PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 33
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO B
Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
Coordenação: Mauro Batista de Souza
2008
© Editora Sinodal Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, Nelson Kilpp, João Artur Müller da Silva, Sissi Georg, Verner Hoefelmann Coordenação editorial: Mauro Batista de Souza Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas de Faculdades EST.
P963
Proclamar libertação, v. 33: Auxílios homiléticos / [Coordenado por] Mauro Batista de Souza. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2008. 15,5x22,5 cm. ; 424p. Série: Proclamar libertação ISBN 978-85-233-0911-4 1. Teologia prática – Auxílios homiléticos. I. Souza, Mauro Batista de. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273
SUMÁRIO
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 1° Domingo de Advento – Isaías 64.1-9 ------------------------------------------- 9 2° Domingo de Advento – Marcos 1.1-8 ---------------------------------------- 16 3º Domingo de Advento – 1 Tessalonicenses 5.16-24 ------------------------ 20 4° Domingo de Advento – Lucas 1.26-38 --------------------------------------- 24 Noite de Natal – Isaías 11.1-9 ------------------------------------------------------ 31 Natal de Nosso Senhor – Lucas 2.1-20 ------------------------------------------- 37 1° Domingo após Natal – Gálatas 4.4-7 ------------------------------------------ 44 Véspera de Ano Novo – João 10.14-16, 27-29 --------------------------------- 50 Ano Novo: Nome de Jesus – Números 6.22-27 -------------------------------- 58 2° Domingo após Natal – João 1.(1-9) 10-18 ----------------------------------- 64 Epifania de Nosso Senhor – Isaías 52.7-10 -------------------------------------- 70 2° Domingo após Epifania – 1 Coríntios 6.12-20 ------------------------------ 76 3° Domingo após Epifania – Marcos 1.14-20 ---------------------------------- 84 4° Domingo após Epifania – Deuteronômio 18.15-20 ------------------------ 92 5° Domingo após Epifania – Marcos 1.29-39 -------------------------------- 101 6° Domingo após Epifania – 1 Coríntios 9.24-27 ---------------------------- 112 Último Domingo após Epifania – Marcos 9.2-9 (10) ------------------------ 119 Quarta-Feira de Cinzas – Isaías 58.1-12 --------------------------------------- 125 1° Domingo na Quaresma – Marcos 1.9-15 ----------------------------------- 132 2° Domingo na Quaresma – Romanos 4.13-25 ------------------------------ 138 4° Domingo na Quaresma – Números 21.4-9 -------------------------------- 146 5° Domingo na Quaresma – João 12.20-33 ----------------------------------- 154 Domingo da Paixão – Marcos 11.1-11 ----------------------------------------- 159 Sexta-Feira da Paixão – João 19.16-30 (31-37) ------------------------------ 168 Domingo da Páscoa – Atos 10.34-43 ------------------------------------------- 177 2° Domingo da Páscoa – Marcos 16.12-18 ------------------------------------ 184 3° Domingo da Páscoa – 1 João 3.1-7 ------------------------------------------ 191 4 ° Domingo da Páscoa – João 10.11-18 -------------------------------------- 199 5° Domingo da Páscoa – Atos 8.26-40 ----------------------------------------- 205 6° Domingo da Páscoa – João 15.9-17 ----------------------------------------- 211 7° Domingo da Páscoa – João 17.1a, 6-19 ------------------------------------ 221 Domingo de Pentecostes – Ezequiel 37.1-14 --------------------------------- 228 1° Domingo após Pentecostes – João 3.1-17---------------------------------- 232 2° Domingo após Pentecostes – Ezequiel 17.22-24 ------------------------- 239 3° Domingo após Pentecostes – Marcos 4.35-41 ---------------------------- 244 4° Domingo após Pentecostes – 2 Coríntios 8.7-15 ------------------------- 251 5° Domingo após Pentecostes – Marcos 6.1-13 ------------------------------ 256 6° Domingo após Pentecostes – Amós 7.7-15 -------------------------------- 264 7° Domingo após Pentecostes – Marcos 6.30-34, 53-56 ------------------- 270
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8° Domingo após Pentecostes – Efésios 3.14-21 ----------------------------9° Domingo após Pentecostes – João 6.24-35 -------------------------------10° Domingo após Pentecostes – 1 Reis 19.4-8 -----------------------------11° Domingo após Pentecostes – João 6.51-58 -----------------------------12° Domingo após Pentecostes – Efésios 6.10-20 --------------------------13° Domingo após Pentecostes – Marcos 7.1-8, 14-15, 21-23 -----------14° Domingo após Pentecostes – Isaías 35.4-7a ----------------------------15° Domingo após Pentecostes – Marcos 8.27-38 --------------------------16° Domingo após Pentecostes – Tiago 3.13-4.3, 7-8a --------------------17° Domingo após Pentecostes – Marcos 9.38-50 --------------------------18° Domingo após Pentecostes – Gênesis 2.18-24 -------------------------19° Domingo após Pentecostes – Marcos 10.17-31 ------------------------20° Domingo após Pentecostes – Hebreus 5.1-10 --------------------------Dia da Reforma – Romanos 3.19-28 -------------------------------------------22° Domingo após Pentecostes – Deuteronômio 6.1-9 --------------------Dia de Finados – Marcos 5.21-24, 35-43 -------------------------------------23° Domingo após Pentecostes – Marcos 12.41-44 ------------------------Ação de Graças (Festa da Colheita) – Deuteronômio 26.1-11 -----------Domingo de Louvor através da Música – Isaías 44.1-5 --------------------
275 280 285 292 300 309 315 323 327 334 343 348 356 364 373 378 387 394 401
ÍNDICES ------------------------------------------------------------------------------ 409
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PREFÁCIO
T
rinta e três. Na sabedoria popular, a “idade de Cristo.” Com esse número o Proclamar Libertação atinge a “idade de Cristo”. Já são 33 volumes de uma caminhada comprometida com a boa pregação da palavra de Deus em solo brasileiro e latino-americano. A equipe editorial esforçou-se ao máximo para permitir que o PL continue ligado a suas raízes, que historicamente se nutrem da fonte do mutirão e que produzem frutos de seriedade, criatividade e honestidade. Este volume apresenta 58 auxílios homiléticos e litúrgicos, todos baseados nos textos bíblicos indicados no Lecionário Comum Revisado, o qual a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) adotou em seu Concílio de 2006. Temos presente nesta edição, além de contribuições oriundas de teólogos e teólogas da IECLB, meditações escritas por pessoas de outras sete denominações cristãs, o que certamente enriquece o PL de maneira inestimável. Agradecemos aos autores e às autoras que, de forma voluntária, colocaram horas incontáveis na preparação dos estudos aqui apresentados. Continuamos na esperança de que estes textos sejam auxílio importante e desemboquem em uma pregação comprometida com a missão de Deus, que é a paixão da IECLB, de salvar e curar um mundo reconciliado. Abençoada leitura e um bom trabalho. Mauro Batista de Souza p/ Coordenação do PL
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS
PRÉDICA: ISAÍAS 64.1-9
1 o DOMINGO DE ADVENTO
MARCOS 13.24-37 1 CORÍNTIOS 1.3-9
30 NOV 2008
Tânia Cristina Weimer
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Introdução
“Oh! Se fendesses os céus e descesses! Se os montes tremessem na tua presença” (Is 64.1). Esse é o tema do primeiro domingo de Advento, que dá inicio ao novo ano da igreja. Celebra-se a esperança. Afinal, o Advento, como vinda de Deus (de Jesus Cristo), trata da ação de Deus na história da humanidade. A partir da esperança cristã celebramos o agir de Deus. As passagens bíblicas indicadas para pregação e leituras desse domingo tratam da presença de Deus no todo da história da humanidade. O evangelho procura chamar a atenção dos discípulos para como deveriam se comportar diante das adversidades que terão que enfrentar. O texto de Marcos ainda traz o tema da vigilância enquanto se espera. Isaías retrata a esperança do povo diante do caos vivido e enfrentado depois da devastação de Jerusalém. Em 1 Coríntios, o apóstolo Paulo também trata da esperança de um novo tempo que há de surgir com a volta de Cristo, no dia do Senhor, isto é, quando Cristo regressar. O tema da espera e da vigilância está presente nos três textos. Além dessas atitudes de espera e vigília (oração), os textos levam-nos a sair de nossa comodidade e a agir enquanto aguardamos o Dia do Senhor. No passado, o povo clamou, Deus interveio. No presente, o povo clama e novamente espera pela intervenção de seu Senhor. Assim está costurada a esperança cristã naquele que era, que é e que há de vir, como Senhor absoluto sobre os céus e a terra.
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Exegese
Com a vitória dos persas sobre os babilônicos em 539 a.C., mudam as condições de vida tanto dos exilados como dos remanescentes. Aos exilados é permitido regressar à sua pátria. Começa a reconstrução do templo e da cidade de Jerusalém. O texto de Isaías 64.1-9 faz parte de um bloco maior que inicia em Isaías 63.7 e faz parte do Trito-Isaías (Is 56-66), no qual os capítulos 60 a 66 são a parte central.
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1º Domingo de Advento
Esse bloco maior é um salmo de lamentação do povo. Conforme Westermann, trata-se do “mais impactante salmo de lamentação do povo”. Os salmos de lamentação costumavam ser divididos em petições, lamentações, confissões de pecado e de confiança. Os v. 1-2 formam uma unidade. Compõem o pedido “Oh! Se fendesses os céus e descesses, se os montes tremessem na tua presença”, seguido de comparações e do objetivo. O salmista implora por uma epifania, pelo advento do Deus Eterno. Com a vinda do Senhor, as dores reinantes serão superadas e a dor e o lamento deixarão de existir. O “rasgar os céus” é uma imagem única no Antigo Testamento. Ela representa o ato de Deus atravessar as nuvens para descer. É provável que esteja inspirada na tradição do Sinai coberto de nuvens (Êx 19.9; 18.20; 24.15b-18a). No v. 3, inicia uma nova súplica pela intervenção de Deus. Essa intervenção é imaginada como uma teofania, ou seja, uma manifestação de Deus ligada a fenômenos extraordinários e temíveis da natureza. Rasgar os céus, fazer estremecer os montes, fogo, “coisas terríveis”. Se Deus tivesse se mostrado na história recente como naquelas terríveis teofanias, fazendo coisas maravilhosas, nem sequer esperadas nem sabidas de antemão, teria sido diferente a situação nesse momento. O v. 4 apresenta o louvor, a adoração a esse Deus, que é acessível e sensível à dor. Por esse Deus, que trará de volta a prática da justiça, vale a pena esperar (v. 5). Deus age em favor daqueles que esperam por ele. Já os v. 6 e 7 são largamente citados para falar do pecado em que vive o ser humano. Por causa de suas iniqüidades, o ser humano é levado a “murchar como uma folha”. A folha murcha, mais tarde transformada em poeira, é varrida embora pelo vento. Se o Deus Eterno não está presente, não resta mais nada senão agarrar-se às próprias iniqüidades, e isso é o mesmo que andar cambaleando, como na escuridão. O profeta continua seu apelo (v. 8) para que o Deus Eterno ajude seu povo, que tinha caído sob severa condenação por causa do pecado. Faz seu apelo final, relembrando a relação de Deus como Pai com seu povo. O Deus Eterno é o Pai de Isarel. Israel é o barro especial que a mão divina estava moldando para tornar-se um vaso especial. Mas parecia que o Senhor havia rejeitado o vaso por causa de suas falhas. E o profeta convidou o oleiro a terminar o trabalho que tinha planejado, não permitindo que seu esforço passado se reduzisse a nada. O nosso trecho finaliza com o apelo final em que o profeta Isaías inclui, mais uma vez, a idéia de que Israel é o povo de Deus (v. 9). É como se o profeta dissesse ao Deus Eterno: “Ainda é possível que intervenhas em nossa angústia presente”. Diante do desespero, é possível a esperança. O povo de Deus sabe que, no passado, o Deus Eterno revelou-se como um Deus que age em favor dos seus. No tempo presente, o povo encontra-se numa situação calamitosa e sente-se abandonado por Deus. Apesar disso e baseado no que sabe do passado, suplica a intervenção de Deus e deposita toda a sua esperança na intervenção do Deus Salvador.
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1º Domingo de Advento
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Meditação
É tempo de Advento. O clima natalino já paira no ar. É tempo de decorar as casas e contar os dias que faltam para as festas de fim de ano. O Advento, que começa quatro domingos antes do Natal, marca também o início do Ano da Igreja. A palavra Advento é de origem latina e significa chegada, vinda. É o tempo de preparação para o Natal, a chegada de Jesus. Para muitos, essa é uma época de renovar os sentimentos, deixar para trás as tristezas, colocar as coisas em ordem, arrumar e limpar a casa, um período de expectativa e de alegria pela comemoração do nascimento de Jesus Cristo, que se aproxima. Há relatos de que o Advento começou a ser celebrado em várias partes do mundo entre os séculos IV e VII. Mas a primeira referência ao tempo de Advento vem da Espanha, onde no ano de 380 o Sínodo de Saragossa determinou uma preparação de três semanas para a Epifania, data que lembra a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. Somente no final do século VII, em Roma, é acrescentado o aspecto escatológico do Advento, recordando a segunda vinda do Senhor e passando a ser celebrado durante cinco domingos. Só mais tarde é que o Advento passou a ser celebrado em seus dois aspectos: a vinda definitiva do Senhor e a preparação para o Natal, mantendo a tradição das quatro semanas. A igreja entendeu que não poderia celebrar a liturgia sem levar em consideração a sua essencial dimensão escatológica. Em se tratando de um texto tão rico, como o de Isaías, e de uma época tão rica, como o Advento, buscamos anunciar a esperança cristã que perpassa o tempo. “Oh! Se fendesses os céus e descesses!” Esse é o tema do primeiro Domingo de Advento, apresentado na forma de uma oração. É um texto muito apropriado; afinal o Advento, como vinda de Deus manifestada em Jesus Cristo, trata da ação de Deus. No Advento, não celebramos nossos atos humanos, tampouco enfatizamos o que nós queremos ou prometemos fazer. Celebramos o agir de Deus, lembrando-nos de que no Natal se cumpriu a promessa de salvação feita por nosso Deus Eterno. O que o povo no Antigo Testamento, voltando do exílio, experimentava era uma situação no mínimo calamitosa: cidade invadida e destruída por seus inimigos, templo, lugar e espaço sagrado também destruídos. Além disso, a ocupação e a opressão de estrangeiros gerava dificuldades econômicas, habitacionais. Sem falar no sentimento de abandono. O povo sentia-se esquecido e abandonado por seu Deus, vivia como se fossem órfãos espirituais. A tudo isso se somava a constatação da própria culpa, o reconhecimento de que estavam afastados do caminho de Deus. Poderíamos assim dizer que o sofrimento do povo se divide em duas dimensões: material e espiritual. No que se refere ao material, também experimentamos situações semelhantes às que viveu o povo que voltava do exílio. Quantas catástrofes nos últimos tempos! Quantas situações de perda ma-
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1º Domingo de Advento
terial! Algumas situações acompanhadas de mais longe, outras vividas na própria pele. Em nossa volta manifestam-se os traços evidentes da calamidade física e material em termos de habitação, educação, desemprego, baixo poder aquisitivo, hospitais sucateados, precariedade no atendimento médico e hospitalar, crescimento da violência, ameaça da volta da inflação, impostos altíssimos que não nos deixam respirar. Já na esfera espiritual, ainda há uma identificação maior. Na comunidade em que pregamos, certamente não é difícil encontrar situações idênticas, até nos mínimos detalhes, com a situação vivida pelo povo que voltava arrasado e precisava recomeçar. Cada obreiro e obreira que irá pregar sobre esse texto certamente saberá melhor do que ninguém quais os problemas, as angústias e as manifestações de abandono em que se encontra sua comunidade de ouvintes. Em nosso texto de Isaías, o povo sabe da ação de Deus no passado e por isso atreve-se a suplicar pela intervenção de Deus e até a manifestar sua confiança na ação poderosa do Deus Eterno. Em que baseamos nós nossa súplica e confiança? Certamente naquele que para nós é a notícia anunciada nesse Advento: Jesus Cristo. No tempo do profeta Isaías, o povo reunia-se para suplicar pela intervenção de Deus. Será que tal súplica seria possível hoje numa comunidade cristã, em vista da calamidade material e espiritual vivida por nós? Interceder e pedir a intervenção de Deus para transformar a situação catastrófica de nosso mundo é celebrar o Advento, é preparar a vinda de Cristo entre os seres humanos. Ser o barro nas mãos do oleiro, deixar-se transformar, deixar-se moldar num recipiente do amor de Deus. Quem sabe essa é a maneira mais adequada de celebrar o Advento, demonstrando num gesto frágil e imperfeito o barro que somos como sinal da vinda última e definitiva do Deus Salvador. Podemos ainda desenvolver a pregação a partir das perguntas: 1 – Quem pede (todos nós)? 2 – A quem pede (ao Pai, Redentor, Deus único, Deus irado que esconde o rosto, o oleiro)? 3 – O que pede (uma súplica de Advento)? 4 – As implicações do pedido (com que coragem pode um povo iníquo pedir a presença desse Deus?); 5 – O cumprimento da prece.
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Imagens para a prédica
Uma imagem muito simpática, e talvez até já meio batida, é a do oleiro, do vaso de barro, dos cacos desse vaso que se recompõe, formando um novo recipiente. Além dessa imagem do oleiro e do vaso, não trago outro imagem para ilustrar a prédica, mas sim ações concretas que “ilustram” a vida das pessoas. O Advento tem a intenção de motivar as pessoas para uma reflexão sobre o sentido de esperar a chegada de Cristo neste mundo e em nossas
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1º Domingo de Advento
vidas. Diante de uma sociedade cada vez mais fragmentada, a comunidade procura despertar as pessoas para o aspecto comunitário da fé. Motivar as famílias a confeccionar sua coroa de Advento em casa e acender uma vela a cada domingo ajuda-nos a lembrar que Deus age em favor dos que esperam por ele. Pode-se realizar ao longo de todo o tempo de Advento uma campanha de oração (lembram da pergunta mais acima: em que baseamos nossa súplica?) com o objetivo de intensificar a vida de oração necessária para uma adequada preparação para a celebração do Natal e para mostrar a nossa unidade e força, para suplicar em conjunto por uma mesma causa. A campanha pode ser feita convidando para a participação pessoal e comunitária. Também é possível ir preparando o presépio com as orações: maços de palha ou erva, madeiras etc. podem simbolizar determinados exercícios de oração. O tempo de Advento é muito apropriado para acentuar a vivência da solidariedade. Que implicações concretas surgem a partir de nosso clamor comunitário, a partir de nossas súplicas? Organizar a arrecadação de alimentos, roupas e brinquedos torna-se muito significativo nessa época. Em cada culto de Advento, pessoas podem trazer suas doações. Ao término do culto, um grupo de pessoas, representando toda a comunidade, pode levar o que foi arrecadado a um grupo (família) escolhido, levando junto uma coroa de Advento. É significativo fazer isso ao término de cada culto, pois a visita será uma extensão do culto, mostrando a ação comunitária, pois Advento trata da ação de Deus na história da humanidade.
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Subsídios litúrgicos
Saudação: Como saudação poderia ser trazido este poema de Leonardo Boff: “Já não estamos mais sós em nossa imensa solidão. Deus está conosco. Não somos mais solitários, mas solidários. Emudece a argumentação da razão, Fala a narração do coração. Narra-se a história de um Deus que se fez criança, Que não pergunta, mas faz. Que não responde, mas vive uma resposta. Irmãos e irmãs, a nossa noite se iluminou! O menino que nasce em Belém nos revela: Tudo possui um sentido concreto. É tão profundo que Deus mesmo quis assumi-lo. A estreiteza de nosso mundo, no qual Deus entrou, Tem uma saída abençoada e um desfecho feliz.”
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1º Domingo de Advento
Confissão de pecados: L: Senhor, nosso Deus, queremos como tua comunidade reconhecer nossa fraqueza e nossa falta de esperança em ti. Não confiamos suficientemente em teu Filho Jesus Cristo. Não permitimos que Jesus possa agir em nosso meio, como é teu desejo, por causa de nosso egoísmo. Pensamos por demais em nós mesmos e esquecemos os que estão ao nosso lado. C: Senhor, perdoa nossas falhas e omissões! L: Procuramos sempre reservar para o nosso bem o que deveríamos dar a nosso próximo. Deveríamos compartilhar mais o sofrimento de nossos semelhantes. Deveríamos estar sempre prontos a estender as nossas mãos para ajudar lá onde nossa ajuda se faz necessária. Deveríamos usar mais os nossos pés para a caminhada em conjunto com nossos irmãos e irmãs na fé em Cristo. C: Senhor, pedimos-te o teu perdão, para que, libertos de nosso egoísmo, aprendamos a amar. L: Reconhecemos nossa fragilidade, nosso descumprimento da tua vontade para com nossos semelhantes, reconhecendo a nossa culpa de vivermos uma vida bastante centrada em nós mesmos. Perdoa-nos e ajuda-nos a viver a tua mensagem de salvação. Por Jesus Cristo. Amém. Oração geral da igreja: Convidar a comunidade para verbalizar motivos de gratidão. Após cada prece, canta-se: “Graças, Senhor” (Em tua casa, p. 8). Na seqüência da oração, convidar a comunidade a verbalizar motivos pelos quais necessitamos suplicar; clamores comuns que tiram a esperança e deixam a comunidade mobilizada, sem forças para a ação, apenas numa espera passiva. Após cada prece, canta-se: “Inclina, Senhor, teu ouvido” (Em tua casa, p. 9). Ainda sugiro esta oração de Johnson Gnanabaranam: “Não consolem o povo com palavras vazias, Mas com a boa-nova de Jesus. Não consolem o povo com suas imposições, Mas com sua compaixão e sacrifício. Não consolem o povo com esmolas, Mas através do repartir. Consolem os pobres. Jesus se declara solidário com eles. Consolem os que se arrependeram. Jesus oferece-lhes perdão. Consolem os enlutados. Jesus promete a ressurreição.
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1º Domingo de Advento
Consolem os que são perseguidos por causa da fé e da justiça. Eles são especialmente valiosos para Deus. Consolem os oprimidos. O Senhor os erguerá. Consolem os ofendidos. O Senhor os alegrará.”
Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías – A palavra profética e sua releitura hermenêutica, v. III. p. 56-66. CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento – versículo por versículo, v. 5. São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 2000. p. 2967-2968. KIRST, Nelson. In: Proclamar Libertação, v. 1. Auxílios homiléticos. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1976. p. 152-160.
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2 o DOMINGO DE ADVENTO
PRÉDICA: MARCOS 1.1-8
07 DEZ 2008
ISAÍAS 40.1-11 2 PEDRO 3.8-15a
Alfredo Jorge Hagsma
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Introdução
É a terceira vez que este texto (Mc 1.1-8) é sugerido como motivo de pregação na série Proclamar Libertação (PL). O texto foi tratado nas edições XXII (p.14ss) e XVIII (p.13ss) do PL. Nessas mesmas edições, os v. 4-11 também foram tratados, de forma que esse é um texto bastante explorado, no entanto certamente jamais esgotado. Trata-se de um texto clássico. “Os evangelhos foram escritos com a finalidade de testemunhar sobre a vida, a atuação, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Não obstante, todos são unânimes em principiar seu relato com João Batista. Indubitavelmente, isso tem sua razão de ser. É claro que João Batista merece ser mencionado pelo simples fato de Jesus se deixar batizar por ele antes do início de sua atuação pública.” Os quatro evangelistas fazem menção à biografia e à pregação de João Batista. No entanto, o Evangelho de Marcos inicia com a mensagem de João Batista. Eis a importância dessa mensagem para o autor desse evangelho. A preparação do caminho para a chegada de Jesus é a mensagem central desse texto. Os dois textos auxiliares, Isaías 40.1-11 e 2 Pedro 3.8-15a, têm estreita relação com o texto em questão. Enquanto Isaías anuncia a nova realidade (v. 10-11) a ser experimentada com a chegada do Messias, Pedro ressalta a importância de estar sempre preparado para essa chegada. Ninguém sabe quando esse novo dia vai chegar. No entanto, por ser promessa de Deus, essa nova realidade não é apenas um sonho distante, mas uma realidade que já bate à nossa porta: “Deus prometeu, e nós estamos esperando um novo céu e uma nova terra, onde mora a justiça” (2 Pe 3.13). Penso que os três textos podem se relacionar a partir do tripé: promessa-espera/preparação-nova realidade. A promessa que foi feita é aguardada com ansiedade. Estamos no tempo entre a promessa e o seu cumprimento, ou seja, no tempo da espera, da preparação, tempo de Advento.
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Da exegese à mensagem
O Evangelho de Marcos é considerado pela maioria dos pesquisadores o mais antigo de todos os evangelhos. No entanto, a sua datação não é consenso entre os pesquisadores. Ched Myers pensa que “uma data anterior a 70 e durante a revolta (portanto, depois de 66) é essencial à coerência da ideologia
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2º Domingo de Advento
política e econômica da narrativa de Marcos. A forte crítica que Marcos lança ao estado do templo e à sua economia política teria evidentemente sido supérflua se o templo já tivesse sido destruído”. Myers acredita que a resistência à datação anterior a 70 pelos estudiosos seja para suprimir os aspectos econômicos e políticos em favor dos teológicos. De acordo com esse autor, tão importante quanto o conteúdo teológico dessa cena é a descrição de João Batista. E, de fato, Marcos dá muita importância em detalhar a vestimenta e o estilo de vida de João, e isso não deve ser por acaso. Para os leitores de Marcos, o estilo de João evocava o grande profeta Elias (2 Rs 1.8), ou seja, seu estilo tinha conotações políticas. Segundo alguns textos do historiador Flávio Josefo, João era considerado pela corte de Herodes uma ameaça subversiva, sem, no entanto, dar motivos explícitos para tal. Desse modo, podemos pensar que, para o Império Romano, o estilo de ser de João Batista falava mais do que sua mensagem propriamente dita. A relação que o povo fazia entre João e o profeta Elias preocupava mais do que sua mensagem em si. Sobre a mensagem de João não há dúvida. Ela é teologicamente clara, coerente, é profética, mas não atingia diretamente o Império. Penso aqui não apenas na versão do evangelista Marcos, mas também de Mateus, Lucas e João. As palavras de João eram duras e diretas. Aos fariseus e saduceus ele disse: “Raça de cobras venenosas! Quem disse que vocês escaparão do terrível castigo que Deus vai mandar. Façam coisas que mostrem que vocês se arrependeram dos seus pecados” (Mt 3.7b). Ou seja, João cobrava coerência das pessoas, atitude compatível com o arrependimento. João apontava para o caminho da salvação ao proclamar o arrependimento. Esse arrependimento não era uma questão subjetiva: apontava para a realidade, desafiava para a prática: “Quem tiver duas túnicas que dê uma a quem não tem nenhuma, não cobrem mais do que a lei manda etc”. Nesse aspecto, o Império Romano poderia perceber em João uma espécie de auxiliador. Ele não falava contra os impostos, mas contra a corrupção dos coletores. Também a orientação aos soldados reforçava a idéia de concordância com o Império Romano, pois ele dizia: “Contentem-se com o salário que ganham”. Qual patrão não gostaria de que alguém ordenasse isso a seus subordinados? Em síntese, a mensagem de João tem destino específico e clama por uma mudança pessoal. Ela clama por uma mudança concreta: “Façam coisas que mostrem que vocês se arrependeram”. Segundo W. G. Kümmel, João Batista adotou o chamado profético à “meia-volta”. Segundo Kümmel, a palavra em aramaico que no português foi traduzida por arrependimento pode significar mais do que isso, a saber: designa uma mudança de rumo, o abandono do caminho falso e um trilhar no caminho certo. Por isso João também fala da atitude pós-arrependimento (Mt 3.8). A confissão só faz sentido e deixa de ser hipócrita quando a ela seguem atitudes compatíveis com o arrependimento. Caso contrário, a confissão não passa de mero formalismo litúrgico. Praticamente em todos os cultos, as liturgias contemplam uma confissão de pecados, ou seja, a comunidade reunida reconhece o erro e deseja mudar de vida. E Deus, em sua bondade, concede essa nova oportunidade não apenas mais uma vez, mas todos os dias, por toda a vida.
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2º Domingo de Advento
Os cristãos da comunidade antiga percebiam no arrependimento e no batismo o preparo para o caminho do Senhor. Batismo e arrependimento são inseparáveis. Ou seja, conforme afirmou Martim Lutero, a vida cristã nada mais é do que batismo diário.
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Imagens para a prédica
3.1 – Uma festa junina (joanina) no Advento a – Num primeiro olhar, não vamos encontrar nesta perícope (Mc 1.1-7) grandes novidades para a pregação nesta segunda semana de Advento. Advento significa tempo de espera, de preparação para a chegada de Jesus. Como de costume, as pessoas, as famílias e as comunidades estão vivendo esse tempo de uma maneira convencional. O chamado ao arrependimento, à conversão, à mudança de rumo é a tônica comum. Todos os anos, essa é a ênfase no Advento. No entanto, creio que não podemos ficar unicamente na dimensão bíblica/teológica do arrependimento. Pois, como disse Kümmel, “arrependimento é muito mais do que um sentimento”. Está de mãos dadas com a atitude. A mudança que esse arrependimento implica precisa ser levada muito a sério. A pregação precisa apontar para essa mudança concreta. Algo extraordinário seria voltar ao mês de junho e relembrar as festas juninas ou joaninas. Nessas festas, a mudança se materializa, ganha rosto, roupa e alimentos. Ainda que de uma forma simbólica, mas acontece uma mudança concreta, se sai do subjetivo. As pessoas fantasiam-se, mudando completamente o seu jeito de ser. A preparação para o Natal deveria passar necessariamente pela corporeidade. Nesse sentido, seria interessante enfeitar o templo como se estivéssemos numa festa junina. Colocar bandeirinhas ao redor da coroa de Advento, em torno do altar e nas janelas. Na recepção, junto com o hinário e bíblias, distribuir algumas guloseimas próprias das festas juninas, como rapadurinhas, pés-de-moleque, pipoca, batata-doce etc. Também seria interessante ter entre as pessoas algumas vestidas conforme a vestimenta das festas juninas. Essa dinâmica vai criar, num primeiro momento, um desconforto, uma certa incompreensão por estar descaracterizando o tempo de Advento. No entanto, mudança para valer somente acontece quando se está disposto a sair da zona de conforto. Essa simbologia vai apontar para uma mudança concreta. Uma mudança que é percebida pelo olhar e pelo gosto. Sem mudanças reais, pessoais e comunitárias, o presépio não passará de um enfeite temporário no canto da sala ou no altar da igreja. b – O último censo revelou que o Brasil é uma nação predominantemente cristã. Será? Jesus dizia que pelos frutos os conhecereis. Que frutos predominam em Brasília, em nossa cidade, em nossa comunidade de fé ou em nossa casa? Ou seja, a fé professada não ganha corpo. O verbo não se encarna. Sem essa mudança radical, estaremos mais uma vez romanceando o nascimento de Jesus, perfumando a estrebaria. Todo mundo se emociona. Muitas pessoas quase
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2º Domingo de Advento
vão às lágrimas nas celebrações de Advento e Natal. Um novo ano começa. Alguns vão para a praia, outros não, e a história se repete. Os jornais vão trazer as mesmas notícias: corrupção e violência em toda a parte. E a gente logo se acostuma. Não estamos livres dessa teimosa realidade, mas não há dúvida de que a comunidade cristã precisa ser mais enfática na preparação do caminho do reino. A partir da mensagem poderiam ficar alguns desafios bem concretos. Cada comunidade poderia identificar tais desafios em seu contexto. Isso poderia acontecer num estudo anterior ou posterior ao culto.
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Recursos litúrgicos
Confissão de pecados: Querido e amado Deus. Já estamos na segunda semana de teu Advento. Como povo que se reúne em teu nome, queremos preparar-nos da melhor maneira para a tua chegada. Como parte de nossa preparação, precisamos arrepender-nos pelas falhas cometidas na caminhada. São tantas, amado Deus, que nem as conseguimos enumerar. O que importa é que tu conheces cada uma delas. Confessamos que o nosso arrependimento muitas vezes não tem saído do coração, não tem passado de palavras vãs. Reconhecemos isso diante de ti e pedimos que através de teu Espírito Santo possas nos dar mais uma oportunidade. É o que pedimos em nome de teu filho Jesus. Amém. Absolvição: A todas as pessoas que sinceramente se arrependem eu proclamo a graça e a alegria do perdão da parte de Deus, lembrando as palavras de Jesus Cristo, que disse: “Nem todo aquele que me chama Senhor, Senhor, entrará no reino do céu, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está no céu” (Mt 7.21). Amém. Oração de coleta: Bondoso Deus, mais uma vez nos reunimos e arrependidos pedimos teu perdão. Como resposta à nossa confissão, ouvimos de tua parte: Os teus pecados foram perdoados. Estamos limpos, livres e ansiosos por tua palavra, que orienta e conduz nossas vidas por caminhos seguros. Que o teu Espírito Santo abra nossos ouvidos e transforme nosso ouvir em atitudes que, de fato, mostrem o nosso arrependimento e o nosso desejo de uma nova vida. Por Cristo, que com o Pai e o Espírito são um. Amém.
Bibliografia MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. KÜMMEL, Werner Georg. Síntese Teológica do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1983.
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PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 5.16-24
3 o DOMINGO DE ADVENTO
ISAÍAS 61.1-4,8-11 JOÃO 1.6-8,19-28
14 DEZ 2008
Paulo Roberto Garcia
1
Introdução
No calendário litúrgico, o Advento é um período marcado pela espera e pela esperança. Na tradição semita, a esperança é, simultaneamente, um olhar para frente e outro olhar para trás. O passado ilumina o presente e alimenta a esperança futura. De igual modo, o cristianismo primitivo, ao elaborar o calendário litúrgico – na expectativa de transmitir os ensinamentos da fé –, cunhou nesse período de Advento essa dimensão de passado, presente e futuro em profunda ligação. Assim, ao mesmo tempo em que o Advento nos lembra de que na história da fé a esperança messiânica se concretiza no nascimento de Cristo, relembrar essa expectativa remete-nos ao futuro: a esperança na parúsia – a volta de Cristo. Por isso o texto de Tessalonicenses é importante para esse momento litúrgico que vivemos. As dúvidas acerca dos mortos, os sofrimentos que marcam uma comunidade com dúvidas sobre a parúsia e as respostas e orientações pastorais de Paulo constituem um marco na construção da fé cristã. O Cristo que veio, o Cristo que voltará é a exclamação de fé que deve orientar a comunidade.
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Informações exegéticas – A carta
Quando nos defrontamos com a Primeira Epístola de Paulo aos Tessalonicenses, necessitamos ter em mente que ela constitui um marco do cristianismo. É o primeiro escrito do Novo Testamento, redigido pelo menos 10 anos antes do primeiro evangelho – o de Marcos. Essa carta nos insere nos dramas e nas lutas de uma das antigas expressões do cristianismo primitivo: o cristianismo do mundo mediterrâneo. Para abordar essa carta, é necessário, primeiramente, nos posicionarmos diante de uma discussão que cerca a maioria dos textos paulinos: o problema da coesão interna das cartas. Os textos paulinos são literariamente caracterizados por interrupções abruptas, retomada de assuntos interrompidos anteriormente, múltiplos inícios (saudações e ações de graça) e finais. Diante desse problema, uma das propostas para compreender essas características – e que assumimos aqui – é que uma parte dos escritos paulinos do Novo Testamento é, na verdade, uma compilação de pequenas cartas paulinas (isso vale para
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3º Domingo de Advento
Filipenses, Tessalonicenses, Coríntios, Romanos – o capítulo 16). Na verdade, podemos interpretar essas pequenas cartas como bilhetes pastorais, o que marcaria a característica da ação pastoral de Paulo. Frente aos problemas emergenciais das comunidades nascentes, ele enviava pequenos bilhetes orientativos, que, com o passar do tempo, foram colecionados até assumir a forma das cartas que temos hoje. Em 1 Tessalonicenses, encontramos duas introduções (1.2; 2.13) e duas conclusões (3.11 e 5.23). São dois pequenos bilhetes. O primeiro é constituído pelas seguintes perícopes: 1.1-2.12+4.25.28 (ou seja, é o bilhete que contém nossa perícope). O segundo é composto por: 2.13-4.1. Nosso bilhete insere-se em uma discussão sobre problemas que estão perturbando a igreja, e Paulo tenta solucioná-los: sua autoridade apostólica é contestada (2.2-12); membros da comunidade estavam se desviando do ensino, de modo especial acerca do comportamento sexual e comunitário (4.212); há dúvidas sobre a ressurreição dos mortos e a parúsia (4.13-5.11); e, finalmente, há desrespeito aos líderes da comunidade (4.12-13). Percebe-se que esse bilhete atende a uma necessidade que gira em torno da vida cristã, suas esperanças e a vivência comunitária da fé.
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Informações exegéticas – Nossa perícope
Nossa perícope marca o encerramento da carta e vai, em forma de despedida, apresentar desejos e desafios que giram em torno das celebrações cúlticas. Os termos regozijar, orar, Espírito, profecias apontam para as celebrações da comunidade. A primeira parte (v. 16-18) é composta por três exortações (marcadas pelo uso do imperativo) acerca do estado de espírito que deve estar presente entre os participantes da comunidade: Regozijai-vos sempre! Orai sem cessar! Em tudo dai graças! O argumento para justificar esse comportamento é que “esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus” para a comunidade. A segunda parte (v. 19-22) é composta por quatro exortações (também marcadas pelo uso do imperativo), que podem ser entendidas a partir das práticas do culto. As duas primeiras exortações aparecem na forma negativa: Não apagueis o Espírito! Não desprezeis as profecias! A seguir, encontramos duas exortações práticas: Julgai todas as coisas, retende o que bom! Abstendevos de toda forma do mal! A terceira parte é a conclusão da carta, uma bênção (v. 23) com uma fórmula de juramento que garante o anunciado (v. 24). Em uma comunidade com dificuldades em relação à vida cúltica e à vida na sociedade, além de crítica aos líderes, o final da carta exorta aqueles que esperam a vinda do Senhor a viver a alegria das celebrações; o respeito às manifestações extáticas do Espírito e das profecias; o discernimento do que é bom e do que não é bom e uma prática de vida em que se abstenha daquilo que tenha aparência do mal.
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3º Domingo de Advento
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Reflexões para auxiliar na homilia
A parte final da Primeira Epístola de Paulo aos Tessalonicenses é um apelo à comunidade para uma vida marcada por práticas de fé que condigam com a esperança cristã. A comunidade enfrentava problemas. Um grupo questionava a autoridade paulina como apóstolo. Também havia dúvidas sobre o destino dos mortos, o que colocava em cheque a fé na ressurreição e na esperança na volta de Cristo. Além disso, havia um desrespeito aos líderes locais. Nessa situação, Paulo envia um pequeno bilhete, que é parte de nossa carta, para orientar a comunidade. Ele inicia defendendo sua autoridade com base na autenticidade e na humildade de seu trabalho (2.1-7); na fadiga pelo trabalho intenso para ter sustento sem ser pesado para a comunidade (2.9-10) e principalmente no cuidado pastoral para com a comunidade. Para isso ele usa a figura de uma mãe que cuida dos filhos pequenos (2.7) e a de um pai que orienta e exorta seus filhos (2.11-12). A autoridade apostólica de Paulo está baseada no cuidado pastoral que ele tem para com a comunidade e no seu testemunho de fé. Em relação ao sofrimento da comunidade acerca dos mortos, Paulo aponta que essa preocupação provoca a perda da esperança (4.13). Para animar a fé da comunidade, ele lembra que a morte e a ressurreição de Jesus são a base de toda a esperança. Agrega a isso a certeza da volta dele (4.15-17). A certeza da companhia futura de Cristo com seu povo deve animar a comunidade de fé (4.18). No final desse bilhete, Paulo convoca a comunidade para uma vida de respeito mútuo (5.12-15). Ele inicia com uma súplica (“rogamos” – 5.12), para que a comunidade respeite seus líderes e demonstre apreço aos que trabalham (5.12-13). Ele encerra essa súplica com uma exortação: Vivei em paz uns com os outros (5.13b). Após a súplica, o desafio. Paulo exorta a comunidade a instruir os preguiçosos; animar os abatidos; ajudar os fracos e a ser paciente para com todos. A comunidade deve vigiar para que ninguém pague o mal com o mal; antes a comunidade deverá praticar o bem mutuamente (5.14-15). Ao abordarmos esses conflitos, percebemos que o grande tema que amarra toda a argumentação paulina é a esperança, que está fundada na fé; na morte; na ressurreição de Jesus e em sua volta. Tanto o trabalho pastoral de Paulo como o dos que dirigem a comunidade têm como finalidade proteger e animar os fracos, fortalecer os desanimados e exortar os que se afastam. O amor e a paz devem marcar os relacionamentos. A alegria e o respeito nas celebrações cúlticas são a expressão da vontade de Deus em Cristo. Com isso chegamos ao centro da argumentação: a espera pela volta de Cristo é o que oferece ânimo, conforto e esperança mútua. A partir dessa esperança, a comunidade é exortada a uma vida de oração, respeito mútuo tanto nos relacionamentos como nas celebrações. A expectativa futura organiza e regulamenta o relacionamento comunitário no presente. Esse é o desafio que o bilhete apresenta à comunidade e que é resumido em nossa perícope na forma de uma exortação conclusiva.
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3º Domingo de Advento
Para os cristãos, hoje, a argumentação paulina continua a desafiar. A vida cotidiana, as relações entre os seres humanos, as relações comunitárias e as celebrações cúlticas devem ser permeadas de alegria, gratidão, amor e respeito, tudo isso fundamentado na esperança futura, que é garantida pela lembrança passada: Cristo morreu e ressuscitou. Nisso repousa nossa esperança.
Bibliografia BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 2004. CROSSAN, John Dominic; REED, Jonathan L. Em busca de Paulo: como o apóstolo de Jesus opôs o reino de Deus ao império romano. São Paulo: Paulinas, 2007. DUNN, James D. G. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. FERREIRA, Joel Antônio. Primeira Epístola aos Tessalonicenses. Petrópolis: Editora Vozes, 1991. KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento – 2. História e literatura do cristianismo primitivo. São Paulo: Paulus, 2005. PATTE, Daniel. Paulo, sua Fé e a Força do Evangelho. São Paulo: Edições Paulinas, 1987. VIDAL, Sénen. Las Cartas Originales de Pablo. Madrid: Editorial Trotta, 1996.
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4 o DOMINGO DE ADVENTO
PRÉDICA: LUCAS 1.26-38
21 DEZ 2008
2 SAMUEL 7.1-11,16 ROMANOS 16.25-27 Rene Zanandrea
1
Introdução
Já estamos muito próximos do momento em que brindaremos o nascimento de Jesus. Os textos bíblicos escolhidos para esse dia colocam Maria no centro do plano salvífico do Senhor: ela é a escolhida. Era necessário um sim para que se iniciasse a realização plena das promessas do Primeiro Testamento (Lc 1.26-38). A leitura do Primeiro Testamento (2Sm 7.1-11,16) mostra Davi querendo construir um templo para Javé. Esse recusa, pois está presente no meio do povo que luta pela vida e liberdade. Ao contrário: é Javé quem vai construir sua casa em meio à humanidade. Disso dá testemunho o apóstolo Paulo nas saudações finais de sua carta, cujo trecho ouvimos na celebração de hoje (Rm 16.25-27). Para Paulo, diante desse mistério que fora revelado, nossa atitude será de louvor e glorificação. Nesse quarto Domingo de Advento, vemos que Deus cumpre a promessa: ele é fiel e seu amor estende-se a todas as gerações. E Deus faz isso livre e gratuitamente. Da mesma forma Maria o fará. Assim também a humanidade toda é convidada a fazer.
2
Exegese
Em Lucas, temos a narração do anúncio do nascimento de Jesus, feita por um anjo. O anúncio é feito a uma mulher de nome Maria, que morava em Nazaré da Galiléia, um lugar sem muita importância. Lucas demonstra constantemente a superioridade de Jesus sobre João no paralelismo entre o anúncio do nascimento de Jesus e o de João. O anúncio do nascimento de João significou a continuidade da história e as esperanças hebraicas, mas podemos dizer que o anúncio do nascimento de Jesus é a novidade radical da ação salvífica de Deus. Jesus não só “será grande perante o Senhor”, assim como João; ele será chamado de “filho do Altíssimo”. O nascimento de João acontece por meios naturais, após a cura da esterilidade de Isabel; Jesus nascerá de uma virgem. João estará cheio de Espírito Santo desde o ventre materno, enquanto Jesus é concebido pelo poder do Espírito Santo. João será profeta, e Jesus será o Messias esperado, o Filho de Deus
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4º Domingo de Advento
que vem morar no meio de nós. Maria aceita com fé a proposta divina e declara-se serva do Senhor. Ela é modelo do discípulo cristão e mãe da humanidade. A resposta de Maria começa com uma objeção. É bom lembrar que a objeção sempre faz parte dos relatos de vocação do Antigo Testamento. É uma reação natural de alguém chamado, assustado com a perspectiva do compromisso com algo que o ultrapassa; mas é, sobretudo, uma forma de mostrar a grandeza e o poder de Deus, que, apesar da fragilidade e das limitações dos chamados, fazem deles instrumentos de sua salvação no meio dos homens e do mundo. O episódio narrado em Lucas 1.26-38 pode ser lido também como a realização perfeita e definitiva da promessa feita a Davi em 2 Samuel 7 e em outras profecias messiânicas. Em Lucas, vemos a promessa e a resposta, a mesma estrutura usada em 2 Samuel. Possivelmente, esse texto que lemos na primeira leitura fundou a concepção messiânica elaborada tanto no Primeiro como no Segundo Testamentos. A Maria Deus propõe que aceite ser a mãe de um “filho” especial. Desse filho diz-se, em primeiro lugar, que ele se chamará “Jesus”. O nome significa “Deus salva”. Além disso, esse Filho é apresentado pelo anjo como “Filho do Altíssimo”, que herdará “o trono de seu pai Davi” e cujo reinado “não terá fim”. As palavras do anjo levam-nos a 2 Samuel 7 e à promessa feita por Deus ao rei Davi através das palavras do profeta Natã. Esse filho é descrito nos mesmos termos em que a teologia de Israel descrevia o “messias” libertador. O que é proposto a Maria é, pois, que ela aceite ser a mãe desse messias que Israel esperava, o libertador enviado por Deus a seu povo, para oferecer-lhe a vida e a salvação definitivas. Os dois textos em questão revelam a gratuidade da ação de Deus ao escolher Davi e Maria e através deles realizar suas maravilhas. Davi, um simples pastor de rebanhos, é ungido a chefe do povo de Israel. Maria, moradora de uma aldeia sem importância, torna-se a mãe do Filho de Deus, aquele que herdará o trono de Davi e reinará para sempre. Não é difícil perceber a sintonia que há entre os dois textos em questão. O Deus de Israel cumpre as promessas feitas aos patriarcas, a Davi, a Maria… Esses experimentam a gratuidade da ação divina. O terceiro texto de hoje é de uma carta de Paulo escrita aos cristãos de Roma. Ele a escreveu, provavelmente, entre os anos 56 e 58 d. C., no final de sua terceira viagem missionária. Os receptores de sua carta eram predominantemente pessoas convertidas do paganismo. E o que lemos nesse trecho – concluindo a carta – é uma doxologia, um hino de louvor a Deus, que tem poder de confirmar os fiéis para que vivam a boa-nova que Paulo anuncia.
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Meditação
Pelos relatos bíblicos sabemos que Maria é parte integrante do povo que aguarda a vinda do Messias. Ele é desejado, sobretudo pelo povo simples. Essa expectativa está associada à esperança que os profetas plantaram
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4º Domingo de Advento
no seio da comunidade dos filhos de Deus. Nos corações há sempre uma esperança pela ação libertadora de Deus. Muitos profetas encarregaram-se de animar os que estavam caídos, desanimados. Vemos isso ao longo de todo o Primeiro Testamento. No texto de hoje, 2 Samuel no capítulo 7, temos Natã que dialoga com Davi. Davi desejava construir um templo para Javé, já que ele, o rei, morava “num palácio de cedro”. Mas Javé recusa esse desejo. Recusa porque está presente no meio do povo, que luta pela vida e liberdade. Javé construirá para Davi uma casa, ou seja, uma dinastia cujo poder estará sempre nas mãos de seus descendentes. É o profeta que teve que anunciar isso; foi Natã quem precisou dialogar, agindo em nome de Deus. Vemos, desse modo, profetas – e são muitos – que por seu anúnciodenúncia-testemunho instigam o povo sofrido a não desanimar. Não é difícil compreender que Maria herda essa tradição, e também ela é desejosa da ação salvífica de Deus. Maria crê na ação libertadora de Deus. É-nos permitido pensar que outros homens e outras mulheres podem ter sido convidados para colaborar nos planos da salvação e recusaram. Maria disse sim. Questionou, isso é verdade! Mas perguntemo-nos: Não é bom compreender aquilo que cremos? A atitude de Maria, ao compreender do que tratava o anúncio do anjo, foi de adesão. Empenhou-se de tal forma, que não necessitou voltar atrás: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Em nosso cotidiano, somos rodeados de propostas. Vivemos uma cultura que nos interpela muito. E incessantemente fazemos escolhas. Está difícil, parece, acertar diante de um montante cada vez maior de possibilidades. A cada época, um novo leque de possibilidades se nos abre. Há um tremendo risco de perder de vista o essencial. Vemos no sim de Maria ao menos duas atitudes de grandeza. As duas são marcadas por sua humildade. A primeira é acreditar (dar crédito). É a atitude de quem tem fé: acredita, mas quer entender. “Como vai acontecer isso?”, perguntou ela. É mais fácil empenhar a vida naquilo que se compreende. É mais fácil acertar na metodologia de nossa ação quando compreendemos aquilo no que estamos investindo e onde pretendemos chegar. A segunda atitude de Maria: uma firme decisão de ligar-se ao plano salvífico de Deus e empenhar-se nele. “Eis a escrava do Senhor.” Com isso Maria não aceita permanecer na mediocridade de seu individualismo. Ela aposta sua existência em prol de uma maioria sofredora, ou seja, na centralidade do reino prometido. Assim como Isabel concebeu um filho em sua velhice – coisa pouco provável, a menos que pensado na ótica divina –, também a jovem Maria foi compreendendo que vale a pena apostar sua esperança em Deus. Em Jesus se cumprem as promessas de Deus. No filho de Maria realiza-se a Nova Aliança. Deus age gratuitamente em favor de seu povo. Na gratuidade, também Maria, o apóstolo, o profeta agem em favor de uma causa maior. Nós cristãos somos interpelados pela Sagrada Escritura a não perder de vista o essencial ao fazer nossas escolhas. Um dos perigos que enfrentamos é
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4º Domingo de Advento
apegar-nos aos meios e perder de vista os fins. Nossa fé precisa ser forte o suficiente para nos instigar a investir tudo o que estiver ao nosso alcance, a fim de construir o essencial, razão da intervenção divina na história: que todas as criaturas tenham vida e a tenham abundantemente. Foi para a felicidade que Deus nos fez. Celebrar o nascimento de Jesus é recordar o gesto gratuito de Deus. Fazendo-se um de nós, vindo morar em nosso meio, deixando-se tocar pela humanidade, falando e agindo de modo compreensível à inteligência humana… Ele nos dá o recado do essencial: o amor é que pode transformar as relações. Agir por amor é que faz valer nossa existência. Em resposta à provocação de como falaria sobre a essência do cristianismo em apenas um minuto, o cardeal Martini respondeu: “A nossa fé pode ser explicada com uma só palavra: amor. Depois é ilustrada, obviamente, mas é certo que a palavra-chave para o cristão é essa, somente essa”.
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Imagens para a prédica
1 – O pregador pode iniciar cantando essa adaptação de uma música popular bem conhecida: “Abra a porta, abra a janela. Venha ver quem é que vem! É Jesus que vem chegando, Ele é o nosso bem”. A partir disso desenvolver a pregação, levando o ouvinte à (possível) conclusão de que, para Jesus nascer de novo (ou seu nascimento ser novidade), há necessidade de uma atitude nossa (individual e coletiva): abrir o coração. Não precisamos temer: ele é amor; “ele é o nosso bem”. 2 – O pregador pode iniciar contando uma situação de uma criança cuja faixa etária é a “fase dos porquês”. O ideal seria que a criança que questiona, no fato narrado, tivesse, a partir da resposta obtida, uma atitude de adesão ou uma atitude ousada, surpreendente. Em sua prédica, tentará “amarrar” a isso a atitude de Maria em seu diálogo com o anjo. Em sua reflexão, o pregador pode levar o ouvinte a questionar-se quanto a suas atitudes diante de situações desafiadoras do cotidiano: Curiosidade ou apatia? Compromisso ou “sumisso”?
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Subsídios litúrgicos
Oração do dia: Faze, Senhor, com que esta celebração nos aproxime sempre mais de tua vontade. Permite que este encontro possa reavivar nosso desejo de te conhecer, seguir e anunciar. E, assim como Maria, possamos acreditar em teu projeto de salvação e empenhar a totalidade de nossa existência por essa causa. Amém!
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4º Domingo de Advento
Oração da luz: A seguir, sugerimos uma oração da luz feita em mutirão. Cada pessoa pode receber uma vela ao chegar para a celebração (ou apenas algumas pessoas escolhidas). Ao acender a vela que recebeu, a pessoa pode expressar razões de agradecimento pela luz de Cristo (ao estilo de uma litania), a exemplo desta: Bendito sejas, Deus bondoso, pela luz de Cristo, sol de nossas vidas, a quem esperamos com toda a ternura do coração. Bênção especial para as mulheres grávidas: (Pode-se estender as mãos sobre as mulheres, e essas colocam suas mãos sobre a barriga): Ó Deus, ternura de paz, nós te contemplamos na gravidez de Maria e na gravidez dessas nossas irmãs. Dá saúde a essas crianças que estão para nascer e tranqüilidade às suas mães. Bendito sejas pela alegria da vinda de Jesus Cristo, nosso salvador. Amém! Música: Louvação para o Advento (adaptação da música Anunciação, de Alceu Valença) 1 – É muito bom, que alegria te louvar, ó Pai querido, mãe de amor e de bondade! Há muito tempo prometeste ao teu povo que tu virias visitar a humanidade Tu vens, tu vens, Eu já escuto os teus sinais! 2 – O povo antigo te fizeste escutar pelos profetas da primeira aliança. Tuas promessas se cumpriram plenamente em Jesus Cristo, que é nossa esperança. 3 – João Batista apareceu lá no deserto, o teu messias entre nós ele apontou. Quando Maria disse “sim” a teu anúncio, de tua palavra a Virgem logo engravidou. 4 – Bendito sejas, ó Senhor, por esta mesa, pelo alimento que de ti nós recebemos. E em memória de Jesus, teu filho amado, com alegria entre nós partilharemos. 5 – Manda, Senhor, o teu Espírito de amor, que nos reúna em fraterna comunhão. Que haja paz, prosperidade entre os povos. Que lá do céu nos venha a tua salvação! 6 – Hoje teu povo reunido em louvação é um sinal de que teu reino está chegando. Por isso agora, com as palavras de Jesus, teu santo nome confiantes invocamos: Pai nosso… No dia 22 (segunda-feira), lembramos Chico Mendes, defensor do meio ambiente.
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4º Domingo de Advento
Chico Mendes: promotor da paz e do cuidado com a ecologia Rene Zanandrea
A luta pela preservação da natureza vem crescendo nos últimos tempos. A cada dia, mais e mais pessoas se convencem de que a natureza está sofrendo severamente com a ação humana. No Acre, um líder seringueiro ergueu um grito em favor da ecologia. Tentaram calar seu grito, mas ele continua ecoando em favor do equilíbrio natural. No dia 22 de dezembro de 1988, morreu o líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho (Chico Mendes, como ficou conhecido internacionalmente). Foi assassinado em Xapuri, no Acre, por causa de sua luta pela preservação dos seringais e das florestas no estado. Hoje, vinte anos depois, o trabalho iniciado por Chico resultou em vários avanços nas políticas de preservação ambiental do país. Chico Mendes é um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Foi reconhecido como um dos mais importantes defensores do meio ambiente pela Organização das Nações Unidas, que lhe concedeu o prêmio Global 500 de preservação ambiental em 1987. No mesmo ano, (1) conseguiu que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) suspendesse o financiamento da construção da rodovia BR-364, planejada para escoar a produção agrícola brasileira para o Pacífico, em função do grande impacto socioambiental do projeto; (2) foi convidado pelo Senado dos Estados Unidos a se pronunciar sobre danos ambientais de várias outras iniciativas financiadas por bancos americanos. Ficaram mundialmente conhecidas as ações diretas lideradas por Chico, os chamados “empates”: os manifestantes abraçavam as árvores para impedir seu corte. Quinze desses empates impediram ações de desmatamento. Chico pode ser considerado hoje um dos criadores do pensamento ecológico moderno no Brasil. Conseguiu introduzir no movimento ambientalista o conceito de que a preservação ambiental não é sinônimo de área isolada, destituída de presença humana. Há centenas de anos, os povos da floresta – indígenas e comunidades tradicionais – viveram em harmonia com o meio ambiente. E a ecologia de Chico é exatamente a que prega o desenvolvimento social através de um manejo sustentável dos recursos naturais. Nesse sentido, desde 1988 o número de reservas extrativistas (Resex) em todo o Brasil aumentou expressivamente. Segundo o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), foram criadas mais de 40 dessas reservas – que juntas ocupam cerca de 6 milhões de hectares –, beneficiando mais de 500 mil famílias. Seguramente, os seringueiros que permaneceram nas florestas estão hoje numa situação melhor do que aqueles que migraram para as cidades.
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4º Domingo de Advento
“Nos seringais, apesar da pobreza, não se encontram miseráveis como nos centros urbanos”, afirmam amigos de Chico Mendes. Chico da Amazônia: Serviço, Justiça, Paz, Ecologia Mataram o Chico. De sobrenome Mendes. O Chico filho da Amazônia. O seringueiro. O Chico da humanidade, o ecologista. O Chico que nos queria seringueiros, continuadamente oferecendo o néctar da consciência. Quem matou o Chico da Amazônia, da fauna, da flora? Na mira da espingarda que alvejou o nosso Chico estavam a UDR e todos aqueles que, historicamente, violentam Chicos e Marias. O tiro contra o nosso Chico também nos atingiu. Nossa dor ultrapassa o sentimento de solidariedade. Sentimos os corpos igualmente dilacerados. Comungamos na dor e na defesa da humanidade. Mas sabemos responder a cada violência em favor da vida. Cada um de nós necessita ser igualmente Chico. Sempre! (autor desconhecido)
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PRÉDICA: ISAÍAS 11.1-9
NOITE DE NATAL 24 DEZ 2008
LUCAS 2.1-7 ROMANOS 1.1-7
Acir Raymann
1
Introdução
Leão comendo capim! Lobos vivendo com cordeiros! Leopardo deitando-se junto aos cabritos! Impossível? Verdade? Verdade! Mais: todos sendo guiados por um menino. Parece um conto de fadas ou uma narrativa metafórica, típica de C. S. Lewis. Mas assim está no texto de Isaías 11, no reino do Messias. É uma nova realidade que desponta no horizonte sombrio, descrito no capítulo 10, com a ameaça cruel e iminente da Assíria. O que parece impossível está para se concretizar. O contexto do evangelho apresenta o que é impossível: “Como será isso...?” (Lc 1.34). Mas “para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas” (Lc 1.37). E no próprio evangelho do dia: como a promessa, atrelada a circunstâncias humanas desfavoráveis como uma gravidez, pode vencer a inóspita geografia? Mas é o povo, não a geografia, que determina as fronteiras do Messias. O impossível acontece: de Nazaré a Belém. Ali “completaram-se-lhe os dias” (Lc 2.6). E o Messias torna-se o evangelho encarnado. Deus se faz gente para habitar entre a gente. Impossível? Na epístola, Paulo compartilha com os cristãos de Roma o fato de ter sido “separado para o evangelho de Deus”. Logo ele, um fariseu e perseguidor da igreja de Cristo. O nome fariseu significa “alguém separado”. O fariseu separava-se da grande massa do povo para devotar-se escrupulosamente ao cumprimento da lei e, por meio disso, tornar-se agradável a Deus. Esse Deus, entretanto, inverte a direção que aquele fariseu toma. Deus separa-o por meio daquele que foi “prometido por intermédio de seus santos profetas nas Sagradas Escrituras” (v. 2) e que, “segundo a carne, veio da descendência de Davi” (v. 3). Esse Deus encarnado separa agora o apóstolo para a proclamação de seu evangelho. Impossível?
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Exegese
O profeta Isaías acabara de descrever o destino e a repentina destruição da ameaçadora Assíria. A floresta de seu orgulho nada mais é do que um campo devastado de troncos. Assim também acontece com o povo de Deus (6.11-13). Jacó, assim como a Assíria, caíra sob o julgamento de Deus. Mas com uma diferença. Quando a Assíria foi derrotada em 609 a.C. pela coali-
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Noite de Natal
zão entre Babilônia, Média e Pérsia, nada mais cresceu daqueles troncos. Em 612 a.C., Nínive foi completamente destruída. Seus escombros foram nivelados pelo tempo. Alexandre Magno ouvira falar de Nínive. Procurou-a, mas não a encontrou. Em 1845, ela foi achada. Nínive é o retrato da ira de Deus sobre o orgulho humano. Mas com Israel Deus foi complacente e gracioso. A árvore foi cortada, mas aqui o tronco não pereceu. Dele, um pequeno rebento teria sobrevida (6.13ss). V. 1 – O “tronco de Jessé” mostra a origem humana do rebento. O rebento mostra-se saudável; desenvolve-se numa árvore capaz de frutificar. A palavra para “renovo” é netzer no texto; ela é a única conexão que Mateus tem ao referir que o Messias seria chamado profeticamente no Antigo Testamento de “Nazareno” (Mt 2.23). V. 2 – As expressões relacionadas aqui são familiares em alguns contextos luteranos, especialmente porque são mencionadas por ocasião do ritual de Confirmação. Mas antes elas são atributos messiânicos. O renovo do tronco de Jessé é divinamente equipado. O verbo nãhã(h) (de nûah), “repousar”, é palavra diferente daquelas que ocorrem em relação a Espírito. Literalmente significa “descansar”. O normal no Antigo Testamento é “o Espírito revestiu a Gideão” (Jz 6.34), “o Espírito de Deus se apossou de Saul” (1Sm 11.7 [ARA 11.6]) ou “se apossou de Davi” (1Sm 16.13). O Espírito do Senhor veio sobre esses homens no passado por um tempo limitado e para um propósito específico e temporário. Mas o Espírito que “repousa” ou “descansa” sobre o Filho maior de Davi não terá tempo determinado. Nele, o Espírito terá presença perene, vitalícia. Os seis atributos, arranjados em pares de três, ecoam o significado do mesmo número de nomes dado ao rei em Is 9.6. Ele é o governante perfeito. Está em contraste flagrante com os frágeis monarcas que subiram ao trono de Judá no período do Antigo Testamento. Aqueles foram insatisfatórios; esse nada deixa a desejar. V. 3-5 – O texto move-se dos atributos do Messias à descrição da maneira pela qual ele desempenha seu domínio. O Messias não governará baseado na aparência, mas na justiça. Muita controvérsia tem surgido em torno da primeira frase do v. 3. Alguns optam por ser uma ditografia com o v. 2b. A raiz do verbo significa “cheirar” e poderia ser uma alusão à linguagem sacrificial em que Deus cheira e o sacrifício lhe é agradável. Mas, se entendermos hãrîhô (a forma é um infinitivo construto do Hiphil com sufixo) por “e ele [Espírito] o inspirará no temor de Yahweh”, como sugere Bartelt, então a primeira parte do versículo faz sentido. Logo o temor do Senhor não é uma carga opressiva, mas um prazer. Dispense-se a ditografia. O Messias será inspirado pelo Espírito a uma atitude de interesse reverente pelos caminhos de Deus, assim como Deus deleita-se ao cheirar o incenso. “Não julgará segundo... os olhos... os ouvidos.” É uma referência que diferencia o Messias de um rei comum. Um rei humano não pode senão confiar no melhor uso de suas faculdades naturais no intento de bem julgar. Esse rei vai mais além. Justiça absoluta requer conhecimento absoluto. Fica claro que o rei aqui é alguém maior do que a edição de um novo representante da monarquia. Seu reinado – e seu reino – é diferencia-
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Noite de Natal
do (Jo 18.36-38). Impossível? Esses versículos são uma amostra do que o Rei fará ao exercer justiça. Os destacados são os mansos e pobres. Se esses têm seus direitos assegurados, os outros também terão. Pois esse é o teste ácido da administração imparcial dos deveres de um rei, a saber, não desconsiderar as pessoas menos favorecidas. Ele também sabe como lidar com os rebeldes, aqui designados de “terra” ou “terrenos”, e os “perversos”. (Na poesia hebraica, “terra” está numa relação sinonímica com “perverso”.) A decisão não é política, mas moral. Decisões em tal nível dificilmente poderiam ser tomadas por um monarca humano. “Vara de sua boca... sopro de seus lábios.” Esse Rei não precisa de armas. Sua palavra é sua arma (Hb 4.12; 2Ts 2.8b; Ap 1.16b; 28.22). Vestimentas esvoaçantes não o atrapalham em sua ação, porque elas são envolvidas pelo longo cinto que o impedem de se enroscar no exercício da justiça. V. 6 – O cessar de hostilidades entre os seres humanos, empregado em 2.1-4 para descrever o tipo de paz a ser desfrutado pelos servos do Rei, estende-se aqui para eliminar o medo entre animal e animal e entre animal e ser humano, que existe desde a ruptura causada pela invasiva ação do pecado no paraíso. “O lobo habitará com o cordeiro”: o verbo gûr significa “peregrinar” e expressa o sentido desses versículos em que o aparentemente forte torna-se dependente do aparentemente fraco. O verbo “peregrinar” é usado no Antigo Testamento para um estranho cuja sobrevivência em terra desconhecida depende da boa vontade dos nativos. Da mesma forma, esses animais selvagens são descritos como dependentes da liderança de uma criança, supostamente a menos indicada para controlar os instintos vorazes daqueles. A menção de um “menino” lembra um tema recorrente nos capítulos 7-12: um menino, não um pomposo monarca, é quem Deus escolhe para governar a grandeza deste mundo. Na inocência, simplicidade e humildade está a salvação de um mundo envelhecido pela sofisticação, cinismo e violência. Impossível? A contradição de uma criança brincando junto à toca da serpente venenosa causa arrepios. A vontade é arredar a criança diante da iminente morte. A imagem quer mostrar que o Messias efetivamente enfrenta a morte. A criança nasceu exatamente para desafiar e vencer a morte. “Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15.55). Toda a natureza volta a seu estado original. V. 9 – “Santo monte” não implica uma restauração física do universo ou a formação de um império político mundial. A expressão está relacionada à linguagem messiânica para descrever a Jerusalém que será construída de “pedras vivas” sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo “o próprio Jesus Cristo a pedra angular” (28.16; 1Pe 2.4-8; Ef 2.19-22). Não se trata de um ponto geográfico na terra; essa Jerusalém não possui limites terrenos. Ela abarca “estrangeiros e peregrinos” de todas as nações. A segurança nessa cidade está fundamentada no conhecimento de Deus e seus caminhos.
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Noite de Natal
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Meditação
a – A árvore foi cortada, mas o rebento cresce. O impossível torna-se possível. Leões vegetarianos, crianças brincando com cobra. Alguém pode afirmar: um leão que come capim já não é mais leão, é uma esquisitice. Um pecador que foge do pecado torna-se uma grande esquisitice. Ele é o leopardo que mudou suas manchas (cf. Jr 13.23). Na verdade, ele é um leopardo que está deixando de ser leopardo. Esse é o mundo do Messias. Alguns consideram Isaías 1.18 uma pergunta. Embora não seja, para efeito teológico é oportuno considerar como pergunta para enfatizar o milagre do perdão. Parece absurdo que Deus seja capaz de tornar o pecado escarlate em brancura de neve e a transgressão carmesim na pureza da lã. Mas é o que Deus faz. Uma manjedoura vazia adornada com a plenitude da divindade. Impossível? O Espírito que age na Palavra e nos sacramentos nos persuade a crer que isso é verdade. Leões que comem capim? Criança que brinca com cobra? A que outro milagre se pode comparar o fato de que Deus perdoa os nossos pecados? A linguagem cósmica de nosso texto não é simplesmente simbólica. O surgimento do renovo, a vinda do Messias, do próprio Senhor Jesus Cristo, apresenta ao mundo caído a ilógica força de sua vitória sobre a cruz. O pecado colocou o mundo e a humanidade pelo avesso. A redenção de Cristo vem restaurar a imagem original. b – O impossível torna-se possível porque o Espírito repousa sobre o renovo. Textos bíblicos falam que o Espírito do Senhor se apossou de várias pessoas. Em 1 Samuel 16.13, afirma-se que “daquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apossou de Davi”. Embora os juízes e até Saul tenham recebido o mesmo Espírito, deles, entretanto, não se diz “daquele dia em diante”. Numa hora podem ser apossados pelo Espírito, e noutra desamparados por ele. Sobre o Messias, da descendência de Davi, o Espírito “repousa” em caráter permanente. As manifestações do Espírito no texto hebraico são seis, formando três pares de dois. A LXX transforma-as em sete, donde surge a septiforme manifestação como sinônimo de plenitude, que adorna a cabeça e vida dos confirmandos, queira Deus, para sempre. O sermão/prédica poderá contemplar tais manifestações na pessoa e obra de Jesus. Talvez na noite de Natal seja oportuno relacionar “conselho e fortaleza”, contrastando os pastores e Herodes. Os pastores ouvem a mensagem e, guiados pelo Espírito de conselho, alegram-se. Herodes, fraco no Espírito, ouve e treme. Ele é poderoso e aniquila inocentes, mas não consegue aniquilar o menino Jesus e sua obra. A ênfase no Espírito mostra que o renovo é um milagre divino. Em meio ao horizonte sombrio, violência ameaçadora, densas trevas, surge a luz divina. Sem ela, o ser humano vive e caminha para a catástrofe. Picasso, em sua talvez mais importante obra chamada Guernica, retrata a realidade da morte, destruição, aniquilamento. Não sei se é intenção do autor, mas está lá. Em meio ao desdobramento do terror e do desespero aparece, no centro da
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Noite de Natal
pintura, uma pequena flor iluminada por uma luz que vem de cima. É uma oportuna ilustração para a noite de Natal. Apenas o Espírito pode fazer com que do tronco de Jessé, símbolo de aniquilamento e destruição, possa brotar um rebento, um renovo para dar vida à realidade da morte que permeia o mundo. Esse Espírito atua em Jesus e pode ser encontrado apenas em Cristo. c – O impossível torna-se possível porque o renovo é o juiz. Esse juiz fará um julgamento objetivo e não político. Justiça e eqüidade são o seu modo de fazer. Será condescendente com o manso e o pobre, porém inflexível com o perverso. Mansidão e pobreza não devem ser avaliadas por padrões sociais ou econômicos. Riqueza, no Antigo Testamento, não é objeto de repreensão, exceto quando leva a usura, torpeza e opressão. Mas o manso e pobre é aquele que, ao contrário do rico, crê ser dependente de Deus, daquele Deus que, embora aparentemente impossível, se fez pobre assumindo a fragilidade da natureza humana, para que nós fôssemos tornados ricos, presenteados com a coroa da justiça divina.
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Subsídios litúrgicos
Confissão e absolvição: O: As palavras de Jesus “Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados” nos dão autoridade e garantia neste momento de confissão e arrependimento. Confessemos, pois, diante do Deus justo e santo com humildade todos os nossos pecados, os conscientes e os inconscientes. E arrependidos aceitemos o seu gracioso perdão. O e C: Senhor Deus, quem sou eu diante da tua pureza, santidade e justiça? Sou apenas uma pessoa dividida ao meio, pois não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero. Ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Tenho prazer na tua Lei, ó Deus, mas ao mesmo tempo me sinto prisioneiro da lei do pecado. Assim dividido estou eu, por isso sinto-me desventurado. Nesse estado, suplico a tua graça e o teu perdão em Cristo. O: Agora já não há mais condenação para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida em Cristo te livrou da lei do pecado e da morte. Em ti habita o Espírito daquele que envia o seu Filho Jesus, que assumiu a nossa natureza humana na noite de Natal, para que nos livrasse da morte e da condenação eternas. Esse mesmo Espírito vivifica também a ti mediante o seu perdão e reconciliação. Perdoados estão os teus pecados. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. C: Amém!
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Noite de Natal
Bibliografia BARTELT, Andrew H. The Book around Immanuel: Style and Structure in Isaiah 2-12. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1996. OSWALT, John N. The Book of Isaiah: Chapters 1-39. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1986.
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PRÉDICA: LUCAS 2.1-20
NATAL DE NOSSO SENHOR
ISAÍAS 52.7-10 HEBREUS 1.1-12
25 DEZ 2008
Odair Braun
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Introdução
As passagens indicadas para as leituras e o texto de pregação deste Natal são um chamado para despertarmos e sairmos da letargia, abraçando a graça de Deus. Somente da graça de Deus advêm força e poder para a plena e total transformação. São, portanto, textos que nos convidam para algo novo, pleno e repleto, pois convidam para a salvação. Esse é o desejo maior que tais passagens querem despertar em nós.
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Exegese
Lucas 2.1-20 é uma das passagens mais conhecidas e populares da Sagrada Escritura. Observa-se que, a partir de um decreto do imperador, toda a população é posta em movimento, visando efetuar o recenseamento. Por sua vez, o recenseamento tinha como objetivo facilitar e aumentar a cobrança de impostos por parte do Império Romano, que, por sua vez, era um governo centralizador e poderoso. Nesse contexto, o nascimento de Jesus numa estrebaria, no território do império, é um contraponto na história. Aquela criança provém da periferia da sociedade. Vem para inverter valores. Vem para juntar e unir. Por outro lado, a criança recém-nascida é encontrada, inicialmente, por pastores de cabras e ovelhas. Esses, por sua vez, não eram pessoas de destaque. Ao contrário, às vezes eram pessoas tidas como de pouca confiança, até mesmo perigosas. E, como sinal desse contraponto da história, são eles que chegam àquela estrebaria, levando presentes. Também são eles que saem daquele lugar cantando louvores a Deus. Portanto, em meio ao estábulo e à pobreza, o menino apresenta-se ao mundo. Ali, na periferia, Deus se encarna neste mundo, tendo como testemunhas pessoas desprezadas, que após o encontro retornam à sua rotina, dando glória a Deus. Isso é significativo. Essa é a boa-nova, ou seja, diante daquela manjedoura e em meio ao estábulo se fundem céu e terra e Deus revela como ele age na história. Em traços gerais, Lucas 2.1-20 apresenta três aspectos importantes: a) v. 1-7: destacam o lugar em que nasce Jesus, ou seja, a periferia; b) v. 8-14: pessoas desprezadas são as primeiras a ouvir a boa-nova, o que é motivo de alegria e transformação; c) v. 15-20: a boa-nova traz conseqüências. Os pastores tornam-se anunciadores da boa-nova e saem louvando a Deus.
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Natal de Nosso Senhor
Em relação aos textos de leitura, observa-se que Hebreus destaca a necessidade de falar e anunciar Deus. A passagem de Isaías 52.7-10 é um texto do exílio babilônico e tem como pano de fundo a cidade de Jerusalém, destruída e em ruínas. Contudo, apresenta-se a expectativa de retorno iminente. Nesse contexto destacam-se três cenas centrais: a) o mensageiro anuncia o reinado de Deus; b) os atalaias que observam a chegada do mensageiro são apresentados; c) destaca-se o olhar para as ruínas de Jerusalém. A boa-nova revelada nas passagens é que Deus reina, e essa novidade deve ser observada e transmitida, visando a transformação. São, portanto, textos que convidam e chamam para a caminhada missionária, visam propagar e difundir a boa-nova.
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Meditação
Mais uma vez é Natal. Época alegre, de planos e alegria. Tempo especial e de esperança. No Natal, festejamos o encontro de dois mundos, o encontro de pessoas, que de outra forma jamais teriam se encontrado. O Natal é uma força que mexe e remexe com cada um de nós. É uma força que transforma. Deus veio ao nosso encontro. Deus nos escolheu. Ele chega a este mundo por um caminho simples e humilde. Chega pelo caminho menos esperado. Ele nasce como uma criança dependente e frágil. Nasce em meio a dores de parto. É enrolado em panos. Deitado na manjedoura, em meio aos olhares dos animais. Não havia lugar para ele, somente a estrebaria. Nessa noite, encontram-se pessoas que antes nada tiveram em comum. Pastores encontram-se com Maria, José e a criança recém-nascida. Pastores encontram pessoas estranhas. Deus encontra-se, naquela estrebaria, com o mundo, como nunca antes havia ocorrido. Encontros geram emoção, sentimentos, alento. Como isso terá acontecido com José, Maria e os pastores? É preciso tentar imaginar essas cenas relatadas nessa passagem. É preciso fazer isso para compreender a paixão de Deus por nós e por este mundo. O Deuscriança, o menino Jesus, traz esperança para o mundo sombrio, violento e sem paz. Deus mostra-nos, através do nascimento de Jesus, que o caminho para a vida plena passa pela estrebaria, pelo presépio, onde o céu e a terra se encontram, onde as estrelas se colocam como guias para os reis magos. Onde a vida é vitoriosa. Onde todos são presenteados. Provavelmente, dois ou três dias antes desse encontro, se alguém tivesse dito aos pastores que eles iriam despertar de madrugada, deixar tudo para trás e dirigir-se a Belém para procurar uma criança, eles teriam rido e caçoado daquele que lhes falasse. Provavelmente teriam dito que isso eles não fariam. Provavelmente teriam dito que iriam, se fosse ao encontro do Rei, em Roma, para visitá-lo. Mas o Espírito Santo de Deus age, muda, transforma, põe em movimento. E, dois dias depois, eles, os pastores, dirigiam-se a Belém
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Natal de Nosso Senhor
para visitar e adorar uma criança numa estrebaria, pois não havia outro lugar para abrigar aquele casal. No Natal, realiza-se a plenitude dos tempos. A salvação se realiza. Deus vem ao encontro das pessoas. Ele encarna a vida humana. Por isso o Natal é comovente. Não por seus enfeites ou por nossos sentimentos. Não pelas luzes que se acendem ou pelos muitos presentes que são dados e recebidos. O Natal é comovente porque Deus revela seu amor à humanidade de uma maneira muito especial, mas igualmente simples. Ele, Deus, age apaixonadamente em favor da pessoa contra toda a lógica humana. Ele não escolhe o caminho da glória, do poder e da ostentação. Ele escolhe o caminho da humildade e do serviço. Sem discutir, mas apressados, os pastores partem. Algo os movia. Algo os punha a caminho. Alguma força sobrenatural mexeu com eles. Seria a curiosidade? A saudade para alcançar um mundo novo? Foi Deus e seu Santo Espírito? Eu creio que nem mesmo aqueles pastores sabiam, naquele momento, o que os punha em movimento. Após o encontro com o anjo e a promessa vinda do céu, eles queriam ver o que tinha sucedido. Natal quer fazer-nos olhar sob outra perspectiva. Natal significa que a lógica de Deus para conosco é outra. É a lógica da vida, do estar junto, tal como revelado por Deus lá na estrebaria. Os pastores não tinham rádio nem TV. Mas queriam, antes de qualquer coisa, ver... e quem sabe então acreditar. Eles põem-se em movimento. Eles põem-se a caminho, não ficam parados dizendo: “Podíamos, deveríamos, quem sabe, não tenho tempo, tenho muito que fazer lá em casa”... Os pastores de ovelhas daquele tempo deixam levar-se para o encontro com o outro. E nós hoje, como agimos? Deixamos Deus falar conosco? Deixamos Deus nos impulsionar para agir em favor de nosso semelhante? Deus revela-se ao mundo numa criança frágil e indefesa. Não havia lugar para ela nascer... Sobrou a estrebaria... Deus envolve-nos e aquece através da palha da manjedoura. O Natal fala para dentro de um mundo desumano, com marcas de injustiça, ódio, discriminação, exclusão. Na lógica de Deus, a justiça e a paz encontram-se e se abraçam na estrebaria no meio dos animais, junto de uma mulher, cansada do parto. Quando vemos essa cena diante de nossos olhos, lembramo-nos de tantos que não assumem a responsabilidade com a maternidade e a paternidade. Temos em nossa cidade e no mundo crianças de rua, jovens adolescentes perdidos em drogas, porque, muitas vezes, em casa não há diálogo e compreensão. A família de Maria, José e Jesus faz-nos olhar também para a nossa família. Qual o testemunho de amor familiar que damos aos filhos, ao mundo? Os pastores põem-se a caminho. Eles se deixam impulsionar por Deus. Encontram a estrebaria. Entram. Creio que estavam bem apreensivos sobre o que iriam encontrar naquele lugar. O que encontram? Nem anjos. Nem brilho. Nem luz. Eles se deparam com uma mulher e um homem, empenhados em cuidar de uma criança recém-nascida, que se encontra num cocho para alimentar animais, porque outra coisa não havia para abrigar o recém-nasci-
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Natal de Nosso Senhor
do. Os pastores que se puseram a caminho vêem e se encontram com pessoas nunca antes vistas ou encontradas. Os pastores encontram a mulher, Maria. Encontram José e a criança. Os pastores reconhecem os três só por meio do ouvir falar da parte do anjo. O sinal do nascimento do Salvador é uma criança deitada num cocho de animais. Vocês podem imaginar o espanto daqueles humildes pastores. Eles são os primeiros a receber a notícia do nascimento de Jesus. E, então, muitos anjos cantam, anunciando com alegria e júbilo: “Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra entre as pessoas a quem Deus quer bem”. A paz é a mensagem central dos mensageiros de Deus no Natal. A paz entre as pessoas, entre as famílias, entre os povos... A paz se faz! A paz implica construção de pontes de perdão, de reconciliação, de reconstrução da vida. A paz implica pão: saciar a sede de quem tem fome. A paz implica educação. A paz requer a prática dos valores cristãos na construção de uma sociedade solidária e justa. Na primeira noite de Natal, os anjos cantaram a mensagem da paz para os pastores no campo: “Paz entre as pessoas a quem Deus quer bem”. No Natal, recordamo-nos dessa maravilha, da vinda do próprio Deus a nós, naquela criança despojada, filho de Maria e José, nascido em Belém. Por isso, acima de todos os nossos pedidos e em confiança nas promessas de Deus, damos no Natal e sempre glória a Deus nas maiores alturas. Pessoas simples, pastores de ovelhas, foram os primeiros a visitar a criança em Belém. O seu coração encheu-se de júbilo. Eles não ficaram com essa alegria somente para si. Foram adiante, foram testemunhar o que havia acontecido. Contaram aos demais o que tinham presenciado. Como nós temos testemunhado a presença de Jesus em nossa vida? Temos falado às outras pessoas sobre as maravilhas e os milagres que Deus tem feito em nossa vida? Além de testemunhar com palavras, como temos dado sabor à vida daquelas pessoas que vivem conosco? Como temos sido solidários com aqueles que ainda vivem nas estrebarias e estão deitados nas manjedouras em nosso mundo? No Natal, Deus aponta o horizonte a quem está sem rumo. Abrem-se perspectivas para quem está sem perspectiva. Por isso todos podemos olhar para o futuro com esperança, podemos projetar-nos para a frente, em direção ao horizonte onde estão as luzes, a alegria, a paz, o senhorio de Deus. O futuro já ilumina o presente. A festa do nascimento de Jesus contagia toda a Terra. Quem faz a experiência dos pastores de contemplar a glória de Deus não se recolhe a seu canto, mas se enche de vitalidade, de ânimo e sai para testemunhar a mensagem da vida e da salvação. De pastores de ovelhas a anunciadores da palavra de Deus. Isso parece algo absurdo. Mas, no Natal, isso é possível. Diante do mesmo Jesus, de sua força e luz, tudo se torna viável. Volto a dizer: ali se encontram pessoas e acontecimentos, ocorrem sinais e surgem palavras, como nunca antes visto. Não é nenhuma surpresa que todos, conhecendo o ocorrido, ficaram impressionados. “Todos os que ouviram o que os pastores diziam ficaram admirados” (Lc 2.18).
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Devem ter falado ao povo o que para eles se transformou em evangelho, em boa-nova. Evangelho é aquilo que deixa uma pessoa alegre, com esperança. Evangelho é aquilo que deixa um sentimento de realização e de dever cumprido. Só assim a boca transborda de palavras de alegria e esperança, que são compartilhadas com todos. Deus encontra as pessoas onde é relatado sobre as graças e as maravilhas que ele proporciona em nossa vida. Foi isso que os pastores fizeram. Eles pararam, ouviram, viram e anunciaram. Juntaram a palavra e os sinais, puseram-se em movimento. Somos nós capazes de compartilhar com os outros aquilo que Deus permite em nossa vida? O que ocorre quando nos pomos em movimento, quando deixamos Deus nos impulsionar e mover, tal qual os pastores daqueles campos? Ocorrem transformações. Ocorrem sinais, ações de transformação, que tornam este mundo e nossa sociedade melhores. Ocorrem sinais de que nosso mundo tem salvação. Somos importantes. De nós depende fazer chegar essa boa-nova a outros. Se espalharmos nossas experiências com Deus e com o evangelho, então verdadeiramente este mundo será transformado. Ele não é um presidente que deseja mandar em tudo e em todos, ameaçando de guerra aqueles que discordam, tal como a gente vê muitas vezes nos noticiários. Jesus Cristo é o Senhor, ele é o poder que no Natal e que nos demais 364 dias do ano deseja transformar a vida. Somente o amor de Deus por este mundo tem a capacidade de manter a unidade, a paz e o amor. Naquela estrebaria pobre e fedorenta é posto lado a lado tudo aquilo que precisa permanecer junto: Deus e as pessoas. Com a criança que ali nasceu se torna compreensível o que Deus quer com cada criança que nasce, com cada novo dia: uma nova criação, nova força e novo ânimo. Amor para viver. A vida tem nova chance; nada precisa permanecer tal como até agora. Contra toda a fome, miséria e violência, contra toda a falsidade e mentira, contra toda a culpa e morte, podemos crer, confiar e viver. Isso também é Natal. E o modo mais belo de expressar essa alegria é por meio do louvor. Alegria pelo encontro do céu com a terra. Alegria pelo encontro de Deus conosco. Alegria pela nova vida. Alegria pelo Natal que bate à nossa porta.
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Imagens para a prédica
Conforme observado na meditação, destaca-se o fato de ocorrer o encontro de duas extremidades, de dois opostos, ou seja, Deus e as pessoas, o mundo fragilizado e o canto de “Glória a Deus nas alturas”. Pode-se buscar a encenação de cenas e realidades, visando defrontar a comunidade com esses opostos. Essas encenações podem ser distribuídas no transcurso da pregação.
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Natal de Nosso Senhor
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Subsídios litúrgicos
Liturgia de entrada: Pastor – O que tinha sido anunciado por profetas tornou-se realidade. Um menino nasceu! A palavra tornou-se um ser humano e veio morar no meio de nós, cheio de graça e de verdade. E, a começar pelos pastores de ovelhas lá em Belém, o mundo pôde conhecer esse menino: Jesus. Esse é o motivo por que o mundo festeja o Natal. É o motivo que nos reúne em culto nesta manhã. Estamos reunidos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Gesto da paz: Quando adulto, o menino Jesus, nascido em Belém, anunciou: Deixovos a minha paz. Minha paz vos dou. E ela é diferente da paz do mundo. A paz de Jesus reata relações rompidas, permite refazer a amizade, ajuda a devolver a convivência na família, a superar o ódio. Porque Jesus nasceu pode haver reconciliação. Com um abraço ou um aperto de mão desejemos essa paz uns aos outros. Oração do dia: Deus, que revelaste teu rosto no menino nascido em Belém. Obrigado por mais este Natal. Obrigado por mais uma vez podermos revisar nossa vida e dar a ela um rumo, orientado pela estrela que conduz a teu filho. Obrigado por que vens e estás no meio de nós. Tu és a luz do mundo, e precisamos de ti. Deixa a tua vida clarear a nossa vida e a escuridão que paira sobre nosso mundo. Oração geral da igreja: a) Intercedemos por nossos irmãos e irmãs que encontram dificuldades, falta de sentido de vida, que enfrentam a enfermidade, o desemprego e a dependência. Faz com que a mensagem de Natal se transforme em motivo de esperança na recuperação e em fé de que sempre podemos confiar que estamos guardados em tuas mãos. b) Intercedemos por paz na terra, paz na família, paz entre as gerações, paz na comunidade e na igreja, paz entre os povos para que desse modo o mundo experimente a alegria que transformou a vida triste dos pastores acampados nos arredores de Belém. c) Intercedemos, nosso Deus, por fé no mistério do Natal e por disposição para atitudes, palavras e pensamentos que estejam sempre orientados pelo que Jesus ensinou e praticou. d) Deus amado, tu que revelaste a boa notícia aos pastores desprezados e perseguidos nos morros de Belém. Oramos pelas pessoas que ainda hoje são desprezadas e perseguidas em nosso país. Que a paz de Jesus motive a nós e aos povos das diversas raças para se acolher fraternalmente. Que a
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paz de Jesus nos torne livres para ser compassivos, solidários com todas as pessoas que sofrem. e) Deus amado, que acompanhaste Maria e José, acompanha as nossas famílias. Conduze-nos pelo caminho do diálogo, pelos trilhos do companheirismo, sempre pronto para o perdão e a reconciliação, para que em nosso lar também possamos sentir o doce gosto da paz querida pelo menino Jesus. Por Jesus Cristo. Amém.
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PRÉDICA: GÁLATAS 4.4-7
1º DOMINGO APÓS NATAL 28 DEZ 2008
ISAÍAS 61.10-62.3 LUCAS 2.22-40
Cristina Scherer
1
Contexto da Epístola aos Gálatas
Durante sua segunda viagem missionária, Paulo chega à região da Galácia (At 16.6.), passando por lá uma segunda vez no início da terceira viagem (At 18.23). Trata-se de uma região, e não de uma cidade. O nome gálatas origina-se dos gauleses, que emigraram da Europa para uma região da Ásia Menor, atual Turquia, no século II a. C. Após a segunda visita de Paulo à região, começam a surgir problemas nas comunidades fundadas. Os judaizantes queriam impor aos gentios convertidos a circuncisão e a observância da Lei de Moisés (Gl 1.6ss; 5.7-12). Algumas pessoas das comunidades também questionavam a legitimidade apostólica de Paulo (Gl 1.1-2). Paulo passa a defender sua atuação de apóstolo e de anunciador do evangelho de forma veemente (Gl 1.6-2.10). Passa a combater o legalismo de judaico-cristãos, exortando as pessoas convertidas ao cristianismo a permanecer firmes no amor, pois no amor ao próximo está a plenitude da lei. Paulo convida os leitores da carta a se deixar guiar pela liberdade cristã e pela ação do Espírito que produz frutos visíveis na vida das pessoas (Gl 5.13-26). Convida as pessoas a optar se desejam viver segundo o instinto humano, egoísta, que conduz à morte, ou viver guiado pelo Espírito, que conduz à vida eterna. O livro de Gálatas apresenta a seguinte temática: fé, liberdade cristã, carne x espírito, lei do amor, igualdade em Cristo, frutos do Espírito, tudo isso ligado ao tema central: a salvação em Cristo, oferecida pela graça de Deus, o que nos torna livres, libertos para lutar pela libertação num mundo de opressões.
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Estrutura da epístola e do texto A Epístola aos Gálatas está estruturada da seguinte forma: Introdução, endereçamento: 1.1-5 Censura: 1.6-10 Demonstração da origem da autoridade apostólica de Paulo: 1.13-2.21 Demonstração de nossa filiação divina pela fé em Cristo: 3.1- 4.7 Consideração sobre a liberdade em Cristo: 4.8-31 Exortação sobre a nova criatura em Cristo: 5.1-6, 10 Conclusão: 6.11-18
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1º Domingo após Natal
Nossa perícope está na segunda parte dessa carta, que trata da filiação divina pela fé em Cristo. Inicia em 3.1-5, onde consta uma repreensão aos Gálatas; em 3.6-9, Paulo usa como exemplo o patriarca Abrão, quando convida a comunidade a ser como os que são pela fé; 3.10-14 afirma que não há conciliação entre lei e fé; 3.15-18 aborda a supremacia das promessas sobre a lei; 3.19-22 aborda o porquê da lei; 3.23-25, tempo da fé e prazo da lei; 3.26-29, filhos de Deus pela fé em Cristo e ao mesmo tempo descendência de Abraão; 4.1-7, encarnação de Cristo e nossa adoção filial. O texto de Gálatas 4.1-7 é a conclusão da parte central da Epístola aos Gálatas e ponto culminante da mesma. Aqui há o fundamento da filiação divina da pessoa cristã no ato do envio por parte de Deus de seu Filho e do Espírito Santo. O apóstolo Paulo comunica a filiação divina dos cristãos a partir da encarnação de Jesus Cristo, o filho de Deus, ele que é nascido de mulher e nascido sob a lei. Paulo enfatiza a realidade da encarnação – tornar-se carne – como fundamento da divina adoção filial dos cristãos. O texto estrutura-se da seguinte forma: v. 1-2: período anterior à encarnação; v. 3: período de transição, contempla o passado e prepara a grande revelação do ponto posterior; v. 4-6: fala do tempo a partir da encarnação, ponto central do texto, onde é enfatizada a divina adoção filial dos cristãos como dom recebido. Assim, o tempo da divina adoção filial afirma que ser filho e filha de Deus significa que a vida das pessoas cristãs deve espelhar e refletir no próprio ser a realidade do Filho unigênito de Deus. Como filhos e filhas de Deus, somos imagem de Jesus Cristo, encarnação do Verbo. O grito e os clamores dos cristãos são os mesmos do Filho de Deus; v. 7: aqui Paulo apresenta uma conclusão e a recapitulação do que foi dito acima: o tempo antigo, antes da encarnação, era de escravidão; agora, o novo tempo é de filhos, filiação, amor do Pai que nos acolhe junto ao Filho unigênito. O tempo da menoridade ficou para trás; agora, já vivendo o novo tempo, da maturidade da fé, não é mais possível voltar ao estágio anterior de menoridade.
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Mensagem
Sentimos os ares natalinos. Festas e comemorações na comunidade cristã e na família estiveram presentes em nossos dias. Agora surge a expectativa pelo tempo novo. Sentimentos de gratidão pelo que já passou e de confiança no Deus da vida permanecem conosco. É tempo de reflexões e avaliações pessoais, de buscar novos horizontes, de fundamentar nossa vida no amor de Deus. Tempo de reconhecer que nossa fé surge pelo ouvir da palavra de Deus, que é lei e evangelho, graça e juízo. Sem orientação clara e direta não podemos subsistir. Como cristãos, precisamos de leis, ensinamentos, conselhos que servem de bússola para nossa caminhada como povo de Deus. Sem essa palavra que nos dá a lei ficaremos
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desorientados, perdidos neste vasto mundo. Mas essa palavra não revela somente uma lei que nos quer subjugar, escravizar; antes ela pretende nos libertar para servir a Deus e ao próximo em amor. Amor que o próprio Deus revela a nós quando decide vir ao nosso encontro em Jesus Cristo. Assim, para sermos lembrados desse imenso amor de Deus por nós, é essencial que falemos da encarnação de Deus na humanidade, do envio de seu Filho Jesus Cristo ao mundo. No evento da encarnação, o amor de Deus expressa-se num determinado momento histórico da humanidade. Ali fica claro que somos adotados pelo Pai. Deus torna-se um pai amoroso, e podemos chamá-lo de Abba, paizinho querido, assim como fez Jesus. Com Deus passamos a ter uma relação de Pai-filho/filha, quando o Espírito de seu próprio Filho está conosco, o qual clama: Abba, Pai. Paulo afirma que, por causa de Cristo Jesus, já não somos mais servos, mas passamos para a condição de filhos, ou seja, não estamos mais debaixo da lei, visto que a observância rígida e exclusiva da lei gera servos e não filhos, e se somos filhos, somos também herdeiros por Deus. Em Hebreus 1.21* diz que Cristo é o herdeiro de tudo. Portanto, sendo ele o herdeiro de tudo, nada sobrou para ninguém. Entretanto, Deus em sua infinita misericórdia também nos faz participantes das promessas em Cristo pelo evangelho. Está claro que sob a lei, numa condição de servidão, o ser humano não tem direito à herança. Daí a razão de Deus, na plenitude dos tempos, ter enviado seu filho para nos resgatar debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos, porque só os filhos têm direito à herança. Gálatas 4.1-7 afirma que o tempo em que vivemos é de plenitude, porque nesse tempo, nessa história da humanidade, Deus enviou seu Filho, não de qualquer maneira, mas “nascido de mulher e sujeito à lei”, quer dizer, semelhante em tudo a nós, em nossa humanidade e em nossos condicionamentos históricos. Mas esse “rebaixamento” do Filho de Deus alcançou-nos a maior das graças: a de chegarmos a ser filhos de Deus, capazes de chamálo Abba – Paizinho querido! Nossa condição filial fundamenta uma nova dignidade de seres humanos livres, herdeiros do amor de Deus. Assim, como herdeiros desse amor, somos convidados pelo bondoso Deus a nos apropriar de nossa dignidade de filhos livres, rechaçando os males pessoais e sociais que nos angustiam e oprimem, lutando juntos contra eles, a fim de que reinem a justiça e a paz que Jesus Cristo veio anunciar ao mundo. Nascido de mulher, nascido sujeito à lei – recorda Paulo (Gl 4.4). Jesus nasceu na fraqueza, na pobreza, fora da cidade, numa gruta, porque não havia lugar para ele na pousada. Nasce na mesma situação que o conjunto do povo, simples, humilde, destituído de poder. Esse nascimento real e concreto foi assumido por Deus para abraçar no amor todos os que a tradição havia deixado de lado. É a visita real daquele que, por simples misericórdia, dá-nos
* A leitura de Hebreus 1.1-12 também pode ser utilizada durante o culto como leitura opcional.
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a graça de poder chamar com familiaridade a Deus de Abba – “paizinho” – e a possibilidade de considerar todos os homens e mulheres como irmãos muito amados. Em Jesus, nascido de mulher, todos os seres humanos foram declarados filhos e não escravos, declarados co-herdeiros, por vontade do Pai. A bênção ou benevolência de Deus para com os seres humanos dá um grande passo: Deus já não abençoa com palavras, agora abençoa todos os seres humanos, e ainda toda a criação, com a própria pessoa de seu Filho, que se faz irmão de todos. E ninguém fica fora de seu amor. Desde o Antigo Testamento, o povo de Israel experimentava a graça e o amor de Deus que faz brotar a salvação e permite que a vitória brilhe como o sol (Is 61.10ss). Essa salvação é anunciada ao povo quando Jesus é apresentado no templo, “porque meus olhos viram a salvação que preparaste na presença de todos os povos” (...), pois esse menino “foi escolhido por Deus tanto para salvação quanto para a destruição de muita gente” (Lc 2.29ss). Em Jesus, nascido de mulher em meio à dor, Deus revela sua bondade, seu amor, sua misericórdia e graça sem par e anuncia libertação de todo jugo da lei que domina e escraviza o povo. É a situação de filhos e filhas de Deus que nos dá condições para lutar pela dignidade do ser humano, por uma vida justa, por direitos iguais numa sociedade tão desumana. Não podemos nos deixar escravizar pela lei do mais forte, pela lei do mercado, pela lei da corrupção e falsidade. Como herdeiros do reino de Deus, somos convidados a anunciar a palavra do evangelho que liberta, que é verdade que produz vida, acolhimento, entendimento, que traz paz, humildade, benevolência e domínio próprio, e contra essas coisas não há lei (Gl 5.23).
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Imagens para prédica Os braços compridos de Deus
Radiante de alegria, a menina correu para o pai com um papel na mão: – Papai, olha só o que eu desenhei. O pai olha a “obra de arte” da filha, mas não entende bem o significado do desenho: ao pé da folha ela desenhara uma porção de rabiscos, um perto do outro; mais acima, estava um vulto bem grande, com braços enormes, estendidos para baixo. – O que é para significar isso? – perguntou o pai. A menina procurou explicar o desenho: – Aqui embaixo, essas pequenas linhas são as pessoas, somos nós. E esse grande, ali em cima, é Deus. – Mas esse teu Deus parece meio desengonçado e desproporcional. Eu nem o acho muito bonito. Seus braços são compridos demais – retrucou o pai. – Mas papai, disse a filha um pouco chateada, exatamente aí está a beleza de Deus. Porque, para alcançar e abraçar todas as pessoas, ele precisa ter braços muito, muito compridos.
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O pai deu um beijo na filha e afastou-se um pouco envergonhado, pois tinha recebido um sermão muito profundo através de um simples desenho de criança: como poderíamos chamar o poderoso e eterno Deus de pai se ele não tivesse braços compridos, com os quais ele quer abraçar cada pessoa, seja ela rica ou pobre, idosa ou jovem, e demonstrar-lhe seu imenso amor? Quando Jesus ensina o Pai-Nosso, ele quer mostrar que Deus é muito maior do que nós podemos imaginar. Mas que ele, mesmo assim, “é o nosso verdadeiro Pai”, no qual podemos confiar sempre, e “que quer atrair-nos carinhosamente” e que somos “os seus verdadeiros filhos, para que lhe roguemos sem temor” (Lutero).
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Subsídios litúrgicos
Versículo de acolhida: “Vejam como é grande o amor do Pai por nós! O seu amor é tão grande, que somos chamados filhos e filhas de Deus” (1 Jo 3.1a). Confissão de pecados: Sou teu filho, Senhor, sou tua filha. Tantas coisas tenho para te dizer neste tempo em que se respira Natal, que finaliza o ano. Tantos pecados tenho para te confessar, caminhos a endireitar. Tu sabes, Senhor, o quanto me afastei de ti e de teus ensinos neste ano em que vivi pela tua graça e bondade. Ó Pai, perdoa os erros, perdoa as faltas, perdoa as caídas e tropeços. Estende teus braços compridos ao meu redor e não permitas que me afaste de ti e me esqueça de teu amor. Dá-me o calor de teu abraço e a certeza de teu perdão por causa de teu amado Filho e Salvador, Jesus Cristo, o Senhor. Dá-me o teu perdão, pois sou teu filho, Senhor, sou tua filha. Graças e louvor para todo o sempre. Amém. Absolvição dos pecados: Em Cristo, os braços de Deus tornam-se mais compridos, para nos alcançar; Mais fortes, para nos segurar; mais humanos, para nos compreender; Mais divinos, para nos perdoar; mais sensíveis, para nos prender a seu infinito amor! “Todos aqueles que Deus aceita e que recebem como presente a sua imensa graça reinarão na nova vida por meio de Cristo” (Rm 5.17b). “Imenso é seu amor, sem fim sua bondade para todos os que na terra o seguem na humildade. Bem forte é nosso Deus, levanta o seu braço, espalha os soberbos, destrói todos os laços.” Cantemos glória a Deus nas alturas e paz entre nós!
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Oração final: Deus amoroso e misericordioso, que nos abraça em tempos difíceis e nos consola, que perdoa nossos pecados e nos faz recomeçar com novas forças, que nos orienta e não permite que nos percamos na escuridão da solidão e da falta de esperança, a ti chegamos e abrimos nossos corações (...) Colocar os pedidos de intercessão, de acordo com cada realidade. Em meio a tantos sinais de desamor, angústia e falta de esperança, ajuda-nos a nos concentrar na boa-nova que mudou o mundo: Hoje nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, Cristo, o Senhor. Amém. Hinos: Bom é estarmos unidos; Vede que grande amor (intercalado nas leituras bíblicas); Virá o dia em que que todos (O Povo Canta, n. 40).
Bibliografia SANTOS, Nilson Faria dos. Adoção filial e plenitude do tempo/plenitude dos tempos: Estudo exegético-teológico de Gl 4,1-7 e Ef 1,3-10. V. 1. Rio de Janeiro, [s.n.], 2005. ROTEIROS PARA REFLEXÃO, v. 10. Paulo e suas cartas. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus, 2000.
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PRÉDICA: JOÃO 10.14-16, 27-29
VÉSPERA DE ANO NOVO
ÊXODO 13.20-22 APOCALIPSE 3.7b-8,10-13
31 DEZ 2008
Claudete Beise Ulrich
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Introdução
O período do final de ano é cercado por avaliações e expectativas. A celebração do culto de véspera de Ano Novo é um momento de passagem, de um ano que está findando para um novo que ninguém sabe como será. O momento também é cercado de perguntas: O que aconteceu de importante em nossa vida no ano que está findando? O que guardamos em nossa memória? Alegrias, vitórias, luto, tristezas...? Certamente para algumas pessoas foi motivo de gratidão, para outras houve decepções. Talvez haja entre nós quem foi atingido por duros golpes, perda de familiares, de amigos ou até do emprego. Ninguém passou exatamente pelas mesmas experiências nos últimos 365 dias. Seja como for, aqui estamos nós, todos um pouco mais velhos do que no início de 2008. Ninguém consegue segurar o tempo. Essa me parece ser uma das maiores emoções num culto de véspera de Ano Novo. Somos lembrados de nossa transitoriedade, por isso também somos convidados a agradecer pelo tempo vivido e colocar o que virá pela frente nas mãos cuidadosas e protetoras do Deus da história e da vida. Os três textos indicados para a véspera de Ano Novo apontam para a presença amorosa de Deus. O texto de leitura de Êxodo 13.20-22 mostra como Deus guia o povo pelo caminho em direção à terra prometida, manifestando-se através de uma nuvem de fumaça. Já o texto do Novo Testamento, Apocalipse 3.7b-8,10-13, fala da perseverança cristã em meio às provações e da certeza de que Cristo vem sem demora. Os textos de leitura mostram a presença de Deus em meio às dificuldades da caminhada da vida. O texto indicado para a pregação de João 10.14-16,27-29 é, sem dúvida, um texto significativo para terminar um ano e iniciar um novo. A imagem do bom pastor aponta para o cuidado, a proteção, o carinho, a solidariedade, a aceitação, o amparo. Desde criança, essa figura me acompanha: Jesus com um cajado, cercado de ovelhas. Mas o que mais me impressionava no quadro era Jesus carregando em seus braços uma das ovelhas. Eu me sentia, então, sendo carregada, abraçada por Jesus. Essa imagem fazia parte de meu quarto de criança. Essa imagem de um Jesus humano, que segura nos braços, que carrega, que cuida, tem sido muito importante na trajetória da minha vida. Remeto a essa memória de fé, pois percebo que, na prática pastoral comunitária, os textos bíblicos que apontam para as imagens do “pastor –
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Véspera de Ano Novo
rebanho” são as mais conhecidas e preferidas. O Salmo 23 é orado nas mais diferentes situações da vida. É interessante observar que, num mundo cada vez mais urbanizado, a imagem de Jesus como o bom pastor continua tendo grande importância na vivência de fé das pessoas. A pergunta que se coloca é: Por quê?
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Reflexão exegética
Quando Jesus afirma: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10.14a), ele se coloca em pé de igualdade com o Deus libertador do Êxodo, que se deu a conhecer a Moisés: “Eu sou o que sou” (Êx 3.23) e assim quer ser lembrado de geração em geração. Poderíamos afirmar que Jesus, o bom pastor, é a memória e a presença viva do Deus que conduz o povo para fora de tudo o que oprime e diminui a vida. Remete também às promessas do Antigo Testamente. Ela se encontra na memória coletiva do povo, apontando para o cuidado de Deus (Is 40.11, Sl 23, Sl 95.7). O título de “pastor” era dado igualmente aos reis de Israel (Jr 23.1-3; Ez 34.23; 37.24) e aos reis pagãos, como revela a literatura antiga. As duas linhas encontram-se no “Messias” anunciado pelos profetas do Antigo Testamento: Deus enviará um novo rei e pastor para a nova época por ele prevista. “O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles terão um só pastor, andarão nos meus juízos, guardarão os meus estatutos e os observarão” (Ez 37.24). Quando Jesus se apresenta como o bom pastor, ele se revela como o Messias proclamado pelos profetas, iniciando um novo tempo. A apresentação de Jesus como “bom pastor”, no entanto, questiona a esperança judaica. Ele não apresenta nenhum poder real, não é nenhum grande líder político, mas se mostra humilde; o seu poder se mostra na intimidade que demonstra ter com as ovelhas. Depois que Jesus se apresenta como o bom pastor, na continuidade o texto de João 10.14b fala da intimidade de Jesus com suas ovelhas: “Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim”. O verbo conhecer significa ter experiência concreta de uma coisa ou uma relação profunda entre as pessoas. Quando Jesus afirma que conhece suas ovelhas e elas o conhecem, ele aponta para uma relação profunda entre pastor e ovelhas. Ele faz um paralelo do conhecimento mútuo que mantém com as ovelhas, com a relação próxima, íntima, familiar que mantém com Deus, chamando-o carinhosamente de “Pai”: “Assim como o Pai me conhece a mim, eu conheço o Pai” (Jo 10.15a). O verbo conhecer aparece quatro vezes nesses dois versículos (Jo 10.14-15) e mais uma vez em João 10.27. Ele não denota um conhecer intelectual, mas um relacionamento intenso, íntimo, pessoal entre pastor e ovelhas, determinado pelo amor profundo entre Jesus e Deus como Pai, apontando para a intimidade da relação familiar. Os pronomes pessoais presentes no texto (minhas, me, a mim) afirmam o mútuo conhecimento. A relação é tão próxima, tão profunda, que Jesus se entrega por suas ovelhas: “Dou a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10.15b). Essa prontidão para
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o sacrifício, de dar a própria vida pelas ovelhas, nasce da comunhão de Jesus com o Pai. Aqui se encontra a raiz do relacionamento profundo com o rebanho: Deus ama as pessoas. Esse amor não termina quando os seres humanos se afastam de Deus. Ele sai em busca da ovelha que se perde (Lc 15.3-7). O versículo seguinte, João 10.16, aponta para a relação pastor-ovelhas, alargando os horizontes. A relação de Jesus como bom pastor e as ovelhas têm relações universais: “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor”. Esse versículo aponta para as relações ecumênicas, que caminham na unidade, respeitando as diferenças, na busca por um mundo de justiça e de paz. Ninguém precisa sentir-se excluído. O rebanho do bom pastor é composto de ovelhas de todos os povos, é um rebanho universal. Há um só rebanho e um só pastor. A boa-nova do evangelho é para todos os povos. Ela é universal. É Jesus que reúne o rebanho. Ele fez tudo o que era necessário; isso livra os seres humanos de usar suas próprias forças ou obras para reunir o rebanho. O que nos salva é a fé no bom pastor. A missão é de Cristo. Nós somos testemunhas de seu grande amor. Por isso precisamos levar adiante sua mensagem de vida. Jesus apresenta-se como o bom pastor. O bom pastor conduz para a liberdade, não aprisiona dentro de um novo curral, pois a relação pastorovelhas é sintetizada pelo mútuo conhecimento. Conhecer Jesus e ser conhecido por ele não se reduz a simples teorias. Conhecer o bom pastor implica ouvir sua voz (Jo 10.27a) e segui-lo (Jo 10.27b). O verbo conhecer aponta para a profundidade das relações e para o compromisso com a proposta do bom pastor. Para o povo da Bíblia, conhecer traduz-se em experiência e presença. Conhecer Jesus é experimentá-lo como presença que liberta e dá a vida. Jesus, o senhor crucificado e ressurreto, é o salvador, enviado por Deus. Jesus afirma: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.28). Portanto aquelas pessoas que procuram conhecer o bom pastor, ouvir sua voz e seguir sua proposta de vida tem como promessa a vida eterna. Jesus entrega-se graciosamente, amorosamente. Em Jesus se manifesta o Deus da vida, da misericórdia – resumida na imagem do bom pastor –, na certeza de que: “Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém poderá arrebatar” (Jo 10.29). Quem se encontra guardado, protegido pelas mãos de Deus, não precisa ter medo; nada o poderá tirar dos braços do bom pastor.
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Meditação
João 10.14-16,27-29 fala de relações profundas, íntimas, sinceras entre o bom pastor e as ovelhas, entre Jesus e Deus, chamado de forma carinhosa como Pai. O bom pastor conhece suas ovelhas, e elas conhecem o bom pastor. Há um conhecimento mútuo entre ambos, fundamentado pelo conhecimento profundo entre Jesus como o bom pastor e Deus como Pai. Pergun-
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tamo-nos o que significa “conhecer as ovelhas” em nossas realidades comunitárias, cada vez mais urbanizadas, onde a individualidade está acima da comunitariedade? O termo que o texto em apreço utiliza sempre se encontra no coletivo: “ovelhas”. Eis aqui um grande desafio: o mútuo conhecer, o interessar-se um pelo outro. Dar-se conta de que as soluções para as grandes problemáticas encontram-se na vivência coletiva, na comunidade. Precisamos aprender a respeitar os diferentes contextos, conhecer as diferentes realidades que nos cercam. O bom pastor conhece suas ovelhas, e elas conhecem o bom pastor, fundamentado pelo conhecimento entre Jesus como bom pastor e Deus como Pai. As imagens apontam para relações de familiaridade e de serviço. Em João 15.13, Jesus afirma que não existe maior amor do que dar a vida pelos amigos. O rebanho/as ovelhas transformam-se no círculo íntimo de amigos, numa nova família, que ultrapassa os laços de sangue, isto é, a comunidade comprometida com a proposta de vida dada a conhecer pelo bom pastor. A igreja cristã necessita vivenciar essa nova realidade? A Pastoral Popular Luterana (PPL) tem chamado a atenção para ação e reflexão em torno de uma igreja do cuidado. Sugiro dar uma olhada nas idéias da igreja do cuidado, disponível em: http://www.pastoral.org.br/ Jesus, o bom pastor, dá sua vida pelas ovelhas. Logo após essa afirmação, o texto aponta para a inclusividade, isto é, a universalidade da proposta do bom pastor. Encontra-se no texto uma visão aberta, não exclusiva, mas inclusiva da relação bom pastor-ovelhas: “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco”, apontando para a unidade na diversidade: “Então haverá um rebanho e um só pastor” (Jo 10.16). Conhecer e ouvir a voz do bom pastor implica discipulado, seguimento, compromisso. O mútuo conhecimento fundamenta-se na entrega do bom pastor pelas ovelhas: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão” (Jo 10.28), pois estão protegidas pela mãos carinhosas e cuidadosas de Deus. O texto aponta para relações de proximidade entre Jesus e a comunidade, não fechada em si mesma, mas aberta, inclusiva. Essas relações se fundamentam nas relações de mútuo conhecimento entre Jesus e Deus. O conhecer, apontado pelo texto, mostra-se na disposição de amar as outras pessoas, assim como elas são, tendo como exemplo o bom pastor que dá sua vida por suas ovelhas.
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Imagem para a prédica
– Sugiro usar uma imagem do bom pastor. Deixar tempo às pessoas para expressar sentimentos, histórias em relação ao quadro/imagem. Apontar para o significado bíblico do bom pastor. – Aprofundar o significado do verbo conhecer, tão presente no texto. Apontar para as relações de conhecimento entre Jesus como bom pastor e as ovelhas, fundamentadas no mútuo conhecimento entre Jesus e Deus. Se nós conhecermos melhor, isto é, tivermos mais intimidade com a proposta de
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vida do bom pastor, teremos mais disposição para conhecer as pessoas da comunidade na qual participamos. Como podemos cuidar melhor de nossas relações pessoais, comunitárias, familiares, profissionais? Que ações de cuidado queremos assumir para o próximo ano? – O bom pastor aponta para a inclusão e o respeito em relação aos outros e outras: “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco” (Jo 10.16). O texto aponta para a universalidade da proposta do bom pastor. É necessário respeito pelas diferenças, isto é, a construção da unidade na diversidade: “Então haverá um rebanho e um só pastor” (Jo 10.16). – Conhecer implica ouvir a voz do bom pastor. Quanto tempo tiramos em nossa vida para ouvir a voz do bom pastor? A proposta de vida do bom pastor foi importante no ano que estamos encerrando? O que desejamos levar e fazer no novo ano? Conhecer e ouvir a voz aponta para o seguimento. Estamos dispostos a seguir o bom pastor no novo ano? O que queremos deixar para trás e o que desejamos fazer de bom no novo ano? Que ações de cuidado queremos assumir no próximo ano? Aprofundar a importância de sermos uma igreja do cuidado. – Para o próximo ano levamos juntos a certeza da fé: “O bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas” (Jo 10.28). Assim como fomos guiados no último ano, seremos cuidados e protegidos por suas mãos carinhosas nos próximos 365 dias. Assim como Deus acompanhou e guiou o povo em seu caminho em direção à terra prometida (Êx 13.20-22) e está presente em meio às dificuldades (Ap 3.7b-8,10-13) do cotidiano. Para encerrar a prédica, sugiro a poesia de Carlos Drummond de Andrade: Receita de Ano Novo Para você ganhar belíssimo Ano Novo, cor do arco-íris ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido), para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?).
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Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo; eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. Carlos Drummond de Andrade. Disponível em: http:// www.jornaldepoesia.jor.br/drumm.html, acesso no dia 18.06.08. Tenha tempo para conhecer, ouvir e seguir o bom pastor – a sua vida será mais feliz!
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Liturga/o (L) – O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Comunidade (C) – A vida de nossos irmãos e irmãs nem sempre tem sido alvo de nossa atenção. L – As ovelhas conhecem o pastor. O pastor conhece suas ovelhas. C – Nem sempre ouvimos a voz de nossos irmãos e irmãs e tampouco seguimos a voz do bom pastor. L – As ovelhas não seguem um estranho. C – Nem sempre seguimos o caminho do bom pastor e ainda dispersamos o rebanho com idéias e atitudes que não pertencem ao projeto de Deus. L – O bom pastor caminha à frente e indica a direção para as ovelhas. C – Muitas vezes, nós queremos caminhar à frente do bom pastor. L – Perdoa-nos, ó bom pastor, Deus da misericórdia – dá-nos um novo coração e renova-nos o conhecimento para com a tua Palavra.
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Véspera de Ano Novo
C – Perdoa-nos, ó bom pastor, precisamos da tua misericórdia para viver. Perdão, Deus de misericórdia, perdão. Renova-nos com a graça de teu perdão neste fim e início de ano. (Adaptado de Inês de França Bento – p. 42 – CultoArte: Tempo comum) Oração do cuidado: Senhor, dá-me a tua mão e conduze a minha vida. Guia os meus passos para que eu caminhe seguro(a). Sob as asas de tua misericórdia sinto-me protegido(a). No colo de tua bondade encontro descanso verdadeiro. Em dias de medo e angústia, abriga-me em teu poder. Em momentos de ansiedade, faze cair sobre mim a tua paz. Ao sentir-me fragilizado(a), ajuda-me a ter esperança. Cuida de mim e dos meus amados. Cuida do meu destino. Quando a culpa me acusar, acolhe-me em tua graça. Absolve-me do pecado e faze-me renascer do teu perdão. Se eu cair, permita que eu caia em tuas mãos. Se eu permanecer caído(a), dá-me a tua companhia. Seja como for, cobre-me com o manto do teu amor. Graças por teu cuidado, graças pela salvação. Agora dá-me a bênção que tanto anseio. Amém. Rodolfo Gaede Neto. Disponível em: http://www.luteranos.com.br/ articles/9168/1/Igreja-do-Cuidado/1.html. acesso em 18.06.08. Bênção para um novo ano: Senhor, abençoa o primeiro e o último dia. Abençoa as horas que me são concedidas. Que minhas mãos abençoem o que elas tocam. Que meus ouvidos abençoem o que eles ouvem. Que meus olhos abençoem o que vêem. Bênção venha dos meus lábios. Que meu vizinho seja abençoado e ele também possa me abençoar. Senhor, não permita que me afaste dos teus olhos, de tuas mãos, dos teus ouvidos, do teu coração neste dia e em todos os outros dias deste ano. Amém. Disponível em: http://www.luteranos.com.br/articles/8112/1/Bencaopara-Ano-Novo/1.html, acesso 18.06.08.
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Véspera de Ano Novo
Envio: L – As ovelhas conhecem a voz do bom pastor. C – As ovelhas seguem a voz do bom pastor. Porque sabem que Ele dá a sua vida por suas ovelhas. L – Elas ouvirão a sua voz e haverá um só rebanho e um só pastor. C – Por isso encerramos agradecidos este ano e esperamos com alegria o novo que está por vir. L – Que o cuidado do bom pastor nos acompanhe em todos os momentos. Amém. (Adaptado de Inês de França Bento – p. 43 – CultoArte: Tempo comum)
Bibliografia ALVES, Rubem (Org.) CultoArte celebrando a vida: tempo comum. Petrópolis: Vozes; Campinas: Cebep, 2000. p. 42-43. BÖSEMANN, Wilhelm. Domingo Misericordias Domini: João 10.11-16. In: KAICK, Baldur van. (Coord.). Proclamar Libertação, v. IV. São Leopoldo: Sinodal, 1979. p. 53-56.
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ANO NOVO: NOME DE JESUS
PRÉDICA: NÚMEROS 6.22-27
01 JAN 2009
LUCAS 2.15-21 FILIPENSES 2.5-11
Júlio Cézar Adam
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Introdução
Estamos diante de um dos textos mais conhecidos da Bíblia. Um dos textos que em tão poucas palavras (em hebraico são apenas 15 palavras) consegue sintetizar muito do ser de Deus e do cuidado, da relação desse Deus com seu povo, conosco. O texto de Números, mais conhecido como a bênção aarônica, foi incorporado à liturgia da igreja protestante e é um texto tão conhecido, sempre tão atual e profundo, que muitos nem mesmo conhecem sua origem bíblica. O texto é uma bênção, a mais antiga na Bíblia; bênção de Deus proferida a Moisés e desse para Aarão. Fala do olhar amoroso e misericordioso de Deus e da paz que nele é possível. O conteúdo dessa bênção vira notícia na boca dos anjos, que anunciam a encarnação desse olhar misericordioso de Deus no menino da estrebaria: Jesus. Lucas 2.15-21 fala disso. Em Filipenses 2.5-11, a bênção desdobra-se em novas palavras, torna-se hino e conta em poesia a graça do Deus que se digna a descer, tornar-se gente em Jesus Cristo, para assim acessar por nós a glória do Pai. Temos diante de nós, pois, o privilégio de pregar a partir de três textos, que em poesia e relato resumem a graciosa grandeza do Deus de Israel, do Deus de Jesus Cristo, sempre de novo por nós. Os três textos falam da graciosa providência de Deus por nós. Primeiro em forma de bênção, olhar de Deus por nós (Nm 6.22-27), depois através da encarnação, Jesus Cristo (Lc 2.1521 e Fp 2.5-11).
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Exegese
Números tem esse nome devido às muitas listas genealógicas, resultado do censo feito entre o povo saído do Egito. O título original bemidbar, no entanto, significa “no deserto”. O livro conta, em sua essência, a história do povo de Deus no deserto, as provas vividas e o processo de adaptação até o assentamento. Os acontecimentos de Números se dão em torno do Sinai, no sul de Canaã, e das planícies de Moabe e Edom. Os textos lá encontrados são de grande diversidade e revelam um longo período de composição. Listas, leis, relatos, ordens divinas, instruções
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para o culto e essa bênção. O tema que prevalece no livro é a providência divina. O fio vermelho do livro é este: Deus cuida, vela por todas as necessidades de seu povo, sejam elas necessidades militares, físicas, nutricionais ou espirituais. Nosso texto é um texto isolado, entre a lei do nazireu e a das ofertas dos príncipes. Trata-se de uma bênção que Deus ditou a Moisés para que esse instruísse Aarão como abençoar Israel. Daí vem o adjetivo “aarônica”. A tradição diz que os sacerdotes a cantavam no templo, confiantes e alegres. Não por acaso essa poesia está entre textos de instruções e leis. Pretende, assim, mostrar que o objetivo maior e permanente de Deus é abençoar seu povo em sua marcha de libertação e construção da identidade como povo de Deus. Sua bênção é para todo o povo e não apenas para os nazireus (pessoas separadas para Deus). Parece que assim como a instrução de Deus ajuda o povo a se organizar e viver, a bênção realiza esse cuidado de forma amorosa, independente do cumprimento ou merecimento do povo, ou seja, Deus abençoa o povo tão-somente por providência e por misericórdia. Não existe glória maior para Deus do que essa. Uma bênção é, na verdade, um voto e uma oração. Um jeito de marcar o povo ou a pessoa. Vem de Deus e, portanto, é livre e inquestionável. Pela fé, ela tem influência na vida da pessoa sobre a qual é proferida. Resultado final é a paz de Deus. Essa paz – shalom – é a paz de Jesus Cristo, cantada e anunciada pelos anjos aos pastores no v. 14 de Lucas 2, ou seja, versículo que encerra a perícope do evangelho, anterior à nossa (talvez seria interessante tomar como leitura do evangelho todo o texto, já desde o v. 8). Na Epístola de Paulo aos Filipenses, essa paz na terra se mostra no esvaziamento, na entrega, na cruz de Jesus Cristo, que possibilita a glória de Deus no céu, como os anjos no campo cantaram. É possível estabelecer, portanto, um elo forte entre os três textos. Os três caracterizam-se por poucas palavras e pela precisão de resumir a essência de Deus e de sua relação conosco.
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Meditação
O texto de Números é da comunidade, já que geralmente encerra o culto dominical. Está dentro da liturgia de encerramento, preparando a comunidade e cada um dos membros a ir de volta para o mundo, para o cotidiano. A prédica poderia começar com essa observação. Talvez pudessem ser feitas algumas perguntas sobre o que as pessoas sentem, como entendem a bênção final, quais as palavras que mais marcam e o que para elas significa essa parte do culto. A partir dessas considerações podem-se tecer algumas idéias a partir do texto de Números. 1 – O primeiro ponto deveria falar sobre bênção. Bênção vem ao encontro de um dos maiores clamores de nosso tempo. Assim como o povo que estava no deserto, nos relatos de Números, assim como Abraão, Jacó, as pessoas
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buscam a bênção de Deus para se sentir protegidas e iluminadas pela promessa de Deus. Bênção envolve palavra, gesto e toque. Promessa e realização. Passado, presente e futuro. Desejo e realização. Deus, seu povo, a comunidade e a pessoa, em sua individualidade. Bênção é uma oração que se materializa no voto imperativo de Deus ou em nome de Deus. Bênção faz o que a oração pede e o que o texto bíblico promete. Por isso precisa ser resgatada na vida litúrgica da comunidade. A bênção remete-nos ao Batismo (Confirmação), matrimônio, unção e, inclusive, lembramos dela no sepultamento. 2 – O segundo ponto deveria entrar nos detalhes, nas palavras do texto de bênção, sua história e sua profundidade para nós, hoje, em tempos de insegurança (deserto). A bênção de Deus veio para o povo em uma situação de transitoriedade, fuga, adaptação, “caminho no deserto”, tempo de crise diante da grande mudança, a saída da escravidão para a libertação. Quantos já não passaram por situações assim? De repente encontram-se diante de uma nova situação, uma situação desejada talvez, mas que traz consigo insegurança, medo, incertezas. É nessa situação, na crise, no deserto da vida, que o Deus da providência vem a nós com sua bênção. Deus vem a nós para abençoar, proteger, guardar, resplandecer (iluminar), ter misericórdia, levantar e dar a paz. Sobre cada uma dessas ações de Deus, presentes na bênção aarônica, poderíamos fazer uma prédica. É interessante tecer idéias nesse rumo no início de mais um ano do calendário civil. 3 – Por último, pensar na dimensão do olhar, do encontro do rosto de Deus com o rosto humano, presente no texto de Números. Nosso Deus é um Deus que deixa seu rosto nos iluminar. É um Deus que nos olha nos olhos, no rosto. Seu olhar nos vê por inteiro. É um olhar que olha para a gente. Não é um olhar especulador, investigativo, repressivo, mas um olhar de misericórdia e pacificador. Esse olhar de Deus nos compromete pelo amor. Se Deus nos olha assim, quem somos nós para olhar as pessoas, o outro, de outro jeito que não seja pelo viés da misericórdia (e misericórdia é muito mais do que pena) e da paz? Se o Deus de Israel nos olha assim, por que nós tantas vezes usamos de tão pouca misericórdia quando olhamos para nós mesmos nessa sociedade competitiva, hedonista e individualista em que vivemos? Esse jeito de olhar de Deus, expresso na bênção aarônica, terá seu desdobramento radical em Jesus Cristo – na simplicidade, na singeleza da criança da manjedoura (Lc 2.12) e no esvaziamento, no servir, no humilhar-se, tornando-se igual a nós, na cruz, por nós (Fp 2.6ss). Interessante que o texto de Paulo começa com o convite “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (v. 5). Se não somos capazes de entender o olhar misericordioso e pacificador de Deus, em Jesus Cristo temos o espelho para continuar.
