar ao próximo. 2.2 – Deuteronômio 30.9-14 O último acréscimo discursivo, composto pelos capítulos 29 e 30, embora se expresse no futuro, pressupõe a catástrofe de 587 a.C. e o exílio, como se pode perceber em 29.22-28. Interpreta ambos os eventos como consequência do desprezo pela aliança que o Senhor firmara com seu povo desde a saída do Egito (29.25). O capítulo 30 passa a falar de reconstrução: o Senhor mudará a tua sorte (v. 3), impondo como condição o voltar-se para Deus e o dar ouvidos à sua voz (v. 2). A mudança da sorte consiste em reunir o povo desterrado e introduzi-lo na terra (v. 4-5). A partir daí, coloca-se novamente a exigência de submeter-se aos mandamentos do Senhor (v. 8). Estamos, pois, no fim do exílio, talvez mesmo já no período após o retorno dos primeiros exilados. O castigo já passou. É hora de recomeçar! A partir daí inicia nossa perícope, 30.9-14, que pode ser estruturada em dois blocos: V. 9-10 – A promessa de abundância, condicionada à obediência aos mandamentos de Deus. V. 11-14 – A lei não é demasiado difícil de ser cumprida. O contexto posterior, v. 15-20, encerra o Deuteronômio, pois o que segue representa a conclusão do Pentateuco e apêndices. Aí se sublinha o que foi dito em v. 9-14, propondo a alternativa de vida e bem, por um lado, e morte e mal, por outro. A vida se alcança amando a Deus e andando nos seus caminhos, isto é, seguindo a lei. A morte é resultado do afastar-se dele, deixando de ouvi-lo e seguindo outros deuses, ou seja, afastando-se dos mandamentos. Em nossa perícope, v. 9 aponta para o futuro. V. 9a indica a bênção. Deus dará abundância em todas as dimensões da vida: na descendência – o fruto do teu ventre; no rebanho – o fruto dos teus animais; e na colheita – o fruto da tua terra. V. 9b vê essa bênção como resultado da alegria de Deus. Ele tornará a exultar em ti, para te fazer o bem, como exultou em teus pais. A referência aponta para um passado de felicidade, com certeza para as origens de Israel, no tempo da sociedade tribal, que o autor vê como uma época em que as duas dimensões fundamentais da lei – o amor a Deus e ao próximo – eram efetivamente praticadas.
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O v. 10 estabelece as condições para esse futuro de bênção: ouvir a voz de Deus, guardar os seus mandamentos como descritos nesse livro, o que representa uma conversão a Deus, de coração e alma. Essa será a típica argumentação deuteronomista nos livros históricos: a fidelidade a Deus leva à bênção; a desobediência, à maldição. Os v. 11-14 apresentam-se como um estímulo. Embora assim pareça, a lei não é difícil de cumprir. Não está longe, nem nos céus, nem além do mar. Está na tua boca e no teu coração. Não obstante, o intérprete da lei que procurou Jesus (Lc 10.25-37) não parece ter pensado assim. Sua dificuldade não estava em conhecer a lei. Conhecia muito bem o duplo mandamento do amor. Contudo, colocava entraves, notadamente na segunda parte: “Quem é o meu próximo?”. E, mesmo no final da história contada por Jesus, ele continua confuso. Como ver em um samaritano o seu próximo? Certamente também os colossenses terão tido problemas com a prática do amor. Em Colossenses 1.1-14, porém, o apóstolo pode alegrar-se porque o evangelho produz frutos.
3
Meditação
Ao refletir sobre o texto previsto para a pregação, Deuteronômio 30.9-14, me vem à mente uma frase de Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres”. Essa frase se encontra no tratado 7, seção 8 do comentário de Agostinho à Primeira Carta de João. Em sua íntegra, ela diz: “Uma vez por todas, foi-te dado somente um breve mandamento: Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair senão o bem!” Essa belíssima palavra evoca outras afirmações contidas em 1 João, especialmente no capítulo 4, cuja leitura meditativa sugiro a quem for pregar sobre o texto de Deuteronômio 30.9-14. Deus nos amou primeiro e nos amou a ponto de enviar seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10); Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele (4.16); no amor não existe medo (4.18); nós amamos porque ele nos amou primeiro (4.19); aquele que não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê (4.20). É até mesmo de estranhar que não seja essa a epístola proposta como leitura para apoiar a pregação sobre o texto do Deuteronômio, pois certamente se aproxima bem mais dele do que Colossenses 1.1-14. Se a sua liberdade o permitir, ouso propor a troca. Voltemos, porém, ao texto de pregação. Antes de mais nada, tomaria muito cuidado com uma interpretação precipitada do v. 9. A religiosidade de hoje já se acostumou a calcular a presença ou a ausência de fé pelos resultados aparentes, principalmente em decorrência de algumas interpretações inclusive veiculadas pela mídia. Se há sucesso, é porque há fé; se há desgraça ou fracasso, é porque não houve fé ou porque ela é muito pequena.
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Se há sucesso, é porque houve méritos; se há fracasso, é porque não os houve. Fé e mérito não são garantias de sucesso. Se fossem, Jesus não teria morrido na cruz. Contudo, de fato, em seu conjunto, os v. 9-10 podem dar margem a uma tal interpretação, se anteciparmos o v. 10 ao v. 9: Se deres ouvido à voz do Senhor (v.10)... ele te dará abundância (v. 9). Não podemos, porém, esquecer que, como vimos acima, a situação em que a palavra é proferida no exílio, ou mesmo no pós-exílio. A ação de Deus em favor de seu povo é muito anterior. Tem a ver com o clamor dos escravos no Egito. Não havia mérito nenhum ali. Apenas o grito. E Deus viu a aflição de seu povo, ouviu o seu clamor, conheceu sua aflição e desceu para libertá-lo (Êx 3.7-8). É nisso que se baseia a afirmação de que “vós, sim, que antes não éreis povo, mas agora sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia“ (1Pe 2.10). Já na Bíblia Hebraica, a graça de Deus vem em primeiro lugar. E é para que não nos desviemos dela, para que não a percamos, para que não voltemos à escravidão, que a lei nos foi dada. Ela quer ser orientação – Torá. Não quer ser um peso. Quer nos mostrar o caminho. Quer nos ajudar a manter a liberdade e a vida, a nossa e a do outro. É essa a função da lei de Deus. E é importante que se ressalte: a lei de Deus, a Torá, não pretende ser um amontoado de leizinhas no sentido de “faz isso” e “não faça aquilo”. Não é uma questão de poder usar essa ou aquela roupa, de poder ou não comer determinados alimentos, de poder ou não usar o cabelo dessa ou daquela forma. Como diria Paulo: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12). Em resumo, a Torá propõe apenas duas coisas: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento” (Dt 6.5) e: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19.18; cf. Dt 15.1-18; 16.9-17). Não é de estranhar que o intérprete da lei o saiba (Lc 10.27). Fundamental é perceber que quem ama a Deus – e o ama porque compreendeu que ele é o único que nos tira da escravidão e da morte – sabe que outros deuses não podem fazer o mesmo por nós; sabe que, muito antes, esses outros deuses, como o capital, o desejo de possuir tudo e todos, o egocentrismo só nos levam “de volta ao Egito”, tornando-nos escravos de nossos desejos e escravizadores de outras criaturas. E quem ama o próximo como a si mesmo nem sequer precisa de outras leis, como aquelas contidas na segunda tábua: “Honra teu pai e tua mãe”; “Não matarás” etc. Porque, em si, todas essas coisas aí proibidas são apenas ausência de amor. Ama e faze o que quiseres! Porém ama incondicionalmente. A todas as criaturas, também os samaritanos! Também aquelas criaturas que são diferentes, que pensam de outra maneira, que têm outros costumes, mesmo religiosos. Não existe nada nem ninguém que não mereça o teu amor. É a partir daí que se entende esse desafiador v. 11: “Este mandamento que, hoje, te ordeno não é demasiado difícil, nem está longe de ti”. Se sabes que o Senhor te ama, te liberta, te dá a vida, estás livre para amá-lo e para amar todas as
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criaturas. Nas palavras de Miqueias 6.8: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus”. Não é tão difícil assim! Por isso: “Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair senão o bem!”
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Imagens para a prédica
Para propor imagens para a pregação, parto de duas questões, que me parecem fundamentais no conjunto dos textos propostos: o mandamento não é demasiado difícil, mas a pergunta “Quem é o meu próximo?” recebe como resposta: o samaritano, o que para o intérprete da lei deve ter sido um absurdo total. Logo o mais desprezível dos manifestantes da fé? Como é que o mandamento não é demasiado difícil numa situação dessas? Partindo da ideia de que para o samaritano provavelmente valia o mesmo desprezo em relação ao judeu, não deixa de ser interessante que a parábola oculta a identidade daquele que foi assaltado. E se fosse um judeu? Pela parábola, o samaritano teria ajudado da mesma forma. Gosto de brincar com a parábola, parafraseando-a. Em determinados grupos evangélicos, faço questão de chamar o samaritano de “católico”. Em meio a grupos católicos, chamo-o de “crente”. Por fim, em grupos muito carolas, gosto de dizer que era um “batuqueiro” ou “macumbeiro”. Num encontro ecumênico, ouvi de um colega metodista a seguinte afirmação: “No ecumenismo, a gente precisa partir do princípio de que o diferente não é contrário”. E, de fato, é apenas diferente. – Meu melhor amigo é gremista! É impossível? – Amo uma mulher – o que já é diferente de mim –, mas ela pensa de maneira diferente de mim em muitas coisas. É impossível? – É possível orar pelos criminosos? Você consegue? A lista poderia continuar infinitamente. Afinal, são tantos os nossos preconceitos. Ama e faze o que quiseres.
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Subsídios litúrgicos
Versículo de introito: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6.8).
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7º Domingo após Pentecostes
Confissão de pecados: Misericordioso Deus! Mais uma vez estamos aqui, diante de tua face, para te confessar nossa culpa e nosso pecado. E mais uma vez tu nos lembras que o teu mandamento não é difícil. Contudo, nós nos deixamos levar pelo egoísmo e pelos preconceitos. Na busca desenfreada pelo nosso bem-estar, nós nos esquecemos de ti e seguimos outros caminhos. Acentuamos nossos preconceitos e, por causa deles, fazemos de conta que não sabemos quem é o nosso próximo, deixando de amá-lo, como tu nos ensinas. Perdoa-nos, Senhor! Aceita nossa vontade de conversão. Aproxima a tua palavra de nossas bocas e de nossos corações. Tem piedade de nós, Senhor. Oração de coleta: Senhor Jesus Cristo! Tu nos amaste mais do que ninguém e nos ensinaste a amar a Deus e ao nosso próximo. Ajuda-nos a compreender que isso não é tão difícil. Evoca em nós o sentimento que evocaste em Santo Agostinho e faze nossas as suas palavras, para que possamos amar e fazer o que quisermos. Se nos calarmos, que nos calemos movidos pelo amor; se falarmos em tom alto, que falemos por amor; se corrigirmos, que corrijamos por amor; se perdoarmos, que perdoemos por amor. Que tenhamos no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair senão o bem! Amém. Oração de intercessão: Querido Deus e Pai! Servidos pela tua Palavra, trazemos agora diante de ti as nossas preces e as nossas súplicas. Ouve-as, Senhor, e concede-nos a graça de ser atendidos. Nós te pedimos por tua igreja no mundo inteiro, dividida por diferenças às vezes absurdas. Guia-a, na forma de diferentes denominações, de acordo com a tua Palavra e a tua vontade. Faze com que os teus mandamentos estejam acima de interesses e interpretações pessoais, para que elas possam perceber de umas para as outras que todas são tua igreja. – Em especial te pedimos por nossa Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Abençoa e conduze seus obreiros e suas obreiras na pregação de tua Palavra e na reta administração de teus sacramentos. Acompanha suas lideranças nas decisões que devem ser tomadas. – Pedimos-te por nosso povo e por nossa pátria. Mostra o teu caminho às nossas autoridades federais, estaduais e municipais. Livra-as do mal e da corrupção. Ilumina-as na hora da tomada de decisões, para que concorram para o bem do teu povo. – Pedimos-te, enfim, por nossa comunidade e por todas as suas famílias. Abençoa-as, guarda-as e protege-as do mal. Auxilia-as a encontrar soluções para as suas dificuldades. Conforta os doentes e as pessoas que estão à beira da morte. Consola os enlutados. – Em especial, Senhor, oramos pelas pessoas diferentes de nós. Ensina-nos a amá-las, vencendo nossos preconceitos. A tuas mãos recomendamos também os criminosos. Perdoa-os, assim como tu nos perdoas. Mostralhes o caminho da conversão. – E fica conosco, Senhor. Abençoa-nos e guardanos. Por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor e Salvador, que reina contigo e com o Espírito Santo, agora e sempre. Amém.
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7º Domingo após Pentecostes
Bibliografia RAD, G. von. Teologia do Antigo Testamento. V. 1 e 2. 2. ed. São Paulo: ASTE/ Targumim, 2006. SCHMIDT, W. H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal/ IEPG, 1994.
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PRÉDICA: LUCAS 10.38-42
8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
GÊNESIS 18.1-10a COLOSSENSES 1.15-28
18 JUL 2010
Jorge Batista Dietrich de Oliveira
1
Introdução
Os textos indicados para o 8º Domingo após Pentecostes já foram abordados diversas vezes em Proclamar Libertação (PL VI, XVII, XXIII, XXIX). Para quem tem acesso a esses exemplares, recomendo a leitura desses trabalhos, pois cada um traz um enfoque diferente e uma contribuição preciosa. O texto da primeira leitura nos apresenta Abraão recebendo a visita do Senhor. As honras dadas a um visitante, que chega numa hora inconveniente, e a hospitalidade de Abraão, que se coloca ao inteiro dispor de seus convidados, demonstram sua fé e amor ao Senhor seu Deus. Como recompensa ele recebe a promessa da fecundidade de Sara, que estava escutando a conversa e reage com risos. Na segunda leitura, Paulo discorre sobre o mistério da preexistência e senhorio de Cristo e sua revelação por meio do evangelho. Cristo revela a riqueza de Deus na pobreza da cruz, e seus seguidores serão testemunhas da mesma ao mundo, pois Deus quer fazer conhecer esse mistério a todas as pessoas. O texto da pregação relata a visita de Jesus à casa de Marta e Maria. Fala do amor que serve e da importância de ouvir a palavra de Jesus para servir melhor. Quem acolhe um hóspede parece estar dando algo, mas, na realidade, está recebendo. É o caso de Abraão, e muito mais ainda de Marta e Maria. Hospedar e cuidar é bom, mas fundamental é acolher o dom que é a palavra de Jesus. Ele não veio para ser servido, mas para servir: serve com sua palavra, com sua vida inteira.
2
Viagem para dentro do texto
A perícope indicada para a pregação é matéria exclusiva do Evangelho de Lucas e encontra-se dentro de um grande bloco, que fala da viagem de Jesus a Jerusalém (9.51 – 19.28). Nessa viagem, Jesus visita suas amigas Marta e Maria. Esse relato se encontra entre a parábola do bom samaritano, que acentua o amor ao próximo, e a oração do Pai-nosso e os ensinamentos de Jesus sobre como se deve orar. Lucas coloca entre o amor ao próximo e o amor a Deus o amor a Jesus. Entre ação e oração está a contemplação. O amor a Deus e ao próximo não é exclusividade dos cristãos, mas para ser cristão é preciso amar Jesus. V. 38 – A caminho (de Jerusalém), Jesus e seus discípulos chegam num povoado. Provavelmente Betânia, a cerca de 4 km de Jerusalém, conforme João
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8º Domingo após Pentecostes
11.1. Jesus hospedou-se na casa de Marta, que em aramaico significa senhora, dona. Tudo indica que ela era a irmã mais velha, dona da casa e responsável pela família. V. 39 – Sua irmã Maria, forma grega do hebraico Miriã, assumiu a atitude de uma discípula sentada aos pés do Senhor a ouvir seus ensinamentos. Os rabinos não aceitavam mulheres como discípulas, mas a atitude de Jesus é diferente (Lc 8.1-3). V. 40 – Marta também se inclui no grupo das discípulas ao servir Jesus (gr. diakonia); no entanto, censura sua irmã por não a estar ajudando. Cobra de Jesus uma atitude em relação a Maria; exige que ele mande sua irmã a auxiliar. V. 41- 42 – Jesus responde com ternura, alertando Marta para o fato de ela estar agitada e preocupada com muitas coisas. “Pouco é necessário”, pois no estilo de vida adotado por Jesus e seus discípulos não se necessita de muitas coisas. O serviço de Marta não é condenado, afinal ela é hospitaleira e preocupada em servir bem a seu amigo. Mas fica claro que existe algo mais importante do que costumes e etiquetas da mesa farta e hospitalidade generosa. “Uma só coisa” é necessária: ouvir a palavra de Jesus. Maria fez essa escolha, e isso não lhe será tirado. Segundo Carlos Arthur Dreher, no PL VI, p. 127, existe um critério claro que indica que Maria fez a escolha certa. O critério é a presença de Jesus. “Marta e Maria não estão sozinhas. Jesus está na casa. E a sua presença determina toda a narrativa.” Jesus está servindo com os seus ensinamentos. Marta, preocupada em servir, não tem tempo para ser servida por Jesus. Maria escolheu estar com Jesus e ouvir seus ensinamentos, pois “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45 e Lc 22.27).
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Meditação
Mais do que apenas amigas, Marta e Maria são apresentadas como discípulas de Jesus numa época em que às mulheres era proibido o ensino dos rabinos. Jesus não se prende à tradição e não se importa com os preconceitos. Ele as trata como suas discípulas. Marta é apresentada como chefe de um lar. Em nossas comunidades, também encontramos muitas mulheres responsáveis pela direção e pelo sustento da família. Marta é alguém que gostava de hospedar. Não só recebeu Jesus em casa, como se preocupou em lhe preparar uma deliciosa refeição. Ela se mostra uma mulher de valor, trabalhadora que sabe receber alguém em casa com muita competência. Sabemos que hospedar alguém é sempre uma fonte de preocupação, ainda mais quando esse alguém é uma pessoa importante. Para Marta, não era diferente. Ela fica extremamente agitada com todo o trabalho a ser feito. Quem já viveu a experiência de hospedar seus amigos e precisou preparar as refeições e achar meios de entretê-los certamente se identifica com Marta, pois sua atitude nos parece mais simpática; afinal, ela estava servindo, realizando diaconia. Por que será que Jesus escolheu a atitude de Maria?
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No texto que lemos, há um critério claro que indica que Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada. O critério é a presença de Jesus. Jesus está visitando suas amigas, talvez a última visita antes da crucificação. E Jesus não está preocupado com o cardápio, com os detalhes da boa hospitalidade. Ele repreende Marta com muito carinho dizendo: “Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário, ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada”. Jesus está dizendo com isso: Marta, eu não preciso de uma mesa farta, eu quero a tua atenção... Eu quero que você escute o que eu tenho a dizer... Um amigo, certa vez, me disse: Minha mãe é assim... Quando vamos à sua casa no domingo, ela corre para a cozinha para preparar o almoço. Nós a chamamos para a sala, mas não adianta. Ela não percebe que não estamos interessados no almoço... Nós queremos é conversar com ela... Marta representa as mulheres e os homens dos tempos modernos: preocupados em servir, em agradar, em mostrar serviço. Ela estava tão concentrada em servir Jesus e seus discípulos, que se privou de passar algum tempo com eles. Maria, porém, escolheu sentar e escutar. Sua hospitalidade concentrou-se não somente nas necessidades físicas, mas nas relacionais. Também nós, muitas vezes, estamos tão preocupados em acolher e servir bem, que nos esquecemos de simplesmente estar com as pessoas. Como podemos conhecer as necessidades uns dos outros se não temos tempo para sentar, para conversar, para ouvir? Quantas vezes nossos relacionamentos são superficiais, pois a agenda e o relógio nos impedem de um relacionamento profundo e verdadeiro. Ficamos nas aparências, nas formalidades e perdemos a “boa parte” que Maria escolheu. A nossa vida é feita de escolhas. Constantemente temos que escolher, e não é fácil estabelecer prioridades. Muitos têm dificuldades nessa área. Vivem sobrecarregados com a urgência dos compromissos e afazeres. Maria fez a escolha certa. Talvez Jesus ficasse pouco tempo em sua casa. A hora era de ouvi-lo, porque aquela oportunidade era única e jamais voltaria. Ela entendeu que a vida não é feita só de coisas materiais. Talvez tivesse em mente a verdade ensinada a seu povo desde tempos imemoriais e reafirmada pelo próprio Jesus no contexto da sua tentação: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Dt 8.3 e Mt 4.4). Qual tem sido a nossa atitude para com Jesus? Temos tempo para ouvir a sua palavra ou estamos tão atarefados que não conseguimos parar e deixar Jesus falar? Existem pessoas que não querem ouvir. Simplesmente não se deixam questionar pela palavra de Deus, pois possuem seus conceitos e pré-conceitos e os defendem com unhas e dentes. Existem outras que estão tão preocupadas em servir a sua igreja, tão absorvidas no trabalho, que se tornam ativistas. Elas não têm tempo para ouvir Jesus. São pessoas sinceras, assim como Marta. São pessoas que querem servir a Jesus, mas na ânsia de servir esquecem que Jesus “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45). Ele quer nos servir com sua palavra para que possamos servir ao nosso próximo. Ele mesmo afirma: “No meio de vós, eu sou como quem serve” (Lc 22.27b).
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Felizmente, existem pessoas que, a exemplo de Maria, param para ouvir Jesus. Tiram tempo para aprender de Jesus, pois quando Jesus está presente, o mais importante é ouvir a sua palavra. A palavra de Jesus traz libertação, transformação. Ela nos conscientiza e prepara para agir de uma nova forma, comprometida com o reino de Deus. No entanto, não basta apenas ouvir. Como Maria, ficamos a ouvir e a sempre ouvir de novo os recados de Jesus. Armazenamos tantos conhecimentos, que até fica difícil colocá-los em prática. Podemos aprender olhando para a atitude de Marta que agir sem ouvir Jesus nos faz errar o alvo. Agir sem embasamento na palavra de Jesus é agir em vão. É desperdiçar energias. Por outro lado, aprendemos de Maria que ouvir Jesus sem agir é desperdiçar a palavra. Podemos deduzir que Maria foi motivada a agir a partir do que ouviu do Senhor, pois escutar a palavra de Jesus é receber a mensagem de envio a serviço do próximo. Também nós somos preparados, motivados e enviados a servir ao nosso próximo a partir daquilo que aprendemos de Jesus. Por isso ouvi-lo é fundamental. É a boa parte que não nos será tirada. Ser Marta é preciso, mas ser Maria é imprescindível. Também precisamos encontrar tempo, em meio a tanto serviço, para ouvir os ensinamentos de Jesus. Todos nós somos ora Marta, ora Maria. Por isso é fundamental buscar o equilíbrio para estar fazendo e vivendo a obra de Deus. Que o Senhor Deus nos dê um coração de Maria disposto a ouvir e aprender de Jesus, mas também mãos de Marta para servir na Missão de Deus – Nossa paixão.
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Imagens para a prédica A URGÊNCIA DE VIVER – Autor: Henry Sobel.
O que você fez HOJE é muito importante, porque você está trocando um dia de sua vida por isso. Esperamos demais para fazer o que precisa ser feito num mundo que só nos dá um dia de cada vez, sem nenhuma garantia do amanhã. Enquanto lamentamos que a vida é curta, agimos como se tivéssemos à nossa disposição um estoque inesgotável de tempo. Esperamos demais para dizer as palavras de perdão que devem ser ditas, para pôr de lado os rancores que devem ser expulsos, para expressar gratidão, para dar ânimo, para oferecer consolo. Esperamos demais para ser generosos, deixando que a demora diminua a alegria de dar espontaneamente. Esperamos demais para ser pais de nossos filhos pequenos, esquecendo quão curto é o tempo em que eles são pequenos, quão depressa a vida os faz crescer e ir embora. Esperamos demais para dar carinho aos nossos pais, irmãos e amigos. Quem sabe quão logo será tarde demais?
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Esperamos demais para ler os livros, ouvir as músicas, ver os quadros que estão esperando para alargar nossa mente, enriquecer nosso espírito e expandir nossa alma. Esperamos demais para enunciar as preces que estão esperando para atravessar nossos lábios, para executar as tarefas que estão esperando para ser cumpridas, para demonstrar o amor que talvez não seja mais necessário amanhã. Esperamos demais nos bastidores, quando a vida tem um papel para desempenhar no palco. Deus também está esperando nós pararmos de esperar. Esperando que comecemos a fazer agora tudo aquilo para o qual este dia e esta vida nos foram dados. É hora de VIVER.
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Subsídios litúrgicos
Hino: 1. Aprendemos com Maria a ouvir com devoção, ter de Marta a energia, pressa e dedicação. Acontece diaconia na ação com oração. Ser uma Marta Maria: que bonita vocação. Estribilho: Vamos juntos trabalhar na seara do Senhor. Pois o povo está a vagar, qual ovelhas sem pastor. Libertados pela graça, nos dispomos a servir. Sirvamos com alegria, exaltando o Deus do amor. 2. Do pequeno ser amigo ao faminto dar o pão; com o nu buscar abrigo, com o doente comunhão. Acolher o forasteiro, ao sedento saciar; libertar o prisioneiro e os mortos sepultar. 3. Todos nós somos chamados para este mutirão: Venham, pois, muito animados integrar a comunhão! Vivenciar diaconia com os mais pobres deste chão: resgatar cidadania, superar a escravidão! Oração: Senhor nosso Deus, assim como tu visitaste Marta e Maria, visita nossa casa e enche nossa vida com tua Palavra e tua presença. Ajuda-nos a ouvir teus ensinamentos, que nos enviam ao serviço de amor ao próximo. Conceda-nos um coração de Maria, que ama ouvir tua Palavra, e mãos de Marta, que não se cansam de fazer o bem. Isso te pedimos por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém. Bênção: Que Deus te abençoe e derrame sobre ti a cada instante as bênçãos do deserto: a serenidade, o frescor da água, os horizontes vastos, o céu aberto, as estrelas para iluminar teus caminhos nas trevas. Que a terra que pisas faça teus pés dançarem e fortaleça teus braços; que ela encha teus ouvidos de música e que teu nariz aspire suaves aromas.
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Que os céus sobre tua cabeça encham tua alma de ternura e teus olhos de luz, que os céus façam nascer alegria no teu coração e música nos teus lábios (Em Tua graça. Livro de culto e orações da 9ª Assembleia do CMI, p.70-71). Envio: Agora vão. Busquem servir segundo o exemplo de Jesus Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitas pessoas. Vão em paz e sirvam ao Senhor com alegria. (Livro de Culto VII.328)
Bibliografia BARCLAY, William. El Nuevo Testamento Comentado. V. 4 Lucas. Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1972. DREHER, Carlos Arthur. Lucas 10.38-42. In: Proclamar Libertação VI. São Leopoldo: Sinodal, 1980. p. 124-132. MORRIS, Leon L. O Evangelho de Lucas. Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1986.
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PRÉDICA: MARCOS 10.35-45
9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
1 REIS 19.9-18 ATOS 11.27-12.3a
TIAGO, O MAIOR, APÓSTOLO 25 JUL 2010
Anelise Lengler Abentroth
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Introdução
O texto de Marcos 10.35-45 tem como mensagem central a autoridade que brota do servir em amor (diaconia). Muito já se escreveu e pregou sobre esse texto. O que vamos enfocar é o fato de que o pedido a Jesus foi feito por dois dos seus discípulos. Aqueles que por mais tempo conviveram com ele, pois foram os primeiros a ser chamados para segui-lo. Um deles é Tiago, o Maior. Como é possível que uma pessoa chamada por Jesus, que viveu tão perto do Mestre, não tenha entendido a sua missão? O discípulo não é simplesmente um aluno do seu mestre, mas aquele que “veste a camiseta”, que não só compreende, mas passa a vivenciar a doutrina dele. Por causa dessa “ligação direta” com Jesus, é de se supor que Tiago e João tivessem clareza sobre a forma como o poder foi exercido por ele. Nenhuma garantia, nenhum privilégio, nenhuma recompensa é dada aos seguidores e apóstolos. Ao contrário, por causa desse novo jeito de viver e de exercer o poder, eles são alertados por Jesus de que há perdas, há medo, há decepção, perseguição e morte. As forças que regem a sociedade não brincam, elas matam para garantir que nada mude! Mas “quem entra na chuva vai se molhar”, já dizia o ditado popular... Herodes manda matar Tiago, à espada. Sua ação gera respaldo popular. Então manda prender Pedro para presenteá-lo ao povo depois da Páscoa. Esse episódio lembra a própria história de Jesus. Diante do poder que mata, que se absolutiza, que se protege, há o que fazer? Qual a prática capaz de desestabilizar esse poder? Onde está Deus? O que o pedido dos apóstolos tem a ver conosco?
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Exegese
1 Reis 19.9-18 Na narrativa que antecede esse texto, Elias afronta o poder do rei Acabe, sua corte e seus profetas. Deus é o único Senhor. Depois do feito maravilhoso de Deus diante dos profetas de Baal, a perseguição é implacável. Ele sente a morte
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de perto e foge. Vai para Berseba, passa pelo deserto e se esconde na caverna do monte Horebe. O monte Horebe é o lugar da aliança de Deus com seu povo, conforme a fé javista. É o ponto de partida para uma proposta de organização social não mais baseada no acúmulo, na exploração e na dominação pela força, mas na solidariedade, na justiça, na partilha das abundâncias que Deus dá. Sem reconhecer no povo a reação que esperava ao feito grandioso, ele se decepciona. De certa forma, Elias também espera pela ação de Deus baseada na força e na vitória, assim como o poder constituído o fazia. Esperou Deus no vento, no terremoto e no fogo, mas não o encontrou. É Deus quem vai a seu encontro e se manifesta novamente, agora na brisa suave. Surpreendido pela ação de Deus, mais uma vez Elias cobre o rosto, pois a presença dele desnuda e amedronta o ser humano. Então ele recebe uma nova tarefa: reunir as pessoas fiéis, que não se dobram e adoram ídolos, e preparar uma nova liderança. Atos 11.27-12.3a Esse relato contém o ápice da missão de Tiago e Pedro no livro de Atos. É o fim da primeira etapa da história da igreja centralizada em Jerusalém. Na Antioquia, havia gregos que pertenciam às classes média e alta. Muitos se converteram à fé cristã. Receberam o ensino através de Barnabé. Paulo fica com eles por um ano. Recebem a visita de Ágabo, que chega com a notícia da grande fome que viria sobre a Judeia. Então enviam donativos e ajudam essas comunidades. Não só dentro da comunidade existe a solidariedade. Entre elas também se estabeleceram vínculos proféticos e econômicos. Nesse período, há perseguição às lideranças da igreja. Tiago, filho de Zebedeu, foi morto à espada por Herodes Agripa I, neto de Herodes, o Grande, por volta do ano 44 d.C. (At 12.2). Ele era filho de Zebedeu e Salomé e irmão do apóstolo João Evangelista. Nasceu em Betsaida, Galileia. Tal como o seu pai e o irmão, o apóstolo João, era pescador no Mar da Galileia, onde trabalhava com André e Simão Pedro (Mt 4.21-22 e Lc 5.10). Tiago, Pedro e João seriam, de resto, os primeiros a abandonar tudo para seguir Jesus como seus discípulos (Mt 17.1 e 26.37; Lc 8.51), tendo sido dos seus mais próximos colaboradores ao participar na transfiguração, na agonia de Cristo no monte das Oliveiras. Segundo Marcos (3.17), Tiago e João são chamados por Jesus de Boanerges, isto é, filhos do trovão. Isso se deu pelo fato que caracterizou a índole dele e de seu irmão João. Ao chegar Jesus com sua comitiva à terra dos samaritanos, esses interditaram a entrada. João e Tiago viram, nesse fato, uma afronta a Cristo e exprimiram sua indignação com estas palavras: “Queres, Senhor, que mandemos cair fogo do céu sobre esta cidade, para consumi-la?” Jesus, porém, repreendeuos dizendo: “Vós não sabeis de que espírito sois! O Filho do Homem não veio para perder, mas para salvar as almas” (Lc 9.54). Segundo a Bíblia, Tiago é um dos discípulos mais íntimos de Jesus de Nazaré, já que em várias ocasiões nas quais Jesus só se fazia acompanhar por três apóstolos, era ele o escolhido, junto a Pedro e João. Assim ocorreu na transfiguração no monte Tabor, por ocasião da ressurreição da filha de Jairo, e no monte das Oliveiras, pouco antes da prisão de Jesus. Tiago também é citado entre as testemunhas
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da terceira aparição de Cristo após sua morte e ressurreição, nas margens do lago de Tiberíades. A morte dele agrada os judeus. Devolve prestígio e autoridade ao governador. Assim ele pretende também “presentear” Pedro ao povo após a festa da Páscoa. O que levou ao poder constituído querer dizimar as lideranças do movimento cristão? O texto aponta para a prática da solidariedade dentro das comunidades, mas também com os irmãos desconhecidos das demais comunidades. A continuação do relato mostra como Deus age através dos perseguidos. E é por meio das atitudes concretas de ajuda que as comunidades se fortalecem e crescem. Marcos 10.35-45 O contexto maior é a preparação de Jesus com os seus discípulos para a paixão. Jerusalém é o centro do poder romano em Israel. Estudos dessa perícope afirmam que Jesus quer que seus discípulos compreendam que a sua paixão é serviço consciente e de livre decisão. Serviço que inclui consequências como: prisão, condenação, escárnio, morte e ressurreição. “Seguir a Jesus necessariamente passa por Jerusalém” (PL X, p.107). Brakemeier afirma que Tiago e João pensavam ter apostado no homem certo. Jesus de Nazaré era a nova esperança política para Israel. Pensavam como o povo da cidade, que o saúda como rei e o recebe na procissão dos ramos. Também quando Jesus os pergunta se estão dispostos a beber o cálice e ser batizado como ele, prontamente ambos concordam. Jesus estava se referindo a seu sofrimento e castigo (Sl 75.8; Is 51.17) e à sua morte (Lc 12.50), mas isso os dois não conseguiram entender. A dimensão da renúncia e do sofrimento não estava presente nem nos seus melhores amigos. Para ter poder e enfrentar o poder constituído, são precisos sacrifício e luta. A lógica e o raciocínio de um poder baseado nos privilégios, nas garantias e nas estratégias que não permitem mudanças estavam muito presentes nas mentes e nos corações dos dois. O desejo desse poder, desse privilégio, dessa recompensa os fascinava. Afinal, era isso que sempre viram e ouviram. Então o seu pedido sincero chega aos ouvidos dos demais. Estabelecem-se a discórdia e a competição. Quem vai determinar os critérios dos méritos e fazer a escolha? Jesus chama todos para junto de si e fala claramente: mesmo que vocês estejam acostumados que os governantes têm poder sobre o povo e a sua autoridade é garantida pela força e pelos privilégios, entre vocês não pode ser assim. Entre vocês, discípulos, meus amigos, meus seguidores, minhas testemunhas, será assim: quem quiser ser o mais importante, que seja aquele, aquela que serve aos demais. Quem busca a grandeza que seja aquele, aquela que abre mão de tudo. O maior serviço que alguém pode fazer é dar tudo de si para o bem comum.
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Meditação
Quem faz o pedido a Jesus são Tiago e seu irmão João. Tiago é discípulo de Jesus. Foi um dos primeiros chamados a seguir o Mestre. Deixou sua vida, profissão, família, sonhos pessoais e passou a caminhar com ele por onde não conhecia, parar e dormir onde ele dormia, a ouvi-lo diariamente. Presenciou os milagres, as histórias, os ensinamentos, a maneira dele se relacionar com as pessoas. Tiago não era apenas um “aluno” de Jesus. Ele era um discípulo, um apóstolo dele. Ele não apenas recebeu um ensinamento do Mestre, mas aderiu totalmente à pessoa de Jesus. Compartilharam tudo e houve seguimento fiel. A missão é ele, o próprio Jesus. Ele chama pessoas simples, de profissão braçal, pobres e faz deles pessoas inteiramente a serviço de seu Senhor. São suas testemunhas, discípulos servos-testemunhas. Com a ascensão de Jesus esses discípulos tornam-se apóstolos, enviados do Cristo Ressurreto. Há dois elementos que constituem um apóstolo: a) ter visto o ressuscitado (Lc 24.48; Jo 20.21; 1Co 9.1; 15.7); b) ter recebido dele o mandato de testemunhar sua ressurreição (Mt 29.19; Jo 20.21; Rm 1.5; 1Co 1.17). Os demais são considerados apenas enviados de Deus. O discípulo, por partilhar a vida com o seu Senhor, também terá que passar por sofrimentos e adversidades. Isso é consequência! Mesmo que Jesus tenha falado muitas vezes sobre isso, não significa que eles entenderam a dimensão exata de suas palavras. Ao escolher os doze, Jesus confirma e ratifica a aliança de Deus com as doze tribos de Israel (Mt 19.27-30). Há perfeita sintonia entre a antiga obra de Deus em Israel e a nova aliança manifesta em Jesus. A novidade é o chamado dos doze para serem seus (Jo 13.1). Jesus não só lhes ensina sobre o reino, mas os envia a pregar e realizar os sinais que fazia. Os doze não são somente testemunhas autorizadas do Cristo, mas são a presença da obra de Deus já aqui neste mundo. São eles que, fortalecidos e santificados, vão testemunhar no mundo, fazendo surgir a igreja cristã entre judeus e gentios. Diante disso, somos lembrados de que Tiago e seu irmão fizeram um pedido bem humano a Jesus: queriam assegurar para si o privilégio de sentar-se à direita e à esquerda do Rei, posto de mais alta honra, mérito concedido aos súditos mais devotos e fiéis. Não está posto claramente no texto, mas se pode imaginar (vem a suspeita de) que eles se julgam merecedores desse crédito. Se não, como se explica a sua ousadia de chegar a fazer esse pedido a Jesus? Talvez sua vida antes do discipulado não fosse tão miserável assim. Afinal, abriram mão de sua casa, seu trabalho, sua família. Talvez tivessem até algum prestígio na vila de pescadores, eram conhecidos por todos. E agora, depois de tudo o que passaram, tudo o que viram e ouviram, está na hora de assegurar alguma recompensa para tanto sacrifício e dedicação. No PL X, p. 109, Rui Bernhard cita Kempis e diz: “A realidade da igreja parece que está muito bem representada na afirmação: Atualmente Jesus tem
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muitos discípulos que gostariam de reinar com ele no reino dos céus, mas poucos dispostos a carregar a sua cruz na terra; muitos querem partilhar com ele a sua santidade, mas poucos com ele querem suportar o sofrimento; muitos com ele querem comer e beber, mas poucos com ele querem jejuar. Todos querem alegrarse com Jesus, e poucos querem sofrer com ele...” Creio que essa citação está bem presente, hoje, no mercado religioso, influenciado pelo pensamento oriental de que a dor, o sofrimento e o pecado estão superados para os filhos e filhas de Deus. Tudo deve ser glória, vitória, alegria e louvor. Cada um busque o seu deus para a sua necesidade. Assim como estamos sendo impelidos e motivados a correr atrás do dinheiro para conseguir os bens de consumo, que são os símbolos da felicidade e do poder, assim também a fé precisa ser condizente com essa condição de busca, de garantias e de lugar privilegiado. Jesus precisa chamar a sua comunidade e repetir: “Entre vocês não pode ser assim. Quem quiser ser o primeiro que seja aquele que serve”. Na comunidade não poderiam faltar pessoas dispostas e motivadas a servir por causa da dor e das necessidades que a “desorganização” da sociedade causa em tantas pessoas. Também por causa da fé, não poderiam faltar lideranças convictas e capacitadas para organizar a missão que Cristo nos confiou. Porém a tentação do mérito, da recompensa e da glória é muito humana e muito presente entre nós. Servir por amor e suportar as forças contrárias não é tarefa fácil. Há de se ter uma comunhão constante com Cristo, um estudo persistente da sua Palavra e disposição para se comprometer com aqueles que estão à margem do sistema excludente e massificador. A pergunta que não quer calar é: Temos clareza de que o nosso servir passa pelas necessidades concretas das pessoas e sua luta para modificar o que impede a vida boa e plena para todos ou temos sido por demais tentados a querer igrejas cheias de louvor, de cultos comoventes, ter nome e espaço na mídia, mas sem compromisso ético, social e político?
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Imagens para a prédica
1) No texto-base do PAMI, na p. 33, onde fala da paixão de Deus na solidariedade, há uma ilustração que pode nos ajudar: dois meninos veem uma senhora idosa carregando uma sacola pesada de compras, contendo algumas maçãs. O primeiro menino vê a senhora idosa e as maçãs. No intuito de ganhar uma delas, oferece-se para carregar a sacola. Assim acontece. O segundo menino viu a senhora idosa, mas não as maçãs. Ele se prontifica a ajudá-la e, ao chegar em casa, ela lhe oferece uma maçã. Aparentemente duas atitudes com o mesmo fim. O primeiro menino pode ser comparado a Tiago e a muitas de nossas ações em comunidade, quando a intenção é satisfazer os nossos interesses. A atitude do segundo é a atitude também do apóstolo Tiago, quando ele não fugiu de sua tarefa, de seu chamado e foi até o fim, sem garantias, sem privilégios, sem intenção de recompensa. No relato bíblico, a consequência foi a morte. Na história dos meninos, foi uma maçã, mas poderia ter sido também uma ingratidão.
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2) Num seminário de presbíteros foi realizada a seguinte ação: cartazes foram afixados nas paredes contendo os seguintes serviços: cultos radiofônicos, organização da festa de Ação de Graças, visitação a enlutados, trabalho com crianças, encontro de idosos, visitação a membros afastados, apoio ao projeto dos menores em situação de risco, almoços comunitários etc. Cada um foi motivado a escolher um desses grupos, onde gostaria de servir. Constatou-se que aquelas ações, tais como cultos radiofônicos, organização de festas, almoços, trabalho com crianças e idosos, receberam um número significativo de interessados. Na visitação e no apoio aos menores em situação de risco, inscreveram-se somente aqueles que já participavam dessas ações. Foi então levantado o questionamento: essas ações não são importantes? É tarefa da comunidade fazê-las? Por que há falta de interessados em assumi-las? Ouviram-se várias respostas. Muitas foram as desculpas: falta de tempo, medo, não se sentem preparados, não estão dispostos a um envolvimento maior, há outros afazeres, acomodação, não ter como prever as consequências, ter que envolver-se em questões sociopolíticas. Por outro lado, constatou-se que as ações que dão visibilidade e são socialmente aceitas, essas são bem fáceis de assumir.
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Subsídios litúrgicos
Acolhida: Tudo quanto acontece na terra, acontece no tempo que Deus dispõe. Em Deus há tempo de dar a luz e de morrer. Há tempo de sofrimento e de alegria. Tempo de ruptura e de reconciliação. Tudo quanto acontece na terra, acontece no tempo que Deus dispõe. Confissão de pecados: Quando te chamamos, ó Deus, tu nos respondes... Quando nos enganamos, tu nos ensinas... Quando nos desviamos, tu nos guias... Quando sofremos, tu nos alivias... Viemos, pois, neste dia confessar as nossas faltas e pedir o teu perdão. Não nos abandones, ó Deus justo! Tem piedade de nós. Confessamos que pecamos contra ti e contra nossos irmãos e irmãs. Sentimo-nos pequenos diante das estruturas de poder do nosso mundo. Somos tentados a pensar somente em nós mesmos e fraquejamos. Precisamos da tua misericórdia e da força do teu Santo Espírito. A ti nos entregamos e pedimos perdão!
