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Proclamar Libertação 32 - 2007-2008

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PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 32 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO A Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Coordenação: Mauro Batista de Souza Gisela Beulke Nelson Kilpp João Artur Müller da Silva Sissi Georg Vera Regina Waskow Verner Hoefelmann

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Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3590-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Margarete Engelbrecht, Luciano Camuzi, Ana Isa dos Reis, Sonja Heidrich-Jauregui, Mauro Schwalm, Anete Roese, José Alencar Lhulhier Jr, Ivoni Richter Reimer, Valdemar Lückemeyer. Coordenação editorial: Mauro Batista de Souza Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas de Faculdades EST.

P963

Proclamar libertação, v.32: Auxílios homiléticos / [Coordenado por] Mauro Batista de Souza, Gisela Beulke, Nelson Kilpp. – São Leopoldo : Sinodal, 2007.

15,5x22,5 cm. ; 348p. Série: Proclamar libertação ISBN 978-85-233-0876-6

1. Teologia prática – Auxílios homiléticos. I. Souza, Mauro Batista de. II. Beulke, Gisela. III. Kilpp, Nelson. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273

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SUMÁRIO AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 1º Domingo de Advento – Mateus 24.36-44 ---------------------------------------- 9 2º Domingo de Advento – Romanos 15.4-13 -------------------------------------- 16 3º Domingo de Advento – Mateus 11.2-11----------------------------------------- 21 4º Domingo de Advento – Isaías 7.10-16 ------------------------------------------- 27 Noite de Natal – Romanos 1.1-7 ----------------------------------------------------- 36 Natal de Nosso Senhor – Lucas 2.1-14 (15-20) ------------------------------------ 41 1º Domingo após Natal – Isaías 63.7-9---------------------------------------------- 46 Véspera de Ano Novo – Mateus 25.31-46 ------------------------------------------ 51 Ano Novo: Nome de Jesus – Filipenses 2.5-11 ------------------------------------ 59 Epifania de Nosso Senhor – Mateus 2.1-12 ---------------------------------------- 62 1º Domingo após Epifania – Mateus 3.13-17--------------------------------------- 66 2º Domingo após Epifania – 1 Coríntios 1.1-9 - ----------------------------------- 72 Último Domingo após Epifania – Êxodo 24.12-18--------------------------------- 79 1º Domingo na Quaresma – Mateus 4.1-11 - -------------------------------------- 85 2º Domingo na Quaresma – João 3.1-17 ------------------------------------------- 91 3º Domingo na Quaresma – Romanos 5.1-11 ------------------------------------- 98 4º Domingo na Quaresma – João 9.1-41 ----------------------------------------- 104 5º Domingo na Quaresma – Ezequiel 37.1-14 ----------------------------------- 108 Domingo da Paixão – Mateus 27.11-26 ------------------------------------------- 116 Quinta-Feira da Paixão – Êxodo 24.1-11------------------------------------------ 123 Domingo da Páscoa – Colossenses 3.1-4 ----------------------------------------- 127 2º Domingo da Páscoa – João 20.19-25 (26-29) --------------------------------- 134 3º Domingo da Páscoa – Lucas 24.13-35 ----------------------------------------- 137 4º Domingo da Páscoa – João 10.1-10 -------------------------------------------- 144 5º Domingo da Páscoa – 1 Pedro 2.2-10 ------------------------------------------ 149 6º Domingo da Páscoa – Atos 17.22-31------------------------------------------- 156 Ascensão de Nosso Senhor – Atos 1.1-11----------------------------------------- 162 Domingo de Pentecostes – Números 11.24-30 ---------------------------------- 169 1º Domingo após Pentecostes – 2 Coríntios 13.11-13 ------------------------- 174 2º Domingo após Pentecostes – Mateus 6.24-34 ------------------------------- 179 3º Domingo após Pentecostes – Deuteronômio 11.18-21, 26-28 ------------ 184 4º Domingo após Pentecostes – Mateus 9.9-13, 18-26 ------------------------ 188 5º Domingo após Pentecostes – Romanos 5.1-8 -------------------------------- 197 6º Domingo após Pentecostes – Mateus 10.24-39 ------------------------------ 204 7º Domingo após Pentecostes – Jeremias 28.5-9 ------------------------------- 208 Ação de Graças pela Colheita – Joel 2.21-27------------------------------------ 212 8º Domingo após Pentecostes – Mateus 11.16-19, 25-30 --------------------- 221 10º Domingo após Pentecostes – Mateus 13.24-30, 36-43 ------------------- 229 11º Domingo após Pentecostes – 1 Reis 3.5-12---------------------------------- 236

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12º Domingo após Pentecostes – Mateus 14.13-21 ---------------------------- 241 13º Domingo após Pentecostes – Romanos 10.5-15 --------------------------- 248 14º Domingo após Pentecostes – Mateus 15.(10-20) 21-28 ------------------ 255 15º Domingo após Pentecostes – Isaías 51.1-6 --------------------------------- 259 16º Domingo após Pentecostes – Mateus 16.21-28 ---------------------------- 264 18º Domingo após Pentecostes – Mateus 18.21-35 ---------------------------- 269 19º Domingo após Pentecostes – Jonas 3.10-4.11 - ---------------------------- 274 20º Domingo após Pentecostes – Mateus 21.23-32 ---------------------------- 282 22º Domingo após Pentecostes – Mateus 22.1-14 ------------------------------ 289 23º Domingo após Pentecostes – Isaías 45.1-7 --------------------------------- 293 24º Domingo após Pentecostes – Mateus 22.34-46 ---------------------------- 298 Dia da Reforma – Mateus 5.1-10 --------------------------------------------------- 307 Dia de Finados – 1 Coríntios 15.12-20 -------------------------------------------- 311 27º Domingo após Pentecostes – Juízes 4.1-7 ---------------------------------- 319 Domingo Cristo Rei – Mateus 25.31-46 ------------------------------------------- 324 ÍNDICES---------------------------------------------------------------------------------- 333

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PREFÁCIO

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Proclamar Libertação (PL) está de volta! Após uma parada de um ano, incentivados pela pesquisa realizada com leitores e leitoras em setembro de 2006, decidimos que valeria a pena resgatar a missão que o PL vinha desempenhando desde 1976: possibilitar às pessoas que pregam a palavra de Deus um auxílio homilético confiável, criativo e comprometido com o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo em terra brasileira e latino-americana. Este volume vem com algumas mudanças (já na capa), que perpassam a diagramação e encorajam uma nova maneira de pensar auxílios homiléticos. Pelo menos esse foi o objetivo da nova coordenação do PL. Por motivos diversos, o antigo modelo de gerência do PL tornou-se inviável e o projeto foi entregue aos cuidados da disciplina de Homilética das Faculdades EST. A partir dali, formou-se uma nova equipe coordenadora, que assumiu em agosto de 2006. O volume 32, que está em suas mãos, traz 54 auxílios homiléticos, produzidos a partir dos textos bíblicos previstos no Lecionário Comum Revisado da IECLB, adotado no XXV Concílio da Igreja em 2006. Seus autores e suas autoras trabalharam voluntariamente e empenharam-se grandemente em oferecer o seu melhor. Muitas pessoas que colaboraram para que esta edição se tornasse realidade fizeram-no pela primeira vez. Outras tantas são assíduos colaboradores há muitos anos. Nosso muito obrigado a todos! Vale lembrar que os índices remissivos do PL passaram por uma revisão. Desejamos a todas as pessoas que pregam a palavra de Deus, seja nos templos ou sob a sombra das mangueiras, no alto dos morros ou nas baixadas, nos grandes centros urbanos ou nos vilarejos interioranos, que o PL possa ser verdadeiramente um auxílio para esta tarefa sublime: dizer aquilo que Deus tem a dizer. Abençoada leitura e bom trabalho! Mauro Batista de Souza p/ Coordenação do PL

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

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1o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: MATEUS 24.36-44

02 DEZ 2007

ISAÍAS 2.1-5 ROMANOS 13.11-14

Anelise Lengler Abentroth

1 Introdução A imagem da esperança para o antigo Israel é Deus presente no mais alto monte. De lá ele governará as nações. Deus ensinará, e os povos andarão no seu caminho. Deus será o juiz das nações, e não haverá mais guerras e opressão. As armas serão transformadas em instrumentos de trabalho. A paz reinará. Para as primeiras comunidades cristãs, a esperança está no novo tempo, prestes a irromper. A noite está terminando. A luz vem vindo. A luz deve vencer as trevas. Mas para isso é preciso viver na luz, como criaturas de Cristo, revestidos com as armas que ele ensinou. São elas que podem vencer os desejos da natureza humana, pois essa natureza tem afastado as criaturas de seu Criador, de si mesmas e do próximo. Eis que um novo Advento chegou! O que há de novo entre nós? Qual a mensagem que traz novidade? Onde reside nossa esperança? O que percebemos em nossas comunidades é um tempo de muitos afazeres, muito trabalho, muito cansaço. As propostas da sociedade de consumo acirram-se e invadem todos os espaços. Casas, ruas, escolas, cidades inteiras estão coloridas, enfeitadas. Mas e as pessoas, como estão? O que foi feito delas durante todo o ano? Qual a esperança capaz de manter o seu ânimo de vida? Não dá para viver sem esperanças... Também não dá para viver de ilusão... Esperança é a essência da fé. Mas que esperança? Convidamos você para refletir conosco, pois o texto bíblico proposto para a pregação nos quer admoestar e nos acordar para caminhar, vigilantes, na luz que Deus faz renascer em nós.

2 Exegese O texto do Evangelho de Mateus 24.37-44 encontra-se na parte em que é tratada a vinda definitiva do reino de Deus. Os capítulos 24 e 25 podem ser chamados de “Sermão da vigilância”. Pelo que parece, Mateus chamava-se Levi, filho de Alfeu (Mc 2.14). Era

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1º Domingo de Advento

publicano a serviço do império romano. Esse homem recebe um chamado de Jesus e passa a segui-lo. O Evangelho de Mateus começou a surgir entre 85 e 90 d.C. Ele foi escrito para as comunidades judaico-cristãs, dispersas entre a Galiléia e a Síria (Mt 4.13-16.24). Desde o ano 66 d.C., os judeus da Palestina revoltaram-se contra a ocupação romana. A guerra acabou por volta de 73 d.C., quando a imponente fortaleza de Massada foi tomada pelos romanos. A terra estava arrasada. Jerusalém era um monte de ruínas. O templo destruído não servia mais para o culto nem para sacrifícios e holocaustos. Os grupos político-religiosos, tais como saduceus, zelotes e essênios, tinham desaparecido. Os únicos que permaneceram organizados foram os fariseus, que se uniam em torno das sinagogas. Também existiam as comunidades judaicas da diáspora, espalhadas pelo império. No lugar do culto centrado nos sacrifícios, a vivência religiosa passou a ser a observância da Lei e o culto nas sinagogas em torno da palavra de Deus (Torá). Os rabinos passaram a ser os guardadores da fiel doutrina. Assim foram expulsas das sinagogas todas as correntes de pensamento diferentes dos ensinamentos dos fariseus. No meio delas estavam homens e mulheres que passaram a crer que Jesus de Nazaré era o Filho do Homem, o Messias prometido por Deus e esperado por tantas gerações. Mateus apresenta Jesus como o novo Messias, revelador da nova e verdadeira Lei. As comunidades eram continuadoras da caminhada iniciada por Abraão. Elas eram o povo de Deus. O texto em questão foi escrito num tempo muito difícil. Além das pessoas serem expulsas de suas terras, agora também foram das sinagogas. As perseguições continuavam. O governo romano castigava o povo com altos impostos. O trabalho era árduo. Havia muitos sem trabalho, e as dívidas ameaçavam a liberdade. Enquanto o Evangelho de Marcos, escrito pelo menos 20 anos antes e lido entre eles, tinha como pergunta: “Quem é Jesus de Nazaré e como segui-lo?”, o Evangelho de Mateus tenta responder a uma nova pergunta, que está sendo feita pela comunidade: “Quem somos nós e qual é nossa missão?”. A comunidade precisa descobrir maneiras de viver a solidariedade, pois a imposição, a violência e a exclusão abriam feridas que precisavam ser tratadas e curadas. A esperança necessitava de raízes, de seiva, para produzir os frutos. No final do primeiro século, as comunidades judaico-cristãs viviam na expectativa da vinda imediata de Cristo. Elas perguntavam: “Quando Jesus vier, será que serei tomado ou deixado? O que fazer para não ser pego de surpresa?”. É nesse contexto que está o nosso texto. 2.1 – Estrutura

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V. 37-39 – A vinda do Filho do Homem é comparada ao tempo de Noé. Muitos se achavam seguros. Resolviam as suas necessidades básicas e estabeleciam-se com suas famílias. Esses, porém, não “viam” nem percebiam o que estava acontecendo ao seu redor. Não entenderam os sinais. O dilúvio veio e levou todos. V. 40-41 – Mostram duas situações de trabalho. Uma, do universo masculino; e outra, do universo feminino. Percebe-se que há ouvintes mulheres e homens. A exigência é para ambos. Dois homens fazem o mesmo trabalho. Duas mulheres fazem o mesmo trabalho. Mas apenas um e uma serão levados. V. 42-43 – Inicia e termina com o alerta: “Fiquem apercebidos (preparados, equipados, disponíveis, dispostos, decididos, abertos...). Isso porque ninguém sabe a hora. O Senhor vem de surpresa, quando não se espera. A lembrança ou comparativo com o roubo lembra o estrago, o susto, o desgosto que isso causa. Porém não aconteceria se o dono da casa estivesse preparado ou soubesse a hora do infortúnio.

3 Meditação Qual é a pergunta que as comunidades fazem hoje? Ainda perguntam: Quem é Jesus? Quando ele vai voltar? Nas conversas com adolescentes e adultos não encontro essas perguntas. O viver hoje, com suas demandas, expectativas e frustrações, é que toma conta das conversas. É a safra que foi boa ou não, são os preços dos produtos, o desemprego, as dificuldades com a saúde, os relacionamentos “quebrados”... são esses os assuntos que estão no horizonte. Creio que tematizar a pregação, partindo da preocupação com a vinda de Cristo, como era iminente no primeiro século, é trazer para o centro aquilo que não corresponde à pergunta que não quer calar. Penso que a abordagem para o texto pode partir da pergunta pelo conteúdo de nossa esperança. O que estamos esperando? Para que acordamos todas as manhãs? Podemos comparar o nosso jeito de viver hoje com o povo, antes e talvez depois, do dilúvio. Antes, se pensarmos que, enquanto temos comida, casa para morar, salário e renda, vivemos aparentemente tranqüilos. Sofremos um pouco com as exigências: querer melhorar, ganhar mais, comprar mais... O sonho, então, é para esta vida ou, no máximo, para desfrutar de uma boa aposentadoria. Sabemos, porém, que, na realidade, são poucas as famílias que vivem dessa esperança. A grande maioria vive o “pós-dilúvio”. Tudo arrasado, muito por construir. São os migrantes da colônia para os centros maiores ou aqueles muitos que estão sobrando no sistema econômico reinante, com pouco estudo e pouca ou muita experiência. Talvez o que nos faz traçar um paralelo com o povo de Noé é que a maio-

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ria não compreende o que está acontecendo. Estão como que anestesiados. Estão sem sonho algum. O texto dá pistas: as pessoas estarão trabalhando. Envolvidas com sua sobrevivência e a de suas famílias, mas um será levado e outro deixado. Percebe-se que há maneiras diferentes de compreender o mesmo trabalho. Então lembro da canção: “Libertação se alcança no trabalho, mas há dois modos de se trabalhar. Há quem trabalha escravo do dinheiro e quem procura o mundo melhorar”. Os termos “fiquem apercebidos, fiquem vigiando” estão nos admoestando: há coisas para ver, para compreender, para perceber. Tem posições a tomar, tem atitudes. É preciso estar preparado e alerta para que o ladrão não faça estrago, não cause dano. A esperança cristã não se limita a esta vida, nem às seguranças que a sociedade propõe. Mesmo quando fala em sucesso, vitória e riqueza em nome de Cristo. Isso não é esperança. É idolatria! É extorsão! É venda de ilusão! Mas a esperança cristã também não pode ser remetida somente para a eternidade. Ela está firmada na promessa de Deus, que foi anunciada pelos profetas e se cumpriu no Natal. Cristo é a palavra viva. Palavra que faz a comunidade cristã descobrir maneiras diferentes de trabalhar e de se organizar, onde a solidariedade e a inclusão estão acima do lucro ou de qualquer vantagem pessoal. A comunidade retratada em Mateus vivia da esperança de que não só os cumpridores da lei seriam os escolhidos. Os eleitos serão aquelas pessoas que vivem da luz que Deus dá, com as “armas” do Senhor Jesus. Com certeza essas “armas” são bem diferentes daquelas que somente buscam satisfazer os desejos da natureza humana e do modelo econômico que nos domina. Para fazer frente a isso, a comunidade precisa aperceber-se da realidade e de como ela funciona. Vai descobrir a idolatria reinante, e então sim vigiar e guardar a casa, para que nela a proposta de Cristo seja vivida e ensinada.

4 Imagens para a prédica No calendário cristão, o 1° Domingo de Advento inicia um novo ano. O anúncio é a vinda do Messias anunciado/prometido. Quando o velho termina e o novo vem vindo, renovam-se as esperanças... É de esperança que queremos falar. Propomos que se inicie a pregação trazendo as imagens de esperança de Isaías 2.1-5: Deus será o juiz das nações. As armas de guerra se transformarão em instrumentos de trabalho. Para que haja pão em todas as mesas, para que haja paz. Em Romanos 13.11-14, a esperança está no momento da promessa se cumprir: Cristo voltará. Chega de trevas e escuridão. O dia vem chegando. É preciso viver como quem vive na luz, com as armas que Cristo nos dá. Então sugerimos uma breve encenação: várias pessoas caminhando

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desordenadamente. Cada uma segura um cartaz no qual está escrita a sua esperança (emprego, saúde, casa própria, faculdade, viagem, casamento, carro novo etc.). Uma a uma, elas ajoelham-se diante da cruz. Podem colocar dinheiro e objetos aos pés da cruz. A cena é congelada. O pregador pergunta: Quem vai realizar tantos desejos, tantas esperanças? A fé mágica dirá: Deus! A fé comercial remeterá todos para a busca de soluções individuais, “compráveis”, comercializadas, como: auto-ajuda, igrejas da prosperidade, compra de produtos esotéricos, promessas etc. Mas nós, povo cristão, o que nós temos a dizer? As necessidades das pessoas são conseqüência da forma como nos organizamos e vivemos como sociedade. A encenação até aqui nos mostrou o grande individualismo reinante e a busca pela satisfação de desejos pessoais, normalmente bem privados e egoístas. Podemos parar para refletir e perceber o que estamos fazendo, como estamos sendo levados a viver. Agora é hora de deixar o evangelho falar. Ele nos chama para vigiar, ficar apercebidos e equipados para viver uma outra proposta: a proposta de Cristo. A encenação pode seguir, mostrando as pessoas se encontrando, lendo as placas uns dos outros. Algumas riscam o seu sonho consumista e escrevem outra palavra. Outras, em grupo, buscam pão, água, agasalho, carteira de trabalho, livros etc. Pode-se terminar formando um círculo de braços dados. Esse círculo se abre, e as pessoas vão abraçando as demais presentes, propondo que o abraço se espalhe. No final, lembremos que a nossa esperança está firmada naquele que vem vindo, que veio e que virá. Ele trouxe uma nova proposta de vida, um novo jeito de se organizar, baseado na partilha, na solidariedade, no amor e na justiça.

5 Subsídios litúrgicos Acolhida: Tema: Caminhemos, vigilantes, na luz que Deus faz renascer em nós. TEM CAMINHO Tem caminho. Pela frente, Tem caminho. Se a gente Decidir ir. Tem caminho. E no caminho Não se vai Sozinha. Sozinho. Se vai com a vizinha.

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Com o vizinho. Porque sós Não somos de nada Na estrada. E tem estrada Pela frente. Tem estrada... (Louraini Christmann, A vida em poesia) Confissão de pecados: Ó Deus! Teu povo tem esperado e confiado em tuas promessas. Às vezes, caindo na tentação de transformá-las em bênçãos individuais, particulares. Temos nos tornado indiferentes às necessidades do próximo. Somos levados a viver de modo consumista e deixamos de vigiar. Optar pela luz que Cristo nem sempre tem sido a nossa escolha. Por tudo isso pedimos humildemente: Comunidade: Tem compaixão de nós e perdoa-nos, ó Deus! Kyrie:

Ó Deus, em ti esperamos! Espera a criança órfã por um lar... Espera o doente na fila do SUS... Espera a pessoa idosa pela visita, pelo carinho... Esperam o trabalhador e a trabalhadora pelo valor de seu trabalho... Espera o povo por leis justas que valham para todos... Espera o pai, espera a mãe pela criança que vai nascer... Esperamos, todos nós, pela paz, por mudanças de mentes e de corações... Tem piedade de nós, Senhor!

Oração do dia: Amado Deus! Mesmo em tempos de maior sofrimento e dificuldades, tu mantiveste o teu povo em pé. Renovaste a fé e mostraste o caminho. Deste a tua luz para que lutasse pela vida. Essa esperança se renova por causa da tua palavra, do teu evangelho. Deixe que ele nos encontre vigilantes, apercebidos do que nos tem impedido de ser um povo feliz, que partilha e celebra a vida que recebeu de tuas mãos. Isso te pedimos por Jesus Cristo, teu filho amado e nosso Salvador. Amém Oração de intercessão:

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Deus de toda a esperança! Oramos a ti neste novo tempo. Tempo de espera, de preparo, de arrependimento. Pedimos por tua igreja no mundo todo, para que esteja vigiando e se apercebendo da realidade em que está. Dá que ela use as armas que Cristo dá para experimentar reconciliação, solidariedade, inclusão e paz. Pedimos pelas autoridades constituídas, para que elas escutem a tua voz e te obedeçam. Que elas não impeçam o teu povo de transformar espadas e lanças em arados e instrumentos de trabalho, para que o pão chegue em todas as mesas. Permita, ó Deus, pela força do teu Santo Espírito, que a tua comunidade experimente sinais de transformação onde hoje existem violência e exclusão. Intercedemos por todas as pessoas que sofrem. Lembramos dos doentes (mencionar nomes, se preferir), das famílias enlutadas (mencionar nomes, se preferir), daqueles que estão desorientados e abatidos. Esteja com todos os que procuram andar na tua luz e levar esperança e ânimo para quem precisa. Recomendamos a ti todos os trabalhos e iniciativas comunitárias que procuram mudar a triste realidade em que vivemos. Que o Cristo que vem vindo nos ensine a viver com outros valores, em que a dignidade humana e da tua criação estejam acima de tudo. Pai nosso...

Bibliografia CEBI. Travessia: quero misericórdia e não sacrifício. A palavra da vida, nº 135/136. CEBI. Feliz quem tem fome e sede de justiça: a Boa Notícia segundo a comunidade de Mateus. A palavra da vida, nº 134.

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2o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: ROMANOS 15.4-13

09 DEZ 2007

ISAÍAS 11.1-10 MATEUS 3.1-12

Acir Raymann

1 Introdução O período do Advento é um tempo de espera. Quem espera confia. Esperar tem o seu lado surpreendente: a expectativa e a alegria. O melhor da festa é esperar por ela. Deus nos ensina a esperar por ele, por sua vinda diária na palavra e sacramento, e também por sua segunda vinda. Espera é demonstração de firmeza, confiança. Na visão do mundo, quem espera é fraco, dependente. O forte não espera. Quem tem poder deve demonstrar o poder. No reino de Deus, quem espera é que é forte. O cumprimento da esperança não está nele, mas fora dele: está em Deus. Na aparente demonstração de fraqueza é que está a fortaleza. Isaías 11 fala sobre Deus, poderoso e salvador, que se encarna na fragilidade humana, na fraqueza da raiz de Jessé. O rico se fez pobre. Mesmo como verdadeiro homem que recebe a septiforme manifestação do Espírito, “ele não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos”. Em Mateus 3, o reino de Deus está perto, na pessoa e obra do Cristo, que veio, que vem e que há de vir. Nesse reino há esperança.

2 Texto e meditação A igreja de Roma é formada por uma diversidade de pessoas de origem, raça e cultura diferentes. As congregações cristãs hoje, notadamente as luteranas, já passam por situação semelhante – graças a Deus. Os grupos que formam a congregação de Roma são basicamente dois: cristãos de origem judaica e cristãos de origem gentílica. O apóstolo dirige-se a ambos. Ele fala de fortes e fracos. Quem são os fortes? Quem são os fracos? A responsabilidade em amor dos fortes na Carta aos Romanos está numa relação tanto negativa (14.13-23) como positiva (15.1-6). Negativamente: “Tudo o que não provém da fé é pecado” (14.23) – mesmo a prática da liberdade na fé, sem considerar os efeitos perniciosos no irmão fraco, é pecado; abandonar o caminho do amor e entristecer o irmão (14.15); abusar da liberdade causando a ruína daquele por quem Cristo morreu (14.15); destruir a obra de Deus numa pessoa, sua fé e salvação (14.20); fazer o irmão tropeçar (14.21) e cair (14.21);

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induzir a consciência a dúvidas (14.23). Tais procedimentos não são frutos da fé. Positivamente: a fé olha para Cristo e dele extrai o seu conteúdo e forma. Cristo não agradou a si mesmo (15.3), mas entregou sua vida em favor dos outros, de maneira que seus conterrâneos o injuriaram pela pródiga liberalidade de sua graça e ultrajaram Deus por ter enviado seu Filho em busca do que estava perdido. O grito do salmista tornou-se o grito de Cristo. O Salmo 69 é o lamento de um filho de Deus que suporta abuso pelo fato de ser filho de Deus. Paulo cita a segunda parte do v. 9, e seu propósito é claro: “Ora, o Deus da paciência e da consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Jesus Cristo” (15.5). Jesus não procurou se preservar da fraqueza de nosso pecado, mas teve consideração por nós: ele a carregou por nós. Em relação a nós, fraqueza/enfermidade; em relação a Deus, injúria/ ultraje. A primeira parte do Salmo 69.9 inclui a cláusula que o evangelista João aplica à purificação do templo: “O zelo da tua casa me consumirá” (Jo 2.17). Parece-nos que o zelo de Jesus pela casa de Deus pode ser entendido, em primeiro lugar, no zelo pela pureza de Deus, e Jesus coloca-se no caminho de nossos insultos, de maneira que tais insultos caiam sobre ele, Jesus. Ao mesmo tempo, Jesus coloca-se no caminho da justa ira de Deus por causa de seu zelo em favor da casa de Deus, ou seja, o povo de Deus. O centro nesta perícope é a busca por unidade. Que unidade? Não se trata de unidade ecumênica. Não se trata de unidade nas metas ou no orçamento da congregação, o que, não raro, provoca tensão. Paulo fala de uma unidade “segundo Jesus Cristo” para “glorificar ao Deus e Pai”. Portanto essa unidade está relacionada à confissão em torno da palavra e dos sacramentos, em torno da compreensão do reino de Deus, que precisa ser anunciado ao mundo. “Acolhei-vos... como também Cristo nos acolheu” (v. 7). O verbo não significa apenas um acolhimento relacionado a amizade, festa, entretenimento, abraço. Faz parte, mas não é a essência, o foco, o centro da unidade. A igreja não é um clube. Clube faz discriminação de sexo, faixa etária, raça, poder econômico. Igreja não é clube. Nem ONG. Congregação cristã não tem nada a ver com aparência ou ostentação. Acolhe todos, pois uma congregação cristã tem a ver com Cristo e seu reino. Ele é o centro, não nós. “Acolhei-vos”, diz o apóstolo. O verbo significa “agregar”, “associar” aquele que é diferente, estranho. A motivação vem em seguida: “como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus” (v. 7). A “acolhida” de Cristo é totalmente inclusiva. Em Cristo, Deus é glorificado, ou seja, tornado conhecido e adorado como o único Deus de todos, que “justificará, por fé, o circunciso [judeu] e, mediante a fé, o incircunciso [gentio]” (3.30). O amor de Cristo em favor de todos em todos os tempos cinge diferenças maiores e bem mais graves do que as que separavam vegetarianos dos que comiam carne. O que é adiáforo não deve ser motivo de desarmonia. Judeus e gentios estão na igreja, lado a lado. São diferentes em raça, história, cultura, costumes. Tais elementos sempre causam tensão. Quem é o forte? Quem é o fraco? Os judeus poderiam dizer que eles são os “fortes”. Eles têm a Escritura, a tradição. Afinal,

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o livro de Atos diz que o evangelho veio aos gentios por meio dos judeus. Os gentios podem argumentar que eles são os “fortes”, exatamente porque são novos, têm a fé vibrante, têm novas idéias, sabem “como é o mundo lá fora”. No mundo, é muito difícil unir costumes e culturas diferentes. Sempre há tensão. Mas, no reino de Deus, tais fatores são irrelevantes. Essa é a diferença entre Deus e os pecadores. Nós estabelecemos diferenças, separação, abismos. Deus cria pontes. A ponte entre Deus e o ser humano pecador é Cristo. A ponte entre o ser humano e outro ser humano continua sendo Cristo. As diferenças tornam-se periféricas quando o ponto focal, nuclear são Jesus Cristo e sua obra redentora. No reino de Deus, não há acepção de pessoas; todos somos vestidos com o manto branco da justiça que Cristo nos adquiriu. Cristo faznos uniformes. As diferenças culturais, históricas e raciais não interessam. Católicos que se tornam luteranos continuam a usar o genuflexório e a fazer o sinal da cruz na igreja luterana (nesse ponto eles têm muito a nos ensinar); judeus cristãos seguem com sua alimentação kosher e celebram suas festas junto com o Natal; árabes cristãos continuam a vestir-se à sua maneira. O que une os cristãos é a confissão do nome de Cristo nas orações, nos hinos, na comunhão, na palavra, nos sacramentos. Quem é o forte? No reino de Deus, não é aquele que mostra poder, mas aquele que serve. O Filho de Deus sofreu e morreu. Não veio para demonstrar poder, mas serviço. O forte serve. Os fortes são os que servem, porque o amor de Cristo os constrange. Cristo serviu os fracos. Não procurou tornar as coisas agradáveis para si; nunca usou seu poder em seu próprio benefício. Os evangelhos não registram qualquer milagre que não fosse ministério a outros. Seus milagres eram obra do Servo (Mt 8.17, cf. Is 53.4; 41.1-40), parte integrante da vida que, em todos os seus momentos, era jornada em direção à cruz. Cristo, o Todo-poderoso Deus, não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em favor de todos. O v. 13 diz que o Deus que fez essas promessas e as cumpriu em Jesus Cristo é um Deus de esperança. Ele dá esperança a todos os seres humanos. Todos podem depositar confiadamente seu futuro em suas mãos. Paulo intercede com ele: ele pode dar aos fortes e aos fracos a alegria e a paz que necessitam para viver e cultuar juntos na igreja. Toda a alegria e paz podem ser suas “no crer”. Crer é receber. Esperança é o poder que determina e guia a vida da igreja. Só porque a igreja não se conforma com este mundo que ela é um poder neste mundo. Ainda não vemos o povo de Deus perfeito e perfeitamente unido, que um dia se manifestará. Por ora, “cremos numa única santa Igreja Cristã e Apostólica... e esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro”.

3 Ilustração O menino estava num barco em alto-mar. Por um descuido, ele caiu ao

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mar. Vendo-o, um marinheiro lançou-se ao mar e o salvou. Dois dias depois, a mãe do menino veio ao capitão do barco para saber qual marinheiro havia salvado o seu filho. Ao encontrar o marinheiro, ela pergunta: “Onde está o boné do meu filho?”. Nós muitas vezes enfocamos o aspecto errado. Centramos as coisas em nós mesmos, em nossos bonés, não em nossa salvação em Cristo.

4 Subsídios litúrgicos Confissão e absolvição: O – As palavras de Jesus “Se de alguns perdoardes os pecados, sãolhes perdoados” nos dão autoridade e garantia neste momento de confissão e arrependimento. Confessemos, pois, diante do Deus justo e santo, com humildade todos os nossos pecados, os conscientes e os inconscientes. E arrependidos aceitemos o seu gracioso perdão. O e C – Senhor Deus, quem sou eu diante de tua pureza, santidade e justiça? Sou apenas uma pessoa dividida ao meio, pois não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Tenho prazer em tua Lei, ó Deus, mas ao mesmo tempo me sinto prisioneiro da lei do pecado. Assim dividido estou eu, por isso sinto-me desventurado. Nesse estado suplico a tua graça e o teu perdão em Cristo. O – Agora já não há mais condenação para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida em Cristo te livrou da lei do pecado e da morte. Em ti habita o Espírito daquele que envia o seu Filho Jesus, que assumiu a nossa natureza humana para que nos livrasse da morte e da condenação eternas. Esse mesmo Espírito vivifica também a ti mediante o seu perdão e reconciliação. Perdoados estão os teus pecados. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. C (fala) – Amém! Coleta do dia: Estimula o nosso coração, ó Senhor, a preparar o caminho do teu Filho Unigênito para que em sua segunda vinda nós o adoremos em pureza e unidade de Espírito. Por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor, que contigo e o Espírito Santo é Deus e reina sobre nós agora e sempre. Amém.

Bibliografia FRANZMANN, Martin. Carta aos Romanos. Mário L. Rehfeldt e Gládis K. Rehfeldt, trad. Porto Alegre: Concórdia, 1972.

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NICOLL, W. Robertson, ed. The Expositor’s Greek Testament, II. New York: Hodder and Stoughton, s.d.

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3o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: MATEUS 11.2-11

16 DEZ 2007

ISAÍAS 35.1-10 TIAGO 5.7-10(11)

Heloisa Gralow Dalferth

1 Breve introdução O nosso texto para prédica bem como os textos previstos como leituras bíblicas já foram trabalhados nos PLs 3 (p. 215s.), 21 (p. 30s.) e 27 (p. 22s.). Neste estudo, eu procurei concentrar-me nas informações do Evangelho de Mateus ou de João Batista, bem como no estudo da perícope, que podem ser usadas na prédica neste 3º Domingo de Advento.

2 O autor do evangelho Este evangelho foi escrito por Mateus, um dos discípulos de Jesus (Mt 9.9 e Mt 10.3), um cobrador de impostos convertido de Cafarnaum. Nos evangelhos de Marcos e Lucas, o nome desse cobrador de impostos é Levi. Provavelmente Jesus lhe deu esse “novo nome”, Mateus, que significa “dádiva de Deus”. No entanto, não se tem plena certeza se realmente se trata da mesma pessoa. Mateus parece ter sido um homem de posses. Em seu evangelho, ele mesmo não menciona a grande festa (um banquete em sua casa) que ele dá quando é chamado para o discipulado (Lc 5.29), nem o sacrifício pessoal que o “ser discípulo” significou para ele no início. Também no livro de Atos dos Apóstolos, Mateus é mencionado uma vez (At 1.13), mas nada mais acerca de sua obra e atuação posterior. Nem as cartas neotestamentárias fazem qualquer menção sobre ele. Caso ele não tivesse escrito esse evangelho, teríamos tão poucas informações acerca de sua pessoa como temos dos outros discípulos.

3 Local de redação – as comunidades de Mateus O Evangelho de Mateus foi escrito para comunidades judaico-cristãs da diáspora judaica, provavelmente da Síria. As comunidades de Mateus, cujos membros de judeus e judias criam firmemente no Messias, em Jesus como filho de Deus (conforme Mt 1.2), são a parte do judaísmo que luta pelo futuro da fé e da vida judaica depois da destruição de Jerusalém e do Templo por

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parte do poder romano.1 Nos primeiros séculos, o judaísmo não era de forma alguma uma unidade, mas era representado por um grande número de comunidades locais, com diferenças significativas. Não basta simplesmente diferenciar entre comunidades judaico-cristãs e gentílico-cristãs. Havia comunidades judaicas e judaico-cristãs que tiveram abertura para com comunidades gentílico-cristãs. No primeiro e no segundo séculos, era assim que pessoas que se entendiam como seguidoras do “Jesus Messias” contavam, assim como os judaico-cristãos para o judaísmo. Esse convívio de tradições não era de forma alguma sempre pacífico. E o Evangelho de Mateus surgiu em um momento de conflitos entre as diversas comunidades judaicas/judaico-cristãs/judaico-gentílicas, tanto por questões conflitantes dentro do judaísmo cristão como por questões entre as comunidades em si.2 Mateus tem um grande interesse em mostrar Jesus de Nazaré como aquele Messias anunciado pelos profetas do Antigo Testamento. Mateus quer-nos mostrar Jesus como “Rei”. A palavra “Rei” (reino) aparece 55 vezes em seu evangelho, “reino dos céus”, 32 vezes, e “filho de Davi”, sete vezes. Segundo Mateus, o “evangelho do reino” que Jesus e seus discípulos pregavam (Mt 4.23; 10.7) significava a vinda próxima visível de um reino político e espiritual ao mesmo tempo aqui na terra, no qual Jesus, como filho de Davi, deveria reinar. Quando o povo judeu o rejeitou como seu Messias e Rei, o evangelista acentuou o evangelho como mensagem da salvação de todos os perdidos através de Cristo. O Evangelho de Mateus passou a ser o “evangelho da graça de Deus” para todas as pessoas.

4 Nossa perícope Já no início, o texto espelha a intenção do evangelista Mateus em seu evangelho. A pergunta que João Batista pede a seus discípulos para fazer a Jesus – “És tu aquele que estava para vir?” – é a pergunta pela certeza se Jesus é o Messias, o Rei que todos estavam esperando. Interessante é a situação na qual João se encontra quando ouve falar das “obras de Cristo”: ele está preso e sabe que não deixará a prisão com vida. Até parece que finalmente a boca desse “pregador de penitências” foi calada. Mas não somente a situação de João Batista está complicada. Também dentro dele há inquietação e dúvida. Ele preparou o caminho de Jesus, batizou-o. Mas a incerteza se Jesus era realmente o Messias parece ter tomado conta dele. Certamente lhe veio a pergunta: “Será que a minha pregação e o

1 GNADT, Martina S. Das Evangelium nach Matthäus. Judenchristliche Gemeinden im Widerstand gegen die Pax Romana, in: SCHOTTROFF, Luise und WACKER, Marie-Therese (Hg): Kompendium Feministische Bibelauslegung, 2. ed. Gütersloh, 1999, p. 483. 2 GNADT, Martina S. Das Evangelium nach Matthäus, p. 483-484.

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engajamento de minha vida foram em vão?”. O João Batista de nosso texto está bem mais próximo de nós do que o “pregador de penitências”, aquele homem forte e robusto que vivia no deserto, alimentando-se de mel silvestre e gafanhotos. Aqui nos vem alguém frágil, com medo e com dúvidas. A sua fé vacila. Parece que o sentido de sua vida – “preparar o caminho do Senhor” – perdeu seu sentido, caso esse “Jesus” nem seja o esperado Messias. A pergunta e a dúvida de João Batista também não nos são tão estranhas nem distantes. Muitos cristãos e cristãs se perguntam: “É esse realmente o Messias, em quem podemos depositar as nossas esperanças? – Ou deveríamos antes esperar por um outro, por alguém que realmente ‘dá um jeito’ nesse mundo de guerras, injustiças, pobreza e morte... um Messias que realmente entende as nossas necessidades comuns e particulares?“. Ainda mais agora nesta época de Advento, quando todos se preparam para o Natal, para a festa da vinda do Messias, à espera de sinais ou ao menos “frestas” que permitem esperar uma mudança! Permito-me refletir as questões acima de uma forma talvez até ousada: Graças a Deus que pessoas fazem perguntas e questionamentos; graças a Deus que pessoas procuram por sinais de esperança. E graças a Deus que nós conseguimos formular e externar essas ansiedades em vez de desistir ou resignar. João Batista poderia ter feito um “trato” com Herodes, pois naqueles tempos ele era um profeta bastante conhecido na região – e os “poderosos” precisavam de alianças com gente assim. Outra opção seria definhar em sua cela, resignando totalmente. Mas o que ele faz? Em sua ansiedade e dúvida, ele dirige-se a Jesus. E Jesus lhe responde. Em sua resposta, Jesus mostra que ele não espera mera obediência das pessoas, mas as respeita e as leva a sério em suas dúvidas. Ele toma o cuidado para não machucar João. Ele não diz diretamente: “Sim, eu sou o Messias, mas eu não sou assim como tu o anunciaste. Tu não entendeste certo! Tu achaste que tudo estava ao alcance das pessoas, que elas poderiam arrepender-se e fazer tudo o que tu fosses pedir em nome de Deus”. Jesus teve cuidado em não feri-lo, externando-se de forma terapêutica nesse momento tão delicado de sua vida na prisão. A mensagem que chegou a João é que aquilo que ele esperou e pregou realmente acontecerá, mas de forma totalmente diferente daquela que ele imaginara. Os discípulos de João relatam-lhe uma “corrente” de milagres, dos quais são testemunhas, os quais eles mesmos enxergam (não falam de ouvir falar), conforme Mateus 11.4b-5: “Ide, e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho”. Essa é a “corrente” de milagres da qual já os profetas do Antigo Testamento falavam (confira Is 35.5-6; 61.1). Pessoas isoladas são reintegradas no convívio da comunidade; elas recuperam a esperança e a certeza de ser amadas por Deus; é-lhes devolvida a dignidade de vida, pois está escrito que aos pobres está sendo pregada a “boa-nova”. Jesus enxergou as pessoas de23 outra forma. Ele viu como são pobres,

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frágeis e incapazes de se tornar “pessoas boas”. Ele viu suas limitações, e todos são incluídos em sua graça e em seu amor. No último versículo de nossa perícope, João é elogiado: “Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista” (v. 11a). A intenção de João Batista foi reconhecida por Jesus, pois ele queria uma “vida nova” para as pessoas. A diferença em Jesus é que ele se deixou tocar em primeiro lugar pelas necessidades e ansiedades das pessoas e não por sua culpa ou por sua capacidade de arrependimento. Não são a ameaça nem o castigo que poderão ajudá-las, mas a graça, o perdão e o amor. Graça, paz e amor – assim preparemos o caminho do Senhor neste Advento! E a pergunta que temos sempre é: Sim, até queremos preparar o caminho do Senhor assim... Mas como? Daqui a alguns dias é Natal... Os preparativos correm em quase todos os lares do mundo, em muitas instituições. Mas com que perspectiva e com quais objetivos? Alguns dias atrás, nós estivemos em Frankfurt, participando de um seminário. Visitamos muitas instituições e igrejas. E uma das visitas foi a um “lar para pessoas sem teto”, que fica junto a uma igreja perto da estação de trem. O diácono responsável por esse trabalho contou-nos que essa igreja só tem condições de ser mantida por causa do trabalho diaconal com as pessoas sem teto organizado pela comunidade, pois recebem incentivo, doações e colaboração de muitas pessoas e entidades da cidade. O que mais me impressionou foi quando ele falou sobre como eles festejam, todos os anos, a noite de Natal: Organizamos um culto, uma ceia, um estar juntos, aqui na igreja, aberto a todas as pessoas que querem vir. E vêm muitas pessoas sem teto se aquecer, se alimentar e procurar comunhão aqui na igreja. E também vêm muitas pessoas que residem aqui em Frankfurt, que têm um lar, um emprego, que poderiam muito bem festejar o Natal com a família, com amigos... ou fazer uma viagem. Mas o que elas fazem? Elas vêm a esta igreja à procura daquela paz e daquele calor que está tão difícil de ser encontrado. E muitas dessas pessoas dizem: “Somente aqui a noite de Natal faz sentido para mim. Agradeço a Deus por poder estar aqui”. E essas pessoas não só participam do programa oferecido, mas ficam por aqui durante muitas horas conversando, fortalecendo-se mutuamente. Muitas até passam a noite aqui.

A visita àquela igreja e àquele lar para pessoas tão excluídas é um sinal visível de que também hoje o “reino de Deus está próximo”. Um sinal como aqueles sinais dos quais fala o nosso texto: “Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho”. Falta muito para a plenitude – sim, com certeza. Mas a plenitude está com Deus. E nós certamente temos condições de ajudar a colocar alguns pequenos sinais de que um mundo melhor é possível. As palavras de Jesus em nosso texto libertam-nos do medo de um Deus severo e autoritário, bem como da culpa. Em vez disso nos é apresentado um Deus gracioso, em quem podemos confiar sempre. Em liberdade, somos

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convidados a ser seus instrumentos, como sinal de gratidão, de fé e de amor. Amém.

5 Subsídios litúrgicos Versículo bíblico para o Intróito: A saudação para este 3º Domingo de Advento são palavras do Antigo Testamento, mais precisamente do profeta Isaías (40.3 e 10): “Voz que clama do deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Eis que o Senhor Deus virá com poder”. Oração do dia: Deus, Pai e Mãe! Mais uma vez celebramos Advento. Parece fazer parte do costume e tradição de todos os anos – um período que vem e passa. Mas é o tempo em que tu mesmo queres chegar a nós pessoas. Faça, ó Deus, que o Advento realmente venha a nós, em nossos corações, e que continue sendo Advento depois do Natal. Ouve a nossa oração e ajuda-nos a seguir o exemplo de João Batista: preparar o caminho de teu Filho Jesus e deixá-lo entrar em nossos corações. Amém. Oração de intercessão: Cristo Jesus, tu és Immanuel, o Deus conosco. Em gratidão chegamos a ti, e em liberdade nos abrimos e colocamos os nossos pedidos e ansiedades: Agradecemos-te porque vieste ao mundo. Deixa todos os cristãos e cristãs experimentarem a tua paz. Que mesmo em momentos de tristeza, dor, doença ou luto não se esqueçam que tu és Deus e que os entendes também em seu desespero. Nós clamamos a ti: Com. – Ouve-nos, Deus, e tem piedade de nós. Pedimos-te por todos os povos da Terra. Que as diferenças sejam vistas como enriquecimentos e não como motivos para discórdia. Nós clamamos a ti: Com. – Ouve-nos, Deus, e tem piedade de nós. Agradecemos-te pelos sinais de esperança e pela certeza de tua presença em todos os momentos de nossas vidas. Fortalece-nos para que possamos fortalecer principalmente as pessoas que mais necessitam, as pessoas excluídas pela sociedade. Perdoa-nos quando nós excluímos. Nós clamamos a ti: Com. – Ouve-nos, Deus, e tem piedade de nós. Que tenhamos coragem para denunciar injustiças e não calar por covardia. Que enxerguemos as necessidades dos irmãos e irmãs, de perto e de longe. Que não nos acomodemos em nossa rotina, mas que encontremos tempo para a nossa espiritualidade pessoal e motivação para o engajamento em favor de tua seara. Que nos lembremos que o caminho preparado por João Batista para a vinda de teu Filho ao mundo também vale para nós. Nós clamamos a ti: Com. – Ouve-nos, Deus, e tem piedade de nós.

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Ó Deus, segura-nos. Não nos deixes ir. Vem a nós em meio à inquietação e à agitação de nossas vidas. Que neste ano o teu Advento seja de paz, amor e esperança, para nós e para todas as pessoas. Tu, Jesus, nos ensinaste a orar assim: Pai nosso...

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4o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: ISAÍAS 7.10-16

23 DEZ 2007

MATEUS 1.18-25 ROMANOS 1.1-7

Olmiro Ribeiro Júnior

Que o amor de Deus que supera todo o entendimento, encarnado na manjedoura de Belém, trazendo paz ao mundo e consolo na comunhão do Espírito Santo, esteja com você.

1 Introdução Estamos chegando ao último Domingo de Advento. O Natal está chegando, e com ele as reuniões e festividades familiares. O tempo de preparação para a chegada do menino da manjedoura termina, e a estrela começa a brilhar de novo. Nesse contexto de reuniões e festividades, os textos bíblicos trazem algo que deveria ser fundamental para qualquer tipo de comunhão, principalmente a comunhão mediante a fé: o falar, dialogar, ouvir. Os três textos previstos para este domingo enfatizam o falar de Deus com a humanidade, o seu povo, sua família. Na Carta aos Romanos 1.1-7, o apóstolo Paulo traz uma saudação clássica, revelando seu chamado por Deus para testemunhar o evangelho de Jesus Cristo, ressuscitado para todos os gentios. O que os profetas anunciaram a respeito do Messias cumpriu-se em Jesus Cristo. No Evangelho de Mateus 1.18-25, Deus fala com José por meio de um sonho, declarando que ele não foi traído por Maria, mas agraciado por Deus com o nascimento do Messias. Jesus é o salvador do povo de Deus. O profeta Isaías manifesta a fala de Deus ao rei Acaz: a segurança de Judá está em Deus e não em alianças políticas com os assírios. Acaz não ouve a voz de Deus e nem acolhe o sinal do Emanuel. Percebemos sucintamente que Deus fala com seu povo por intermédio dos profetas, do nascimento na manjedoura e na vivência comunitária das primeiras comunidades cristãs. Deus também fala conosco de forma clara a partir do menino da manjedoura: Jesus Cristo, o Emanuel. Quem tem ouvidos para ouvir ouça...

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2 Labor exegético 2.1 – O livro do profeta Isaías “Quem pode duvidar da importância deste livro profético? É o primeiro e o mais extenso, foi o mais influente na tradição judaica e cristã, é o que tem a mais sublime linguagem poética e simbólica, o que deixou textos imortais na liturgia, o que tanto contribuiu para manter a esperança dos que sofrem. Para os cristãos, é também o que ‘configurou’ o programa profético de Jesus (Lc 4.16-30).” 1

O texto de Isaías 7.10-19 situa-se no Proto-Isaías (1-39), ou PrimeiroIsaías, profeta com atuação em Jerusalém, Judá, no final do século VIII a.C. Fator marcante do profeta são suas palavras e uma mensagem com forte crítica à falta de direito e justiça (hebraico: mishpat e sedaqah – cf. 1.21-26; 5.8-24; 10.1-4). São críticas e exortações destinadas às elites governantes na figura de conselheiros, sábios, funcionários da corte. A arrogância dessas pessoas e sua participação efetiva no sistema de exploração do povo simples são os motivos das críticas. O profeta denuncia o desrespeito ao direito dos pobres e as atrocidades dos poderosos para manter seus interesses. Em resposta, o profeta anuncia um castigo divino, que pode ser um julgamento de purificação (Is 1.21-26) ou a invasão do exército assírio (10.5). De qualquer forma, o Primeiro-Isaías manifesta a marca típica dos profetas desse período “clássico” da profecia no século VIII a.C.: sendo porta-voz da divindade Iahweh; aproximando-se dos setores explorados da sociedade; denunciando crimes e pecados em prática e anunciando um castigo divino, que, em boa medida, significará exílio, morte, depredação e deportação. O objetivo da atuação é restabelecer um estado de direito e justiça. O texto de Isaías 7.10-16 compreende o Bloco do Livro do Emanuel (Is. 7-12), agrupando as falas proféticas relativas à guerra sírio-efraimita. 2.2 – Contexto histórico A Palestina e circunvizinhanças estavam amedrontadas com os avanços dos assírios. No intuito de evitar a dominação, Israel (Efraim) e Síria (Arã) organizaram uma aliança de fortalecimento e pretendiam agrupar também Judá, destituindo Acaz do trono. Temendo ser atacado pela aliança de Israel e Síria, Acaz pede auxílio à Assíria (Tiglate Pileser), abrindo as portas de seu país para os assírios como corredor. Entretanto, passa a correr o risco de tornar-se vassalo dos assírios. Nesse contexto de guerra e alianças políticas, Isaías denuncia a falta de fé e de confiança em Deus por parte da corte de Judá. 2.3 – Contexto narrativo 1

CROATTO, José Severino. Composição e querigma do livro de Isaías. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, v. 35/36, Petrópolis, 2000, p. 42-76, citado p. 42.

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Observando o texto anterior (Is 7.1-9), descobrimos o desenrolar da trama da invasão de Judá pela coalizão entre Israel e Síria. Esse evento amedronta Acaz e o povo de Judá. Isaías e seu filho “Sear Jasub” (Um resto volverá) tentam aconselhar Acaz a confiar em Deus, na promessa de que Iahweh é o único Senhor, Fortaleza e comandante de Judá, como fora na época de Davi. No entanto, Acaz não ouve o profeta e procura auxílio e socorro na Assíria. No capítulo 7.10-17, Isaías intervém novamente, declarando a Acaz a fala de Deus: Somente Deus pode salvar Judá; a Assíria trará mais opressão. Isaías insiste para que o rei peça um sinal a Deus, seja qual for, mas Acaz rejeita. Então Isaías anuncia o sinal de Deus mesmo assim: o Emanuel. 2.4 – Análise do contexto de Isaías 7.10-17 V. 10 – Isaías afirma que é Deus quem está falando com Acaz, oferecendo socorro. V. 11 – Deus insiste com Acaz para confiar em sua proteção e pedir um sinal como prova da salvação. V. 12 – Acaz, com falsa piedade e pensando em seus benefícios, rejeita o sinal de Deus. Ele sabe que sua família e parte da corte serão privilegiadas na ocupação pela Assíria. Apenas o povo se tornara vassalo. Assim, prefere as regalias e os benefícios da aliança com os assírios do que a proteção de Deus. V. 13 – Indignado, o profeta revela a desgraça e a opressão que o povo passará a sofrer com a aliança com a Assíria. Sofrimento e opressão que também afligem o próprio Deus. V. 14 – Anúncio do sinal dado por Deus, mesmo com a rejeição de Acaz. O sinal é o nascimento do Emanuel, o Deus conosco. A profecia revela a intervenção de Deus em seu reino messiânico. No sentido de algo imediato como o nascimento do filho de Acaz (Ezequiel); como também ultrapassando a realidade imediata e anunciando o nascimento de Jesus, o Emanuel, narrado nos evangelhos (Mt 1.23). V. 15-17 – Os alimentos revelam a vida nômade, simples do campo. Dessa maneira, a aliança com a Assíria reduzirá o país a uma organização social precária e simples. O versículo também pode destacar a vida peregrina do Emanuel, indicando sua preparação no deserto. O texto de Isaías 7.10-17 manifesta a intervenção de Deus na salvação messiânica de seu povo. Essa salvação independe de conchavos e alianças com interesses politiqueiros, que apenas prometem segurança abaixo de exploração e opressão. Deus está com seu povo através do Emanuel independente das estruturas que não o ouvem e que assim exploram e alienam o povo.

3 Mensagem pastoral

No contexto de final de Advento e de planejamento de viagens, de pre-

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paração de encontros e festividades familiares e comunitárias, necessitamos questionar se o sinal de Deus – o Emanuel – é lembrado nesses encontros. O Advento preparou-nos para a chegada do sinal de Deus entre nós? Jesus Cristo é o sinal, a fala, a presença de Deus entre nós? Será que estamos ouvindo, acolhendo e reconhecendo sua presença entre nós? 3.1 – O que o texto bíblico traz como lei (libertar do quê?) No contexto dos três textos bíblicos, eles libertam: * Da surdez e indiferença humanas para com a voz de Deus. O nãoreconhecimento da presença, da voz de Deus, que se aproxima oferecendo socorro e paz. * Da falsa segurança, das propostas de solução imediatistas e milagreiras, que beneficiam poucos enquanto exploram e alienam a maioria; isso devido ao fato de não estar fundamentada na presença de Deus, mas em interesses “egolátricos”. * Do não-reconhecimento do sinal de Deus: o Emanuel, em Jesus Cristo, o Deus com seu povo, em suas lidas e percalços. * Da falsa piedade, da lógica da aparência e do egoísmo, que não quer reconhecer Deus conosco como o conforto e a paz aos nossos medos, conflitos e inseguranças. * Da celebração consumista do Natal, onde se vendem alegria, paz e comunhão, esquecendo o menino da manjedoura, que trouxe a verdadeira paz, comunhão e salvação ao mundo. * Da falta de preparação, de reflexão de ouvir a voz de Deus anunciando que o Emanuel está entre nós. 3.2 – O que o texto traz como evangelho (libertar baseado em quê?) * O sinal do Emanuel cumpriu-se em Jesus Cristo. Deus não está distante, está entre nós. Com isso, a vida tem esperança, a escuridão tem luz e a morte, ressurreição. * A insistência de Deus em relacionar-se com a humanidade. Deus vem ao encontro de seu povo, mesmo com a sua dureza de coração, indiferença e surdez. * O Deus da graça não entra na lógica da opressão, da exploração, que gera benefícios para poucos e pesar para muitos. Deus salva o seu povo oprimido mediante o Emanuel. * Deus fala conosco, está entre nós de forma clara em Jesus Cristo (Mt 18.20). * A proteção de Deus foi revelada plenamente na manjedoura de Belém, declarando que Deus está entre os explorados, esquecidos, marginalizados e aflitos.

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3.3 – O que o texto traz como imperativo (libertar para quê?) * Reconhecer a fala de Deus, que vem ao encontro de seu povo e, assim, fortalece a confiança de que Deus está entre nós, consolando. Essa confiança José teve ao ouvir Deus. * Ouvir a voz de Deus e tornar-se instrumento do Emanuel ali onde vivemos, do mesmo modo como agiu o apóstolo Paulo. * Vivenciar a proteção de Deus, a salvação de Jesus Cristo, como caminhada diária de fé, e não como forma mágica e fenomenal de resolver os anseios e interesses individualistas e “egolátricos” (o que fez o rei Acaz). * Vivenciar a comunhão com Deus conforme Jesus Cristo manifestou, ou seja, um Deus que age como pai e mãe – solidário, próximo, o Emanuel. * Ressignificar o sentido das festividades e celebrações natalinas a partir da proposta do reino de Deus, vivenciado e ensinado por Jesus. O Emanuel está conosco; a vida necessita ser diferente. Como foi o Advento que nós preparamos? * Promover o Deus conosco nas celebrações da comunidade e no dia-adia das pessoas, imprescindivelmente, em situações de opressão e exploração. Ou seja, em situações em que Deus não é reconhecido, como se não estivesse presente, devido à indiferença humana ao Emanuel. Presença de Deus que é graça e juízo, perdão e arrependimento, pão de cada dia e ação de graças, salvação messiânica e transformação social. 3.4 – Tópicos para prédica a – Trabalhar os espaços, os sinais e os momentos da vida, seja individual, familiar ou comunitária, em que ouvimos a voz de Deus e reconhecemos sua presença libertadora entre nós. b – Refletir sobre o tipo de proteção, de segurança que Deus nos revela. Algo que é construído na comunhão de fé, na partilha da vida ou em soluções milagreiras e miraculosas. c – A presença de Deus entre nós revela o cuidado do Emanuel para com os sofridos e explorados; ou de outra maneira, beneficia grupinhos, minorias que, alienadas da presença de Deus, exploram e oprimem a comunidade de forma ativa (manipulação de poder, desvio dos repasses financeiros, elitismo) e passiva (na conivência com o sofrimento e a exploração social). d – O cumprimento da profecia do Emanuel em Jesus Cristo é algo presente no viver comunitário e social da comunidade, ou estamos buscando um Deus longínquo e distante? O que a vida de fé em Jesus Cristo, o Emanuel, revela de forma clara e concreta em propostas e trabalhos pastorais na comunidade? Se o Emanuel está entre nós, quais são os sinais de sua presença no viver da comunidade? e – Trabalhar o significado e o sentido do Natal, conforme a tradição bíblica e eclesial para a comunidade. Refletir sobre como foi a preparação para a chegada do Natal; e também sobre o que o Natal traz todo ano para a vida

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comunitária e cotidiana da fé. Relacionar o que a recordação do nascimento de Jesus tem a ver com a correria e o consumismo do fim de ano. As pessoas estão pensando no menino da manjedoura ou no preparo das festividades, no planejamento de viagens e no orçamento, nas compras e mesas fartas? f – Reforçar a presença de Deus, o seu falar na tradição protestante da Igreja da Palavra. Deus segue falando conosco nas celebrações, nos encontros, nos estudos. Encontramo-nos porque Deus está falando conosco.

4 Contextualizações possíveis 4.1 – Dinâmica Trabalhar a resposta da comunidade à presença e fala de Deus, ou o Advento como preparação. Objetivo: Promover a reflexão da comunidade em relação a seu envolvimento e comprometimento na prática da fé e não apenas no assistir as atividades. Vivemos o Natal, ou apenas comemoramos? Material: Bolinha de isopor ou de plástico, giz, tubinho conta-gotas, pedra, esponja, vasilha com água. Desenvolvimento da dinâmica: • Vasilha com água – representa a presença de Deus entre nós, podendo ser mencionado o Batismo como nossa marca de que pertencemos a Deus. • Os objetos representam a vivência das pessoas, sua disposição para ouvir e vivenciar a fala e a presença de Deus. (Colocar cada objeto na vasilha com água, na ordem descrita.) 1. Bolinha de plástico – Não afunda, fica na superfície, quase não absorve água e assim não compartilha. 2. Giz – Retém a água somente para si, mas não compartilha nada. (Quebra o giz ao meio e mostra que está encharcado, mas não pinga gota nenhuma.) 3. Tubinho – Enche-se de água somente para passar aos outros, não guarda nada para si. (Demorar a encher. Derramar em gotinhas e em esguicho.) 4. Pedra – Afunda rapidamente, não absorve a água que fica apenas superficialmente. 5. Esponja – Absorve bastante água e, mesmo espremendo, ela continua unida. Absorve, repassa e fica com um pouco para si. (Torcer a esponja algumas vezes e passar para a comunidade, mostrando a umidade.) 4.2 – Música Anunciação (de Alceu Valença)

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Na bruma leve das paixões que vem de dentro, Tu vens chegando pra brincar no meu quintal. No teu cavalo peito nu cabelo ao vento, E o sol quarando nossas roupas no varal. Refrão: Tu vens, tu vens. Eu já escuto os teus sinais. A voz do anjo sussurrou no meu ouvido, E eu não duvido, já escuto os teus sinais. Que tu virias numa manhã de domingo, Eu te anuncio nos sinos das catedrais ... (refrão) 4.3 – Poema O Natal precioso (de Olmiro Ribeiro Junior) Mais uma vez chegou o Natal, as ruas enfeitadas esperam Papai Noel. Luzes a brilhar, o pinheiro enfeitado, presépio que nos lembra o menino de Belém. Jesus nasceu, Ele está entre nós. O milagre da vida se renova no Natal. O amor está no ar, enfeitando o nosso dia, as pessoas se encontram com devoção e alegria. Os sorrisos são constantes, os olhares são sinceros; no abraço sentimos a paz que nos aquece. A magia do Natal do Deus apaixonado nasceu na manjedoura para estar ao nosso lado. O precioso do Natal não está só nos enfeites, em Jesus Deus fez-se humano. Este é o nosso presente. Comunhão e muita paz, com esperança e a fé, Deus que nos acolhe, este é nosso Natal. A estrela que brilhou anunciando a salvação. O Emanuel sempre presente é Jesus o nosso irmão.

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Amado e bondoso Deus, queremos entregar nossas cargas a ti, que insiste em falar conosco, em renovar e renascer a tua presença entre nós. Oremos: Perdoa-nos quando vivemos isolados, achando que sozinhos podemos

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viver o teu amor. Perdoa-nos nosso egoísmo, indiferença, falta de compromisso com a vivência do amor ao próximo e a fé em Ti. Perdoa-nos por não ser solidários para com as pessoas que necessitam de nós, para ter o pão na mesa, dignidade e esperança no viver diário. Perdoa e transforma-nos em pessoas mais sensíveis à realidade que nos cerca e em testemunhas de tua presença no mundo. Oração: Esperamos esperar contra toda incerteza, acreditamos que Ele há de vir! Esperamos ver os filhos e as filhas de Deus como o Pai vê. O verdadeiro amor lança fora o temor e é com esse espírito que queremos encerrar o Advento. Esperamos descobrir de novo o sabor dos risos e de novo sair por aí a passos largamente despreocupados, descobrindo mundos, horizontes, abrindo estradas... Esperamos buscar pelo prazer de buscar... e nem tanto pelo fato de encontrar, mas de ser encontrado. É Advento, tempo de espera, tempo de preparo... Tempo de acreditar que o Salvador veio e virá! Esperamos, esperar contra toda a incerteza, acreditamos que Ele há de vir! Assim, bondoso Deus, que a tua palavra e a comunhão da Ceia do Senhor fortaleçam a fé no Emanuel, O Deus conosco. Amém. (Adaptado de Vera Lúcia Chvatal) Credo da solidariedade: Creio em Deus, criador de tudo o que é bom, que me ama com amor maior do que o de pai e cuida de mim com ternura maior do que a de mãe. Creio em Jesus Cristo, amigo mais chegado do que irmão, que pagou por mim a grande dívida e convidou-me para ser-lhe companheiro no cálice, no pão, na cruz e na ressurreição, no Advento à espera do cristão irmão. Creio no Espírito Santo, terno consolador, que me enxuga dos olhos as lágrimas e me inspira nos lábios o sorriso. Creio na comunidade de fé, mutirão de fiéis, trabalhadores e trabalhadoras de um novo tempo, gestantes do novo céu e da nova terra. Creio no reino pleno da vida abundante, na ressurreição dos corpos oprimidos e desencantados, na eternidade do amor, da paz e da justiça e na solidariedade divino-humana do Emanuel, o Deus conosco. Amém. (Adaptado de Luiz Carlos Ramos) Hinos: Pronto para ouvir (HPD 379), Seu nome é Jesus Cristo (OPC 88), É preciso parar (OPC 190), Por um pedaço de pão (HPD 405).

Bibliografia CROATTO, José Severino. Composição e querigma do livro de Isaías. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, v. 35/36. Petrópolis, 2000.

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SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1994. BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

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PRÉDICA: ROMANOS 1.1-7

24 DEZ 2007

ISAÍAS 11.1-9 LUCAS 2.1-7

Alfredo Jorge Hagsma

1 Introdução É a quarta vez que esse texto aparece como motivo de pregação desde o início da série Proclamar Libertação (1990, 1999, 2002 e 2008). No entanto, é a primeira vez que ele é indicado para pregação na véspera de Natal. Nas outras vezes, ele foi refletido no primeiro domingo após o Natal. Apesar da proximidade e afinidade entre as datas litúrgicas, creio que podemos trilhar por um viés diferente. Os textos auxiliares (Lc 2.1-7 e Is 11.1-9) têm estreita relação com o texto em questão. O evangelho narra o nascimento de Jesus; o profeta Isaías anuncia a nova realidade que o nascimento desse descendente do rei Davi vai trazer. Esse descendente “será como um ramo que brota de um toco, como um broto que surge das raízes”. O Espírito de Deus estará sobre ele. Por isso ele terá sabedoria, conhecimento, capacidade e poder. As pessoas necessitadas serão julgadas com justiça, e os pobres terão seus direitos respeitados. Os v. 6-9, de forma comparativa, apresentam uma realidade sonhada. Lobos, ovelhas, leopardos, cabritos, bezerros, leões, vacas, ursas, bois, crianças e cobras poderão conviver em paz e harmonia. É a utopia da paz que valoriza as diferenças. Com o nascimento de Cristo (Lc 2.1-7) essa nova realidade (Is 11.1-9) vai ser inaugurada em nosso meio. Paulo, servo e apóstolo de Cristo fala, nesses primeiros versículos da Carta aos Romanos, dessa boa-nova que é o evangelho de Cristo e de sua responsabilidade em fazer esse tesouro chegar a todas as nações e também aos que moram em Roma.

2 Informações exegéticas

Em todas as suas cartas, Paulo faz uma breve apresentação e introdução do conteúdo a ser apresentado. A carta de Paulo aos Romanos não foge à regra. Quando Paulo escreve essa carta, ele ainda não havia tido oportunidade de conhecer a comunidade de Roma pessoalmente. Do ponto de vista teológico, pode-se dizer que essa é a mais importante de todas as cartas de Paulo. “Esta epístola foi escrita, provavelmente, por volta do ano 55, durante uma permanência de Paulo na cidade de Corinto. Tanto pelo seu conteúdo como pelas características literárias, assemelha-se à epístola enviada às igrejas da Galácia. As duas pertencem a mesma época e revelam interesses

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doutrinários semelhantes. O que não se sabe é qual delas foi escrita primeiro. Por isso alguns vêem em Romanos uma exposição ampliada, muito refletida e serena da breve epístola aos Gálatas, enquanto que outros pensam que Gálatas é uma espécie de síntese de Romanos.” (Introdução à Carta de Paulo aos Romanos – Bíblia de Estudo Almeida – Revista e Atualizada) Esses sete primeiros versículos fazem parte do prólogo. Ali Paulo diz quem ele é e o que pretende anunciar. A saber: a boa-nova prometida por Deus por meio de seus profetas e escrita nas Sagradas Escrituras (v. 2). Essa boa-nova anuncia Jesus Cristo como Senhor (v. 3). Não qualquer senhor, mas aquele provindo de Deus, que ressuscitou (v. 4). Paulo não escreve partindo de sua própria autoridade, mas como apóstolo a serviço de Deus. Com essa carta Paulo pretende passar seus conhecimentos teológicos à comunidade de Roma. O evangelho (Lc 2.1-7) dispensa maiores informações exegéticas. Trata-se de um texto clássico: a narrativa do nascimento de Jesus. Lucas apresenta a situação social da época. Sob o poderio do imperador Augusto, todos os cidadãos do império precisam participar do senso a fim de ser feita uma contagem da população. Cada um deve dirigir-se à sua cidade natal para esse senso. José vai a Belém. E, enquanto estão na cidade, Maria dá a luz um menino. É uma realidade de dominação. Todas as pessoas são obrigadas ao senso, e de exclusão, tendo em vista que não são garantidas as condições mínimas nem mesmo para uma mãe na hora do parto. Paulo diz que há muito tempo essa boa-nova foi prometida por Deus por intermédio de seus profetas. Nesse sentido, o profeta Isaías (11.1-9) faz referência a um rebento que sairá do tronco de Jessé. Sobre esse repousará o Espírito do Senhor, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor (v. 1,2). Nos v. 3-11, de forma analógica, o profeta apresenta uma nova realidade que esse esperado Messias implantará. Esse Messias anunciado pelo profeta é o próprio Cristo. Há perfeita sintonia entre as três leituras propostas. O Evangelho de Lucas 2.1-7 relata o nascimento do Messias, o profeta Isaías anuncia a nova realidade a ser implantada por esse Messias e o apóstolo Paulo, no texto que temos como base para a pregação (Rm 1.1-7), coloca-se como servo desse Messias. Ele tem a função de fazer levar adiante a mensagem desse Messias prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras. Creio que os aspectos exegéticos aqui abordados são suficientes para a compreensão do texto em questão. No entanto, para quem desejar um aprofundamento exegético desse texto, considere o Proclamar Libertação vol. 25, p. 55s., como preciosa sugestão.

3 Meditação É noite de Natal. Provavelmente o templo está superlotado. As pessoas estão ansiosas por uma mensagem cativante. Todos os anos, nessa noite, o foco principal da mensagem é o mesmo: nasce o menino Jesus numa estre-

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baria, entre animais, porque para ele não havia lugar na cidade organizada. Mas isso não é problema. Agora tudo está tranqüilo. Canta-se “Noite Feliz”. Todo mundo vai para casa contente para celebrar a ceia, e tudo estará bem. A tragédia transforma-se em romance. A situação de exclusão não entra em questão. Não é atualizada, apenas maquiada, bem perfumada. “Que Natal estranho” – afirmou o pastor e teólogo luterano Milton Schwantes numa reflexão que sugiro como base para a mensagem na noite de Natal. Este é um tempo festejado ano após ano; o Natal não deixa de pôr seus acentos. A gente o vê em toda parte. Comemora quem crê. E também festeja quem não crê. E convém que assim seja. Afinal, Deus está conosco no Natal. A gente se alegra com esta maravilha que é nosso Deus. Não é mera idéia. Nem é alguma ilusão. E muito menos um tipo de construção. Ele é presença entre nós. Tudo isso é muito concreto. Tem data e local. Acontece em Belém, na manjedoura, em torno de um menino. Assim aparece a amizade de Deus por nós: concreta, palpável. Vale a pena comemorar tamanha amizade, tão maravilhoso aconchego de Deus em nossa vida. O que, aliás, vale para crentes e descrentes. Mas, por falar em manjedoura, que estranho! Parece não caber no quarto. Por isso os presépios tanto a enfeitam. Embelezam sua feiúra. Escondem seu mau cheiro. De todo jeito, foi na manjedoura que floriu a amizade de Deus. Estranho! E Herodes não gostou. Mandou procurar o menino. Pediu que fosse denunciado seu paradeiro. E para apanhá-lo, mandou logo matar duas mil crianças que corriam pelas ruas de Belém. Herodes, esse chefe todo-poderoso, não se agradou dessa amizade de Deus. É que Deus vem a nós de jeito estranho, inesperado. Faz-se rodear por gente que nem parece ser, por esses tipos que vivem junto às manjedouras e aos lixos do mundo. Começa por convidar pastores de ovelhas, gente difamada e malvista. Convoca doentes e doidos. Felicita empobrecidos. E tudo fica às avessas. Estava tudo tão claro e ordenado. Uns no poder e outros excluídos de tudo. Herodes lá no palácio. E os demais cá na miséria. Todos já se haviam acostumado. Davam-no como aceito, normal, quase natural. E Deus põe tudo às avessas. Não vai ao palácio, para nascer por lá. Vem pela manjedoura, rodeado de gente desfigurada, com cara e cheiro dos porões da humanidade. Que Natal estranho!

Na introdução à Carta aos Romanos (1.1-7), o apóstolo Paulo coloca-se a serviço da pregação do evangelho como servo de Deus. Ele quer e precisa anunciar a história da salvação, e isso significa da manjedoura à cruz. Sem esconder nada. Nós que ousamos pregar o evangelho também estamos nessa mesma condição. Justamente por isso precisamos tomar cuidado para não acabar maquiando a realidade do Natal. O Natal vai continuar sendo estranho aos olhos de Deus se a realidade do nascimento de Jesus não for apresentada.

4 Pregação

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Certamente a celebração da noite de Natal é marcada por muitas participações: as crianças trazem sua mensagem, os jovens e outros departamentos da comunidade. Pelo menos é assim em muitas comunidades, de tal sorte que o tempo para pregação propriamente dita fica restrito. No entanto, creio que é importante não deixar passar em branco os aspectos abordados no ponto anterior. Sugiro a seguinte estrutura: 1) A comunidade que se reúne é comunidade de servos e servas de Jesus Cristo. Nesse sentido, a comunidade tem a incumbência de anunciar o evangelho sem maquiagem. 2) O nascimento de Jesus naquelas condições denuncia a falta de espaço na sociedade organizada para milhões de crianças. Paulo escreve essa carta para anunciar a boa-nova, e essa não pode esconder a realidade, muito antes a denuncia. 3) Quais as conseqüências do crer e obedecer (v. 5) para a comunidade local? 4) Assim como Deus chamou a comunidade de Roma para ser de Cristo, também a comunidade local pertence a Cristo. Que implicação tem este “pertencer a Cristo”? (v. 6.7) 5) A comunidade de Cristo é abençoada com palavras de graça e paz. Que implicações tem para a vida comunitária ser gente abençoada? Em resumo, penso que a pregação deve apontar para a razão do ser comunidade cristã. Vivemos numa realidade em que a grande maioria professa a fé cristã; no entanto, a situação denuncia uma fé sem comprometimento.

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Bondoso Deus, quantas vezes ficamos indignados com os donos das pensões de Belém. Por que eles não deram abrigo a José e Maria? Como foram deixar uma mulher grávida repousar numa estrebaria? Quão insensíveis foram eles! No entanto, amado Deus, ainda hoje milhares de crianças continuam nascendo sem nenhuma proteção e dificilmente ficamos indignados, fechamos nossos olhos. Talvez por isso tentamos a todo custo pintar com beleza o teu nascimento. Perdão, Senhor. Percebemos que o nosso compadecer por tua situação é demagogia. Perdão, Senhor, perdão, por amor do Jesus menino. Amém. Proclamação da graça: Desejamos mudar de vida, desejamos um Natal diferente, desejamos perdão e Deus o dá a todas as pessoas que sinceramente se arrependem. Assim, proclamo o perdão que vem Deus com as palavras do apóstolo Paulo: “Que a graça e a paz de Deus, o nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam com vocês”.

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Oração do dia: Querido e amado Deus, mais uma vez queremos celebrar o nascimento de teu amado filho Jesus. Reconhecemos que temos encontrado dificuldades para celebrar de forma digna esse aniversário. Temos comercializado o nascimento do filho de Deus, vendemos e compramos esse tão sublime acontecimento como qualquer outra mercadoria. Perdão, Senhor, perdão. Queremos novamente voltar ao sentido pleno desse dia. Queremos a paz de teu nascimento, a humildade, a entrega e a justiça. Vem nascer em nossos corações. Rogamos a Deus para que o Jesus da manjedoura possa encontrar lugar em nossa vida. Por Cristo. Amém Bênção: Que o Deus menino com sua humildade e simplicidade vos abençoe e vos guarde; que o Deus menino faça resplandecer o seu rosto sobre vós, tenha misericórdia de vós; que o Deus menino sobre vós levante o seu rosto e vos dê a paz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Bibliografia KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1973. p. 395-416. CELEBRAR NATAL em família e comunidade. São Leopoldo: Sinodal, 2006.

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NATAL DE NOSSO SENHOR

PRÉDICA: LUCAS 2.1-14 (15-20)

25 DEZ 2007

ISAÍAS 9.2-7 TITO 2.11-14

Martin Volkmann

1 Considerações à guisa de introdução Escrevo esta reflexão para o Natal num período “pouco natalino”. Ao invés do calor, que normalmente marca o final de dezembro, é o período frio – ao menos no sul do Brasil. Ao invés de músicas natalinas e propagandas para presentes de Natal, os comerciais convidam para presentear namorados. Mesmo nessa aparente contradição – na realidade, seria o período certo, pois corresponde à época em que, no hemisfério norte, está situado o Natal: dias curtos, noites frias e longas. Nessa situação faz sentido o anúncio: Em meio às trevas resplandece a luz, como inicia a leitura bíblica do profeta Isaías (9.2). É o que, nessa época de festas juninas, se expressa com as fogueiras. Na realidade, portanto, é um pouco natalino, mas um Natal menos europeu, mais sulino. Será que isso também não poderia ajudar em nossos festejos natalinos em dezembro? Outro aspecto é a conjuntura do momento. Os anjos anunciam: “Paz na terra entre as pessoas a quem Deus quer bem”. E o profeta fala de uma grande luz que brilha no horizonte para o povo que anda pelo vale das trevas. A ênfase dos textos bíblicos, sem dúvida alguma, recai sobre a nova situação que o agir de Deus provoca. Mas a conjuntura do momento parece hoje ser muito mais de trevas, de falta de paz: as “botas dos guerreiros” (Is 9.5) continuam pisando firme no Iraque e em outras regiões. Botas de outro tipo de guerreiros assolam as grandes cidades com violência, seqüestros, assaltos que criam uma sensação de insegurança total. E a situação pessoal de muitas pessoas continua marcada pela dor e pela falta de esperança: desemprego, miséria, ausência de perspectiva de vida. O mundo em geral e a situação pessoal parecem corresponder pouco ao conteúdo da mensagem dos textos bíblicos. Será diferente em dezembro?

2 Considerações exegéticas A perícope indicada como texto de prédica sugere apenas os v. 1-14, deixando como opção incluir os v. 15-20. Na realidade, Lucas 2.1-20 forma uma unidade, o que dá para perceber claramente nas introduções com indicações cronológicas em 2.1 e em 2.21. Além disso, o conjunto 2.1-20 compõe-se de

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três partes, sendo que nas duas últimas se trata dos mesmos personagens, ou seja, dos pastores: a) nascimento do menino (v. 1-7); b) anunciação aos pastores (v. 8-14); c) comprovação e testemunho dos pastores (v. 15-20). Esses pastores são, de certa forma, os primeiros a fazer uma pregação de Natal para as pessoas diretamente envolvidas no evento. Assim, sugiro usar todo o conjunto como texto de prédica. A introdução com menção do edito de César Augusto e datação do referido censo é característica de Lucas (cf. 1.5-7). No entanto, os dados não conferem exatamente, tanto no que se refere a Cirênio como governador da Síria quanto à realização de um censo “em toda a ecumene” naquele período. Isso não tem tanta relevância, porque o evangelista não está interessado em trazer a história de recenseamentos para a fixação dos impostos na Palestina ou a cronologia dos governantes da região, mas ele quer testemunhar como Deus fala e age em meio aos acontecimentos da história humana. O que importa é mostrar que Deus não cai como um raio no meio da vida das pessoas, mas age com elas e em favor delas em meio a eventos bem mundanos. História profana e história da salvação se entrelaçam. Com a dupla menção de Davi (v. 4) é dado destaque à descendência davídica de José e, conseqüentemente, de Jesus. Assim, o texto se refere à esperança messiânica em relação ao descendente de Davi (cf. Is 9.2-7). Com isso o autor destaca, apesar das e em meio às múltiplas rupturas e frustrações ao longo da história em relação aos governantes do povo, a fidelidade de Deus à sua história com seu povo. A descrição do nascimento do menino mostra as circunstâncias profundamente humanas dessa criança: ela é enrolada em faixas e deitada numa manjedoura. A hospedaria (katalyma) pode ser tanto um local de parada das caravanas, onde num mesmo ambiente se abriga um grande número de pessoas, como uma habitação construída acima de uma gruta, onde se abrigam os animais. Na região de Belém, há diversas construções assim. Na gruta, escavada nas pedras, há as manjedouras para o trato dos animais. Ali é colocada a criança recém-nascida, porque na habitação acima não havia mais lugar para eles. O texto não fala, como se costuma enfeitar a cena, de uma procura desesperada e frustrada do casal por um espaço em alguma casa. Portanto, em meio a circunstâncias bem humanas, longe de qualquer encenação romântica, entre o dia-a-dia de gente pobre nasce essa criança. Na contramão da história humana – governantes imperiais, recenseamento, fixação de impostos –, Deus faz a sua história. O anúncio do nascimento não é feito às lideranças religiosas, mas a simples pastores de ovelhas. Pastores têm uma longa tradição na história do povo de Deus: os patriarcas, Moisés, Davi, profetas procedem desse contexto. Gente simples, que não se esquivara de acolher o desafio de Deus e que, por isso, se tornara fundamental na história do povo. Assim, a predileção desses pastores está na mesma linha da opção pela “humilde serva” (1.48). Ao mesmo tempo, eles fazem parte daquele ambiente em que essa criança nasceu. De um lado, como vimos até aqui, o texto destaca as circunstâncias

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profundamente humanas desse evento. Por outro lado, uma segunda camada, permeando aqueles acontecimentos, destaca a intervenção de Deus. Aos pastores aparece o anjo do Senhor, e a glória do Senhor (expressões típicas de teofania) inunda todo o ambiente. Frente à reação natural de medo por parte dos pastores, a intervenção divina é detalhada na fala do anjo: Num primeiro momento, eliminando o medo – “não temais” é expressão típica que introduz a ação de Deus junto à pessoa temerosa diante de sua presença ou ausência (1.12s, 30; Êx 14.13; Is 10.24; 41.10; Mc 6.50). Num segundo momento, explicando o que aconteceu: o acontecimento é euangelion – anúncio de boa-nova, motivo de grande alegria para todo o povo. Na linguagem de Lucas, esse povo é, em primeiro lugar, o povo de Israel. Mas, ao mesmo tempo, ele vale para “todos os povos” (2.31; cf. também At 1.8). Essa boa-nova consiste na caracterização dessa criança: Salvador, Cristo, Senhor. São três termos; cada qual sozinho bastaria para destacar o caráter extraordinário ligado a essa simples criança. Os três juntos só vêm reforçar essa grandiosidade do agir de Deus nesse nascimento. Mas cada qual enfatiza um aspecto. Salvador em sentido bíblico é sempre Deus ou o seu enviado (cf. Jz 3.9, 15). Salvação é a expectativa do povo, expressa nos hinos cantados por Maria e Zacarias: 1.47; 1.68s., 74-77. Agora – hoje – essa expectativa está se cumprindo. O Salvador não é alguém qualquer; ele é o Messias anunciado e esperado (Is 9.2-7). E esse Messias também é Kyrios – Senhor divino (cf. At 2.36). Kyrios é o título grego para Deus. Portanto esse menino é Senhor divino. Com a ênfase no hoje e nesses três títulos cristológicos, o evangelista destaca que o momento escatológico da história salvífica da humanidade tornou-se presente e real em meio à história humana. Tão extraordinário evento, perceptível apenas aos olhos da fé, conforme comprovam esses pastores que vão para o local indicado e encontram tudo como anunciado e voltam “glorificando e louvando a Deus” (v. 20) – tão extraordinário evento é exaltado por quem convive com a realidade divina: a multidão de anjos junta-se ao mensageiro e entoa o cântico de louvor (v. 14). Assim, novamente transparece o que perpassa todo o texto: a realidade divina inunda a vida terrena; em meio a este mundo, nos acontecimentos históricos normais, Deus se faz presente. Por isso o cântico dos anjos aponta, num primeiro momento, para o mundo celestial, dando-lhe o devido valor: “glória a Deus nas maiores alturas”. E, num segundo momento, volta-se para a realidade humana e destaca a conseqüência desse agir de Deus: “Paz na terra entre as pessoas a quem ele quer bem”. Paz – não é a simples ausência de guerras, conflitos e desavenças entre pessoas e nações. Paz é o “shalom” de Deus, a paz definitiva que Deus oferece – para pessoas individualmente e para grupos e nações (cf. Is 9.6). A reação dos pastores é sinal de que compreenderam a dimensão extraordinária daquilo que presenciaram. Sua atitude é o que Paulo designa fé: eles creram no anúncio divino. São os primeiros representantes daqueles “a quem Deus quer bem”. Eles se põem em movimento (cf. 1.39; 19.5s.) e vão verificar o que lhes fora anunciado. Não é nada de extraordinário – uma sim-

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ples criança recém-nascida, envolta em fraldas, deitada numa manjedoura. Mas a percepção, a confiança, o reconhecimento da presença de Deus junto a eles na palavra do anjo leva-os ao local e a encontrar tudo como lhes fora anunciado (v. 16). E como ouvintes do anúncio eles passam a ser anunciadores da palavra ouvida – v. 17. Chama atenção a quantidade de palavras que se referem a ver/falar/ouvir nesse trecho: v. 15 – falar/palavra/dizer; v. 17 – ver/ palavra/dizer; v. 18 – ouvir/dizer; v. 19 – palavras; v. 20 – ouvir/dizer. Portanto a mensagem do anjo passa a ser divulgada, anunciada pelos pastores e ouvida por um novo grupo de pessoas. Assim como no anúncio do anjo a cena desemboca no louvor da multidão de anjos, da mesma forma esses pastores, que compreenderam a intervenção divina em suas vidas e na história de toda a humanidade, também só podem voltar para a sua realidade “glorificando e louvando a Deus” pelo que viram e ouviram. À ação divina corresponde o louvor humano, daqueles que viram e ouviram o que Deus fez.

3 Considerações com vistas à pregação O que dizer de novo no Natal? Quem não conhece essa história de Natal? Bastaria lê-la e deixar que ela fale por si. E certamente o faz. Pois, quem sabe, justamente por ser tão conhecida, ela é sempre tão bonita, tão sublime, tão nova. Por ser boa-nova, evangelho. A história fala-nos de pessoas normais, muito normais, como nós. Anormal é o que acontece com elas. Talvez aqui esteja um ponto a ser resgatado. Pois toda aura que se criou em torno dessa história e dos personagens que a compõem fez com que essas pessoas fossem elevadas a um nível tal que as coloca muito distantes de nossa realidade. E com isso torna-se difícil mostrar que o conteúdo desse relato diz respeito a pessoas bem concretas, como nós. Os personagens desse relato são pessoas bem normais: – um casal muito simples, gente do povo; ela grávida; ainda não casados oficialmente; – pastores de ovelhas, acampados ao relento, à noite, trabalho pesado; – o povo exposto aos desmandos e à exploração dos detentores do poder: recenseamento para determinar o valor dos impostos; – acontecimento bem situado no tempo e no espaço: César Augusto, Cirineu, Nazaré, Belém. Ao mesmo tempo, o relato apresenta-nos as circunstâncias adversas no desenrolar dos fatos: – viagem relativamente longa e sob condições impróprias: estágio final de gravidez; – único lugar para se abrigar – numa hospedaria junto com os animais; – parto em condições precárias: sem conforto, recém-nascido colocado no local para alimentar os animais.

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Portanto o que aconteceu naqueles dias envolveu circunstâncias muito reais. Não temos hoje as mesmas situações em nossos ambientes? Por outro lado, na contramão da história que os poderosos da época planejam e fazem, Deus faz a sua história. Ele intervém justamente na vida dessas pessoas simples, concretas – como nós. – O mensageiro de Deus irrompe na vida dessas pessoas. – Ele tem um anúncio todo especial – boa-nova/evangelho: nasceu o Salvador, o Cristo, o Senhor. – Conseqüência: paz na terra. – Motivo de alegria para todo o povo, ou seja, para todas as pessoas – como nós – “a quem Deus quer bem”. Isto é Natal: em meio ao mundo normal, tão humano, tão dentro da rotina e das coordenadas estabelecidas pelas regras humanas, ali Deus intervém. Milagrosamente, mas de forma tão humana, numa criança recém-nascida. O que pregar nesse dia? Sem menosprezar ou denegrir toda a magia que envolve o Natal – luzes, festa, comércio, presentes –, a pregação deveria apontar para essa intervenção divina que nos atinge bem lá onde nós estamos e como somos. A pregação deveria ajudar as pessoas a que elas conseguissem ver atrás, além, em meio, apesar de tudo o que é feito do Natal, aquilo que em última análise importa: a realidade divina invadindo a nossa realidade; a história da salvação divina entrando em nossa história humana. Assim como aqueles pastores compreenderam o sinal – uma criança recém-nascida –, que, em última análise, não era sinal algum, mas que os olhos da fé aceitaram como o Deus presente.

Bibliografia GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Lukas. Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, s/a. Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament, v. 3. SCHWEIZER, Eduard. Das Evangelium nach Lukas. Göttingen/Zurique: Vandenhoeck & Ruprecht, 1986. Das Neue Testament Deutsch, v. 3.

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1º DOMINGO APÓS NATAL

PRÉDICA: ISAÍAS 63.7-9

30 DEZ 2007

MATEUS 2.13-23 HEBREUS 2.10-18 Osmar Luiz Witt

1 Introdução O texto do profeta Isaías fala do amor e da compaixão de Deus por nós e da possibilidade de perdermos sua amizade. A Carta aos Hebreus acentua a dimensão salvífica da obra de Cristo em sua encarnação, concretização da compaixão divina: “No seu amor e na sua misericórdia, ele mesmo os resgatou” (Is 63.8). A passagem do Evangelho de Mateus remete ao Êxodo. No Egito, Deus ouviu o clamor de seu povo, e de lá vem o redentor, o qual revela a fidelidade divina e a universalização de sua compaixão. Ele veio salvar pecadores e pecadoras. Assim, o elo temático entre os textos pode ser encontrado nessa disposição divina de compadecer-se de quem lhe é infiel e no louvor que lhe é devido em razão disso. A igreja aprende com o povo de Israel a reconhecer seu dever de gratidão e louvor por causa do amor e da compaixão de Deus. Israel ensinou e ensina a olhar para seu passado, para sua história e louvar a Deus por seu agir em favor de seu povo. Quando Israel se encontra em situação desesperadora, a memória do agir de Deus renova-lhe a certeza de sua fidelidade.

2 O texto em seu contexto 2.1 – O Terceiro Isaías O texto indicado para a pregação integra o livro do Terceiro Isaías, que compreende os capítulos 56 a 66 de Isaías e que foi escrito provavelmente em Judá, em torno dos anos 520 a 400 a.C., portanto após a volta do exílio babilônico (597 a 539 a.C.). A esperança de um retorno a Jerusalém não foi de todo sufocada nesses anos. E “a partir de 539 a.C. o sonho começa a se tornar realidade. Surge uma luz no final do túnel. Ciro, rei da Pérsia, é acolhido como ‘enviado’ de Javé para libertar seu povo (45.1-7). Ele conquista a Babilônia e permite a volta das exiladas e dos exilados (Ed 1.1-11) e a reconstrução do Templo de Jerusalém, financiando suas obras (Ed 6.1-12)” (Nakanose et al., p. 12). Nessa época, boa parte da população sofria sob o domínio da elite religiosa judaica e do império persa. “A situação dos retornados era de pobreza,

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escassez e aflição” (Westermann, p. 237). No livro denuncia-se a corrupção dos grupos dirigentes e afirma-se uma esperança: “um novo céu e uma nova terra” (65.17). 2.2 – A delimitação da perícope Dentro do livro do Terceiro Isaías, o texto 63.7-64.11 forma um longo poema em forma de um salmo de súplica coletiva, comparável ao que se tem nos Salmos 44 e 89. Há uma tendência na pesquisa de situar esse trecho no período logo após a destruição do templo de Jerusalém em 587 a.C. (Kraus, p. 225, e Westermann, p. 240 e 307). As referências a esse acontecimento em 63.18 e 64.9-10 referendam essa postura. O lugar vivencial desse salmo de lamentação coletiva deve ser buscado no culto, no qual, em geral, os salmos de lamentação foram empregados. Quanto à delimitação da perícope proposta para a pregação, Westermann entende que é preciso estendê-la até o v. 14. “A alocução direta a Deus e, com isso, o salmo de lamentação propriamente, inicia somente em 63.15” (p. 306). Ele propõe a seguinte estrutura (p. 307): v. 7a – Introdução recordando as graças de Deus; v. 7b-9 – Deus, salvador e mantenedor do seu povo; v. 10 – Israel voltou-se contra Deus, então Deus voltou-se contra Israel; v. 11-14 – Em suas necessidades, Israel lembra as obras de Deus no passado.

3 Meditação O texto de Isaías surgiu numa situação muito difícil para o povo de Israel. Os babilônios vieram, deportaram as lideranças do povo, dividiram famílias, destruíram relações de amizade, saquearam propriedades e demoliram o templo. Tentaram, assim, riscar da memória de Israel o Deus que ouve o clamor do povo e mobiliza pessoas para livrá-lo da aflição. A situação em que Israel se encontrava era de destruição, de frustração. A realidade revelava que a compaixão e o amor de Deus estavam ausentes. O povo de Israel vivia um tempo de apreensão, de insegurança, de medo. Seus líderes haviam sido exilados, e seu Deus parecia tê-los abandonado. A pergunta não era retórica, mas existencial: “Onde está Deus?” (63.11, 15; 64.6, 11). O profeta de Deus ajuda a entender a situação desesperadora lançando um olhar ao passado desse povo. Em sua história, Israel encontra motivos para ser grato a Deus e para render-lhe louvor. Pois a compaixão e o amor de Deus estiveram presentes quando ele fez uma aliança com Israel. Deus declarou: “Eles são o meu povo, são filhos que nunca me trairão” (v. 8). Ele contou com a fidelidade do povo que criou para si. O amor e a compaixão divinas também se tornaram concretos, palpáveis, visíveis, quando ele mesmo livrou Israel do sofrimento da escravidão

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no Egito e quando ele o “ergueu” e “carregou” (v. 9) na passagem pelo mar Vermelho e na longa caminhada pelo deserto. O amor e a compaixão, dignos da gratidão e do louvor de Israel, também foram concretos quando o povo tomou posse da terra prometida e encontrou “um lugar de descanso” (v. 14). Tudo isso fazia e faz parte da experiência desse povo e, de geração em geração, essa memória foi guardada. Em vista da destruição e da deportação de uma parte da população, Israel faz a experiência de sentir-se abandonado por Deus. “A evocação da história passada (63.7-14) é conforme a teologia deuteronomista: Deus castiga o seu povo revoltado, depois salva-o” (Bíblia de Jerusalém). O profeta lembra ao povo sua desobediência. Foi o povo quem dispensou o amor e a compaixão de Deus, não dando ouvido aos profetas, através dos quais foi denunciada a infidelidade à aliança (v. 10). O Deus que ama, que sofre junto com seu povo, que ampara, que dá colo, que recobra o ânimo de quem está cansado e que dá novo alento àquele que está sem esperança é o mesmo Deus que pode ficar magoado e tornar-se inimigo (v. 10). O exílio é entendido como a concretização dessa inimizade. De outra parte, a lembrança do passado quer trazer o povo de volta para a aliança com Deus. Ao tomar consciência de como Deus teve amor e compaixão no passado, a situação presente de Israel torna-se ainda mais angustiante: Onde está hoje o Deus que agiu tão valorosamente no passado? Por que ele parece se esconder? Será que ele não é mais o mesmo? Será que já não tem mais amor e compaixão por seu povo? Ao dar-se conta da situação desesperadora, o povo de Israel ergue seu grito de socorro aos céus: “Não retires de nós o teu amor e a tua compaixão, pois tu és o nosso Pai... e desde o princípio nós te chamamos de o nosso Salvador”. Nesse pedido de ajuda dirigido a Deus, o povo de Israel confessa: Só Deus mesmo poderá salvar-nos de uma vida sem Deus. Somente seu amor e sua compaixão poderão livrar-nos das enrascadas em que nos metemos com a nossa rebeldia e infidelidade. E Deus não ficou insensível a esse clamor. Como se lê na Carta aos Gálatas, “quando chegou o tempo certo, Deus enviou o seu próprio Filho. Ele veio como filho de mãe humana e viveu debaixo da Lei dos judeus para libertar os que estavam debaixo da Lei, a fim de podermos nos tornar filhos de Deus” (Gl 4.4s.). A resposta de Deus ao clamor dirigido aos céus foi o motivo das celebrações natalinas. Na manjedoura de Belém, o amor e a compaixão de Deus tornaram-se mais uma vez concretos. Em Jesus, a aliança estendese a toda a humanidade, para que todos sejam filhos e filhas de Deus. Ou como cantava Lutero: “O Salvador, o eterno bem, em forma humana à terra vem, quer ser irmão dos servos seus, torná-los filhos fiéis de Deus” (Hinos do Povo de Deus 1, 22.5). Podemos reaprender com Israel a olhar para nosso passado e nele descobrir como Deus tem mostrado amor e compaixão em nossa vida pessoal e familiar. Mas também em nossa comunidade religiosa e civil. Lembro-me de uma antiga canção evangelística que nesse contexto ganha para mim um significado novo. Dizia assim: “Conta as bênçãos, dize quantas são, recebidas

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da divina mão. Conta as muitas bênçãos, dize-as de uma vez, e verás surpreso o quanto Deus já fez”. Contudo, nós facilmente esquecemos os motivos de gratidão e não rendemos o louvor devido. Por certo também não faltam em nossos dias motivos para lamentos e aflições. Se as pessoas não tivessem lamentos e medos, não prosperariam tantas ofertas de auto-ajuda e métodos de enganação. O profeta Isaías ensinanos que nosso lamento e nossa aflição podem ser dirigidos aos céus. Talvez não saibamos bem como se faz isso comunitariamente. Quem sabe, em nossas aflições e medos estejamos sós e não sabemos como “carregar as cargas uns dos outros” (Gl 6.1). Porém Deus nos ouve, e seu amor e compaixão são fiéis. Não atenderá nossos interesses egoístas e mesquinhos. Pois se pudéssemos, faríamos dele um cumpridor de ordens nossas. Mas ele nos livrará de uma vida auto-suficiente, que não conhece gratidão, e principalmente de uma vida sem Deus ou sem temor e sem confiança em Deus, ou, como diz o texto, uma vida na inimizade de Deus. Olhar para o passado, pessoal e comunitário, assim como fez o povo de Israel no exílio, poderá ajudar-nos a encontrar respostas para as perguntas angustiantes que nos são feitas por outros ou por nós mesmos: Onde está Deus neste mundo conturbado? Será que ele nos esqueceu? Sua compaixão e seu amor não serão mais os mesmos? Por que ele guerreia conosco? Não será uma evidência de que Deus está contra nós, justamente quando duvidamos de que ele se possa tornar nosso inimigo e quando pessoas de fora da igreja afirmam que, a julgar por nossos atos, Deus deve ter-nos abandonado? A sensação de que Deus nos abandonou não evidencia que agimos como se ele estivesse em nossas mãos e não nós em suas mãos? A lembrança do passado pode significar o início do retorno para a aliança que Deus também fez conosco. Pelo Batismo ele se dirigiu a ti e a mim: “Chamei-te pelo teu nome, tu és meu!”. Pertences a meu povo. Pus meu Filho no mundo em favor de ti. Ele doou-se em teu favor, e toda vez que participas da Santa Ceia, ele te alimenta e fortalece. A consciência dessa realidade permite-nos bradar aos céus quando nos sentimos desamparados e desprotegidos: “Ó Deus, onde estão o teu poder e o teu cuidado por nós? Não retires de nós o teu amor e a tua compaixão, pois tu és o nosso Pai” (v. 15). A cada Natal somos confrontados com esse amor e essa compaixão de Deus. O seu Filho vem ao mundo, torna-se nosso irmão, para que todos possamos dizer “Pai Nosso”. Na manjedoura de Belém, Deus fez-se nosso irmão, por amor e compaixão de nós, para a nossa salvação.

4 Subsídios litúrgicos Saudação: “Venham todos, e louvemos ao Deus Eterno! Cantemos com alegria à nossa rocha, ao nosso protetor e Salvador!” (Sl 95.1)

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Hino de entrada: Hinos do Povo de Deus 1, nº 130. Leitura conjunta: Salmo 111. Confissão de pecados: Misericordioso Deus! Tu tens nos conduzido, amparado e protegido. Fizeste de nós membros do teu povo. Por nós vieste a este mundo, a fim de oferecer-nos salvação. Foste fiel às promessas que fizeste a teu povo. Nós, porém, não fomos capazes de corresponder à tua fidelidade. Ignoramos a tua presença entre nós, trilhamos nossos próprios caminhos e achamos que somos auto-suficientes. Quando temos saúde e um pouco de dinheiro, nós te dispensamos. Perdoa-nos, Senhor, e acolhe-nos outra vez em tua comunhão. Não te escondas de nós, nem nos deixes viver sem perceber a tua presença, que assegura mais beleza, justiça e misericórdia nas relações entre nós. Escuta-nos, ó Deus, quando te pedimos: Perdoa-nos e vivifica-nos. Em nome de Jesus Cristo, teu Filho e Senhor nosso. Amém. Coleta: Senhor, nosso Deus! É bom podermos trazer-te nosso louvor. É bom que possamos ser orientados por tua Palavra. Sentimo-nos bem em tua companhia. Tu nos consolas, pois mesmo sendo pecadores/as, em vez de condenação recebemos de ti graça e paz. Permite, Senhor, que nosso louvor te agrade e que tua Palavra nos ponha de pé. Em nome de Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém. Oração: Sim, é digno, justo e de nosso dever que, em todos os tempos e lugares, rendamos graças a ti, Deus eterno e todo-poderoso. Pois vieste ao mundo para buscar a ovelha desgarrada e para fazer de nós, pecadores/as, um povo para ti. Nós esquecemos as bênçãos recebidas e nos afastamos de ti. Mas teu amor e misericórdia se manifestaram no nascimento de teu Filho, Jesus Cristo. Por isso, com toda a tua igreja e todos os seres viventes, louvamos e adoramos teu glorioso nome, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor!

Bibliografia BAESKE, Albérico. 1º Domingo após o Natal. In: Proclamar Libertação 24. São Leopoldo: IEPG/Sinodal, 1998, p. 44-57. KRAUS, Hans-Joachim. Das Evangelium der unbekannten Propheten – Jesaja 40-66. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verl., 1990. NAKANOSE, S. et alii. Como ler o Terceiro Isaías (56-66) – novo céu e nova terra. São Paulo: Paulus, 2004 (Série “Como ler a Bíblia”). WESTERMANN, Claus. Das Buch Jesaja – Kapitel 40-66. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1966 (Das Alte Testament Deutsch).