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Imagens para a prédica
Uma imagem boa para trabalhar o texto no culto é pensar o olhar das pessoas. O que um olhar significa? A psicologia diz que o bebê busca no
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olhar da mãe confiança e proteção, que o ajudam a construir sua identidade. O olhar faz dele/dela uma pessoa. Penso também no olhar dos adolescentes quando se apaixonam e o quanto esse olhar – o encarar – é algo que estabelece contato e dá confiança. Outro olhar de que vale a pena falar é o olhar dos pais e dos filhos. Quando os pais têm dúvida se seu filho/sua filha está ou não falando a verdade, eles pedem para olhar nos olhos. O olhar fala por si. Também pelo olhar podemos perceber se alguém está sendo sincero ou não. “Fulano não ri com os olhos”, ouvi alguém dizendo, como forma de questionar a sinceridade do sorriso do outro. Na escola, é comum que a professora, quando fala com seus alunos, grandes e pequenos, pede para que a olhem, às vezes inclusive pede que o aluno ou aluna olhe nos seus olhos. Outro dia, ouvi uma professora dizendo que o olhar nos olhos dá segurança à criança. Tantas vezes baixamos a cabeça e o olhar para chorar ou nos esconder... em nossa vergonha (quando alguém é preso, esconde o rosto das câmaras)... e alguém levantou o nosso rosto, chamou-nos para olhar nos olhos e, assim, remontar a dignidade, a inteireza, para continuar. Pois bem, exatamente esse segredo e poder estão contidos no olhar de Deus quando ele nos abençoa. A bênção de Deus olha-nos por inteiro. Por dentro, por fora, passado e presente, razão e sentimentos, medos e entusiasmos, tristezas e esperanças. Quando nos abençoa, Deus nos devolve a esperança e a confiança. A bênção de Deus dá-nos segurança para viver, porque seu olhar é misericordioso. O resultado final é que nos sentimos em paz.
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Subsídios litúrgicos
Cantos: Bênção Aarônica, Louis Marcelo (Revista Tear, 25, p. 6). Dá-nos esperança e paz (Coleção Miriã I, p. 38) – “Dá-nos a luz de teu olhar”. Invocação: L: Envia, ó Deus, tua luz e tua verdade. Derrama, ó Cristo, tua graça. Vem, Santo Espírito, renova e recria a vida. Pai nosso, dá-nos tua bênção. Jesus Cristo, dá-nos a paz do teu amor. Santo Espírito, dá-nos esperança e fé. C: Nossa ajuda está no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. (G. Oberman) Kyrie: (Para o período natalino) L: Criança de Belém, cujos pais não encontraram lugar na hospedaria: oramos por todas as pessoas que não têm pátria (desterradas).
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C: Senhor, tem misericórdia. L: Criança de Belém, nascida numa estrebaria: oramos por todas as pessoas que vivem na pobreza. C: Senhor, tem misericórdia. L: Criança de Belém, rejeitada como se fosse estrangeira neste mundo: oramos por todas as pessoas que estão perdidas e solitárias. C: Senhor, tem misericórdia. L: Criança de Belém, que Herodes procurou matar: oramos pelas pessoas que vivem em perigo e são perseguidas. C: Senhor, tem misericórdia. L: Criança de Belém, refugiada no Egito: oramos por todas as pessoas que tiveram que abandonar sua pátria. C: Senhor, tem misericórdia. L: Tu, criança de Belém, o Eterno estava entre nós através de ti. Pedimos-te: ajuda-nos a descobrir em cada pessoa a tua imagem e dar somente a Deus a honra. C: Amém. (Adaptado de EG, p. 601). Confissão de fé: Creio em Deus, que criou a mim e a todas as criaturas, que me deu e sustenta meu corpo com todos os seus membros e meu espírito com todas as suas faculdades; que me provê abundante e diariamente o alimento, vestimenta e habitação e todo o necessário para a vida. Que me ampara contra todo perigo e me protege e guarda de todo mal; e tudo isso ele faz sem nenhum mérito ou dignidade de minha parte, por sua pura bondade e sua divina misericórdia. Isso é certamente verdade. Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é meu Senhor. Redimiu a mim, perdido e condenado, libertando-me do pecado, da morte e do poder do maligno, não com ouro ou com prata, mas com seu sangue e seus sofrimentos e por sua morte inocente, para que eu lhe pertença para sempre e viva uma vida nova como ele mesmo, que ressuscitou dentre os mortos, vive e reina eternamente. Isso é certamente verdade. Creio que o Espírito Santo me chama pelo evangelho, me ilumina com seus dons e me santifica, me mantém na verdadeira fé, na igreja que ele congrega dia a dia. É Ele também quem perdoa plenamente meus pecados, assim como todos os crentes. É Ele quem no derradeiro dia me ressuscitará dentre os mortos e me dará, com todos os fiéis em Cristo, a vida eterna. Isso é certamente verdade. (Martinho Lutero). Oração eucarística: L: Deus, tu criaste um mundo bonito. O arco-íris nos fala de sua beleza. Por isso: C: Nós te louvamos, Senhor. L: Através de Jesus te aproximaste de nós. Não precisamos nos sentir sós. Por isso: C: Nós te louvamos, Senhor.
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L: Por meio do testemunho de profetas, apóstolos e evangelistas somos instigados a caminhar em direção a um horizonte, onde tu mesmo nos aguardas. Por isso: C: Nós te louvamos, Senhor. L: Louvamos-te e bendizemos-te, nosso Deus, pelo jeito de ser de Jesus, por seus ensinamentos, pelos caminhos que trilhou. Também te louvamos pelo que Jesus fez em nosso favor, sem poupar sua própria vida. Pois, na noite da sua traição, sentado à mesa (segue a narrativa da instituição). C: Anunciamos, Senhor, a tua morte e proclamamos tua ressurreição. Vem, Senhor Jesus! L: Deus bendito, para não esmorecermos na fé e não perdermos o horizonte de vida cristã, envia-nos sempre o Espírito Santo, para que ele nos encoraje e oriente em nossa relação contigo e em nosso relacionamento entre irmãos e irmãs. C: Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. C: A ti, trino Deus, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amém.
Bibliografia RIGGANS, Walter. Antigo Testamento comentado: Números. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1988. WENHAM, Gordon J. Números: introdução e comentários. São Paulo: Vida Nova, 1985.
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PRÉDICA: JOÃO 1. (1-9) 10-18
2 o DOMINGO APÓS NATAL
JEREMIAS 31.7-14 EFÉSIOS 1.3-14
04 JAN 2009
Erni Drehmer
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Introdução
O texto já foi trabalhado por mim no Proclamar Libertação 29, também para o mesmo tempo: o 2º Domingo após Natal. As leituras de Jeremias e Efésios ajudam a entender a ação de Deus, revelando-se a nós e adotandonos como seus filhos e filhas, como seu povo. Dessa adoção nascem o louvor e a gratidão por tudo não depender de nossa ação, mas da ação amorosa de Deus. No tempo após o Natal, depois de um verdadeiro bombardeio de apelo às compras, às festas e ao consumo, é muito bom poder reafirmar que a festa realizada, melhor ainda, a frustração pela festa não-realizada, pelos presentes não-comprados, pela comunhão familiar desejada, mas não realizada, que tudo isso não importa diante do que realmente interessa: Deus vem ao nosso encontro, adota-nos como filhos e filhas e faz isso tentando reconstruir o verdadeiro sentido de nossa vida, de nossa comunhão, de nossa vivência de fé e vida.
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Informações exegéticas
Em Gênesis 1.1, inicia-se com as mesmas palavras: “no começo”. Lá definia o tempo de início de tempo com a criação. Aqui se afirma que a palavra com que Deus cria já estava com ele e sempre era identificada com ele. Reafirma-se que o universo é criação do nada pelo poder da Palavra. A criação coloca o ser humano como conceito e alvo central. Para as pessoas (v. 4) vem a luz, que não é simplesmente um fenômeno da natureza, mas a iluminação da existência do ser humano como um todo. Assim também as trevas, citadas logo a seguir, não são especuladas quanto à sua origem, mas simplesmente estão aí, como oposição, como o contrário da luz. João Batista é destacado no texto quanto a seu papel, poderíamos dizer, quanto à sua missão. Enquanto Marcos 1.4-6 detalha mais a ação e Marcos 1.7-8 concentra-se mais na pregação messiânica de João Batista, João concentra-se em destacar a importância dele como quem dá testemunho a respeito da luz que se realizou na encarnação do verbo, da Palavra. O testemunho a respeito da luz é retomado após uma breve informação a respeito do personagem João Batista. Essa retomada destaca um duplo interesse do evangelista nesse
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2o Domingo após Natal
contexto: 1 – ressaltar a relação da manifestação da luz com o testemunho de João Batista; 2 – afirmar que o testemunho de João Batista não quer ser apenas referência ao passado, mas a fatos que se tornam presentes para o cristão na fé. Aliás, pela primeira vez, é mencionada a fé. A fé é a resposta à Palavra, que tem origem fora do ser humano, isto é, em Deus. A afirmação de que João Batista não era a luz, mas veio para falar a respeito dela (v. 8), levanta uma questão importante e merecedora de destaque: ele era testemunha, não figura messiânica ou apocalíptica. Essa afirmação é tão importante, que o evangelista interrompe a seqüência do relato sobre o verbo. A testemunha não é mais importante do que aquele a respeito de quem testemunha. Uma bela, constante e, muitas vezes, esquecida lição: o pregador e a pregadora não são mais importantes do que a Palavra que pregam. Mais e mais essa lição se atualiza, à medida que tecnologias de ponta são adotadas para tornar cultos mais “atraentes, emocionantes, cativantes”, transformando pregadores e pregadoras em centros da atenção do espetáculo, com suas belas roupas, aparência impecável e capacidade de enfileirar interpretações fantasiosas e agradáveis dos textos bíblicos. Na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), não estamos isentos desse risco e também dessa realidade. Não somos o centro das atenções, e sim aquele a quem anunciamos. Uma segunda afirmação, feita logo a seguir (v. 9), traz outra lição preciosa. Se o texto aponta para a “verdadeira” luz, obviamente quer fazer diferença em relação a falsas luzes. Só há um Salvador; as outras aparições enganam, são falsas e mentirosas. No mercado religioso amplamente difundido por canais de televisão, por luzes brilhantes e atraentes, por promessas de bem-estar, cura e prosperidade, há que se apontar com clareza contra os “salvadores da pátria”. Esses aparecem de forma proporcional ao tamanho das crises, ansiedades e frustrações de um povo. Cabem duas perguntas: Será que a cantada religiosidade do povo brasileiro é uma busca autêntica de uma relação de fé com Deus, ou será uma caminhada errante e desesperada em busca de algo em que se agarrar diante das tantas frustrações enfrentadas no dia-a-dia? Em que sentido nosso testemunho em palavra e ação está consciente dessa situação e anuncia o único e verdadeiro Salvador, a única luz que de fato ilumina os caminhos em direção à vida abundante? Os v. 12a e b podem ser considerados a coroação do hino. Tornar as criaturas de Deus seus filhos e suas filhas é, ao mesmo tempo, a última e a nova criação. Deus tem por objetivo final para sua criação a filiação. O hino do verbo tem um propósito claramente soteriológico, isto é, está voltado para a salvação da humanidade, que é sua criatura. No v. 16, o evangelista reforça que a participação na vida eterna jamais é conquista nossa, mas dádiva de Deus, puro ato de graça do Salvador. Um reforço para a pregação sobre a graça, rejeitando as tendências de achar que “orações fortes e carregadas de teor emocional”, ofertas generosas em dinheiro ou sacrifícios pessoais possam apressar a participação na vida eterna.
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2o Domingo após Natal
Quando o evangelista afirma (v. 18) que a única forma de ver Deus é através da revelação do Filho (ou “o Deus unigênito”), ele quer ressaltar que Deus jamais está disponível ou pode ser acessado pelo ser humano, a não ser em sua revelação através do Filho. Dar-se a conhecer é graça e presente de Deus, não conquista da ciência e dos saberes humanos. O Filho é revelação de Deus, que se torna ser humano para morar em meio a seu povo.
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Meditação
Desde a reflexão sobre esse texto em 2003, até hoje pouca coisa mudou, ao menos em termos de cenário mundial. A guerra do Iraque teve um final, comemorado pelo presidente dos Estados Unidos, mas que lhe rendeu duras críticas por parte de vários países do mundo pela falta de motivos para a “justificada” guerra. Os agricultores da região noroeste do Rio Grande do Sul amargam uma quebra na safra de soja devido à seca após ter comemorado uma safra anterior excepcional. E descobrem, aos poucos, que o cultivo das sementes geneticamente modificadas não produz todo aquele milagre prometido pelas empresas detentoras da patente do produto. Aos poucos, boa parte dos agricultores se convence de que sua situação precária e sua insegurança não estão tanto ligadas ao baixo preço do produto, mas aos preços extorsivos praticados pelas empresas multinacionais dos insumos necessários para a produção. Ao mesmo tempo, experimenta-se um aumento brusco e violento nos preços dos alimentos em nível mundial e culpa-se o excesso de áreas usadas para a produção de biocombustíveis. Enquanto isso, o barril de petróleo atinge preços exorbitantes no cenário mundial. Esse panorama, local e mundial, está fazendo com que mais pessoas comecem a descobrir o quanto o conhecimento humano pode contribuir para manipular dados, distorcer informações, criar factóides, tudo com o objetivo de fazer crer que propostas de determinados grupos ou nações são soluções milagrosas para os males da humanidade. Em meio a tudo isso ressurge com força a pergunta pela verdadeira luz, pela verdade. A igreja é colocada diante do crescente desafio de deixar claro seu testemunho e sua pregação. Guiados pelo medo de sermos legalistas, muitas vezes deixamos de ser como João Batista, ou seja, não apontamos claramente para a verdadeira luz. Mais e mais casais não querem oficializar seu matrimônio inspirados por modelos de outros, em boa parte divulgados pela mídia e tornados mais e mais conhecidos através da programação que chega via satélite (= antena parabólica) aos mais distantes rincões. E com a preocupação de “não perder membros”, obreiros e obreiras (muitas vezes por pressão de presbitérios) acabam fazendo concessões sobre concessões. Assim acontece em outras áreas da vida comunitária. Não raras vezes, a própria pregação é marcada pela suposta “necessidade de adaptação” à realidade do século 21, quando deixamos de destacar o que João Batista faz com clareza e ênfase: apontar para o Cristo, apontar para Deus como o criador da vida,
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2o Domingo após Natal
dizer que não são as nossas verdades e “sábias” conclusões que importam, mas importa quem é o centro do que pregamos e anunciamos: Cristo, a verdadeira luz. Essa clareza de pregação acaba tendo dupla conseqüência: é palavra profética e de juízo para quem não crê ou para quem supostamente crê a fim de poder distorcer a verdade para sua própria vantagem e dominação sobre pessoas ou grupos. Ao mesmo tempo, é palavra de consolo e ânimo para quem crê ou para quem se sente enfraquecido em sua fé diante da confusão criada em sua vida com as inúmeras ofertas de verdade e luz, trazidas quase que diariamente não apenas a seus ouvidos, mas a todos os demais sentidos. Cabe-nos reafirmar com muita clareza: Cristo é a verdadeira luz; Deus é o criador e mantenedor da vida, e é ele quem nos oferece os parâmetros para vida em abundância digna para todos e todas. Todo o nosso saber em nada pode mudar isso, ao mesmo tempo em que ele pode ser colocado à disposição desse testemunho, como instrumento valioso e muito eficaz.
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Imagens para a prédica
a – Apontar para sinais visíveis das frustradas tentativas do ser humano em querer gerir os caminhos da humanidade com seu próprio conhecimento. Exemplo: o lixo gerado com a disseminação do uso do plástico. (Em centros maiores poderia ser usado o exemplo do lixo virtual.) Sob o pretexto de criar comodidades ou sob o único pretexto do lucro e do consumo, a humanidade cria condições cada vez mais restritas a sua própria sobrevivência. b – Rejeitar Deus e optar por parâmetros próprios de organizar a vida não envolve apenas questões pessoais. Acaba gerando tensões sociais (discriminações diversas, violência contra crianças e mulheres, contra idosos e pessoas portadoras de necessidades especiais), políticas (mau uso do cargo para privilegiar classes e indivíduos) e econômicas (exploração da terra, exploração da força de trabalho, submissão a empresas multinacionais por dominar o mercado através de acordos internacionais). c – A própria igreja não está imune de deixar de apontar para a verdadeira luz quando se preocupa mais em administrar sua própria estrutura, talvez seu patrimônio ou, pior, sua imagem agradável diante da sociedade, do que pregar e viver de acordo com a vontade de Deus, mesmo que isso implique “perder membros” ou não ser aplaudida de pé. d – De qualquer maneira, a pregação deve encerrar trazendo uma palavra de ânimo para a comunidade. E qual é a palavra de ânimo? Apesar de alguns terem rejeitado a verdadeira luz, há pessoas que creram nele e a essas Deus adotou como seus filhos e filhas. A comunidade reunida (quer seja em culto, quer em qualquer outra atividade) atende ao convite de Deus. Isso não a torna melhor ou mais qualificada do que aqueles e aquelas que não vieram. Mas certamente a essa comunidade reunida Deus reafirma seu amor e sua presença. E isso é palavra de consolo e esperança, ao mesmo tempo em que
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é palavra de envio para que essa experiência seja compartilhada com todos e todas que ainda, erradamente, preferem confiar apenas em seu próprio saber.
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Subsídios litúrgicos
Versículo de entrada: “Nações, escutem o que eu, o Eterno, estou dizendo e anunciem as minhas palavras nas ilhas e terras distantes. Eu espalhei o povo de Israel, mas vou ajuntá-lo de novo e guardá-lo como um pastor guarda o seu rebanho” (Jr 31.10). Confissão de pecados: Deus criador, mantenedor da vida, doador de toda a boa dádiva. Muitas vezes na vida já ouvimos falar de teu amor por nós e como nos adotas carinhosamente para ser teus filhos e tuas filhas. Mesmo assim, seguidamente ignoramos tudo isso e preferimos tocar a nossa vida por conta própria. E acabamos colhendo frutos amargos dessa decisão: desentendimentos, exploração, preconceitos, envenenamento do planeta e das relações. Mais uma vez, bondoso Pai, nos colocamos diante de ti para confessar nossa culpa e implorar por teu perdão. Envia teu Espírito Santo para que ele nos abra os olhos para a verdadeira luz, a tua Palavra. Por amor de Jesus Cristo, teu filho, nosso Salvador, imploramos por perdão cantando: Comunidade (canta): Perdão, Senhor, perdão. Anúncio da graça: “Pois, pela morte de Cristo na cruz, somos libertados, isto é, os nossos pecados são perdoados. Como é maravilhosa a graça de Deus, que ele nos deu com tanta fartura” (Ef 1.7-8). Oração do dia: Senhor Deus, tu enviaste pessoas que falaram de teu amor revelado em Jesus Cristo, nossa verdadeira luz. Faz com que tua palavra continue nos ensinando o caminho da verdade do evangelho e nos ponha a caminho para um testemunho claro e vigoroso de teu amor. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo reina por todos os tempos. Amém. Oração geral da igreja: Amoroso Deus e Pai, rendemos graças por poder contar contigo em nossas vidas. Rendemos graças por insistires conosco, convidando-nos a participar da vida da comunidade. Rendemos graças por tua palavra e teu amor que não mudam, apesar de nossa infidelidade e insegurança. Expressamos nossa gratidão, cantando: Comunidade (canta): Damos graças ao Senhor, damos graças, graças pelo seu amor.
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Intercedemos por este mundo em que vivemos, tão machucado e destruído, em boa parte por nossa omissão e silêncio, para que por nossa ação possa voltar a ser o mundo que tu queres para tua criação. Intercedemos por nossas autoridades, para que nos governem com justiça e responsabilidade, orientadas por tua palavra, que é luz verdadeira e palavra fiel. Intercedemos por todas as pessoas que sofrem: doentes, enlutadas, depressivas, abandonadas, injustiçadas. Também pelas pessoas que convivem com essas pessoas e que acabam sofrendo juntamente com elas. Dá-lhes a certeza de tua presença e usa nossos pés, mãos e lábios para que elas saibam que tu não as abandonaste. Intercedemos por todas as pessoas que não crêem e que muitas vezes carregam, sem perceber ou admitir, o peso terrível de não ter com quem repartir suas angústias mais profundas e doloridas. Abre seus olhos, Senhor, para que experimentem também a paz de poder contar contigo. Intercedemos por nossa igreja e pela igreja cristã espalhada pelo mundo. Que nosso testemunho seja vigoroso, corajoso e claro! Que não tenhamos nenhum outro norte a não ser tua palavra, a verdadeira luz para os nossos caminhos! E quando sofrermos perseguição por causa de nosso testemunho, dá-nos sempre a certeza de que estás conosco e que nossa vida não é o centro, mas sim o evangelho de Jesus Cristo. Tudo isso imploramos, bondoso Deus, cantando: Comunidade (canta): Ouve Senhor, eu estou clamando. Tem piedade de mim e me responde. Ouve-nos, Deus Pai, Filho e Espírito Santo, em tua bondade e misericórdia, quando nos unimos como teus filhos e tuas filhas, orando: Comunidade: Pai nosso...
Bibliografia SCHULZ, Siegfried. Das Evangelium nach Johannes. Das Neue Testament Deutsch.Vandenhoeck & Ruprecht, 1972. LEE, Witness. Leben im Johannesevangelium. Stuttgart: Der Strom, 1980. DIVERSOS. Evangelho de João e Apocalipse. São Leopoldo e São Paulo: CEBI e Paulus, 2000. MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes; OROFINO, Francisco. Raio-X da Vida. Círculos Bíblicos do Evangelho de João. São Leopoldo: CEBI, 2000.
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PRÉDICA: ISAÍAS 52.7-10
EPIFANIA DE NOSSO SENHOR
MATEUS 12.14-21 COLOSSENSES 1.24-27
06 JAN 2009
Fernando Bortolleto Filho
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Introdução
Uma prédica para o dia da Epifania, baseada em Isaías 52.7-10, anuncia que “Deus reina” (v. 7) e reina “à vista de todas as nações” (v. 10). A manifestação de Deus aos povos é celebrada no culto desse dia. Temos nos textos um sentido fundamental de universalidade: da salvação do Senhor que se estende aos gentios. O texto central da prédica tem um tom característico de outros textos de Segundo Isaías, júbilo e exultação, pois o Senhor salvou, consolou seu povo e retorna triunfante a Sião. Os outros textos, do Novo Testamento, trazem a palavra “gentios” como ponto de identificação e união com o texto principal. Mateus reproduz a apresentação do Servo de Javé num momento em que a atuação de Jesus já despertava inconformismos; o Servo do Senhor é também o servo que padece, e “em seu nome esperarão os gentios” (Mt 12.21). Em Colossenses, o evangelho anunciado pela igreja é o “mistério”, agora revelado aos gentios. Assim como em Segundo Isaías, esperança e glória (v. 27) caminham juntas com as aflições do Servo de Deus (v. 24). A Epifania é o desfecho do período de Natal (na verdade, a celebração da Epifania é mais antiga do que a celebração do Natal; o Natal esteve “embutido” na Epifania durante um certo período). Na Epifania, a glória divina manifesta-se na humanidade de Jesus.
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Exegese
O texto da prédica está num bloco do livro de Isaías atribuído a um profeta anônimo, o qual costumamos chamar de Segundo Isaías (DeuteroIsaías). O bloco, que engloba os capítulos 40 a 55, está ambientado no contexto do final do exílio babilônico. Ciro, o soberano persa, é citado algumas vezes, e Jerusalém não é o lugar atual de habitação, mas um destino. Consolação, ânimo, salvação e esperança são ingredientes constantes nos textos desse bloco. É possível dividir o bloco de Segundo Isaías em duas partes principais: 40-48 e 49-55. Nosso texto encontra-se na segunda parte, na qual encontramos Jerusalém em destaque como destino glorioso do “segundo êxodo”. O
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Epifania de Nosso Senhor
capítulo no qual se encontra a nossa perícope (52) tem, segundo S. Croatto, quatro “fragmentos literários”: 1-2, 3-6, 7-10, 11-12 (1998, p. 256). São poemas breves, intimamente relacionados, cheios de sentido e inspiração. A propósito, Croatto também coloca em destaque a qualidade do texto hebraico de Segundo Isaías, sobretudo a qualidade poética (1998, p. 19). Os versos são bem articulados e a utilização de imagens é bastante criativa. Isso nos deve servir de alerta para que leiamos o texto com percepção aguçada, observando bem a escolha das palavras, notando também o ritmo e os sons. O binômio profeta-poeta aparece com propriedade em grande parte dos textos do livro de Segundo Isaías. A perícope deve ser lida como um “hino de júbilo”; as expressões dos v. 8 e 9 são bastante características. A presença de Javé, anunciada na perícope anterior (v. 6), é celebrada com grande alegria (Schökel & Sicre, 1988, p. 337). Os gritos das sentinelas são de júbilo (não de guerra); até as ruínas de Jerusalém gritam de alegria (aqui um contraste proposital: as ruínas e o canto). Nosso profeta fala a exilados, gente que viveu a experiência criadora de um divisor de águas na história do povo de Deus. O exílio foi resultante da ação dos exércitos de Nabucodonosor, o soberano da Babilônia que comandou sua nação num período de grandes conquistas. O império babilônico sucedeu o império assírio, também desastroso para as populações da Palestina. A atitude definitiva da Babilônia foi precipitada por uma série de demonstrações de fraqueza e falta de habilidade para a leitura da realidade internacional por parte dos descendentes do rei Josias, período no qual atuou incansavelmente o profeta Jeremias. O resultado final foi a destruição de Jerusalém depois de um cerco cruel e prolongado, culminando com mais uma deportação seletiva. O exílio foi o destino de certa parte da população, principalmente das pessoas que representavam perigo, segundo a interpretação do poder babilônico. Para a Babilônia, o esplendor e a queda não estiveram distantes. Passado o período de Nabucodonosor, a nação entrou em declínio, sobretudo por motivos administrativos e políticos internos. A partir de 539 a.C., temos então o período persa, trazendo a liderança de Ciro, mencionado com grande entusiasmo (talvez demasiado) pelo Segundo Isaías. Chegava ao fim o marcante período do exílio. Por isso a restauração de Jerusalém ocupa lugar marcante em nosso texto. A perícope que estamos analisando fala de uma proclamação (v. 7); há uma boa notícia a ser proclamada. O texto aponta para os pés daquele que proclama. Há aqui uma idéia de dinamismo, de deslocamento, de chegada, após a caminhada (a Nova Tradução na Linguagem de Hoje diz: “mensageiro correndo pelas montanhas”). O conteúdo básico da proclamação não poderia ser outro: “reina o teu Deus”. Quase todos os reis de Judá e Israel fizeram o povo sofrer; agora reina Deus. O anúncio do reinado de Deus resume os três elementos apontados anteriormente no mesmo versículo: a paz, o bem e a salvação. Essas expressões fortes significam reversão em relação aos tempos de opressão. Ao comentar os três elementos, S. Croatto destaca o aspecto
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Epifania de Nosso Senhor
concreto deles, dizendo que eles englobam “tudo o que se pode imaginar como felicidade de um povo” (1998, p. 263). Nesse sentido, o aspecto real e concreto do anúncio é amplificado nos gritos das sentinelas (v. 8). É uma realidade, pois os olhos vêem. Esse anúncio real repercute através do próprio texto, pois o anúncio do mensageiro, a chegada de Javé reinante, que os atalaias vêem, chega aos olhos de todas as nações (v. 10). A boa notícia do mensageiro (v. 7) provoca os gritos dos atalaias (v. 8) e provoca também o júbilo em Jerusalém. O texto mostra um desenvolvimento crescente. No v. 9, a atenção recai totalmente sobre Jerusalém; os dois versos do poema terminam com a palavra Jerusalém. O anúncio das boas-novas provoca uma “explosão” de alegria (a Tradução Ecumênica da Bíblia traduz o primeiro imperativo por “explodi”) para as ruínas de Jerusalém. Aqui, o recurso do contraste: ruínas – alegria. As ruínas não serão mais um marco para lamentos, pois Javé age. A ação de Javé aparece aqui em dois verbos de fundamental importância para o Segundo Isaías: consolou e remiu. O júbilo e a alegria não deveriam ser momentâneos, mas deveriam conduzir a uma outra postura. As ruínas apontam para uma reconstrução necessária. Remir é aqui sinônimo de reconstruir; por isso a idéia de um “novo êxodo” é marcante no Segundo Isaías. O tempo é de esperança. Javé faz novas todas as coisas. Chegamos ao v. 10, com a utilização da imagem de mais um elemento do corpo: o braço. O primeiro versículo da perícope (v. 7) termina com a palavra salvação. Também com ela a perícope é fechada. Javé é o Deus que usa seu braço para salvar, e todos os confins da terra verão. Comentários desse texto normalmente fazem referência ao início do Salmo 98, o qual utiliza a mesma expressão, manifestando alegria pela vitória e salvação. O tom no Segundo Isaías é ampliado, pois todas as nações verão. Trata-se de uma teofania abrangente. Por isso Ciro recebe referência destacada; ele é parte daquilo que o profeta via para a manifestação abrangente da glória de Javé. Ele era o instrumento de Javé para a derrota do opressor. Certamente o sentido de universalidade deve ser destacado aqui.
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Meditação
Procurando transpor o texto para nossa realidade, seguem algumas indicações: 1 – Como indicamos acima, o nosso profeta era poeta. É interessante (e desastroso) perceber que atualmente a poesia se tornou um elemento ausente. O mundo pragmático demais no qual vivemos deixou a poesia na lista daquilo que é acessório ou dispensável. Não é incomum falar com estranheza de pessoas que lêem ou estudam poesia. Mesmo os textos bíblicos escritos em versos são lidos muitas vezes como se não fossem (devemos reconhecer que até mesmo a diagramação dos textos, em muitas edições da Bíblia, deixa de favorecer a percepção dos textos escritos
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Epifania de Nosso Senhor
em verso). Com isso, além dos possíveis equívocos de interpretação, deixamos de reparar em sutilezas que podem enriquecer nossa leitura. Destacar a beleza dos textos bíblicos também é um recurso para enfrentar a insensibilidade reinante em nossos dias, nos quais tudo é medido por seu valor monetário. O que percebemos no Segundo Isaías é que os belos textos do profeta em nada retiram sua capacidade de perceber de maneira aguda a realidade que o cerca. 2 – Uma outra questão importante para uma prédica seria observar a capacidade profética de leitura da história. Devemos perguntar: Como o povo de Deus em nossos dias tem lido a história? Seria de maneira inocente demais? Ou poderíamos também perguntar se houve um esforço sério para a interpretação do agir de Deus na história atual. O Segundo Isaías concentra sua mensagem nos movimentos da história. 3 – Colocando nossa atenção na mensagem específica de nosso texto e no momento do calendário cristão para o qual ele se dirige, o que poderíamos dizer sobre a manifestação de Deus? Nosso texto traz a palavra salvação em destaque; é certo que a história bíblica é sempre uma história salvífica. A Epifania comemora a manifestação salvífica definitiva de Deus em Cristo, colocando nele o ponto culminante da história, que mostra Javé, em diversos momentos, restaurando seu povo. A divindade encontra nossa humanidade em Cristo, a fim de renovar toda a humanidade. Também tendo em vista o início do ano, é sempre um momento oportuno para renovar as esperanças e perceber que há sempre oportunidade para um novo êxodo de libertação. 4 – Merecem destaque especial as três palavras do v. 7, que destacamos acima: paz, bem e salvação. O profeta sempre faz o seu anúncio de maneira concreta, tendo em vista elementos concretos da vida do povo. O que significaria para nosso povo brasileiro um anúncio de paz, bem e salvação? Podemos pensar em muitas possibilidades. Temos vivido dias de grandes manifestações de violência. Mulheres e crianças são vítimas constantes, mesmo no contexto doméstico. Em relação à criminalidade, muitas vezes, atitudes das autoridades policiais não-preparadas acabam gerando mais violência. Nesse contexto, anunciar paz, bem e salvação é significativo e obriga-nos a pensar em ações concretas. 5 – Merece também ser destacada a referência aos povos, às nações. A manifestação gloriosa de Javé é um testemunho para todos os povos. A manifestação da glória de Deus é abrangente e inclusiva: Deus deseja reconciliar consigo todo o mundo. Temos que reconhecer uma situação negativa quanto às relações entre as nações. Por exemplo, torna-se cada vez mais agudo o problema das fronteiras. A atitude intolerante (e muitas vezes violenta) das nações do hemisfério norte diante do crescente fluxo migratório é preocupante. Também podemos citar a questão das fontes energéticas como geradora de problemas ambientais, afetando todo o mundo, principalmente na capacidade de produção de alimentos. Para o início do v. 10, a Tradução Ecumênica da Bíblia traz: “O Senhor desnuda, sob os olhos das nações, o braço que des-
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Epifania de Nosso Senhor
dobra a sua santidade”. O braço desnudado de Javé traz paz e justiça entre as nações.
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Imagens para a prédica
1 – O pregador ou pregadora poderia escolher pequenos poemas ou trechos de poemas de autores brasileiros ou latino-americanos para um toque de sensibilidade na prédica. Pensando em nosso imenso país, isso poderia ser feito com a especificidade regional, tendo em vista a junção criativa de beleza, sensibilidade e crítica social. 2 – Uma prédica sobre Isaías 52.7-10 deve ser rica em dados concretos da situação mundial. O chamado para a consideração do que Deus faz à vista de todas as nações é muito forte no texto. O pregador deverá observar, no momento próprio para a utilização do texto, as questões mais candentes. Por exemplo, no momento em que escrevemos esses apontamentos, acompanhamos o impasse (para não dizer: quase total fracasso) das negociações dos representantes das nações na Rodada Doha em Genebra.
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Subsídios litúrgicos 1 – Para a oração do dia (Manual do Culto, p. 142-143): Deus Eterno, por uma estrela Tu levaste os magos para adorar teu Filho. Guia as nações do mundo pela tua luz para que toda a terra venha a enxergar a tua glória, todo joelho se dobre ao nome de Jesus e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para tua glória. Amém. 2 – Para este momento do calendário cristão, os hinos que exaltam Jesus como rei são bem-vindos. 3 – Em conformidade com o que colocamos no tópico sobre “Imagens para a prédica”, um momento de intercessão poderia abordar, a partir de orações breves da comunidade, as questões mundiais mais candentes no momento. 4 – Para o momento do envio (Manual do Culto, p. 153): Andem no mundo como filhos e filhas da luz, procurando descobrir as coisas que agradam ao Senhor e sejam luz para o mundo todo. Assim brilhe a sua luz para que os outros louvem o Pai, que está no céu.
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Epifania de Nosso Senhor
Bibliografia CROATTO, J. S. Isaías – A palavra profética e sua releitura hermenêutica – V. II: 40-55. A libertação possível. Sinodal/Vozes: São Leopoldo/Petrópolis, 1998. IGREJA PRESBITERIANA INDEPENDENTE DO BRASIL. Manual do Culto. São Paulo: Pendão Real. s/data. SCHÖKEL, L. A. & SICRE, J. L. Profetas I – Isaías / Jeremias. São Paulo: Paulinas, 1988.
1º DOMINGO APÓS EPIFANIA Gênesis 1.1-5 Marcos 1.4-11 ATOS 19.1-7
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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 6.12-20
2º DOMINGO APÓS EPIFANIA
1 SAMUEL 3.1-10 (11-20) JOÃO 1.43-51
18 JAN 2009
Anelise Lengler Abentroth
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Introdução O sentido da vida humana e o processo de humanização não se resumem na realização dos desejos imediatos... A felicidade não se reduz à satisfação dos nossos desejos imediatos e nem a uma vida confortável e prazerosa... A felicidade tem a ver com o nosso ser, com o viver a vida de forma integral e unitária, reconhecendo-se nas mais diversas facetas, relações, funções e papéis sociais que constituem a totalidade das nossas vidas. Jung Mo Sung, em Um caminho espiritual para a felicidade
Os textos sugeridos trazem muitos elementos a serem explorados no culto. Eles nos falam do chamado, da vocação de pessoas para viver a proposta de liberdade, de serviço à vida que Jesus nos traz. Inicia com o relato que encanta crianças e adultos: a vocação do profeta Samuel. Samuel ouve o chamado de Deus. Ainda não o conhece. Precisa ouvi-lo. Mas para isso terá que aprender a distinguir a voz de Deus, sem confundi-la com outras vozes que se impõem. O profeta é chamado a manter viva a consciência crítica do povo. O texto do Evangelho mostra-nos que uma testemunha aponta Jesus para outra. É no convívio com Jesus que elas vão vendo que ele é o Mestre, o Messias, o Filho de Deus. A elas é anunciada a nova ligação entre Deus e as pessoas: Jesus Cristo. Porém a vivência da fé no cotidiano traz conflitos. Em meio a tantas vozes, tantas propostas, tantos apelos à felicidade, ao prazer, ao bem-estar, o apóstolo Paulo é chamado a se posicionar sobre uma “nova” concepção de liberdade presente em Corinto. Paulo alerta a comunidade sobre uma nova forma de escravidão: a escravidão do corpo. Em resumo: os textos apontam para viver o chamado libertador que a fé nos possibilita. Sem esquecer que esse viver passa por todos os nossos sentidos, por todo o nosso ser, por todo o nosso corpo e o que fazemos dele.
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Exegese
O texto de 1 Coríntios 6.12-20 faz parte da primeira carta de Paulo aos moradores de Corinto. Ele ficou sabendo de problemas existentes naquela comunidade. Corinto era, depois de Atenas, a segunda maior cidade
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2º Domingo após Epifania
da Grécia e um dos maiores centros comerciais da época, provida de dois portos marítimos. Neles circulavam as mais diferentes pessoas, com as mais diferentes intenções. Por ter sido construída em 46 a.C. pelos romanos, tinha características marcantes de uma cidade romana. Nela havia os mais diferentes cultos, manifestações culturais, grupos sociais e nacionalidades. Era a sede do procurador romano da Acaia. Destacava-se pelas atividades industriais, tais como: cerâmica, metalurgia e tecelagem. A cidade tinha uma população de mais de 100 mil habitantes numa área de cerca de 900 km². Por causa de suas características de cidade portuária e industrial também havia um grande número de trabalhadores pobres. A esses o apóstolo se dedicou durante sua estada na cidade, já que os judeus residentes não o receberam. Através dos próprios cristãos de Corinto Paulo toma conhecimento de alguns conflitos existentes na comunidade. Havia incesto, disputa de cristãos em tribunais pagãos, prostituição. Especificamente sobre esse assunto é que ele se manifesta em nosso texto. Percebe que está presente na argumentação de alguns da comunidade uma falsa compreensão de liberdade. No v. 12 ele diz: “Posso fazer tudo o que quero (sou livre), mas nem tudo convém. Posso fazer qualquer coisa, mas não vou me deixar escravizar”. O argumento que lhe foi apresentado compara a necessidade de alimentar o corpo, sem comprometê-lo, com a prática da prostituição. O apóstolo contrapõe com a sua compreensão de corpo. O corpo não é somente o estômago, e nem somente o alimento serve para o estômago. O corpo todo será destruído por Deus. O corpo todo existe para servir a Deus. A noção de corpo presente define o ser humano como um todo, uma unidade. Não se trata simplesmente da forma, da embalagem, do organismo em contradição ao espírito, que seria o seu conteúdo. Quando o apóstolo fala em corpo, ele está se referindo à pessoa humana em sua totalidade. Deus ressuscitou Jesus e ressuscitará todos num novo corpo. Então, a esse corpo (que é a pessoa toda) não convém fazer determinadas coisas, especialmente quando elas nos tornam escravos novamente. O corpo existe para servir a Deus, servindo aos outros em amor. Dessa forma, é inconcebível que um cristão tenha relações promíscuas, pois manter relação sexual com uma pessoa é tornar-se uma só pessoa. Não há uma relação apenas de carne, sem que isso não tenha conseqüências para o corpo todo. Eis a desculpa quando hoje alguns dizem: “Não houve nada, apenas sexo”. Tem como separar? Para o apóstolo Paulo, não há outro pecado que afeta o corpo além desse. Não podemos entendê-lo como moralista, pois em sua concepção pecado está relacionado com a prática da injustiça de qualquer tipo, com a inimizade, com a falta de misericórdia. Porém manter um ato sexual, buscando saciar apenas seu desejo, é ferir o seu próprio corpo. Deus nos fez para ser templos vivos de seu Espírito que dignifica, revigora e dá vida. Por sermos aceitos por Deus, pela fé, temos parte em sua ressurreição. Não pertencemos mais às vontades, aos desejos humanos, nem aos apelos que a sociedade impõe, conforme sua lógica, seu intento. Isso não mais nos domina. Precisa-
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2º Domingo após Epifania
mos discernir entre o que promove vida e liberdade e o que escraviza e tem conseqüências amargas. Por último, usa um exemplo bem presente na sociedade da época: a compra de escravos pelos patrões. Quem é comprado serve a seu senhor. Paulo sugere que usemos nossas vidas para novas relações, não mais baseado no consumo, no abuso, na posse, na violência, no descartável. Se Deus nos comprou e pagou um alto preço por nossa liberdade, então não somos mais escravos. Por que viver como tal?
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Meditação
O tempo de verão que estamos vivendo faz o tema central de nosso texto ser muito concreto. Ele traz à tona a exploração do corpo. Da forma como temos visto e ouvido, quando falamos em corpo, logo nos lembramos da “embalagem”. Porém o corpo não é só a carne, a matéria. Quando falamos em corpo, estamos falando da pessoa toda, por inteiro. É isso que dizemos no Credo Apostólico ao confessar “creio na ressurreição do corpo”. Portanto não podemos fazer separações. Estamos falando do ser humano, pessoa única. Por falar nisso, para que serve o corpo? Para que serve a nossa vida? Lembro que “serve” vem do verbo servir. Isso quer dizer que o nosso corpo sempre está a serviço de alguém ou de alguma coisa. Deixem-me fazer esta pergunta a vocês e façam-na a seus vizinhos: Para que serve o nosso corpo? Talvez alguns lembraram logo das necessidades físicas: comer, saciar a sede, descansar. Outros lembram que o corpo serve para o trabalho. Também dizem que ele cansa, adoece, machuca-se ou é machucado. Outro grupo talvez não diga, mas pense: o corpo serve para o prazer. Logo vem à mente imagens, outdoors, revistas, propagandas. Alguns poucos, com certeza, também vão se manifestar e dizer: o corpo serve para viver, para ser feliz e para fazer as pessoas felizes. Nessas falas há muito conteúdo. São muitas as vozes, são muitos os apelos, os chamados. E todos estão presentes em nossas comunidades, em nossas casas, em nossos relacionamentos. – Lembro da filha adolescente que hoje não come nada e coloca no espelho a imagem da mulher-modelo. Já no outro dia devora uma barra de 1 kg de chocolate e chora, dizendo que vai se matar por estar gorda. – Visito um jovem universitário que estuda e trabalha. Ontem teve um mal súbito. Desfaleceu. É o efeito dos anabolizantes em busca do corpo perfeito. – Ouvi o desabafo da empregada doméstica que sofre calada ao olhar seu corpo cansado e ao lembrar das conversas e piadas de seu marido, cujo conteúdo girava em torno de “loiras” e de “mulherões”. Para que serve o corpo?
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2º Domingo após Epifania
De fato, nosso corpo (nós) tem necessidades. São reais. E essas vêm lá do fundo de cada ser. Somos pessoas únicas, indivíduos. Deus nos fez como obras genuínas, obras-primas. Não temos preço. Não temos comparação. Mas há muitas vozes dentro de nós. Vozes que não são nossas. São aquelas que nossos ouvidos absorveram, quer queríamos ou não. Apelos e imagens que foram repetidos até a exaustão. Palavras, artigos, publicações que lemos que legitimam tudo. Milhões gastos em busca de retorno certo. Enfim, estamos numa teia, num emaranhado de fios de uma sociedade consumista. O corpo foi reduzido a mera mercadoria. E um dos nichos mais lucrativos no mercado é a produção de necessidades para consumo, para o eterno insatisfeito ser humano. As vozes modernas e pós-modernas dizem: “O corpo serve para ti mesmo. O ‘eu’ é o critério”. Como são atuais as palavras de Paulo: “Posso fazer tudo o que ‘eu’ quero, mas nem tudo convém. Não posso me deixar escravizar”. Ninguém quer ser escravo. A máxima é ser livre. Mas, para ser livre (dizem os jovens), precisa ter muito dinheiro. É o dinheiro que possibilita o prazer, a beleza e o poder. Eis o que está nos escravizando, porque mexe com o que há de mais nosso: o desejo. Corinto, cidade portuária. Muita gente, muitas culturas, muitas ofertas e possibilidades. Vivência urbana, problemas de cidade. As luzes das cidades continuam a atrair as pessoas do campo. E o modelo econômico continua sem dar possibilidade de permanência no campo. São os mais jovens que se sentem atraídos por essas propostas. E as famílias, já quase sem referências, sentem-se impotentes diante dos apelos. Percebem-se anacrônicas. Os corpos vão sendo reduzidos a mercadorias. Permitem ser usados por outros e, quando podem, usam os outros como um produto qualquer. Chaplin já dizia: “Vocês não são máquinas. Pessoas é que são”. Hoje precisamos dizer: “Nós não somos mercadorias. Pessoas é que somos”. Mas voltemos à pergunta: Para que serve o nosso corpo? Paulo disse: para servir a Deus. E afirma: “Deus pagou um alto preço por nossa liberdade”. E a verdadeira liberdade consiste em amar e ser amado. Pois o verdadeiro amor é capaz de sair de si mesmo, buscando o bem de seu semelhante e da criação toda de Deus. Esse amor não é humano, não é nosso. Esse é presente de Deus. O nosso corpo é presente de Deus. Pelo Batismo tornou-se templo do Espírito Santo. Assim como fez com Samuel, Deus nos chama. Ele quer falar conosco. Deus quer que a sua igreja seja voz profética nessa realidade. E que todas as pessoas chamadas e apresentadas a ele vivam em liberdade, sem se deixar dominar por modelos, vozes e desejos alheios. Com o nosso corpo estamos sempre servindo a alguém ou a alguma coisa. Que possamos, pela fé, servir a Deus, comprometidos com o bem viver de todas as pessoas.
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2º Domingo após Epifania
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Imagens para a prédica
Sugiro alguns exemplos ou até uma encenação. – A vocação de Samuel (1Sm 3.1-10) sempre é um bom texto para uma encenação. Especialmente se o acento da pregação for o ouvir a voz de Deus numa realidade que nos confunde e que nos propõe outros deuses. – Podemos explorar a imagem da teia de aranha. A aranha tece sua teia. È sua casa, seu lugar. Nela são enredados aqueles que lhe servirão de alimento. Os de fora, ao entrar na teia, são colados e ficam presos. Por suas próprias pernas ou asas chegaram até ali. Mesmo que percebam o perigo, depois de envolvidas não conseguem se libertar sozinhos. – Também se podem visualizar imagens do corpo associadas aos produtos de consumo (bebidas, cigarro, carro, roupas, apartamentos). O corpo está sendo reduzido a mercadoria de consumo. A propaganda trata de criar desejos e necessidades nas pessoas. Urge discernir a voz de Deus nesse contexto. – Se a comunidade for pequena e participativa, podem-se convidar alguns jovens para uma pequena brincadeira. Descasca-se uma laranja. Fazse propaganda de sua doçura e gostosura. Então se pede que cada um chupe a laranja uma vez. Normalmente, após o segundo, os demais não querem mais fazê-lo. Esse exemplo ajuda-nos a refletir sobre o uso e abuso a que pessoas são submetidas ou se deixam submeter e a reação de repulsa e desvalorização que sofrem.
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Subsídios litúrgicos
Confissão dos pecados: Na tua presença confessamos os nossos pecados. Temos ouvido muitas vozes e muitos chamados alheios à tua voz, ó Deus! Nossos pensamentos, palavras e atitudes têm sido guiados por nosso querer. São atitudes egoístas que causam sofrimento a nós mesmos e aos outros. Temos negligenciado o serviço para um mundo mais humano. Permitimos que corpos sejam escravizados e submetidos aos desejos de alguns. Por tudo isso clamamos: C: Tem misericórdia de mim e perdoa-me, Senhor! Absolvição: A Palavra nos diz: Deus nos resgatou e pagou um alto preço por nossa liberdade. Não nos tornemos novamente escravos. Por isso, alegres e perdoados, cantamos: C: Louvemos todos juntos. Kyrie: Ó Deus! Revestiste de vigor e de vida tudo o que criaste. Clamamos pelos corpos vivos para que sirvam a teu projeto de liberdade e amor:
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(Olhos): Olha para a humanidade que se deixa escravizar e torna-se mercadoria de consumo e de troca. Clamamos cantando: C: Tem, Senhor, piedade. (Ouvidos): Ouve, ó Deus, o clamor daqueles que sofrem, que têm seus corpos marcados pela violência e pela indiferença. Clamamos cantando: C: Tem, Senhor, piedade. (Nariz): Mostra-nos o aroma gostoso da diversidade dos dons, dos cheiros, das culturas e dos corpos que se encontram em respeito e harmonia. Clamamos cantando: C: Tem, Senhor, piedade. (Boca): Sacia a nossa fome e sede de felicidade com a tua proposta de partilha e de amor comprometido. Clamamos cantando: C: Tem, Senhor, piedade. (Mãos): Que os corpos sejam tocados por mãos cuidadoras e amorosas, que partilham e trabalham por vida digna para todos. Clamamos cantando: C: Tem, Senhor, piedade. Glória: Ó Deus! Tu nos conheces. Sabes tudo o que fazemos. Conheces os nossos pensamentos. Tu criaste cada parte de nosso corpo. Tu nos formaste na barriga de nossas mães. Nós te louvamos, porque tudo o que fazes é maravilhoso. Alegres, cantemos: C: Glória. Pelo Seu poder, Deus ressuscitou a Jesus. Só Ele é Salvador. Não pertencemos a nós mesmos, mas a Deus. Ele é o nosso Libertador. O seu Santo Espírito vive e habita em nosso corpo. Por isso cantamos: C: Glória. Oração do dia: Deus bondoso! Tu chamaste os profetas e profetisas para manter viva a consciência crítica de teu povo. Foram tuas testemunhas que apontaram o Mestre para as outras. Na vivência da fé comunitária, o teu povo pode ver a tua ação neste mundo. Por isso nós te pedimos: Dá que ouçamos com atenção a tua Palavra, para que a diferenciemos das vozes que nos querem seduzir e escravizar. Que a tua Ceia fortaleça os nossos corpos para servir somente a ti em todos os tempos e lugares. Por Cristo Jesus. Amém. Intercessão: Oramos a ti, ó Deus, por teu povo, por tua igreja no mundo todo. Assim como Jesus serviu, com seu corpo e sangue, a teu projeto de vida e de amor, que assim nós também possamos abraçar, repartir, compartilhar e libertar em nossas ações diárias. Fortalece aqueles que tu chamaste para te servir. Que o teu povo mantenha uma consciência crítica diante de tantas propostas que iludem e escravizam. Isso te pedimos dizendo:
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2º Domingo após Epifania
C: Senhor, escuta nossa oração. Ouve, ó Deus, a oração daqueles cujos corpos estão doentes, por desesperança, por agressão, por aflição, por fome ou falta de compaixão. Ouvenos e ajuda-nos a erguer o rosto, a abrir os olhos, a estender as mãos, a ver a esperança e a viver a liberdade e a comunhão. Somos o teu corpo vivo, que quer servir a ti neste mundo. Age, ó Santo Espírito, por teu poder. Amém. Envio e desafio:
Oferenda dos sentidos Jaci Maraschin Quisera ter mil vozes para proclamar teu amor e celebrar com gratidão teu louvor. Quisera ter mil vozes para denunciar a escravidão, as injustiças sociais e protestar. Quisera ter mil olhos para ver no céu, no mar, na flor teu rosto santo e adorar-te. Quisera ter mil olhos para encontrar-te também na dor dos desconsolados e assim orar e protestar. Quisera ter mil ouvidos para, arrependido, ouvir tua voz e em silêncio na manhã sentir-me feliz. Quisera ter mil ouvidos para também teu clamor ouvir no grito amargo da opressão e protestar. Quisera ter mil narizes para sentir o santo aroma de um bom incenso, do jardim e respirar. Quisera ter mil narizes para dar-me conta da poluição, da inimizade, da frustração e protestar. Ó! Quisera poder ter mil mãos para levantar o evangelho, para aplaudirte com emoção e tocar-te. Ó! Quisera que tivesses mil mãos para transformar, mudar nosso mundo, unindo todas as mãos e no final libertá-las. Somente Tu, Senhor, nos dás mais de mil olhos, ouvidos, vozes, mãos. Somente Tu, Senhor, nos podes convocar para servir-te. Somente Tu, Senhor, nos dás mais de mil dons, forças, razão para transformar nosso mundo e para servir-te.
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2º Domingo após Epifania
Bibliografia PROCLAMAR LIBERTAÇÃO I-II, Editora Sinodal, 1979. p. 93-101. SCHNEIDER, Nélio. Paulo de Tarso. Apóstolo a serviço do Evangelho de Jesus Cristo e da Cidadania. In: A Palavra na vida. 139/140. CEBI. ALLMEN, J. J. von. Vocabulário Bíblico. ASTE, 1972. p.169-174.
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PRÉDICA: MARCOS 1.14-20
3 O DOMINGO APÓS EPIFANIA 25 JAN 2009
JONAS 3.1-5,10 1 CORÍNTIOS 7.29-31
Teobaldo Witter A bondade desarmada, incauta, inexperiente e sem sagacidade nem é bondade, é ingenuidade estulta e apenas provoca desastres. Antonio Gramsci
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O tempo chegou
O tempo chegou. Acabou o Natal. Veio janeiro. Estamos em época de férias. Viagens. É Epifania. A luz brilha na escuridão. Que luz? Que escuridão? A manifestação de Deus acontece em meio aos fatos reais da vida, por obra e iniciativa dele. Estamos com pressa, pois o tempo chegou. Que tempo? Acabo de ler uma notícia no jornal de hoje, domingo: “Motoristas apressados ignoram a lei de trânsito”. No comentário: Em 30 minutos de reportagem, o jornalista postado no cruzamento no centro de Cuiabá “flagra” 100 motoristas sem cinto de segurança. Além disso, 15 deles estavam falando ao celular. Outro motorista apressado fura o sinal em meio aos pedestres. Um motoqueiro buzina para que pedestres saiam da faixa, porque ele quer passar, mesmo com sinal fechado. Outro veio na contramão para estacionar em local proibido. Todos estão com pressa. Outro motorista apressado tenta trocar a marcha com aparelho celular apoiado entre a cabeça e o ombro direito. Ao dar sinal para entrada na avenida, conversa eufórico com alguém do outro lado da linha. O repórter entrevista os agentes de trânsito, atentos. Nem conseguem anotar todas as irregularidades cometidas pelos que têm pressa. Ele informa sobre porcentagem das infrações: estacionar em locais reservados para deficientes e idosos, não usar cinto de segurança e falar ao celular. Todos têm pressa. O tempo voa? Que tempo? Visito minha vizinha, dona Sebastiana, que mora na casa da frente, no outro lado da rua. Ela veio do hospital, onde seu marido, seu Lira, de 90 anos de idade, está internado. Fala da alegria da recuperação da saúde de seu Lira, que ainda permanece na Unidade de Tratamento de Intensivo. Mas seu médico lhe informou que pode dar alta em dois dias. No entanto, dona Sebastiana abaixa a cabeça e diz: “A UTI está cheia de rapazes bonitos, entubados, que não se mexem mais”. Numa expressão de tristeza, desabafa: “Não tem mais jeito. Eles não voltam mais”. Ela diz: “Tudo acidente de carro e moto”. A expressão de seu rosto e o olhar no horizonte manifestam indignação. Pressa? O tempo chegou? Que tempo? Que pressa? Que luz? Que escuridão?
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3o Domingo após Epifania
Não é o tempo dos motoristas apressados e das UTIs cheias de rapazes bonitos e moças elegantes, esperando o último suspiro. É um outro tempo. Que tempo? O tempo bíblico de Marcos fala do tempo que chegou. Não é o tempo da morte e da pressa, mas o tempo do reino de Deus. Jonas fala do tempo da reconciliação. Tempo da mensagem do arrependimento e perdão. Conforme 1 Coríntios 7.29ss, Paulo fala do tempo deste mundo, do tempo deste século. Tudo passa. É como se não fosse. “A aparência deste mundo passa.” O tempo dos motoristas passa, pois todos têm pressa. O tempo dos rapazes bonitos e fortes na UTI parou. E parou na escuridão. Dona Sebastiana, enquanto se alegra pela recuperação de seu companheiro com 90 anos de idade, procura por luz para os rapazes bonitos entubados na UTI, no horizonte infinito. A pressa trouxe morte e escuridão. Mas somos chamados para participar de um outro tempo: do tempo de vida e salvação. O tempo está próximo. Que tempo?
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Meditando com Marcos 1.14-20
Segundo o contexto de Marcos, João vem do deserto. Ele vem e prega a mensagem de Jesus. Alerta e convoca para endireitar o caminho do Senhor. Prega arrependimento e anuncia perdão aos penitentes. O tempo está próximo. Jesus vem. Num encontro derradeiro, João batiza Jesus Cristo. Ouve-se a voz: “Tu (Jesus) és meu Filho amado, em ti me comprazo”. Jesus é levado ao deserto. Passa por necessidades e sofrimentos. Podia fraquejar. É sustentado pelo Pai. Depois disso, por ordem de Herodes Agripa, João Batista é preso. A prisão de João é um fato político. O palácio não agüenta a bondade de Deus. Nesse contexto, Jesus faz a análise de conjuntura. E conclui com quatro desafios, que são os pontos centrais de sua pregação (Mc 1.15): 2.1 – O tempo está cumprido (Mc 1.15a) Completou-se o tempo, não do nascimento, mas do ministério público de Jesus Cristo. Após a prisão de João, o tempo se completou. É tempo da luz que brilha nas trevas. A luz é Jesus Cristo, que veio para nos salvar, por bondade e graça. A referência à prisão de João não é só para localizar a época do início da pregação pública de Jesus, mas é fato significativo no bojo do próprio ministério. A mudança que João e Jesus pregam refere-se também à mudança de mente e coração, que tem implicação direta nas relações de poder. O novo tempo de Jesus traz novas relações de poder. O palácio, como poder absoluto e inquestionável, manda prender quem prega arrependimento e mudanças. A mudança provocada pelo arrependimento destrói os alicerces do palácio que se mantém pela força da injustiça, força do pecado. É tempo da luz brilhar em todos os espaços. Mas o palácio não agüenta a luz.
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2.2 – O reino de Deus está próximo (Mc 1.15.b) Podemos traduzir essa frase assim: o governo de Deus está próximo. Em Jesus Cristo, o governo de Deus chegou. Ele já está em andamento. Não é só um governo para depois, no futuro, mas já agora ele acontece. No futuro, ele será pleno, será tudo em todos, visível, mas sua presença é também agora. Portanto é tempo de governo de Deus. Ele vem. Pedimos que venha também a favor de nós, não contra nós. Por isso Jesus fala do arrependimento. É nossa chance. 2.3 – Arrependei-vos (Mc 1.15c) Jesus prega arrependimento, tal como João Batista. Pede que nos voltemos a Deus. O arrependimento significa reconhecimento de que não estamos bem e que estamos dispostos a mudanças. Jesus vai à raiz do problema. Não busca superficialidades e bajulações. Já que João, um grande amigo seu, foi preso, Jesus, se fosse só humano, poderia organizar seu fã-clube, sendo “bonzinho” com todos. Certamente conseguiria mobilizar multidões para tirar João da prisão. Ao contrário, diz que a população está errada e precisa mudar. Ele é bom, mas sua bondade é política. É bondade intencional e propositiva. Se Deus não fosse bom, não teríamos chance nenhuma de salvação. Mas a bondade de Deus quer nos levar ao arrependimento, pois “... a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento” (Rm 2.4.b), ao se tratar de uma bondade desarmada, ingênua, desastrosa, mas é bondade política. O coração bondoso de Deus acolhe e transforma mentes e corações. Em sua ação pelo arrependimento, Jesus constrói nossa reconciliação. Essa reconciliação é completa: ela é com Deus, conosco mesmo, com o próximo, com amigos e adversários e com a natureza. 2.4 – Crede no evangelho (Mc 1.15d) O evangelho, a notícia boa, é Jesus Cristo, o Filho Amado. Crer no evangelho significa confiar plenamente na promessa de vida e salvação ofertada por Deus em Jesus Cristo, tal qual o primeiro mandamento ensina. Crer e confiar não é apenas acreditar. Quando a gente confia, então entrega sua vida aos cuidados de alguém. Nos seres humanos a gente pode acreditar. Mas não pode confiar, pois seres humanos são infiéis, injustos e egocêntricos. Deus, porém, é fiel, justo e solidário. A respeito da confiança, li no boletim da paróquia de Cuiabá, de junho de 2008, na página 4: “Se você confia no Deus que liberta, você não se curvará a nenhum opressor. Você, da mesma forma, não oprimirá ninguém. Você dará atenção à voz que serve à vida e não à morte. Não concordará que seu coração endureça. Você será tomado pela bondade de seu Criador. Você não fará imagens que escravizam. Você jamais se entregará ao fascínio da nação ou de uma raça. Olhará a face do próximo sem deturpá-la de nenhuma
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forma. Você será imagem do libertador. Você ajudará seu próximo para que se alegre com sua própria imagem e tenha identidade própria”. Marcos 1.16-20 refere-se à vocação de quatro discípulos: Simão, André, Tiago e João. Os quatro estão lidando com pescaria. É disso que vivem. Jesus, ao caminhar junto ao mar da Galiléia, vocaciona-os. São chamados ao seguimento. Abandonam ofício e seguem Jesus. Recebem a missão de Jesus de “ir e lançar as redes”. São assim investidos para pescar gente para o governo de Deus. Certamente a sua pregação é também para o arrependimento e o perdão dos pecados.
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Os textos das leituras
3.1 – Jonas 3.1-5,10 Jonas é enviado por Deus para ir a Nínive, a capital assíria, uma cidade pecadora. Deve pregar a palavra do Senhor. A população da cidade é numerosa. É uma capital populosa. Jonas é enviado para dizer que Deus havia condenado a cidade à destruição. Nínive tem 40 dias para se arrepender de seus pecados. Depois disso vem a destruição. Jonas resiste. Não quer ir. Mas Deus o leva até lá. Ele vai e fala. Prega arrependimento. A população ouve e se arrepende. Nesse sentido da pregação e do arrependimento se encontra conexão com Marcos 1.14-20. 3.2 – 1 Coríntios 7.29-31 Conforme o texto, Paulo escreve sobre o tempo que se abrevia. O tempo voa. Não há tempo a perder. Prega a liberdade diante do tempo. Não é para se prender demais às coisas transitórias, que logo passam. Nem alegria ou tristeza, tampouco casamento ou negócios devem nos escravizar. Tudo passa. As coisas que aqui estão passam logo. A ligação com o tempo e a transitoriedade pode ser feita também com os motoristas estressados e apressados, mencionados anteriormente. O texto serve igualmente para ser ligado a Marcos 1.14-20, em termos de sua insistência na relação do tempo que chega e passa e da transitoriedade do mundo da vida diante da ação salvadora e da eternidade de Deus.
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Imagens para a prédica
Para a pregação, sugiro buscar elementos da comunidade, a exemplo do título “O tempo chegou”. Os motoristas não levam em conta os perigos e desastres de seus atos na pressa do tempo. Brincam com o tempo atual. Mas a vida no tempo presente decide a eternidade. A vida é um jogo no tempo em que a gente pode perder. Mas qual é o tempo da comunidade reunida neste
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culto? Qual é a análise de conjuntura necessária para que a Palavra se torne real, palpável, geradora de fé, confiança e compromissos? Levar em consideração os qautro temas presentes no título “Meditando com Marcos 1.14-20”. Eles são importantes e significativos da mensagem do texto. Os comentários sobre as leituras podem ser mencionados no momento em que alguém lê os textos. A referência à vocação dos discípulos é importante como atualização do compromisso no caminho do seguimento atualmente.
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Subsídios litúrgicos
Acolhida: (Cumprimentar a comunidade e explicar quem vai coordenar e qual é a seqüência do culto. Saudar os visitantes, pedir para que se apresentem e após bater uma salva de palmas.) Cumprimento todos com palavras de Dietrich Bonhoeffer: “Maravilhosamente bem guardados,/ confiantes esperamos o porvir./ De noite e dia em Deus aconchegados/ e assim em cada dia que surgir”. Deus, por meio do profeta Isaías, nos diz: “Chamei-te pelo teu nome, tu és meu” (Isaías 43.1). Deus nos chama pelo nome e nos salva. Nós somos suas testemunhas, colaboradores na construção de seu governo de amor, graça e misericórdia. Chama-nos para não nos conformarmos com o mal e lutarmos pelo bem e pela paz verdadeira. Sabemos que Deus está aqui. Ele nos recebe e acolhe com seu amor gracioso. Ele nos reúne para este momento de comunhão e reflexão sobre a sua Palavra. Ele nos chama, e deles somos. Liturgia de abertura Saudação: Nós estamos reunidos, mas não em nosso nome, nem por força e vontade nossa, mas em nome do Trino Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, que desceu de sua glória para nos abraçar e acolher, perdoando nossas falhas e fraquezas e nos libertando de toda opressão do mal. É em nome desse Deus, gracioso e amoroso, que nos reunimos aqui em culto. Amém. Hoje é o dia 25 de janeiro de 2009, 3º Domingo após Epifania. Epifania quer dizer manifestação de Deus. Ele se manifesta de muitas maneiras, mas de forma especial em Jesus Cristo, a Palavra de Deus encarnada no mundo. Por isso testemunhamos que Jesus “percorria toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4.23). Amém.
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Cantos de invocação: Deus é amparo, fortaleza, consolo. Sua palavra é para sempre. Invocamos e louvamos o nome de nosso Deus, cantando juntos o hino “Deus é meu amparo” (Hinos do Povo de Deus, n. 456). Confissão de pecados: O pecado afasta-nos de Deus e leva-nos para a vida sem sentido, sem qualidade. Destrói nosso corpo, nossa alma, nossa vida, nossos relacionamentos. O pecado enfraquece-nos e leva à morte agora e para sempre. O perdão, pelo contrário, aproxima-nos de Deus, da vida, de nós mesmos, do povo de Deus e de toda a sua criação. O perdão fortalece-nos e revigora nosso corpo, nossa alma, nossa vida. Todos nós estamos cheios de pecados. Mas Deus nos chama e oferece perdão. O pecado nos angustia, o perdão nos salva. Prezados irmãos e irmãs! Queremos agora fazer nossa confissão de pecados a Deus, individualmente e em silêncio. Depois a faremos de forma comunitária. (confissão silenciosa) Confissão comunitária: Deus, luz do mundo e luz de nossas vidas, confessamos, Senhor, nossa falta de confiança em ti. Em lugar da fé permitimos que a ansiedade, a crendice, a angústia e a dúvida tomem conta de nossas vidas, roubando-nos a paz, fechando nossos olhos para as necessidades ao nosso redor. Outras vezes, vivemos indiferentes diante daquilo que tu solicitas de nós. Não perguntamos por tua vontade para nosso viver, não te amamos acima de todas as coisas, nem amamos o nosso próximo como a nós mesmos, de verdade, profundamente. Quantas vezes escolhemos o caminho mais cômodo, fazendo o que todos fazem, sem perguntar pela missão que tu nos confiaste como tua comunidade. Perdemos de vista o alvo maior: ser testemunha de teu governo. Acomodados, renunciamos à esperança. Temos tolerado injustiças, fomos insensíveis à miséria, à morte, às feridas, às dores, às trevas e à solidão, ao medo e ao ódio ao nosso redor. Tu nos presenteaste com teu governo de paz e perdão, mas nós não nos mostramos agradecidos. Renova-nos por inteiro através de teu Espírito. Pedimos perdão, Senhor. Amém. Anúncio do perdão: (Depois da confissão de pecados individual e comunitária, anuncio o perdão em nome de Deus) Para quem confessar seus pecados e de coração se arrepender, esse ouve de Deus palavras de perdão: “O Senhor não demora a fazer o que prometeu, como alguns pensam. Pelo contrário, ele tem paciência com vocês, porque não quer que ninguém seja destruído, mas deseja que todos se arrependam de seus pecados” (2Pe 3.9). O Senhor ouviu a sua confissão e anuncia paz. Anuncio o perdão em nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
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Kyrie: Estamos sendo carregados, amparados e amados por Deus. Ele nos acolheu em nossa angústia e deu-nos seu perdão. Recebemos o perdão de Deus. Estamos consolados e aliviados. Podemos olhar para as dores e dificuldades ao redor de nós e suplicar a Deus por sua intervenção libertadora. No mundo, ao nosso redor, há pessoas aflitas, amarguradas, magoadas, desprezadas, rancorosas, doentes, odiadas, sofredoras. Vamos nos aproximar dessas situações e clamar a Deus, solicitando sua intervenção. A esperança do cristão é esperança para o mundo aflito. Por isso clamemos ao Senhor por sua intervenção neste mundo que padece: Clamamos pela paz que se faz necessária neste mundo aflito, por harmonia, entendimento e reconciliação. Pelos oprimidos que vivem sem amor, imploramos por uma vida digna e de respeito. Por nossos governantes, que sejam pessoas mais honestas, mais coerentes e justas no cumprimento das leis, para atender às necessidades do povo. Clamamos pela pregação do evangelho em todo o mundo. Clamamos pelas comunidades cristãs para que sejam sal e luz na realidade em que vivem. Por graça, socorre-nos, Senhor! Gloria in excelsis: Só ao Senhor pertencem toda a glória, honra e louvor. Deus é atencioso, ouve as súplicas e age poderosamente, salvando aflitos, machucados, atribulados de toda sina. Por isso convido para dar graças e louvores a ele. A misericórdia de Deus é sem fim. Sua presença transforma nossa vida. Deus não deseja sofrimento, tristeza, exclusão de nenhum de seus filhos. Em amor, ele vem a nós, torna-se um igual a nós para nos acompanhar e nos conduzir por caminhos de esperança, que levam à vida, à salvação e à construção do seu governo. Não há motivo para tristeza e aflição. Deus é fonte de felicidade. Ele é a razão de nossa esperança, conforme o Salmo 90. Convido para abrirem suas bíblias e lermos juntos o Salmo 90.1-6,15-17. Oração do dia: Deus de toda compaixão e de amor, estamos reunidos como pessoas de diferentes histórias de vida e, mesmo assim, formamos tua comunidade. Não são nossas capacidades de viver e nossos interesses em nos entender nas diferenças que fazem de nós igreja de Jesus de Cristo. Mas somos feitos comunidade através de tua palavra pregada e vivida pessoalmente e em comunidade, composta por pessoas que crêem em Jesus Cristo, gente de diferentes culturas e jeitos de viver e de compreender a realidade. Jesus não se tornou prisioneiro de nenhuma cultura, mas pessoas de todas as culturas são libertadas por seu amor. Viemos até aqui para ouvir tua palavra e abrir novos horizontes como pessoas e como comunidade. Faze com que nos apeguemos à tua palavra, que dá um novo começo, porque estamos cansados de recomeçar com nossas próprias forças. Fala conosco, Senhor. Que teu Santo Espírito esteja atuando entre nós através de tua palavra lida e pregada. Oramos e pedimos em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e governa eternamente. Amém.
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Bibliografia DOMINGUES, Rose. Imprudência e desrespeito. Jornal A Gazeta, Cuiabá, Ano XIX, n. 6.082, p. 1B, 2008. LIEVEN, Guilherme. In: Proclamar Libertação, v. 28. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2002. RIOS, Terezinha Azevedo. Ética e competência. 17. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
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PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 18.15-20
4 O DOMINGO APÓS EPIFANIA 01 FEV 2009
MARCOS 1.21-28 1 CORÍNTIOS 8.1-13
Haroldo Reimer
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Introdução
Liturgicamente, a comunidade encontra-se no último domingo após a Epifania. Passaram-se os domingos e os dias em que Jesus foi sendo “reconhecido” em sua messianidade. Ele entrou em contato com João Batista (Mc 1.4-11), Felipe e Natanael (Jo 1.43-51) e com os pescadores Simão, Tiago e João (Mc 1.14-20). Neste quarto domingo da Epifania, Jesus encontra-se com o endemoninhado de Cafarnaum (Mc 1.21-28). Em todos esses encontros, Jesus vai sendo “reconhecido” como o Messias de Deus. Recebe o batismo, faz discípulos e fascina ouvintes com suas falas. O evangelista afirma que ele ensina as pessoas com “poder” ou “autoridade” (em grego: exousia). Com isso se reconhece, claro, e afirma-se doutrinariamente um traço distintivo desse Jesus de Nazaré e já se aponta para o caráter excepcional desse mestre itinerante. Com essa indicação, porém, também se procura fazer uma delimitação em relação a outros “ensinadores” da época, especialmente os escribas e fariseus. Esses são formadores de opinião e educadores na fé em meio ao povo hebreu ou judeu da época. Como fiéis observantes da Torá e dos demais escritos sagrados do cânone hebraico, fariseus e escribas interpretam fundamentalmente textos dessa tradição canônica. No processo de interpretação, deduzem novos ensinamentos, cotejados sempre a partir do conjunto de textos entendidos como “Escrituras”. Nesse sentido, famosa é a decisão do chamado prosbol de Hilel, em que o sábio fariseu suprime o ano sabático para efeito de pagamento de dívidas. Jesus também está nessa tradição interpretativa. Com razão deveríamos inseri-lo no seio ou nas imediações de algum dos movimentos ou tendências dos fariseus (Miranda; Malca, 2001). Tanto os fariseus como Jesus tratavam de discernir de forma nova, na incessante perscrutação das palavras antigas, a palavra de Deus para seu momento. Jesus, porém, é afirmado como aquele que se destaca; ele tem “autoridade”, fala com exousia. Com isso, claro, consoante à tradição, reconhecemos a dimensão divina de Jesus. Lembramos, contudo, que os evangelhos são justamente o meio literário para promover a idéia da messianidade e do caráter autônomo de Jesus enquanto fonte de discernimento e revelação da palavra de Deus. Nesse sentido, a afirmação sobre a exousia de Jesus constitui elemento doutrinário do Novo Testamento.
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Com essas indicações, o evangelista situa Jesus na tradição profética. Afinal, profeta é especialmente aquela pessoa ou personagem que recebe, deduz, codifica e transmite a mensagem divina às pessoas ou que, diante de novos desafios, interpreta sua tradição sagrada com novos ensinamentos. Nesse caso, trata-se de um processo de releitura. Em Jesus confluem, nesse sentido, diversas tradições: ele é profeta, legislador e messias. No texto de leitura do evangelho, Marcos 1.21-28, Jesus “encarna” essas funções. Ele, porém, abarca também a dimensão do poder sobre os espíritos imundos ou sobre os “ídolos”, para falar na linguagem do trecho da carta de Paulo aos Coríntios, previsto como leitura para este domingo. Diante do poder de Jesus, os ídolos ou os espíritos imundos nada são ou, diferentemente, eles são funcionais ao poder de Jesus; são subservientes a ele. Espíritos imundos são também “intérpretes privilegiados” da messianidade de Jesus. Talvez aí se possa vislumbrar a dimensão da ação de Deus na fraqueza, considerando doença ou “estar possesso” como forma de fraqueza humana. Nessa condição de fraqueza se dá o reconhecimento de que esse Jesus é o enviado de Deus.
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Exegese de Deuteronômio 18.15-20
Deuteronômio 18.15-20 está previsto como base para a prédica. Seria bom, portanto, mantê-lo como tal, embora, geralmente, haja sempre a tentação de utilizar o texto do evangelho como base para a alocução homilética. De qualquer forma, haverá de ser assim que, em geral, a pregação vai ressaltar que Jesus de Nazaré é “o” profeta que haveria de vir do meio do povo, conforme se afirma em Deuteronômio 18.15. Com isso se está profundamente enraizado na tradição do anúncio da messianidade e da divindade de Jesus de Nazaré. Cabe ter presente que o livro de Deuteronômio é apresentado como uma espécie de reprise das leis “reveladas” no monte Sinai e sistematizadas dentro da chamada “perícope do Sinai” (Êx 19.1 até Nm 10.10). Assim, o Deuteronômio tem a forma de discursos de Moisés para o povo. Nisso há uma diferença em relação à perícope do Sinai, na qual as leis e as normas são formalmente apresentadas como revelação do Senhor para Moisés e desse para o povo. Somente as Dez Palavras (Êx 20.2-17) estão na forma de fala direta de Deus ao povo. No geral, perpassa a idéia de um mediador, no caso Moisés. Esse mediador é chamado de “profeta”. No final do Deuteronômio encontra-se a afirmação de que “nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o Senhor houvesse tratado face a face” (Dt 34.10). Essa nota no final do capítulo 34 não somente encerra o livro de Deuteronômio, mas conclui e remete para o todo da Torá ou Pentateuco. É apontamento redacional que busca situar a Torá como livro fundamental para a tradição do povo hebreu. As outras duas partes do cânone hebraico, a saber os Profetas e os Escritos, são, assim, situados sob a luz da Torá e de Moisés. O legislador e o intermediário profético estão, assim, condensados na figura de Moisés.
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O livro de Deuteronômio é um dos livros angulares no conjunto canônico da Bíblia Hebraica. Os capítulos 12 a 26 formam uma espécie de núcleo da obra. Ali encontramos o que a pesquisa convencionou chamar de “código deuteronômico”. Trata-se, provavelmente, de um livro de leis compilado e sistematizado, com base em leis diversas e de épocas distintas (perfil diacrônico diferenciado), para organizar a vida social e religiosa de Judá numa fase de reorganização, na segunda metade do século VII a.C., depois que os assírios se retiraram da região após domíno político, econômico e social que durou quase dois séculos. Nesse momento histórico, na segunda metade do século VII a.C., há em Judá um certo “vácuo de poder”, que é aproveitado pela população local, especialmente as elites, para promover um rearranjo nas relações do poder e também realizar reformas sociais e religiosas. Simbolicamente, nesse momento histórico, um menino de oito anos chamado Josias é colocado no trono, como símbolo amalgamador do poder monárquico davidida no Reino do Sul. Mais tarde, esse se tornará guerreiro venerável e também reformador social e religioso. Por trás ou junto com a figura de Josias, celebrado quase como um Davi redivivus, há provavelmente uma coalizão de forças sociais, composta por proprietários de terra livres, chamados de “povo da terra” (am ha-ares), por levitas e grupos leigos ou sapienciais, que buscam cada qual assegurar seu espaço na tessitura microfísica do poder naquele contexto. Também mulheres devem ter participado ativamente desse processo. Isso é simbolizado pela consulta à profetisa Hulda sobre a validade do documento supostamente encontrado em obras de reforma do templo de Jerusalém (2Rs 22.11-20) e se evidencia por certos “avanços” no direito das mulheres (cf. Dt 15.12-18) em relação a codificações anteriores (Êx 21.8-11). Na pesquisa, o código é entendido ou como expressão reguladora das relações sociais efetivas nesse período ou como projeção idealizadora das relações sociais nesse período ou para períodos posteriores. As leis estão sistematizadas pela estrutura típica de “aliança” (berit). Busca-se um ponto de aproximação entre interesses contrastantes na sociedade. O código abarca leis de vida e de morte. Assim, em termos históricos, o núcleo de Deuteronômio é identificado como tendo sua origem no final do século VII a.C. O fato das leis deuteronômicas serem todas formuladas no tempo futuro tem a ver com a estrutura de todo o Pentateuco, no qual todas as leis são dadas ou entregues por Deus ao povo como dádiva antes da entrada na terra prometida. Convém ressaltar que esse código deuteronômico pressupõe um processo formativo mais longo. Há estudiosos que chegam a identificar até seis camadas ou estágios diferentes do Deuteronômio, o que em teoria é interessante, mas na prática nem sempre é perceptível ou exeqüível. De minha parte, em termos básicos, assumo a tese proposta por Frank Crüsemann (2002) de que o código deuteronômico constitui substancial retomada e reorganização do conjunto de leis mais antigo, identificado usualmente como “código da aliança” (Êx 20.22-23.19). Esse teria sido adaptado para as novas circunstâncias históricas, sociais e religiosas do povo judaíta no final do século VII a.C. Diante de novas demandas e
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numa nova constelação política e social, codifica-se pela segunda vez um conjunto de leis e normas, que abrange diversos âmbitos da vida social e religiosa. Esse conjunto de leis, ou “código”, provavelmente tinha o nome de torah, antes que esse termo passasse a designar toda a obra do Pentateuco (Crüsemann, 2002). Dentro do código deuteronômico, o bloco de Deuteronômio 16.1818.22 constitui algo como um “conjunto constitucional”. Nesse bloco estão regulamentadas as funções públicas consideradas mais relevantes sob a perspectiva do movimento deuteronômico do que a tradição: juízes (16.18-22), rei (17.14-20), sacerdotes e levitas (18.1-8) e profetas (18.9-22). O texto de Deuteronômio 18.15-20 é um recorte desse bloco “constitucional”. Aqui se trata de normatizar o fenômeno da profecia sob a perspectiva deuteronômica, que norteia todo o conjunto. Quanto aos “profetas”, há três partes distintas, formando um conjunto. a) os v. 9-14 buscam tabuizar determinadas formas mânticas ou “proféticas” que eram comuns na tradição cananéia e provavelmente também dentro de Israel. Assim se interditam os sacrifícios humanos, a adivinhação, práticas mágicas (feitiçaria e encantamento) e a consulta aos mortos; b) v.15-20: afirmação do ofício de profeta e promessa de surgimento reiterado de profeta como Moisés; c) v. 21-22: desenvolvem o critério para o reconhecimento do que seja verdadeira ou falsa profecia, que basicamente passará a ser o cumprimento da profecia. Em Deuteronômio 18.15-20, afirma-se que o Senhor Deus suscitará um profeta “do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás” (v.15). Essa referência “semelhante a mim” já constitui uma releitura e um arranjo de tradições anteriores na história do povo hebreu. A figura típica de Moisés é tomada como referência. A emergência dessa figura “do meio de ti, de teus irmãos” situa o processo no seio da própria comunidade, nesse caso a comunidade judaica. Trata-se de um ato repetitivo, iterativo, no sentido de “sempre de novo”. O ofício desse profeta será “constitucional” ou “institucional” e terá continuidade na história. Não se trata de ato único. “Moisés” passa a ser uma instituição. Na tradição hebraica, sempre houve alguém para sentar na cadeira de Moisés. O presidente do Sinédrio, por exemplo, é afirmado e entendido como aquele que se assenta na cadeira de Moisés (Crüsemann, 2002). Esse “profeta” que terá ofício institucional e reiterado é chamado, em Deuteronômio 18.15, de nabi. Na Bíblia e especialmente nos profetas, encontramos diferentes tipos de profetas, inclusive com designações distintas. Os termos “homem de Deus” (ish elohim) e “vidente” (roeh) são usados por vezes como sinônimos (1Sm 9.6.10), assim como também o termo “visionário” (hozeh). Todos juntos são entendidos, sobretudo a partir do séc. VI a.C., como “profetas” (nabi – Is 29,10). O termo nabi, embora seja designação genérica dos profetas hebraicos, parece ser mais indicativo daqueles profetas inseridos em corporações ou escolas proféticas (como Elias e Eliseu) ou liga-
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dos ao espaço do templo e da corte (p. ex. Natã). Por isso costumam ser designados como profetas “cúlticos” ou “institucionais”. Esses parecem ter constituído a matriz mais comum do fenômeno profético, e a esse viés institucional se faz referência aqui. É sintomático que os colecionadores das palavras dos profetas “clássicos” (Amós, Isaías, Jeremias, Oséias, Miquéias, Sofonias etc.) do período pré-exílico (séc. VIII e VII a.C.) não utilizaram o termo nabi para designar os personagens que dão nome aos livros. A única exceção é constituída pelo livro de Habacuque (Hc 1.1; 3.1). Os profetas clássicos do século VIII e VII a.C. chegavam a negar explicitamente a designação de nabi (Am 7.14), ressaltando sua atividade como “carisma”, diretamente outorgado pela divindade. Isso se percebe especialmente nos relatos de vocação de alguns desses personagens proféticos (Is 6.1-8; Jr 1.4-10; Am 7.10-17). Tais relatos funcionam como comunicações de credenciamento e legitimação para a atuação dessas figuras carismáticas em meio à comunidade, sem o aval institucional e por vezes explicitamente contra as instituições. Com isso, esse tipo de profeta, que poderia sofrer represálias por causa dos conteúdos de suas mensagens de crítica ao poder estabelecido (Am 7.10-17; Jr 36), estaria devidamente resguardado como mediador entre Deus e o povo. O próprio Deus seria o garantidor de sua atividade e seu conteúdo. Os profetas cúlticos, por sua vez, já tinham sua legitimidade assegurada pela instituição na qual estavam inseridos. A partir do século VIII a.C. desenvolve-se no antigo Israel uma polêmica sobre “verdadeira e falsa profecia”. Trata-se basicamente de uma discussão sobre o conteúdo das mensagens. Tradicionalmente, os profetas institucionais tendiam ao anúncio de mensagens positivas de graça para o próprio povo e de juízo para os outros povos ou nações. Com Amós, na metade do século VIII a.C., inicia-se uma nova tradição, na medida em que o juízo é direcionado também contra o próprio povo de Israel (Am 2.6-13; 5.18-20). Tal mudança de conteúdo acarreta um distanciamento crítico em relação ao centro de poder. Isso gerou, no fenômeno profético, dois tipos distintos de profecia no que tange ao conteúdo, havendo, porém, similaridade quanto à forma. Ambos se apresentavam como mediadores entre o Deus YHWH (Mq 3.4-7) e o povo, e é em nome da mesma divindade que acontecem as acusações mútuas. O caso mais conhecido é a disputa entre Jeremias e Hananias (Jr 28-29). Pela comunicação de mensagens distintas a partir da mesma matriz divina e através de formas similares resulta a necessidade de discernimento do que seja verdadeiro ou falso por parte da comunidade. O código deuteronômico (Dt 12-26) do final do século VII a.C., além de proibir determinadas formas de profecia ou o acesso a conteúdos por rituais mânticos ou mágicos (Dt 18.10-14) e somente permitir a profecia indutiva especialmente na forma de ditos, estabelece também o critério do cumprimento temporal da mensagem anunciada. O não-cumprimento histórico implicará a falsidade da mensagem e a condenação do respectivo profeta. Isso provavelmente acarretou uma insistência na afixação por escrito das mensagens profé-
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ticas, como é exemplificado em Habacuque (Hc 2.1-4). O caráter de verdadeira ou falsa profecia depende da aplicação de critérios a posteriori, não se aplicando ao modo e à origem do fenômeno no momento originário do conteúdo ou do chamado “dito profético”. “Quando é a palavra de um contra a de outro, quando é duvidoso qual seja a verdadeira palavra de Deus, a regra diz que é necessário esperar, e não perseguir, proibir, acusar ou até condenar à morte” (Crüsemann, 2002, p. 337-8). O texto de Deuteronômio 18.15-20 também estabelece o personagem Moisés como a “representação ideal” do profeta, que assume com isso também as funções de legislador, sacerdote e hagiógrafo. A destruição de Jerusalém em 586 a.C. e a conseqüente experiência do exílio constituíram o “gatilho histórico” para desencadear um processo intenso de coleção das palavras dos profetas críticos. Deve-se ter presente que vários dos profetas pré-exílicos foram anunciadores da destruição dos centros de poder de Israel como parte de uma ação purificadora de Deus em meio a seu povo. Já durante o processo, mas especialmente a partir da nova situação histórica da realização dos anúncios, palavras de profetas carismáticos pré-exílicos, guardadas na memória coletiva, passaram a ser avaliadas como verdadeiras, sendo gradualmente colecionadas rumo à formação de um cânone profético. Antes disso, porém, já havia processos mais circunscritos de coleção e fixação literária das mensagens proféticas, por vezes condensadas na forma de “panfletos”. Deve-se trabalhar com a hipótese de que em torno de alguns personagens proféticos havia grupos de suporte responsáveis pela transmissão dos respectivos conteúdos (Jr 26.1-19). Evidencia-se, assim, uma relação da voz profética com formas de organização social da época. Também mulheres exerciam o ofício de “profetisa” (nebiah – cf. Débora [Jz 4.4] e Hulda [2Rs 22.14; cf. 2Cr 34.22]). Fenômeno típico no processo de transmissão das palavras proféticas são as releituras, isto é, o fato de palavras, ditos, coleções serem reinterpretados e até ampliados dentro de um novo contexto histórico. Nesse sentido, as palavras proféticas são marcadas por um dinamismo no processo de transmissão, o que termina com a fixação do cânone, mas continua em outro gênero de literatura interpretativa (p. ex. midraxes). A atividade de Jesus como profeta e legislador está situada nessa tradição.
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Meditação
Com essa proposta do texto de Deuteronômio 18 passou a ser sancionado na cultura e religião de Israel um certo tipo de atividade profética. A referência direta a Deus enquanto fenômeno carismático continua a ser fundamental. Gradativamente, porém, passa a haver vinculação com textos considerados “sagrados” ou “canônicos”, principalmente da Torá, mas também dos profetas e dos escritos. Isso passará a ser um traço distintivo da tradição judaica de linha farisaica. Interpretar a Torá passa a ser o caminho fundamental para discernir a vontade de Deus.
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O cristianismo continua essa tradição. O próprio Jesus é situado nessa linha. Jesus assume os papéis de profeta e legislador. Especialmente no Sermão do Monte, em Mateus, essa faceta de Jesus como legislador está bem explicitada. Ali se percebe claramente como Jesus se situa na tradição canônica de seu povo e como porta-voz carismático ou como intérprete deduz, codifica e anuncia novos conteúdos ou, no fundo, novas interpretações. Afirmar doutrinariamente que Jesus é “o” profeta anunciado pelas Escrituras antigas, conforme o texto de Deuteronômio 18, torna Jesus amálgama de tradições distintas. Há uma centralização, uma condensação teológica. Há também um fechamento, uma “finalização” que pode funcionar como princípio dinâmico de constante revisão de tradições e doutrinas. Assim como na tradição do povo judeu sempre houve alguém a assentar-se na cadeira “institucional” de Moisés, também na tradição cristã há essa tendência. No mundo católico, claro, o papa assume tais funções. No mundo protestante ou evangélico, sempre há teólogos que, embora não explicitamente, na prática funcionam como fontes reguladoras. Até certas doutrinas derivam de tais interpretações teológicas. Há, pois, uma dinâmica. Nessa dinâmica, Jesus como amálgama de profeta, messias, legislador e hagiógrafo funciona como elemento crítico e como critério. Tudo o que se disse e se diz deve e pode ser revisto criticamente a partir do próprio Jesus. Na pregação, considero importante fazer alusão a essa dinâmica. Claro, Jesus é para nós “o” profeta. Mas na história da igreja e das comunidades lidamos sempre com figuras que funcionam como dedutoras de novas mensagens e também novas regras. Todas e tudo precisam ser sempre revistos e revisitados à luz de Jesus e de seus ensinamentos. No destaque à figura de Jesus como “o” profeta, convém manter uma abertura macroecumênica no sentido de perceber que outras tradições também cultivam uma espiritualidade similar. Assim, no islamismo, Maomé é considerado o “selo” dos profetas. Apesar da firmeza na fé de que Cristo é o profeta e o messias, é importante cultivar uma espiritualidade de tolerância e convivência com outros credos.
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Imagens para a prédica
Sobre profeta “Um profeta nada sempre contra a correnteza; na maioria das vezes, ele é, por isso, uma pessoa solitária e sofredora. O sofrimento é uma das características do verdadeiro profeta” (Kilpp, 1993, p. 72). “Profetas a igreja precisa de um só a cada 50 anos. Agora, de administradores a igreja precisa de centenas por ano” (Kilpp, 1993, p. 72). “Na Bíblia, na esfera religiosa, temos duas figuras importantes: uma é a figura do sacerdote, e a outra, a do profeta. O sacerdote representa os homens perante Deus. Roga o favor divino, suplica o perdão, expressa as demandas, os rogos e as petições do povo para com Deus. Já o profeta funciona
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no caminho inverso: é o representante de Deus perante os homens, é o mensageiro; ele é o embaixador de Deus, que traz a palavra divina, os alertas, as exortações, o conforto e aponta a direção de Deus para o povo. A questão se o profeta prenuncia o futuro não é o que o caracteriza propriamente – ele até prenuncia o futuro, até prediz coisas, mas não é essa a sua função principal. A característica do profeta é que ele é a “voz do que clama no deserto”, uma voz que se destaca, que confronta e traz a palavra do Eterno (Fábio Damasceno in BINGEMER; YUNES, 2002, p. 29). Sentinela, o que resta da noite? O sentinela responde: Ainda é noite, mas a manhã vem chegando (cotejamento de Is 21.11-12). Sobre interpretação continuada e releituras “Quando o Baal-Shem devia resolver algo meio complicado, ia para um determinado lugar no mato, acendia um fogo e dizia... orações – e tudo acontecia como ele havia imaginado. Uma geração mais tarde, quando o Magid de Meseritz tinha que fazer algo parecido, ia para aquele lugar no mato e dizia: O fogo nós não mais podemos fazer, mas as orações nós podemos falar – e tudo acontecia conforme a sua vontade. Uma geração mais tarde, o Rabbi Moshe Leib de Sassow tinha que realizar coisa semelhante. Também ele ia para o mato e dizia: Nós não mais podemos acender o fogo, também não conhecemos mais as meditações secretas, as quais vivificam a oração, mas nós conhecemos aquele ambiente no mato onde tudo isso tem o seu lugar, e isso deve ser suficiente. E era suficiente. Quando mais uma vez, uma geração mais tarde, o Rabbi Israel de Rischin tinha que realizar aquela tarefa, sentava-se na sua casa em uma cadeira e dizia: Nós não mais podemos fazer o fogo, não sabemos mais dizer as orações, não mais conhecemos o lugar, mas nós podemos contar histórias sobre isso” (SCHOLEM, 1957, p. 384).
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Subsídios litúrgicos
Oração de confissão: Deus da vida! Aqui nos encontramos como tua comunidade. Somos pessoas diferentes. Viemos de vários lugares, com sentimentos distintos em nossos corações. Queremos ouvir tua palavra de forma nova para alcançar orientação para nosso viver. Chegamos à tua presença para dizer e confessar que nem sempre depositamos em ti nossa confiança. Deixamo-nos levar por outras propostas e mesmo por aspectos de nossa tradição. Trazemos isso como confissão diante de ti. E pedimos perdão por isso. Concede-nos a tua graça para olhar sempre de novo para Jesus e dele depreender e aprender os ensinamentos fundamentais de nosso viver. Amém.
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Oração de coleta: Senhor Deus! Como comunidade reunida para ouvir tua Palavra e celebrar teu sacramento da comunhão pedimos que venhas derramar abundantemente teu Espírito sobre nós. Sabemos que tu atuas livremente neste mundo, fazendo o teu Espírito agir onde tu queres, salvando, curando, profetizando, ensinando, formulando novas orientações. Atua assim também conosco. Faze-nos ser comunidade que segue os teus passos proféticos. Em nome de Jesus. Amém.
Bibliografia BINGEMER, Maria Clara L.; YUNES, Eliana (org.). Profetas e profecias. Numa visão interdisciplinar e contemporânea. Rio de Janeiro: Editora Puc Rio; São Paulo: Loyola, 2002. CRÜSEMANN, Frank. A Torá. Trad. Haroldo Reimer. Petrópolis: Vozes, 2002. KILPP, Nelson. 4º domingo após Epifania. In: Proclamar Libertação. V. XIX. São Leopoldo: Sinodal, 1993. p. 67-72. MIRANDA, Evaristo Eduardo de; MALCA, José Manuel Schorr. Sábios fariseus. Reparar uma injustiça. São Paulo: Loyola, 2001. SCHOLEM, Gershon. Die jüdische Mystik in ihren Hauptströmungen [A mística judaica em suas linhas principais], Frankfurt, 1957.
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5 O DOMINGO APÓS EPIFANIA
PRÉDICA: MARCOS 1.29-39
08 FEV 2009
ISAÍAS 40.21-31 1 CORÍNTIOS 9.16-23
Günter Adolf Wolff
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Introdução
O texto já foi trabalhado por Roberto Zwetsch no PL 28 (p. 87-99). Ele apresenta a dinâmica básica da primeira comunidade cristã: ensino (catequese) – v. 29, que é seqüência do texto anterior, em que Jesus ensina na sinagoga (cf. v. 21); serviço (diaconia) – v. 31; e pregação (palavra) – v. 38-39. A sinagoga é o espaço que Jesus usa para expressar a fé. Depois ele sai para combater demônios, curar, ensinar, pregar, orar, expressar a vida e a realidade e também mudá-las. Jesus vence o mal: doenças e demônios. Suas curas são manifestações do reino e do poder que quer restaurar a vida das pessoas e libertá-las do poder do mal que as domina. Hoje nós somos convidados a participar desse processo de libertação das pessoas do poder do mal, encarnado nas causas que geram a doença, e a lutar contra os poderes demoníacos, representados pelas muitas facetas e manifestações do sistema capitalista, que usa até as igrejas e o evangelho de Jesus Cristo para se perpetuar. É nesses gestos de libertação que vai se revelando que Jesus é o Messias, o Filho do Deus vivo. Hoje não precisamos mais esconder que Jesus é o Messias que liberta e luta contra o poder do mal. Hoje Jesus convida seus discípulos e discípulas para sair de suas casas e participar da pregação e construção do reino de Deus, que inclui a luta contra os demônios modernos: a essência do mal – o capitalismo, que é a causa da maioria das doenças e que está pronto para acabar com a vida no planeta Terra por meio do aquecimento global. 1.1 – Leituras A libertação, por parte de Deus, do sofrimento, da doença e da escravidão perpassa os três textos. Isso precisa ser anunciado. Isaías 40.21-31: O profeta pergunta se o povo já esqueceu o que lhe havia sido anunciado: que Deus é o Senhor todo-poderoso, criador do céu e da terra. Deus dá força aos enfraquecidos. Fala isso aos escravos na Babilônia, que por causa do sofrimento estão perdendo a esperança. Há saída para o sofrimento das pessoas, pois Deus anula o poder dos príncipes e dos juízes, pois são mortais.
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Isaías lembra que os impérios são passageiros; eles sobem e desaparecem, mas Deus permanece, assim como permanece seu projeto de vida plena e livre. Deus vai fazer desaparecer o sofrimento que a realidade impõe às pessoas. Deus dá força para resistir na opressão e contra a opressão, pois ela não é eterna, mas passageira. 1 Coríntios 9.16-23: “Ai de mim se não pregar o evangelho!” Esta é nossa tarefa e ela está conforme o texto de Marcos 1.38: “Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim”. O evangelho do reino de Deus exige o trabalho missionário, ele desaloja e desestabiliza. A questão é procurar as pessoas dentro de sua realidade e a partir de sua realidade. Isso exige do missionário humildade e saber fazer análise da realidade, pois o evangelho não se impõe, mas parte da realidade das pessoas. Exige respeito à sua cultura e situação concreta. Ir ao encontro e em busca das pessoas é a exigência do evangelho; nunca com arrogância de quem se sabe salvo, mas com humildade: “Fiz-me fraco para com os fracos, a fim de ganhar os fracos”. Esta é a liberdade cristã: mobilidade, versatilidade e humildade. Buscar as pessoas para que o evangelho as liberte.
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Exegese
2.1 – Ensino O ensino acontece no sábado na sinagoga. Logo após, é realizada a cura da sogra de Pedro. Jesus anuncia o reino por meio de palavras e ações. O papel de Jesus é transformar a realidade, mudando-a pela transformação da mente das pessoas (Rm 12.2) – o ensino – e pela transformação da doença em saúde e vida plena – curas. Jesus ensina através das curas e da expulsão de demônios que o reino de Deus já chegou. A sogra está doente, com febre. Será porque ela se preocupou com o fato de que Pedro resolveu seguir Jesus? Quem vai suprir a família se o genro vai acompanhar o mestre? Será doença psicológica? Não se sabe. Apenas se sabe que, após curada, ela passa a servir a todos os presentes. Jesus ensina e cura nas sinagogas. Usa o espaço religioso, que é parte da causa da miséria, da doença e do sofrimento, pois era aliado do poder romano; era usado pelos romanos para oprimir e calar qualquer resistência; era aparelho ideológico do Estado. Na Antigüidade, a base da sociedade era a religião. O país vencedor colocava nos templos dos vencidos os seus deuses para mostrar quem manda política, econômica, cultural e religiosamente. Jesus começa a transformar essa base religiosa e a subverter essa base religiosa, pois com isso atingia toda a estrutura social, política, cultural e econômica. A religião, a política e a economia sempre estiveram interligadas. Por isso os demônios querem falar e dizer que Jesus é o Messias, pois ele representa um
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perigo para essa sociedade doente. Daí dizem no v. 24: “Vieste para perdernos?”. 2.2 – Cura e serviço “Tomou-a pela mão; e a febre a deixou, passando ela a servi-los.” Isso lembra Marcos 15.41: um grupo de mulheres seguia Jesus e servia (diaconia). A cura é a nova vida que a sogra de Pedro recebe. Contato com Jesus traz nova vida e um novo compromisso de servir. A ação de Jesus – a cura – produz pela gratidão o serviço ao próximo, que é a forma do discipulado da mulher (Mc 15.41; Lc 8.3; Jo 12.2; lembra ainda o servir em Mc 9.35; 10.43). Jesus é mais livre do que os rabinos, que diminuíam o serviço das mulheres que serviam a mesa. Deus nos serve, e nós servimos aos outros. Martim Lutero diz que nós somos que nem um cano pelo qual passam as bênçãos de Deus, que são repassadas aos outros. Não somos bacia que retém e acumula tudo o que recebemos de Deus. Jesus pega na mão, toca fisicamente as pessoas – o contato do calor humano e divino cura. Vemos isso nos textos a seguir: Tiago 5.14 diz: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor”. Atos 28.8 diz: “Aconteceu achar-se enfermo de disenteria, ardendo em febre, o pai de Públio. Paulo foi visitá-lo, e, orando, impôs-lhe as mãos, e o curou”. O texto não fala de qualquer pedido para que Jesus cure a sogra de Pedro. Jesus faz isso espontaneamente. Mateus 6.32 diz que Deus sabe do que necessitamos sem que precisemos falar. V. 32 – “À tarde, ao cair do sol”. Está terminando o dia de sábado; as pessoas vêm trazendo os doentes mesmo contra a tradição de não realizar qualquer serviço no sábado (trazer doentes e caminhar muito era considerado trabalho). O povo já está quebrando as tradições e tabus do judaísmo. Lucas 13.14 aponta para essa questão: “O chefe da sinagoga, indignado de ver que Jesus curava no sábado, disse à multidão: Seis dias há em que se deve trabalhar; vinde, pois, nesses dias para serdes curados e não no sábado”. Para os sofridos e oprimidos só há uma saída: o contato com Jesus e o evangelho do reino de Deus. Eles afluem de todos os cantos. Isso quer apontar para o centro da fé e da salvação: Jesus. Antes a doença e os demônios eram o centro de suas existências; agora são Jesus e sua libertação plena. 2.3 – Expulsão dos demônios No v. 33 diz: “Toda a cidade estava reunida à porta”. Cura e expulsão de demônios como ato de justiça, pois a porta da cidade era o local para fazer justiça, o local do tribunal. Com a cura se julgam também as raízes da doença e da possessão demoníaca, pois são afastados e eliminados. Ali, na porta, Jesus não deixa os demônios falarem que ele é o Messias. Somente a ressur-
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reição vai revelar isso. O poder do mal já sabe quem é Jesus. É a luta de Jesus contra o mal. Jesus vence o mal pelas curas, aos poucos, e por fim vence o mal e a morte pela ressurreição. Somos desafiados a combater e calar os demônios, assim como Jesus o fez. Os demônios trazem o sofrimento e a doença, e Jesus traz a cura e a vida plena. Temos que ver quem são os demônios hoje que trazem doença, sofrimento, escravidão e diminuição da vida. Para mim, é a estrutura do sistema capitalista que traz tudo isso e que por isso precisa ser combatida e eliminada. O demônio maior hoje é o sistema capitalista, que precisa ser calado e eliminado. 2.4 – Oração Jesus ora. Jesus retira-se para falar com o Pai para a reflexão e avaliação de sua missão. Martim Lutero usava boa parte do dia para a oração, o que lhe deu forças para enfrentar o sistema dominante da época. Dizia que hoje havia muito trabalho e que por isso precisava dedicar mais tempo à oração. A função da meditação e da oração é preparar-se para a ação concreta de transformação do mundo a partir do evangelho do reino de Deus. A oração tem em vista a ação concreta; não é fuga da realidade. A oração leva-nos ao confronto com a realidade que precisa ser mudada pelo evangelho. A oração motiva-nos para a luta e não para a acomodação e a alienação. 2.5 – Segredo messiânico Esta é uma característica teológica de Marcos: esconder que Jesus é o Messias, pois isso apenas será revelado na Páscoa. Esse Messias só se consegue compreender totalmente na Páscoa com sua ressurreição. 2.6 – Tarefa V. 38 – “Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim” (Lc 4.43 também fala isso). É o desafio da missão. Fé em Jesus como tarefa essencialmente missionária de procurar os outros e anunciar o evangelho do reino de Deus, que confronta o sistema deste mundo que traz doença, injustiça e sofrimento. Não dá para ficar tranqüilo no seu canto, pois a tarefa do reino nos desaloja de nosso comodismo e conformismo. O reino precisa ser tornado visível.
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Meditação A realidade de hoje é apontada pelo texto.
3.1 – Ensino O grande desafio e tema na igreja e no movimento popular e sindical é a formação de lideranças capazes de intervir na história e na realidade para transformá-la. Há uma necessidade urgente de capacitar jovens para que tenham aptidão de intervir na história. O Plano de Ação Missionária da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (PAMI) 2008-2012 coloca a formação como parte principal da evangelização. 3.2 – Não deixar os demônios de hoje falarem Temos uma religião demoníaca no sentido de transformar a fé no Jesus que liberta em ópio do povo (Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel, Karl Marx). Uma religião que dá respaldo à ideologia da classe dominante a serviço do imperialismo. Uma religião que se deixa usar como aparelho ideológico do Estado. Os demônios falam hoje por meio da imprensa conservadora, de programas religiosos da TV e perpassam toda a vida da sociedade. Os demônios falam através das igrejas que entram na concorrência do mercado religioso. O termo “mercado religioso” já é uma aberração e um insulto ao evangelho, pois ali não é Jesus o centro, mas a igreja. Vende-se religião; vende-se Jesus Cristo. Vale lembrar novamente o que Napoleão Bonaparte falou da religião: No que me toca, eu não vejo na religião o segredo da encarnação, mas o segredo da ordem social: A religião empurra a idéia da igualdade para o céu, o que impede que os ricos sejam massacrados pelos pobres. A religião é como uma espécie de vacinação, conseqüentemente uma vacina que sempre beneficia os charlatões e vilões, pelo fato de satisfazer a nossa queda pelo milagroso. Os sacerdotes são mais valiosos do que muitos Kants e todos os sonhadores alemães. Como se pode manter a ordem num Estado sem religião? A sociedade não pode subsistir sem uma desigualdade das riquezas, relativamente, de bens, e a desigualdade das riquezas, relativamente, de bens, não pode subsistir sem a religião. Se uma pessoa morre de fome enquanto que seu vizinho nada em fartura, então lhe é impossível achar uma explicação para essa desigualdade, se não há uma autoridade que lhe diz: Deus quer que assim seja; tem que existir ricos e pobres no mundo; mas na eternidade finalmente tudo será dividido de maneira diferente (CASALIS, Georges. Methodologische Überlegungen zu einer Theologie der Befreiung für Westeuropa. In: Geschichte – Theorie – Praxisberichte. ChristInnen für den Sozialismus 5. ed. Münster, 1992. p. 77).
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Diz no PAMI 2008-2012: A ética de algumas dessas igrejas é baseada na teologia da prosperidade e na batalha espiritual. A “vontade de Deus” é que seus filhos e filhas prosperem na vida, aqui e agora, de modo que toda a prosperidade é bênção de Deus e sinal de fé. Ao mesmo tempo, o crente precisa ser fiel e combater os espíritos do mal que o atrapalham ou o impedem de receber as bênçãos divinas. Deus dá a prosperidade como sinal de sua bênção para o fiel que a mereça participando do mercado religioso e esforçando-se para vencer satanás. Apropriando-se de modos midiáticos de apresentar as suas mensagens, novas igrejas instituem novos modos de ser religioso, onde ser cristão é participar do mercado de produtos religiosos, com características do mercado secular de produtos culturais. Ou seja, comprar um CD de música gospel, ou ler um romance “cristão”, ou, ainda, assinar uma revista feminina religiosa, é o que torna o crente um “verdadeiro cristão”. Como parte das necessidades concretas é forjada pela ilusão da liberdade de escolha, os produtos religiosos nem sempre são tão distintos. O que muda substancialmente é a forma como as pessoas se apropriam deles. Nesse sentido, as pregações procuram falar mais à emoção e sintonizar-se com a cultura do ouvinte, o que não quer dizer, absolutamente, que nas novas igrejas não haja pregações fundamentalmente bíblicas e evangélicas. A emoção e a cultura embutidas no ‘novo’ discurso fazem a diferença.
Temos que calar os demônios dentro de nós (assim como Jesus fez no v. 34: “não lhes permitindo que falassem”), que nos dizem para não evangelizar e não combater o sistema deste mundo mantido por eles. Os demônios de hoje também sabem do poder do evangelho de Jesus Cristo quando anunciado; por isso eles nos ameaçam quando os combatemos. Os demônios estão no meio e dentro de nós. Eles precisam ser expelidos. A igreja está cheia deles. Só o poder de Jesus pode combatê-los. Esse poder nos foi dado no Batismo. 3.3 – Doença Somos um povo doente, atingido por epidemias como o câncer, a dengue e a malária; sem contar os acidentes de trânsito que matam 40 mil pessoas por ano, a maioria jovens. O evangelho quer ir à raiz da doença, da violência que não é somente o pecado humano individual, mas é fruto do sistema capitalista também. Temos saúde e por isso servimos, é automático – é o que nos mostra a sogra de Pedro. O dom da saúde capacita-nos ao serviço. Saúde como dom de Deus para servir ao reino. Ter saúde e não servir é rebelar-se contra o reino e negar a bênção da saúde que Deus nos tem dado.
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3.4 – Diaconia Diaconia é o serviço que prestamos por ter sido salvos por graça e fé. A sogra de Pedro foi curada e começou a servi-los. Nós fomos curados de nossos pecados e por isso servimos à medida que nos engajamos no processo de transformação e combate aos pecados estruturais de nossa sociedade, que geram a doença, a opressão e a exploração, que são o sinal do poder do mal em nosso meio. O oposto da doença (sofrimento) é o serviço ao próximo, que ataca a raiz de todos os males: o capitalismo, que é o instrumento do diabo no meio de nós e que está dentro de nós. 3.5 – Oração Hoje a oração está a serviço da sociedade de consumo, em que as pessoas pedem que Deus lhes conceda dinheiro para consumir. A oração está a serviço do egoísmo, da ganância, do capital. Tem uma igreja em Palmeira das Missões (RS) que tem em cada dia da semana a celebração de um milagre: na segunda, o milagre do carro próprio; na terça, o milagre da casa própria; na quarta, o milagre do dinheiro; na quinta, o milagre da cura da doença, e assim por diante. A fé é usada como alienação e para legitimar a sociedade de consumo e obter os bens cobiçados que o capitalismo oferece. Oração para Jesus é outra coisa: é força para a luta pelo reino de Deus e não legitimação do reino deste mundo. 3.6 – Expectativa messiânica O texto de Marcos contém o segredo messiânico, que para nós hoje aponta para a expectativa messiânica. Um outro mundo é possível de ser construído a partir da fé em Jesus Cristo, em oposição ao capitalismo, conforme aponta o evangelho. Enquanto esperamos o Messias (sua volta), combatemos a religião do capital, que não aponta para o Messias e sua volta, mas usa a fé cristã para abortar a esperança messiânica, tentando convencer-nos de que estamos no fim da história. A esperança messiânica aponta sempre para uma nova história possível que virá com a volta de Cristo. Nem com a volta de Cristo a história termina, mas finalmente começa uma nova história, com a qual sonhamos desde a saída da escravidão no Egito. 3.7 – Tarefa Temos a tarefa de não deixar os demônios de hoje falarem. Lembro do livro “Os demônios vêm do norte”, falando dos movimentos pentecostais e das igrejas midiáticas. Hoje os demônios também usam e abusam do nome de Jesus para solidificar a realidade injusta na qual vivemos. São esses demônios que se apossam da mente das pessoas para reproduzir o sistema deste mundo, inviabilizando a transformação da realidade que o reino exige.
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Jesus não ficou num lugar apenas. O texto aponta para frente, para a tarefa missionária de não se acomodar com a fama e o bem-estar gerados quando se fica apenas entre amigos. O texto desafia a ir como cordeiros para o meio dos lobos e dos demônios (que não são feios e horríveis, mas se apresentam belamente como a única saída para o mundo, como o fim da história e que por isso têm tantos seguidores; a eles nós contrapomos Jesus Cristo e seu evangelho do reino de Deus). Temos a tarefa de proclamar e viabilizar, a partir da fé em Jesus Cristo, o evangelho do reino de Deus, que se põe na contramão do reino deste mundo, que é o sistema capitalista neoliberal globalizado, capitaneado pelos EUA. João 17.9-11,14 coloca essa questão do mundo; Jesus não roga pelo mundo, mas pelos seus. Jesus diz em João 17.14: “Eles não são do mundo”, referindo-se a seus discípulos. Os discípulos e discípulas de hoje têm que ter isso claro: que não somos do mundo (do capitalismo, com suas múltiplas facetas). O problema é que os assim chamados discípulos de Jesus defendem o mundo (capitalismo) com unhas e dentes. É só combater e explicar como funciona o capitalismo na igreja para ver isso pela reação dos membros em querer mandar o pastor ou pastora embora. Sonhar com o novo, olhar e apontar para frente, para longe. Ter um projeto para o Brasil (para a América Latina) como resultado da prática e fé no evangelho. Mudar a realidade que cria a doença, a religião alienante. Viabilizar o serviço como gratidão e compromisso de fé em Jesus. Fé engajada no processo de transformação e não como cimento da realidade de opressão. Temos a tarefa de resgatar a utopia a partir do evangelho do reino de Deus. Sem utopias, não há mobilizações motivadas pela esperança, nem possibilidade de visualizar um mundo diferente, novo e melhor.
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Subsídios litúrgicos
Versículo de entrada: 1 Coríntios 9.16: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!”. Confissão de pecados: Confessamos que somos acomodados e não queremos nos deixar desestabilizar pelo poder do Espírito Santo para anunciar o evangelho de Jesus Cristo, que liberta de todas as opressões. Confessamos que fazemos muito pouco para calar as vozes dos demônios de hoje. Confessamos que somos acanhados e medrosos em anunciar o evangelho do reino de Deus às pessoas. Absolvição: Isaías 40.27-28: Povo de Israel, por que você se queixa dizendo: “O Senhor não se importa conosco, o nosso Deus não se interessa por nossa
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situação”? Será que vocês não sabem? Será que nunca ouviram falar disso? O Senhor é o Deus Eterno, ele criou o mundo inteiro. Ele não se cansa, não fica fatigado; ninguém pode medir sua sabedoria. Kyrie: Pelas pessoas com HIV, que se sentem abandonadas e de fato estão abandonadas. Pelos sem-terra acampados à beira das estradas. Pelos desempregados, que estão passando por dificuldades. Glória: Exaltamos-te, ó Deus, por sempre te colocares ao lado dos que choram e dos que sofrem. Exaltamos-te pela cura que experimentamos após longo período de doença. Exaltamos-te pelo anúncio de teu evangelho, que nos ajuda a libertar os outros de suas escravidões. Oração do dia: Senhor Deus todo-poderoso, que sempre animaste o teu povo a resistir contra todas as opressões que o sistema deste mundo impõe: anima-nos a sair de nossa casa para anunciar o teu poder libertador e participar da luta pelo teu reino de paz e de justiça. Anima-nos com a tua palavra a ouvir agora para nos mostrar que estás conosco e a fortalecer-nos para a caminhada missionária de anunciar e viver o evangelho do reino vivido e anunciado por Jesus, teu Filho. Amém. Intercessão geral da igreja: Pelos doentes e pelos que cuidam de doentes. Pelos governantes, para que governem para todo o povo e não apenas para o pequeno grupo que controla a economia do país. Por todos nós, para que nos animemos a ir ao encontro das pessoas para anunciar-lhes o teu evangelho, que liberta das opressões deste mundo. Pela igreja, para que lute contra os demônios de hoje. Pelas lideranças da comunidade, para que se saibam amparadas na luta contra o sistema deste mundo. Oração eucarística: Prefácio (Ação de Graças) P: Sim, é digno, justo e do nosso dever que, em todos os tempos e lugares, rendamos graças a ti, Deus eterno e todo-poderoso, por Jesus Cristo, nosso Senhor, que enviaste ao mundo para libertá-lo das opressões do pecado, através de sua morte e ressurreição. Por isso, com toda a tua igreja e os coros celestiais, louvamos e adoramos teu glorioso nome, cantando o sempiterno hino: Santo.
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Reatualização (anamnese) P: Graças te damos, ó Deus, por teres escolhido no Egito a classe camponesa escrava como teu povo. Graças te damos por tê-lo acompanhado em sua caminhada, da escravidão para a libertação, em direção à tomada da Terra Prometida e na construção de uma nova sociedade fraterna, solidária e sem classes sociais. Graças te damos pelo envio dos profetas e das profetisas para denunciar as injustiças da classe dominante, alicerçadas na elite de ontem e de hoje, e anunciar o teu projeto de vida digna, fraterna, igualitária e eterna. Graças por teres vindo a nós em Jesus, teu Filho, que libertou os oprimidos, curou os doentes, aceitou e conviveu com os excluídos, chamou todos ao arrependimento e à conversão, proclamando o novo tempo. O teu reino foi provado por multidões de empobrecidos, marginalizados e excluídos, que se reuniram em torno de teu filho Jesus, o Cristo. Os poderosos viram isso como uma ameaça a seu poder econômico, político e religioso. Por isso Jesus foi preso, torturado, condenado, morto numa cruz por nós e sepultado; mas não ficou no sepulcro, e sim ressuscitou no terceiro dia. Após 40 dias, subiu ao céu e, em Pentecostes, enviou o Consolador para nos guiar e iluminar no caminho de teu reino, que tu já nos preparas enquanto ativamente esperamos que retornes em glória no Dia do Juízo final. Nós te glorificamos por continuares hoje no processo de libertação com todos os que choram, sofrem, lutam, são torturados, massacrados, espoliados e excluídos pelo sistema deste mundo ou por pessoas individuais. Queremos proclamar para esses a tua libertação, que já se pode experimentar na comunhão do partir do pão e do fruto da videira aqui e agora e no processo de luta por transformações profundas na vida diária das pessoas e de toda a sociedade. Narrativa da instituição P: 1 Coríntios 11.23-26 Pedido de envio do Espírito Santo (epiclese) P: Envia, ó Deus, o Espírito de vida e de amor, de glória e de poder. O mesmo que falou por Hagar no deserto, por Miriam e Moisés no Egito e no deserto, por Raabe em Jericó, por Débora em Efraim e por todos os profetas e profetisas. Aquele que desceu sobre Jesus no rio Jordão no dia de seu batismo e sobre os apóstolos no dia de Pentecostes. Esse que iluminou Martim Lutero na luta pela Reforma e que continua hoje descendo sobre os discípulos e discípulas de Jesus; para que, partilhando o pão da vida e o cálice da salvação, sejamos preenchidos com o Espírito Santo e nos tornemos, em Cristo, um só corpo; para que o apresentemos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, renovemos a nossa mente constantemente e não nos conformemos com este século. Cantemos: Com: Vem, Espírito de Deus, vem nos consolar. Dá-nos tua força, vem revigorar!
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Intercessões P: Guia-nos, Senhor, a esta festa da alegria, preparada para teu povo em tua presença com os patriarcas e as matriarcas, os profetas e as profetisas, os apóstolos e as apóstolas, todos os fiéis cristãos que nos antecederam e todos os mártires que caíram assassinados pelo aparelho repressivo do Estado por causa de sua luta pela democracia, pela liberdade, pela igualdade e por uma sociedade sem classes sociais, fraterna e solidária, onde a justiça irmanada com a paz flui como um rio perene; onde vivenciamos a unidade em teu corpo. Nessa comunhão vivemos proclamando e anunciando: o teu reino de felicidade já está no meio de nós. Louvor Com: Por Cristo, com Cristo e em Cristo, seja a ti Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória, agora e para sempre. Amém.
Bibliografia DREWERMANN, Eugen. Das Markus-Evangelium. Bilder von Erlösung. Erster Teil. 7. ed. Olten und Freiburg im Breisgau: Walter-Verlag, 1997. SCHWEITZER, Eduard. Das Evangelium nach Markus. In: Das Neue Testament Deutsch, v. 1. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1976. GORGULHO, Frei Gilberto & ANDERSON, Ana Flora. O Evangelho e a Vida. Marcos. São Paulo: Paulinas, 1975.
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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 9.24-27
6º DOMINGO APÓS EPIFANIA 15 FEV 2009
2 REIS 5.1-14 MARCOS 1.40-45
Jorge Batista Dietrich de Oliveira
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Introdução
Neste tempo de Epifania, somos lembrados de que a luz de Deus quer iluminar o caminho de todas as pessoas e de todos os povos, assim como iluminou, curou e transformou a vida de Naamã (2Rs 5.1-14), do homem leproso (Mc 1.40-45) e conduziu Paulo em sua carreira de fé. Deus pode e quer fazer isso conosco. O texto da pregação aparece no Proclamar Libertação volume XI. Lá se vão vinte e três anos. Agora ele aparece acompanhado de duas leituras bíblicas. É preciso fazer uma certa ginástica para relacionar os três textos. A seguir, apresento um breve resumo dos textos indicados. 2 Reis 5.1-14 – Naamã era um grande comandante do exército do rei da Síria e tinha lepra. Precisou sair de seu país e procurar a cura em Israel. Quando finalmente chegou à casa do profeta Eliseu, esse nem ao menos o recebeu. Ao contrário, mandou que um mensageiro dissesse a Naamã que fosse se banhar sete vezes no rio Jordão. Naamã ficou furioso por ser tratado daquela maneira, mas, convencido por seus servos, atendeu a orientação simples do profeta e foi curado. Sem dúvida, o que acontece com Naamã é uma lição de humildade, persistência e fé. Marcos 1.40-45 – Também o homem leproso precisou de muita persistência e fé para chegar até Jesus e clamar pela cura, uma vez que sua condição o impedia do contato social por causa do medo de contágio. 1 Coríntios 9.24-27 – Paulo faz uso da figura das competições atléticas dos gregos para falar da vida cristã. À semelhança do corredor, o cristão deve estar numa atividade constante que o leva para a vitória, apesar da oposição. Isso exige perseverança e esforço incansáveis, os quais são adquiridos através de uma disciplina constante.
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Labor exegético
2.1 – Considerações sobre o contexto maior Quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias, através de alguns da “casa de Cloé” (1.11), sobre a comunidade de Corinto, que fora fundada por
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ele. Recebeu também uma delegação composta por Estéfanas, Fortunato e Acaico (16.17). Havia muitos problemas e muitas tensões em Corinto. A epístola menciona uma série de desafios, aos quais o apóstolo oferece respostas. No capítulo 9, Paulo recorre ao próprio ministério apostólico para dar um exemplo pessoal de renúncia em favor de uma causa maior. Ele renuncia ao direito de ser sustentado pela comunidade, optando pelo trabalho com as próprias mãos, para não criar qualquer obstáculo à proclamação do evangelho. Paulo é um exemplo de quem vive a liberdade radical que o leva a tornar-se disponível e solidário para com todos. Ele fala de seus direitos (9.114), sua recusa em exercer seus direitos (9.15-18), seu serviço a todos os homens (9.19-23) e sua luta para exercer o domínio próprio (9.24-27). 2.2 – Olhando para o texto V. 24 – Correi de tal maneira que o alcanceis. Competições atléticas eram comuns no mundo grego, e os Jogos Ístmicos eram disputados de três em três anos em Corinto. Esses torneios recebiam um grande número de participantes e espectadores, levando-se em consideração o fato de Corinto ser um dos mais importantes centros comerciais e de diversões daquele tempo. Os gregos e os romanos davam muita importância ao atletismo. Por isso Paulo usa a linguagem esportiva para enfatizar a necessidade da determinação e perseverança na carreira da fé. Parece que Paulo gostava dessa figura, pois a emprega também em outros momentos, conforme Filipenses 3.12-14 e 2 Timóteo 4.7-8. Nas competições atléticas, somente o vencedor recebe o prêmio. Por isso os competidores fazem todo esforço possível. De modo semelhante, o cristão tem que forçar todas as fibras para pôr em ação toda a sua energia. Não basta começar a vida cristã: o que importa é prosseguir até o fim (2Tm 2.5; 4.7s). Ficam aqui subentendidos a necessidade de disciplina, a obediência às regras, o treinamento, a determinação, a fidelidade e a constância. Porém, na corrida da fé cristã, todos quantos competem bem e terminam a carreira obtêm a recompensa. V. 25 – Em tudo se domina no grego é um verbo que significa controlar-se, exercer o autocontrole. A forma substantivada significa: autocontrole, disciplina. Agõnizomai significa “esforça-se o máximo”. Ele nos deu a palavra “agonia”, pela qual vemos que se tem em mente um grande esforço. Cada competidor tinha que se submeter a rigoroso treinamento durante vários meses. Era “moderado em todas as coisas”. Todavia, o seu prêmio, caso fosse vitorioso, era uma coroa corruptível (uma grinalda de folhas de pinheiro ou oliveira brava). O cristão tem diante de si uma coroa muito mais valiosa, a saber, uma coroa incorruptível. Paulo parece criticar aqui o testemunho cristão frouxo e sem entusiasmo. Note-se que o atleta nega a si próprio muitos prazeres lícitos. O cristão tem que evitar não somente o pecado definido, mas toda e qualquer atitude que o impeça de alcançar a coroa que dura para sempre: 2 Timóteo 4.8; Tiago 1.12; 1 Pedro 5.4; Apocalipse 2.10.
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V. 26 – Assim luto. No grego original, temos aqui a palavra pukteuo, paralelo de pugme, punho, ou seja, bater com o punho, boxear. Dessa palavra é que se deriva o termo moderno pugilismo e seu derivado pugilista. Paulo faz uso de uma nova figura tirada dos Jogos Ístmicos para deixar claro que ele tem um alvo, uma vitória a conquistar e sabe como consegui-la. Paulo não é como um corredor que não sabe onde está a linha de chegada. Ele não é como um lutador que desfere golpes no ar. O cristianismo de Paulo é decidido. Ele dá tudo para o direto e denodado esforço cristão. V. 27 – Esmurro. Paulo continua aqui sua metáfora atlética, relembrando que os lutadores devem disciplinar o próprio corpo, se esperam sair vitoriosos nas lutas. De igual modo, o cristão deve estar disposto a pôr de lado seus interesses egoístas na busca de seu alvo. Paulo torna-se seu próprio adversário. É como se ele dirigisse os golpes contra si mesmo, visando seu corpo, seus apetites carnais, seus desejos desviados, que queriam derrotá-lo em sua busca pela vitória. “Corpo” equivale aqui ao “velho homem”, à natureza pecaminosa. Paulo descobriu que seu maior inimigo estava nele mesmo. “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo” (Rm 7.18). Comparar essa idéia com as passagens de Romanos 7.18, 23, 24 e Gálatas 5.17. Doulagõgõ é “trazer à escravidão”. Paulo não deixa dúvida quanto ao vigor com que subjuga sua própria vontade. Ele se recusa a ser dominado pelos desejos do corpo. “Não venha eu mesmo a ser desqualificado.” Não significa perder sua salvação. O testemunho do Novo Testamento, bem como o de Paulo, em particular, é que aqueles a quem Deus conduziu a si mesmo através de Jesus Cristo lhe pertencem para sempre. Paulo confiava que absolutamente nada seria capaz de separá-lo do amor de Deus (Rm 8.38-39). O temor de Paulo não era que poderia perder a salvação, mas que poderia perder sua coroa por não satisfazer seu Senhor. Ele temia falhar em sua missão apostólica, sendo desaprovado quanto ao serviço que prestava a Deus, embora jamais pudesse ser desqualificado quanto à sua confiança em Cristo.
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Meditação
Ao escrever para os coríntios, Paulo lembrou-lhes que todos os que competem nos jogos se submetem a um treinamento rigoroso; essa era uma condição inflexível e sem exceções. Ainda hoje é assim. Os atletas dedicam toda a sua vida na busca de mais e mais perfeição dentro da modalidade que escolheram para competir. Os bons atletas têm uma disciplina rígida, procuram não se descuidar em seus treinamentos. Abdicam de certos prazeres, de certas comidas e bebidas. É comum vê-los cansados e esgotados.