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Absolvição: Felizes aqueles(as) que se lançam nos braços de Deus em sua fraqueza e em seu erro. Assim está escrito no livro do profeta Oseias 11.3: “O Senhor diz: eu os segurei nos braços, porém eles não sabiam que era eu que cuidava deles”. 1) O amor de teus braços, ó Deus, é descanso para nossas almas; É o travesseiro de confiança onde podemos apoiar nossa cabeça depois de um dia de trabalho e conflitos. 2) O amor de teus braços, ó Deus, é o nosso refúgio quando estamos feridos; É remanso calmo onde podemos serenar no entardecer do dia. 1) Ó Deus! Tu és a nossa fortaleza, o nosso Salvador! 2) Hoje precisamos ver-te como um refúgio de amor. Como uma sombra de grande penhasco em terra seca. 1) Não queremos ser como Elias, que queria ver-te no fogo e no vento forte. 2) Teus braços têm hoje forma de concha e maciez de um ninho. 1) Eis onde há refúgio, toque suave, forma carinhosa que anuncia a tua presença. 2) Ó Deus! Toma-nos em teus braços. Sustenta nossa ação. Nossa vida não tem sentido sem o teu amor. TODOS: Só tu és Deus, o Pai/Mãe, o Filho e o Espírito Santo. Aquele que era, que é e que há de vir. Cantemos: Glória. Bênção: Que nosso bondoso Deus, em seu grande amor e misericórdia, guarde e proteja o seu povo. Que Jesus incline nossa face para vermos os enfermos e desamparados, renovar os cansados, consolar os aflitos e ter misericórdia dos atribulados. Que o Santo Espírito guarde e envie todos em esperança e alegria. Que todo o trabalho seja feito com amor. Que a paz de Deus os acompanhe. Envio: O Espírito do Deus vivo, presente aqui e agora, faz-se sentir em todos nós. Tenhamos em mente a nossa responsabilidade cristã de viver a justiça de Deus em palavras e atitudes concretas. Vão com a certeza de que encontrarão Cristo na solidariedade e no serviço em amor.
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9º Domingo após Pentecostes – Tiago, o Maior, Apóstolo
Bibliografia BERNHARD, Rui. Proclamar Libertação, v. X. São Leopoldo, p. 106-113. BÍBLIA SAGRADA, Edição Pastoral. Edição Paulinas. 1990. BRAKEMEIER, Gottfried. Proclamar Libertação, v. XXVIII. São Leopoldo, p. 289-293. RAYMANN, Acyr. Proclamar Libertação, v. XXX. São Leopoldo, p. 204-208. VON ALLMEN, J.J. Vocabulário Bíblico. São Paulo: ASTE, 1972.
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PRÉDICA: LUCAS 12.13-21
10 10ºº DOMINGO APÓS PENTECOSTES
ECLESIASTES 1.2,12-14, 2.18-23 COLOSSENSES 3.1-11
01 AGO 2010
Júlio Cézar Adam
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Introdução
O texto de Lucas traz à tona um tema candente: a relação humana com o dinheiro, com a riqueza e as consequências dessa relação com o sentido da vida. No texto, essa relação é abordada em três aspectos, que até hoje continuam dando o que falar: a divisão da herança, o acúmulo de riquezas e o sentido da existência. Estamos, portanto, diante de um tema atualíssimo e um tema humano por excelência. A mensagem de Jesus Cristo é muito clara: o que importa nesta vida é a própria vida, dádiva de Deus. Viver a vida é o sentido da existência humana. O dinheiro, a herança, o acúmulo são apenas meios para garantir a própria vida. Eles são meios, não os fins. Os textos do Antigo Testamento (Ec 1.2, 12-14, 2.18-23) e da Epístola (Cl 3. 1-11) detalham e ampliam o mesmo tema. O sábio de Eclesiastes fala do quanto é vazio e sem sentido trabalhar uma vida toda, juntando riqueza para deixar a alguém que, às vezes, nada fez por merecer. A lógica do acúmulo é nada mais do que vaidade, segundo ele. Já Paulo, na Carta aos Colossenses, fala da liberdade que temos em Cristo a partir da sua ressurreição como caminho cristão para se libertar de todas as formas de domínio, como a cobiça, o dinheiro e as riquezas.
2
Exegese
O texto bíblico encontra-se dentro de um grande bloco de ensinamentos de Jesus. Jesus está ensinando questões bem concretas da vida diária. A relação com o dinheiro não poderia ficar fora desse ensinamento. Não apenas esse texto, mas outros também procuram ensinar como lidar com os bens, com o dinheiro e a riqueza (A confiança em Deus: 12.22ss; Riquezas no céu: 12.32ss; A ovelha perdida: 15.11ss; O filho perdido: 15.11ss; O administrador desonesto: 16.19ss; O jovem rico: 18.18ss; Zaqueu 19.1ss). Os diferentes personagens desses textos tomam diferentes decisões frente aos bens, à riqueza. Com essas histórias, Jesus vai fazendo um contraponto entre a economia do dinheiro e a economia do amor. Jesus não condena a riqueza, os bens e o dinheiro em si, mas ensina que eles são meios para viver uma vida digna e colocar em prática o mandato do amor. V. 13-14 – Jesus não é um jurista: do meio da multidão que ouvia Jesus um homem pede orientação de Jesus sobre a divisão da herança com o irmão. O
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assunto da herança aparece de uma forma um tanto atravessada, indo de encontro ao que Jesus está ensinando. Jesus reage dizendo não ser ele juiz ou advogado para lidar com questões legais relacionadas à herança. O homem está tomando Jesus por rabino típico, que eram os que geralmente opinavam ou decidiam questões não contempladas nas leis judaicas. V. 15 – Jesus aproveita a brecha e chama a atenção dos ouvintes para a questão da riqueza, especificamente a avareza. Jesus faz uma advertência às pessoas para se proteger da cobiça assim como se protegem de um inimigo. A vida não consiste nos bens materiais que alguém possui, diz ele. V. 16-29 – Jesus passa a contar uma parábola a respeito de um homem muito rico, que, tendo colhido muito, aumenta seus depósitos de cereais para poder acumular mais e então ser feliz e viver, sem dar-se conta de que a morte está à sua espreita. Deus vai recolher sua alma (psychè, semelhante a nèphèsh = ser vivente, pessoa ou ainda a essência do ser humano) naquela noite, quando o homem decide viver. O problema não é ser rico, mas o fato do fazendeiro já rico colocar sua confiança nos celeiros, na riqueza acumulada. A festa, tão valorizada por Lucas (A grande festa 14.15ss; por causa da ovelha encontrada 15.6; a festa pela volta do filho perdido 15.22-24), demonstra a alegria da partilha na abundância. Aqui, no entanto, não há festa. Apenas acúmulo egoísta. Nos v. 18 e 19 chama a atenção o pronome possessivo: meus depósitos, minhas colheitas, mim mesmo. Trata-se de um egoísmo inveterado. O homem não usa sabiamente a riqueza. Muito menos pensa em reparti-la com os que têm menos. Está interessado apenas em sua autossatisfação. André Chouraqui, em seu livro A Bíblia: Lucas, apresenta a seguinte tradução para os v. 19 e 20: “E direi a meu ser: Meu ser, tens muitos bens para muitos anos. Repousa, come, bebe e deleita-te! Elohim lhe diz: “Louco, ainda esta noite, teu ser te será pedido! Aquilo que preparas, será para quem?”1 No final da parábola (v. 20) reaparece o tema da herança, de modo agora relativizado, através da pergunta “quem ficará com toda a riqueza?”, lembrando muito o texto de Ec 2.18ss. V. 21 – Jesus conclui que isso é o que acontece aos que acumulam para si, mas se esquecem do verdadeiro sentido da vida. De que adianta o acúmulo sem saber viver, sem sabedoria?
3
Meditação
Jesus não veio para trazer um plano econômico nem leis jurídicas para lidar com dinheiro, a herança, para garantir, assim, ganhos e segurança financeira. Jesus quer ensinar aqui que na vida o essencial não é o dinheiro. O mais importante é a vida e o viver. Isso não significa que não necessitamos de dinheiro. O dinheiro, 1
Chouraqui, p. 199.
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no entanto, é apenas um meio. Não pode ser transformado em um fim, uma obsessão, um vício. A cobiça é uma força que orienta todas as nossas energias numa só direção: ter mais. Jesus sabe disso. Por dinheiro somos capazes de romper com os melhores amigos, abandonar a família, roubar, até matar. Em abril de 2009, tivemos na minha cidade um massacre praticado por uma mulher que, diante da falta de dinheiro e das dívidas, matou o marido, a irmã e a sobrinha, de apenas seis anos. A esse ponto as pessoas têm chegado. Um país faz guerra em nome do acúmulo de riquezas. Milhares de pessoas morrem diariamente de fome, enquanto toneladas de comida são jogadas fora por causa de interesses econômicos. Além disso, o dinheiro, os bens e as posses não nos tornam melhores do que ninguém. A morte, precisamente, cedo ou tarde, põe todo o acúmulo em suspenso. Tudo o que temos não nos garante uma vida melhor, nem felicidade, nem nos livra da morte. Assim, a proposta que está por trás desse ensinamento de Jesus é muito simples, porém difícil de ser assimilada e vivenciada, hoje talvez mais do que ontem: devemos nos preocupar com as coisas que mais importam. Não são as coisas que dão sentido à vida, mas nós e Deus damos sentido às coisas. Esse mesmo ensinamento está em outros textos dentro do mesmo capítulo, por exemplo o belíssimo texto sobre a providência divina (v. 22ss) e o texto sobre a vigilância com o fabuloso versículo que diz: “Onde está teu tesouro, ali está teu coração” (v. 34). Também os textos paralelos nos chamam para esse ensinamento tão simples e essencial da vida. A carta de Paulo fala da liberdade conquistada a nós por Cristo. Quantas vezes o dinheiro e a busca por riqueza nos fazem de novo escravos. Nesse sentido, alguns aspectos poderiam ser tratados na prédica: Refletir sobre o que as pessoas são capazes de fazer para ter mais. Alguns tentam ganhar dinheiro de forma ilícita. Outros se corrompem para ter mais. Outros passam por cima das pessoas, familiares (basta lembrar as tantas tragédias geradas pela divisão da herança após o falecimento de alguém), em nome do acúmulo, destroem a natureza, destroem-se a si mesmos, para ter ou parecer ter. No entanto, as pessoas não são mais felizes. Pelo contrário! As pessoas vivem estressadas, deprimidas, doentes de tanto trabalhar. Muitos ganham tanto dinheiro e mesmo assim não sabem aproveitar, curtir a vida, viajar, ter tempo para si, para a família, para os amigos, partilhar os bens com quem precisa de ajuda, ajudar a comunidade de fé a buscar as pessoas carentes e distantes. As pessoas querem mais dinheiro, e quanto mais têm, mais bens de consumo encontram para comprar e depois descartar. O dinheiro está deixando as pessoas loucas, vazias de si e vazias de sentido para viver. Perderam-se de si mesmas e afastam-se de Deus, porque acabam confiando mais no dinheiro, nos bens, seja a casa própria, os seguros, os planos de saúde, a aposentadoria, a conta no banco etc. Hoje se fala muito em qualidade de vida. Às vezes, as pessoas confundem qualidade de vida com sentido de vida. A qualidade de vida, na maneira como é hoje entendida e propagandeada, tem a ver com uma vida de qualidade, conforto, bem-estar, tempo para lazer, descanso, viagens, cuidados com a saúde, lugar agradável para viver, status. Qualidade de vida é algo que se tem, se adquire. Sentido
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da vida, por sua vez, não necessariamente é algo que se tem, mas é algo que se vive e se sente. Alguém pode ver sentido em sua vida mesmo vivendo sem qualidade de vida. O contrário não se dá, ou seja, a qualidade de vida não garante sentido para viver. Podemos dizer que vivemos hoje um paradoxo: no tempo da qualidade de vida, tempo de depósitos abarrotados, as pessoas vivem uma profunda crise de sentido para viver. Perderam a sabedoria de Eclesiastes e perderam a liberdade de Colossenses. Tornaram-se ricos néscios. Quando acumulamos e pomos aí, nesse acúmulo, nosso coração, nossa alma é levada, a essência da vida nos é arrancada. Morremos. Não dá para guardar a vida em silos! Por fim, seria muito bom lembrar as coisas essenciais, aquilo que faz a vida ser vida e ter sentido. Estávamos mortos, mas fomos ressuscitados com Cristo, como diz Paulo (Cl 3.1ss). A economia de Deus tem a ver com algo maior. Voltar o olhar para Cristo significa espelhar-se na vida de Jesus Cristo e na sua ressurreição como exercício de liberdade. Viver a ressurreição no dia-a-dia de tal forma que a presença de Jesus seja uma realidade entre nós. Essa fé dá sentido à existência.
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Imagens para a prédica
Um recurso que pode ajudar na reflexão é o seguinte: o pregador/pregadora segura uma cédula de dinheiro na mão, levanta a cédula e pergunta à comunidade: O que vocês estão vendo? Em seguida, coloca a cédula na frente do peito e pergunta: O que vocês estão vendo? Depois coloca a cédula diante do rosto e faz a mesma pergunta. As pessoas responderão, provavelmente todas as vezes, que estão vendo 10 reais ou 20 reais, dependendo do valor da cédula. O pregador/ pregadora chama a atenção dos ouvintes o quanto a cédula nos impossibilita de ver além, ou seja, ver a mão que a segura, o braço, o corpo e o rosto. O dinheiro desvia o nosso foco. É uma comparação muito simples, mas muito plástica e que faz pensar. Outro recurso é um pensamento do Dalai Lama, que poderia enriquecer o estudo. Ele diz: “Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente, de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido”.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Se meu passo é errante, converte-me, Senhor; Se minha fé é débil, converte-me, Senhor; Se minha mente é estéril,
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converte-me, Senhor; Se minhas mãos são redes, converte-me, Senhor; Se meus olhos são ferozes, converte-me, Senhor; Se minha língua é cruel, converte-me, Senhor; Se minhas intenções são más, converte-me, Senhor; Se meu coração é fraco, converte-me, Senhor; Converte-me, Senhor, e serei o que, realmente, sou. (Luiz Carlos Ramos) Bênção: “Que Deus te abençoe com inquietação diante das respostas fáceis, das meias-verdades, diante das relações superficiais, para que sejas capaz de aprofundar o senso da verdade em teu coração. Que Deus te abençoe com a ira diante da injustiça, da opressão e diante da exploração das pessoas, para que possas trabalhar pela justiça, pela liberdade e pela paz. Que Deus te abençoe com lágrimas, para derramá-las por aqueles que sofrem dor, maus-tratos, fome e guerra, para que sejas capaz de estender tua mão, reconfortá-lo e transformar sua dor em alegria. Que Deus te abençoe com suficiente loucura para crer que tu podes fazer a diferença neste mundo e que tu podes fazer o que os outros proclamam como impossível.” Amém.
Bibliografia CHOURAQUI, André. A Bíblia: Lucas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, 1983. p. 522-541. LANCELLOTTI, Ângelo; BOCCALI, Giovanni. Comentário ao evangelho de São Lucas. Petrópolis: Vozes, 1979.
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PRÉDICA: GÊNESIS 15.1-6
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LUCAS 12.32-40 HEBREUS 11.1-3,8-16
08 AGO 2010
Martin N. Dreher
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Introdução
O capítulo 15 de Gênesis tem suas complicações. Nele começa a participação do Eloísta. Por outro lado, duas narrativas vão se intercalando, quase que compondo uma fuga no melhor estilo de Johann Sebastian Bach. São tantas as contradições que encontramos em nosso texto, que só podemos trabalhar com a hipótese de que duas narrativas foram entretecidas. Veja, por exemplo, que no v. 5 é noite e que no v. 12 começa a anoitecer. No v. 6, Abraão crê; no v. 8, duvida, sendo auxiliado por Deus, que lhe concede uma garantia. Mesmo que possamos identificar a pena do Eloísta em nosso texto, fato é que temos nele duplicações e cesuras. Observe-se que o v. 3 é paralelo ao v. 2 e que o v. 5 é paralelo ao v. 4. Feitas essas observações, uma outra tem que ser feita: para a pregação devemos considerar a perícope na forma em que ela se nos apresenta em sua redação atual. Devemos acompanhar a fuga e não desconsiderá-la em nossa interpretação teológica.
2
Exegese
A fórmula “depois disso Abrão teve uma visão” é estranha ao Pentateuco. Encontramo-la, constantemente, na literatura profética. A pessoa que nos apresenta a narrativa e as pessoas que a conheciam só conseguiam imaginar Deus se relacionando com Abraão, segundo o esquema da vocação dos profetas, através de uma “visão”. No restante do Pentateuco, contudo, não vamos encontrar outra alusão a uma “visão”. Essa fala direta de Deus a uma pessoa era, para os contemporâneos da narrativa, algo que punha a tremer; leitura bem diferente daquela feita por formas de piedade de nossos dias que a julgam “o máximo”. Para Abraão, no entanto, é dito que não trema diante do tremendum. A razão para essa admoestação é que Deus é um “escudo”. Essa expressão que tem Deus por escudo, por protetor (pelo radical da palavra portuguesa, Deus sempre nos é “teto”), vem do linguajar do culto (cf. Sl 3.3). Mesmo que as traduções portuguesas falem em “recompensa”, no v. 1 o texto fala em “mérito”, que deve ser entendido, como acontece na literatura profética, no sentido da dádiva livre e graciosa de Deus (cf. Is 40.10; Jr 31.16). Em todos os casos, o conceito não deve ser entendido como uma contrapartida da parte de Deus, pois se observamos o andar da narrativa, a verificação da fé de Abraão só vai acontecer posteriormente. A dádiva não é o
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próprio Deus, mas uma incontável descendência (v. 5). Mas a formulação programática deve ter levado a que gerações posteriores pensassem em toda a salvação e nas bênçãos, das quais Israel se ia dando conta e que se reflete, também, na perícope de Hebreus 11. Abraão resigna. Seu ceticismo aproxima-se da blasfêmia. Mesmo assim, sua postura direciona-nos para o motivo de sua dor: a falta de filhos. O final do v. 2 é de difícil tradução. Em todos os casos, o “de Damasco” é uma impossibilidade. É provável que Abraão esteja fazendo referência a seu servo Elieser, mas o nome só aparece nessa passagem, nesse versículo com texto todo corrompido. Esse servo será seu herdeiro. No entanto, Israel desconhece lei que preveja esse passo legal. Nos povos vizinhos, podemos encontrar contratos, segundo os quais, no caso da falta de filhos, escravos podem ser adotados com o compromisso de providenciar sepultamento digno para o testamenteiro. Parece que Abraão tomou tal decisão ou que a esteja tomando (v. 3). Devemos ter cuidado com o termo “continuo” utilizado por Almeida, pela Nova Tradução na Linguagem de Hoje e por outras traduções. Holek, sem acréscimo de outras expressões, significa “caminhar”. Se considerarmos que essa narrativa se encontra no início da obra do Eloísta, esse deve estar situando seu relato ainda na Mesopotâmia. Por isso devemos ponderar que Abraão talvez esteja dizendo: “De que vale a tua recompensa se me ponho a caminho sem filhos”. Esse pensamento é renovado no v. 3 por formulação tomada de outra fonte. Como nos referimos acima, é repetição (fuga) do verso anterior. Só que agora Abraão, que se encontrava deitado em sua tenda, deve sair e observar na infinidade de estrelas sinal para a incontabilidade de sua descendência. Só que essa ordem de Deus não significa diminuição de sua resignação e de seu ceticismo. Ao contrário: o fato de Deus tornar plástica a promessa nada plástica do v. 1b só aumenta o paradoxo. É nesse instante eletrizante que a narrativa é interrompida. O narrador deixa Abraão olhando para as estrelas e dirige-se ao leitor e lhe transmite conceitos teológicos de grande densidade, sendo que o acontecimento no qual se baseiam seus conceitos não é descrito nem em relação a Javé nem em relação a Abraão. Se entendermos aquilo que o narrador descreve como “crer”, como um processo psicológico que teria acontecido com Abraão, não temos amparo no texto. É como se o narrador se encontrasse diante de algo que não se consegue descrever. Essa fé não é descrita, só é afirmada. A exteriorização dessa fé expressase mais de forma negativa: é silêncio, é ouvir silencioso e contemplar. No v. 6, temos a formulação: “Ele creu em Javé e isso lhe foi imputado para justiça”. Creu, imputado e justiça merecem maior explicação. O “imputar” foi, originalmente, importante função dos sacerdotes. Cabia a eles, na qualidade de pessoas autorizadas por Deus, qualificar os sacrifícios. No Escrito Sacerdotal (P), ainda encontramos toda uma série de juízos sacerdotais, declarados aos que participavam do culto (cf. Lv 13.17,23,28,37,44,46). “Justiça” não é uma norma absoluta, que está acima do ser humano, mas conceito relacional: o conceito “justo” é conferido àquela pessoa que se porta corretamente em relação à comunhão na qual se encontra. Tal comunhão pode referir-se a pessoas, mas também a Deus, como é o caso no presente texto. Deus é justo ao permanecer fiel ao pacto que celebrou com uma pessoa ou com um povo. O ser humano é justo ao se ater às
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normas, às leis desse pacto. – Fé é fundamentar-se em Javé, via de regra em sua salvação que vai acontecer no futuro. É um ato de confiança, de participação nos planos de Deus na história. Observada desde o ser humano, fé é algo passivo, é abrir-se à ação de Deus (cf. Is 7.4,9; 28.16; 30.15). Em nossa perícope, a justificação não acontece no âmbito do culto, mas está situada na relação pessoal de Deus com Abraão. Ela não acontece por causa de méritos resultantes de sacrifícios ou de atos de obediência. Simplesmente é dito que a fé colocou Abraão na relação correta com Deus. Deus deu a entender que seu plano histórico é fazer de Abraão um grande povo. Abraão levou isso a sério. Com isso, segundo Deus, fez a única coisa correta. O v. 6 é um ponto final. Mesmo que o ponto de partida da perícope seja saga antiga, o v. 6 faz dela uma doutrina. Fala da ação de Deus, quando a vida da pessoa passa por tempos difíceis. Israel experimentou isso na época em que esteve ameaçado por potências estrangeiras e refletiu sua situação a partir da história do patriarca. Por isso a perícope só podia iniciar como iniciou: com fórmula profética, para consolar.
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Meditação
Textos têm contextos. Contextos têm pregadores. Também congregações têm seus contextos. O contexto do Eloísta é a experiência do distanciamento de Deus. Os anjos de Deus já não mais peregrinam pela terra. Eles chamam desde os céus (Gn 21.17; 22.11,15). Por isso os sonhos se tornam importantes. É através deles que Deus se manifesta, mesmo que muitas vezes não se o consiga entender (Gn 40. 8). Tanto mais importante é a palavra profética de admoestação e de consolo, de intercessão junto a Deus (Gn 20.7,17; Êx 15.20; 20.19; Nm 11; 12.6ss). Nossa perícope tem um contexto, do qual se pode dizer que há uma comunidade que experimenta distância de Deus. Está envolta em perigos. Israel viu-se envolto em muitos perigos ao longo de sua história. Está carente de proteção. Está sem teto. Tudo terá ruído? Ou estará prestes a ruir? De que adianta a promessa que Deus fez ao patriarca? Sonho bonito, mas não conseguimos viver do passado. Temos presente difícil. O futuro não será mais difícil ainda? Vamos morrer, quem nos sepultará? Como continuar, se não temos quem nos acompanhe? Temos promessa, é verdade, mas ela vai se cumprir? – Olha para o céu estrelado! Confia! Sem temor! O contexto do pregador parece, muitas vezes, ser o de uma voz que clama no deserto. Também desanima. Pode pensar que é muito jovem, como Jeremias. Pode pensar que não há mais ninguém e que ficou só, como Elias, no Horebe. Às vezes, não quer comer coisa imunda, como Pedro. Às vezes, pede para Deus lhe tirar o espinho da carne, como Paulo. Mas a Jeremias Deus põe a palavra nos lábios; a Elias manda de volta ao caminho do deserto, pois ainda há muita gente; a Pedro manda seguir o caminho dos gentios e ser missionário; a Paulo diz que a sua graça lhe basta. Ao pregador diz: Olha para o céu estrelado! Confia! Sem temor! Às vezes, o pregador gostaria de ser representante de Baal, um deus forte como o terremoto, que sopra qual furacão, que arranca pedaços da montanha, que
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faz a terra tremer, que dá prosperidade a todos os que apostam em sua loteria. Ao pregador Deus diz: Olha para a cruz! Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza! No amor não existe medo! O contexto da congregação é complicado. Têm emprego e desemprego; gente querida e assaltantes; amor e drogas; saúde e doenças; sonhos e pesadelos; casamentos e divórcios; encontros e desencontros; compreensão e incompreensão; namorados e viúvos; gente abençoada e gente sentindo ausência de Deus. Essas tensões fazem muita gente desanimar e não querer continuar caminhando. O pregador pode dizer que isso é consequência do pecado. Certamente é verdade. Ele também pode sugerir que a pessoa dê tudo o que tem para Deus, fazendo comércio de coisas sagradas com ele e que ele, então, vai lhe dar prosperidade. Essa opção estaria em profundo e total desacordo com a cruz de Jesus. Ele talvez possa contar sobre Mestre Grünewald e o altar de Isenheim, distribuindo, antes, no seio da comunidade reunida em culto, cópia de detalhe desse altar, contido em DREHER, Martin N. A Crise e a Renovação da Igreja no Período da Reforma. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2006, p. 61. Talvez possa dizer: Como Abraão, vamos silenciar diante de Deus, mirar, confiando-nos completamente a Ele. Às vezes, só conseguimos dizer isso. E... será isso muito pouco?
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Imagens para a prédica
Na Alsácia, existe uma localidade denominada Isenheim. Ali foi fundado, em 1298, um monastério da ordem dos antonitas, para cuja capela Mestre Grünewald foi convidado a pintar o altar. O contexto desse altar é significativo: a doença e o cuidado dispensado ao doente. No interior dos muros do monastério eram tratados muitos doentes, especialmente aqueles acometidos do “fogo de Antão”, também designado de “fogo santo” e, muitas vezes, confundido com a lepra. Quando acometida do “fogo santo”, a pessoa passava a sentir dores horríveis. Os membros ficavam vermelhos, depois escureciam; finalmente, a carne purulenta se soltava dos ossos. Cheirando a própria podridão, os doentes ficavam à beira da loucura. Impotente ante a doença, a pessoa medieval só conseguia ver nela o flagelo de Deus. Por isso familiares abandonavam os doentes; os antonitas, contudo, os recolhiam em seus hospitais. – Esses monges viam na doença possibilidade de crescimento espiritual. As dores eram vistas como caminhada em direção à salvação eterna; os desfigurados eram considerados “mártires de Deus”, por isso merecedores de mais e maior amor. Quando alguém entrava no mosteiro de Isenheim, era levado à capela e colocado ante o altar de Mestre Grünewald, cujo nome de fato era Mathis GothartNithart. Adepto de Lutero, depois passou a acompanhar os camponeses em suas reivindicações. O Cristo que pintou no altar de Isenheim mais parece um camponês crucificado. Depositado aos pés do altar, o doente era confrontado com a eternidade. O monge orava com ele, pedindo que Deus tivesse misericórdia e o curasse. Confrontavam-se o corpo desfigurado do crucificado e o não menos desfigurado corpo do doente. O doente implorava por cura. A tensão era imensa:
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haveria cura? Houve relatos de cura. Houve pedidos não atendidos. Chorando, o doente era levado para o hospital. A figura do altar não era apenas um símbolo, mas presença do divino, poder de Deus, ligação com o mundo de Deus. Mestre Grünewald recebera a solicitação de pintar o quadro com a finalidade de propiciar cura. Enquanto pintava, estava cercado de seres humanos, cujos membros estavam deformados pelo “fogo de Antão”. Sua incumbência era pintar uma imagem diante da qual o ser humano pudesse pedir a Deus a cura da sua doença. No altar de Isenheim, Grünewald retratou as dores de um mundo em crise no final do século XV e no início do século XVI. Todas as convulsões de seus dias estão retratadas ali. Ele próprio as viveu e fixou através do pincel. No entanto, ele não terminou no caos, no qual ele e seus contemporâneos estiveram envolvidos. Quis ajudar a superar o caos. As pessoas retratadas por Grünewald sofreram, e muito, mas assumiram a dor sem ser por ela dominadas. Elas experimentaram a noite da dor e anunciaram a luz de Deus, que vence a doença. Na mesma época em que muitos pregavam aos que sofriam, dizendo-lhes que seu sofrimento era consequência de seu pecado e entregando-os à dor, Grünewald apontava para a realidade que era maior do que pecado e dor. Ele sabia de paz interior e de salvação, que não são menos reais do que pecado e dor. Talvez Grünewald possa ser intérprete de mensagem que o Eloísta nos quer transmitir em Gênesis 15.1-6.
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Subsídios litúrgicos
Oração de coleta: Deus, Senhor todo-poderoso, nós te pedimos: Abre nossos ouvidos para que possamos ouvir o que nos queres dizer. Guia-nos por tua palavra e ensina-nos tua vontade. Ouve-nos por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo dirige a história dos povos. Todo-poderoso Deus, tu és princípio e fim dos tempos, de eternidade a eternidade. Amém. Oração da igreja: Todo-poderoso, eterno Deus, vieste a nós em teu filho Jesus Cristo. Tu nos ensinas e consolas pelo poder do Espírito Santo. Senhor, nós te agradecemos por seres o Senhor da história e dos povos. Muitos reinos e reis surgiram e pensavam poder submeter a si toda a terra. Perante ti, porém, somos como pó, como insignificante gota d’água em imenso balde e como névoa que logo se dissipa. És tu quem determina início e fim da história. Senhor, pedimos perdão por toda a soberba e falsidade com a qual muitos governam o mundo em nossos dias. Também o seu poder é limitado. Permite que os governantes reconheçam que deverão prestar contas ante o teu trono. Senhor, pedimos por nosso povo, que ao longo dos tempos acumulou muita culpa sobre si. Quando te fomos infiéis, trouxemos sofrimento e dor para outras pessoas. Pedimos-te por razão e percepção para a medida correta para nosso falar e agir. Não permitas jamais que esqueçamos que és o Senhor de nossa história.
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11º Domingo após Pentecostes
Senhor, em muitos lugares deste mundo há injustiça, necessidade e guerra. Há seres humanos fugindo porque têm que abandonar sua terra. Crianças sofrem fome, porque os ricos não querem partilhar. Pessoas são torturadas porque quem governa é a violência. Outros são perseguidos por causa de sua fé. Senhor, perdoa nossa culpa e faze de nós instrumentos de tua paz neste mundo. Ouve nossa oração, misericordioso Deus e Pai, por nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Bibliografia DREHER, Martin N. A Crise e a Renovação da Igreja no Período da Reforma. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2006. RAD, Gerhard von. Das erste Buch Mose. Gênesis. 8. ed. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1967 (Das Alte Testament Deutsch 2/4) WESTERMANN, Claus. Genesis. 2. ed. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener, 1989. (Biblischer Kommentar Altes Testament, I/2)
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PRÉDICA: LUCAS 12.49-56
12 12ºº DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JEREMIAS 23.23-29 HEBREUS 11.29-12.2
15 AGO 2010
Tânia Cristina Weimer Como as guerras e as violências nascem nas mentes humanas, é nas mentes humanas que deverão ser erguidas as estruturas de paz.
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Introdução
– Será que vai chover hoje? – Hum (pensativo, olhando para o céu) – acho que hoje só chove mais para o final da tarde. Esse breve diálogo entre duas pessoas que se encontram é muito comum. Falar sobre o tempo, tentar interpretar o comportamento do tempo, sempre foi e é ainda hoje motivo para muita conversa e controvérsia. Quantas vezes, quando nos falta assunto, acabamos falando no tempo? Até para quebrar aquele “insuportável” silêncio quando morre o assunto. Tempo de guerra e tempo de paz. O que vivemos e o que esperamos? Desde o Antigo Testamento, bem antes de Jesus, o tempo de paz era um anseio do povo. Falsos profetas levantavam-se e em seus discursos traziam ilusões e levavam o povo à discórdia. No texto de Jeremias, transparece a atenção de Deus ao povo decepcionado pelas falsas revelações dos profetas. Jeremias repreende os profetas porque anunciavam suas próprias palavras como se fossem palavras de Deus. No Novo Testamento, Hebreus fala com detalhes sobre a vida de pessoas de todos os tempos, que superaram as divisões e colocaram a fé em Deus no centro de sua vida. As falhas pessoais são superadas quando se aprende a desviar o olhar de si mesmo para a grandeza de Deus. Os sinais, sob os quais está o tempo de Jesus, devem ser corretamente interpretados. O que se passa nesse tempo requer penitência de todos. É um tempo de salvação, que começa insignificante e para alguns está passando despercebido, mas que no futuro terá importância avassaladora.
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Exegese
O texto da prédica para esse 12º Domingo após Pentecostes insere-se na segunda parte principal do Evangelho de Lucas (Lc 9.51-19.28). A ênfase é a viagem de Jesus a Jerusalém, onde haveria de enfrentar sofrimento e cruz.
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Os conflitos e divisões fazem parte dos “sinais dos tempos” (Lc 12.54-49). A delimitação do texto poderia estender-se até o v. 59. Os v. 49-50 são material exclusivo de Lucas. Já os v. 51-53 encontram seu paralelo em Mateus 10.34-36, e os v. 54-56 têm paralelo em Mateus 16.2-3. O tema é a divisão que a fé em Cristo provoca. No v. 49, Jesus anuncia que veio para pôr fogo na terra. Jesus está falando da cruz. Mas, antes dela, Jesus sabe que tem pela frente um longo caminho marcado pelo sofrimento, que inclui o confronto com as autoridades religiosas e todas as suas consequências. Jesus está a caminho de Jerusalém, onde a glória, provinda de sua morte, o aguarda. Jesus tem uma missão a cumprir, missão que lhe foi confiada por Deus. A missão é a seguinte: “Eu vim para pôr fogo na terra”, lançar o Espírito Santo, com sua força purificadora e renovadora (cf. At 2.3). Jesus arde em desejo de que essa vinda do Espírito Santo logo se realize. No entanto, ele tem de esperar pelo tempo certo, o tempo determinado por Deus. V. 50 – Antes, porém, Jesus tem de receber um batismo, tem de passar por sofrimentos, que se arremessam sobre ele. O pavor o atormenta. A agonia no Getsêmani ajuda-nos a compreender essa difícil tarefa de Jesus. A salvação dos tempos finais só se concretiza através de esforços, obediência e dores. Para cumprir o desejo ardente de salvação, é preciso coragem para suportar as tribulações dos sofrimentos. V. 51 – O Messias foi anunciado como quem traz a paz. Ele é a promessa do príncipe da paz. Paz é sinônimo de salvação, ordem, unidade. Porém, antes de começar o tempo de paz e de salvação, surgem a falta de paz, separação, desunião. V. 52 e 53 – A separação começa agora. Em Jesus separam-se as famílias. O evangelho cria uma divisão até mesmo entre os membros de uma mesma família. As pessoas devem tomar sua decisão. Essa separação e esse afastamento são sinais de que os acontecimentos finais já começaram. E pedem decisão de cada um. É inerente à palavra de Deus que ela julgue, purifique e acabe por se impor, mesmo que isso aconteça num doloroso processo. V. 54 – Não fica claro se essas palavras foram faladas na mesma ocasião das palavras anteriores. Segundo Leon L. Morris, não há nenhuma conexão óbvia, e no Evangelho de Mateus há uma citação semelhante como resposta a um pedido por um sinal. Assim Lucas estaria relatando um dito de Jesus sem indicar seu contexto. Agora as palavras de Jesus se dirigem às multidões, não mais aos discípulos. Se para os discípulos já estava difícil reconhecer a importância do tempo, quanto mais, então, para o povo. Os sinais, sob os quais está o tempo de Jesus, devem ser corretamente interpretados. Os sinais do tempo são o cumprimento do reino na pessoa de Jesus. V. 55 – Observando o tempo, o povo sabe muito bem interpretar seus sinais. Porém, quando se trata de julgar os acontecimentos pertinentes a Jesus e à salvação, não sabe formar um julgamento exato acerca do significado dos acontecimentos. O povo entendia os ventos da terra, mas não os ventos de Deus; podia
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discernir os sinais no céu, mas não os lugares celestiais. A multidão concentravase naquilo que era superficial. V. 56 – Jesus chama-os de hipócritas: sabem muito bem discernir esses sinais, mas fazem como se não os entendessem. Não os querem interpretar como sinais do tempo, que Deus destinou à decisão, nem se converter, e sim continuar a viver a velha vida. A vontade é obstáculo ao julgamento.
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Meditação
Os sinais dos tempos estão aí para todo mundo enxergar: concentração cada vez mais estúpida de renda, fraudes, corrupção no governo, que vem legislando em causa própria, destruição irresponsável da natureza, poluição da água e do meio ambiente, violência e crescente consumo de drogas. Dá para parar por aí, mas tem muito mais. Certamente restam poucas dúvidas de que só há uma escolha, uma única postura possível para os que querem levar a sério o trabalho e a vivência cristã: colocar-se com todas as forças e possibilidades na defesa dos pequeninos e injustiçados e unir-se na denúncia e advertência aos que causam a divisão e duvidam da paz. Quem assume essa postura terá contra si os detentores do poder e da justiça. É decisão que trará sofrimento. As palavras de Jesus ecoam em minha mente e em meu coração: “Eu vim para pôr fogo na terra e como eu gostaria que ele já estivesse aceso” (v. 49). Essa passagem é muito significativa. Explica assuntos relacionados com a igreja e com o mundo. Notemos, primeiramente, a determinação que Jesus tinha de levar até o fim a obra de salvação que viera desempenhar no cumprimento da vontade do Pai. Ele disse: “Tenho de receber um batismo, e como estou aflito até que isso aconteça” (v. 50). A perspectiva do sofrimento e da agonia que o esperavam não desanimou Jesus. Ele submeteu-se, de bom grado, a tudo para obter a salvação de todos. Só isso deveria ser o bastante para despertar nosso frio coração e arrancarnos da indiferença. Deveria exercitar em nós o desejo de aproveitar o tempo e fazer prevalecer a paz em meio às angustias do mundo. Que a lembrança da boa vontade com que morreu para a nossa salvação esteja sempre em nossa memória e nos faça viver para ele e para nosso próximo – e não para nós mesmos. Sem dúvida, a paz é uma consequência natural da proclamação do evangelho. Em qualquer lugar onde houver pessoas que, apesar de ouvir o evangelho, continuam endurecidas, a mensagem da paz produz dissensões. Os que têm o propósito de servir o mundo odeiam os que se dedicam ao serviço de Cristo. Demos graças a Deus porque chegará o dia em que cessarão todas as discórdias e a humanidade viverá em paz. Isso acontecerá no tempo determinado por Deus, quando vier o príncipe da paz pela segunda vez.
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É dever nosso observar, em todos os tempos, os acontecimentos em nossa volta. Tenhamos em mente as palavras de Jesus. Não sejamos surdos, cegos e indiferentes a tudo o que está acontecendo. 3.1 – Preparando a mensagem Durante a semana, pode-se ler o texto em grupos da comunidade e perguntar o que as pessoas entendem dessas palavras. A primeira impressão das pessoas é uma ótima forma para introduzir o texto e partir para a construção de uma mensagem. Pode-se perguntar “o que é paz” para as pessoas. Onde encontramos a paz? Como podemos construir a paz? No meio em que vivemos, como comunidade, onde somos chamados a colocar sinais concretos de paz? Sugerimos montar um painel com ilustrações ou palavras-chave sobre a realidade em que vivemos (situação do contexto local e atual) e a realidade que almejamos (o sonho da paz), perguntando sempre pelas possibilidades dessa paz. Colocar no centro a palavra Jesus. Esse painel pode ser montado com as crianças do Culto Infantil, com as turmas do Ensino Confirmatório e da Juventude Evangélica ou, quem sabe, com os grupos da Terceira Idade. Colocar aqui imagens ou palavras que retratam o tempo (realidade) atual ausência de paz
J E S U S
Aqui colocar imagens ou palavras que retratam o tempo futuro (a realidade que almejamos) a verdadeira paz
4 Imagens para a prédica O significado da paz Era uma vez ... um rei que ofereceu um prêmio ao artista que pintasse o melhor quadro que representasse a paz. Muitos artistas tentaram. O rei olhou todos os quadros. Gostou mesmo de dois e teve de escolher entre eles. Um quadro retratava um lago sereno. O lago era um espelho perfeito das altas e pacíficas montanhas à sua volta, encimado por um céu azul com nuvens brancas como algodão. Todos os que viram esse quadro acharam que ele era um perfeito retrato da paz. O outro quadro também tinha montanhas. Mas eram escarpadas e calvas. Acima havia um céu ameaçador, do qual caía chuva e no qual brincavam relâmpagos. Da encosta da montanha caía uma cachoeira espumante. Não parecia nada pacífica. Mas, quando o rei olhou, ele viu ao lado da cachoeira um pequeno arbusto crescendo numa fenda da rocha. No arbusto, uma mãe pássaro havia feito seu
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ninho. Lá no meio da turbulência da água feroz, instalara-se a mãe pássaro em seu ninho em perfeita paz. Qual pintura você acha que ganhou o prêmio? O rei escolheu a segunda. Sabe por quê? “Porque”, explicou o rei, “paz não significa estar num lugar onde não há barulho, problemas ou trabalho duro. Paz significa estar no meio disso tudo e ainda estar calmo no seu coração. Este é o significado real da paz”.
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Subsídios litúrgicos Paz é o sorrir da criança É a vida que avança sem ninguém contestar Paz são os sonhos do jovem Que a vontade promovem de crescer e amar Paz é um desejo do adulto Revelado ou oculto de se realizar. Paz é o amor como lema Enfrentar o problema é querer resolver Paz é mais que ausência de guerra É fazer aqui na terra que todos possam viver Paz é fazer a partilha Pois o sol que hoje brilha todos deve aquecer Paz é o chão dividido É o pão repartido entre todas as mãos Paz é justiça e respeito Aos humanos direitos entre nós cidadãos Paz é juntarmos os braços Reduzir os espaços que separam irmãos. (Coro das Gerações, de José Acácio Santana)
Kyrie: Em nome dos que choram, Dos que sofrem, Dos que acendem na noite o facho da revolta E que de noite morrem, Com a esperança nos olhos e arames em volta. Em nome dos que sonham com palavras De amor e de paz que nunca foram ditas, Em nome dos que rezam em silêncio E falam em silêncio E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
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Em nome dos que pedem em segredo A esmola que os humilha e os destrói E devoram as lágrimas e o medo Quando a fome lhes dói. Em nome dos que dormem ao relento Numa cama de chuva com lençóis de vento O sono da miséria, terrível e profundo. Em nome dos teus filhos que esqueceste, Filho de Deus que nunca mais nasceste, Volta outra vez ao mundo! (autor: Ary dos Santos) Gesto da paz: O mundo necessita paz. Nossa comunidade necessita paz. Nem sempre vivemos a paz. Mas na fragilidade se manifesta a graça de Deus. Somos convidados a viver essa realidade em nosso meio. Com o gesto de paz, desejamo-nos mutuamente a paz de Jesus e nos colocamos em prontidão para construir a paz entre nós. Saudemo-nos mutuamente com o gesto da paz. Oração de intercessão: (Cada comunidade possui uma dinâmica própria no que se refere à oração. Nesse momento, é importante abrir um espaço para que a comunidade manifeste sua intercessão.) Após cada oração, a comunidade responde, cantando: Ouve, Senhor, eu estou clamando, tem piedade de mim e me responde. Oremos: L: Querido e amado Deus, agradecemos-te por este momento de culto, de celebração, no qual de maneira tão especial tu vens a nós como força e alimento para a nossa caminhada. Permite que se renove em nós a esperança por dias melhores, a disposição para servir-te com nossos dons e testemunharmos tua vontade sem temor, anunciando a tua vinda e preparando a tua chegada em nosso meio. Acompanha-nos ao final deste culto, fortalecendo em nós a certeza de que, quando nos sentimos fracos, ali tu estás a nos cuidar. Oremos ao Senhor: C: Ouve, Senhor, eu estou clamando: Tem piedade de mim e me responde. L: Senhor! É na fragilidade que tu manifestas a tua graça. Nossas comunidades, nosso mundo, nossa sociedade anseiam por esse entendimento. Concedanos a graça de perceber essa manifestação. Chegamos à tua presença para clamar por mãos envolvidas no projeto de paz neste mundo. Oremos ao Senhor: C: Ouve, Senhor, eu estou clamando: Tem piedade de mim e me responde. L: Senhor! Queremos nos lembrar de todas as comunidades da IECLB neste Brasil tão diverso e tão frágil. Oramos para que as comunidades sejam sensíveis à fragilidade humana, sabendo que tu, ó Deus, tomas conta da vida de todos através de Jesus Cristo. Tu caminhas ao nosso lado, dando-nos força em nossa fragi-
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lidade, para que possamos seguir em frente com segurança. Nosso pedido é que tu nos conduzas! Oremos ao Senhor: C: Ouve, Senhor, eu estou clamando: Tem piedade de mim e me responde. (espaço para a comunidade) C: Ouve, Senhor, eu estou clamando: Tem piedade de mim e me responde. L: Senhor Deus! A ti entregamos essas intercessões, na certeza de que tu nos ouves e respondes com o teu amor por nós; por Jesus Cristo, teu filho amado, nosso Senhor e Salvador. Amém. Sugestão de hinos: Mil anos de paz, de Rodolfo Gaede Neto, e Há sinais de paz e de graça, de Lindolfo Weingärtner (Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 165). Sugestão de leitura: Muito longe de casa – Memórias de um menino soldado, de Ishmael Beah.