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VÉSPERA DE ANO NOVO

PRÉDICA: MATEUS 25.31-46

31 DEZ 2007

ECLESIASTES 3.1-13 APOCALIPSE 21.1-6a

Arteno Ilson Spellmeier

1 Informações exegéticas e reflexões teológicas 1.1 – O texto de Mt 25 caracteriza-se por sua radicalidade. Ele encerra o discurso apocalíptico de Jesus (24.1-25.46) e encontra-se somente em Mateus, não tendo paralelo nos evangelhos sinóticos. Devido à sua radicalidade, ele tem sua origem, possivelmente, em Jesus mesmo. Mateus pode ter entendido que “os mais humildes dos irmãos (e irmãs)” eram, antes de mais nada, as pessoas pertencentes à primeira comunidade, as pessoas que se decidiam por seguir as pegadas de Jesus e, fazendo isso, transformavam-se, muitas vezes, em pessoas famintas, sedentas, nuas, presas..., necessitando da solidariedade dos demais. Certamente não dá para excluir os seguidores e as seguidoras de Jesus da categoria dos “mais humildes dos irmãos (irmãs)”, mas restringi-los a esse grupo seria diminuir o alcance e a radicalidade da parábola. 1.2 – O acento do texto não está no julgamento em si, mas no anúncio de seu resultado e em sua fundamentação. Elucida-se o critério de separação, o parâmetro do julgamento: importa realizar as obras de amor e caridade – típicas tanto para a religiosidade e piedade judaicas como egípcias e persas. Realizar as obras de caridade “aos mais humildes dos irmãos (irmãs)” é fazê-las ao próprio Cristo, o Filho do Homem, que faz a separação e anuncia o resultado do julgamento, assim como a exposição de motivos. Cristo vem como Filho do Homem, salvador de todos os povos da terra, e ao mesmo tempo como Rei, como Messias, salvador do povo judeu, isto é, o julgamento e a promessa de salvação são universais. O horizonte do texto de Mateus 25 não se restringe mais somente ao povo judeu; ele está incluído, mas não é mais exclusivo (32). No horizonte do texto está incluída a comunidade como um todo, não se restringindo a indivíduos: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, no meio deles estarei” (18.20). Está incluída a comunidade judaico-cristã de Mateus, mas também a nossa comunidade. Estão incluídos os indivíduos, as pessoas em quem o Cristo de Deus se encarna e que por ele são julgadas, mas é o indivíduo dentro de seu povo, de sua nação, comunidade e cultura. No texto, Cristo é apresentado como Filho do Homem que se identifica com os seres humanos, como rei poderoso que governa os seus súditos, como pastor que cuida de suas ovelhas e como juiz que as aparta umas das outras. Na pregação, todas essas designações de Cristo devem ser consideradas.

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1.3 – As figuras das ovelhas e dos cabritos que serão apartadas traz consigo algumas dificuldades de interpretação. As seguintes interpretações são as mais usuais: a) permanecendo-se na figura, pode-se pensar na forma que os pastores daquele tempo usavam para apartar as ovelhas (que devido à sua lã podiam dormir ao relento, sem passar frio) dos cabritos (que tinham que ser postos em áreas cobertas, onde ficariam protegidos do frio da noite); ou b) pode-se constatar que a maior diferença entre ovelhas e cabritos é a obediência. As ovelhas seguem obedientemente seu pastor, enquanto os cabritos são mais independentes e precisam ser tocados; c) deixando-se a figura de lado e partindo-se para o que ela quer expressar, pode-se pensar na separação entre as pessoas que Jesus denomina de bem-aventuradas no sermão do monte e nas pessoas auto-suficientes, ricas e poderosas. As primeiras são as ovelhas à direita, as pessoas do segundo grupo, os cabritos à esquerda. As três tentativas de interpretação têm, a meu ver, contra si que em todas elas está predefinido quem são as ovelhas que ficarão à direita e os cabritos que ficarão à esquerda do juiz no julgamento, sendo os diferenciais a cor ou a maior dependência ou a posse de bens. Prefiro pensar que, como em outras parábolas e figuras do Novo Testamento, também nessa aquilo que Jesus quer expressar é maior do que a própria parábola. O critério de separação não são a cor, nem a lã, nem a dependência, nem a obediência, nem a auto-suficiência, nem a riqueza, mas única e exclusivamente a postura diante do Cristo na pessoa necessitada. 1.4 – Não há analogia na história das religiões para a identificação plena do Cristo de Deus com as pessoas pobres e necessitadas. “Aí o Rei responderá: Eu afirmo que, quando vocês fizeram isso ao mais humilde dos meus irmãos, de fato foi a mim que o fizeram” (v. 40). Não é dito “quando vocês fizeram isso ao mais humilde dos meus irmãos é como se tivessem feito a mim”, mas é dito “[...] de fato foi a mim que o fizeram”. É assustador defrontar-se com o próprio Cristo na pessoa faminta, nua, presa, doente, na criança vestida de trapos, no negro desprezado, na mulher indígena considerada inferior. É assustador que, de acordo com o texto, não tenho a liberdade de escolher em quem eu quero encontrá-lo. É assustador encontrá-lo fora do espaço sagrado, sem poder limitá-lo a esse espaço. 1.5 – Para Mateus, é irmão de Jesus toda aquela pessoa que escuta sua palavra e faz a vontade do pai, mas também aquela pessoa que passa necessidade e sofre. G. Barth formula a relação da seguinte forma: “Se o ser humano é julgado no Juízo Final por suas obras, isso significa que ele será perguntado por sua relação para com Cristo, do qual as suas obras dão testemunho”. E. Grundmann complementa: “Isso vale certamente para aquele que é chamado ao discipulado e que responde a esse chamado com obediência ou desobediência. Para ele, o estar-a-favor-dos-necessitados é uma parte de sua confissão a favor de Cristo. Aquele, no entanto, que não o conhece com ele se confrontará assim mesmo na pessoa pobre e necessitada, com ele se alia, e nesse encontro decide-se o seu relacionamento com o Cristo de Deus” (Grundmann, 1986, p. 528). Nesse caso, a confissão de que Cristo é o Senhor

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acontece no ato de voltar-se às pessoas necessitadas, com as quais Cristo se identifica, nas quais Cristo se encarna, nas quais ele está presente. Cristo está presente também fora do “mundo cristão”, nas pessoas necessitadas que dele nunca ouviram falar. Muito antes de qualquer missionário chegar aos povos indígenas, Cristo já estava no meio deles, nos mais necessitados, e no meio deles havia pessoas que dele deram testemunho, dando de comer e de beber aos necessitados, vestindo-os, visitando-os... Desobrigados da necessidade de converter o outro, podemos encontrar nele o Cristo de Deus.

2 Reflexões e pistas para a prédica 2.1 – O texto fala por si. É de uma clareza, simplicidade e radicalidade arrebatadoras. Via de regra, no entanto, já temos uma compreensão predefinida do texto, que se caracteriza por uma falsa espiritualização (“os pobres, na verdade, são os espiritualmente pobres”), pela moralização indevida (“se os pobres trabalhassem, não teriam necessidades”), pela tentativa esperta de definir, a partir de critérios próprios, os necessitados pessoais (“a minha primeira responsabilidade é para com a minha família e comunidade”), pela interpretação do cumprimento do “catálogo de caridade” como caminho para a própria salvação (“se eu cumprir a lei, Deus me ajudará”), por diferentes meios de “desradicalizar” o texto. Por outro lado, a maioria dos membros da IECLB (Bock, 1995, p. 302s.) sente-se em dívida com “os mais humildes dos irmãos (irmãs)”, sentimento de dívida que os persegue e oprime. Temos que ter em mente que, na prédica, precisamos considerar essas pré-leituras e esse pré-entendimento do texto. Um ataque frontal contra esses certamente não vai trazer nada. Sugiro que se tente ganhar a comunidade para a simplicidade e radicalidade do texto. 1 – Ninguém é cabrito ou ovelha a priori, desde o nascimento, mesmo que o reino de Deus tenha sido preparado pelo Pai desde a criação do mundo (v. 34) – a atitude frente aos necessitados definirá se seremos cabritos ou ovelhas. 2 – A cada dia nos é dada a oportunidade de dar de comer aos famintos, de vestir os nus. 3 – E, o mais importante, o Cristo de Deus, que é rei e juiz, é simultaneamente o Filho do Homem e o pastor de ovelhas. 2.2 – O texto está previsto para a pregação no culto da véspera do Ano Novo e não mais, como em anos anteriores, no fim do Ano Eclesiástico, em que o enfoque estava voltado para as “últimas coisas”. Por isso talvez se deveria convidar os membros a olhar para trás, para o ano que passou, e para a frente, para o novo ano que se inicia, sem medo, refletindo sobre os momentos em que fomos cabritos e os momentos em que fomos ovelhas, avaliando nossa postura diante do próximo necessitado e planejando o novo ano como aquele em que dedicaremos mais atenção e tempo aos próximos estranhos e aos próximos familiares. 2.3 – O texto em pauta de Mateus 25 tem uma grande importância em minha vida pessoal. A descoberta de que encontro o Cristo de Deus no “mais

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humilde dos irmãos (irmãs)” ajudou-me nas mais diversas fases de minha vida individual, comunitária e espiritual: 1 – a não me perder em especulações sobre Deus, seu Filho, suas ações, meu relacionamento para com ele e manter os olhos, os amores, os pensamentos e os sentimentos neste mundo, voltados para a realidade existente, para os “cristos” ao meu redor; 2 – a manter afastada a tentação de manipular, moldar e ajustar o Cristo de Deus aos meus desejos, às minhas idéias, à minha piedade e, quando isso porventura acontece, o primeiro índio marginalizado, a primeira criança de rua abandonada, o primeiro cachorro maltratado fazem-me voltar à realidade deste mundo caído, mas amado por Deus, ao Cristo encarnado no “mais humilde dos meus irmãos (irmãs)”; 3 – a descobrir que, se Cristo se encontra conosco através “dos mais humildes dos irmãos” neste mundo de Deus e não num espaço qualquer, ele quer que assumamos responsabilidade pelo mundo dos irmãos e das irmãs, em sua dimensão pessoal, espiritual, emocional, política, material, jurídica, econômica, familiar. 2.4 – Se o Cristo de Deus se encontra conosco e se encarna nos “mais humildes dos irmãos (irmãs)” e a nossa interação com eles passa a ser critério de salvação eterna ou condenação eterna, não nos é permitido supervalorizar nem subvalorizar as demais formas de o Cristo de Deus se encontrar conosco e de se encarnar: na palavra pregada e vivida, no Batismo da graça, na comunhão e perdão experimentados na Santa Ceia. Não somos donos da palavra, nem do Batismo, nem da Ceia, nem “dos humildes dos irmãos (irmãs)”. Na Palavra é Deus que nos serve. No Batismo é Deus quem está a nosso favor. Na Ceia é Deus que se está dando a nós. No “mais humilde dos irmãos” é Deus quem se confronta conosco. Tudo nos é dado de graça para podermos servir. 2.5 – A relação espiritual e mística com o Cristo de Deus torna-se mais profunda quando confrontada com a realidade de ter fome e sede, de ser estrangeiro, de estar nu, doente e preso do “mais humilde dos irmãos”, pois ela não mais está em função de si, não é mais deturpada pela ânsia pela própria salvação. Ela terá que ajudar a discernir as relações neste mundo, a suportar as contradições vividas pelos “humildes dos irmãos (irmãs)”, a ter esperança quando a coisa está feia, a acreditar que o Cristo de Deus continua a ter o poder de julgar com justiça, quando nos deparamos com injustiças mil, com juízes corruptos, com cristãos que conseguiram criar para si um “modelito” de piedade que está acima disso tudo e já não mais enxerga Cristo nos “mais humildes dos irmãos”. Apesar de as ações arroladas como critérios de salvação e condenação fazerem parte do catálogo de “obras de amor e caridade”, as obras em si não têm nenhuma relevância no julgamento, pois nenhum dos dois grupos de julgados têm consciência de sua importância. O único diferencial são o fazer ou o não-fazer. 2.6 – Se o diferencial são o fazer ou o não-fazer, se Cristo está encarnado na pessoa necessitada, ele já está lá onde o missionário cristão ainda não chegou. O máximo que o missionário pode fazer é confirmar com seu próprio testemunho, em palavras e ações, que Cristo realmente se identifica e está

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presente nas pessoas necessitadas e abençoará aqueles que delas cuidarem, dando de comer aos famintos e de beber aos sedentos, visitando os doentes e presos... O Cristo de Deus devolve às pessoas necessitadas e excluídas, com a sua presença nelas, a dignidade que elas têm como seres por Deus criados, voltando elas a ser imagem de Deus (Gn 1.26). Aos que ajudam as pessoas necessitadas a superar suas necessidades e a readquirir a dignidade de criaturas de Deus, independente de sua origem, raça, língua, cultura, país e religião, vale a promessa de Cristo: “Venham, vocês que são abençoados pelo meu Pai! Venham e recebam o reino que, desde a criação do mundo, foi preparado pelo meu Pai...” (v. 34). Não é possível, dessa forma, prender o Cristo de Deus ao “mundo cristão”, nem a um discurso sobre a própria fé, nem a teologias bem elaboradas, nem a determinados rituais, por mais caros que eles sejam para nós e para outras pessoas. É assustador e, ao mesmo tempo, libertador dar-se conta de que o Cristo de Deus é maior do que a nossa capacidade de imaginá-lo: o Cristo de Deus está presente na criança maltrapilha das Filipinas; o Cristo de Deus está presente na mulher camponesa dos confins da China; o Cristo de Deus está presente no leproso da Índia; o Cristo de Deus está presente no jovem indígena no sul do Brasil... E aqueles que ajudam essas pessoas e o Cristo nelas têm a promessa do reino. A ajuda tem muitas dimensões: a direta e imediata, a de dar de comer e beber...; a pedagógica, a de ajudar a qualificar as pessoas necessitadas na busca pela comida e água, na satisfação de suas necessidades, na redescoberta de sua auto-estima e na reconquista de sua dignidade como pessoas feitas à imagem de Deus...; a política, a de ajudar na desmontagem das cercas ao redor dos poços com água e dos rios com peixes; a comunitária, a de ajudar a descobrir a força da união. A missão junto a povos indígenas do COMIN baseia-se na mensagem desse texto: a) Cristo já está lá, tanto na pessoa necessitada como naquela que dá de comer, beber, vestir..., como juiz e Filho do Homem, rei e pastor; b) nós só precisamos confirmar com nosso testemunho que ele realmente está lá, com um rosto indígena; c) aprender a reconhecer nesse rosto indígena diferenciado o Cristo de Mateus 25 e com ele dialogar; d) viver até as últimas conseqüências o principal diferencial entre os salvos e os condenados de Mateus 25: envolver-se com as pessoas necessitadas e suas necessidades. 2.7 – A identificação plena de um Deus com os necessitados e com os pobres de seu povo não tem analogia na história das religiões. Como devemos imaginar sua presença na pessoa do necessitado, fora do espaço sagrado? Estará Cristo presente nos “mais humildes dos meus irmãos” através de uma união mística? Ou estará ele se encarnando em cada uma dessas pessoas, até na humanidade toda, de acordo com Apocalipse 21.3, onde diz: “Agora a morada de Deus está entre os seres humanos! Deus vai morar com eles, e eles serão o seu povo. O próprio Deus estará com eles e será o seu Deus”? Onde se encontra a nossa dificuldade? Será que não conseguimos imaginar o Deus, todo-poderoso, entre nós? Será que não cabe em nossa cabeça que ele optou por estar entre nós justamente por intermédio das pessoas que desprezamos, menosprezamos, julgamos como menos valiosas,

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honradas, merecedoras? 2.8 – Se me defronto com Cristo no próximo necessitado, não há espaço para divagações, nem especulações. Se no dia-a-dia me defronto com Cristo no menino e na menina de rua, nas pessoas famintas, doentes, presas, moribundas, não vou poder manipulá-lo, nem formá-lo à minha feição, pois a realidade é mais forte. O Cristo presente me desafia e impede que a minha fé seja abstrata. Os povos serão convocados para o julgamento. Aqueles que são abençoados não o são porque cumpriram obras de amor e caridade (eles nem sabiam que o estavam fazendo), mas porque deram de comer e vestir, porque visitaram os doentes e presos. 2.9 – A graça de Deus está numa relação direta com o Cristo na pessoa necessitada. Vivemos na tensão entre a graça recebida de Deus e o “dar de comer aos famintos, de visitar os doentes e presos”. A graça do Cristo de Deus sem o Cristo no “mais humilde dos irmãos (irmãs)” é uma fata morgana, uma bolha de sabão, uma ilusão que não resiste à realidade. Quem atende o Cristo no “mais humilde dos irmãos”, quem o reconhece como necessitado e põe-se a vesti-lo, alimentá-lo, visitá-lo vive da graça de Deus para persistir contra todas as aparências, para não desacreditar, para o ato do amor não se transformar em lei. O rei e o juiz são o Filho do Homem e o pastor, mas o Filho do Homem e o pastor também são o rei e o juiz. 2.10 – O texto todo é composto por figuras e metáforas. A tarefa mais importante consiste em ordená-las e esclarecer suas limitações. A metáfora do julgamento, por exemplo, é de uma plasticidade que dispensa grandes interpretações. Como todos temos uma pré-leitura do texto, é importante confrontar a comunidade com algumas possíveis chaves de leitura: 1 – ninguém é ovelha ou cabrito por nascimento ou porque acha que “tem Jesus no coração”; o dar de comer ou não dar de comer ao necessitado é o diferencial; 2 – na pessoa necessitada o Cristo de Deus está presente, assim como está presente na Palavra, na Ceia, no Batismo; 3 – todo dia nos é dada a oportunidade de dar de comer aos famintos, de vestir os nus...; 4 – o Cristo de Deus é simultaneamente rei e Filho do Homem, juiz e pastor.

3 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: L – Deus, há mãos – e podem ser as minhas – que estão sempre ativas, trabalhando sem cessar. Dia e noite estão ocupadas

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e não encontram tempo para amar. C – Kyrie eleison. L – Deus, há mãos – e podem ser as minhas – que estão fechadas, e não há quem possa se aproximar. C – Kyrie eleison. L – Deus, há mãos – e podem ser as minhas – que estão cansadas, e não há quem as possa aliviar. C – Kyrie eleison. L – Deus, há muitas mãos – e podem ser as minhas – que, com saudade, buscam o aconchego junto a Ti. C – Kyrie eleison. L – Deus de ternura, Deus de paz, Deus de luz, Deus de amor, conduz-nos. C – Kyrie eleison. (Extraído do Livro de Culto VII, 302). Oração da coleta: Agradecemos-te, Senhor, por seres o pastor que nos apascenta e o juiz que nos julga. Agradecemos-te por nos podermos encontrar com o teu Filho pessoalmente nas pessoas necessitadas e por podermos nelas te servir. Pedimos e agradecemos pela promessa do teu reino. Pedimos que nos ensines a amar uns aos outros. Por Jesus Cristo, teu filho amado, que por nós morreu e ressuscitou e que continua a morrer e ressuscitar nos necessitados. Amém! Oração de intercessão: Agradecemos por teu inesgotável amor, por não abrires mão de tudo o que criaste e continuas a criar, Criador e Salvador. Agradecemos-te por nos convidares para ser teu povo e porque queres ser o nosso Deus. Agradecemoste por poder te conhecer pessoalmente nas pessoas necessitadas. Pedimos pelas pessoas doentes, perseguidas, dependentes, desaparecidas, pelas pessoas desenganadas, idosas, jovens, crianças, desempregadas e desesperadas. Restaura a dignidade delas com a tua presença nelas. Pedimos por todas as pessoas que têm responsabilidade nas comunidades sociais e religiosas, na política, economia, educação. Abre os nossos olhos para te enxergarmos nos maltrapilhos, nas pessoas doentes, sozinhas, famintas, presas. Torna-nos capazes de viver de acordo com a nova aliança que fizeste conosco em Jesus Cristo: aptos a dar os passos necessários na política, comunidade e família para que ela se torne visível; capazes de orientar os nossos passos na prática da justiça e do direito do pobre, no exercício da solidariedade e compaixão; aptos a viver o ministério do acolhimento e da reconciliação.

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Queremos comemorar a tua presença na tua Ceia, Senhor, como filhos e filhas, e viver de acordo com a tua vontade. Queremos celebrar a tua encarnação em tua palavra, como irmãos e irmãs, e viver de acordo com ela. Queremos festejar a tua entrega no Batismo, como cidadãos e cidadãs do teu reino, e seguir os teus passos. Queremos acolher-te e servir-te nos “mais humildes dos irmãos (irmãs)“ e ser-te gratos por chegares tão perto de nós. Amém! Bênção: O Senhor esteja à nossa frente, para nos mostrar o caminho certo. O Senhor esteja ao nosso lado, para nos abraçar e proteger dos perigos. O Senhor esteja atrás de nós, para nos preservar das armadilhas dos maus. O Senhor esteja debaixo de nós, para nos amparar quando caímos. O Senhor esteja dentro de nós, para nos consolar quando estivermos tristes. O Senhor esteja ao nosso redor como um muro protetor, para nos defender quando outros nos atacarem. O Senhor esteja sobre nós, para nos abençoar. Assim nos abençoe o bondoso Deus de todos os povos. Amém! (Baseado numa oração de Patrick, o apóstolo da Irlanda, falecido em 461)

Bibliografia BOCK, Carlos Eduardo. Meditação sobre Mt 25.31-46. In: Proclamar Libertação, v. XXI. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1995. p. 302-306. GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Matthäus. In: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. 6. ed. Berlim, 1986. REIMER, Ivoni Richter. Meditação sobre Mt 25.31-46. In: Proclamar Libertação, v. XXVII. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2001. p. 291-296.

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ANO NOVO: NOME DE JESUS

PRÉDICA: FILIPENSES 2.5-11

01 JAN 2008

NÚMEROS 6.22-27 LUCAS 2.15-21

Werner Fuchs

Jesus deu a volta por baixo – e vocês?

1 Concretude O período da Quaresma remete-nos ao chão da realidade: superrapinagem e corrupção, desemprego e ignorância, celebridades artificiais e rompimentos conjugais, violência sexual e exploração infantil, degradação ambiental e balas perdidas, escravos em fazendas de gado e carvoarias do século XXI. Não permite escapar para a superficialidade, ensejada pelo carnaval, pelas veleidades da propaganda e pelo comodismo. Não tolera a pregação alegórica, tão monotonamente freqüente, sempre conservadora (cf. J. Jeremias, p. 9s.) e aviltantemente fechada para o inusitado de Deus nas cruzes e encruzilhadas da vida (cf. At 14.22). Não negligencia a omissão da igreja, não é indiferente à indiferença dos cristãos e não aceita reinar no etéreo enquanto o reino é térreo. O caminho da cruz não pode ignorar as cruzes do caminho.

2 Inquietude O contexto de Filipenses 2 é de “exortação em Cristo” e “consolação de amor” (v. 1). Trata dos relacionamentos, da unidade, ou melhor, da unanimidade (v. 2), tão ameaçada por discórdia e egoísmo. A trajetória de Cristo gera fatos e afetos. No entanto, são fatos e afetos reversos: humanamente buscamos o divino, Deus busca o humano. Diante das agruras da vida tentamos “dar a volta por cima”. Diante do “privilégio” do divino Cristo “dá a volta por baixo”. Para vencer, humanos sacrificam o amor. Negando-se a derrotar, Cristo faz acontecer o amor. Esvazia-se, despoja-se, mas não se anula. Gera vida. Desconsiderar “aquilo que havia em Cristo” (v. 5) põe em risco ser humano e ser igreja. “Agarramos, dilapidamos e usufruímos nossa vida e nossa sorte realmente como ‘roubo’ [v. 6]... Paulo conhecia bem o sedutor que havia tentado os humanos no paraíso com o ‘ser igual a Deus’... Para ele (o Filho), ser igual a Deus é puro presente de amor” (de Boor, p. 207). “Forma de escravo” e “obediente” (v. 7 e 8): por nossa natureza egoísta,

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Ano Novo: Nome de Jesus

olhamos apenas para o que Cristo pode render para nós, esquecendo que ele devotava seu amor primeiramente ao Pai e à causa dele. “Reconhecido em estatura como humano” (v. 7): a compreensão disso passa pelo recurso a figuras. Por exemplo, “imaginando um pai que, ao lidar com o filho, ‘existindo na qualidade de adulto, se esvazia e assume o modo de ser de uma criança’... A verdadeira divindade de Jesus é justamente despir-se de toda a ‘divindade’ e escolher a figura de escravo. É justamente disso que é capaz somente quem é participante do poder criador de Deus” (de Boor, p. 209). Que fragilidade inquietante! “Morte de cruz” (v. 8): é morte sem Deus, morte de um maldito, é rendição ao inimigo (1 Co 15.26). Um morrer que demandou aprendizado (Hb 5.8). Desobedecer seria pecar. Ignorar o Pai seria insolência máxima: tudo é meu! Porém, não se agarrando a nada, Jesus restabelece a honra do Pai, espezinhada pelos humanos no afã de honra ignóbil. Por isso Deus o “elevou à altura máxima” (v. 9). “Nome acima de todo nome”: não lhe foi acrescentado mais um título. “Jesus”, o nome de sempre, passou a ser o nome para sempre. Diante dele se dobrará todo joelho (cf. Is 45.23), de celestiais, terrenos e subterrâneos. “Tudo o que Deus fez, faz e fará como ‘Javé’, o Deus da aliança, aquele que instituiu a comunhão com os humanos, tudo isso foi entregue a Jesus! Agora todos o descobrem e reconhecem: todo o amor de Deus aos seres humanos, toda a graça que Deus jamais demonstrou, toda indulgência, toda paciência com um mundo pecador – tudo repousa exclusivamente em Jesus, no esvaziamento, serviço e obediência de Jesus, e aconteceu unicamente por causa dele” (de Boor, p. 213s.). Isso também significa que Deus não permitirá que seja prejudicado ninguém que se esvaziar, obedecer e servir.

3 Atitude No mesmo bairro vivem duas mulheres. Ambas sofrem com as farras e traições dos maridos. A primeira, quando ele retorna das noitadas, abre a porta. Não diz nada. Não faz exigências. Não briga. Faz de conta que está tudo bem. Lava a roupa suja dele. Ensina as crianças a respeitá-lo, ainda que embriagado. Diz: Como cristã tenho de perdoá-lo. A segunda, quando ele bate à porta de madrugada, nega-se a abrir. Ele suplica: Querida, prometo que vou mudar. Não beberei mais. Ela responde: Prove primeiro que você está arrependido e mudou de vida. Então deixa-o dormir na calçada e vagar pelas ruas. Qual delas está certa? Com qual simpatizamos mais? A primeira ou a segunda? (Nas pregações realizadas, a maioria simpatizou com a segunda, a durona.) A resposta é complexa: Ambas estão erradas e ambas estão certas. Erradas: A primeira se sacrifica em favor de um relacionamento inautêntico, a segunda sacrifica o relacionamento em favor de uma vida inautêntica. A primeira anula a si mesma, a segunda anula, ou suspende, o relacionamento. Certas: A primeira se dispõe a perdoar, uma sinalização de que qualquer

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pecador precisa para ter força para mudar. A segunda exige mudança, algo a que qualquer pessoa que busca sinceramente o perdão precisa se dispor.

4 Amplitude Como se relacionar em uma igreja fossilizada, que não arrisca mais nada com Deus, que já se rendeu ao “programismo” sem fim e sem finalidade e que se nega a desmascarar falsos poderes em nome do poder de Jesus? Como pregar reconciliação quando todos acham melhor ser “politicamente correto” (em todas as linhas teológicas), posando de vítimas para não admitir culpa? Como se esvaziar sem abrir mão da dignidade e ainda gerar um relacionamento positivo? Como traduzir essa “conformidade” com Jesus (Rm 8.29), como ter o “mesmo sentimento” dele (v. 5)? Primeiramente: não dobrando os joelhos a nenhum outro exceto para Jesus. “Jesus é único...” E ele se identifica conosco. “E nós somos únicos também, criados e planejados a ser criaturas e criadores ao lado de seu domínio, fiéis à intenção última de Deus” (Bakken, p. 219). Ou seja, precisamos conhecê-lo bem. Ele, sendo rico, fez-se pobre, para nos tornar ricos (2 Co 8.9). Ele nos concederá ser livres de nosso eu, bem como criativos para arriscar e encontrar formas de relacionamento que confiem no inusitado de Deus, preservem a dignidade pessoal e apostem alegremente no engajamento das partes. Quem não dobra os joelhos para ele não sabe o que está perdendo e faz parte de um grupo em extinção: “Para que toda língua confesse...”. “No hino, o foco não é o indivíduo devoto, nem mesmo a igreja cristã, mas o evento de revelação de amplitude mundial. Deus e mundo são os poderes que determinam a cadência do salmo” (Käsemann, p. 55). Rompe-se o estreitamento eclesiástico. O alcance é universal, o horizonte é amplo. Os fatos e afetos são realidade palpável para todos. Assim, o inusitado não se torna excêntrico. Emerge a doxologia, a exaltação cabal (cf. os pastores no campo, Lc 2.15-21), e derrama-se bênção em profusão (Nm 6.22-27). Não aos demais insignificantes poderes e senhores: um só Senhor, Jesus Cristo!

Bibliografia BAKKEN, N. K. Auxílio homilético sobre Fp 2.5-11. In: MALSCHITZKY, H. e WEGNER, U. Proclamar Libertação, v. XI. S. Leopoldo: Sinodal, 1985. p. 216-220. DE BOOR, W. Cartas aos Efésios, Filipenses e Colossenses. Comentário Esperança. Curitiba: Esperança, 2006. p. 206s. JEREMIAS, J. As Parábolas de Jesus. 5. ed. S. Paulo: Paulus, 1986. KÄSEMANN, E. Kritische Analyse von Phil. 2,5-11. In: idem, Exegetische Versuche und Besinnungen, v. I. 4.ed. Göttingen, 1965. p. 51-95.

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EPIFANIA DE NOSSO SENHOR

PRÉDICA: MATEUS 2.1-12

06 JAN 2008

ISAÍAS 60.1-6 EFÉSIOS 3.1-12

Pedro Kalmbach

1 Introducción El texto de Mateo 2:1-12 debe ser interpretado a partir de su lugar litúrgico, Epifanía, la aparición-revelación de Jesús el Mesías. Hasta el siglo IV se celebraba en esta fiesta el nacimiento de Jesús. Hoy Epifanía cierra el tiempo de Navidad y señala que ese Jesús de Nazaret, nacido en Belén, es el Mesías esperado. El tema que sobresale tiene que ver con el reinado y el poder de Cristo y se caracteriza con la narración sobre los sabios de Oriente. Importa la finalidad teológica de esta narración. Ella se refiere a un hecho histórico, el nacimiento de Jesús, que debe ser atestiguado como dato histórico, ya que ese nacimiento significa – para el cristianismo – el inicio de una nueva era.

2 Observaciones sobre el texto (Mateo 2:1-12) Los que se dirigen al rey de los judíos (vs. 2) son del Oriente, personas estudiosas (astrólogos), ajenas a la tradición judía y a la revelación del Antiguo Testamento. Ellos están en búsqueda, saben el “cuándo” del nacimiento de Jesús y van a Jerusalén a informarse sobre el lugar donde podían encontrarlo. Los que saben el lugar en que debía nacer ese rey (el “dónde”) son los escribas y sacerdotes de Jerusalén (vs. 5-6), personas estudiosas del pueblo de Israel. Es interesante observar que quienes conocen la tradición judía y la revelación del Antiguo Testamento (Miqueas 5:2) no reconocen el nacimiento del Mesías, mientras que los sabios del Oriente, ajenos al pueblo de Israel y su tradición, lo reconocen y no se espantan ni se escandalizan con su humildad. Mateo quiere mostrar aquí el rechazo a Jesús por parte del pueblo de Dios (los jefes del pueblo de Israel) y la aceptación por parte de otros pueblos (los sabios del Oriente representan a pueblos con otras creencias que terminan reconociendo a Jesús como el enviado de Dios).

3 Los otros textos

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Epifania de Nosso Senhor

3.1 – Isaías 60:1-6 Este párrafo inicia una sección que se extiende por lo menos hasta el final del capítulo 62. Después de la confesión del pecado de Israel (capítulo 59) Dios renueva su pacto, el cual anuncia la luz de la nueva Jerusalén. El texto está marcado por un espíritu nacionalista, el cual contrasta con el texto de Mateo. 3.2 – Efesios 3:1-12 Antes del nacimiento de Jesús las promesas y el pacto de Dios se limitaban al pueblo de Israel. Su plan para todo el mundo todavía no había sido revelado (vs. 4-6, 8-9). Pablo reconoce que con Jesús se inicia una nueva etapa en los planes de Dios “para que la multiforme sabiduría de Dios sea ahora dada a conocer por medio de la iglesia a los principados y potestades en los lugares celestiales…” (vs. 10), es decir, a todas las naciones.

4 Énfasis teológicos – apuntando hacia la predicación Ante la revelación de Dios (Epifanía) existen diversas maneras de reaccionar y de “dejarse tocar” por ese hecho: a) Los sabios del Oriente (la elite espiritual del paganismo) están en una profunda búsqueda. Como tales representan a todos los seres humanos que están buscando algo que va más allá de la sabiduría humana, algo mucho mayor e importante que el poder de los imperios y el poder de lo que la humanidad puede fabricar. Estos sabios representan a las personas que están en camino, que dejan de lado lo conocido y seguro y se dirigen a lo prometido pero todavía no visto (es lo que Abraham también había hecho). Este “caminar/estar en movimiento” es profundamente desafiante pues para muchas personas el hecho de “ponerse en movimiento” despierta miedos, inseguridades, angustia. La naturaleza humana nos lleva a aferrarnos a las “seguridades mundanas y materiales” hasta el punto de inmovilizarnos para lo nuevo (por miedo a perder esas “seguridades”), también para lo que somos llamados por Dios. b) Los principales sacerdotes y escribas de Jerusalén conocían las escrituras, estaban informados sobre el lugar en que iba a nacer el Salvador (vs. 5-6). Sin embargo, al escuchar sobre ese nacimiento ellos no se movilizaron. Esta es otra posibilidad de reaccionar ante la revelación de Dios. Tener conocimiento teórico sobre la gracia pero no dejarse interpelar ni “beber/vivir” a partir de la misma. Estos sacerdotes y escribas representan una fe estancada, una fe de “letras”. Ellos saben todo, conocen a los profetas, conocen los Salmos y reconocen que “su lugar de nacimiento es en Belén”. Sin embargo no se les ocurre partir/ponerse en camino hacia Belén. Las ansias y

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el deseo de los sabios del Oriente contrasta con la indiferencia y quietud de los sacerdotes y escribas. Es como si dijeran: “Nosotros tenemos la Palabra, conocemos todo”. Como si fueran los dueños y administradores de la Palabra de Dios y no necesitaran buscarlo ni preguntar por Él. c) Otra forma de reaccionar es la del miedo. Cada ser humano tiene su “reino” en el cual quiere ser rey y reinar él solito. Al enterarse sobre el nacimiento del rey de los judíos, Herodes se asusta e inmediatamente planifica eliminarlo para continuar él solo como rey. La posibilidad de la existencia de otro rey ponía en peligro sus privilegios, esto le daba miedo y le producía una gran inseguridad. La narración nos muestra que aferrarse a las seguridades humanas lleva al miedo y a ataduras que no permiten la libertad. Querer manejar la vida fundamentalmente según los propios cálculos y planes no permite vivir la alegría que nos es dada por Dios. Nos cierra para lo “nuevo” y “diferente” que Dios nos da. La estrella que guió a los sabios coloca todo en movimiento, pone todo “patas para arriba” e indica cuál es el centro. En ese centro no están Herodes, ni los sacerdotes, ni los sabios. En el centro está el niño. En él reluce la gloria y la maravilla de Dios y es hacia él que se dirige todo. Los que en cuestiones de religión y de fe eran expertos no supieron discernir el centro y los que en esas cuestiones eran principiantes salieron a buscar, a averiguar, ellos estaban libres para dejarse guiar y sorprender. Preguntas a modo de reflexión: ¿Cuál es nuestra reacción/la de la comunidad ante la epifanía de Dios? ¿En qué medida nos toca y nos dejamos tocar por ello? ¿Cuál es la “estrella” que nos guía/guía a la comunidad en el camino? ¿Estamos en camino/caminando o ya resignamos y dejamos de caminar? El salto que hizo Abraham al dejar todo lo conocido y seguro confiando exclusivamente en la promesa de Dios, al igual que los sabios, muestra una búsqueda de algo que va más allá de lo que podemos ver y tocar. ¿Nos sentimos movidos y motivados por esa búsqueda confiando exclusivamente en la promesa de nuestro Dios? ¿En qué medida nos parecemos a los escribas y sacerdotes? ¿En qué medida nos parecemos a Herodes?

5 Para la celebración Oración de intercesión: Querido Dios, tú nos amaste primero y nos sigues amando. Tú enviaste a tu Hijo entregándote a nosotros y te sigues entregando. Tú te colocaste a nuestro servicio y nos sigues sirviendo. Es por eso que también nosotros podemos amar, entregándonos y sirviendo a las demás personas. Te pedimos por las personas, que al igual que aquellos sacerdotes y escribas, no están libres como para dejarse alegrar por lo nuevo que tú traes, y que no se dejan sorprender por la venida de tu Hijo a este mundo. Te

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pedimos que ablandes sus corazones y que los liberes de falsas certezas y falsas seguridades. Misericordioso Dios, pedimos por las personas que tienen miedo de perder el propio “reino” y que por eso se cierran a tu mensaje de amor, de justicia y de vida digna. Házte presente en sus vidas para mostrarles que tú eres el Señor sobre todas las cosas y el único dador de vida. Permite que ellas pierdan el miedo para entregarse confiadamente en tus manos. Buen Dios, pedimos por las personas que están enfermas. Házte presente en sus vidas, dales tu sustento para que puedan recuperarse. Otórgales el apoyo diaconal de familiares, de amigos y de la comunidad. Querido Dios, te pedimos por esta comunidad, y por todas las personas que se desempeñan en tu causa y que desean servirte. Intercedemos por todas las comunidades cristianas y por nuestra iglesia. Para que podamos ser fieles testigos tuyos en este mundo que está tan cargado de dolor y de egoísmo. Buen Dios, intercedemos por las familias que enfrentan situaciones de conflicto por causa de una crisis conyugal, por causa de la dependencia del alcohol o de otras drogas; por causa de la falta de trabajo, o de otro problema. Dales tu Espíritu para que en medio del conflicto puedan encontrar la orientación y la sabiduría necesarias y que así pueda reinar el diálogo y la búsqueda sincera de soluciones. Querido Dios, te pedimos por los que han perdido a un ser querido, para que encuentren personas sensibles y compañeras que las acompañen en el tiempo de luto. Dios Padre, todopoderoso, te pedimos por los gobernantes y por todas las personas que tienen cargos de responsabilidad en el Estado y en las demás instituciones. Ábreles el corazón y las mentes para que puedan ejercer su responsabilidad con sabiduría y sensibilidad. Para que trabajen y gobiernen en función de la dignidad de las personas y no de los propios intereses y del propio bolsillo. Dáles la sabiduría, las fuerzas y el coraje necesario. Amén.

Bibliografía BONNARD, Pierre. Evangelio según San Mateo. 2.ed. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1983. MUELLER, Hans Martin; BEUTEL, Albrecht. “Epiphanias: Matthaeus 2:112”. In: KRUSCHE, Peter; ROESSLER, Dietrich; ROESSLER, Roman. Predigtstudien fuer das Kirchenjahr 1990/91: Perikopenreihe I – Erster Halbband. Stuttgart: Kreuz Verlag, 1990.

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1º DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: MATEUS 3.13-17

13 JAN 2008

ISAÍAS 42.1-9 ATOS 10.34-43

Ari Knebelkamp

1 Introdução Na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) procura-se hoje achar caminhos para desenvolver uma ação pastoral integral e edificar as comunidades a partir do Batismo. Afinal, o Batismo é a origem da comunidade cristã e é meio da graça livre e poderosa de Deus. Liturgias batismais estão sendo moldadas para que sejam consistentes e considerem as descobertas no campo da ciência litúrgica. Isso é bom. Para a prática batismal das primeiras comunidades cristãs era importante o fato de que o próprio Jesus se submeteu ao batismo de João e afirmou, com isso, cumprir toda a justiça (Mt 3.15). Também foi importante que Jesus concordou que seus discípulos batizassem (Jo 4.2) e que Jesus igualou seu batismo à sua morte (Mc 10.38; Lc 12.50). Caso alguém queira enveredar pelo caminho temático do Batismo, sugiro que analise com cuidado também os seguintes textos e temas: At 2.38 – o perdão dos pecados; Cl 2.12,20; Rm 6.3-5 – a união com Cristo; Mt 3.16; At 2.38; 19.1-7 – a recepção do Espírito Santo; 1 Cor 12.13 – a incorporação à igreja, que é o corpo de Cristo; Tt 3.5; Jo 3.5 – o renascimento. Com essa exegese pretendo abrir outras possibilidades de pregação sobre o texto de Mateus 3.13-17. O Evangelho de Mateus foi escrito em torno do ano 85 da era cristã numa comunidade situada ao norte da Galiléia e Síria e bastante mista: tinha judeu-cristãos, provavelmente judeus observantes da Lei, judeus helenistas não-apegados à Lei e ao Templo e não-judeus. João e Jesus fazem parte de um mesmo movimento profético. O batismo de Jesus por João Batista é um fato inconteste na tradição sinótica. Desafiante é ver como cada um dos sinóticos e as comunidades pós-pascais, que elas representam, interpretam o batismo de Jesus. Apenas Mateus reproduz o diálogo entre João Batista e Jesus de Nazaré (Mt 3.14s.). No Evangelho de Mateus, é marcante a menção de elementos da cultura e da religião do povo de Israel. Não é possível entender Jesus em Mateus sem essa referência à memória do povo. Fidelidade à Lei e prática da justiça, com berço no Antigo Testamento, são dois conceitos fundamentais no Evangelho de Mateus. A justiça de Deus é sua graça, com a qual nos salva em Jesus Cristo,

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1º Domingo após Epifania

antecipando assim a realidade do reino. Nesse sentido, a justiça de Deus é sua bondade, com a qual torna as pessoas justas. A justificação que Deus concede em Cristo e a transformação da pessoa pelo Espírito, que a torna justa perante Deus, têm de levar à transformação da vida pessoal, comunitária e social, de modo que as pessoas possam viver dignamente e participar da justiça e da paz, que são dons messiânicos. Desligar a justificação neotestamentária da criação de um mundo mais justo significa separá-la do campo real do exercício mais urgente e necessário do amor.

2 Texto

“Então Jesus veio da Galiléia ao Jordão para ser batizado por João” (v. 13). O registro bíblico de que Jesus veio da Galiléia ao Jordão lembra um fato muito importante. Atesta que, de fato, a palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Andou neste mundo no qual nós vivemos. A felicidade que transforma veio ao mundo como ser humano, nascido e criado em família, falando língua humana. Saindo do meio do povo, Jesus de Nazaré apresenta-se livre e espontaneamente a João para o batismo. Expressa assim sua total entrega e abertura a Deus. Jesus insiste em ser batizado porque “convém cumprir-se toda a justiça” (v. 15). Aqui temos um belo resumo do Evangelho de Mateus. É seu eixo principal. “Cumprir” significa tornar a justiça plena. O que quer dizer “toda a justiça”? Conforme A. Baeske (PL 30, p. 49), “justiça” pode ser caracterizada como a seqüência da ação resgatadora que Deus traça, determina e impulsiona. E, ao mesmo tempo, Deus vela para que as pessoas se enquadrem em sua “justiça” (cf. Is 56.1), esperando e cobrando que andem “no caminho da justiça” (21.32). Depois do batismo, Jesus sai das águas e “então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo pousar sobre ele”(v. 16). É o Espírito de Deus que nos torna filhos e filhas de Deus, que chama a igreja para viver o seu amor e misericórdia neste mundo. A igreja cristã é uma comunidade que nasce do Espírito, da força e do poder do Espírito de Deus. É esse Espírito de Deus que cria em nós a fé que liberta. Esse Espírito confere dignidade nova às pessoas. Ele levanta as nossas cabeças abatidas, ele nos fortalece em nossas fraquezas e abre nossos olhos para o sofrimento do mundo. “Este é o meu Filho amado em quem me comprazo”(v. 17). Essa cena da vida de Jesus ganha uma especialidade essencial: o Pai rompe o silêncio da escuta e fala; o Pai apresenta o Filho como o amado. Mateus faz soar a voz do céu como um anúncio, uma proclamação. A identidade proclamada é a identidade do Filho. É do Pai que o Filho recebe a configuração de sua identidade messiânica. O profeta Isaías proclamara: “Eis o meu servo... Nele se compraz minha alma. Pus meu Espírito sobre Ele. Ele promoverá o julgamento das nações” (Is 42.1). É bom incluir nesse contexto também o Salmo 2.7. Em sua atitude de servidor do Pai, aberto a seu projeto para o mundo, o Filho tem todo o seu

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agrado e é por ele apresentado ao povo com uma missão muito definida: “Eu te constituí como centro de aliança do povo, luz das nações, para abrir os olhos aos cegos, tirar os cativos da prisão e livrar do cárcere os que vivem nas trevas” (Is 42.6-7). Pedro diz: “Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito e o poder. Ele andou por toda a parte fazendo o bem” (At 10.38). O Pai mostra seu Filho ao povo como restaurador da dignidade do ser humano. Jesus é o Filho cheio do Espírito do Pai e repleto de seu amor.

3 Meditação Mateus faz soar a voz do céu como um anúncio, uma proclamação. O próprio Deus proclama Jesus de Nazaré. É este; não há outro. Este é o meu Filho amado. Também César Augusto reivindicou para si o título de Divi filius (Filho de Deus) quando se tornou o primeiro imperador romano em 44 a.C. O termo aparece em moedas com a efígie de César Augusto. Jesus só pode ser o que Deus dele faz. Deus está presente em Jesus para sempre e para todos. Aqui o céu está aberto. Quem é Deus nota-se no jeito de Jesus. Deus é serviço nos gestos de Jesus. Nele Deus nos abre seu coração. Cristo é o Deus por nós, que quer entrar no todo de nossa existência. Em, com e sob a pessoa de Jesus e sua obra os “céus estão abertos”, inicia o novo tempo, no qual convém que toda a justiça seja cumprida. Justiça é uma palavra central no Evangelho de Mateus, que aparece em oito versículos (Mt 2.23; 3.15; 5.6,10,20; 6.1,33; 21.32). O adjetivo justo aparece 17 vezes. Mas nem todo mundo que usa a palavra justiça dá o mesmo significado a ela. Paulo diz que a justiça é dom de Deus, sinônimo de santidade e, portanto, independente da vontade da vontade da pessoa. Salvação vem exclusivamente através da graça. Do outro lado está Tiago, para quem “a fé sem obras é morta”. Mateus vai por outro caminho. A justiça do reino passa por obras concretas, práticas humanas no meio da comunidade. Mas essas práticas não são justas ou injustas por si mesmas, mas dependem de sua motivação, do “espírito que as gerou”. A nossa justiça deve ser superior à dos escribas e fariseus. Somos convidados a ver tudo com um novo olhar. Com o olhar da misericórdia e da gratidão, do perdão, do amor e do abraço. E nesse novo olhar fundamental para Mateus é o agir. Os verdadeiros discípulos são os que agem, que praticam. No sermão do monte, isso fica muito claro (Mt 5-7). Quem entrará nos céus? “Aquele que faz a vontade de meu Pai” (7.21). Como se conhece o verdadeiro profeta? “Pelos seus frutos os conhecereis”(7.16a). Quem constrói um fundamento seguro para sua vida? “Todo aquele que ouve as minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha” (7.24). Há muitos outros textos em Mateus que comprovam que a pertença ao reino de Deus depende em boa parte do agir. A fé está ligada ao agir. Jesus chama os discípulos ao seguimento, convidando-os a segui-lo e acompanhá-lo no seu agir. Seguir Jesus é agir

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com ele. E o agir há de ser dirigido por Deus.

4 Possibilidades para a prédica a) Ler algumas manchetes de jornais que colocam em evidência o individualismo e a vulnerabilidade do ser humano. Recriar, em seguida, o diálogo entre Jesus e João com acompanhamento de fundo musical. O diálogo nesse texto é de fácil recriação. Causa forte impacto nos celebrantes. b) Jesus, espelho do coração de Deus; Jesus, o Filho amado em quem o Pai se compraz, conhece a “justiça”, compreende-a, entrega-se a ela e está decidido a trilhar o “caminho” dela. Comente a justiça de Deus, relacionando-a com as manchetes dos jornais. c) Cabe-nos seguir Jesus no “caminho da justiça” em gratidão e em alegria. Qual o caminho da justiça de Deus hoje? O que é viver como justo no Brasil de hoje? d) Quando nos sentirmos amados e amadas por Deus como filhos e filhas, quando sentirmos o olhar de Deus sobre nós, teremos a força de fazer o bem aos irmãos e às irmãs. Olhares são importantes. O olhar de Deus desceu com carinho sobre Jesus em seu batismo no rio Jordão. “Este” é meu Filho amado. Há olhares que confirmam e negam. Há olhares de paixão e de compaixão. Há olhares de consentimento e de reprovação. Há olhares que menosprezam e discriminam. Olhares falam dos sentimentos da alma e do coração. Há olhares que espelham a luz da bondade e do amor. Como será o olhar de Deus? O profeta Jeremias sentiu a necessidade do olhar de Deus. “Olha para mim, Senhor...” (Jr 18.19) E Deus baixou seu olhar sobre Jeremias. Pode haver um pedido mais importante do que este: Olha para mim, Senhor? Moisés já havia clamado: “Olha, Senhor, desde a tua santa habitação, desde o céu e abençoa o teu povo”. O salmista pergunta: “O que fez o ouvido, acaso, não ouvirá? E o que formou os olhos será que não enxerga?”(Sl 94.9). Disse ainda o Senhor: “Certamente vi a aflição do meu povo que está no Egito” (Êx 3.7a). Hagar, doméstica discriminada e injustiçada, serva de Sara, mulher de Abraão, testemunhou com fé e convicção: “Tu és Deus que vê...”(Gn 16.13). Sobre quem caem preferencialmente os olhos do Senhor? O salmista responde: “Eis que os olhos do Senhor estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia” (Sl 33.18). “Os olhos do Senhor repousam sobre os justos”(Sl 34.15a). Jesus sempre tinha olhos bem abertos para as necessidades das pessoas. Via as multidões famintas e ajudava (Mt 9.36). Jesus via a fé e curava (Mc 2.5). E o apóstolo Paulo nos convida em Hebreus 12.2 a correr com perseverança a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o autor e consumador da fé, Jesus. e) O 1º Domingo após Epifania lembra que estamos ensaiando os

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primeiros passos de um novo ano. Em cada novo ano, vivemos a esperança de alcançar novas e boas margens em nossa vida e em nosso trabalho. Crer e acreditar em novas margens faz bem à vida. Eu acredito que o batismo foi para Jesus uma espécie de travessia de vida. Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, ouvi pela primeira vez a historia bíblica em que Jesus convida os discípulos a passar para a outra margem do lago de Genesaré: “Passemos para a outra margem” (Mc 4.35-41). Entendi esse convite de Jesus como um convite para colocar-se a caminho, para penetrar o desconhecido, rumo ao novo. Então a gente como jovem daquela idade vivia exatamente com esse sentimento de querer passar para outras margens, de querer conquistar novos horizontes e querer experimentar novas travessias de vida. Muitas vezes, entretanto, a viagem é dura. Há mil perigos. Há travessias que não são fáceis. Há momentos em que temos medo de que a esperança afunde. E é exatamente nesses momentos que mais necessitamos da comunhão das pessoas que acreditam que Deus está conosco nesse caminho, que ninguém menos do que o próprio Jesus Cristo está conosco no barco. E no medo e na tênue esperança nos agarramos a Jesus e clamamos: Mestre, não te importa que pereçamos? O que nos dá alento e sempre nova esperança é o fato de que sabemos que Jesus ouve nosso clamor e vem ao nosso encontro: “Acalma-te, emudece”. Eis a resposta de Jesus às forças destruidoras. E depois pergunta: “Por que sois assim tímidos? Como é que não tendes fé?”. Com essas perguntas Jesus desafia nossa fé no amor de Deus e em suas possibilidades. Requisitada é a fé de que com Deus podemos partir para outra margem, para uma nova margem. Desafiada é a fé numa vida melhor, num mundo com mais amor, com mais dignidade e justiça, num mundo de cura. Jesus procurou João Batista para ser batizado no rio Jordão, porque queria contar com o amor do Pai em suas andanças por lá. Ao deixar-se batizar, expressa assim sua total entrega a Deus. É bom contar com Deus, com seu amor e suas possibilidades e com a companhia de Jesus em nossas andanças por aqui.

5 Subsídios litúrgicos a) Utilizar a “Oração do Cuidado” que o P. Dr. Rodolfo Gaede Neto fez para a Pastoral Popular Luterana. Utilizei a mesma em diversos grupos e com pessoas diferentes. Trouxe bom conforto. “Senhor, dá-me a tua mão e conduze a minha vida. Guia os meus passos para que eu caminhe seguro(a). Sob as asas da tua misericórdia sinto-me protegido(a). No colo da tua bondade encontro descanso verdadeiro. Em dias de medo e angústia, abriga-me em teu poder. Em momentos de ansiedade, faze cair sobre mim a tua paz. Ao sentir-me fragilizado(a), ajuda-me a ter esperança. Cuida de mim e dos meus amados. Cuida do meu destino. Quando

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a culpa me acusar, acolhe-me em tua graça. Absolve-me do pecado e faze-me renascer do teu perdão. Se eu cair, permita que eu caia em tuas mãos. Se eu permanecer caído(a), dá-me a tua companhia. Seja como for, cobre-me com o manto do teu amor. Graças, pelo teu cuidado, graças pela salvação. Agora dá-me a bênção que tanto anseio. Amém.” b) Poema para ser lido no início do culto ou antes da meditação (O Evangelho de Mateus – em versos e prosas. Severino Batista. Série: Palavra na Vida, n. 146, Centro de Estúdios Bíblicos): Jesus foi até o Jordão A fim de ser batizado. Mas João se recusou: Eu não sou capacitado. Jesus disse: Você precisa De fazer o meu mandado. Quando ele foi batizado, Logo da água saiu E lá os céus se abriram E sobre os céus se viu Em forma de uma pomba O Espírito Santo assistiu. Do céu baixou uma voz E disse pra multidão Todo cheio de amor Ao filho da redenção: Eis aí meu filho amado, A quem dou minha afeição. c) Moldar e/ou formular orações, lamentos, glórias. Deve ser tarefa da equipe de liturgia (da qual o pastor ou a pastora fazem parte), pois são tarefas que requerem o conhecimento da proposta temática do culto, bem como do contexto onde o mesmo é celebrado.

Bibliografia BATISTA, Severino. O Evangelho de Mateus em Versos Populares – A Palavra na Vida 146. CEBI, 2000. A Palavra na Vida. O Evangelho de Mateus. Encontros Bíblicos. CEBI, 1999.

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2º DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 1.1-9

20 JAN 2008

ISAÍAS 49.1-7 JOÃO 1.29-42

Antonio Carlos Ribeiro

1 Introdução A poesia, a poesia verdadeira é sempre epifânica; ela revela, e a beleza dela é isto. A beleza não é o assunto... Em arte, a beleza não do tema, é da forma. E se a beleza está na forma, qualquer assunto me serve, qualquer coisa é casa da poesia... Por isso é que a Bíblia e todas escrituras sagradas de todas as religiões sobrevivem há milênios, há séculos e séculos, por causa da linguagem. Adélia Prado

é as

A teologia da cruz exige incondicionalmente tanto a demitização como a interpretação existencial; exige-as mais radicalmente do que o fazem a imagem do mundo e a autocompreensão modernas, porque a cruz de Cristo volta-se constitucionalmente contra toda ilusão religiosa e remete o homem à sua humanidade. Ernst Käsemann Os textos bíblicos indicados para este domingo apontam caminhos de graça e esperança. No livro do profeta Isaías (49.1-19), o Dêutero-Isaías descreve o servo do Senhor como alguém chamado para animar seu povo a celebrar a própria história de caminhada com o Senhor, a manter viva a esperança de libertação do exílio, a descobrir sua vocação de inclusão dos gentios, a superar a condição de escravos e a preparar-se para o retorno à sua terra. O Evangelho de João mostra o testemunho do Batista sobre Jesus e como este se submete ao batismo nas águas para assumir, em seguida, o ministério a que era chamado. Após ser chamado de Cordeiro de Deus, começa a ser seguido; os novos discípulos se entusiasmam e logo outro é incluído no grupo. A missão do anúncio da graça baseia-se em pessoas e em seu testemunho. O texto da pregação, baseado no proêmio da primeira carta de Paulo

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2º Domingo após Epifania

aos Coríntios, mostra um Paulo que anuncia a graça à comunidade, desde o nascimento sustentada pela graça, comprometida com o testemunho do Cristo e à qual não faltam dons espirituais para a prestação desse serviço aos gentios. O elo comum entre os textos é o testemunho da fé como tarefa confiada a pessoas mantidas pela graça, compromissadas com seu anúncio e firmadas na fidelidade de Deus. O auxílio homilético para essa perícope aparece pela quarta vez em Proclamar Libertação (V, XVI, XXVIII e agora). Nas três primeiras, mais de uma década separa uma da outra, fato que interfere na exegese e nos arrazoados de natureza pastoral. As outras variações ficam por conta da falta dos dois primeiros versículos numa abordagem e da elaboração do auxílio, levando em conta os versículos 4 a 9. O presente auxílio volta a considerar os versículos desde o início do capítulo.

2 Exegese O texto discorre efetivamente sobre a graça de Deus. Desde a graça em si mesma, concedida a todos, até o sentimento próprio de quem a experimentou, gratidão, passando pela graça como saudação apostólica à comunidade de fé. Seguem algumas considerações exegéticas desse breve texto. Ao saudar a comunidade (v. 1-3), Paulo demonstra a consciência de também ter sido contemplado pela graça e que aquela comunidade também foi (v. 4), enfatizando que a graça se mostrou no enriquecimento humano e espiritual da comunidade (v. 5-6) e especialmente na profusão de dons distribuídos às pessoas daquela localidade (v. 7). Paulo começa a carta apresentando-se como “chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo” (v. 1) e ao companheiro Sóstenes. A expressão diá thelêmatos Theóu explica as palavras iniciais klêtós apóstolos, como observa Barbaglio. Ele sente-se confiante pelo fato de que pessoas expressivas na comunidade de Jerusalém já haviam aceito e confirmado sua missão ao mundo gentio. Não aposta na ruptura e nem na afirmação pessoal, mas insiste em manter-se na comunhão da comunidade de fé. A carta é dirigida “à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus” (v. 2). Já aqui ele afirma a convicção de que Deus atua em todo lugar. Ele não está circunscrito aos limites de uma compreensão teológica e nem amarrado às históricas paredes do Templo de Jerusalém. Até na distante Corinto, situada fora da chamada Terra Santa, ele sustenta a vida da comunidade. Por essa razão, mesmo em outro lugar, a comunidade que se reúne em nome de Cristo é chamada a ser santa. Pelo Espírito é possível ser comunidade cristã e ser santa em todo lugar, deles e nosso, como deles e nosso é o mesmo Senhor Jesus Cristo. A igreja nasce de uma história que envolve Deus e o homem, segundo uma aliança firmada e uma parceria vivida fielmente. O v. 3 traz a saudação à comunidade, baseada na graça, e lembra a livre

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dádiva de Deus aos homens através de Cristo. Esse proêmio, com a ação de graças, é próprio dos escritos paulinos bem como de cartas circulares, mas ele se atém obstinadamente às questões locais. A graça não aparece apenas na saudação, mas é um tema forte no texto. Dar graças ou ações de graças é uma expressão sempre presente no início das cartas paulinas. Nesse caso, essas graças não são por algo que os coríntios fizeram por seus próprios esforços, mas pelo que a graça de Deus em Cristo realizou neles e por intermédio deles (v. 4-5). Mesmo a vida espiritual rica e poderosa na igreja de Corinto não surge pela intervenção de qualquer outro fator, mas é resultado da graça, observa Wendland. Ao dizer “Dou graças a meu Deus”, Paulo deixa transparecer sua emoção pessoal, integrando seu ensino pastoral à sua vida de seguidor de Cristo. Ele bem compreende que graça é dádiva, dom e presente de Deus. Só quem se sente agraciado nutre gratidão. Intuiu bem Lutero, ao ler Paulo, que “somos mendigos. Isso é certissimamente verdade!” Essa convicção de viver por graça cria espaço para o sentimento que se contrapõe a ressentimento, rebeldia e ingratidão. O testemunho de Cristo é confirmado nos coríntios, porque aquilo que tanto os enleva, a graça, é um dom de Deus, pura gratuidade (v. 6). Veio do Verbo, de Deus, e encontrou boa receptividade entre eles. Por isso se confirmou neles (os fez cada vez mais firmes) e os tornou mais confiantes na vida a partir da graça, que assim foi enriquecida (v. 7). No entanto, a constatação de que os coríntios experimentam efetivamente a salvação suscita perguntas: O que você possui que não tenha sido recebido? E se foi recebido, por que orgulhar-se como se já fosse seu mesmo? Essa compreensão da graça como dádiva permite que Paulo levante suspeitas pelo exagero e contraste, usando figuras de linguagem como hipérboles – “em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento; assim como o testemunho tem sido confirmado em vós” (v. 5-6) – e antíteses – “de maneira que não vos falte nenhum dom, aguardando vós a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos confirmará, para serdes irrepreensíveis” (v. 7-8). Como a dizer: é verdadeiro, está presente na comunidade, mas é dádiva. Por isso a mesma comunidade é também marcada pela imperfeição e incompletude. Uma postura de arrogância subjetiva de quem experimenta o carisma, exalta-se e se fecha em sua própria experiência; e erige a mesma como medida absoluta da verdade cristã, não encontra condescendência alguma por parte do apóstolo, lembra Barbaglio. A recomendação é fruir do dom e aguardar com assídua expectativa (apekdéchesthai, v. 7). Amparada em Cristo, nenhuma acusação pode ser lançada contra a comunidade (v. 8). A irrepreensibilidade resulta da conjugação da pregação (logos), do conhecimento teológico (gnosis) e da maturidade pessoal (charisma), para lidar com situações complexas. Desse modo, a comunidade de Corinto é inserida na trama da história da salvação. O v. 9 assevera a fidelidade de Deus. Ele manterá seu pacto, expresso na cruz de Cristo. A comunhão com Cristo não é apenas uma realidade futura, mas já presente por causa da comunidade, porque ao ser chamada, é vinda,

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lembra Wendland. É fundamental observar que a intenção desse proêmio é admoestar para a vida na graça. A comunidade é orientada a abandonar o que nega a graça e agarrar-se a ela. Isso envolve decisão. A proposta de Paulo ao chamar a comunidade a viver pela graça não é ortodoxa, mas ortopráxica. A visão é pastoral. Ele crê e por isso quer que as pessoas se apeguem ao evangelho e tenham uma vida mais plena. A ação de Deus em Cristo na vida é profundamente rica e enriquecedora e não pode ser malbaratada egoisticamente. O cuidado a ser tomado é não desperdiçar a riqueza da graça em projetos menores, mantendo sempre um olhar abrangente. Um exemplo é a atitude de Lutero, que não se deixa usar ideologicamente e nem perde o senso crítico, por enxergar, “a partir de sua mensagem, a hora histórica de seu povo, ele vê a grandeza do presente divino e a tarefa de seu povo; ele, porém, também vê o aumento do abuso da liberdade evangélica, ele vê a ingratidão em relação ao bem confiado, ele vê o desprezo à palavra de Deus” (MARON, G. Luther und die ‘Germanisierung des Christentums’. Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1983 (94):335). Só quem valoriza a graça estrutura sua vida e trabalho nela e sofre quando ela é desprezada.

3 Meditação: A graça que ilumina e compromete A reflexão sobre o seguimento de Cristo (Nachfolge), de Dietrich Bonhoeffer, ainda hoje desperta a atenção. Seja pelo testemunho de sua vida, seja por conseguir mostrar a relação entre alegria e compromisso, seja pelo jogo de palavras com que expressou seu raciocínio: A graça é cara porque apela para o seguimento, é graça porque chama para o seguimento de Jesus Cristo; é cara porque custa ao homem a vida, é graça porque somente dela recebe a vida; é cara porque condena o pecado, é graça porque justifica o pecador. É uma graça cara sobretudo porque custou caro a Deus, porque lhe custou a vida de seu filho (fostes comprados por um alto preço) e porque o que custa caro a Deus não pode ser barato para nós.

Ao ler sobre a graça, que é o centro do testemunho da fé cristã, da confiança desse mistério a pessoas, confiantes apenas na promessa de ser mantidas na graça e que se comprometem com seu anúncio, firmadas apenas na fidelidade de Deus, damo-nos conta da densidade da missão do evangelho. Nos textos lidos, especialmente o da prédica, as pessoas abandonam-se por decisão pessoal à vontade de Deus. Isso não lhes é exigido, mas surge como uma extensão de seu seguimento. Exatamente aí residem seu valor e sua gratuidade. O valor é o do preço a ser pago para ser discípulo. A gratuidade é que o seguimento envolve sensibilidade, opção e decisão. O seguimento também é ambivalente. Não cobra do seguidor os seus

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recursos, o seu trabalho, a doação de sua herança ou a sua dedicação absoluta. Cobra a sua vida. Isso é possível porque esse é o sentido que sua vida adquire pelo discipulado que diante dele qualquer sacrifício parece pequeno. A entrega de uma dessas coisas poderia parecer muito grande, mas se torna inexpressiva diante da entrega da vida. É o dilema do cristão que, pela fé, é senhor plenamente livre e, pelo amor, se faz servo. Mesmo que isso não lhe tenha sido exigido, ele assim faz por vontade. O preço está associado aos conflitos que passa a assumir em conseqüência da radicalidade de sua decisão. Pode tornar-se alto e até insuportável, mas a possibilidade de corromper-se fica afastada, porque a pessoa está tão identificada com quem agiu de forma graciosa, que ela não pode agir de outro modo. Da mesma forma, vai ao encontro das pessoas, a destinar-lhes o mesmo tratamento gracioso. E mesmo em situações de muita dor, até pessoal, dispõe-se ao perdão. Para nele também se abandonar. E tornar a achar-se! Essa mesma graça não minimiza, não nega o valor, não desperdiça significado autêntico. Mas dimensiona com generosidade, atribui valor e dispõe-se a mensurar. Não fecha questão com a aplicação de um raciocínio lógico e excludente, mas abre espaço à verdade legítima, além da que ele próprio professa. Por último, porque também para Deus há preços a ser dimensionados e avaliados. Ao entrar na história humana pela encarnação, Deus dispôs-se ao dimensionamento e à avaliação, chamados de kénosis por Paulo. E é nessa condição que Jesus ama até o limite de doar a vida por aqueles a quem ama, para todo aquele que crê, como registrou a comunidade joanina da boca do próprio Jesus. Um amor includente do terceiro incluído, que não distingue A de não-A, para quem, por isso mesmo, a diferença de uma verdade pode ser outra verdade. A distinção entre caro e barato não resulta da aplicação de um raciocínio, frente ao qual uma condição é aceita ou rejeitada. Caro e barato podem ser mensurados pelo muito amor ou pelo pouco amor. Por vezes, a vida farta e exuberante não é valorizada em si mesma e torna-se barata. Até descartável. Outras vezes, a vida frágil, em condições difíceis, que se mescla à morte de tão Severina, torna-se preciosa. O valor é dado pelos que amam. Ao celebrar a Epifania do Senhor, lembremos que trazer à luz é revelar, mostrar, anunciar. É assim que a comunidade olha para a criança levada ao templo e, por isso, trazida à luz. Ao viver pela graça, a comunidade cristã revela: Eis o mistério da salvação!

4 Imagens para a prédica A comunidade é convidada a refletir sobre a Epifania, pensando no impacto das imagens abaixo: Uma primeira imagem a comunicar, inclusive do ponto de vista afetivo,

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é ter claro que não se exige que o gesto seja grandiloqüente. Pode ser um gesto simples, tirado do cotidiano. Um exemplo é o da criança que acordou de manhã bem cedo, foi ao quarto dos pais e perguntou: Vocês não vão levantar? Ao que o pai indagou: Por quê? O dia já amanheceu? O menino respondeu intrépido: Já! As coisas já têm cor! Uma segunda imagem para refletir sobre a Epifania e o impacto de trazer à luz é a atitude que as pessoas tomam após levantar-se: abrir as cortinas e as janelas da casa, sobretudo dos dormitórios, para deixar a luz clarear e aquecer os cômodos e para o vento arejar o ambiente. Uma terceira imagem é aquela da perplexidade. Quando estamos perplexos, sentimo-nos perturbados como se estivéssemos andando numa floresta perigosa. De repente, cai a noite e somos tomados pela angústia. Surgem muitas perguntas: O que fazer? Continuar em meio às trevas? Ou aguardar o amanhecer?

5 Subsídios litúrgicos Saudação: A saudação pode ser feita pelo celebrante ainda com as luzes do templo e as velas apagadas. Chamar a comunidade para refletir sobre a Epifania do Senhor, quando Jesus é trazido ao Templo. Ao pensar nas crianças, às quais em muitas ocasiões não se dá a devida atenção, o dirigente anuncia que elas vão trazer uma saudação a todos os que se reúnem para a celebração. Em seguida, as crianças entram, as luzes e as velas do altar são acesas e elas dão as boas-vindas a todas as pessoas, com abraços e beijos. Após o gesto, o celebrante comenta: Assim Deus nos quer acolher neste lugar para a celebração, afetivamente. Sintam-se acolhidos e acolhidas com esse autêntico gesto de amor! Confissão de pecados: Estamos aqui, Senhor, para trazer à luz as nossas faltas, nossos equívocos e nossas mazelas! Não suportamos mais guardá-los em nosso interior. Recebe o que vem de nossa escuridão existencial e preenche-nos com a tua luz, que vence as trevas, ilumina nossos sentimentos e intenções e dá-nos o calor necessário para viver em comunhão. Ajuda-nos, confiantes em teu amor e graça, a viver na esperança, em tua presença e sob os teus cuidados. Tem piedade de nós, Senhor! Oração do dia: Graças, Senhor, pela vida que nos dás! Pois cada manhã nos brindas com o presente da vida e nos dás a possibilidade de começar novamente. Sabemos que estás nos acompanhando até nas provas mais duras e nos abres novas portas a desafios e experiências. Com tua ajuda podemos transformar

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este mundo num jardim cheio de árvores e flores formosas, com gente que respeita, que valoriza, que ama e se arrisca pelo outro. Louvamos-te porque grandes são tua presença, tua ajuda e tua bondade! Amém. (Selah) Oração final: Para este momento, a comunidade é convidada, após a oração de despedida, o Pai-Nosso e a bênção, a cantar o hino “Em nossa escuridão”, em cânone. Em nossa escuridão, acende esse fogo que não apaga não, que não apaga não! Em nossa escuridão!

Bibliografia BARBAGLIO, Giuseppe. As cartas de Paulo (I). Trad. José Maria de Almeida. São Paulo: Loyola, 1989. WENDLAND, Heinz-Dietrich. Le Letteri ai Corinti. Trad. de Gianfranco Forza. Brescia: Paidéia, 1976. 3º DOMINGO APÓS EPIFANIA Isaías 9.1-4 Mateus 4.12-23 1 CORÍNTIOS 1.10-18

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ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: ÊXODO 24.12-18

03 FEV 2008

MATEUS 17.1-9 2 PEDRO 1.16-21

Valdemar Lückemeyer

1 Introdução O último Domingo após Epifania encerra um período do calendário eclesiástico, a saber, o período entre Natal e Quaresma. O calendário eclesiástico quer-nos ajudar ao lembrar que o tempo da luz, iniciado com o nascimento de Jesus Cristo, continua brilhando. É o tempo entre o nascimento, a manjedoura e a morte de Jesus, a cruz. A comunidade certamente não tem clareza sobre o conceito “Epifania”. Natal e Quaresma são épocas e datas do calendário eclesiástico bem claras para a grande maioria. Por isso, entre outras, convém lembrar a comunidade desse período, seu significado, seu específico: Deus revela-se, apresenta-se, veio ao mundo em Jesus, o nascido em Belém. Ele é o Messias, o Salvador. “Ouçam-no!” Jesus é o Senhor. Nele Deus se revelou – disso falam as duas leituras bíblicas deste domingo. 2 Pedro 1.16-21 ressalta que o senhorio de Jesus Cristo não é algo inventado ou sonhado por algumas pessoas, por alguns fanáticos seguidores seus, mas é realidade que se baseia no testemunho ocular dos apóstolos. Eles estão falando e anunciando o que viram e ouviram: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. O senhorio de Jesus estava sendo questionado e não aceito por alguns. A eles Pedro, em sua segunda carta, responde não com argumentos racionais, mas usa apenas o testemunho ocular como argumento: “Nós vimos e ouvimos”. Nós não temos outras garantias, apenas a palavra, o testemunho apostólico. E assim como os apóstolos, também as profecias apontam para Jesus: ele é o Deus conosco, que traz luz (epifania), que afasta as trevas, que vem trazer a verdade que salva. Mateus 17.1-9 sublinha o que já se ouviu por ocasião do batismo de Jesus (Mt 3.13-17): “Este é o meu Filho amado, em que me comprazo”. Este Jesus, incompreendido por alguns, não aceito por outros, é o enviado de Deus. Deus revela-o nesse encontro extraordinário, divino, incomum no alto de um monte. A Bíblia privilegia montes como o lugar onde Deus se manifesta e se comunica (Gn 19, 22 e 24, entre tantos outros).

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2 Considerações exegéticas É muito provável que em Êxodo 24 encontramos relatos de duas fontes literárias distintas: uma, a mais velha, relata a caminhada, a peregrinação do povo de Deus pelo deserto após a saída do Egito. A migração em direção à Terra Prometida tem sua tradição conhecida e fixada. A outra fonte, a mais nova, é o bloco que descreve os acontecimentos do Sinai, deserto e monte do Sinai. Moisés recebe orientações de Deus quanto às celebrações, à preparação e ao local do culto. Os v. 12-18 formam a introdução para o momento extraordinário do encontro de Deus com Moisés, quando esse recebe as tábuas da lei. Curiosa é a dupla menção de que Moisés subiu ao monte (v. 13 e 15). Provavelmente se trata de inserção posterior, é “montagem” de vários blocos outrora isolados e separados. Moisés sobe ao monte, onde deve ficar por um longo período. Ali recebe as tábuas de pedra. Essas contêm, conforme acréscimo e informação posterior, a lei e os mandamentos (v. 12b). Moisés leva seu ajudante, seu servidor Josué junto e deixa como zeladores e protetores do convívio do povo dois representantes, dois presbíteros: Arão e Hur. Muito pouco é dito sobre suas funções, além de ajudarem na busca de soluções em casos de dúvida e de conflito. Com o v. 15b inicia um bloco novo da fonte do Escrito Sacerdotal (P): inicia em 24.15b e vai até 31.18, onde é descrito detalhadamente que Moisés recebe todas as orientações para organizar e regularizar o local santo para as celebrações, para o culto. Esse bloco está ligado ao cap. 19.1 e 2. A glória de Deus revela-se na nuvem – a nuvem e o monte evidenciam a presença de Deus. Para a teologia deuteronomista, Deus mora no céu; na terra Ele colocou seu nome no local do culto, local sagrado – posteriormente no templo. A “glória de Deus”, isto é, sua grandeza, sua excelência, sua majestade, sua imponência, é exclusiva, propriedade apenas de Deus, embora ela preencha toda a criação (Is 6.3) e esteja presente nas revelações de Deus. A tradição do Sinai contrasta também com a tradição do Êxodo no que se refere à compreensão de Deus. São duas teologias, duas maneiras diferentes de falar de Deus: “O culto a Javé realiza-se, inicialmente, num determinado local. Peregrina-se para adorar esse Deus. Javé distingue-se, pois, do culto do Deus dos pais. O Deus paterno comemora uma divindade acompanhante; Javé comemora um Deus local. Não é um Deus que vem. A gente é que vai a certa localidade para encontrar-se com Deus. O local da celebração é um monte. ‘Javé é uma divindade de montanha.’ Ao estar vinculado a um lugar, o divino como que requer que o crente peregrine a um local específico, onde se dá a manifestação, a teofania. A teofania de Javé está relacionada a fenômenos da natureza, como no-lo atestam diversos textos” (Milton Schwantes, em História de Israel – local e origens, polígrafo editado em 1984, p. 156s.). Para o Escrito Sacerdotal, é importante o fato de que no evento do Sinai Deus transmitiu todas as orientações para estabelecer o culto. É preciso observar todos esses detalhes, todas as descrições para que Deus possa ser

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adorado corretamente. Ele mesmo ordena e orienta todos os detalhes para a perfeita celebração. Isso legitima o culto, isso o fundamenta, pois é ordem divina. Interessante que a descrição do local do culto e todos os seus pormenores aqui no deserto estão orientados claramente no futuro templo em Jerusalém. Para o Escrito Sacerdotal, o local sagrado, por excelência, é o templo em Jerusalém. Ele detém e contém todas as orientações do evento do Sinai. Dois números simbólicos aparecem nesse relato da apresentação (teofania) de Deus: no sétimo dia, Deus chamou Moisés e este ficou 40 dias e 40 noites no alto do monte.

3 Meditação Último Domingo da Epifania – É tempo de celebrar a presença gloriosa de Deus em nosso meio. Ele revelou-se. Disso ouvimos no Natal. Disso fomos lembrados nesta época de Epifania, que se encerra neste domingo. Deus revela-se a seu povo. Vem a seu encontro e deixa as suas orientações e recomendações para que sejam ensinadas e obedecidas. O pacto que Deus fez com o povo por ocasião da libertação da escravidão tinha justamente como fundamento o compromisso mútuo: “Eu sou o vosso Deus, vós sois o meu povo” (Êx 6.4,6; 19.5 e outros), se “diligentemente ouvirdes a minha voz, guardardes a minha aliança” (Êx 19.5). Deus revela-se através de manifestações miraculosas, extraordinárias. A manifestação, embora quase indescritível, é descrita da forma como foi experimentada e vivenciada. Assim Deus se comunica, assim Ele age para vir ao encontro de seu povo, a fim de ajudá-lo. Na revelação no monte Sinai, Moisés recebeu a lei e os mandamentos para que servissem de orientação para o povo da aliança. E, como não poderia deixar de ser, também são ressaltadas com ênfase a grandiosidade, a majestade e a extraordinária beleza desse Deus único, que exige exclusividade: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim” (Gn 20.2s.). Ao descer do monte, Moisés repassou e ensinou o que havia recebido. Ele testemunha a respeito da vontade e do projeto de Deus. Esse testemunho é transmitido por Tiago e João quando regressaram da experiência extraordinária, miraculosa que presenciaram “no alto de um monte” (Mt 17.1): Jesus, o filho de José e Maria, é o Messias, é o Filho de Deus, é o Emanuel, o Deus-conosco! “A ele ouvi” (17.5) é ressaltado de forma enfática. Os discípulos, pois, não foram presenteados com uma visão ou com uma experiência fantástica em suas vidas, mas lhes foi afiançado: “Este é o meu Filho amado, a ele ouvi”. Ele anuncia a vinda do reino de Deus e aponta para a nova aliança que Deus quer fazer com seu povo. Ele lança as bases dessa nova aliança e chama para o discipulado. Chama para o discipulado e aponta para a cruz, pois este é o caminho. “O escândalo da cruz era uma pedra de tropeço muito grande para a evan-

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gelização dos judeus (cf. 1 Co 1.23). Como fazer com que acreditassem que um homem, condenado por dois tribunais e morto escandalosamente numa cruz, fosse aceito como Messias? Só mesmo podendo provar que o sofrimento e a cruz entravam no plano de Deus, descrito no Antigo Testamento. A transfiguração respondia a esse problema e fazia ver que, conforme o Antigo Testamento, a cruz era o caminho do Messias para a glória... A narração confirmava a autoridade de Jesus Cristo: Ele era lei e norma para o cristão: Escutai-o!” (Carlos Mesters, em Deus, onde estás?. Editora Vega, 1974, p. 184). O relato da transfiguração procura, pois, clarear a verdade a respeito desse Jesus: ele, filho de José e Maria, é o Filho de Deus, o Messias. “Há nele um escândalo que não foi eliminado pela Páscoa e que persiste até hoje, também na igreja cristã. Consiste no que o apóstolo Paulo chamou de ‘tolice da palavra da cruz’ (1 Co 1.18s.). Uns enxergam nele um segundo João Batista, outros a reaparição de Elias, outros ainda crêem na volta de um grande profeta. O juízo do povo, pois, revela estima e alto grau de apreço. Mas ele fica claramente aquém do limiar da fé” (G.Brakemeier, em O ser humano em busca de identidade. Editora Sinodal e Paulus, 2002, p. 29). Assim como Deus outrora se revelou a Moisés, agora ele se revela em Jesus, ou seja, Jesus revela o mesmo Deus que se revelou ao povo de Israel como Deus libertador e salvador. Disso os discípulos são testemunhas, disso os discípulos dão testemunho em todos os tempos e lugares. Sim, esse mesmo que toma o caminho da cruz.

4 A caminho da prédica Um comentário de Jörg Zink (Die Urkraft des Heiligen. Christlicher Glaube im 21. Jahrhundert. Stuttgart, 2003): “O que distingue a fé cristã de todas as demais formas de piedade humana não é nada além de uma simples e mera figura da história. É a pessoa do homem simples de Nazaré, e ninguém mais, e o que ele disse com palavras simples para as pessoas pobres e exploradas da Galiléia. Ele sempre ficará um pouco distante. Nós não temos nenhuma frase escrita por ele, nenhuma descrição de sua aparência ou de seu caráter. Nós não sabemos de nenhuma palavra dele que nos foi transmitida, se ele realmente a disse. O que nós temos são apenas confissões (testemunhos) de pessoas que conviveram com ele ou que dele ouviram. Eles relatam o que esse Jesus operou neles, o que ele mudou neles, o que deles resultou após o encontro com ele”. O que Deus fez com seu povo da primeira aliança, o que Deus fez e continua fazendo com seu povo da segunda aliança, na qual nos incluiu por sua graça e bondade, até pode ser uma afirmação que vale para toda a mensagem bíblica, mas com certeza é o tema do nosso texto em estudo. “Quando dizemos o que cremos, nós estamos dando um testemunho de nossa fé. No Antigo Testamento, o povo de Deus experimentou, por diversas vezes, que Deus é fiel e não abandona as pessoas que o temem. A saída da

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escravidão no Egito foi o sinal mais forte da presença de e da força de Deus. Também a proteção no deserto foi muito importante. Durante todo esse tempo, os israelitas tiveram contato com outros povos, que acreditavam em outros deuses. A partir daí surgiu a pergunta: Será que nosso Deus é igual aos deuses dos outros povos? Para falar de sua fé, o mais importante não era dizer como Deus era, mas o que Deus fez e faz em seu favor” (Passos na Fé, Ensino Confirmatório, 2º ano, fascículo 6, Editora Sinodal, 2001, p. 4). A prédica abordará o que Deus fez: – revelou-se a Moisés, incumbindo-o de ensinar ao povo as suas leis e seus mandamentos; – revelou-se em Jesus Cristo, frisando “a ele ouvi!”; – os discípulos revelam, através de seu testemunho, “o que viram e ouviram”.

5 Subsídios litúrgicos Versículo de acolhida: “Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei” (Sl 2.7). “Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos ante o seu santo monte, porque santo é o Senhor, nosso Deus” (Sl 99.9). Kyrie:

No mundo há muito sofrimento e dor causados por falsos deuses. Por todas as pessoas que sofrem sob a tirania e a opressão de falsos deuses queremos clamar ao Deus libertador: “Tem, Senhor, piedade”. Glória: Em Jesus Cristo Deus mostrou ao mundo a sua proximidade; mostrou que acompanha e serve aos seus, oferecendo-lhes perdão, dignidade, vida. Por isso vamos louvar esse grandioso e glorioso Deus, cantando alegremente: “Glória”. Confissão: Misericordioso Deus, nosso único Senhor. Chegamos diante de ti para te confessar que somos como teu povo de outros tempos, pois também nós somos um povo de “dura cerviz”, um povo teimoso e desobediente. Mas tu vens e revelas o teu projeto. Tu vens para nos ajudar. Tu queres nos guiar por teus caminhos, caminhos de vida, de amor e de solidariedade. Entregaste a nós os teus mandamentos. Nós não os cumprimos. Eles justamente nos revelam a nossa fraqueza. Perdão, Senhor, que não te amamos acima de tudo e em primeiro lugar. Perdão, Senhor, por termos sido preguiçosos e até omissos na prática do amor ao nosso próximo. Seja bondoso conosco mais uma vez e, em nome de Jesus Cristo, pedimos por teu perdão. Amém. Oração de coleta:

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Amado e bondoso Deus. Tu és fiel e não abandonas o teu propósito de caminhar com o teu povo. Obrigado que tu vens a nós, animando-nos para a vida de fé, fortalecendo-nos para toda a boa obra. Que a tua santa Palavra nos oriente para nosso testemunho claro e corajoso. Em nome de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor e Salvador, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo para todo o sempre. Amém. QUARTA-FEIRA DE CINZAS JOEL 2.1-2,12-17 Mateus 6.1-6, 16-21 2 Coríntios 5.20b-6.10

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1º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: MATEUS 4.1-11

10 FEV 2008

GÊNESIS 2.15-17; 3. 1-7 ROMANOS 5.12-19 Silvia Beatrice Genz Dalcido Gaulke

1 Introdução Os textos do presente estudo tiveram uma abordagem exegética muito boa no Proclamar Libertação nº IV, por Walter Altmann, e no nº 27, por Augusto E. Kunert. Abaixo transcrevo parte da exegese de Augusto Ernesto Kunert, pois nem todas as pessoas têm acesso ao Proclamar Libertação 27.

2 Momentos de exegese O deserto e o jejum de 40 dias lembram situações vividas por Moisés. Ele enfrentou a solidão e esteve por 40 dias no Sinai (Gn 24.19). Temos aí duas situações marcantes. Moisés recebe no Sinai os Dez Mandamentos, a lei que orienta a vida do povo de Israel. Jesus, depois de 40 dias de reflexão e oração em jejum, obediente ao Deus do primeiro mandamento, inicia o caminho da reconciliação. Enquanto os Dez Mandamentos são a expressão da primeira aliança, a reconciliação pela cruz de Jesus é a expressão da segunda aliança de Deus com o seu povo. As citações no v. 4 (“Não só de pão vive o homem”), no v. 7 (“Não tentarás o Senhor teu Deus”) e no v. 10 (“Ao Senhor teu Deus adorarás”) estão relacionadas com situações vividas pelo povo de Israel durante sua peregrinação pelo deserto. O povo passa pela escola da disciplina e da obediência. Os textos de Êxodo 4.2 (“Israel é meu filho”) e Deuteronômio 8.5 (“Como um homem disciplina o seu filho, assim te disciplina o Senhor teu Deus”) dão a entendê-lo assim. Israel e Jesus passam pelo caminho da obediência (NTD, p. 29). Satanás sabe que Jesus é o Filho amado de Deus. Quer que Jesus desobedeça ao Pai. Uma vez conseguido esse objetivo, o resto, bem, o resto seria o resto com sua terrível conseqüência para a humanidade. Jesus permaneceu obediente e venceu o opositor: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto” (v. 10). A resposta de Jesus lembra o conteúdo do Shemá Israel em Deuteronômio 4 e 5, que convoca o israelita a confessar, obedecer e amar a Deus “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”. Essa, diz Voigt, “é a maneira mais sublime de manifestar a obediência ao primeiro mandamento” (Voigt, p. 159). A tentação de Jesus e a atitude dos escribas e anciãos na crucificação apresentam semelhança. Nas duas ocasiões, a provocação é instrumento da tentação. Em Mateus 4.3 lemos: “Se és filho de Deus, manda que estas pedras...” E em Mateus 27.42, os escribas e os anciãos escarneciam: “Salvou a outros, a si mesmo não pode salvar-se”. A multiplicação dos pães, segundo João 6.14 e 15, mostra a importância do milagre como identificação do Messias, como rei secular, muitas vezes confundido com o Messias, o

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1º Domingo na Quaresma Filho amado de Deus, que veio para cumprir a obra da redenção estabelecida por Deus. O povo de Israel via na multiplicação dos pães o atestado de legitimidade do Messias. A confusão levou Jesus a “retirar-se novamente sozinho para o monte” (Jo 6.19). “Não só de pão vive o homem” – essa afirmação lembra que o alimento físico não é o único alimento da pessoa. Ele satisfaz o estômago, mata a fome. Ele é importante. Mas o ser humano necessita do alimento que vem da boca de Deus. O pão-pão é básico para a vida física. A palavra de Deus é o pão decisivo para a espiritual e física. No conceito de Israel, e isso é importante para a compreensão do texto, a palavra de Deus significa vida. Os textos de Deuteronômio 30.15 (“Proponho hoje a vida e o bem, a morte e o mal”) e mais Deuteronômio 32.47 (“Esta palavra não é para vós outros vã, antes é a vossa vida”) atestam que a palavra de Deus, no conceito de Israel, significa “ter vida”. (PL 27, p. 70s.)

3 A tentação sob o prisma do pão de cada dia e a obediência a Deus

O tema da tentação é atual e não se esgota, pois o ser humano cria, vive e está sujeito à tentação. Mas o que significa a tentação de Cristo? O que tem a ver a tentação com o pão? O povo de Israel esperava um messias político, revestido de poderes especiais, que desse a Israel a soberania sobre os outros povos. O pão e o poder de tê-lo sempre é o desejo do povo. A grande esperança em Jesus era que ele fosse o tão esperado messias, poderoso. O poder era desejado. Mas o Messias é o Filho amado de Deus – ser humano e Deus, fiel e obediente, mostra a vitória sobre a tentação, não realizando o desejo humano, mas a vontade de Deus. Poderíamos concluir que a obediência a Deus exclui o ter pão em abundância? Na verdade não! Segundo Dietrich Bonhoeffer, no livro “Tentação”, nas meditações sobre a primeira e segunda tentações: “Há duas grandes interrogações na vida do homem: Uma indaga a respeito de Deus e a outra trata do pão; e as duas perguntas têm ciúmes uma da outra. Nenhuma pretende excluir totalmente a outra, mas cada uma deseja estar em primeiro lugar. Deus não exige do homem desistir da pergunta pelo pão, após ter sido resolvido, o direito ao homem de também interessar-se por Deus. Por que não faria isso?” É evidente que se Jesus tivesse aceito transformar as pedras em pão, então as pessoas iriam endeusá-lo, pois deu de comer. Por que não o fez? Tem poder para fazê-lo e assim fazer o desejo do povo, mas também o desejo de Satanás? A pergunta pela necessidade do pão em uma terra de fome é crucial e está, quase sempre, em primeiro lugar. Como igreja nos sentimos até vazios quando falamos de Deus e as pessoas estão carentes de pão. O que vem em primeiro lugar? Na concepção humana, sempre tem a classificação; primeiro, segundo, terceiro... Mas no convite de Deus tem apenas o primeiro e as demais coisas: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas essas coisas vós serão acrescentadas. Portanto não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados” (Mt 6.33-34). Podemos assim concluir que a

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busca pelo reino de Deus é também a busca pela transformação da sociedade. Nem só de pão o homem, a pessoa viverá, mas de toda palavra que procede da boca de Deus. A palavra de Deus não exclui diaconia; ao contrário, a palavra nos anima e impulsiona para a diaconia. A palavra, a vontade de Deus, o evangelho, contêm vida em abundância, o pão nosso de cada dia. O problema está quando separamos por desejo humano a palavra do pão, o dia-a-dia da palavra e do pão de cada dia dado por Deus. Não há pão que não seja dado por Deus e não há palavra sem pão. Deus é o pão vivo. No Evangelho de João (6.32-35), podemos ler que Deus, o Pai, é o verdadeiro pão e Jesus é o pão da vida. O não de Jesus a Satanás não é para que a fome continue existindo, mas para que a transformação seja total, “para que tenham vida em abundância”. A tentação foi e é vencida em Cristo.

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As tentações

O texto de Mateus 4.1-11 descreve três tentações, cada uma com ênfases diferentes, mas com o mesmo objetivo. A vitória de Satanás sobre Jesus. Antes de analisarmos as tentações, saliento que “o tentador sempre se encontra onde há inocência. Aliás, o tentador somente se faz presente onde há inocência, pois onde há culpa ele já é vencedor. Inocência quer dizer estar preso à palavra de Deus com o coração puro e integral” (D. Bonhoeffer). O tentador apresenta-se com a firmeza do argumento e com palavras da Escritura, procurando introduzir-se em nome de Deus e empregando a palavra de Deus. Na primeira tentação, o Espírito leva Jesus, e o ambiente é o deserto, de fome... situação de desespero: “provoque até não agüentar mais” e então a oferta de muito pão e de mostrar que tem poder. O desafio do tentador é que Jesus se submeta a seu desejo e faça a sua vontade e não a vontade do Pai. A resposta mostra a integralidade de fé e vida. Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede de Deus. Na segunda tentação, o diabo levou-o à cidade santa, sobre o lugar mais alto do templo. Um lugar aparentemente de Deus. Ali não deveria mais haver espaço para o tentador, mas tem, e Jesus vai até lá para mais uma vez dizer que a palavra de Deus é um todo. O tentador faz uso da palavra de Deus. Atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenarás a teu respeito que te guardem; e eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra. Aparentemente o lugar ideal, no sentido humano, para uma demonstração de poder e receber o aplauso e a simpatia das massas. Estaria aí a oportunidade para o poder e resolução de alguns problemas pessoais e particulares? E a vontade de Deus? A resposta também está escrita: Não tentarás o Senhor, teu Deus. Na terceira tentação, o tentador vai ao assunto sem rodeios, não faz mais uso da palavra de Deus, sem máscara e sem rodeios, em um monte muito alto,

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mostrando todos os reinos e a glória deles... Afirma: Tudo isto te darei se prostrado me adorares. A resposta de Jesus é definitiva: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto. A resposta de Jesus mostra a vontade de Deus; tem ascendência sobre nós, mas quer pela fé e pelo amor, e não pelo domínio, pela opressão, pelo poder da grandeza e do material. Deus quer vida, e para todos ele quer o reino. Não se trata nesse texto da luta pelo pão, mas da afirmação de que o reino de Deus é o presente para a nova vida sem males. Isso é que importa. O caminho percorrido por Jesus é da obra de Deus que se completa com a morte na cruz, ressurreição e envio. A graça de Deus é revelada, seu amor, e a transformação pela fé, que é a sua obra em nós. Ele se dá para que assim possamos resistir ao diabo, ao tentador e a todas as forças de morte.

5 Fome com dispensas abarrotadas Há muita fome nos dias de hoje, há carência de pão, conforme a explicação de Martim Lutero sobre a petição do Pai-Nosso: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”. Significa que Deus, na verdade, também dá o pão de cada dia sem a nossa prece a todos os homens maus. Suplicamos, porém, nessa petição que nos faça reconhecê-lo e receber com agradecimento o pão de cada dia. Que significa o pão de cada dia? Tudo o que pertence ao sustento e às necessidades da vida, como: comida, bebida, vestes, calçado, casa, lar, campos, gado, dinheiro, bens, consorte piedosa, filhos piedosos, empregados bons, superiores piedosos e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, amigos leais, vizinhos fiéis e coisas semelhantes. Deus dá o pão para todos. E diante de Deus somos todos maus e dele por sua graça recebemos o perdão e o pão de cada dia de graça. Deus dá o pão a todos; Satanás quer que as pessoas pensem e vivam o contrário. Pão só para alguns. Deus dá e quer pão e sua palavra, sua bênção para todos. Não importa se posso trabalhar, se trabalho ou não, todos recebem de Deus o pão, e esse deve ser alimento para todas as pessoas e para todos os seres vivos. A humanidade organizou diferentes sistemas econômicos, poderíamos dizer sistemas de vida, mas também de morte. Pois sistemas que aceleram e aumentam a sede do ter mais, do consumir mais, do acumular mais, além da necessidade, são sistemas que não brotam do Triúno Deus. Nos dias de hoje, sabemos que há alimento e condições de vida para todos, mas falta a palavra de Deus, falta viver sob e da graça de Deus. Falta a espiritualidade para pobres e ricos, para governantes e governados, para trabalhadores/as e superiores... Onde a palavra de Deus está ausente, as pessoas iludem-se achando que podem viver somente de pão e não do Pão que Deus dá, que abrange o ser humano como um todo. Para as pessoas que confiam em Deus acima de tudo, a palavra e o pão nosso são inseparáveis.

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Onde pessoas se agarram a questões materiais e são vencidas pela tentação do poder e do acúmulo, há vazio existencial. A fome de vida plena mais cedo ou mais tarde se apresenta. Ao analisar a sexta petição do Pai-Nosso, Martim Lutero diz: “Deus, em verdade, não tenta ninguém; mas suplicamos nessa petição que nos guarde e preserve, para que o diabo, o mundo e a nossa carne não nos enganem, nem nos seduzam a crenças falsas, desespero e outras grandes infâmias e vícios; e ainda que tentados, vençamos afinal e retenhamos a vitória”. Somos facilmente aliciados sem o poder Deus, como alimento do dia-a-dia da vida. Somente em Deus, em Cristo e pela força do Espírito Santo conseguimos vencer as tentações. A tentação é inevitável, mas oramos para que Deus nos dê forças para vencer as tentações. Somente Ele pode fazer o que pedimos: “Não nos deixe cair em tentação”. Até podemos ser tentados, mas não nos deixe cair, sucumbir. Em Cristo nos é dada a vitória. Ele resistiu e venceu. As três tentativas que o texto apresenta mostram o poder de Deus e o caminho dos que confiam nele. Dizer não para as tentações somente é possível com a força de Deus. O atrativo e a força aliciadora do poder, do ser mais, do ter mais e poder dominar sobre os outros arrastam muitas pessoas para a busca de riquezas, o acúmulo de bens materiais, afastando da verdadeira riqueza que vem de Deus. Em Mateus 6.19-21, Jesus fala e alerta para não acumular tesouros na terra, onde traça e ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam, mas ajuntai tesouros no céu... Pois onde está o teu tesouro, ali estará também o teu coração. Deus em Cristo nos dá a vitória sobre as tentações. Somos animados, chamados para vigiar e orar continuamente. Deus quer que por sua força e pela fé sejamos mais do que vencedores/as, que saibamos dizer não e sim no momento certo e sejamos herdeiros/as de seu reino.

6 Sugestões para a pregação A pregação deve ser um convite para viver sob a graça e o amor de Deus. A palavra de Deus apresenta um reino de irmãos e irmãs, de amor a Deus e justiça entre as pessoas. E isso é o que há de mais essencial para a vida, vale mais do que todas as necessidades materiais. Lembremos, no entanto, que a afirmação de Jesus “nem só de pão o homem viverá, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” foi empregada somente como arma de defesa contra o diabo e jamais como ataque contra os pobres. Quando Ele esteve com famintos, não só os consolou, mas lhes deu pão e os cativou para que aceitassem o evangelho como pão da vida. A palavra de Deus, o evangelho, é fundamental e traz à nova realidade sem fome e sem sede. Nenhuma fome e nenhuma sede – esse é o desejo de Deus. Mesmo que a tendência do nosso tempo seja enfatizar o material, o poder. Faz-se necessário anunciar que Deus não quer o acúmulo, a ganância e o apego às coisas materiais. Deus quer ser o único Deus. Quer que o nosso

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coração confie plenamente e totalmente nele. Mostrar a evolução de ofertas que acontecem nas três tentações. Elas são tudo o que a gente poderia desejar. A resposta é a palavra de Deus. Quais são as tentações hoje? Como elas são apresentadas? Como resistir? Jesus disse não com a palavra de Deus: 1 – “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”; 2 – “Não tentarás o Senhor, teu Deus”; 3 – “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto”. Nossas forças não vencem Satanás, mas a palavra, o Verbo eterno o vencerá (HPD 97, versos 1a 4. Hino de Lutero).

Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Tentação. Porto Alegre: Metrópole, p. 31-55. KUNERT, Augusto E. 1º Domingo da Quaresma. In: HOEFELMANN, Verner; DA SILVA, João A. M. (eds). Proclamar Libertação, v. 27. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 70-79. VOIGT, Gottfried. Homiletische Auslegung der Predigttexte. Reihe I. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1978.

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2º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: JOÃO 3.1-17

17 FEV 2008

GÊNESIS 12.1-4a ROMANOS 4.1-5, 13-17 Nilton Giese

En junio de 2007 la iglesia evangélica guatemalteca Fraternidad Cristiana inauguró en Ciudad San Cristóbal, uno de los suburbios de Ciudad de Guatemala, el mayor edificio religioso de Centroamérica, luego de seis años de construcción, con 113.000 metros cuadrados, capacidad para más de 12.200 personas, estacionamiento exterior para 1.500 vehículos, torre de estacionamiento de 7 niveles, aulas para más de 3.000 niños y un costo final de 30 millones de dólares. El pastor Jorge Humberto López se precia de que la construcción del templo se pagó en efectivo y sin incurrir en deudas. El pastor asegura que el proyecto se financió con diezmos y ofrendas de sus fieles y que fueron pocas las contribuciones de extranjeros. Las obras del pastor López no parecen terminar con la inauguración de Megatemplo. La iglesia compró un terreno a cinco cuadras del nuevo templo en el que se proyecta construir un área de recreación familiar para los fieles. Fraternidad Cristiana, fundada por López en 1978 con sólo 22 miembros, es una iglesia neopentecostal que se define a sí misma como “iglesia para la familia”. En la actualidad, el número de fieles superaría los 12.000, según cifras de la iglesia De origen bautista, López quería, como él mismo lo define, “una iglesia que dejara en el olvido la mentalidad de que un cristiano debe ser pobre y sin influencia en la sociedad”. La reproducción “natural” por el bautismo en la integración de los descendientes no es más garantía de la continuidad de la Iglesia Evangélica de Confesión Luterana en el Brasil (IECLB), dice el pastor de la IECLB Gerd Uwe Kliewer. Si ella quiere crecer, va tener que traer personas de afuera e integrarlas en sus comunidades. En el informe estadístico de Kliewer, la tasa de bautismos está cayendo a menos de 1% de los miembros. En Rio Grande do Sul, estado que concentra la mayor parte de la membresía de la IECLB, los bautismos mal compensan a las muertes. Después de la confirmación (comunión), poco más de la mitad (54%) de los jóvenes continúan afiliados a la iglesia. “La IECLB no tiene ninguna garantía de que los niños que ella bautiza serán sus miembros en el futuro. Solamente aquellas personas que ella consigue atraer, socializar y darles un sentido para la vida integrarán sus filas.” ¿Qué cosas favorecen el crecimiento de una iglesia? La presión recae sobre los/las pastores/as y lideresas. Frente a esta presión es mucho más agradable la noticia de Guatemala que la de Brasil. ¿No deberíamos nosotros relativizar la cuestión confesional y la teología de la cruz, que predica la

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solidaridad con los que sufren y abrirnos más a la teología de la prosperidad, como predica el pastor López? Frente a nuestras dudas e incertidumbres, el evangelio de Juan 3:117 nos reintroduce en el espíritu de la cuaresma con una propuesta: la del renacimiento en el espíritu.

1 Para entender la propuesta del renacimiento en el espíritu Entre el año 66 y el 74 se da la gran guerra judía contra Roma. Jerusalén y el Templo son destruidos y nace el judaísmo rabínico, que tiene el Sanedrín o Academia de Jamnia como centro. En esta época posiblemente la comunidad del discípulo amado ya se había desplazado hacia el norte de Palestina, y quizás hasta Siria. En esta época se da el conflicto de la comunidad con “los judíos” (los jefes del judaísmo farisaico dominante de Jamnia). Antes del año 70 existía un pluralismo tolerante en el seno del pueblo judío, en donde convivía la comunidad. Ahora se impone la hegemonía farisaica, que domina las sinagogas, en particular en Palestina y Siria. En esta nueva situación se produce de forma progresiva la expulsión de los cristianos de la sinagoga. Esto significa una tremenda crisis de la comunidad del discípulo amado y una persecución por parte de “los judíos” y del “mundo” (término que incluye presumiblemente también al imperio).