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Vimos nas recentes Olimpíadas que, depois que a corrida começa, o atleta não tem condições de olhar para trás. Ele deve avançar para a vitória sem se distrair. Se quiser ganhar o prêmio, seus olhos devem estar fixos no posto onde está o juiz no final da pista. Foi pensando nesse exemplo que Paulo fez a notável declaração: “Uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.13-14). O mesmo acontece na vida do cristão. Também nós precisamos da disciplina. Existem regras e normas a ser observadas. É preciso buscar o contato com Deus a partir do estudo da palavra de Deus, da oração, da comunhão com outros que também amam Jesus e investir nossas energias na missão, levando o amor de Deus a todas as pessoas, especialmente aos mais necessitados. Lembrando que a regra mais preciosa ensinada por Jesus é o amor. Quando pensamos nas disputas dos jogos olímpicos, automaticamente fazemos associação com jovens cheios de vigor. Mas Paulo não está falando apenas aos jovens que têm preparo físico para a competição. Nessa corrida, todo cristão é chamado a ter um alvo para conquistar e deve lutar com todas as suas forças para tornar-se vitorioso. A luta não é para vencer pessoas, mas para vencer os obstáculos que impedem a humanidade de viver a vida abundante que Cristo veio trazer. Nessa luta, não apenas um sai vencedor, mas todos aqueles que aceitam a dádiva imerecida já agora passam a viver como servos e participantes de um novo reino inaugurado por Jesus. E nessa corrida da fé, que começa no Batismo e dura toda a vida, vai mais longe quem está disposto a abdicar dos caminhos fáceis. Quem está disposto a sacrificar sua própria vontade para dedicar seu tempo, seus talentos e seus dons a serviço do reino de Deus. Nós, pessoas cristãs, temos sofrido de um hábito terrível, que nega as bases da fé. Temos nos fechado e vivemos como se o evangelho fosse apenas para nós. Em muitas situações, a diferença entre um clube social e nossas comunidades está meramente na estética. Como igreja, precisamos de ações mais concretas para fora e de menos programas para nós mesmos. E os programas para nós mesmos deveriam servir de capacitação para atuarmos aonde Deus quer chegar. Estamos acumulando energias e “engordando” em vez de exercitar nossos dons na missão, levando o amor de Deus revelado em Jesus às pessoas que ainda não o receberam. É fácil tornar-se acomodado e indisciplinado com o passar dos anos. Será que pensamos que podemos simplesmente desistir de tudo e sair da corrida? Não foi dessa maneira que Paulo se portou, nem os homens e mulheres que serviram a Deus com tanta dedicação. Não estamos prontos. Estamos a caminho e precisamos esforçar-nos como um atleta para alcançar a recompensa. Em nossa caminhada, precisa-
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mos ter o senso de prioridade, sabendo deixar para trás aquilo que impede nossa agilidade e crescimento. Em nossa vida cotidiana, sempre temos metas a serem alcançadas. Sem metas, perdemos tempo, cansamos e ficamos desmotivados. Quando temos um ideal proposto, lutamos para atingi-lo. Nosso alvo é incorporar no reino de Deus a humanidade e compartilhar com ela as dádivas do reino, que são a justiça, a paz e o amor de Jesus. Para isso, precisamos de um bom treinamento, disciplina, respeitar as regras, muita disposição e vontade de lutar, mas sobretudo correr com os olhos firmes, fixos no Senhor Jesus, que nos encoraja e ao mesmo tempo nos confere a vitória.
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Imagens para a prédica Aprendendo com as formigas
Quando eu era criança, gostava de observar as formigas. Ficava horas e horas olhando como elas eram organizadas e como trabalhavam levando o alimento para dentro do formigueiro. Eu gostava também de brincar com elas. Às vezes, colocava um pequeno obstáculo no seu caminho para ver o que acontecia. Elas passavam por cima e seguiam em frente. Então eu colocava um obstáculo maior e outro maior ainda. Sabem o que acontecia? As formiguinhas subiam e desciam pelo obstáculo, sem perder o rumo do formigueiro. Hoje me lembro daquelas formiguinhas que teimavam e persistiam em sua tarefa, apesar das dificuldades que encontravam pelo caminho. Essa lembrança tem me ajudado a lutar e permanecer firme, apesar das dificuldades e frustrações. Deus, em sua infinita sabedoria, equipou as formigas com essa perseverança que supera todos os obstáculos. E o mesmo Deus nos concedeu a inteligência de aprender com elas. Por isso, diante dos desafios do dia-a-dia, tenho me lembrado das formigas. Tenho buscado em Deus a força e o ânimo para continuar lutando.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Senhor nosso Deus, confessamos que muitas vezes transgredimos teus mandamentos e os ensinamentos de teu Filho amado, nosso Senhor Jesus Cristo. Pecamos em pensamentos, palavras e ações, seja pelo que fazemos ou pelo que deixamos de fazer. Não te amamos de todo o nosso coração, nem a nosso próximo como a nós mesmos. Perdoa-nos e ajuda-nos a encontrar a verdadeira alegria em cumprir a tua vontade e a seguir os teus caminhos para a glória de teu santo nome. Bondoso Deus, ouve a confissão de
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teus filhos e de tuas filhas. Livra-nos de todos os nossos pecados para que possamos viver como povo perdoado, disposto a perdoar e a partilhar o que tu nos tens oferecido. Isso te pedimos em nome de Jesus Cristo. Amém. Palavra de absolvição: Quando somos sinceros e confessamos nossos pecados, Deus ouve nossa oração e nos responde. Jesus Cristo diz: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue terá a luz da vida e nunca andará na escuridão” (Jo 8.12). Por isso posso anunciar: os vossos pecados estão perdoados, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Oração de intercessão: Convidar a comunidade a participar da oração, cantando, após cada intercessão, o hino 341 do hinário Hinos do Povo de Deus volume 2. Prece 1: Querido Deus e Pai! Agradecemos-te por tua Palavra, que nos convida a correr a carreira da fé sem desanimar. Agora suplicamos humildemente por tua intervenção junto a muitas situações de sofrimento, angústia e desespero que padecem o teu povo e a tua igreja. Por isso cantemos ao Senhor! Todos: Ouve, Senhor, eu estou clamando: Tem piedade de mim e me responde. Prece 2: Colocamos nossas vidas sob o teu olhar misericordioso. Quantas coisas nos angustiam e nos oprimem. São situações que muitas vezes não estão sob nosso controle e que nos causam sofrimento. Lembramos das pessoas doentes (aqui se podem citar nomes). Esteja consolando, curando e trazendo vida a cada uma dessas. Por isso cantemos ao Senhor! Todos: Ouve, Senhor, eu estou clamando: Tem piedade de mim e me responde. Prece 3: Intercedemos também por nossa comunidade. Faze com que sejamos ainda mais coerentes com a pregação do evangelho de Jesus, teu Filho amado. Ajude-nos a perseverar na fé, na missão e no amor ao próximo sem desanimar. Por isso cantemos ao Senhor! Todos: Ouve, Senhor, eu estou clamando: Tem piedade de mim e me responde. Prece 4: Rogamos por nossa IECLB, suas lideranças, obreiros e obreiras. Para que sintam alegria em testemunhar e viver a fé. Que seu testemunho faça diferença neste mundo tão carente de amor e solidariedade. Por isso cantemos ao Senhor! Todos: Ouve, Senhor, eu estou clamando: Tem piedade de mim e me responde. Prece 5: Intercedemos por nosso país. Quantas situações injustas, violência, descasos, roubos, falta de oportunidades. Transforma o coração de todos, especialmente daqueles que fazem desse estilo de vida algo normal, não se importando com os demais. Por isso cantemos ao Senhor!
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Todos: Ouve, Senhor, eu estou clamando: Tem piedade de mim e me responde. Tudo isso e também aquilo que está guardado em nosso coração colocamos sob o teu olhar, orando em nome do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Amém. Bênção: Neste culto fomos animados a confiar no Deus que está sempre conosco, que nos anima e nos conduz na carreira da fé. E para que possamos retornar às nossas rotinas com esta certeza, Deus nos quer agraciar com sua bênção. Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo nos fortaleça e nos proteja em todos os caminhos de nossa jornada. Que o amor de Deus Pai encha nossas vidas e nos anime na solidariedade e no serviço ao próximo. E que a comunhão do Espírito Santo nos mova à reconciliação e amizade para que em todos os nossos relacionamentos seja celebrada a paz. Assim abençoa-nos o Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
Bibliografia BARCLAY, William. El Nuevo Testamento Comentado. Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1954. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. V. 4: 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios. São Paulo: Hagnos, 2002. COMBLIN, José. As Cartas de Paulo. São Leopoldo: CEBI, 1994. MORRIS, Leon. I Coríntios, Introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova e Mundo Cristão, 1989. QUESNEL, Michel. As Epístolas aos Coríntios. São Paulo: Edições Paulinas, 1983.
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PRÉDICA: MARCOS 9.2-9(10)
ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA
2 REIS 2.1-12 2 CORÍNTIOS 4.3-6
22 FEV 2009
Werner Fuchs Enquanto a igreja dorme na luz, o mundo perece nas trevas. Keith Green
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Desafio
Um Deus que intervém na história através de Moisés, Elias, Eliseu, Jesus, Pedro, Tiago, João, Madalena, Valquíria, Sebastião. A “tocha” passa de um para outro, de uma para outra. Mas, ao contrário da olímpica, a partir de Jesus ela se reparte e multiplica. Milhares de luzes no meio das trevas. Cegueiras do coração e escuridão política, confrontadas com a “imagem de Deus” por excelência. É por isso que a glória de Deus brilha singularmente no rosto de Cristo (2Co 4.6). Marcos 9.2ss constitui de fato o eixo dos três textos. Transcendência na imanência, glória no sofrimento, interpelação para não permanecer nas nuvens. A transfiguração é importante justamente porque remete de volta ao cotidiano, à concretude e ao transitório, agora com uma visão abrangente, histórica, planetária. Estamos às portas da Quaresma. O sofrimento de Jesus, assim como os padecimentos humanos e sociais, não permite escapismos nem reducionismos na espiritualidade. Por isso mesmo a realidade eclesial nos denuncia: cidadania acanhada, sensibilidade política atrofiada, ética inconseqüente, testemunho profético inexistente, solidariedade eventual, sociedade consentidamente desigual, louvores na redoma, santidade sem sacrifício nem aroma (Ef 5.2; Hb 13.15s). Deus entre os pobres não é tema (ao contrário de Jesus, Mt 11.25); participação em política pública, pequena. A transfiguração é antecipação da glória futura para dentro da realidade crua e nua. Descendo do monte é que se gera a transformação no intuito de Deus, de cunho histórico, universal, social. A maioria das pregações, porém, limita-se ao individual, pessoal, sentimental ou, no máximo, inclui o relacionamento familiar. Quando pregadores se aventuram para o mundo social e econômico, acabam na ética individual nesses contextos ou caem no triunfalismo espetacular imediatista. Não respiram os ares da relação entre a humilde serva e o derrubador de poderosos do cântico de Maria (Lc 1.46ss) ou entre o oprimido que alcança justiça e o criador de céus e terra, do Salmo
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146. Antes, fazem rodeios ao se deparar com o termo “justiça” ou identificam diretamente o pobre e humilde com o cristão. Esse conservadorismo poderia ser uma opção ideológica do pregador. Contudo, poucos se decidem de modo consciente por esse posicionamento. Poderia também ser soberba auto-suficiente e seletiva diante da palavra-acontecimento de Deus. Entretanto, mais do que fatores subjetivos, existem causas estruturais. Bons salários e gratificações, popularidade e convívio exclusivo com beneficiários do sistema econômico vedam olhos e lábios. Uma causa pouco considerada é que o pregador sobe ao púlpito todos os domingos. No desejo, válido, de ser concreto, concentra-se no que é factível para ele e os fiéis durante a semana: santidade pessoal, pequenas vitórias na vida familiar. No entanto, lutas por transformação social, direitos humanos, defesa de minorias, segurança alimentar, agroecologia ou preservação ambiental não se constroem em uma semana. Meses de cansativas reuniões e articulações poderão, ou não, dar resultado. Parece que não rendem para o sermão dominical. O imediatismo não se coaduna com a visão magna da dinâmica histórica. Contudo, o episódio da transfiguração impede o recuo ao doméstico-domesticado e obriga a saborear a palavra transformadora universal: “Ouçam-no!” (Mc 9.7). Há surpresas nesse caminho.
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Pesquisa
1 – O ensino sobre o Filho do Homem constitui o contexto (a partir de Mc 8.31 e na seqüência, seu sofrimento – Mc 9.12). A perícope representa uma interpelação, uma exortação, dirigida aos discípulos. Jesus os “toma”, “leva” ao alto do monte, é transformado “diante deles”, e Elias e Moisés “lhes” aparecem. A voz imperativa no v. 7 dirige-se a “eles”. Ouvir é o sinal mais característico do discípulo (Is 50.4). Nesse caso, são ensinados por um episódio fora do comum. 2 – A revelação é dada aos discípulos. Não se trata de uma instrução de Deus a Jesus, p. ex., confirmando seu chamado. Por isso não cabe o paralelo entre a subida ao monte por Jesus e por Moisés, apesar dos elementos semelhantes do imaginário: monte, nuvem, seis dias, voz (Êx 24.15), três acompanhantes, separados dos demais (Êx 24.1), tenda (Êx 33.7), brilho, temor (Êx 34.29s), “Ouçam-no!” (Dt 18.15). O número de três escolhidos repete-se quando há necessidade especial de testemunhas (Mc 5.37; 14.33; cf. 13.3). São vanguarda. Experimentam “em hora antecipada e em alturas solitárias” o que um dia há de preencher todas as terras (Pohl, p. 270). 3 – O que foi metamorfoseado é a “aparência” de Jesus (Lc 9.29). No dia-a-dia de Jesus havia pouco “brilho”, mas poeira, fome, cansaço, perseguição, vida sem pátria e sem proteção. A “casca de humilhação” é visivelmente iluminada pelo que ele de fato é (cf. 2Pe 1.16ss). “Vestes resplandecentes e superbrancas”, mais brancas do que a brancura possível na terra (v. 3), significam “luz sem nenhuma sombra”. É o branco dos seres celestiais
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(Êx 34.29; Dn 7.9; Mc 16.5; Ap 6.2 etc.). Mas é antecipação, ou transparência, “da luz que ele possuía agora, em meio a seu caminho de sofrimento, de forma oculta. O céu está realmente ao seu lado!” (Pohl, p. 271). Além da veste sobrenatural, aparece a companhia celestial: Elias e Moisés (v. 4). Os discípulos os reconhecem, ou seja, recebem uma revelação interior. A companhia desses dois expoentes da velha aliança, servos fiéis e igualmente sofredores, honra e credencia Jesus como Messias. Mais tarde, os discípulos o veriam suspenso entre dois criminosos. 4 – Reações dos discípulos: a) Incompreensão: Pedro sugere fazer uma tenda, porque ficou com medo, perplexo, e não sabia o que dizer (v. 5s). O desejo de ficar ali faz parte da dificuldade de entender a missão de Jesus, que passa pelo sofrimento na vida real (Mc 8.32). A resposta de Deus é a própria nuvem-tenda, o céu que desce. (Em Mc 1.11, a voz foi ouvida “dos céus”; aqui vem “da nuvem”.) A visão passa a ser uma audição reveladora, explicativa. “Ouçam-no” no seu ensino sobre seu padecimento. O próprio Deus está falando por meio dele – por amor ao mundo. b) Guardam silêncio, não dão publicidade à sua experiência “carismática”, para não acabar antes da hora com o ministério de Jesus (cf. Mc 14.61ss). c) Continuam discutindo entre si (por isso incluir o v. 10 na pregação), não sobre ressurreição em geral, mas sobre a do Filho do Homem. Ela pressupõe sua morte. Por ora, não conseguem conceber isso. Porém não se fechar à reflexão é crucial para um salto de qualidade na fé e na ação.
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Reflexão
1 – Que reflexão os freqüentadores de culto fazem sobre si mesmos, sobre sua vida? Será que constroem dicotomias? Ou se contentam com esquemas simplórios? Conseguem relacionar fé e vida numa dimensão histórica, planetária, sociopolítica? A oportunidade gerada pelo texto é excelente. Subir a montanha, fazer um “retiro”, sair do contexto, da rotina, adquirir uma visão panorâmica de si e do mundo, bem como da palavra-acontecimento de Deus. O extraordinário enriquece o comum e o comunitário. O incomum divino credencia a trajetória no cotidiano permeado do divino. A transfiguração de Jesus significa tanto a revelação da transcendência já existente agora como o antegosto da glória futura a ser universalmente revelada no fim dos tempos. No presente, temos nosso ponto de equilíbrio fora de nós mesmos, em Jesus, e na perspectiva histórica somos forasteiros neste mundo (Hb 13.14). Há perigos: acomodar-se, construir tendas no lugar errado. Ou não construir em lugar algum. Na história do cristianismo, o primeiro risco foi maior. O lugar errado nem sempre é nas alturas. Geralmente é um reduto excludente: o lar, o domingo, a teologia “correta”, a “panelinha” cristã, mantras do jargão eclesiástico, instituições poderosas. Há também uma tensão entre a
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missão despojada e desalojada, itinerante, e a omissão ou inconstância que não consolida nada. Em contraposição, descer da montanha significa multiplicação. A tocha não fica na mão de poucos iluminados. Há dificuldades de compreensão, tanto dessa dinâmica entre transcendência e imanência (dificuldade essa causada, não por último, pelo racionalismo iluminista e contra-atacada pelo fundamentalismo “ortodoxo”) como da verdade de que é preciso agir dentro da poeira e sujeira do dia-a-dia para que aconteça o projeto divino. Nas cruzes e encruzilhadas da vida, a percepção do agir de Deus é outra que nas cerimônias dominicais. Por causa dessas dificuldades é preciso dialogar em cima dos fatos, lembrar um ao outro as revelações passadas, refletir conjuntamente sobre o que Deus vai mostrando no meio das lutas. É para isso que está sendo feita a interpelação “Ouçam-no!”. Jesus é referência, ele tem “luz própria”, luz sem nenhuma sombra, como uma lâmpada incandescente. Somos convidados a refleti-lo nos dois sentidos (de reflexão e de reflexo). 2 – Sugestão de roteiro para a pregação: a) Leitura do texto – Mc 9.2-10. b) Transfiguração = Jesus tem “luz própria”. c) Fatos que nos arrancam do dia-a-dia, colocando-nos no “alto do monte”. d) Fatos que nos tiram das alturas e fazem “cair na real”. e) Conseqüências dessa dupla dinâmica. P. ex., louvor pessoal com visão histórica, planetária; percepção da presença de Deus na história: Moisés, Elias etc., antecipação da glória divina para dentro do cotidiano. f) Tentação de ficar ali, nas alturas – resposta de Deus: “Ouçam a Jesus!” g) Dificuldade de entender a antecipação da glória dentro da vida diária de sofrimento, a imanência sendo transparente para a transcendência. h) Risco de não refletir adiante (p. ex., sobre o significado da “ressurreição”, v. 10). i) Esse Jesus com luz própria continua a iluminar o caminho de seus seguidores, para que sejam luzes.
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Imagens
Ilustrações para quê? Experiências de quê? Trata-se de desenhar “momentos” de transcendência na imanência, “janelas” em que o temporal é iluminado pelo eterno, “cenas” em que o enlevo é cortado pelo cotidiano, “abalos” existenciais que expandem o pessoal para dentro do universal e “interpelações” da transformação histórica no meio da caminhada rotineira. Rupturas da vida real, mas sem dicotomias. Complementaridade aberta para o divino. Cidadania do reino. Eis algumas tentativas:
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Último Domingo após Epifania
1 – A menina portadora de deficiência mental passa por um período de surto psicótico. Medicações pouco ajudam. Parece endemoninhada. Mãe, avó, familiares angustiados. Por alguns momentos, fica lúcida. Aí canta um corinho, aprendido há anos e aparentemente esquecido: “Sou uma florzinha de Jesus...”. Consolo e força para a família. Deus está com ela. 2 – O casal assiste a um interessante e instrutivo programa na TV, talvez sobre convivência familiar, educação de filhos (coisa rara). De repente, o bebê de oito meses acorda e chora. Pede fraldas limpas, mamadeira. Os pais gostariam de continuar na frente do televisor, mas “decidem” atender a criança. Quando retornam, o programa já acabou. Mas sabem que o que fizeram por necessidade banal valeu a pena. 3 – A moça formou-se na faculdade. Já trabalhava, agora consegue um bom aumento. Decide comprar seu primeiro carro, zero km, financiado a perder de vista. Felicidade. Realização pessoal. Faz uso responsável. Durante um desses engarrafamentos gigantescos na metrópole, tem um lampejo de “consciência planetária” e dá-se conta da irracionalidade, do desperdício e da degradação ambiental que o automóvel representa. Passa a praticar alternativas mais saudáveis. Adere a um movimento de preservação ambiental. 4 – Passeatas, protestos coletivos, acampamentos representam algo como um “batismo”. Depois deles, ninguém volta a ser o que era antes. Expansão da consciência. Percepção da força coletiva, até mesmo em aparentes derrotas. “Deus está mesmo com esse povo lutador!”
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Subsídios para o culto
Penitência: A realidade eclesial nos denuncia. Cidadania acanhada, Sensibilidade política atrofiada. Ética inconseqüente, Testemunho profético inexistente. Solidariedade eventual, Sociedade consentidamente desigual. Louvores na redoma, Santidade sem sacrifício nem aroma. Deus entre os pobres não é tema, Participação em política pública, pequena. Oração após a mensagem: Senhor, Deus do universo e da história, ajuda-nos a te perceber, ajudanos a te ouvir, ajuda-nos a reconhecer tua revelação em Jesus Cristo. Para que ele nos transforme, para que ele nos envie, para que nos ajude a ficar com os pés no chão, para que ele esteja conosco nas lutas por transformação pessoal e social, na certeza da tua glória presente e vindoura! Amém.
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Último Domingo após Epifania
Bibliografia BOBSIN, Oneide. Auxílio Homilético sobre Mc 9.2-9. In: HOEFELMANN, V. e SILVA, J. M. da. Proclamar Libertação, v. 28. S. Leopoldo, 2002. p. 108-114. POHL, Adolf. Comentário ao Evangelho de Marcos. Curitiba: Esperança, 1998.
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PRÉDICA: ISAÍAS 58.1-12
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
MATEUS 6.1-6,16-21 2 CORÍNTIOS 5.20b-6.10
25 FEV 2009
Michael Kleine
1
Introdução
A Quarta-Feira de Cinzas marca o início da Quaresma. Na igreja antiga, esse era um tempo de preparação intensiva para as pessoas que desejavam ser batizadas, marcado por exorcismos (libertação do poder dos ídolos) e pela prática do jejum. Os candidatos e candidatas ao batismo eram submetidos a um caminho de penitência, que visava libertá-los dos laços mundanos que impedem o desenvolvimento da fé. Perguntava-se a eles se eram sensíveis à dor de outros e a quem eles ajudaram em suas necessidades. Arrependimento, batismo e mudança de vida andam de mãos dadas. O “jejum agradável a Deus” é o tema do texto de Isaías e da leitura do evangelho. A Quaresma lembra-nos de que a vida do cristão é, toda ela, tempo de preparação para a vinda do Senhor. Essa preparação implica disciplina externa – o exercício consciente que visa adequar o corpo e os hábitos às coisas divinas – bem como o auto-exame, o arrependimento e a confissão de pecados. Tudo isso para que não recebamos em vão a preciosa graça de Deus (2Co 6.1).
2
Exegese
Isaías 56-66 é uma coleção de textos anônimos que parecem refletir a situação da comunidade judaica pós-exílica. Apesar da diversidade de temas e estilos que encontramos nessa coleção, é possível reconhecer temas-chave que conectam as diferentes partes entre si e os cap. 56-66 com o restante do livro (cap. 1-39 e 40-55). A coleção inicia (56.1) com um dos principais temas do livro de Isaías: a relação entre a justiça divina – entendida como “salvação” – e a justiça humana – entendida como obediência aos mandamentos de Deus. Esse também é o tema de 58.1-14. O pano de fundo histórico dos cap. 56-66 é a época de reconstrução da comunidade após o retorno dos exilados da Babilônia. Transparece nos textos a profunda decepção com as dificuldades encontradas no retorno à antiga pátria. Violações contra o direito e a ordem cúltica da comunidade, conflitos entre diferentes grupos religiosos e conflitos sociais geram resignação e levantam a dúvida a respeito da força de Deus e de sua capacidade em ajudar seu povo. Os cap. 58 e 59 respondem a essa dúvida, afirmando que é o pecado do povo que impede a ajuda de Deus (cf. 58.3s; 59.1s).
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Quarta-feira de Cinzas
V. 1 – O profeta é incumbido de agir como sentinela que alerta o povo para o perigo iminente. A função da trombeta é dar o alarme (cf. Am 3.6a). O profeta deve alertar o povo para o perigo que corre por causa de sua conduta errada (Is 59.16-18 mostra que a vinda de Deus traz juízo e castigo a seus inimigos, dentro e fora de Israel; cf. Ez 33.1-9). Denúncia pública do pecado é função primordial do profeta (cf. Mq 3.8). A atitude e a conduta do povo são qualificadas como criminosas: quem comete “transgressão” rompe com Deus, rouba o que lhe pertence. O caminho escolhido é o caminho errado. – A missão do profeta é chamar ao arrependimento e à conversão, apontando para o caminho certo. V. 2 – Descreve a prática religiosa do povo como sendo (aparentemente) correta. As pessoas vão até Deus em seu santuário, em busca de ajuda e orientação. Cumprem suas obrigações religiosas. A relação com Deus parece estar em ordem. V. 3a – Confiando em sua prática correta, o povo lamenta a falta de ajuda da parte de Deus. Menciona, especificamente, a prática do jejum, que não era apenas uma abstinência individual, mas um ritual público de penitência (ver a descrição no v. 5), realizado no santuário em ocasiões preestabelecidas (cf. Jl 2.12-17; Zc 7). O povo questiona: Deus não percebe a seriedade e a retidão de nossa prática? Ao questionamento do povo seguem várias respostas da parte de Deus. A primeira resposta (v. 3b-4) mostra a incongruência entre a prática ritual e a conduta diária do povo. A condução da vida revela que, em primeiro lugar, estão a busca dos próprios interesses/negócios. Essa busca egoísta inclui o uso da violência, a exploração dos trabalhadores e gera conflitos diversos, impedindo que o clamor seja ouvido por Deus. A segunda resposta (v. 5-9a) questiona a própria prática do jejum, da mesma forma que outros profetas criticaram a prática do sacrifício (cf. Am 5.21-25; Is 1.12-17; Mq 6.6-8). Deus ordena uma forma alternativa de jejum coletivo: prioridade é a libertação de pessoas que se encontram sob qualquer forma de coação/opressão (v. 6). A terminologia usada no v. 6 focaliza a libertação de agricultores e agricultoras empobrecidos, que se encontram numa situação de dependência por ter contraído dívidas. A servidão por dívidas – em que a família camponesa perde suas terras e é obrigada a servir ao credor por não conseguir saldar suas dívidas – era o principal problema social da época (cf. Ne 5.1-5). O empréstimo a juros altíssimos era um mecanismo eficaz usado pelos mais ricos para manter os mais pobres dependentes: “O rico domina sobre os pobres, o que toma emprestado é servo do que empresta” (Pv 22.7). Além de romper essa dependência, cancelando dívidas e devolvendo propriedades, era preciso ajudar os mais miseráveis (v.7). V. 8-9a – A prática do verdadeiro jejum assegura a presença de Deus no meio do povo (“Eis-me aqui”), trazendo luz e cura para suas feridas. A “justiça” do povo (= andar em obediência aos mandamentos/à lei/Torá de Deus, cf. 64.5; 51.7; 42.21,24) abrirá caminho para um novo tempo. O próprio Deus garante a segurança na retaguarda.
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Quarta-feira de Cinzas
Finalmente, a terceira resposta (v. 9b-12) combina as duas anteriores. O v. 9b retoma as críticas dos v. 3b-4. O v. 10a, que está na mesma linha do v. 7, permite relacionar a prática da ajuda/solidariedade com a prática do jejum: “se ofereceres ao faminto a tua alma/vida” ou “se te privares para o faminto” – essa é a forma de jejum/sacríficio que agrada a Deus. Jejuar é uma forma de autolimitação, de auto-restrição e de renúncia. Limita-se a satisfação das próprias necessidades a um patamar mínimo, abrindo mão de todo o resto. No jejum agradável a Deus, o sacrifício vai em favor do necessitado. P. ex.: libertar o escravo, cancelar sua dívida e devolver a ele sua antiga propriedade certamente trará prejuízo financeiro ao credor que lucrava com essa situação. Renunciar a privilégios é bem mais do que dar daquilo que está sobrando. É mexer em estruturas sociais injustas, que estão causando a dependência de uma parcela da população. A promessa ligada ao cumprimento dessas obras de justiça e misericórdia (v. 10b-11) reforça os v. 8-9: a luz vence as trevas, Deus guiará continuamente e providenciará o milagre da fartura e da renovação das forças. A “lógica econômica” de Deus funciona diferente: quem abre mão do que tem e dá aos outros pode contar com fartura (ver 2Co 9.6-15; Mt 6.33). O v. 12 concretiza a promessa de salvação e mostra a situação em que Jerusalém se encontrava: a cidade será reconstruída, suas ruínas serão reerguidas. Enquanto cada qual buscava sua própria prosperidade, sobravam conflitos, desigualdade e miséria e faltavam recursos e disposição para reconstruir a cidade. A generosidade pode reverter essa situação – com a ajuda de Deus.
3
Meditação
A pregação do profeta procura responder ao questionamento vindo do povo: “A situação está muito difícil. Nós estamos fazendo tudo direitinho, cumprindo nossas obrigações religiosas, fazendo aquilo que Deus espera de nós. Mesmo assim, Deus não nos escuta, ele não quer nos ajudar em nossa miséria. Ele não percebe nosso esforço?”. O povo entende que, de sua parte, está tudo em ordem na relação com Deus. Não deveria haver, segundo esse raciocínio, tantas dificuldades. Para a pregação, podemos partir dos problemas concretos enfrentados na comunidade. Quais são as queixas e os questionamentos dos membros e das lideranças nas comunidades? “A igreja/comunidade vai mal.” “A participação está diminuindo. São sempre os mesmos.” “Com o aumento da inadimplência, a situação financeira está crítica. Temos que cortar gastos.” “A gente dá um duro pela comunidade e só ouve críticas.” “A gente se esforça, investe tempo e energia e, mesmo assim, a situação da comunidade não melhora.” Mesmo que a pergunta pela ajuda de Deus não esteja explícita, devemos levar a sério os questionamentos feitos e propor aos ouvintes da prédica a reflexão que Isaías 58 faz.
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Quarta-feira de Cinzas
Isaías 58 surpreende seus ouvintes. Eles estão convictos de estar obedecendo à vontade de Deus (cf. v. 2-3a). É Deus quem não reconhece isso, dizem eles. Não, diz o profeta, não é Deus que não escuta ou não vê. São os vossos pecados que criaram um abismo entre vós e vosso Deus (cf. 59.2; 58.1,3 e 4). Segundo os autores de Isaías 56-66, o pecado do povo impede que sua oração seja ouvida por Deus. É preciso enfatizar que não se trata de alguns desvios de conduta, mas a relação com Deus está comprometida num ponto central. Isso faz com que a justiça de Deus, que está prestes a vir (cf. 56.1), tenha uma dupla eficácia: ela virá como juízo para os que permanecem no pecado (cf. 59.15b-19) e como salvação para os que se arrependerem e converterem (cf. 59.20). O profeta é incumbido de soar o alarme e avisar o povo do perigo que corre (58.1). Ele convoca ao auto-exame, ao arrependimento e a uma mudança de atitude. Isaías 58 aponta para o pecado concreto, que está destruindo a relação com Deus. O texto mostra que há uma incongruência entre a prática religiosa do povo e sua prática cotidiana. Em termos de culto, o povo cumpre suas obrigações: vai ao templo, participa das cerimônias religiosas (jejum), procura a orientação de Deus (v. 2). Mas fora do templo predominam os conflitos, a violência e a exploração. No dia-a-dia, cada um corre atrás de seus próprios interesses e negócios (v. 3; cf. v. 13). Essa corrida louca, esse “cada um por si e Deus por todos”, leva ao desprezo pela vida dos outros. Esse desprezo se traduz em ações e omissões, tais como: os trabalhadores são explorados (v. 3), predominam conflitos, rixas e violência (v. 4); situações injustas de dependência (“jugo”), dedos sendo apontados e injúrias sendo proferidas (v. 9b). Especialmente crítica é a atitude dos mais fortes em relação aos mais fracos. Pelo que podemos deduzir do texto, essa atitude vai da indiferença dos mais fortes em relação à miséria dos mais fracos (cf. v. 7: “esconder-se de seu semelhante”, não se sentir responsável por ele) até a exploração econômica pura e simples (cf. v. 3 e 6: servidão por dívidas). O pecado aqui consiste em achar que Deus não tem nada a ver com as relações sociais. Agindo dessa forma, limita-se a esfera de poder de Deus ao templo e aos rituais religiosos. Isso é grave, é crime (cf. v.1), pois se rouba de Deus o direito de determinar o que acontece fora do templo. Há um conflito claro entre seguir seus próprios interesses, de um lado, e, de outro, seguir os caminhos estabelecidos por Deus (cf. v. 2). E Deus estabeleceu que a vida de todas as pessoas é sagrada e deve ser tratada como tal (cf. Lv 19.11-18; Dt 15.7-9). No Sermão do Monte, Jesus estende a abrangência do quinto mandamento (“Não matarás”) a tudo o que pode ameaçar ou prejudicar a vida de alguém. O ódio, o insulto e a palavra maldosa dirigidos a outro revelam desprezo e ameaçam a integridade de sua vida. Quem age dessa forma, conforme Jesus, será tratado com o mesmo rigor que o homicida (Mt 5.21-26; esse trecho é uma boa alternativa ao evangelho proposto para este dia). Segundo a interpretação que Lutero dá ao quinto mandamento, devemos ajudar o próximo “em todas as necessidades da vida”. Não ajudar, portanto, revela desprezo e contribui para a diminuição de suas chances de vida.
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Quarta-feira de Cinzas
Mas Jesus continua. Ele diz que aquela pessoa que se tornou culpada em relação à vida do irmão ou irmã não pode chegar ao altar de Deus. Culto e vida, culto e relação com o próximo, serviço a Deus e serviço ao semelhante estão intimamente ligados. Dietrich Bonhoeffer tira as conseqüências: Quem se irar contra o irmão, quem lhe proferir um insulto, quem o injuriar publicamente, quem o difamar, é homicida e já não subsiste perante Deus. Distanciando-se do irmão, distancia-se de Deus. Já não há acesso a Deus para ele. Seu sacrifício, seu culto, sua oração já não poderão agradar a Deus. Para o discípulo de Jesus, culto e serviço não podem estar separados... Desprezo do irmão rouba ao culto sua credibilidade e toda e qualquer promessa. (...) Enquanto são negados ao irmão o serviço e a caridade..., a oferta é rejeitada. (...) Examine-se, pois, a igreja dos discípulos de Jesus para ver se não se tem tornada culpada em irmãos aqui ou acolá... Examine-se... ao reunir-se em oração e culto, para ver se não se interpõem entre ela e Deus muitas vozes acusadoras, frustrando-lhes a oração. Examine-se... para ver se ela deu aos rejeitados e desonrados pelo mundo um sinal daquele amor de Jesus, amor que quer conservar, carregar, proteger a vida. Deus não quer ser separado do irmão; não quer ser honrado enquanto um irmão é desonrado (p. 73; grifo meu).
São palavras muito claras. Deus quer determinar todos os aspectos da vida de seu povo. Por isso ele ordena uma nova forma de jejum. De uma maneira geral, o jejum é um exercício de auto-restrição, em que o indivíduo abstém-se de certos prazeres visando concentrar forças/energia/dedicação para alcançar um melhor desempenho em outra área. É uma forma de disciplinar e dominar os próprios pensamentos e instintos na busca de um alvo colocado. No caso do jejum, o indivíduo abstém-se de ingerir temporariamente alimentos com o objetivo da purificação, da preparação para algum acontecimento, na intenção de influenciar a divindade ou como forma de expressar penitência e luto (como parece ser o caso em Is 58). Conforme Isaías 58, o “jejum”, ou seja, a renúncia voluntária que agrada a Deus é aquela que se exercita em benefício de outras pessoas. Deus espera de seu povo desprendimento, generosidade, disposição para abrir mão do que tem em favor dos necessitados. Num país como o Brasil, não é preciso procurar muito para encontrar pessoas que precisam de ajuda. O melhor é começar pelas imediações da comunidade e de cada membro: na rua, no bairro, no local de trabalho/estudo, no município. É importante lembrar que Isaías 58 fala da ajuda material direta (alimentar, vestir, abrigar), mas também de situações em que é preciso acabar com relações de opressão, exploração e injustiça (v. 6). Quanto a esse último ponto, cada qual precisa examinar se está tirando (diretamente) proveito da fraqueza e/ou dependência de outro, como por exemplo através da exploração econômica. Por outro lado, indivíduos e a comunidade como um todo devem colocar-se ao lado de organizações populares que se empenham pela melhoria das condições de vida do povo. Nossa contribuição para uma sociedade mais justa pode começar através da influência sobre a opinião pública, que normalmente desqualifica essas organizações como “grupos de baderneiros”, que querem tirar proveito do “trabalho honesto” de outros. O texto não diz isso explicitamente, mas a disposição de renúncia em favor de outros é um sinal de fé e confiança. No texto, essa relação entre fé e
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Quarta-feira de Cinzas
renúncia aparece como promessa: “Se tu te privares para o faminto (implícito: confiando na ajuda de Deus)... Deus te assegurará fartura” (v. 10 e 11). Jesus faz uma promessa semelhante: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33; ver também 2Co 9.6-15). As lideranças das comunidades geralmente estão muito empenhadas em favor das finanças: arrecadar mais e gastar menos. Esse empenho é louvável, pois demonstra preocupação com a sustentação do trabalho da igreja. Por outro lado, essa preocupação leva, muitas vezes, a não ajudar pessoas, grupos ou comunidades que passam por dificuldades maiores. Nossa preocupação com a saúde financeira da comunidade fecha nossos olhos (e o bolso) para as necessidades dos miseráveis. Caberia a pergunta: Será que nossa atitude – a preocupação com a manutenção da comunidade e o conseqüente descuido em relação às necessidades ao nosso redor – não é a causa de nossos problemas? Isaías 58 convida-nos para o auto-exame. Alerta sobre o perigo que é para uma comunidade cristã ficar fechada em si mesma, escondendo-se daqueles que clamam por ajuda. Essa atitude pode estar afastando a comunidade da presença graciosa de Deus, atraindo para si a ira e o juízo (cf. Mt 25.3146). Deus chama ao arrependimento e aponta caminhos para uma nova relação com ele e com o semelhante.
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Imagem para a prédica
Uma conclusão que podemos tirar de Isaías 58 é que toda a graça e benefício que recebemos de Deus querem ser passados adiante. Se isso não acontece, aquilo que era benefício pode transformar-se em prejuízo e juízo. Isso vale para as dádivas da fé, o perdão, Batismo, Santa Ceia e todos os bens recebidos de Deus (materiais ou imateriais). A graça recebida deve tornar-se produtiva para o outro, senão é graça recebida em vão. Reproduzo uma idéia de Hans Schönweiss, que ilustra o que foi dito da seguinte forma: Aqui devemos reconhecer uma lei básica do reino de Deus: O que não dás adiante perdes novamente. Se guardares para ti o que recebeste de presente, Deus não poderá mais abençoar. Seca a afluência de cima, tudo o que já tinhas escapa de tuas mãos. Não será esse o motivo de tanto vazio e tanta aridez em nossa vida espiritual? Para que a água de um lago permaneça fresca, ele precisa de afluência e escoamento. Caso contrário, ele em breve se torna um charco pantanoso, cuja água não mais proporciona refrigério a ninguém (p. 11s.).
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Subsídios litúrgicos
A época da Quaresma e, especialmente, a Quarta-Feira de Cinzas são propícias para a celebração da Penitência Comunitária (veja Celebrações do Povo de Deus, p. 30-32). Seguem alguns subsídios:
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Quarta-feira de Cinzas
1. Hinos do Povo de Deus n. 197 2. Oração: Mostra-nos, Senhor, como somos de fato. Abre os nossos olhos e o nosso coração. Dá-nos a conhecer a tua vontade e o quanto estamos longe de cumpri-la. Revela aquilo que tentamos esconder de ti, dos outros e de nós mesmos. Amém. 3. Leituras bíblicas 4. Prédica 5. Hinos do Povo de Deus n. 150 6. Penitência: P: Senhor Jesus, teu temor, teu amor e tua confiança em Deus te levaram a buscar, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, na certeza de que nada te faltaria. O nosso medo do futuro e a nossa falta de confiança nos fazem buscar, em primeiro lugar, segurança e garantias para nossa vida. O teu culto a Deus consistiu na obediência pura e simples, em todos os passos que deste. Nosso culto geralmente tem pouco a ver com nossa vida e com as opções que fazemos. Tu amaste a vida até dos teus assassinos. Nós fazemos pouco caso de todos os que não nos bajulam. Tu deste a tua vida em favor dos que te desprezam. Nós esperamos que os outros vivam em função de nós. C: Hinos do Povo de Deus n. 50,2 (recitar ou cantar) P: Tu nos ensinaste a dar do que temos a quem nos pede (Mt 4.42). Ao invés disso, nunca estamos satisfeitos com o que temos e sempre sentimos falta de algo. Se alguém nos pede algo, logo achamos mil razões para não dar. Teu amor permanece em nós, quando damos nossa vida pelos irmãos e irmãs (1Jo 3.16). Mas, geralmente, estamos ocupados em preservar nossa vida e não arriscamos nada. Às voltas com a nossa vidinha, não nos damos conta de que, querendo salvá-la, vamos perdê-la (Mc 8.35). C: Confissão conjunta cf. Catecismo Menor, Quinta Parte, “Breve forma de confessar os pecados”. P: Absolvição Hino de Louvor: Hinos do Povo de Deus n. 155 Pai nosso... Bênção
Bibliografia KESSLER, Werner. Gott geht es um das Ganze. Jesaja 56-66 und 24-27. Stuttgart: Calwer, 1960. (Die Botschaft des Alten Testaments; 19). SCHÖNWEISS. Comunidade, comunhão, fraternidade. São Leopoldo: Sinodal, 1971. BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. 3. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1989.
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1º DOMINGO NA QUARESMA
PRÉDICA: MARCOS 1.9-15
01 MAR 2009
GÊNESIS 9.8-17 1 PEDRO 3.18-22
Eloir Enio Weber
1
Introdução
A primeira impressão não foi a que ficou. Que bom! Preciso dizer que minha primeira impressão foi a de um texto com muitos assuntos e que seria muito difícil traçar uma linha de pensamento sem se perder nos diferentes aspectos do mesmo. O texto de pregação (Mc 1.9-15) é uma junção de três episódios narrados sobre a vida de Jesus: o batismo, a tentação e o início do ministério. Portanto um texto em que o pregador precisa ter cuidado para não disparar em todas as direções e a comunidade sair se perguntado: “Sobre o que mesmo o pastor quis falar hoje?”. Mas, como falei no início, a primeira impressão não se manteve, pois o texto revelou uma unidade e uma linha de pensamento bem interessante, que nos quer tomar pela mão e auxiliar a proclamar o evangelho de Cristo neste primeiro domingo da Quaresma. Os textos de leitura indicados convergem para o texto da pregação. Gênesis narra o fim do dilúvio, em que Deus faz um acordo com Noé, sua família e todos os animais da Terra. O arco-íris é o sinal desse acordo. A luta contra o poder do mal exigiu de Deus medidas drásticas. O dilúvio é uma amostra disso. No entanto, nada se compara ao que Deus fez pela humanidade e pela criação toda, fazendo o último e eterno acordo com a criação ao tornar-se humano em Cristo, cujo início do ministério é retratado pelo texto do evangelho e que, ao morrer na cruz, derramou seu precioso sangue para nos libertar. O período da Quaresma que estamos iniciando quer exatamente apontar para esse evento central da fé: a cruz e a ressurreição. O tema central de 1 Pedro é o evento da cruz. Cristo morreu por nós para nos salvar e redimir dos pecados. Ele ressuscitou para que nós também pudéssemos ter a esperança da nova e eterna vida. Faz referência ao dilúvio e compara a água do mesmo ao Batismo: assim como o dilúvio varreu (não de forma definitiva) o pecado, a água do Batismo quer nos lavar, tornar-nos limpos diante de Deus e nos salvar. O início do ministério de Jesus aponta para o objetivo de Deus em Cristo: chamar ao Batismo, ao arrependimento, para nos salvar por meio da morte e ressurreição de Jesus Cristo, pois o “tempo está cumprido”. Temos, portanto, o cerne do evangelho para anunciar neste primeiro domingo da Quaresma.
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1O Domingo na Quaresma
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Exegese
2.1 – O Evangelho de Marcos Inicialmente, o Evangelho de Marcos não ganhou a importância teológica e literária que ele realmente tem. Isso aconteceu porque nele há pouco material exclusivo, ou seja, que não apareça em Mateus e Lucas. No entanto, a partir do século XIX, ganhou força a tese de que o Evangelho de Marcos é o documento bíblico mais antigo que possuímos sobre a vida e a obra de Jesus. A idéia de que ele foi básico para os escritos de Mateus e Lucas despertou um grande interesse por estudá-lo. Marcos não dá muita importância às questões biográficas de Jesus. Para ele, o que realmente importa é anunciar com convicção que Jesus, o Cristo, é o Filho de Deus. Isso ele deixa bem claro na afirmação de fé do primeiro versículo: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. 2.2 – O texto No Evangelho de Marcos, Jesus está sempre se deslocando, sempre caminhando. Não é diferente na perícope em estudo: parte dela acontece na Judéia e outra na Galiléia. O texto, na verdade, é a junção de três episódios: o batismo de Jesus no rio Jordão, a tentação de Jesus no deserto e o início da pregação de Jesus na Galiléia. À primeira vista, parece ser muito difícil estabelecer uma unidade entre os três episódios. Aquilo que os une é que através deles Marcos quer mostrar a preparação e o início do ministério de Jesus. Tem, outrossim, a intenção central do Evangelho de Marcos: informar e proclamar desde o início que Jesus realmente é o Filho de Deus (alguns exemplos: 1.11; 1.24; 3.11; 8.29; 15.39). V. 9-11 – Jesus e João encontram-se às margens do rio Jordão. O motivo do encontro: o batismo de Jesus. A iniciativa do encontro parte de Jesus, que veio de Nazaré, na Galiléia. Interessante observar que o ritual que João fazia para as pessoas era o batismo do arrependimento. Mas Jesus não buscou arrependimento no ritual de João. Ele não procurou João porque precisava do batismo para voltar a Deus. Jesus é justo, sem pecado e colocou-se de forma livre e espontânea ao lado e junto dos pecadores. Ele veio como quem está decidido a dar-se em resgate pelos pecadores, por aquelas pessoas que buscam em João o batismo do arrependimento, porque sentem a necessidade de mudança de rumo. Jesus veio para salvar. Ao sair da água, Jesus viu os “céus rasgarem-se”. Céu aberto dá a conotação de que a divindade de Deus está à vista. Em Jesus Cristo, Deus revela sua santidade, seu amor. Cristo levanta-se contra o mal, e o céu fica aberto.
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1O Domingo na Quaresma
Jesus é batizado, o Espírito desceu como pomba e Deus falou. Temos aí a ação da Trindade. No seu ministério, Jesus não está só. Ele age em sintonia e harmonia com o Pai e o Espírito Santo. Jesus é “apresentado” no Evangelho de Marcos junto com a Trindade. No ministério de Jesus, Deus torna-se visível, presente e concreto. Aquele que é apresentado no batismo não é somente o Jesus histórico, que viveu mais ou menos 33 anos. Ali está também o Deus que criou, recria e mantém toda a espécie de vida e o Deus que permanece e dá a fé às pessoas pelos séculos dos séculos. Na união trinitária estabelecida pelo amor é dito: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo”. O ministério de Jesus não é ação isolada; vem alicerçado, aprovado, apoiado e outorgado pelo Pai e pelo Espírito Santo. V. 12-13 – Jesus é levado pelo Espírito ao deserto, onde permanece quarenta dias. É tentado por Satanás e pelas feras; e é cuidado pelos anjos. Nesse texto, chama a atenção o fato de que o Evangelho de Marcos, ao contrário dos outros sinóticos, omite ou ignora o relato detalhado das três tentações. O deserto simboliza um lugar de necessidades, secura, falta de vida. Remete também à caminhada do povo de Deus pelo deserto, fazendo uma ponte entre a libertação na Antiga Aliança e a libertação definitiva na Nova Aliança. Isso é ratificado pelo período de permanência no deserto: quarenta dias. Israel, no entanto, fracassou na prova. Jesus manteve-se fiel à sua missão. Satanás e as feras são poderes contrários ao poder de Deus. A referência às feras traz à memória o ideal messiânico, proclamado pelos profetas, de um retorno à paz duradoura por meio e na companhia de Deus. Os anjos cuidando de Jesus expressam a presença da proteção divina nesse momento de deserto, a saber: tentação, fraqueza, necessidade e, por que não dizer, sentimento de desamparo. V. 14-15 – Esse texto traz as primeiras palavras ditas por Jesus no Evangelho de Marcos. Elas apresentam a chave para interpretar todo o seu ministério. Consiste basicamente em chamar ao arrependimento porque o tempo se cumpriu e o reino está próximo. Em Jesus, Deus entrega-se totalmente. O reino começa a ganhar corpo a partir do amor de Deus, que provoca uma transformação radical na vida das pessoas. No entanto, ele se concretiza com a morte, ressurreição, ascensão e volta de Cristo. Em Cristo, esse reino já está inaugurado e é realidade entre nós.
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Meditação
A perícope convida-nos a olhar para a preparação e o início do ministério de Jesus. O batismo, a passagem pelo deserto e as primeiras palavras ditas por Jesus indicam a direção para nós. Estamos começando o período da Quaresma. Viver a Quaresma é uma bênção. Iniciar esse tempo é graça. É oportunidade dada pelo amor de Deus.
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Esse período do ano litúrgico quer aproximar-nos do Deus que nunca nos abandona; pelo contrário, sempre nos acompanha com seu olhar carinhoso e cuidadoso. Quantas vezes temos vivido sem prestar muita atenção à penitência, ao jejum e à oração? Quantas vezes perdemos os frutos espirituais desse tempo sem sequer nos dar conta deles? Como podemos realmente celebrar a Páscoa sem observar a Quaresma? Como podemos regozijar-nos plenamente na ressurreição, tendo evitado participar da morte de Jesus? Sim, precisamos morrer com Cristo, através dele e nele. Somente assim estaremos prontos para reconhecê-lo – ressuscitado. Há tanto em nós que precisa morrer: falsos apegos, avareza e ira, impaciência e mesquinhez. Somos egocêntricos, preocupamo-nos demais conosco mesmos, com a carreira, futuro, nosso nome e nossa fama. Reconheçamos: somos ridículos – isto é triste e lamentável. Por isso viver a Quaresma é uma bênção. Iniciar esse tempo é graça. É oportunidade dada pelo amor de Deus. É um convite para que nos renovemos, restabeleçamos a paz, partilhemos o pão e a esperança e caminhemos iluminados e amparados na Palavra e nos sacramentos que nos trazem o Cristo vivo, que venceu as tentações no deserto e na cruz para nos possibilitar o reino. Deixemo-nos, portanto, tocar por esse chamado ao arrependimento, à novidade de vida que as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de Marcos nos fazem.
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Imagens para a prédica
A seqüência que encontramos no início de Marcos tem uma boa lógica quanto à fundamentação teológica para a pregação. * Jesus é anunciado por João (texto anterior, ou seja, até o v. 8); * Jesus é batizado e nesse batismo percebemos a unidade do Trino Deus; * Jesus é tentado no deserto; * Jesus é protegido por anjos nesse contexto de provação; * Jesus inicia seu ministério chamando ao arrependimento e anunciando que o tempo está cumprido. Vejamos: anúncio, batismo (Trindade), tentação, proteção e anúncio. O início do Evangelho de Marcos dá-nos um bom roteiro para animar as pessoas na fé. Fecha-se um ciclo que não tem fim em si mesmo, funciona como espiral e quer nos alcançar. Nós, como cristãos, também estamos nesse ciclo. Alguém antes de nós já recebeu esse anúncio, levou-nos ao Batismo (Trindade). Ao longo da vida somos tentados, no entanto protegidos, por mais que venhamos a cair nessas tentações, e isso nos fortalece para nosso testemunho. Este tempo de Quaresma que estamos iniciando é especial para nosso testemunho de fé. Vamos pensar em quantas cargas as pessoas que estão em nossa cele-
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bração trazem. Quantos estão com a consciência pesada por não ter resistido a algumas tentações da vida? E estão sedentas (desérticas) por uma palavra que lhes diga que há perdão mediante o arrependimento. Que a Palavra aponta o pecado, mas não massacra o pecador. Pessoas que necessitam ser lembradas de seu Batismo e da proteção divina nos desertos vivenciais. Certamente a pregação para este primeiro domingo da Quaresma pode ser muito especial para muitas pessoas sedentas.
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Subsídios litúrgicos
Penso que a liturgia no tempo da Quaresma deve estar repleta de convites para a libertação. Esse deveria ser o caminho para o todo da celebração. ANTÍFONA QUARESMAL (em responsório por dois grupos) 1. Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo. 2. Tem piedade de nós. 1. Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, colocamo-nos em oração. 2. Inclinamos toda a nossa vida diante de ti. 1. Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, toca-nos com o teu amor. 2. E em tua graça permite que participemos desta refeição de pão e vinho. 1. Torna-nos semelhantes a ti diante das tentações da vida. 2. Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, queremos compartilhar o pão e o vinho como tu fizeste com teus discípulos quando antecipaste a doação de tua própria vida na cruz. 1. Dádiva única e definitiva para todos os filhos de Deus. 2. Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, Páscoa que se faz presencial em teu corpo e sangue. 1. Corpo que é dado por nós, sangue da Nova Aliança derramado para a nossa salvação. 2. Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, adoramos e bendizemos a ti porque em tua entrega experimentamos os feitos poderosos de Deus. 1. Lembra-nos que tu tiraste o teu povo da escravidão e da dor, guiando-o pelo deserto a um lugar de esperança e plenitude. 2. Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, dános a santidade que nos compromete com os desertos dos seres humanos que sofrem. 1. Que não desanimemos na fé. 2. Que não larguemos a esperança. 1. Que não percamos a comunicação com o teu corpo, que é a igreja. 2. Que não fraquejemos no anúncio e no serviço. 1 e 2. Que do topo da soberba e da auto-suficiência olhemos para o exemplo de Cristo, fazendo-se servo, lavando os nossos pecados. Amém. Autoria: Carlos Enrique Garcia Tradução e adaptação: Eloir E. Weber
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Bibliografia DELORME, J. Leitura do Evangelho Segundo Marcos. 3. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1982. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1982. BÍBLIAS: Jerusalém, Pastoral e Bíblia de Estudo Almeida.
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2º DOMINGO NA QUARESMA
PRÉDICA: ROMANOS 4.13-25
08 MAR 2009
GÊNESIS 17.1-7,15-16 MARCOS 8.31-38
Vera C. Weissheimer
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Introdução
A Carta do apóstolo Paulo aos Romanos tem ocupado um lugar privilegiado entre grandes exegetas e pensadores. Foi comentada por Orígenes, João Crisóstomo, Agostinho, Tomás de Aquino, Karl Barth e Albert Schweitzer, entre outros. Seu conteúdo desempenhou um papel decisivo no século XVI, quando do início da Reforma Protestante – cujo tema central era a justificação pela fé. Traz uma teologia que inclui o mundo gentílico. Paulo deixa claro, já no primeiro capítulo, a linha central de sua carta: a justificação pela fé. “Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Rm 1.17). A justificação já não depende da circuncisão nem da lei, mas é concedida unicamente pela fé. O teor dos versículos que foram destinados para esse segundo domingo na Quaresma, que coincide com o Dia Internacional da Mulher, remete à pergunta: Para quem vale a promessa de Deus? Na época em que o texto foi escrito, estava em voga, entre os convertidos ao cristianismo em Roma, a crença na necessidade de seguir prescrições da tradição judaica, como a circuncisão, para ser aceito. Na carta, Paulo alerta os que defendem a circuncisão como a única forma de “entrada” e acolhida para os convertidos. A promessa vale não para os que seguem cegamente uma lei, mas para os que têm fé. “Que, pois, diremos ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?”, pergunta Paulo no primeiro versículo do capítulo 4. Nem circuncisão tampouco as obras da lei são garantias para a salvação, nem podem limitar o poder salvífico de Deus. O apóstolo Paulo adverte: os judeus que se converteram ao cristianismo não devem insistir em reivindicações baseadas na etnia (Rm 9), mas na fidelidade de Cristo em todas as coisas, inclusive na lei (Rm 10). E os cristãos gentílicos devem humildemente reconhecer que são herdeiros de Abraão e por isso respeitar os que vêm da tradição judaica – um respeito mútuo, já que a promessa da salvação não se vale nem de uma tampouco de outra cultura, legislação ou etnia.
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2O Domingo na Quaresma
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Dados exegéticos
A Carta aos Romanos foi escrita no tempo da permanência de Paulo na Grécia, no término da terceira viagem missionária (At 20.2), ditada a Tércio (Rm 16.22). A autenticidade paulina da carta jamais foi posta em dúvida. De todas as cartas do apóstolo Paulo, a Carta aos Romanos é inegavelmente a mais importante do ponto de vista doutrinal, uma das mais ricas e mais notavelmente estruturada. A teóloga mexicana Elza Tamez alerta para os vários tipos de cristãos existentes em Roma – os cristãos judeus e os pagãos convertidos, que se dividem em quatro grupos, conforme a observância da lei e de rituais do judaísmo. São eles: 1) os que exigem a observância de toda a lei, incluindo a circuncisão; 2) os que não impõem a circuncisão, mas exigem dos pagãos convertidos a prática de certas observâncias judaicas – a esse grupo pertencem Pedro e Tiago (e os cristãos de Jerusalém por seus laços estreitos); 3) os que não impõem a circuncisão, nem a observância de leis alimentícias – entre eles estão Paulo e Barnabé; 4) os que não impõem nem a circuncisão tampouco as observâncias alimentícias, nem se ligam ao culto e às festas judaicas de significado permanente. Esses eram mais radicais do que Paulo em relação ao judaísmo. “Na lei romana não conta a graça, mas os méritos do acusado, dependendo de seu status social, poder e riqueza. O código penal do principado atua de forma diferente, dependendo do acusado. Só é aplicado todo o seu rigor ao escravo, ao pobre e ao estrangeiro. O aristocrata livre e cidadão com poder é regido por outras normas mais suaves” (TAMEZ, p. 64). 2.1 – Lei Segundo o Dicionário Enciclopédico da Bíblia, a Lei é para o Antigo Testamento a norma revelada de toda a vida religiosa e civil. Sobretudo nos círculos “deuteronomistas” (cf. Êx 18.15), havia a convicção de que as prescrições que se davam remontavam ao próprio Deus. É isso que exprime a fórmula tão freqüente: “Javé disse a Moisés”. Teologicamente falando, não se visava o esforço valioso do ser humano nem se tratava de uma espiritualização de aspectos da vida originariamente profanos: a Lei era uma exigência incondicional de Deus a todos os membros de seu povo. Na aplicação e interpretação da Lei, os sacerdotes tinham muitíssima influência, de sorte que se conservava facilmente o caráter religioso da legislação. De sete em sete anos, devia-se fazer uma leitura da Lei na festa dos Tabernáculos (Dt 31.10-13). Todo israelita tinha a obrigação de viver o mais fielmente possível de acordo com a Lei. Os pais deviam ensiná-la aos filhos (Êx 12.26;13.8-10) e os sacerdotes ao povo (Lv 10.11; Dt 33,10). Os escribas posteriores e fariseus tornaram-na pesada e irrealizável, reduzindo-a a um sem-número de prescrições individuais a serem observadas escrupulosamente e julgando que toda religião consistia em cumpri-la minuciosamente.
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2O Domingo na Quaresma
A Lei garante uma “vida de fé” segundo seus preceitos, evitando a transgressão, mas não, nem de longe, evita o pecado. Por isso a promessa é maior do que a Lei (cf. Rm 6.14). 2.2 – Promessa e fé Deus faz duas promessas a Abraão antes do regime da circuncisão e por isso beneficia todos e é “pai de todos os que crêem” (v. 10-12). A posse da terra e a promessa de descendência numerosa (cf. 12.1ss; 15.5-7; 18.18; 27.17ss) são mencionadas por Paulo. “No âmbito da promessa se encontram os que são justificados pela fé. A lei não encerra promessa alguma. Para tanto também existe um argumento cronológico: A lei foi dada a Israel muito tempo depois. A promessa tem prioridade por sobre a lei. (...) A validade da promessa não depende do esforço humano, ou seja, do cumprimento da lei. Deus exige nada mais do que fé na sua promessa” (BRAKEMEIER, p. 151) A instrução é necessária, a instrução para a liberdade que há na fé; mas essa instrução não nos garante a salvação. Essa virá somente e tão-somente pela fé. E é por meio da fé em Jesus Cristo, e somente por ela, que somos filhos de Deus (Gl 1.26).
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Meditação
O estudo da Carta aos Romanos é vital para a saúde e o entendimento espiritual dos cristãos, uma vez que ela insiste na impossibilidade da justificação pelas obras segundo a Lei. Se temos a consciência pessoal da inescapável pecaminosidade humana, então precisamos também ter a consciência de que somente a graça divina é capaz de nos alcançar e de nos salvar. Por mais que trabalhemos para efetuar uma lista de “boas obras” e trabalhos incansáveis na comunidade e sigamos retamente os preceitos da Lei, ainda assim seremos pecadores, necessitando unicamente da graça de Deus. Conseqüentemente, a redenção deve consistir na consciência de segurança do perdão de pecados, que vem pela graça de Deus através de Cristo.1 O que significa isso em nossos dias? Não há legalismo religioso que possa garantir a salvação. A instrução em nossas comunidades e a capacitação de lideranças são necessárias e fazem-se cada vez mais necessárias para evitar desmandos, incongruências religiosas e legalismos, que em alguns lugares ainda são baseados na etnia e tradição. Contudo, não será essa instrução que dará às lideranças a sua salvação, mas uma vida de fé coerente. Por isso o estudo de Romanos é tão vital para a saúde e o entendimento dos cristãos e o crescimento qualitativo de nossas comunidades. Muitas lideranças ainda trabalham na ótica da salvação por obras.
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SCHWEITZER, Albert. O misticismo de Paulo o apóstolo. São Paulo: Fonte Editorial, 2006. p. 278.
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A chave para a leitura desse texto é, naturalmente, a partir da exclusão – pessoas ainda são excluídas do convívio comunitário por não se encaixar no perfil de cristãos e cristãs desejado em algumas de nossas comunidades. Como se dá a acolhida de novos membros em nossas comunidades? Idosos são excluídos da “vida ativa” da sociedade. Mulheres são excluídas do ministério ordenado em muitas denominações. Podem ser relacionados vários motivos de exclusão, fazendo com que a comunidade se dê conta de que faz parte de uma sociedade excludente e que, muitas vezes, assimila preconceitos e assume como padrão os preceitos dessa sociedade. V. 13 – A salvação não é obtida mediante a observância da Lei. O legalismo muda o foco do poder de Deus, transferindo-o para a habilidade de alguns indivíduos em observar a Lei. Com a Lei surgiu o crescimento de consciência do pecado e da ira de Deus. Por meio da fé é que se concretiza a promessa de Deus (2Co 4.6). V. 14 – A Lei esvazia a fé e tira o valor da promessa de Deus, ou a promessa está sem poder. V. 16 – A herança vem através da fé para que seja gratuita, ou como está escrito na Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB): “Assim sendo, é pela fé que nos tornamos herdeiros, a fim de que isso seja por graça e a promessa permaneça válida para toda a descendência de Abraão, não somente para os que se escudam na lei, mas também para os que se escudam na fé de Abraão, que é o pai de todos”. Cuidado ao usar a tradução na linguagem de hoje. Nela, o texto parece sugerir que a promessa depende da fé, mas a fé não é e nunca pode ser uma condição para receber a graça. Tanto a fé como a graça são dádivas de Deus e dependem somente da vontade dele. Deus cria fé, Deus faz a promessa, Deus dá de graça a graça. O ser humano recebe pela fé, pelo acreditar. Ou seja, a única ação do ser humano é aceitar que é salvo. Mais do que ação, é reação. É estar aberto para receber a graça. V. 18 – Esperando contra toda a esperança. Abraão acreditou que seria pai, quando a velhice e a esterilidade de Sara diziam o contrário. A justiça de Abraão é a fé confiante de que Deus pode realizar tudo o que promete. Abraão tornou-se pai de muitas nações, conforme a promessa de Deus narrada em Gênesis 17. A ação de Deus pode parecer um absurdo aos olhos do mundo. Mas não foi aos olhos de Abraão, que pela fé esteve aberto para receber a doação de vida, de salvação. Podem existir pessoas abençoadas por uma abundância de dons e que jamais reconhecem que nessa abundância está a graça de Deus. Talvez algumas delas se dêem conta disso apenas quando a vida exigir seu preço por essa negligência. É uma pena! Outros não acordarão. Abraão acreditou contra a realidade. A fé desafia a realidade. V. 22 – A fé foi aceita por Deus, possibilitando a justificação, a justiça. A fé não é uma ação predefinida, algo que posso (re)produzir, pois a fé se mostra de formas diferentes em situações diferentes. Nunca é a mesma fé. Sempre é uma outra, pois a situação é diferente. Abraão tinha seus desafios e obstáculos, nós temos outros. Fé é, a meu ver, acreditar que a promessa irá se concretizar, e Deus prometeu salvar-nos. Isso não depende de nenhuma ação
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nossa, somente de nossa fé, que nos dá a perseverança para esperar contra toda a esperança. A descendência física ocorreu porque Abraão continuou crendo em Deus quanto ao impossível. Isaque foi gerado de Sara. V. 23-25 – A descendência espiritual de Abraão é Cristo e aqueles que são de Cristo (conforme Gl 3.29), e essa descendência baseia-se unicamente em crer naquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos. Crer na ressurreição é combater a onipotência da morte.
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Imagens para a prédica
A história a seguir pode ser usada de duas maneiras. Lembrando a fé e o acreditar de uma pessoa mesmo quando o mundo diz “não dá” ou lembrando o Dia Internacional da Mulher ao falar da mulher que não desistiu de seus sonhos, como fez Cora Coralina, doceira da cidade de Goiás Velho, que virou escritora. Para Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina carrega “todas as vidas” e “celebra-as todas com o mesmo sentimento de quem abençoa a vida”. Ficar velho é obrigatório, crescer é opcional No primeiro dia de aula, nosso professor apresentou-se aos alunos e desafiou-nos a que nos apresentássemos a alguém que ainda não conhecíamos. Eu fiquei em pé para olhar ao redor quando uma mão suave tocou meu ombro. Olhei para trás e vi uma pequena senhora, velhinha e enrugada, sorrindo radiante para mim, com um sorriso que iluminava todo o seu ser. Ela disse: “Ei, bonitão. Meu nome é Rosa. Eu tenho oitenta e sete anos de idade. Posso te dar um abraço?”. Eu ri e respondi entusiasticamente: “É claro que pode!”. E ela me deu um gigantesco apertão. “Por que você está na faculdade em tão tenra e inocente idade?”, perguntei. Ela respondeu brincalhona: “Estou aqui para encontrar um marido rico, casar, ter um casal de filhos e então me aposentar e viajar”. “Está brincando”, disse eu. Eu estava curioso em saber o que a havia motivado a entrar nesse desafio na sua idade, e ela disse: “Eu sempre sonhei em ter um estudo universitário, e agora estou tendo”. Após a aula, nós caminhamos para o prédio da união dos estudantes e dividimos um milkshake de chocolate. Tornamo-nos amigos instantaneamente. Eu ficava sempre extasiado ouvindo aquela mulher compartilhar sua experiência e sabedoria comigo. No decurso de um ano, Rosa tornou-se um ícone no campus. Fazia amigos facilmente, onde quer que fosse. Ela adorava vestir-se bem e revelava-se na atenção que lhe davam os outros estudantes. Ela estava curtindo a vida. No fim do semestre, nós convidamos Rosa para falar em nosso banquete de futebol. Jamais esquecerei do que ela nos ensinou. Ela foi apresentada e aproximou-se do pódio. Quando começou a ler sua fala preparada,
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deixou cair três das cinco folhas no chão. Frustrada e um pouco embaraçada, ela pegou o microfone e disse simplesmente: “Desculpem-me, eu estou tão nervosa! Parei de beber por causa da Quaresma, e esse uísque está me matando! Eu nunca conseguirei colocar meus papéis em ordem de novo. Então me deixem apenas falar a vocês sobre aquilo que eu sei”. Enquanto nós ríamos, ela limpou sua garganta e começou: “Nós não paramos de amar porque ficamos velhos; nós nos tornamos velhos porque paramos de amar. Existem somente quatro segredos para continuarmos jovens, felizes e conseguir sucesso. Você precisa rir e encontrar humor em cada dia. Você precisa ter um sonho. Quando você perde seus sonhos, você morre. Nós temos tantas pessoas caminhando por aí que estão mortas e nem desconfiam. Há uma enorme diferença entre ficar velho e crescer. Se você tem dezenove anos de idade e ficar deitado na cama por um ano inteiro, sem fazer nada de produtivo, ficará com vinte anos. Se eu tenho oitenta e sete anos e ficar na cama por um ano e não fizer coisa alguma, eu ficarei com oitenta e oito anos. Qualquer um consegue ficar mais velho. Isso não exige talento nem habilidade. A idéia é crescer e sempre encontrar oportunidade na novidade. Isso não precisa de nenhum talento ou habilidade. A idéia é crescer sempre encontrando a oportunidade de mudar. Não tenha remorsos. Os velhos geralmente não se arrependem daquilo que fizeram, mas sim por aquelas coisas que deixaram de fazer. As únicas pessoas que têm medo da morte são aquelas que têm remorsos”. Ela desafiou cada um de nós a estudar poesia e vivê-la em nossa vida diária. Uma semana depois da formatura e de concluir o curso que tanto desejara, Rosa morreu tranqüilamente em seu sono. Mais de dois mil alunos da faculdade foram a seu funeral, em tributo à maravilhosa mulher que ensinou, através de exemplo, que nunca é tarde demais para ser tudo aquilo que você pode provavelmente ser. “Ficar velho é obrigatório, crescer é opcional.” Se você leu isso com o coração, estará mais sábio, mas se leu com a mente, estará apenas mais velho. (A autoria do texto é desconhecida)
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Subsídios litúrgicos
Confissão: Deus da graça e verdade. De vez em quando, notamos que perdemos a ligação contigo. Essa é a nossa grande culpa que te apresentamos. Confessamos o quanto falhamos e estragamos por nos afastar de ti. Aceita-nos novamente e encobre com graça toda a nossa maldade. Desejamos voltar a ti. Sê nosso Pai e tem compaixão de nós. Amém. (de Manfred Seitz, Orar é confiar. Editora Sinodal)
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Eucaristia: Se nada tens a oferecer ao Senhor, apresenta tuas dores, tua fadiga apenas. Quanto custou a tanta gente esse pedaço de pão colocado na pátena! Se tens as mãos vazias e a boca amarga e seca, oferece o coração machucado, meu amigo. Para que o vinho espumasse neste cálice foi preciso – não foi? – pisar a uva e moer o grão do trigo. Se nada tens em ti mais do que amargura e pecado, o cansaço de viver e a angústia que oprime, que tuas mãos elevem para o céu essas míseras coisas, pois o amor, de antemão, as acolheu na ceia! E se nem forças tens para ofertar e implorar, se em ti tudo é abandono e solidão tremenda, silenciosamente aceita – e só – que um outro receba e vele por ti e sejam um só dom – o ofertante e a oferenda. (de Daniel Rops, As mais belas orações de todos os tempos. São Paulo: Pensamento, p. 150) Duas sugestões de bênção: 1 Que a bênção do Deus da promessa, Deus de Sara e Abraão te alcance, te ilumine em meio às trevas, te fortaleça as pernas cambaleantes e os pés cansados. Que a bênção do Deus da salvação te alimente a fé para creres mesmo quando parecer impossível, te acarinhe com fé renovada quando a idade vier e já não tiveres mais tanta força e ânimo. Que a bênção do Deus de Sara e Abraão te sustente a vida a cada novo amanhecer e te abra os olhos para enxergar na ressurreição de Jesus, nosso Senhor, a vida que é maior do que a morte. (de Vera Weissheimer) 2 Que Deus te mostre o fio vermelho do labirinto da vida. Que Deus te dê o instinto para escolher bons amigos. Que Deus te permita ser rosa com espinhos, que é bonita, mas que sabe se defender. Que Deus te permita ser árvore, que tira força das raízes e que enfrenta todos os ventos. Que Deus te permita ser águia, que alça vôo por sobre as dificuldades do dia-a-dia e alcança as alturas da felicidade. Que o Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo te abençoe. Amém.
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Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Carta aos Romanos – capítulo 1-6. Série Exegese, v. 3, fasc. 2. São Leopoldo, 1982. Comissão de Publicações/Faculdade de Teologia, Distribuição Interna. p. 119-161. SCHWEITZER, Albert. O misticismo de Paulo o Apóstolo. São Paulo: Fonte Editorial, 2006. 488 p. TAMEZ, Elsa. Como entender a Carta aos Romanos. In: Revista Latino-Americana. Petrópolis: Vozes & São Leopoldo: Sinodal. n. 20 – 1995/1. p. 62.
3º DOMINGO NA QUARESMA Êxodo 20.1-17 JOÃO 2.13-22 1 Coríntios 1.18-25
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PRÉDICA: NÚMEROS 21.4-9
4º DOMINGO NA QUARESMA
JOÃO 3.14-21 EFÉSIOS 2.1-10
22 MAR 2009
Antonio Carlos Ribeiro
1
Introdução O teólogo fala a partir da e para a comunidade de fé. Mas fala fazendo e desfazendo metabolicamente a sustentação dessa comunidade, mexendo e remexendo nos limites e contornos dos mitos que a fundam e a sustentam, sendo em parte o sacerdote que afirma e o profeta que nega; isso porque a teologia não é só empresa eclesial – sua autorização para dizer palavras está sustentada na Palavra que funda o mundo e que dele acaba sendo cúmplice. Vítor Westhelle
Sentimentos aparentemente antagônicos podem apoderar-se de nós, como estar num tempo de preparação para a Paixão do Senhor e experimentar a alegria. Para isso nos convida este domingo chamado Laetare na tradição litúrgica da igreja cristã: alegrai-vos. Em meio ao tempo de preparação interior, contrição e arrependimento, não somos impedidos de experimentar laetitia (alegria). Essa não nos vem de um momento alegre, mas da libertação que nos é assegurada pelo gesto de Cristo, da convicção da fé que o ato provoca, da clareza da vocação para o testemunho e do significado de nossa presença em determinado lugar e função. Os textos bíblicos indicados têm uma viva relação entre si. O texto de Números 21.4-9 narra a situação em que o povo hebreu enfrenta a necessidade de alimentos, transforma-a em insatisfação e passa a responsabilizar o líder Moisés e Deus, em nome de quem foram libertados do Egito. Diante do castigo sofrido e das conseqüências duras e definitivas, a serpente erguida para ser vista tornou-se um sinal de libertação dos males. O texto do Evangelho de João 3.14-21 destaca a palavra de Jesus a Nicodemos na penumbra exigida pelas relações de poder do membro do Sinédrio, relacionando a figura da serpente erguida com o sacrifício que resultará de sua pregação, enfatizando a universalidade da percepção do gesto, seu poder de intervenção na realidade e o impacto para o povo de Israel. Na Carta aos Efésios 2.1-10, o mesmo sacrifício é relacionado com a salvação vicária, mas com ênfase no gesto de amor e graça, a quem não poderia retribuir, e com impacto para o futuro e para a universalização (catolicidade = o pressuposto de que qualquer pessoa pode ser membro da igreja) da fé cristã.
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Exegese
O texto da prédica (Números 21.4-9) faz parte do material acrescido à tradição bíblica no período de peregrinação do povo pelo deserto. É próprio da situação de quem integra o grupo que peregrina do Egito em direção à terra que mana leite e mel. Outro elemento entre esse texto e os correlatos são as dificuldades que surgiram no período da peregrinação, segundo o relato bíblico. Parte significativa das dificuldades que surgem durante a caminhada vem das murmurações, dos gestos pequenos nos dois sentidos (recatado, discreto e baixo tom, e egoísta, agarrado a interesses e ideologias e destrutivo). As reclamações dirigem-se às lideranças que comandaram o conjunto de ações do povo e pediram as dez pragas que desembocaram na decisão do faraó de libertar o povo. Assim como os fatos do cotidiano desse processo demandaram decisões, esforços e conspirações de toda ordem, houve quem não estivesse plenamente convencido e aderisse, mas sem uma demanda própria envolvida, quem projetasse expectativas não-respondidas, razões pelas quais os ressentimentos foram alimentados e depois passaram rapidamente de pequenas vinganças a grandes ódios. São as impaciências do caminho (v. 4). “O povo falou contra Deus e contra Moisés” (v. 5). Esses sentimentos logo se transformaram em cobranças ligadas às necessidades básicas da subsistência. Junto com a cobrança veio o lamento, que implica oposição, contestar culpando e exigir além do devido. Essa atitude mostra ingratidão a Deus e desgasta as lideranças que se empenharam firmemente para libertálos daquela situação, também elas pagando preços altos. A primeira parte da pergunta é sobre as intenções de Deus para com a atitude de libertá-los. Ela levanta dúvidas a respeito da intenção genuína e baseada em amor: “Por que nos fizeste subir do Egito?”. A segunda parte pragueja diante das situações do cotidiano, como a moradia no deserto e a alimentação: “Para que morramos neste deserto, onde não há nem pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil” (v. 5). O pão e a água são insuficientes, sendo a ração menor que a necessidade. A Bíblia de Jerusalém traduz: “Estamos enfastiados desse alimento de penúria”. Nessas circunstâncias, as pessoas passam a temer por suas próprias vidas, na verdade indagando pelo fundamento da fé e pela responsabilidade das lideranças que os trouxeram àquele lugar. Deus, segundo o relato, mandou serpentes venenosas, que atacavam e levavam muitos à morte (v. 6). Essa circunstância pode estar relacionada com as minas de cobre de Arabá, onde esse metal já era explorado no século XIII a.C. Em Meneiyeh foram encontradas diversas pequenas serpentes de metal, usadas como amuleto de defesa contra a peçonha mortal desses répteis. Em outras circunstâncias e talvez até com o povo enfrentando maiores dificuldades, Deus se compadece, providencia os bens necessários e atende as necessidades. Isso força o povo a humilhar-se, procurando Moisés, admitindo ter pecado, assumindo que o pecado era falar contra Deus, em nome de quem
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Moisés agiu, e contra ele próprio, pedindo que ele orasse para que o Senhor os salvasse das serpentes. Diante da humilhação, imposta e admitida, Moisés orou (v. 7). As serpentes têm valor arquetípico, simbólico e político, fazendo retornar a memória das relações de dominação absoluta, do fascínio exercido através do olhar, dos projetos de poder, imposição de idéias e exigência de submissão, que ultrapassam continentes. Os efeitos de sua atuação são semelhantes nas reações físicas e psicológicas: a dor, a sensação de embriaguez, a impotência diante da peçonha ou da artimanha e o torpor, traduzido na lucidez diante desses efeitos registrados como memória da derrota. A solução dada a Moisés é a criação de outra serpente, também abrasadora, para enfrentar o poder das primeiras, a ser colocada sobre uma haste e mostrada aos feridos para que vivam (v. 8). O ataque do animal peçonhento será vencido pela representação imagética, fazendo com que a memória do ataque sofra reversão. A serpente de bronze que Moisés mandou fazer, fixar numa haste e mostrar aos feridos (v. 9) revela a dimensão mágico-ritual israelita – com empréstimos de outros povos – , já que as influências culturais não respeitam limites territoriais. Reimer destaca que “aqui a serpente assume outra simbologia, talvez mais próxima do símbolo da serpente associada à medicina (símbolo da classe médica). Em vários povos da Antigüidade, cultos ligados à serpente aparecem como um meio para afastar desgraças (na arqueologia, veja-se o caso da serpente de bronze encontrada em Timna, ao norte do porto de Eliat)”. A importância desse acontecimento mostra-se na perpetuação que provocou, sempre pela via do imaginário cristalizado em linguagens religiosas, como máscaras do sagrado, no cerimonial religioso dos israelitas. Assim, “tal prática não ficou somente na esfera do privado e do familiar, mas ganhou espaço dentro do próprio templo de Jerusalém. Não temos muitas informações sobre o ritual litúrgico. Mas 2 Reis 18.4 fala que o povo queimava incenso para a serpente, que recebeu o nome de Neustã. Reimer lembra ainda que “Ezequias (rei de Judá entre 716-687 a.C.), no contexto de sua reforma religiosa, ‘removeu os altos, quebrou as colunas e deitou abaixo o posteídolo; e fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera (...)’”. Se a religiosidade é verdadeiramente composta de colagens e sedimentações de elementos sobre um órgão, como acontece com a incrustação de restos de matéria orgânica no plano físico, ela pode ser purificada quando se verificarem os elementos que se incrustaram. A reforma de Ezequias intenta purificar a religião judaica dos elementos de empréstimos culturais e religiosidade popular, propugnando a adoração somente a Javé. A noção da autoridade que promove a assepsia vai verificar as novas práticas religiosas que se ligaram à religião do templo. Esse texto pode ter surgido no contexto da peregrinação no deserto para ser essa referência originária, argumentando-se a partir do peso de sua antigüidade. Ademais, o texto refere-se ao deserto como um lugar paradigmático na Bíblia, marcado pela falta de condições de vida, pela distância dos
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povoados, exposto aos animais de caça e aos salteadores e sempre relacionado a crises, momentos de provação aguda e de discernimento.
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Meditação: Entre o Deus vestitus e o Deus nudus
O relato sobre as serpentes no contexto da peregrinação no deserto traz material farto para interpretações. Ao mesmo tempo em que as elaboramos, precisamos indagar se não sofremos a tentação de identificar nossa compreensão como a mais correta. Sem perder a visão do conjunto, devemos assumir nossa perspectiva teológica, confessionalmente luterana e associada ao papel de nossa igreja na sociedade. Numa prédica, Lutero adota uma postura auto-inclusiva, como teólogo e como comunidade, ensinando a nos expor ao vendaval: A história se repete! Também nós fazemos parte de uma raça de víboras que espalha veneno através de seu egoísmo, que, fatalmente, leva à morte. Pior é que, muitas vezes, não nos damos conta de que a maldade no mundo não é culpa de Deus, mas é fruto de nossa rebeldia contra ele. E, enquanto continuarmos investindo em nosso próprio veneno, muitos ainda perecerão. Um mundo melhor não se cria só com boa vontade. A solução é bem outra: “Assim como Moisés levantou numa estaca a serpente de bronze no deserto, também o Filho do Homem tem de ser levantado, para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3.14s). O Filho de Deus, Jesus Cristo, erguido no Gólgota, é o único sinal de um novo mundo. E não há outro! (Comissão Interluterana de Literatura. Extratos de pregações: a imagem da graça. http:// www.lutero.com.br/novo/vida_de_lutero_como_pregou2. php?mes=05&ano=2004. Acesso: 12.05.2008.
A mesma imagem do réptil peçonhento que provoca desespero existencial, dor e morte, agora moldada em metal e erguida no caniço, cura os feridos que olham para ela. Que mudança existe entre a lembrança do ataque feroz e a imagem da cobra de metal? Talvez apenas o olhar – marcado por sofrimento, risco e horror – de quem se defendeu, mas foi ferido, tentou socorrer as vítimas ou perdeu alguém amado. O símbolo tem a ver com a realidade que simboliza, enquanto o sinal apenas aponta para uma situação, ensinou Tillich. A imagem suspensa da serpente de metal faz-nos lembrar da cruz e, em seguida, do sacrifício de Jesus Cristo. A cruz não era apenas o instrumento letal de tortura, adotado pela primeira vez em Cartago e depois tornado símbolo da mais alta punição pelos romanos. Cruel, seu objetivo não era apenas punir o réu com a morte, mas aniquilá-lo física e moralmente, deixando seu corpo despido e exposto por tempo indeterminado, até que fosse comido pelos pássaros e se desintegrasse pelos efeitos do sol, da chuva e do vento. No fato de ter sido aplicado a Jesus percebe-se a ira que ele provocou ao desafiar os poderes, religioso judaico e militar romano, e a intenção dos perpetradores, executada pelos algozes, de varrer da sociedade quaisquer sinais de sua existência humana.
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A crueldade do espetáculo, perdoem o pleonasmo, alcançou outro efeito: tornar-se um escândalo que se tornou perene pelo impacto provocado nos circunstantes e por ter ocorrido num lugar e num momento histórico que contribuíram para sua difusão. Morte cercada de desonra e anátema, seus efeitos podem ser avaliados pela perseguição de morte imposta a seus seguidores até um século depois, além do testemunho de seus seguidores ao longo dos séculos. Os desacatos do papa alemão Bento XVI ao islã, citando um imperador medieval ou batizando um jornalista convertido do islamismo, deliberados e sem desculpas, provocaram assassinatos de freiras e incêndios de igrejas cristãs, inclusive uma ortodoxa e uma anglicana, em países islâmicos na África e no Oriente Médio. Além da mídia, já houve teólogos pedindo responsabilidade pastoral. O escândalo gera um incômodo que supera em muito a quebra da tranqüilidade, o mal-estar e o conflito entre partes. Ele provoca rupturas em estruturas sociais, estremece a relação saudável de pessoas de diferentes fés que fazem parte da mesma sociedade complexa (aquilo que é tecido junto) e exige reação, seja para romper com a realidade ou encontrar um modo de conviver com ela (sublimar). Westhelle destacou que, muito tempo depois, o escândalo ainda retém potencial para passar da realidade à representação, mostrando como Lutero descobriu na cruz a reversão do próprio desconforto, denunciando a transformação da essência em aparência e a compreensão do significado do amor no grito do abandonado. Só quando a cruz é mostrada fazem sentido as contradições: morte-perpetuação, encarnação-ministério, aniquilação-enlevação. Assim como o ato de olhar para a serpente metálica possibilitou a cura, a tribulação (Anfechtung) pela qual teólogos e teólogas da cruz passam, dá coragem (parrhesia) para dizer as coisas como elas são. A teologia da cruz não é uma doutrina, mas uma disposição franca e honesta de expressar-se, a decisão de levar às últimas conseqüências o ensino da comunidade joanina: quem tem verdadeiro amor joga fora todo o medo. Na vida de fé da igreja cristã, a tarefa dos teólogos e teólogas é fazer e desfazer metabolicamente a sustentação da comunidade. Só com coragem e auto-inclusão, podem dizer que o grupo é “raça de víboras que espalha veneno através de seu egoísmo, que, fatalmente, leva à morte”, como Lutero fez em sua prédica. E ao mesmo tempo sustentar suas afirmações teológicas, enfrentando até falsa piedade e apego ao poder de quem o exerce e gosta de manter suas prerrogativas. Sua tarefa é também lembrar que tentar controlar o anúncio da Palavra é, na prática, controlar a Palavra ou interferir na autoridade que ela transfere à atuação eclesial através do ministério ordenado. A igreja, nas diversas instâncias, não controla a salvação que vai anunciar, mas é a Palavra que cria a igreja (Creaturae Verbi). A comunidade é dona do templo, da casa e do carro paroquial, mas da salvação é apenas portadora, providenciando o lugar em que o anúncio deve ressoar.
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Essa contestação travestida de lamento provocou desgastes, rupturas e fissuras no Deus vestitus (a experiência religiosa) do povo de Israel no deserto. Isso mostra ingratidão a Deus, desgasta lideranças e precipita a experiência do Deus nudus (o abismo irresistível), que alguns identificam com o fervor e a piedade, após dispensar a piedade tradicional. Como se essa não fosse também piedade e não estivesse criando tradição ao expressar-se na comunidade. Como não há expressão cúltica sem mediações, só depois de buscar o Deus nudus no mágico – e no midiático – se descobre em desamparo maior que o esperado. A relação com o Deus nudus, que é impossível porque exige a mediação do Deus vestitus, dá-se como experiência de fé na comunidade. A fé busca uma linguagem humana (fides quaerens intellectum). A tensão descrita no texto de Números 21.4-9 é a tentação de pretender a comunhão com o Deus nudus, ao mesmo tempo em que submete o Deus vestitus a nosso controle administrativo. Na situação descrita no texto, o que parece ter provocado essa atitude foi a impaciência, somada à decisão de exigir direitos, tirar proveito pessoal e assegurar certo grau de afirmação. A tentativa de tirar vantagens em termos de conquista, dominação ou influência tem intenções distintas. Sem o Espírito, do qual vem a força para ser igreja, a relação será a de troca ou teologia da recompensa, como a do povo que julga poder exigir cuidados, bem-estar e alimentação. O que veio foram serpentes. Tensionar até o limite de tentar Deus não acaba em boa coisa.
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Imagens para a prédica
Para ilustrar a coragem de dizer a verdade (parrhesia), sugiro a história de Henfil: Conta-se que as situações mais agudas da miséria brasileira no regime militar ficaram internacionalmente conhecidas através das caricaturas de Henfil, irmão de José Mário e Herbert de Souza, o Betinho. Sabendo usar como poucos a ironia, dissecou os conflitos políticos da ditadura militar nas tiras de imagens e diálogos e nas chamadas Cartas à Mãe. Seus irmãos o repreendiam, indagando se ele não comprometeria a mãe. Ele respondia risonho: “Vão me prender por quê? Não posso escrever para minha mãe? Ademais, quem tem mãe não tem medo”. Confesso que essa frase passou a fazer sentido quando pregava sobre Maria, a mãe do salvador Jesus. Entendi por que até o islã a reverencia como a mãe do profeta. Outra metáfora usada pelo reformador é a do Deus revelatus e do Deus absconditus: O Deus revelado é aquele que se revela na criação e na encarnação – Cristo, a Palavra encarnada – e pode ser achado no anúncio dos profetas, na pregação dos apóstolos e nos evangelhos. O Deus escondido é aquele que está presente, mesmo que invisível, nas mais diversas situações do cotidiano
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humano, por vezes nas situações mais difíceis, duras e dramáticas, as que mais negam sua natureza (absconditus sub contraria specie). A confissão do centurião diante da cruz revela sua percepção da revelação. Essa, muito provavelmente, não está baseada no conhecimento dos ensinos de Jesus, “mas porque ele se sabia parte de todos nós que impusemos direta ou indiretamente esse sofrimento. Ver-se naquela máscara tornouse para o centurião aquela ‘transparência espelhante’ que lhe mostrou sua própria condição. Ele conheceu a si mesmo no momento em que reconheceu Deus e reconheceu Deus porque veio a conhecer quem ele era” (Westhelle, 2008: 113).
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Subsídios litúrgicos
Saudação: A saudação pode ser feita pelo celebrante durante suas palavras iniciais. Ao falar de Quaresma, o dirigente insiste no compromisso de guardar esse tempo de preparação para a paixão do Senhor. Chamar a comunidade a refletir sobre a Quaresma como tempo de preparação, para que seja tempo de serviço criativo e de renovar a disposição para seguir a Semana Santa, do Domingo de Ramos à manhã pascal. Em seguida, as crianças entram e distribuem flores violetas, as luzes e as velas do altar são acesas. Após o gesto, o celebrante comenta: Assim Deus nos quer acolher neste lugar para a celebração, afetivamente. Venham renovar votos de arrependimento e compromisso de caminhada com Cristo! Confissão de pecados: Estamos aqui, Senhor, para admitir nossas faltas, impaciências e desamor. Não conseguimos nos preparar para reviver a paixão do Senhor se carregamos essa mágoa. Faze conosco, Senhor, essa troca maravilhosa, levando nossa dor, tristeza e sofrimento e dando-nos amor, paz e confiança no sacrifício de Jesus Cristo em nosso lugar. Ajuda-nos a, confiantes em teu amor e graça, viver na esperança em tua presença e sob teus cuidados. Tem piedade de nós, Senhor! Oração do dia: Deus, que sustentaste teu povo, ano após ano, neste tempo de Quaresma e o preparas para reviver a paixão do Senhor, orienta com tua Palavra o seu caminho, seguidamente tão difícil, desconhecido e perigoso. Por nosso Senhor Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém! Oração final: Para este momento, a comunidade é convidada a, após a oração de despedida, o Pai-Nosso e a bênção, recitar o hino “Kyrie Criança”:
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4O Domingo na Quaresma
Vem, Senhor, ouvir o clamor Por tantas crianças do mundo. Vem, Senhor, sentir nossa dor Que toca a gente tão fundo E são crianças sem pão e sem lar, Ficam nas ruas à espera de um olhar. Junto conosco vem dar atenção. Kyrie Eleison, escuta esta oração.
Bibliografia REIMER, Haroldo. 4º Domingo da Quaresma – Nm 21.4-9. Proclamar Libertação, v. 22. São Leopoldo: Sinodal / EST, 1997. WESTHELLE, Vítor. O Deus escandaloso: o uso e abuso da cruz. Trad. Geraldo Korndörfer. São Leopoldo: Sinodal / EST, 2008. ______. Uma fé em busca de linguagem: o sedicioso charme da Teologia na IECLB. Estudos Teológicos, v. 32 (1): 68-82, 1992.
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PRÉDICA: JOÃO 12.20-33
5º DOMINGO NA QUARESMA
JEREMIAS 31.31-34 HEBREUS 5.5-10
29 MAR 2009
Ulrico Sperb
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Introdução
A leitura do Antigo Testamento fala da nova aliança (“eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo”) e do perdão. A leitura de epístola diz que Cristo se tornou o sumo sacerdote através da obediência e do sofrimento. Melquisedeque é o primeiro sacerdote mencionado na Bíblia (Gn 14.18), ou seja, “ordem de Melquisedeque” significa “sacerdote desde o início”. Observação: Não recomendo o uso da versão Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Motivo: No v. 22, os gregos são somente descritos como não-judeus. O conteúdo do v. 25 é completamente suavizado: em vez de “odiar a vida” é dito “não se apegar à vida”. A perícope prevista para a pregação pode ser explicada numa determinada seqüência, que é exposta a seguir.
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Análise do texto
Os gregos (v. 20-22) São gregos mesmo, ou seja, não são judeus gregos (judeus na diáspora, residentes na Grécia e em visita a Jerusalém). Eles se dirigem ao discípulo de nome grego (Filipe), o qual envolve outro de nome grego (André), e ambos intercedem junto a Jesus. O momento certo (v. 23) O encontro com os gregos é a hora certa para expressar o caráter mundial do evento salvífico de Cristo. Jesus inicia uma pregação. O termo “respondeu-lhes” certamente não indica somente os dois discípulos ou somente os gregos que saem de cena, uma vez que o v. 29 fala de uma multidão presente. Em textos anteriores é acentuado que sua hora ainda não chegara (Jo 2.4; 7.6; 7.30; 8.20; 10.39). Agora Jesus diz que sua hora chegou: a hora da glorificação do Filho do Homem.
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5O Domingo na Quaresma
O grão de trigo (v. 24) A introdução a esse assunto acontece com a parábola do grão de trigo: para a sua glorificação será necessária a passagem pela morte. Enquanto escrevia esta preparação para o culto do 5º Domingo na Quaresma, apareceu a seguinte notícia na Internet: Semente de 2 mil anos germina e vira planta Uma semente com cerca de 2 mil anos, encontrada no deserto da Judéia, foi plantada por cientistas israelenses e germinou, segundo artigo publicado na revista especializada Science nesta sexta-feira. Isso a tornaria a semente mais antiga do mundo a germinar de que se tem conhecimento. A semente de tâmara foi encontrada em escavações em 1963, na antiga fortaleza do rei Herodes, em Masada, perto do Mar Morto. Na ocasião, os cientistas encontraram um grupo de sementes, que mantiveram em uma sala em temperatura ambiente com a intenção de estudá-las mais a fundo. Há 2 mil anos, as frutas eram o principal produto de exportação da região hoje ocupada por Israel. Mas séculos de guerras, invasões e secas prejudicaram o cultivo das tâmaras, e já na época das Cruzadas, há 800 anos, as vastas florestas de tamareiras da região haviam desaparecido. Recentemente botânicos, agrônomos e biólogos analisaram as sementes e decidiram plantar algumas. Já houve várias experiências em que sementes “antigas” germinaram, afirma a Science, mas poucas conseguiram verificar a idade das sementes de maneira cientificamente aceitável. A equipe usou o processo de datação radiativa por carbono para determinar a idade de duas das sementes, que teriam entre 2.110 e 1.995 anos. Como o processo danifica as sementes, os cientistas plantaram uma terceira semente. Essa germinou depois de oito semanas, transformando-se numa planta semelhante às atuais tamareiras. Depois de permitir que a planta – apelidada de Matusalém em homenagem ao personagem mais velho da Bíblia – crescesse por 15 meses, os cientistas a transferiram para um vaso maior e recolheram vestígios da semente das raízes, para realizar o processo de datação, que comprovou as suspeitas dos cientistas de que ela tem cerca de 2 mil anos. Guy Eisner/Cortesia da Science/Divulgação
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5O Domingo na Quaresma
A dialética da vida (v. 25) Amar a vida = perdê-la e odiar a vida = vida eterna. Parece contraditório, porém a chave está no termo “mundo” (em grego “cosmo”). Trata-se, portanto, da vida “mundana”. Note-se que o termo grego para “amar” é “filia” e não “agape”. Amar a vida do mundo significa ser escravo do príncipe do mundo (vide v. 31). No mundo valem regras que prejudicam e até destroem a vida. Por isso: amar esse tipo de vida equivale a trilhar o caminho da morte. Odiar, abominar a vida do mundo, significa optar pela vida “em abundância” com Jesus (Jo 10.10). Em Mateus 10.39, Jesus diz algo semelhante. Ser servo de Cristo (v. 26) O contrário de “odiar a vida no mundo” é “servir a Cristo”, ou seja, deixar de ser escravo do mundo para se tornar servo de Jesus. Nisso reside a honra perante Deus. Quem é discípulo de Cristo deve estar disposto a assumir o papel do grão de trigo. Jesus angustiado (v. 27) Martim Lutero disse: “Não podemos nos imaginar Jesus Cristo suficientemente humano”. Nesse versículo, o lado bem humano de Jesus aparece e ele expressa a angústia pelo que está por vir. Jesus externa publicamente e com muita sinceridade a dificuldade que tem em seguir o caminho para o qual veio a este mundo. Deixa claro, porém, que pedir a Deus para livrá-lo do calvário seria o mesmo que errar o sentido de sua vida. A glorificação (v. 28-30) Note-se que Jesus fala da glorificação do nome do Pai celeste e não de si mesmo, como fez no v. 23. Sua obediência deverá conduzir à glorificação do Pai. E vem uma resposta do céu, que é interpretada como trovão ou voz de anjo. Jesus confirma que é uma voz e que essa veio em função das pessoas presentes. O judaísmo da época de Jesus tinha consciência de que Deus já não falava com o ser humano, como fazia no tempo do profetismo bíblico, extinto há séculos. Nos quatro evangelhos, são narradas várias cenas em que vem uma voz do céu, ou seja, com Jesus Deus volta a falar diretamente com o ser humano (Mt 3.17; 17.5 e paralelos). O julgamento do mundo (v. 31) Temos que compreender a magnitude desse versículo: Jesus diz literalmente que esse é o momento histórico do mundo, para o qual haverá um antes e um depois. Esse é o vértice da história. Antes havia o “príncipe do mundo”; depois ele terá sido expulso. O julgamento em questão é sobre o domínio do mal. Depois desse momento, o mal já não terá poder. O que aparentará ser a vitória do mal – a crucificação e morte de Jesus – será, na verdade, a derrota do príncipe deste mundo.
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O anúncio da crucificação (v. 32-33) Jesus está falando de sua crucificação, a qual significará a glorificação e o início de uma nova história para a humanidade. O termo “todos” remete ao início da perícope: o evento da salvação tem caráter mundial. O próprio evangelista interpreta o “ser levantado da terra” como sendo a crucificação de Jesus.
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Pregação sobre o texto
O 5° Domingo na Quaresma também é chamado de Judica – o que significa: “Faze-me justiça, ó Deus” (do Salmo 43.1). A perícope nos diz que Jesus anuncia que é chegada a hora do julgamento do mundo. A justiça será feita por Deus. O mal no mundo será condenado; mais ainda, será expulso (v. 31). As pessoas não precisam mais estar sob o domínio do mal e das trevas (Jo 1.5; 3.19 e, em especial: 3.16 e 17). O “príncipe do mundo” foi expulso mesmo? Sim! Onde Jesus Cristo reina, o mal não tem espaço. Ao mesmo tempo, porém, constata-se que ainda hoje muitas pessoas se deixam dominar pela maldade. Muitas situações diabólicas destroem a vida. Um exemplo: até hoje ninguém apontou a maior causa da fome no mundo, apesar de discursos grandiloqüentes na Organização das Nações Unidas (ONU) por parte de certos presidentes. A corrupção é uma das armas mais poderosas do príncipe do mundo. Governantes corruptos são verdadeiros diabos – réus da morte de multidões. Se for superada a corrupção no mundo, em curto prazo será superada a fome. Jesus está a caminho do calvário, da crucificação. Sua obediência ao Pai celeste, apesar de ser muito sofrida e angustiante, resultará na glorificação (vitória total) de Deus e, conseqüentemente, do próprio Filho de Deus. É tempo de Quaresma e, portanto, a hora certa de deixar envolver-se pelos fatos que produziram a salvação (os eventos salvíficos). É chegada a hora de anunciar que a glorificação do Filho do homem (v. 23), na verdade, é idêntica à salvação do ser humano. A opção preferencial pela vida com Cristo é a grande proposta – a alternativa ao desespero diante do reino do mal (mundano). Quando Jesus fala do exemplo da semente de trigo, explica de maneira compreensível, mas também carinhosa, o caminho para a salvação do mundo: É preciso ser enterrado para que a verdadeira vida possa surgir, ou melhor, ressurgir. O fato acima relatado sobre a semente de tamareira da época de Jesus, que germinou após dois mil anos, ilustra a parábola da semente enterrada de Jesus Cristo: há um poder dentro da semente que impressiona. Ela irrompe dentro de um espaço (nutriente), ocupa um espaço bem maior e produz frutos muito necessários para a vida. Além disso, ela não está limitada ao tempo, normal e excepcionalmente. A semente não tem limitação de tempo e espaço – a salvação por Jesus Cristo idem.
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5O Domingo na Quaresma
Jesus diz que “chegou o momento de ser julgado este mundo”. O evangelista João expressa nessa frase simples a enorme importância do que está acontecendo. É o momento mais importante da história da humanidade. As pessoas que estão no culto devem ser conscientizadas desse fato. Aqui está o centro da vida. Assim como a Terra gravita em torno do Sol, a nossa vida gravita em torno da cruz de Cristo.
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Propostas litúrgicas
Confissão de pecados: Nosso querido Deus e Pai, neste tempo da Quaresma somos lembrados do árduo caminho que Jesus Cristo percorreu até o Calvário. Sabemos que isso aconteceu para a nossa salvação, libertação do mal e perdão de nosso jeito errado de ser. Mesmo assim, também hoje temos que confessar que saber não é o mesmo que fazer. Continuamos a cometer pecados e, por isso, suplicamos pelo perdão através de teu amado Filho Jesus Cristo, nosso Salvador. Amém. Oração do dia – oração de coleta: Pai celeste, nós te pedimos agora que nos concedas o teu Santo Espírito, para que corações e mentes, lábios e ouvidos estejam abertos e atentos à tua Palavra. Glorificamos o teu nome e teu Filho, pois a tua glória significa a nossa salvação. Isso provém de teu imenso amor por nós. Muito obrigado, Senhor! Amém. Oração de intercessão: Bondoso Deus, querido Pai! O teu imenso amor por nós passou pela dura prova da morte de Jesus Cristo. Não nos deixes esquecer isso! Colocamos sob teus cuidados todas as pessoas que amamos, nossa comunidade, nosso sínodo e nossa igreja. Suplicamos por nosso povo e nossa pátria. Dirige com o teu Santo Espírito todas as autoridades para que cumpram o seu dever de maneira correta, honesta e transparente. Pedimos por tua paz a este mundo conturbado. Com os corações agradecidos e esperançosos dirigimonos a ti com a oração que teu Filho, nosso Salvador, nos ensinou: Pai nosso...
Bibliografia STRATHMANN, Hermann. Das Evangelium nach Johannes, in: Das Neue Testament Deutsch. 10. ed. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1963.
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PRÉDICA: MARCOS 11.1-11
DOMINGO DA PAIXÃO
ZACARIAS 9.9-17 JOÃO 2.1-12
05 ABR 2009
Manuel Bernardino Santana
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Introdução
O fato histórico da entrada de Jesus em Jerusalém assemelha-se à chegada do Filho de Deus ao mundo. Marcos apresenta esse relato carregado de cores fortes. Zacarias mostra que aquele que vem chega como rei para a sua comunidade. João mostra a necessidade de um novo início. Mas o Senhor já entra na cidade ameaçado. Seus dias não serão muitos ali. Havia boatos e tentativas de desacreditá-lo. Segundo a narrativa joanina, líderes judaicos já estavam iniciando contatos para um plano de tirar sua vida. Haviam até resolvido também matar Lázaro, pois por causa dele muitos estavam crendo em Jesus. Foi esse sinal que fez com que muitos fossem esperar Jesus adentrar os portões de Jerusalém (Jo 12.9-11). O esquema de Marcos, seguido por Mateus e Lucas, é: Domingo: Entrada triunfal e volta a Betânia (11.1-11) Segunda-feira: Maldição da figueira e purificação do templo (11.12-19) Terça-feira: Vários discursos (11.20-13.37) Quarta-feira: Unção em Betânia e traição (14.1-11) Quinta-feira: Preparação para a Páscoa; última ceia; Getsêmani; detenção; julgamento diante do Sinédrio (14.12-72) Sexta-feira: Julgamento ante Pilatos; condenação; crucificação; sepultamento (15.1-47) Sábado: Jesus no túmulo (15.42-47) Domingo: A ressurreição (16.1-8)
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O texto
1. Quando se aproximavam de Jerusalém, de Betfagé e Betânia, junto ao monte das Oliveiras, enviou Jesus dois dos seus discípulos 2. e disse-lhes: Ide à aldeia que aí está diante de vós e, logo ao entrar, achareis preso um jumentinho, o qual ainda ninguém montou; desprendei-o e trazei-o. 3. Se alguém vos perguntar: Por que fazeis isso? Respondei: O Senhor precisa dele e logo o mandará de volta para aqui.
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Domingo da Paixão
4. Então, foram e acharam o jumentinho preso, junto ao portão, do lado de fora, na rua, e o desprenderam. 5. Alguns dos que ali estavam reclamaram: Que fazeis, soltando o jumentinho? 6. Eles, porém, responderam conforme as instruções de Jesus; então, os deixaram ir. 7. Levaram o jumentinho, sobre o qual puseram as suas vestes, e Jesus o montou. 8. E muitos estendiam as suas vestes no caminho, e outros, ramos que haviam cortado dos campos. 9. Tanto os que iam adiante dele como os que vinham depois clamavam: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! 10. Bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai! Hosana, nas maiores alturas! 11. E, quando entrou em Jerusalém, no templo, tendo observado tudo, como fosse já tarde, saiu para Betânia com os doze.
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Contexto histórico
Marcos afirma que, a partir de Betfagé e Betânia, Jesus inicia seu movimento em direção à cidade de Jerusalém. Betfagé significa lugar dos figos. Betânia é mais conhecida na tradição bíblica por ser a aldeia onde Jesus pernoitava em suas viagens, hospedando-se na casa de Maria e Marta (Lc 10.38,39). Betânia era considerada parte do território sagrado, segundo a tradição rabínica. Ficava a sudoeste de Jerusalém, mais longe da cidade do que Betfagé, que ficava à jornada de um sábado (At 1.12), ou seja, a cerca de um quilômetro de distância. Lugares como esses representam, em nosso contexto, os subúrbios de nossas grandes cidades, cidades-dormitório, para aqueles mais pobres, despossuídos, incapazes de adquirir uma propriedade dentro dos muros, protegidos dos ataques de grupos hostis. Aqui é citado também (11.1) o monte das Oliveiras. No Antigo Testamento, ele é citado apenas em Zacarias (14.4). Esse monte possui, na tradição judaica, uma importância singular. Teria sido dali que a pomba teria trazido a folha de oliveira a Noé na arca. Está separado de Jerusalém apenas pelo vale do Cedrom. Jesus enviou dois de seus discípulos para buscar um jumentinho para que pudesse entrar montado na cidade. Aparentemente foi de Betânia que ele deu a ordem para que se buscasse o jumentinho. Marcos destaca que o animal não fora ainda montado por ninguém. A ordem é clara: ao serem interrogados, deveriam responder: O Senhor precisa dele! Sem dúvida, o relato é pós-pascal. O querigma – Jesus como Senhor (Kyrios) – pertence à igreja tardia, com uma elaboração cristológica amadurecida. Jesus pregou o reino de Deus, sua iminência e seu caráter escatológico. Somente após a ressurreição é que seus discípulos passaram a pregar Jesus como Senhor. É Pedro, no
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Domingo da Paixão
discurso de Pentecostes, quem elabora um querigma com centralidade na pessoa de Jesus de Nazaré como verdadeiro Deus: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36). Marcos usa a expressão Kyrios em 11.3, título só atribuído a Jesus pela comunidade que fez a experiência da ressurreição. Naquele momento, seria impensável atribuir tal título a Jesus. Essa cristologia não seria desenvolvida senão muito mais tarde pelas comunidades pós-apostólicas na elaboração das releituras dos profetas e suas apropriações pelas comunidades cristãs emergentes. Por enquanto, ainda não se pensava dessa forma. Outras conclusões podem ser pensadas: 1 – Jesus havia combinado o empréstimo com alguém, e seus discípulos foram buscar o animal sabendo exatamente onde encontrá-lo e a quem procurar; 2 – pode-se pensar também que o autor de Marcos deixa de lado, na redação do texto, a questão histórica e pensa apenas em Jesus como Senhor. Seria uma espécie de vaticínio exeventu, ou seja, ele fala a partir dos acontecimentos posteriores, da confirmação da leitura que a comunidade pós-apostólica fará dessas narrativas. Quanto à sua devolução, Mateus muda completamente seu sentido, e Lucas omite esse fato completamente. Marcos está bem atento ao fato de que aquela marcha pelo meio da cidade teria um efeito de aclamação, vitória, procissão militar. Era assim que os generais vitoriosos entravam em suas cidades depois de grandes campanhas. Marcos escreve o Evangelho como se Jesus estivesse de fato envolvido em campanhas. A primeira começa em 1.6, quando ele chega junto ao mar e depois entra na sinagoga de Cafarnaum; a segunda começa exatamente aqui, quando chega a Betânia e inicia a caminhada com o propósito de chegar ao templo e realizar sua purificação. O fato de partir de Betânia sugere que o mestre elegeu esse povoado como seu quartel-general, uma espécie de retiro, lugar que lhe dava uma certa segurança diante da hostilidade da cidade de Jerusalém. Betânia serve-lhe de abrigo, não somente na casa das irmãs Maria e Marta, mas também lhe proporciona vários contatos, como o banquete na casa de Simão (14.3), quando é ungido por uma mulher. O Evangelho situa o início da marcha perto do monte das Oliveiras, lugar associado, na tradição apocalíptica, à batalha final contra os inimigos de Israel. É o que nos diz a profecia de Zacarias: Porque eu ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada, e as casas serão saqueadas, e as mulheres, forçadas; metade da cidade sairá para o cativeiro, mas o restante do povo não será expulso da cidade. Então, sairá o Senhor (IAHWEH) e pelejará contra essas nações, como pelejou no dia da batalha. Naquele dia, estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras... (Zc 14.2-4)
Estará Marcos supondo que Jesus sai para uma luta? É uma pergunta sem resposta concreta. No entanto, lembra que o líder rebelde Simão Macabeu
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entrou em Jerusalém como um vitorioso e foi aclamado com grande alegria. Confira o relato: Então clamaram a Simão para que aceitasse a sua mão direita, e ele os atendeu. Expulsou-os, porém, dali e purificou a Cidadela, removendo-lhe as abominações. Finalmente nela entraram ao vigésimo terceiro dia do segundo mês do ano cento e setenta e um (começos de junho do ano de 141 a.C.) entre aclamações e palmas, ao som de cítaras, címbalos, harpas, e entoando hinos e cânticos, porque um grande inimigo havia sido esmagado e expelido fora de Israel (I Mc 13,50-51 – Bíblia de Jerusalém).
Essa entrada comemorava o fim da ocupação selêucida em Jerusalém, que durou desde 167 a.C. Mas os paralelos são inevitáveis. Considerando que a narrativa de Marcos sobre a marcha de Jesus rumo a Jerusalém teria sido escrita apenas uns poucos anos depois de 66 d.C., quando Manaém partiu de Massada para Jerusalém como um rei, não resta dúvida da pretensão política do paralelo. A profecia de Zacarias (9.9) contrapõe-se à de Daniel (7.13). Há um dito do século III, atribuído ao rabino Josué ben Levi, indicando a tradição de Zacarias, interpretada como um julgamento de Israel: “Estai atentos, o Filho do Homem vem ‘sobre as nuvens do céu’ e ‘humildemente montando um jumento’”. Se eles (Israel) forem dignos, virá ‘com as nuvens do céu’; se eles não forem dignos, virá ‘humildemente e montando um jumento’. Nesse caso, a entrada de Jesus constituiria um indício para os pecados de seu povo. Só que Marcos pinta seu “quadro” com cores fortes. Acentua os detalhes. A ênfase recai sobre as instruções de preparação, na fala com os dois discípulos enviados, na preparação da procissão. Há muito cuidado nos detalhes, planejados e coreografados. Mas não se enquadra nos relatos tradicionais sobre a libertação de Jerusalém, porque é um texto claramente antimilitar em seu tom. Jesus não tenciona lutar em favor da cidade de Jerusalém como cidade-Estado. Seu significado é contrário ao sentido de outras marchas, essas sim de caráter militar, descritas aqui antes.
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Meditação
O sentido do texto aponta mais para a alegre manifestação popular pela presença de alguém que inspira confiança e promove a paz. Por isso o cenário inclui coro, danças, procissão, poesia lírica. O animal é coberto de panos, o que promove certa solenidade. O Senhor pisará o solo sagrado daquela cidade, e ali se consumará sua trajetória de sofrimento e vitória. Ele, que agora entra em Jerusalém com essa procissão, só sairá dali expulso com uma cruz em suas costas. Será posto para fora como um excluído, como alguém que não pode terminar sua vida dentro da área sagrada. Ele será condenado por um complô (Jo 11.50). Suas atitudes e
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pregação são consideradas perigosas para o status quo. Aqueles que estão no poder não negociam as condições vigentes. É preciso manter a todo custo regalias, privilégios e ostentação. Marcos observa o relato profético para colocar o Messias adentrando a cidade vindo do monte das Oliveiras (Zc 9.9). Em cada detalhe, o cortejo desenrola-se da maneira como o profeta o anunciou (Is 62.11). Está implícito na narrativa que Deus mesmo se encarregou de que tudo seja feito de acordo com o que Ele prometeu. Mas a marcha em si é burlesca. Um rei sobre um jumento que nem mesmo lhe pertence e que ele precisa devolver depois do uso. Um rei sem coroa, sem cetro, sem espada, sem corte. Seu caminho não está coberto de ricos tapetes, mas de panos velhos, as vestes de um povo sofrido e empobrecido. Roupas de gente peregrina, suarenta. Faz lembrar o ato de consagração do rei Jeú (2 Rs 9.13). Improvisaram galhos de árvores, folhas de palmeiras, galhos cortados na última hora, arrancados às pressas. Essa mesma multidão que grita, cheia de esperança, aclama-o enquanto supõe que ele se ajusta a seu imaginário de um ídolo messiânico. No entanto, vai condená-lo quando perceber que ele não corresponde ao que se esperava dele. Não terá Jesus sofrido mais com esse júbilo do que ter encontrado satisfação? Apesar de tudo, o gesto era uma homenagem. Mais significativa do que a entrada de um rei. Os ramos fazem parte da festa das Tendas e apontam para a presença de Deus. Diante do Eterno, o povo vive em tendas provisórias. Jesus é o rei que vem em definitivo. Vem habitar em meio a seu povo. É Deus que se encarna e vem ao encontro do ser humano. Multidão cheia de esperança, como nosso povo hoje, sofrido, mas ainda mantendo a esperança em um futuro melhor. Mas ali, em Jerusalém, proclamavam Jesus como Messias, cumprimento das expectativas messiânicas de Israel. Ele é aclamado como o verdadeiro rei de Israel; também afirmam que seu reino não é deste mundo. E a multidão, aglomerada nas alamedas, grita: Hosana, que tem o significado de “salva-nos, Senhor”. Também se cumpre a profecia de Zacarias (9.9). O Messias prometido está ali. Chega montado em seu jumentinho. Zacarias anunciara que o Messias inauguraria um domínio pacífico para seus súditos. Todas essas profecias só seriam assimiladas mais tarde, com o passar dos tempos, pela igreja que se organizava e ia aos poucos relendo os textos a partir de um novo princípio hermenêutico: o evento cristológico. No entanto, naquele instante, ao adentrar Jerusalém, só havia a primeira expectativa. Aquele homem simples, com um punhado de discípulos, gente tirada de todas as classes sociais, que assumiram aquele projeto estranho. Sim, aquele homem era sua esperança em pessoa. O conceito de “povo de Deus” precisa ser reestudado. O que significa ser “povo de Deus”? É dizer não à exclusão. Jesus chama todos para se tornar povo de Deus. Na parábola das bodas (Mt 22), ele enviou seus servos para as encruzilhadas dos caminhos e mandou convidar todas as pessoas que eles encontrassem para a sala do banquete. No evangelho de Jesus não há excluídos, não há impuros, não há leprosos. Há convidados e convidadas.
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A religião exclui; o evangelho de Jesus inclui. Um judeu não comia com gentios, porque esses seriam impuros. Jesus choca porque come com todos os que o convidam. Pratica a inclusividade. Não é sem razão que um teólogo como Karl Barth afirma que a religião é a mais alta expressão do pecado humano, e Dietrich Bonhoeffer levanta sua voz na cela da Gestapo para anunciar a desintegração da religião diante da cultura moderna. A humanidade chega à idade adulta, na qual o problema da religião não tem mais relevância. Bonhoeffer afirma que mesmo Jesus não foi um homem religioso e, quando se ocupou da religião e dos religiosos, foi para denunciá-los. Mário de França Miranda também oferece uma distinção entre fé e religião. Segundo ele, fé significa, em seu sentido bíblico, a atitude fundamental do ser humano em resposta à iniciativa salvífica de Deus. Ela consiste em fundamentar a vida em Deus, deixar que ele disponha dela. A fé envolve a totalidade da pessoa, afirma Miranda. A religião, entranhada nas sociedades, acaba sendo usada por ideologias dominantes, que se beneficiam de suas tradições para impor determinado modo de existência. Dentro dessa ampla preocupação com a dignidade humana situa-se o problema de milhões de pessoas que estão abaixo da linha da dignidade humana. São os pobres da terra, sem vez nem voz. Mas o “pobre” não existe como uma fatalidade nem sua existência é neutra. Ele é um subproduto do sistema em que vivemos e pelo qual somos responsáveis. É o marginalizado de nosso continente, o explorado, o oprimido, o subempregado, o despojado do fruto de seu trabalho. Por isso a evangelização deve promover a construção de uma nova ordem social, na qual as desigualdades sejam banidas e o ser humano possa viver em dignidade e respeito. O que deve ser evitado é que essa nova ordem não promova novamente o que se combatia, ou seja, um processo institucionalizador que, pelo hábito, repita os erros do passado ao tornar a instituição mais importante do que as pessoas que a compõem, observam Berger e Luckmann.
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Aplicação
Entrar em Jerusalém significa que Jesus está pronto para cumprir seu destino. Mostra que Jesus vai tocar na ferida. Os judeus buscavam com seus ritos de purificação sua santidade sacramental. Lavavam-se da imundície do convívio social, do qual às vezes não podiam fugir. Jesus transforma a intolerância em tolerância para recuperar a festa da convivência. Não por acaso, Jesus inicia seus “sinais” com o milagre da transformação da água em vinho. A água dos judeus separa. O vinho que Jesus traz une, reúne. Isto é, produz a volta da amizade, da conversa livre, do batepapo amigo. Olhando assim, o milagre em si é secundário. O que importa é o resultado que esse gesto produz. Dizer que o vinho acabou é dizer que desapareceu a possibilidade do diálogo, da convivência saudável. Quando a intolerância predomina, o vinho
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da convivência transforma-se nas talhas petrificadas da intransigência e da separação. Nietzsche afirma em seu livro “Genealogia da moral” que ama o Antigo Testamento porque encontra nele um povo. No Novo Testamento, esse conceito de povo está inicialmente perdido. O evangelho de Jesus denuncia a incapacidade de construção de um povo sem que primeiro se reconstruam os caminhos da convivência. Quando se fala de igreja como povo de Deus, não é um povo já estabelecido; é um povo que está sendo construído, edificado. Mais e mais pessoas, excluídas, precisam entrar. Jesus chama todos e todas, mas nós queremos chamar apenas alguns que nós julgamos ser dignos. Nesse sentido, somos antipovo. Lembramo-nos do cego de Jericó? Onde ele estava: “à beira do caminho” (Lc 18.35). Por que à beira? Excluído. Fora da estrada. Quando grita por Jesus, mandam que se cale. Mas o que Jesus faz? Chama-o para a estrada e inclui-o na comunidade. Esse é o maior milagre: é a inclusão no povo de Deus. Não é a cura física. Jesus não veio meramente para curar doentes físicos. A religião que estiver construindo sua fé em cima de milagres, exorcismos e curas está se distanciando do verdadeiro evangelho de Cristo. Jesus recria as condições para a convivência. Deseja ensinar-nos a compartilhar, a dar mais atenção às pessoas do que às coisas. Para viver o evangelho, é preciso recuperar a convivência. É aqui que começa o evangelho. A entrada em Jerusalém é prenúncio da mensagem do reino que chega até nós. A ordem vigente, injusta, precisa ser denunciada. Jesus vai ao templo e enche-se de indignação. Quebra as barraquinhas em frente ao templo. Por quê? Porque as barraquinhas lembram o sacrifício pelo mérito. Só sacrifica quem pode pagar. Será que tem alguma semelhança com hoje? Encontra uma samaritana e fala com ela. Ela se assusta. Por quê? Porque os judeus não falavam com samaritanos. Havia uma muralha étnica. Ele quebra a muralha e traz a mulher para dentro; depois em João 8 está a mulher pega em adultério sozinha. Ela não tem parceiro. Queriam apedrejá-la, pela lei. Jesus confronta aqueles religiosos hipócritas; manda atirar pedras se estiverem sem pecados. Ele então põe a mulher dentro da comunidade. Eles queriam sua exclusão radical com a morte. Jesus inclui-a no conceito de povo. E joga aquela lei deles para fora da muralha. Jesus queria incluir todo mundo no conceito de povo de Deus. Eu penso que João 11.50 é a chave para entender todo o Novo Testamento. Já que ele queria incluir todos, é necessário que ele morra para que não venha a perecer toda a nação, isto é, toda aquela compreensão de povo de Deus que eles criaram para si. A sentença de morte foi estabelecida na ressurreição de Lázaro. O evangelho de Jesus Cristo, nas narrativas de Mateus, Marcos, Lucas ou de João, é o evangelho da inclusão. Nele cabem judeus, samaritanos, gregos, gente de qualquer lugar e qualquer nacionalidade. O reino de Deus é formado por pessoas de todas as etnias e de todas as condições sociais. Não há distinção.
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Subsídios litúrgicos
A entrada de Jesus em Jerusalém aponta para o significado último do evangelho: a concretização de um projeto de Deus que é a constituição de uma comunidade que abrace, que seja solidária, que anuncie o reino não tanto com a verbalização do evangelho, mas com a prática, a experiência de quem teve um verdadeiro encontro com Jesus. Um dia, Jesus entrou em Jerusalém para encontrar ali seu destino. Isso é uma figura para mostrar que ele deseja entrar na vida de todas as pessoas. Ele disse (Jo 12.32) que, quando fosse levantado, atrairia muitos para si. Somos atraídos por seu amor, sua bondade, seu gesto de solidariedade. Canto final: (trechos da oração “Um reino para todos”, PL 22 – Lori Altmann) Tu és o Salvador e Libertador de todos os seres humanos E de toda a criação. O teu reino está aberto a pessoas de todos os lugares, A mulheres e homens, crianças e idosos, A representantes de todas as raças e cores, De todas as culturas e tradições: Presentes estarão pessoas do Oriente com sua mística, Pessoas do Ocidente com sua racionalidade, Pessoas do Norte com sua ciência E pessoas do Sul com sua esperança. Tudo será de todos e todas. Em teu reino há lugar para mulheres oprimidas e violentadas; Crianças roubadas em sua infância; Homens explorados em seu trabalho; Povos indígenas massacrados; Estrangeiros em sua própria terra. Todos poderão contar suas histórias de sofrimento, Partilhar suas experiências De resistência e espiritualidade, Enriquecer com seu amor e doação A convivência e a comunhão. Por que esperar por um futuro incerto, Se o teu reino já está em nosso meio? Por que protelar a partilha, Se tu partilhas tudo conosco? Por que discriminar as pessoas diferentes de nós, Se tu nos aceitas em nossa alteridade? Por que queremos uniformizar tudo em tua criação, Se a fizeste tão heterogênea, Tão diversificada, rica e colorida? Agradecemos-te por poder ser diferentes.
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Por não precisarmos ser tudo. Por podermos ser limitados. Por nos completarmos uns com os outros. Por nos aceitares em nossa alteridade e Por nos aceitares em nossa limitação Agradecemos-te que também na morte A vida não perde o sentido, Porque tu lhe dás uma nova forma e Um novo sentido em tua eternidade. Amém!
Bibliografia BARTH, Karl. Church Dogmatics. I/2. § 17.1. O Problema da Religião na Teologia. BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Trad. Floriano de Souza Fernandes. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1976. BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão; cartas e anotações escritas na prisão. Trad. Nélio Schneider. São Leopoldo: Sinodal, 2003. Carta de 30.4.1944. MIRANDA, Mário de França. Existência Cristã Hoje. São Paulo: Loyola, 2005. MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. Trad. I. F. L. Ferreira. São Paulo: Paulinas, 1992. RIENECKER, Fritz. Evangelho de Mateus. Trad. Werner Fuchs. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1998.
QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO ISAÍAS 42.1-4(5-9) Marcos 14.12-26 Apocalipse 19.6-10
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PRÉDICA: JOÃO 19.16-30 (31-37)
SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
ISAÍAS 52.13-53.12 HEBREUS 10.16-25
10 ABR 2009
Mauro Alberto Schwalm
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Introdução
O tema do dia é absolutamente dominante. A comunidade vem para a celebração comunitária sabendo de antemão o conteúdo da mensagem, os hinos, as orações, sabendo que vai se tratar do tema relativo ao sofrimento e à morte de Jesus Cristo, de sua crucificação. Muitas pessoas inclusive já viram filmes que procuram, com maior ou menor realismo, retratar a brutalidade dos acontecimentos descritos nos evangelhos. Isso pode gerar um certo automatismo. É uma época em que muitos cristãos visitam as igrejas com uma motivação ritualística, quase como que para poder sentir-se “em dia com suas obrigações religiosas”. Levando em consideração também que os textos, além de conhecidos, são densos e extensos, opto pela não-inclusão dos v. 31-37 quando da leitura do Evangelho de João com vistas à pregação. A proposta do lecionário para o dia também os coloca entre parênteses, apontando para a possibilidade de não abordá-los explicitamente. Neste estudo, portanto, os v. 31-37 não serão tomados como texto-base para a prédica. A Sexta-Feira da Paixão está no núcleo das celebrações do povo cristão, uma vez que se reporta a conteúdos decisivos para a compreensão de Jesus Cristo, de sua pregação, sua vida, seu significado em termos teológicos. Dessa forma, constitui-se numa celebração que tem um caráter de memória, de rememoração constante com vistas à consolidação de convicções, dentro do espírito do texto da leitura do dia, Hebreus 10.25: “não abandonemos o encontro comunitário”. Justamente por isso a comunidade é convidada e chamada para a rememoração de acontecimentos passados em relação aos quais a fé prevalece como elemento de ligação a transcender épocas. Nesse sentido, é também uma oportunidade para relembrar as pessoas de que a participação no culto não quer ser um gesto de sacrifício, mas de vivência e fortificação comunitária da fé e da pertença ao povo de Deus.