Bibliografia LANCELLOTI, A. e BOCALLI, G. O Evangelho da Libertação Segundo Lucas. Petrópolis: Editora Vozes, 1972. MORRIS, Leon L. O Evangelho de Lucas. São Paulo: Vida Nova, p. 206 -208. STÖGER, Alois. O Evangelho segundo Lucas – 1ª parte, Petrópolis: Ed. Vozes, 1973. p. 368-378.
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PRÉDICA: HEBREUS 12.18-24
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ISAÍAS 58.9b-14 LUCAS 13.10-17
22 AGO 2010
Antonio Carlos Ribeiro
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Introdução Deus, em Jesus como Cristo, não representa uma supressão heterônoma do humano, mas sua realização integral e ideal: a encarnação não se opõe ao humano, mas o completa e realiza plenamente. A união hipostática, que descreve a ligação do Verbo eterno com o humano em Jesus, é realmente o exemplo ideal do que ocorre ou pode ocorrer em todos os seres humanos que aceitam a presença de Deus na graça. Roger Haight
A realidade é dual. Diante de cada situação podemos perceber os dois lados que a compõem. Se assumimos plenamente nossa condição humana e com algum esforço de reflexão, somos capazes de encontrar respostas e achar caminhos para integrar a dualidade. Se nos falta essa capacidade, se nos sentimos inseguros em relação ao que somos, cremos e pensamos ou se sempre somos tentados a crer que apenas um lado guarda a razão, a justiça e a verdade, perdemos o equilíbrio da dualidade e nos arriscamos no pântano do dualismo. Raciocínio capenga, o dualismo precisa do errado para afirmar o certo, da moral que consagra um comportamento para rejeitar o outro, da tradição que legitima um caminho para descartar a busca de qualquer novidade. O dualismo constitui uma lógica excludente, binária, em que +A sempre será diferente de –A, e –A nunca será +A. Essa lógica aristotélica, entranhada na cultura ocidental, está mais arraigada em nós que possamos imaginar. A mecânica quântica, da qual a teologia ficou isolada por um século, fato que explica nossa dificuldade de diálogo com a ciência, diz que existe um terceiro elemento (T). Esse possibilita a percepção, a inclusão e a relação. A Trindade é uma figura simbólica para falar da relação que unifica (torna um), inclui e integra. Sem precisar negar para afirmar, aristotelicamente. Nestes tempos de Pentecostes (Ação do Espírito), também chamados de Trindade (na qual a terceira pessoa rompe a lógica dualista), podemos ler os textos bíblicos indicados para o domingo e ver a viva relação que têm entre si. Isaías 58.9b-14 aponta para a piedade que surge de relações humanas generosas e maduras (se tirares o jugo, o dedo e a injúria; se abrires a alma ao necessitado; se fizeres o bem no sábado, não profanarás, mas honrarás os da casa, as demais criaturas e o Senhor a quem o sábado é dedicado). A binariedade não rompe a lógica da opressão do exílio, mas a justifica.
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13º Domingo após Pentecostes
O texto do Evangelho de Lucas 13.10-17, da mesma forma, integra a pessoa atormentada, cria as condições para a cura, restitui a dignidade ao outro, para quem o sábado até então nada significou. A prática de Jesus não despreza a guarda do sábado, mas lhe atribui significado existencial, ajuda na busca de sentido humano e liberta do sofrimento. A lógica ternária é comunitária e possibilita a superação das inseguranças, possibilitando o gesto propositivo. A ação de Jesus é dual, sem ser dualista, aproxima os lados que integram a mesma realidade, mostra que o bem e o mal, o acerto e o equívoco, a dor e a vida abundante estão em nós. E ensina que a encarnação não se opõe à humanidade, mas a potencializa. Na Carta aos Hebreus 12.18-24, Jesus é o mediador da nova aliança, o terceiro que rompe a lógica binária que oscila entre a aplicação cega da lei e o isolamento social gerado por sua negação. O elemento que rompe a excludência que aterroriza até Moisés é a assembleia que legitima o acordo.
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Exegese
O texto da prédica (Hb 12.18-24) começa explicando como desde o início aquele povo precisou unir-se para tomar decisões. Eles balançam entre dois modelos: o monte Sinai e o monte Sião, referências fundamentais para a caminhada do povo hebreu. O primeiro é o deserto, de onde partiam as gentes espalhadas e expostas na planície, região entre o mar e a montanha, que os deixava vulneráveis aos povos indolatinos, exigindo união, liderança e a lei do Sinai, para ser enfrentada. Ou a decisão de ficar e deixar a promessa de ser povo de Iahweh para os outros. A prédica é dirigida aos herdeiros da primeira aliança, em condições sócio-econômico-ambientais que envolviam completa insegurança e em condições do nomadismo, que marcam a movimentação de populações na região desde tempos imemoriais. O segundo é o lugar da promessa, onde chegaram em busca da terra que mana leite e mel, guiados pela utopia de que é possível viver com dignidade. Mas com o conjunto de mudanças políticas e religiosas, ocorridas no primeiro século da era cristã, parte dessa comunidade judaica vive na diáspora, tendo abraçado a fé em Cristo. A essa comunidade o texto é dirigido. Essa é a imagem da prédica dirigida a judeus que creem em Jesus Cristo, descendentes do povo de Israel. Ao tratar do tema Jesus Cristo diante desse público, o autor parece querer apagar as saudades do culto de Israel, apresentando-o como modelo de sacerdócio e sacrifício melhores que a aliança do Sinai. Esse grupo é composto de pessoas que representam o judaísmo helenista fora da Palestina, como os de Alexandria, onde a comunidade guarda uma tradição com elementos próprios, da qual surgiu a Septuaginta. A autoria da carta segue sendo um debate não concluído pelos exegetas. Em geral, são unânimes em afirmar que há fragmentos do discurso paulino, ao mesmo tempo que asseguram que ele não é o autor. A data do texto é de antes da destruição do Templo de Jerusalém, em torno do ano 70 d.C., e é mencionada nos escritos de Clemente de Roma (95 d.C.).
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O texto é uma carta de exortação (Hb 13.22) que busca relacionar os elementos do Antigo Testamento com a pessoa de Jesus Cristo, usando o estilo da prédica na sinagoga helenista, nos moldes descritos por Filo de Alexandria. O autor dirige-se a uma comunidade específica, procurando responder aos problemas, trazendo palavras de exortação e ensino. A ênfase teológica do autor é a revelação manifestada em Jesus Cristo, na qual a salvação aparece em contraposição à antiga aliança, embora mantenha a noção do sacrifício válido e definitivo. Isso implica manter a fidelidade, já que a possibilidade de um segundo arrependimento é descartada. É importante que nenhum membro se afaste para não perder a salvação. “Cristo abriu o caminho. A ele o povo peregrino de Deus deve seguir”, enfatizou Ernst Käsemann. O ensino a respeito do sumo sacerdote nesse texto não apresenta traços da comunidade de Qumrã, mas sustenta outros comparáveis aos das comunidades de cunho helenista. Da mesma forma que Hebreus não tem indícios de que a comunidade esteja em Jerusalém ou mesmo na Palestina. Do ponto de vista do texto, apresenta evidências de construção regular de frases com acabamento cuidadoso. “Lutero sentiu profundamente o contraste entre Hebreus e Paulo, ao caracterizar, no prefácio à Bíblia de 1522, a negação de um segundo arrependimento como contrário a todos os evangelhos e epístolas de S. Paulo, concedendo, no restante, a Hebreus ser uma epístola fina modelar, que fala magistralmente, e com boa base na Escritura, do sacerdócio de Cristo” (Lohse, p. 217).
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Meditação: Do Mysterium tremendum ao fascinosum
Nossa experiência com o sagrado ocorre de duas formas, pelo menos. A dramática, em que percebemos seu poder de forma aterradora, quando a nossa vida e a de nossos queridos correm riscos reais. E a enlevadora, quando nos sentimos guardados, sustentados e amparados diante das dificuldades. O teólogo Rudolf Otto criou a expressão mysterium tremendum para falar da primeira e mysterium fascinosum para referir-se à segunda. Essas expressões ajudam a entender os propósitos do autor da Carta aos Hebreus. Ele relaciona a epopeia da chamada e constituição do povo de Deus com a diáspora do primeiro século da era cristã. A primeira acontece em circunstâncias dramáticas, quando populações escravizadas decidem dispor-se a seguir um novo líder do grupo constitutivo básico de sua própria gente, sem garantias, mas com expectativas que a situação presente de dor, sofrimento e humilhações não oferecia, nem em condições remotas. Lembra que eles peregrinaram movidos pela utopia da terra que mana leite e mel, construindo ali sua vida por seguidas gerações. O autor da carta vale-se dessa história de fé para animá-los nessa nova etapa de suas vidas. Como herdeiros daquela experiência de fé, eles vivem agora um novo momento a partir da revelação de Deus em Cristo e com a fé no ressuscitado. A primeira experiência é marcada por uma realidade de risco, confrontações intensas para testar e afirmar a fé, diferenças diversas na constituição da-
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quele que viria a ser chamado de povo da aliança (v. 19). Uma relação em que a divindade se expressa através de leis claras, lideranças que a executam e falta de condições adequadas de vida, exigindo o seguimento de normas e o cumprimento fiel das condições que podem assegurar ou negar a sobrevivência. O impacto desse momento infunde temor (v. 20). A afirmação do sagrado dá-se numa legislação dura e rígida, que fere os sentimentos dos camponeses para se fazer respeitar. A demarcação do espaço sagrado, a montanha, e do espaço de suas criaturas, a planície, expressa essa distinção em termos topográficos. Por isso, aproximar-se da montanha significa a pretensão do poder, à qual será aplicada a punição. Mesmo a criaturas como os animais. O seu espanto não lhes chega apenas pelo que veem, mas também pelo testemunho de lideranças como Moisés, que se diz apavorado e com medo. O sagrado não se deixa dominar, a liderança humana não é sua revelação e nem o intermedia (v. 21). Circunstâncias difíceis, em que a relação de fé e seguimento pede fidelidade absoluta. E não menos do que isso. A situação atual é bem diferente. Eles já são povo da promessa, já vivem na comunhão com Deus, e diante dos riscos de Jerusalém, essa já se tornou uma referência supra-humana, uma nova utopia na qual ancorar os sonhos e as esperanças. O que a referenda agora não é o monte sagrado, nem a construção urbana e nem mesmo o templo, mas o Deus vivo e a assembleia universal. Esse Deus é mais forte e poderoso porque deixa de ser de um povo apenas – por legitimar suas vitórias e ser culpado por suas derrotas –, mas é o Deus de todos, podendo ser adorado do lugar onde estiverem os seus filhos (v. 22). A teologia reflete as mudanças e dialoga com a realidade para dar respostas pastorais. A assembleia que os reúne é a mesma dos primeiros filhos, da qual já fazem parte por ter os nomes inscritos no céu, por estar próximos do juiz, que é Deus, e por estar na companhia dos que viveram nessa confiança e foram justificados. Após a revelação de Deus em Jesus, a justificação não vem do cumprimento da lei, mas da fé nele (v. 23). E porque estão perto de Jesus, que mediou uma nova aliança, cuja ação é como a do sangue da aspersão, o símbolo que livrou os hebreus da décima praga no Egito – a morte dos primeiros filhos em todas as casas, incluída a de Faraó – e que é mais forte do que o sangue de Abel, símbolo da ruptura com Deus, que introduz a morte fratricida mediante a rejeição ao sacrifício de Caim, ao ser preterido ao de Abel (v. 24). O texto reflete como a inculturação do evangelho já se faz desde os primórdios da fé cristã. Mudadas as condições históricas de natureza social, cultural, econômica e política, criam-se as novas condições para a releitura da mesma fé cristã nos contornos e nas texturas da nova realidade. Essas mesmas condições não garantem sua transmissão, mas é seu conteúdo de anúncio da boa-nova que sobressai de forma redentiva, quaisquer que sejam as condições dadas.
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4 Imagens para a prédica Para a contribuição das comunidades luteranas à inculturação do evangelho na realidade brasileira, mudanças são necessárias. Sempre que elas nos abalarem e as novas circunstâncias exigirem esforços maiores de adaptação, temos a oportunidade de aprender com a experiência do Novo Testamento e das comunidades, que, ao fazerem nova leitura histórico-teológica de sua fé, descobriram que para sobreviver nos novos tempos precisavam dispor-se ao diálogo com a realidade. Não monólogo que lê o cotidiano e pergunta como manter nele os interesses eclesiais, mas como diálogo honesto e profundo, de quem intervém propositivamente, mas também está disposto a ceder. Quem não aceita tal proposta, como escreveu o pastor G. Brakemeier na apresentação da Declaração Conjunta sobre Justificação, assinada com a igreja católica, deve perguntar-se se vale a pena sentar à mesa do diálogo ecumênico. Para ilustrar a disposição verdadeira de diálogo profundo com as demais igrejas e religiões a partir da realidade brasileira, transcrevo a proposta de Donald M. Baillie: Se eu pudesse imaginar tudo isso através de um outro “mito” ou emblema divino, gostaria de contar a história de Deus chamando as suas criaturas humanas a fim de formar uma grande roda para brincar. Estaríamos todos de pé, de mãos dadas, unidos em amor, olhando para a Luz do Centro, que seria Deus (“o amor que movimenta o sol e outras estrelas”); veríamos também todas as criaturas irmãs ao redor, sob a Luz daquele amor central que brilha e embeleza as suas faces; e todos juntos estaríamos dançando nessa brincadeira divina, segundo o ritmo do amor universal. Contudo, em lugar disso cada um de nós voltou-se de costas para Deus e para as pessoas, de modo que não nos é possível vislumbrar a Luz que está no centro nem as faces que brilhavam ao longo daquela roda. Nessa posição é, de fato, muito difícil até mesmo dar as mãos aos circunstantes! Portanto, ao invés de participar desse jogo de Deus, nós fazemos o nosso próprio joguinho egocêntrico, tal como aquelas crianças perversas que Jesus viu no mercado e que não queriam unir-se à brincadeira de seus companheiros. Cada um de nós quer ser o centro, reinando enorme confusão. Não temos assim nenhum conhecimento de Deus nem do próximo. Isso é o que está errado na humanidade. O homem, naturalmente, não se acha muito satisfeito com a situação, uma vez que foi criado para viver em comunhão com Deus e com o próximo. Além disso, a luz de Deus ainda está brilhando no verdadeiro centro, atrás de si, embora não brilhe sobre a sua face. Joga na sua frente a própria sombra mediante cada movimento que faz, até que todo o mundo pareça estranho e hostil (é, de fato, um mundo decaído, arruinado). O homem sabe, obscura ou claramente, que as coisas não estão muito bem. Talvez tente fazer-se mais feliz, insistindo mais furiosamente em sua dança, e tudo será pior. Pois, como os moralistas tantas vezes já disseram, a busca da felicidade traz em si as sementes da sua própria incapacidade. É provável que procure emendar as coisas fazendo-se de bom. Mas não consegue. Embora isso não seja tão óbvio para os moralistas, a busca da bondade também tem em si os sinais da frustração.
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Toda essa tentativa de melhora conserva-nos dentro de nós mesmos. É egocêntrica, e é exatamente do egocentrismo que precisamos salvar-nos, porque é a essência do pecado. Esse método fracassa, e assim somos levados ao desalento e à paralisação moral. E se alguma vez começamos a ter êxito em nossos intentos de melhora, ou se pensamos que estamos tendo êxito, então começamos a nos elogiar secretamente e caímos assim no pior exemplo de egocentrismo – autorretidão e orgulho. Em lugar de santos tornamo-nos “fariseus” (p. 233-4).
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Subsídios litúrgicos
Saudação: Nas palavras iniciais, o/a celebrante deve falar do Pentecostes, da disposição de deixar-se mover pelo Espírito Santo e da coragem para ousar novos passos, confiados na promessa e na experiência da caminhada com Deus. Tempo de deixar-se mover pelo Espírito e de envolver-se nos movimentos que ele mesmo suscita à volta de nós. O/a celebrante afirma: É o Espírito que nos move ao encontro do outro e nos faz comunidade, como diz o terceiro artigo do Credo Apostólico. Saudemonos nesse dia. Amém. Confissão de pecados: Estamos aqui, Senhor, para admitir as vezes em que não nos deixamos guiar pelo Espírito Santo. Perdoa nossas faltas, impaciências e desamor! Desarma-nos e envolve-nos na tua comunhão, suscita uma experiência de culto verdadeira e aproxima-nos uns dos outros para nutrir verdadeira fé e disposição de serviço neste tempo de Pentecostes. Ajuda-nos a, confiados em teu amor e graça, viver na esperança, em tua presença e sob os teus cuidados. Tem piedade de nós, Senhor! Oração do dia: Deus, que na força do Espírito nos faz ser comunidade do teu povo, ajudanos a ampliar as possibilidades de participação na comunidade. Ajuda-nos a perceber o significado da inculturação da fé cristã na realidade brasileira, dispõe-nos a dialogar mais e de maneira mais profunda com as situações do nosso cotidiano e a buscar as respostas que melhor correspondam às questões que nosso povo traz. Amém! Oração final: Neste momento, a comunidade é convidada a esta oração de despedida, de Thomas Merton, seguida do Pai-nosso e da bênção: Senhor, meu Deus, não tenho ideia aonde estou indo. Não vejo o caminho diante de mim. Não posso saber com certeza onde terminará. Nem sequer, em verdade, me conheço. E o fato de pensar que estou seguindo a tua vontade não significa que realmente esteja. Mas acredito que o desejo de te agradar te agrada de fato. E espero ter esse desejo em tudo o que estiver fazendo. Espero jamais vir
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a fazer uma coisa distante desse desejo. E sei que, se agir assim, tu hás de me levar pelo bom caminho, embora eu possa nada saber sobre o mesmo. Portanto hei de confiar sempre em ti, ainda que eu possa parecer estar perdido e sob a sombra da morte. Não hei de temer, pois tu sempre estás comigo e nunca hás de deixar que eu enfrente meus perigos sozinho. Em seguida, as crianças entram e distribuem balões vermelhos inflados de ar, lembrando que o Espírito é huah e pneuma, ambos vento que a tudo areja.
Bibliografia BALLIE, Donald M. Deus estava em Cristo. Ensaio sobre a encarnação e a expiação. Trad. J. C. Maraschin. São Paulo: ASTE, 1964. GUTHRIE, D. Hebreus. Introdução e comentário. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, Mundo Cristão, 1984. KONINGS, Johann. Hebreus. São Paulo: Loyola, 1995. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1985. UTECH, Ilo. 14º Domingo da Quaresma – Hebreus 12.18-24. STRECK, E.; SCHNEIDER, N. Ed. Proclamar Libertação 20. São Leopoldo: Sinodal, EST, 1994.
14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES LUCAS 14.1,7-14 PROVÉRBIOS 25.6-7 ou ECLESIASTES 10.12-18 HEBREUS 13.1-8,15-16
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PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 30.15-20
15 15ºº DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 14.25-33 FILEMOM 1-21
05 SET 2010
Claudete Beise Ulrich
1
Introdução
O texto de Deuteronômio 30.15-20, previsto para a pregação, ainda não foi trabalhado no Proclamar Libertação. Ulrico Meyer refletiu sobre Deuteronômio 30.11-20 no Proclamar Libertação VIII, tendo como pano de fundo o Culto de Confirmação. A presente contribuição é para o 15º Domingo após Pentecostes. Vivemos sob a graça da presença do Espírito Santo. O texto do Evangelho de Lucas 14.25-33, previsto para a leitura, aponta para as consequências que resultam do seguimento a Jesus. O discipulado implica renúncia aos valores do mundo e compromisso com o reino de Deus. Já a Epístola de Filemon mostra que o seguimento leva ao acolhimento e à aceitação total do outro. Ao pedir por Onésimo, Paulo está rompendo com a lei, com a estrutura romana da escravidão. O poder do amor, de aceitar o outro/o escravo como irmão (v. 16), rompe com velhas estruturas e constrói uma nova ordem social (15-17). Portanto os três textos indicados para leitura e pregação mostram que o cumprimento da lei acontece, concretamente, na vivência do amor, levando para uma transformação em todas as dimensões da vida. É necessário encontrar um equilíbrio entre lei e evangelho. A graça de Deus não é barata, exige escolhas, compromisso e transform(ação) em nossos cotidianos.
2
Exegese
O texto previsto para a pregação de Deuteronômio 30.15-20 deve ser visto a partir do núcleo do livro de Deuteronômio, o qual se encontra em 6.4-6: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te”. O amor a Deus precisa perpassar toda a vida do povo israelita, bem como faz parte do processo de ensino-aprendizagem das novas gerações. Provavelmente, Deuteronômio tinha a intenção de orientar a caminhada do povo escolhido com Deus, preservando a pureza e a fidelidade. Por isso o Deuteronômio se designa a si mesmo: “esta torá”. De acordo com VON RAD (1973, p. 224): “O conceito deuteronomista da Torá compreende o conjunto das disposições
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benéficas de Javé em favor de Israel. Numa perífrase, é ‘a revelação da vontade de Javé’”. É isso que lemos em Deuteronômio 4.2, 12.32: “Nada acrescentarei à palavra que vos mando, nem nada diminuireis dela”. Para o mesmo autor (1973, p. 223), esse livro “é um artístico mosaico de pregações múltiplas sobre os mais variados assuntos, a síntese de uma vastíssima atividade de pregação”. No centro de Deuteronômio está a doutrina, isto é, o esforço para que Israel ouça a revelação da vontade de Javé sob todos os seus aspectos. A obediência reclamada, porém, não é de modo algum condição de eleição. É impossível, pois, considerar os mandamentos do Deuteronômio como uma “lei” no sentido teológico, que leve Israel a merecer a salvação pela observação global das existências divinas. Os mandamentos de Deuteronômio são antes uma grande explicação do mandamento do amor por Javé e do apego exclusivo a ele (Dt 6.4ss). VON RAD (1973, p. 225) chama a atenção que as pregações do Deuteronômio fundamentam a ideia de que céus e terra pertencem inteiramente a Javé. Ele também tomou para si, de modo mais particular, os pais de Israel, amou-os e, mediante juramento, prometeu-lhes e a seus descendentes a posse da terra de Canaã (Dt 6.10, 7.8; 10.14s). O reconhecimento da atuação de Deus e seu amor, insistimos, são os motivos da observância dos mandamentos, de acordo com o autor citado VON RAD (1973, p. 227). De geração em geração, era necessário tornar compreensível a vontade de Javé. VON RAD (1973, p. 222) também defende a tese de que “o quadro geral dessa grande obra da literatura teológica de Israel é o mesmo do desenrolar de um ato de culto. Os assuntos sempre se inspiravam num acontecimento concreto, que, em Deuteronômio, é o ritual de um ato litúrgico”. Portanto a vida e o culto não estavam desvinculados da caminhada do povo de Israel. Deuteronômio deixa bem claro às novas gerações por que Israel foi escolhido como povo eleito. Deus “não vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o Senhor vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o Senhor vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder do Faraó, rei do Egito” (Dt 7.7-8); nem o fez “por causa da tua justiça, nem pela retitude do teu coração” (Dt 9.5), mas porque ele ama a Israel, ama seus pais e guardará a sua palavra em favor deles e punirá os cananeus. Ele é teu Deus (Dt 10.12ss). A partir das lembranças do agir e do amor de Deus, o povo de Israel tem a liberdade de escolher. Deus nada impõe, mas dá a liberdade de escolha, deixando claro que a escolha também implica responsabilidade e compromisso. “Vê que te proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal.” O termo “hoje”, repetido muitas vezes ao longo de todo o livro, implica decisão/escolha contínua e cotidiana. O texto para a pregação faz parte do final do livro de Deuteronômio 30.1520. Encontra-se aqui resumido o conteúdo desse livro. Deus conclama Israel para decidir-se pela “vida e o bem, a morte e o mal, a bênção ou a maldição”. A escolha da vida e do bem está ligada ao cumprimento dos mandamentos: amar a Deus, andar em seus caminhos e guardar os seus mandamentos, mostrando-se na atitude e ação de Deus que “faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe
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pão e vestes. Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito” (Dt 10.17-19). Amar a Deus, guardar os mandamentos e os estatutos terá como consequência a vida e a multiplicação do povo, bem como a bênção na terra, dada ao povo de Israel (Dt 30.16). Javé/Deus exige exclusividade, pois se o coração do povo se deixar seduzir e desviar, adorando outros deuses, irão perecer, assim como não permanecerão longo tempo na terra dada por herança, passando o Jordão (Dt 30.18). Novamente, Deuteronômio se reporta a toda a criação (céus e terra) como testemunhas pela decisão na escolha do povo de Israel. “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunha contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição” (Dt 30.19a). Encontramos nesse versículo e no seguinte (Dt 30.19b-30.20) novamente a ênfase no pedido de Deus para que o povo escolha a vida: “Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, amando o Senhor, teu Deus, dando ouvidos à tua voz e apegando-te a ele; pois disso dependem a tua vida e a tua longevidade; para que habites na terra que o Senhor, sob juramento, prometeu dar a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó”. É interessante que o texto de Deuteronômio, indicado para a pregação, coloca situações de escolha para o povo, deixando claro as consequências de uma ou outra escolha. No entanto, o texto termina com o verbo no indicativo: “Escolhe, pois, a vida...”. O desejo de Deus, expresso pelo Deuteronômio, é que Israel escolha a vida, o bem e a bênção. Sendo assim, será abençoado com longevidade, descendência (viverás e te multiplicarás – Dt 30.15) e com a bênção da terra. Assim com o texto inicia, também termina, dando ênfase à escolha da vida. A escolha da vida, do bem e da bênção está intimamente ligada à prática do mandamento do amor a Deus.
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Meditação
Deus coloca duas opções: escolher o caminho da vida, do bem e da bênção ou escolher o caminho da morte, do mal e da maldição. Há liberdade de escolha. No entanto, cada escolha tem a sua consequência. A escolha da vida está ligada ao grande mandamento do amor a Deus (Dt 30.16), ampliado por Jesus em Mateus 22.34-40. O seguimento a Jesus (Lc 14.25–33) implica renúncia a tudo aquilo que não promove o amor. O cumprimento do mandamento do amor com todas as suas implicações encontramos no texto de Filemom. O cumprimento do amor, que se mostra também no culto a Deus, resulta em bênção na terra recebida como herança, longevidade de vida e multiplicação da descendência. Se o coração, no entanto, se desviar do caminho da prática do amor, bem como do culto a Deus, então o resultado será uma vida curta na terra indicada como herança. O texto encerra com a insistência do autor para que os ouvintes, isto é, o povo de Israel, escolha a vida: amando o Senhor, dando ouvidos à sua voz e apegando-se a seus mandamentos. Dessa escolha dependem a vida, a multiplicação do povo e a longevidade na terra, que foi prometida aos pais Abraão, Isaque e Jacó.
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Nós também somos confrontados diariamente com escolhas. Em todas as situações da vida, sempre temos duas ou mais possibilidades para escolher. Sempre temos que optar entre uma ou outra atitude. Somos livres para escolher. Lutero assinala no Tratado da Liberdade Cristã que “toda a Escritura de Deus está dividida em duas partes: preceitos e promessas”. Ele também afirma “que a pessoa cristã não vive em si mesma, mas em Cristo e em seu próximo, ou então não é cristã. Vive em Cristo pela fé, no próximo pelo amor” (LUTERO: 1983, p. 42-43). Temos liberdade para escolher. Portanto a escolha de uma pessoa cristã está sempre afirmada no duplo mandamento do amor (amor a Deus e ao próximo). A fé vem pelo ouvir a pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo (Rm 10.17). A consequência do ouvir a palavra de Cristo é a prática do amor. O culto cristão está ligado a uma vida guiada por atitudes éticas, amorosas, transformadoras. Escolha hoje a vida, o bem e a bênção: essa é a ênfase do texto da pregação. Essa escolha, no entanto, não é somente uma atitude pessoal e individualista. A escolha pela vida implica a promoção da vida! Implica seguimento, discipulado, voltando-se em amor ao próximo, buscando transformações nas estruturas e nas relações pessoais, sociais, familiares do nosso mundo. Este é o desejo de Deus: vida para todas as pessoas. Não esqueçamos: Nós somos livres e responsáveis por nossas escolhas.
4
Imagem para a prédica
Numa pequena cidade da Grécia, vivia um sábio famoso que conhecia as respostas a todas as perguntas que lhe eram feitas. Um dia, um jovem estudante, conversando com seus amigos, disse que pretendia desafiar o sábio e iria enganálo. Disse que faria o seguinte: “Apanharei um passarinho e o levarei escondido em minha mão até o sábio. Então vou perguntar a ele se o passarinho está vivo ou morto. Se ele disser que está vivo, esmago o passarinho e o mato, deixando-o cair no chão. Se ele disser que está morto, abro a mão e o deixarei voar na frente de todas as pessoas”. E assim fez. O jovem aproximou-se do sábio com o passarinho na sua mão e perguntou: “Sábio, o passarinho em minha mão está vivo ou morto?” O sábio olhou para o rapaz e disse: “Meu jovem, a resposta está em suas mãos. Você me perguntou se o passarinho está vivo ou morto, mas isso é algo que depende unicamente de você”. (Fonte: 100 estórias de vida e sabedoria, de Osvino Toillier). Logo após a pregação Bênção das mãos: Olhemos nossas mãos. Descubramos suas marcas, seu poder, sua ternura, instrumento para fazer o bem na escolha pela vida. Bendigamos nossas mãos: Benditos sejam os trabalhos de nossas mãos. Benditas sejam estas mãos que tocaram a vida.
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Benditas sejam estas mãos que criaram coisas belas. Benditas sejam estas mãos que contiveram a dor. Benditas sejam estas mãos que abraçaram com paixão. Benditas sejam estas mãos que plantaram novas sementes. Benditas sejam estas mãos que cerraram seus punhos com indignação. Benditas sejam estas mãos que levantaram colheitas. Benditas sejam estas mãos que se endureceram com o tempo. Benditas sejam estas mãos que se enrugaram e se feriram trabalhando pela justiça. Benditas sejam estas mãos que se deram e foram recebidas. Benditas sejam estas mãos que sustêm as promessas do futuro. Benditas sejam os trabalhos de nossas mãos. (Autora: Diann Neue) Que nossas mãos escolham sempre fazer o bem, buscando a vida em plenitude.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 150 – (pode ser lido ou cantado) Se sofrimento te causei, Senhor, Se a meu exemplo o fraco tropeçou, Se em teus caminhos eu não quis andar: Perdão, Senhor! Se vão e fútil foi o meu falar, Se a meu irmão não demonstrei amor, Se ao sofredor não estendi a mão: Perdão, Senhor! Se indiferente foi o meu viver, Tranquilo e calmo, sem lutar por ti, Devendo estar bem firme no labor: Perdão, Senhor! Escuta, ó Deus, a minha oração E vem livrar-me de incertezas mil; Transforma a minha vida, entregue a ti. Amém, Senhor! Anúncio do perdão: “Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido, por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.” (1 Pe 5.10)
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Oração de intercessão: Deixar espaço para as pessoas expressarem situações de boas e más escolhas na família, na comunidade, no contexto de seu município, de nosso país e também em nosso mundo. Bênção: Que o fogo do Deus da Vida te ilumine e aqueça O coração, como fez com o povo na caminhada do deserto até Canaã. Que o fogo de Jesus Cristo, o Filho de Deus, te envolva Com abraços e laços de amor para uma vida de serviço. Que o fogo do Espírito Santo caia sobre ti Para que possas escolher a vida, o bem e a bênção Na edificação da vida em sua plenitude. Assim te abençoe o Deus da Vida, do Amor Jesus Cristo e do Sopro da Vida em abundância, Espírito Santo. Amém.
Bibliografia LUTERO, Martim. Da liberdade Cristã. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1983. RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento: teologia das tradições históricas de Israel. São Paulo: ASTE, 1973.
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PRÉDICA: LUCAS 15.1-10
16 16ºº DOMINGO APÓS PENTECOSTES
ÊXODO 32.7-14 1 TIMÓTEO 1.12-17
12 set 2010
Ricardo Willy Rieth
1
Introdução
A alegria de Deus por encontrar quem estava perdido é o tema central do texto previsto para a pregação. Jesus exemplifica essa alegria ao fazer com que seus ouvintes dirijam o olhar para o cotidiano de um pastor de ovelhas e de uma dona de casa. Pelas pequenas alegrias das ocorrências banais do dia-a-dia, temos nossa atenção voltada para a alegria completa de Deus quando, por meio de Jesus, encontra os que estavam perdidos e convive com eles em plena comunhão. Pelas parábolas narradas, Jesus convida a comunidade de fé reunida a celebrar liturgicamente a imensa alegria de um Deus que é, acima de tudo, amor.
2
Exegese
Em comparação com Mateus e Marcos, Lucas é o evangelho que de forma mais expressiva retrata Jesus em busca dos pecadores, movido por incondicional amor. As três parábolas reunidas em Lucas 15 representam um ponto alto nesse sentido. Por certo cada uma por si só é uma unidade, mas também podem ser interpretadas conjuntamente. Os termos “perdido” e “achado” aparecem paralelamente nos versículos 4, 6, 8, 9, 24, 32. O tema básico da alegria, por sua vez, surge nos versículos 5, 6, 7, 9, 10, 23, 24, 32. Qual o sentido para que as três parábolas estejam reunidas? Uma abordagem paralela com o sermão do monte, em especial Mateus 7.7-11, pode auxiliar a que se compreenda isso. No fundo, também ali as mesmas coisas são ditas três vezes. Tanto em uma como na outra passagem transparece nas entrelinhas a dúvida acerca do credibilidade do que é dito ou narrado. Por causa do duvidar e do murmurar, expressos em voz alta na forma de restrições, o tema por duas vezes em uma passagem, por três na outra. O conteúdo das três parábolas, mesmo que referente a situações práticas da vida cotidiana, não se entende por si só. O contexto das parábolas é marcado pela murmuração de escribas e fariseus, algo presente já em Lucas 5.27-32 e que retornará em 19.1. Não por acaso, para expressar essa “murmuração”, é utilizada a mesma expressão dos antepassados veterotestamentários dos críticos de Jesus, quando protestaram contra o modo como Deus conduzia o povo. Trata-se da reação dos piedosos quanto ao agir de alguém que já em Lucas 5.21 foi chamado com certo menosprezo de “este”. As
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três parábolas são dirigidas a fariseus e escribas. No versículo 7, eles são os “justos” e, nos versículos 25-32, reaparecem como o irmão mais velho. No versículo 10, não são expressamente nomeados, mas sua presença silenciosa é pressuposta como parceiros de conversa. As três parábolas de Lucas 15 são estruturadas de forma análoga. Tanto faz a partir de qual delas o conjunto é interpretado. Ao lado do homem, na primeira parábola, aparece a mulher. Assim como o pastor, também ela é parte dos pobres e pequenos, aos quais Lucas se dirige de modo especial. A dracma perdida pela mulher não corresponde a um valor monetário muito elevado. Se, porém, é parte do seu presente de casamento, como supõem diversos intérpretes, então a perda se refere a um valor tão elevado quanto o da pessoa amada. Sem essa moeda, o adorno de casamento da mulher não está mais completo, assim como o rebanho sem a ovelha que se perdeu carece de integralidade (comparar com Jo 6.39). As parábolas são narradas a partir da perspectiva de Deus. O termo “perder” tem, no grego, um duplo significado. Fala-se em “estar perdido”, “perderse”, num emprego que dá a entender que se está arruinado. Na perícope, porém, fala-se na mulher que perde sua dracma, a qual não mais está em seu poder e lhe faz falta. Por isso ela a procura. Por isso também a alegria é tão grande quando ela finalmente a encontra. O “pecador”, citado nos v. 7 e 10, não é o tema da perícope, mas o amor de Deus pelas pessoas, como expresso em Ezequiel 34. Esse amor é demonstrado por Jesus quando acolhe e celebra com os pecadores. O fato de virem para ouvi-lo é indicativo de sua conversão. Voltando o olhar agora para a primeira parábola, é preciso partir de uma afirmação básica. Muitos exegetas insistem que, para interpretar as parábolas de Jesus, é preciso encontrar um ponto decisivo, no qual a imagem e o tema central se correspondem mutuamente. Outros procuram valorizar também elementos secundários presentes nas parábolas. A maioria das parábolas de Jesus fala do reino de Deus. Esse também é o caso de Lucas 15, com a passagem paralela em Mateus 18.12-14. Para os fariseus e os escribas, o reino de Deus representava uma grandeza futura. Para Jesus, o reino de Deus irrompera com sua vinda. Por isso Jesus emprega com frequência um modo de falar que causa estranhamento. Esse é o caso, por exemplo, em Lucas 16.1-9, além de, em nossa perícope, os v. 4-7. Se fosse agir de modo racional, um pastor de forma nenhuma tomaria a atitude do pastor da parábola. Sabe ele se irá encontrar sua ovelha? Não coloca ele desse modo a vida das outras 99 em risco? Mas ele não fica contando ovelhas. Segue o primeiro impulso de seu coração: “Preciso encontrar minha ovelha”. O amor de Deus, ilustrado dessa maneira, é a primeira coisa que Jesus quer mostrar. Um amor assim deve deixar-nos estupefatos. Nossa identificação com a alegria ali expressa é tão-somente secundária. Nessa perícope, Jesus encontra-se a caminho do sofrimento. Os justos não irão entendê-lo. As parábolas de Jesus são uma chave interpretativa para sua obra de vida. Há uma linha direta que corre entre as parábolas e a cruz. Lucas 15.4-7 não está, por isso mesmo, tão distante de João 10.11. A primeira exigência à inter-
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pretação de uma parábola de Jesus é o reconhecimento do mistério messiânico relativo a Jesus, que nela está oculto.
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Meditação
Muitos intérpretes sugerem que o objetivo de uma pregação sobre Lucas 15.1-10 deve ser a afirmação da alegria de Deus, que nos deve contagiar. Por certo isso faz sentido. No entanto, ao mesmo tempo é preciso destacar um estágio anterior a isso, ou seja, ressaltar a estupefação com a descoberta de que Deus se preocupa com cada pessoa individualmente. Seria interessante iniciar abordando a experiência humana relacionada à perda de um objeto importante, uma chave por exemplo, à qual seguem uma busca penosa e um alegre reencontro. Ponto de partida para isso pode ser a mesma pergunta de Jesus: “Qual, dentre vós, é o homem…?” (v. 4); “Ou qual é a mulher que…?” (v. 8). Da lembrança de uma história bíblica, conhecida desde a infância, advém a afirmação de Jesus: Assim é Deus! Ele age como esse pastor, como essa mulher. Falta-lhe a dracma, o adorno nupcial não está mais completo. Só que, no caso de Deus, não se trata de um objeto, mas de uma pessoa. Para Deus, uma pessoa é mais importante do que tudo o mais (Sl 8.4s). A nós, participantes do culto, isso sempre de novo parece incrível. Por isso Jesus não se limita a uma só parábola, mas logo acrescenta outra, e outra mais, para nos surpreender por completo, para nos deixar estupefatos com a procura incondicional de Deus pelas pessoas. Se nos surpreende a simples razão de que para Deus uma pessoa seja tão importante, tanto mais ficaremos estupefatos ao saber qual tipo de pessoa é tão importante para ele. É aquela que, de acordo com a palavra de Jesus, está faltando, mas apesar disso segue sendo sua propriedade. Conforme a parábola: Deus deixa as 99 ovelhas e concentra seu interesse naquela que está perdida. Justamente ela lhe falta. Nós que com seriedade queremos viver a fé cristã, percebemos que isso tem a ver conosco? Não perguntamos também nós, assim como o justo a seu tempo: “Será que tudo está de pernas para o ar? Um pecador não precisa primeiro provar que seu arrependimento é sério?” Jesus pensa e age de outra forma. Os justos não queriam deixar-se afastar por Jesus de uma ordem, que em sua opinião era divina. Por isso levaram-no à cruz. Contudo, justamente desse modo, pela morte e ressurreição de Jesus, Deus se põe no caminho para encontrar os perdidos. Ninguém está excluído disso, mesmo os justos e os que com seriedade querem ser cristãos. Jesus provoca nossa surpresa, deixa-nos estupefatos com inconcebível amor de Deus. Com essa estupefação quer transformar-nos, quer puxarnos para dentro da busca de Deus pelo que está perdido. A estrutura da prédica pode assumir duas partes principais, (1) estar perdido e (2) ser achado, destacando em ambas o elemento central da alegria de Deus por, movido por seu amor, encontrar o que estava perdido. Publicanos e pecadores conviviam com Jesus, que tinha comunhão com eles, partilhando refeições, enfim, alegrava-se em sua companhia. Nesse contex-
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to, é lançada a pergunta quem são, afinal de contas, os pecadores? Fariseus e escribas murmuram contra Jesus. Estão irritados porque, no seu entender, sua própria conduta de moralistas, perfeccionistas e exigentes cumpridores da lei está de um modo ou outro sendo desconsiderada pela atitude de Jesus. Central nas parábolas dos perdidos é a alegria de encontrar o que estava perdido. A referência são pequenas alegrias, alegrias do cotidiano. Assim como o pastor e a dona de casa, quem já não encontrou alguma vez algo que estava perdido depois de muito procurar? Sem dúvida, é um momento de alegria. Jesus quer mostrar, com suas narrativas, a alegria que sente quando é buscado por gente que estava totalmente perdida, os publicanos e pecadores que agora conviviam com ele. Jesus fica pleno de alegria. Da mesma forma, Deus fica alegre conosco quando voltamos a seu convívio na e a partir da fé em Jesus Cristo. Nossa condição era de completo distanciamento em relação a Deus e à pessoa próxima. O distanciamento de Deus ficava mais evidente no tipo de relação mantida por nós com nossos semelhantes, de exploração, querer levar vantagem de todas as formas sobre os demais. No Batismo, no arrependimento diário, na fé constantemente renovada, na comunhão da Santa Ceia, sentimos o braço firme de Deus que nos encontra, levando-nos a compartilhar sua companhia em uma circunstância de completa alegria. Essa alegria de Deus não se limita a nós. Ele quer senti-la na convivência com todos. Quer alegrar-se, encontrando todos os que se encontram perdidos. Aí entra nosso testemunho. Tal como convivia com publicanos e pecadores, Jesus hoje convive conosco na comunhão eclesial, graças à ação do Espírito Santo, pela Palavra e pelos sacramentos. Por esses meios, Deus segue encontrando os perdidos.
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Imagens para a prédica
A narrativa das parábolas, por si só, traz consigo imagens altamente expressivas. Por outro lado, muitas são as outras possibilidades, explorando, por exemplo, o perder e o encontrar. O estar perdido em um determinado lugar, por exemplo. Ir sozinho a um lugar desconhecido provoca insegurança em muitas pessoas. Viajar a uma cidade onde nunca se esteve antes, sem a companhia de alguém que conhece o lugar. É grande o temor de perder-se nesse espaço desconhecido, não saber por que rua ir, que ônibus tomar, sem ter onde telefonar ou saber se o bairro em que se está é perigoso ou não. Sentir-se completamente perdido num lugar estranho é muito desagradável. Fica-se desorientado, acuado e fragilizado. Em tal situação, imaginemos um morador da cidade que vem ao nosso encontro. Pergunta se precisamos de ajuda. Conhece o endereço que estamos buscando. Indica o melhor caminho e a melhor maneira de chegar lá. Talvez, até mesmo, nos acompanhe até nosso destino. Uma pessoa assim certamente fica satisfeita com sua própria atitude. Sente, é verdade, alegria em poder ajudar alguém que passa por dificuldades. E nós, de nossa parte, ficamos aliviados e alegres por não mais vivenciar a angústia de antes. Estar perdido, ser encontrado,
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viver a alegria daí decorrente são situações cotidianas que expressam algo muito profundo que vivenciamos em nossa relação com Deus.
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Subsídios litúrgicos
A confissão de pecados poderia lembrar a passagem da situação de perdidos para a comunhão festiva à mesa, na companhia de Jesus e de todos os achados, que é vivenciada no arrependimento, como retomada do afogamento do pecado por ocasião do Batismo. A coleta poderia dirigir a Deus o pedido de que inspire a liturgia da comunidade de fé reunida, para que tal liturgia corresponda à alegria sentida ao encontrar o perdido. A oração geral poderia incluir o pedido de auxílio a Deus na tarefa da comunidade cristã de ser instrumento para que ele encontre os perdidos.