2 Conflicto de la comunidad con “los judíos” La expresión “los judíos” aparece en 70 pasajes en el cuarto Evangelio (en más de la mitad de ellos con un sentido hostil hacia Jesús). Es una expresión típica de este Evangelio (en los sinópticos aparece 5 veces en Mateo, 5 en Lucas y 6 en Marcos, casi siempre en la frase: “Rey de los judíos”). La hostilidad de “los judíos” expresa más bien un conflicto de la comunidad del discípulo amado después del año 70, que una situación del tiempo de Jesús o del período anterior al 70. Es muy difícil que Jesús dijera, refiriéndose a los judíos de su época, “vuestra ley” (8:17; 10:34) o “vuestros padres” (6:49). Tampoco pueden ser de este tiempo expresiones como “Pascua de los judíos” (2:13; 11:55), “la fiesta de los judíos” (5:1) o la “purificación de los judíos” (2:6). Jesús, como judío que era, no podía hablar así. Además, el judaísmo en el cuarto Evangelio aparece como una realidad uniforme, cuando ya antes del 70 (tal como se refleja en los sinópticos) hay una pluralidad de grupos tales como fariseos, saduceos, herodianos, letrados, sacerdotes etc. La uniformidad del judaísmo es una realidad posterior al 70. Después del ese año la expresión “los judíos” se refiere de manera fundamental a los fariseos. Los “sumos-sacerdotes” no existen después del 70, de ahí que su nominación en el cuarto Evangelio aparece sólo en los relatos

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de la pasión (18:3,35; 19:6; 15:21) y en los que preparan este relato (7:32,45; 11:47,57; 12:10), que son textos tradicionales. Después de la guerra de 70 d. C. nace el judaísmo rabínico con hegemonía farisaica. El judaísmo rabínico de hegemonía farisea posterior al año 70 estuvo representado principalmente por el Sanedrín de Jamnia. El lugar social y político de la comunidad del cuarto Evangelio está determinado por este enfrentamiento con las autoridades fariseas del judaísmo rabínico, representado fundamentalmente por el Sanedrín o Academia de Jamnia.

3 Conflicto de la comunidad con la sinagoga El relato de la curación del ciego de nacimiento (Jn 9), que es una representación simbólica de la vida de la comunidad del discípulo amado, refleja ante todo la situación de la comunidad posterior al 70. La información de que “los judíos se habían puesto ya de acuerdo en que, si alguno le reconocía como Cristo, quedara excluido de la sinagoga” (v. 22), responde justamente a la situación que vive la comunidad después de aquel año. Los padres del ciego representan a los cristianos que no se atreven a confesar a Jesús en público, por miedo a los judíos (que son, como ya dijimos, las autoridades del judaísmo farisaico post 70). La misma situación tenemos en 12:42, donde los magistrados que creen en Jesús no se atreven a confesarlo por miedo a ser expulsados de la sinagoga. El anuncio de Jesús a sus discípulos “los expulsarían de las sinagogas” (16:2) se refiere de igual forma a lo que sucederá con la comunidad después de los años setenta. La expulsión de la sinagoga era una pena superior a la excomunión. El expulsado era considerado un renegado. No era apenas una medida religiosa, sino también una condena social. Se prohibía todo trato personal y social con los renegados. Sus hijos no podían recibir educación ni aprender un oficio. Se prohibía vender o comprar a los renegados. El renegado o hereje era condenado severamente en la oración de las 18 bendiciones, que era una de las oraciones más importantes de los judíos. En tiempos del rabino Gamaliel en Jamnia, después del 70, se reformó una de estas bendiciones (que era en realidad una maldición), y su texto se fijó así: Ninguna esperanza quede a los renegados y el poder irresistible los haga desaparecer. Y los nazarenos [es decir, los cristianos] y los minim [renegados y disidentes] perezcan al instante. Sean borrados del libro de la vida y no sean inscritos con los justos. La predicción de Jesús “incluso llegará la hora en que todo el que los mate piense que da culto a Dios” (Jn 16:2) es posible que refleje la situación de la comunidad del discípulo amado después del 70 en Palestina. El conflicto es tan violento, que muchos de los que creen en Jesús no lo confiesan públicamente por temor a ser expulsados de la sinagoga. El temor a las autoridades y la necesidad de permanecer dentro del sistema religioso-político dominante les impide crecer en la fe. Los prototipos de estos creyentes inconsecuentes

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en el cuarto Evangelio son: Nicodemo (3:1-21; 7:47-52 y 19:39), José de Arimatea (19:38), otros magistrados cuyos nombres no conocemos (12:42-43) y gente de la multitud (7:13).

4 Juan 3.1-17 en este contexto En Juan 3:1-17 tenemos el encuentro de Jesús con Nicodemo. El Nicodemo que visita a Jesús es un fariseo, magistrado judío (v. 1) y maestro en Israel (v. 10). Viene a Jesús de noche, seguramente por miedo a las autoridades. Nicodemo cree en Jesús como maestro enviado por Dios, acreditado por sus milagros. En 7:47-52 Nicodemo se enfrenta con otros magistrados fariseos y defiende a Jesús públicamente, sin embargo lo hace en nombre de la ley, sin confesar en forma pública su fe en Jesús. En 19:38-42, José de Arimatea retira el cuerpo muerto de Jesús de la cruz, y junto con Nicodemo lo embalsama y lo pone en el sepulcro. José de Arimatea “era discípulo de Jesús, aunque en secreto por miedo a los judíos” (v. 38). De Nicodemo se recuerda aquí de manera explícita que era “aquel que anteriormente había ido a verle de noche” (v. 39). Los dos son piadosos, generosos y con una devoción y amistad especial por Jesús, no obstante ambos están aún presos del sistema religioso dominante. En el gesto de embalsamar el cuerpo de Jesús dejan bien en claro que no creen en la resurrección. Estos personajes históricos del tiempo de Jesús son recordados por la tradición como personajes representativos de muchos creyentes del tiempo de la comunidad del discípulo amado posterior al año 70. Son cripto-cristianos (cristianos ocultos), con una fe inadecuada, magistrados, hombres importantes y posiblemente ricos, que no adherían públicamente a la comunidad. El texto 12:42-43 es en este sentido muy significativo: “... aun entre los magistrados, muchos creyeron en él; pero, por los fariseos, no lo confesaban, para no ser excluidos de la sinagoga, porque prefirieron la gloria de los hombres a la gloria de Dios”. Otro texto con este mismo contexto histórico es el de Juan 7:13: “nadie hablaba de él abiertamente por miedo a los judíos”. Nicodemo, un nombre griego, que fue adoptado por los judíos de la forma Naqdemon, era un fariseo, miembro del Sanedrín, y adinerado. Nicodemo tiene claridad en que Jesús vino de parte de Dios. Que se haya acercado es extraño. Jesús ya había provocado la oposición de los jerarcas por su asunción de autoridad mesiánica por encima del santuario. Jesús ya estaba en el ojo público (2:23) y el interés de Nicodemo era real y deseó ser cauto. Nicodemo dice que nadie puede hacer estas señales excepto (a menos) que (si no) Dios esté con él. Esta condición se presenta como una probabilidad, no como un hecho definido, por lo que Nicodemo quiso saber más de la enseñanza acreditada por Dios. Jesús contesta con la misma forma de condición que Nicodemo antes: ean me “excepto que (si no) Dios” “excepto que (si no) alguien nace de nuevo” (gennethe anothen). Gennao se

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refiere engendrar, llegar a ser el padre de (Mt 1:2); a dar nacimiento a (Lc 1:13) y en forma figurada a un nuevo nacimiento o concepción espiritual: ser nacido, ser regenerado (Jn 3:3). Anothen, originalmente “de arriba” (Mr 15:38), entonces “del cielo” (Jn 3:31), y de ahí “del principio” (Lc 1:3), y entonces “de nuevo” u “otra vez”(palin anothen), Gal 4:9. Este sintagma podría pues significar: nacer de nuevo, nacer de arriba, engendrar de nuevo, engendrar de arriba. ¿Cuál es el significado aquí? El enigma que muestra Nicodemo insinúa que él lo tomó como “de nuevo”, un segundo nacimiento “desde la matriz”. En los otros pasajes en Juan (3:31; 19:11,23) el significado es “desde arriba” (de yper) en el sentido “desde Dios”. Anothen se relaciona a la acción de Dios, por eso es mejor traducir gennethe por “ser concebido” que por “ser nacido” (de la madre). En este último sentido se emplea más tikto “parir” “dar a luz” como en 16:21; Mt 1:21; Heb 6:7; Sant 1:15. No puede ver (vislumbrar, observar, experimentar) el reino de Dios. El complemento del gennethe anothen es el vislumbrar el reino de Dios y no el poder nacer siendo un viejo que es la contestación subsecuente de Nicodemo. ¿Se puede volver a entrar en el útero?, pregunta Nicodemo. Observemos que no es lo que Jesús dijo. Jesus utilizó dynatai para vislumbrar, no empleó tikto para ser nacido sino gennao. El sabio fariseo es estéril en visión espiritual (idein, vislumbrar) como un aprendiz. Nicodemo definitivamente no pudo concebir la idea de la concepción espiritual como esencial para ingresar en el Reino de Dios. Nicodemo entendía a sólo judíos como miembros de ese reino, el reino político de la esperanza farisea y otras tendencias que era hacer a todo el mundo judío (fariseo, esenio etc.). Ante la objeción (legei pros auton) de Nicodemo en el versículo 4 acerca de la expresión “ser engendrado de arriba” se expone como engendrar de agua y Espíritu. ¿Cuál es la relación de “agua” y “Espíritu”?¿Por qué agrega Jesús el ex hydatos aquí? . En la confrontación con los cristianos inconsecuentes, que tienen a Nicodemo como prototipo, lo que los separaba de Jesús y de la comunidad era el nacimiento del agua y del Espíritu (3:5) y la confesión pública (12:42). Desde una perspectiva socio-teológica, el Bautismo y la confesión pública tenían el mismo significado: comprometían públicamente a los discípulos con Jesús y la comunidad, cosa que los cristianos inconsecuentes (Nicodemo y similares) evitaban por temor a los judíos y a ser expulsados de la sinagoga. Lo que separaba a estos cristianos inconsecuentes (o cripto-cristianos) de la comunidad era la manifestación pública y social de su fe. El “nacer de lo alto” (3:3) se hacía público en el “nacer del agua y del Espíritu” (3:5). Aquí hay una referencia al Bautismo como acto público, no sólo como una regeneración interior o puramente espiritual e interna a cada creyente. El Bautismo, como nuevo nacimiento, era un acto de adhesión o afiliación pública a Jesús, y posteriormente a la comunidad del discípulo amado. No era suficiente nacer del Espíritu (eso podía ser entendido de una manera espiritualista e intimista); era necesario nacer del agua y del Espíritu. El Bau-

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tismo con agua significaba esa adhesión y confesión pública de Jesús que evitaban los cristianos inconsecuentes o cripto-cristianos. Viendo el conjunto del capítulo 3 podríamos decir que Nicodemo aceptaba un nacer del Espíritu, una adhesión interna a Jesús, no obstante rechazaba nacer del agua.

5 Para la predicación Para el pastor Gerd Uwe Kliewer “el mejor instrumento para atraer miembros afuera de la iglesia son sus propias parroquias y obreros/as. Una Comunidad activa, dinámica, acogedora y participativa, que tiene una propuesta de vida y de misión, es mucho más poderosa y eficiente que el mejor de los evangelistas”, garantiza Kliewer. Para el pastor presidente de la IECLB, el pastor Dr. Walter Altmann, “hay prácticamente un consenso teórico: la iglesia tiene que ser misionera y eso incluye transponer fronteras. Aquel sueño de conservar la fe para uno solamente funciona cada vez menos. La iglesia está vocacionada a dar testimonio de su fe“. Para los/las luteranos la cuestión fundamental no es abandonar la confesionalidad y la teología de la cruz, sino de dar testimonio diaconal de la fe. Diaconía es parte de la vida de la iglesia y del crecimiento de la fe en las personas. Con esto nos conectamos otra vez al evangelio de este domingo nos dice que no basta predicar la piedad, la generosidad, la devoción y amistad especial por Jesús. Una iglesia no crece con gente como Nicodemo, representante de los cripto-cristianos (cristianos ocultos), con una fe inadecuada, personas que no adhieren públicamente a la comunidad. Iglesias se desarrollan cuando concentran las fuerzas en la formación de congregaciones que acogen las personas y que promocionen la participación de sus miembros en grupos y actividades, otorgándoles un sentido de pertenencia. Jamás olvidar: Lo que cuenta realmente en la membrecía de una iglesia es si esta membrecía se hace presente en la vida de la Iglesia. El evangelio de hoy es dramatizado en el capítulo 56 de la serie «Un tal Jesús», de los hnos. López Vigil. El guión y su comentario pueden ser tomados de aquí: http://www.untaljesus.net/texesp.php?id=1300056 Puede ser escuchado aquí: http://www.untaljesus.net/audios/cap56b. mp3 5.1 – Para la reunión del grupo Dios mandó a su Hijo para que el mundo se salve por Él; no lo envió para condenar, sino para que el mundo se salve por él. Pero de hecho muchas veces el cristiano se siente más juzgado que salvado, y siente la moral como un deber exterior e impuesto, como una carga más que como una ayuda... ¿A qué se debe? Si el Evangelio es Buena Noticia y Dios es pura voluntad de salvación, ¿qué es lo que puede estar fallando?

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5.2 – Para la oración – Para que toda la Iglesia siga siendo en medio del mundo el Camino, la Verdad y la Vida que fue y es Jesús para todos nosotros. Oremos. – Para que sepamos orientar a las personas, especialmente a los jóvenes, que buscan su camino en la vida. Oremos. – Para que seamos, con nuestro ejemplo de solidaridad con los pobres y necesitados, luz orientadora de los que buscan la verdad. Oremos. – Para que seamos fomentadores y transmisores de vida entre quienes andan en sombras de muerte. Oremos. – Para que con creatividad y solidaridad, construyamos el templo de piedras vivas que es la comunidad. Oremos. – Para que corroboremos siempre nuestras palabras con el testimonio vivo de nuestra propia vida. Oremos. Dios, Padre Nuestro, que en Jesús nos has dado tu Palabra, hecha carne y sangre, fuerza y ternura, muerte y resurrección; te pedimos nos des la fuerza necesaria para seguir sus pasos por el camino que él nos trazó para llegar hasta ti, abrazando en nuestro caminar hacia ti a todos los hermanos y hermanas. Por Jesucristo Nuestro Señor. Amén.

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PRÉDICA: ROMANOS 5.1-11

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ÊXODO 17.1-7 JOÃO 4.5-42

Manfredo Siegle

1 Contexto Cristo abre os seus braços e estende as suas mãos do alto da cruz; Toca os limites extremos do globo terrestre. Gólgota se transforma em centro da Terra. (Cirilo de Jerusalém – 315 a 386 a.C.)

2 Preliminares A perícope aborda, em relação ao contexto, um assunto novo. A intenção teológica em Romanos 1.16s., posteriormente detalhado nos capítulos 3 até 4.2, é aproximar o binômio justiça de Deus e vivência da fé. No texto, em pauta, o autor indica para a justificação como obra salvadora de Deus. Ela é constitutiva para a vida plena. O evangelho testemunhado e encarnado gera poder que salva.

3 Perfil exegético V. 1 – O apóstolo acentua que vida justificada indica para a oferta de paz com Deus. A reconciliação restabelecida entre Deus e a pessoa humana é um fato novo e resulta do sacrifício de Cristo na cruz de Gólgota. O novo relacionamento entre Deus e o ser humano inaugura um novo tempo. A iustificatio Dei em nada se assemelha à proclamação do direito aplicado na sociedade humana. O princípio da jurisprudência humana é evidente: detecta a culpa do réu e estabelece a punição adequada. O destaque conferido à justiça de Deus marcou o conceito de salvação e de fé em Paulo e na igreja da Reforma. V. 2 – O mediador da ação divina é identificado: Jesus Cristo, o crucificado. O caminho a esse estado de graça torna-se acessível pela fé. A glória definitiva, que estabelece o novo futuro, continua ausente e sinaliza a qualidade pecadora do ser humano. V. 3 – A promessa do novo futuro é esperança. O apóstolo sabe que o tempo de espera acontece na medida em que a realidade do sofrimento e das ilusões permanece. Essa situação nos identifica com as demais pessoas e nos faz solidários também com os descrentes. O apóstolo anuncia que o

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sofrimento, as ilusões e as tribulações fundamentam a alegria das pessoas cristãs e desafiam para uma postura de perseverança. V. 4 e 5 – As tribulações fortalecem a esperança. Quanto maior a pressão exercida pelas dificuldades, tanto maior será a alegria da esperança. A vivência do sofrimento remete ao amor de Deus. É elemento-âncora que dá amparo. É o amor de Deus que se revela na vida e através da vida da pessoa crente. V. 6-11 – Jesus Cristo materializa o amor de Deus. A sua morte em favor dos ímpios e pecadores é o exemplo mais concreto da encarnação desse amor. A qualidade do sacrifício de Cristo na cruz é muito diferente do mártir que se doa em favor dos amigos e cúmplices. Nada se compara à morte vicária de Cristo. Quem sacrificaria sua vida pelos justos, pelos bons? Se Cristo morreu por nós, ele também o fez por nossa causa. A realidade da cruz indica para a necessidade humana, jamais de Deus. Deus não precisa derramar sangue para aplacar sua ira. O sacrifício de Cristo sinaliza a iniciativa gratuita de Deus e liberta a humanidade da esfera da maldição. A cruz sempre é protesto contra a realidade do pecado, fonte das tribulações, dos sofrimentos e das ilusões humanas. Deus não precisa de reconciliação; a humanidade pecadora necessita dela. Ela sinaliza o mundo que se afastou da vontade de Deus e organiza a vida como se Deus não existisse. Livre da necessidade de promover a justiça por mãos próprias, o povo de Deus, a exemplo de Jesus Cristo, tem caminho aberto à vida solidária. A cruz erguida em Gólgota é instrumento que promove a paz de Deus e razão da esperança perseverante.

4 Meditação Cremos em Deus, que permite que sua graça venha do céu à semelhança das gotas de chuva, quando caem sobre a superfície da terra. Jesus Cristo tornou-se pessoa humana. Em favor da causa da paz Jesus pregou, curou, debateu com seus adversários, morreu e trouxe reconciliação. Discípulos de Cristo refletem em atitudes o brilho da bondade de Deus. A sociedade toda e a criação serão beneficiadas. A convicção da presença de um Deus gracioso promove a reconciliação – não porque a humanidade assim o mereça. A nova justiça fundamentada no amor e na misericórdia tem o seu eixo no Cristo crucificado. Na comunhão de irmãos e irmãs, na qualidade de mendigos de mãos vazias, seguidores de Cristo descobrem um novo sentido de vida. A fé vence a desconfiança e o medo. Ainda assim a humanidade continua exposta a preocupações, ao sofrimento, ao poder do pecado e da culpa. O brilho da luz e as sombras coexistem. Na qualidade de humanos, não cairemos fora do perdão. O texto confronta com conceitos em escala: “São as tribulações que levam à perseverança; mas a perseverança traz experiência de vida e traduzse em esperança”. A vida de fé desconhece avanços permanentes em cami-

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nhos marcados tão-somente por vitórias. Atravessamos a paisagem da cruz e da escuridão; a vida humana continua invadida por fracassos e decepções. Graças a Deus, há liberdade para dividir os sentimentos e as vivências de frustrações e os fracassos; a fé fundamentada na aceitação imerecida permite que se repartam os clamores e que as fraquezas sejam admitidas. Quem desconhece o lamento de Cristo por causa da experiência da ausência de Deus? “Pai meu, por que me desamparaste?” Além de representar um desafio à fé e motivação para a vida de esperança, é consolador saber que a pessoa humana, em virtude de sua vulnerabilidade, encontra amparo e sente-se cuidada pelo Deus da bondade. A certeza da graça faz descobrir o sentido da vida. É a confiança que restabelece o equilíbrio e devolve à pessoa sem esperança e iludida o direito à vida em sua plenitude. O apóstolo Paulo confessa que o “espinho na carne”, do qual é portador, é suportável, porque a “graça de Deus lhe basta”. A comunhão comunitária privilegia a solidariedade e devolve a esperança do cuidado e do acolhimento. A graça coloca-nos ao lado de Deus. A justiça divina é peculiar e especial; os seus frutos também são especiais. Por isso nada temos a temer, tampouco algo a perder. Há liberdade para reconciliar, curar, abraçar e repartir gestos bondosos, servindo e cooperando na missão de Deus. A oferta de Deus é vida digna e plena. No entanto, persiste o estado de guerra entre humanos e Deus. É notória a insistência na auto-suficiência. Em nosso país, o caos social e ético, fruto da ausência de paz, invade todos os espaços na sociedade, desde as balas perdidas até a violência no campo. A convivência desrespeitosa entre os gêneros e gerações, entre raças e religiões reflete egoísmo, marginalidade e luta de poder. As seqüelas da desumanidade manifestam-se e deixam rastros de sofrimento e dor na sociedade e no meio ambiente.

5 Reflexões para a prédica Que homem é este? Foi UM que se doou Ofertou o que possuía Que se transformou em pão e vinho Pão repartido vinho servido Para todos que tem fome e sede De pão e de amor Sede de justiça. Atentem ao homem Que se entregou e se repartiu Pedaço em pedaço Dia após dia Até a última gota de sangue.

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Assim tudo se consumou E por fim o túmulo vazio Sim, este Este foi o FILHO DE DEUS. (Adaptação e tradução de um texto de Lothar Zanetti) Inseridos na família eclesial através do Batismo, levamos o nome de cristãos. Somos identificados nominalmente pelo Cristo que se doou na cruz. Segundo o roteiro litúrgico tradicional, o texto de Romanos 5.1-11 era previsto para o domingo Reminiscere. Essa designação associa-se às palavras do Salmo 25.6: “Lembra-te, Senhor, das tuas misericórdias e das tuas bondades”. A ênfase do evangelho é clara: a morte de Cristo na cruz é o início de vida nova. Apesar da humilhação, do sofrimento e da aparente falência, Jesus não desceu da cruz. A morte vicária de Cristo liberta, traz alívio e firmeza, tanto pessoal como social e comunitária. “Na cruz de Jesus, Deus reage à violência humana não com a contraviolência, mas com perdão e reconciliação” (Klaus Wengst. Pax Romana, Pretensão e Realidade. Ed. Paulinas, 1991, p. 12). O apóstolo Paulo destaca algumas questões fundamentais, traços condutores para a prédica: 1 – O evento da cruz inaugura um novo conceito de paz. É paz que não acontece de cima para baixo, nem nasce do centro do poder. A história da humanidade reflete tentativas de construir relações de paz à custa da luta armada, da brutalidade e de muito sofrimento; é a pretensa paz manchada de sangue e de infelicidade. Por causa da cruz de Cristo, sinal da miséria e do amor de Deus, e apesar de todas as manifestações de desumanidade, é possível permanecermos fiéis a este mundo. 2 – A argumentação do apóstolo aponta para o testemunho do amor de Deus. A cruz não é símbolo de vida perdida; torna-se antes um sinônimo de mais-vida! O amor de Deus provoca resistência num mundo dominado pela prática e cultura da violência. A nova criação, fruto do serviço do Cristo crucificado, torna-se realidade (2 Co 5. 17). Deus faz a história pelo lado avesso. O amor de Deus, visível na cruz, é irritante. Irrita sobretudo aquelas pessoas que anseiam por um Deus forte, um Deus que garante sucesso e justifica a própria glorificação. O amor de Deus resgata a identidade perdida da pessoa humana. 3 – Vida de qualidade, vida nova é possível sob o poder do amor de Deus. O amor de Deus torna-se atitude prática no relacionamento com outras pessoas e com toda a criação. O poder do amor, revelado na cruz, suprime as contradições presentes no descompasso dos relacionamentos e na política da violência que determina a vivência na sociedade humana. A ambição do sucesso, das vantagens próprias e do domínio é superada pela postura de Jesus: “entre vocês não seja assim”. Pessoas cristãs não apostam na glorificação própria, mas na graça e no amor de Deus.

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6 Subsídios litúrgicos Lema bíblico a destacar: “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Confissão dos pecados: Ó Deus, a comunidade está reunida, juntos celebramos o culto; cantamos e louvamos, oramos e ouvimos a tua Palavra. Existem tantas situações na vida que nos levam a desconfiar de ti. Tu nos conheces e sabes o quanto vivemos afastados de ti e também do próximo. Distantes, sentimos um vazio na vida. Sem a tua companhia e orientação há falta de esperança e inexistem perspectivas para saídas. Levamos essa carga à tua presença para que nos libertes e concedas perdão. Por causa do amor de Jesus Cristo ouve o nosso clamor e tem misericórdia de nós! Litanias: Proponho partes do Salmo 10 como subsídio para as litanias. A antífona consistiria da leitura do verso 12: “Levanta-te, Senhor! Ó Deus, ergue a mão!” O cântico do Glória pode ser precedido do seguinte texto: “No tocante a mim, confio na tua graça; regozije-se o meu coração na tua salvação” (Sl 13. 5). Oração do dia: Deus da bondade, hoje nos concentramos em tua paciência e misericórdia. Abre os ouvidos da comunidade reunida para que possamos juntos ser abençoados com o presente do teu santo evangelho. Concede-nos pensamentos coerentes e aprendamos a lidar e a conviver em paciência e paz também com o próximo. Amém. Intercessões Seguem alguns destaques: – à misericórdia de Deus, que estabelece uma nova relação com as pessoas e com a toda a criação e que fortalece nova qualidade de vida e convívio; – à abertura em relação à palavra de Deus e às suas potencialidades; – à intercessão pela igreja, por suas lideranças e seus obreiros e obreiras. Que saibam desempenhar com dedicação o indicativo de Cristo “ser sal da terra e luz do mundo” em todas as suas dimensões e nos múltiplos contextos. Importa que sejam abordados assuntos locais.

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Oração eucarística: Sugiro que seu conteúdo se atenha às formulações previstas no Livro de Culto da IECLB. Oração pós-comunhão: Deus da misericórdia, muito obrigado pela dádiva do pão e do fruto da videira compartilhado. A comunidade reunida experimentou a tua proximidade e hospitalidade. Retornamos aos lares e ao cotidiano da vida fortalecidos na fé, na esperança e no amor. Anima-nos a repartir com outras pessoas a tua paz e o amor que não conhece fronteiras. Amém.

Bibliografia ALTHAUS, Paul. Der Brief an die Römer. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1966 (NTD, 6). BUCK, Martina. Reminiscere. In: Werkstatt für Predigt und Liturgie, Heft 1/2003; Bergmoser + Höller Verlag, 2003. p. 17-24. BURGDÖRFER, Ludwig. Reminiscere. In: Gottesdienst-Praxis. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus, 1998. p. 45-47. SCHUMANN, Breno. Prédica sobre 2 Co 12. 9-10. In: Tempo e Presença, setembro 1973, Rio de Janeiro. WALDECK, Thomas. Reminiscere. In: Gottedienst-Praxis. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus, 2004. p. 49-55. WENGST, Klaus. Pax Romana – Pretensão e Realidade. São Paulo: Ed. Paulinas, 1991.

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4º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: JOÃO 9.1-41

02 MAR 2008

1 SAMUEL 16.1-13 EFÉSIOS 5.8-14

Marga J. Ströher

1 Reflexão sobre o texto O Evangelho de João é rico em imagens simbólicas e metáforas. Essa perícope não deixa de apresentar essas características. Luz, trevas, noite, dia, ver, não ver, ser cego, enxergar são alguns dos elementos metafóricos ou simbólicos que se destacam. Contudo, a simbologia não retira a materialidade e a concretude do texto, tanto na dimensão do contexto social como da experiência religiosa e de fé das pessoas envolvidas no relato. Jesus, ao caminhar, vê um cego. Ele vê a quem não vê, a quem jamais viu o brilho da luz, o contraste das sombras, a diversidade das cores. É uma profundidade de olhar, porque não é um olhar furtivo, mas um olhar que percebe. Esse olhar de imediato desinstala, pois quem com ele caminha percebe que Jesus olha prestando atenção àquele cego de nascença, que sentado mendigava (v. 2 e 8). Instala-se um debate sobre pecados, culpas, responsabilidades em torno da situação física da cegueira daquele homem. Jesus redireciona a motivação da discussão, falando da manifestação das obras de Deus. Isso nos causa estranheza e desconforto: por que alguém precisa sofrer para que a obra divina seja manifesta? Contudo, considero interessante esse novo enfoque que Jesus dá à condição da deficiência, separada da idéia de doença ou de culpa. Ninguém pecou, nem o deficiente, tampouco seus pais. E Jesus logo executa o processo de cura, utilizando elementos rudimentares e estranhos, misturando elementos de seu corpo com os da terra – saliva e terra. A cura causa estranheza e discussões entre os vizinhos e conhecidos do cego, que levam o caso aos fariseus, um grupo de autoridade religiosa influente na sociedade. O medo dos pais pela cura ocorrida os emudece. Eles se esquivam diante da discussão estabelecida em torno da cura, que, na verdade, manifesta um conflito religioso e, ao mesmo tempo, o temor diante dos fariseus. Interessante, contudo, é que os pais colocam o filho como sujeito, ao dizer que ele já tem idade para responder por si próprio (v. 21). Esse homem, aparentemente um jovem, é interrogado e passa a discutir em tom quase irônico, destacando o milagre acontecido, e que tal feito só pode vir de Deus. Esse confronto faz com que ele seja posto para fora do espaço em que se encontra, provavelmente a sinagoga. E o relato continua no encontro de Jesus com o cego. Aqui se

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evidencia a cidadania religiosa desse homem em reconhecer Jesus como o enviado de Deus e decidir pelo seguimento.

2 Texto e prédica – Ensaio de um possível diálogo O texto indicado para a prédica é longo. Sugiro a leitura completa, mas para a prédica decida-se pelo destaque em alguns pontos. Os possíveis enfoques poderiam ser: desconstrução da idéia da deficiência como doença ou pecado, cura, vizinhos, cegueira física, cegueira simbólica, peca quem tem visão e não quer ver, luz. Proponho uma espécie de brincadeira ou diálogo entre o texto e uma poesia, na verdade, a letra de uma música, também rica em elementos simbólicos, permitindo interpelações mútuas entre os dois textos. 2.1 – A interpelação da poesia Os olhos... os dedos... a luz1 Os olhos Os olhos nasceram zeros tivemos que ver com os dedos e se tornou mais difícil saber da vida os segredos... Os dedos Os dedos de ver, de ler, percorrerem o livro o alfabeto dos dedos é suave a memória dos dedos perdura. A metáfora lida pelos dedos também vai à alma a alegria de ler com a gema dos dedos comove e nossos olhos que pareciam inúteis choram. A luz Crianças brincarão de roda em roda de nós cantos de pássaros

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VEPPO, Luiz Guilherme do Prado. Os olhos... os dedos... a luz. In: Outono em canto (CD – Org. Ellen Rolim).

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voarão sobre o nosso destino o vento jogará pétalas em nosso rosto. A chuva cairá sobre nossos ombros. Alguém nos beijará nos olhos ver não é tudo. [Os olhos nasceram zeros tivemos que ver com os dedos]. 2.2 – Diálogo entre os dois textos Os olhos Os olhos nasceram zeros tivemos que ver com os dedos Observando um bebê, vemos que aprendemos a ver com os dedos. O tato é tão imprescindível, que a visão parece ficar quase em segundo plano. Mais do que o ver, parece que o sentir, o tocar objetos e pessoas é que proporciona conhecimento e percepção da realidade. Somos seres em relação, inter-relacionais, e por isso a necessidade do toque corporal torna-se tão importante. Os dedos Os dedos de ver, de ler, percorrerem o livro o alfabeto dos dedos é suave a memória dos dedos perdura. Jesus prepara uma pasta de saliva e terra, que se torna o elemento de cura. Ele parece brincar de lama como uma criança que inventa as suas “curas” na hora das brincadeiras. Sabe-se, contudo, do poder de cura da lama e do costume da aplicação de bálsamos pelos “oculistas” desse tempo para as vistas cansadas. Jesus toma a lama em seus dedos e aplica-a nos olhos do cego. Como diz a poesia, o alfabeto dos dedos é suave, a memória dos dedos perdura. Quem já teve seus olhos acariciados pela leveza de dedos cuidadosos sabe o poder de relaxamento e alívio que esse gesto propicia. A metáfora lida pelos dedos vai à alma, acalma, cura, comove. A luz Crianças brincarão de roda em roda de nós cantos de pássaros voarão sobre o nosso destino o vento jogará pétalas em nosso rosto. Jesus alerta que ainda há dia e tempo de trabalhar, mas também virá a

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noite. Mas também afirma: “Eu sou a luz do mundo” (v. 5). Essa luz de alegria, conforto, cura e salvação pode ser vinculada simbolicamente a crianças que brincam e à manifestação da natureza e nós em paz com ela. A chuva cairá sobre nossos ombros. Alguém nos beijará nos olhos ver não é tudo. Jesus diz: Eu vim para que os não vêem, vejam, e para que os que vêem, tornem-se cegos. Reagindo a essa afirmação, seus oponentes perguntam: Será que somos cegos? Os olhos nasceram zeros, tivemos que ver com os dedos – Nossos olhos nasceram cegos, aprendemos a ver com os dedos. Ver não é tudo – junto ao ver vem o perceber, discernir, sentir, acolher, tocar. Aqui destaco a dimensão corporal e material da espiritualidade. Esse homem cego não estava limitado por uma cegueira física, mas, em conseqüência de sua cegueira, condenado a uma condição da mendicância pela sociedade excludente e incapacitante, portanto cega às necessidades e à situação de vulnerabilidade de um ser humano, um de seus cidadãos. Sair da cegueira, no caso desse cego, é a possibilidade de assumir a dignidade humana e a cidadania. A cura de Jesus envolve diversas dimensões: a físico-corporal, a social e a religiosa. A cura estabelecida por Jesus nesse relato de milagre ocorre a partir do olhar e do contato físico corporal, aliado à dimensão da ternura. Colocar lama nos olhos exige cuidado e afetividade, pois é uma das áreas mais sensíveis de nosso corpo. Esse contato corporal e afetivo, essa suavidade de Jesus convida-nos a viver uma espiritualidade na suavidade, nem por isso descomprometida da dimensão da justiça, da solidariedade e do amor ao próximo. Esta é a radicalidade da luz de Cristo: a de sair da escuridão das limitações sociais e da injustiça, da vivência de fé formal, para a dinamicidade da espiritualidade viva e atenta aos desafios do contexto em que vivemos. Jesus diz: “Eu sou a luz do mundo”. Vivamos em sua luz.

3 Pensando na liturgia O texto de 1 Samuel fala da escolha do rejeitado e sem aparência como o escolhido de Deus. É possível fazer uma analogia com o cego mendigo, do qual trata o texto da prédica. O texto de Efésios menciona a luz. Sugiro que, após a leitura da epístola, a comunidade seja convidada a responder com o seguinte hino: Que a luz de Cristo brilhe, nos envolva em amor e o teu poder nos venha proteger e sempre, e sempre, e sempre, amém.

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5º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: EZEQUIEL 37.1-14

09 MAR 2008

JOÃO 11.1-45 ROMANOS 8.6-11 Jorge Batista Dietrich de Oliveira

1 Introdução Estamos no 5º Domingo da Quaresma. Neste tempo, somos convidados a acompanhar a caminhada de Jesus até a cruz, sua paixão, morte e ressurreição. Os textos indicados são apropriados e perfazem uma unidade temática, pois falam da vida que vence a morte. O profeta Ezequiel anuncia que Deus mesmo tirará das sepulturas o seu povo e o fará voltar à amada terra natal. Seu povo conhecerá que Deus é o Senhor quando ele derramar em abundância o seu Espírito, trazendo vida e liberdade. Paulo afirma que o Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos também ressuscitará a nós, para que participemos da vida plena de Deus. E João nos apresenta Jesus como doador da vida e vencedor da morte. Vejamos: Ezequiel 37.1-14 – A visão do vale dos ossos secos marca a passagem das mensagens de juízo para o anúncio de uma nova esperança para o povo de Israel. Deus anuncia, por intermédio do profeta, que o povo, que está sem esperança e sem futuro, voltará a viver de novo, pois o próprio Deus o levará de volta da escravidão na Babilônia para casa, a terra de Israel. Em Romanos 8.6-11, Paulo sublinha o antagonismo existente entre morte e vida e estabelece um contraste entre os que vivem de acordo com a velha natureza humana e os que vivem de acordo com o Espírito de Deus. O cristão recebe uma nova vida, que é dada e dirigida pelo Espírito de Cristo. A transformação no pensar e agir de cada pessoa é ação do Espírito. Embora o nosso corpo vá morrer por causa do pecado, o Espírito nos dá vida, pois Cristo vive em nós. A garantia de nossa ressurreição é a habitação do Espírito de Cristo em nós. Em João 11.1-45, a ressurreição de Lázaro é o último e maior sinal que Jesus realiza. Com esse milagre ele afirma: “Eu sou a ressurreição e a vida” e mostra que tem o poder de chamar aquele que estava morto, havia quatro dias, novamente à existência. Esse chamado vivificante confirma que a vida plena da ressurreição já está presente naqueles que vivem com Jesus.

2 Exegese A perícope em estudo ocupa lugar no conjunto dos capítulos 33 a 37:

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5º Domingo na Quaresma

oráculos de esperança e de consolação, característicos da segunda parte do ministério de Ezequiel, quando esse se encontra, juntamente com seu povo, no exílio babilônico, após 587 a.C. Dividimos o relato em duas partes: na primeira, o profeta descreve a visão (v. 1-10); na segunda, explica o seu significado (v. 11-14). Ambas as partes estão interligadas, perfazendo uma unidade. V. 1 – “A mão de Javé” aparece sete vezes em Ezequiel (1.3; 3.14, 22; 8.1; 33.22; 37.1; 40.1). Essa expressão serve para introduzir um novo oráculo ou um novo capítulo. Dá uma idéia do poder com que o Senhor se revela ao profeta para agir e falar por seu intermédio. O espírito de Javé pousa/instala o profeta no meio do vale de ossos secos. Aqui não se sugere a idéia de um cemitério, pois os ossos estão expostos, nem há referências sobre a origem das ossadas. Quanto ao local, o vocábulo “vale” é usado somente por Ezequiel e apenas duas vezes, aqui e em 3.22. Contudo, não há indícios suficientes para definir o local. Esses detalhes não são importantes, pois se trata de uma visão, metáfora de um povo exilado que olha para sua história e se reconhece sem esperança, conforme o v. 11: “Nossos ossos se secaram, e pereceu nossa esperança; estamos de todo exterminados”. V. 2 – O profeta anda entre os ossos e constata que eram mui numerosos e estavam sequíssimos. Esse quadro expressa uma realidade sem esperança. V. 3 – Apresenta o problema existencial: “poderão reviver esses ossos?”. Não há evidências de que Ezequiel cresse numa doutrina de ressurreição geral dos mortos, pois nem sequer se cogitava essa possibilidade em Israel nesse período. Por outro lado, qualquer israelita piedoso não duvidaria de que Deus pudesse restaurar a vida aos mortos, como por exemplo em 1 Reis 17 e 2 Reis 4.33s. Por isso o profeta é cuidadoso na resposta: “Senhor Deus, tu o sabes”. V. 4 – Ezequiel recebe a ordem de profetizar aos ossos secos para que esses ouçam a palavra do Senhor e vivam. Isso lembra Gênesis 1, quando Deus falou e a vida foi criada. V. 5 – Destaca-se aqui o verbo entrar/vir (bô’ ). Esse aparece também nos v. 9, 10 e 12. A finalidade da ação divina é que os ossos vivam, e é por isso que o espírito precisa entrar neles. A palavra hebraica rûah aparece nessa perícope com três sentidos diferentes. Nos v. 1 e 14 significa Espírito, nos v. 5, 6, 8, 9 e 10, fôlego, sopro de vida, hálito. No v. 9, vem precedido do artigo e significa vento ou ventos. V. 6 – Javé é sujeito da frase; é ele quem age e o povo saberá/conhecerá (yd’) que Deus é Senhor, que pode criar a vida e fazer viver de novo. A revelação de Deus faz-se em sua ação. A expressão “Então sabereis que eu sou Javé” aparece também no v. 13. Ezequiel emprega 54 vezes essa fórmula em seu livro, sempre após anunciar a ação de Deus. O povo não pode viver a não ser que conheça o Senhor, a fonte da vida, cf. Ezequiel 47. V. 7 e 8 – Enquanto Ezequiel profetiza, o povo é recriado pelo poder da palavra. Juntam-se osso a osso, recebem tendões, carne e pele. Falta-lhes, porém, a vida (rûah).

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V. 9 e 10 – A profecia se concretiza. A vida vem pelo sopro de Deus, semelhante a Gn 2.7. Esse sopro de vida vem dos quatro ventos, que também se chamam rûah em hebraico (rûhôt,). Esse jogo de palavras significa que o sopro vem dos quatro cantos da terra, como em 1.17 e 7.2. V. 11 – Traz a interpretação da visão e é a chave para entender o texto. Os ossos secos são toda a “casa de Israel”, ou seja: o conjunto dos israelitas exilados, os do norte e os do sul. Esses perderam a esperança e consideram-se mortos, secos, tal qual o montão de ossos espalhados pelo vale. Não enxergam saída num futuro para si e afirmam: “... e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados”. O lamento fornece a imagem-base da profecia. O profeta, em resposta ao clamor do povo, afirma a esperança na ação de Javé, que devolverá a vida e a liberdade. V. 12 – A visão começou com ossos expostos (v. 1), mas agora se amplia incluindo as sepulturas (significa a nação onde se encontram), para ilustrar a ação de Javé, que levará Isael de volta a uma nova vida em sua própria terra, após seu estado de morte, no exílio babilônico. V. 13 e 14 – Então todos conhecerão que Javé é Deus, cf. o v. 6. Pousar / instalar (nûah) – O mesmo verbo é usado no v. 1 para afirmar que o espírito de Javé pousa o profeta no meio do vale, onde se encontram os ossos secos, e aqui para dizer que é Deus quem instalará os israelitas em seu país. Deus age quando humanamente tudo parece perdido e faz o povo reconhecer que ele é Senhor.

3 Meditação A exemplo de Ezequiel, a pregadora e o pregador são chamados a olhar para sua realidade de ossos secos. Compartilho aqui o meu olhar: Nossa realidade parece diferente daquela apresentada pelo profeta Ezequiel. Não estamos no exílio, somos uma nação soberana e livre. Entretanto, vivemos numa sociedade neoliberal, onde se cultuam e sacrificam pessoas ao deus “mamon”. O que importa é o acúmulo de capital e a riqueza. Para obtêlos, passa-se por cima dos direitos e da dignidade humana, transformando as pessoas em verdadeiras máquinas. Quando essas não produzem o desejado, são trocadas por outras, mais eficazes. O ser humano é considerado uma simples peça de reposição, que pode ser descartada e jogada fora quando não serve mais, pois a lógica do lucro não conhece a compaixão. Cria-se, assim, uma sociedade de qualificados e outra de excluídos, que cresce cada vez mais, gerando miséria, doenças e morte. Isso me parece mais cruel do que o exílio babilônico. As ambições desenfreadas vão matando os últimos sinais de solidariedade que ainda se aninham no coração humano. Na luta pela sobrevivência, as pessoas tornam-se individualistas e insensíveis à dor alheia. Não seria exatamente a solidariedade a grande solução para acabar com a ganância e fazer o ser humano descobrir a responsabilidade comunitária na construção

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do bem-estar? É sabido que a estrutura político-econômica de um país tem relação direta com a qualidade de vida do seu povo. Claro que a saúde e a dignidade da vida não devem ser responsabilidades exclusivas do Estado, mas, quando esse deixa de investir na área da saúde, da educação, dos transportes e da moradia, está sonegando o mais elementar direito ao cidadão brasileiro. Saúde não é apenas a ausência de doença, mas sim a interação da pessoa com a sociedade. Para isso é preciso levar em consideração a alimentação, o lazer, o descanso, a família, a moradia e outros. Estou cada vez mais convencido de que a saúde do ser humano depende de um relacionamento saudável consigo mesmo, com a natureza, com os outros e com o próprio Deus. No Brasil, assistimos à desvalorização do ser humano pelo sistema que gera as doenças e nega o acesso à medicina. Como podemos não enxergar que o pobre sofre por causa da desnutrição, da falta de atendimento médico e de dinheiro para comprar os remédios? Já o rico sofre com a preocupação de manter o que tem e a ambição de conseguir cada vez mais. Ambos sofrem, uns pela falta e outros pelo excesso. Esse desnível social traz sérios reflexos para a saúde de nosso povo. Nesse contexto, tão carente de cura, pergunta-se pelo papel da igreja. O que a IECLB pode fazer para promover, em nossa sociedade, saúde e dignidade humana? Por que a grande maioria de nossos membros, quando estão doentes, afastam-se da igreja? Na grande maioria de nossos cultos não existe espaço para as pessoas falarem de sua dor. Quando alguém rompe o silêncio e desmascara a realidade de sofrimento presente entre o povo de Deus, gera desconforto e cria um impasse, porque não se sabe o que fazer com essa dor. Parece que a igreja esqueceu o Cristo sofredor, que se solidariza com os que sofrem. Esqueceu sua função de hospital, conforme Lutero tão bem ensinava. Muitos membros pensam que a igreja fracassou, revelando sua impotência diante da dor e do sofrimento. No momento em que escrevo esta mensagem, o papa Bento XVI está em visita ao Brasil, empenhando-se na revitalização do rebanho católico brasileiro, que vem perdendo 1% de seus fiéis por ano. Em seus discursos, percebe-se uma ênfase na reconquista dos jovens e na opção preferencial pelos pobres. Também nós (IECLB) estamos decrescendo. Sentimos o afastamento silencioso de nossos membros, especialmente os jovens, que buscam em propostas neopentecostais um novo jeito de viver a fé. Felizmente, sobrou um “resto fiel” de “cabecinhas brancas” que participa de nossos cultos. Assemelha-se ao povo de Israel que clama: “Nossos ossos se secaram, e pereceu nossa esperança; estamos de todo exterminados”. Afinal, qual é o futuro de uma igreja que encolhe a cada ano? A mensagem de esperança anunciada por Ezequiel é também a necessidade de nosso tempo. É preciso apontar para experiências em que sepulturas foram vencidas. Exemplos nos quais o viver comunidade foi importante para restaurar a saúde de pessoas. Obviamente, cada contexto terá as suas. A exemplo de Ezequiel, nós também somos chamados para profetizar

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restauração ao nosso povo, por vezes tão seco de esperança quanto os ossos espalhados pelo vale. Profetizar é proclamar a palavra de Deus, que anuncia esperança e vida em meio ao sofrimento e à morte. Estamos, assim como o profeta, numa situação de impotência. Não conseguimos com nossas forças mudar a realidade. Somente pelo poder e pela ação do Espírito de Deus haverá um re-avivamento de nossas comunidades. Nossa tarefa é obedecer à ordem de Deus para profetizar a reorganização de nossas comunidades, assim como aconteceu com os ossos secos que receberam tendões, carne e pele. Somos chamados a proclamar a solidariedade, a justiça, a partilha, a fraternidade. Anunciar o chamado de Deus para sermos comunidade terapêutica que acolhe pessoas sofridas e trata suas feridas. Ainda assim, falta-nos profetizar ao Espírito: “Vem dos quatro ventos e assopra vida em nossa realidade marcada pela morte”. Nesse sentido, as leituras podem sinalizar que a esperança de vida anunciada pelo profeta Ezequiel concretiza-se em Jesus Cristo, pois ele suportou a morte para nos trazer vida. “Para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos” (Jo 11.47-53). Jesus torna-nos filhos de Deus. Recebemos o Espírito que o Senhor prometera já nos tempos do exílio. Estamos nessa nova realidade, ou seja, na vida verdadeira do amor, do perdão e do serviço ao próximo. E se o Espírito ressuscitou Jesus dentre os mortos, também ressuscitará a nós, para que participemos da vida plena de Deus (Rm 8.11-17).

4 Imagens para prédica Deus pode Eu não posso, mas Deus pode salvar e libertar; Aliviar e renovar o coração cheio de culpa. Eu não olho para mim mesmo, mas contemplo Jesus E digo alegre e confiante: Eu não posso, mas Deus pode! Eu não posso, mas Deus pode guardar, fortalecer, erguer; Ele pode fortalecer os joelhos trôpegos, alegrar o coração. Eu deposito o meu fardo aos seus pés, juntamente com tudo o que me prende, Ou que é difícil e grande demais para mim. Eu não posso, mas Deus pode! Eu não posso, mas Deus pode! Orientar-me neste mundo E preparar-me para servi-lo a cada dia, renovadamente. Quando me falta o ânimo, quando as forças próprias se vão, Aí eu seguro a sua mão: Eu não posso, mas Deus pode! (autoria desconhecida) Consolai-os

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Não consolem o povo com palavras vazias, mas com a boa-nova de Jesus. Não consolem o povo com suas imposições, mas com sua compaixão e seu sacrifício. Não consolem o povo com esmolas, mas através do repartir. Consolem os pobres. Jesus se declara solidário com eles. Consolem os que se arrependeram. Jesus oferece-lhes perdão. Consolem os enlutados. Jesus promete a ressurreição. Consolem os que são perseguidos por causa da fé e da justiça. Eles são especialmente valiosos para Deus. Consolem os oprimidos. O Senhor os erguerá. Consolem os ofendidos. O Senhor os alegrará. Meu Jesus, eu te agradeço pelas pessoas que me consolaram em meu sofrimento. Ajuda-me a consolar os desconsolados e a trazer-lhes alegria e paz. Amém. Johnson Gnanabaranam Podemos receber Sinto forças e esperança quando vejo comunhão. No encontro de pessoas, tanto gesto de união. Só me envolvo com alegria quando todos têm lugar. Orientados e unidos, temos meio para amar. Veja bem como é possível até mesmo tropeçar. Nós podemos aprender a repartir e perdoar. Veja, amigo e amiga, nós podemos receber. O Deus vivo está presente, ele permite renascer. Mesmo fracos e dispersos não podemos desistir. Vamos juntos encontrar os novos jeitos de agir. Não estamos isolados, o Senhor é quem conduz. Já não somos estrangeiros, somos povo de Jesus. Olhe bem para o seu lado: quantos clamam por ação, pedem ajuda e espaço pra viver em comunhão. Veja, amiga e amigo, nós podemos receber. Muita gente abandonada quer conosco conviver. Guilherme Lieven

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5 Subsídios litúrgicos Na Quaresma, somos convidados a percorrer o caminho da paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse caminho vamos encontrar Jesus próximo das pessoas que sofrem e precisam de apoio e solidariedade. E nós somos convidados por Deus para seguir os passos de Jesus. Confissão de pecados: Senhor, nesta época de Quaresma queremos silenciar na tua presença e confessar que nem sempre amamos como deveríamos. Somos, por vezes, egoístas e não estamos dispostos a doar a nossa vida pela causa do teu reino. Como tua comunidade, fomos fracos, não nos organizamos para colocar em prática o teu amor. Queremos confessar-te também a nossa omissão, pois fechamos os olhos para não ver o sofrimento de nosso próximo e silenciamos diante das injustiças. Perdoa-nos, Senhor. Por isso te suplicamos cantando: /: Perdão, Senhor, perdão :/ Oração do dia: Senhor nosso Deus, agradecemos-te por tua palavra, que sempre de novo nos consola e nos chama para o serviço no teu reino. Ajuda-nos a ouvir e aceitar a tua palavra, para que ela nos fortaleça no amor e nos oriente nos caminhos da diaconia e do amor ao próximo. Isso te pedimos em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina, de eternidade a eternidade. Amém. Confissão de fé (da Indonésia): Creio em Deus, Pai de todos, que deu a terra a todos os povos e a todos ama sem distinção. Creio em Jesus Cristo, que veio para nos dar coragem, para nos curar do pecado e libertar de toda opressão. Creio no Espírito Santo, Deus vivo que está entre nós e age em todo homem e mulher de boa vontade. Creio na igreja, posta como um farol para todas as nações e guiada pelo Espírito Santo a servir os povos. Creio nos direitos humanos, na solidariedade entre os povos, na força da não-violência. Creio que todos os homens e mulheres são igualmente humanos. Creio que só existe um direito igual para todos os seres humanos e que eu não sou livre enquanto uma pessoa permanecer escrava. Creio na beleza, na simplicidade e no amor que abre os braços a todos e na paz sobre a terra. Amém. Oração de intercessão: L – Senhor Deus, a tua Palavra anuncia esperança para nossa realidade tão marcada pelo sofrimento e pela morte. Por isso queremos te pedir que

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sopre sobre nossas comunidades o sopro do Espírito Santo e aviva em nós tua Vida, a que criastes e depositastes em cada uma de tuas criaturas, para que nos sintamos convocados a promover, através de nosso testemunho e serviço, a Vida neste mundo. C – Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. L – Intercedemos para que a igreja confie sempre e acima de tudo na palavra de Deus e em sua força libertadora. Para que ouçamos as vozes que nos chamam a lutar por uma sociedade mais justa e por um ser humano mais fraterno. C – Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. L – Intercedemos para que, frente ao individualismo e ao egoísmo, propaguemos entre as pessoas o valor da solidariedade. Para que sejamos conscientes de que o Senhor está sempre ao nosso lado, mesmo nas horas mais difíceis e na tentação. Para que a Eucaristia celebrada em nossa comunidade nos anime a ser conseqüentes com nossa fé e nossa esperança. C – Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. L – Senhor, Tu que animas a nossa fé, consolidas a nossa esperança e fortaleces o nosso amor, faze que optemos sempre pelo bem, pela justiça e pela paz, de modo que teu reino cresça sempre, superando toda tentação de construir este mundo e esta sociedade sem contar contigo em nossa vida. Por N. S. J. C. C – Amém. Bênção: Que Deus toque tuas mãos para que sejam sempre generosas e solidárias, toque teus pés para que teus passos sejam firmes no caminho da paz. Que Deus toque teus ouvidos para que permaneçam abertos à voz do Senhor e ao clamor do teu próximo Toque tua boca para pronunciares palavras que consolam e que curam. Que Deus toque teus olhos para que brilhem com a luz da esperança e reflitam o amor de Deus. Assim te abençoe nosso Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

Bibliografia TAYLOR, John B. Ezequiel – Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova/ Mundo Cristão, 1984. ASURMENDI, J. M. O profeta Ezequiel. São Paulo: Paulinas, 1985.

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DOMINGO DA PAIXÃO

PRÉDICA: MATEUS 27.11-26

16 MAR 2008

ISAÍAS 50.4-9a FILIPENSES 2.5-11

Romeu Ruben Martini

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Introdução

A todo instante ouve-se esta pergunta: Quem é culpado? Quem é culpado pelas balas perdidas que roubam a vida de inocentes? Pela morte dos peixes nos rios que cruzam nossas cidades? Pelos conflitos entre etnias? Pelas desavenças em família? Quem é culpado? Parece não haver dúvidas de que nós dificilmente assumimos nossa parcela de culpa diante do que acontece. Isso vai desde a lambida no merengue da torta na geladeira até atitudes e palavras que ferem e arrasam vidas. Eu não! Foi ele/ela/isso/aquilo! O culpado sempre está fora de mim. Também em relação ao que me prejudica, a culpa normalmente é transferida. Aliás, nesses casos, cresce hoje a tendência de culpar “os poderes do mal; o diabo”. Ali está o culpado. No entardecer do tempo da Quaresma, início da Semana Santa, a liturgia do culto convida a perguntar sobre a culpa pela morte de Jesus. Quem é culpado pela morte de Jesus? Já houve época em que se afirmava de maneira bastante acentuada que o culpado pela morte de Jesus fora o Império Romano. Para outros, a morte de Jesus fazia parte do plano de Deus; ele estava predestinado à morte na cruz. Há ainda quem entenda que o culpado por essa morte é o ser humano em termos gerais. O texto da prédica deste domingo aponta quem é culpado pela morte de Jesus. E isso precisa ser lido e analisado em conexão com Isaías, que falou do servo que se ofereceu para sofrer humilhação (50.6), e em conexão com Filipenses 2.5-11, que toma Jesus – o servo sofredor com rosto bem humano – como modelo para a comunidade cristã. Compreender quem é culpado pela morte de Jesus ajuda-nos a refletir com mais sobriedade e responsabilidade sobre nossos atos e, o que é mais decisivo, leva-nos a assumir nossa parcela da culpa e a transformar nossos atos, nossas comunidades, nossa sociedade, de sorte que sejamos sujeitos que promovem a vida em sua plenitude, cultivando a paz semeada pelo Filho de Deus.

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Domingo da Paixão

2 Exegese O texto da prédica está no contexto dos capítulos 26 a 28 de Mateus, que aborda a paixão de Jesus, sua morte cruel na cruz e sua ressurreição. Jesus tem consciência de que será “entregue” (26.1-30), termo (26.2; 27.2) que expressa que fariam com ele o que bem entendessem. E isso se confirma: os responsáveis pela morte de Jesus se dão a conhecer (27.1-26), ele é traído, preso, humilhado (26.31-75), levado como cordeiro ao matadouro e depois enterrado (27.27-66). Porém, contra todas as previsões, Jesus ressurge para a vida e sua autoridade e sua mensagem alcançaram céu e terra em todos os tempos (28). Colocando a lupa sobre Mateus 27.11-26, encontramos ali cinco cenas distintas: 1) V. 11-14 – Preso, Jesus fica no foco do “show” e passa a ser objeto da fúria da multidão instigada, ainda que nesse momento tenha optado pelo silêncio. Diante de posições extremas e intransigentes, Jesus cala. O seu “tu o dizes” revela que o reinado que a população e as autoridades aguardavam não é nos moldes dos governos vigentes; não é um reinado para competir com o Império Romano. Nesse sentido, o silêncio também pode ser entendido como sinal evidente de que Jesus assume sua missão como compromisso indesviável da cruz. Trata-se de “sua submissão digna, soberana e voluntária à missão do servo sofredor” (Anderson, p. 242). 2) V. 15-18 – Jesus também é vítima de costumes, de populismo e de inveja. Quem será solto na festa: Barrabás, um assassino (de acordo com os textos paralelos), ou Jesus, o Cristo? Mateus acentua essa confrontação. E há um detalhe relevante nisso: “preso” (v. 15), a partir do termo original (désmios), significa “ainda não julgado”. Portanto, segundo Mateus, os judeus no seu conjunto – população e suas lideranças – rejeitam, julgam e condenam o Servo e o trocam por um bandido. Mateus não fala somente do “povo”, mas do “povo todo”. O povo enquanto nação carrega a culpa pela morte de Jesus, e não apenas os seus dirigentes. Mateus faz com que Pilatos apresente ao povo a decisão final. 3) V. 19-20 – Surge um elemento de certo modo surpreendente no desenrolar dos acontecimentos e que visa questionar a tendência manipulada desse processo. A mulher de Pilatos constata que Jesus é inocente. Para Mateus, o sonho é revelação divina. Pilatos é advertido sobre a iminência de um julgamento errado. Uma pagã reconhece o Justo. Porém, como se tratase de mulher, pagã, quem dará ouvidos? Enquanto isso, os dirigentes de Israel empenham-se ao máximo para influenciar a multidão duplamente: pedir a liberdade de Barrabás e a morte de Jesus. 4) V. 21-23 – Pilatos retoma a mesma pergunta do v. 17 e insiste nela: Quem é para ser solto? E aqui está o foco da pergunta de Mateus: Quem é culpado pela morte de Jesus? A multidão e as autoridades são postas diante da alternativa: reconhecer o Justo ou condená-lo. E o que farei com Jesus?

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E o que Jesus fez? – insiste Pilatos. Sua insistência revela que ele está contrariado e que sua decisão será sob coação. 5) V. 24-26 – Nada, ninguém consegue mudar a decisão da multidão. E Pilatos reconhece seu fracasso ao advogar a soltura de Jesus. Vê-se que o poder constituído – o poder romano –, que pretendeu acabar com Jesus desde o seu nascimento (Mt 2.13), tomou corpo no poder popular e religioso (esse incorpora aquele), é derrotado e obrigado a conduzir o inocente à morte. O poder da violência voltou-se contra seu autor, que é forçado a inocentar quem tem culpa e a culpar quem é inocente. Ao lavar as mãos, Pilatos quer tornar visível sua inocência. Isso, porém, não o inocenta, pois de fato ele falhou ao não conseguir conduzir o processo em favor da justa condenação e da justa absolvição. Ele não consegue resistir à força crua de quem quer a destruição de Jesus, o Justo.

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Meditação

Quem é o culpado, seja pela morte de Jesus ou pelos rumos do mundo de hoje? Na década de 1980, à luz do Vaticano II e da força da Teologia da Libertação, entre outros fatores, era normal culpar o poder político pelos males do mundo. Uma das características daquele contexto eram os governos ditatoriais. O cálice distribuído por esses governos de fato era amargo, tanto para a população em geral como para quem ousasse articular uma oposição. Governos sempre carregarão parcela (maior ou menor) da culpa pelo que acontece. Pessoalmente, porém, mudei a maneira de ver a questão da culpa pelo que acontece de ruim, pelo que condena inocentes e inocenta culpados. É o que Mateus já via e percebia, inclino-me a ler. Mateus parece insistir na identificação de uma transferência desgraçada de atitudes que ferem, roubam a dignidade humana e usam e festejam a morte tanto de bandidos como de inocentes. Qual é essa transferência? No caso do primeiro século do tempo cristão, a especialidade do poder de Roma, instalado na Palestina, consistia em impedir a germinação do shalom (no sentido lato dessa palavra), semeado desde o tempo dos profetas e agora regado pelo Filho de Deus em pessoa. No momento em que esse poder (no mínimo, parte significativa dele) reconhece seu erro, a população, que conhece o poder romano e, em boa medida, instigada e manipulada por lideranças religiosas e políticas, encarna aquele poder da violência e busca matar quem está em seu meio e é a Vida na sua plenitude. O povo troca a fonte da esperança verdadeira por um assassino e, não bastasse isso, ainda faz grande festa. E qual a principal razão dessa troca e dessa transferência de atitude? O não-atendimento imediato de expectativas da população – de cada um dos indivíduos que a compõem – e a ameaça aos poderes constituídos. O mais grave é que com aquela mudança de atitude a raiz da violência que humilha e mata

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não é arrancada. Ao contrário, com a atitude leviana da troca do inocente pelo culpado – pela revolta por não ter correspondido a expectativas individualistas –, o círculo da violência é ampliado e fortalecido. Façamos uma análise de nossas atitudes. Cresce assustadoramente a exigência (não somente a expectativa) pelo atendimento da “minha vontade”, do “meu interesse”, daquilo que favorece a quem “eu quero ver favorecido”. Sou contra a violência que me atinge, mas sou a favor do uso das armas para tanta coisa. Revolto-me contra a morte causada por bala perdida, mas expulso de casa minha filha que anuncia a gravidez inesperada. Critico a corrupção em Brasília, mas troco meu voto pelo favor de algum politiqueiro. Observando a pregação e as atitudes de Jesus, daria para resumir, dizendo que ele veio e demonstrou que a vida em sua dimensão mais ampla, profunda, bela, significativa é possível. Claro, há aí um detalhe que está bastante esquecido: conforme Jesus, a vida que ele veio promover não é isenta de sofrimento. Mas faz parte da essência dessa vida que especialmente o sofrimento é enfrentado e carregado com atitudes de solidariedade. Foi por isso que Jesus calou perante a multidão. A vida e o reino que ele promoveu passam pelo sofrimento, que desmonta o sofrimento provocado pela violência do poder pelo poder e da fúria motivada por desejos individualistas. E, segundo Mateus, são os sujeitos desse poder e dessa fúria os culpados pela morte de Jesus. A essência da presença de Jesus é o desmonte daquele método e a eliminação da culpa. Num português simples, ele disse: “Está bem, eu assumo a culpa. Desse modo, rompo o círculo da violência e vocês não precisam mais ficar procurando culpados”. Jesus venceu. Ele ressuscitou. Seu método pode ser conferido em atitudes como as de Mahatma Ghandi. Segundo Paulo, comunidade cristã – igreja – é reconhecida ali onde aquele Jesus humilhado pela multidão é confessado (Fp 2.11), onde seu método está no coração das pessoas (v. 5).

4 Imagens para a prédica As pessoas reunidas em culto reagirão com indignação se a elas forem apresentadas imagens que traduzem violência, especialmente imagens que retratam a violência cotidiana que acompanha todos nós, quase como um fantasma. Dá para projetar essas imagens. Dá para mostrar recortes de jornais com essa realidade. Também dá para pedir que as pessoas descrevam imagens desse tipo. Vistas as imagens, daria para perguntar pelos culpados dessas situações. Num outro momento, daria para comentar a facilidade e rapidez com que um jogador de futebol ou seu time passam da condição de ídolo para culpado. Um gol e uma vitória fazem com que um jogador e o time todo sejam ovacionados e endeusados. Já um “frango” do goleiro e uma derrota enfurecem a mesma multidão e levam-na a depredar as instalações de seu time. Alguém é “deus”, mas logo pode virar culpado.

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Dá para avançar mais e indicar como a violência e a culpa por ela podem nos atingir. Uma filha pode ser “a alegria da família”, a “doçura do vovô e da vovó”. A mesma moça, constatada sua gravidez fora do casamento, pode ser sumariamente expulsa de seu lar e de sua família. Ela é a culpada pela vergonha! E assim estaremos no cerne da prédica: a transferência da culpa a outros e o fortalecimento do círculo vicioso da violência que humilha, causa sofrimento implacável e até mata.

5 Subsídios litúrgicos (Os elementos litúrgicos estão baseados no Livro de Culto, p. 89s. e 270s.) Confissão de pecados: L – Oremos: Deus, que nos perdoas e nos dás nova oportunidade para viver como teus filhos e tuas filhas, para nós é tão difícil reconhecer nossa culpa. Não conseguimos admitir nossa parcela de culpa em tanta coisa que acontece. Para nós, o culpado sempre é o outro. Por isso: C – (Canta ou fala um pedido de perdão) L – Temos nossas “manias” e nossa teimosia. Por meio delas quebramos a comunhão na família, na comunidade, entre pessoas de nossa amizade. Por isso: C – (Canta ou fala um pedido de perdão) L – Para nós é difícil dar o primeiro passo em direção a outra pessoa. Queremos que ela venha até nós. Entendemos que ela é a culpada. E assim carregamos intrigas, desgostos, rancores, ofensas através de gerações. Por isso: C – (Canta ou fala um pedido de perdão) L – Deus amado, pelas rupturas em nossa comunhão, pelos muros que nos separam, também na comunidade, pela falta de compreensão e perdão, pedimos: C – (Canta ou fala um pedido de perdão) Kyrie eleison: Membros da equipe de liturgia apresentam os símbolos, enquanto L os explica. L – Viemos para este culto buscando o encontro com Deus. Neste encontro, não nos afastamos do mundo e de sua realidade, mas unimos nossas vozes àquelas que clamam e pedem compaixão, de modo especial as vítimas de todas as formas de violência. Revistas e jornais (mostrar) publicam relatos sobre violência e morte, sobre pessoas que sofrem injustamente devido às guerras. Com o tijolo quebrado (mostrar) apresentamos perante Deus todo tipo de violência que destrói vidas, arranca membros do seio familiar, explode valores imprescindíveis para a paz. Com o lenço (mostrar) traduzimos a dor diante da doença e da perda

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de pessoas queridas. Por todas essas situações, clamemos ao Senhor: C – (Canta algum Kyrie) Oração do dia: L – Oremos: Nosso Deus, tu que te revelas na cruz e no sofrimento, na tua palavra e na ceia da comunhão, concede que compreendamos o teu jeito de agir, para que não caiamos em tentação quando nossa fé é abalada e nos sentimos vazios e desorientados e para que, mesmo nas situações de sofrimento e desespero, seguremos confiantes a tua mão. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo reina de eternidade a eternidade. C – Amém. Oração eucarística: L – Que Deus esteja com vocês. C – E também com você. L – Elevemos os nossos corações a Deus. C – Sim, a Deus os elevamos. L – Rendamos graças a Deus porque Ele está no meio de nós. C – É digno e justo rendermos graças a Deus. L – Nós te damos graças, ó Deus, porque és o Senhor da história, desde a criação do mundo até o fim dos tempos. Tu te revelaste na história do povo de Israel como Deus que salva, liberta e acompanha no sofrimento e no abandono. Em Jesus Cristo tu vieste a nós e assumiste a condição humana. Nós te damos graças, ó Deus, porque promoveste a salvação da humanidade não pelo caminho da violência, mas pela entrega de teu Filho à morte, revelando, assim, a tua solidariedade no sofrimento e a tua presença ao lado dos que vivem na mais profunda angústia.Nós te louvamos e te agradecemos porque em meio aos escombros da morte reconstruíste a vida e ressuscitaste o teu Filho, dando-nos a esperança da vida eterna. Por tudo o que fizeste por nós e pela salvação preciosa e gratuita que de ti recebemos nós te rendemos graças e te adoramos, cantando o sempiterno hino: C – (Canta) Santo, Santo, Santo. L – Graças te damos porque o Teu Filho Jesus, antes de entregar-se ao julgamento humilhante e à morte na cruz, reuniu os seus discípulos para uma refeição. E, enquanto comiam, tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e deu-lhes, dizendo: “Isto é o meu corpo oferecido por vós, fazei isto em memória de mim”. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós. Fazei isto em memória de mim”. Lembrando o que Jesus fez, reunimo-nos em torno desta mesa para celebrar a vitória de teu Filho sobre a morte, sua ressurreição, sua ascensão para junto de ti e sua volta para o julgamento final. Nós te pedimos: dá-nos o teu Santo Espírito, para que, celebrando a comunhão contigo, nos tornemos um só espírito e um só corpo em Cristo Jesus. C – (HPD 366) Vem, Espírito Santo, vem e atende o nosso chamado.

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L – Lembra-te, ó Deus, das pessoas que já não estão entre nós, muitas delas vítimas da violência instalada neste mundo. Bem guardadas em teu colo, elas continuam conosco na comunhão do corpo de Cristo. Aguardamos o encontro com todas essas pessoas na mesa de teu reino, na festa da alegria, onde conjuntamente te glorificaremos para sempre, por Cristo, nosso Senhor. C ou L – A ti, trino Deus, rendemos toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amém. Motivação para o gesto da paz: L – Em nossa vida passamos por momentos angustiantes, seja por alguma desavença, seja pela discordância com as idéias de nossos colegas e familiares. E, muitas vezes, decidimos resolver as coisas pelo caminho da violência. Lembremos: Jesus veio, calou ao invés de revidar e anuncia ainda hoje: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Envolvidos por esse anúncio, vamos agora desejar uns aos outros a paz de Cristo, aquela paz que tem o poder de curar feridas abertas por todo tipo de violência e que rompe o círculo vicioso da violência.

Bibliografia GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Matthäus. In: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament 1. 6. Auflage. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1986. p. 552-556. GORGULHO, Frei Gilberto S.; ANDERSON, Ana Flora. A justiça dos pobres. Mateus. São Paulo: Paulinas, 1981. (Coleção Círculos Bíblicos 4)

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QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO

PRÉDICA: ÊXODO 24.1-11

20 MAR 2008

MATEUS 26.36-56 1 CORÍNTIOS 10.16-17

Vera Maria Immich

1 Introdução O texto de Êxodo 24.1-11 dá seguimento à revelação do Sinai em Êxodo 19-23 e mostra a constituição ou confirmação da comunhão de Deus com seu povo. Somente Moisés pode aproximar-se de Deus; os demais devem adorá-lo de longe. Parece-nos que a distância com Deus é mais importante do que a comunhão. Inicialmente é reservada a Moisés uma singular proximidade com Deus. Somente a ele Deus fala face a face. Então Deus não era visível, apenas audível. Na continuidade, um grande grupo de representantes vê Deus sem ter conseqüências negativas, pois predominava o pensamento de que quem vê Deus morre. Essa é uma experiência única no Antigo Testamento: tantas pessoas são dignas de chegar à presença de Deus, de ter uma visão. A primeira referência bíblica à aspersão do sangue está em Êxodo 12.22. Foi ordenado aos israelitas que pegassem um molho de hissopo, que esse fosse molhado no sangue de um cordeiro sacrificado e aspergido na verga da porta e seus umbrais. Naquela noite, quando o anjo exterminador viesse e visse o sangue no umbral da porta, ele passaria daquela casa sem atingi-la. O sangue em nossos dias tem uma forte conotação de vida e de sobrevivência. Tantas vezes em nossa comunidade solicitamos doadores de sangue para salvar pessoas que tiveram hemorragias em cirurgias ou outras circunstâncias. No entanto, sabemos que através de contato ou transfusão de sangue contaminado pode-se adquirir enfermidades graves e/ou letais. Portanto, aspergir com sangue hoje está fora de propósito. O que não tira o grande valor que sabemos que o sangue tem para a continuidade da vida. No senso comum, sangue simboliza poder, como indicam várias expressões: esse tem sangue azul ou nobre; quem sai aos seus não degenera; o fruto não cai longe da árvore; selar com sangue; ritos de expiação e oferendas com intenção maligna, e outras que conhecemos em nosso contexto.

2 O texto

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Quinta-feira da Paixão

Há em Êxodo 24.1-11 uma aspersão de sangue. Nessa passagem, Deus fez um acordo com Israel. Depois que Moisés leu a lei para o povo, eles responderam: “Tudo o que falou o Senhor, faremos, e obedeceremos” (7b). Eles concordaram com o acordo feito com o Senhor. Agora, esse acordo tinha que ser selado. Sua confirmação e validação só poderia acontecer através da aspersão de sangue sobre eles. O sangue dos novilhos sacrificados foi recolhido. Parte dele Moisés aspergiu sobre o altar e a outra parte, sobre o povo. Esse sangue, ao cobrir o povo, selou o acordo! “Eis o sangue da aliança que o Senhor fez convosco a respeito de todas essas palavras” (8b). Fica claro na passagem acima que a aspersão do sangue deu aos israelitas pleno acesso a Deus, com alegria. Nessa ocasião, o sangue não tinha nada a ver com perdão e remissão de pecado, mas antes com comunhão. Eles agora ficaram santificados, purificados, preparados para estar na presença de Deus, para ouvi-lo, para vê-lo e para comer com ele. Depois Moisés, Nadabe e Abiú e os setenta anciãos subiram o monte para se encontrar com Deus. E o Senhor apareceu a eles, vindo por um caminho feito de pedras de safira. Esses homens viram diante deles uma mesa arrumada, sentaram-se na presença de Deus e comeram e beberam com Ele: “Ele não estendeu a mão sobre os escolhidos dos filhos de Israel; porém eles viram a Deus, e comeram, e beberam” (Êx 24.11). Isso é simplesmente maravilhoso! Esses homens puderam comer e beber na real presença de Deus, considerando que pouco tempo antes eles tinham temido por suas vidas. Tudo porque o sangue foi aspergido e eles entenderam a segurança, o poder, a proteção que havia nele. Eles não tiveram medo!

3 Leituras bíblicas O texto de Mateus 26.36-56, que é uma das leituras indicadas para este dia, mostra-nos Jesus preparando-se para enfrentar seu martírio, sua morte e morte de cruz. Seu sangue também será derramado e a aliança será firmada para todo o sempre. Em um dos textos anteriores, Jesus celebra e institui a Santa Ceia: “A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é meu sangue, sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para a remissão de pecados” (Mt 26.27-28). O texto de 1 Coríntios 10.16-17 destaca a importância da comunhão com o corpo de Cristo através da Ceia, através do cálice da bênção que abençoamos e do pão que partimos em seu nome. Quem participa dessa comunhão tornase um só corpo. Essa comunhão vence as diferenças culturais e contextuais. Não há mais hierarquias, empregados ou patrões, ricos ou pobres, brancos ou negros, mas todos se achegam a ele formando um só corpo, que é a sua comunidade, a sua igreja.

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Quinta-feira da Paixão

4 A pregação Quinta-feira da Paixão remete-nos à data mais relevante do calendário litúrgico da igreja e de nossa vida de fé. A Semana da Paixão suscita em nós muitos sentimentos diferentes. Os filmes sobre o ministério de Jesus e sua morte e ressurreição nos diversos canais de televisão fazem até mesmo as pessoas que não freqüentam uma comunidade pensar sobre a questão. A pregação, baseada no texto de Êxodo, pode resgatar a importância do sangue em nossa vida e cultura, do sangue que é a própria vida, pois de hemorragia se morre, de anemia e leucemia também, mas da vida/sangue dado por Jesus Cristo em nosso favor ressurgimos dentre os mortos, porque Cristo venceu a morte ao doar-se completamente. O altar que Moisés erigiu é um altar para sacrifício a Deus. Uma forma de achegar-se a Deus, de agradá-lo, de firmar uma aliança, um compromisso de fidelidade, um compromisso de sangue. O ritual do sacrifício realizado por Moisés resulta no sangue aspergido sobre os convidados, o povo de Deus. A pregação deve ser permeada pelo último e grande sacrifício realizado por Jesus Cristo, que se fez ponte para nos ligar ao Pai de forma definitiva. Todas as vezes que, em obediência à ordem de Jesus, celebramos a Ceia comunitariamente, reafirmarmos que esse é o sangue da nova aliança, inaugurada por Jesus. Como seu povo, reafirmamos nossa fidelidade: “Tudo o que falou o Senhor, faremos”. Como seu povo, permitimos que Deus venha até nós para que vivamos de sua comunhão plena e profunda. O pregador poderá enumerar alguns pontos, desenvolvê-los e retomálos, visto que facilita a atenção do ouvinte: a) Significado da aliança de Deus com seu povo ontem e hoje. b) Ajoelhar-se e adorar. Atitude de Moisés e do seleto grupo de anciãos e logo também do povo. Como nós hoje louvamos e adoramos Deus em nossas meditações individuais, em pequenos grupos ou em comunidades? c) Moisés é um líder transparente. Ele conta tudo ao povo. Colabora com seu processo de amadurecimento na fé. Que tipo de lideres espirituais somos nós? d) Eles celebram juntos. Juntos recebem a bênção de proteção de Deus. Como celebramos juntos? Vivemos da graça e da bênção de Deus?

5 Auxílios litúrgicos Para o culto de Quinta-feira da Paixão sugiro uma oração e uma bênção de Luiz Carlos Ramos: Oração: Ó, tu que salvas o corpo da morte E a alma das trevas:

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Quinta-feira da Paixão

Recebe o louvor que ofereço Do fundo deste corpo sacrificado, mas vivo. Permite que esta carne corruptível te seja santa; Que meu canto tímido te seja agradável. E habitarei os teus altares para sempre; Pois sou todo teu, de corpo e alma. Amém. Bênção: Que a Força que abriu o sepulcro Nos abençoe em nossas fraquezas; Que o Amor que venceu a morte Nos ajude a vencer a indiferença; Que a presença do Consolador Nos faça dormir tranqüilos e acordar em paz. Vão na paz do Senhor e sirvam a ele com alegria. Amém!

Bibliografia SCHMIDT, Werner. A fé do Antigo Testamento. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2004. DOMAY, Erhard. Gottesdienst Praxis Série B – Passion. Gütersloh, 2002. ALVES, Rubem. CultoArte. Celebrando a vida. Quaresma e Páscoa. Editora Vozes, 2001. SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO Isaías 50.4-7 MATEUS 27.(27-32) 33-50 (51-54) 2 Coríntios 5.(14-18) 19-21

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DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: COLOSSENSES 3.1-4

23 MAR 2008

ATOS 10.34-43 ou JEREMIAS 31.1-6 JOÃO 20.1-18 ou MATEUS 28.1-10

Ângela Zitzke

1 Introdução Assim como Maria Madalena, a primeira testemunha, percebeu o Mestre diante de seus olhos (Jo 20.16), nós também “somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus” (At 10.39), pois Cristo se manifesta a todas as pessoas que estiverem abertas e sensíveis a seu amor. Ao ressuscitar, Jesus manifestou-se aos discípulos e “não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós” (At 10.41). Todos os que crêem em seu nome e na “palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, [...] Este é o Senhor de todos” (At 10.36). Sobre ele pregamos (At 10.42) e dele recebemos o perdão dos pecados (At 10.43). Por causa dele estamos despertos para “o que é do alto” (Cl 3.3), não para cumprir uma vida ética, mas antes de tudo porque fomos ressuscitados com ele (Cl 3.1). Assim como Cristo foi ressuscitado mediante a fé, podemos ser manifestados diariamente com ele em glória (Cl 3.4). Assim como Deus era com ele (At 10.38), é conosco também hoje. Maria Madalena nunca mais foi a mesma depois que viu o Senhor (Jo 20.18). Ao se dispor a ser anunciadora do Mestre, deixou-se tocar por sua graça e plenitude e estava cheia de alegria e gratidão. Assim também nós podemos permanecer no dia da Páscoa, cheios de ânimo e transbordantes de alegria, pois Deus não nos abandonou. Ele permanece conosco e irrompe em nossas vidas no momento em que mais precisamos. Basta olhar para Jesus como aquele que, mesmo na dor da morte, irrompe na realidade para nos confortar e oferecer vida plena, vida eterna, ainda hoje.

2 Exegese Colossos não era uma comunidade fundada por Paulo, mas por Epafras, um amigo que conheceu em Éfeso. A comunidade era formada por ex-pagãos, mas também pode ter sido composta por ex-judeus, já que havia na cidade uma importante colônia judaica. O motivo que provocou o envio de uma carta aos colossenses foi a preocupação de Epafras com a entrada ou invasão de uma “filosofia” estranha entre os membros da comunidade. A carta é uma enfática pregação e defesa da correta doutrina (ortodoxia) cristã, para que outras influências não prejudicassem os cristãos de Colossos. Não são dogmas,

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Domingo da Páscoa

mas antes esclarecimentos a respeito do confronto entre duas mentalidades religiosas e, mais do que isso, do comportamento humano diante de Deus.1 A perícope de Colossenses 3.1-4 não está propriamente no assunto da carta, que é a advertência contra “falsas religiões”, mas antes se trata de recomendações morais válidas para todas as pessoas e comunidades. O tema fundamental dessas recomendações é tornar-se um novo ser em Cristo, isto é, começar uma nova vida a partir do Cristo ressuscitado.2 Antes os colossenses estavam submetidos à autoridade de “potências” e “vãs filosofias”, viviam para si mesmos e pelas ambições terrenas. Agora podem olhar para Cristo e receber dele o que é mais importante, os valores divinos, a entrega ao que é do alto, não ao que é caracteristicamente humano, baixo e carnal. A ótica dos colossenses precisa ser transformada a partir do momento em que sua entrega à divindade de Cristo for transformando seu ser e seus princípios. Eles são desafiados a amar como Cristo amou e viver o bem e a bondade como ele viveu. A distinção entre o alto e a terra é a distinção entre a nova humanidade de Cristo e o mundo pagão. E o desafio é escolher o caminho que leva para a vida eterna já nas atitudes terrenas e não para a decepção da própria reprovação na hora da morte. “Se fostes ressuscitados com Cristo” lembra a nova vida que começou numa resposta de fé e foi certificada no Batismo. O Batismo é uma experiência que todas as pessoas têm em comum. Através do Batismo todas foram mortas para o velho Adão (sua natureza má) e foram ressurretas na glória com Cristo. Seu agir é diariamente renovado, é muito mais do que algo aparente, pois do coração brota a fé e do amor divino recebem-se forças para perseverar e “obrar” de forma automática, como simples conseqüência daquilo que Deus faz na vida da comunidade. Enquanto as pessoas estiverem unidas a Cristo em oração, em entrega, em amor, em generosidade para o próximo e em reconciliação para com o inimigo, seu agir estará repleto de amor, pois seu coração já está transbordando da fonte, que é Deus. “Buscai” (Cl 3.1) pode tanto indicar a vontade humana que é dirigida a um alvo sem proveito como a uma finalidade que valha a pena. Não aos cultos de mistério, mas ao conhecimento dos verdadeiros segredos espirituais, que estão ocultos na prática do amor de Cristo, que justamente por isso (descobriu como receber a vida eterna) foi exaltado à destra de Deus.3 E os cristãos são convidados a praticar e ensinar não mais um mistério, pois, ao despertarem para a fé no Salvador, já foram iniciados, mas antes um verdadeiro testemunho diário de vida plena com Deus. “Pensai” (Cl 3.2) significa muito mais do que um exercício mental ou estado emocional; antes, sua esfera é a da motivação para a ação. Essa é

Cf. COMBLIN, José. Epístola aos Colossenses e Epístola a Filêmon. Petrópolis/ São Leopoldo: Vozes/ Sinodal, 1986, p. 10, 18. 2 Cf. COMBLIN, 1986, p. 63-4. 3 Cf. MARTIN, Ralph. Colossenses e Filemon. São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p. 111-2. 1

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determinada pelo senhorio de Cristo, que, através da liberdade, inspira e motiva as vidas. Todo julgar e refletir devem e podem estar orientados pelo “céu”, pois a transformação de todos os valores requer um desprendimento sempre mais enérgico das coisas terrenas. A orientação de quem escreve a carta pode ser entendida no sentido de que os cristãos não se percam nas coisas terrenas, como se elas fossem o objeto definitivo ou a finalidade última de sua existência.4 “Porque morrestes” (Cl 3.3) implica a renúncia batismal, que depois é confirmada em idade suficientemente consciente. Somente através da morte (por meio do Batismo) que podemos usufruir da vida. O autor desafia que se olhe não só para o próprio desejo ou vontade terrenos, mas para o que realmente importa: a vida com Cristo, o amor de Cristo, os atos de Cristo. “E a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”, isto é, aquilo que se vive sempre estará voltado para Cristo, o mistério da vida plena. Aquilo que se vive está interligado com Cristo na medida em que for bondoso, dadivoso, amoroso e divino. Todos os nossos atos estão voltados para Cristo e serão do próprio Cristo na medida em que refletirem “as coisas do alto”. A “manifestação de Cristo” (Cl 3.4) não precisa ser necessariamente sua segunda vinda. O versículo tão-somente afirma que, quando Cristo se manifestar nas vidas dos colossenses, eles serão conseqüentemente manifestos com ele em glória. Isso é um fato que ocorre sempre que Cristo for Senhor dos pensamentos, Senhor da fala, Senhor da conduta, conseqüentemente, Senhor da vida dos cristãos. Esse momento de vida plena irrompe na terra toda vez que se dispõe a viver o amor, transmitir a paz e trazer união e justiça na terra. É assim que o reino de Deus pode ser mais do que sentido, verdadeiramente praticado! Ao ser antecipado, já está presente e é real entre aquelas pessoas que deixaram Cristo manifestar-se em suas vidas.

3 Meditação O sentido da Páscoa é manifestar a nova vida. Cristo teve sua vida transformada após a ressurreição e concede da mesma forma vida plena a toda pessoa que se deixar atingir por seu amor. Assim como a vida renasce e floresce anualmente, a Páscoa é um convite para refletir tanto a morte e o luto como o nascimento e a vida. Cristo morreu, mas já foi ressuscitado. Não ficou na morte, passou para a vida eterna. Essa é a promessa para o futuro, mas ao mesmo tempo para todas as pessoas que quiserem se abrir para, nessa data festiva, deixar Jesus mudar suas vidas. Com motivação, alegria e perseverança, a mensagem de esperança pode ser transmitida e corações ser transformados.

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Cf. MUSSER, Franz. Epístola aos Colossenses. Rio de Janeiro: Vozes, 1968, p. 84-5. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Mile-

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Jesus é força de vida, é coragem salvífica, é força para vencer a dor e o luto. Mesmo que os discípulos e discípulas tenham ficado sem a presença do Mestre até o fim de suas vidas, a sua ressurreição foi a “pólvora”, o motivo encorajador da cristandade. Aquilo que ele transmitira e vivera com eles jamais foi esquecido. Suas palavras de ensinamento e seu carinho consolador estavam mais do que presentes nos corações e nas memórias das primeiras pessoas cristãs. A vida atualmente também não é fácil e tem seus desafios, mas mediante a fé se pode ir mais longe do que se imagina. Deus está vivo! Ressuscitou! E essa força transmitida na festa e na celebração da nova vida contagia as pessoas cristãs. No entanto, essa vida plena deve estar baseada em tudo o que vem “do alto” para ser completa e cheia de sentido. Se as pessoas permanecerem fechadas em seu egoísmo, em sua ambição pelas posses e em seu individualismo, nada cairá do céu para ajudá-las. Elas também precisam fazer a sua parte e deixar que o evangelho toque e transforme seus corações e seu jeito de viver. Hoje, a busca das pessoas não deve estar voltada apenas para o consumismo, a vontade desordenada em conseguir dinheiro ou vaidades que não preenchem a existência, se forem adquiridas tão-somente por futilidade. Uma vida sem sentido não será completada por mais posses e mais desejos realizados, mas por algo que vai além do proveito próprio. No engajamento pela felicidade alheia é que se sente a vontade de viver novamente. No trabalho feito com satisfação é que se obtém sentido de vida. No seio familiar é que se renovam as forças para continuar vivendo. A troca de carinho entre os membros da família gera conforto, reabastecimento, troca de experiências e muita alegria. Tudo é possível quando se substituem a rivalidade, o rancor, a raiva e o ressentimento pelo amor, pela doação, pelo perdão e pela amizade. É importante refletir sobre o que se tem feito em relação à valorização demasiada dos bens materiais em detrimento do amor; dos presentes em detrimento do perdão e do real significado da ressurreição de Cristo para a vida de todas as pessoas. O sentido está no desafio de tomar posse e realmente viver essa vida plena que é oferecida. Mas para tanto é necessário entrega para a vida de fé e força de vontade para praticar o que é mais elevado, o que é divino, o que vem do alto gratuitamente para a humanidade. Isso não é dom pessoal, mas capacitação do Espírito Santo de Deus. É ele quem motiva, ensina e estende a mão, ansioso e pronto para ajudar. Basta cada um fazer a sua parte e dar abertura para que o que é mais elevado toque os corações. A vida que se tem agora é preciosa demais para ser desperdiçada. Os valores, muitas vezes mal conduzidos, levam à futilidade. Já os valores bem canalizados para o que é mais elevado trazem conseqüentemente uma vida de fé mais grata e com mais brilho. Os problemas que, muitas vezes, estão presentes como um incentivo para fazer crescer são desafiadores. Pode-se conformar com eles ou até mesmo revoltar-se contra eles, mas dessa forma ninguém conseguirá superá-los. Antes importa olhar com força de vontade para as adversidades da vida e tentar sempre superá-las com bom humor e

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fé, muita fé. A vida que se tem é uma dádiva preciosa demais para ser desperdiçada. Cabe a cada pessoa fazer a sua parte para buscar o que é verdadeiramente importante: os valores espirituais, o crescimento na vida de fé e a prática do amor cristão. Só isso levará a uma vida ao lado de Deus. Se nada disso for cultivado, com quem e para que se quer ressuscitar? Importa antes focalizar todos os desejos e pensamentos nos céus, para que seu viver não seja apenas busca humana, mas conseqüência natural e divina. O amor que preenche os corações concede vida e ânimo para olhar com carinho para o próximo. Gerar vida é um dom divino, mas toda pessoa enquanto filha de Deus é capaz de trazer vida nova a quem precisar de uma direção ou um conselho. Amar é conseqüência de toda a pregação e vivência de Cristo. Ele foi o mestre, e nós seus humildes discípulos. O desafio de sermos depositários de seu dom mais elevado e que cumpre todos os demais preceitos éticos é vivido como um desafio diário e que nunca cessa. A humanidade sempre será aprendiz do amor divino e constantemente desafiada a mudar por causa dele. Só assim o reino poderá irromper e trazer consigo a tão sonhada justiça igualitária. A vida é uma constante dedicação à busca espiritual. Cada pessoa tem uma missão específica. Cabe a cada uma descobrir a sua por meio de oração, silêncio e contato consigo mesma para então, uma vez conhecida, dedicar-se de corpo e alma à sua concretização. Isso trará realização e muita satisfação. A alegria de estar fazendo o que se gosta e dedicar-se àquilo que ama e veio fazer neste mundo não tem explicação! É dom divino. E o bom é que toda pessoa, sem exceção, possui a sua missão e o seu sentido. Cabe a ela vivê-la da melhor maneira possível, conciliando-a com seu trabalho, família e lazer, recebendo inclusive a ajuda e aprovação de cada área de sua vida. Esse é o sentido maior da ressurreição de Cristo: a vida nova que ele proporciona a cada pessoa individual e coletivamente. Pois quando se está preenchida pela fé e pelo amor de Cristo, não se quer nem pode ficar com essa alegria guardada em si. Precisa-se transbordar sobre o próximo. Esse novo nascimento é real e possível para cada pessoa. Basta entregar-se à espiritualidade com cada vez mais profundidade e abnegação. Sem a morte de aspectos egoístas e mesquinhos não tem como haver nova vida. Necessário é nascer de novo! E diariamente... Graças ao Espírito de Deus!

4 Imagens para a prédica • O novo nascimento é comparado ao ovo, que parece sem vida, mas de lá sai um pintinho. Ou então ao casulo da borboleta, que visto de fora parece uma folha ou galho seco e de seu interior, no momento certo, sai uma linda e colorida borboleta. • Poesia de Russell Champlin, ao meditar sobre Cl 3.1. Título: Vivos em Cristo “Mortos para o mundo, / Pré-requisito absoluto, / Mas vivos para o Se-

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nhor, / Em poder [...] resoluto. / Ele, Senhor da morte, / Conquistador em sua vida, / Morrendo e vivendo em mim, / Dá-me vitória no conflito. / Morrendo e vivendo em mim, / Pondo em fuga o reino das sombras, / Transformando-me segundo sua santa imagem, / Estabelecendo em mim o seu reino de luz.”5 • Frase de Martim Lutero: “Dizemos nós: No meio da vida morreremos. E Deus responde: De modo nenhum, mas no meio da morte viveis”.6 • Para Colossenses 3.3: Temos uma vida garantida por Cristo como salvador e glorificada nele como redentor. Baseando-se nisso, Alfred Lord Tennyson escreve em “The Human Cry”: “Sentimos que nada somos, pois tudo és Tu e em Ti; Sentimos que algo somos, isso também vem de Ti; Sabemos que nada somos – mas Tu nos ajuda a ser algo. Bendito seja o Teu nome – Aleluia!”7 • Para Colossenses 3.4: Mesmo ao atravessar trechos escuros em nossas vidas, Cristo estará conosco. Ele é a garantia. Deus que sempre raiará um novo dia. John Greenleaf Whittier (1807 – 1892) escreve: “Ai daquele que nunca vê / As estrelas brilharem por entre os ciprestes! / Os quais, sem esperança, sepultam seus mortos / E não contemplam o novo dia que raia / Do outro lado dos mármores coloridos da manhã; / Esses não aprenderam, em oras de fé, / A verdade desconhecida da carne e dos sentidos, / Que a vida sempre é Senhora da morte, / E que a morte nunca perde os seus!”8

5 Subsídios litúrgicos Oração do dia: Assim como estiveste com o povo de Israel nas dificuldades e com os primeiros cristãos no testemunho, permaneça tu, Senhor, conosco, fortalecendo, amparando, ensinando a viver com a alegria da ressurreição e podendo tirar forças desse evento motivador para a vida pessoal e comunitária das pessoas. Amém. Oração de intercessão: Amado Deus, chegamos à tua presença reconhecendo nossa fraqueza humana. Sabemos que, muitas vezes, nos deixamos levar pela dor; não buscamos consolo; negamos tua mão estendida e ainda dizemos que tu não

nium. v. V, 1980, p. 133. CHAMPLIN, 1980, p. 132. 7 CHAMPLIN, 1980, p. 134. 8 CHAMPLIN, 1980, p. 135. 9 Se as músicas não forem conhecidas, podem ser trocadas ou apenas faladas pela comunidade. 6

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estás conosco. Perdoa-nos, pois, assim como aqueles que te crucificaram, nós também não sabemos o que fazemos quando a nós mesmos nos crucificamos na escuridão, longe de ti. Mas teu Filho ressuscitou e nos concede por graça e misericórdia mais uma vez e eternamente a possibilidade de receber o perdão e nos reconciliar com tua maravilhosa luz. Demos graças a Deus! Oração eucarística9: Sim, é digno, justo e nosso dever que em todos os tempos e lugares demos graças a ti, Deus eterno e todo-poderoso, que nos motivas a mais uma vez nos alegrar com a ressurreição de teu filho amado. Por isso, com toda a tua igreja, adoramos teu glorioso nome, cantando: Santo, Santo, Santo, ó Senhor, / Deus eterno, Deus eterno. (narrativa da instituição) Apesar de ter sofrido a morte em nosso favor, Cristo ressuscitou, está a teu lado e voltará para julgar vivos e mortos. /: Vem, ó vem, Senhor Jesus :/ O Espírito Santo nos congrega em unidade e amor para que nos tornemos, em Cristo, um só corpo que anuncia a esperança. /: Vem, Espírito, vem, Espírito, vem Espírito Criador :/ Também lembramos, ó Deus, daqueles que já não estão mais entre nós, à espera da completa união no corpo de Cristo. Por Cristo, com Cristo e em Cristo, seja a ti, Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória, agora e para sempre. Amém. Amém. Amém.

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2º DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: JOÃO 20.19-25(26-29)

30 MAR 2008

ATOS 2.14a, 22-32 1 PEDRO 1.3-9

Heinz Ehlert

1 Considerações exegéticas O texto, seja na versão de Almeida, edição revista e atualizada no Brasil, seja na linguagem de hoje, não apresenta maiores problemas no tocante à tradução do original. Para a pregação sugiro incluir os v. 26 a 29 do cap. 20 no trecho, porque completam melhor a história com sua mensagem. Cabe observar que o assunto já foi tratado em volumes anteriores de PL (X, XIX, XXI, XXVII, XXIX e XXXI). Para quem tiver acesso, convém levar em consideração. Quanto às aparições do ressurreto aos discípulos, o Evangelho de João apresenta dados específicos, no destaque dado à Maria Madalena e Tomé. V. 19-23 – Faz a ligação com o trecho anterior (v. 11-18), localizando o horário “ao cair da tarde” do mesmo dia. As portas trancadas devem explicar, de um lado, o medo dos judeus (não só das autoridades, mas também do povo hostil) e, de outro, o estado do ressurreto, não mais sujeito às leis do tempo e do espaço. A saudação de paz, além de ser a habitual, reforça a familiaridade entre Jesus e seus discípulos. Aliás, “discípulos” aqui são os dez, sem Judas e Tomé (diferente daqueles que o abandonaram, cf. Jo 6.66-69). Espontaneamente, Jesus mostra-lhes o sinal dos ferimentos: é idêntico aos do crucificado. Cumpre-se agora a promessa da alegria (ver Jo 16.20s.). Logo a aparição resulta em missão e legitimação (v. 21-22). Nesse momento trata-se da legitimação apostólica dentro da comunidade dos crentes. O que virá em Pentecostes é mais abrangente: é missão ao mundo (Mt 28.18s. e At 1.6-8; 2). V. 24-29 – O presente trecho sobre Tomé pressupõe o anterior (v. 19-23). Agora se comunica que Tomé não esteve presente na primeira aparição aos discípulos. Ele já é conhecido dos leitores (Jo 11.16;14.5). Tem espírito crítico. Quer saber mais. A dúvida dele agora não se refere ao que os demais tinham visto (poderia ter sido alucinação), mas à afirmação de que Jesus vive. Incredulidade dos discípulos é relatada também nos sinóticos (Lc 24.11, 25, 38, 41; Mc 16.11, 13-14). Importante é como Jesus lida com ela: Vem ao encontro, não condena. Mesmo assim, a exortação de não ser incrédulo! Oferece a ele o que antes já mostrara aos dez, espontaneamente. Não se afirma que Tomé realmente tenha apalpado Jesus, mas “viu”(v. 29).

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A exclamação de Tomé é uma confissão de fé. Não só depois de ver acredita na ressurreição, mas crê em Jesus como sendo Deus. Bem de acordo com o prólogo no Evangelho de João (1.1). O final do trecho (v. 29) aponta para o futuro, quando se requer uma fé em Cristo, sem sua presença visível, mas baseada no testemunho dos discípulos.

2 Meditando o texto A comunidade que se reúne a portas trancadas retrata, ao mesmo tempo, uma igreja desanimada, sem coragem, mas principalmente preocupada com ela própria. Preocupada com sua segurança e com o futuro incerto num contexto hostil. Não é também o retrato de nossa igreja hoje? Quais são nossas preocupações? O que nos desanima e nos deixa sem coragem? Pode ser falta de crescimento numérico, podem ser brigas internas, pode ser falta de disposição para se engajar, pode ser pouca vontade de contribuir financeiramente ou engajamento para a missão. Mas pode também ser a situação econômica precária de muitos membros ou a crescente insegurança geral numa cidade com aumento da violência. Sem dúvida, é de suma importância que a comunidade esteja reunida. Reunida para cultivar a comunhão e para apoio mútuo. Foi isso que aconteceu na tarde daquela memorável Páscoa, dia da ressurreição de Jesus. É lá na comunidade que é anunciada a boa-nova de que o crucificado ressurgiu, vive como Filho de Deus. É disso que também o encontro de Tomé fala. Tomé é o retrato da pessoa crítica, que não se deixa levar por um entusiasmo infundado. Quer saber como as coisas realmente são. Mas quando tem um encontro com o Cristo vivo, confessa: “Senhor meu e Deus meu”. Jesus não condena pessoas como ele. Mostra compreensão. Mesmo assim, chama bem-aventurados os que não viram, mas creram. Essa vai ser, no futuro, a maneira das pessoas, confrontadas com o evangelho, chegar à fé: crer na pregação e no testemunho dos discípulos, de geração em geração, no poder do Espírito Santo. Assim poderá ser testemunhado e experimentado o que a cristandade confessa desde então: “... está à direita de Deus , Pai, todo poderoso ...” e olha por sua comunidade, intercede por ela. É a comunidade não de perfeitos, mas de pecadores justificados. Ainda são acometidos de medo, ainda caem em tentação. Mas ali mesmo na “comunhão dos santos” é anunciado e recebido o perdão dos pecados, mediante palavra e sacramento. Nisso consiste também a singular alegria da comunidade cristã, prometida pelo próprio Salvador. Essa alegria não termina com a Páscoa. Ela acompanha os cristãos em meio aos problemas cotidianos, ao sofrimento e à insegurança do tempo presente e renova-se pelo louvor ao Senhor vivo. Então não se precisa fazer de conta ou fechar os olhos para os problemas, para a própria miséria e a de outros. Antes, inspirados no exemplo de Cristo, que morreu e ressuscitou, precisa apoiar-se e animar-se mutuamente. A convicção do Cristo vivo e presente faz abrir “as portas trancadas”.

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A comunidade, qualquer comunidade, pode olhar para fora de seu gueto, sair dele para a missão que recebeu do Senhor ressurreto. “Ide, fazei, discípulos...” – é a grande oportunidade e o grande desafio da comunidade pascal. Até que ele venha... Em nossos dias, diante do pluralismo religioso, precisamos despertar para essa tarefa. Evangelizar os batizados da própria igreja, mas simultaneamente abrir os olhos para os de fora. Aproveitar as oportunidades dentro de seu círculo de vida. Não sentir constrangimento em falar de sua fé, de sua participação na igreja. De falar que é luterano. Aqui cabe um papel especial para os chamados leigos. Homens e mulheres de qualquer idade. Fazem parte desse “sacerdócio real”, do “ministério compartilhado”. Pensar, pois, em nosso ambiente familiar, profissional, social e político. Mas cabe também participar das campanhas em âmbito sinodal e da igreja nacional.