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Exegese
Creio que se pode dizer que não há apenas uma narração descritiva de fatos relacionados com o sofrimento, crucificação e morte de Jesus Cristo no Evangelho de João, mas uma tentativa clara de situar os acontecimentos no
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horizonte de uma interpretação orientada na história do povo de Isarel e em sua tradição, sobretudo profética. O autor do evangelho quer evidenciar a consumação das antigas profecias nos acontecimentos que envolveram Jesus Cristo, sensibilizando seus leitores, sobretudo num contexto de animosidade para com a comunidade cristã, isso por volta do final do primeiro século. Para o autor do Evangelho de João, era importante ressaltar nos acontecimentos relacionados com Jesus Cristo o caráter de cumprimento do propósito divino. A leitura do texto de Isaías 52.13-53.12 igualmente reforça essa ênfase no todo do culto. Abaixo seguem elementos para uma compreensão de detalhes do texto para a pregação. 2.1 – Contexto antes do texto Considero imprescindível lançar os olhos sobre o contexto, sobre as palavras precedentes. O evangelista descreve em João 19.1-15 o processo de julgamento e a tensão do embate entre Pilatos e as lideranças políticas e religiosas do povo de Israel. O componente político desempenha um papel destacado, tanto na argumentação de Pilatos bem como no discurso das lideranças judaicas. Também para os sacerdotes, César é o rei, e não Jesus. E esse componente de ordem política, aliado aos aspectos de ordem religiosa, determina o andamento dos fatos. É claro que ambos os aspectos não são unidades estanques, pois se mesclam na argumentação, de acordo com os interesses e preocupações em jogo. Pilatos abre mão de sua tendência complacente inicial diante da lembrança do poderio do imperador romano (v. 15), razão pela qual o processo desemboca no seu gesto de lavar as mãos. V. 16 – Entrega: ao “entregar” Jesus a seus algozes, Pilatos “transfere” responsabilidade ou ilude-se de que o está fazendo. O gesto quer sinalizar isenção. Mas é inegável que ele poderia ter evitado a “entrega”, pois dispunha de autoridade e poder para tal, até porque a crucificação apenas foi consumada após esse ato de “entrega”. Com isso fica evidenciada a sua participação decisiva no processo. V. 17-18 – Solidão: a tortura física e espiritual contra Jesus continua, na medida em que ele mesmo precisa carregar o aparato que será usado para a sua execução. De acordo com João, ele é o cordeiro que carrega o pecado do mundo. Portanto carrega também a cruz que nem deveria ser “sua”. O caminho é de enfrentamento solitário dos próprios limites físicos e emocionais num contexto de flagrante injustiça. Que ali se realize a justiça de Deus não pode embotar a visão para o fato de que são acontecimentos injustos. No topo do monte, cujo nome evoca a imagem da morte consumada –“caveira” –, a solidão é potenciada apesar da crucificação coletiva: o justo continua só e incompreendido ao ser igualado àqueles que agiram criminosamente. Ainda assim, a descrição de João não enfatiza a violência e dramaticidade dos acontecimentos. V. 19-22 – Confissão velada: a ingerência de Pilatos reaparece ao ordenar a identificação do crucificado, que, a seu ver, talvez nem deveria ter sido
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crucificado (Jo 18.38) e um título é atribuído a Jesus: rei dos judeus. Pilatos baseia-se no diálogo tido com Jesus durante o processo. O que significa esse gesto? Poderia significar a convicção de Pilatos ou sua dúvida, afinal Jesus não disse nem contradisse, embora tenha deixado claro que seu reino não é deste mundo (Jo 18.36). Mas certamente o gesto de destacar a identidade de Jesus também foi uma manobra mediante a qual Pilatos procurou isentar-se a si mesmo e evidenciar uma causa externa para a condenação (Jo 19.7). A reação dos “principais sacerdotes” evidencia o desconforto gerado. Querem que Pilatos volte atrás e mude a formulação. Pilatos nega e mantém sua posição. A interpretação acaba ficando sob responsabilidade de quem lê a placa. Para muitos visitantes que naqueles dias vieram a Jerusalém, certamente ecoou a pergunta: que rei é esse? Um agitador político e religioso. Provavelmente a resposta mais fácil... Ou o “enviado de Deus”, o Messias. João não dá uma resposta nesse texto. Mas seu evangelho está permeado da resposta. A descrição está a serviço de sua convicção: a convicção de alguém que havia compreendido as Escrituras (Jo 20.9). V. 23-24 – Nudez: como se fosse um despojo de guerra, os poucos “bens” de Jesus são repartidos entre seus algozes. Sinal de que é caminho sem volta: a cruz não seria uma experiência a mais, ela seria a experiência derradeira. Sua nudez não será mais coberta por sua túnica. O evangelista reporta-se ao Antigo Testamento para comunicar a seus leitores que os fatos acontecidos por ocasião da execução correspondem às antigas profecias e assim estabelece o elo com a vontade salvadora de Javé. V. 25-27 – Ternura em meio ao sofrimento: um aspecto marcante desses versículos é o resgate da proximidade humana. O evangelista narra o zelo de Jesus para com sua mãe na medida em que estreita o elo de ligação entre a mesma e o “discípulo amado”. Para aquele que estava morrendo, esse certamente foi um marco libertador, uma vez que pode entregar-se sabendo que entre os que permanecem consolidam-se a solidariedade e o cuidado mútuo. Embora o processo, o carregar da cruz e o sofrimento tenham sido solitários, resgata-se aqui o horizonte da pertença para além dos limites impostos pela morte inevitável. Proclama-se a importância da comunhão entre os que permanecem. V. 28-29 – As forças se esvaem: mais uma vez, o evangelista reforça sua compreensão acerca da realização das profecias e sublinha que no Jesus pendurado na cruz se projeta o propósito divino. Aqui está o Jesus humano, como muitos prefeririam não tê-lo visto: frágil e sem forças para libertar-se a si mesmo, enfrentando a morte, sendo vítima de uma última ação que não aplaca, ao contrário potencia a sua sede. E na escritura antiga encontra-se a evidência de que aqui se cumpriu a vontade de Deus. O arco vai se curvando até chegar a seu ponto mais profundo; esse ponto sinaliza: o propósito de tudo em breve estará cumprido. V. 30 – Entrega: se antes Jesus foi entregue à cruz, desta vez se trata da entrega de Cristo na cruz. Para o evangelista, o Cristo sabedor do porquê de tudo aquilo entrega seu último suspiro com a convicção de ter completado a
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sua missão. É uma entrega consciente. Assim como enfrentou conscientemente a entrega aos soldados por parte de Pilatos, entregou-se no momento derradeiro. João não o escreve, mas subentende: Jesus entregou-se nas mãos de Deus, de quem dependia o sentido de sua vida e de sua morte. 2.2 – Contexto depois do texto Outros aspectos relacionados com a narrativa da morte de Jesus Cristo são abordados pelo evangelista, culminando no seu sepultamento. De maneira especial nos v. 36-37, o evangelista sublinha seu propósito de vincular a descrição feita com a mensagem da profecia veterotestamentária. Mesmo o sepultamento de Jesus teve de acontecer de forma rápida e discreta para evitar mais enfrentamentos em uma Jerusalém apinhada de visitantes por causa da Páscoa. Um pequeno círculo familiar, além de amigos e conhecidos mais próximos, resgata o corpo e lhe oferece o derradeiro repouso.
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Meditação
Jesus foi entregue por Pilatos para ser crucificado. Quanto poder, quanta autoridade! Eu hoje parto do princípio de que Pilatos estava obviamente errado. Ninguém, convencido do significado da vida, pregação, obra de Jesus Cristo, conseguirá interpretar diferente. Jesus caiu nas redes traiçoeiras da incompreensão e da injustiça, ainda que dessa forma Deus tenha consolidado sua vontade de salvação. Porém ecoa em minha memória o pensamento acerca de inúmeros processos injustos, calcados em interpretações étnicas, religiosas, políticas parciais, que desembocam na “entrega” à morte de tanta gente mundo afora. Entre essas pessoas há homens e mulheres que se destacam, integram o rol das biografias famosas, mas há igualmente inúmeros mártires desconhecidos. No calor da disputa, tendem a prevalecer o argumento e a posição de quem detém o poder. Muitas vezes, por causa do temor de quem tem ainda mais poder. Por maior que seja o número daqueles que acompanham um paciente terminal, o conflito e o embate com a morte são solitários. O paciente terminal sabe – e também os que o acompanham – que ele é o foco: o foco da doença, o foco do tratamento, o foco das visitas. Ou ele sobreviverá, ou não. Jesus era o foco, o centro do processo. Ou seria inocentado, isentado, ou não. Mas o conflito já tinha ido longe demais. Como voltar atrás? Quem iria pagar o preço de uma derrota? Pilatos e seus palacianos? Os incitadores do conflito e sua “causa coletiva”? Iria Jesus renegar sua pregação? Os poucos que acompanhavam Jesus e compactuavam com sua causa não conseguiram evitar o desfecho. Solitariamente, Jesus é torturado, achincalhado, carrega sua cruz e sabe que é só questão de tempo, depois de ter os pregos cravados em sua carne. Não estava só. Mas estava só!
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Fico imaginando o quanto esse “caso” incomodou a consciência de Pilatos (ou não...). Entre tantos outros prováveis casos, esse recebeu destaque especial, com uma placa de identificação em três idiomas correntes naqueles dias. Uma placa que desencadeou reações de indignação entre a liderança do povo, pois a frase tem marcada conotação política e religiosa. Hipóteses: a) Pilatos queria deixar claro mais uma vez que não era por causa dele ou de Roma que Jesus estava morrendo; b) Pilatos estava impressionado com a convicção com a qual Jesus encarou a morte e veladamente formula uma confissão; c) Pilatos queria ridicularizar Jesus e destacar assim a sua pretensiosa “loucura”. Em todos os casos, Pilatos baseou-se nas informações que recebeu também de Jesus. Em seu diálogo em João 18.36-37, Jesus menciona “seu reino” como um reino que não é deste mundo e que ele é testemunha da verdade. E como Jesus não nega o título que lhe é atribuído, Pilatos sente-se legitimado a usá-lo, servindo assim, de alguma forma, a propósitos para além de sua compreensão. A ação misteriosa de Deus se faz perceber. O evangelista João procura já em sua descrição apontar para essa presença, para essa ação. O elo entre as esperanças do Antigo Testamento e a pregação de Jesus Cristo é destacado. O evangelista queria e precisava argumentar situando os eventos no contexto de uma história de raízes antigas e abrangentes, para evidenciar o propósito de salvação contínuo e renovado de Deus. E havia muitos pontos de conexão entre as profecias e os eventos envolvendo Jesus Cristo. Como deixar de perceber isso? Como deixar de relatar sobre isso? Deus age misteriosamente. Ainda há espaço para ternura e solidariedade em meio à angústia da morte avizinhada. Não é assim que muitas vezes o moribundo se preocupa tanto com os que ficam, assim como esses com ele? Deixar a mãe para trás, quem sabe desamparada, numa sociedade discriminatória, é doloroso para quem está consciente de que está morrendo e nada mais pode fazer. Imagino que tenha sido uma sensação reconfortante poder entregar o espírito, sabendo que uma perspectiva de caminho se abria também para quem ficava. Recentemente, vi uma reportagem que contava – entre outras – a história de uma mãe africana, portadora do vírus HIV, cuja filha pequena era sua maior preocupação: “Preciso me cuidar”, dizia ela, “para poder estar o máximo de tempo ao lado de minha filha”. E isso a despeito das precárias condições de vida de que dispunham. A marca da morte não necessariamente impede a solidariedade, o zelo e o cuidado para com a outra pessoa. Também aí Deus age misteriosa e inesperadamente. E o evangelista aponta para a dimensão da comunhão que pode brotar entre aqueles que se deixam guiar, conduzir, unir debaixo da herança da mensagem anunciada por Jesus Cristo. Jesus foi entregue às mãos de seus juízes. Quis um deles fazer-se de desentendido e lavar suas mãos. Não é assim que muitas vezes repetimos o gesto? Penso em detalhes do cotidiano, em que a atitude mais fácil é “tirar o corpo fora” para não se dar mal. Jesus não tirou o “corpo fora”. Ao contrário, manteve-se coerente com sua pregação e encarou o risco. E, no final, Jesus faz mais uma entrega: inclinando a cabeça, entrega o espírito. Corpo e espí-
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rito são entregues num gesto de coerência e concordância consigo mesmo, com a vocação para ser testemunha da verdade. Que verdade?, perguntou Pilatos. Pergunta que se repete e ecoa ainda hoje. Quando Jesus entrega o espírito, consuma-se o juízo. Mas é – assim leio – uma entrega em esperança e convicta dignidade. Aqueles que somente conseguem ver os reinos “deste mundo” dão a história por encerrada. Mas o seu reino não é deste mundo; seu reino não vê na injustiça nem na arbitrariedade a última palavra. Penso, ainda, em duas situações de preocupação global, que são cruzes no caminho: a) nós estamos submetendo nosso planeta, de limitados recursos, a um processo de degradação agressiva e injusta. O aquecimento global é uma cruz imputada à criação. Nossas vaidades levam-nos a produzir tanto lixo, que sobrecarrega ecossistemas; nosso consumo de energia é tão desvairado, que as fontes conhecidas vão se esgotando. Vamos esperar até que a Terra diga: “está consumado”? b) grupos inteiros de pessoas, povos, não têm tido acesso à água ou a alimentos por causa de processos de distribuição injusta. Uma agricultura “industrializada” produz essencialmente com base em princípios de lucratividade, e as crises vão aumentando mundo afora, gerando conflitos humanos sociais por causa da cruz da fome. Como lidar com essa situação sem simplesmente “lavar as mãos”?
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Imagens para a prédica
1 – As imagens que derivam do próprio texto são imagens que vêm carregadas de um forte simbolismo e que podem desencadear diferentes associações. Menciono duas: Carregar a cruz – a maioria das pessoas pensará não somente na cruz que Cristo carregou, mas poderá associar rapidamente com a sua própria cruz (pessoal, particular). Popularmente, fala-se muito de “carregar a própria cruz”, em alusão aos sofrimentos pelos quais se passa: doença, luto, desemprego, pobreza, desentendimentos com o companheiro, brigas familiares, crises e tragédias... Não creio que seja possível evitar esse caminho; mas se pode tentar ajudar as pessoas a não pensar apenas nas suas próprias cruzes, mas nas dos outros também. Caveira – assim podia ser chamado o monte no qual aconteceu a crucificação. Caveira lembra morte, lembra a exposição dos ossos, sem carne, sem vida. “Ser ou não ser, eis a questão”, proclamava o personagem de teatro, contemplando uma caveira e meditando acerca do sentido da (sua) existência. Sexta-Feira Santa confrontanos com o sofrimento e a morte de Jesus Cristo. Qual o sentido desse sofrimento e de sua morte? Teriam tido um fim em si mesmo? Ou teriam sido antes o desfecho de uma vida dedicada “ao espírito da verdade”? Há que se perguntar se a ênfase deve estar na mensagem da morte vicária ou na mensagem da vida devotada aos propósitos do reino de Deus. A morte de um mártir apenas se torna relevante quando associada a uma vida relevante para a causa em nome da qual ou por causa da qual se enfrenta a morte (ou por causa da qual a morte se torna “o preço” a ser pago). Antes de morrer por nós, Jesus
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viveu por nós. E acrescente-se a mensagem da Páscoa, que não pode ser esquecida: reviveu por nós. 2 – Enquanto pensava sobre o texto e sua mensagem, lembrei-me de uma antiga ilustração. Encontrei uma versão no site da Associação de Pastoras e Pastores da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (APPI), bem como uma outra lenda chinesa que pode ser aproveitada: a) Um homem queixava-se constantemente perante Deus. Ele dizia: “Meu Deus! Tu tens colocado sobre mim uma cruz pesada demais. Os outros, com suas cargas, estão em melhor situação. Sei que cada um tem que carregar sua cruz, mas a minha é muito pesada”. Ele estava sempre descontente e reclamava, invejando os outros. Certo dia sonhou. Estava numa enorme sala com muitas cruzes empilhadas, de ouro, prata, madeira, rústicas, trabalhadas, grandes, pequenas, leves, pesadas... De repente, uma voz surgiu, dizendo: “Escolhe uma para ti”. Então ele tirou do ombro aquela que tanto o incomodava e experimentou primeiro a de ouro. Era a menor e mais bonita. Constatou que era muito pesada. A sua própria era melhor. Pegou a de madeira, fina e longa, mas ficou enroscando pelos cantos. A sua era melhor. Pegou uma feita de taquara. Essa sim era leve! Mas as pontas o incomodavam. A sua ainda era melhor. Já estava aborrecido. Não encontrou nenhuma. Então olhou para a porta e viu uma cruz média, que lhe agradou: era nem muito grande, nem pequena, de madeira simples. Pôs sobre seus ombros e gritou: Viva! Achei! É esta! Novamente olhou a cruz e reparou que era a mesma que ele havia deixado junto à porta ao entrar. Acordou, então, de seu sonho, envergonhado de tanto reclamar. Deus criou-nos de maneira especial. Ninguém é totalmente igual. Assim também nossa vida, nossa responsabilidade, nossos fardos são diferentes. Deus concede ânimo a todos para levar seus fardos (1Co 10.13). A solução não está na reclamação, mas na luta por condições melhores, lembrado que Deus nos concede entendimento e força para cumprir nosso chamado. Oração: Senhor! Tu és o nosso Criador. Ajuda-nos a entender o mundo que nos cerca, o nosso coração e o teu chamado, colocando em nós disposição para te servir. Amém. b) Vida sem sofrimento – Uma lenda chinesa conta que uma mulher ficou muito abalada com o falecimento de seu filho e por isso foi procurar os conselhos de um sábio. Perguntou-lhe: “Que orações o senhor conhece para que eu possa livrar-me desse grande sofrimento?” – “Traga-me um grão de mostarda de uma casa em que não houve sofrimento”, respondeu o sábio. A mulher saiu a procurar a sementinha especial. Chegou a uma casa muito bonita e bateu na porta. “Procuro uma casa sem sofrimento. Será que é aqui? É muito importante para mim”, disse a mulher. Mas os moradores passaram a relatar as desgraças que volta e meia lhes aconteciam. A mulher pensou: “Quem poderia ajudar melhor essa gente abatida do que eu?”. Ela ficou e começou a animar as pessoas. Depois continuou procurando a semente de mostarda da casa sem sofrimento. Mas onde quer que chegasse, nas cabanas ou nos palácios, sempre encontrou sofrimento. Ela ficou tão ocupada em
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consolar as pessoas, que esqueceu a busca do grão de mostrada e, sem se dar conta, superou a sua própria dor. 3 – Citações avulsas de uma prédica que encontrei na internet e que apresento aqui traduzidas livremente (Nürnberg – endereço da web na bibliografia): “Sexta-Feira Santa é um dia carregado de tristeza, porque expõe diante de nossos olhos o que o ser humano pode fazer a outros seres humanos.” “Dolorosamente tomamos ciência num dia como hoje como para muitas pessoas é difícil fazer o bem e não ver em pessoas que fazem o bem necessariamente inimigos. Sexta-Feira Santa é um dia carregado de tristeza, porque dolorosamente nos damos conta de como muitos poderosos na sociedade e na política fazem valer seu poder e sua vontade sem um pingo de misericórdia.” “A vida de Jesus não foi sem sentido. O que ele semeou no coração humano encontrou solo fértil. A morte na cruz não apagou seu significado nem sua mensagem.” “Quem confia na mensagem de Jesus de Nazaré sabe que um sinal evidente da fé é a comunhão com outras pessoas.” “Seus últimos pensamentos estão voltados para a comunhão, para a lembrança de que ninguém neste mundo precisa estar só com sua dor. Tudo o mais pode passar, mas isso permanece.” “Jesus lança as bases de uma comunhão que transcende sofrimento e morte. Assim a sexta-feira santa também é um apelo contra a morte e a favor da vida.” 4 – Não por último, os pontos abordados na exegese e na meditação podem ajudar na construção da pregação: a questão da entrega, da confissão velada, da ternura e do cuidado, a ação misteriosa de Deus contra as evidências, as cruzes globais...
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Subsídios litúrgicos
“Bendito seja o Senhor que, dia a dia, leva o nosso fardo. Deus é a nossa salvação” (Sl 68.19). Oração de confissão: Deus misericordioso, mediante Jesus Cristo, teu filho, tu nos ofereces a possibilidade de comunhão para a vida. Em Jesus Cristo, que carregou a cruz que não era sua, depositaste também o nosso pecado, a nossa culpa. Somos comunidade que a ti pertence, por isso podemos achegar-nos confiantemente a ti, sabedores da tua graça, da tua piedade, da tua disposição para perdoar. Ajuda-nos a olhar para nossa vida; ajuda-nos a perceber nossos pecados. Ajudanos a perceber quando imputamos dor a alguém; ajuda-nos a perceber quando simplesmente lavamos as mãos e nos afastamos do caminho da justiça, da fraternidade. Ajuda-nos assim a dar sempre renovadamente o passo do pedido de perdão e do retorno aos caminhos de teu amor, da solidariedade para a qual nos chamas. Por isso nós te pedimos, a ti que és Senhor sobre a vida e a morte,
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Senhor da esperança e da ressurreição: perdoa-nos e concede-nos a disposição para seguir pelos caminhos indicados em tua palavra. Amém. Oração do dia: Deus de fidelidade, tu te encarnaste e enfrentaste fielmente o fardo do sofrimento injusto. Foste entregue como mercadoria e despojado de tua dignidade, sinalizando assim o caminho da coerência entre palavra e vida. Não te esquivaste da dor e do descaso, abrindo o caminho da redenção no seguimento da verdade. Também nós muitas vezes nos deparamos com a pergunta ou perguntamos a nós mesmos: o que é a verdade? Ou onde está a verdade? Ou ainda, qual verdade? Ajuda-nos, ao ouvir a tua palavra, a reconhecer a verdade que ofereces: verdade de amor, de justiça, de solidariedade, verdade de paz e superação do mal causado pelas cruzes que proliferam neste mundo. Alimenta nossa esperança com a tua palavra. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Observações introdutórias referentes ao evangelho de João. In: Proclamar Libertação. V. VIII, p. 7-15. São Leopoldo, 1982. SANDER, Luís Marcos. Sexta-Feira Santa, João 19.16-30. In: Proclamar Libertação. V. X, p. 284-293. São Leopoldo, 1984. http://www.appi.org.br/ — http://www.moegeldorf-evangelisch.de/
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PRÉDICA: ATOS 10.34-43
DOMINGO DA PÁSCOA
MARCOS 16.1-8 1 CORÍNTIOS 15.1-11
12 ABR 2009
Hans Alfred Trein
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Introdução
Fiquei impressionado! Um antropólogo palestrava: “Eu sou um racista! O imaginário racista está dentro de nós. Nascemos e crescemos dentro dessa sociedade racista. Eu sou racista, embora não queira sê-lo. Sorvemos diariamente a reprodução do racismo ao nosso redor, na realidade de discriminação social, na televisão, nas piadinhas, nas expressões e palavras que usamos. Por isso, diária também precisa ser a nossa luta para superar o racismo em nós”. Sua coragem para expor publicamente seu próprio racismo encorajou-me a fazê-lo também, ali no silêncio de minha privacidade, comigo mesmo, longe de olhos e ouvidos que imediatamente me interpelassem. Sentado ali anonimamente na platéia, tive tempo e intimidade para aprender: não basta apenas não querer ser racista. O antropólogo foi honesto, tanto em admitir seu próprio racismo como também em indicar que a superação do racismo não é coisa simples. Pode levar anos e anos de disciplinado trabalho. Aliás, muito interessante é que a palavra disciplina tem a mesma raiz de discípulo. Talvez se pudesse até dizer que é sinônimo de discipulado. Esse primeiro passo – admitir o próprio racismo – certamente é fundamental. Do contrário, ficaremos uma vida inteira escamoteando esse “velho Adão” dentro de nós com declarações politicamente corretas, mas mentirosas. O discípulo Pedro deixou-se transformar. Estamos também nós dispostos a fazê-lo? No fundo, isso é assunto de ressurreição.
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Considerações exegéticas
Temer a Deus e fazer o que é justo – esta é a postura fundamental que abre Pedro para a ecumene, faz dar um salto de qualidade e superar o etnocentrismo. “Temer a Deus e fazer o que é justo” nem é tão novo assim. Na verdade, já é tradição. Basta revitalizar a memória. Mas o que significa “temer a Deus”? Nas narrativas sobre José (cf. interessante estudo de Tiss sobre o temor de Deus como atitude missionária fundamental) no Primeiro Testamento, o termo hebraico em Gênesis 42.18 é iarah, no sentido de ter medo. Em outros textos, o significado do termo vai mais no sentido de venerar, adorar. Juntam-se nesse termo a adoração pelo Criador, pelo poderoso e
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santo, e o temor de que ignorá-lo pode resultar em desgraça. O Salmo 34.1114 resume o temor a Deus: não dizer coisas más, não contar mentiras, afastar-se do mal e fazer o bem, procurar a paz. O temor a Deus impediu que José traísse a confiança de Potifar; por isso não cedeu às seduções da esposa dele. José explica que foi o temor a Deus que o motivou a respeitar os hebreus, mesmo quando eram suspeitos de espionagem. Nesse sentido, o temor a Deus é uma garantia dos direitos humanos básicos, mesmo quando se trata de estrangeiros ou potenciais inimigos. Do ponto de vista de José, temer a Deus implicou perdoar e desistir de qualquer revanchismo contra os irmãos que o haviam vendido como escravo ao Egito. O temor a Deus impediu que ele partisse para o abuso do poder quando ministro do faraó, negociando com a população faminta. O temor a Deus parece ter sido uma postura reguladora de toda a vida de José. Com essa postura José integrou-se sem problemas na cultura egípcia, totalmente diferente da sua. Em resumo: o temor a Deus leva a gente a fazer o que é justo. Em nosso texto, o radical grego do verbo está na base da palavra fobia; em português claro, significa “borrar-se de medo”. Em relação a Deus, é usado no sentido de respeito incondicional, veneração e adoração. É temor no sentido de não dispor de Deus a bel-prazer e na ilusão de segurança. Deus permanece indisponível. Sua atitude ou resposta é sempre imprevisível. O fato de terse encarnado em Jesus Cristo não significa que Deus se colocou em nossas mãos ou mentes, que podemos moldá-lo segundo nossa imaginação e funcionalizá-lo segundo nossos desejos e propósitos. Deus é sempre maior e diferente do que conseguimos apreender fragmentariamente. Deus é totaliter aliter (totalmente diferente). Por isso a atitude fundamental mais apropriada é absoluto respeito e humilde relativização das próprias concepções. Essa postura gera fraternidade e paz tanto para dentro como para fora de seu respectivo grupo. Não é uma atitude meramente espiritual, religiosa, mas muito prática e cotidiana, que resulta em respeito aos outros, aos diferentes.
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Meditação
3.1 – Um sonho é mais eficiente do que argumentos lógicos O texto selecionado começa com um reconhecimento novo. Embora soe para nós quase como óbvio, Pedro, que viveu no primeiro século, não tinha a menor noção da “igualdade de todos os seres humanos”, inerente a códigos modernos de direitos humanos. Ele faz uma declaração inédita: “Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável”. Ou seja: não é necessário fazer parte de algum “povo escolhido” para ser aceito por Deus (nem por circuncisão, nem por batismo cristão). O critério é outro: as pessoas de qualquer etnia, grupo humano, raça ou cultura são aceitas por Deus, desde que o temam e façam o que é justo. Os tementes a Deus que
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existem em todas as culturas têm muito a partilhar a respeito de suas diferentes experiências de Deus. A ortopraxia pode uni-los todos: fazer o que é justo. Em outras palavras: ser parte do “povo escolhido” ou da ecclesia não dá status de salvação, mas é, antes de tudo, convocação, compromisso com o projeto de Deus. Não é status salvífico; é missão. Na seqüência do texto, Pedro dá testemunho de como Deus se revelou “aos filhos de Israel” (!) através de Jesus de Nazaré, sua pregação, paixão e culminando com sua ressurreição. A validade da ressurreição de Jesus Cristo é universal, mas sua experiência religiosa é histórica e cultural. Pedro a compartilha, a pedido. Esse reconhecimento novo não é resultado de algum raciocínio lógico. Tem a ver com uma experiência impressionante: uma visão. A narrativa anterior apresenta Pedro orando fervorosamente em cima da casa, no calor do meiodia. Sentiu fome e caiu em transe, enquanto a comida tardava. O que o fez mudar de mentalidade e de atitude frente aos gentios foi uma visão, um sonho que, num primeiro momento, parece não ter nada a ver com pessoas de outras culturas e etnias. A visão mexeu fundo num tabu alimentar, escondido em alguma parte de seu ser, inalcançável por qualquer argumentação racional. O sonho transforma-se em pesadelo. Pedro estava sendo pressionado a comer de tudo, inclusive comida que sempre aprendeu a considerar nojenta. Ele ficou perplexo, assim como nós ficaríamos, se uma voz nos dissesse para comer carne de cachorro, formigas ou larvas de pau. O significado do pesadelo foi entendido quando Pedro foi levado a encontrar um gentio. Foi então que ele reconheceu a relação entre sua náusea alimentar e o desprezo que, até aquele instante, sempre tivera pelos gentios. A antropologia chama de etnocentrismo esse fenômeno verificável em cada grupo étnico de achar que seu jeito de organizar a vida é o melhor ou, em linguagem religiosa, o mais agradável a Deus. Se Deus contrariava radicalmente tudo aquilo que Pedro tinha aprendido sobre alimento no plano gástrico, com a mesma insistência Deus agora contrariava tudo aquilo que Pedro tinha aprendido sobre os seres humanos a um nível visceralmente irracional. Cheiros e odores marcam a gente também de forma discriminatória. Eu lembro que, na minha casa, se comentava o cheiro de fumaça dos caboclos. Se alguma vez tivermos torcido o nariz para seu cheiro de fumaça, é bom saber que entre indígenas os brancos são conhecidos por seu cheiro de leite azedo. O senso comum relaciona Pedro com cristãos de origem judaica e Paulo com os cristãos de origem gentílica (não-judaica). Nessa narrativa, Lucas mostra que Pedro teve uma experiência que o fez abrir a comunidade cristã primitiva à participação de não-judeus. A rigor, toda a discussão sobre se gentios deveriam tornar-se primeiro judeus para depois aspirar a tornar-se cristãos (At 15) já está superada nessa narrativa. 3.2 – Vencer o preconceito é experiência de ressurreição Em geral, consideramo-nos seres racionais. Disso resulta acharmos que um argumento lógico e racional é a maneira mais eficaz de nos convencer a
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mudar nossa maneira de pensar. Na pregação, também costumamos trabalhar com raciocínios mais ou menos lógicos. Mas, nesse assunto de racismo, argumentos lógicos parecem ineficazes. São temores irracionais, tabus ancestrais, forças que mal entendemos, que nos fazem agir de maneira diferente daquilo que já tínhamos aceito como verdade da razão. Por isso, ao caminhar por uma rua deserta, fico inquieto quando estou sendo seguido por alguém bem diferente de mim e estou mais sereno quando seguido por alguém semelhante, da mesma etnia ou cultura. Talvez até consigamos explicar isso com fatos históricos ou políticos, com conflitos que nos ameaçaram no passado. Mas essa explicação ainda não resolve nossa inquietação, preocupação ou medo. É por isso que a transformação de nossa mentalidade racista requer algo mais do que a mera força da razão. Em geral, reproduzimos um discurso politicamente correto de negação do racismo e achamos que já não somos mais racistas. Essa casca que construímos ao nosso redor é a primeira a ser permeabilizada. Demanda anos de disciplina, discipulado. Entretanto, depois de admitido o racismo, como chegar nele para superá-lo? No Conselho de Missão entre Índios (COMIN), estamos fazendo a observação de que muito mais eficiente do que fazer discursos e elaborar textos contra o racismo e a discriminação é promover o encontro entre as pessoas de diferentes etnias e culturas. Comer juntos tem um efeito incrível. Levamos nossos visitantes, durante a Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em fevereiro de 2008, para aldeias indígenas, almoçamos juntos. O nível de conversa e de aproximação é de outra qualidade. Promover um encontro entre alunos de uma escola evangélica e de uma escola indígena cria laços e marca as pessoas de tal forma que a gente começa a ter novamente a perspectiva de uma convivência reconciliada entre pessoas completamente diferentes. Ao invés de discutir sobre os sem-terra ou remanescentes de quilombos, convide o interlocutor a visitar um acampamento ou assentamento, almocem juntos. A conversa vai ser completamente diferente. Não é acaso que comer juntos tornou-se um elemento fundamental do culto cristão ao lado da memória e leitura de textos que nos vieram da tradição judaica. Na verdade, Pedro dá-se conta de algo fundamental: ninguém é privilegiado diante de Deus por ser dessa ou daquela religião, dessa ou daquela raça, dessa ou daquela cultura. Esse reconhecimento também é fundamental para nós cristãos quando saímos por aí achando que todas as pessoas têm de se tornar iguais a nós se quiserem ter parte na salvação. As forças que impedem a eliminação dessa mentalidade sectária – isto é, de discriminação racial e superioridade étnica, de etnocentrismo – encontram-se enraizadas em certos recônditos de nosso ser, que nada têm a ver com a razão. Precisamos de uma experiência de Pedro que nos choque e nos acorde para a superação do etnocentrismo e do racismo. Nas experiências de Pedro e Cornélio, Deus utilizou sonhos para chegar a suas almas. Sonhos são “a linguagem esquecida de Deus”, a linguagem esquecida e encoberta por muito lixo da fase extremamente racionalista de que, graças a Deus, estamos saindo. Apuremos as
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nossas percepções para a linguagem de Deus no cotidiano. De qualquer forma, para Deus não é preciso ser cristão para ser aceito, pois ninguém é comum ou imundo. Todas as suas criaturas são especiais. Estamos irmanados a elas pelo temor de Deus e pela prática da justiça. Superar o racismo e a discriminação étnica é graça de ressurreição. 3.3 – Missão: testemunho quando fores procurado Em nosso modo de ser cristãos ocidentais, mormente descendentes de europeus, comportamos muitos elementos culturais. Pedro experimentou que os elementos culturais que ele carregava, as leis sobre pureza e impureza de alimentos e pessoas, não procediam de Deus. As separações que essas especificidades culturais provocam entre as pessoas de diferentes culturas – hoje na sociedade brasileira entre indígenas, descendentes de imigrantes europeus e afro-descendentes – são de responsabilidade exclusivamente nossa. Não podem ser colocadas na conta de Deus. Não podemos projetar como supracultural o que é expressão cultural: a religião com seus códigos e preceitos. Pedro aprendeu que essas tradições humanas que separam e discriminam são superadas pela ação do Espírito Santo. Imitemo-lo. A boa notícia de Deus não se identifica com uma determinada cultura, mas se revela para dentro dela. No caso cristão, revelou-se através da encarnação do Cristo. Em outras culturas, revela-se de outras formas. Nisso Deus é absolutamente autônomo, indisponível. Não nos é permitido colocar a fé cristã acima das fés criadas pelo Espírito Santo em outras culturas. Também essa postura fundamental é “temer a Deus”. Ainda prevalece uma leitura colonizatória da grande comissão em Mateus 28.18ss. A sanha de dominar outros povos, não apenas militar e economicamente, mas precisamente por meio da religião – que representa o código mais denso de cada cultura –, denuncia-se inclusive numa adulteração textual: um gerúndio no original grego foi traduzido como um imperativo. O que deveria ter sido traduzido por “Quando vocês forem” foi traduzido por “Ide!”. Não estou propondo a revogação da grande comissão, mas sua interpretação e uso desvinculados da idéia colonizatória de cristianizar o mundo todo. No COMIN, temos algumas experiências com grupos indígenas que, após quase dez anos de relacionamento, começam a perguntar pelas histórias de Jesus. Já as ouviram de pentecostais, já receberam Bíblias de presente de comerciantes. Mas querem ouvir como os “missionários do COMIN” contam as histórias de Jesus. Os missionários já se interessaram por suas histórias sagradas e mitos; sua atitude fundamental é percebida como “fazer o que é justo”. Em conseqüência, esperam um caráter mais libertador do que o legalismo raso que eles vêm ouvindo de outros não-indígenas. Nessa narrativa, missão não é ir, mas ser procurado. A paz da qual Pedro fala é a superação de fronteiras culturais e étnicas. Uma convivência pacífica e reconciliada entre diferentes. A diversidade não é anulada, mas ela não separa mais. Indica para uma postura nova: os cristãos têm uma experi-
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ência religiosa muito importante para compartilhar. Mas ela não é exclusivamente salvadora, e muito menos temos alguma razão para impô-la a outras culturas ou outras experiências religiosas. Páscoa é uma experiência de alegria a ser compartilhada e não imposta. Ser batizado, assim como toda a casa de Cornélio foi, não é mais um ato simbólico de integração das pessoas entre os salvos, mas entre aqueles que estão habilitados a receber o Espírito Santo e comprometem-se a servir à causa do evangelho: temer a Deus e fazer o que é justo. Nós temos dificuldades com a missão porque somos como Pedro antes da visão. Em sua atitude fundamental, a nossa igreja ainda não pode dizer a plenos pulmões e com o coração cheio de alegria: “Aqui você tem lugar!”. Lamentavelmente, também ainda não está isenta de sentimentos de superioridade cultural para comprometer-se com os setores historicamente injustiçados de nossa sociedade, com afro-descendentes e indígenas. Permite-se ainda uma vida intramuros de associação religiosa dentro da cultura anglo-saxônica herdada de imigrantes colonizadores. É preciso que tenha uma experiência de Pedro.
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Imagens para a prédica
Proponho repetir os v. 34 e 35 e centrar a reflexão na superação de preconceitos como experiência de ressurreição. Além de aproveitar algumas idéias da meditação, podem ser utilizadas ainda as seguintes ilustrações: Um membro de nossa igreja deu o seguinte testemunho: “Quando eu era pequeno, tinha muito medo de negros. Um dia, eu estava andando com minha vó de carroça pela rua, quando passamos por uma pessoa de pele escura. Eu olhei para a minha vó e disse: Vó, eu tenho medo desse negro. Minha vó baixou carinhosamente a minha cabeça sobre seu colo e disse: Não precisa ter medo; a vó te cuida! Hoje eu preferiria que minha vó me tivesse dito algo diferente naquela oportunidade. Eu compreendo que ela teve a melhor intenção de me aquietar e tirar meu medo. Mas hoje, lembrando aquele episódio, eu acho que ela produziu exatamente o contrário em mim. Com sua atitude carinhosa ela confirmou meu medo; ela me deu razão para ter medo”. Onde se esconde agora esse medo efêmero confirmado na infância e que, sem maldade explícita, provavelmente produziu racismo, pois, como disse o antropólogo, nascemos e crescemos dentro de uma sociedade racista. Proponho agora que nós, em silêncio, busquemos o esconderijo do racismo dentro de nós. Entretanto, também atitudes de solidariedade são difíceis de explicar às vezes. É o caso da Frau Schneider. Sua família arrendava terras numa reserva indígena. A justificativa era que os índios não sabiam e não queriam trabalhar. Seu marido inclusive foi presidente da associação dos arrendatários. Embora arrendamentos de terra fossem ilegais, a prática do arrendamento era corriqueira e atendia tanto os interesses de plantadores não-indígenas como
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também os interesses de algumas lideranças indígenas. Em meados dos anos 1980, a prática dos arrendamentos explodiu em um conflito de largas proporções. Morreu gente, pessoas foram tomadas reféns. Os arrendatários foram expulsos. A comunidade indígena dividiu-se, e uma parte também foi expulsa da área e teve que ficar acampada. Começaram a passar fome. Foram realizadas campanhas de alimentos para suprir as necessidades dos indígenas acampados. Quando foram pedir alimentos na casa da Frau Schneider, ela não teve dúvidas. Contribuiu com alguns quilos de alimento para matar a fome daqueles que anteriormente discriminava e considerava preguiçosos e cachaceiros. Ou seja, a solidariedade para com pessoas humanas com fome, mesmo que desprezadas socialmente, foi mais forte do que o preconceito. Talvez ela mesma ou antepassados também já tenham passado fome e experimentado o quão degradante isso pode ser para a humanidade das pessoas.
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Subsídios litúrgicos
Em vez de formular orações, apenas algumas dicas para orientar o todo da celebração e suas partes: orações, cantos, pregação e Eucaristia. • O objetivo da celebração da Páscoa é compartilhar a alegria da ressurreição. • Comer juntos na Eucaristia anima a comer juntos na vida cotidiana. • Ressurreição pode ser experimentada já: na superação de etnocentrismo e racismo. • Missão não é cristianizar atropelando, mas compartilhar a boa notícia do profundo amor de Deus quando se é solicitado. A oração eucarística pode incluir formulações ou imagens dos outros textos de leitura.
Bibliografia TISS, Frank. O conto de José, filho de Jacó: realizando a vontade de Deus para além das fronteiras. Estudos Teológicos, São Leopoldo, ano 42, n. 3, 2002. p. 80-9. ZWETSCH, Roberto Ervino. Uma perspectiva de missão a partir de Atos 10. Fóruns IECLB, v. III (Fórum Nacional de Missão, julho de 2006, em Campeche/Florianópolis, SC). Blumenau: Otto Kuhr, 2007. p. 71-81.
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PRÉDICA: MARCOS 16.12-18
2º DOMINGO DA PÁSCOA
ATOS 4.32-35 1 JOÃO 1.1-2.2
19 ABR 2009
Carlos Luiz Ulrich
1
Introdução
Estudiosos da Bíblia (exegetas) afirmam que o texto de Marcos 16.920 não é de Marcos. Essa perícope existia à parte, sendo um dos relatos póspascais. Esses versículos somente mais tarde foram anexados ao final do Evangelho de Marcos, quem sabe para atenuar a maneira brusca e incomum com que o evangelista encerra sua obra. O texto indicado de Marcos 16.1218 para a pregação faz parte de um acréscimo posterior. Não pretendo, no entanto, discutir o problema do final canônico do livro de Marcos. Sobre o assunto sugiro a leitura do texto de Carlos Musskopf, Proclamar Libertação, v. VIII, p. 173, 1982. Vou me limitar a dar algumas explicações necessárias para melhor entender o texto, tendo como objetivo a meditação e pregação do mesmo no culto.
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Reflexão exegética
Apesar do texto ser um acréscimo posterior à obra de Marcos, ele está em íntima sintonia com a mensagem do evangelho. Podemos dividir o texto de Marcos 16.12-18 em três cenas: a aparição de Jesus, a incredulidade dos discípulos e o mandato de Jesus aos discípulos. 16.12 – aparição do Ressuscitado a dois discípulos; 16.13 – demais discípulos não dão crédito; 16.14 – aparição do Ressuscitado aos onze discípulos – censura à incredulidade dos mesmos; 16.15-16 – envio a todo o mundo; 16.17-18 – sinais que acompanham os enviados e enviadas. O texto indicado para a pregação aponta para a aparição do Ressuscitado, primeiramente a dois discípulos que “estavam de caminho para o campo” (Mc 16.12), que não foram ouvidos, e depois Jesus apareceu aos onze, quando estavam à mesa (Mc 16.14). Percebem-se semelhanças com o texto de Lucas 24.13-35, aparição de Jesus aos discípulos que estavam a caminho para Emaús e sua revelação quando estavam à mesa no partir do pão.
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A cena do texto também aponta para a incredulidade dos discípulos, tendo paralelos com os outros evangelhos. O v. 14, no entanto, chama a atenção, pois Jesus repreende com muita ênfase a falta de fé dos discípulos: “e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não deram crédito aos que o tinham visto já ressuscitado”. Os discípulos demonstram dureza em crer no Ressuscitado. Qual é a razão dessa falta de fé na ressurreição? Alguns dos discípulos que seguiram Jesus acreditavam que ele era um dirigente político-religioso. Judas Isacariotes, possivelmente um zelote, acreditava que Jesus tinha se desviado do movimento revolucionário. Quem sabe, Judas foi o primeiro que tomou consciência de que Jesus era o Messias e, por isso, seu suicídio seja a primeira e mais trágica confissão cristológica que temos (ARAYA, 1988, p. 228). Da mesma forma, Pedro fica desiludido e diz não conhecer Jesus, negando-o três vezes. As esperanças dos discípulos resumiam-se às transformações sociopoliticoeconômicas. Por isso é tão difícil crer no Ressuscitado. Não conseguem ver além da realidade que os circunda. Falta a utopia da ressurreição em suas esperanças. Assim como afirma o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 15.19: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”. Jesus, portanto, censura a incredulidade dos discípulos, apontando para a continuidade da missão do Ressuscitado. Jesus envia os discípulos, tirando-os da inércia, colocando-os em ação a favor da vida: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). A narrativa do v. 15 é parecida com o relato de Mateus 28.18-20, no qual se enfatiza a proclamação do evangelho para todas as nações, segundo Marcos, para todo o mundo. Percebe-se aqui a universalidade do evangelho. É para todo o mundo. Para essa tarefa é necessária a atuação dos discípulos. No discipulado vê-se a continuidade da ação de Jesus. A história de Jesus Cristo continua no testemunho e na atuação da comunidade. Inicia o tempo de atuação da comunidade cristã. Em Marcos 1.14, “Jesus foi para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus”. A seguir, encontram-se em Marcos 1.16-20 o chamado e a vocação dos discípulos para ser “pescadores de pessoas”. O evangelho conclui com Jesus enviando os discípulos a todo o mundo para proclamar a boanova do evangelho. A tarefa da comunidade cristã são a ressurreição e a vida, proclamados e vivenciados pelo Cristo. O v. 16 enfatiza o resultado do anúncio: “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado”. O Evangelho de Marcos afirma a centralidade do crer. Não basta o Batismo; é necessário crer na boanova do evangelho. O anúncio provoca decisão: crer ou não crer. Também aqui encontramos paralelos com o início de Marcos 1.15: “(...) o tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho”. A pregação de Jesus leva as pessoas à resposta na fé; o anúncio dos discípulos tem como resultado provocar a fé, que conduz à salvação. É necessária a vivência diária do Batismo; “por arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos. E, por sua vez, deve sair e ressurgir diariamente nova pessoa, que
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viva em justiça e pureza diante de Deus e das pessoas” (explicação de Martim Lutero sobre o Batismo no Catecismo Menor). Os discípulos são enviados por Jesus a todo o mundo para anunciar a boa-nova. Jesus capacita-os para a missão. Os v.17-18 apontam para os sinais que acompanharão os enviados e enviadas e aqueles que crêem em Jesus; isto é, todas as pessoas que forem aderindo à nova proposta de vida, proclamada pelo Ressuscitado. O evangelho aponta para os seguintes sinais: “expelirão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados” (Mc 16.17-18). Os dois primeiros sinais – “expelir demônios e falar novas línguas” – mostram que a ação dos discípulos é libertadora, curadora e comunicadora do mundo novo. O primeiro milagre que Jesus realiza em Marcos 1.21-28 é a cura de um endemoninhado. Jesus liberta o homem, anunciando a vitória da vida. Jesus inaugura uma nova linguagem: a do amor. Assim devem fazer todas as pessoas que têm fé em Jesus: libertar as pessoas de todo tipo de alienação. Falar em novas línguas significa ampliar o horizonte, buscando a compreensão com as outras pessoas. Para anunciar o evangelho a todo o mundo, faz-se necessário conhecer novas línguas, novos costumes... É necessário um processo de inculturação. O terceiro e quarto sinais – “pegarão em serpentes; e se alguma cousa mortífera beberem, não lhes fará mal...” (v.18a) – apontam para os confrontos e conflitos suscitados pela fé. Quem anuncia o projeto de vida do Cristo Ressuscitado sofre perseguições, oposições de formas traiçoeiras (serpentes) ou evidentes e abertas (tentativa de matar os enviados – discípulos). Com o próprio Jesus isso aconteceu: fariseus e herodianos conspiram a morte de Jesus (Mc 3.6). Os discípulos também sofrerão perseguições. Deus, no entanto, não permitiu que a morte de Jesus tivesse a última palavra, e sim a ressurreição. Dessa forma, todos os que crêem têm a promessa da vida eterna. O quinto sinal – “se impuserem as mãos sobre os enfermos, eles ficarão curados” (Mc 6.18b) –, à semelhança do primeiro sinal – “expelirão demônios” – , coloca os discípulos em estreita comunhão com a atuação de Jesus, colocando-se ao lado dos sofredores, curando-os (Mc 1.34, Mc 1.4045...). A missão dos discípulos e discípulas coloca-se na continuidade histórica da missão do Cristo crucificado e ressurreto.
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Meditação
A pregação para o 2º Domingo da Páscoa, também conhecido como Domingo da Misericórdia, indica a nós o caminho da misericórdia de Deus, apontando para a alegre notícia da ressurreição. Necessita, portanto, ter relação com o tempo litúrgico e com os outros textos indicados para a leitura: Atos 4.32-25 e 1 João 1.1-2.2.
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O Ressuscitado revela-se aos discípulos em dois momentos: quando estavam a caminho do campo e à mesa. O caminho – revela o movimento da comunidade e o estar à mesa – lembra a comunhão do partir do pão – da Ceia. A revelação do Ressuscitado sempre se dá no coletivo, primeiramente a dois discípulos e depois a onze discípulos. O que ressalta no texto é a chamada de atenção que Jesus dá aos discípulos: “Censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração, porque não deram crédito aos que o tinham visto já ressuscitado” (Mc 16.14). Essa censura também alcança cada um de nós. Cremos no Ressuscitado? Como Jesus se revela hoje em nosso meio? A Palavra e os sacramentos (Batismo e Ceia) são importantes em nossa vivência comunitária? Anunciamos a vida nova, revelada por Jesus? No Evangelho de Marcos, Jesus apresenta-se anunciando o evangelho (Mc 1.14). Os discípulos irão, portanto, dar seqüência ao que Jesus fez, ampliando o campo de ação. (Em Mc 1.14, Jesus anuncia na Galiléia; em Mc 16.15, os discípulos deverão anunciar o evangelho a todo o mundo.) A partir do testemunho e da atuação dos discípulos firma-se a igreja cristã. O anúncio provoca decisão: crer ou não crer. O v. 16 enfatiza o resultado do anúncio – a fé. A pregação de Jesus leva as pessoas à resposta na fé; o anúncio dos discípulos tem como resultado provocar a fé que conduz à salvação: “Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado” (v. 16). Precisamos viver como pessoas batizadas, que se arrependem todo dia, nascendo diariamente como pessoas agraciadas pelo Deus do perdão e da misericórdia. O Lutero sempre dizia nos momentos de tentação: “Sou batizado!” Sou filho e filha de Deus. A história de Jesus continua no testemunho e na atuação missionária da comunidade... “Ide a todo o mundo”. Os discípulos precisam anunciar o evangelho a todos (v.15-18), exatamente como Jesus tinha feito. Não deve haver ruptura entre a missão de Jesus e a missão dos discípulos. Os sinais que acompanharão os discípulos no anúncio do evangelho apontam para a continuidade da presença amorosa e libertadora de Jesus na atuação missionária dos enviados. Assim deverão fazer os que tiverem fé em Jesus: libertar as pessoas de todo tipo de alienação, apontando-lhes o verdadeiro sentido da existência, que se mostra no Deus gracioso que resgatou Jesus da morte. A ressurreição é o anúncio da vida que vence a morte. A ressurreição fala do poder de Deus. É a esperança contra toda a esperança. É justamente isso que afirma o texto de 1 João 1.1-2.2: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (...) o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros” (....). A carta de João anuncia com alegria o Verbo, a Palavra que se fez vida. A alegria torna-se completa com sua ressurreição, surgindo uma nova forma de organização – a comunidade cristã: “(...) pois nenhum necessitado havia entre eles (...) distribuíam a qualquer um à medida que alguém tinham necessidade” (At 4.35). A comunidade que vive a partir do anúncio do Ressuscitado é missionária e diacônica. Ela se transforma e se deixa transformar, pois depende unicamente do Deus da misericórdia, da graça e do amor.
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Imagem para a prédica
Ler o texto de forma pausada, apontando para os movimentos e atuações – Jesus ressuscita, revela-se no caminhar coletivo (duas pessoas) e no encontro comunitário (quando os onze estavam à mesa) – Mc 16.12-14. Chamada de atenção – incredulidade – coração duro. Temos também nós um coração duro? O que nos torna incrédulos? O que nos torna crentes na ressurreição? – Mc 16.14. Recordação do Batismo – ênfase no crer, na vivência diária do Batismo – Mc 16.16. Tal qual os discípulos, somos enviados ao mundo a todos os lugares – acompanhados dos sinais que produzem cura, libertação, vida e amor (Mc 16.17-18), mostras da graciosa misericórdia de Deus. Sugiro utilizar como exemplo para a pregação a pipoca (grãos e estouradas). Um pequeno texto de Rubem Alves para ajudar na reflexão: “Repentinamente, os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes transformavam-se em flores brancas e macias, que até as crianças podiam comer. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e de uma dureza assombrosas. Na simbologia cristã, o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho da pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro” (Rubem Alves). Ser discípulo e discípula de Jesus é deixar-se transformar. É saber-se embalado pela fé na ressurreição, na vida transformada, na vida que vence a morte. É vencer todo dia a incredulidade, a dureza de coração... Quem experimentou a presença do Ressuscitado, quem vive diariamente seu Batismo, anuncia, em palavras e ações, essa experiência transformadora a todo o mundo. O Ressuscitado revela-se em nosso caminhar coletivo, comunitário, solidário... Na Palavra e nos sacramentos. É o que também vamos vivenciar, hoje, na celebração da Ceia.
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Subsídios litúrgicos
Na minha incredulidade: Converte-me, Senhor Se meu passo é errante, converte-me, Senhor; Se minha fé é débil,
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converte-me, Senhor; Se minha mente é estéril, converte-me, Senhor; Se minhas mãos são rudes; converte-me, Senhor; Se meus olhos são ferozes, converte-me, Senhor; Se minha língua é cruel, converte-me, Senhor; Se minhas intenções são más, converte-me, Senhor; Se meu coração é fraco, converte-me, Senhor; Converte-me, Senhor, e serei o que realmente sou. (Luiz Carlos Ramos, Quaresma e Páscoa, CultoArte, p. 81)
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Preparando a celebração da Ceia Senhor, A tua mesa é farta e santa. Que nossa bondade seja tanta Ao repartir, com alegria, o pão, O vinho e a ternura do perdão. Senhor, A tua mesa é justiça-em-esperança. Que na força dessa aliança A nossa vida seja a Eucaristia E o teu reino se faça dia a dia. Senhor, A tua mesa é anúncio da graça. É também denúncia da desgraça Que no mundo-novo-em-construção Não nos encontre na omissão. Coloca-nos em ação. Amém. (Carlos Alberto Rodrigues Alves, Quaresma e Páscoa, CultoArte, p. 89)
Bibliografia ALVES, Rubem (Org.). CultoArte: Quaresma e Páscoa. Petrópolis: Vozes; Campinas: CEBEP, 2001. ARAYA, Eugenio. Marcos 16.9-14(15-20). In: KILPP, Nelson; TREIN, Hans Alfred. Proclamar Libertação. v. XIV. São Leopoldo: Sinodal, 1988. p. 225-232.
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LUTERO, Martim. Catecismo Menor. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 18. MUSSKOPF, Carlos. Marcos 16.9-14(15-20). In: DREHER, Carlos A; KIRST, Nelson. Proclamar Libertação. v. VIII. São Leopoldo: Sinodal, 1982. p. 173-178.
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PRÉDICA: 1 JOÃO 3. 1-7
3º DOMINGO DA PÁSCOA
LUCAS 24.36B-48 ATOS 3.12-19
26 ABR 2009
Felipe Gustavo Koch Buttelli
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Introdução
É o 3º Domingo da Páscoa. A Páscoa é a maior festa da igreja de Jesus Cristo. É, de fato, o início do ano litúrgico. Na igreja primitiva, os batismos ocorriam somente na Páscoa, o que demonstra seu caráter de espaço privilegiado para o início da vida cristã. Toda a história da salvação em Jesus Cristo só pode ser lida através desse crivo interpretativo. O tema da Páscoa, da ressurreição, deve, portanto, ser valorizado no ano litúrgico, bem como no itinerário de nossas celebrações cotidianas. Os textos sugeridos para esse domingo estão em consonância com essa visão, pois valorizam o momento que sucede a ressurreição, de maneira contextualizada no Evangelho de Lucas 24.36b-48 e de modo temático em 1 João 3.1-7 e Atos 3.12-19. Os três textos apresentam uma sintonia temática interessante, o que oportuniza pensarmos em uma chave hermenêutica única para estabelecer a conexão entre os textos.
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Um pouco sobre o texto de 1 João 3.1-7
A delimitação do texto, incluindo os v. 1 a 7, tem algo a dizer sobre a ênfase que se quer dar sugerindo esse texto, principalmente se formos lê-lo juntamente com os outros dois textos sugeridos. A perícope parece, sobretudo se percebermos a delimitação que o Novo Testamento grego faz, constar do v. 28 do capítulo 2 até o v. 10, ainda que a temática seja refletida até o v. 24. 2.28 – Filhinhos, agora, pois, permanecei nele, para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e dele não nos afastemos envergonhados na sua vinda. 2.29 – Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele. 3.1 – Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo. 3.2 – Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele
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se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vêlo como ele é. 3.3 – E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro. 3.4 – Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei. 3.5 – Sabeis também que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado. 3.6 – Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu. 3.7 – Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. 3.8 – Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. 3.9 – Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus. 3.10 – Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão. Vemos aqui toda a perícope. Podemos perceber que dois diferentes aspectos das partes restantes da perícope não querem ser ressaltados pela delimitação. No v. 29, é mencionada a prática da justiça como critério para o reconhecimento daqueles que são nascidos dele. Embora o v. 7 mencione a prática da justiça, não estabelece a relação de filiação a Deus como dependente da prática da justiça. Um segundo aspecto negligenciado pela delimitação é a demonstração do que seria o oposto dos v. 1-7, isto é, o que caracterizaria os filhos do diabo. Sendo isso assinalado, podemos dizer que a delimitação de 1 a 7 quer evitar que se leia o texto em duas perspectivas, a saber, a ênfase na prática da justiça como necessária para a filiação a Deus e uma certa dicotomia bemmal, luz-trevas, tipicamente maniqueísta e característica de escritos de origem mística ou gnóstica. Em seu comentário à carta, Schnackenburg não nega que seja possível afirmar essas origens na epístola joanina, embora considere difícil lê-la somente nessa perspectiva. Em diversos outros elementos, a epístola não se enquadraria como um escrito gnóstico ou motivado por um cristianismo de mistério. Esses dois elementos que se quer evitar na leitura da perícope são, de fato, um pouco problemáticos para a teologia luterana, por exemplo, pois podem suscitar alguma dependência de obras humanas para a obtenção da filiação divina e sugerir uma divisão entre os bons e os maus, divisão essa incompatível com a noção de simultaneamente justo e pecador, formulada por Lutero. Schnackenburg, no entanto, acredita que o escritor da Epístola de João não tenha dúvidas a respeito disso. Para ele, está claro para o autor da carta
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que a prática da justiça resulta do nascimento espiritual e não o condiciona. Para João, o nascimento dele, mencionado no v. 29, pode ser considerado tal qual no Evangelho de João (3.1-15), o evento sacramental do Batismo, no qual há ação exclusiva do Espírito (v. 6). O escritor da epístola pressupõe a consciência do que vem a ser nascer de Deus, um nascer espiritual mencionado por Jesus a Nicodemos. O autor está interessado na nova atitude de vida daqueles que são adotados no Batismo como filhos de Deus e não em perceber na fé (5.1), no amor (4.7) ou na prática da justiça (2.29) critérios, tampouco condições, para o novo nascimento em Deus. Esses atributos seriam conseqüência do nascimento espiritual.
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Alguns temas da perícope
A despeito desses temas que derivariam de uma leitura do texto completo, pode-se deduzir outras possíveis interpretações que aqui sugerimos. 3.1 – A filiação de Deus e o Batismo Essa possibilidade é bastante pertinente. Trata-se, como mencionamos, do terceiro domingo da Páscoa. A vinculação do tema ao evento da Páscoa, ainda candente, pode apresentar esse enfoque. A Páscoa é um espaço privilegiado para a reflexão sobre o Batismo. Esse é o novo nascimento, que nos insere como filhas e filhos na ressurreição de Cristo. O texto de 1 João valese dessa relação de Deus com seus filhos e filhas para afirmar a diferenciação entre aqueles que conhecem Deus (são semelhantes a ele) e aqueles que não o conhecem. Quem conhece Deus “a si mesmo se purifica (...) assim como ele é puro” (v. 3). Sobre aqueles que não conhecem Deus João afirma: “Todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu” (v. 6). No sacramento do Batismo, Deus dá-se a conhecer pela obra do Espírito Santo na vida do neófito, pois “conhecemos que ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu” (v. 24). O autor de 1 João, portanto, ressalta a dádiva de Deus em nos chamar de seus filhos . Esse termo específico em grego oferece respaldo à compreensão de que o autor da epístola se refere aos batizados que andam em novidarefere-se aos filhos e filhas adotados. Deus adotou como de de vida. filhos aqueles que participam da comunidade, para a qual o autor da epístola se dirige. Somente a Cristo é reservada a expressão , isto é, filho. Nós somos os filhos escolhidos e chamados por Deus no Batismo para um renascimento espiritual. No Batismo, pelo poder do Espírito, conhecemos algo de Deus, pois ainda o conheceremos plenamente: “haveremos de vê-lo como ele é” (v. 2b). O que sabemos de Deus é que ele é justo (v. 7) e puro (v. 3); também se percebe que ele não peca (v. 6). O autor da epístola, portanto, admoesta para que aqueles que nascem de Deus, amados por ele a ponto de ser chamados filhas e filhos, permaneçam fiéis a esse modo de
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viver, para que “quando ele se manifestar, tenhamos confiança e dele não nos afastemos envergonhados na sua vinda” (1Jo 2.28). 3.2 – Aspecto soteriológico O texto de 1 João 3.1-7 pode ser entendido como uma mensagem de salvação. Evidentemente, essa perspectiva não pode ser desvinculada daquela que vê no Batismo um tema importante da perícope. O Batismo é um sacramento de salvação. Schnackenburg insiste que, para a época, sobretudo para o judaísmo, a salvação era algo que dizia respeito ao futuro. Nesse contexto, a leitura do texto era em sua época algo bastante radical, já que a salvação não dizia respeito somente ao futuro, mas também ao presente: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (v. 2). Todos os que são batizados em Cristo sabem algo sobre Deus. O mundo, enquanto uma categoria dicotomizada, representa os outros, aqueles que não conhecem Deus. Esses transgridem a lei e vivem no pecado em virtude disso. A comunidade de crentes batizados vive, portanto, num entretempo, como diria Karl Barth, ou na perspectiva do já e ainda não, ressaltada por Bultmann. Se isso parece algo comum aos nossos olhos, para aquela comunidade saber que a vida em Cristo representava uma maneira de já experimentar a salvação, ainda que não em sua plenitude, é algo verdadeiramente alentador. É possível saber como Deus quer que vivamos, pois já recebemos dele filiação, e nisso o conhecemos em parte. Por isso, para o escritor da epístola, é importante que nos mantenhamos fiéis ao modo de viver que conhecemos em Jesus Cristo, amando o próximo (v. 10) e praticando a justiça (v. 2.29, 3.7 e 3.10). Essa é a vida daqueles que conhecem Deus. Quem preserva esse modo de viver, despertado pelo próprio Deus no Batismo pela ação do Espírito (v. 24), não terá motivos para temer quando da vinda do Senhor, a partir da qual conheceremos Deus em plenitude.
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Interpretando os textos conjuntamente
A leitura simultânea dos textos sugeridos pode oferecer dicas muito interessantes, além de orientar no sentido de pregar o texto de 1 João em consonância com a interpretação dada pelas pessoas que sugeriram o texto para esse domingo específico. Um aspecto que parece marcante nos três textos é o impacto causado naqueles que vêem (conhecem) Deus. Pressupõe-se do texto de 1 João que os cristãos conhecem algo a respeito de Deus, ainda que não o tenham conhecido plenamente. O que se conhece de Deus é aquilo que Jesus, Deus revelado, mostrou: a prática da justiça, a pureza e a virtude de não haver pecado. Por isso os cristãos estão entre o conhecimento pleno, escatológico,
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e o total desconhecimento de Deus, tal como se percebe naquilo que se compreende por mundo (v. 1). No Evangelho de Lucas 24.36b-48, Jesus aparece aos discípulos após haver ressuscitado, antes de sua ascensão. A reação é de surpresa e temor (v. 37) e ainda de descrença, pois os discípulos estavam alegres e admirados (v. 41). Sabendo do espanto dos discípulos, Jesus deu-se a tocar nas feridas, na carne e osso (v. 39 e 40) e ainda comeu com eles, tal qual costumava fazer em sua presença. Evidentemente, a aparição de Jesus tinha uma razão. Jesus lhes “abriu o entendimento para compreender as Escrituras” (v. 45) e os chamou a pregar o arrependimento para a remissão dos pecados, desde Jerusalém até todas as nações (v. 47). E isso lhes caberia como tarefa, porque os discípulos são “testemunhas dessas cousas” (v. 48). Já no texto de Atos dos Apóstolos 3.12-19, Pedro prega aos israelitas no Templo após a cura de um coxo. A pregação de Pedro decorre do compromisso assumido na aparição do Jesus ressurreto em Lucas 24, já que o discípulo chama atenção não para a cura do coxo, mas para o nome que “fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis” (v. 16). Pedro situa sua cura dentro daquele compromisso assumido em Lucas, ao afirmar: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados” (v. 19). Também aqui, ver Deus, ou ao contrário não vê-lo, apresenta implicações profundas. Após a cura, Pedro pergunta por que os israelitas fitam os olhos sobre os discípulos, como se deles fosse o poder de curar. Para Pedro, ver e reconhecer o coxo em saúde perfeita (v. 16) é o modo pelo qual os israelitas poderiam ver seus próprios pecados. Isso fica claro quando Pedro afirma que esses israelitas negaram o Santo e Justo e pediram pela liberdade de um homicida (v. 14). O discípulo, no entanto, não os condena, pois os israelitas, e suas autoridades, fizeram-no por ignorância (v. 17), ou seja, desconhecimento. Assim, a cura do coxo torna-se um evento para que os israelitas vejam o poder de Jesus, e não dos discípulos. Dessa maneira, ver e conhecer Deus é a maneira pela qual um cristão aceita o perdão concedido por Deus. Por isso o texto de Atos aponta para a diferenciação feita em 1 João entre os que não conhecem Deus e nem mesmo podem conhecer os cristãos, pois esse conhecimento só se dá através da própria manifestação de Deus. Os cristãos batizados são, portanto, aqueles que viram Deus e o reconheceram, tal como ocorreu na aparição do Jesus ressurreto. Esses cristãos são chamados de filhos e filhas de Deus, sendo adotados no Batismo. Pelo poder do Espírito, os cristãos reconhecem a presença de Deus em sua nova vida (1Jo 3.24) e são responsáveis, portanto, por pregar o arrependimento para a remissão dos pecados (Lc 24.47 e At 3.19). Também são encorajados a viver em justiça (1Jo 3.7) e a praticar o amor ao próximo (1Jo 3.10).
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Algumas dicas para a pregação e para o preparo do culto
Se podemos assumir que os textos apontam para esse aspecto importante da relação de Deus com seu povo, a saber, dar-se a ver e por esse intermédio deixar-se conhecer, parece relevante que no preparo do culto se leve em consideração o sentido da visão daqueles que participam do culto. Estimular os sentidos humanos é ativar uma faculdade de nossa relação de aprendizado no mundo. Se os discípulos aprenderam algo vendo e Cristo usou esse sentido para apresentar-se ao mundo, também no culto podemos abusar desse sentido. Assim, imagens que remetam à relação de amor de uns para com os outros ou de Deus para com o mundo podem ser bastante impactantes nesse contexto. Símbolos como a cruz, representações artísticas, cores ou exercícios de visualização podem ser mais valiosos do que palavras. Se podemos vincular a temática do culto ao Batismo, talvez possa ser interessante um exercício de rememoração do mesmo com fins de atualização do chamado de Deus para sermos seus filhos e filhas. Muitas comunidades têm exercitado a recordação do Batismo. Essa pode ser feita com um pequeno gesto durante o culto, no qual pode ser usada a pia batismal como elemento simbolicamente expressivo. Mostrar a água aos batizados e às batizadas, relembrando-os de que foi naquela água que Deus nos chamou de seus filhos e filhas, pode ser uma experiência de profundo aprendizado e vinculação da temática à vida dos batizados. Luiz Vaz de Camões escreveu um poema bastante conhecido e profundo chamado “Amor é o fogo que arde sem se ver”. Esse poema foi musicado e teve acrescentado elementos bíblicos por Renato Russo na música “Monte Castelo”. O poema fala sobre o amor, e a música ressalta a primazia do amor como o vínculo mais importante decorrente da relação com Deus. Se da leitura dos textos sugeridos quisermos afirmar que o que se pode conhecer de Deus é que ele nos amou e que o amor é aquilo que ele espera de nós, essas duas poesias podem ser bastante ilustrativas. Monte Castelo Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria. É só o amor, é só o amor que conhece o que é verdade. O amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece. O amor é o fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. Ainda que eu falasse a língua dos homens
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e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria. É um não querer mais que bem querer, é solitário andar por entre a gente, é não contentar-se de contente, é cuidar que se ganha em se perder. É um estar-se preso por vontade, é servir a quem vence o vencedor, é um ter com quem nos mata, lealdade, tão contrário a si é o mesmo amor. Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem, agora vejo em partes, mas então veremos face a face. É só o amor, é só o amor que conhece o que é verdade. Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria. Renato Russo Amor é fogo que arde sem se ver Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha e se perde. É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode o seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo amor? Luiz Vaz de Camões
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Recursos litúrgicos
Oração do dia: Deus de amor, tu nos chamas amorosamente de teus filhos e filhas. Tu nos concedeste o teu conhecimento ao apresentar ao mundo teu filho Jesus. Não por menos, teu Espírito nos congrega através do santo Batismo, no qual tu nos dás nova vida. Dá que saibamos ver o teu amor manifesto. Que, ao ver-te, possamos servir-te naquilo para que tu nos chamas: na prática da justiça, no amor ao próximo, para que assim compartilhemos da tua obra de
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3o Domingo da Páscoa
perdão. Dá que possamos ver neste culto a tua face, ainda que não possamos te ver em plenitude. Em nome do Criador, do Salvador, na unidade do Espírito vivificador. Amém. Confissão dos pecados: Senhor, tu te deste a ver. Tu vieste ao mundo e pudemos ver o teu amor. Ainda assim, este mundo nos embaça a visão. Insistimos em olhar para as coisas erradas. Gostamos de ver a desgraça e a tragédia. E o que vemos nos distancia de ti e nos aparta dos outros. Somos os cegos do castelo. Nós te pedimos perdão por não ver o mundo conforme teu conhecimento. Afastamonos de ti e já não mais sabemos nem quem somos. Pedimos-te humildemente que mostres de novo, como sempre fazes, tua misericórdia e teu amor. Abre nossos olhos, dá-nos o entendimento para ver tua obra salvadora no mundo. Chama-nos de teus filhos e filhas, para que te vejamos mais uma vez. Perdoa-nos! Anúncio da graça: Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos e filhas de Deus! O Senhor da graça nos perdoa e vem a nós mostrar suas escaras, para que tenhamos entendimento e, como suas testemunhas, vivamos em seu amor. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Bibliografia SCHNACKENBURG, Rudolf. Cartas de San Juan. Versión, introducción y comentario. Barcelona: Herder, 1980. HÜFFMEIER, Wilhelm. Auxílio Homilético sobre 1 João 3.1-3. Proclamar Libertação, v. VII. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1981. p. 21-29. FLANAGAN, Neal M. El Evangelio y las cartas de San Juan. Collegeville, Minnesota: The Liturgical Press, 1996.
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PRÉDICA: JOÃO 10.11-18
4º DOMINGO DA PÁSCOA
ATOS 4.5-12 1 JOÃO 3.16-24
03 MAI 2009
Carla Vilma Jandrey
1
Introdução
O texto indicado para este domingo – João 10.11-18 – é bastante conhecido. Provavelmente muitos ouviram a história do bom pastor no tempo em que freqüentavam o culto infantil. Quem não se lembra da figura do bom pastor segurando em seus braços/ombros uma ovelha? Assim surge um desafio. Fazer brotar dessa história conhecida uma mensagem atual e que toque inteiramente cada pessoa presente no culto. Em João 10.11-18, Jesus identifica-se como sendo o bom pastor – o bom pastor que conhece cada uma de suas ovelhas, que as cuida e que dá sua vida por elas. Em Atos 4.5-12, Pedro afirma que Jesus é a pedra angular, o fundamento da construção/vida e que não há salvação em nenhum outro. Em 1 João 3.16-24, João relata-nos que Jesus Cristo nos amou incondicionalmente, a ponto de dar sua vida por nós. Cristo espera que creiamos nele e que guardemos seu mandamento: amemos uns aos outros.
2
Exegese
É impossível ler o texto de João 10.11-18 sem lembrar as profecias que apresentam o Messias como pastor. A Bíblia nasce num povo enraizado na vida pastoril. Nessa situação, Deus apresenta-se como o pastor (Gn 49.24; Sl 23 etc.). Os patriarcas são pastores. Moisés (Êx 3.1) e Davi (1Sm 16) são chamados por Deus enquanto conduzem os rebanhos. Pastor de ovelhas era uma profissão comum e bem conhecida na época. Especialmente Ezequiel 34 serve de pano de fundo para João 10: o pastor futuro, messiânico. Esse texto denuncia o descaso dos pastores malvados (34.4-6) e anuncia que Deus mesmo assumirá o pastoreio de seu povo (34.11-16). Também no Novo Testamento, a imagem do pastor aparece com freqüência aplicada a Cristo (a ovelha perdida, Mt 18.12-13; o pastor separando as ovelhas, Mt 25.32-33). Neste texto de João 10.11-18, Jesus apresenta-se – Eu sou... – como o pastor, aquele que os profetas anunciavam. Contudo, ele não é qualificado como “verdadeiro”, como foram a luz, o pão, a videira, mas como “belo, valente, adequado, exemplar, excelente” (kalós). Nossas traduções falam no
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4o Domingo da Páscoa
“bom pastor”, certamente em oposição aos maus pastores, mencionados em Ezequiel 34 e outros textos bíblicos. Jesus é o pastor exemplar, aquele que cuida e empenha sua vida pelas ovelhas (v. 11-13). Essa sua qualidade contrapõe-se não tanto aos “assaltantes” dos v. 7-10, mas antes às pessoas que parecem pastores e não são. Jesus não é como os pastores contratados por salário, que não se importam com as ovelhas, porque não lhes pertencem em propriedade. Um assalariado foge quando aparece uma fera; ele deixa as ovelhas sem proteção diante daquele que as rouba e dispersa. Isso se justifica porque sua motivação para o cuidado não são o carinho ou o amor, mas sim o salário. Com os v. 14-15 começa um novo pensamento. Primeiramente, repete-se a afirmação “Eu sou o bom pastor”, completando-a com a idéia do mútuo conhecimento. O motivo já ressoava no v. 4, ao dizer que as ovelhas conhecem a voz do pastor e a seguem. Esse conhecimento mútuo não é teórico, mas um conhecimento repassado de amor mútuo, num sentido amplo e aberto. O “conhecer” ultrapassa o saber abstrato e intelectual para indicar a experiência concreta de uma coisa ou o relacionamento íntimo com uma pessoa. Essa relação de conhecimento-amor é tão profunda, que Jesus a compara com aquela que existe entre ele e o Pai. No v. 16, Jesus realiza a unidade escatológica do rebanho de que falam Ezequiel 34 e 37. O carinho, o cuidado e a salvação do bom pastor estendem-se não apenas às ovelhas da casa de Israel (desse aprisco), mas também às ovelhas dispersas entre os gentios (outras ovelhas). E com isso, embora havendo muitos rebanhos, haverá um só rebanho, um só pastor. Nos v. 17-18, Jesus aprofunda o mistério do amor do pastor bom e fiel. A fonte desse amor é o Pai. Esse ama Jesus, e Jesus ama os que são do Pai, a ponto de empenhar sua vida por eles. Jesus dá sua vida e por isso pode retomá-la. Jesus pode retomar a vida de que ele dispõe, pois ninguém a tira dele contra sua vontade. Ele empenha sua vida porque quer, assim como ele pode retomá-la (pois ele tem poder sobre a vida: cf. 5.26). Obs.: Sobre o contexto histórico do texto e do livro de João ver: Proclamar Libertação – volumes 17 e 31.
3
Meditação
Esse texto, como também a figura do bom pastor, é conhecido. Contudo, a cada nova leitura, sempre há algo novo que chama nossa atenção. Na leitura realizada, a situação de cuidado e de não-cuidado despertou uma nova reflexão. A figura do bom pastor, ou melhor, Jesus sendo o pastor exemplar, fortalece as ovelhas fracas, cura as doentes, procura as desgarradas e busca as perdidas, diferente dos pastores como relatado em Ezequiel 34.4. O bom pastor cuida de suas ovelhas. O cuidado inclui o total empenho por elas, a ponto de arriscar e entregar sua vida.
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4o Domingo da Páscoa
Jesus foi um ser de cuidado. Ele mesmo se autodenomina como aquele que serve, como diácono (Mc 10.45), e servir inclui cuidado. Jesus mostrou cuidado especial para com os pobres, os famintos, os discriminados e os doentes. O cuidado para com essas pessoas é descrito nos textos de Mateus 9.1-8, Marcos 6.30-44, Lucas 13.10-17, Lucas 14.15ss, entre outros. O cuidado de Jesus para com as pessoas é percebido em suas palavras e ações, pois elas demonstravam afeto, misericórdia, amor, respeito, atenção, zelo, acolhimento, valorização do ser humano, sensibilidade para com a dor, preocupação com a vida. Enfim, Jesus cuida da vida do ser humano (Jo 10.10). Jesus teve cuidado para com a vida integral do ser humano. Da ação de cuidado também faz parte a luta contra a injustiça, a opressão, a exclusão. Esse cuidado de Jesus para com todos nós está baseado no amor. A fonte desse amor é o Pai. Esse ama Jesus, e Jesus ama os que são do Pai. Contudo, não é somente Jesus/Deus quem cuida. O ser humano também é chamado a cuidar. De forma especial, os cristãos que representam e dão testemunham de sua fé em Deus. Essa tarefa de cuidar, que é um dos aspectos da diaconia, é expressa no texto de 1 Coríntios 12.12-31, no qual os cristãos precisam cooperar uns com os outros, com igual cuidado, e no texto de Lucas 10.25-37, no qual o cuidado aparece no amor e no auxílio ao próximo, entre outros. Jesus desafia seus seguidores: “Assim como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15). Ser cristão é seguir as pisadas do Mestre: acolher o diferente e excluído, incluir, amar, conhecer e dar-se a conhecer. O texto de 1 João 3.16, indicado como leitura, exorta os cristãos a também “dar a vida pelos irmãos”. Com certeza, João não pensou que todos os cristãos devem morrer reciprocamente uns pelos outros. Mas ele se refere ao “empenho da vida” toda, ao cuidado mútuo que deve e pode acontecer sem cessar em nossa convivência no amor. Para um empenho desses, a morte pode ser a consumação extrema. É isso que acontece com o “bom pastor” Jesus em sua morte na cruz. Nesse sentido, sugiro que a prédica reflita, num primeiro momento, sobre esse cuidado de Jesus para com cada um de nós. Seria um momento de refletir sobre o texto de forma poimênica. Num segundo momento, a partir do texto de 1 João 3.16-24, refletir sobre as nossas ações: são ações diaconais de cuidado ou de não-cuidado para com o rebanho? Somos como o empregado que foge diante dos perigos, dificuldades, responsabilidades e desafios? Como cristãos somos chamados e desafiados por Deus a auxiliá-lo no pastoreio, a exemplo do bom pastor. Pastorear as ovelhas significa: – fortalecer as fracas; – curar as doentes; – alimentar as famintas; – dar água às sedentas; – afastar do perigo de vida (da morte e seus poderes); – trazer de volta as desgarradas. Lembremos que esse pastorear não diz respeito apenas às “ovelhas desse aprisco”, da comunidade, mas a todas as “ovelhas”, sem restrições de
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4o Domingo da Páscoa
raça, credo, idade. Cuidar também exige conhecer, acompanhar, profissionalizar, ajudar a encontrar emprego, casa, escola, envolver-se nos conselhos municipais, requisitar igualdade de direitos e oportunidades. Esse pastorear provocará questionamentos por parte de alguns. Jesus, Pedro e João também foram questionados. Contudo, tendo a certeza de que Jesus é o bom pastor que não nos abandona diante dos perigos, como também é o fundamento de nossa vida, a pedra angular (At 4.5-12) sobre a qual depositamos nossa fé e que por meio dele temos a salvação, podemos “empenhar nossa vida” no cuidado para com o próximo.
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Imagens para a prédica
* Quem é cuidado por nós em nossos lares, comunidade, cidade? O que investimos nesse cuidado? Quem não recebe nosso cuidado? Como nos envolvemos no município, nos conselhos municipais, para que políticas públicas possam vir ao encontro de quem precisa de ajuda e cuidado? Muitos idosos, pessoas com dificuldades de locomoção ou doentes com dificuldades para locomover-se, moribundos precisam da ajuda de outros. Como nós acolhemos essas pessoas, suas famílias e ajudamos a aliviar suas cargas? Uma idéia/desafio: ter na comunidade um “banco” de horas e de dons. Imaginem se alguém que está sempre “preso” em casa, cuidando de uma outra pessoa doente, acamada, com paralisia, pudesse telefonar para esse banco de horas e pedir que alguém fique com seu familiar numa tarde ou algumas horas para que ela possa sair. Assim ela poderia sair para fazer compras, visitar alguém, participar da reunião da Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas (OASE), enfim renovar suas forças, ver outras coisas e falar com outras pessoas. * Pode-se também relatar ações de cuidado, talvez alguma ação diaconal desenvolvida pela comunidade (visitação: pessoas enlutadas, doentes, pessoas com deficiência). O cuidado da comunidade também se faz visível quando os prédios são acessíveis para todas as pessoas. “Onde uma pessoa com deficiência passa, todas as pessoas passam com mais qualidade de vida.” Em continuidade, relatar situações de não-cuidado ou que clamam por cuidado para falar sobre nossa missão de ser cuidadores do rebanho de Deus. Não podemos ficar de braços cruzados. Desafio concreto: no final do culto, distribuir cópias da oração do cuidado, motivando as pessoas para que façam uma visita (a doentes, enlutados, solitários) e compartilhem a oração juntamente com um caloroso abraço. A intercessão é uma tarefa diaconal de cuidado.
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4o Domingo da Páscoa
Oração do cuidado Senhor, dá-me a tua mão e conduz a minha vida. Guia os meus passos para que eu caminhe de forma segura. Sob as asas de tua misericórdia sintome protegido/protegida. No colo de tua bondade encontro descanso verdadeiro. Em dias de medo e angústia, abriga-me em teu poder. Em momentos de ansiedade, faz cair sobre mim a tua paz. Ao sentir-me fragilizado/fragilizada, ajuda-me a ter esperança. Cuida de mim e de meus amados. Cuida do meu destino. Quando a culpa me acusar, acolhe-me em tua graça. Absolveme do pecado e faz-me renascer de teu perdão. Se eu cair, permite que eu caia em tuas mãos. Se eu permanecer caído/caída, dá-me a tua companhia. Seja como for, cobre-me com o manto de teu amor. Graças por teu cuidado, graças pela salvação. Agora dá-me a bênção que tanto anseio. Amém. (Rodolfo Gaede Neto)
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Subsídios litúrgicos
Kyrie: A comunidade reunida em culto é chamada a servir. Uma forma de prestar esse serviço é clamar a Deus em favor do povo que necessita de cuidado. Assim, em conjunto, clamemos pelas dores deste mundo. Comunidade (canta): Pelas dores deste mundo, ó Senhor... Oração do dia: Querido e bondoso Deus, agradecemos por teu amor, que nos cuida diariamente. Sentimos teu amor e teu cuidado desde antes de nascermos e, através da morte e ressurreição de teu Filho, nos acolhe e oferece vida e salvação. Pedimos que teu Santo Espírito nos conceda corações e mentes abertas para ouvir tua mensagem de amor e cuidado. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina, de eternidade a eternidade. Amém. Hino após a prédica: “Dá-nos olhos claros” (Hinos do Povo de Deus, volume 1 – n. 166) ou o hino da Diaconia. Oração geral da igreja: 1 – Agradecimentos Bondoso Deus, agradecemos-te por estar reunidos como comunidade cristã. Agradecemos-te por seres nosso bom pastor, que nos cuida por amor e graça. Senhor, obrigado por nos acolheres em teus braços e nos abraçares assim como somos. Comunidade (canta): Em teus braços, Senhor, em teus braços. Sempre estamos, Senhor, sempre estamos.
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4o Domingo da Páscoa
2 – Intercessões Senhor, intercedemos em favor das pessoas que necessitam de cuidado. Há muitas pessoas à espera de um abraço, pois se encontram enlutadas, doentes, solitárias, sem esperança. Tem compaixão delas, Senhor, e ouve nossa oração. Comunidade (canta): Ouve nossa oração e atende as nossas súplicas. Oramos por todas as igrejas cristãs para que teu evangelho seja pregado corretamente, proclamando paz, reconciliação e cuidado para com toda a tua criação. Senhor, ouve nossa oração. Comunidade (canta): Ouve nossa oração e atende as nossas súplicas. Oramos por todas as autoridades para que possam governar com sabedoria, honestidade, cuidado e justiça e assim amenizar as diferenças sociais e econômicas. Senhor, ouve nossa oração. Comunidade (canta): Ouve nossa oração e atende as nossas súplicas. Senhor, colocamo-nos a teu dispor para, com o auxílio de teu Santo Espírito, proclamar uma nova forma de viver, baseada no amor e no cuidado para com todos os teus filhos e tuas filhas. Amém. Bênção (da Venezuela): Que Deus toque nossos olhos, para que possamos enxergar; Toque nossos ouvidos, para que possamos ouvir; Toque nossa boca, para que possamos levar adiante a sua mensagem; Toque nossas mãos, para que possamos ofertar com disposição; Toque nossa vida, para que o Espírito Santo possa nos envolver; Toque nosso coração e nos permita sentir seu amor. Assim te abençoe o bondoso Deus. Amém. Envio: Na companhia do Espírito Santo e na certeza de que Deus cuidará de nós, vamos e sirvamos ao Senhor com alegria.
Bibliografia KONINGS, J. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes, 2001. LÈON-DUFOUR, Xavier. Leitura do evangelho segundo João. v. 2. São Paulo: Loyola, 1996-1998.
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PRÉDICA: ATOS 8.26-40
5º DOMINGO DA PÁSCOA
JOÃO 15.1-8 1 JOÃO 4.7-21
10 MAI 2009
Norberto da Cunha Garin
1
Introdução
A videira (a igreja) produz os frutos que só nascem e crescem se estiverem ligados ao tronco (Jesus). Essa é uma ligação conectada pelos ramos (do Espírito). A videira espalha-se sem que o viticultor consiga controlar seus limites (expansão missionária). O evangelho, assim como a videira, vai até os confins do mundo (a terra de Méroe). O amor de Deus manifesta-se em nós (pelo Espírito), porque ele nos amou primeiro. Se amamos a Deus, ele permanece em nós e nós nele. Vinculado a esse amor que nos permite o amor fraternal (que nos amemos uns aos outros), o Espírito revela-se em nós e o temor já não existe mais. O amor é a seiva que alimenta os ramos (a igreja) e permite a expansão da igreja (a partir da obra missionária de Filipe) para pessoas (etíope) e lugares impensáveis (reino de Méroe). Um caminho cortava a Palestina, partindo de Jerusalém em direção ao sudoeste, passava por Belém, Hebrom e juntava-se à estrada principal para o Egito, em Gaza. Tratava-se de uma rota importante, por onde transitava a metade do mundo conhecido. Após a lapidação de Estevão (At 7.54-60), estabelece-se, em Jerusalém, uma grande perseguição aos cristãos (At 8.13). A igreja cristã nasce e espalha-se mediante o sofrimento de seus principais atores, lembrando a célebre frase de Tertuliano: “O sangue dos mártires é a semente da igreja”. Nesse movimento de fuga, Filipe teria fugido para a Samaria, onde pregara o evangelho (At 8.4-8).
2
Exegese
V. 26-28 – Apresentação dos personagens Filipe é um personagem conhecido no evangelho. Não se trata do apóstolo de Jesus (Mt 10.3), mas de um dos diáconos escolhidos para servir as mesas (At 6.5). É um evangelista itinerante, que se fixa em Cesaréia. Trata-se de uma região marcada pela cultura grega. O capítulo 8 de Atos dos Apóstolos sintetiza a ação missionária de Filipe com sua presença em Samaria (v. 48); depois dos v. 26-40, Filipe é mencionado apenas mais uma vez no Novo Testamento (At 21.8), quando Paulo desce de Tiro a Cesaréia, de onde parte
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5o Domingo da Páscoa
depois para Jerusalém com alguns discípulos da igreja de Filipe. Sabe-se por esse texto que Filipe possui quatro filhas profetisas. No início, é um mensageiro que manifesta a Filipe sua missão; trata-se de um “anjo do Senhor”, que fala com ele (Mt 1.20; 2.19; Lc 2.9; At 5.19; 12.7,23). Posteriormente, esse mensageiro toma a forma de “Espírito” (v. 29, 39). A ordem de levantar (anístemi) corresponde ao mesmo verbo usado para “ressuscitar”. A tradução de Almeida fala: “Dispõe-te e vai para a banda do Sul”, mas o termo aqui traduzido corresponde a “meio-dia” (hora em que o sol está forte e, portanto, os caminhos ficam desertos). O eunuco 1 é um etíope. Provavelmente não era um prosélito, mas alguém que “temia o Senhor”. Era um servo de uma rainha guerreira, cuja dinastia matrilinear era denominada “Candace”, que detinha o poder na região de Méroe, sul do Egito. O nome próprio da rainha deveria ser Amanitére. Trata-se de um dos poucos textos do Novo Testamento que faz referência a uma mulher que tem poder e autoridade. É bom considerar que a Etiópia, que aparece nesse texto, não corresponde ao território resultante da expansão da Abissínia – a Etiópia que conhecemos atualmente. Na verdade, essa Etiópia significava “o país dos caras queimadas”; a região identificada aqui corresponde à Núbia ou ao Sudão egípcio. Os habitantes da Etiópia (Sl 68.31; Is 18.7; Sf 3.9) haviam tomado conhecimento do javismo a partir dos séc. VI e V a.C., quando havia uma colônia militar judia em Elefantina. Segundo a informação do texto, ele era um alto funcionário da rainha, responsável pelo tesouro do reino, e era eunuco – um homem que não tinha livre acesso ao culto judaico (Dt 23.1). Essa prática de subir a Jerusalém para o culto ou para encontrar-se com Jesus é comum no primeiro século (Jo 12.20). O anúncio do evangelho ao eunuco segue uma estrutura de chegada do evangelho às pessoas excluídas dos meios judaicos: aproximação, pregação, conversão; sacramento e arrebatamento (Lc 24.13-31). V. 29-35 – Pregação de Filipe Chama a atenção para a cena criada por Lucas: o eunuco traz consigo a Escritura, e Filipe é o portador do Espírito. Desse encontro da Escritura com o Espírito nasce a possibilidade da nova vida. A pregação de Filipe consiste no núcleo do texto e trata-se de bem mais do que de uma mera explicação de Isaías 53.7,8, numa interpretação tradicional da comunidade cristã nascente: João 1.29, 36; 1 Coríntios 5.7; 1 Pedro 1.19; Apocalipse 5.12. Jesus é identificado como o servo sofredor de Isaías, porque sua morte redimiu o pecado da humanidade: Atos 3.13; Lucas 4.17-20. A fórmula que o texto segue é a de pergunta e resposta – uma fórmula pedagógica já adotada por Lucas 24.1327. A conseqüência disso é a vontade do eunuco de se batizar. A ordem é do anjo do Senhor, que posteriormente aparece como Espírito. Após o diálogo inicial, é o eunuco quem convida Filipe para subir no carro (v. 31).
1
Nada comprova que esse “eunuco” seja um homem emasculado, como os chefes de harém da antigüidade; no primeiro século, eunuco poderia significar apenas “ministro”.
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5o Domingo da Páscoa
V. 38 – Ministração do sacramento Assim como em Lucas 24.30, aqui também acontece a ministração de um sacramento. Enquanto em Lucas se trata da Santa Ceia, aqui o foco é o batismo do eunuco. O texto repete a fórmula da tradição cristã desde o batismo do próprio Jesus: com água (Mt 3.16; Mc 1.8; Jo 1.33; 3.5; At 10.47). Essa fórmula batismal deve ter sido uma adição posterior dos manuscritos ocidentais. O batismo acontece após o eunuco declarar sua fé em Jesus. O texto refere-se a uma prática comum no final do primeiro século: descer às águas (mergulho) como sinal da morte em Cristo para o pecado e subir (emergir) como sinal da ressurreição, da nova vida (Rm 6.3-14). Mais uma vez, percebe-se a iniciativa do eunuco de descer às águas (v. 38). Esse sacramento é ministrado nas cercanias de Bet Sur, segundo a tradição – cerca de hora e meia ao norte de Hebrom. É notável que Filipe realiza nesse ato a profecia de Isaías 56.1-8, quando os gentios e eunucos que guardam as leis do Senhor são recebidos no culto da reconstrução de Jerusalém. A igreja nascente representa uma nova reconstrução da cidade santa (Ap 21.2). V. 39 – Separação dos personagens Assim como o anjo do Senhor comunica a missão a Filipe, agora o mensageiro denominado de “Espírito do Senhor” arrebata-o da presença do eunuco. Segundo a descrição do texto, não há nenhum espanto no eunuco por causa desse arrebatamento – parece já ser algo esperado. É notável que a fórmula de arrebatamento se repita em diversos textos (At 22.17; 27.15; 2Co 12.2,4; Ap 1.10; 4.2; 12.5); a presença do Espírito (de Deus) provoca um ato misterioso de ausência física. Quanto ao eunuco, esse continua seu caminho de volta à Etiópia. Dessa forma, fica estabelecida a presença do cristianismo na chamada “Etiópia”. Considerando apenas o livro de Atos, esse é o primeiro sinal de expansão do evangelho para fora das terras da Palestina. V. 40 – Conclusão O texto encerra com o prosseguimento de uma viagem missionária de Filipe, que passa por Azoto e finalmente se estabelece em Cesaréia (At 21.8).
3
Meditação
A comunidade dos que criam reunia-se ao redor dos apóstolos e daqueles discípulos que se agregaram a ela. Pode-se dizer que se tratava do “resto” que sobrara a partir dos episódios da morte e ressurreição de Jesus Cristo. A igreja cristã nascera a partir do derramamento do Espírito Santo sobre a comunidade de Jerusalém (At 2.1-4). Era a igreja de Jerusalém, dirigida pelos apóstolos, que tinham uma experiência significativa de comunhão (At 2.42-47). Os batizados, as curas e as pregações faziam parte do cotidiano dessa experiência (At 2.37-41; 3.1-10; 11-26). Essa relativa liberdade dos discípulos começa a ser limitada quando os sacerdotes do Templo e os saduceus percebem que o “crucificado” estava de volta à comunidade dos
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5o Domingo da Páscoa
crentes: têm início as perseguições. Pedro é preso e tem que se explicar diante do Sinédrio (At 4.1-22), e a igreja ora e continua a partilhar uma experiência de fé e comunhão (At 4.23-36). Aparecem os primeiros problemas internos da comunidade: a mentira de Ananias e Safira (At 5.1-11); novas prisões (At 5.17-32); a reivindicação dos helenistas (At 6.1-7). Um raio de esperança nasce com a defesa de Gamaliel, mas que resulta em açoites e proibições (At 5.33-42). As perseguições se acirram e culminam com a defesa e o apedrejamento de Estevão em praça pública (At 6.8-7.60). O resultado dessa perseguição à igreja foi a primeira diáspora da comunidade (At 8.4). Por estranho que pareça, essa seqüência de dificuldades enseja as primeiras missões cristãs mundo afora. São os helenistas, aqueles cujas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária (At 6.1-7), que sublimam a perseguição e lançam a evangelização. Primeiro de Samaria, a terra rejeitada pelos judeus (At 8.4-8), onde Filipe planta as primeiras sementes do evangelho, que posteriormente são ratificadas por Pedro e João (At 8.14-25). Seguese a missão para o sudoeste com a viagem de Filipe para Gaza (At 8.26-40). A ordem que Filipe recebe corresponde ao mistério da ressurreição: “Levanta-te (dispõe-te, ergue-te, ressuscita) e vai pela estrada que desce de Jerusalém à Gaza2 ”. Sacudido pela recepção do evangelho em Samaria, Filipe agora é desafiado a uma missão internacional. O medo das perseguições, prisões e mortes necessitava ressuscitar mediante a coragem de ir muito mais longe. As experiências que haviam se concentrado na conversão de judeus e prosélitos avançam agora para estrangeiros de fora da Palestina. Se antes se endereçava aos “circuncidados”, agora abrange também aquele que era rejeitado nos cultos judaicos: o eunuco. Filipe descobre que ele é portador do Espírito Santo, mas que o conhecimento das promessas de Deus não está circunscrito aos judeus (aos cristãos de Jerusalém): o etíope trazia um exemplar do Antigo Testamento, o qual lia enquanto viajava. O núcleo da mensagem do evangelho é que Jesus Cristo fora humilhado e não havia recebido a devida justiça, mas pela ressurreição havia se tornado o Messias de Deus. O eunuco (adorador de Javé), que antes era rejeitado pelo culto judaico, agora podia tornar-se herdeiro das bênçãos divinas pela aceitação da graça de Cristo. A pregação de Filipe é tão incisiva, que o próprio etíope o questiona: “Que impede que seja eu batizado?”. A graça de Cristo excede as limitações e barreiras institucionais. O Espírito Santo não reconhece as normativas humanas, e o mistério da ressurreição não rompe apenas com o túmulo de José de Arimatéia: rompe com as determinações. Precisamos refletir sobre a liberdade do Espírito e a prisão das instituições. É verdade que os movimentos não se sustentam pela liberdade, mas é também verdade que as prisões institucionais acabam por “mortificar” a liberdade do Espírito. Assim, nossa reflexão necessita ser dinâmica e constante: nunca se assentar sobre as normativas institucionais e nunca desconhecer a necessidade da disciplina. O equilíbrio entre disciplina e liberdade necessi2
Bíblia de Jerusalém (8.26).
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5o Domingo da Páscoa
ta estar diante dos olhos de todas as pessoas que se envolvem com o evangelho: autoridades, pastores e pastoras, evangelistas, diáconos e diaconisas etc. Quando uma instituição determina que esse ou aquele grupo não deve ter acesso à igreja, precisamos fazer um exercício de análise de fundamentos e perceber pelo testemunho das Escrituras e do Espírito (ambos juntos, e nunca um isoladamente) se as normas estão adequadas à liberdade do Espírito e ao testemunho das Escrituras. Andando sobre um tênue limite, com seriedade e temor, avançaremos com coragem pelo caminho de Jerusalém à Gaza.
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Imagens para a prédica
Taças com bolinhas Prepare três taças transparentes sobre o púlpito (ou mesa), cada uma delas contendo bolinhas de gude. Cada taça deve conter bolinhas de uma mesma cor (uma taça com bolinhas azuis, outra com bolinhas verdes, outra com bolinhas pretas etc.). Ao lado deixe uma tigela transparente vazia, com capacidade suficiente para o conteúdo das três taças. Em determinado momento da prédica (na conclusão, por exemplo), misture o conteúdo das três taças na tigela, salientando como a mistura das cores proporciona uma visão mais bela pela diversidade de cores (é importante mostrar a tigela contra um fundo claro – parede, vestes, paramentos). Saliente que a diversidade reflete melhor o amor de Deus. Ramos cortados Antes do culto, corte um ramo de uma planta que murcha com facilidade e traga-o para o púlpito (ou mesa). Ao encerrar a sua prédica (sobre Jo 15.1-8), mostre para a congregação como fica o ramo que é separado de seu tronco. Quando não estamos ligados a Cristo (e a seu corpo – a comunidade), acabamos murchos no Espírito.
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Subsídios litúrgicos
Litania: O Senhor é senhor de todas as pessoas. D: Santo Deus, Senhor de nossas vidas, permite olhar para as pessoas que nos cercam com amor verdadeiro, de tal sorte que possamos ver o teu Ser Eterno refletindo em suas faces. P: Que a tua face, Senhor, seja percebida por nós na multiplicidade de tua criação! D: Bendito Deus, que o estrangeiro, o negro, o índio, o branco e qualquer pessoa integrante de outras etnias sejam acolhidos em nosso coração com o reconhecimento de que todos os seres humanos são irmãos. P: Que a tua face, Senhor, seja percebida por nós na multiplicidade de tua criação!
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5o Domingo da Páscoa
D: Querido Deus, ao olharmos para o nosso próximo, que não te conhece em profundidade, vejamos o ser humano carente de teu amor e desejoso de tua graça, a despeito das diferenças que nos distanciam. P: Que a tua face, Senhor, seja percebida por nós na multiplicidade de tua criação! D: Amado Deus, ao encontrarmos a diversidade de tua criação refletida no modo de vida de cada pessoa, possamos perceber, acima de tudo, o teu carinho para com cada uma delas. P: Que a tua face, Senhor, seja percebida por nós na multiplicidade de tua criação! D: Senhor Eterno, faz-nos instrumentos de tua graça para com todas as pessoas que se acercarem de nós ou das quais venhamos a nos acercar. P: Que a tua face, Senhor, seja percebida por nós na multiplicidade de tua criação! Oração eucarística: Bendito Deus, pela graça de Cristo nos ligaste à igreja como o ramo se liga à videira. Que o teu Espírito nos alimente cotidianamente, proporcionando vigor espiritual. Que no amor de Cristo nos sintamos incluídos, de tal sorte que as pessoas possam identificar a tua face em nós. Sobretudo, Senhor, que essa graça e esse amor derramados sobre cada um de nós possam ser compartilhados com quem não te conhece com profundidade e se vincule a Cristo, a videira verdadeira. Sobretudo, que na mesa da comunhão possamos nos sentir um em ti e tu em nós. Amém.
Bibliografia COMBLIN, José. Comentário bíblico: Atos dos Apóstolos, v. I: 1-12. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Imprensa Metodista; São Leopoldo: Sinodal, 1988. WIKENHAUSER, Alfred. Los hechos de los apostoles. Barcelona: Herder, 1967.
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PRÉDICA: JOÃO 15.9-17
6º DOMINGO DA PÁSCOA
ATOS 10.44-48 1 JOÃO 2.1-6
17 MAI 2009
Gisela Beulke
1
Introdução
Encontramos esse texto de João entre os relatos de despedida de Jesus, antes de sua paixão, morte e ressurreição. Vários são os ensinamentos que o Mestre procura passar a seus discípulos antes de sua partida, tanto por palavras como por gestos e atos de amor e solidariedade. O texto proposto para este domingo é João 15.9-17, mas a unidade inicia em João 15.1. O texto pode ser subdividido em três partes. No v. 9, bem como nos v. 1 e 2, Jesus introduz o tema de seu relacionamento com os discípulos, usando uma imagem conhecida na época: a videira e seus ramos. Afirma que ele é a videira e Deus o agricultor que cuida dos ramos. Nos v. 3-8, ele fala da importância da ligação entre a videira e os ramos para que esses permaneçam vivos e tragam os devidos frutos. Para que possam dar frutos, é imprescindível que os ramos permaneçam integrados à videira. Na subunidade, v. 9 a 17, o tema é o amor. Não se enfoca mais a vinha. Essa aparece só quando se trata dos frutos. O enfoque do tema deste domingo é o amor que Deus tem para com os que lhe pertencem. Esse amor sustenta, acolhe, cuida, transforma. E, como pessoas criadas à imagem de Deus, somos convidados e desafiados a seguir o exemplo de Jesus, a viver o amor que acolhe, perdoa, cuida, integra, transforma. Desde a Antigüidade, a figueira e a oliveira são conhecidas como vegetação típica da Palestina. Números 13.23 relata que os homens que foram reconhecer a terra de Canaã retornam trazendo consigo um ramo de vinha com cacho. Em textos do Antigo Testamento, encontramos diversas referências à videira. Normalmente, a figura da vinha é usada para falar do povo de Israel e de sua íntima relação com Deus. Por isso, quando Jesus usa a simbologia da vinha e de seus frutos, os ouvintes compreendem a mensagem, sem necessidade de explicações complementares. O texto da videira e dos ramos aponta para a profundidade do amor de Deus como fonte de vida. O discipulado só se concretiza lá onde pessoas permanecem no amor de Deus. É Ele quem, em Jesus Cristo, possibilita o amor entre as pessoas. No dia 17 de maio de 2009, a Casa Matriz de Diaconisas, a Irmandade Luterana, completa 70 anos de existência. O lema da Irmandade é: “Permanecei no meu amor” (Jo 15.9). Esse texto está previsto para o dia do aniversário da Irmandade Luterana, contudo não foi ela quem o propôs como tema da prédica.
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6o Domingo da Páscoa
2
Exegese
O acento de João 15.9-17 está no permanecer no amor de Jesus. V. 9-12 – Estes versículos refletem sobre a íntima comunhão de Jesus com Deus. João usa por diversas vezes o termo “permanecer”, significando “ficar, residir” (ver: 1.32-33; 1.39; 5.38; 6.27; 6.56; 8.31; 14.10). João 15 usa o permanecer, designando interdependência ou dependência. Permanecendo em comunhão com Jesus, guardamos suas palavras, seus mandamentos e vivemos a sua proposta. Assim como Deus ama Jesus, esse ama os seus discípulos, que, permanecendo nesse amor, podem amar e cuidar das pessoas, do mundo, apesar de desavenças, ódio e contradições nele existentes. O fluxo de amor do Pai para o Filho envolve-nos e habilita a amar. Existe uma analogia entre o amor existente entre Deus e Jesus e deste para com seus discípulos. “Os discípulos são chamados a permanecer na esfera da graça, sob o poder do amor de Deus, do qual Jesus Cristo é o Mediador.”1 Permanecer na esfera do amor de Deus, que é a fonte do amor, implica sintonizar com a sua proposta, viver e observar os seus mandamentos. Isso exige obediência, que possibilita que a ação de Deus flua e corresponda à ação humana. Estar na graça de Deus e viver de seu amor desperta a gratidão que faz nascer e renascer a alegria. A graça de Deus possibilita a plenitude de alegria. Jesus deseja que possamos servir, diaconar, com alegria. Os mandamentos de Jesus, na verdade, resumem-se num só: “Amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a ti mesmo” (Mc 12.30-31). A obediência de Jesus até a morte na cruz é uma demonstração de amor ao Pai. Ele sabe que não está só. Também na hora do sofrimento e da morte é amparado e fortalecido pelo amor do Pai (Jo 8.29). Por isso faz tudo para honrar e glorificar a Deus. O amor flui do Pai ao Filho, do Filho aos discípulos e desses para a humanidade e de uns para os outros. “Um único amor, cujo transbordamento é contínuo.” V. 13 a 17 – Estes versículos falam dos amigos: “Vós sois meus amigos”. Jesus afirma que seu amor aos discípulos é como o amor entre amigos. “Vós sois meus amigos.” Para ele, a maior demonstração de amor que alguém pode dar a seu amigo é morrer por ele. Jesus evoca sua própria morte como demonstração desse amor. Por outro lado, a característica do amor-amizade por parte dos discípulos é a sintonia de intenções com seu amigo Jesus (v. 14). Existe união entre amor e obediência. Isso é destacado no v. 14: “Vós sois os meus amigos, se fazeis o que eu vos mando”. Um servo obedece às ordens de seu patrão, mesmo não entendendo os motivos. Com um amigo é diferente: ele
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BRAKEMEIER, Gottfried. João 15.9-12 (13-17). In: Proclamar Libertação XIV, p. 375.
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6o Domingo da Páscoa
obedece porque houve entendimento, empatia. Com um amigo se compartilham sentimentos, reflete-se sobre encaminhamentos. Os discípulos são amigos de Jesus à medida que fazem o que ele pede. Uma amizade, cuja base é o amor mútuo, tem conseqüências. Por isso o texto volta à figura da vinha. Quem permanece no amor de Deus dá frutos, assim como os ramos da videira só podem dar frutos se permanecerem unidos à videira. O fruto é resultado da seiva da videira. Deus, Jesus, deseja que seus discípulos dêem muitos frutos. Dar frutos pode implicar sofrimento, como acontece com o ramo que é limpo para que produza mais frutos. A proposta de Jesus é que o amor oriente os relacionamentos de seus discípulos, oriente o convívio entre as pessoas. E isso só é viável permanecendo em seu amor. Esse é o cerne do mistério de Deus. O texto lembra, em meio às palavras de despedida de Jesus, que a plenitude da alegria está condicionada à fidelidade efetiva dos discípulos ao amor do Pai em Jesus Cristo.
3
Meditação / Homilia
3.1 – Permanecer no amor O que cada um de nós entende por amor? Como explicamos o que é amor a uma criança? Que símbolo usaria para expressar o significado do amor? No dicionário Aurélio, consta que amor “é um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem”. O texto de hoje enfoca o amor de Deus como premissa para o nosso amor. Deus é a fonte, a origem do amor. Ele desencadeia o fluxo do amor, que, através de Jesus, age entre as pessoas. Deus amou muito seu Filho Jesus Cristo. Como Ele ama também a nós, permitiu que Jesus sofresse e morresse para que a humanidade obtivesse a salvação. Vemos que o amor não exclui o sofrimento. O amor inclui cuidado, carinho, atenção para com as pessoas e para com toda a criação de Deus. O desejo e desafio é que assim como Deus ama a Jesus e este ama seus discípulos, isto é, a nós, também nós nos amemos uns aos outros e coloquemos sinais de amor, acolhimento, perdão, paz em nosso contexto de vida, em nosso mundo. Isso só é possível se permanecermos em Deus, que é a fonte do amor, permitirmos que esse amor inunde a nossa vida e flua através de nós para o mundo. Só assim poderemos produzir frutos de amor. Permanecer passa a sensação de que se trata de algo estático, parado. Aqui a figura da vinha (ou qualquer outra árvore frutífera) pode nos ajudar. Os frutos de uma videira, de uma árvore frutífera, estão integrados à mesma e fazem parte da identidade dessa planta. Uma macieira sempre dará maçãs. Uma videira sempre dará uvas (mudanças acontecem somente quando mãos humanas interferem com enxerto ou outro mecanismo externo). A finalidade de uma árvore frutífera é dar bons frutos. Ela também pode fornecer sombra ou outros elementos úteis, como folhas ou raízes com funções medicinais.
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6o Domingo da Páscoa
A razão de ser, ou seja, o que dá sentido de vida à pessoa humana, é a vivência do amor, da solidariedade, da diaconia. A identidade do cristão é refletir o amor de Deus. Permanecendo na fonte da vida, a seiva do amor pode fluir do doador para a criatura, de Deus para nós. Em seqüência, através de nós o amor de Deus pode fluir para outras pessoas. Os frutos de amor podem traduzir-se em ações concretas, como: visitar doentes, idosos, pessoas solitárias, incluir excluídos, envolver-se para que aconteça mais justiça social etc. As ações diaconais podem ser: • de misericórdia – ter olhos, ouvidos e coração para as necessidades e sofrimentos de outros. “Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai” (Lc 6.36); • de justiça – ter olhos para os direitos das pessoas. Empenhar-se por leis justas e inclusivas. Jesus também denunciou leis discriminatórias de sua época (Mc 7.1ss). Misericórdia e justiça precisam acontecer de forma integrada; • de assistência – é a diaconia da proximidade, do cuidado, sem criar dependência. [Nota: assistência não é sinônimo de assistencialismo]; • de solidariedade – ela faz e decide as coisas com a outra pessoa (não faz ou decide pela outra pessoa). Ela soma forças, identifica-se com o sofrimento da outra pessoa. (Ex: luto, doença, pais cujo filho ou filha nascem com deficiência, causas populares etc.); • de parceria – acontece onde há troca de ajuda mútua, onde dons são colocados a serviço de forma espontânea. Tanto a diaconia ministerial como a diaconia voluntária são marcadas pela parceria; • de caráter político – não se pode separar fé e política. Se a política vai mal, possivelmente os cristãos estão deixando de dar sua contribuição de forma responsável e coerente. Cristãos precisam estar inseridos em conselhos municipais, ajudar nas decisões políticas e colaborar para que as estruturas sociais sejam justas2. 3.2 – “Vós sois meus amigos” Podemos ter contato com muitas pessoas, contudo normalmente temos poucos amigos e amigas. O que caracteriza uma amizade? Quando falamos em amizade, pensamos geralmente numa relação de afeto e confiança mútua entre duas ou mais pessoas. Elas se conhecem e se apóiam, numa troca constante e enriquecedora. Numa boa amizade, cada qual sabe que pode contar com o outro, a qualquer hora, para qualquer assunto. Por vezes, a relação dispensa palavras, pois um olhar, um gesto ou uma atitude falam por si. Ter amizades sinceras é importante, pois elas fortalecem nossa auto-estima e dão firmeza na caminhada. Psicólogos e médicos
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IECLB Documento n. 4 – Diaconia Evangélica – 1988.
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6o Domingo da Páscoa
afirmam que, em algumas ocasiões, um amigo ou uma amiga proporcionam ajuda mais eficiente do que o melhor remédio. Uma boa e verdadeira amizade pode durar a vida toda. “Somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos”, diz Saint-Exupéry em seu livro O Pequeno Príncipe. Para ter amigos, é necessário cativá-los. Jesus chama seus discípulos de amigos. Isso é admirável, considerando que, naquela época, a relação do ser humano com Deus era vista como a relação entre um servo e seu senhor. Jesus chama seus discípulos de amigos e mostra-lhes qual é a essência da amizade: com eles compartilhou seus sentimentos, suas experiências, seus conhecimentos, seu amor. “Jesus não só oferece sua amizade aos discípulos, mas os torna seus amigos, pelas palavras que lhes fala e pelo amor com que os ama até o fim. O amor de Jesus é, em última análise, a base de sua amizade.”3 Jesus deu sua vida em favor de seus amigos. Essa é a maior demonstração de amor que alguém pode dar a um amigo. Nossa capacidade de amar é limitada. Até podemos firmar amizades profundas e duradouras. Mas, se depender somente de nós, teremos amizade só com poucas pessoas. Para Anselm Grün, era na contemplação da cruz que ele sentia a amizade de Jesus de forma mais intensa. Ele diz: Na cruz, Jesus se deu por mim, sem esperar que eu lhe retribua algo por isso. Ele me amou, sem que eu tivesse feito algo por isso. Ele sabia que eu, muitas vezes, passaria por cima desse amor, sem dar o devido valor. Os braços abertos de Jesus me dizem: “Tu és amado, plenamente. Eu vou contigo, mesmo quando te afastares de mim. Estarei contigo, também quando a cruz te atingir. Meus braços estão abertos para ti, para te abraçar. Eu espero por ti, até te jogares em meus braços. Estás livre. Não exijo nada de ti. Porém tu podes confiar em mim. Meu coração está aberto para ti. Podes te abrigar dentro dele com tudo o que está em ti.4
Quando essa amizade profunda por parte de Jesus é aceita por nós, então nos tornaremos também amigos e amigas de Jesus e seu amor poderá fluir por intermédio de nós às pessoas de nossa convivência.
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Imagens para a prédica
a) Pode-se usar a figura da videira, de árvores frutíferas, em especial para quem reside no interior ou em cidades menores. Pessoas de centros urbanos talvez nunca tenham cultivado uma árvore frutífera. Bom seria decorar a igreja com ramos de videira, com cachos de uvas ou com galhos de árvores com frutos.
3
4
GRÜN. Anselm. Ich wünsch dir einen Freund. München: Deutscher Taschenbuch-Verlag GmbH & Co, KG, 2002. p. 98 – Tradução de Ruthild Brakemeier. GRÜN, 2002, p. 99-100.
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6o Domingo da Páscoa
Exemplos de amizade e amor: b) Amigos: A figura de amigos perpassa todas as classes sociais. São inúmeras as mensagens e textos que falam de amigos. São quase tantas quantas falam de amor. Amigos verdadeiros são para sempre... porque não importa a distância, no coração estarão sempre perto; não importam as diferenças, no coração sempre terão um ponto de acordo; não importam as brigas, no coração sempre haverá lugar para o perdão; não importam circunstâncias, sempre haverá um ombro para recostar, mãos para ajudar, olhos para enxergar e chorar de alegria e dor, bocas para expressar as verdades e sorrir. Amigos verdadeiros são amigos para sempre.5
c) Amor: Quando o amor de Deus flui através de nós, como a seiva flui do tronco de uma árvore para os ramos, o amor se torna sensível. Certamente cada um de nós pode dar exemplos de experiências pessoais de amor abnegado e gratuito. Um exemplo, talvez conhecido, é este a seguir: Irmã não pesa Pedro era o filho mais velho de uma família com dois filhos. Sua mãe trabalhava como faxineira, e seu pai, há quatro anos, saíra para comprar cigarros e nunca mais voltara. Todos os dias, quer fizesse sol ou chovesse, Pedro carregava sua irmã Joana até a escola. Ela, quando era bem pequena, sofrera paralisia infantil e não podia mais andar. O tempo foi passando. Joana, já com oito anos, era bem pesada e grande. Mesmo assim, Pedro, que tinha onze anos, todos os dias carregava Joana até a escola. Seu João, dono do armazém – que via Pedro passar todos os dias –, perguntou-lhe num certo dia: – Pedro, sua irmã é tão grande, tão crescida. Ela não é pesada demais para você? – Não, não, seu João, respondeu Pedro. – Ela não pesa. Ela é minha irmã.6
O serviço que é feito com amor que emana de Deus, que é gratuito, abnegado, inclui doação e é feito com alegria e desprendimento. Outro exemplo: Em 17 de maio de 1939, foi fundada a Irmandade Luterana, cuja sede é a Casa Matriz de Diaconisas. Muitas pessoas se empenharam, desde o início, para que essa instituição viesse a existir e continua existindo até hoje. Seu intuito é acolher mulheres que desejam viver o amor de Deus, que desejam dedicar sua vida ao serviço de Deus no mundo, à diaconia. Com a coleta do Dia das Mães, as comunidades ajudam a manter essa instituição, que se empenha em ajudar pessoas em suas necessidades. Em 17 de maio de 2009, essa instituição completa 70 anos de existência. Muitas foram as mudanças que ocorreram nesses 70 anos. Contudo, a Irmandade continua ajudando onde é possível e acolhendo mulheres (solteiras ou casadas) para se preparar para o trabalho diaconal ou ministério diaconal e integrar a Irmandade Luterana. Como irmãs ou diaconisas, atuam no serviço de amor ao próximo, na diaconia. 5 6
Mensagem recebida por e-mail – autor desconhecido. TOILLIER, Osvino (Org.). 100 Estórias de Vida e de Sabedoria, p. 78-79.
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6o Domingo da Páscoa
Também nas comunidades da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) existem muitos sinais de amor e solidariedade, de diaconia voluntária, feita por cristãos, por pessoas voluntárias que praticam a diaconia, que se engajam em favor de vida digna para quem sofre, para quem está sem trabalho, sem teto, sem terra e precisa da ajuda de alguém que o acolha com afeto. Serviços de amor são práticas diaconais quando, através deles, flui o amor de Deus. d) Diaconisa Doraci Edinger: Doraci, quando jovem, trabalhou em fábrica de calçados em Novo Hamburgo (RS). Depois veio a São Leopoldo (RS), onde estudou Diaconia no Seminário Bíblico-Diaconal. Integrou a Irmandade Luterana. Seu desejo era servir aos pobres e necessitados. Trabalhou na Rondônia no início da colonização desse estado, depois atuou junto a indígenas. Por fim, atendeu ao chamado da IECLB para trabalhar em Moçambique, na África. Ela vivia numa sintonia e dependência muito grande de Deus. Seu trabalho lá foi muito abençoado. Centenas de pessoas conheceram o amor de Deus através dela e deixaram-se batizar. A Igreja Luterana cresceu muito nos seis anos em que Doraci trabalhou em Moçambique. Contudo, desde os primeiros anos de sua atuação naquele país, era ameaçada de morte. A direção da IECLB e da Irmandade sabiam dessa ameaça, mas quando se pedia para ela retornar ao Brasil, ela perguntava: “E quem será enviado para continuar o trabalho aqui? Esse povo não merece ser abandonado novamente”. Doraci permaneceu fiel, servindo às comunidades de Moçambique até quase completar o segundo período de permanência lá, quando foi brutalmente assassinada em Moçambique no dia 21 de fevereiro de 2004, pouco antes dela retornar efetivamente ao Brasil. Desafio concreto: Motivar cada ouvinte a visitar, telefonar ou escrever, no decorrer da semana, a uma pessoa com a qual já teve amizade, que passa por necessidade ou que é muito solitária. Contar a essa pessoa aspectos da mensagem desse texto. Dessa forma estará permitindo que o amor de Deus possa fluir, através de você, para essa pessoa com a qual busca contato.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Comunidade canta: /: Perdão, Senhor, perdão.:/ Anúncio da graça: Por vezes nos sentimos como galhos podados, como folhas secas, mas Deus promete: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne” (Ez 36.26), pois “Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto” (Jo 15.5a).
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6o Domingo da Páscoa
Kyrie: A comunidade que se reúne presta várias formas de serviço e testemunho diaconal. Uma das formas é clamar a Deus pelas dores deste mundo. Oração do dia: Ó Deus, agradecemos por teu grande amor para conosco. Antes de nascermos, tu já nos amavas e, através de teu filho Jesus Cristo, nos acolhes e ofereces vida e salvação. Fortalece em nós a fé, a confiança, o amor e a obediência. Dá-nos a certeza de que tu, o justo e o justificador, nos aceitas como teus filhos e tuas filhas amados e amadas. Por Jesus Cristo que, contigo e com o Espírito Santo, vive e reina de eternidade a eternidade. Amém. Hino após a prédica: Eu sou a videira (O Povo Canta, p. 104) ou hino da Diaconia. Oração geral da igreja: 1. Agradecimentos: Senhor, agradecemos pela vida e pelo grande amor com que cuidas de nós, sustentando e guardando-nos. Agradecemos que desejas nos preencher com o teu amor e nos queres usar como canal de amor, acolhida, solidariedade e cuidado neste mundo. Obrigado pelos 70 anos da Casa Matriz de Diaconisas, pela formação e trabalho que aconteceu via essa instituição diaconal, via a Irmandade. Graças que tu continuas sendo o amigo da humanidade e não desistes de tua criação, apesar de nosso pecado, egoísmo e desamor. Comunidade canta: Hinos do Povo de Deus – volume 1, n. 253: “Glorificado seja o teu nome”. 2. Intercessões: Senhor, intercedemos em favor das pessoas que sofrem, que estão doentes, enlutadas, que não têm o que comer, pelos sem casa, sem emprego, sem esperança. Tem compaixão delas, Senhor. Ouvenos, ó Deus. Comunidade canta: Ouve nossa oração e atende as nossas súplicas. Oramos pelas pessoas que sofrem em conseqüência das variações climáticas, que vivem dos produtos da terra e, devido a chuvas demais ou de menos, perderam a colheita. Ouve-nos, ó Deus. Comunidade canta: Ouve nossa oração e atende as nossas súplicas. Pedimos por tua igreja em todo o mundo. Que o teu evangelho seja pregado com retidão, que ele possa traduzir-se em frutos de amor, de gratidão, de diaconia. Que esses frutos sejam testemunho vivo de teu amor. Intercedemos pelos povos no mundo. Dá que possam trabalhar em favor da paz e da justiça, que as diferenças sociais e econômicas sejam amenizadas. Dá às autoridades sabedoria e coragem para governar com amor, honestidade e justiça. Ouve-nos, ó Deus.
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6o Domingo da Páscoa
Comunidade canta: Ouve nossa oração e atende as nossas súplicas. Liturgia da Ceia do Senhor Liturgia de despedida Hino: n. 118, Hinos do Povo de Deus – volume 1: “Deus vos guarde pelo seu poder”. Bênção (irlandesa): O Senhor esteja sobre ti, para te mostrar o caminho certo. O Senhor esteja ao teu lado, para te abençoar e te proteger. O Senhor esteja atrás de ti, para te salvar da falsidade de pessoas más. O Senhor esteja abaixo de ti, para te amparar quando caíres e te tirar das armadilhas. O Senhor esteja dentro de ti, para te consolar quando estiveres triste. O Senhor esteja ao redor de ti, para te defender quando outros caírem em cima de ti. O Senhor esteja sobre ti, para te abençoar. Assim te abençoe o bondoso Deus. Amém. Envio: Motivados pelo Espírito de Deus, crentes na Palavra de Cristo, imbuídos do amor de Deus, vamos e sirvamos ao Senhor com amor e alegria. Comunidade: Demos graças a Deus.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. João 15.9-12 (13-17). In: Proclamar Libertação XIV. São Leopoldo: Sinodal, 1988. p. 374-384. GRUBBER, Edmundo. João 15.9-17. In: Proclamar Libertação VIII. São Leopoldo: Sinodal, 1982. p. 317-323. LÉON-DUFOUR, Xavier. Leitura do Evangelho segundo João – III. São Paulo: Loyola, 1996. p. 125. GRÜN, Anselm. Ich wünsch dir einen Freund. München: Deutscher Taschenbuch-Verlag GmbH & Co, KG, 2002. TOILLIER, Osvino (Org.). 100 Estórias de Vida e de Sabedoria. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2000. p. 78-79. IECLB Documento n. 4 – Diaconia Evangélica – 1988. Textos de hinos: (autor: Rodolfo Gaede Neto) I – Pelas dores deste mundo, ó Senhor, imploramos piedade. A um só tempo geme a criação. Teus ouvidos se inclinem ao clamor desta gente oprimida. Apressa-te com tua salvação. A tua paz, bendita e irmanada com a justiça, abrace o mundo inteiro. Tem compaixão O teu poder sustente o testemunho do teu povo. Teu reino vem a nós! Kyrie eleison!
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6o Domingo da Páscoa
II – Diaconia 1. Aprendamos com Maria a ouvir com devoção, ter de Marta a energia, pressa e dedicação. Acontece diaconia na ação com oração. Ser uma Marta Maria: que bonita vocação. Estrib.: Vamos juntos trabalhar na seara do Senhor. Pois o povo está a vagar, qual ovelhas sem pastor. Libertados pela graça, nos dispomos a servir. Sirvamos com alegria, exaltando o Deus do amor. 2. Do pequeno ser amigo ao faminto dar o pão; com o nu buscar abrigo, com o doente comunhão. Acolher o forasteiro, ao sedento saciar; libertar o prisioneiro e os mortos sepultar. 3. Todos nós somos chamados para este mutirão. Venham, pois, muito animados integrar a comunhão! Vivenciar diaconia com os mais pobres deste chão: resgatar cidadania, superar a escravidão!
ASCENSÃO DE NOSSO SENHOR Isaías 33.13-17,22 João 14.1-12 COLOSSENSES 3.1-11
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PRÉDICA: JOÃO 17.1a, 6-19
7º DOMINGO DA PÁSCOA
ATOS 1.15-17, 21-26 1 JOÃO 5.9-13
24 MAI 2009
Humberto Maiztegui Gonçalves
1
Introdução
O 7º Domingo da Páscoa é uma data litúrgica de transição, que, juntamente com o dia da Ascensão, prepara-nos para a grande festa do Espírito Santo (Pentecostes). Nesse espírito, as leituras convidam-nos para um olhar integrador desses três momentos. Estando ainda na época da Páscoa, temos no horizonte Pentecostes, tempo em que também oramos pela unidade dos cristãos (Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC). Em Atos 1.15-17,21-26, esse “horizonte” está presente. O Espírito Santo é mencionado por Pedro logo no começo do texto (“pela boca de Davi o Espírito Santo tinha anunciado sobre Judas, o guia dos que prenderam Jesus” – v. 16). Essa referência ao Salmo 41.10 e/ou 55(54).13-15 serve para Lucas mostrar que a ação do Espírito Santo faz parte de um grande plano divino, revelado pela boca dos precursores na fé (nesse caso Davi). Lucas tem como grande objetivo de sua obra justificar a inclusão dos gentios – inclusão que é atribuída à ação do Espírito Santo (cf. At 15). Assim, a leitura de Atos 1, feita no fim do tempo da Páscoa, convida-nos a olhar para as origens da ação do Espírito, enraizadas na voz daqueles que, como Davi, são considerados referências da revelação pelos cristãos provenientes do judaísmo. Pedro representa o reconhecimento da inclusão dos gentílico-cristãos pelos judeu-cristãos (cf. At 10-11). O olhar de Lucas não é apenas para frente (como pode representar a reconstrução do grupo apostólico), mas também para trás, evidenciando os começos dessa caminhada pascal. Quando Pedro se refere à missão evangelizadora dos doze, da qual deverá participar o substituto de Judas, convida para abrir a visão colocando no horizonte da missão todo o ministério de Jesus, representado por três marcos de referência: o batismo de João, a ressurreição e a ascensão (v. 22). Lucas mostra-nos que o grande evento de Pentecostes não pode ser bem compreendido se perdermos a perspectiva do conjunto da revelação, cujo centro está nos eventos pascais do Primeiro (Antigo) e Segundo (Novo) Testamentos. A caminhada da Páscoa não termina no terceiro dia após a morte na cruz, não se resume às aparições e ordenanças do Ressuscitado. Ela continua no testemunho apostólico.