Bibliografia BORNHÄUSER, Hans. 3. Sonntag nach Trinitatis – Lk 15.1-7(8-10). In: BORNHÄUSER, Hans et alii (ed.). Neue Calwer Predigthilfen: Erster Jahrgang Band B: Exaudi bis Ende des Kirchenjahres. Stuttgart: Calwer, 1979. p. 62-69. BOVON, François. Das Evangelium nach Lukas: 3. Teilband – Lk 15,1-19,27. Neukirchen-Vluyn; Düsseldorf; Zürich: Benziger; Neukirchener, Bd. 3, 2001. (Evangelisch-Katholischer Kommentar zum Neuen Testament; III/3) HÖLLER, Otto B. S. 3º Domingo após Trindade: Lucas 15.1-7 (8-10). In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, v. 10, p. 361-367. SCHWEIZER, Eduard. Das Evangelium nach Lukas. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1982. (Das Neue Testament Deutsch; 3)
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PRÉDICA: 1 TIMÓTEO 2.1-7
17 17ºº DOMINGO APÓS PENTECOSTES
AMÓS 8.4-7 LUCAS 16.1-13
19 SET 2010
Erni Drehmer
1
Introdução
Li primeiro o texto previsto para a prédica, sem ler os textos paralelos. Sem a leitura de qualquer comentário, flagrei-me considerando o texto meio insosso, isto é, sem muito a dizer. Com a leitura dos textos paralelos e, mais, com a leitura de alguns comentários, abriu-se a compreensão. E aí veio um segundo desafio: Como orar pelas autoridades no contexto nacional, mas também mundial? No Brasil, há diariamente novas e surpreendentes revelações a respeito de escândalos, corrupção, desvios de verbas. No mundo, uma suposta crise mundial, muito bem manipulada e da qual já vazam, aqui e ali, informações de que alguns bilionários conseguiram triplicar sua fortuna em meio à maior turbulência da “crise”. Como orar por essas pessoas? Até mesmo: Será que a graça de Deus é dirigida também a essa gente, que preferimos muito antes chamar de canalhas do que de irmãos ou irmãs? Se os imperadores significavam uma constante ameaça à integridade física dos cristãos ou, no mínimo, à expansão das comunidades cristãs, a mentira, a falsidade, a corrupção, as distorções da justiça não ameaçam menos o testemunho do evangelho no século 21. Estamos diante de um texto que, se em uma primeira leitura parece insosso, acaba se mostrando um texto desafiador, em que a oração deixa de ser uma fileira de palavras ou fórmulas para se tornar um impulso ao testemunho a respeito da vontade de Deus para toda a humanidade: justiça, verdade, dignidade da criação. E desses imperativos de Deus para toda a sua criatura falam com muita clareza os textos de Amós e Lucas.
2
Exegese
O texto abre o bloco de 1 Timóteo 2-3, um complexo de regras a respeito da ordem eclesiástica, cujo sentido é resumido, quase como assinatura final, em 3.15: “... para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, baluarte da verdade”. Finalmente desemboca na citação do hino cristológico em 3.16. O pano de fundo dessa “ordem eclesiástica” é indicado pelas cartas pastorais como a luta contra a heresia e o esforço da comunidade na busca de unidade e fortalecimento da união.
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17º Domingo após Pentecostes
Se no versículo 2b a linha de pensamento tomou um trilho paralelo, os versículos 3ss retornam ao pensamento inicial, expresso no versículo 1: a oração por todas as pessoas. Isso “é bom e agrada a Deus”. O desejo de Deus é que todas as pessoas cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Esse conhecimento não se refere tanto à compreensão racional da mensagem, mas mais à concretização dessa mensagem na vida diária. Em termos de conteúdo, “o pleno conhecimento da verdade” aqui significa “ser salvo”. No versículo 4, portanto, fundamenta-se a tarefa da cristandade de orar por todas as pessoas com a fé no desejo de salvação universal de Deus. Permanece indefinido que tipo de esperança escatológica serve como pano de fundo para essa fé no desejo da salvação universal de Deus. O texto não afirma que nenhum ser humano pode se perder, apenas que “nenhum ser humano está excluído da salvação”. O trecho a seguir (5-6a) não vem acrescentado aleatoriamente. Ele fundamenta a afirmação de fé expressa no versículo 4 com duas afirmações em forma de confissão: o único Deus é o criador de toda a humanidade; e correspondendo à unicidade de Deus, há apenas um mediador, que morreu por todas as pessoas. O texto, aparentado com Marcos 10.45, faz parte das fórmulas do NT, onde se descreve de forma pictórica a libertação da prisão e do poder do pecado, promovida pela ação de Jesus. A acentuação da humanidade de Cristo pode ter um sentido antidocético (docetismo = defendia que Jesus apenas parecia ter forma humana): ou para preservar a unidade de Deus, ou, ainda, para destacar que ele, Jesus, pertence a todos os que têm aparência humana. Portanto: Porque o único Deus é o criador de toda a humanidade e porque Cristo morreu por todos, Deus quer que toda a humanidade seja salva. Por isso é de sua vontade que se ore por todas as pessoas. Dentro desse tema central do texto teceu-se o subtema da oração pela autoridade com o objetivo de “viver uma vida tranquila e mansa”. O desejo por uma vida tranquila e mansa pressupõe a convicção de que a autenticidade da fé, a autenticidade da existência cristã não precisa documentar-se necessariamente num jeito de viver isolado do contexto, num total distanciamento do “mundo”. Martin Dibelius e Heinz Conzelman etiquetaram esse desejo como “ideal da cidadania cristã”. Mais comedido, J. Freundorfer (citado em N. Brox) prefere definir como “o ideal de vida cristã, que consiste em adoração a Deus e em conduta cheia de virtudes diante das pessoas”, mas que não fogem do conflito e do martírio, caso provocadas/exigidas. Essa interpretação nasce do pressuposto de um olhar sobre perseguição experimentada ou temida e tensões de guerras. O desejo que Deus tem de salvar a humanidade lança sobre ela o brilho da esperança; as pessoas que oram são portadoras de esperança. Devemos, podemos e conseguimos orar. (Devemos) Quem ora se liberta do isolamento: ele se sabe colocado diante de Deus (coram Deo); quem ora na comunidade se liberta de mais um isolamento: ele se sabe colocado diante de Deus, inserido na comunhão de irmãs e irmãos; a comunidade que ora pelo mundo superou mais um isolamento: ela não está mais ocupada consigo mesma, mas sabe que existe para todo o mundo, portanto se
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sente responsável por orar por tantas pessoas que ainda não aprenderam a orar e precisam de nosso serviço de oração em seu lugar. (Podemos) Deus espera a favor do mundo. O cristão sempre verá em seu próximo não-cristão um irmão ou irmã em potencial. Não oramos contra alguém, mas sempre a favor de alguém. Fazendo isso, a comunidade está em união com seu Deus e Salvador, o qual existe também para seus filhos e irmãos, mesmo os que ainda lhe estão distantes. Por isso podemos orar pelo mundo, sem estreitamentos sectários, sem consciência pesada. Não traímos Deus quando oramos pelo assim chamado “mundo mau”. Fazemos o que Deus imagina quando batemos à porta de Deus com grande esperança e amor pelo mundo. (Conseguimos) Frustrações e falta de experiências relativas à presença concreta de Deus podem ser motivos para fazer com que a oração não seja tão elementar no mundo. Motivo mais profundo: sem reconciliação não se consegue orar. Deus ouve também o grito desarticulado da pessoa que o chama bem de longe. Nenhum conceito teológico, por mais poderoso que pareça, pode limitar essa ação de Deus. Mas lembramos a palavra de Jesus: “Ninguém vem ao Pai senão por mim”. Oramos em nome de Jesus. Ele é o grande “orador”; nós apenas oramos com ele. Somente um Cristo ressurreto (não morto) pode nos preceder na oração. O versículo 6 aponta para a instituição da Ceia. Aquele que ora por nós, de modo que apenas precisamos nos juntar a ele, é o mesmo que se deu como resgate. Jesus sempre pede ao Pai por quem errou o alvo de sua existência. Mas atrás de sua intercessão está a cobertura do fato de ele ter entregue sua própria vida. Para a nossa oração, isso significa que ela pode se reportar a esse mediador e a esse resgate. Quando encerramos nossa oração com “... por Jesus Cristo, nosso Senhor”, então “lembramos” toda a obra salvífica de Cristo. Nossa oração insere-se nesse acontecimento, une-se a ele e chega de tal forma ao Pai, que está totalmente inserida no ministério de Jesus. Só resta formular a pergunta sobre onde podemos encontrar esse Cristo que se coloca de tal forma a nosso favor. Resposta: Junto ao Pai. Mais uma resposta: Entre nós. Na Eucaristia, ele está corporalmente presente. Oração comunitária e Eucaristia se pertencem. O próprio texto demonstra no início e até quase no final (v. 6) essa relação: “... exorto que se use a prática de súplicas, orações...” e “... o qual a si mesmo se deu em resgate por todos”. A oração contempla quatro dimensões: súplica, oração (invocação), intercessão, ação de graças. A intercessão inclui todas as autoridades (não apenas Nero; por isso o plural). Da boa relação com a autoridade constituída depende a vida em paz da própria comunidade. A intercessão por vida em paz na comunidade inclui também a compreensão de que ela é bem-vista aos olhos de Deus, de modo que ele, ao contemplar a orientação da vida no mundo, também contempla a vida de comunidade no ter e preservar a paz.
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A intercessão junto a Deus por toda a humanidade opõe-se à compreensão na sinagoga de que a salvação estava reservada apenas aos justos, enquanto aos pagãos estava reservada a perdição. Além disso, orar a Deus pelas autoridades constituídas constitui uma posição diferenciada: a) ao paganismo, que adorava a divindade do imperador; b) à oração judaica, que pedia pelo bem-estar exterior do imperador. Para os cristãos, orar pelas autoridades significava interceder para que Deus convertesse e salvasse o imperador e autoridades constituídas. Essa postura da comunidade em relação ao Estado não dependia da preferência política individual ou da situação política em geral. A certeza da comunidade de que o desejo de salvação de Deus não exclui ninguém encontra-se em franca oposição à compreensão da sinagoga de que a salvação é destinada somente aos justos, enquanto que aos pecadores Deus só tem a estender a perdição. Também se opõe à compreensão da gnose, que entendia que a salvação era alcançada somente aos “conhecedores”. Essa certeza a comunidade tira do fato de que ela estava sob a cruz. Esse é o sentido da confissão encontrada no versículo 5. A comunidade se confessa a um só Senhor, a um só mediador, isto é, mediador da paz entre Deus e a humanidade. Quem é ele? Ele é o homem, isto é, o segundo Adão, o iniciador e senhor da nova humanidade redimida. O que ele fez? Ele deu sua vida para resgatar a vida da humanidade caída e condenada à morte (citação de Mc 10.45 e Mt 20.28). Essa entrega na cruz é a prova do “seu” tempo, isto é, do “tempo oportuno” (do tempo certo). Filho do homem e servo de Deus: essa é a cristologia da confissão primitiva. A tônica em nosso contexto recai sobre a palavra “todos” no versículo 6: porque Jesus se entregou à morte por todas as pessoas, sem exceção, por isso a comunidade tem o direito e o dever de orar sem restrições por toda a humanidade pecadora. A missão concedida por Deus ao apóstolo é divulgar entre os pagãos esse desejo universal de salvação da parte de Deus (Gl 2.8; Ef 3.1-13). A afirmação, em forma de juramento (“afirmo a verdade, não minto”), enfatiza o mandato divino dessa missão frente a eventuais questionamentos da autoridade do apóstolo por parte de sectários.
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Meditação
O texto propõe, no mínimo, duas questões importantes para debate: a oração pelas autoridades e a universalidade da salvação proposta por Deus através de Jesus Cristo. A primeira delas desafia a refletir com mais profundidade sobre o que significa interceder pelas autoridades e o que queremos interceder por elas. A questão é importante à medida que somos confrontados diariamente com desencantos com o desempenho de autoridades, a ponto de perguntarmos se as autoridades “merecem” nossa intercessão. Até mesmo se elas “merecem” o amor de Deus,
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considerando a forma com que usam seu cargo em proveito próprio e para exploração do povo que as elegeu ou indicou. Com uma reflexão mais radical poderíamos até fazer coro com Bonhoeffer e perguntar se não é hora de arrancar o motorista desvairado que atropela pessoas pelo caminho ao invés de recolher os feridos para tratá-los no hospital. Creio que o texto não propõe um abrandamento de nossa indignação ou coloca panos quentes sobre a questão. A intercessão pelas autoridades coloca-se sob a compreensão de que Deus quer que todas as pessoas sejam salvas. Inclusive as autoridades constituídas, por mais injustas e pecadoras que sejam suas atitudes e suas leis. E então se coloca a segunda reflexão que o texto propõe: a universalidade da salvação. Ela acontece não apenas aos justos, conforme a compreensão do judaísmo; também não apenas aos conhecedores, como acentua o pensamento gnóstico. Mas é preciso afastar a ideia de que a universalidade da salvação transforma a fé ou a vivência da fé numa grande festa, numa promoção do “vale-tudo”. Pelo contrário. A salvação tem um conteúdo e um perfil definidos: conhecimento da verdade, conquistada não apenas pela morte de Cristo na cruz, mas sobretudo por tudo aquilo que ele fez e anunciou: “... os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres anuncia-se-lhes o evangelho” (Lc 7.22). A intercessão para que as autoridades, e todas as pessoas, sejam salvas pressupõe o projeto do reino de Deus, que se baseia na justiça, na verdade e na paz. A intercessão pelas autoridades e por todas as pessoas inclui a denúncia de tudo o que vai contra a vontade de Deus. Os textos paralelos desenham claramente essas atitudes contrárias à vontade do Criador. Em Amós, é a exploração dos pobres e a corrupção. Em Lucas, é a polêmica parábola do administrador infiel que denuncia a distorcida esperteza usada em proveito próprio.
4
Rumo à prédica
Após a leitura do texto, proponho a leitura de uma notícia (ou simplesmente manchete) de jornal em que se denuncia uma personalidade política de corrupção (o que não deve ser muito difícil de encontrar). Pode-se perguntar, nesse momento, se alguém da comunidade teria coragem de orar por essa pessoa. Pode-se perguntar quem ainda ora, o que ora e por quem ora. Deixa-se um tempo para uma reflexão silenciosa individual ou, onde possível, um breve diálogo com a pessoa ao lado. Repetir a leitura dos versículos 1 e 2, permitindo que as palavras do texto promovam o confronto com as ideias próprias a respeito de oração e intercessão. Qual é o efeito da oração? Não meramente uma satisfação pessoal ou um relax espiritual, mas através da oração por todas as pessoas, também pelas autoridades, tornamo-nos mensageiros e mensageiras da abrangente misericórdia de Deus, mensageiros e mensageiras da esperança. Com essa oração contradizemos o espírito de pessimismo, o qual não vê mais saída para a humanidade e que consegue apenas enxergar o negativo. Mas nós contradizemos em nome de Deus, que
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está voltado para a salvação do mundo. Ele quer que haja paz em lugar de guerra, entendimento em lugar de ódio, transparência em lugar de mentira. Ao mesmo tempo em que anunciamos a vontade de Deus, denunciamos e damos nome às coisas que são promovidas por pessoas, autoridades ou não, que são contrárias à vontade de Deus. Enquanto oramos assim, acontece mudança dentro de nós e “lá fora”, no mundo. Na intercessão por um mundo de paz, por uma vida tranquila e mansa, acordamos para o que nos impede, e impede outras pessoas, de ter esse tipo de vida. E assim a oração acaba fazendo com que saiamos de nosso mundo estreito para ver o mundo que nos rodeia e que clama por esperança, justiça e paz. E para a construção de um mundo assim, Deus chama todos, autoridades ou não, como parceiros e parceiras. Afinal, ele quer que todos e todas sejam salvos.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Deus misericordioso. Teu desejo é que todas as pessoas sejam salvas e cheguem ao conhecimento pleno da verdade do evangelho. Perdoa-nos quando não aceitamos isso e fazemos distinção entre pessoas que merecem ou não teu amor. Perdoa, Senhor, por nossa intercessão ser tão tímida e insegura e, por isso, nosso testemunho de paz e vida plena nem conseguir sair dos muros de nossa casa ou de nosso templo. Pedimos por teu perdão e pela coragem que teu Espírito dá para que a nossa vida se transforme. Por Jesus Cristo, imploramos cantando Comunidade canta: Perdão, Senhor, perdão. Oração do dia: Deus da graça e da misericórdia. A tua misericórdia e tua graça destinam-se a todas as pessoas. Através da tua Palavra tens ajudado teu povo, através da história, a entender essa verdade. Vem também hoje, Pai misericordioso, e abre o nosso entendimento. Que consigamos compreender, aceitar e divulgar que tu queres que todas as pessoas cheguem ao conhecimento da verdade e sejam libertadas por ela. Por Jesus Cristo, Senhor e Redentor, que contigo e o Espírito Santo reina e vive eternamente. Amém. Oração geral da igreja: Deus Criador, de tuas mãos e através de tua palavra poderosa fizeste surgir tudo o que existe, e em cada criatura tua deixaste um sinal de teu amor e teu carinho. Muito obrigado por podermos nos alimentar desse amor, quando já tão pouco resta ao nosso redor que nos alimenta e põe em pé. Graças te rendemos, quando cantamos Comunidade canta: Graças, Senhor, graças, Senhor. Por tua bondade, teu poder, teu amor. Graças, Senhor. Deus Redentor, em teu Filho Jesus Cristo te entregaste na cruz, e assim nos disseste em definitivo que teu amor não tem limites. Muito obrigado por poder-
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mos contar com esse teu amor, quando o mundo tenta nos impor a exclusão, a acepção de pessoas e classes sociais. Graças te rendemos, quando cantamos: Graças, Senhor... Deus Santificador, através do teu Espírito Santo queres viver e agir em nós, abrindo nossos olhos e corações para todas as tuas criaturas que queres incluir em teu projeto de salvação. Muito obrigado por podermos sentir tua presença entre nós, motivando-nos constantemente para a intercessão, a ação em favor de todas as pessoas, também daquelas pelas quais humanamente achamos impossível interceder. Graças te rendemos, quando cantamos: Graças, Senhor... Em tuas mãos colocamos todas as pessoas que sofrem pelos mais diversos motivos: luto, doença, depressão, conflitos familiares, dependência de drogas, marginalização, fome, desemprego... Em ti confiamos, por isso pedimos cantando: Comunidade canta: Ouve nossa oração e atende a nossa súplica. Em tuas mãos colocamos as autoridades de nosso país e do mundo inteiro. Pedimos, Deus gracioso, que tenham governo justo, marcado pela verdade, transparência, respeito e construção da paz. Que sejamos constantes intercessores, mas também participantes na tarefa de edificar um país e um mundo de paz e vida plena. Em ti confiamos, por isso pedimos cantando: Ouve nossa oração... Em tuas mãos colocamos nossa vida de comunidade e igreja. Pedimos, Deus misericordioso, que nos abras os sentidos e os corações para que perguntemos por tua vontade e aceitemos que ela, e não nossos desejos pessoais, dirijam nossos passos. Que assim, Senhor, o mundo saiba que tu és Senhor e que nós somos tuas testemunhas em palavra e ação. Ouve-nos, Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
Bibliografia CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millenium, 1986. JEREMIAS, Joachim. Die Briefe an Timotheus und Titus, in: Das Neue Testament Deutsch, v. 9, Vandenhoeck & Ruprecht, 1953. SCHMOLDT, Hans. 1 Timotheus 2.1-6, in: Neue Calwer Predigthilfen. Calwer Verlag, 1979. VOIGT, Gottfried. Rogate. I Tim.2.1-6a. in: Das Heilige Volk. Vandenhoeck & Ruprecht, 1979.
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PRÉDICA: LUCAS 16.19-31
18 18ºº DOMINGO APÓS PENTECOSTES
AMÓS 6.1a, 4-7 1 TIMÓTEO 6.6-19
26 SET 2010
Paulo Weirich
1
Introdução
Os textos deste domingo não apresentam dificuldade para identificar o tópico em foco. Mais explicitamente, ele é identificado na leitura da epístola: “o amor ao dinheiro”, como ênfase negativa (1Tm 6.10). Esse amor ao dinheiro recebe diferentes enfoques e desdobramentos nas diferentes leituras. Obviamente, o enfoque geral identifica esse amor à coisa enquanto posse como negativa, porque destitui a coisa de seu valor como dom e instrumento de Deus para a vida redimida para a comunhão em vista da comunhão escatológica. Amós 6.1a, 4-7 Em Amós, esse amor ao dinheiro aparece na vida elitista dos “homens notáveis”, a liderança de Israel. Keil-Delitzsch chama a atenção para a ironia das palavras de Amós à medida que bebem o seu vinho em taças sagradas e se ungem com óleos sagrados e utilizam instrumentos que Davi dedicou e utilizou em contexto litúrgico de louvor. Amós denuncia assim a hipocrisia dos que querem ser reconhecidos como adeptos do culto e da tradição religiosa herdada. Em festas e libações, ao utilizarem utensílios consagrados, queriam passar a mensagem de que assim a libação deveria ser vista como culto a Deus. Entretanto, ao estar indiferente “à ruína de José” (talvez uma alusão aos remanescentes das tribos perdidas), o seu culto, mesmo que culto fosse, nada mais é do que culto de autoglorificação, que ignora Deus porque ignora o sofrimento daquele a quem Deus chama de “teu irmão”. Comparar com Amós 4.1. 1 Timóteo 6.6-19 O pano de fundo da Carta a Timóteo é o equívoco na compreensão da lei. Diante da lei de Deus existem somente duas possibilidades. A natureza humana, ou se reconhece debaixo da lei, condenada por ela, ou se estima acima da lei como aqueles que se sentem juízes da lei. A teologia de Paulo parte da primeira hipótese. No primeiro capítulo, Paulo arrola os criminosos de crimes hediondos (1Tm 1.9,10). Como nos comparamos a esses ofensores da lei? Aponta para si próprio para então dizer: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”. Aos romanos estabelece o mesmo princípio: “Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas quem quer que seja... pois praticas as coisas que condenas” (Rm 2.1).
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18º Domingo após Pentecostes
O ser humano, mesmo batizado e crente, tende a não se considerar pecador diante de pecadores. Quando sofre, pode sentir-se injustiçado e cobrar de Deus a sua libertação ou tornar-se indiferente a Deus. Quando, pelo contrário, o sofrimento não lhe bate à porta, pode sentir-se ou convencer-se de que sua vida agrada a Deus, a ponto de sua vida estar acima das dificuldades a que outros estão sujeitos. De um modo ou de outro, reflete uma religiosidade individualista que não se compromete com o outro e que considera merecedora do bem que recebe ou deixa de receber de Deus. O apóstolo aponta para isso como o “amor ao dinheiro” (1Tm 6.10), pois é através dele e com ele que o ser humano se sente seguro diante do futuro. A sensação de segurança que vem do dinheiro acumulado desapega a pessoa de Deus como seu provedor e segurança e transfere-a para o objeto. Lutero cita o Eclesiástico para apontar o ponto de equilíbrio tanto para aquele que tem tudo como para aquele a quem tudo falta: “No dia mau lembra-te das coisas boas, e no dia bom lembra-te das coisas más” (Eclo 11.27). Deus não deve explicações nem justificativas ao ser humano por aquilo que envia ou retém de bênçãos. Em função disso Jó pode sofrer “sem causa” (Jó 2.3), e o ímpio aproveita vida mansa, ou vice-versa. O mesmo Deus que dá ao ser humano consciência da sua condição em pecado mediante as perdas e sofrimentos é o mesmo Deus que cobre de bênçãos “justos e injustos” (Mt 5.45). Entender as circunstâncias da vida como evidências de uma boa e menos boa relação com Deus não leva em conta a compreensão da lei de Deus, tal como Deus a expõe (Mt 5 e 6), debaixo da qual cada um é merecedor de que Deus o hostilize. Entretanto, o que o ser humano tende a ver como hostilidade da parte de Deus é, na verdade, a pedagogia de Deus em amor para que esse desespere de si próprio e confie na promessa de Deus revelada e oferecida em Cristo. Nesse sentido, Lutero percebe o amor de Deus no sofrimento do ser humano quando diz ao desconsolado eleitor Frederico: “Cristo está doente em vós. (Vejo) Cristo clamando do corpo e da carne de Vossa Alteza, dizendo: Eis-me aqui, doente!” Nesse sentido, Paulo direciona o ministério de Timóteo em direção ao pecador, o desconsolado, o culpado, aquele que é nada, mas que, em Cristo, é filho de Deus.
2
Exegese
V. 19-21 – Lutero denomina essa perícope (Lc 16.19-31) de “um exemplo”. São duas vidas intimamente ligadas no tempo e no espaço. São vidas tão próximas, que partilhavam o mesmo teto e a mesma alimentação. Um do lado de fora do teto, o outro, do lado de dentro. Um comia à mesa, cercado de familiares e amigos. O outro está cercado dos cães que lhe aliviam o ardor das feridas com suas lambidas, enquanto anseia pelos restos da comida que se come do outro lado da parede. Um exemplo de contrastes marcantes e ao mesmo tempo de proximidade e compartilhamento; vidas paralelas muito próximas, que aparentemente não se tocam, mas que ainda vão se revelar intimamente ligadas.
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O texto é ambíguo em relação à alimentação de Lázaro. “Desejava alimentar-se das migalhas... Ele escolheu estar ali? Alguém o levava até lá? Alguém da casa lhe trazia os restos num gesto de caridade? Ou buscava ele os restos no lixo? A ambiguidade. As perguntas sem claras respostas pertencem ao discurso de Jesus. Pessoas e instituições tendem a se ocupar com perguntas periféricas ao fato em si, como se desse discurso secundário pudessem brotar soluções. Verdade é que existem vertentes de natureza social, econômica e política em tudo o que envolve o ser humano. Mas o fato permanece: um sofre, o outro não sofre. Um deseja alimentar-se, o outro faz do ato de comer um regalo para si. De pouco, ou mesmo de nada, serve filosofar ou teologizar sobre o fato em busca de soluções que determinem a extinção desse desequilíbrio. Ou melhor: a resposta que Deus dá a isso não serve às pessoas em geral. No livro de Jó, tropeçamos em nossa pretensão de clamar por soluções de causa e efeito. Jó, lançado no mais profundo desespero da existência humana, admite que seu culto a Deus e os holocaustos que a ele oferecia tinham um propósito: Desejava que Deus protegesse sua família. Qual a resposta de Deus? Jó, sem causa, sofre. Lutero vê Cristo na carne do sofredor, sofrendo junto à miséria humana em toda a sua extensão. Podemos transferir essa imagem para dizer que, nos olhos de Lázaro, que contemplava o espetáculo da vida do rico, o próprio Jesus se retrata a si mesmo na pessoa de Lázaro, em sua encarnação na miséria humana. Que miséria é essa? A miséria a que todo ser humano está sujeito e da qual cada ser humano, em algum momento de sua existência, tem a experiência pessoal. Quando Jesus pergunta a Tiago e João se eles carregariam a cruz que ele está disposto a carregar, eles respondem: “Sim, podemos”. E a resposta é: “Sim, vocês vão carregála”. A cruz da expiação eles carregam na palavra, mas a cruz do sofrimento Deus entrega de acordo com seu desígnio. Ao fazer isso, Deus não deve explicações nem a Jó tampouco a Lázaro ou alguém mais. Diante desse silêncio de Deus sobre a causa de não retribuir de acordo com o nosso sentimento de justiça, instalam-se o desejo ou a esperança na possibilidade de comer e alimentar-se de uma justiça outra, maior, infinitamente maior do que a nossa, na qual o sofredor possa finalmente descansar. Ela existe? É a pergunta de Jó, de Lázaro e de cada sofredor que ainda encontramos. Enfim, é também a pergunta com a qual o pregador finalmente tem de se deparar: a justiça que ultrapassa a justiça pautada em raciocínios humanos. O rico possivelmente entendeu Deus como em geral as pessoas preferem pensar de Deus. Ele, em sua própria opinião, mantinha o controle sobre a própria vida. O fato de que a ordem das coisas não se alterou em sua vida ao longo dos anos deu-lhe a ilusão de que estava nas boas graças de Deus. Diante da constante generosidade de Deus convenceu-se de que o controle da sua vida estava em seu poder. Assumiu-se como senhor da sua vida. Jamais se fez a pergunta: Por que ele é miserável e não eu? Ou então a reflexão: O que fiz por merecer a situação privilegiada que me permite desfrutar de prazeres ilimitados na vida? Pelo contrário. Talvez até estivesse convencido de que sua opulência material fosse sinal seguro de uma relação privilegiada com Deus. Talvez até lamentasse a miséria daqueles
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que, por não ter com Deus uma relação como a sua, de Deus recebessem justa punição em miséria e sofrimentos. V. 22 – Aparentemente nada tinham a ver um com o outro. Aparentemente as duas vidas pertenciam a mundos totalmente diferentes e irreconciliáveis. Nenhuma força deste mundo conseguiu aproximar a miséria da riqueza. Entretanto, por coincidência ou não, no original, o versículo 19 termina com lamproos (esplendidamente, suntuosamente) e o vers. 20 começa com ptooxos (pobre). No texto, separados por um ponto. Na vida, poucos metros e uma parede. Mas o abismo é intransponível para o pobre. Para o rico também é um abismo intransponível. O que determina a trajetória de vida das pessoas e marca-as tão profunda e inapelavelmente? Essa pergunta não tem resposta. Enigmática foi a resposta de Jesus: “Os pobres sempre os tendes convosco” (Mt 26.11, Mc 14.7, Jo 12.8). A convivência do suntuoso com a miséria acompanha a humanidade e desafia-a permanentemente: O abismo é definitivo e intransponível? O apóstolo parece indicar a natureza do abismo: O amor ao dinheiro. É possível identificar o amor ao dinheiro? É possível adquirir ou ser alguém para quem o dinheiro é pouco relevante ou nada relevante? A coisa se decide pela relação que alguém estabelece com a coisa que depende de ter ou não ter dinheiro? Na narração de Jesus, aquilo que o dinheiro pode fazer não está tão em evidência. O foco de Jesus está sobre as pessoas e na relação que as pessoas estabelecem entre si ou deixam de estabelecer a partir das coisas que têm. Entretanto, o v. 22 denuncia a intimidade que todos compartilham, não importa o quanto as vidas podem parecer e ser diferentes. Para um, a morte foi muitas vezes desejada; para o outro, uma surpresa totalmente inesperada. A morte finalmente revela o que até então parecia impossível. Entretanto, diferentemente do que a religiosidade popular anuncia, a morte não é o nivelamento da injustiça ou a democratização das oportunidades ou o cancelamento das diferenças. A morte estabelece a existência de um novo conceito: a diferença entre o que é passageiro e o que é definitivo. V. 23-26 – Então Jesus introduz um novo cenário: o pós-morte. Nesse novo cenário, a estranha situação se repete. Ambos estão tão próximos um do outro. É possível ver, falar e ouvir um ao outro. E, mais uma vez, um abismo intransponível os separa. Dessa vez, o rico deseja transpor o abismo. Mas por mais que ele o deseje, isso ele não pode decidir. Mais uma vez, alguém outro decidiu por ele. Jesus põe uma palavra na boca do rico atormentado, palavra essa que se faz presente nos atos litúrgicos da igreja: ee-lé-eeson. Ele não conheceu essa palavra ali. Ele conheceu “Moisés e os profetas” bem antes. Que leitura fizera ele até então desse conceito que ali naquela hora lhe era tão caro. Sabia ele que a compaixão, e somente a compaixão, transpõe o abismo que separa o juízo de Deus da humanidade? O desejo de Lázaro sempre fora um desejo por uma migalha de compaixão. Agora, era por uma gota de água. Deus transpõe o abismo que separa Lázaro do próprio Deus, assim como Deus morou com o rico pela palavra que o rico e seus irmãos tinham, cuja riqueza ele desprezara. Ambos compartilharam em vida a comunhão de Deus. Entretanto,
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o rico não levou a sua comunhão com Deus até a porta de sua casa para incluir Lázaro nessa comunhão. “Agora ele está consolado. Tu, em tormentos.” V. 31 – O rico tinha a palavra que lhe deu comunhão com Deus. Somente essa palavra poderia ter rompido as ilusões religiosas que o animavam a pensar que sua relação com Deus não necessitava de exames maiores. Essa palavra lhe dizia (ou diria, se ele lhe prestasse atenção) que a sua situação confortável não sinalizava uma boa relação com Deus. Ela lhe diria que diante de Deus nem Lázaro estava abandonado por Deus. E mesmo que a palavra lhe tivesse dito isso, os seus ouvidos tinham se fechado para aceitar qualquer coisa que pusesse em dúvida aquilo que ele queria crer da sua relação com o Deus dos seus pais.
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Sugestões de uso do material Tema e moto: Próximos, mas tão distantes
1. O rico e o Lázaro partilhavam muitas coisas: o tempo, o espaço, a comida e a religião. 2. Mas era como se vivessem em universos diferentes (o texto). 3. Por trás do rico e de Lázaro podemos entrever pessoas, grupos sociais, religiões ocupando o mesmo espaço, mas igualmente separados por abismos de indiferença, preconceito, amargura e ódio. 4. Somente a Palavra pode revelar o nivelamento a que o pecado reduziu todos diante de Deus (Paulo a Timóteo). 5. Somente a Palavra pode levar à humildade diante de Deus, que cria a comunhão que une todos no coração de Deus.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Senhor Deus, reconhecemos e confessamos que não conseguimos viver a comunhão que nos ofereces quando nos abrigaste em teu coração por amor de Jesus. Mesmo assim, não te afastaste de nós. Pelo contrário, conservas a nossa vida e tudo o que a ela pertence. Não te damos a devida honra por tanto amor dedicado a nós. Perdoa-nos por agir como se não viesse tudo de ti. Não estamos dispostos, como gostaríamos, a viver contigo, a imitar o teu amor e carinho pelos carentes e sofredores. Dependemos de ti e da tua palavra para que nos acolha, estimule e fortaleça para andar nessa comunhão contigo e com todos aqueles que querem fazer parte dessa comunhão. Acolhe-nos como estamos e restaura em nós a alegria de viver na tua presença.
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Oração do dia: Senhor Deus, Tu que nos criaste para estar em comunhão contigo e que em Jesus nos trouxeste novamente para a tua comunhão. Abre tu os meus ouvidos para que minha vontade se submeta à tua vontade e eu possa acolher os fracos e os sofredores. Permite que em minha própria hora de fraqueza e sofrimento continue a esperar de ti todo o bem. Por meio de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor, que contigo e com o Espírito Santo é um só Deus para sempre. Amém
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PRÉDICA: HABACUQUE 1.1-4;2.1-4
19 19ºº DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 17.5-10 2 TIMÓTEO 1.1-14
03 OUT 2010
Humberto Maiztegui Gonçalvez
1
Deus e a vulnerabilidade humana
O contexto da profecia de Habacuque, texto da prédica, é a violência de uma nação poderosa contra uma nação vulnerável. Em outras leituras, o Evangelho de Lucas expõe a vulnerabilidade de Jesus na caminhada para Jerusalém (Lc 9.51-19.28)1 . A 2ª Carta a Timóteo traz a reprodução de uma saudação pessoal em que Paulo não esconde sua vulnerabilidade como, na mesma carta, faz em 2 Timóteo 4.7 (cf. 1Co 9.12; 2Co 11.16-33; 12.7; Gl 4.12-14). Como vemos, tanto no texto da prédica como nos textos de Lucas e 2 Timóteo há muito de vulnerabilidade. O texto do Evangelho de Lucas abre com a frase: “Aumenta-nos a fé”. Não é essa uma declaração de vulnerabilidade? O pedido nasce da advertência de Jesus contra aqueles que “escandalizam” as pessoas “pequeninas” (17.1-2). Jesus protege as pessoas pequenas em sua vulnerabilidade. E as pessoas que seguem Jesus, ao pedir para ter sua fé aumentada, mostram a necessidade da presença de Deus no meio de suas vulnerabilidades. Na saudação, comum a 1 e 2 Timóteo, destacam-se as palavras: “graça, misericórdia e paz” (cf. 2Tm 1.2; cf. 1Tm 1.2). Graça está diretamente ligada à vulnerabilidade. Reinerio Valentín, olhando para nosso contexto latino-americano, escreve: “Se entendemos que estamos nos referindo a como vivem, ou melhor dito, como sobrevivem as grandes maiorias de nosso continente, poderíamos afirmar que existem no meio de uma verdadeira desgraça”2 . Misericórdia, que em hebraico lembra o útero materno (réhèm), não é o poder de Deus gerando vida através de nossas vulnerabilidades? Paz, do hebraico shalom, não é um sonho acalentado na vivência de nossas vulnerabilidades?
2
Exegese
Diferentemente de dez dos doze profetas menores, Habacuque recebe o título de há nabiy’ (o profeta). Por outro lado, o conteúdo do texto é chamado de “visão recebida” (ha masá’ ´asher hazah), enquanto em quase todos os outros
1 2
BOVON, François. Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, p. 225-226. VALENTÍN, Reinerio Arce. Graça, sofrimento e esperança, p. 61,68.
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textos proféticos o conteúdo é chamado de “palavra de YHWH” (dabar YHWH; cf. Os 1.1; Jl 1.1; Am 1.1; Jn 1.1; Mq 1.1; Sf 1.1; Ag 1.1; Zc 1.1; Ml 1.1). Só na profecia de Naum se fala de um “livro da visão” (sefer hazôn). O título de profeta deve estar ligado à atividade profética no templo. Tudo indica que tanto as profecias de Naum como a de Habacuque vêm de profetas do culto, onde é a “visão” que vira “palavra”. 2.1 – O contexto histórico e religioso de Habacuque O tema de Naum e Habacuque é o mesmo; um parece ser o eco do outro. Os dois tratam do domínio do Império Babilônico (caldeus) após a queda de Nínive em 612 a.C (Na 1.1). O novo império ultrapassa em crueldade e violência qualquer referência anterior (Na 2.2-14). Alguns anos antes, Jerusalém, cercada pelos assírios, tinha miraculosamente se salvado (em 701 a.C.), reforçando a teologia da invulnerabilidade da Cidade Santa e do Templo. A ideia de invulnerabilidade deve ter crescido ainda mais durante o reinado de Josias, que expandiu o território e promoveu uma reforma político-religiosa (cf. 2Rs 21-22). No entanto, a morte desse rei na batalha de Meguido, tentando intervir no conflito entre egípcios e babilônicos (609 a.C.), pode ter sido para o profeta Habacuque um sinal do fim dessa invulnerabilidade. O fim do reinado de Josias é o fim de um sonho, especialmente para os sacerdotes e profetas do templo de Jerusalém (claramente beneficiados com a reforma centralizadora do culto feita por Josias). Nesse contexto de morte e iminente invasão, é possível entender o “até quando?” do profeta (Hc 1.2). 2.2 – O lugar das perícopes na estrutura do texto O livro tem uma estrutura dialogal: o profeta intercede e Deus responde. Após o cabeçalho aparece a primeira intercessão do profeta (“Até quando...”; 1.24). Logo após aparece a primeira resposta de Deus, abrindo o olhar para a conjuntura internacional (avanço dos caldeus ou babilônicos) e o sofrimento “temível e terrível” (1.7) que eles podem causar a todos os outros povos (1.5-11). Um novo apelo do profeta aponta para a grandeza de Deus (no qual se baseava a teologia da invulnerabilidade dos habitantes de Jerusalém; 1.12-17). Deus responde indicando o princípio da justiça divina, prometendo a salvação do justo e fiel (2.4b). Segue um epílogo no qual reaparece o “até quando” original (2.6b). No final, o alvo é o opressor, que terá oportunamente seu castigo (2.6-19). Em 2.20, uma frase final acolhe o sentido da presença protetora de Deus no templo, contudo já não mais como certeza de invulnerabilidade, mas como presença de julgamento contra os que colocam a fé na sua própria força (1.11). O apelo de 1.2-4 é marcado por duas perguntas e um resumo da situação. As perguntas estão em 1.2a – “até quando?” (‘anah ´od) – e 1.3a – “por quê?” (lamah) –; o resumo é aberto com a expressão: “por isso” (´al ken). Ligadas a essas perguntas e ao resumo aparecem como roupas no varal os sentimentos humanos, as realidades opressivas e as expectativas teológicas em relação a Deus. Vejamos isso no esquema:
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A situação é dominada pelo termo “violência”, que aparece nos versículos 2 e 3. No entanto, a violência é desdobrada em injustiça, desgraça, opressão e perda de poder do justo. Seria isso um lamento indireto pela morte do rei Josias, vista como princípio das calamidades que recairiam sobre Jerusalém? As respostas divinas visam ampliar a visão do profeta (e consciência do povo que ele representa na intercessão). A resposta leva o olhar do profeta para fora do círculo estreito de Jerusalém e convida, ou até ordena, ver o mundo. Na primeira resposta são usados termos como: “Veja!” (reu’), em 1.5a, e “olhai” ou “contemplai” (1.5b). Na segunda resposta, fala-se duas vezes na “visão” (2.2a e 3a)!
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Meditação
O diálogo entre Habacuque e Deus revela alguns dos artifícios mais comuns usados para ocultar a vulnerabilidade por trás de teologias da invulnerabilidade. No primeiro apelo (ou clamor) do profeta (1.1-4) apresenta-se um alerta para a vulnerabilidade de Israel. Esse alerta é dado pelas palavras que apontam para a realidade (violência, injustiça, desgraça e opressão do justo). No entanto, na teologia da invulnerabilidade apenas se espera que Deus resolva a situação (nas palavras ouvir/salvar/instruir/julgar, isto é, sem o povo se comprometer com alguma mudança de atitude perante o próprio Deus ou perante a realidade). O clamor do profeta mostra estranheza diante da vulnerabilidade, por isso a interrogação (até quando? por quê?). No interior do profeta habita ainda a teologia que entende Deus como garantidor da invulnerabilidade de Judá e Jerusalém (onde fica seu Santo Templo; cf. 2.20). Por isso se surpreende que Deus permita coisas como essas. Não é o que falamos, ou ouvimos dizer, quando há grande sofrimento, catástrofes ou violência? Por que Deus permite que isso aconteça? Por trás desse questionamento, humanamente válido diante do medo e do sofrimento, há uma teologia de Deus como garantia de invulnerabilidade. Existe uma teologia que diz que quem tem fé não pode sofrer, porque se a presença de Deus está com ele ou ela (seja essa uma pessoa, um estado ou uma comunidade), nada de “ruim” poderia lhe acontecer. O problema dessa teologia da invulnerabilidade é que ela
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leva a uma falta de compromisso com a sustentabilidade do projeto de justiça de Deus, como o próprio profeta mostra em 1.4. Por outro lado, as respostas de Deus pedem para que se assuma a vulnerabilidade com fé na justiça, sem perder o sonho da superação daquilo que atenta contra o caráter do Deus da Vida e da Justiça. A profecia de Habacuque leva para o povo a voz de Deus que, diante do sofrimento iminente, pede para manter a esperança diante de inimigos externos e de injustiças internas. A isso ele se refere quando indica que o sofrimento é “por um tempo” ou “por um prazo determinado” (2.3a). Deus não deseja o sofrimento humano, nem promove a violência ou a injustiça. No entanto, convida para assumir a vulnerabilidade (diante do pecado e da morte) com esperança. A mensagem gerada pela nova visão de vulnerabilidade e esperança de justiça de Deus deve ser pública, inclusiva e participativa; por isso deve ser escrita com letras grandes, para ser vista até por quem passa correndo.
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Imagens de vulnerabilidade e esperança
O ser humano nasce vulnerável e frágil, dependendo inteiramente dos cuidados da mãe, do pai e da coletividade familiar, comunitária e social. Nas etapas de transição, o ser humano experimenta a vulnerabilidade em sucessivas crises de passagem, entre a primeira e a segunda infâncias, na adolescência, entre a juventude e a vida adulta (autonomia, possibilidade ou não de formação de uma família etc.) ou entre a vida adulta e a chamada “terceira idade” (questões de saúde, mudança de atividade ocupacional, possível solidão e perda etc.). Diante da vulnerabilidade humana, os sistemas de dominação e as teologias e ideologias que lhes servem passam a imagem de invulnerabilidade através de ideias como o “progresso” e com promessas de “solução” para todas as mazelas da humanidade. Mas como resultado há o descomprometimento com as outras pessoas e promove-se a violência, justifica-se a miséria e alenta-se a destruição do meio ambiente. Diante da vulnerabilidade do ser humano podemos ver imagens belas e naturais quando nos vemos crescendo e passando pelas etapas e desafios cotidianos da vida. Diante da vulnerabilidade causada pela violência e injustiça surgem também belas imagens como as marchas, as mobilizações populares, o trabalho social e a ação diaconal das comunidades. Enfim, Deus dá-nos visões de superação e esperança, como fez com o profeta Habacuque. Resta para nós vivermos isso publicamente.