3 Passos para uma pregação Com os elementos contidos nas considerações exegéticas e na parte meditativa, que necessitam sempre do confronto do pregador ou pregadora com seu contexto específico, poderíamos chegar ao seguinte roteiro de uma prédica: Tema: A Páscoa continua Partes: 1) A comunidade (reunida) experimenta surpresas com a presença do Senhor ressurreto. É edificada. Experimenta perdão e é animada pela comunhão. Enche-se de alegria e coragem para continuar, apesar da situação em que vive. 2) A comunidade abre os olhos para a missão: as oportunidades e os desafios de testemunho em seu meio. 3) Os membros da comunidade, cada qual com seus dons, buscam equipar-se com os instrumentos do evangelho, mediante instrução e treinamento, oferecidos na “comunhão dos santos”, sob a direção do Espírito Santo.

Bibliografia BÜCHSEL, Friedrich. Das Evangelium nach Johannes. In: Das Neue Testament Deutsch. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1949. BÜLCK, Walter. Das Johannes-Evangelium und die Gegenwart. Hamburg: Agentur des Rauhen Hauses, 1947. SCHNEIDER, Johannes. Das Evangelium nach Johannes. Sonderband in: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1978. VOIGT, Gottfried . Der schmale Weg, Reihe I. In: Homiletische Auslegung der Predigttexte. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1978.

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3º DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: LUCAS 24.13-35 ATOS 2.14a, 36-41 1 PEDRO 1.17-23

06 ABR 2008 Tânia Cristina Weimer

1 Introdução Ausência de esperança, medo, tristeza e olhos impedidos de ver. Assim caminham duas pessoas em direção à aldeia chamada Emaús. Conversam sobre os acontecimentos dos últimos dias, que mudaram completamente sua vida. A razão de sua tristeza é a cruz. É por causa dela que saíram de Jerusalém. Sabe-se de outros relatos bíblicos que os discípulos abandonaram a capital ou se esconderam, pois os seguidores de Jesus corriam o risco de ter o mesmo destino do Mestre. Em meio à turbulência desses sentimentos, o próprio Jesus aproximase e caminha com eles. Escuta o que dizem, sem interromper. Mas eles não o reconhecem. Seus olhos estão como que impedidos de ver, de reconhecer. Somente depois de um gesto concreto, no partir do pão, seus olhos abriramse e reconheceram que era Jesus, o crucificado, que os acompanhava. Dessa certeza nos fala Pedro em seu discurso (At 2): “O Jesus que vocês crucificaram é aquele que Deus tornou Senhor e Messias”. E vem a pergunta: “O que devemos fazer?”. Essa pergunta certamente os discípulos de Emaús também se fizeram. E Pedro, em Atos, assim como também no texto de 1 Pedro 1.17-23, aponta para o arrependimento, para o reconhecimento público da aceitação de Jesus, amor ao próximo e o que os discípulos de Emaús fizeram, conforme Pedro também aponta: testemunhar. Viver a partir da realidade da morte e da ressurreição de Jesus. Os textos do domingo são um chamado a assumir o “ser cristão”, ou seja, tomar consciência de nossa missão como discípulos e discípulas de Jesus Cristo, que Deus tornou Senhor e Messias.

2 Exegese Duas pessoas caminham na estrada. Elas vêm de Jerusalém, onde experimentaram fortes emoções nos últimos dias, e seguem agora para Emaús, onde moram. Emaús, uma pequena aldeia, fica a cerca de 11 km de Jerusalém. Do texto e da seqüência da narrativa (v. 19-24) ficamos sabendo que tais acontecimentos são a condenação e a crucificação de Jesus, além do boato espalhado pelas mulheres de que Ele teria ressuscitado.

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3º Domingo da Páscoa

Lucas identifica um dos dois como Cléopas (v. 18). Uma antiga tradição identifica Cléopas como irmão de José, marido de Maria. Sabemos do Evangelho de João 19.25 que, junto à cruz, estava, ao lado da mãe de Jesus, de sua irmã e de Maria Madalena, ainda uma outra Maria, mulher de Cléopas. É mesmo Cléopas que anda no caminho de Emaús. E quem caminha com ele pode muito bem ser sua mulher, Maria. Visto que somente é citado o nome de um dos caminhantes e somente Cléopas fala, parece que a outra pessoa não está em pé de igualdade. Isso era comum na sociedade da época, em se tratando de mulheres. O próprio Jesus aproxima-se dos dois e caminha com eles um pedaço da estrada. Escuta o que dizem. Jesus pergunta o que os preocupa. E eles apontam a razão de sua tristeza: a cruz. Os dois não reconhecem Jesus, pois “seus olhos estavam impedidos de o reconhecer” (v. 16). O que teria cegado os dois discípulos? As suas colocações (v. 19-21) dão a entender que esperavam de Jesus que ele fosse o Rei esperado, que resolvesse os problemas sociais e políticos de Israel. No entanto, suas esperanças se desfizeram. Já se passavam três dias desde a sua crucificação. Também a esperança de que Jesus pudesse recuperar a vida se desfez, visto que “já é este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam” (v. 21). Jesus é duro com os dois (v. 25-27). Em suas instruções ele esclarece, desde os tempos de Moisés, as profecias sobre o Messias. Ele lhes mostra que todo o Antigo Testamento é testemunho do Cristo, que teria de sofrer para “entrar na glória” (v. 26). A caminhada termina. Os discípulos convidam o desconhecido para ficar (v. 28-31). E ali, junto à mesa, Jesus toma o pão, abençoa-o, reparte e oferece aos discípulos. Nesse momento, abrem-se os seus olhos e eles reconhecem Jesus. No caso dos discípulos de Emaús, esses, depois que se abriram os seus olhos, partem para o testemunho (v. 32-35). Quanto às leituras bíblicas que acompanham o texto da pregação deste domingo, Atos 2.14a, 36-41 aponta para a certeza de que o Jesus que foi crucificado é, de fato, aquele que Deus tornou Senhor e Messias. São dadas três respostas à pergunta: O que devemos fazer? a) arrepender-se: para receber o Espírito Santo b) ser batizado: para ter os pecados perdoados, como reconhecimento público da aceitação de Jesus c) testemunhar Já 1 Pedro 1.17-23 aponta para um “julgar de acordo com o que cada um tem feito”. Era, pois, necessário que Jesus passasse pela morte na cruz para que nós, sem acepção de pessoas, fôssemos libertados por seu precioso sangue. Deus ressuscitou-o e lhe deu a glória. O novo nascimento traz pureza, que se manifesta em amor pelos outros.

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3 Meditação: Ele anda conosco Não é difícil compreender a frustração e total desorientação dos dois discípulos, uma vez que tinham acabado de perder tudo o que possuíam de mais precioso. Tudo isso foi sepultado com Jesus. Parecia que esse fato destruíra todos os seus anseios e esperanças, a ponto de se esquecerem dos ensinamentos do Mestre, de suas promessas. Estavam, pois, completamente sem direção, perdidos. Tudo o que criam, o que esperavam, seus planos, tudo tinha acabado. Por seu aspecto podemos até imaginar que estivessem dizendo algo mais ou menos assim: “Se Jesus teve poder para curar os enfermos, expulsar demônios, ressuscitar mortos, andar sobre as águas, silenciar o mar e falar às multidões de forma tão inspirada, por que não conseguiu evitar uma morte tão vergonhosa e humilhante? Será que estávamos enganados com relação a ele? De que adiantou segui-lo?”. Estavam tão distraídos, que nem notaram que tinham uma companhia especial. Eles conheciam Jesus e o amavam. Entretanto, quando Jesus apareceu ao lado deles e pôs-se a caminhar com eles, não o reconhecerem. Será que Jesus se disfarçou para que eles pudessem falar com toda a liberdade e abrir o coração a ele? Ou será que foi aquele sentimento de derrota que impediu que o identificassem? Lucas registra que eles não o conheceram porque seus olhos estavam fechados. Imagine que você esteve no enterro de seu melhor amigo, viu tudo, volta para casa triste, mas três dias depois aparece alguém muito parecido com ele; mas não pode ser ele, você o viu baixar morto na sepultura. A cegueira não é externa, é interna, no coração. Não podem reconhecer Jesus, pois é ilógico que seja ele. Eles o tinham visto morto. Na mente desses discípulos não existia a possibilidade de um Jesus ressurreto, pois não haviam aceitado a morte de Jesus, a perda do líder libertador. As verdades declaradas por Jesus eram ouvidas por todos, mas não se tornaram verdades para os discípulos. Pedro até disse que isso não iria acontecer (a morte de Jesus). Nos v. 25 e 26 nos é dito qual é o problema desses discípulos, e o nosso também: somos tardios em crer em todas as coisas, em toda a verdade, não apenas no que nos é agradável, mas em todas as coisas. Encontramo-nos bloqueados para as verdades de Deus. Aqueles discípulos criam que Jesus era o salvador, mas não criam que para ser o salvador era necessário morrer. Ao perceber que eles não o reconheciam, Jesus foi explicando as Escrituras e fortalecendo-os na fé durante todo o caminho. Convidado para uma refeição, foi reconhecido por eles no partir do pão e imediatamente desapareceu. Quando eles reconheceram Jesus, Jesus desapareceu. Mas eles não ficaram mais tristes, pois compreenderam claramente como reconhecer a

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constante presença de Jesus. Quando entra a verdade de Deus, Jesus desaparece, mas a alegria continua. Os discípulos voltaram a Jerusalém para reencontrar os demais e anunciar que, de fato, Cristo havia ressuscitado. Uma vez que conseguimos ver a mão de Deus em meio às nossas dificuldades, a dificuldade deixa de ser o mais importante e a presença de Deus passa a ser o central. Diz uma frase muito conhecida por nós: “Não diga a Deus: Eu tenho um grande problema. Diga ao problema: Eu tenho um grande Deus”. Muitos andam tristes e sem esperança pelas estradas da vida. E no dia-a-dia, em meio às frustrações, nem percebem a presença de Deus. Isso conduz à desesperança, ao desânimo, à falta de perspectivas para o futuro. Abraçar a cruz implica aceitar o inevitável, afinar o ouvido para discernir a voz de Deus. Durante o período da Páscoa, quando celebramos a ressurreição de Jesus, somos convidados a perceber, deixar nosso coração arder, queimar com a presença de Deus, ou seja, com o presente maravilhoso da morte e ressurreição de Cristo em nosso favor. Apesar das circunstâncias, busquemos edificar nossos corações e, conseqüentemente, nossas comunidades. Deus revela-se a nós através de seu caminhar conosco e manifesta-se em nossas vidas, dando esperança, força, sentido para a vida. No caminho de Emaús, observamos o cuidado que Jesus tem conosco, deixando-o aproximar-se de nós. Depois dessa descoberta, saiamos a testemunhar.

4 Imagens para a prédica Uma das imagens que mais me agrada é a imagem do “caminho”. Os primeiros cristãos eram chamados de “os do caminho”. O cristão está sempre caminhando e quanta coisa se aprende no caminho, quantas pessoas encontramos, deixamos para trás, alcançamos! Poderia ser feito um caminho no local da celebração. Nesse caminho podem ser colocados alguns obstáculos (pedras, espinhos, placas questionando, confundindo...). As pessoas que vêm ao culto são convidadas a passar por esse caminho, dirigindo-se a seus lugares. Uma pessoa, caracterizada como Jesus (quem sabe uma pessoa desconhecida da comunidade), poderia ficar circulando pelo caminho, aproximar-se das pessoas, acompanhá-las, abraçá-las, sentar a seu lado por um momento. Destacar o lado poimênico, o estar juntos, lado a lado. E, na hora da prédica, resgatar junto às pessoas como elas se sentiram ao passar pelo caminho, ao sentir a aproximação de uma pessoa que lhes deu atenção. Encontramos pessoas que nos estendem a mão e, às vezes, nem percebemos. Creio que cabe muito bem nesse texto a reflexão sobre a “igreja do cuidado”. Em tempos de individualismo e competitividade, em tempos de dor em que caminhamos como que sozinhos, sentir a companhia de irmãos e

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irmãs na fé, a presença da igreja, sentir-se parte de um corpo é fundamental para reconstruir vidas. Uma encenação atualizada, que questiona as pessoas, a partir do texto: Com que nós estamos frustrados? Quem caminha ao nosso lado? O momento em que os discípulos reconheceram Jesus foi no gesto do partir do pão. Celebrar a Santa Ceia nesse contexto, frisando a imagem do repartir do pão mexe com nossos sentimentos. Partir o pão virou uma marca pessoal de Jesus. E, para falarmos, ou seja, testemunharmos do que vimos e ouvimos, mas também do que experimentamos, é preciso fazer arder o coração. Em que momento, que experiências comunitárias já fizeram nosso coração arder? Quando sentimos queimar o nosso peito por gestos concretos de amor e solidariedade?

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: L – Senhor, nosso Deus amado, desde a Páscoa sabemos que tu és o todo-poderoso, cheio de amor e compaixão. Mas quantas vezes desanimamos e não enxergamos os teus feitos maravilhosos. Até mesmo chegamos a duvidar da ressurreição de Jesus, preferindo seguir os passos dos discípulos a caminho de Emaús: desanimados, descrentes, desiludidos. Por causa disso vamos em busca de sensações mais fortes, que acreditamos que nos possam levar a arder nosso coração; mas apenas nos ferimos e machucamos ainda mais a nós e nosso próximo. Assim ficamos devendo ao mundo o testemunho sobre a tua vitória pascal. Perdoa-nos por causa de Jesus Cristo e ouve-nos quando cantamos: C – (comunidade responde cantando “Perante ti” da Coleção Miriã 2, p. 9) Kyrie eleison: L – (costura) Viemos para este culto buscando o encontro com Deus. Neste encontro não nos afastamos dos problemas que nos cercam. Somos discípulos e discípulas a caminho do encontro com nosso salvador. Por isso vamos unir nossas vozes àquelas tantas que clamam à beira do caminho e pedem por compaixão. (Para cada prece que segue são trazidos os símbolos espalhados pelo caminho: pedras, espinhos, uma cruz etc., lembrando das dificuldades que atravessamos, de pessoas que se ferem pelo caminho ou até por tomar outros caminhos, das pessoas que são vítimas da violência... Pessoas da equipe de liturgia ou da comunidade [uma criança, um jovem, um idoso, alguém do presbitério] podem buscar esses símbolos e trazê-los aos altar.) Enquanto isso, a comunidade canta: Kyrie da Coleção Miriã 1, p. 9.

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Oração do dia: L – Nosso Deus, tu que te revelas na cruz e na ressurreição, na tua palavra e no partir do pão, concede que compreendamos a razão de tanto sofrimento, para que saiamos daqui convictos de teu amor por nós, sabendo que Cristo caminha ao nosso lado; que ele nos sustenta, encoraja-nos para o testemunho da boa-nova da salvação. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo reina de eternidade a eternidade. C – Amém. Oração eucarística: L – Oremos: É justo e do nosso dever que em todos os tempos e lugares te rendamos graças, ó Deus. Pois revelaste o teu grande amor para conosco através de teu Filho. Venceste o poder da morte com a ressurreição de Jesus. Na Páscoa do teu Filho, fortaleceste-nos na esperança de uma nova vida, que se estende até a vida eterna. Por tudo isso, Deus de amor, nós te adoramos. C – Santo, santo, santo. L – Nós te damos graças, ó Deus, porque teu Filho, antes de entregarse à morte e ressuscitar, reuniu-se com seus discípulos em torno da mesa da comunhão. C – Ele veio nos salvar. L – E, enquanto comiam, Jesus tomou o pão... (segue a narrativa da instituição). Lembrando disso, Senhor, nós hoje nos reunimos ao redor desta mesa e experimentamos a mesma alegria pela certeza de que Jesus caminha ao nosso lado e por nós conquistou a vida eterna. C – Anunciamos, Senhor, a tua morte e proclamamos tua ressurreição. Vem, Senhor Jesus! L – Deus todo-poderoso, derrama o teu Espírito Santo, o Espírito que dá vida e faz nosso coração arder. Dá que, partilhando o pão e o cálice da comunhão, experimentemos a verdadeira Páscoa em nossa vida, e abrindo nossos olhos, demos o nosso testemunho. C – Vem, Espírito Santo. L – Lembra-te, ó Deus, de todas as pessoas que foram chamadas desta vida, irmãos e irmãs na fé. Reúne-nos com elas à mesa da comunhão no reino prometido e por Cristo inaugurado. C – Por Cristo, com Cristo e em Cristo. Sugestão de um hino: No caminho de Emaús – O povo canta, p. 112. Sugiro ler (e usar) os versos que relatam a história “No caminho de Emaús”, p. 151 a 153, de autoria de Lindolfo Weingärtner, no livro O Evangelho segundo Lucas – em versos (Editora Sinodal).

Bibliografia 142

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GEORGE, A. Leitura do Evangelho segundo Lucas. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 1984. 94 p. PIKAZA, Javier. A teologia de Lucas. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 1985.

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PRÉDICA: JOÃO 10.1-10

13 ABR 2008

ATOS 2.4247 1 PEDRO 2.19-25

Uwe Wegner

1 Introdução O texto de João 10.1s. trabalha em sua parte figurativa (v. 1-6) com um imaginário pastoril de campo e lavoura. Há um “aprisco” (curral, redil), cuidado por um “porteiro” (v. 3) e destinado ao abrigo (noturno) de (várias) ovelhas, ao qual se tem acesso normal por uma “porta” (portão), ou acesso ilegal “por outras partes”. Quem entra pelo acesso normal, pela porta, é o “verdadeiro” pastor de ovelhas, a quem elas seguem e conhecem. Os que “sobem” (v. 1) por outros lugares para entrar no redil são considerados ladrões e salteadores (v. 1, 8) ou “estranhos” (v. 5). Essa “história” é considerada paroimia, que no grego pode adquirir significados como “parábola”, “provérbio”, “dito ou conto enigmático”, “figura de linguagem” etc. Em nosso texto, ela é considerada um “conto enigmático”, pois os fariseus (cf. v. 6 com 9.40s.) não “compreendiam o seu sentido”. Nos v. 7-10, temos uma “aplicação” desse conto enigmático. Nessa parte, Jesus identifica-se com a porta que dá acesso para fora, a pastagens, alimento e vida, mas também para dentro, garantindo vida e segurança no interior do curral (“entrará e sairá e achará pastagem”: v. 9). Na verdade, Jesus como “porta” não representa nem mais nem menos do que o próprio acesso à salvação (v. 9: “Se alguém entrar por mim será salvo”). O papel dos “ladrões, estranhos e assaltantes” – os que vieram antes dele – foi exatamente o contrário, a saber, de destruição e morte (v. 10). O texto de Atos 2.42-47 mostra-se como exemplo de uma comunidade que vive da vida em abundância que Jesus oferece: há comunhão material e espiritual, as necessidades das pessoas são supridas pela comunidade. O texto de 1 Pedro 2.19-25 mostra uma faceta do discipulado dos cristãos: para ser discípulo de Cristo, é preciso renegar a violência e a vingança; é preciso negar-se a si mesmo e tomar a própria cruz – o pastor conduz as ovelhas pelos caminhos que ele mesmo percorreu.

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2 Exegese A figura que Jesus usa para caracterizar seu ministério – as ovelhas no curral e seu seguimento ao pastor conhecido – destaca dois aspectos. O primeiro é de antagonismo. No curral, onde se encontram entre diferentes ovelhas aquelas pertencentes ao verdadeiro “pastor”, há também guias pastores inautênticos, cuja intenção é levar as ovelhas à ruína, à morte. O “curral”, portanto, não é um espaço neutro. As ovelhas são aliciadas também por gente que lhes causa prejuízo e sofrimento. É preciso, pois, conhecer as diferentes “vozes” e não seguir pastores cuja voz soe estranha. O segundo momento ressalta a união entre o pastor e as ovelhas. O pastor conhece-as nominalmente e as guia para fora. Elas, por sua vez, identificam sua voz e seguem-no confiantes. Essa figura está permeada pelo imaginário amplamente explorado no Antigo Testamento. Os dois textos mais evocados na exegese são o Salmo 23 e Ezequiel 34. Em Ezequiel 34.3s., a palavra de Deus mostra-nos como se comportam “ladrões e salteadores”: apascentam a si mesmos, mas não as ovelhas. Não fortalecem a fraca, não curam as doentes, não ligam para as quebradas, não procuram as desgarradas e não buscam as perdidas. Além disso, dominam sobre elas com rigor e dureza (v. 3-4). Na aplicação da figura para a realidade (v. 7-10), a exegese tem encontrado algumas dificuldades: 1 – A primeira delas: a quem Jesus poderia estar se referindo com as palavras “ladrões e assaltantes”. A todos os que vieram antes de mim e a cujo chamado as ovelhas não deram ouvidos (v. 8, 10)? Como desde o Antigo Testamento a figura do “pastor” é metáfora para os governantes políticoreligiosos de Israel (Ez 34.2-5, 23s.), geralmente se afirma que “ladrões e assaltantes” poderiam ser todos os líderes que, antes de Jesus, governaram mais para si do que propriamente para o atendimento dos interesses e necessidades do povo da aliança, incluídos aí os diversos pretendentes messiânicos e libertários, que, antes da atuação pública de Jesus, notabilizaram-se como protagonistas de seguidas revoltas contra herodianos e romanos. Contudo, não é preciso pensar unicamente em lideranças “nacionais”. Ora, também “escribas e fariseus” eram considerados “mestres e guias” em Israel, pelo que Jesus lhes dirige severas críticas, como em Mateus 23.4 ou 23.24. Jesus também poderia estar se referindo a tais “menores” pastores, tanto que no capítulo 9 é justamente contra eles a polêmica (cf. também 9.40s. com 10.6). 2 – A segunda dificuldade refere-se à identificação de Jesus com a “porta” (v. 7 e 9), quando em verdade 10.1-5 sugeriria antes uma identificação direta com o verdadeiro “pastor”. Os v. 7-10 também não contrapõem a porta que representa Jesus a uma outra porta que representaria os ladrões e salteadores. Parece quase que em Jesus as imagens do bom pastor se alternam e fundem com a da porta exclusiva. No texto, elas são praticamente intercambiáveis. Pois, como “a porta” Jesus não deixa de ser o verdadeiro pastor, exatamente

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como tal representa o verdadeiro acesso à vida e à salvação. Jesus pode ter extraído também a metáfora da porta de antecedentes no Antigo Testamento. A pesquisa costuma apontar para o v. 20 do Salmo 118 (117): “Esta é a porta para o Senhor [...] Somente os justos podem entrar por ela [...]” e para outros textos gnósticos, como por exemplo: “Nada encontrei fechado para mim,/ Pois tornei-me a porta para tudo” ou “Tira-nos das garras das trevas,/Abre-nos a porta/ Para chegarmos a Ti”. Importante é perceber que, comparando-se com “a porta” que leva para a salvação, Jesus atribui a si competências de representar um canal privilegiado de acesso tanto entre as pessoas e Deus como entre as ovelhas e suas pastagens (v. 9), ou seja, entre os fiéis e o que lhes convém para uma vida abundante.

3 Meditação O que o conto de Jesus acentua em relação a sua pessoa é que a – Ele é aquele que – ao contrário de “ladrões e assaltantes” – conduz as ovelhas para onde há alimento e, portanto, promove a vida. Outros pastores “apascentam a si próprios”. Eles arrebatam ovelhas da maneira que lhes favoreça e lhes proporcione abundância. Como eles procuram sempre mais servir-se do que servir, seu pastoreio é avesso às dificuldades e cruzes. E tem uma marca inconfundível: nunca é totalmente transparente. Quem não pode entrar pelas portas dos currais é porque necessita esconder propósitos, camuflar intenções. b – Nessa qualidade de dar acesso e passagem para o sustento e a vida abundantes (v. 10), Jesus é de importância singular e inigualável (não há outras “portas” mencionadas no conto). Jesus entende-se como a porta! Há, é claro, outros acessos e outras “portas” possíveis, por cujos umbrais passam as pessoas no intuito de encontrar sustento e vida em abundância – dezenas ou centenas de receituários de felicidade são oferecidos diariamente pelos meios de comunicação e pelas mais diferentes igrejas –, mas elas não têm a mesma solidez e durabilidade, ou quando têm durabilidade, não vêm acompanhadas dos mesmos valores da retidão, solidariedade e justiça. Em outras palavras: a passagem, o acesso que Jesus representa para a felicidade é uma porta “estreita” (Mt 7.13/Lc 13.24), é caminho nem sempre fácil e rápido. Aos que se encontravam ansiosos pelo que haveriam de vestir, beber ou comer Jesus assegura a fartura, mas com a condição de “buscar em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça” (Mt 6.25-34); e as multidões famintas, “que eram como ovelhas que não têm pastor”, ele saciou abundantemente, mas ensinandolhes a partir e repartir primeiramente o pão que haviam recebido (Mc 6.30-44). c – Quando Jesus se transforma em pastor ou porta de acesso à salvação na vida de alguém, ele o faz de forma pessoal e íntima: ele conhece os que o seguem pelo nome; os que o seguem e conhecem pela voz. Outros pastores também arrebanham ovelhas e seguidores. Mas a relação nesses casos é mais

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anônima e massificada, e as vozes de tais pastores soam diferentes demais para poder ser o eco da voz inconfundível de um e mesmo Senhor.

4 Imagens para a prédica As imagens mais marcantes sobre Deus como o “bom pastor” encontram-se no Antigo Testamento, mormente nos textos de Isaías 40.10s., Ezequiel 34 e Salmo 23.1-3. No Novo Testamento temos, além do texto de João 10.1s., ainda a parábola da ovelha perdida, em Lucas 15.3-7, como expressão para a figura do bom pastor. Na prédica, se quisermos explorar esse imaginário, é preciso lembrar que não podemos mais pressupor que currais, cercados e a figura de pastores cuidadores de ovelhas sejam conhecidos por todos – a maioria das pessoas hoje não está mais familiarizada com a vida do campo e dos currais. Por isso as figuras do pastor e das ovelhas podem necessitar de breves esclarecimentos. Um outro imaginário que pode ser explorado é a figura da “porta”. Jesus como a “porta” que nos dá acesso à vida e à salvação pode ser assimilado pelo emprego de expressões semelhantes. Também em nossa vida comum existem pessoas com funções de porta: elas nos “abrem” oportunidades, nos “conduzem” a pessoas-chave que nos podem ajudar, intermedeiam empregos ou entrevistas com pessoas decisivas para conseguirmos colocação profissional etc. “Ladrões e salteadores”, para camuflar suas más intenções, costumavam entrar sorrateiramente nos currais – pulavam em partes que não podiam ser visualizadas a partir da porta de entrada. Esse imaginário pode encontrar fácil eco atualmente, pois também ladrões e assaltantes de hoje procuram sempre se esconder ou assumir ares de pessoas normais para que a entrada nos imóveis e nas casas não seja percebida e comunicada à polícia. Os modernos “ladrões e assaltantes” aparecem não raro vestidos de policiais ou de roupa bem arrumada. Essa é a maneira moderna de entrar pelos lados ou de pular os muros para não ser percebido na porta de entrada.

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Amado Deus. Confessamos-te hoje que damos pouco ouvido à tua voz de pastor, que procura conduzir-nos por bons caminhos. Preferimos caminhos fáceis, largos, sem dificuldades e sacrifícios, e imaginamos encontrar neles a nossa felicidade. Muitas vezes, são eles que nos levam à desgraça, à desunião, aos vícios e à perdição. Perdoa-nos. Não nos abandones quando nos afastamos da verdade, nem nos desprezes quando praticamos a injustiça. Mas nos busca e nos converte. Palavras de absolvição:

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Jesus diz: Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Oração de coleta: Bondoso Deus. Orienta-nos com tua Palavra e Espírito neste dia. Assim como um pastor conhece suas ovelhas e as chama pelo nome, lembra-te também sempre do nome de cada um e cada uma de nós, para que nos possamos sentir amparados e protegidos por tua mão. Oração final: (Além das costumeiras intercessões) Senhor, há muitas vozes que nos chamam e buscam cativar-nos com receitas de felicidade. Dá-nos sabedoria para identificar a tua voz, o teu chamado e as tuas propostas para o mundo de hoje. Há também falsos messias e pastores que sabem iludir, enganar e explorar as pessoas com promessas vãs, que não são cumpridas. Dá-nos sabedoria para identificar quem quer o nosso bem e quem só quer o seu próprio bem; quem quer ser pastor que cuida de nós e quem quer ser “ladrão e assaltante”, que nos abandona quando já conseguiu tirar vantagem de nós.

Bibliografia KONINGS, J. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes, 2001. BLANK, J. O evangelho segundo João. 1ª Parte B. Petrópolis: Vozes, 1991.

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5º DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: 1 PEDRO 2.2-10

20 ABR 2008

JOÃO 14.1-14 ATOS 7.55-60

Dietmar Teske

1 Introdução A leitura dos textos indicados para este 5º Domingo da Páscoa sintoniza com as conseqüências da Páscoa. A misericórdia de Deus em Jesus Cristo chama para uma postura coerente com o que Deus fez por nós. O salmista (31.1-5,15-16) celebra a confiança em Deus, que não abandonou quem lhe é fiel: “... tu me remiste, Senhor, Deus da verdade” (Sl 31.5). Em Atos 7.55-60, tornamo-nos testemunhas do que experimenta a primeira comunidade, presenciando a morte de Estevão, o primeiro mártir cristão. Já no Evangelho de João 14.1-14, lemos que discípulos estão a caminho com Jesus. Tomé e Filipe questionam. Não estão certos de tudo. E Jesus? Encontrou-os com suas perguntas, apontando, sim, ao Pai. Ele atenderá os seus. Que a comunidade possa orar continuamente com o salmista: “Faze resplandecer o teu rosto sobre teu servo; salva-me por tua misericórdia” (Sl 31.16).

2 Exegese A primeira Carta de Pedro está endereçada aos cristãos e comunidades de várias províncias romanas na Ásia Menor (1.1) e que enfrentam dificuldades. Eles experimentam hostilidade. A carta oferece consolo e exortação para que permaneçam firmes num mundo hostil. As razões não são explicitadas. Possivelmente são motivadas porque o amor fraternal de cristãos e cristãs questiona as instituições, já que vivem uma fé comprometida com a vida que Deus quer. Embora haja exegetas que defendam a perícope como sendo parte de uma prédica batismal, outros concluem que é difícil sustentar essa tese. É correto, no entanto, ver a carta dirigida a comunidades ainda jovens. Quanto à sua origem, a primeira Carta de Pedro foi redigida em Roma (conforme 5.13), onde se menciona Babilônia como pseudônimo para a capital do Império Romano. Como Martim Lutero mesmo constatou, também hoje não se tem dúvidas de que a carta pertence aos documentos, teologicamente mais importantes, de todo o Novo Testamento. Quanto à época em que a carta

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5º Domingo da Páscoa

foi escrita, presume-se que foi entre 90 e 95 depois de Cristo. Apesar do sofrimento por que passam os cristãos, a carta é permeada por uma grande alegria, fruto da verdadeira fé, a grandiosa misericórdia de Deus através de Jesus Cristo. A delimitação da perícope em 2.2-10 e não 2.1-10, ou mesmo 2.4-10, tem sua razão de ser. O texto é propositivo e não fica enumerando elementos não-condizentes à conduta cristã. Nos v. 2 e 3, as palavras “crianças recém-nascidas” são uma figura que lembram o Batismo e qualificam os leitores de “novatos” na fé. Também o termo “leite” deve ser entendido em sentido figurativo. Os leitores são motivados a buscar o alimento indispensável para o amadurecimento na fé. Esse alimento é a palavra de Deus, experimentada como bondade de Jesus Cristo já no Batismo. O Batismo não é uma formatura na fé. É, muito antes, um início. Martim Lutero, ao referir-se ao assunto, diz: “... deve sair e ressurgir diariamente nova pessoa, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre” (Catecismo Menor, 5ª parte: o Sacramento do Santo Batismo). Os leitores são chamados a fazer uso diário da palavra do evangelho. Caso contrário, a sua existência cristã irá minguar. A vida cristã tem reflexos concretos na conduta. Porém é a palavra de Deus que habilita para isso. Nos v. 4-8, Gottfried Brakemeier sugere uma correção na tradução de Almeida, propondo que esses versos contenham exortação, o que significa lê-los assim: “Chegai-vos...” (v. 4) “e permiti que vós...” (v. 5). Essa exortação diz: Sede comunidade! A nova vida torna-se visível na prática do amor. Não existe vida cristã autêntica fora da comunidade (Mt 18.20). É nessa comunidade, casa espiritual, em que Cristo é a pedra angular (v. 6 – Is 28.16) e cada pessoa cristã, individualmente, é uma pedra viva, construída sobre ele. Tudo, no entanto, depende da obra de Deus. É ele quem colocou em Sião aquela pedra. E é pedra viva: Cristo vive, ele ressuscitou. Quando os cristãos são chamados de pedras vivas, é porque Cristo lhes deu sua vida. A pedra angular, porém, é também aquela que os seres humanos rejeitaram (v. 4 e 7 – conforme o Sl 118.22) e continuam rejeitando. A hostilidade de que a comunidade é vítima e o sofrimento que suporta estão em conformidade com o que Cristo mesmo suportou. Deus transformou a pedra rejeitada em pedra angular, tornando-a motivo de tropeço para os que a rejeitaram (v. 8 – conforme Is 8.14-15). A comunidade não ignora o sofrimento de Deus no mundo. Não pode, porém, deixar de participar do poder de Deus que edifica, coloca um sinal visível do amor de Deus, onde pessoas rejeitam, odeiam e matam. A comunidade vive, simultaneamente, o já agora e o ainda não, num mundo onde o próprio Cristo é rejeitado. Embora o povo de Deus tenha sido denominado de “sacerdócio santo” (v. 5), agora nos v. 9 e 10 essa comunidade é denominada de “geração eleita”, “sacerdócio real”, “nação santa”, “povo de propriedade exclusiva de Deus”. Assim, eventuais mediadores humanos estão descartados, pois em Cristo

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Deus mesmo veio a todos e todas. Tal comunidade não realiza seu culto às escondidas, mas publicamente. Desafia o mundo e aquilo que testemunha não é outra coisa senão o que ela já experimentou. Foi conduzida das trevas para sua maravilhosa luz. Foi escolhida para ser povo de propriedade de Deus. Tudo isso é possível, porque ela experimentou a grande misericórdia de Deus.

3 Meditação O apóstolo escreveu a pessoas que experimentaram que o Senhor é bondoso (v. 3). Portanto elas conhecem a misericórdia de Deus (v. 10). E assim como povo de Deus desejam o “genuíno leite espiritual” (v. 2). É a palavra de Deus que orienta a vida dessa jovem comunidade. Os avanços científicos comprovam que o ser humano pode prover coisas inimagináveis. Não pode, porém, substituir plenamente o primeiro alimento de um recém-nascido. Sim, o leite materno possui ingredientes insubstituíveis. Tão somente a palavra de Deus orienta os batizados na salvação, que Deus mostrou em sua bondade. Por isso a jovem comunidade não pode abrir mão desse alimento e nem querer satisfazer unicamente a si mesma. Jesus diria: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.16). Esses frutos, porém, acontecem em íntima ligação com a palavra de Deus. Lendo a palavra de Deus, Martim Lutero redescobriu nela a justiça de Deus e permitiu que Deus lhe fosse um Deus justo e misericordioso. Mesmo não experimentando a perseguição dos leitores de 1 Pedro, temos hoje questões a que deveríamos responder adequadamente. Pessoas que compõem a classe intelectual e formadora de opinião não se encontram mais conosco. Por quê? Talvez como obreiros e líderes, quando nos vemos acuados, invocamos textos bíblicos em que pesa mais a lei do que o evangelho. Embora não se deva ignorar o ser humano rebelde a Deus, existente em cada um de nós, ficamos muitas vezes como igreja cristã devendo ao mundo um testemunho que privilegia a misericórdia de Deus. O autor de nossa carta, que inicialmente mencionou o “genuíno leite espiritual”, continua mantendo seus leitores atentos. Ele fala agora de “pedra que vive”, embora “rejeitada” pelos homens, para Deus “eleita e preciosa” (v. 4). Trata-se de “pedra angular” (v. 6 – Is 28.16). Se refletirmos sobre as dimensões do uso e da utilidade de uma pedra, vamos nos dar conta de que era impossível, no tempo do apóstolo, erguer qualquer construção sem dispor de uma pedra angular, sem a qual a construção cai. Por isso ela é “eleita” entre muitas outras. É “preciosa”. Hoje, a engenharia distribui essa sobrecarga, que recairia sobre uma única pedra, elaborando uma estrutura de concreto com vigas de ferro, cimento, seixos e outros ingredientes indispensáveis. Essa estrutura, no entanto, é feita de materiais de comprovada qualidade, com rígidos prazos de validade. Portanto quem constrói uma casa ou um edifício precisa de materiais “vivos”,

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ou seja, confiáveis. Eles vão garantir que a construção permaneça e não caia. Também aqui há um bom exemplo para quem é membro, para quem é igreja. A pedra angular não está aí em função de si e em benefício de si mesma. Participar da construção é ser “pedra viva” (v. 5). Pedras colocadas, uma a uma, sobre o alicerce resultam numa bela construção. Apesar disso, há edificações que separam. O muro de Berlim é um desses exemplos. Ele separou até outubro de 1989, por quase trinta anos, os moradores de uma mesma metrópole, cidadãos de uma mesma nação. Não bastasse esse vergonhoso muro no coração da Europa, Israel está construindo um muro para limitar o ir e vir dos palestinos. Os Estados Unidos aumentam dia após dia os muros na fronteira com o México, tentando evitar que especialmente os povos latinos entrem em seu território. Mas há pedras que edificam. Cooperam para o bem-estar. Paredes protegem da chuva e do sol, do frio e do calor. Protegem diante de quem vem só para roubar e matar. Há paredes que resguardam pessoas durante o sono reparador ou então proporcionam a devida liberdade para a intimidade de quem ama. Ali onde se concentram multidões, paredes delimitam espaços para que pessoas desenvolvam adequadamente sua profissão, suas habilidades e seus dons. Apesar dos aspectos negativos e positivos do uso das pedras, é imprescindível que uma comunidade não se feche em si mesma, não se dê ao luxo de resguardar apenas seus próprios interesses. Ela precisa proclamar as obras daquele que a chamou “das trevas para sua maravilhosa luz” (v. 9). Não somos igreja em função de nós mesmos. Somos instrumentos para colocar sinais visíveis do reino de Deus. Se não sofremos perseguição, experimentamos descrédito e indiferença. A igreja está dividida e possui, no meio de si mesma, segmentos de diferentes orientações e práticas. Quando são alvo de críticas, ela são generalizadas e prejudicam a imagem de quem mantém coerência no falar e no agir. Se persiste um mundo de “trevas”, onde está a luz das pessoas cristãs que foram edificadas “casa espiritual” (v. 5)? Se somos daqueles que foram alcançados pela misericórdia e, portanto, passamos das “trevas para a verdadeira luz” (v. 9), por que o mundo não vê isso em nossas atitudes? Não é hora para uma espécie de “cruzada santa” contra os inimigos de Deus? Mas o “sacerdócio santo”, a que somos chamados, deve levar-nos a colocar sinais de acolhida humilde, de solidariedade constante àqueles e àquelas que são vítimas das dores causadas pela injustiça, pelo ódio, pelo egoísmo, pelo sentimento de impotência diante da fragilidade da vida. Como povo de Deus deveríamos estar na linha de frente, definindo uma posição à luz do evangelho, que privilegie a vida e responda aos profundos anseios de vida, de paz, de felicidade em várias questões que afligem: família, para onde vai? – aquecimento global – uso de células-tronco na medicina – agricultura agroecológica – separação do lixo – conhecimentos teóricos e práticos de uma vida saudável – abertura para cultos contextualizados que privilegiam uma espiritualidade luterana e libertadora – aproximação das

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igrejas históricas e aprofundamento do diálogo ecumênico etc. Tudo isso e muito mais deve acontecer. No entanto, a redescoberta do evangelho por Martim Lutero, ou seja, a misericórdia de Deus em Cristo Jesus, deve iluminar essa caminhada. Humildes, deveríamos perguntar à luz da palavra de Deus e do conhecimento humano: O que e como fazer? Também nós deveríamos poder auxiliar profissionais em várias áreas do saber humano, a fim de fazer uma caminhada como igreja que dialoga sem medo e sem a pretensão de ser dona da verdade ou constrangendo seus membros com leis que ignoram a liberdade, que o evangelho nos presenteou (Gl 5.1), se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso (v. 3).

4 Imagens para a prédica A lenda do reino invisível Conta-se que alguém recebeu de presente um reino invisível. Somente quem recebia aquele presente podia ver e experimentar esse reino. A todas as demais pessoas ele era invisível. Era semelhante a um mapa. E quando essa pessoa abria o mapa, então algo fantástico acontecia. Como num abrir e fechar de olhos ela tinha diante de si o palácio do rei, um parque maravilhoso. Nele havia tudo o que se podia imaginar e deve existir num parque. Fazer a experiência de abrir o mapa e deparar-se com tudo isso tornava essa pessoa imensamente feliz. Ela não suportava tão-somente sua vida pobre e miserável, mas, por vezes, a vida real confundia-se com o que se passava ao abrir o mapa. Nisso o seu dia-a-dia tornava-se um reino visível. Os amigos e vizinhos ficavam admiradíssimos como uma pessoa tão pobre pudesse ser tão feliz. Do rei de Esparta Conta-se que um rei de Esparta, ao receber a visita de outro monarca, falava orgulhosamente a respeito das muralhas que cercavam a cidade. O visitante olhou ao redor e não viu nenhuma muralha. Então perguntou ao rei: “Onde estão as muralhas de que tanto falas?” O rei apontou, orgulhosamente, para sua guarda pessoal, formada por guerreiros valentes e disse: “Estas são as muralhas de Esparta. Cada um desses homens é um bloco de pedras”. (Fonte: Meditação sobre 1 Pedro 2.9, de Arnaldo Hoffmann Filho, em: Castelo Forte 1996, 17 de janeiro de 1996). Comentário Pessoas cristãs, por mais sensibilizadas pela misericórdia de Deus e por mais simpatia que encontrem no mundo, viverão num reino invisível. Possuem, no entanto, o que ninguém lhes pode tirar (veja a lenda acima).

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Esse reino invisível não pode fazer dos cristãos pessoas decorativas, mas, sim, “sacerdócio real”, ou seja, pessoas que, por sua ligação com Deus, sua misericórdia, vivenciam o que ninguém lhes pode tirar. Esse reino invisível pode parecer uma idiotice para quem não o vê. Lamentavelmente, muitas pessoas cristãs ficam devendo um testemunho conseqüente. Permitem que a fé cristã caia em descrédito. Quem, no entanto, como aquela pessoa do reino invisível confiar-se à ação bondosa de Deus permitirá que esse reino, ou seja, o que provém de Deus, o envolva. E nisso não vai sossegar, enquanto o outro/ a outra experimente essa ação misericordiosa de Deus.

5 Subsídios litúrgicos Sugiro uma liturgia que siga os passos de “Um modelo da Liturgia Oficial da IECLB”, do Livro de Culto da IECLB ou da Bíblia Personalizada da IECLB, p. 175, final do HPD I, II e Catecismo Menor. Observação: Quanto aos hinos a ser entoados durante o culto, lembro que HPD 109 foi escrito levando em conta o texto da prédica. Destacaria ainda do HPD: 324, 438, 441, 449, e de O Povo Canta: p. 158: Não é vida a vida... Acolhida: Somos comunidade que celebra o tempo pós-pascal. Acolhendo-nos uns aos outros, lembro o Salmo 118.22, mencionado no texto da prédica, incluindo os v. 21 e 23: “Render-te-ei graças, porque me acudiste e foste a minha salvação. A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos”. O culto convida-nos a beber o “genuíno leite espiritual”, a palavra de Deus, palavra que liberta. Onde essa palavra orienta pessoas e comunidades, elas vão se construindo sobre a pedra angular, da qual nos falou o salmista. Sobre essa pedra angular Deus deseja com aqueles a quem mostrou sua misericórdia construir e manifestar a vida que é de sua vontade. Confissão de pecados (de pé): Ó Senhor misericordioso, confessamos que nem sempre buscamos tua palavra como alimento que sacia a fome e a sede para uma vida que valha à pena. Desejaste que fôssemos pedras vivas de tua igreja. Perdoa-nos, porque nos afastamos de ti e não assumimos ser teus escolhidos desde o dia de nosso Batismo. Renova-nos em teu amor, manifestado plenamente na morte e ressurreição de Jesus Cristo, por todos e todas nós. É por isso que, humildes, pedimos por tua misericórdia, orando e cantando: Perdão, Senhor, perdão! (Conforme: Em Tua casa, Liturgia I, n. 1)

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Palavra da graça: Que a oração sincera de cada um devolva-nos a alegria da salvação que Deus nos deu a conhecer em Jesus Cristo. Que se renove em nós o desejo de encontrar em sua palavra o alimento para uma vida que dia após dia sacia-se com a sua bondade. “Jesus Cristo nos diz: Não só de pão viverá o ser humano, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Kyrie (sentados): Irmãs e irmãos! Vivemos num mundo que não experimentou plenamente a nova vida em conseqüência da ação misericordiosa de Deus na ressurreição. Como igreja ficamos devendo ao mundo um testemunho coerente. Em inúmeras situações não se levou em conta a vida que Deus quer. O dito popular “Se cada qual fizer a sua parte” não vingou. As graves questões sociais e o distanciamento entre pobres e ricos não são levados em conta por aquelas pessoas que são formadoras de opinião. Nem mesmo como igreja conseguimos nos dar as mãos e propor saídas que dignifiquem a vida, especialmente dos mais sofridos. Diante de tudo isso entristecemo-nos e nos sentimos pequenos demais. Clamemos a Deus, atentos à musicalidade e às palavras do Kyrie: “Pelas dores deste mundo...” (Miriã I, n. 12 ou Em Tua casa, n. 2/Liturgia I) Glória (de pé): Ao cantar o Glória, oficiante e comunidade podem intercalar as antífonas indicadas no Lecionário Comum Revisado da IECLB, p. 27 (Sl 31.5; 22.27 e 148.13). Após cada antífona, propõe-se que a comunidade cante: Glória, glória, glória a Deus nas alturas. Glória, glória. Paz entre nós, paz entre nós. (Miriã I, no. 21; Em Tua casa, Liturgia I, no. 3).

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Proclamar Libertação, v. I. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1976. p. 55-60. MENDT, Dietrich. Textspuren – Konkretes und Kritisches zur Kanzelrede, v. 6. Stuttgart: Radius Verlag, 1995. p. 134-135.

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PRÉDICA: ATOS 17.22-31 JOÃO 14.15-21 1 PEDRO 3.13-22

27 ABR 2008 Gottfried Brakemeier

1 Preliminares No pluralismo religioso do século 21, marcado por sérios conflitos e pela urgência do diálogo, a prédica do apóstolo Paulo no Areópago de Atenas adquire especial relevância. Mostra, num exemplo concreto, como a primeira cristandade enfrentou o complexo mundo religioso de então e desempenhou sua missão. Misturavam-se, em Atenas, religiosidade popular e tradições filosóficas, dando ao universo da fé um colorido altamente variado. De certa forma, a história se repete. Dois mil anos depois, a comunidade cristã volta a lutar com uma religiosidade não-cristã, difusa e agressiva. Qual o recado do texto para tal situação?

2 Informações exegéticas Na composição do livro dos Atos, o discurso de Paulo frente a filósofos estóicos e epicureus (At 17.18) constitui um dos pontos altos. Também para Lucas, o autor do livro, Atenas era mais do que uma cidade. Era um símbolo, sinônimo da cultura grega e de suas nobres tradições. É verdade que, na época do Novo Testamento, a capital da Grécia estava em decadência. Vivia da glória de tempos passados. Conforme estimativas, o número de habitantes não excedia a casa dos 5.000, ficando muito aquém de Corinto, por exemplo. Mesmo assim, mantinha o fascínio de antiga metrópole do espírito helênico. Por isso a chegada do evangelho a esse lugar tinha que despertar alguma atenção. Lucas descreve essa chegada na forma de uma fala do apóstolo Paulo, que, em sua segunda viagem missionária, passa por aquela cidade. Não se trata de um protocolo, e sim de um paradigma de pregação missionária, para o qual a teologia de Paulo contribuiu sem dúvida nenhuma. Mas não é essa a única fonte. Lucas quer mostrar como se deve pregar entre os gentios. Para tanto recorreu às melhores tradições homiléticas de seu tempo. Importante, pois, não é a pergunta pela autoria desse discurso, mas pelos elementos típicos de que se reveste. Cabe respeitar que o auditório de Paulo não é constituído por gente simples, mas pela elite intelectual. Também nesse caso o público determina o modo da fala. Curiosos, os filósofos conduzem o apóstolo ao Areópago, o “Rochedo de Ares”, algo afastado da vida tumultuada na praça, para

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lá, na tranqüilidade do lugar, ouvir o que tem a dizer. Mesmo não podendo convencer seus interlocutores, o anúncio do evangelho, que naturalmente não se limitou a essa única oportunidade (v. 17), trouxe algum fruto. Embora não surgisse comunidade cristã em Atenas, houve quem acolhesse o evangelho, sendo citadas duas pessoas: um homem chamado Dionísio e uma mulher de nome Dâmaris (v. 34). A fala de Paulo inicia com uma referência à realidade local (v. 22/23), atestando aos atenienses acentuada religiosidade. A prova está na quantidade de altares espalhados pela cidade, entre os quais se encontra um com a inscrição “a um deus desconhecido”. A arqueologia não detectou exatamente aquele altar. Mas altares dedicados “a deuses desconhecidos” ou a várias divindades de uma só vez eram comuns na antiga Grécia. São documentos de um déficit religioso. Quanto maior o número de deuses, tanto maior a confusão e a incerteza. Paulo usa esse altar como gancho para sua pregação. Diz que vem anunciar o que seus ouvintes inconscientemente adoram. Afirma ser a religiosidade politeísta sintoma de ignorância, um juízo que atinge também a filosofia enquanto compartilhar a dúvida. Paulo admite que também o paganismo possui uma vaga idéia de Deus, mas não o pleno conhecimento. Por isso passa a falar do Deus verdadeiro (v. 24/25). É o criador do mundo, que por isso é também o Senhor de tudo o que existe. Ele não habita em templos feitos por mãos humanas nem necessita de serviços diaconais. Como poderia ter carências o Deus do qual provêm todas as coisas? Nessas últimas duas questões, os filósofos gregos, em sua crítica à religiosidade popular, concordariam. É interessante observar que Lucas, na composição desse discurso, combina tradição bíblica com idéias do mundo grego. Falta aqui o espaço para detalhar o assunto. Assim já procedia a teologia judaico-helenística na época. Não renunciava ao específico de seu anúncio, mas procurava facilitar o acesso a ele, mostrando convergências entre os mundos grego e hebraico. É esse método que está em evidência também no resto dessa fala. A humanidade foi criada a partir de uma pessoa (Adão), espalhada pela terra e submetida a regras de tempo e espaço (v. 26). Sua vocação consiste na busca de Deus (v. 27), embora essa não consiga vencer a incerteza. Mesmo assim, Deus não está longe do ser humano. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos (v. 28). Essa é uma fórmula quase panteísta, comum no estoicismo, mas interpretada nessa passagem rigorosamente como prova da proximidade de Deus. Demonstra-o a citação, dizendo: “Nós somos de sua raça”. Existe um parentesco do ser humano com Deus, afirmado por alguns poetas gregos, como Lucas bem lembra. O pano de fundo bíblico correspondente é, sem dúvida alguma, o atributo da imagem de Deus, que distingue o ser humano no conjunto da criação e lhe garante singular proximidade a Deus. Por tudo isso proíbe-se a adoração de Deus em estátuas de ouro, prata ou outros materiais (v. 29). O mesmo vale em relação a idéias de Deus concebidas pela imaginação humana. São sinais de deplorável ignorância religiosa. Não fazem jus ao mistério do divino. Deus, porém, passa uma esponja na ignorância de épocas passadas,

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determinando que seja anunciada agora em toda a parte a necessidade da conversão (v. 30). A ignorância dos pagãos tem algo de culposo, ainda que Deus, antes do anúncio da conversão, não a penalize. Importa não somente ampliar os conhecimentos a respeito de Deus, mas também mudar o rumo da vida. “Conhecimento de Deus” jamais se resume numa questão meramente teórica. Sempre possui implicações práticas. Exprime-se em “culto”. É preciso aprender a adorar Deus “de corpo e alma”. Em tudo isso não se trata de simples questão opcional. Pois Deus é o juiz do mundo. Ele já fixou o dia no qual julgará em justiça a “ecumene”, isto é, a “terra habitada”, por um escolhido seu, a quem credenciou publicamente mediante a ressurreição dos mortos (v. 31). O nome de Jesus Cristo não é mencionado. Mas quem lê o livro dos Atos sabe a quem o pregador se refere. Jesus é o divisor de águas da história. Ele marca a diferença entre antes e depois. Ele transforma ignorância em conhecimento de Deus. Inaugura uma “nova era”. Os filósofos, quando ouvem falar em ressurreição dos mortos, interrompem o discurso de Paulo. Consideram a afirmação ridícula (v. 32). Certamente teriam outras razões para se irritar. No entanto, é significativo que o dissenso se inflame justamente na mensagem da Páscoa. Permanece a pergunta: Eles conhecem Deus (cf. Mc 12.24)?

3 Reflexões meditativas Chamo atenção para a meditação de G. U. Kliewer sobre esse mesmo texto em PL XV, 1989, p. 213s. Oferece interessante contextualização, altamente útil para uma prédica em nossos dias. Acrescento alguns pensamentos meus, resumindo-os em quatro itens: 1 – Recomenda-se à pregação cristã o esforço de facilitar às pessoas ouvintes o acesso ao evangelho. A brutal condenação das aberrações, da superstição e da idolatria de quem não comunga o nosso credo denuncia falta de amor e está em desacordo com a estratégia missionária da primeira cristandade. Essa mostra que a acomodação tem limites, sim. Não permite a traição do evangelho. E, no entanto, convida a iniciar pelas convergências, pelas afinidades, pelo que é convicção – e tarefa! – comum. Em vez do confronto deverá ser privilegiado o encontro. A partir daí, é claro, será necessário ressaltar também a novidade do evangelho, sua inconformidade com práticas dúbias, o chamado à mudança. Mas isso com sensibilidade pastoral, que procura evitar ofensas pessoais e choques culturais. Convém à missão cristã conjugar firmeza de posição, tato na metodologia e conhecimento de causa. 2 – A quantidade de altares acusa a ambigüidade da religião e de religiosidade. Também hoje não é diferente. Os cultos a Deus são muitos, melhor: São muitos os deuses a que se rende culto. No fundo, Deus continua

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“desconhecido”. Por isso mesmo está crescendo no Brasil e no mundo o número de pessoas que se declaram “sem religião”. É gente que desistiu da busca de Deus e se cansou da briga entre as religiões. Será melhor viver sem Deus? Ora, mesmo se Deus for excomungado, os problemas humanos persistem. De certa forma, até mesmo se multiplicam. Não é essa a saída, não. Mas é bom lembrar que as prédicas nos Areópagos de hoje têm outro auditório do que estóicos e epicureus. Aí estão também ateus, muçulmanos, espíritas entre muitos outros, que, mesmo não freqüentando os cultos luteranos, estão curiosos por saber o que temos a dizer. E a religiosidade exuberante de nosso povo, como avaliar? Será demonstração de fé ou sinal de um anseio angustiado, de um grito de socorro, de uma emoção compensatória para as frustrações do cotidiano? 3 – O evangelho proclama o Deus inconscientemente procurado pelo ser humano, o Deus verdadeiro, o criador de céus e terra, juiz do mundo, manifesto em Jesus Cristo. Com que direito o afirmamos? Todo mundo acha que seu Deus é o único verdadeiro. Como sair do impasse? Ora, é preciso discutir “Deus”. Quem será ele? Como falamos dele? Estará próximo do ser humano, terá compaixão, terá amor a seu mundo? Ou será um tirano que gosta de oprimir a criatura, que impiedosamente cobra os deveres, que julga conforme o “carma” e que manda matar seus inimigos? Nós pregamos o Deus de Jesus Cristo, cujo supremo mandamento é o amor, que se compadeceu da criatura pecadora e que quer que nos dirijamos a ele como “Pai Nosso”. A verdade da religião decide-se no discurso sobre Deus e no modo de nosso culto. Deus é um só, evidentemente. Mas as idéias sobre ele divergem e são até mesmo contraditórias. Que nós adoramos todos o mesmo Deus é uma grande mentira. 4 – Nesses horizontes, a acusação da “ignorância religiosa” que se atesta aos outros deve ser articulada com a máxima cautela. Do ponto de vista cristão, ela é procedente, sim. Pois nós conhecemos Deus de modo diferente do que o paganismo ontem e hoje. Mas a autenticidade do Deus de Jesus Cristo não é nenhuma evidência. Em meio ao pluralismo religioso de hoje, tal afirmação não passa de uma opinião subjetiva. Por isso mesmo precisa de confirmação, o que não pode acontecer sob desconsideração de Jesus Cristo. Na concorrência religiosa, o amor de Jesus Cristo, sua palavra e ação, sua cruz e ressurreição são dados fundamentais. Portanto a prédica cristã deve argumentar, “verificar” a fé, mostrar suas razões. Certamente ela não pode oferecer demonstrações científicas. Mesmo assim, ou justamente por isso, deve ser convincente, o que, além do argumento, exige uma prática correspondente. O que se deve temer não é o ataque das outras religiões. O que inspira temor é a possibilidade de uma pregação cristã fraca, sem poder persuasivo, irrelevante.

4 Pistas para a prédica Ao pensar na prédica, ocorreram-me diversas imagens de gente religiosa. Lembrei-me daquela senhora que se159 arrasta de joelhos escada acima até o

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altar de uma capela em cumprimento da promessa que fez por uma graça alcançada. Na televisão, foram exibidas filas de pessoas para adquirir as pílulas milagrosas de Frei Galvão. Eu soube de um homem que vendeu seu carro para dar o dinheiro à Igreja Universal, a fim de salvar o irmão de uma terrível doença. Vi massas de gente caindo em transe em razão de uma experiência carismática. Tive diante de meus olhos o retrato de fanáticos executando barbaramente inocentes em nome de Deus. Religião tem muitas facetas, algumas repugnantes. As pessoas buscam Deus, esperando dele salvação. Mas qual é o Deus a quem de fato adoram e a quem oferecem seus serviços? Sugiro colocar a prédica sob essa pergunta. Isso não sem antes ter informado sobre o texto e ter mostrado sua relevância. Aliás, os textos laterais sublinham aspectos do que acabamos de expor. O trecho João 14.15-21 reforça ser amor o distintivo do Deus de Jesus Cristo, dom e compromisso ao mesmo tempo. Em 1 Pedro 3.13-22, a comunidade está sendo exortada a estar pronta para dar razão de sua esperança (v. 15). Isso através de palavra e conduta. É assim que se convencem os “pagãos”. E nós, para quem construímos os nossos altares? A pergunta autocrítica não pode faltar. Comunidade cristã é chamada a avaliar continuamente as imagens de Deus, inclusive aquelas encontradas em seu próprio meio. Ou seria Deus um ilustre desconhecido, construção fictícia de um cérebro doentio, uma projeção alienante? Todas essas questões estão implícitas na mensagem desse texto. Uma prédica será insuficiente para explorar sua riqueza. Mas ela deverá dar alguns passos para orientar a comunidade e dar razão da fé no Deus que estava em Cristo e que o ressuscitou dos mortos.

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Senhor! Perdoa-nos se estamos confusos e confusas em meio a tantas ofertas religiosas. Já não mais sabemos por onde nos orientar e o que crer. Vacilamos em afirmar a nossa fé e até mesmo nos sentimos despreparados para tanto. Ademais, deixamos de dar testemunho do evangelho através de nosso agir. Nossa conduta, por demais vezes, está em desacordo com a tua vontade. Confessamos ser difícil amar o nosso próximo, que nos irrita e que julgamos não merecer o nosso amor. Por isso mesmo te rogamos: queiras darnos a força de teu Espírito para cumprir nossa vocação. Tu chegaste perto de nós em Jesus Cristo e prometeste perdoar nossas dívidas. É por isso que te pedimos. Tem compaixão de nós! Mostra-nos o caminho que devemos trilhar e a missão que temos a cumprir. Kyrie eleison! Oração de coleta: Senhor! Obrigado pela oportunidade de nos reunir em culto. Se há pessoas que preferem permanecer em casa, o prejuízo é seu. Pois tu nos confortas com a tua palavra. Tu nos motivas para uma nova ação, tu nos encorajas a enfrentar mesmo problemas difíceis. Faze com que o teu Espírito Santo per-

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maneça conosco nesta nova semana, que ele nos conduza e fortaleça quando fraquejamos, que nos preserve a alegria no que fazemos. Nós temos a coragem de nos dirigir a ti, sem medo e com toda a confiança. Pois através de Jesus Cristo aprendemos que és bondoso e que nos queres como teus filhos e tuas filhas. Pois é nessa qualidade que nos dirigimos a ti. Dá-nos amparo nos perigos e fortalece em nós a fé. Por Jesus Cristo te pedimos. Amém. Intercessão: Senhor! Na intercessão nossos olhares se dirigem ao sofrimento alheio. Dele nosso mundo está cheio. São tamanhas as dimensões, que poderíamos desesperar. Por que existe tanto mal? Estamos ameaçados de nos tornar apáticos frente a tanta notícia horrível nos meios de comunicação. Será que nosso mundo tem cura? Senhor, ouve o clamor de teu povo, vem socorrer as pessoas em situação difícil, faze com que justiça seja feita a quem sofreu crime. Nós te rogamos: Dá uma nova mentalidade a esse nosso povo para que venha a odiar a corrupção, acabe com a impunidade, volte a honrar a honestidade. Protege-nos contra o perigo do conformismo com o mal e o desespero diante de tanta lama na sociedade. Nós nos solidarizamos com as vítimas inocentes do terror, compartilhando sua dor e seus anseios por um outro mundo, em que amor, paz e esperança já não sejam palavras vazias. O mesmo desejamos para nós. Dá-nos força para o engajamento na boa causa. Assiste a todas as pessoas que se encontram em situações de crise, principalmente as pessoas doentes, moribundas, atingidas por golpes cruéis. Dá-lhes força para superar a tristeza e reconquistar a alegria. Enfim, nós te pedimos em favor da tua igreja em todo o mundo, particularmente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, seus obreiros e seus membros. Concede que seja vigorosa no cumprimento de seu mandato, semeando a fé, motivando para o amor e alimentando a esperança. Isso para tua glória e para o bem de tua criatura. Amém

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ASCENSÃO DE NOSSO SENHOR

PRÉDICA: ATOS 1.1-11

01 MAI 2008

LUCAS 24.44-53 EFÉSIOS 1.15-23

Marivete Zanoni Kunz

1 Introdução Este é um dia especial. Hoje lembramos que, quarenta dias após ser morto, Jesus subiu ao céu. Nesses quarenta dias, Jesus fez aparições antes de voltar ao Pai. Os textos lidos marcam o momento dessa ascensão, quando, após ter aparecido aos seus discípulos, Jesus subiu ao céu. Sem dúvida, é um fato marcante, pois a glória de Cristo exaltado contrasta com o sofrimento que Ele passou. Esse fato marca um dia especial para a igreja no seu início e para a igreja atual, pois ali se inicia uma missão especial a todo aquele que crê no Senhor Jesus. Por isso é importante nessa celebração, durante o culto todo, trabalhar esse momento histórico para a igreja, o momento em que Cristo é exaltado e promete retornar, deixando aos seus uma missão especial: a de testemunhar. Os três textos estudados complementam-se. Enquanto no evangelho temos uma descrição daquilo que Jesus fez e ensinou, Atos vai relatar a ascensão. A descrição é mais daquilo que aconteceu mediante as atividades das testemunhas de Cristo. O texto de Lucas 24, por exemplo, reforça que as dificuldades dos apóstolos de crer que Jesus ressuscitou foram vencidas por provas a eles apresentadas. Em Atos, compreendemos que essas provas foram dadas durante os quanrenta dias em que Jesus esteve com eles, antes de sua ascensão. Assim, os versículos iniciais de Atos são um resumo do Evangelho de Lucas e os cinco primeiros versículos fazem ligação com esse evangelho, além de ser importantes para a interpretação de Atos. O texto de Efésios é mais uma indicação de que Jesus foi exaltado.

2 Exegese V. 1 – Aqui está claro que a intenção do autor é fazer um resumo antes de entrar e dar continuidade à história de Jesus e ao começo da igreja. Teófilo ficou sabendo das coisas que Jesus fez e ensinava através do Evangelho de Lucas. Assim o Evangelho de Lucas tem, a partir desse texto de Atos, uma continuidade. É, na realidade, o cumprimento daquilo que Jesus falou em Lucas 24.49. V. 2 – O termo Espírito Santo revela como aconteceu a escolha dos

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apóstolos e também como eles foram capacitados para cumprir sua missão. O termo a partir do grego deixa claro que aquilo que Jesus fez aos apóstolos, ou seja, tanto a sua escolha como a sua capacitação, aconteceu sob a direção divina. O que foi dirigido aos discípulos, num primeiro momento, agora é ampliado a outras pessoas (v. 8). Os primeiros contatos de Jesus, no que se refere a seus ensinos, eram mais restritos aos seus doze; era para esses que, primeiramente, Jesus direcionava suas explicações. Agora, com a sua ascensão, todos nós recebemos uma missão neste mundo. Antes de ser exaltado, Jesus cuidou para que seu trabalho continuasse. V. 3 – Jesus deu a seus discípulos muitas provas de que estava vivo, havia ressuscitado após sua morte, de forma que Lucas parece fazer questão de citar que isso aconteceu durante quarenta dias. Nesse tempo, da ressurreição até a ascensão, os apóstolos receberam instruções sobre o reino de Deus, e isso ele fez “abrindo-lhes o entendimento” (Lc 24.45). V. 4 – Neste versículo temos a descrição de algo que era bem marcante na vida de Jesus e de seus amigos. Isso era mais do que simplesmente um comer, mas representava, além da vida de Cristo, a comunhão de Jesus com os seus e trazia à lembrança momentos como o da última ceia. Neste versículo há algumas ordens com relação a continuar em Jerusalém, tais como: “não vos ausenteis, esperai”. Esses homens eram da Galiléia e, após a partida de Jesus, seria natural que eles voltassem à sua terra natal; entretanto, o acontecimento do derramamento do Espírito aconteceria em Jerusalém e ali, através daquele episódio, eles então receberiam capacitação para desempenhar sua vocação de forma plena. A “promessa do Pai” refere-se ao Espírito Santo. V. 5 – Até aquele momento, João tinha destacado especialmente aquilo que se refere ao batismo, mas com o derramamento do Espírito há uma nova postura por parte da igreja, que ela deve assumir, pois seus membros serão a habitação do Espírito. Essa promessa foi reforçada pelo testemunho de João. O ministério de Jesus iniciou com a descida do Espírito Santo (no batismo de João); agora o ministério dos apóstolos também iniciava com o batismo do Espírito. V. 6 – Para a pergunta feita a Jesus, não lhes importava saber; o que importava era a tarefa que tinham de testemunhar. V. 7 – A questão de tempo é algo firmado por Deus. A atuação de Deus era algo que estava sob seu domínio, mas agora seria o começo de um novo tempo, no qual a igreja estaria atuando. A resposta de Jesus deixa claro que a eles não caberia conhecer o tempo (chronos – tempo corrido, cronológico) nem as épocas (kairos – tempos exatos nos quais Deus atua na história), pois ambos pertencem a Deus. V. 8 – Jesus quer reinar “...até os confins da terra”. O derramamento do Espírito é o início da missão dos apóstolos para que Cristo fosse levado a outros e seu corpo fosse então formado. Essa seria a maneira de Cristo reinar em outros lugares e não somente em Israel. É no cumprimento dessa missão que os apóstolos estariam revestidos de “poder”. No que se refere a essa missão, seria de testemunhar, ou seja, falar daquilo que eles “viram e

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ouviram”. Ser testemunha (no grego) significa ser martyr, ou seja, para falar daquilo que viram e ouviram, eles poderiam vir a sofrer. Por isso, nessa missão, o “poder” do Espírito era fundamental. O círculo aberto, de Jerusalém até os confins da terra, é na realidade o roteiro de escrita de Lucas, pois começa em Jerusalém, falando dos acontecimentos ali, e segue até Roma com Paulo. O ministério terreno de Jesus teve seqüência através do Espírito Santo por meio dos apóstolos. V. 9 e 10 – Esses versículos revelam para onde Jesus foi, ou seja, ele subiu ao céu – um movimento que indica glorificação. A descrição não apresenta nada de mítico. Na ilustração feita por Lucas, tudo é muito sereno. A expressão “de repente” traz uma nova situação, ou seja, do olhar para o céu para uma afirmação: Ele “há de vir”. V. 11 – A pergunta feita aos apóstolos – “Por que estais olhando para o céu?” – tem também sua mensagem. Agora eles precisavam falar do que viram e ouviram, pois no futuro Ele voltará! Assim não adianta ficar apenas contemplando o céu, eles precisavam olhar a seu redor. Enquanto Jesus estava entre o povo, não foi lhe dada a devida glória, e nesse momento Ele a estava recebendo do Pai. Por isso, quando Ele voltar, todos o verão retornar da forma como foi, ou seja, “sobre as nuvens com poder e glória”.

3 Meditação Os textos apresentados ajudam na compreensão da própria vida de Jesus, bem como colaboram para que a igreja compreenda sua missão. A própria fé da igreja cristã é baseada na crença da vida de Cristo. Por isso os textos lidos são importantes para a igreja atual. Eles ajudam para que ela avalie sua proclamação e o cumprimento de seu papel em meio à sociedade na qual está inserida. É fácil, a partir desses textos, pensar em início. Provavelmente porque os momentos ali descritos marcam um novo tempo, um início tanto para os apóstolos como para a igreja cristã primitiva. O dia de hoje também deve levar-nos à reflexão, a pensar o que iremos fazer diante desse momento tão especial que nos remete a uma missão. Talvez esse seja o dia em que cada um individualmente e como membros do corpo de Cristo devemos avaliar-nos e perguntar: O que preciso para cumprir minha missão até que a promessa da volta se cumpra? Quem sabe, individualmente preciso de fé e como membro do corpo de Cristo preciso ter esperança. A visão da ascensão causou espanto aos discípulos e, ao mesmo tempo, impulsionou-os a proclamar as boas-novas. Qual o resultado que a ascensão tem trazido ou causado a mim individualmente e ao corpo de Cristo como um todo? Hoje é tempo de pensar! De ter fé e esperança de que o melhor ainda está por vir! Talvez seja hora de nos colocarmos no lugar dos apóstolos e tomar para nós a pergunta feita aos homens galileus: “O que fazeis plantados olhando para o céu?”. Olhe para o futuro! Coisas melhores podem acontecer,

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desde que eu e cada membro do corpo de Cristo cumpramos nossa missão. Sem dúvida, esse é o ponto de partida que nos motiva a ser testemunhas, no sentido de falar daquilo que temos visto e ouvido, ou seja, do amor de Cristo. É preciso que perguntemos: O que ou qual o resultado que a ascensão e a glorificação têm causado em mim e em minha igreja? Será que a ascensão e a glorificação motivam-nos a falar que, embora tantas dificuldades e problemas em nossa sociedade estejam acontecendo, Jesus está presente e pode continuar através daquilo que eu e a igreja fizermos? Será que Jesus está presente na sociedade através de nossa missão? Essa certeza pode fazer toda a diferença para a igreja cristã em nossos tempos, a certeza de que Cristo ressuscitou, subiu aos céus e está presente no mundo através daqueles que nele crêem. Através do Espírito Santo somos capacitados a viver neste mundo tão conturbado, passando por momentos difíceis, e ainda assim cumprir nossa missão. É necessário que nos perguntemos: O que necessitamos para que nossa tarefa seja executada com sucesso? Os apóstolos necessitaram de algo mais do que apenas suas forças. Foi-lhes necessário receber “poder” do Espírito Santo. O que eu e cada cristão temos necessidade de levar adiante a nossa tarefa? Deus ainda está interessado em orientar seus filhos para que cumpram sua missão. É tempo da igreja atuar nos vários locais da sociedade, falar do amor de Cristo. Aquilo que os apóstolos fizeram foi somente o começo. Será que é correto que a igreja cristã hoje se cale diante do amor de Jesus e não faça nada em sua comunidade ou sociedade, não testemunhe? A ordem tem seguimento através da igreja e o trabalho através da vida de cada cristão. Cada cristão tem a sua Jerusalém e pode chegar até determinados “confins”. Entretanto, isso só acontecerá quando cada um desempenhar sua missão,através de algo que é muito superior apenas às suas forças particulares. O que todos precisam é daquele mesmo “poder” que foi dado aos apóstolos. Para que, então, realmente Cristo seja testemunhado a outros e não somente os pensamentos individuais daqueles que nele crêem. A tarefa de testemunhar não era algo somente dos apóstolos. No início, eles fizeram sua parte, e podemos perguntar se hoje a igreja cristã e os cristãos continuam fazendo sua parte ou não. A boa mensagem da ressurreição de Cristo, do perdão dos pecados, do amor de Jesus, pode ser oferecida a outros. Em meio a tantas lutas que passam as pessoas, não há dúvida de que essa é uma boa mensagem e que a mesma fará diferença para todo ser humano. Essa mensagem deveria estar trazendo resultados e produzindo uma sociedade diferente hoje. Se não está, devemos perguntar-nos se estamos cumprindo nossa missão de forma adequada ou até mesmo se essa mensagem já fez diferença primeiro para cada um daqueles que se consideram cristãos. A mensagem da ascensão deve trazer renovação ao mundo e não frieza diante da sociedade na qual vivemos. Todas essas coisas já ditas, bem como a exaltação de Cristo, fizeram parte da missão dos apóstolos e continuam a fazer parte de nossa missão neste

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mundo. A partir dos textos temos um desafio: ampliar aquilo que foi iniciado há tanto tempo por aqueles que testemunharam Cristo. “Jesus voltará!” deve ser a motivação, deve ser uma das coisas que impulsiona a igreja, o corpo de Cristo a olhar o presente e fazer o melhor pelo povo, seja ao seu redor ou nos confins da terra. Os apóstolos logo começaram seu trabalho porque tiveram o entendimento do que significava “há de vir, assim como o vistes ir”. Essa é a compreensão que deve ter a igreja para cumprir sua missão entre os seus. A eficácia da nossa tarefa continua em nossas mãos. “Até os confins da terra” lembra-nos que a tarefa dos apóstolos deve prosseguir. A verdadeira igreja cristã vive a experiência de um Jesus presente e glorificado em sua comunidade. Por isso ela age e não se omite.

4 Sugestões para a prédica Pode-se desenvolver como tema a missão da igreja na sociedade atual. É recomendável destacar aquilo que os apóstolos fizeram na sociedade em que viveram e ver o que é possível para a igreja de Cristo fazer hoje, tanto em termos de levar alento espiritual como o agir social. Fazer apontamentos, mostrando até onde ela tem ido e aonde pode chegar. A finalização deve ser observada com atenção, de forma que cada um possa analisar o que tem feito e até mesmo se cumpriu sua missão. O texto (v. 8) permite destacar o fortalecimento que o cristão recebe do Espírito Santo quando está desempenhando sua tarefa. Nesse mesmo pensamento, um tema podem ser os atos da igreja de Cristo. A idéia é fazer uma reflexão mostrando aquilo que a igreja tem feito, se ela tem cumprido sua tarefa ou quem sabe ainda não. É recomendado fazer apontamentos das atividades da igreja, bem como desafiar a pensar em uma continuidade das atividades iniciadas pelos apóstolos. Ou seja, como seria fazer os relatos seguintes desse acontecimento de ascensão a partir da comunidade local? O que a igreja iria escrever? Também se pode falar dos atos de Cristo na igreja, mostrando dentro do corpo o agir de Cristo em benefício dessa. Outro tema pode ser o novo tempo iniciado com a ascensão de Cristo, o tempo da igreja. Deve-se destacar a esperança que nasce com a ascensão de Cristo e com a promessa do v. 11. A igreja pode ser uma porta de esperança para muitos que estão desanimados, aflitos e não conhecem as boas-novas de Jesus.

5 Imagens para a prédica Esta é uma experiência de alguém que por alguns momentos parou para refletir sobre a missão de testemunhar nos tempos atuais.

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Certo dia, ao romper da manhã, eu estava nas costas da Fenícia e observava um aeroplano levantar vôo. A bordo daquela aeronave estava alguém que havia trazido àquelas terras bíblicas a mensagem viva do evangelho. Duas horas depois, estaria ele em outro país, onde igualmente entregaria a preciosa mensagem. Quando o aeroplano sumiu no horizonte sob o céu de cristal que cobria o Mediterrâneo, lembrei-me de Paulo e Barnabé, que, séculos atrás, partiram daquela mesma baía. Embarcaram para navegar por semanas e semanas e visavam chegar às terras pagãs, onde havia pontes para o cristianismo. Não tinham sustento, nem levavam nos bolsos cheques de turismo. A falta dessas coisas tão convenientes não os impediu de empreender a viagem. No mundo moderno, muitas são as oportunidades, conveniências e estímulos para aqueles que querem ser testemunhas da graça salvadora de nosso Senhor. A necessidade maior é que sejamos testemunhas de Cristo.

P. C. Krikorian (Líbano)

6 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Senhor, estamos em tua presença com coração quebrantado por nossa negligência em relação à missão tão sublime, que nos deixaste de testemunhar daquilo que temos visto e ouvido. Pedimos a tua misericórdia mais uma vez por não estar engajados contigo nessa missão. Sabemos que muitos não têm ouvido as boas-novas e passam sem conhecer teu amor e teu perdão porque estamos olhando para aquilo que não contribui para que a sociedade receba da tua graça. Ajuda-nos a fazer a diferença nos locais em que atuamos, de forma que outros sejam confortados com a tua verdade. Amém. Oração de intercessão: Senhor, diante de ti queremos apresentar as nossas autoridades eclesiásticas e políticas. Suplicamos a tua direção e sabedoria. Que elas também possam ser testemunhas de teu amor e bondade para aqueles que os cercam. Que elas possam atuar recebendo a tua bênção. Pedimos que com tua mão amorosa também ampares os aflitos, todos os que passam por momentos difíceis e estão sentindo tristeza em seus corações. Permita que tua graça os alcance. Estenda também a esses do teu consolo e permita que nós todos sempre estejamos alegres pela comunhão que podemos ter contigo. Amém.

Bibliografia BOOR, Werner de. Atos dos Apóstolos. Trad. Werner Fuchs. Curitiba: Esperança, 2002. 375 p. MARSHALL, I. Howard. Atos: introdução e comentário. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Mundo Cristão, 1988. 397 p.

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RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999. 218 p. KÜRZINGER, Josef. Atos dos Apóstolos. Petrópolis: Vozes, 1973. 7º DOMINGO DA PÁSCOA JOÃO 17.1-11 Atos 1.6-14 1 Pedro 4.12-14; 5.6-11

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DOMINGO DE PENTECOSTES

PRÉDICA: NÚMEROS 11.24-30

11 MAI 2008

JOÃO 20.19-23 ou JOÃO 7.37-39 1 CORÍNTIOS 12.3b-13 ou ATOS 2.1-21 Sisi Blind

1 Introdução “Todos bebemos de um só espírito.” É festa de Pentecostes, é dia de celebrar a graça inclusiva de Deus. Sim, através do envio do Espírito, Deus presenteia-nos com a possibilidade de ser, todos, seus interlocutores. Toda a comunidade é convocada para a tarefa ministerial, na qual o uso da potencialidade de cada um pode-se fazer evidenciar na aplicação dos diferentes dons, inclusive no desafio de usar os dons de forma inovadora. Somos chamados e enviados à ação profética em nosso mundo através da ação do Espírito Santo. O espírito é um só e sopra onde quer. Os dons são diversos, e sua diversidade pode ser ampliada. Em nossas comunidades existe carência de liderança, mas a tarefa dos líderes é reunir e auxiliar na capacitação da comunidade para que ela mesma assuma a tarefa que lhe é concedida em sua riqueza de dons e potencialidades. Os textos indicados para a mensagem do Domingo de Pentecostes desafiamnos a chamar a comunidade, valorizar seus dons e auxiliá-la na inclusão de pessoas no ministério da profecia e rever dons que podem ser utilizados de forma diferenciada e inclusiva. A profecia é ação do Espírito Santo. Não é movimento novo na igreja, mas é parte da essência histórica do movimento de Jesus, que, por sua vez, traz em sua ação a memória da ação profética e libertadora do povo de Israel. Como igreja, é importante estar atento ao contexto vivencial. Portanto precisamos reformular nossas formas de ação e atuação, inclusive nossa forma funcional, em consideração à realidade, que se transforma na dinamicidade das relações em nossa sociedade. Nossa mensagem deve auxiliar na construção de uma comunidade participativa e disposta a rever sua forma e seu conceito de organização. Os processos sociais sofrem mudanças, e a comunidade, como parte da sociedade, também muda, de modo que é importante que vivenciemos as mudanças sem perder os referenciais de nossa essência constitutiva.

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2 Exegese Milton Schwantes classifica Números 11 como um mosaico. Ela é um conjunto de peças muito diferentes entre si, mas é um conjunto. Seu enfoque é a murmuração do povo na caminhada pelo deserto. Inicia narrando a queixa do povo (v. 1) e finaliza com o sepultamento dos desejosos das panelas fartas do Egito. Sob esse enfoque foram inseridas outras cenas, entre elas a indicação da pregação deste domingo, que sinaliza a experiência da ação do Espírito aos setenta anciãos reunidos na tenda (v. 24, 25) e aos dois homens do acampamento (v. 26). Esse mosaico tem um propósito: mostrar a história a partir de suas partes, ou seja, características próprias, elencando elementos importantes na construção de uma comunidade que necessita rever suas características funcionais. Essa forma de ser da perícope localiza-a numa fase mais adiantada da história de Israel, talvez até na época do exílio (Schwantes, 1982, p. 206). O povo já não se encontra no deserto de areia, mas está agora no deserto estrutural, ou seja, fora de sua comunidade constituída e organizada funcionalmente. Essa constatação nasce do fato de que os anciãos são reivindicados como mensageiros/profetas do povo. A tarefa que o Antigo Testamento, em geral, atribui aos anciãos é a de líderes mantenedores da sabedoria, autoridades judiciárias, chefes políticos. Poderíamos arriscar dizer que, em função do exílio, esses homens perderam sua função comunitária, e Moisés convoca-os para a Tenda, onde recebem uma reorientação de função. Eles recebem a capacitação do Espírito de Deus para assumir a função da profecia. A esses homens sábios é dada a tarefa de anunciar a ação e presença de Deus em meio ao sofrimento dos exilados. Moisés está na origem do movimento profético. Ele chama os anciãos para a profecia. Esses homens possuem sabedoria e força, mas pelas circunstâncias do contexto do exílio se encontram sem função. Assim acontece uma reorganização comunitária que potencializa suas lideranças para uma tarefa que é vital nesse momento histórico do povo. No exílio, são necessárias pessoas que anunciam a presença e a força de Deus para manter o povo animado e combativo. Os anciãos recebem essa incumbência. Mas a tarefa não é dada somente àqueles que fazem parte do seio organizacional do grupo. Como a profecia é ação do Espírito, ela vai além dos convocados, em torno da tenda, pela autoridade mosaica. Ela alcança também aqueles que estão fora dela. A ação do Espírito de Deus mostra que nem sempre Deus comunica seu Espírito através dos canais oficiais. Os dois homens (Eldade e Medade) também estavam na lista dos inscritos, mas não estavam junto a Moisés. Portanto as autoridades do povo de Deus devem entender que o Espírito de Deus também se comunica ali onde eles não estão e não lhes pede permissão. Esses dois homens realizam a profecia na periferia da Tenda. Essa ação periférica causa estranheza e desejo de que seja interrompida, proibida (v. 28).

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3 Meditação O texto evoca algumas questões: diante de situações difíceis, não devemos ater-nos a murmurações ou condenações, mas buscar mudanças que possam reconstruir nossos processos comunitários. Antes devemos reorganizar-nos para superar as dificuldades e enfrentar as oposições do projeto cristão em nosso mundo. Portanto nossas energias devem estar voltadas para a realização de ações que possam garantir mudanças e transformar a realidade que nos machuca, corrói e, muitas vezes, paralisa. O texto ensina-nos que as ações do Espírito de Deus são muito diferentes. Ele nos chama à percepção de que o Espírito de Deus desafia para a tarefa profética aqueles que são dirigentes e fazem parte da comunidade estruturada, assim como também chama aqueles que estão fora da estrutura. Essa compreensão é fundamental para a continuidade da igreja como corpo de diferentes membros e funções. Nesse processo, somos convidados a rever nossos conceitos, a mudar nossa forma de atuar e nossos enfoques no uso dos dons e, especialmente, a abrir nossas portas e janelas para que as pessoas possam ocupar os espaços comunitários, usando seus dons, com os quais foram capacitados pelo Espírito de Deus. Quando a realidade da morte se abateu sobre os discípulos, eles se fecharam; mas a ressurreição de Jesus abre as portas e envia os discípulos para a tarefa que lhes cabe. Quando a comunidade de Corinto valoriza somente alguns escolhidos, Paulo lhes fala que a comunidade é um corpo em que todos têm funções importantes e que nenhum dom é melhor do que outro, mas é a complementaridade que constrói a riqueza e a verdadeira comunidade cristã. Celebrar Pentecostes é entender a riqueza do mosaico humano e identificar a beleza da caminhada cristã como o processo de luta contra as dores e as injustiças do mundo presente. É preciso ativar a esperança e aguçar a crítica frente ao mundo globalizado, que é um mosaico rico e belo, mas que precisa de lideranças que percebam que a sobreposição das peças não é o caminho que garante a diversidade da criação.

4 Imagens para a prédica Gostei muito da idéia do mosaico para falar da diversidade. Portanto construir um mosaico ou trazer um já pronto para ilustrar a pregação poderia ser um elemento rico e de construção participativa. Esse elemento pode ser um forte símbolo para exemplificar o que é a igreja, ou seja, o que Pentecostes propõe como igreja cristã. Os elementos que formam um mosaico são importantes para conduzir a reflexão: 1 – Cacos: os cacos podem ser comparados, com suas pontas e seus contornos brutos, à fragmentaridade de nossa experiência e à nossa fragilidade humana, presentes na construção da igreja/comunidade. Sem eles não se constrói um mosaico; sem eles não há diversidade de dons e nem de

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ministérios; 2 – Cola: o cimento, a argamassa necessária para colar os cacos, é a força do Espírito de Deus. Ele nos chama, capacita e desafia a viver a comunhão sem perder nossa característica individual, mas desafiando a não viver o individualismo da modernidade/pós-modernidade; 3 – Base: para fazer um mosaico, é preciso ter uma base, seja um quadro, seja um vaso, seja uma parede. Essa base é a nossa identificação cristã. É nossa memória sempre viva do projeto de Deus para com seu povo, que é um projeto que exige nosso comprometimento com o anúncio de sua palavra e a denúncia das injustiças presentes em nosso mundo.

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Pensando no mosaico, poderíamos trazer cacos como símbolos para representar nosso individualismo e nossa precariedade humana. Kyrie:

Os cacos podem ser mostrados como objetos que machucam, ferem, causando dor e exclusão. Oração do dia: (aqui poderia ser usada a argamassa ou cola como símbolo da unidade reconstrutora) Deus, nosso Senhor, Deus da graça e do amor. Auxilia-nos a perceber a diversidade de dons e especialmente que é preciso deixar que o Espírito de Deus atue em nós para que haja a reconstrução da tua igreja em nosso mundo. Capacita-nos, através do teu santo Espírito, a viver a comunhão em nossa diversidade e pluralidade. Amém! Oração de intercessão: Of. – Deus Eterno, intercedemos pelas igrejas para que elas possam andar juntas, construindo o caminho da inclusão e da diversidade em seu meio. Assim pedimos a ti! Com. – Escuta, Deus, a nossa oração! Of. – Deus, intercedemos também pelas autoridades, a fim de que elas possam ter a capacidade de mudar suas funções se preciso for, para que o anúncio da tua verdade seja fortalecida. Assim pedimos a ti! Com. – Escuta, Deus, a nossa oração! Of. – Deus Criador! Lembramos todas as pessoas necessitadas, doentes, enlutadas e, de maneira muito carinhosa, as pessoas atormentadas e desorientadas. Que em ti possam encontrar orientação e apoio, força e ânimo, perseverança e fé mediante o poder do Espírito Santo. Assim pedimos a ti! Com. – Escuta, Deus, a nossa oração! Of. – Deus da graça e do amor! Pedimos pelas pessoas de nossas co172 munidades, para que assumam os desafios de promover vida justa e digna através da partilha e do comprometimento de cada pessoa. Assim pedimos a ti! Amém Sem título-1 172

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Domingo de Pentecostes

Bibliografia SCHWANTES, Milton. Meditação sobre Nm 11. In: Proclamar Libertação VIII. São Leopoldo: Sinodal, 1982. p. 205-212. von RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento, v. 2. São Paulo: ASTE, 1974.

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1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES (SANTÍSSIMA TRINDADE)

PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 13.11-13 GÊNESIS 1.1-2,4a MATEUS 28.16-20

18 MAI 2008 Haroldo Reimer

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Introdução

O clima celebrativo neste primeiro domingo após Pentecostes é a vivência (litúrgica) na unidade trinitária. Segundo o testemunho do livro de Atos dos Apóstolos, a partir do dia da descida do Espírito Santo Deus torna-se atuante em três figuras inter-relacionadas em uma só unidade divina: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Vive-se agora no tempo de Pentecostes ou Trindade, a unidade pericorética das três pessoas da Trindade. A seleção de textos é sintomática. O texto sugerido para a pregação é a saudação trinitária do final da Segunda Carta aos Coríntios. Além da saudação, consta aí uma exortação para a vivência da fé, no sentido do aperfeiçoamento e do consolo mútuos. Isso é fundamental para a vida comunitária. Os textos para as leituras são Gênesis 1.1-2.4a e Mateus 28.16-20. O primeiro indica as origens últimas da criação, na qual vivem os humanos junto com a própria realidade transcendente trinitária. Em termos teológicosistemáticos, esse texto costuma ser lido em perspectiva trinitária, embora, em seu sentido original, dificilmente tenha sido essa a intenção do autor. O texto do evangelho remete para as palavras de despedida de Jesus a seus discípulos, o envio desses para a missão por todos os recantos do mundo habitado (ecumene) da época. A tarefa da missão e sacramental deve ser feita em perspectiva trinitária (v. 19). O espírito na celebração deve ser claramente trinitário. Esse é o foco do texto sugerido para a pregação, mas também a menção explícita no texto do Evangelho de Mateus. Pessoalmente, porém, sugiro que, além desse clima trinitário, a reflexão focalize o sentido da presença e atuação pericorética no mundo que habitamos hoje. É um desafio que situa também a tarefa missionária dentro de uma perspectiva ecológica. Por isso sugiro que tematicamente os conteúdos do texto de Gênesis 1 estejam em primeiro plano na reflexão. Por esse motivo, a exegese enfoca esse trecho bíblico.

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1º Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)

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Exegese

As primeiras palavras da primeira página da Bíblia constituem um verdadeiro prólogo para o todo dessa fascinante obra de nossas Escrituras Sagradas. O que aqui se testemunha é a afirmação de fé básica de que Javé, o Deus de Israel, é o Deus criador de céus e de terra e “de tudo o que neles há” (Sl 24.1). Aqui há uma condensação de fé desde a perspectiva de Israel. O relato de Gênesis 1 abre toda a Bíblia. Encaminha para o que vem depois. Dá um sentido ao que segue. Fundamental é a afirmação que brota da fé de Israel: o mundo existe e o que se experimenta como criação é obra de Deus. A linguagem do texto é fundamentalmente mítica ou mitológica. Isso não significa de modo algum que a “verdade” das Escrituras seja diminuída. Linguagem mítica é uma forma de comunicação das “verdades” fundamentais em praticamente todas as religiões. A religião de Israel participa dessa forma de comunicação de suas próprias verdades e reconhecimentos. Linguagem mítica é uma forma de comunicação que utiliza elementos ligados à experiência profunda do ser humano. É o que Jung chamava de “inconsciente coletivo” ou “arquétipos”. Os arquétipos, que são condensações de experiências coletivas, fluem para dentro dos textos míticos. Facilitam, assim, a assimilação pelos ouvintes ou leitores e já encontram nesses a predisposição para a aceitação, a imitação e o seguimento dos conteúdos fundamentais projetados nos textos míticos. Textos míticos ou religiosos, assim como outros textos, têm um lugar e um momento de origem. São “históricos” porque uma pessoa ou um grupo colocou um dia as palavras em ordem para transmitir determinado sentido e provocar determinadas práticas. A origem do texto de Gênesis 1 costuma ser datada no chamado “período exílico”, isto é, o tempo em que uma parte do povo de Israel ou Judá teve que viver no exílio na Babilônia. Isso nos remete para a primeira metade do século VI a.C., mais precisamente entre os anos de 587 a 538 a.C. Na Babilônia, os deportados eram confrontados com outras afirmações de fé igualmente míticas. Um famoso mito chamado enuma elish, assim denominado por causa das primeiras palavras do relato, afirmava que um outro deus, chamado Marduque, seria o criador do universo. Os israelitas certamente conheciam esse mito e utilizaram partes dele para expressar o seu credo de fé, agregando elementos de sua própria tradição. O texto que surgiu no exílio foi posteriormente utilizado como introdução geral ao conjunto que é o Pentateuco, abrindo, assim, toda a Sagrada Escritura. Sabidamente, o texto de Gênesis 1.1 até 2.4 constitui o chamado “primeiro relato da criação”. Esse texto já está estruturado dentro de um esquema que prescreve uma ordem do tempo. O relato está construído dentro numa seqüência de sete dias, mais precisamente seis dias de trabalho e um sétimo

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1º Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)

dia reservado para o descanso. Essa estrutura do relato das origens sugere um conteúdo importante: como ouvintes ou leitores do texto, os israelitas devem procurar imitar o Criador, mantendo um ritmo de seis dias de trabalho e um dia de descanso. Se o Criador assim o fez, quanto mais as criaturas devem fazê-lo! O relato de Gênesis 1 mostra que “criação” é sobretudo uma tarefa de “ordenação”, de colocar em ordem, de fazer surgir cultura. O ambiente original, pressuposto no texto, é um ambiente de águas caóticas. No ato criador, a divindade criadora ordena o caos e faz surgir um espaço ordenado. Esse espaço é o ambiente em que as pessoas podem estabelecer-se culturalmente, fazendo brotar vilas, cidades, reinos e até impérios, enfim, fazendo surgir a civilização e a cultura. Um outro conteúdo importante transmitido ao longo da estrutura do texto é a afirmação de que as outras criaturas (ou elementos da criação) têm uma “dignidade criatural” própria, independente dos seres humanos. Isso sabidamente é afirmado no texto através de uma expressão que se repete várias vezes. A partir do terceiro dia da criação, o autor do relato, após descrever a obra criadora do dia, anota: “E viu que era bom!”. Isso quer dizer que os outros elementos da criação têm um valor próprio diante do Criador. Com a dignidade própria, assegurada aos outros elementos da criação, o ser humano é pensado e afirmado como um elemento integrado dentro do todo da criação. É verdade que lhe é assegurado um elemento especial, que é o de ser imagem e semelhança do Criador (Gn 1.26-31). Como tal, o ser humano recebe um mandato, afirmado no texto com palavras muito pesadas: “dominar a terra e subjugar os animais” (Gn 1.28). Esses verbos “dominar” e “sujeitar” são termos tomados da linguagem dos reis e dominadores. Tiveram a sua importância na época, mas hoje, diante das crises ambientais provocadas pela intensa interferência dos seres humanos no ambiente, essa linguagem precisa ser traduzida para conceitos que expressam muito mais a dimensão do cuidado com o ambiente. Hoje é necessário (re)descobrir muito mais a dimensão de que nós, seres humanos, temos a incumbência de ser mordomos dessa grande casa da criação. O trabalho faz parte da atividade humana. O trabalho dignifica a pessoa – assim se diz tradicionalmente. Mas o trabalho não pode se tornar um fim em si mesmo. Caso contrário, vira escravidão. Atividade de trabalho deve ser sempre interrompida por tempos de pausa. A pausa é necessária, é salutar, refaz o corpo e o espírito. A pausa possibilita o sonho. Dentro de um código de linguagem mítica, o texto afirma que o Criador descansou no sétimo dia e o santificou. Aqui não se santifica um lugar, mas um tempo. É um tempo que antecipa o grande descanso de toda a criação. No saber e poder descansar reside um elemento da dignidade humana. Não pode ser verdade máxima que só o trabalho dignifica; também o lazer, o não-fazer-nada, o descanso são elementos que outorgam dignidade à pessoa humana. Devem ser assegurados a todos os que trabalham.

3 Imagens para a prédica Sem título-1 176

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1º Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)

Para a pregação, eu trabalharia com a imagem do mundo habitado como a grande casa da criação. Nessa casa convivem as mais diversas formas de vida. Entre todas, a vida humana tem um destaque especial pelo fato de ser a vida consciente de sua consciência. Com isso cabe papel de mordomia e responsabilidade dos humanos para com os demais elos da grande casa da criação de Deus. Segundo o credo de nossa fé, nessa casa Deus habita de forma trinitária. Assim como entre as três figuras da Trindade, há relações de mutualidade; assim também as pessoas, moradoras dessa casa, precisam assumir as funções e responsabilidades no sentido do bem comum de toda a casa da criação.

4 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Querido Deus! Em palavras de doutrina e de fé nós te reconhecemos como o criador e o mantenedor da vida nessa grande casa que tu propicias para o nosso viver. Dá que efetivamente, em nosso pensar e em nosso viver, isso seja um fundamento. Faze com que sejamos abertos a entender que tu criaste este mundo para ser um lugar agradável de vida para todos. Perdoa-nos se nós, por causa de egoísmo e falta de perspectiva, repetidamente atentamos contra a dignidade da vida nessa grande casa, na qual também tu estás presente. Orienta-nos por teu Espírito e faz-nos olhar para ti como a fonte da justiça e misericórdia. Amém. Oração de coleta: Deus! Agradecemos por mais este dia de vida. Agradecemos porque despertaste em nós a vontade de te louvar, ouvir tua palavra, nela meditar e com ela aprender. Pedimos que teu santo Espírito abra nossos ouvidos e nossos corações. Faz-nos aptos para entender que criaste esta grande casa na qual nós convivemos com tantas formas de vida diferentes e distintas. Faz-nos sentir que tu também compartilhas esta grande casa conosco, convivendo conosco em tuas formas de ser e estar entre nós. Amém. Oração de intercessão (após cada petição, a comunidade repete o refrão): Querido Deus! Obrigado por mais este dia e esta celebração. Queremos pedir-te que nunca deixes faltar em nosso viver a vontade de te louvar e ouvir a tua palavra. Ouve, Senhor, a nossa oração! Oh Deus! Nós oramos pelas dores deste mundo. Aquilo que tu criaste para ser a grande casa da criação, agradável para se viver, nós continuadamente transformamos em lugar de discórdia e deixamos sucumbir por falta de cuidado. Ajuda-nos a aprender de ti, Senhor.

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1º Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade)

Ouve, Senhor, a nossa oração! Deus! Oramos pelas pessoas que em tantos lugares deste mundo não têm mais as condições mínimas de vida com dignidade. Que diante dessa realidade nós não sejamos simplesmente indiferentes, mas nos coloquemos a serviço. Ouve, Senhor, a nossa oração! Oramos, oh Deus, por todas as igrejas nas quais a tua palavra é pregada e vivida. Abre nosso entendimento para a necessidade do viver em conjunto com os outros moradores desta grande casa. Ouve, Senhor, a nossa oração! Deus! Oramos também por nossos governantes. Pedimos que sejam iluminados por ti para que aprendam a respeitar a dignidade de todas as formas de vida e que coloquem o bem público sempre antes do bem privado. Ouve, Senhor, a nossa oração!

Bibliografia MOLTMANN, Jürgen. Deus na criação. Petrópolis: Vozes, 1996. REIMER, Haroldo. Toda a criação. Bíblia e ecologia. São Leopoldo: Oikos, 2006.

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2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 6.24-34

25 MAI 2008

ISAÍAS 49.8-16a 1 CORÍNTIOS 4.1-5

José Kowalska

1 Introdução Com este domingo reiniciamos o tempo comum. Apesar disso, os textos trazem a nós a importância de relembrar as prioridades na vida. As pessoas preocupam-se com todas as coisas e preocupam-se muito mais com o amanhã. Colocar as coisas no lugar correto e com a importância adequada é viver de forma saudável. Muitas vezes, as pessoas esquecem a ordem correta das prioridades, e isso causa os problemas que vivemos hoje em dia. Colocar Deus como a maior prioridade ajudará a viver melhor. Os textos relacionam a ação de Deus na vida das pessoas: O profeta Isaías traz a ação do Senhor no tempo aceitável como consolo e compadecimento ante o povo exilado. O salmo coloca-nos como uma criança de colo que depende de Deus. E, finalmente, Coríntios coloca o julgamento do Senhor sobre os nossos pensamentos escondidos e o alerta de não julgar antes do tempo.

2 Exegese O texto de Isaías, que se encontra dentro do considerado DêuteroIsaías, traz o profeta divulgando o consolo de Deus ao povo aflito por causa do exílio. A possibilidade de voltar apresenta-se, e o castigo de Deus fica no passado. Agora é o tempo aceitável em que Deus se compadece de seu povo e consola-o com a mensagem da volta do exílio. O Salmo 131 faz parte dos cânticos de peregrinação, que eram cantados na subida até o templo de Jerusalém. Esse salmo tem como base os sentimentos de humildade e confiança em Deus. Usando a imagem de uma criança de colo, o salmista quer mostrar a grandeza de Deus e a pequenez do ser humano. Em relação ao texto de 1 Coríntios, esse segue a leitura semicontínua dos domingos após Epifania. Essa leitura é a última dessa série; não existe uma relação temática direta entre a epístola e o evangelho. O texto da prédica localiza-se em Mateus. O evangelho foi redigido pensando em comunidades cristãs com fortes raízes judaicas. Mateus procura um Jesus que interpreta a lei e a atualiza para o contexto de seus leitores. Mateus preocupa-se em colocar Deus no lugar que lhe corresponde e para

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2º Domingo após Pentecostes

isso utiliza a lei como auxiliadora dos seres humanos para conhecer os desígnios de Deus. O texto deste domingo está inserido no Sermão do Monte. Em algumas versões, os versículos de hoje encontram-se divididos em duas perícopes, mas aqui são usadas em conjunto pela continuidade temática que apresentam. O início do v. 25 apresenta a ligação com “por isso vos digo”, que relaciona as duas perícopes. O v. 24 serve como síntese do texto. Nele encontramos duas alternativas de senhorio que dirigem a vida. Porque se excluem mutuamente só é possível amar e devotar-se a um, enquanto o outro será aborrecido e desprezado. A tradução de Almeida “riquezas” refere-se ao aramaico mammona, que expressa a personificação das riquezas, podendo ser um poder personificado que domina o mundo ou os bens terrestres. O conteúdo do v. 24 é duas vezes explicado nos v. 25-31, com os exemplos das aves e da comida e o das flores e do vestido. A comida, a bebida (indicada em v. 25 e 31) e o vestido são ítens indispensáveis para a vida. Sem eles, as pessoas não conseguem viver. Cabe ressaltar, no exemplo dos lírios, a contraposição de Salomão. Pois Salomão, ainda que tivesse sido o rei mais rico e mais poderoso de Israel, não poderia igualar a glória das simples flores. A conclusão do pensamento lógico e o imperativo do texto encontramse nos v. 32 a 34. Amar e devotar-se a Deus é indicado como a procura de seu reino e sua justiça (v. 33). Isso trará como resultado que comida, bebida e vestido (temas dos v. 25 a 32) serão providenciados. A justiça é entendida por Mateus como cumprimento da vontade de Deus.