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7o Domingo da Páscoa
1 João 5.9-13 é claramente um epílogo, que conclui com a frase “eu vos escrevo a vós, que credes no nome do Filho de Deus para saberdes que tendes a vida eterna”, ecoando nos demais versículos até o final da epístola (P. LeFort. As Epístolas. In: Os Escritos de São João e a Epístola aos Hebreus. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 168). A carta de João termina afirmando fortemente a veracidade do testemunho sobre o Filho de Deus. O horizonte desenhado no final da primeira carta de João não é apenas o do convencimento argumentativo ou de uma verdade meramente humana (cf. v. 9). A veracidade do testemunho sobre o Filho de Deus é colocada no interior da pessoa: “Quem crê no Filho de Deus, possui em si este testemunho” (v. 10). Trata-se de um horizonte profundamente pascal, pois revela a vitória da vida. A vida dada pelo Filho é o fruto pascal para toda a humanidade. Este é o motivo e cerne da festa: a ressurreição. No entanto, a vida aponta para um horizonte a ser partilhado, assim como Cristo o partilhou conosco. A vida precisa ser testemunhada, compartilhada, espalhada. Assim, o espírito do lecionário dominical coloca-nos no fim do tempo da Páscoa, com a visão da glória do Filho junto ao Pai, preparados para a missão, desejosos e desejosas de Pentecostes.
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O olhar da exegese sobre João 17.1a, 6-19
O espírito dessa oração-testamento de Jesus, da qual é selecionada uma parte neste domingo, é o mesmo que mostraram as outras duas leituras comentadas na introdução: é o fim-começo. O caráter conclusivo que a chamada “oração sacerdotal de Jesus” assume no conjunto do Quarto Evangelho, e em especial nos discursos na mesa pascal, é atestado por toda a história da interpretação do texto. O nome “oração sacerdotal” foi dado devido ao “tom de intercessão”. É atribuído a Clemente de Alexandria (150-215), nos primórdios da interpretação cristã das Escrituras. Depois esse caráter do texto foi reafirmado pelo teólogo luterano David Chytraeus (1530-1600). Por outro lado, o gênero literário apresenta-o como um discurso-testamento, incluindo “uma oração em forma de agradecimento” e uma “bênção ou súplica de intercessão” (Sérgio N. ENGERRROF. A alegria de Jesus nos discípulos (Jo 17,9-19). In: Revista Literatus, v. 6, n. 1, jan/jun. 2007, p. 39). Trata-se da conclusão litúrgico-sacerdotal do ministério público de Jesus, que, por outro lado, aponta para o começo da missão de seus discípulos e discípulas. O contexto litúrgico é dado pela perspectiva da festa. Essa oração que encerra uma série de ações de Jesus é colocada pelo Quarto Evangelho no contexto da celebração da Páscoa (o encontro para a refeição, o lava-pés, a traição de Judas e a negação de Pedro – 13; o discurso do caminho para o Pai e a promessa do Espírito Santo – 14; a comparação com a videira e os ramos – 15.1-17; a oposição do mundo – 15.18-25; o envio do Paráclito-defensorensinador e sua ação através dos discípulos – 15.26-16.15; as despedidas, a reação dos discípulos ao anúncio da dor e da alegria – 16.16-26; e a promessa da vitória – 16.25-33). A festa pascal, assim como foi no Êxodo (cf. Êx
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12.11-13), é de preparação para uma grande transformação, que, sendo em princípio dolorosa, abre as portas para o novo. Assim, a oração está intimamente ligada às instruções anteriores dadas por Jesus. Essa ligação é explicitada nas primeiras palavras (17.1): “Assim falou e depois...” ou “Disse Jesus estas coisas e depois”. Essas “coisas” que foram “faladas” colocam essa oração no contexto da ceia pascal. Portanto deve ser entendida nesse contexto não como uma oração isolada, mas como a conclusão da doação de Cristo através do sacramento de seu corpo e sangue. Então Jesus “levantou os olhos para o céu” (17.1), fazendo um gesto simbólico-litúrgico que aponta para a esfera divina. A morada do Pai, de onde vem o Espírito Santo (Jo 1.32s) e de onde provém o próprio Cristo (3.13,31; 6.32-33,38,41,50,51,58). Essa atitude de Jesus tem, sem dúvida, uma estreita ligação com o relato da ressurreição de Lázaro (11.41). Assim como acontece com Lázaro, o gesto e “olhar para o céu” indicam um fim e um começo. Indicam a passagem (páscoa) da morte para vida (J. MATEOS, J. BARRETO. O Evangelho de São João – Grande Comentário Bíblico. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 676). Entramos então naquela parte dessa oração sobre a qual a tradição da igreja nos convida a refletir neste domingo (17.6-19). A estrutura geral da oração sacerdotal de Jesus pode ser entendida da seguinte forma: um prefácio (17.1-5); uma oração pela comunidade presente (17.6-19) e uma oração pela comunidade futura (MATEOS e BARRETO. Op. cit, p. 554). Pessoalmente, prefiro entendê-la em três partes: 17.1b-5 (abertura/acolhida), 17.619 (relato da missão e reconhecimento de seus frutos) e 17.20-26 (oração pela continuidade desse testemunho através de seus discípulos e discípulas e das pessoas que venham a acreditar no futuro). Vendo uma estrutura tripartite, pode-se entender que o lugar central é assumido por 6-19. Sendo assim, tudo gira ao redor da ação missionária de Jesus. Ali se revela sua glória, que é também a glória do Pai. Ali nasce a nova comunidade pela qual Jesus intercede, pedindo sua unidade na missão. A descrição do ministério de Jesus tem com ênfase a revelação do “nome de Deus” (v. 6a), assunto com o qual encerra a oração no v. 26. Para Dodd, “a missão de Cristo no mundo é tornar conhecido o nome de Deus, e essa missão ele cumpriu plenamente (...) o nome de Deus é símbolo de sua verdadeira natureza, então a revelação do nome que Cristo faz é aquela unidade do Pai e do Filho da qual dá testemunho” (C.H. DODD. A interpretação do Quarto Evangelho. São Paulo: Paulinas, 1977, p. 133). A missão de Deus, embora presente na natureza do Filho, não se encerra nele, mas continua na ação comunicadora, que faz com que o nome seja guardado como palavra (v. 6b). Assim, a natureza do Pai e do Filho, essa unidade amorosa e desafiadora, é totalmente recebida pelas pessoas que continuam a missão: “Agora receberam todas as coisas que me deste” (v. 7). Essa comunicação do nome é tudo, como afirma o versículo 10: “Pois tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu. Neles sou glorificado”. A revelação do nome completa-se na
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unidade divina, que, por sua vez, passa a habitar na vida das pessoas que crêem e que participam de sua glória. O processo da revelação dá-se na comunicação das coisas do Pai através do Filho para as pessoas que o reconheceram e as receberam. F. Rubeaux lembra que Jesus transmite e encarna a palavra-ação (Francisco RUBEAUX. O livro da comunidade. In: RIBLA 17. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes/Sinodal, 1994, p.52). Dodd, por outro lado, indica que havia uma grande diferença entre o sentido do conhecimento para os gregos, que acreditavam que conhecer Deus significava alcançar a realidade última de sua essência última, e o conhecimento hebraico, segundo o qual conhecer Deus é reconhecê-lo em suas obras e responder a seus apelos (Op. cit., p. 205). Se o conhecimento é o princípio da ação, é compreensível a preocupação de Jesus em relação à oposição entre o “mundo” e as pessoas que o conheceram e receberam sua palavra. Nesse contexto é que deve ser entendida a negativa de orar pelo mundo. Essa negativa expressa a oposição entre o mundo e os que foram dados pelo Pai a Jesus, como aparece fortemente nos v. 9 a 19. Raymond Brown chama a atenção sobre a dualidade apresentada no Quarto Evangelho entre o amor ao mundo (Jo 3.16; 1.29; 4.42; 6.33,51; 10.36; 12.47 e 17.21) e a oposição do mundo, como o lugar daqueles que rejeitam a luz. Nesse sentido, a vida de Jesus julga o mundo (9.39 e 12.31), que é habitado pelos filhos das trevas (12.35-36) e, portanto, incompatível com Jesus (16.20; 17.14.16; 18.36) e também oposto ao Espírito Santo (14.17 e 16.8-11). Enfim, resume Brown, “o mundo odeia Jesus e os que nele crêem” (7.7; 15.18-19; 16.20). Por causa disso “Jesus se recusa a orar pelo mundo” (17.9); ao contrário, ele “vence o mundo” (16.33) e “expulsa o príncipe satânico deste mundo (12.31; 14.31) (Raymond BROWN. A Comunidade do Discípulo Amado. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 65). Para Mateus e Barreto, o mundo representa “a injustiça institucional”, que é “inimiga da humanidade”, e “não rogando pelo mundo, mas, pelo contrário, rogando pelos discípulos, Jesus distingue os seus do sistema injusto” (Op. cit, p. 684). Essa visão político-sociológica de “mundo” é uma boa chave de leitura para entender o dualismo estabelecido entre o amor de Deus pelo mundo (Jo 3.16) e a vontade de fazer com que o mundo creia através do amor divino revelado na unidade dos discípulos e discípulas (17.18-19,21,23). O “mundo” é amado; no entanto, sendo dominado pela morte e seus representantes, age contra o amor de Deus. Jesus não ora pelo mundo, pois este mundo perdeu a capacidade de reconhecer o caminho da vida. Ora, sim, por aquelas pessoas que, tendo recebido Jesus e nele o Pai e o Espírito Santo, podem transformar este mundo, levando-o da morte para a vida. Esse é o sentido do envio ao mundo (v. 18-19).
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Sugestões para a prédica
Estamos no final do tempo litúrgico da Páscoa. Revivemos os eventos marcantes da Semana Santa, especialmente a cruz e a ressurreição. A oração de Jesus e os demais textos estão nos convidando a olhar para os horizontes da fé. Não se trata do olhar de alguém de fora, um outsider, como se diz em inglês. Os textos deste domingo convidam a olhar para o tempo pascal como alguém de dentro. Como alguém que possui em si o testemunho de Cristo, conforme se afirma em 1 João 5.10. Só podemos olhar “de dentro” se sentimos e acreditamos ser aquelas pessoas que receberam todas as coisas que o Pai deu a Jesus. Onde estão essas coisas? Vamos buscar dentro de nós aquela vida que nos foi confiada, saiamos ao mundo levando a alegria dada por Deus em Cristo para a humanidade, a alegria que acontece no processo de transformação da morte em vida. Abrir o olhar em busca de Jesus Cristo é reconhecer que Deus nos tem acompanhado como humanidade em todo momento, jamais nos abandonou, jamais poupou esforços para nos resgatar, jamais ficou passivo diante dos atentados contra a vida. Veremos, então, que o desafio de testemunhar a presença divina em nossa história só pode ser assumido em unidade, em comunidade, em com-união, tendo Deus em nós, Deus entre nós e Deus a partir de nós, Deus em favor do mundo, que não o reconheceu. O processo pascal que nos leva a Pentecostes é o da comunicação da palavra-ação. Jesus mostra-nos que o testemunho é ação, a ação é também oração, a oração é, por sua vez, desafio para a ação. A graça vive em nós, mas o grande desafio é que através de nós a graça sinalize para a vida no mundo. Esse foi o sentido da missão de Jesus, esse é o âmago de sua oração sacerdotal, esse é o sentido de ser igreja, ser comunidade, ser discípula e discípulo e o sentido último da missão apostólica.
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Imagens para a prédica
Lembremos o caráter litúrgico dessa parte do Evangelho segundo João, que culmina com a oração sacerdotal de Jesus. Essa oração acontece em volta da mesa pascal, e em volta dessa mesa também nos encontramos em nossa comunidade. Olhemos com cuidado para o que é colocado na mesa e o que é ou simbolizam cada elemento, cada oração, cada gesto e para onde cada momento dessa liturgia aponta como desafio missionário, como envio. Lembremos que a intercessão funciona como ponte entre a graça e as nossas vidas. Podemos aprofundar nessa ponte, preparando orações ilustradas com imagens daquilo que no mundo precisa ser transformado à luz do evangelho, e, do outro lado, estão as imagens de gestos (como o da paz) e outras ações que indicam a unidade da igreja, sua comunhão com Deus em Cristo e sua missão transformadora. Lembremos que nesse tempo intercede-
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mos ecumenicamente pela unidade da igreja de Cristo no Brasil (pode-se usar o cartaz da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, promovida pelo CONIC). A palavra-ação pode ser visualizada passando a Bíblia de mão em mão antes da primeira leitura ou da leitura do evangelho (texto da prédica). Esse gesto permitirá visualizar que o testemunho é construído através de ações coletivas, que envolvem todas as pessoas e que envolvem a totalidade de nossas vidas.
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Subsídios litúrgicos
Uma boa forma de planejar a liturgia é através dos seguintes elementos: o espaço litúrgico (disposição da mesa, bancos ou cadeiras, símbolos etc.), o rito (as palavras que serão usadas durante a liturgia) e o cerimonial (gestos e movimentos usados na liturgia). Incluirei sugestões para cada um desses três elementos. Espaço litúrgico Colocar a mesa ou os bancos de modo que as pessoas olhem ao mesmo tempo para o “altar” e umas para as outras; pode ser de forma semicircular. O lugar da leitura do texto bíblico pode ser deslocado para dentro do círculo ou semicírculo, fazendo com que, da mesma forma, ao ouvir a leitura bíblica, as pessoas possam estar olhando umas as outras. Podemos confeccionar cartazes com fotos ou imagens que mostrem, de um lado, o “mundo” e, de outro, a missão da igreja no mundo (esses cartazes podem ser usados em procissões de entrada, no ofertório ou ser distribuídos pelo espaço litúrgico). Rito a – Acolhida Estamos chegando ao fim do tempo pascal, no qual refletimos sobre a vida e a esperança que nos foi dada pela morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que, ao contemplar e refletir sobre o seu grande amor por nós e sua vitória sobre a morte, possamos nos reencontrar com ele, que vive em nós e nós nele e assim viver em unidade e amor, sendo testemunhas e sinais de sua presença no mundo. Ouçamos a voz de Nosso Senhor, que nos diz: “Assim como tu me enviaste ao mundo, eu também os enviei ao mundo” (Jo 17.18). b – Confissão de pecados usando o Kyrie Deus Pai-Mãe, enviaste teu Filho para nos mostrar e ensinar o caminho da justiça e do amor. No entanto, temos dificuldades para assumir nossa missão no mundo. Por isso oramos a ti cantando: Senhor, tem piedade de nós. Cristo, tem piedade de nós. Senhor, tem piedade de nós.
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Deus Filho, Jesus, na mesa pascal partilhaste conosco tudo o que recebeste do Pai. Enquanto nós temos ficado emudecidos diante da injustiça, fechados nos templos e nas casas, deixamos de encontrar a motivação para a missão em nós, entre nós, para o mundo. Por isso cantamos: Senhor, tem piedade de nós. Cristo, tem piedade de nós. Senhor, tem piedade de nós. Deus Espírito Santo, que nos ajudas a encontrar em nós o poder da vida. Tu que defendes a igreja para que possa ser a presença viva de Jesus no mundo. Temos nos fechado à tua ação, temos deixado de ouvir-te soprar fora das paredes de nossos templos. Por isso cantamos: Senhor, tem piedade de nós. Cristo, tem piedade de nós. Senhor, tem piedade de nós. Cerimonial a – Procissão de entrada Vamos entrar em procissão desde a porta do templo até o altar. Essa procissão pode ser com a cruz à frente, seguida dos cartazes que mostram a Páscoa, o mundo e a missão. Pode ser também uma procissão geral, em que toda a comunidade entra junta (especialmente quando é uma comunidade pequena). b – Procissão do ofertório No momento anterior à preparação da mesa para a Santa Ceia, se tiver, ou após a pregação, as pessoas trazem os cartazes e outros símbolos do tempo da Páscoa e dos desafios da missão da igreja no mundo. c – Procissão da leitura da Bíblia Antes das leituras ou do texto de pregação, a Bíblia circula ao redor da comunidade ou é passada de mão em mão, chegado ao lugar onde será lida.
Bibliografia BÍBLIA SAGRADA. Petrópolis: Vozes, 1989. BROWN, Raymond. A Comunidade do Discípulo Amado. São Paulo: Paulinas, 1984. DODD, C.H. A interpretação do Quarto Evangelho. São Paulo: Paulinas. ENGEROFF, Sérgio N. A alegria de Jesus nos discípulos (Jo 17,9-19). In: Revista Literatus, v. 6, n. 1, jan/jun. 2007. Le Fort, P. As Epístolas. In: Os Escritos de São João e a Epístola aos Hebreus. São Paulo: Paulinas, 1988. MATEOS, J.; BARRETO, J. O Evangelho de São João – Grande Comentário Bíblico. São Paulo: Paulinas, 1989. RUBEAUX, Francisco. O livro da comunidade. In: RIBLA 17. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes/Sinodal, 1994.
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PRÉDICA: EZEQUIEL 37.1-14
DOMINGO DE PENTECOSTES
JOÃO 15.26-27; 16.4-15 ATOS 2.1-21
31 MAI 2009
Marcia Blasi Para que o possível seja feito, constantemente o impossível deve ser tentado. Hermann Hesse
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Introdução
É dia de Pentecostes. Lembramos nesse dia o envio do Espírito Santo aos seguidores e seguidoras de Jesus. Ouvimos textos sobre a ação desse Espírito de Deus, que já estava com Deus na criação e que continua recriando nova vida ali onde a desesperança parece reinar. Os textos bíblicos previstos para hoje são ricos em imagens: ossos secos, sopro/vento, fogo, movimento; pessoas saindo para as ruas, falando sem medo. Todas essas imagens precisam ser exploradas no culto. Para esse dia especial, a comunidade pode ser convidada a vestir vermelho, a cor litúrgica de Pentecostes. Ezequiel 37.1-14 já foi muito bem trabalhado anteriormente nos volumes 15, 18 e 24 do Proclamar Libertação. O novo deste ano é que o texto é sugerido para a pregação no dia de Pentecostes. O aspecto central de todos os textos previstos para esse domingo é a ação do Espírito de Deus: é ele quem dá vida a tudo o que foi criado; é ele quem desacomoda pessoas e as empurra para anunciar a Boa-nova; é ele quem mostra a verdade.
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O texto
O profeta Ezequiel foi chamado a profetizar no quinto ano do exílio babilônico, em 593 a.C. Ele foi o primeiro profeta a pregar sem o templo ou a terra prometida para mostrar a presença de Deus. A tarefa de Ezequiel não foi nada fácil. O povo estava cansado das palavras de conforto que alguns profetas, como Ananias, tinham anunciado e que não se concretizaram. Agora o povo tinha sido levado para a Babilônia e aprendeu a viver por lá. Diferente dos exílios do tempo atual, aquele exílio possibilitou ao povo construir suas casas, cultivar seus campos, organizar seus vilarejos, desde que não tentasse voltar para casa. Vejamos alguns destaques nos versículos do texto de Ezequiel.
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Domingo de Pentecostes
v. 1 – A mão de Deus leva o profeta a um vale de ossos secos. O nome do vale não é citado. Talvez seja o mesmo vale citado em Ezequiel 3.22. v. 2 – O profeta move-se sobre os ossos, e há muitos ossos mesmo. Esse vale pode guardar os ossos de muitos israelitas mortos pelas guerras. Agora só restam ossos secos; o resto já foi consumido pelos animais e seco pelo sol. v. 3 – Deus pergunta: “Podem esses ossos voltar a viver?” É claro que não! Mas o profeta sabe que Deus pode mudar o rumo das coisas. v. 4-6 – Deus pede ao profeta que profetize a um monte de ossos secos. v. 7-8 – O profeta faz o que Deus pede e os ossos se juntam, carne cresce neles, mas eles ainda não têm vida. v. 9-10 – O profeta novamente é chamado a profetizar ao espírito, e esse vem como um vento e devolve vida. Em hebraico, a palavra ruah pode significar vento, espírito ou fôlego. v. 11-14 – Deus promete que, assim como esses ossos secos tornaram a viver, também vai acontecer com o povo de Israel. O espírito vai soprar sobre ele e vai ser conduzido a uma terra segura.
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Meditação
Deus pede a Ezequiel uma atitude quase ridícula: profetizar para um monte de ossos secos. De que adianta? Para que jogar tempo fora? Vale a pena investir em ossos secos? Talvez nós poderíamos dizer: seria melhor trazê-los à vida e depois sim fazer um discurso inflamado, uma pregação sobre a maravilhosa obra de Deus, sobre as maravilhas que Deus tem feito. Mas não é isso que Deus pede: Deus pede para acompanhar os ossos secos em seu processo de voltar a viver. Esse processo é doloroso. Mas também não é só de carne e ossos que se faz uma pessoa. É preciso o sopro da vida, a ruah de Deus. Aquela que já esteve com Deus na criação; aquela que dá nova vida aos ossos secos e aquela que vai transformar um temeroso grupo de seguidores e seguidoras de Jesus em corajosos anunciadores e anunciadoras da Boa-nova. Esse mesmo Espírito continua soprando esperança sobre nós. Às vezes, parece que construímos paredes cada vez mais altas para não deixar o sopro entrar. O sopro desacomoda, pede coisas que parecem impossíveis, abre portas, gera mudanças: o sopro é revolucionário. É aí que está o problema: por vezes é muito bom e confortável fazer-nos de vítimas e querer que outras pessoas façam as coisas por nós. Por vezes, nossas pernas estão tão fracas, que o medo toma conta e paralisa; outras vezes, a fome, a miséria, a opressão e a violência extraem qualquer sonho e a esperança não passa de mera palavra, vazia de significado.
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Pistas para a prédica
Não é necessário pensar em ilustrações, pois os textos são ricos em imagens e sons. Um vale de ossos secos é algo terrível. Não há como enfei-
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Domingo de Pentecostes
tar. Ossos secos e abandonados lembram morte violenta, massacre, terror. É só lembrar dos ossos dos judeus, empilhados nas covas coletivas do nazismo, ou dos povos da Ruanda no genocídio da década de 1990. O vale é cheio de lembranças e silêncio. Silêncio que penetra fundo, que grita. E é justamente para esses ossos, sem esperança, que Deus pede que palavras sejam profetizadas. Parece uma cena ridícula: falar para ossos secos. O resultado parece impossível, mas nem por isso o profeta deixa de fazer o que lhe é pedido. No dia de Pentecostes, as pessoas seguidoras de Jesus estavam reunidas no mesmo lugar, sem saber muito bem o que fazer e como fazê-lo. Sentiam-se fracas e desanimadas. Estavam com a esperança em pedaços – estavam como um monte de ossos secos. Mas aí o vento santo de Deus – a ruah – mudou o rumo da história, e a palavra anunciada criou uma nova esperança. Hoje muitas pessoas ao nosso redor sentem-se como um monte de ossos secos. A dor secou sua esperança até a profundidade dos ossos. São mulheres violentadas constantemente pelos companheiros; são crianças maltratadas, subnutridas, abandonadas pelas famílias e pelos órgãos públicos; são trabalhadores e trabalhadoras explorados em condições precárias de trabalho e com salário indigno; são pessoas idosas esquecidas pela família e ainda exploradas por essa; são pessoas sem terra, sem casa, sem esperança. São montes de ossos secos caminhando, sobrevivendo. Se você prestar bem atenção, ouvirá o barulho de ossos secos aí onde você vive. O grande desafio hoje talvez seja ouvir a voz de Deus e profetizar mesmo onde parece não haver mais nenhuma esperança. Profetizar para ossos secos e crer que a ruah continua agindo.
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Subsídios litúrgicos
Pentecostes é uma festa. É festa para reacender esperanças e celebrar a presença do Espírito de Deus entre nós. Para tanto, é importante pensar também em todo o ambiente litúrgico, nas cores dos paramentos, panôs, flores, velas. Se possível, podem ser colocados no ambiente litúrgico panôs vermelhos, de tecido bem leve, que se movimentem ao vento. Sobre esse tecido (talvez tule vermelho) podem ser coladas “línguas de fogo”, confeccionadas anteriormente pelos diversos grupos da comunidade. Pode-se providenciar também sons de vento e de ossos batendo uns nos outros, mas acima de tudo Pentecostes é festa da esperança. O culto precisa viver essa alegria. Canto de invocação: Envia-nos, Senhor (Miriã, volume 2, n° 4) Confissão de pecados: Ó Santíssimo Espírito, neste dia de Pentecostes colocamo-nos em tua presença, manifestando a nossa fragilidade, reconhecendo os nossos erros e
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Domingo de Pentecostes
pedindo o teu perdão. Lava-nos e purifica-nos, renovando nossas vidas no teu fogo abrasador... e assim pedimos: Perdão, Senhor, perdão. Perdão, Senhor, perdão. Kyrie: (Lembrar preocupações do contexto mundial e local) ... e assim clamamos: Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. Hino após a prédica: Vem, Santo Espírito (O Povo Canta n° 211) Bênção: Que o vento sopre suave sobre sua vida, trazendo sempre o aroma da paz; que o fogo aqueça seu coração, deixando-o sempre pleno de ternura; que a palavra que sair dos seus lábios e as que visitarem os seus ouvidos levem e tragam sempre o som de uma bênção! Amém. (Luiz Carlos Ramos)
Bibliografia ALVES, Rubem (org.). CultoArte. Celebrando a Vida. Pentecostes. Petrópolis: Vozes, 2002. BOADT, Lawrence. Reading the Old Testament. An introduction. New York: Paulist Press, 1984.
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1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES (SANTÍSSIMA TRINDADE)
PRÉDICA: JOÃO 3.1-17 ISAÍAS 6.1-8 ROMANOS 8.12-17
07 JUN 2009
Yedo Brandenburg
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Introdução
Curiosidade, inquietação e perguntas surgem, por vezes, em nossa vida. Também Nicodemos estava em busca de respostas. Queria saber mais a respeito de Jesus. O diálogo com Jesus teve um desenvolvimento surpreendente. Nicodemos, fariseu erudito, avançado em anos, é convidado a nascer de novo para ver o reino de Deus. O texto do Antigo Testamento remete-nos a Isaías, um homem que reconhece sua condição de pecador e que é chamado para ser profeta de Deus. Graciosamente, Isaías tem seus pecados perdoados. Essa experiência de um novo nascimento anima-o a deixar-se enviar como profeta de Deus. O apóstolo Paulo, por sua vez, admoesta para não vivermos de acordo com nossa natureza humana. Pessoas guiadas pelo Espírito de Deus vivem a nova realidade de filhas e filhos de Deus. Foram libertadas da escravidão da lei e igualmente experimentam um novo nascimento. E nós, temos necessidade de um novo nascimento? E os membros das comunidades? É possível nascer de novo? Como acontece esse nascer de novo?
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Exegese
V. 1-2 – Nicodemos, um fariseu (3.1), mestre em Israel (3.1), digno representante do judaísmo, ouviu a respeito dos milagres (semeia = sinais) realizados por Jesus. Curiosidade, inquietação e perguntas motivam Nicodemos ao diálogo com Jesus. No silêncio da noite, Nicodemos visita Jesus. Ele se ocupa com a questão: Quem é Jesus para mim? Ele reconhece que a autoridade de Jesus para realizar milagres deriva do próprio Deus e atribui-lhe o título de mestre, ou seja, de um intérprete autorizado da lei. Como mestre, Jesus tem a tarefa de empenhar-se pela plena observância da lei, para que ocorra a vinda do reino de Deus. V. 3 – Jesus, contudo, não condiciona o ver do reino de Deus à observância da lei, mas a um novo nascimento. Quem é Nicodemos para Jesus? Nicodemos é um homem que precisa nascer de novo. No original grego, o
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1o Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)
“nascer de novo” tem o sentido de “nascer de cima” (Jo 3.31), isto é, nascer de Deus, de seu Espírito. V. 4 – Nicodemos não consegue abstrair do nascimento como processo natural e terreno, enquanto Jesus se refere a um evento de cunho espiritual. Assim, fiel à sua forma de pensar como fariseu, que sempre considera o esforço próprio para viabilizar o reino de Deus, Nicodemos manifesta sua dúvida em relação ao nascer de novo com argumentos bem humanos: é impossível para uma pessoa idosa retornar ao ventre materno e nascer de novo. V. 5 – Jesus usa o argumento de Nicodemos para explicitar que tanto o nascimento de uma criança como o nascer de novo (do alto) são recebidos, dados e não conquistados. Nascimento tem algo de misterioso e sempre é dádiva, graça. Nunca é mérito próprio. Em primeiro lugar, nós sempre “somos nascidos”. Não se trata, pois, de um “ativo”, mas de um “passivo”. Para o novo nascimento é necessário “ser nascido” da água e do Espírito. Essa constatação pressupõe a experiência de Pentecostes, a prática do Batismo e a experiência da comunidade primitiva (ver At 2.38 e comparar com Ez 36.25-27). V. 6-7 – Em contrapartida ao batismo de João Batista e seus seguidores (ver Jo 1.26 e 33), fala-se agora sobre o nascimento a partir do Espírito. Nicodemos é confrontado com a alternativa “carne” (sarx) e “Espírito” (pneuma), um característico dualismo joanino. No Evangelho de João, “carne” designa o mundo afastado de Deus, a realidade de pecado. “Espírito”, por sua vez, caracteriza a esfera em que há o senhorio de Deus. Conforme o apóstolo Paulo, carne e sangue não podem herdar o reino de Deus (1Co 15.50). O novo começo, o novo nascimento é graça divina e não possibilidade humana. Somos pessoas pecadoras pelo nascimento na “carne” e justas pelo nascimento na água e no Espírito (Batismo). Quem nasce do Espírito é herdeiro do reino de Deus. Nicodemos, com certeza, admirou-se desse enfoque de Jesus acerca do nascer de novo, já que, como descendente de Abraão, fariseu e mestre da lei, considerava-se entre os eleitos para herdar o reino de Deus. V. 8 – Na língua grega, “Espírito” (pneuma) também tem o significado de “vento”. O Espírito, assim como o vento, sopra onde quer. Ele não se deixa prender. É livre. Torna-se, no entanto, perceptível por sua ação, gerando pessoas para a liberdade e não para a escravidão diante da lei. Dizendo com Martim Lutero: “Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém. Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos” (Da Liberdade Cristã). V. 9-10 – Nicodemos, intrigado, quer saber como isso pode acontecer. Jesus responde com outra pergunta para manter aberto o diálogo e não para ironizar ou diminuir seu interlocutor. Na realidade, Nicodemos, como professor do povo de Israel, deveria saber do derramamento do Espírito de Deus “sobre todas as pessoas” (Jl 2.28). V. 11-13 – Esses versículos evidenciam, conforme o coro das testemunhas apostólicas, que com Jesus iniciou o tempo messiânico e o cumprimento da promessa do Espírito. Também os professores de Israel poderiam com-
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1o Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)
partilhar dessa boa-nova se não se fechassem a Cristo como aquele que fala “das coisas do céu” (v. 12). O v. 13, que alude à ascensão de Cristo, pressupõe a experiência pascal da comunidade dos primórdios. O Cristo, que ascendeu ao céu, não apenas tem ciência das “coisas do céu”, como está em condições de dar ensino a respeito das mesmas. V. 14-15 – Esses versículos indicam para uma mudança de tema: o novo nascimento a partir do Espírito, como condição para a entrada no reino de Deus, deixa de estar no foco. A fé em Jesus é agora premissa para a vida eterna. “Vida eterna” é um conceito joanino para reino de Deus. Assim como Moisés ergueu a serpente de bronze no deserto para salvar da morte quem olhasse para ela (Nm 21.9), também o Filho do Homem será erguido na cruz para a salvação das pessoas. Cada pessoa, independente de sua etnia, classe social ou gênero, ao olhar com fé para o Cristo crucificado, terá nele a vida eterna. A crucificação de Cristo é também a sua glorificação (Jo 8.28) e, como tal, o caminho que revela a sua natureza divina (Jo 12.23). A pergunta de Nicodemos (v. 9) tem, pois, resposta: o novo nascimento, o nascimento por meio do Espírito, realiza-se a partir da fé no Cristo erguido na cruz. Por meio dessa fé, que é dádiva divina, nós temos participação na vida do Filho do Homem “levantado”. V. 16-17 – Como prova de seu grande amor para com a humanidade pecadora, Deus entrega seu único Filho para ser morto. Por meio de seu Filho Deus quer salvar o mundo e não julgá-lo.
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Meditação
Um grave acidente de carro. Pela aparência do veículo não poderia haver sobrevivente. Milagrosamente, o motorista sofreu apenas lesões leves. Alguns dias após o acidente, já recuperado do susto, o motorista diz: “Depois dessa, posso dizer que nasci de novo”. Esse novo nascimento, contudo, não trouxe nenhuma mudança para a vida daquele motorista. (Ou: uma pessoa está gravemente enferma e é submetida a uma cirurgia de grande risco. Encontra-se entre a vida e a morte. Vence a vida. Surpreendentemente, a pessoa recupera a saúde e afirma: “Nasci de novo”. Mas esse novo nascimento não muda o cotidiano, os valores, o jeito de pensar, falar e agir dessa pessoa.) O Evangelho de João 3.1-17, no entanto, fala de um novo nascimento, que tem conseqüências na vida da pessoa. 3.1 – Quem é Jesus para Nicodemos e para nós? Milagres atraíam tanto no passado quanto atraem hoje. Há muitas pessoas em nossos dias que se deixam seduzir pelas propostas de cura, sucesso e prosperidade alardeadas por certas igrejas. Conforme João 2.23, muitos creram em Jesus porque “viram os milagres que ele fazia”.
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1o Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)
Nicodemos ouve acerca dos milagres realizados por Jesus. Curioso, inquieto, com perguntas, visita Jesus à noite. Não é relevante especular sobre o significado de Nicodemos visitar Jesus à noite (por exemplo: para não ser visto e evitar falatórios ou porque a noite era propícia para o estudo e o diálogo). Nicodemos vê nos milagres a prova de que Jesus “é um mestre que Deus enviou” (Jo 3.2). Para Nicodemos, portanto, Jesus não é o messias tão esperado pelo povo. Quem é Jesus para nós? Um milagreiro, um mestre ou nosso salvador? A resposta tem conseqüências para nossa vida pessoal, familiar e comunitária. 3.2 – Quem é Nicodemos e quem somos nós para Jesus? Para Jesus, tanto Nicodemos como nós somos pessoas que precisam nascer de novo. Nicodemos é um representante dos fariseus. Como tal, considera-se um legítimo herdeiro do reino de Deus e se esforça para viabilizá-lo mediante o cumprimento da lei. Jesus dá a entender que o mero cumprimento da lei não garante nada e aponta para outro caminho: “... ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo” (Jo 3.3). Para ver o reino de Deus, Nicodemos precisa nascer de novo. Nicodemos contra-argumenta de forma lógica, racional: como pessoa avançada em anos, ele não “pode voltar para a barriga de sua mãe e nascer outra vez”. Não dá para voltar no tempo! Não dá para ignorar o que já se viveu! Por trás desse argumento também existe a percepção: há muita coisa que nos impede de começar uma nova vida. Há culpa e feridas do passado. Há angústia e dor. Não é possível fazer de conta que isso deixa de existir de um momento para outro. Como entender a necessidade de um novo nascimento em nossos dias? Quem são as pessoas que vêm aos templos dominicalmente? Há aquelas que provêm de famílias tradicionalmente ligadas à comunidade, que foram batizadas, participaram do Culto Infantil, passaram pela Confirmação, tiveram uma inserção no grupo de jovens da comunidade, receberam a bênção matrimonial, colaboram financeiramente para a manutenção da comunidade e, inclusive, são ativas no presbitério. Essas pessoas levam a sério a sua fé, tal qual Nicodemos. Como falar da necessidade de um novo nascimento para tais pessoas? E o que dizer das pessoas que foram ordenadas para assumir funções especiais nas comunidades? O nascer de novo torna-se necessário devido ao pecado, ou seja, devido à nossa alienação de Deus, das pessoas, do meio ambiente e daquilo para o qual fomos criados por Deus. O rei Davi afirmou: “De fato, tenho sido mau desde que nasci; tenho sido pecador desde o dia em que fui concebido” (Sl 51.5). O apóstolo Paulo disse: “Porque, se vocês viverem de acordo com a natureza humana, vocês morrerão espiritualmente; mas, se pelo Espírito de Deus vocês matarem as suas ações pecaminosas, vocês viverão espiritualmente” (Rm 8.13). O Espírito de Deus, que é livre e sopra onde quer, dá-nos, portanto, condições para nascer de novo, para viver espiritualmente. O novo
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1o Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)
nascimento não é, assim, capacidade humana, não é conquista e mérito próprio. O novo nascer é dádiva de Deus por meio do Espírito Santo. Um novo nascimento: o Espírito de Deus transforma o que está ruim e estragado em nossa vida. O Espírito de Deus liberta de ódio, livra de culpa, restaura relacionamentos quebrados, sensibiliza para as dores e o sofrimento de outros, capacita pessoas para a ação em prol de vida digna e da integridade da criação. Conforme o reformador Martim Lutero, em nossa vida precisam ocorrer, diariamente, um arrependimento, uma conversão, um reinício. Como pessoas cristãs, vivemos das forças da renovação que provêm do Espírito de Deus. Cada novo dia que se acrescenta à nossa vida é expressão desse nascer de novo quando o acolhemos como presente de Deus. 3.3 – O amor de Deus nos abraça “Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna” (v. 16). Conforme Martim Lutero, temos aí o evangelho em miniatura. Deus é como um forno que arde em amor. O próprio “Deus é amor” (1Jo 4.8). No diálogo com Nicodemos, Jesus afirmou: “Se vocês não crêem quando falo das coisas deste mundo, como vão crer se eu falar das coisas do céu?” (v.12). A incredulidade apresenta-se com força. Jesus apela à memória de seu interlocutor. Ele recorda a experiência do êxodo, a caminhada no deserto, a impaciência e a infidelidade do povo e o castigo divino na forma de cobras venenosas que mordiam os israelitas. A salvação da morte consistia no reconhecimento da culpa e em olhar para uma cobra de metal pregada num poste (Nm 21.7-9). Da mesma forma, há salvação, há vida eterna quando olhamos, com fé, para o Cristo crucificado. Está aí a novidade para Nicodemos: ver o reino de Deus, participar dele, experimentar a vida eterna não é conseqüência de esforço próprio, das boas obras e ações meritórias, mas é graça divina a partir da fé em Cristo. O extraordinário amor de Deus para conosco, revelado na vida, morte e ressurreição de Cristo, é decisivo para podermos fazer um novo começo na vida, apesar de nossos erros e nossas culpas. Somos lembrados das palavras da carta de Tito 3.5: Deus “nos salvou por meio do Espírito Santo, que nos lavou, fazendo com que nascêssemos de novo e dando-nos uma nova vida”. Esse Espírito do amor de Deus nós não podemos produzir, mas apenas pedir e receber de coração aberto. Por isso peçamos com palavras do Salmo 51.10: “Ó Deus, cria em mim um coração puro e dá-me uma vontade nova e firme”.
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Imagens para a prédica
Aconteceu há anos. Um menino ganhou como presente de seu padrinho um relógio. Um belo relógio de pulso, daqueles modernos, de quartzo,
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1o Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)
que tem tudo: hora, dia, despertador, cronômetro, luzinha para ver as horas no escuro. Muito contente, o menino foi à escola de relógio novo. Orgulhoso, mostrou o relógio a seus colegas de turma. No recreio, ao brincar, bateu o relógio numa das paredes da escola. Para sua tristeza, o vidro do relógio quebrou. O menino ficou muito triste. E agora, o que fazer? Pensou e achou uma solução. Ao retornar para casa, entrou na relojoaria de um conhecido da família. O menino mostrou o relógio e perguntou se o relojoeiro poderia trocar o vidro do relógio. O relojoeiro pegou o relógio, olhou e disse: “Não adianta trocar apenas o vidro. O relógio está estragado por dentro” (Baseado em MEINCKE, Silvio. A fonte. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1983. p. 21.) Estragado por dentro: essa é também a nossa realidade como seres humanos. Há tanta violência, injustiça e exploração entre as pessoas e muito sofrimento desnecessário, porque estamos estragados por dentro. Há conserto para nós? Felizmente, há conserto. Nós não somos um caso perdido para Deus. Mesmo que o nosso interior esteja estragado, Deus nos acolhe e nos possibilita um novo nascimento pela fé em Cristo, como dádiva do Espírito Santo. Em tempos passados, dava-se muito valor à roupa especial que a criança vestia no dia do Batismo. Há um significado simbólico nessa prática: no Batismo somos vestidos com a nova natureza que Deus nos concedeu em Jesus Cristo. No Batismo, a nova vida já está presente, mas não é nossa propriedade. Continua dádiva de Deus, renovada cada dia pelo poder do Espírito Santo. O reformador Martim Lutero diz na explicação do Batismo no Catecismo Menor: “A velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos. Isso acontece por exame de consciência e arrependimento diários. E, por outro lado, deve sair e ressurgir nova pessoa, que faz a vontade de Deus e resiste ao mal, agora e sempre”.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Misericordioso Deus, nós reconhecemos nossa incapacidade de responder ao mal com o bem, à mentira com a verdade, à indiferença com o engajamento, ao descaso com o cuidado pela integridade das pessoas e da tua criação. Estamos estragados por dentro. Queremos tornar-nos novas pessoas. Confiando no teu amor, que é maior do que nossa culpa, nós te pedimos: perdoa o nosso pecado e, por meio de teu Espírito Santo, possibilita-nos nascer de novo. Amém. Absolvição: “E o amor é isto: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e mandou o seu Filho para que, por meio dele, os nossos pecados fossem perdoados” (1Jo 3.10). Antes de tudo e de todos está o amor de Deus
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1o Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)
revelado na vida, morte e ressurreição de Cristo. Fundamentados nesse amor, anunciamos o perdão de Deus em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Oração do dia: Ó Deus, tu que és como mãe acolhedora e como pai protetor, agradecemos pela proteção concedida na semana que passou e por nos reunires nesta manhã de domingo como tua família para cantar hinos de louvor ao teu nome, para ouvir a tua palavra e para celebrar o sacramento da Ceia do Senhor. Somos gratos por poder vir a ti com nossas inquietações e perguntas. Concede que, por meio de teu Espírito Santo, experimentemos diariamente um novo nascimento e tenhamos a alegria da vida eterna já aqui e agora. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina para todo o sempre. Amém. Bênção: Que Deus, em seu amor, cuide de ti e de tua família nesta nova semana; que Jesus Cristo, em sua graça, te conceda a experiência da vida eterna já aqui e agora; que o Espírito Santo, em sua liberdade de ação, a cada dia te faça nascer de novo para uma vida em comunhão com as pessoas e voltada para a integridade da criação; assim, te abençoe Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
Bibliografia STRATHMANN, Hermann. Das Evangelium nach Johannes. Göttingen: Vandenhoeck&Ruprecht, 1955. MALSCHITZKY, Harald. 1º Domingo após Pentecostes. In: SCHNEIDER, Nélio; DEIFELT, Wanda (eds). Proclamar Libertação. V. 22. São Leopoldo: Sinodal, 1996. p. 165-168.
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PRÉDICA: EZEQUIEL 17.22-24
2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
MARCOS 4.26-34 2 CORÍNTIOS 5.6-10 (11-13), 14-17
14 JUN 2009
Gottfried Brakemeier
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Informações exegéticas
O texto reporta-se a um período extremamente trágico na história do antigo Israel. Os babilônios haviam invadido o reino de Judá depois de esse ter se rebelado contra o jugo da vassalagem. Diante da esmagadora superioridade dos exércitos estrangeiros, a capital Jerusalém se rendeu. O rei Joaquim e sua corte, juntamente com uma significativa parcela da elite intelectual, foram deportados. Inicia o cativeiro babilônico. Isso em 597 a.C. Por enquanto, o rei Nabucodonosor não liquida o estado de Judá. Impõe-lhe pesada carga tributária e renova sua condição de vassalo. Zedequias é constituído rei subalterno. Mas, em vez de conformar-se com sua sorte, esse rei trama alianças com os egípcios na esperança de se livrar da dependência. Ele rompe o contrato que lhe havia sido imposto pelos babilônios, insurgindo-se contra a tirania. A reação não iria tardar. Novamente Nabucodonosor manda suas tropas, que agora chegam para aniquilar. Depois de longo cerco, Jerusalém é conquistada, destruída, arrasada. O templo é incendiado, Zedequias é capturado e cegado, nova deportação acontece. É a catástrofe do ano de 587 a.C., que deixa a terra de Israel terrivelmente devastada. Nesse cenário situa-se a mensagem do profeta Ezequiel, registrada no capítulo 17 de seu livro. Compara o rei da Babilônia a uma gigantesca águia (v. 1-10), que arranca a ponta de um cedro no Líbano e transplanta-a para uma “terra de negociantes”. É uma referência à deportação do rei Joaquim e seu grupo à terra dos rios Eufrates e Tigre. Na própria terra de Israel, porém, ele planta uma parreira baixa com boas condições de crescimento. É uma alusão a Zedequias e seu reinado. No entanto, vem uma segunda águia; também ela enorme, na qual se deve reconhecer o faraó do Egito. E a parreira estende suas raízes e seus galhos a ela, provocando a pergunta: “Será que a primeira águia não vai arrancá-la pelas raízes?” (17.9). Trata-se de uma alegoria que tem a finalidade de denunciar o jogo não só estúpido como imoral de Zedequias. Ele faltou com sua palavra e quebrou o tratado que assinou. Essa interpretação é dada nos v. 11-21 aos acontecimentos. A ruína desse rei, pois, é castigo justo de Deus (v. 19s). Segue, nos v. 22-24, uma nova unidade, que é o texto para a pregação. À catástrofe o profeta contrapõe uma promessa. Não outra águia, e sim Deus mesmo vai entrar em ação. Vai tirar a ponta de um cedro alto e plantar o broto
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2o Domingo após Pentecostes
no monte mais elevado de Israel. O broto vai crescer e transformar-se em uma árvore grande, sob cuja sombra pássaros de todos os tipos acharão abrigo. Todas as demais árvores dos campos vão reconhecer nisso a obra de Deus, que derruba as árvores altas e faz crescer as pequenas. O profeta, pois, anuncia a reconstituição do reinado em Israel. Indiretamente, dá a entender que um descendente de Joaquim, da casa de Davi, será empossado soberano em Israel, a quem os povos pagãos, os “pássaros”, tributarão reverência. Deus é capaz de converter derrotas em vitórias, de fazer com que árvores secas fiquem verdes de novo. Portanto, após o juízo, Deus trará salvação a seu povo.
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Refexões teológicas
A profecia de Ezequiel não se cumpriu. A casa de Davi jamais se recuperou do golpe sofrido em 587 a.C. O posterior reinado dos hasmoneus e dos herodianos era de outra natureza e sempre amargou a falta de legitimidade junto ao povo. Mas a esperança pelo “filho de Davi”, que iria restaurar o reino em Israel e libertar da opressão estrangeira, não se apagou. Continuou viva através dos séculos. No tempo do Novo Testamento, atingiu particular intensidade na forma da expectativa messiânica. As promessas dos profetas pareciam cumprir-se em breve e restabelecer a independência política de Israel. Como se sabe, não foi o que aconteceu. No ano 70 d.C., mais outra catástrofe sobreveio a Jerusalém. O exército romano aniquilou de vez os anseios por justiça e liberdade. Perspectiva diferente abre-se a partir da fé cristã. Se Jesus é o “filho de Davi” (Mt 1.1 etc.), a promessa de Ezequiel adquire outro feitio. Ela se cumpre sim, mas de modo inesperado. Deus planta seu reino em Israel e entre os “pagãos” por palavra, ação e pela pessoa de Jesus Cristo. Despreza a força militar. Antes transforma o mundo por seu amor e seu Espírito. Isso significa que a comunidade cristã dá uma interpretação cristológica à profecia de Ezequiel. Julga ter o direito a tanto a partir de Jesus de Nazaré. Sob tal ótica, torna-se flagrante também a estreita conexão que há entre a promessa de Ezequiel e o texto de Marcos, previsto como leitura paralela. Enquanto é difícil descobrir uma correlação temática com 2 Coríntios 5, as duas parábolas de Jesus, transmitidas em Marcos 4.26-34, são altamente significativas. O semeador é o próprio Jesus. Ainda que a semente por ele lançada seja pequena como um grão de mostarda, ela vai crescer e tornar-se grande, assim que os passarinhos possam fazer ninhos em seus galhos. Deus planta o seu reino. Ele faz isso em situações catastróficas. Acumulam-se justamente no século XXI as notícias de desastres, chacinas, crimes hediondos, terror. As condições de outrora e de hoje parecem assemelhar-se. Não temos como explicar os tsunamis, os terremotos, os ciclones, e muito menos o cinismo desumano de determinados governos, de bandos paramilitares, de quadrilhas mafiosas. Culpa humana mistura-se aos caprichos da natureza. Torna-se cada vez mais alto o grito por salvação. E aí Deus planta o seu reino. Não o
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2o Domingo após Pentecostes
faz com força e poder. Seu messias, o filho de Davi, não dispõe de batalhões de soldados nem de armas de destruição em massa, nem mesmo de capital de investimento. Ele vem humilde como broto de um cedro, como grão de mostarda e, no entanto, com o poder de transformar mentalidades, consertar o que quebrou, curar as feridas. Jesus, ele mesmo, mostra do que o reinar de Deus é capaz. Poderoso mesmo é quem sabe construir. Destruir é fácil.
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Pistas para a prédica
Nada melhor para entusiasmar as massas do que um desfile militar. Sugere força e serve para intimidar possíveis agressores. A mesma lógica se esconde atrás do esforço para desenvolver bombas atômicas. Armas parecem garantir paz e segurança. Nem mesmo o cidadão comum quer largar o revólver. Alega precisar dele para a autodefesa. Ora, Deus não pensa assim. Por isso cumpre a profecia de Ezequiel de outra forma do que se imaginava. Em vez de reentronizar em Israel um guerreiro, envia Jesus. Esse parece ser em tudo o contrário de um salvador. É fraco, humilde, morre na cruz. Mas justamente assim ele cura, reconcilia, cria comunhão. A prédica deveria iniciar, assim nos parece, com um rápido informe sobre a situação na qual Ezequiel proferiu suas palavras. A intenção do profeta é animar um povo duramente castigado. Em nome de Deus promete-lhe um novo início. Mas esse reinício seria diferente daquele com o qual muitos sonhavam. Quem aposta na força bruta vai ficar frustrado. Conforme o profeta Zacarias (4.6), a transformação acontecerá “não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos”. É o que se enxerga em Jesus. Sua “arma” é o amor. Ele quer transformar mentalidades, não liquidar seus inimigos. Quer arrancar o ódio das pessoas e capacitá-las para a aceitação mútua, a amizade. Foi esse o erro do “combate ao terror” proclamado em conseqüência dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque. O combate travou-se quase que exclusivamente na forma de contraterror. Também no Brasil essa é a opinião dominante. Como deve ser combatida a criminalidade? Ora, com mais polícia e repressão. Deus mostra-nos um outro caminho. É preciso atacar as raízes dos males. São as mentes que criam a violência, são experiências traumatizantes que produzem as anormalidades, são condições desumanas que geram o crime, é o ódio do qual nasce o assassinato. Eis uma das grandes tarefas da comunidade cristã: apontar para a origem dos males e iniciar com a terapia exatamente aí. Não precisamos dos exemplos da grande política internacional para perceber a relevância da educação para a paz, para a aprendizagem do amor, para o respeito à vida. O que deve ser feito para reintegrar os menores infratores na sociedade? Eis apenas uma das muitas perguntas decisivas para o futuro do país. É claro que o amor não vai poder dispensar as armas. Sempre haverá criminosos, cuja ação precisa ser barrada à força. Mas a arma deverá ser o
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2o Domingo após Pentecostes
último recurso a ser empregado quando os demais não surtiram efeito. Infelizmente, a prática é outra. Em tal situação, a profecia de Ezequiel e seu cumprimento na pessoa de Jesus são instrutivos. Mostram a “guinada” salutar que Deus dá às expectativas humanas. “Eles queriam um grande rei...” Mas quem veio foi alguém que acabou na cruz. Essa cruz é a tragédia humana por excelência. Por que deverá ser eliminado alguém que cobra amor e misericórdia das pessoas? A comunidade cristã herdou seu mandato. Ela não tem a chave para explicar as tragédias que fazem as pessoas sofrerem. Mas uma coisa ela sabe: o amor, a solidariedade e a “filantropia” aliviam as dores e, em muitos casos, até mesmo as evitam. Então vamos nos empenhar na tarefa de lançar essa semente na terra, esperando que ela, apesar da pequenez, cresça e desenvolva galhos, nos quais os pássaros conseguem fazer seus ninhos.
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Subsídios litúrgicos
Confissão dos pecados: Senhor, nosso Deus! Perante ti não adianta mentir. Tu nos conheces e sabes que temos faltado com nossas obrigações. Nós nos irritamos quando deveríamos ter mostrado paciência. Nós temos permanecido indiferentes quando teria sido necessária nossa ajuda. Nós condenamos quando deveríamos ter sido compreensivos. Nós reclamamos quando deveríamos ter sido gratos. Pecamos não só por nossos atos. Pecamos também por nossas omissões. Trazemos diante ti, pois, nossa culpa e pedimos por perdão e força para corrigir o que está errado em nós. Sê misericordioso conosco, assim como também queremos ser misericordiosos com nossos semelhantes. Tem piedade de nós! Oração do dia: Deus, é um privilégio poder dirigir-nos a ti. Tu és parceiro, pai e mãe, proteção e esperança em nossa vida. Nós te agradecemos por nos acolheres como teus filhos e tuas filhas. Por isso já não somos órfãos neste mundo, mesmo que às vezes nos sintamos sós e abandonados. Não obstante, seguras a nossa mão e nos diriges a palavra, assim como também neste culto. Tu tens promessa para nós, ainda que o futuro nos seja desconhecido. Nem mesmo capitulas diante da morte. Por isso podemos ter bom ânimo, sabendo que teu reino vencerá os reinos da desgraça. Dá-nos forças para vencer os desafios da semana que está à nossa frente e para espalhar bênçãos por onde andarmos. Por tua graça queiras concedê-lo. Amém! Intercessão: Senhor, diariamente somos informados sobre horrores que acontecem em nosso mundo, perto e longe de nós. Corremos o risco de tornar-nos apáticos frente ao sofrimento alheio. Protege-nos contra esse perigo, contra o qual a intercessão é um poderoso meio. Nós nos lembramos das vítimas de
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violência e desgraça, nós nos solidarizamos com elas e as recomendamos a teus cuidados. Socorre os necessitados, sensibiliza as consciências para a dor dos vizinhos e mobiliza a ajuda de uns aos outros. Consola as pessoas que sofreram perdas ou injustiça, dá ânimo aos ameaçados de resignação, dá força para vencer a quem enfrenta dificuldades. Não menos, porém, pedimos por um novo espírito em nossa sociedade. Acontecem loucuras demais. Já não mais contam a honestidade e o trabalho. Mais rentáveis são a especulação e o desvio das verbas públicas. É preciso ser vivo para subir na vida. Tudo se transformou em mercadoria que se negocia, inclusive a vida humana. Senhor, muda essa desgraçada mentalidade para recuperarmos a paz e boas perspectivas de futuro. Nós te rogamos, não por último, por tua igreja. Protege-a de se tornar conivente com o que promete êxito e lucro às custas da fidelidade ao evangelho. Senhor, ouve nosso clamor, atende a nossa prece. Amém!
Bibliografia POHLMANN, Karl-Friedrich. Das Buch des Propheten Hesekiel. Kapitel 119. In: Das Alte Testament Deutsch, v. 22/1. Göttingen, 1996. ZIMMERLI, Walter. Ezechiel. In: Biblischer Kommentar: Altes Testament, v. XIII/1. Neukirchen-Vluyn: Neukirchner Verlag, 1969.
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PRÉDICA: MARCOS 4.35-41
3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JÓ 38.1-11 2 CORÍNTIOS 6.1-13
21 JUN 2009
Marlei Adam Arcari
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Introdução
Os três textos bíblicos chamam a atenção para dois temas: a grandeza de Deus e a falta de fé dos seres humanos. Jó 38.1-11 mostra que Deus fala a Jó “do meio de um redemoinho”. Deus rompe o silêncio que até então havia guardado e do qual Jó havia se queixado com freqüência. Surpreendentemente, as palavras do Senhor não fazem referência aos sofrimentos de Jó, mas são uma afirmação da grandeza de Deus, de seu poder e de sua sabedoria insondável. Em 2 Coríntios 6.1-13, o apóstolo Paulo enumera ocasiões em que deu provas de paciência e fortaleza em seu trabalho apostólico. Em uma série de contrastes, Paulo destaca as condições em que levou a cabo seu trabalho; em um grupo de paradoxos, indica que as realidades profundas não são como as aparências. O texto do Evangelho de Marcos (4.35-41) relata o poder de Jesus. Esse nos ensina que é possível vencer as dificuldades, mas é preciso ter fé e fazer alguma coisa. É preciso orar e agir sem esperar. O temporal é agora; deve ser enfrentado e vencido agora.
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Exegese
2.1 – Fonte De acordo com a teoria das fontes, Marcos é a fonte dos outros evangelhos sinóticos. É o mais antigo deles. Sendo assim, é possível afirmar que Lucas e Mateus usaram Marcos como base para escrever seus evangelhos. Marcos, por sua vez, é considerado uma fonte primária, que não utilizou escritos anteriores, mas somente o que viu e ouviu (tradição oral) em sua caminhada com o apóstolo Pedro. Também a linguagem de Marcos e seu estilo demonstram sua autoria, pois ele escreve num estilo simples. 2.2 – Observações exegéticas acerca dos versículos da perícope V. 35 – “Naquele dia”: isso indica o mesmo dia em que as parábolas anteriores do reino foram proferidas. “Passemos para a outra margem”: Jesus
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3o Domingo após Pentecostes
freqüentemente cruzava para o lado oposto do lago, porque aquela região não era muito populosa. Ali quase não o conheciam, o que lhe dava a oportunidade de escapar das multidões de ouvintes da populosa margem ocidental. V. 36 – Esse versículo fala da travessia de vários barcos, e não apenas de um, bem como da despedida das multidões, que tinham acabado de ser instruídas por meio de parábolas. Talvez Marcos desejasse dizer-nos que se tornara difícil para Jesus escapar das multidões, mesmo quando atravessava o lago, pois outros tinham aprendido a seguir Jesus. Ou então, conforme alguns sugerem, Jesus reunira grande número de discípulos por essa época. A esses era permitido segui-lo, o que significa que, pelo menos em algumas ocasiões, foram incluídos no círculo mais íntimo. Talvez alguns dos setenta estivessem entre eles. V. 37 – Esse versículo relata que as pessoas que estavam no barco corriam grande perigo devido à sua falta de fé, pois o barco estava enchendo de água. V. 38 – Os temporais eram súbitos e violentos no lago da Galiléia, devido às condições atmosféricas e à configuração geográfica. Na vida diária, eles também podem ocorrer com prontidão devastadora. Jesus é a rocha em uma terra cansada. O maligno cria tais temporais, e sem a proteção de Deus todos nós estaríamos perdidos, tanto física como espiritualmente. Jesus dormia. Estava cansado do trabalho do dia. Era um ser humano. Os discípulos ficaram indignados com Jesus, porque ele dormia tranqüilamente enquanto todos estavam morrendo de medo. Acordam Jesus com um grito de desespero: “Mestre, não te importa que pereçamos?”. Esse é um grito de medo, de irritação, talvez até de raiva. V. 39 – Jesus levanta-se com tranqüilidade, repreende o vento que estava agitando as águas, dizendo: “Acalma-te, emudece!”. O vento aquietou-se, e fez-se grande bonança. A palavra dita por Jesus produziu uma calmaria instantânea. Sua voz ainda pode ser ouvida por aqueles que escutam. Nenhuma força até hoje pode perturbar ou causar destruição quando a alma dá ouvidos à sua voz e lhe obedece. Em sua voz está a substância da intervenção divina na vida humana, e todos nós precisamos muito dessa intervenção. A maior lição que há aqui é que Cristo pode salvar a alma das tempestades repentinas da vida. V. 40 – O evangelista mostra que Jesus queria que os discípulos entendessem mais do que entendiam. Aqui a palavra “tímidos” significa covarde/ medroso. O evangelista fala do temor covarde que levou os discípulos a entrar em pânico sob a pressão, o que mostra que ainda não haviam aprendido o suficiente sobre Jesus. Esse critica a falta de fé dos discípulos. Ainda assim, o milagre acontece. O mar agitado e o vento de tempestade são acalmados. Esse texto nos ajuda na seguinte reflexão: duvidar não facilita as coisas, antes atrapalha.
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3o Domingo após Pentecostes
V. 41 – Antes, os discípulos estavam tomados de um temor covarde; mas agora foram tomados de grande temor por causa do que tinham acabado de ver. Um tipo de medo substituiu outros, embora de melhor espécie certamente. Os discípulos ainda estavam no processo de conhecer Jesus. Por isso eles ficaram surpresos e novamente entraram em dúvida em relação a ele: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?”. Pouco a pouco, os discípulos se dão conta de que Jesus não é qualquer pessoa que eles estão seguindo, mas é alguém com autoridade sobre o natural e o sobrenatural.
3
Meditação
O texto do Evangelho de Marcos (4.35-41) mostra que Jesus não realiza apenas um milagre na natureza, mas sobretudo é um libertador do medo. Esse milagre acontece fundamentado na fé e tem como objetivo despertar a fé dos discípulos. Jesus sempre defendera seus seguidores contra os ataques dos doutores da lei e fariseus, explicando-lhes as parábolas. No texto em estudo, Jesus queixa-se da ausência de fé dos discípulos. Pois os discípulos, em vez de reagir com fé, reagem com muito medo. Com a pergunta final – “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” – Marcos pretende dizer várias coisas. Em primeiro lugar, dar continuidade à descoberta de “quem é Jesus”. Como resposta a isso, mostrar que ele tem poder e é o senhor da história, a quem os elementos hostis e caóticos obedecem. Marcos também deseja sublinhar a humildade necessária para seguir esse portador de boas notícias. A fé cresce quando permanecemos em Jesus. Permanecendo em Jesus, reconhecemos o “ser” e a “autoridade” de Jesus. Com essa fé podemos superar as tormentas da vida, tais como: medos, mortes, doenças, perdas, preocupações, acontecimentos que se acumulam na vida da gente e ameaçam nos derrubar. A própria vida desenvolve a fé em Jesus. “A fé não é obtida a partir de nossas próprias forças. A fé é dom de Deus. A fé não é coisa pequena. Lutero nos diz na explicação do primeiro mandamento: ‘Devemos temer e amar a Deus sobre todas as coisas’. Jesus nunca nos prometeu que nada nos ameaçaria, mas que segui-lo significa tomar sobre nós a nossa cruz. É necessário estar preparado para morrer com ele e confiar em seu poder criador” (Proclamar Libertação, v. 22, p. 187). Deus sempre caminhou e continua a caminhar conosco. Deus quer estar próximo de nós em todas as situações, mas muitas vezes somos ingratos e por qualquer coisa ou problema nos colocamos contra Deus. Logo dizemos: Deus nos abandonou, ou até mesmo: Deus não existe. Revoltamo-nos contra Deus, assim como os discípulos se revoltaram contra Jesus, porque durante a tempestade ele dormia tranqüilamente. Manter a calma ajuda-nos a resolver os problemas mais facilmente. Jesus critica os discípulos por seu medo desproporcional, como se os poderes do mar pudessem destruí-los contra a providência e a vontade de Deus.
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3o Domingo após Pentecostes
Ainda assim, o milagre acontece. O mar agitado e o vento de tempestade são acalmados. “A palavra dita por Jesus produziu calmaria instantânea. Sua voz ainda pode ser ouvida por aqueles que escutam. Nenhuma força, até hoje, pode perturbar ou causar destruição quando a alma dá ouvidos à sua voz e lhe obedece. Em sua voz está a substância da intervenção divina na vida humana, e todos nós precisamos muito dessa intervenção. A maior lição que aqui há é que Cristo pode salvar a alma das tempestades repentinas da vida” (O Novo Testamento interpretado versículo por versículo, CHAMPLIN, v. 1, p. 693). Os discípulos e Jesus enfrentam a grande tempestade. Quantas vezes nós, na vida pessoal ou comunitária, enfrentamos grandes tempestades? Diante das tempestades que a vida nos faz passar, ficamos com medo ou resistimos com confiança e coragem? Como sentimos a presença de Jesus, que acalma a tempestade? Todos nós enfrentamos dificuldades e, para enfrentá-las e solucionálas, não devemos ter medo, mas sim fé e esperança de que tudo vai dar certo. É hora de olhar para Deus e buscar sua presença em oração para buscar forças, paz, fé e esperança. E assim sentir o amor e a mão de Deus envolvernos em nosso dia-a-dia.
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Imagens para a prédica
* Convido a olhar para as diversas tempestades que ocorrem em nossa vida pessoal, comunitária e social nos dias de hoje. * Fazer uma reflexão sobre como nós, seres humanos, enfrentamos as tempestades e/ou os conflitos dentro da família e dentro da comunidade. * Usar sons de uma tempestade, vento forte. * Para a prédica tornar-se mais viva, sugiro a seguinte história: Um olhar para o alto Um jovem que trabalhava em um navio tinha, certo dia, a tarefa de subir no mastro da embarcação. O vento estava forte. O navio, em alto-mar, era sacudido fortemente pelas ondas e pelo vento. E lá estava o jovem agarrado ao mastro do navio. Ele olhava para baixo e via como a força das ondas e do vento tornava a viagem perigosa. Lá do alto do mastro, ele sentiu medo e ficou meio tonto diante da situação. Corria o perigo de desmaiar, caindo assim do alto do mastro para dentro das águas perigosas do mar. O capitão do navio reconheceu o perigo em que o jovem se encontrava. Então gritou para ele: “Jovem, não olhe para baixo, olhe para cima”. O jovem desviou seu olhar apavorado das ondas do mar, que eram tão ameaçadoras. Olhou para o alto e, assim, pôde cumprir a tarefa para qual subira ali. Esse olhar para o alto salvou sua vida. (Um olhar para o vale / Organização de Osvino Toillier. São Leopoldo: Sinodal / Rádio União FM, 1999. V. 2)
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Subsídios litúrgicos Liturgia para a Ceia
Oração do ofertório: Deus criador, bendito sejas por essas dádivas que teu amor nos concede. Com elas ofertamos a nós mesmos para servir ao cuidado e à salvação de tudo o que criaste. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que também instituiu a Ceia como alimento que nos une para enfrentar com fé e esperança as dificuldades que a vida nos oferece. Diálogo: L: O Senhor esteja com vocês. C: E também com você. L: Vamos levantar nossas vozes e também nossos corações a Deus. C: Sim, vamos levantá-los a Deus com todo o entusiasmo. L: Agradeçamos ao Senhor por sua misericórdia. C: É justo e necessário agradecer-lhe. Ação de graças: É justo e necessário que, em todos os tempos e lugares, te rendamos graças, Senhor. Por tua Palavra criaste todas as coisas e as declaraste boas. Tu fizeste o ser humano à tua própria imagem para compartilhar tua vida e refletir tua glória. No devido tempo, tu vieste a nós em Jesus, teu Filho. Em Jesus tu nos libertaste do medo das tempestades que a vida nos oferece e nos ensinaste a lutar com esperança e fé. Comunidade (canta): /: Santo, Santo, Santo, Santo, Santo, Santo é nosso Deus. Senhor de toda terra, Santo, Santo é nosso Deus. :/ Anamnese: L: Louvado sejas, Senhor da terra e dos céus, pela constante e permanente fidelidade que nos demonstraste, quando vieste a nós em teu Filho. Louvado sejas, Pai bondoso, porque pela vida, paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus, tu nos asseguraste que a fé e a esperança permaneçam para sempre e assim nos ensinaste a manter a calma para resolver os problemas mais facilmente. C: Anunciamos, Senhor, a tua morte e proclamamos a tua ressurreição. Narrativa da instituição: L: Na noite em que Jesus foi traído, ele, o nosso Senhor Jesus Cristo, tomou o pão, rendeu graças, partiu-o e o deu a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim”.
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C: Louvado sejas para sempre! L: Depois de cear, ele, o nosso Senhor Jesus Cristo, tomou também o cálice, rendeu graças e o deu a seus discípulos, dizendo: “Bebei dele todos, porque este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vós, para a remissão dos pecados. Fazei isto todas as vezes que o beberdes, em memória de mim”. C: Louvado sejas para sempre! Epiclese: L: Derrama sobre nós o teu Espírito Santo, para que, partilhando do corpo e do sangue de Cristo nesta ceia, recebamos esperança e fé para superar as tormentas que a vida nos oferece e para permanecer firmes em Jesus Cristo. C (canta): /: Vem, Espírito Santo, vem e atende o nosso chamado, Nos ensina a ser teu povo na esperança libertado. :/ Mementos: Lembra-te, ó Deus, de todas as pessoas que já nos antecederam e reúne-nos todos em teu reino, junto à mesa do banquete que nos tens prometido. Doxologia: C: A ti, Trino Deus, rendemos toda honra e toda glória, hoje e sempre. Amém! Pai-Nosso: L: Oremos agora, de mãos dadas, com as palavras que o próprio Jesus ensinou: C: Pai nosso que… Amém! Gesto da paz: L: Deus nos criou para viver a paz. Jesus Cristo disse: Deixo-vos a paz! O Espírito de Deus nos dá esperança e fé para nos manter calmos diante das tempestades que a vida oferece, permitindo-nos a paz que só Deus sabe dar. Cumprimentemo-nos com um aperto de mão ou um abraço, desejando a paz do Senhor uns aos outros. Fração: L: O cálice da bênção que abençoamos é a comunhão do sangue de Cristo; o pão que repartimos é a comunhão do sangue de Cristo. C (canta): Nós, embora muitos, somos um só corpo. L: Vinde, pois tudo está preparado.
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Cordeiro de Deus: C (canta): Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, tem piedade de nós (2x). Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, dá-nos a paz. Oração pós-comunhão: L: Agradecemos-te, nosso Deus, porque nos restauraste através da comunhão do corpo e do sangue de teu Filho. Concede, em tua bondade, que esta ceia nos fortaleça na fé em ti, na esperança de permanecermos em ti, mesmo diante das tempestades que a vida nos oferece. Isso te pedimos por Jesus Cristo, nosso Senhor. C: Amém!
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. V. 1. São Paulo: Agnos, 2002. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982. MOLZ, Claudio. Proclamar Libertação, v. XXII. São Leopoldo: Sinodal, p. 182-187.
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PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 8.7-15
4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LAMENTAÇÕES 3.22-33 MARCOS 5.21-43
28 JUN 2009
Odete Líber de Almeida
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Introdução
O apóstolo Paulo discute vários assuntos em 2 Coríntios. Entre eles destaca-se o tema dos capítulos 8 e 9, conhecido como a coleta para a comunidade de Jerusalém (1Co 16.1-4). Paulo introduz o tema, chamado por ele de “diaconia” (2Co 9.1), em 2 Coríntios 8.1-5, procurando despertar o interesse dos coríntios ao mencionar a generosidade das comunidades da Macedônia no serviço aos pobres (2Co 8.1-2). A coleta é expressão da própria graça de Deus. Os macedônios eram pobres, mas sua generosidade era maior e visava o bem-estar do próximo (2Co 8.3-5). Sua generosidade consistia na disposição de pôr os bens materiais a serviço dos necessitados (v. 4). A declaração do v. 6 – “o que nos levou a recomendar a Tito que, como começou, assim também complete esta graça entre vós” – espera que Tito consiga completar essa graça entre os coríntios. Em 2 Coríntios 7.8-15, Paulo procura mobilizar os coríntios a ser generosos e a participar dessa diaconia.
2
Considerações exegéticas
2 Coríntios 8.7-8 é uma propositio, seguida pela probatio dos v. 9-15, que introduz uma nova seção no argumento que Paulo desenvolve, no qual adverte os coríntios sobre o que deveriam fazer no futuro: “Como, porém, em tudo, manifestais superabundância, tanto na fé e na palavra, como no saber, e em todo cuidado, e em nosso amor para convosco, assim também abundeis nesta graça. Não vos falo na forma de mandamento, mas para provar, pela diligência de outros, a sinceridade do vosso amor”. Nesses versos, a declaração “em tudo, manifestais superabundância” é seguida por uma lista de virtudes, arrumadas em dois grupos de três: “fé”, “palavra”, “saber” e “cuidado”, “amor”, “graça”, estabelecendo uma conexão com 1 Coríntios, onde esses temas são apresentados, sendo, algumas vezes, pontos de controvérsia. A probatio, v. 9-15, apresenta argumentos a serem considerados: o primeiro, o exemplo de Jesus Cristo; o segundo, o útil ou convincente; o terceiro, a igualdade.
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4o Domingo após Pentecostes
2.1 – O exemplo de Cristo O primeiro argumento – “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que pela sua pobreza fôsseis enriquecidos” (v. 9) – contém uma declaração cristológica e suas conseqüências. Cristo tornou-se pobre, ou seja, tornou-se humano e abdicou de sua riqueza divina para nos enriquecer com a dádiva da salvação. O evento da encarnação é explicado: Cristo tornou-se pobre. No centro dessa invocação está a “graça de nosso Senhor Jesus Cristo”. Com isso a pobreza, que culmina com seu sacrifício na cruz, torna-se o marco da missão de Cristo (Fp 2.5-11). O uso da palavra mostra que um termo teológico tão importante como graça é aplicado à esfera da economia (nas dezoito vezes em que 2 Coríntios usa a palavra graça, dez estão no contexto da coleta). Paulo usa a palavra graça para designar salvação e diaconia. Salvação está ligada ao “pão nosso de cada dia”; os dois termos estão interligados. A diaconia, na verdade, atinge o ser cristão da comunidade. É a prática do amor a partir da fé, que leva à salvação, a qual provém da graça de Deus. A diaconia é a gratidão pela graça recebida. 2.2 – O útil ou convincente No segundo argumento, em vez do apelo a uma declaração cristológica, Paulo parte da consideração do bom senso. A pressuposição básica do argumento demonstra que é mais prudente acabar uma obra começada: “E nisto dou minha opinião; pois a vós outros, que, desde o ano passado, principiastes não só a prática, mas também o querer, convém isto. Completai, agora, a obra começada, para que, assim como revelastes prontidão no querer, assim leveis a termo, segundo as vossas posses” (v. 10-12). Por alguma razão, a coleta começada no ano anterior havia sido interrompida. O que teria acontecido? Com certeza foi a grande crise acontecida. No contexto da crise, Paulo escreveu uma carta apologética (2Co 2.14-6, 13; 7.2-4), que ficou sem efeito. Então ele mandou uma segunda carta (10-13), que também ficou sem efeito. Então houve uma segunda visita de Tito a Corinto. Tito conseguiu a reconciliação (2Co 1.1-2,13; 7.5-16). Paulo pede agora que eles continuem o que haviam começado a fazer. A carta produziu efeito, e a coleta foi reiniciada. A carta de Paulo deu resultado, pois Romanos 15.25-32, escrita logo depois, mostra que a coleta foi feita. 2.3 – A igualdade O terceiro argumento é a igualdade. As comunidades cristãs devem estar dispostas a desprender-se de tudo o que é supérfluo, colocando suas posses a serviço dos necessitados, para que haja igualdade: “Porque não é para que outros tenham alívio, e vós, sobrecarga; mas para que haja igualdade, suprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que
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4o Domingo após Pentecostes
a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade, como está escrito: ‘O que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não teve falta’” (v. 13-15). Os coríntios devem ajudar com seus bens temporais os santos de Jerusalém, os quais os recompensarão no plano espiritual (8.14; 9.12-14). Dessa maneira, poder-se-á realizar a igualdade, a igualdade que deve reinar entre os cristãos. Esse modelo se encontra em Êxodo 16.18: “Nem quem tinha colhido muito tinha de sobra, nem quem recolhera pouco lhe faltava”. O texto de Êxodo refere-se ao maná, que não podia ser acumulado. Apenas se podia colher a cada dia o suficiente para um dia. Isso era feito para garantir a igualdade. A coleta é feita pela comunidade cristã, que crê na ressurreição do corpo, e essa não admite a fome, a pobreza e a desigualdade social.
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Sugestões para a prédica
Ao seguir o exemplo dos crentes da Macedônia, os crentes de Corinto provam a verdadeira natureza de seu amor (v. 8). Eles são encorajados de forma ainda mais convincente no desenvolvimento da seção, que fala da glória preexistente de Jesus Cristo, “que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que pela sua pobreza fôsseis enriquecidos” (v. 9, conforme Mc 10.45). A expressão “por amor de vós” é enfática. Indica que Cristo deixou sua glória e assumiu as conseqüências aterradoras da humilhação. O texto enfatiza também alguns princípios de mordomia: a) Disposição para contribuir (2Co 8.3; 9.5,7). A responsabilidade de Tito (v. 6) é fazer com que os coríntios cumpram o que prometeram antes com respeito à coleta. b) Oportunidade, expressa pela frase “segundo as vossas posses” (v. 12), um fator importante no que se refere à quantia a ser dada, que não é medida pela quantidade do que se dá, mas pela atitude que se expressa ao contribuir (Mc 12.43-44). c) Reciprocidade, expressa pela citação de Êxodo 16.18: “Nem quem tinha colhido muito tinha de sobra, nem quem recolhera pouco lhe faltava” (v. 15). Paulo não quer que os santos de Jerusalém “tenham alívio” e os coríntios “sobrecarga” (v. 13). Esse princípio mostra que tanto o que tem como o que não tem recebem a provisão necessária para viver. É um princípio pertinente para nosso mundo, tragicamente dividido entre pessoas com níveis privilegiados de vida econômica, social, cultural e educacional etc. e pessoas sem nenhum acesso aos meios básicos de subsistência. 3.1 – Pistas práticas para a vivência na comunidade Podemos demonstrar ou praticar o exemplo de Cristo, isto é, concretizar a igualdade e completar a obra que foi começada com atos ou exemplos possíveis:
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4o Domingo após Pentecostes
• Promover uma assistência social que não aconteça somente com campanhas e coloque curativos nos ferimentos, mas vá à raiz dos problemas vividos pelas pessoas em seu dia-a-dia. • Oferecer apoio à educação para crianças, jovens, adultos e idosos em nossas comunidades. O serviço que se faz presente na caminhada transforma a sociedade. • Em vez de fazermos festas em nossas igrejas (porque nelas sempre estão as mesmas pessoas), ir às casas e ruas, reunir os vizinhos, os moradores de uma mesma rua, criando laços de amizade, que pode ser conservada na vida diária. • Devemos incentivar as pessoas que visitamos a também visitar, que é uma forma de doar-se ao outro, como o próprio Cristo fez. Esses são exemplos da disposição para contribuir; de reciprocidade e oportunidade. Ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar e com nada possa contribuir. Ninguém é tão dono do mundo que não possa ajudar, de um jeito ou de outro, alguém em necessidade. São muitas as formas de mostrar a prática do amor a partir da fé. Cada pessoa deve encontrar a forma de explicar concretamente o amor em favor do outro na comunidade em que vive.
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Imagem para a prédica
Uma senhora de uma igreja de Recife teve parte de sua casa queimada. O quarto foi o mais atingido. Mas o que mais a chocou foi que sua Bíblia, na qual estava seu envelope de dízimo e o restante de sua aposentadoria (menos de um salário mínimo), acabou completamente queimada. Lágrimas corriam de sua face, não porque não tinha mais dinheiro para passar o resto do mês, mas não poderia pagar a conta de água e luz e não teria dinheiro nem para o alimento. Mas, em especial, o que mais a entristeceu foi o fato de que não poderia entregar o dízimo naquele mês, que era utilizado em sua igreja para beneficiar outras pessoas com maior necessidade. Essa história da vida real, dentre muitas outras, ensina-nos que dar é mais importante do que somente ter.
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Subsídios litúrgicos
Oração geral da igreja: L: Senhor, remove de nossos olhos o véu para podermos ver-te caminhando entre os desamparados, desalojados, enfermos, desempregados, discriminados, pois todos andam contigo, muitas vezes de mãos dadas, mas não o sentimos. C: Ajuda-nos a construir um mundo mais justo e igualitário. L: Infunde em nós a força para gritar por ti, para cantar a ti, para argumentar com a verdade, para desmascarar a maldade, para fortalecer a esperança de que tu és Senhor sobre tudo e todos.
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C: Ajuda-nos, Senhor, a lutar por um mundo melhor, para que todas as pessoas tenham acesso aos meios básicos de subsistência: alimento, casa, saúde, educação, lazer. E, acima de tudo, que elas tenham a certeza de teu amor e de teu cuidado. L: Ajuda-nos, Senhor, a dar mais do que receber, porque somente quando não se poupam as mãos no serviço de amor e de misericórdia na disposição diária de ajudar, a boca pode anunciar com alegria e credibilidade a palavra do amor e da misericórdia de Deus. C: Ajuda-nos, Senhor! L: Desperta em nós corações solidários, mentes e ouvidos abertos, para escutarmos permanentemente tua Palavra e torná-la viva em meio ao nosso povo. C: Ajuda-nos, Senhor! E ajuda-nos a descobrir a doçura de tua presença e a companhia solidária de tua igreja. Porque cremos que tua Palavra é paz, justiça, igualdade, amor, disposição e contribuição. Amém. Envio e bênção: L: Somos enviados para viver a verdade em função do bem e em amor tornar real o fato de que tanto o que tem como o que não tem recebem a provisão necessária para viver, porque Deus caminha conosco. De mãos dadas digamos: C: Dá-me tua mão, irmão e irmã, eternos caminhantes, dá-me tua mão, quero acompanhar-te. Dá-me tua mão, irmã, em nosso caminho, dá-me tua mão, irmão, no perigo. Dá-me tua mão, fiquemos bem unidos, até podermos compartilhar com todos a paz. Dá-nos tua mão, irmão e irmã, para que juntos possamos partilhar o muito e o pouco. Dá-nos tua mão, irmão e irmã, para que no amor de Cristo possamos ir ao encontro das pessoas sem nenhum acesso aos meios básicos de subsistência e supri-las. Dá-nos tua mão, ó Deus, e protege nosso andar. Não nos deixe tropeçar. Não permita que nos tornemos mesquinhos, egoístas. Dá-nos tua mão e abençoa-nos, nosso Deus – Pai, Filho e Espírito Santo. Amém. L: Que teus dias tenham paz e tuas noites merecido repouso; que não morram tuas esperanças nem se apaguem tuas ilusões; que sempre brilhe em teu céu a luz de mil sóis; que teus passos sejam firmes e tua mão sempre generosa para dar, que sejam claros teus pensamentos e nobres teus sentimentos; que possas sempre beber água fresca da fonte do amor de Deus e que nunca te falte o pão diário da imensa graça de Deus. Amém.
Bibliografia BETZ, Hans Dieter. 2 Corinthians 8 and 9. Philadelphia: Fortress Press, 1985. COMBLIN, José. Segunda Epístola aos Coríntios. Petrópolis: Vozes, 1991. KISTEMAKER, Simon J. Segunda Epístola aos Coríntios. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2004. MARTIN, Ralph P. 2 Corinthians. Word Biblical Commentary. Waco (Dallas): Word Book Publisher, 1986.
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PRÉDICA: MARCOS 6.1-13
5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
EZEQUIEL 2.1-5 2 CORÍNTIOS 12.2-10
05 JUL 2009
Manfredo Siegle “Põe a semente na terra, não será em vão. Não te preocupe a colheita, plantas para o irmão!” “Quem edifica o próximo com palavras pratica boa obra.” (Agostinho) “Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas prosperará naquilo para que a designei.” (Is 55.11)
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Diálogo com o texto
A perícope proposta situa-se no contexto que aborda o envio ao discipulado. Jesus chama e envia; ao mesmo tempo alerta para resistências decorrentes do exercício do discipulado. O contexto maior – Marcos 1 a 9 – apresenta Jesus agindo na Galiléia. Sobressaem as disputas com os adversários, a negação de Jesus em Nazaré, assim como os prenúncios da paixão de Jesus. Os agentes da história de Deus, a começar pelo próprio Jesus, são alertados quanto ao ônus do discipulado. O texto revela um movimento impressionante. Jesus está de partida, assim como os discípulos, seguindo o mesmo caminho. Enquanto percorria a região, Jesus ensinava, operava milagres e era hostilizado. Está consciente de que amarras, a caminho, atrapalham e causam prejuízo à dinâmica da missão. Jesus chama parceiros para a missão, dá-lhes instruções a caminho. Alerta e capacita-os para enfrentar fracassos e adversidades. “Se não vos receberem e nem vos ouvirem, ao saírem sacudi o pó dos pés.” A proposta ética alternativa, vivenciada por Jesus, vale para os seguidores. O discipulado passa pelo desafio que leva à renúncia de bens, à segurança pessoal, submetese à quebra de relações familiares: v. 7-13. Seguindo os passos de Jesus, os discípulos vislumbram a partir das atitudes do Mestre e de seu discurso algo bem novo. O presente e o futuro do Cristo de Deus demonstram total dependência e entrega confiante aos cuidados do Pai. O caminho de Jesus pode levá-lo, em sua terra natal, e isso no dia de sábado, aos rituais previstos na sinagoga. Jesus missionário, a caminho, sinaliza a concretização dos planos do Pai. Na qualidade de Messias caminheiro, Jesus anuncia a proximidade do reino. O texto, dentro de seu respectivo con-
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texto, cresce em solo, marcado por atitudes conhecidas no radicalismo caminhante de cunho carismático – realidade conhecida naquele tempo.
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De retorno à terra natal “Não há profeta sem honra, senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa” (v. 4).
Jesus está tão perto de casa, mas ao mesmo tempo perpassa o sentimento de estar tão distante. Os conterrâneos desconfiados perguntaram: “Donde vêm a este estas coisas? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos?”(v. 2). Jesus é diferente, porque é pessoa verdadeiramente nova. Não é ele o filho do carpinteiro? O Messias é motivo para que os mais próximos se escandalizem. Trata-se de pessoas cegas, pessoas limitadas a seu pequeno mundo, por isso submissas à própria impotência. O prenúncio do reino de Deus é tarefa de pessoas dispostas a cooperar na missão de Deus, livres até mesmo para largar mão de suas coisas e de seus valores: v. 8 e 9. Também os discípulos de quem Jesus pede tamanha renúncia nada têm para vangloriar-se, nada apresentam de especial para “estufar o peito”. Na realidade, a liberdade dos filhos e das filhas de Deus independe do jeito de se engajar na missão e de evangelizar. Martim Lutero gostava de lembrar que também as pessoas engajadas na causa do reino continuam submissas à misericórdia de Deus. Afirmava o reformador: “A existência cristã não se constitui num ‘estar pronto’, mas é vida em constante construção”. “O reino de Deus está presente, mas não como espetáculo vindo no ‘Além do Céu’ ou no seio de um futuro misterioso, mas está oculto, já aqui, num tempo presente e extremamente humano” (BORNKAMM. G. Jesus de Nazaré, p. 64). Jesus, o enviado de Deus, não é nem egoísta e tampouco mão-fechada. Chamando cooperadores ao campo de trabalho, divide a sua missão com os discípulos. O evangelho do Deus bondoso foi anunciado, doentes eram curados, demônios expulsos, comunidades surgiram e o pão era repartido com os famintos. Quando do chamado dos doze, Jesus deu-lhes insistentes conselhos: v. 7 a 11. O texto apresenta pessoas-ouvintes, cujas reações são contraditórias. Os discípulos chamados por Jesus desempenham o papel que lhes é característico. Eles levam uma vida simples e estão dispostos à renúncia. Os ouvintes desconfiados e descrentes reagem, segundo o perfil que lhes é peculiar. Deixam de acolher os discípulos, não lhes dão atenção; antes apontam ao caminho de volta. O quadro pintado com tantas cores evidencia, ainda assim, uma paisagem que destaca a figura de Jesus Cristo. Ele é Senhor sobre a situação. Jesus é Senhor, porque Deus age através dele; o poder para realizar obras maravilhosas não é propriedade sua, mas acontece como poder-ação. O evangelista Marcos deixa no ar o “cheiro da paixão”. Desde o princípio da caminhada,
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avolumam-se os eventos que indicam sofrimento, negação e adversidade frente à proposta de Jesus. A realidade da cruz é desenhada de forma implacável. Jesus encoraja e capacita sua comunidade, também seus discípulos, a enfrentar a realidade adversa com coragem e esperança. O anúncio do reino-mistério não prescinde da paixão. É promessa de baixo para cima. Em razão de sua proximidade, os discípulos enviados anunciam a necessidade do arrependimento (v. 12). Na pessoa de Jesus cumpre-se a voz profética, acontece a grande virada da história. “Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo” (Is 35.5-6). Jesus diferencia-se dos visionários apocalípticos e de suas predições espetaculares. Sua visão de futuro não é um discurso especulativo. Ele mesmo participa da história, encontra-se nesse “campo de batalha”. Os sinais das ações maravilhosas propiciados por Jesus Cristo e pelos discípulos (Mc 6.713) refletem a vitória daquele Senhor que anuncia “vida em abundância”. Ele decreta a falência do poder da morte e anula a incapacidade de confiança dos próprios conterrâneos. Os discípulos compreendem os sinais do tempo; eles são sensíveis à novidade, o novo “éon” (= tempo). Os incapacitados à confiança evidenciam cegueira e surdez. Por isso faz sentido insistir na pregação do arrependimento (v. 12), a exemplo do profeta Jonas. Apesar da resistência que ofereceu, tornou-se, na cidade de Nínive, um sinal vivo de Deus; a sua pessoa era sinal de vida nova. Diante de tamanha incapacidade e arrogância na terra natal, é compreensível que Jesus respondesse com indignação e perplexidade.
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A memória do insucesso
Jesus apresenta-se como pessoa conhecida em Nazaré, sua terra natal. O que se sabe de Jesus são alguns detalhes quanto à sua procedência e sua formação. Seria isso tudo? Na qualidade de filho do carpinteiro José, a sua primeira apresentação, os seus traços humanos não diferem das demais pessoas da localidade e nem de nós. O conhecimento desses detalhes localizados em Jesus, porém, encobrem sua verdadeira identidade. Sendo anunciado Príncipe da Paz, Salvador e Messias de Deus, Jesus é pessoa especial. A cegueira em sua terra natal deixa-o afastado de seus conterrâneos. A suspeita é que nossa cegueira não é diferente nos dias atuais. A verdadeira identidade de Jesus permanece encoberta em sua terra natal. Jesus, como primeiro homem novo, resgata a qualidade do ser imagem de Deus. A novidade de Jesus faz com que haja resistência em aceitá-lo como Kyrios = Senhor. Em razão de tamanha ignorância, Jesus se escandaliza.
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O envio dos discípulos
A cena do envio não é única. No entanto, há diferenças de procedimento quando Jesus, no fim de suas atividades terrenas, incumbe os discípulos de ir a todas as nações. São enviados sob a promessa de que não estariam sozinhos. O texto, conforme Marcos 6.7-13, limita o envio a um determinado tempo e espaço. Pode Jesus ser imitado? O cenário descrito ou previsto por Jesus reflete seu espírito realista. Mostra quão duro e difícil pode ser o cotidiano dos discípulos e das discípulas. O escândalo que se manifesta em Jesus diante da incapacidade de crer é o mesmo nos discípulos em outros contextos. À medida que Jesus vocaciona os discípulos a serviço do reino, ele identifica os enviados integralmente com a missão que lhes é confiada. Ouvidos abertos e sensíveis à mensagem são aqueles que também aceitam a boanova. Ouvir e aceitar, viver com coerência expressam uma unidade. Não deixa de ser um contra-senso à missão de Deus quando ouvintes reduzem a pregação do evangelho à preguiça ou à passividade. Discipulado é ação em movimento, acontece no dia-a-dia.
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Se nem ouvirem vocês... Assim se expressou o novo dirigente do coral: “Tudo será levado a bom termo, se soubermos ouvir”.
A comunidade cristã caracterizou-se, em seus primeiros passos de vida e atuação, como comunidade de ouvintes de contadores de histórias e de estórias. Essa mesma realidade perpassou o povo de Israel, enquanto povo a caminho rumo à liberdade e, posteriormente, quando assentado na Terra da Promessa. A sensação de que o desejo por um lugar de trabalho e de vida assegurada havia acontecido era motivo constante para refazer a história passada, como se fosse o tempo de hoje. A memória do passado servia para fortalecer o presente e visava à construção do futuro, na perspectiva de horizonte aberto, a utopia do reino de Deus. No povo da Antiga Aliança, a memória da história da salvação evocou esperanças e fundamentou a confiança em Deus, que jamais abandona seu povo. Para o apóstolo Paulo, o fenômeno do anúncio da Palavra, a boa-nova, propicia algo muito dinâmico. Através do evangelho Deus faz brotar da semente da Palavra a confiança que não trai e a “esperança que não confunde”. A ação de Deus alimenta essa fé, firma a esperança e fortalece o amor. A Palavra anunciada mediante palavras humanas ou através do mistério dos sinais maravilhosos é poder de Deus, que amadurece a fé: Romanos 1.16; 1 Coríntios 1.18. O evangelho está carregado de boas-novas. Por isso revela autoridade e motiva à esperança e promove cura. “Curai enfermos, expulsai demônios!” Na fala de Jesus fica evidente que o mandato da evangelização não tem uni-
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camente o espaço íntimo como alvo. O destino da Palavra é operar cura, organizar a vida relacional; é alimento que oferece a estabilidade emocional, é força que anima ao engajamento diante de um planeta vítima de agressão e violência. Quando Jesus pede a seus discípulos para curar e expulsar demônios, não diferencia entre enfermidades corporais, mentais ou espirituais. Os desejos individualistas e a busca por autodeterminação fazem da tentação à autonomia uma lei imperiosa e arrogante. Palavra não foi feita para dominar, Destino da palavra é dialogar. Palavra não foi feita para opressão, Destino da palavra é união. Palavra não foi feita para semear dúvida, Destino de palavra é a construção de um mundo mais feliz e mais irmão. Na realidade, não existem barreiras, nem mesmo a incapacidade manifestada na terra natal de Jesus, em Nazaré, que sejam intransponíveis ao evangelho. Não há obstáculo capaz de anular o potencial criativo e inovador do evangelho de Deus. Em meio à superficialidade e ao vazio de palavras humanas, veiculadas de muitas maneiras pelos meios de comunicação social na atualidade, a palavra de Deus, o dabar (assim a versão hebraica), é dinâmica, revestida de poder, cheia de conteúdo. A palavra de Deus coloca ordem no caos, supera as trevas no princípio da criação, faz com que sinais de luz brilhem em meio à escuridão; é palavra poderosa que faz ressuscitar, na Páscoa, Jesus dentre os mortos. A surdez diante do evangelho é o resultado de uma “visão míope”, reflexo do egoísmo; sinaliza mediocridade e manifesta a estupidez humana. A ação do evangelho de Deus rompe muros. No decorrer de sua história, a sociedade humana ergueu barreiras. Elas dificultam o espírito da fraternidade, estimulam a prática do desamor e fomentam o desrespeito. O dinamismo do evangelho abre as gavetas do conservadorismo, que impede a entrada do sopro daquela “brisa suave”, da qual testifica o profeta Elias ao anunciar a revelação de Deus. Sua presença traz liberdade, justiça e nos enche de esperança por vida nova, baseada no amor. O anúncio do evangelho experimenta reveses e se submete aos fracassos. Diante dessa paisagem da resistência e da incapacidade humana, Jesus mostra-se suficientemente realista. Por essa razão, Jesus promete prestar companhia aos discípulos e discípulas enviados: “Estou com vocês todos os dias”. A indiferença “dos de fora”, aliada às resistências, face à ação dos discípulos-testemunhas, encontra seu limite nas promessas de fidelidade de Jesus Cristo. “Se não ouvirem vocês, eu, no entanto, continuo e caminho com vocês.” A promessa da companhia de Jesus não deixa enfraquecer a alegria da vocação.
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5o Domingo após Pentecostes
6
A Palavra dá um novo ritmo ao curso do mundo
É dentro do espaço litúrgico no culto que os objetivos da prédica, seu potencial, sua oferta evangélica e seus desafios serão acolhidos numa amplitude privilegiada, perpassando toda a celebração comunitária. Os quinze ou vinte minutos de prédica deixam de ser, então, um monólogo estanque e pedagogicamente pesado, quando não desinteressante. Sugiro as seguintes ponderações. A reunião comunitária do culto inspira, motiva e alimenta discípulos, a caminho, na mesma trilha do Mestre. 1 – O culto cristão dá destaque, enquanto oferta de Deus e serviço de Deus a seu povo, à centralidade da Palavra. A igreja da Reforma auto-afirmase como igreja da Palavra. Por isso o vaso de barro, as palavras humanas, em toda celebração litúrgica, devem ser de excelente qualidade e refletidas com clareza e profundidade. O recheio das palavras humanas prima pela liberdade de indicar para o Cristo que se identifica como Pão da Vida, Luz, Caminho e Verdade. Ele veio para os doentes; “os sãos não precisam de médico”. 2 – O alimento da Palavra na dimensão consoladora, sendo fonte de esperança, sempre orientadora, firmando a confiança, apontando à vida nova, sendo palavra profética, anúncio de juízo tem características questionadoras e poder conflitante. O evangelho é fermento para o presente e o futuro. 3 – “Expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo” (Mc 3.13). Essa afirmação, conhecida nos primeiros tempos do cristianismo, traz dificuldades nos dias de hoje. O desafio da cura e da expulsão de poderes demoníacos está distante de nossa prática ministerial. Curas milagrosas, sobretudo aquelas protagonizadas em ambiente pentecostal e neopentecostal, trazem a suspeita de manifestar acontecimentos baseados em poderes mágicos e em auto-sugestões. Verdade é que se abusa do nome de Cristo quando empregado em fórmulas mágicas. “Uma igreja, no entanto, que deixou de se arriscar frente ao mal e às influências malignas tem pouco poder para curar e expulsar demônios” (Paul Tillich). 4 – A boa-nova, o evangelho, carrega em seu bojo um potencial de libertação e de liberdade. As tendências da sociedade humana são de resistência, sempre que paradigmas da autonomia ou do conservadorismo ideológico forem colocados em xeque. O ritmo do mundo é questionado pela fé em Jesus Cristo e pelo potencial que lhe é inerente. 5 – Um provérbio russo que se reporta à liberdade constata: “A liberdade é muito boa, mas impossível de ser comida”. Ou Bertolt Brecht: “Primeiro vamos encher a barriga, só depois vem a moral”. 6 – Em razão do testemunho da novidade do evangelho, para o qual os discípulos estavam sendo enviados por Jesus, os ideais humanos ou valores queridos deixam de ser prioritários e relevantes. 7 – Conforme o proposto, todo o desenrolar do culto tem como tarefa a indicação de portas que se abrem à novidade e nos animam a conviver
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graciosamente na esfera do reino de Deus. A comunidade cristã tem a liberdade de viver esperançosa o potencial do novo futuro. Nem os sinais de desprezo, tampouco as resistências dos “de fora” e distantes sobrepõem-se à ação amorosa de Deus. Apesar dos motivos para escândalos, a boa-nova deve ser levada adiante, “até os confins da terra”. 8 – O clima de festa em torno da novidade evangélica precisa invadir o espaço litúrgico, em culto, e ali se manifesta para continuar, durante toda a semana, também fora dos muros e dos limites do templo comunitário. A prédica no 5º Domingo após Pentecostes, cujo eixo gira em torno de Marcos 6.1-13, chamando ao serviço da evangelização e da cura, aconselhando os discípulos diante das possibilidades de alegrias e frustrações, poderia ter como tema orientador: Quem ouve a Palavra, a boa-nova, constrói e reconstrói vidas.
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Subsídios litúrgicos
“Quem vos der ouvidos ouve-me a mim; e quem vos rejeitar a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar rejeita aquele que me enviou” (Lc 10.16). Confissão de pecados: Ó Deus, a ti recorremos nesta hora de culto. Dispõe-nos a ouvir a tua boa-nova. Apresentamos nossas fraquezas, confessamos as limitações. Há fardos e preocupações que nos sobrecarregam e cansam. Nossa busca arrogante e egoísta por autonomia cria barreiras; colocamos obstáculos, e eles impedem que nos amemos uns aos outros. Dá que nos empenhemos pela comunhão visível de teu corpo e que sejamos instrumentos para a unidade dos povos. Confessamos o desprezo em relação ao evangelho; ele traz cura e libertação. Abre os nossos corações e torna as mentes sensíveis à tua Palavra. Amém. Anúncio da graça: Deus, no início estava a Palavra. É a Palavra que se fez carne em Jesus Cristo. Através dele recebemos vida digna, transbordando sentido. O teu amor valoriza nossa vida e sacia nossa fome por mais ternura e fraternidade. Por isso te louvamos e adoramos cantando: Glória a Deus .... Intercessão: Deus, tu nos chamas para colaborar na tua missão. Os sinais de cura, transformação e vida nova procedem de ti. Fortalece-nos na vocação. Tu és aquele que afirma: discípulos e discípulas são “sal da terra e luz neste mundo”. Obrigado porque continuas chamando pessoas para dar testemunho dessa novidade de vida nova e esperança, inaugurada por Jesus Cristo. Ensina-nos a olhar o mundo com os teus olhos. Rogamos pelas pessoas que sofrem todo tipo de violência. Afasta-nos da violência, livra-nos do ódio, da injustiça e do mal. Intercedemos pelos doentes nos lares e hospitais. Que o teu bom e santo
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Espírito nos torne instrumentos a serviço da esperança, que permite recomeçar, levar consolo e buscar a paz. Resgata, através de nós, a quem se encontra na solidão e no desespero. Que jamais nos falte o evangelho, a marca constante da tua presença e força que encoraja para novas ações. Intercedemos em favor de nossos líderes. Concede a teus filhos e tuas filhas sabedoria, lucidez e disposição para o serviço motivado pela justiça e pela verdade. Amém. Bênção: Transcrevo um texto, a “Bênção de Pentecostes”, citando palavras de autoria da pastora e jornalista Hideíde Brito Torres (Igreja Metodista). Que o fogo de Deus Pai te ilumine e aqueça, como fez com o povo no deserto de Canaã. Que o fogo de Jesus Cristo, o Filho, te envolva, aquecendo teu coração para uma vida de serviço. Que o fogo do Espírito caia sobre ti e te faça ser capaz de falar, ouvir, entender e ser entendido, promovendo comunhão. Amém.
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PRÉDICA: AMÓS 7.7-15
6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
MARCOS 6.14-29 EFÉSIOS 1.3-14
12 JUL 2009
Dalcido Gaulke e Silvia B. Genz
1
Introdução
Os textos indicados para a celebração trazem como conteúdo a pergunta pelo poder. De quem é o poder, quem quer o poder e o poder de Deus acima de tudo? O texto do Evangelho de Marcos apresenta o confronto entre o rei Herodes e João Batista. Herodes é representante do poder romano, e João Batista, um simples pregador do deserto. João anuncia o Salvador Jesus Cristo. Em resumo, o confronto ocorre entre Estado e Jesus Cristo, filho de Deus, o próprio Deus. João perde sua cabeça porque fica fiel a Deus. Em Efésios, o apóstolo faz um agradecimento a Deus pela bênção do poder revelado em Jesus Cristo. Através de seu amor em Jesus Cristo, Deus realizou a sua vontade, seu plano, colocando “debaixo da autoridade de Cristo tudo o que existe no céu e na terra”. Deus é todo-poderoso, tem poder sobre tudo e é um Deus gracioso e amoroso que une com sua marca todos os que ouvem a boa-nova do evangelho. Os textos ligam-se com Amós na linha da disputa pelo poder. Por um lado, um simples agricultor que cuidava de ovelhas e cabras, o profeta de Deus; do outro lado, Ananias, o sacerdote de um santuário de valor nacional, santuário do rei, e o rei Jeroboão II como dominador e detentor do poder.
2
Contexto da época de Amós
Milton Schwantes diz: As “palavras de Amós” (Am 1.1) são contextuais. Dialogam com seu meio ambiente. Assimilam as circunstâncias. O conceito hebraico de “palavra” (dabar) inclusive inclui a realidade. Não há “palavra” (dabar) sem contexto. Amós atuou em Israel, no norte, por volta de 760-750 a.C. (Am 1). Uzias era rei de Judá, e Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel. Amós nasceu em Tecoa, uma pequena vila do interior, distante 30 quilômetros de Jerusalém. Não era profeta por profissão, conforme 7.14; era agricultor, criador de gado miúdo e cultivava sicômoros (figueiras). Ele exercia uma profissão “civil”. Chamado por Deus, 7.15, deixou tudo e anunciava a mensagem de Deus ao povo de Israel. Provavelmente vivia desses seus bens, pois quando Amazias o mandou embora, para ganhar a vida em outro lugar, Amós res-
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pondeu que não ganhava a vida profetizando (7.12-15). Amós não dependia de ser profeta para sobreviver. Era independente economicamente. O profeta via a situação de miséria e exploração do povo. Ele conhecia as tramas do comércio injusto, sabia do crescimento da acumulação das riquezas da idolatria e da decomposição moral e religiosa. Amós conhecia a realidade dos dois reinos – Judá no sul e Israel no norte. Em Judá, seu reino, os decretos e as leis que defendiam uma sociedade fraterna, baseada na fidelidade a Javé, estabelecidos pelos antepassados, não eram respeitados (2.4). Mas as notícias piores vinham do reino do norte, Israel. O rei Jeroboão II criara um progresso muito grande com o apoio das elites; um intenso comércio nacional e internacional, grandes construções e aumento de consumo dos que estavam próximos ao poder. Mas tudo isso com roubo, corrupção, exploração, idolatria e dominação sobre o povo e sobre Israel. Os pobres eram espoliados das roupas e dos calçados, a injustiça e a imoralidade estavam visíveis (Am 2.6ss). Vimos que Amós, sendo um camponês, era conhecedor da realidade local, internacional e tinha conhecimento das artimanhas do palácio. A inteligência de Amós era evidente e mostrava-se na profunda análise de conjuntura. Amós não se intimidou; anunciou a destruição de Samaria, a capital, e o aniquilamento do Estado de Israel. Essas se cumpriram em 732 e 722 a.C., quando os assírios conquistaram Israel e sua capital Samaria.
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Análise do texto
V. 7-8 – A visão que Deus deu a Amós é a de um muro construído direito a prumo e Deus estava perto do muro com um fio de prumo. A pergunta de Deus a Amós é: O que estás vendo? A resposta é um prumo. Material, utensílio para deixar o muro, uma parede bem reta e firme para ficar de pé, especialmente naquela época em relação à engenharia praticada. Deus vai mostrar a Amós: “O meu povo não anda direito: é como um muro torto. Vou pôr um prumo no meio deles. Nunca mais vou perdoá-lo”. V. 9 – Menciona o governo de Jeroboão II no Reino de Israel; esse será destruído juntamente com toda a sua descendência. Além disso, anuncia a destruição de todos os templos e lugares de adoração em Israel. V. 10-11 – Amazias, o sacerdote do santuário real de Betel, denuncia Amós junto ao rei como subversivo, pois ele anda falando que “Jeroboão II morrerá numa guerra, e o povo de Israel será levado como prisioneiro para fora do país”. V. 12-13 – Amazias vai a Amós, enfrenta-o e diz: “Fora daqui, este lugar o rei adora, é o templo oficial e principal do país”. Amazias manda Amós, profeta, parar de profetizar e voltar para sua terra Judá e ganhar a vida em sua terra com suas profecias.
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6o Domingo após Pentecostes
V. 14-15 – Amós afirma que não é profeta de profissão, mas foi escolhido pelo Senhor, mandado por Deus deixar seus rebanhos para anunciar sua mensagem. Exercia uma profissão “civil”, era pastor de ovelhas e cuidava de figueiras, não ganhava a vida como profeta. Portanto era independente economicamente. V. 16-17 – Amós alerta Amazias sobre a situação difícil que se apresentará. Explica o que acontecerá a Israel. No v. 17 faz uma descrição do horror que se aproxima. Como poderia Amós calar-se? A realidade exigia a denúncia dos fatos e o chamamento para a mudança.
4
Meditação e subsídios para a prédica
Entender o contexto social, político e religioso da época serve para não simplesmente transferir palavras e afirmações para os dias de hoje. O Estado tão contestado em Amós não é idêntico ao de nossos dias. As perspectivas políticas são diferentes. Por que então conhecer a realidade da época? Conhecer a história nos ajudará a entender e atualizar a palavra de Deus para os nossos dias, a mesma recebida por Amós. Faz-se necessário uma análise conjuntural da situação atual, mundial, nacional e local. Isso servirá de pano de fundo para o pregador ou pregadora. Amós mostra que o testemunho da fé, o testemunho cristão implica resistência frente ao poder do Estado e às autoridades que não governam de acordo com a vontade de Deus. Amós mostra que tem fé e confia no poder de Deus acima de tudo e segue o chamado. Tem desprendimento e coloca seus bens à disposição para servir a Deus como profeta. Ele nos ajuda a entender que é necessário informar-se profundamente sobre a realidade, conjuntura, para poder fazer um bom planejamento das ações. Amós enfrenta o poder representado, questionando e enfrentando Amazias e mostrando que em Deus ele é livre. Não teme e sabe que não depende do poder representado em Jeroboão II e seu sacerdote. Milton Schwantes diz: Rito e realeza tendem à auto-suficiência. Não necessariamente precisam de ouvintes ou espectadores. São capazes de excluí-los, de prescindi-los. Não é o que ocorre com palavra e sabedoria. Observam, analisam. Necessitam de eco. O eco à palavra é parte da própria palavra. Sem retorno é vazia. Tem vida curta. Nasce morta (veja Is 55.1011). Palavra não se restringe, pois, a seu evento acústico. Incorpora a realidade, da qual vem e para a qual se dirige. É fala e coisa! Nesse sentido, a teologia profética é teologia a partir do dia-a-dia. É um diálogo da fé com a experiência. Uma tal teologia é difícil de pôr sob domínio. Foge a currais. Não se poderia dizer o mesmo do sacerdócio. Ele está vinculado ao altar. Na medida em que se encurrala ao altar, passa a ter domínio sobre os agentes do sagrado. Ao interpretar o sentido de Deus a partir do altar, dos sacrifícios, da realeza, o sacerdócio torna-se deveras vulnerável. Com a profecia não sucede o mesmo. Ela lê o sentido de Deus nos eventos da vida e da história.
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É difícil domesticar a teologia profética. Nisso reside seu vigor carismático. Mas nisso também reside sua aparente fragilidade. Continuamente está exposta à contestação. Todos podem contestá-la: sacerdotes (Am 7.10-17).
Amazias aponta e afirma que o templo tem dono, o rei, mas Amós mostra que esse poder é semelhante a um muro prestes a ruir. O poder de Deus é superior a tudo. Amós se sabe fortalecido em Deus para anunciar a necessidade de mudança e transformação. O profeta não se intimida diante das ameaças; ele enfrenta o poder que se coloca como dominante. A discussão entre Amazias e Amós mostra-nos como o santuário, o templo, é disputado. Como é isso em nossos dias? Somos comunidades em que é possível dizer em alto e bom tom, como diz o nosso tema: “Aqui você tem lugar”? Somos comunidade cristã acolhedora, onde todos têm espaço? Quantas vezes acontecem afirmações que excluem os demais membros? Parece uma boa oportunidade para mostrar que a comunidade, igreja, templo (santuário) são de Deus. O profeta mostra a necessidade do conhecimento da realidade. A inserção, a manifestação pública também exigem o conhecimento amplo. Somos comunidade inserida na sociedade. A comunidade, as lideranças precisam conhecer a realidade da comunidade, saber como está a vida dos membros, e a partir desse conhecimento planejar as ações, a missão de Deus. Não deve haver nenhum indício de exclusão, mas de convívio dos diferentes. Somos diferentes, mas em Cristo somos um só corpo. Observar e afirmar com Efésios que o poder de Deus se manifestou em Cristo é o mesmo poder desde a criação ou antes e deseja a união de todos. Por causa de seu amor por nós, Deus já havia resolvido que nos tornaria seus filhos e filhas por meio de Jesus Cristo. Ele realizou seu plano, mostrou seu poder por meio de Jesus Cristo. Nome sobre todo nome, não há poder semelhante, e como é maravilhosa a graça de Deus, que ele nos deu com tanta fartura! O mundo ainda hoje confunde poder com violência; o poder de Deus não é violência, mas paz. Os imperadores e os reis buscam manter-se no poder com repressão e violência. Também na época de Jesus, o poder dominante, usando a força, a espada, queria terminar com o poder de Deus revelado em Jesus. Herodes elimina João Batista, corta sua cabeça, quer silenciá-lo, interrompendo o anúncio do evangelho. A verdade, no entanto, prevalece e supera o poder demonstrado na violência humana. Martim Lutero diz: “Pois o mundo e o diabo são inimigos da palavra, matam os servidores e empenham o seu poder para abafar a palavra com violência”. O poder de Deus venceu o mal em Cristo. O poder de Deus impulsiona-nos a servir na vida comunitária em prol do bem comum. Lembrando o que diz em Atos dos Apóstolos 5.29: “Nós devemos obedecer a Deus e não às pessoas” .
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Importante lembrar que não se passa pela vida sem deixar marcas. Um objeto, uma obra, um desenho, uma canção, uma carta, uma hipótese formulada são traços da passagem do ser humano. Essas marcas têm suas conseqüências e ajudam-nos a modificar e transformar realidades. “O que temos feito por nós mesmos, morre conosco; o que temos feito pelos outros e pelo mundo, isso permanece” (Albert Pike).
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Subsídios litúrgicos
Acolhida: Salmo 85.10 e 11: “O amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e a paz se abraçarão. A fidelidade das pessoas brotará da terra, e a justiça de Deus olhará lá do céu”. Versículo da graça: Efésios 1.7: “... pela morte de Cristo na cruz, nós somos libertados, isto é, os nossos pecados são perdoados. Pela maravilhosa graça de Deus”. Motivos para oração geral da igreja: Pedir: – por todas as pessoas que têm a tarefa árdua de anunciar a verdade em meio às mentiras; – pelas pessoas que denunciam o roubo, a corrupção e buscam a verdade; – pelo sistema educacional e educadores, para que possam orientar na verdade e justiça de Deus crianças e jovens; – pelos políticos que não se vendem, mas que procuram o bem comum, especialmente defendendo o mais fraco; – pelas famílias que procuram resistir no caminho do diálogo, da sinceridade do bom caminho de Deus; – pela igreja, para que tenha força e coragem para ser profética; – pela direção da igreja, obreiros/as e lideranças em geral; – pela comunidade, pelos sobrecarregados, doentes, enfermos. Alguns versos da: “Profecia Cantada pelo Nosso Povo”, de Jorge Pereira Lima. In: Estudos Bíblicos 4. Amós, Camponês Profeta Charlatanice injustiça Era essa a grande voz Daquele povo rebelde Assim nos fala Amós E todos esses defeitos Está se vendo entre nós.
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O sacerdote Amazias Vendo Amós inspirado Dizer que pela espada Jeroboão é cortado E que Israel será Para longe deportado. Amazias disse a Amós: Vai-te daqui vidente Profetizar em Judá Não tornes publicamente A falar contra o santuário Do nosso rei excelente. Disse Amós: Não sou profeta Sou apenas um lavrador Onde fui no meu trabalho Tomado pelo Senhor Que mandou profetizar Contra um povo explorador. Detestai o que é mal Praticai somente o bem Fazei nas suas assembléias Reinar justiça também Talvez Deus se compadeça Do restinho qu’inda tem.
Bibliografia MOSCONI, Luis. Profetas da Bíblia: gente de fé e de luta 57-58. São Leopoldo: CEBI, 1992. SCHWANTES, Milton. Amós. Meditações e Estudos. São Leopoldo: Sinodal, 1987. SELLIN / FOHRER. Introdução ao Antigo Testamento. V. 2. São Paulo: Edições Paulinas, 1977.
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PRÉDICA: MARCOS 6.30-34,53-56
7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JEREMIAS 23.1-6 EFÉSIOS 2.11-22
19 JUL 2009
Valdemar Lückemeyer
1
Introdução
O conjunto dos textos de leitura e pregação do 7º Domingo após Pentecostes já foi estudado várias vezes por Proclamar Libertação (PL). Para quem tem acesso aos exemplares em que se encontram os auxílios homiléticos referentes a Marcos 6.30-34, recomendo muito a leitura e o estudo desses trabalhos. No PL 19, Claudete Beise Ulrich e Carlos Luiz Ulrich (p. 206-210) trazem um estudo. No PL 25, p. 241-246, Ivo Schoenherr fornece bons subsídios. E ainda no PL 31, Erni Drehmer oferece boa reflexão e motivação para a pregação do texto. É bem verdade que todos os auxílios homiléticos apresentados até agora não incluíam o estudo e a abordagem dos v. 53 a 56. Como eles estão indicados, vamos incluí-los na leitura, na reflexão e na pregação. Eles destacam especialmente um aspecto da ação de Jesus e de sua comunidade, que se evidencia na postura missionária e terapêutica para dentro do mundo.
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Exegese
V. 30 – Os doze apóstolos, enviados de dois em dois (cf. v. 7), voltam à presença de Jesus e apresentam seus relatos. Fazem uma avaliação de sua ação missionária, que se constituiu de ensino e de atos bem concretos. Palavra e ação, pregação e diaconia fizeram parte do desempenho missionário. Chama a atenção que os doze são designados aqui de “apóstolos” = os enviados, termo que não equivale sempre aos doze discípulos. Não são mencionadas as ações dos apóstolos. Apenas é dito que relataram seus feitos e certamente também seus ensinos. Fazer e ensinar caracterizam a prática de Jesus. V. 31 – Cresce a missão, aumentam as tarefas, o povo busca cada vez mais ajuda e orientação. O trabalho é tanto, que não há nem mesmo tempo para uma refeição tranqüila e sossegada (que bom que isso me faz lembrar de ocasiões em algumas casas pastorais!). Jesus chama os seus para o repouso, para um lugar calmo e quieto. O pequeno grupo precisa de descanso, os enviados precisam de descanso, mas o grande grupo (= a multidão) não dá descanso: quer ser atendido em suas necessidades básicas e vitais.
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Jesus já havia se retirado outras vezes para o deserto, a fim de ficar só e isolado e, com certeza, também para fugir de uma popularidade fácil. Essa mesma postura ele estende aos apóstolos: convida-os para o descanso, embora o que acontece a seguir mostre que seus seguidores não ficam longe do povo, não conseguem se desligar da realidade adversa para a multidão. Os apóstolos não se isolam num oásis de paz, mas as necessidades do ser humano os envolvem e chamam para a ação. O deserto é citado novamente como local de retirada de Jesus. O evangelista Marcos menciona-o várias vezes no primeiro capítulo: v. 3, 4, 12, 13, 35 e 45. É possível que o evangelista queira fazer uma alusão ao caminho do povo de Deus pelo deserto rumo à terra prometida, terra da liberdade e da vida. Tudo passa pelo deserto. Também ali onde aparentemente não há nada, onde nem mesmo há um caminho, Deus alimenta os seus e os guia, indicando-lhes o caminho a seguir. V. 34 – Jesus compadeceu-se da multidão. A tradução normalmente usada é transcrita como “teve pena”, “teve compaixão”, mas o texto original usa um termo mais forte, mais expressivo: “Ter compaixão, em Marcos, é expressão rara de significado forte. Significa ‘comover-se nas entranhas’, como a mãe que estremece diante do sofrimento de sua criatura. Javé, no Antigo Testamento, é capaz disso (Êx 34.6). Há uma situação capaz de fazer Jesus estremecer nas entranhas: a fome do povo. De fato, Jesus é mostrado dessa forma apenas nos dois episódios da fome do povo (6.34 e 8.2). As entranhas de Jesus estremecem porque o povo está ‘como ovelhas sem pastor’. No Antigo Testamento, essa expressão aparece sempre com conotação política, ou seja, ‘pastor’ significa autoridade ou liderança política, enquanto que as ‘ovelhas’ representam o povo” (SOARES, Sebastião A. G. O Evangelho de Marcos, v. 1, p. 129). No Antigo Testamento, em Números 27.1-17, é mencionado que Josué será escolhido por Deus para suceder Moisés, “para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor”. Ezequiel (34) e também Zacarias lamentam a dispersão em que se encontra o povo de Deus por causa das falsas lideranças que não cuidam do rebanho: “Por isso anda o povo como ovelhas, aflito, porque não há pastor” (Zc 10.2). “E passou a ensinar-lhes muitas coisas” caracteriza a ação de Jesus no Evangelho de Marcos. Jesus ensina. O povo precisa saber de Deus, de seus propósitos, de suas ofertas, enfim de seu projeto, isto é, do reino de Deus. O ensino é que vai mudar essa realidade, pois ele abre mentes e olhos. Jesus ensina através de parábolas (Mc 4.2) e através de discursos e esclarecimentos da lei (10.2). V. 54-56 – O evangelista sublinha a amplitude da atividade de Jesus: ele ensina, sacia a fome e cura. Assim acontece o anúncio da vinda do reino de Deus. É dessa forma que se realiza a tarefa de Jesus e, conseqüentemente, também de seus seguidores. A proximidade de Jesus possibilita uma nova condição de vida, o restabelecimento da saúde plena, a salvação. Deus salva e cura os seus de todos os males.
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7o Domingo após Pentecostes
Chama a atenção que o agir de Jesus ocorre muito na periferia, em regiões distantes do centro do poder. Embora conste claramente que “também agia nas cidades”, é mencionado que entrava “nas aldeias, cidades e nos campos”. A fonte da salvação é oferecida a todos: cidade e periferia. Basta “tocá-la”, pois dela vem a vida.
3
Meditação
Um grupo (= comunidade) muito vivo e ativo nos é apresentado pelo evangelista. Há um vaivém, há envio e regresso, há relatório e avaliação, há muita gente e há cansaço, há necessidade de recolhimento e distanciamento, há muita atividade e muita carência. Dentro dessa realidade Jesus exerce sua missão: age e ensina. Assim também seus apóstolos (= enviados). Eles vão porque são enviados, não por conta própria. Agem e ensinam em nome de Jesus. Tem Jesus como exemplo. A atividade precisa ser planejada (distanciamento, sossego, estudo) e precisa de avaliação constante através de relatórios daquilo que foi feito e ensinado. “Ouvir e ver – julgar – agir” lembra um método de ação. Jesus vê a multidão, vê a situação do povo, é tomado de profunda compaixão, o mesmo sentimento que ele teve diante de outras situações de abandono, exclusão, miséria da criatura humana. Essa “com-paixão” é que faz Deus vir ao encontro de seu povo para livrá-lo da mão dos egípcios: “Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento” (Êx 3.7). Jesus está assumindo o papel de pastor em nome de Deus. Ele é o novo rei (= pastor), que cuidará do povo e reinará com justiça (ver leitura do Antigo Testamento para o domingo). Nosso texto de pregação não inclui o relato da multiplicação dos pães (v. 36-44), embora o fato de saciar a fome da multidão também faça parte da atuação missionária de Jesus. A nossa perícope acentua a cura, a restauração da saúde, a recuperação integral da vida. Para isso basta chegar perto e apenas tocar nas vestes daquele que é a fonte da vida. Quem chega próximo dele beneficia-se de suas dádivas: vida nova, que se expressa em segurança e amparo, em comida e saúde, em proteção do Bom Pastor, que conduz o rebanho unido e protegido para “pastos verdejantes”, para onde há abundância de vida. A comunidade é enviada por ordem de seu Senhor. E é a seu Senhor que ela se volta para avaliar sua atuação, sua presença no mundo, onde ela se encontra. Essa comunidade também precisa de momentos de paz, de recuperação, de avaliação, de retiro para ver onde, como e com quem agir e a quem ensinar. Fundamental é que a comunidade veja com toda a clareza e nitidez a situação do povo e tenha sempre o mesmo sentimento de seu Senhor: profunda compaixão, que leva necessariamente para a ação transformadora, que muda essa realidade de “não-vida”, de exclusão, de abandono. “Tudo isso
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7o Domingo após Pentecostes
sugere a seguinte reflexão: os discípulos, encarregados de levar adiante a mesma missão de Jesus, têm de compreender algo essencial. O conteúdo de sua missão são os necessitados do povo” (BORTOLINI, José. O Evangelho de Marcos, p. 265).
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Imagens para a prédica
Já faz um bom tempo que fui convidado para participar da comemoração dos dez anos de assentamento de um grupo de pequenos agricultores, integrantes do Movimento dos Sem Terra. Quando perguntei a um dos assentados, em festa, como ele avaliava aquele momento, ele disse com toda a pureza e alegria: “Estou muito feliz aqui, porque desde que vim para cá nunca mais faltou comida na minha mesa”. “Nunca mais faltou comida na minha mesa.” Precisa-se de tempo para absorver e entender em toda a sua profundidade tal afirmação, tal realidade. Espiritualidade diaconal “Quando o mar de sofrimento é tão grande, a primeira coisa que alguém consegue fazer é cantar o sofrimento, e esse canto é o passo litúrgico para a transformação” (SÖLLE, Dorothea. Diaconia: Fé em ação, p. 78). Quando a guerra terminou “Quando a guerra terminou, o soldado voltou para casa. Mas ele não tinha pão. Aí ele viu alguém que tinha pão. E o matou. Tu não podes matar ninguém, disse-lhe o juiz. Por que não?, perguntou o soldado” (BORCHERT, Wolfgang. Bausteine 9/2007, Pastoralblätter). A fonte “A misericórdia tem uma só fonte: o bom relacionamento com o Senhor.” “Quem crer em mim, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38). “Quem tem bom relacionamento com o Senhor, esse terá forças para praticar misericórdia, pois estará ligado à fonte inesgotável de misericórdia. Para praticar misericórdia, deve-se antes recebê-la. Deve-se descobrir, aceitar, experimentar e viver a misericórdia que o Senhor nos tem. A sua misericórdia alimentará então a misericórdia que nós iremos praticar” (MEINCKE, Silvio. A Fonte, p. 99).
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Subsídios litúrgicos
Kyrie: A multidão dos excluídos em nosso mundo está aumentando apesar (e talvez por causa) de todos os avanços tecnológicos e científicos que beneficiam alguns, mas prejudicam muitos. Há muita gente sem pão, sem remédio, sem lar, sem esperança, sem paz. Por todos eles, de perto e de longe, quere-
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7o Domingo após Pentecostes
mos clamar a Deus para que Ele tenha compaixão e piedade deles: Tem, Senhor, piedade! Glória: Como faz bem à vida quando se é acolhido, amparado e guiado por uma mão forte e carinhosa. Assim Deus age conosco e com os seus. Deveríamos, por isso, louvar e bendizer a Deus todas as manhãs, todos os dias. Mas não fizemos. Agora, porém, queremos fazê-lo em conjunto. Como um grande rebanho e juntando nossas vozes, queremos expressar nossa gratidão glorificando a Deus, cantando: Glória... Confissão de pecados: Misericordioso Deus. Tu sempre te mostraste como um Deus que vê e ouve o sofrimento de suas criaturas. Tu não aceitas a realidade de dor, de opressão, de escravidão. Em teu projeto de vida não cabe essa realidade. Por isso tu ages e queres que nós sejamos teus agentes neste mundo. Mas nós nos acomodamos. Com muita naturalidade aceitamos e nos conformamos com a maldade e o império da morte no mundo. Perdoa-nos, Senhor, por nossa culpa, nossa omissão, enfim nosso pecado. Isso te pedimos em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Amém. Oração do dia: Senhor bondoso, tu cuidas de teu rebanho com a mesma dedicação e atenção hoje como fizeste outrora. Obrigado por te preocupares conosco. Tu nos reuniste aqui, em tua casa, e queres nos apascentar, dar-nos o alimento que fortalece a vida através da tua Palavra. Que essa tua santa Palavra nos leve ao encontro dos “sem pastor” e que nossa solidariedade lhes seja uma bênção. Em nome de Jesus, Senhor e Salvador, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo sempre. Amém. Aclamação do evangelho: “Deus diz: A palavra que sair da minha boca não voltará vazia para mim, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei” (Is 55.11).
Bibliografia MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. São Paulo: Paulinas, 1992. BORTOLINI, José. O Evangelho de Marcos: para uma catequese com adultos. São Paulo. SOARES, Sebastião A.Gameleira. Evangelho de Marcos, v. 1. Petrópolis, 2002.