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Subsídios litúrgicos
Ao mesmo tempo em que é uma intercessão, o clamor do profeta não deixa de ser uma confissão. A resposta de Deus transforma-se em um anúncio de reconciliação.
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Reconciliando-nos com Deus a partir de nossas vulnerabilidades Celebrante: Amigas e amigos, somos frágeis e vulneráveis, a vida apresenta-se como um delicado equilíbrio que pode ser rompido por egoísmo, injustiça, abuso de qualquer tipo de poder e por tantos outros pecados e violências. No entanto, a profecia de Habacuque nos anima a ter fé e esperança e a nos reconciliar com nosso Deus e Senhor. Povo: Pois a pessoa justa pela fé viverá! Leitor/a 1: Até quando seremos dominados por sistemas que promovem a violência e a miséria, condenando a maior parte das pessoas a viver em condições sub-humanas e desumanas? Até quando ficaremos esperando soluções divinas, sem nos colocar comprometidamente à disposição da tua graça, Senhor? Povo: Perdoa-nos, Senhor, e dá-nos a graça de ver tua justiça agindo no mundo que nos cerca e de viver o alegre compromisso com a realização da tua vontade. Leitor/a 2: Senhor, quantas vezes, como o profeta, vamos para tua igreja para esperar com atenção a tua resposta às nossas queixas (Hc 2.1). No entanto, isolamo-nos do mundo que tanto amaste; não queremos ver ou ouvir a tua voz e não queremos sair da igreja para tornar pública a tua justiça para todas as pessoas, em todos os lugares. Povo: Aumenta nossa fé para que possamos publicar, com tua graça e poder, o anúncio da tua justiça vivificadora e redentora. Celebrante: O Senhor tenha misericórdia de nós e que, pela sua graça, nos perdoe e liberte de nossa omissão e das nossas falsas autossuficiências. Que, pelo poder do Espírito Santo, possamos viver a verdade, mesmo quando dura e sofrida, e encontrar em Deus a fonte de toda esperança! Povo: Amém. A pessoa justa pela fé viverá! Intercessões: Sugerimos que para as intercessões sejam usadas imagens, montadas ou extraídas de jornais ou fotografias. As imagens podem incluir: A vulnerabilidade diante das etapas da vida humana. A vulnerabilidade diante da violência em todas as suas formas. A vulnerabilidade de nossa fé diante do sofrimento ou dos conflitos humanos. Pessoas escolhidas/convidadas da comunidade (melhor se forem de diferentes idades, gênero, etnia etc.) mostrarão as imagens à comunidade (também podem ser projetadas com retroprojetor ou datashow). Nesse tempo de silêncio e contemplação cantamos: Canto: A nossa oração (melodia de Taizé). A nossa oração, a nossa oração, ao clamarmos, ouve Senhor. A nossa oração, a nossa oração, vem e ouve Senhor. Após esse momento de contemplação, pode-se abrir um espaço para orações espontâneas da comunidade ou, com antecedência, grupos da comunidade podem ter preparado uma intercessão para cada uma das imagens apresentadas
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(incluindo os motivos da própria comunidade). Para finalizar, canta-se novamente o canto A nossa oração.
20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES LUCAS 17.11-19 2 REIS 5.1-3,7-15c 2 TIMÓTEO 2.8-15
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PRÉDICA: 2 TIMÓTEO 3.14-4.5
21 21ºº DOMINGO APÓS PENTECOSTES
GÊNESIS 32.22-31 LUCAS 18.1-8
17 OUT 2010
Valdemar Lückemeyer
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As leituras bíblicas
O tema central das duas leituras bíblicas, bem como o do texto da prédica, é a persistência, não esmorecer nunca. Jacó lutou e não desistiu até que recebeu a bênção: “Não te deixarei ir, se não...”. A persistência e a firmeza do pedido trouxeram-lhe o benefício esperado e desejado. O evangelho destaca, no início, que “Jesus ensina sobre o dever de orar sempre, sem nunca esmorecer” e exemplifica essa persistência com a parábola da viúva, que não se dá por vencida até ser atendida (mesmo por um juiz arrogante).
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Introdução
Timóteo, o grande e extraordinário companheiro e colaborador do apóstolo Paulo, recebe duas cartas do seu “mestre”. São cartas pastorais, que dão orientações claras sobre como cuidar e orientar o povo de Deus nas mais diversas situações, especialmente diante de falsos ensinamentos ou cansaço e esfriamento na vida de fé. A 2ª Carta a Timóteo é praticamente uma carta particular, dirigida pessoalmente ao colaborador e amigo Timóteo, mas é ao mesmo tempo uma carta com palavras para todos os que pastoreiam o rebanho de Deus. O Lecionário Trienal indica, para este ano, a leitura das duas cartas a Timóteo; os seus textos aparecem como textos de pregação em vários domingos seguidos. Portanto, se neste 21º Domingo após Pentecostes vamos ler e meditar sobre os textos bíblicos indicados acima, certamente a lembrança de Timóteo já vai ser familiar aos ouvintes e participantes do culto.
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Exegese
Foi no verão de 49 (ou 50?), pouco tempo após a controvérsia entre Paulo e Pedro (Gl 2.11ss) e Barnabé (At 15.36ss) que surgiu na vida de Paulo este homem, Timóteo, como uma verdadeira dádiva de Deus, que foi seu fiel companheiro até a morte.
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21º Domingo após Pentecostes
Primeiramente, esse jovem com seus aproximadamente 20 anos (1Tm 4.12), descoberto e chamado por Paulo na primeira viagem missionária, apenas acompanhou o apóstolo. Mas, pouco tempo depois, Paulo encarregou-o de tarefas especiais. Mais tarde, chegou a praticamente substituir o apóstolo, instalando e ordenando presbíteros e cuidando da ordem comunitária. Quando Paulo, na prisão, lhe pede para que venha visitá-lo o quanto antes (2Tm 4.9), provavelmente é porque quer incumbi-lo da tarefa de substituí-lo. Por essas e outras, a tradição conferiulhe o título de primeiro bispo de Éfeso. V. 14 – “Tu, porém” contrapõe claramente Timóteo aos homens maus e perversos, mencionados antes, que só arruínam a vida comunitária. Novamente Paulo ressalta o que já mencionou em 3.10: Timóteo deve ser o oposto dos falsos mestres, pois aqueles que lhe ensinaram os fundamentos da fé foram pessoas idôneas, respeitadas, de fé. Em quem o apóstolo pensa? É muito provável que ele se refira à mãe e também à avó de Timóteo (2Tm 1.5); também pensa em si mesmo como orientador do seu jovem companheiro. Essa recomendação certamente não é válida apenas para Timóteo, mas para todos os líderes das comunidades. V. 15 – As “letras sagradas” são designação para o texto sagrado do Antigo Testamento, e essa expressão encontramos apenas aqui. Normalmente, Paulo usa apenas o substantivo e fala em “Escritura”, tanto no singular como no plural, porém se referindo sempre ao texto do Antigo Testamento. Essa era a única escritura canônica para os primeiros cristãos, bem como para os judeus na época apostólica e ainda algumas gerações posteriores. Timóteo recebeu, pois, instrução desde criança na Sagrada Escritura em casa, por parte de sua mãe e também por parte de sua avó. Aprendeu em casa e certamente também na sinagoga. Esse aprendizado é muito valioso, pois é ele que torna a pessoa verdadeiramente sábia. Não é o conhecimento, o saber intelectual e filosófico, que torna a pessoa sábia, mas o saber das letras sagradas, o conhecimento da Sagrada Escritura. Elas é que encaminham para a salvação. Elas é que despertam e fortalecem a fé que olha para Jesus Cristo e vê nele o Messias anunciado e pregado pelos apóstolos. Quem quer alcançar a salvação torna-se sábio ao buscá-la na Sagrada Escritura, que aponta para o propósito de Deus, que é salvar o mundo. V. 16 – “Toda Escritura inspirada, ou melhor, perpassada pelo espírito de Deus, é útil para...”: essa deve ser a tradução correta. “Tem havido, também, muita discussão acerca da tradução da frase, pois não há verbo que corresponde a é no original. Visto que a partícula traduzida e tem o mesmo significado alternativo de ‘também’, inspirada por Deus pode ser interpretada ou como predicado conforme supra, ou como um adjetivo qualificador: ‘Toda Escritura inspirada é útil...’” (J. N. D. Kelly, p. 186). Em relação à compreensão da inspiração da Bíblia, deve-se dizer que há duas maneiras bem diferentes de entender o que é inspiração. “Conforme o judaísmo helenístico, a mente dos profetas e demais redatores teria sido substituída no ato da redação pelo Espírito divino. Os redatores humanos teriam estado ‘fora de si’, portanto ‘extáticos’, servindo de simples ‘mão’ para o que o Espírito lhes ditava. Nesses termos fala Filo de Alexandria. Enquanto isso, o judaísmo palestinense não negava a participação consciente das pessoas na redação. Te-
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mos aí, no judaísmo contemporâneo de Jesus, a prefiguração de duas maneiras distintas de compreender ‘inspiração’ [...] Inspiração não precisa ser entendida necessariamente como sendo verbal. Além dessa, costuma-se falar numa inspiração pessoal e outra real. Qual é a diferença? A inspiração pessoal expressar-se-ia no impulso para escrever, a inspiração real na sugestão do conteúdo, a inspiração verbal na sugestão das palavras [...] Há relativo consenso no que diz respeito à inspiração pessoal. É claro que por trás da redação dos escritos bíblicos está a motivação do Espírito Santo. E, considerando que o conteúdo da Bíblia consiste no testemunho da revelação divina, também a inspiração real não poderá ser negada. Problemática é a inspiração verbal. Ela deve ser rejeitada: quando exclui a participação humana na redação da Bíblia [...] e quando busca garantias que diminuem ou eliminam o risco da fé” (G. Brakemeier, A autoridade da Bíblia, p. 33-36). “Para a educação na justiça”, isto é, a Sagrada Escritura é útil para a educação na vida cristã, para entender os propósitos de Deus, para entender a justiça divina. Cap. 4.1 – “Conjuro-te”: Paulo apela novamente a seu colaborador e o faz com uma fórmula que muito provavelmente tem seu lugar na celebração do Batismo ou então nas primeiras afirmações de fé, nos primeiros credos: “Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino” – deve ser uma dessas antigas formulações de fé. V. 2 – Resumidamente são enumeradas as tarefas do líder de comunidade, iniciando com a tarefa maior, principal, primeira: o anúncio da Palavra. A tarefa com a qual Paulo havia sido encarregado pelo próprio Senhor (2Tm 1.11) agora é repassada para seu colaborador e sucessor. Timóteo deve estar atento, estar sempre pronto, estar cumprindo a tarefa de pregar, quer seja em momento oportuno e adequado ou também não. A pregação da Palavra e a instrução da doutrina incluem correção, repreensão e exortação. V. 5 – Novamente vem o chamado para contrastar: “Tu, porém!” Os que querem desviar os fiéis com fábulas e doutrinas falsas estão no lado oposto, estão destruindo e não edificando comunidade. A fidelidade e a persistência do apóstolo em pregar o evangelho levaram-no a sofrimento e momentos de angústia e aflição. Por isso Timóteo certamente também encontrará dificuldades no desempenho de sua tarefa de ser um evangelista, pregador do evangelho.
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Meditação Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste
a) Tu = crente, membro da igreja de Jesus Cristo. Timóteo, antes de colaborador de Paulo e pregador do evangelho, é crente, alguém que se tornou cristão. A esse crente em particular é feito o apelo para que permaneça naquelas verdades nas quais fora instruído desde a mais tenra idade. Fidelidade, pois, aos ensinamentos recebidos desde criança é uma das características do crente. Ele permanece fiel e firme no que aprendeu. Não muda de uma
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hora para outra de postura, de fundamento de fé, também não abandona o que lhe foi ensinado por gente de confiança, por gente com fundamento bíblico. Essa recomendação poderá ser entendida como conservadora: nada de novo é aceito, nada pode ser interpretado ou traduzido para dentro de uma nova realidade, de uma nova situação, de um novo momento. Mas não é isso o que está sendo requerido com o apelo para permanecer na primeira e boa instrução. Ao contrário, permanecer no que se aprendeu na e com a Sagrada Escritura, afirmando e destacando o sola scriptura, é interpretar e viver o que Deus tem feito por mim e pelo mundo em Jesus Cristo, buscando sempre novas formas, novos meios para transmitir a mesma e “velha” verdade. Não são fábulas ou fantasias humanas que fundamentam minha vida de fé, mas é o que a Sagrada Escritura transmite, a saber, a ação salvífica de Deus em Jesus Cristo. O crente Timóteo familiarizou-se com o texto da Sagrada Escritura desde pequeno na casa paterna/materna. Ele “sabe de quem aprendeu”. A sua mãe e a sua avó ensinaram-lhe as primeiras lições, os primeiros fundamentos sólidos: leitura bíblica, meditação, oração... O apego, o amor e o respeito pelo texto da Sagrada Escritura são aprendidos e para eles se é motivado. Aliás, o próprio texto da Sagrada Escritura procura motivar filhos e filhas de Deus para que se apeguem e se alimentem dessas palavras: “A lei do Senhor é perfeita, e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do Senhor são retos, e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro, e ilumina os olhos... São mais desejáveis do que ouro; mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos” (Sl 19.7ss). O valor da Sagrada Escritura está no fato de que ela me revela os grandes feitos de Deus, fala do seu amor por mim e por todas as criaturas. Na leitura, descubro que Deus quer me oferecer o seu perdão, quer me reconciliar com ele e me presentear com a liberdade que só ele consegue me dar. b) Tu = líder de comunidade. Timóteo, grande colaborador do apóstolo Paulo, sucedeu-o. Para isso ele foi preparado e orientado especialmente pelo próprio Paulo: foi seu discípulo e fiel companheiro no trabalho missionário, na criação de comunidade cristã, na visita às comunidades. Assim se caracteriza o líder: é chamado, recebe a devida instrução e é incumbido com uma tarefa bem determinada. E o que se refere a Timóteo, vale para todos os líderes na igreja: “permanece naquilo que aprendeste”. O líder cristão tem em Paulo um bom exemplo de perseverança, pois mesmo diante de ameaças e dificuldades de toda ordem, inclusive de morte, não desistiu em nenhum momento e, como ele mesmo afirma, “combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2Tm 2.7). E, não por último, o líder cristão busca a sobriedade, valoriza-a e faz dela boa companheira na atividade e no exercício do seu mandato. c) Tu = pregador, mensageiro da Palavra. Paulo dirige-se não apenas ao líder de comunidade, mas também ao mensageiro da Palavra, ao colaborador que orienta através do anúncio da Palavra os
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demais irmãos e irmãs na comunidade. “Prega, solicita com insistência, quer seja oportuno, quer não” são palavras dirigidas ao pregador. Não é por menos que o texto é lembrado e recomendado por ocasião da instalação e/ou ordenação de pastor ou pastora. Antes de ser pregador, sou ouvinte, sou aprendiz da Palavra na qual fui orientado. Também no mensageiro do evangelho deve ser vista a característica da fidelidade aos ensinamentos recebidos e constantemente atualizados pelo estudo, pelo apego à Sagrada Escritura. Isso evita excessos, evita o fanatismo e o radicalismo cego e destrutivo e, por outro lado, impulsiona a busca constante por novos caminhos, meios, recursos e formas para o anúncio da mensagem.
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Imagens para a prédica
A renovação litúrgica ensinou-nos que as várias leituras bíblicas indicadas para o domingo devem ser consideradas na pregação. Em tempos passados enfatizava-se basicamente o texto indicado para a pregação. Se, pois, me atenho ao texto da prédica para este domingo, 2 Timóteo 3.14-4.5, poderei destacar dois acentos, distintos inclusive. O primeiro está na fidelidade e no apego à Sagrada Escritura, ao fundamento da fé recebido na infância. Fidelidade ao que se aprendeu, firmeza e constância nessas verdades é o que o texto recomenda, sim, é o que ele exige. O segundo acento provém dos cinco versículos do capítulo 4, palavras dirigidas à liderança na comunidade, liderança leiga e, em especial, à liderança exercida no e pelo ministério pastoral. Mas, se considero também as outras duas leituras bíblicas do domingo, então devo destacar, a meu ver, a persistência e a fidelidade nas promessas de Deus que aprendi, que aprendemos em casa, no Culto Infantil, no Ensino Confirmatório, na igreja. Devo motivar também para o deixar-se encantar, para um despertar alegre e prazeroso na leitura e no estudo da Sagrada Escritura. Preciso destacar que o ouvinte deve ter necessidade, alegria e prazer em ler e estudar diariamente a Sagrada Escritura, pois ela nos torna sábios. E, por fim, duas citações: “É tarefa da comunidade cristã zelar pela leitura bíblica e exigir-lhe disciplina. Certamente a Bíblia pode, ela mesma, defender-se contra a violência dos intérpretes. A verdade cedo ou tarde vai julgar os defraudadores. Mesmo assim, esses podem causar estragos, que é preciso evitar. Há regras a observar quando se lê a Bíblia, no que a igreja luterana se vê particularmente comprometida a insistir. Listamos as mais importantes: “a) Importa distinguir entre o que a Bíblia disse e o que ela diz [...] Para entender a Bíblia hoje, é preciso recorrer ao passado para então traduzi-la em novo contexto. Previne-se assim a manipulação dos textos. “b) Importa ler a Bíblia toda e resistir à tentação de isolar certas passagens [...] Quem ‘filtra’a Bíblia para permanecer somente com as passagens ‘simpáticas’ já não mais deixa a Bíblia falar. Deixou de aprender.
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“c) Importa ler a Bíblia criticamente, isto é, a partir de Jesus Cristo [...] Os textos bíblicos não deixam de mostrar reflexos dos condicionamentos humanos de seus autores. Por isso mesmo, Jesus Cristo é o juiz da Escritura e de cada uma de suas partes. “d) Importa ler a Bíblia como membro da comunidade cristã. Não só eu leio a Bíblia. Outros a lêem também. Por isso devo testar a solidez de minha leitura no intercâmbio com os demais, sejam leigos, pastores, acadêmicos, sejam pessoas do passado ou do presente” (G. Brakemeier, Por que ser cristão?, p. 80s). “Tenho a vocação ao ministério pastoral em alto conceito. Vejo-a como dádiva da graça de Deus [...] Minha vocação não foi coisa repentina. Desde as primeiras histórias bíblicas, sob a influência dos pais e mestres, fui amadurecendo para a opção pelo ministério. Exerço-o com temor e tremor diante da santidade do Senhor que nos chama em face à grandeza da sua seara; mas simultaneamente, com alegria e ânimo, sabendo que Deus, pela fé em Cristo, nos acolhe, justifica e torna idôneos para a sua missão” (H. Kirchheim, Novo jeito de ser Igreja, p. 4).
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Subsídios litúrgicos
Aclamação do evangelho: “Segundo o seu querer, Deus nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1.18). Confissão de culpa: Amado e misericordioso Deus, nosso Criador e Protetor. Tu és fiel, nós te somos infiéis. Tu nos amas, mas nós não te amamos como tu esperas de nós. Não te retribuímos o amor com que nos presenteias. E ainda nesta semana passada fomos indiferentes à situação do nosso próximo. Confiantes na tua graça infinita e na tua compaixão, rogamos-te em nome de Jesus Cristo: perdoa a nossa culpa, perdoa o nosso pecado, que temos cometido em pensamentos, palavras e atitudes. Amém. Absolvição: “Vocês me cansaram com os seus pecados e me aborreceram com a suas maldades. Mas eu – eu mesmo – sou o seu Deus e por isso perdoo os seus pecados e me esqueço deles” (Is 43.24b-25). Kyrie: Há muita gente perto de nós buscando palavras de orientação, de conforto, de vida e são enganados e explorados maldosamente. Por eles queremos clamar a Deus: Tem, Senhor, piedade!
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Glória: Senhor, por tu nos acompanhares estando sempre atento às nossas necessidades, nossas angústias e também aos nossos clamores, por tu teres as palavras da vida, queremos te louvar e te bendizer cantando alegres: GLÓRIA... Oração do dia: Senhor, nosso único Deus. Tu nos chamaste e nos reuniste assim como sempre fizeste com o teu povo em todos os tempos. Nós somos teus e dependemos totalmente de ti, da tua graça, do teu amor, de todas as tuas dádivas. É bem verdade que, muitas vezes, agimos como se fôssemos autônomos, totalmente independentes, sabendo dos nossos caminhos, da nossa vida. Esquecemos o que tu nos ensinaste e o que tu nos dizes através da tua santa Palavra. Fala-nos e orientanos na tua verdade. Em nome de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor e Salvador. Amém. Oração de intercessão: Senhor, não é fácil anunciar a tua Palavra. Há desafios, dificuldades, ameaças, medo. Quantas vezes temos sido omissos, quietos! Calamos ao invés de falar! Investimos tanto tempo em coisinhas pequenas, secundárias e deixamos de lado o que realmente constrói e edifica a vida. Queremos interceder por tua igreja aqui e no mundo inteiro: que ela seja luz para dentro das trevas de tantas pessoas, que ela saiba chamar e acolher os angustiados e atordoados com as muitas mentiras nas quais são envolvidos. Oramos em favor de todos os que ensinam a tua Palavra: pais e mães, orientadores do Culto Infantil, do Ensino Confirmatório, dos estudos bíblicos, de todos os pregadores/as. Oramos por aquelas pessoas que precisam levar uma palavra de conforto, de ânimo aos doentes, moribundos, enlutados, acidentados, presos às drogas...
Bibliografia BRAKEMEIER, G. A autoridade da Bíblia. São Leopoldo: Sinodal/ Cebi, 2003. _______. Por que ser cristão? Dez boas razões para ... São Leopoldo: Sinodal, 2004. HOLZ, G. Die Pastoralbriefe. 3.ed. Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1980. KELLY, J.N.D. I e II Timóteo e Tito. Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1983. MERKEL, H. Die Pastoralbriefe. Göttingen: Vandenhoek & Ruprecht, 1991 (NTD 9/1).
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PRÉDICA: LUCAS 18.9-14
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JEREMIAS 14.7-10,19-22 2 TIMÓTEO 4.6-8,16-18
24 OUT 2010
Gerson Correia de Lacerda
1
Introdução
Vivemos tempos de religiosidade intensa e exacerbada em nosso país. Todos querem contar com a ajuda de Deus. As orações ocorrem por toda parte e em todas as situações. Nesse contexto, temos de perguntar: que importância têm tido as orações de confissão de pecado nos cultos, nas celebrações coletivas e na espiritualidade individual? Será que elas são valorizadas? Estão cada vez mais difundidas as orações por bênçãos materiais. São muitos os pregadores que até ensinam que temos o direito de fazer reivindicações e exigências para Deus. Tudo isso serve para indicar que o problema dos nossos tempos não é a falta de oração, mas o modo como oramos. Os três textos bíblicos de hoje oferecem contribuições nessa direção. O texto de Jeremias apresenta a oração feita pelo povo de Judá num tempo de crise, quando uma prolongada seca trouxe muita miséria e sofrimento. Suas palavras são de reconhecimento do pecado e de apelo por misericórdia divina. O povo não reivindica direitos, mas simplesmente afirma que “os nossos pecados nos acusam” (Jr 14.7). Já os versículos da Epístola a Timóteo não são de uma oração, mas de uma autêntica afirmação de fé. Preso, antevendo o fim de sua vida, o apóstolo deposita sua confiança exclusivamente em Deus, “que me livrará de todo mal e me levará em segurança para o seu Reino celestial” (2Tm 4.18). Apesar de ter combatido o bom combate, de ter acabado a carreira e de ter guardado a fé, ele não se fia em seus próprios méritos, mas tão-somente no Senhor (2Tm 4.8). A parábola do fariseu e do publicano foi colocada por Lucas ao lado da parábola da viúva e do juiz (Lc 18.1-8). Em ambas, o motivo da parábola é explicitado logo no início. A primeira parábola foi contada para “mostrar aos discípulos que deviam orar sempre e nunca desanimar” (Lc 18.1). A segunda, “para os que se achavam que eram muito bons e desprezavam os outros” (Lc 18.9). Com essa última, aprendemos como orar para ter paz com Deus (Lc 18.14).
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Exegese
2.1 – Uma parábola com endereço certo (v. 9) O texto inicia esclarecendo a quem se aplica a parábola, o que também ocorre na parábola anterior. Isso representa uma exceção. De um modo geral, a aplicação das parábolas aparece no final. O texto de Lucas, portanto, faz uma inovação. Ao dizer que a parábola “foi contada para os que achavam que eram muito bons e desprezavam os outros”, o texto indica que ela foi apresentada contra eles. Na vida da igreja, com frequência essa parábola tem o seu valor. Pessoas que cultivam uma vida religiosa costumam cair na tentação de se considerar melhores e superiores às demais. 2.2 – Duas pessoas extremamente diferentes (v. 10) Os fariseus representavam um partido religioso do judaísmo que se caracterizava pelo apego ao estudo e à observância rigorosa da lei mosaica. Seu nome tem origem de expressão aramaica, que significa “os separados”. De fato, o cuidado exagerado na prática de todo o sistema legal religioso fez com que se isolassem dos outros, que eram considerados por eles tanto ignorantes como impuros, pois não estudavam a lei com tanto cuidado nem se aplicavam a observá-la com rigor semelhante ao deles. Por outro lado, no extremo oposto estavam os publicanos. Os romanos costumavam arrendar a cobrança de taxas. Assim, eles mesmos não as arrecadavam, mas transferiam a outros o direito de fazê-lo. Com isso, aqueles que adquiriam tal direito precisavam arrecadar mais do que deviam pagar. Tais pessoas eram os publicanos, que passaram a ser odiados e desprezados por seu próprio povo. J. Jeremias diz: “Em julgamentos públicos, situavam-se ao nível dos ladrões, não tinham direito civil de honra e eram evitados por todas as pessoas de projeção”. 2.3 – A oração do fariseu (v. 11-12) O fato de o fariseu orar de pé não deve ser interpretado como arrogância. Orava-se de pé. O problema não estava na posição do seu corpo, mas no conteúdo de sua oração. Ela se divide em duas partes. Na primeira, o fariseu agradece a Deus pelos pecados que não cometeu. Na segunda, apresenta a Deus o que fez de positivo. Ao agradecer pelos pecados evitados, fazia questão de destacar que era um “separado”, diferente e superior às outras pessoas. Ao apresentar suas obras, mostrava, mais uma vez, sua superioridade. A lei estabelecia um jejum por ano; o fariseu jejuava duas vezes por semana. Quanto ao dízimo, ele fazia questão de declarar: “Pago o dízimo de todas as coisas que adquiro”. Era um dizimista sensacional. Não se limitava a dizimar o que ganhava, mas também o que comprava. Não queria correr o risco de consumir mercadoria que não tivesse sido dizimada por seu próprio produtor.
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2.4 – A oração do publicano (v. 13) Duas atitudes do publicano na oração, antes que começasse a falar, já demonstram sua humildade: ele “ficou de longe e nem queria levantar o rosto para o céu” ao mesmo tempo em que “batia no peito”. De fato, o publicano não se sentia digno de se aproximar. Apesar de ser hábito entre os judeus elevar os olhos para orar, ele não se atrevia a fazê-lo. Por outro lado, o gesto de bater no peito, isto é, no próprio coração, representava uma manifestação de arrependimento intenso. A tais atitudes do publicano correspondem as palavras de sua oração. Ele nada exige nem reivindica. Simplesmente se atira na dependência da misericórdia divina. 2.5 – O resultado final (v. 14) Depois de colocar lado a lado as figuras e as orações do fariseu e do publicano, Jesus apresenta o resultado surpreendente da parábola: somente o publicano desceu justificado para a sua casa. Segundo J. Jeremias, “justificado significa aqui agraciado com a aceitação de Deus”. Acrescenta: “Nossa passagem é a única dos evangelhos em que se usa o verbo justificar num sentido próximo do uso paulino do verbo”. E chega à seguinte conclusão: “Nossa passagem mostra que a doutrina paulina da justificação tem suas raízes na pregação de Jesus”. Isso é muito importante. A doutrina da justificação pela graça mediante a fé é uma das mais importantes do ensino de Paulo e da Reforma Protestante do século XVI. Desenvolvida pelo apóstolo principalmente na Carta aos Romanos, suas raízes podem ser encontradas na conclusão da parábola do fariseu e do publicano.
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Meditação
3.1 – A parábola aos olhos dos judeus daquela época Dois homens foram ao templo para orar. A oração podia ser feita em qualquer lugar. No entanto, os judeus tinham certas concepções a respeito do templo. Para eles, o templo era considerado a morada de Deus. Representava o espaço que Deus habitava na terra. Isso significa que ir ao templo era um ato de busca da presença de Deus. Se aqueles dois homens foram ao templo, era porque sentiam a necessidade de Deus. E, ao irem àquele lugar para orar, estavam certos. Séculos antes de Jesus, o profeta já dissera em nome do Senhor: “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56.7). Todavia, houve uma grande diferença entre os dois. A diferença foi o tipo de oração que fizeram a Deus. Ao tomar conhecimento da oração do fariseu, temos de reconhecer que ele apresentava qualidades e virtudes. Para começar, sua oração foi de gratidão. Isso é coisa rara. São poucas as pessoas que se lembram de orar para agradecer. Em geral, oram para pedir. Portanto o fariseu fez algo raro: agradeceu. Mais ainda, agradeceu pelos defeitos que não possuía: não ser avarento; não ser desonesto; não ser imoral. Não rendeu graças somente pela ausência de imperfeições. Ao contrário,
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foi além e manifestou gratidão por suas virtudes e práticas positivas: jejuava muito mais do que a lei prescrevia; dizimava além do que era estabelecido pelas normas divinas. Só havia um problema. Ele se considerava superior aos outros. Achava que era melhor do que os outros. Chegava até a desprezar os outros por causa de suas qualidades e virtudes pessoais. Porém isso não devia ter a menor importância. No cômputo geral, ele era sensacional diante de Deus. Certamente Deus precisava de gente semelhante a ele. Aos olhos dos judeus do tempo de Jesus, se houvesse muito mais fariseus semelhantes àquele, o mundo seria melhor. Na realidade, as boas qualidades do fariseu destacavam-se ainda mais tendo em vista a pessoa que tinha subido ao templo, junto com ele, para orar. O fato é que o companheiro do fariseu no templo era um desprezível publicano. Para os judeus daquele tempo, ele representava um dos piores tipos existentes na face da terra. Eram traidores de seu próprio povo. Cobravam taxas em favor dos dominadores romanos. Para conquistarem vantagens pessoas, tinham se aliado aos inimigos estrangeiros. Por ambição, cooperavam com os adversários. Além disso, era público e notório que ficavam ricos com sua atuação. Boa parte dos recursos que coletavam não ia para Roma, mas para seus próprios bolsos. Por causa de tudo isso, na concepção geral dos judeus, era difícil haver gente pior do que eles. Aliás, o jeito de orar e a própria oração daquele publicano demonstravam que ele não valia nada. Ficou lá no fundo do templo. Não teve a coragem de levantar a cabeça. Apresentava-se cabisbaixo. Não podia ser de outra maneira. Seus pecados não eram ocultos. Todo mundo sabia de suas falhas. E, certamente, Deus sabia e conhecia muito mais a respeito de sua vida pecaminosa. Pior ainda: ele se atrevia a colocar seus pés pecaminosos no sagrado templo do Senhor. Tinha a audácia de dirigir-se a Deus em oração. Manifestava a petulância de solicitar que Deus tivesse misericórdia dele. E, além disso, não fazia nenhuma promessa. Não prometia que iria mudar de vida. Não prometia que iria distribuir seus bens entre os pobres. Nada disso! Só rogava a Deus que tivesse misericórdia dele. Diante dos fariseus e publicanos, era exatamente assim que reagiam os judeus do tempo de Jesus. Era isso o que pensavam ao acompanhar a exposição da história que lhes estava sendo contada. 3.2 – A parábola aos olhos de Jesus Foi duro de engolir! Foi difícil de aceitar! Mas o fato é que Jesus terminou sua parábola dizendo assim: “Eu afirmo a vocês que o publicano voltou para casa em paz com Deus”. Por que isso? Será que Deus é injusto? Será que Deus é sempre do contra? Na verdade, a parábola tem um ensino e uma mensagem. Seu ensino é que o ser humano depende, exclusivamente, da graça de Deus. Todas as pessoas podem desfrutar de paz com Deus unicamente se confiarem não em seus próprios méritos, mas tão-somente na misericórdia do Senhor. Foi este o grande erro do fariseu: ele confiou em si mesmo, em suas obras, em suas virtudes, em suas qualidades. Na verdade, ele confiava tanto em si mes-
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mo, que nem precisava de Deus. Era Deus quem precisava dele. Um comentarista chegou a escrever que “as palavras do fariseu não eram nem oração, mas fanfarronada”. Por outro lado, essa foi a única coisa correta no comportamento do publicano: ele confiou em Deus, em sua misericórdia e em sua graça. J. Jeremias comenta: o publicano ora usando “as palavras do começo do Salmo 51, apenas acrescentando ‘pecador’... No mesmo Salmo 51, porém, diz-se: ‘O sacrifício que agrada a Deus é um espírito contrito; um coração contrito não desprezarás, ó Deus’ (v. 19). Assim é Deus, diz Jesus, como está escrito no Salmo 51. Ele diz sim ao pecador desesperado e não àquele que se autojustifica. Ele é o Deus dos desesperados e sua misericórdia com os de coração contrito é sem limites. Assim é Deus”.
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Imagens para a prédica
4.1 – Uma oração do Talmude, do século I dC, semelhante à oração do fariseu “Eu te agradeço, Senhor meu Deus, porque me deste parte junto daqueles que se assentam na sinagoga, e não junto daqueles que se assentam pelas esquinas das ruas; pois eu me levanto cedo, e eles também se levantam cedo; eu me levanto cedo para as palavras da Lei, e eles para as coisas fúteis. Eu me esforço, e eles se esforçam; eu me esforço e recebo a recompensa; eles se esforçam e não recebem recompensa. Eu corro e eles correm; eu corro para a vida do mundo futuro, e eles para a fossa da perdição” (citado por J. Jeremias). 4.2 – Uma oração de ação de graças “Portanto, que o corpo que formamos em Cristo esteja todo em bom estado e que cada um seja submisso ao próximo conforme a graça que lhe foi dada. Que o forte proteja o fraco; que o fraco respeite o forte; que o rico ajude o pobre; que o pobre dê graças a Deus, que lhe deu com que suprir sua insuficiência; que o sábio mostre sua sabedoria, não em palavras, mas em boas ações; que o humilde não dê testemunho de si mesmo, mas espere dos outros a aprovação. Meditemos, pois, irmãos meus, de que matéria nascemos, quem somos e em que estado viemos ao mundo, de que túmulo e de que trevas aquele que nos formou e criou nos fez passar para seu universo, depois de nos ter preparado seus benefícios antes de nosso nascimento. Possuindo tudo por ele, devemos dar-lhe graças por tudo. A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém” (Carta de Clemente de Roma).
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5 Subsídios litúrgicos Salmo 51 Tem piedade, Senhor, tu que és o amor fiel! Pela tua bondade imensa apaga a minha culpa. Lava toda a minha iniquidade. Só tu, Senhor, podes purificar-me dos meus pecados. Agora vejo claro o mal que cometi; tenho consciência de ser pecador. Agi contra ti, Senhor! Foi esse o meu pecado. Pratiquei o que é mau aos teus olhos. Reconheço agora o teu direito de condenar-me. A tua sentença contra mim será inteiramente justa. Sinto a iniquidade dentro de mim desde o nascimento. Já no seio de minha mãe estava contaminado pelo pecado. Essa é a verdade que te agrada encontrar em mim. É a sabedoria que me ensinas pela voz da minha consciência. Purifica-me, Senhor, dos meus pecados e ficarei limpo, tão puro quanto a neve. Faze-me sentir de novo a alegria de viver, E meu abatimento se transformará em ânimo e coragem. Desvia de uma vez o teu olhar do meu pecado, apaga a mancha da minha culpa. Senhor, cria em mim um coração puro e infunde-me maior firmeza. Não me afastes da tua presença, jamais retires de mim teu Santo Espírito. Faze reviver em mim a alegria da tua salvação, Desperta-me novamente uma generosidade maior. Então poderei revelar aos transgressores os teus caminhos, E os pecadores voltarão para ti. Rompe o silêncio que me envolve, pois quero anunciar que és um Deus justo. Tu, Senhor, que me salvaste, ajuda-me a encontrar palavras para cantar o teu louvor. Não me pedes grandes sacrifícios, não te agradam os holocaustos que te ofereço. O sacrifício que tu aceitas é a contrição do espírito. Um coração contrito e humilhado tu não desprezas, Senhor!” (Francisco Teixeira e Carlos Mesters. Rezar os Salmos hoje. São Paulo: Duas Cidades, 1998) Oração: “Ó Senhor, nosso Deus. Tu te humilhaste para que fôssemos exaltados. Tu te tornaste pobre para que pudéssemos ser enriquecidos. Tu vieste a nós para que fôssemos a ti. Tu te fizeste humano, como nós, a fim de que participássemos na
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vida eterna. Tudo isto em virtude de tua graça livre, que não merecemos, e por meio de teu Filho, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (Karl Barth, in: Conselho Mundial de Igrejas. Em favor de todo o povo de Deus. Petrópolis: Vozes, 1981) Oração: “Sou feliz porque tu me aceitas, querido Senhor. Algumas vezes nem sei o que fazer com tanta felicidade. Jogo-me em tua graça como as baleias no oceano. Dizem que o oceano jamais há de secar. Nós sabemos que a tua graça jamais há de falhar. Querido Senhor, a tua graça é a nossa felicidade. Aleluia!” (Oração procedente da África Ocidental, in: Conselho Mundial de Igrejas. Em favor de todo o povo de Deus. Petrópolis: Vozes, 1981)
Bibliografia CERFAUX, L. O Tesouro das Parábolas. São Paulo: Edições Paulinas, 1974. JEREMIAS, J. As Parábolas de Jesus. São Paulo: Edições Paulinas, 1976. STUHLMUELLER, C. P. Evangelho de Lucas. São Paulo: Edições Paulinas, 1975.
23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES MARCOS 12.38-44 1 REIS 17.8-16 HEBREUS 9.24-28
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PRÉDICA: MATEUS 10.26b-33
DIA DA REFORMA 31 OUT 2010
ISAÍAS 45.19-25 FILIPENSES 2.12-13
Gottfried Brakemeier
1
Introdução
“Reforma” é palavra antipática. É sinônimo de mudança, transformação, até mesmo de renovação. Provoca medo nas pessoas satisfeitas com o status quo, acomodadas, detentoras de privilégios e poder. Reformas costumam sofrer resistência. Em nosso país, lembramos a reforma agrária, a reforma fiscal, a reforma da previdência. Interesses estão em jogo. Por isso as reformas emperram, são proteladas ou até canceladas. Foi o que aconteceu também com a reforma da igreja no século XVI. A igreja oficial negou-se a reconhecer a urgência. E quando finalmente reagiu, já era tarde. A divisão da cristandade não mais pôde ser evitada. Sob tal perspectiva, o “Dia da Reforma” é um dia de alerta: importa descobrir a tempo o que precisa ser mudado para evitar irrecuperáveis prejuízos. Isso tanto na igreja como na sociedade. A igreja luterana nasceu de reforma e está comprometida com ela. Proclama as “reformas” que Deus exige. Assim fez o próprio Jesus. Reformou o mundo não tanto pela conclamação ao arrependimento, e sim, muito mais, pela demonstração do amor de Deus à sua criatura. A “lei de Cristo” são o amor, o perdão, a misericórdia. Onde essa se instala, ali o mundo se renova e o reino de Deus chega perto. É o que cumpre pregar. Isso, nesta ocasião, com base no texto de Mateus. As leituras paralelas têm cada qual seu escopo próprio. É difícil reconhecer uma linha convergente entre elas. No texto de Isaías 45, Deus diz através da boca do profeta que não falou em segredo a seu povo. Revelou-se em termos claros, razão pela qual insiste em que seja reconhecido como Deus único e verdadeiro. Já os dois versículos da Carta aos Filipenses alertam quanto à necessidade de trabalhar pela salvação com temor e tremor, embora seja Deus quem opera tanto o querer como o realizar. Convém concentrar a prédica no texto sugerido do Evangelho de Mateus.
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Exegese
Visto que o texto foi tratado por diversas vezes nesta série de auxílios homiléticos (VI, 291; XII, 268; XVIII, 176; XXIV, 203; XXX, 168), a exegese pode ser sucinta. A perícope faz parte do assim chamado “sermão missionário de
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Jesus”. Ainda antes da crucificação e ressurreição, os discípulos são enviados para levar adiante a proclamação de seu mestre. Para tanto recebem a necessária instrução (v. 5). Trata-se de missão perigosa, cheia de riscos, pois o mundo é hostil aos emissários de Deus. O alerta confirmar-se-ia na sorte de Jesus e, posteriormente, na perseguição sofrida pela primeira cristandade. Mas Jesus encoraja seus obreiros. Três vezes lhes diz: “Não temais!” (v. 26, 28, 31). É esse o propósito da perícope, a saber: motivar para a confissão destemida de Jesus Cristo perante todo o mundo. Quem assim faz tem a promessa de que também Jesus há de confessá-lo perante o Pai celeste (v. 32s). Isso porque o evangelho é assunto público. Não permite ser mantido em segredo. Nenhuma oposição aos mensageiros será capaz de impedir que ele venha à luz (v. 26). Consequentemente, os discípulos são encarregados de divulgar o que Jesus lhes disse às escuras (v. 27). Devem tratar da “publicidade” da mensagem cristã. E não há o que temer dos “homens”. Esses podem matar apenas o corpo, não a alma, ou seja, podem destruir a vida física, mas não a pessoa. O temor é devido somente a Deus. Ele, sim, pode aniquilar o ser humano por inteiro (v. 28). Enquanto isso, violência humana é limitada em seus efeitos. Ademais, a providência de Deus protege seus servos. O valor dos mesmos não se compara ao de pássaros. Não obstante, Deus cuida também desses (v. 29). Ora, “vocês valem mais do que muitos passarinhos” (v. 31). Enfim, Deus conhece o ser humano. Em forma de uma imagem extrema, Jesus diz que até mesmo os cabelos do ser humano estão contados. Assim ele consola seus discípulos amedrontados. É verdade que ele os manda como ovelhas para o meio de lobos (v. 16). Mas, no fundo, não há o que temer. Deus é maior do que os perigos deste mundo. Ele cuida de seu pessoal. Portanto é a confiança em Deus que vence o medo. Jesus não ilude seus discípulos com respeito à realidade. Essa é cruel. Ele não diz que as crises são passageiras e que passarão ao largo dos fiéis. Pelo contrário, o testemunho corajoso provocará feroz oposição e poderá redundar em martírio. O mundo não gosta dos profetas. Paradoxalmente, porém, precisa deles para a sua salvação. Eis a razão por que o evangelho não pode permanecer escondido. Deve ser trazido à luz e anunciado abertamente para o bem da criação. Manter o evangelho em sigilo é ato culposo de quem foi enviado por Jesus. Os discípulos e as discípulas são cooperadores com a “reforma salvífica” que Deus promove em seu mundo. Caso deixassem de cumprir sua missão, privariam as pessoas de algo realmente essencial.