3 Meditação Se alguém fizer a pergunta: O que é importante hoje em dia? Com certeza teremos como respostas: muito dinheiro, status, poder etc. A lógica da sociedade atual é contrária ao texto do evangelho. Procura-se cada vez mais ter tudo para hoje e ainda uma boa previsão para amanhã. Não se deixa nada nas mãos de Deus. “Ajude-se que Deus lhe ajudará” é um ditado muito comum. Como deixar nas mãos de Deus o meu futuro? Essa é a forma normal de fazer os planos para nossa vida: ter seguro médico, uma boa previdência, uma poupança gorda e cuidar dos filhos hoje, pois amanhã eles deverão cuidar dos pais. Não podemos ficar sem a certeza de um futuro garantido. A nossa sociedade faz com que pensemos que o “destino” está em nossas mãos. Trocar é simples; é só querer. Deixar de ser pobre é um simples desejo. Também é comum o pensamento de que as pessoas são pobres porque Deus quer. Colocamos a culpa em Deus quando as coisas não dão certo e esquecemos que as boas vêm dele. Não podemos simplesmente deixar tudo à toa. Mas também não podemos achar que sozinhos arrumaremos o mundo. Muitas vezes, a ansiedade toma conta de nós porque sabemos que não temos as “rédeas” de nossa

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2º Domingo após Pentecostes

vida e do futuro. Por que preocupar-nos tanto? Se Deus se preocupa com os passarinhos, que não trabalham, e com as simples flores do campo, que logo murcham, muito mais se preocupa com a gente. Pois o ser humano é visto como o cume e responsável da criação, aquele ser que pode adorá-lo e louvá-lo de forma plena. Arrumar o rumo de nossa vida passa pelo primeiro mandamento. Ter a Deus acima de tudo é indispensável para viver melhor. Lembramos Lutero no Catecismo Maior: “Aquilo, pois, a que prenderes o coração e te confias, isso, digo, é propriamente teu Deus”. Cumprir o primeiro mandamento leva a cumprir os demais mandamentos e também a lembrar o artigo do Deus Criador do Credo. É fundamental para qualquer pessoa cristã procurar os sinais do reino e a justiça de Deus, sendo ela também esse sinal para as outras pessoas, revertendo a realidade do egoísmo e hedonismo. Ser sinal do amor de Deus fará com que cada pessoa possa ter o que precisa para viver. A pessoa cristã olhará à sua volta e partilhará com quem precisa. Isso soa utópico, e com certeza é, mas na cidade de Deus ninguém ficará com fome, sede ou dor. Cada pessoa terá o que precisa para viver em plenitude. Quantas vezes esquecemos que Deus nos deu tudo para fazer uso da melhor forma. Somos mordomos de Deus neste planeta. Deus dá-nos tudo para viver bem, mas fazemos mau uso desses recursos. Distribuímos sem equilíbrio, colocamos nossos requisitos e esquecemos o discernimento de Deus e seu desejo de que todos vivam em plenitude.

4 Imagens para a prédica Como imagens pode-se indicar primeiramente as do próprio texto: aves do céu e lírios do campo. Que elementos do contexto seriam sinônimos deles? Procurar-se-á por aquelas coisas que as pessoas percebem como sem valor e a relação do cuidado por parte de Deus. Pode-se lembrar da experiência daquelas pessoas que passaram por uma doença muito forte, como câncer, ou aquelas que vivem com HIV ou alcoolismo. Muitas delas trocam completamente sua forma de ver o mundo, querem aproveitar cada minuto como se fosse o último. A cada dia, essa gente nasce de novo e louva a Deus pela oportunidade de ver sair o sol mais numa vez. Pode falar-se do valor sentimental que se têm das coisas. Muitas delas catalogadas como lixo são muito importantes para seu dono, assim como as pessoas são importantes para Deus. Pode-se imitar a propaganda da Mastercard e seu “não tem preço”. Uma estória: Uma mulher que tinha uma criança no colo encontrou uma caverna. A porta da caverna abre e ela escuta: “Você tem 15 minutos para tirar tudo o que quiser, mas lembre-se: não esqueça o principal”. A mulher apressada entra, fica maravilhada com a grande quantia de tesouros que encontra

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2º Domingo após Pentecostes

e deixa a criança no chão para poder carregar as coisas. Ela entra e sai várias vezes da caverna e sempre escuta a mensagem. Quase terminando o tempo, sai correndo. Fora da caverna, escuta de novo a mensagem e a porta fecha. Contente por ter pegado tantas coisas, ela se arruma para ir embora quando lembra que esqueceu a criança dentro da caverna. Ela bate na porta e chora muito pela perda do filho, mas a porta nunca mais abriu. Outra estória: Um discípulo questionou o valor da vida e das coisas. O mestre deu-lhe uma tarefa: “Vai até o mercado e tenta vender este anel, mas não aceita menos de duas moedas de ouro”. O discípulo foi ao mercado e, mostrando o anel aos possíveis compradores, não achava ninguém que pagasse sequer uma moeda. Depois de estar o dia todo no mercado, voltou. O discípulo reclamou do problema da venda e que ele achava que aquele anel não valia o que era pedido. Então o mestre o mandou até o joalheiro da cidade grande. O discípulo foi e, quando o joalheiro olhou o anel, disse: Somente tenho 30 moedas agora, mas se o mestre aceita, posso lhe dar mais 20 amanhã. O discípulo ficou impressionado e voltou até o mestre, contou a ele o que tinha acontecido. Assim ele soube que as coisas têm realmente valor para quem as conhece de verdade.

5 Subsídios litúrgicos Motivos de oração de intercessão: Pela igreja, para que seja um sinal brilhante do reino de Deus e sua justiça. Pelos governantes, para que possam atuar com justiça e amor. Pelas pessoas que são esquecidas, as colocadas à margem da sociedade como descartáveis. Pelas pessoas que esquecem que Deus é o dono da historia e o Senhor de tudo e de todos. Oração eucarística: (Usa-se o diálogo da forma acostumada) Em verdade é bom, justo e preciso dar-te glória e louvor Deus eterno, pois no tempo certo ouviste e socorreste o teu povo, Israel, que estava no exílio. Guiaste-o até a terra que tinhas dado a ele e o preservaste ante seus inimigos. Enviaste profetas para anunciar tua justiça, que não tem fim. Por tudo isso, junto com toda a criação, nós cantamos a uma voz: HPD 362 (Canto popular salvadorenho). Sempre te louvamos, nosso Criador, pois, como prometeste, enviaste teu Filho, que foi deitado numa manjedoura, pois não tinha lugar na hospedaria. Jesus cresceu e proclamou a teu povo o teu reino de justiça e amor, ensinando assim a verdadeira lei. O nosso Senhor celebra a Páscoa com seus discípulos. (Narrativa da instituição) Mas por tudo isso ele foi castigado com a cruz, tendo sido morto, tu o ressuscitaste, como prometeste, no terceiro dia e agora está

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2º Domingo após Pentecostes

sentado à tua direita. Pedimos que, pelo teu Espírito Santo, transformes a comunidade aqui reunida, para que sejamos realmente um corpo em Cristo, em que não existam divisões nem diferenças. Pois em nosso Senhor somos um só. Lembramos também de tantas pessoas que foram importantes para nós e que sabemos que são importantes para ti. Junto com elas queremos celebrar a festa em que não existirão fome, sede ou dor. Celebraremos juntos na cidade celestial que nos prometeste. (Segue doxologia como acostumada) Oração pós-comunhão: Nós te louvamos, Deus, pois permites que Jesus se aproxime. Recebendo seu corpo e seu sangue, nós podemos compartilhar a tua justiça e salvação. Ajuda-nos para que, ao sair daqui, levemos essa mensagem a todas as pessoas que encontrarmos e que nós mesmos sejamos sinal de teu reino e de tua justiça. Por Cristo, teu Filho amado, nosso Senhor. Amém.

Bibliografia SOCIEDADES BÍBLICAS UNIDAS. Compubiblia. Versão 2.1. 2000. BIBLEWORKS. Versão 5.0.020w. 2001.

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3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 11.18-21,26-28

01 JUN 2008

MATEUS 7.21-29 ROMANOS 1.16-17; 3.22b-28 (29-31)

Erní Walter Seibert

1 Introdução O texto de Deuteronômio tem suas dificuldades para o preparo da pregação. Ele enfatiza a obediência aos mandamentos de Deus, contrapondo-a ao mero conhecimento teórico dos mesmos mandamentos. Ao leitor apressado pode parecer que a leitura indica o caminho da salvação por obras. Da mesma forma, o final do Sermão do Monte, que é a leitura do evangelho deste domingo, parece ter a mesma ênfase: ouvir e obedecer. Quem oferece um contraponto a essa linha de pensamento é a leitura da epístola, que lembra a salvação por graça mediante a fé. A segunda dificuldade que a perícope de Deuteronômio oferece é a questão do livre-arbítrio. Os v. 26 a 28 colocam diante do leitor a opção de seguir ou não seguir os caminhos da obediência à lei de Deus. Lutero falava no “servo-arbítrio” e dizia ser essa a interpretação correta das Escrituras sobre esse tema. Que mensagem tirar de um texto tão complexo e tão cheio de dificuldades?

2 Exegese Qual seria a intenção dessa perícope de Deuteronômio? Que mensagem ela deseja transmitir? O texto faz parte do Segundo Discurso de Moisés quando da entrada do povo de Israel na terra prometida. Moisés está preparando o povo para viver na terra prometida. No discurso, Moisés lembra o que Deus fez pelo povo. Ele fala da bondade de Deus, que permitiu e acompanhou o povo na saída do Egito. Ele fala ao povo da proteção de Deus ao longo da jornada no deserto. Ele lembra o povo dos momentos de desobediência. Ele admoesta o povo a ser fiel ao Deus que o salvou e que o ama. Essa é a intenção do texto. Não é discutir a doutrina da justificação pela fé, nem tampouco a questão do livre-arbítrio. A perspectiva do texto é lembrar ao povo que a lei do Senhor é boa e que deve ser obedecida por aqueles que são propriedade do Senhor. Nos v. 18 a 21 do capítulo 11, Moisés inclusive lembra alguns recursos mnemônicos que podem ser utilizados na tentativa de não esquecer nunca os mandamentos. São recursos utilizados até hoje por estudantes em época

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3º Domingo após Pentecostes

de provas ou de exame vestibular. Nos v. 26 a 28, Moisés coloca o povo diante do futuro e mostra as opções que existem no que se refere à vida. É o povo de Deus que está diante do futuro. É o povo amado por Deus, salvo por Deus, protegido por Deus, o qual agora deve saber que o desvio para o caminho do mal sempre é uma possibilidade, mas deve saber da mesma forma que o certo é continuar andando no caminho do bem. Compreendida a intenção do texto, as dificuldades aparentes e iniciais de questões doutrinárias ficam mais fáceis de ser transpostas.

3 Meditação Quais são os problemas que o texto aponta? Quais são os pecados que o texto condena? O primeiro problema apontado claramente é a falta de conhecimento da palavra de Deus. A falta de conhecimento da vontade de Deus provoca o segundo problema que o texto aponta, ou seja, opções, decisões erradas, contrárias à vontade do Pai Celestial, que conduzem ao caminho da perdição, da maldição, da morte. Onde as pessoas deveriam buscar conhecimento da vontade de Deus? Acima de tudo na palavra de Deus. Essa palavra deveria ser presença constante na vida do indivíduo. Ela deveria estar em seus pertences pessoas, em sua casa, em sua vida doméstica, em seu trabalho, em sua vida social, na comunidade de fé. Esse problema que o texto aponta estaria presente na vida das pessoas hoje? A resposta é sim. A falta de conhecimento da palavra de Deus é um grande problema em nossa sociedade. Imaginem que, num desses programas de televisão, no qual é testado o conhecimento dos participantes, fossem feitas algumas perguntas de conteúdo bíblico. Elas seriam difíceis ou fáceis de responder? Por exemplo, será que as pessoas conhecem os Dez Mandamentos? Será que as pessoas sabem o lugar onde Jesus nasceu? Será que as pessoas sabem o que é ressurreição? Se esse teste de conhecimento fosse feito com os membros das igrejas, qual seria o resultado? Os membros das igrejas têm bom conhecimento bíblico? Salvo honrosas exceções, o conhecimento da palavra de Deus é um dos aspectos em que há muito que melhorar em nossos dias. É preciso planejar e organizar o trabalho da igreja para que esse conhecimento seja alcançado pelas pessoas. É preciso fazer como o texto de Deuteronômio sugere: colocar a Bíblia em tudo que é lugar. A falta de conhecimento da vontade de Deus tem conseqüências. Ela conduz para a maldição, para a morte. E não adianta alegar falta de conhecimento. A conseqüência é trágica igualmente. É como no caso de alguém ter uma doença grave. Não adianta dizer que não sabia da doença. As conseqüências são trágicas da mesma forma. O segundo aspecto que o texto aponta como problemático para a vida

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3º Domingo após Pentecostes

das pessoas é o fato de elas fazerem opções erradas. Opções erradas não são feitas apenas por causa da ignorância. Os corruptos sabem que aquilo que fazem é errado. Mesmo assim, eles praticam a corrupção. Os ladrões sabem que roubar é errado. Mesmo assim roubam. Não acontece isso com todas as pessoas? Não acontece isso com cada um de nós? Nós sabemos que muitas vezes cometemos erros. Mesmo assim, os cometemos. Erramos por ação e por omissão. Erramos por ignorância e erramos conhecendo a verdade. O pecado, infelizmente, faz parte de nossa experiência. Qual seria a solução? Haverá saída? Ou estamos irremediavelmente perdidos? O texto bíblico aponta para o Deus que conduziu o povo para a salvação. Esse Deus que tirou o povo do Egito, que o salvou, sempre dá uma nova oportunidade e quer conduzir seus filhos pelo caminho do bem. Esse mesmo caminho nos é apontado em Jesus Cristo. O amor de Deus manifesta-se em Cristo. Ele cumpriu a lei em nosso lugar e morreu a morte que deveria ser nossa. Por suas pisaduras fomos sarados. Diante de tão grande amor, o que nos resta fazer? Sem dúvida alguma, buscar conhecimento da vontade de Deus e, ao mesmo tempo, pedir orientação para sempre escolhermos o caminho do bem, da bênção, da vida. Deus quer ajudar-nos a trilhar esse caminho. Agradecidos, sem dúvida alguma, vamos andar por ele.

4 Imagens para a prédica Para mostrar a importância de lembrar a palavra de Deus, pode-se mostrar alguns esforços que o mundo da propaganda faz para que as pessoas lembrem determinados produtos. Existem marcas que procuram ser top of mind (primeiro lugar na lembrança) do consumidor. Investem-se fortunas em logomarcas, em slogans, em músicas para que as pessoas lembrem seus produtos. Fixam esses logos em painéis, em objetos, em roupas, para que as pessoas lembrem e os negócios sejam lucrativos. Quais os esforços que estamos fazendo para que o mesmo aconteça com a palavra de Deus? A logomarca da fé cristã seria a cruz? Será que a Bíblia ou a literatura cristã estão presentes em nosso dia-a-dia? Será que nos objetos de uso pessoal a nossa fé é lembrada? Uma outra imagem que pode ser usada é a do estudante que se prepara para o vestibular. Ele prepara resumos da matéria que está estudando, faz cartazes para pregar na parede de seu quarto, associa fórmulas difíceis a melodias para que não as esqueça. O que nós fazemos para memorizar versículos da Bíblia? Qual o nosso esforço para lembrarmos fatos importantes da vida de Jesus? O que fazemos em nossos templos para que as pessoas lembrem o grande amor de Deus em Cristo? O que poderia ser feito?

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3º Domingo após Pentecostes

5 Subsídios litúrgicos

Durante este culto, a comunidade poderia aprender uma música de letra e melodia fáceis, que lembrasse o grande amor de Deus em Cristo. Essa música poderia ser aprendida no início do culto e ser repetida ao longo da celebração. Algum símbolo litúrgico que está presente no lugar de culto e que nunca foi explicado poderia ser explicado ali de tal forma que as pessoas, cada vez que entram na igreja, lembrem-se de sua mensagem.

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4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 9.9-13,18-26

08 JUN 2008

OSÉIAS 5.15-6.6 ROMANOS 4.13-25 Ana Isa dos Reis

1 Introdução O presente conjunto de textos está dentro do chamado Tempo Comum, que se estende do fim do ciclo pascal (terminado no domingo de Pentecostes) até o início do Advento, somando 28 a 30 semanas. Esse tempo após Pentecostes, diz James White, “sinaliza o longo ínterim da igreja da nova aliança até a vinda de Cristo em glória”. Os textos bíblicos lembram a continuação das obras salvíficas de Deus e chamam as pessoas a ser seguidoras de Jesus Cristo por meio de suas palavras e ações. Os três textos chamam a atenção para a prática correta da vontade de Deus. O simples cumprimento da lei não implica “fazer” a vontade de Deus. A ortopráxis é uma chamada para que as pessoas se relacionem com Deus em fé e serviço, em que as ações sejam realizadas por amor a Deus e ao próximo que sofre. A fé em Deus que Abraão demonstrou (Rm 4.13-25) é que lhe foi imputada por justiça, e essa fê-lo deixar tudo o que tinha e seguir o chamado de Deus. O texto do profeta Oséias (Os 5.15-6.6) lembra que as pessoas ofereciam a Deus os sacrifícios como uma forma rigorosa de cumprir a lei, mas que estava dissociada da vida cotidiana e da fé que leva ao serviço solidário. No Evangelho de Mateus, Jesus radicaliza a lei, chamando as pessoas para viver essa radicalidade no serviço e no amor a Deus e ao próximo. A misericórdia é o tema que perpassa esses textos. Ela não é algo abstrato. Quer fazer-se concreta no dia-a-dia pessoal, comunitário e religioso.

2 Exegese 2.1 – Fonte O texto de Mateus 9.9-13,18-26 tem como fonte o Evangelho de Marcos. 2.2 – Estrutura do Evangelho de Mateus e da perícope * Mt 1.1-4.11 – narrativas iniciais e preparação * Mt 4.12-18.35 – a atuação de Jesus na Galiléia

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4º Domingo após Pentecostes

Os dez milagres: os sinais do reino: 8.1-9.38 9.9 – A chamada de Mateus 9.10-13 – Jesus e a comensalidade com os pecadores criticada pelos fariseus 9.18-26 – poder de Jesus para curar enfermidades e levantar os mortos * Mt 19.1-20.34 – a caminho de Jerusalém * Mt 21.1-25.46 – a atuação de Jesus em Jerusalém * Mt 26.1-28.20 – paixão, morte e ressurreição de Jesus 2.3 – Observações exegéticas acerca dos versículos da perícope V. 9 – Chamado de Mateus, que em Marcos é denominado Levi (Mc 2.14). O texto fala que Mateus é um homem que trabalhava na coletoria de impostos. Havia naquela época tributos diretos e indiretos. A cobrança dos impostos na Palestina era feita pelo sistema de arrendamento. O Império Romano e os governos locais terceirizavam essa atividade, arrendando-a por um ou mais anos a pessoas que pagassem antecipadamente o valor mais alto pelo conjunto de tributos e taxas que seriam cobrados em determinada região ou cidade. Assim, esses arrendatários – cujo termo grego é architelônai – são pessoas ricas, que firmavam contratos arriscados e que tentavam tirar, durante o período da coleta, além do capital investido, também o seu lucro, usando, muitas vezes, artimanhas e trapaças. Porém os coletores de impostos, mencionados pelos evangelhos, cujo termo grego é telônai, são pessoas comuns, contratadas pelos empresários para o serviço de frente nas coletorias. Eram pessoas assalariadas, sentadas nos postos fiscais, que muitas vezes não conseguiam nenhum outro emprego e que, por toda rejeição e instabilidade, podiam facilmente ser corrompidas. Por tudo isso, o coletor de impostos constava na lista das profissões desprezadas, juntamente com cuidadores de porcos, curtidores de couro, vendedores de alho, barqueiros, carreteiros, servidores de mesa, serventes, enfim todos trabalhos mal remunerados, executados por pessoas pobres. O cobrador de impostos Mateus certamente já tinha ouvido falar de Jesus e de seus milagres, posto que morava na mesma cidade. Quem sabe, Mateus até já havia pensado em seguir Jesus. V. 10 – O versículo menciona uma janta que acontece em uma casa. Marcos menciona que a casa era de Levi; Mateus omite o nome do dono da casa. Não vejo a questão da propriedade da casa como a mais importante. No entanto, seja de quem for essa casa, é uma casa que recebeu Jesus e seus discípulos, além de muitos publicanos e pecadores. Esses pecadores (amartoloi) eram mais um grupo de pessoas marcado especialmente pela desqualificação religiosa, manchados, na avaliação dos entendidos da lei divina, pelo pecado. Essas pessoas pecadoras eram praticantes de infrações notórias da lei e que, muitas vezes, se dedicavam a profissões desonestas e ligadas a trapaças. O texto diz que Jesus, seus discípulos, publicanos e pecadores estavam à mesa. No grego, a palavra é hanakeiménou, que quer

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4º Domingo após Pentecostes

dizer reclinar-se, costume dos antigos de reclinar-se sobre uma espécie de divã durante as refeições. V. 11 – Os fariseus são um dos principais grupos religiosos dos judeus. Eles seguiam rigorosamente a lei de Moisés, as tradições e os costumes dos antepassados. Esse grupo seguia tão à risca a lei, que fazia clara distinção entre justos e pecadores. Os fariseus já haviam entrado em confronto com Jesus em outros momentos. Aqui, vendo Jesus comer com publicanos e pecadores, eles questionam os discípulos, perguntando por que Jesus afronta a lei, juntando-se para comer com pessoas consideradas indignas. V. 12 – Quem responde à pergunta dos fariseus é o próprio Jesus. Ele usou um provérbio bem conhecido da época; ninguém deixaria de entender seu sentido. Os sãos seriam as pessoas justas ou, como dizem alguns intérpretes, aquelas que se consideram justas, como os fariseus. E os doentes seriam as pessoas publicanas e pecadoras, que, na definição bíblica, abrangem a raça humana inteira. O médico vai ao encontro das pessoas doentes, que o acolhem porque precisam dele. Jesus considera-se um médico que vai ao encontro das pessoas e também as acolhe. V. 13 – A frase “ide, porém, e aprendei o que significa” era bastante usada pelos rabinos quando queriam frisar algum preceito seu. No caso, Jesus lembra-os do texto do profeta Oséias, que chama a atenção para que a vontade de Deus seja feita e não apenas um ritual. Deus quer que as pessoas tenham atos misericordiosos e confiem nele e não em cerimônias religiosas desprovidas de sentido e que nada têm a ver com a prática misericordiosa diária. V. 18 – O chefe da sinagoga é um oficial da sinagoga. Mateus não menciona o nome; Marcos diz que era Jairo. Parece que o autor de Mateus já declarava a filha do chefe como morta e por isso omite alguns detalhes, como o anúncio da morte dessa jovem, que aparece nas passagens paralelas. Marcos menciona que a menina tinha 12 anos, dado também omitido por Mateus. V. 19 e 20 – Jesus tinha o poder de curar a distância, o que fez algumas vezes, mas geralmente acompanhava as pessoas que o convidavam para sua casa ou lugar onde estava a pessoa que precisava de ajuda, mostrando compaixão e interesse por seus problemas. No caminho até a casa do chefe da sinagoga, Jesus realiza uma outra cura. Uma mulher sofria 12 anos com um tipo de hemorragia. A doença era considerada conseqüência do pecado, maldição e castigo de Deus. Por isso carregar o fardo da doença era a forma de saldar a dívida contraída junto a Deus por alguma culpa. Essa mulher, que sofria com hemorragia, além de estar empobrecida (como fala Marcos), carregava o fardo da impureza permanente. Segundo a lei de Levíticos 15.19-31, ela não só era considerada impura, como também contaminadora de todas as pessoas com as quais entrasse em contato. Devido à vergonha e ao medo, ela se aproximou por trás de Jesus, tocando apenas na orla de sua veste, sem querer ser notada. Ela sabia que, se fosse descoberta nessas condições, tocando um homem, seria considerada uma criminosa porque tornaria aquele homem impuro. Seu gesto discreto implica claramente o risco de ser reprimida e condenada.

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V. 21 e 22 – O versículo 21 ilustra a fé da mulher e a reputação de Jesus. Certamente ela tinha ouvido falar de Jesus e de seus milagres. A fé dessa mulher em Jesus era tamanha, que acreditava que apenas tocá-lo seria o suficiente para sua cura. Mais surpresa ela ficou com a reação de Jesus, coisa que ela não esperava, pois nem sequer queria ser notada. Jesus manifestou publicamente a aceitação do gesto dessa mulher, o reconhecimento da luta, a legitimação da causa dessa mulher. Jesus aceitou o toque que o tornou impuro e dividiu com a mulher o fardo da impureza que há tanto tempo ela sofrera. Jesus chama-a de “filha”, devolvendo a ela a cidadania do povo de Deus, que lhe havia sido tirada pela “constituição” desse povo. Jesus também lhe deseja a paz, voto que quer dizer bem-estar, saúde, felicidade, o shalom. Essa mulher curada voltará para o meio da família e da sociedade como alguém que tem fé, alguém que foi alcançado pelo amor de Deus através do agir compassivo de Jesus. V. 23 e 24 – Continuando o caminho, Jesus chega à casa do chefe da sinagoga. Os lamentos pela morte da menina já haviam começado. É provável que, no caso da menina da perícope, Jesus tenha encontrado um grupo que incluía cantores voluntários e assalariados, carpideiras comuns que tinham a função de chorar pela pessoa morta e alguns vizinhos curiosos. Jesus sempre foi solidário com as pessoas sofredoras, mas nunca concordou com ostentação. Por isso ordenou que todas aquelas pessoas se retirassem. Essas pessoas riram de Jesus por causa da afirmação de que a menina estava dormindo. No grego, o verbo está na forma intensiva, para mostrar o desprezo e a zombaria que aquelas pessoas demonstraram por Jesus. Eram lamentadores profissionais, que tinham visto muitos casos de morte e conheciam bem seus indícios, e a jovem certamente os apresentava. A questão se a jovem estava realmente morta ou não é bastante discutida entre os exegetas. Alguns acham que a jovem estava em um estado de coma; outros, que ela realmente estava morta e que Jesus usou a expressão “mas dorme” para indicar que, naquele caso, a morte não tinha maiores conseqüências do que o sono, pois a jovem logo despertaria para a vida. V. 25 e 26 – Jesus toma a menina pela mão. Isso significa que ele tocou um cadáver e, conseqüentemente, tornou-se impuro conforme a lei judaica. Ao tocá-la, Jesus transmite vida e resgata a menina como criatura digna, criada à imagem e semelhança de Deus. E a menina reage, levantando-se. A perícope termina falando que a fama de Jesus foi espalhada por todo o lugar.

3 Meditação Sentar junto à mesa e comer é um dos atos mais básicos para iniciar e manter relações humanas. A comunhão de mesa pode ser entendida como comunhão de vida. Ali, pessoas compartilham comida e bebida, mas também sonhos, alegrias e tristezas, perdão e fraternidade. A comensalidade cria simpatia, responsabilidade e reciprocidade entre as pessoas. Jesus exercita a

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comensalidade, a comunhão de vida, com pessoas que, segundo as leis religiosas e sociais, feriam os princípios elementares e morais de uma sociedade considerada sadia. Jesus senta-se à mesa com pequenos agricultores endividados, trabalhadores rurais sem terra, diaristas desocupados, trabalhadores desempregados, escravos fugitivos, doentes, coletores de impostos, portadores de deficiências, adúlteros, prostitutas, agiotas, vendedores de alho, cuidadores de porcos, pastores de ovelhas que invadiam terras alheias. Ao sentar-se justamente com as pessoas excluídas, Jesus rompe o círculo de marginalidade e reintegra-as ao convívio diário. Jesus não nega a condição de pecadoras das pessoas com quem compartilha a mesa. Quanto mais pecadoras, tanto mais essas pessoas precisam de Deus e de sua ajuda. Jesus, como médico, acolhe as pessoas, oferece a proximidade fraterna e conciliadora em nome de Deus. As refeições comunitárias de Jesus, nas quais acontecia a partilha de bens materiais e espirituais com as pessoas pobres e desprezadas, apontam para uma inversão dos valores vigentes na sociedade. Toda vez que acontecia uma refeição, uma comensalidade, havia uma denúncia contra um sistema que expõe tantas pessoas à fome e à marginalidade e um anúncio de uma nova forma de viver e conviver a partir dos princípios do reino de Deus. A solidariedade de Jesus com as pessoas excluídas também o levou a olhar para as pessoas doentes e sofredoras. Jesus foi tão radical, a ponto de assumir o estado de impureza das pessoas doentes e mortas, tocando-as e deixando-se tocar. Ao curar, Jesus denuncia o total descaso e abandono a que as pessoas doentes estavam expostas. Essa prática de Jesus levou as primeiras comunidades cristãs a investir na área da saúde. As pessoas curadas puderam experimentar a inclusão na sociedade e uma mudança de valores em sua vida a partir do momento em que passaram a crer em Jesus, passando a segui-lo e servi-lo. Nas mesas da atualidade, onde nós, como obreiras e obreiros, nos reclinamos para comer? Quantas vezes, para assegurar nosso emprego e, quem sabe, até nosso prestígio, assentamo-nos na roda dos sãos, daqueles que não precisam de médico? E como comunidade, quantas vezes não enxotamos aqueles que consideramos impuros, indignos, doentes e pecadores do meio da gente? A postura radical de Jesus deixa-nos, muitas vezes, incomodados porque ele se deixa encontrar e vai ao encontro dos frágeis e excluídos. Não se limita a prestar um auxílio (assistencialismo), mas age com-paixão das pessoas, seja partilhando com elas a mesa, o toque, a impureza, a cura, o reviver, o perdão. Hoje, quando nos sentamos à mesa e praticamos a comensalidade, não podemos esquecer que há muitas pessoas que não têm comida, que estão à margem de uma sociedade que cria excluídos e se mantém através deles. A comensalidade e as curas praticadas por Jesus tinham em seu horizonte a tarefa profética de denunciar os abusos e anunciar o reino de Deus, chamando pessoas a exercitar sua responsabilidade cristã de ser sal e luz do mundo. Essa responsabilidade deve ser assumida desde o dia de nosso Batismo.

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Como pessoas batizadas, seguidoras de Jesus Cristo, somos chamados a ser discípulos que exercitam entre si e com as pessoas excluídas a aceitação mútua, a dignidade, a partilha, a comunhão, a terapia, o restabelecimento do corpo, enfim a misericórdia. No culto, a Ceia do Senhor é um dos momentos de prática da misericórdia. Todas as pessoas são convidadas a participar – sadias e doentes, cegas, surdas, coxas, pobres, pecadoras. A graça de Deus envolve todas, toca todas e convida, através da fé, a experimentar nova vida, em serviço e amor. Dessa Ceia surgem outras ceias no espaço da casa, onde acontecem o partilhar do pão, a inclusão, a cura, o toque terapêutico, o consolo e a aceitação mútuos, o respeito e a misericórdia.

4 Imagens para a prédica Convido para olhar os movimentos desse texto. Há um caminhar que vai ao encontro, que ousa ficar junto, que se deixa encontrar, que segue a caminho, que novamente se deixa encontrar e promove o chamado ao seguimento. Atentemos: Jesus caminha ao encontro de Mateus, senta-se para comer junto com pessoas excluídas, deixa-se encontrar pelo pai da menina que morreu, segue junto em solidariedade, deixa-se encontrar pela mulher que sofria com hemorragia e chama ao seguimento. A partir desses movimentos, tendo em vista o exercício da misericórdia, uma imagem para a prédica pode ser a de um caminhar com os braços abertos. O caminhar denota o ato de Jesus de ir ao encontro das pessoas e também de deixar-se encontrar. No encontro com as pessoas, a postura de Jesus foi a de ter os braços abertos para acolher as pessoas excluídas e sofredoras. Adaptei a estória dos carinhos quentes para a seguinte versão: A estória da caminhada de braços abertos Era uma vez, há muito tempo, uma comunidade em que as pessoas eram muito felizes. Naquela comunidade, havia a prática de que, quando nascia uma criança, todas as pessoas iam ao encontro dela e de sua família e a abraçavam. Todas as pessoas recebiam essa caminhada de braços abertos, fossem elas pobres ou ricas, de uma ou de outra parte da comunidade. Receber a visita e ir ao encontro fazia as pessoas sentiremse aconchegadas, cheias de carinho. A prática da caminhada de braços abertos não acontecia só quando uma criança nascia. Acontecia sempre, como uma prática de misericórdia entre as pessoas. Ao se encontrarem, as pessoas paravam para conversar, para comer juntas, para pedir ajuda e para a receber. As pessoas viviam caminhando ao encontro umas das outras com os braços sempre abertos para acolher sem constrangimento. E isso era feito de graça. Por isso todos eram felizes e cheios de carinhos na maior parte do tempo. Um dia, uma bruxa má ficou braba, porque as pessoas, sendo felizes, não compravam

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4º Domingo após Pentecostes as poções e os ungüentos que ela vendia. Por ser muito esperta, a bruxa inventou um plano malvado. Certa manhã, ela chegou à casa de uma família e cochichou: – Olhe, veja essa gente toda caminhando de braços abertos ao encontro umas das outras. Se continuar assim, ninguém mais vai ter sola debaixo dos pés e nem braços fortes. – Quer dizer, então, que os pés se desgastam e os braços se enfraquecem quando a gente vai ao encontro e se abraça assim? – perguntou uma das pessoas da família. E a bruxa respondeu: – Pode-se até perder os pés e caírem os braços, ainda mais quando se abraçam pessoas de má fama, doentes e pecadoras. Dizendo isso, a bruxa foi embora, montada na vassoura, gargalhando muito. A família ficou preocupada e começou a reparar em cada vez que as pessoas se encontravam e se abraçavam, pois temia ficar sem os pés e os braços. Então, essa família começou a queixar-se às outras famílias e a dizer o que a bruxa havia dito e que era melhor se prevenir. Aos poucos, as pessoas perceberam e passaram a não mais ir ao encontro umas das outras com os braços abertos, pois entenderam que era perigoso. Todos ficaram cada vez mais mesquinhos. As pessoas do lugar começaram a sentir-se menos acarinhadas e incluídas, e algumas chegaram a morrer pela falta de encontros de braços abertos. A situação ficou muito grave até que uma pessoa especial chegou ao lugar. Ela nunca tinha ouvido falar na bruxa e não se preocupava em perder os pés e os braços. Ela simplesmente ia ao encontro das pessoas com seus braços abertos, mesmo quando não era pedida sua presença. As pessoas do lugar desaprovavam sua atitude, porque essa pessoa dava às crianças a idéia de que elas poderiam continuar indo ao encontro e deixando-se encontrar, abraçando todas as pessoas sem problemas, porque nada iria acontecer a seus pés e a seus braços. As crianças gostavam muito da Pessoa Especial, porque se sentiam bem em sua presença e passaram a caminhar até ela, a ficar junto dela e a abraçá-la muito. Fazendo assim, também se encontravam e se abraçavam, sem fazer distinção, acolhendo e incluindo todos na mesma mesa em que comiam juntas e sonhavam juntas. Os adultos ficaram muito preocupados e decidiram impor uma lei para proteger as crianças. A lei dizia que era crime caminhar e ficar junto com as pessoas sem uma licença e que era crime abraçar pessoas consideradas impuras, doentes, pecadoras. A Pessoa Especial, no entanto, continuou caminhando ao encontro das pessoas, deixando-se encontrar, abraçando todas as pessoas e chamando-as a exercitar a misericórdia. Essa Pessoa Especial tem um nome: Jesus.

5 Subsídios litúrgicos Recepção: uma equipe deve estar à porta, recebendo as pessoas que chegam para a celebração. Confissão de pecados: Misericordioso Deus, chegamos à tua presença em humildade, confessando-te que somos pessoas pecadoras. Em nosso agir diário, temos sido como fariseus que esquecem que o cumprimento de tua vontade acontece através de gestos misericordiosos com nosso próximo. Confessamos que temos excluído pessoas porque elas não se enquadram dentro dos padrões que uma sociedade podre criou. Confessamos que não vamos ao encontro de nossos

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irmãos e irmãs, tampouco nos deixamos encontrar por eles. Fechamo-nos em nós mesmos e esquecemos nossa responsabilidade como pessoas batizadas: a de ser sal, luz, fermento e justiça. Ó Deus, há ainda tantos pecados que pesam em nós como comunidade. Tantas vezes fechamos nossas portas aos marginalizados que essa sociedade faz, esquecemos da comensalidade praticada por Jesus, de suas curas, de seu toque em pessoas consideradas impuras. Até essas ações de Jesus, muitas vezes, tentamos encobrir. Por tudo isso, Deus de amor e misericórdia, pedimos teu perdão. Anúncio da graça: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos seres humanos as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.” A esse Deus misericordioso rendamos graças cantando: C – Louvemos todos juntos o nome do Senhor. Oração do dia: Misericordioso Deus, tu que sempre te deixaste encontrar pelo teu povo e vieste até nós em Jesus Cristo, nós te pedimos por tua presença em nossa vida para que nossas ações sejam misericordiosas, que buscam a presença do irmão e da irmã. Por Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina hoje e sempre. Amém. Oração geral da igreja: L – Pelas bênçãos recebidas diariamente: C – Graças, Senhor. L – Pela presença de Deus em nossa vida: C – Graças, Senhor. L – Pela dádiva e unidade da fé: C – Graças, Senhor. L – Por todas as pessoas que servem solidariamente: C – Graças, Senhor. L – Por todas as formas de inclusão social e religiosa: C– Graças, Senhor. L – Para que as nossas ações se orientem na misericórdia divina: C – Ajuda-nos, Senhor. L – Para que exercitemos nossa responsabilidade batismal: C – Ajuda-nos, Senhor. L – Para que incluamos integralmente nosso próximo na vida social e religiosa: C – Ajuda-nos, Senhor. L – Para que denunciemos toda forma de exclusão e anunciemos o reino de Deus: C – Ajuda-nos, Senhor. L – Por mesas cheias de gente, partilhando pão, curas e sonhos: C – Compromete-nos, Senhor.

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L – Para que nosso mundo, nosso país e nossa sociedade ouçam o evangelho de Jesus Cristo: C – Compromete-nos, Senhor. L – Por tudo isso, nós oramos. Em nome de Jesus Cristo. C – Amém. Oração eucarística: Graças te damos, ó Deus eterno, por sempre teres estado junto com teu povo e teres vindo até nós em Jesus Cristo. Damos-te graças, misericordioso Deus, pela dádiva maior, que é teu Filho Jesus Cristo, o qual se tornou um de nós e viveu como ser humano. Através de seu jeito de viver, pregar e agir, nós aprendemos a te servir naqueles que são os mais desprezados e prejudicados da sociedade. Jesus zelou por reintegrar as pessoas excluídas ao convívio social e religioso. Por suas ações misericordiosas, Jesus foi condenado, morto e sepultado. Mas ele ressuscitou e vive contigo e com o Espírito Santo. Celebramos a Ceia conforme a ordem do próprio Jesus. Muitas foram as vezes em que Jesus se reuniu com seus discípulos e outras pessoas para cear. Mas, na última vez que jantou com sua comunidade de discípulos, na noite em que foi traído, Jesus tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”. De modo semelhante, depois de haver ceado, tomou também o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto todas as vezes que o beberdes, em memória de mim”. Envia, Senhor, teu Espírito Santo, o Espírito de nosso Senhor e de sua ressurreição, para que, partilhando o pão da vida e o cálice da salvação, nos tornemos, em Cristo, um só corpo, que cumpre tua vontade através de gestos misericordiosos. Lembra-te de todas as pessoas que já nos antecederam e reúne-nos todos em teu reino, junto à mesa do banquete que nos tens prometido. Louvamos-te, trino Deus, cantando: C – Por Cristo, com Cristo e em Cristo, sejam a ti, Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amém, amém, amém. Sugestão de hinos: HPD Vol. 2 – 401 (Salvação); HPD Vol. 2 – 318 (Vem, Espírito de Deus); OPC 248 (Convite ao compromisso); OPC 124 (Neste pão da terra prometida); OPC 80 (Arde a voz em meu peito); OPC 60 (Migrante).

Bibliografia GAEDE NETO, Rodolfo. A diaconia de Jesus: uma contribuição para a fundamentação teológica da diaconia na América Latina. São Leopoldo: Sinodal/CEBI; São Paulo: Paulus Editora, 2001. CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1986.

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5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: ROMANOS 5.1-8

15 JUN 2008

ÊXODO 19.2-8a MATEUS 9.35-10.8 (9-23)

Mauro Alberto Schwalm

1 Introdução A leitura conjunta dos textos previstos para este domingo permite perceber que há dois componentes importantes que lhes são comuns, a despeito de suas peculiaridades histórico-contextuais. De forma intensa e primária destaca-se a dimensão da graça e da justificação. Junto com ela, no movimento de sua brisa, seguem-se notas importantes relacionadas com a dimensão do comprometimento que a ela responde. À dimensão da oferta graciosa anexa-se a perspectiva da atitude, do acolhimento ativo. No evangelho deste quinto Domingo após Pentecostes encontramos a seguinte “lógica”: a – a graça do evangelho manifesta-se na sensibilidade de Jesus para com as multidões, que vagam desorientadas, sem rumo; b – essa graça emana de Jesus, mas deseja envolvimento de “trabalhadores”, pois a tarefa não é pequena; c – Jesus convoca e capacita, conclamando seus seguidores a compartilhar de graça o que de graça lhes foi concedido (eu limitaria a leitura até o v. 8). No texto do Antigo Testamento (Êxodo), encontramos um significativo paralelo com o texto do evangelho: a multidão em movimento, em sua jornada pós-escravidão, congrega-se em torno de Moisés e das palavras proferidas no Sinai, palavras essas que proclamam a graça da eleição, da escolha para ser povo de Deus, e que culminam na expectativa do compromisso da obediência. Em Romanos 5.1-8, base para a pregação, encontramos essa graça novamente destacada, já na primeira expressão: “justificados, pois”, como uma ação que vem de fora e não originada no próprio cristão. Igualmente a encontramos no destaque de que a mesma deu-se em favor de pessoas distantes, desvinculadas de Deus. E na continuação de sua formulação o apóstolo Paulo dá a entender – nesse caso – que o envolvimento ativo da comunidade ocorre no louvor e na glorificação dessa intervenção graciosa de Deus. Pode-se derivar daí que à pregação caberá comunicar a graça ofertada e a resposta ativa esperada em seus desdobramentos possíveis. A liturgia promoverá a resposta de louvor e a glorificação da comunidade reunida em culto.

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2 Exegese Convém lembrar que a Carta aos Romanos não é uma “carta” no sentido das demais epístolas do Novo Testamento. A sua construção não tem o caráter essencialmente pastoral de outras cartas. Oferece antes um conjunto de reflexões teológicas no qual Paulo articula elementos basilares de suas convicções doutrinárias, válidas de forma ampla para a vida cristã. De certa forma, é um documento de apresentação, no qual o apóstolo indica as balizas pelas quais norteia seu caminho, pois Paulo não conhecia a comunidade de Roma e esperava ser aceito e acolhido por ela na condição de apóstolo (Rm 1.1-15). Obviamente isso não diminui a relevância dos conteúdos abordados, tendo em vista a vida cotidiana e regular do povo de Deus e sua predicabilidade. No capítulo 5 da Carta aos Romanos deparamo-nos com blocos de ênfases distintas, mas complementares. A primeira metade do capítulo volta-se para a descrição da esperança que carrega os cristãos e que tem sua causa na graça da justificação. Já a segunda metade do capítulo dedica-se à comparação entre Adão e Jesus Cristo, na qual se evidencia a supremacia da graça auferida pela obediência de Cristo, a qual supera a desobediência de Adão, por intermédio de quem a lei se havia feito necessária. Essa, por sua vez, é superada pela graça da reconciliação como dádiva oferecida a partir de fora (extra nos). Esse tema, a propósito, perpassa a carta do começo ao fim. V. 1-2 – A justificação aqui descrita pode ser entendida como a proclamação que torna justo o que antes não era. O que está em questão, para Paulo, não é a justificação de atos, mas a justificação de uma relação. Não se trata de conceder o status de “justas” a atitudes injustas. Trata-se de estatutar como justa, legítima e viável uma relação antes tida como inviável, e isso a partir da ação de uma das partes, precisamente daquela que “teria o direito” de exigir reparação. Na exposição teológica do apóstolo, a distância abissal entre Deus e o ser humano só pode ser superada por causa da iniciativa de Deus mesmo. Assim é superada a inimizade e articula-se a possibilidade da paz com Deus. O acesso a essa compreensão somente é possível por causa da dádiva da fé. A versão atualizada de João Ferreira de Almeida pode induzir a uma compreensão equivocada ao formular “tenhamos paz com Deus”, como se essa paz fosse uma construção a ser feita a partir do empenho humano. A justiça de Deus fez-se para que tenhamos (possamos ter) paz, não o contrário. Obviamente, em outras passagens encontraremos referência mais clara e contundente ao cultivo dessa paz como resposta de quem crê. Aqui, porém, corresponde ao propósito de Paulo a inequívoca afirmação de que se pode falar em paz com Deus porque Ele a viabilizou em e através de Cristo. O restabelecimento da paz, em cuja graça “estamos firmes” (presente), foi possível a partir do evento cristológico (passado) e nos direciona “na esperança da glória de Deus” (futuro). Paulo fala de “regozijar-se na esperança da glória”. É justamente essa esperança que inspira e motiva ao louvor e

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glorificação. Nessa formulação fica evidente a convicção do apóstolo de que a dádiva da graça, ainda que plena, se consumará no reino de Deus. Vive-se na convicção daquilo que ainda não é. Esse é o passo da fé. V. 3-5 – Mas não se trata de regozijar-se apenas por causa da possibilidade do acolhimento no reino de Deus, o que pode levar a uma teologia da glória, marcada por arrogância e hybris. Trata-se de encontrar sentido também em meio às circunstâncias adversas da vida. Paulo não tem a intenção de desenvolver uma teologia de legitimação do sofrimento ou do martírio nessa sua formulação. A ela subjaz muito antes a sua própria experiência de amarguras no apostolado. Daí ele deriva a perseverança como virtude a ser cultivada “no tempo da esperança pela glória de Deus”. Quem persevera confiantemente também em meio às tribulações vai adquirindo a experiência de que as tribulações não necessariamente têm a última palavra e, dessa forma, olha o caminho à sua frente (a possibilidade de novas tribulações) com esperança. Paulo coloca a esperança como ponto de partida e chegada, fechando assim o círculo: a esperança emana de Deus e por ele é sustentada na ação de seu Espírito Santo, o qual concede a convicção do amor de Deus. V. 6-8 – O aspecto cristológico está no centro da argumentação de Paulo, ao lembrar que a morte de Cristo (ele perseverou a despeito da tribulação) ocorreu em favor de pessoas fracas e afastadas de Deus. Chama a atenção que fraqueza (pecado) aqui é sinônimo de ausência de vínculo relacional com Deus. Para ressaltar o significado do sacrifício vicário, Paulo apela para a “lógica”, que pressupõe encontrar-se também entre os romanos: quem sabe, muito remotamente, alguém até arrisque sua vida em favor de uma pessoa de boa vontade e bom coração, mas, ainda assim, é muito improvável que alguém se sacrifique em favor da mesma. Portanto o gesto através do qual somos contemplados com a possibilidade da paz com Deus torna-se ainda mais significativo, pois não se deu em favor de gente que o merecia, mas em favor de pessoas que Paulo define como sendo de má fama, pecadoras, afastadas de Deus. Mediante a fé essa fraqueza relacional se encontra com o vigor da graça e por ela é substituída.

3 Meditação a – A paz vem de Deus A paz com Deus não é um sonho, não é um projeto, não é um esforço. É uma realidade. Essa é a convicção que o apóstolo Paulo repassa. No que diz respeito à possibilidade da restauração da relação com Deus, nada precisa ser feito. Já foi feito por intermédio de Jesus Cristo. Essa é a diferença entre a expectativa da lei e a oferta da graça. O texto não deixa dúvidas em relação a isso: algo foi feito em nosso favor e torna-se verdadeiro para nós não em função do cumprimento de prescrições legais, mas mediante a fé, a confiança, em outras palavras, mediante a aceitação de que isso é verdade. Aí residem o fator decisivo bem como o fator desconcertante. Afinal, bem que nós gostamos de

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poder construir sobre nossas próprias virtudes e competências! Paulo ressalta: a competência é de Deus e não minha, nossa. E nisso somos convidados a nos gloriar! De fato, isso só é possível mediante a fé, mediante a convicção de que se precisa de Deus e do que Ele fez por nós. Isso é doutrina. Doutrina que só faz sentido quando perpassa minha própria medula. b – Alegria e gratidão Gloriar-se “de si mesmo” é natural. Sobretudo quando se pode apontar para capacidades e potencialidades pessoais, para as próprias realizações. Gloriar-se em outrem? Gloriar-se em Deus? Isso exige convicção. Exige o passo da fé. Exige o passo da alteridade, do olhar para fora e para além de si mesmo. Gloriar-se nas coisas boas ainda vai! Mas gloriar-se também naquelas que não agradam? Aí já é demais! É nesse contexto que normalmente surge a pergunta: “Onde está Deus?”. O que o autor propõe não é coisa pouca, se levarmos em conta a tendência do raciocínio humano. E ele sabe disso. Se correr risco de vida em favor de uma pessoa de boa índole, já é improvável, imagine então se não for! Mas é assim que ele descreve a misericórdia, a graça. Aí está um sólido bloco de ensinamento cristão: não é necessário depender de si mesmo. É possível depender de Deus, largadamente, como numa boa e confortável rede nordestina! c – Esperança perseverante e experiente Essa dependência acontece em esperança, uma vez que nem tudo já é como se desejaria que fosse. O fundamento foi lançado e nele sou sustentado, mas o reino pleno é futuro! Assim, com esperança se atravessa tribulação, sofrimento. E não só uma vez, mas muitas! Aos poucos, a experiência vai se consolidando e se vai percebendo que é possível continuar. A esperança se fortifica para a continuidade da jornada em direção ao futuro de Deus. É como andar de bicicleta. Depois de muitas quedas, aprende-se a manter a direção, o que não significa que não se caia de novo. Mas pelo menos se saberá continuar depois do tombo. d – Resposta em perseverança Mas o texto não diz tudo. Nem poderia. É por isso que o lemos em conjunto com o evangelho e com a tradição judaica. Aqui Paulo destaca que a paz com Deus é um dado inequívoco. Dado (substantivo, fato) que vem a nós, dado (do verbo dar). Que cabe a ele responder não deveria ser dúvida! O apóstolo enfatiza o louvor, dimensão inalienável da vivência comunitária. Quem, pela fé, acolhe a dádiva exulta em gratidão e glorifica aquele que a possibilita. Paulo deseja que os romanos tenham essa convicção. E isso se estende para os ouvidos de hoje. Mesclando com Mateus e com Êxodo, é necessário relembrar que a vivência sob a graça ocorre também mediante trabalho, mediante repartir, mediante o compromisso e a obediência. Trabalhar pela paz, para superar a ausência de rumo das multidões; repartir em favor da paz, porque recebemos paz; comprometer-se com a paz; seguir (obedecer) os

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mandamentos para que a paz seja realidade não somente entre “eu e Deus”, mas “entre nós”. Há que se construir libertação sobre a libertação recebida!

4 Imagens para a prédica A pregação poderá ser planejada a partir de alguns elementos já presentes na exegese e na meditação. É preciso decidir se convém ou se é necessário destacar muito a situação da comunidade de Roma ou da relação de Paulo com a mesma. Nesse caso, seria importante buscar mais subsídios na literatura especializada. Pessoalmente, optaria em dedicar-me sem demora ao conteúdo do texto: a) A possibilidade da paz com Deus é presente. Assim como fomos gerados, Deus estendeu a mão para fazer-nos nascer para uma nova relação com ele. Aqui se pode lembrar o Batismo como sacramento dessa nova relação. A imagem da parteira, do obstetra, que ajuda a trazer à luz e que estimula para a respiração (a qual se espera que siga depois naturalmente), pode ajudar a comunidade a pensar plasticamente. b) Esse presente foi dado a quem nem sequer o merecia. A graça consiste em poder usufruir de algo que vem a nós por causa da misericórdia de quem o oferece e não pelo mérito de quem o recebe. Histórias de perdão podem ajudar a entender isso. Lembro-me da história de uma esposa traída, agredida, humilhada e separada de seu companheiro, que anos mais tarde o recolhe das sarjetas e o acompanha solidariamente em seu estado terminal (saúde, profissão, relacionamentos acabados). Não se trata de um ideal a ser padronizado, mas de uma ilustração possível para a graça imerecida. c) A restauração da relação com Deus é vivida no horizonte da esperança perseverante. Esperar sim. Perseverar também. A esperança por si só não gesta necessariamente a mudança. A perseverança sim! Perseverar pressupõe enfrentar não somente os ventos a favor, mas também os ventos contra. Qual a esperança do corredor de fundo (maratonista)? Chegar ao final de seu percurso de 42 km! O que é necessário? Perseverar no ritmo, na velocidade, no ato de correr, apesar da dor e da fadiga. d) Enquanto se espera e se persevera, glorifica-se a Deus. A comunidade reúne-se, o povo encontra-se, celebram-se a vida, suas alegrias e frustrações. Celebram-se a paz oferecida, a esperança possibilitada, a perseverança necessária, busca-se ânimo. Culto é travessia, é cabo de aço esticado entre dois mundos. O mundo das ofertas de Deus e o das minhas possibilidades. Enquanto se espera e se persevera, age-se em favor da paz (por exemplo). O tema da paz já é inerente ao texto. Poderia ser um tema para a concretização. A paz com Deus desdobra-se na resposta cristã para aconstrução da paz na terra. Mas

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outros temas podem ser concretizados aqui. Como a paz com Deus que me é ofertada se desdobra/pode se desdobrar nos processos de libertação dos quais se carece mundo afora e bem concretamente onde se vive? Globalização, neoliberalismo, aquecimento global, corrupção, violência, desemprego, migração, pobreza... Não são justamente esses os temas que andam nos “tirando a paz” há muito tempo? Qual é o tema que bloqueia a paz com Deus e entre as pessoas em seu contexto? Perseverar na esperança da libertação do que suprime a paz é parte de nossa resposta.

5 Subsídios litúrgicos Saudação: O culto poderia iniciar relembrando os versículos de 1 João 4.19 e do evangelho do dia (Mt 10.8b): “Nós amamos, porque ele nos amou primeiro; de graça recebestes, de graça dai”. Estes versículos poderiam estar grafados em um cartaz (cartolina ou outro material) visível para a comunidade o tempo todo, para acompanhar o culto como pano de fundo. Uma formulação possível: Caras irmãs e caros irmãos. Nós amamos porque Deus nos amou primeiro. A paz é possível porque Deus a oferece primeiro. Perdão é possível porque Deus o oferece primeiro. Reconciliação é possível porque Deus nos oferece reconciliação através de Jesus Cristo. A esperança é possível porque Deus a concede e fortifica através de seu Espírito Santo. Como comunidade, somos chamados a celebrar e a repartir a paz, o perdão, a reconciliação, a esperança! De graça o recebemos, glória a Deus! De graça o compartilhemos, amém! Oração de coleta: Nós te damos graças, Senhor, pela dádiva da paz, pela oferta da restauração da amizade contigo, pela justificação imerecida por meio de Jesus Cristo. Tu nos concedes a possibilidade do acesso à tua graça mediante a fé; isso vem de ti e não de nós. Ajuda-nos a beber continuadamente da fonte da esperança, que persevera em meio às adversidades, que celebra, que se empenha em palavra e ação em favor da vida. Que o teu Santo Espírito continue derramando em nossos corações abundantemente o teu amor, para que experimentemos e propaguemos a paz que procede de ti. Amém. Oração de intercessão: (abaixo segue uma sugestão de formulação. Sobretudo o quarto e o quinto parágrafos merecem atualização local) 1 – Intercedemos, Senhor, pelos problemas globais com os quais nos debatemos atualmente. Tua criação está comprometida por causa de nossa irresponsabilidade; a temperatura sobe, pessoas e animais não têm acesso à água em muitos lugares do globo; o lucro doentio de alguns decreta a miséria de milhões. Ajuda-nos a cultivar não somente a paz de espírito, mas sobretudo a paz concreta. (pausa silenciosa)

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2 – Intercedemos, Senhor, por obreiros e obreiras de tua igreja mundo afora. Que sejam perseverantes na pregação, na missão, no serviço, no ensino. E que tua igreja saiba estar em sintonia com as necessidades e problemas do nosso tempo. (pausa silenciosa) 3 – Intercedemos, Senhor, pela situação em nosso país. Precisamos de paz, carecemos de justiça, carecemos de equilíbrio social e econômico. Que homens e mulheres públicos de nosso país recuperem o sentido de suas incumbências em favor da coletividade. (pausa silenciosa) 4 – Intercedemos, Senhor, por nossa comunidade e por nossa região. (aspecto local) Ajuda-nos a perseverar na lucidez que provém de teu amor, para que possamos sinalizar a tua presença e a tua proximidade. (pausa silenciosa) 5 – Intercedemos, Senhor, por pessoas enlutadas e enfermas (nomes). Ajuda-as a experimentar a paz que provém de ti, apesar da provação e da tribulação. Que a sua esperança se mantenha viva em ti e que possam perseverar na confiança. (pausa silenciosa) Uma lenda judaica: (embora a lenda abaixo seja relativamente bem conhecida, pode ajudar a enfatizar a dimensão da paz recebida e a ser compartilhada) Um rabino foi convidado por Deus para conhecer o céu e o inferno. Ao abrir-se a porta, viram uma sala em cujo centro havia um caldeirão cheio de suculenta sopa. À sua volta estavam pessoas famintas e desesperadas. Cada uma delas segurava uma colher de cabo tão comprido que era possível alcançar o caldeirão, mas não a própria boca. O sofrimento era imenso. Em seguida, Deus levou o rabino para conhecer o céu. Entraram em uma sala idêntica à primeira. Havia o mesmo caldeirão, pessoas em volta e o mesmo cabo comprido. A diferença é que todos estavam saciados. “Eu não compreendo”, disse o rabino. “Por que aqui as pessoas estão tão felizes, enquanto na outra sala morrem de aflição, se é tudo igual?” Deus sorriu e respondeu: “Você não percebeu? É porque aqui elas aprenderam a dar comida umas às outras”.

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6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 10.24-39

22 JUN 2008

JEREMIAS 20.7-13 ROMANOS 6.1b-11

Margarete E. Engelbrecht

Quando os corruptos brigam, é grande o fedor. Mas quando se entendem, o cheiro é bem pior. Gottfried Keller

1 O mundo e nosso pequeno mundo Os valores do mundo são usados na construção de nossas comunidades. Sucesso e crescimento são esperados, assim como a resolução de desentendimentos familiares e comunitários com uma presença sacerdotal quase mágica. O que mais se escuta como avaliação numa comunidade é se o desempenho do obreiro ou da obreira não está trazendo conflitos e se está trazendo ânimo e propostas de atividades que mais se assemelham a lazer do que a labor teológico. A “crise de fé” que se origina ali é vista como dificuldade pessoal e não como falta de sintonia entre a teologia e a vida em comunidade. Em tempos de valores comuns a vários contextos, as percepções do que é ético ou do que é moralmente aceito vão se confundindo com notícias de desgraças relatadas na imprensa, retratando caos e raramente apontando perspectivas de vida. Notícias sobre corrupção têm sido comuns no Brasil. Enquanto se “lava roupa suja”, vamos percebendo o quanto “nossa barriga tem se apoiado na pia, ficando molhada também”, questionando-nos o quanto contribuímos para a corrupção de cada dia, o quanto fechamos os olhos para quem, ao nosso lado, quer levar vantagem em tudo.

2 Mateus O Evangelho de Mateus “é o resultado de um longo trabalho de referência ao Antigo Testamento, de colação e reinterpretação de sentenças de Jesus. Não reflete uma visão pessoal de Jesus, e sim um novo judaísmo elaborado dentro de uma comunidade em torno da fé no Messias Jesus”1.

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Na época da destruição de Jesusalém, a expulsão das pessoas cristãs das sinagogas ajudou a reconstruir o judaísmo assim como o conhecemos hoje. Mateus toma posse da tradição judaica, mostrando o cristianismo como continuidade dessa tradição. A comunidade de Mateus está longe de renegar o judaísmo. Pelo contrário, ela reinvidica para si mesma todo o judaísmo, toda a tradição de Israel.2

Mateus usa, portanto, a tradição de judeus e aquela que vem de gente cristã pagã para afirmar a diferença do cristianismo: enxergar o pequeno, perceber quem tem dúvida quem hesita.3 Numa comunidade que precisa afirmar-se e faz isso com a antiga tradição à luz do messias Jesus, cada passo precisa ser revisto e reavaliado. Fazer parte da comunidade cristã acarretou riscos e rompimentos, acarretou dificuldades sociais e familiares.

3 Texto A delimitação do texto remete a uma organização de denúncias de Jesus para a articulação de atitudes. O seguimento a Jesus a ponto da pessoa “esquecer-se a si mesma” torna evidente que Batismo/comunhão, vida em comunidade fica em contraposição a família, raça. O diferencial das instituições está no seguimento a Jesus, na misericórdia vivida por Jesus. O ensino, direcionado antes apenas aos da “raça”, está enraizado na misericórdia praticada à luz do dia. Em vez da hierarquia servil, propagada pela tradição, prega-se a atitude liberta do medo. E o resgate da dignidade acontece não por conta da hierarquia ou por conta da obediência à tradição, mas vem pelo olhar “do Pai” (Mateus respeita o nome de Deus, usando sempre expressões como “reino dos céus” e “Pai”). A misericórdia de Deus manifesta-se no acolhimento de quem sofre com a destruição, com a exclusão, com o desrespeito à criação, ao corpo de tanta gente. Assumir o messianismo de Jesus era fator de exclusão das sinagogas. Mas era também a proclamação pública de pertença a uma comunidade cristã. Então a atitude ética precisava ser reafirmada mesmo em casa, mesmo com quem é “da família”. Isso é mais uma vez um diferencial da idéia da pertença familiar como norma/tradição a ser seguida, uma vez que Jesus ensina que o amor (em Mateus, a misericórdia aos pequeninos) é a base para a vida e não

Comblin, 1990, p.18. Comblin, 1990, p.17. 3 Bakken, p. 107s. 1 2

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a família. O amor constrói família – e não o contrário. Mesmo que o judaísmo que se organizará a partir da queda de Jerusalém também não tenha a terra prometida como objetivo maior, a obediência à lei e à tradição era o que os tornava herdeiros. Já a comunidade de Mateus elabora a confissão pública de Jesus Cristo, o seguimento, a comunhão e a promessa da vida eterna como objetivo maior das pessoas cristãs pertencentes a uma comunidade.

4 Hoje É preciso ficar feliz ante os atos de bravura – profetismo –, como os que aconteceram diante da muralha erguida para dificultar o acesso à reunião do G8 em junho de 2007. São atos de quem não teme a morte decretada por um sistema que exclui. É preciso enaltecer professores e professoras que, mesmo aprisionados por uma grade curricular decretada, usam seus cargos para fomentar atividades de respeito à ecologia, em gestos pequenos que educam bem mais do que grandes teorias. É preciso alegrar-se com comunidades que percebem seu papel de promotoras da liberdade e, sem hierarquias que dificultam a convivência, aprendem e ensinam com quem “comunga” e são comunidades que seguem Jesus Cristo. Precisam, é claro, conviver com derrotas, perdas, dificuldades, porque comunhão nunca foi algo fácil. Por isso mesmo o pão precisa ser mastigado, o cálice precisa de todo o cuidado para ser passado de mão em mão. Comunhão em comunidade é alimentada pelo amor maior da Santa Ceia partilhada. Sempre é preciso perceber cada um dos filhos, cada uma das filhas de Deus. Deus chama. Deus coloca à parte para que sejam filhos e filhas em cada instante de vida. Mesmo assim há momentos difíceis, pesados, sombrios. São momentos em que a morte parece vencer a vida. Rubem Alves escreve uma crônica chamada “A Pipoca”, na qual compara nossa vida “de milhos mirrados” que passam pelo fogo e são transformados. Parte dela transcrevo aqui: A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. (...) Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

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6º Domingo após Pentecostes Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante. Na simbologia cristã, o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. “Morre e transforma-te!” — dizia Goethe. Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. [... ] Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á”.A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo. Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira... “Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.”

A graça de Deus capacita-nos a reconhecer nossos pecados, limites e transgressões. Dá-nos a certeza de que nossos valores precisam ser revistos. O rompimento com a “antiga vida” é o início da “nova vida”. Relações familiares, comunitárias e sociais precisam ser estabelecidas a partir dessa “nova vida”. A vida em Jesus Cristo irrompe em nossas vidas, denunciando o que corrompe para que não voltemos ao pecado, movendo-nos a romper outros tantos limites que nos foram impostos.

Bibliografia COMBLIN, José. As linhas básicas do Evangelho segundo Mateus. In: Estudos Bíblicos, 26. Editora Vozes, Imprensa Metodista, Editora Sinodal, 1990. p. 9-18. BAKKEN, Norman K. Teologia em Mateus. In: Estudos Teológicos, 25/1. São Leopoldo: EST, 1985. ALVES, Rubem. A Pipoca. Texto originalmente publicado no jornal “Correio Popular”, de Campinas (SP), mas facilmente encontrado em sítios de busca na internet.

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7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: JEREMIAS 28.5-9

29 JUN 2008

MATEUS 10.40-42 ROMANOS 6.1223 Odair Braun

1 Contexto histórico de Israel Israel enfrentou períodos específicos em sua história. Tornara-se um estado sob Saul. Antes, ao longo de mais de 200 anos, fora uma liga de doze tribos. O reinado de Davi e Salomão durou duas gerações. Os reinados de Israel e Judá foram independentes durante apenas um século. Bright afirma que os deportados para a Babilônia eram a nata política, eclesiástica e intelectual, não sendo um número muito grande de pessoas. Com esses exilados é que se forma o futuro Israel. A deportação foi uma humilhação, mesmo que tivessem certo grau de liberdade e organização, como se vê em Ezequiel 3.15. Uma elite de deportados adaptou-se e se tornou rica por meio do comércio. Mas a maioria tinha saudade de sua terra, tal como testemunha o Salmo 137. Apesar da relativa liberdade, eles sentiam falta do local de culto, passando a destacar-se dois elementos: a observância ao sábado e a circuncisão. A catástrofe de 587 a.C. trouxe conseqüências políticas. O fim do reinado de Davi significou mais do que a perda da autonomia política. Significou uma crise de fé. Com a destruição e o exílio surgiram dúvidas quanto às promessas e à fidelidade de Deus. Nessa conjuntura abre-se espaço para todo tipo de pregação, como é o caso de Jeremias 28.1-9.

2 Contexto de Jeremias 28.1-9 Jeremias 28.1-9 expõe o confronto entre Jeremias e Hananias. Hananias anunciava o fim da Babilônia e o retorno do povo. Isso era um bálsamo para os ouvidos. Hananias prometia o restabelecimento da paz, do ambiente de culto, dos objetos sagrados. O povo, obviamente, gostava de ouvir isso, por que esse anúncio não apontava para a participação que tinham na situação em que se encontravam. Para a pregação, proponho ampliar o texto para Jeremias 28.1-9, o que dá uma moldura mais compreensível, remetendo ao motivo do embate entre Jeremias e Hananias. Da mesma forma, seria salutar trazer para a pregação elementos abordados no capítulo 27, como, por exemplo, a ordem para usar

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a canga (Jr 27.2); o pedido para não dar atenção aos falsos profetas (Jr 27.9 e 15, 16b). Também seria importante incorporar a orientação do capítulo 28 para que o povo acredite em mentiras (Jr 28.16). O centro do texto é: Quem é verdadeiro e quem é impostor nesse confronto entre Jeremias e Hananias? Jeremias teve capacidade de perceber que Judá caminhava para a ruína (Jr 7.1-11). Ele se preocupa em apontar um caminho alternativo. Esse caminho exigia participação do povo. Por outro lado, Hananias deu um prazo de dois anos para que a situação se modifique. Fez profecias em nome de Deus. A história mostra que nada do que profetizou se concretizou. Jeremias 28.17 informa que esse pseudoprofeta morreu dois meses depois.

3

Leituras

3.1 – Romanos 6.12-23 Essa passagem é uma advertência para não deixar o pecado dominar o corpo. Convida para entregar-se a Deus, que orienta por meio da bondade. Romanos 6.12-23 evidencia que o pecado gera morte, ao passo que se entregar a Deus gera vida. A vida eterna é alcançada na entrega a Jesus. Vida eterna é presente que Deus dá. Um presente deve ser desembrulhado e fazer parte da vida. O mesmo precisa ocorrer em relação à vida eterna que Deus oferta. Paulo fala do passado e do presente. Nesse meio ocorre o nascimento de Jesus, que despertou fé, esperança e amor. Jesus apontou para o caminho do seguimento. Ele proporcionou mudança ao livrar do pecado. Mas o v. 19 deixa claro que os cristãos não estão livres de momentos de fraqueza e tentação. Romanos 6.12-23 ensina que viver com Deus é estar ligado a Deus. Viver no pecado é viver na escuridão. O esquema exposto é simples: escravo do pecado = vida para a morte; escravo de Deus = vida para a vida eterna. 3.2 – Mateus 10.40-42 O ponto central são as recompensas oriundas do seguimento a Deus. Mateus 10.40-42 encontra-se no contexto maior do evangelho, no qual se percebe o confronto da novidade cristã que vence a lei e revela o reino. Nesse grande contexto, Jesus é aquele que tem compaixão do povo. Mateus 10.40-42 aborda as recompensas que se alcançam por meio da fidelidade. Destaca-se de modo especial que nesses três versículos se enfatizam o acolhimento, o ato de receber, aceitar, abrir-se e cuidar. Ou seja, na ação é que vem a recompensa.

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4 A caminho da pregação A ligação entre os textos de leitura e pregação dá-se por meio da palavra pregada e da ação que ela desencadeia. Os textos buscam o restabelecimento da paz e harmonia entre o povo e Deus, o restabelecimento da confiança e justiça para todos e o restabelecimento da soberania de Deus. Esses textos convidam para a fé em Deus, tornando-nos mensageiros da boa-nova, sempre comprometidos com a vida e a verdade, longe do pecado. Em Jeremias 28.1-9 ocorre um embate entre Jeremias e Hananias, que se arrogava o direito de falar em nome de Deus. Sempre há pessoas que não medem suas atitudes, o que foi o caso de Hananias, ao profetizar o fim da Babilônia. Esse discurso era bálsamo para os ouvidos do povo. Hananias não mediu as conseqüências de seu discurso, da mesma forma que muitos pregadores e pseudoprofetas ainda hoje não medem o significado daquilo que pregam. Provavelmente, o discurso de Hananias deu-lhe prestígio e admiração momentânea. Mas não gerou mudanças. Como terá ficado a esperança do povo? Como fica o povo que ouve promessas de cura, de riqueza etc. e, com o passar do tempo, nada se concretiza? Fórmulas mirabolantes estão em todo lugar. Soluções rápidas e fáceis “todos” têm. Isso vale para a política, para a economia, para a educação, para a justiça etc. Igualmente, muitos são rápidos em apresentar soluções fáceis para os problemas de pessoas. Soluções milagrosas sempre chamam mais a atenção do que as propostas que exigem trabalho e compromisso. É difícil fazer o povo voltar-se para a busca de soluções e para o compromisso. Jeremias era a voz de Deus. Mesmo assim foi perseguido. O povo não queria saber da verdade. Ouvir a verdade dói. Jeremias apontava para o pecado do povo. Profetizava que isso geraria castigo, o que se concretiza com a invasão babilônica, que provocou a destruição de Jerusalém e do Templo. Nesse contexto, Jeremias pediu por arrependimento e submissão. Pregou a sujeição ao inimigo. Até mesmo passou a usar uma canga (Jr 27), o que significava sujeição, tal como os animais. Esse recado era duro para o povo. Hananias prometeu restabelecer em dois anos os direitos e a dignidade do povo. Num gesto de marketing, arrancou e quebrou a canga usada por Jeremias perante o povo. Nos dias atuais, muitos pregadores fazem o mesmo durante seus shows televisivos. Isso gera reconhecimento e prestígio. Mas será que cura milagrosamente? Jeremias tinha um compromisso com a verdade que Deus havia mandado anunciar. Tinha que falar o que Deus ordenara. Hananias falava aquilo que o povo gostava de ouvir. Também hoje as pessoas preferem falsas promessas que não exigem muito compromisso. As coisas fáceis chamam a atenção. Basta observar as casas lotéricas em dias nos quais o prêmio está acumulado e as longas filas que se formam. As igrejas da prosperidade, que vendem bênçãos como pão quente, estão cheias. Os políticos que fazem as propostas mais absurdas e mirabolantes ganham as eleições. Nesses o povo crê mais facilmente. Com quem nós nos identificamos? Com Jeremias ou com Hananias? Estamos comprometidos

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com a verdade que liberta? Romanos 6.11 convida para vivermos para Deus, afastando-nos do pecado. Já o v. 12 afirma que o pecado não mais nos domina. Obedecer aos desejos deste mundo é fácil. Mas, com certeza, não é o melhor caminho. Mateus 10.40-42, por sua vez, indica que seguir a Jesus gera recompensas.

Bibliografia SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio. História e teologia do povo de Deus no século VI a.C. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulinas, 1987. BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.

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AÇÃO DE GRAÇAS PELA COLHEITA

PRÉDICA: JOEL 2.21-27 MATEUS 6.25-33 1 TIMÓTEO 2.1-7

Rodolfo Gaede Neto

1 Introdução

Em nosso tempo, está em alta a religião de resultados: cobra-se de Deus a realização de suas promessas. O crente investe o dízimo (sua contrapartida) e conta com o retorno em forma de bênçãos, curas, prosperidade. O culto de ação de graças pela colheita é uma das festas mais bonitas da igreja devido à sua dimensão prática, concreta, palpável, diretamente ligada ao dia-a-dia da comunidade, ao pão de cada dia. Há, entretanto, nessa festa, o risco de entrarmos no jogo dos resultados, cultivando uma mentalidade de recompensa: fui fiel a Deus e ele me abençoou; fui honesto, trabalhei, estou em dia com minha igreja e hoje tenho motivos para agradecer. O texto da prédica pode ajudar-nos a anunciar uma teologia mais coerente com o todo do evangelho. Ele aponta para um Deus cuja ação não pode ser reduzida a uma cura ou a uma boa colheita. Senão, como ficam os que não foram abençoados com uma cura ou uma boa colheita? Foram excluídos dos planos de Deus? O texto fala de um projeto maior de Deus. A leitura do evangelho ratifica essa visão quando exorta a buscarmos, em primeiro lugar, não “as demais coisas”, mas o reino de Deus e sua justiça. Da mesma forma, a epístola insiste numa compreensão mais inclusiva e abrangente da fé, estimulando-nos a ações que sejam “em favor de todos os homens”, pois Deus “deseja que todos os homens sejam salvos”. Assim, parece haver uma unidade temática no conjunto dos três textos: o projeto de Deus de um novo tempo para toda a criação, toda a humanidade, todo o universo. A comunidade que for afetada (de afeto) por essa promessa terá alegria em louvar o Criador mesmo se a última colheita não foi tão boa ou mesmo se a saúde deixou a desejar.

2 Dados exegéticos Joel faz parte dos assim chamados “doze pequenos profetas”. O livro surgiu em torno do ano 400 a.C., e seu contexto é a comunidade cultual que se formou em Jerusalém após o exílio babilônico. Uma forte ligação entre

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Ação de Graças pela Colheita

culto e profecia caracteriza o conteúdo do livro: a mensagem profética é comunicada em ambiente cultual. O tema principal do livro é o Dia de Javé: Joel anuncia a intervenção de Javé numa realidade de grande miséria. O Dia de Javé, ou seja, a visão escatológica de um novo tempo, é descrito nos capítulos 3 e 41. Esse dia, porém, é antecedido por uma catástrofe natural (invasão de gafanhotos, carestia e seca), descrita nos capítulos 1 e 2. A situação de total destruição enseja o chamado à penitência, ao jejum, ao arrependimento e à conversão (1.13s.; 2.12s.). O trecho previsto para a pregação – 2.21-27 – é um hino de agradecimento, que apresenta as promessas de Javé para o novo tempo. Divide-se em duas partes: a) os v. 21-24 trazem o hino de agradecimento proferido pela boca do profeta, que se refere à grande transformação de uma situação de extrema miséria em um novo tempo de grande felicidade; b) os v. 25-27 apresentam uma palavra de Deus que anuncia suas promessas ao povo assolado. No hino, exalta-se a grandeza da ajuda de Deus. No convite ao louvor, tudo e todos são incluídos, também a terra e os animais, além dos humanos, o que é uma bela demonstração da compreensão de unidade de toda a criação diante do Criador. O texto expressa a grande alegria que provém das bênçãos de Deus, recebidas através da natureza. Sem dúvida, essa alegria pelas bênçãos que enchem o paiol e a despensa é totalmente legítima. Entretanto, o texto aponta também para uma alegria que excede aquela: a alegria em Deus mesmo (v. 23), porque ele novamente está próximo de seu povo. A chuva que Deus dá, em justa medida, revela um Deus justo e gracioso (v. 23)2. Para anunciar a exclusividade do senhorio de Javé, Joel faz mais um de seus jogos de palavras: a afirmação, no v. 21, de que “o Senhor faz grandes cousas” é uma contraposição ao que é dito do inimigo (v. 20) de que “agiu poderosamente”. O texto original, que fala da ação do inimigo, deve ser traduzido como: agiu com força, com violência. Portanto, enquanto o inimigo age com prepotência, Javé atua com ações maravilhosas, conforme é descrito nos versículos seguintes (22-24). Joel também faz um jogo de comparação do momento atual com o momento da criação original: ao dirigir-se à terra com as palavras “não temas” e convidá-la ao regozijo, está dando o recado de que aquela maldição da terra (por causa da desobediência de Adão – Gn 3.17) tem agora o seu fim quando Deus a abençoa para que ela produza frutos. Assim como o caos original foi superado pela palavra criadora de Deus e a terra produziu relva, ervas etc.

Essa divisão do livro obedece à estrutura apresentada pela Bíblia Hebraica, que, diferentemente da versão de Almeida, apresenta a seguinte estrutura: cap. 1, v. 1 a 20 (normal); cap. 2, v. 1 a 27; cap. 3, v. 28 a 32 do cap. 2; cap. 4, v. 1 a 21 do cap. 3. 2 No v. 23, Joel faz um de seus típicos jogos de palavra: o termo hebraico more (23b) pode ser traduzido tanto por “chuva em medida justa” como por “o que ensina a justiça”. 1

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(Gn 1.12), assim o caos atual (terra desertificada) será novamente superado pela ação criadora de Deus. O campo que estava de luto (1.10) não precisa mais esperar pela bênção de Baal (deus da fertilidade), porque o próprio Javé se voltou a ele para libertá-lo da maldição. O inimigo só podia agir com força em relação à terra, mas não podia libertá-la da maldição. Isso unicamente Javé podia realizar: só ele pode perdoar pecados (a maldição tinha sua origem no pecado) e criar vida nova. Esses feitos do Senhor devem ser considerados “grandes cousas” (v. 21). No v. 23, o “não temais” é dirigido aos animais. Em 1.20, os animais ainda são descritos como os que bramam suspirantes por Javé. Estavam esquecidos e, por isso, vulneráveis à ação de outros deuses. Agora o profeta lhes anuncia que Deus se tornou novamente o único Senhor da criação. Ao ser humano, o último a ser mencionado (como na criação original), é anunciado um novo paraíso, criado a partir da terra desertificada. No v. 25, restituir não é simplesmente uma reposição dos prejuízos que o povo sofreu com os gafanhotos, mas uma recriação da natureza, ou seja, o restabelecimento do paraíso. Assim é anunciado também ao povo que Javé continuará sendo o seu Deus, apesar do que ele sofreu no exílio. A chuva abundante é o maior sinal de bênção na Palestina. Ela é o pressuposto mais importante para a vida e o bem-estar das pessoas. Diferente é, por exemplo, no Egito, onde a bênção vem de baixo, ou seja, das inundações do Nilo. Na Palestina, não se podia usar as escassas águas dos pequenos rios para irrigação. Por isso o povo dependia exclusivamente do cuidado de Deus através das chuvas. Joel lembra os filhos de Sião do que é dito em Deuteronômio 11.12: “Terra de que cuida o Senhor, vosso Deus; os olhos do Senhor, vosso Deus, estão sobre ela continuamente, desde o princípio até o fim do ano”. Joel anuncia ao povo que Javé se voltará de novo inteiramente à sua terra e garantirá a vida dos seus. Mesmo assim, o bem-estar físico não é a única mensagem de Joel ao povo de Deus. Para ele, em última análise, está em jogo algo maior: um ser humano novo, com um novo coração (2.13). Somente assim a relação entre Javé e seu povo (v. 26 e 27) estará completamente restabelecida.

3 Meditação 3.1 – Em busca da teologia do texto O texto contém a mensagem de que o Criador continua sendo o Criador, mesmo que fatos como catástrofes estejam insinuando a sua ausência, sua inoperância, sua indiferença. A presença de Deus não pode ser reduzida à incidência de chuvas, nem sua ausência ao flagelo da seca. Certamente bênçãos como a chuva, a colheita, a abundância de alimentos etc. sinalizam

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sua presença criadora. Entretanto, o texto aponta para além disso: o senhorio do Criador ultrapassa a barreira das aparências; não está condicionado ao que nos é possível ver e experimentar num determinado tempo ou lugar. O desafio da fé é manter-se fiel ao Deus Criador, que é Senhor do universo também quando há catástrofes e miséria. O projeto do Criador em relação à sua criatura é maior do que medidas paliativas. Seu projeto é a nova criação, o restabelecimento do paraíso e, especialmente, um ser humano com um novo coração. Enquanto isso, as forças contrárias ao Criador (Baal, o inimigo do norte) não sabem atuar a não ser com prepotência. Não podem abençoar a terra e libertá-la das maldições. Não podem perdoar pecados. Ou seja, não podem fazer as coisas recomeçarem do nada, do caos. Não podem recriar. Nesse sentido, Javé é o único que faz grandes cousas e age maravilhosamente. Aqui está, a meu ver, o cerne teológico do texto. Essa teologia leva a comunidade de fé a exercitar constantemente a sua sensibilidade em relação ao maravilhoso agir de Deus, que excede o que é aparente e presente. Esse não é um desafio simples para a fé: crer em Deus além do que dele é visível e palpável no meu dia-a-dia. Mas essa é a fé que supera a religião do imediatismo, a religião de resultados (que só funciona quando há recompensa), a religião da prosperidade. Pobre é a nossa fé quando está simplesmente atrelada a resultados: curas, chuvas, colheitas, bens materiais, felicidade etc. Quando faltam esses resultados, estamos sozinhos, abandonados, desesperados. Nesse sentido, a nossa sensibilidade pode fazer-nos ver que, atrás da chuva, atrás dos frutos da terra, atrás da cura, está o Senhor do universo, que não somente envia a chuva em tempos de miséria, que não somebnte cura quando estamos doentes, mas também é o Senhor na miséria, na doença e no caos. A abundância de bênçãos que as pessoas experimentam no âmbito material serve, em última análise, para levar ao reconhecimento da grandeza do Criador, ou seja, para conduzir ao louvor ao Criador do universo. A existência do povo de Deus não depende apenas do usufruto dos bens da terra, mas da ação maravilhosa e criadora de Deus num sentido amplo e profundo. A sensibilidade para o maravilhoso, para a surpreendente grandeza do Criador caracteriza a pessoa que confia em Deus, caracteriza quem se sabe inteiramente orientado para Deus, que tem seu olhar voltado unicamente a Deus, em qualquer situação. O texto quer despertar a confiança em Deus a partir do reconhecimento de que ele faz grandes cousas e age maravilhosamente. A justa medida da chuva que Deus dá hoje apenas indica para um Deus que é justo e gracioso sempre. 3.2 – Em busca da atualização do texto No culto de ação de graças pela colheita, importa animar a comunidade ao regozijo, à alegria, ao louvor. O motivo é o Criador do universo, que faz grandes cousas e age maravilhosamente. A justa medida de chuvas, as fartas colheitas, as despensas cheias, o pão de cada dia, a produção alcançada, sem

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dúvida, são razões justas para entoar o louvor ao Criador. Entretanto, há um motivo maior. Se não entendermos esse motivo, correremos o risco de nos tornar uma comunidade que mede o tamanho de seu louvor pelo tamanho da bênção recebida. Entraríamos num jogo perigoso de troca com Deus. A fé estaria condicionada aos resultados que produz; ou seja, ela teria o tamanho de sua produção. O motivo maior de louvor é que a presença e a atuação de Deus excedem o que acontece hoje e aqui, o que é visível aos nossos olhos, o que para nós particularmente significa bênção. Seu projeto é maior. Seu projeto é o Dia de Javé. Ou seja, sua perspectiva (escatológica) é a de um novo tempo, em que o ser humano terá um novo coração, em que a terra estará liberta de toda maldição, em que os campos não mais precisarão estar de luto, em que a terra não mais estará amaldiçoada, em que os animais não mais precisarão bramar suspirantes, em que os campos, os animais e o ser humano formarão uma unidade perante o Criador, em que a criação original será restabelecida e o paraíso será novamente uma realidade. Não é necessário dizer que há incompatibilidades entre o Dia de Javé e o nosso tempo. Poderíamos lembrar quantas espécies de animais e plantas entram anualmente na lista das que estão em processo de extinção no planeta. Poderíamos apontar para o processo de desertificação de algumas regiões do mundo, para a agressão à camada de ozônio, para o aquecimento global e suas conseqüências desastrosas. Em nosso tempo, vislumbramos grandes catástrofes naturais, além da realidade de miséria que assola hoje grande parte da humanidade. O que fazer com a nossa fé se ela tem apenas o tamanho de nossa lavoura, de nossa despensa, da última chuva, de nossa produção? E os nossos irmãos e irmãs que passam fome o ano todo? E a Amazônia? E a camada de ozônio? E os animais e as plantas em extinção? E o tsunami? E o aquecimento global? E o manancial de águas potáveis ameaçado? E o lixo? E a mortandade de peixes? E o combustível? E o futuro da humanidade? É pobre a nossa fé se não tiver a quem se apegar, que seja maior do que tudo o que hoje se apresenta. Essa seria uma fé como aquela voltada a Baal, que se contenta com soluções paliativas, com resultados imediatos; uma fé que se contenta com “as demais coisas” (cf. a leitura do evangelho deste culto). Conforme o texto de Joel, culto e profecia podem andar de mãos dadas. Por isso a mensagem profética pode ser comunicada no ambiente cultual da festa da colheita. Isso inclui o chamado à penitência, ao jejum, ao arrependimento e à conversão por causa de nossa participação na construção do caos vigente. Esse é momento oportuno para chamar a atenção para o que diz a leitura do evangelho: importa buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça (cf. Mt 6.33). Entretanto, penso que neste culto deve prevalecer o louvor a Deus. A fé desenvolve a sensibilidade em relação àquele que faz grandes cousas e que age maravilhosamente, no sentido de recriar, perdoar os pecados, libertar

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a terra de todas as maldições, conceder ao ser humano um novo coração e restabelecer o paraíso. Essa sensibilidade da fé gera a alegria em Deus mesmo. A fé alegra-se em Deus, simplesmente pelo que ele é. O louvor a esse Deus envolve a criação inteira. Tudo e todos devem ser chamados a expressar sua gratidão ao Deus que, por seu poder criador, pode transformar a situação caótica do nosso planeta num novo paraíso. Essa é sua promessa. No texto da prédica, Deus coloca esse mundo sob a promessa de novos tempos; isso basta para crer na transformação do mundo. Por isso: “Não temas, ó terra, regozija-te e alegra-te; porque o Senhor faz grandes cousas”.

4 Imagens para a prédica 4.1 – Um pensamento “A mensagem do reino não é dependente do sucesso do momento, não é desmentida pelo insucesso, porque aponta para o senhorio de Deus, ao qual servem também os adversários, sem que o saibam ou queiram.” 3 4.2 – Um poema Minha respiração está em andamento – O que ela quer dizer? Talvez: Olha, ouve, cheira, degusta, pega, vive! Talvez: Deus respira em ti mais do que tu mesmo. E também: Em todas as pessoas, animais, plantas, ele respira como em ti. E assim: Alegria aos sentidos! Prazer às criaturas! Paz às almas!4 4.3 – Uma história Em 1767, Johann Friedrich Oberlin torna-se pastor em Steintal. Nessa distante e abandonada região da Alsácia localizam-se cinco vilas pobres. O acesso às três igrejinhas do vale e aos barracos dos moradores é muito precário. Naqueles barracos reinam fome e miséria. Os moradores são huguenotes, que ali podem viver a fé cristã após o tratado de paz da Vestfália. O excesso 3 BRANDT, Wilhelm. O serviço de Jesus. In: NORDSTOKKE, Kjell (org.). A diaconia em perspectiva bíblica e histórica. São Leopoldo: Sinodal, 2003, p. 13. 4 Kurt Marti.

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de miséria leva essa gente à resignação. O novo pastor tem conhecimentos na área da saúde e da agricultura. Mas percebe que, antes de qualquer outra coisa, essa região precisa de estradas. Ele mesmo toma a enxada, providencia ferramentas, reúne os colonos, manda explodir pedras, traça os planos das estradas e manda construir uma ponte, que ele denomina de “Liebesbrücke” (ponte do amor). Após a construção das estradas em mutirão, Oberlin vê como segunda tarefa o combate à fome. Aplica seus conhecimentos em agricultura (drenagem, irrigação, adubação, cultivo de sementes, cultura de cereais e frutíferas etc.) e coordena as atividades de plantação de lavouras. A horta de sua própria casa torna-se lugar de experimentos. Como esse trabalho tem em vista a comunidade toda, também as crianças são envolvidas: exige-se delas que, antes de sua confirmação, tenham plantado pelo menos duas árvores frutíferas. Também o gado se encontra em estado de degeneração. Por isso adquire gado saudável para a reprodução. Outro problema é que os colonos estão endividados; em razão disso, cria-se uma caixa comunitária para empréstimos. Novos instrumentos agrícolas são adquiridos. Até mesmo uma gráfica particular Oberlin adquire para a impressão de um jornal comunitário. Concomitante a toda essa atividade, a palavra de Deus vai sendo pregada no vale. Melhores estradas, lavouras produtivas, gado saudável e pomares produtivos são fatos que ajudam as pessoas a viver como filhos e filhas de Deus. O pastor sempre tem em vista o bem-estar comunitário e, ao mesmo tempo, empenha-se em favor dos indivíduos. O trabalho de cuidado, seja do corpo ou da alma, começa com as crianças e estende-se a todas as faixas etárias. 5

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Deus Criador, com humildade chegamos a ti e te entregamos a nossa confissão: somos parte da humanidade que coloca diariamente várias espécies de plantas e animais na lista das que estão em processo de extinção; que polui o solo, a água e o ar; que produz lixo desnecessário; que consome supérfluos; que, enfim, gera a agressão à camada de ozônio e o aquecimento global. Somos parte da humanidade que teima em colocar tua criação em risco. Confessamos que pessoalmente participamos, em maior ou menor grau, do estabelecimento do caos e nos tornamos culpados perante ti. Clamamos a ti: Tem misericórdia de nós, Senhor.

5 VONHOFF, Heinz; HOFMANN, Hans-Joachim. Samariter der Menschheit: Christliche Barmherzigkeit in Geschichte und Gegenwart. München: Claudius-Verlag, 1977. p. 136s (tradução livre de Rodolfo Gaede Neto).

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Kyrie eleison (litania): 1 – Pelas dores deste mundo, clamemos ao Criador. C – Tem piedade, Senhor. 2 – Pelas espécies de animais e plantas em processo de extinção, clamemos ao Criador. C – Tem piedade, Senhor. 1 – Pelos animais presos e vítimas de maus-tratos, clamemos ao Criador. C – Tem piedade, Senhor. 2 – Pelas plantas e pelos animais mortos nas queimadas. C – Tem piedade, Senhor. 1 – Pelos mananciais de águas potáveis ameaçados de contaminação, clamemos ao Criador. C – Tem piedade, Senhor. 2 – Pelo ar contaminado pelos gases tóxicos dos carros e das indústrias, clamemos ao Criador. C – Tem piedade, Senhor. 2 – Pela terra agredida por nosso lixo, clamemos ao Criador. C – Tem piedade, Senhor. 1 – Pelas geleiras que derretem em conseqüência do aquecimento global, clamemos ao Criador. C – Tem piedade, Senhor. 2 – Pelas pessoas do mundo inteiro que sofrem fome e sede, clamemos ao Criador. C – Tem piedade, Senhor. 1 – Pela paz no mundo inteiro e pela salvação do nosso planeta, clamemos ao Senhor. C – Tem piedade, Senhor. Glória: Cantemos glória ao Criador, porque ele, mesmo ali onde o consideramos ausente, faz grandes cousas e age maravilhosamente. C – Glória... Oração da coleta: Deus Criador, tu que colocas este mundo sob a promessa de novos tempos: aguça em nós a sensibilidade de reconhecer o teu agir em nosso meio já agora. Dá-nos um coração novo, que saiba acolher o projeto de teu reino. Por Cristo, nosso Senhor, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém. Oração de intercessão: Deus do universo, graças te damos por todas as bênçãos que chegaram a nós durante este ano, vindas de tuas mãos benignas. Graças pelas chuvas,

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pelo sol, pelo vento, pela terra, pelas plantas... Graças pelo pão de cada dia. Intercedemos por tua igreja e por todas as pessoas que nela te servem: permita que ela cresça na alegria em ti por causa de teu agir maravilhoso. Que cresça em nós a confiança em tua promessa de criar novos tempos e, assim, mais e mais, busquemos em primeiro lugar o teu reino e a tua justiça. Intercedemos pelas autoridades de todo o mundo e, em especial, pelos governantes de nosso país, para que se sintam fortalecidos nas boas ações e invistam, com mais determinação, no cuidado da natureza, para que a terra possa produzir frutos saudáveis. Criador misericordioso, orienta os governantes a buscar caminhos de superação dos grandes problemas sociais que afetam tantas pessoas em nossa sociedade. Intercedemos pelas pessoas que não encontram trabalho, pelas que estão endividadas, pelas que não têm um pedaço de chão para plantar e colher, pelas doentes, enfim, pedimos a tua misericórdia em favor das pessoas que têm dificuldades de receber o seu pão de cada dia. Entregamos em tuas mãos todas as nossas preocupações, na certeza de que tu fazes grandes cousas e ages maravilhosamente. Apressa a chegada de teu grande dia. Por Cristo. Amém.

Bibliografia BIC, Milos. Das Buch Joel. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt GmbH, 1960. WOLFF, Hans Walter. Dodekapropheten 2 – Joel und Amos (Biblischer Kommentar Altes Testament). Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag GmbH, 1969.

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8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 11.16-19, 25-30

06 JUL 2008

ZACARIAS 9.9-12 ROMANOS 7.15-25a Carlos Luiz Ulrich

1 Introdução Para o 8º Domingo após Pentecostes são indicados o texto de Mateus 11.16-19, 25-30 como pregação e os textos de Zacarias 9.9-12 e Romanos 7.1525a como leituras do dia. O texto do Antigo testamento afirma que o Rei que vem é justo, salvador, humilde, anunciará a paz e restituirá a esperança. O texto de Romanos aponta para a lei que aprisiona e a lei que liberta em Cristo. O texto para a pregação oferece o convite gracioso e inclusivo de Jesus “vinde a mim” e, dessa forma, a libertação do jugo. Em Jesus se cumpre a profecia de Zacarias. O evangelho é um convite que liberta de todas as escravidões. Portanto a leitura e a reflexão dos textos indicados se entrelaçam na unidade temática que desejamos trabalhar: o convite de Jesus, fonte de toda a missão, que denota cuidado e amor.

2 Reflexão exegética O capítulo 11 do Evangelho de Mateus apresenta a pergunta-chave: “Jesus é mesmo o Messias?”. Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo, mandou seus discípulos perguntar a ele: “És tu aquele que estava por vir ou havemos de esperar outro?” (11.3). Jesus não aponta para sua pessoa, mas para sua prática, aquilo que os discípulos estão vendo e ouvindo: “Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (11.5-6). Aos pobres e desprezados é anunciada a libertação em palavras e ações. Em Jesus Cristo se concretiza o tempo da espera (kairós) da libertação. A partir de 11.7, Jesus afirma que João Batista é o mensageiro enviado para preparar o caminho para a vinda do Messias, anunciado desde o tempo dos profetas (Ml 3.1) No entanto, João Batista não foi aceito e reconhecido como mensageiro preparador da vinda de Jesus. Então Jesus compara as pessoas de sua época a meninos nas praças, que não se envolvem com aquilo que acontece ao seu redor, sendo meros espectadores: “Tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes” (v. l7). Como meros espectadores, não aceitam João Batista e tampouco Jesus Cristo (v. 18-19). Após o relato sobre algumas dificuldades

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de Jesus com os moradores das cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, Mateus apresenta uma pequena e profunda oração. Diante da situação de rejeição, “por aquele tempo”, Jesus ora (v. 2527). Naquele momento histórico, na comunidade de Mateus, era necessário que Jesus orasse, afirmando sua íntima relação com Deus e sua confissão de fé. Percebe-se que há um conflito na comunidade. No evangelho inteiro, o conflito com fariseus e escribas mostra-se evidente (Mt 4.20). Fariseus e escribas consideram-se superiores, orgulhosos, somente eles cumprem verdadeiramente a lei. Portanto é necessário deixar bem claro que Deus é o Senhor do céu e da terra e também da comunidade. Jesus afirma a sua divindade, sua unidade com o Deus criador, com o qual se relaciona de forma muito próxima, chamando Deus de Pai. Segundo Goppelt, esse dito provém da tradição sapiencial, em que se “agradece pela maneira como Deus se revela, através da atividade de Jesus, a si mesmo e, com isso, a sua graça. Isso ocorreu de acordo com as bem-aventuranças. O maior de todos os mistérios foi revelado aos anawim. Ao mesmo tempo, foi ocultado àqueles que queriam viver a partir de si mesmos” (Goppelt, p. 192). As elites e os sábios judeus marcados pela visão e pela ordem patriarcal não conseguem ver em Jesus a mediação de Deus. Jesus derruba, então, a ordem vigente da revelação, apoiada pela idéia judaica de que a sabedoria de Deus é acessível somente a um pequeno grupo de sábios. Ele denuncia a arrogância dos sábios e instruídos (Mt 11. 25 e 26). Esses não aceitavam Jesus como o messias, o esperado. Jesus revela-se, então, aos pequeninos, aos anawim “pobres”: mulheres, crianças, pescadores, agricultores, todos e todas que vivem à margem do poder e da sabedoria para segui-lo, aceitando sua proposta de vida. Jesus faz um convite. Esse convite é a base de todo o evangelho. “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” O convite é um material próprio do Evangelho de Mateus. É a base de toda a missão da igreja. Quem são os cansados e sobrecarregados? Cansados e sobrecarregados são todos e todas aquelas que não suportam mais a incoerência entre o falar e o agir. Não agüentam mais o peso das leis e da sabedoria, o jugo da exploração imposta pelos escribas e fariseus, poderosos daquele tempo. É do jugo da exploração e da discriminação econômica, religiosa, social que Jesus quer aliviá-los. Jesus apresenta outra proposta de vida: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma”. O jugo de Jesus é baseado na mansidão e na humildade (bem-aventuranças). Somente assim se encontra o descanso para a vida. Não é o cumprimento cego da lei que traz descanso e alívio, mas a lei do amor. O cumprimento do amor, o jugo de Jesus, é suave e o fardo é leve. O critério definitivo do Evangelho de Mateus é a prática. A própria atuação de Jesus define-se pela prática. “Nem todo o que diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus (...) pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.14-21). “Jesus oferece o discipu-

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lado, e quem o segue não diz que se decidiu, mas diz ele que ‘encontrou’ (Mt 13.44s.) a pérola preciosa, que Deus lhe revelou o que estava escondido (Mt 11.25)” (Goppelt, p. 113 ).

3 Meditação Os estilos de João e Jesus são diferentes. Ambos, no entanto, são igualmente rejeitados. Cada um recebeu um rótulo. João é colocado como demônio (v. 18) e Jesus como glutão (v. 19). Como entender essa profunda rejeição? Jesus faz a pergunta: “Mas a quem hei de comparar essa geração?” (v. 16). Ele também dá a resposta: a crianças apáticas que não participam na hora da alegria e tampouco na hora do sofrimento. Aqui novamente Jesus aponta para a importância do fazer: “Mas a sabedoria é justificada por suas obras” (v. 19). Jesus revela-se como sabedoria. Ele é o rei, justo, humilde, anunciado por Zacarias 9.9-12. Para aceitá-lo, precisamos despojar-nos de nosso orgulho, de nossa sabedoria, tornar-nos “simples”, eternos aprendizes do reino de Deus. No centro da perícope temos a oração de ação de graças (hino de alegria – Mt 11.25-30). Jesus afirma a importância da oração na vida cotidiana, Orar é confiar, entregando-se nas mãos do criador da vida. Jesus agradece (“graças te dou”). O agradecimento é fundamental para a vida. Agradecemos nós em nosso cotidiano? Jesus relaciona-se de forma íntima e muito próxima com Deus, dizendo “ó Pai” (Abba), afirmando uma relação filial – proximidade – como na oração do Pai-Nosso (Mt 6.9-13). “Abba não era usado pelo judeu que orava, mas era a forma de tratamento familiar e íntima pela qual a criança se dirigia ao pai. Jesus, ao chamar Deus de Pai, expressa uma ligação e uma entrega única e íntima. Jesus concede essa relação para com Deus também a seus discípulos” (Goppelt, p. 216). Como nós nos relacionamos com Deus? Jesus confessa sua fé – que remete à criação e à libertação: “Senhor do céu e da terra”. Somente esse Deus liberta! Confessamos nós que Deus é o único Senhor, criador de toda a natureza? A oração deixa muito claro o motivo do louvor: Deus revela-se aos pequeninos: “Porque ocultaste essas cousas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos” (Mt ll.25). Somente aos pequeninos, aos pobres é revelado o tesouro do evangelho. Os sábios e instruídos estão ligados à sabedoria do mundo. Os pequeninos recebem a revelação de Deus. A eles são anunciadas as bem-aventuranças (Mt 5.1-12). Os pequeninos são o sal da terra e a luz do mundo (5.14-16). Jesus usa o exemplo de uma criança (pequena, dependente) para afirmar que é desse jeito que se herda o reino dos céus (19.13-14). Fariseus e escribas presos a leis, ao poder do templo e do palácio não conseguem entender a revelação. Jesus tem a necessidade de dizer: Acautelai-vos da doutrina dos fariseus (Mt 16.12). A justiça tem de ser maior do que a dos escribas e fariseus (Mt 5.20). Toda a lei depende do amor a Deus e ao próximo (Mt 22.7-40). Os fariseus e escribas dizem, mas

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não fazem (Mt 23.3). Dizer e fazer são as duas faces de uma mesma moeda. A revelação aos pequeninos não é apenas um detalhe, mas é a inversão da ordem vigente. Não é o cumprimento cego da lei que garante a salvação, mas sim o amor e o cuidado aos pequeninos: “Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25.40). Precisamos perguntar-nos quem são os pequeninos de nossos tempos? Jesus cumpre a missão do Pai: “Tudo me foi entregue por meu Pai” (Mt 11.27). Tudo o que é ensinado e vivido por Jesus foi entregue pelo próprio Pai. A revelação de Jesus é a revelação do próprio Deus. Jesus é o único mediador entre Deus e as pessoas. Ele afirma a unidade do Pai com o Filho: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Jesus revela sua divindade, acentuando sua filiação a Deus. O conhecimento ocorre na aceitação e no reconhecimento de que o Pai é o Senhor do céu e da terra. Tudo o que é ensinado e vivido por Jesus foi entregue pelo próprio Pai. Após a oração, temos o convite de Jesus Cristo, do evangelho, da boanova, da esperançosa alegria, do objetivo de toda a missão, evangelização, ensino e pregação: “Vinde a mim, todos os que estais....” (Mt 11.28). O evangelho apresenta-se como um convite inclusivo (é para todos e todas), não como imposição. Somos convidados e livres para aceitar ou rejeitar esse convite. Quando ouvimos “vinde a mim todos/todas...”, nós sentimos e entendemos que fazemos parte, que somos chamados, integrados a ser participantes, a realizar o sacerdócio geral de todos os crentes. Os convidados são caracterizados como cansados e sobrecarregados. Quem são os cansados e os sobrecarregados dos quais fala o texto? Os cansados e sobrecarregados são aqueles que não agüentam mais a incoerência entre o falar e o fazer, são os pequeninos, os desprezados. Em nosso contexto (rural, urbano; pequenas ou grandes cidades), quem são as pessoas cansadas e sobrecarregadas? O convite de Jesus traz alento, confiança, descanso, alívio, cuidado. Como é bom ouvir esse convite. O convite traz a sensação de pertença – nós fazemos parte. Jesus também quer a mim, ele quer a nós. “Vinde a mim todos (...) que eu vos aliviarei.” Dentre os muitos significados de alívio, destacamos o seguinte, conforme o Novo Dicionário Aurélio: “Ato ou efeito de aliviar-(se); diminuição de dor, de peso, de trabalho etc...; Desopressão, desafogo, descanso, tranqüilidade, consolo, refrigério (...)” Aceitar o convite de Jesus implica encontrar alivio, tranqüilidade, consolo, descanso. O convite de Jesus é inclusivo (todos/as) e apresenta uma nova proposta de vida: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma” (Mt 11.29). O que significa jugo? De acordo com o Novo Dicionário Aurélio, jugo significa “canga, por extensão a junta de bois, opressão, sujeição, submissão, obediência, autoridade, domínio”. Jesus convidou o povo a renunciar ao “jugo” pesado das prescrições/ das exigências do cumprimento das leis dos “sábios” judeus para aceitar o

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seu jugo. O jugo de Jesus também é exigente, mas tem como critério básico o amor. Para o Evangelho de Mateus, tudo passa pela prática da pessoa. O critério definitivo é a prática. Aprendemos de Jesus por que é manso e humilde de coração. Como ser manso numa sociedade violenta que nos cerca? Como ser humilde se a competição nos envolve no mercado de trabalho? Aprender de Jesus a ser manso e humilde e encontrar descanso. Como descansar nas cidades, onde todo mundo tem pressa e as relações humanas mostram-se cada vez mais fragmentadas? Onde e como encontrar descanso para a nossa vida? A proposta de Jesus não é pesada: “Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11.29). Jesus oferece suavidade e leveza. Em meio a uma sociedade competitiva, egocêntrica e individualista, precisamos novamente aprender da proposta de vida de Jesus. Essa proposta envolve o amor cuidadoso, inclusivo e gracioso; amar a Deus, ao próximo e a si mesmo, a terra e toda a criação.