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PRÉDICA: EFÉSIOS 3.14-21
8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
2 REIS 4.42-44 JOÃO 6.1-21
26 JUL 2009
Gerson Correia de Lacerda
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Introdução
Os textos de 2 Reis 4.42-44 e João 6.1-21 são claramente semelhantes. A passagem do Antigo Testamento conta que o profeta Eliseu recebeu vinte pães e com esses alimentou um grupo de cem profetas. Todos comeram, e ainda sobrou. A narrativa do evangelho diz que com cinco pães e dois peixes Jesus deu de comer a quase cinco mil homens. Todos saciaram a fome e ainda encheram doze cestos com os pedaços que sobraram. Contudo, o texto de Efésios parece não ter nada a ver com isso. Traz a informação de que seu autor ora em favor da igreja, suplicando que Deus, por meio do Espírito Santo, conceda-lhe poder para ser espiritualmente forte e alicerçado no amor, a fim de que compreenda o amor de Cristo em sua plenitude. O que os dois primeiros textos têm a ver com o último? Qual a relação entre eles? A resposta que encontramos é a seguinte: assim como os cem profetas do tempo de Eliseu e os quase cinco mil homens do tempo de Jesus precisavam de pão para o sustento físico, assim também a igreja precisa do poder do Espírito Santo para seu sustento espiritual; assim como não faltou pão para os profetas nem para a multidão que seguia Jesus, da mesma maneira não haverá falta de poder para a igreja ser espiritualmente forte por meio do Espírito Santo. Diante do texto de Efésios devemos perguntar, em primeiro lugar, o que as igrejas têm buscado nos dias de hoje. E, em segundo lugar, devemos questionar: será que aquilo que têm buscado é realmente o que importa? Com tais perguntas devemos examinar a oração em favor do povo de Deus.
2
Viagem dentro do texto
2.1 – Uma carta ecumênica Apesar de nossas Bíblias trazerem a informação de que o texto foi escrito por Paulo à igreja de Éfeso, há razões seguras para considerar que ela não foi escrita a nenhuma igreja em particular, mas a cristãos de uma forma geral. Alguns manuscritos mais antigos não trazem o nome da cidade. Além
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8o Domingo após Pentecostes
disso, a carta toda não apresenta referências pessoais, apesar de ser esse um costume do apóstolo Paulo. Levando em consideração que ele permaneceu durante três anos em Éfeso (At 20.31) e manteve um relacionamento profundo com seus presbíteros, conforme se constata no encontro com eles em Mileto (At 20.17-38), seria totalmente incompreensível a redação de uma carta em que há manifestações de que seu autor não conhece seus destinatários (Ef 1.15; 3.2; 4.21). Sua origem seria, pois, uma carta circular a diversas comunidades locais. Sua mensagem dirige-se, portanto, à igreja de uma forma geral. 2.2 – Eu dobro os joelhos diante do Pai (Ef 3.14) A expressão indica que seu autor vai expor sua oração, anunciada no início do capítulo (Ef 3.1). Sua oração é dirigida a Deus, o Pai. A paternidade de Deus estende-se sobre todos os seres (toda a família no céu e na terra – Ef 3.15), pois ele é o criador de todas as coisas e mantém um relacionamento de amor com a sua criação. 2.3 – Para pedir que vós sejais fortalecidos em poder pelo seu Espírito no homem interior (Ef 3.16) O homem interior refere-se ao ser humano nascido de novo pelo poder do Espírito Santo, o qual se volta a Deus. Com ele continua a conviver o “homem exterior”, isto é, o “homem velho”, que se volta para o pecado (Rm 7.22; 2Co 4.16; Cl 3.9-10). Entre ambos trava-se uma luta, na qual a nova criatura triunfa pelo poder do Espírito Santo. 2.4 – Para pedir que Cristo habite em vossos corações (Ef 3.17) Não se trata, simplesmente, de uma súplica para que ocorra uma experiência emocional. É muito mais do que isso. A expressão refere-se ao estabelecimento de uma união mística com Cristo, pela qual Cristo passa a viver em cada cristão. Isso se traduz em vida de amor no relacionamento com os outros seres humanos. 2.5 – Assim tereis condições de compreender (Ef 3.18) Aqui, a compreensão não é um processo meramente intelectual. Diz respeito a uma experiência de conhecimento íntimo e profundo, resultado de uma intensa comunhão pessoal. 2.6 – E conhecer o amor de Cristo (Ef 3.19) A expressão aponta para a cruz, pois foi nela que o amor de Cristo se revelou em sua integralidade.
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8o Domingo após Pentecostes
2.7 – Para que sejais plenificados com toda a plenitude de Deus (Ef 3.19) Assim como em Cristo habita a plenitude de Deus (Cl 1.19), da mesma forma deve suceder com o cristão. Pela atuação do Espírito, a plenitude da vida divina ocorre na existência do membro da igreja, que é o corpo de Cristo.
3
Imagens para a prédica
Vivemos tempos difíceis para a igreja em nosso país. Ocorre uma acirrada competição religiosa. As igrejas disputam fiéis entre si. Cada uma quer ser a maior, a mais rica, a mais poderosa e a mais influente. Os líderes religiosos não conseguem se livrar desse clima que envolve todos. São engolidos por ele. Acabam fazendo tudo para que suas igrejas cresçam e conquistem notoriedade. Em nosso tempo, está cada vez mais forte a compreensão da igreja como uma empresa e do líder religioso como empresário. Tanto a empresa como o empresário são estimulados a ser bem-sucedidos. Será, porém, que é isso mesmo? É com essa finalidade que proclamamos a mensagem das Escrituras? É com esse objetivo que trabalhamos? A oração do texto de Efésios não se insere nessa competição. Não é uma súplica por uma determinada igreja. Ao contrário, é uma oração ecumênica. É uma oração em favor de todo o povo de Deus. Trata-se de uma oração que precisamos aprender a fazer, intercedendo pela igreja de Cristo de uma forma geral. Essa é uma atitude importante para que comecemos a suplantar o espírito de competição entre nossas igrejas. Ao orarmos por todo o povo de Deus, devemos também nos dispor para o aprofundamento do relacionamento com todo o corpo de Cristo, procurando desenvolver trabalhos em conjunto. E o que é suplicado a Deus na oração por toda a igreja? Crescimento numérico de fiéis? Riqueza e poder? Na verdade, coisas desse tipo nem de longe são mencionadas. A súplica é para que os cristãos sejam novas criaturas pela atuação do Espírito Santo. Em outras palavras, a súplica é para que os cristãos desenvolvam uma união mística com Cristo, trilhando o caminho da cruz, vivendo em amor e comunhão uns com os outros. É interessante observar que, em nosso país, tem crescido vertiginosamente o número de evangélicos. Com isso muitas igrejas estão exultantes. No entanto, outro aspecto deveria chamar nossa atenção. O crescimento dos evangélicos no Brasil não tem produzido uma transformação significativa em nossa sociedade. Ao que tudo indica, isso se deve ao fato de que o caminho da cruz não tem sido trilhado e a vida em amor e comunhão não tem sido uma realidade na vida do povo de Deus. Será que essa situação pode ser revertida? A oração que se encontra na Epístola aos Efésios termina com as seguintes palavras: “Àquele que é pode-
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8o Domingo após Pentecostes
roso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre! Amém”. Diante de tais palavras, a conclusão é que Deus tem poder para transformar nossa realidade. Devemos orar, suplicando em favor da igreja, tendo fé em Deus. Ele pode nos transformar para que sua plenitude nos plenifique.
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Uma imagem para a prédica
Há uma história, contada por Leonardo Boff, que serve para ilustrar o que é a união mística com Cristo. É a história do boneco de sal. Diz assim: Era uma vez um boneco de sal. Ele vivia peregrinando por terras candentes e áridas. Ouvia sempre muitas estórias a respeito do mar. Mas o boneco de sal nunca tinha visto o mar. Podia-se dizer que ele conhecia o mar por ouvir falar. Ele imaginava como seriam as águas e as ondas do mar. Até que um dia o boneco de sal chegou à conclusão de que conhecer o mar por ouvir falar não era suficiente. Ele precisava ver o mar, tocar as ondas do mar, conhecer o mar por si mesmo. E o boneco de sal se pôs a caminhar para ver se chegava até o mar. Andou muitos dias e noites. Finalmente, depois de muitas andanças, num belo dia, o boneco de sal contemplou o mar. Ele não tinha ainda certeza se aquilo era realmente o mar. Por isso o boneco de sal chegou bem perto do mar e perguntou: “É você que é o mar?”. Imediatamente escutou a resposta: “Claro! Eu sou o mar! Será que você não me conhece?”. O boneco de sal disse: “Não! Eu não o conheço ainda. Só ouvi falar muito a respeito de você! Eu gostaria muito de conhecer-te melhor!”. O mar respondeu: “Para você me conhecer mesmo não basta me ver! É preciso que você me toque!”. Então o boneco de sal, timidamente, tocou o mar com as pontas dos seus dedos do pé. Aconteceu algo fantástico! Ao tocar as águas, o boneco de sal percebeu que começava realmente a conhecer o mar. Mas logo se deu conta de uma coisa estranha que estava acontecendo no seu corpo. E o boneco de sal deu um salto para trás e disse para o mar: “Veja só! As pontas dos dedos do meu pé desapareceram quando eu te toquei! Ó mar, o que foi que você me fez?”. O mar respondeu: “É que para me conhecer e me compreender não era suficiente que você me visse! Para me conhecer e me compreender, você tinha que me dar alguma coisa de você mesmo!”. Ao ouvir essas palavras, o boneco de sal tomou uma decisão radical! Começou a entrar resolutamente no mar, solene e devagar, como quem vai fazer o ato mais importante de toda a sua vida. À medida que ia entrando no mar, o boneco de sal ia se diluindo. Estranhamente, porém, o boneco de sal sentia que, quanto mais se desmanchava, mais conhecia o mar. Até que, finalmente, uma onda o tragou completamente. E o boneco de sal, antes de ser diluído pelo mar, ainda teve tempo de gritar: “Agora eu sei o que é o mar! Agora eu conheço o mar!”. O boneco de sal conhecia o mar só por ouvir falar. Isso não foi suficiente para ele. Para conhecê-lo de fato, o boneco de sal teve de ir até o mar,
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8o Domingo após Pentecostes
teve de conversar com ele e teve de tocá-lo. E o boneco de sal só descobriu que conhecia o mar quando foi por ele diluído.
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Subsídios litúrgicos
Afirmação de fé: “Não estamos sós. Vivemos no mundo de Deus. Cremos em Deus, que criou e continua criando, que veio em Jesus Cristo para reconciliar e renovar. Confiamos em Deus, que nos chama para ser igreja; para amar e servir os outros; para procurar a justiça e resistir ao mal; para proclamar Jesus, crucificado e ressuscitado, nosso juiz e nossa esperança. Na vida, na morte e na vida depois da morte, Deus está conosco. Não estamos sós. Graças sejam dadas a Deus” (Igreja Unida do Canadá). Oração: “Senhor Deus Todo-Poderoso, perdoa tua igreja: sua riqueza entre os pobres, seu medo entre os injustos, sua covardia entre os oprimidos. Perdoanos, teus filhos e filhas: nossa falta de confiança em ti; nossa falta de esperança em teu reinado; nossa falta de fé em tua presença; nossa falta de confiança em tua misericórdia. Restaura-nos à tua aliança com teu povo; conduze-nos ao arrependimento verdadeiro; ensina-nos a aceitar o sacrifício de Cristo; fortalece-nos com o encorajamento do Espírito Santo. Quebranta-nos quando formos orgulhosos; fortalece-nos quando estivermos fracos; humilha-nos quando confiarmos em nós mesmos; chama-nos pelo nome quando estivermos perdidos para nós mesmos. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.” (Risk, CMI, Genebra, v. 11, 1975).
Bibliografia MACKAY, John. A Ordem de Deus e a Desordem do Homem – A Epístola aos Efésios e a época atual. São Paulo e Rio de Janeiro: UCEB e CEB, 1959. STAAB, K.; BROX, N. Cartas a los Tesalonicenses, Cartas de la Cautividad, Cartas Pastorales. Barcelona: Herder, 1974.
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PRÉDICA: JOÃO 6.24-35
9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
ÊXODO 16.2-4, 9-15 EFÉSIOS 4.1-16
02 AGO 2009
Vera Regina Waskow
1
Introdução
João 6.24-35 já foi abordado em várias edições do Proclamar Libertação, por exemplo no volume 8, onde é trabalhado especificamente o v. 35; também encontramos esse texto no Proclamar Libertação v. 19, 25 e 31. Sempre quando lemos essas reflexões de diferentes épocas, percebemos o quanto o evangelho perpassa o tempo e permanece atual. Esse texto não pode ser compreendido isoladamente; ele é desencadeado pelo que acontece anteriormente. Jesus havia alimentado uma multidão (6.1-15), e essa multidão reconhece, sente e degusta esse seu poder e, sendo assim, quer estar perto dele. Onde está Jesus? Para onde foi aquele que saciou nossa fome? O povo procura pelo Mestre (6.24). Nesse encontro, Jesus dá uma nova dimensão a essa procura, a essa inquietação, a esse seguir. Não é mais só uma busca pelo pão que sacia a fome, mas por uma mudança de vida que pode, de uma vez por todas, suprir toda e qualquer fome. O texto de Êxodo lembra-nos que Deus liberta da escravidão e do mal e liberta para a vida. Deus liberta e também sustenta esse povo livre quando o alimenta. Interessante contrapor com o evangelho no sentido de que em Êxodo o povo já reconheceu o Deus que liberta e agora clama por pão diante da fome no deserto. No evangelho, Jesus alimentou a multidão com pão, e ela ainda não reconheceu o Deus que liberta.
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Informações exegéticas
2.1 – João, o discípulo amado A tradição antiga da igreja identificou o autor desse evangelho como sendo João, o discípulo amado de Cristo. “Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (21.24). A comunidade de João é localizada pelos exegetas por volta dos anos 90-96 d.C. Diferente dos evangelhos sinóticos, que têm um destinatário concreto – Marcos escreve para romanos, Mateus para judeus e Lucas para gregos –, João tem um destino universal, pois escreve não para uma comunidade específica, mas para todas as comunidades cristãs. Primei-
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9o Domingo após Pentecostes
ramente, o propósito de João é inspirar os leitores na fé em Jesus, e isso fica claro nas conclusões finais do capítulo 20.30-31: a – Crer que Jesus é o Filho de Deus; b – Secundariamente, João parece estar interessado em combater o gnosticismo. Os gnósticos pregavam a total separação entre Deus e a matéria. Diziam que a matéria era má. A partir desse raciocínio, uns reprimiam os desejos físicos, outros os liberavam. Eles negavam a humanidade de Cristo, a encarnação e a ressurreição. A salvação, de acordo com os gnósticos, seria conseqüência do conhecimento. Acreditavam em anjos e outros seres intermediários para chegar a Deus. João toma a questão do conhecimento ligado à salvação. Contudo, fala do conhecimento de Deus através do verbo encarnado: Cristo (17.3). João usa um material especial para desenvolver seus escritos, possui bons conhecimentos históricos e topográficos. Os evangelhos sinóticos serviram-lhe como base, porém João se mostra um hábil escritor, pois mesmo os paralelos foram tratados com absoluta independência. João não está preocupado em mostrar um Jesus “histórico” do ponto de vista moderno, mas seu interesse é levar o leitor, pelos olhos da fé, à raiz dos acontecimentos. Comparando as parábolas vivas e cheias de sinais dos sinóticos com os discursos profundamente teológicos de Jesus no Evangelho de João, mergulhamos numa realidade em que ele procura revelar as verdades mais secretas e divinas. Enquanto os sinóticos proclamam o reino de Deus ou o reino dos céus, no escrito joanino a grande revelação é o próprio Jesus. Esse Jesus dá nova vida, vida abundante, vida plena. Assim, a vida é ao mesmo tempo um bem divino esperado no fim dos tempos como um bem desde já presente. O Evangelho de João tem uma riqueza e um colorido singular. Essa cor é oriunda de alguns aspectos próprios do escritor, como o uso da linguagem simbólica (o verbo, a água, o pão, a luz), as imagens tomadas do Antigo Testamento (o pastor de ovelhas, a videira e os ramos) e as referências culturais (as bodas de Caná, a personalidade de Nicodemos, a mulher samaritana e o cego de nascença). Essa diversidade de aspectos revela a riqueza literária em João.
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Da mensagem à prédica
3.1 – Jesus, o pão da vida João 6.24-35 é uma continuação do milagre da multiplicação dos pães. A multidão segue Jesus para ver novos milagres, para alimentar-se. Querem comer mais do pão que Jesus ofereceu. Precisamos lembrar que a comunidade de João é formada por pessoas pobres, carentes de muitas necessidades, entre elas o alimento diário. Jesus critica a multidão e diz que ela simplesmente o segue sem entender qual a sua missão. No momento da multiplicação dos pães, Jesus alerta-nos para a fome que existe ao nosso redor e convida-nos para gestos de partilha. Assim todas as pessoas caminham alimentadas pela solidariedade, pelo amor, pelo pão que se reparte. Mas Cristo mesmo nos diz: “Eu
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9o Domingo após Pentecostes
sou o pão da vida, quem vem a mim nunca terá fome, quem crê em mim nunca terá sede”. Ao lado do pão que sacia nossa fome, Jesus mesmo se compara a esse pão e nos diz que ele é o pão da vida. Assim, Jesus quer saciar a fome e a sede que brotam do interior de cada pessoa. Ao enviar seu filho ao mundo, Deus reconhece a nossa fome e sede e quer nos alimentar. Dessa forma, não permite que ninguém morra sem ter comido do pão da vida. Ambos os pães precisam ser repartidos. Jesus deu um sinal claro de sua preocupação com ambos. Ofereceu o pão real que pode ser degustado e ofereceu a si mesmo como o pão da vida (que pode ser degustado na Santa Ceia). Ao oferecer o primeiro, reconhece nossa humanidade e necessidade do alimento para sobreviver. Ao oferecer o segundo, lembra que somos pessoas vocacionadas para ser mais solidárias, mais humanas, mais atentas às necessidades das pessoas ao nosso redor, necessidades essas que vão desde o pão até o abraço que reconforta e reanima. Quando sentimos que estamos perdendo essas qualidades, é hora de novamente nos alimentarmos do pão de Cristo, o pão da vida. Existem alguns caminhos a trilhar, e creio que a pregação poderia começar com um questionamento. A cada culto, a cada domingo, a cada atividade na comunidade de que participamos Jesus também nos questiona. Ele nos pergunta: O que estão procurando? Será que vocês de fato entenderam a mensagem e tudo o que aconteceu ou simplesmente estão procurando por mais pão (Batismo, Casamento, Confirmação, Cemitério...)? Acho que poderia ser impactante começar perguntando as pessoas sobre o que elas estão buscando, não somente restringindo-se à celebração, mas participando de uma comunidade cristã. Questionar o grupo para que pense sobre o que de fato o move e impulsiona para o seguimento a Cristo. Isso pode ser um começo para uma mudança. Uma reação. Um olhar para nossa fome e uma busca do “verdadeiro pão”: Jesus Cristo. Independentemente das respostas que as pessoas derem a si mesmas, é hora de olhar ao nosso redor e perguntar como estamos vivendo no mundo esse “ser pessoa cristã”. E eis que aí as palavras de Jesus também serão para nós fogo: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: Vocês estão me procurando porque comeram os pães e ficaram satisfeitos e não porque entenderam os meus milagres”. Procuramos Jesus para “momentaneamente” nos saciar, sem querer nos “aprofundar” nele. E acabamos nem sequer compreendendo para que ele veio, o que ele fez e espera de nós. Jesus é o verdadeiro “pão”, e quando as pessoas compreenderem isso e se alimentarem dele, não faltará nenhuma comida. Pois onde Jesus reina, ali há abundância de amor, solidariedade e partilha. Deus mesmo nos alimenta em Jesus Cristo; ele é o pão da vida.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Bondoso e amado Deus, chegamos diante de ti em confissão. Assim como clama o salmista: “Ó Senhor, ouve minha oração, ouve meu pedido de
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9o Domingo após Pentecostes
socorro” (Sl 102.1), também nós clamamos: Escuta, Senhor, nosso clamor; vem, acode-nos em nossa aflição. Senhor amado, temos caminhado distantes de ti. Assim como a multidão que procurou Jesus para novamente só alimentar-se de pão, assim também nós temos sido interesseiros, temos te buscado somente para que alimentes nosso egoísmo. Não compreendemos tua mensagem. Confessamos, Senhor, que muitas vezes temos vindo à igreja, que temos participado da comunidade por interesse pessoal, pensando naquilo que podemos ganhar com isso, sem sequer ter compreendido que participamos porque já ganhamos. Se podemos amar, é porque já nos amaste; se podemos repartir e partilhar, é porque já de ti recebemos. Senhor, perdoa-nos! Perdoa nossa cegueira, perdoa nossa falta de amor, perdoa nossa incapacidade de compreender o que está tão claro! Vem! Transforma-nos com teu perdão. Lava nossos olhos, ouvidos e coração para que possamos ver, ouvir e sentir tudo de uma nova maneira. Amém. Absolvição: Jesus diz: Eu sou o pão da vida; quem a mim vem nunca mais terá fome, e quem em mim crê nunca mais terá sede (Jo 6.35). Oração do dia: Deus amado, tu que alimentaste o povo de Israel no deserto, alimentaste a multidão que seguia Jesus, vem e alimenta também a nós com o pão da tua Palavra. Abre nossos ouvidos e corações para que atentos possamos compreendê-la e ficar saciados. Como pessoas alimentadas na fé, queremos servir-te e assim alimentar também todas as pessoas que encontrarmos pelo caminho. Por Cristo Jesus. Amém. Kyrie: Somos chamados a ser igreja no mundo, a alimentar o mundo com o pão de Cristo, que é nosso alimento, e assim não podemos ficar indiferentes às dores do mundo. Por isso clamamos: Clamamos, Senhor, por toda a criação. Tem piedade daquelas pessoas que passam fome, dos que nada têm para comer. Tem piedade também dos que esbanjam e desperdiçam. Que o amor que tudo reparte possa fazer parte da vida dessas pessoas! Senhor, tem piedade das pessoas que te ignoram, que andam afastadas de ti. Permite que elas também possam em algum momento alimentar-se de ti, de tua palavra, de teu amor, de teus ensinamentos. Senhor, tem piedade das pessoas que sofrem violência, daquelas que são maltratadas em casa, no trabalho, na escola, sejam crianças, jovens ou adultos. Que teu pão de paz possa alimentá-las e teus filhos e filhas possam abraçá-las. Por isso te pedimos: Tem piedade de nós. Sugestão de hino: Comam do pão, bebam do cálice, quem a mim vem não terá fome. Comam do pão, bebam do cálice, quem em mim crê não terá sede.
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9o Domingo após Pentecostes
Bibliografia LOCKMANN, Paulo. João Batista: a testemunha (Jo 1.19-34). In: Estudos Bíblicos 33, Para que todos tenham vida. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1992. p. 41-48. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982. 797p. KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 2000. 452p.
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PRÉDICA: 1 REIS 19.4-8
10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JOÃO 6.35, 41-51 EFÉSIOS 4.25-5.2
09 AGO 2009
Dietmar Teske
1
Introdução
No Lecionário Comum Revisado da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), a presente perícope foi antecipada do 12º para o 10º Domingo após Pentecostes (PL XV, p. 327, e Lecionário Comum Revisado da IECLB, p. 33). O 10º Domingo após Pentecostes coincide neste ano com o Dia dos Pais. Talvez isso seja razão para escolher um texto próprio para o dia. Fica, no entanto, o desafio de encontrar na perícope indicada uma palavra que contemple os pais participantes do culto. No domingo anterior, o texto indicado falava do maná, que alimentou a multidão dos filhos de Israel (Êx 16). Agora é Elias, uma única pessoa, que recebe todo o cuidado de Deus. Como um pai bondoso e cheio de compaixão, ele cuida de suas criaturas, filhos e filhas. Deus não abandona uma única criatura sua. O homem, cujo nome significa: quem honra a Deus, verá que à margem da vida há um Deus abrindo as portas que possibilitam um novo olhar, um novo horizonte. O Salmo indicado – 34.1-8 – é especial quando diz no v. 7: “O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra”. Embora Elias não percebesse Deus como alguém próximo, o anjo do Senhor supre-o e o fortalece para que se coloque novamente a caminho. No Evangelho de João 6.35,41-51, os judeus murmuram e Jesus diz: “Eu sou o pão da vida”. Assim como no deserto o povo de Israel murmurou, também Elias se queixa. Deus não fica indiferente à dor de quem quer bem. É caminhando que Elias encontra uma nova perspectiva para o agir de Deus. A epístola – Efésios 4.25-5.2 – prontamente nos remete a uma pergunta: No que o texto ajuda? Se o compromisso for com uma mensagem que vai ao encontro do ser humano, assim como Deus foi ao encontro de Elias, debaixo daquele zimbro, que desistiu de tudo como se estivesse prestes a morrer, então isso significa autoritariamente usar esse texto para dizer: “Não faça isso, não faça aquilo!” Sublinhe-se o que diz em Efésios 5.2: “... Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós”. É a força, a perspectiva do novo que faz Elias levantar e caminhar. Nisso o evangelho deve sobressair. Em João 6.51, Jesus diz: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu”. Atitudes, palavras e, conseqüentemente, um novo horizonte são possíveis onde se experimenta um Deus que
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10o Domingo após Pentecostes
vem e acampa junto de sua criatura para animar e confirmar que é possível uma outra realidade.
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Contexto e texto
Elias (seu nome significa: aquele que honra a Deus) é, ao lado de Moisés, a maior figura profética do Antigo Testamento. Repercute no Novo Testamento (Mt 11.14; 16.14; 17.3-4,10-13; 27.47-49; Mc 9.4s,11-13; 15.35s; Lc 1.17; 4.25s; Jo 1.21 e 25; Rm 11.2-4; Tg 5.17). Tão logo se lê a perícope, surge a pergunta: O profeta estaria honrando a Deus quando pede para si mesmo a morte (v. 4)? Se em 1 Reis 17, 18 e 21 encontramos um Elias forte e corajoso, capaz de mostrar poder sobre os fenômenos da natureza, fazer milagres e enfrentar seus inimigos, já em 1 Reis 19 deparamo-nos com um Elias fracassado, angustiado, cheio de dúvidas e frustrado em relação à eficácia de sua fé. É nesse capítulo que encontramos a nossa perícope. Sobressai nos v. 4 a 8 a profunda crise que o profeta experimenta. Elias marcou época no período da dinastia de Omri no Reino de Israel (norte). Ao contrário do Reino de Judá (sul), onde sempre governou a dinastia davídica, o Reino de Israel teve no poder reis de diferentes ascendências. A causa, em sua maioria, foram golpes originados no próprio palácio real. Se de 926 até 882 a.C. as dinastias duravam muito pouco, com a ascendência da dinastia omrida é diferente. Ela terá a duração de 40 anos. Omri (882-871 a.C.) ocupa o trono com mão de ferro, edifica Samaria, localizada, estrategicamente, fora das rotas de conflito e cercada por uma cadeia de montanhas. Politicamente, procurou dar estabilidade a seu governo com uma série de alianças externas e internas, no que foi seguido por seu filho Acabe. Externamente, subjugou os moabitas e através do casamento de seu filho Acabe com a princesa Jesabel manteve ótimas relações com as cidades costeiras da Fenícia, o que lhe possibilitou uma abertura comercial para o Mar Mediterrâneo. Mais tarde, Acabe também reatou relações com o Reino de Judá através do casamento de sua filha Atália com o príncipe herdeiro Jeroão, filho do davidida Josafá. Internamente, a política omrida consistiu em buscar sustentação junto a todas as camadas e tendências da população. Isso, por exemplo, aconteceu em relação à tolerância e até mesmo à assimilação do culto agrário a Baal, praticado pelos cananeus. Isso não significou eliminação da fé em Deus (Javé), já que os nomes dos filhos do rei Acabe têm nomes com elementos javistas. Instalou-se um sincretismo religioso, no qual a população vê Javé e Baal em pé de igualdade, chegando a confundi-los. A questão está evidente na pergunta de Elias quando do confronto com os profetas de Baal no monte Carmelo: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos?” (1Rs 18.21). Obviamente, o confronto não se restringe ao campo religioso, mas tem seus desdobramentos em outras áreas.
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O deuteronomista apresenta o tempo do profeta como uma época de conflitos, em que o poder é disputado em dois níveis: no celeste entre Deus (Javé) e Baal; no terrestre entre Elias e Acabe/Jesabel. Esse conflito é apresentado em três narrativas distintas: uma em torno do poder sobre a vida, do poder religioso, do poder político. Elias é o “herói” que traz à tona o conflito e também o suporta, mas sem passar antes por uma crise profunda. No poder sobre a vida, Baal era a divindade da tempestade, da chuva e da fertilidade. Elias, no entanto, anuncia, em nome de Deus (Javé), a proximidade de uma seca. Procedendo assim, Elias ignora o poder de Baal sobre a natureza e também sobre a fertilidade e a vida. Na região sob o domínio do deus Baal, é Elias quem vai aumentar o alimento da viúva, dando vida a ela e a seu filho e fazendo reviver o filho da viúva que morrera (1Rs 17). Enquanto o rei Acabe, em meio à seca, cuida de seus cavalos e burros (1Rs 18.5), Elias protege a vida daquelas pessoas mais frágeis: a viúva e o filho. No poder sobre a religião, a cena acontece no monte Carmelo (1Rs 18). Lá, os 850 profetas de Baal e de Asera marcham contra Deus (Javé) e seu único fiel, o profeta Elias. Invocando Baal de manhã até a tarde, nada acontece. Diante da invocação de Elias, Deus (Javé) prontamente responde e não apenas consome o sacrifício do altar, mas também traz chuva após um longo período de seca. No nível político, o poder de Javé reafirma-se sobre Baal no episódio da vinha de Nabote (1Rs 21), onde Acabe e sua esposa Jesabel são julgados por Deus pelo mal que fizeram ao agricultor Nabote (1Rs 21.19 e 23). Finalmente, em 2 Reis 1 e 2, Elias é elevado aos céus por carros e cavalos de fogo em meio à tempestade. Na opinião de comentaristas, 1 Reis 19.1-18 é resultado de diferentes revisões literárias. De uma antiga lenda sobre uma peregrinação ao Horebe, o texto teria sido acrescido da fuga diante de Jesabel, do lamento de Elias, de uma teofania de Javé e de um anúncio de juízo sobre Israel. Os v. 19-21 já perfazem outra perícope. É de estranhar a atitude do profeta Elias, já que o capítulo 18 encerra com a estrondosa vitória de Deus (Javé) e Elias sobre os profetas de Baal. Por que, agora, essa tendência suicida de Elias (v. 4) ao querer morrer por não ser melhor do que seus pais depois de haver enfrentado reis e profetas com tanta eficiência e coragem? A frustração de Elias deve-se ao fato de que o povo abandonou Javé e voltou-se contra seus profetas. Não é tanto a perseguição da rainha Jesabel, mas sim do povo infiel a Javé a razão do lamento e da frustração de Elias. Onde estaria o cerne da perícope delimitada nos v. 4 até 8? O cerne tem a ver com um espaço que existe entre Berseba, ao norte, e o monte Horebe, ao sul. Chegar ao monte Horebe significa caminhar 40 dias e 40 noites. Não se tem a certeza onde exatamente se localiza esse monte. Importa, porém, detectar elementos que dão vida à peregrinação de Elias e põem o profeta a caminhar mesmo que seja tão longe. Depois que deixou seu servo à margem do deserto Negev, Elias continua a avançar para dentro do deserto. Ali, assentando-se debaixo de um ar-
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busto (zimbro), em absoluta solidão, pede para si mesmo a morte. Ignora tudo e todos, inclusive devolve a Deus seu chamado, dizendo: “Basta!” Está decepcionado e desistiu de lutar. Aqui se evidencia toda a humanidade de Elias. Não se trata de uma pessoa perfeita. A Sagrada Escritura tem consciência da fragilidade de seus personagens. Não é a força do ser humano, mas o poder de Deus que faz a história acontecer. Deitado sob um arbusto solitário, Elias adormece para não mais acordar. Mesmo desejando morrer, Deus não esquece seu servo fracassado e ameaçado de morte. Cuida de sua vida, alimentando-o com pão e água. Trata-se do alimento comum de cada dia, mas que mantém vivo seu profeta. Por duas vezes, o anjo aproxima-se para trazer-lhe pão e água. Nutrido, Elias não deve permanecer como está. Deve, isto sim, colocar-se a caminho. O alimento que o anjo lhe trouxera restabelece-o para uma caminhada de 40 dias e 40 noites. O número lembra a peregrinação do povo de Deus no deserto entre o monte de Deus, o Sinai, e a terra prometida. O que será que Deus reservou para Elias no monte Horebe? Embora montes possam abrigar fugitivos e ladrões, montes também servem para, ao subir neles, ampliar o olhar e ter uma visão que alargue o horizonte, uma visão que vê além e convida a prosseguir na tarefa de profeta, de pessoa, como diz o próprio nome, honra a Deus. Elias não se submeteu às condições impostas pela seca, nem ficou indiferente à morte do filho da viúva. Não temeu estar sozinho diante dos profetas de Baal e nem mesmo temeu falar a quem ameaçou com o poder de quem se julga absoluto e dono da vida de pessoas comuns. Portanto um homem deu tudo de si. Foi sobre-humano. Por tudo o que aconteceu, Elias não vê mais sentido na vida. Elias, um gênio da fé, vê desaparecer a fé em Deus (Javé). O Deus da aliança é superado pelo deus que se adapta às conveniências humanas e atende a seus caprichos. Elias tinha tudo para sair triunfante do embate com os falsos profetas. Poderia simplesmente ignorar as ameaças de Jesabel. Tinha tudo para estar radiante de alegria. Afinal, Deus mostrou que estava a seu lado. Foi vitorioso na luta pela verdade. No entanto, o que lemos em 1 Reis 19.4 é: “Ele mesmo, porém, se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte...” Elias cansou da vida. Seu desejo é adormecer para não mais acordar. Por quê? Ele fez de tudo para ficar com a verdade, mas os outros vivem tão bem ou até melhor e não estão nem aí para a verdade. Não há nada que ele possa mudar na concepção de vida dessas pessoas. Elas nem se perturbam com sua decepção. Deveria Elias simplesmente tolerálas? É isso o que Deus quer? Acomodar a situação? Desistir do que é próprio da fé em Deus (Javé)? Foram em vão todo esforço, todo risco? Terá razão o pregador de Eclesiastes quando diz: “Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (Ec 1.14)? Certamente cada um de nós já se fez estas perguntas: Será que ainda sou necessário? Sou mesmo insubstituível no que faço? Ou sou mesmo um
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estorvo? Ainda sou capaz de experimentar alegria? Estou satisfeito comigo mesmo? Vejo Deus como um aliado ou como alguém contra mim? É possível que alguém se perceba completamente sem valor, como alguém inútil. Possivelmente, alguém já experimentou o que sucedeu com Elias e assim fez o mesmo. Em nossa perícope, lemos que Elias deitou para dormir e o anjo o tocou dizendo: “Levanta-te e come” (v. 5c). Portanto um anjo toca Elias. Ordena que levante, revigora-o com comida e bebida e lhe ordena encontrarse com Deus. Do que acontece é possível tirar algumas conseqüências: 1 – Não se dê por alguém rejeitado e inútil. Cada qual tem um valor inestimável. Aqui e agora você tem o seu lugar. Considere seus dons e suas forças. Lá no espaço onde você se encontra, há algo que precisa ser feito. Para Simão, decepcionado e cansado, Jesus disse: “Lançai as vossas redes para pescar” (Lc 5.5). Considere que você ainda não bateu em todas as portas. Mesmo que você tenha perdido algo de muito valor, Deus não desistiu de você. Você não é carta fora do baralho. 2 – Não há como fugir das tarefas, das obrigações. Na verdade, você precisa vê-las como parte integrante da vida. Isso significa necessariamente desistir de sonhos irrealizáveis. Assim, por exemplo, o corpo precisa receber o necessário para que seja um corpo saudável. Por isso não é possível concordar como se houvesse um mal que é necessário. O jeitinho brasileiro vai adiando sonhos que são um direito de todos e não apenas de alguns poucos. Enquanto concluo esta participação no Proclamar Libertação, está em andamento a Operação Satiagraha, da Polícia Federal, prendendo Daniel Dantas e seu grupo. Os meios de comunicação, uma instituição que deveria estar a serviço do Estado de direito, da justiça, desvia o foco e dá atenção a políticos, advogados e pessoas que têm interesses que não combinam com uma sociedade democrática, porque esses se dizem indignados com as algemas colocadas em quem é acusado de lesar o patrimônio público. 3 – Ser profeta, ser discípulo, ser cristão e cristã significa estar disposto a alargar horizontes, significa insistir. Portanto colocar-se a caminho. É aceitar o desafio de Jesus: “Pedi..., buscai..., batei...” (Mt 7.7). Nem tudo são rosas, aplausos, louros da vitória. Mas nem tudo está perdido. Muito do que é feito, é feito por amor. Muito é feito, porque ainda se acredita que alguém precisa ter sua oportunidade, para que no amanhã faça diferente, faça melhor. Elias e também nós somos enviados a nos colocar a caminho para encontrar Deus. Muitas vezes, nesse caminho, as tarefas que nos são colocadas são vistas como obstáculos. Mas elas são parte de um mundo onde está presente o pecado, a teimosia de viver em constante desconfiança em relação a Deus, como se ele tivesse criado alguma coisa com a intenção de fazer sofrer.
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Para que serve o horizonte? Certa vez, alguém chegou ao céu e pediu para falar com Deus. De acordo com seu ponto de vista, havia uma coisa na criação que não fazia nenhum sentido. Deus atendeu de imediato. Ele mesmo ficou curioso. Queria saber qual era a falha que havia na criação. – Senhor Deus, sua criação é muito bonita, muito funcional, cada coisa tem sua razão de ser... mas, no meu ponto de vista, tem uma coisa que não serve para nada – disse aquela pessoa a Deus. – E que coisa é essa que não serve para nada? – perguntou Deus. – É o horizonte. Para que serve o horizonte? Se eu caminho um passo em direção ao horizonte, ele se afasta um passo de mim. Se caminho dez passos, ele se afasta outros dez passos. Se caminho quilômetros em direção ao horizonte, ele se afasta os mesmos quilômetros de mim... Isso não faz sentido! O horizonte não serve para nada. Deus olhou para aquela pessoa, sorriu e disse: – Mas é justamente para isso que serve o horizonte.... para fazê-lo caminhar. (Fonte: Caderno de Canções – Ernani Luís – CD Teu Amor) É preciso cuidar para não confundir em momento algum a peregrinação de Elias como um tempo de purificação em que é ele que se aproxima de Deus, sobre degraus, para estar perto de Deus. É Deus quem vai ao encontro de Elias debaixo do zimbro onde quis morrer. No “anjo do Senhor que se acampa” (Sl 34.7), no “pão vivo que desceu do céu” (Jo 6.51), no “Cristo que nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5.2) e, finalmente, no Deus que o alimentou e colocou a caminho manifesta-se um Deus misericordioso, que encontra em Elias, assim como o próprio nome sugere, alguém que honra a Deus.
3
Subsídios litúrgicos
Sugiro uma liturgia que siga os passos de “Um Modelo da Liturgia Oficial da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB)”, do Livro de Culto da IECLB ou da Bíblia Personalizada da IECLB, p. 175, final do hinário Hinos do Povo de Deus – volumes I e II e Catecismo Menor. Embora Martim Lutero não tenha sido citado no subsídio homilético, lembrá-lo no contexto dos hinos que podem ser entoados no culto é necessariamente socorrer-se da canção “Deus é castelo forte e bom” (Hinos do Povo de Deus – volume I, n° 97). Observo que a canção de Martim Lutero tem uma versão para o nosso público mais jovem. Talvez ajude para que se recupere essa canção tão significativa da Reforma. As demais canções de Hinos do Povo de Deus – volume II poderiam ser: n° 434; n° 438; n° 441; n° 443 e n° 446.
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O Lecionário Comum Revisado da IECLB, p. 33, “Próprio 14” (Tempo após Pentecostes) oferece Aclamação do Evangelho (Hb 11.1) e Antífona (Sl 34.8). Uma sugestão de bênção e envio encontramos no livreto “Deus te abençoe!”, p. 11: “Para a luta nos guarnece, ó Senhor, com teu poder! O teu povo fortalece, não o deixe perecer! E se nos rodear a morte; que teu Verbo nos conforte! Dá-nos fé, firmeza, amor; dá-nos tua paz, Senhor!” (Da Polônia).
Bibliografia DREHER, Carlos A. Proclamar Libertação, v. XVIII. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1992. p. 204-212. GIESEN, Traugott. Textspuren – Konkretes und Kritisches zur Kanzelrede. V. 6. Stuttgart: Radius Verlag, 1995. p. 70-74. SILVA, Marcelo Augusto Veloso da. Profetas: Ontem e Hoje. Subtítulo: Elias – O juízo sobre a monarquia ou a desfeita de Baal. In: Estudos Bíblicos, v. 4. Petrópolis: Vozes, 1987. p. 33-40.
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PRÉDICA: JOÃO 6.51-58
11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PROVÉRBIOS 9.1-6 EFÉSIOS 5.15-20
16 AGO 2009
Günter Karl Fritz Wehrmann
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Introdução
Numa primeira olhada nos textos acima, percebemos o seguinte: Segundo Provérbios 9.1-6, a Sabedoria convida para a festa da vida. Ela diz: “Deixem a companhia dos tolos (incrédulos) e vivam!”. Conforme Efésios 5.15-20, essa nova vida é concretizada da seguinte maneira: Quando se pertence à Luz (Cristo), aparecem os frutos em forma de bondade, honestidade e verdade; evita-se bebida, que leva à desgraça; enche-se do Espírito e agradece-se a Deus em nome de Jesus. Segundo João 6.51-58, participamos da vida, temporária e eternamente, por comer o pão e o sangue da vida (alusão à Ceia do Senhor), que é o próprio Cristo, e somos incorporados à comunhão sacramental com Deus. Os três textos, pois, falam da vida verdadeira e dão pistas distintas para receber e vivenciá-la.
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Alguns aspectos exegéticos e teológico-sistemáticos
Mesmo que se considere o texto em apreço um apêndice redacional, seu conteúdo é tão joanino, que isso não deveria influir na pregação. Certamente a perícope representa, como Osmar Witt destaca, uma interpretação sacramental do texto anterior sobre a multiplicação dos pães e o discurso de Jesus sobre o pão da vida. O texto transcende para o sacramento (que significa “mistério”) da Santa Ceia, do qual o evangelista João não fala expressamente, mas alude a ele desse jeito bem próprio. Contudo, esse modo de falar sobre a Ceia do Senhor é muito escandaloso: “Como é que esse homem pode dar a sua própria carne para a gente comer?” (v. 52b). Assim perguntam “eles”, como ameniza a tradução da Bíblia na Linguagem de Hoje. Mas Almeida, fiel ao original, traduz “judeus”. Essa expressão não se refere apenas ao povo judeu ou apenas a seus líderes, mas a todas as pessoas que não crêem em Jesus e com ele se escandalizam. Por isso também qualquer ouvinte de nossa época, que ouve esse texto meramente com a razão humana, percebe essa provocação, escandaliza-se e pergunta: Será que o cristianismo com sua Santa Ceia, em que se come o corpo e bebe o sangue de Cristo, não induz, velada ou abertamente, ao canibalis-
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mo? Erika Engen-Berghöfer aponta, segundo meu entender acertadamente, para esse fato escandaloso. E, ao longo da história, nem faltou sectário que pensasse e agisse assim. Mesmo seguidores de Jesus, conforme o v. 60, reclamaram dizendo: “O que ele ensina é muito difícil. Quem pode aceitar esses ensinamentos?”. Realmente, para a razão humana é difícil perceber e aceitar que Deus quer oferecer, através de Jesus, a comunhão mais íntima possível, ou seja, a proximidade de coração. Já eram escandalosos os fatos do Filho de Deus ter nascido em Belém (não na capital) e ter sido colocado num cocho de estrebaria (não num berço do palácio real). Seus gestos de acolher pessoas excluídas, marginalizadas e pecadoras aumentaram a incompreensão e o aborrecimento das pessoas incrédulas. Já que esse texto foi escrito por volta de 90 d.C., também a vergonhosa crucificação e a “fantástica” ressurreição completam a soma de incompreensões e escândalos. Por causa deles não é de se admirar que “muitos seguidores de Jesus o abandonaram” (v. 66). Embora essa reação não mais faça parte da perícope, convém que a tenhamos na mente. Pois determinados ouvintes da prédica (talvez confirmandos ou pessoas que pouco participam da vida eclesiástica), ao ouvirem esse texto pela primeira vez, provavelmente também se escandalizem. Por isso, a fim de não bloquear os ouvidos e corações dessas pessoas, já ao iniciar a prédica talvez seja interessante preparar para a leitura do texto ou mesmo lê-lo no final da prédica, depois de ter dado os devidos auxílios para a compreensão adequada. Como então entender a perícope? Vimos que os três textos para esse domingo falam da vida verdadeira, vida com sentido, hoje e eternamente. Jesus mesmo resumiu toda a sua missão numa só frase: “Eu vim para que as ovelhas tenham vida, vida completa” (ou seja, “em abundância”, como Almeida traduz). Tal vida seus seguidores procuravam quando abandonaram suas profissões a fim de seguir Jesus. Na meditação (bloco três), teremos que atualizar para os nossos dias as múltiplas formas de busca por vida. Contudo, primeiramente, preocupemo-nos em vislumbrar melhor o significado desse texto. V. 54 – “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.” Comer a carne do Filho do Homem (Cristo) e beber seu sangue não só transmitem força e poder momentâneos, mas concederão vida eterna através da ressurreição dentre os mortos. O que quer expressar essa linguagem estranha? Contemplando a figura, talvez vislumbremos algo do mistério. Ao comer o pão (ou a hóstia), o corpo de Cristo, sacrificado e ressuscitado em nosso favor, penetra em nós, assim como o pão perpassa, via circulação sangüínea, todo o nosso corpo, fortalecendo e mantendo-o. Ao beber o vinho (ou suco de uva), o sangue de Cristo, derramado em nosso favor para a remissão dos pecados, também perpassa, via circulação sangüínea, todo o nosso corpo, alimentando e preservando-o. Eis o mistério divino da Ceia do Senhor: o corpo de Cristo em nós; nós no corpo de Cristo; é isso que o apóstolo Paulo descreve pelo estar em Cristo (en Xristô einai); nós somos corpo de Cristo. Desse modo, “Cristo se torna hospedeiro,
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alimento e hóspede ao mesmo tempo”, como Lutero também descreveu o mistério (se não me falha a memória). Por isso o Guia da vida comunitária da IECLB – Nossa Fé Nossa Vida diz na p. 23: “A Ceia do Senhor é a celebração da comunhão mais íntima possível com Cristo, com as irmãs e os irmãos na comunidade. Cristo – que por nós morreu, ressuscitou e voltará no final dos tempos para erguer em definitivo seu reino – realmente se torna presente”. A doutrina católico-romana tenta explicar o mistério, dizendo que, através da consagração, feita por pessoa devidamente consagrada, as substâncias do pão e do vinho transformam-se em corpo e sangue de Cristo. E uma vez transformada a substância, ela permanece transformada (fala-se em “transubstanciação”). Por isso está acesa a luzinha vermelha do tabernáculo, onde se guarda a hóstia transformada, e por isso é possível, após a missa, levar a hóstia para doentes que não puderam participar da missa. Lutero resistiu à tentação de explicar o mistério eucarístico, que excede tudo o que a razão humana consegue entender, muito menos explicar. Por isso apenas descreveu o sacramento da presença real de Cristo, dizendo que Cristo realmente está presente “em, sob e com” os elementos do pão e do vinho. Além disso, para não fomentar compreensões mágicas, Lutero limitou a presença real de Cristo ao momento em que são distribuídos os elementos juntamente com a Palavra. A presença real de Cristo “em, com e sob” os elementos não existe, portanto nem antes e nem depois da Ceia. Ela está ligada simultaneamente aos elementos, à Palavra e à comunidade reunida. V. 55 – “O meu corpo é a comida verdadeira, e o meu sangue é a bebida verdadeira.” Sem pão e sem sangue não se vive. O pão – que alude ao pão asmo, na noite do êxodo, e que lembra também o maná, na caminhada pelo deserto – fortalece para a caminhada até o fim bem-aventurado. O vinho – que alude ao sangue do cordeiro sacrificado, que os hebreus deveriam passar nos batentes de suas portas, a fim de que os filhos primogênitos do povo de Deus fossem poupados e salvos da morte na noite do êxodo – é sinal de bênção, grata alegria, salvação e vida. Esse sinal transcende para o sangue de Cristo, que nos guarda a vida e salva da morte eterna. Sem Cristo, pois, não há vida nem alegria verdadeiras, nem aqui na terra e muito menos na eternidade. Mas comungando na comunidade de irmãs e irmãos da fé recebemos “perdão, vida e salvação” (como explica Martim Lutero no Catecismo Menor), a comunhão mais íntima possível com Cristo e uns com os outros. Antecipamos algo da alegria que deverá caracterizar o banquete eterno.
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Meditando e contemplando
No mundo globalizado, as pessoas e os povos tornam-se cada vez mais isolados. À primeira vista, isso parece ser um paradoxo, visto que interesses e objetivos comuns contribuem para a formação de grupos e aglomerações. Contudo, sua existência e eficácia são condicionadas pelo lucro. O indivíduo ou o
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grupo interessam aos outros não pelo “ser”, mas pelo “ter” e sua utilidade. Disso decorrem exclusão, marginalização e solidão muito cruéis de tudo e de todos, que não servem aos objetivos. Isso afeta primordialmente pessoas e povos pequenos, fracos, deficientes etc. – enfim tudo e todos os que, na escala de valores da natureza humana não-redimida, não valem nem contam muito. É por isso que, apesar da globalização, as pessoas e os povos estão “correndo” atrás de sucesso, lucro, projeção, momentos de felicidade, realização pessoal e pagam sacrifícios altíssimos. Procuram saciar sua fome e sede de vida através dos mais diferentes ensinamentos de auto-ajuda, esoterismo, religiões asiáticas, além de muitos outros. A pregação deverá atualizar e aterrissar no contexto específico da localidade e da comunidade. Já que o ser humano é um ser social, ele tem uma necessidade inegável de comunhão, vida digna e feliz, com sentido e rumo. A saudade torna-se insaciável. Agostinho, o célebre pai da igreja antiga, dizia: “Nosso coração está irrequieto até sossegar em ti, Senhor”. Deus vê as pessoas em sua desesperada busca. Ele já se comiserou e agiu através da vinda, vida, morte vicária, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo. Ele já fez tudo o que é necessário para a nossa felicidade temporária e eterna. Intercede por nós junto a Deus, que é por nós melhor do que uma boa mãe e um bom pai. Jesus sacrificou-se por nós, sofrendo, em nosso lugar, toda a alienação e saudade que o ser humano pode sofrer. Na Santa Ceia, ele nos reconcilia com Deus e nos torna irmãs e irmãos uns dos outros. Ele nivela e supera todas as barreiras e fronteiras que possam separar pessoas e povos. Nada e ninguém nos podem excluir dessa comunhão com Deus e de uns com os outros, nem cor, etnia, raça, gênero, idade, tampouco nível social ou econômico. Todos nós comemos do mesmo pão que é o corpo de Cristo, dado em favor de nós. E todos nós bebemos do mesmo vinho (fruto da videira) que é o sangue de Cristo, derramado em favor de nós para a remissão dos pecados, de modo que nada e ninguém nos podem separar do amor de Deus. Assim como o pão que comemos e o vinho que bebemos perpassam, via circulação sangüínea, todo o nosso corpo, alimentando e refazendo-o, assim Cristo perpassa até as últimas células de nosso ser. Estamos nos aproximando do mistério divino. Pois Jesus Cristo diz em nosso texto: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim, e eu vivo nele” (v. 56). Ele nos incorpora no mistério do corpo de Cristo. Ele nos permite uma antecipação da comunhão eterna com Deus e de uns com os outros. Dá-nos “um aperitivo do banquete eterno”, como diz o teólogo Rubem Alves. Essa comunhão pode ganhar expressão concreta pelo jeito de comungar. Se, por exemplo, o espaço o permite, as pessoas comungantes podem formar um círculo em torno do altar (a fila andante não ajuda muito para tanto) ou podem formar um grupo de dois bancos, sendo que uma fila se vira para a outra. A dimensão da reconciliação também pode receber expressão pelo abraço da paz.
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Lembro-me que eu estava em conflito com um membro da comunidade. Nós dois não mais participávamos da Santa Ceia há meio ano. Em determinado culto, o tema girava em torno de reconciliação e perdão. Os olhares de nós dois se encontraram diversas vezes durante a pregação. Sem termos falado um com o outro, em seguida participamos da Ceia do Senhor. Ao me despedir no final, na porta do templo, dando também ao Senhor X a mão, perguntei-lhe: “Agora, Senhor X, estamos bem novamente?”. Ele respondeu: “Sim, foi colocada a pedra em cima”. E nos abraçamos como nunca antes.
Essa experiência me faz perguntar: Quando sabemos que tem uma situação de desentendimento muito enraizada na comunidade, não seria imaginável realizar o abraço da paz uma vez depois de comungar, antes da oração de agradecimento? Já que Cristo perdoa nossos pecados, somos livres para perdoar uns aos outros, não só duas ou três vezes, mas sempre quando necessário. Já que recebemos a esperança que não morre, mas conduz para a vida eterna, somos livres para animar as pessoas que não mais vêem saídas. Já que Cristo se doa e reparte em nosso favor, somos libertados e constrangidos a doar e compartilhar tempo, ouvido, coração, saber e bens. Ensaiamos partilha solidária. A Santa Ceia implica fortalecimento na caminhada nessa vida passageira até o fim bem-aventurado. Será que não convém explicar (em culto e grupos) para a comunidade o duplo dimensionamento da dádiva, tanto para essa vida como para a vindoura? É por isso que nós luteranos não temos o sacramento da “extrema-unção”. Quando formos solicitados a trazer a Santa Ceia para uma pessoa moribunda, certamente será o momento menos apropriado para dar essa explicação. A Santa Ceia, portanto, serve para viver aqui e em eternidade, mas não apenas para morrer.
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Imagens para a prédica
a – Lembro o que já foi compartilhado na meditação sobre o milagre da reconciliação que a Santa Ceia pode operar, conforme eu mesmo experimentei com um membro da comunidade (veja o texto acima em letra menor). O Espírito Santo utilizou a pregação e a Santa Ceia para superar nossa teimosia. Ela incapacitava cada um de nós a dar o primeiro passo para a reconciliação. O exemplo pode ser usado sem citar nome. Melhor me parece o exemplo ser adaptado à vida de quem prega. Pois desse modo se testemunha que eu como pastora ou pastor também não sou “supercristão”, mas apenas gente que carece da misericórdia de Deus. b – A imagem na página seguinte poderá motivar para o repartir. Tentarei traduzir o texto:
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Fonte: Karte 8683 Foto: Imagens of Life – Kawohl-Verlag 46485 Wesel
Repartam o pão com outros, já que ele apetece bem apenas quebrado. Repartam o pão com outros, já que pão repartido anima muitos. Repartam a palavra com outros, já que ela é rica demais para servir apenas a vocês. Repartam a palavra com outros, visto que ela quer servir para a salvação de muitos. Repartam o sofrimento com outros, já que se trata da dor de seus irmãos. Repartam o sofrimento com outros, visto que o amor é o mandamento do Senhor. Repartam a luz com outros, a fim de que ela espante a escuridão. Repartam a luz com outros, a fim de que ninguém mais fique nas trevas. Johannes Hansen (traduzido por Guenter Karl Fritz Wehrmann)
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Subsídios litúrgicos
(Seguem apenas algumas sugestões, orações, cantos etc.) Acolhida (feita preferencialmente pelo presidente ou pela presidente da comunidade) com indicação do tema do domingo: “Deus oferece verdadeira vida em comunhão consigo e com as pessoas, hoje e até o fim bemaventurado”. A acolhida pode embocar na invocação trinitária: “Por isso iniciemos este culto em nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo”.
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P: Palavra de Intróito: Jesus Cristo mesmo nos diz: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer desse pão, viverá para sempre”. Por isso cantemos: C: Glória seja ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Ou: Hinos do Povo de Deus n. 253. P: Estamos aqui reunidos para ouvir a Palavra do Senhor, celebrar a Santa Ceia e para louvar e adorá-lo em hinos e orações. Inicialmente, porém, humilhemo-nos diante dele e confessemos nossas falhas e transgressões, orando: P: Confissão de pecados: Senhor, bondoso Deus, estamos reunidos aqui porque estamos com fome e sede de vida em verdadeira alegria e comunhão. Tu conheces o nosso coração sedento. Sabes também o quanto nós mesmos temos atrapalhado o convívio lá em casa, na escola e no lugar de trabalho, afastando-nos de ti e dos outros. Sabes o quanto temos cansado a nós mesmos e aos outros. Perdoa-nos por causa de Jesus Cristo, que se sacrificou em nosso favor, a fim de nos reconciliar contigo, com os outros e conosco mesmos. Ouve-nos, quando agora cantamos: C: Senhor, tem piedade (cf. melodia de Taizé). P: Absolvição: Assim diz o Senhor para seu povo arrependido: “Eu porei a minha lei na mente deles, e no coração deles a escreverei; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo” (Jr 31.33b). Por isso cantemos glória a Deus nas alturas: C: Glória, glória, glória a Deus nas alturas. Glória, glória; paz entre nós, paz entre nós (cf. melodia de Taizé). P: Oração do dia: Deus bondoso, nós te louvamos por nos aceitares como filhas e filhos teus, por causa de Jesus Cristo. Faze com que teu Santo Espírito nos abra ouvidos, corações e mentes para ouvir tua palavra, criadora de nova vida. Na Santa Ceia, faze-nos experimentar verdadeira comunhão contigo e uns com os outros. Nós o pedimos em nome de Jesus Cristo, que contigo e o Espírito Santo vive e reina eternamente. Amém. P: Oração de intercessão: Agradecemos-te, bondoso Deus, que nos mostraste, por meio de tua palavra, o caminho para a verdadeira alegria da vida em comunhão contigo e uns com os outros. Faze com que, na Santa Ceia a seguir, experimentemos um antegozo daquela vida que não morre. Agora te lembramos daquelas pessoas que não estão aqui: as adoentadas, as desiludidas com a comunidade, as solitárias, as aprisionadas. Faze com que também elas cheguem a conhecer e experimentar o teu amor, que se põe a caminho para buscar o que está perdido ou desorientado. Recomendamos aos teus cuidados todas as pessoas que exercem funções políticas. Faze com que se empenhem por estruturas mais justas, assim que todas as pessoas possam ter o pão de cada dia. Intercedemos também por todas as pessoas que exercem funções de liderança na igreja, seja em nível de comunidade e paróquia, sínodo ou âmbito nacional e internacional. Concede-lhes alegria no servir bem com sabedoria e perseverança para ajudar a comunidade em sua missão. A todos esses irmãos e irmãs de perto e distante tu queiras considerar nessa celebração da Santa Ceia. Confiamos que tu os alcances e nos irmanes
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11o Domingo após Pentecostes
uns aos outros, mesmo de maneira invisível. Em nome de Jesus, teu Filho amado, nosso Salvador, nós agradecemos e pedimos. Amém. A oração eucarística poderia lembrar que Cristo, por nós crucificado e ressuscitado, é o pão da vida; pedir que nós, pelo comer do pão e beber do fruto da videira, possamos experimentar algo do mistério da comunhão no corpo de Cristo, como antecipação do banquete em alegria eterna que Cristo, no final dos tempos, há de oferecer quando estabelecer seu reino em definitivo. Hinos: 333; 132; 304,1; 358; 125; 141,5-6.
Bibliografia WITT, Osmar Luiz. In: Proclamar Libertação, v. XIX. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1993. p. 225-228. JOHNE, Karin. Meditative Zugänge zu Gottesdienst und Predigt. Predigttexreihe III, 1, Göttingen: Vandenhoek & Ruprecht, 1992. p. 115119. ENGEN-BERGHÖFER, Erika. Pastoralblätter Predigt und Seelsorge in der Praxis, 3. Maerz 1999. Stuttgart: Kreuzverlag , 1999. p.140-144. SCHNEIDER, Johannes. Das Evangelium nach Johannes. In: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. 2. ed. Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1978.
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PRÉDICA: EFÉSIOS 6.10-20
12º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 24.1-2a,14-18 JOÃO 6.56-69
23 AGO 2009
Scheila dos Santos Dreher
1
Introdução
Cresci ouvindo que um grupo ou uma comunidade, para ser cativante, estar ativa e “fazer a diferença”, precisa ter objetivos definidos, de preferência a curto, médio e longo prazos. Caso contrário, ele ou ela “relaxa”, cai na rotina, fica esvaziado de sentido e corre o risco, até mesmo, de se desintegrar. Isso pode ser aplicado às comunidades cristãs (evangélico-luteranas, em específico) e aos grupos que se reúnem nessas comunidades? Provavelmente sim. Nossa história como igreja de imigração/igreja de transplante dá mostras disso. A história dos grupos de Juventude Evangélica (JE) e da Ordem Auxiliadora de Senhores Evangélicas (OASE), entre outros, confirma tal pensamento. A Epístola aos Efésios (volto à questão dos destinatários adiante) surgiu num contexto em que comunidades cristãs já estavam constituídas e sua vida, como tal, corria o risco de cair na rotina e tornar-se uma mesmice que não mais testemunharia Cristo como Senhor e Salvador. Diante dessa realidade, a carta tinha por objetivo evitar que esse “relaxamento” (sossego/falta aparente ou real de objetivos) da igreja resultasse na incorporação de valores e comportamentos presentes na sociedade sob o poder do Império Romano. Tratava-se de manter a igreja invisível unida (corpo do qual Cristo é a cabeça – Ef 4.15) e de resistir às pressões que vinham de fora, para que ela pudesse cumprir sua missão de anunciar a salvação oferecida por Jesus Cristo a todas as pessoas que crêem (Ef 6.19). Na mesma direção aponta o texto proposto do Antigo Testamento. O povo de Israel experimentou, pela ação de Deus, a libertação da escravidão do Egito, subsistiu à travessia pelo deserto numa longa e difícil caminhada e pôde chegar, afinal, com êxito, à terra prometida. Segundo Josué 23.15s, Deus “lutou” pelo povo, e por isso ele conquistou a terra que agora recebia das mãos de Deus para viver. Em Josué 24.1-2a,14-18, a terra na qual agora o povo se encontra já foi dividida entre as tribos constituídas e a liderança do povo é convocada por Josué. Diante dessa liderança, Josué traz à memória toda a história de libertação do povo e do cuidado de Deus. Josué lembra as dádivas recebidas e o cumprimento da promessa de Deus em relação à terra. Conclama o povo a responder a essa ação libertadora e amorosa de Deus com seguimento fiel. No capítulo anterior à perícope em questão, Josué
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12o Domingo após Pentecostes
23.12ss, o povo foi exortado a não fazer amizade e a não se casar com ninguém de outro povo por “medo de contaminação” (volto a esse conceito adiante): adoração a outros deuses no lugar da adoração exclusiva a Deus. Esse é o cerne da questão. O povo, representado nesse momento por sua liderança, vai ceder à pressão dos povos e culturas em sua volta ou vai “resistir”, isto é, permanecer fiel ao Deus que o libertou e presenteou com a terra que agora habita? Assim como o próprio Josué, o povo também reconhece a ação de Deus em seu favor e responde positivamente (Js 24.16,18): “Nunca poderíamos pensar em abandonar ao Deus Eterno para servirmos outros deuses. [...] Nós também serviremos ao Eterno, pois ele é o nosso Deus”. O texto do evangelho afirma a possibilidade da união com Cristo, o enviado de Deus, como dádiva do próprio Cristo (Jo 6.56): “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim, e eu vivo nele”, numa alusão à Ceia do Senhor. Jesus anuncia-se como o pão que desceu do céu; quem come desse pão viverá para sempre (v. 58). Sua fala tem como conseqüência diferentes reações da parte de seus interlocutores. Os discípulos, inquiridos por Jesus: “Vocês também querem ir embora?”, professam sua fé (Jo 6.69): “Nós cremos e sabemos que o Senhor é o Santo que Deus enviou”. Os textos trazem como unidade temática algumas palavras-chave: fidelidade de Deus, resistência do povo crente, confissão e profissão da fé no Deus libertador, Senhor e Salvador, diante de um mundo que se mostra descrente, avesso e hostil ao anúncio desse evangelho (boa-nova).
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Exegese
Segundo José Comblin, a Epístola aos Efésios é pós-paulina. Foi redigida por volta do ano 90 d.C. e apresenta uma reinterpretação da doutrina paulina, especialmente a partir da Epístola aos Colossenses. Ela não foi dirigida à comunidade de Éfeso especificamente, mas a diversas comunidades. Prova disso é o fato de que, apesar do apóstolo Paulo ter convivido durante bastante tempo com essa comunidade, nenhum fato em particular é mencionado. Ao contrário, o apóstolo até parece estar distante da comunidade (Ef 1.15, 4.21). A carta também não responde a nenhum assunto específico local, como é o caso na maioria das epístolas. Além disso, ela não revela um contexto de perseguição, como na época do apóstolo Paulo; ao contrário, “as comunidades estão consolidadas, mas ameaçadas pela rotina e pelo relaxamento devido aos contatos com o mundo pagão. Sente-se a necessidade de afirmar com mais força a pertença cristã, de enunciar com mais clareza a herança cristã que Paulo deixou como fundamento [...]” (p. 19). Em alguns temas nota-se a “evolução” do pensamento paulino: igreja nunca é a comunidade local, mas a reunião/a unidade dessas comunidades, do povo que se integra a essa igreja pelo Batismo, de onde resulta a salvação; a realidade da escravidão é tolerada e não há uma tentativa de superá-la, como na Epístola de Paulo a Filemom; as relações tornaram-se mais hierár-
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quicas e há uma tentativa de moralização; a família está estruturada nos moldes patriarcais, como na sociedade romana, e não há mais a preocupação do apóstolo Paulo em romper, em Cristo, com as diferenças excludentes e discriminatórias entre homens e mulheres, como em Gálatas 3.28. A Epístola aos Efésios assume, por tudo isso, um ar bastante “conservador”. A perícope em questão, Efésios 6.10-20, está inserida na terceira parte da epístola (cap. 4 a 6), de caráter exortativo. Sua linguagem provém do ambiente militar. As pessoas cristãs são conclamadas a vestir-se com a armadura que Deus dá para resistir às “forças espirituais do mal que vivem no mundo celestial” (v. 12). Proveniente do mundo helenístico, está expressa aí a compreensão de que todo o mundo é dirigido por espíritos. Esses espíritos “são forças, poderes, potências espirituais, potências do mal, aparentemente dirigidas pelo diabo [...], lutam contra Cristo e os cristãos. Moram nas regiões intermediárias entre o céu de Deus e a nossa terra. Desde aí podem intervir na existência dos cristãos e perseguir a igreja” (p. 100). A presença de tais espíritos, no contexto da Epístola aos Efésios, manifesta-se na existência do mundo pagão, descrente, que faz pressão sobre a comunidade para corrompê-la em sua fé. Por isso a igreja precisa unir-se. Para salvar o cristianismo, a igreja deve salvar a sua identidade, afirmar a sua separação do mundo antes do que insistir nas suas divisões internas. A luta contra o Império não é luta contra a perseguição, e sim contra a pressão permanente dum mundo decadente. A igreja proclama a sua vitória, deixando a Cristo a tarefa de manifestá-la visivelmente no dia que ele fixar. Para triunfar, essa igreja confia mais no que é, menos no que faz. Luta resistindo (p. 23).
O combate que a igreja precisa travar contra o diabo (em sua origem grega: o confundidor, o desagregador) e as forças espirituais do mal (v. 11s), visíveis na manifestação do paganismo no contexto do Império Romano, são de caráter defensivo. O lema é resistir, não atacar. A força para a luta vem de Deus, e ele oferece a armadura de combate (v. 10s), qual seja (v. 14-17): cingir os rins revestir-se da couraça calçar os pés empunhar o escudo tomar o capacete e a espada do Espírito
com a verdade da justiça com o evangelho da paz da fé (para extinguir os dardos inflamados do maligno) da salvação que é a palavra de Deus
Nos v. 18-20, que fazem a ponte com os versículos finais da epístola, a oração é unida à vigília como um elemento essencial nesse combate defensivo e na busca pela ousadia, pela coragem de falar sem medo diante das pessoas acerca do mistério/segredo do evangelho. (Jesus também falou do evangelho nesses termos [Mt 10.26ss]: O que antes estava oculto agora é revelado, que em Cristo Jesus há salvação para toda a pessoa que crê.) Todo esse
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12o Domingo após Pentecostes
linguajar militar, de combate/luta, não é exclusividade da Epístola aos Efésios. Ele transparece já no livro do profeta Isaías (Is 11.52, 59) e em outras epístolas (Rm 10.1, Ts 5, 1Pe 5). Mas aqui certamente ele é reunido de forma sistemática e unido à idéia de uma igreja que precisa opor-se radicalmente à influência do paganismo para não sucumbir. Nessa visão, cristianismo e mundo estão em total oposição.
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Meditação
Em tempos nos quais nos unimos a grupos, organizações não-governamentais (ONGs), instituições e igrejas parceiras na busca pela vivência da paz (shalom), manifesta também na necessidade de desarmamento e do fim das guerras (nesse contexto, especialmente da luta armada), Efésios 6.10-20, à primeira vista, sem o conhecimento de seu contexto e o reconhecimento da distância cultural, pode causar estranhamento e constrangimento. Situar o texto em seu contexto maior talvez seja, nesse caso, uma necessidade. Para que o texto possa ser experimentado por nós como palavra de Deus, que desperta, promove e fortalece a fé e conduz a uma prática libertadora, gostaria de sugerir ainda algumas pistas para a atualização. Durante um período de aproximadamente cem anos, ocorreu a entrada sistemática de pessoas de fala alemã no Brasil, provenientes de diferentes regiões do território que apenas em 1871 se unificou e se definiu como a atual Alemanha. Essas pessoas trouxeram consigo diferentes bagagens culturais (crenças, valores, tradições e práticas), nem sempre homogêneas entre si. “A” língua alemã, por exemplo, utilizada como principal elemento unificador, constituía-se, na verdade, de diversos dialetos e não de uma única expressão oral e escrita. No Brasil, especialmente na segunda metade do século XIX, a igreja, a escola e a imprensa teuto-brasileira evangélica, por influência da idéia de germanidade que amadurecia na época na própria Alemanha e se refletia no Brasil, atuaram em conjunto na criação de “uma” identidade teuto-brasileira evangélica, movidas pelo “medo da contaminação” (um conceito proposto por Norbert Elias e John Scotson). Isso se dava num processo de diferenciação entre “nós”, alemães, e “eles/as”, brasileiros/as. Acentuavam-se costumes e práticas que diferenciavam uns de outros (identidade contrastiva). Muitas vezes, isso acontecia estigmatizando a outra cultura. Para manter-se como “um” povo (ou criar essa idéia), para manter sua confissão religiosa, seus costumes e suas tradições, por exemplo, casamentos fora do grupo étnico-confessional teuto-brasileiro evangélico foram desestimulados. Esse “medo de contaminação” e conseqüente construção de uma identidade contrastiva, que almejava manter o grupo unido e tinha por conseqüência o “fechamento” do grupo em si mesmo, como já indica o texto de Josué 23.12ss, não foi um “privilégio” do grupo teuto-brasileiro evangélico. Muitos outros grupos de imigrantes no Brasil agiram da mesma forma. Inclusive os próprios teuto-brasileiros evangélicos sofreram estigmatização no período
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12o Domingo após Pentecostes
em que a brasilidade esteve em alta na era de Vargas. Nessas manifestações, sempre há interesses de pessoas e grupos. A questão é saber quem ganha com tais situações e aonde quer chegar. Na Epístola aos Efésios, o “medo de contaminação” é visível. Há uma busca consciente por uma igreja centralizada, que integra as diversas comunidades, faz-se forte através desse processo e torna-se capaz de resistir às influências que vêm do mundo secularizado. A idéia é manter a igreja unida, para que seu poder de mobilização frente às influências externas seja eficaz. José Comblin expressa idéia semelhante quando diz: Tem-se a impressão de que a igreja está cedendo a seus adversários. Mede-se a grandeza da tentação pela grandeza da atração que exerce. A hostilidade do mundo pode não ter crescido. Mas sim a tentação subjetiva de ceder ou a impressão subjetiva de ser derrotado. Em tal condição sente-se a necessidade de lutar mais contra o mundo exterior, de senti-lo como força adversa para poder defender-se melhor contra a tentação de assimilação (p. 98s).
Constatar tal situação (o “medo de contaminação” e suas implicações/ conseqüências) não significa, contudo, justificá-la, incentivá-la ou mesmo reproduzi-la. Talvez, nesse caso, isso nos auxilie a ampliar nossa compreensão em relação às questões que conduziram ao surgimento do texto, a forma que assumiu e sua intenção original. Fica ainda a pergunta pelo risco/perigo de, na tentativa de resistir como igreja e de preservar o evangelho, retê-lo apenas para si. Dando um passo adiante: Profundamente valiosa é a constituição da armadura dada por Deus pelo seu poder que age na cristandade (v.10) nessa luta defensiva: a verdade, a justiça, o evangelho (boa-nova) da paz, a fé, a salvação e a própria palavra de Deus (v. 14-17). A oração torna-se elemento essencial e constante nesse processo. Portanto, se conseguirmos olhar para além do linguajar militar, vamos nos surpreender com o conteúdo que, na verdade, a igreja deseja preservar e, ao mesmo tempo, anunciar com ousadia: Jesus Cristo como o pão do céu que “des-cobre” diante dos seres humanos o projeto de vida do reino de Deus. Na verdade, já não há mais mistério ou segredo (Ef 6.19): Jesus revela-se como o enviado de Deus e dele provém vida, já agora e na eternidade (Jo 6.56ss). Num mundo globalizado como o que hoje vivemos, onde as informações e mercadorias atravessam continentes numa rapidez assustadora, mas marcado, entre outros, pela competição, por desigualdades, por oportunidades distintas para uns e outros, pelo individualismo, a idéia de preservar a identidade, no caso, a identidade evangélico-luterana, ainda que em constante construção, não é ruim; mostra-se como necessidade. Também nós certamente não desejamos ser corrompidos por valores que confundem e desagregam. Vivemos, pois, nessa tensão: manter nossa identidade sem fecharnos em nós mesmos. Nossa “missão” não é apenas interna. Mantendo o foco de nossa confessionalidade (somente por Cristo, somente pela graça, somen-
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12o Domingo após Pentecostes
te pela fé, somente pela Escritura), podemos certamente contribuir no âmbito das relações ecumênicas e, inclusive, estabelecer parcerias sadias com a sociedade civil, sem descuidar das pessoas de “nossa própria casa”. O evangelho de Efésios 6 certamente se revela a nós como motivo de alegria e razão para uma prática diferenciada: Deus investe de poder aqueles e aquelas que o buscam (Ef 6.10); Ele é fiel. (Ele próprio nos mantém unidos consigo, conforme Jo 6.56.) Esse poder concedido nos desinstala de uma rotina que não visa à promoção do evangelho de Jesus Cristo, ainda que sempre possamos recair nela. Utilizando a linguagem de Efésios, diria que o objetivo do combatente não é o combate em si, mas a vitória. Cremos que Deus é Senhor do mundo; por isso não desejamos o afastamento deste mundo, mas cremos no poder de Deus para transformá-lo. Nesse sentido, ainda que a união faça a força, a união ou unidade da igreja não pode ser seu objetivo último, mas o meio para atingir o alvo que almeja. Isso não dispensa, em momento algum, o cuidado e a oração para com o próprio povo que constitui a igreja de Cristo (Ef 6.18). Talvez “o mundo” não precise ser visto como o inimigo, mas poderia igualmente ser o objeto do amor que procede de Cristo através da ação do próprio Deus em nós. Se reconhecemos a ação de Deus em nossa vida pessoal e comunitária (Js 24), se temos uma verdade a anunciar (Jo 6.69), se somos aceitos/salvos por meio da fé e assim nos tornamos aptos para a prática da justiça e para a vivência da paz, com oração constante, se recebemos alimento verdadeiro e temos comunhão com Cristo e com os irmãos e irmãs na Ceia do Senhor (Jo 6.56s), então por que permanecer tímidos em anúncio e ação? Isso ainda não significa exigir exclusividade no anúncio do evangelho.
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Imagens para a prédica
Uma lembrança: Lema bíblico da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) no ano de 2007: “Não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.20). Uma oração: “Ó Deus da Aliança, tu que libertaste o teu povo hebreu da escravidão do império e lhe deste uma terra e um destino, olha para nós com benevolência. Sonhamos com um novo país e buscamos a paz e a justiça. A isso dedicamos o melhor de nós, a fim de construir um futuro para nossos filhos, filhas e netos. Mas reconhecemos que a realidade é dura e muito raramente somos vitoriosos. Faltam-nos a persistência e a humildade para reconhecer que não basta a boa vontade. É preciso aprender a traduzir esses sonhos em propostas e políticas concretas. Isso exige de nós participação cidadã. Nem sempre estamos dispostos a participar. Somos, por vezes, acomodados ou descrentes dos processos democráticos. Ajuda-nos a romper com essa alie-
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nação e ensina-nos a valorizar a coisa pública como deve ser: resultado da participação e da pressão populares. Dá que aprendamos a lutar por nossos direitos e a assumir os deveres cidadãos com honradez. E não permitas que deixemos de vigiar os governantes, assim como deve ser num regime de liberdade democrática. Que saibamos testemunhar o teu nome com uma vida cidadã digna do evangelho da paz. Em Jesus, teu Filho. Amém.” (SCHULTZ, A.; ROESE, A.; DREHER, C. M.; MANSK, E.; ZWETSCH, R. E.; GAEDE NETO, R.; DREHER, S. S. Na passagem do tempo. Orações. São Leopoldo: Sinodal, 2005, p. 25)
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Subsídios litúrgicos
Confissão de culpa: Bondoso Deus, temos recebido tantas bênçãos de tuas mãos: tu nos presenteias diariamente com a vida, tu estás conosco nas pequenas alegrias de cada dia, tu tens nos amparado nos momentos difíceis. Por tudo isso, de nós brotam gratidão e louvor. Reunidos em culto neste dia, também queremos reconhecer diante de ti que nem sempre temos respondido à tua fidelidade e ao teu amor por nós com a mesma intensidade. Nosso falar sobre ti tantas vezes tem sido tímido. Vamos deixando nossa vida cair na rotina. Deixamos de cuidar uns dos outros, assim como Jesus nos ensinou. Deixamos de buscar a unidade de nossa igreja. Deixamos de buscar com ousadia tua justiça e tua paz em nossa realidade. Por nossa fraqueza, ó Deus, pedimos-te perdão cantando, como comunidade: Canto: Perdão, Senhor, perdão! (2x) (Continuidade da confissão de culpa:) Não queremos nos afastar do mundo para viver os fundamentos do evangelho de Jesus; por isso suplicamos que, pelo teu poder em nós, sejamos fortalecidos para superar nossa timidez missionária. Concede-nos sensibilidade diante das necessidades do irmão e da irmã. Concede-nos ousadia na vivência comprometida com a justiça e a paz, dentro e fora de nossa igreja evangélico-luterana. Que assim como Josué e o povo que experimentou a libertação do Egito e o cumprimento de tua promessa em relação à terra também nós possamos dizer com toda a nossa vida e com muita convicção: “Nós também serviremos ao Eterno, pois ele é o nosso Deus”. Amém. Anúncio da graça: Se confessarmos os nossos pecados – Hinos do Povo de Deus, volume 2, n° 409 (1Jo 1.9).
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12o Domingo após Pentecostes
Gesto da paz: (Convidar nesse momento para o gesto da paz, no caso de ser culto da palavra, sem a Ceia do Senhor.) Kyrie eleison: Deus tem permanecido fiel em seu amor para com toda a criação. Em sua fidelidade, ele se mostra sensível a todos os seres da criação que enfrentam situações de sofrimento. Por isso, “pelas dores deste mundo, ó Senhor, imploramos piedade. Apressa-te com tua salvação!” Canto: Kyrie eleison (letra e melodia de Rodolfo Gaede Neto) Glória: Pela fidelidade de Deus; pela vida verdadeira que nos é oferecida por Jesus; pela força do evangelho em nós e em tantas outras pessoas mundo afora, que nos faz buscar, com toda a alegria, a vivência do evangelho da paz e da justiça; pelas iniciativas de igrejas parceiras, de ONGs e de entidades civis na busca por vida boa para toda a gente e para toda a criação de Deus, nós glorificamos a Deus cantando: Canto: Louvemos todos juntos o nome do Senhor! (Hinos do Povo de Deus n° 349) Oração da coleta: Querido Deus, tu que foste fiel a teu povo, conduziste-o da escravidão para a liberdade e o fizeste habitar numa terra onde havia fartura, tu que em Jesus Cristo concedeste-nos a possibilidade de vida verdadeira já agora e no futuro, anima-nos por tua Palavra para que também nós sejamos fiéis, confessando-te como nosso senhor e salvador. Que tua missão seja a razão de nossa vida. Que nosso testemunho concreto se faça sentir dentro e fora de nossa Igreja Evangélica de Confissão Luterana. Continua a revestir-nos com tua verdade, com tua justiça, com o evangelho da paz, com o anúncio da salvação a toda pessoa que crê para que nossa vida toda seja um testemunho do evangelho, oferecido a nós por graça em Jesus Cristo. Fortalece-nos na prática da oração e da ação comprometida. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina, de eternidade a eternidade, nós oramos. Amém. Oração de intercessão: “Dá-nos olhos claros, que vêem o irmão [a irmã]; dá, Senhor, ouvidos que dão atenção! Mãos que aprenderam dores a aliviar, pés que não hesitam na hora de ajudar!
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Corações que sabem repartir a dor, partilhar prazeres, propagar louvor! Lábios que, contentes, abrem-se a cantar, convidando todos para se alegrar! Pelos dons que deste: Graças, ó Senhor! Pois os recebemos por teu grande amor. Nada nos pertence; tudo Deus quer dar: Quer por nós, em Cristo, o mundo abençoar.” (Hinos do Povo de Deus, v. 1, n° 166) Sugestão de canções: Hinos do Povo de Deus, volume 1: n° 233 (Até aqui me trouxe, Deus); Hinos do Povo de Deus, volume 2: n° 443 (Resistência); Hinos do Povo de Deus, volume 2: n° 328 (Um só rebanho); Hinos do Povo de Deus, volume 2: n° 336 (Quando o povo se reúne).
Bibliografia COMBLIN, José. Epístola aos Efésios. Petrópolis: Vozes/Imprensa Metodista/ Editora Sinodal, 1987. DREHER, Scheila dos Santos. “O pontinho da balança”: história do cotidiano de mulheres teuto-brasileiras evangélicas no sul do Brasil, na perspectiva do privado e do público. Dissertação (Mestrado) – Programa de PósGraduação em Teologia, Instituto Ecumênico de Pós-Graduação, São Leopoldo, 2007.
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PRÉDICA: MARCOS 7.1-8,14-15,21-23
13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
DEUTERONÔMIO 4.1-2,6-9 TIAGO 1.17-27
30 AGO 2009
Pedro Kalmbach
1
Introducción
El texto de Marcos muestra la divergencia entre Jesús y los judíos ortodoxos de su tiempo. Estos, con el correr de los años, fueron construyendo a partir de la ley de Moisés una religión basada en prohibiciones y en observancias puntuales y formales. De esta manera existía una serie de reglas y reglamentaciones que gobernaban las acciones y las diferentes situaciones de la vida. La preocupación por cumplir estas reglas llegó a opacar la propia Ley de Dios en su significado original y en su importancia para la vida. Ya no importaba tener “estatutos y juicios justos como la ley” (Dt 4:8) que Dios había dado al pueblo de Israel en su travesía por el desierto. Jesús no quiere saber nada de este tipo de religión y acusa a los fariseos y escribas el hecho de abrazar la tradición de los seres humanos a cambio de abandonar el mandamiento de Dios.
2
Sobre el texto
En este texto adquiere relevancia, como lo señala el comentario de Elaine Gleci Neuenfeld (PL XXXI), el tema de la pureza y de la impureza en cuanto delimitadora de la identidad de un grupo. Los discípulos habían dejado de cumplir ciertas reglas de pureza, en relación a las comidas, que eran propias del judaísmo de la época. Por esta razón, un grupo de fariseos y de escribas reprochan a Jesús el hecho de que sus discípulos estaban transgrediendo la tradición de los ancianos. Jesús les contesta con un reproche aún mayor porque parte de la base de que la preocupación de sus interlocutores se refiere al cumplimiento de los mandatos de Dios y con ello a tener la bendición de él. Citando al profeta Isaías los acusa de hipócritas, y señala que ellos se aferran a la tradición de los hombres dejando de lado el mandamiento de Dios (vs 68). En los vs 9-13 Jesús da un ejemplo de esta actitud mostrando cómo las leyes de la tradición estaban invalidando la palabra de Dios. Seguidamente se dirige a las demás personas que estaban presentes en el lugar y les habla sobre las transgresiones que son causa de impureza ante los ojos de Dios. Las mismas se refieren al ámbito de las relaciones pasando de esta manera de la observancia de rituales, ceremonias y reglas cultuales (insistencia de los fariseos y maestros de la ley) a la observancia de lo ético.
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13o Domingo após Pentecostes
De esta manera las acusaciones de Jesús hacia los fariseos y maestros de la ley tienen que ver básicamente con lo siguiente: a) El legalismo en que habían caído. Esto los llevó a que se preocuparan por las prácticas exteriores sin importar el corazón ni los pensamientos. Por eso los tilda de hipócritas. b) El hecho de que hayan substituído las leyes de Dios por la tradición y por los argumentos e interpretaciones de los expertos legales. Esto llevó a que se olvidaran que las acciones importantes son aquellas que hacen a las relaciones humanas (de los seres humanos entre sí y de estos con toda la Creación). Al declarar que nada de lo que entra en el ser humano puede contaminarlo, Jesús está haciendo una afirmación fuerte, casi revolucionaria, frente a los expertos de la ley. En Levítico 11, por ejemplo, aparece una larga lista de animales impuros que no pueden ser usados como alimento. En diferentes momentos de la historia del pueblo de Israel esta ley fue tomada muy en serio. Así por ejemplo, en la época de los Macabeos el rey sirio Antíoco Epífanes queriendo extirpar la religión judía exigió que los judíos comieran carne de cerdo. Mucha gente murió en esa ocasión por negarse a comerla debido a que se trataba de un animal considerado inmundo (1° Macabeos 1:62-63). En el segundo libro de los Macabeos, capítulo 7, se narra la historia de una viuda que tuvo que presenciar la tortura y muerte de sus siete hijos que se negaron a comer carne de cerdo. Por eso no sorprende que hasta los discípulos de Jesús estuvieran asombrados por sus afirmaciones, pues con ellas estaba menospreciando y borrando las leyes por las cuales muchos judíos habían sufrido y muerto. Jesús declara limpios todos los alimentos y afirma que lo que contamina al ser humano es lo que sale de él. Seguidamente enumera una lista de cosas que salen del corazón humano y que son impuros ante los ojos de Dios (vs 21-23). Todas ellas, como ya fue señalado, tienen que ver con el ámbito de las relaciones humanas.
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Meditación
Desde que tengo memoria buena parte del mundo occidental se define como “la sociedad occidental y cristiana”. Hasta hace aproximadamente 12 o 15 años atrás el presidente de la República Argentina debía profesar la fe cristiana según la Iglesia Católica Apostólica Romana. Hasta el día de hoy muchos gobernantes (diputados, senadores, gobernadores) juran sobre la Biblia desempeñar fiel y honestamente sus funciones y luego, la mayoría de las veces, no cumplen con lo prometido. Protocolos, formalidades, reglas, residuos de una historia de conquista y de cruzadas. Pero, ¿qué es realmente importante ante Dios? ¿Cuántas veces en la vida nos manejamos también nosotros con protocolos y formalidades y pensamos que de esa manera obramos correctamente? Los textos nos confrontan hoy con la pregunta sobre el por qué de nuestra decisión de ser cristianos. Ellos nos interpelan y nos “sacuden” ante
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la tendencia de dejarnos llevar por la inercia de las costumbres y de las formalidades. A Dios no le interesan las formalidades, tampoco el “hacer de cuenta”. “Sed hacedores de la palabra y no tan solo oidores” (Stgo 1:22). Lo que importa es lo que sale del corazón y no el simple cumplimiento de reglas y de observancias. Dios quiere que se cumpla su mandamiento y este se refiere a la relación con él y entre los seres humanos. Los textos nos invitan a tomar conciencia de nuestras actitudes y a evaluarlas a partir de lo que afirmamos que creemos. “Busquen ser coherentes”, podrían haber dicho Jesús y el autor de la carta de Santiago. “Si dicen que creen en Dios no conviertan sus costumbres, ni sus tradiciones sociales y culturales en el centro de sus vidas, pues eso es creado por las personas.” A partir de aquí surgen desafíos para la vida de las comunidades cristianas, especialmente para aquellas que centralizaron sus actividades y su dinámica alrededor del seguimiento de determinadas tradiciones y costumbres, o que colocan en el centro de la vida cristiana el mantenimiento de reglas y de leyes morales sin preguntarse por el sentido ético de las mismas. Lo que importa es lo que sale del corazón en la relación con el prójimo y con toda la Creación de Dios. Es por eso que la vida cristiana no consiste en el cumplimiento de formalidades, ni de tradiciones sino en “visitar a los huérfanos y a las viudas en sus tribulaciones” (Stgo 1:27), en “amar a Dios sobre todas las cosas y al prójimo como a uno mismo” (Mt 22:37-38). Creo que en la situación social y económica que estamos viviendo, situación marcada por la veneración del consumo y de la confianza en lo material, los textos también nos interpelan y “sacuden” ante la tendencia de depositar nuestra confianza en las cosas hechas por el ser humano. Los textos quieren “quebrar” esa confianza y motivarnos a confiar en el poder interno que nace a partir de la fe en Cristo Jesús. Este giro en la confianza puede significar consuelo y liberación, realización y llamado, especialmente allí donde las condiciones externas se muestran frágiles y pasajeras. Sobredimensionar la importancia de lo material y del consumo lleva al peligro del vacío existencial y del quiebre allí donde se fracasa en el cumplimiento de las exigencias que imponen las leyes de la lógica consumista, o donde no se dispone de los medios para cumplirlas.
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Imágenes para la predicación
En muchas iglesias es conocida la siguiente expresión: “Hay personas que son cristianas los domingos en el culto pero durante la semana viven como si no conocieran a Cristo. O también: cristianos de cuatro tiempos, porque solamente aparecen para el bautismo, la confirmación, la bendición nupcial y el sepelio”. Cuántas veces sucede que personas desean celebrar bautismos, confirmaciones o bendiciones nupciales motivadas por la tradición o por lo que supuestamente corresponde realizar para estar bien ante Dios y ante la
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comunidad. Es interesante señalar que tradicionalmente la confirmación es el momento en que la persona profesa su fe y expresa el deseo de integrar la iglesia en la que se confirma. Sin embargo las estadísticas muestran que por lo menos un 80% de los jóvenes que se confirmaron dejan de participar de las actividades de su comunidad cristiana una vez confirmados. Se puede hablar de las apariencias y formalidades presentes en la propia comunidad. En cuántas comunidades no sucede que en algunos grupos se habla de otras personas (no presentes en el grupo) señalando sus errores, emitiendo juicios de sus actitudes (chusmerío, fofoca), queriendo aparentar ser mejores que ellos. Al respecto una historia: En una ocasión alguien le dijo a Sócrates: “Escúchame Sócrates, tengo que contarte algo de tu amigo…” “Espera”, le dijo el sabio. “Eso lo que me vas a contar ¿lo pasaste por los tres coladores?” “¿Los tres coladores?”, preguntó el otro. “Sí, mi amigo. Los tres coladores. Déjame ver si lo que me vas a contar lo pasaste por los tres coladores. El primer colador es el de la verdad. ¿Comprobaste si lo que me vas a contar es cierto?” “No sé. Yo escuché que alguien lo dijo.” “Aha. Bueno. Pero seguramente lo pasaste por el segundo colador. Ese es el colador de la bondad. Lo que me vas a contar, ya que no sabés si es totalmente cierto, ¿es algo bueno?” Molesto el otro contestó: “No, al contrario, es algo…” Sócrates lo interrumpió: “Entonces por lo menos hay que pasarlo por el tercer colador. Eso lo que me vas a contar, ¿es necesario que me lo cuentes?” “Bueno, necesario no es.” Sonriendo Sócrates le dijo: “Si lo que me vas a contar no es cierto, no es bueno y no es necesario ¡déjalo enterrado y no te preocupes ni me preocupes a mí con eso!” Ideas para ser trabajadas con grupos Podría ser interesante y desafiante trabajar con jóvenes, con adolescentes u otros grupos el tema de las apariencias e incoherencias. De esa manera puede realizarse una teatralización en la cual se presentan escenas de nuestra vida que tienen que ver con incoherencias, con el sobredimensionamiento de la tradición, con apariencias (P.ej.: Una pareja muy religiosa que va mucho a la iglesia; en el día a día ella vive mirando las novelas y él vive haciendo negocios – compra de tierras y de bienes – aprovechándose de la situación crítica de los pequeños colonos, comprando bienes a la mitad de su valor. Tienen una hija a la que le dan muchas cosas materiales pero no le brindan de su tiempo ni afecto. La hija tiene serios problemas afectivos y de relación. Ella termina siendo adicta.).
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Subsidios litúrgicos
Confesión de pecados: Bondadoso y eterno Dios, te pedimos perdón porque tantas veces colocamos en primer lugar nuestras tradiciones mientras nos vamos volviendo insensibles y ciegos, ignorando los espacios de muerte en nuestra sociedad y en nuestras iglesias. Perdónanos nuestras indiferencias frente al sufrimiento y frente a la destrucción de la vida. Perdónanos por nuestros prejuicios, por no correr las grandes piedras de la intolerancia, por el desprecio que muchas veces expresamos por quienes son diferentes a nosotros. Perdónanos por no ser fuentes de vida nueva que nos permita compartir y festejar allí donde otras personas ven solamente miedo y muerte. Perdónanos porque tantas veces vemos “la paja en el ojo ajeno” sin darnos cuenta del “tronco que llevamos en el propio ojo”. Por todo eso, Padre nuestro, pedimos perdón. Anuncio de la gracia: “Pues por la bondad de Dios han recibido ustedes la salvación por medio de la fe. No es el resultado de las propias acciones, de modo que nadie puede gloriarse de nada.” (Ef 2:8ª,9) Rindamos gloria a ese Dios bondadoso cantando: … Oración de colecta: Bondadoso y eterno Dios, vos nos liberás de nuestro orgullo y nos transformás en personas tolerantes, abiertas, capaces de amar. Imploramos por tu presencia liberadora en este culto. Ábrenos los corazones y las mentes para que tu Palabra sea nuestra fuente de orientación, de esperanzas, de consuelo, de comunión. Te lo pedimos humildemente por Cristo Jesús, tu Hijo y nuestro Señor. Amén. Oración de intercesión: Bondadoso y eterno Dios, tu nos amaste primero y nos sigues amando. Tú te entregaste a nosotros y te sigues entregando. Tú te colocaste a nuestro servicio y nos sigues sirviendo. Es por eso que también nosotros podemos amar, entregándonos y sirviendo a las demás personas. Te pedimos que nos ayudes a liberarnos de las formas y tradiciones que muchas veces nos mantienen “atados” y no nos permiten dar testimonio de tu misericordia y justicia. Te pedimos por las personas que no pueden sentir tu amor y tu presencia en sus vidas y que por eso tampoco se sienten llamadas a servir y a amar. Dales, oh Dios, el consuelo y la paz que vienen de ti. Buen Dios, pedimos por las personas que están enfermas. Házte presente en sus vidas, dales tu sustento para que puedan recuperarse. Otórgales
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el apoyo diaconal de familiares, de amigos y de la comunidad. Intercedemos por las familias que enfrentan situaciones de conflicto por causa de una crisis conyugal, por causa de adicciones, por la falta de trabajo, o de otro problema. Dales tu Espíritu, para que en medio del conflicto puedan encontrar la orientación y la sabiduría necesarias y que así pueda reinar el diálogo y la búsqueda sincera de soluciones. Bondadoso y eterno Dios, te pedimos por las iglesias cristianas en el mundo entero y por nuestra comunidad aquí. Ayúdanos a ser fieles testigos tuyos en este mundo que está tan cargado de dolor y de egoísmo. Dios Padre, todopoderoso, te pedimos por los gobernantes y por todas las personas que tienen cargos de responsabilidad en el Estado y en las demás instituciones. Ábreles el corazón y las mentes para que puedan ejercer su responsabilidad con coraje, sabiduría y sensibilidad. Para que trabajen y gobiernen en función de la dignidad de las personas y no de los propios intereses y del propio bolsillo. Te lo pedimos por Cristo, nuestro Señor y salvador. Amén.
Bibliografía BARCLAY, William. El Nuevo Testamento comentado. V. 3; Marcos. Buenos Aires: La Aurora, 1987. TAYLOR, Vincent. Evangelio según San Marcos. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1979.
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PRÉDICA: ISAÍAS 35.4-7a
14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
MARCOS 7.24-37 TIAGO 2.1-10 (11-13), 14-17
06 SET 2009
Renato Küntzer
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Introdução
O 14º Domingo após Pentecostes é véspera da comemoração da Independência do Brasil. Além de sua temática própria, dada pelos textos indicados, motiva-nos a pensar sobre cidadania e vida no contexto deste país de contrastes e diferenças sociais gritantes. O imperativo de fortalecer os desanimados, tendo como motivação o fato de que Deus está aqui, é fortalecido pela forma como os textos trazem a temática desse domingo e tem uma relação entre si. Em Isaías, a presença está associada à sua manifestação histórica na condução do povo à libertação do exílio e o retorno a Sião, na cidade de Jerusalém. No texto do evangelho, indicado de Marcos 7.24-37, Jesus achase voltado em misericórdia para a existência de todos os seres humanos, mas em especial aos mais necessitados e sofridos. A unidade temática do culto e da prédica é complementada com a leitura do texto de Tiago 2.1-10(11-13),1417, que resgata a preferência que Jesus dá aos necessitados, sofridos e excluídos, única preferência que se justifica na sociedade, pois sofrem opressão, perseguição e têm a justiça distorcida. A centralidade do amor ao próximo necessita concretizar-se na prática da misericórdia. Assim, o tema do culto está centrado na necessidade de denunciar a injustiça e de anunciar o consolo a partir da veracidade da presença de Deus aqui. É a motivação bíblico-teológica para a atuação misericordiosa e diaconal da comunidade cristã.
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Considerações sobre o contexto
O livro de Isaías é um produto literário de um processo de releituras. Essa característica forma uma concepção da função da atividade do profeta e da palavra de Deus. A mensagem profética, que é a palavra de Deus, é sempre dita para dentro de uma realidade bem própria, específica. Nosso texto faz parte daquilo que os exegetas classificam de livro de Isaías, o profeta histórico, que abrange os capítulos 1 a 39. Essa produção literária de Isaías, o profeta histórico, sofreu releituras dos autores/redatores (Dêutero e TritoIsaías), o que acabou resultando no livro de Isaías assim como o temos na Bíblia. No trajeto desde a atuação do profeta Isaías (iniciada por volta de 740
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a.C.) até a redação do atual livro (400 a.C.), o povo de Judá conviveu com as dominações assíria, caldéia e persa. Nesse período, situam-se o exílio babilônico, o fim da monarquia e as tentativas de restauração pós-exílica. Nesses quatro séculos, a mensagem profética foi reelaborada ou reescrita para que mantivesse sua importância atual. A chave para as releituras era a constante pergunta: O que Deus diz agora? Após colecionar com entusiasmo os textos proféticos, de tempo em tempo ocorriam atualizações e releituras dos textos originais. Isso provocava alterações nos acentos teológicos por causa da realidade específica na qual se vivia e onde o texto era relido. Para Isaías, o profeta histórico, e para a realidade sociopolítica e religiosa do século VIII a.C., a cidade de Jerusalém evocava condenação e castigo por causa da corrupção e da maldade de seus governantes. Essa imagem de Jerusalém se modifica no período persa, quando o anúncio profético de Dêutero-Isaías destaca que Deus é fundador de Sião (lugar do Templo) e protetor dos pobres que vivem na cidade de Jerusalém. A cidade e a tradição de Sião passam a representar o objetivo da libertação do exílio. Passam a ser o lugar dos mandamentos (Is 2.2-5), lugar de abrigo e refúgio para os pobres do povo (Is 14.32). Para o período pós-exílico, era necessário animar a comunidade de exilados a retornar para Jerusalém. A cidade despertava a esperança de um acontecimento salvífico e, em especial, o lugar Sião, que Deus voltara a ocupar como antes. Fazia-se necessária uma nova palavra, que animasse para a esperança. Isso vale especialmente para o texto de Isaías 35, provavelmente uma produção do período pós-exílico, com referências e temas do Dêutero-Isaías, com datação do século V a.C.
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Considerações exegéticas sobre Isaías 35.4-7a
O texto para a pregação faz parte de uma composição maior dos capítulos 34 e 35, com a influência do Dêutero e Trito-Isaías. Os exegetas consideram o capítulo 35 um trabalho redacional programático, necessário para o capítulo 34 e o restante do livro, incluindo como anúncio da salvação a restauração e renovação de Israel. É o fecho de todo o conjunto do livro de Isaías. Quanto à delimitação do texto, como proposta de pregação, é coerente. O imperativo “digam aos desanimados” dá início ao tema bem definido e delineado para a pregação. O imperativo: “Digam aos desanimados: Não tenham medo; animem-se”. O fundamento: “O nosso Deus está aqui. Ele vem para nos salvar, ele vem para castigar os nossos inimigos”. As conseqüências: Os cegos verão, os surdos ouvirão, os aleijados pularão e dançarão, os mudos cantarão de alegria. Fontes brotarão no deserto, rios correrão pelas terras secas.
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A areia quente do deserto virará um lago, haverá muitas fontes nas terras secas. Nosso texto cultiva uma profecia acentuadamente positiva. Encontrase num frente-a-frente bastante imediato a seus ouvintes. Tem como destinatários pessoas desanimadas, acolhendo-as, exortando-as à firmeza e à confiança. A causa do anúncio é “o nosso Deus está aqui”. Não se trata de uma divindade distante, indiferente. O “nosso Deus” é um Deus próximo, atuante. Esse anúncio se repete em Isaías 40.9, quando o mensageiro de boas notícias fala bem alto: “O seu Deus está chegando”. É o Deus que retorna à sua cidade de Jerusalém e a seu lugar, Sião, de onde provocará um acontecimento salvífico. Isaías anuncia à cidade de Jerusalém e Sião o lugar eleito por Deus como o lugar que acolhe, defende e organiza o povo liberto. Será pelo reinado de Deus em Sião o lugar para o qual afluirão todos os povos da terra e de onde se manifestará o domínio universal de Deus (Is 2.1-5). “Ele vem para nos salvar, ele vem para castigar os nossos inimigos.” Para os exilados que retornam, a salvação. Para seus opressores, a vingança e o castigo. Os que agiram com violência e opressão contra seus semelhantes serão castigados. Aqueles que sofreram a injustiça da opressão serão salvos. Deus vem para vingar (Is 34), mas também vem para presentear (Is 35). O domínio de Deus manifesta-se na punição e na salvação. Em termos proféticos, ocorrem uma denúncia e um anúncio. Teologicamente, o anúncio tem prioridade, mesmo que o específico da profecia seja a denúncia. Mas aqui a denúncia e o anúncio convivem em tensão. São da autonomia e exclusividade do agir de Deus. Deus não age com se nada tivesse ocorrido. Não acoberta a história. O que se passa na vida das pessoas envolvidas não é acidente. Não é acaso, nem fruto do destino. É resultado do proceder justo ou injusto dos seres humanos, está sujeito ao agir salvador ou punitivo de Deus. O Deus que castiga também consola e anima: “Digam aos corações desanimados: sejam fortes. Não tenham medo”. Quem não é alvo do castigo de Deus deverá experimentar sinais de salvação. Participar do agir salvador de Deus traz conseqüências expressas numa linguagem de muitas comparações. Tudo acontecerá de uma forma verdadeiramente espetacular. Os v. 5-6a não pretendem anunciar o milagre de curas. A intenção é acentuar a experiência espetacular da libertação, da perspectiva do retorno para casa (Jerusalém e Sião). As deficiências são símbolos da experiência corporal e espiritual que o povo vivenciou no período do exílio. Agora há a perspectiva da superação do sentimento de cegueira, surdez, paralisia e mudez, símbolos e sinais de submissão ao destino e acaso. Por isso o desânimo. Quem não visualiza a presença de Deus cai em desânimo, adere ao fatalismo, acomoda-se às circunstâncias. O anúncio da presença de Deus transforma corpo, mente e espírito. Muda o ânimo e a esperança. Provoca uma nova visão da realidade e traz uma nova perspectiva de vida. A superação da aridez da seca e do perigo do deserto (v. 6b-7) simboliza uma mudança na condição de vida do povo. Fontes, rios e lagos anunciam
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14o Domingo após Pentecostes
um novo lugar, uma nova realidade de vida. O novo lugar, a casa, passará por transformação. E essa transformação priorizará a vida. Vida em abundância e com segurança. Os sinônimos enfatizam essa natureza de sentimentos em mudança.
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Meditação
4.1 – A necessidade urgente de anunciar e denunciar Profetas são mensageiros e visionários. São mensageiros da palavra de Deus. Atendem ao imperativo e à urgência de anunciar e denunciar. Deus está aí, tanto para castigar como para salvar. É a tradicional tensão, na linguagem protestante, da lei e do evangelho. São visionários, pois aguçam a atenção para ver a realidade em sua volta com profundidade. Querem ver e falar das coisas com transparência para agir com fidelidade a Deus. Como não falam em seu próprio nome, são mensageiros das propostas de Deus e das realidades vividas pelo povo. Ambas são parte de sua mensagem. Lá e cá, o imperativo de falar aos corações desanimados é a razão do anúncio e da denúncia. A experiência de lá ajuda a entender as questões de cá quando se trata de ser mensageiro e visionário no Brasil e na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). O desânimo do povo de Deus no pós-exílio e as esperanças às quais foi motivado pelo anúncio são similares ao nosso desânimo e à necessidade de esperança. Lá e cá se constatam realidades e situações de vida. Dá para sentir na pele o desânimo e a necessidade urgente de falar. É a palavra de Deus fazendo-se presente na realidade. A situação é visível; não há o que esconder e nem dá para tampar o sol com a peneira. Há que se anunciar palavras de esperança. Também não há como permanecer nessa situação por mais tempo. Não é destino, não é uma questão de sorte ou azar, não se trata de competência ou falta dela. A sombra do desânimo morde o calcanhar das pessoas ainda que elas vejam, ouçam, caminhem. É a ameaça de perder o emprego ou de nunca encontrá-lo, perder as condições financeiras de sobrevivência ou de nunca chegar a conquistá-las. Enfim, não há meio de garantir a súbita maldição da perda. Até um grande ganhador torna-se, da noite para o dia, um fracassado e um perdedor. Quem não teme ficar para trás por causa das novas tecnologias, da globalização, da fuga das indústrias, da concorrência da mão-de-obra cada vez mais barata, do avanço das máquinas que não necessitam de salário, férias, gratificação nem aposentadoria? Vivemos no pleno gozo da liberdade. Temos a liberdade de consumir, ao mesmo tempo em que isso se tornou um desejo distante ou impossível para a maioria. Em seu livro “De pernas pro ar”, o escritor e historiador uruguaio Eduardo Galeano convida a delirarmos um pouquinho sobre a esperança em relação ao futuro e escreve entre outras:
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As pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador, nem compradas pelo mercado e nem olhadas pelo televisor. O televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar e a máquina de lavar roupa. As pessoas trabalharão para viver ao invés de viver para trabalhar. Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão de qualidade de vida a quantidade de coisas. Os historiadores não acreditarão que os países gostam de ser invadidos. Os políticos não acreditarão que os pobres gostam de comer promessas. A morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes, e nem por falecimento nem por fortuna o canalha será transformado em virtuoso cavalheiro. A comida não será uma mercadoria e nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos. Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão. Os meninos de rua não serão tratados como lixo, porque não haverá meninos de rua. Os meninos ricos não serão tratados como se fossem dinheiro, porque não haverá meninos ricos. A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la. A polícia não será o terror de quem não possa comprá-la. A justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viver separadas, tornarão a unir-se, bem juntinhas, ombro a ombro. Serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma. Os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados.
4.2 – A tarefa de falar aos desanimados: nosso Deus está aqui Temos a tarefa de falar aos desanimados. Essa tarefa vem da constatação de que o nosso Deus está aqui. Temos a tarefa profética de apontar para a presença de Deus em nossa realidade. Deus quer manifestar a si mesmo: é o que é. O Deus do evangelho não é coisa, nem objeto, nem idéia, princípio, verdade ou soma de verdades. O Deus do evangelho não é nenhum Deus solitário e que fosse recluso em si mesmo. Não tem a seu lado ninguém que lhe seja igual e pelo qual fosse limitado e condicionado. Por isso um Deus junto ao ser humano e, antes de tudo, a favor dele. Deus é capaz de se compadecer, de estar junto e estar a favor do ser humano. E isso se refere não só ao falar, mas também à sua existência dentro do mundo, à sua disposição frente aos problemas políticos, sociais e econômicos, à sua própria ordem interna, como também à sua ação na diaconia. Essa presença se dá na denúncia e no juízo sobre as pessoas e grupos responsáveis pela injustiça. Não é assim que a injustiça ficará impune ou que o sofrimento de pessoas é resultado do azar, do destino ou de sua própria ineficiência. A presença de Deus dá-se na revelação da boa-nova do evangelho em Jesus Cristo, quando esse questiona a teologia da retribuição, tão presente no
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Antigo Testamento e em nosso texto, onde o juízo e o castigo são para uns, a graça e a salvação para outros. Jesus vai mais fundo e levanta a perspectiva de que estar sob o juízo e a graça de Deus é uma condição universal. Juízo e graça caminham juntos, ombro a ombro. Estão presentes na vida de Jesus quando se aproxima de pecadores e entra em conflito com as autoridades religiosas puritanas. Jesus é alguém que provoca uma crise profunda e radical nas pessoas. Jesus desconcerta de forma extremamente aguda quando assume atitudes que só são cabíveis a Deus, perdoa pecados, faz milagres e acolhe pecadores. Em sua pregação e ação, Jesus afirma a presença de Deus: Deus e seu reino vêm. Assim Deus e o ser humano não podem ser aprisionados dentro de estruturas pré-fixadas, sejam sociais ou religiosas. O ser humano não pode viver exclusivamente para si, mas deve estar aí para o outro e para Deus. A experiência religiosa pode libertar as pessoas, assim como pode também escravizar quando usada de forma abusiva. Com Jesus um velho mundo acaba. Revela-se outra realidade, na qual as pessoas têm a oportunidade de ser aceitas pela prática do amor e do serviço em favor do próximo como condição imprescindível para o resgate de sua dignidade. A presença de Deus dá-se na reação indignada de pessoas e comunidades diante de situações mascaradas como destino, fatalidade e que normalmente ficam impunes. Deus está aqui à medida que o Espírito Santo, a presença real e eficiente de Deus entre nós, transfere esse evangelho para dentro de nossa realidade e a causa do evangelho se torna uma realidade viva e salvadora.
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Imagem para a prédica Parábola da laranjeira
Ao voltar de uma caminhada no final da tarde, deparei com uma cena interessante: vi um jovem de aparência humilde colhendo laranjas. Interessante que o jovem não havia invadido o pomar, nem pulado o muro cheio de setas pontiagudas e de cacos de vidro. No entanto, o jovem colhia laranjas do pé que estava plantado no lado de dentro do muro intransponível. Ele o fazia desde a calçada do lado de fora do muro. Os galhos da generosa laranjeira haviam ultrapassado o muro, sem a permissão de seu proprietário, e ofereciam seus frutos a quem os necessitasse. Assim é Deus. O Deus do evangelho é o Deus que de sua parte se acha voltado em misericórdia para a existência de todos os seres humanos, mas em especial aos mais necessitados e sofridos. Permanece o Deus que continuamente se dá a conhecer e que continuamente precisa ser descoberto e redescoberto. Não se pode dispor dele. O fato dele ser distinto de outros deuses, sendo o único Deus, só pode ser obra dele, não substituída por nenhuma ciência humana ou teologia que tenha Deus como único. O risco é
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quando pela familiaridade com Deus determinadas comunidades e igrejas querem tê-lo exclusivamente e acumular glória só para si mesmos.
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Subsídios litúrgicos
Kyrie: – Clamamos por aqueles que nada mais sentem: nem vontade de rir, nem de chorar, nem amor, nem dor, nada. Pessoas anestesiadas, indiferentes e vazias. – Clamamos por aquelas pessoas que, entregues a uma torrente contínua de emoções e imagens, já não são capazes de diferenciar desejos pessoais de necessidades humanas. – Clamamos por aqueles que, cheios de dívidas, dúvidas e vazios de esperança, suspiram: “tudo está consumido”, perdendo o referencial da vida. – Como naquele dia em que se fez noite de repente, hoje clamamos a ti, esperando e confiando: ressuscita para o sentido da vida essas tantas pessoas que seguem em agonia. Oração de coleta: Misericordioso e bondoso Deus. Tu nos reúnes como reuniste teu povo disperso no exílio, manifestando teu amor e consolo através do falar e do agir de profetas. Tens bons propósitos em vista. Queres a vida de teus filhos e filhas. Tu planejas vida em abundância, extensiva a toda a tua boa criação. Anima-nos e consola-nos neste momento em que nos encontramos de mente e corações abertos para o anúncio e a vivencia da tua Palavra. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo reina de eternidade a eternidade. Amém. Oração de intercessão: Deus volta-se em misericórdia para a existência de todos os seres humano e de sua criação. Deus encarrega sua comunidade de anunciar consolo e esperança aos desanimados, entristecidos e à boa criação de Deus, menosprezada e explorada. Por isso oramos por pessoas e pelo mundo. Pela igreja, suas lideranças, seus obreiros e obreiras, que se manifestam com voz profética, sem medo de denunciar as injustiças e anunciar o juízo e o amor de Deus para a edificação de sinais concretos do reino de Deus aqui e agora. Por nosso país e por seus governantes, para que se convertam à justiça e tenham discernimento em suas decisões, que afetam a dignidade de seres humanos, permitindo o exercício pleno da cidadania. Pelas famílias e suas limitações na vivência do amor e do serviço em favor do outro, pelas pessoas fragilizadas na enfermidade, no luto, na solidão. Torna a comunidade a grande família que possibilita proximidade, inclusão e cuidado. Deus de amor e misericórdia, atende nossas súplicas. Amém.
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Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías 1-39 – O Profeta da justiça e da fidelidade. V. 1. São Paulo: Imprensa Metodista, 1989. GOTTWALD, Norman K. Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica. São Paulo: Edições Paulinas, 1988. p. 355-364. SCHWANTES, Milton. Sofrimento e esperança no exílio. São Leopoldo: Editora Sinodal; São Paulo: Edições Paulinas, 1987. p. 88-102.
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PRÉDICA: MARCOS 8.27-38
15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
ISAÍAS 50.4-9a TIAGO 3.1-12
13 SET 2009
Erní Walter Seibert
1
Introdução
O texto de Marcos 8.27-38 marca o início da preparação de Jesus para sua morte e ressurreição. Os discípulos tinham ouvido muitos ensinamentos, assistido a muitos milagres e fatos extraordinários. Poderiam ter uma idéia unilateral da missão de Jesus. Poderiam pensar na obra de Cristo como sendo apenas de poder e glória. Poderiam esquecer-se do sofrimento, da cruz. No texto do evangelho para este domingo, há duas partes interconectadas. Na primeira, v. 27 a 30, os discípulos reconhecem Jesus como o Messias. Olhando para sua experiência com ele, não poderia haver dúvida: Jesus era o Messias. O povo reconhecia que Jesus era alguém importante. Falavam dele como sendo um novo João Batista, ou Elias, ou um profeta. Os discípulos sabiam que Jesus era o Messias. A palavra Messias (um termo hebraico) significava o mesmo que, em grego, significava a palavra Cristo, a saber, ungido. Jesus era o ungido, o salvador prometido, aquele que libertaria o povo. Mas que libertação seria essa? Como ela seria alcançada? Para responder essas perguntas Jesus fala, nos v. 31 a 38, de sua morte e ressurreição e pede discrição aos discípulos. Eles não deveriam falar sobre isso.
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Exegese
O texto começa localizando o episódio geograficamente. Os discípulos estavam perto de Cesaréia de Filipe. O episódio imediatamente anterior (Mc 8.22-26) tinha acontecido em Betsaida. O povoado de Betsaida ficava na Galiléia, ao norte do mar da Galiléia. Jesus e os discípulos agora estavam rumando para a Judéia, portanto para o sul. Cesaréia de Filipe ficava na Samaria, região mais próxima do mar Mediterrâneo. A transição geográfica indica que também há uma transição no tipo de acontecimento. Jesus encaminhava-se para a parte final de seu ministério, de sua missão. A pergunta que Jesus faz aos discípulos é uma questão avaliativa sobre seu ministério. Primeiro ele pergunta quem o povo dizia que ele era. Depois ele quer saber a resposta dos discípulos. Não bastava que eles soubessem a opinião do povo. Eles precisavam se posicionar. Seria como que dizer que o Brasil é considerado um país cristão porque a maioria de seu povo se declara
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seguidora de uma das igrejas cristãs. A pergunta seguinte é pessoal: E você, que faz parte deste país, você é cristão? Quem responde pelos discípulos é Pedro. Ele é líder. O líder fala, via de regra, pelo grupo. A resposta de Pedro diz que eles reconheciam Jesus como o Messias. A resposta dos discípulos a respeito de quem era Jesus apontava para um título: Messias (hebraico) ou Cristo (grego). Na antigüidade, as pessoas destinadas a uma missão especial eram ungidas com azeite. Derramava-se azeite sobre suas cabeças para mostrar que elas estavam incumbidas de uma missão. Reis, profetas, sacerdotes eram ungidos. Assim também Cristo era o ungido de Deus, o Messias, aquele que havia sido prometido para salvar seu povo. A evidência de que Jesus era o Messias, sem dúvida alguma, eram seus ensinamentos e os sinais e milagres que ele fazia. No entanto, a compreensão do que significava ser ele o Messias não era a mesma na mente de todas as pessoas. Muitos pensavam no Messias como um líder político. Até mesmo entre os discípulos havia os que assim pensavam (vejam o exemplo dos zelotes). A mesma coisa acontecia entre o povo. Havia quem esperava um Messias político. A vinda do Messias era, inclusive, uma ameaça aos que ocupavam algum tipo de poder. No entanto, Jesus precisava cumprir sua missão até o fim. E para que isso ocorresse, era preciso prudência. Os discípulos deveriam ter discrição. Não deveriam alardear isso. Eles próprios precisavam estar melhor preparados. Então inicia a segunda parte do evangelho. Jesus começa a preparar seus discípulos para a sua morte e ressurreição. Ele mostra que tipo de Messias ele era. Primeiro, Jesus fala sobre seu sofrimento e morte. Ele expõe o assunto com clareza. O que ele teria de enfrentar dali para frente não seriam momentos gloriosos, pelo menos do ponto de vista humano. Ele seria rejeitado pelos líderes dos judeus, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da lei. Todas as pessoas importantes iriam abandoná-lo e colocar-se contra ele. Além disso, ele seria morto. Mas havia uma nota de esperança: ele ressuscitaria em três dias. Pedro, o líder dos discípulos, não concordava com Jesus. Ele achava essa coisa de sofrimento e morte desnecessária num plano de salvação do povo. Isso não lhe causava nenhum entusiasmo. Melhor seria um caminho glorioso, sem cruz. Pedro, inclusive, sentiu-se no direito de repreender Jesus. Chamou Jesus para um canto e pretendeu convencê-lo de que não precisava ser assim. Mas Jesus sabia o caminho. Então ele repreende Pedro diante dos discípulos. O caminho que Pedro queria seguir era um caminho diferente daquele que Deus havia planejado. Pedro andava, naquele momento, nos caminhos de Satanás. Ele precisava ser repreendido. E Jesus diz: “Arreda, saia da minha frente, Satanás”. O caminho para a vida eterna, o caminho da glória, passa pela cruz. Se alguém não estiver disposto a morrer, como Jesus estava disposto a morrer, se alguém não tomar sobre si a sua cruz, não entrará na glória eterna. E se não entrar na glória eterna, nada vale a pena. Esta é a grande lição: o caminho para a glória passa pela luz.
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Meditação
Será que os temas levantados pelo texto bíblico estão na vida das pessoas hoje em dia? Como será que os problemas apontados pelo texto bíblico se apresentam na vida da igreja? O primeiro ponto levantado é o verdadeiro conhecimento sobre Jesus. Conhecer Jesus verdadeiramente é o desafio. São dois os aspectos que o texto aponta: Quem o povo diz que é Jesus? Esta é uma pergunta. A outra é: Quem eu digo que é Jesus? Será que o povo conhece Jesus? Se o Brasil é considerado um país cristão, será que Jesus é verdadeiramente conhecido? A outra questão cada pessoa deve responder individualmente: Quem é Jesus para mim? E não basta dar a resposta correta. Não adianta ter uma resposta decorada, na qual nem confiamos. Pedro respondeu a pergunta corretamente, mas foi, em seguida, chamado de Satanás. O segundo ponto levantado pelo texto é o caminho para a salvação. O caminho da salvação passa pela cruz, pelo sofrimento. A glória é o destino desse caminho que passa necessariamente pela cruz. Jesus cumpriu sua missão. Ele padeceu, morreu e ressuscitou. Nós devemos estar dispostos a morrer, assim como Jesus morreu. Devemos estar dispostos a tomar sobre nós a cruz. Rejeitar a cruz é rejeitar o caminho que conduz à salvação. Isso não significa uma busca mórbida pelo sofrimento, mas significa confiar em Cristo e saber que essa fé, tantas e tantas vezes, para ser seguida, passa pelo duro caminho do sofrimento. Os exemplos estão aí na história para ser observados. Os profetas, os apóstolos, os mártires mostram que o caminho da cruz continua sendo o caminho que conduz à glória. Vale a pena seguir esse caminho. A vitória já está alcançada.
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Imagens para a prédica
A história de heróis da fé que passaram por sofrimento, mas continuaram firmes nas pegadas de Jesus, pode ser inspiradora para encorajar as pessoas a seguir o mesmo caminho. Podem ser histórias de personagens bíblicos do Antigo Testamento, como os profetas Isaías, Jeremias ou Sofonias. Histórias de personagens do Novo Testamento, como Estevão, o apóstolo Paulo, o apóstolo Pedro. Personagens do período patrístico, como Policarpo. Exemplos de tradutores bíblicos, como Tyndale. Exemplos contemporâneos, como os de Dietrich Bonhoeffer, Martin Luther King ou Madre Tereza de Calcutá. Contar aos ouvintes a vida coerente dessas pessoas é inspirar as pessoas a seguir seu exemplo. O que deve animar as pessoas a estar dispostas a enfrentar tudo, até o sofrimento e a morte, por amor a Cristo, é o fato de Cristo ter vencido a morte e ter prometido a vida eterna, a verdadeira vida, a todos aqueles que nele confiam.
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Subsídios litúrgicos
A cruz é o símbolo mais conhecido da fé cristã. Nem sempre ela é bem compreendida. Colocar uma cruz em destaque nesse dia pode ajudar as pessoas na reflexão sobre o texto do evangelho. Existem hinos que expressam a dura realidade da cruz de Cristo. É possível escolher um deles para cantar durante o culto. É possível também capturar imagens de mártires em sites na internet. Caso a igreja tenha projetor (data-show), é possível fazer uma apresentação em power-point, mostrando imagens de mártires, contando resumidamente a sua história. Caso esse recurso eletrônico não esteja disponível, é possível fazer um cartaz ou um mural, falando sobre alguns exemplos de fé que foram fiéis ao Salvador Jesus mesmo no sofrimento.
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PRÉDICA: TIAGO 3.13-4.3, 7-8a
16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JEREMIAS 11.18-20 MARCOS 9.30-37
20 SET 2009
Fábio Py Murta de Almeida
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Introdução
Era final do dia. A noite caía sobre os olhos num teto aberto. Eu e meus irmãos esperávamos anoitecer para que as luzes da casa do coronel se apagassem. Assim poderíamos conversar, sussurrar e treinar para o combate iminente. Afinal, o dia da luta chegaria e teríamos de estar prontos. Por isso hoje e nos outros dias traçávamos estratégias. Na roda, treinávamos o combate. Ocorre que hoje, de tanto que apanhamos e tamanhas foram as cuspidas que nos molharam, a raiva nos subiu os nervos. Sem perceber, falamos alto e cantamos mais alto do que o normal. Esse foi o motivo para que, no meio de nossa articulação, os capangas do senhor (senhor feudal) cercassem a senzala. Em cada janela havia armas de fogo, e seu carrasco entra para falar conosco: O que vocês pensam que estão fazendo? Logo Josmiro, um ancião, responde: Estamos apenas falando da colheita. Afinal, o mês foi propício – disfarça ele. O carrasco retoma seu ponto: Mas o que vocês estão cantando, batendo palmas e dando golpes com música? Josmiro então conclui: É a nossa forma de fazer festa, de celebrar. E não são golpes. São apenas danças que fazemos para agradecer a nossos orixás pela bênção da terra. O carrasco, ainda ressabiado, pede para que continuem a celebração, indo embora com os seus. Chega a comentar que falaria com o senhor feudal, mas admitiu em tom baixo que era bom a celebração ser fora do trabalho, pois assim não interromperiam a produção do café. Na senzala, embora o medo fosse geral, pairava no ar uma certa decepção. Assim Josmiro fala a todos que ainda não é o momento da emancipação, da liberdade. Falta fortalecer nossa vontade de mudar as coisas. Faltava coesão no movimento. Quando acabou de falar, eu e os irmãos voltamos às conversas, à música e aos golpes.1 Nesse momento litúrgico, parece ser relevante lembrar relatos como esse, comuns entre os irmãos escravos e escravas no Brasil colonial. Se entre
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Esse pequeno conto foi compartilhado em um estudo bíblico sobre o livro de Tiago numa reunião macroecumênica no interior do estado do Rio de Janeiro, na cidade de Cachoeiras de Macacu. Lá, alguns descendentes da escravidão puderam rememorar contos e narrativas, que foram passados de família em família, sobre a forma como se organizara um quilombo na região de Sant’Anna de Japuiba, 2º distrito de Cachoeiras de Macacu.
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eles a tônica do silêncio ocorria na iminência da mobilização, também parece ser importante que se lembrem nessa liturgia as vozes contidas. Esse é um tema que não pode ser desvencilhado de dentro do cristianismo, já que os endereços de narrativas bíblicas transpiram por entre exílios e eventos subjugadores. Ora, dessa forma, as anotações para “o cuidado com o falar” devem ser lembradas principalmente sobre os tempos de dominação tão explícita. Essa idéia é também um elemento da comunidade do livro de Jeremias, no capítulo 11 (v. 19-20), onde fala da condição do “cordeiro”, que se fazia de “manso” para o matadouro; e com o texto sinótico, quando diz que o ensino de Jesus ocorria da forma “que ninguém soubesse” (Mc 9.30a). Agora, se entre o texto de Jeremias e o de Marcos essa temática tem força, de forma expressiva podemos vê-la no texto da prédica deste domingo. Em Tiago 3.13-4.3,7-8a, ela originalmente fora citada na Palestina pósdestruição do Templo de Jerusalém, onde a manutenção do silêncio é a condição para a articulação dentro do ambiente opressor romano. Compreendemos que, na visão dessa comunidade, desde a mobilização transformadora de Jesus na Palestina como movimento ligado ao farisaísmo, fez-se a opção de mantê-lo à margem do judaísmo e dos agentes de Roma – pois ainda não tinha status de religião. Assim, ao longo dessa prédica sobre Tiago 3.134.3,7-8a, gostaríamos de destacar que, em determinadas situações pontuais na história do cristianismo de subjugação e de violência, o silêncio vira sinônimo de co-inspiração. Sim, porque utilizar-se do silêncio entre os membros é uma forma de agilizar a reprodução social frente à subjugação. Da mesma forma como ocorria dentro da senzala entre os escravos nas noites de conversas e de danças de batalhas no início da colonização brasileira.