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Meditação
Em que se baseia tamanha convicção? O pluralismo religioso da atualidade suspeita das verdades únicas e exclusivas. Com que direito afirmamos que somente nós dispomos da receita para a salvação? O exclusivismo religioso está na raiz de trágicos conflitos no passado e presente. Não será preferível admitir muitos caminhos à salvação? Para quem assim argumenta, o evangelho de Jesus Cristo será apenas uma via entre outras. Por que investir energia em fazê-lo conheci-
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do? Cada qual, assim se sustenta, deverá ter o direito a seu próprio credo, seja muçulmano, cristão, luterano, católico, pentecostal, índio e até mesmo ateu. Pois religião é assunto particular. Somente tolerância poderá garantir a paz na terra, enquanto o fanatismo religioso alimenta o ódio e produz violência. Igreja luterana não é igreja fanática. Pelo contrário, ela repudia qualquer violência praticada em nome de Jesus, o crucificado. O evangelho não constrange as pessoas, não as mete numa camisa-de-força nem lhes tira a responsabilidade própria. É verdade que a igreja cristã pecou em sua história. Usou da força para impor o seu credo. Maltratou pessoas, razão pela qual precisa fazer sincera penitência. Mas seria trágico se essa penitência significasse a renúncia à missão. Jesus continua enviando gente para espalhar o evangelho. Isso sem fanatismo, e todavia com determinação, bem assim como Jesus aqui neste texto explica. Pois nem todos os credos são iguais. Há coisas que são vitais e que não permitem ser declaradas opcionais. Também o relativismo é perigoso. Destrói a normatividade. Joga as pessoas na incerteza e a sociedade no caos. Então cada qual segue a sua própria lei, de “fabricação caseira”, sem se importar com o resto. Jesus foi um inimigo da violação do próximo. Mas não menos foi do “vale-tudo” e do arbítrio individual. O evangelho a ser proclamado publicamente é fundamental para a saúde da humanidade, para a sua sobrevivência, para a sua salvação. Por quê? As razões são muitas. Nós vamos nos ater a apenas uma. Foi aquela que fez eclodir a Reforma do século XVI. Lutero redescobriu o Deus misericordioso, que justifica por graça e por fé. Ninguém diga tratar-se de assunto obsoleto hoje. O apóstolo Paulo resumiu-o em palavras muito simples ao confessar de si: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1Co 15.10). Por acaso não é essa uma das grandes verdades sobre o ser humano? A Reforma do século XVI insistiu na gratuidade que está na origem da vida humana e que lhe assegura o futuro. Quem produziu a si mesmo? Quem é dono de seu próprio destino? Lutero lembrou o ser humano de suas dívidas junto a Deus, que o jogam na dependência do perdão. Simultaneamente, apontou para a misericórdia divina manifesta no Cristo crucificado, que lhe abre novas perspectivas. Gratuidade requer a acolhida pela fé, bem como a gratidão que glorifica Deus por suas maravilhas. O evangelho a ser espalhado aos quatro ventos não é verdade “relativa”, opcional, negociável. Quem tem dúvidas quanto à sua validade não se presta a ser seu mensageiro. Certamente devemos nos envergonhar dos pecados na história da igreja, inclusive a luterana. Mas ai de nós se começarmos a nos envergonhar do próprio evangelho (cf Rm 1.16s). Nesse caso será ridículo dizer ser a missão a nossa paixão. Missão faz-se mediante intrépida confissão da fé. Importa ressaltar, no entanto, que o evangelho é oferta, jamais imposição que fere a liberdade e a dignidade das pessoas a que se destina. Deus respeita sua criatura como parceira, desistindo de violência de qualquer tipo. Missão é convite. Ela quer a adesão voluntária, não obrigatória. Jesus envia seus discípulos sem armas. Isso os torna vulneráveis. Tanto mais importante é a exortação: “Não temais”. Creio dizer nada demais se constato: Falta autoestima aos luteranos neste nosso país. Vivem por demais angustiados, desanimados entre os gigantes do catolicismo, de um lado, e
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do pentecostalismo, de outro. Cabe-nos sair da toca e enfrentar o mundo à nossa volta. É assim que Jesus quer os seus discípulos. As resistências ao evangelho variam de lugar para lugar e de acordo com a época. Quem prega o evangelho em países islâmicos corre risco de vida. Em muitas partes do planeta, cristãos e cristãs sofrem perseguição violenta – incomparavelmente mais do que qualquer outro grupo religioso. Nos países ocidentais, as ameaças são outras. Entre elas menciono a privatização da fé, que a considera um segredo sobre o qual não se fala. Fé quase se transformou num “tabu” intocável. Para outros, fé é incompatível com a ciência. Seria coisa de ontem. O ateísmo moderno está em franca ofensiva, sugerindo a abolição da fé como algo danoso. Ignora-se que a ciência tem seus limites e que também o ateísmo tem seus credos. Ainda outros transformam a fé em objeto de mercado, sobre cuja validade decide a lei da oferta e da procura. Será isso o que Jesus ensina? O Dia da Reforma oferece-se como oportunidade para clarear a missão de igreja cristã. Jesus envia seus discípulos e suas discípulas para ser multiplicadores de sua missão. Em que consiste essa missão? Quais são os entraves e os perigos hoje? E qual é a necessidade que o mundo, particularmente o Brasil de hoje, tem do evangelho? O luteranismo não decreta, ele argumenta. Os poucos elementos apresentados acima poderiam encorajar a trabalhar com o talento luterano. De qualquer maneira, valem as palavras do hino que dizem: “No tempo em que vivemos, imprescindível é que sempre confessemos bem claro a nossa fé...” (HPD 76,4).
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Imagens para a prédica
As melhores imagens para a prédica são sempre as do próprio texto. Isto significa neste caso: cristãos são “propagandistas” do evangelho. É claro que a “propaganda cristã” não vai simplesmente copiar o jeito da mídia secular, embora tenha muito a aprender com ela. De certa forma, também a igreja precisa de marketing. Mas há regras a observar: a forma da mensagem deve corresponder a seu conteúdo. Credibilidade está em jogo. E essa pressupõe a coerência entre palavra e ação. Pregação cristã não pode mentir. Não pode enganar as pessoas. Deve ser honesta. Foi o que a Reforma de M. Lutero quis. Estava comprometida com a verdade do evangelho, com a verdade sobre o ser humano, com a verdade sobre Deus e o mundo. Reside nisso um dos grandes problemas da atualidade. Cultuam-se ilusões, a exemplo da felicidade através do consumo, da paz através da força militar, do paraíso na terra através da tecnologia. A verdade costuma ser incômoda. A prédica poderia ilustrar isso num exemplo concreto. Para tanto sugerimos o da “gratuidade” em termos acima expostos. O ser humano é dependente do que Deus dá. Vive da graça que lhe é concedida, seja em recursos naturais, seja em perdão de seus erros, seja em forças para vencer as adversidades. Sem a fé em Deus, o ser humano torna-se imensamente pobre. Enquanto isso, a descoberta da graça de Deus vai produzir gratidão, alegria e louvor a Deus. Trata-se de verdade, não de opinião, razão pela qual importa fazer o que Jesus diz, a saber: fazer público o evangelho.
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Missão bem-sucedida exige a convicção das pessoas que são os seus agentes. Estamos convictos da causa luterana, evangélica, em nosso país? Por acaso já não temos mais palavra de peso a dizer? Será verdade que o evangelho perdeu a cotação na bolsa de valores? Já não mais precisamos de reformas? O texto do Evangelho de Mateus quer encorajar para uma missão algo mais apaixonada. Jesus rejeita a fúria religiosa. Mas ele busca gente que percebeu o valor do evangelho e que se empenha por sua divulgação. Uma prédica no Dia da Reforma deveria abster-se de polêmica barata. Não temos motivos para rebaixar os nossos irmãos e as nossas irmãs cristãs. Se for necessário discordar – e em muitos casos não podemos evitá-lo –, façamo-lo com amor. Importa anunciar com vigor o legado de Jesus Cristo, que veio para salvar, não para condenar. Isso num mundo que se torna cada vez mais secular e multirreligioso.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Senhor, nosso Deus! Comemoramos hoje a Reforma da Igreja, ocorrida há quase quinhentos anos. Por ela agradecemos! Pedimos-te, porém, que nos concedas a humildade de reconhecer que também nós individualmente necessitamos de reforma. Temos defeitos a corrigir. Fracassamos em nossos bons propósitos. Confessamos-te os nossos pecados e pedimos perdão por eles. Ajuda-nos a cumprir melhor a missão da qual nos incumbiste. Somos tuas testemunhas. Afasta de nós o temor de confessá-lo publicamente e de agir conforme os teus preceitos. Tem compaixão de nós, Senhor! Oração de coleta: Senhor, o Dia da Reforma é para nós um dia de alegria. Ele nos lembra que tu mesmo, através de pessoas destemidas, corriges o curso de tua igreja. Assim aconteceu com a reforma de Lutero. Mas ela não foi a única. Sempre de novo a tua palavra reorientou a tua igreja. É o que te pedimos também para os nossos dias e, em particular, para a IECLB. Dá-nos o espírito crítico para ver o que precisa ser mudado. Reformas requerem coragem, percepção do evangelho, bom senso. Ajuda-nos a ser de fato o que devemos ser, a saber: “igreja da reforma”. Amém. Intercessão: Senhor, nós intercedemos em favor da nossa igreja, a IECLB, suas comunidades, suas instituições, seus órgãos diretivos. Somos uma igreja pequena, modesta e, todavia, com uma grande vocação. Somos igreja “evangélica”, comprometida com o evangelho de Jesus Cristo. Nós te pedimos: queiras fortalecer a consciência evangélica em cada um dos membros para que sejam representantes teus onde quer que estejam. Dá força ao testemunho de leigos e obreiros, de leigas e obreiras, fazendo com que a luz do evangelho brilhe forte em nossa sociedade. Juntamos nossa prece à de igrejas-irmãs, seja em nossa cidade, no Brasil, seja no
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exterior. Nossa oração inclui a família cristã em todo o mundo. Queiras fazer com que a semente de tua palavra traga ricos frutos. Lembramo-nos, em especial, daquelas igrejas que sofrem perseguição, principalmente nos países islâmicos. Dálhes amparo e protege-as contra todo mal. Pedimos não menos em favor do mundo, de nosso país, de nosso estado e município. Sentimos os efeitos das múltiplas crises que nos afetam e ficamos assustados com os prognósticos sombrios que nos são trazidos pelos noticiários. Faze com que as autoridades, bem como os cidadãos e as cidadãs reconheçam as exigências do momento e promovam as reformas que se fizerem necessárias. Acaba com a corrupção em nosso país, com os escândalos, com a injustiça social. Pedimos-te por paz em nosso mundo. Manifestamos o mesmo desejo em relação à nossa cidade. Afasta de nós a calamidade e o crime, fazendo com que vivamos em boa vizinhança. Concedenos condições climáticas favoráveis para que não falte o pão de cada dia. Consola as pessoas enlutadas, desesperadas, enfermas. Assiste-as em sua dor, fortalecendo-lhes a fé e a esperança. Faça crescer em nós e em todo o mundo o amor que resolve a maioria dos problemas humanos. Senhor, nós nos dirigimos como filhos e filhas a seu pai. Multiplica sobre nós a tua bênção. Amém.
Bibliografia DIETZFELBINGER, Wolfgang. Mateus 21.1-9. Hören und Fragen. Eine Predigthilfe. Neukirchen-Vluyn: Neukirchner Verlag, v. 1, 1978, p. 1s. SCHWEIZER, Eduard. Das Evangelium nach Markus. Das Neue Testament Deutsch, v. 1, Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1967.
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PRÉDICA: ISAÍAS 25.1,(6-7) 8-9
DIA DE FINADOS 02 NOV 2010
JOÃO 11.1-5,17-21 ROMANOS 8.31-39
Vera Regina Waskow
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Introdução
Inicialmente, vale dizer que esse texto já foi abordado em outras edições do Proclamar Libertação, como por exemplo nos volumes XXI, p. 258 e XXXI, p. 128 e ainda no volume XIX, p. 114, onde são trabalhados somente os versículos 6-9. Os textos anteriores foram trabalhados numa ótica diferente, pois estavam previstos dois deles para o Domingo da Páscoa e outro para o tempo após Pentecostes. É a primeira vez que esse texto é trabalhado sob a ótica do Dia de Finados. A delimitação sugerida é Isaías 25.1,8-9. Propositalmente, os versículos 6 e 7 foram aqui incluídos devido à comparação feita entre o banquete e a Ceia do Senhor, sugerindo inclusive que ela seja celebrada. Para o aporte exegético farei uso das edições anteriores, partindo do pressuposto de que nem todos têm a coleção. O livro de Isaías está dividido em três grandes partes: Primeiro Isaías – 1-39; Segundo Isaías – 40-55; Terceiro Isaías – 56-66. O texto em estudo encontra-se dentro do primeiro bloco, o Primeiro Isaías. Isaías e sua profecia estão localizados em Jerusalém. Alguns textos evidenciam uma relação entre o profeta e círculos de poder e do templo (1.21, 6; 8.16-18; 14.32). O profeta não está de acordo com as instituições de poder, mas sabe colocar-se a partir da realidade que vive. O profeta tem como objetivo resgatar a esperança de um povo pobre e sofrido e transformar o templo em abrigo dos pobres (14,32), lugar sem armas, espaço de crianças (cap.11). O livro de Isaías aponta para a reconstrução da esperança nos momentos mais difíceis desse povo. Essa esperança está carregada de uma linguagem simbólica, enigmática, mas tem como meta clara a mensagem da salvação. Deus caminha com o povo. Deus salva seu povo. No texto do Evangelho de João, temos a história da morte de Lázaro e a palavra de Jesus de que essa realidade, a morte, não é final, mas que isso está acontecendo para que um poder glorioso se revele. Na Carta de Paulo aos Romanos, temos a maior das confissões de fé de que “nada nos pode separar do amor de Deus.... nem o mundo lá de cima, nem o mundo lá de baixo”. Assim amparados e sustentados pelo amor de Deus, que nem mesmo a morte afasta de nós, somos capazes de enxugar toda lágrima de nossos olhos e seguir a caminhada em meio às diferentes dores e dificuldades que a vida nos apresenta.
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Da exegese à mensagem
Isaías 25 é uma parte do material que ficou conhecido como o “Apocalipse de Isaías” (24-27). Deus intervém não mais numa realidade específica, mas intervém na terra, no mundo como um todo. O descontentamento com os poderes vigentes está revelado na iminente vontade de que Deus mesmo venha reinar (24.21-23). Todo o sofrimento do povo precisa ter fim, e, sendo assim, é anunciada a vinda do reino de Deus com um grande banquete. A delimitação para esse texto inicia no versículo 1 do capítulo 25, onde temos uma confissão de fé: “Ó Senhor, tu és o meu Deus...” Quem assim confessa consegue perceber que esse Deus é quem “prepara o banquete, dissipa a nuvem de tristeza e choro, enxuga toda a lágrima e mudará a face do mundo”. Deus reinará. Esse reinado acontece com atitudes bem práticas e concretas da parte de Deus: 1) Deus prepara uma mesa farta para todas as pessoas (v. 6). 2) Ele termina com toda dor, sofrimento, choro, luto e morte (v. 7-8). Termina com a dor de todos os povos (v. 7), de cada um individualmente (v. 8a) e a dor de Israel em especial. 3) A reação: Este é o nosso Deus, nossa esperança, motivo de alegria, de festa (v. 9). O banquete no monte Sião (v. 6) assinala uma atitude concreta de Deus, ou seja, o fim da fome e, mais, para esse banquete estão convidadas todas as pessoas. O privilégio de dividir a mesa com Deus, de participar de sua comunhão de fartarse com o que ele tem a nos oferecer, não é mais de alguns poucos escolhidos, mas um direito de todos os povos. Assim todo povo sendo alimentado pelo mesmo Deus gera paz. Se dessa mesa todos saem saciados, reconhecendo que Deus provê e sustenta, não há mais como justificar atitudes que causem dor e sofrimento. Sendo assim, não é importante o que levamos para o banquete, mas o que Deus tem a nos oferecer, portanto o que levamos do banquete para nossa vida. A comunidade de Isaías reconhecia que tudo o que possuía vinha das mãos de Deus (26.12). A imagem do banquete, da mesa farta, também é empregada por Jesus em suas parábolas (Mt. 22.1-10; Lc.14.16-24). Os sinais desse grande banquete já experimentamos em Cristo, quando ele mesmo senta-se à mesa com publicanos e pecadores e permite que mulheres e crianças estejam ao seu redor. O fim da dor (v. 7-8) – A comunidade estava completamente inconformada com o sofrimento, a falta de liberdade, os altos impostos. O poder helenista explorador tirava o pouco da mesa do povo, causando miséria, causando dor e morte. Essa comunidade descreve o alcance do reinado de Deus. Quando a soberania pertencer a Deus, não haverá mais guerra, mais lutas, portanto não haverá mortes, nem sofrimento, nem dor. O reinado de Deus unifica, traz a justiça e a paz. Se até aqui o choro, o clamor das pessoas e suas dores nunca haviam sido ouvidos, agora Deus mesmo pega cada um, cada uma em seus braços e acolhe sua dor, enxuga suas lágrimas. Aqui vemos revelado o rosto materno de Deus, que se importa com a dor e o sentimento de cada pessoa. A reação (v. 9) – Essa comunidade que acredita na soberania de Deus, em seu poder e em seu amor já o reconhece em sua caminhada diária e confessa: “Ó
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Senhor, tu és o meu Deus. Eu te adorarei e louvarei o teu nome, pois tens feito coisas maravilhosas....” (v. 1). Ao final, no grande banquete, essa comunidade dirá: “Ele é o nosso Deus. Nós pusemos a nossa esperança nele. Ele nos salvou. Ele é o Senhor, e nós confiamos nele. Vamos cantar e nos alegrar porque ele nos socorreu” (v. 9). Dessa forma, essa comunidade de fé descobriu uma maneira de vencer suas dificuldades, suas dores, preservando sua liberdade diante das amarras do mundo. Aqueles que se diziam donos da terra, donos de tudo, não poderiam ser levados a sério, pois a última palavra é de Deus. O texto de Isaías é um canto à liberdade. É uma grandiosa confissão de fé, que nasce de uma confissão (v. 1) e culmina em uma confissão (v. 9): “Ó Senhor, tu és meu Deus” (v. 1). Esse é o ponto de partida para a compreensão de todo o restante do trecho. Se não cremos que Deus é nosso Senhor, também não creremos que ele seja capaz de dissipar qualquer nuvem de dor, tristeza e choro, nem mesmo enxugar qualquer lágrima. Onde está depositada nossa fé? Em quem cremos? Em que cremos? Diante das dores e das dificuldades que temos enfrentado, qual tem sido nossa confissão de fé? Muitas vezes, muito antes de dizermos: “Ó Senhor, tu és meu Deus”, dizemos: “Deus me abandonou”. Quais são as atitudes de uma comunidade que tem Deus como seu senhor? São atitudes muito mais concretas, confiantes, carregadas de certezas e de amor. Assim como aquele grupo de Isaías, a comunidade passa a testemunhar e viver sustentada na verdade de que Deus é o Senhor da história. A metáfora do banquete escatológico revela a carência de um povo e o desejo de ver, juntamente com Deus, sua fome saciada. Qual é a nossa carência? Qual é o nosso desejo? Quais são os motivos que nos provocam lágrimas e nos trazem dor e choro? As lágrimas nos ofuscam a visão, embaraçam nosso olhar. Para superarmos nossas dores, precisamos conhêce-las; para que nossas lágrimas cessem, precisamos descobrir sua causa. Nesse processo não estamos sozinhos. Pela graça de Deus somos alcançados em nossa dor, e ele mesmo dissipa todo medo, toda tristeza e nos auxilia na caminhada diária. Somos assim chamados a testemunhar o amor de Deus, amor esse que se revela concretamente em nossa vida.
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Imagens para a prédica
Uma refeição – a imagem da mesa posta. Lembro-me de minha infância. Tínhamos uma mesa grande. Éramos onze pessoas ao redor dela. Era um momento muito especial. Todas as refeições eram feitas assim ao redor do mesa. Cada um tinha o seu lugar, e se fecho os olhos, vejo cada pessoa no seu lugar. As pessoas reunidas ao redor da mesa, compartilhávamos alegrias e preocupações. Sabíamos quando alguém não se sentia bem e perdia o apetite e também sabíamos quando alguém estava com muita fome. Na comunhão de mesa nos dávamos a conhecer, compartilhávamos nossa vida e o que havia acontecia até ali ou mesmo ao longo do dia. Essa comunhão experimento, em parte, hoje na Ceia do Senhor, mas che-
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gará o dia em que Deus mesmo nos reunirá e nos preparará um banquete, uma gostosa refeição. Lágrimas? O que elas expressam? Por que choramos ao nos despedir de alguém aqui nesse lugar? O que não foi dito? O que não foi vivido? Quais os nossos medos? Qual é, afinal, a nossa dor e o real motivo de nossas lágrimas? Penso que essas perguntas podem ser impactantes, mas importantes para que se inicie um processo de autoconhecimento. As lágrimas revelam que estamos sentindo algo de maneira mais forte, mais profunda, mas que sentimento é esse?
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Subsídios litúrgicos
O culto do Dia de Finados é celebrado, em muitas comunidades, no cemitério. Ainda assim, tendo em vista o texto, a imagem do banquete, sugiro que a Ceia do Senhor seja celebrada. Ela nos indica o centro da mensagem: Deus vem a nós, também aqui, neste lugar, em meio à nossa dor, à nossa saudade, vem nos alimentar, conceder-nos forças, ele enxuga de nossos olhos toda lágrima e nos convida a prosseguir. Confissão de pecados (baseado no Salmo 25): Ó Senhor Deus, a ti dirijo a minha oração. Meu Deus, eu confio em ti. Salva-me da vergonha dos meus pecados, não permita que ninguém se alegre com as minhas falhas. Ó Senhor, ensina-me os teus caminhos! Faze com que eu os conheça bem. Ensina-me a viver de acordo com a tua verdade, pois tu és o meu Deus, o meu Salvador. Eu sempre confio em ti. Ó Senhor, lembra da tua bondade e do teu amor, que tens mostrado desde os tempos antigos. Esquece os pecados e os erros da minha mocidade. Por causa do teu amor e da tua bondade, lembra de mim, ó Senhor Deus! O Senhor é justo e bom e por isso mostra aos pecadores o caminho que devem seguir. Ó Deus, olha para mim e tem pena de mim, pois estou sendo perseguido e não tenho proteção! Livra o meu coração de todas as aflições e tira-me de todas as dificuldades. Vê as minhas tristezas e sofrimentos e perdoa todos os meus pecados. Que a minha honestidade e sinceridade me protejam porque confio em ti! Ó Deus, salva o teu povo de todas as suas dificuldades! Isso te pedimos por Cristo nosso Senhor, amém. Absolvição: Jesus Cristo disse à mulher: “Teus pecados estão perdoados” (Lc.7.48). Assim como Jesus anunciou nova vida à mulher que lavou seus pés com perfume, ele também perdoa nossos pecados e anuncia nova vida a cada um, a cada uma de nós. E convida-nos a seguir caminhando confiantes de sua presença. Confiantes dessa certeza, eu anuncio o perdão dos pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
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Kyrie eleison: (A comunidade participa trazendo seu motivo de choro, ou da comunidade, ou alguma situação.) São muitos os motivos pelos quais as pessoas choram. Neste momento em todo o mundo há muito choro, e assim nos colocamos diante de Deus pedindo que ele ouça o clamor e o choro de seu povo. Clamamos pelas pessoas que choram por..... (medo, fome, saudades, por sofrer violência, por dor, falta de trabalho, por sentimentos de ódio...) Senhor, a ti pedimos, ouve nosso clamor, pois isso pedimos cantando: Tem, Senhor, piedade. Glória: Por Deus nos enxugar toda lágrima, por nos acolher em nossa dor, em nossa fragilidade, por todo o seu amor é que lhe rendemos graças cantando: Oração eucarística: (Oração eucarística conforme Livro de Culto da IECLB, p.318. Fiz algumas adaptações utilizando os textos do dia.) Deus criador e mantenedor da vida! Ouviste o clamor dos escravos hebreus na terra estrangeira. Ouviste o clamor de Jó em meio à sua enfermidade. Ouviste o clamor dos profetas em seu receio de anunciar e denunciar. Ouviste e ouves quem clama do meio da dor. Enxugas de nossos olhos toda lágrima. Por isso és Deus santo. E nada, nem mesmo a maior tristeza e dor nos podem separar de teu amor. E é esse o motivo que também nos faz cantar hoje: (Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 364) Santo, santo, santo. Cantamos tua santidade e te damos graças, Deus misericordioso, pois em Jesus vieste ao nosso encontro. Ele ouviu o clamor das pessoas malvistas. Sentou e comeu com as pessoas desprezadas. Parou e foi ao encontro do clamor de gente sofrida como Marta e Maria, que choravam a morte de Lázaro. Esses todos são motivos que nos fazem confiar na tua presença viva hoje, especialmente quando clamamos. É essa presença que celebramos ao redor desta mesa, pois (segue a Narrativa da Instituição). Anunciamos, Jesus, a tua morte. E proclamamos tua ressurreição. Vem, Senhor Jesus! Envia o Espírito Santo, Espírito que dá confiança e coragem para sair do silêncio e clamar em alta voz: Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. A ti, trino Deus, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amém.
Bibliografia LIVRO DE CULTO – IECLB PORATH, Renatus. 21º Domingo após Pentecostes. In: SCHNEIDER, Nélio; DEIFELT, Wanda (Org.) Proclamar Libertação, v. 21. São Leopoldo: Sinodal, 1995. p. 258-263.
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SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1994. 395p. STRÖHER, Marga Janete. Domingo da Páscoa. In: HOEFELMANN, Verner; SILVA, João Arthur Müller da (Org.). Proclamar Libertação, v. 31. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p. 128-132.
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PRÉDICA: LUCAS 20.27-38
24 24ºº DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JÓ 19.23-27a 2 TESSALONICENSES 2.1-5,13-17
07 NOV 2010
Claiton André Kunz
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Introdução
Parece que a incredulidade é um pecado muito antigo; e não é “ um privilégio” dos nossos dias. Mesmo entre os descendentes de Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Samuel, Davi e os profetas existiam judeus incrédulos ousados. O texto de hoje diz que se dirigiram a nosso Senhor “alguns dos saduceus, homens que dizem não haver ressurreição”. Não é raro encontrar na atualidade pessoas que desacreditam totalmente das verdades bíblicas reveladas por Deus sobre diversos assuntos, inclusive pessoas dos círculos eclesiásticos. Alguns talvez até não manifestem verbalmente sua incredulidade, mas vivem como quem não acredita na revelação de Deus através da sua Palavra. Nosso consolo é que, mesmo com o passar dos anos, a verdade revelada de Deus sempre prevalecerá. Mesmo que surjam incrédulos ousados como Hobbes, Voltaire e Paine, que procuram desacreditar a revelação divina, há na palavra de Deus um poder inerente que a mantém viva. Os incrédulos desaparecem assim como os saduceus, mas as grandes evidências do cristianismo permanecem, e nem mesmo as portas do inferno podem prevalecer contra a verdade de Cristo (Mt 16.18). No relato de Lucas (20.27-40), os saduceus tentam por meio de uma pergunta ridicularizar a fé na ressurreição e a pessoa de Jesus (v. 27-33). Entretanto, Jesus soluciona essa dificuldade levando a questão para uma esfera superior (v. 34-36). O Senhor fundamenta a ressurreição dos mortos a partir das Escrituras (v. 37-38), e os escribas terminam por elogiar a sabedoria de Jesus ao responder essa questão difícil (v. 39s).
2
Exegese
Depois que os fariseus, que eram versados nas Escrituras, haviam sido devidamente despachados pelo Senhor Jesus (Lc 20.20-26), também os saduceus fizeram a sua tentativa de lhe propor uma pergunta capciosa. Até aqui os saduceus não haviam se posicionado tão ferrenhamente contra Jesus, assim como os fariseus já faziam desde o início do ministério.
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Quem eram os saduceus? Embora a origem do nome seja muito debatida, a ideia mais provável é que se refira aos simpatizantes dos zadoquitas, sacerdotes descendentes de Zadoque, o sumo sacerdote no tempo de Davi e Salomão. Os saduceus eram um influente grupo judaico, na maioria das vezes encontrado em oposição política e teológica em relação aos fariseus. Esse grupo era formado geralmente pelas pessoas mais ricas, mercadores prósperos e classe aristocrata da sociedade judaica. Muitos sacerdotes também faziam parte do grupo dos saduceus, e esses por muitos séculos mantiveram o controle do ofício sacerdotal. Os saduceus aceitavam somente a lei mosaica (o Pentateuco) e rejeitavam os profetas, os escritos e a lei oral. Eles não criam na imortalidade da alma e em nenhum tipo de vida após a morte. Também rejeitavam a doutrina dos anjos e não viam nenhum sentido na ressurreição do corpo (At 23.8). Como negavam a vida após a morte, tornavam-se facilmente materialistas e buscavam tirar o maior proveito dessa vida através da vida política e material. O homem é livre para fazer o seu próprio destino, mas apenas no contexto de uma “vida presente”. São alguns desses saduceus que chegam a Jesus com uma situação sobre a qual querem a sua opinião: “Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se morrer o irmão de alguém, sendo aquele casado e não deixando filhos, seu irmão deve casar com a viúva e suscitar descendência ao falecido. Ora, havia sete irmãos: o primeiro casou e morreu sem filhos; o segundo e o terceiro também desposaram a viúva; igualmente os sete não tiveram filhos e morreram. Por fim, morreu também a mulher. Esta mulher, pois, no dia da ressurreição, de qual deles será esposa? Porque os sete a desposaram” (v. 28-33). Com certeza, esse era um caso hipotético, embora pudesse ocorrer que uma viúva se casasse com vários cunhados. Na pergunta, os saduceus lançam mão de uma antiga lei mosaica: a lei do levirato. A morte do marido sempre trazia consequências para uma viúva. Se ela não tivesse filhos, esperava-se que ela continuasse a viver com a família do marido. De acordo com a lei do levirato, ela devia casar-se com um dos irmãos do marido ou com um parente próximo. Se esses homens não estivessem disponíveis, ela estava livre para casar-se fora do clã (Rt 1.9). Isso acontecia porque para os israelitas era essencial que o homem tivesse algum herdeiro. A preservação da herança da propriedade que Deus lhes havia dado dependia dos descendentes (Êx 15.17-18; Sl 127; 128). Para resolver o problema da situação da morte de um marido que ainda não tivesse filhos, deu-se início à prática do levirato. É mencionado pela primeira vez em conexão com a família de Judá (Gn 38.8). Mas, mais tarde, veio a fazer parte da lei de Moisés (Dt 25.5-10). A lei do levirato dizia que, quando uma mulher ficava viúva, o irmão do marido morto tinha de casar-se com ela. Os filhos desse casamento tornavam-se herdeiros do irmão falecido, a fim de que “o nome deste não se apague em Israel” (Dt 25.6). Se um homem recusava a casar-se com a cunhada viúva, ele sofria o desprezo público (Dt 25.7-10; Rt 4.1-7). No caso hipotético apresentado pelos saduceus a Jesus, os sete irmãos não poderiam ter a mesma mulher na ressurreição. Concluíam então que a doutrina da
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ressurreição estava em conflito com a lei de Moisés e, portanto, contrária ao ensino bíblico. Jesus responde aos saduceus com uma minuciosa elaboração de pensamento. Lucas acaba não mencionando o belo início da resposta de Jesus, que é citado por Mateus e Marcos, no qual o Mestre desmascarou a fonte da incredulidade equivocada dos saduceus. Marcos relata que Jesus inicia sua resposta dizendo: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus?” (Mc 12.24). Jesus afirma então que os filhos deste mundo se casam e se dão em casamento, mas os que alcançarão a era vindoura e a ressurreição não farão mais isso, pois não podem mais morrer, visto que são filhos de Deus e da ressurreição (v. 3436). Aos filhos deste mundo Deus instituiu o matrimônio para a procriação e preservação da espécie humana. Mas, na era vindoura e na ressurreição, isso não será mais necessário. A resposta mais incisiva de Jesus vem de um trecho de Moisés. Ele poderia ter usado o texto de Daniel 12.2 ou então Jó 19.25. Mas os saduceus aceitam única e exclusivamente os escritos de Moisés. Portanto Jesus cita um texto do livro de Êxodo 3.2,6, no qual Moisés afirma que o Senhor é o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. E arremata: “Deus não é um Deus de mortos, e sim de vivos” (Lc 20.38). Se Deus designa a si mesmo como Deus dos patriarcas que há muito haviam falecido, eles devem estar vivos também após a morte, ou como diz o texto, “todos vivem para ele” (v. 38). A partir do Pentateuco de Moisés, Jesus refutou a opinião dos saduceus, porque tentavam negar a ressurreição a partir da lei de Moisés.
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Meditação
Podemos pensar nesse texto a partir do tema da realidade da ressurreição dos mortos, tendo em vista ser esse o assunto proposto pelos saduceus e esclarecido pelo Senhor Jesus. Portanto poderíamos esboçar a meditação da seguinte forma: 3.1 – A ressurreição é real apesar da incredulidade de muitos A ressurreição dos mortos faz parte do corpo de doutrinas do cristianismo. Assim como os saduceus duvidaram dessa verdade e procuraram ridicularizar Jesus e os que criam nessa doutrina, muitas pessoas em nossos dias não creem na ressurreição dos mortos e vivem como se não existisse nada após esta vida terrena. O apóstolo Paulo também enfrentou a questão da incredulidade na ressurreição quando escreve uma de suas cartas à igreja em Corinto. O problema era tão grande, que ele dedica um capítulo completo a essa questão (1Co 15). Chega a afirmar que, se não cremos que há ressurreição de mortos, então também Cristo não teria ressuscitado, e dessa forma toda a nossa pregação e nossa fé são vãs (1Co 15.13-14). Entretanto, Cristo ressuscitou, e sua ressurreição é a primícia dos que dormem e a garantia de que um dia nós também ressuscitaremos (1Co 15.22-23).
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Paulo afirma ainda que, se nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens (1Co 15.19). 3.2 – A ressurreição é real porque faz parte da era vindoura Na resposta de Jesus aos saduceus, ele faz um contraste entre essa era e a era vindoura. Afirma claramente que algumas circunstâncias terrenas não persistem no além, como casar e dar-se em casamento. Isso mostra que há uma grande diferença naquilo que nos aguarda no futuro. A principal diferença, de acordo com o texto, é que na era vindoura “as pessoas não podem mais morrer”, porque são filhos da ressurreição (Lc 20.36). Na ressurreição de Lázaro, relatada por João, Jesus afirma claramente: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá eternamente” (Jo 11.25-26). Também o apóstolo Paulo declara que, quando Cristo “descerá dos céus, os mortos em Cristo ressuscitarão” e estarão para sempre com o Senhor (2Ts 4.13-18). 3.3 – A ressurreição é real porque Deus é um Deus de vivos Jesus poderia ter utilizado diferentes textos para deixar claro aos saduceus a realidade da ressurreição. Mas como eles aceitavam somente o Pentateuco, escolheu um texto-chave para isso. Buscou a passagem na qual Deus se revela diretamente a Moisés, revelando inclusive seu nome, com tudo quanto ele significa (Êx 3.1-6). Essa passagem é de importância central para os judeus e para o cristianismo. Nela, Deus revela-se como sendo o Deus dos patriarcas, que já havia muito estavam mortos quando essas palavras foram pronunciadas. Seria absurdo afirmar que Deus é um Deus de pessoas mortas, que já não existem mais. Pois toda a vida, seja aqui, ou seja no além, consiste em relacionar-se com Deus. A morte pode até colocar fim à existência física, mas não a um relacionamento que é eterno por natureza. Nós podemos até perder amigos por causa da morte. Mas Deus não! Lucas acrescenta algumas palavras que não estão no relato dos outros evangelistas. Ele afirma: “porque para ele todos vivem” (v. 38). Para nós podem até estar mortos, mas não para Deus. A morte não pode romper o relacionamento com Deus.
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Imagens para a prédica
Algumas histórias podem ajudar a ilustrar a mensagem sobre a ressurreição: • Se a Páscoa disser qualquer coisa para nós, é que Jesus estará sempre conosco. As pirâmides do Egito são famosas porque abrigaram os corpos mumificados dos antigos reis do Egito. A Catedral de Westminster em Londres é reverenciada porque lá jazem os corpos da nobreza e de britânicos famosos. O mausoléu de Maomé é notável pelo caixão de pedra e os ossos que contém. O cemitério de
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Arlington em Washington nos EUA é venerado como o lugar de descanso de muitos americanos famosos. Mas o sepulcro de Jesus é famoso justamente porque está vazio. (Don Emmitte) • Quando Abraão levou Isaque para o alto da montanha, o menino indagou o pai: “Onde está o cordeiro?” E Abraão replicou: “Deus proverá”. Mas, apesar disso, ele continuou com o processo: amarrou o filho, colocou-o sobre o altar, pegou a faca, preparando-se para matá-lo e depois queimá-lo em holocausto (Gn 22.7-10). Era preciso ter uma fé muito grande para crer que o filho iria ressurgir das cinzas. Entretanto ele realmente confiava que Deus iria ressuscitá-lo (Hb 11.19). Abraão não enxergava apenas a situação do momento; via o que existia além dela. Então ele estava olhando para a morte do filho com a perspectiva da ressurreição. É exatamente isso que Jesus requer de nós: enxergar a vida em meio à morte, porque ele derrotou a morte. Ele ressuscitou. (Revista Mensagem da Cruz) • Contou um pastor que foi visitar um irmão já quase em estado de coma. Toda a família estava reunida junto ao leito. Desejou orar e citou a oração do rei Ezequias, pela qual alcançou a graça de viver mais quinze anos. “Só quinze anos?”, murmurou o irmão enfermo. Viver, viver para sempre, eis a aspiração de todos. (Sebastião Angélico de Souza) • Fui convidado para tomar o café da manhã com Konrad Adenauer antes dele se afastar do cargo de chanceler da Alemanha. Quando cheguei, esperava encontrar um homem forte e normal, capaz de ficar embaraçado se eu lhe falasse de religião. Após os cumprimentos, o chanceler virou-se para mim, repentinamente, e perguntou: “Sr. Graham, qual é a coisa mais importante do mundo?” Antes que eu respondesse, ele tinha pronta a sua resposta: “A ressurreição de Jesus Cristo. Se Jesus Cristo está vivo, então resta uma esperança para o mundo. Se Jesus Cristo está no túmulo, não vislumbro esperança alguma no horizonte”. E voltou a me surpreender ao dizer que tinha a ressurreição de Cristo como um dos fatos mais seguros da história. Disse ele ainda: “Quando deixar o cargo, pretendo passar o resto de minha vida reunindo provas científicas da ressurreição de Jesus Cristo”. Foi o fato da ressurreição de Cristo que levou os discípulos a trabalhar como revolucionários apaixonados e pioneiros na transformação do mundo do seu tempo. Eles pregavam que Cristo estava vivo. Essa deve ser a nossa mensagem, não só na Páscoa ou no Natal, mas em todos os dias do ano. (Billy Graham) • Uma senhora pegou um táxi em direção à sua igreja. O taxista, por incrível que pareça, não disse quase nada durante a maioria do percurso, até que a senhora quis fazer-lhe uma pergunta e tocou no seu ombro. Ele gritou, perdeu o controle do carro e, por pouco, não provocou um terrível acidente. Com o carro sobre a calçada, a senhora virou-se para o taxista e disse: – Francamente, eu não sabia que você se assustaria tanto com um toque no ombro! – Não me leve a mal, senhora... É que esse é o meu primeiro dia como taxista. – E o que o senhor fazia antes disso? – perguntou ela. – Eu fui motorista de carro funerário por 25 anos.
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5 Subsídios litúrgicos Oração: Senhor Deus, ajuda-nos a entender a realidade da ressurreição dos mortos. Ajuda-nos a crer nessa verdade revelada na tua Palavra. Ajuda-nos a ter a certeza de que ressuscitaremos para estar eternamente contigo. Amém.
Bibliografia CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia da Bíblia: teologia e filosofia. 5.ed. São Paulo: Hagnos, 2001. 6 vol. MORRIS, Leon L. Lucas: introdução e comentário. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1996. 330 p. RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. Trad. Werner Fuchs. Curitiba: Esperança, 2005. 480 p. TENNEY, M. C.; PACKER, J. I.; WHITE Jr, W. Vida cotidiana nos tempos bíblicos. São Paulo: Vida, 1982. 191 p.
25º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 2 TESSALONICENSES 3.6-13 MALAQUIAS 4.1-2a LUCAS 21.5-19
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PRÉDICA: LUCAS 23.33-43
DOMINGO CRISTO REI
JEREMIAS 23.1-6 COLOSSENSES 1.11-20
21 NOV 2010
Iara Müller
1
Introdução
O Domingo Cristo Rei é o último domingo antes do Advento. Todo Advento nós aguardamos ansiosamente o nascimento do grande Rei, que vem como menino frágil. E neste texto de Lucas 23 é a crucificação desse mesmo Rei que está em cena. Que coisa extraordinária que em nossos atuais dias, em que vale quem tem muito poder, vale quem aparentemente tem dinheiro, em que as aparências é que comandam, ser um rei significaria ser e ter tudo, ser servido do bom e do melhor. Um texto desses nos chega chocando, questionando, fazendo-nos ver a vida pelo revés. Esse Cristo é um Rei absolutamente diferente. Ele está humilhado na cruz, mal vestido, constrangido, suas palavras aparentemente foram confundidas, seus amigos o abandonaram, tem sede e é mal servido, é tentado a mostrar sua divindade, que parece que falhou diante de todos e não há alguém por ele. Somente dois malfeitores estão a seu lado, pendurados igualmente na cruz. Qual é sua realeza? Onde reside seu poder? Qual é a sua glória? A promessa feita lá em Jeremias 23.1-6, que é um dos textos de leitura previstos para este domingo, também cai por terra, porque lá foi prometido um Rei justo, que praticaria justiça, apascentaria e juntaria as ovelhas, trazendo segurança para Israel. E agora, ali na cruz, jaz um Rei impotente. Que pela forma de morrer espalha mais do que ajunta as suas ovelhas. O projeto desse Rei parece que ruiu e assim a esperança de seus seguidores. Colossenses 1.11-20, no entanto, nos diz que nele habita toda a plenitude, e através do sangue da sua cruz ele reconcilia todas as coisas que estão no céu e na terra. Como podemos inverter essa história de desgraça de crucificação constrangedora em graça e chegar a entender as palavras da Carta aos Colossenses?
2
Exegese
Pensa-se que Lucas foi o médico que acompanhou Paulo em algumas de suas viagens missionárias. Ele se apega a três fontes para escrever: o Evangelho segundo Marcos, a fonte Q e suas próprias vivências, enfatizando o amor de Deus
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Domingo Cristo Rei
pelos pobres, aqueles em desvantagem, pecadores e doentes. Também se sabe que mulheres têm mais espaço e ação nos seus relatos. V. 33 – (resumo até aqui dos versículos anteriores) Jesus foi traído, preso, debochado, recebeu sua sentença de morte. Além de Jesus, Simão Cirineu (o que carrega a cruz), dois criminosos e alguns policiais, uma multidão e mulheres caminham para o lugar chamado A Caveira. Ali ele é crucificado com outros dois malfeitores, um de cada lado. V. 34 – Jesus continua seu ministério, mesmo dependurado na cruz, dando perdão aos que não ouviram e não entenderam a mensagem de Deus. A divisão de suas roupas confirma a profecia do Salmo 22.18. Ficar sem roupa significava não ter mais identidade, a exemplo de outros nas histórias bíblicas: prisioneiros, prostitutas e escravos. V. 35 – A multidão, cercando o evento, contempla em silêncio o que acontece, os príncipes zombam e blasfemam contra Deus, incitam Jesus a se salvar. V. 36 – Os soldados, que também o escarnecem, zombam, oferecem-lhe vinho azedo para reavivá-lo e prolongar sua experiência penosa. V. 37 – Mais uma vez o tentam a se salvar, se é mesmo Rei dos Judeus. No entanto, Jesus se recusa a subverter o plano de Deus, salvando-se dessa morte horrível. V. 38 – Por cima da cruz colocam a placa em várias línguas para que todos possam ler: Este é o Rei dos Judeus. V. 39 – Um dos malfeitores se junta aos que zombam e também provoca Jesus, sugerindo que, se ele é mesmo o Cristo, que salve a si mesmo e a eles, os malfeitores. V. 40-43 – Mas o outro criminoso responde positivamente a Jesus. Pede que Jesus se lembre dele ao entrar no seu reino. Para ele, há salvação e Jesus prontamente o perdoa e o convida a estar com ele no paraíso. O segundo criminoso, muitas vezes nomeado como Dimas, pede para entrar no reino de Jesus. É importantíssimo conhecer profundamente o que significa a expressão “reino” para Lucas. Basileia de Deus aparece anteriormente, muitas vezes ao longo dos capítulos que precedem esse texto. Basileia: É algo que não pode ser visto (Lc 17.20). Esse reino é algo dentro de nós (Lc 17.21). É novidade proclamada e anunciada (Lc 4.43, 8.1, 9.2, 9.60, 16.16). É mantido em mistério (Lc 8.10), mas pode ser buscado (Lc 12.31), é dado de presente (Lc 12.32) e simplesmente recebido (Lc 18.17). Essas definições de reino fazem mais sentido, e entendemos melhor o reino pelo qual Jesus está sendo crucificado. No Evangelho de Lucas, o povo (Laos) não debocha de Jesus, somente assiste. Os líderes meio que ironizam, os soldados debocham e um dos criminosos blasfema. No entanto, todos dizem: Salva a ti mesmo. Essa é essencialmente a tentação que Jesus também enfrentou no deserto (Lc 4) e é agora a tentação que vai resistir diante da dor e da morte na cruz.