4 Imagens para a prédica Apresentar o texto de Mateus 11.16-19, 25-30. Questionar: Que tipo de pessoas nós somos? Pessoas apáticas – assistimos distantes o que acontece; pessoas envolvidas – participantes e comprometidas com a dança da vida. Como recebemos Jesus? (Mt 11.16-19) No centro do texto (evangelho) para a pregação encontra-se a oração de ação de graças de Jesus. É uma pequena, mas profunda oração, na qual Jesus se relaciona de forma íntima e muito próxima com Deus, chamando-o de Pai, afirmando-o como criador de todo o universo. Jesus afirma sua unidade com Deus. Ele é o único mediador entre Deus e as pessoas. Enfatizar a importância da oração, do agradecimento na vivência cristã? Afirmar o amor incondicional de Deus, revelado por Jesus Cristo aos pequeninos. Quem são os pequeninos de nosso tempo? Quem são os sábios que nos cercam? “Vinde a mim” é o convite gracioso e inclusivo de Jesus, centro de toda a missão da igreja. O convite aponta para o cuidado da igreja com seu povo, anunciando, sempre de novo, a proposta de vida de Jesus, que liberta dos jugos de todas as escravidões. Destacar o convite inclusivo de Jesus: “Vinde a mim todos/todas....”. Não esqueçamos que o convite de Jesus Cristo (“Venham a mim todos/todas...” – v. 28) faz parte da liturgia da Ceia do Senhor. É uma das palavras bíblicas mais conhecidas pela comunidade cristã. Associar esse convite inclusivo da mesa da comunhão à missão da igreja... Vinde a mim... Ide... “Não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.20). Apontar, portanto, para os diferentes serviços realizados pela comunidade como resposta ao convite “Vinde”. O descanso para a vida mostra-se no compromisso de cuidado com o outro. Como eu/nós nos colocamos neste mundo? Onde eu/nós encontramos descanso para nossa vida? O “descanso para a vossa alma” está ligado diretamente à aceitação do convite de Jesus com sua proposta de vida: “Levai

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as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6.2). O descanso não é apenas uma proposta espiritual. Envolve o cuidado com todo o ser humano e com toda a criação. É um modo de ser e estar se colocando no mundo criado pelo Deus criador do céu e da terra. Para encerrar a prédica, sugiro esta oração: Desperta a tua igreja, Senhor, começando por mim. Edifica a tua comunidade, Senhor, começando por mim. Concede a tua paz, Senhor, começando por mim. Faz com que todas as pessoas conheçam a ti, Senhor, começando por mim. Que teu amor e tua verdade, Senhor, cheguem a todas as pessoas, começando por mim. (China – Senhas Diárias 2006)

5 Subsídios litúrgicos Acolhida: Saudar a comunidade com o convite inclusivo e acolhedor de Jesus: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Oração da coleta: Obrigado, querido Deus, pois novamente nos convidas em Cristo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”. Também chegamos neste culto cansados e sobrecarregados com situações de nosso cotidiano. Tu nos ofereces uma nova proposta de vida, que envolve a mansidão e a humildade. Ajuda-nos a nos libertar dos pesados fardos que nos querem aprisionar e escravizar. Ajuda-nos a ser pessoas livres e comprometidas com a boa-nova do evangelho. Ajuda-nos a aceitar o teu convite e encontrar descanso para a nossa vida. Ajuda-nos em nossa prática cotidiana para que possamos repartir as cargas e sobrecargas de nossas irmãs e irmãos. Faça de nós pessoas que cuidam umas das outras com amor. Ajuda-nos a aceitar o convite de Jesus e transforma as nossas vidas. Amém. Oração de intercessão: 1 – Misericordioso Deus, intercedemos pela igreja e por todas as pessoas que nela servem com amor. Renova nelas, amado Deus, o cuidado para com toda a tua criação, fortalecidas pela luz de tua Palavra.

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C – Ouve nossa oração e atende a nossa súplica. 2 – Bondoso Deus, intercedemos por nosso país para que os governantes em todos os níveis exerçam sua função tendo como objetivo a promoção da vida justa, digna e cidadã para todas as pessoas. C – Ouve nossa oração e atende a nossa súplica. 3 – Deus de amor e cuidado, intercedemos pelos pobres, desempregados, doentes, enlutados, solitários, por todos os cansados e sobrecarregados, para que possam ouvir o convite de teu filho amado: “Vinde a mim”, encontrando orientação, amparo e possibilidades de transformação em sua vida. C – Ouve nossa oração e atende a nossa súplica 4 – Confiantes em tua bondade e misericórdia, querido Deus, nela nos apoiamos para falar das coisas que vimos e ouvimos. C – Amém. Oração eucarística: Graças te damos, ó querido Deus, pelo convite que recebemos através de tua palavra. Assim podemos nos reunir em torno da mesa de comunhão para receber do que Cristo fez por nós. Jesus viveu e anunciou um novo tempo. Ele nos convida em sua graça, oferecendo uma nova proposta de vida, baseada na humildade, na leveza e no cuidado. Sua fidelidade custou sua vida, mas Jesus ressuscitou e nós sentimos sua presença viva em nosso caminhar diário através do poder do Espírito Santo. Amém. Celebramos a Ceia do Senhor por ordem do próprio Jesus. Assim: “Na noite em que foi.....”

Bibliografia COMBLIN, José; LOCKMANN, Paulo; GALLAZZI, Sandro; MESTERS, Carlos; ANDERSON, Ana Flora; GORGULHO, Gilberto. O Evangelho de Mateus. Estudos Bíblicos, n. 26. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1990. CHRISTMANN, Louraini. 7º Domingo após Pentecostes: Mateus 11.25-30. In: STRECK, Edson Edilio; KILPP, Nelson (Coord.). Proclamar Libertação, n. XVIII. São Leopoldo: Sinodal, 1992. p. 186-191. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento, v. 1. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1983. LIEVEN, Guilherme. 7º Domingo após Pentecostes: Mateus 11.25-30. In: HOEFELMANN, Verner; SILVA, João A. M. da (Coord.). Proclamar Libertação, n. 30, São Leopoldo: Sinodal, 2004. p. 184-188. STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Mateus: O caminho da justiça. São Paulo: Paulinas, 1990.

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8º Domingo após Pentecostes

Mateus 13.1-9,18-23 ROMANOS 8.1-11

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10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 13.24-30, 36-43

20 JUL 2008

ISAÍAS 44.6-8 ROMANOS 8.12-25 Cristina Scherer

... Cremos no Espírito da Unidade, na religião da solidariedade, na ressurreição dos corpos oprimidos, na comunhão universal de todos os povos, no Eterno Reino da Paz e da Justiça, na Vida Eterna. Amém. Credo Ecumênico

1 Introdução Estamos no tempo de Pentecostes. Tempo de lembrar a ação do Espírito Santo, que vivifica, transforma, mexe e ilumina. Esse Espírito divino acende em nós o fogo da luta pela justiça e sacode como o vento toda pretensão e orgulho humanos. Orgulho e prepotência que fazem pessoas e grupos se sentirem melhores do que outras, orgulho que fere, mata, menospreza e humilha. Na igreja e na sociedade, sempre houve a tentação de julgamentos rápidos e impiedosos de uns sobre outros. Quantas vezes afirmamos que “julgar não compete a nós” e sempre caímos na armadilha perversa, na audaciosa tentação de agir como o dono da colheita: Deus, o Criador. Mas o evangelho é palavra de libertação, é luz que clareia nossos pensamentos e atos e que nos convida a pensar e agir de forma distinta do mundo impiedoso. Assim, Jesus nos ensina com sua forma simples de falar por parábolas como o reino de Deus se concretiza pela justiça no tempo oportuno. Deus manifestará sua decisão de quem é joio e quem é trigo. Por enquanto, nossa missão é semear, pois o Senhor saberá quando colher e quem arrancar. Enquanto aguardamos a vinda completa do reino dos céus, jubilemos como o salmista: “Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade” (Sl 85.15).

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2 Aspectos exegéticos A comunidade à qual se destina o Evangelho de Mateus provavelmente tinha raízes judeu-cristãs e vivia no norte da Galiléia e sul da Síria. O livro foi escrito por volta de 85-90 d.C., após a destruição de Jesrusalém (70 d.C.) pelos romanos. A “igreja” de Mateus vivia uma forte crise política, cultural e religiosa. A comunidade tinha uma certa organização e era composta por judeu-cristãos, judeus observantes da Lei, judeus helenísticos e não-judeus. O Evangelho de Mateus surge para que as pessoas que seguiram Jesus permanecessem firmes e não esmorecessem frente às pressões dos fariseus, um dos grupos que sobreviveu após a derrota de Jerusalém, juntamente com o grupo dos seguidores de Jesus. Diante disso tudo, afirma-se que Jesus é o Messias que vem instaurar a justiça e o reino, temas centrais do evangelho. O capítulo 13 tematiza o reino de Deus, que revela seu mistério na história por meio de parábolas. O primeiro anúncio é dirigido às multidões, proclamando de forma universal a vinda do reino de Deus (Mt 13.1-9). Aqui se comunica a certeza de que o reino de Deus vem. A próxima cena do capítulo acontece com os discípulos (10-17). A realidade do reino exige a compreensão da fé. Aos discípulos foi dado conhecer esse mistério. Em seguida, a alegoria do semeador (18-23) ensina como a missão da palavra semeada transforma a vida daqueles que a acolhem. A parábola do joio e do trigo (24-30) é uma parábola exclusiva de Mateus e mostra que o “reino dos céus” acontece numa realidade pluralista e referese ao presente, ao já e à escatologia, ao ainda não, à colheita. Nesse reino há bons e maus, assim como a comunidade de Mateus se percebia em meio ao mundo. Um inimigo (exthros), conforme 13.25, semeou o joio1 no meio do trigo, enquanto o proprietário dormia. Os servos (douloi) foram avisá-lo. Em 13.28, fica claro que tipo de inimigo contaminou o trigo com a má semente; é um anthropos exthros, um inimigo ou adversário humano, contrapondo a idéia da ação do maligno e ressaltando a influência de atos humanos e concretos. Assim como no capítulo 18, Mateus aconselha prudência na questão do julgamento de pessoas na comunidade. Na “igreja” de Mateus, havia observadores da Lei, pessoas que não seguiam nenhum preceito e judeus que aderiram à fé cristã. Era comum haver intrigas e conflitos naquela situação de convivência de grupos diferentes. Antes de processos demorados e perda de tempo, Mateus convida para o perdão no grupo e, se possível, adiar a ânsia por julgar para o eschaton, o tempo final. O capítulo 13 reúne sete parábolas do reino dos céus. Somente três são explicadas posteriormente: a do semeador, a do joio e do trigo e a da rede. 1 O joio (em grego zizanion, especificamente cizânia, Lolium Temulentum, da família das salináceas) era uma gramínea anual que se parecia muito com o trigo antes de amadurecer. Conhecido como cizânia, capim-cevadinha, uma erva perturbadora nos trigais, parecida com trigo, com grãos pretos.

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Como na parábola do semeador, são os discípulos que se dirigem a Jesus que está em “casa” (13.36), em Cafarnaum, e pedem que ele explique a parábola em 13.36-43. Como na parábola do semeador, a explicação ocorre por meio de uma alegoria, na qual os filhos do reino (trigo) são contrapostos aos filhos do maligno (joio). Esses últimos são sementes do maligno, humanos que agem promovendo a iniqüidade. Assim “o Filho do Homem enviará seus anjos e eles apanharão do seu reino os escândalos e os que praticam iniqüidade” (anomia – 13.41). Anomia, também traduzida como pecado, expressa a ação ou o comportamento contrário ao ensinamento de Jesus. Assim fica evidente que pessoas iníquas ingressaram na comunidade de Mateus e influenciaram as boas sementes, porém ele incentiva a não julgar prontamente quem são essas pessoas hipócritas e iníquas (cf. 23.27-28). Convém esperar até a “consumação dos séculos” (syntéleia aônios), quando o bem será separado do mal. Antes de explicar a parábola, há a inserção de outras duas parábolas de crescimento – o grão de mostarda e o fermento –, mostrando a presença sutil e surpreendente do reino dos céus. Considerando que o tema central do Evangelho de Mateus é a “justiça”, pois esse termo aparece em oito versículos e o adjetivo “justo” aparece dezessete vezes, a parábola do joio e do trigo convida para ações mais justas no convívio entre as pessoas, confiando o tempo do eschaton às mãos de Deus, que é justo, paciente e compassivo (cf. Sl 85).

3 Meditação O texto aponta para a realidade que se vive neste mundo criado por Deus. Já vivemos sinais do reino de Deus entre nós, mas ainda não por completo. O dono da plantação não chegou para iniciar a colheita. Por enquanto, trigo e joio (inço) crescem juntos. Mas há trabalhadores que se inquietam e se incomodam com a presença do inço, querem arrancá-lo prontamente e jogá-lo fora. Julgam que o mesmo não presta, é mato mau, contamina a planta boa. A parábola do joio e do trigo aborda duas atitudes contrárias ao evangelho de Jesus Cristo. A primeira, conhecida de todos nós e de nossas comunidades, é a vontade de querer arrancar o joio, eliminar tudo o que é contrário, diferente, dentro e fora da igreja, pois alguns julgam ter razão e possuir a “verdade” do evangelho. Aí se evidenciam dominação, exclusão, fechamento e imposição de barreiras para outras pessoas. A outra atitude é o desânimo. Já que não é possível arrancar o joio, eliminar erros e injustiças deste mundo, também é inútil semear o trigo, fazer o bem. Então é melhor deixar tudo como está, acomodando-se e deixando de espalhar a semente da boa-nova do evangelho de amor, perdão e justiça. A realidade do reino de Deus que o texto aponta é que Jesus Cristo veio semear no mundo graça e verdade. A igreja também deve abraçar com

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seus discípulos e discípulas essa missão. Mas sabemos que também existe o inimigo, que nem tudo neste mundo é bom. Se tudo fosse bom, não haveria necessidade de salvação, graça e verdade, pois já estaríamos vivendo no reino de Deus. A comunidade cristã tem a tendência a julgar prontamente. Esse texto quer lembrar-nos que não somos como Deus, mas somos seus filhos e filhas, pessoas fracas e falhas na fé. Portanto também nós tropeçamos, caímos, machucamo-nos e somos machucados. Quando alguém cai, é fácil emitir julgamentos. Caiu porque não soube andar direito, foi muito rápido, não tinha calçado apropriado, caminhou no escuro [...] Sempre quando julgamos, semeamos dor, divisão, afastamento de pessoas que passam por dificuldades, dores, crises. Convém que semeemos a semente boa, a da ajuda, do crescimento comunitário, da solidariedade, da verdade e da graça, tal como Jesus. Essa pergunta nos faz pensar: Quando você estiver passando por uma crise, o julgamento de outros irá te ajudar? Lembremos dos amigos de Jó, que o colocaram mais e mais no fundo do poço. Comunidade cristã deve alegrar-se com a possibilidade de uma colheita na presença do dono da plantação, quando haverá alegria, júbilo, partilha. Somente ele poderá separar o bom fruto do mau. Mas agora, diz Jesus, enquanto aqui estamos (cf. 13.30), “deixem que o joio e o trigo cresçam juntos, até o fim [...] até a colheita”. Quando Deus de fato governar o mundo em seu reino, ele poderá emitir julgamentos. Ou seja, na comunidade, na vida, não há perfeição, não há somente justos. Deixem que as pessoas justas e pecadoras vivam juntas, acolham os que sofrem por suas dores (separação, envolvimento político, com drogas, agentes e vítimas de violência e tantas outras situações). Assim como na “igreja” de Mateus, lembremos que antes de ser rotulados por pertencer a esse ou àquele grupo, as pessoas são seres humanos, amados por Deus, o dono da plantação, que age com paciência, misericórdia, amor. Enquanto o dono da colheita não vem, nossa preocupação é espalhar a semente boa, não o inço, que se expressa na maldade, egoísmo, julgamento fácil, individualismo, falta de amor e misericórdia, discórdia, divisão, hipocrisia, desavença. Frente ao inço não cabe o ditado “olho por olho, dente por dente”, pois a ação da vingança faz o trigo se igualar ao joio. Temos a tarefa de denunciar o joio e reforçar o trigo, confiando que, no momento oportuno, serão separados. A colheita acontecerá sim, mas não sabemos quando. A realidade do juízo é real. Cabe a nós vigiar, orar e trabalhar para que a semente boa seja mais abundante, confiar que o inço poderá ser transformado pelo dono da plantação em boa semente. Essa é nossa esperança. A parábola mostra, de um lado, a misericórdia de um Deus paciente, que deixa viver lado a lado nessa vida os bons e os maus, pois ele aposta todas as fichas que pessoas iníquas mudarão de conduta. De outro lado, por conta de nossa impaciência, vemo-nos como os empregados que tinham o desejo de arrancar o joio: ficar livres de certas pessoas maldosas, tirá-las de

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nosso convívio, proibir sua entrada ou participação em nosso grupo parece ser sempre a solução mais fácil. Pois, assim como o trigo bom, não queremos misturar-nos com o joio. Mas, ontem como hoje, o reino de Deus vai trabalhando devagar e com muita paciência, sem alarde, como o grão de mostrada e o fermento. Essa visão nova do mundo e das pessoas, que faz brotar a esperança, somente é possível porque “o Espírito vem em socorro de nossa fraqueza, intercedendo a Deus a nosso favor, penetrando o mais íntimo dos corações” – conforme a Carta aos Romanos. Somente Deus sabe quem é joio e quem é trigo. Nesse Deus que acompanha seu povo em todos os tempos, “que é o primeiro, o último, e além dele não há outro” (cf. Is 44.6), confiamos pacientemente que destruirá todo mal que está dentro das pessoas. Eis a nossa esperança!

4 Imagens para prédica A velhinha e as sementes Um homem morava numa cidade grande e trabalhava numa fábrica. Todos os dias ele viajava cinqüenta minutos, de ônibus, para ir ao trabalho. No ponto seguinte ao dele entrava uma senhora, que procurava sempre sentar na janela. Ela abria a bolsa, tirava um pacotinho e passava a viagem toda jogando alguma coisa para fora do ônibus. A cena sempre se repetia. Um dia, curioso, o homem perguntou-lhe o que ela jogava pela janela. – Jogo sementes! – respondeu ela. – Sementes? Sementes de quê? – De flores. É que eu olho para fora, e a estrada é tão vazia... Gostaria de poder viajar vendo flores coloridas por todo o caminho. Imagine como seria bom! – Mas as sementes caem no asfalto, são esmagadas pelos pneus dos carros, devoradas pelos passarinhos... A senhora acha mesmo que essas flores vão nascer aí, na beira da estrada? – Acho, meu filho. Mesmo que muitas se percam, algumas acabam caindo na terra e com o tempo vão brotar. – Mesmo assim... demoram para crescer, precisam de água... – Ah, eu faço a minha parte. Sempre há dias de chuva. E se eu não jogar as sementes, aí mesmo é que as flores nunca vão nascer. Dizendo isso, a velhinha virou-se para a janela aberta e recomeçou seu “trabalho”. O homem desceu logo adiante, achando que a senhora já estava meio “caduca”. O tempo passou...Um dia, no mesmo ônibus, sentado à janela, o homem levou um susto ao olhar para fora e ver flores na beira da estrada... Muitas flores... A paisagem estava colorida, perfumada, linda. O homem lembrou-se da velhinha, procurou-a no ônibus e acabou perguntando para o cobrador,

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que conhecia todo mundo. – A velhinha das sementes? Pois é... Morreu de pneumonia no mês passado. O homem voltou para seu lugar e continuou olhando a paisagem florida pela janela. “Quem diria, as flores brotaram mesmo”, pensou. “Mas de que adiantou o trabalho da velhinha? A coitada morreu e não pode ver essa beleza toda.” Nesse instante, o homem escutou uma risada de criança. No banco da frente, uma garotinha apontava pela janela, entusiasmada: – Olha, papai! Que lindo! Quanta flor pela estrada... Como se chamam aquelas flores? Então o homem entendeu o que a velhinha tinha feito. Mesmo não estando ali para contemplar as flores que tinha plantado, a velhinha deveria estar feliz. Afinal, ela tinha dado um presente maravilhoso para as pessoas. No dia seguinte, o homem entrou no ônibus, sentou-se numa janela e tirou um pacotinho de sementes do bolso... Autor(a) desconhecido(a)

5 Subsídios litúrgicos Na confissão de pecados, devemos lembrar de situações que ferem e machucam as pessoas pelo julgamento que emitimos de forma verbal ou em pensamentos. Na oração final, interceder por justiça nas relações humanas, na comunidade e na sociedade civil. Sugestão de hinos: HPD 1 – 197, 184, 85, 165, 176, 130. Segue uma poesia que poderá ser usada na absolvição dos pecados: Sentir primeiro, pensar depois; perdoar primeiro, julgar depois. Amar primeiro, educar depois; esquecer primeiro, aprender depois. Libertar primeiro, ensinar depois; alimentar primeiro, cantar depois. Possuir primeiro, contemplar depois; agir primeiro, julgar depois. Navegar primeiro, aportar depois; viver primeiro, morrer depois. Autor(a) desconhecido(a) Bênção: Que a justiça corra como um rio, Que a verdade brote em nossa terra, Que haja esperança do que é novo. Que o Senhor nos fale enfim da paz! (Simei Monteiro – O Povo Canta, p. 12)

Bibliografia 234

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OVERMAN, J. Andrew. Igreja e Comunidade em Crise. O Evangelho segundo Mateus. São Paulo: Paulinas, 1999. LANCELOTTI, Ângelo. Comentários ao Evangelho de Mateus. Petrópolis: Vozes, 1980. CEBI-GO. Convém que se cumpra toda a justiça. Evangelho de Mateus. Série Encontros Bíblicos, n. 133. São Leopoldo: CEBI, 1999.

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11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: 1 REIS 3.5-12 MATEUS 13.31-33, 44-52 ROMANOS 8.26-39

27 JUL 2008

Marcia Blasi

Há uma pérola em cada tempo. Encontre-a. Então dê tudo que você possui para consegui-la. Joan Sauro

1 Introdução Estamos vivendo o longo período que chamamos de Tempo Comum ou Domingos após Pentecostes. Não é tempo de preparação para uma grande festa, como Natal e Páscoa. É um tempo que nos convida para celebrar cada semana; para viver com sabedoria cada dia, aprendendo a reconhecer e encontrar Deus nas coisas mais comuns e diárias. Annie Dillard diz: “A maneira que passamos os nossos dias, na verdade, é a maneira que vivemos a nossa vida”. Cada dia, Deus coloca pérolas em nossa vida. É preciso sabedoria para reconhecê-las. No texto previsto para a pregação deste domingo, Salomão pede a Deus sabedoria para distinguir entre o bem e o mal e para governar o povo com justiça. Também as parábolas de Jesus nos lembram que é preciso sabedoria para perceber o reino de Deus crescendo entre nós e para ter coragem de abrir mão de tudo aquilo que o mundo nos oferece para obtê-lo. Na Carta aos Romanos, ouvimos que é preciso sabedoria para nos entregar com humildade nas mãos do Espírito Santo, confiando que ele interceda por nós e nos ensine a orar. Viver e experimentar a sabedoria é uma experiência enriquecedora e transformadora. Em primeiro lugar, é preciso deixar-se tocar por ela, maravilhar-se com ela, para depois seguir seus caminhos.

2 Exegese A narrativa de 1 Reis 3.5-12 é classificada como uma estória de legitimação ou lenda1, que legitima a realeza de Salomão, ao mesmo tempo em que liga estreitamente Davi e Salomão, continuando assim o plano divino. 1

DE VRIES, Simon J. World Biblical Comentary, v. 12, p. 48.

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O texto revela claramente qual a tarefa do rei: servir ao povo que pertence a Deus. Vejamos alguns destaques nos versículos: V. 5 – Salomão vai a Gibeão para oferecer sacrifícios. Gibeão era um “lugar alto”, provavelmente um importante espaço de adoração antes da construção do Templo. No v. 4, descobrimos que Salomão já havia queimado ali mil animais em sacrifício. Em Gibeão, Deus aparece a Salomão e fala com ele num sonho, perguntando o que ele gostaria de receber de Deus. O sonho era uma das maneiras reconhecidas da revelação de Deus (cf., por exemplo, Gn 20.3; 28.12). Sonhos também poderiam ser usados para enganar o povo (cf. Jr 23.23-32). V. 6 – Salomão relembra a grandeza de Davi e a maneira pela qual foi escolhido para sucedê-lo. Salomão deseja continuar a aliança de Deus com Davi. V. 7-8 – Salomão reconhece que ainda é muito jovem e que não sabe governar, mostrando assim sua insegurança diante daquilo que se espera dele. Salomão não sabe como ser rei, nem como caminhar com Deus (como seu pai fizera). V. 9 – Salomão pede sabedoria para poder governar e para saber a diferença entre o bem e o mal. Em outras traduções bíblicas, Salomão pede por uma mente compreensiva e um coração aberto. Isso revela que Salomão deseja paciência e ouvidos atentos para poder entender verdadeiramente o que está acontecendo. “Saber a diferença entre o bem e o mal” simplesmente quer dizer saber tudo. V. 10-12 – Deus alegra-se com o pedido de Salomão e concede-lhe sabedoria e inteligência.

3 Meditação O texto relata uma conversa íntima entre Salomão e Deus, que acontece num sonho. Salomão consegue dizer no sonho aquilo que talvez nunca conseguiria dizer acordado e na frente de outras pessoas: ele não sabe governar; ele é inexperiente; ele precisa urgentemente de ajuda. Mesmo sendo jovem, Salomão parece entender que, se ele tiver sabedoria, tudo o mais vai acontecer. Salomão parece ter encontrado uma pérola enterrada. Ele arrisca tudo para consegui-la. A sabedoria que Salomão pede é como fermento: misturado à farinha da luta diária faz crescer uma nova massa, uma massa que vai virar pão e sustentar Salomão em meio às dificuldades. É preciso cuidado para não associar a sabedoria concedida por Deus a Salomão com as riquezas que ele conquistou. Tampouco se pode usar essa dádiva de Deus para legitimizar os abusos cometidos por Salomão. Se tivéssemos somente os capítulos 3-10 de 1 Reis, teríamos a imagem de um rei perfeito: sábio, preocupado com a situação do seu povo e responsável pela construção do Templo. Mas, no capítulo 11, o outro lado do reinado de Salomão aparece. Ele é descrito como déspota, um tirano que faz qualquer

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coisa para conseguir riquezas e luxúrias. Lawrence Boadt escreve: “Segundo a lógica humana, Salomão foi o mais bem-sucedido rei que Israel teve, mas pelos conceitos do Antigo Testamento ele, se não foi o pior, pelo menos está entre os piores” (Reading the Old Testament: An Introduction, p. 240). Nos dias atuais, sabedoria e esperteza são colocadas como sinônimos. É uma pessoa “sábia” aquela que enriquece rapidamente e com o menor esforço possível. Mas não é disso que o texto bíblico fala. A sabedoria verdadeira está intimamente ligada ao ouvir e à prática da justiça. Não existe sabedoria sem justiça, e não existe justiça sem a coragem de pessoas sábias em reconhecer, denunciar e anunciar a diferença entre o bem e o mal. Levei esse texto para ser estudado num grupo de OASE (Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas). A primeira reação das mulheres foi: “Pena que nossos governantes não façam isso hoje em dia. Como as coisas poderiam ser diferentes se cada pessoa que assume um cargo de liderança o fizesse com a intenção de governar com justiça para todo o povo”. O texto de 1 Reis 3.5-12 torna-se bastante atual na realidade em que vivemos. Desejamos ardentemente que nossos representantes governem com sabedoria e justiça; desejamos ardentemente saber distinguir entre o bem e o mal. Mas essa distinção não é tão simples. O que numa hora parece ser o bem, em outra é o mal. O que hoje parece mal, amanhã pode ser bom. De maneira nenhuma esse tipo de argumento deve ser utilizado para legitimar a tirania, o abuso e a violência. Mas nos ajuda a olhar o mundo e cada ocasião de mais um ângulo, levando em consideração a nossa experiência e a das pessoas ao nosso redor. Sugiro colocar o foco da prédica no tema da sabedoria. A sabedoria que, em termos bíblicos, é presente de Deus e não conquista humana.

4 Imagens para a prédica As parábolas de Jesus são bons exemplos de sabedoria. Recontá-las pode ser uma boa introdução à prédica. É preciso sabedoria para reconhecer o reino de Deus crescendo no meio de nós. A sabedoria chama-nos para nos aproximar de Deus. Ela nos ensina a encontrar Deus e receber Deus no meio de nossa vida diária. Há muitas piadas que nos são contadas sobre pessoas que encontram uma lâmpada mágica com um gênio preso. Quando libertado, o gênio concede a quem o libertou três pedidos. Esses pedidos geralmente são: muito dinheiro, carros luxuosos, mulheres ou homens “maravilhosos”. Nunca ouvi uma dessas piadas que revelasse uma resposta inteligente ou que não fosse individualista e egoísta. Será que é assim que todas e todos nós reagimos quando temos a oportunidade de pedir algo? Fico pensando se não agimos de forma parecida em nossas orações. Quando foi que pedimos sabedoria para guiar nossas vidas? Quando foi que pedimos sabedoria para escolher um bom companheiro ou companheira

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ou então para saber o momento certo de deixá-lo? Quando foi que pedimos sabedoria para decifrar o que passa por nosso coração, confiando que Deus nos deu inteligência e coração que sentem e sabem o que precisa? Quando foi que confiamos na sabedoria que Deus nos deu? É preciso tomar cuidado para não associar sabedoria somente a pessoas idosas ou bastante experientes. Se reconhecermos que a sabedoria é dada por Deus, então também precisamos valorizar a sabedoria das crianças e pessoas mais jovens. Também não podemos enfatizar demasiadamente a figura de Salomão. Salomão pede sabedoria a Deus e a recebe, mas o que ele faz com ela não é exatamente a vontade de Deus. Salomão não é um super-homem, nem tampouco o mais sábio de todos os homens. Salomão foi um grande líder de sua época, abençoado com sabedoria, mas que também se valeu dessa sabedoria para enriquecer e oprimir outras pessoas. Mas o que é essa tal de sabedoria? No AT, especialmente nos livros de Provérbios e Sabedoria (apócrifo), ela aparece como uma mulher numa relação dinâmica com Deus (hokmah em hebraico). Ela estava com Deus no momento da criação, é ativa na história, clama por justiça, nos chama para celebrar e para caminhar nos seus caminhos. Ela já estava com Deus na criação e continua a chamar o povo para chegar perto de Deus. Nesse tempo litúrgico, a sabedoria ajuda-nos a perceber que Deus está aqui. E aqui. E aqui. No trabalho e no descanso. No criar, no escrever, no pensar e no orar. Nas coisas mais comuns e simples do dia-a-dia: no caminhar, no comer, no amar. Deus está preparando um lugar e acompanha-nos ao longo do caminho. Sabedoria não é um atributo próprio, nem é um mero acúmulo de conhecimento. Sabedoria é dada por Deus a quem pede e ora por ela. Sabedoria é o que nos faz reconhecer a presença e ação de Deus na vida diária. A sabedoria não escolhe a pessoa por idade, gênero, raça, classe social, preferência sexual. A sabedoria vem a quem pede por ela e entrega-se a seus cuidados. Sabedoria é reconhecer na outra pessoa um irmão ou uma irmã. É ter ouvidos atentos para o nosso sofrimento e o sofrimento de outras pessoas. “A simplicidade”, dizia Gibran, “é o último degrau da sabedoria.”

5 Subsídios litúrgicos Oração do dia: Deus dos pais e das mães, Senhor de misericórdia, que tudo criaste com tua palavra e com tua sabedoria formaste o ser humano para dominar as criaturas que fizeste, governar o mundo com justiça e santidade e exercer o julgamento com retidão de vida, dá-nos a sabedoria contigo entronizada e não nos excluas do número de teus filhos e tuas filhas. Por Jesus Cristo, amém. (Adaptado de Sabedoria 9.1-4, Bíblia de Jerusalém)

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Oração de intercessão: Pelo amor de Deus, oremos pela igreja, pelo mundo e por todas as pessoas de acordo com suas necessidades. (Após cada petição, a comunidade responde cantando: Inclina, Senhor, teu ouvido, escuta o nosso clamor.) L – Espírito de paz e sabedoria, enche toda a terra com tua presença renovadora. Que as lideranças de todas as nações possam governar com maturidade e justiça. Que todas as nações possam desfrutar de tranqüilidade e que seus filhos e filhas sejam benditos. Que os povos e seus rebanhos e manadas estejam livres de moléstias. Que os campos possam produzir fruto abundante e que a terra seja fértil. Que a face de todos os inimigos possa se voltar em direção à paz. C – Inclina, Senhor, teu ouvido, escuta o nosso clamor. L – Espírito da unidade, oramos por tua igreja. Enche teu povo com toda a verdade e paz. Onde há corrupção, torne-nos puros. Onde há erro, corrige-nos. Onde há faltas, transforme-nos. Onde há injustiça, fortalece-nos. Onde há necessidade, sustenta-nos. Onde há divisão, aproxima-nos um do outro. C – Inclina, Senhor, teu ouvido, escuta o nosso clamor. L – Espírito de amor, zela pelas pessoas que passam a noite acordadas em vigília ou em pranto e guarda aquelas que dormem. Atende as pessoas doentes, principalmente [...] Provê repouso às pessoas cansadas, conforto às sofredoras e abençoa as que estão à beira da morte. C – Inclina, Senhor, teu ouvido, escuta o nosso clamor. L – Deus da criação, do plantio, da produção e da colheita. Assim como a semente se dispersa nos campos e terrenos férteis, semeia em meio a este mundo a tua palavra. Pela presença de teu Filho, nossa luz e vida, sustenta as sementes da fé para que elas cresçam fortes e sadias. Pelo poder de teu Espírito, ajuda-nos a ceifar uma colheita de fé sincera, unidade, justiça, paz e amor. Amém. (Adaptado do Livro de Culto de Orações, 9ª Assembéia do Conselho Mundial de Igrejas, Porto Alegre, 2006, p. 52-53)

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PRÉDICA: MATEUS 14.13-21

03 AGO 2008

ISAÍAS 55.1-5 ROMANOS 9.1-5 ou 1 CORÍNTIOS 11.17-22 Hans Alfred Trein

1 Introdução Nosso mundo está ameaçado de ir para o beleléu por causa da diferença entre um “l” e um “r”: a dominação traz faltura e a partilha revela a fartura. Com esse trocadilho popular quero animar os pregadores e as pregadoras a encarar a dificuldade de pregar sobre um texto tão conhecido. O desafio de qualquer pregação é transportar aquilo que se celebra para o cotidiano da vida. Textos como o nosso, entretanto, por causa de sua história interpretativa, requerem um trabalho ainda anterior: desconstruir o que já se estabeleceu como única interpretação possível. Somente então vem a tarefa de transportar a mensagem do âmbito religioso e espiritualizado para o cotidiano social, político, econômico e cultural. A partilha da fartura, narrada por Mateus 14, propõe algumas confrontações: Num mundo individualista, uma ação conjunta! Num mundo do cada um por si e para si, partilha! Num mundo da massificação, organização! Num mundo de miséria e fome, fartura! Qual é o evangelho, a boa-nova que fará a diferença e animará a comunidade a fazer a diferença na sociedade local – em outras palavras, a demonstrar sua eleição no projeto de Deus1. A fartura, anunciada por Isaías 55, cumpre-se por intermédio de Jesus na alimentação das cinco mil pessoas. A comunidade é corpo de Cristo, escolhida (ecclesia), capacitada (ela se alimenta de Cristo na Eucaristia) e enviada a fermentar toda a massa social com a proposta da partilha. É uma proposta para colocar o mundo atual e seu sistema de valores de cabeça para baixo: comprar sem dinheiro. “Isso vai contra nossa lógica, não pode funcionar, é coisa dessa gente de igreja: ficam nessa sonhadeira espiritual, romantizam as coisas, não entendem nada da verdadeira vida, da dura realidade.” Aqui cabe desconstruir. A experiência comunitária é mais eficiente do que abstrações, racionalizações e teorias. Entretanto, justamente no campo da experiência, é que a partilha é seguidamente frustrada pelas diferenças sociais e econômicas desde as primeiras comunidades, como descrito em 1 Coríntios 112. Apesar

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Essa ênfase é acentuada pelas leituras bíblicas de Isaías e Romanos.

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disso, há muitas pequenas experiências de partilha que podem animar a comunidade a permanecer fiel e a alargar o espaço para o projeto de Deus. A fartura de Deus é coletiva. O texto tem um forte apelo eucarístico. A Eucaristia celebra a partilha.

2 Exegese e eisegese Embora cada texto nos coloque o desafio de extrair seu sumo (escopo, na linguagem exegética), ele também é uma grandeza polissêmica, ou seja, pode ter muitos e diferentes significados, dependendo dos filtros de interpretação de quem olha. Nossos olhos, além de ser espelhos da alma, em sua função de enxergar são educados pelas experiências que vamos fazendo. Nossa história, nossa cultura e nosso lugar socioeconômico condicionam nosso olhar. Ao mesmo tempo em que extraímos sentidos do texto, também lemos sentidos para dentro do texto (exegese e eisegese). Encontra-se essa conhecida história de milagre em todos os evangelhos. Conclui-se daí a sua importância para as primeiras comunidades cristãs. Uma olhadela sinótica revela o seguinte: Em Marcos e Lucas, os discípulos estão voltando de seu primeiro envio missionário. Estão impressionados com tudo o que conseguiram realizar. Jesus recomenda-lhes descanso e retira-se com eles para um lugar ermo. Entretanto, muitos necessitados e doentes chegam na frente, “um rebanho sem pastor”, um povo sem governo. Estão indo e vindo de todas as cidades. Vieram atrás dos discípulos. Mateus apresenta sua narrativa num outro contexto. João Batista recém havia sido assassinado por Herodes. Jesus fica sabendo e quer ficar só. Os seguidores de João vêm agora até Jesus. Aumenta a massa de necessitados e doentes. Não é uma comunidadezinha qualquer. São cinco mil! A cena é trágica: Jesus e seus discípulos estão exaustos. Procuram um pouco de recolhimento e descanso. Mas a miséria é demais. As pessoas têm necessidades imediatas. Elas não podem esperar. A multidão não enxerga o cansaço de Jesus e de seus discípulos. A cena é comovente: Jesus vê essa multidão, não suporta ver sua miséria. Apesar de toda a exaustão, continua pregando e curando. Tão atarefados que estão, Jesus e seus discípulos nem percebem que se aproxima outro problema: está anoitecendo, a região é inóspita, não tem nada por perto, as pessoas precisam de algo para comer, de um lugar onde passar a noite... Os discípulos têm uma proposta: sugerem que Jesus encerre o expediente da tarde e que cada um se vire para achar o que comer e onde 2 O texto de Romanos é de lectio continua e sua ênfase é outra que a do evangelho para a pregação (ou seja: a eleição continuada de Israel, apesar da existência da ecclesia cristã). Se a leitura contínua estiver sendo feita conscientemente e dominicalmente na comunidade, recomenda-se mantê-lo como texto de leitura. Se isso não for o caso, recomendo sua substituição por outra leitura de epístola: 1 Coríntios 11.17-22.

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dormir. A resposta de Jesus é espantosa, inesperada: os discípulos devem dar-lhes de comer. Mas como? Se eles têm apenas cinco pães e dois peixes! Se imagino essa cena, ainda posso ouvir os discípulos dizendo: “Isso não dá nem para enganar o estômago!” Ou: “Trabalhamos o dia inteiro e ainda temos que entregar o nosso lanche!” Ou: “Se não nos alimentarmos direito hoje, amanhã não serviremos para nada! Saco vazio não pára em pé!” Ou: “Se não despedirmos esse povo agora, até que horas da noite ou da madrugada deve ir esse banzé todo! Jesus, tu mesmo não disseste que precisávamos de descanso?” Ou aquele discípulo convicto de sua experiência de vida: “Se lhes dermos de comer hoje, então também teremos que providenciar comida amanhã, depois de amanhã... Que reino de Deus, que nada! Esse povo está vindo apenas atrás do grande mago do pão!” Ou ainda aquele discípulo, pedagogo do desenvolvimento: “De modo algum podemos tornar essas pessoas dependentes de nós. Elas têm que assumir responsabilidades por si próprias, tomar sua história em suas próprias mãos!” Qualquer semelhança com o que se ouve hoje em nossas comunidades não é mera coincidência! Mas em que consiste o milagre?

3 Meditação Em que consiste o milagre? Deverá confrontar modos de fé ingênua e infantil com modos de fé mais amadurecidos e forjados pela experiência de vida. É preciso evitar que essas diferentes fés apenas se contradigam e se excluam. A pregação na forma tradicional deve convidar a comunidade para um olhar diferente do que o costumeiro3. A tarefa da pregação não é persuadir, convencer, mas “apenas” aquecer o coração. Considero que o milagre consiste na partilha que é desencadeada por Jesus com os pães e peixes e que vai se tornando realidade à medida que cada um vai desempacotando e comungando o que trouxe. Para ilustrar esses pequenos sinais do reino de Deus, quero lembrar experiências que provavelmente muitas pessoas já fizeram de diferentes formas4: • Um grupo de senhoras da OASE (Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas) levou frutas para garantir a alimentação num dia de visita à área indígena dos Xokleng em Ibirama (SC), pois não sabia se e o que haveria para comer. Pensaram em deixar para comer as frutas depois, para não passar pelo constrangimento de comê-las separadas na frente dos indígenas ou ter que reparti-las, pois seriam insuficientes. A pastora Cledes sugeriu que juntassem suas frutas à cozinhada dos Xokleng. Almoçaram juntas, e todas

Marcado pela idéia de que Jesus realizou aqui o milagre de multiplicar a quantidade de alimentos. Lembro ainda de: troca de serviços, carneação em rodízio, mutirões de preparo da terra, limpeza da plantação, colheita. 3 4

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ficaram satisfeitas e ainda sobrou comida. • O grupo de reencontro de casais em Erval Seco (RS) realizava mensalmente um encontro festivo. Para não sobrecarregar ninguém, cada casal deveria trazer um prato de comida ou sobremesa. Todas as vezes havia mais do que o suficiente para comer. Os pratos eram diversificados e se complementavam como se tivesse havido alguma coordenação misteriosa e invisível. Não lembro de termos tido a experiência de alguns ou muitos terem trazido apenas algo baratinho, para poder desfrutar das comidas mais sofisticadas que outros haviam trazido. O texto propõe um desafio de economia: • Especialmente os empobrecidos fazem a experiência de que cozinhar e comer em conjunto é mais econômico: seja Israel no deserto, ou famílias colonizadoras acampadas em Água Boa (MT) em 1976, ou os acampamentos de sem-terra hoje. Com uma galinha e alguns quilos de arroz num panelão ou tacho pode-se alimentar muita gente. Imagina o que se gasta de energia, tempo e custos para que cada família nuclear cozinhe as suas refeições; refeições comunitárias são bem mais baratas; qualquer grande família experimenta isso nas férias. • O clube de mães em Canoas (RS) reunia-se para fazer cobertas de restos de tecido, ler o evangelho e terminar a tarde com uma refeição comunitária. Para essa refeição alguém trazia uma xícara de arroz, outra uma cebola, outra um tomate, outra um pedaço de galinha, farinha de milho, tempero verde... Enquanto várias espicaçavam os restos de tecido, preenchiam e costuravam o acolchoado, uma das mães preparava a comida. No fim da tarde, uma refeição gostosa em conjunto - para muitas mães e suas crianças a única refeição quente do dia. Ali exercitavam os três esteios de uma comunidade cristã: trabalhar em comunhão, refletir o evangelho em comunhão, comer em comunhão, comungar, comunidade! • Fazer algo em conjunto com outras famílias neste mundo ocidental individualizado já é um pequeno milagre: um grupo de pastores pôs-se a construir um prédio em conjunto em Lajeado (RS); experimentaram que é possível chegar à tão sonhada moradia própria, mesmo com uma subsistência relativamente pequena; que é possível organizar-se, confiar nos outros e, em conjunto, construir mais barato do que individualmente. Noutro lugar, uma tentativa semelhante não deu certo por causa da desconfiança.

4 Imagens para prédica Penso que a pregação deve evocar imagens, cenas, experiências de partilha que os ouvintes já fizeram. Se a pregação for dialogal, abrir para que as pessoas compartilhem na hora da prédica dois ou três casos. Seria ideal falar com as respectivas pessoas uma semana antes. A prédica deveria animar a

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experimentar a partilha, pois racionalmente há obstáculos econômicos, sociais e culturais. Os próprios discípulos de Jesus já reagiram assim. Experimentar a partilha abriu os olhos dos discípulos de Emaús, enquanto a longa pregação de Jesus “... desde Moisés e os profetas...” apenas aqueceu seu coração. Acrescento uma experiência pessoal: Durante o período das chuvas no Mato Grosso, eu estava a caminho de uma comunidade a 280 km entre Barra do Garças e Cuiabá para celebrar culto. Como das outras vezes, passaria quatro dias com os membros da comunidade. Na viagem, a gente tinha que estar preparado para qualquer coisa. Ou as estradas estavam amolecidas e transformadas em grandes atoleiros de centenas de metros, ou os pontilhões de madeira não agüentavam o volume inchado de águas. Pois, tendo viajado mais ou menos um quarto do trajeto, chegamos numa ponte visivelmente torta. O motorista não quis arriscar nem com o ônibus vazio. A única alternativa era esperar que o ônibus da direção contrária chegasse do outro lado, baldear, passando a ponte a pé, e seguir viagem. Esse imprevisto transformou os viajantes repentinamente num ajuntamento de sina, mas apenas lentamente numa comunidade, como veremos adiante. Depois de algumas horas, meu estômago se manifestou. Lembrei-me dos três sanduíches que tinha empacotado para alguma emergência... Mas como desempacotá-los e comê-los na frente de todo aquele pessoal e das crianças... Ao meu lado e atrás de mim estava sentada uma família com cinco crianças. E se eles não trouxeram nada? Dividir daria uma bocada para cada um. Sim, e aí ainda havia todos os outros... Constrangedor! Sobreveio-me a idéia de sair e devorar meu lanche fora da vista dos outros. Lá fora começava a chuviscar... “Dividir não faz sentido aqui!” Eu ouvia novamente a minha razão argumentando. De repente, ouço aquele barulho típico de pacote de papel amassado atrás de mim. Alguma coisa está sendo desempacotada. Com a cabeça meio virada e com o canto do olho confirmo o fato. Logo, de trás, oferecem-me um pedaço de pão. Meus pensamentos me envergonharam. Um rastilho de barulhos de pacotes e bolsas sendo abertas toma conta do ônibus. Aqui e ali as pessoas alcançam algo por cima do corredor. Quase não havia pessoa que não tivesse trazido algo. Grande diversidade: pão, galinha na farofa, bananas, mangas, farofa temperada. Envergonhado, aceitei o pedaço de pão e também ofereci os meus sanduíches. Refletindo sobre essa experiência, eu procurava entender por que eu não compartilhara simplesmente os meus sanduíches com a família vizinha, quando me veio à lembrança essa história da alimentação das cinco mil pessoas. Não poderia ser que um processo semelhante de partilha tenha sido desencadeado por Jesus? Tendo essa experiência como pano de fundo, li novamente o texto. Dessa vez, chamou minha atenção que Jesus não multiplicara previamente pães e peixes para então distribuir as quantidades aumentadas, mas ele enviou seus discípulos com apenas cinco pães e dois peixes para o meio da multidão. O milagre aconteceu durante a partilha, ou melhor, a própria partilha foi e é o milagre! Com a iniciativa de Jesus de dar cinco pães e dois peixes para aquele povo todo, as pessoas começaram a compartilhar o que também elas tinham trazido.

A interpretação escolhida para o milagre certamente dirá muito a respeito de nossa fé e de nossas concepções sobre o agir salvífico de Deus neste mundo. Se ficarmos com a multiplicação mágica de quantidades, tendencialmente atribuiremos a Deus a responsabilidade por justiça e paz neste mundo

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e certamente nos perguntaremos muitas vezes: Como pode Deus permitir que tantas pessoas passem fome no mundo? Talvez também acreditemos que o problema da fome vem da falta de alimentos para seis bilhões de pessoas no mundo. Talvez então nos deixemos seduzir mais facilmente pela idéia de que se tenha que lançar mão da tecnologia da revolução verde ou da agroindústria hoje, com sementes geneticamente modificadas para aumentar as quantidades de alimento, ou que se deva esterilizar todas as mulheres pobres. Se ficarmos com a interpretação da partilha, admitiremos entrar em coresponsabilidade por justiça e paz nesse mundo. Então adotaremos a consciência de que Deus continua abençoando abundantemente a sua criação com bens e que o problema da fome não é a falta de alimentos, mas é a sua injusta distribuição. Então certamente pediremos a Deus que desencadeie em nós o milagre da partilha. Vamos entender-nos mais claramente como cooperadores e cooperadoras no reino de Deus, colocando com atos de partilha claros sinais contra os ditados de concentração, acumulação e domínio do dinheiro. Com a celebração da Eucaristia, a seguir, Deus quer dar mais uma vez um impulso para a partilha. Os doze cestos com as sobras recolhidas lembram que existem bens em abundância para todos. Deus mesmo se compartilha conosco, para que nós partilhemos com os outros. Vem, Senhor Jesus, sê o nosso convidado, e abençoa a nós e a tudo o que nos tens dado e desencadeia em nós a partilha. Amém.

5 Subsídios litúrgicos Oração ou canto (texto um pouco alterado): Senhor, damos graças a ti, pois em volta desta mesa renovas nossas forças para lutar contra a pobreza. Transforma nossa gula e nossa sede de abastança em um novo sentimento de justiça e de esperança. Senhor, que os nossos pratos numa terra dividida dividam-se algum dia numa terra reunida. Abençoa-nos agora nessa santa refeição, para que a terra inteira se alimente do teu pão. Oração de intercessão: Deus da graça e da misericórdia! Como nos tempos de Jesus, também hoje há multidões que andam para lá e para cá como ovelhas sem pastor. Por elas queremos interceder agora. Há muito o que fazer, e nem sabemos direito onde começar. É tudo tão complicado e difícil de entender. Os meios de comunicação não ajudam a esclarecer as coisas. Deus, rogamos-te, ouve a nossa oração. Tu nos dizes no evangelho: Dai-lhes vós mesmos de comer! Há o suficiente para todos. Aí vocês têm uma tarefa. Metam-se, exerçam influência sobre política e economia, aí mesmo em (nome do lugar), para que os bens sejam mais justamente distribuídos. Para isso existem governo, políticos e outras personalidades da vida publica... Por que nós pequenos temos que carregar também ainda esse fardo? Entretanto, Tu nos dizes: Dai-lhes vós

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mesmos de comer! Deus, nós rogamos, ouve a nossa oração. Nós confiamos em ti, que és forte em nossa fraqueza. Tu sabes que estamos sobrecarregados com muitos “tem que isso, tem que aquilo...” em nossas vidas. Por outro lado, não queremos empurrar a responsabilidade apenas sobre ti. Mostra-nos onde podemos participar com nossas capacidades e dê-nos a coragem de ir para a ação. Anima-nos a fazer experiências de partilha, para que experimentemos a boa-nova que Tu nos queres dar e nos reforcemos na certeza de que o teu projeto de salvação continua. Deus, nós rogamos, ouve a nossa oração. Amém. Oração eucarística: No prefácio se pode lembrar que a fartura e a justiça anunciadas por Isaías se cumprem em Jesus com a proposta da partilha celebrada nessa Eucaristia. Na anamnese podem ser lembrados especialmente o coração de Jesus para os miseráveis e seu cuidado especial para que todos tivessem o suficiente para comer. Oração de agradecimento depois da Eucaristia: Agradecemos-te, Senhor, porque Tu és bom e a tua misericórdia dura para sempre. Tu nos deste forças. Tu entraste em nós. Tu desencadeias em nós o processo da partilha. Agora, pois, permite que possamos sentir durante todo o dia esse acolhimento e essa intimidade contigo e nos despeça para o cotidiano, para com alegria e firmeza vivermos e anunciarmos o teu reino com a nossa vida. Amém.

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PRÉDICA: ROMANOS 10.5-15

10 AGO 2008

1 REIS 19.9-18 MATEUS 14.22-33 Martin N. Dreher

1 Introdução Os textos levam-nos, mais uma vez, ao centro do evangelho. O texto de Romanos é uma espécie de ponto de rotação ou ponto vertical da luta comovente do apóstolo, expressa nos capítulos 9-11 de sua epístola maior. Onde antes só havia abismos surge, de repente, chão firme sob os pés. Quando se pergunta como é que se consegue chegar a esse chão firme debaixo dos pés, apresenta-se-nos a pregação da palavra, que nos concede uma certeza inabalável. Essa certeza vem do centro do evangelho. O texto tem relação simétrica com Mateus 14.22-33, evangelho para o domingo. A mão de Jesus que segura o Pedro que está para afundar também proporciona chão firme debaixo de seus pés e dos pés da comunidade. Esse chão firme possibilita lá e cá a confissão de que Jesus é o Senhor. Crer e invocar o nome de Jesus. De igual maneira, 1 Reis 19.9-18 diz-nos como o Elias autoconfiante, após sua vitória retumbante frente aos profetas de Baal, vê o abismo abrir-se diante de seus pés, quando foge e chega ao monte onde começara a história de Deus com seu povo e onde ele chega pensando ser o último israelita. A revelação de Deus, distinta da de Baal, no “sussurro calmo e suave” põe-lhe novamente chão sob os pés, manda-o voltar pelo deserto para aprender que evangelho é podermos viver a partir da graça e da misericórdia de Deus. Não precisamos subir ao céu nem descer aos infernos para trazer Cristo (Rm 10.6 e 7); ele está próximo de nós.

2 Romanos 10.5-15 O que significa que não precisamos subir ao céu nem descer aos infernos para trazer Cristo, pois ele está próximo de nós, fica evidente quando verificamos a preocupação do apóstolo em relação a seu povo, Israel (Rm 9.1s.; 10.1). A questão fica mais candente quando, no capítulo 9, afloram as profundezas insondáveis da eleição ou da rejeição por parte de Deus. “Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer e endurece o coração de quem ele quer” (Rm 9.18). Deus é um oleiro que faz o pote de barro que pode tanto ser

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especial como de uso comum, expressar sua paciência ou sua ira (9.21-24). As fronteiras que separavam judeus e cristãos já foram superadas (Rm 9.24). De Deus depende o fato de encontrarmos ou não o caminho que leva a ele, de sermos crentes ou descrentes, de sermos salvos ou permanecermos na perdição. Em Deus está superada a distinção entre judeus e gentios; dele depende a salvação ou a perdição de todos e de cada um de nós. No que tange à fé, majoritariamente assumimos uma postura bastante serena (serena demais!), pois nos convencemos de que a salvação de todos é questão de honra para o querido papai do céu. Ou julgamos que salvação depende de nossa decisão em favor de Deus e que, nesse caso, rejeição da parte de Deus é algo que no fundo não nos atinge, pois podemos tornar a ajeitar as coisas. Aquelas pessoas que levaram a sério a questão da salvação, que refletiram profundamente sobre ela e que também sofreram em decorrência dela, essas pessoas tiveram que aprender o que significa afirmar que Deus é livre e soberano. O Deus que é livre e soberano não permite barganhas consigo, não se corrompe com ofertas de nossa parte; ele simplesmente pode aceitar ou rejeitar, sem mérito ou dignidade de nossa parte. Se assim não fosse, Deus só teria escolhido Israel e nós estaríamos fora de sua eleição. Paulo, contudo, descobriu que felizmente Deus é livre e que em sua liberdade também pôde acolher gentios, por amor a Jesus. Não nos cabe querer perscrutar o íntimo de Deus e querer entender por que Israel não aceitou Jesus e como foi possível que nós caíssemos a seus pés e o adorássemos como nosso Senhor. O que nos cabe é ocupar-nos com o Deus feito carne, com o Jesus crucificado, no qual estão contidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. A nós cabe aceitar a boa-nova evangélica que nos é anunciada, na qual o próprio Deus se nos oferece em Jesus Cristo e se compromete conosco. É disso que fala a perícope. Aquilo que necessitamos está muito próximo de nós. Temos aceitação na fé, e essa fé nos é presenteada na pregação.

3 Meditando Só depende de Deus estarmos assentados à sua direita, de podermos ser salvos. Só depende de Deus estarmos distantes de Deus e condenados. Por isso fé é um maravilhar-se por podermos crer. Descrença, em contrapartida, é motivo de inquietação, de pavor até ante o Deus que soberanamente elege ou rejeita, sem que possamos entendê-lo. O que vai acontecer com as pessoas que moram ao nosso redor, com as quais nos encontramos na rua, e que não querem ouvir falar de Jesus, por decisão de Deus? Por outro lado: O que será de nós que agora cremos, se Deus por vontade para nós incompreensível resolver transformar nosso crer em descrença? A pregação e o pregador deveriam evitar de cair nesse tipo de perguntas inquietantes, que certamente desviarão a atenção da comunidade reunida do principal, o evangelho. Função da pregação é animar e consolar.

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Contudo, não haverá consolo autêntico se fizermos de conta que o elemento chocante contido em Romanos 9 inexiste. Ali lemos a respeito da soberania de Deus, que pode eleger e rejeitar quando e como quiser. Quando elege alguém, não o faz porque tenha que fazê-lo. Ele também pode rejeitar, e nós não temos o direito de levá-lo às barras do tribunal para que preste contas de seus atos! (“Quem é você, meu amigo, para discutir com Deus? Será que um pote de barro pode perguntar a quem o fez: ‘Por que você me fez assim?’”.) Deus é livre. E se Deus deve prestar contas a alguém, esse alguém é ele próprio! Vamos deixar Deus ser Deus! Também aqui vale o primeiro mandamento. A afirmação da liberdade de Deus e de que ele não deve nada a ninguém leva, necessariamente, em nossas categorias de pensamento, à afirmação de que a humanidade está dividida em dois grupos de pessoas. Há algumas que são eleitas e não-rejeitadas; há outras que são rejeitadas e não-eleitas. Só vemos diante de nós aceitos e rejeitados. A bem da verdade, não os estamos vendo, pois de ninguém, nem mesmo de nós mesmos, podemos dizer o que Deus decidiu a respeito de uma pessoa. Isso é, necessariamente, decorrência da afirmação contida na sentença que tem a predestinação como pressuposto. Se isso é verdade, tanto mais deveria chamar nossa atenção o fato de que Paulo procura levar nossos pensamentos e certezas em outra direção. Mesmo que seja verdade que Deus é soberano e que devemos respeitar sua liberdade, Deus nem está interessado em separar os seres humanos nos dois grupos mencionados. Ele quer que todos sejam salvos. É disso que fala o evangelho. Seu desejo é uma relação saudável (shalom), de mútuo amor entre ele e nós. Essa é talvez uma das melhores definições para a justiça de Deus, para a justificação. Não se trata de conseguirmos a salvação, como pretendiam os judeus, “à nossa própria maneira” (v. 3), mas de sermos presenteados com a justiça de Cristo, com o amor de Deus que está em Cristo. A justiça de Cristo não é um alvo distante, um objetivo que devemos alcançar. Aquilo de que necessitamos está bem perto de nós. Não precisamos subir até o céu para buscar Jesus e também não precisamos descer aos infernos para retirá-lo de lá (v. 6 e 7). O esforço desesperado para conseguir obter um lugar sob o sol de Deus por meios próprios ou para conseguir certeza de que esse lugar nos está assegurado deve ser e é desnecessário, fútil e vão. Isso tanto vale para nós que somos piedosos como para nós que somos descrentes. No fundo, nós piedosos e descrentes somos medrosos, pessoas temerosas de perder a loteria da vida. A salvação que vem de Deus não é obtida através da “fezinha” que se faz na agência lotérica. Ir à agência lotérica para fazer negócio com Deus é burrice. É caminhada desnecessária. “A mensagem de Deus está perto de você, em seus lábios e no seu coração.” A coisa é simples: abrir os olhos, aceitar Cristo. Nada mais é necessário. Agora, veja bem: aceitar o Cristo que está próximo de nós. Talvez nesse ponto tenhamos as maiores dificuldades. Não é através do cumprimento da Lei que somos salvos, mas através do cumprimento da fé. Uma confissão ao Senhor e a certeza, no coração, de que Deus o ressuscitou dos mortos (v. 9). À confissão do coração (“Jesus é o Senhor”) não corresponde uma fé cardíaca,

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que não se expressa. No pensamento de Paulo, boca e coração correspondemse na confissão a Cristo. “A mensagem da fé” (v. 8) é a palavra confessada publicamente, não a fé mais ou menos intensa que está em nós. É a fé que confessa o que Cristo significa e fez por nós. A salvação não depende da intensidade de nossa fé. Isso significaria substituir a intensidade das obras pela intensidade da fé. A fé não pretende ser nada e não tem nada a apresentar. Ela não olha para si, não confia em si e não desespera por causa de sua fragilidade. Ela só olha para Cristo e adora: “Ó, como estás próximo de mim! Ó, como me amas! Sou todo admiração. Como podes te interessar tanto por mim? Puxa, valho tanto para ti, a ponto de haveres pago preço tão alto por mim? E, agora, apesar de tudo, tu me aceitas assim como sou? Que felicidade: é verdade que não me pedes mais do que me deixar amar por ti? Jamais fui amado tão desinteressada e incondicionalmente como por ti”. Nada é exigido de nós! É disso que também fala a confissão com a boca e com o coração. Nesse amor que vem ao nosso encontro, Cristo é nosso Senhor. É o ressurreto que vem ao nosso encontro. É vida, é salvação. As muitas discussões em torno da predestinação são perda de tempo. Basta ouvir o evangelho de Jesus Cristo, talvez na versão de Isaías 28.16: “Estou colocando em Sião uma pedra, uma pedra preciosa que eu escolhi, para ser a pedra principal do alicerce. Nela está escrito isto: ‘Quem tem fé não tem medo’”. Não há pessoas mais habilitadas ou menos habilitadas para receber o amor de Deus. As chances dos “gregos” não são menores do que as dos “judeus”. Todos estão incluídos quando Cristo realiza a ligação entre nós e Deus. A eleição não é algo que aconteça em algum lugar recôndito do coração de Deus. Ela torna-se realidade quando Jesus se dirige a nós. “Aqui não há distinção.” Cristãos piedosos e aqueles que só conseguem olhar através do buraquinho da cerca que há no fundo do quintal. Pessoas que levam uma vida normal e aquelas para as quais nada dá certo. Aquelas que já conhecem Jesus há muito tempo e aquelas que mal conseguem entender quem e o que ele é. A pregação tem que anunciar a todos que são importantes para Jesus, em primeiro lugar aos “pobres de espírito”. A salvação não acontece quando temos “vida interior” rica ou quando estamos na “plenitude da vida”. É mais simples: “Deus é o mesmo Senhor de todos e abençoa generosamente todos os que pedem sua ajuda” (v. 12). Paulo gosta de falar do Deus “rico”. Quem tiver problemas com a questão da predestinação ou quem julgar que é difícil encontrar Deus ou ter certeza da fé deveria saber que esses probleminhas não significam nada diante de um Deus que é tão rico. Também deveria saber que Deus tem mais o que fazer do que ficar matutando sobre quem deve ou não deve excluir da salvação. Deve, contudo, saber que Deus quer atrair todos porque ele é “rico” para “todos os que o invocam”. Permitam-me lembrar que, em nossos cultos, na liturgia, os que invocam a Deus dizem: Kyrie eleison (Tem piedade, Senhor). Também quem só consegue gemer deveria saber que Deus ouve gemidos. Basta aceitá-lo.

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Se compreendemos Paulo até aqui e se conseguimos entender o Deus que ele nos anuncia por causa de Jesus, permanece uma questão. É verdade que recebemos a salvação em fé. Mas como chego a ela? Esta pergunta, que é feita por muita gente, é a mesma que é feita por quem está na frente de uma vitrine. Vejo o urso de pelúcia, o fogão, o perfume, mas a loja está fechada e a carteira está vazia. Paulo ocupa-se com a questão a partir do v. 14. Ao escrever essas palavras, Paulo está pensando no culto da comunidade. É ali que se encontra Cristo. “A fé vem por ouvir a mensagem.” Há gente que pensa que se pode encontrar Deus em qualquer lugar. É verdade que Deus está em todas as partes: na natureza, na história, naquilo que nos concede e também naquilo que tira de nós. Em tudo isso, contudo, é e permanece abscôndito, oculto. E quem o procura aí só fica confuso. Parece que está assistindo um teatro de fantoches, mas sem entender o que está acontecendo por trás dos panos. No culto, estamos nos palco, envolvidos com o Cristo ressurreto e participando de sua vida, paixão e morte por nós. Até poderíamos desistir da pregação e dos meios da graça se Jesus Cristo não fosse Jesus Cristo. É o ressurreto, é o encarnado. E, por causa da encarnação, onde ele se deu a conhecer, ele só pode ser reconhecido nos meios da graça, na palavra externa e nos sacramentos. Para que possamos invocar o nome de Jesus precisamos da fé, mas a fé não se pega por aí, muito menos nas minhas forças internas. Ela brota de uma notícia que recebemos. A notícia recebida, contudo, vem por intermédio de um mensageiro, de um anjo, de um ângelo, de um carteiro, enviado e autorizado pelo próprio Deus, um apóstolo. Por seu intermédio o Verbo se faz carne. A pregação depende do Cristo vivo (“A fé vem por ouvir a mensagem e a mensagem vem por meio da pregação a respeito de Cristo”). Dessa pregação brota a aclamação: Jesus é o Senhor! O Cristo que vem a nós no culto da comunidade movimenta-se no “chão”, não está “no ar”, nem vem “do ar”. Vem através de “vasos de barro”, mensageiros. Pregar o evangelho nada mais é do que Cristo vir a nós ou atrair-nos a ele. “Fica em silêncio e deixa que ele aja em ti e te ajude. Assim Cristo será teu.” É o que Lutero poderia dizer. Não posso provar, como na demonstração de um teorema, que é o próprio Cristo que fala a mim na pregação. A palavra demonstra-se a si mesma, onde e quando for do agrado de Deus. Confio que a palavra de Deus vai demonstrar sua eficácia, cedo ou tarde. É uma faísca que bota fogo. É bom saber que aquilo de que necessitamos está bem próximo de nós, mesmo que no momento não tenhamos certeza disso. É um vento suave, mas chão firme.

4 Imagens Na meditação fiz uso de algumas imagens. Volto a enumerá-las e trago outras.

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Como imaginamos Deus? A Lutero apresentaram Deus como um Cristo assentado sobre o arco-íris, com as mãos calcadas sobre os joelhos, uma espada de dois gumes na boca e relâmpagos saindo de seus olhos: o Deus que castiga os bons e castiga os maus. Terrível. Como imaginamos Deus? Na natureza. Somente na natureza limpa ou também no riacho podre? Somente no sorriso da criança bem vestida ou também na criança maltrapilha. A primeira tem pais crentes, e a segunda tem pais pecadores? Como imaginamos Deus? Como no teatro de marionetes? Vida de fé é como visita à lotérica? Negócio de cristão é botar uma “fezinha” em Jesus por R$ 10,00, 15,00 ou 1.000,00. Será que ele nos abençoa de acordo com o que estamos dispostos a dar a ele? Quem tem mil camelos é mais abençoado do que quem tem apenas um? Deus é diferente.

5 Subsídios litúrgicos Oração de coleta: Senhor, Deus eterno e poderoso, ouve-nos: Concede-nos a fé que vence o mundo e que confia totalmente em ti. Deixa-nos reconhecer Jesus, o Salvador. Ouve-nos, por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo constrói teu reino neste mundo. Senhor, tu és princípio e fim dos tempos, de eternidade a eternidade. Amém. Oração de intercessão: Grande Deus, teus caminhos são insondáveis e teus milagres incomensuráveis. Teu Filho Jesus Cristo é o salvador do mundo que te perdeu. Teu Espírito é quem transforma nossos corações. Senhor, nós te agradecemos por dirigires tua mensagem a todas as pessoas neste mundo. Ninguém está excluído do ingresso em teu reino. Todo aquele que te reconhece como o Senhor que ressuscitou dos mortos está salvo. Experimentamos que essa fé é mais forte do que todos os poderes deste mundo. Muitas experiências parecem desdizê-lo, mas a fé vê o que permanece oculto aos olhos. Senhor, nós te pedimos, preserva tua igreja de cegueira e de discussões sem sentido. Sofremos por causa da divisão das confissões. Estamos, contudo, unidos pela palavra da Bíblia e pela fé em ti. Supera as valetas e as cercas feitas pelas pessoas por causa de seus acentos. Reúne todos em torno de tua mesa. Senhor, pedimos pela fé que te confessa perante o mundo. Dá-nos a fé que não tem medo dos poderosos deste mundo e que confessa a verdade em teu nome e luta pelo bem. Senhor, nós cremos, ajuda-nos em nossa falta de fé. Quando as dúvidas nos atacam, não conseguimos andar e nosso coração fica apavorado. Concede-nos, então, teu Espírito Santo para que tenhamos a

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certeza de que podemos vencer o mundo e chegar a teu reino. Senhor, és o fundamento de nossa vida. És nossa luz. Permite que brilhe em nós e neste mundo por causa de Jesus. Amém.

Bibliografia BARTH, Karl. Der Römerbrief. Zollikon-Zürich: Evangelischer Verlag, 1947. KÄSEMANN, Ernst. An die Römer (Handbuch zum Neuen Testament 8). Tübingen: J.C.B.Mohr, 1973.

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PRÉDICA: MATEUS 15.(10-20) 21-28

17 AGO 2008

ISAÍAS 56.1, 6-8 ROMANOS 11.1-2a, 29-32 Vera Weissheimer

1 Introdução A nossa perícope está inserida em um contexto de controvérsias sobre algumas aplicações da lei mosaica. O evangelista Mateus “sustenta categoricamente que Cristo, longe de abolir a lei, cumpre-a, isto é, confere-lhe plena validade. (...) ‘nem um só i, nem uma só vírgula da lei será omitida’ (Mt 5.18)” (Zumstein, p. 47). As controvérsias quanto à aplicação e interpretação da lei que permeiam os questionamentos dos fariseus e doutores da lei apresentam também um Jesus que reivindica para si a justa interpretação da Torá. As prescrições da lei, sobretudo para os círculos deuteronomistas, remontavam ao próprio Deus (Êx 18.15). A lei era, portanto, uma exigência incondicional de Deus a todos os membros de seu povo. Para o Novo Testamento, “Cristo é o fim da lei” (Rm 10.4). Essa frase tem duplo sentido: de um lado, o evangelho completa a lei, porque a lei foi o caminho pedagógico que conduziu a Cristo (Gl 3.23); de outro, o evangelho significa o fim da lei, isto é, a lei acaba conforme as palavras de Jesus: “A lei e os profetas prevaleceram até João; desde então é anunciado o reino de Deus” (Lc 16.16). Para o quarto evangelista, a lei foi substituída pelo mandamento de Cristo, sobretudo pelo mandamento do amor (Jo 12.50; 13.34; 15.12). A reinterpretação da lei ocorre em Jesus através de dois caminhos: a – A vontade originária do Pai – Mt 15.1-3: “Por que é que os seus discípulos comem sem lavar as mãos, desobedecendo assim os ensinamentos que recebemos dos antigos? E por que é que vocês desobedecem ao mandamento de Deus e seguem os seus próprios ensinamentos?”. b – O mandamento do amor – Mt 23.23: “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês dão a Deus a décima parte até mesmo da hortelã (...) mas não obedecem aos mandamentos mais importantes da lei, que são: o de serem justos com os outros, o de serem bondosos e o de serem honestos. Mas são justamente essas coisas que vocês devem fazer, sem deixar de lado as outras”.

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2 Exegese Ler o texto que antecede a perícope dá-nos uma clareza sobre os assuntos que permeavam a fala de Jesus no momento em que ocorre o encontro com a mulher cananéia (o evangelista Marcos – 7.24-30 – retrata-a como uma grega de origem sírio-fenícia). Nos v. 10-20, o que está permeando o discurso é a justa interpretação da lei, o ponto nevrálgico nas controvérsias entre Jesus e seus opositores. Quanto a esses questionamentos, Jesus esclarece de forma muito pedagógica: Não é o que entra pela boca que faz com que alguém fique impuro. Pelo contrário, o que sai da boca é que pode tornar a pessoa impura.(...) O que entra pela boca vai para o estômago e depois sai do corpo. Mas o que sai da boca vem do coração. É isso que faz com que a pessoa fique impura. Porque é do coração que vêm os pensamentos maus (...). São essas coisas que fazem com que alguém fique impuro. Mas comer sem lavar as mãos não torna ninguém impuro (17-20).

É no contexto dessa controvérsia entre dois pontos de vista – uma fé pautada pela lei humana ou uma fé pautada por leis que vêm do coração – que se dá o encontro entre Jesus e a mulher. A mulher não deveria estar ali: aos olhos dos “homens da lei”, ela não compartilha da mesma fé, portanto é indigna e pagã. Se no texto anterior à nossa perícope Jesus questiona quanto ao uso da lei, aqui o que está em jogo é quem são “os filhos e filhas de Deus” que têm acesso ao pão que está sobre a mesa (v. 26). É possível seguir duas trilhas de interpretação das reações de Jesus. A primeira é seguir o caminho de um Jesus que por meio de seu silêncio e aparente dureza de coração – “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” – põe à prova e depura a fé da mulher. Ele está se dirigindo “para a região de Tiro e Sidom”, cidades da Fenícia, região pagã. O que estaria ele querendo nessa região, sendo que no texto seguinte ele e os discípulos voltam através das terras de Sidom para o mar da Galiléia (Mc 7.31)? A segunda possibilidade é a que me provoca. Aqui me parece ser ele o questionado e surpreendido pela imensa fé dessa mulher insolente. Pensemos. Não poderia ele estar sendo aqui questionado pela mulher? Não poderia ele ter mudado de idéia através da postura de fé da mulher? Gosto de pensar que foi ela que, questionando a postura rígida da lei, faz valer a profecia de Isaías, de um Deus que se alegra com os estrangeiros que se aproximam para o servir – “porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos. Assim diz o Senhor Deus que congrega os dispersos de Israel: Ainda congregarei outros aos que já se acham reunidos” (texto de leitura). Essa mulher se coloca num lugar que não lhe é devido. Não tem nome. É de origem incerta, talvez cananéia, grega ou sírio-fenícia. Ela crê no poder desse homem e o enfrenta. Sabe com quem está falando, porque o chama de “Filho de Davi” (= Messias) e Senhor. Pela fé, essa mulher se apresenta como

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alguém que já crê, apesar de não estar no rol dos considerados puros, segundo a leitura que alguns fazem da lei. No projeto original de Deus, primeiro vêm as necessidades do povo escolhido (Jr 50.17-19); mas a fé da mulher que não era nem um pouco “pagã” e a bondade de Jesus superam qualquer privilégio.

3 Auxílio para a meditação Quando uma mulher fez Jesus mudar de idéia (partilha de uma meditação feita sobre o texto) Das histórias sagradas sabemos o nome de uma e outra rainha e de duas ou três profetisas. Mas de muitas mulheres que aparecem nas histórias bíblicas não sabemos o nome. Às vezes, dá a impressão de que elas aparecem porque eram teimosas, e por isso foi impossível deixá-las de lado. Uma dessas histórias é de uma mulher que nos é apresentada pelo evangelista Mateus como uma Cananéia. Essa vai ao encontro de Jesus, talvez na estrada, a caminho de Tiro e Sidom. Para Marcos, ela é grega de origem sírio-fenícia, que entra numa casa em que Jesus queria ficar sozinho (queria que ninguém o soubesse ali). Não sabemos o seu nome. Sabemos apenas que veio gritando para conseguir a atenção de Jesus. Sabemos pelos relatos bíblicos que, nas tradições da época, ser mulher já era visto como um fardo. Nas contagens não era sequer incluída. Veja, por exemplo, o que acontece na contagem daqueles que comeram na tarde da multiplicação dos pães – “os que tinham comido eram quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças” (Mt 15.38). Ela tem consciência de seu status ou da falta dele, mas se lança na direção daquele que era a última esperança para sua filha doente. Aos gritos, ela vai chamando a atenção das pessoas para sua dor. Nem os discípulos agüentaram! Devem ter pensado que era mais uma histérica correndo atrás de seu Senhor. Ela tem em casa uma filha muito doente, apresentada como uma menina que está possuída por espíritos estranhos. Estar possuído significava estar tomado por uma força sobre-humana que maltrata e faz a pessoa parecer um animal. Talvez seja o que conhecemos hoje por epilepsia. Algo assustador, uma força que joga no chão, faz revirar os olhos e dizer palavras desconexas. Era natural que, naquele tempo, relacionassem o que não entendiam a algo diabólico. “Senhor, tem piedade, minha filha está sendo atormentada por um demônio”, grita a mãe desesperada. Os homens que caminhavam ao lado de Cristo, os seus discípulos, parecem não ter muita paciência. Eles querem afastar aquela mulher de perto de seu Mestre. Mas é uma mulher persistente, corajosa. É teimosa e não se importa com o que aquela gente está pensando. Ela crê naquele homem e clama por sua ajuda. Essa mulher está sedenta por carinho, buscando um olhar que dê dig-

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nidade. Ela se aproxima esperando um gesto, uma palavra, um sinal. Jesus não a manda embora, mas silencia diante de seu pedido. A resposta dele à mulher é dura. Primeiro silencia, depois diz: “Eu vim somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel. Somente para o povo de Israel e não para gentios e pagãos”. Ela, no entanto, reconhece em Jesus a sua última esperança. Ela crê. Ela não desanima, insiste, arrisca tudo. “Senhor, ajuda-me!” Então Jesus é mais duro e diz: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cães”. A mulher em súplica arrisca tudo: “Então me dê as migalhas”. Nesse momento, aquela mulher anônima age em favor da filha com tamanha fé, que convence Jesus e fá-lo mudar de idéia. “Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feita a tua vontade.” Se antes Jesus sentia-se enviado somente ao povo de Israel, aqui ele abre um precedente e deixa-se convencer, seduzir pela fé dessa mulher. Nesse encontro com o sublime, quando podemos reclamar, chorar toda lágrima, para depois alegrar-nos novamente é que nossa parte humana encontra-se com a parte divina que há em nós, tornando-nos fortes na fraqueza.

4 Imagens para a prédica Independente do caminho de leitura que for escolhido, a imagem marcante da mulher é a da mãe que, com toda a sua força e fé, pede não por si mesma, mas pela filha doente. E por causa de sua perseverança é atendida.

Bibliografia ZUMSTEIN, Jean. Mateus – o teólogo. São Paulo: Edições Paulinas, 1990.

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PRÉDICA: ISAÍAS 51.1-6

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MATEUS 16.13-20 ROMANOS 12.1-8 Eloir Enio Weber

1 Introdução Palavras de esperança para um povo desesperançado! Eis a minha primeira impressão ao ler a perícope com a intenção de produzir um auxílio homilético para o PL. O texto de Isaías (Is 51.1-6) é direcionado a um povo exilado. Seu intuito é motivar as pessoas a erguer a cabeça e seguir confiando nas promessas de Deus. A promessa tem vinculação direta com a volta do povo a Jerusalém: a sua terra, a sua pátria, a sua religião, enfim, a sua vida. Libertação e esperança são sentimentos fortes, expressos nesse texto e colocados nos corações das pessoas exiladas. O texto da pregação vem acompanhado pelos textos de leitura, que nos auxiliam a trazer essa mensagem de esperança às pessoas de nossa comunidade neste final de agosto de 2008. O evangelho do dia (Mt 16.13-20) traz duas perguntas de Jesus: “Quem o povo diz que o Filho do Homem é?” e “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?”. A afirmação de Pedro diz: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. O Messias é a realização ampliada da palavra de esperança do Antigo Testamento. O Messias é libertação plena e esperança viva, encarnada pelo próprio Deus. A igreja, edificada sobre a base sólida da vontade de Deus, é hoje a promotora da esperança dele neste mundo. A palavra do apóstolo Paulo em Romanos (Rm 12.1-8) vem para fazer a relação da mensagem de esperança pela libertação do exílio com a nossa realidade. A igreja é um corpo que, por intermédio dos diferentes dons, coloca sinais de esperança no mundo. O texto chama pessoas a colocar seus dons a serviço e anima pessoas desesperançadas a erguer a cabeça e esperar vida e salvação na promessa da Nova Aliança. A meu ver, temos um cenário bem definido para o direcionamento da temática de toda a celebração. É um conjunto de três textos, que se complementam e nos auxiliam a trazer a mensagem para as pessoas que se reúnem em nossa comunidade, a fim de buscar, na palavra e no sacramento, fortalecimento para enfrentar a dura realidade na qual vivemos.

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2 Exegese 2.1 – O livro É consenso que o livro do profeta Isaías é, na verdade, uma obra de três profetas diferentes, que viveram em épocas distintas. Os capítulos 1 a 39 são atribuídos ao Isaías do século VIII a.C. Os capítulos 40 a 55 são de um profeta anônimo, uma “voz que grita” durante o exílio na Babilônia, por volta de 540 a.C, que é chamado de “Segundo Isaías” ou “Dêutero-Isaías”. Os capítulos 56 a 66 seriam obra de um discípulo que teria escrito depois do exílio, por volta de 520 a.C. Nosso texto, portanto, é parte do escrito do Segundo Isaías e retrata a época do exílio na Babilônia. Um livro com uma mensagem de fé para um tempo de depressão e crise. O autor levanta questões angustiantes para si mesmo sobre a eficácia de seu Deus em salvar o povo. Ele vai buscar em sua fé e nas recordações da história passada as raízes de sua esperança para hoje. Não é sem motivo que os autores do Novo Testamento utilizaram esse tesouro, no qual se descobre a ternura de um Deus com coração amável, que torna concreta a boa-nova – o evangelho – da libertação. Um Deus identificado com o sofrimento que traz a esperança na libertação. Não raras vezes, os cristãos viram na figura do servo sofredor os traços do Cristo sofredor, que foi torturado pelos pecados do mundo. 2.2 – O texto O texto em questão é composto de palavras de conforto na situação de exílio em que o povo vive. Vamos buscar na leitura do texto uma aproximação ao sentimento central que ele procura produzir na vida das pessoas. V. 1 – O texto inicia falando dos destinatários da palavra de esperança, ou seja, “vós, os que procurais a justiça, os que buscais o Senhor”. A busca pela justiça está estreitamente relacionada com a presença do Senhor. Deus é o próprio promotor da justiça. “Ouvi-me (...) Olhai.” É necessário ter os olhos e os ouvidos atentos às promessas de Deus, pois dos ensinamentos dele brota a libertação. O povo exilado não é um povo sem história, sem raízes, sem passado ou futuro. É um povo “cortado de uma rocha e cavado de um poço”. A rocha significa base sólida e proteção. O salmista fala, repetidas vezes, que Deus é uma rocha. O poço é esperança de vida. A vida continua e é assegurada. A secura do exílio não pode secar a esperança de retorno à terra querida. V. 2 – As pessoas exiladas são lembradas de que a esperança do povo de Israel tem vínculo com aquilo que Deus fez a seus antepassados. Abraão e Sara são citados como modelos de pessoas, que pela fé mantiveram a es-

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perança mesmo quando não havia mais indícios de que algo de bom estava guardado para eles. Na esperança e na fé mantiveram-se firmes, e ele os “chamou, abençoou e multiplicou”. V. 3 – A misericórdia e a piedade de Deus alcançam os filhos de Abraão e Sara em qualquer lugar ou situação. Não há ruína material ou espiritual que Deus não possa restabelecer. Não há assolação que Deus não queira transformar. A saída do exílio é descrita como um deserto transformado em jardim do Éden. O “jardim do Éden ou jardim do Senhor” é um novo começo. No princípio de tudo (Gênesis) havia o jardim Éden, que servia de morada para os seres humanos. O pecado humano acabou tirando a possibilidade dos seres humanos continuarem morando nesse jardim. O pecado das pessoas de Israel acabou culminando com o exílio, tirando o povo de sua terra, de seu jardim, de sua morada. A volta à pátria e o fim do exílio são comparados à volta ao paraíso. O Deus misericordioso dá uma nova oportunidade de recomeço, ou seja, o perdão de pecados é o passe para o paraíso. A piedade de Deus dá motivos de “ações de graças e som de música”, ou seja, gratidão, alegria e celebração. V. 4 – Deus chama o povo a ficar atento. A salvação aproxima-se, e o “restabelecimento do direito” é como uma luz que se espalha entre os povos. Na Bíblia, a luz sempre está em contraste com a escuridão. A presença de Deus é luz que dá clareza, discernimento e ilumina o que estava às escuras – o pecado sendo perdoado e o perdão transformando modos de viver. V. 5 – Se a volta do exílio é “justiça de Deus”, o exílio conseqüentemente é injustiça humana. Toda forma de escravização e perda de liberdade sempre é fruto da injustiça humana. No caso do exílio babilônico, o povo de Israel foi escravizado por suas próprias injustiças (pecado). Sem, de forma nenhuma, isentar os tirânicos babilônios de sua culpa, pois aquele que escraviza sempre é injusto e nada justifica a escravidão. O versículo assegura que a “salvação está próxima e os braços de Deus dominarão”. O braço é símbolo de presença, de poder, de domínio. O poder não mais estará nas mãos dos injustos, mas estará na justiça restabelecida e na presença do próprio Deus. V. 6 – A terra, o céu e os povos passarão, mas a salvação de Deus vai durar para sempre e a justiça de Deus não mudará. A esperança do povo não está vinculada a algo mutável ou mutante. O sofrimento no exílio é passageiro, mas a glória de Deus permanece. O texto, que no v. 3 apontou para a origem e a criação do mundo ao citar o jardim Éden, agora volta seu foco à eternidade, para frente. Deus domina desde o início até o fim. O tempo, a história e a eternidade lhe pertencem. A esperança do povo está alicerçada nessa realidade.

3 Meditação Quais são nossos exílios hoje? Viver numa metrópole é viver o exílio dentro da própria casa. É ter a liberdade limitada pela situação de violência. É

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viver com saudades dos “tempos de infância”, quando se brincava livremente sem preocupação, sem medo. O único medo era o do escuro, do Papai Noel e de personagens das estórias contadas pelos adultos. Não era medo de algo real, mas imaginário. Esse medo é diferente do medo dos dias atuais, pois o de hoje é real, cruel e limitador. Criar filhos sempre foi um desafio. Quais eram os medos de meus pais em relação aos filhos? O medo de que caíssem de uma árvore, que se machucassem jogando bola, que se descuidassem nas perigosas águas do rio, que adoecessem, que fossem mal-educados com alguém mais velho, que comessem frutas misturadas etc. Sou pai e vejo que, além de alguns dos medos citados que permanecem até hoje, há uma série de outras questões que não eram uma ameaça, mas hoje são. Eu cresci numa localidade do interior, perto de um rio. Não havia a preocupação se a água estava poluída. Os banhos de rio faziam parte da diversão dominical. O jogo de futebol era seguido de um banho de rio. As crianças de hoje vão crescer sem saber o que é tomar banho num rio porque a água é poluída. A vida abundante nos rios está sendo transformada em morte constante. São exílios que os próprios seres humanos criam; são exílios reais e ameaçadores. Virou moda falar do aquecimento global, da crise futura quanto à água potável e aos poluentes expelidos por todos os lugares. Esses assuntos dão uma insegurança muito grande, pois sabemos que a produção de riquezas está colocada sobre uma matriz de desmatamento, destruição e poluição. Os seres humanos, por outro lado, mostram-se incapazes de indicar caminhos alternativos, até porque os maiores poluidores não querem e não fazem força para achar alternativas. A situação financeira de boa parte da população é cada vez mais caótica e dramática. Somam-se a isso as necessidades financeiras cada vez maiores. A sociedade de consumo leva ao endividamento. A venda de sonhos de consumo tentam e cercam o indivíduo por todos os lados. A “solução fácil” apresentada pela verdadeira agiotagem legalizada – leia-se: financeiras – leva cada vez mais famílias para uma vida de exílio, de dependência e desagregação social. Por que estou enumerando tudo isso? Porque essa é a realidade para dentro da qual vamos trazer esta mensagem de esperança, proposta no texto de Isaías. As pessoas que vêm para nossas celebrações trazem tudo isso. Trazem todas essas marcas dos tempos atuais. A partir dessa vida, dessa realidade é que interpretam o que ouvem. As necessidades de celebrar a vida e a fé são desenhadas a partir dos sentimentos provocados no dia-a-dia de suas vidas. Para as pessoas do nosso tempo é que vamos traduzir essa mensagem. O povo de Deus teve a sua esperança e a sua fé alimentadas nessa promessa de libertação do exílio e a conseqüente volta à sua pátria. A mensagem do Antigo Testamento perpassa o evangelho. No texto do evangelho deste domingo, Pedro diz: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. A confissão de fé de Pedro traz uma nova configuração de esperança. A nossa confissão de fé

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traz consigo o comprometimento com a realidade, ou seja, os dons recebidos por Deus precisam estar a serviço (texto de Romanos). A diversidade de dons na comunidade perfaz o corpo de Cristo. A igreja foi munida para se fazer presente e ativa na vida das pessoas e na sociedade na qual é chamada a proclamar o evangelho.

4 Imagens para prédica Uma sugestão de caminho possível para a pregação: a) Perguntar para a comunidade: “O que é exílio?” – Explicar. b) Explicar o que foi o exílio na Babilônia e a situação do povo de Israel nesse contexto. c) Ler o texto de Isaías. d) Explicar o texto. e) Nós temos exílios hoje... Quais são? Onde buscar esperança? Para quem nós podemos anunciar esperança? f) Estória: Tenho a sugestão de uma estória que pode auxiliar na reflexão. Rubem Alves escreveu no livro Estórias de Bichos (Edições Loyola, 9. ed.), nas páginas 28 a 32, a estória “O pintassilgo e as rãs”. Conta a estória que as rãs viviam num poço e sempre viveram lá, desde os tempos mais remotos. A vida se resumia àquela lama, àquele poço. Fora dele, conforme a crença das rãs, não havia possibilidade de vida. Certo dia, um pássaro (pintassilgo) visitou as rãs e falou das belezas do mundo, e as rãs começaram a ter vontade de conhecer o mundo fora daquele poço. Aquilo provocou uma série de sentimentos e mexeu com a estrutura social do poço. g) Encerrar a pregação colocando ênfase na esperança que podemos ter em Cristo.

5 Subsídios litúrgicos A partir do dia 15 de agosto de 2008 estará disponível uma liturgia completa no site: www.salvador.org.br (link: Paróquia). Essa liturgia permanecerá até o fim do mês de agosto.

Bibliografia VAN DE KAMP, Peter. O Profeta Isaías. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1987. WIÉNER, Claude. O Segundo Isaías – O Profeta do Novo Êxodo. Lisboa: Difusora Bíblica, 1990.

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16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 16.21-28

31 AGO 2008

JEREMIAS 15.15-21 ROMANOS 12.9-21

Werner Wiese

1 Introdução Anunciar a palavra de Deus é uma tarefa desafiadora e gratificante, pois não sabemos quem virá ao culto. Desconhecemos a realidade específica de cada pessoa no templo. Esses desafios não nos desmotivam. São gratificantes, pois, já antes de prepararmos o sermão, há pessoas esperando por ele, porque necessitam da palavra de Deus como orientação para sua vida. Lembremonos de que não anunciamos uma palavra como todas as outras palavras, mas que é diferente de todas elas, porque é a palavra de Deus proclamada por boca humana. Aqui, o texto de Mateus 16.21-28, previsto para a prédica de hoje, tem suportes que podem ajudar a estabelecer elos de comunicação com as pessoas presentes no culto: as expectativas, os sofrimentos e a reação humana diante dos mesmos. O sofrimento humano das mais diversas origens e natureza é uma realidade muito presente nas pessoas. As demais leituras bíblicas para a celebração de hoje (Jr 15.15-21 e Rm 12.9-21) podem ser vinculados ao texto da prédica pelo viés do sofrimento, das aflições e das reações que causam.

2 Elementos exegéticos 2.1 – A composição do texto Ele é composto de duas subunidades literárias ligadas entre si. A primeira abrange os v. 21-23 e fala da morte e ressurreição de Jesus. A segunda subunidade inclui os v. 24-28 e trata, essencialmente, do preço do seguimento de Jesus. Em Mateus 16.21s., Jesus prediz pela primeira vez sua morte e ressurreição (Mc 8.31-33; Lc 9.22). Isso ocorre mais duas vezes de forma explícita (Mt 17.22-23 par; Mt 20.17-19 par). Em Mateus, também há indicações indiretas à morte e ressurreição (por exemplo: Mt 12.14; Mc 3.6; Mt 12.38-42). Portanto, morte e ressurreição são núcleo inerente ao ministério de Jesus de Nazaré.

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16º Domingo após Pentecostes

2.2 – O contexto literário É importante observar que o texto não está solto no ar, pois ajuda a entender o impacto dele sobre as pessoas diretamente envolvidas: os discípulos, com destaque para o nome de Pedro. No texto precedente, Jesus pergunta a seus discípulos: “Mas vós... quem dizeis que eu sou?” (v.15). Pedro – porta-voz dos doze – responde sem hesitar: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (v. 16). Essa é a mais precisa definição e confissão teológica a Jesus Cristo feita por alguém no evangelho (Jo 6.68-69). Ela é confirmada por Jesus como revelação de “meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17) e é acompanhada da mais profunda promessa feita a alguém na terra (Mt 16.18-19). Imediatamente após o texto para a pregação, Mateus traz o episódio da transfiguração, no qual a realidade de Deus irrompe de forma extraordinária na realidade humana. Portanto o texto da pregação é sustentado pela realidade da revelação. 2.3 – Vínculos internos “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário... sofrer...” (v. 21). Essas palavras provocam uma reação em cadeia: Pedro protesta com veemência (v. 22). Jesus, por sua vez, contrareage com palavras fortíssimas: “... Arreda, Satanás!” (v. 23a). Arreda (opisô moy) é linguagem de chamamento ao discipulado (Mt 4.19). Ademais, as duas subunidades literárias (v. 21-23 e v. 24-28) estão estreitamente ligadas entre si pelo advérbio “então”. Ligação semelhante acontece entre o texto da confissão de Pedro e nosso texto: “Desde esse tempo” (v. 21a). Portanto o advérbio “então” sugere que os v. 24-28 surgiram a partir do protesto de Pedro contra o sofrimento de Jesus. 2.4 – Destaques teológicos a – Falar do caminho à cruz e da ressurreição é iniciativa de Jesus: “Começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos...” Por trás do “mostrar” está a realidade teológica do servo sofredor do Senhor (Is 42.1s.; 53.1s., especialmente v. 10; Os 6.2. Cf. Lc 24.44-46). A expressão “que lhe era necessário” destaca que o destino de Jesus não é mero resultado de um processo político da época. Por trás de seu ministério está a necessidade de Deus (Jo 4.4) para salvar a humanidade do círculo vicioso do maligno e da violência. Esse círculo se vence fazendo o bem. Aqui Romanos 12.9-21 é esclarecedor. b – O protesto de Pedro. A mesma boca que confessa “Tu és o Cristo...” profere o diametralmente oposto à necessidade de Deus no ministério de Jesus. c – “Arreda, Satanás” realça que a boa intenção de Pedro periga tornarse motivo de tropeço (skándalon) para Jesus: Pedro – o portador da promessa (Mt 16.18-19) – incorpora a forma do tentador. Jesus opõe-se a essa voz com o mesmo ímpeto com que se opõe à voz do tentador em Mateus 4.1-11, especialmente o v. 10. Pedro é recolocado na condição de seguidor; Jesus não

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o deixa na condição de condutor do discipulado (v. 22). d – O seguimento a Jesus (v. 24-28) difere da lógica da vantagem: “Ganhar o mundo inteiro” (cf. Lc 9.57-62).

3 Meditação do texto Entre a confissão de fé proferida em comunidade no culto e a realidade do dia-a-dia existem enormes tensões. A reta confissão de fé não é garantia para sucesso e expectativas correspondidas. Os embates da vida – decepções, sofrimentos inesperados, problemas existenciais – podem tornar-se provas perigosas para nós mesmos. E pior: nós podemos tornar-nos perigosos para nossos semelhantes. Somos tentados a usar a fé cristã para colocar Deus diante da carruagem de nossas imaginações, piedosas ou não. Naturalmente, fazemos isso com as melhores das intenções. Mas é aqui que reside o perigo: nenhuma intenção, por melhor que seja, é capaz de transformar um erro em algo certo, uma mentira em verdade. A pior das tentações é aquela que vem da boca de gente amiga. Carecemos da correção de terceiros. A palavra de Deus chama-nos de volta ao nosso lugar: seguir a Jesus e não correr na frente e conclamá-lo a vir atrás. Perguntas: 1) Como viver a fé em Jesus Cristo à vista da moda da fé? “Ter fé” virou status, é negócio que faz funcionar tudo. 2) Como viver a fé em Jesus Cristo à vista da indiferença da fé? A fé em Jesus Cristo tornou-se irrelevante sob nossos olhos. As questões fundamentais do dia-a-dia são decididas muitas vezes a bel-prazer, como se elas nada tivessem a ver com o ser cristão. 3) Como viver a fé em Jesus Cristo à vista de tantos sofrimentos e injustiças? 4) Que preço estamos prontos a pagar para viver a partir do evangelho que rompe o círculo vicioso do mal e da violência? Não deveríamos fugir dessas indagações nem omiti-las às pessoas que vêm à casa de Deus a fim de receber orientações para viver.

4 Imagens para a prédica

Um conhecido provérbio diz: “Quem avisa amigo é”. Ou: “Prefiro um adversário que me diga a verdade a um amigo que a omite”. Esses provérbios podem ajudar a construir a ponte entre o texto e a convivência humana na comunidade e fora dela. Procuremos identificar amigos no texto e dizer quem é amigo de quem. Ao abrir o jogo em relação a seus sofrimentos, ao alertar quanto às conseqüências do discipulado, Jesus é amigo de seus seguidores? Certamente Pedro quis ser amigo de Jesus ao tentar poupá-lo do caminho da dor. Como fica o provérbio “Quem avisa amigo é”? Dialogue entre a realidade retratada em Mateus 16.21-28 e nosso dia-a-dia. Para refletir: Só há um número

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o número um só uma certeza só um poder no meio das inumeráveis conchas. Uma confissão e uma bandeira uma coragem e um só amor só há um número não obstante a multiplicação. Ao amar nego o amor a minha negação é minha afirmação. Ao trabalhar esqueço o amor e ao despedir a vida a recupero. Ao amar me desencontro e ao me negar no meu trabalho vejo que sou apenas mão e ato falho. (Jaci Maraschin. Rastro de São Mateus. São Paulo, 1998. p. 69, 71)

5 Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Senhor, nosso Deus, dirigimo-nos a ti porque tu nos convidas para tal. Porém reconhecemos e confessamos que a motivação com que nos voltamos a ti nem sempre está isenta de interesses próprios. É-nos difícil reconhecer e aceitar tua vontade. Vivemos centrados em nós e usamos o teu nome para proveito próprio. De fato, não te amamos de todo o coração, de toda a nossa alma e com toda a nossa força e nem nosso próximo como a nós mesmos. Pecamos em palavras e ações e nos apropriamos indevidamente da tua criação. Pedimos-te, Senhor, não nos deixes seguir o nosso próprio caminho, mas atrai-nos de volta para ti, perdoa-nos e abre um novo espaço para vivermos

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na tua presença e aprendermos a seguir-te todos os dias de nossas vidas. Kyrie eleison! Amém. Oração da coleta: Senhor, tu vieste a este mundo e sofreste não só como nós, mas sofreste na cruz por nossos pecados e nos chamas para te seguir. Agradecemos-te que não precisamos andar na escuridão de nossos próprios caminhos, mas podemos andar na tua luz. Ajuda-nos a colocar tudo o que somos e temos na tua presença. Amém. Oração de intercessão: Senhor, nosso Deus, agradecemos-te que nos encorajas a interceder também pelos outros. Pedimos-te por tua igreja, espalhada sobre a face da terra, de modo especial rogamos pelas comunidades que vivem como minorias em situações precárias e sob ameaça de vida. Chama, capacita e guarda obreiros e obreiras da tua igreja no mundo inteiro e na IECLB. Intercedemos pela nação brasileira e suas autoridades. Concede-nos dirigentes tementes a ti, cientes de suas responsabilidades públicas e sábios para legislar e governar de modo que a vida seja respeitada em todos os seus níveis. Senhor, olha pelas pessoas em nosso município e olha com misericórdia por nossa comunidade, que nos acolhe e na qual somos servidos e aprendemos a servir a ti e às pessoas. Assiste os enfermos e enlutados... Senhor, tudo mais que nos move e comove expressamos com as palavras que Jesus Cristo nos ensinou a orar: Pai nosso ... Amém.

Bibliografia

BORN, A. van den. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Petrópolis: Vozes. SPELLMEIER, A. I. Meditação sobre Mateus 16.21-26, in: Proclamar Libertação 21, p. 223-228.