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De olho no texto de Tiago
O livro de Tiago parece ressoar uma forte tensão sociorreligiosa da comunidade cristã do 1º século d.C. Talvez seja porque, como tanto se diz, esse livro não prima pelas longas discussões filosóficas ou por um tratado teológico. Não mesmo. Pelo enredo e por sua origem na Palestina, sua constituição se apregoa o ritmo concreto da vida, como ocorria com nossos irmãos e irmãs escravizados pelos senhores feudais no Brasil. Tiago traz para nós, seus leitores, palavras diretas. Expressões que “vão ao ponto”, sem qualquer desenrolar filosófico. Isso logo percebemos na primeira leitura do livro. Seu destaque é a cadência da vida. Seus termos são impregnados de prática. Agora se deve dizer outra coisa sobre esse livro. Sua estilização ocorreu a partir de pregações dirigidas aos grupos responsáveis por sua memória. Entendemos isso quando avistamos a importância do termo “meus irmãos” (1.2; 2.1; 2.14; 3.1) ou então: “irmãos” (1.9; 3.11; 5.7).2 Tais termos racham
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Elza TAMEZ, A carta de Tiago: numa leitura latino-americana, p. 32-35.
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o livro. Sua repetição ajuda a dividir as mensagens, auxiliando tanto os pregadores como os receptores no entendimento do argumento. Em todo caso, hoje na prédica nos debruçaremos sobre a unidade (perícope) de Tiago 3.1-4,10. Especificamente, seu início começa após o fim do primeiro argumento sobre os “falsos mestres” (3.1) – localizado em Tiago 3.1-12. Sobre esse se faz um aprofundamento das questões com uma pergunta que pondera o que se especifica em Tiago 3.13b-18. Já no capítulo 4 apresenta outra pergunta. Dessa forma, podemos indicar a seguinte orquestração desse pedaço de unidade bíblica: Tiago 3.13a – Primeira pergunta Tiago 3.13b-18 – Explicitação primeira Tiago 4.1 – Segunda pergunta Tiago 4.2-6 – Explicitação segunda O que se pode ver nessa divisão do texto de Tiago é sua praticidade. Em suas palavras se busca a vida. A própria divisão da perícope entre perguntas e respostas dá mostras de sua relação com a vivência do povo. Talvez por isso a pesquisa bíblica relacione tanto esse livro com as parêneses de Deuteronômio. Ambos os livros têm em comum a origem entre as construções práticas da sabedoria do povo de Deus.3 Por isso seus escritores deviam ser cristãos-judeus (sábios), que tanto sabiam das palavras de Deuteronômio. Eles devem ter se inspirado nelas para que pudessem expressar-se numa comunidade abalada pela expiação de Cristo.
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A beleza da palavra bíblica: sua mensagem
Após apreciarmos a orquestração desse texto e seu gênero literário, passamos à análise de suas palavras em seu contexto. Interessante é que a partir desse sistema de perguntas e respostas os escritores bíblicos fomentam uma fórmula fabulosa de apresentar suas opiniões. Claro que não são simples opiniões, mas ditos de pessoas acostumadas com as tradições dos antepassados judeus e que sabem escrevê-las com primor. Percebemos isso ao defrontarmo-nos com o grego de Tiago – um dos mais apurados do Novo Testamento. Seu grego é tão refinado, que ele não poderia ser datado antes de 80 a.C., como alguns críticos costumavam fazer. 4 Ele é posterior à destruição do Templo de Jerusalém. Daí compreendemos que a primeira temática desenvolvida na questão dos “falsos mestres” é 3 4
Elza TAMEZ, A carta de Tiago: numa leitura latino-americana, p. 28-43. Vide sobre ele na obra, Werner Georg KÜMMEL, Introdução ao Novo Testamento, p. 234-246.
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sobre a “língua”. A forma de dizer e de cobrar sobre as conversas é um detalhe que assola os sábios judeus. 3.1 – A língua: uma introdução aos desertores (v. 1-12) A questão da língua é relevante no texto, tanto internamente (no bojo da comunidade) como em relação à dinâmica imperial. Claro que internamente a língua poderia causar problemas. Mas, ao pensarmos na Palestina dos séculos I e II d.C., logo vem à mente que os burburinhos não poderiam fazer parte das pequenas comunidades cristãs. 5 É que elas eram perseguidas. A religião em Judá era mesmo o judaísmo, e qualquer um que saísse dessa poderia não estar sob a tutela judaica de Roma. Teria que se submeter à religião romana com seu tributarismo e suas orgias. Então, na marginalidade do cristianismo, todo cuidado é pouco. Combate-se a língua pelo medo do embate com os agentes romanos e com os movimentos de dentro do próprio judaísmo. 3.2 – A marginalidade leva ao cuidado (v. 13-18) Assim chegamos aonde queríamos chegar. A questão da sabedoria e da inteligência, que é evocada no v. 13, tem que ser relacionada com o tratamento que se dá à “língua”. Ambas as ponderações seriam comentadas por conta das distensões ocorridas dentro do cristianismo enquanto religiosidade marginal. Por isso elas devem ser combatidas. Segundo aquilo que o texto nos traz, não se pode desvinculá-las da temática dos “falsos mestres”. Toda inveja, egoísmo e orgulho podem vir a prejudicar a vida dos fiéis (3.14), já que poderiam causar problemas, levando algumas vozes a ressoar mais fortes na Palestina. Havia o risco de sucumbir com o movimento religioso que se organizava dentro do judaísmo farisaico. Para eles, esse tipo de sabedoria não era de Deus, mas antes era “demoníaca” – ou seja, facciosa (3.15). Esse início de organização social do cristianismo não permite o egoísmo, porque ele pode causar “desordens” (3.16). Deve-se antes ficar calado. Por isso a sabedoria de Deus, entre outras coisas, é pacífica, conciliadora, logo sem hipocrisia. Semelhante ao judaísmo, ela deve ser também cheia de misericórdia e de “bons frutos” (3.17). Os sábios que escreveram a perícope esforçaram-se para relacionar as normas do judaísmo (especialmente do livro de Deuteronômio) às práticas religiosas dos que estavam à margem do judaísmo tentando sobreviver. Assim, a última frase dessa primeira argumentação diz: “Fruto da justiça (é) 5
Nisso utilizamos a idéia de John Elliott, quando fala do texto, o método de leitura sociológica e suas relações intra e extracomunidade produtoras dos textos bíblicos: “O que fica a desejar é um método para achar não somente o que foram as circunstâncias sócio-históricas de determinadas tradições e composições, mas também como e por que essas circunstâncias deram origem às produções em pauta”. Para isso, cf. John ELLIOTT, Um lar para quem não tem casa, p. 10-11.
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semeado na paz para aqueles que promovem a paz” (tradução do autor – 3.18). Ora, a busca de distensões entre os irmãos da comunidade só poderia causar a dissolução da religiosidade que surgia. Enfim, os escritores promovem a paz, pois com ela se obteria mais tempo para organizar o movimento cristão. Devem ter aprendido com os ancestrais africanos do sábio Josmiro, trazendo para dentro do movimento palavras típicas do judaísmo. Tudo com o intuito de ser enquadrados dentro desse rol religioso, dificultando aos dominadores a identificação do novo movimento. 3.3 – Todo cuidado é pouco (4.1-3,7,8a) Agora o tom das palavras bíblicas aumenta. Ganha mais vigor. Sim, porque, depois de falar dos frutos, os escritores trazem uma série de indagações (Tg 4.1-4), mostrando toda a insatisfação que ocorria dentro das comunidades. Perguntam sobre as guerras e as rixas que ocorrem entre seus membros, causadas pelo orgulho. Conforme se diz, segundo o plano político-religioso palestino, não era bom que estivessem rachados, divididos, pois a desunião poderia causar denúncia e conseqüente perseguição. Enfim, os rachas poderiam causar desarticulação (v. 2b): diminuir e até terminar com a co-inspiração. Até agora não conseguiram certa emancipação religiosa porque não pediram, isto é, porque não instrumentalizavam a articulação e a vivificação de sua fé (v. 3). Nesse contexto, toda fé, para que seja promovida, tem de ser partilhada. Seus membros têm que trabalhar sobre o projeto para que o mesmo venha a ser construído. Os prazeres particulares têm de ser afunilados, tendo em vista a conduta comunitária. Essa deve ser a aposta de todos. Todos teriam que se unir “em um” para que pudessem sobreviver na marginalidade do Império Romano. Os pedidos têm de ser esses. Todos devem comprometer-se a não buscar as lutas e as guerras, porque os inimigos, no momento, são absolutamente mais fortes (v. 2-3). Este deve ser o motivo da união: a sujeição a Deus. Essa vontade deve unir todos os membros da comunidade. Só assim “o Diabo” poderá fugir deles (v. 7). Fazendo assim, eles poderiam achegar-se mais a Deus, e logo o divino se achegará “para junto deles” por isso (v. 8a). Ora, a única forma de resistir a Roma e à religião oficial é, antes de qualquer coisa, diminuir as divergências e terminar com as guerras e as intrigas internas. No caso, podemos até dizer que a “união faz a força”, pois era a única forma de sobreviver e não acabar com aquela comunidade que surgia de dentro do judaísmo farisaico nas terras palestinas tomadas por Roma. Por último, os escritores bíblicos dizem à comunidade: “Limpai as mãos!” (v. 8b) ou melhor: Larguem as armas de guerra! Por que, para os sábios, naquele momento Deus queria apenas que eles ficassem calados, sem fazer qualquer burburinho. Ao invés da guerra, que eles busquem a paz (3.18). É o mesmo espírito tracejado por Josmiro e nossos irmãos e irmãs quando se
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calam na esteira do opressor. Dentro da senzala não teriam como lutar. 6 Por isso preferem o silêncio momentâneo. Na visão do povo bíblico, esse clima é o melhor para o surgimento de uma nova proposta de vida. A nova vida brota de dentro da paz. Sua articulação ocorre “na surdina”, no silêncio. Ora, penso que hoje não se precisa tocar nas armas que cheiram a morte para lutar por novas propostas de vida, mas sim buscar a paz como condição fundamental para a virada da criação. Deus há de transformar a terra em nova moradia. Tudo ocorrerá num ambiente de paz. Todas as pessoas, pelo entendimento comum, devem perceber que a vida para ser vivida precisa ser humanizada. E não capitalizada. Esses fragmentos de Tiago caem como uma “luva” em nossas comunidades, onde se compreende que a violência deve ser repensada. Ao invés de irmos às foices, armas de fogo, cuspidas e às tocaias, devemos buscar “limpar nossas mãos”, organizando-nos para fazer propostas de transformação neste mundo – onde somos chamados a profetizar. Que Jesus Cristo possa nos ajudar a perceber que as religiões têm em si um caráter terreno menos carismático. Que ao invés desse caráter se prime pela paz, pois ali está o fomento da transformação deste mundo. Que fique claro que todas as religiões devem ter dentro de si rascunhos co-inspiratórios. E, assim mesmo, antes de qualquer um, no Brasil escravista já percebíamos isso e usávamos nossas formas religiosas para disfarçar nossa co-inspiração. Então, entre as comunidades cristãs, às quais se endereça a carta, a fé é que nenhuma língua denunciada poderá apagar a vontade de trazer nova vida àquela terra. Que se busque nos encontros religiosos a promoção da paz, e não do embate ou de qualquer tipo de rixa. Pois qualquer tipo de tensão pode ser um alerta para aqueles que são adeptos da situação hoje: como mercadores do capital neoliberal, pastores do Fundo Mundial Internacional e promotores da agenda fundamentalista-conservadora que se alastra pelo mundo. O texto de Tiago chama-nos para diminuir as fofocas, a inveja e baixar as armas para que o projeto utópico da libertação dos povos subjugados possa ser avistado na “surdina” como uma inevitável e gradual revolução. Essa é a raiz ensurdecedora que nós brasileiros trazemos desde a nossa formação. Antes das propostas utópicas de renovo, que se reúnam os subjugados e, em conjunto, se avistem saídas mobilizadoras. Assim, prestemos mais atenção à história de nossa gente, como a do sábio Josmiro e seus irmãos e irmãs, como planos e saídas para os problemas da modernidade. Prestemos atenção aos dados do texto do evangelho, que revela que Jesus ensinava em tom baixo (ou seja: “que ninguém soubesse”) a seus discípulos sobre o seu reino (Mc 9.30-33). Ora, no início do cristianismo, co-inspirar é preciso, para que assim Deus inspire seus filhos.
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Em toda a parte que se refere à mobilização na senzala, danças, lutas, músicas dessa reflexão foram baseadas no texto de Tânia Mara Vieira SAMPAIO, Dança do êxodo e da capoeira: jogos de vida e libertação, p. 325-336.
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Por tudo o que se faça mesmo à articulação religiosa (utópica) no silêncio da noite, entre os iguais, para que nos fortaleçamos e transformemos por isso o mundo – sedento de justiça social. Essas são as conseqüências diretas da explanação do evangelho de Jesus Cristo, misturado no tom resguarnecedor do livro de Deuteronômio e no evangelho conspiratório vivido pelos escravos em suas rodas de capoeira. E para nos lembrarmos disso, possamos cantar juntos ao som dos atabaques, berimbaus e tambores uma canção de capoeira.
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Reflexão sobre o texto na liturgia do culto
1 – Utilizar cantos que promovam o reconhecimento das questões do mundo, dos religiosos e da religião cristã. Para isso, no meio de refrões entre os cantos, que se convidem os membros para apresentar as dores deste mundo e as dores da religião cristã. 2 – Após a série de recitais, que se busquem dinâmicas entre os membros para que possam compartilhar atividades, palavras e atitudes que fortaleçam a partilha. O voto é que entre eles, a partir de pequenos grupos, se crie um ambiente amistoso e que em conjunto percebam que as dores do mundo normalmente diminuem. 3 – Finalmente, que a mensagem possa apresentar que, para sobreviver aos açoites do mundo, a melhor forma de sobreviver é a solidariedade entre os iguais. Que cada comunidade possa fortalecer o conjunto da religião cristã e participar ativamente da transformação do mundo.
Bibliografia ELLIOTT, John H. Um lar para quem não tem casa. São Paulo: Paulinas, 1985. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. SAMPAIO, Tânia Mara Vieira. “Dança do êxodo e da capoeira: jogos de vida e libertação”. In: DREHER, Carlos; MÜGGE, Erny; HAUENSTEIN, Iria; DREHER, Isolde R. (Org.). Profecia e esperança: um tributo a Milton Schwantes. 1. ed. São Leopoldo: Oikos, 2006, v. 1. p. 325-336. TAMEZ, Elza. A carta de Tiago: numa leitura latino-americana. São Bernardo do Campo: Impressa Metodista, 1985. 104p.
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PRÉDICA: MARCOS 9.38-50
17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
NÚMEROS 11.4-6,10-16,24-29 TIAGO 5.13-20
27 SET 2009
Ângela Zitzke
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Introdução
Vive-se num contexto em que muitas igrejas usam o nome de Jesus para mostrar sua autoridade cristã. Mas se questiona: De onde vem essa autoridade? Quais são nossas diferenças? O que nos une? O texto de Marcos deixa muito claro que pessoas fora do círculo restrito de discípulos também podem usar o nome de Jesus para operar milagres. O texto de Números afirma que não só os líderes “oficiais” são usados por Deus para profetizar. O Espírito do Senhor escolhe repousar sobre quem lhe apraz. Para muitos, é difícil olhar para as outras denominações com respeito, pois são diferentes de nós. Em Marcos, Jesus acaba com as diferenças e afirma que todos somos iguais enquanto praticarmos o bem para o próximo, não por mérito, mas através do amor espontâneo. Em Tiago, a salvação do condenado, a prática da oração, a gratidão pela alegria, a fé inabalável diante dos problemas são o que nos une enquanto crentes em Cristo. Enfim, pergunta-se: Quem é condenado? Quem é salvo? O que fazer para saber se Deus é quem opera através das pessoas que usam seu divino nome? O texto de Marcos responde: os condenados são aqueles que levam pessoas ingênuas, pela prática da fé, aos caminhos da perdição, isto é, usam o nome de Deus em benefício próprio, agem com desonestidade e maldade. Segundo Números, o povo murmurador, ingrato e que coloca seus problemas acima da confiança na terra prometida é um povo que suscita a ira divina, mas, ainda assim, permanece agraciado por misericórdia divina. Ele jamais será desamparado, mesmo tendo que aprender a transformar sua murmuração em gratidão por fé. O texto de Tiago afirma que serão salvos aqueles que ajudarem o pecador a sair de seu caminho errado, trazendo esperança e fé através da prática da verdade. Essa verdade está na sinceridade da fé, na experiência do amor e na construção de um mundo cheio de esperança.
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Exegese
2.1 – Números 11 V. 4-6 – O termo “populacho” (‘asapsup) só aparece nesse versículo do Antigo Testamento. Refere-se a pessoas que foram coletadas no meio do caminho (como escravos de outras raças, aventureiros e gente descontente com sua situação no Egito), uma verdadeira multidão mista, que dá início à murmuração. Mas os israelitas também estavam descontentes com a alimentação e as condições da viagem. Tanto que sua fé passa a “balançar” por causa da dieta pobre no deserto frente ao que estavam acostumados a comer no Egito. Mesmo em dificuldades, não conseguiam mais levar em conta quão terrível era a escravidão que os assolava. Sua “alma” estava “seca”, isto é, sua força de vida estava em desequilíbrio, uma sensação realista de quem peregrina pelo árido deserto. V. 10-16 – O choro do povo, seu descontentamento, suas emoções humanas estavam “à flor da pele”. Os israelitas sentiam que o preço da liberdade estava se tornando muito desvantajoso. O povo passa a reclamar, e Moisés desanima diante de tarefa tão pesada. O Deus irado aparece nessa passagem como aquele Deus santo que não é conivente com o pecado e a maldade do povo. Essa insatisfação, ingratidão e tamanha falta de fé são características humanas, naturais de ser sentidas. Mas estão em desacordo com suas santas qualidades. Deus apieda-se de seu povo e intervém de forma divina, trazendo luz à situação. Não mata Moisés para acabar com seu sofrimento (como ele mesmo havia clamado), mas antes o ajuda a continuar liderando. Escolhe 70 anciãos superintendentes para ajudá-lo nessa pesada tarefa. Seu papel de liderança não foi tirado ou abruptamente “abortado”. Deus, na verdade, ajuda Moisés a delegar responsabilidades através de uma estrutura de sublíderes (poupando-o de muitos deveres) bem hierarquizada. V. 24-29 – Através da manifestação do Senhor, pousando simbolicamente como uma nuvem (vinda de Moisés sobre o arraial), o ministério e a autoridade dos anciãos foram publicamente autenticados. A presença de Deus envolve-os, e todos passam a profetizar (semelhantemente ao pentecostes de Atos 2, sem a manifestação do dom de línguas, mas com profecias e muita exaltação espiritual). Naquele momento, os anciãos profetizaram, mas não se tornaram profetas. Quem foi “tocado de forma informal” pelo espírito de Deus foram Eldade (Deus é amigo) e Medade (Deus é amor). Josué aparece como objetor nesse episódio, por temer que tais manifestações ameaçassem a liderança de Moisés. Parecia que não eram autorizados, contudo agiam em nome de Deus. Talvez Josué também tivesse vontade de profetizar e não podia, pois Deus escolhe quem lhe apraz. No entanto, Deus estava agindo através deles também, por mais estranho que isso parecesse. Os verdadeiros líderes não competem entre si; antes compartilham seus poderes e papéis de autoridade para dar legalidade um ao outro.
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2.2 – Tiago 5 V. 13 – Tudo o que se faz pode conectar com Deus, tanto na tristeza, através de intercessão, como na alegria, através de cantos de louvor. V. 14 – Os enfermos eram levados aos presbíteros e anciãos da igreja primitiva para que fossem curados através da imposição de mãos. Os líderes espirituais estavam capacitados, pelo poder de Deus, a gerar curas materiais. O óleo tinha função curativa nas culturas judaica e pagã, mas o nome de Jesus trazia a autoridade sobre o ato, rememorando seus feitos e invocando seu poder. V. 15 – A ação de fé pode curar o enfermo, pois sua doença começa primeiro no espírito/alma, passa pelos sentimentos até chegar ao corpo. A vontade humana deve estar em sintonia com o agir divino. V. 16 – A cura agora é comparada à busca por reconciliação e perdão entre os membros da comunidade. A oração do ser que é justificado diariamente por Deus chega diante dele e gera comunhão entre os cristãos. V. 17 – Esse versículo exalta o poder da oração, feita por um homem pecador que confiava em Deus. A oração pode modificar as condições terrenas e climáticas por graça divina. V. 18 – O trecho de 1 Reis 17.42 deixa essa afirmação implícita. Tais narrativas são freqüentes no Antigo Testamento, onde o impossível e o inesperado podem acontecer. V. 19 – Desviar-se da verdade é transgredir a lei, não levar em consideração o código moral que guia a vida cristã. Deixar de fazer o bem e cair no erro de valorizar o que é mal leva à morte. V. 20 – Já a conversão do erro e o desvio da morte são conseqüências da oferta graciosa de salvação em Cristo Jesus, que através de sua cruz ensinou a humanidade a amar de forma incondicional. O seguimento do bem e a prática do amor através da fé são exaltados por Tiago, em sua carta, e por Jesus, através de seu testemunho personificado nos evangelhos.
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Meditação sobre Marcos 9.38-50
V. 38 – Na Palestina do primeiro século, era comum a prática de exorcismo através de nomes que tinham poder, como Abraão, Moisés ou Salomão. Quando os discípulos vêem alguém alheio a seu grupo usar o nome do Mestre, ficam perturbados, talvez até enciumados. Mas como ele não tinha a permissão pessoal de Jesus, os discípulos o proíbem. Muitas pessoas também hoje expulsam demônios em nome de Jesus. Quem não tem amigos de outras denominações ou até mesmo já viu pela TV algum líder ministerial citar o nome de Jesus em oração para os mais diversos fins? Eis a questão: devemos, como os discípulos, arrogar-nos o direito de proibi-los só porque não seguem a mesma linha teológica, a mesma denominação, a mesma comunidade do que nós? Não pretendo entrar na questão do exorcismo em si ou no
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poder da palavra “Jesus” como nome de autoridade, usado para rituais de libertação. Entrementes, o ponto central que para nós edifica é perceber o que fazemos ou falamos de pessoas que são diferentes de nós. Vejamos o que Jesus respondeu. V. 39 – Quem usa o nome de Jesus respeita-o, assim como os demônios, que, ao saírem da pessoa, da mesma forma obedecem e reconhecem sua autoridade. Quem usa esse nome passa a reverenciá-lo. O nome de Jesus é citado sempre no final das orações. Entrementes, para nosso contexto luterano, a autoridade do Senhor Jesus Cristo é mais comumente presenciada na prática da Santa Ceia. O mesmo poder e a mesma autoridade são invocados naquele momento para que abençoe o pão e o fruto da videira, conceda perdão, reconciliação e gere nova vida para a comunidade que comunga. Depois de tomar a ceia, presenciar o Cristo vivo, que se entrega através de todas as células degustativas e táteis, é muito difícil ver alguém saindo da igreja e falar mal do nome Jesus. Infelizmente, o que acontece é ver alguém falando de suas insatisfações e frustrações pessoais, criticando a política, reclamando do que vai ter que fazer na semana, dos problemas do dia-a-dia, mas não difamando a fé e falando mal do Jesus que os alimenta e pode transformá-los numa nova pessoa. V. 40 – O amor a quem é “por nós” é muito desafiador, pois fala do convívio intenso com pessoas que conhecemos muito bem, tanto seus lados positivos como negativos. Mesmo com semelhanças comuns, existem atritos. O amor a quem é “contra nós” é desafiador da mesma forma. Dispor-se a amar quem é declaradamente diferente é muito mais difícil. Esse amor alcança o cristão e fá-lo experimentar o que é o respeito por outros cristãos de diferentes denominações, por cristãos de sua própria comunidade, por cristãos que habitam seu lar e também por aqueles que sequer são cristãos, mas que também fazem parte de seu dia-a-dia. Jesus tenta desafiar seus discípulos a vincular-se a pessoas diferentes através do reconhecimento da autoridade de seu nome e do amor que os une. O desafio da fé é deixar-se transformar por esse nome que está acima de todo outro nome. O amor respeita aquele que é diferente, tanto abertamente como nas pequenas coisas da vida. O ensino de Jesus perpassa denominação, alcança o cristão e fá-lo, pelo menos, respeitar aquele que convive com ele. V. 41 – Nesse versículo, Jesus fala da prática do bem, das coisas simples da vida sendo dadas de forma gratuita e bem-intencionada. Jesus afirma que até mesmo as pessoas mais alheias, que sequer são conhecedoras do nome dele, mas que se compadecem e se solidarizam com aqueles que o seguem, serão recompensadas. Fazer o bem está acima de denominação ou partidarismo religioso. Fazer o bem ao necessitado é graça universal. Ser ajudado no momento da dificuldade, até para as necessidades mais biológicas, é tão valorizado por Jesus quanto ter a honra de ser chamado de seu discípulo. O galardão pode ter conotação escatológica, semelhante a uma recompensa. Mas o bem que se faz ao próximo não deve ser feito na expectativa de receber algo em troca (isso pode ser comparado à compra de indul-
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gências na Idade Média). O bem deve ser feito por puro amor e generosidade, assim como a salvação. Essa é dada por Deus a partir da graça e não por méritos ou contabilizada pelo número de boas ações. Essa generosidade, salientada por Jesus, jamais deve ser esquecida na relação com o outro, o alheio, o diferente. V. 42 – A prática do mal é abordada por Jesus nesse versículo. Sua reprovação está clara. Se a prática do bem, até para o serviço mais elementar, é elogiada, imagine o que é a prática do mal para algo tão sério como o desvio de uma vida de sua caminhada de fé. A fé é considerada o combustível da alma. É da fé que provém o contato do crente com Deus. Através dela sentimos seu amor, somos capacitados a amar e a fazer o bem da mesma forma. A própria salvação é recebida pela fé. Portanto desviar-se da fé é considerado mortal para Jesus, um verdadeiro suicídio, exemplificado através do afogamento (o mesmo que pular de uma ponte, por exemplo). Após fazer uma cura ou um milagre, Jesus sempre enfatizou para as pessoas que a “tua fé te salvou” (Mt 9.22; Mc 5.34, 10.52; Lc 7.50, 17.19, 18.42). Através da fé os milagres acontecem. Sem fé, a vida perde o vínculo com o bem mais precioso deixado por Jesus: a possibilidade de contato pessoal com Deus. V. 43 e 44 – Nesses versículos, Jesus não está mais falando de pessoas ou grupos diferentes. Agora Jesus está falando a seus próprios seguidores. O fato de tropeçar pode ser interpretado como deixar-se levar pelo pecado, maldade, agressão, erro, falha, enfim tudo o que não está em harmonia com Deus e com o que é divino. Uma caminhada de espiritualidade e fé pede conexão com o que é santo e abençoado. É claro que Deus entende a condição humana, sua dualidade e seu pecar. O Deus irado pune justamente, pois não quer mais ver seus filhos na maldade. O Deus pedagogo coloca castigos para seus filhos “desobedientes”, justamente porque os ama. Assim, fazer o mal é humano, pecar é humano, mas não está em conivência com a santidade de Deus. Através da entrega de Jesus por amor, a humanidade agora pode ser perdoada por todos os pecados que comete. Basta haver arrependimento e fé. A fé e o amor, que vinculam o ser humano com Deus, fazem o trabalho de santificação e elevação que Jesus propõe nesse versículo. Jesus já fez o que era impossível ao ser humano. Agora o ser humano vive por graça e pode, da mesma forma, grato e agraciado, simultaneamente justo e pecador, continuar sua trajetória. Está agraciado pelo amor entregue de Cristo, que o contagia, liberta, purifica de todo pecado e incentiva a viver sua vida como um novo Adão, um “pequeno Cristo” para o próximo. V. 45, 46 e 47 – Sofrer perdas não nos parece agradável. Sofrer uma perda por amor a Cristo é mais difícil ainda, pois o retorno não é imediato, não “afaga o ego”, nem traz retorno financeiro. Reconhecer a importância e o valor de uma caminhada espiritual é um exercício constante de desapego a um pedacinho de nós. Essas más características são parte de nós; são como um pé, um braço ou um olho, partes ainda tidas como importantes para nós, mas que não nos levam a lugar nenhum se não forem usadas para o bem. A boca que só fala mal dos outros deve aprender a calar. O olho que só repara
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defeitos deve aprender a perceber “os lírios do campo” também. Tudo em nós o que é usado para o mal desvincula-nos do novo Adão e permite, mais uma vez, que o velho se manifeste. Mas esse deve ser mantido sempre “bem afogado”, sob a ameaça de sermos lançados para o mesmo lugar que invocamos quando agimos de forma maldosa com o próximo e conosco mesmos. V. 48 – O “fogo” e o “verme” aparecem em sentido figurado nas palavras de Jesus. Mas são mencionados por ter grande poder de persuasão. Para ter um efeito mais dramático ainda, escribas posteriores puseram essa declaração após os versículos 43 e 45 (os mais antigos manuscritos omitem a declaração naqueles lugares). Estão em conformidade com algumas descrições do inferno, tão bem desenvolvidas durante a Idade Média para assustar os fiéis. Essas, por sua vez, têm base bíblica em 1 Enoque e 2 Esdras. Os judeus também sabiam ser convincentes em seus apocalipses judaicos. Segundo a lógica desses versículos, o erro cometido deve ser pago. O inferno é tido como um lugar punitivo. Sua função é restaurar os seres que, em vida, ainda não conseguiram atentar para o que é bom e belo. Segundo suas palavras, o aspecto disciplinador experimentado em morte parece ser bem mais forte do que o experimentado em vida. Geena era um local fora dos portões da cidade, onde o lixo era queimado, onde recém-nascidos eram abandonados por alguma deformação e onde corpos de “indignos” eram lançados para apodrecer. Era comum haver fogo consumindo os gases em decomposição. Geena era tido como o lugar da rejeição, onde o que era “imundo” se decompunha, mais ou menos como um grande lixão, que ficava afastado da cidade, mas muito mais carregado de simbologia. V. 49 – A finalidade do sal é a purificação. Quando há uma infecção na garganta e se gargareja com sal grosso, essa desaparece mais rapidamente. O fogo é usado para limpar o metal, o ouro e qualquer mineral que tenha impurezas em sua composição. Através de seu calor o fogo separa as diferentes matérias (as impurezas do líquido precioso). Os sacrifícios eram salgados com sal pelos sacerdotes israelitas para estar limpos e higienizados ao ser queimados no altar. Assim “subiam até Deus” e “aplacavam sua ira” contra a humanidade. Cristo, através de sua entrega por amor, liberta a humanidade de sua maldade, ofertando um novo modelo de vida através da fé. V. 50 – Jesus ressalta o poder curativo do sal, seu poder purificador, bem como seu poder de transformar realidades. O sal precisa estar no cristão, enquanto poder que restaura e cura. Esse poder não vem dele mesmo, mas de Deus e manifesta-se através da fé. Suas atitudes são mudadas e seus atos regenerados, mudando e regenerando, da mesma forma, o mundo em que vive. O cristão vive em constante mudança, abrindo mão de partes de sua vida e de seu corpo que não mais edificam seu caminhar. Por mais que ele tenha prazer na maldade, essa o consumirá. O sal regenerador de Deus o purificará, e esse sal estará ativo em sua vida, regenerando o mundo através da fé, uma dádiva graciosa concedida por Cristo.
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Imagens para a prédica
A mensagem de Marcos, descrita acima, foi transmitida em um estudo bíblico na Comunidade Bom Pastor do bairro Rondônia em Novo Hamburgo (RS). Estavam presentes o P. Airton Zitzke, bem como o tesoureiro da Comunidade, Vanderlei Schneider, a orientadora de Ensino Confirmatório, Marlova Schneider, o estudante de teologia e coordenador do Grupo de Jovens da Comunidade (JE Mirim), Dionata Rodrigues de Oliveira, e eu. O texto, depois de exposto, foi debatido entre o grupo, e cada integrante expressou suas idéias a respeito. Fico muito grata pela permissão de todos em poder descrever, nesta parte do trabalho, as idéias desenvolvidas por cada um. Creio que suas manifestações foram deveras edificantes por ter uma perspectiva mais comunitária. Por isso transcrevo-as abaixo. Marlova observa que a perícope de Marcos inicia com a pessoa como um todo, fazendo o mal (v. 42). Depois passa para as partes, como a mão (v. 43), o pé (v. 45) e um dos olhos (v. 47). A mão é muito importante, pois sem ela não se trabalha e assim não se consegue o sustento. O pé ajuda na locomoção, já a falta de um dos olhos é o que incomoda menos. Quanto às partes do corpo a serem “arrancadas” como mandamento de Jesus, Vanderlei faz menção a uma frase de Santo Agostinho, do livro de Lindolfo Weingärtner intitulado “Flores do Jardim de Agostinho”, que reza o seguinte: “É melhor mancar no caminho do que caminhar com vigor fora do caminho”. Após uma breve discussão sobre o que seriam o “fogo” e os “vermes” (v. 44, 46, 48), o P. Airton ressalta que aqueles que estão muito apegados ao corpo não conseguem se desprender dele, nem depois da morte (ilustração simbólica). Pelo fato de não se ter vinculado a uma vida de fé, com esperança na irrupção do reino de Deus, o aspecto material em suas vidas permaneceu forte demais. Portanto conclui-se que não é possível ir para o céu sem o desprendimento deste mundo. Viver no inferno é viver sem esperança, sem perspectivas do reino futuro. Marlova encerra o tema com uma brilhante descoberta: os vermes e o fogo precisam sempre de um combustível, precisam da carne para decompor (vermes), bem como da madeira e do oxigênio para vigorar (fogo). Portanto o que seria o alimento dos vermes e o sustento do fogo? O grupo conclui que seria a maldade humana. Até o mal não ter sido consumido por completo, será sempre combustível para o fogo e para os vermes. Vanderlei observa que a passagem sobre vermes no Antigo Testamento encontra-se em Isaías 66.24. Dionata ressalta o significado de um gesto tão pequeno como dar água ao próximo em nome de Jesus. O grupo faz menção a Mateus 10.42 e conclui que a água, para o contexto da Palestina, é muito preciosa (mais cara do que o petróleo). Portanto ofertar água é ofertar vida para um lugar onde nada cresce, nasce e desenvolve-se sem ela. A bondade de dar água é comparada à bondade de Cristo, independente de quem a praticar. Desse modo, devemos ser mais brandos com quem está fora de nosso meio. Podemos julgar
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menos e abençoar mais quem é diferente de nós, tanto nas pequenas como nas grandes diferenças. Afinal de contas, o amor “faz bem sem olhar a quem”. Apenas ama, entrega-se incondicionalmente. Esse é o gesto característico de um cristão e que bom se for visto e praticado em outros credos, denominações e religiões também.
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Subsídios litúrgicos
Oração do dia: Agradecemos-te, Senhor, pois assim como tu te manifestas de diferentes formas a cada um de nós, fazendo-te vivo e presente em nossas realidades de vida, tu também estás presente nos contextos que nos são mais alheios. Sequer podemos imaginar a grandeza de tua manifestação. Sabemos que, assim como cuidas de nós, tens cuidado de nossos irmãos bem como de quem nos é distante. Agradecemos-te por tamanha incondicionalidade de amor. Ensina-nos a viver da mesma maneira, mostrando ao mundo, dessa forma, a eficácia da reconciliação cristã. Amém. Oração de intercessão: Pedimos-te, Senhor, por tua igreja. Dá que seja sempre amorosa, vinculada ao bem, praticando os teus ensinamentos e guiando o mundo através da entrega pela fé. Abençoa teus obreiros e obreiras, líderes que se abrem para o anúncio de tua palavra e denúncia das relações vinculadas com a maldade e o pecado humano. Pedimos-te também pelo estado e seus governantes, que tu estejas à frente dessa luta por igualdade. Capacita os líderes deste mundo a ser mais compadecidos, coerentes com sua fé, suscitalhes o amor no coração e a bondade pelo oprimido que sofre. Ajuda a humanidade a aliviar cargas, olhando mais uns para os outros e menos para seu próprio bem-estar material. Abençoa também esta comunidade. Dá que saiamos daqui dispostos a olhar com amor e consideração para quem é diferente de nós. Agradecemos-te pela diversidade e pedimos-te: Ensina-nos a lidar com ela. Não permita que haja brigas familiares por causa de intrigas, nem que países continuem fazendo guerra por causa de divergência de idéias. Ajuda-nos a ser mais amorosos e entregar-nos uns pelos outros com a mesma abnegação que Jesus teve ao se entregar por amor. Dá que amemos da mesma forma como tu amas o mundo. Concede que aprendamos a cuidar uns dos outros e de todo o planeta, assim como tu o sustentas em amor. Amém. Oração eucarística: Prefácio – Sim, é digno, justo e do nosso dever que em todos os tempos e lugares rendamos graças a ti, Deus eterno e todo-poderoso, por Jesus Cristo, nosso Senhor, que se entregou por amor, de forma incondicional, para que nós também pudéssemos, agora perdoados e justificados, amar quem é diferente de nós e praticar o bem, movidos pela fé. Deixaste claro que o amor
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e a fé devem reger as comunidades que se identificam com o teu nome. Por isso, com toda a tua igreja e os coros celestiais, louvamos e adoramos teu glorioso nome, que é santo, santo, santo. Amém. Anamnese – Damos-te graças, bondoso Deus, pela dádiva maior, teu Filho Jesus Cristo, que através de seu jeito de viver, pregar e agir ensinou-nos a te servir naqueles que nos são mais alheios, com respeito, carinho e consideração. Ainda que por essa opção foi condenado, morto e sepultado. Mas ressuscitou e contigo vive e reina na glória. C – Ele veio nos salvar. Epiclese – Envia, ó Pai, o Espírito de vida e de amor, de glória e de poder, o mesmo que nos ajuda a agradecer pelos bons momentos, bem como clamar em oração quando passamos pelos desertos da vida. Abençoa-nos com o amor reconciliador, para que, partilhando o pão da vida e o cálice da salvação, nos tornemos, em Cristo, um só corpo que anuncia a esperança para este mundo tão amado por Deus.
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. V. 1. São Paulo: Candeia, 2000. p. 641-5. ____ . O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Guaratinguetá: A Voz Bíblica, [19—]. V. 1. p. 740-3. ____ . ____ . v. 6. p. 79-85. DISCUSSÃO em um encontro para estudo bíblico no dia 11.06.2008 (das 20h às 21h30min), realizada na Comunidade Evangélica de Confissão Luterana Bom Pastor (IECLB), no bairro Rondônia, em Novo Hamburgo, RS. WEINGÄRTNER, Lindolfo. Flores do Jardim de Agostinho. Curitiba: Encontro, 2005. p. 46.
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PRÉDICA: GÊNESIS 2.18-24
18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
MARCOS 10.2-12 HEBREUS 1.1-4 e 2.5-12
04 OUT 2009
Vera Immich
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Introdução
O texto de pregação deste domingo remete-nos ao ato criador de Deus em uma determinada cultura e chega até nós envolto em vários elementos, hábitos e costumes de povos e lugares onde essa palavra foi pregada e confrontada. Nós também a lemos sob a ótica de nossa cultura, de nosso referencial teórico, de nossas vivências e expectativas. A dinamicidade da própria palavra permite esse exercício. O texto pode ser usado em casamentos, para dar ênfase à complementaridade que a própria dinâmica da união de duas pessoas possibilita, sem superioridade e sem opressão de nenhuma das partes. Também pode ser usado em uma pregação dominical, com o objetivo de refletir sobre namoro e casamento, sobre dinâmica familiar, responsabilidade compartilhada com ênfase na complementaridade como via de duas mãos. Pode ser feito um culto especial com o grupo de casais, quando houver, para torná-lo mais significativo para a comunidade de casais, solteiros, separados, enfim todos os presentes.
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Considerações exegéticas
René Krüger, no volume 25 do Proclamar Libertação, faz excelentes aportes exegéticos, os quais reproduzo em parte, partindo do pressuposto de que nem todos os leitores possuem a coletânea completa. Segundo a Bíblia e bem captado pelo autor, o ser humano não nasceu para viver só, mas é por natureza um ser relacional, que precisa e busca companhias significativas para viver e crescer como pessoa, para ensinar e aprender. A promessa de Deus de prover ao homem uma auxiliadora idônea não dá margem à submissão, pois tudo indica que a auxiliadora tenha por referência Deus, como que continuando seu plano criador, e não uma serviçal ao homem para lhe prestar serviço no lar, com a criação dos filhos, ou na agricultura. Igualmente a palavra idônea complementa a idéia de complementaridade, de semelhança. O texto aponta para uma relação em nível horizontal entre homem e mulher, onde um possa ouvir, opinar, auxiliar, amparar, estender a mão ao outro e caminhar junto em direção a objetivos comuns ou para
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superar adversidades que recaiam sobre uma das partes, seja o homem ou a mulher. Também se pode traduzir por “frente a frente”, em alemão Gegenüber, que nos confirma a idéia de complementar, olho no olho, horizontalidade e até oposição dialogal, quando não se pensa igual, buscando uma alternativa comum e apropriada. Essa complementaridade e semelhança o ser humano encontra apenas em outro ser humano, e não nos animais. Esses cabe ao ser humano cuidar, proteger, deixá-los viver bem em seu habitat natural, protegendo também esse habitat. Por melhor que seja sua relação com certos animais domesticados, como o cão, por exemplo, ela não é de complementaridade, pois lhe falta a semelhança. O autor também remete à etiologia, que é o ramo da ciência que estuda a origem das coisas. Olha para esse texto procurando entender por que homem e mulher sentem uma atração física tão forte e podem ligar-se de maneira tão profunda, que supere a força dos laços sangüíneos e familiares. Um sentimento capaz de enfrentar diferenças culturais, oposição familiar, pobreza, distanciamento da família ou o que quer que seja para poder unir-se, juntarse carnalmente até a exaustão. A Bíblia fala-nos do homem deixar sua família e juntar-se a uma mulher e iniciar uma nova família. O relato do texto levanos a pensar que o toque de Deus ao criar homem e mulher à sua imagem e semelhança, mas também semelhantes entre si, fê-los da mesma carne e dos mesmos ossos, ou seja, da mesma essência. Ele os fez como seres complementares para constituir suas famílias no desejo corpóreo da proximidade, do doar-se ao outro, da entrega espontânea, privada e cheia de cumplicidade.
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Meditação
O próprio Deus cria o homem e, percebendo que não é agradável que esse viva só, cria a mulher. Deus adormece o homem, porque o ato criador não precisa de testemunhas. O homem, ao acordar, fica muito feliz com a companheira. O texto não dá margem a subordinação ou inferioridade. Quem vê isso é escravo da cultura e aprisiona a palavra de Deus e seu ato criador aos ranços de uma cultura machista. Isso não é conteúdo dado e nem expressa a vontade de Deus. Deus cria dois semelhantes desiguais, que se complementam e não se somam para que ninguém se anule. Ele possibilita uma bela interação entre homem e mulher, onde ambos são sujeitos ativos. São os opostos que se atraem e se escolhem. Para que duas peças se unam, é necessário que elas estejam em oposição. Unidas, serão uma peça formada de duas partes. No casamento, duas pessoas se unem e formam um casal, que poderá vir a ter filhos, sangue de seu sangue, ossos de seus ossos ou não. O casamento deve possibilitar a individualidade, onde cada um permanece quem é, mas ao unirse a alguém se forma simultaneamente algo novo, um casal, sem anular a individualidade de cada um.
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Ao casar-se, o homem deixa pai e mãe, forma uma nova família, inicia um novo tronco. Não lhe cabe, naturalmente, abandonar sua família de origem e esquecê-la. O mandamento de honrar pai e mãe continua valendo até para filhos casados. O cuidado dos genitores permanece como obrigação dos filhos, mesmo quando esses deixam o lar. O casamento, porém, faz um novo lar. Na atração, há um instinto de união, afinal instinto de preservação, presente na maioria das espécies animais. No ser humano, a necessidade de associação, agregação vai além de um mero instinto de preservação. Porque os filhos precisam de pai e mãe para crescer saudáveis, ser alimentados até a idade adulta, ver nos pais modelo e exemplo. A busca por uma família é um dos resultados da imagem e semelhança de Deus nele imprimida. E como base da sociedade humana, como sua célula-mãe, está a família. E incluemse todas as famílias, mostrando que, quando não é possível a perpetuação da família nuclear, outros modelos de família vão assumindo essa função. O ser humano não nasceu para viver por muitos e longos anos e precisará de seus pais para alimentá-lo e aninhá-lo, para amá-lo e ensiná-lo a amar, para cuidálo e ensiná-lo a ser um bom cuidador. O texto convida-nos, em tudo isso, também a dar graças. Não podemos deixar de lembrar a ação primária de Deus no mundo do qual deriva tudo isso. A mão criadora de Deus no mundo, que em um gesto de amor tudo criou e nos confiou, entregou-nos uma vida de dons, talentos e habilidades. Entregou-nos o destino e a possibilidade de decidir e de conduzir os nossos passos. Isso é bom e mostra que Deus confia em nós.
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Imagens para a prédica
Homem e mulher, imagem e semelhança de Deus e semelhantes entre si. Adão reconhece que ela é carne de sua carne, ossos de seus ossos, reconhecendo, dessa forma, a complementaridade. Pode-se trabalhar a partir de um hábito comum entre casais de namorados e que permanece naqueles que desejam a proximidade física do outro, que é o de dar as mãos e caminhar na mesma direção. Não dá certo se um está um passo atrás; tem que ser lado a lado, com delicadeza, mas com firmeza, que não machuque, mas não dê a idéia de frouxidão e abandono. Mãos dadas pedem passos ritmados, e logo até os batimentos cardíacos se assemelham. Os mais rápidos diminuem o passo, e os mais lentos os apressam até encontrar o ritmo próprio.
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Subsídios litúrgicos
Uma poesia para a acolhida da comunidade no culto e uma forma de informar o tema do dia, que pode ser preparado pelo grupo de casais, quando houver. Carlos Drummond de Andrade fala do amor antigo:
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Amor antigo O amor antigo vive de si mesmo, não de cultivo alheio ou de presença. Nada exige nem pede. Nada espera, mas do destino vão nega a sentença. O amor antigo tem raízes fundas, feitas de sofrimento e de beleza. Por aquelas mergulha no infinito, e por estas suplanta a natureza. Se em todo o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante, o antigo amor, porém, nunca fenece e a cada dia surge mais amante. Mais ardente, mas pobre de esperança. Mais triste? Não. Ele venceu a dor e resplandece no seu canto obscuro, tanto mais velho quanto mais amor. Para finalizar, pode-se convidar os casais para renovar seus votos sob a bênção de Deus. Eles podem ser convidados para vir ao altar de mãos dadas, lado a lado. Bênção oriunda de Israel Deus vos guarde as lembranças – dos tempos altos e sublimes, ao terdes de caminhar pelas baixadas. Deus vos aproxime um do outro – por caminhos sempre renovados, quando poderes do mundo ameaçarem separar-vos. Deus inflame vossos corações com amor primaveril, quando frieza e monotonia outonal se alastrarem. Deus vos dê fantasia para não perder a capacidade de surpreender um ao outro. Ele vos revele que jamais todas as portas estão fechadas. Deus vos dê o dom de gerar paz, que não necessita sempre ficar com a razão. Ele vos mantenha a capacidade de rir, assim que em tempos de cansaço seja resguardado vosso vigor. Deus vos mantenha dentro do redil do amor. Ele vos dê a distância e o respeito mútuos, assim que cada um possa continuar a ser um vivo mistério para o outro. Deus dê ao menos a um de vós paciência, no caso de o outro fazer algo inesperado.
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Deus vos ilumine com a sabedoria de poderdes distinguir o que importa do que não importa. Deus vos dê a sensatez de saberdes qual o momento certo para falar a palavra certa. Deus vos dê força e compaixão para saberdes perdoar um ao outro quando culpa vos quiser separar. Deus vos guarde da crença de que nós humanos tudo podemos ter e que tudo podemos fazer. Deus vos dê a serenidade e a sensatez de saberdes suportar o que é difícil. Mas ele vos dê antes de tudo sentidos abertos para os sinais de felicidade, assim que possais resguardar ternura e carinho – até o final. E assim vos abençoe o altíssimo. O eterno abençoe o vosso caminho, assim que ao fim um leve o outro ao reino celestial. Amém!
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19º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: MARCOS 10.17-31
11 OUT 2009
AMÓS 5.6-7,10-15 HEBREUS 4.12-16
René Krüger
1
Introducción
Marcos 10.17-30 es la historia de un rico que quiere saber qué tiene que hacer para heredar la vida eterna, pero que no opta por el seguimiento a Jesús porque se halla apegado a sus muchas riquezas. Jesús aprovecha la ocasión para pronunciar una durísima evaluación de las posibilidades de salvación de los ricos, ante la cual los discípulos se espantan, y Pedro habla de la decisión que ellos estaban realizando. Jesús los confirma en ese camino de opción por él y el evangelio, y les promete la recompensa temporal y eterna. Es interesante que Marcos haya colocado este texto luego de la pregunta sobre a quién pertenece el Reino de Dios, indicando que de los que son como los niños; y a continuación viene inmediatamente el tercer anuncio de la pasión y la resurrección. Con ello el evangelista da a entender que el desprendimiento de las riquezas es difícil e ingrato; pero que es parte del camino a la gloria que pasa por la cruz. Dicho sea de paso: resulta totalmente inexplicable cómo se pudo instalar el título anuncios de la pasión para estas unidades de texto, pasando por alto la referencia a la resurrección. Ello sólo podría deberse a una perspectiva torcida que incluye la pasión en el plano de lo histórico, pero prefiere no “mezclar” la resurrección con este plano. Por cierto, ello no sólo es miopía exegética basada en una precomprensión que no tiene nada que ver con el espíritu del texto bíblico, sino con supuestos filosóficos; y en segundo lugar es una violación de los datos de los textos. En nuestra América Latina de hoy, marcada ya no sólo por las cicatrices de la conquista y la historia colonial pasada, sino también por las sangrantes heridas humanas y sociales de la aplicación del neoliberalismo globalizado, este texto es de esencial importancia para la misión de la iglesia, que debe asumir la perspectiva de las víctimas y de los miembros personas débiles del cuerpo social, y anunciarles que Dios no quiere este estado de cosas. Otro mundo es posible; y Jesús nos invita a un seguimiento que incluye el No a las riquezas y al apego a las mismas. El texto de Amós 5.6-7.10-10 muestra la intensa pasión del profeta por la justicia. Denuncia con vehemencia la opresión del pobre, la injusticia, la corrupción; y llama a buscar lo bueno, definido en términos de justicia y cumplimiento de la voluntad de Dios.
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Por su parte, el texto de Hebreos 4.12-16 remarca la fuerza de la palabra de Dios, que nos desnuda hasta llegar a lo más íntimo de la existencia – como lo hace Jesús con el rico en Marcos 10. Al mismo tiempo, Hebreos nos invita a confiar plenamente en el perdón y la gracia transformadora de Jesucristo, que nos capacita para el seguimiento.
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Exégesis
La unidad Marcos 10.17-31, cuya primera parte es más conocida por su versión mateana titulada “el joven rico”, es una historia de seguimiento – seguimiento frustrado primero, confirmado después. Contiene una reflexión fundamental de Jesús sobre la dimensión económica del seguimiento. Desarrolla la temática de la renuncia a los bienes y a “lo propio o suyo” dentro del tema amplio de la pertenencia al reino. El texto no debe cortarse en dos mitades, pues forma un todo indivisible que confronta dos actitudes frente al llamado de Jesús a seguirlo. En el centro de la estructura simétrica que forma el texto se halla la dificultad que tienen los ricos para ingresar al reino. Esta dificultad es ilustrada mediante el dicho grotesco del camello y el ojo de la aguja. El sujeto que viene apurado a preguntar por la correcta praxis salvífica no es presentado como joven (como luego en Mateo) ni como jefe, magistrado (como en Lucas). Es uno más de entre la gente; pero el v. 22 revela que tenía muchas posesiones. Es decir, era un rico. Este sujeto se dirige a Jesús porque estima que éste posee un conocimiento especial sobre el camino a la vida eterna. La primera reacción de Jesús se enmarca en el más estricto monoteísmo de Israel. Ahora bien, este monoteísmo teológico se vincula inseparablemente con la dimensión ética, tal como se desprende de la respuesta completa de Jesús, que pasa de inmediato a los mandamientos. Cabe destacar lo interesante que es la pedagogía de Jesús de hacer recordar algo que el hombre ya sabía. Muy importante es la introducción de la curiosa formulación No defraudes, que no se encuentra en el Decálogo. La respuesta del magistrado es polivalente. Suena un poco a expresión de la frustración de alguien que quería saber algo muy especial, pero también como manifestación de un sujeto con mentalidad de perfeccionismo legalista. En este caso, no se trataba de una actitud orgullosa o pretensión exagerada, sino la confesión de un hombre que trataba de ser un israelita verdadero y cumplidor. Era opinión rabínica muy difundida creer que era posible cumplir todos los mandamientos, siempre y cuando el sujeto ponía buena voluntad y esfuerzo propio. Jesús acepta esa confesión de quien cree haber cumplido todo, pero de inmediato propone un programa adicional: convertirse en discípulo. El relato completo indicará que el trasfondo de esta invitación queda conformado por la irrupción del reino de Dios. Esto es mucho más importante que alguna insuficiencia en el cumplimiento de los mandamientos. El hacerse discípulo
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inicia con dos acciones complementarias: renuncia a los bienes + entrega a los pobres. La colocación del seguimiento después de la venta de los bienes y su entrega convierte ese seguimiento en el programa principal; pero el desprendimiento es inseparable del seguimiento. Hay una curiosa referencia a una especie de “intercambio”: entregar los bienes y obtener un tesoro en el cielo. Esto será material para la reflexión homilética. Por de pronto puede decirse que siendo los pobres quienes se benefician por la entrega y haciéndose así el seguidor un tesoro en el cielo (lo cual equivale a decir “junto a Dios”), el texto indica que hay una conjunción de Dios con los pobres. Cuando los pobres reciben algo, Dios concede otro objeto al donante. Marcos 10.21 indica que la venta de las posesiones, es decir, la renuncia activa y definitiva a la riqueza, persigue como meta activa la satisfacción de las necesidades de los pobres. Para Jesús, la pobreza no es ningún ideal de tipo ascético, monástico, idealista o lo que siempre fuere. La pobreza es una situación dolorosa y trágica que debe ser superada. El ideal de la praxis del discipulado cristiano consiste en la colaboración de la superación del estado de necesidad de las personas carenciadas; y esto es lo que Jesús le propone a este rico. El mandato de Marcos 10.21 contiene una inversión importante. Para ciertos grupos sociales de aquella época, la riqueza y el bienestar eran señales visibles de la bendición de Dios y manifestaciones de su favor. Jesús invierte totalmente esta ideología que justificaba teológicamente a los ricos, indicando que la verdadera bendición, expresada aquí con el rico símbolo del tesoro en el cielo, consiste en renunciar para satisfacer las necesidades de los pobres, y seguir a Jesús. El segundo programa propuesto al hombre indica que la respuesta más profunda a la pregunta acerca de la vida eterna no consiste meramente en una indicación sobre un tesoro celestial que se obtiene mediante la realización del abandono de las posesiones. La última respuesta consiste en el ofrecimiento de la praxis del seguimiento concreto. Ahora bien, en el caso de este rico, el discipulado implica la venta de las posesiones en beneficio de los pobres, y luego un largo proceso de seguimiento de Jesús. Aquí se cierra un círculo: la búsqueda de la vida eterna lleva a la práctica de los mandamientos; la voluntad de Dios, expresada ya en los mandamientos, se manifiesta definitivamente en la persona de Jesús; y lo intencionado por Dios puede realizarse plenamente en el seguimiento de su enviado. Sin embargo, el hombre se niega a asumir la propuesta, debido a su apego a sus muchos bienes. Por eso se habla de una historia de seguimiento frustrado. En los vs. 23-25 Jesús hace una reiterada reflexión sobre esta situación. Introduce una valoración negativa de la riqueza, y su formulación incluye una importante sutileza. El v. 22 había hablado de muchas posesiones; Jesús indica que la dificultad para el seguimiento no se limita solamente a los muy ricos, sino que es más generalizada: se aplica a todos los que poseen dinero,
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propiedades, posesiones. Los discípulos de Jesús, sin ser ricos, poseían algo de todas esas cosas. Ahora bien, desde la óptica de los pobres no hay mucha diferencia – acaso ninguna – entre tener posesiones y tener muchas posesiones. La imposibilidad es ilustrada mediante la grotesca imagen del camello, el mayor animal conocido, que pasa por el ojo de una aguja, el menor agujero imaginable. Todo ello es preparación del inesperado vuelco de lo imposible a lo posible en el v. 27, que expresa la postura radicalmente teocéntrica que caracteriza a Jesús. Esa última afirmación reclama una muestra práctica; o por lo menos un anticipo. En efecto, Pedro, empleando el plural como portavoz de los discípulos, le recuerda a Jesús su cumplimiento del mandato de dejar todo, acción que Jesús aprueba plenamente. El texto vincula así el ser discípulo, seguir a Jesús, entrar al reino de Dios, y salvarse. La renuncia y entrega a los pobres es funcional y a la vez requisito de todo ello. La vinculación indica que el discipulado integra la vida eterna. Vida eterna se “obtiene” siguiendo a Jesús.
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Meditación
El impacto del sistema neoliberal globalizado tuvo y tiene muchas consecuencias sobre la vida de las personas y del cuerpo social entero. Entre otras cosas, también a colocado en la conciencia de mucha gente la importancia de la economía. Los manejos económicos juegan un rol fundamental que decide sobre la vida y la muerte de las personas. Esto también ha llevado a ver ciertos textos bíblicos con nuevos ojos. Debajo de siglos y milenios de lectura espiritualizante, individualista y desencarnada, esos textos vuelven a brillar en su fulgor original; y con asombro se nota cuántas referencias a la economía hay en las Sagradas Escrituras. Mejor dicho, no son sólo referencias: hay una gran propuesta de vida alternativa, totalmente coherente, basada en los valores del Reino de Dios y no en los del mercado, la explotación, la especulación financiera, el enriquecimiento de unos pocos y el empobrecimiento de la enorme mayoría. Marcos 10.17-31 es uno de esos textos “económicos” tan sorprendentes. Indica con total claridad el costo económico del discipulado. Aquel hombre poseía prácticamente dos cosas fundamentales que anhela mucha gente: muchos bienes y una buena conciencia. Era amable, se esforzaba, y sin duda tenía buena reputación moral. Igualmente sentía que algo le faltaba. Formuló su búsqueda como querer saber qué hacer para heredar vida eterna. Pero esta pregunta aún no lo convierte en interesado en el seguimiento específico de Jesús, pues su preocupación era una de las más genuinas y comunes de la tradición religiosa de su pueblo. En cambio, el seguimiento es algo propuesto por Jesús. Cuando Jesús lo invitó al seguimiento, que incluía el desprendimiento de sus bienes, la entrega a los pobres y el asumir la cruz, el hombre retrocedió.
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Quería todo, pero no estaba dispuesto a largar algo –sus riquezas– para lograr todo lo demás. Como aquel mono de la anécdota que no pudo librarse de la trampa porque no quiso soltar la fruta que tenía en la mano metida en la trampa. Jesús prefirió perder a un posible discípulo que rebajar las exigencias para este hombre. En este proceso de vocación, Jesús introduce un intercambio por cierto algo curioso: “bienes por tesoro celestial”. Pero esto no es una operación de compra-venta, como si Dios fuese un mercader, cambista o bancario, que negocia con limosnas y bienes eternos. Tampoco tiene que ver con una supuesta “justificación por las obras”, porque lo que Jesús propone está fuera de todo cálculo. Por su parte, las palabras finales de Jesús a los discípulos sobre la recompensa temporal y eterna no tienen nada que ver con una “teología de la prosperidad”, ese engendro horrible que no es otra cosa que una caricatura de la verdadera teología; porque quienes predican semejante deformación del evangelio no llaman al seguimiento, al desprendimiento, a la entrega total al evangelio y a los pobres; sino a donar para la institución y más exactamente para ellos mismos, los señores pseudopastores que negocian con las necesidades y la buena fe de la gente, obteniendo ricas ganancias para sus empresas religiosas. Ese comercio con flores, cintas, piedras, varas, mantos, aceite y otros artículos no es otra cosa que un rotundo engaño; es venta de amuletos, magia y como tal, una brutal herejía sobre la que pesa la condenación de Dios. La renuncia a la riqueza no implica la entrega de los bienes a la iglesia, como lo exigen ciertos comerciantes de materia religiosa que prometen grandes beneficios espirituales y sobre todo materiales a cambio de suculentas donaciones a la empresa religiosa. No es tampoco el abandono de la vida “material” para dedicarse a la pura contemplación, como si fuéramos ermitaños del siglo quinto. Menos aún es el retiro del mundo, como en ciertas propuestas helenísticas de la antigüedad, asumidas por gente que estaba harta de la vida urbana y que buscaba la quietud del campo. Al contrario: es participación crítica y activa en la sociedad, en el mundo; pero de manera contracultural, profética, transformadora y alternativa. Jesús no arrancó a sus seguidores y seguidoras de la sociedad para encerrarlos en algún paraje apacible con pasto verde y hermosas floras a orillas del Lago de Genesaret, ni los metió en alguna cueva en las montañas del desierto. Los mandó a evangelizar al mundo entero; a meterse en los problemas de la gente y de la sociedad; a transformar vidas, situaciones y estructuras. El evangelio es oferta de vida nueva, perdón de los pecados, seguimiento de Jesucristo que incluye la cruz para llegar a la resurrección. No es promesa de riqueza ni solución para todos los males. Es solidaridad, es asumir la perspectiva de las víctimas y los miembros más débiles de la sociedad, es voz profética, es entrega a Dios y al prójimo, es servicio. Jesús le propone al hombre convertirse en seguidor suyo. Esto evidencia que la vida eterna se realiza en el seguimiento de Jesús. Queda claro que el llamado, la vocación, la invitación provienen de Jesús; y también queda claro
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que la respuesta concreta, la materialización del discipulado, debe venir indefectiblemente de la persona llamada. No se discute la primacía de la vocación; pero ella no garantiza una salvación automática, pues el sujeto invitado debe decidirse y dar su respuesta personal. No es suficiente mostrar una moral intachable, ni pertenecer por herencia genética y religiosa a la institución del pueblo de Dios, sea abrahamítico, luterano, católico, presbiteriano, pentecostal o lo que fuere. Hay una dimensión indiscutible de la responsabilidad propia de cada persona en el seguimiento de Jesucristo, hecho que en muchas Iglesias históricas frecuentemente hemos olvidado. El relato de la vocación frustrada del rico demuestra una vez más esa dimensión de la decisión propia. Por su pasado, el hombre pertenecía nominalmente al pueblo de Dios, e incluso se movía dentro de los parámetros válidos de la religión oficial de su pueblo, cumpliendo con los mandamientos. Pero él mismo sabía que eso no alcanzaba. Estaba en búsqueda. De repente tenía la oportunidad de heredar la vida eterna, convirtiéndose en seguidor decidido y activo de Jesucristo, pero ahí entró en juego un obstáculo fundamental: su riqueza.
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Imágenes para la predicación
En cuanto a las imágenes con las que se podría elaborar la estructura del sermón, es posible pensar en las siguientes: – La supuesta seguridad religiosa por pertenecer a una determinada tradición. ¿Nos sentimos contentos y contentas? ¿O nos falta algo? ¿Qué nos podría faltar? – La sociedad ya no es la “de antes”, con su ordenamiento, su funcionamiento, sus relaciones de producción de bienes y servicios y de distribución. El sistema neoliberal globalizado ha ensanchado los abismos entre ricos y pobres, ha destruido buena parte de la clase media, ha anulado la solidaridad tradicional de muchos sectores sociales (por ejemplo, entre agricultores pequeños) y ha creado una fuerte lucha de competencia entre todos. ¿Es eso lo que queremos? ¿Es eso lo que quiere Dios? – ¿Cuál es nuestro rol como personas cristianas, como comunidad y como Iglesia en esta sociedad fragmentada, sin ideales sólidos y sin orientación? ¿Simplemente participar, buscando un lugar bajo el sol; o analizar, levantar la voz crítica desde las victimas y desde el Evangelio, y vivir alternativas? – Lo que entendemos bajo vida eterna, ¿no tiene algo que ver con todo esto? La resurrección que creemos y esperamos, ¿no empieza a proyectar su luz sobre nuestras vidas en este mundo, mostrando dónde están las sombras y por dónde va el camino? – ¿Cuáles son las ataduras que nos vinculan a lo que anda mal en la vida y en la sociedad, qué tenemos que dejar atrás para ser seguidores y seguidoras de Jesucristo, qué implica tomar la cruz? Esto no significa dejar de sufrir, pero sí significa colaborar para que otras personas no tengan que
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sufrir más. Significa crear redes de acompañamiento, comprensión, solidaridad, renuncia de unos y satisfacción de las necesidades de otros. Significa crear comunidad solidaria. La iglesia cristiana tiene una posibilidad extraordinaria de traer luz a este mundo en estos momentos históricos, en los que los sistemas socioeconómicos y políticos sólo evidencian sus fallas. ¿Nos interesa asumir ese desafio?
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Subsidios litúrgicos
Nota: La siguiente letanía pertenece al Pastor Lisandro Orlov, de la Iglesia Evangélica Luterana Unida; y fue publicada en: René KRÜGER (Editor), Para que puedan resistir… Las iglesias luteranas latinoamericanas frente a la globalización neoliberal y la deuda externa, Buenos Aires, Instituto Universitario ISEDET – Federación Luterana Mundial, 2004, ISBN 987-438467-0, p. 285-287. LETANÍA Lisandro Orlov Liturgo: Dios Creador, que te revelas en la historia como aquel que acompaña a todos los pueblos y que opta por pobres, excluidos y humillados: concédenos la visión de asumir tu proyecto como nuestra misión y el sentido de nuestra vida como personas y como comunidad. Concédenos optar claramente, a imagen y semejanza tuya, para colocarnos junto a todos y todas aquellos que son víctimas de un sistema que no tiene en cuenta ni tu creación ni al ser humano. Respuesta: Señor, ayúdanos a estar allí. Liturgo: Dios Sembrador, toda la creación nos habla de tu opción por la vida; los granos de trigo nos revelan el énfasis tuyo puesto en los frutos de la esperanza y la justicia, nos hablan del encuentro de la justicia y la misericordia. Es por ello que te invocamos para que nuestra misión sea un anuncio de tu voluntad que no quiere la enfermedad ni la exclusión, que no acepta la corrupción ni la explotación de los débiles, sino que quieres restaurar cada día la bondad de origen de tu creación. Respuesta: Señor, ayúdanos a estar allí. Liturgo: Jesucristo, Señor de la vida y de la historia, reconocemos delante de ti que somos parte del pueblo que sufre las decisiones hechas por los ricos y poderosos, que es un poder que trae enfermedad y sufrimiento Ésta es la razón por la cual acudimos a ti porque en tu acción y en tu mensaje encontramos una forma distinta de ejercer el poder, y te pedimos que nos hagas parte de tu proyecto que cura y que sana injusticias y exclusiones. Respuesta: Señor, ayúdanos a estar allí. Liturgo: Jesucristo, tú eres el Dios en medio de los pueblos, el Señor de la vida; te alabamos porque nos has revelado el plan siempre renovado de
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Dios, de la permanente opción por la vida y a favor de todos los débiles y de los pobres, porque ellos han sido despojados de todo poder. Es por ello que te pedimos que nos hagas testigos de aquel poder que está al servicio de las necesidades de todos y todas, para dar vida, ayuda, alegría y amor. Respuesta: Señor, ayúdanos a estar allí. Liturgo: Jesucristo, tú que eres el Dios con nosotros, ayúdanos a levantar nuestros ojos para comprender el sentido de tu vida; vida de compromiso con los desplazados, los excluidos, los marginados. Compromiso que te lleva a enfrentar los poderes establecidos. Concédenos que tu ejemplo modele nuestro pensamiento y nuestra acción, aún hasta ofrendar nuestras vidas y todo lo que es nuestro para la salud del mundo. Respuesta: Señor, ayúdanos a estar allí. Liturgo: Espíritu Santo, fortaleza de los desprotegidos, ven en nuestra ayuda porque escuchando el llamado del Evangelio queremos anunciar que el sufrimiento no tiene nada que ver con la voluntad de Dios. Concédenos la valentía de reconocer y confesar que el sufrimiento es responsabilidad del género humano; que el sufrimiento es consecuencia del pecado personal y social. Ayúdanos a construir una realidad donde no haya violencia, corrupción ni explotación de los débiles. Respuesta: Señor, ayúdanos a estar allí. Liturgo: Espíritu Santo, iluminador de aquellos y aquellas que caminamos entre tinieblas: ayúdanos a descubrir el poder transformador del Reino de Dios en el Evangelio y a tener la fortaleza de comprender que la buena noticia sacude y desafía todo orden impuesto injustamente. Que esa conciencia nos lleve a proclamar esperanza sabiendo que un mundo distinto es posible, y no nos dejes caer en la tentación de elegir el camino más fácil. Respuesta: Señor, ayúdanos a estar allí. Liturgo: Espíritu Santo, sabiduría de los locos y locas del Evangelio, siembra en nosotros el hambre de sanar al mundo y a la iglesia. Concédenos la fuerza de restaurar una creación quebrada por la injusticia y la opresión. Concédenos la sabiduría de recuperar para la iglesia y para tu pueblo la conciencia de un Evangelio que es capaz de sacudir y transformar este desorden de los poderosos y construir el orden de aquellos que en su pobreza comparten el sueño evangélico de otro cielo y otra tierra nueva y posible. Respuesta: Señor, ayúdanos a estar allí. Amén.
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20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: HEBREUS 5.1-10
18 OUT 2009
ISAÍAS 53.4-12 MARCOS 10.35-45
Léo Zeno Konzen
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Introdução
Poucas vezes, os textos bíblicos de um domingo oferecem um ponto de encontro tão claro como o 20º Domingo após Pentecostes. Em Isaías, temos o Servo sofredor (4º cântico); na Epístola aos Hebreus, Jesus como sumo sacerdote, que vive a solidariedade através do sofrimento na paixão e morte de cruz; em Marcos, a perspectiva do sofrimento de Jesus na cruz, conseqüência de sua prática de solidariedade com os excluídos da sociedade e da religião, e o contraste com a postura dos discípulos que buscam poder. As três leituras têm, portanto, como foco o serviço ao projeto de Deus, serviço de solidariedade que envolve grandes sofrimentos, mas que se torna fonte de vida para outros e para a própria pessoa que serve. O compromisso histórico da construção de um mundo onde haja vida digna dos filhos e filhas de Deus coloca-se, pois, diante de nós como um desafio para fazer de nossa vida o verdadeiro culto a Deus.
2
Exegese
O texto do livro de Isaías, que lemos no culto deste domingo, faz parte do chamado “Dêutero-Isaías”, ou Segundo Isaías, constituído pelos capítulos 40-55. Essa parte representa provavelmente experiências e expectativas dos exilados na Babilônia diante da ascensão de Ciro, rei dos persas, que viria a possibilitar o retorno de muitos judeus exilados na Babilônia. Os v. 4-12 integram o chamado “4º cântico do Servo de Javé” (52.1353.12). Esse cântico e os anteriores traduzem, por um lado, a situação de pequenez, fragilidade e humilhação vivida pelo povo de Deus naquela situação difícil e, por outro lado, a simpatia e a proteção de Deus para esse grupo humano, a ponto de escolhê-lo como mediador e missionário de seu projeto de vida, não só para o povo de Israel, mas também para as “ilhas mais distantes”. A parte do 4º cântico, proclamada nesse domingo, ressalta a solidariedade do Servo de Javé: ele carrega as doenças da sociedade, é vítima de suas injustiças. Mais ainda: sobre ele pesa o preconceito religioso, pois parece ser um abandonado ou condenado por Deus por causa de seus pecados. O texto descreve a gravidade dos sofrimentos desse Servo, sofrimento físico, mas
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principalmente moral: desprezado, esquecido por todos, preso, tratado como malfeitor, morto e sepultado entre os ímpios... Esse Servo podia mesmo rezar: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Esse sofrimento todo, porém, esconde um sentido profundo: ele é a expressão de uma radical solidariedade e fonte de vida para muitos. Longe de ser absurdo, é um sofrimento libertador, fonte de vida. É uma espécie de sacerdócio que estabelece comunicação entre Deus e os seres humanos. O Servo de Javé representa a situação do povo de Deus no tempo do exílio, mas não se esgota nela. Os seguidores de Jesus viram na figura do Servo uma expressão privilegiada daquilo que se passou com seu Mestre e com eles próprios. Jesus passou a ser visto como o Servo de Javé por excelência. O poema do Servo de Javé conduz-nos à Epístola aos Hebreus, da qual tiramos o texto de referência para a prédica deste domingo (5.1-10). Para nos situarmos melhor, lembramos algumas informações gerais sobre esse livro do Segundo Testamento. Não se trata propriamente de uma carta, mas de uma verdadeira homilia. Muitos estudiosos acham que também não é dirigida “aos Hebreus”, mas a cristãos não bem identificados (muitos talvez provindos do judaísmo), com certa caminhada no seguimento de Jesus. A homilia contida no livro é muito bem estruturada, causando admiração a todos quantos a examinam com atenção. A “prédica” estrutura-se num esquema concêntrico, tipo “quiasmo”, muito apreciado na cultura judaica. Nesse tipo de gênero literário, o centro do texto é também o ponto mais importante do mesmo. Eis um possível esquema geral do livro (Bíblia Sagrada, trad. CNBB, 2001, p. 1566): A - Abertura (1.1-4) B - Jesus, Filho de Deus, irmão dos homens (1.5-2.18) C - Jesus, mediador fidedigno e solidário (3.1-5.10) D - Exortação (5.11-6.20) E - O sacerdócio de Melquisedeque (7.1-28) F - Jesus sacerdote de uma aliança melhor (8.1-9,28 – tema central) E - O perdão dos pecados (10.1-18) D - Exortação (10,19-39) C - A fé e a conversão (11.1-12.13) B - A vida cristã (12.14-13.17) A - Doxologia (13.20-21)
(13.22-25 é a fórmula de envio da “carta”). A estrutura do texto mostra que a homilia está centrada num único grande tema: Jesus, o sumo sacerdote de uma aliança nova e melhor do que a antiga. O termo de comparação é sempre o sacerdócio do Templo de Jerusalém: quem são e como são instituídos os sacerdotes, suas funções no oferecimento dos sacrifícios, os efeitos que eles produzem etc. O texto selecionado para este domingo situa-se no bloco que apresenta Jesus como mediador fidedigno e solidário, falando de Jesus como sumo sacerdote. Hebreus é o único livro do Novo Testamento que atribui explicita-
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mente a Jesus a função de sacerdote ou sumo sacerdote. Há também alusões ao tema no livro do Apocalipse. A afirmação de que Jesus é sumo sacerdote é estranha, porque ele não era de família sacerdotal e nunca exerceu as funções de sacerdote. Mas ela traduz muito bem algumas dimensões fundamentais do modo de ser de Jesus e do significado dele para a humanidade. Os versículos em questão neste domingo apresentam principalmente dois aspectos desse modo de ser de Jesus: sua solidariedade para com os demais seres humanos e seu estabelecimento por Deus como sacerdote. Em outras palavras, o texto insiste na humanidade de Jesus e em sua escolha por Deus como sumo sacerdote, mas, diga-se logo, sacerdote alternativo (daí a expressão segundo a ordem de Melquisedeque). A solidariedade para com os irmãos é um aspecto importante da teologia do sacerdócio no judaísmo e em outras religiões, como diz o próprio texto de Hebreus: “Todo sumo sacerdote é tomado do meio do povo e representa o povo nas suas relações com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Ele sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza” (5.1-2). Na prática, porém, a solidariedade do sacerdócio judaico resumia-se à representação perante Deus e criava distâncias entre sacerdotes e povo, porque o sacerdote deveria manter-se “puro” diante de Deus. Somente sendo “puro” ele seria bem acolhido por Deus, e, conseqüentemente, os sacrifícios de animais imolados, frutos da terra etc. poderiam ser agradáveis a Deus e produzir os efeitos desejados de perdão, bênção etc. Para Hebreus, Jesus também foi “tomado do meio do povo” para ser “sacerdote”. Mas ele nunca se ocupou com os ritos realizados pelos sacerdotes do templo. Para ser “puro” diante de Deus, não precisou afastar-se do povo, mas, ao contrário, aproximou-se dos “impuros” e “pecadores”, conviveu com eles e chamou-os para ser colaboradores da construção do projeto do Pai. Encontrou a rejeição, a perseguição e a morte de cruz. Nesse sentido, Jesus não teve nada de sacerdotal. A humilhação na cruz afastava ainda mais a possibilidade de se vê-lo como sacerdote. A Epístola aos Hebreus afirma, porém, que ele se tornou sacerdote, não atribuiu a si mesmo essa honra, mas ela lhe foi concedida por Deus. O sacrifício que ele tem para oferecer a Deus não é de animais imolados, mas sua própria vida, dedicada e doada à realização do projeto de Deus. Entre preces e súplicas, entre clamores e lágrimas (isso lembra a oração de Jesus no Horto das Oliveiras e na cruz), Jesus dirigese a Deus que o atende (o que lembra sua ressurreição). O texto frisa a humanidade de Jesus, afirmando que “mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência”. É essa vida humana, tão próxima dos seres humanos mais excluídos, que se transforma em oferenda (sacrifício) agradável a Deus. Ela se torna causa de salvação para todos os seus seguidores. Jesus é, então, sacerdote? Sim e não. Não foi sacerdote conforme o sacerdócio do Templo de Jerusalém. Mas com sua vida, paixão, morte e ressurreição ele realiza tudo e muito mais do que se podia esperar do ministério
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dos sacerdotes cultuais. Por isso Jesus é sacerdote, mais ainda, sumo sacerdote, mas um sacerdote alternativo, segundo a ordem de Melquisedeque. Melquisedeque aparece no Primeiro Testamento como um sacerdote que nada tem a ver com as famílias sacerdotais do povo bíblico, mas foi a ele que Abraão reconheceu como sacerdote autêntico (Gn 14.17-24). Dizer que Jesus é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque significa que ele não se enquadra no sacerdócio cultual do Templo, mas é um sacerdote alternativo, de qualidade muito superior. Não mais um sacerdote vinculado ao culto formal, mas ao culto que se presta a Deus por meio de uma vida vivida no serviço solidário aos irmãos e irmãs, contribuindo para a construção do reino de Deus neste mundo. O evangelho deste domingo (Mc 10.35-45) encontra-se em sintonia com as duas leituras bíblicas anteriores. Marcos apresenta Jesus como um homem marcado por opções conflitantes, que culminam em sua morte violenta na cruz. Pode-se dizer que esse evangelista traduz, no conjunto de seu texto, a humanidade de Jesus comprometida com o projeto do reino de Deus, mencionada antes na Epístola aos Hebreus. Os discípulos dele, somente a muito custo, vão aprendendo que esse projeto não é uma imitação dos projetos dos poderosos. Tiago e João mostram, no texto de hoje, que ainda não estão bem sintonizados com a caminhada de Jesus, pois estão interessados em posições de poder. Nem os demais discípulos, que se irritam com as ambições dos dois companheiros. Jesus precisa repreendê-los e educá-los para assumir as conseqüências do seguimento a ele: há um “cálice” a beber e um “batismo” a receber... Aparentemente, os discípulos estão dispostos a isso, mas, na prática, mostram que ainda têm muito a aprender.
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Meditação
Vivemos num tempo de muitas contradições. Por um lado, a ciência e a tecnologia fazem as pessoas passarem pela tentação do ateísmo e da dispensa de qualquer vivência religiosa. Tem-se a impressão de que se pode viver perfeitamente sem Deus hoje. E quando não se dispensa Deus, parece que não se precisa de uma religião para se relacionar com ele. Por outro lado, florescem muitos e novos grupos religiosos, oferecendo sucesso, curas, libertações etc. Tudo parece depender de doações generosas que comovem Deus e o constrangem a conceder prosperidade. Ou de algum rito privilegiado, capaz de expulsar as forças demoníacas que andam estragando a vida, impedindo encontrar emprego, causando doenças ou dependência de drogas etc. Diferentemente disso tudo, muitas comunidades e pessoas se esforçam para encontrar o sentido mais profundo do Deus que se revelou na Bíblia, especialmente em Jesus de Nazaré, e para contribuir na construção de um mundo que seja humano para todas as pessoas. Que luzes as leituras bíblicas deste domingo, particularmente o texto da Epístola aos Hebreus, podem nos oferecer nesse contexto?
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As primeiras comunidades cristãs foram descobrindo, aos poucos, que o seguimento de Jesus as levava a relativizar e a questionar o sentido das práticas cultuais do Templo de Jerusalém, embora Jesus tivesse participado também desses ritos presididos pelos sacerdotes. Mas ele mesmo nunca atuou como sacerdote em sua religião, nem poderia fazê-lo porque não pertencia à classe sacerdotal. Além disso, por causa de sua acolhida dos pobres, excluídos, “impuros” e “pecadores”, Jesus foi discriminado e condenado pelos representantes do sistema do Templo. Nesse quadro, ele tomou atitudes bem concretas de questionamento ao Templo, atitudes que lhe custaram a própria vida. Os evangelhos registram a acusação de Jesus contra o Templo: esse havia se tornado um “covil de ladrões” (Mc 11.17). Em Atos dos Apóstolos, Estêvão retoma a crítica ao Templo, fato que o levou ao apedrejamento (At 7). Ao se distanciarem do Templo ou por serem excluídas dele e vendo-o depois completamente destruído, as comunidades cristãs sentiram-se desafiadas a aprofundar sua reflexão sobre o significado de tudo o que aconteceu com Jesus de Nazaré. Alguns pensavam que faltavam elementos importantes aos seguidores de Jesus, como os ritos praticados no Templo, os sacerdotes etc. E chegavam a se questionar se o seguimento de Jesus, que implicava tantas rupturas e desconfortos, não estava sendo um engano, um equívoco que precisava e ainda podia ser consertado. A saudade dos “bons tempos” dos belos ritos e festas do Templo, com o impacto impressionante causado pelos sacerdotes, especialmente do sumo sacerdote, funcionava como uma força que fazia recuar e provocava medo de seguir na caminhada das comunidades. Pairava no ar a crise, e alguns já não participavam regularmente da comunidade (cf. Hb 10.25), outros não compreendiam as razões de ter de sofrer tanto por ser seguidores de Jesus. Muitas reflexões foram feitas nesse contexto. Uma delas encontramos na Epístola aos Hebreus, apresentando Jesus como sacerdote alternativo; melhor ainda, sumo sacerdote de uma aliança melhor do que aquela que se cultivava no Templo, por mediação dos sacerdotes e dos sacrifícios de animais que eles ofereciam sobre o altar do recinto sagrado. Apesar de não ter sido sacerdote de sua religião, Jesus revelou-se como alguém que realiza melhor do que ninguém a comunicação entre Deus e a humanidade. É justamente isso que se espera dos sacerdotes de qualquer religião: a intermediação entre o divino e o humano, entre o céu e a terra, entre Deus e os seres humanos. O autor da Epístola aos Hebreus produziu uma teologia nova, que ainda não estava nem viria a ser explicitada nos outros livros do Novo Testamento. Ele viu em Jesus um sacerdote autêntico, muito mais verdadeiro do que aqueles sacerdotes profissionais que o judaísmo mantinha para cultivar as boas relações entre Deus e o povo da aliança. Como pôde esse discípulo de Jesus afirmar que Jesus era sacerdote se ele não tinha passado pelos ritos de instituição pelos quais todo sacerdote devia passar e se Jesus sequer havia reivindicado essa condição? A resposta é complexa: de certa forma, a prática histórica de Jesus significava a extinção do sacerdócio, uma vez que ela revelava um Deus que não precisa dos ritos
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cultuais nem exige que os “pecadores” fiquem longe dele; por outro lado, a aproximação entre Deus e os seres humanos precisava de caminhos concretos, e a vida de Jesus representava essa mediação, na visão inspirada do autor de Hebreus. Mesmo sem ter sido sacerdote, Jesus passa a ser visto como sacerdote, sacerdote diferente daqueles do Templo, é claro. Não um sacerdote qualquer, mas o sumo sacerdote, a exemplo do que havia no Templo de Jerusalém. Quem o constituiu sumo sacerdote foi Deus mesmo, transgredindo as regras de hereditariedade existentes até então. Não houve um rito de instituição, é verdade, mas sua instituição como sacerdote ocorreu com a morte/ressurreição de Jesus. Todo sumo sacerdote deve oferecer a Deus algum sacrifício (animal imolado, por exemplo, ou seu sangue – símbolo da vida) que venha a ser agradável a Deus. Jesus, porém, nunca entrou na parte central do Templo, o Santo dos Santos, para oferecer tal vítima de expiação pelos pecados do povo. De novo, nosso teólogo, autor da homilia que encontramos na Epístola aos Hebreus, é perspicaz e vê que o sumo sacerdote Jesus entra num outro tipo de Templo (o santuário do céu, junto de Deus) e tem um “sacrifício” melhor para apresentar, tão melhor que precisa apresentá-lo apenas uma vez: trata-se de sua própria vida, de sua humanidade consagrada ao anúncio e à construção do reino de Deus e imolada pelo martírio na cruz. Daí em diante, não é mais necessário fazer qualquer coisa para comover Deus, para conquistar sua simpatia para conosco ou para acumular merecimentos que venham a gerar recompensas de qualquer natureza. Em outras palavras, a vida/morte/ ressurreição de Jesus tornou dispensável e antiquado qualquer outro esquema de mediação entre Deus e os seres humanos. Jesus é, então, ao mesmo tempo, o sumo sacerdote e a oferta que agrada a Deus, porque Deus não quer ritos e o sacrifício de vidas humanas ou de animais, mas o compromisso com a transformação da realidade, para que haja vida com abundância (Jo 10.10). Nosso culto a Deus realiza-se também, a exemplo daquele de Jesus, por meio de uma vida comprometida com a construção de um mundo de relações justas e fraternas. Se nos reunimos em comunidade para realizar ritos como a Ceia do Senhor ou o culto da Palavra, nós o fazemos para beber da água viva que Jesus tem a oferecer e para unir nossas vidas à vida de Jesus e, assim, estabelecer uma comunhão mais profunda com Deus. Deus não precisa de nosso culto; nós, sim, precisamos dele, porque os ritos podem alimentar nossa fé e renovar nosso compromisso de fidelidade no seguimento de Jesus.
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Imagens para a prédica
O quarto sábio Na prédica, pode-se recorrer ao filme “O quarto sábio” – uma alusão aos magos do Oriente, que vieram ao encontro do recém-nascido menino
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Jesus em Belém (cf. Mt 2). Vale a pena ver o filme, para ter elementos bem concretos que possam apoiar a prédica. Para quem não viu ou não puder ver o filme, seguem algumas informações que podem ser aproveitadas. O filme apresenta um quarto sábio, que quis acompanhar os magos que foram se encontrar com o menino Jesus. Ele se preparou com muito dinheiro para a viagem e ricos presentes para entregar a seu rei. Mas, já na saída, ele se atrasou e ficou fora da caravana dos outros magos por causa de uma ação de solidariedade para com um homem abandonado no caminho, com o qual gastou parte de seu tempo e de seus bens. Ao longo do caminho, depara-se com diversas situações, diante das quais não consegue ficar indiferente: uma criança em situação de risco, leprosos que precisam de ajuda etc. A viagem vai se tornando cada vez mais demorada, e o destino corre o risco de nem ser alcançado, pois os recursos vão se esvaindo. Após muitos anos, porém, o quarto sábio chega a Jerusalém. Procura quase desesperadamente pelo “rei”, a quem quer entregar pelo menos alguma coisa que restou de seus bens. Depara-se, então, com a cena horrível do rei que procurava sendo levado para o suplício da cruz. Com suas últimas posses, com as quais queria homenagear seu rei, pensa subornar os soldados para que não executem o pobre condenado. Vendo, contudo, uma menina sendo levada como escrava para pagar a dívida de seu pai, dá o que resta de seus bens aos soldados em troca da liberdade da menina. Nesse exato momento, vê aquele que procurava morrendo numa cruz. Profundamente frustrado, recebe, porém, a revelação de que ele havia entregado todos os seus bens ao “rei” que procurava, pois esse se identificara com todas as pessoas às quais o quarto sábio havia prestado sua solidariedade. O filme oportuniza falar do “sacerdócio” de Jesus e do culto que prestamos a Deus por meio de nossa vida de amor, solidariedade e compromisso para com nossos irmãos e irmãs. Trata-se de um culto de gratidão, pois não precisamos conquistar Deus, e de um culto de alimentação de nossa fé, esperança e amor.
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Subsídios litúrgicos
Oração de coleta: Ó Deus de amor! Muitas vezes e de muitos modos vos comunicastes com vossos filhos e filhas, revelando vosso plano de amor. De modo todo especial, vos manifestastes a nós por meio de Jesus, nosso irmão e vosso amado Filho. Ele foi o Servo no qual mais pudestes confiar. Ele foi também o irmão mais verdadeiro que os seres humanos poderiam ter. Concedei-nos a graça de nos unir sempre mais profundamente ao grande culto de sua vida, por meio do compromisso solidário com nossos irmãos e irmãos. Isso vo-lo pedimos, ó Pai amado, por vosso Filho Jesus e na unidade do Espírito Santo. Amém.
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Oração de intercessão: Por toda a igreja nascida da obra libertadora de Jesus, para que saiba situar-se de modo adequado no mundo de hoje, enriquecendo com seu testemunho e com a sabedoria do evangelho a busca por mais vida. Oremos ao Senhor. Todos: Senhor, atendei a nossa prece! Por todos os obreiros e obreiras das igrejas cristãs, para que exerçam sua liderança seguindo o exemplo de Jesus e participem de seu sacerdócio. Oremos ao Senhor. Todos: Senhor, atendei a nossa prece! Pelos governantes, para que exerçam o poder que lhes foi concedido com ética e compromisso com a vida e a liberdade de todo o povo. Oremos ao Senhor. Todos: Senhor, atendei a nossa prece! Por todas as pessoas que sofrem humilhações, rejeições e perseguições como o Servo Sofredor e Jesus, por causa de sua solidariedade com os excluídos da sociedade e da religião, para que Deus lhes conceda a força dos profetas. Oremos ao Senhor. Todos: Senhor, atendei a nossa prece!
Bibliografia VANHOYE, Albert. A Mensagem da Epístola aos Hebreus. São Paulo: Paulinas, 1983. BÍBLIA SAGRADA. Trad. da CNBB. São Paulo: Loyola, 2001.
21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES Jeremias 31.7-9 MARCOS 10.46-52 Hebreus 7.23-28
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PRÉDICA: ROMANOS 3.19-28
DIA DA REFORMA 31 OUT 2009
JEREMIAS 31.31-34 JOÃO 8.31-36
Olmiro Ribeiro Júnior “Vão e contem o que vocês viram e ouviram. Digam que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e os pobres recebem o evangelho. E felizes são as pessoas que não duvidam de mim.” Lucas 7.22-23
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Introdução
Culto de 31 de outubro: comemoração da Reforma Protestante. Entrementes, será que o povo das comunidades da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) tem consciência, conhecimento das implicações de ser herdeiro da Reforma? O movimento da Reforma proporcionou que a igreja cristã como instituição voltasse a orientar sua caminhada nas Sagradas Escrituras. Ou seja, voltasse a seguir os passos, os ensinamentos de Jesus Cristo, o libertador. Uma igreja disposta à constante reforma para ser fiel a Cristo e, assim, ser instrumento de libertação no mundo sofrido, explorado e oprimido. Uma igreja que supera as tradições humanas que, muitas vezes, querem impor-se sobre a boa-nova do evangelho. Os textos previstos para o Dia da Reforma enfatizam a libertação concedida por Deus à humanidade mediante a fé em Jesus Cristo. O profeta Jeremias anuncia, em 31.31-34, a nova aliança que Deus firmará com seu povo. Essa não será inscrita em tábuas, mas em suas vidas. O povo terá prazer e convicção em viver essa aliança e viverá como povo de Deus liberto. O evangelista João narra, em 8.31-36, a fala de Jesus anunciando que ele é o libertador. Através da prática de seus ensinamentos, da fé em Deus, o povo viverá a nova aliança com Deus. Jesus Cristo revela que ele é a verdadeira libertação para a humanidade, ou seja, a verdade indiscutível de que Deus está na vida. Na epístola do apostolo Paulo à comunidade de Roma, em Romanos 3.19-28, encontramos a explanação sobre a justificação por fé e não pela lei, enfatizando o evangelho da graça, a lei que condena e a fé que transforma. Os textos destacam a libertação como aceitação, valorização, compromisso, convicção, paixão e não apenas como tradição e discurso eclesial.
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Dia da Reforma
Como herdeiros e herdeiras da Reforma Protestante, necessitamos viver e propagar a fé libertadora. Fé que apaixonou Martim Lutero pelo evangelho da graça, destacando-o como um dos principais reformadores justamente por se dedicar ao estudo da Epístola aos Romanos.
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Labor exegético
2.1 – Epístola de Paulo aos Romanos “Esta carta é verdadeiramente a mais importante peça do Novo Testamento. É o evangelho mais puro. É de grande valor para um cristão não somente para memorizar palavra por palavra, mas também para se ocupar com isso diariamente, como se fosse o pão diário da alma (da vida)”.1 A Epístola aos Romanos é a primeira carta que o apóstolo Paulo escreveu a uma comunidade que ele não fundara. A estrutura da carta é uma mescla de orientações teológicas (1-11) com exortações pastorais (12-16). A importância teológica da Epístola aos Romanos constata-se nos escritos de Santo Agostinho em sua discussão contra Pelágio, como texto central nos escritos reformatórios de Martim Lutero e Calvino e recentemente nos comentários de Karl Barth. 2.2 – Contexto histórico A Epístola aos Romanos foi destinada a uma comunidade originária de peregrinos judeus, prosélitos que presenciaram o acontecimento de Pentecostes em Jerusalém no ano 30 d.C. e converteram-se com o sermão de Pedro (At 2.14-41). Não foi fundada pelos apóstolos, mas o fortalecimento da fé cristã em Roma foi obra de Pedro (ano 64) e Paulo (68). Estando no berço, no centro do Império Romano, a comunidade sofreu duramente a perseguição do império aos cristãos. E assim viveu a opressão, a escravidão, a exploração e a desvalorização como realidade diária. O medo e o temor às leis e aos poderes do império e o clima hostil fomentaram ainda mais tensões na vida da comunidade em relação à fé e às reflexões teológicas. Assim, a carta de Paulo procura acalmar os ânimos, consolar a angústia e sobretudo clarear as idéias da comunidade em relação à vida de fé em Jesus Cristo. 2.3 – Contexto narrativo Existe uma controvérsia sobre a delimitação da perícope prevista para este domingo. Não serão explanados a controvérsia e os pormenores devido ao fato de que, nos PL 20 e 25, a mesma foi abordada com profundidade. 1
Prefácio à Carta de São Paulo aos Romanos por Martim Lutero.
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O texto de Romanos 3.19-28 situa-se na parte teológica da carta, abrangendo dois blocos temáticos: Depravação humana – Ira divina: a doutrina do pecado universal – 1.18-3.20 • Pecado e condenação de toda a humanidade – 3.9-20 Libertação divina – Justiça de Deus: a doutrina da justificação particular – 3.21-5.1 • Justificação mediante a fé em Cristo – 3.21-31. Nesse contexto, Paulo destaca a pecaminosidade humana, a inutilidade de leis e de autojustificação. O ser humano não consegue ser justo, ter valor, ser aceito por Deus mediante suas obras. Em contrapartida, mediante a fé em Cristo Deus abraça o ser humano gratuitamente. O caminho para os braços amorosos de Deus não é a lei, mas a fé em Cristo. 2.4 – Epístola aos Romanos 3.19-28 V. 19 – Paulo afirma que as pessoas que se refugiam na lei não encontram consolo, mas condenação. A lei revela que toda a humanidade é culpada, que agride a presença, a face de Deus na vida humana. A alusão à lei refere-se à Torá, que é o centro, o coração do Antigo Testamento. V. 20 – A libertação, o amor de Deus não é adquirido pela lei, pois ela revela a injustiça e a idolatria do ser humano quando está centrado em si. V. 21 – Deus revela gratuitamente sua aceitação, justiça inscrita na lei e propagada pelos profetas. V. 22 – Em Jesus, Deus acolhe a humanidade indistintamente. Não existem escolha e eleição, apenas convite para caminhar na fé com Cristo e redescobrir a face de Deus na vida. V. 23 – Toda a humanidade é culpada, carente e perdida e assim indistintamente necessita de perdão, acolhimento e comunhão. V. 24 – A justificação do pecador é oferecida gratuitamente por Jesus Cristo. A redenção da humanidade é um presente oferecido por Cristo em nome de Deus. V. 25 – Deus acolhe o pecador não olhando para sua culpa, mas para a ação de Cristo, que libertou a humanidade do mal, do pecado. Mediante a fé em Cristo a pessoa pecadora é acolhida, aceita por Deus. Fé que não corresponde à aceitação racional de conceitos doutrinários, ao cumprimento de tradições religiosas. Fé que atira a pessoa nos braços de Deus, com disposição para viver a libertação no dia-a-dia, reconhecendo sua finitude e dependência da graça de Deus para viver. V. 26 – A ação de Deus que justifica não é algo futuro ou destinado ao fim dos tempos. Deus perdoa e liberta a pessoa, proporcionando que ela viva como liberta. Lutando contra o mal, promovendo libertação mediante a fé e refugiando-se nos braços de Deus. V. 27-28 – Não existem vanglória, autoglorificação, porque não conquistamos a libertação, seja por obras ou tradição. A fé em Jesus Cristo ofer-
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ta-nos gratuitamente a redenção. O ser humano é justificado pela fé independentemente das obras da lei, pois as obras realizadas são frutos da fé. O texto revela que a graça de Deus envolve o ser humano mediante a fé em Cristo, transformando a vida da pessoa, libertando-a e tornando-a agente de libertação no seu dia-a-dia.
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Mensagem pastoral
A Reforma foi um marco decisivo na transformação das relações humanas (entre si e com Deus) em todas as áreas: econômica, política, cultural e religiosa. Os poderes e as tradições foram questionados e alterados porque não promoviam a vida e não revelavam a presença, a graça de Deus contida no evangelho. Foi a libertação da vida, em que o povo redescobriu seu valor como povo de Deus, amado e aceito mediante a vivência da fé em Jesus Cristo 3.1 – O que o texto bíblico traz como lei (libertar do quê?) # Os textos bíblicos libertam das tradições e legislações humanas, que procuram dar valor, justificar o ser humano diante de Deus. Jeremias revela a nova aliança gravada no coração; o evangelista João destaca a verdadeira libertação oferecida na fé em Jesus Cristo. O apóstolo Paulo desmascara todas as pretensões humanas de autojustificação. # Libertar da ânsia antropocêntrica de se autojustificar, de demonstrar a suposta bondade, ou seja, a fé vivida na aparência, no cumprimento de papéis, tradições que não defendem a vida, não promovem justiça e, muito menos, revelam a justificação de Deus para o povo sofrido. # Libertar do poder do pecado, o valor em si, a compra e venda de aceitação, que aliena e acomoda as pessoas, revelando que as injustiças, opressões e idolatrias são realidades normais da vida. # Libertar da acomodação eclesial, do marasmo, da manutenção da igreja como instituição ou, ainda pior, como associação, clube, onde as comunidades estão mais preocupadas em manter o que têm (bens, pessoas, respeito, status) do que ser agentes de libertação, de reformar estruturas que não geram vida. 3.2 – O que o texto traz como evangelho (libertar baseado em quê?) # Na ação amorosa de Deus, que acolhe o pecador, convidando-o a viver a justiça mediante a fé em Cristo. Convite gratuito e transformador. # Na presença de Cristo, na comunhão dos pecadores, dos excluídos, dos sofridos, que necessitam perdão, consolo e valorização. O remédio, a cura aos doentes. Presença que se faz na comunhão de duas ou três pessoas, na vivência do Batismo, na Ceia do Senhor, na Palavra, nas organizações sociais que lutam por justiça.
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# No perdão oferecido gratuitamente como força transformadora e reformadora, mudando vidas, estruturas e relações, para desfrutar e promover libertação na vida das pessoas. # Na graça que é oferecida mediante o estudo, a meditação da Escritura Sagrada como fonte do evangelho, conscientizando as pessoas da ação libertadora de Deus na vida do povo e, assim, em suas vidas. 3.3 – O que o texto traz como imperativo (libertar para quê?) # Para vivermos a libertação, a graça de Deus, como realidade vivencial. Incluindo os excluídos e as excluídas, consolando as cansadas e os sobrecarregados, valorizando os rejeitados e as rejeitadas, perdoando as pecadoras e os pecadores arrependidos e transformando estruturas e poderes que não promovem a vida e a presença de Deus na vida. # Para vivermos a comunhão do corpo de Cristo, cientes de que o valor máximo do encontro é a presença de Deus entre nós mediante a fé em Jesus Cristo. Vivência que nos acolhe e transforma para a construção do Corpo de Cristo onde estamos e que nossas particularidades são aceitas, mas não se sobressaem em destaque sobre as de outros. Não importam a cor, a sexualidade, a classe social; o que importa é a disposição para o encontro na fé e o envolvimento na libertação. Tudo o que for percalço para a presença de Deus na comunhão necessita ser reformado. # Para vivermos a comunhão plena de todos os santos, que, agraciados pelo amor de Deus, lutam por justiça, pelo reconhecimento da presença de Deus entre nós e em nós, por comunidades e uma IECLB que pulsa, vibra e compromete-se com a libertação. # Para constantemente reformarmos nossos ministérios, as estruturas das comunidades, paróquias e a IECLB quando elas não promovem o evangelho, mas, pelo contrário, defendem interesses que oprimem, excluem e dominam. Coragem de sempre avaliarmos se estamos andando com Cristo. 3.4 – Tópicos para a prédica a – Refletir sobre a valorização das relações, das pessoas na comunhão nas comunidades. Comunhão plena no culto, mas a comunhão nos grupos. Quem tem espaço, quem tem direito a voz e vez? b – Refletir sobre as estruturas, poderes e grupos que são criados na comunhão; eles defendem e propagam o evangelho? O critério de acolhimento de capacitação é a graça de Deus, vivida na fé, na caminhada batismal? c – Analisar como estamos vivendo o acolhimento das pessoas na comunidade e sociedade. Como é trabalhado o sistema sociocultural e econômico imposto pela mídia e a espiritualidade do mercado que infunde a necessidade de autojustificação, de méritos na fé, de boas obras como meio de adquirir as bênçãos de Deus. Há espaço para o evangelho da graça, para perdão e arrependimento, para justiça aos explorados e oprimidos, para li-
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bertação dos sistemas que deturpam e manipulam o evangelho, para a reforma em nossas comunidades? d – Averiguar quais são os sinais de libertação em nossas comunidades, onde está a presença de Deus em nossas vidas, relações, propostas de trabalho, organizações e estrutura eclesial? A comunidade tem compromisso, coragem de defender o evangelho da graça nos dias de hoje? e – Como afirma Jeremias, a nova aliança está inscrita em nossas vidas? Segundo João, seguimos Jesus Cristo e vivemos como libertos?
4 Contextualizações possíveis 4.1 – Dinâmica: Trabalhar a graça de Deus, a libertação, como o valor que a pessoa tem. O que valoriza a nossa existência hoje, como indivíduos, famílias, trabalhadores e trabalhadoras, como cristãos, como membros de comunidades? Objetivo: Promover a reflexão da comunidade em relação ao valor que a pessoa tem. Valor que não está em si, mas é oferecido mediante a fé e descoberto na comunhão. Vivemos a Reforma como movimento, como estímulo para seguir Jesus Cristo ou como uma tradição que necessita ser celebrada? Material: Ampliar a rosa de Lutero (1m x 1m). Colar a mesma sobre isopor ou papel grosso. Recortar as partes, vazá-la, de maneira que as partes se encaixem: cruz entra no coração, o coração entra na flor, flor no céu e o céu na aliança, formando a rosa completa. Desenvolver da dinâmica: Inicialmente pegar o coração, deixar as outras partes no chão, dentro de um saco ou caixa. • Coração – Representa a vida humana. Como ele está vazado, a vida humana necessita algo que lhe dê valor. Nossa existência não está completa em si, ou seja, não vivemos para nós. Fomentar a reflexão de onde o ser humano consegue valor, aceitação. Colocar dentro do coração fotos de bens e perguntar se os bens nos dão valor. Colocar dinheiro e perguntar se o acúmulo e o poder econômico nos dão valor. Colocar uma foto de Lutero com o símbolo da IECLB e perguntar se, dizendo que somos luteranos, isso nos dá valor. Colocar outros exemplos possíveis. Consecutivamente colocar a cruz. • Cruz – Ela revela que nosso valor está no fato de termos sido batizados, marcados por Cristo. A vivência da fé em Cristo, que revela o valor que temos como filhos e filhas amados por Deus. Encaixar o coração com a cruz na rosa. • Rosa – A vivência de fé comprometida com a libertação, fundamentada na graça de Deus, gera transformação. Reforma estruturas, poderes, relações e conceitos, trazendo paz para a vida das pessoas. Uma paz que não foge dos conflitos, mas que gera vida digna e valorizada. Assim podemos questionar se não é justamente porque não se vive a fé com compromisso que a realidade social está em
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caos, atolada em violência e desumanidade. Mesmo com o surgimento de tantas igrejas, movimentos espiritualistas, a vida não está em paz. Encaixar no céu. • Céu – A pessoa marcada por Cristo no Batismo compromete-se e empenha-se para que o novo céu esteja na nova terra. Que possamos aperitivar o banquete do reino em nossas refeições e relações. A Reforma revelou isso: a presença de Deus começa no Batismo e acompanha-nos na caminhada de fé até o encontro com Cristo na ressurreição. Encaixar na aliança. • Aliança – A presença de Deus, a aceitação e a justificação nos são garantidas por Jesus Cristo, a nova e definitiva aliança que Deus fez com a humanidade. Assim não depende de tradições, falsa piedade, teologia do pavor e da retribuição. Deus aceita-nos e acolhe mediante a fé em Jesus Cristo, iniciada no Batismo e completa na ressurreição. 4.2 – Música Eu só peço a Deus (Letra: Leon Giecco – Tradução: Daniel Torres) Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, Que a morte não me encontre um dia, solitário, sem ter feito o que eu devia. Eu só peço a Deus que a injustiça não me seja indiferente, Pois não posso dar a outra face, se já fui machucado brutalmente. Eu só peço a Deus que a guerra não me seja indiferente, É um monstro grande e pisa forte toda a pobre inocência dessa gente. Eu só peço a Deus que a mentira não me seja indiferente, Se um traidor tem mais poder que um povo, que esse povo não esqueça facilmente. Eu só peço a Deus que o futuro não me seja indiferente, Sem ter que fugir desenganado, pra viver uma cultura diferente. Solo le pido a Diós que la guerra não me sea indiferente. Es um monstro grande y pisa fuerte, toda la pobre inocencia de la gente.
4.3 – Poema Imagine se a igreja estivesse verdadeiramente disposta a assumir seu envio de anunciar aos pobres a boa-nova e vivesse as conseqüências de seu compromisso histórico de levantar os caídos, servir aos pequenos, defender a vida. Imagine se a igreja fizesse o mesmo itinerário do Mestre e fosse correndo ao encontro da humanidade toda, carente de afeto e de pão, para anunciar-lhe a boa-nova da dignidade humana: a libertação. Imagine se a igreja investisse na formação mais séria e comprometida de seus membros, de seus obreiros e obreiras, levando em conta a realidade socioeconômica, a diversificação das culturas, a influência das ciências humanas na história do pensamento e da prática vivencial do povo de Deus.
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Imagine se a igreja tivesse a sensibilidade de acompanhar o desenvolvimento da humanidade, do mundo e das culturas e tratasse com o mesmo carinho de mãe aquelas pessoas que estão à margem das rodas sociais, dos bancos de nossos templos, mas que continuam suas jornadas, seu caminho em busca de dignidade, felicidade. Imagine se a igreja mudasse seus critérios para constituir as “fileiras de comando” e só tivesse como critério a defesa da vida, o compromisso com a libertação, gente capacitada, aberta, equilibrada, resolvida humana e afetivamente, capaz de entregar a própria vida por amor ao reino. A arte de imaginar põe já o sonho em andamento e vislumbra a possibilidade de realizá-lo na prática. Oxalá tenhamos os corações abertos para transformar a nossa imaginação em realidade que mude o rosto desfigurado e enrugado de todas as comunidades, para que ela se apresente de cara nova e cumpra, com fidelidade e zelo apostólicos, sua missão de servir na construção de um novo céu e uma nova terra, livres de todas as prisões e exclusões (Adaptado de Fato e Razão, 44, novembro 2000, p. 54-55).
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: O apóstolo Paulo ensina em 1 Coríntios 3.11: “Ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo”. Somos justificados por Deus, ou seja, aceitos, perdoados, incluídos mediante a fé. Não temos méritos. Temos, sim, culpa a confessar. Confessemos nossos pecados. Oremos: Deus Criador e misericordioso! Em tua presença, diante da cruz de Cristo, damo-nos conta das palavras, dos pensamentos e das atitudes que tivemos e que causaram sofrimento a nós mesmos e a outras pessoas. Diante de ti somos culpados, culpadas. Nada merecemos senão o teu castigo. Isso pesa e nos faz infelizes. Então te pedimos: Tenha misericórdia de nós. Perdoa os nossos pecados e pela força do teu Santo Espírito modifica-nos, ó Deus! Por Jesus Cristo, juntos cantamos: Ouve, Senhor, eu estou clamando. Tem piedade de mim e me responde. Kyrie: Em Miquéias 6.8 está escrito: “Ele te declarou, ó ser humano, o que é bom e o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça e ames a misericórdia e andes humildemente com o Teu Deus”. Nós somos povo de Deus. Estamos neste mundo para fazer o que Ele pede de nós. Mas nem sempre o caminho é fácil. A teimosia, o orgulho, a confiança e a segurança nas coisas criadas pelas mãos humanas afastam-nos de Deus. Pessoas machucam pessoas; nações brigam com outras nações; também, em nome da fé, uns se sobrepõem aos outros. Vamos trazer as dores do mundo diante de Deus, cantando: Pelas dores deste mundo (Coleção Miriã 1 – 12).
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Glória: Lutero disse: “Deus se identifica com os que têm precisão: quem se afasta de seu semelhante, afasta-se do próprio Deus. Olha bem, para não passares por cima de mim; eu estarei perto de ti em cada pessoa pobre que necessita de teu auxílio e conselho; eu estou bem dentro dela”. L: Ó Deus, Pai e Mãe misericordiosa! C: Nós te louvamos. Nós te damos graças. L: Ó Jesus, cordeiro de Deus. C: Tu que tiras o pecado do mundo, acolhe as nossas súplicas. L: Ó Espírito de Deus. Tu és a fonte de todo o amor, do perdão, da reconciliação. C: Age entre nós e por nós. Nós te glorificamos, cantando: Glória, glória, glória a Deus nas alturas. Glória, glória, paz entre nós, paz entre nós. (Hinos do Povo de Deus n. 346) Oração do dia: “Caros amigos de Cristo, estamos reunidos aqui em nome do Senhor para receber seu Sagrado Testamento, a fim de fortificar a fé, a esperança e o amor. Assim eu peço: elevem seus corações e mentes a Deus, a fim de receber o entendimento da Santa Palavra, que é confortadora promessa de bênçãos para nossa vida. Que Deus olhe misericordiosamente para nós, seus filhos e filhas, e conceda-nos a graça de que seu santo nome seja santificado entre nós em todo o mundo por ensinamento e vivência pura e correta de sua Palavra. Afasta-nos do mal e de doutrinas falsas e enganosas e da vida má e desordenada. A uma só voz dizemos: Amém.” (Adaptado de Martim Lutero) Hinos: Amanhecer (Coleção Miriã 1 – 40), Nosso encontro vai ser abençoado (Hinos do Povo de Deus n. 123), Palavra não foi feita (Hinos do Povo de Deus n. 415), Cristãos, alegres jubilai (Hinos do Povo de Deus n. 155), Resistência (Hinos do Povo de Deus n. 443), Castelo Forte (Hinos do Povo de Deus n. 97).
Bibliografia CULLMANN, Oscar. A formação do Novo Testamento. Trad. de Bertholdo Weber. 6. ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1996. BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. http://www.monergismo.com/textos/comentarios/prefacio_lutero.htm. Retirado dia 12/06/2008.
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PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 6.1-9
22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
MARCOS 12.28-34 HEBREUS 9.11-14
01 NOV 2009
Ângela Lenke Deus não só quer encontrar suas palavras em nossa memória, mas também em nossa vida. Elas estão em nossa vida quando fazemos o que ele ordenou.1
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Introdução
Vivemos num contexto onde surgem, cada vez mais, novas teorias, teologias e ideologias. Nossas comunidades são influenciadas de uma ou outra forma, em maior ou menor escala. Há algum tempo, a “benzedura” era o problema e foi criticada por muitos. Hoje, a luta contra crenças, filosofias e práticas que afetam o povo que ainda é de Deus é muito maior. O mercado capitalista está chegando até mesmo às comunidades rurais. Aos poucos, perdem-se o companheirismo, a troca, o mutirão, a solidariedade (valores que a sociedade precisa resgatar). A essas comunidades rurais também chegam as novas filosofias, inclusive o espiritismo. O apego aos bens materiais faz com que pessoas, inclusive membros da igreja, deixem de participar da comunhão comunitária. Também deixam de guardar o dia de descanso (de culto) para que assim possam trabalhar mais e ter mais dinheiro, mais máquinas, casas e a tão sonhada TV de plasma. Esse apego aos bens materiais corrói a comunhão e o amor familiar, comunitário e de todas as relações sociais. E nossas famílias como estão? Cumprimos o que o texto pede: temos inculcado a palavra de Deus? Deuteronômio relembra quem é o centro de nossa vida, de nossa dedicação e a quem devemos obediência.
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Aspectos exegéticos
Deuteronômio pode ser resumido como o livro que reforça a Lei de Deus dada através do mediador entre Deus e o povo escolhido. O livro provavelmente foi escrito em torno de 620 a.C. Nesse período, o rei Josias pro1
AUGUSTINUS, Aurelius. [Santo Agostinho]. Flores do Jardim de Agostinho: a voz de um Pai da Igreja. Tradução: Lindolfo Weingärtner. Curitiba: Encontro, 2005, p. 64.
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moveu a reforma religiosa, centralizando o culto em Jerusalém. Entretanto, pesquisadores do século XX afirmam que o livro pode ter data tão antiga quanto Samuel, e outros atribuem data mais recente, como por exemplo a época do exílio. O fio vermelho do livro de Deuteronômio é a obediência a Deus. Isso inclui o ensino às futuras gerações. Expressa o que Deus espera de seu povo escolhido: passos concretos para o mandamento que Jesus coloca como o mandamento “principal” em Marcos 12.30: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.5). Dessa forma, a mensagem de Deuteronômio é o relacionamento íntimo do povo de Israel, agora prestes a ter a terra em que “mana leite e mel” (6.3), com o autor da vida: Deus. Os estatutos repassados ao povo de Israel, através de Moisés, são estabelecidos para todas as gerações vindouras (6.2). O v. 5 expressa obediência total com todo o ser. No hebraico, o verso exprime totalidade. Toda força e entendimento são a linguagem da devoção. O amor a Deus precisa ser de coração (v. 6), e por ser um amor sincero, a resposta de fé será falar e repassar as palavras do Senhor aos filhos e netos, assentado em casa, andando pelo caminho, ao deitar-se e ao levantar-se (v. 7). Os v. 8 e 9 expressam a importância global da Lei de Deus. Ele quer que a obediência seja visível, que coloquem sinais da lei nas mãos e escrevam a lei nos “umbrais” das casas e nas portas.
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Meditação
Vivemos num período em que tudo quer obediência. Deixamos até o capitalismo ter o controle sobre a situação. A obediência a Deus é diferente. Ele não escraviza, mas também não quer ser nem pode estar em segundo plano em nossa vida. Quando Deus dá os estatutos, não está assentado num trono. Ele caminha com o povo, ouve os clamores no Egito, guia o povo sob uma nuvem no deserto e vai junto à Terra Prometida. Deus ama primeiro. Jesus fala ao escriba que ele está próximo do reino de Deus (Mc 12.34). Amar a Deus e ao próximo não é uma teoria; é prática diária. E isso não é tão fácil exercer, sabendo que estamos rodeados por filosofias e tentações que afastam o “sacrifício definitivo, sem mácula” (Hb 9.14) do centro. No entanto, o amor a Deus é ação dele. Ele nos dá essa dádiva; ele age primeiro. Só nos resta obedecer. Afinal, somos feitura dele. Jesus coloca o amor a Deus como “principal” e acrescenta “amar ao próximo”. Com isso identificamos claramente que pertencer ao povo de Deus significa estar em relação, diariamente, com Deus e as pessoas, nossos irmãos na fé. Deus quer que o amemos de todo o coração e falemos da sua Palavra aos outros. Mas falar aos outros, em palavras e ações, só é possível quando amamos, ou seja, quando cumprimos os dois mandamentos que Jesus cita (Mc
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12.30-31). Amando a Deus, cuidamos do que nos foi confiado. Somos motivados a servir ao semelhante por causa da revelação do amor de Deus em Cristo. O povo de Israel foi conduzido a uma terra boa, uma terra de “leite e mel”, ou seja, a uma terra fecunda, verde, perto da água. Nessa nova terra, Deus espera ter um povo obediente, que não caia nas mesmas tentações e pecados como no deserto. Nós somos conduzidos a um reino de paz, perdão e alegria através de Jesus Cristo. Ele é nosso mediador. Os profetas no Antigo Testamento eram os mediadores entre Deus e o povo, repassavam a lei e a vontade de Deus. Mas Jesus, que veio cumprir essa lei e ser o único mediador, trouxe-nos a boa-nova e lavou nossos pecados. Como não amaremos a Deus de todo o coração se ele nos resgatou, lavou o pecado e nos oferece uma nova vida? Tendo Jesus como único sacrifício (Hb 9.14), que nos dá a esperança da vida eterna (Jo 3.16), por que nos deixamos influenciar por outras filosofias e ideologias, colocando nossa esperança em bens materiais e desacreditando da promessa de Deus? Somos chamados a nos lembrar dos estatutos de Deus, especialmente do primeiro mandamento, para que não nos deixemos levar por qualquer vento de doutrina e para que nos lembremos, estando tão perto do dia de Finados, de que nossa esperança está em Cristo Jesus, pois em fé nos oferece a vida eterna. Podemos estar rodeados de tentações, sentir tristeza e saudade por causa da perda de pessoas que amamos, mas lembremo-nos da promessa de um dia estar juntos com o Pai no banquete celestial. A palavra de Deus nos consola e exorta ao dizer que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18). Portanto “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38s). Guardemos a palavra do Senhor em nossos corações, gravemos a sua palavra em nosso interior (coração) e nosso exterior, consolemos uns aos outros em amor, lembremo-nos de que o Senhor é fiel e cumpre sua promessa.
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Imagens para a prédica
Sou de origem pomerana, e esta reflexão me fez pensar o quanto os imigrantes pomeranos, e de modo geral os alemães, precisaram ser “econômicos”. Não se olhava para o vestuário da moda: a roupa preta era a mais barata. O ensino cristão estava no cerne: a escola era construída ao lado da igreja; Bíblia, hinário e Catecismo eram os principais, senão únicos, instrumentos para passar a palavra de Deus aos filhos. Hoje temos muito mais recursos, livros, vídeos etc. Em vez de dar um livro sobre as estórias do “Superman”, é melhor sentar com os filhos e netos e contar uma história bíblica, ensinar músicas cristãs em vez de dar o fone para que aprendam músicas que colocam o ser humano como objeto.
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Penso que, trazendo exemplos do cotidiano, que tenham a ver com as famílias e o contexto, a mensagem do texto será mais compreensível. Cada um precisa analisar quem ou o que está ocupando seu coração. A forma como nós agimos e testemunhamos nossa fé será exemplo para a prática dos outros, especialmente das crianças. Se não leio a Bíblia, como espero que meu filho venha a conhecer os mandamentos ou conhecer a história da salvação? No segundo mês do Período Prático de Habilitação ao Ministério (PPHM) em Florianópolis em 2007, duas crianças que estudavam em projeto diaconal na Vila Santa Vitória levaram-me para conhecer a casa delas. A casa tinha duas peças: banheiro e cozinha, que, ao mesmo tempo, eram sala e dormitório. Bastou um convite para que a mãe das crianças começasse a freqüentar as atividades do projeto. Ela era a primeira a me acompanhar nos estudos bíblicos nas casas e em algumas visitas. Ela trazia suas crianças para os cultos. Um dia, ela me perguntou se eu poderia emprestar um cancioneiro para ela copiar as músicas e cantar com as crianças em casa. Dei um a ela, grata a Deus porque a semente já havia brotado; apenas precisava de acompanhamento. Quando menos imaginamos, Deus age.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Amado Deus! Rogamos-te, em humildade, que nos dês a graça de teu perdão, porque tantas vezes esquecemos de ensinar e repassar os estatutos/ mandamentos que nos ordenaste, porque colocamos outras coisas, inclusive bens materiais, como prioridade em nossas vidas. Perdoa-nos por delegar nossa responsabilidade de ensinar somente aos cuidados da igreja, sobrecarregando-a. Perdoa-nos quando, por medo e insegurança, nos deixamos enfraquecer diante das tentações e filosofias que não condizem com a vontade de Deus. Perdoa-nos quando achamos que o Senhor nos esqueceu e quando nossa esperança na vida eterna enfraquece. Em nome de Jesus Cristo, perdão! Amém. Oração do dia: Misericordioso Deus! Rendemos louvores a ti por nos concederes mais um dia de vida, por este dia que é obra de tuas mãos. Que neste dia, mais uma vez, possamos contemplar o quão grandioso é a maravilha de tua criação, também a maravilha da vida humana. Por isso queremos pedir-te que nos envies o teu Santo Espírito para que a tua palavra nos corrija e modifique como seres que, sem ti, caem e se perdem. Que a mensagem do culto e a comunhão com os irmãos possam nos dar discernimento e orientação, possam acalmar nosso coração e que saiamos daqui dispostos a amar e ensinar. Em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina eternamente. Amém.
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Oração de intercessão: Ajuda-nos, Senhor, a gravar em nosso coração a tua vontade em amarte e servir-te unicamente. Que tenhamos a sabedoria necessária para ensinar a tua Palavra aos filhos, netos e a todos os que estiverem ao nosso redor. Que nosso interior e nosso exterior, também nossas casas, reflitam o amor que transborda em louvor a ti. Que, ao sairmos daqui, tenhamos mais coragem para ensinar e falar de ti, ficando claro quem é nosso Deus. Que nossas ações, frutos de gratidão e amor a Cristo, possam transformar a vida das pessoas. Que não tenhamos medo de ensinar às criancinhas pobres, órfãos e que estão carentes de amor e carinho. Que sejamos humildes para compreender a dor das famílias enlutadas. Esteja, ó Deus de amor, com todas as pessoas que não têm um lar cristão, que ainda não sabem ou não descobriram que tu és prioridade na vida. Abençoa o trabalho da tua igreja no mundo, que continuemos fiéis a ti. Abençoa nossas famílias, mantenha a unidade, o companheirismo e o amor mútuo. Em nome de Jesus Cristo, amém.
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. SEIBERT, Erní Walter. Meditação sobre Dt 11.18-21, 26-28. Proclamar Libertação, v. 32: Auxílios Homiléticos. São Leopoldo: Sinodal, 2007. http://www.dasp.org.br/codigos/estudo_biblico/estudo_biblico_07_04.htm AUGUSTINUS, Aurelius. [Santo Agostinho]. Flores do Jardim de Agostinho: a voz de um Pai da Igreja. Tradução: Lindolfo Weingärtner. Curitiba: Encontro, 2005.
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PRÉDICA: MARCOS 5.21-24, 35-43
DIA DE FINADOS 02 NOV 2009
DANIEL 12.1-3 1 TESSALONICENSES 4.13-18
Ana Isa dos Reis
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Introdução
O presente recurso homilético destina-se ao Dia de Finados. Em algumas comunidades, esse dia é marcado por celebrações em igrejas e cemitérios. É um dia em que, de maneira especial, trazemos à memória nossas pessoas queridas já falecidas. Muitas pessoas que estarão presentes às celebrações enfrentaram o luto há algum tempo, quem sabe já tenham superado os momentos mais difíceis ou ainda sofram com um luto que já perdura muitos meses e, talvez, até anos. Outras pessoas estão recém experimentando o luto; ainda choram pela morte de uma pessoa querida, quem sabe ocorrida naquela semana. A celebração do Dia de Finados deve ser uma oportunidade para que as pessoas possam experimentar um pouco de conforto em meio à tristeza, possam ouvir sobre a ressurreição, a vida e a morte, sua e dos seus, e possam ter a certeza da presença de Deus ao lado delas, especialmente quando passam pelo vale da sombra da morte. Os textos previstos falam da esperança na ressurreição para a vida eterna. O texto de Daniel relata o fim dos tempos, quando serão salvos os povos de Deus que “estão inscritos no livro de Deus”. O texto de 1 Tessalonicenses relata a vinda de Jesus e, assim como Daniel, conta sobre o juízo final, em que muitos serão salvos pela fé e outros, que não creram, serão condenados. Os textos, como bem lembra 1 Tessalonicenses (nos v. 13 e 18), querem ser palavras de ânimo e coragem ao povo de Deus. É preciso ter claro que a mensagem do juízo final e da ressurreição nem sempre é de fácil compreensão para as pessoas. Trabalhar esses temas nos grupos das comunidades ajuda na apropriação e compreensão desses temas.