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Domingo Cristo Rei
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Meditação
Há tantas partes desse texto que podem ser exploradas. Por um lado, isso é muito bom, pois mostra que temos aí mais um texto inesgotável para nutrir nossa fé, dependendo de como estamos nos sentindo, como o lemos, o que precisamos frisar para nossa comunidade naquele momento. Por outro lado, é complicado ter tanto para explorar; temos que escolher um ou dois pontos para enfatizar, evitando assim incorrer no erro de falar muito e dizer pouco. Um primeiro aspecto que poderia ser ressaltado na mensagem é que um jeito absolutamente novo de ser rei surge a partir de Jesus. Um jeito que temos dificuldade de entender. Nossa raça humana tem dificuldades de aceitar um messias humano. Jesus proclamou ser filho de Deus, mas falhou em atender nossos padrões de rei. Nosso tipo de messias deixaria a cruz na hora “H” e provaria que é mesmo Deus. Ele não chegaria a morrer na cruz e depois ressuscitar, mas faria algo inteligente: viveria para sempre. Esse é o tipo de rei e salvador que entendemos e nos daria grande sensação de poder, quase um super-herói. No entanto, ele está ali humilhado, sozinho, sendo tentado. A crucificação confronta as normas do poder com um novo jeito de ser: um novo jeito de ser Deus, em última instância. Ele valoriza os que não possuem valor. Ele reúne pessoas e anuncia mudanças. Ele não está prometendo uma utopia em outro lugar e tempo. Pelo contrário, ele está anunciando e mostrando que é possível mudar a partir dele mesmo e com sua pequena comunidade de seguidores e seguidoras. Seu reino é outro: não pode ser visto, é mistério, porém pode ser proclamado, mas não pode ser conquistado a ferro e fogo ou espada, mas pode ser recebido. É presente que transforma nosso jeito de ver e lidar com o mundo que Deus criou para nós. Perigoso? Sim, pois certamente não passa sem ser percebido por aqueles que querem manter o status quo. Não é um rei que disputa súditos com outro rei, nem terras, nem poder. Quer só ensinar a convivência com justiça e relacionamentos de amor e respeito pelas diferenças. Ele não veio para criar capachos, mas veio para disseminar uma revolução de amor e graça, que exige uma nova forma de poder e outras prioridades num reino. Pertencer a esse novo jeito de viver não significa ser passivo, mas se engajar nas principais lutas pela vida. Isso não é algo etéreo, mas uma esfera de poder e influência que se expressa mudando as coisas, e isso inclui essencialmente perdoar e servir uns aos outros. Um segundo aspecto que poderia ser ressaltado na mensagem vem a partir de Dimas. Ele é o único que se pronuncia diante da crucificação. Ele assume sua posição de malfeitor, assume que é criminoso e está ali por causa da pena que merece. No entanto, afirma que Jesus é inocente, que não merece esse castigo. E então, nos últimos momentos de sua vida, Dimas faz um ato de fé público, que nem os próprios discípulos fizeram: ele pede que aquele homem crucificado possa lembrar-se dele quando entrar no seu reino. E Jesus promete que vai fazer isso, sim!
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O que Dimas viu que ninguém mais viu? Maria, sua mãe, o viu morrer. Maria Madalena viu seu melhor amigo morrer. João viu seu mestre morrer, mas levou muito tempo para entender o que acontecia e, somente quando da ressurreição, compreendeu profundamente. Os soldados e os que passavam viam um criminoso comum recebendo o castigo que merecia. Quanto aos outros discípulos, não sabemos; mas, se estavam por lá, estavam tão devastados e com medo que não conseguiam pensar. Assim sobra uma pessoa: um homem condenado por um crime que nunca saberemos qual foi e que viu que o reino que seu companheiro de cruz proclamava era real e possível e que está aberto a cada um que clamar para que Jesus se lembre dele. O que isso significa para nós? Talvez o maior ato de fé das Escrituras seja este do malfeitor: Jesus, lembra-te de mim! Jesus está morrendo na cruz. Aparentemente, seu reino e seu poder estão chegando a um fim. Seu projeto ruiu para aqueles que não sabem que isso estava nos planos de Deus. Jesus está ali morrendo, mas Dimas tem a fé de ver e acreditar que Jesus pode convidá-lo para viver em seu reino. Ele tem a fé que Jesus vai mesmo ser um rei. O poder de Deus governar o universo, um reino diferente é visto no Jesus morrendo na cruz. Dimas não presencia a ressurreição, nem sabe dela. Ele vê na morte de Jesus um reino invisível e possível. O ministério de Jesus justifica quem erra, colocando o pecador diante de Deus, inteiro, com promessas. Justificação envolve perdão, pelo qual Jesus orou e sua morte ratificou. E envolve, acima de tudo, reconciliação com Deus. Assim como de Dimas exigiu muita força e coragem, também exige de nós, como pecadores e culpados, pedir algo a um Jesus sem culpa e sem pecados, pendurado na cruz, e ainda esperar que ele faça algo por nós. Assim como Dimas, temos que ver esse reino diferente e invisível e confiar nisso. Jesus e esse malfeitor ilustram bem a salvação divina: ela não vem pelo sofrimento e pela morte, mas sim pela fé, e isso vale até o último suspiro de vida, mesmo morrendo na cruz (que não é por sofrimento e pela morte, mas sim por ter fé até o último momento morrendo na cruz). Jesus é um líder que serve mostrando uma nova forma de autoridade, em que na fraqueza prova o genuíno poder de Deus. Aqui podemos entender finalmente Colossenses: nele habita toda a plenitude e através de seu sangue reconcilia todas as coisas.
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Imagens para a prédica
Um dos meus passatempos é decorar ovos crus de galinha com a técnica ucraniana. Um ovo leva em média três horas e meia para ficar pronto. É um trabalho delicado, com muitas tintas, muitos instrumentos específicos. Fazem-se muitos traços finos e precisos, esperam-se longos minutos pelo ovo mergulhado nas cores, depois se espera que seque para então cobrir com cera aquela cor e mergulhar em outra cor.
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Quando está na última fase do trabalho, todo artesanal, o ovo está simplesmente recoberto de cera, preto, feio, irregular na superfície, por causa da cera de abelha que cobre as cores. Um ovo ucraniano nessa fase do trabalho parece não valer a pena, especialmente pelas três horas de serviço investido nele. Só olhando para o invisível (porque sei que as cores estão por baixo) me faz continuar a tarefa. A crucificação é assim: parece um fim, mas o rei já é rei na cruz, embora pareça um fracasso. Um ovo ucraniano é um ovo decorado e esplendoroso, mesmo com a cera por cima. É preciso ver como Dimas. Penso que uma imagem similar a essa poderia ser usada. Uma imagem que mostre que pela (por cima, na) aparência tudo deu errado. Só para quem consegue ver o invisível e confiar na promessa é que se revela o Cristo Rei.
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Subsídios litúrgicos
Hinos: Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 298, n° 95, n° 187. Hinos do Povo de Deus – vol. 2 – n° 441, n° 317. Confissão de pecados: Deus querido e misericordioso, perdoa se em nossa humanidade às vezes queremos um Deus mais poderoso, mais super-herói, ao invés de confiar na força da fraqueza, confiar no invisível, mas eterno reino teu. Nossa fé é fraca, e nosso testemunho cristão parece fraco também, porque é difícil acreditar naquilo que não podemos ver. Ficamos muitas vezes sem coragem de proclamar esse teu reino diferente simplesmente com nossa humanidade. Por isso pedimos humildemente teu perdão. Amém. Oração de coleta: Agora nos aproximamos do momento de ouvir tua palavra. Que ela nos transforme, que através dela possamos ver teu reino invisível e que em meio a tantos sinais de morte possamos anunciar e testemunhar a esperança em teu reino, que é uma inversão do reino que vivemos agora. Amém. Oração de intercessão: Somos imensamente gratos a ti, querido Deus, pelos pequenos sinais do teu reino entre nós. Pelo olhar acolhedor, pela palavra certa dita na hora certa, pela partilha, pelas visitas, pelas portas das casas abertas e pelos corações sempre atentos a ouvir. Intercedemos por todos os que não alcançamos com nosso esforço, por aqueles que estão longe de nós e não conhecem a proposta do teu reino. Intercedemos pelas autoridades no mundo todo, para que, ao invés de usar a força bruta, as armas, o poder do dinheiro, cada vez mais possam tornar-se autoridade que serve,
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Domingo Cristo Rei
autoridade que partilha e se humilha diante do teu poder. Ouve nossa oração e nos encoraja a agir. Amém.
Bibliografia KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1982. NEWSOM, Carol A. Women’s Bible Commentary. Kentucky: Westminster/John Knox Press, 1992.
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PRÉDICA: LUCAS 17.11-19
AÇÃO DE GRAÇAS (FEST A DA FESTA COLHEIT A) COLHEITA
DEUTERONÔMIO 8.7-18 2 CORÍNTIOS 9.6-15
02 NOV 2009
Emilio Voigt
1
Introdução
Esta perícope já foi trabalhada em volumes anteriores do PL (IV; X; XX e XXVI). Ali a leitora e o leitor encontrarão mais indicações e estímulos para a preparação da prédica. Neste auxílio, pretendo trazer algumas informações adicionais sobre o tema “doença e cura” no Novo Testamento.
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Informações
2.1 – Doença e cura no Novo Testamento A compreensão de saúde e doença está em estreita ligação com a compreensão de mundo de cada cultura. Assim como a religião e a língua, também a medicina deve ser vista como sistema cultural. Em cada sistema de saúde, a pessoa doente carrega um status, que é determinado pela avaliação positiva ou negativa que a sociedade ou religião impõe. Ou seja, uma doença não traz apenas consequências individuais, que afetam exclusivamente a pessoa doente. Algumas possíveis consequências das doenças no Antigo Israel e na Palestina no tempo de Jesus poderiam ser: a) Isolamento e exclusão do culto Pessoas que tinham uma doença de pele ou fluxo de sangue (hemorragia) podiam ser consideradas impuras. De acordo com as prescrições de pureza do livro de Levíticos (Lv 13-15), os leprosos deveriam ser isolados do grupo social: “Será imundo durante os dias em que a praga estiver nele; é imundo, habitará só; a sua habitação será fora do arraial” (Lv 13.46). Da mesma forma, pessoas com algum tipo de fluxo eram consideradas impuras e precisavam passar por rituais ou por um período de isolamento (Lv 15). Além de sofrer com a doença, a pessoa considerada impura sofria com o sentimento de desprezo e com o isolamento. Mas não sabemos se as regras de isolamento do livro de Levíticos eram seguidas com todo o rigor. Leprosos não podiam entrar em Jerusalém, mas é possível que essa proibição não fosse colocada em prática em todas as aldeias e vilas. Em Lucas 17.12, os leprosos mantêm certa distância de Jesus, mas aparentemente ainda viviam na aldeia. Mateus 8.1-2 e Marcos 14.3 indicam certa interação entre leprosos e a sociedade. Também de-
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vemos considerar que possivelmente familiares e parentes nem sempre excluíam do seu convívio pessoas com doenças de pele ou com fluxo de sangue. O isolamento poderia ser decorrência do medo de contágio. Mas também é possível que certas doenças fossem consideradas uma ameaça à sociedade. Doenças de pele ou deficiência física evidenciariam a diferença entre as pessoas doentes e aquilo que é considerado “normal”, mostrando a fragilidade ou a impureza dentro do grupo social. Para manter a pureza, essas pessoas seriam banidas do seu grupo, preservando-se nele apenas os membros considerados “normais”. b) Rebaixamento social e religioso No antigo Israel, leprosa era uma pessoa que foi formalmente declarada impura pelo sacerdote. Essa declaração significava um rebaixamento social, pois a pessoa carregaria agora o estigma (sinal) da impureza. Era como uma espécie de “morte social”: a pessoa perdia seu status e sua honra e praticamente deixava de existir para o seu grupo social. Também havia uma compreensão de doença como consequência do pecado. De acordo com essa concepção, uma pessoa doente poderia ser considerada pecadora, impura ou moralmente fraca. c) Necessidade econômica Doenças significavam um problema econômico. Além da incapacidade para o trabalho, uma pessoa poderia perder todos os seus bens na tentativa de obter cura. O texto de Marcos 5.25-34 conta a história de uma mulher que perdeu todos os seus bens por causa de uma doença. Uma doença da pele não torna a pessoa improdutiva, mas se essa pessoa precisasse ser isolada, ela não teria possibilidades de trabalhar e, em consequência, estaria destinada à pobreza. A família carregava a responsabilidade pela pessoa doente: ela tinha que assumir as despesas com o tratamento e acompanhar a terapia. Quando a família não podia mais suportar o fardo, a pessoa doente podia ser abandonada à própria sorte. As referências a pessoas doentes que perambulavam em torno das cidades ou dos caminhos pode ser um indicativo de que foram abandonadas pelas famílias. 2.2 – Jesus e suas curas Jesus entendia as curas e exorcismos como manifestações do reino de Deus: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20). Para Jesus, as curas e os exorcismos eram parte integrante do anúncio do reino de Deus. Esses acontecimentos eram um sinal de que o mal estava sendo vencido e que já era possível experimentar a presença do reino. Embora Jesus tenha mandado dizer a João Batista que os milagres eram sinais do reino, ele não utilizava as curas como propaganda da sua atividade. Da mesma forma, ele não curava para convencer pessoas ou forçá-las a crer nele. Também não obrigava ninguém a segui-lo por causa de uma cura. Nas narrativas de cura do evangelho, percebemos que as reações das pessoas curadas e do público são muito variadas e mostram que as curas eram entendidas de maneira distinta. É interessante notar que muitos relatos não fazem qualquer menção a uma
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reação das pessoas ou simplesmente dizem que elas foram para casa (Mt 8.5-13; Jo 5.1-9; Mc 7.24-30; 9.14-29). Por isso chama a atenção que, em Lucas 17.11-19, é esperada uma reação após a cura, enquanto em muitos outros textos nada se fala a respeito. 2.3 – Sobre a lepra A hanseníase, também conhecida como lepra, é causada por uma bactéria (bacilo) chamada Mycobacterium leprae. Essa bactéria provavelmente não existia em Israel no tempo do Antigo Testamento. Sinais concretos de hanseníase são encontrados na Palestina somente após a época de Alexandre Magno (morto em 323 a.C). O que a Bíblia (especialmente nas determinações de Lv 13) chama de lepra são doenças de pele caracterizadas por inflamações e desenvolvimento de escamas. Os sintomas poderiam ser semelhantes aos da lepra, mas não eram causados pelo bacilo Mycobacterium leprae. Psoríase, eczema e vitiligo estariam entre as afecções consideradas como lepra. É bem provável que as referências à lepra no Novo Testamento também estejam vinculadas às formas de afecções da pele do Antigo Testamento.
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Exegese
A narrativa encontra-se apenas no Evangelho de Lucas. Há uma forte analogia com a história transmitida em 2 Reis 5, na qual o leproso é enviado a um determinado lugar, a purificação não acontece na presença do profeta e há um retorno da pessoa curada para agradecimento. Assim como Naamã, também o samaritano não pertence ao povo de Israel. A presença de lucanismos não é motivo para afirmar que toda a história seja criação do evangelista. Também não há evidências concretas para a tese de que Lucas esteja oferecendo aqui uma redação criativa da história descrita em Marcos 1.40-45. As diferenças entre as duas narrativas são grandes o suficiente para rejeitar essa hipótese. É provável que Lucas tenha retrabalhado uma tradição independente, que encontrou em seu material exclusivo. O texto tem duas partes distintas: a primeira (12-14) trata da cura; a segunda (15-18) ocupa-se com a temática da fé e da gratidão. O texto não entra em detalhes: Qual era a aldeia? Seriam sacerdotes que vivem nas imediações ou que estariam no templo? Em que parte do caminho ocorreu a constatação da cura? O samaritano também irá apresentar-se aos sacerdotes? V. 11 – A descrição da peregrinação de Jesus a Jerusalém dá a impressão de que ele atravessaria a Samaria e depois a Galileia. Isso indica que é uma descrição feita a partir da perspectiva de Jerusalém. V. 12 – Os dez leprosos mantêm a distância exigida nas prescrições do Antigo Testamento. O número 10 não precisa ser necessariamente entendido como número exato, mas pode simplesmente indicar que eram muitos.
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V. 13 – Não há um pedido explícito por cura, mas a súplica por misericórdia a subentende. Essa forma de pedido – “tem misericórdia” – é encontrada em orações (Sl 41.4; 51.1-2; Is 33.2) e demonstra a total confiança depositada em Jesus. V. 14 – Jesus não os declara curados, mas os envia aos sacerdotes. O sacerdote declarava a exclusão de alguém quando era constatada a impureza e era ele quem deveria declarar a possibilidade de retorno ao convívio social. No momento em que Jesus os envia, eles ainda não estão curados. É um teste de fé para esses que imploram por compaixão. E eles se colocam a caminho, na expectativa de um diagnóstico positivo. Demonstram, portanto, confiança em Jesus. No caminho acontece a cura. O texto acentua tanto o poder de Jesus como a fé ou a confiança dos leprosos. Foi essa confiança que os curou. V. 15 – O contraste é evidente: Dez pediram por ajuda e foram ouvidos, mas apenas um entre eles reagiu positivamente. Ele percebe que está curado e, antes de se apresentar ao sacerdote, retorna para agradecer. Ainda antes de retornar a Jesus, louva a Deus em alta voz. É um claro sinal de que a cura é imputada a Deus. V. 16 – O fato de o samaritano ajoelhar-se diante de Jesus para agradecer não fala contra a percepção de cura atribuída a Deus. A cura é efetuada por Deus, mas efetivada através de Jesus. A partir da observação “e este era samaritano” deduz-se que os outros pertenciam ao povo de Israel. Por um lado, essa observação indica que a misericórdia divina, manifestada na atividade de Jesus, ultrapassa as fronteiras culturais e religiosas. Por outro lado, ela evidencia que o julgamento normalmente feito em relação aos samaritanos é totalmente equivocado. De um samaritano não era esperada tal reação de fé e gratidão. Mas é justamente um samaritano, e apenas ele, que volta para louvar e agradecer. V. 17-18 – A pergunta retórica, aparentemente dirigida ao samaritano, dirige-se na verdade a todos(as) os(as) ouvintes e leitores(as). No início da narrativa, era a doença o ponto central. Agora, entra outro aspecto em cena: a gratidão. A pergunta quer destacar o problema: somente um estrangeiro retorna. O texto pressupõe que todos foram curados e que o retorno de todos era esperado. Apesar da indignação diante dos que não retornam, a cura é mantida. V. 19 – A narrativa não termina sem uma palavra positiva ao samaritano: “A tua fé te salvou”. Acentua-se aqui a fé que provoca mais do que uma simples cura corporal. Todos os dez leprosos tinham confiança que Jesus poderia curá-los, e essa confiança permitiu que fossem purificados. Mas somente o samaritano recebe algo a mais. Ele ouviu de Jesus: “A tua fé te salvou”. Esse é um indicativo de que o samaritano reconheceu que a cura tinha uma dimensão maior: era uma manifestação do reino de Deus. Com seu reconhecimento da cura e seu retorno, o samaritano ganhou também a participação no reino de Deus.
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Meditação
Onde deve ser colocado o acento na prédica? Está no poder de Jesus para purificar leprosos? Na gratidão da pessoa que foi curada? Na “ingratidão” dos
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nove que não voltaram para agradecer? Está no fato de ser aquele que retorna para agradecer um samaritano? Deveríamos destacar o ato de confiança dos dez leprosos no início da narrativa ou a declaração a respeito da fé de um deles no final do relato? A ligação do texto com o dia de Ação de Graças (Festa da Colheita) sugere o tema do agradecimento como linha central de desenvolvimento. Também os textos de leitura vão nessa direção. Apesar de normalmente interpretado a partir dessa perspectiva, o texto de Lucas 17.11-19 parece querer acentuar a fé: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”. Esse é o ápice da perícope. Todavia, gratidão está em estreita conexão com a fé. Depende dela! Com isso, fé e gratidão constituem elementos centrais para a reflexão sobre o texto. Dependendo do enfoque, a pregação pode assumir um tom legalista, festivo, desafiador etc. Algo entre um tom festivo e desafiador poderia ser bem adequado ao dia. Os parágrafos abaixo são apenas pensamentos soltos, incompletos e não dispostos em coerente lógica. Querem tão-somente apontar para algumas possibilidades de reflexão na preparação da pregação: – Os leprosos eram considerados impuros e viviam à margem da sociedade. O leproso samaritano carregava ainda um segundo estigma: como samaritano, era desprezado pelos judeus. Mas o texto fala de um grupo no qual leprosos judeus viviam em conjunto com um leproso samaritano. Pelo menos chegaram juntos a Jesus e juntos se colocam a caminho dos sacerdotes. A doença coloca-os no mesmo nível e faz com que eles superem as diferenças. Que outras situações nos levam a superar barreiras e a colocar pessoas “no mesmo nível”? Algumas situações de crise fazem aumentar o sentimento de solidariedade entre as pessoas. Por que esse sentimento “desaparece” em situações mais confortáveis? – Jesus tem uma atitude inclusiva: não se afasta, não condena, não discrimina, mas vai ao encontro. Ouve o pedido daquele grupo excluído e não lhe impõe condições para a cura, além da obediência às suas palavras: “Ide e mostrai-vos aos sacerdotes”. Quem seriam hoje os grupos excluídos e qual tem sido a nossa atitude diante deles? Que condições impomos para o contato ou para a ajuda? – A cura restabelece não apenas a saúde. Ela abre novas possibilidades ao permitir a participação no culto e o retorno integral ao convívio familiar e social. Poderia ser interessante descrever brevemente as consequências da doença na época para destacar o contraste entre a situação antes e depois da cura. – Embora o texto não esteja preocupado com os motivos pelos quais os nove não retornaram, essa questão poderia ser tematizada. Não reconheceram a cura? Estariam mais preocupados em receber a constatação da cura pelo sacerdote? Teria o desejo de voltar imediatamente ao convívio social feito com que olhassem apenas para frente? Seria um sinal de ingratidão ou ausência de percepção sobre algo que vai além da cura? Essa reflexão é importante para evitar um tom legalista e lamentoso. É possível que os nove que não retornaram tivessem um sentimento de alegria e gratidão e esse sentimento os tenha acompanhado pelo caminho. Todavia, faltou-lhes algo. Mesmo assim, o acento não deveria estar na condenação da falta de reconhecimento, mas no convite para enxergar a ação de Deus que vai além da cura.
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– O que diferencia o samaritano dos outros pode ser a sua reflexão a respeito do acontecido e o reconhecimento da sua purificação como obra divina, efetivada através de Jesus. O outro diferencial está certamente em sua atitude. Somente ele retorna a Jesus. Poderíamos imaginar que os nove procuraram voltar o mais breve possível ao convívio social, do qual foram excluídos por causa da doença. Essa atitude é baseada na possibilidade de retorno à normalidade. A atitude do samaritano é baseada na percepção de que a sua vida agora engloba, mas não se reduz a uma “normalidade”. – Os nove que não retornaram ganharam a cura, a solução imediata para o seu problema. Desse ganho a curto prazo também o samaritano desfrutou. Mas ele teve um ganho adicional a longo prazo: “a tua fé te salvou”. Muitas vezes, não procuramos também nós somente resultados imediatos ou nos contentamos com o sucesso aparente? “Tendo saúde é o que importa.” Também hoje a saúde é algo que qualquer pessoa deseja. E tal aspiração humana de forma alguma é condenável. Mas naturalmente somos convidados(as) a contemplar a vida em todas as suas dimensões e ver em cada uma delas a ação de Deus. – Como ligar o texto ao dia de Ação de Graças? Nesse dia, lembramos especialmente de tudo aquilo que recebemos das mãos divinas. As leituras previstas acentuam o fato de recebermos muito das mãos de Deus. Elas também fazem um chamado ao agradecimento e à generosidade. Fé sem gratidão e sem generosidade pode ser considerada fé? O que ganhamos de Deus e pelo que agradecemos? – Uma forma de agradecimento foram o louvor e o retorno do samaritano. O texto de 2 Coríntios 9.6-15 ressalta como sinal de gratidão a generosidade. A generosidade pode ser vista na assistência ao próximo, na coleta, no apoio a projetos e atividades da igreja. Aqui se poderia fazer uma ligação com o tema “fé, gratidão, compromisso”.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Amado Deus, humildemente nos achegamos a ti para confessar nossos pecados e suplicar tua misericórdia e graça. Confessamos que nem sempre reconhecemos tua poderosa mão atuando em nossa vida. Preferimos considerar aquilo que temos como fruto do nosso esforço e das nossas aptidões. Muitas vezes, seguimos nosso caminho buscando apenas nosso próprio interesse. Caminhamos sem olhar para as pessoas necessitadas, seguimos sem parar para oferecer ajuda. Muitas vezes, estendemos as mãos apenas para receber, e não para ofertar. Às vezes, pedimos bem mais do que agradecemos. Neste dia de Ação de Graças, suplicamos que nos libertes do egoísmo e da falta de gratidão. Perdoa os nossos pecados e ajuda-nos a viver uma vida nova, baseada na fé que sabe agradecer.
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Oração de coleta: Senhor, nós agradecemos por tua misericórdia. Assim como Jesus ouviu e compadeceu-se dos dez leprosos, tu nos ouves e te compadeces de nós. Diariamente, somos agraciados com tua proteção e tuas bênçãos, mas nem sempre voltamos nossos corações a ti em sinal de agradecimento. Hoje queremos ofertar a ti o fruto do nosso trabalho. Ajuda-nos a reconhecer que o que produzimos e o que temos procede das tuas bondosas mãos. Ensina-nos a agradecer pelas bênçãos recebidas e ajuda-nos a praticar a gratidão que se manifesta na partilha e na doação. Isso te pedimos por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo nos congrega e nos anima a viver em santidade e gratidão. Intercessão: Senhor, tu nos presenteaste com tua maravilhosa criação. Diariamente continuas criando e nos presenteando. Como tua igreja, somos responsáveis pela continuidade da boa criação. Desperta em nossas lideranças a consciência pela preservação do meio ambiente. Dá-nos força para preservar e coragem para denunciar o descaso e a destruição. /:Ouve nossa oração e atende a nossa súplica:/ Rogamos por nossa nação, povo e autoridades. Neste imenso, rico e belo país, observamos tantos contrastes e tantas injustiças. A violência e a insegurança crescem a cada dia. Desperta o desejo de novas formas de ação e de relações. Que o poder não seja usado em benefício pessoal ou de poucos, mas que exista apenas como serviço às pessoas. Que a justiça e o comprometimento com o próximo sejam aquilo que guia a nossa vida. /:Ouve nossa oração e atende a nossa súplica:/ Rogamos pelas pessoas enfermas e enlutadas, pelas pessoas deprimidas e desanimadas. Queiras tu trazer cura, consolo, sentido e ânimo para a vida. Esteja também com as pessoas que estão desempregadas e em situação difícil. Desperta em nós a solidariedade e o desejo de ajudar. Aumente a nossa fé e permita que ela se concretize no serviço ao próximo, na gratidão e no louvor. /:Ouve nossa oração e atende a nossa súplica:/
Bibliografia AVALOS, Hector. Health care and the rise of Christianity. Peabody, MA: Hendrickson, 1999. BOVON, François. Das Evangelium nach Lukas (EKK III/3). Düsseldorf, Zürich: Benziger, Neukirchen-Vluyn, 2001. MEIER, John P. Um Judeu Marginal: repensando o Jesus histórico. Volume dois, livro três: Milagres. Rio de Janeiro: Imago, 1998. PILCH, John J. Healing in the New Testament: Insights from Medical and Mediterranean Anthropology. Minneapolis: Fortress Press, 2000.
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SAUER, Klaus Martin; THOMÉ, Hans Erich. Dunkle Seiten des Lebens aufnehmen. In: KRUSCHE, Peter et al. Predigtstudien für das Kirchenjahr 1996/ 1997. Stuttgart: Kreuz Verlag, 1996. p. 146-152. WIEFEL, Wolfgang. Das Evangelium nach Lukas. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1987.
DOMINGO DE LOUVOR ATRAVÉS DA MÚSICA ATOS 16.20-25 ISAÍAS 12 MATEUS 21.14-17
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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XXXIV Advento – Celebração ...................................................................................................... XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio .................................................................................................. XV, 304 Ação de graças ...................................................................................................................... XII, 300 ....................................................................................................................... XX, 322; XXXIII, 394 Ação de graças pela colheita .................................................................... XXXII, 212; XXXIV, 371 Achados e perdidos – experiências ................................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o "Feliz e Próspero Ano Novo"? (Tg 4.13-17) ..................... IX, 34 Armas da morte: "Quem brinca com fogo acaba se queimando" (Zc 9.9-10) .......................... X, 91 Associação popular: "A união faz a força" (Ne 5.1-12) .......................................................... IX, 83 A velhice .................................................................................................................................. VI, 43 Batismo, alocução para ..................................................................................................... XXVI, 357 Batismo, culto de ............................................................................................................ XXVII, 299 Bênção matrimonial ........................................................................................... XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13) .................................................................................................................. XX, 351 (Ct 8.7) ..................................................................................................................... XX, 353 (Ec 4.9-12) ............................................................................................................. XXI, 329 (Ct 1.2-3) ............................................................................................... XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte ............................................................................................................................ XV, 77 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31) ....................................................................................................... X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) ................................................................................... IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) ................................................................................. VI, 40 (Sl 133.1-3) ........................................................................................................... XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) ........................... XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d'água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) ......................... X, 84 Componentes éticos da organização popular .................................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16) ............................................................................................... X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16) ....................................................................................................... II, 187 (Dt 30.11-20) ............................................................................................................. VIII, 23 (Jo 6.66-69) .............................................................................................................. XII, 293 (Mt 5.14-16) ............................................................................................................. XX, 339 (Ap 1.9-18) ............................................................................................................... XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) ....................................................... XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5) ....................................................... XIII, 18 "Criança, não verás país nenhum como este!" (Êx 1.8-22) ................................................... IX, 107 Culto batismal (Is 43.1) ...................................................................................................... XXI, 326 Culto de Batismo .............................................................................................................. XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O) ......................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) ................................................ XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15) .............................................................................. V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) .......................................................................................... XX, 346 Culto eucarístico (alocução para) ..................................................................................... XXIII, 237 (Lc 22.14-15) ........................................................................................................... XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ............................................................................... XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2) ....................................................... XIII, 42 Curandeirismo: um "jeitinho" popular de cura? (Mc 5.25-34) ............................................... XII, 27 Deus na marginalidade ........................................................................................................... XVI, 9 Dedicação de templo ........................................................................................................ XXVI, 361
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Dia das Crianças (Zc 8.1-8) .............................................................................................. XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) ........................................................................................ I, 68 (Jo 4.31-38) ................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8) .................................................................................................................... VI, 48 (1 Tm 4.4-5) ............................................................................................................ XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43) ............................................................................................ XVIII, 289 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15) ................................................................................................. V, 323 (Dt 26.1-11) .............................................................................................................. XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) .................................................................................................... V, 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) .................................................................................. XXXIV, 353 (Fp 3.20-21) ................................................................................................................ I, 143 (1 Co 15.50-58) ......................................................................................................... III, 176 (1 Co 15.35-39,42b-44) .............................................................................................. V, 256 (Mt 22.23-33) .......................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14) ......................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29) .......................................................................................................... XVIII, 267 (1 Co 15.12-20) .................................................................................................. XXXII, 311 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17) ....................................................................................... I, 109 (1 Tm 2.1-4) ................................................................................................................ II, 336 (Mc 12.13-17) ............................................................................................................ III, 138 (Hb 13.12-16) .............................................................................................................. V, 205 (Mt 6.9-13) .................................................................................................... VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10) ................................................................................................. XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) ...................................................................................................... I, 125 (Jo 8.31-36) ................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28) .............................................................................................................. III, 169 (Mt 5.1-10) ................................................................................................................. IV, 212 (Ap 14.6-7) .................................................................................................................. V, 249 (Mt 10.26b-33) .......................................................................................................... VI, 291 (Is 62.1-12) .............................................................................................................. VIII, 331 (Mt 10.26b-33) ................................................................................... XII, 268; XXXIV, 347 (Gl 5.1-6) ................................................................................................................ XIII, 267 (Fp 2.12-13) ............................................................................................................. XV, 282 (Jo 8.31-36) .......................................................................................................... XVII, 225 (Mt 5.1-10) ......................................................................................................... XXXII, 307 Dia de Penitência (Is 1.10-17) .............................................................................................. XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) .............................................................................................. III, 62 (2 Ts 3.6-13) .................................................................................................................. V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a) ............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31) ..................................................................................... VI, 170 (Tg 5.1-6) ................................................................................................................ XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ................................................................................................... XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) ....................................................................................... XXI, 316 Domingo de Louvor através da Música ........................................................................ XXXIII, 401 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)]) ............ XII, 307 (Ap 3.14-22) ............................................................................................................ XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9) .......................................................................................... XX, 309 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15) ......................................................................... XIII, 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) .................................................. X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ............................. XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ................................................................................... XIII, 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) ................................ IX, 15 Epifania, reflexões para o período de ............................................................................. XXVII, 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7) .................................................................................................. VI, 24
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Época da Paixão II (Mt 26.36-46) ........................................................................................... VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ................................................................................................ VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) .......................................................................................... VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) .......................................................................................... IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) ....................................................................... XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores ......................................................................... XIV, 60 Exercício homilético ............................................................................................................... XII, 91 "E viu Deus que isto era bom..." ......................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15) .............................................. X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ..................................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) .......................................................................... XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ........................................................... XIII, 80 (Is 65.17-25) ............................................................................................................. XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15) ....................................................... XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana ........................................................................... XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) ............................................................................................. XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) ......................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) ........................................................................... XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías ................................................................................................... VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) .............................................................. X, 74 Kurusu Ñe'engatu – Palavras que a história não pode esquecer ........................................ XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida ................................................. XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay ...................................................................................... XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas ............................................................................................ XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) .................................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18) ...................................................................... IX, 57 Marketing e igreja ................................................................................................................. XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) .............................................................. XI, 77 Meditação sobre a oração .................................................................................................. XXXI,303 Meditação sobre o tema "Terra" – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) ........................... V, 310 Meditação sobre o tema "Terra" – II: terra para todos ............................................................ V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ............................................ XI, 65 Missão (1 Co 12) ................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: "Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!" (Am 9.7-10) ........ X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ............................... X, 106 Mulheres agricultoras ........................................................................................................... XVI, 15 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31) ............................................... IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ........................................................... X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus .............................................. II, 176 Lucas ........................................................................................................................... X,139 João ............................................................................................................................ VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ............................................................... XII, 34 O desafio de ser autor de PL .................................................................................................. XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças ............................................................................. XV, 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas ............................... XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) ............................................. X, 48 O Lecionário Ecumênico ...................................................................................................... XV, 315 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo ............ XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ................................................................................ XII, 11 Pago para ter (2 Co 8.1-15) ................................................................................................... XIII, 18 Pastoral Ecumênica de Periferia ............................................................................................ XIV, 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6) ................................ IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37) .................................................... XXII, 304
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Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) ........................................................... XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens .................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ............... XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6) ........................................................................ X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) ............................................................ VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17) ...................................................... VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21) .................................................... VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ...................................................................... XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12) .................................................................. IX, 50 Quem não faz política sofre política (1 Rs 12.1-15) ............................................................... XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia ................................................................. XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38) ................................................................. XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB .......... XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16) ............................................................... XI, 85 Semana do excepcional ..................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas ............................................................................................ XXIV, 347 Sepultamento .......................................................................... XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40) .............................................................................................................. XX, 355 (Jo 19.25-27) ............................................................................................................ XX, 360 (Sl 39.5-7) ................................................................................................................ XX, 362 (Sl 142.1-2,5a) ....................................................................................................... XXI, 336 (Ec 3.1-8) .......................................................................................................... XXVIII, 365 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26) ........................................................................................................... XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) .................................................................... IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém ....................................................................................................... XVI,37 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro .............. XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14) ............................................................... XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ................................................. IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra ............................................................................... XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados ................................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos ......................................................................................................... XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) ................................................................................. XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O) ...................................................... XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) .................................................. XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-15) ..................................................................... XIII, 74 Vigília pascal ...................................................................................................................... XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ................................................................................................ XII, 61
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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XXXIV ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ........... VIII, 185 1.26-31; 2.1-3 ................................. III, 105 2.4-15 .................................... XXVIII, 301 2.4b-15 ............................................ V, 330 2.7-9,15-17; 3.1-7 ....... XXX,66; XVIII, 84 2.8-15 ........................................... XIII, 74; 2.18-24 .................... XXII,254; XXV, 282; ............................................... XXXIII, 343 3.1-9 ............................................. XII,170; 3.1-19(20-24) .............................. XXV,214 3.1-24 ............................................. VI,133 4.1-16 ............................ VII,203; XIII,246 8.1-13 ............................................ XV,135 8.15-22 .................................. I, 71 (68); 78 11.1-9 .......................... XII, 205; XVII, 130 12.1-4 ......................................... XVIII, 88 12.1-4a ......................................... VII, 165; 15.1-6 ................ XXVI, 256; XXXIV, 283 17.1-13 ..................................... XXVII, 40 18.1-10a(10b-14) ........................... XX,208 18.20-21(22)23-32 ........................ XX,214 21.8-21 ........................................... XIII,60 22.1-13 ........................................... VI,144 22.1-14(15-18) ............................. XXII,65 28.10-17(18-22) ........................... XXII,71 32.23-31 ..................................... XVII,240 32.23-33 ................................ II, 207 (374) 50.15-21 ............... XXIV,272; XXVII, 240 Êxodo 1.8-22 ....................................... IX,107 2.1-10 .................................... XXVIII, 181 3.1-14 ............................................ XII,154 3.1-8,13-15 ............................... XXVI, 108 6.2-8 ...................... XVIII,218; XXX,214 12.1-14 ......................................... XXI,108 13.20-22 ........................................ XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30) ... XXVIII, 276 16.2-3,11-18 ................................. XIV,283 19.2-8a .......................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17 ........... XXII,75 22.21-27 ....................................... XXI,280 24.1-11 .................................... XXXII, 123 24.3-11 .. XVI,224; XXV,164; XXVIII, 272 24.12,15-18 .............. XXI, 78; XXXII, 79 32.7-14 ....................... XV,225; XXIII, 177 33.18-23 ........................................ VI, 102 34.4b-10 .......................... III,153; XV, 273 34.29-35 ..................................... XXV, 123 Números 6.22-27 .......................... XXXIII, 58 11.11-12,14-17,24-25 .................. VIII, 205 11.24-30 .................................. XXXII, 169