17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

DIA DA PÁTRIA DANIEL 6.25-28 Mateus 6.9-13 1 Pedro 2.13-17

Ezequiel 33.7-11 Mateus 18.15-20 ROMANOS 13.8-14

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18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 18.21-35

14 SET 2008

GÊNESIS 50.15-21 ROMANOS 14.1-12 Dari Jair Appelt

1 Introdução O perdão liberta! Este pode ser o tema do culto. Com base nos textos sugeridos, constatamos que a misericórdia de Deus, quando reconhecida, traduz-se em gestos de amor, desperta solidariedade e esperança. Além de nos oferecer seu perdão, Deus quer cuidar da gente e orientarnos na vida, para que possamos respeitar o próximo, o diferente e partilhar as dádivas de sua criação. A mudança de mentalidade e um coração sensível à necessidade e situação de outra pessoa não se dão por decreto, mas quando reconhecemos nossa condição de devedores e devedoras diante de Deus e a dimensão de seu amor revelado na cruz. Saber perdoar é uma arte que se aprende quando nos livramos de coisas e idéias que o sistema econômico tem ensinado e imposto: tirar proveito da situação, levar vantagem em tudo. Gênesis 50.15-21 lembra-nos de que, quando se retribui maldade com perdão, consegue-se tocar o coração. A ação de Deus neutraliza a maldade e devolve esperança. Romanos 14.1-12 contém conselhos para não julgar outros irmãos na fé e sim respeitar sua opinião. Não podemos impor conceitos e valores porque há hábitos e costumes próprios de determinadas culturas e de opções pessoais. O respeito ao diferente é o que o apóstolo Paulo recomenda. Os textos apontam para atitudes coerentes por parte de quem descobriu que a graça de Deus não tem preço e que retribuir o perdão da dívida com gratidão e amor ao igualmente necessitado de perdão e oportunidade de viver liberto da culpa agrada a Deus. A sua palavra capacita-nos a ser e agir conscientes de que a graça transforma e liberta, promove reconciliação, inclusão e comunhão.

2 Exegese A parábola do empregado “safado” é um recurso pedagógico usado por Jesus para esclarecer seus discípulos a respeito do jeito divino de ser, jeito esse que seus amigos (filhos e filhas de Deus) podem aprender. O cap.

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18º Domingo após Pentecostes

18 traz-nos a pergunta sobre “quem é o mais importante no reino dos céus”. Os discípulos ainda têm muitas dúvidas, mas Jesus lhes dá a liberdade para externá-las e então, com habilidade de mestre, responde com um exemplo. Ele apresenta uma criança para que aprendam a lição: humildade e sinceridade são essenciais para quem deseja integrar o reino dos céus; a mudança de vida é necessária porque a natureza do ser humano foi contaminada. As pessoas adultas já se deixaram corromper por ofertas e valores que não correspondem ao sonho do Criador! O acolhimento e o cuidado, a proteção dos pequeninos, a prevenção e a resistência diante do que pode gerar culpa devem ser uma preocupação constante da comunidade. As tendências para o pecado devem ser reprimidas com medidas radicais, para que não dominem quem anseia pela vida eterna. Mas esse Deus que alerta é também o que cuida, vai em busca do pecador. O seu jeito de ser traduz-se na parábola da ovelha perdida. Jesus orienta seus discípulos a respeito de formas para reconciliar pessoas, como aconselhar, agir e encaminhar o assunto. Ele lhes concede poder para avaliar (permitir ou não) e interceder, promete sua companhia. É nesse contexto que Pedro se manifesta a respeito de quantas vezes se deve perdoar. Ou seja, onde estão os limites e como fazer uso do poder concedido de perdoar pecados. É mais fácil administrar deveres quando há regras. Com base numa prática conhecida entre judeus, Pedro quer saber qual a nova regra e até sugere perdoar sete vezes. Jesus, que já havia ensinado a respeito do assunto em outra oportunidade, recomendando inclusive amar inimigos e pedir perdão porque há o compromisso de perdoar devedores (petição da oração sacerdotal), multiplica as vezes sugeridas por Pedro, para que ele se toque de que “perdão” não é algo que se possa regular. Para exemplificar e produzir a consciência do que o amor é capaz, conta a parábola do empregado mau e finaliza deixando um alerta: Deus não vai deixar passar batido ou simplesmente relevar a safadeza. Quem não tem um coração grato e consideração por seu semelhante vai ter que enfrentar sua ira e as conseqüências de sua maldade. O perdão abre portas para um novo relacionamento, mas, no sistema em que vivemos, quando falamos em números, temos que ter o cuidado de não confundi-los com a graça de Deus (que não se pode calcular em valores monetários, apenas acolher com humildade e compartilhar por conta da gratidão e respeito à vida).

3 Meditação Como falar de Deus, seu perdão e bondade num sistema sem coração? A comunidade é integrada por gente de diversas etnias e classes sociais, com uma grande diversidade de dons, mas também de profissões e ocupações distintas. Ali se encontram patrões e empregados, empresários e funcionários, pessoas com um bom emprego e também sem emprego, donas de casa e domésticas, educadores e alunos, profissionais das mais diferentes

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18º Domingo após Pentecostes

áreas, pessoas de todas as idades, gente em busca do pão de cada dia, gente sofrida e também gente numa situação confortável, aposentados, carentes e abandonados... Na sociedade não é diferente. Vivemos numa economia de mercado em que poucos acumulam e para muitos falta até o essencial para uma vida digna. A parábola do credor pode até gerar certo constrangimento nessa realidade em que crescem a inadimplência e a corrupção. Por isso não convém aprofundar a reflexão sobre valores monetários, na tentativa de calcular o tamanho da dívida de um ou outro empregado ou iniciar uma discussão sobre quem tem mais ou menos direitos. Importa reconhecer que todos, indistintamente de nossa condição econômica, somos devedores junto de Deus, porque o sangue derramado por Cristo na cruz é de incalculável valor. Todos carecemos da graça de Deus para nos recuperar de constantes fracassos. É o jeito de Deus, sua misericórdia, que deve sensibilizar a gente e ensinar-nos como tratar o irmão ou a irmã “em dívida” conosco. O perdão liberta e resulta em gratidão e alegria. A intransigência, o ódio e o egoísmo atraem repreensões, sentimentos de culpa e sofrimento para todos os envolvidos na questão. Se na ótica do mercado o perdão não existe, porque o sistema não seria mantido, no reino de Deus a economia tem outros princípios. O perdão é um dos fundamentos dessa nova economia. O perdão cria uma nova relação humana (Ilo Utech no PL XVIII, p. 233). Perdão gera mais vida porque promove reconciliação e comunhão, gratidão e compromisso diaconal. A cultura de sonegação e de exploração “campeiam juntas pelos pagos deste país”, gerando revolta e sofrimento, indignação e frustração. Pequenas dívidas são cobradas à força. Pessoas são mortas por alguns trocados, por um celular e até um par de tênis. Enquanto corruptos e sonegadores de impostos investem em grandes áreas de terras, mansões, carros importados, jatinhos e enviam dinheiro para paraísos fiscais, temos brasileiros e brasileiras sem terra, sem teto, sem pão, sem saúde, sem chances de vida, sem esperança. Temos uma classe política preocupada em usar o poder para garantir seu futuro e seus interesses e não está nem aí para quem recebe um salário mínimo ou nem isso, é indiferente aos sofridos que essa sociedade faz e ao povo que está com a morte decretada. Diante de tudo isso, constatamos que a vontade de Deus, o reino dos céus e as lições de dignidade e solidariedade ensinadas por Jesus só conseguem encontrar eco entre aqueles que clamam por compaixão e oportunidades para trabalhar e viver com dignidade. Como igreja, sentimo-nos impotentes diante dos problemas sociais e do sofrimento do povo. Conformamo-nos com alguns gestos solidários de pessoas de boa vontade que se deixam atingir pela palavra e envolver na graça de Deus. Acomodamo-nos em nossas comunidades, fazendo do evangelho um analgésico e tentando agradar a todos com a prestação de serviços religiosos, falando do amor de Deus como Pai e Mãe, como se o compromisso com a verdade e a vida fosse coisa do passado. Penso que, por amor à verdade e à boa-nova de que o perdão liberta, precisamos arriscar mais. Viver sob a

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18º Domingo após Pentecostes

graça de Deus é também cuidar de sua criação e encontrar meios de resgatar esperança, investindo em mais sinais de vida. Devemos lembrar que o perdão liberta, promove reconciliação, mas também compromete com ações coerentes e com uma resposta grata e alegre.

4 Imagens “A importância do perdão” é uma mensagem interessante para ilustrar as conseqüências na vida de quem não quer ou não sabe perdoar. Até se poderia usar uma dinâmica com a comunidade. A cena pode ser representada usando o carvão como simbolismo para o pecado e a água para representar a graça de Deus, que liberta da “sujeira”. Um outro texto apropriado seria “Jogue a primeira flor”. Pode-se usar pedras para simbolizar o pecado e flores para o perdão. A comunidade tem a oportunidade de escolher o que quer fazer com ambos.

5 Subsídios litúrgicos Na chegada, todos recebem um pedaço de carvão ou pedras (de acordo com o que foi combinado). Acolhida: Lema da semana ou leitura do Salmo 25. 4-10. Confissão de pecados: Inicialmente, o oficiante lembra que todos nós somos pecadores e carecemos da graça de Deus, que estamos em dívida com ele, porque não conseguimos colocar em prática os ensinamentos de Cristo. Convida para identificar culpa e outros sentimentos que podem entristecer Deus e afastarnos da comunhão com ele e o próximo. Num segundo momento, pode-se cantar o hino 408 do HPD 2: Tem misericórdia de mim. O terceiro momento é dinâmico. Mexe com a comunidade ao ser convidada a andar e depositar o carvão ou a pedra sobre o altar ou sob a cruz e receber em seu lugar, das mãos das crianças do Culto Infantil que vão entrando durante o hino, uma flor em troca e como sinal da graça e do amor de Deus, simbolizando a vida. Ao entregarem as flores, as crianças dizem aos adultos: Paz seja contigo! Anúncio da graça: “A pessoa nunca é tão bonita como é ao pedir perdão ou ao perdoar alguém” (Jean Paul). Também se pode usar uma palavra bíblica. A comunidade agraciada canta Glória.

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18º Domingo após Pentecostes

Kyrie:

A comunidade é lembrada do sofrimento gerado por ódio, injustiças, violência, miséria, intransigência, corrupção e outros sinais de morte; reconhece limitações na busca por soluções e instalação da justiça e da paz, cantando: Tem piedade, Senhor. Oração do dia: A comunidade une-se em oração, pedindo que a palavra sensibilize e oriente na missão, fortaleça a fé e encoraje a pedir e oferecer perdão, motive a ir e qualificar relações com base no diálogo e testemunho da graça de Deus. Leituras bíblicas: Gênesis 50.15-21 – Quando se retribui maldade com perdão, conseguese tocar o coração. Romanos 14.1-12 – Quando respeitamos a opinião dos outros, abrimos as portas para o diálogo, para dar e receber conselhos e para evitar julgamentos. Mateus 18.21-35 – A palavra do Senhor dá o que pensar, questiona e desafia para uma prática coerente. Confissão de fé: HPD 1, n. 221 – Confiança. Oração de intercessão: Convidar a comunidade para verbalizar motivos de gratidão e depois cantar: Graças, Senhor, graças, Senhor, por tua bondade, teu poder, teu amor, graças, Senhor! Num segundo momento, as pessoas podem apresentar seus pedidos a Deus, seja em voz alta ou em pensamentos, e depois cantam: Inclina, Senhor, teu ouvido, escuta o nosso clamor. O oficiante conclui intercedendo pela paz entre as nações, pelo diálogo na família, por reconciliação, amizade e concórdia entre as pessoas, por gestos de solidariedade, consideração e respeito pela vida; louva a Deus por sua paciência e bondade e pelos ensinamentos de Cristo e conclui convidando para a oração sacerdotal: Pai-Nosso. Santa Ceia: Se houver celebração do sacramento, sugiro que, após a oração do Pai-Nosso, num gesto de paz e fraternidade, os membros troquem as flores e abraços, desejando-se a paz. Bênção: Após pronunciar a bênção, tendo lembrado o escopo da mensagem, o oficiante convida os presentes para a troca das flores ou então para cantar do HPD 2, n. 368 ou 377, motivando para a prática do perdão. Envio: Vão em paz e sirvam ao Senhor com gratidão e alegria. Amém.

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19º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: JONAS 3.10-4.11

21 SET 2008

MATEUS 20.1-16 FILIPENSES 1.21-30 Teobaldo Witter

1 Os textos bíblicos Estamos diante de textos que tratam de aspectos significativos e contextualizados da vida da comunidade cristã, sua organização, sua clausura e sua missão numa sociedade global. Jonas pergunta pelo sentido da profecia numa compreensão exclusivista e fechada de Deus. No texto, é importante observar a reação de Jonas diante da justiça de Deus. Jonas sente-se mal com o fato de ser mensageiro de um Deus que ama todos, sem distinção alguma. Prefere morrer a ver a bondade de Deus concretizar-se na aceitação dos pecadores penitentes. Conforme Jonas, a justiça é retributiva, isto é, ela retribui a cada qual conforme seu merecimento, partindo de critérios legais. A justiça de Deus, no entanto, é restaurativa, bondosa. Jonas não concorda com Deus, pois esse trata os ninivitas com bondade e misericórdia. Imbuído do espírito humano, que o move e alimenta nas relações sociais, a justiça vingativa, retributiva, Jonas nega-se a ser mensageiro de Deus em meio ao povo pagão, “que não sabe discernir entre mão esquerda e mão direita” (Jn 4.11). Está muito magoado com Deus por ele ser justo com os pecadores que se arrependem. O texto de Mateus tem o tema da bondosa justiça em comum com o livro de Jonas. Trabalhadores são contratados em horários diferentes. No fim do dia, recebem igual salário, conforme combinado com os primeiros. Aqueles que foram contratados por primeiro queriam mais do que os outros. Mas o patrão não é injusto. Sua justiça é diferente da justiça legalista, retributiva, meritória. Sua justiça é compassiva, bondosa e dá a cada um o necessário para viver. Em Filipenses, Paulo prega a respeito da importância do engrandecimento de Cristo Jesus no seu corpo, “quer pela vida, quer pela morte” (Fp 1.20). Diz que o morrer é lucro para ele. Mas, por causa dos frutos de sua pregação, está certo de que ficará e permanecerá com todos (Fp 1.25-26). Convida para “viver firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica” (Fp 1.27). Estamos diante de dois personagens que, embora ambos preguem nas cidades, têm compreensões diferentes: Jonas pede para morrer, porque não quer saber da graça e do perdão que Deus concede aos habitantes da cidade

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de Nínive. Paulo quer viver para continuar sua ação missionária em meio ao povo que “tem a graça de padecer por Cristo e não somente de crer nele” (Fp 1.29). O entusiasmo missionário de Paulo está ligado ao fato de Deus chamar pecadores ao arrependimento e que “a bondade de Deus conduz ao arrependimento” (Rm 2.4b). E qual é sua compreensão?

2 Localizando o texto Jonas é enviado por Deus para ir a Nínive, a capital assíria, uma cidade pecadora. Deve pregar a palavra do Senhor. A população da cidade é numerosa; é uma capital populosa. Jonas é enviado para dizer que Deus havia condenado a cidade à destruição. Nínive tem 40 dias para se arrepender de seus pecados. Depois disso, vem a destruição. Jonas entende que sua tarefa se reveste de complexidade. Ele tem medo de ser desmoralizado. Sabe que Deus é misericordioso e não quer a morte de ninguém. Sabe que Deus é puro amor. Seu coração é fonte de amor. Tal coração não suporta a morte. Sabe que, se Nínive se arrepender, Deus vai perdoar. E não vai destruir a cidade. Ele então ficaria desmoralizado, pois teria anunciado a destruição que não se cumpriria. Em sua visão fechada não cabe a idéia de Deus acolher uma cidade pagã e pecadora e tratá-la com amor. Com essa visão, vai pelo caminho oposto. Foge corajosamente, tendo uma postura indiferente diante da cidade de Nínive e opõe-se a Deus. Escolhe o caminho oposto ao indicado por Deus. Jonas esquiva-se de sua tarefa. Outros profetas também não queriam assumir a tarefa de anunciar a ação de Deus em meio ao povo. Moisés elencou desculpas para não ir. Disse que não sabia o nome de Deus, que ninguém lhe daria ouvidos, que era gago. Jeremias desculpou-se dizendo que não poderia ir porque era muito jovem. Não teria credibilidade. Assim outros profetas também apresentaram desculpas para não ir. Apesar das desculpas, todos foram enviados por Deus. Jonas é quem foi mais “cabeça-dura”, recusando-se a ir. Ele não diz: Eu não sei fazer. Sabe que as pessoas não vão ficar indiferentes ante a pregação da palavra do Senhor. Mas não quer nem pensar em misericórdia. Certamente ele já teve a experiência de que Deus faz acontecer, apesar da fragilidade do profeta. Mas ele temia que Deus não destruiria a cidade se o povo se arrependesse. Na experiência e visão dele, Deus tem um “coração muito mole”. Ele perdoa pecadores. E Jonas decide não ir. Pelo contrário, foi pelo caminho oposto. Seu intento é escapar “da presença do Senhor”. Embarcou num navio para Tarsis, para “longe da presença do Senhor” (Jn 1.3). Mas Deus o buscou no navio em alto-mar, no ventre do peixe, colocou-o em terra firme e o encaminhou para Nínive. Jonas 3.10-4.11 é a parte final do livro. Vem logo após a pregação de Jonas em Nínive. Deus havia colocado Jonas em terra firme e lhe dado a ordem: “Dispõe-te”. A palavra é clara. “Não é possível anunciar sem convic-

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ção e de má vontade. São necessárias firmeza e disposição. Dessa vez, Jonas não foge e não discute a ordem do Senhor; apenas obedece” (Immich, p. 54). Deus fala claro através da boca de Jonas: “Vocês ainda têm quarenta dias. Depois Nínive será subvertida” (Jn 3.4). A pregação de Jonas é convincente. Ele é dedicado no ministério. Sua mensagem tem credibilidade. Seu trabalho é eficiente e eficaz. Faz em um dia o que normalmente levaria três dias. A palavra do Senhor penetra fundo na alma e no espírito, comovendo mente e coração dos habitantes de Nínive. Então acontece o que o Senhor esperava: “Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiramse de panos de saco, desde maior até o menor” (Jn 3.5). Mas aconteceu o que Jonas não queria que acontecesse. “Viu Deus o que fizeram, como se converteram do mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito que lhes faria e não o fez” (Jn 3.10). O texto poderia concluir com a bem-aventurança do arrependimento dos pecadores e da graça do perdão de Deus. Mas ele não termina aqui. Deus e o povo estavam felizes. Mas alguém não estava feliz. Pelo contrário, ficou muito aborrecido e magoado com a atitude salvadora de Deus. Esse alguém é Jonas. Ele queria ver o “circo pegar fogo”. Queria ver a destruição da cidade. Queria ver sangue, choro e morte. E ficou muito azedo, carrancudo, irado e resmungão com Deus. E ora, dizendo que ele tinha razão, que fugiu porque sabia que Deus não destruiria a cidade, que Deus é clemente e misericordioso e que agora para ele é melhor morrer do que viver (Jn 4.1-3). Segundo von Rad, o principal enigma desse livro é: “Apesar da insubmissão de Jonas, Deus se serviu dele, soberanamente, como dum peão” (von Rad, p. 283). Foi por meio desse Jonas fujão e cabeçudo que os pagãos do barco ouviram a palavra do Senhor. Por meio dele, os ninivitas foram conduzidos ao arrependimento. Jonas, um homem forte e destemido, é um fracassado, pois seus interesses não se cumprem. Não consegue fugir, pois o peixe o coloca novamente em terra firme, e Deus o encaminha para Nínive. Tem interesse, então, na destruição da cidade, mas o povo se arrepende, e Deus aceita o pedido de perdão. Os sonhos de Jonas não se realizam. É através desse homem forte, mas fracassado, que Deus faz chegar a sua palavra aos pagãos do mar e à capital pagã da Assíria, Nínive. As pessoas ouvem a pregação de Jonas e mudam seus comportamentos. O livro de Jonas é também,uma prática reflexiva sobre o profetismo. Sempre que Jonas se vê ameaçado, recolhe-se. Isso acontece no barco e na cidade de Nínive. Ele vive separado. Quando a vida e a morte estão em jogo, ele se separa. Quando Deus faz crescer o arbusto, ele se sente confortável. Quer observar de longe o que vai acontecer. Segundo von Rad, a profecia mostra aqui a sua capacidade de ser autocrítica, “de se questionar a si mesma diante de Deus” e do povo. Ela desvia seu olhar de si mesma, de seus planos, estratégias e vitórias e anuncia, com João, a Jesus Cristo. Que ele cresça e eu diminua (Jo 3.30). Do coração de Deus vem a bondosa justiça (Mt 20.15). Jesus vem do coração de Deus. Do coração de Jesus vem o amor cristão (Fp 1.8). Deus dialoga com Jonas. Ele lhe pergunta se a sua ira tem algum sen-

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tido. Enquanto Jonas espera para ver o que vai acontecer com a cidade, Deus faz crescer um arbusto para, com sua sombra, propiciar conforto ao profeta. Esse se regozija à sombra da árvore. Mas Deus, assim como a fez crescer rapidamente, seca-a. Então Jonas mais uma vez se aborrece. Indagado por Deus, Jonas diz que sua ira é razoável até a morte. Jonas teve compaixão da árvore que Deus fez crescer sobre sua cabeça. Então Deus lhe pergunta se ele, Deus, não tem direito de ter compaixão de milhares de pessoas e animais de uma grande cidade? (Jn 4.11) O livro de Jonas termina com essa pergunta pelo direito de Deus ser bom, amar e ter compaixão dos pecadores, dos pagãos, dos estrangeiros e dos sofredores.

3 Meditação Deus tem compaixão de todos, também de Jonas. Dá-lhe as condições necessárias para pregar, conforta-o e o ampara. Mas Deus também ama os pagãos do barco, os pecadores de Nínive, os muitos animais. Deus ama Israel, mas seu amor não está preso aos limites de um povo, a uma só compreensão filosófica, a uma cultura, a uma só etnia. Deus é Deus clemente, misericordioso, compassivo com todos os seres, em todos os tempos e lugares. Essa foi uma árdua conversão para Jonas. Ele achava que podia fugir de Deus, esconder-se em outros lugares, em meio aos pecadores. Certamente, na visão teológica exclusivista, retributiva e meritória de Israel, Deus se encontraria somente em seu “Santo Templo”. Deus prepara seu profeta, também em outros lugares. Ele foi ouvido por Deus: “do ventre do abismo, gritei, e tu me ouviste a voz” (Jn 2.2). Deus faz do ventre do peixe um grande seminário teológico para Jonas. Não é no barco que navega seguro, mas no tenebroso ventre do peixe que está a igreja de Jonas. Mas ele não pode ficar ali dentro, seguro e acomodado. Isso seria seu fim. Precisa sair para a missão de Deus. Para isso está sendo vocacionado. Descobre que, mesmo fugindo para longe do Senhor, Deus o encontra. Não há lugar onde Deus não o encontre. Para Jonas, como hebreu ligado à lei, ao templo e à pureza da raça, é caro aceitar que não são as obras da lei, no bojo da justiça retributiva, que salvam. Mas é a graça de Deus no bojo da bondosa justiça que salva. Diante dessa obra de Deus só restam arrependimento e perdão. Mas o justiceiro de Deus, Jonas, tem problema com o perdão. Não é esse também um problema de hoje? O que pensam os membros quando são convidados para fazer visitas e cultos em presídios? Nesse contexto, não somos também Jonas que vai em direção oposta? Em nossa prática, as pessoas de fato se arrependem e são perdoadas? Claúdio Lembo escreveu que há modismos de perdão. E tudo se resolve com um pedido de perdão. Ele diz: “Fecha-se o ciclo com um pedido de perdão. Todos vão para seus lares em estado de graça. Ao inferno, valores e vítimas” (Lembo, p. 1). Ele tem razão quando diz que há valores e vítimas no meio do caminho. Não dá para passar por cima deles. É claro que não há perdão somente da boca para fora. Perdão vem do arrependimento sincero

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que supõe reparação. Zaqueu, o publicano, quando Jesus o encontrou, disse: “Senhor, vou dar a metade dos meus bens aos pobres; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, devolvo quatro vezes mais” (Lc 19.8). Mas esse não parece ser o problema de Jonas. Ele não pergunta pela sinceridade do arrependimento e pelo valor do perdão. Sua reclamação está mais ligada ao fato de não dar valor a povos que viviam em cultura diferente da sua. Tem uma visão fechada de Deus, que retribuiu a cada um conforme suas obras. Essa compreensão de fé é expressa hoje no ditado popular: “Aqui se faz, aqui se paga”. É uma visão religiosa popular muito presente em todas as culturas. Como cristãos evangélicos luteranos, vivemos e ensinamos que nossos pecados são todos pagos por um preço muito alto, isto é, pela morte e ressurreição em favor de nós. A nós cabe aceitar a palavra do Senhor, o arrependimento e a graça do perdão para uma vida reconciliada, feliz e abençoada. Jonas foi chamado e capacitado por Deus para seu projeto missionário em Nínive. Essa não é uma cidade qualquer. É a capital da Assíria. É o centro do poder, onde há o palácio, a religião do império e o exército. Há algo em torno de 120 mil pessoas, que não sabem a diferença entre mão esquerda e mão direita, além de muitos animais (Jn 4.11). Jonas foi vocacionado, foi provocado para pregar, para anunciar o fim da cidade. O fim está chegando, porque a malícia da cidade chegou aos ouvidos de Deus (Jn 1.2). E Deus age. Ele não fica indiferente à situação do povo dessa cidade. Certo dia, chegou à minha comunidade um jovem que nos disse que no presídio havia carência de pregadores e que a palavra deveria ser pregada. Ele nos convidou para visitar o local e pregar a palavra. Algumas pessoas aceitaram o convite, mas muitas fizeram de conta que o assunto não era com elas. Pregar no barco entre os iguais é fácil. Difícil é pregar nas profundezas do abismo ou na cidade de Nínive, cuja malícia chegou aos ouvidos de Deus. Não é mais fácil fazer como Jonas, isto é, desejar a morte deles? Mas o que vamos fazer como comunidade para a qual Deus diz que tem o direito de ser bom e amar também aqueles?

4 Imagens para a prédica Numa comunidade em que fui pastor durante vários anos, estudamos o livro de Jonas. As pessoas estavam entusiasmadas e aguardavam com interesse o próximo capítulo. Num dos encontros, um professor, membro da comunidade, contou sua história. Compartilho resumidamente seu testemunho: O livro de Jonas foi uma das primeiras histórias bíblicas que meus pais me contaram. É uma história fascinante, cheia de figuras. Atiça a imaginação e a criatividade. Cresci próximo a um rio. Nele tomávamos banho e, às vezes, navegávamos com nossas canoas domésticas. Numa travessia de um dos poços mais profundos, imaginei-me como Jonas, sendo jogado na água. E pensei: ainda bem que há um peixe que Deus pode chamar para levar-me à terra firme. Entendia que Jonas era uma pessoa muito dedicada, esforçada. Eu estava feliz porque Deus não precisou destruir a cidade. As pessoas gostaram da pregação de Jonas, entenderam-na e se arrependeram, mudan-

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19º Domingo após Pentecostes do o rumo de suas vidas. Confesso que tive dificuldade para compreender a ira que Jonas tinha de Deus. Às vezes, pensei que fosse por causa da árvore que secou. Mas não era. Concluí que Jonas era uma pessoa vingativa e que não queria ver os outros felizes. Já na minha juventude, como estudante, quando era, às vezes, chamado para ajudar na comunidade, decidi que sempre deveria amar o povo. Quando as pessoas tinham problemas, deveria ajudá-las a conversar, analisar e pensar sobre a situação e a descobrir juntos a melhor forma de enfrentá-la. Criar consenso, envolver as pessoas afetadas, possibilitar a participação de todos para criar formas possíveis de solução de danos psicológicos, ressentimentos, rancores, traumas e perdas causadas por conflitos e injustiças. Isso se chama também de justiça restaurativa. Não devemos deixar que as dificuldades tomem conta de nossas vidas. Cremos em Cristo e, às vezes, padecemos em Cristo (Fp 1.28). Mas isso nem sempre é fácil. Às vezes, as pessoas não querem conversar sobre seus problemas. Às vezes, penso, Deus tem outros encaminhamentos, diferentes dos nossos. È importante que aprendamos de Paulo quando diz: “Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo” (Fp 1.27).

Penso que a história do professor traz como testemunho elementos importantes para a pregação.

5 Subsídios litúrgicos Texto bíblico de acolhida: “Guia-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação, em quem eu espero todo o dia” (Sl 25.5). Texto bíblico para a confissão de pecados: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.8-9). Confissão comunitária: Deus, confessamos nossa falta de confiança em ti. Em lugar da fé permitimos que a crendice e a dúvida tomem conta de nossas vidas, roubando-nos a paz, fechando nossos olhos para as necessidades ao nosso redor. Outras vezes, vivemos indiferentes diante daquilo que tu solicitas de nós. Não perguntamos por tua vontade para nosso viver, não temos amado de verdade. Quantas vezes escolhemos o caminho mais cômodo, fazendo o que todos fazem, sem perguntar pela missão que tu nos confiaste como tua comunidade. Perdemos de vista o alvo maior: ser testemunha do teu reino. Acomodados, renunciamos à esperança. Temos tolerado injustiças, fomos insensíveis à miséria e à solidão, ao medo, ao ódio ao nosso redor e à vingança. Tu nos presenteaste com teu reinado de paz e perdão, e não nos mostramos agradecidos. Renova-nos, por inteiro, através do teu Espírito. Pedimos perdão, Senhor. Texto bíblico para anunciar o perdão:

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19º Domingo após Pentecostes

Se confessarmos os nossos pecados a Deus, ele cumprirá a sua promessa e fará o que é justo; perdoará os nossos pecados e nos limpará de toda maldade (baseado em 1 Jo 1.9). Kyrie:

Assim diz o Senhor Jesus: Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. Por isso vamos trazer perante ele as dores do mundo: Pela paz no mundo inteiro; pela paz em nosso país, em nossa cidade, em nossas famílias, oremos ao Senhor: Tem, Senhor, piedade. Pelas pessoas que sofrem injustiças e perseguições; pelos assolados por fome, doença e desemprego, oremos ao Senhor: Tem, Senhor, piedade. Pelas pessoas que se encontram desorientadas, sem verdadeiros valores de vida a partir do evangelho, e por isso caem em drogas, desrespeito à vida, em perigos de morte e perdição, oremos ao Senhor: Tem, Senhor, piedade. Pela igreja, que se orienta na verdade do evangelho de Jesus Cristo, para que seu testemunho e sua vida de fé sejam vigorosos, oremos ao Senhor: Tem, Senhor, piedade. Louvor: Ler o Salmo 105.1-8. Oração do dia: Senhor, reuniste-nos hoje, Deus de toda compaixão e de amor, como pessoas de diferentes histórias de vida, e, mesmo assim, formamos tua comunidade. Não é nossa imensa capacidade de viver e nos entender nas diferenças que faz de nós igreja. Mas é através de tua palavra na qual reúnes a comunidade que crê em Jesus Cristo, composta por pessoas diferentes em sua cultura e em seu jeito de viver. Vimos até aqui para ouvir tua palavra e abrir novos horizontes como pessoas e como comunidade. Faze com que nos apeguemos à tua palavra, que dá um novo começo, porque estamos cansados de recomeçar com nossas próprias forças. Fala conosco, Senhor. Dá-nos uma mente aberta e disposta a refletir sobre a tua palavra, coração sensível e ouvidos dispostos a prestar atenção a teu ensino. Que teu Santo Espírito esteja atuando entre nós através de tua palavra lida e pregada. Oramos e pedimos em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e governa eternamente. Amém.

Bibliografia

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19º Domingo após Pentecostes

IMMICH, Vera M. In: Proclamar Libertação, v. 31. Auxílios homiléticos sobre a série ecumênica trienal–ano B. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2005. LEMBO, C. Com tanto perdão, cachaça é pouco. São Paulo: Terra Magazine, 2007. von RAD, G. Teologia do Antigo Testamento, v. 2. 2.ed. São Paulo: ASTE, 1886.

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20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 21.23-32

28 SET 2008

EZEQUIEL 18.1-4, 25-32 FILIPENSES 2.1-13 Jair Holzschuh e Clarise Holzschuh

Não é vida a vida que se vive por engano... ... viver a vida é muito mais do que aparência... ... vida é a vida que em Jesus nós alcançamos quando junto a ele o mundo injusto transformamos... Jaci C. Maraschin (O Povo Canta, p. 158)

1 Introdução Ao defrontar-me com a delimitação do texto de pregação, perguntei: Por que duas perícopes? Analisando a questão, percebemos que a parte do texto de Mateus 21.23-27 tem paralelos em Marcos e em Lucas. Mas os v. 28-32 são material exclusivo de Mateus. Sendo o Evangelho de Mateus motivado pela pergunta “Quem somos nós e qual a nossa missão?”, vemos que a segunda parte do texto (v. 28-32) quer iluminar a vida da comunidade a partir do tema cristológico abordado anteriormente (v. 23-27), o qual já fora escrito pelo Evangelho de Marcos e que é motivado pela pergunta: “Quem é Jesus de Nazaré e como segui-lo?”. Mateus interpreta a divergência acerca da autoridade de Jesus (v. 23) à luz da prática da justiça (v. 32). Jesus Cristo é o Mestre da Justiça. Esse é um tema central no Evangelho de Mateus e é insistência exclusiva desse. No Evangelho de Mateus, encontramos vários títulos cristológicos, como Messias, Filho de Deus, Emanuel, Rei, Filho de Davi, Filho do Homem, Servo de Deus; mas, acima de tudo, Mateus quer apresentar Jesus como o Mestre da Justiça. Jesus é o único Mestre (Mt 23.8) e veio cumprir toda a justiça (Mt 3.15). Cumprir a justiça é realizar a vontade do Pai, que se expressa na sua lei. Mateus 21.23-32 declara que a prática da justiça dá autoridade para questionar leis e práticas seletivas que vangloriam algumas pessoas e depreciam outras e para propor novas atitudes, coerentes com a palavra e que promovem vida. A prática da justiça também é tema central na leitura de Ezequiel 18.1-4, 25-32: quem conhece o caminho da justiça e não a pratica morrerá (v. 26); e quem anda na perversidade, mas se converter à prática da justiça, viverá (v. 27).

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20º Domingo após Pentecostes

A leitura de Filipenses 2.1-13 sublinha a dualidade entre os questionados em Mateus (principais sacerdotes e anciãos do povo) e os enaltecidos (publicanos e meretrizes). Viver a justiça de Jesus é viver em humildade e solidariedade. Critica a arrogância dos que se dizem justos e enaltece a humildade e a valorização do próximo. Justiça é, portanto, o tema que liga os três textos de nossa perícope.

2 Exegese O Evangelho de Mateus foi escrito no final dos anos 80, editado por comunidades em que as pessoas vindas do judaísmo eram a grande maioria. Com a guerra judaico-romana (66-73 d.C.) houve uma dispersão em direção à Galiléia, à Síria e outros lugares. Por volta do ano 85, houve um concílio na cidade de Jâmnia, onde os fariseus e os escribas, juntamente com os líderes do antigo Sinédrio, buscaram reformar e reorganizar a religião de Israel. Entre as diversas decisões tomadas em Jâmnia, uma foi muito dura. Buscando preservar a identidade judaica, os líderes judeus fecharam-se totalmente aos diferentes grupos e correntes dentro do judaísmo da época. A conseqüência foi a expulsão das sinagogas de todas as correntes contrárias aos ensinamentos dos fariseus, entre elas as pessoas que aceitavam Jesus de Nazaré como Messias prometido por Deus e esperado por tantas gerações. Esses judeu-cristãos sentiam-se parte do povo de Israel e, por isso, não conseguiam entender por que foram expulsos pelas autoridades da sinagoga. Essa expulsão gerou sérios problemas de identidade nas comunidades de judeu-cristãos, que tinham que ir em busca de uma nova identidade, uma nova casa, uma nova comunidade. Toda essa situação gerou a necessidade de adequar o evangelho à nova realidade, buscando, sobretudo, responder à pergunta: “Quem somos nós e qual a nossa missão?” O Evangelho de Mateus traz em seu conteúdo central quatro aspectos: 1) Jesus é o único Mestre e é Mestre da Justiça. Como Mestre da Justiça, Jesus é apresentado fazendo grandes discursos e seu ensino tem autoridade (7.28-29), a tal ponto de propor alterações na lei (5.21-48). 2) O evangelho é para todos os povos, desde que o centro dessa universalidade seja o judaísmo (8.11). 3) Valorização da herança de Israel, a sua tradição. Para Mateus, as comunidades cristãs são o verdadeiro Israel e, com o evangelho, quer ajudar a devolver a identidade aos judeu-cristãos em crise por terem sido expulsos e rejeitados por seu próprio povo. 4) Jesus é Emanuel – Deus conosco. Vai nascer Emanuel (1.23), é Deus vivo (16.16) e promete estar sempre conosco (28.20). No Evangelho de Mateus, as comunidades judeu-cristãs encontravam uma fonte de consolação, de revelação e a indicação de uma nova prática. No momento difícil pelo qual passavam, sendo expulsos das sinagogas e perse-

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20º Domingo após Pentecostes

guidos por seus “irmãos na fé”, Mateus surge reafirmando a fé de que Jesus era o Messias, dando a garantia de que estavam no caminho certo. Mateus revela que Jesus é aquele que veio cumprir toda a Escritura. Ele é apresentado como o novo Moisés. Assim, as comunidades cristãs eram continuadoras da caminhada iniciada por Abraão. Portanto elas também eram povo de Deus. Como luz para o caminho a seguir, as comunidades devem buscar a verdadeira justiça. Jesus é o verdadeiro mestre da justiça, ensinando que a prática do amor é o maior dos mandamentos. As comunidades devem revelar essa novidade praticando as palavras de Deus. Quanto à eclesiologia, Mateus destaca as relações na comunidade eclesial. Insiste na vivência fraterna, na reconciliação e na solidariedade. Os relatos sobre Jesus misturam-se com as narrativas sobre a vida das comunidades. Em todas as passagens está presente a memória do Jesus histórico e, ao mesmo tempo, como essa memória se concretiza na vida das igrejas. Quanto à estrutura, o Evangelho de Mateus divide-se em cinco livros menores, como se fossem o conjunto de uma nova lei (Pentateuco). Cada livro é composto por uma parte narrativa e um discurso de Jesus: Mateus 1-2: apresentação do “novo legislador”; Mateus 3-7: 1º livro – a justiça do reino no Deus; Mateus 8-10: 2º livro – uma justiça que liberta os pobres; Mateus 11.1-13.52: 3º livro – a justiça do reino provoca conflitos; Mateus 13.53-18.34: 4º livro – o novo povo de Deus; Mateus 19-25: 5º livro – a vinda definitiva do reino; Mateus 26-28: promulgação da nova lei. O texto em questão, Mateus 21.23-32, está inserido no quinto livro – a vinda definitiva do reino, na subdivisão da narração (cap. 19-23) e defende que no reino de Deus há lugar para todos.

3 Mensagem Na palavra de Mateus 21.23-27 (paralelos em Mc 11 e Lc 20), Jesus é questionado pelas autoridades religiosas e do povo acerca de sua autoridade e de quem lhe confere essa autoridade. Jesus responde com uma nova pergunta, trazendo à memória João Batista, que veio preparar o caminho da autoridade de Jesus. Ambas as perguntas ficam sem resposta evidente. É necessário ler as entrelinhas. O evangelista Mateus acrescenta uma parábola para aproximar o assunto da vida da comunidade, trazendo o exemplo de dois tipos de comportamento: aquelas pessoas que dizem que se comprometem a fazer algo e não o fazem; e aquelas que não se comprometem, mas acabam fazendo. O desfecho traz novamente João Batista e indica o centro da mensagem: o caminho da justiça. A prática da justiça dá autoridade para questionar leis e práticas, propondo novas atitudes aos crentes. Portanto, o que dá autoridade é a prática da justiça, e essa é dom de Deus. Toda autoridade vem de Deus. É Deus

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quem confere autoridade a nós para que a usemos de forma responsável para promover a justiça. No Batismo, recebemos de Deus a autoridade para viver e ensinar o evangelho, para divulgá-lo até os confins da terra (Mt 28). Viver o Batismo significa viver em arrependimento e novidade de vida. Não é por acaso que João Batista é lembrado nessa passagem do evangelho. Ele pregava o arrependimento dos pecados por causa da proximidade do reino de Deus. Para poder crer em Deus, é necessário passar pela experiência do arrependimento. Jesus declara que publicanos e meretrizes (grupos de pessoas totalmente à margem na época de Jesus) precederão os principais sacerdotes e anciãos do povo (autoridades) no reino de Deus, porque esses não se arrependeram das injustiças que cometeram e não acreditaram no anúncio da vinda do reino de Deus. Para viver em novidade de vida, são necessárias atitudes de justiça. Não basta dizer “Eu creio”, estar sempre presente nos encontros da igreja, cantar, celebrar, se no dia-a-dia minha prática me condena, a lei me domina, o lucro financeiro dita as regras, o relacionamento com as pessoas está alicerçado em interesses pessoais e egoístas. No reino de Deus, há lugar para todas as pessoas. Todas são chamadas. Aquelas que se arrependerem de suas atitudes injustas e passarem a ter uma vida de justiça serão as primeiras a entrar no reino (cf. também leitura de Filipenses). O evangelho não exclui as demais, mas essas precisarão primeiro se arrepender e passar a viver a justiça de Deus (cf. também leitura de Ezequiel). O que determina a participação no reino de Deus é o que se passa no coração e se torna realidade na prática pessoal e comunitária. É maravilhoso dar-se conta da infinita bondade e misericórdia de Deus. Ao mesmo tempo, é preocupante, pois somos como o primeiro filho. Somos aquele que diz “sim” e não vai trabalhar na vinha. Poucas vezes somos como o segundo filho, que diz “não quero”, mas depois se arrepende e vai. Pensando no Batismo, por exemplo, quantos “sim” são ditos nos altares das igrejas, cujo eco não chega nem até a porta de saída. Quantas promessas de ser exemplo de vida de fé, de ensinar o evangelho e o caminho do reino de Deus, mas aos batizandos não se ensina nem sequer uma palavra, uma oração conjunta ou um exemplo de vida a ser seguido. Errar, todas as pessoas erram; mas nunca acertar é falta de vontade e, sobretudo, falta de fé. Com que responsabilidade dizemos “sim” para Deus? Com qual dos dois filhos nos identificamos? E os matrimônios? O “sim” no matrimônio é ainda mais flagrante. Dizse “sim” a qualquer custo, sem responsabilidade alguma com a palavra. Na primeira dificuldade, quando o “eu” precisa dar espaço para o “nós”, o “sim” é esquecido, é jogado na lixeira. Enquanto o “eu” sentar no trono de meu coração, não há lugar para o arrependimento, para a justiça, para o amor ao próximo. Não há lugar para Deus. É necessário abrir o coração e deixar Jesus sentar em seu trono. Deixar

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a fé nos questionar, corrigir e orientar a nossa vida. Quando Jesus ocupar o seu lugar em nossa vida, teremos autoridade para falar, questionar, propor, lutar por justiça promotora de vida. Essa autoridade vem de Deus e a recebemos ao praticar o amor, a solidariedade, a misericórdia, a paciência, enfim a justiça do Criador. Deus é Emanuel – Deus conosco. Ele dá-nos autoridade quando recebemos seu Santo Espírito no Batismo. Isso nos torna povo de Deus. O Espírito dá-nos força na fé para andar no caminho da justiça de Deus, vivendo a sua palavra à luz do evangelho de Jesus Cristo. Esse é o caminho do reino de Deus para o qual todas as pessoas são chamadas pela graça e misericórdia de Deus. Essa é a nossa identidade onde quer que andemos, o que quer que façamos. Seremos conhecidos e reconhecidos por nossa prática, mais do que por nossa confissão pública de fé, mesmo sabendo que ambas são inseparáveis.

4 Imagens para a prédica Tendo no horizonte a justiça de Deus e suas implicações práticas, teríamos conteúdo suficiente para mais de um culto. O desafio é traduzir para dentro da realidade da comunidade a centralidade da justiça de Deus e suas implicações para a comunidade e a vida de cada pessoa em particular. Tudo isso sem perder de vista que a autoridade Deus nos dá por meio da prática do amor na vida diária. Só tem autoridade aquela pessoa que se colocar sob a direção e orientação de Deus. Em Jesus, a justiça de Deus tornou-se carne (realidade) e veio morar entre nós. Sugerimos que o texto abaixo seja usado para atualizar Mateus 21.23-32, enfatizando o nosso compromisso com Deus e o próximo. Em toda a pregação deveria transparecer a importância do “sim” e do “não”, do abraçar a fé cristã com todas as suas conseqüências. Sem amor é tudo em vão Se eu aprender inglês, francês, espanhol, alemão e chinês e dezenas de outros idiomas, mas não souber me comunicar como pessoa, de nada valem todas as minhas palavras. Se eu concluir um curso superior, andar de anel no dedo e freqüentar cursos e mais cursos de atualização, mas viver distante dos problemas do povo, minha cultura não passa de uma inútil erudição. Se eu morar numa cidade do interior, mas desconhecer os sofrimentos de minha região e fugir nas minhas férias para a América ou até para a Europa e nada fizer por meu semelhante, não sou cristão. Se eu possuir a melhor casa de minha rua, a roupa mais moderna e o sapato da moda e não me lembrar de que sou responsável por aqueles que moram em minha cidade, que andam de pé no chão e se cobrem com jornais sujos, sou apenas um manequim colorido. Se eu passar os fins de semana em festas, boates, farras e programas, sem ver a fome, o desemprego, o analfabetismo e a doença, sem escutar o grito

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abafado do povo que se arrasta à margem da história, não sirvo para nada. O cristão não foge dos desafios de sua época. Não fica de braços cruzados, de boca fechada, de cabeça vazia. Não tolera as injustiças nem as desigualdades gritantes de nosso mundo. Luta pela verdade e pela justiça com as armas do amor. O cristão não desanima nem desespera diante das derrotas e das dificuldades, porque sabe que a única coisa que vai sobrar disso tudo é o amor. (autor desconhecido)

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Ó Deus da misericórdia! Na tua presença reconhecemos que não temos andado nos teus caminhos. Somos rápidos em dizer sim diante do teu convite, mas lentos em agir. Somos rápidos em reivindicar melhorias para nós mesmos, mas lentos em lutar pela melhoria da vida de nosso próximo. Perdoa-nos, ó Deus, por andar tão temerosos no caminho da justiça. Perdoa-nos por não assumir a autoridade que vem de ti e por não nos erguer diante de injustiças em defesa de quem já não tem mais força para lutar sozinho. Estamos arrependidos, ó Deus, e pedimos o teu perdão: Perdão, Senhor, perdão. Anúncio da graça: Deus fala através do profeta Ezequiel (18.27-28): “Quando um homem mau pára de pecar e faz o que é certo e bom, ela salvou a sua vida. Ele compreendeu o que estava fazendo e deixou de pecar; por isso é certo que ele não vai morrer, mas continuará a viver”. Anúncio do perdão. Amém. Gloria in excelsis: Deus aproxima-se de sua criação de diversas maneiras. Ele se aproxima por meio da palavra lida e interpretada. Vem através dos sacramentos e trouxe-nos aqui. Dele vem toda a autoridade, e ele mesmo nos capacita para a prática do amor e da justiça neste mundo. Por tudo isso louvemos seu nome. Louvemos todos juntos. Oração do dia: Querido Deus! Tu que tiveste compaixão de Adão e Eva e preservaste sua vida mesmo em pecado; que continuaste protegendo teu povo mesmo depois de ter negado a ti e nos reconciliaste contigo através da morte e ressurreição de Jesus Cristo, nós te pedimos: Fica conosco, abre nossos ouvidos e corações para acolher a tua palavra de vida e sabedoria. Que teu Santo Espírito ilumine nosso falar e nosso ouvir. Por Jesus Cristo... Amém.

Bibliografia

MESTERS, Carlos et al. Travessia – Quero misericórdia e não sacrifício. A

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20º Domingo após Pentecostes

Palavra na Vida, CEBI, n. 135/136. KÜMMEL, Werner. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas.

21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES Isaías 5.1-7 Mateus 21.33-46 FILIPENSES 3.4b-14

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22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 22.1-14

12 OUT 2008

ISAÍAS 25.1-9 FILIPENSES 4.4-8 (9-13) Wilfrid Buchweitz

1 Introdução Levei o trecho de Mateus a um grupo que se reúne regularmente para refletir sobre textos e temas. É um grupo entrosado, que se conhece e com o tempo adquiriu bastante liberdade e espírito crítico. Pedi que escutassem e depois reagissem. A reação veio rápida e forte. Transcrevo algumas frases: “Que texto pesado!” – “É um texto sem-vergonha, bem específico contra camponeses e comerciantes.” – “Não vejo assim; outros também maltrataram e mataram os empregados porque não foram sensíveis ao convite.” – “Dos convidados ninguém foi.” – “Por que não?” – “Não tinham percepção do valor do convite.” – “Não tinham tempo.” – “Não conheciam o Rei.” – “Os excluídos da sociedade foram.” – “Mas foi exigido que tivessem veste nupcial.” – “Que veste nupcial era essa?” – “Não era de coração puro.” – “Como foi excluído? Não foram convidados bons e maus?” – “Não respondeu.” – “Por que era surdo?” – “Por que era mudo?” – “Por que veste nupcial?” – “Não se impregnou do Espírito de Deus. Foi mal-intencionado. Foi, mas contra Deus.” – “Muitos são chamados e poucos escolhidos... Essa frase mata na Santa Ceia. Te põe lá embaixo.” – “Pode pegar ao pé da letra?” – “Nada aqui é ao pé da letra.” – “Se nós recebêssemos o convite agora... não teríamos tempo.” – “Nós aceitaríamos o convite?” – “O que significaria isso?” – “Teríamos veste nupcial?”. O grupo teve dificuldades principalmente com a violência que há no texto: “Agarraram os empregados, bateram neles e os mataram. O rei ficou com tanta raiva, que mandou matar aqueles assassinos e queimar a cidade deles” (v. 6 e 7) e “Amarrem os pés e as mãos deste homem e o joguem fora, na escuridão. Ali ele vai chorar e ranger os dentes” (v. 13). Confesso que para mim essa violência também é difícil. Temo que a comunidade no culto também sinta assim. Como então ler o texto no culto? Não lemos na noite os textos de Isaías e Filipenses. Eles teriam adicionado um outro tom e espírito. Mas faltou tempo.

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22º Domingo após Pentecostes

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Do evangelista Mateus

Dos quatro evangelistas, Mateus é aquele que mais olha para trás para a história de Israel. Para Mateus, Jesus é o Rei de Israel, que realiza todas as promessas contidas no Antigo Testamento. Com Jesus começam as bodas eternas. A característica de seu povo é a alegria duradoura. O que exclui do reino de Deus é a insistência em permanecer com a velha identidade, inclusive com uma velha piedade que não consegue perceber o novo evangelho na pessoa de Jesus e que foi anunciado por profetas e apóstolos. Por isso, para Mateus, Jesus é ao mesmo tempo aquele que condena seu próprio povo e que cria um novo povo de Deus, que é designado, inclusive, como igreja (Schniewind, p. 1). Para isso ele cita, perpassando todo o evangelho, palavras do Antigo Testamento para ilustrar acontecimentos e gestos na vida de Jesus. Ele quer ajudar a comunidade judaica a ver e crer que em Jesus se cumprem as promessas e profecias que no Antigo Testamento apontam para a vinda do Salvador e Messias. Jesus, que em suas palavras e atos parece estranho ao povo israelita, é, na verdade, o Salvador prometido por Deus. A vinculação das palavras de Mateus com os textos do Antigo Testamento são um recurso com o qual ele quer ajudar as pessoas de seu tempo e mundo a perceber a nova realidade e a crer nela. Ao mesmo tempo, a rejeição de Jesus por parte de seu povo perpassa todo o evangelho. Israel não consegue enxergar, ou não quer enxergar, o que acontece em Jesus. E Mateus vê em várias situações o reino de Deus ultrapassando os limites de Israel e alcançando pessoas estranhas. E finalmente cita Jesus dizendo: “O reino de Deus será tirado de vocês e será dado para as pessoas que produzem os frutos do reino” (Mt 21.43).

3 Isaías, Filipenses, Mateus Se no grupo citado inicialmente ficamos bastante presos à violência do texto de Mateus, as leituras de Isaías e Filipenses trazem novas perspectivas. Isaías traz para dentro da realidade pré-exílio e pós-exílio de Israel, realidade de enorme sofrimento, as poderosas promessas de nosso texto, poderosas promessas e uma poderosa confissão de fé. A desobediência de Israel e a ira de Deus vão ser superadas pelo perdão de Deus e pela conversão de Israel e vai haver um povo de Deus restabelecido. Em Filipenses, o apóstolo Paulo nos abre uma janela para dentro de uma comunidade que lhe traz uma enorme alegria, porque ela vive intensamente o amor e a fé. Onde Jesus Cristo é recebido, ali ganham espaço o amor e a fé e brota vida nova, em pessoas e na comunidade, na comunidade e em pessoas. Isaías e Filipenses ajudam a dar atenção a um versículo de Mateus que, numa primeira leitura, passou bastante despercebido. Ganha atenção o v. 2, que diz que o reino dos céus é como um rei que preparou uma festa de casamento para seu filho. O rei prepara uma festa. Deus prepara uma festa.

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O reino dos céus é um reino de festa. O Rei gosta de festa. O Rei quer todo o mundo nessa festa. O Rei não se cansa de distribuir convites e chega ao ponto de convidar bons e maus. Isaías e Filipenses ajudam a ver a parte principal de Mateus. As outras partes são secundárias. Mas secundário não significa que não sejam importantes. Elas são importantes, mas vem em segundo lugar. Em primeiro lugar está a festa do filho (ou festa do Filho).

4 Meditação Como fico eu diante dos textos? Como ficam os textos diante de mim? Antes de levá-los para a comunidade, preciso colocar-me diante deles. Já disse que, numa primeira leitura, Mateus causou-me dificuldades, mas depois Isaías e Filipenses me ajudaram a transferir o foco. Agora o foco é que o Rei preparou uma festa de casamento e com muitas outras pessoas eu sou convidado. De graça, por graça. Não por mérito meu. Sinto alguma resistência. Gostaria que meus méritos fossem reconhecidos. Como quando nós convidamos pessoas para nossas festas. Todas as pessoas que nós convidamos foram convidadas por algum mérito delas. Mas com Deus é diferente. Se eu quero meus méritos reconhecidos, eu também preciso concordar que meus “desméritos” sejam considerados, que meus pecados sejam levados em consideração. E então eu só tenho chance se Deus me convida por graça. A partir daí, eu consigo vencer minha resistência e consigo dar em mim espaço para gratidão e alegria. Agora eu quero, sim, ser como uma daquelas pessoas de que Paulo fala em Filipenses. Quero ser membro de uma comunidade daquelas. Quero dar minha contribuição nessa comunidade. Quero receber a comunhão e aceitar os serviços de outros membros daquela comunidade. Quero compartilhar as bênçãos de que aquela comunidade usufrui como conseqüência de ter aceito o convite de Deus para a festa. E quero crer e confiar nas palavras maravilhosas do profeta Isaías. Quero experimentar, em parte já agora e plenamente na eternidade, as maravilhosas promessas que estão nas palavras de Isaías. Mas é preciso ficar atento. Seguidamente me flagro desprezando o convite para a festa e inventando desculpas para isso. Pior: tantas vezes não me flagro. Felizmente, outras pessoas me alertam. Outras vezes correspondo ao convite, mas não visto roupas de festa. Se fosse por mim, Deus teria que me jogar fora e eu teria que chorar e ranger os dentes de desespero. Mas sobre essa possibilidade eu corro o perigo de não refletir muito sobre ela. E não vejo muitos de minha comunidade fazendo isso. Será que transformamos a graça salvadora de Deus em graça barata? Será que banalizamos o juízo? Às vezes, queixo-me de minha igreja. Critico minha igreja porque acho que ela não tem nada daquilo que Paulo relata de Filipos e Isaías de Israel. Acho que há razão para isso. Há pessoas e comunidades que não levam a sério o convite do Rei. Querem as vantagens e benesses do reino, mas não os serviços e compromissos. Graças a Deus, há também o outro lado. Há sinais do reino em minha igreja. Há pessoas e comunidades que ouvem o convite e

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vão à festa e vestem roupa de festa, com muita dedicação e fidelidade. Como conseqüência acontecem coisas de Filipos e Israel. Às vezes, penso que eu deveria prestar mais atenção aos muitos sinais do reino na minha igreja. E em igrejas irmãs também. Às vezes, corro o perigo de me deixar vencer pelo pessimismo ou por uma mania de criticar e reclamar. Onde a palavra é semeada, sempre há, no meio de caminhos duros, pedras e espinhos, chãos e terrenos férteis que fazem a semente trazer frutos. Até pela promessa de que a palavra não volta vazia.

5 E a prédica Certamente, como em todos os textos, há várias possibilidades. Quero apontar para algumas delas: 1 – O reino dos céus é como um rei que prepara uma festa. No lugar ou na situação em que Deus é Rei, acontece uma festa. E nós somos convidados para ela. A prédica poderia versar sobre esse tópico, essa verdade, esse evangelho. Filipenses e Isaías trazem uma riqueza de detalhes, dinâmicas e traços do conteúdo dessa festa. 2 – No reino dos céus, o Rei prepara uma festa. E Ele nos convida. Não se cansa de nos convidar. Mas nós não vamos. Escolhemos outras prioridades. E Deus deixa-nos de lado e passa o convite adiante. Um perigo desse enfoque é menosprezar membros da comunidade que saíram de casa e aceitaram o convite, ao menos o convite para o culto, que, é verdade, pode não ser o convite para o reino. Às vezes, ouve-se a queixa de que os pastores e as pastoras criticam membros que não estão no culto e quem tem que ouvir são pessoas que estão no culto. 3 – No reino dos céus, o Rei prepara uma festa. E Ele nos convida. E nós vamos. Mas não usamos roupa de festa. Temos no rol de nossas comunidades muitas pessoas. Mas em muitas delas acontece muito pouco do que está em Filipenses e Isaías. Ou, dito de outro jeito, muitas vezes, em nossas comunidades acontece muito pouco do que está em Filipenses e Isaías. De que maneira a palavra e o culto hoje podem nos ajudar nisso? 4 – Só como observação: Logo está aí o Dia da Reforma. Será possível ou oportuno focar na direção dele?

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus. In: Proclamar Libertação II. São Leopoldo: Sinodal, 1977. p. 9. SCHNIEWIND, Julius. Das Evangelium nach Matthäus. In: Das Neue Testament Deutsch. Göttingen, 1950.

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23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: ISAÍAS 45.1-7

19 OUT 2008

MATEUS 22.15-22 1 TESSALONICENSES 1.1-10

Ulrico Sperb

1 Introdução O texto fala de maneira profética sobre o fim do cativeiro babilônico do povo judeu. O Salmo 126 faz isso na forma poética. O livro de 2 Crônicas faz o relato da volta do povo a Jerusalém na forma histórica (2 Cr 36.22 e 23).

2 Situação histórica O pano de fundo histórico de nosso texto é o Édito de Ciro, promulgado no ano 538 a.C. por ocasião da tomada da Babilônia. Ciro governou de 558 a 529 a.C., inicialmente num pequeno principado no meio do deserto a sudeste da Babilônia chamado de Ansã, também conhecido como Pasárgadas. Com muita habilidade foi conquistando tronos e reinos até se tornar o maior monarca da Ásia Menor até então. Em 539 a.C., Ciro conquistou a Babilônia e, no ano seguinte, permitiu com seu édito que os povos deportados pelos babilônios pudessem retornar a suas terras de origem. Entre esses povos estavam os judeus, que permaneciam no cativeiro babilônico desde 587 a.C. Ciro foi além: devolveu aos judeus que retornaram a Jerusalém os tesouros do Templo, bem como concedeu a licença para que reconstruíssem o Templo (o que ocorreu entre 520 e 516 a.C.). Essa política de Ciro é cantada no texto de Isaías 45.1-7.

3 Exegese 3.1 – Contexto Os capítulos 40 a 55 do livro de Isaías são atribuídos a Dêutero-Isaías (outro ou segundo Isaías) por falta de qualquer referência à sua pessoa. O certo é que não se trata do próprio Isaías. Os temas principais são: soberania de Deus (também entre outros povos); libertação do cativeiro; queda da Babilônia; servo de Deus.

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23º Domingo após Pentecostes

V. 1 – Ao declarar Ciro como ungido de Deus (a palavra em hebraico é messias), o profeta faz de Ciro um instrumento que Deus escolheu. Mesmo que o termo técnico – ungido – seja usado para o rei Davi e seu tão esperado sucessor (o Messias), aqui o uso retórico dessa palavra visa acentuar que o rei Ciro foi escolhido por Deus para o grande propósito da volta dos judeus a Jerusalém. Ciro é tomado por Deus pela mão direita para os seguintes propósitos: abater nações, destronar reis, abrir portas – fatos também narrados em relatos históricos da época. V. 2 – Deus mesmo facilitará a trajetória conquistadora de Ciro. V. 3 – Inclusive dará acesso aos lugares secretos, onde estão escondidos os tesouros. Esses dois versículos têm seu paralelo em Jeremias 27.6s., que tratam do rei babilônio Nabucodonosor (sete décadas antes). V. 4 – O motivo da escolha de Ciro fica claro nesse momento: por causa de seu povo (descendente de Jacó), Deus interfere no curso da história. Levanta Ciro para derrotar os babilônios e, por conseguinte, libertar Israel. V. 5 – Tanto no final do versículo anterior como no final desse está a expressão: “Ainda que não me conheces”. Aliado a isso está o fato de que Deus está se dirigindo diretamente a Ciro, cujo sobrenome (“Ungido”) Deus mesmo lhe deu. V. 6 – No final desse e no início do v. 5 está a afirmação: “Eu sou o Senhor, e não há outro”. O Dêutero-Isaías é um dos profetas que com maior vigor defendeu o monoteísmo. Javé, o Deus dos judeus, é o Senhor da história. V. 7 – Aqui é usado o mesmo termo que em Gênesis 1.1 para designar o criar de Deus. O profeta cita um hino antigo, no qual é dito que Deus cria as trevas e o mal (vide Jó 9.5s. e Sl 104.32). 3.2 – Duas questões teológicas Ciro é ungido (messias) de Deus? Ao chamar Ciro de ungido ou de pastor (Is 44.28), fica clara a relevância histórica de Ciro no contexto da Ásia Menor naquele tempo. Sua trajetória vitoriosa é admirável. O objetivo de chamá-lo de “Messias” é ressaltar que Deus o usou para libertar seu povo. Deus criou o mal? Conforme Gênesis 3.5 e 22, Deus colocou no jardim do Éden a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esse antigo relato e a hinologia antiga tomavam como natural a criação das trevas (em contraposição à luz) e do mal (oposto ao bem) por parte de Deus. Os hinos posteriores já não entram mais nessa temática (cf. Gerhard von Rad).

4 Meditação Deus não é uma divindade que só se restringe a um povo ou a causas individuais. Isso seria pensar pequeno sobre Deus. Como Criador, Javé também é o Senhor do mundo e da história (vide o contexto Is 44.24s. e 45.8s.).

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Nosso texto quer nos “cantar em prosa e verso” que Deus escolheu o grande rei Ciro para libertar seu povo do cativeiro babilônico. Esse Ciro foi em sua origem um “reizinho” insignificante numa cidade provinciana. Entre o povo hebreu vemos como Deus escolheu Moisés para ser o grande líder da libertação da escravidão no Egito. Moisés foi, na verdade, um assassino (Êx 2.11s) e era pesado de boca e de língua (Êx 4.10). O grande libertador que Deus enviou ao mundo (Jo 3.16) foi seu próprio Filho, Jesus Cristo – o Messias (Ungido de Deus). Jesus tem uma origem e uma vida humilde: filho de carpinteiro (Mt 13.55), nasceu numa estrebaria (Lc 2.7), não teve lar (Mt 8.20) e morreu condenado à morte na cruz (Mt 27.35 e par.).

5 Imagens para a prédica Sugiro usar o método “Ver – Julgar – Agir – Celebrar” para a pregação. Ver – Dois exemplos da história mais recente: Mahatma Gandhi e Mikhail Gorbatchev (citado no PL 21 por W. Buchweitz) sugerem que Deus usa pessoas para conduzir de maneira positiva a história, mesmo que não estejam vinculadas ao “cristianismo oficial”. a – Gandhi: Mohandas Karamchad Gandhi – apelido Mahatma (Grande Alma) – (1869-1948). Com os princípios da não-violência e da desobediência civil e com sucessivos e longos jejuns, Gandhi foi um dos principais articuladores da independência da Índia, alcançada em 1947 (apesar da teimosia britânica). b – Gorbatchev: nasceu em 1931 e foi o último secretário-geral do Partido Comunista, governando a União Soviética de 1985 a 1991. Implantou a Glanost (Abertura) e a Perestroika (Reestruturação) com três conseqüências históricas: o fim da União Soviética; o fim da Guerra Fria; a salvação da Rússia de uma derrocada com uma miséria imprevisível. Sem dúvida, pode-se fazer observações críticas a essas duas figuras da história. Aqui se trata de ressaltar o saldo positivo, o qual pode ser atribuído à ação de Deus na história humana. Afinal, o grande rei conquistador Ciro também não foi um monarca sem “pecados”. Julgar – Ler o texto de pregação. Descrever a situação histórica. Agir – Tirar as conseqüências do texto para o nosso contexto. Para tal proponho: Alguns aspectos negativos da atualidade que mostram como Deus não é incluído na história: a – Há religiões, igrejas e seitas que transformam Deus em mero “atendente de necessidades individuais”. Escrevo o auxílio homilético em maio de 2007, período da santificação de frei Galvão, cujos efeitos milagrosos são atribuídos a pílulas de papel.

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23º Domingo após Pentecostes

b – Há correntes religiosas que preconizam a teologia da prosperidade, calcada na “loteria divina”. Ouvi um dos fundadores de uma tal seita dizer em seu programa de televisão: “Tudo o que você der a Deus, ele é obrigado a lhe devolver em dobro”. Isso não é o nosso Deus, é um deus qualquer manipulado por um homem qualquer. c – No mundo secularizado, Deus é excluído das tomadas de decisão. Não se pergunta pela vontade de Deus. Disso resulta que também a ética, muitas vezes, é excluída. Na medida em que se rejeita um ser superior, a tendência é colocar-se a si mesmo como ser supremo. Alguns aspectos positivos da atualidade que mostram a atuação de Deus na história: a – Muitas pessoas – também presentes no culto – já se beneficiaram com o milagre da medicina atual. b – Tanto na igreja como fora dela, há pessoas com atuação marcante, que agem sob a condução do Espírito Santo. c – A consciência ecológica, de preservação do meio ambiente, também é fruto da atuação do Espírito de Deus em nossa história atual.

6 Celebrar – Subsídios litúrgicos Na liturgia inicial, sugiro incluir o lema da semana, o qual também pode servir como palavra de absolvição. Confissão de pecados: Pai bondoso, tu és o Senhor de nossa vida e de todo o mundo. Perdoanos quando nos esquecemos de tua grande Majestade, quando te colocamos num cantinho destinado apenas para resolver problemas pessoais. Ajuda-nos a aceitar-te como o senhor da história, tanto de nossas vidas como de todo o universo. Tem piedade de nós e do mundo. Amém. Oração do dia (oração de coleta): Nós te agradecemos, Senhor, por interferires com tua bênção na caminhada da humanidade. Para tal escolhes pessoas como teus instrumentos de atuação. De maneira definitiva enviaste o teu próprio Filho para salvar a humanidade. Ajuda-nos a ouvir, aceitar e testemunhar o evangelho de Jesus Cristo. Amém. Leituras bíblicas: Evangelho: Mt 22.15-22 – Dar a César o que é de César coloca César em seu devido lugar: seu atributo é cobrar o tributo. Epístola: 1 Ts 1.1-10 – Em solo europeu, há uma comunidade exemplar. Os dois textos refletem a questão do relacionamento e do convívio com pessoas não-vinculadas à fé cristã.

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Oração de intercessão: Deus, nosso Pai e Senhor de toda a vida! Nós te agradecemos por acompanhares a história da humanidade. Justamente por isso te imploramos para derramares o teu Santo Espírito especialmente sobre as autoridades deste mundo. Faze com que sejam mais responsáveis pela construção da paz, pela superação da violência, pela promoção da justiça. Abençoa nossa igreja e nossa congregação. Cuida bem de nossos familiares e de nossos lares. Ampara todas as pessoas que sofrem e fortifica a nossa fé. Por Jesus Cristo, teu amado Filho, nosso Salvador. Amém.

Bibliografia BUCHWEITZ, Wilfrid. Meditação sobre Isaías 45.1-7. In: Proclamar Libertação, v. XXI. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1995. p. 264-266. von RAD, Gerhard. Theologie des Alten Testaments, v. I e II. Munique: Chr. Kaiser Verlag, 1965. KEYES, Nelson Beecher. História Ilustrada do Mundo Bíblico. Rio de Janeiro: Seleções do Reader’s Digest, 1962.

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24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 22.34-46

26 OUT 2008

LEVÍTICO 19.1-2,15-18 1 TESSALONICENSES 2.1-8 Claudete Beise Ulrich

1 Introdução O texto indicado para a prédica neste 24º Domingo após Pentecostes está no Evangelho de Mateus 22.34-46. Esse texto encontra-se no contexto de uma discussão rabínica. Do método de discussão do rabi constava: primeiramente, o rabi responde a três perguntas, em seguida também interroga. Esse método também é adotado por Jesus, permitindo-lhe tomar posição diante das diversas correntes religiosas de seu tempo. No capítulo 22 do Evangelho de Mateus, encontramos os seguintes questionamentos: Os grupos dos fariseus e herodianos (Mt 22.15-22) questionam Jesus sobre o imposto. Jesus deixa cada um com sua liberdade diante de Deus. “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22.21). O grupo dos saduceus pergunta a Jesus sobre a ressurreição dos mortos (Mt 22.23-33). Jesus deixa claro que as questões levantadas pelos saduceus sobre a ressurreição dos mortos são inúteis. Ele vai ao ponto central, lembrando a Escritura: “[...] não tendes lido o que Deus vos declarou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos e sim de vivos” (Mt 22.32). Um fariseu, intérprete da lei, questiona Jesus sobre o grande mandamento na lei (Mt 22.34-40). Jesus responde com o grande mandamento do amor (Mt 22.37-38). Por fim, Jesus interroga seus adversários sobre ele próprio (Mt 22.41-46). Quando Jesus entrou em Jerusalém, foi aclamado como “Filho de Davi”. Em seu questionamento, Jesus faz perceber toda a profundeza de um título cujo sentido será descoberto somente depois da ressurreição. Os adversários não ousam mais interrogá-lo. Portanto o texto previsto para a pregação encontra-se dentro do bloco das controvérsias. São duas unidades de texto (Mt 22.34-40 e Mt 22.41-46), bem emolduradas e próprias entre si. Sugiro que a pregação enfatize o duplo mandamento do amor. Essa ênfase encontra-se também no texto de leitura do Antigo Testamento, Levíticos 19.1-2,15-18: “[...] Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”. O texto de leitura do Novo Testamento – 1 Tessalonicenses 2.1-8 – afirma que Paulo, Silvano e Timotéo dirigem-se à igreja dos tessalonicenses não somente para oferecer o evangelho: “Assim,

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querendo-vos muito, estávamos prontos a oferecer-vos não somente o evangelho de Deus, mas, igualmente, a própria vida; por isso que vos tornastes muito amados de nós” (1 Ts 2.8). O amor a Deus está interligado com o amor ao próximo.

2 Reflexão exegética O evangelho indicado para a pregação, como já dissemos, encontra-se no contexto das controvérsias. Jesus utiliza o método rabínico para dialogar com seus opositores. De acordo com Goppelt (1983, p. 65): “Na época de Jesus, Israel estava dividido em grupos religiosos claramente distintos. Partindo do cunho teocrático da coletividade judaica, esses grupos tinham também o caráter de partidos políticos”. No texto de Mateus 22.34-40, um fariseu intérprete da lei questiona Jesus sobre o grande mandamento na lei. “Os fariseus constituíam a linha religiosa dominante em Israel. Não haviam conseguido essa posição por acaso; representavam a orientação religiosa que o judaísmo pós-exílico havia tomado e que foi conservado no judaísmo talmúdico. Querem pôr em prática uma existência sob a lei, compreendem-se como o verdadeiro Israel e querem que todo o povo siga sua orientação. Para Jesus, os fariseus não são de modo algum uma caricatura do judaísmo, mas seus representantes são representantes de uma vida sob a lei. Por isso ele nunca fala individualmente a respeito deles, mas sempre de maneira geral e típica. Somente quando compreendemos isso, a discussão de Jesus com esse partido adquire sentido e sua acusação passa a ter peso” (Goppelt, p. 66). Os fariseus trazem para Jesus uma velha questão. Um fariseu intérprete da lei questiona o grande mandamento na lei? Ele, na verdade, quer saber: qual é o mandamento que, ao mesmo tempo, resume tudo e leva a observar toda a lei? Naquele tempo, contavam-se 613 mandamentos, 365 negativos e 248 positivos, mas todos eram julgados importantes e obrigatórios (Storniolo, p. 164). Para todas as questões havia uma lei. O povo ficava perdido em meio a tantas leis. Por onde começar? Alguns pensavam que era a observância da lei do sábado. O conceito “lei” é encontrado em Mateus 22.36 (par. Lc 10.26) e Mateus 22.40. “A pergunta introdutória a respeito do “primeiro” ou “grande” mandamento (Mc e Mt) corresponde à visão rabínica e exige o relacionamento com a lei (Mt) e não com outros mandamentos (Mc). A pergunta é respondida também em sua modificação secundária com o duplo mandamento do amor (Dt 6.4s., Lv 19.18)” (Goppelt, p. 130). Não existe, portanto, como desejavam os fariseus, um amor a Deus e outro ao próximo. Ambos estão ligados um ao outro. Só existe amor a Deus se existir amor ao próximo. Jesus responde com a lei, reinterprentando-a. Jesus responde ao fariseu, apontando para atríplice dimensão do amor: 1 – “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”

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(Mt 22.37). Jesus faz referência a Deuteronômio 6.5, modificando o final: em vez de dizer “de toda a tua força” ele diz de “todo o teu entendimento”. Coração, alma e entendimento são um modo israelita de falar: com tudo o que você é, tanto o que você conhece como o que não conhece de si próprio. De todo o teu coração – Numa linguagem simbólica, o coração representa o lugar da vida interna da alma ou do homem na profundidade de seu ser: Ali têm lugar a alegria, o temor, a dor, o amor, o desejo, a inteligência e o pensamento. De toda a tua alma – A alma é sinal da vida. Para os hebreus antigos, era simplesmente o ser vivo. É também considerada a fonte da vontade e dos sentimentos. De todo o teu entendimento – O entendimento pode significar o intelecto, a razão, o conhecimento, passando pela experiência. O conhecimento de Deus é a compreensão do amor divino experimentado seja através da revelação, seja através da aliança. O uso dos três termos (coração, alma, entendimento) tem a intenção de enfatizar que necessitamos amar a Deus integralmente. O amor necessita passar pelo corpo, pela razão e pela emoção. O amor a Deus sempre necessita ser entendido como reação ao amor que recebemos dele primeiro. O mandamento de amar a Deus, no Antigo Testamento, está ligado à aliança, mostrando a fidelidade do povo ao único Deus (lembra o primeiro mandamento). Jesus acrescenta ao grande e primeiro mandamento o segundo, semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.39b), fazendo referência a Levíticos 19.18b. A forma como Jesus apresenta o enlace do duplo mandamento do amor é totalmente novo. Jesus reúne dois mandamentos originalmente separados, embora cada um seja recomendado pelos rabinos. Somente Jesus os apresentou juntos, fazendo uma síntese da fé. O texto do Antigo Testamento que Jesus usa como base (Lv 19.18) recomendava que os israelitas amassem os demais membros de seu povo; mais tarde essa recomendação foi ampliada, incluindo os residentes estrangeiros (Lv 19.34). O conceito de próximo que Jesus tinha era muito mais amplo (veja a parábola do bom samaritano – Lc 10.25-37), incluindo todos e todas. Não há nenhuma exortação especial feita por Jesus em relação ao “amor a si mesmo”. Jesus, no entanto, deixa claro a sua missão: Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10.10). O critério ético do amor ao próximo e a si mesmo é a busca de vida digna para todas as pessoas. Por isso a pessoa cristã vive do amor de Deus e ama as pessoas, inclusive toda a criação. É importante, sem dúvida, reconhecer em nosso próximo a imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27). Nesse sentido, é necessário um grande respeito às diferenças. Não somos iguais. Cada ser é único e irrepetível. Mateus explica de maneira clara, em 22.40, o que a referência de Jesus ao duplo mandamento do amor afirma: “Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas”. A lei quer ser observada sob ou a partir da prioridade do duplo mandamento do amor, que é, claramente, a culminância da lei. Em contraposição, o farisaísmo atém-se praticamente, na opinião de Jesus

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segundo Mateus 23.23, a muitos pequenos mandamentos da lei e esquecem “a justiça, a misericórdia e a fé”. No entanto, é necessário deixar claro que Jesus, em outras afirmações, não se contenta com a caracterização do mandamento do amor como culminância da lei. Também não revoga os demais mandamentos da lei para favorecer o duplo mandamento do amor do Antigo Testamento. O mandamento do amor adquire um novo sentido quando Jesus o proclama na parábola do bom samaritano. O mandamento do amor passa a ser um “novo mandamento”, como interpreta João 13.34. Jesus também coloca junto os dois mandamentos do amor, que no Antigo Testamento encontram-se separados: amor a Deus (Dt 6.5) e amor ao próximo (Lv 19.18b). Jesus reinterpreta a lei num sentido totalmente novo: Só há amor a Deus se existir amor ao próximo. Depois de ser questionado, Jesus também interroga os fariseus (Mt 22.41-46). Fechando o bloco dos questionamentos, Jesus interroga seus adversários sobre quem ele é: “Quem pensais vós do Cristo? De quem é filho? Responderam-lhes eles: De Davi” (Mt 22.42). Naquele tempo, todo mundo esperava um sucessor de Davi, o grande rei de Israel, que libertaria o povo de todos os seus inimigos e os ensinaria, novamente, a viver na justiça e no direito. Jesus cita o Salmo 110.1: “Disse o Senhor ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés”. A intenção de Jesus é demonstrar que a libertação do povo não viria pela ação de um rei guerreiro como Davi. A libertação do povo chega quando cada um assume o projeto de cuidado pela vida, o qual o duplo mandamento do amor nos impulsiona a praticar. Jesus inverte o nosso olhar, fazendo-nos descobrir o que Deus quer de cada um de nós: pessoas que servem em amor. A fé é sempre ativa no amor.

3 Meditação No texto para a pregação, Jesus responde à pergunta do fariseu intérprete da lei a partir do que o fariseu conhece: “a lei”. Jesus demonstra conhecimento da lei. No entanto, ele a amplia, reinterpreta... Jesus enfatiza a tríplice dimensão do duplo mandamento do amor. Dessa forma, ele resume as muitas leis e obrigações existentes em seu contexto. A pergunta do fariseu intérprete da lei não deixa de ser importante e atual. Claro, não levando em consideração a malícia e a maldade que estavam por trás da pergunta que o fariseu dirigiu a Jesus. Nosso mundo globalizado é conflitivo, individualista, egocêntrico, extremamente competitivo, parece que esqueceu o mandamento do amor. Perguntamos como pessoas cristãs batizadas: O que fazer? Qual é o critério para as nossas decisões? Quais são os valores que devem orientar nossas ações e nossos posicionamentos? Como praticar o grande mandamento do amor? Como podemos imprimir, a partir do mandamento do amor, um novo modo-de-ser-e-estar-no-mundo?

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É interessante observar que os fariseus perguntam sobre o grande mandamento na lei. Eles estão interessandos em leis, deveres, obrigações. A resposta de Jesus não fala de leis, mas do grande mandamento do amor. Encontramos no texto um contraste entre lei e amor. O amor nunca é obrigação, mas serviço desinteressado. A sua expressão exterior jamais é vista como dever ou obrigação, e sim como satisfação e prazer. Jesus deixa claro que o sentido da existência humana não está no cumprimento pesado das obrigações, das leis, mas no cumprimento do amor, que traz satisfação e prazer para a vida. Jesus afirma sua ética: o amor conduz para o estabelecimento da vida digna. A fidelidade ao amor tem sempre três faces interligadas: Deus, próximo e eu mesmo. O amor é criativo, imaginativo, respondendo de outras formas aos desafios que os conflitos cotidianos nos trazem. Na prática, amar a Deus é permitir que Ele nos ame, permitir que seu amor flua em nós, entender que não podemos conquistá-lo por obras ou méritos – nem atraí-lo por nossas ações, piedade ou prestígio pessoal. O amor de Deus é pura graça, revelado de forma definitiva em Jesus Cristo. A única maneira de amar a Deus é dar espaço e permitir que seu amor aja em nós. Como cristãos e cristãs batizadas temos como orientação para nossas vidas a palavra. Nesse sentido, o evangelho previsto para a pregação nos orienta? Jesus deixa claro que amar deve ser o critério para nossa prática e nosso refletir. É interessante perceber a profundidade do duplo mandamento do amor, que se manifesta numa tríplice direção. Amor a Deus e ao próximo estão inter-relacionados, mas um não é sinônimo do outro. O amor a Deus não se esgota no amor ao próximo, não se resume a atitudes humanistas. Amor ao próximo brota e cresce do amor a Deus. Não é possível forçar o amor ao próximo. Se assim fosse, não seria amor, e sim lei. Amor ao próximo nasce da experiência do amor de Deus por nós, no qual a pessoa humana se sabe cuidada, protegida, amparada, consolada, enfim, amada. Saber-se amado, aceito, perdoado por Deus é sentir-se liberto da necessidade de guardar-se a si mesmo, de colocar o “eu” em primeiro lugar, de elevar-se às custas dos outros, de competir, de amar a si mesmo em primeiro lugar. Quem ama a Deus liberta-se do amor egoísta, da necessidade de estar sempre em primeiro lugar. É necessário passar por um processo de conversão, de libertação. Senão, o amor será sempre limitado. Os fariseus cumpriam a lei ao pé da letra, eram piedosos, mas não amavam. Tudo era medido pelo cumprimento da lei. Na verdade, não conseguiam entregar-se totalmente nas mãos de Deus. Por isso também estavam preocupados e ocupados consigo mesmos. Eram convertidos, mas não eram libertos; por isso a sua forma de viver a piedade era opressiva. Só eram considerados salvos aqueles que seguiam as determinações das inúmeras leis. O amor a si mesmo, na verdade, era mais forte do que o amor a Deus. Em nosso contexto, também muitas vezes as pessoas são colocadas dentro de determinadas caixinhas. Se elas não se enquadram dentro de determinados esquemas, elas são marginalizadas. Como vivemos o amor ao próximo em nossas comunidades? Como nos relacionamos com aqueles e

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aquelas que são diferentes e pensam de forma diversa que a nossa? Como os obreiros e as obreiras da igreja vivem e expressam o amor ao próximo? Como nós membros do corpo de Cristo vivemos o duplo mandamento do amor? Como as autoridades públicas expressam o amor ao próximo sem discriminação e preconceito? Conseguimos nos indignar com as inúmeras cenas e situações de violência, corrupção e exploração em nosso contexto brasileiro? Será que ficamos com os corações endurecidos e o amor incondicional de Deus já não mexe conosco? O amor a Deus é o alicerce para a realização do amor ao próximo.Tudo depende do amor a Deus, do qual brota o amor ao próximo. Só a confiança do amor de Deus liberta, transforma corações, capacita para o amor, cria nova criatura. Torna-se, portanto, necessário que ouçamos sempre a boa-nova do evangelho, do amor. Permitamos que a palavra penetre em nós, nos atinja, aja em nós e nos liberte de nós mesmos, acendendo em nós a chama do amor. Quando a chama do amor se acende, o ser humano se liberta, o coração se transforma, nascem um novo ser humano e uma nova sociedade. Os corações, as mentes e o entendimento transformados estarão capacitados para ser sal e luz (Mt 5.13-16) nesta terra e para toda a humanidade.

4 Imagens para a prédica Procurar imagens escritas e visuais em revistas, jornais e internet que expressam situações de amor e desamor do nosso cotidiano, chamando atenção para o contraste existente em nosso cotidiano. Ler o texto do evangelho, apontando para o contexto das diferentes controvérsias. Diferentes grupos religiosos e políticos questionam Jesus. Ele responde às perguntas de seus opositores. Fazer uma análise do texto, apontando para a resposta de Jesus à pergunta do fariseu intérprete da lei. Destacar o duplo mandamento do amor, que se manifesta numa tríplice dimensão. O que nos diferencia como pessoas cristãs batizadas é a vivência do amor. O nosso amor é sempre resposta ao grande amor de Deus por cada um de nós. Nós amamos porque Deus nos amou primeiro e capacita-nos sempre para o amor, pois somos justificados por graça e por fé. A prática do amor transforma! – Muito se fala sobre o amor... No entanto, há um descompasso entre o falar e o agir (apontar novamente para as imagens do cotidiano). O amor a Deus sempre envolve o amor ao próximo. Não existe amor numa via só. Quem ama a Deus ama o seu próximo como a si mesmo. Poderíamos perguntar? No mundo capitalista, globalizado, consumista, o amor a si mesmo parece imperar em primeiro plano. O “eu” está em primeiro lugar. Jesus inverte essa ordem, colocando em primeiro lugar o amor a Deus e o amor ao próximo como a si mesmo. Não podemos esquecer que o amor de Deus sempre é maior do que o amor que nós, pessoas humanas, praticamos e vivemos. Somos pecadores que vivem da graça amorosa de Deus. O duplo mandamento do amor compromete-nos com o cuidado da vida.

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Quem ama assume um modo de ser de cuidado com toda a criação. De acordo com Boff, “isso significa conceder direito de cidadania à nossa capacidade de sentir o outro, de ter compaixão com todos os seres que sofrem, humanos e não-humanos, de obedecer mais à lógica do coração, da cordialidade e da gentileza do que à lógica da conquista e do uso utilitário das coisas” (Boff, p. 102). A prática do amor transforma nossa forma de viver. Quebra barreiras. Reconstrói relacionamentos. Vive da reconciliação. Impulsiona para a construção coletiva de uma vida com abundância. A prática do duplo mandamento do amor resume a vida da pessoa cristã. Poesia (pode ser dramatizada ou recitada por um grupo da comunidade) Quando pinta o amor Quando pinta o amor Dança leve a liberdade Porque o amor liberta Quando pinta o amor Há motivos para festa Porque o amor alegra Quando pinta o amor Reina a vida soberana Porque o amor dá vida Quando pinta o amor É uma bênção à velhice Porque o amor protege Quando pinta o amor Fala alto a verdade Porque o amor é sincero Quando pinta o amor Paira a paz, fidelidade Porque o amor confia Quando pinta o amor Nasce a solidariedade Porque o amor congrega.

5 Subsídios litúrgicos

(Edson Ponick et al. Dez mandamentos: liberdade e compromisso. São LeoSaudação: poldo: Sinodal, 1996. p. 67-68. Série Educação e Criatividade) L – Cristã Querido Deus, abre os meus lábios.

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C – e a minha boca proclamará os teus louvores. L – Glória seja a ti, ó Deus, que enviaste Jesus Cristo e o Espírito Santo, E nos reúnes num mesmo e grande amor. C – Como era no princípio, agora e sempre. L – Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. C – Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Amém. Confissão de pecados: Confesso-te, Deus de amor. A semana que passou não foi muito boa. Aquela menina vendendo flores... Aquela mãe sem dinheiro para o remédio de seu filho... Aquele telefonema que me deixou inquieta no meu trabalho... A notícia de desemprego da minha amiga... Confesso-te, Deus de amor, Minha limitação, minha indignação Diante das coisas que não consigo mudar E ao mesmo tempo Minha diferença para com aquelas coisas Que posso mudar. Acolhe-me, Deus de amor, ajuda-me a te amar de todo o coração E a amar o meu próximo como a mim mesma. Transforma o meu jeito de viver. Ajuda-me a ser mais amorosa. Perdoa-me em nome de Jesus Cristo. Amém. (Adaptado de Inês de França Bento) Oração do dia: Deus de amor, pedimos neste culto em especial pelo teu Espírito de amor. Liberta-nos do ódio e da violência; socorre-nos de nós mesmos, do amor egoísta. Protege-nos das noites sem estrelas; cura-nos da opressão; afasta-nos do medo e da covardia. Acorda-nos e faze-nos mensageiros e mensageiras do teu reino, que é feito de amor, bondade, cuidado e compreensão. Ensina-nos a viver no cotidiano o mandamento do amor. Ajuda-nos a te amar de todo o coração, alma e entendimento. Dá que possamos estender as mãos às pessoas próximas, amá-las sem discriminação, no respeito às diferenças. Dá-nos o teu espírito de amor. Em nome de Jesus. Amém. (Adaptado de Inês de França Bento)

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Bênção final: Abençoa-nos, Deus Pai e Mãe. Derrama sobre nós o teu Espírito de amor. Vivenciado por teu filho, para que possamos aquecer, cuidar e iluminar com a tua luz amorosa toda vida que nos cerca. Amém.

Bibliografia BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento, v. 1. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1983. MEINCKE, Silvio. 18º Domingo após Trindade: Mateus 22.34-40. In: KAICK, Baldur van (Coord). Proclamar Libertação, v. IV. São Leopoldo: Sinodal, 1979. p. 194-197. STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Mateus: O caminho da justiça. Paulinas: São Paulo, 1990. WEBER, Eloir. 23º Domingo após Pentecostes – Mt 22.34-40 (41-46). In: HOEFELMANN, Verner; SILVA, João A. M. da (Coord.). Proclamar Libertação, v. 30. São Leopoldo: Sinodal, 2004. p. 253-258.

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DIA DA REFORMA

PRÉDICA: MATEUS 5.1-10

31 OUT 2008

ISAÍAS 62.1-12 GÁLATAS 5.1-11 Walfrido da Silva Ildemar Kanitz

1 Introdução Esta celebração quer lembrar a Reforma Luterana, e os textos indicados apontam para a missão, ou seja, para a aventura, o risco, a transformação que as palavras de Deus podem provocar em nossas vidas. Nesse sentido, procuraremos estruturar, na medida do possível, uma mensagem que dê conta desses movimentos (estar com, dialogar, olhar), desses perigos (mundos, realidades, vidas, sofrimentos, violências) e dessas mudanças (misturar, envolver, chafurdar, enlamear-se). A missão é de Deus. A comunidade é seu instrumento, sinal de seu amor e agente de transformação do mundo. O sacerdócio geral de todos os crentes define-se por esse serviço a Deus, que deve ser baseado no amor (cruz de Cristo) inconformado com o mundo, que não se acomoda diante das injustiças e não é indiferente diante do sofrimento alheio. A missão da comunidade não se define só pelo PARA (ir ao encontro), mas também pelo ESTAR-COM (pessoas carentes). Esse estar-com exige mudanças, deslocamentos e envolvimentos que, de alguma maneira, transformam os sujeitos em missão.

2 Exegese Os textos previstos para esta celebração são: Mateus 5.1-10 (prédica), Isaías 62.1-12 e Gálatas 5.1-11 (leituras). Esses três textos têm em comum o desafio, o perigo, o compromisso e a transformação do e no mundo. As mensagens que atravessam os textos são de resistência às injustiças (dissoluções e opressões), de caracterizações (minorias marginalizadas e miseráveis) e de envolvimento com o mundo (ser perseguidos, injustiçados). 2.1 – Mateus Ele apresenta uma série de beatitudes ou interjeições que não requerem verbos. Elas não descrevem sentimentos das pessoas em-si-mesmadas, mas seus modos de bem-aventuranças. Portanto a palavra makarioi (grega) pode

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Dia da Reforma

remeter-nos a duas ações distintas. A primeira refere-se a bem-aventuranças como felicidade, alegria e gozo; a segunda como palavra de ação (ordenanças) que remete às ações proativas. Sugiro essa segunda possibilidade, pois as interpretações correntes têm valorizado a primeira dimensão. Assim sendo, as bem-aventuranças desafiam a comunidade às aventuras, aos perigos, às transformações cotidianas e não a um suposto lugar seguro (do mesmo), inerte e isolado no mundo. As pessoas não permaneceram seguras na montanha (sermão da montanha), mas desceram as colinas e embrenharam-se nas planícies. O texto refere-se também a uma série de grupos, tais como os humildes de espírito, os que choram, os mansos, o que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores e os perseguidos por causa da justiça. São minorias segregadas e maltratadas pelos sistemas vigentes (político, religioso e social). Outras não são mencionadas nominalmente nesse texto, por exemplo: crianças, órfãos, viúvas, estrangeiros, prostitutas, cobradores de impostos, leprosos, doentes etc. O que define uma minoria é o fato de estar fora das normatizações, do estabelecido como normal e aceitável. As pessoas que seguem Jesus Cristo advêm, principalmente, dessas minorias. Portanto o texto faz ver essas minorias execradas, ainda hoje, pela sociedade. Elas são as bem-aventuradas, ou seja, as que lutam por um lugar à mesa da comunhão, o ESTAR-COM. 2.2 – Isaías O texto previsto para este dia está situado dentro do assim denominado Trito-Isaías (56-66), ou seja, refere-se ao pós-exílio babilônico. O povo de volta à terra enfrenta a miséria e o desafio da reconstrução. Nesse contexto, o profeta encontra problemas sociais e jurídicos. A aventura do retorno e da reconstrução (concretização da promessa de Deus) tem por base a inquietação do povo, que diante dos tantos desafios e problemas se apega à promessa da terra, transformando a realidade de destruição. O sujeito dessa ação é Deus. 2.3 – Gálatas Destacamos que este texto está dentro de um bloco temático entre seguir a lei ou a Cristo (3.1-5.15). Apresenta o perigo da comunidade transformada que pode retornar à escravidão, submetendo-se à lei (circuncisão) como condição básica da expressão da fé. O que tem valor é a fé que atua pelo amor, mesmo que isso implique sofrimento como perseguição e não-aceitação.

3 Meditação

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Os textos provocam a inquietação pessoal, social e religiosa. O que incomoda é, portanto, que está dentro e fora de nós; é aquilo que não nos deixa ficar tranqüilos e serenos em relação às coisas do mundo, ao que vemos, ouvimos e, até mesmo, ao que fazemos. E por que não dizer inquietos em relação à fé? Em Gálatas, Paulo toca em algo fundamental no viver humano: a liberdade. Ele deixou inquietas as pessoas que acreditavam no cumprimento da lei como caminho para a salvação, pois elas haviam se tornado, novamente, escravas da lei. Em Isaías, vemos as pessoas inquietas porque precisavam reconstruir suas vidas e a cidade santa, tornando-a, novamente, cidade não-deserta. (... por amor de Jerusalém, não me aquietarei, até que saia a sua justiça como um resplendor, e a sua salvação, como uma tocha acesa – v. 1.) Portanto a inquietação está intimamente relacionada ao amor e à transformação de si mesmo e da realidade. Em Mateus, Jesus deixou as pessoas muito inquietas, surpreendendo-as com suas palavras. Bem-aventurada é a pessoa que comete uma “loucura” aos olhos do mundo; por causa de sua proposta de vida escolhe um outro caminho, sendo, muitas vezes, desprezada, injuriada e perseguida. Isso deve ter incomodado e inquietado as pessoas que ali estavam, pois descobriram que o caminho (salvação) para o qual Jesus está chamando é de aventura, de risco e de perigo. Ele chama as pessoas para essa aventura de busca de uma outra justiça (sistema de poder) e de uma outra realidade (reino de Deus). Os versículos seguintes falam do ser sal na terra e luz no mundo, desafiando as pessoas para a grande aventura que é a missão de Deus. A Reforma Luterana também foi marcada por inquietações e aventuras, que levaram a transformações, tais como salvação por graça e fé, tradução da Bíblia e outros conhecidos pilares. Por isso cabe muito bem lembrar aqui das inquietações de Lutero não só em relação a si mesmo, mas em relação à igreja e ao Estado. Assim poderíamos dizer que a Reforma é resultado dessas inquietações, em que a fé e a condição de vida das pessoas passaram a compor o espectro da comunidade cristã. Enfim, a Reforma torna-se, ainda hoje, um referencial que desafia a tradução de todas essas inquietações em ações transformadoras do mundo, da igreja, da vivência da fé. Há uma grande tendência na sociedade à acomodação com os preconceitos, violências, injustiças, exclusões e segregações cotidianas. Aprendemos a modelar o viver, o sentir, o sonhar, o pensar e o fazer no mundo, de forma a não nos questionarmos. A ilusão de que não podemos fazer nada vai tomando conta da gente. Até acreditamos que isso é natural. Nesse sentido, a acomodação é o velório das possibilidades e das esperanças e o enterro das inquietações. O texto de Mateus convida-nos à aventura, ao risco, à inquietação como formas de viver a fé cristã encarnada no mundo. Como estão as comunidades que congregam a IECLB nesse cenário? Como está a nossa comunidade? Como estamos nós? Se, por um lado, temos motivos para nos alegrar, pois sabemo-nos amados e protegidos por Deus, por outro lado, estamos tristes, pois nossas comunidades estão perdendo membros

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e não conseguem crescer. Se uns estão agitados, outros estão anestesiados; se uns querem mudanças, outros preferem a estagnação. A acomodação advém da falta de perspectiva e de esperança; já a inquietação, do amor e do desejo de mudança. O texto deveria motivar todas as pessoas a grandes aventuras dentro das comunidades que congregam a IECLB. Estamos não só inquietos, mas também decepcionados e assombrados, pois não conseguimos traduzir em ação-transformação todas essas incomodações que nos afligem. Optamos, quase sempre, pelo caminho mais seguro e conhecido. As palavras de Cristo convidam-nos para uma aventura de conhecimento, de envolvimento, de missão e de inclusão. Enfim, precisamos acreditar em novos mundos, novas relações e novas interações. Jesus Cristo, a partir de Mateus, convida-nos a conhecer outras realidades, outros modos de partilhar e expressar a fé nas bem-aventuranças. Aventurar é inventar um outro mundo e sair no seu encalço. A segurança é Deus quem nos dá por sua graça. Bem-aventuradas são as pessoas que mudam (fraternalmente) a realidade e a si mesmas, firmes nas promessas do reino de Deus.

4 Imagens 4.1 – Barco (relacionado à aventura) A grande aventura das expedições marítimas marcou a história da humanidade. Navios pequenos eram colocados para enfrentar os temporais. O medo, o desânimo e a quietude cederam lugar à curiosidade. Os navegadores encheram-se de coragem e foram em busca de novas alternativas para seu comércio, descobrindo, assim, novos caminhos para o Oriente, contornando a África e chegando também à América. Os aspectos negativos dessas viagens e conquistas não precisam ser detalhadas. 4.2 – Água e pedra (relacionadas à transformação) A água leva vida (poluída leva morte) e está em constante transformação; movimenta e possibilita movimentos. Remansos e correntezas, evaporação, ebulição e congelamento são estados possíveis da água. A pedra pode ser um obstáculo; suas transformações são lentas e suas formas e cores variadas. Essas imagens podem ilustrar as variadas e variantes transformações comunitárias, ou seja, a tensão permanente entre conservar e mudar. Sugestão de hino: Qual barco singra pelo mar... (HPD 1, 98)

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DIA DE FINADOS

PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 15.12-20

02 NOV 2008

ISAÍAS 35.1-10 MATEUS 22.23-33 Julio Cezar Adam

1 Introdução A mensagem a partir de 1 Coríntios 15. 12-20 será para o culto no Dia de Finados (25º Domingo após Pentecostes). Nada mais conveniente do que o texto de Paulo por causa de sua mensagem centrada no evento da Páscoa: a ressurreição. É um dia em que, de uma maneira especial, as pessoas lembram de seus entes queridos mortos. Talvez uma das únicas épocas do ano em que essa lembrança ainda tem espaço garantido. É um dia para ouvir sobre a ressurreição, a vida e a morte, sua e dos seus. Sugiro considerar, na elaboração da mensagem, uma suspeita: o ser humano contemporâneo, inclusive aqueles que participam com certa freqüência da igreja, não tem um conhecimento apurado do que de fato é a ressurreição. O que se sabe e se crê, em grande medida, está relacionado hoje a compreensões mescladas com outras doutrinas pós-morte, sobretudo a doutrina da reencarnação. Basta considerarmos a enormidade de novelas e filmes que abordam essa perspectiva. A teologia da ressurreição como tal é algo complexo, difícil de se entender. Outras interpretações são racionalmente mais aceitáveis, talvez por ser amplamente difundidas ou simplesmente porque combinam mais com tendências contemporâneas, como a negação da morte, o individualismo e o controle nas próprias mãos. Existem correntes da teologia que afirmam que Cristo não ressuscitou como tal. Ele ressuscitou para dentro do querigma, para dentro de sua mensagem. Seus seguidores fizeram-no ressuscitar em nome da boa-nova etc. Essa é uma boa discussão para a academia. Não é, no entanto, o que as pessoas querem ouvir em sua fé e espiritualidade. Parece-me que, também nesse sentido, o texto de Paulo é um alerta e um chamado a olhar a ressurreição como um fato possível e real aos olhos da fé. O contexto em que Paulo escreve, as razões por que escreve, o que escreve e a forma como escreve levam-nos a pensar na necessidade da catequese em nossas comunidades, inclusive no culto. As cartas de Paulo não deixam de ser um tipo valiosíssimo de “educação à distância”. Por isso apresento aqui, principalmente como subsídio, elementos do contexto de Paulo e sua carta e elementos que ajudam a entender a própria ressurreição, ou pelo menos para

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abrir a discussão e fazer pensar. O capítulo “A morte como problema humano, aspectos biológicos e antropológicos”1, do professor Brakemeier, tem me ajudado enormemente nesse sentido. Sugiro lê-lo, se possível.

2 Contexto Corinto era uma cidade comercial e industrial (cerâmica, bronze e artesanato), rica, próspera e moderna, com acesso a dois portos importantes (mar Ageu e mar Adriático), era caminho de transporte e comércio. A população de cerca de 500 mil habitantes era urbana, formada por viajantes vindos de várias partes, de diferentes raças, culturas e religiões. Formava um cenário heterogêneo e plural, predominantemente pagão. O templo de Apolo era um dos mais conhecidos e antigos da Grécia. Em uma colina ficava o santuário de Afrodite, com mil sacerdotisas. Grupos de judeus compunham esse cenário. Quase metade da população era escrava. Por isso o contexto era conflitante. Corinto era ainda sede administrativa do imperialismo romano. “Em suas ruas era fácil cruzar com o homem cosmopolita, o místico do oriente, o judeu da Palestina e da diáspora, o filósofo grego e o homem do povo que juntava tudo num sincretismo religioso popular.”2 Justamente por isso Paulo começa sua carta dizendo que o evangelho de Jesus Cristo, Cristo crucificado e ressurrecto, é loucura para os gregos e gentios e escândalo para os judeus (1 Co 1.23). A comunidade de Corinto foi fundada por Paulo em sua segunda viagem missionária (50-52 d.C.). Vindo de Atenas, Paulo esteve em Corinto por um ano e meio, trabalhou como construtor de tendas na fábrica do judeu Áquila e sua mulher Priscila e hospedou-se na casa deles.3 Ao que parece, o apóstolo teve algum problema com grupos de judeus da cidade e é obrigado a ir para Éfeso. Ali, mais tarde, no ano 54 d.C., Paulo escreve essa carta (uma carta anterior deve ter sido escrita, 1 Cor 5.9). A Primeira Carta de Paulo aos Coríntios é um dos textos mais antigos do Novo Testamento, mais antigo do que os evangelhos. A carta é parte do projeto missionário de Paulo, respondendo a uma série de perguntas e notícias, trazidas até ele ou oralmente ou através de uma correspondência. A carta é, pois, destinada aos ouvintes da comunidade, devendo ser lida nas assembléias litúrgicas (prece e bênção no início e no fim). Não são discursos teóricos, especulações teológicas, mas respostas que incluem a vida em comunidade dos ouvintes. A comunidade que havia crescido bem e com grande entusiasmo parece ter recaído numa pobreza espiritual e numa certa confusão confessional e com-

1 BRAKEMEIER, G. O ser humano em busca de identidade: contribuições para uma antropologia teológica, p. 172-190. 2 T. FRIGERIO, p. 37. 3 G. BORNKAMM, p. 97.