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Exegese
2.1 – Estrutura do Evangelho de Marcos e da perícope 1.1-9.50 – A atuação de Jesus na Galiléia 1.1-13 – Título, João Batista, batismo e tentação de Jesus 1.14-3.35 – Início da atuação: curas, conflitos, chamamento de discípulos 4.1-41 – Parábolas do reino e a calmaria
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5.1-43 – Três curas 5.1-20 – Cura de um homem dominado por espíritos maus 5.21-24 – Pedido de Jairo 5.25-34 – A cura da mulher enferma (que sofria de hemorragia) 5.35-43 – A ressurreição da filha de Jairo 6.1-9.50 – Rejeição em Nazaré, instruções aos discípulos, morte de João Batista, distribuição de pães e peixes, curas, confissão de Pedro, conflitos, transfiguração 10.1-52 – A caminho de Jerusalém 11.1-13.37 – A atuação de Jesus em Jerusalém 14.1-16.8 (9-20) – Paixão, morte (e ressurreição) de Jesus 2.2 – Observações exegéticas acerca dos versículos da perícope V. 21 e 22 – O v. 21 localiza onde aconteceu o encontro de Jairo com Jesus: junto ao mar. O chefe da sinagoga é um oficial da sinagoga ou um presidente leigo da congregação. O termo grego é archisunagogon, que talvez designe a pessoa que não conduzia a adoração pública, mas que arranjava as coisas para os outros fazerem, que cuidava das questões materiais e financeiras das sinagogas. Marcos diz que era Jairo, detalhe omitido em Mateus. Aliás, a perícope aparece mais condensada em Mateus, sendo omitidos detalhes que aparecem no desenrolar dos versículos em Marcos, a exemplo do anúncio da morte dessa jovem, que aparece em Marcos e Lucas, bem como a omissão da idade da menina. Jairo vem até Jesus. Ele é um líder judeu que arrisca sua reputação ao aproximar-se de Jesus. Jairo prostra-se diante de Jesus num gesto de desespero, de reverência e submissão. V. 23 – Aos pés de Jesus, Jairo conta que sua filha está à morte. A atitude desesperada de Jairo denota a gravidade da doença de sua filha e o desespero que toma conta dele. Jesus curava de várias formas, também à distância. No entanto, o uso da imposição de mãos é relatado algumas vezes nos evangelhos. Alguns supõem que esse ato seja mera “boa psicologia”, pois consola através do toque. Mas também é verdade, de acordo com muitas pesquisas, que na imposição de mãos acontece uma transferência de energia, o que também pode ser depreendido do relato da cura da mulher doente, em que o próprio Jesus diz ter-lhe saído poder (Mc 5.30). V. 24 – Jesus tinha o poder de curar à distância, o que fez algumas vezes, mas geralmente acompanhava as pessoas que o convidavam para suas casas ou lugares onde estava a pessoa que precisava de ajuda, mostrando compaixão e interesse pelos problemas delas. É assim que Jesus age com esse homem desesperado. Jesus compreende Jairo, sua dor e sua esperança. Então segue Jairo até a casa onde estava a filha querida desse pai que vem procurar ajuda. V. 35-37 – Marcos relata a chegada dos mensageiros por parte da família de Jairo, anunciando a morte da menina. Esses, sem nenhum rodeio, tra-
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zem a notícia que Jairo tanto temia: sua filha havia morrido. Esses mensageiros ainda continuam dizendo que não era mais para Jairo incomodar o Mestre. Certamente o disseram na perspectiva do sentido da morte para eles: a morte é o fim, um caso perdido, não havia mais nada a fazer, a morte tinha vencido e nada poderia mudar essa realidade, nem mesmo Jesus, esse cara a quem Jairo havia recorrido em seu desespero. Jesus percebe o choque de Jairo, seu desespero estampado no rosto. Afinal, quem não se desesperaria com a notícia (de forma tão direta e até bruta) da morte de sua pessoa querida? Diante do desespero, Jesus reage. Não fica calado, mas imediatamente oferece consolo. Jesus encoraja à fé, anima em meio ao desespero e convida a confiar mesmo contra toda a aparência e realidade. Jesus poderia ressuscitar a filha de Jairo, mesmo que esse não cresse, mas justamente ali Jesus chama Jairo para não perder a esperança, a crer somente. E Jairo certamente atende esse pedido, porque não aceita o que os mensageiros pedem, ou seja, deixar o Mestre e não aborrecê-lo mais. Jairo permanece ao lado de Jesus e segue o caminho até sua casa. Jesus não vai sozinho com Jairo. Ele convida três discípulos. O porquê do convite a esses três não nos é revelado. Talvez, como dizem alguns pesquisadores, eram os mais achegados a Jesus. O certo é que esses três têm a oportunidade de testemunhar o quanto Jesus leva a sério o sofrimento das pessoas e o quão poderoso ele é, inclusive diante da morte. V. 38-40a – Continuando o caminho, Jesus chega à casa do chefe da sinagoga. Os lamentos pela morte da menina já haviam começado. É provável que, no caso da menina da perícope, Jesus tenha encontrado um grupo que incluía cantores voluntários e assalariados, carpideiras comuns que tinham a função de chorar pela pessoa morta e alguns vizinhos curiosos. Jesus sempre foi solidário com as pessoas sofredoras, mas nunca concordou com ostentação. Por isso ordena que todas aquelas pessoas se retirem. Essas pessoas riem de Jesus por causa da afirmação de que a menina está dormindo. No grego, o verbo está na forma intensiva para mostrar o desprezo e a zombaria que aquelas pessoas demonstraram por Jesus. Eram lamentadores profissionais, que tinham visto muitos casos de morte e conheciam bem seus indícios e a jovem certamente os apresentava. A questão se a jovem estava realmente morta ou não é bastante discutida entre os exegetas. Alguns acham que ela estava em estado de coma, outros que ela realmente estava morta e que Jesus usou a expressão “mas dorme” para indicar que, naquele caso, a morte não tinha maiores conseqüências do que o sono temporário, pois a jovem logo despertaria para a vida. V. 40b-42 – Depois de ordenar que todas aquelas pessoas que já pranteiam (e que não acreditam que Jesus pode fazer algo pela menina, já que a mesma já estaria morta) saiam, Jesus entra no quarto onde está a menina, juntamente com o pai e a mãe dela e os três discípulos. Jesus toma a menina pela mão. Isso significa que ele tocou um cadáver e, conseqüentemente, torna-se impuro conforme a lei judaica. Ao tocá-la, Jesus transmite vida e resgata a menina como criatura digna, criada à imagem e semelhança de Deus.
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Jesus ordena, em aramaico, que a menina se levante. E a menina reage imediatamente, levantando-se. Em Marcos, aparece 41 vezes a palavra imediatamente, mostrando urgência. Em Marcos, a imposição de mãos está associada à palavra proferida por Jesus em aramaico, detalhe omitido em Mateus. Após levantar-se, a menina, que tinha 12 anos, detalhe que Marcos salienta, caminha. Todos ficam admirados. Afinal, o que acontece ali transcende todo entendimento humano. V. 43 – O Evangelho de Marcos tem como característica o “segredo messiânico”, ou seja, o reconhecimento, a aceitação e a glorificação do senhorio de Jesus; conforme Marcos, são objetivo último de todos os sinais e milagres. Por isso, no relato de Marcos, Jesus pede que não espalhem a notícia do que havia acontecido ali com essa menina. Antes ainda de partir, Jesus ordena que tragam comida para a menina, o que denota a preocupação de Jesus com as necessidades básicas do ser humano e com a integralidade da pessoa.
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Meditação
Ninguém quer morrer, nem mesmo o suicida. A morte corta as relações entre as pessoas, rompendo a possibilidade das pessoas voltarem a se encontrar em seus espaços de convívio (seja em casa, na escola, no trabalho, na igreja), provoca um sentimento de perda dolorosa, lança as pessoas no abandono. A morte sempre significa despedida, angústia e luto. Mesmo que todos nós saibamos que a morte é a única certeza que temos de algo que vai nos acontecer, cada um de nós, na hora em que ela se aproxima, é tomado por um sentimento de impotência, angústia e dor. O próprio Jesus também experimentou esse sentimento. Diante da morte, todo ser humano luta para, de certa forma, fugir dessa realidade e reverter a situação de aniquilamento. Também foi assim com Jairo. Diante da morte de sua filha, uma menina de apenas 12 anos, Jairo lança mão de toda e qualquer possibilidade. Quem já não ouviu histórias de pais e mães que apelaram a tudo e a todos na urgência de salvar um filho ou uma filha ou mesmo algum familiar? Jairo sabe que sua filha está gravemente doente e pode morrer. Então ele se lança àquele do qual tinha, certamente, ouvido falar que fazia coisas maravilhosas. Jairo espera contra toda a esperança. Nem sabe se Jesus o ouvirá, se atenderá seu pedido; afinal, ele é um archisunagogon. Jairo arrisca tudo, ignora o que lhe pode custar essa procura desesperada por Jesus; apenas vai e lança-se a seus pés. E Jesus, compaixão, ouve-o e segue a seu lado até sua casa. Jesus é solidário com a dor de Jairo, percebe o desespero desse homem, anima-o durante a caminhada, especialmente após ouvir, ao lado desse pai, a notícia que Jairo não queria ouvir jamais: a morte da filha. Ninguém quer ouvir a notícia de que sua pessoa querida faleceu. Saber que a morte de fato se tornou a realidade encole-
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riza o ser humano e o atira ao chão, demonstrando a total incapacidade e nulidade que temos diante da morte. No entanto, Jesus reverte esse quadro. A morte continua, sim, a última inimiga a ser vencida, mas já não tem mais a última palavra. Jesus venceu-a com sua morte e ressurreição. Essas investidas de Jesus contra a morte podem ser vistas em algumas passagens bíblicas, e o caso da filha de Jairo é um exemplo clássico. O que aconteceu com a menina da perícope foi um tipo diferente de ressurreição daquele experimentado por Jesus e o qual todos nós aguardamos. Jesus continua sendo a primícia dos que dormem (1Co 15.20s). A ressurreição que a filha de Jairo experimenta é como que uma volta de uma situação de não-vida para a vida (para aquela vida que estava vivendo antes de ficar doente). A menina volta a viver com o mesmo corpo (a mesma alma e o mesmo espírito), com o mesmo ser integral e continua sendo como era antes, apenas com uma experiência (de vida) diferente. A menina ainda é passageira, sujeita ao tempo e ao espaço, como antes, e irá morrer como todas as outras pessoas. A ressurreição de Jesus é algo diferente, trazendo elementos de descontinuidade ao que ele tinha vivido (ou àquilo que conhecemos dele a partir dos relatos bíblicos): depois de ressurreto, Jesus não estava mais sujeito ao espaço e ao tempo. Continuava corporal, é verdade, porque o jeito de Deus é tornar-se concreto, palpável e encarnado. Hoje, a partir de Jesus, como pessoas cristãs, cremos na promessa da ressurreição para a vida eterna. Assim como Jairo, também podemos nos lançar aos pés de Cristo e contar-lhe nossa dor e nosso sofrimento. Jesus vai ao nosso lado nos pedaços difíceis do caminho de nossa vida ou carrega-nos em seu colo. Jesus não nos abandona em meio aos sofrimentos. Ele nos ouve, toma em seus braços e ali nos consola e anima. E também podemos ter a certeza de que nossa pessoa querida falecida não está jogada à própria sorte ou abandonada. A morte não nos lança ao nada, mas nos braços de Deus. Como diz Paulo: “Nem a morte e nem a vida, (...), nem nada pode nos separar do amor de Deus que é nosso por meio de Cristo Jesus” (Rm 8.38ss). É bem verdade que não temos provas concretas, nem explicações racionais sobre a ressurreição. O que temos é a fé e temos a Cristo, e precisamos ser humildes para reconhecer que Deus nos escapa das mãos, fugindo à nossa racionalidade e aos nossos conceitos de tempo e espaço. A certeza que podemos ter é: quando morremos, caímos nas mãos de Deus. Morremos integralmente; afinal somos corpo, alma e espírito (diferente de concepções que dizem que o ser humano tem corpo, tem alma e tem espírito). Como seres integrais, a morte atinge-nos por completo; nenhuma parte de nós fica vagando por aí. O que permanece, no entanto, é nossa identidade; nosso ser permanece guardado com Deus até o dia do juízo final. Essa é a promessa que temos, que biblicamente podemos ler, mas que apenas podemos crer. Também aqui vale a palavra de Jesus para nós: “Não temas! Crê somente!”. As pessoas enlutadas (e também nós) não precisam temer a morte, porque o que quer que venha com ela, Jesus já o passou antes de nós e o venceu a partir de sua ressurreição. Somos convidados a crer que nossa pes-
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soa querida falecida está nas mãos de Deus e que Ele mesmo também cuida das pessoas enlutadas, consolando-as diariamente, animando-as e fortalecendo-as para seguir a caminhada. Deus está ao lado de seus filhos e filhas cada dia, mesmo que, algumas vezes, nós não consigamos sentir essa presença, como bem diz a canção: “Se bem que eu nada sinta do teu poder, que a luz da tua face não possa ver, eu sei que tu me guias, meu Bom Pastor (..)” (Hinos do Povo de Deus – volume 1 – n° 174).
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Imagens para a prédica
Dentre as várias imagens possíveis para a prédica destaco duas: a – a imagem de uma pessoa lançada aos pés de Jesus (assim como fez o próprio Jairo) e Jesus estendendo sua mão com carinho e amor. As pessoas enlutadas também são convidadas a aproximar-se de Jesus, a confiar que ele pode ajudar, a lançar nele suas esperanças. E Jesus é aquele que não vira as costas, mas é solidário, entende o sofrimento das pessoas e estende-lhes a mão. Aos pés de Jesus também podemos trazer nossa dor e sofrimento e estar seguros de que Cristo estará ao nosso lado e seguirá conosco nos pedaços difíceis da caminhada de nossa vida; b – a morte não nos lança fora do corpo de Cristo, mas nos faz cair nas mãos de Deus. O medo da morte nos acomete, dentre muitos outros motivos também porque não sabemos o que vem com a morte. Afirmar que o que quer que venha com a morte já foi experimentado por Jesus ajuda a consolar as pessoas enlutadas e todos os seres humanos. Saber-se nas mãos de Deus, quer estejamos vivos, quer mortos, é uma imagem consoladora e animadora, também porque Deus (que prometeu “publicamente” estar ao nosso lado no dia de nosso Batismo) é a razão da vida e da morte, pelo menos das pessoas cristãs. E ali, nas mãos de Deus, continuamos recebendo seu cuidado.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados: Confessemos a Deus os nossos pecados. Em silêncio, vamos confessar individualmente a Deus os nossos pecados e depois dirigirei a confissão comunitária. Oremos: (momento de silêncio para confissão individual) Misericordioso Deus, confessamos que, como tua comunidade, pecamos em palavras, ações e omissões. Confessamos, Senhor, que muitas vezes não trazemos diante de ti nossas preocupações e angústias. Confessamos, Senhor, que nem sempre confiamos em ti de todo o coração e que, em meio ao desespero, nem sempre percebemos tua presença consoladora e confortadora. Perdoa-nos, ó Deus, quando fechamos nossas portas às pessoas que sofrem, quando não somos solidários e nem estendemos a mão aos desesperados e necessitados. Perdoa-nos, ó Deus, quando não cremos em mais
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nada, nem mesmo em ti. Renova-nos, Senhor, e estende tua mão sobre nós, assim como Jesus também fez, perdoando-nos e encorajando a crer. Por tudo isso e pelo que pesa em nós, Deus de amor e misericórdia, pedimos teu perdão. Amém. Absolvição: Assim disse Jesus: “Não temas! Crê somente!”. Confiantes nessa promessa, anuncio o perdão dos pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Oração do dia: Misericordioso Deus, tu que sempre estiveste ao lado de teu povo, vindo até nós em Jesus Cristo, nós te pedimos que nos concedas fé para que coloquemos diante de ti toda a nossa dor, nosso sofrimento e nossas dúvidas, seguros de que tu nos ouves e nos consolas. Faze-nos experimentar teu poder vivificador e consolador. Por Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou e que vive e reina contigo e com o Espírito Santo hoje e sempre. Amém. Oração geral da igreja: Misericordioso Deus, damos-te graças pela vida e por todo o cuidado que tens para conosco. Agradecemos-te pelos anos que pudemos conviver com nossas pessoas amadas já falecidas e por todo o cuidado que tiveste para com elas. Bondoso Deus, em tuas mãos colocamos toda a saudade que sentimos de nossas pessoas queridas que já faleceram. Rogamos que, assim como cuidaste de cada uma delas enquanto viveram aqui conosco, tu também as sigas guardando em tuas misericordiosas mãos e permite que confiemos que nada, nem a morte e nem a vida, pode separar-nos do amor que tens por nós. Intercedemos, ó Senhor, por todas as pessoas enlutadas. Coloca a tua mão consoladora e confortadora ao redor de cada pessoa enlutada para que possa sentir tua presença constante. Intercedemos, ó Deus, por fé na ressurreição do corpo. Intercedemos, Senhor, por nosso mundo, para que experimente sinais de vida e para que a mensagem da ressurreição e vida plena arranque os sinais de morte e encoraje as pessoas a se unir na luta por um mundo mais justo e solidário para todas as pessoas. Intercedemos por tua igreja, para que sempre seja fiel testemunha do Cristo ressurreto e que tenha suas portas abertas para receber todas as pessoas e animar aquelas que estão tristes e desamparadas. Intercedemos, ó Senhor, por todas as pessoas doentes. Tu sabes o nome de cada uma delas, e rogamos que coloques tua mão curadora em torno delas. Esteja com as pessoas doentes, com seus familiares, com os cuidadores e com os profissionais da área da saúde, preenchendo-os com coragem e ânimo. Misericordioso Deus, diante de ti trazemos nossa oração, também aquela que está no fundo de nossos corações, rogando que tu nos escutes e nos atendas conforme a tua bondade. Por Jesus Cristo. Amém.
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Dia de Finados
Oração Eucarística: L:Graças te damos, ó Deus eterno, por sempre teres estado junto com teu povo e teres vindo até nós em Jesus Cristo. Damos-te graças, misericordioso Deus, pela dádiva maior, que é teu Filho Jesus Cristo. Jesus viveu entre o povo, curando, animando e ensinando, e foi solidário com as pessoas, colocando-se ao lado especialmente das pessoas que estavam sofrendo. Jesus experimentou a morte, mas a venceu através de sua ressurreição, trazendo a todas as pessoas a esperança na ressurreição para a vida eterna. Ressurreto, Jesus vive contigo, ó Senhor, e com o Espírito Santo. Celebramos a Ceia conforme a ordem do próprio Jesus. Muitas foram as vezes que Jesus se reuniu com seus discípulos e outras pessoas para cear. Mas, na última vez que jantou com sua comunidade de discípulos, na noite em que foi traído, Jesus tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e disse: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”. De modo semelhante, depois de haver ceado, tomou também o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto todas as vezes que o beberdes, em memória de mim”. Envia, Senhor, teu Espírito Santo, o Espírito de nosso Senhor e de sua ressurreição, para que, partilhando o pão da vida e o cálice da salvação, tornemo-nos, em Cristo, um só corpo que anuncia a esperança. Lembra-te, Deus da ressurreição, de todas as pessoas falecidas, de todos os tempos e lugares e lembra-te também de nossos familiares que já partiram desta vida (aqui podem-se citar os nomes das pessoas já falecidas da comunidade, que faleceram naquele ano e/ou que sejam lidos os nomes que estiverem no livro dos Dípticos ou Mementos – livro esse que, com a devida capa e explicação, pode estar à entrada do lugar de celebração, com uma caneta, onde as pessoas podem anotar o nome de suas pessoas queridas já falecidas, independente da data da morte) e reúne-nos todos no teu reino, junto à mesa do banquete que nos tens prometido, quando não haverá mais lágrimas nem mortes. Louvamos-te, trino Deus, cantando: C: Por Cristo, com Cristo e em Cristo, sejam a ti, Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amém, amém, amém. Sugestão de hinos de Hinos do Povo de Deus – volume 1: n° 67 (Cristo venceu a morte); n° 174 (Por tua mão me guia); n° 166 (Dá-nos olhos claros); n° 210 (Guia-nos, Jesus); n° 216 (Segura na mão de Deus); n° 237 (Graças dou por esta vida); n° 221 (Senhor porque me guarda a tua mão). Sugestão de hinos de Hinos do Povo de Deus – volume 2: n° 393 (Salmo 121); n° 421 (Vaso novo); n° 461 (Tão longe); n° 473 (Em tua presença); n° 320 (Espírito Santo de Deus); n° 318 (Vem, Espírito de Deus).
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Dia de Finados
Bibliografia CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millenium, 1986. WEHRMANN, Günther K.F. In:. PL n. 28, p. 253-259. GAEDE NETO, Rodolfo. Os mementos na Oração Eucarística. In. TEAR n.10, p. 14-15.
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PRÉDICA: MARCOS 12. 41-44
23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
1 REIS 17. 8-16 HEBREUS 9. 24-28
08 NOV 2009
Ervino Schmidt
1
A título de introdução: Olhando os textos
A combinação desses três textos bíblicos acima indicados foi, de fato, muito feliz. Eles têm vários aspectos em comum. Todos os três apresentam, de algum modo, uma completa inversão de valores. O que é importante aos olhos do mundo é insignificante para Deus. E o que nada é justamente é valorizado por ele. Encontramos nos textos, também como algo comum a todos eles, a vivência em abnegada entrega. Isso, por sua vez, é expressão de total confiança no doador e mantenedor da vida. Concretamente, isso aparece da seguinte maneira: No caso da viúva de Sarepta, a confiança expressa-se no fato de ela entregar o último punhado de farinha e o resto de azeite ao hóspede estranho. Era tudo o que tinha e quis prepará-lo para si e seu filho: “...comê-lo-emos e morreremos”. Confiou na palavra de Elias: “Não temas (...) porque assim diz o Senhor, Deus de Israel: a farinha da tua panela não se acabará, e o azeite da tua botija não faltará...” Em espírito de confiança ela sacrifica tudo. Também na narrativa do Evangelho de Marcos encontramos uma pobre viúva. No templo, ela deu sua oferta, como era costume. O detalhe, porém, é que ela “da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento”. De novo se trata de uma entrega abnegada, total, mas que indica firme esperança no poder que sustenta a vida. A Epístola aos Hebreus também fala de entrega confiante e de sacrifício. Exatamente na entrega de Jesus e em sua ressurreição dentre os mortos se cumpriram as Escrituras. No centro da mensagem da carta, que é muito mais um tratado teológico, está, pois, a morte de Cristo na cruz. Essa entrega supera toda sorte de sacrifícios e é única e válida para sempre. Havia a lei de Moisés e o culto da antiga aliança com tudo o que ele implicava em termos de cerimonial complicado e de sacrifícios. Cristo, porém, sacrifica seu próprio corpo, a si mesmo, como oferta feita ef hápax. Essa morte na cruz é resultado de uma doação extrema, de uma obediência perfeita a Deus e de uma solidariedade incondicional com o ser humano. De certa forma, tal entrega e disposição para servir já estão prefiguradas nas atitudes das viúvas.
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2
Auscultando o texto da pregação
É de domínio comum a constatação de que o relato pormenorizado da paixão de Jesus é uma característica do Evangelho de Marcos. Antecede-o uma longa introdução, na qual se destaca a confissão de Pedro. Na mesma encontra-se também a pergunta que, desde a primeira aparição pública de Jesus, acompanha o leitor, a saber: “Todos ficaram tão espantados que se perguntavam uns aos outros: Que é isso? Eis um ensinamento novo, cheio de autoridade”. O relato da paixão responde a essa pergunta. O ensinamento novo, a verdade, somente será reconhecido na humilhação da cruz. Até lá permanece o que se convencionou chamar de “segredo messiânico”. Mas em tudo isso se percebe a radical inversão de valores inaugurada por Jesus. Os seres humanos buscam segurança, orientam-se por calculismo e previsão de lucro. O caminho de Jesus, porém, é outro. É marcado justamente por insegurança, desprendimento, humilhação e sacrifício. É assim que se dá a vitória sobre a morte. Dessa forma, o relato da paixão adquire uma impressionante dramaticidade. O capítulo 12 de Marcos, do qual é extraído nosso texto de pregação, praticamente ilustra essa inversão de valores à qual nos referimos. A parábola dos vinhateiros conclui com a constatação: “A pedra que os construtores rejeitaram, foi ela que se tornou pedra angular”. À pergunta capciosa de alguns fariseus e de alguns herodianos se “será permitido, sim ou não, pagar o tributo a César?” ele responde com: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E à astuta argumentação de que a ressurreição dentre os mortos seria inconcebível Jesus responde que Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. Em todas essas questões, que, no fundo, tematizam a relação entre Deus e as pessoas, Jesus aponta para a radical simplicidade da vontade divina. Basta amá-lo, mesmo que isso não nos pareça ser suficiente. Isso se opõe frontalmente à nossa ânsia por segurança e por poder. Mas permanece: Decisivo mesmo é temer e amar a Deus acima de tudo. Esse é o contexto em que se localiza a narrativa de Marcos 12.41-44. Algumas observações ainda sobre o texto e sobre detalhes do mesmo: A narrativa é composta de duas partes, a saber: a descrição de uma situação (v. 41s) e a interpretação da mesma por Jesus (v. 43s). Aqui não vem ao caso se temos diante de nós um fato histórico ou não. Bultmann afirma, em sua afamada obra ”História da Tradição Sinótica”, tratar-se claramente de uma cena ideal em que, de maneira plástica e figurativa, se expõe um pensamento que tem valor de um princípio. Aqui se trata da afirmação de que a pequena oferta do pobre agrada mais a Deus do que a opulenta oferta do rico. Lembra ainda que, no mundo antigo, bem como na reflexão rabínica, pode-se encontrar esse mesmo pensamento, e lá também já em roupagem de cena ideal. Dissemos que não importa se a cena que é narrada tenha acontecido tal qual é transmitida. Mas temos que concordar que ela é histórica, ou seja,
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verdadeira em outro sentido. Ela capta de modo profundo o espírito do que realmente foram a proclamação e a vida de Jesus. Ainda um outro tipo de questão: as várias versões em português do texto bíblico traduzem de modo diverso o termo grego gazofilakeion do v. 41. Almeida mantém “gazofilácio”. A Tradução Ecumênica da Bíblia, a TEB, circunscreve-o com a expressão “cofre das esmolas”. Usa-se também a tradução “câmara do tesouro”. Mas do que se trata? O termo grego designa não um pequeno recipiente, mas um recinto. O mesmo ficava no pátio das mulheres, a parte do templo à qual todas as pessoas tinham livre acesso. Na câmara do tesouro havia 13 recipientes estrategicamente distribuídos. Neles eram colocados os tributos e as ofertas. Quando uma quantia maior era entregue ao sacerdote de plantão, soava uma trombeta (cf. Mt 6.2). O sacerdote recebia as ofertas, examinava-as, perguntava para que se destinavam e então as depositava no recipiente correspondente. Jesus estava, pois, sentado no pátio das mulheres, de onde podia ver o movimento no gazofilácio (na “câmara do tesouro”) e, assim, pôde também perceber o que se passava com a oferta da viúva pobre. O v. 42 descreve a oferta da viúva. Ela dá dois leptá (lepton é a expressão grega para a menor moeda judaica, o peruta). Mas Marcos já atualiza para leitores romanos e compara. Seria o equivalente a um quadrante (a menor moeda romana). Talvez a tradução da TEB seria a indicada para nossa realidade: “Veio uma viúva pobre que depositou duas moedinhas, alguns centavos”. É significativo que a viúva dá duas moedas. Isso serve para destacar que ela entrega mesmo tudo o que possui. Ela poderia perfeitamente ter entregue apenas uma moeda e ficado com a outra para si. Aqui já se abre o caminho para a avaliação que Jesus faz em seguida. Ele compara a oferta da viúva à opulenta doação dos ricos. Ela deu infinitamente mais. Jesus diz expressamente: “da sua pobreza deu tudo quanto possuía” (v. 44). Ainda segue uma expressão que alguns intérpretes consideram um acréscimo posterior: “todo o seu sustento”. Mas, observando a intenção da mensagem central da narrativa, esse reforço pode perfeitamente fazer parte do original. A viúva não somente deu mais na proporção. Duas moedas para ela pesam muito mais do que aquilo que provém das sobras de um rico. A questão aqui é mais radical. A viúva dá “tudo quanto possuía”, “todo o seu sustento”. Isso quer dizer que ela colocou toda a sua vida nas mãos de Deus. Com isso ela representa a atitude da fé de total entrega confiante a Deus. Mencionamos acima que a máxima de que para Deus a oferta do pobre vale mais do que a doação do rico pode ser encontrada também na literatura judaica (rabínica), greco-romana e mesmo em outras culturas. Não se trataria, pois, de algo especificamente cristão. Deve ser observado, porém, que no contexto da mensagem do evangelho essa afirmação de princípio recebe acento próprio. Aqui não se apela apenas a uma valorização mais justa dos pobres em geral. O pronunciamento solene de Jesus “Em verdade vos digo” indica que aqui se dá algo ainda mais profundo. Deparamo-nos com a proclamação escatológica do juízo definitivo de Deus sobre a atitude da viúva.
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3
Considerações pastorais
Impõe-se a pergunta se a ação da viúva não poderia ser entendida como boa obra, assunto tão calorosamente discutido na Reforma. Verdade é que a mulher não é aceita por ser pobre, mas por sua ação, pela dádiva. Aqui é preciso diferenciar cuidadosamente. Não se trata de uma ação que visa ao merecimento. Não há qualquer reivindicação para que Deus, de alguma forma, retribua o gesto, a “boa obra”. A viúva age em expressão natural da fé, em abnegado espírito de entrega. É um agir espontâneo. Jesus simplesmente indica que tal atitude de sacrifício existe. Essa confiança incondicional em Deus é possível. Vejam o caso da viúva. Somos convidados a perceber que a liberdade de agir de maneira tão desinteressada, como em nossa narrativa, é dádiva de Deus. É graça poder viver e agir de modo tão despretensioso e tão abnegado. Liberdade cristã para uma atitude radical, sem duvida, é parte da mensagem central do texto para o 23º Domingo após Pentecostes. Mas também faz parte dela o reconhecimento de que diante de Deus todas as pessoas têm o mesmo valor. Dito de modo diferente: Deus não faz acepção de pessoas. Ele não avalia segundo as posses, a influência e o poder que alguém possa ostentar. Ele não se orienta por esses critérios próprios do mundo. Riqueza para ele não determina o valor de uma pessoa. Isso nos parece tão convincente. Mas a questão é mais complexa. Vivemos neste mundo e não podemos fugir dele. Não podemos ignorar que nele valem outros critérios. Não podemos fazer de conta que eles não existem. A comunidade cristã não se encontra fora do mundo e, até certo ponto, estará sempre sujeita às leis que o regem. E, olhando bem, damo-nos conta de que necessitamos de ofertas generosas para a manutenção de um mínimo de estrutura necessária na igreja. Certo é, porém, que na vida e ação da comunidade deve estar muito claro que diante de Deus todas as pessoas são iguais. Quando estudei esse texto de Marcos para escrever a presente reflexão, percebi que se pode correr um sério risco, qual seja: transformar a mensagem em afirmações legalistas. Com facilidade se tende a condenar genericamente os ricos. Por outro lado, existe a tentação de exigir que todos sigam à risca o exemplo da viúva pobre. Em ambos os casos, o evangelho estaria sendo transformado em lei. Por isso há de se ter muito cuidado ao atualizar para os nossos dias essa belíssima narrativa da viúva pobre.
4
Sugestões para a prédica
A própria narrativa sugere que, na prédica, se aborde a questão da coleta dominical. Ela, porém, não se presta para apelos no sentido de angariar contribuições maiores para o trabalho da comunidade. Não cabe o apelo de que é necessário dar mais, muito mais. E o destaque está justamente na pequena oferta que vem de uma pessoa pobre. Isso, aliás, parece não represen-
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tar nenhum problema para a compreensão. Todas as pessoas presentes no culto saberão valorizar as pequenas ofertas. Até saberão contar histórias comoventes a respeito. Concordarão também com Jesus que diante de Deus todos são iguais, que não há da parte dele acepção de pessoas. Não é a quantia que importa, mas a intenção com que é doada. Quem não se emociona quando observa a alegria de crianças ao colocar sua moedinha na coleta do culto infantil? O que conta é exatamente essa alegria. Algum tempo atrás, participei de um culto em que o pastor recebeu das crianças uma porção de cofrinhos feitos de latinhas de refrigerante vazias. Em volta delas estava colado um rótulo colorido, que indicava a finalidade da coleta. Durante um determinado período, as crianças haviam colocado nelas suas moedas. Foi uma verdadeira festa a entrega dessa “poupança”. Não é a quantia que importa, mas a intenção com que se oferta. Até aqui tudo bem. Mas é necessário também dizer que, no mundo em que vivemos, não é possível ignorar que existem diferenças entre as pessoas. Há pessoas com melhores condições financeiras do que outras, e necessitamos de suas contribuições. Se o telhado do templo precisa ser restaurado, por exemplo, vamos ter que enfrentar um orçamento que apresenta elevadas somas. Mas permanece sempre válido que Deus não avalia o doador conforme a quantia doada. Após essas reflexões, poder-se-ia lançar a pergunta pelos pobres na comunidade. Como estão? Como estão sendo cuidados? Comunidade cristã, por natureza, é comunidade inclusiva. Como tal ela se preocupa de modo especial com os membros pobres, com aquelas pessoas que, conforme os critérios do mundo, não têm valor. Recentemente, assisti a um documentário com o título “A arte bruta de Moacir”. Trata-se de um pintor autodidata, de quarenta e poucos anos, que vive com seus pais num recanto do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Ele se expressa através de uma arte primitiva e vigorosa. Diz ele: “Tem muita gente que não gosta de gente. Se a gente não tem qualquer coisa, eles não gostam da gente. Agora se não tiver nada, ninguém gosta. Se a gente tiver qualquer coisa, aí o povo gosta da gente e quer amizade. Quer amizade, mas só por isso. Quando a pessoa não tem nada, é pobre. O povo vira as costas”. Pobre não tem valor. Não é assim na comunidade de Jesus Cristo. Por “pobres” se entendem todas as pessoas excluídas da sociedade, independente dos motivos da exclusão. Por fim, e até como um ponto alto da pregação, é possível retomar a oferta da viúva pobre e meditar sobre o que significa que ela deu “tudo quanto possuía”. À primeira vista, esse gesto parece até ser um ato de irresponsabilidade. Mas, na verdade, é uma atitude de irrestrita confiança em Deus. Só que, como dissemos acima nas considerações pastorais, deve-se ter todo o cuidado para não pregar a lei, mas sim o puro evangelho, a libertadora boa-nova. Para isso, é indispensável destacar que seguidamente alguma irmã ou irmão nosso se sentirão chamados a doar tudo o que têm. A viúva pobre deu “todo o seu sustento”. Jesus mesmo fez entrega total, deu sua vida em resgate por muitos. E no seu discipulado tem que se contar com que alguém dê tudo o que possui.
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Subsídios litúrgicos
Oração de coleta: Santo Deus, a ti nos abandonamos. Que a tua vontade se faça em nós. Entregamos nossa vida em tuas mãos, assim como fez a viúva pobre. Senhor, abre nossos corações e nossa mente para que te possamos amar acima de todas as coisas. Amém. Oração comunitária: – Pedir a Deus que guarde a sua igreja e lhe dê fiéis servidores, que, por uma necessidade de amor, se entreguem em suas mãos sem medida. – Interceder pelos governantes de nosso país. Que Deus lhes dê sabedoria para governar de tal modo que tenham sempre especial cuidado com as populações mais vulneráveis. – Incluir na oração de intercessão questões locais (que podem antes ter sido coletadas junto à comunidade reunida). Invocação: Será que Deus vai me ouvir? Sou pobre e indigente, como me achegar ao Deus da Vida? Invoquei o teu Deus, Jesus, e aguardei. Nada se passou por muito tempo até que a alegria, devagar, renasceu em minha casa E minha alma desesperada se aquietou. Que sucedera? Javé inclinou-se para mim E respondeu ao meu chamado. Tu tiveste piedade de mim, E eu me senti livre outra vez. Tu és bom e és um Deus que perdoa. Ensina-me o caminho da justiça e andarei nele, ainda que isso me custe. Dá força ao teu filho, alenta a tua filha, e saberão que tu és Deus, que derrubas do trono os poderosos e exaltas os pobres. Sim, Javé, eu creio em ti. (E. Zwetsch. Vigília – Salmos para tempos de incerteza)
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Bibliografia BULTMANN, Rudolf. Die Geschichte der Synoptischen Tradition. 7. ed. Vandenhoeck/Ruprecht, 1967. GRUNDMANN, Walter. Das Evangelum nach Markus. 8. ed. Zwickau: Volksdruckerei, 1980. RAISER, Konrad. Prédica sobre Marcos 12.41-44. In: Hoffen auf Gerechtigkeit und Versoehnung. Stuttgart: Kohlhammer, 2002. p.86ss. SPERB, Ulrico. Marcos 12.41-44. In: Proclamar Libertação. v. 22. São Leopoldo: Sinodal, 1996. p. 281ss.
24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES Daniel 12.1-3 Marcos 13.1-8 HEBREUS 10.11-14(15-18),19-25
DOMINGO CRISTO REI DANIEL 7.9-10,13-14 João 18.33-37 Apocalipse 1.4b-8
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PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 26.1-11
AÇÃO DE GRAÇAS (FESTA DA COLHEITA)
JOÃO 6.25-35 FILIPENSES 4.4-9
02 NOV 2009
Clarise Holzschuh / Jair Holzschuh
1
Introdução
O desafio é traduzir a Ação de Graças para essa realidade tão diversa, partindo da prática dos israelitas no Antigo Testamento. O texto de Deuteronômio 26.1-11 traz, em detalhes, essa celebração. Mostra, através da confissão de fé, o verdadeiro lugar do ser humano na história com Deus: eternamente dependente de Deus. Ao mesmo tempo, descreve um Deus que cumpre suas promessas junto a seu povo em todos os tempos: passado, presente e futuro. No Evangelho de João, Jesus confronta os ouvintes com a limitação do ser humano. O pão que dá vida vem do céu e só pode ser dado por Deus: “Não foi Moisés quem vos deu o pão do céu; o verdadeiro pão do céu é meu Pai quem vos dá” (Jo 6.32b). O evangelista João mostra que Jesus é o pão da vida. Assim como em Deuteronômio se aponta para Deus como sendo o doador e mantenedor de toda a vida, Jesus aponta novamente para Deus como o doador do Pão da Vida. Jesus afirma: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6.35a). A ação de Deus de saciar fome e sede é eficaz para sempre. Jesus fala do pão e da água, da palavra de Deus, que jamais pode faltar a seu povo fiel. Na Epístola aos Filipenses, encontramos novamente o chamado para que as pessoas se voltem inteiramente a Deus. É um chamamento ao discipulado comprometido e encarnado, casamento perfeito entre palavra e ação. Paulo ensina que os discípulos e as discípulas de Jesus são conhecidos por seus atos de moderação, oração, ação de graças, amor e respeito. Os três textos exaltam a total dependência do ser humano de Deus. Sendo assim, a atitude da pessoa cristã só pode ser de humilde obediência. A Ação de Graças ou Festa da Colheita é essa confissão pública de total dependência e um retorno às origens históricas do povo de Deus.
2
Exegese
Há um trabalho exegético detalhado sobre o texto de Deuteronômio em Proclamar Libertação XXVI, p. 91-96. É bem verdade que a delimitação do texto é dos v. 3-11 e não 1-11. Há teses variadas entre os estudiosos no que se refere aos v. 1-2. Para o estudo consideraremos esses dois versículos em nossa perícope, pois não trazem um assunto novo, mas colocam o ofertante
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Ação de Graças (Festa da Colheita)
no “lugar que o Senhor, teu Deus, escolher”, ou seja, no templo. A intenção original de Deuteronômio encontramos em Deuteronômio 6.4s: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de toda a tua força”. Deuteronômio assume a tarefa de recolocar Deus no centro da vida cúltica e particular do povo israelita. Gerhard von Rad defende que os assuntos levantados em Deuteronômio partem da realidade do povo, tendo como pano de fundo um ato litúrgico. Para o mesmo autor, Deuteronômio é um “artístico mosaico de pregações múltiplas sobre os mais variados assuntos, a síntese de uma vastíssima atividade de pregação” (p. 223). Com certeza, Deuteronômio tinha a intenção de orientar a caminhada do povo escolhido com seu Deus, preservando a pureza e a fidelidade (Dt 6). O livro de Deuteronômio pode ser assim estruturado, conforme W. H. Schmidt: ➜ 1-4 – Primeiro discurso introdutório; ➜ 5-11 – Segundo discurso introdutório sobre a natureza do mandamento; ➜ 12-26 – Mandamentos isolados; ➜ 27-28 – Primeiros discursos de despedida; ➜ 29-30 – Segundo bloco de discursos de despedida; ➜ 31-34 – Conclusão do Pentateuco. O texto está na subdivisão dos mandamentos isolados. O capítulo 26 traz orientações litúrgicas quanto às primícias, dízimos e ainda contém no final (v.16-19) uma confissão de fidelidade e obediência ao único Deus. Por que uma liturgia de Ação de Graças? A terra prometida era habitada pelos cananeus, que tinham seus deuses, costumes e tradições. Os deuses dos cananeus, em sua maioria, estavam ligados à agricultura, à terra. Com o objetivo de fortalecer a unidade do povo israelita, foi colocada no espaço cúltico a Ação de Graças, acompanhada do reconhecimento da ação de Deus (Javé) em toda a história do povo. A oferta do israelita é resposta do amor primeiro de Deus, que os tirou do Egito e colocou numa terra boa e rica. A promessa da terra prometida estava se concretizando. Deus havia cumprido a sua parte no acordo. Agora havia chegado a hora do povo mostrar a sua fidelidade. Deuteronômio orienta os passos desse ato: tomar as primícias dos frutos da terra, levá-las ao sacerdote (templo), declarar (confissão de dependência total) e reconhecer a ação divina ao longo da história. Nesse texto, mais uma vez transparece uma característica de Deuteronômio, qual seja, Deus precisa estar em primeiro lugar e é o companheiro fiel do povo em toda a sua trajetória histórica. A oferta das primícias mostra mais uma vez Deus como o Senhor da história (v. 2,10). Boa colheita é vista como bênção de Deus em resposta à obediência do povo. O fracasso na colheita é visto como sendo a retirada da bênção de Deus em resposta à desobediência e rebeldia do povo, afastando-se dele (Dt 11.26ss). O v.11 convoca o ofertante a alegrar-se juntamente com o levita e o estrangeiro. A Ação de Graças não considera somente a relação pessoal com
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Ação de Graças (Festa da Colheita)
Deus, mas inclui a vizinhança, o necessitado e o dependente. A tribo de Levi não recebeu terra, mas foi encarregada do trabalho no templo. Estrangeiro é outra classe de pessoas que não tem morada certa, tampouco terra e lar. Para essa mesma condição talvez aponta a expressão: “Arameu prestes a perecer foi meu pai”. Talvez possamos incluir aí todos aqueles que vivem extraviados e sem rumo, parecendo ovelha perdida (Sl 119.176; Jr 50.6). A história do povo de Israel não pode ser contada sem sua relação com Deus. Estão intimamente ligados, e a ação do povo recebe um significado teológico. A vida do israelita é vista à luz da vontade de Deus. A atuação divina mostra, sem sombra de dúvida, que a sua intervenção na história dá-se de forma prática e concreta.
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Meditação
Temos presente a origem da Ação de Graças, que nos liga ao povo de Israel. Não é possível compreender essa celebração se a retirarmos de seu contexto histórico e teológico. O povo de Israel teve, em sua origem, sempre uma estreita ligação com a terra (pastores de ovelhas, pequenos agricultores). Outro fato importante é que, para entender a história do povo de Israel, precisamos entender sua relação com Deus. Deus (Javé) é quem dirige a vida, e esse fato perpassa toda a ação do povo. Esse entende sua existência e vida a partir do governo de Deus. Os acontecimentos no decorrer da história são compreensíveis a partir da ação de Deus. Poderíamos dizer que as impressões digitais de Deus estão em tudo o que existe no mundo. Transportando isso para a Ação de Graças: não pode ser diferente a relação do israelita com Deus na hora da colheita. A Ação de Graças pela Colheita liga o israelita a seus antepassados, pois vem acompanhada da confissão histórica – “Arameu prestes a perecer foi meu pai” – da dependência de Deus. Render graças é o mesmo que dizer: de ti tudo vem e a ti tudo devemos. Ação de Graças é tirar o foco da ação humana e apontar para a ação de Deus na vida humana. Olhando para o Novo Testamento, percebemos que também Jesus aponta para a ação de Deus nele e por meio dele. Em João 6.25-35, Jesus novamente fala que Deus dá o pão da vida, enquanto os seres humanos estão preocupados com o pão que enche a barriga. Jesus leva seus ouvintes a ir além da fome corporal, conduzindo-os e criando neles a “fome” espiritual. Jesus não ignora a necessidade física das pessoas, mas reordena a vida das pessoas. Recoloca o reino de Deus em primeiro lugar e promete que as demais necessidades serão acrescentadas à vida das pessoas que assim vivem (Mt 6.33). A Ação de Graças ou Festa da Colheita é uma celebração sobremodo oportuna para a rememoração do significado primeiro dessa celebração. A Ação de Graças era a resposta de uma pessoa agradecida por estar na terra prometida por Deus e ali produzir alimento com fartura para seu sustento e
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Ação de Graças (Festa da Colheita)
de sua família. O “rito” da Ação de Graças mostra a consciência de que tudo o que se tem é devido ao agir bondoso e amoroso desse Deus que caminha com o povo do Egito até a terra prometida. Ao mesmo tempo, é um convite para que Deus continue abençoando o trabalho de seus filhos e filhas, que se mantêm fiéis ao Senhor da história. No Novo Testamento, a Ação de Graças cristã recebeu mais um elemento fundamental: Jesus Cristo. Continua tendo o mesmo significado histórico do Antigo Testamento, mas agora com mais um elemento, que é o agir salvador de Deus em nosso favor por meio de Cristo. Com o advento, paixão, morte, ressurreição e ascensão de Cristo, a Ação de Graças ganha novo impulso e novo sentido. Deus age mais uma vez por meio de Cristo em nosso benefício, qual seja, a salvação. Conforme o Evangelho de João 6.35 – “O que vem a mim jamais terá fome; e o que vem a mim jamais terá sede” –, ir ao encontro de Jesus é agir segundo seus ensinamentos, é doar vida, organizar multidões para que todos recebam um pedaço de pão. O mesmo convite Deuteronômio expressa ao convidar para alegrar-se com os levitas e estrangeiros. O repartir do pão é festivo, traz alegria, e isso é comida que subsiste para a vida eterna (Jo 6.27). Ação de Graças é nossa resposta a tudo o que Deus tem feito ao longo da história em favor de seu povo. Cabe perguntar: Qual o sentido dessa celebração para nós hoje? Para quem são destinados os produtos da Ação de Graças de nossa comunidade? Os frutos da Ação de Graças eram partilhados com os levitas e os estrangeiros, pessoas de fora. Festa da Colheita ou Ação de Graças são o nosso agradecimento e reconhecimento de que, de todas as formas, estamos nas mãos de Deus. Os frutos da Ação de Graças já nos beneficiaram. É hora de colocá-los nas mãos de Deus, para que ele beneficie outras pessoas. Caso revertermos os produtos em benefício da própria comunidade, estamos trocando o resultado dessa ação do bolso esquerdo para o direito da mesma calça. Perdemos assim a dimensão do ir para fora do círculo familiar e comunitário. É necessário recuperar a confissão de fé contida nessa celebração. Além disso, há o aspecto de oferecer a Deus parte importante da colheita ou do que se juntou para a sobrevivência. Em Deuteronômio, há a orientação de tomar a primeira parte da colheita – normalmente a melhor – e ofertá-la a Deus. Isso quer dizer: ofertar a Deus o que precisamos para nossa sobrevivência e não os restos e sobras. Urge que Deus seja novamente o centro de nossa vida e não só a tangencie. Ação de Graças não é só pelo que já foi colhido ou que já aconteceu. É também o pedido a Deus para que, assim como compartilhamos as dádivas ofertadas, possa ser abundantemente abençoada a nossa colheita (salário) do próximo ano. É um pedido a Deus que, através dessas ofertas, abençoe todas as outras das quais precisamos para a sobrevivência.
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Ação de Graças (Festa da Colheita)
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Imagens para a prédica
Observando as celebrações de Ação de Graças/Festa da Colheita, percebe-se a ausência ou a pouca valorização dessa celebração. Não são muitas as famílias que levam sua oferta para a igreja. Em outros lugares, as ofertas são levadas para o salão, sem antes ser levadas para o lugar onde acontece o culto. Há ainda aqueles que têm dificuldades de relacionar seus bens com sua fé, “sobrando” para Deus somente as migalhas. Caso for essa a realidade da comunidade, sugiro que seja feito um pão. Ele é trazido durante a celebração para o altar. Durante a pregação reflete-se sobre o lugar e a importância de Deus quando da divisão de nossos dinheiros. Faz-se a partilha do pão conforme as sugestões forem surgindo (água, luz, gás, INSS, escola, telefone...). Cada pessoa identificada com uma placa no peito pede seu pedaço de pão e vai “devorando”. Preparam-se os pedaços de tal forma que, quando se der conta do pão ter terminado, olha para a frente e vê a igreja. Nesse momento, começa a juntar as migalhas/restos para ver quanto dá e entrega as migalhas. Certamente a bandeja/forma vazia é impactante. Com isso podemos acordar pessoas, inclusive para encarar sua oferta à comunidade de forma diferente. Onde fica a gratidão a Deus? Qual é o lugar que Deus ocupa em nossa plantação, colheita, trabalho e salário? O que pode ser feito com os frutos do culto de Ação de Graças? Com quem repartimos as dádivas trazidas e abençoadas por Deus? Elas mudam de endereço ou só de lado no bolso do mesmo dono? Preparar os grupos cujo trabalho culmine no culto de Ação de Graças, em que haverá um momento especial quando as ofertas são levadas ao altar. Se há a tradição de ofertar produtos, dispor de grandes cestos no altar, onde serão colocados. Se for dinheiro ou envelopes, também dispor de cestos para visualizar a prática de Deuteronômio. Importante é que cada pessoa possa ir até o altar fazer sua oferta, lembrando o caminhar em direção: “O que vem a mim...” (Jo 6.35), já que o altar simboliza a presença de Deus. A imagem do dia é a comida em forma de pão. Pão guardado se estraga. Porém pão doado faz crescer a fé. E Jesus adverte: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna” (Almeida) e “Não trabalhem a fim de conseguir a comida que se estraga, mas a fim de conseguir a comida que dura para a vida eterna” (NTLH). A mensagem culmina com o canto das sementes, de autoria desconhecida. Os produtos podem ser adaptados à realidade de cada comunidade. A melodia é a mesma do hino “Graças dou por esta vida” (Hinos do Povo de Deus nº 1, 237). 1 – Graças dou pela semente que é lançada pelo chão. Em paisagem se transforma este pequenino grão.
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Ação de Graças (Festa da Colheita)
Graças dou por suas flores, que mais tarde brilharão, perfumando toda a terra e alegrando o coração. 2 – Graças dou pela laranja, pela uva e o mamão. Graças dou pela banana, pelo figo e o limão. Graças dou pelas verduras que nos vêm das mãos de Deus. Graças dou por cada fruto que alimenta os filhos seus. 3 – Graças dou pela mandioca, pelo trigo que dá o pão, pelo arroz e batatinha, milho, soja e feijão. Cá estamos reunidos de mãos dadas com amor. Agradecemos a colheita junto à mesa do Senhor.
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Subsídios litúrgicos
Ação de Graças Sino: Comunidade coloca-se de pé Liturgia Inicial O: “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para vocês” (1Ts 5.18). Canto: O: Neste culto Deus vem nos servir. Somos convidados a render graças ao Senhor por tudo o que nos tem dado. Vamos dar graças ao Senhor porque ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. C: Amém. O: Elevo os meus olhos e pergunto: De onde virá o nosso socorro? C: O nosso socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra. O: Louvemos ao Senhor, que nos dá a vida e a sustenta oferecendo paz, o pão de cada dia, um lar. Liberdade, bons amigos e vizinhos, cantando: Graças, Senhor, eu rendo muitas graças por este novo dia. Graças, Senhor, a ti eu devo toda a alegria. Graças por todos os amigos, graças, Senhor, pelo meu lar, Graças que até ao inimigo eu posso perdoar. O: (Salmo do dia em responsório) C: Porque Ele é Santo e poderoso queremos cantar: Graças por todo o meu trabalho, graças pela felicidade, Graças por minha vida toda e por tua verdade. Graças pela palavra, muitas graças por tua voz, Senhor, Graças por nunca nos negares teu divino amor. O: Senhor, tu tens dado a cada um e a cada uma de nós o pão de cada dia. Tua proteção nos torna fortes para trabalhar e lutar pelo sustento. Sustento nosso, de nossa família e de muitas pessoas. A colheita (o salário) foi farta por causa da tua bondade e do teu amor para com a criação inteira. C: Amém.
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Ação de Graças (Festa da Colheita)
Graças que tu não tens limites, graças, ó Deus, que eu posso crer, graças! Eu te agradeço por poder agradecer. O: Senhor Deus, em meio ao agradecimento também confessamos a nossa culpa. C: Perdoa-nos por ser tão egoístas. O: O mundo espera ansiosamente por pão, saúde, justiça e liberdade. C: Perdoa-nos quando o queremos apenas para nós mesmos. O: Ó Deus, ouve o nosso pedido por perdão. Que possamos perceber ao nosso lado tudo aquilo que ameaça a vida. C: Senhor, se com nosso pensar, falar e agir te causamos sofrimento, se a nosso exemplo o fraco tem tropeçado, se em teus caminhos não quisermos andar, pedimos perdão: Perdão, Senhor! O: A natureza é muito rica. A gente planta um grão; o grão brota, nasce, cresce e forma uma espiga de muitos grãos. Toda essa riqueza tem um começo. Foi o Senhor, o Criador, que lhe deu origem. Foi ele que criou as primeiras plantas, que deu fertilidade à terra e colocou vida nas sementes. Foi Deus que encheu a terra de riquezas. Toda a riqueza da terra pertence a Ele. Como diz o salmista: C: “A Deus pertencem a terra e tudo o que nela se contém”. Amém. [Esta é uma sugestão que já usamos há mais tempo. A idéia inicial não é nossa. Já moldamos e retrabalhamos algumas partes.]
Bibliografia Von RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento, v. 1. São Paulo: ASTE, 1974. SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1994.
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PRÉDICA: ISAÍAS 44.1-5
DOMINGO DE LOUVOR ATRAVÉS DA MÚSICA
LUCAS 1.39-55 FILIPENSES 4.10-13
Cláudio Kupka
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Primeira aproximação
Proponho inicialmente uma leitura “de cuca fresca”, em que buscaremos captar as primeiras impressões do texto, a lógica das idéias do texto e a maneira como ele nos atinge. a – Em nosso caso, chama atenção a ênfase nos nomes Jacó em justaposição a Israel (v.1), a seqüência dos verbos criar, escolher, derramar e brotar (v. 2-4), a água em justaposição ao Espírito e bênção (v. 3) e a idéia de ter Israel como sobrenome (v. 5). b – Em segundo lugar, chama atenção que se trata de uma manifestação cheia de esperança. É uma declaração afirmativa de um amor incondicional e compromisso de Deus com seu povo. Enfatiza a idéia de que Deus tem poder para sempre de novo restaurar seu povo numa relação de confiança e bênção. c – Em terceiro lugar, parece ser um texto muito apropriado para tratar o tema Batismo. Seus temas estão todos lá: criação, escolha, água, Espírito, bênção, nome etc. Como fala em posteridade e terra seca e sede, posso me imaginar como pais, preocupados com a espiritualidade de seus filhos, leriam esse texto.
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Um segundo passo
Para não perder as idéias da primeira aproximação, é importante encaminhar a pesquisa de idéias e subsídios a partir dessas primeiras associações. Elas podem ser úteis mais adiante. Uma boa idéia seria coletar relatos de pais preocupados com a espiritualidade de seus filhos, de pais de confirmandos interessados no papel que a igreja pode exercer nesse período na vida de seu filhos ou ainda algum relato de uma palestra pré-batismal. Outra providência útil seria coletar alguma ilustração que falasse sobre a importância ou sobre o processo de transmissão da experiência de fé. Como os v. 3 e 4 têm um tom muito poético, eu desafiaria você a pesquisar uma poesia que expressasse essa idéia da importância da água irrigando a planta. Com esses três tipos de elementos ilustrativos, estaríamos agregando uma riqueza de imagens à prédica. O relato traria uma dimensão bem huma-
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Domingo de Louvor através da Música
na de interesse dos pais. A ilustração remeteria à dimensão da identidade pessoal e familiar, e a poesia traria um tom mais subjetivo à prédica, destacando a idéia de que Deus sacia definitivamente a sede humana por vida. É bom lembrar que a comunicação da mensagem acontece em diferentes camadas e linguagens. É preciso ter consciência delas e oferecer elementos que propiciam ao ouvinte assimilá-las conforme seu estado emocional e mental, conforme suas preocupações e necessidades do momento. Como se sabe, ninguém acompanha 100% do tempo o desenvolvimento das idéias da prédica. Em algum momento, o ouvinte segue um caminho seu, ou seja, faz sua pequena viagem pessoal pelo tema. Em si isso não é mau. É o processo de legitimação da mensagem para a realidade do ouvinte. Muitos vão lembrar depois somente de uma ilustração, de uma frase, de um sentimento. Não é problema, desde que essa pessoa não saia de mãos vazias.
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A pesquisa do texto
Agora é hora de averiguar se as pressuposições da primeira leitura do texto conferem. O que não podemos, nessa fase, é “matar” a riqueza simbólica do texto com a exegese. A exegese precisa investigar o texto sem dissecálo, sem tirar-lhe a vida. Ao mesmo tempo, devo ter um olhar para a lógica do texto e para as alternativas que ele me oferece, pensando na prédica que vamos formular. É uma vigem de altos e baixos, mas que, no final, resultará num texto que seja interessante para a comunidade que tenho em mente. a – Começamos com a menção do nome de Jacó em correlação a Israel. Em nenhum outro livro da Bíblia, o uso de Jacó como sinônimo de Israel é mais freqüente (mais de 50 vezes). Mesmo que Israel possa ser simultaneamente o outro nome de Jacó e o nome do Reino do Norte, nesse caso referese ao povo como um todo. Existe aqui a clara intenção de referir-se a Israel como unidade. Mesmo que estejamos no contexto do Segundo Isaías, que no caso trata especificamente do povo do segundo exílio (Judá), o profeta refere-se a Israel como um todo. A referência ao patriarcado resulta de uma busca pelas origens de Israel, do resgate de uma identidade primeira que ajude o povo a retomar sua autocompreensão. No entanto, não podemos perder de vista o aspecto bem humano do patriarcado. Não é à toa que essa história é ricamente detalhada em relatos de cunho pessoal e familiar. Chamar Israel de Jacó também nessa perspectiva não é sem propósito. Jacó foi aquele filho que roubou a bênção de seu irmão, o verdadeiro primogênito. Roubou a bênção sem saber bem o que era. Aliás, sabia muito pouco a respeito desse Deus que o abençoava. No entanto, quando se achava que a aliança de Deus com Abraão estivesse perdida, descobrimos Deus levando a sério a bênção que Jacó roubou. Renovou o pacto de seus antepassados com Jacó apesar dele ser jovem, imaturo e rebelde. Jacó podia não compreender Deus, mas Deus conhecia Jacó.
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Domingo de Louvor através da Música
Mais tarde, Jacó também foi pai. E como todo filho que não trabalhou suficientemente sua relação com os pais, tornou-se um pai com sérios problemas na educação de seus filhos. Jacó frustrou-se como pai por ter aparentemente perdido um filho preferido. Mais tarde, ao reencontrar José, descobriu a verdade sobre o motivo de seu desaparecimento. Jacó também foi um pai preocupado com a descendência. Mas Deus sempre acompanhou Jacó misericordiosamente. Deus transformou as crises de sua vida em bênção. Deus mudou Jacó lentamente: de um homem mesquinho e inseguro numa pessoa sábia e cheia de fé. Jacó personifica Israel. Por isso Isaías afirmativamente chama Israel de Jacó, pois quer resgatar o projeto de Deus para com esse povo. Mesmo exilado, mesmo vivendo em terra estranha, longe do templo, esse povo não perde suas referências primeiras. O povo de Israel, por seus erros, pode parecer ter desistido de Deus. Deus, em todo caso, não. b – Esse projeto começa quando Deus escolhe esse povo. A grande pergunta que pairava no ar é se, em função de todos os erros e desvios do povo, esse havia sido abandonado por Deus, ou seja, que a eleição havia sido desfeita. Isaías então retoma a idéia da eleição, formulando-a de uma maneira mais universal. Deus escolhe o povo de Israel porque o criou, porque foi gestado no ventre de Deus. Em Isaías, eleição tem duas dimensões. Deus toma a iniciativa. É um ato de graça. Mas, em segundo lugar, ela acontece em diálogo. É um vínculo que precisa ser alimentado continuamente. Por isso o povo suspeita da quebra da aliança, pois da sua parte não alimentou sua confiança em Deus e em suas promessas. Quando Israel dirá: O senhor não se importa mais conosco, Deus afirma: Eu os escolhi e nunca os rejeitei (Is 41.9b). c – A questão central dessa perícope é a definição do caráter dessa afirmação da graça de Deus na relação com Israel. A fé em Deus, a fidelidade, a perpetuação ou não de uma relação de confiança com Deus não são uma garantia humana, nem seguem uma lógica genética. É sempre Deus que irrompe na vida de pessoas e derrama seu Espírito, como água em terra seca, trazendo vida nova. De especial importância se reveste a metáfora da terra seca. É a nossa sede que evidencia a necessidade de Deus. Essa reflexão é aplicada nesse caso à questão da descendência. Que garantia Israel tinha que sua descendência permaneceria fiel ao Senhor? Em si nenhuma. Deus não deixou nenhuma fórmula mágica, pois a fé não segue um método lógico. Diante deles estava somente a possibilidade do testemunho vivo do quanto a atual geração tinha na comunhão com Deus seu alimento. A possibilidade da descendência experimentar Deus verdadeiramente será algo entre elas e Deus. Nesse sentido abundam exemplos de como a fé ressurgiu em Israel em meio a tempos de apostasia. Em especial, lembra-se do reinado do jovem rei Josias (2Rs 22.1-23.30), durante o qual houve uma redescoberta da Torá e um avivamento espiritual por conta disso. d – O v. 5 enseja uma série de afirmações de adesão espontânea à fé em Deus. Parecem frases ditas no momento de um novo despertamento. A
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idéia de ter Israel por sobrenome sugere que inclusive não-judeus vão converter-se. Onde Deus age com seu Espírito surgem expressões genuínas de fé num contexto afirmativo. Percebe-se que o agir de Deus é tão misteriosamente surpreendente, que a conseqüência disso é o surgimento de fé onde não se espera. É bom lembrar que o conceito de raça e povo exclusivo não foi sempre tão hermético. Muito cedo aderiram à fé de Israel muitas pessoas de fora de sua etnia. O exemplo mais lembrado é o de Rute: “O teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rt 1.16b).
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Meditando sobre o texto
Creio que já está bastante claro em que direção esse texto nos quer conduzir. a – A partir de Jesus Cristo, o povo de Deus inclui todos os que crêem. A graça não desconhece barreiras étnicas, sociais e culturais. Somos herdeiros da fé judaica dentro de um novo e ampliado referencial. O próprio Jesus evidenciou essa ampliação quando encontrou verdadeira fé entre pagãos. É preciso resgatar a dimensão da proximidade de Deus, que somos criação de Deus. Trata-se de uma intimidade maternal de Deus. Como pode uma mãe deixar de olhar com profundo amor e cuidado para um filho ou filha gestados por meses em seu ventre? Somente alguém totalmente perturbado o faria. Deus reafirma sua escolha pelo ser humano a partir de uma coerência de ações marcadas pelo cuidado e pelo amor. Esse cuidado supera inclusive nossas crises e desvios. Deus não barra necessariamente as conseqüências negativas de nossas ações. Elas são educativas. Deus, no entanto, não nos condena, não nos aparta de sua graça. A graça de Deus sempre é ativa em nossa vida, porém não para ser banalizada; ela espera o momento certo para ser afirmada. O momento certo é o do arrependimento e da busca. b – As crises da vida são momentos de profundas buscas por sentido na vida. Uma canção em inglês tem como título: A sombra é a prova do sol que brilha. A única condição para o agir misericordioso de Deus é que o ser humano tenha contato íntimo com seu vazio, que tenha consciência do esgotamento de suas próprias opções. Que outra maneira estaria aberta a receber a graça? Não devemos desprezar qualquer manifestação desse vazio. É o ser humano clamando, sem saber, pela graça. É o Espírito agindo muito antes de o reconhecermos. Por isso a palavra de Deus nunca pode ser proferida considerando um público-alvo exclusivo, pois o agir do Espírito de Deus sempre irá romper essas barreiras, sempre poderá nos surpreender. c – O texto trata da preocupação com a fé das futuras gerações. Cabe aos pais darem seu testemunho permeado pela graça e confiar no agir de Deus pelo Espírito Santo. Não há fórmula mágica. À comunidade de fé cabe zelar pela compreensão da centralidade do Batismo em sua vida e zelar pela educação cristã em todas as faixas etárias. Não é surpreendente que haja
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Domingo de Louvor através da Música
ausência de pessoas em determinada faixa etária. Não há nesse fato uma omissão quanto à educação contínua de seus membros? d – Cabe também uma ponte para o tema do “Domingo de louvor através da música”. A música tem sido, desde os tempos do Antigo Testamento, a expressão artística preferida para dar vazão à intensidade da expressão de fé. Os salmos são testemunho cabal dessa afirmação. Um exemplo especial é o próprio texto de Lucas 1.39-55, no qual Maria expressa profundo louvor a Deus por sua vocação para gestar o Filho de Deus em seu ventre. Não é dito se Maria cantou, mas não é à toa que esse tem sido um dos textos mais musicados.
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Idéias e ilustrações
Coletar relatos sobre pais preocupados com a espiritualidade de seus filhos não deve ser uma tarefa difícil. Deixo essa tarefa ao encargo do leitor(a). No entanto, partilho idéias dos outros elementos que sugeri anteriormente. 5.1 – A bomba de água Contam que um certo homem estava perdido no deserto, prestes a morrer de sede. Então ele chegou a uma cabana em ruínas. O homem perambulou por ali e encontrou uma pequena sombra sob a qual se acomodou, fugindo do calor do sol desértico. Olhando ao redor, viu uma bomba a alguns metros de distância, bem velha e enferrujada. Ele se arrastou até ali, agarrou a manivela e começou a bombear sem parar. Nada aconteceu. Desapontado, caiu prostrado para trás e notou que ao lado da bomba havia uma garrafa. Olhoua, limpou-a, removendo a sujeira e o pó, e leu o seguinte recado: “Você precisa primeiro preparar a bomba com toda a água desta garrafa, meu amigo. PS.: Faça o favor de encher a garrafa outra vez antes de partir”. O homem arrancou a rolha da garrafa e, de fato, lá estava a água. A garrafa estava quase cheia de água. De repente, ele se viu em um dilema: Se bebesse aquela água, poderia sobreviver, mas se despejasse toda a água na velha bomba enferrujada, talvez obtivesse água fresca, bem fria, lá do fundo do poço, toda a água que quisesse e poderia deixar a garrafa cheia para a próxima pessoa... Mas talvez isso não desse certo. Que deveria fazer? Despejar a água na velha bomba e esperar a água fresca e fria ou beber a água velha e salvar sua vida? Deveria perder toda a água que tinha na esperança daquelas instruções pouco confiáveis, escritas não se sabia quando? Com relutância, o homem despejou toda a água na bomba. Em seguida, agarrou a manivela e começou a bombear... E a bomba começou a chiar. E nada aconteceu! E a bomba foi rangendo e chiando. Então surgiu um fiozinho de água, depois um pequeno fluxo e finalmente a água jorrou com abundância. A bomba velha e enferrujada fez jorrar muita, mas muita água fresca e cristalina. Ele encheu a garrafa e bebeu dela até se fartar. Encheu-a outra vez para o próximo que por ali
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Domingo de Louvor através da Música
poderia passar, arrolhou-a e acrescentou uma pequena nota ao bilhete preso nela: “Creia-me, funciona! Você precisa dar toda a água antes de poder obtêla de volta”. 5.2 – O homem humano (Adélia Prado) Se não fosse a esperança de que me aguardas com a mesa posta, o que seria de mim eu não sei. Sem o Teu Nome a claridade do mundo não me hospeda, é crua luz crestante sobre ais. Eu necessito por detrás do sol do calor que não se põe e tem gerado meus sonhos, na mais fechada noite, fulgurantes lâmpadas. Porque acima e abaixo e ao redor do que existe permaneces, eu repouso meu rosto nesta areia contemplando as formigas, envelhecendo em paz como envelhece o que é de amoroso dono. O mar é tão pequenino diante do que eu choraria se não fosses meu Pai. Ó Deus, ainda assim, não é sem temor que Te amo, nem sem medo.
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Subsídios litúrgicos
Cantos: Uma série de cantos pode ser escolhida, fazendo uma ponte entre o(s) tema(s) do culto. Sugerimos: Senhor, tu tens sido nosso refúgio (Hinos do Povo de Deus v. 1, n° 213), Bondade e misericórdia (Hinos do Povo de Deus v. 1, n° 232), Canto o novo canto da terra (Hinos do Povo de Deus v. 2, n° 433), Canta minh’alma ao Senhor (Hinos do Povo de Deus v. 2, n° 467), De todas as tribos (Hinos do Povo de Deus v. 2, n° 469), Ontem, hoje e sempre (Hinos do Povo de Deus v. 2, n° 474). Litania de acolhida: L: Se a vida nos dá a impressão de que estamos sós e abandonados, C: O chamado do nosso Criador nos lembra que somos especiais para ele. L: Se a culpa nos faz crer que não há como remediar nosso futuro, C: A cruz de Cristo aponta para o perdão que renova nossa vida. L: Se a frieza das nossas relações nos faz sentir sozinhos, C: O Espírito de Deus nos reúne e nos acolhe em sua comunhão. L: Se chegamos aqui desorientados e sem horizontes, C: A presença de Deus entre nós nos conforta e anima na caminhada. Litania de acolhida 2: L: Deus é o nosso Salvador; confiemos nele e não tenhamos medo. C: Vamos até as fontes cheios de alegria e bebamos da água que nos salva. L: Louvem ao Deus Eterno! Gritem pedindo a ajuda de Deus!
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C: Digamos a todos os povos o que ele tem feito e anunciemos a sua grandeza. L: Cantem hinos de louvor, pois ele fez coisas maravilhosas. Que o mundo inteiro saiba disso! C: Alegrem-se e louvem a Deus, pois o santo e poderoso Deus de Israel mora no meio do seu povo. Oração de coleta: Querido Deus e Pai, agradecemos-te por nos reunires nesta manhã/ noite. Somos comunidade criada e preservada por ti. No poder do teu Espírito, geração após geração é alimentada pela palavra viva de teu evangelho. Esteja entre nós, esteja entre nossos familiares, esteja no mundo como água viva que sacia por vida e esperança. Amém. Confissão de fé (Dietrich Bonhoeffer): Creio que Deus pode fazer com que de tudo, mesmo do negativo, resulte algo bom. Para isso necessita de homens e mulheres que permitam e creiam que tudo lhes servirá para o bem. Creio que Deus pode nos dar em cada situação difícil a capacidade de resistir. Mas não a dá adiantado, para que não confiemos em nossas próprias forças, e sim em seu poder. Essa confiança nos livrará do medo e do temor pelo futuro. Creio que nossos erros e fracassos não são em vão e que para Deus não é mais difícil utilizá-los como o faz com nossos sucessos. Creio que Deus não é um destino cego e indiferente, mas que espera nossas orações e nossos atos responsáveis. Oração de intercessão: L: Em meio à alegria da comunhão desta manhã, lembramos e te pedimos, ó Deus, por aqueles que a dor e a preocupação não permite estar alegres. C: Senhor, tu podes transformar nosso lamento em festa. L: Pedimos-te pelos que estão sós e tristes, pelos que perderam seus queridos e pelos que estão longe daqueles que os amam. C: Senhor, vence o sabor amargo da ausência e faze-nos sentir o gosto de tua presença. L: Pedimos-te pelos que perderam seu trabalho e se sentem fracassados, pelos que baixaram seus braços e só encontram portas fechadas no caminho. C: Senhor, seja o sabor de nossa vida insípida e restaura nossas forças. L: Pedimos-te pelos que perderam sua alegria seja pelas injustiças da vida, seja pelas dificuldades, seja pela falta de compreensão ou seja porque talvez nunca a encontraram. C: Senhor, ajuda-nos a ser gratos por tantas coisas que nos tens dado na vida e a sempre encontrar motivos para te louvar. Amém! L: Por essas e tantas outras necessidades, que só tu podes nos satisfazer. Oramos a Ti com as palavras que Jesus nos ensinou...
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Pai nosso (O Pai Nosso de Deus) Filho meu que estás na terra, preocupado, solitário, tentado. Eu conheço perfeitamente teu nome. Eu o pronuncio santificando-o, porque te amo. Não, não estás a sós, porque és habitado por mim e juntos construímos esse reino do qual serás herdeiro. Quero que faças a minha vontade porque a minha vontade é que tu sejas feliz, pois a glória de Deus é a vida do ser humano. Conte sempre comigo e terás o pão para hoje. Não te preocupes, só te peço que saibas compartilhá-lo com teus irmãos. Sabes que perdôo todas as tuas ofensas antes mesmo de tu as cometeres, por isso te peço que faças o mesmo com os que te ofendem. Para que nunca caias em tentação, tome a minha mão bem forte e eu te livrarei do mal, pobre e querido filho meu. Bênção: Que Deus os abrace com amor de um Pai, que os cuide com o carinho de uma mãe, que os faça sorrir com a ternura de uma criança e os guie com a sabedoria dos avós. Amém.
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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XXXIII Advento – Celebração ...................................................................................................... XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio .................................................................................................. XV, 304 Ação de graças ...................................................................................................................... XII, 300 ....................................................................................................................... XX, 322; XXXIII, 394 Ação de graças pela colheita (Jl 2.21-27) ........................................................................ XXXII, 212 Achados e perdidos – experiências .................................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o "Feliz e Próspero Ano Novo"? (Tg 4.13-17) ....................... IX, 34 Armas da morte: "Quem brinca com fogo acaba se queimando" (Zc 9.9-10) ............................. X, 91 Associação popular: "A união faz a força" (Ne 5.1-12) ........................................................... IX, 83 A velhice .................................................................................................................................. VI, 43 Batismo, alocução para ..................................................................................................... XXVI, 357 Batismo, culto de ............................................................................................................. XXVII, 299 Bênção matrimonial ............................................................................................. XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13) .................................................................................................................. XX, 351 (Ct 8.7) ..................................................................................................................... XX, 353 (Ec 4.9-12) ............................................................................................................. XXI, 329 (Ct 1.2-3) ............................................................................................... XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte ............................................................................................................................. XV, 77 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31) ....................................................................................................... X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) .................................................................................... IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) .................................................................................. VI, 40 (Sl 133.1-3) ........................................................................................................... XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) .............................. XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d'água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) ............................ X, 84 Componentes éticos da organização popular ...................................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16) ................................................................................................ X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16) ....................................................................................................... II, 187 (Dt 30.11-20) ............................................................................................................ VIII, 23 (Jo 6.66-69) .............................................................................................................. XII, 293 (Mt 5.14-16) ............................................................................................................. XX, 339 (Ap 1.9-18) .............................................................................................................. XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) ......................................................... XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5) ......................................................... XIII, 18 "Criança, não verás país nenhum como este!" (Êx 1.8-22) .................................................... IX, 107 Culto batismal (Is 43.1) ....................................................................................................... XXI, 326 Culto de Batismo ............................................................................................................... XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O) ........................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) ................................................... XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15) ............................................................................... V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) ........................................................................................... XX, 346 Culto eucarístico (alocução para) ....................................................................................... XXIII, 237 (Lc 22.14-15) ........................................................................................................... XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ............................................................................... XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2) ........................................................ XIII, 42 Curandeirismo: um "jeitinho" popular de cura? (Mc 5.25-34) ................................................ XII, 27 Deus na marginalidade ............................................................................................................ XVI, 9 Dedicação de templo ........................................................................................................ XXVI, 361
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Dia das Crianças (Zc 8.1-8) .............................................................................................. XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) ........................................................................................ I, 68 (Jo 4.31-38) ................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8) .................................................................................................................... VI, 48 (1 Tm 4.4-5) ............................................................................................................ XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43) ............................................................................................ XVIII, 289 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15) .................................................................................................. V, 323 (Dt 26.1-11) ............................................................................................................. XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) .................................................................................................... V, 330 Dia de Finados (Fp 3.20-21) .................................................................................................... I, 143 (1 Co 15.50-58) ......................................................................................................... III, 176 (1 Co 15.35-39,42b-44) .............................................................................................. V, 256 (Mt 22.23-33) .......................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14) ......................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29) .......................................................................................................... XVIII, 267 (1 Co 15.12-20) .................................................................................................. XXXII, 311 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17) ........................................................................................ I, 109 (1 Tm 2.1-4) ................................................................................................................ II, 336 (Mc 12.13-17) ............................................................................................................ III, 138 (Hb 13.12-16) ............................................................................................................. V, 205 (Mt 6.9-13) ................................................................................................... VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10) ................................................................................................. XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) ...................................................................................................... I, 125 (Jo 8.31-36) ................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28) .............................................................................................................. III, 169 (Mt 5.1-10) ................................................................................................................. IV, 212 (Ap 14.6-7) ................................................................................................................. V, 249 (Mt 10.26b-33) .......................................................................................................... VI, 291 (Is 62.1-12) ............................................................................................................. VIII, 331 (Mt 10.26b-33) ......................................................................................................... XII, 268 (Gl 5.1-6) ................................................................................................................ XIII, 267 (Fp 2.12-13) ............................................................................................................. XV, 282 (Jo 8.31-36) .......................................................................................................... XVII, 225 (Mt 5.1-10) ......................................................................................................... XXXII, 307 Dia de Penitência (Is 1.10-17) ............................................................................................... XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) .............................................................................................. III, 62 (2 Ts 3.6-13) ................................................................................................................. V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a) ............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31) ..................................................................................... VI, 170 (Tg 5.1-6) ................................................................................................................ XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ................................................................................................... XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) ........................................................................................ XXI, 316 Domingo de Louvor através da Música ......................................................................... XXXIII, 401 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)]) ............... XII, 307 (Ap 3.14-22) ........................................................................................................... XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9) .......................................................................................... XX, 309 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15) .......................................................................... XIII, 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) .................................................... X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ................................ XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ................................................................................... XIII, 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) ................................... IX, 15 Epifania, reflexões para o período de .............................................................................. XXVII, 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7) ................................................................................................... VI, 24
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Época da Paixão II (Mt 26.36-46) ............................................................................................ VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ................................................................................................. VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) .......................................................................................... VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) .......................................................................................... IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) ........................................................................ XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores .......................................................................... XIV, 60 Exercício homilético ................................................................................................................ XII, 91 "E viu Deus que isto era bom..." .......................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15) ................................................ X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ..................................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) .......................................................................... XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ............................................................ XIII, 80 (Is 65.17-25) ............................................................................................................ XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15) ......................................................... XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana ............................................................................. XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) ............................................................................................. XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) ........................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) ............................................................................ XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías ................................................................................................... VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) ............................................................... X, 74 Kurusu Ñe'engatu – Palavras que a história não pode esquecer ......................................... XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida .................................................... XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay ........................................................................................ XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas ............................................................................................. XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) ..................................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18) ........................................................................ IX, 57 Marketing e igreja .................................................................................................................. XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) ............................................................... XI, 77 Meditação sobre a oração .................................................................................................. XXXI,303 Meditação sobre o tema "Terra" – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) ............................. V, 310 Meditação sobre o tema "Terra" – II: terra para todos .............................................................. V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ............................................. XI, 65 Missão (1 Co 12) ................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: "Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!" (Am 9.7-10) .......... X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ................................. X, 106 Mulheres agricultoras ............................................................................................................ XVI, 15 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31) ................................................. IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ............................................................. X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus ................................................ II, 176 Lucas ........................................................................................................................... X,139 João ............................................................................................................................ VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ................................................................. XII, 34 O desafio de ser autor de PL ................................................................................................... XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças ............................................................................... XV, 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas ................................. XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) ............................................... X, 48 O Lecionário Ecumênico ....................................................................................................... XV, 315 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo ............... XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ................................................................................. XII, 11 Pago para ter (2 Co 8.1-15) .................................................................................................... XIII, 18 Pastoral Ecumênica de Periferia ............................................................................................. XIV, 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6) ................................. IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37) ..................................................... XXII, 304
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Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) ............................................................. XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens ...................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ................ XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6) ......................................................................... X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) .............................................................. VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17) ........................................................ VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21) ...................................................... VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ....................................................................... XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12) ................................................................... IX, 50 Quem não faz política sofre política (1 Rs 12.1-15) ................................................................. XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia .................................................................... XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38) .................................................................. XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB ............ XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16) ................................................................ XI, 85 Semana do excepcional ...................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas ............................................................................................ XXIV, 347 Sepultamento ........................................................................... XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40) .............................................................................................................. XX, 355 (Jo 19.25-27) ............................................................................................................ XX, 360 (Sl 39.5-7) ................................................................................................................ XX, 362 (Sl 142.1-2,5a) ....................................................................................................... XXI, 336 (Ec 3.1-8) .......................................................................................................... XXVIII, 365 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26) ........................................................................................................... XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) ..................................................................... IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém ........................................................................................................ XVI,37 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro ................ XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14) ................................................................. XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ................................................... IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra ................................................................................. XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados .................................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos ......................................................................................................... XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) .................................................................................. XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O) ....................................................... XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) ..................................................... XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-15) ...................................................................... XIII, 74 Vigília pascal ....................................................................................................................... XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ................................................................................................. XII, 61
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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XXXIII ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ............ VIII, 185 1.26-31; 2.1-3 ................................. III, 105 2.4-15 .................................... XXVIII, 301 2.4b-15 ............................................ V, 330 2.7-9,15-17; 3.1-7 ....... XXX,66; XVIII, 84 2.8-15 ........................................... XIII, 74; 2.18-24 .................... XXII,254; XXV, 282; ............................................... XXXIII, 343 3.1-9 ............................................. XII,170; 3.1-19(20-24) ............................. XXV,214 3.1-24 ............................................. VI,133 4.1-16 ............................ VII,203; XIII,246 8.1-13 ............................................ XV,135 8.15-22 .................................. I, 71 (68); 78 11.1-9 ........................ XII, 205; XVII, 130 12.1-4 ......................................... XVIII, 88 12.1-4a ......................................... VII, 165; 15.1-6 ...................................... XXVI, 256 17.1-13 ..................................... XXVII, 40 18.1-10a(10b-14) ........................... XX,208 18.20-21(22)23-32 ........................ XX,214 21.8-21 ........................................... XIII,60 22.1-13 ........................................... VI,144 22.1-14(15-18) ............................. XXII,65 28.10-17(18-22) ........................... XXII,71 32.23-31 ..................................... XVII,240 32.23-33 ................................ II, 207 (374) 50.15-21 .............. XXIV,272; XXVII, 240 Êxodo 1.8-22 ....................................... IX,107 2.1-10 .................................... XXVIII, 181 3.1-14 ............................................ XII,154 3.1-8,13-15 .............................. XXVI, 108 6.2-8 ...................... XVIII,218; XXX,214 12.1-14 ........................................ XXI,108 13.20-22 ....................................... XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30) ... XXVIII, 276 16.2-3,11-18 ................................. XIV,283 19.2-8a ......................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17 ........... XXII,75 22.21-27 ...................................... XXI,280 24.1-11 ................................... XXXII, 123 24.3-11 XVI,224; XXV,164; XXVIII, 272 24.12,15-18 .............. XXI, 78; XXXII, 79 32.7-14 ...................... XV,225; XXIII, 177 33.18-23 ........................................ VI, 102 34.4b-10 .......................... III,153; XV, 273 34.29-35 .................................... XXV, 123 Números 6.22-27 .......................... XXXIII, 58 11.11-12,14-17,24-25 .................. VIII, 205
11.24-30 ................................. XXXII, 169 12.9-16 ............................................ XII,18 21.4-9 ........... VII,101; XIII,159; XXII,80; ............................................... XXXIII, 146 24.15-19 ........................................ XV,120 Deuteronômio 4.1-2,6-8 .................. XXII,235 4.32-34, 39-40 ........................ XXVII, 148 5.12-15 .............................................. III,43 6.1-9 ...................................... XXXIII, 373 6.4-9 .............................. XV,246, XIX,164 7.6-12 ............................................. VI,219 8.6-10 .............................................. XII,11 10.12-22 .................................. XXVI, 336 11.18-21,26-28 ....... XXI,164; XXXII, 184 17.14-20 .......................................... XII,51 18.15-20 .. XIX,67, XXXI,57; XXXIII, 92 24.14-15 ........................................... IX,63 26.1-11 .................................. XXXIII, 394 26.3-11 ...................................... XXVI, 91 30.11-20 ......................................... VIII,23 32.36-39 ...................................... XXIII,79 34.1-12 ....................... XVII,74; XXIX, 77 Josué 1.1-9 ............................................ VII,36 8.1-8 ................................................ XII,61 24.1-2a,13-25 .................................. III,117 Juízes 4.1-7 .................................. XXXII, 319 5.24-31 ............................................... X,37 9.7-15 ............................................... IX,98 Rute 1.1-19a .................................. XXIX, 289 1 Samuel 2.1-10 ............ II, 176 (343); VII,113 3.1-10(19) ..................... XIX,55; XXXI,44 3.1-10,19 ...................................... XXV,86 11.1-15 ............................................. V,337 2 Samuel 7.4-6,12,14a,16 .................. XXV,35 11.26-12.10,13-15 .................... XXIX,199 12.1-10,13-14 ................................. IX,264 12.1-10,13-15a .............................. XV,261 1 Reis 3.5-12 ............. XXIV,240; XXXII, 236 3.16-28 ....................................... XXX,143 8.(21-23,27-30)41-43 ................. XVII,141 8.22-24,26-28 ................................. VI,189 8.22-30 .......................................... XII,191 8.41-43 .................................... XXIX, 188 17.8-16 ..................... XVI,292; XXXI,286 17.17-24 ................. XVII,146; XXIX, 192 19.1-8(9-13a) .............................. XXII,226 19.1-13a ..................... XIV,185; XVIII,204 19.1-18 .............................................. III,92 19.4-8 .................................... XXXIII, 285 19.9-13a ...................................... XXX,204 19.(14-18)19-21 ...... XVII,159; XXIX,205
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2 Reis 5.1-14 .................................... XXXI,71 5.1-19a ............................................. VII,58 Neemias 5.1-5(6-12) ............................ XIII,11 5.1-12 .............................................. IX,83; 8.1-2,5-6 ........................................ XX,183 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36) ............ .................................................. XXXI,263 Jó 7.1-7 ............................... XIX,73; XXXI,63 38.1-11 ....................................... XXV,221 Salmo 22.2-12,17-20 ....................... XVIII,116 22.1-12,17-20 ............................. XXX,104 46.1-7(1-11) .......................... XXVI,313 111 .............................................. XXVI,27 112 ................................................... XII,77 130.4 ................................................. VI,34 Eclesiastes 1.2; 2.18-26 ....................... XX,225 3.1-8 ................................................. VI,48 3.9-15 ................................................. X,16 4.1-4 ................................................... X,84 5.18 ..................................................... X,65 9.13-18 ............................................... X,25 Provérbios 8.22-31 ......................... XXIII,109 9.1-6,10 ...................................... XXII,230 9.7-13 ........................................ XXIII,172 16.1-9 ............................................. VIII,80 24.10-14 .......................................... XII,45 30.5-9 ....................................... XXVI,215 Isaías 1.1-9 ......................................... XIII,116 1.10-17 .......................................... XV,297 2.1-5 .................. VI,225; XVIII,9; XXX,9 5.1-7 ................ VII,87; XIII,147; XXI,252 6.1-13 ............................... VI,198; XII,213 7.10-14 .......................................... XXI,37 7.10-14(15-17) .......... XIII,104; XXXII,27 9.1-6 ............................................ XVIII,31 9.1-6,10 ...................................... XXII,230 9.2-7 ................................................. V,294 11.1-5 ............................................ XVI,63 11.1-9 ..................... XVIII,58; XXXIII, 31 11.1-9(10-11) .............................. XIV,148; 11.1-10 ...................................... XXVII,16 12.1-6 ....................................... XXVI,114 24.12-16a ...................................... XIII,312 25.6-8 .......................................... XIX,114 25.6-9 ....................... XXI,258; XXXI,128 29.17-24 ........................................ XII,233 29.18-24 .......................................... III,130 30.(8-14),15-17 ................................ VI,97 35.1-10 XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346 35.3-7 ....................... XXXI,248; XIX,237 35.3-10 ............................. X,158; XIV,115 35.4-7a ................................... XXXIII, 315 40.1-11 VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31 ......................................... IX,216
42.1-7 ........................... XXI, 51; XXV, 80 42.14-21 .................... XVIII, 92; XXX, 72 43.1-7 .................................... II, 132 (299) 44.1-5 .................................... XXXIII, 401 44.9- 20 ......................................... XIII, 50 45.1-7 .................... XXI, 264; XXXII, 293 45.22-25 .................................. XXVIII, 49 49.1-6 ............................................... III, 85 50.4-9 .................. II, 28, (195); XIII, 166; 50.4-9a ......................................... XXX, 94 50.4-10 ................... XIX, 241; XXXI, 252 51.1-6 ..................................... XXXII, 259 52.7-10 .... XV, 100; XXII, 37; XXXIII, 70 52.13-53.12 V, 72; IX, 196; XV, 185; XII, 109 53.10-12 .................................... XXV, 294 54.7-10 ........................... IX, 183; XV, 170 55.1-5 ......... III, 68; VIII, 213; XVIII, 198; ................................................... XXX, 197 55.6-7 .............................................. VI, 24 55.(6-9),10-12a ............................ VIII, 119 55,10-11 ................................... XXIV, 223 56.1,6-8 ................ XVIII, 213; XXX, 209 58.1-9a .......................................... XV, 147 58.1-12 ..................... IX, 50; XXXIII, 125 58.5-9a ........................................ XXIV, 88 58.7-12 ......................................... XII, 300 60.1-6 . V, 11; VIII, 92; XVII, 39; XXIV, 63; ................................................... XXIX, 54 61.1-3(4-9), 11 ............................ XIII, 120 61.1-3,10-11 .......................... XXVIII, 20 61.1-3,11,10 ................................... VII, 44 61.10-62.3 XIX, 42; XXV, 68; XXVIII, 59 62.1-5 ........................ XX, 23; XXVIII, 31 62.1-12 ............... II, 256, (423 ); VIII, 331; 62.6-7,10-12 XIX, 279; XXII, 272; XXIV, 297 63.7-9(10-16) ......... XXIV, 44; XXXII, 46 63.15-64.3 ..................................... XIII, 91 63.15-16; 19b-64. 3 ................ I, 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 ............... XXII, 9 64.1-9 ........................................ XXXIII, 9 65.17-25 ....................... IX, 15; XXX, 133 66.10-14 .................................. XXIX, 213 Jeremias 1.4-10 ................. VII, 184; XIII, 228 7.1-11 ........................................ VIII, 257 7.1-11(12-1 5) ............................. XIV, 301 7.21-26 ........................................ XXX, 15 8.4-7 .......................... VIII, 349; XIV, 390; 9.22-23 ............................................ VII,71 11.18-20 ................... XIX,246; XXXI,256 15.15-21 .................. XVIII,222; XXX,220 17.5-8 .......................................... XXIII,55 20.7-13 ........................ VIII,145; XXI,181 22.13-19 ......................................... XIII,80 23.1-6 .......................................... XVI,217
414
23.2-6 ............................................ XX,301 23.5-8 ................................. VI,62; XII,103 23.16-29 ................ II,144, (311); XIII,209 26.8-15 ...................................... XXVI, 97 28.5-9 ...................... XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a .......................................... III,34 31.1-13 ....................................... XXIX,35 31.7-9 ......................................... XXV,301 31.10-13(14) ................................. XVII,34 31.31-34 ....................................... XXII,85 33.14-16 ...................................... XXVI, 9 Lamentações 3.21-26,31-32 ................ VI,269 3.21-33 ....................................... XXV,226 Ezequiel 2.1-8a ................................ XXV, 231 2.3-8a; 3.17-19 ....................... II, 96, (263) 17.22-24 ................................ XXXIII, 239 18.1-4,21-24,30-32 ........................ IX,247; 18.1-4, 25-37 .......................... XXVII, 243 33.7-9 ..................................... XXVII, 230 34.1-2(3-9), 10-16 ....................... XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31 ..................... VI,170; 34.11-16,23-24 .......................... XXIV,328 37.1-3(4-10), 11-14 ................... XVIII,103 37.1-3,11-14 ................................. XXX,89 37.1-14 .. XV,193; XXIV,117; XXXII,108; ............................................... XXXIII, 228 37.24-28 ......................................... VIII,55 Daniel 5.1-30 ......................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) .................. XVI,311 12.1-3 ...................... XIX,296; XXXI,293 Oséias 5.15-6.2 .................. XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6 ....................................... XXI,169 11.1-4,8-9 ............ XXIV,323; XXVII, 284 Joel 2.12-18 ......................................... XII,166 2.21-27 .................................... XXXII,212 2.28-29 ........................................ XXI,153 Amós 3.1-8 ........................ XXIV,75; XXX,54 5.21-24 ............................................ VII,76 6.1-7 .......................................... XXIII,189 7.7-15 .................................... XXXIII, 264 7.10-15(16-17) ............................ XVI,211 8.4-7 ......................................... XXIII,181 9.7-10 ............................................... X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10 ............ XIX,61; XXXI,52 3.10-4.11 ................................. XXXII,274 Miquéias 5.1-4a ....................... VI,88; XII,114 5.2-4 .......................................... XXIX, 21 5.2-5 .......................... XVI,63; XXVII, 29; 6.1-8 ........................ XXIV,79; XXVII, 58 6.6-8 ............................. VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4 ........... XVII,219; ................................................. XXIX, 281 Sofonias 3.14-18a ................................. XX,20
Zacarias 7.9-10 ............................. XXVI, 267 8.1-8 .......................................... XXIV,337 9.9-10 ............. X,91; XIX,106; XXXI,107 12.7-10(11) ................................. XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5 .................... XXV,207 2.17-3.5 ....................................... XXIII,9; NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 XVIII,25; XXIV,29; XXX,19 2.1-12 X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; ............................... XXVII, 46; XXXII,62 2.13-18 ............................................. V,304 3.1-12 ....................... XVIII,15; XXIV,24 3.13-17 ............. X,206; XVIII,53; XXIV,67; ................................... XXX,44; XXXII,66 4.1-11 ......... IV,14; XXVII,70; XXXII,85 4.12-17 .......................................... XII,142 4.12-23 ........................................ XVIII,61 4.23-25 ............................... XII,35; XII,34 5.1-10 ........................ IV,212; XXXII,307 5.1-12 .......................................... XVIII,64 5.13-16 ............................................ X,390; 5.13-16(17-20) ............................ XVIII,69 5.17-20 ........................................... IV,125; 5.20-37 ........................................ XVIII,73 5.38-48 ..................... II, 193, (360); X,460 6.1-4 ............................. VIII,279; XIV,332 6.5-13 ...................... II, 57, (224); XIV,247 6.9-13 ................................ VI,53; VIII,192 6.16-18 ............................................ IV,133 6.24-34 ....................... IV,180; XXXII,179 6.25-34 ............................................. X,428 7.15-23 ............................................ IV,140 7.21-29 XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27 .......................................... VI,233; 9.1-8 ................................................ IV,198 9.9-13 ... VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8 ................................... XVIII,170 10.7-15 ................................. II, 104, (271) 18.24-39 .................................. XXXII,204 10.26-33 .................. XVIII,176; XXX,168 10.26b-33 ........................ VI,291; XII,268; 10.26-36 .................................... XXIV,203 10.34-39 ........................................ XII,274 10.34-42 .................. XVIII,181; XXX,174 11.2-10 ............................................. X,170 11.2-11 ....... III,215;; XXI,30; XXVII, 22; ................................................... XXXII,21 11.16-19,25-30 ........................ XXXII,221 11.25-30 XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.22-30 .......................................... IV,217 12.33-35(36-37) ............................ XII,307
415
12.38-42 ................. II, 225, (292); XII,175 13.1-9 ... XXI,196; XXVII, 188; XXX,189 13.24-30(36-43) ...... XVIII,289; XXI,203; ................................................. XXXII,229 13.44-46 II, 150, (317); VIII,253; XIV,295 13.44-52 ................. XXI,207; XXVII, 194 14.13-21XXI,213; XXIV,245; XXVII,198; ................................................. XXXII,241 14.22-33 . VI,109; XXIV,249; XXVII, 202 15.21-28 ... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; ................................................. XXXII,255 16.13-19 ...................................... XXIII,40 16.13-20 .............. XXIV,260; XXVII, 216 16.13-20(23) ......................... II, 72, (239); 16.21-26 ................ XXI,223; XXVII,222; XXXII,264 17.1-9 ............. X,216; XVIII,78; XXX,60 18.15-20 ........... II, 123, (290); XVIII,226; .................................................... XXX,227 18.21-35 ..... X,467; XVIII,232; XXX,234; ................................................. XXXII,269 19.16-26 .............................. II, 182, (349) 20.1-16a IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16 .................................... XXIX, 296 20.17-28 ..................... XXI,96; XXVII, 87 21.1-9 .................................. III,194; X,149 21.14-17 .................... II,52, (219); XII,185 21.23-32 .................................. XXXII,282 21.28-32 ...................... VI,247; XVIII,243 21.33-43 .................................... XVIII,250 22.1-10 (11-14) ....... XXX,243; XVIII,254 22.1-14 .......... IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21 .................................... XVIII,259 22.23-33 ....... VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40 ......................................... IV,194; 22.34-40(41-46) .... XXX,253; XXXII,298 23.1-12 ................ II,158, (325); XXX,259 24.1-14 .......................... VI,68; XVIII,275 24.15-28 .......................................... IV,222 24.37-44 ....... XXI,21; XXVII,9; XXXII,9 25.1-13 ........... IV,243; XI,336; XXIV,312; .................................................... XXX,277 25.14-30 . II, 233, (400); X,394; XVIII,272; .................................................... XXX,286 25.31-37 .................................... XVIII,297 25.31-46 .......... IV,231; X,472; XVIII,298; ............. XXI,302; XXVII,291; XXXII,51; XXXII,324 26.30-56 .................................... XVIII,109 26.36-46 ........................................... VI,29 26.57-75 .................................... XXIV,122 27.11-26 .................................. XXXII,116 27.33-50(51-54) .......................... VIII,162; 27.33-54 ................... XXI,111; XXVII, 99
27.33-56 ....................................... XIV,201 28.1-10 ......................... VI,167; XXIV,139 28.16-20 ......................... X,374; XXX,156 Marcos 1.1-8 ................. XXII,14; XXVIII,13; ....................................................... XXXIII, 16 1.4-11 ....................... XXII,48; XXVIII,64 1.9-15 .................................... XXXIII, 132 1.12-15 ........ XIX,79; XXV,129; XXXI,84 1.14-20 XXII,56; XXVIII,73; XXXIII, 84 1.21-28 ...................... XVI,99; XXVIII,79 1.29-39 ............... XXVIII,87; XXXIII,101 1.32-39 ............................. VI,284; XII,261 1.40-45 ............................. VI,258; XII,241 2.1-12 ......................... X,453; XXVIII,100 2.18-22 ......................................... VIII,105 2.23-28 ...... VIII,311; XIV,367; XXII,169; ................................................ XXVIII,228 3.1-6 ................................................. X,114 3.20-35 .................. XVI,192; XXVIII,233 3.31-35 ........................................... VI,252 4.26-29 ........................................... VI,113 4.26-34 .................. XXII,175;XXVIII,240 4.30.32 ........................................... XII,313 4.35-41 XVI,200; XXII,182; XXVIII,247; ............................................... XXXIII, 244 5.21-24a,35-43 XXVIII,253; XXXIII, 378 5.24b-34 ..................................... XXII,188 5.25-34 ............................................ XII,27 6.1-6 ..... XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.1-13 .................................... XXXIII, 256 6.6b-13 ....................... XIX,201; XXV,236 6.14-29 ............................................... X,74 6.30-34 .... XIX,206; XXV,241;XXXI,208; ............................................... XXXIII, 270 6.34-44 ....................................... XXX,247 7.1-8,14-15,21-23 ..... XIX,233;XXXI,242; ............................................... XXXIII, 309 7.31-37 ............. IV,163; X,408; XXII,239; ................................................ XXVIII,307 8.22-26 ......................... VIII,269; XIV,317 8.27-35 ................. XVI,247; XXXIII, 323 8.31-38 ............ X,234; XIX,83; XXV,134; .................................................... XXXI,91 9.2-9 .. XVI,105; XXVIII,108;XXXIII, 119 9.17-29 ........................................... VI,278 9.30-37 ....................... XVI,255; XXII,245 9.38-50 ................ XXII,250; XXVIII,322; ............................................... XXXIII, 334 9.43-48 ................. II, 138, (305); XVI,263 10.2-12 ................................... XXVIII,326 10.13-16 ................................. XXVIII,313 10.17-27 ..... XII,256; XVI,268; XXII,260; ............................................... XXXIII, 348 10.32-45 ........................................... X,106
416
10.35-45 ................ XXVIII,289; XVI,277 10.46-52 ..................... XVI,283; XXII,265 11.1-11 .................................. XXXIII, 160 12.1-12 ............................................. X,242 12.13-17 .......................................... III,138 12.41-44 . VI,138; XXII,281; XXXIII, 387 13.1-13 . XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31 ................................. XXVIII,358 13.31-37 ...................................... XIV,397; 13.33-37 .......................... XXV,17; XIX,9 14.3-9 .............................. VI,149; XXII,93 14.6-9 ............................................ XII,181 14.12-26 XVI,134; XXII,104; XXVIII,144 14.17-26 ......................................... VI,156 15.1-15(16-20) ...... XVI,129; XXVIII,139 16.1-8 IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; ................................................ XXVIII,159 16.9-14(15-20) ............. VIII,173; XIV,225 16.12-18 ................................ XXXIII, 184 16.14-20 ............................................ IV,77 Lucas 1.1-4 ..................................... XXIII,200 1.26-33(34-37) 38 ............. VI,81; XII,109; 1.26-38 ........... XVI,56; XIX,27; XXII,28; ............................ XXVIII, 26; XXXIII, 24 1.39-45(46-55) .......................... XXVI, 20 1.(39-45)46-55(56) .......................... X, 175 1.46-55 ............................................ V, 288 1.57-66 ..................................... XXIV, 200 1.67-79 .............................. V, 270; VIII, 30 2.1-7 ............................................ XXX, 24 2.1-7,8-14,15-20 ........................... XVI, 63 2.1-14 ... I, 161, (168); X, 181; XXXII, 41 2.(1-14)15-20 ............................. XXIV, 41 2.1-20 . III, 218; IV, 273; XVII, 28; XXI, 41; XXIII,21; XXIV, 34; XXVII, 34; XIX, 26; ................................................. XXXIII, 37 2.41-52 ............................................ XX,35 3.1-9 ................................................. V,281 3.1-14 ............................................... VI,76 3.7-18 ........ XVII,21; XXIII,15; XXIX, 16 3.15-17,21-22 ............... XX,40; XXVI, 36 4.1-13 ....................... XXIII,60; XXIX, 81 4.14-21 ........................... VI,19; XXVI, 47 4.14-21(22) ...... XX,50; XX,59; XXVI, 47 4.16-21 ............................................. X,186 4.21-30 ...................................... XXVI, 54 5.1-11 IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI, 59 6.17-26 ......................... XX,69; XXVI, 66 6.27-38 ......................... XX,73; XXVI, 74 6.36-42 ................................ IV,112; X,368 7.1-10 ...................................... XXVI, 206 7.11-17 ............................ IV,186; VIII,293 7.36-50 ..... VIII,262; XIV,309; XXVI, 220 8.4-10 ............................................... X,228
417
9.10-17 ......................................... VIII,241 9.18-24(25-26) ........ XX,190; XXVI, 226 9.28-36 ......................... XX,82; XXVI, 85 9.51-56 .......................................... XV,167 9.51-62 .......................................... XX,198 9.57-62 ............................................. X,251 10.1-12,16 ..................................... XX,204 10.17-20 .................................... XXIV,285 10.21-24 ................................. II, 82, (249) 10.25-37 ...... X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42 ... VI,124; XVII,170; XXIII,140; ................................................. XXIX, 216 11.1-13 ................. XXIII,145; XXIX, 223 11.5-13 ........................................... VI,184 11.14-23 ........................... VI,297; XII,283 12.13-21 ............... XXIII,149; XXIX, 228 12.32-40 ..................................... XVII,183 12.35-40 ......................................... III,226 12.41-48 ......................................... VI,302 12.42-48 ........................................ XII,289 12.49-53 XVII,189; XXIII,154; XXIX, 235 13.1-9 ....... XVII,83; XXIII,72; XXIX, 93 13.22-30 XVII,193; XXIII,159; XXIX, 241 13.31-35 .... XVII,78; XXIII,65; XXIX, 88 14.1,7-14 .............. XXIII,167; XXIX, 247 14.7-14 ....................................... XVII,196 14.15-24 ................................ IV,96; X,354 14.25-33 ... VIII,235; XX,251; XXVI, 277 15.1-3,11b-32 ................................ XII,220 15.1-3,11-32 IV, 209; XVII,88; XXIX, 100 15.1-7(8-10) ..................................... X,361 15.1-10 ............................. IV,106; XX,255 15.8-32 ................................... XXVIII,265 16.1-9 .............................................. IV,147 16.1-13 ..................... XX,260; XXVI, 286 16.19-31 ............................. IV,88; XX,265 17.1-10 ..................... XX,270; XXVI, 298 17.5-6 ........................... VIII,286; XIV,346 17.7-10 ............................. VI,117; XII,160 17.11-19 .............. IV,172; X,421; XX,275; ................................................. XXVI, 305 17.20-35 ........................................... V,275 18.1-8a ........................ XX,291; XXIII,213 18.1-8 ...................... VIII,343; XXVI, 325 18.9-14 ...................... IV,158; XXVIII,333 18.18-23 ........................................ XII,249 18.31-43 ....................................... VIII,124 19.1-10 .. II, 112, (279); VIII,219; XIV,275 19.28-40 .................................. XXVI, 121 19.41-48 .............................. IV,153; X,401 20.9-19 ..................... XVII,94; XXIX, 105 20.27-38 .................................... XXIII,223 21.5-19 .......................................... XX,296 21.25-36 ............................ III,209; XVII,9
22.7-20 ..................... XX,116; XXVI, 126 22.31-34 ....................... VIII,131; XIV,172 23.33-43 .................................. XXVI, 344 23.(26-32)33-49 ..... XVII,102; XXIX, 119 23.33-49 ......................................... VI,162 23.35-43 ..................................... XVII,248 24.1-11(12) .................................... XX,127 24.1-12 ............................................. II,201 24.13-35 .... VI,40; XXI,125; XXVII, 114; ................................................. XXXII,137 24.36-49 ...................... XVI,164; XIX,128 24.44-53 ................................. XXVIII,201 24.(44-49)50-53 ......... XIX,148; XXII,145 24.50-53 .......................................... X,331; João 1.1-5.9-14 ..... XIX,35; XXV,39; XXXI,24 1.1-18 ....................... XXIII,30; XXIX, 46 1.(1-9)10-18 ............................ XXXIII, 64 1.6-8,19-28 ..... XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28) .............................. VIII,49; 1.29-34 .......................................... VIII,98; 1.29-34(35-41) ............. XVIII,57; XXI,55 1.35-42 ......................................... XII,227; 1.43-51 .......... XII,129; XVI,92; XXII,52; .................................................. XXVIII,68 2.1-11 ................ IX,41; XX,44; XXVI, 40 2.13-22 ............................. VI,237; XIX,87 3.1-11(15) ......................................... X,347 3.1-17 XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91; ............................................... XXXIII, 232 3.14-21 ........ XIX,95; XXV,144; XXXI,96 4.1-11 ....................................... XXXI,149 4.5-26 ............................................ XXI,82 4.31-38 ................................... II, 89, (256) 4.46-54 .......................................... XII,148 5.1-16 ........................................... XIV,360 5.1-16(18) ..................................... VIII,304 5.19-21 ......................................... XIV,215 5.24-29 XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; .................................................... XXX,271 5.39-47 ........................................... VI,204 6.1-15 . IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; .................................................. XXXI,213 6.(22-23)24-35 .......... XIX,217; XXV,254; ........................... XXXI,218; XXXIII, 280 6.35 .............................................. VIII,151; 6.37-40(41-43),44 ................ II, 200, (367) 6.41-51 XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; .................................................. XXXI,226 6.51-58 ..................... XIX,225; XXXI,232; ................................................ XXXIII,292 6.60-69 .... XIX,229; XXV,264; XXXI,237 6.66-69 .......................................... XII,293 7.14-18 ........................................... VIII,87 7.37-39a XVI,187; XXII, 158; XXVIII, 211
418
7.37-39 ........... VI,194; XII,199; XXII,158 8.1-11 ........................................... VIII,228 8.21-30 ......................... VIII,138; XIV,179 8.31-36 . II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; ................................................... XXIII,209 9.1-7 ............................. VIII,248; XIV,290 9.1-41 ...................................... XXXII,104 9.13-17,34-39 ............. XXI,91; XXVII, 81 9.35-41 ......................................... VIII,299 10.1-5,27-30 ........................... II, 40, (207) 10.1-10 . XXI,133; XXVII,119; XXXII,144 10.11-16 ............................................ IV,53 10.11-18 . XIX,135, XXV,181; XXXI,139; ................................................ XXXIII,199 10.11-18,27-30 ................................. X,310 10.14-16,27-29 ......................... XXXIII,50 10.22-30 .................................. XXIX, 141 10.22-30(31-39) ........................ XVII,117; 11.1,3,17-27 ......................... II, 188, (355) 11.1(2),3,17-27(41-45) ..................... X,434 11.47-53 ...... VIII,157; XIV,192; XXI,103; ................................................ XXXIII,154 12.12-19 ............................ X,269; XX,110 12.20-26 ........................................... X,258 12.20-30 ..................................... XXV,150 12.20-33 .................. XIX,102; XXXI,103; ................................................ XXXIII,154 12.44-50 ......................................... VIII,65 13.1-15,34-35 ................................... X,277 13.1-17,34 .................................... XXX,99 13.31-35 ................. XVII,121; XXIX, 149 14.1-6 ............................................ XII,134 14.1-12 ................... XXI,139; XXVII, 124 14.1-12(14) ............................. II, 63, (230) 14.15-19 ....................................... XV, 232 14.15-21 .................................... XXIV,165 14.23-27 .............................. IV,82; X, 341 14.23-29 ................. XVII,126; XXIX, 154 15.1-8 ........... X,317; XIX,139; XXV, 189 .................................................. XXXI,146 15.9-12(13-17) ............................ XIV, 374 15.9-17 ...... VIII,317; XIX,143; XXV,192; ............................................... XXXIII, 211 15.(18)26-16.4 ................................. X, 337 15.26-27; 16.4b-11 ... XX,171; XXVI, 191 16.5-15 .............................................. IV,65 16.12-15 ................... XX,177; XXVI, 200 16.16-23a .............................. IV,57; VI,179 16.16,20-23a ..................... VI,129; VI, 176 16.22-28 ............................................ IV,72 16.23b-28,33 .................................... X,323 17.1a,6-19 ............................... XXXIII,221 17.1-15 ...................................... XXIV,159 17.1-11 ................... XXI,148; XXVII, 132
17.9-19 ............................. IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19 ......... XIX,153; XXXI,157 17.20-26 .................. VIII,198; XXIX, 168 18.33-37 .................... XIX,299;XXXI,296 19.16-30 ............... IV,38; X,284; XIX,110; ........... XXV,170; XXXI,123; XXXIII,168 20.1-2,11-18 .............................. XXIV,230 20.1-9(10-18) ...... XVIII,120; XXVI, 136; .................................................... XXX,109 20.11-18 ....................... VIII,166; XIV,207 20.19-23 .................. XXIV,173; XXX,150 20.(19,23)24-29 .............. X,301; XIX,119; ................................................. XXXII,134 20.19-31 XIX, 119; XXI,121; XXVII, 110; ............................... XXIX, 128;XXXI,133 21.1-14 ................... XVII,111; XXIX, 136 21.15-19 ....................................... VIII,179 Atos 1.8-14 ................................... XXIV,168 1.1-11 ........ XX,155; XX,160; XXVI,182; .............................. XXIX,161; XXXII,162 1.15-26 .................. XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11 ............................... XI,242 2.1-13 ............................................. XI,249 2.1-21 .................... XIX,158; XXVII, 139 2.14a,22-32 ............................... XXIV,143 2.14a,36-47 ................................ XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39 ...................... XV,239 2.36-41 .............................................. III,59 2.41a,42-47 ..................................... XI,284 3.1-10 ............................................ VII,198 3.13-15,17-26 ........ XVI,158; XXVIII,165 4.8-12 ..................................... XXVIII,172 4.32-37 ............................................. V,310 5.12,17-32 .................................... XX,130 6.1-7 ............................ III,134; XXIV,155 8.26-40 . XIII,222; XVI,169; XXVIII,188; ............................................... XXXIII, 205 9.1-20 ............................................ XX,136 10.34-38 . XXIII,35; XXVII, 52;;XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18 ..................... XIX,49 10.34-43 ........... XXVII, 105; XXXIII,177 11.19-30 ................ XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25 ............................. XXII,33 13.44-52 ......................... XX,140; XX,143 14.8-18 ......................................... XX,148 16.6-10 .......................................... XX,164 16.9-15 ............................. IX,171; XV,141 16.23-34 ........................ VII,122; XIV,233 17.1-15 ...................................... XXIV,159 17.16-34 .............................................. I,34 17.22-31 ................... XV,213; XXXII,156 Romanos 1.1-7 XVI,77; XXV,55; XXVIII,54; ................................................... XXXII,36 3.19-28 ............. II,169; XX,278; XXI,267;
.............................. XXV,287; XXXIII,364 3.21-25a ........................... XXVII,156, 272 4.1-5,13-17 ............................... XXIV,100 4.13-25 ................................... XXXIII,138 4.18-25 ................. XXIV,184; XXVII,161 5.1-5 ........................ XVII,137; XXIX,180 5.1-8 ........................................ XXXII,197 5.1-11 ......... XXVIII,122; V,51; XXXII,98 5.6-11 ................... XXIV,190; XXVII,166 5.12-15 .................................... XXVII,172 6.1b-11 ................. XXIV,211; XXVII,183 6.3-8 ............................................... XI,278 6.19-23 ................................ V,164; IX,258 8.1-11 ................ I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17 ............................................. V,170 8.14-17 ....................................... XXV,203 8.14-17,22-27 ........................... XXIX,174 8.18-23 ............................................. V,150 8.18-23(24-25) .......................... XVIII,192 8.26-27 ....................................... XXX,193 8.26-30 ........................................... IX,233 8.31b-39 ......................................... XI,144 8.31-39 ....................... IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39 ............................ XVI,110 9.1-5,31-10.4 ................................ XIII,235 9.1-5; 10.1-4 ..................................... V,185 9.30b-33 .......................................... III,124 10.5-13 .................... XVI,115; XXXII,248 11.13-15,29-32 .......................... XXIV,255 11.25-32 ................................... I, 95, (102) 11.32-36 .......................................... V,126; 11.33-36 ......................................... XI,256 12.1-8 ........................... XI,152; XXIV,265 12.6-16 ............................................... V,19 13.1-10 ........................................ XXI,229 13.8-10(13-14) ............................... XI,107 13.11-14 ......................... IV,251; XXIV,19 14.5-9 .......................................... XXI,234 14.7-13 .............................................. III,79 14.10-13 ......................................... XI,266 15.4-13 ........................ XXI,25; XXXII,16 16.25-27 ..................................... XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9 ............ XXIV,70; XXXII,72 1.3-9 ............................ XVI,51; XXVIII,9 1.4-9 ................................................. V,228 1.10-17 .......................................... XXI,60 1.18-25 ............................................ XX,97 1.26-31 .................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5 ............................... XXI,71; XXII,60 2.1-10 .............................. VII,50; XIII,126 2.6-13 ............................................ XXI,74 2.12-16 .......................................... VII,150 3.9-15 ............................... XV,266; IX,269 3.16-23 ....................................... XXII,193
419
4.1-5 ................................... IV,261; XI,119 6.9-14,18-20 ............................... I, 78, (85) 6.9-14(15-17)18-20 ..................... I,86, (93) 6.12-20 ..................................... XXXIII,76 7.29-31 ........................................ XXIV,90 7.29-32a .................................... I, 46, (213) 8.2 ................................................... XIII,42 9.16-23 .......................... XIV,264, XXV,96 9.24-27 ..................... XI,165; XXXIII,112 10.1-13 ................................ V,179; XX,91 10.16-17 ........................ VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21) ....................... XXXI,113 10.31-11.1 .................................. XXV,107 11.23-26 ................ XXIV,127; XXVII, 94 11.23-29 ............................................. V,65 12 .................................................... XIII,34 12.1,4-11 .................... XVII,47; XXIX, 59 12.12-21,26-27 ......... XXIII,45; XXIX, 64 12.27-13.13 ................ XVII,52; XXIX, 71 12.31b-13.13 ......................... V,32; XI,182 14.1-3,20-25 .................................. VII,158 14.12b-20 .................................... XXIII,49 15.1-11 ...................................... XVII,108 15.1-20 .............................................. III,13 15.12,16-20 ............. XVII,63; XXXII,311 15.19-28 I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; .................................................... XXV,175 15.20-28 ................. XVIII,280; XXX,293, 15.35-38 ......................................... XIII,29 15.45-49 ....................................... XVII,69 15.50-58 ......... V,78; XIX,286; XXVI, 320 2 Coríntios 1.3-7 ......................... I, 112, (119) 1.18-22 ............. VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6 ......................................... XXV,118 3.3-9 ............................................... IX,283 3.12-4.2 ......................... XIX,76;XXXI,78 4.3-6 ................................ IX,157; XIV,165 4.5-12 ....................... XIX,169; XXXI,171 4.6-10 ............................................. XI,158 4.7-18 ................................................ III,53 4.13-18 ...................... XIX,173;XXXI,177 4.16-18 ......................................... XIII,192 5.1-10 .............................. IX,295; XV,288; 5.6-10 ...................... XIX,178; XXXI,183 5.14-21 .................................. I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21 .... XVI,140; XXVIII,153 6.1-10 .............................................. VII,82 8.1-9,13-14 ................................. XIX,188 8.1-15 ............................................. XIII,18 8.7-15 ..................................... XXXIII,251 8.9 ................................................. XV,112 9.6-15 .................................. V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 .............. XIII,142 12.1-10 .............................................. V,26;
12.7-10 ..................... XIX,195; XXXI,199 13.11-13 .... IX,240; XXI,158; XXXII,174 Gálatas 1.11-24 .............................. XXIII,113 2.16-21 ......................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 ......................... XXIII,119 3.28 ................................................. XII,70 4.1-7 .............................................. IX,144 4.4-7 ........... XV,106; XVIII,38; XXX,31; .................................................. XXXIII,44 5.1-6 ............................................ XIII,167 5.1-11 .................. I, 118, (125), 124, (131) 5.1,13-25 ................................... XXIII,126 5.25-26; 6.1-3,7-10 ........ VII,214; XIII,253 6.14-18 ...................................... XXIII,131 Efésios ......... 1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ...................................................... XXX,37 1.3-14 ............................... III,62 XXII,204 1.3-6,15-18 .................................. XVIII,43 1.(16-20a)20b-23 ...... XXI,144; XXX,138 1.20b-23 ........................................ IX,227 2.1-10 ......................................... XXX,265 2.4-10 .................... XVI,120; XXVIII,128 2.11-22 ............................................... X,48 2.13-22 ....................................... XXII,209 3.1-12 ........................................ XXXI,30 3.2-12 ............................. XVI,83; XXII,43 3.14-21 ....................... V,212; XXXIII,275 4.1-6 .................................. V,218; XIV,353 4.1-7,11-16 ................................ XXII,215 4.17-24 ....................................... XXII,220 4.20-32 ............................................. V,235 4.30-5.2 ....................................... XVI,228 5.1-8a .............................................. XI,205 5.1-9 .................................................. V,46; 5.8-14 ........................................ XXIV,105 5.9-14 .............................................. III,100 5.15-20 ........................................ XVI,233 5.15-21 ............................................ V,241; 5.21(22-25)26-31 ........................ XVI,236 5.21-31 ................................... XXVIII,294 6.10-20 .................. XVI,242; XXXIII,300 Filipenses 1.3-11 ... XI,324; XVII,14; XXIX,9 1.12-21 ............................................ VII,95 1.20c-27 ..................................... XXIV,280 2.1-4 ............................................. VII,173 2.1-5(6-11) ................................. XXI,245 2.5-11 .. V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; ................................ XXIX,111; XXXII,59 2.12-13 .......................................... XV,282 3.12-21 ................. XXIV,290; XXVII,251 3.7-11 ............................................. XI,291 3.7-14 ............................................... V,261 3.8-14 ............................................ XX,102 3.12-16 ................................... II, 20 (187)
420
3.12-21 .................................... XXVII,251 3.17-21 ........................................... XI,330 3.17-4.1 ........................................... XX,86 3.20-21 ................. I,136, (137); 129,(143) 4.4-7 ........................................... XXVI,15 4.10-20 ........................................... IX,150 Colossenses 1.1-6 ......................... XXVI, 233 1.12-20 ...................................... XXIII,229 1.15-23 ................................................ I,47 1.21-28 .................................... XXVI, 240 2.3-10 ........................................... XIV,140 2.6-15 ...................................... XXVI, 250 2.12-15 ......................................... XIII,186 3.1-4 ............ III,48; XXI,117; XXXII,127 3.12-17 ............................................. V,107 4.2-6 ................................. V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a ............... XXIV,294; ................................................. XXVII,256 1.5b-10 ................................... XXVII, 263 1.2-10 ............................................ VII,210 2.8-15 ...................................... XXVII,277 3.9-13 .............................................. XX,15 4.1-8 ..................................... V,38; XI,315 4.13-14(15-18) ........................... XXI,285; 4.13-18 ........................................ XXI,292 5.1-8 ............................................... IX,288 5.1-11 .......................................... XXI,297 5.12-24 ........................................... IX,274 5.16-24 ..................... XXII,19; XXXIII,20 2 Tessalonicenses 2.1-17 ...................... III,165 2.(13-15)16-17; 3.1-5 .............. XXIX, 311 3.1-5 .............................................. IX,252 3.6-13 .............................. V,97; XXIX,317 1 Timóteo . 1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 ................................... II, 169, (336) 2.1-8 ......................................... XVII,211 3.16 .............................................. XIV,132 4.4-5 ............................................ XIII,298 6.6-16 ..................... XVII,215; XXIX, 274 6.11b-16 .......................................... IV,255 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14 ........... XXIII,195 2.8-13 ........................................ XXIII,205 2.8a(8b-13) ................................... XV,198 Tito 2.11-14 ... II,263, (430); XI,128; XXIV,34 3.4-7 .................................. IV,280; XX,29 Filemom 8-21 ................................ XXIX, 254 9b-17(18-21) .............................. XVII,201 Hebreus 1.1-9 ................................... XVI,70 2.9-11 ........................ XIX,257;XXXI,274 2.10-18 .......................................... IX,188 3.1-6 ............................................ XIX,262 4.9-16 ........................ XIX,268 XXXI,281 4.12-13 ........................................... XI,171 4.14-16 ........................................... XI,192
4.14-16; 5.7-9 ............................ XXIV,133 5.1-6(7-10) ............ XIX,273; XXXIII,356 5.7-9 ........ XI,211; XVI,125; XXVIII,134 9.15-17,26b-28 .............................. XX,122 9.15,24-28 ........................................... III,7 9.15,26b-28 ................................. XIII,179; 9.24-28 ....................................... XIX,291 10.19-25 .................. II, 241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10 .................................. IX,178 11.1-3,8-16 .................................... XX,229 11.1-4 ....................................... XXVIII,39 11.8-10 .......................................... XV,160 12.1-3 ............................................ XV,178 12.1-13 ......................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a ............... XV,127 12.18-24 ........................................ XX,242 13.1-8 ............................................ XX,246 13.(7)8-9b .................................... XIV,153 13.12-16 ........................................... V,205 Tiago 1.12-18 ..................................... XV,154 1.17-27 ....................................... XXV,268 2.1-13 .......................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 ........................ XXV,275 2.14-24 ........................................... III,110 3.13-4.3,7-8a .......................... XXXIII,327 4.13-17 .......................... IX,34; XXIX, 40 5.1-6 ............................ XIII,265; XIX,252 5.7-8 .............................................. XI,114; 5.7-10 .......................................... XVIII,19 5.13-16 .......................................... VII,220 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ...................... XIII,152; 1.17-21 ....................................... XXX,118 1.17-22 ...................................... XVIII,129 1.3-9 ................ III,22; XI,221; XVIII,125; .................................................... XXX,114 2.1-10 ........ I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 ...................... XXX,128; XVIII,138 2.13-17 .................................... I, 102 (109) 2.15-17 ............................................. VI,13 2.18-25 ....................................... XXX,122 2.19-25 ..................................... XVIII,133 2.21b-25 .............................. V,91; XI,229; 3.8-17 .............................................. V,156; 3.15-18 ................... XVIII,146; XXIV,165 4.7-11 ............................................... V,120 4.13-19 ..................................... XVIII,152 5.1-5 .................................................. III,27 5.5b-11 ............................... V,144; XI,307 2 Pedro 1.3-11 ...................................... III,145 1.16-19(20-21) ............................ IX,165; 1-16-21 ................... XXIV,95; XXVII, 65 3.8-14 ...... XVII,237; XXIII,218; XXV,23 1 João 1.(1-4)5-2.2 ........................... XXII,124 1.5-10; 2.1-6 ................................ XIII,216
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2.21-25 ............................................ VII,30 3.1-3 ............................................... VII,21 3.1-7 ....................................... XXXIII,191 3.13-18 ............................................ IX,57 3.18-24 ......................... III,159; XXII,130 4.1-6 ................................................ IX,72 4.1-11 ......................................... XXII,135 4.11-16 ..................................... XXXI,165 4.7-12 ............................................ XI,299 4.7-16 ............................................... V,196 4.(7-16a)16b-21 ......................... XXII,149 4.16b-21 ........................................... V,135 5.1-5 ...................................... V,84; XI,235 5.1-6 .......................................... XXII,118 5.11-13 .......................................... XI,138 Apocalipse 1.4-8 ................ VII,131; XIII,204 1.9-18 .............................. VII,65; XIII,133 1.9-20 ...................................... XXVI, 145 2.8-11 ............................ VII,228; XIII,275
1.9-20 .......................................... XXIII,84 3.1-6 ......... IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 ................................... II, 248 (416) 3.14-22 ........................................ XIII,304 4.1-11 ....................................... I, 144(151) 5.1-14 ................................................ VII,7 5.11-14 ................... XXIII,90; XXVI,150 7.9-12 ........................................ XVII,230 7.9-17 ........... III,182; XIII,110; XXIII,94; .................................................. XXVI,159 12.1-6 ......................................... XXIII,26 12.7-12 ....................................... XXI,241 14.6-7 ............................................... V,249 15.2-4 ........................................... XV,218 19.11-16 ......................................... III,195 21.1-5 ....................................... XXVI,170 21.10-14,22-23 ......................... XXVI,176 22.10-16 ............................................ X,11 22.12-17,20 ................................ XXIII,99
Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.
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COLABORADORES DO VOLUME 33 ABENTROTH, Anelise L.: analisevilmar@gmail.com ADAM, Júlio C.: julio@ienh.g12.br ADRIANO, Odete Lieber A.: a.l.a.a@uol.com.br ARCARI, Marlei Adam: marleiadam@hotmail.com BEULKE, Gisela: giselab@diaconisas.com.br BLASI, Marcia: retalhos13@hotmail.com BORTOLLETO FILHO, Fernando: aste@uol.com.br BRAKEMEIER, Gottfried: brakemeier@terra.com.br BRANDENBURG, Yedo: yedo@brturbo.com.br BRAUN, Odair A.: veraodair@terra.com.br BUTTELLI, Felipe G. K.: felipebuttelli@yahoo.com.br DREHER, Scheila dos Santos: drehersantos@uol.com.br DREHMER, Erni: ernidhemer@globo.com FUCHS, Werner: w.fuchs@uol.com.br GARCIA, Paulo Roberto: paulo.garcia@metodista.br GARIN, Norberto da Cunha: ncgarin@terra.com.br GAULKE, Dalcido: silda@zipway.com.br GENZ, Silvia B.: silda@zipway.com.br GONÇALVEZ, Humberto Maiztegui: humbertox@uol.com.br HAGSMA, Alfredo J.: hagsma@terra.com.br HOLZSCHUH, Clarise I. W.: clarisewh@yahoo.com.br HOLZSCHUH, Jair L.: jair2170@yahoo.com.br IMMICH, Vera M.: veraodair@terra.com.br JANDREY, Carla V.: cjandrey@bol.com.br KALMBACH, Pedro: pedro_kalmbach@yahoo.com.ar KLEINE, Michael: kleinem@terra.com.br KONZEN, Léo Z.: leokonzen@urisan.tche.br KRÜGER, René: renekruger@isedet.edu.ar KÜNTZER, Renato: renato.kuntzer@terra.com.br KUPKA, Cláudio: c.kupka@uol.com.br LACERDA, Gerson: gclacerda@uol.com.br LENKE, Ângela: angelalenke@yahoo.com.br LÜCKEMEYER, Valdemar: luckemeyer@annex.com.br MURTA DE ALMEIDA, Fábio Py: pymurta@gmail.com OLIVEIRA, Jorge B. D.: pastorjorge@terra.com.br RAYMAN, Acir: raymann@ulbranet.com.br REIMER, Haroldo: h.reimer@terra.com.br REIS, Ana Isa dos: anaisadosreis@hotmail.com RIBEIRO, Antônio Carlos: antoniocarlosrib@gmail.com
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RIBEIRO JÚNIOR, Olmiro: orjr_che@yahoo.com.br SANTANA, Manuel Bernardino: m.bernardinofilho@gmail.com SCHERER, Cristina: crisitati@yahoo.com.br SCHMIDT, Ervino: ervinus@bol.com.br SCHWALM, Mauro A.: mauro.schwalm@mission-einewelt.de SEIBERT, Erni W.: erni@sbb.org.br SIEGLE, Manfredo: sinodonc@terra.com.br SPERB, Ulrico: uli@paroquiamatriz.org.br TESKE, Dietmar: teske.fz@terra.com.br TREIN, Hans A.: hans@est.edu.br ULRICH, Carlos L.: caclaul@netuno.com.br ULRICH, Claudete B.: caclaul@netuno.com.br WASKOW, Vera R.: vrw@terra.com.br WEBER, Eloir E.: p.eloir@cpovo.net WEIMER, Tânia C.: pnovahartz@sinos.net WEISSHEIMER, Vera C.: veracw@uol.com.br WITTER, Teobaldo: twitter@terra.com.br WOLFF, Günter: lobo@mksnet.com.br ZANANDREA, Rene: renezanandrea@yahoo.com.br ZIZTKE, Ângela: angelazitzke@yahoo.com.br
Texto: Times New Roman PS 11 Títulos: DawnCastle 15 Datas: Baskerton 10 Subtítulos: Times New Roman PS 18/12 É proibida a reprodução total ou parcial sem permissão prévia.
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