12.9-16 ........................................... XII, 18 21.4-9 ......... VII, 101; XIII, 159; XXII, 80; ............................................... XXXIII, 146 24.15-19 ........................................ XV, 120 Deuteronômio 4.1-2,6-8 ................ XXII, 235 4.32-34, 39-40 ........................ XXVII, 148 5.12-15 ............................................. III, 43 6.1-9 ...................................... XXXIII, 373 6.4-9 ............................ XV, 246, XIX, 164 7.6-12 ............................................ VI, 219 8.6-10 ............................................. XII, 11 10.12-22 ................................... XXVI, 336 11.18-21,26-28 ...... XXI, 164; XXXII, 184 17.14-20 ......................................... XII, 51 18.15-20 . XIX, 67, XXXI, 57; XXXIII, 92 24.14-15 .......................................... IX, 63 26.1-11 ................................... XXXIII, 394 26.3-11 ........................................ XXVI, 91 30.9-14 .................................. XXXIV, 257 30.11-20 ......................................... VIII, 23 30.15-20 ................................ XXXIV, 303 32.36-39 ...................................... XXIII,79 34.1-12 ...................... XVII, 74; XXIX, 77 Josué 1.1-9 ........................................... VII, 36 8.1-8 ............................................... XII, 61 24.1-2a,13-25 ................................. III, 117 Juízes 4.1-7 .................................. XXXII, 319 5.24-31 .............................................. X, 37 9.7-15 .............................................. IX, 98 Rute 1.1-19a ................................... XXIX, 289 1 Samuel 2.1-10 ........... II, 176 (343); VII, 113 3.1-10(19) ................... XIX, 55; XXXI, 44 3.1-10,19 ...................................... XXV, 86 11.1-15 ............................................. V, 337 2 Samuel 7.4-6,12,14a,16 .................. XXV, 35 11.26-12.10,13-15 ................... XXIX, 199; ............................................... XXXIV, 231 12.1-10,13-14 ................................ IX, 264 12.1-10,13-15a ............................. XV, 261 1 Reis 3.5-12 ............. XXIV, 240; XXXII, 236 3.16-28 ...................................... XXX, 143 8.(21-23,27-30)41-43 ................ XVII, 141 8.22-24,26-28 ................................ VI, 189 8.22-30 ......................................... XII, 191 8.41-43 ..................................... XXIX, 188 17.8-16 ................... XVI, 292; XXXI, 286 17.17-24 ................ XVII, 146; XXIX, 192 19.1-8(9-13a) ............................. XXII, 226 19.1-13a ................... XIV, 185; XVIII, 204 19.1-18 ............................................. III, 92
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19.4-8 .................................... XXXIII, 285 19.9-13a ..................................... XXX, 204 19.(14-18)19-21 .... XVII, 159; XXIX, 205 2 Reis 5.1-14 ................................... XXXI, 71 5.1-19a ............................................ VII, 58 Neemias 5.1-5(6-12) .......................... XIII, 11 5.1-12 ............................................. IX, 83; 8.1-2,5-6 .................. XX, 183; XXXIV, 95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36) ............ .................................................. XXXI, 263 Jó 7.1-7 ............................. XIX, 73; XXXI, 63 38.1-11 ........................................ XXV, 221 Salmo 22.2-12,17-20 ...................... XVIII, 116 22.1-12,17-20 ............................ XXX, 104 46.1-7(1-11) ........................... XXVI, 313 111 .............................................. XXVI, 27 112 .................................................. XII, 77 130.4 ................................................ VI, 34 Eclesiastes 1.2; 2.18-26 ..................... XX, 225 3.1-8 ................................................ VI, 48 3.9-15 ................................................ X, 16 4.1-4 .................................................. X, 84 5.18 .................................................... X, 65 9.13-18 .............................................. X, 25 Provérbios 8.22-31 ........................ XXIII, 109 9.1-6,10 ..................................... XXII, 230 9.7-13 ....................................... XXIII, 172 16.1-9 ............................................ VIII, 80 24.10-14 ......................................... XII, 45 30.5-9 ....................................... XXVI, 215 Isaías 1.1-9 ........................................ XIII, 116 1.10-17 ......................................... XV, 297 2.1-5 ................ VI, 225; XVIII, 9; XXX, 9 5.1-7 ............. VII, 87; XIII, 147; XXI, 252 6.1-13 ............................. VI, 198; XII, 213 7.10-14 .......................................... XXI, 37 7.10-14(15-17) ........ XIII, 104; XXXII, 27 9.1-6 ........................................... XVIII, 31 9.1-6,10 ..................................... XXII, 230 9.2-7 ................................................ V, 294 11.1-5 ............................................. XVI, 63 11.1-9 ..................... XVIII, 58; XXXIII, 31 11.1-9(10-11) .............................. XIV, 148; 11.1-10 ...................................... XXVII, 16 12.1-6 ....................................... XXVI, 114 24.12-16a ..................................... XIII, 312 25.6-8 .......................................... XIX, 114 25.6-9 .. XXI,258; XXXI,128; XXXIV,353 29.17-24 ....................................... XII, 233 29.18-24 ......................................... III, 130 30.(8-14),15-17 ............................... VI, 97 35.1-10 XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346 35.3-7 ..................... XXXI, 248; XIX, 237 35.3-10 ............................. X,158; XIV,115
35.4-7a ................................... XXXIII, 315 40.1-11 VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31 ........................................ IX, 216 42.1-7 ........................... XXI, 51; XXV, 80 42.14-21 .................... XVIII, 92; XXX, 72 43.1-7 .................................... II, 132 (299) 44.1-5 .................................... XXXIII, 401 44.9- 20 ......................................... XIII, 50 45.1-7 .................... XXI, 264; XXXII, 293 45.22-25 .................................. XXVIII, 49 49.1-6 ............................................... III, 85 50.4-9 .................. II, 28, (195); XIII, 166; 50.4-9a ......................................... XXX, 94 50.4-10 ................... XIX, 241; XXXI, 252 51.1-6 ..................................... XXXII, 259 52.7-10 .... XV, 100; XXII, 37; XXXIII, 70 52.13-53.12 V, 72; IX, 196; XV, 185; XII, 109 53.10-12 ..................................... XXV, 294 54.7-10 ........................... IX, 183; XV, 170 55.1-5 ......... III, 68; VIII, 213; XVIII, 198; ................................................... XXX, 197 55.1-9 .................................... XXXIV, 120 55.6-7 .............................................. VI, 24 55.6-11 ..................................... XXXIV, 63 55.(6-9),10-12a ............................ VIII, 119 55,10-11 .................................... XXIV, 223 56.1,6-8 ................ XVIII, 213; XXX, 209 58.1-9a .......................................... XV, 147 58.1-12 ...................... IX, 50; XXXIII, 125 58.5-9a ........................................ XXIV, 88 58.7-12 ......................................... XII, 300 60.1-6 . V, 11; VIII, 92; XVII, 39; XXIV, 63; .................................................... XXIX, 54 61.1-3(4-9), 11 ............................. XIII, 120 61.1-3,10-11 .......................... XXVIII, 20 61.1-3,11,10 .................................... VII, 44 61.10-62.3 . XIX, 42; XXV, 68; XXVIII, 59 62.1-5 ........................ XX, 23; XXVIII, 31 62.1-12 .............. II, 256, (423 ); VIII, 331; 62.6-7,10-12 XIX, 279; XXII, 272; XXIV, 297 63.7-9(10-16) .......... XXIV, 44; XXXII, 46 63.15-64.3 ..................................... XIII, 91 63.15-16; 19b-64. 3 ................ I, 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 ............... XXII, 9 64.1-9 ........................................ XXXIII, 9 65.17-25 ........................ IX, 15; XXX, 133 66.10-14 ................................... XXIX, 213 Jeremias 1.4-10 ................ VII, 184; XIII, 228 7.1-11 ......................................... VIII, 257 7.1-11(12-1 5) .............................. XIV, 301 7.21-26 ........................................ XXX, 15 8.4-7 .......................... VIII, 349; XIV, 390; 9.22-23 ............................................ VII,71 11.18-20 .................... XIX,246; XXXI,256
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15.15-21 .................. XVIII,222; XXX,220 17.5-8 .......................................... XXIII,55 20.7-13 ......................... VIII,145; XXI,181 22.13-19 ......................................... XIII,80 23.1-6 ........................................... XVI,217 23.2-6 ............................................ XX,301 23.5-8 ................................. VI,62; XII,103 23.16-29 ................ II,144, (311); XIII,209 26.8-15 ....................................... XXVI, 97 28.5-9 ...................... XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a .......................................... III,34 31.1-13 ........................................ XXIX,35 31.7-9 .......................................... XXV,301 31.10-13(14) ................................. XVII,34 31.31-34 ....................................... XXII,85 33.14-16 ....................................... XXVI, 9 Lamentações 3.21-26,31-32 ................ VI,269 3.21-33 ........................................ XXV,226 Ezequiel 2.1-8a ................................ XXV, 231 2.3-8a; 3.17-19 ....................... II, 96, (263) 17.22-24 ................................ XXXIII, 239 18.1-4,21-24,30-32 ........................ IX,247; 18.1-4, 25-37 .......................... XXVII, 243 33.7-9 ..................................... XXVII, 230 34.1-2(3-9), 10-16 ........................ XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31 ..................... VI,170; 34.11-16,23-24 .......................... XXIV,328 37.1-3(4-10), 11-14 ................... XVIII,103 37.1-3,11-14 ................................. XXX,89 37.1-14 .. XV,193; XXIV,117; XXXII,108; ............................................... XXXIII, 228 37.24-28 ......................................... VIII,55 Daniel 5.1-30 ......................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) ................... XVI,311 12.1-3 ...................... XIX,296; XXXI,293 Oseias 5.15-6.2 .................. XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6 ........................................ XXI,169 11.1-4,8-9 ............. XXIV,323; XXVII, 284 Joel 2.12-18 ......................................... XII,166 2.21-27 .................................... XXXII,212 2.28-29 ......................................... XXI,153 Amós 3.1-8 ........................ XXIV,75; XXX,54 5.21-24 ............................................ VII,76 6.1-7 .......................................... XXIII,189 7.7-15 .................................... XXXIII, 264 7.10-15(16-17) ............................. XVI,211 8.4-7 ......................................... XXIII,181 9.7-10 ............................................... X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10 ............ XIX,61; XXXI,52 3.10-4.11 .................................. XXXII,274 Miqueias 5.1-4a ....................... VI,88; XII,114 5.2-4 ........................................... XXIX, 21 5.2-5 ...... XVI, 63; XXVII, 29; XXXIV, 30 6.1-8 ......................... XXIV,79; XXVII, 58
6.6-8 ............................. VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4 ........... XVII,219; ........................... XXIX, 281; XXXIV, 327 Sofonias 3.14-18a ................................. XX,20 Zacarias 7.9-10 .............................. XXVI, 267 8.1-8 .......................................... XXIV,337 9.9-10 ............. X,91; XIX,106; XXXI,107 12.7-10(11) ................................. XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5 ..................... XXV,207 2.17-3.5 ....................................... XXIII,9; NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 . XVIII,25; XXIV,29; XXX,19 2.1-12 X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; ................................ XXVII, 46; XXXII,62 2.13-18 ............................................. V,304 3.1-12 ....................... XVIII,15; XXIV,24 3.13-17 ............. X,206; XVIII,53; XXIV,67; .................................... XXX,44; XXXII,66 4.1-11 .......... IV,14; XXVII,70; XXXII,85 4.12-17 .......................................... XII,142 4.12-23 ........................................ XVIII,61 4.23-25 ............................... XII,35; XII,34 5.1-10 ......................... IV,212; XXXII,307 5.1-12 .......................................... XVIII,64 5.13-16 ............................................ X,390; 5.13-16(17-20) ............................ XVIII,69 5.17-20 ........................................... IV,125; 5.20-37 ........................................ XVIII,73 5.38-48 ..................... II, 193, (360); X,460 6.1-4 ............................. VIII,279; XIV,332 6.1-6,16-18 ............................ XXXIV, 115 6.5-13 ...................... II, 57, (224); XIV,247 6.9-13 ................................ VI,53; VIII,192 6.16-18 ............................................ IV,133 6.24-34 ........................ IV,180; XXXII,179 6.25-34 ............................................. X,428 7.15-23 ............................................ IV,140 7.21-29 . XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27 .......................................... VI,233; 9.1-8 ................................................ IV,198 9.9-13 .... VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8 ................................... XVIII,170 10.7-15 ................................. II, 104, (271) 10.24-39 .................................. XXXII,204 10.26-33 ................. XVIII,176; XXX,168; ............................................... XXXIV, 347 10.26b-33 ........................ VI,291; XII,268; 10.26-36 .................................... XXIV,203 10.34-39 ........................................ XII,274 10.34-42 .................. XVIII,181; XXX,174 11.2-10 .............................................. X,170 11.2-11 ........ III,215;; XXI,30; XXVII, 22;
385 Proclamar Libertação 34.p65
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................................................... XXXII,21 11.16-19,25-30 ........................ XXXII,221 11.25-30 XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.22-30 .......................................... IV,217 12.33-35(36-37) ............................ XII,307 12.38-42 ................. II, 225, (292); XII,175 13.1-9 ... XXI,196; XXVII, 188; XXX,189 13.24-30(36-43) ....... XVIII,289; XXI,203; ................................................. XXXII,229 13.44-46 II, 150, (317); VIII,253; XIV,295 13.44-52 ................. XXI,207; XXVII, 194 14.13-21 XXI,213; XXIV,245; XXVII,198; ................................................. XXXII,241 14.22-33 . VI,109; XXIV,249; XXVII, 202 15.21-28 ... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; ................................................. XXXII,255 16.13-19 ...................................... XXIII,40 16.13-20 ............... XXIV,260; XXVII, 216 16.13-20(23) ......................... II, 72, (239); 16.21-26 XXI,223; XXVII,222; XXXII,264 17.1-9 ............. X,216; XVIII,78; XXX,60 18.15-20 ........... II, 123, (290); XVIII,226; .................................................... XXX,227 18.21-35 ..... X,467; XVIII,232; XXX,234; ................................................. XXXII,269 19.16-26 .............................. II, 182, (349) 20.1-16a . IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16 ..................................... XXIX, 296 20.17-28 ..................... XXI,96; XXVII, 87 21.1-9 .................................. III,194; X,149 21.14-17 .................... II,52, (219); XII,185 21.23-32 .................................. XXXII,282 21.28-32 ....................... VI,247; XVIII,243 21.33-43 .................................... XVIII,250 22.1-10 (11-14) ........ XXX,243; XVIII,254 22.1-14 .......... IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21 .................................... XVIII,259 22.23-33 ........ VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40 ......................................... IV,194; 22.34-40(41-46) ..... XXX,253; XXXII,298 23.1-12 ................. II,158, (325); XXX,259 24.1-14 ........................... VI,68; XVIII,275 24.15-28 .......................................... IV,222 24.37-44 ........ XXI,21; XXVII,9; XXXII,9 25.1-13 ........... IV,243; XI,336; XXIV,312; .................................................... XXX,277 25.14-30 . II, 233, (400); X,394; XVIII,272; ................................................... XXX, 286 25.31-37 ................................... XVIII, 297 25.31-46 ....... IV, 231; X, 472; XVIII, 298; ........... XXI, 302; XXVII, 291; XXXII, 51; ................................................ XXXII, 324 26.30-56 ................................... XVIII, 109 26.36-46 .......................................... VI, 29
26.57-75 .................................... XXIV,122 27.11-26 .................................. XXXII,116 27.33-50(51-54) .......................... VIII,162; 27.33-54 ................... XXI,111; XXVII, 99 27.33-56 ....................................... XIV,201 28.1-10 ......................... VI,167; XXIV,139 28.16-20 .. X,374; XXX,156; XXXIV, 203 Marcos 1.1-8 ............... XXII, 14; XXVIII, 13; ....................................................... XXXIII, 16 1.4-11 ...................... XXII, 48; XXVIII, 64 1.9-15 .................................... XXXIII, 132 1.12-15 ..... XIX, 79; XXV, 129; XXXI, 84 1.14-20 . XXII,56; XXVIII,73; XXXIII, 84 1.21-28 ..................... XVI, 99; XXVIII, 79 1.29-39 ............. XXVIII, 87; XXXIII, 101 1.32-39 ........................... VI, 284; XII, 261 1.40-45 ........................... VI, 258; XII, 241 2.1-12 ....................... X, 453; XXVIII, 100 2.18-22 ........................................ VIII, 105 2.23-28 .... VIII, 311; XIV, 367; XXII, 169; ................................................ XXVIII,228 3.1-6 ................................................ X, 114 3.20-35 ................. XVI, 192; XXVIII, 233 3.31-35 .......................................... VI, 252 4.26-29 ........................................... VI, 113 4.26-34 ................ XXII, 175;XXVIII, 240 4.30.32 .......................................... XII, 313 4.35-41 XVI,200; XXII,182; XXVIII,247; ............................................... XXXIII, 244 5.21-24a,35-43 . XXVIII,253; XXXIII,378 5.24b-34 .................................... XXII, 188 5.25-34 ........................................... XII, 27 6.1-6 ..... XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.1-13 .................................... XXXIII, 256 6.6b-13 ..................... XIX, 201; XXV, 236 6.14-29 .............................................. X, 74 6.30-34 . XIX, 206; XXV, 241;XXXI, 208; ............................................... XXXIII, 270 6.34-44 ...................................... XXX, 247 7.1-8,14-15,21-23 ... XIX, 233;XXXI, 242; ............................................... XXXIII, 309 7.31-37 .......... IV, 163; X, 408; XXII, 239; ............................................... XXVIII, 307 8.22-26 ......................... VIII,269; XIV,317 8.27-35 .................. XVI,247; XXXIII, 323 8.31-38 ............ X,234; XIX,83; XXV,134; ..................................................... XXXI,91 9.2-9 .. XVI,105; XXVIII,108;XXXIII, 119 9.17-29 ........................................... VI,278 9.30-37 ....................... XVI,255; XXII,245 9.38-50 ................ XXII,250; XXVIII,322; ............................................... XXXIII, 334 9.43-48 ................. II, 138, (305); XVI,263 10.2-12 ................................... XXVIII,326
386 Proclamar Libertação 34.p65
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10.13-16 ................................. XXVIII,313 10.17-27 ..... XII,256; XVI,268; XXII,260; ............................................... XXXIII, 348 10.32-45 ........................................... X,106 10.35-45 ................ XXVIII,289; XVI,277; ............................................... XXXIV, 270 10.46-52 ..................... XVI,283; XXII,265 11.1-11 ................................... XXXIII, 160 12.1-12 ............................................. X,242 12.13-17 .......................................... III,138 12.41-44 . VI,138; XXII,281; XXXIII, 387 13.1-13 . XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31 ................................. XXVIII,358 13.31-37 ...................................... XIV,397; 13.33-37 .......................... XXV,17; XIX,9 14.3-9 .............................. VI,149; XXII,93 14.6-9 ............................................ XII,181 14.12-26 XVI,134; XXII,104; XXVIII,144 14.17-26 ......................................... VI,156 15.1-15(16-20) ....... XVI,129; XXVIII,139 16.1-8 IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; ................................................ XXVIII,159 16.9-14(15-20) ............. VIII,173; XIV,225 16.12-18 ................................ XXXIII, 184 16.14-20 ............................................ IV,77 Lucas 1.1-4 ..................................... XXIII,200 1.26-33(34-37) 38 ............. VI,81; XII,109; 1.26-38 ............ XVI,56; XIX,27; XXII,28; ............................ XXVIII, 26; XXXIII, 24 1.39-45(46-55) ........................... XXVI, 20 1.(39-45)46-55(56) .......................... X, 175 1.46-55 ............................................ V, 288 1.57-66 ..................................... XXIV, 200 1.67-79 ............................. V, 270; VIII, 30 2.1-7 ........................ XXX, 24; XXXIV, 38 2.1-7,8-14,15-20 ............................ XVI, 63 2.1-14 ... I, 161, (168); X, 181; XXXII, 41 2.(1-14)15-20 ......... XXIV, 41; XXXIV, 69 2.1-20 ............... III, 218; IV, 273; XVII, 28; XXI, 41; XXIII,21; XXIV, 34; XXVII, 34; ................................. XIX, 26; XXXIII, 37 2.41-52 ........................................... XX, 35 3.1-9 ................................................ V, 281 3.1-14 .............................................. VI, 76 3.7-18 ..... XVII, 21; XXIII, 15; XXIX, 16; ................................................. XXXIV, 24 3.15-17,21-22 ............... XX, 40; XXVI, 36 4.1-13 ....................... XXIII, 60; XXIX, 81 4.14-21 .......................... VI, 19; XXVI, 47 4.14-21(22) ..... XX, 50; XX, 59; XXVI, 47 4.16-21 ............................................ X, 186 4.21-30 ................ XXVI, 54; XXXIV, 100 5.1-11 . IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI, 59 6.17-26 ......................... XX, 69; XXVI, 66
6.27-38 .......................... XX,73; XXVI, 74 6.36-42 ................................ IV,112; X,368 7.1-10 ....................................... XXVI, 206 7.11-17 ............................. IV,186; VIII,293 7.36-50 ..... VIII,262; XIV,309; XXVI, 220 8.4-10 .............................................. X, 228 8.26-39 .................................. XXXIV, 237 9.10-17 ........................................ VIII, 241 9.18-24(25-26) ......... XX,190; XXVI, 226 9.28-36 ... XX,82; XXVI, 85; XXXIV, 109 9.51-56 ......................................... XV, 167 9.51-62 ......................................... XX, 198 9.57-62 ............................................ X, 251 10.1-11,16-20 ........................ XXXIV, 252 10.1-12,16 ..................................... XX,204 10.17-20 .................................... XXIV,285 10.21-24 ................................. II, 82, (249) 10.25-37 ...... X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42 ... VI,124; XVII,170; XXIII,140; ........................... XXIX, 216; XXXIV, 264 11.1-13 ................... XXIII,145; XXIX, 223 11.5-13 ............................................ VI,184 11.14-23 ............................ VI,297; XII,283 12.13-21 ............... XXIII,149; XXIX, 228; ............................................... XXXIV, 278 12.32-40 ..................................... XVII,183 12.35-40 ........................................ III, 226 12.41-48 ........................................ VI, 302 12.42-48 ....................................... XII, 289 12.49-53 XVII,189; XXIII,154; XXIX, 235; ............................................... XXXIV, 289 13.1-9 ....... XVII,83; XXIII,72; XXIX, 93 13.22-30 XVII,193; XXIII,159; XXIX, 241 13.31-35 .... XVII,78; XXIII,65; XXIX, 88 14.1,7-14 ............... XXIII,167; XXIX, 247 14.7-14 ....................................... XVII,196 14.15-24 ................................ IV,96; X,354 14.25-33 .... VIII,235; XX,251; XXVI, 277 15.1-3,11b-32 ......... XII, 220; XXXIV, 125 15.1-3,11-32 . IV, 209; XVII,88; XXIX, 100 15.1-7(8-10) ..................................... X,361 15.1-10 ..... IV, 106; XX, 255; XXXIV, 309 15.8-32 .................................. XXVIII, 265 16.1-9 ............................................. IV, 147 16.1-13 ..................... XX, 260; XXVI, 286 16.19-31 ..... IV, 88; XX, 265; XXXIV, 321 17.1-10 ..................... XX, 270; XXVI, 298 17.5-6 ......................... VIII, 286; XIV, 346 17.7-10 ........................... VI, 117; XII, 160 17.11-19 ............ IV, 172; X, 421; XX, 275; ........................... XXVI, 305; XXXIV, 371 17.20-35 .......................................... V, 275 18.1-8a ...................... XX, 291; XXIII, 213 18.1-8 ...................... VIII, 343; XXVI, 325
387 Proclamar Libertação 34.p65
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26/10/2009, 14:07
18.9-14 . IV,158; XXVIII,333; XXXIV,340 18.18-23 ....................................... XII, 249 18.31-43 ...................................... VIII, 124 19.1-10 .. II, 112, (279); VIII,219; XIV,275 19.28-40 ............ XXVI, 121; XXXIV, 138 19.41-48 ............................ IV, 153; X, 401 20.9-19 .................... XVII, 94; XXIX, 105 20.27-38 ............ XXIII, 223; XXXIV, 359 21.5-19 ......................................... XX, 296 21.25-36 ........ III, 209; XVII, 9; XXXIV, 9 22.7-20 ...................... XX,116; XXVI, 126 22.31-34 ....................... VIII,131; XIV,172 23.33-43 ............ XXVI, 344; XXXIV, 365 23.(26-32)33-49 ..... XVII,102; XXIX, 119 23.33-49 ......................................... VI,162 23.35-43 ..................................... XVII,248 24.1-11(12) .................................... XX,127 24.1-12 ............................................. II,201 24.13-35 ..... VI,40; XXI,125; XXVII, 114; ................................................. XXXII,137 24.36-49 ...................... XVI,164; XIX,128 24.44-53 ................................. XXVIII,201 24.(44-49)50-53 ......... XIX,148; XXII,145 24.50-53 .......................................... X,331; João 1.1-5.9-14 ..... XIX,35; XXV,39; XXXI,24 1.1-18 ........................ XXIII,30; XXIX, 46 1.(1-9)10-18 ............................ XXXIII, 64 1.6-8,19-28 ..... XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28) .............................. VIII,49; 1.29-34 .......................................... VIII,98; 1.29-34(35-41) .............. XVIII,57; XXI,55 1.35-42 ......................................... XII,227; 1.43-51 .......... XII,129; XVI,92; XXII,52; ............................. XXVIII, 68; XXXIV, 80 2.1-11 .............. IX, 41; XX, 44; XXVI, 40; ................................................. XXXIV, 89 2.13-22 ............................. VI,237; XIX,87 3.1-11(15) ......................................... X,347 3.1-17 XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91; ............................................... XXXIII, 232 3.14-21 ........ XIX,95; XXV,144; XXXI,96 4.1-11 ......................................... XXXI,149 4.5-26 ............................................. XXI,82 4.31-38 ................................... II, 89, (256) 4.46-54 .......................................... XII,148 5.1-16 ........................................... XIV,360 5.1-16(18) ..................................... VIII,304 5.19-21 ......................................... XIV,215 5.24-29 XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; .................................................... XXX,271 5.39-47 ........................................... VI,204 6.1-15 .. IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; ................................................... XXXI,213 6.(22-23)24-35 .......... XIX,217; XXV,254;
............................ XXXI,218; XXXIII, 280 6.35 .............................................. VIII,151; 6.37-40(41-43),44 ................ II, 200, (367) 6.41-51 XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; ................................................... XXXI,226 6.51-58 ...................... XIX,225; XXXI,232; ................................................. XXXIII,292 6.60-69 .... XIX,229; XXV,264; XXXI,237 6.66-69 .......................................... XII,293 7.14-18 ........................................... VIII,87 7.37-39a . XVI,187; XXII, 158; XXVIII, 211 7.37-39 ........... VI,194; XII,199; XXII,158 8.1-11 ............................................ VIII,228 8.21-30 ......................... VIII,138; XIV,179 8.31-36 . II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; ................................................... XXIII,209 9.1-7 ............................. VIII,248; XIV,290 9.1-41 ...................................... XXXII,104 9.13-17,34-39 ............. XXI,91; XXVII, 81 9.35-41 ......................................... VIII,299 10.1-5,27-30 ........................... II, 40, (207) 10.1-10 .. XXI,133; XXVII,119; XXXII,144 10.11-16 ............................................. IV,53 10.11-18 .. XIX,135, XXV,181; XXXI,139; ................................................ XXXIII,199 10.11-18,27-30 ................................. X,310 10.14-16,27-29 ......................... XXXIII,50 10.22-30 ................................... XXIX, 141 10.22-30(31-39) ........................ XVII,117; 11.1,3,17-27 .......................... II, 188, (355) 11.1(2),3,17-27(41-45) ..................... X,434 11.47-53 ....... VIII,157; XIV,192; XXI,103; ................................................ XXXIII,154 12.12-19 ............................ X,269; XX,110 12.20-26 ........................................... X,258 12.20-30 ...................................... XXV,150 12.20-33 .................. XIX,102; XXXI,103; ................................................ XXXIII,154 12.44-50 ......................................... VIII,65 13.1-15,34-35 ................................... X,277 13.1-17,34 ............. XXX, 99; XXXIV, 144 13.31-35 ................ XVII,121; XXIX, 149; ......................... XXXIV, 144; XXXIV, 191 14.1-6 ............................................ XII,134 14.1-12 ................... XXI,139; XXVII, 124 14.1-12(14) ............................. II, 63, (230) 14.8-17(25-27) ...................... XXXIV, 219 14.15-19 ....................................... XV, 232 14.15-21 .................................... XXIV,165 14.23-27 .............................. IV,82; X, 341 14.23-29 ................. XVII,126; XXIX, 154 15.1-8 ........... X,317; XIX,139; XXV, 189 ................................................... XXXI,146 15.9-12(13-17) ............................ XIV, 374
388 Proclamar Libertação 34.p65
388
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15.9-17 ...... VIII,317; XIX,143; XXV,192; ............................................... XXXIII, 211 15.(18)26-16.4 ................................. X, 337 15.26-27; 16.4b-11 .... XX,171; XXVI, 191 16.5-15 .............................................. IV,65 16.12-15 .................... XX,177; XXVI, 200 16.16-23a .............................. IV,57; VI,179 16.16,20-23a ..................... VI,129; VI, 176 16.22-28 ............................................ IV,72 16.23b-28,33 .................................... X,323 17.1a,6-19 ............................... XXXIII,221 17.1-15 ...................................... XXIV,159 17.1-11 .................... XXI,148; XXVII, 132 17.9-19 ............................. IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19 .......... XIX,153; XXXI,157 17.20-26 ................... VIII,198; XXIX, 168 18.33-37 .................... XIX,299;XXXI,296 19.16-30 ................ IV,38; X,284; XIX,110; ............ XXV,170; XXXI,123; XXXIII,168 20.1-18 .................................. XXXIV, 162 20.1-2,11-18 .............................. XXIV,230 20.1-9(10-18) ....... XVIII,120; XXVI, 136; .................................................... XXX,109 20.11-18 ........................ VIII,166; XIV,207 20.19-23 .................. XXIV,173; XXX,150 20.(19,23)24-29 ............... X,301; XIX,119; ................................................. XXXII,134 20.19-31 XIX, 119; XXI,121; XXVII, 110; ................................ XXIX, 128;XXXI,133 21.1-14 ................... XVII,111; XXIX, 136 21.1-19 .................................. XXXIV, 178 21.15-19 ....................................... VIII,179 21.20-25 .................................. XXXIV, 53 Atos 1.8-14 ................................... XXIV,168 1.1-11 .......... XX,155; XX,160; XXVI,182; .............................. XXIX,161; XXXII,162 1.15-26 ................... XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11 ............................... XI,242 2.1-13 ............................................. XI,249 2.1-21 .................... XIX,158; XXVII, 139 2.14a,22-32 ............................... XXIV,143 2.14a,36-47 ................................ XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39 ...................... XV,239 2.36-41 .............................................. III,59 2.41a,42-47 ..................................... XI,284 3.1-10 ............................................ VII,198 3.13-15,17-26 ......... XVI,158; XXVIII,165 4.8-12 ..................................... XXVIII,172 4.32-37 ............................................ V,310 5.12,17-32 .................................... XX,130 6.1-7 ............................ III,134; XXIV,155 8.14-17 .................................... XXXIV, 85 8.26-40 .. XIII,222; XVI,169; XXVIII,188; ............................................... XXXIII, 205
9.1-20 ............................................ XX,136 9.36-43 .................................. XXXIV, 184 10.34-38 . XXIII,35; XXVII, 52;;XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18 ....................... XIX,49 10.34-43 ............ XXVII, 105; XXXIII,177 11.19-30 .................. XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25 ............................. XXII,33 13.44-52 ......................... XX,140; XX,143 14.8-18 ......................................... XX,148 16.6-10 .......................................... XX,164 16.9-15 ............................. IX,171; XV,141 16.16-34 ................................ XXXIV, 211 16.23-34 ........................ VII,122; XIV,233 17.1-15 ...................................... XXIV,159 17.16-34 .............................................. I,34 17.22-31 ................... XV,213; XXXII,156 Romanos 1.1-7 XVI,77; XXV,55; XXVIII,54; ................................................... XXXII,36 3.19-28 ............. II,169; XX,278; XXI,267; ............................... XXV,287; XXXIII,364 3.21-25a ........................... XXVII,156, 272 4.1-5,13-17 ............................... XXIV,100 4.13-25 ................................... XXXIII,138 4.18-25 .................. XXIV,184; XXVII,161 5.1-5 .. XVII,137; XXIX,180; XXXIV, 224 5.1-8 ........................................ XXXII,197 5.1-11 .......... XXVIII,122; V,51; XXXII,98 5.6-11 ..................... XXIV,190; XXVII,166 5.12-15 .................................... XXVII,172 6.1b-11 ................... XXIV,211; XXVII,183 6.3-8 ............................................... XI,278 6.19-23 ................................ V,164; IX,258 8.1-11 ................. I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17 ............................................. V,170 8.14-17 ........................................ XXV,203 8.14-17,22-27 ............................ XXIX,174 8.18-23 ............................................. V,150 8.18-23(24-25) .......................... XVIII,192 8.26-27 ....................................... XXX,193 8.26-30 ........................................... IX,233 8.31b-39 ......................................... XI,144 8.31-39 ........................ IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39 ............................. XVI,110 9.1-5,31-10.4 ................................ XIII,235 9.1-5; 10.1-4 ..................................... V,185 9.30b-33 .......................................... III,124 10.5-13 .................... XVI,115; XXXII,248 11.13-15,29-32 .......................... XXIV,255 11.25-32 .................................... I, 95, (102) 11.32-36 ........................................... V,126; 11.33-36 .......................................... XI,256 12.1-8 ........................... XI,152; XXIV,265 12.6-16 ............................................... V,19 13.1-10 ......................................... XXI,229
389 Proclamar Libertação 34.p65
389
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13.8-10(13-14) ............................... XI,107 13.11-14 .......................... IV,251; XXIV,19 14.5-9 ........................................... XXI,234 14.7-13 .............................................. III,79 14.10-13 ......................................... XI,266 15.4-13 ........................ XXI,25; XXXII,16 16.25-27 ...................................... XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9 ............. XXIV,70; XXXII,72 1.3-9 ............................. XVI,51; XXVIII,9 1.4-9 ................................................. V,228 1.10-17 ........................................... XXI,60 1.18-25 ............................................ XX,97 1.26-31 .................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5 ............................... XXI,71; XXII,60 2.1-10 .............................. VII,50; XIII,126 2.6-13 ............................................. XXI,74 2.12-16 .......................................... VII,150 3.9-15 ............................... XV,266; IX,269 3.16-23 ....................................... XXII,193 4.1-5 ................................... IV,261; XI,119 6.9-14,18-20 ............................... I, 78, (85) 6.9-14(15-17)18-20 ..................... I,86, (93) 6.12-20 ..................................... XXXIII,76 7.29-31 ........................................ XXIV,90 7.29-32a .................................... I, 46, (213) 8.2 ................................................... XIII,42 9.16-23 .......................... XIV,264, XXV,96 9.24-27 ...................... XI,165; XXXIII,112 10.1-13 ................................ V,179; XX,91 10.16-17 ........................ VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21) ........................ XXXI,113 10.31-11.1 .................................... XXV,107 11.23-26 .................. XXIV,127; XXVII, 94 11.23-29 .............................................. V,65 12 .................................................... XIII,34 12.1,4-11 ..................... XVII,47; XXIX, 59 12.12-21,26-27 .......... XXIII,45; XXIX, 64 12.27-13.13 ................ XVII,52; XXIX, 71 12.31b-13.13 ......................... V,32; XI,182 14.1-3,20-25 .................................. VII,158 14.12b-20 .................................... XXIII,49 15.1-11 ................. XVII,108; XXXIV, 105 15.1-20 .............................................. III,13 15.12,16-20 .............. XVII,63; XXXII,311 15.19-28 I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; ..................................................... XXV,175 15.20-28 ................. XVIII,280; XXX,293, 15.35-38 ......................................... XIII,29 15.45-49 ....................................... XVII,69 15.50-58 ......... V,78; XIX,286; XXVI, 320 2 Coríntios 1.3-7 ......................... I, 112, (119) 1.18-22 ............. VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6 .......................................... XXV,118 3.3-9 ............................................... IX,283
3.12-4.2 ......................... XIX,76;XXXI,78 4.3-6 ................................ IX,157; XIV,165 4.5-12 ....................... XIX,169; XXXI,171 4.6-10 ............................................. XI,158 4.7-18 ................................................ III,53 4.13-18 ...................... XIX,173;XXXI,177 4.16-18 ......................................... XIII,192 5.1-10 .............................. IX,295; XV,288; 5.6-10 ...................... XIX,178; XXXI,183 5.14-21 .................................. I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21 ..... XVI,140; XXVIII,153 6.1-10 .............................................. VII,82 8.1-9,13-14 .................................. XIX,188 8.1-15 ............................................. XIII,18 8.7-15 ..................................... XXXIII,251 8.9 .................................................. XV,112 9.6-15 .................................. V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 .............. XIII,142 12.1-10 .............................................. V,26; 12.7-10 ..................... XIX,195; XXXI,199 13.11-13 ...... IX,240; XXI,158; XXXII,174 Gálatas 1.11-24 .............................. XXIII,113 2.16-21 ......................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 ......................... XXIII,119 3.28 ................................................. XII,70 4.1-7 .............................................. IX,144 4.4-7 ............ XV,106; XVIII,38; XXX,31; .................................................. XXXIII,44 5.1-6 ............................................ XIII,167 5.1-11 ................... I, 118, (125), 124, (131) 5.1,13-25 ............ XXIII,126; XXXIV, 243 5.25-26; 6.1-3,7-10 ........ VII,214; XIII,253 6.14-18 ...................................... XXIII,131 Efésios .......... 1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ...................................................... XXX,37 1.3-14 ......... III, 62 XXII, 204; XXXIV, 75 1.3-6,15-18 .................................. XVIII,43 1.(16-20a)20b-23 ....... XXI,144; XXX,138 1.20b-23 ........................................ IX,227 2.1-10 ......................................... XXX,265 2.4-10 ..................... XVI,120; XXVIII,128 2.11-22 ................................................ X,48 2.13-22 ....................................... XXII,209 3.1-12 ......................................... XXXI,30 3.2-12 ............................. XVI,83; XXII,43 3.14-21 ........................ V,212; XXXIII,275 4.1-6 .................................. V,218; XIV,353 4.1-7,11-16 ................................ XXII,215 4.17-24 ....................................... XXII,220 4.20-32 ............................................. V,235 4.30-5.2 ........................................ XVI,228 5.1-8a .............................................. XI,205 5.1-9 .................................................. V,46; 5.8-14 ........................................ XXIV,105
390 Proclamar Libertação 34.p65
390
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5.9-14 .............................................. III,100 5.15-20 ......................................... XVI,233 5.15-21 ........................................... V,241; 5.21(22-25)26-31 ......................... XVI,236 5.21-31 ................................... XXVIII,294 6.10-20 ................... XVI,242; XXXIII,300 Filipenses 1.3-11 ... XI,324; XVII,14; XXIX,9; ................................................. XXXIV, 16 1.12-21 ............................................ VII,95 1.20c-27 ..................................... XXIV,280 2.1-4 ............................................. VII,173 2.1-5(6-11) ................................... XXI,245 2.5-11 ... V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; ................................. XXIX,111; XXXII,59 2.12-13 .......................................... XV,282 3.4b-14 .................................. XXXIV, 133 3.12-21 .................. XXIV,290; XXVII,251 3.7-11 .............................................. XI,291 3.7-14 ............................................... V,261 3.8-14 ............................................ XX,102 3.12-16 ................................... II, 20 (187) 3.12-21 .................................... XXVII,251 3.17-21 ........................................... XI,330 3.17-4.1 ........................................... XX,86 3.20-21 ................. I,136, (137); 129,(143) 4.4-7 ............................................ XXVI,15 4.10-20 ........................................... IX,150 Colossenses 1.1-6 ........................... XXVI, 233 1.12-20 ...................................... XXIII,229 1.15-23 ................................................ I,47 1.21-28 ..................................... XXVI, 240 2.3-10 ........................................... XIV,140 2.6-15 ....................................... XXVI, 250 2.12-15 ......................................... XIII,186 3.1-4 ............ III,48; XXI,117; XXXII,127 3.12-17 ............................................. V,107 4.2-6 ................................. V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a ............... XXIV,294; ................................................. XXVII,256 1.5b-10 ................................... XXVII, 263 1.2-10 ............................................ VII,210 2.8-15 ...................................... XXVII,277 3.9-13 .............................................. XX,15 4.1-8 ..................................... V,38; XI,315 4.13-14(15-18) ........................... XXI,285; 4.13-18 ......................................... XXI,292 5.1-8 ............................................... IX,288 5.1-11 ............................................ XXI,297 5.12-24 ........................................... IX,274 5.16-24 ..................... XXII,19; XXXIII,20 2 Tessalonicenses 2.1-17 ...................... III,165 2.(13-15)16-17; 3.1-5 ............... XXIX, 311 3.1-5 .............................................. IX,252 3.6-13 .............................. V,97; XXIX,317
1 Timóteo . 1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 ................................... II, 169, (336) 2.1-8 .................. XVII, 211; XXXIV, 314 3.16 .............................................. XIV,132 4.4-5 ............................................ XIII,298 6.6-16 .................... XVII, 215; XXIX, 274 6.11b-16 .......................................... IV, 255 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14 .......... XXIII, 195 2.8-13 ....................................... XXIII, 205 2.8a(8b-13) .................................. XV, 198 3.14-4.5 ................................. XXXIV, 333 Tito 2.11-14 ... II,263, (430); XI,128; XXIV,34 3.4-7 .............. IV,280; XX,29; XXXIV, 45 Filemom 8-21 ................................. XXIX, 254 9b-17(18-21) .............................. XVII,201 Hebreus 1.1-9 .................................... XVI,70 2.9-11 ......................... XIX,257;XXXI,274 2.10-18 .......................................... IX,188 3.1-6 ............................................. XIX,262 4.9-16 ......................... XIX,268 XXXI,281 4.12-13 ........................................... XI,171 4.14-16 ........................................... XI,192 4.14-16; 5.7-9 ...... XXIV,133; XXXIV, 153 5.1-6(7-10) ............. XIX,273; XXXIII,356 5.7-9 ......... XI,211; XVI,125; XXVIII,134 9.15-17,26b-28 .............................. XX,122 9.15,24-28 ........................................... III,7 9.15,26b-28 ................................. XIII,179; 9.24-28 ........................................ XIX,291 10.19-25 .................. II, 241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10 .................................. IX,178 11.1-3,8-16 .................................... XX,229 11.1-4 ........................................ XXVIII,39 11.8-10 ........................................... XV,160 12.1-3 ............................................ XV,178 12.1-13 ......................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a ............... XV,127 12.18-24 ................ XX, 242; XXXIV, 296 13.1-8 ............................................ XX,246 13.(7)8-9b .................................... XIV,153 13.12-16 ........................................... V,205 Tiago 1.12-18 ..................................... XV,154 1.17-27 ........................................ XXV,268 2.1-13 .......................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 ......................... XXV,275 2.14-24 ........................................... III,110 3.13-4.3,7-8a .......................... XXXIII,327 4.13-17 .......................... IX,34; XXIX, 40 5.1-6 ............................. XIII,265; XIX,252 5.7-8 .............................................. XI,114; 5.7-10 .......................................... XVIII,19 5.13-16 .......................................... VII,220 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ...................... XIII,152; 1.17-21 ....................................... XXX,118
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1.17-22 ...................................... XVIII,129 1.3-9 ................ III,22; XI,221; XVIII,125; .................................................... XXX,114 2.1-10 ......... I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 ...................... XXX,128; XVIII,138 2.13-17 .................................... I, 102 (109) 2.15-17 ............................................. VI,13 2.18-25 ....................................... XXX,122 2.19-25 ..................................... XVIII,133 2.21b-25 .............................. V,91; XI,229; 3.8-17 ............................................. V,156; 3.15-18 ................... XVIII,146; XXIV,165 4.7-11 ............................................... V,120 4.13-19 ..................................... XVIII,152 5.1-5 .................................................. III,27 5.5b-11 ................................ V,144; XI,307 2 Pedro 1.3-11 ...................................... III,145 1.16-19(20-21) ............................ IX,165; 1-16-21 .................... XXIV,95; XXVII, 65 3.8-14 ...... XVII,237; XXIII,218; XXV,23 1 João 1.(1-4)5-2.2 ........................... XXII,124 1.5-10; 2.1-6 ................................ XIII,216 2.21-25 ............................................ VII,30 3.1-3 ............................................... VII,21 3.1-7 ....................................... XXXIII,191 3.13-18 ............................................ IX,57 3.18-24 ......................... III,159; XXII,130 4.1-6 ................................................ IX,72 4.1-11 .......................................... XXII,135 4.11-16 ....................................... XXXI,165 4.7-12 ............................................ XI,299
4.7-16 ............................................... V,196 4.(7-16a)16b-21 ......................... XXII,149 4.16b-21 ........................................... V,135 5.1-5 ...................................... V,84; XI,235 5.1-6 .......................................... XXII,118 5.11-13 .......................................... XI,138 Apocalipse 1.4-8 ............. VII, 131; XIII, 204; ............................................... XXXIV, 169 1.9-18 .............................. VII,65; XIII,133 1.9-20 ....................................... XXVI, 145 2.8-11 ............................. VII,228; XIII,275 1.9-20 .......................................... XXIII,84 3.1-6 ......... IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 ................................... II, 248 (416) 3.14-22 ........................................ XIII,304 4.1-11 ........................................ I, 144(151) 5.1-14 ............................................... VII, 7 5.11-14 ................... XXIII, 90; XXVI, 150 7.9-12 ....................................... XVII, 230 7.9-17 ........ III, 182; XIII, 110; XXIII, 94; .................................................. XXVI, 159 12.1-6 ........................................ XXIII, 26 12.7-12 ....................................... XXI, 241 14.6-7 ............................................. V, 249 15.2-4 .......................................... XV, 218 19.11-16 ......................................... III, 195 21.1-5 ....................................... XXVI, 170 21.10-14,22-23 ......................... XXVI, 176 21.10,22-22.5 ........................ XXXIV, 195 22.10-16 ............................................ X,11 22.12-17,20 ................................ XXIII,99
Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.
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COLABORADORES DO VOLUME 33 ABENTROTH, Anelise L.: analisevilmar@gmail.com ADAM, Júlio C.: julio@ienh.g12.br ALMEIDA, Odete Líber de.: a.l.a.a@uol.com.br ARCARI, Marlei Adam: marleiadam@hotmail.com BLASI, Marcia: mauro_marcia@hotmail.com BRAKEMEIER, Gottfried: brakemeier@terra.com.br BRANDENBURG, Yedo: yedo@brturbo.com.br BRAUN, Odair A.: veraodair@terra.com.br BUTTELLI, Felipe G. K.: felipebuttelli@yahoo.com.br DREHER, Carlos A.: cdreher.nho@terra.com.br DREHER, Martin N.: martin@unisinos.br DREHER, Scheila dos Santos: drehersantos@uol.com.br DREHMER, Erni: ernidhemer@globo.com GARCIA, Paulo Roberto: paulo.garcia@metodista.br GARIN, Norberto da Cunha: ncgarin@terra.com.br GONÇALVEZ, Humberto Maiztegui: humbertox@uol.com.br HAGSMA, Alfredo J.: hagsma@terra.com.br HOLZSCHUH, Clarise I. W.: clarisewh@yahoo.com.br HOLZSCHUH, Jair L.: jair2170@yahoo.com.br IMMICH, Vera M.: veraodair@terra.com.br KALMBACH, Pedro: pedro_kalmbach@yahoo.com.ar KLEINE, Michael: kleinem@terra.com.br KONZEN, Léo Z.: leokonzen@urisan.tche.br KRÜGER, René: renekruger@isedet.edu.ar KUNZ, Claiton A.: claitonk@terra.com.br KUPKA, Cláudio: c.kupka@uol.com.br LACERDA, Gerson C. de: gclacerda@uol.com.br LENKE, Ângela: angelalenke@yahoo.com.br LÜCKEMEYER, Valdemar: luckemeyer@annex.com.br MÜLLER, Iara: iaram@est.edu.br OLIVEIRA, Jorge B. D.: pastorjorge@terra.com.br RAYMAN, Acir: raymann@ulbranet.com.br REIMER, Haroldo: haroldo.reimer@gmail.com REIS, Ana Isa dos: anaisadosreis@hotmail.com RIBEIRO, Antônio Carlos: antoniocarlosrib@gmail.com RIBEIRO JÚNIOR, Olmiro: orjr_che@yahoo.com.br RIECK, Kurt: kurtrieck@gmail.com RIETH, Ricardo W.: rwrieth@terra.com.br SANTANA FILHO, Manuel Bernardino: m.bernardinofilho@gmail.com
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SAMUELSSON, Jefferson A.: jasamuelsson@gmail.com SCHMIDT, Ervino: ervinus@bol.com.br SCHWALM, Mauro A.: mauro.schwalm@mission-einewelt.de SEIBERT, Erni W.: erni@sbb.org.br SIEGLE, Manfredo: sinodonc@terra.com.br SPELLMEIER, Arteno: arteno.nho@terra.com.br TREIN, Hans A.: hans@est.edu.br ULRICH, Carlos L.: caclaul@netuno.com.br ULRICH, Claudete B.: caclaul@netuno.com.br VOIGT, Emilio: emilio@est.edu.br WASKOW, Vera R.: vrw@terra.com.br WEBER, Eloir E.: p.eloir@cpovo.net WEIMER, Tânia C.: pnovahartz@sinos.net WEIRICH, Paulo: ppweirich@yahoo.com.br WEISSHEIMER, Vera C.: veracw@uol.com.br WITTER, Teobaldo: twitter@terra.com.br WOLFF, Günter: lobo@mksnet.com.br ZANANDREA, Rene: renezanandrea@yahoo.com.br ZITZKE, Ângela: angelazitzke@yahoo.com.br
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Texto: Times New Roman PS 11 Títulos: DawnCastle 15 Datas: Baskerton 10 Subtítulos: Times New Roman PS 18/12 É proibida a reprodução total ou parcial sem permissão prévia.
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