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portamental. A comunidade de Corinto recaiu em seu passado. Grupos rivais estabelecem-se na comunidade. Alguns retornam a práticas de libertinagem, prostituição, que caracterizavam o contexto urbano e cosmopolita da cidade. Outros outorgavam-se uma sabedoria presunçosa, fortalecida inclusive pelo entusiasmo espiritual experimentado. Há um retorno às religiões mistéricas e à gnose (separação da alma do corpo) e dificuldade em se reorientar nos critérios seguros da fé cristã. A ressurreição dos mortos é um desses critérios. Havia um pensamento de que a ressurreição já se dera no momento em que receberam o Espírito Santo e, portanto, não há mais ressurreição dos mortos. A esses, provavelmente, é que Paulo se dirige nesse trecho da carta (1 Co 15). Eles acreditavam já fazer parte, em espírito, do mundo ultraterreno de Deus, onde a ressurreição dos mortos não passaria de figura de linguagem.4 A comunidade de Corinto nasceu a partir de uma nova proposta: a do evangelho. Justamente por ser cosmopolita e plural, a nova proposta foi aceita com entusiasmo e, ao mesmo tempo, por seu caráter heterogênico, libertino e sincrético, acabou com a saída de cena do apóstolo, recaindo em práticas e crenças fora da proposta cristã. Quanto à delimitação e análise detalhada do texto (versículos), inclusive a exegese a partir do original, sugiro conferir as ricas informações trazidas por Ulrich Schoenborn no PL III, p. 13-21, e Osmar Zizemer no PL XVII, p. 63-68. O capítulo 15 da carta forma um todo, tendo por tema a ressurreição de Cristo e a ressurreição dos mortos. Nem uma nem outra estavam claras na comunidade de Corinto. A fé na ressurreição de Cristo e dos mortos desaparecera ou estava sendo questionada. Por isso, nos v. 1-11, Paulo faz uma apologia, procurando provar pela evidência dos muitos que viram o Cristo ressuscitado, inclusive ele. Entre esses há pessoas que ainda vivem e poderiam ser interrogadas. Nos v. 12-20, nosso texto, Paulo lança uma ponte entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição dos mortos. Uma está relacionada à outra. Não dá para tomar uma e negar a outra. Negar uma ou outra é o mesmo que desfazer a base da fé e da esperança cristã. No v. 21 até o final do capítulo, Paulo procura explicar como se dá a ressurreição, ou seja, a transformação em corpo espiritual, no final dos tempos, rebatendo a idéia presente na comunidade de que podemos ressuscitar estando ainda vivos.

3 Meditação Mesmo sendo contextos completamente diferentes, muitos hoje, assim como aqueles em Corinto outrora, misturam elementos de uma e de outra religião e crença e, muito provavelmente, constroem sua própria idéia de vida pós-morte, de “ressurreição”. Outros tantos olham a ressurreição com certo ceticismo e, também como em Corinto, já não se importam muito se há ou não ressurreição dos mortos. 4

G. BORNKAMM, p. 101s.

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O tema central do texto de Paulo é a fé na ressurreição de Cristo e dos mortos. Sendo Dia de Finados, não deveríamos fugir da tarefa de falar a respeito. Não deveríamos, pois, apenas interpretar a ressurreição para as situações de morte no dia-a-dia. Sugiro por isso uma prédica catequética. É uma ótima oportunidade para explicar de forma compreensível, clara e dialógica – sem apelar para dogmas e grandes verdades e palavras teológicas –, o que foi a ressurreição de Cristo e o que significa para o cristão a fé na ressurreição. O que é, afinal, a ressurreição? O ideal seria que, em grupos de estudo bíblico, nas reflexões que antecedem o encontro dos grupos da comunidade, na semana que antecede o culto, fosse estudado o tema, estudando, inclusive, todo o capítulo. O que vocês entendem por ressurreição? Esta deveria ser a pergunta para desencadear a conversa. Se não for possível fazer isso ao longo da semana, sugiro que se faça no culto. Como disse antes, falar da ressurreição demanda clareza, em primeiro lugar, por parte do pregador. Não supor que a comunidade domina o assunto, nem jogar com várias possibilidades, parece-me o ideal. Nossas comunidades carecem de catequese para entender temas pilares como esse. Conforme Brakemeier, nem mesmo a Bíblia oferece um porto seguro sobre o como da ressurreição. “Há passagens indicando que a ressurreição terá lugar imediatamente após a morte (Lc 23.43: Fp 1.23). Conforme outras, ela acontecerá no final dos tempos, por ocasião da volta de Jesus Cristo (1Ts 4.13s.: Mc 13.24s.). Juntamente com o livro de Daniel (12.2), o Apocalipse de João (20.4,12) apregoa uma dupla ressurreição, uma para a vida eterna, outra para o juízo (cf. também Jo 5.29). Enquanto isso, outros testemunhos insinuam ser a ressurreição reservada para ‘os que são de Cristo’ (1 Co 15.23).”5 As pessoas de todos os tempos carecem de explicações claras, assim como aquela que Paulo ofereceu aqui aos coríntios, por se tratar de um tema existencial e também por serem muitos os outros movimentos, filosofias, religiões e crenças que oferecem explicações “seguras”, até com pretensões científicas. A clareza está alicerçada na fé e não na especulação, no “como”. A idéia de ressurreição cristã, ao mesmo tempo em que é o cerne e a base da fé cristã – “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé” (v. 14) –, arranca das mãos do ser humano o controle e a explicação racional. Ela não é garantia e segurança racional. O que podemos dizer é que “a passagem para a vida eterna está atrelada ao juízo. O momento exato do mesmo, porém, não está fixo” (Mt 25.31s.; 2 Co 5.10; Ap 20.1s.). (O Novo Testamento) documenta, a seu modo, o desinteresse especulativo da fé. Deus fará justiça, mas não compete ao ser humano saber como. O novo mundo de Deus subtrai-se à exploração e ao mapeamento pelo ser humano. Importante é saber que a morte tem em Deus sua barreira”6. Por isso atrai poucos adeptos nesses tempos em que o ser humano vive como se tivesse controle de tudo, da vida, da morte e

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G. BRAKEMEIER, p. 188.

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do pós-morte. Hoje, em sua presunção, o ser humano prefere inclusive crer que a vida acaba com a morte (imanentismo) do que arriscar-se na confiança de lançar-se nos braços de Deus. A ressurreição é isto: Não temos provas concretas, nem explicação lógica e racional, muito menos certeza científica, comprovação. Abraçar a ressurreição requer humildade e fé. É algo inimaginável aos olhos da razão e da especulação pragmática. É, assim como a morte, um mistério. De concreto temos apenas Cristo (v. 16) e a fé nele, dizendo que, mesmo mortos, continuamos nas mãos de Deus. Cristo abriu o caminho para nós. Já nada nos separa do amor de Deus, nem a vida tampouco a morte, como Paulo irá dizer em Romanos 8.38-39. Quando morremos, devolvemos nossos corpos à terra (v. 35s.). Nenhuma parte se desprende e fica vagando por aí ou num céu cinematográfico. O que permanece imortal é a nossa relação com Deus. Nossa identidade e nosso ser permanecem guardados com Deus até o Dia do Juízo.7 Essa é a promessa que temos; ela é acessível a todo o que nela crê. Ou seja, “não há garantia antropológica da ressurreição. Existe somente uma certeza teológica, ou seja, existe uma promessa, à qual a pessoa é chamada a se apegar. Também a vida futura só poderá ser recebida por graça e fé. Conseqüentemente, justificação por graça e fé e ressurreição dos mortos formam um só pensamento coerente”8. Da humildade e da fé nasce a esperança, esperança em Cristo para a ressurreição para esta vida (v.19) e na vida eterna. Em vez das pessoas ficarem especulando, muito mais deveriam fortalecer sua fé e confiança em Deus, Senhor da vida. O texto do evangelho (Mt 22.23-33) é um bom exemplo disso. Ali Jesus sobrepõe a discussão especulativa, racional e pragmática à questão teológica e espiritual. A fé e a confiança naquilo que o Deus dos vivos promete, fez e faz é que deve prevalecer. Ao lado da fé na ressurreição, as pessoas deveriam alegrar-se com a graça e viver de forma condizente com a fé nesse Deus que desfaz a morte como ponto final da vida. A esperança que emana da ressurreição tem conseqüências para a vida toda. Nesse sentido, a fascinante visão de Isaías (Is 35.1-10) pode dar o impulso para a construção da esperança já agora.

4 Imagens Gosto muito da pequena história que ilustra o salto para a fé. Um menino encontrava-se sobre um muro alto em uma noite escura.

G. BRAKEMEIER, p. 188s. G. BRAKEMEIER, p. 178s. 8 G. BRAKEMEIER, p. 189. 6 7

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Lá de cima do muro ele não conseguia ver quem estava no chão. Ele apenas ouvia a voz do pai, que estava lá e dizia: “Meu filho, pode pular, eu estou aqui embaixo. Estou te vendo e vou te segurar nos braços”. O menino não pensa duas vezes. Reconhecendo a voz do pai, mesmo não o vendo, ele pula e o pai o segura nos braços. A fé e a fé na ressurreição são assim. Temos uma promessa, a promessa de Deus, manifestada grandemente na ressurreição de Jesus Cristo. Podemos lançar-nos que Deus nos sustentará. Podemos morrer que continuamos nele. A fé é esse jogar-se na certeza de que Deus lá estará. “Se morremos, não caímos no nada; caímos nas mãos de Deus” (Gottfried Brakemeier).

5 Subsídios litúrgicos Acolhida: O apóstolo Paulo escreve: “Se Cristo não tivesse ressuscitado, nada teríamos para anunciar, e vocês nada teriam para crer”. “Mas a verdade é que Cristo ressuscitou” (1 Co 15.14, 20). E o próprio Jesus falou: “Eu sou aquele que vive; estive morto, mas agora vivo para sempre. Tenho autoridade sobre a morte e sobre o mundo dos mortos” (Ap 1.18). Oração do dia: Deus da vida, que tiraste o poder da morte pela ressurreição de Jesus Cristo, teu Filho, e que esperas que divulguemos isso pelo mundo com nossas palavras e ações, concede fé e ilumina nosso entendimento, que busca provas, fazendo com que olhemos para além do túmulo vazio, a fim de que nossos ouvidos e nosso coração percebam o que nossos olhos não podem ver e nossas mãos não podem tocar. Por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo, hoje e sempre. Amém. Oração geral da igreja: – Intercedemos, nosso Deus, por fé na ressurreição do corpo, do corpo de Cristo e do nosso corpo, para que fiquemos livres da tentação de crenças e filosofias que prometem soluções fáceis por caminhos individualistas. – Intercedemos, nosso Deus, pela ação da tua igreja, para que, em gratidão por tudo o que fizeste por nós, haja mais disposição para o estudo da tua palavra, mais vontade de celebrar e viver em comunidade, mais tempo para servir na tua seara. – Intercedemos, nosso Deus, pelas pessoas que sofrem nesse mundo, para que a mensagem da ressurreição e vida plena arranque do nosso meio a ânsia de poder, a sede de riqueza, a presunção da segurança a qualquer preço, o desprezo por quem é diferente, os muros que dividem, a fim de que os sinais da vida sejam mais fortes, despertem a esperança e transformem

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nosso mundo. – Intercedemos, nosso Deus, por todas as pessoas, famílias, que choram a morte de seus entes queridos. Que teu Espírito consolador anime sua fé e anime nossa comunidade para que seja uma luz de esperança em suas vidas. Oração eucarística (dípticos ou mementos): A oração eucarística afirma a perspectiva escatológica que move a vivência cristã. Daí a importância dos dípticos ou mementos, que afirmam que a Ceia é celebrada em união com todas as pessoas que já partiram desta vida como seguidoras e testemunhas da causa de Cristo. Ao mesmo tempo, testifica a esperança cristã na ressurreição para a vida eterna, quando ocorrerá o banquete que o próprio Senhor vai preparar e servir à mesa. A oração eucarística expressa a convicção cristã de que “nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nada poderá separar-nos do amor de Deus” (Rm 8.38-39). Portanto os dípticos ou mementos permitem que a comunidade seja envolta poimenicamente, em especial as pessoas enlutadas, pois manifestam a idéia da comunhão dos santos no corpo de Cristo.9 Aqui um exemplo: L – Lembra-te, Deus da ressurreição, das testemunhas da ressurreição de Jesus e dos nossos familiares e pessoas queridas que já partiram desta vida (pode-se aqui citar os nomes das pessoas falecidas da comunidade), chamando-as da morte para a vida eterna, guiando-nos, juntamente com elas e com todas as pessoas que chamarás da morte para a vida, ao banquete na tua presença, na glória eterna, quando nunca mais haverá lágrima nem morte. Com todas elas proclamamos tua glória por todo o sempre. C – Por Cristo, com Cristo e em Cristo... Bênção: Que a força que abriu o sepulcro nos abençoe em nossas fraquezas; que o amor que venceu a morte nos ajude a vencer a indiferença; que a presença do Consolador nos faça dormir tranqüilos e acordar em paz. Amém. (Luiz Carlos Ramos)

Bibliografia BRAKEMEIER, G. O ser humano em busca de identidade: contribuições para uma antropologia teológica. São Leopoldo/São Paulo: Sinodal/Paulus, 2002. p. 172-190. BORNKAMM, G. Paulo: vida e obra. Petrópolis: Vozes, 1992.

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Conforme o Livro de Culto da IECLB, p. 41.

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26º DOMINGO APÓS PENTECOSTES Amós 5.18-24 MATEUS 25.1-13 1 Tessalonicenses 4.13-18

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PRÉDICA: JUÍZES 4.1-7

16 NOV 2008

MATEUS 25.14-30 1 TESSALONICENSES 5.1-11 Elaine Gleci Neuenfeldt

1 Introdução As leituras previstas para este domingo têm como tema comum a vigilância e o preparo para o dia do juízo. Mateus 25.14-30 conta a parábola dos talentos ou como cada qual atua com os talentos que recebe como graça; 1 Tessalonicenses 5.1-11 recorda a necessidade da vigilância diante da iminência da vinda do Senhor. A ponte com o texto do Antigo Testamento previsto para a pregação vejo na idéia de que estar atento e preparar-se para a tarefa de vigilância pode significar situações bem concretas da vida cotidiana. Esse preparo e vigilância podem ser exercidos por homens e mulheres e tem melhor possibilidade de dar certo se são assumidos em conjunto ou em grupo. Sugiro usar a perícope da pregação até o v. 9, onde acontece a ida conjunta de Baraque e Débora para a batalha, pois uma ênfase a ser dada nesse estudo é o convite que o homem faz à mulher de assumir em conjunto a tarefa.

2 Comentários exegéticos O livro de Juízes faz parte de um conjunto de livros que se chama Obra Historiográfica Deuteronomística (Josué até 2 Reis, excluindo Rute). Seu texto surge em diferentes etapas e representa a visão de reconstrução da história de um grupo depois da catástrofe da destruição e do exílio (587, 597 a.C.). O conteúdo do livro retrata a época entre a conquista da terra prometida e a implantação do reinado. O capítulo 4 localiza-se na parte central do livro, que trata das narrativas dos juízes – 3.7-16.31. A estrutura narrativa dessas perícopes é bastante similar: as pessoas fizeram o que era mau, ocorrendo a revolta contra Deus. Segue uma situação de aflição e lamento para, em seguida, Javé levantar um juiz, um salvador – sofet –, que irá tirar o povo da situação de sofrimento. Juntamente com Otniel, Jefté e Shamgar, Débora é nomeada junto aos juízes maiores – aqueles que têm mais do que uma referência e uma trama narrativa mais extensa. O sofet tem a tarefa de ajudar Israel a conquistar o direito e a justiça. Aqui a idéia é que, sem o reinado, a mediação entre a divindade e o

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povo vai ser feita por essa figura instituída, que deve cuidar da jurisprudência, assumindo inclusive as tarefas de comando militar. Algumas informações sobre a época e o contexto histórico, narrado nos Juízes, podem ajudar a entender o texto em estudo. A autoridade políticojurídica estava a cargo dos anciãos, que representavam o poder das famílias e de sua associação, o clã. As decisões eram tomadas em assembléias coletivas, que reuniam o povo sob a convocação de uma determinada liderança. Não havia exército fixo e permanente; esse era convocado somente em situações de conflito emergente. O uso da terra era coletivo e havia uma distribuição igualitária da produção. Quanto à organização religiosa, não há referência a templo e nem de um corpo sacerdotal especializado. Parece que as celebrações e reuniões importantes aconteciam assim como o versículo 4 do mesmo capítulo 4 nos indica o lugar onde Débora exercia sua função de liderança profética: debaixo da palmeira, ou seja, debaixo das árvores, sem a infraestrutura de um palácio ou de um templo. Débora – mulher, juíza e profetisa A profecia feita por mulheres é atestada em alguns textos do Antigo Testamento: junto com Débora, em Juízes 4 e 5, também Miriam é mencionada em Êxodo 15, Hulda em 2 Reis 22.14 e Noadia em Neemias 6.14. Ainda, Isaías 8.3 fala de uma profetisa, mulher do profeta. Em 1 Crônicas 25.5 são nomeadas as três filhas de Hemã com funções de profetizar com harpas, alaúdes e címbalos. Essa referência tão escondida entre os textos e as listas das crônicas mostra-nos que há evidências de mulheres ocupando funções no templo, quem sabe ligadas às tarefas sacerdotais. O que se pode atestar é que a liderança de mulheres relacionada a funções religiosas acontece em diferentes contextos do Antigo Testamento. Mulheres atuam em funções religiosas, políticas, ocupam lugares sociais diversos e aqui, em Juízes 4, é mencionada a atuação de uma mulher em assuntos militares. Débora é uma mulher líder em Israel e dela vai depender que o povo se levante em defesa contra o ataque do exército inimigo. O nome Débora pode ser traduzido por “abelha”; a expressão “Débora, a mulher de Lapidote”, normalmente é traduzida como a esposa de um homem chamado Lapidote. No entanto, a palavra que normalmente serve para designar o nome do marido não precisa ser um nome próprio, e eset (no hebraico) pode referir-se à esposa, mas também à palavra mulher (como acontece no português). Assim, a expressão pode ser traduzida como “Débora, uma mulher de espírito, mulher de chamas”.

3 Meditação O tema para orientar a meditação será o bom planejamento e a disposição de se envolver nas tarefas e compromissos comunitários que requerem a participação e a liderança de mulheres e homens dispostos a servir. Uma

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coisa é estar envolvido com o desenvolvimento da vida da comunidade, outra é estar comprometido. Aliás, a sabedoria popular já dá uma boa definição sobre as duas posições. O exemplo é a participação da galinha e do porco em um prato de lingüiça com ovos. A galinha está envolvida, mas o porco está comprometido. Comprometer-se implica mesclar-se, entretecer-se nas redes que sustentam as relações sociais. Para que a comunidade floresça e seja lugar de colheita de mel, de cura e acolhida, é fundamental o comprometimento das pessoas que a formam. Não basta somente a atuação da obreira ou do obreiro, ou do presbitério. É preciso que as pessoas assumam tarefas, esbanjem dons e talentos para o crescimento coletivo. Um grupo incansável e constante, que está em profundo compromisso comunitário, é o das mulheres. Os diferentes grupos de mulheres das comunidades têm sido, muitas vezes, o espaço de sustentação e apoio dos diversos trabalhos das comunidades. Mais do que trabalhar somente para si, para que seu grupo apareça, o desafio que se coloca é que a vida da comunidade seja mexida, enriquecida e movimentada. As mulheres e suas funções nas comunidades O texto bíblico da prédica traz o exemplo de uma mulher que está comprometida com a realidade de seu povo. Débora tem funções de liderança; ela atua como juíza, responsável por receber as contendas do campo jurídico, mas também está comprometida com assuntos políticos e militares que envolvem a vida de sua gente. Nota-se que não há o que normalmente presenciamos em nossas comunidades: divisão de mundos e trabalhos de homens e de mulheres. A atuação das mulheres não se restringe ao mundo da cozinha, das panelas, das cucas e bolachas. Não que essas tarefas não sejam importantes. Mas a capacidade de trabalho das mulheres está muito além disso. Mulheres têm capacidades em diversos campos, como na aplicação das leis, nas construções e organização da infra-estrutura, no destino do orçamento, no planejamento dos trabalhos diaconais e sociais. Mulheres testemunham a palavra de Deus em compromisso com a justiça e a solidariedade. O exemplo de Débora, que julga e atua sob uma palmeira, mostra também que não é necessária uma grande infra-estrutura para que o trabalho aconteça. O desafio está justamente em aprender a se mover em meio às possibilidades que existem. Um outro aprendizado de trabalho comunitário que advém desse texto é a ação concatenada entre o homem e a mulher. Débora chama Baraque, e este não sai sozinho para a batalha. Ele precisa da ajuda dela. E ele admite que precisa ajuda. Que gesto mais motivador: um homem admite que precisa da ajuda de uma mulher e não se sente e nem vai ser rebaixado por isso. Há tarefas que, para ser bem executadas, precisam da cooperação, das mãos de outros, do olhar e da avaliação de outrem. A cooperação entre homens e mulheres só vai trazer benefícios para o crescimento da comunidade. Para que o trabalho alcance o que se almeja, é fundamental um exer-

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cício primeiro: o planejamento. Planejar implica dividir tarefas. Para um bom planejamento é preciso mapear as capacidades e dons. A líder conhece os dons e as capacidades e convoca aquele que tem a capacidade de conduzir a tarefa. Planejamento implica também o reconhecimento das limitações e, a partir desse reconhecimento, pedir ajuda. Mais do que o orgulho próprio, o reconhecimento pessoal, é preciso saber colocar em primeiro lugar o bem comum. É isso que a atitude de Baraque nos ensina. Ensina também a humildade de saber pedir ajuda e dividir os louros de uma vitória. Na graça de Deus, homens e mulheres são convidados a intensificar as relações que testemunham o amor e a paz.

4 Imagens para a prédica Por causa do significado do nome de Débora – abelha –, sugiro uma imagem: a colméia. A colméia é uma forma de organização que só é possível por causa da entrega e do compromisso com o trabalho coletivo, comunitário. O mel, produto dessa forma coletiva de trabalho, é metáfora para a palavra de Deus nos salmos de louvor: a palavra de Deus é mais doce do que o mel; o mel, juntamente com o leite, são as promessas de fartura para o povo que entra na terra prometida; é alimento que nutre e sustenta; é metáfora de bem viver e bem querer. O mel, produzido pelo trabalho coletivo e organizado das abelhas, é metáfora do gosto da palavra de Deus em nossas vidas. Que seja doce alimento, que anima, sustenta e vivifica. A colméia lembra igualmente organização, distribuição de tarefas, trabalho organizado.

5 Subsídios litúrgicos “Oração é a saudade transformada em poema.” (Rubem Alves) Oração de coleta: Deus bondoso! Infunde em nós a vontade de nos comprometer com a tua palavra, com o testemunho de dignidade e justiça em meio à nossa realidade. Ajuda-nos a viver entre nós o compromisso de comunhão e solidariedade. Abre nossos ouvidos para que tua palavra encontre morada em nossos corpos. Amém. Bênção: Que uma boa saúde e a felicidade te acompanhem. Que sintas prazer no que tens que fazer, orgulho por tudo o que tens feito, confiança em tudo o que farás. Que tenhas paciência quando virão tempos difíceis e fé de que os anos que virão serão melhores.

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27º Domingo após Pentecostes

DEC)

A bênção de ter amigos com quem compartilhar. Otimismo e alegria animando-te o coração. E segurança que Deus vai contigo no caminho. (Red Latinoamericana de Liturgia y Educación Cristiana CLAI/CELA-

Bibliografia BRENNER, Athalya. Juízes. A partir de uma leitura de gênero. São Paulo: Paulinas, 2001. DREHER, Carlos. O livro de Juízes. Um subsídio para a sua leitura. Belo Horizonte: CEBI.

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DOMINGO CRISTO REI

PRÉDICA: MATEUS 25.31-46

23 NOV 2008

EZEQUIEL 34.11-16, 20-24 EFÉSIOS 1.15-23 Günter Wolf

1 Introdução O tema dos três textos são o julgamento, o juízo final e a ressurreição, já que o domingo Cristo Rei requer e facilita essa abordagem. 1.1 – Ezequiel 34.11-16, 20-24 Deus acolhe e promete proteger os escravos que estão na Babilônia, mas também julga, como diz o v. 20: “Eis que eu mesmo julgarei entre ovelhas gordas e ovelhas magras”. Deus vai julgar seu povo a partir de sua prática e postura; se são “gordas” ou “magras”. Deus vai trazer bem-estar ao povo, mas não fechará o olho para as desigualdades existentes. O v. 23 fala do Messias que vai apascentar o rebanho. O texto tem muitas semelhanças com Mateus 25.31-46; vai na mesma linha de pensamento. O texto critica as “gordas” que empurram as “magras” para fora do curral. É a crítica à luta e opressão interna que acontece entre o povo. O v. 16 é muito claro sobre o juízo para todos, mas a “gorda” não tem a aprovação de Deus. O texto acentua a proteção que Deus dá aos fracos e condena os opressores entre o povo. Mesmo entre os escravos, há os que são “gordos”, os que reproduzem o sistema para tirar vantagens pessoais. Isso lembra Mateus 25.21 e 23, que elogia os escravos fiéis que são aliados do sistema. 1.2 – Efésios 1.15-23 O texto fala do Cristo glorificado, que está acima de todos os poderes e que pôs os inimigos debaixo de seus pés para o julgamento final. Paulo pede a Jesus Cristo que dê à comunidade o espírito da sabedoria e do conhecimento para saber qual é a esperança que nos move. Jesus Cristo é quem tem o poder e não o sistema implantado neste mundo que hoje se chama capitalismo neoliberal globalizado. Essa é a análise que Paulo faz. Portanto não precisamos nos dobrar frente ao poder do capital.

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2 Exegese Faço uma interpretação que não consta em comentários bíblicos. Parto da proposta encontrada para a leitura das parábolas em “E lhes falava em parábolas” (Pedro Lima Vasconcelos. Mosaicos da Bíblia, nº 19. Koinonia). Ele diz que as parábolas contêm a realidade concreta da qual Jesus fala. 2.1 – Mateus 25: O julgamento do sistema Para entender o nosso texto, proponho olhar todo o capítulo 25 de Mateus e faço uma leitura diferente a partir desse. O capítulo 25 quer explicar como é o reino de Deus e, conseqüentemente, o juízo: a primeira parte (1-13) diz para estar preparado para o reino, que pode se tornar realidade a qualquer momento; a segunda parte (14-30) diz como o reino não é; e, por fim, a última parte (31-46) diz qual a prática no reino, portanto como ele é. Nas três perícopes está presente a questão do julgamento. Na segunda, é o julgamento feito pelo sistema. O próprio Evangelho de Mateus, logo a seguir em Mateus 25.14-30, faz uma análise da conjuntura da época do Império Romano, mostrando como ele funcionava, qual sua dinâmica. Logo após, em Mateus 25.31-46, mostra como é o projeto do reino, onde as vítimas geradas pelo sistema dizem o que nós temos que fazer para poder participar do reino de Deus e assim combater o sistema. Todo o capítulo 25 de Mateus é um exercício de análise de conjuntura para sabermos como fazer também hoje em dia a leitura dos sinais dos tempos. Somos desafiados a nos preparar para o reino lendo os sinais da realidade e propor o novo em contraposição ao atual. A primeira parábola diz que os cristãos sempre esperam pelo novo (conforme a parábola: pelo noivo) e com isso está dizendo que não colocam fé no velho, no sistema atual. Ele já está aí; por isso não precisam esperar por ele. 2.1.1 – Mateus 25.1-13 Uma análise correta da realidade Mateus 25.1-13 é uma parábola que quer chamar nossa atenção sobre como estar alerta para poder e saber ler os sinais dos tempos. Quer dizer: como fazer análise de conjuntura para não ser pego de surpresa pelos acontecimentos. A parábola adverte para sempre estarmos preparados, sempre termos uma reserva de azeite, porque não sabemos quanto tempo vai durar a espera até que irrompa a nova realidade do reino de forma definitiva. Devemos estar sempre preparados para o momento histórico que virá. A parábola de Mateus 25.1-13 alerta para estarmos preparados para essa tarefa de saber fazer uma análise de conjuntura correta da realidade. Para poder fazer uma análise de conjuntura correta, precisamos conhecer o

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sistema em que o mundo está organizado. Isso significa que precisamos estudar o modo de produção escravagista do tempo do Império Romano (Novo Testamento), o modo de produção tributário (Antigo Testamento) e hoje temos que estudar o modo de produção capitalista para poder fazer uma correta análise de conjuntura dentro da realidade brasileira. Caso contrário, não entenderemos o texto bíblico e nem a realidade de hoje. 2.1.2 – Mateus 25.14-30 A descrição da realidade Essa perícope faz uma leitura da realidade e mostra como funcionava a luta de classes no Império Romano: homem (patrão, senhor de escravos) x servos (escravos). Quem tem escravos e pode viajar para fora do país? O rico. Quem tem escravos é aliado e sustentador do sistema escravagista, tem uma prática de opressão e acúmulo. Ganha elogios quem faz o jogo do patrão e entra no esquema da economia; é o caso dos dois primeiros escravos. Progride, é bem-visto e elogiado quem pratica e se enquadra na dinâmica do sistema. Um escravo resiste ao sistema e o boicota e não trabalha para dar mais riqueza ao patrão, o que resulta em castigo para o assim chamado “servo mau e negligente” (v. 26). Esse terceiro escravo enterrou o dinheiro e não entrou no esquema da especulação financeira do sistema e não foi considerado eficiente e produtivo; nem pôs o dinheiro no banco para alimentar o sistema especulativo. Ele resistiu à proposta do sistema de enriquecer mais ainda seu patrão com seu trabalho. Os v. 24-25 descrevem o patrão que ceifa onde não semeia. É a prática do sistema romano de invadir, massacrar e saquear outros países. O v. 24 diz que o patrão é severo – os romanos eram muito repressores (a revolta se pagava na cruz). Lembramos aqui o texto de Lucas 13.1: “Naquela mesma ocasião, chegando alguns, falavam a Jesus a respeito dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam”. O sistema necessitava de escravos que deveriam ser fiéis, para poder acumular sempre mais. Para conseguir escravos, faziam-se guerras, massacravam-se povos inteiros e se saqueavam suas riquezas, que aumentavam o acúmulo dos escravagistas romanos e seus aliados (Ap 18). V. 28-29 – Tira-se de quem tem um e dá-se a quem tem dez. Assim funciona o processo de acumulação até hoje. Dar ao que já tem é a prática do sistema. Tirar de quem tem pouco é a experiência dos camponeses saqueados pelos impostos e pela ocupação romana. O v. 30 mostra o resultado do sistema = choro, trevas e ranger de dentes. Quem não entra no sistema é expulso e fica à margem no sofrimento. Até os escravos são incentivados a entrar nas propostas do sistema escravagista que os massacra. O sistema trabalha bem a ideologia. Quem resiste ao sistema é castigado. O sistema também diz que não há salvação fora dele. O v. 27 deixa claro que o sistema exige lucros para o patrão. A especulação ajuda o sistema a se manter. Inútil (v. 30) é quem não produz acúmulo

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para o sistema; esse é marginalizado e excluído dos benefícios do sistema, que são meras migalhas. Os escravos fiéis ao sistema tinham algumas regalias, mas continuavam escravos! Os v. 21 e 23 exaltam os escravos fiéis. Só que eles continuam escravos, pois não foram libertos após ter conseguido muito lucro para o patrão. São chamados de bons porque reproduzem o sistema e defendem os interesses desse. O sistema só pode aproveitar os escravos fiéis; os outros são uma ameaça que precisa ser eliminada. 2.1.3 – Mateus 25.31-46 A proposta de Jesus frente à realidade O v. 31 contrapõe Jesus ao patrão da parábola anterior. Lá o patrão é o juiz; aqui Jesus é o juiz. Lá o patrão (sistema) julga, e aqui Jesus julga com outros critérios e medidas e a partir de outras propostas. Jesus julga a partir das vítimas do sistema econômico escravagista. Jesus julga nações inteiras por sua prática com as medidas baseadas no amparo, na solidariedade, na resistência e em favor dos fracos. Na parábola anterior, somente o patrão julga pela prática do sistema contra o fraco e contra quem resiste ao sistema. No texto anterior, somente os escravos são julgados a partir de sua prática de apoio ou não ao sistema. Aqui todos são julgados a partir de sua prática a favor ou contra as vítimas do sistema, inclusive Roma com seu sistema escravagista. Ninguém escapa da justiça divina. Os que ajudaram as vítimas do sistema são justos e terão a salvação – v. 46. O critério para nossa ação é dado pelos que sofrem e não por nós mesmos. São os fracos que dizem o que nós devemos fazer. Quem atende o seu chamado tem misericórdia e é solidário, é salvo. Aqui se parte da prática automática da fé (em favor dos fracos) como critério de salvação. Critério para ser justo (v. 35-36,40) é o atendimento às vítimas do sistema, e com isso se denuncia o próprio sistema. Maldito é quem não atende e não vai ao encontro das vítimas do sistema. Abençoado, salvo é aquele que não entra no sistema e pratica a diaconia. Aqui nem se fala explicitamente da fé. A ação de solidariedade e acolhida decorrem automaticamente como gesto de misericórdia. (“Misericórdia quero e não holocaustos” – Mt 9.13). No texto anterior, era maldito aquele que não entra no sistema; aqui é o contrário. Denúncia do sistema: O sistema traz e produz. Fome – expulsa da terra, não tem trabalho, cria sem-terra. Sede – havia multidões de andarilhos, sem lar e terra, percorrendo o país na paisagem desértica da Palestina. Nudez – pobre não tem roupa, só trapos. Prisão – quem resiste ao sistema ou não pode pagar as dívidas vai preso ou tem que roubar para viver. Doença – pobreza e miséria trazem a doença. Forasteiros – muitos vão para o exílio ou escravidão romana por falta de

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pagamento de dívidas ou revoltas. Também há os que vão para a Palestina. Há uma migração intensa. Forasteiros e migrantes eram, em sua maioria, pessoas das primeiras comunidades cristãs. São os paroikoi – os paroquianos. Como nos relata Aristides, cidadão romano (não-cristão) de 125 d.C., que escreve sobre os cristãos: “Eles andam em humildade e bondade. Não existe falsidade entre eles. Amam uns aos outros. Ouve-se que, se alguém dentre eles é preso ou oprimido por causa do nome de seu Messias, todos providenciam para suas necessidades, e, quando possível de ser liberto, eles o libertam. E se há alguém dentre eles pobre e necessitado, jejuam dois ou três dias para supri-lo com o alimento de que precisa. Eles não desviam sua atenção das viúvas, e os órfãos eles libertam de quem os violenta”. O texto expõe a prática exigida aos batizados das primeiras comunidades. Essa é a prática de fé dos batizados, que confere com as exigências do texto. Quem vive segundo o sistema diz que isso (os famintos e os sedentos) é o preço do progresso. Jesus diz que isso é resultado do sistema econômico escravagista romano opressor. Os v. 37 e 44 perguntam: “Senhor, quando foi que te vimos...?”. Jesus deixa bem claro que ele é o faminto, a vítima do sistema. Ajudando as vítimas do sistema, estar-se-á combatendo o sistema em si, pois se terá que atacar as causas do sofrimento. Como acabar com a fome? Devolvendo as terras aos camponeses, que o Estado romano deu a seus aliados. Quem não se solidariza com as vítimas do sistema também não o combaterá. Isso tudo é feito de uma forma espontânea, que brota da prática da fé. Jesus Cristo continua não sendo reconhecido como estando presente em meio às pessoas. Assim como os judeus não o reconheceram como o Messias, assim também a comunidade cristã tem dificuldade para reconhecê-lo nos massacrados pelo sistema. Mas há sempre um grupo que, mesmo não o reconhecendo nos pobres, acolhe-o por sua prática de fé solidária e revolucionária. Jesus nasceu, morreu e continua sendo pobre e continua sendo vítima do sistema – essa é a revelação. Nós precisamos optar de que lado queremos ficar: ao lado de Jesus corre-se o risco do sistema nos julgar, e a partir daí faremos parte dos massacrados e vamos necessitar de solidariedade e acolhida – tomai a vossa cruz e sigam-me! O v. 46 fala do castigo eterno para os causadores do sofrimento e aqueles que o apóiam e fortalecem. Justo é o que ampara as vítimas do sistema e não se enquadra em sua dinâmica, que é excluir e produzir pobres. Ai daqueles que não se solidarizam com as vítimas do sistema e não lutam contra o mesmo, que cria essas vítimas. A diferença no final é que, no texto anterior, o pobre vai para o castigo e o sofrimento. Aqui vai para o castigo quem apóia o sistema e não se solidariza com os pobres. A salvação é para quem acolhe as vítimas do sistema, aqueles que passam fome e não têm terra e trabalho. Não têm terra e trabalho porque os romanos não obedecem ao mandado de Deus. Eles agem como deuses que se apossam da terra. Antes a terra era de Deus (Lv 25.23); agora é do Estado, que a dá a seus aliados.

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2.1.4 – Mateus 26.1-5 O texto fala do plano para matar Jesus, que resiste e é contra o sistema. É conseqüência do texto anterior. Quem resiste e denuncia o sistema é uma ameaça e tem que morrer. Essa é a conclusão lógica e a conseqüência de certa prática de fé. Como resistimos ao modelo capitalista neoliberal globalizado hoje? Ou fomos cooptados por ele e o apoiamos? Xingamos os empobrecidos de vagabundos e preguiçosos, como se a pobreza fosse sua própria culpa. Somos contra os que resistem ao sistema?

3 Meditação A conjuntura desta época Há uma pasmaceira geral na política nacional, porque estamos vivendo um longo período histórico demarcado por alguns fatores condicionantes da correlação de forças, que a disputa eleitoral e a reeleição do presidente Lula não conseguiram alterar. Que fatores são esses? Primeiramente, viemos de um processo de derrota política da classe trabalhadora brasileira desde as eleições de 1989. Os governos Collor e FHC repre-sentaram a consolidação da hegemonia de um setor da classe dominante que abandonou qualquer projeto de desenvolvimento nacional e subordinou-se completamente ao capital financeiro internacional. Disso resultou a “privatização” do Estado brasileiro a esses interesses e uma política econômica neoliberal que beneficia apenas tais setores do capital. Essa hegemonia total permitiu ao capital impor novas condições nas relações de trabalho, implementar mudanças tecnológicas que representaram a derrota política da classe operária in-dustrial, que foi a base da ascensão da década de 1980 e força principal das lutas que se seguiram. Houve uma crise ideológica das esquerdas brasileiras, que não conseguiram enfrentar os novos tem-pos de refluxo e de ofensiva do império estadunidense após a derrota dos chamados países socialistas. Ou seja, a correlação de forças internacionais também nos foi muito adversa nesses últimos anos. Em conseqüência de tudo isso, produziu-se um refluxo do movimento de massas e das lutas sociais, que marcou os últimos quinze anos. Num contexto histórico de derrota política da classe trabalhadora e de refluxo dos movimentos de massas, só se explica a vitória eleitoral do presidente Lula e do PT como partido depositário das esperanças de mudanças estruturais na sociedade brasileira, porque a classe dominante brasileira se dividiu. Uma parte mais reacionária e talvez burra tentou a todo custo derrubálo, usando como arma principal os meios de comunicação. Outra parte, mais hábil e talvez pensando no futuro, preferiu aliar-se e manter seus privilégios. Dessa aliança e correlação de forças resultou um governo de composição de classes e de ideologia. No primeiro mandato, havia uma expectativa

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maior pela trajetória histórica do PT e do próprio presidente de que teríamos um governo de esquerda. Equivocamo-nos. Agora, o próprio governo assume com transparência e honestidade que quer ser apenas um governo de composição, no qual convivam forças de direita, de centro e de esquerda e convivam representações da classe dominante e da classe trabalhadora. O presidente apressou-se em assumir-se como centro, como fez questão de explicar: passara dos 60 anos e era necessário mudar de posição política. Tudo a ver! Estamos ainda convivendo com um longo período adverso para os interesses do povo brasileiro. O momento exige muita reflexão, clareza e debate, para que as forças populares, em suas mais diferentes formas de organização, seja pastoral, estudantil, setorial, habitacional, do campo e da cidade, busquem desenvolver ações políticas para enfrentar os verdadeiros desafios que a conjuntura histórica impõe à nossa geração. Os desafios da classe trabalhadora brasileira, conforme João Pedro Stédile: O primeiro deles é recuperar o trabalho de base, de conscientização, de organização dos trabalhadores em seus espaços de vivência, seja no trabalho, na escola, na moradia, para estimular as lutas sociais. Somente com lutas sociais o povo pode recuperar o sentido coletivo da política, ter forças suficientes para melhorar suas condições de vida, conquistar avanços e alterar a correlação de forças. Segundo: precisamos dedicar energias para a formação e a capacitação de nossa militância social. Em tempos de pasmaceira, é necessário dedicar-se ao estudo, à formação, para compreender melhor a complexidade da realidade e encontrar as verdadeiras saídas para os problemas. Terceiro: precisamos colocar energias na construção e no desenvolvimento de meios de comunicação de massa próprios, como rádios e televisões comunitárias, jornais, revistas, programas de comunicação de todo tipo, sob o auspício dos movimentos e organizações populares, para enfrentar o verdadeiro oligopólio das comunicações controlado pela classe dominante brasileira. Quarto: precisamos estimular um amplo debate na sociedade sobre a necessidade de um projeto de desenvolvimento para o país. Não basta falar em crescimento da economia. Não basta resolver as questões conjunturais. O Brasil precisa de um projeto que dê rumo para seu futuro e que, sobretudo, enfrente seus problemas estruturais e construa uma sociedade mais justa e igualitária. Quinto: é necessário que todas as organizações populares e pastorais se dediquem com prioridade à conscientização e organização da juventude trabalhadora, que vive nas grandes cidades. Será essa geração de jovens, desvinculada dos desvios e vícios do passado e sonhadora com um futuro mais justo, que poderá se mobilizar, construir um projeto diferente e alterar a correlação de forças na sociedade. E, finalmente, com as energias voltadas para enfrentar esses desafios, é preciso torcer para que se produza então um novo ciclo de ascensão do movimento de massas. Os tempos são difíceis. Mas mudarão. E os ventos somente mudam pela força das massas. Encontramos essa análise em:

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http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18& task=detalhe&id=4992 A partir dessa análise de conjuntura, podemos trabalhar com nosso texto. Como vamos nos aliar e nos propor como cristãos a andar com o movimento popular, que são os paroikoi de hoje? Por outro lado, temos que ter em mente que a maioria do nosso povo luterano vai negar-se a andar com o movimento popular, pois acha que isso não faz parte do trabalho de igreja. Então corremos o risco de ser separados e colocados no cercado onde estão os cabritos, onde há choro e ranger de dentes. A questão é que nossa IECLB está cheia desse povo que passa fome, frio etc., só que a direção da igreja, desde a comunidade em diante, nega-se a acolhê-los e acompanhá-los na luta por mais vida, mais amor e mais justiça. Com isso estamos pondo em risco a nossa salvação. Se continuarmos como igreja nesse caminho de frear o movimento popular e nos negarmos a trabalhar com ele, estaremos no meio dos cabritos. Isso aqui não é brincadeira. Onde as nossas comunidades apóiam o movimento popular? Não apóiam. Com isso estamos negando comida e água ao próprio Jesus Cristo. Que Deus nos livre desse julgamento! O texto é claro: Ninguém escapa do julgamento final. Que Deus tenha piedade de nós, comunidades da IECLB! O v. 46 é muito claro: “E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna”. Portanto não estamos brincando com qualquer coisa! Isso é palavra pura de juízo para nós, comunidades da IECLB! Qual a comunidade da IECLB que concede espaço para o MST, MPA, MMC, MAB, MTD organizarem-se ou se reunirem em seus pavilhões e apóia suas lutas, mesmo sabendo que há luteranos no meio? Estão negando espaço para o próprio Cristo! Não esquecendo que os concílios gerais da IECLB dos anos 1980 dizem para fazer um trabalho de base com os movimentos populares, sindicais e ecológicos. Mas palavra de concílio não vale nada e nem é divulgada e muito menos encaminhada pela direção da igreja, pois vai contra os interesses da classe dominante, que impõe seu jeito de pensar na igreja. Segundo o texto, não haverá piedade para os cabritos. Nós comunidades da IECLB somos os cabritos (com suas devidas exceções, e essas confirmam a regra). Apesar da clareza do texto, ainda ouso pedir: Que Deus tenha piedade de nós! O desafio que João Pedro Stédile faz na análise de conjuntura é claro. Cabe a nós fazermos um trabalho de base, como decidiu o Concílio Geral de 1982. Levar formação para esse povo marginalizado, que é a grande maioria de nossos membros luteranos, e organizar a juventude que pertence à classe trabalhadora. É isso ou o cercado dos cabritos!

4 Imagens para prédica Talvez se poderia começar perguntando: O que mata a fome? A comida. Quem produz a comida? Os agricultores. Quantos dos membros sentados nos bancos da igreja já foram ou ainda são agricultores? Por que muitos não são

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mais agricultores? Aí surgem as questões da exploração no campo e a falta da reforma agrária. Pergunte nas comunidades rurais da IECLB quantos pequenos agricultores podem comprar terra para seus filhos e filhas? Pergunte nas comunidades urbanas quantos membros e jovens estão desempregados? Quantos de nossos membros que moram na cidade vieram do interior porque não se fez reforma agrária? Todo aquele que veio do interior está tirando emprego dos moradores da cidade. Os dois não são inimigos, mas vítimas do sistema. A luta pela reforma agrária garante terra para os camponeses, que não precisam migrar para a cidade e concorrer nas filas dos desempregados. Assim a reforma agrária ajuda os habitantes da cidade. Os membros da IECLB apóiam a reforma agrária? A maioria ainda é contra. Estão lutando contra si mesmos. Por quê? Porque não fazem uma análise correta da realidade. Nisso a parábola das virgens deve nos ajudar: fazer uma análise correta do momento em que vivemos. Reforma agrária é dar comida e matar a sede dos famintos e sedentos tanto na cidade como no campo. Agricultor que é contra a reforma agrária é contra a vida digna para seus filhos e filhas. O morador da cidade que é contra a reforma agrária está lutando contra si mesmo, pois a migração ameaça o seu emprego. A reforma agrária resolve uma boa parte do problema do desemprego na cidade e obviamente no campo. O capitalismo no estágio atual não quer fazer reforma agrária, mas propõe aumentar o latifúndio plantando cana e eucalipto para gerar lucro e viabilizar o modelo de vida suicida dos países do hemisfério norte. A nossa prática em relação a isso vai nos colocar no cercado das ovelhas ou dos cabritos na hora da vinda do Filho do Homem. Uma boa parte dos membros da IECLB é contra a organização sindical e a organização do movimento popular, que lutam para acolher as vítimas do sistema capitalista e mudar o sistema para que ninguém precise passar fome e sede e ir preso porque não se conformou com esse século.

Bibliografia VASCONCELOS, Pedro Lima. “E lhes falava em parábolas”. Uma introdução à leitura das parábolas. Mosaicos da Bíblia, nº 19. São Paulo: Koinonia, 1995.

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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XXXII Advento – Celebração......................................................................................................XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio................................................................................................... XV, 304 Ação de graças (Is 58.7-12)..................................................................................................XII, 300 (Jr 30.18-22)...........................................................................................................................XX, 322 Ação de graças pela colheita (Jl 2.21-27)......................................................................XXXII, 212 Achados e perdidos – experiências.................................................................................. XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17).................. IX, 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10)...................... X, 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12).......................................................... IX, 83 A velhice................................................................................................................................... VI, 43 Batismo, alocução para ...................................................................................................XXVI, 357 Batismo, culto de.............................................................................................................XXVII, 299 Bênção matrimonial........................................................................................... XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13)....................................................................................................................XX, 351 (Ct 8.7).......................................................................................................................XX, 353 (Ec 4.9-12)............................................................................................................... XXI, 329 (Ct 1.2-3)..................................................................................................XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte............................................................................................................................. XV, 77 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31)...................................................................................................... X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11).................................................................................. IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35)................................................................................ VI, 40 (Sl 133.1-3)............................................................................................................. XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28)........................XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4)....................... X, 84 Componentes éticos da organização popular................................................................. XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16)............................................................................................... X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16)....................................................................................................... II, 187 (Dt 30.11-20).............................................................................................................. VIII, 23 (Jo 6.66-69)................................................................................................................XII, 293 (Mt 5.14-16)...............................................................................................................XX, 339 (Ap 1.9-18).................................................................................................................XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20).....................................................XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5)..................................................... XIII, 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22)................................................. IX, 107 Culto batismal (Is 43.1)...................................................................................................... XXI, 326 Culto de Batismo...............................................................................................................XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O)......................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13)............................................. XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15).............................................................................V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42)...........................................................................................XX, 346 Culto eucarístico (alocução para)....................................................................................XXIII, 237 (Lc 22.14-15).............................................................................................................XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas.............................................................................. XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2).................................................... XIII, 42 Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34).............................................XII, 27 Deus na marginalidade.......................................................................................................... XVI, 9 Dedicação de templo........................................................................................................XXVI, 361

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Dia das Crianças (Zc 8.1-8)...............................................................................................XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22)........................................................................................I, 68 (Jo 4.31-38).................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8)...................................................................................................................... VI, 48 (1 Tm 4.4-5)............................................................................................................. XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43)..............................................................................................XVIII, 289 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15)..................................................................................................V, 323 (Dt 26.1-11)................................................................................................................XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15).....................................................................................................V, 330 Dia de Finados (Fp 3.20-21).................................................................................................... I, 143 (1 Co 15.50-58).......................................................................................................... III, 176 (1 Co 15.35-39,42b-44)................................................................................................V, 256 (Mt 22.23-33)........................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14)........................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29)............................................................................................................XVIII, 267 (1 Co 15.12-20).....................................................................................................XXXII, 311 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17).......................................................................................I, 109 (1 Tm 2.1-4)................................................................................................................. II, 336 (Mc 12.13-17)............................................................................................................. III, 138 (Hb 13.12-16)...............................................................................................................V, 205 (Mt 6.9-13)......................................................................................................VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10).................................................................................................. XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11).......................................................................................................I, 125 (Jo 8.31-36).................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28)............................................................................................................... III, 169 (Mt 5.1-10)...................................................................................................................IV, 212 (Ap 14.6-7)....................................................................................................................V, 249 (Mt 10.26b-33)............................................................................................................ VI, 291 (Is 62.1-12)............................................................................................................... VIII, 331 (Mt 10.26b-33)...........................................................................................................XII, 268 (Gl 5.1-6).................................................................................................................. XIII, 267 (Fp 2.12-13)............................................................................................................... XV, 282 (Jo 8.31-36)............................................................................................................ XVII, 225 (Mt 5.1-10)............................................................................................................XXXII, 307 Dia de Penitência (Is 1.10-17).............................................................................................. XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15).............................................................................................. III, 62 (2 Ts 3.6-13)....................................................................................................................V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a)............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31)........................................................................................ VI, 170 (Tg 5.1-6)................................................................................................................. XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19).................................................................................................... XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct)...................................................................................... XXI, 316 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)])..........XII, 307 (Ap 3.14-22)............................................................................................................. XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9)...........................................................................................XX, 309 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15)........................................................................ XIII, 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18).............................................. X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25).........................XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21)................................................................................ XIII, 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25)............................ IX, 15 Epifania, reflexões para o período de.............................................................................XXVII, 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7)................................................................................................... VI, 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46)............................................................................................ VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4)................................................................................................. VI, 34

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Época da Paixão IV (Mt 11.28-30)........................................................................................... VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15)......................................................................................... IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18)..................................................................... XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores...................................................................... XIV, 60 Exercício homilético...............................................................................................................XII, 91 “E viu Deus que isto era bom...”......................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15).......................................... X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo.................................................................................. XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4)........................................................................ XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19)....................................................... XIII, 80 (Is 65.17-25)...............................................................................................................XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15)..................................................... XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana....................................................................... XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20)............................................................................................. XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19).........................................XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a)........................................................................ XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías................................................................................................ VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29)........................................................... X, 74 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer................................... XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida............................................ XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay.................................................................................... XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas.......................................................................................... XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16).................................................................XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18)...................................................................... IX, 57 Marketing e igreja...................................................................................................................XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28)............................................................ XI, 77 Meditação sobre a oração ................................................................................................XXXI,303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37).......................V, 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos.........................................................V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43)........................................... XI, 65 Missão (1 Co 12).................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10).X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45)............................ X, 106 Mulheres agricultoras.......................................................................................................... XVI, 15 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31)............................................ IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18)........................................................ X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus........................................ II, 176 Lucas .......................................................................................................................... X,139 João ........................................................................................................................... VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25)..............................................................XII, 34 O desafio de ser autor de PL.................................................................................................. XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças.......................................................................... XV, 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas........................... XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22)......................................... X, 48 O Lecionário Ecumênico...................................................................................................... XV, 315 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo....... XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10)................................................................................XII, 11 Pago para ter (2 Co 8.1-15)................................................................................................... XIII, 18 Pastoral Ecumênica de Periferia........................................................................................... XIV, 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6)............................ IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37).................................................. XXII, 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112).........................................................XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens................................................ XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia)............ XXVIII, 368

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Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6)...................................................................... X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21)........................................................... VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17).................................................... VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21)................................................... VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12])...................................................................... XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12)................................................................. IX, 50 Quem não faz política sofre política (1 Rs 12.1-15)............................................................... XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia.............................................................. XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38)............................................................... XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB ...XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16).............................................................. XI, 85 Semana do excepcional.................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas...........................................................................................XXIV, 347 Sepultamento............................................................................XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40)................................................................................................................XX, 355 (Jo 19.25-27)..............................................................................................................XX, 360 (Sl 39.5-7)..................................................................................................................XX, 362 (Sl 142.1-2,5a)......................................................................................................... XXI, 336 (Ec 3.1-8)............................................................................................................ XXVIII, 365 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26)............................................................................................................. XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39)................................................................... IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém....................................................................................................... XVI,37 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro.........XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14)..............................................................XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35)............................................... IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra............................................................................. XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados................................................................................ XIV, 20 Trabalho com idosos.........................................................................................................XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10)................................................................................. XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O).................................................... XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8)................................................ XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-15)..................................................................... XIII, 74 Vigília pascal....................................................................................................................... XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8)................................................................................................XII, 61

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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XXXII 21.4-9................ VII,101; XIII,159; XXII,80 24.15-19........................................... XV,120 Deuteronômio 4.1-2,6-8.....................XXII,235 4.32-34, 39-40 . ........................ XXVII, 148 5.12-15................................................III,43 6.4-9..................................XV,246, XIX,164 7.6-12................................................VI,219 8.6-10................................................ XII,11 10.12-22......................................XXVI, 336 11.18-21,26-28........... XXI,164; XXXII, 184 17.14-20............................................ XII,51 18.15-20........................... XIX,67, XXXI,57 24.14-15..............................................IX,63 26.3-11..........................................XXVI, 91 30.11-20........................................... VIII,23 32.36-39.........................................XXIII,79 34.1-12........................... XVII,74; XXIX, 77 Josué 1.1-9............................................. VII,36 8.1-8.................................................. XII,61 24.1-2a,13-25....................................III,117 Juízes 4.1-7..................................... XXXII, 319 5.24-31................................................. X,37 9.7-15..................................................IX,98 Rute 1.1-19a.....................................XXIX, 289 1 Samuel 2.1-10..............II, 176 (343); VII,113 3.1-10(19)......................... XIX,55; XXXI,44 3.1-10,19..........................................XXV,86 11.1-15................................................V,337 2 Samuel 7.4-6,12,14a,16.....................XXV,35 11.26-12.10,13-15........................XXIX,199 12.1-10,13-14....................................IX,264 12.1-10,13-15a................................. XV,261 1 Reis 3.5-12.................. XXIV,240; XXXII, 236 3.16-28..........................................XXX,143 8.(21-23,27-30)41-43....................XVII,141 8.22-24,26-28....................................VI,189 8.22-30............................................ XII,191 8.41-43........................................XXIX, 188 17.8-16......................... XVI,292; XXXI,286 17.17-24..................... XVII,146; XXIX, 192 19.1-8(9-13a)................................XXII,226 19.1-13a........................XIV,185; XVIII,204 19.1-18................................................III,92 19.9-13a .......................................XXX,204 19.(14-18)19-21.......... XVII,159; XXIX,205 2 Reis 5.1-14........................................XXXI,71 5.1-19a.............................................. VII,58 Neemias 5.1-5(6-12).............................. XIII,11 5.1-12.................................................IX,83; 8.1-2,5-6.......................................... XX,183 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36)..............

ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ........... VIII, 185 1.26-31; 2.1-3...................................III, 105 2.4-15....................................... XXVIII, 301 2.4b-15...............................................V, 330 2.7-9,15-17; 3.1-7.......... XXX,66; XVIII, 84 2.8-15............................................. XIII, 74; 2.18-24..........................XXII,254; XXV,282 3.1-9............................................... XII,170; 3.1-19(20-24).................................XXV,214 3.1-24................................................VI,133 4.1-16............................... VII,203; XIII,246 8.1-13............................................... XV,135 8.15-22.................................... I, 71 (68); 78 11.1-9............................XII, 205; XVII, 130 12.1-4............................................XVIII, 88 12.1-4a.......................................... VII, 165; 15.1-6..........................................XXVI, 256 17.1-13........................................ XXVII, 40 18.1-10a(10b-14)............................ XX,208 18.20-21(22)23-32.......................... XX,214 21.8-21............................................. XIII,60 22.1-13..............................................VI,144 22.1-14(15-18)................................XXII,65 28.10-17(18-22)..............................XXII,71 32.23-31........................................XVII,240 32.23-33...................................II, 207 (374) 50.15-21................... XXIV,272; XXVII, 240 Êxodo 1.8-22.......................................... IX,107 2.1-10....................................... XXVIII, 181 3.1-14.............................................. XII,154 3.1-8,13-15..................................XXVI, 108 6.2-8.......................... XVIII,218; XXX,214 12.1-14........................................... XXI,108 13.20-22...........................................XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30)....... XXVIII, 276 16.2-3,11-18....................................XIV,283 19.2-8a .......................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17..............XXII,75 22.21-27......................................... XXI,280 24.1-11...................................... XXXII, 123 24.3-11 .....XVI,224; XXV,164; XXVIII, 272 24.12,15-18.................. XXI, 78; XXXII, 79 32.7-14 .......................... XV,225; XXIII,177 33.18-23............................................VI,102 34.4b-10.............................. III,153; XV,273 34.29-35.........................................XXV,123 Números 11.11-12,14-17,24-25.......... VIII,205 11.24-30.................................... XXXII, 169 12.9-16.............................................. XII,18

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.....................................................XXXI,263 Jó 7.1-7 ................................. XIX,73; XXXI,63 38.1-11...........................................XXV,221 Salmo 22.2-12,17-20.........................XVIII,116 22.1-12,17-20................................XXX,104 46.1-7(1-11).............................. XXVI,313 111.................................................XXVI,27 112.................................................... XII,77 130.4...................................................VI,34 Eclesiastes 1.2; 2.18-26....................... XX,225 3.1-8....................................................VI,48 3.9-15................................................... X,16 4.1-4..................................................... X,84 5.18...................................................... X,65 9.13-18................................................. X,25 Provérbios 8.22-31.............................XXIII,109 9.1-6,10.........................................XXII,230 9.7-13...........................................XXIII,172 16.1-9............................................... VIII,80 24.10-14 ........................................... XII,45 30.5-9...........................................XXVI,215 Isaías 1.1-9.......................................... XIII,116 1.10-17............................................. XV,297 2.1-5....................... VI,225; XVIII,9; XXX,9 5.1-7....................VII,87; XIII,147; XXI,252 6.1-13..................................VI,198; XII,213 7.10-14............................................. XXI,37 7.10-14(15-17).............. XIII,104; XXXII,27 9.1-6...............................................XVIII,31 9.1-6,10.........................................XXII,230 9.2-7....................................................V,294 11.1-5............................................... XVI,63 11.1-9.............................................XVIII,58 11.1-9(10-11).................................XIV,148; 11.1-10......................................... XXVII,16 12.1-6...........................................XXVI,114 24.12-16a....................................... XIII,312 25.6-8............................................. XIX,114 25.6-9........................... XXI,258; XXXI,128 29.17-24.......................................... XII,233 29.18-24............................................III,130 30.(8-14),15-17...................................VI,97 35.1-10..... XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346 35.3-7........................... XXXI,248; XIX,237 35.3-10................................ X,158; XIV,115 40.1-11....VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31............................................IX,216 42.1-7................................. XXI,51; XXV,80 42.14-21.......................... XVIII,92; XXX,72 43.1-7........................................II,132 (299) 44.9- 20............................................ XIII,50 45.1-7.......................... XXI,264; XXXII,293 45.22-25...................................... XXVIII,49 49.1-6..................................................III,85

50.4-9....................... II,28, (195); XIII,166; 50.4-9a............................................XXX,94 50.4-10......................... XIX,241; XXXI,252 51.1-6......................................... XXXII,259 52.7-10.............................. XV,100; XXII,37 52.13-53.12.. V,72; IX,196; XV,185; XII,109 53.10-12.........................................XXV,294 54.7-10................................ IX,183; XV,170 55.1-5................III,68; VIII,213; XVIII,198; . ......................................................XXX,197 55.6-7..................................................VI,24 55.(6-9),10-12a.............................. VIII,119 55,10-11....................................... XXIV,223 56.1,6-8 ..................... XVIII,213; XXX,209 58.1-9a............................................. XV,147 58.1-12................................................IX,50 58.5-9a .......................................... XXIV,88 58.7-12............................................ XII,300 60.1-6....... V,11; VIII,92; XVII,39; XXIV,63; . ......................................................XXIX, 54 61.1-3(4-9), 11............................... XIII,120 61.1-3,10-11.............................. XXVIII,20 61.1-3,11,10...................................... VII,44 61.10-62.3.......XIX,42; XXV,68; XXVIII,59 62.1-5.............................. XX,23; XXVIII,31 62.1-12.................. II, 256, (423 ); VIII,331; 62.6-7,10-12.... XIX,279; XXII,272; XXIV,297 63.7-9(10-16)................ XXIV,44; XXXII,46 63.15-64.3........................................ XIII,91 63.15-16; 19b-64. 3.................. I, 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7...................XXII,9 65.17-25............................. IX,15; XXX,133 66.10-14......................................XXIX, 213 Jeremias 1.4-10..................... VII,184; XIII,228 7.1-11........................................... VIII,257 7.1-11(12-1 5).................................XIV,301 7.21-26............................................XXX,15 8.4-7............................... VIII,349; XIV,390; 9.22-23.............................................. VII,71 11.18-20....................... XIX,246; XXXI,256 15.15-21...................... XVIII,222; XXX,220 17.5-8.............................................XXIII,55 20.7-13............................VIII,145; XXI,181 22.13-19........................................... XIII,80 23.1-6............................................. XVI,217 23.2-6.............................................. XX,301 23.5-8....................................VI,62; XII,103 23.16-29................... II,144, (311); XIII,209 26.8-15..........................................XXVI, 97 28.5-9.......................... XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a...........................................III,34 31.1-13...........................................XXIX,35 31.7-9.............................................XXV,301 31.10-13(14)....................................XVII,34

338

Sem título-1 338

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31.31-34..........................................XXII,85 33.14-16..........................................XXVI, 9 Lamentações 3.21-26,31-32..................VI,269 3.21-33...........................................XXV,226 Ezequiel 2.1-8a...................................XXV, 231 2.3-8a; 3.17-19..........................II, 96, (263) 18.1-4,21-24,30-32..........................IX,247; 18.1-4, 25-37............................. XXVII, 243 33.7-9........................................ XXVII, 230 34.1-2(3-9), 10-16.......................... XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31........................VI,170; 34.11-16,23-24 . .......................... XXIV,328 37.1-3(4-10), 11-14 .....................XVIII,103 37.1-3,11-14....................................XXX,89 37.1-14 ........XV,193; XXIV,117; XXXII,108 37.24-28........................................... VIII,55 Daniel 5.1-30..........................................III,188 7.(1-12)13-14(15-28) ..................... XVI,311 12.1-3.......................... XIX,296; XXXI,293 Oséias 5.15-6.2..................... XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6.......................................... XXI,169 11.1-4,8-9................. XXIV,323; XXVII, 284 Joel 2.12-18.......................................... XII,166 2.21-27....................................... XXXII,212 2.28-29........................................... XXI,153 Amós 3.1-8............................XXIV,75; XXX,54 5.21-24.............................................. VII,76 6.1-7.............................................XXIII,189 7.10-15(16-17) .............................. XVI,211 8.4-7............................................ XXIII,181 9.7-10................................................. X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10................ XIX,61; XXXI,52 3.10-4.11.................................... XXXII,274 Miquéias 5.1-4a.........................VI,88; XII,114 5.2-4..............................................XXIX, 21 5.2-5.............................. XVI,63; XXVII, 29; 6.1-8............................. XXIV,79; XXVII, 58 6.6-8................................ VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4.............. XVII,219; ....................................................XXIX, 281 Sofonias 3.14-18a................................... XX,20 Zacarias 7.9-10.................................XXVI, 267 8.1-8 ............................................ XXIV,337 9.9-10 .................X,91; XIX,106; XXXI,107 12.7-10(11)....................................XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5........................XXV,207 2.17-3.5..........................................XXIII,9; NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 ....XVIII,25; XXIV,29; XXX,19 2.1-12.....X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; . ................................... XXVII, 46; XXXII,62 2.13-18................................................V,304

3.1-12........................... XVIII,15; XXIV,24 3.13-17................ X,206; XVIII,53; XXIV,67; .......................................XXX,44; XXXII,66 4.1-11.............. IV,14; XXVII,70; XXXII,85 4.12-17............................................ XII,142 4.12-23...........................................XVIII,61 4.23-25.................................. XII,35; XII,34 5.1-10............................ IV,212; XXXII,307 5.1-12.............................................XVIII,64 5.13-16.............................................. X,390; 5.13-16(17-20)...............................XVIII,69 5.17-20............................................. IV,125; 5.20-37...........................................XVIII,73 5.38-48........................ II, 193, (360); X,460 6.1-4 ............................... VIII,279; XIV,332 6.5-13......................... II, 57, (224); XIV,247 6.9-13.................................. VI,53; VIII,192 6.16-18.............................................. IV,133 6.24-34........................... IV,180; XXXII,179 6.25-34 .............................................. X,428 7.15-23.............................................. IV,140 7.21-29...... XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27.............................................VI,233; 9.1-8.................................................. IV,198 9.9-13........ VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8......................................XVIII,170 10.7-15....................................II, 104, (271) 18.24-39..................................... XXXII,204 10.26-33...................... XVIII,176; XXX,168 10.26b-33 . ........................VI,291; XII,268; 10.26-36....................................... XXIV,203 10.34-39.......................................... XII,274 10.34-42...................... XVIII,181; XXX,174 11.2-10............................................... X,170 11.2-11........... III,215;; XXI,30; XXVII, 22; . ..................................................... XXXII,21 11.16-19,25-30........................... XXXII,221 11.25-30... XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.22-30............................................ IV,217 12.33-35(36-37).............................. XII,307 12.38-42....................II, 225, (292); XII,175 13.1-9........ XXI,196; XXVII, 188; XXX,189 13.24-30(36-43).......... XVIII,289; XXI,203; . ................................................... XXXII,229 13.44-46....II, 150, (317); VIII,253; XIV,295 13.44-52..................... XXI,207; XXVII, 194 14.13-21....XXI,213; XXIV,245; XXVII,198; . ................................................... XXXII,241 14.22-33...... VI,109; XXIV,249; XXVII, 202 15.21-28....... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; . ................................................... XXXII,255 16.13-19.........................................XXIII,40 16.13-20................... XXIV,260; XXVII, 216 16.13-20(23)............................ II, 72, (239);

339

Sem título-1 339

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16.21-26.. XXI,223; XXVII,222; XXXII,264 17.1-9................. X,216; XVIII,78; XXX,60 18.15-20...............II, 123, (290); XVIII,226; . ......................................................XXX,227 18.21-35......... X,467; XVIII,232; XXX,234; . ................................................... XXXII,269 19.16-26................................. II, 182, (349) 20.1-16a.... IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16........................................XXIX, 296 20.17-28......................... XXI,96; XXVII, 87 21.1-9.................................... III,194; X,149 21.14-17.......................II,52, (219); XII,185 21.23-32..................................... XXXII,282 21.28-32..........................VI,247; XVIII,243 21.33-43.......................................XVIII,250 22.1-10 (11-14) .......... XXX,243; XVIII,254 22.1-14 ............. IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21.......................................XVIII,259 22.23-33............VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40........................................... IV,194; 22.34-40(41-46).........XXX,253; XXXII,298 23.1-12.................... II,158, (325); XXX,259 24.1-14..............................VI,68; XVIII,275 24.15-28............................................ IV,222 24.37-44.............XXI,21; XXVII,9; XXXII,9 25.1-13............... IV,243; XI,336; XXIV,312; . ......................................................XXX,277 25.14-30.....II, 233, (400); X,394; XVIII,272; . ......................................................XXX,286 25.31-37.......................................XVIII,297 25.31-46............. IV,231; X,472; XVIII,298; . ..................XXI,302; XXVII,291; XXXII,51; XXXII,324 26.30-56.......................................XVIII,109 26.36-46..............................................VI,29 26.57-75 ...................................... XXIV,122 27.11-26..................................... XXXII,116 27.33-50(51-54)............................ VIII,162; 27.33-54....................... XXI,111; XXVII, 99 27.33-56..........................................XIV,201 28.1-10............................ VI,167; XXIV,139 28.16-20............................ X,374; XXX,156 Marcos 1.1-8...................... XXII,14; XXVIII,13 1.4-11........................... XXII,48; XXVIII,64 1.12-15............. XIX,79; XXV,129; XXXI,84 1.14-20......................... XXII,56; XXVIII,73 1.21-28...........................XVI,99; XXVIII,79 1.29-39........................................ XXVIII,87 1.32-39................................VI,284; XII,261 1.40-45................................VI,258; XII,241 2.1-12.............................X,453; XXVIII,100 2.18-22........................................... VIII,105 2.23-28...........VIII,311; XIV,367; XXII,169; . .................................................. XXVIII,228

3.1-6................................................... X,114 3.20-35.......................XVI,192; XXVIII,233 3.31-35..............................................VI,252 4.26-29..............................................VI,113 4.26-34...................... XXII,175;XXVIII,240 4.30.32............................................ XII,313 4.35-41...... XVI,200; XXII,182; XXVIII,247 5.21-24a,35-43.......................... XXVIII,253 5.24b-34........................................XXII,188 5.25-34.............................................. XII,27 6.1-6.......... XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.6b-13........................... XIX,201; XXV,236 6.14-29................................................. X,74 6.30-34.......... XIX,206; XXV,241;XXXI,208 6.34-44 .........................................XXX,247 7.1-8,14-15,21-23......... XIX,233;XXXI,242 7.31-37................. IV,163; X,408; XXII,239; . .................................................. XXVIII,307 8.22-26............................ VIII,269; XIV,317 8.27-35........................................... XVI,247 8.31-38.................X,234; XIX,83; XXV,134; . .......................................................XXXI,91 9.2-9...........................XVI,105; XXVIII,108 9.17-29..............................................VI,278 9.30-37...........................XVI,255; XXII,245 9.38-50..................... XXII,250; XXVIII,322 9.43-48.................... II, 138, (305); XVI,263 10.2-12...................................... XXVIII,326 10.13-16.................................... XXVIII,313 10.17-27.......... XII,256; XVI,268; XXII,260 10.32-45............................................. X,106 10.35-45.....................XXVIII,289; XVI,277 10.46-52.........................XVI,283; XXII,265 12.1-12 .............................................. X,242 12.13-17............................................III,138 12.41-44........................... VI,138; XXII,281 13.1-13...... XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31.................................... XXVIII,358 13.31-37.........................................XIV,397; 13.33-37.............................. XXV,17; XIX,9 14.3-9................................. VI,149; XXII,93 14.6-9.............................................. XII,181 14.12-26.... XVI,134; XXII,104; XXVIII,144 14.17-26............................................VI,156 15.1-15(16-20)...........XVI,129; XXVIII,139 16.1-8....IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; . .................................................. XXVIII,159 16.9-14(15-20)................ VIII,173; XIV,225 16.14-20.............................................. IV,77 Lucas 1.1-4........................................XXIII,200 1.26-33(34-37) 38................VI,81; XII,109; 1.26-38................ XVI,56; XIX,27; XXII,28; . ................................................... XXVIII,26; 1.39-45(46-55) .............................XXVI, 20

340

Sem título-1 340

04/12/2012 15:30:37


1.(39-45)46-55(56) ............................ X,175 1.46-55 ...............................................V,288 1.57-66......................................... XXIV,200 1.67-79.................................. V,270; VIII,30 2.1-7................................................XXX,24 2.1-7,8-14,15-20.............................. XVI,63 2.1-14.......... I,161, (168); X,181; XXXII,41 2.(1-14)15-20................................. XXIV,41 2.1-20...... III,218; IV,273; XVII,28; XXI,41; . ... XXIII,21; XXIV, 34; XXVII, 34; XXIX, 26 2.41-52.............................................. XX,35 3.1-9....................................................V,281 3.1-14..................................................VI,76 3.7-18............. XVII,21; XXIII,15; XXIX, 16 3.15-17,21-22....................XX,40; XXVI, 36 4.1-13............................XXIII,60; XXIX, 81 4.14-21...............................VI,19; XXVI, 47 4.14-21(22) . ........ XX,50; XX,59; XXVI, 47 4.16-21............................................... X,186 4.21-30..........................................XXVI, 54 5.1-11.....IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI, 59 6.17-26..............................XX,69; XXVI, 66 6.27-38..............................XX,73; XXVI, 74 6.36-42...................................IV,112; X,368 7.1-10..........................................XXVI, 206 7.11-17............................... IV,186; VIII,293 7.36-50..........VIII,262; XIV,309; XXVI, 220 8.4-10................................................. X,228 9.10-17........................................... VIII,241 9.18-24(25-26)............. XX,190; XXVI, 226 9.28-36..............................XX,82; XXVI, 85 9.51-56............................................. XV,167 9.51-62............................................ XX,198 9.57-62 .............................................. X,251 10.1-12,16....................................... XX,204 10.17-20....................................... XXIV,285 10.21-24....................................II, 82, (249) 10.25-37.......... X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42....... VI,124; XVII,170; XXIII,140; . ....................................................XXIX, 216 11.1-13......................XXIII,145; XXIX, 223 11.5-13..............................................VI,184 11.14-23..............................VI,297; XII,283 12.13-21 ...................XXIII,149; XXIX, 228 12.32-40........................................XVII,183 12.35-40........................................... III,226 12.41-48............................................VI,302 12.42-48.......................................... XII,289 12.49-53.... XVII,189; XXIII,154; XXIX, 235 13.1-9............ XVII,83; XXIII,72; XXIX, 93 13.22-30... XVII,193; XXIII,159; XXIX, 241 13.31-35......... XVII,78; XXIII,65; XXIX, 88 14.1,7-14 ..................XXIII,167; XXIX, 247 14.7-14 .........................................XVII,196

14.15-24...................................IV,96; X,354 14.25-33........ VIII,235; XX,251; XXVI, 277 15.1-3,11b-32.................................. XII,220 15.1-3,11-32....IV, 209; XVII,88; XXIX, 100 15.1-7(8-10)....................................... X,361 15.1-10................................ IV,106; XX,255 15.8-32...................................... XXVIII,265 16.1-9................................................ IV,147 16.1-13..........................XX,260; XXVI, 286 16.19-31................................ IV,88; XX,265 17.1-10..........................XX,270; XXVI, 298 17.5-6.............................. VIII,286; XIV,346 17.7-10 ...............................VI,117; XII,160 17.11-19..................IV,172; X,421; XX,275; ....................................................XXVI, 305 17.20-35..............................................V,275 18.1-8a ..........................XX,291; XXIII,213 18.1-8.......................... VIII,343; XXVI, 325 18.9-14..........................IV,158; XXVIII,333 18.18-23.......................................... XII,249 18.31-43......................................... VIII,124 19.1-10......II, 112, (279); VIII,219; XIV,275 19.28-40......................................XXVI, 121 19.41-48.................................IV,153; X,401 20.9-19......................... XVII,94; XXIX, 105 20.27-38.......................................XXIII,223 21.5-19............................................ XX,296 21.25-36............................... III,209; XVII,9 22.7-20..........................XX,116; XXVI, 126 22.31-34 ......................... VIII,131; XIV,172 23.33-43......................................XXVI, 344 23.(26-32)33-49......... XVII,102; XXIX, 119 23.33-49............................................VI,162 23.35-43........................................XVII,248 24.1-11(12)...................................... XX,127 24.1-12............................................... II,201 24.13-35......... VI,40; XXI,125; XXVII, 114; . ................................................... XXXII,137 24.36-49..........................XVI,164; XIX,128 24.44-53.................................... XXVIII,201 24.(44-49)50-53.............XIX,148; XXII,145 24.50-53............................................ X,331; João 1.1-5.9-14........ XIX,35; XXV,39; XXXI,24 1.1-18............................XXIII,30; XXIX, 46 1.6-8,19-28 . ....... XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28)................................ VIII,49; 1.29-34 ........................................... VIII,98; 1.29-34(35-41) ................ XVIII,57; XXI,55 1.35-42........................................... XII,227; 1.43-51.............. XII,129; XVI,92; XXII,52; . .................................................... XXVIII,68 2.1-11.....................IX,41; XX,44; XXVI, 40 2.13-22................................ VI,237; XIX,87 3.1-11(15)........................................... X,347

341

Sem título-1 341

04/12/2012 15:30:37


3.1-17..... XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91 3.14-21 ............. XIX,95; XXV,144;XXXI,96 4.1-11 ..........................................XXXI,149 4.5-26............................................... XXI,82 4.31-38 .....................................II, 89, (256) 4.46-54............................................ XII,148 5.1-16..............................................XIV,360 5.1-16(18)....................................... VIII,304 5.19-21............................................XIV,215 5.24-29..... XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; . ......................................................XXX,271 5.39-47..............................................VI,204 6.1-15...... IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; . .....................................................XXXI,213 6.(22-23)24-35.............. XIX,217; XXV,254; . .....................................................XXXI,218 6.35............................................... VIII,151; 6.37-40(41-43),44...................II, 200, (367) 6.41-51..... XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; . .....................................................XXXI,226 6.51-58.......................... XIX,225;XXXI,232 6.60-69.......... XIX,229; XXV,264 XXXI,237 6.66-69............................................ XII,293 7.14-18............................................. VIII,87 7.37-39a.XVI,187; XXII, 158, XXVIII, 211; 7.37-39............... VI,194; XII,199; XXII,158 8.1-11............................................. VIII,228 8.21-30............................ VIII,138; XIV,179 8.31-36.....II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; . .....................................................XXIII,209 9.1-7................................ VIII,248; XIV,290 9.1-41......................................... XXXII,104 9.13-17,34-39................. XXI,91; XXVII, 81 9.35-41........................................... VIII,299 10.1-5,27-30..............................II, 40, (207) 10.1-10....XXI,133; XXVII, 119; XXXII,144 10.11-16.............................................. IV,53 10.11-18....... XIX,135, XXV,181; XXXI,139 10.11-18,27-30................................... X,310 10.22-30......................................XXIX, 141 10.22-30(31-39)...........................XVII,117; 11.1,3,17-27............................II, 188, (355) 11.1(2),3,17-27(41-45)....................... X,434 11.47-53........... VIII,157; XIV,192; XXI,103 12.12-19...............................X,269; XX,110 12.20-26............................................. X,258 12.20-30.........................................XXV,150 12.20-33 ....................... XIX,102;XXXI,103 12.44-50........................................... VIII,65 13.1-15,34-35..................................... X,277 13.1-17,34.......................................XXX,99 13.31-35..................... XVII,121; XXIX, 149 14.1-6.............................................. XII,134 14.1-12....................... XXI,139; XXVII, 124

14.1-12(14)................................II, 63, (230) 14.15-19.......................................... XV, 232 14.15-21....................................... XXIV,165 14.23-27................................. IV,82; X, 341 14.23-29 .................... XVII,126; XXIX, 154 15.1-8................ X,317; XIX,139; XXV, 189 . .....................................................XXXI,146 15.9-12(13-17) ..............................XIV, 374 15.9-17............VIII,317; XIX,143; XXV,192 15.(18)26-16.4................................... X, 337 15.26-27; 16.4b-11........XX,171; XXVI, 191 16.5-15................................................ IV,65 16.12-15........................XX,177; XXVI, 200 16.16-23a ...............................IV,57; VI,179 16.16,20-23a.......................VI,129; VI, 176 16.22-28.............................................. IV,72 16.23b-28,33 . ................................... X,323 17.1-15......................................... XXIV,159 17.1-11....................... XXI,148; XXVII, 132 17.9-19................................ IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19............. XIX,153; XXXI,157 17.20-26...................... VIII,198; XXIX, 168 18.33-37........................ XIX,299;XXXI,296 19.16-30.. IV,38; X,284; XIX,110; XXV,170; . .....................................................XXXI,123 20.1-2,11-18 . .............................. XXIV,230 20.1-9(10-18)...........XVIII,120; XXVI, 136; . ......................................................XXX,109 20.11-18 ......................... VIII,166; XIV,207 20.19-23 ......................XXIV,173; XXX,150 20.(19,23)24-29 . ...............X,301; XIX,119; . ................................................... XXXII,134 20.19-31....XIX, 119; XXI,121; XXVII, 110; . ...................................XXIX, 128;XXXI,133 21.1-14....................... XVII,111; XXIX, 136 21.15-19 ........................................ VIII,179 Atos 1.8-14...................................... XXIV,168 1.1-11............. XX,155; XX,160; XXVI,182; ................................. XXIX,161; XXXII,162 1.15-26.......................XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11..................................XI,242 2.1-13................................................XI,249 2.1-21........................ XIX,158; XXVII, 139 2.14a,22-32................................. XXIV,143 2.14a,36-47.................................. XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39........................ XV,239 2.36-41................................................III,59 2.41a,42-47.......................................XI,284 3.1-10.............................................. VII,198 3.13-15,17-26.............XVI,158; XXVIII,165 4.8-12 ....................................... XXVIII,172 4.32-37............................................... V,310 5.12,17-32...................................... XX,130 6.1-7............................... III,134; XXIV,155

342

Sem título-1 342

04/12/2012 15:30:37


8.26-40....... XIII,222; XVI,169; XXVIII,188 9.1-20.............................................. XX,136 10.34-38.......XXIII,35; XXVII, 52;;XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18........................ XIX,49 10.34-43.................................... XXVII, 105 11.19-30.....................XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25................................XXII,33 13.44-52............................ XX,140; XX,143 14.8-18........................................... XX,148 16.6-10............................................ XX,164 16.9-15................................ IX,171; XV,141 16.23-34............................VII,122; XIV,233 17.1-15......................................... XXIV,159 17.16-34 ............................................... I,34 17.22-31....................... XV,213; XXXII,156 Romanos 1.1-7 ....XVI,77; XXV,55; XXVIII,54; ..................................................... XXXII,36 3.19-28.................II,169; XX,278; XXI,267; ......................................................XXV,287; 3.21-25a............................. XXVII,156, 272 4.1-5,13-17.................................. XXIV,100 4.18-25...................... XXIV,184; XXVII,161 5.1-5............................ XVII,137; XXIX,180 5.1-8........................................... XXXII,197 5.1-11.............. XXVIII,122; V,51; XXXII,98 5.6-11........................ XXIV,190; XXVII,166 5.12-15....................................... XXVII,172 6.1b-11...................... XXIV,211; XXVII,183 6.3-8..................................................XI,278 6.19-23 ..................................V,164; IX,258 8.1-11.................... I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17................................................V,170 8.14-17...........................................XXV,203 8.14-17,22-27...............................XXIX,174 8.18-23................................................V,150 8.18-23(24-25).............................XVIII,192 8.26-27..........................................XXX,193 8.26-30..............................................IX,233 8.31b-39............................................XI,144 8.31-39........................... IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39............................... XVI,110 9.1-5,31-10.4 . ............................... XIII,235 9.1-5; 10.1-4........................................V,185 9.30b-33............................................III,124 10.5-13........................ XVI,115; XXXII,248 11.13-15,29-32............................. XXIV,255 11.25-32..................................... I, 95, (102) 11.32-36.............................................V,126; 11.33-36 ...........................................XI,256 12.1-8.............................. XI,152; XXIV,265 12.6-16..................................................V,19 13.1-10........................................... XXI,229 13.8-10(13-14)..................................XI,107 13.11-14............................. IV,251; XXIV,19

14.5-9............................................. XXI,234 14.7-13 ...............................................III,79 14.10-13 ...........................................XI,266 15.4-13 ........................... XXI,25; XXXII,16 16.25-27.........................................XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9................. XXIV,70; XXXII,72 1.3-9 ................................XVI,51; XXVIII,9 1.4-9....................................................V,228 1.10-17............................................. XXI,60 1.18-25.............................................. XX,97 1.26-31....................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5...................................XXI,71; XXII,60 2.1-10................................. VII,50; XIII,126 2.6-13............................................... XXI,74 2.12-16............................................ VII,150 3.9-15.................................. XV,266; IX,269 3.16-23..........................................XXII,193 4.1-5......................................IV,261; XI,119 6.9-14,18-20................................. I, 78, (85) 6.9-14(15-17)18-20....................... I,86, (93) 7.29-31 .......................................... XXIV,90 7.29-32a .................................... I, 46, (213) 8.2 ................................................... XIII,42 9.16-23..............................XIV,264, XXV,96 9.24-27..............................................XI,165 10.1-13....................................V,179; XX,91 10.16-17........................... VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21)...........................XXXI,113 10.31-11.1......................................XXV,107 11.23-26..................... XXIV,127; XXVII, 94 11.23-29................................................V,65 12..................................................... XIII,34 12.1,4-11........................ XVII,47; XXIX, 59 12.12-21,26-27..............XXIII,45; XXIX, 64 12.27-13.13.................... XVII,52; XXIX, 71 12.31b-13.13............................V,32; XI,182 14.1-3,20-25.................................... VII,158 14.12b-20 . ....................................XXIII,49 15.1-11 ........................................ XVII,108 15.1-20................................................III,13 15.12,16-20..................XVII,63; XXXII,311 15.19-28 ... I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; . .......................................................XXV,175 15.20-28..................... XVIII,280; XXX,293, 15.35-38........................................... XIII,29 15.45-49..........................................XVII,69 15.50-58............. V,78; XIX,286; XXVI, 320 2 Coríntios 1.3-7........................... I, 112, (119) 1.18-22................. VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6.............................................XXV,118 3.3-9..................................................IX,283 3.12-4.2............................. XIX,76;XXXI,78 4.3-6................................... IX,157; XIV,165 4.5-12........................... XIX,169; XXXI,171

343

Sem título-1 343

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4.6-10................................................XI,158 4.7-18..................................................III,53 4.13-18.......................... XIX,173;XXXI,177 4.16-18........................................... XIII,192 5.1-10................................. IX,295; XV,288; 5.6-10 ......................... XIX,178; XXXI,183 5.14-21.....................................I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21.........XVI,140; XXVIII,153 6.1-10 ............................................... VII,82 8.1-9,13-14 . ................................. XIX,188 8.1-15............................................... XIII,18 8.9 .................................................. XV,112 9.6-15.....................................V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 ............... XIII,142 12.1-10.................................................V,26; 12.7-10......................... XIX,195; XXXI,199 13.11-13 ........ IX,240; XXI,158; XXXII,174 Gálatas 1.11-24 ............................... XXIII,113 2.16-21 ........................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 ........................... XXIII,119 3.28 ................................................. XII,70 4.1-7 ................................................ IX,144 4.4-7 ................. XV,106; XVIII,38; XXX,31 5.1-6 ............................................. XIII,167 5.1-11 ....................I, 118, (125), 124, (131) 5.1,13-25......................................XXIII,126 5.25-26; 6.1-3,7-10.......... VII,214; XIII,253 6.14-18.........................................XXIII,131 Efésios ............1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ........................................................XXX,37 1.3-14.................................. III,62 XXII,204 1.3-6,15-18.....................................XVIII,43 1.(16-20a)20b-23.......... XXI,144; XXX,138 1.20b-23........................................... IX,227 2.1-10............................................XXX,265 2.4-10.........................XVI,120; XXVIII,128 2.11-22................................................. X,48 2.13-22..........................................XXII,209 3.1-12............................................ XXXI,30 3.2-12 ................................XVI,83; XXII,43 3.14-21................................................V,212 4.1-6 ....................................V,218; XIV,353 4.1-7,11-16................................... XXII,215 4.17-24..........................................XXII,220 4.20-32................................................V,235 4.30-5.2.......................................... XVI,228 5.1-8a ...............................................XI,205 5.1-9.....................................................V,46; 5.8-14........................................... XXIV,105 5.9-14 ...............................................III,100 5.15-20........................................... XVI,233 5.15-21.............................................. V,241; 5.21(22-25)26-31........................... XVI,236 5.21-31...................................... XXVIII,294

6.10-20........................................... XVI,242 Filipenses 1.3-11....... XI,324; XVII,14; XXIX,9 1.12-21.............................................. VII,95 1.20c-27 ...................................... XXIV,280 2.1-4 .............................................. VII,173 2.1-5(6-11) ................................... XXI,245 2.5-11....... V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; . ................................... XXIX,111; XXXII,59 2.12-13............................................. XV,282 3.12-21...................... XXIV,290; XXVII,251 3.7-11................................................XI,291 3.7-14 .................................................V,261 3.8-14.............................................. XX,102 3.12-16...................................... II, 20 (187) 3.12-21....................................... XXVII,251 3.17-21..............................................XI,330 3.17-4.1............................................. XX,86 3.20-21.................... I,136, (137); 129,(143) 4.4-7...............................................XXVI,15 4.10-20..............................................IX,150 Colossenses 1.1-6............................XXVI, 233 1.12-20.........................................XXIII,229 1.15-23.................................................. I,47 1.21-28........................................XXVI, 240 2.3-10 .............................................XIV,140 2.6-15..........................................XXVI, 250 2.12-15........................................... XIII,186 3.1-4 ............... III,48; XXI,117; XXXII,127 3.12-17................................................V,107 4.2-6.................................... V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a................ XXIV,294; ................................................... XXVII,256 1.5b-10...................................... XXVII, 263 1.2-10.............................................. VII,210 2.8-15......................................... XXVII,277 3.9-13................................................ XX,15 4.1-8........................................ V,38; XI,315 4.13-14(15-18).............................. XXI,285; 4.13-18 .......................................... XXI,292 5.1-8..................................................IX,288 5.1-11............................................. XXI,297 5.12-24..............................................IX,274 5.16-24............................................XXII,19 2 Tessalonicenses 2.1-17.......................III,165 2.(13-15)16-17; 3.1-5..................XXIX, 311 3.1-5................................................. IX,252 3.6-13..................................V,97; XXIX,317 1 Timóteo .... 1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 ..................................... II, 169, (336) 2.1-8 ........................................... XVII,211 3.16 ............................................... XIV,132 4.4-5 ............................................. XIII,298 6.6-16......................... XVII,215; XXIX, 274 6.11b-16............................................ IV,255

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2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14...............XXIII,195 2.8-13...........................................XXIII,205 2.8a(8b-13) .................................... XV,198 Tito 2.11-14 ......II,263, (430); XI,128; XXIV,34 3.4-7..................................... IV,280; XX,29 Filemom 8-21....................................XXIX, 254 9b-17(18-21).................................XVII,201 Hebreus 1.1-9 .................................... XVI,70 2.9-11............................ XIX,257;XXXI,274 2.10-18 ............................................ IX,188 3.1-6 .............................................. XIX,262 4.9-16............................ XIX,268 XXXI,281 4.12-13..............................................XI,171 4.14-16..............................................XI,192 4.14-16; 5.7-9............................... XXIV,133 5.1-6(7-10)..................................... XIX,273 5.7-9 ............ XI,211; XVI,125; XXVIII,134 9.15-17,26b-28................................ XX,122 9.15,24-28.............................................III,7 9.15,26b-28................................... XIII,179; 9.24-28 ......................................... XIX,291 10.19-25 .................... II, 241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10.....................................IX,178 11.1-3,8-16...................................... XX,229 11.1-4.......................................... XXVIII,39 11.8-10............................................. XV,160 12.1-3............................................... XV,178 12.1-13........................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a ................. XV,127 12.18-24.......................................... XX,242 13.1-8.............................................. XX,246 13.(7)8-9b . .................................... XIV,153 13.12-16 .............................................V,205 Tiago 1.12-18 . ..................................... XV,154 1.17-27 .........................................XXV,268 2.1-13 ........................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 .......................... XXV,275 2.14-24 ............................................ III,110 4.13-17 ............................. IX,34; XXIX, 40 5.1-6 ...............................XIII,265; XIX,252 5.7-8 ................................................XI,114; 5.7-10.............................................XVIII,19 5.13-16............................................ VII,220 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ....................... XIII,152; 1.17-21..........................................XXX,118 1.17-22.........................................XVIII,129 1.3-9.... III,22; XI,221; XVIII,125; XXX,114 2.1-10............. I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 ......................... XXX,128; XVIII,138 2.13-17...................................... I, 102 (109) 2.15-17 .............................................. VI,13 22.12-17,20 .................................. XXIII,99

2.18-25..........................................XXX,122 2.19-25 ....................................... XVIII,133 2.21b-25................................. V,91; XI,229; 3.8-17................................................ V,156; 3.15-18 ...................... XVIII,146; XXIV,165 4.7-11 ................................................ V,120 4.13-19 ....................................... XVIII,152 5.1-5....................................................III,27 5.5b-11 . ............................... V,144; XI,307 2 Pedro 1.3-11 . ..................................... III,145 1.16-19(20-21)............................... IX,165; 1-16-21 . ..................... XXIV,95; XXVII, 65 3.8-14 .......... XVII,237; XXIII,218; XXV,23 1 João 1.(1-4)5-2.2..............................XXII,124 1.5-10; 2.1-6 . ............................... XIII,216 2.21-25.............................................. VII,30 3.1-3 ................................................ VII,21 3.13-18............................................... IX,57 3.18-24............................ III,159; XXII,130 4.1-6 .................................................. IX,72 4.1-11............................................XXII,135 4.11-16.........................................XXXI,165 4.7-12 .............................................. XI,299 4.7-16 ................................................ V,196 4.(7-16a)16b-21 .......................... XXII,149 4.16b-21 . .......................................... V,135 5.1-5.........................................V,84; XI,235 5.1-6 ............................................ XXII,118 5.11-13............................................. XI,138 Apocalipse 1.4-8.................. VII,131; XIII,204 1.9-18 ................................ VII,65; XIII,133 1.9-20..........................................XXVI, 145 2.8-11............................... VII,228; XIII,275 1.9-20 ............................................XXIII,84 3.1-6.............. IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 ..................................... II, 248 (416) 3.14-22 ......................................... XIII,304 4.1-11 ........................................ I, 144(151) 5.1-14 ................................................. VII,7 5.11-14....................... XXIII,90; XXVI, 150 7.9-12 .......................................... XVII,230 7.9-17............... III,182; XIII,110; XXIII,94; ....................................................XXVI, 159 12.1-6 ........................................... XXIII,26 12.7-12 ......................................... XXI,241 14.6-7 ................................................ V,249 15.2-4 ............................................. XV,218 19.11-16 .......................................... III,195 21.1-5 .........................................XXVI, 170 21.10-14,22-23.............................XXVI 176 22.10-16 ............................................. X,11

Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.

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COLABORADORES DO VOLUME 32 ABENTROTH, Anelise L.: Rua Buricá, 659, c.p. 65, 98920-000 Horizontina/RS, e-mail: AbentrothAneliseL@cfjl.com.br ADAM, Júlio C.: Rua Agudo, 85 B, Hamburgo Velho, 93525-330 Novo Hamburgo/RS, e-mail: julio@ienh.g12.br APPELT, Dari J.: e-mail: darijair@yahoo.com.br BLASI, Marcia: Caixa Postal 14, 98800-970 Santo Ângelo/RS, e-mail: retalhos13@hotmail.com BLIND, Sisi: Rua João Caetano da Silva, 98, c.p. 1013, 89520-000 Curitibanos/SC, email: sisiblind@hotmail.com BRAKEMEIER, Gottfried: Rua José Neumann Filho, 120, 95150-000 Nova Petropólis/RS, e-mail: brakemeier@terra.com.br BRAUN, Odair: Rua Maria Clara, 127, Alto da Glória, 80030-140 Curitiba/PR, e-mail: veraodair@terra.com.br BUCHWEITZ, Wilfrid: Rua Santo André, 90, Campestre Orpheu, 93046-970 São Leopoldo/RS, e-mail: wilfrid@portoweb.com.br DALFERTH, Heloísa: e-mail: shdalferth@t-online.de DREHER, Martin N.: Rua Suíça, 236, Pinheiro, 93042-100 São Leopoldo/RS, e-mail: martindreher@terra.com.br EHLERT, Heinz: Rua Valparaízo, 503, ap. 5, Bacacheri, 82510-070 Curitiba/PR, e-mail: ehehlert@ig.com.br ENGELBRECHT, Margarete E.: Alameda Alcides, 102, Icaraí, 24230-120 Niterói/RJ, e-mail: marga@ar.microlink.com.br FUCHS, Werner: Rua Coronel Amazonas Marcondes, 1457, ap. 12 A, 80035-230 Curitiba/PR, e-mail: w.fuchs@uol.com.br GAEDE NETO, Rodolfo: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: rodolfo@est.edu.br GAULKE, Dalcido: Caixa Postal 304, 89801-140 Chapecó/SC, e-mail: silda@zipway.com.br GENZ, Silvia B.: Caixa Postal 304, 89801-140 Chapecó/SC, e-mail: silda@zipway.com.br GIESE, Nilton: e-mail: niltongiese@clailatino.org HAGSMA, Alfredo J.: Caixa Postal 6, 93600-000 Estância Velha/RS, e-mail: hagsma@terra. com.br HOLZSCHUH, Clarise I. W.: Rua Olavo Bilac, 9, Centro, 89887-000 Palmitos/SC. HOLZSCHUH, Jair L.: Rua Olavo Bilac, 9, Centro, 89887-000 Palmitos/SC, e-mail: jair2170@ yahoo.com.br IMMICH, Vera M.: Rua Maria Clara, 127, Alto da Glória, 80030-140 Curitiba/PR, e-mail: veraodair@terra.com.br KALMBACH, Pedro: e-mail: pedro_kalmbach@yahoo.com.ar KANITZ, Ildemar: Av. Dr. Mário Sperb, 874, 93032-450 São Leopoldo/RS, e-mail: ildemar@ sinodal.com.br KNEBELKAMP, Ari: Rua Princesa Isabel, 438, Centro, 89201-270 Joinville/SC, e-mail: ari@ paroquiadapaz.com.br KOWALSKA, José: email: josekowalska@intercable.net.ve KUNZ, Marivete Z.: e-mail: XXXXXXXXXXXX (Falta) LÜCKEMEYER, Valdemar: Rua Pedro Vargas, 541, c.p. 19, 99500-000 Carazinho/RS, e-mail: luckemeyer@annex.com.br MARTINI, Romeu R.: Rua Senhor dos Passos, 202, 4.o andar, Centro, 90020-180 Porto Alegre/ RS, e-mail: martini@ieclb.org.br NEUENFELDT, Elaine G.: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: elainenf@ terra.com.br OLIVEIRA, Jorge B. D.: e-mail: pastorjorge@terra.com.br RAYMANN, Acir: e-mail: raymann@ulbranet.com.br REIMER, Haroldo: Rua 115 - G, 10 - Setor Sul, 74085-310 Goiânia/GO, e-mail: h.reimer@terra. com.br

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REIS, Ana I.: Caixa Postal 12, 98700-000 Ijuí/RS, e-mail: anaisadosreis@hotmail.com RIBEIRO, Antônio C. S.: Av. Paranapuã, 1203, Casa 10, Tauá, 21910-000 Rio de Janeiro/RJ, e-mail: norte@celurj.org.br RIBEIRO JÚNIOR, Olmiro: Caixa Postal 157, 97670-000 São Borja/RS, e-mail: olmiror@yahoo. com.br SCHERER, Cristina: Rua Eugênio Bobsin, 440, 95538-000 Itati/RS, e-mail: crisitati@yahoo. com.br SCHWALM, Mauro A.: Pirckheimerstrasse, 4, 90408 Nürnberg, Alemanha, e-mail: mauro. schwalm@ked.bayern.de SEIBERT, Erni: Caixa Postal 60764, 05799-970 São Paulo/SP, e-mail: erni@sbb.org.br SIEGLE, Manfredo: Caixa Postal 1091, 89201-972 Joinville/SC, e-mail: sinodonc@terra.com.br SILVA, Walfrido da: e-mail: wal2811@hotmail.com SPELLMEIER, Arteno I.: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: arteno.nho@ terra.com.br SPERB, Ulrico: Rua Senhor dos Passos, 202, 1.o andar, Centro, 90020-180 Porto Alegre/RS, e-mail: uli@paroquiamatriz.org.br STRÖHER, Marga J.: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: marga@est.edu.br TESKE, Dietmar: Caixa Postal 3003, 96031-970 Pelotas/RS, e-mail: sinodosr@terra.com.br TREIN, Hans A.: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: hans@est.edu.br ULRICH, Carlos L.: Caixa Postal 196, 89251-970 Jaraguá do Sul/SC, e-mail: caclaul@netuno. com.br ULRICH, Claudete B.: Caixa Postal 196, 89251-970 Jaraguá do Sul/SC, e-mail: caclaul@ netuno.com.br VOLKMANN, Martin: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: martin@est.edu.br WEBER, Eloir E.: Rua Mali, 356, Jardim Itati, 91370-230 Porto Alegre/RS, e-mail: p.eloir@ cpovo.net WEGNER, Uwe: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: uwe@est.edu.br WEIMER, Tânia C.: Rua Jacob Pilger, 78, Centro, 93890-000 Nova Hartz/RS, e-mail: pnovahartz@sinos.net WEISSHEIMER, Vera C.: Caixa Postal 1103, 01059-970 São Paulo/SP, e-mail: veracw@uol.com.br WIESE, Werner: e-mail: wwiese@flt.edu.br WITT, Osmar L.: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: olwitt@est.edu.br WITTER, Teobaldo: Caixa Postal 4501, 78065-800 Cuiabá/MT, e-mail: twitter@terra.com.br WOLFF, Günter A.: Rua Ipiranga, 389, 98290-000 Condor/RS, e-mail: lobo@mksnet.com.br ZITZKE, Angela: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: angelazitzke@yahoo. com.br

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Texto: Serifa Lt BT 11 Títulos: DawnCastle 15 Datas: Baskerton 10 Subtítulos: Serifa BT 18/12 É proibida a reprodução total ou parcial.

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